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Introdução à filosofia da linguagem

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Penco, Carlo
Introdução à filosofia da linguagem / Carlo Penco ;
tradução de Ephraim F. Alves. – Petrópolis, RJ :
Vozes, 2006.
ISBN 85.326.3367-6
Título original : Introduzione alla filosofia
del linguaggio
Bibliografia.
1. Linguagem – Filosofia 2. Linguagem –
Filosofia – História I. Título.

06-4573 CDD-401

Índices para catálogo sistemático:


1. Filosofia da linguagem 401
2. Linguagem : Filosofia 401
Carlo Penco

Introdução à filosofia da
linguagem
Tradução de Ephraim F. Alves

EDITORA
VOZES
Petrópolis
© 2004, Gius. Laterza & Figli S.p.a., Roma-Bari
A edição brasileira foi intermediada pela
Agência Literária EULAMA, Roma.

Título original italiano: Introduzione alla filosofia del linguaggio

Direitos de publicação em língua portuguesa:


2006, Editora Vozes Ltda.
Rua Frei Luís, 100
25689-900 Petrópolis, RJ
Internet: http://www.vozes.com.br
Brasil

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reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios
(eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora.

Editoração: Fernando Sergio Olivetti da Rocha


Projeto gráfico: AG.SR Desenv. Gráfico
Capa: Marta Braiman

ISBN 85.326.3367-6 (edição brasileira)


ISBN 88-420-7169-2 (edição italiana)

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.


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Manuela, Marcello, Margherita, Michele, Nicole,
Oriana, Paulina, Pietro, Sara, Sophia, Stefania,
Stefano 1, Stefano 2, Vander, Veronica, Viviana.
Agradecimentos

Quero agradecer, em primeiro lugar, aos


estudantes dos meus cursos de filosofia da
linguagem, e também a diversas pessoas que
leram partes do livro e me deram conselhos
úteis, às vezes indispensáveis. Claudia Bianchi e
Carlo Dalla Pozza leram, ambos, duas versões
inteiras que eu considerava definitivas e me
obrigaram a revolucionar duas vezes a estrutura
do livro. Marcello Frixione e Dario Palladino me
corrigiram mais de um erro até que finalmente
parei de lhes mostrar as últimas versões do
texto. Giuseppina Ronzitti, Marina Sbisà e
Massimiliano Vignolo apresentaram uma série
de sugestões sobre conceitos particulares e
ajudaram a tornar menos ambíguas algumas
passagens. Diego Marconi forneceu um monte
de observações e críticas que me auxiliaram a
reescrever diversas partes do trabalho. Nelson
Gomes, da Universidade de Brasília, e Murcho
Desiderio, da Universidade de Londres (King’s
College), fizeram a gentileza de me ajudar a
construir uma bibliografia em português. A esta
altura tenho de admitir que os erros que
restaram são na verdade meus.
Enfim, Margherita Benzi me ajudou escrevendo
ao mesmo tempo um livro sobre temas diversos
(causalidade e probabilidade) e criando assim
em casa aquela atmosfera de trabalho (fumo,
silêncio e um pouco de tensão nervosa),
indispensável para a realização de qualquer obra
intelectual.
Sumário

Prefácio, 9

Parte I – Filosofia, lógica e lingüística, 11


Introdução, 13
1. Dar razões, 15
2. Linguagem e lógica, 26
3. Semiótica e lingüística, 40

Parte II – Linguagem e representação, 53


4. Sentido, referência e verdade: introdução, 55
5. Nomear objetos: Frege, Russell, Wittgenstein, 67
6. Condições de verdade e mundos possíveis: Wittgenstein e
Carnap, 83
7. Teorias da referência direta: Kripke e Putnam, 108

Parte III – Linguagem e ação, 123


8. Sentido, tom, força: uma introdução, 125
9. Significado e uso: O segundo Wittgenstein, 134
10. Convenção e atos lingüísticos: Austin e Searle, 152
11. Intenção e conversação: Grice, cortesia e pertinência, 165

Parte IV – Linguagem e comunicação, 181


12. Sentido, contexto e o problema do holismo: uma introdução, 183
13. Holismo e tradução radical: Quine, 190
14. Interpretação e verdade: Davidson, 207
Parte V – Linguagem entre norma e natureza, 217
15. Sentido e justificação: uma introdução, 219
16. Significado e inferência: Dummett, Brandom, 227
17. Significado e cognição: inteligência artificial, Fodor, Marconi, 244

Bibliografia geral, 261

Índice onomástico, 263

Índice temático, 265

Índice geral, 269


Prefácio

Este livro tem por objetivo ajudar o leitor ou a leitora a


(i) orientar-se no mapa da filosofia da linguagem contemporânea,
identificando os seus conceitos-chave e as correntes principais;
(ii) identificar os instrumentos necessários para aprofundar os as-
pectos da filosofia da linguagem que forem considerados mais apro-
priados;
(iii) exercitar-se na análise e construção de argumentações.
Nos capítulos 1, 2 e 3 da primeira parte vou fazer algumas rápidas
alusões às relações entre filosofia, lógica e lingüística. São apenas alu-
sões, e têm como escopo rememorar alguns conhecimentos elementares
sobre o problema da linguagem, deixando ao leitor (ou à leitora) com
pouca experiência uma certa curiosidade e insatisfação, de modo a esti-
mulá-lo(a) a ir à procura de outros textos.
Da segunda parte em diante principia de fato a introdução à filosofia
da linguagem no verdadeiro sentido da palavra. Quem desejar pode, sem
problemas, começar a partir desse ponto. Muitas vezes, para facilitar a
compreensão, direi coisas claras mas não totalmente corretas. Apenas
um aprofundamento da matéria permitirá que se compreenda até que
ponto certas definições aparentemente não problemáticas podem ser
postas em discussão.
O livro propõe ao leitor uma idéia bastante consolidada: assim como
a discussão em filosofia da mente recebe um forte impulso da revolução
das ciências cognitivas, pelo fim do século XX, muitos problemas da fi-
losofia da linguagem também podem ser correlacionados com a revolu-
ção lógica do começo do século XX, que teve como pioneiro Gottlob
Frege, o inventor da lógica matemática. Nas suas discussões filosóficas

Prefácio 9
Frege definiu uma série de problemas novos, que constituíram um novo
campo de pesquisa. Estudar as reflexões de Frege sobre a linguagem
ajuda a compreender não só como surgiram certos problemas, mas tam-
bém como se desenvolveram, muitas vezes como crítica às soluções fre-
geanas.
As partes que vão da segunda à quinta estão organizadas em torno de
quatro grandes temas:
(i) a linguagem como representação: a relação da linguagem com a
verdade e com aquilo a que as palavras se referem;
(ii) a linguagem como ação: a importância das convenções lingüísti-
cas e das intenções no uso da linguagem;
(iii) a linguagem como comunicação: o problema da tradução e os
aspectos de dependência contextual das nossas proposições;
(iv) a linguagem como norma e como natureza: a possibilidade ou
não de se reduzir a linguagem a um enfoque meramente naturalista
(por exemplo, psicológico, sociológico ou neurofisiológico).
Trata-se de quatro áreas de problemas abordados por Frege em suas
obras e definidos no trabalho de construção do sistema simbólico (a ló-
gica matemática), que vai abrir o caminho para as linguagens de progra-
mação e para as modernas ciências da informática, da robótica e da ciên-
cia cognitiva. Cada parte do livro será aberta por um capítulo introdutó-
rio que tem como ponto de partida as reflexões de Frege, para em segui-
da passar a discutir as principais teorias contemporâneas sobre o tema.
Alguns parágrafos mais difíceis estão assinalados com um asterisco
(*) logo depois do título do parágrafo e podem ser saltados na primeira
leitura. No fim dos capítulos se oferece uma Bibliografia essencial, com
textos em português (esta bibliografia tem um fim prático: não indico,
portanto, as edições originais ou as primeiras edições. Alguns capítulos
são seguidos, também, por quadros com informações diversas sobre te-
mas não aprofundados no texto ou sobre aspectos mais técnicos.

10 Prefácio
Parte I

FILOSOFIA, LÓGICA E LINGÜÍSTICA


Introdução

Segundo Aristóteles, o ser humano é um animal racional, ou seja,


um ser capaz de raciocínio. Mas o que quer dizer “raciocinar”? Racioci-
nar quer dizer dar razões, isto é, justificações coerentes e dotadas de sen-
tido, numa palavra, “argumentar”. A capacidade de raciocinar deve ser
exercitada e treinada. Em todas as épocas da história o sono da razão tem
gerado monstros. Cabe à filosofia a tarefa de manter viva a luz da razão
contra os enganos que procedem da aceitação ingênua e acrítica de qual-
quer discurso, especialmente se escrito ou recitado nos meios de comu-
nicação de massa. Nos seus apontamentos que remontam à década de
1930, eis o que escrevia Wittgenstein: “Filosofar é: descartar argumen-
tações erradas” (The Big Typescript, § 87.6).
Ludwig Wittgenstein (1889-1951) era um engenheiro que resolveu
dedicar-se à filosofia. De per si não existe muita coisa em comum entre fi-
losofia e engenharia, mas propor uma analogia pode auxiliar a se compre-
ender melhor a importância do bom trabalho filosófico. É fácil intuir por
que se exige dos engenheiros civis um estudo atento dos cálculos e dos
materiais para a construção de edifícios que não desmoronem. Cálculos
errados e material de construção de má qualidade nem sempre são visíveis
a olho nu, mas se revelam com o tempo na fragilidade do edifício, que
pode desmoronar, com graves conseqüências para seus moradores. Quan-
do isso acontece, investigam-se as causas do desastre (materiais de má qua-
lidade ou cálculos errados) e, portanto, o culpado, aquele que errou nos
cálculos ou escolheu o material. Coisa análoga deveria valer para os dis-
cursos. Um discurso também pode ser construído com materiais inferio-
res (argumentações erradas, falácias). Muitas vezes, porém, como no caso
do projeto de um engenheiro, nada de estranho se observa à primeira vis-
ta. É necessário ter um olho treinado e um estudo atento para reconhecer
os discursos que não têm solidez e que – talvez depois de um certo tempo
– desmoronam miseravelmente como um prédio mal construído.
Existe uma diferença entre materiais de má qualidade e cálculos er-
rados ou – fora da analogia – entre a falsidade das afirmações e a falta de
Introdução 13
correção dos raciocínios. Descobrir a falsidade exige sobretudo um tra-
balho de pesquisa empírica. Descobrir se um raciocínio está incorreto
exige um trabalho de análise conceitual. O trabalho do filósofo é princi-
palmente deste segundo tipo: o filósofo tenta encontrar caminhos para
se orientar no mundo dos conceitos, no intuito de esclarecer as relações
entre os conceitos (a esse propósito, Kant já falava de “orientar-se no
pensamento”). O filósofo da linguagem se defronta com a tarefa de ana-
lisar conceitos como, por exemplo, “expressão”, “enunciado”, “asserção”
ou “afirmação”, “sentido” etc. Esses conceitos são usados muitas vezes
também na linguagem do dia-a-dia. Quando se está conversando e ocorre
um desacordo, em geral se pergunta o que significa uma certa expressão,
o que quer dizer uma determinada asserção. O filósofo da linguagem não
se limita a perguntar-se qual o sentido de uma palavra ou de um enuncia-
do, mas se pergunta o que estão tentando fazer os interlocutores quando
falam de sentido; pergunta-se qual o sentido da palavra “sentido”. O traba-
lho do filósofo da linguagem se refere à análise dos conceitos que são ha-
bitualmente usados para explicar a estrutura e o funcionamento da lingua-
gem. Fala-se habitualmente de conceitos “semânticos”, do grego logos se-
mantikos, ou seja, um discurso ou pensamento referente aos sinais. A pa-
lavra “semântica” será usada de maneiras diferentes em lingüística e em
lógica: em lingüística, para se referir à teoria das relações semânticas (si-
nonímia, homonímia, polissemia), e em lógica, para indicar a teoria do
modo como os sinais se referem aos objetos.
A filosofia da linguagem situa-se na zona limítrofe entre a lógica e a
lingüística, e busca acima de tudo analisar as argumentações a favor e
contra as diversas visões do sentido que são a cada momento propostas.
Seu trabalho é muitas vezes uma investigação dos erros das argumenta-
ções dos outros, dos paradoxos que surgem em certas teses, das possí-
veis contra-argumentações a essas teses. Uma análise do que seria uma
argumentação é portanto um pré-requisito indispensável para se iniciar
o estudo da filosofia e, de modo particular, da filosofia da linguagem.
Nesta primeira parte do livro, depois de uma breve reflexão sobre o
que significa argumentar, vamos apresentar alguns conceitos elementa-
res da lógica e da lingüística, que são muitas vezes exibidos nas discus-
sões de filosofia da linguagem.

14 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


1 Dar razões

SUMÁRIO
Este capítulo serve de introdução geral para os não-filósofos e põe a ênfase so-
bre a centralidade do argumentar para a filosofia (diversamente do que ocorre com
a arte ou com a poesia, onde a argumentação, precisamente, não tem cabimento).
Em 1.1 se explica o conceito de argumentação, que é um dos principais instrumen-
tos de trabalho do filósofo. Em 1.2 se aborda o problema da forma das argumenta-
ções, o tema das falácias e a possível defesa dos equívocos argumentativos. Em
1.3 se lembra a importância da análise lógica no estudo da linguagem e se faz
alusão a algumas contraposições no terreno da filosofia da linguagem.

1.1. O que é uma argumentação

Todos dizem que estudar filosofia treina a pessoa para o pensamen-


to crítico. Como? Nem sempre isto acontece lendo os textos dos filó-
sofos, muitas vezes difíceis e às vezes obscuros. As argumentações de
muitos dos filósofos, inclusive dos mais importantes, nem sempre são
um exemplo de clareza. Compreender e portanto discutir as teses conti-
das nos textos de Platão, Aristóteles, Kant constitui para o filósofo um
ponto de chegada. Um bom ponto de partida é treinar para compreender
a estrutura das argumentações mais simples, por exemplo, aquelas que
se encontram nos jornais e se ouvem nos programas de televisão.

O QUE É UMA ARGUMENTAÇÃO?


Um raciocínio que tende a demonstrar uma tese (conclusão) de ma-
neira persuasiva:
(i) tomando por base razões (premissas ou suposições);
(ii) usando certas regras ou esquemas reconhecidos.

1. Dar razões 15
Denomina-se “inconcludente” um discurso que não tenha uma con-
clusão, ou cuja conclusão parece totalmente destacada do resto do discur-
so. O que significa “tomando por base razões”? Quer dizer que uma ver-
dadeira conclusão não pode ocorrer por acaso, mas deve seguir razões
apresentadas em uma certa ordem, com uma certa conexão. Como se en-
cadeiam entre si as razões usadas para se chegar a uma conclusão? A res-
posta é: as razões se encadeiam segundo regras geralmente aceitas e de tal
sorte que assegurem a verdade (se as premissas forem verdadeiras). A esta
altura vamos necessitar de uma distinção, fundamental em lógica e expli-
citada a partir do trabalho de Gottlob Frege: a distinção entre axiomas e
regras. Podemos dar as seguintes definições aproximativas:
• os axiomas, ou suposições, são aquilo que constitui o ponto de par-
tida do nosso raciocínio, aquilo que se assume ou supõe como verda-
deiro;
• as regras de inferência são as regras comumente aceitas, que per-
mitem passar das suposições (as premissas do argumento) às con-
clusões;
• a inferência: usa-se o termo “inferência” para falar (i) do ato de
passar das premissas às conseqüências segundo regras, (ii) da estru-
tura desta passagem (ou deste conjunto de passos). Neste segundo
sentido se fala de “esquemas de inferência”.
Uma argumentação é tipicamente constituída por uma inferência ou
por uma série de inferências. Usualmente seguimos regras de inferência
implicitamente, sem nos darmos conta de que regras estamos efetiva-
mente seguindo. Parte do trabalho dos lógicos consiste em explicitar al-
gumas dessas regras, em particular aquelas que, tendo em vista a verda-
de das premissas, garantem a verdade da conclusão. Um exemplo clássi-
co de regra de inferência é a regra do Modus ponens (ou regra de separa-
ção), já explicitada pelos estóicos e colocada por Frege como regra-base
do seu sistema lógico:
se p então q

16 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


Neste esquema de inferência, as primeiras duas linhas constituem as
premissas do argumento e a terceira linha, debaixo do traço, constitui a
conclusão; “p” e “q” podem ser substituídas por uma proposição qual-
quer (se chover, então me molharei; chove, portanto me molho). O traço
representa o sinal de derivação (é como se estivesse no lugar “portanto”,
“ou seja”, “razão pela qual” etc.), e o mesmo esquema pode ser escrito
em apenas uma linha deste modo:
®
Existem diversos modos “regulares” em que as razões (ou premis-
sas) dadas se acham ligadas à conclusão ou à tese que se quer demons-
trar. Costuma-se distinguir entre argumentações dedutivas e indutivas,
conforme as premissas possam levar a uma conclusão certa ou somente
provável. Esta contraposição comporta sutilezas que não cabe aqui apro-
fundar, tratando-se de uma breve introdução (no caso das argumenta-
ções indutivas, onde as premissas tornam provável a conclusão, não se
costuma falar de argumentações corretas e incorretas, mas de argumen-
tações fortes ou fracas). Embora a maior parte dos nossos raciocínios co-
tidianos sejam incertos e aproximativos, e sigam portanto a assim cha-
mada argumentação indutiva ou probabilística, por simplicidade nos li-
mitaremos a falar só de argumentações dedutivas. A opção se deve tam-
bém ao fato de que argumentações e contra-argumentações dedutivas são
muitas vezes usadas na análise conceitual, e portanto em filosofia. Usa-
remos a seguinte terminologia1:

1. Em italiano não há uma tradição padrão sobre os termos relativos à argumentação.


Aqui usamos “correto” para o inglês sound, seguindo a tradição lógica de traduzir
soundness theorem por “teorema de correção”. Lembramos, aliás, que em lógica o
conceito de soudness não tem nada a ver com a verdade das premissas (dado que a
lógica se ocupa somente com a forma dos argumentos). O conceito de “correto” em
lógica é portanto diferente daquele aqui proposto. Com efeito, passando da lógica for-
mal ao estudo das argumentações, temos também interesse na verdade das premis-
sas, e é por isso que introduzimos o termo “fundado” (isto é, “com premissas verdadei-
ras”). A distinção válido/correto tem alguma ligação na linguagem natural. Por exem-
plo, no jogo de futebol se diz “não é válido” para alguém que viola as regras, como al-
guém que faz gol em impedimento; “não é correto”, quando alguém faz algo pior, por
exemplo agarra pela camisa o adversário sem que ninguém perceba. O importante é
não se deixar confundir com traduções diferentes e compreender de que modo se usa
a palavra “correto” em diversos textos e contextos (em alguns textos, usa-se “corre-
to” no lugar do que aqui denominamos “válido”).

1. Dar razões 17
Argumentação válida (valid) Argumentação na qual não é possível que a
conclusão seja falsa e as premissas verdadeiras (a
conclusão é “conseqüência lógica” das premissas:
segue necessariamente).
Argumentação correta (sound) Argumentação válida e fundada, ou seja, cujas
premissas são verdadeiras.
Argumentação boa (good) Argumentação correta, mas também
psicologicamente plausível e convincente.

Ao contrário, usa-se o termo genérico “má argumentação” para falar


de uma argumentação incorreta ou inválida, mas também para falar das
falácias, um tipo particularmente perigoso de argumentações más, visto
que parecem corretas. Vamos falar portanto de:
Argumentação inválida Argumentação na qual a conclusão (que pode
também casualmente ser verdadeira) não segue
necessariamente das premissas.
Argumentação incorreta Argumentação inválida ou com premissas falsas2.
Argumentação falaciosa Argumentação que parece correta, mas não o é.
Argumentação incorreta (inválida ou
infundada), mas também psicologicamente plausível
e convincente.

Fala-se de “passos” da argumentação, e isto recorda a linguagem co-


mum, que fala metaforicamente de “cometer um passo falso”. Um passo
falso torna uma argumentação inválida ou incorreta. É muito importante
distinguir o problema da validade do problema da verdade. Se as premis-
sas são falsas, uma argumentação pode ter uma conclusão falsa e no en-
tanto ser válida, como no exemplo (1). Ao mesmo tempo, uma argumen-
tação não válida pode ter conclusões verdadeiras, como no exemplo (2):

2. Portanto, o termo “incorreto” (unsound) é amplo e inclui em si também os casos de


não validade. Por isso, as falácias são muitas vezes definidas como argumentações que
parecem corretas, mas não o são, o que abrange argumentos inválidos ou válidos mas
infundados, ou seja, com ao menos uma premissa falsa. Deste modo uma argumenta-
ção correta será sempre fundada e uma incorreta poderá ser ou inválida ou infundada.

18 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


EXEMPLO (1) EXEMPLO (2)
Os italianos são mafiosos os italianos são mafiosos
Os milaneses são italianos os milaneses são mafiosos
Portanto: portanto:
Os milaneses são mafiosos os milaneses são italianos

No caso (1), embora a conclusão seja factualmente falsa (basta um


só milanês que não seja mafioso para tornar falsa a conclusão), a argu-
mentação é válida, porque decorre logicamente das premissas. Se estas
fossem verdadeiras, a conclusão seria também verdadeira. No caso (2), a
conclusão é verdadeira, mas o raciocínio não se sustenta. Alguém pode-
ria dizer: que importa? Se a conclusão é verdadeira, deveríamos ficar sa-
tisfeitos. Mas não é assim, porque devemos estar interessados não só na
solução, mas no modo como se chega a ela. Por que interessar-se na pro-
va ou na demonstração? Porque a demonstração nos dá a garantia de man-
ter a verdade através do raciocínio. Se as premissas são verdadeiras, e se
segue uma argumentação válida, então a conclusão será também verda-
deira. Devemos portanto distinguir:
• a busca da verdade de cada proposição;
• a busca da validade dos argumentos.
Contra as mentiras é necessário o primeiro trabalho: muitas vezes
uma trabalhosa busca empírica de informações escondidas aos olhos da
maioria. Contra as más argumentações é necessário explicitar os equí-
vocos do discurso. Para rejeitar ou criticar uma argumentação faz-se
mister compreender onde é que está o ponto fraco: se nas premissas ou
na estrutura da argumentação.

1.2. Forma dos argumentos e falácias

Desde Aristóteles se vem procurando distinguir argumentações váli-


das e inválidas identificando a sua forma. Por isso a lógica, desde a épo-
ca de Aristóteles, é chamada de “lógica formal”. Por exemplo, as argu-
mentações (1) e (2) acima apresentadas têm duas formas diversas ou dois
diferentes esquemas de inferência representáveis em diagramas:

1. Dar razões 19
(1) (2)
todos os A são B todos os A são B
todos os C são A todos os C são B

todos os C são B todos os C são A

A
A

B B C
C

Como se disse acima, (1) é um exemplo de raciocínio válido, ao pas-


so que (2) não tem sustentação. Os diagramas mostram a diferença entre
os dois esquemas de argumentação e fornecem a imediata evidência do
que vale como conclusão e do que não vale: em nosso caso, o diagrama
de Venn mostra em cinza as partes da classe que estão vazias. Pode-se
portanto verificar se decorre necessariamente que uma classe esteja in-
cluída ou não em outra (veja Bibliografia sobre o uso dos diagramas no
fim do capítulo).
Mas verificar com diagramas não basta. Como rejeitar argumenta-
ções incorretas? Em uma conversa, na maioria dos casos informal, não
podemos usar diagramas. Uma das estratégias mais usadas é apresentar
um contra-exemplo.
Construir um contra-exemplo quer dizer (i) aplicar a mesma forma
ou esquema de argumentação usado no exemplo que parece convincen-
te; (ii) produzir com esta forma, a partir de premissas claramente verda-
deiras, uma conclusão altamente implausível ou claramente falsa.
Eis um contra-exemplo que mostra a incorreção do segundo tipo de
argumentação:

20 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


CONTRA-EXEMPLO (2’)
os italianos são europeus
os franceses são europeus

os italianos são franceses

Erros de argumentação se escondem também nas formas aparente-


mente mais inocentes e formalmente válidas. Vamos tomar outros dois
exemplos de argumentos com a mesma forma lógica (do tipo: p ou q,
não p – q):

EXEMPLO (3)
ou Pippo tem a carteira de motorista ou então não pode dirigir na estrada
Pippo não tem a carteira de motorista

não pode dirigir na estrada

EXEMPLO (4)
ou se corta o estado social ou então a economia vai à falência
não se corta o estado social

a economia vai à falência

O exemplo (3) está correto (é válido e fundado), porque a primeira


premissa é certamente verdadeira, dado que as duas proposições são
mutuamente excludentes (se uma é verdadeira, a outra é falsa e vice-ver-
sa). Também o exemplo (4) é válido (se a primeira premissa fosse verda-
deira, a conclusão seria verdadeira), mas está incorreto, neste caso in-
fundado. Este é o que se costuma definir como um “falso dilema”. Com
efeito, não se diz que a primeira premissa de (4) seja verdadeira, dado
que as duas proposições não são mutuamente excludentes. Existem di-
versas alternativas possíveis a p que excluem a verificação de q: por
exemplo, também aumentar os impostos ou cortar outros setores de des-
pesa pode permitir que a economia se mantenha de pé. Muitos discursos
de políticos ou de vendedores publicitários usam um esquema de racio-

1. Dar razões 21
cínio desse tipo, que parece fundado por esconder as alternativas. O típi-
co slogan do vendedor: “Compre o produto SUPER-X ou então se conten-
te com produtos inferiores; você quer contentar-se com produtos infe-
riores? Claro que não! Portanto, compre o produto SUPER-X!”
Nem sempre é fácil compreender se um discurso é consistente ou
não. As coisas ficam difíceis quando um raciocínio sem consistência pa-
rece bem construído. É o caso de (2) e (4), exemplos de argumentação
falaciosa. Muitas definições de “falácia” têm em comum a idéia segun-
do a qual (i) são argumentações inválidas ou incorretas, mas (ii) pare-
cem argumentações válidas ou corretas.
Ao menos a partir de Aristóteles foi desenvolvida uma ampla inves-
tigação para identificar os raciocínios falaciosos e pôr em evidência as
suas formas mais comuns. Os retores e os sofistas eram sumamente há-
beis em usar argumentos que pareciam cogentes, mas se baseavam em
falácias. Uma pessoa pode ser ao mesmo tempo persuasiva e falsa, mas
também persuasiva e incorreta no raciocínio (para uma lista de falácias,
cf. o Quadro 1).
Pode-se resumir assim o que se disse até aqui:
• a falsidade (ou falta de fundamento) daquilo que se diz pode ser
desmascarada com a evidência de provas e dados empíricos ou tam-
bém de hipóteses não contempladas;
• a incorreção da argumentação pode ser desmascarada por contra-
exemplos, ou mostrando qual o elo fraco da cadeia de inferências.
O estudo das falácias, ou ao menos a acribia da argumentação, deve-
ria fazer parte do arsenal de qualquer filósofo. Mas faz sentido, de ma-
neira particular, chamar a atenção para esses temas em uma introdução
à filosofia da linguagem. Com efeito, é certamente mérito deste setor da
filosofia ter afinado a atenção para os equívocos aos quais as ambigüi-
dades da linguagem induzem os falantes pouco cuidadosos.

1.3. Lógica, argumentação e análise da


linguagem

O ponto de partida para uma nova atenção aos equívocos da lingua-


gem comum se encontra em Gottlob Frege que – como Aristóteles – vê
22 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística
na lógica um instrumento útil para esclarecer confusões conceituais. As-
sim como o microscópio permite estudar aspectos do mundo que não se
podem ver a olho nu, da mesma forma uma “ideografia” (um formalis-
mo lógico) pode prestar bons serviços no estudo de aspectos da lingua-
gem que não se podem perceber com a língua falada.
O projeto de Frege se realizou, mas apenas em parte. Quer dizer,
“em parte”, porque outras idéias suas falharam, em particular sua idéia
de fundar a matemática sobre a lógica tomando por base sua lingua-
gem ideográfica. O fracasso parcial de sua empreitada teórica não dimi-
nui, porém, o resultado de seu trabalho. Alguns até compararam Frege a
Cristóvão Colombo que, navegando em busca das Índias, falhou no in-
tento mas descobriu a América. Tentando dar um fundamento lógico à
matemática, Frege não obteve sucesso, mas descobriu todo um conti-
nente intelectual: a nova lógica e os problemas da filosofia da lingua-
gem. Os filósofos que vieram depois dele, a partir de Russell, Wittgens-
tein e Carnap, usaram a lógica como instrumento de trabalho. Surgiram
diversos projetos de esclarecimento da linguagem científica e da lingua-
gem comum que usaram e ainda usam o microscópio da lógica matemá-
tica tal como sugeria Frege. Diversas ambigüidades da linguagem e vá-
rios problemas foram esclarecidos. Muitas vezes também se exagerou,
pensando que bastaria traduzir um problema em fórmulas lógicas para
resolvê-lo. A tradução pode ajudar, não porém substituir a análise filo-
sófica. E diversos filósofos, embora conhecendo a lógica, preferiram en-
frentar o estudo da linguagem dedicando-se a uma análise meticulosa
dos usos lingüísticos do discurso comum. Também nesses casos o con-
fronto com a formalização (tradução em forma lógica) é útil, nem que
seja apenas para mostrar até que ponto a linguagem comum escapa a
uma definição rigorosa, e até que ponto as ambigüidades e imprecisões
da linguagem têm um objetivo e uma eficácia comunicativa.
Distinguem-se, tradicionalmente, duas correntes de pensamento na
filosofia da linguagem:
• os filósofos das linguagens formais que tentam, mediante a forma-
lização, reconstruir as linguagens científicas (a lógica da física quân-
tica é um dos exemplos mais fascinantes) ou tentam formalizar a
própria linguagem comum. Encontramos aqui, por exemplo, as figu-

1. Dar razões 23
ras de Russell, o Wittgenstein do Tractatus, Carnap, Reichenbach,
Montague;
• os filósofos da linguagem ordinária que procuram, através da análise
dos usos correntes, mostrar a riqueza e a variedade da linguagem, mas
também mostrar como alguns problemas típicos da filosofia podem
ter origem em mal-entendidos lingüísticos. Aqui encontramos, por
exemplo, o segundo Wittgenstein, Austin, Ryle, Strawson.
A contraposição era muito viva na primeira metade do século XX, e
aos poucos se foi atenuando. Autores mais recentes como Brandon, Da-
vidson, Dummett, Fodor, Grice, Kripke, Putnam e Quine não são enqua-
dráveis nesses termos. Mas alguma coisa da antiga contraposição conti-
nua viva na batalha que, na década de 1950, Strawson chamava de “ba-
talha homérica”, um confronto entre duas facções opostas:
1. a facção que privilegia o estudo do sentido “objetivo” dos enuncia-
dos, determinado pela sua estrutura lógica: esta atitude constitui o
“paradigma dominante” da filosofia da linguagem que define o sen-
tido de um enunciado como condições de verdade (cf. 4.5 e 6.1);
2. a facção que privilegia o estudo das intenções do falante como o ine-
vitável ponto de partida para definir o sentido das expressões lingüísti-
cas, preferindo a pragmática à semântica (para esta distinção, cf. 3.1).
Para compreender esta contraposição, é necessário antes de tudo
compreender o papel desempenhado pela lógica na determinação dos pro-
blemas da análise da linguagem e o papel que assumiu na cultura con-
temporânea. A relação entre a linguagem e a lógica será o tema do pró-
ximo capítulo.

Bibliografia essencial
BRANQUINHO, João; MURCHO, Desidério & GONÇALVES GOMES,
Nelson (orgs.). Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 2006.
DOWNES, Stephen. Guia das falácias. In: Crítica [www.criticanarede.com].
MARCONDES, Danilo. Filosofia analítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
WESTON, Anthony. A arte de argumentar. Lisboa: Gradiva, 1996.

24 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


1 – Falácias
Definição de falácia: argumento que parece válido ou correto, mas não o é.
Exemplos de falácias informais e formais (as últimas três):
• A petitio principii é uma das falácias mais conhecidas (e usadas). Esta falácia
consiste em dar por demonstrada ou assumir entre as premissas (explícitas ou im-
plícitas) a conclusão que se quer demonstrar. Dá origem aos argumentos circulares.
EXEMPLO: Deus existe porque a Bíblia o diz. Como é que você sabe que é
verdadeiro tudo o que a Bíblia diz? (Porque) a Bíblia é a Palavra de Deus (esta últi-
ma afirmação pressupõe a existência de Deus, que é justamente o que se quer de-
monstrar).
• A ignoratio elenchi: usar premissas que não têm nada a ver com a conclusão.
EXEMPLO: Este crime de que Pio é acusado é horrível; portanto Pio deve ser
condenado.
• A ambigüidade de composição: toma-se a parte pelo todo, ou os membros
pela classe.
EXEMPLO: Os cães são comuns; os husky são cães; os husky são comuns.
Aqui se entende mal a segunda premissa, e o raciocínio só vai funcionar se to-
dos os husky forem todos os cães; mas os husky são apenas uma parte dos cães.
• A ambigüidade de divisão: algo verdadeiro acerca do todo se considera ver-
dadeiro para a parte.
EXEMPLO: Os homens são numerosos. Sócrates é um homem. Sócrates é nu-
meroso.
A partir de Frege podemos ver estas falácias como relacionadas também com a
confusão de predicados de primeiro nível (que se aplicam aos indivíduos singulares)
e predicados de segundo nível (que se aplicam às classes), “...é um homem” se predi-
ca de indivíduos, e “...é numeroso” se predica de classes. Evita-se e corrige-se a falá-
cia quando se explicita a diferença, dizendo por exemplo “O conjunto dos homens é
numeroso; Sócrates é um homem; Sócrates pertence a um conjunto numeroso”.
• A afirmação do conseqüente (se p então q, mas q portanto p) é uma falácia cha-
mada tradicionalmente “formal” por violar uma regra formal de dedução, o Modus
ponens (se p então q, mas p portanto q). A regra do MP garante a verdade da conclu-
são a partir da verdade das premissas. A afirmação do conseqüente não a garante.
EXEMPLO: Se chove, então faz frio; faz frio, portanto chove.
• A negação do antecedente (se p então q, não p, portanto não q) é outra falácia for-
mal, que viola a regra de dedução do Modus tollens (se p então q, não q, portanto não p).
O mesmo discurso para a falácia precedente (não garante a verdade da conclusão).
EXEMPLO: Se chove, então faz frio; não chove, portanto não faz frio.
• O quarto incômodo (ou mais oficialmente quaternio terminorum) dito de um
silogismo (raciocínio com três termos) que parece funcionar mas usa um mesmo
termo com dois sentidos diferentes, portanto usa de fato quatro termos (aqui: a am-
bigüidade do termo “procurado”).
EXEMPLO: As coisas procuradas são caras; os criminosos são procurados; os
criminosos são caros.

1. Dar razões 25
2 Linguagem e lógica

SUMÁRIO
Em 2.1 se apresenta um breve quadro histórico das relações entre a lógica e
o desenvolvimento da ciência moderna, detendo-se na figura de Leibniz, cujas
idéias em lógica foram desenvolvidas por Boole e por Frege. Em 2.2 se intro-
duz o aspecto mais técnico da revolução lógica de Frege, a saber sua analogia
entre conceitos e funções matemáticas e a sua invenção dos quantificadores.
Ao fazê-lo, Frege enfatiza a distinção entre o nível da expressão e o nível do
conteúdo; isto ajuda, em 2.3, a introduzir algumas distinções filosóficas ele-
mentares pressupostas na seqüência do texto. Em 2.4 se mostra como a inven-
ção dos quantificadores permitiu a Frege unificar a lógica das proposições (de
origem estóica) e a lógica dos termos, aristotélica, que há mais de dois mil anos
iam se desenvolvendo paralelamente (Boole incluído; cf. Quadro 3). Em 2.5 se
mostra, finalmente, como a solução fregeana leva à distinção entre forma gra-
matical e forma lógica, distinção central para o desenvolvimento da análise da
linguagem (e retomada no capítulo 6).

2.1. Leibniz e Frege: língua e cálculo

Durante mais de dois mil anos, desde o começo da reflexão aristoté-


lica, os filósofos serviram-se da lógica como um instrumento contra as
argumentações incorretas ou falaciosas. Durante mais de dois mil anos, a
lógica serviu de propedêutica para o estudo das várias partes da filoso-
fia (física, ética, metafísica). A importância atribuída aos novos métodos
matemáticos (álgebra e análise) e ao método experimental tiveram grande
impacto sobre a imagem do mundo dos filósofos, mas foi necessário al-
gum tempo até que a lógica tradicional aceitasse o novo espírito científi-
co. Quando Galileu Galilei foi condenado pelos doutores da Igreja por ter

26 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


afirmado que a terra se move, vários estudiosos daquela época usavam a
lógica silogística para demonstrar que a terra é o centro do universo.
Desde o começo do século XVI até o fim do XVII, efetua-se uma
ruptura com a tradição da lógica escolástica por parte dos filósofos em
contato íntimo com a ciência, como por exemplo Descartes e Locke.
Descartes traz contribuições fundamentais para a formulação da geome-
tria analítica e Locke se apresenta como um estudioso das novas concep-
ções da física moderna. Ambos são os promotores de um novo método
de conhecimento, que não se baseia sobre estéreis silogismos, mas nasce
de um estudo das idéias e da visão mecanicista do mundo. Na visão de
Descartes, o verdadeiro método se baseia sobre a busca de idéias claras e
distintas a partir da reflexão e da dúvida metódica. Quanto a Locke, o
problema filosófico central é mostrar como nascem e se desenvolvem as
idéias a partir da experiência. A busca do método para a correta repre-
sentação do mundo passa a ser o centro da reflexão filosófica. A episte-
mologia (teoria do conhecimento) substitui a lógica e a ontologia como
centro e base da filosofia. A lógica e a ontologia tradicionais são postas
em dúvida pelos filósofos influenciados por Descartes e por Locke.
Essa desconfiança em face da lógica tradicional não vale, porém,
para uma figura central na situação política e científica da Europa Conti-
nental: Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Leibniz, por um lado,
continua trabalhando nos fundamentos da lógica aristotélica e, pelo ou-
tro, desenvolve um filão de pensamento dos séculos XVI e XVII, margi-
nal diante dos desenvolvimentos das ciências experimentais, a arte da
memória, a arte combinatória (Lullo) e a busca de uma língua e de uma
gramática universais. Em uma época recente, Chomsky irá referir-se a
esta corrente com o nome de “lingüística cartesiana”, ou seja, aquela
postura que afirma existir uma gramática universal inata. A contribuição
fundamental de Leibniz é a integração de língua universal e cálculo
combinatório (arte da memória), integração que se deve realizar com os
instrumentos da álgebra e da simbolização lógica. Temos aqui, in nuce,
a visão da atual lógica matemática.

2. Linguagem e lógica 27
Mas Leibniz estava bem à frente do seu tempo, e suas idéias iriam ser
desenvolvidas mais de duzentos anos após, por George Boole (1815-1864)
e por Gottlob Frege (1848-1925). Pelo final do século XIX, Frege pro-
pôs de novo, explicitamente, o projeto leibniziano em seu conjunto. Fre-
ge conhecia tanto os trabalhos de Boole e da escola booleana como
aqueles de seu contemporâneo Giuseppe Peano (1858-1932), matemáti-
co italiano, inventor de uma linguagem formal para representar a mate-
mática. Frege criticava os dois. Criticava a álgebra de Boole que forne-
cia as regras de um cálculo formal, sem oferecer uma língua univer-
sal. Um mesmo símbolo, por exemplo o “x”, podia ser interpretado ora
como símbolo da multiplicação de números ora como símbolo da inter-
secção entre classes, ora como símbolo da conjunção entre proposições
(cf. Quadro 3). Mas como encontrar uma linguagem na qual se possa fa-
lar da matemática, se os próprios símbolos são usados com diferentes
sentidos? Era necessário ter uma língua como aquela de Peano. Mas Fre-
ge criticava também Peano por ter fornecido uma língua universal para a
matemática sem dar ao mesmo tempo um cálculo lógico. Frege queria
propor novamente o projeto leibniziano originário, a saber um conjunto
constituído por uma língua e por um cálculo.
Poderíamos sintetizar o projeto de Frege, inspirado por Leibniz, de
acordo com o seguinte esquema. Um sistema formal deve conter tanto
uma linguagem como um cálculo assim constituídos:

28 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


LINGUAGEM CÁLCULO
ALFABETO (ou vocabulário): AXIOMAS:
dá os elementos básicos para formar Enunciados escolhidos como pontos de
enunciados. partida do sistema.
Ex.: Ex.:
Símbolos proposicionais: p, q, r... p®(q®p)
Conectivos: Ø Ù ® (p®(q®r)) ®((p®q)®(p®r))
REGRAS DE FORMAÇÃO: REGRAS DE TRANSFORMAÇÃO OU
Regras recursivas3 que constroem, a partir DERIVAÇÃO:
do vocabulário, infinitos enunciados Regras que permitem passar dos
construídos com os conectivos, como axiomas a outros enunciados chamados
por exemplo: teoremas.
Ø p, pÙq, pÚq, p®q Ex.: P®Q, P Q
P Ú Q, Ø P Q
TEOREMAS:
Ex.: (r®p)®(p®q)®(r®q))
(r®p)®(r®q)®(r®pÚq))

2.2. Uma teoria do conceito: o conceito como


função

Deixando para um estudo sobre textos de lógica a análise dos siste-


mas formais, vamos aludir aqui ao papel de Frege na história da lógica.
A história da lógica ocidental foi marcada pela ruptura entre dois estilos
e dois sistemas: por um lado a lógica aristotélica dos termos e, pelo ou-
tro, a lógica estóica dos enunciados (ou das proposições). A contrapo-
sição se estendeu por mais de dois mil anos, com algumas tentativas de
unificação jamais plenamente bem-sucedidas, até a síntese efetuada por

3. Regras e definições recursivas têm um papel importante em lógica (e nas discipli-


nas formais como a aritmética, a teoria dos conjuntos, a informática). As definições
recursivas definem conjuntos de objetos (por exemplo, números ou fórmulas de uma
linguagem) a partir de (i) alguns elementos de base (o zero, um conjunto de letras
proposicionais) e (ii) a partir das regras ou operações tais que, aplicadas um número
finito de vezes aos elementos básicos, produzem sempre elementos do conjunto defi-
nido. Em nosso caso iríamos ter:
(i) base: p, q, r são fórmulas da linguagem;
(ii) passo: se P e Q são fórmulas da linguagem, então Ø P, (PÙQ), (PÚQ), (P®Q) são
fórmulas da linguagem. O passo pode ser repetido (justamente, recursivamente) apli-
cando-o às fórmulas que se acabou de construir. Por exemplo: se (PÙQ) e (PÚQ) são
fórmulas, então é uma fórmula também (PÙQ) ® (PÚQ).

2. Linguagem e lógica 29
Frege. Um aspecto central do contraste entre as duas escolas (cf. Quadro
2) é o seguinte:
• Os aristotélicos estavam interessados nas relações entre os termos
das premissas e as conclusões de um raciocínio. O raciocínio era ti-
picamente enquadrado na forma transmitida por Aristóteles como
“silogismo” (do tipo “todos os homens são mortais; todos os gregos
são homens; portanto todos os gregos são mortais”).
• Os estóicos consideravam central para a lógica a relação condicional
“se... então”, que pode valer entre proposições de qualquer tipo. Para
os estóicos, portanto, as premissas silogísticas deveriam ser lidas não
como enunciados simples, mas como enunciados complexos, na for-
ma condicional “se alguma coisa é um homem, então é mortal”.
A grande virada lógica do século XX é a síntese dessas duas tradi-
ções. A chave para esta síntese é a invenção dos quantificadores, ou seja,
uma notação matemática para a generalidade (expressões como “todos”
e “alguns”). Antes de passar a este ponto central do trabalho de Frege
(cf. 2.4), devemos esclarecer qual o pano de fundo teórico que o prece-
de: a generalização do conceito matemático de função e a teoria do con-
ceito que dele se origina.
Uma função matemática
y = f (x)
é tipicamente uma correspondência (f) entre dois conjuntos de números,
os argumentos (x) e os valores (y). Se por exemplo f representa “+1”,
para cada número x teremos como valor o sucessor de x. E, tal como já
havia compreendido Descartes, a uma função pode ser associado um
gráfico ou uma figura geométrica (neste caso uma reta).
Frege, em busca do ideal leibniziano de um cálculo universal dos
símbolos, generaliza o conceito de função. Ele aceita como argumentos
e valores não somente números, mas qualquer tipo de objeto. Podemos
por exemplo escrever
Homem (x)
como modo de representar o conceito Homem, ou como abreviação de
“x é um homem” (onde por “homem” se entende uma pessoa adulta do
30 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística
sexo masculino). Toda vez que substituímos x por um nome de homem,
a expressão assume como valor a verdade. Se substituímos o x por um
nome de mulher, teremos como valor a falsidade. Mas o que significa ter
como valor a verdade ou a falsidade? Quer dizer que temos uma propo-
sição verdadeira ou falsa: “Sócrates é um homem”, “César é um ho-
mem” são proposições verdadeiras, ao passo que “Xantipa é um ho-
mem” e “Cleópatra é um homem” são proposições falsas. Um conceito é
portanto análogo a uma função que tem como valor a verdade se por ar-
gumentos tem objetos que caem sob o conceito (os membros da classe
denotada pelo conceito) e como valor a falsidade no caso contrário4.
Assim se explica a definição fregeana de conceito (que corresponde
àquela que Russell vai denominar “função proposicional”):

O conceito é uma função que tem como valores valores de verdade.

Essa definição vale para todo tipo de conceito, ou seja, quer para as
propriedades quer para as relações. Neste último caso haverá diversas
variáveis em vez de uma. Teremos assim:
• expressões para propriedades como
Homem (x), Bom (x), Corre (x), Pares (x), Ímpares (x);
• expressões para relações binárias como
Maior do que (x,y), Menor do que (x,y), Ama (x,y), Mata (x,y);
• expressões para relações ternárias como
Ciumento (x,y,z), Soma de (x,y,z), e assim por diante.
De modo análogo ao caso das propriedades, “Ama (x,y)” é a relação
que dá lugar a uma proposição verdadeira se substituímos os x e os y pe-
los nomes, respectivamente, de amante e de amado, e assim por diante.
As expressões para propriedades e para relações recebem hoje habitual-
mente o nome de “predicados a n lugares”. Deve-se observar assim que

4. Entre as diversas funções inventadas pelos matemáticos temos a função caracterís-


tica, pela qual se um número pertence a um certo conjunto o valor é 1, e se não lhe
pertence o valor é 0. Frege conhece esse tipo de funções e trabalha em cima desta
idéia.

2. Linguagem e lógica 31
não existe diferença formal entre propriedades e relações, uma vez que
os conceitos (propriedades e relações) são vistos, todos os dois, em ana-
logia com as funções. A diferença é o número de argumentos que devem
ser saturados.
Frege não apenas generaliza o conceito de função, mas faz uma críti-
ca aos matemáticos de sua época, em particular no que tange à confusão
entre signo e designado, isto é, entre expressão e conteúdo. Limitan-
do-nos ao caso dos conceitos, podemos dizer:
• os conceitos são em geral denotados por predicados, expressões
lingüísticas “não saturadas”, de tal modo que têm sempre um ou mais
lugares de argumento dados com letras variáveis (as funções mate-
máticas serão denotadas por functores);
• os argumentos, que podem ser quaisquer objetos, serão denotados
por termos singulares, isto é, expressões da linguagem que se referem
a um objeto individual isolado. Os termos singulares destinam-se a
encher (ou a “saturar”) lugares de argumento dos predicados.
A metáfora de “entidades saturadas” e “entidades não saturadas”,
desenvolvida em analogia com a linguagem da química, ajudou Frege a
definir com maior clareza a estrutura da sua linguagem formal. Talvez
tenha influenciado a seguir também a invenção do termo “atomismo ló-
gico” para um tipo de filosofia inspirada em suas obras (cf. 5.6).
O resultado dessa virada lingüística é notável para a história da lógi-
ca. Frege abandona a centralidade da análise feita em termos de sujei-
to/predicado, que caracteriza a lógica aristotélica; em seu lugar introduz
a distinção entre argumento e função, ou seja, entre objeto e conceito.
Pode-se resumir deste modo a distinção base da lógica e da ontologia de
Frege, tanto em nível de expressão como em nível de conteúdo.

EXPRESSÃO CONTEÚDO
denota
termo singular (nome próprio) objeto
termo conceitual (predicado) conceito (propriedades e relações)

32 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


2.3. Intermezzo: distinções filosóficas

Ao insistir sobre a distinção entre expressão e conteúdo, Frege se in-


sere na tradição filosófica que procura distinguir sempre os níveis de
análise. Ele distingue então a análise lingüística da análise ontológica e
da análise epistemológica. O problema não se refere apenas à distinção
entre tipos de objetos, mas entre tipos de análises. Frege tem atrás de si
Immanuel Kant (1724-1804) e acompanha as suas preocupações princi-
pais, como a distinção entre a priori e a posteriori, entre analítico e sin-
tético, entre necessário e contingente, embora apresentando respostas
diferentes de Kant. Convém, portanto, antes de prosseguir em nosso dis-
curso, deter-nos brevemente para esclarecer três tipos diferentes de per-
guntas filosóficas:

• pergunta semântica: que tipo de verdade têm os enunciados?


• pergunta epistemológica: como conhecemos a verdade deles?
• pergunta ontológica: que tipo de realidade corresponde a eles?

A essas perguntas correspondem diversas respostas e diversas dis-


tinções teóricas. Demos alguns exemplos:
• Semântica: distinção entre analítico e sintético. A verdade dos enun-
ciados analíticos é dada pelo significado dos termos, e a verdade dos
enunciados sintéticos pressupõe uma certa intuição extralingüística.
Poder-se-ia dizer que o analítico se refere àquilo que é definido pelo
dicionário e o sintético àquilo que é definido pela enciclopédia.
• Epistemologia: distinção entre a priori e a posteriori. Diz-se que
um enunciado é a priori se a sua verdade é conhecida antes de qual-
quer experiência, ao passo que se diz a posteriori se exige um pro-
cesso cognoscitivo empírico de algum tipo, ao término do qual se re-
conhece a sua verdade (ou falsidade).
• Ontologia e metafísica: distinção entre necessário e contingente.
Um enunciado é necessário se fala daquilo que não pode ser senão
assim; é, portanto, verdadeiro necessariamente se vale em quaisquer

2. Linguagem e lógica 33
condições. É contingente se fala daquilo que poderia ser de outra
maneira, ou seja, se é verdadeiro somente em alguns casos ou, justa-
mente, por acaso.
Portanto, o reino da lógica é, para Frege e para muitos filósofos, o rei-
no do analítico, do a priori e do necessário. Visto não considerar logica-
mente importante a distinção sujeito/predicado, Frege deve reformular a
definição kantiana de “analítico” (“enunciado no qual o predicado está
contido no sujeito”). Para Frege, “analítico” vem a ser aquilo que depen-
de do significado das palavras e decorre segundo regras das verdades ló-
gicas (cf. também 13,1).
As relações entre esses níveis de discurso são aliás sobremodo com-
plexas. Para Kant, por exemplo, os enunciados da matemática são sinté-
ticos a priori: sintéticos porque pressupõem a intuição do espaço (para a
geometria) e do tempo (para a aritmética); a priori porque a sua verdade
é conhecida antes de qualquer experiência. Contra essa idéia Frege asse-
vera que somente a geometria é sintética a priori, mas toda intuição deve
ser posta fora da aritmética e a aritmética é, além de a priori, também
analítica, enquanto baseada apenas sobre a lógica, portanto somente so-
bre o significado das expressões. Para os neopositivistas, as verdades
analíticas, a priori e necessárias, são tais somente por convenção lin-
güística (cf. 6.3 e 6.6). Seriam possíveis outras combinações, como a
idéia de verdades necessárias a posteriori e verdades contingentes a
priori (cf. 15.2).

2.4. A forma lógica dos enunciados de


generalidade ", $

Vamos retomar o fio do discurso que empreendemos no início de 2.2


e procurar mostrar de que modo Frege unificou as duas tradições da ló-
gica, a estóica e a aristotélica. Dizíamos que a chave é a invenção de um
formalismo para as expressões de generalidade. A solução é estender a
notação funcional também para termos como “todos” e “alguns”. Discu-
te o problema de saber qual seria a forma lógica dos enunciados quanti-
ficados e chega às mesmas conclusões dos estóicos. Os enunciados típi-

34 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


cos do silogismo são em geral expressos por uma proposição simples do
tipo “todos os A são B”; mas as relações entre os conceitos se tornam
mais explícitas usando uma proposição composta com o condicional “se
alguma coisa é um A, então ela é um B”. Frege, no entanto, observa que
“se nos limitássemos apenas a ‘alguma coisa’ e ‘ela’, poderíamos tratar
somente casos muito simples. Sugere, portanto, que se adote o costume
matemático de usar letras variáveis (Escritos póstumos, p. 405). Frege tra-
duz por conseguinte a expressão “todos” e “alguns” de modo a explicitar
com uma variável a possibilidade de referir-se a quaisquer indivíduos:
"x Px = para todos os x, x tem a propriedade P
$x Px = para alguns x, x tem a propriedade P
Os símbolos " e $ são chamados, respectivamente, “quantificador
universal” e “quantificador existencial”. O quantificador liga ou vincula
as variáveis (daqui em diante, sempre que não dê margem a ambigüida-
de, deixamos os parêntesis depois do sinal do predicado). Este modo de
escrever diz respeito quer à propriedade quer à relação que, como vimos
em 2.2, podem ser expressas como predicados com um ou mais lugares
vazios, em analogia com a notação funcional. Aqui nos limitamos, para
simplificar, ao caso dos predicados com um lugar. O passo fundamental
para traduzir a lógica aristotélica é transformar proposições do tipo:
“todos os homens são mortais”
em
"x (Homem x ® Mortal x)
que se lê: “para todos os x, se x é um homem, então x é mortal”. O silo-
gismo aristotélico é, então, lido à maneira estóica, tendo além disso a ex-
plícita referência a uma variável vinculada pelo quantificador:
"x (Homem x ® Mortal x)
"x (Grego x ® Homem x)
________________________
"x (Grego x ® Mortal x)

2. Linguagem e lógica 35
Frege realiza deste modo uma nova forma de lógica, o cálculo dos
predicados, que contém a silogística aristotélica como uma subparte sua
(limitada aos predicados monádicos e a certas relações inferenciais stan-
dard). Por isso, o final da introdução do seu primeiro livro de lógica, a
Ideografia de 1879, mostra como a sua lógica consegue com facilidade
exprimir o quadrado aristotélico das oposições (cf. Quadro 4).
Pela distinção axiomas/regras, pela construção da lógica matemáti-
ca e pela invenção dos quantificadores, Frege merece um lugar de desta-
que na história da lógica e da matemática. Além de explicitar distinções
e demonstrações matemáticas que não se poderiam exprimir com o silo-
gismo, a notação dos quantificadores permite:
• tornar operacional a formulação que os lógicos estóicos davam das
fórmulas silogísticas, unificando em um único formalismo a lógica
dos termos e a lógica das proposições, que haviam ficado separadas
também em Boole;
• abrir novos caminhos para a abordagem lógica da linguagem mate-
mática e oferecer ao mesmo tempo um poderoso instrumento de
análise da linguagem natural.
Depois de cerca de dois mil anos de história da lógica, a unificação
efetuada por Frege desmente com os fatos a tese sustentada por Kant, na
Crítica da razão pura, segundo a qual nada de novo se poderia realizar
em lógica formal depois de Aristóteles.

2.5. Quantificadores, forma gramatical, forma


lógica (*)*

O uso dos quantificadores permite exprimir distinções que ajudam a


esclarecer ambigüidades da linguagem comum, em particular as frases
que contêm mais de um símbolo de generalidade. Um exemplo simples
é “existe um número maior do que cada número”, que se pode ler (su-
pondo que x e y variem somente sobre números naturais) como:

* O símbolo (*) indica os parágrafos mais difíceis, que podem ser pulados em uma pri-
meira leitura.

36 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


(1) "x $y (y >x)
(2) $y "x (y >x)
Obviamente, (1) é a leitura correta, pois dado um número qualquer,
sempre existe um maior que ele. Ao contrário, (2) é evidentemente falsa,
pois afirma que existe um número natural que é maior do que todos os
outros. Um outro exemplo de ambigüidade produzida por generalidade
múltipla (exemplos desse tipo eram verdadeiros quebra-cabeças para os
lógicos medievais) é o seguinte:
“todos os garotos amam uma garota”
que tem um significado ambíguo entre:
(1) cada garoto tem uma garota que ama
(2) uma garota é amada por todos os garotos

A ordem dos quantificadores resolve esta ambigüidade:


(1) "x [(Garoto x ® $y (Garota y ® Ama x,y)]
(2) $y [(Garota y Ù "x (Garoto x ® Ama x,y)]

A diferença é questão de âmbito ou campo de ação (objetivo) do


quantificador: o operador que precede tem no seu raio de ação aquele
que segue. Em (1) o quantificador existencial entra no raio de ação do
quantificador universal, por conseguinte cada garoto vai encontrar a sua
própria garota. Em (2) vale o contrário, por conseguinte todos os garotos
voltarão sua atenção para aquela única (ou ao menos uma) garota identi-
ficada pelo operador existencial. Frege insiste assim que se deve distin-
guir nitidamente entre:
• forma gramatical (a forma sujeito-predicado);
• e forma lógica: (a forma função-argumento).
Trata-se de um desafio importante, inclusive pensando que a distin-
ção sujeito/predicado ocupava um lugar central na lógica e na ontologia
da lógica tradicional aristotélica. A distinção entre forma gramatical e
forma lógica irá se desenvolver de diversas maneiras na filosofia da lin-

2. Linguagem e lógica 37
guagem e na lingüística. Essa distinção (inclusive o conceito de âmbito
ou raio de ação do quantificador) será muito importante para a teoria das
descrições de Russell, considerada por Ramsey e pelo primeiro Witt-
genstein um paradigma de filosofia (cf. 5.3). Em lingüística, o primeiro
Chomsky irá falar da distinção entre estrutura superficial e estrutura
profunda de uma frase, distinção que tem uma certa analogia com a nos-
sa distinção (cf. 3.3).
Frege tinha em mente desenvolver a lógica como instrumento para
analisar as linguagens científicas e também a linguagem natural. Hoje
nem se pode pensar em estudar línguas naturais e teorias científicas sem
o auxílio de um formalismo lógico-matemático. As linguagens de pro-
gramação se tornaram um instrumento indispensável não só para a aná-
lise, mas também para a reprodução de certas funções das línguas natu-
rais. Passou-se pouco mais de um século desde as primeiras reflexões de
Frege e com a lógica surgiram também outros formalismos e outras ten-
tativas de dar uma representação da linguagem, por parte da lingüística e
da semiótica. Esses setores de pesquisa também tiveram, nos últimos
anos, uma notável influência sobre a filosofia da linguagem, e convém
ter ao menos uma idéia da sua origem e das teses principais. A este tópi-
co se dedica o terceiro capítulo.

Bibliografia essencial
FREGE, Gottlob. Lógica e filosofia da linguagem. São Paulo: Cultrix/Edusp,
1978 [Trad. de Paulo Alcoforado].
KNEALE, W. & KNEALE, M. O desenvolvimento da lógica. Lisboa: Gulben-
kian, 1974.
MURCHO, Desidério. O lugar da lógica na filosofia. Lisboa: Plátano, 2003.
NEWTON-SMITH, W.H. Lógica. Lisboa: Gradiva, 1998.
PRIEST, Graham. Lógica. Lisboa: Temas e Debates, 2002.
TUGENDHAT, Ernst & WOLF, Ursula. Propedêutica lógico-semântica. Pe-
trópolis: Vozes, 1997.

38 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


2 – Lógica estóica e lógica aristotélica

A lógica estóica se ocupava sobretudo com as relações entre proposições, consi-


deradas como entidades autônomas e indivisíveis, que representam fatos. Os estóicos
estudaram assim aqueles que hoje denominamos os conectivos lógicos, as palavras
que servem para conectar enunciados ou proposições – em particular o condicional
“se... então”. Indicamos aqui, a seguir, um modo habitual de simbolizar alguns conec-
tivos lógicos que se podem encontrar habitualmente nos textos de filosofia:
Ø = não (negação)
Ù = e .............. (conjunção)
Ú = ou ............. (disjunção)
® = se... então.... (condicional)
« = se e somente se (bicondicional)
Os estóicos definiram as regras que governam o raciocínio proposicional – os
assim chamados “indemonstráveis”. Registramos a seguir as primeiras duas regras.
A vírgula separa a primeira da segunda premissa; o sinal indica a dedução ou o
“portanto” que assinala a passagem das premissas à conclusão:
p ® q, p q (Modus ponens) p®q, Ø q Ø p (Modus tollens)
A lógica aristotélica se ocupava principalmente com as relações entre os ter-
mos. Na base do seu trabalho se acha a definição de predicação: uma coisa se predi-
ca de alguma outra coisa quando dois termos se podem unir entre si com a cópula
(“é”). Por exemplo, “homem” e “mortal”. Além disso, identifica como característi-
co do raciocínio o uso de enunciados afirmativos ou negativos, quer sejam univer-
sais (todos os prazeres são bons, nenhum prazer é um bem) ou particulares (alguns
prazeres são bons, alguns prazeres não são bons). Tendo por base essas idéias, Aris-
tóteles desenvolveu a teoria do silogismo. “Silogismo” é sinônimo de “raciocínio”;
o silogismo típico é constituído por três termos distribuídos em duas premissas e na
conclusão. Nas duas premissas existe um termo em comum (termo médio). A con-
clusão estabelece uma relação entre os outros dois termos contidos nas premis-
sas, como no clássico exemplo (onde o termo médio é “homem”): todos os homens
são mortais, todos os gregos são homens todos os gregos são mortais.
São conhecidas 256 formas possíveis de silogismos, dos quais somente 15 são
corretas, ou seja, capazes de garantir a verdade da conclusão a partir da verdade das
premissas. Deste modo se fornece um critério para decidir, dado um silogismo, se é
correto ou incorreto. O estudo do silogismo – que tem hoje um certo desenvolvi-
mento graças também aos trabalhos de psicologia do raciocínio – atingiu na Idade
Média uma sistematização original e de fácil memorização. As relações entre os
quatro tipos de enunciados discutidos por Aristóteles foram sistematizadas no “qua-
drado das oposições” (A: todos os prazeres são bons; E: nenhum prazer é bom; I: al-
guns prazeres são bons; O: alguns prazeres não são bons). Sobre o quadrado e sobre
o modo como é proposto de novo no âmbito da lógica de Frege, cf. o Quadro 4.

2. Linguagem e lógica 39
3 Semiótica e lingüística

SUMÁRIO
Neste capítulo se apresentam algumas idéias dos “fundadores” da semióti-
ca e da lingüística contemporâneas. Em 3.1 se apresenta a divisão de tipos de
signos feita por Peirce e a classificação standard dos três níveis da semiótica
(sintaxe, semântica, pragmática). Lembram-se então as duas grandes direções
teóricas existentes na lingüística do século XX: o estruturalismo e a gramática
gerativa. Em 3.2 se recordam as linhas de fundo da lingüística estruturalista
criada por Ferdinand de Saussure, e se alude aos problemas relacionados com a
representação do léxico. Em 3.3 se apresenta a primeira versão da gramática
gerativa de Noam Chomsky, mostrando como ela recorda a elaboração tradi-
cional do conceito de sistema formal em lógica. Apresenta-se um confronto
entre as duas diferentes impostações da lingüística estruturalista e da semânti-
ca gerativa. Se Saussure considera a língua como um sistema compartilhado e
convencional, a visão da lingüística de Chomsky tem como idéia central o con-
ceito de competência, capacidade biológica inata do falante. Faz-se alusão às
idéias de fundo de Chomsky, que permanecem estáveis apesar de modifica-
ções nos diversos modelos por ele propostos no decorrer do tempo.

3.1. Nas origens da semiótica

É reconhecido como o inventor da semiótica, ou a ciência geral dos


signos, Charles S. Peirce (1839-1914), um lógico que se inspirou nos
trabalhos de Boole (e na sua idéia de um cálculo universal dos símbo-
los). Mas, o que é um signo? Uma definição muito geral é a seguinte: um
signo é algo que está no lugar de alguma outra coisa. É de praxe, na tra-
dição semiótica, apresentar um modelo de funcionamento geral dos sig-
nos com o triângulo semiótico ou semântico:

40 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


idéia

signo coisa

Assim configurado, o triângulo semiótico representa uma visão tradi-


cional. Para Platão, as idéias mediavam a nossa relação com as coisas. Para
Aristóteles, as palavras são signos dos “movimentos da alma” que, por sua
vez, se referem às coisas. Segundo Locke, as palavras são “sinais sensíveis
das idéias”. Também para Locke, portanto, os signos não se referem direta-
mente às coisas, mas por intermédio de uma idéia ou imagem mental.
Na tradição filosófica muitos foram, portanto, os intermediários en-
tre os signos e as coisas (poder-se-ia fazer uma longa lista de termos para
substituir os que estão nos ângulos do triângulo).
Segundo Peirce, o intermediário entre os signos e as coisas é o “in-
terpretante”, ou um outro signo que se usa para interpretar o signo dado.
O triângulo, no caso de Peirce, passa a ser um esquema daquela que se
costuma chamar de “semiose ilimitada”: um signo é tal somente se é in-
terpretado com outro signo, um interpretante. Este processo pode ser de-
senvolvido ao infinito, sem que haja um ponto de chegada final do pro-
cesso de interpretação.
A semiótica pretende ser uma ciência geral dos signos, e não somen-
te dos signos lingüísticos. É a Peirce que se deve uma primeira classifi-
cação geral dos tipos de signos:
1. ícone = um signo que se assemelha ao objeto que procura repre-
sentar (uma pintura, uma imagem...);
2. índice = um signo que está ligado diretamente (causalmente)
àquilo que representa5 (a fumaça é sinal do fogo);
3. símbolo = um signo que é abstraído de toda relação concreta com
o representado, mas depende de uma convenção.

5. Pode-se observar que embora a relação entre a fumaça e o fogo seja uma relação
causal, e não mental, interpretar a fumaça como sinal do fogo é uma operação mental
de interpretação.

3. Semiótica e lingüística 41
Para todo tipo de signo vale uma distinção fundamental, aquela exis-
tente entre type e token:
• type = tipo de signo;
• token = réplica ou ocorrência de um signo.
A distinção, indo inclusive além daquela específica leitura que lhe foi
dada por Peirce, tornou-se de uso comum em semiótica e em lingüística.
Um signo de um mesmo tipo pode ser “replicado” ou ter vários
exemplos em diferentes versões. Qualquer palavra pode ser escrita em
múltiplos textos ou emitida oralmente muitas vezes. A “réplica” é a re-
produção física de signos de um certo tipo.
A distinção é evidente com expressões como “tu” ou “eu”; todo fa-
lante pode usar esse tipo de expressão, mas toda réplica dessa expressão
na boca de falantes diferentes se referirá a uma outra pessoa. Não so-
mente um mesmo enunciado-tipo poderá ser verdadeiro ou falso na boca
de pessoas diferentes (por exemplo “tu mentes, eu não” dito por dois in-
terlocutores, se é verdadeiro de um é falso do outro). A distinção type/to-
ken, ou distinções análogas, assumirá sempre maior realce na análise da
linguagem (cf. 7.1 e nota).
Nos Estados Unidos a tradição peirceana e a fregeana se encontram
nas figuras de Charles Morris e Rudolf Carnap. Ambos reconhecem a
importância da semiótica geral, que se subdivide em três campos:

Sintaxe Estudo da relação dos signos com outros signos.


Semântica Estudo da relação dos signos com os objetos.
Pragmática Estudo da relação dos signos com os falantes.

Embora o desenvolvimento formal e informal dessas três disciplinas


vá assumir aspectos diversos em diferentes tradições, todos concordam
quanto à necessidade de estudar – nos três campos de pesquisa – o as-
pecto sistemático da organização dos signos. A semiótica considera os
signos como fazendo parte de um código ou sistema. Neste livro não es-
tudaremos os sistemas de signos ou códigos não lingüísticos (como o
canto dos pássaros ou as danças das abelhas estudadas pela zoossemióti-

42 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


ca, ou os signos gestuais estudados pela prossêmica), mas vamos con-
centrar-nos em torno dos sistemas dos signos lingüísticos. Os sistemas
lingüísticos (quer sejam os sistemas artificiais da lógica, quer sejam as
linguagens naturais) foram os primeiros sistemas de signos estudados
por filósofos lógicos e lingüistas de maneira detalhada. O aspecto siste-
mático é evidente para a sintaxe, mas a sistematicidade e a coerência va-
lem em linha de princípio também para a semântica e a pragmática.

3.2. Lingüística saussureana: “langue/parole”


Ferdinand de Saussure (1857-1913), no começo do século XX, lutava
na Europa contra a redução da ciência lingüística a mero estudo da evolu-
ção das palavras através do tempo, que caracterizava a glotologia tradi-
cional. A idéia-chave era esta: a língua não é apenas uma lista de vocábu-
los, uma nomenclatura cuja origem histórica se deve estudar. A língua é
antes de tudo uma estrutura na qual cada elemento tem um papel e um lu-
gar no sistema, bem definido em relação a todos os outros elementos. Não
se deve confundir a língua com a faculdade ou com o fenômeno da lin-
guagem nos seus multiformes aspectos, mas é uma parte dela:

a língua é um produto social e um conjunto de convenções.

Deve-se fazer uma distinção entre o estudo da língua (langue) en-


quanto conjunto sistemático e o estudo das prolações lingüísticas ocasio-
nais (parole). É necessário, portanto, estudar a língua nas relações siste-
máticas das palavras do léxico, em linha de princípios matematizáveis.
A cada palavra do léxico corresponde um aspecto fonético e um as-
pecto semântico, uma forma e um conteúdo; na terminologia saussurea-
na, um significante e um significado. Saussure sugere a imagem de um
todo indiferenciado, uma corrente de sons e de pensamento em que a lín-
gua produz arbitrariamente cortes. A língua tem portanto um papel de
intermediária entre o pensamento e o som: destes cortes nascem as ima-
gens acústicas (significantes) e os conceitos (significados), cuja associa-
ção constitui o signo lingüístico. Uma vez definido um signo dentro de
um sistema de signos, as convenções irão determinar o valor desse signo
dentro do sistema. Define-se deste modo um conceito paradigmático de
“signo lingüístico”:

3. Semiótica e lingüística 43
o signo lingüístico é uma entidade de duas faces, que liga indissolu-
velmente o signifiant e o signifié, expressão lingüística e conteúdo
conceitual. O signo é ao mesmo tempo arbitrário e convencional.

A lingüística teórica não deve se ocupar com a relação entre a língua


e os objetos extralingüísticos ou a atividade do falante e, portanto, os
enunciados completos (esses temas são relegados ao estudo da parole).
Deve ocupar-se com a sintaxe, ou seja, as relações horizontais dos sig-
nos lingüísticos no enunciado, e com a morfologia, isto é, com as rela-
ções associativas entre os elementos do léxico.
E a semântica? A semântica se interessa pela estrutura dos significa-
dos intralingüísticos, ou seja, a organização peculiar do léxico de uma
língua. Aqui o conceito de estrutura ou sistema tem uma importância
fundamental, como se exprime, fazendo uma comparação com o jogo de
xadrez, o lingüista genebrino: “Tal como no jogo de xadrez tudo depen-
de da combinação das diferentes peças, também a língua é um sistema
baseado totalmente sobre a oposição das suas unidades concretas”.
Se for verdade que a língua é um sistema, então:

toda expressão (significante) e todo conteúdo (significado) possui um


valor dentro do sistema ou estrutura da língua.

O valor opositivo depende do fato de que cada palavra do léxico tem


um lugar próprio no sistema lingüístico, isto é, no conjunto das outras
palavras do léxico. Vale enquanto constitui uma diferença em face de
outras palavras, assim como um fonema vale enquanto constitui uma di-
ferença entre duas palavras: pésca [pêssego] e pèsca [pesca, do verbo
pescar] são duas palavras diferentes; portanto a diferença entre é e è tem
valor opositivo e distintivo em italiano, e mesmo em outras línguas. Em
espanhol [b] e [v] não constituem uma diferença importante, e posso
usar indiferentemente [abril] e [avril] ou [abuelo] e [avuelo]. Em italia-
no as coisas são diferentes: palavras como [baro] e [varo] se referem ora
ao jogo de cartas ora ao lançamento de um navio ao mar, e têm portanto
sentido diferente. Coisa análoga vale no nível semântico: por exemplo,
as palavras do campo do léxico ligado a árvore/madeira/bosque/floresta

44 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


têm outro valor diferencial no sistema alemão e francês (e italiano),
como se pode ver no esquema abaixo, adaptado livremente de Hjelms-
lev (outro grande representante da lingüística estruturalista; Saussure ofe-
rece o exemplo do francês mouton e do inglês sheep e mutton):
ITALIANO FRANCÊS ALEMÃO DINAMARQUÊS
albero arbre Baum trae
legna Holz skov
bosco bois
Wald
foresta forêt

A tabela representa um campo semântico, entendido como um sub-


conjunto estruturado do léxico de palavras que têm uma unidade concei-
tual própria. Pode-se facilmente fazer uma hipótese que existam âmbi-
tos conceituais presentes em todas as culturas e dependentes dos cos-
tumes e dos estilos de vida (o reconhecimento das cores, a criação do
gado, a colheita, a moradia etc.). Cada comunidade lingüística desen-
volve de maneira original e diferente a terminologia relativa a um cam-
po conceitual. Como se vê acima, a terna bois/arbre/forêt não corres-
ponde à terminologia italiana, porque o significado de “bois” é mais am-
plo que o significado de “bosco” ou de “legna” respectivamente. Análo-
gas diferenças são apresentadas em alemão e dinamarquês.
Depois de alguns anos de trabalho foram se desenvolvendo modos
diferentes de conceber o estudo dos significados das palavras do léxico:
1. como o estudo dos diferentes modos como as línguas estruturam
o mundo com diversas modificações conceituais;
2. como o estudo dos modos como o mesmo campo conceitual é es-
truturado em diferentes palavras do léxico.
A primeira hipótese é a que reflete mais estritamente o ponto de vista
estruturalista; a segunda se afasta do estruturalismo e comporta o estudo
dos processos cognitivos em partes independentes da linguagem; admi-
te-se que haja componentes conceituais comuns à espécie humana. Idéias
desse tipo se acham na base da semântica dos frames, de Charles Fillmo-
re, que influenciou muitos estudos da disciplina que seria denominada a
“semântica cognitiva”. Os frames são, com efeito, na ótica do lingüista
inglês, estruturas conceituais que se tornam princípios de organização
do léxico.

3. Semiótica e lingüística 45
Um dos modos mais difundidos de análise dos campos semânticos e
da estrutura do léxico foi tradicionalmente a análise componencial. Por
“análise componencial” se entende a decomposição dos significados das
palavras em elementos mínimos de significado chamados “traços se-
mânticos” ou “primitivos semânticos”. Os diferentes vocábulos do léxi-
co de um certo campo semântico podem ser traduzidos indicando a pre-
sença-ausência de traços primitivos, como por exemplo:

Masculino Adulto Humano


Homem + + +
Mulher – + +
Menino + – +
Menina – – +

A análise componencial tem alguns problemas de fundo: como iden-


tificar os primitivos semânticos? Eles mesmos são parte do léxico ou são
elementos conceituais de natureza não lingüística? A discussão sobre es-
tas questões está aberta. Por outro lado, quer sejam eles traços universais
conceituais ou simples termos considerados primitivos por necessidades
práticas, a análise em primitivos semânticos tem uma possível tradução
em lógica com os postulados de significado (termo inventado por Carnap
para os seus sistemas lógicos: cf. 6.5). Os postulados de significado são
postulados que definem as relações inferenciais entre os elementos do lé-
xico. Uma tabela como a precedente poderia ser traduzida deste modo:
" x (humano x & masculino x & adulto x) « homem x)
" x (humano x & Ø masculino x & adulto x) « mulher x), etc.
Obviamente se poderia criticar o fato de se atribuir um valor positivo
ao masculino e ao adulto (a mulher seria um “não-masculino” e o me-
nino um “não-adulto”. Por que não chamar ao contrário o homem de
“não-mulher” ou “não-menino”?

3.3. Lógica e lingüística chomskyana:


competência/execução
A lingüística de Saussure deu origem na Europa, e especialmente na
França, a uma revolução que se tornou conhecida com o nome de “estru-

46 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


turalismo”, reação contra o historicismo, que se estendia a todos os seto-
res da cultura. O estruturalismo não demorou a ser aplicado a diversas
disciplinas: em antropologia com Lévi-Strauss, em psicanálise com La-
can, e em psicologia com Piaget.
Enquanto na Europa se desenvolvia o estruturalismo, nos EUA ia
ganhando terreno uma nova revolução em lingüística. Essa revolução,
que deve sua origem ao lingüista norte-americano Noam Chomsky, es-
tava intimamente ligada aos desenvolvimentos da lógica, muito mais do
que parecia à primeira vista. Sem dúvida, Chomsky compartilhava a
idéia de Saussure segundo a qual a língua não é uma simples lista de vo-
cábulos, mas é, sim, dotada de uma estrutura própria. Mas entre os dois
projetos há uma enorme diferença, que se pode esquematicamente re-
presentar do seguinte modo:
LINGÜÍSTICA ESTRUTURALISTA LINGÜÍSTICA GERATIVA

Refere-se ao sistema da Refere-se à faculdade da linguagem


língua, sobretudo como: entendida como:
(i) sistema determinado socialmente; (i) capacidade mental individual e inata;
(ii) sistema estruturado de componentes (ii) sistema sintático, módulo que
do léxico (semântica). permite produzir frases gramaticais.

À distinção langue/parole, de Saussure, Chomsky contrapõe assim a


distinção competência/execução. A execução diz respeito à produção efe-
tiva de frases da língua. A competência diz respeito à capacidade de pro-
dução de frases bem formadas, e se acha no centro do interesse da lingüís-
tica gerativa, ao contrário do que se dá na lingüística estruturalista, onde
não há espaço para a abordagem das frases a não ser no nível de análise da
parole. Qual é, portanto, para Chomsky, a principal tarefa da lingüística?

A lingüística estuda a competência, quer dizer, a capacidade de gerar


e reconhecer frases gramaticais; estuda as regras inatas que permitem
gerar o sem-número de frases da língua.

Chomsky atribui portanto importância central ao enunciado, às re-


gras de formação dos enunciados e às regras de transformação que, a
partir de certos enunciados, daí derivam outros mais complexos. O que é
este conjunto de regras? É aquilo que se encontra na base da faculdade
da linguagem e que explica a “criatividade lingüística”, noção corres-
pondente à de recursividade em lógica:

3. Semiótica e lingüística 47
CRIATIVIDADE LINGÜÍSTICA
A capacidade de construir um número potencialmente infinito de fra-
ses gramaticais com um vocabulário limitado, seguindo regras.

Na primeira versão da teoria chomskyana estas regras são: (i) as re-


gras que geram as frases nucleares da língua e (ii) as regras que transfor-
mam essas frases em outras frases mais complexas (daí o termo “gramá-
tica gerativo-transformacional”). A teoria do primeiro Chomsky pode-
ria ser representada como uma teoria formal axiomática:

PARTE GERATIVA PARTE TRANSFORMACIONAL

VOCABULÁRIO: AXIOMAS:
Símbolos não terminais: Frases nucleares
F, GN, N, V, Art
Símbolos terminais:
Menina, come, maçã, uma, a
REGRAS DE FORMAÇÃO: REGRAS DE TRANSFORMAÇÃO:
(regras de reescrita)

F ® GN + GV (X – V ativo – Y)
GN ® Art + N ®
GV ® V + GN (Y – V passivo – por X)
N ® menina, maçã
Art ® uma, a ...
V ® come
A tabela acima, em tudo análoga à apresentada em 2.1, deveria facili-
tar a compreensão dos componentes elementares do primeiro sistema de
Chomsky. Ele apresenta um sistema formal em que vocabulário é consti-
tuído pelos vocábulos do léxico e pelos símbolos teóricos (ou símbolos
não terminais): F = Frase, GN = grupo nominal, GV = grupo verbal, V =
verbo, N = nome [substantivo], Art = artigo6. As regras de formação das
frases gramaticais (frases ou fórmulas bem formadas) são chamadas por
Chomsky de regras de reescrita porque indicam como reescrever um sím-
bolo com outro símbolo, ou com uma composição de símbolos, de modo a

6. No lugar de “grupo” se usa normalmente “sintagma”, tradução do inglês phrase,


que não se deve confundir com “frase” (sentence). Daí a “árvore sintagmática” para fa-
lar da representação gráfica das frases.

48 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


passar dos símbolos variáveis (símbolos não terminais) às constantes
(símbolos terminais), que representam os vocábulos do léxico. As frases
compostas a partir das regras de reescrita vão formar o conjunto das frases
nucleares da língua. Desse conjunto de frases é possível derivar, com
oportunas regras de transformação, vários tipos de frases complexas (in-
terrogativas, passivas, relativas, frases compostas etc.). O exemplo ele-
mentar por nós proposto mostra como a partir dessas regras é possível ge-
rar uma frase do tipo: uma menina come a maçã. A frase pode ser repre-
sentada por um gráfico em forma de árvore do seguinte tipo:

GN GV

Art N V GN

Art N

uma menina come a maçã

A árvore é uma representação sintética da aplicação de uma série de


regras de reescrita. Ela corresponde a uma parentesização com colchetes:
F[GN[Art[uma]N[menina]]GV[V[come]GN[Art[a]N[maçã]]]]

A esta frase pode-se aplicar a regra de transformação do passivo,


substituindo “uma menina” por X e “a maçã” por Y. A transformação
diz que, se dois segmentos lingüísticos são intercalados por um verbo
transitivo ativo, eles podem ser invertidos, substituindo a forma verbal
no ativo por uma forma verbal no passivo seguida da preposição “por”.
A transformação daria este resultado: a maçã é comida pela menina.
A árvore (ou a parentesização com colchetes) é também uma boa
maneira para se ver a diversidade de estrutura profunda em cotejo com a
aparente identidade de estrutura superficial, ajudando assim a tornar
menos obscuras frases ambíguas (de modo análogo ao trabalho realiza-
do por Frege com os quantificadores (cf. 2.4). Por exemplo, a frase “una
vecchia porta la sbarra” [uma velha leva a barra] pode ser lida de dois
modos (traduzíveis facilmente em diversas estruturas em árvore):
1. F[GN[ART[una]N[vecchia]]GV[V[porta][Art[la]N[sbarra]]]]
2. F[GN[Art[una]Adj[vecchia]N[porta]]GV[Pron[la]V[sbarra]]]

3. Semiótica e lingüística 49
O esquema originário chomskyano sofreu com o tempo numerosas
modificações, mas ficou sempre de pé a idéia segundo a qual a gramática
deve explicar como certos sons estão ligados a certos significados. Um
modo mais recente de apresentar a sua teoria faz explícita referência à di-
ferença entre estrutura superficial e estrutura profunda, do seguinte modo:
estrutura profunda

estrutura superficial

forma fonética forma lógica

Neste esquema, a estrutura profunda que contém a organização dos


elementos do léxico (com algumas informações de natureza semântica
como os papéis temáticos de “agente”, “paciente”, etc.) rege a parte ge-
rativa da gramática, gerando a estrutura superficial. Forma fonética e
forma lógica são as interfaces que dão instruções para traduzir em sons a
frase e para definir a interpretação semântica.
Embora as idéias de Chomsky tenham recebido desenvolvimentos
diferentes, algumas permaneceram constantes através das mudanças de
teoria:
1. a idéia de diferentes níveis lingüísticos: sintaxe, fonologia, se-
mântica. Desses níveis de descrição, o sintático é gerativo e universal.
O fonético e o semântico são interpretações das estruturas sintáticas. A
sintaxe, eventualmente integrada por elementos da forma lógica, perma-
nece como a parte gerativa. Ela é o meio que permite unir um som a um
significado. A sintaxe das várias línguas leva a diversos acoplamentos
de sons com significados;
2. a idéia de uma gramática universal inata, cuja origem Chomsky
vai encontrar igualmente nas teorias das gramáticas universais dos filó-
sofos dos séculos XVI e XVII. Os mecanismos inatos que possibilitam a
aquisição da língua permitem também explicar o prodigioso desenvolvi-
mento da linguagem nas crianças que não podem ter aprendido pela sim-
ples imitação de frases nunca ouvidas antes. Esses mecanismos inatos,

50 Parte I – Filosofia, lógica e lingüística


que encontram aplicações diversas em diferentes comunidades lingüís-
ticas, constituem a competência do falante, que pode ser portanto repre-
sentada como um sistema interno de regras.
A idéia de uma estrutura superficial e de uma estrutura profunda
aparece sempre de novo de vários modos na filosofia a partir de Frege,
Russell e Wittgenstein.
Pelas suas inúmeras intervenções, e de pleno direito, Chomsky é
considerado um filósofo do mais alto gabarito. Mas o seu trabalho é fun-
damentalmente um trabalho de investigação empírica no intuito de veri-
ficar as suas hipóteses sobre as formas da competência inata. Os interes-
ses dos filósofos, especialmente dos primeiros filósofos da linguagem,
estão muitas vezes ligados a problemas de caráter mais abstrato e meto-
dológico. Vamos agora penetrar neste campo de estudos, inçado de difi-
culdades e problemas, um campo que tem muitas ligações com as ciên-
cias empíricas, mas também um núcleo temático e conceitual próprio
que vai ser apresentado a partir dos primeiros rudimentos, o problema da
relação entre a linguagem e os entes extralingüísticos.

Bibliografia essencial
CHIERCHIA, G. Semântica. Campinas: Unicamp, 2003.
CHOMSKY, Noam. Estruturas sintácticas. Lisboa. Ed. 70, 1980.
— Aspectos de teoria da sintaxe, Lisboa [s.l.; s.d.].
— Reflexões sobre a linguagem, Lisboa: SET [s.d.].
NÖTH, Winfried. A semiótica no século XX. São Paulo: Annablume, 1996.
PEIRCE, Charles S. Semiótica e filosofia. São Paulo: Cultrix, 1972.
— Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1987.
SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. São Paulo: Cultrix,
1988.
— Saussure/Jakobson/Hjelmslev/Chomsky. São Paulo: Abril, 1978.

3. Semiótica e lingüística 51
3 – Semiótica: Boole

George Boole, membro da Analytic Society de Cambridge, com Peacock, Bab-


bage e De Morgan, inventou a álgebra da lógica, um formalismo cujas regras eram
válidas tanto para a matemática como para a lógica. Um quadro sinótico ajuda a
compreender de que modo, para Boole, os mesmos símbolos poderiam ser interpre-
tados em domínios diferentes (matemática e lógica) e em operações diferentes nes-
ses domínios:
CÁLCULO UNIVERSAL DOS SÍMBOLOS

SÍMBOLOS INTERPRETAÇÃO INTERPRETAÇÃO


ARITMÉTICA LÓGICA

L. das CLASSES L. das PROPOSIÇÕES


x, y, z... números classes proposições
+ adição (idempotente) união disjunção OR
x multiplicação intersecção conjunção AND
1 1 universo verdadeiro
0 0 classe vazia falso

No livro As leis do pensamento (1864), define assim as leis universais dos sím-
bolos que valem para todas as interpretações:
1. xy = yx (propriedade comutativa do produto);
2. x + y = y + x (propriedade comutativa da adição);
3. z (x + y) = zx + xy (propriedade distributiva da multiplicação em relação à adição);
4. z (x - y) = zx – zy (propriedade distributiva da multiplicação em relação à subtração);
5. se x = y então zx = zy, z + x = z + y, x – z = y – z (substitutividade de elementos
iguais relativamente à multiplicação, adição e subtração);
6. x2 = x (lei dos índices).
Dessas leis, a mais problemática é a sexta. Boole a explica lembrando que (i)
ela vale em aritmética binária. Os números 1 e 0 multiplicados por eles mesmos se-
guem a lei; (ii) vale em lógica dos termos onde a intersecção de uma classe consigo
mesma não é outra coisa senão a própria classe; (iii) vale em lógica das proposições
onde a conjunção de uma proposição consigo mesma não muda o valor de verdade
da proposição.

Parte I – Filosofia, lógica e lingüística 52

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