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LEONHARD GOPPELT

T-EOLOSJA d o
k [o v a ~fg srtA b iã krfo
O T eó lo g o Leonhard Goppelt
n a s c e u e m 6 /1 1 /1 9 1 1 e m
M u n iq u e, n a A le m a n h a . E stu d o u
T eo lo g ia e m T ü b in g e n e e m
E r l a n g e n . E m 1 9 3 8 , fo i a d m i t i d o
n o m in isté rio p a s to ra l. L e c io n o u
n a s u n iv e rs id a d e s d e E rlan g e n ,
G o ttin g e n , H a m b u r g o e M u n iq u e.
No a u g e d e s u a p ro d u ção
te o ló g ic a , v eio a fa le c e r e m
2 1 /1 2 /1 9 7 3 .
O u tra s d e s u a s o b ra s d e g ra n d e
im p o rtân cia para a
c o m p r e e n s ã o d a B íb lia e m g e r a l
e do N ovo T e sta m e n to em
p a rtic u la r s ã o :

Typos. A Interpretação tipológica


do Antigo Testamento no Novo.

A Era Apostólica e Pós-


Apostólica

Cristologia e Ética

A Primeira Epístola de Pedro


TEOLOGIA DO
NOVO TESTAMENTO
LEONHARD GOPPELT

TEOLOGIA DO
NOVO TESTAMENTO

Tradução de
MARTIN DREHER
e
ILSONKAYSER

3a edição, 2 0 0 2

TEOLÓGICA
© Copyright 2002 by Editora Teológica
Título do original alemão:
THEOLOGIE DES NEUEN TESTAMENTS

Supervisão editorial:
Luiz Henrique Alves da Silva
Rogério de Lima Campos
Silvestre M. de Lima
Silvia Cappelletti

Layout e arte final:


Comp System- (Oxxll) 3106-3866

Diagramação:
Pr. Regino da Silva Nogueira

Digitação de textos:
Paulo Eduardo Alves da Silva

Capa:
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ISBN: 85-89067-01-7

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e em especial à Editora Sinodal.
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SUMARIO

Prefácio - 1
índice de abreviações - 7

VOLUME I
JESUS E A COMUNIDADE PRIMITIVA

INTRODUÇÃO -15

INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA - 17
§ 1 : 0 desenvolvimento da pesquisa e a problemática -17
I. O surgimento da disciplina -17
II. O desenvolvimento da posição “meramente histórica” e seus resultados - 21
III. A complementação teológica da abordagem “meramente histórico”- filosófica - 26
IV. Modificações na pesquisa proveniente de Bultmann - 29
V. Perspectivas: Novos inícios - 32
VI. A orientação histórico-positiva - 34
VII. A orientação “histórico-salvífica” da pesquisa histórica da Escritura - 37

PARTE I
A ATIVIDADE DE JESUS EM SEU SIGNIFICADO TEOLÓGICO - 43

Capítulo I - O Método E As Fontes - 45


§ 2: O ponto de partida e as fontes - 45
I. O ponto de partida, 45
II. As fontes - 51
Adendo: Observações quanto à literatura, referente à 1 parte - 58

Capítulo II: O pano de fundo histórico e histórico-salvífico - 60


§ 3: A moldura histórica - 60
I. Quanto à cronologia referente a Jesus - 60
II. A origem de Jesus - 61
III. O desenvolvimento e o ambiente da atividade pública - 63
§4: João Batista - 70
I. A localização histórica - 71
II. A pregação do Batista - 72

Capítulo III: O anúncio do reino de Deus por intermédio de Jesus - 80


§ 5 : 0 conceito “reino de Deus”, na pregação de Jesus e em seu ambiente - 80
I. Nos sumários da pregação de Jesus - 80
II. Variantes do conceito - 81
III. No Antigo Testamento - 82
X Sumário

IV. No judaísmo - 84
§6: A vinda futura e a vinda presente do reino - 86
I. Visão geral da história da pesquisa - 87
II. A vinda futura do reino - 89
III. A vinda presente do reino de Deus - 95
§ 7. O conteúdo do reino de Deus e sua relação com a existência do mundo -101
I. A essência do reino de Deus - 101
II. O reino de Deus que há de vir e a história - 104

Capítulo IV: O arrependimento como exigência (As instruções éticas de Jesus) - 109
§ 8: O chamado acusador ao arrependimento - 110
I. O chamado ao arrependimento, dirigido contra a confiança na prosperidade -110
II. O chamado ao arrependimento que condena os justos -115
§ 9: A posição de Jesus frente à lei como norma -117
I. A posição de Jesus frente à Halaká - 119
II. A posição de Jesus frente aos mandamentos veterotestamentários -121
III. A posição de Jesus frente à lei - 130
§ 10: As exigências éticas de Jesus -133
I. Será que as exigências de Jesus resultam em ética? -133
II. O conteúdo das exigências de Jesus -135
III. As palavras de Jesus frente a instituições da sociedade -137
IV. A realização das exigências de Jesus na sociedade -141

Capítulo V: O arrependimento como dádiva do reino de Deus (A nova ordem salvífica) - 146
§ 11: A ordem salvífica da lei, seu reconhecimento e revogação -146
I. A recompensa -146
II. Jesus em relação à ordem da recompensa - 147
III. Contra o cálculo e o princípio do mérito -148
IV. A eliminação da ordem salvífica da lei - 148
§ 12: Salvação para os pecadores -151
I. Os pecadores - 151
II. A dedicação aos pecadores - 152
III. A explicação da dedicação aos pecadores -153
IV. Salvação - perdão dos pecados - fé -155
V. Perdão - arrependimento - fé - 156
VI. A prova do arrependimento -156
VII. Perdão e amor ao próximo - 157
§ 13: O perdão de Jesus e os justos -158
I. A falha-158
II. A oferta da graça aos justos - 159
III. A posição dos justos na atividade salvífica de Jesus -159
§ 14: A análise histórica das narrativas de milagres -161
I. Os relatos e sua crítica - 161
II. A critica aos relatos -161
III. O milagre na compreensão de mundo do ambiente de Jesus, 162
IV. Crítica da tradição, 164
V. A crítica temática, 166
§ 1 5 :0 significado teológico dos milagres de Jesus, 166
I. As designações, 167
II. Os milagres e a vinda do reino de Deus -168
Sumário XI

III. O relacionamento com a fé -169


IV. Fé - cura milagrosa - vinda do reino -174
V. O significado querigmático das narrativas de milagre -174

Capítulo VI: A autocompreensão de Jesus - 177


§ 16: A autocompreensão de Jesus na pesquisa -177
I. A relação de Jesus para com o reino que há de vir - 177
II. Jesus e as esperanças veterotestamentário-judaicas a respeito do mediador da graça -178
§ 17: Jesus e os títulos a ele concedidos - 180
I. O R abi-181
II. O profeta -184
III. O filho de Davi -184
IV. O Messias -185
V. O mistério do Messias -188
§ 1 8 :0 filho do homem -193
I. Incidência e significado do conceito -194
II. Conclusões a respeito da origem histórico-tradicional -195
III. A discussão sobre a origem das concepções -196
IV. O filho do homem que há de vir -198
V. O filho do homem presente - 201
VI. O sofrimento do filho do homem - 202
VII. O sofrimento mortal do prometido - 204
VIII. A morte de Jesus como expiação vicária - 207
IX. O Filho de D eus-212

Capitulo VII: Jesus e a igreja- 218


§ 19: O discipulado e o povo do reino de Deus - 218
I. O alvo de Jesus: Não uma hairesis, mas o arrependimento de todos! - 218
II. O alvo de Jesus.- Não só arrependimento, mas discipulado, respectivamente, fé - 219
III. A finalidade do círculo dos discípulos - 221
IV. O dito de Pedro - 223
§ 20. A ceia de despedida como promissão - 223
I. A análise histórico-tradicional dos relatos - 224
II. O dito escatológico - 226
III. O problema do tempo intermediário - 226
IV. O novo auto-oferecimento - 227
V. O modo do auto-oferecimento - 229
VI. A ordem de repetição- 231
§ 21: A paixão - 231
I. O problema histórico - 232
II. Os elementos essenciais da paixão - 232
§ 22: O acontecimento pascal e o querigma pascal - 236
I. A discussão - 237
II. A tradição do evento pascal. A tradição em forma de fórmula - 238
III. O conteúdo do testemunho pascal segundo o querigma primitivo - 241
IV. As narrativas pascais - 244
V. O sepulcro vazio - 251
VI. A verificação do testemunho pascal - 252
VII. A vinda do Espírito - 253
XII Sumário

PARTE H
A COMUNIDADE PRIMITIVA (A IGREJA NO POVO DE ISRAEL)

§ 23: As fontes e a colocação do problema - 257


I. As fontes - 257
II. A intenção das fontes e da exposição - 258
§ 24: Os discípulos de Jesus como igreja - 259
I. O testemunho missionário - 260
II. O batismo-261
III. A ekklesia - 264
IV. O novo culto ao lado do antigo - 266
V. A modificação da situação missionária e os primórdios do cristianismo gentílico, livre da
le i-269
§ 25: Os primórdios da cristologia - 270
I. A posição frente à pregação de Jesus - 271
II. A colocação do problema - 271
III. O servo de Deus - 273
IV. A ressurreição como elevação a rei messiânico - 275
V. Maranatha! - 276
VI. A estrutura geral - 278

VOLUME n
PLURALIDADE E UNIDADE DO TESTEMUNHO
APOSTÓLICO A RESPEITO DE CRISTO

PARTE IR
PAULO E O CRISTIANISMO HELENISTA - 283

INTRODUÇÃO - 285
§ 26:0 problema do cristianismo helenista - 285
I. A discussão - 285
II. A estrutura do cristianismo helenista - 286
III. Conseqüências para a descrição da teologia do NT - 289

Capitulo l:As premissas da teologia paulina - 290


§ 27: O caminho de Paulo e as tradições cristãs - 290
I. Nota preliminar. As fontes - 290
II. Formação e carreira - 291
III. A transmissão do evangelho a Paulo - 292
IV. Paulo e Jesus - 294
V. O procedimento hermenêutico de Paulo com a tradição a respeito de Jesus - 296
§ 28: Fatores interpretativos da História de Cristo extraídos do ambiente - 298
I. A apocalíptica judaico-veterotestamentária - 299
I. O sincretismo helenista - 301
III. O Antigo Testamento - 302
§ 29. História de Cristo e AT de acordo com Paulo - 302
I. O reconhecimento básico do AT - 303
II. A hermenêutica formal - 304
III. O principio hermenêutico e sua problemática - 306
IV. Princípios hermenêuticos - 307
Sumário xm

V. Interpretação das Escrituras como princípio interpretativo - 309


VI. Cristo e a História - 310
§30: Esboço da teologia paulina-312

Capítulo II: Jesus Cristo (a cristologia) - 314


§31: A problemática-314
I. A estrutura histórico-traditiva das extemações cristológicas em Paulo - 314
II. Mudanças em relação à igreja palestinense primitiva - 315
HI. O nome “Jesus Cristo” - 316

§32: O Filho de Deus-317


I. O horizonte de compreensão helenista - 317
II. Resumo do emprego da designação “Filho de Deus” - 319
III. O início da atividade do “Filho” - 320
* IV. O surgimento da teologia da preexistência - 321
V. Envio e encarnação do Filho preexistente - 322
VI. O Filho preexistente como mediador da criação - 324
VII. O valor permanente da doutrina da preexistência - 325
Vin.A natureza do filiação - 326
§ 33 O Kyrios - 327
I. A confissão do kyrios na igreja helenista - 327
II. Origem e conteúdo da idéia helenista sobre o kyrios - 328
HI. A função do kyrios para a comunidade - 333
§ 34:0 caminho de Cristo como revelação salvífica: a cruz - 333
I. O caminho de Cristo em sua totalidade - 334
n . A cruz: a terminologia - 336
III. A fórmula hyper - 337
IV. O desenvolvimento da fórmula hyper - 339
V. Ser com Cristo (syn Christõ) e o Batismo - 342
VI. “Em Cristo” -349

Capítulo III: A continuação da obra de Cristo - 351


§ 35: A pregação (o evangelho) - 351
I. Introdução: A problemática-351
II. Estatística da terminologia da pregação - 353
III. “Evangelho” - termo religioso antes de Paulo - 353
IV. O termo “evangelho” no uso de Paulo - 355
V. Pregação através do agir - 359
§ 36: A ação do Espírito - 361
I. A análise histórico-religiosa - 361
II. A experiência do Espírito em Paulo - 363
III. A interpretação da experiência de Espírito - 363
§37: A f é -366
I. O Desenvolvimento do conceito de fé na cristandade primitiva - 366
II. Conteúdo e natureza da fé - 368
III. A gênese da fé - 371
IV. Fé na parênese - 374

Capítulo IV: O efeito salvífico da vinda de Cristo: o Evangelho como revelação da justiça de
Deus - 375
XIV Sumário

§ 38: Justificação e reconciliação - 375


I. A terminologia-375
II. Os diversos aspectos do efeito salvífico - 376
III. Justificação e reconciliação - termos especificamente paulinos - 376
IV. A justificação no todo da teologia paulina - 379

Capitulo V: A corporificação do evangelho na Igreja - 381


§39: A Igreja-381
I. O ponto de partida - 381
II. Os sinais de reconhecimento da Igreja - 382
III. A Igreja como povo escatológico de Deus - 383
IV. A Igreja - corpo de Cristo (soma Christou) - 383
§ 40: A ceia do Senhor - 3 84
I. A celebração da Ceia do Senhor das igrejas paulinas - 384
II. Como Paulo interpreta a Ceia do Senhor - 386

PARTE IV
A TEOLOGIA DOS ESCRITOS PÓS-PAULÍNOS - 389

INTRODUÇÃO - 391
§ 41: O declínio do tempo apostólico - 391
I. A situação inicial - 391
II. A problemática teológica e histórica do tempo apostólico em declínio - 393
III. Tentativa de definição do tempo pós-paulino - 393
IV. Agrupamentos teológicos e formas literárias do tempo pós-paulino - 397

Capitulo I: Os cristãos na sociedade - 399


§ 42: A responsabilidade dos cristãos na sociedade, de acordo com a Primeira Epístola de Pedro - 399
I. Preliminares: a situação - 399
II. A natureza da vida cristã na sociedade - 402
III. Atitude responsável nas instituições da sociedade - 404
IV. A teologia do sofrimento - 410
V. A cristologia - 412
§ 43. Os cristãos na sociedade pós-cristã dos últimos tempos de acordo com o Apocalipse de João - 414
I. Observação preliminar: condições em que surgiu conteúdo e problemática exegética, 415
II. Deus e a história - 419
III. A glorificação de Cristo como a virada da História - 421
IV. O evangelho e o mundo dos povos - 423
V. Anticristianismo político e os verdadeiros discípulos (Ap 13) - 424
VI. Os traços característicos dos tempos escatológicos (Ap 6-11 e 15-19) - 426
VII. A consumação - 428
VIII. Ponto de partida e problemática da escatologia dos últimos tempos - 429
IX. Apocalipse e Primeira Epístola de Pedro: dois aspectos - 430

Capítulo II: A mensagem da Epístola de Tiago e de Mateus na Igreja da Síria - 432


§ 44: A Epístola de Tiago - uma teologia parenética da empírica - 432
I. Preliminares: a problemática da exegese - 432
II. A “perfeita lei da liberdade” - 435
III. Fé e obras - o programa de uma teologia empírica - 440
Sumário XV

§ 45: A interpretação do aparecimento de Jesus por Mateus - 443


I. A situação - 444
II. O objetivo querigmático de acordo com a pesquisa - 445
III. O esboço histórico-salvífico - 446
IV. A messianidade de Jesus - 447
V. O cumprimento da lei - 45 5
VI. A substituição de Israel pela Igreja - 461

Capítulo III: O longo caminho da Igreja na história: a teologia da Epístola aos Hebreus e de
Lucas - 465
§ 46 A Igreja a caminho - Cristo o Sumo Sacerdote perfeito (A Epístola aos Hebreus) - 465
I. Nota preliminar: origem e estrutura - 466
II. Uso e compreensão das Escrituras - 470
III. A posição teológica - 473
IV. A Cristologia sumo-sacerdotal - 474
V. A parênese - 483
VI. Epístola aos Hebreus e Lucas - 490

§ 47: Lucas - o teólogo da história da salvação - 491


I. Introdução: situação de origem, características literárias e problemática teológica - 492
II. A concepção lucânica da história salvífica - 496
III. A particularidade da cristologia de Lucas - 503
IV. Jesus - Israel - a Igreja - 507

Capítulo V: A presença do eschaton na auto-revelação do logos feito carne: A Primeira Epísto­


la de João e o Evangelho segundo João - 512
§ 48: A estrutura da teologia joanina - 512
I. A anonimidade - 513
II. A nova linguagem-514
III. A fórmula ego eimi - 515
IV. Jesus o logos encarnado - 518
V. A Ceia do Senhor - 522
VI. As pecularidades da escatologia joanina - 524
PREFACIO

LEONHARD GOPPELT
Um perfil teológico

“O poder histórico, a partir do qual a Igreja foi criada, conform ada e é suportada,
foi um a m ensagem , designada, segundo o seu conteúdo, de ‘o E vangelho’ e, segundo sua
origem, de ‘a Palavra (de D eus)’. Foi proferido, segundo seu caráter teológico, como
testem unho da ação salvífica de Deus, ‘para cum prir’ ‘a E scritura’, sendo pois ação
escatológica, por m eio de Jesus na form a do ‘K erygm a’, do discurso proclam atório, da
‘doutrina’ e da ‘profecia’.” 1 Com estas palavras, Leonhard Goppelt definiu o poder do
Evangelho que determ inou a Igreja desde os seus prim órdios. A definição tam bém nos dá
contas das influências que ele recebeu: Lutero, J. Chr. K. von Hofm ann, J. T. Beck, A.
Schlatter e J. Schniewind. A definição tam bém nos dá contas das delim itações que está
fazendo. L. G oppelt não descarta a pesquisa histórico-crítica da Bíblia, mas questiona-a
seriam ente, quando pergunta se o m étodo histórico-crítico está realm ente em condi­
ções de com preender a plenitude da m ensagem cristã primitiva. A m ensagem cristã não
tem analogias e, como tal, deve ser trabalhada. N ão cabe, pois, buscar por pressupostos
histórico-religiosos da m ensagem cristã, mas deduzir do Novo Testamento a m ensagem
apostólica prim itiva e expor seu contexto histórico-salvífico, que relaciona a história do
Cristo tanto com a história de Israel quanto com a trajetória da Igreja.
Leonhard Goppelt dedicou-se à exegese e ao estudo da teologia do Novo Testa­
mento na porção m aior de sua vida. Nascido a 6 de novem bro de 1911 no seio da fam ília
de um professor, em M unique, na Alem anha, ali freqüentou o Theresengym nasium . Con­
cluídos os estudos preparatórios, passou a freqüentar, em Munique, os cursos de Ciências
Naturais e de Filosofia. Passado um ano, porém , resolveu estudar Teologia em Tübingen
e em Erlangen. O curso teológico foi concluído em 1935. Em 1938 foi adm itido ao
m inistério pastoral na Igreja Evangélica-Luterana da Baviera. Desde 1936 atuou como
Repetidor (Repetent) na Faculdade de Teologia da Universidade de Erlangen. Ao Repetidor
cabia repassar com estudantes interessados os conteúdos m inistrados nas aulas dos pro-
fessores-catedráticos. E ra tam bém oportunidade de dedicar-se a estudos acadêm icos
mais aprofundados. O contexto da atividade acadêm ica e da pesquisa inicial foi marcado

1 Die apostolische und nachapostolische Zeit (A Era apostólica e pós-apostólica), Gottingen: Vandenhoeck
& Ruprecht, 1962, p. 103.
2 Prefácio

pelas discussões que ocorriam na A lem anha e que passaram à história com o nom e de
Kirchenkam pf, mas tam bém pela G uerra que logo se iniciaria. O Estado nacional-socia-
lista buscava interferir na Igreja e em sua doutrina e a louca ideologia racial e expansionista
provocaria sofrim entos indescritíveis. Foi nessa situação que Leonhard Goppelt produ­
ziu sua tese de doutorado, concluída em 1939, um exame da interpretação tipológica do
Antigo Testamento no Novo e im pressa no m esm o ano em Gütersloh2. De 1940 até o
final da G uerra foi recrutado para o exército. No sem estre de inverno de 1945/46 voltou
a atuar na U niversidade de Erlangen. Já durante a Guerra, no inverno de 1942/43, enquan­
to se recuperava de doença, sendo por isso liberado do exército, concluira o texto do
escrito com o qual se habilitava ao exercício da cátedra teológica. O texto foi entregue à
Universidade de Erlangen, mas o processo só pôde ser concluído em maio de 1946, após
o final da Guerra. Revisado, este texto foi publicado em 1954 sob o título “Cristianism o
e Judaísm o no prim eiro e segundo séculos”3. N a passagem de 1947 para 1948 substituiu,
em Gottingen, ao professor Joachim Jerem ias, retom ando, depois, para Erlangen. Em
1949 passou a residir em Ham burgo, fazendo parte do prim eiro corpo docente da Facul­
dade de Teologia da Universidade de Hamburgo.
Em H am burgo, G oppelt atuou por 20 anos. Em 1950 contraiu m atrim ônio com
D ora Schlatter, um a neta do exegeta A dolf Schlatter. Deste m atrim ônio nasceram duas
filhas, um a das quais faleceu em tem a idade. De Hamburgo, G oppelt retom aria para sua
cidade natal, M unique, onde integrou o prim eiro corpo docente da Faculdade de Teologia
Evangélica da U niversidade de M unique. Q uando se dirigia de Tutzing, junto ao lago de
Starnberg, onde residia, para a U niversidade, sofreu enfarto no metrô, vindo a falecer no
auge de sua produção teológica a 21 de dezem bro de 1973. No seu quarto de trabalho
aguardavam por publicação a Teologia do Novo Testamento e o Com entário à Prim eira
Epístola de Pedro.
A obra teológica de Leonhard G oppelt form a um todo coerente. Suas pesquisas
com eçaram verificando com o o Antigo Testam ento é compreendido no Novo Testamen­
to. D epois, continuaram perguntando pela relação entre cristianism o e judaísm o. Com
estas duas pesquisas obteve contornos bastante precisos da era apostólica e pós-apostó-
lica, descritos na publicação de 1962, “A era apostólica e pós-apostólica” . Esta publica­
ção não só reproduz todo o m aterial coletado nas pesquisas. Traz, também, reflexão teo­
lógica sistem ática sobre o caráter apostólico da mensagem do Novo Testamento. A crés­
cim os e aprofundam ento das descobertas feitas podemos encontrar, depois, em toda uma
série de verbetes, publicados em dicionários teológicos e na obra monum ental, iniciada
por G erhard K ittel, D icionário Teológico do N ovo Testamento. Houve tam bém intensa
produção de ensaios exegéticos, reunidos em 1968 no volum e “Cristologia e É tica”4.
C ada um dos ensaios e verbetes redigidos form a capítulo que prepara a produção da obra
que estava praticam ente concluída, quando de sua morte.
A o longo do ano de 1973, quando estudava na Universidade de M unique, passei a
cada sem ana um ou dois dias na casa de Leonhard Goppelt. Era um de seus auxiliares de

2 Typos. Die typologische Deutung des Alten Testaments im Neuen (Typos. A interpretação tipológica
do Antigo Testamento no Novo). 2. Ed. Darmstadt: Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1966.
3Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus Gerd Mohn, 1954. A obra foi traduzida para o francês em 1961 e para
o inglês em 1964.
4Christologie und Ethik. Aufsatze zum Neuen Testament. Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1968.
Prefácio 3

pesquisa. Traduzi, na oportunidade, o prim eiro volum e da Teologia do Novo Testamento.


A língua alem ã perm ite form ulações com pactas, im pactantes e, não raro, complexas.
Por isso, tive que desdobrar m uitos dos períodos com postos redigidos pelo professor
para tom á-los com preensíveis ao leitor de língua portuguesa. C oncluída a tradução,
Goppelt revisou o texto m ais um a vez e, não raro, perguntava: “Com o você traduziu este
pensam ento para o português?” Quando de sua m orte, o volume 1 tam bém estava pronto
para ser im presso em alemão. Lem bro-m e que, poucos dias antes de sua morte, pergun­
tei: “E o volum e 2?” A o que respondeu: “Ele é resultado do m anuscrito de m inhas aulas
na Faculdade de Teologia e das fitas que estão no arm ário.” No Ano N ovo de 1974,
m inha esposa e eu visitam os D ora G oppelt e ela lam entava que o volum e 2 não estivesse
pronto e que, certam ente, não viria a ser publicado. Falei-lhe, então, da conversa que
tivera com seu esposo. D e um trabalho paciente, no qual atuaram M aria Cecília Senhora
de Reçum, secretária de Leonhard Goppelt, D ora G oppelt e eu, surgiu a Teologia do
Novo Testamento. Jürgen Roloff, ex-aluno de G oppelt e catedrático de Novo Testamen­
to da U niversidade de Erlangen, fez a revisão final do texto, acrescentando-lhe biblio­
grafia que L. G oppelt não tivera m ais a oportunidade de inserir. A “Teologia do Novo
Testam ento” foi publicada no B rasil em 1976/19825 e na A lem anha em 1975/19766.
Pouco depois seria publicado outro m anuscrito ainda concluído e revisado pelo autor.
Trata-se do com entário à Prim eira Epístola de Pedro7.
Cabe-nos perguntar, agora, pela contribuição de Leonhard Goppelt para a ciência
teológica, mais especificamente para a pesquisa do Novo Testamento. O Novo Testamento
era para ele documento apostólico. Isso o levava a perguntar pelo significado do Novo
Testamento para a pregação, para a vida e para a ação da Igreja.
S e g u n d o L e o n h a rd G o p p e lt, c o m o m e ro e x a m e h is tó ric o d o s te x to s
neotestam entários não podem os deduzir com suficiente clareza quem foi Jesus de Nazaré,
nem o que significou seu m inistério, nem por que a fé cristã tem nele sua origem .
E necessário que se tenha com preensão mais profunda que perceba na história de Jesus
a m anifestação da ação salvífica de Deus e entenda o plano de Deus que ele concretiza
em seu povo. A pessoa de Jesus e sua atuação estão envoltas em m istério singular, cujo
fundam ento não encontram os nas anotações descritivas dos evangelistas, mas nos pró­
prios fatos que as precederam . Pois Jesus jam ais expressou publicam ente a pretensão de
que em sua pessoa o Reino de Deus se fizesse presente e que nele as profecias estariam
se cumprindo. Tal pretensão contrariaria a essência de sua missão, pois ele não pretende
im por o reconhecim ento de um a autoridade form almente fundam entada, m as levar à fé
que deixa Deus ser Deus. O alvo da palavra e da ação de Jesus é o cum prim ento do
m andam ento de Deus; sua oferta é a graça de D eus8.
Em conseqüência, G oppelt vai afirm ar que Jesus não surgiu no meio do judaísm o
por um a casualidade histórica, m as necessariam ente, por um a necessidade histórico-

5 Teologia do Novo Testamento I. Jesus e a comunidade primitiva. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis:
Vozes, 1976; II Pluralidade e Unidade no Testemunho Apostólico a Respeito de Cristo. São Leopoldo:Sinodal;
Petrópolis: Vozes, 1982.
6Theologie des Neuen Testaments. Gottingen: Vadenhoeck & Ruprechtl975/1976.
7Der erste Petrusbrief. Gottingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1978
8Cf. Der Verborgene Messias (O messias oculto), em: Christologie und Ethik, p. 21.
4 Prefácio

salvífica9. O conceito “histórico-salvífico” foi cunhado em Erlangen por um a série de


teólogos e aplicado, também, por G erhard von Rad ao Antigo Testamento, com o pode­
mos verificar em sua Teologia do A ntigo Testam ento101. A partir desse conceito, Goppelt
vai afirm ar a peculiaridade única do evento testem unhado no Novo Testamento. Segundo
o testem unho do Antigo e do Novo Testamento a ação de Deus que busca salvação acon­
tece na história e através da história. Nas m uitas ações de Deus na história toda a história
da hum anidade é abrangida e englobada11. N o entanto, a história da salvação de Deus só
pode ser entendida a partir do que aconteceu em Cristo e este só pode ser entendido se
levarm os em consideração a unidade de A ntigo e N ovo Testamento. Esta unidade está
dada na prom essa e na fidelidade de D eus12. G oppelt nega-se, porém , a oferecer visão
idealista da história com o seqüência de fatos.
A partir desta sua concepção, G oppelt lê a Bíblia perguntando pela intenção dos
textos. Para tanto, vale-se da leitura que o apóstolo Paulo faz da Escritura. Busca por
relação entre os eventos que apontam para Cristo como o centro de todos os eventos.
Este princípio hermenêutico interpreta tanto o Cristo quanto o que dele resultou: a Igreja.
Em assim fazendo, o exegeta tem parâm etros precisos para interpretar a Escritura.
G oppelt não adm ite, pois, um a leitura m eram ente histórica do texto bíblico. D aí resulta
sua crítica à Religionsgeschichtliche Schule (à E scola baseada na crítica histórico-com -
parativa da religião), a qual, segundo ele, só se ocupa com os fenômenos, mas não com a
essência. Perde-se, assim, parte significativa da palavra neotestam entária.
G oppelt vale-se do conceito “Typos” , usado pelo apóstolo Paulo como princípio
herm enêutico para a interpretação do Antigo Testamento. Paulo lê a história do antigo
povo de Israel a partir da situação da com unidade de seus dias e lê a situação de sua
com unidade a partir do passado e descobre nele acontecim entos que Deus teria perm iti­
do acontecer para que se tom assem Typoi do que a com unidade escatológica haveria de
experim entar. Typoi não são determ inados textos do A ntigo Testamento, mas aconteci­
m entos da história com o a passagem pelo M ar Vermelho, a desobediência do povo de
Israel, sua rejeição, que descrevem o que Deus há de fazer, no futuro, em relação à sua
com unidade.
Lendo o N ovo Testamento, G oppelt verifica que a interpretação tipológica já está
presente na pregação e na atividade de Jesus. M uitas das expressões que usa e das atitu­
des que assum e apontam para o Antigo Testam ento13. Com esse relacionam ento de sua
atividade ao A ntigo Testamento, sua m issão é interpretada por ele mesmo como o centro
do plano salvífico de Deus. É, por isso, que a com unidade cristã vai continuar fazendo no
Antigo Testam ento a leitura que o próprio Jesus fizera. A leitura tipológica, m esm o sen­
do form ulada com categorias próprias de sua época, dá-nos o parâm etro para a correta
interpretação de Jesus, do evangelho e da igreja.
C om isso, G oppelt não distingue, claram ente, com o o fazem outros exegetas,
entre o C risto bíblico e o Jesus histórico. A firm a, porém , sua identidade histórico-

9Christentum und Judentum (Cristianismo e Judaísmo), p. 2.


10Gerhard von Rad. Theologie des AltenTestaments. Munique: Christian Kaiser, V. 1:1957, V. II: 1960.
11Paulus und die Heilsgeschichte (Paulo e a História Salvífica), em: Christologie und Ethik, p. 226.
12Idem, p. 227.
13Typos, p. 245.
Prefácio 5

salvífíca. A im agem de Jesus apresentada pelos evangelistas acerca da pregação e da


atividade pública de Jesus tem seu fundam ento na palavra e na ação do próprio Jesus.
Assim , não é necessário distinguir. A leitura tipológica da Escritura e a consciência de
experim entar e concretizar a prom essa de Deus e seu cum prim ento unem a pregação de
Jesus e a exposição dos evangelistas.
Constatando que Jesus e seus discípulos eram judeus e que as prim eiras com unida­
des cristãs têm sua origem no judaísm o, G oppelt vai afirm ar que o Antigo Testamento
tem precedência, quando se pretende com preender e interpretar o Novo Testamento.
Nesse aspecto, diverge daqueles exegetas que pretendem dar prim azia à apocalíptica e à
gnose. As prim eiras com unidades vivem da tradição veterotestam entária e discutem com
a sinagoga. É som ente no período posterior ao apóstolo Paulo que vai acontecer a sepa­
ração definitiva entre igreja e sinagoga. Com isso colocou-se o problem a para a com uni­
dade que se separava da casca protetora do judaísm o: como preservar sua peculiaridade
em mundo adverso?
A Igreja fica fiel à m issão que recebeu de Jesus e à herança que vem do judaísm o:
as prom essas de Deus encontraram seu cum prim ento em Jesus Cristo. A sinagoga se
fecha à mensagem , mas a com unidade continua fiel ao Senhor, pregado como o ressurreto,
segundo a m ensagem apostólica. A gora com eça, contudo, a discussão com toda a sorte
de concepções sincréticas. Os grupos gnósticos procuraram rom per com a tradição do
Antigo Testamento, havendo o perigo de se perder o fundam ento veterotestam entário do
Evangelho e de se assum ir cosm ovisão gentílica. Qual o critério a ser seguido? Para
G oppelt esse critério é o caráter apostólico do Evangelho.
Quais são, porém, as características da apostolicidade? G oppelt com eça sua busca
pelas cartas paulinas. Ali, Ele fala da com preensão de seu m inistério apostólico. Paulo
se designa de apóstolo porque o crucificado se lhe apareceu - sem elhantem ente às apa­
rições pascais - vivo e o incum biu da proclam ação dos eventos salvíficos. A o apresentar
esta fundam entação para seu apostolado, Paulo pressupõe que ela seja conhecida e com ­
partilhada pelos prim eiros cristãos. Do que G oppelt conclui que o próprio Jesus seja o
instituidor do apostolado.
A m issão conferida aos apóstolos é a de proclam ar o Evangelho na m issão e na
diaconia. Por isso, o centro da pregação da Igreja não será m ais o Evangelho de Jesus,
mas o “Evangelho sobre (a respeito de) Jesus C risto” . Em Jesus Cristo é cum prida a
prom essa do reino de Deus.
A Igreja form ada por judeus e gentios vive do Evangelho que nela é testem unha­
do. A palavra das testem unhas oculares dá suporte à pregação da Igreja. G oppelt sabe,
contudo, que nem todos os escritos do N ovo Testamento foram form ulados por apósto­
los. Fato é, porém , que a tradição se separa do transm issor e passa a ser propriedade da
comunidade, do que se depreende o principal para atestar a apostolicidade de qualquer
dos escritos do N ovo Testamento: é essencial que eles vivam do testem unho original
autorizado. Se o Cristo que viveu na história é o conteúdo essencial da tradição, aí só se
poderá dizer que seu conteúdo é histórico. A tradição apostólica é conseqüência das
testem unhas oculares apostólicas, m esm o quando está a serviço da pregação da com uni­
dade.
Este testem unho apostólico original foi fixado no Novo Testamento. Ele teste­
m unha que Jesus C risto e sua Igreja são cum prim ento histórico-salvífico da prom essa
6 Prefácio

contida no A ntigo Testamento. A form ação do cânone bíblico é para G oppelt a linha
divisória entre o cristianism o prim itivo e a igreja católica primitiva. O cristianism o pri­
m itivo m antinha a ligação ao Antigo Testamento, testem unhada pela pregação apostólica.
A igreja católica prim itiva subm ete-se às influências sincréticas do m undo contem porâ­
neo e não consegue m ais m anter a concepção histórico-salvífica da Escritura. A gnose e
a apocalíptica conseguem influenciar seu pensamento. O exegeta, porém , tem o com ­
prom isso de ler o N ovo Testam ento não à luz da gnose ou da apocalíptica, mas à luz do
Antigo Testamento. Para ele deve haver clareza da diferença entre a era apostólica e a
pós-apostólica.
Do até aqui exposto resulta toda um a série de perguntas e questionam entos que
a discussão exegética, dividida em diversas escolas, tem form ulado e que m uitos autores
continuam a formular, criticam ente, ao legado de Leonhard Goppelt. Não nos cabe entrar
nelas aqui. Vale, porém, constatar que seu esforço apresenta um todo coeso e coerente.
Leonhard G oppelt sem pre entendeu seu labor exegético como estando a servi­
ço da Igreja, por ele entendida com o sendo m aior que sua própria Igreja Luterana. Jamais
esqueceu que seus alunos na Universidade m ais tarde atuariam em igrejas. Por isso, aulas
e sem inários sem pre foram m eticulosam ente preparados. Seus doutorandos e mestrandos
foram orientados e acom panhados, sem que lhes im pusesse suas opiniões. Fora da aca­
dem ia, participou ativam ente do diálogo entre a Igreja Evangélica na A lem anha e a Igreja
O rtodoxa Russa. Teve papel destacado no diálogo com luteranos, reform ados e unidos
do que resultou a Concórdia de Leuenberg. A í as tem áticas da unidade da Igreja tiveram
papel de destaque.
A reedição de sua Teologia do N ovo Testamento renova a possibilidade de con­
tato com seu legado, mas tam bém a possibilidade de discussão séria sobre as bases do
cristianism o, m uitas vezes confusas para os ouvintes atentos de nossos dias. É convite
para um retom o à apostolicidade, na qual está a catolicidade.

MARTIN N. DREHER
Professor da Pós-graduação da UNISINOS (São Leopoldo, RS)
INDICE DE ABREVIAÇÕES

Apresentamos, a seguir, apenas a literatura mais citada. Outraz abreviações da literatura judai­
ca, helenista e cristã-primitiva podem ser encontradas no índice de abreviações do ThW.
A literatura especial, que possibilita um acesso aos diversos temas abordados, pode ser encon­
trada no início de cada parágrafo. A seqüência observada é a dos anos de publicação. Nos diversos
parágrafos, a literatura, apresentada no início, é citada apenas com o nome do autor e op. cit.
As abreviações da literatura rabínica são explicadas, minuciosamente, em Hermann Ludwig
Strack, Einleitung in Talmud und Midras, 1920. As obras do Otto Eissfeldt, Einleitung in das AT, 1964,
e Bertold Altaner-A, Stuiber, Patrologie, 1966, informam a respeito do surgimento da literatura judaica e
cristã-primitiva.

1. LIVROS BÍBLICOS

A abreviação dos livros bíblicos segue a abreviação, apresentada na tradução de Almeida,


edição revista e atualizada no Brasil, de 1962.

2. LITERATURA JUDAICA EXTRA-CANÔNICA

Arist. Epístola de Aristeas (ca. 90 aC)


Asc Is Ascensão de lsaías (cristã-judaica 2o séc. dC)
Ass Mos Assumptio Mosis (Ca. 4 ac)
Bar Livro apócrifo de Baruque (LXX)
gr Bar Apocalipse grego de Baruque (ca. 200 dC)
sir Bar Apocalipse sírio de Baruque (ca. 100 dC)
Dam Escrito de Damasco (= fragmento sadoquita, CD)
(Escrito de Qumran, 271° séc. aC)
IV Esdras (V Esdras (Apocalipse, ca. 95 dC)
aeth Hen Livro etíope de Enoque (Apocalipse, 271° séc. aC)
Jes Sir Jesus Siraque (LXX)
Jos As José e Aseneth (escrito missionário hel.-jud. do Egito, fins do 1° séc. aC)
Jos Flavius Josephus (historiador judaico, 37-97 dC)
ant Antiquitates
ap Contra Apionem
bell Bellum Judaicum
vit Vita
Sib Oráculos sibilinos (jud.-cristão)
Jub Livro dos jubileus (“Pequeno Gênesis”) (271° séc. aC)
LXX Septuaginta
I, II, 111 Macb I, II, III Macabeus (LXX)
IV Macb IV Macabeus (tratado filosófico, hel.-jud., ca. 50a-50 dC)
Filão Filão de Alexandria (filósofo religioso jud., 20 aC-50 dC):
Abreviação de seus escritos cf. ThW
8 índice de abreviações

Sl Sal Salmos de Salomão (Io séc. aC)


Mart Is Martírio de lsaías (= Io parte de Ase ls, jud., Io séc. aC)
1(4)Q da Io (4o) gruta de Qumran
1QH hodajot; Salmos de agradecimento
1QM “milhama”: “Batalha dos filhos da luz contra os filhos das trevas”
1 QpHab paesaer habaquq: Comentário de Habacuque
1Q S saeraek hajachad: “Manual de disciplina”
1 Qsa Fragmento: Regra para toda a comunidade de Israel no final dos tempos
1 QSb Fragmento: Palavras de bênção
4 Q test Testamentos
4 Q flor Florilegium
4 Q patr Bênção dos patriarcas
Sap Sabedoria de Salomão (LXX)
Test XII Testamento dos 12 patriarcas (jud. com retoques cristãos, 271° séc. aC)
Test Ass, Sen, Os diversos testamentos de Test XII
Dá, Gade, Jos,
Iss, Jud, Lev,
Nat, Rub, Sim,
Zeb
Tob Tobias (LXX)
vit Ad Vida de Adão e Eva (cristão-jud., formulação básica ca. 50 dC?)

3. LITERATURA CRISTÃ-PRIMITIVA EXTRA-CANÔNICA

A ct Atos dos apóstolos apócrifos: Atos de André, João, Paulo, Pedro, Tomé
(v. Hennecke II)
Bam Epístola de Bamabé
I, II Clem I, II, epístola de Clemente (ca. 96/ca. 140)
Clem A I strom Clemente de Alexandria (ca. 200): Stromateis
Eus HE Eusébio de Cesaréia (263-339), História Eclesiástica
Herm m, sim, vis Pastor de Hermas (Apocalipse ca. 140), mandata, similitudines, visiones
In Ef, Magn, Inácio (ca. 110), Epístolas dirigidas a Efeso, Magnésia
Trail, Roma, Tralles, Roma, Filadélfia, Esmima, e a Policarpo
Fil, Esm, Pol
Irin haer Irineu (mártir (202), Adversus Haereses
Jer vir Jerônimo (340/50 - 420), De viris illustribus
Just Ap, Dial Justino (mártir ca. 165), Apologia, Diálogo com o judeu Trypho
Mart Pol Martírio de Policarpo (ca. 150 ?)
Od Sal Odes de Salomão (hinos cristãos gnósticos, ca. 120)
Orig c Cels Orígenes (185-254), Contra Celsum (GCS 2.3.)
Pol Epístola de Pilicarpo de Esmima (mártir 155/168?)
Tert Bapt, Tertulliano (160-220), De Baptismo, Adversus Marcioonem,
Merc, Preaser De Praescriptione Haereticorum
Hear

4. REVISTAS, COLETÂNEAS E COMENTÁRIOS

Bíblica Bíbhca
Bibl-hist Hw Biblisch-historisches Handworterbuch
Bl-Debr Blass-Debrunner, Grammatik des neutestamentl. Griechisch, 1963
índice de abreviações 9

BZ Biblische Zeitschrift
CSEL Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorun,
ed. por Wiener Akademie der Wissenschaften
EKL Evangeliches Kirchenlexikon
EvK Evangelische Kommentare
EvTheol Evengelische Theologie
GCS Die griech.-christl. Schriftteller der ersten 3 Jahrhunderte, ed. por Berliner
Akademie der Wissenschaften
Hdb Handbuch zum Neuen Testament, ed. por Hano Lietzmann
Herder-K Herder Theologischer Kommentar zum NT
JBL Journal of Biblical Literature
ICC The International Critical Commentary
Int Interpretation
JThSt Journal of Theological Studies
KuD x Kerygma und Dogma
LThK Lexikon fur Theologie und Kirche
Meyer-K Meyers Kommentar zum NT
NovTest Novum Testamentum (Revista)
NTD Das Neue Testament Deutsch, Neues Gõttinger Bibelwerk
NTSt New Testament Studies
PW Pauly-Wissowa, Real-Enzyklopadie der klassischen Altertumswlssenschaft
RAC Reallexikon für Antike und Christentum
RB Revue Biblique
RdQ Revue de Qumran
RE Realenzyklopadie fiir protestantische Theologie und Kirche, 3a edição
RGG Die Religion in Geschichte und Gegenwart
SAB Sitzungsbericht der Preussischen ou Berfiner Akademie der Wissenschaften,
phil.-hist. Klasse
SAH Sitzungsberichte der Heidelberger Akademie der Wissenschaften, phil.-hist.
Klasse
StBSt Stuttgarter Bibelstudien
StEv Stadia Evangélica
ThBI Theologische Blatter
ThE Theologische Existenz heute
ThLZ Theologische Literatarzeitang
ThR Theologische Rundschau
ThHK Theologischer Handkommentar zum NT
ThW Theologisches Worterbuch zum NT
ThZ Theologische Zeitechrift Basel
VuF Verkiindigung und Forschung
Vig Chr Vigiliae Christianae
WA Martin Luther, Werke, Weimarer Ausgabe
WB Walter Bauer, Griech.-deutsches Worterbuch zu den Schriften des NT, 1958
ZAW Zeitschrift fiir alttestamentliche Wissenschaft
ZKG Zeitschrift fiir Kirchengeschichte
ZKTh Zeitschrift fiir katholische Theologie
ZNW Zeitschrift fiir neutestamentliche Wissenschaft
ZRGG Zeitschrift fiir Religions- und Geistesgeschichte
ZThK Zeitschrift fiir Theologie und Kirche
Zahn-K Kommentar zum NT, editado por Theodor Zahn
10 índice de abreviações

ZEE ZeitschriftfürevangelischeEthik
ZürB Züricher Bibelkommentar (antes: Prophezei)

5. MONOGRAflAS MAIS CITADAS

Barrett, Unwelt: Charles Kingsley Barret, Die Umwelt des Neuen Testaments. Ausgewãhlte Quellen,
hg. und Ubersetzt von Carsten Colpe, Tübingen 1959. (inglês: The New Testament Background:
Selected Documents, London 1956,1971).
Beginnings: F. J. Foakes Jackson and Kirsopp Lake, The Beginnings of Christianity I, The Acts of
the Apostles, vol. I-V, Landon 1920-33.
Billerb. I-IV: Hermann Ludwig Strack u. Paul Billeiheck, Kommentar zum Neuen Testament aus
Talmud und jdidrasch, Vol. I-IV München 1922-1928, Vol. V-VI München 1956,1961.
Bomkamm, Aufs. I-IV: Günther Bomkamm. Gesammelte Aufsátze, Vol. I-IV, München 1952-1971.
Bousset, Judentum: Wilhelm Bousset, Die Religion des Judentums im spáthellenistischen Zeitalter, hg.
von Hugo Gressmann, Tübingen 1926 (1966), (Hdb. 21).
Bousset, Kyrios: Wilhelm Bousset, Kyrios Christos. Geschichte des Christusglaubens von den Anfangen
des Christentums bis lrenaeus, Gottingen (1913) 1921 (1967).
Braun, Qumran I-II: Herbert Braun, Qumran und das Neue Testament, Vol. I-II, Tübingen 1966.
Braun, Radikalismus I-II: Herbert Braun, Spatjüdisch-hãretischer und friihchristlicher Radikalismus.
Jesus von Nazareth und die essenische, Qumransekte, Vol. I-II, Tübingen 1957 (1969).
Bultmann, GluV: Rudolf Bultmann, Glauben und Verstehen, Gesammelte Aufsãtze Vol. I-IV, Tübingen
1933-1965 (/, 1966; IV, 1967).
Bultmann, Theol: Rudolf Bultmann, Theologie des Neuen Testaments, Tübingen 1953 (1968).
Bultmann, Trad: Rudolf Bultmann, Die Geschichte der synoptischen Tradition, Gottingen (1921)1931
(1970); Erganzungsheft 1971, bearbeitet von Gerd Theissen und Philipp Vielhauer.
Conzelmann, Theol: Hans Conzelmann, Grundriss der Theologie des Neuen Testaments, München
1967(1968)
Cullmann, Christol: Oscar Cullmann, Die Christologie des Neuen Testaments, Tübingen 1957,1966.
Dibelius, Formgeschichte: Martin Dibelius, Die Formgeschichte des Evangeliums, Tübingen (1919)
1933 (1971 mit einem erweiterten Nachtrag von Gerhard iber).
Goppelt, Apostolische Zeit: Leonhard Goppelt, Die apostolische und nachapostolische Zeit, Gottingen
1962,1966 (Die Kirche in ihrer Geschichte, 1.A).
Goppelt, Christol: Leonhard Goppelt Christologie und Ethik Aufsatze zum Neuen Testament, Gottingen
1968.
Goppelt, Typos: Leonhard Goppelt, Typos. Die typologische Deutung des Alten Testaments im Neuen,
Gütersloh 1939, Darmstadt 1966,1969 reimpr. com adendo: ApokalyptikundTypologie bei Paulus.
Hahn, Haheitstitel: Ferdinand Hahn, Christologische Hoheitstitel. lhre Geschinchte im fruhen
Christentum, Gottingen 1963 (1966).
Hennecke I. -II: Edgar Hennecke, Neutestamentliche Apokryphen in deutscher Übersetzung, 3a edi­
ção, por Wilhelm Schneemelcher, Vol. I-II, Tübingen 1959/64.
Hennecke. Edgar Hennecke (ed.), Neutestamentliche Apokryphen... in deutscher Übersetzung, Tübingen
1924.
Hist. Jesus: Helmut Ristow e Karl Matthiae (ed.), Der historische Jesus und der herygmatische Christus.
Beitráge zum Christusverstandnis in Forschung und Verkündigung, Berlin 1961,1962.
Holtzmann, Theol. I-II: Heinrich Julius Holtzmann, Lehrbuch der neutestamentlichen Theologie,
2a edição, por Adolf Jülicher e Walter Bauer, Vol. I-II, Tübingen 1911.
Jeremias, Abendmahlsworte: Joachim Jeremias, Die Abendmahlsworte Jesu. Gottingen 1935.1967.
Jeremias, Gleichnisse: Joachim Joremias, Die Gleichnisse Jesu, Gottingen (1947) 1962.
Jeremias, Theol: Joachim Jeremias, Neutestamentliche Theologie. Teil I: Die Verkündigung Jesu,
Gottingen 1971.
índice de abreviações 11

Kãsemann, Exeg. Vers. I-ü: Emst Kãsemann, Exegetische Versuche und Besinnungen, Vol. I-II,
Gottingen 1960/64 (1970).
Kõster-Robinson, Entwicklungslinien: Helmut Kõster e James M. Robinson, Entwicklungslinien durch
die Welt des frühen Christentums, Tübingen 1971.
Kramer, Christos: Werner Kramer, Christos Kyrios Gottessohn. Untersuchungen zu Gebrauch und
Bedeutung der christologischen Bezeichnungen bei Paulus und den vorpaulinischen Gemeinden,
Zürich 1963.
Kraus, Psalmen I-ü: Hans-Joachim Kraus, Psalmen. Vol. I-ü. Neukirchen-Vluyn 1%1,1966 (Biblischer
Kommentar Altes Testament, Vol. XV).
Kiimmel, Einleitung: Werner Georg KUmmel, Einleimng in das Neue Testament, Heidelberg 1973
(17a edição = 5a da revisão de 1963).
KUmmel, Erforschung: Werner Georg KUmmel, Das Neue Testament. Geschichte der Erforschung
seiner Probleme. Freiburg/MUnchen 1958,1970.
KUmmel, Theol: Werner Georg KUmmel, Die Theologie des Neuen Testaments nach seinen
Hauptzeugen Jesus, Paulus, Johannes, Gottingen 1969 (NTD - volume complementar). Em portugu­
ês, Síntese Teológica do Novo Testamento, Editora Sinodal, 1974.
Leipoldt, Umwelt I-DI: Johannes Leipoldt e Walter Grundmann (ed.), Umwelt dos Urchristentums,
Vol. I-E, Berlin 1967.
V. Rad. Theol. I-II: Gerhard von Rad, Theologie dos Alten Testaments. Vai. I, München 1957,1971;
Vol. n, idem 1960,1968. Em português, Imprensa Metodista, São Paulo 1973
Roloff, Kerygma: Jürgen Ruloff, Das Kerygma und der irdische Jesus. Historische Motive in den
Jesuserzãhlungen der Evangelien, Gottingen 1970
Schlatter, Erl. I-III; Adolf Schlatter, Erlãuterungen zum Neuen Testament. Vol. I-HI, Stuttgart 1928,
1961/65.
Schlatter, Theol. I-II: Adolf Schlatter, Vol. I: Die Geschichte dos Christas. Stuttgart 1923; Vol. II: Die
Theologie der Apostei, Stuttgart 1922.
Schlatter, Mt (etc.): Adolf Schlatter, Comentários aos escritos citados, 1929/37, (1960/65).
Schreiner, Gestalt: Josef Schreiner (ed.), Gestalt und Anspruch des Neuen Testaments, Würzburg
1969.
Schreiner, Geschichte I-III: Emil SchUrer, Geschichte des jüdischen Volkes im Zeitalter Jesu Christi,
Vol. I-m, Leipzig 1901-1909.
Schweitzer, Leben-Jesu-Forschung: Albert Schweitzer, Geschichte der Leben-Jesu-Forschung, Tübingen
1913,1951.
Schweitzer, Emiedrigung: Eduard Schweizer, Emiedrigung und Erhõhung bei Jesus und seinen
Nachfolgem, Zürich 1955,1962.
Taylor, Me: Vincent Taylor, The Gospel According to St. Mark, London 1952,1966.
Volz, Eschatologie: Paul Volz, Die Eschatologie der jüdischen Gemeinde im neutestamentlichen Zeitalter,
Tübingen 1934.

6. OUTRAS ABREVIAÇÕES

a.C. antes de Cristo


AT Antigo Testamento
A ufs Aufsãtze
ca. circa, cerca de
cap. capítulo
cf conferendum
col. coluna
d.C. depois de Cristo
12 índice de abreviações

Diss. Dissertation
Ed. editor
e o. entre outros
Festschr. Festschrift
Ges.Aufs. Gesammelte Aufsãtze
gr- grego
Hdw. Handwõrterbuch
hebr. hebraico
hei. helenista
i.é isso é
J Javista
Lit. literatura
MS Texto Masorético
NT Novo Testamento
op. cit. obra citada
p. ex. por exemplo
P- página
par e passagens paralelas
Q fonte Q (Quelle)
R redação
rab. rabínico
ref. referente, referência
reimpr. reimpressão
S Sondergut (matéria de tradição exclusiva)
s seguinte (página, versículo)
ss seguintes (páginas, versículos)
séc. século
tb. também
v. versículo
Volume I
Jesus e a Comunidade Primitiva

Tradução:
M ARTIN DREHER
INTRODUÇÃO

O Novo T e s ta m e n to c o n té m a s ú n ic a s tr a d iç õ e s fid e d ig n a s a re s p e ito d a


a tiv id a d e d e J e s u s , b e m co m o a re s p e ito d a fo rm a ç ã o b á s ic a d a ig re ja e d a s u a
p re g a ç ã o . C o n s titu i, p o r isso , p a r a to d o s o s te m p o s, a b a s e d ecisiv a e o rie n ta d o ra
d e tu d o a q u ilo q u e s e d e s ig n a p o r c r is tia n is m o e p o r ig reja.
O s e s c rito s d o Novo T e s ta m e n to , n o e n ta n to , sã o , to d o s eles, p a la v r a s
d e s tin a d a s a u m a d e te r m in a d a s itu a ç ã o h is tó r ic a . O O bjetivo d e u m a “teo lo g ia
do Novo T e s ta m e n to ” é o d e d e d u z ir, d e e s c rito s is o la d o s o u d e g ru p o s d e e s c ri­
to s, im a g e n s o b je tiv a s e c o e re n te s d a a tiv id a d e d e J e s u s o u d a p re g a ç ã o e d a
d o u t r i n a d a p r im e ir a ig re ja . E la e u m a d is c ip lin a d a c iê n c ia n e o te s ta m e -
ta ria , s u r g id a n o s é c u lo XVIII.
A “te o lo g ia do Novo T e s ta m e n to ” é o c u m e do m o n te a o q u a l c o n d u z e m o s
d ifíc e is c a m in h o s d a e x e g e se n e o t e s t a m e n t á r i a e do q u a l, o lh a n d o - s e p a r a
tr á s , a v is ta o s p o d e a b ra n g e r . E s s a c o m p a ra ç ã o e v id e n c ia q u e e n tr e a ex egese
e a te o lo g ia d o N ovo T e s t a m e n t o e x i s t e u m a r e c i p r o c i d a d e . A te o lo g ia
n e o te s ta m e n tá r ia n ã o s o m e n te c o le ta o s r e s u lta d o s d a ex eg ese, m a s d e se n v o l­
ve u m p a n o r a m a , o u m e lh o r, u m a v is ã o g lo b al, q u e , p o r s e u tu r n o , e n riq u e c e a
ex eg ese e, n o fu n d o , a t o m a p o ssív e l. O e s tu d o do Novo T e s ta m e n to o co rre,
ta n to te o ló g ic a co m o h is to ric a m e n te , s e m p re a p a r tir do d e ta lh e e m d ire ç ã o ao
to d o e d o to d o e m d ire ç ã o ao d e ta lh e .
N a s d iv e rs a s e x p o siç õ e s d a “te o lo g ia d o Novo te s ta m e n to ” e s p e lh a m -s e ,
m a is do q u e n a s e x e g e se s is o la d a s , a s p o siç õ e s, a o rie n ta ç ã o e a s p re m is s a s
do d iv e rs o s teó lo g o s. P o r is s o é q u e s e a p r e s e n ta m n e la s , co m e s p e c ia l c la re z a,
os p ro b le m a s m e tó d ic o -h e rm e n ê u tic o s , h is tó r ic o s e teo ló g ico s q u e n o s o fere­
ce m o s e s c rito s d o Novo te s ta m e n to . N os d iv e rso s tó p ic o s a b o rd a d o s ev id en -
c ia r-s e -ã o a s p o s s ib ilid a d e s d e s o lu ç ã o , d is c u tid a s n a p e s q u is a , e s u a s p r e s ­
s u p o s iç õ e s , e n ã o a p e n a s a n o s s a o p in iã o . A ssim o le ito r p a r tic ip a r á do diálogo
d a p e s q u is a , h a b ilita n d o - s e a fo rm a r u m a o p in iã o p ró p ria .
A T eo lo g ia d o Novo T e s ta m e n to r e s u m e , p o is, o s r e s u lta d o s teo ló g ico s d a
p e s q u is a n e o te s ta - m e n tá r ia . E s s e s r e s u lta d o s , e a s a firm a ç õ e s do NT q u e se
e n c o n tr a m p o r t r á s d e le s , s o m e n te tr a r ã o f r u to s p a r a o d iálo g o teo ló g ico e
e c le s iá s tic o d a a tu a lid a d e , c a s o a s a n á lis e s h is tó r ic a s e a s p r e m is s a s d a s
q u a is p a r te m s e to m a r e m t r a n s p a r e n te s d a m a n e ir a q u e h á p o u c o a lu d im o s.
N ão p o d e m o s s u b m e te r a c o m p re e n s ã o do NT, d e m a n e ir a e s tá tic a , a s p re m is ­
s a s do p e n s a m e n to m o d e rn o , n e m c o n f r o n ta r o h o m e m e a s o c ie d a d e d e h o je
co m m e r a re c ita ç õ e s d o NT. O s d o is a s p e c to s , o Novo T e s ta m e n to e o h o m e m d e
n o s s o s d ia s , d ev e m s e r c o n fro n ta d o s e m u m diálogo c rítico . E s s e d iálo g o te m
q u e se re a liz a r, e s p e c ia lm e n te , e n tr e o te x to e o e x eg eta, e e n tre a s d is c ip lin a s
e x e g é tic a e s is te m á tic a s . S o m e n te p o r e s s e c a m in h o é q u e s e p o d e c h e g a r a
16

u m a c o m p re e n s ã o d a s a firm a ç õ e s n e o te s ta m e n tá ria s , d e m a n e ir a q u e s e to m e m
c o m p re e n s ív e is co m o ú ltim a e x ig ê n c ia e ú ltim a p ro m e s s a .
C o m p re e n d id a d e s s a m a n e ira , a te o lo g ia do Novo T e s ta m e n to a s s u m e a
p o s iç ã o -c h a v e e m to d a a te o lo g ia c r is tã . S u a e s t r u t u r a e s u a p r o b le m á tic a
e v id e n c ia m -s e n o re s u m o d a h is tó r ia d a p e s q u is a a re s p e ito d e s e u d e se n v o l­
v im e n to , q u e a p r e s e n ta m o s a s e g u ir. A fin a lid a d e d e s s e re s u m o é a d e o rie n ­
t a r a r e s p e ito d o s p ro b le m a s b á s ic o s d o e s tu d o do Novo T e s ta m e n to e a r e s p e i­
to d a p o s iç ã o d o s te ó lo g o s q u e s e d e d ic a r a m a e s s e e s tu d o . P a ra p o d e r se rv ir
d e o rie n ta ç ã o , a tr a v é s d o e m a r a n h a d o d e o p in iõ e s is o la d a s e lite r a tu r a , n o s s a
e x p o siç ã o te m q u e se r, n e c e s s a r ia m e n te , e s q u e m á tic a . N ão é n e c e s s á rio q u e
s e in ic ie a le itu r a d a “te o lo g ia d o Novo T e s ta m e n to ” n a p rim e ira p á g in a ; p o d e-
s e p r in c ip ia r ta m b é m c o m a l e i t u r a d e d e te r m in a d o s te m a s , p . ex ., c o m a
d is c u s s ã o a r e s p e ito d a r e s s u r r e iç ã o d e J e s u s . Q u a n to m a is , n o e n ta n to , a p a ­
re c e re m n o m e s e o p in iõ e s, ta n to m a is n e c e s s á rio s e r á q u e s e p ro c u re m in fo r­
m a ç õ e s n e s s a o r ie n ta ç ã o g lo b a l q u e c e r ta m e n te a p r e s e n ta o r e s u m o m a is
im p o r ta n te d a h is tó r ia d a te o lo g ia d a Id a d e M o d ern a.
INTRODUÇÃO À PROBLEMÁTICA

§ 1: O DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA E A PROBLEMÁTICA


Albert Schweitzer, Geschichte - der Leben-Jesu-Forschung. 1933‘ ; Leonhard Goppelt, Christentum
und Judentum im ersten und zwelten Jahrhundert, 1954, 1-15; W erner Georg Kummel, Das Neue
Testament, Geschichte der Erforschung seiner Probleme, 197V; Rudolf Schnackenburg, Neutesta-
m entliche Theologie, Der Stand der Forschung, 1965* ; Stephen N e ill, The Interpretation of the
New Testament 1861-1961, 1964; Béda Rigaux, Paulus und seine Briefe, Der Stand der Forschung,
1964; W erner Georg Kummel, Das Neue Testament im 20. Jahrhundert, Ein Forschungsbericht,
1970; Peter Stuhlmacher, Neues Testament und Hermeneutik — Versuch einer Bestandsaufnahme,
ZThK 68 (1971), 121-161; Ernst Kãsemann, The Problem of a New Testament Theology, NTSt 19
(1973), 235-245

T a n to o su rg im e n to q u a n to o desenvolvim ento d a «teologia n e o te sta m e n tá ria» ,


como u m a d iscip lin a d a p e sq u isa h is tó ric a d a E s c ritu ra , to rn a ra m -se , em
nossos dias, u m a d a s m a is a p a ix o n a n te s p a r te s d a h is tó ria d a te o lo g ia ; pois
o desenvolvim ento d essa d iscip lin a fo i o cam inho, p erco rrid o p e la teo lo g ia
p ro te s ta n te , p a r a c h e g a r à situ a ç ã o a tu a l de c rise e de renovação. E s ta dis­
cip lin a fo i c ria d a e im p elid a ju s ta m e n te pelos trê s im pulsos que fo rm am a
teo lo g ia p ro te s ta n te a tu a l e que a colocam em estad o de te n sã o em v irtu d e
do seu an tag o n ism o . E la fo i p ro v o cad a em p rim eiro lu g a r p e la R eform a,
depois pelo P ie tism o e fin a lm e n te pelo Ilum inism o. E s ta afirm a ç ão se to m a
ev id en te se o b serv arm o s o su rg im e n to d a disciplina.

I. O surgimento da disciplina

A té o séc. X V III n ão e x istiu u m a te o lo g ia b íb lica — o que h o je é q u ase


inconcebível, — h o u v e a p e n a s d o g m ática, exposições d a d o u trin a eclesiástica
em v ig o r que se ap o ia v a m com m a io r o u m en o r in te n sid a d e n a s E sc ritu ra s.
N ão so m en te é in te re ssa n te , sob o p o n to de v is ta h istó rico , m a s tam b ém é
n ecessário que se p e rg u n te : C om o se d eu a fo rm ação de u m a teo lo g ia b íblica
a u tô n o m a ? 1

1) E sp e c ia lm e n te in te re s s a n te é o b serv ar-se os prim órdios de to d o o


desenvolvim ento n o séc. I I : A igreja católica, que se c o n stitu iu em fin s desse
século, tra n s fo rm o u o s esc rito s cristão s-p rim itiv o s, que lhe h a v ia m sid o tr a n s ­
m itidos, em cânone, — sem co n tu d o f a z e r uso dessa designação. V iu, no
e n ta n to , que esses e sc rito s ta m b é m era m ac eito s pelos g n ó stico s e que como
ta is d a v a m m a rg e m a in te rp re ta ç õ e s d iv erg en tes. F o i p o r isso que ad o to u
18 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

o p rin c íp io : O cânone, com preendido de m a n e ira co rre ta , é id ên tico com a


d o u trin a v á lid a n a ig re ja k a th ’ holên tên gèn. Is to é, e s tá de aco rd o com
a d o u trin a eclesiástica cató lica, re su m id a no A postolicum e re p re s e n ta d a pelo
episcopado legítim o. D o u trin a eclesiástica, e isso sig n ific a tra d iç ã o apostólica,
é, com o m a is ta r d e fo i fo rm u lad o , «o q u e em to d a p a rte , sem pre, e p o r to dos
fo i crido» (V icen te de L e rin o ). P o r m eio desse prin cíp io os e scrito s neo-
te s ta m e n tá rio s a g ira m de m a n e ira p o sitiv a n a ig re ja e n a teologia, a tra v é s
dos séculos, m a s ao m esm o tem po p e rd e ra m p a r te de seu dinam ism o — pois
a s u a co m preensão e ra c o n sta n te m e n te h a rm o n izad a com a tra d iç ã o eclesiás­
tica . U sá-lo s p a r a c o n te s ta r a d o u trin a eclesiástica fo i algo que se deix av a
a h ereg es com o M arcião.

2) E m re la ç ã o à ig re ja a n tig a , no catolicism o p ó s-trid e n tin o e, p rin c i­


p alm en te, n o catolicism o d a Id a d e M oderna, a concepção d a tra d iç ã o se
m odificou fu n d a m e n ta lm e n te. A p a r t i r de então, tra d iç ã o é um a g ra n d e z a
viva, p n eu m á tic a , que é a m p lia d a c o n sta n te m en te pelo m ag isté rio eclesiástico.
E s te conceito ev o lu cio n ista de tra d iç ã o dá, sob o p o n to de v ista teológico,
m arg e m a u m a ciência b íb lica; pois, o que h o je é válido, não m ais p recisa
e s ta r de a c o rd o com a s a firm a ç õ es n e o te sta m e n tá rias. Podem os, contudo,
ap e n a s d iz e r: D á m a rg e m a u m a ciência bíblica, não a produziu. A ciência
bíblica c a tó lic a 1 de n o sso s dias, que é sem elh an te à p ro te sta n te , su rg iu , no
e n ta n to , q u an d o a exegese tra d ic io n a l a o s poucos fo i caindo sob a influência
do p en sam en to h istó ric o d a Id a d e M oderna. Isso se p aten teo u , m ais e m ais,
p rin c ip a lm e n te a p a r t i r d a p esq u isa bíblica p ro te s ta n te . U m a ciência bíblica
c a tó lic a co rre sp o n d e n te fo i le g itim a d a p e la I g r e ja C ató lica a tra v é s d a E ncí-
clica H u m an i G eneris de P io X II, em 1950. F o i reco n h ecid a a in d a m ais pela
C o n stitu iç ã o d o g m á tic a a re sp e ito d a R evelação D ivina, do Concilio V atican o
II , que acolheu u m d ecreto d a C om issão B íblica de 1964 e que vai n a m esm a
direção . T am bém e ssa s d eclaraçõ es eclesiásticas re a firm a m , em tese, o que
a Sessio IV do Concilio de T re n to fo rm u la ra , de m a n e ira b ru sc a e e stre ita ,
em a n títe s e à R e fo rm a : O tra b a lh o exegético te m que p erm an ecer no âm bito
d a tra d iç ã o eclesiástica. N o e n ta n to , a ciência bíblica c a tó lica não vê nisso
um a lim itação de su a pesq u isa, pelo c o n trá rio : U m de seu s re p re se n ta n te s
m ais renom ados, R u d o lf S ch n a cken b u rg , esclareceu, em 1958, n a «Biblische
Z eitsc h rift» , ó rg ã o d a ciência bíblica c a tó lica alem ã, (p. 161-176j : O católico
não p o d e v e r u m a r u p tu r a e n tre os e sc rito s n e o te sta m e n tá rio s e a tra d iç ã o
ecle siá stic a; p o is C risto se d e p a ra com ele com o aquele que c o n tin u a a v iver
na ig re ja . « P o r isso o e x e g e ta cató lico necessita, p o r p ro fu n d a convicção
teológica, d a in te rp re ta ç ã o a u to r itá r ia d a ig re ja ; m a s não a usa, de m a n e ira
m etó d ica, p a r a e n c o n tra r o se n tid o lite ra l. E la lhe serv e de prin cíp io h e r­
m enêutico, com fu n ção re g u la d o ra e de controle, m as não com o m étodo de
tra b a lh o » (p. 172). E s ta a firm a ç ão a in d a h o je é re p re se n ta tiv a .
E n tre m e n te s a ciên cia bíblica se tra n sfo rm o u no p rin cip al f a to r do m o­
v im en to re fo rm a tó rio in tra -e c lesiástico e do p en sam en to ecum ênico. Séries
de e sc rito s com o o s « S tu ttg a r te r B ibelstudien» p ro c u ra m fa z e r com que
círcu lo s m a io re s p a rtic ip e m dela de m a n e ira cien tífic a e d ig n a de confiança. 1

1 . H ans Grass, G rundsãtze k atholischer B ibelauslegung, ThLZ 77 (1952), 487-494; R udolf


Schnackenburg, D e r W eg d e r katholischen Exegese, BZ N F 2 (1958), 161-176; ag o ra em;
Schrif ten zum NT, 1971, 15-33 ( L it.!); G otthold H a se n h ü ttl, R udolf B ultm ann und die
E ntw icklung d e r katholischen Theologie, Z T hK 65 (1968), 53-69.
I. O surgimento da disciplina 19

Como, com b ase n e s ta s pressuposições, a ciência b íb lica c a tó lic a ing resso u


n a p esq u isa in te rn a c io n a l d a s E scritureis, pode-se d ed u zir do su rg im e n to
de teologias do N ovo T e sta m e n to . A s p rim e ira s teologias c ató licas do N T,
deixando-se de lado a lg u n s p re c u rso re s in sig n ifican tes, fo ra m os liv ro s de
Joseph B o n sirven ( P a r is 1951) e M a x M e in ertz (B onn 1950). S om ente n a
«N eu testam en tlich e T heologie» de R u d o lí S ch n a ckenburg, e d ita d a n o a n o de
1963 (1961 em fra n c ê s ), fo ra m ad m itid as, incondicionalm ente, a s colocações
e os m éto d o s que h a v ia m sido desenvolvidos n a p esq u isa em relação a e ssa
disciplina. O livro te m p o r s u b títu lo : «D er S ta n d d er F o rschung» (A situ a ç ã o
d a p e sq u isa ). N ão desenvolve u m a exposição p ró p ria , m a s um re la to a re s ­
peito d a pesquisa, o q u al p erm ite, contudo, que se v islu m b re a posição do
a u to r. C a ra c te rístic a s bem p ró p ria s te m a teologias do N ovo T estam en to de
K a rl H erm a n n S ch elkle, Vol. 1 a 3, 1968/73, c u ja su bdivisão é te m á tic a e
não h istó ric a . A in tro d u ção , b a s ta n te ú til, à s intenções teo ló g icas dos escrito s
n eo te sta m e n tá rio s, ou seja, da h is tó ria d a s tra d içõ es, e d ita d a p o r J o se i Schrei­
ner, em 1969, e ela b o ra d a p o r u m a série de ex eg etas católicos m ais jovens,
poderia, em g ra n d e p a rte , t e r su rg id o no âm b ito d a escola b u ltm a n n ia n a !1
D essa m a n e ira su rg e n a teo lo g ia cató lica, em m eados do séc. X X , u m a
teo lo g ia bíblica científica, com o a que se d esenvolvera no pro testan tism o ',
desde o séc. X V III. N o p ro te s ta n tis m o esse desenvolvim ento fo ra provocado,
e n tre o u tro s fa to re s, pela R e fo rm a — de m a n e ira p o sitiv a e a n tité tic a .

3) A R e fo rm a n ã o p ro d u ziu a ciência b íb lica p ro te s ta n te a tu a l, m a s


deu-lhe a relev ân cia objetiva.
L u te r o ch eg a à E s c ritu ra , p a rtin d o d a d o u trin a eclesiástica de s u a época,
e descobre d isco rd ân cias e n tre am bas, em p o n to s essenciais. N e s ta situ ação
de conflito, b aseia-se n a E s c r itu r a e desenvolve s u a teo lo g ia como exegeta.
M as não se to r n a biblicista. E sp ecialm en te, não se re fu g ia n a concepção
e n tu s ia s ta de que ca d a um te n h a que o u v ir e tra n s m itir a E s c ritu ra com o
p a la v ra de D eus, de m a n e ira m era m e n te su b jetiv a. C ritic a tra d iç õ e s ecle­
siá stic a s d efo rm ad as, m a s n ã o r e je ita a tra d iç ã o como t a l ; destaca, p o r
exem plo, os tr ê s Sím bolos d a ig re ja a n tig a . Ao m esm o tem po, no en ta n to ,
p ra tie a m e n te in v e rte a re la ç ã o ex isten te, desde o séc. II, e n tre E s c ritu ra e
tra d iç ã o . N ão são a tra d iç ã o e o m a g isté rio eclesiástico que decidem o que
s e ja v e rd a d e iro e c o rre to n a ig re ja , m a s a E s c ritu ra .
M as como é que a E s c r itu r a pode s e rv ir como critério , se ela d á m arg em
a m u ita s in te rp re ta ç õ e s, como j á se v ia n o séc. I I ? A re sp o sta que L u te ro
d á a e ssa p e rg u n ta é o p rin cíp io d a R efo rm a, que a in d a n ã o deixou de se r
co n tro v ertid o . J u lg a ele que a E s c r itu r a e x p re ssa o decisivo, de m a n e ira clara,
se fo r in te rp re ta d a de acordo com a s u a p ró p ria essência. E ’ in te rp re ta d a de
acordo com a su a essência, quan d o u sam o s o duplo p rincípio h erm enêutico,
p o r ela p ró p ria exig id o : 1 ) A E s c r itu r a deve se r in te rp re ta d a p ela E s c r itu r a :
S c rip tu ra sa c ra «sui ipsius in te rp re s» (W A 7,97,23), e isso sig n ific a ao m esm o
tem p o que 2 ) : A E s c r itu r a deve s e r in te rp re ta d a a p a r tir do seu cen tro ,
C risto (W A 39 I, 47,56,5). E nisso C risto p a r a ele n ão é u m a sig la, m as
o C risto que conheceu n a m en sag em d a ju stific a ç ã o d a c a r ta ao s R om anos
(D B 7,2.15) e ao q u a l a s com unidades d a R efo rm a se co n fessavam m ag n o
consensu, n os E s c rito s C onfessionais. D e sta m a n e ira é d a d a à herm en êu tica,
a tra v é s do p rin cíp io e sc ritu rístic o , u m a p osição-chave n a te o lo g ia ; n o e n ta n to , 2

2. Jo s e i S chreiner (editor), G estalt und Anspruch des NT, 1969.


20 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

a h e rm e n ê u tic a d a R e fo rm a b aseia-se n a au to co m p reen são d a E s c ritu ra , p o r


um lado, e n a co nfissão d a com unidade, p o r o u tro lado.
N a teologia p ro te s ta n te a n tig a , o p rin cípio herm en êu tico de L u te ro fo i
fo rm u la d o d a se g u in te m a n e ira : A E s c r itu ra deve s e r in te rp re ta d a segundo
a analogia scrip tu ra e sacrae e seg u n d o a analogia lid ei. A lid es, a fé, é a fé
em C risto com o o c en tro d a E s c ritu ra , como é d e sc rita n o s E s c rito s C onfes­
sion ais. N o e n ta n to , a relação d a s C onfissões com a E s c ritu ra é u m diálogo
crítico , no q ual a p a la v ra fin a l deve fic a r com a E s c ritu ra . N e ste sen tid o
ex isten cial, a E s c r itu r a é unica regula e t norm a, com o re z a o E p ito m e d a
F ó rm u la d a C oncórdia.
A p e sa r desse p rin cíp io e se ritu rístic o a teo lo g ia p ro te s ta n te a n tig a não
desenvolveu u m a te o lo g ia b íb lica; p o is o u v ia a E s c ritu ra com o p a la v ra d iri­
g id a de m a n e ira d ire ta à a tu a lid a d e e in tro d u zia, p o r isso, a s p a la v ra s d a
E s c ritu ra , de m a n e ira d ire ta , n a s p ró p ria s afirm açõ es. A d o g m ática do p ro ­
te sta n tis m o a n tig o conhecia so m en te p a ssa g en s com p ro b ató rias, te stem u n h o s
( testim o n ia ) .

4 ) E m c o n trap o sição a u m a so lid ificação esco lástica d a d o g m ática, que


e s ta v a oco rren d o n a te o lo g ia do p ro te s ta n tism o an tig o , p ro c u ro u o P ie tism o
v a lo riz a r n o v am en te a E s c ritu ra . P ro v o c a u m a re fo rm a do estu d o de teo lo g ia
que coloca o estu d o d a B íb lia no cen tro . N ão chega, no e n ta n to , a desenvolver
u m a teo lo g ia bíblica, m a s a p e n a s u m a d o g m ática biblicista. A d iferen ça exis­
te n te e n tre a s a firm a ç õ es b íb licas e aq u ilo que h o je se d efende é ig n o rad a.
A E s c r itu r a é a tu a liz a d a de m a n e ira sim p lista. E s s a s te n d ê n c ia s em p a rte
se m a n ife sta m a té h o je, ta m b é m n a p esq u isa n e o te sta m e n tá ria . 5

5 ) U m a te o lo g ia b íb lic a s u rg iu a p e n a s q u an d o o prin cíp io e se ritu rístic o


d a R efo rm a, n a m a io ria d a s vezes sob m odificação p ie tista , se chocou com
o p e n sam en to h istó ric o do U u m in ism o .
P e n sa m e n to h istó rico sig n ific a m a is do que tra b a lh o histórico-filológico.
T a l tra b a lh o sem p re f o r a feito . J á O rígenes e Jerô n im o h av iam pro d u zid o
co isas a d m irá v e is n esse sen tid o , a in d a m a is os h u m a n ista s e in úm eros e stu ­
diosos dos séculos X V II e X V III, p rin c ip alm en te d a s file ira s do P ietism o.
C itam o s u m nom e que a in d a h o je te m in flu ên cias n a p esq u isa: E m 1751/52,
Joh a n n J a ko b W e tts te in publicou u m a edição do N ovo T e sta m e n to que con­
tin h a u m a p a r a to c rític o -te x tu a l m in u cio so e que, ao m esm o tem po, em um
seg u n d o a p a ra to , tr a z ia a m p la coleção de a n a lo g ia s ju d a ic a s e h elen istas, que
são e x p lo ra d a s a té o p resen te. O p e n sam en to h istó rico , no en ta n to , ap en as
fo i tra z id o pelo U um inism o do séc. X V III, que d istan cio u o p re se n te do
passad o , p a r a lib e rtá -lo do p o d er d a tra d iç ã o .
A p a r tir desse pen sam en to , s u rg iu o program a da pesquisa histórico-
crítica da E sc ritu ra . A firm a que ta m b é m a B íb lia ou seus escrito s precisam
s e r v istos, em p rim eiro lu g a r, com o docu m entos h istó ric o s do passad o , e não
com o u m a p a la v ra p e rtin e n te ao p resen te. P o r isso os e scrito s bíblicos devem
s e r ex am in ad o s sob os m esm os m é to d o s sob os q u ais o u tro s docum entos são
ex am in ad o s, d a m esm a m a n e ira com o os escrito s de P la tã o ou Sêneca. O
que sig n ificam p a ra o p re se n te deve s e r o re su lta d o de su a in te rp re ta ç ã o pela
raz ã o a u tô n o m a. E s s a in te rp re ta ç ã o n a tu ra lm e n te p a r te d a filo so fia domi-t
n a n te n a época, p rin c ip a lm e n te de s u a com preensão de h istó ria . N o e n ta n to ,
esses dois fa to s, a an á lise h is tó ric a d os te x to s bem com o su a in te rp re ta ç ã o
II. O desenvolvimento da posição «meramente histórica» 21

filo só fica, devem tr a n s m itir ao hom em d a Id a d e M oderna o conteúdo do N T


que lh e diz re sp e ito e que lhe é o b stru íd o p e la tra d iç ã o eclesiástica. T a l
in ten ç ã o tra n sfo rm o u a p esq u isa d a E s c r itu r a em um tra b a lh o ap aix o n ad o e
que se e n te n d ia s e r teológico.
A ssim , esse p ro g ra m a exige, em resu m o : U m a an álise dos te x to s com
o aux ílio d a ciência d a h is tó ria g eral, e u m a in te rp re ta ç ã o filo só fica p a ra
a a tu a lid a d e , com o ta r e f a teológica. E s te p ro g ra m a foi introduzido, de m a ­
n e ira rev o lu cio n ária, n o séc. X V III, p o r Jo h ann Salom o S em ler e desenvol­
vido de m a n e ira clássica, n o séc. X IX , p o r F erdinand C hristian B aur, to m a n d o
confo rm açõ es d e fin id a s com E r n s t T ro eltsch , n o início do séc. XX.
Q ue sig n ific a esse p ro g ra m a ? 1. Sob o p o n to de v is ta d a ig re ja , o s u r­
g im en to d a p esq u isa h is tó ric a d a E s c r itu r a d e m o n stra se r o aco ntecim ento
eclesiástico m a is incisivo desde a R efo rm a. A E s c ritu ra , que era o p arceiro
com quem a ig re ja d ialo g av a, p asso u a ser, inicialm ente, um docum ento
h istó ric o d ista n te . O c o n fro n to teológico d ireto tran sfo rm o u -se em d istâ n c ia
h istó ric a . U san d o lin g u ag em fig u ra d a , d iria m o s: A té en tão se o u v ira a B íblia,
tam b é m n a teo lo g ia, a p a r tir do p ú lp ito d a ig re ja ; ag o ra, porém , fala-se a
seu re sp e ito n a c á te d ra d a sa la de conferências. E ’ ju s ta m e n te dessa m a­
n e ira que se q u is to m á - la eficien te p a r a a Id a d e M oderna. 2. N ão se podia
f u g ir a esse processo, sob o p o n to de v is ta d a h is tó ria do p en sam en to h u ­
m ano. A B íb lia n ã o p o d ia e n ã o dev ia se r a fa s ta d a do âm b ito de in flu ên cia
d a ciência a u tô n o m a que, d esde o fin a l d a Id a d e M édia, in iciav a su a c a rre ira.
N a p e sq u isa h is tó ric a d a E s c ritu ra , o e sp írito d a Id a d e M o derna se con fro n ­
to u , de m a n e ira m a is d ire ta , com a m en sag em bíblica. E , m esm o assim , esse
q u estio n a m e n to n ã o fo i a p e n a s d irig id o à E s c ritu ra , m a s em g ra n d e p a rte
e r a exigido p o r e la ; p o is a E s c r itu r a n ã o q u e r ap en as tr a n s m itir u m a alocução
g e n é ric a de D eus, m a s q u e r fazê-lo n u m a d e te rm in a d a situ ação h istó rica.
A C a r ta a o s R om anos, p. ex., n ão é u m tr a ta d o de c a rá te r geral, m as foi
e s c rita à com unidade de R o m a n u m a d e te rm in a d a situ ação . E ’ p o r isso que
a p e sq u isa h is tó ric a d a E s c r itu r a é ex ig id a p e la p ró p ria E s c ritu ra . O p ro ­
blem a, n o e n ta n to , é o s e g u in te : A té que ponto, p o r o u tro lado, a ciência
a u tô n o m a p ode fa z e r ju s tiç a ao c a r á te r d a E s c ritu ra com o logos? E s ta p e r­
g u n ta deve s e r te s ta d a no desenvolvim ento d a pesq u isa « m eram ente h istó ­
rica» d a E s c ritu ra .

n . O desenvolvim ento d a posição “m eram en te


h is tó ric a ” e se u s re su lta d o s

N ã o usam os, n o p re se n te títu lo , a d esig n ação «P esquisa h istó ric o -c rític a d a


E sc ritu ra » , p o is em n o ssos d ias to d o o tra b a lh o científico n a E s c ritu ra é
h istó rico -crítico . Q uerem os a c o m p a n h a r a execução do p ro g ra m a h á pouco
d escrito , q u e E r n s t T ro e ltsc h denom inou e x p ressam en te de « m eram ente h is­
tó rico » .
O p ro g ra m a d a p e sq u isa «m eram en te h istó rica» d a E s c ritu ra foi exe­
cu ta d o , essencialm ente, p e la te o lo g ia de lín g u a alem ã. F o i aí que a s possi­
bilid ad es d essa m a n e ira de p ô r o p ro b lem a fo ra m esg o tad as, rad ical e u n ila­
te ralm e n te , e n e la fo ra m desven d ad o s os pro b lem as h istó ric o s do N T. N a
teo lo g ia an g lo -saxô n ica, o desenvolvim ento fo i m u ito m ais m oderado. S tep h en
N e ill o expõe em seu livro, pub licad o em 1964: T he In te rp re ta tio n o f the
22 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

N ew T e s ta m e n t 1861-1961. A p en as a p a r tir de 1935 a s c o rre n te s alem ãs d a


pesquisa, aco m p a n h a d as d a escan d in av a, en co n tram -se com a an glo-saxônica,
com o elas, a g o ra , ao s poucos, tam b ém se en c o n tra m com a pesq u isa c ató lica
fran c e sa . U m a descrição m inuciosa, especialm ente do desenvolvim ento no âm b ito
d a lín g u a alem ã, v am o s e n c o n tra r em W ern er G eorg K ü m m el, D as N eue T e sta ­
m e n t, G eschichte d e r E rfo rs c h u n g s e in e r P roblem e, (1 9 5 8 ), 197O2.

1) Se p ro c u ra rm o s re su m ir o resu lta d o histórico d a p esq u isa «m eram ente


h istó rica» d a E s c ritu ra , tem o s q u e p e rg u n ta r, seguindo su a m a n e ira de p ô r
o problem a, p o r su a s concepções d o J e s u s h istórico, bem com o p o r su a s
concepções d a h is tó ria d o c ristia n ism o p rim itiv o .

a) O m éto d o e a in ten ção d a p esq u isa em to m o do Jesu s histórico, evi­


denciam -se, de m a n e ira elem en tar, em seu p o n to de p a rtid a . E n tr e 1774 e
1778, L e ssin g pub lico u os fra g m e n to s de W olfen b ü ttel, « F ra g m e n te eines
U n g en an n ten » , e e n tre eles o tr a ta d o «Von dem Zw ecke Je su u n d sein er
Jü n g e r» . E s te s fra g m e n to s p ro v in h a m de u m a pesq u isa b a s ta n te volum osa
que o o rie n ta lis ta h am b u rg u ês, H e rm a n n Sam uel R eim arus, falecido em 1768,
h a v ia elab o rad o . Com u m a p e rsp ic á c ia g enial L essin g h a v ia reconhecido que
aq u i h a v ia sid o em p reen d id a a m a n e ira de colocar o p ro b lem a e a análise
h is tó ric a d a q u a l o Ilu m in ism o n ecessitav a, se bem que n u m a u n ila te ra lid a d e
e x tra v a g a n te . R e im a ru s d estaca, n u m a u n ila te ra lid a d e elem en tar, o princípio
h erm en êu tico d a p esq u isa h is tó ric a d a E s c ritu ra . E x p lic a ele, n a in tro d u ção
de s u a a n á lise : Q uem q u e r co m p reen d er a fig u ra de Jesus, de m a n e ira h istó ­
rica, p re c isa a b a n d o n a r ta n to as concepções de catecism o a resp eito do Deus-
hom em , q u a n to o que os ap ó sto lo s d isse ram a resp eito de J e su s; tem que
ex p lic a r a a ç ã o de Je s u s a p a r tir de seu m eio am b ien te ju d e u . 3 E s te pro­
g ra m a h erm en êu tico é n a d a m ais, n a d a m enos do que a ru p tu r a to ta l com o
p rin cíp io h erm en êu tico d a R eform a. A d u p la negação sig nifica, sem que isso
se to rn e p a te n te ao a u to r: N ão m ais analogia lid ei, «catecism o», e n ã o m ais
analogia scrip tu ra e sacrae, «os apóstolos», m a s a p e n a s analogia histórica,
a p e n a s o «meio am b ien te judeu».
O desenvolvim ento d essa m a n e ira m e ram en te h istó ric a de p ô r a q u estão
foi d escrito p o r A lb e r t S ch w eitzer, de m a n e ira d ra m á tic a , n a su a «G eschichte
d e r L eb en -Jesu -F o rsch u n g » . A p rim e ira edição, de 1906, levou p o r títu lo «Von
R e im a ru s zu W rede». Os dois nom es m a re a m o início e o fim desse em preen­
d im e n to cien tífico que, p o r m a is de cem anos, fascinou a m u ito s teólogos, e
n ã o so m en te p o r in te re sse h istó rico . Ju lg a v a m que, dessa m an eira, p o d eriam
m o s tra r a o s h om ens c u lto s de su a época, os qu ais n a d a m a is p o d iam fa z e r
com o D eus-hom em d a co n fissão eclesiástica, a v e rd a d e ira e p e rm a n e n te g ra n ­
deza de Je su s. A evolução d a p esq u isa foi, como o disse A lb e r t S c h w e itze r no
p re fá c io à s u a ú ltim a edição (p. 5 ), «um a lu ta tã o d o lo ro sa e tã o cheia de
re n ú n c ia em b u sc a d a v erdade» com o o m undo ja m a is a tin h a visto. A h is tó ria
d a p e sq u isa d a v id a de J e s u s é a h is tó ria do fra c a sso d e sta pesquisa.
A p ro c u ra p ela v e rd a d e h istó ric a fe z com que c a d a u m a dessas im ag en s
de Je s u s se desped açasse sem p re de novo n a s fo n te s e n a c rític a histó-i
ric a em c o n sta n te evolução. F in a lm e n te , p o r v o lta de 1900, a m a n e ira
h is tó ric a ra d ic a l de p ô r a questão , de W illia m W rede, fe z com que a te n ­
ta tiv a f r u s tr a s s e d efin itiv am en te. W red e d em o n stro u no opúsculo «Das

3. Schw eitzer, op. cit. 10s.


II. O desenvolvimento da posição «meramente histórica» 23

M essiasgeheim nis in d en E v an g elien » , 1901 (1963’) : T am b ém a fo n te m aia


a n tig a , o E v a n g e lh o seg u n d o M arcos, n ã o oferece b a se su fic ie n te p a r a um a
b io g ra fia de J e s u s ; p o is j á a li a fig u r a h istó ric a de J e s u s e s tá to ta lm e n te
re to c a d a p e la in te rp re ta ç ã o teo ló g ica. O tip o d a s fo n te s to m a im possível es­
crev er u m a «V ida de Jesus», i. é, é im possível que se d escrev a s u a a ç ã o n a
te r r a em fo rm a de u m a b io g ra fia que se ja cien tificam en te fid ed ig n a. D essa
m an eira, a s fo n te s fecham -se à m a n e ira «m eram ente h istó rica» de p ô r a ques­
tã o . Q uerem d izer algo to ta lm e n te d ife re n te daquilo pelo q u al são p e rg u n ta d a s.

b) A lgo sem elh an te re su lto u d a te n ta tiv a de c ria r u m a im a g em histórica


da h istó ria p rim itiv a da igreja. A im agem h istó rica, su rg id a após 150 a n o s de
te n ta tiv a s , W ilh elm B o u sse t a ap resen to u , em 1913 (1967*), em su a m o n o g ra­
fia cristo ló g ica «K yrios C hristos». E le p ro c u ra esclarecer o desenvolvim ento
do c ristia n ism o de m a n e ira m e ra m e n te h is tó ric a e racional, o que sig n ifica
sem c rité rio s tra n s c e n d e n ta is com o revelação, ressu rreição , etc. A im agem de
Je su s red u z-se a um m ínim o, a tra v é s d a c rític a ra d ic a l d a tra d iç ã o : Je su s
ensinou, com o ra b in o e com o p ro fe ta , a relig ião p rim itiv a d a hum anidade.
Com o s u rg iu en tão , a p ó s s u a m o rte, a v en eração relig io sa de su a pessoa, d a
q u al o N ovo T e sta m e n to e s tá re p le to ? B o u sset esclarece (p. 1 7 ): «O m ais
im p o rta n te . . . é . . . que n a a lm a dos discípulos su rg iu a convicção inab aláv el
de que Je s u s se to m a r a , a p e s a r d a s u a m o rte e d a su a a p a re n te d e rro ta , . . . o
M essias su p e rio r ao m undo, que d ev eria v o lta r p a ra o juízo do m undo, e que
essa c e rte z a p o ssib ilito u a eles a fé n a cau sa do E v angelho, defen d id a p o r
Jesus». Como fo i possível que e ssa convicção to m asse fo rm a, depois que to d a s
a s e sp e ra n ç as se h a v ia m desped açad o com o in esp erad o «fim . . . do M estre» ?
A p esq u isa c rític a é u n ân im e em a firm a r que aq u i «se t r a t a de u m processo
m eram en te e sp iritu a l, n a s alm a s dos discípulos, e d esiste de to d o e qu alq u er
m ilag re ex terio r» (p. 1 7 ). O f a to r decisivo q ue p e rm itiu o su rg im e n to «daquela
no v a convicção», «foi a . . . im p ressão p o d ero sa e in d e stru tív e l que a p erso­
n alid a d e de Je s u s d e ix a ra n a s a lm a s dos discípulos» (p. 1 7 ). M uito im por­
ta n te foi, ao m esm o tem po, a ex istên cia, n a ap o calíp tica ju d a ic a , de u m a
concepção de M essias «que p a re c ia c o n te r a solução de to d o o enigm a inquie-
ta n te que os discípulos (h a v ia m ) experim en tado» (p. 18). O s discípulos sa l­
v a ra m as e sp e ra n ç as m essiân icas que h a v ia m ligado à pesso a de Jesu s, já
d u ra n te a s u a v ida, ao fa z e rem so b re ssa ir e ssas esp eran ças. «P u seram em seu
m e stre o m a n to re a l j á p ro n to » e « d eclararam -se p a rtid á rio s de Jesu s, o
filh o do hom em , que, a tra v é s de so frim en to e m o rte, p asso u à glória» e que,
em breve, a p a re c e ría com o ju iz do m u n d o (p. 18). C onseqüentem ente a s p a la ­
v ra s h u m a n a s do E v a n g e lh o são « d o g m ática d a com unidade» (p. 16). J á dois
decênios m ais ta rd e , a s c a rta s p a u lin a s p ressu p õ em a ex istên cia de congre­
gações n a s cid ad es h elen istas, que « teceram novos en v o ltó rio s e vestes» p a ra
Je su s (p. 77 ). A d esig n ação «filho do hom em » to rn o u -se incom preensível p a ra
elas. N os seus cultos, invocam a Je su s com o o k y rio s celeste e experim entam ,
n a C eia do Senhor, a com unhão sa c ra m e n ta l com ele. T ra n sfe rira m p a ra Je su s
o cu lto ao k y r io s do O rie n te P ró x im o . E B o u sse t esclarece (p . 9 9 ): «T ais
processos se consum am no inconsciente, n a p ro fu n d id ad e in co n tro láv el d a
psiq u e g e ra l de u m a com unidade». A re fle x ão teológica, com o P au lo a desen­
volveu, é sem p re a p e n a s secu n d ária. N a te o lo g ia de P a u lo e, m ais ta rd e , n a
de Jo ão , re fle te -se ra c io n a lm e n te a relig ião h e le n ista do C risto. E m v ista
disso, o cristia n ism o p rim itiv o , re fle tid o n o N T , é, sob o p o n to de v is ta
24 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

m era m e n te h istó rico , i. é, sob o p o n to de v is ta h istó rico -co m p arativ o d as


religiões, p o r u m lad o u m a p a r te do ju d a ísm o e, p o r o u tro lado, u m a ra m i­
ficação do sin c re tism o h elen ista.
S e rá que com isso re a lm e n te se esc la re cera o su rg im en to do cristianism o,
de m a n e ira racio n al, a p a r tir do co n te x to h istó ric o e de seus p aralelo s? E m
1924, o conhecido h is to ria d o r eclesiástico K a rl H o ll4 fo rm u lo u a seg u in te
p e rg u n ta ao s h isto ria d o re s d a re lig iã o : Se o cristian ism o su rg iu , dessa m a ­
n e ira , do ju d a ísm o e do helenism o, p o r q u e fo i ele excluído p o r am bos como
um co rp o e s tra n h o ? A im agem , esb o çad a d e m a n e ira « m eram ente h istórica»,
n ã o e s tá em d esaco rd o com u m a p ecu liarid ad e, m a s com u m fenôm eno con­
tín u o : a r u p tu r a fu n d a m e n ta l com a s tra d iç õ e s d as q u ais o cristian ism o p ro ­
vém . A m a n e ira m e ra m e n te h is tó ric a de p ô r o problem a não pode, em p rin ­
cípio, e x p lic a r e s ta ru p tu ra , p o is q u e r ev id en ciar que o su rg im en to do cris­
tia n ism o é u m desenvolvim ento co ntinuado, a p a r tir dos v alo res ex isten tes,
d a h istó ria . E la n ã o p ode fa z e r ju s tiç a à s fo n tes, como tam bém n ão o pôde
fre n te à a p re se n ta ç ã o de Je s u s ; p o rq u e e sta s fa la m e pensam de m an eira
to ta lm e n te div ersa. P o r isso, a m a n e ira m e ram en te h istó ric a de p ô r o p ro ­
blem a tra z , certam en te, u m a a b u n d â n c ia de observações isoladas, que são
elu c id a tiv a s e que se to rn a ra m p a trim ô n io com um à pesq u isa; m as ju s ta ­
m en te, n ã o a p re s e n ta u m p a n o ra m a h istó ric o que se ja com preensível.

2 ) A c a u sa desse e rro se ev idencia q u an d o analisam o s a s im agens, de­


senv o lv id as desde o séc. X V III, em re la ç ã o a su as prem issas. A í verem os,
n u m a sim ples visão esquem ática, que o N T n ão e ra ap en as an alisad o h is to ri­
cam en te, m a s tam b ém in te rp re ta d o à luz d a filo so fia d a época.

a ) P a r a a p rim e ira época, o R acio n a lism o do fin a l do séc. X V III, a p a rte


essen cial d o N T , sob o p o n to de v is ta h istó ric o e religioso, e ra o fenôm eno
Jesu s. E p a r a o R acionalism o, o Je s u s h istó rico fa la v a a resp eito de D eus,
d a v irtu d e e d a im o rtalid ad e, i. é, a re sp e ito d a relig ião racio n al do Ilum i-
nism o.

b ) N a p rim e ira m e ta d e do séc. X IX , o R acionalism o foi su b stitu íd o p o r


F erd in a n d C hristian B a u r e p ela «E scola de T übingen» que dele procedia.
B a u r ju lg a que o c ristia n ism o p rim itiv o n ã o pode se r re strin g id o ap en as a
J e s u s ; m a s te m q u e s e r com preendido, em to d a a su a extensão, a p a r tir do
co m p u to g e ra l d a h istó ria . E h is tó ria p a r a ele é a au to -ex p licação do «es­
p írito » , d a verd ad e, d a au to co n sciên cia divina, p a ra o hom em . S egundo B au r,
essa h is tó ria dirige-se, n a filo so fia d os g re g o s e n a do ju d aísm o h e len ista, em
d ire ç ã o a u m auge, u m a id é ia re lig io sa m áxim a. E é ju sta m e n te essa idéia
que se p e rso n ific a em Jesu s. E n q u a n to q u e P au lo com preende essa idéia, o
p rin cíp io d o u n iv ersalism o relig io so e d a a u to n o m ia ética, os ap ó sto lo s de
Je ru sa lé m se fix a m n a a p a rê n c ia e x te rn a de Je su s e ju lg am -n o o M essias
ju d eu . D essa m an eira, o cristia n ism o dos tem p o s p rim itiv o s segundo B au r
n ã o e ra u m a u n id a d e ideal, com o o q u e r a concepção eclesiástica tra d ic io n a l
que p a r te d os A to s dos A póstolos. M uito a n tes, como se pode ded u zir das
c a rta s p au lin as, e s ta v a dividido n a a n títe s e e x iste n te e n tre o ju d aísm o dos de
Je ru sa lé m e o liv re u n iv ersalism o de P au lo . A p en as em m eados do séc. II , essa

4. U rc h risten tu m und R eligionsgeschichte, em : Auía&tze z u r K irchengeachichte II. 1928, 1-32.


II. O desenvolvimento da posição «meramente histórica» 25

a n títe s e se dissolve n a sín te se do cato licism o ; a ex p ressão id eal d essa sín tese
é o E v a n g e lh o seg u n d o Jo ão , q u e s u rg iu n essa época. Segundo o ex p o sto .
B a u r vê o desenvolvim ento do cristia n ism o como o su rg im e n to de u m a id éia
que se consum a n a d ia lé tic a de tese, a n títe s e e síntese. E s s a im p onente visão
coerente, que p a r te de observações h istó ric a s perspicazes, e s tá evid en tem en te
in flu en ciad a p e la filo so fia de H egel.

c ) N a g e ra ç ã o seg u in te, A lb re c h t R its c h l opôs u m positivism o h istórico


a esse idealism o co n stru tiv o . S ua escola p ro c u ra conseguir u m a visão d a s «per­
so n alid ad es religiosas» do c ristia n ism o p rim itiv o , p o r m eio de u m a m inuciosa
pesq u isa h istó ric a . À f re n te de to d a s essas p esq u isas se e n c o n tra um a d escri­
ção d a im agem de Jesu s. Com o p an o d e fu n d o tem os, evidentem ente, a filo ­
so fia do neo -k an tism o .
E s s a visão do cristian ism o p rim itiv o fo i e n fa tiz a d a p o r A d o lf vo n H a m a c k ,
em 1900, em s u a s preleções a re sp e ito d a « E ssência do C ristianism o» («D as
W esen des C h riste n tu m s» ). S u as fo rm u laçõ es e x a ta s eco aram além d a p ró ­
p ria d iscip lin a teo ló g ica: «A penas o P a i deve e s ta r co n tid o no E van g elh o ,
assim como fo i p reg ad o p o r Jesu s, e n ão o F ilho». E p o r isso a firm a : «Não
devem os c re r em Jesu s, m a s c re r com o ele: C re r no am o r p a te rn o de D eus
e no v a lo r in te rm in á v e l d a a lm a h um ana». (R eim p ressão de 1950, p. 86 e
106). F o i e ste o cen tro e o p o n to de p a r tid a d a teologia liberal, b a s ta que
lhe acrescen tem o s o a m o r com o o que lev a a to d a ação ética. A exposição clás­
sica d a «T eologia do N ovo T estam en to » , d ela pro v en ien te, foi e s c rita por
H einrich Ju liu s H o ltzm a n n . S u a o b ra de dois volum es (1897) foi re e d ita d a ,
em 1911, p o r W a lte r B a u e r e A d o lf Jülicher. A in d a hoje, a le itu ra desta
o b ra tr a z novos estím ulos.

d ) E n tre m e n te s, in ic ia ra u m a n o v a época p o r v o lta de 1900. E m 1897,


s u rg iu o libelo d im inuto, p o rém eficaz, de W illia m W rede, «Ü ber A u fg ab e
u n d M ethode d e r so g e n a n n te n n e u te sta m e n tlich en T heologie» («A resp eito da
ta r e f a e do m étodo d a assim c h a m a d a te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria » ). A cusa
a pesq u isa h istó ric a n e o te s ta m e n tá ria do séc. X IX , a s escolas de B a u r e de
R itsc h l, de verem o c ristia n ism o p rim itiv o com os olhos d a filo so fia co n tem ­
p o rân ea. D e u m a vez p o r to d as, os esc rito s n e o te sta m e n tá rio s dev eríam se r
v isto s e in te rp re ta d o s de m a n e ira h is tó ric a conseqüente, isto é, a p a r tir d a
situ a ç ã o d a época em que su rg ira m . E n c o n tra m o s o sig n ificad o d essa a fir­
m ação n a fo rm u lação h e rm e n ê u tic a de E r n s t T ro eltsch : A im agem h istó ric a
do c ristia n ism o p rim itiv o te m q u e s e r co n seguida a tra v é s do prin cíp io «da
crític a , d a a n a lo g ia e d a correlação». * A conseqüência disso p a r a a expo­
sição d a te o lo g ia n e o te s ta m e n tá ria é, com o c o n tin u a W rede a e x p o r: E la
n ão m a is pode s e r desenvolvida, com o o foi desde B aur, segundo o assim
ch am ad o m éto d o do conceito d o u trin a i. O s re p re s e n ta n te s d essa co rren te
lêem os e sc rito s n e o te sta m e n tá rio s com o se fo ssem tr a ta d o s p ro v en ien tes de 5

5. E m 1898, no tra ta d o «ü b er histo risch e und dogm atische M ethode in d e r Theologie» (Ges.
S ch riften II, 1913, 729-753). A «crítica», o julg am en to m etódico d a p robabilidade do q u e ío i
transm itido, é p o ssib ilitad a p ela «analogia», atrav és de processos sem elhantes de h o je e então;
pois deve-se p re ssu p o r um a «identidade do espirito hum ano e de su a situação histórica».
Como conseqüência, su rg e «a correlação» ou «a ação recíproca de todos os fenôm enos d a exis­
tência e sp iritu a l e histórica, onde não pode h av er ocorrido um a m odificação em um ponto,
sem que h a ja havido um a m odificação a n te rio r e p o sterio r em um outro, de m an eira que todo
acontecim ento e stá em um a co nstante relação . correlativa, devendo form ar, necessariam ente,
um a co rren te n a qual tudo e to d a coisa e stá relacionada e cada acontecim ento e stá em relação
com o outro» (p. 733).
26 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

p ro fe sso re s de te o lo g ia do séc. X IX e p ro c u ra m deduzir desses escrito s o


a ssim ch am ad o «conceito d o u trin ai» , isto é, o siste m a teológico d e seu a u to r.
P o r isso, a teo lo g ia n e o te s ta m e n tá ria n ã o pode se r a p re se n ta d a com o um a
seq u ên cia de siste m a s teológicos, m a s sim , como u m a p a rte d a h is tó ria das
relig iõ es d a A n tig u id a d e p o ste rio r. Com isso, W . W rede h av ia fo rm u lad o o
p ro g ra m a d a E scola baseada na crítica h istó rico-com parativa das religiões (R e-
lig io n sg esch ich tlich e S ch u le), em relação ao N T . J á a n te s H erm a n n G unkel
h a v ia en v eredado p o r e ste cam inho com relação ao AT.
W ilh elm B o u sse t p ro c u ro u co n cretizar, em su a o b ra a n te rio rm e n te citad a,
«K yrios C hristos», esse p ro g ra m a n o c o n cern en te à cristologia. E s ta m ono­
g ra f ia g en ial te m sig n ific a d o fu n d a m e n ta l a té hoje. M enos im p o rta n te s fo ­
ra m os re su lta d o s o b tid o s n o com pêndio d e H ein rich W einel, elab o rad o nesses
m oldes e publicad o em 1911 (1928*), sob o títu lo «B iblische T heologie des
N T » («Teologia. B íb lica d o N T » ), te n d o p o r su b títu lo «Die R eligion Je su
u n d des U rc h riste n tu m s» (« A R elig ião de Je su s e do C ristian ism o P rim itiv o » ).
A p a r tir de 1904, o s «resu ltad o s» cien tífico s d a escola b a se a d a n a c rític a his­
tó ric o -c o m p a ra tiv a d a s relig iõ es fo ra m p o p u larizad o s e n tre a s p essoas in s tru í­
das, n o s «R eligionsgeschichtliche V olksbücher», ed itad o s p o r M ohr e Siebeck,
em T übingen.
T e ria sid o fin a lm e n te a lc a n ç a d a a im agem m eram en te h istó ric a do cris­
tia n ism o p rim itiv o , p ro c u ra d a p o r e ste ra m o d a pesq u isa desde o Ilum inism o?
Sim , h a v ia re a lm e n te sido alcan çad a, m as, como se evidenciou (§ 1, II , 1 a b ),
n ã o a p re s e n ta v a u m a im agem e x a ta de Je su s e do su rg im en to d a Ig re ja .
A m a n e ira m e ra m e n te h is tó ric a de p ô r a q u estão agiu, p ra tic a m e n te, como
u m filtr o que elim inou a in te n ç ã o específica dos escrito s n e o te s ta m e n tá ro s .
«M eram en te h istó rico » é, com o o p ró p rio E r n s t T ro eltsch o afirm ou, «toda
u m a co sm o v isão » .8 Ã escola b a se a d a n a c rític a h istó rico -co m p arativ a das
relig iõ es ap lica-se o que W illia m W red e h a v ia afirm a d o a resp eito d a pes­
q u is a h is tó ric a do séc. X IX . T am b ém ela v ia o N T sob os olhos de um a
filo so fia : sob os olhos do h isto ricism o . A ssim , a p esq u isa h istó ric a h a v ia
lib e rta d o , com o m u ita s vezes fo i dito, a exegese d a m etafísica, m as ta n to
m a is h a v ia caído n a depend ên cia d a filo so fia em evidência n a época. E x iste
u m a s a íd a desse dilem a que p e rm ita o b ter-se u m a visão d a re a lid a d e h istó ­
ric a ? A pós o té rm in o d a P rim e ira G u e rra M undial ocorreu u m a m u d an ça no
seio d a p esq u isa de o rie n ta ç ã o « m eram ente h istó rica» , a qu al foi m ais do que
u m a sim p les m o d ificação n a o rie n ta ç ã o d a escola.

m . A com plem entação teo lógica d a ab o rd ag em


“m e ra m e n te h istó ric o ” -filosófica

1) A m u d a n ç a n ão p a r tiu d a te o lo g ia u n iv e rsitá ria , m as d a o b ra de um indi­


víduo que n ã o p a rtic ip a v a d ela d iretam en te. P a r tiu do C o m en tário à C a rta
a o s R om anos, d a a u to ria do p a s to r suíço K a rl B a rth . Como jo v em p a s to r
h a v ia d escoberto, com se u am igo E d u a rd T h u rn eysen , que a C a rta aos
R o m an o s tin h a m a is a d izer do que h a v ia m ouvido d a p a rte de seu s m estres
lib erais. K a r l B a r th esclarece a p e rg u n ta d a q u a l p a rtira m , no prefácio à
2’ edição, 1921 (p. X s ) : U m a explicação m eram en te h istó ric a d a C a rta aos 6

6. Ges. S ch riften II, 1922*, 734.


I I I . C o m plem entação teo ló g ica d a ab o rd ag em histó rico -filo só fica 27

R om anos a in d a n ã o é u m a in te rp re ta ç ã o . N ão consegue d esv en d ar o que o


te x to re a lm e n te q u e r dizer. E m o u tro s term os, n ã o tra n s m ite com preensão.
«Digo que co m p reen d er é a a tiv id a d e que L u te ro desenvolveu com u m a cer­
te z a in tu itiv a , em su a s in te rp re ta ç õ e s ; que C alvino evid en tem en te . . . tinha.
com o alvo de su a exegese; e que, pelo m enos, fo i a sp ira d a de m a n e ira c la ra
pelos m ais recen tes, p rin c ip a lm e n te H ofm ann, J. T. B e c k .. . e S ch latter» .
P a r a que se p o ssa a lc a n ç a r esse alvo, p recisa-se u s a r d u a s re g ra s h erm e­
n ê u tic a s: A C a rta ao s R o m anos a p e n a s e s ta rá in te rp re ta d a q u an d o tiv erm o s
d eb atid o o te x to p o r ta n to tem p o «que o m uro» e x iste n te e n tre o p rim eiro
e o vigésim o séculos «se to r n a tra n s p a re n te , que P a u lo fa le lá e o hom em
(d o século X X ) ouça aqui» e que, em seg u ndo lu g a r, «o diálogo e n tre o do­
cu m en to e o le ito r se te n h a c o n c e n tr a d o .. . to ta lm e n te no o b je to (d o diálo-
go)> ft-E sq u em aticam en te tem o s o se g u in te : 1) N ã o podem os se r ap e n a s obser­
v ad o res que m a n tê m u m a d istâ n c ia h istó ric a, m a s tem o s q u e p ro c u ra r a con-
tem p o ra n e id a d e do que é d ito ! 2) N ão podem os m a n te r u m a n eu tra lid a d e ,
a p a re n te m e n te sem pressu p o sto s, m a s tem o s que nos e n g a ja r n o assu n to ! E
esse a ssu n to é: D eus é D eus e não, hom em !
E x e g e ta s d a lin h a re p re s e n ta d a p o r S c h la tte r h á m u ito h a v ia m acen tu ad o
o que K a rl B a rth a g o ra o b je ta v a c o n tra a pesq u isa m eram en te h istó ric a do
N T. N o e n ta n to , a p en as q u an d o o clam o r veio d a s p ró p ria s file ira s e quan d o
a situ a ç ã o e ra p ro p íc ia p a r a ta n to , é que tam b ém fo i evidenciado o novo
asp ecto p o r e x e g e ta s d a g e ra ç ã o m ais jo v em d a escola b a se a d a n a c rític a
h istó ric o -c o m p a rativ a d as religiões, especialm ente p o r R u d o lf B u ltm a n n . N essa
ocasião, viu-se tam b ém o p o n to em que o p rincípio h erm enêutico de B a rth
não fa z ia ju s tiç a ao N T. O prin cíp io d a con tem p o ran eid ad e ig n o ra a dis­
tâ n c ia h istó ric a . N ão faz ju s tiç a ao c a rá te r h istó ric o do N T . Com o u tra s
p ala v ra s, B a rth h a v ia re ssa lta d o n o v am en te um asp ecto d a E s c ritu ra : ela
q u e r tr a n s m itir p a la v ra d a p a r te de D eus, lo gos; m as a te n ta r a m u ito pouco
p a ra o f a to de que isso o co rre «na carne», sob fo rm a h istó rica. 2

2) B u ltm a n n procu ro u , em co n trap osição, fa z e r ju s tiç a a am bos os a s ­


p ec to s: ao asp ecto h istó ric o d a E s c ritu ra , a tra v é s de u m a m a n e ira h istórico-
ra d ic a l de p ô r o problem a, e ao seu c a rá te r de logos, a tra v é s d a in te rp re ta ç ã o
com o k e ry g m a . F o i e ste p rincípio, e n ã o K a rl B a rth , que d eterm in o u u m a
n o v a c o rre n te d a p esq u isa n e o te sta m e n tá ria , a «escola b ultm anniana». E fo i
este p rin cíp io que, a p a r tir de 1945, colocou K a rl B a rth m ais e m ais n u m
seg u n d o plano, tam b ém n a teo lo g ia em geral.
B u ltm a n n d esenvolvera su a concepção, n a d écad a de 20, n ão n u m a
g ra n d e obra, m a s em a rtig o s que fo ra m publicados, em 1933, n u m volum e
in titu la d o «G lauben u n d V ersteh en » . E le u ne tr ê s com ponentes: 1 ) E le p ro ­
vém d a lin h a «m eram en te h istó rica» d a pesquisa, d a «escola b asead a n a
c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a d a s religiões», especialm ente do ra m o d eterm i­
nad o p ela e scato lo g ia consequente. 2 ) A o m esm o tem po assum e a filo so fia
d a época com o s u a p rem issa, assim com o o h av iam fe ito seus antecessores.
A filo so fia d a época e ra a filo so fia d a ex istência, do jovem M artin H eidegger
que, assim com o K a rl B a rth , se o rie n ta v a em g ra n d e p a r te em Sôren K ie r­
keg a a rd , o qual, a seu lado, lecio n av a em M arb u rg . M as B u ltm a n n n ão se
d eix a in flu en ciar, com o se u s an te c e sso re s desde B au r, ap en as p ela cadência
d a p e sq u isa h is tó ric a e p e la in c o n stâ n c ia d a filo so fia d a época. E le so m a a
esses d o is fa to re s um te rc e iro q u e os o u tro s h av iam deixado, p ro p o sital-
28 § 1: 0 desenvolvimento da pesquisa e a problemática

m en te, de lado. Vê, sob a in flu ên cia de K a rl B a rth , que o N T n ão q u e r


tra n s m itir R eligião, i. é, relig io sid ad e h u m an a, m a s p a la v ra de D eus.
D e que m a n e ira lig a ele esses tr ê s f a to re s ? E le os in tercala, ao ex am in ar'
os te x to s n e o te sta m e n tá rio s, com o se fossem filtro s de análise.

a ) P a r te c o n sta n te m e n te de u m a análise <imeramente h istó rica » dos te x ­


tos. Com o ele o a firm a exp ressis verbis, B o u sse t teve, c o rretam en te, a v isão
g e ra l que se o rig in a d essa a n á lis e .789 P o r isso, su a «T eologia do N T», e d ita d a
em 1953 (19686), seg u e esse esquem a, em seu esboço h istó rico .

b ) N ã o b a s ta , n o e n ta n to , que se d e screv a a p e n a s fenôm enos históricos.


Pode-se, p o r exem plo, c o n s ta ta r fen o m en o lo gicam ente o seg u in te : Je su s a n u n ­
cia a v in d a im in en te do R ein o d e D e u s; e isso significa, em explicação
«m eram en te h istó ric a » , o fim im in e n te do m undo e a reco n stru ç ã o do cosmo.
Sob ta l p o n to de v ista , esse an ú n cio é um m ito apocalíptico, pois como ta l
n ão se cum priu. E n q u a n to fo re m d a d a s explicações m eram en te h istó ric a s, não
se com p reen d e o que Je s u s quis, em si, dizer com esse anúncio. P a r a que
s e ja en ten d id o , p re c is a s e r in te rp re ta d o e x isten cia lm en te. Isso não é um p o stu ­
lad o teológico, m a s é p ro p o rcio n ad o a tra v é s do p en sam en to científico, como
fo i desenvolvido p ela filo so fia d a existên cia. B u ltm a n n define em G l.u.V.I,
123: «C om preensão de u m te x to (é ) a co m preensão de su a visão d a ex istê n ­
cia h u m an a, a p a r t i r d a a b e rtu ra que o e x eg eta tem fre n te a su a p ró p ria
existên cia» . In te rp re ta ç ã o ex isten cial é, em o u tro s term o s, p e rg u n ta r: Que
concepção de en tão , a re sp e ito d a e x istê n c ia h u m an a, deduzim os desse te x to ?
I n te r p r e ta d a d e ssa m a n e ira , a ind icação so b re a v in d a im in en te do R eino, que
é n o rm a tiv a p a r a a p re g a ç ã o de Je su s, q u e r « m o stra r (a o hom em ) que sua.
situ a ç ã o a tu a l é a h o ra em que se deve d ecidir p o r Deus». *
A ssim , a in te rp re ta ç ã o e x isten cial p e rm ite que a p a re ç a o se n tid o v e rd a ­
d eiro e, ao m esm o tem po, que d esap areça, p o r s e r secundário, o que é ex ­
p re ssã o de u m a cosm ovisão m ític a do p assado. E m nosso co n tex to , dever-se-ia
d e ix a r de la d o a concepção de u m fim de m u n d o e de u m a reco n stru ç ã o cós­
m ica. Ou, em o u tro s te rm o s, com a in te rp re ta ç ã o ex isten cial o N T é «demi-
to lo g iza d o ». E s s e term o , q u e m o s tra o re v e rso d a in te rp re ta ç ã o e x isten cial,
é u sa d o p o r B u ltm a n n p e la p rim e ira vez, em 1941, em su a p a le s tra «N eues
T e s ta m e n t u n d M ythologie». * T o m o u -se c h av ão e fez com que a herm en êu ­
tic a de B u ltm a n n se to m a s s e , a p a r tir de 1945, o b jeto de u m a v a s ta c o n tro ­
v é rs ia eclesiástico -teo ló g ica que term in o u , p o r v o lta de 1954, sem que h o u ­
vesse u m esclarecim en to re a l. T em o s u m re la to a resp eito d essa co n tro v érsia,
n a s c o letân eas « K erygm a u n d M ythos» (1 948ss), e d ita d a s p o r H a n s W ern er
B a rtsc h .

c ) Q ual é o co n teú d o específico do N T que advém , p a r a B u ltm a n n ,


d essa a n á lise e d essa in te rp re ta ç ã o ? O c e n tro d a p reg ação de J e su s é, p a ra
ele, com o a c im a se evidenciou, o cham ado d e D eus à decisão. E ’ a q u i que
o te rc e iro f a t o r de se u p rin c íp io se to m a ativ o . Sob a in flu ên cia de K a rl
B a rth , ro m p e com a concepção que d e te rm in av a, a té então, a lin h a d a p es­
q u is a d a q u a l p ro v in h a , e que a firm a v a q ue o N T e ra exp ressão d a religião
h u m a n a . P a r a ele o v e rd a d e iro co nteúdo do N T n ão é, com o o e ra p a ra B aur,

7. B ultm ann, GluV. I, 1933, 256s.


8. B ultm ann, Theol, í 2,5.
9. Im presso em «K erygm a u n d Mythos», editado p o r H an s W ern e r B artsch, I, 1948, 15-58.
IV. Modificações na pesquisa proveniente de Bultmann 29

tu n a id éia re lig io sa ; m u ito m enos, com o o e ra p a r a o positivism o liberal, a


p e rso n a lid a d e re lig io sa que p ro v o ca re lig iã o ; ou, como o e ra p a ra a escola
b a s e a d a n a c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a d a s religiões, a p rim itiv a relig ião do
hom em ; m a s é o querigm a. Isso q u e r d izer que o N T tra n s m ite p a la v ra de
D eus que exig e u m a decisão de fé. E m p o rm en o res terem o s e n tã o : O p ró p rio
J e s u s é a ú ltim a p a la v ra de D eus d irig id a ao s hom ens. E os seus discípulos
p re c is a ra m c o n fe ssa r nov am en te, d ia n te d a cruz, que ele de fa to o é. F ize­
ra m -n o p o r m eio d a fé p ascal, q u e se ex p re ssa n o q u érig m a pascal. O p o n to
•de p a r tid a d a m en sag em n e o te s ta m e n tá ria e d a te o lo g ia do N T é o q u érig m a
p ascal, e n ã o o Je su s te rre n o . * E m conseqüência disso, su a teologia do N T
u sa, n a s d iv e rsa s p a rte s h istó ric a s q u e a d o to u de B o u sset, os seg u in te s te r ­
m o s: «O q u e rig m a d a com unidade p rim itiv a» ou «da com unidade h elenista»
e- «A te o lo g ia de P aulo» ou «de João» (com o ex p o en tes do q u erig m a d a
com u n id ad e h e le n ista ).
E s te esquem a estev e n o c e n tro d a discussão teológica, em m ead o s do
séc. X X , a p rin cíp io n o cam po d a lín g u a alem ã, m as depois m u ito m ais
além . Com o deve se r ju lg a d o ?
B u ltm a n n com preendeu c la ra m e n te o p ro b lem a herm enêutico, fo rm u lad o
p e la situ a ç ã o c ria d a p e la p esq u isa h istó ric a . R ealm ente, a p esq u isa d a E s ­
c r itu r a n o s coloca a n te o d ev er de a lia r a a n á lise h istó ric a e a com preensão
teo ló g ica. P a r a ta n to é n ecessário q u e se ja m coordenados os tr ê s com ponentes
que se q uerem ex clu ir m u tu a m e n te : 1®) A s p rem issas d a Id a d e M oderna,
2o) a a n á lise h istó ric a e 3®) a p ró p ria reiv in d icação do docum ento. C onse­
g u iu B u ltm a n n , de m a n e ira a p ro p ria d a , fa z e r com que esses tr ê s fa to re s se
to m a s s e m co o p e ra n te s? A nosso v er, B u ltm a n n tra n sfo rm a , d em asiadam ente,
os d o is p rim e iro s fa to re s em p re m issa s e s tá tic a s do terceiro . São a n te p o sto s
com o se fo ssem filtro s. D everíam , a nosso ver, e s ta r n u m in term in áv el d iá­
logo c rític o com o te rc e iro , com a ex ig ên cia que fa z o docum ento de se r
v isto com o revelação. D e o u tra fo rm a , am bos os lad o s se to m a r ã o inofen­
sivo s e com prom etidos.
E s s a n o ssa co n sid eração é c o n firm a d a pelo desenvolvim ento d a discussão
com B u ltm a n n . N a d iscussão h erm en êu tica, d a d écad a de 50, se evidenciou
que aqu ilo que B u ltm a n n d eduzia do N T , o querigm a, a p a la v ra de Deus,
p a ra filó so fo s com o Ja sp e rs, a in d a e ra m ito lo g ia. “ P a r a m u ito s teólogos, no
e n ta n to , o co n teú d o e ra m u ito re d u z id o : P a r a B u ltm a n n «o logos n ão se
to m a v e rd a d e iram e n te c a m e , m a s a p e n a s p alav ra» , “ u m a p a la v ra cu jo con­
te ú d o n o fu n d o a p e n a s é u m « p arad o x o sem conteúdo»; o cham ado p a r a a
decisão de fé e s tá am eaçad o de se t o m a r lei (§ 21,1). E s ta objeção se to m o u
m ais a c e n tu a d a quando, p o r v o lta de 1955, os p ró p rio s discípulos de B u ltm a n n
com eçaram a se a f a s ta r do seu p rincípio.

IV . M odificações n a p e sq u isa p ro v en ien te de B u ltm an n

A s m odificaçõ es que se d e ra m no seio d a escola b u ltm an n ian a, e, com elas,


a su a cisão, o c o rre ra m em d u a s lin h a s que te n d e m a se a f a s ta r u m a d a
o u tra e que co rresp o n d em à s objeções a p o n tad as. U n s p ro c u ra ra m d a r con­
te ú d o ao q u érig m a, o u tro s, d em itologizá-lo to ta lm e n te . A m odificação p rin - 102

10. B ultm ann, Theol, § 7,3 e n o ta p re lim in a r ao I 1.


11. K erygm a und M ythos, editado p o r H an s W ern e r B artsch, I I I (1954), 20-23.27-29.40.
12. H einrich Schlier, em: B ekenntnis z u r katholischen K irche, 1955, 181.
30 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

cip io u quan d o se a lte ro u o p o n to de p a rtid a d a teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria .


S egundo B u ltm a n n , ta n to a m en sag em q u a n to a teo lo g ia do N T provêm ,
ex clu siv am en te, do q u é rig m a p ascal. A p reg ação de Je su s n ã o fa z p a r te d a
te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria , como dizem a s p rim e ira s sen ten ças de su a «Theo-
logie des N eu en T estam en ts» . E m oposição a isso, a p a r tir de 1955, su rg iu
n o círculo de seu s d iscípulos a concepção de que o N T ex ige que se p e rg u n te
pelo Je s u s te rre n o . N o ano de 1960, B u ltm a n n to m o u p o sição fre n te a essa
concepção, n u m a p a le s tra d a A cad em ia de H eid elb erg — «D as V e rh á ltn is
d e r u rc h ristlic h e n C h ris tu s b o ts c h a ft zum h isto risch en Jesus» (S A H 1960).
E s te tr a ta d o é, ao m esm o tem po, se u te sta m e n to fre n te ao novo que vem.
N a m a n e ira de p e rg u n ta r pelo J e su s histórico é que as n o va s orientações
se delineiam . U m dos poucos que m a n tiv e ra m a concepção de B u ltm a n n é
tam b é m o ú n ic o que p ublicou u m a T eologia do N T, H a n s C onzelm ann. S u a
o b ra « G ru n d riss d e r T heologie d es N T », p u b licad a em 1967, ap ó s u m a in tro ­
dução, in icia com u m a p rim e ira p a r te p rin cip al a resp eito de «O q u érig m a
d a com unidade p rim itiv a e d a com unidade h elenista» («D as K e ry g m a d er
U rg em ein d e u n d d e r h ellen istisch en G em einde»). Os dem ais esquem as ex is­
tem , essencialm ente, n a fo rm a de a rtig o s e liv ro s a resp eito de Jesu s. O s
a rtig o s fo ra m p u blicados n o ó rg ã o d a escola, « Z eitsch rift f ü r T heologie un d
K irche» (Z T h K ).

1 ) E m a ju s te de co n ta s com seus discípulos, B ultm ann voltou-se, de


m a n e ira m a is ag u d a, c o n tra a lin h a se g u id a p o r E r n s t F u ch s e G erhard
E b elin g . E m nosso co n tex to , m encionem os dois asp ecto s que são c a ra c te ­
rístic o s deles:

a ) T om am p o r p o n to de p a r tid a o Jesu s histó rico em lu g a r do que-


rig m a p ascal. P a r a eles, a b ase de to d a a fé, segundo o N T, é a fé de Je su s
que se evid en cia em s u a a titu d e . Je s u s é te ste m u n h a d a fé. N ã o o é p o rq u e
d escrev e e exige fé, m a s porque, ao d e m o n stra r a s u a p ró p ria fé, pro v o ca
a fé em o u tro s. A p á sc o a n ão a c re sc e n ta n a d a de novo a isso. «A fé que
su rg e a p ó s a páscoa, n ã o é n a d a m a is do que ‘a com preensão c o rre ta do J e su s p ré -
p a sc a l’» .13 E le co n tin u a a e x is tir com o ev en to d a p a la v ra . E s te novo p o n to
d e p a r tid a ap areceu , de m a n e ira ce n tra l, no s dois a rtig o s a re sp e ito d e
« Jesu s e (a ) fé» (« Je su s u n d [d e r] G laube»), que G. E b elin g e E . F uchs
p u b lic a ra m em co n ju n to , n a Z T hK 55 (1958). A s afirm açõ es d a s p. 102 e
105 são de u m a c a ra c te rís tic a to d a especial. Com um certo a m a rg o r, B u lt­
m a n n acu sa-o s de h a v e re m recaído, p a rc ialm en te, n a p ersp ectiv a h istó rico -
psico ló g ica do liberalism o.

b ) O que E r n s t F u ch s diz a re sp e ito d a relev ân cia d a fé pascal, leva-o,


em o u tro a rtig o , à se g u in te dedução n e g a tiv a : «Não s e ria m ais c o rre to
d em ito lo g izar tam b ém a assim c h a m a d a ‘fé p ascal’? O u com o se p o d eria
d istin g u ir a q u ela fé p ascal, p o r exem plo, d a fé no p e rd ã o dos pecados evi­
d e n c ia d a .. . n a p a rá b o la do filh o p e rd id o ? » 14 D essa m an eira, a dem itologi-
zação é e ste n d id a ao q u é rig m a pascal.

2 ) E s s a s d u a s te n d ê n c ia s fo ra m desenvolvidas, d e m a n e ira m u ito m ais,


ra d ic a l, p o r H e rb e rt B raun.
13. H einz Z ahrnt, D ie Sache m it G ott, 1966, 341, a resp eito de E beling.
14. D as N eue T estam ent und das herm eneutische Problem , Z ThK 58 (1961), 305.
IV. Modificações na pesquisa proveniente de Bultmann 31

a ) E le inclu i o p ró p rio D eus n a dem itologização, en q u an to que B u ltm a n n


a in d a o d e ix a ra in ta n g ív e l com o bloco e rrá tico . N um a rtig o a re sp e ito de
«A p ro b le m á tic a de u m a teologia do N ovo T estam en to » («D ie P ro b le m a tik
ein er T heologie des N eu en T e s ta m e n ts » ),1516 a an álise h istó ric a do N T é le­
v ad a, no se n tid o de B o u sse t, à a firm a ç ão e x tre m a : A c risto lo g ia do N T é
um in te iro d isp a ra te . A ú n ic a c o n sta n te q u e e x iste n e la é a an tro p o lo g ia-
C o n sta n te é a p e n a s a au to co m p reen são dos crentes. Sabem -se d eterm in ad o s
p o r um «eu posso» e «eu devo» incondicional, p o r u m « e sta r ob rig ad o e p o r
(u m ) dever». O e s ta r o b rig ad o e o dever, no e n ta n to , n ã o provêm de um
além , m a s do «próxim o». C onseq ü en tem en te «Deus» é o m o tiv o «do m eu
e s ta r ab rig a d o e do m eu e s ta r com p ro m etido a p a r tir do próxim o». D eus
e s tá lá onde sou e n g a ja d o no sen tid o do «eu posso» e «eu devo» incondi-
'c io n a l (p. 18, cf. p. 15 ). D esse m odo o p ró p rio D eus é incluído n a dem ito­
logização, e a teo lo g ia n e o te s ta m e n tá ria é re d u zid a à an tro p o lo g ia, en q u an to
que p á r a B u ltm a n n a in d a e ra u m a a n tro p o lo g ia q u erig m ática.

b ) B ra u n p ro c u ra a p re s e n ta r a c o n sta n te que en co n tro u n o N T , como


sendo o co n teú d o ú n ico e essencial d a p re g a ção de Jesu s. E n c o n tra m o s essa
te se em seu liv ro so b re Jesu s, esc rito d e m a n e ira acessível a to d o s e
publicad o em 1969. O anún cio do rein o v in d ouro n ã o é m ais in te rp re ta d o de
m a n e ira e x iste n c ia l; é c a ra c te riz a d o com o u m a concepção, to m a d a d a ap o ca­
líp tica, lig a d a a u m a d e te rm in a d a época. Is to é, ele é n o v am en te objetiv ad o
e elim inado, com o no h isto rism o . P ró p ria s de Je su s e, p o r isso, p e rm a n e n te s
são a p e n a s su a s o rien taçõ es é tic a s em conexão com s u a dedicação aos
«sem classe». E m am bos, n o e n ta n to , n ã o ag e com o o que tr a z revelação,
m as com o hom em e n tre hom ens, com o «o m édico» de quem «os doentes
precisam ». D eus é a p e n a s u m a c ifra p a r a esse aco n tecim en to piedoso, a tra v é s
do qu al o hom em se to m a re a lm e n te hom em . «O que fizestes a um desses
m eus p equeninos irm ãos, a m im o fizestes!»
E sse liv ro segue o cam inho do h isto rism o a té su a s ú ltim a s conseqüências.
N ele a te o lo g ia n e o te s ta m e n tá ria se dissolve. Os discípulos de B ra u n co n ti­
n u am com u m a teo lo g ia p o lític a d a h u m an idade. M as su a o b ra perm anece
u m p ro te sto , que n ã o d ev eria s e r esquecido p o r ninguém , c o n tra to d a a
m a n e ira b a r a ta de f a la r a re sp e ito de «Deus», «R essurreição» e «Filho de
Deus».

3) Em d ireção o posta, E r n s t K à sem a n n desenvolveu o p rin cíp io de


B u ltm an n .

a ) A tra v é s de s u a p a le s tra b a s ta n te c ita d a — «D as P ro b lem des h isto ri-


sch en Jesu s» («O p ro b lem a do J e s u s h istó ric o » ), Z T hK 51 (1 9 5 4 )15 — ele
no v am en te d e se n c a d e ara a p e rg u n ta pelo Je su s h istórico. A in ten ção que
ele lig a a e ssa p ro c u ra pelo Je s u s h istó rico , fic a evidenciada n o a rtig o
«S ackgassen im S tre it u m den h isto risc h e n Jesus» («B ecos sem sa íd a n a
discussão em to m o do J e s u s h is tó ric o » ),17 onde tam b ém se d e lim ita fre n te
a o u tra s concepções: A p e rg u n ta p e la s p a la v ra s do Je su s h istó ric o é ex igida
pelo N T e p ra tic a d a n o s E v an g elh o s, p o is essas p a la v ra s sã o a b ase e o

15. Em ZThK 58 (1961), caderno com plem entar 2,3-18.


16. A gora em E xeg. Vers. I, 1960, 187-214.
17. Idem II, 1964, 31-68.
32 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

c rité rio do qu érig m a. Sem elas, o C risto p reg ad o se d isso lv ería «na p ro jeção
d e u m a au to co m p reen são escatológica» e se to rn a ria «objeto de u m a ideo­
lo g ia relig io sa» (p. 6 7 ). P o r isso, a h is tó ria de Jesu s te m relev ân cia teoló­
g ic a ; é a b ase e o c rité rio do qu érig m a. S eguindo e s ta in tenção, sem te r
con tu d o a m esm a acen tu ação , G ü n th er B o rn k a m m escreveu seu conhecido
liv ro « Jesu s v o n N a z a re th » (« Je su s de N a z a ré » ).

b ) S egundo K à sem a n n , p a rtin d o -se desse princípio, o q u érig m a é p reen ­


chido com co nteúdo pessoal, sem que s e ja reduzido ao Je su s te rre n o . P a r a
ele v a le : O C ru cificad o r e i n a .13 F é é, p o rta n to , obediência a serviço do
dom ínio de C risto ; a tra v é s dela, o dom ínio deve se im por no m undo. IC o r
15,23-28: «Convém que ele re in e a té que h a ja p o sto to d o s os inim igos
d eb aix o dos seu s pés», p a ssa a ser, p a r a ele, a ex p ressão c e n tra l do q u érig ­
m a ; p a r a B u ltm a n n , isso e ra especulação apo calíp tica. ” C onseqüentem ente,
a a p o c a líp tic a n ã o é sim plesm ente, com o o p ressu p u n h am B o u sset e B u ltm a n n ,
u m m eio q u a lq u e r de ex p ressão m ítica, m a s um elem ento e s tru tu ra l d a
te o lo g ia c ris tã p rim itiv a . «A a p o c a líp tic a f o i . . . a m ãe de to d a a teo lo g ia
c r is tã » .” K à se m a n n desenvolve esse pen sam ento, prin cip alm en te, no a rtig o
«Zum T h e m a d e r u rc h ristlic h e n A p o k aly p tik » («A resp eito do te m a d a
a p o c a líp tic a c ris tã p rim itiv a » ). “

c ) C onseqüentem ente, a in te rp re ta ç ã o ex isten cial é p o sta com pletam ente


de la d o n a s co n sid eraçõ es in iciais d essa p a le stra , en q u an to que a relev ân cia
d a h is tó ria é a ce n tu a d a. «A p re te n s a o b rig ação de sem pre te rm o s de to m a r
u m a posição, ao invés de p rim eiro o u v ir e e s p e ra r pelo que nos é dado ou
tir a d o p o r e stra n h o s, é, n a m a io ria d a s vezes, a m o rte d a com preensão, a
re p re ssã o d a p e rg u n ta le g ítim a, a chance p e rd id a de a p re n d e r a crescer».
A h is tó ria , em p rim e iro lu g a r, deve s e r v is ta com o algo e stra n h o e diferen te,
m a s que, m esm o assim , n o s diz resp eito . C aso co n trário , «a in te rp re ta çã o »
n ã o serv e «m ais à h is tó ria que deve s e r esclarecida», m as tra n s fo rm a -a «em
p e d re ira de su a s co nstruções, f e ita s com teim o sia p a r a co n tem porâneos sem
te to » . ”
E s s a s m odificaçõ es d a escola de B u ltm a n n fo ra m su b stitu íd a s, a p a r tir
de 1970, p o r u m a n o v a época, a in d a que n ão poucos continuem a defendê-las.

V. P e rs p e c tiv a s : N ovos inícios

E n tr e 1967 e 1970, a concepção de B u ltm a n n , tam b ém em su as m odificações,


p erd e u s u a rele v â n c ia h is tó ric a e teo ló g ica n a pesquisa. " a P o r o u tro lado,
su a a n á lise h is tó ric a do N T fo i su p e ra d a p a u la tin a m e n te , sob o p o n to de
v is ta m etodológico e h istó ric o -c o m p a rativ o d as religiões, de ta l m a n e ira que
a sitü a ç ã o se m odificou em se u to d o . P rin c ip a lm e n te a concepção ex isten cial 18920

18. D ie H eilsb ed eu tu n g des T odes J e s u bei P aulus, em : P aulinische P erspektiven, 1969.


lO lss: «Som ente o crucificado ressuscitou, e o dom ínio do ressuscitado vai, em nossos dias,
a té o ponto em que se serve ao crucificado» (p. 103).
19. E xeg. Vers. II, 127s.l92s.
20. Z ThK 57 (1960); cf. idem 58 (1961), 378.
21. E xeg. Vers. II, 105-131. A pocalíptica é p a ra K àsem ann a escatologia fu tu ra, segundo a
q u a l o dom ínio de C risto se im põe n a histó ria. Cf. Goppelt, Christologie, 241.
22. Id em II, 105s, n o ta 2.
22a. E ssa concepção con tin u a a se r defen d id a e. o. p o r H ans Conzelmann, G ünther K lein
(cf. «Das A rgernis des Kreuzes», em : S tre it um Je su s. ed. F. Lorenz, 1969, 61-71), W alter
Schm ithals e G eorg Strecker, com m odificações em m uitas questões isoladas.
V. Perspectivas: Novos indícios 33

d a h istó ria , a b a se h e rm e n ê u tic a a p a r tir d a q u al tu d o e r a in te rp re ta d o e


exposto, fo i su b s titu íd a p e la p ercep ção e p e la com preensão d e re a lid a d e que,
n o s ú ltim o s anos, se to m o u cosm ovisão com um a todos. V ê-se q u e o hom em
n ã o pode d esco b rir o se u v e rd a d e iro sig n ificado, re tira n d o -se sim p lesm en te
d a h is tó ria p a r a se a te r ao sig n ificad o h istó ric o de s u a existên cia, n a re la ­
ção in d iv id u a lista de u m E u -T u . O hom em e stá p o r dem ais d eterm inado,
su p ra-in d iv id u alm en te, p e la h is tó ria e te m q ue se resp o n sab ilizar p e la h istó ­
r ia p resen te, em rela ç ã o ao fu tu ro . C om o decisivas n a h istó ria , ap arecem
a g o ra a s e s tru tu ra s su p ra-in d iv id u ais, sociais, que p recisam s e r an a lisa d a s
sociolo g icam en te e desen v o lv id as p o liticam en te. B u ltm a n n , no e n ta n to , dedu­
z ira a p e n a s u m a é tic a d e d ecisão in d iv id u al e p essoal do N T , m a s n en h u m a
ind icação p a r a u m a é tic a so cial e n e n h u m a escato lo g ia fu tu ra . H avia, p o r
' exem plo, d ito : «E la ( a ig re ja ) p re c isa p r e g a r a p a la v ra de D eus, m as n ã o
e x p re ssa r opiniões p o lític a s » .53 S egundo o filósofo n e o m a rx ista E r n s t Bloch,
que p rovocou de m a n e ira decisiv a a fo rm a ç ã o d a n o v a consciência, essa. con­
cepção é f a lh a ta n to f r e n te a o N ovo T e sta m e n to q u a n to fre n te à re a lid a d e :
« E ’ o cálam o p riv a d o desse resp ectiv am en te-m eu (H eid eg g er) e de seu ser-
so licitad o p o r in te rm é d io d a B íblia, m e ra m en te in d iv id u alista, segundo se
d i z . . . , q u e r e s ta a o s c ris tã o s em liquidação, com o u m a p a la v ra desse gênero.
C orpo ral, social, cósm ico, tu d o isso lh es é ‘m u n d an o ’, a té m undano-religioso,
(e ) n ã o p re c isa s e r o b tid o p a r a a alm a». «O b u ltm a n n ia n o n ã o e lim in a
to ta lm e n te , n o e n ta n to , esse (elem en to ) escatológico, m esm o sendo, em to d o s
o s casos, u m m ito ; o q u e acontece, n o e n ta n to , é que ele o re in tro d u z a
p a r tir do espaço explosivo, histórico-cósm ico, e ( a p a r tir ) do C risto o qu al
e stá, a lta m e n te explosivo, en v o lto nele; m a s ao m esm o tem po, tam b ém (o
re in tro d u z ) n a a lm a s o litá ria e em seu deus burguês». “ a
Sob a im p ressão d e ssa m o d ificação fu n d a m e n ta l d a s pressuposições h is­
tó ric a s e h erm en êu ticas, e x e g e ta s p ro v en ien tes d a escola b u ltm a n n ia n a de­
sen v o lv eram d u a s n o v a s concepções.

1) U m a fo i a p re s e n ta d a p o r H e lm u t K ò s te r e J a m es M . R obinson, que
h a v ia m defendido d ecid id am en te a concepção de B u ltm a n n , n o s E sta d o s
U nidos, em 1971, n o liv ro « E n tw ick lu n g slin ien d u rch die W elt des frü h e n
C h risten tu m s» (cf. esp ecialm en te a s p. 8-16, 251-261). A m bos deduzem d a
m o dificação d as pressu p o siçõ es a se g u in te consequência em sen tid o h istó rico :
O alv o ú n ico d a ciência n e o te s ta m e n tá ria te m q u e s e r a consecução de u m a
n o v a im agem h istó ric a do c ristia n ism o p rim itiv o , com o auxílio de to d o s os
m eios h istó ric o s h o je ex iste n te s. O N T p re c isa se r estu d ad o , exclusivam ente,
com o u m a c o letân ea de fo n te s h istó ric a s, com o fim de conseguir essa im a­
gem . N ão se p ode to m a r em c o n ta s u a can onicidade ou s u a relev ân cia ecle­
siá stic a especial. E s s e p ro g ra m a v o lta , em princípio, à «E scola b asead a n a
c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a d a s religiões» e p ro c u ra m e lh o ra r a im agem h is­
tó ric a do c ristian ism o q u e B u ltm a n n a d o ta ra dela, sem m aio res senões. Sem
d úvid a, isso é n ecessário. N o e n ta n to , esse p ro g ra m a n ã o põe d e lad o ap en as 23*

23. GluV. m . 195.


23a. A theism us im C hristentum , 1970, 45s. No orig in al: «Es 1st d e r p riv ate S trohhalm dieses
Je-m einigen (H eidegger) u n d seines biblischen A ngesprochenseins, angeblich eines re in indi-
v id u a listisc h e n ..., w as den R estch risten ein W o rt dieser A rt tlb rig bleibt. Leiblich, sozial,
kosm isch, das ailes fâ llt ihnen als ‘w eltlich’, auch als w eltreligios aus, b ra u c h t d e r Seele n icht
b eso rg t zu werden». «Das B ultm annsche m erzt freilich dies Eschatologische, ob es auch ein
M ythos durchaus ist, n ich t gânzlich aus, n u r e r holt es aus dem historisch-kosm ischen Spreng-
rau m und dem C hristus, d e r so hoch explostv d a rin eingelassen ist, gleichfalls in d ie einsam e
Seele u n d ih ren B iirg erg o tt zurück».
34 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

a m issão sem p re a tu a l d a in te rp re ta ç ã o que deve le v a r a u m a com preensão,


m a s tam b ém a h is tó ria d a in flu ên cia d os escrito s n e o te sta m e n tá rio s que se
to m o u especialm en te im p o rta n te a tra v é s d a com preensão a tu a l de h istó ria.
P o is a h is tó ria d a in flu ên cia dos escrito s n e o te sta m e n tá rio s é d ife re n te d a
o u tr a lite r a tu r a c ris tã a n tig a . E sse p ro g ra m a coloca o N T de ta l m an e ira
n a h istó ria , que o seu sig n ificad o p a r a a h is tó ria lh e é tira d o , em g ra n d e
p a rte , a tra v é s de um conceito te ó ric o an tecipado.

2) A in te n ç ã o o p o sta é d e fe n d id a p o r P e te r Stu h lm a ch er, o q u al provém


d a m o d ificação d a escola b u ltm a n n ia n a , re p re se n ta d a p o r E r n s t K à sem ann.
E x p õ e s u a in ten ção no a rtig o «N eues T e sta m e n t u n d H erm en eu tik — V ersuch
e in e r B estan d sau fn ah m e» (Z T h K 68, [19 71], 121-161): A pós o desvaneci-
m en to d a com preensão e x isten cial d a h istó ria , é n ecessário que se estude o
N ovo T e sta m e n to a p a r tir de u m a n o v a co m preensão de h istó ria e com v is ta s
a u m a ta l, a fim de que se to m e possível u m a contrib u ição d a teo lo g ia
c ris tã à p re se n te p ercep ção d a h is tó ria e um p lan e ja m e n to p a ra o fu tu ro .
P a r a ta n to é n ecessário que se rev ise o m étodo que a té a g o ra foi, essencial­
m en te, to m ad o d a escola b a se a d a n a c rític a h istó rico -co m p arativ a d as re li­
giões, q u e se em preguem a s relaçõ es do N T e A T, no sen tid o de u m a teo lo g ia
bíblica, e que se co n fro n te o N T com a h is tó ria d a su a influência, p rin c ip a l­
m e n te o se u u so n a tra d iç ã o eclesiástica.
E n q u a n to que o p rim eiro p ro g ra m a v o lta à o rien tação « m eram ente h is­
tó rica» , o segundo d á u m p asso além , que é decisivo e que se a p ro x im a de
u m a o u tra lin h a d a p e sq u isa n e o te s ta m e n tá ria , a «histórico-salvífica». Ao
lad o d a o rie n ta ç ã o «m eram en te h istó rica» d a pesq u isa n e o te sta m e n tá ria, a n a ­
lisa d a a té aqui, h á d u a s o u tra s lin h a s d essa pesquisa, desde os tem p o s do
su rg im e n to d a p e sq u isa h is tó ric a do N T.

V I. A o rie n ta ç ã o h istó rico -p o sitiv a

E s s a lin h a d a p esq u isa s u rg iu de m odo q u ase n ecessariam en te dialético, como


a n títe s e à « m eram ente h istó ric a » , que h a v ia feito d a «crítica» à h isto rici-
d ad e d as tra d iç õ e s n e o te s ta m e n tá ria s um dos seu s princípios. P ro c u ra v e r
a s tra d iç õ e s de m a n e ira «positiva» e g a ra n tir, a tra v é s de ap o lo g ética his­
tó ric a , as b ases de u m a teo lo g ia, em m u ito s aspectos « p ietista», o rie n ta d a
n a v isão bíb lica de Jesu s.

1) U m dos p recu rso res, b a s ta n te lim itado, d essa lin h a fo i o S u p ran a-


tu ra lism o , p o r v o lta de 1800, que defendia, p o r exem plo, os m ila g re s de
J e s u s f re n te ao R acionalism o. O p o n to de p a r tid a re a l d essa lin h a é a in te r­
p re ta ç ã o d a E s c ritu ra , su rg id a do d esp erta m en to pré-coníessional. E n tr e 1820
e 1860, A u g u s t N eander, em B erlim , e A u g u s t T ho lu ck, em H alle, opuseram
à c rític a h istó ric a do R acio n alism o e d a E sc o la de T ü bingen u m a exegese
h istó ric o -p o sitiv a e, ao m esm o tem po, p ie tista -e d ific a n te do N T , d a qual
re s u lta ra m visões co rresp o n d en tes a resp eito de Je su s bem com o a resp eito
d a h is tó ria d a e ra apostó lica. 2

2) N a se g u n d a m etad e do séc. X IX , B e rn h a rd W eiss, em B erlim , e W illibald


B eysch la g , em H alle, u n ira m u m a teo lo g ia co n serv ad o ra de m ediação com
u m a p e sq u isa h is tó ric a m o d erad a, que se denom inou de «positiva m od ern a ».
VI. A orientação histórico-positiva 35

V oltav am -se c o n tra os ú ltim o s re p re s e n ta n te s d a E sc o la d e T ü b in g en e a


exegese lib e ra l q u e com eçava a s u rg ir. A m bos p u b licaram teologias neotes-
ta m e n tá ria s q u e se to m a r a m com pêndios b a s ta n te apreciad o s, p o r serem
co n ciliató rias. E sp e c ia lm e n te o « L ehrbuch d e r B iblischen T heologie d es N T»
de B . W eiss su rg iu em su cessiv as edições, a p a r tir de 1868, a té s e r su b sti­
tuído , em 1906, p ela «T beologie d es N T » de P a u l Feine, que segue a m esm a
o rien ta ç ã o . E s ta o b ra d id á tic a , sem colorido algum , alcan ço u o ito edições
a té o a n o de 1951. A teologia n e o te s ta m e n tá ria de F riedrich B üchsel, p u b li­
c a d a em 1935, é u m pouco m a is p e rfila d a , m a s essencialm ente d o m esm o
teo r.
E sse s com pêndios a p re se n ta m a te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria com o se fo sse
u m a h is tó ria d a te o lo g ia do séc. X IX , ou seja, com o u m a seq ü ên cia d e
«conceitos d o u trin ais» , i. é, de siste m a s teológicos. F ein e expõe, p o r exem plo,
sucessiv am en te, «A d o u trin a de Jesu s» , «As concepções teo ló g icas d a com u­
n id a d e p rim itiv a » , «A d o u trin a de P au lo » , «A d o u trin a do E v an g elh o de
João » , etc. U m a ú ltim a p a r te a b ran g e, de m a n e ira siste m á tic a , «Os p en sa­
m en to s p rin c ip a is d a te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria» . B ern h a rd W eiss desenvolveu
esse c o rte tra n s v e rs a l, sistem ático , em u m a o b ra à p a rte , p u b licada, em 19083,
sob o títu lo «Die R elig io n des N T».

3) E s s e esquem a de B e rn h a rd W e iss é c ita d o com o p o n to d e p a rtid a , no


§ 9, do liv ro «Die T heologie des N T » de E th e lb e rt S ta u ffe r (1941). Como
a o b ra de B e rn h a rd W eiss, S ta u fíe r n ã o e s tr u tu r a a teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria
em seq ü ên cia h istó ric a , segundo g ru p o s de escritos, m a s de m a n e ira siste m á ­
tica, seg u in d o te m a s teológicos. E x p õ e a teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria , em d is­
posição te m á tic a , com o «teo lo g ia c risto c ê n tric a d a h istó ria» (« ch risto z e n trisc h e
G esch ich tsth eo lo g ie» ), E s te m éto d o te v e g ra n d e rep ercu ssão , p rin cip alm en te
e n tre os círcu lo s conserv ad o res. E n q u a n to que a c rític a h is tó ric a se p a ra v a
Je su s e P au lo , bem com o P au lo , L u c a s e M ateus, p a re c ia que a q u i a u n id ad e
te m á tic a do N T e ra d o cu m e n ta d a de m a n e ira palpável. E m seu liv ro a
re sp e ito de J e s u s ,M publicad o em 1957, o p ró p rio S ta u ffe r m odificou to ta l­
m e n te se u p e n sa m e n to e a p o n to u p a r a u m c o n tra s te ra d ical, e x iste n te e n tre
J e su s e P a u lo . T am b ém a u n id ad e que a p re se n ta v a em su a teologia neo­
te s ta m e n tá ria n ã o co rresp o n d ia à v e rd a d e ira u n id ad e do N T . A s afirm açõ es
n e o te s ta m e n tá ria s tê m to d a s elas c a rá te r q u erig m ático e n ã o podem , p o r isso,
se r s e p a ra d a s d a situ a ç ã o p e la q u al e stã o condicionadas. A ação de Je su s
e s tá co n d icio n ad a p e la situ a ç ã o de seus d ia s te rre n o s, a n te rio re s à p ásco a;
p reg ação e d o u trin a a p ó s a p á sc o a tê m q ue se r, em Isra e l, d ife re n te s d a
p reg ação e n tre os p ag ão s, tê m q u e d ife rir d a p rim e ira p a r a a se g u n d a ge­
ração . P o r isso só s e pode ex p o r a te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria , o b jetiv am en te,
em tra ç a d o lo n g itu d in al.
T am bém a o u tr a c a ra c te rís tic a d a te o lo g ia d e S ta u ffe r é b a s ta n te ques­
tio n áv el. V a i além de B ern h a rd W eiss, assu m e a m a n e ira d e colocar a
q u estã o d a escola h istó ric o -c o m p a ra tiv a d a s religiões e c a ra c te riz a a teo lo g ia
n e o te s ta m e n tá ria com o co n tin u a ç ã o h istó ric a d a ap o c a líp tic a Ju d a ic a . E ssa
te n ta tiv a de in se rir a te o lo g ia n e o te s ta m e n tá ria no m u n d o d a s concepções
d a a p o c a líp tic a fo i desig n ad a, com u m a c e rta razão , p e la escola bu ltm an -
n ia n a , de «m itologização con seq ü en te do N T». 24

24 Die B otschaft J e s u dam als u n d heute, 1959, 77.133.


36 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

4) N u m a to m a d a de posição fre n te ao desenvolvim ento d essa o rien tação


d a pesquisa, n a d écad a de cin q u en ta, E r n s t K âsem ann o b serv o u * que h av ia
ocorrid o p ra tic a m e n te u m a in v ersão d as lin h as de ataq u e. A lin h a rep resen ­
ta d a p rin cip alm en te p o r Joa ch im Jerem ia s p en saria, em nossos dias, de m a n e ira
p re p o n d e ra n tem e n te h istó ric a , e n q u an to que a lin h a o u tro ra m eram en te h is­
tó ric a e sta ria , em nossos dias, e n g a ja d a teologicam ente. N e sta c o n sta ta ç ã o
e s tá c o rre to que a o rie n ta ç ã o h istó ric o -p o sitiv a im pulsionou as questões h is­
tó ric a s e, especialm ente, h istó ric o -c o m p a rativ as d a religião, m ais do que B ult-
m a n n e s u a escola, n u m a a n títe s e b a s ta n te am p la à g ra n d e on d a de c rític a
su rg id a n a E sc o la q u e se b a se ia n a c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a d a s religiões.
A E sc o la b u ltm a n n ia n a c o n te n ta ra -s e em u s a r o m a te ria l elab o rad o pela
E sc o la b a se a d a n a c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a das religiões, concen tran d o -
se, n o m ais, n a c rític a in te rn a d a s fo n te s n e o te sta m e n tá ria s e, especialm ente,
n a in te rp re ta ç ã o teológica. N o e n ta n to , a a firm a ç ão de que te n h a h avido um a
in v ersão n ã o d eix a su ficien tem en te claro que um in teresse em inentem ente
teo ló g ico e s tá p o r t r á s d a p e sq u isa h is tó ric a in ten siv a, que p ro c u ra ir a v a n te
com m eios p ró p rio s e n a q ual p rin cip alm en te o discípulo de Jerem ias, C arsten
Colpe, fe z d esco b ertas fu n d a m e n ta is. E s ta pesq u isa n ão e stá a p e n a s a serviço
d a v e rd a d e h istó ric a , m a s q u e r c o m b a te r a vo latização do cética d a en carnação.
P o r isso p ro c u ra d e m o n stra r, especialm ente, a a u te n tic id a d e h istó ric a e a
sin g u la rid a d e h istó rico -relig io sa d a s tra d iç õ e s a resp eito de Jesu s. N o livro
«D er h isto risc h e Je su s u n d d e r k e ry g m a tisc h e C hristus» (ed. p o r H . R isto w
e K . M a tth ia e , 19622), Je re m ia s esboça o p ro g ra m a teológico que e s tá p o r
tr á s de su a s m o n o g rafias, re s p e ita d a s in tem acio n alm en te, e diz: «Tem os
qu e tr ilh a r sem p re de novo esse cam inho que lev a ao Je su s h istó rico e à su a
p reg ação . A s fo n te s o e x ig e m .. . A en carn ação o engloba» (p. 19).
E m conseqüência disso, a p rim e ira p a rte de su a «T eologia N eo testa-
m e n tá ria » , «D ie V erk iin d ig u n g Jesu » («A p reg ação de Je su s» ), inicia com a
d e m o n stra ç ã o h istó ric a , e x a ta , de que m u ito m ais p a la v ra s d a tra d iç ã o a
re sp e ito d e Je s u s sã o h istó ric a s do que o ad m ite a pesquisa p ro v en ien te de
B u ltm a n n (p. 13-45). E s s a p re g a ç ã o de Je su s é en tão in te rp re ta d a a p a r tir
do c o n tex to ju d aico , seg u n d o o p rin cíp io d a an alo g ia, e a ação de Je su s é
in te rp re ta d a com o sendo ex p ressão d a escato lo g ia que se e stá realizan d o (§
6.1.5).
D essa m a n e ira , a p a la v ra de Je s u s deve v ir ao nosso en co n tro com o ch a­
m ad o c la ro à fé. N o e n ta n to , e ssa concepção d á m u ito pouca a ten ção p a ra
o f a to de q u e a e n c a rn a çã o tam b ém sig n ific a : O logos e stá abscôndito. Os
fen ô m en o s h istó ric o s com o ta is sã o am bíguos. Q uem Je su s é, só o reconhece
quem se tra n s fo rm a r, ao e n c o n tra r-se com ele, quem de um cego se tr a n s ­
fo rm a r e m u m que vê, p a r a u s a r u m a fig u ra de Jo 9. Quem Je su s é não
pode s e r d escrito , p o rta n to , de m a n e ira h istó ric a co n statáv el, m a s so m en te
pode s e r rep ro d u zid o de m a n e ira in te r p r e ta tiv e com o querigm a. P o r isso as
p a la v ra s d e Je s u s n ã o fo ra m tra n s m itid a s como d ito s de rabinos, como ipsissim a
v o x ; elas fo ra m tra n s m itid a s , n o N T , em conexão com o todo de s u a a tiv i­
dade, a p a r tir d a páscoa.

5) U m a o u tr a p ossibilidade d essa lin h a re p re se n ta «Die T heologie des


N T n a c h seinen H a u p tz e u g e n Jesu s, P au lu s, Jo h annes» (S ín tese T eológica do
N T , E d ito r a S in o d al 1974) que W ern er G eorg K ü m m e l publicou, em 1969,25

25. E xeg. Vers. II, 32-41.


VII. Orientação «histórico-salvífica» da pesquisa da Escritura 37

(19722), em um volum e co m p lem en tar do N T D , com o u m a exposição aces­


sív el a todos. A tra v é s de exegese resp o n sável e m o d erad am en te crítica, ele
p ro c u ra d e s ta c a r o conteúdo d a s a firm a ç õ es e, em g ra n d e p a rte , d a in te rp re ­
tação . E m su a s conclusões p a rtic u la re s ap ro x im a-se m u ita s vezes d e C ullm ann,
sem e sta r, no e n ta n to , de acordo com a s u a ten d ê n c ia em relação a uma.
v isão global.
N a c ita d a discu ssão com Jerem ias, K â sem a n n cita, como p ro tó tip o d essa
o rien ta ç ã o d a pesquisa, A d o lf S c h la tte r e ad m ira-se de que ele n ão continue
a re p e rc u tir n esse g ru p o . E s s a a d m iração é desnecessária, pois S c h la tte r fa z
p a rte de u m a o u tra , u m a te rc e ira lin h a d a pesquisa.

V II. A o rie n ta ç ã o “h istó rico -salv ífica”


d a p esq u isa h is tó ric a d a E s c ritu ra

1) E s s a d esig n ação é su g e rid a pelo in ic ia d o r d essa o rien tação , o q u al re p re ­


se n ta ao m esm o tem p o s u a p rim e ira e ta p a . T ra ta -se do g en ial e x e g e ta de
E rla n g e n , Joh a n n C hristian K o n ra d von H o fm a n n , um con tem p o rân eo de
F erd in a n d C h ristia n B aur. E le en co n tro u , a tra v é s do d esp ertam en to p ie tista ,
o cam inho p a r a u m a teo lo g ia re fo rm a tó ria e to rn o u -se u m dos co fundadores
d a c h a m a d a te o lo g ia de E rla n g e n . P ro c u ra u m a sín te se do p en sam en to d a
Id a d e M oderna, d a p esq u isa h is tó ric a e d a com preensão teológica, em ordem
in v ersa à de B u ltm a n n . P ro c u ra in tro d u z ir, no prin cíp io herm en êu tico d a
R eform a, o p en sam en to h istó ric o d a Id a d e M oderna e, d essa m an eira, ta m ­
bém n a te o lo g ia bíblica, «um a n o v a m a n e ira de e n sin a r u m a v erd ad e an tig a» .

a ) C om o B aur, q u e r v e r o N T de m a n e ira h istó rica, m a s n ã o o in tro d u z,


com o aquele, n a h is tó ria g e ra l do p en sam en to hum ano, m a s n a relação h is­
tó ric a com o A T , q u e lh e é p ró p ria : n a h is tó ria salvífica. Sob o p o n to de
v ista herm en êu tico , a lia assim o p en sam en to h istó rico d a Id a d e M oderna
com o p rin cíp io re fo rm a tó rio : A E s c r itu r a deve se r in te rp re ta d a p e la E sc ri­
tu ra . E s ta concepção fo i a p re s e n ta d a p o r ele, e n tre 1841/44, em su a o b ra
«W eissagung u n d E rfü llu n g im a lte n u n d im neuen T estam en te» (« P ro fecia
e C um p rim en to no A n tig o e no N ovo T e stam en to » ). R ejeito u aí a form a,
a té e n tã o g en eralizad a, d a p ro v a p ro fé tic a , a te n ta tiv a de p ro c u ra r o cum pri­
m en to de p rev isõ es iso lad as do A n tig o T e sta m e n to em aco n tecim en to s iso­
lad o s do N ovo T estam en to . Q u er evidenciar, m u ito an tes, que o A T, em
su a to ta lid a d e , te ste m u n h a um aco n tecim en to pro fético ao qu al co rresponde
um aco n tecim en to de cu m p rim en to n o N T . E s te acontecim ento veteroneo-
te sta m e n tá rio é a h is tó ria salv ífica. A co rresp o n d ên cia e x iste n te e n tre am bos
d istin g u e -a com o siste m a coeso d a re s ta n te h istó ria , m a s n ã o com o h is tó ria
m arav ilh o sa. N a execução, e ssa concepção é m ais a rtific ia l do que a cons­
tru ç ã o de B aur, b a se a d a n a h is tó ria do p en sam en to h u m an o ; tam b ém ela
e s tá p o r d em ais d e te rm in a d a p ela filo so fia do Idealism o. A intenção, no
e n ta n to , a p o n ta p a r a u m a a p o ria a in d a h o je insolúvel e que se to m o u teo­
lo g icam en te evidente, especialm en te com G erhard von R ad.

b ) E m su a seg u n d a o b ra p rin cip al, H o fm a n n rein tro d u z, de m a n e ira


nova, o o u tro p rin cíp io h erm en êu tico d a R e fo rm a : a a n a lo g ia fidei. A in ­
ten ção é m o s tra d a aí pelo títu lo d a o b ra : «D er Schriftbew eis» («A p ro v a
38 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

e sc ritu rístic a » ) (1 8 5 2 /5 5 ). A qui H o fm a n n se v o lta c o n tra a m a n e ira to ta l­


m e n te n ã o h istó ric a de u s a r p ro v a s e sc ritu rístic a s p a ra afirm açõ es dogm á­
ticas, a té e n tã o u s a d a ; c o n tra o cham ad o m étodo local. E ’ e rra d o p ro v a r
afirm açõ es s iste m á tic a s p o r m eio de p a ssa g e n s bíblicas isoladas, tira d a s de
seu c o n te x to ; p a r a ca d a a firm a ç ão essencial te m que se r tra ç a d o um co rte
lo n g itu d in a l h istó rico -salv ífico e o rgânico, a tra v é s do to d o d a E s c ritu ra .
E s ta s considerações tê m o seg u in te sig n ificad o p a ra a te o lo g ia n eo testam en-
tá r ia : H o fm a n n vê c la ra m e n te a diferença en tre as afirm ações bíblicas de
en tã o e a a firm ação siste m á tic a de h o je. R ecusa-se a to m a r p re se n te o con­
teú d o d a s afirm açõ es bíblicas, sim p lesm en te a tra v é s de u m a in te rp re ta ç ã o
filo só fica ou a tra v é s de in tu iç ã o p n eu m ática, com o e ra costum e n a s o u tra s
d u a s lin h a s d a p e sq u isa n e o te sta m e n tá ria . T am bém e ssa in ten ção a p o n ta
p a ra u m a a p o ria a in d a n ã o solucionada.
A ssim a posição de H o fm a n n , n a h is tó ria d a pesquisa, pode se r c a ra c ­
te riz a d a d a se g u in te m a n e ira : E n q u a n to a pesq u isa m eram en te h istó ric a
a lia v a a n álise h is tó ric a e in te rp re ta ç ã o filosófica, e a histó rico -p o sitiv a, p o r
seu tu rn o , u n ia p esquisa h istó ric a e biblicism o p ie tista , ele p ro c u ra v a e n tre ­
la ç a r o p en sam en to h istó ric o com os p rin cíp io s herm en êu tico s d a R eform a,
to m ad o s d a p ró p ria E s c ritu ra .
S u as p e g a d a s fo ra m se g u id as p o r seu sucessor, em E rla n g e n , T heodor
Z ah n , o g ra n d e o p o n en te de A d o lí von H arnack. Z a h n n ão alcançou, no
e n ta n to , a in tu ição te o ló g ic a de H o fm a n n . S uas obras, que a in d a são de v alia
em v irtu d e d a im en sa p e sq u isa histórico -filo lógica, solidificam -se em u m con-
serv a n tism o h isto rizan te que ta lv e z tam b ém se ja um trib u to ao e sp írito do
P o sitiv ism o e do H isto rism o d a época.

2) A esses dois re p re s e n ta n te s de E rla n g e n , os dois re p re se n ta n te s de


T übingen, Jo h a n n T obias B e c k e A d o lf S c h la tter, e sta v a m m ais lig ad o s do
que eles p ró p rio s o su punham . O p rin cíp io h erm en êu tico de A d o lf S c h la tte r
p a te n te ia -se em seus libelos, d a época de 1900 a 1910. “ C a ra c te rístico s são
especialm en te dois e sc rito s:

a ) U m deles — publicado em 1905 in « B eitrâg e z u r F õ rd e ru n g ch ristlic h e r


T heologie», iniciad o s p o r ele e p o r L ü tg e r t — leva o títu lo p ro v o can te e,
hoje, m u ito a tu a l: «Die a th e istisc h e n M ethoden in d e r Theologie» («O s m é­
to d o s a te ís ta s n a te o lo g ia » ). D esig n a de « ateístas» os m éto d o s que querem
e x p lic a r o desenvolvim ento do cristian ism o , de m a n e ira m eram en te h istó rica,
sem v aler-se de D eus. R e je ita esse m éto d o m eram en te h istórico, an tecip an d o
a m u d a n ç a de 1918, em nom e d a ciência, e a firm a te x tu a lm e n te : «U m a teo ­
lo g ia que a p e n a s sab e c o n ta r h is to rie ta s e que, com isso, p e rsiste n a f a lta
de c rité rio s e n a in a d v e rtê n c ia (a p re se n ta -s e ), m esm o an tep o n d o aos seu s
ro m an ces h istó ric o s os títu lo s : ‘V id a de J e su s’ ou ‘T eologia do N ovo T e sta ­
m e n to ’, tam b ém n a m ed id a c ie n tífic a com o b rin cad eira» (p . 139). P o r isso
S c h la tte r lig a su a im en sa e su p e rio r p esq u isa histórico-filológica, n o N T ,
com a in te n ç ã o teo ló g ica re fle tid a de e n te n d e r os re la to s bíblicos; q u er
enten d ê-lo s com o te ste m u n h o s de u m a a u to m a n ife sta çã o de D eus que dom ina
a realid ad e. N esse p o n to se u p rin cíp io co rresp o n d e ao dos de E rla n g e n ; d ifere
deles, ao n ão fa z e r su a s reflex õ es a re sp eito dessa a u to m an ifestação , em
um co n te x to histórico-salvífico. 26

26. A gora em : Adolf S chlatter, Z ur Theologie des N T und z u r D ogm atik. ed. U lrich
L uck, 1969.
VII. Orientação «histórico-salvífica» da pesquisa da Escritura 39

b ) Seu segundo p rin cíp io h erm en êu tico liga-o ta m b é m ao s de E rla n g e n :


E le tam b ém n ã o tra n s fo rm a a te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria em u m a d o g m ática
m inim al. E m seu e sc rito : «Die T heologie des N euen T e sta m e n ts u n d die
D ogm atik» («A Teologia do N ovo T e sta m e n to e a D ogm ática») (1909), ad v o g a
um sig n ificad o au tô n o m o d a d o g m á tic a ao lad o d a teo lo g ia bíblica, delim i­
ta n d o -se assim , de m a n e ira p recisa, d o «pietism o teológico» com o qual
K àsem a n n o p ro c u ra relacio n ar.
S eguindo esses princípios, publicou, em 1909, su a «Teologia N eotestam en­
tária», que fo i re e d ita d a em 1922/3, em 2® edição, em dois volum es. O s títu lo s
p erm ite m que se lhes conh eça a inten ção . O títu lo do p rim eiro não é : «Die
L e h re Jesu» («A D o u trin a de Je s u s » ), com o no caso de F eine, tam b é m n ã o :
..«Die V e rk ü n d ig u n g Jesu» (« A Pregação de Je su s» ), com o no caso de B u ltm a n n
e o utro s, m a s : «Die G eschichte des C hristu s» («A H istó ria do C risto » ). A
p a la v ra de Je s u s está, in trin se c a m e n te , lig a d a a su a ação e a s u a c a rre ira.
O segundo volum e, «Die T heologie d e r A postei» («A T eologia dos A póstolos»),
n ão desenvolve conceitos d o u trin a is, m a s esboços q u erigm ático-teológicos re­
lacion ad o s com a situ a ç ã o ; n ã o desenvolve so m en te a teo lo g ia de P au lo , m as
tam b ém a de L u c a s e a de M ateus.

3) E s s a o rie n ta ç ã o d a p esquisa, c a ra c te riz a d a pelos q u a tro nom es até


aq u i c ita d o s e que, sig n ific a tiv a m e n te , n u n c a chegou a fo rm a r u m a E sco la
no se n tid o e s trito do term o , fo i re p re se n ta d a , n a época e n tre a s d u as G u erras
M undiais, pelo c a te d rá tic o de N ovo T e sta m e n to de T übingen, G erhard K itte l,
que iniciou o «T heologisches W o rte rb u c h zum N T» («D icionário Teológico do
N T » ), dedicando-o a seu m e stre A d o li S c h la tter, e p o r Ju liu s S chniew ind, em
K õnigsberg, p o ste rio rm e n te em H alle.
Seu m éto d o de tra b a lh o p ode s e r ilu stra d o , em la rg o s tra ç o s, pelo se­
g u in te exem plo: A lin h a de B u ltm a n n r e je ita u m a consciência m essiân ica de
Jesu s, ao p e rg u n ta r com ra z ã o : O nde e n co n tram o s u m a concepção de M essias,
no A T ou no ju d aísm o , ao q u al ele tiv esse co rrespondido? A o rien tação
h istó ric o -p o sitiv a p ro c u ra d e m o n s tra r que, n o judaísm o, e x istia a im agem de
um M essias so fred o r, com o concepção esotérica. E s s a hipótese, no en tan to ,
é m a is que in c e rta , p o is com ela n ã o é a tin g id o o decisivo: A m essian id ad e
de Je su s n u n ca pode s e r p ro v a d a p o r um m a is dois. Schniew ind m o stra, em
con trap o sição , em se u c o m e n tá rio a M arcos (1936-196310; 1968 edição de
bolso) e M ateu s (1937-1968“ ) n o N T D : T am bém n a ú ltim a cam ad a d a t r a ­
dição en co n tram o s, a tr á s de ca d a d ito e p o r tr á s de c a d a ação d e Jesu s,
a situ a ç ã o do cum prim ento. «O cu m prim ento» se e n c o n tra ali onde a relação
do hom em p a r a com D eus se restab elece, no se n tid o d a pro m essa v étero -
te s ta m e n tá ria . O nde se e n c o n tra o cum prim ento, a li e s tá «o que deve vir»,
m a s isso, c o n tra to d a s a s a p a rê n c ias, de m a n e ira n ã o verificáv el p a r a o
cren te. M as Je su s se re v e la de t a l m a n e ira que tra n sfo rm a , com isso, o que
e s tá fre n te a ele. A p en as q u an d o e ssa d im ensão d a com preensão se to rn a
visível, é que a a n á lise h is tó ric a d o fenôm eno se to m a fecunda, ta n to a
c rític a q u a n to a n ã o -c rític a. E m se n tid o sem elhante, o liv ro de E d w in C.
H o sk y n s e F . N oel D a vey, «D as R ã ts e l des N euen T estam en ts» («O Enigma
do N ovo T e sta m e n to » ), p ro c u ra re so lv e r a q u estão em to m o d a e s tru tu ra
to ta l do N T ; fo i tra d u z id o e p u b licad o em alem ão, em 1938, p o r K itte l e
Schniew ind.
40 § 1: O desenvolvimento da pesquisa e a problemática

4) A p ó s 1945, J u liu s S c h n ie w in d com eçou a p a rtic ip a r d a discussão neo-


te s ta m e n tá ria , a o to m a r u m a posição, tid a em a lta co nta, fre n te a o p ro g ra m a
de dem itologização de B u ltm a n n , w que se to rn a v a o foco d a aten ção de
to d a a teo lo g ia. T odavia, j á em 1948, d e ix av a d e to m a r p a rte n a discussão,
ao m o rre r b a s ta n te jovem , do m esm o m odo que G erhard K itte l. P o r isso,
B u ltm a n n te rm in a os E pilegôm enos de s u a «Theologie des N T» («T eologia
do N T » ), nos q u a is descreve su a posição n a h is tó ria d a pesquisa, com um a
co n tro v é rsia com A . S c h la tte r, n a q u al tam b ém a c e n tu a o que h á de com um .
O scar C ullm ann com eçou a defender, de m a n e ira perceptível, e n tre 1945
e 1970, em B asiléia, o c a r á te r h istó rico -salvífico do N T. S u a posição está
resu m id a n o s liv ro s «C h ristu s u n d die Z eit» (« C risto e o Tem po») (1946-
1962a) e «H eil a is G eschichte, H eilsg esch ichtliche E x iste n z im N T » (« S al­
v ação com o H istó ria, E x istê n c ia H istó rico-salvífica no N T » ) (1965-19671) :
D o N T B u ltm a n n deduz h isto ric id a d e d a ex istên cia sem h is tó ria («G eschicht-
lich k eit d e r E x iste n z ohne G eschichte»), e «escatologia sem esperança». No
e n ta n to , o tem p o é c o n stitu tiv o p a r a o pensam ento bíblico. C risto é «o
c e n tro do tem po» («d ie M itte d e r Z e it» ). E le é o foco no q u al to d a s as
lin h a s d a h is tó ria de D eus com o hom em se co n cen tram e do q u al são ir r a ­
diad as. A m eu ver, no e n ta n to , o N T n ão vê a « h istó ria salvífica» como
evolução u n iv ersal. O s esboços h istó rico -salv ífico s em R om 4 e 5, p o r exem ­
plo, n ão podem se r reu n id o s num co n ju n to. E le s c a ra c teriz a m C risto como
o cu m p rim en to do evento de p ro m issão do A T. ”
A concepção n e o te s ta m e n tá ria de « h istó ria salvífica», aproxim a-se, a
m eu ver, d a concepção h erm en êu tica que G erhard von R a d desenvolveu p a ra
o A T e q u e te v e g ra n d e in flu ên cia: O A T a p e n a s é com preendido segundo
su a p ró p ria intenção, quando, indo além d a a n álise h istórico-filológica, fo r
v isto como sendo C risto seu cum prim ento. S e rá que e n tã o o teste m u n h o a
resp e ito de C risto do N T não d ev eria receber, pelo co n trário , s u a in te rp re ­
ta ç ã o decisiv a a p a r tir do evento de p ro m issão do A T, a desp eito de to d a
a a n álise h is tó ric a ? P ro c u re i d e m o n stra r que o p ró p rio N T se com preende
nesse sen tid o , no estu d o «Typos. D ie ty p o lo gische D eu tu n g des A T im N euen»
(T ypos. A in te rp re ta ç ã o tip o ló g ica do A T n o N ovo»), 1939 (reim p r. 1966),
ad o ta d o p o r G. von R a d . E n q u a n to o p ró p rio B u ltm a n n a fa s ta v a essa in te r­
p re ta ç ã o , * ela e ra a c e ita em s u a escola, n a décad a dos sessen ta, sob a
in flu ê n c ia do g ru p o de p esq u isa teo ló g ica que se fo rm a ra em to m o de G.
von R a d , especialm ente em su a «Theologie des AT» («T eologia do A T »)
(1957/60-1969V 19685), e d isc u tid a p rin c ip a lm en te no g ru p o de tra b a lh o que
se fo rm a ra em to rn o d a re v is ta «E van g elische T h eo lo g ie» .80 M esm o assim
con tin u a, em g ra n d e p a rte , a se r válido o que von R a d observa, no fin al
de s u a «Theologie des A T» (V ol. I I 5, p. 4 1 1 ): «A p rim e ira afirm a ç ão —
o A T te m que se r in te rp re ta d o a p a r tir de C risto — p arece se r h o je m enos
discutível, sob o p o n to de v is ta teológico, do que a segunda, que a firm a que
necessitam o s ig u alm en te do A T p a r a co m p reender a C risto».
E m n o sso s dias, a rela ç ã o do N ovo e do A n tig o T e sta m e n to se to m a
u m a q u estão -ch av e p a r a to d a a teologia, a in d a m ais, quando to d a a teologia
se c o n c e n tra n a p e rg u n ta p o r D eus e p ela h istó ria . H a ns-Joachim K raus, 278930

27. K erygm a und M ythos, ed. H. W. B artsch I, 1948, 85-134.


28. L eonhard Goppelt, P a u lu s und die H eilsgeschichte, em : Christologie, 220-233; cf. § 29.
29. R udolf B ultm ann, TJrsprung und Sinn d e r Typologie ais herm eneutischer M ethode,
ThLZ 75 (1950), 205-212; cf. L eonhard Goppelt, A pokalyptik und Typologie bei P a u lu s, em:
C hristologie, 234-267; o mesmo, T hW 254-257.
30. Ev Theol. 24 (1964), 113ss.l2Sss.388ss; 27 (1967), 390-397.
VII. Orientação «histórico-salvífica» da pesquisa da Escritura 41

«Die biblische T heologie» (« A T eologia B íblica»), 1970, a p o n ta p a ra esse fa to .


E isso se evid en cia especialm en te em re la ç ão à n o ssa disciplina. N o N T ,
Jesus é, n o fin a l de contas, sem p re com preendido a p a rtir do D eus do A T .
S erá que podem os re e d ita r essa au to co m p reen são do N T , em c a te g o ria s da
Id a d e M oderna, com o se fo sse o b je tiv a em seu s princípios, e com preender
assim o N T seg u n d o a s u a p ró p ria in te n ç ã o ? E ssa p e rg u n ta q u e r s e r ouvida
como p o ssibilidade h e u rístic a , n ã o com o p ostulado, n a elab o ração de um a
teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria . E ’ lógico que n ã o exclui a an álise h istó rico-filo-
lógica do N T , em relação à s o u tra s p o ssibilidades de in te rp re ta ç ã o , m as
inclui-a. P o is o N ovo T e sta m e n to sem p re ouve o A ntigo, como « E scritu ra» ,
p o r in term éd io d a h is tó ria re lig io sa v etero testam entário-judaica bem com o d a
h elen ista.
D o que a té aq u i fo i considerado, su rg e a seg u in te conseqüência p a ra o
nosso p rincípio h erm en êu tico : N ão podem os fix a r, an tecip ad am en te, o nosso
p rin c íp io ' h erm en êu tico com o relação e stá tic a , m a s descrevê-lo ap en as como
in ten ç ã o e ta r e f a : Q uerem os le v a r o prin cíp io d a pesq u isa h istó ric a d a E s ­
c ritu r a — que é c rític a , a n a lo g ia e co rrelação — a um diálogo crítico com a
au to co m p reen são do N T , que q u e r te s te m u n h a r um evento de cum prim ento,
relacio n ad o com o A T, evento e ste que e s tá o rien tad o em C risto com o seu
fu n d a m e n to e seu cen tro . Como re su lta d o desse diálogo, p ro cu rarem o s conse­
g u ir u m a visão, re fle tid a de m a n e ira h istó ric o -c rític a e, ao m esm o tem po,
com preensível d a teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria , que se possa le g itim a r a si m esm a.
A o rie n ta ç ã o d a h is tó ria d a p esq u isa que desenvolvem os n e s ta in tro d u ção ,
n ão q u e r a n te c ip a r juízos, m a s possibilitá-los. D ecisões a u tê n tic a s só são
possíveis q u an d o se vê to d a a g a m a de possibilidades, indo-se além d a s
b a rre ira s d a s opiniões de E sc o la s e d a discussão d iária.
PARTE I

A Atividade de Jesus
em seu Significado
Teológico
CAPÍTULO I

O Método e as Fontes

§ 2 : O PO N T O D E P A R T ID A E A S F O N T E S

Ad I: M artin Kãhler, Der sogenannte htstorische Jesus und der geschichtliche biblische Christus,
1892 (reim pr. 1953); Der historische Jesus und der kerygmatlsche Christus, editado por Helm ut
H i stow e Karl M atthiae, 1961', Norman Perrin, Rediscovering the Teaching of Jesus, Londres
1967, p. 15-53 ( = Was iehrte Jesus w irklic h? 1972, 9-51); Jurgen Roloff, Das Kerygma und der
irdische Jesus, 1970; Peter Stuhlmacher, Kritische M arginalien zum gegenwãrtigen Stand der
Frage nach Jesus, em: Fides et communlcatio. Festschrift fu r M artin Doerne, editado por D ietrich
Rõssler, 1970, p. 341-361. — Ad. II: W erner Georg Kümmel, Einleitung in das NT, 19773“ ; M artin
Dibellus, Formgeschlchte des Evangeliums, 1933s (1971s); Rudolf Bultmann, Geschichte der synopti-
schen Tradition, 1931s (1970s: Erg.-Heft 1971*); Julius Schniewind, Zur Synoptiker-Exegese, ThR 2 (1930),
p. 127-189; Vincent Taylor, The Gospel according to St. Mark, Londres 1952 (19667); Birger Gerhardsson,
Memory and Manuscript, Philadelphia 1970; Erhardt GOttgemanns, Offene Frage zur Formgeschichte des
Evangeliums, 1971; Joachim Rohde, Die redaktionsgeschichtliche Methode, 1966; Norman Perrin,
W hat is Redaction Criticism ?, 1969

I. O ponto de partida

1 ) 0 problem a. Q ual é o p o n to d e p a r tid a d a te o lo g ia n e o te sta m e n tá ria ?


Q u a l é a b ase que co n stitu i tu d o o que m erece o nom e de C ristia n ism o ?
P a u lo escreveu à com unidade q u e c ria ra n o c en tro in te le c tu a l do O riente, n a
G ré c ia : O fu n d a m e n to é Je s u s C risto (IC o 3,11). A quem q u e r ele d e sig n a r
com isso? J e s u s C risto é, p a r a ele, o N azaren o crucificado, ao qu al a n u n cia
com o sen d o o K y r io s (IC o 1,23).
A p ro b le m á tic a desse p o n to de p a r tid a fo i tra z id a à to n a p e la pesquisa
m era m e n te h istó ric a , n a q u al o e sp írito d a Id a d e M o derna se ch o cav a com
esse p rin cíp io n e o te sta m e n tá rio . F erd in a n d C hristian B a u r 31 diz: E ’ c o n trá ­
rio ao p en sam en to h istó ric o q u e re r d ed u zir u m desenvolvim ento h istó rico , o
desenvolvim ento do cristian ism o , de u m m ilagre, qu al s e ja a re ssu rre iç ã o ou
a g lo rific a ç ão de um crucificado, e v e r n isso a b ase do cristian ism o . A p en as
d u a s co isas sã o c o n sta tá v e is: a p e sso a h is tó ric a de Je su s e a fé p ascal dos
discípulos. P o r isso a v isão m e ra m e n te h istó rica, e n ã o só ela, p ro c u ra seu
p o n to de p a r tid a o ra n a p rim e ira , o ra n a segunda. A a cen tu ação fo i p o sta,
de g e ração em geração, o ra nu m a, o ra n o u tra .
P o r d u a s vezes, n a p rim e ira e n a te rc e ira geração, no R acionalism o e
n a T eologia L ib eral, com a q u al tam b ém se com prom eteu a escola b asead a
n a c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a d a s religiões, encontrou-se o p o n to de p a rtid a
decisiv o n o Jesu s histórico.

31. P aulus, 1845, lss.


46 § 2: O ponto de partida e as fontes

J o h a n n es W eiss é o p o rta -v o z de to d o o L iberalism o, ao esclarecer n o


se u liv ro « P au lu s u n d Jesus», 1909 (p . 4 s ) : « Já p a r a P aulo, o cristia n ism o
é ‘R elig ião d o C risto ’, i. é, n o c e n tro e s tá a ín tim a re la ç ã o de fé com o
C risto g lo rificado . E s ta fo rm a de re lig iã o fo i aceita, d u ra n te séculos, como
v e rd a d e iro c r is tia n is m o .. . A o la d o disso h á (h o je ) u m a c o rre n te relig io sa
que n ão consegue m a is e n c o n tra r u m a re la ç ã o com o C risto g lo rificad o e
que se c o n te n ta p le n a m e n te em d eix ar-se le v a r ao P a i p o r Je su s de N azaré».
A e ssa te se teo ló g ica e ideológica co rresp o n d e a an álise h istó ric a d a escola
b a se a d a n a c rític a h istó ric o -c o m p a rativ a d as religiões. D em o n stra que o qué-
rig m a p a sc a l bem com o a c risto lo g ia são p ro v en ien tes de concepções m ític a s
a p lic a d a s a Jesu s. E s s a concepção fo i a c e ita com o sendo u m a fo rm a de ex­
p re ssã o co n d icio n ad a p ela época. W ilh e lm B o u sse t chegou à seg u in te conclu­
sã o : “ «U m a época que, de m a n e ira nen h u m a, v iv ia ap e n a s do sim p lesm en te
ético e do sim p lesm en te religioso, m a s de to d a a espécie de e sp eran ças esca-
to ló g ic a s m a is o u m en o s f a n tá s tic a s . . . , u m a ta l época p re c isa v a de f a to
d essa im agem de Jesu s, com o a c ria ra m os p rim eiro s discípulos de Jesu s, e
in tro d u z iu o e te rn o q u e n e la ex istia , n o in vólucro colorido d a v e ste te m p o ral» .
P o r isso é que se elim inou o q u é rig m a p ascal e a cristo lo g ia como sendo u m a
v e ste co n d icio n ad a p e la época, elim inou-se-a p a ra e n c o n tra r sob ela o sim ples
m e s tre de N az a ré . S egundo essa concepção, a exposição d a teo lo g ia neo-
te s ta m e n tá ria te ria , a p rincípio, a p e n a s a fu n ç ã o c rític a de, seguindo o
m éto d o de B o u sse t, a p re s e n ta r p o r m eio d a an álise h istó rico -relig io sa a s con­
cepções m ític a s e le v a n tá -la s p a r a p e rm itir que se v eja, sob elas, a im agem
de Je su s que é o v e rd a d e ira m e n te im p o rta n te . E s te p ro g ra m a fo i seguido,
p o r últim o, p o r H e rb e rt B raun, em seu livro sobre Jesus.
E s s a redu ção , n o e n ta n to , fo i ca d a vez re je ita d a decididam ente, n a ge­
ra ç ã o seg u in te, com o ficção h istó ric a . F erd in a n d C hristian B a u r bem com o
R u d o li B u ltm a n n o b je ta ra m com ra z ã o : Sob o p o n to de v is ta h istó rico , o
c ristia n ism o n ão p a r tiu d a im p ressão c a u sad a p ela p erso n alid ad e de Je su s.
E sp e c ia lm e n te p a r a P au lo , a ação te r r e n a de Je su s não te ria tid o a m ínim a
im p o rtâ n c ia . O p o n to de p a r tid a h istó ric o p a r a to d o o desenvolvim ento seria
in eq u iv o cam en te a ié pascal. A fé p a sc a l bem com o a cristo lo g ia, no e n ta n to ,
n ã o são sim p lesm en te u m a tra n s fig u ra ç ã o m ític a do te rre n o . M uito a n tes,
n e la s to m a fo rm a o que, n o J e s u s te rre n o , a g ia ap en as de m a n e ira o cu lta.
E s ta e ra p a r a B a u r a id é ia re lig io sa do cristian ism o , p a ra B u ltm a n n o ch a­
m a d o escatológico à decisão, v in d o d a p a r te de D eus. E s ta s fo ra m a s fo rç a s
qu e p o ssib ilita ra m o su rg im en to do c ristian ism o , e n ão a im p ressão c a u sa d a
p e la p erso n a lid a d e de Je su s so b re a lg u n s hom ens n a G aliléia. P a u lo in te r­
p re to u e desenvolveu, de m a n e ira teo lo g icam en te a p ro p ria d a , essas fo rç a s.
P o r isso su a teo lo g ia é o p o n to c e n tra l d a «Theologie des N euen T estam ents»
de B u ltm a n n , com o j á o f o ra em B a u r, en q u an to que a in te rp re ta ç ã o de
J e s u s ocupa a p e n a s p o u cas p ág in as.
P o r v o lta de 1960 o p êndulo j á se in clin av a p a ra o o u tro lado. O s
p ró p rio s discípulos de B u ltm a n n c o n s ta ta v a m : «Jesus C risto tra n sfo rm o u -se
(em B u ltm a n n ) em m ero fa to salv ífico e d eix a de se r p e sso a » ." E esse
f a to salvífico, que a p e n a s é u m « p arad o xo sem conteúdo, é que m e deve
d o m in a r e ch am ar-m e à f é ? . . . S erá que aq u i a exigência d e fé n ã o e stá
am e a ç ad a de se tra n s fo rm a r em lei, à q u al eu devo obedecer? J a m a is um 32

32. K y rio s C hristos, 1921a, 75.


33. G ü n th er B om kam m , M ythos u n d Evangelium , 1953a, 18.
I. O ponto de partida 47

fa to , s e ja ele um f a to h is tó ric o o u u m f a to salvifico, pode ch am ar-m e à fé,


m a s so m en te u m a p esso a v iv a, c o n c re ta » .* M as s e rá que o J e su s te rre n o
realm e n te pode fu n d a m e n ta r — ta n to n o p assad o q u a n to n o p re se n te — a
fé de o u tro s, a tra v é s de su a «fé»? C e rta m e n te que n ão ! O v aiv ém d a s
te n ta tiv a s de solução m o s tra que o p ro b lem a a in d a n ã o foi so lu c io n a d o ."
P a r a esclarecer o p o n to de p a r tid a do c ristian ism o bem com o d a teo lo g ia
n e o te sta m e n tá ria , p erg u n te m o s p rim e iro p o r a n a lo g ia s h istó ricas, o que, p o r
in crív el que p a re ç a, m u ito p o u cas vezes fo i feito .

2) A n a lo g ia s. Se p ro c u ra rm o s a n a lo g ias p a ra a in flu ên cia co n tin u a d a d e


Jesu s, tem o s q u e to m a r em c o n ta a s situ a ç õ e s especiais. Je su s c o n tin u a a
in flu ir, a p e s a r de t e r sido co n d enado p o r seu povo — n ã o ap en as p e la classe
d o m in an te — , e fin a lm e n te ab an d o n a d o a té p o r seu s discípulos. U m a certa,
co rresp o n d ên cia p a r a isso en co n tra-se, em se u am biente, n o M estre da Ju stiça
de Q u m ra n ; n o A T , no p ro fe ta Je re m ia s, c u jo s d ito s e ex p eriên cias fo ra m
tra n sm itid o s p o r seu d iscípulo B a ru q u e ( J r 3 6 ); n o m u n d o grego, em S ó ­
crates, que m o rre u condenado, m a s que p erm an eceu vivo n o s e sc rito s d e
P latão, p o r m u ito s séculos, e, n o m u n d o h elen ista, em Jú lio C ésar que, após
o seu fim violen to , se to m o u G ênio do Im pério.
O bservem os a co rresp o n d ên cia m a is p ró x im a n o p la n o local e de con­
te ú d o ! O M estre d a J u s tiç a de Q u m ran p ro v av elm en te fo i elim inado, com o
Jesu s, pelos sa c e rd o te s dom in an tes. Seus ad eptos, n o en ta n to , atêm -se à m a ­
n e ira seg u n d o a q u a l in te rp re ta v a a E s c r itu ra ; co n tin u am a m e d itá -la se­
g u ndo o seu m étodo. T ra n s fo rm a ra -s e p ro v avelm ente, p a r a eles, n a p ri­
m e ira im ag em do p ro fe ta q u e an te c e d e o fim , u m a im agem fu n cio n al, a n ô ­
nim a. N in g u ém f a la a re sp e ito de u m a re ssu rre iç ã o e de u m a co n tin u ação
d a v id a em fo rm a de pessoa. F o i isso q u e G e rt Je re m ia s deduziu dos te x to s,
em «D er L e h re r d e r G erech tig k eit» , 1963 (p. 319-353), indo c o n tra m u ita s
co n stru çõ es fa n tá s tic a s . Sob esse p a n o de fu n d o b a s ta n te próxim o, fic a c la ro
que o q u è rig m a p a sc a l é único n o a m b ie n te judeu. R ealm ente, n ã o é u m a
fo rm a de ex p ressão su g e rid a pelo e s p írito d a época. Sob p o n to de v is ta de
conteúdo, p a re c e a p ro x im a r-se d a m en sag em com a qu al o fim de C ésar foi
g lorificad o , n ã o filosófica, m a s m ito lo g icam ente, pelo seu h erd e iro O távio
A u g u sto : Seu fim tra n sfo rm o u -se em apoteose. N o F o ru m R o m anum foi e ri­
gido um tem p lo a o «D ivus J u liu s C aesar», to rn an d o -se, bem como os seus
sucessores, o G ênio do Im p é rio R om ano, o K o sm o k ra to r ideológico, o «divino
Ju liu s C aesar». M as q uão d ista n te , em se n tid o esp acial e objetivo, e stá
esse f a to do su rg im e n to do q u èrig m a p a sc a l i®1345
34. H einz Z ah m t, B s begann m it J e su s von N azareth, 1960, 98.
35. E ssa a p o ria evidencia-se, especialm ente n a p re sen te pergunta, por inform ações a re s­
peito do «Jesus histórico», n a escola de B ultm ann: E nquanto que H e rb e rt B rau n se concentra
exclusivam ente no histórico, deixando o C risto querigm ático de lado (Jesus, 1969), G eorg
S treck er (D ie histo risch e u n d theologische P ro b le m a tik der Je su síra g e , Ev. Theol. 29 (1969),
453-476) e H ans Conzelm ann (Theol., 15s) d esistem d essa p e rg u n ta e concentram -se em ana­
lis a r «os textos, segundo a e s tru tu ra d a com preensão de íé que se ex p ressa no testem unho
neotestam entário» (p. 476). Como P e te r Stuhlm acher, op. cit., bem o acentuou, som ente se
pode su p e ra r essa aporia a tra v és de um a revisão dos princípios m etódicos.
35a. Isso é apresentado de m aneira p lástic a p o r Stefan W einstock, D ivus Ju liu s, O xford
1971, 385-410.
35b. A repercussão do filósofo neopitagórico am bulante, Apolônio de T yana, um con­
tem porâneo de Jesus, não pode se r com parada com a de Je su s, no que lo ca ao tip o e â
intensidade. Ê certo que as trad içõ es a seu respeito perm aneceram tã o vivas que foram pu b li­
cadas em um a biografia, p o r v olta de 217, p o r F iló strato , e que as passagens a resp eito de
su a atividade m ilagrosa Já pu d eram se r usadas, no séc. IV, c o n tra as passagens sobre m ila­
g res dos evangelhos. ApollÓnio, no entanto, nem sequer chegou a c ria r um a escola filosófica,
m uito menos um a com unidade cultuai. A h istó ria d a influência dos dois é com pletam ente
diversa, e isso p o r diversos m otivos. Isso se evidencia inclusive n a pesquisa de G erd Petzke,
D ie T rad itio n e n ü b e r A pollonius von T y an a und das NT, 1970, que acentua, propositadam ente,.
as analogias form ais e n tre esse tip o de th elos aner e Jesus.
48 § 2 : 0 ponto de partida e as fontes

D essa m a n e ira , u m a co m p aração com a s a n a lo g ia s do m eio am b ien te d a


A n tig u id a d e n o s re v e la o c a r á te r ú n ico do evento d e C risto e fo rç a -n o s a
explicá-lo a p a r tir de su a s p ró p ria s pressuposições.

3 ) C om o explica o próprio N T a co n tinuidade da atuação do N azaren o ?

a ) S om en te a p a r tir do q u e rig m a p ascal, Je su s co n tin u a a t e r u m sig ­


n ific a d o p a r a os hom ens. M u ito s ju lg a ra m p o d er ded u zir um segundo p o n to
de p a r tid a d a fo n te dos d ito s d a tra d iç ã o sin ótica. E s s a fo n te se ria p rove­
n ie n te de u m a com unidade que se a tin h a à s p a la v ra s de Jesu s, deixando de
lad o a p a ix ã o e a p áscoa. V ia n a p ásco a a p e n a s a leg itim ação d a a u to rid a d e
de seu m e s tr e ." E s s a fo n te , n o e n ta n to , n ã o é u m a tra d iç ã o evan g élica em
co n c o rrê n cia à tra d iç ã o de M arcos, o q u a l p a rte do q u erig m a p a sc a l; ela é,
m u ito m ais, s u a com plem en tação c a te q u é tic a p a r a a p arên ese d a com unidade.
A tra v é s d essa fo n te, a im agem de Jesu s, tra n s m itid a de m a n e ira m issio n ária
n a tra d iç ã o de M arcos, recebe u m a con fo rm ação tã o p re c isa n a cateq u ese
dos q u e fo ra m b atizad o s, que p ode a n u n c ia r e le g itim a r a p arên ese d a co­
m u n id ad e. aT F o i nesse se n tid o que os E v an g elh o s m aio res a assim ilaram ,
seg u in d o su a in te n ç ã o orig in al.
N o e n ta n to , o que co n g re g a v a os h o m ens n a s com unidades, desde os
te m p o s m a is rem otos, fo i ex clu siv am en te o q u erig m a p ascal. E sse f a to bem
com o o co n teú d o do q u e rig m a podem s e r deduzidos de d u as tra d iç õ e s in d e­
pen d en tes. E m IC o r 15,1-5, P a u lo lem b ra à com unidade a m en sag em à qu al
e la deve s u a ex istên cia. R esum e isso n u m a fó rm u la que j á h a v ia recebido
com o tra d iç ã o fix a . E ’ o se g u in te o te o r d a fó rm u la confessional, no seu
tre c h o m ais an tig o , n os v ersícu lo s 3-5:

« C ris to m o r r e u p e lo s n o s s o s p e c a d o s ,
s e g u n d o a E s c r i t u r a , e fo i e n te r r a d o ,
e le fo i r e s s u s c ita d o , n o te r c e i r o d ia , s e g u n d o a E s c r it u r a ,
e a p a r e c e u a C e fa s , a p ó s a o s doze».

A o co n teú d o d essa fó rm u la corresponde, essencialm ente, u m a seg u n d a


tra d iç ã o : o esquem a d a s p ré d ic a s de P e d ro em A t 2-5. E s s a co rrespondência
j á ev idencia a a n tig u id a d e d a tra d iç ã o desse esquem a, m esm o que, p o r o u tro
lado, a s p ré d ic a s com o ta is te n h a m sido fo rm u la d a s p o r L ucas. E sse esquem a
diz, com o cham ad o m issionário, a I s ra e l: V ós m a ta s te s a Je su s; D eus, porém ,
o ressu scito u p a ra a v o ssa salvação. Isso sucedeu seg u n d o a E s c r itu r a ; disso
som o s te ste m u n h a s. A co n co rd ân cia e n tre a s afirm açõ es d as d u a s fó rm u la s
é ev id e n te ; a d iferen ça d eco rre especialm ente do fa to de que a ú ltim a é
q u e rig m a m issio n ário , e n q u a n to que a p rim e ira é q u erig m a catequético. 367

36. H einz-E duard T õdt, D er M enschensohn in d e r synoptischen üb erlieferu n g , 1959 (1963s),


215-228; D ieter L ührm ann, Die R edaktion d e r L ogienquelle, 1969: «A cristologia d e Q não
está determ in ad a pelo q uérigm a da paixão, como norm alm ente se o pode su p o r n a tradição
sinótica; ela a p rese n ta um determ inado tip o que se o rien ta n a concepção d a continuação
d a obra de Je su s, n a adoção de su a pregação, in te rp re ta d a como anúncio de juízo, pela comu­
nidade» (p. 103). E ssa concepção foi aplicada a o u tras coletâneas d a trad ição a respeito de
Je su s, que servem de b a se p a ra os evangelhos sinóticos, por H elm u t K õster, E in Je su s und
vier u rspriingliche E vangeliengattungen, em : K õ ste r e Robinson, E ntw icklungslinien, 147-190,
e por H an s W olfgang K uhn, D er irdische Je su s bei P a u lu s ais trad itionsgeschichtliches und
theologisches Problem , ZThK 67 (1970), 295-320. Küm m el, E inleitung, 44-49, volta-se, com
razão, c o n tra as pressuposições h istórico-tradicionais d essa construção.
37. Cf. L eonhard Goppelt, Je su s und die «H austafel»-T radition, em ; F e stsc h rift fü r Jo sef
Schm id, 1973, 93-106.
I. O ponto de partida 49

Com o fo i possível que e ssa a firm a ç ã o tiv esse ac e ita çã o ? Como fo i pos­
sível que p ro v o casse «conversão», segundo os A to s dos A póstolos, ou «fé»,
segundo P a u lo ? B u ltm a n n reso lv e esse p ro b lem a ao su p o r que o q u erig m a
pascal te n h a tid o o se g u in te te o r : O cru cificado ressu scito u . E s s a m ensagem
te ria ren o v ad o , fre n te à cruz, o cham ad o escatológieo à decisão, fe ito p o r
Jesus. I n te r p r e ta d a d essa m a n e ira , ex isten cialm ente, p o d ería se r a c e ita em
fo rm a de u m a n o v a au to co m p reen são . N o en ta n to , n a p re se n te conform ação
da fó rm u la — e ela é d ecid id am en te p rim á ria — é testem u n h ad o , p o r um
lado, um aco n tecim en to e, en tão , confessado o que a fé deduz desse a co n te­
cim ento. O aco n tecim en to fo ra m a s ap a riç õ e s p ascais, u m novo en co n tro com
a pesso a de J e s u s ; a d edução é o reco n h ecim ento d a f é : E le fo i ressu scitad o .
O q u e rig m a p ascal é, p o rta n to , seg u n d o o seu c a rá te r, u m te ste m u n h o con-
íessa n te.

b ) T a n to m a is difícil to m a -s e a p e rg u n ta : Com o fo i possível que esse


testem u n h o c o n tin g e n te p ro v o casse co nversão ou fé, conseguisse que seres
h u m an o s se m o d ificassem fu n d a m e n ta lm e n te ? E sse processo é explicado d a
seg u in te m a n e ira no N T :

1) A s te ste m u n h a s do N T n ão tra n s m ite m seu te stem u n h o como relato ,


m as de m aneira direta. E esp eram sem p re que, a tra v é s de su a p a la v ra , o
próp rio D eus fa le ao s h om ens ( l T s 2,13; A t 5,32; J o 14,26). P o rq u e o te s ­
tem u n h o é tra n s m itid o de m a n e ira d ire ta , p ro c u ra n d o convencer o hom em
em am or, te m que s e r ex plicado e in te rp re ta d o c o n stan tem en te. Isso ocorre
da se g u in te m a n e ira :

2 ) P elo f a to de o te ste m u n h o q u e re r a p re s e n ta r o evento p a sc a l como


a u to m a n ife sta çã o de D eus, p o r isso te m que se r prim eiro explicado a p a rtir
do D eus do A T . E ’ p o r isso que a s d u a s fó rm u las do q u erig m a p ascal a p o n tam
p a ra a E s c ritu ra . N ão se q u e r d ed u zir d a E s c ritu ra u m a p ro v a no sen tid o
do p e n sam en to ra c io n a l g rego, m a s p re te n d e-se to m a r in telig ív el o te s te ­
m unho d a re ssu rre iç ã o de Jesu s. O d iálo g o e n tre a in te rp re ta ç ã o do cam inho
de J e s u s e a E s c r itu r a é «a m ãe» d a te o lo g ia c ris tã — e n ã o a a p o c a líp tic a
ju d a ic a . A a p o c a líp tic a oferecia, com o co n tin u ação co n tem p o rân ea dos con­
teú d o s v etero testam en tário s, te rm o s e concepções, p. ex., o te rm o «R essur­
reição», m a s n ã o a com preensão específica.

3 ) P a r a que se to rn a s s e com preensível, o q u erig m a p a sc a l tin h a que


se r d esen vo lvid o in te rp re ta tiv a m e n te , ao m esm o tem po, em d u a s direções:

a ) P o r u m la d o tin h a q u e s e r desenvolvido, retro sp ectiv am en te, em


d ireção ao Jesu s terreno. T in h a que s e r esclarecido quem é que se h a v ia
revelad o com o o vivo, n a s ap a riç õ e s p ascais, e com o se h a v ia chegado a
re jeitá -lo . A p a r tir d essa in te n ç ã o s u rg iu o esquem a d a tra d iç ã o de M arcos
que se re fle te n o q u e rig m a m issio n á rio de A t 10,37-41. A p a r tir d essa in te n ­
ção su rg ira m ta m b é m a s d iv e rsa s p eríco p es e a s co letân eas de perícopes, p. ex.,
as c o n tro v é rsia s re u n id a s n a c o le tâ n e a a n te rio r a M arcos, Mc 2,1-3,6. P o is a
coletân ea conclui, em 3,6, com a o b serv ação : « E os fa rise u s re tira ra m -s e e
c o n sp ira ra m logo com os h e ro d ia n o s c o n tra ele, p a r a aniquilá-lo». E ssa s
períco p es querem , p o rta n to , e x p lic a r p o r que o cam inho de Je su s se tr a n s ­
50 § 2 : 0 ponto de partida e as fontes

fo rm o u em u m cam inho que levou à cruz. A s discussões a resp eito do sábado,


a q u i tra n sm itid a s, n ão querem , p o rta n to , ju stific a r, p rim ariam en te, a lib er­
dade d a com unidade fre n te ao sábado, a tra v é s de Jesu s, como o su p u n h a
a clássica h is tó ria d a s fo rm a s; m a s e v id en ciar o m otivo de su a rejeição.
D esde o p rin cíp io a tra d iç ã o a re sp e ito de Je su s fo i fo rm u la d a re tro sp e c ti­
v am en te, sabendo-se d a d iferen ça e n tre a situ ação de Je su s e a d a com uni­
dade, sabendo-se tam b ém d a d iferen ça e n tre a p a la v ra do te rre n o e a p a ­
la v ra do g lo rificad o a tra v é s d o e sp írito d a p rofecia. J á um dos m ais an tig o s
docu m en to s conservados, a 1* c a r ta ao s C oríntios, d iferen cia clara m e n te a
p a la v ra do te rre n o , em IC o 7,10, d a in stru ç ã o p ro fé tic a do glorificado, em
IC o 14,37. E sse «m otivo h istó rico » n a s perícopes é d em o n strad o em m inú­
cias p o r Jü rg e n R o lo ii, «D as K e ry g m a u n d d er irdische Jesus», 1970. E ’
lógico que a s períco p es tam b ém q u eiram se r p a la v ra p a ra a situ ação d a
com unidade, m a s esse asp ecto é secundário. A in ten ção p rim á ria d a tra d iç ã o
dos evan g elh o s é in tro d u z ir a a tiv id a d e te rre n a de Jesu s, como um fu n d a ­
m ento, n o querigm a. E s s a «recordação» de Je su s perm anece, ju sta m e n te nos
g ra n d e s evangelhos, com o a in te n ç ã o p r im á r ia .38 N ão querem oferecer, n a
época pó s-p au lin a, u m a a lte rn a tiv a ao evangelho paulino, m as querem ofe­
recer, em p rim e ira lin h a, o fu n d a m e n to do quérigm a. N essa persp ectiv a, a
teo lo g ia n e o te s ta m e n tá ria te m que esb o çar a im agem do Je su s terren o .

b ) O q u érig m a p a sc a l tin h a que s e r preenchido a p a r tir d a a tiv id ad e


te rr e n a de Je s u s e, p o r o u tro lado, tin h a que ser aplicado à situação da
com unidade. A m a n e ira p ela q u al se deu o desenvolvim ento do q u érig m a
n essa direção, pode s e r ded u zid a especialm ente d as c a rta s n e o te s ta m e n tá ria s :
A v id a h is tó ric a do hom em é a n a lisa d a à luz d a m ensagem , e e sta é in te r­
p re ta d a com o o p o d e r de D eus q u e m o d ifica essa v id a p a r a o bem , ta n to
p a ra o p re se n te q u a n to p a r a o fu tu ro . P elo fa to de d o m in ar a re a lid a d e d a
vida, a m en sag em p a sc a l m o s tra s e r v e rd a d eira. Isso, no en ta n to , é válido
a p e n a s p a r a a m en sag em que fo i p re e n c h id a a p a r tir d a ação te rre n a de
Jesu s. T am b ém e ju s ta m e n te p o r d e trá s do desenvolvim ento teológico do
q u é rig m a em P a u lo se ev idencia sem p re de novo a tra d iç ã o a resp eito de
Jesu s. D esse desenvolvim ento o rig in a ra m -se especialm ente a c risto lo g ia e a
so te rio lo g ia do N T .
A explicação in te rp re ta tiv a do q u érig m a pascal, sob os p o n to s de v ista
h istó ric o e tem ático , fo i a ra iz d a teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria , como o dem ons­
tro u o nosso b rev e esquem a. N essa direção tem os que a p re s e n ta r a teologia
n e o te sta m e n tá ria , seguindo a s u a p ró p ria e s tru tu ra , e d irig ir, conseqüente-
m ente, n o ssa a te n ç ã o em p rim eiro lu g a r ao Je su s terren o .
P e rg u n ta m o s pelo Jesu s terren o e n ã o pelo «Jesus h istó rico » ; pois com
essa d esig n ação alia-se in v o lu n ta ria m e n te a colocação do séc. X IX , que n in ­
guém q u e r ren o v ar. O J e s u s h istó rico é a im agem de Je su s que se quer
con seg u ir a tra v é s d a p esq u isa m e ra m e n te h istó rica, a im agem de Je su s do
h isto ria d o r m oderno. D ela v ale o que P a u lo diz em 2Co 5,16: «Se conhe­
cem os a C risto segundo a carne, j á a g o ra n ão o conhecem os m ais». O conhe­

38. G eorg Strecker, D er W eg der G erechtigkeit. U ntersuchungen z u r Theologie des M atthãus,


1966a, 184-188: «O que h á em comum nos sinóticos, consiste n a m otivação histórico-salvífica
do Bios de Je su s. Podem os dem onstrá-lo d essa m aneira não som ente p a ra M ateus, m as tam ­
bém p a ra o segundo evangelista; pois o m otivo de cum prim ento de M arcos pressupõe um a
época anterio r, assim como a cesura existente en tre a época de Je su s e a situação após a
ressu rreição (pressupõem ) um a o u tra época d a h istó ria salvífica. E o fato de que Lucas
in troduziu a vida de Jesus, de m aneira conseqtiente, no esquem a histórico-salvífieo, é hoje,
em gran d e p arte, aceito» (p. 186).
II. As fontes 51

cim en to m e ra m e n te h u m an o d o Je su s m e ra m en te hom em é teo lo g icam en te


in sig n ific a n te ! (o kata sarka relacio n a-se ao su je ito e ao v e rb o !). F o i dessa
m an e ira , p. ex., que P ila to s e C aifás conheceram a Jesu s. N o en ta n to , a te o ­
lo g ia n e o te s ta m e n tá ria p e rg u n ta p ela m a n e ira p ela q u al Je su s se a p resen to u
a seu s seguidores, em seus d ia s te rre n o s, e este é tam b ém o Je su s que con­
tin u a a a g ir n a h istó ria .
E ’ possível d ed u zir e ssa im agem d a s trad içõ es? Os fa to re s que o d ifi­
cultam , ev idenciaram -se h á pouco. O cam inho de Je su s foi ap re se n ta d o re tro s­
p ectiv am en te a p a r tir d a fé p ascal, m e d ita d o a p a r tir d a E s c ritu ra e con­
fo rm a d o em v is ta d a a tu a liz a çã o d a p re g a ç ã o e d a d o u trin a. Os dois prim eiro s
fa to re s são c ita d o s em J o 12,16, onde é d ito em relação à e n tra d a triu n fa l
de Je su s em Je ru sa lé m : «Seus discípulos, a princípio, n ão com preenderam
isso ; quando, porém , Je su s fo i g lo rificad o , en tão eles se lem b raram de que
e s ta s coisas e sta v a m e sc rita s a resp eito dele e tam b ém de que lh a s fizeram ».
S e rá que Se p ode e lim in a r esses tr ê s fa to re s a ta l p o nto que se co nsiga u m a
im agem do Je s u s te rre n o ?

II. A s fo n te s

1 ) 0 que podem os d ed u zir dos evangelhos sinóticos? O séc. X IX p ro cu ro u


neles, com a rd o r, a fo n te a u tê n tic a p a r a o Je su s h istórico, querendo conse­
gu i-la com o auxílio d a crítica literária. E s s a b u sca a rd o ro sa a in d a se encon­
t r a n a o b ra de E m a n u e l H irsch, « F riih g esch ich te des E vangelium s», 1 9 4 1 .38
H irsc h n ã o q u is a c e ita r d u a s coisas que h a v iam sido d esco b ertas: a ) A pes­
quisa c rític o -lite rá ria em to m o d a s fo n te s sin ó ticas chegou a um te rm o com
a te o ria d a s d u a s fo n tes. O s tr ê s p rim e iro s evangelhos servem -se esp ecial­
m e n te de d u a s fo n te s : u m ev an g elh o se m e lh an te a o evangelho de M arcos
e a fo n te dos ditos, Q, q u e c o n tin h a a m a té ria com um a M ateu s e L ucas,
n ão e n c o n tra d a em M arcos. N ão se podem d esco b rir m ais o u tra s fo n tes.
P o d er-se-ia a in d a a v e n ta r a possib ilid ad e de o evangelho de L u cas a in d a te r
u sad o u m a te rc e ira fo n te , b ) N en h u m a d essas fo n te s é um re la to a u tê n tic o
de te ste m u n h a s o cu lares! São, m u ito a n te s, com posições lite rá ria s de perícopes
que, a n te rio rm e n te, h a v ia m sid o fo rm u la d a s e tra n s m itid a s com o tra d iç ã o oral.
A pós 1918 p ro cu ro u -se p e sq u isa r e ssa s tra d iç õ e s orais. D esde H erm an n
G unkel a n a lisa ra m -se a s tra d iç õ e s v etero testam entárias, a p a r tir d a h istó ria
do g ê n e ro ; a g o ra com eçava-se a a n a lis a r a tra d iç ã o p ré -h istó ric a dos ev an ­
gelhos, com o m é to d o h istó rico -io rm a l. O m éto d o fo i desenvolvido especial­
m en te p o r M a rtin D ibelius e R u d o li B u ltm a n n . B u ltm an n fo i o p rim eiro a
a p lic a r o m étodo, n a «G eschichte d e r sy n o p tisch en T rad itio n » (1 9 3 P ), a todo
o co n teú d o d a tra d iç ã o sin ó tica.
Q ual fo i o resu ltad o , n o to c a n te ao Je s u s h istó rico ? N o p refácio de seu
liv ro a re sp e ito de Jesu s, de 1926, B u ltm a n n com entou que e ra «da opinião
de q u e n ã o podem os m ais s a b e r p ra tic a m e n te n a d a a resp eito d a v id a e da
p erso n alid ad e de Jesus» (re im p r. 1 0 ). P o r isso g o s ta ria de a p re s e n ta r u m a
im ag em de s u a p reg ação a p a r tir d a ca m ad a m a is a n tig a d a tra d iç ã o d a
p a la v ra , j á que Je s u s « a g ira p o r in term éd io d a p alav ra» (p. 11). N o s §§ 1-4 39

39. M artin Lehm ann, S ynoptische Q uellenanalyse und die F ra g e nach dem historisehen
Je su s. K rite rie n d e r Jesu sfo rsch u n g u n te rsu c h t in A useinandersetzung m it E m anuel H irschs
F riihgeschichte des E vangelium s, 1970.
52 § 2 : 0 ponto de partida e as fontes

de s u a T eologia, a g iria , m a is ta rd e , de m a n e ira sem elh an te. O que r e s ta é


a p e n a s o ch am ad o escato ló g ico de Je s u s à decisão; a im agem de s u a pesso a
e de s u a a tiv id a d e d esaparecem . A os que, no en ta n to , se assu sta m com essa
dem olição, B u ltm a n n a firm a , em u m a rtig o de 1 9 2 7 :40412 «Deixo q u eim ar; pois
v ejo que, o que e s tá queim ando, são to d a s as im agens fa n ta s io s a s d a Teo-
logia-d a-v id a-d e-Jesu s, que são o p ró p rio C hristos kata sarka!» B u ltm a n n
c a ra c te riz a o «Jesu s h istó rico » d e «C hristos kata sarka», seg u n d o 2Co 5,16,
e ju lg a f a la r seg u n d o a in ten ção de P a u lo ao a firm a r que a a tiv id a d e te rre n a
de Je s u s é teo lo g icam en te in sig n ific a n te (cf. § 27,111.2). P o r isso, su a c rític a
h istó ric a ra d ic a l à tra d iç ã o d e v e ria s e r v is ta com o teo lo g icam en te p o sitiv a ;
pois d e sv ia ria d as im ag en s de Je su s, o riu n d as, com m a io r ou m en o r in te n ­
sidade, d a im ag in ação , e co lo caria a to d o s fre n te ao v e rd a d e iro cham ado à
decisão. G ünther B o rn k a m m o bjetou, em seu livro « Jesu s v o n N azareth » ,
1956: «O asp ecto p ascal, no q u al a h is tó ria de Je su s se e n c o n tra p a ra a co­
m u n id ad e p rim itiv a , n ã o pode s e r esquecido um único m inuto, m u ito m enos
o fa to de que a h is tó ria de Jesu s, a n tes d a se x ta -fe ira s a n ta e d a páscoa,
e s tá sob e s ta luz. Se fo sse d ife re n te , a com unidade te r-se -ia p erd id o em um
m ito d esligado do tem po» (p. 20).
S e rá que a p ro c u ra re tro s p e c tiv a pelo J e su s te rre n o , teo lo g icam en te ne­
cessária, é possível, sob p o n to de v is ta h istó rico , fre n te à c rític a ra d ic a l d a
tra d iç ã o , com o fo i d esenvolvida p o r B u ltm a n n ? E r n s t K â s e m a n n a acen tu o u
que e ssa c rític a te r ia q u e c o n tin u a r sendo o p o n to de p a r tid a ; segundo o
a n tig o e com provado c rité rio d a p a rtic u la rid a d e h istó ric a , poder-se-ia, no
e n ta n to , a v e rig u a r o que s e ria p e c u lia r a Jesu s. P e c u lia r a Je su s se ria o
que d iv erg e n ã o só do ju d a ísm o e do helenism o, m a s tam b ém d a s concepções
d a com unidade c ris tã p rim itiv a .
Q ual fo i o re s u lta d o d essa p ro c u ra re tro sp e c tiv a n a p esq u isa p ro v en ien te
de B u ltm a n n ? T am bém n o liv ro so b re Jesu s, de B o rn ka m m , no q u al a c rític a
d a tra d iç ã o é u s a d a com b a s ta n te reserv a, a im agem de Je su s d esap arece
p o r dem ais a tr á s d a su a p reg ação . A p ro c u ra re tro sp e c tiv a a té h o je n ã o
alcan ço u o o b jetiv o visado. Isso se ev idencia no re la tó rio a resp eito d a s itu a ­
ção d a pesq u isa, fe ito p o r Jü rg en R o lo lí, «D as K e ry g m a u n d d e r ir dische
Jesu s» , 1970, p. 9-47 (v. tb. n o ta 3 5 ). A p ro c u ra re tro sp e c tiv a a té h o je não
levou a re su lta d o a p ro p ria d o , p o is n ã o se tir a r a m a s eonseqüências h istó ric a s
d a rele v â n c ia teo ló g ica do Je s u s te rre n o , ded u zid a do N T , p a r a o q u erig m a
e pelo fa to de a clássica h is tó ria d a s fo rm a s e su as hipóteses, que se h a v ia m
tra n s fo rm a d o em «prem issas», h a v erem sido rev isad as. E s s a h ip ó tese d izia
que «a com u n id ad e criara a tra d iç ã o c o n tid a no s evan g elh o s e que essa
te ria , a n te s de m ais n ad a, d ad o u m a in fo rm ação a resp eito d as condições
que d e te rm in a m a su a vida». * O que vim os acim a com relação ao su rg im en to
d a tra d iç ã o dos evangelhos, c o n tra d iz essa pressuposição, ocorrendo o m esm o
com a o b ra de J ü rg e n R o lo ff que a re fu ta .

E x c e tu a n d o - s e V in c e n t T a y lo r , « T h e G o sp e l a c c o r d in g to S t. M a rk » , 1952,
n ã o e x is te u m ú n ic o c o m e n tá r io c ie n tífic o q u e s e o c u p e , a fu n d o , c o m a c r ít i c a
d a t r a d i ç ã o d a h i s t ó r ia d a s f o r m a s l i t e r á r i a s . A r e e d iç ã o d o s e v a n g e lh o s sin ó -
tic o s, f e i t a p o r W a l t e r G r u n d m a n n p a r a o T h H K ( B e r lim 1959ss), d á u m a
o r ie n ta ç ã o s o b re a d is c u s s ã o p r in c ip a l, se m , n o e n ta n to , d e s e n v o lv e r u m a n o v a
concepção.

40. GluV. I, 101.


41. E xeg. Vers. I, 1960, 205s.
42. G erhard Ib e r, Z ur F orm geschichte d e r E vangelien, T hR 24 (1957/58), 283-338.
II. As fontes 53

D e q u a lq u e r m a n e ira , tem o s que b a s e a r n o ssa teologia do N T em um a


a n á lise c rític o -tra d icio n a l p ró p ria . A girem os, n a m a io ria d a s vezes, de m a­
n e ira im p lícita, do se g u in te m o d o : 1 ) P ro c u ra re m o s prim eiro, de m a n e ira
n eg a tiv a , re a lç a r, p o r um lado, o que se d e m o n stra se r secu ndário. A s
adiçõ es podem ser, m u ita s vezes, reco n h ecid as p o r m eio de u m a com p aração
com a s tra d iç õ e s sin ó tic a s p a ra le la s, bem com o p o r m eio de p ecu liarid ad es
lin g ü ístic a s e e stilístic a s e d a depend ên cia d a situ a ç ã o d a com unidade. 2)
P o r o u tro lado, p ro cu rarem o s, a p a r t i r de u m m ínim o de p a rte s au tê n tic a s,
c o n s tru ir u m a v isão g e ra l a tra v é s de in te rp re ta ç ã o com preensível, a ) O m í­
nim o de p a rte s a u tê n tic a s re s u lta de aco rd o com o c ritério , a resp eito do
q u a l h á consenso: a p e c u lia rid a d e h istó ric o -relig io sa fre n te ao m eio am ­
b ien te, bem com o fre n te à com unidade c r is tã p rim itiv a . A ap licação desse
c rité rio é su b sid ia d a q u an d o se a p re se n ta rem tra d iç õ e s de d iv ersas fo n te s
q u e independem u m a d a o u tra , p. ex., M c e Q ou a tra d iç ã o sin ó tic a e
P a u lo . rb ) Se p esq u isarm o s esse m ínim o de a u te n tic id a d e em relação aos
co n te x to s p o r ele p ressu p o sto s, te re m o s e n tã o o u tra s tra d iç õ e s que m os­
tr a r ã o serem o rig in a is p o r m o tiv o s de coerência. E s s a re fle x ã o te r á um
p ap e l im p o rta n tíssim o a d esem p en h ar n a teo lo g ia n e o te sta m e n tá ria. A ave­
rig u a ç ã o d essa coerên cia s e rá su b sid ia d a p e la o b servação de c a ra c te rístic a s
lin g ü ístic a s e e stilístic a s, p ró p ria s do cern e d a tra d iç ã o a resp eito de Jesus.
T a is c a ra c te rís tic a s fo ra m d e sta c a d a s p o r Jo a c h im Jerem ias, Theol. I, 14-45.
T erem o s que ex am in á-las e a p lic á -la s n o resp ectiv o c o n te x to tem ático . “
3 ) E n tr e esses dois cam pos d a tra d iç ã o , re s u lta n te s de 1 e 2, p erm an ecerá
u m en trem eio c u ja origem h istó ric o -tra d ic io n a l é in c e rta ; su a s afirm ações,
n o e n ta n to , n ã o p rovocam a lte ra ç õ e s fu n d a m e n ta is n o assu n to .
A quilo que in icialm en te v am os s e p a ra r com o sendo secundário, será
av alia d o m a is ta rd e , em o u tr a p a r te d a teologia n e o te sta m e n tá ria . P o is o
se p a ra d o contém a e lab o ração d a tra d iç ã o n a com unidade p rim itiv a , bem
com o o tra b a lh o re d a c io n a l d o ev an g elista. D essa m a n e ira o m a te ria l dos
evan g elh o s sin ó tico s su rg irá , ao tod o , de tr ê s a q u a tro vezes, n a teologia
n e o te s ta m e n tá ria : n a d escrição de Jesu s, n a te o lo g ia d a com unidade p ri­
m itiv a e, fin alm en te, n a te o lo g ia dos ev an gelistas.

2 ) A c o n trib u ição do ev angelho de Jo ão . “

0 evangelho de Jo ã o a p re s e n ta o d e sen ro lar d a a tiv id a d e de J e su s de


m a n e ira m a is v a ria d a que os sinóticos. Os sin ó tico s a p re se n ta m J e su s n a 45
44. N orm an P e rrin , R ediscovering th e T eaching of Je su s, L ondres 1967, 15-49, foi o últim o
a re fle tir a respeito de c ritério s re fe re n te s à autenticidade. E le p a rte do principio d a escola
d e B u ltm an n : N ão se p recisa p ro v a r a inautenticidade, m as a au ten ticid ad e de um a tradição
a respeito de Je su s. São os seguintes os critério s d a a u ten ticid ad e: 1» «The c riterio n of dissi­
m ilarity» (p. 39), 2» «The c riterio n of coherence»: a utêntico é o que se relaciona, como um
todo, com o m ate ria l elaborado segundo o prim eiro princípio (p. 43), 3? «The c riterio n of
m u ltiple a tte statio n » : O fa to de um dado se r testem unhado p o r d iversas fontes sinóticas pode
a te s ta r a a u tenticidade bem como o in te resse d a com unidade p o r essa tradição. D esse c ritério
podem se r deduzidos principalm ente os traç o s p rincipais d a ativ id ad e d e Je su s (p. 45ss).
H elm u t KOster ap o n ta p a ra a p roblem ática do critério fu n d am en tal d a d issim ila rity : T he h is­
to ric al J e s u s : Some Com ments and T h o u g h ts on N orm an P e rrin ’s R ediscovering th e T eaching
of Je su s, em : C hristology and a M odem P ilgrim age, ed. b y H an s D ie te r Betz, Clarem ont
1971, 123-136. A m eu v e r tem que se d ize r o seguinte: A delim itação de tradições, segundo
esse c ritério, sem pre é re la tiv a : pois ela depende de nosso conhecim ento do am biente.
P o r isso se rá necessário d e te rm in a r a peculiaridade não som ente sob o ponto de v ista estático,
m as segundo a espécie. Mesmo então a delim itação não é exclusiva; tradições a respeito de
J e s u s que têm paralelos no am biente, tam bém podem s e r a u tê n tic as! De m odo algum a
peculiaridade como tal, é um a pro v a de singularidade. A o b ra de E. P . Sanders, T he T enden­
cies of th e S ynoptic T radition, 1969, evidencia quão pouco claros são os c ritério s lingilisticos
e estilísticos quando tom ados isoladam ente.
45. R udolf Schnackenburg, D as Johannesevangelium (H erder-K .) I, 1965, 1-26 (L it.!), faz um a
apreciação histó rico -trad icio n al do evangelho de Jo ã o sem elhante & que esquem alizam os
a seguir.
54 § 2 : 0 ponto de partida e as fontes

G aliléia e levam -no, u m a vez, a Jeru salém , p o r ocasião d a p áscoa de su a


m o rte . S egundo Jo ão , J e s u s a p arece o ra em Jerusalém , o ra n a G aliléia ou
n a S am aria. P o r isso, a P e sq u isa d a V id a de Je su s p rocurou, a princípio,
dedu zir a im agem do Je su s h istó rico do evangelho de João. Com o p a ssa r
do tem po, no e n ta n to , viu-se que o Je su s jo an in o n ão é o h istó rico , m as
sim u m a im agem teo ló g ica de C risto . E m fin s do séc. X IX , o evangelho
de Jo ã o fo i deixado de lado n a b u sca pelo Je su s histórico, e isso p e rm a ­
neceu assim a té os n ossos dias, ex cetu an d o -se St auf f er . S e rá que assim
e s tá c e rto ? Como se deve ju lg a r a tra d iç ã o a resp eito de Je su s a p re se n ta d a
pelo evangelho de Jo ão , sob o p o n to de v is ta d a c rític a d a tra d iç ã o ? Isso
se evidencia em u m a com paração com a tra dição sinótica. Jo ã o se d istin g u e
dela de tr ê s m a n e ira s:

a ) O evangelho de Jo ã o u s a u m a term inologia d iferen te da dos sinóticos.


N ão exige arrep en d im en to , m a s um novo n ascim en to ; c ita como alvo, ap en as
u m a vez, o re in o de D eu s; no m ais, f a la sem p re d a vida, resp. d a v id a
e te rn a . U sa a lin g u ag em de I João, q u er fa le Jesu s, q u er falem o u tra s pes­
so as ou o p ró p rio ev an g elista. Je su s, no e n ta n to , a nosso v er p a re c e t e r
u sad o a te rm in o lo g ia sin ó tica. A te rm in o lo g ia jo a n in a form ou-se, com o se
pode d e m o n stra r hoje, em um âm b ito que v ai desde os essênios d a P a le stin a ,
p assa n d o p e la S a m a ria e a S íria, a té a Á sia M enor. P elo fa to de o evangelho
de Jo ã o u s a r e ssa term in o lo g ia, é errô n eo q u erer-se colocar n a T eologia neo-
te sta m e n tá ria , a s a firm açõ es jo a n in a s lado a lado com a s sin ó ticas. C aso
quiserm o s c o m p a ra r a firm açõ es jo a n in a s com afirm açõ es sinóticas, terem o s
que tra d u z i-la s p rim eiro p a r a a te rm in o lo g ia sin ó tica. S om ente dessa m a ­
n e ira poderem os v e r a té que p o n to a in d a podem os e n c o n tra r p a la v ra s ou
o u tra s a firm açõ es do Je s u s te rre n o , n a n o v a term in o lo g ia de João. S om ente
se re a lç a rm o s a m odificação term in o ló g ica, poderem os v er a té que p o n to João
elabo ro u u m a tra d iç ã o fid e d ig n a a re sp e ito de Jesus.

b ) U m te s te p a r a ta n to é a m oldura joanina da a tivid a d e de Jesus. E ssa


m o ld u ra é co m p letam en te a u tô n o m a em rela ção à sinótica. E s tá certo que a
a tiv id a d e de Je su s inicia, como n os sinóticos, com o en co n tro com Jo ã o
B a tis ta e te rm in a p o r ocasião de um passah em Jerusalém . No e n ta n to , Jesu s
não v a i a Je ru sa lé m a p e n a s p o r ocasião do p a ssa h de su a m o rte, m a s j á p o r
d u a s ou tr ê s vezes a n te s disso. T am bém a afirm ação sin ó tic a de M t 23,37
p are c e p re ssu p o r que Je su s te n h a estad o d iv ersas vezes em Jeru salém . Isso
tam b é m p arece viável, se o b serv arm o s a situ ação de então. D essa m an eira,
a m o ld u ra jo a n in a pode c o n te r d ad o s h istó rico s corretos, m as, assim como
a dos sinóticos, não d eix a de se r c o n stru ç ã o lite rá ria . A ssim essa d iferen ça
e x is te n te n a m o ld u ra fa z p a r te de u m a te rc e ira div erg ên cia de conseqüências
bem m a is am plas.

c ) O evangelho de Jo ã o te m u m a e stru tu ra literária d ife re n te d a dos


sinóticos. N ão a p re s e n ta a p e n a s o u tro s assu n to s, m as tam b ém os expõe de
m a n e ira d iferen te. Jo ã o rep ro d u z a p a la v ra de J e su s em fo rm a de discursos,
en q u a n to que o s sin ó tico s a tra z e m em séries de ditos, p aráb o las, ensino eate-
q u ético e co n v ersas polêm icas. C om o devem os a v a lia r os d iscursos jo aninos,
a p a r tir d a c rític a d a tra d iç ã o ? E le s n ã o são liv res com posições que põem
n a b o ca de Je s u s a c risto lo g ia do ev an g elista, com o m u ita s vezes se su p u n h a.
II. As fontes 55

Os d iscu rso s d em o n stra m sem p re de novo serem um desenvolvim ento in te r­


p re ta tiv e , sem elh an te a u m a préd ica, de tra d iç õ e s fid e d ig n a s a resp eito de
Jesus.
P o dem os d e m o n stra r isso em dois exem plos. O discurso a N icodem os,
em J o 3, p a r te d a a firm a ç ã o de J o 3,3: «Se alguém n ã o é n ascido de novo,
n ão pode v e r o re in o de D eus». E s te é, em lin g u ag em jo an in a, o d ito sin ótico
de M t 18,3: «Se não v os co n v erterd es e n ã o vos to m a rd e s com o c r ia n ç a s ...»
O d iscurso a N icodem os, p o rta n to , p a r te de um d ito a u tên tico , ou pelo
m enos a ceito com o ta l, que resu m e de m a n e ira c e n tra l o cham ado ao a rre ­
p en d im en to de Jesu s. O d ito se to rn o u com preensível p a r a os leito re s a tra v é s
d a tra d u ç ã o p a r a a te rm in o lo g ia jo a n in a . E s s a in te rp re ta ç ã o p a r a os leito res
é c o n tin u a d a em 3,5. A g o ra o cham ado de Je su s ao a rrep en d im en to é a p re ­
sen ta d o com o cham ad o ao b a tism o : «Q uem n ã o n a sc e r d a á g u a e do E sp í­
r i t o . . . » . A tra v é s d essa fo rm u lação , o ch am ado ao arrep en d im en to , fe ito pelo
Je s u s te rre n o , é tra n s p o s to p a r a a situ a ç ã o pós-pascal. A pós a páscoa, o
cham ad o m issio n ário ao a rre p e n d im en to é sem p re cham ado ao b atism o. A
p a r tir de 3,9, fic a a in d a m a is evid en te que o discurso coloca o d ito de Je su s
n a situ a ç ã o d a com unidade pós-pascal. O discu rso p a ssa a u s a r a 3’ pessoa
e c o n tin u a : O novo n ascim ento, que fo i exigido n a p rim e ira p a r te do discurso,
oco rre p o r m eio d a f é em aq uele que fo i crucificad o e e x a lta d o p o r D eus.
D essa m a n e ira um d ito de Je s u s fo i desenvolvido p ra tic a m e n te com o um
te m a de préd ica, n a situ a ç ã o d a com unidade pós-pascal.
A ssim com o aq u i a p a la v ra do Je su s te rre n o fo i relac io n a d a com a
situ a ç ã o pós-pascal, em o u tro s discu rso s o corre o m esm o com seu s a to s sal-
víficos. E m J o 6, p. ex., é n a r r a d a p rim eiram en te a alim en tação de cinco
m il pessoas, tid a com o tra d iç ã o válid a, sendo en tão exp licad a no discurso
so b re o p ã o d a v id a : E sse m ila g re dos d ia s te rre n o s n ã o deve le v a r a com u­
nid ad e a e sp e ra r p o r o u tra alim e n ta ç ã o m arav ilh o sa. E la deve v er, no m ilagre
dos d ias te rre n o s, um sin al, u m sêm eion, que a p o n ta p a r a aquele que se
oferece a g o ra com o o p ã o d a v id a ; 6,27: « T rab alh ai p e la c o m id a ... que o
filh o do hom em v o s d ará» . E sse f u tu ro a p o n ta p a r a a situ ação pós-pascal.
C hegam os, pois, à s se g u in te s conclusões: 1 ) S egundo a su a e s tru tu ra , o
evangelho de João, assim com o os sinóticos, é re alm en te evangelho, i. é, um
re la to q u erig m ático , in te rp re ta tiv o a re sp e ito d a a tiv id a d e te rre n a d e Jesus.
2 ) N o e n ta n to , em Jo ão , a in te rp re ta ç ã o é m u ito m ais in te n siv a do que nos
sinóticos. D isso advém , p a r a o a p ro v e ita m e n to de Jo ã o n a teologia n eo te sta -
m e n tá ria , o se g u in te : O evangelho de Jo ã o contém , m u ito m ais do que os
sinóticos, teo lo g ia do ev an g elista. 3) N o e n ta n to , tam b ém desse evangelho
podem s e r deduzidos elem en to s q u a n to à ação te rre n a de Jesu s. E sse s ele­
m en to s sã o poucos q u a n to ao volum e, m a s m u ito c e n tra is : A pontam , como
p. ex. o te m a do d iscu rso a N icodem os, J o 3,3, p a r a passag en s-ch av e d a
ação te r r e n a de Jesu s. U m a h is tó ria d a tra d iç ã o jo a n in a que exam ine esses
indícios a in d a e s tá p o r s e r e sc rita . P ro c u ra rem o s, no m om ento op o rtu n o , t r a ­
ç a r p a ra le lo s q u a n to a q u estõ es im p o rta n te s e n tre a s tra d iç õ e s a resp eito de
Je s u s n o s sin ó tico s e as c o rresp o n d en tes jo an in as.
N o ssa co m p aração do evangelho de Jo ã o com a tra d iç ã o sin ó tica con fro n ­
ta -n o s a in d a com a se g u in te q u e stã o : Q ual a posição do p ró p rio e v a n g elista
em re la ç ã o à tra d iç ã o sin ó tic a ? E s s a q u estão é c o n tro v e rtid a a té os d ias
atu a is, p o is q u ase n ão ex istem m a n ife sta ç õ es d ire ta s. A m eu v er, podem -se
fa z e r tr ê s deduções: 1 ) J o ã o p ressu p õ e que a tra d iç ã o sin ó tic a s e ja oonhe-
56 § 2: O ponto de partida e as fontes

cida p ela com unidade, m a s n ão fa z uso dela. 2 ) N ão q u er su b stitu í-la. C orrig e-a
em a lg u n s a sp e c to s e d e ix a -a de p é no dem ais. 3 ) S u a in ten ção p a rtic u la r é
a de co lo car u m a im ag em p ró p ria de Je s u s ao lado d a dos sinóticos, que,
com base em um teste m u n h o in d ep en d en te a resp eito de Jesu s, proporcione
u m a com preensão m a is p ro fu n d a de s u a pessoa.

3) A tra d iç ã o c ris tã a re sp e ito de Jesu s, além d a e n c o n tra d a nos evan­


gelhos canônicos.

a ) J á n a s c a r ta s de P a u lo en c o n tra m o s p a la v ra s de Je su s que fo ra m
tra n s m itid a s p a ra le la m e n te ao s evan g elh o s n e o te sta m e n tá rio s, deno m in ad as de
ágrapha. P a u lo b aseia-se, q u a tro ou cinco vezes, em u m a p a la v ra de Jesu s.
T rê s p assag en s, IC o 7,10; 9,14 e ll,2 4 s , correspondem a d ito s dos nossos
evangelhos. E m R m 14,14, o d ito n ã o é citad o e x p ressis verbis. M as talv ez
em l T s 4,16 te n h a m o s u m ágraphon. N o te-se que a ú n ica p a la v ra d e Je su s
c ita d a em A to s dos A pó sto lo s é u m ágraphon, A t 20,35.
E n c o n tra m o s a in d a um bom n ú m ero de ágrapha com o citações em a u to re s
c ris tã o s a n tig o s, bem com o em am p liaçõ es do te x to em m a n u sc rito s de ev an ­
gelh o s e n os evan g elh o s apócrifo s. Jo a ch im Jerem ias a n aliso u d eta lh a d a m en te
to d o o m a te ria l ex iste n te , em seu liv ro «U n b ek an n te Jesu sw o rte» (1965*).
S egundo a opinião d e ste a u to r, n u m to ta l de 200 a 300 ágrapha, en contram -se
a p e n a s 20 que são co m p aráv eis à s p a la v ra s de J e su s c o n sta n te s n o s sinóticos.
P ro v a v e lm e n te esse n ú m ero a in d a te n h a de se r reduzido. D essa m an eira, a
tra d iç ã o dos sin ó tico s a re sp e ito de Je su s n ão é co m plem entada de m a n e ira
sig n ific a tiv a pelos ágrapha.
A o lad o d a s p a la v ra s iso lad as do Senhor, en co n tram o s os evan g elh o s
apócrifos.

b ) A té bem pouco tem po, tín h a m o s a p e n a s u m n ú m ero red u zid o de f r a g ­


m en to s de evan g elh o s apócrifos, em fo rm a de citações de P a is d a I g r e ja e
fra g m e n to s de p ap iro . S ão rep ro d u zid o s, em tra d u ç ã o alem ã, com u m co­
m e n tá rio inicial, em E d g a r H en n ecke, N e u te sta m e n tlic h e A p o kryphen, Vol. I
E van g elien , 19593, ed itad o p o r W ilh elm Schneem elcher. D esde a d esco b erta
dos p a p iro s d e N a g H a m a d i (c a 1945), tem o s ev angelhos c o m p le to s." Os
evan g elh o s ap ó crifo s de N a g H a m a d i p ro v êm d e círculos de c ris tã o s gnósticos
coptas. A m a io ria deles n ã o contém tra d iç ã o a resp eito de Je su s; a trib u e m
a J e s u s especulações g n ó stic a s deles p ró p rio s. A ssim o co n sta ta m o s no E v an -
geliu m V e rita tis, que p ro v a v e lm e n te é d a a u to ria de V alen tin o , o fu n d a d o r
d a m a is fa m o sa escola g n ó stic a do séc. I I . A p en as um d e n tre os evangelhos
a té h o je e d ita d o s contém tra d iç õ e s que são a n te rio re s ao s círculos gnósticos,
o E v a n g e lh o de Tom é. A p re se n ta u m a seq uência d e ditos, p a rá b o la s e ensi­
nam en to s, m a s n en h u m re la to , fa lta n d o -lh e p rin c ip a lm e n te o re la to d a paix ão
e d a p ásco a. A fo rm a a tu a l desse ev an g elho deriv a-se de necessid ad es g n ó s­
tic a s ; elim inou-se d a tra d iç ã o d o tip o sin ótico a resp eito de Je su s tu d o o
que e ra pessoal, p erm an ecen d o a p e n a s a s p a la v ra s de Jesu s. Se com p ararm o s
essas p a la v ra s com o s sinóticos, verem o s que, n a m a io ria d a s vezes, sã o m o­
d ificaçõ es e co m plem entações g n ó stic a s; em p a rte , no e n ta n to , d ito s e p a rá ­
b o las p arecem s e r de fo rm u lação m a is o rig in al que a dos sinóticos. P o r isso
pen so u -se que o ev an g elh o de T om é fo sse u m a c o letân ea de d ito s m u ito 46

46. EdiçCes e traduções, vide Billerb.-H istorisches Hdw. II, 1280s.


II. As fontes 57

a n tig a , in d ep en d en te d a tra d iç ã o sin ó tica, m a s de a cab am en to gnóstico. M as,


se o b serv arm o s m a is d etid am en te, verem os, segundo m in h a opinião, que o
evan g elh o co n siste essencialm ente em u m a a d a p ta ç ão g n ó stic a d a tra d iç ã o
sin ó tic a ; pode, contudo, te r tam b ém u sad o u m a tra d iç ã o o ra l a p ó c rifa de-
d ito s e p a rá b o la s iso lad as que, m m e stá g io p ré -lite rá rio , te n h a m se se p a ra d o
d a tra d iç ã o s in ó tic a ."
M as, m esm o se a c e ita rm o s essa h ip ó te se p a r a o evangelho de T om é &
p a ra a lg u n s o u tro s casos, terem o s, a p a r t ir de u m a co m p aração e n tre os
evangelhos ap ó crifo s e fra g m e n to s de evangelhos, o seg u in te re su lta d o : A
tra d iç ã o a p ó c rifa depende em g ra n d e p a r te dos evangelhos sin ó tico s e quase
sem p re m o s tra s e r se c u n d á ria sob o p o n to de v is ta d a h is tó ria d a tra d iç ã o .
N a tra d iç ã o d e ste s evan g elh o s h á u m a c e rta v iru lên cia e deform ação. S e
co m p a ra rm o s os evan g elh o s sin ó tico s e n tre si, v erem os que n ã o podem os cons­
t a t a r neles u m a ta l viru lên cia. O pro cesso d e tra n sm issã o o ra l e e sc rita
ocorreu, n o s p rim ó rd io s do cristian ism o , sob a in flu ên cia d o s p rin cíp io s d e
tra n sm issã o ju d aico s, e a p re g a ç ã o «apostólica» deu-se — d ife re n te d a p re ­
g ação d a época n e o te s ta m e n tá ria — f o r a desse âm bito. P o r isso n ã o podem os
ded u zir d essa d efo rm ação p o ste rio r d a tra d iç ã o , com o o fez H e lm u t K ô ste r
(«D ie sy n o p tisch e Ü b erlieferu n g bei den A p ostolischen V â te m » , 1957), q u e
os que a tra n s m itira m se te n h a m b asead o em um aco n tecim en to se m elh an te
de época a n te rio r.
A in d a m enos v a lio sa s que a tra d iç ã o d os ap ó crifo s c ristã o s são n o tíc ia s
de a u to re s n ão -cristão s.

4 ) T rad içõ es n ã o -c ristã s a re sp e ito de Jesus.

G o sta ría m o s m u ito de d a r um v a lo r to d o especial a n o tíc ia s n ã o c ristã s


a re sp e ito de Jesu s, pelo f a to de a s ju lg a rm o s im parciais. T eríam o s p. ex.,
g ra n d e s e sp e ra n ç as se fo ssem en co n trad o s, em um pedaço de p ap iro , o s
a u to s do pro cesso fe ito p o r P ila to s. P ro v a v elm en te fic a ría m o s decepcionados,
pois c e rta m e n te a p re se n ta ria m , como os re la to s de P lín io a resp eito dos c ris­
tã o s, a p en as u m a sé rie de m al-en ten d id o s.
E s s a suposição é c o n firm a d a pelo pouco que existe, em m a té ria d e
n o tíc ia s n ão c ristã s, a re sp e ito de Jesu s, dos dois p rim eiro s séculos. E n tr e
os h is to ria d o re s rom anos, Je s u s é c ita d o a p en as em u m a p assag em em T á cito
e S u etô n io , resp ectiv am en te. O que eles re la ta m , p o r v o lta do an o 1 1 0 ,* é
p ro v en ien te de a firm açõ es de c ristão s. E sse re su lta d o é com preensível; pois,
p a ra o Im p ério , a a tu a ç ã o de Je s u s e de seus discípulos, n essa época, e ra
u m a q u estão to ta lm e n te secu n d ária. E s tra n h o , no e n ta n to , é que tam b ém J o ­
se f o, o h is to ria d o r ju d e u d a época, q u ase que silen cia a resp eito de J e su s:
A s d u a s b rev es observações so b re Je su s, que e n co n tram o s em su a s o b ras,
no m ínim o fo ra m c o rrig id a s p o r c ristão s, caso n ã o fo rem a té in terpolações. * 4789

47. Vide também Kümmel, Einleitung, 48s (L it.!).


48. Tácito, Anais XV, 44: Nero teria culpado a outras pessoas para afastar a suspeita de
que ele ordenara o incêndio de Roma, «os homens que, em virtude de toda espécie de infâmia,
são odiados e que popularmente são chamados de chrestianos. O nome se relaciona com um
certo ‘Cristo’ que o procurador Pôncio P ilatos mandara executar sob o governo de Tibério».
Suetônio, A respeito da vida dos Césares V, 25, 4: O imperador Cláudio teria «expulsado
os judeus de Roma por haverem feito distúrbios, motivados por um (certo) Chrestus». (O nome
Chrestus, que era bastante conhecido, provavelmente foi confundido com C risto); cf. J. B.
Aufhauser, Antike Jesus-Zeugnisse (Kleine Texte 126), 192!?.
49. Antiquitates 20,200 (9,1) relata de maneira concisa que «o irmão de Jesus, o dito Cristo,
que era chamado de Tiago» foi executado. Isso poderia ser autêntico, mas, em contraposição,
Ant. 18,63 (3,3) foi com toda a certeza interpolado: «Nessa época surgiu Jesus, um homem
58 § 2: O ponto de partida e as fontes

P o r que o h is to ria d o r ju d e u sile n c ia a re sp e ito de Je su s e dos c ristã o s? Jo seio


escrev e p a r a o público h e le n ista ro m a n o ; ta lv e z q u e ira e v ita r que se a trib u a
ao ju d a ísm o o m ovim ento q u e é su sp e ito desde a perseg u ição sob N ero.
A tra d iç ã o ra b ín ic a do ju d a ís m o " fa la ap enas, de q u an d o em vez, v elada-
m e n te de J e s u s e d os N azaren o s. A s n o tíc ia s são tã o in trin c a d a s e os dados
tã o d efo rm ad o s que, m u ita s vezes, n ão se p o d e dizer ao c e rto se a s p assag en s
de f a to se refe re m a Je s u s ou a o s c ristão s.
P o r isso, o ex am e d a s fo n te s e x iste n te s no s lev a a ded u zir o conteúdo
teológico d a a tiv id a d e te r r e n a d e Je su s, especialm ente d a tra d iç ã o sin ó tic a ;
e isto n ã o so m en te em co n sid eração ao cânone, m a s tam b ém p o r m o tiv o s
h istó rico s. E ’ d essa m a n e ira q u e p rocedem h o je to d a s a s exposições cie n tí­
fic a s d a a tiv id a d e te r r e n a de Jesu s.

ADENDO:

Observações quanto à literatura, referente à 1- parte

1* N a lite r a tu r a c ie n tífic a a lem ã , r e fe r e n te a o N o v o T e sta m e n to , a a tiv id a d e do


J e s u s te r r e n o é ex p o sta , e m g e ra l, n a s T e o lo g ia s d o N o v o T e sta m e n to . C om o s e
e v id e n c io u n o r ela to so b re o d e se n v o lv im e n to d a p e sq u isa , e s s a e x p o siç ã o é f e it a
d e d iv e r s a s m a n e ir a s e isso já se m o str a n o e sp a ç o c o n c ed id o a e s s e te m a : S c h la tte r
e J e r e m ia s ab o rd a m -n o e m u m v o lu m e, B u ltm a n n (e se m e ln a n te m e n te C o n ze im a n n ;,
a p e n a s e m q u a tro de 61 p a r á g r a fo s: A d o lf S c h la tte r , D ie G e sc h ic h te d e s C ü ristu s,
1923s; R u d o lf B u ltm a n n , T n e o lo g ie d e s N e u e n T e sta m e n ts, 1953 (196b“), § 1-4; R u u o lf
S c h n a c k e n b u r g , N e u te s ta m e n tlic h e T h e o lo g ie . D e r S ta n d d e r F o r sc h u n g , 1963 (,l£65il ,
58-74; H a a s C o n zeim a n n , G ru n d riss d e r T h e o lo g ie d e s N e u e n T e sta m e n ts, 1967 (1968s),
§ 12-16; W e rn er G eorg K iim m e l, D ie T h e o lo g ie d e s N e u e n T e s ta m e n ts n a c n se m e n
H a u p tz e u g e n , J e su s , P a u lu s , J o h a n n e s (.NTD, E r g á n z u n g s r e ih e 3 ), 1969 (1972s); uoar
c n im J e r e m ia s , N e u te s ta m e n tlic h e T h e o lo g ie , 1. T e il: D ie V e r k iin d ig u n g J e su , 1971
(1973s).

2. N o ca m p o d e lin g u a a n g lo -sa x ô n ic a , a tr a d iç ã o a r e sp e ito de J e s u s e m g e r a l


é e x p lo ra d a te o lo g ic a m e n te e m m o n o g r a fia s. A s p u b lic a ç õ e s típ ic a s m a is r e c e n te s
d a G rã -B r eta n h a sã o : V in c e n t T a y lo r, T h e L ife a n d M in istry o f J e su s , L on d res,
1954 (19614) ; C h a rles H. D o d d , T h e F o u n d e r o f C h ristia n ity , 1970; I n S e a r ch o f tn e
H is to r ic a l J e su s , ed. H a r v e y K . M cA rthu r, L o n d res, 1970. A situ a ç ã o d a p e sq u isa
n o s E s ta d o s U n id o s é r e p r e se n ta d a p or d u a s ob ras, fo r te m e n te in flu e n c ia d a s p e la
c o lo c a ç ã o te u ta : A p e sq u isa de N o r m a n P e r r in , R e d isc o v e r in g th e T e a c h in g o f J e su s,
L o n d re s, 1967 (W e s le h r te J e s u s w ir k lic h ? 1972) e a ob ra d e J o h n K eu m a n n , J e su s
in th e C h u rch ’s G osp els: M odern S c h o la r sh ip a n d th e E a r lie s t S ou rces, L on d res, 1972.

3. G ran d e im p o r tâ n c ia se m p r e tiv er a m , n a lite r a tu r a in g le s a , e x p o siç õ e s p o p u la r es


a r e s p e ito d e J e su s , e m b a s e te o ló g ic a . E n tr e 1910 e 1950 su r g ir a m c e r c a de 350 exp o­
s iç õ e s a r e s p e ito de J e su s . E ’ o qu e r e la ta O tto P ie p e r n o a r tig o D a s P ro b le m u e s
L e b e n s J e s u s e it S c h w e itz e r (F e s ts c h r . f. O tto S c h m itz , 1953, 73-93).
N a A le m a n h a , e m c o n tr a p o siç ã o , fo r a m p u b lica d o s, a p ó s o fin a l d a lite r a tu r a
a r e s p e ito d a V id a d e J e su s , i. é, a p a r tir d e 1920, a p e n a s a lg u n s p o u co s liv ro s-d e-
b o lso so b re J e s u s que se b a s e ia m n o s r esu lta d o s d a p esq u isa . Im p o r tâ n c ia te o ló g ic a
tê m a s se g u in te s ob ras: R u d o lf B u ltm a n n , «Jesu s», 1926 (1964 S ie b e n ste r n -T a sc h e n -
b u e h ); M a rtin D ib e liu s, «Jesu s», 1939 (1960s c o m u m p o s fá c io d e W e m e r G eorg
K ü m m e l); G ttnther B o m k a m m , « J e su s v o n N a z a re th » , 1956 (1968s); O tto B e tz , «W as

sábio, se é que o podem os cham ar de homem». Não podem os m ais d e te rm in a r a té que ponto
a interpolação fez uso de um tex to de Joseio. F a lsa s são as m enções de J e su s no tex to
eslavo de B e ll Ju d .
50. B illerb. IV, 1239 ref. «Jesus»; H erm ann L eb re ch t Strack, Je su s, die H S retik er und
d ie C hristen nach den â lte ste n jüdischen A ngaben, 1910.
Adendo 59

w is s e n w ir v o n J e su s? » 1965; W o lfg a n g T r illin g (c a t.), « F r a g e n z u r G e s c h ic h tlic h k e it


Jesu », 1966; H e r b e r t B r a u n , « J esu s, D e r M an n a u s N a z a r e th u n d s e in e Z eit», 1969;
J o a c h im G n ilk a (c a t.), « J e su s C h ristu s n a c h fr ü h e n Z e u g n is se n d e s G lau bens», 1970.

4. E lu c id a tiv a é a a p r e se n ta ç ã o d e J e su s f e it a p or h isto r ia d o r e s ju d e u s m o d ern o s.


O cu p am -se e m g e ra l, p or m o tiv o s a p o lo g é tic o s, c o m a tr a d içã o a r e s p e ito d e J e su s,
p a r tic u la r m e n te com o s e u p ro cesso . G o sta L in d esk o g , « D ie J e su s fr a g e im n e u z e itlic h e n
J u d en tu m » , 1938 (reim p r. 1973), o r ie n ta -n o s a r e sp e ito d o d e se n v o lv im e n to d e ss a p e s­
q u isa d e sd e se u s p rim ó rd io s n o sé c . X I X . A ú ltim a e x p o siç ã o m a is im p o r ta n te d e ss e
g ê n e r o é a ob ra e r u d ita de J o s e p h K la u sn er , « J e su s v o n N a z a re th » , 1930 (19523).
P o r m o tiv o s de o r d e m r elig io sa , o cu p a m -se a in d a c o m a p e ss o a d e J e su s : D a v id
F lu sse r , « J e su s in S e lb stz e u g n iss e n u n d B ild d o k u m e n te n » , 1968, e S c h a lo m B en -C h orin ,
« B r u d e r J e su s . D e r N a z a r e n e r in jü d is c h e r S ich t», 1967, q u e p ro cu ra tr a z e r J e su s
n o v a m e n te p a r a o se io d e s e u povo. (O u tra lite r a tu r a : id em , « J e su s im Ju d en tu m »,
1970; 1 'in ch a s E . L a p id e, « J e su s in Isra el» , 1970; S a m u e l S a n d m e l, «A J e w is h U n d er­
s ta n d in g o f th e N e w T e sta m en t» , C in cin n a ti, 1957).

5. U m g ê n e r o e sp e c ia l c o n stitu e m a s e x p o s iç õ e s c a tó lic a s m e d ita tiv a s a r esp e ito


d e J e su s . N e s s e ca m p o v e r ific o u -se u m a tr a n sfo r m a ç ã o n o tá v e l d u r a n te a ú ltim a
d é c a d a . E m m u ita s ob ras, a c o lo c a çã o h istó r ic a e filo s ó fic a d a Id a d e M od ern a co n ­
tin u a a se r ig n o ra d a , p. ex., e m R a y m o n d -L e o p o ld B r u c k b e r g e r , « D ie G esch ic h te
J e s u C h risti», 1967, e M a rcello C arveri, « D a s L e b e n d e s J e s u s v o n N a z a re th » , 1970.
N a m a io r ia d a s v e z e s, n o e n ta n to , e s s a s c o lo c a ç õ e s sã o a ss u m id a s c o n sc ie n te e
a c e n tu a d a m e n te e a b so rv id a s de m a n e ir a m e d ita tiv a : N o r b e r t S ch o ll, « J e su s — nu r
e in M en sch ? » 1971; J o s e f B la n k , « J e su s v o n N a z a r e th . G e sc h ic h te u n d R elev a n z» ,
1972; K a r l S te lze r, «So w a r J e su s , so is t er», 1972; E u g e n B ise r , « D e r H e lfe r . E in e
V e r g e g e n w ã r tig u n g J esu » , 1973.

6. T o d a s a s o b r a s sob re J e su s, c ita d a s a té aqu i, fo r a m so b rep u ja d a s, e m tira g e m ,


p e la s e x p o s iç õ e s e m e s tilo jo r n a lís tic o e p o p u la r -filo só fico , su r g id a s e m g r a n d e n ú m er o
p or v o lta d e 1970. T o d a s e la s p r e te n d e m d ar u m a a tu a lid a d e id e o ló g ic a o u p o lític a
a J e s u s e, a o m e sm o tem p o, rep rim ir d e m a n e ir a c r ític a a tr a d içã o e c le s iá s tic a
b em co m o a p e sq u isa te o ló g ic a ; n o m a is, p orém , tê m in te n ç õ e s a s m a is d iv e rsa s.
O c o n h e c id o jo r n a lis ta R u d o lf A u g ste in a p r o v e ita a r iv a lid a d e e x is te n te e n tr e a s
d iv e r s a s o p in iõ e s d a p e sq u isa te o ló g ic a p a r a t o m a r r e la tiv a to d a r e fe r ê n c ia a res­
p e ito d e J e su s , n o se n tid o do « se g u n d o Ilu m in ism o » , e p a r a fa z e r o h o m e m « v o lta r
a si». S e m e lh a n te é a in te n ç ã o d e J o h a n n e s L e h m a n n , «J e su s-R e p o r t. P r o to k o ll
e in er V e rfà lsc h u n g » , 1970, q u e fa z u so de r e c o n str u ç õ e s h istó r ic a s fa n tá s tic a s .
Im p o r tâ n c ia m a io r tê m a s e x p o siç õ e s so b re J e s u s d e filó s o fo s n e o m a r x is ta s
q u e p r o c u r a m p r e e n c h e r o v á c u o a n tr o p o ló g ico e é tic o e x is te n te n o m a r x ism o por
m eio d e u m a a n á lise d a im a g e m h istó r ic a de J e su s: E r n s t B lo ch , « A th eism u s im
C h riste n tu m . Z u r R e lig io n d e s E x o d u s u n d d e s R e ich s» , R o w o h lt, 1970; id em , «D as
P rin z ip H o ffn u n g » , reim pr. 1967; V itê z s la v G a rd a v sk y , « G ott i s t n ic h t g a n z tot»,
1970; L e sz e k K o lá k o w sk i, «G eist u n d U n g e is t c h r is tlic h e r T ra d itio n en » , 1971; M ilan
M ach ovec, « J e su s fü r A th eiste n » , 1972.
A r e le v â n c ia p o lític o -so c ia l a b o rd a d a n e s s a s ob ras, que, n o e n ta n to , n ã o é d o m i­
n a n te , fo i u n ila te r a lm e n te r e a lç a d a p e lo te ó lo g o c a tó lic o A d o lf H o ü , « J e su s in
s c h le c h te r G esellsc h a ft» , 1971. F a ls ific a ç ã o h is tó r ic a g r o sse ir a c o n stitu i a im a g e m de
J e s u s co m o rev o lu c io n á r io c o n str u íd a p o r J o e l C a rm ich a el, «L eben u n d T o d d e s
J e s u s v o n N a za reth » , 1966a (F is e h e r -B ü c h e r e i, 1968).
U m p recu rso r d e s s a lite r a tu r a d a V id a de J e su s é o r etr a to h u m a n ista de
J e s u s co n tid o n o s d o is liv ro s-d e-b o lso de E th e lb e r t S ta u ffe r , « J esu s, G e s ta lt u n d
G esch ic h te » , 1957, e id em , « D ie B o ts c h a ft J e su , d a m a ls u n d h eu te», 1959.
F r a n z S c h ie r se (e d .), « J e su s v o n N a z a re th » , 1972, a p r e se n ta u m b om resu m o
d a lite r a tu r a a r e sp e ito de J e su s, n o s ca m p o s c ita d o s e a in d a e m o u tro s, p. ex.,
n o s r o m a n c es.
CAPÍTULO II

O Pano de Fundo Histórico


e Histórico-Salvífico

E ’ n ecessário q u e se p e rg u n te p e la m o ld u ra h istó ric a d a a tiv id a d e de Jesu s,


p o is a situ a ç ã o h is tó ric a n ão fo rm a a p e n a s o pan o de fu n d o d essa a tiv id a d e ;
m u ito an tes, a a tiv id a d e de Je su s tom ou fo rm a no diálogo com essa situ a ç ã o
h istó ric a .

§ 3 : A M O LD U RA H ISTÓ R IC A

Ad I: August Strobel, B ibl.H ist.H dw .H l 11966), col. 2221-2224 (L it!); Joachim Jeremias, Abend-
m ahlsworte3, 31-35; Josef B linzler, LThK l l ‘ (1958), 423; Ad II e 111,2: Karl Ludwig Schmidt,
Der Rahmen der Geschichte Jesu, 1919 (reim pr. 1964); Gustav Dalman, Orte und Wege Jesu, 1924; Cle­
mens Kopp, Die heiligen Stãtten der Evangellen, 1959; Quanto às histórias da infância em Mateus e
Lucas, v. comentários e ThW V, 824s; VI, 399s, Ad 111,1: Kart Heinrich Rengstorf, Jesus ais
didaskalos, ThW II, 155-160; Ferdinand Hahn, H oheltstitel, 74-81; Gerhard Friedrich, Jesus (ais
Prophet), ThW VI, 842-847. Ad 111,3: Johannes Leipoldt-W alter Grundmann, Um w elt des Urchristen-
tum s 1, 1967s, 143.217-291; Kurt Schubert, Die lüdischen religiõsen Parteien im Zeitaiter Jesu, em:
D er hlstorische Jesus und der Christus unseres Giaubens, ed. Kurt Schubert, 1962, 15-101, e ainda
as obras de Joachim Jeremias, Jerusalem zur Z eit Jesu, 1962a; A dolf Schlatter, Die Geschichte
Israels von Alexander dem Grossen bis Hadrian, 1925a (reim pr. 1972); Em il Schurer, Geschichte
des iüdischen Volkes im Z eitaiter Jesu C h risti II*, 1907 (reim pr. 1964); Johann M aier, Geschichte
der jüdischen Religion. Von der Z e it Alexander d.Gr. bis zur Aufklarung, 1972, 43-79 (L it!); Mono­
grafias a respeito dos divesos partidos: Rudolf Meyer, Sadduzêismus im Judentum, ThW V II
(1964), 36-51; idem, PharisSismus Im Judentum, ThW IX (1969), 12-36; M artin Hengel, Die Zeloten,
1961; idem, Judentum und Hellenismus, Studien zu ihrer Begegnung unter besonderer Berücksichtigung
Palãstinas bis zur M itte des 2.Jh.v.Chr., 1969

I. Q u a n to à cron o lo g ia re fe re n te a J e s u s

Q u an d o fo i que Je su s a p areceu n a h is tó ria ? C itarem o s aqui ap en as os te x to s


m ais im p o rta n te s e os re s u lta d o s d a pesquisa.

1 ) S egundo L c 3,1, Jo ã o B a tis ta iniciou su a s a tiv id a d e s no 15’ ano d e


T ibério, i. é, e n tre 1 /1 0 /2 7 e 3 0 /9 /2 8 (m enos pro v áv el é 2 8 /2 9 ).

2 ) E s s e d a d o c o n fere com a tra d iç ã o fid e d ig n a de que Je su s a tu o u n a


épo ca de P ô n cio P ila to s. S egundo Jo sefo , P ila to s fo i p ro c u ra d o r d a J u d é ia
e n tre 26-36 (m enos p ro v áv el é 27-37).

3 ) O an o d a m o rte d e J e s u s te m que se r a n te rio r à conversão de P a u lo .


E s ta o co rreu n o s an o s de 33-35, com o é possível calcu lar com o aux ílio d a
in scrição de G alio e dos d ad o s de G1 1,18; 2,1. Segundo cálculo astro n ô m ico ,
II. A origem de Jesus 61

o 15° d ia de N isa n foi, p ro v av elm en te, u m a se x ta -fe ira no s an o s 30 e 31.


O 14° d ia de N isan , q u e é c ita d o p e la cron ologia jo a n in a , fo i prov av elm en te
s e x ta -fe ira n o s a n o s 30 e 33. P ro v av elm en te o d ia d a m o rte de J e su s foi
a se x ta -fe ira de 7 de a b ril de 30 = 14 de N isa n (n ã o é d e to d o im possível
que te n h a sido 15).
A a tiv id a d e p ú b lica de Jesu s, p o rta n to , po d e s e r e n q u a d ra d a de m a ­
n e ira e x a ta n a cro n o lo g ia ab so lu ta . S u a ativ id ad e, que diz resp eito à h u m a­
n id a d e to d a, redu z-se a poucos anos, desenvolvendo-se p ro v av elm en te e n tre
28 e 30 (o u 33) de n o ssa era.
Segundo L c 3,23, Je s u s tin h a c e rc a de 30 a n o s de id ad e ao in ic ia r su a s
a tiv id a d e s; esse dado n ão é u m a d a ta b io g rá fica, m a s deve s e r m ais ou m enos
ex ato . S egundo u m elem ento com um d a s n a rra tiv a s de s u a in fân cia, Je su s
n asceu a in d a sob o gov ern o de H ero d es, o G rande, que g o v ern o u a té 4 aC.
N a d a m a is podem os d ed u zir d a s n a r r a tiv a s d a in fân cia, p o is o censo de Qui-
rin o (L c 2,2) n ã o pode s e r esclarecido como tam p o u co «a estrela» dos m ag o s
(M t 2,2.9s).

n . A Origem de Jesus

O s ev an g elh o s d ão tu n a d u p la re s p o s ta q u ando p e rg u n ta m o s p e la te r r a n a ta l
de Jesu s.

1) A p rim e ira : N a za ré da G aliléia! D u ra n te su a a tiv id a d e pública, Je su s


em g e ra l é v isto como o m e s tre d a G aliléia. Com o ta l é desig n ad o ex p ressa­
m en te p e la p eríco p e de N a z a ré d a tra d iç ã o sin ó tica, M c 6,1-6 p ar. P o r isso
é cham ad o de N azaren o em M arco s; em M ateu s bem com o em Jo ã o e, p a r ­
cialm ente, ta m b é m em L u cas, é cham ado de N azoreu. A m bas a s designações
sã o d eriv açõ es filo ló g icas do n o m e d a lo calid ad e de N azaré. F o i o que H ein ­
rich Sch a ed er dem o n stro u , em T h W IV , 879ss, c o n tra m u ita s suposições im ­
proced en tes. A m eu v e r esse re su lta d o n ão foi p o sto em d ú v id a p ela discussão
s u b s e q ü e n te ."
Je su s fo i cham ado de «N azareno» p rin c ip alm en te pelos ju d e u s; m ais t a r ­
de, den o m in am se u s discípulos de «a s e ita dos nazoreus» ( A t 24,5). C om
essa designação, os ju d e u s q u erem le v a r to d o e q u alq u er p en sam en to a re s ­
p eito d a m essian id ad e de Je su s a d ab su rd u m . J o 1,46: «De N a z a ré pode s a ir
a lg u m a coisa boa?» J o 7,52: « E x am in a ( a E s c ritu ra ), e v e rá s: d a G aliléia
não se le v a n ta o p ro fe ta !» A in sig n ific a n te a ld eia de N a z a ré não é c ita d a
em to d o o A T , m u ito m en o s u m a p ro fe c ia a seu respeito.
P e lo f a to de os ju d e u s te re m m en o sprezado Je su s p o r c a u sa de s u a
o rig em d a G aliléia, su rg iu , n a p esquisa, a h ip ó te se de que s u a oposição ao
ju d a ísm o se b aseasse em s u a o rig em d a G aliléia. W a lte r B a u e r p ro cu ro u d e­
m o n stra r, em seu a rtig o « Jesu s d er G aliláer», “ o se g u in te : A posição lib e ra l
de J e s u s em relação à lei ju d a ic a e su a posição am isto sa em relação a o s
n ão ju d e u s deve s e r ex p licad a a p a r tir d a lib eralid ad e e x iste n te em s u a
te r r a n a ta l, a G aliléia. J á a n te s de B auer, o u tr o s " h a v ia m deduzido d a ori- 512*

51. E d u ard Schweizer, N eotestam entica, 1963, 51-55 fa la a respeito dela.


52. E m : F e stg a b e fü r A dolí Jü lich er, 1927, 16-34 ( = W a lte r B auer, A ufsatze u n d k lein e
Schriften. ed. G. S trecker, 1967, 91-108).
53 H ousten S tew ard Cham berlain, D ie G rundlagen des 19. Ja h rh u n d e rts, 1899 (1933‘T), 210ss.
62 § 3: A moldura histórica

gem galiléia, bem com o do seu co n flito com o judaísm o, que Jesu s, sob o
p o n to d e v is ta étnico, n ã o e ra de ascen d ência ju d aica, m a s in d o -g erm ân ica.
A teo lo g ia « teu to -cristã» u n iu e ssa s d u a s h ip ó teses p a ra fo rm a r s u a im agem
de Jesu s. T a l im agem foi, p. ex., e x p o sta p o r W a lte r G rundm ann em «Jesus
d e r G alilãer u n d d a s Ju d en tu m » , 1940. A lb re c h t A l t pôs fim a essas h ip ó ­
teses, p o r m eio de um estudo exato, in titu la d o «G alilãische P roblem e» * e
pro v o u o se g u in te : O gro sso d a população is ra e lita d a G aliléia p erm aneceu
no país, a p ó s a d e stru iç ã o do re in o do n o rte , e se m an tev e tã o fie l em seu
cu lto a J a v é com o a d iá sp o ra n a B ab ilô n ia e no E g ito . N a época de Jesu s,
o ju d a ísm o d a G aliléia d iv erg ia, em m u ito s pontos, do d a J u d é ia ; m a s o
co n flito de Je s u s com o ju d a ísm o n ã o pode se r deduzido de su a o rig em
galiléia. T am bém é inconcebível que Je su s não s e ja de ascendência ju d aica,
po is a polêm ica ju d a ic a ja m a is te r ia d eix ado isso p a s s a r despercebido.
M ateu s c a ra c teriz a , n o fin a l de su a h is tó ria d a in fâ n c ia de Jesu s, a o ri­
gem n a z a re n a de J e s u s com u m citad o de reflexão, p a r a m o s tra r su a hum il­
d a d e : E le é o n ezer ( I s 11,1), o re b e n to do tro n co de Je ssé (2 ,2 3 ). A n te s
disso, porém , c ita u m local de n ascim en to do qu al a opinião p ú b lica não f a la :

2) B elém . A a firm a ç ã o : Je su s n a sceu em Belém , no N T tem um c a rá te r


to ta lm e n te div erso d o en u n ciad o : E ’ n a tu ra l de N azaré. A pen as d u a s p a ssa ­
g en s do N T fa la m do n ascim en to em B elém : os dois p rim eiro s c a p ítu lo s dos
evan g elh o s de M ateu s e L ucas.
Sob o p o n to de v is ta d a h is tó ria d a trad ição , deve-se d izer brev em en te
o se g u in te a re sp e ito d eles: O s re la to s sã o in d ep en d en tes um do o u tro ; p o r
isso, o co n teú d o em com um é tra d iç ã o b a s ta n te a n tig a . A m bos u sam o estilo
d a lenda. S eguindo esse estilo, a p re se n ta m u m a im agem d a origem h istó ric a
de Jesu s, onde dois elem entos se en trelaçam , se os o b servarm os q u a n to à
origem d a tra d iç ã o : a ) A im agem pode c o n te r tra d iç ã o h istó ric a p ro v en ien te
d a fa m ília de Jesu s, p o is essa tin h a u m a posição co n ceitu ad a n a ig re ja d a
P a le s tin a onde aqueles re la to s su rg ira m . Segundo E usébio, H is tó ria E clesiás­
tic a 3,20, e n tre am ig o s e inim igos, e ra tid a com o p ro v en ien te d e D avi.
b ) P o r o u tro lado, n o e n ta n to , e ssa im agem reflete, m u ito an tes, u m a c risto -
lo g ia a n tig a , b a s ta n te sem elh an te à co nfissão o rig in á ria d a ig re ja d a P a le s­
tin a e que e n c o n tra m o s em R m l,3 s : «N asceu, seg u n d o a carne, d a sem en te
de D avi, fo i e n tro n iz a d o com o F ilh o de D eus, p oderosam ente, desde a re ssu r­
reição dos m o rto s, seg u n d o o E s p írito S anto». A locução «segundo o E s p írito
S anto» refere-se, a m eu ver, tam b ém j á ao Je su s te rre n o . O Je su s te rre n o
p e rte n c ia , a u m só tem po, à sem en te de D avi e ao E s p írito S anto. A s n a r r a ­
tiv a s re fe re n te s à o rig em de Jesu s, que en co n tram o s n a s h is tó ria s d a in fân cia,
co rresp o n d em a essa confissão cristológica.
C om b ase em ta is elem entos d a h is tó ria d a tra d iç ã o , as n a rra tiv a s a
re sp e ito d a in fâ n c ia de Je su s dizem d u as coisas sobre a origem h istó ric a de
J e s u s : a ) E le veio do E s p írito de D eus, que c ria coisas n o v as n a h istó ria,
é m a io r que os eleitos do A T com o Isa q u e e Sam uel. Isso é o que querem
m o s tra r a s re fe rê n cia s à concepção v irg in al, p ro v en ien te do E sp írito , que
en c o n tra m o s em M t 1,18-20 e L c l,3 4 s. E s tã o b a s ta n te d is ta n te s dos m ito s
egípcios a re sp e ito do n ascim en to divino do d e u s-re i.K b ) E , m esm o assim , 54

54. P a lã stin a ja h rb u c h 35 (1939), 64-82 (= A lbrecht Alt, K leine Schriften z u r Geschichte des
Volkes Is ra e l II, 19643, 407-423); cf. E. Johnson, J e su s in his Hom eland, New Y ork 1957.
55. Cf. tam bém E d u ard Schwelzer, T hW VI, 399s.
III. O desenvolvimento e o ambiente da atividade pública 63

ele vem ao m esm o tem p o d a c o n tin u id a d e d a h is tó ria d a prom issão. J u r id i­


cam en te n asce com o descen d en te de D avi, n a cidade de D avi, B elém : M t
1,24a; 2,1; L c l,2 7 s ; 2,1-7.
E s s a s d u a s a firm a ç õ es n ã o q uerem s e r docum entos que provem , a n ã o
c ristã o s, o s e r divino ou a m essian id ad e de Jesu s. N ão a s en co n tram o s no
evang elh o de M arcos com seu c a r á te r m issionário, m a s no s evangelhos m aio ­
res, que se d e stin a m à com unidade.
N ão é s u a in te n ç ã o re sp o n d e r p e rg u n ta s que o evangelho de Jo ã o re je ita .
E m Jo 6,42, «os jud eu s» , que se chocam com a o rig em h u m a n a de Jesu s,
não são in fo rm a d o s a re sp e ito de u m a concepção v irg in a l p ro v o cad a pelo
E sp írito S an to . T am bém os que, p a rtin d o d a E s c ritu ra , se chocam com a
orig em n a z a re n a de Je su s n ão sã o in fo rm ad o s so b re u m n ascim en to d a trib o
de D avi, em B elém (J o 7,41.52). Jo ã o silen cia so b re isso tu d o , n ão p o r não
t e r n o tíc ia s a re sp e ito ou p o r n ão ju lg á -la s d ig n a s de fé. E le silencia, p o is
ao que o b je ta : «De N a z a ré p ode s a ir a lg u m a coisa boa?» (J o l,4 5 ss) n ã o
se d á re s p o s ta com re fe rê n cia s a um n ascim en to m arav ilh o so em Belém . A
ele só se p ode d iz e r: «Vem e vê!» — vem v e r a a tiv id a d e p ú b lica de Je su s.
T am bém n o s re la to s de M ateu s e L u cas sobre a a tiv id a d e p ú b lica d e
Jesu s, n u n c a se a p o n ta p a r a os re la to s a re sp e ito d a in fância. P a r a eles,
Je su s ta m b é m em s u a a tiv id a d e p ú b lica é o que o títu lo so b re a cru z diz:
Je su s N azaren o . A p en as àqu ele que te v e acesso a essa a tiv id a d e p ú b lica que
te rm in a n a cruz, a s h is tó ria s d a in fâ n c ia querem d a r u m a explicação d a
origem h is tó ric a desse hom em sem p a r. E s s a explicação não te m com paração
h istó ric a nem tam p o u co re fu ta ç ão .

m . O desenvolvimento e o ambiente da atividade pública

1 ) A a tiv id a d e de Jesu s, tra n s m itid a p elos evangelhos, desenvolve-se essen­


cialm en te no seio do ju d aísm o d a P a le stin a . Q uem a o b serv ar ex terio rm en te,
de m a n e ira m e ra m e n te h istó ric a , obtém a p rin cíp io a im p ressão que Ju liu s
W ellhausen ex p resso u n a s e n te n ç a : «Jesus não fo i u m ‘c ristã o ’, m as um
judeu». “ B u ltm a n n é d a m esm a opinião. ” E s s a se n te n ç a q u er e x p re ssa r que
Je su s foi, a té o fim , um m em bro do povo ju d e u ; p e n sa v a e ag ia, tam b ém
no cam po religioso, em te rm o s e concepções desse povo. M as esse f a to
tam b ém q u e r d izer que Je s u s n ão ro m p eu aqueles m oldes. Je su s fin a lm e n te
fo i elim inado com violência, a ssim com o o M estre d a J u s tiç a de Q u m ran ,
p o r h a v e r defendido ou desenvolvido u m a lin h a do ju d aísm o c o n trá ria à
o rie n ta ç ã o vigen te.
E ssa exposição rep ro d u z, de m a n e ira c o rre ta , a im pressão p rim á ria que
se tem , m esm o n ão fazendo, o b jetiv am en te, ju s tiç a a Jesu s. Je su s n ã o se
m a n ife sta , de m a n e ira n enhum a, como fu n d a d o r de um a religião. N ão c ria
u m sistem a relig io so que, depois, é en sinado p o r ele e seu s seguidores, com o,
h á 600 an o s a n te s dele, o fiz e ra B u d a. M as su rg e com o «M estre de Israel» ,
no seio do povo de Is ra e l e n a h is tó ria de D eus com esse povo.
S u a ativ id a d e se assem elha, a p rincípio, à a tiv id a d e de um escriba judeu.
S em p re de novo é cham ado de d idaskale. E sse tra ta m e n to corresponde, como
bem o ex p lica J o 1,38, ao rabbi aram aico , m eu senhor, te rm o com o q u a l 567

56. E in le itu n g in die d rei ersten Evangelien, 19112, 102.


57. D as U rch risten tu m im R ahm en d e r antiken R eligionen, 1949, 78; cf. Theol. 35.
64 § 3: A moldura histórica

n o rm a lm e n te se t r a ta v a o escriba. Je s u s e s tá cercado, com o u m rabbi, p o r


u m círcu lo de alu n o s e desig n a-o s com o ta is, como m a th êta i, alunos, o que
tam b é m p ode s e r tra d u z id o p o r «discípulos». O que te m a d izer desenvolve-o,
em g ra n d e p a rte , à m o d a d os escribas, em diálogo, so b a fo rm a de ensino
ou d e d isp u ta , bem com o p o r m eio de d ito s, fá c e is de g ra v a r, e d e p aráb o las.
T am b ém q u a n to ao conteúdo, su a s p a la v ra s sã o ch am ad as de «ensino»; «en­
sin a r» sig n ifica, em Isra e l, expor, a p a r t i r d a E s c ritu ra , o cam inho e a von­
ta d e de D eus.
N o e n ta n to , tam b ém co n tem p o rân eo s que n ão p erten ciam a se u círculo
m a is e s tre ito v iam que s u a a tiv id a d e n ão se resu m ia n a do escriba. S egundo
M c 1,22, ad m irav am -se dele, «porque os e n sin av a com o quem te m a u to ri­
d a d e e n ã o com o os escribas». O que so b ressai no co n teú d o de seu en sin a­
m e n to , tra n s p a re c e ta m b é m n a m a n e ira com o fa la . A ssum e, m u ita s vezes, a
fo rm a de p re g a ç ã o p ro fé tic a d ire ta , p. ex., n a s b em -av en tu ran ças. O f a to
de su a s p a la v ra s serem a c o m p a n h a d as de ações m a ra v ilh o sa s ro m p e o esque­
m a do escrib a n o rm al. P o r isso os q u e n ão fazem p a rte de seu círculo m u ita s
vezes resu m em s u a im p ressão dizendo que a g e com o u m p ro fe ta (M c 8,27s).
P ro v a v e lm e n te a lg u n s o b serv ad o res sem p reco n ceito s co m p araram -n o com p ro ­
f e ta s vetero testam en tário s, com o E lia s (§ 17,11). P o r o u tro lado, seu s in i­
m ig o s o d e n u n c ia ra m com o p ro fe ta zelo te a n te os rom anos, e P ila to s ordenou
que fo sse ex ecutad o como u m p re te n d e n te a m essias zelote. O ro te iro geo­
g rá fic o de s u a a tiv id a d e é tã o c a ra c te rís tic o q u a n to su a fo rm a.

2) Sob o p o n to de v ista g eográfico, a a tiv id a d e de Je su s se desenvolve


essen cialm en te n a s reg iõ es d a P a le s tin a p o v o ad as pelo povo ju d eu . N a Ga-
lilé ia , J e s u s e v ita o b v iam en te a s cid ad es h elen istas, p. ex., a cid ad e de Sep-
p h o ria , s itu a d a a a p e n a s 6 k m d e N az a ré , ou a cidade de T iberias, localizada
a o su l de C a fa m a u m , ju n to ao lago. A p e sa r disso, p assan d o p e la G aliléia,
v a i p a r a o n o rte , à re g iã o d e T iro (M c 7,24.31) ou à s a ld eias ju n to à Ce-
s a r é ia de F ilip e (M c 8 ,27), m a s n ã o com a fin a lid a d e de d irig ir-se a n ão
ju d e u s , e sim p a r a esq u iv ar-se de seu s inim igos ju d eu s. V ale o m esm o q u ando
a p a re c e n a re g iã o n ã o ju d a ic a , a le ste do lago. A ssim o deduzim os dos dados
esp o rá d ic o s a re sp e ito d a s lo calid ad es m en cio n ad as n a s perícopes. A s in d i­
caçõ es g eo g ráficas, b a s ta n te g en eralizad as, d a m o ld u ra sin ó tic a e red acio n al
n ã o m o d ificam t a l c o n sta ta ç ã o . E la é h isto ric a m e n te fid e d ig n a ; p o is os ev an ­
g e lis ta s te ria m g o sta d o de p o d e r r e la ta r algo a resp eito d a a tiv id a d e de Je su s
e n tr e p a g ã o s e sa m a rita n o s, em te rm o s d e m issão dos gentios, m a s não exis­
tia m ta is trad içõ es. T am bém o te rritó rio dos sa m a rita n o s, segundo Lc 9,51-56,
bem como seg u n d o J o 4, é to c a d o a p e n a s de passagem .
A o que tu d o indica, p o rta n to , J e s u s re s trin g iu conscien tem en te su a a ti­
v id a d e a Isra e l. S ua m e ta não é, com o no caso de Jo sefo ou F ilão , o co n tacto
com o m u n d o h elen ista, m a s com Isra e l, e p o r isso, p o r fim , com Jeru salém .
E ’ o que dizem a s d u a s p a ssa g e n s em que n ão ju d e u s pedem o aux ílio de
Je s u s , a do C en tu rião de C a fa m a u m n a tra d iç ã o de Q, M t 8,5-13 p a r Lc e
a in d a m a is a d a m u lh e r siro -fe n íc ia d a tra d iç ã o de M arcos, M c 7,24-30 p a r
M t. Q u alq u er rabbi ju d eu , n a época de Jesu s, te r ia p ro n ta m e n te aten d id o a
so licitação de ta is p esso as n ã o ju d ia s ; os escrib as «rodeiam o m a r e a te r r a
p a r a fa z e r u m p rosélito» (M t 23,15). Je su s a fa sta -se dos n ão ju d eu s, cu jas
p re te n sõ e s c o n tra ria m s u a m issão. O au x ílio so licitad o só é concedido como
exceção. Je s u s te m u m a m issão sin g u la r p a ra com Isra e l.
III. O desenvolvimento e o ambiente da atividade pública 65

3 ) A m issã o para co m Isra el. Je s u s n ão an u n c ia a Is ra e l u m D eus a té


en tão desconhecido, com o o fiz e ra Sim ão, o M ágico, em re la ç ã o ao s sa m a ri-
tan o s. A n u n c ia a Is ra e l a v in d a d e se u D eus, o D eus dos P a tr ia r c a s ; é che­
g a d a a h o ra de v o lv er d e fin itiv a m e n te a esse D eus. N ão a p re s e n ta esse
cham ad o com o u m a p ro clam ação genérica. D esenvolve-o, m u ito an tes, de m a ­
n e ira co n creta, em diálogo au tên tico , que n ão é ap e n a s didático. C o n fro n ta-se
com Isra e l, e no d iálo g o com o s re p re s e n ta n te s de Is ra e l é que s u a d o u trin a
e o seu d e stin o to m a m fo rm a. A g e em Is ra e l re a lm e n te com o o ú ltim o
enviad o n a p a rá b o la dos la v ra d o re s m a u s (M c 12,1-12 p a r ) . A p a rá b o la fo i
fo rm u la d a e x e v e n tu n o s evangelhos, m as, n a realid ad e, ela se re fe re aos
d ias te rre n o s de Je s u s e in te r p r e ta o seu cam inho.
T ão logo tiv e rm o s v isu alizad o esses co n to rn o s d a a tiv id a d e te rre n a d e
Jesu s, d escobrirem os o se g u in te a sp ecto teo ló g ico : N ã o com preenderem os o
se n tid o d a a tu a ç ã o de Jesu s, se o s e p a ra rm o s do diálogo com Is ra e l e tr a n s ­
fo rm a rm o s s u a p re g a ç ã o em m en sag em a b s tra ta , d irig id a a o hom em , com o em
g ra n d e p a r te o co rreu com B u ltm a n n .
P elo f a to de J e s u s n ã o d irig ir u m a m ensagem de c a rá te r g e ra l ao ho­
m em , n em m esm o a Isra e l, m a s p o r d is c u tir sem p re em diálogo concreto
com o hom em , p o r isso é que p a r a a s u a a tiv id a d e a o rg an ização relig io sa
em Is ra e l se to m a su m a m e n te im p o rta n te .

4 ) Jesu s e os g ru p o s religiosos. N a época de Jesus, Is ra e l e sta v a dividido


em g ru p o s relig io so s c la ra m e n te d istin to s. P a rtin d o do cunho te o c rá tic o d a
coletiv id ad e ju d a ic a , esses g ru p o s tin h a m ta m b ém o c a rá te r de p a rtid o s polí­
ticos. E m estilo jo rn a lístic o , Jo se fo os a p re s e n ta a seu s leito re s h e le n ista s
com o « E sco las de filósofos». C ita em b ell 2,8 e a n t 18,1,la s , tr ê s g ru p o s:
F arise u s, S aduceus e E ssênios. Jo se fo n ã o c ita u m q u a rto gru p o p o r desqua­
lificá-lo com o o único cu lp ad o d o le v a n te c o n tra R om a, os Z elotes. N u m erica­
m en te esses g ru p o s e ra m pequenos, m a s dom inavam a v id a p o lític a e re li­
giosa. M enosprezavam a m a ssa re lig io sa e p o liticam en te ap á tic a . Os fa rise u s
ch am av am e ssa m a ssa d e am -ha-arez e ap licav am a ela o que o S alm o 1
diz a resp eito dos «pecadores».
N o s re la to s dos evangelhos, esses g ru p o s sã o a p re se n ta d o s d e div ersas
m an eiras. D ois d e n tre eles n ã o sã o c ita d o s n o s evangelhos, os zelotes e os
essênios. P o r o u tro lado, os fa ris e u s são a p re se n ta d o s com o os p a rc e iro s do
diálogo crític o com Je su s. U m a a n á lise d a h is tó ria d a tra d iç ã o , n o en ta n to ,
logo nos m o s tra q u e em u m n ú m ero co n siderável de p a ssa g e n s os fa rise u s
fo ram , p o sterio rm en te, incluídos n o lu g a r de p a rc e iro s a n te rio rm e n te an ô n i­
m o s .1® M as m esm o se elim in arm o s e ssa s p assag en s, a s re s ta n te s m o stra rã o
que os fa ris e u s fo ra m o p rin c ip a is a n ta g o n is ta s de J e s u s ." 589

58. P a rtic u larm en te em M ateus: M t 3,7; 12,38 ao invés de p a r Lc, a m u ltid ão ; 22,34.41
ao invés de pai- Mc, escribas. M ateus c ria a s fórm ulas não históricas «os sum o sacerd o tes e
saduceus» p a ra desig n ar os re p re se n tan te s do Sinédrio, «fariseus e saduceus» p a ra desig n ar
os principais re p re se n tan te s do povo ju d e u e, principalm ente, «os escribas e fariseus» (L ucas:
«os escribas e os fariseus») p a ra d e sig n ar os re p re se n tan te s religiosos do judaísm o. E ssa ú ltim a
fórm ula elim ina, em M t 23, a d istribuição o riginal dos ais e n tre os dois grupos, o que é
m antido p o r L c 11,37-54. P o r outro lado, pode-se p e rg u n ta r se a acusação de aliança com
Belzebu e o pedido de sinais p a rtira m de adversários não determ inados n a trad ição m ais
a n tig a (Lc ll,15s = Q?), ou de «escribas de Jerusalém » (Mc 3,22) ou dos fa riseu s (Mc 8,11).
P rovavelm ente «os que estavam observando», n a discussão em torno do sábado (Mc 3,2), não
foram caracterizados apenas posteriorm ente, atrav és d a intercalação de 3,6, como fariseus,
como B ultm ann, T radition, 54-56, o pressupõe n e sta e em o u tras passagens. A m odificação
n a designação su rg iu principalm ente pelo fa to de que, após 70, o judaísm o farisaico-rabínico
se a p resen tav a como adversário d a com unidade.
59. P. ex. Mc 2,16 ( p a r ) ; 3,6 ( p a r ) ; 7,13.5; Lc 11,39-42.44 (11,43 provavelm ente c o n tra os
esc rib a s): 18,9ss. Apenas em L ucas aparece como hóspede de fa riseu s (7,36; 11,37; 14,1), e
eles o advertem fre n te a H erodes (13,31-33). Cf. K onrad W eiss, T hW IX , 36-41.
66 § 3: A moldura histórica

F o r a de tre c h o s red acio n ais, en c o n tra m o s os saduceus em u m único d iá­


logo, n a discu ssão so b re a re ssu rre iç ã o g e ral, Mc 12,18-27 p a r. O desenvol­
v im en to do diálogo m o s tra p o r que essa é a ú n ic a passagem . O s saduceus
p ro c u ra m rid ic u la riz a r a e sp e ra n ç a de u m a re ssu rre iç ã o de todos, defen d id a
p o r Je su s. E s s a tô n ic a f a lta nos diálo g o s com os fariseu s. E le s levam Je su s
a sério e ele d e f a to se o cu p a com eles. A m bos m u tu a m e n te se to m am a
sério, p o r to m a re m a sé rio a lei. “a
S om ente q u an d o n o ta rm o s e ssa b ase com um , enten d erem o s p o r que o
diálo g o de Je s u s com Is ra e l se tra n sfo rm o u em u m a discussão com os fariseus.
Os fa ris e u s c o n stitu ía m a lin h a re lig io sa do m in an te em Isra e l. N ão h a v ia m
conseguido e ssa posição p o r a c a so ; re p re se n ta v am a o rie n ta ç ã o relig io sa que
o ju d aísm o pós-exílico h a v ia to m ad o e que foi co n serv ad a n o ju d a ísm o ta l-
m údico. Q uerem p ô r em p rá tic a u m a e x istên cia sob a lei, com preendem -se
com o o v e rd a d eiro Is ra e l e q u erem que to d o o povo sig a a s u a o rien tação .
P a r a Jesu s, os fa ris e u s n ã o são de m odo algum u m a c a ric a tu ra do ju ­
daísm o, m a s seu s re p re se n ta n te s, re p re s e n ta n te s de u m a v id a sob a lei. P o r
isso ele n u n c a fa la in d iv id u alm en te a re sp eito deles, m a s sem p re de m a n e ira
g e ra l e típ ica. S om ente q u an d o co m preenderm os isso, a discussão de Je su s
com e ste p a rtid o a d q u ire s e n tid o e s u a acu sação p a ssa a te r peso. E le s são
o que h á de m elh o r em Isra e l. A d o lf S c h la tte r a c en tu o u com ra z ã o essa
p ersp ectiv a, com b ase em seus p ro fu n d o s conhecim entos do ju d aísm o , em
su a o b ra «G eschichte des C h ristu s» (p. 35-41.296s), e a firm o u : «N ão pode­
m os e x p lic a r o (su rg im e n to do) C ristian ism o sem a p red o m in ân cia do fa ri-
saísm o sob re a com unidade j u d a i c a .. . A poiando-se nele, bem com o contes-
tan d o -o , o bteve a s u a h is tó ria e a s u a d o u trin a» (p. 296).
P o r a fa s ta r-s e fu n d a m e n ta lm e n te d a concepção v ig e n te a re sp e ito d a lei,
em seus en sin a m e n to s e ações, Je s u s e n tro u em co n flito com os «escribas»,
os rabinos, que in te rp re ta v a m a lei de acordo com a tra d iç ã o . E sse é um
dos m o tiv o s de s u a c o n fro n tação com o fa risa ísm o ; pois dele fa z ia m p a rte ,
já n a q u e la época, a lin h a d o m in an te dos escribas, p rin c ip a lm e n te aqueles
esc rib a s que e ra m m em bros do g ra n d e s in é d rio .60 E ’ p o r isso que, n a h istó ria
d a p aix ão , vam o s en co n trá-lo s e n tre os a d v e rsá rio s de Jesus, e não m a is os
farise u s. N ão é p o r acaso que a s a firm açõ es de escribas, co lecionadas p o r
B illerbeck, co n tin u am a s e r o m a te ria l de co m paração básico p a ra a com ­
preen são d a tra d iç ã o a re sp e ito de Je su s. Q uando, no e n ta n to , fizerm os u m a
ta l com p aração , é n e cessário q u e observem os a época de seu su rg im en to .
N a h is tó ria d a p aix ã o e n tr a em ce n a o sacerdócio, p rin c ip a lm e n te o
su m o -sacerd o te e os p rin c ip a is sa c e rd o te s (a rch iereis), que em g ra n d e p a rte
p erte n c ia m à lin h a dos sa d u c e u s .61 Je s u s os h a v ia provocado com a p u rifi­
cação do tem plo (M c 11,15-17 p a r ) ; m a s chegou a t e r u m diálogo com eles.

J ) Se o d estin o de Je s u s fo i esp ecialm ente d eterm in ad o p e la discussão


com os fa rise u s, s u rg e a p e rg u n ta : S e rá que Je su s se opõe a eles po r ele
próprio p erten cer a um a o u tra linha judaica? E s s a p e rg u n ta re fe re n te à re la ­
ção de Je s u s com g ru p o s ju d aico s, im p lica a p e rg u n ta p ela s u a dependência
de tra d iç õ e s ju d aicas.
D iv ersas a firm a ç õ es c e n tra is d e Je s u s levam -nos a c re r que ex istem q u a­
tr o relaçõ es que o in flu íra m :
59a. P o r isso os sábios ju d eu s puderam c ara cte riz ar J e su s de rabi, um fa rise u de certas
peculiaridades (cf. H .-F. W eiss, D er P h arisaism u s im L ichte des NT, 1965, 92ss).
60. Joachim Jerem ias, T hW I, 740s.
61. G ottlob Schrenk, T hW III, 268-272.
III. O desenvolvimento e o ambiente da atividade pública 67

a. P o r o casião de su a ú ltim a v is ita a Jeru salém , Je su s se to m a p a r ti­


cu larm e n te a tiv o . A p u rificação do tem plo é u m a ação d e m o n stra tiv a . N o
discu rso de despedida, segundo L u cas, co n c ita seu s discípulos: «E o que n ão
tem , v e n d a a s u a c a p a e com pre u m a e s p a d a .. . E les, porém , d isse ra m :
Senhor, e is aq u i d u a s e sp a d a s! R espon d eu -lh es: B asta» (L c 22,36ss). Q uando
Je su s é ap risio n ad o , eles re siste m (M c 14,47). P ila to s m a n d a e x e c u ta r Je su s
com o p re te n d e n te a m essias zelote. S egundo L c (23,33), dois «m alfeitores»,
p ro v a v e lm e n te zelotes, sã o cru cificad o s com ele. J á R eim a ru s deduzia desses
indícios q u e Je s u s h a v ia sido um revolucionário. E m 1929/30, R o b e rt E isler
m ovim entou a opinião p ú b lica com s u a e x te n sa o b ra « Jesus b asileu s o u b asi-
leusas». N e ssa o b ra o a u to r a p re s e n ta v a J e su s com o u m rev o lu cio n ário polí­
tico de te n d ê n c ia s ap o calíp ticas. Com e x c e rto s jo rn a lístic o s d essa obra, Joel
C arm ichael o bteve g ra n d e rep e rc u ssã o n o início d a d écad a d e 60. E s s a h ip ó ­
te se d a f a n ta s ia h is tó ric a “ o bteve c e rta a tu a lid a d e a p e n a s pelo f a to de
Je su s h a v e r sido e n c a ra d o n a «T eologia d a R evolução», su rg id a n a m esm a
época, com o um re p re s e n ta n te ideal de um rev o lu cio n am en to p e rm a n e n te d a
sociedade.

b. U m a se g u n d a relação tam b ém diz resp eito a um asp ecto esp e ta c u la r


de s u a a tiv id a d e : Je s u s se d irig e a o s so cialm en te a flito s e desprezados. C h a ­
m a de felizes os pobres. P a re c ia a p re se n ta r-s e u m a explicação sociológica
p a ra essa c a ra c te rís tic a sin g u la r de su a a tiv id ad e (M t 11 ,1 9 ): Je su s provém
de círcu lo s d a G aliléia o nde co n tin u a a e x is tir a piedade dos pobres, d e sc rita
nos s a lm o s .6263645
A n alisan d o -se as fo n tes, verem os que p o b res d essa espécie são e n c o n tra ­
dos em u m a ú n ic a passag em . A h is tó ria d a in fân cia, segundo L ucas, a p re ­
sen ta -o s n a s p esso as de A n a e Sim eão. N o e n ta n to , essas im ag en s fo ra m
c riad a s, re tro sp e c tiv a m en te , ap ó s a páscoa. E sse s círculos de pob res são fru to
d a f a n ta s ia h istó ric a . A b e m -a v e n tu ran ç a de Je su s não se re fe re a g ru p o s
ex iste n te s, com o a in d a v erem os (§ 6,1; § 10,11,2).

c. O u tra posição n ã o m enos im p o rta n te fo i deduzida d a observação de


que Je su s em la rg a escala u sa te rm o s e concepções d a apocalíptica ju d a ic a
a n tig a . A nuncia, com o j á D n 7, a v in d a do filh o do hom em , resp ectiv am en te
do rein o de D eus. P o r isso R u d o lí O tto , «Reich G o ttes u n d M enschensohn»
(1933, p. 81.181.331ss), diz que J e s u s pro v ém dos conventículos ap o calípticos
d a G aliléia, a sab er, dos círculos de E noque. A lém dele, a teologia neo-
te s ta m e n tá ria de E th e lb e r t S ta u íie r (1941) e U lrich W ilc k e n s “ supõem que
Je su s p ro v e n h a d a a p o c a líp tic a ju d a ic a .
E s s a te o ria , no e n ta n to , d e fo rm a a situ a ç ã o do ju d aísm o , bem como a
posição de Jesu s. Q uem a p o n ta p a r a u m fu n d o apocalíp tico em Jesus, d ev eria
em p rim eiro lu g a r e x p lic a r o que sig n ifica esse te rm o v a g o .66 T ra d ic io n a l­
m en te, d esig n a-se de «apocalipses» u m gênero b a s ta n te am plo d a lite ra tu ra

62. M artin H engel, D ie Zeloten, 191; idem, W a r Je su s R evolutionâr? 1970 (p. 6.10.30s
L it.!); O scar Cuilm ann, Je su s u n d die R evolutionise sein er Zeit, 1970.
63. W alth er S attler, Die Anawim im Z eitalte r J e s u C hristi, em: F e stg a b e fü r Adolf Jü lich e r
(ed. por B ultm ann e H. v. Soden), 1927, 1-15.
64. D as O ffenbarungsverstãndnis in d e r G esehiehte des U rchristentum s, em : O ffenbarung
ais G esehiehte, ed. p o r W o lfh a rt P annenberg, 1961, 53-63; idem K lau s Koch, R atios von d e r
A pokalyptik, 1970.
65. R elatórios a respeito d a p esq u isa: Jo h a n n M ichael Schm idt, Die jiidische A pokalyptik,
Die G esehiehte ih re r E rfo rsch u n g von den A nfangen bis zu den T ex tfu n d en von Qum ran,
1969; Koch, op. cit. (nota 64); Jo sep h Schreiner, Atl. — jiid. A pokalyptik. E ine E in führung, 1969.
68 § 3: A moldura histórica

vetero testam en tário -ju d aica. J á com o g ên ero não a p re se n ta m u n ifo rm id ad e,


m u ito m en o s em seu S iíz im L e b e n e n a su a o rie n ta ç ã o teológica. E ’ um
d ev er p recípuo d a p esq u isa fa z e r u m a d iferen ciação corresp o n d en te. Q u an to
ao S itz im L eben, a p en as podem os d izer que apocalipses específicos são
p ro v en ien tes de círculos de e scrib as especuladores, m a s não de conventículos.
S obretudo, porém , eviden ciar-se-á sem p re m ais em Jesu s que, m esm o
u san d o te rm o s e concepções ap o calíp ticas, seu pen sam en to n ão d e n o ta tra ç o s
apo calíp tico s típicos. Isso se c o n firm a rá n a su a concepção do reino de D eus.

d. F in a lm e n te p ro cu ro u -se e p ro cu ra-se s itu a r a origem in te le c tu a l e re ­


lig io sa de Jesu s, n u m a q u a r ta posição, n o s círculos b a tista s ju d eu s, aos q u ais
p erte n c ia m os essênios de Q u m ran e Jo ã o B a tista . Jesu s p a rticip o u , sem
dúvida, do m ovim ento b a tis ta , p ro vocado p o r Jo ã o B a tista . A té que p o n to
ab so rv eu a p re g a ç ã o de Jo ã o em s u a p ró p ria p reg ação ? S egundo J o l,3 5 ss
to m o u seus p rim eiro s discípulos do círcu lo de Jo ão , b atizan d o -o s a té ele
m esm o, seg u n d o a re fe rê n c ia duvid o sa de Jo 3,22. A lém dessas relações com
Jo ã o B a tis ta , m u ito s fa to s d a v id a d a p rim e ira com unidade de Je ru sa lé m
lem b ram os essênios, com o fo ra m d e sc rito s p o r Jo se f o: A com unhão de bens,
as ceias em com um e o batism o.
P o r isso j á o D eísm o e o R acionalism o m ais a n tig o p ro c u ra ra m as o ri­
g en s de J e s u s e do c ristia n ism o p rim itiv o e n tre os essênios. A proveniencia
de Je s u s d os círcu lo s b a tis ta s fo i n o v a m en te a v en tad a, q u an d o n a d écad a
de 20 se tra d u z ira m os e sc rito s m an d eus. A designação d e Je su s como
N azõraios p a re c ia d a r u m a ind icação d ire ta a esse resp eito . D izia-se que
e ssa d esig n ação e ra p ro v e n ie n te d a s e ita b a tis ta ju d a ic a do m esm o nom e —
po rém e ssa dedução n ã o é filo lo g icam en te co rre ta , como j á fo i d em o n strad o
(§ 3,11,1). Q uando d a d esco b erta dos te x to s de Q um ran, logo se d escobriram
a n a lo g ia s e se p o stu lo u u m a depend ên cia de Je su s do m o v im en to essênio:
P a r a m u ito s, Je s u s e ra u m a re in c a rn aç ã o do M estre d a Ju stiç a . C om o aquele,
ra d ic a liz a a T o ra e exig e u m a co n v ersão to ta l ao a n u n c ia r a p ro x im id ad e
do juízo. P o r isso, com o aquele, e n tr a em conflito com os líd eres religiosos.
A isso se a lia m u m a sé rie de p o n to s em com um , p. ex., a c rític a à riqueza,
ao ju ra m e n to , ao tem p lo e a o u tra s coisas m ais. E sse s tra ç o s p aralelo s to r ­
n a m u m a co m p aração m u ito elu cid ativ a. Sob o p o n to de v is ta d a h is tó ria da
tra d iç ã o , no e n ta n to , Je s u s n ã o e s tá m ais ligado aos essênios do que a
o u tro s g ru p o s ju d eu s, como fa ris e u s e re p re se n ta n te s d a a p o c a líp tic a .66
E sse re su lta d o provisó rio de n o ssas considerações a resp eito d a origem
h istó ric o -re lig io sa de Jesu s, co rresp o n d e m u ito n o tav elm en te com alg u m as re ­
fe rê n c ia s c asu ais d a tra d iç ã o sin ó tica, com os dados a resp eito d a o rigem
do círculo ío rm a d o p o r seu s discípulos m ais chegados. Jesu s, p o r um lado,
ch am a o p u b lican o L evi ao discipulado (M c 2,14). E m princípio e stá co rre to
quando, em M t 9,9, L evi é id en tificad o com u m dos m em bros do círculo dos
doze, com M ateus. A o lad o dele, o u tro ssim , é cita d o S im ão ho kananaios
n a relação do círculo dos doze (M c 3,18). Lc 6,15 reproduz, c o rretam en te,
o cognom e com h o zêlõtês. E sse discípulo p e rte n c e ra ao p a rtid o zelote, a n te s
de s u a vocação. P u b lican o e zelote co n stitu em a s a la s m ais e x tre m a s do
povo ju d e u : U m a rre c a d a os trib u to s p a r a os estra n g e iro s, e o o u tro nega-se
a pagá-los, fazen d o inclusive u so d a fo rça. N o círculo dos discípulos de

66. B raun, Q um ran II, §§ 3 e 5.


III. O desenvolvimento e o ambiente da atividade pública 69

Je su s en co n tram o -lo s u n id o s; ali oco rreu alg o novo, que elim ina os velhos
co n tra ste s. Isso p erm an ece de pé, m esm o se a lg u n s dados e nom es são h isto ­
ricam e n te incertos.
Podem os, p o r en q u an to , re su m ir essa rá p id a análise a re sp e ito d a ori­
g em histórico-religiosa de Jesus, n o se g u in te:

a. Sob o p o n to de v is ta histórico -relig ioso, Je su s n ã o provém , u n ila te ­


ralm en te, de u m a d e te rm in a d a lin h a do ju d aísm o. L igá-lo u n ila te ra lm e n te ao
m ovim ento b a tis ta ou à a p o c a líp tic a é u m a sim plificação ingênua. Je su s
assum e, ecleticam ente, d iv e rsa s tra d iç õ e s ju d a ic a s e desenvolve su a pregação,
em p a rte de acordo, em p a r te em a n títe s e com elas. N esse se n tid o relaciona-se
ta n to com tra d iç õ e s fa ris a ic a s com o com ap o calípticas, p o is am b as estã o m ui­
ta s vezes in trin se c a m e n te lig ad as. S u a relação com tra d iç õ e s ju d a ic a s te rá
que s e r a in d a c o n tin u a m e n te a n a lisa d a . N isso esp ecialm ente s e evid en ciará
que, com o o M estre d a J u s tiç a de Q um ran, Je su s a d q u ire um a relação p ró p ria
p a r a com o A T , v ia tra d iç õ e s ju d aicas.

b. Je su s n ão se choca com os fa ris e u s p o r se r re p re se n ta n te de u m a o u tra


linha, m a s p o r c h a m a r o Is ra e l todo ao arrep en d im en to , tam b ém àqueles que
m ais se o cu pavam com a lei.

c. O único p erso n ag em do ju d aísm o contem porâneo, com o q u al Je su s


se id e n tific a de m a n e ira p o sitiv a, é Jo ã o B a tis ta . P a r a com preenderm os Jesu s
teolo g icam en te, é im p o rta n te que v ejam o s de que m odo ele se relacio n a com
João.

6) A relação en tre Jesus e João B a tista . A m a n e ira com o Je su s se re la ­


cio n a com Jo ã o B a tis ta se p a te n te ia c la ra m en te se virm os ao lad o d ela um a
o u tra possibilidade. Jo sefo re la ta , em s u a v ita , (2,10), que em su a ju v e n tu d e
p ro c u ra ra conhecer, p o r m eios p ró p rio s, cad a u m dos p a rtid o s judeus, p a ra
e n tã o filia r-se ao m elhor. T a l p ro c u ra pelo p a rtid o religioso-filosófico re la ­
tiv a m e n te m elh o r era, no m u n d o h elen ista, q u ase que p a rte in te g ra n te do
estilo de v id a de um hom em que e ra ex ig en te q u a n to à cosm ovisão a se g u ir;
tam b é m J u s tin o e A g o stin h o a g ira m d essa m an eira. A ssim tam b ém Josefo
viveu d u ra n te tr ê s an o s com um e re m ita de nom e B annus, que v iv ia n a
estep e do Jo rd ã o , «en tê erêm ia», «no deserto». B an n u s u sa v a «um a v este fe ita
(d e fib ra s ) de árv o res, n u tria -s e de alim en to que crescia p o r si e b an h av a-se
d iv e rsa s vezes, d u ra n te o d ia e à no ite, em á g u a ( f r ia ) , p a ra se sa n tific a r»
(v ita 2,11. M ais a d ia n te , Jo se fo c ita Jo ã o B a tis ta com o o u tro re p re se n ta n te
d essa lin h a .67 P esso a lm e n te escolheu, enfim , o p a rtid o dos fariseu s, p o r
ju lg á -lo re la tiv a m e n te o m elhor. T a n to b a tis ta s q u a n to fa ris e u s sã o p a ra
ele expressões d a relig io sid ad e ju d a ic a , que divergem e n tre si a p e n a s em
asp ecto s relativ o s.
Bem d ife re n te é o ju ízo de Jesu s. R e je ita a s abluções ritu a is dos fa rise u s
p o r ju lg á -la s « trad içõ es dos hom ens». « N egligenciais o m an d am en to de D eus

67. Ant. 18,117 (5,2): «H erodes havia m andado m atar» «a João B atista», «mesmo tendo
sido ele um hom em bom que o rd e n ara aos ju d eu s que se esforçassem p a ra alcançar a v irtu d e
e p raticassem a ju stiç a um em relação ao outro bem como a piedade fre n te a D eus e que
então viessem p a ra se r batizados. P o is assim tam bém o batism o se ria agradável a Deus,
caso não fosse usado p a ra a elim inação dos pecados, m as p a ra a santificação do corpo,
depois de a alm a haver sido p u rific ad a pela justiça. C om o... os hom ens acorressem em
m assa, tem eu H erodes que o prestíg io do h o m e m ... pudesse levar o povo à revolta, e houve
por bem elim iná-lo o quanto antes».
70 § 4: João Batista

e g u a rd a is a tra d iç ã o dos hom ens», é a fo rm u lação de Mc 7,8. D a m esm a


m a n e ira Je s u s re je ita r ia a s abluções d os essênios. P o r o u tro lado, a firm a
que o b a tism o de Jo ã o é «de D eus» e é b a tiz a d o p o r ele (M c 1,9; 11,30 p a r ) .
C onseq ü en tem en te d e sig n a a Jo ão , e so m e n te a ele, de p ro fe ta d e D eus em
seu tem p o (M t 11,9).
A o q u e tu d o indica, Je su s fa z s u a escolha em plano d ife re n te do de
Josefo . Jo se fo escolhe e n tre tra d iç õ e s re lig io sas re la tiv a m e n te d iversas. Je su s
se coloca d ecid id am en te no lad o de Jo ão , p o r s e r ele o único a u to riz a d o p o r
D eus. P o r isso J o ã o aparece, n a s o b ra s de Josefo, com o u m e n tre m u ito s
re p re s e n ta n te s do m ovim ento b a tis ta , m as, no s evangelhos, como um p ro fe ta
de D eus que p re p a ra o cam inho de Jesu s. Sem dúvida, a p rim e ira apreciação
p arece s e r m a is c o rre ta que a seg u n d a. A p rim e ira den o m in aríam o s de «his­
tó rica» . Como d en o m in aríam o s a seg u n d a? P a r a ela tem o s a p e n a s o te rm o
«histórico-salvífico», que d á m a rg e m a m u ita s in terp retaçõ es. E n tã o terem o s
que d e fin ir esse te rm o a p a r tir d essa ap reciação. Se deduzim os u m a definição
a p a r tir d a posição de Je s u s em relação a Jo ã o B a tista , que é assu m id a pelos
ev an g elistas, « h istó ria salvífica» n ã o é p ro p ria m e n te um com plexo h istó rico
que se d ife re n c ia do re s ta n te d a h istó ria , s e ja p o r seu c a rá te r, s e ja p o r
um a co n tin u id ad e que p o ssa s e r d em o n strad a. H is tó ria salvífica, en tão , é
m u ito m a is u m a seqü ên cia de aco n tecim en to s h istó rico s que são c a ra c te ri­
zad o s e lig ad o s e n tre si a p e n a s pelo fa to de, a tra v é s deles, se r p re p a ra d a
a a u to -rev elação d e fin itiv a de D eus em Je su s e p o r Jesus, nesse sen tido,
id e n tific a r-se to ta lm e n te com eles. A ssim é que Je su s se relacio n a de m a n e ira
«h istórico-salvífica» com Jo ã o B a tis ta .
A rela ç ã o h istó ric o -tra d ic io n a l e re lig io sa e n tre Je su s e Jo ã o B a tis ta
é rela tiva , a h istó ric o -sa lv ífic a exclusiva. Se quiserm os fa z e r ju s tiç a às a fir­
m ações do N T , devem os le v a r a sé rio a s d u a s apreciações, a h istó ric a e a
histó rico -salv ífica. I s to é, n ão podem os d eixá-las sim plesm ente lad o a la d o ,"
m a s p recisam o s levá-las a u m d iálo g o crítico. O p rincípio herm enêutico, que
d e sta c a m o s n o fin a l do p rim e iro p a rá g ra fo , j á se to m a q u en te com a s a f ir ­
m ações n e o te s ta m e n tá ria s so b re o B a tis ta .
In ic ia re m o s esse diálogo, c o n fro n ta n d o a s afirm açõ es do N T so b re Jo ã o
B a tis ta com a situ a ç ã o h istó ric a , e p ro c u ran d o d essa m a n e ira esclarecer os
a n te c e d en te s im ed iato s de Jesu s. E s s a exposição n ão no s le v a rá ap en as à
au to co m p reen são de Jesu s, m a s ta m b é m à so terio lo g ia ju d a ic a , que é a con­
dição h istó ric o -re lig io sa p a ra a com preensão de su a a tiv id a d e salvífica.

§ 4: JOÃO BATISTA

A dolf Schlatter, Johannes der Tãufer, ed. W ilhelm M lchaells, 1956; M artin Dlbellus, Die urchristliche
Oberlleferung von Johannes dem TSuter, 1911; Ernst Lohmeyer, Das Urchrlstentum I: Johannes
der Tãufer, 1932; Carl H. Kraeling, John the Baptist, 1951; Jean Stelnmann, Saint Jean-Baptiste,
1956; Herbert Braun, Oumran II, 1-29: Der Tãufer, die Tãufertaufe und die chrlstliche Taufe:
J.A.Stnt, Die Eschatologie des Tãufers, die TSufergruppen und die Polem lk der Evangelien, em:
Vom M essias zum Chrlstus, ed. K urt Schubert, 1964, 55-163; W .WInk, John the Baptist In the
Gospel Tradition, Cambridge 1968; H artwig Thyen, Studlen zur SOndenvergebung, 1970, 131-145:
Die Taufe Joh.d.Tãufers; Jurgen Becker, Johannes der Tãufer und Jesus von Nazareth, 1972.68

68. Assim também o vê agora Peter Stuhlmacher, M arginalien (Lit. 5 2), 344s.348ss.359ss.
I. A localização histórica 71

I. A localização histórica

1 ) Segundo a tra d iç ã o de M arcos, Jo ã o B a tis ta su rg e en tê erèm õ, no deserto,


b a tiz a n o Jo rd ã o , e o s h o m en s b a tiz a d o s p o r ele p ro v êm especialm ente d e
Je ru sa lé m e d a Ju d é ia (M c l,4 s p a r ) . Jo ã o p re g a e b atiz a , p o rta n to , n a
estep e do Jo rd ã o , ao su l do o ásis de Jericó . A tra d iç ã o lo cal tam b é m n o s
lev a a essa r e g iã o ." A a p e n a s d u a s o u tr ê s h o ra s de m arch a, m a is ao sul,
v iv iam os essênios, n a povo ação m o n á stic a de Q um ran, lo calizad a a n o ro este
do M ar M orto.
A essa p ro x im id ad e local co rresp o n d e u m a p ro x im id ad e te m á tic a . O s
te x to s d e Q u m ra n p e rm ite m c o n s ta ta r tu n a su rp re e n d e n te afin id a d e en tre João
e os essên io s: E m am b o s en co n tram o s, com o p o n to c e n tra l, u m ch am ado r a ­
d ical a o a rre p e n d im en to a lia d o à e sp e ra n ç a do fim e a abluções. A m bos
com preendem s u a ex istê n c ia no d e se rto com o sen d o h istó rico -salv ífica. Os
essênios in te rp re ta m s u a e s ta d a n o d e se rto com o o cu m prim ento de I s 40,3.
E m IQ S 8,13s (9,19s) lem o s: « E n tã o e l e s . . . d ev erão iso lar-se d a m o ra d a
dos h om ens d a p e rv e rsid a d e e ir p a r a o d e serto e p re p a ra r lá o cam inho do
Senhor, com o e s tá e sc rito : ‘N o d e se rto p re p a ra i o c a m in h o do Senhor, fazei
no d eserto (u m ) d iq u e (a m o n to a d o ) p a r a o nosso D eus’. Isso sig n ific a : P e s ­
q u isa d a T o ra, que (ele) o rd en o u f a z e r p o r in term éd io de M o is é s ...» P ro ­
vavelm en te o p ró p rio Jo ã o j á a p lic a ra a si essa p assagem , a p a r tir d a qu al
a tra d iç ã o dos evan g elh o s o in te rp re ta em M c l,2 s.
P ro c u ro u -se e x p lic a r t a l a fin id a d e e n tre Jo ã o e os essênios d e m a n e ira
b iográfica. D eduziu-se, esp ecialm en te de L c 1,80, que Jo ã o te ria sido u m a
d as c ria n ç a s a d o ta d a s p elo s essênios q u e v iv iam s o lte iro s .50 E s s a suposição,
no e n ta n to , n ã o p ode se ria m e n te s e r e n c a ra d a com o h ip ó tese cien tífica. T a n to
m ais im p o rta n te to m a -s e p o r isso u m a com p aração e n tre a s tra d iç õ e s a
re sp e ito de Jo ã o B a tis ta e os te x to s essênios. E s s a com p aração co n firm a que
João, sob o p o n to de v is ta histó rico -relig io so, é u m p erso n ag em do m o v i­
m en to b a tis ta ju d eu . S obre esse p a n o d e fundo, os re la to s dos evangelhos
se to m a m m a is com preensíveis.

2 ) Os rela to s dos eva n g elh o s correspondem , n o s S inóticos, a tr ê s cam a­


d as d a tra d iç ã o : a ) A tra d iç ã o de M arco s a p re se n ta , em M c 1,1-8 e 6,14-29,
n a rra tiv a s re fe re n te s ao su rg im e n to e ao fim do B a tis ta . E ssa s n a rra tiv a s
já têm , em M arcos, c a r á te r red acio n al, te n d o sid o depois a d a p ta d a s ain d a
p o r M ateu s e L u c a s. 69701723b ) P o r o u tro lado, os d ito s do B a tis ta , em M t 3,7-lÜ p a r
Lc, sã o re p ro d u zid o s seg u n d o Q e, p ro v av elm ente, tiv e ra m fo rm u lação o rig in a l
aram a ie a. “ c) H isto ric a m e n te m en o s fid e d ig n a s sã o a s tra d iç õ e s p a rtic u la re s
de L u c a s: a p re g a ç ã o a o s g ru p o s, em L c 3,10-14, e a n a r r a tiv a de se u n a s ­
cim ento, em L c 1. A s dem ais p a ssa g e n s sin ó tic a s re la tiv a s a Jo ã o B a tis ta
rep ro d u zem a firm açõ es de Je s u s so b re ele e devem , p o rta n to , s e r observ ad as
n a ex posição a re sp e ito de Jesu s. A s tra d iç õ e s n ã o sin ó tic a s e e x tra-can ô -
n icas a lu siv a s a Jo ã o B a t i s t a ” n ão tra z e m nen h u m acréscim o im p o rta n te ao
conteú d o teo ló g ico de s u a p reg ação . D eduzirem os esse con teú d o especialm ente
dos d ito s tra n s m itid o s em Q.

69. G. Dalm an, O rte u n d W ege Jesu , 19243, 97.


70. W. H. Brownlee, no a rtig o fu n d am en tal: Jo h n th e B aptist, em : K. Stendahl, T he
Scrolls and th e New T estam ent, L ondres, 1957, 33-53.
71. W olfgang T rillin g , D ie T ã u íe rtra d itio n bei M atthaus, BZ 3 (1959), 271-289.
72. M atthew Black, An A ram aic A pproach to th e Gospels a n d Acts, 1967*, 106.
73. L ohm eyer, op. cit. 26-43.
72 § 4: João Batista

II. A pregação do B atista

Os q u a tro tem as teológicos de su a p ré d ic a são tam b ém os te m a s p rin cip ais


da so te rio lo g ia ju d aica.

1 ) A p ro x im id ad e do ju ízo d a ira.
O p rim eiro d ito , M t 3,7, p e rg u n ta : «Quem v o s in s tru iu a fu g ir d a ira
vindoura?», e a m e tá fo ra fin a l de 3,10 elucida, de m a n e ira d rástica, a s itu a ­
ção dos o u v in tes: « Já e s tá p o sto o m ach ad o à ra iz d as á rv o re s; to d a árv o re,
pois, que n ã o p ro d u z bom fru to , é c o rta d a e la n ç a d a ao fogo». S egundo
essa m e tá fo ra , os isra e lita s, sem distinção, se assem elham a á rv o re s c u ja s
raíz e s fo ra m d esco b ertas p a ra o c o rte que a s d e rru b a rá . E ssa fig u ra d esta c a
dois aspecto s. P rim e iro : O ju íz o fin a l e s tá tã o p róxim o como o espaço e n tre
a p ic a d a do m ach ad o n a ra iz d e sco b erta e o c o rte que a d erru b a. J o ã o
anu n cia, com o to d a profecia, a e sp eran ça do fim próxim o. S egundo: N esse
ju ízo im in en tem en te pró x im o é p e rg u n ta d o pelo fru to . O ju iz não p e rg u n ta
p o r obras, m a s pelo bom fru to . O f ru to é a p ro v a do que ex iste n o hom em .
Bom f ru to é a a titu d e p ela q u al o hom em faz ju s tiç a a su a determ inação.
Q uem pode a p re s e n ta r ta l fru to ? A p a re n tem en te ninguém ! E le s são «raça
de víboras» (3 ,7 ), d escen d en tes de se rp e n te s v en enosas que têm o veneno
d e n tro de si. E m v ã o p ro c u ra m a b rig a r-se n a p ro m issão d a d a ao s p a tria rc a s ,
p a ra se s e n tire m se g u ro s com ela (3 ,9 ). E sses d ito s n ã o põem vte o lo g ia
c ris tã (p a u lin a ) n a boca de J o ã o ; ” tam b ém os te x to s de Q u m ran pressupõem
u m a decad ên cia de to d o s fre n te à ir a (1 QS 11,9-12; 1 Q H 4,29s). Tam bém ,
segundo eles, som ente é salvo quem re a liz a r o arrep en d im en to a g o ra oferecido.

2 ) P o r isso a p ré d ic a do B a tis ta se c o n cen tra em um cham ado rad ical


ao arrep en d im en to . M t 3,8: «P roduzi fr u to s dignos do arrep en d im en to !»
E ss a fig u ra evidencia o que a rre p e n d im en to sig n ifica p a ra João. A árv o re
que n ã o p ro d u z f ru to s é la n ç a d a ao fogo. P o r isso te m que se r tra n s fo rm a d a
em u m a á rv o re q u e p ro d u z fru to s. T a l tra n sfo rm a ç ão é p a ra o B a tis ta a
conversão, a m etanoia.
E sse conceito de a rrep en d im en to se to m a m ais definido se o c o m p a ra r­
m os com os seus an te c e d en te s ju d a ic o s a n tig o s .75

a. O te rm o : O nde a tra d u ç ã o de A lm eida tra d u z «arrependim ento»,


enco n tram o s, n o grego, o term o m eta n o ia ou o verbo m etanoein. N o g rego
não n e o te sta m e n tá rio esse te rm o sig n ific a : m o d ificar a m ente, o nous, a rre ­
pender-se. N os sinóticos, no e n ta n to , te m um sig n ificad o d iferen te. J á no
idiom a g rego do ju d aísm o p alestin o , a in d a não n a LX X , o term o g rego e ra
u sad o p a r a re p ro d u z ir o term o h eb raico schub. Schub, no en tan to , sig n ifica
in v e rte r a d ireção ; o hom em , em su a to talid ad e, m o d ifica su a direção. Se­
gun d o o cham ad o ao a rre p e n d im en to dos p ro fe ta s do A n tig o T estam en to ,
Is ra e l deve v o lta r ao seu D eus. E sse sig n ificad o teológico é a d o ta d o p e la
term in o lo g ia sin ó tica. M etanoein sig n ifica sem p re: M odificar a a titu d e , não
ap e n a s o m odo de p en sar, e sem p re: M odificação d a a titu d e fre n te a Deus,
e n ã o a p e n a s u m a m e lh o ria m oral. Como tra d u z ir o term o ? N u n c a com
«m udança de opinião»! P odem os trad u zi-lo com «arrependim ento», m as tem o s 74*

74 C ontra B ultm ann, T rad., 123.134


75. Ju stifica tiv a s q uanto ao que segue em Jo h a n n e s Behm, ThW IV, 972-1004
II. A pregação do Batista 73

que e m p re g a r esse te rm o , in d ep en d en tem en te de seu uso p o p u la r ou eclesiás­


tico, com o sig la a s e r co m p lem en tad a com o se n tid o n e o te sta m e n tá rio . O
m esm o v a le p a r a o caso de o tra d u z irm o s com «m udar de direção». N ão
ap en as Jo ã o B a tis ta , m a s to d o o ju d aísm o d a P a le stin a fa la v a n esse se n tid o
d e arre p e n d im en to , p o rém d an d o -lh e con o tação diversa.

b. 0 ju d a ísm o ia risa ico a d m o e sta p a ra que h a ja p e n itên cia d iá ria . Se­


gund o bab. S chab 153a, R. E lie z e r disse, p o r v o lta de 90, (B illerb .1 ,1 6 5 ):
«Faze p e n itê n c ia um d ia a n te s d a tu a m o rte. Seus discípulos p e rg u n ta ra m -n o :
M as s e rá que o hom em sab e em que d ia v ai m o rre r? E le resp o n d eu : T a n to
m ais d e v e rá fa z e r p en itê n c ia hoje, p o is a m a n h ã p o d erá m o rre r. E d essa m a ­
n e ira s e rá en c o n tra d o p en iten te, d u ra n te to d a a s u a vida». Com o se en ten d e
aq u i o a rre p e n d im en to ? O hom em ex am in a s u a v id a c o n stan tem en te fre n te
à lei e se a rre p e n d e de h a v ê -la tra n sg re d id o . A rrep en d e-se a tiv am en te, ag in d o
d o ra v a n te de m a n e ira d iferen te, p ro cu ran d o , n a m ed id a do possível, c o rrig ir o
e rro ou co m p en sar o e rro p o r m eio de esm olas ou jeju m . Quem se a rrep en d e
assim , a tiv a m e n te , p o d e e s ta r c e rto de que D eus o p erdoa. O p e rd ã o lhe é
concedido, no caso de fa lh a s m enores, tã o logo te n h a se arrep en d id o de
m a n e ira a tiv a ; n o caso de fa lh a s m a is g rav es, an u a lm e n te no g ra n d e d ia
da reco n ciliação ; em algum as, a p e n a s p o r ocasião d a m o rte, que é v is ta
como expiação. N esse se n tid o a sin a g o g a p re g a d ia ria m e n te o a rre p e n d i­
m ento. " M as n ã o desenvolve um sis te m a p enitencial. E la n ã o an u n c ia o p er­
dão ; isso p ro v av elm en te nem o co rria, n o r itu a l do tem p lo de e n t ã o . P r e g a
um siste m a de salv ação que o in divíduo p ode p ra tic a r. E n q u a n to que aqui
é exigido run a rrep en d im en to parcial, Jo ã o q u er le v a r a um a rrependim ento
único e to ta l: A á rv o re que n ão p ro d u z f ru to s deve se r tra n s fo rm a d a em
árv o re que p ro d u z fru to s !

c. O cham ad o ao a rre p e n d im en to de Jo ã o assem elha-se, em tra ç o s essen­


ciais, ao cham ado ao a rrep en d im en to dos e ssê n io s.78 O s essênios exigem , como
Jo ã o B a tis ta : 1. O a rre p e n d im en to de to d o s; pois to d o o povo de Is ra e l se
a fa sto u de D eus. 2. T am bém eles ch am am ao arrep en d im en to fa c e à p ro x i­
m id ad e do ju íz o fin al. 3. A rre p e n d im e n to tam b ém p a ra eles, é u m a ren ú n cia
ú n ica e to ta l fre n te ao que houve a té ag o ra. A té aq u i v a i a concordância.
A d ife re n ç a se m o s tra ao p e rg u n ta rm o s : Com o se re a liz a o arre p e n d im en to ?
P a r a os essênios arre p e n d er-se sig n ific a e n tr a r n a aliança, isto é, n a seita,
a p ro v e ita r a o fe rta de u m a n o v a com unhão com D eus e su a com unidade. ™
A ssim o arre p e n d im en to aq u i n ã o é, com o no ensino dos fariseu s, u m a re a ­
lização do hom em , m a s um se g u ra r-se a u m a n o v a relação com Deus, p ro ­
p o rcio n ad o p ela g ra ç a . M as no fu n d o co n siste a p e n a s n u m a in co rp o ração
n a s e ita e n o seu sis te m a de ensin o d a T o ra e d a p rá tic a d a T o ra.
E m co n trap o sição, Jo ã o B a tis ta n ã o re ú n e u m a com unidade especial, m a s
cham a, com o os p ro fe ta s canônicos, to d o o Is ra e l a e n tr a r no m ovim ento
de a rre p e n d im en to f re n te ao fim q u e e s tá iniciando. S egundo o B a tista ,
o ch am ad o ao arre p e n d im en to n ã o se p re c ip ita n u m a n o v a o rg an ização 7689

76. E sse sistem a de penitência é apresentado e ju stificad o m inuciosam ente em E rik Sjôberg,
Gott und die S ü n d er im p alâstinischen Ju d e n tu m , 1938, e em B illerb. I, 162-172.878s.
77. Cf. T hyen, op. cit„ 46-51.
78. H e rb e rt B raun, «Umkehr» in sp ã tjü d isc h -h ãre tisch e r und frü h ch ristlich e r Sicht, Z T hK 50
(1953), 243-258; idem, R adikalism us II, 17 n o ta 9; T hyen, op. c it , 77-98.
79. Os essênios designam -se de «os que fazem d a tran sg ressão penitência» (1 QS 10,20)
ou de «os que fizeram p enitência em Israel» (Dam 6,5; 8,16) e ao mesmo tem po de aqueles quf
«entraram n a aliança» (1 QS l,7s; 2,12.18; 5,8.20; 6,14s; Dam 9,3 e. o.).
74 § 4: João Batista

sob a lei, m a s v a i em d ire ç ã o ao e n c o n tro escatológico d efin itiv o com


Deus. O s discípulos d o J o ã o B a tis ta , c ita d o s ocasio n alm en te n a tra d iç ã o
s in ó tic a ,8081 n ã o fo rm a v a m u m a com unidade especial, como os essênios, m a s
fo rm a v a m u m círcu lo d e alunos, com o os discípulos de Jesu s. A p en as depois
de s u a m o rte , fo rm a-se, c o n tra s u a in ten ção, u m a com unidade especial de
seu s discípulos.*1

d. Se p ro c u ra rm o s u m a co rresp o n d ên cia m ais p róxim a, além desses con­


ta c to s com o a m b ie n te ju d eu , en co n trá-la-em o s a p e n a s n o conceito d e arre­
p en d im e n to dos p r o fe ta s literá rio s do A n tig o T esta m en to , p. ex., em Os 14,2s:
«V olta, ó Isra e l, p a r a o Senhor, te u D eus! D iz a ele: Q u eiras p e rd o a r to d a
a cu lp a p a r a que recebam os o q u e é b o m ...» . J á a q u i a rre p e n d im en to e
p e rd ã o estã o ligados. A v o lta daqu eles que se a fa s ta ra m de D eus ap en as é
possível se ele os a c e ita r novam ente. O s p ro fe ta s vêem além disso, de m a ­
n e ira c a d a v ez m a is clara, que, p a r a h a v e r um a v o lta, n ã o é a p e n a s n ecessá­
rio q u e D eu s se a b ra ao q u e v o lta , m a s tam b ém que o bu sq u e de v o lta ;
J r 24,7: «Q uero d a r-lh e s u m novo co ração que lhes p e rm ita reconhecer
que eu sou o Senhor. E le s serão o m eu povo e eu se re i o seu D eus, p o rq u e
se v o lta rã o p a ra m im de to d o o coração». D eus d á o a rrep en d im en to to ta l
q u an d o c ria o novo c o ra ç ã o .82 D essa m a n eira, n a p ro fecia v étero -testam en -
tá ria , a ex ig ên cia de um arre p e n d im en to to ta l co rresponde à p ro m issão de
u m a m odificação escato ló g ica; em João, no e n ta n to , co rresp o n d e à o fe rta do
b atism o com á g u a , ju n ta m e n te com o an ú ncio do b atism o com o E sp írito
que e s tá p o r vir. E s t a co rresp o n d ên cia à p ro fecia m o s tra o que Jo ã o diz,
em M t 3,11, a re sp e ito do b a tism o : A p en as o batism o do que e s tá p o r vir,
o b a tism o com o E s p írito e com fo g o re a liz a a tra n sfo rm a ç ã o an u n ciad a
pelos p ro fe ta s. O b atism o com á g u a com o p ra tic a d o p o r Jo ão , n o e n ta n to ,
p o r u m lado, n ão é m ais a p e n a s p a la v ra de prom issão, e, p o r o u tro lado,
a in d a n ã o é a realização . E ’ u m sin al que re p re se n ta , p o r an tecip ação , a
realização , m a s que p erm an ece p rom issão. Com isso j á dissem os algo deci­
sivo q u a n to ao te rc e iro tem a.

3 ) O b a tism o de João.

a. J o ã o n ã o é a p e n a s p ro fe ta . N a tra d iç ã o cristã , bem com o n a ju d aica,


é desig n ad o de «o B a tista » . Se d eix arm o s de lad o o d ito h á pouco cita d o a
resp e ito do b a tism o com ág u a , v erem os que a p e n a s a liv re n a r r a tiv a de
M arcos fa la desse batism o . S egundo o sum ário, em Mc 1,4 p a r Lc, Jo ã o
« an u n ciav a o b a tism o de a rre p e n d im en to p a ra o p erd ão dos pecados». A
fó rm u la «batism o de arre p e n d im en to p a r a o p erd ão dos pecados» sig n ifica
aqui, com o em su a ap licação ao b a tism o c ristã o em A t 2,38, que o batism o
p o ssib ilita a v o lta, pois concede ao m esm o tem po perd ão . N esse sen tid o deve
se r e n te n d id a a o ração equívoca a resp eito d a s u a realização, Mc 1,5 p a r
M t: « E ra m b atizad o s, no Jo rd ã o , ao co n fessarem os seu s pecados». T odos
os que vêm p a r a serem b atiz a d o s, ex p ressam s u a disposição de se co n v erter.

80. Mc 2,18 par Mt; 6,29 par Mt; Mt 11,2 par Lc; cf. Jo l,35s. Martin Hengel, Nachfolge
und Charisma, 1968, 38-40.
81. Rudolf Sehnackenburg, Das vierte Evangelium und die JohannesjUnger, Histor. Jahrbuch
der G õrresgesellschaft 77 (1958), 21-38; Georg Richter, B ist Du Elias (Joh 1,11), em BZ 6
(1962), 79-92.238-256; H artw ig Thyen, B ap tism s m etan o las eis ap h esln h am artio n , em: Zeit
und Geschichte, Dankesgabe an R. Bultmann, 1964, 97-125.
82. Ia 10,20s; J r 31,33; Ez 36,26; cf. v. Rad, Theol. IIs, 223ss.
II. A pregação do Batista 75

O b atism o , n o e n ta n to , n ão e ra um a to sim bólico de confissão, m as u m sin al


d a co n d escendência do D eu s que p erdoa, Isso se m a n ife sta j á pelo p ró p rio
r ito : O b a tism o é realizad o p o r Jo ã o n o batizan d o , en q u an to que to d a s a s
ab lu çõ es ju d a ic a s era m b an h o s q u e c a d a u m d av a em si m esm o.

b. E sse s d ad o s esp o rád ico s e in c e rto s d a tra d iç ã o to m a m -se - m ais claros


se os c o m p ararm o s com seu p a n o d e fu n d o histórico-religioso. "
S ão os seg u in tes os p rin cíp io s do desenvolvim ento que sob ressaem : A s
ab lu çõ es relig io sas, p re s c rita s n o A T, tin h a m c a rá te r exclusivam ente ritu a l.
P a rte m d a p ressuposição de que o m u n d o e stá dividido, inclusive o cotidiano,
em d u a s esferas, em p u ro e im puro, em sa c ra l e p ro fan o . A teologia de
von R a d (1,271-278) p ro c u ra in te r p r e ta r teo logicam ente e s ta concepção, que
é e s tra n h a p a r a nós. N o ju d a ísm o pós-exílico, essa d istin ção fo i u m dos re ­
cu rso s u sad o s p a r a e v ita r q u e Is ra e l se dissolvesse n o sin cretism o h elen ista.
A s d iv e rsa s lin h a s que d eterm in am o ju d a ísm o pós-exílico, to m a r a m a s p re s­
crições de pu reza, que n o A T e ra m v á lid a s a p e n a s p a r a o sa c e rd o te em
serviço, v á lid a s p a r a to d o s e a m p lia ra m esse sistem a. A s d u as lin h as p rin ­
cipais, fa ris e u s e essênios, p a rtia m do sacerdócio e q u eriam s e p a ra r Isra e l,
com o um povo de sacerd o tes, d a sociedade p ro fan a.
Os dois g ru p o s, porém , d iv erg em n a com preensão d as abluções. O s f a r i­
seu s d ão à s abluções, tam b ém ao b a tism o de prosélitos, um c a rá te r de m e ra
p u rific a ç ão ritu a l. Q uem re a liz a r o rito de acordo com a Halalcá, to m a -s e a p to
a p a rtic ip a r do cu lto de Isra e l. M as a p e n as o c u lto é que o p u rific a dos
p e c a d o s ." P o r seu tu rn o , os essênios lig am su as abluções ao a rrep en d im en to
e ao p e rd ã o ; acen tu am , n o e n ta n to , que a s abluções se to m a m eficazes a p e n a s
q u an d o p reced id as do arre p e n d im en to m ediado pelo E s p ír ito .83845

c. C om p aran d o -se o b a tism o de João com esses rito s ab lu tó rio s ju d aicos,


n o ta -se q u e o b a tism o de Jo ã o se ap ro x im a, em su a fo rm a de realização, do
b atism o de p ro sélito s, desenvolvido pelos fariseu s. E m am bos os casos, t r a ­
ta -s e d e um b an h o único, de im ersão, que tam b ém é desig n ad o de tebilah =
ba p tism a . Q u an to ao seu significado, no e n ta n to , o batism o de Jo ã o se ap ro ­
x im a m a is d a s abluções dos essênios, p o is essas sã o relacio n ad as ao a r r e ­
pend im en to . N o e n ta n to , ali, o a rre p e n d im en to é com plem entado p o r abluções,
e n q u a n to que, em Jo ão , é p o ssib ilita d o p elo b atism o . O s essênios conhecem
a p e n a s abluções c o n tin u a d a s; n em o p rim e iro b a n h o p o r im ersão, p o r ocasião
d a adm issão, n ã o é a c e n tu a d o de m a n e ira especial. O b atism o de João, p o r
seu tu rn o , é essencialm ente único. D essa m a n e ira o b atism o de Jo ã o ocupa
um a posição especial, n o m u n d o ju d eu , sob o p o n to de v is ta h istó rico -reli­
gioso, a p e s a r d a s sem elh an ças a p o n ta d a s.

d. O ú n ico d ito que c ita o b a tism o (M c 1,8 p a r) v ai além do am b ien te


ju d e u e p a r te do A T . C o m p ara «batism o com água» e «batism o com E sp írito » ,
lem b ran d o -n o s p ro fe c ia s com o a de E z 36,25ss: « E n tã o eu v o s a sp erg irei com
á g u a p u r a p a r a que fiq u eis p u rific a d o s; de to d a s a s v o ssas im undícies e de
to d o s os v ossos ídolos eu v o s p u rific a re i. E dar-vos-ei u m novo coração e

83. L it: Richard Reitzenstein, D ie Vorgeschichte der christlichen Taufe, 1929; Joseph
Thomas, Le mouvement Baptiste en Palestine et Syrie, Gembloux, 1935; N ils Alstrup Dahl,
T h e Origin oí Baptism, Festschr. für S. Mowinckel, 1955, 36-62; Kurt Rudolf, D ie Mand&er I,
1960, 66ss.230ss; Thyen, op. c it , 133-137.
84. Billerb. I, 102-113.693-702.
85. 1 QS 3,6-12; cf. Braun, Qumran II, 2-10; L. Goppelt, ThW VIII, 320s.
76 § 4: João Batista

porei d e n tro em v ós um e sp írito n ovo; tir a r e i o coração de p e d ra de v o sso


corpo e dar-vos-ei um co ração de carne». E n c o n tra m o s essa pro fecia, com
m odificações, em o u tra s p a ssa g e n s do A T, p. ex., em I s 4,4; ( J r 3 3 ,8 );
Zc 13,1; SI 51,9. E s s a p ro fe c ia e ra con h ecida n o m ovim ento b a tis ta com o
se pode deduzir, p. ex., de 1QS 4,21, e, p o r isso, tam b ém a João. A p a r tir
daí é que seu d ito se to r n a com preensível: Jo ã o como que oferece a p rim e ira
p a r te d a p ro fe c ia de E zequiel, o b an h o p u rific a d o r com á g u a ; a d ád iv a re n o ­
v a d o ra do E s p írito se rá tra z id a pelo q u e h á de vir.
Sob o p o n to de v is ta histórico -relig io so, o b atism o de Jo ã o provém d a s
abluções relig io sas do ju d a ísm o pós-exílico. M as, em su a in ten ção te m á tic a ,
p a rte d a p ro fe c ia v etero testam en tária a re sp e ito d a p u rificação fin a l a tra v é s
de asp e rsã o de á g u a e doação do E sp írito . Com b ase nessas pressuposições,
Jo ã o g aperfeiçoou, em in tu iç ã o p ro fética, de m a n e ira autônom a. Seu b a tis ­
m o p re te n d e s e r um ú ltim o m eio de g ra ç a no lim ia r do tem po fin al. Q u e r
tr a n s m itir p e rd ã o e arre p e n d im en to , u ltra p a ssa n d o to d o s os sacrifício s ex p ia­
tó rio s, tam b ém o r ito e x p ia tó rio do d ia d a reconciliação. M as q u er se r a p e n a s
um sin a l que p ro m e te g r a ç a .8687 A ren ovação do hom em pelo E s p írito s e rá
c o n c re tiz ad a a p e n a s pelo que h á de vir. O que Jo ão diz a seu resp eito é tã o
elu cid ativ o p a r a o a m b ien te de Jesu s, com o o que foi exposto a té ag o ra.

4 ) O que h á de vir.

O s tr ê s d ito s do B a tis ta que o anunciam , Lc 3,16a.b.l7, não fo ra m tr a n s ­


m itid o s a p e n a s p o r Q, m a s em p a r te tam b ém p o r M arcos (1 ,7 ). M t 3 , l l s
u n e e ssa s d uas trad içõ es. P o d em o s t i r a r tr ê s conclusões destes d ito s:

a. A s designações: S egundo essas p a lav ras, Jo ã o esp e ra p o r um v u lto


m essiânico, m as n ã o u sa n e n h u m a d esig n ação com um ao ju d aísm o , p a ra des­
crev er o m e d ia d o r d a g ra ç a do fin a l dos tem pos. N ão fa la nem do M essias,
nem do filh o de D avi, nem do filh o do hom em . D esigna-o, segundo Q, de
«aquele que vem depois de m im » (M t 3,11; cf. 11,3) e, segundo M arcos, de
«o m a is fo rte» (M c 1,7 p a r ) . N ão se a té m a u m a d as im ag en s de M essias
do ju d aísm o . E le a d o ta aqui, com o em su a com preensão de arre p e n d im en to
e b atism o , a lin h a d a p ro fe c ia v etero testam entária: E sp e ra p o r aq uele que
deve v ir — n ã o im p o rta com o — p a r a p ro v o car o en co n tro fin a l de D eus
com seu povo ou su a c ria ç ã o .81

b. P o r isso a obra do que há de v ir é c a ra c te riz a d a rig o ro sam en te com o


a a p a riç ã o fin a l de D eus, a n u n c ia d a p ela pro fecia do A T. O que h á d e v ir
é «o m a is fo rte » , ele n ão é re la tiv a m e n te, m a s ab so lu ta m e n te m ais poderoso
que Jo ão . E le b a tiz a rá «com E s p írito S a n to e com fogo». E s s a fo rm u lação ,
p ro v en ien te de Q, (M t 3,11 p a r L e) é a n te rio r ao an úncio que corresp o n d e
à situ a ç ã o d a com unidade, Mc 1,8, e que fa la ap en as de um b atism o com o
E s p írito . C o rresp o n d e à fig u ra do jo e ira r, no terceiro dito, em M t 3,12. O
qu e h á de v ir se assem elh a a um a g ric u lto r que, jo e ira n d o n a eira, se p a ra
debulho e trig o . Q u eim ará o debulho e ju n ta r á o trig o . O que h á de v ir ê
o ju iz que re a liz a a se p a ra ç ão (cf. M t 25,31s), e, ao m esm o tem po, o que
a conclui. Isso é o que, evid en tem en te, q u er a firm a r o d ito a re sp e ito do

86. E sse c a rá te r tem poral pode se r obscureeido quando se o designa de «sacram ento esca-
tológico» (T hyen, op. cit., 132); além do mais, sem definição os dois term os são am bíguos.
87. H ahn, H oheitstitel, 393.
II. A pregação do Batista 77

duplo batism o. B a tiz a r é aqui, com o em Mc 10,38s, u m a fig u ra p a ra im ersão.


E le « b atiza com fogo» q u e r e x p re s s a r: E le im erge, tu d o o que é c o n tra
D eus, no fogo do ju íz o .88 A o m esm o tem p o « b atiza com E sp írito » , i. é, jo g a
o E s p írito de D eus, com o ág u a , so b re os hom ens. S egundo a profecia, o E sp í­
r ito c ria rá o novo coração, o novo hom em e o novo povo de D e u s .89 Conse­
q u e n te m e n te Jo ã o n ão anunciou, de m a n e ira g eral, a v in d a do R eino de D eus,
com o c o n sta n o su m ário fo rm u la d o p o r M ateus, M t 3,2 (cf. 4,17), m aa
a n u n c io u o que h á de v ir com o ju iz e ren o v ad o r, e p o r isso, segundo M t 3,7,
a ir a vin d o u ra.
E s s e anúncio d iv erg e ta n to d a esc a to lo g ia ju d a ic a q u a n to d a cristã .
A d o ta o que a p ro fe c ia v etero testam en tária: a firm a de m a n e ira c e n tra l a
resp eito do alvo de to d a a h is tó ria : D eu s v irá, ele c ria rá p a r a si u m povo
satíto e e x te rm in a rá tu d o o que é c o n trá rio à criação. E x p re s s a a e sp eran ça
em u m a fo rm a su g e rid a p o r concepções essênicas.

c. Se co m preenderm os esse anúncio de m a n e ira tã o ra d ic a l como Jo ão


B a tis ta , te re m o s no fin a l de s u a p reg ação um a aporia; pois quem s e rá salv o ?
Q uem n ão f a r ia p a rte do debulho? Jo ã o a firm a : Só quem p ro d u ziu fru to s
do a rre p e n d im en to ! M as s e rá que se u b a tism o p en iten cial p o ssib ilita um a rre ­
p en d im e n to efetiv o ? Segundo o d ito de Jesu s, M t 11,16-19, os que fo ra m
b a tiz a d o s p o r Jo ã o n ã o se arre p e n d era m , e o p ró p rio Jo ã o a g u a rd a o b atism o
com o E s p írito que c ria rá o novo. A tra v é s do an úncio do b atism o com o
E s p írito ele m o s tra a lim itação de su a ativ id ad e. A té d eixa ver, in d iretam en te,
que a co n sum ação n ã o v ir á com o ele e to d a a p ro fecia a esperam . Se o que
h á de v ir su rg e com o o ju iz do m undo, n inguém s e rá salvo, nem m esm o
pelo b a tism o de J o ã o ; p o is e ste só pro m ete, m as n ã o re a liz a a renovação.
Q ual fo i e n tã o o se n tid o efetiv o de s u a a tiv id a d e ?

5 ) O sig n ificad o do B a tis ta .

a. T ira n d o a s conclusões d e s ta a n á lise h istó rico-religiosa, vem os que sem ­


p re de novo se evidenciou que J o ã o fa z p a r te do m ovim ento b a tis ta ju d e u :
S eu cham ad o ao arrep en d im en to , seu b atism o , s u a esp eran ça escatológica têm
ali a s u a co rresp o n d ên cia co n te m p o râ n e a m a is próxim a. E m esm o assim d i­
v e rg e d ela e ad o ta, de m a n e ira m a is cen tral, n o rm as d a p ro fecia v e te ro ­
te sta m e n tá ria . O ju íz o p n eu m ático d e J e s u s bem com o do s ev an g elistas, que
o d ife re n c ia de seu m eio, n ã o p ode s e r v erificad o h isto ric a m e n te q u a n to ao
seu c a r á te r absoluto, m a s tam b ém so b o p o n to de v is ta h istó ric o n ão é a rb i­
trá rio , m a s re la tiv a m e n te ju stific a d o . V endo-se Jo ã o a p a r tir d a fé cristã ,
pode-se, com b o n s m otivos, en cará-lo com o aquele no q u al a p ro fecia v e te ro ­
te sta m e n tá ria , com v is ta s a Jesu s, ch eg a ao seu alvo. Q ual o seu significado
em relação a Je su s?

88. Concepção ju d aic a corrente, tam bém em Q um ran (F rie d ric h L ang, T hW VI, 937s).
89. Ez 36,27: «E m eu E sp írito porei d entro em vós» (11,19a: «D ar-lhes-ei. . . um espirito
novo (hum ano)»); 37,9: «Vem, esp írito d a vida e assopra sobre estes m ortos p a ra que recebam
vida novamente», — um a fig u ra a respeito d a restauração de Isra e l; J1 3,1; Is 32,15. E sta
concepção continua a e x istir no judaísm o. T rata-se, no entanto, de um a linha relativam ente
e stre ita como no A T: T hW VI, 382s. A penas em um a ocasião ela su rg e de m aneira am pla,
na proxim idade do B atista, en tre os essênios: E les afirm am que o E sp írito já age no presente,
n este ponto divergem do judaísm o rabínico e apocalíptico; ele é concedido aos que ingressam
n a com unidade (1 QH 14,13.25; 16,12; 1 QS 4,21). E les recebem o «E spírito d a m isericórdia»
(1 QH 16,9) que é dádiva escatológica do m essias sacerdotal, segundo T est Jud 24,2! (H einz-
W olfgang K uhn, E n d erw a rtu n g und gegenw ârtiges H eil, 1966, 117-139).
78 § 4: João Batista

b. M a rtin D ib eliu s a f ir m o u :* Jo ã o p rovocou no povo ju d e u u m m ovi­


m en to escato ló g ico do a rre p e n d im en to . T am bém Je su s fo i a tin g id o p o r este
m o v im en to e p ro je to u -se b asead o nele. J o ã o te r ia p rep arad o , sociologicam ente,
o cam in h o p a r a Jesu s. M m o p ró p rio J e s u s te v e que c o n sta ta r, seg u n d o M t
11,16-19, q u e o p re g a d o r d o d e se rto p a r a o povo e ra u m a sen sação d a qu al
n a d a re s ta v a n o cotidiano. P o r isso M a te u s com preendeu d e fo rm a m a is
c o rre ta o seu ch am ad o ao a rre p e n d im en to , in te rp re ta n d o -o de m a n e ira que-
rig m á tic a , em M t 3,3 ( S ) : O cam in h o que lev a a D eus e à salv ação de
D eu s sem p re só p o d e rá ser, p a r a todos, o a rrep en d im en to . V isto assim , Jo ã o
re p re se n ta , em s u a época e p a r a to d a s a s épocas, d efin itiv am en te, o ch am ad o
ao a rre p e n d im en to d a p ro fe c ia v etero testam entária: N ã o é p o r acaso, porém ,
qu e n esse sen tid o Je s u s se m p re se a lia ap en as n o n eg ativ o a Jo ã o : Q uem
re je ita o ch am ad o ao a rre p e n d im e n to de Jesu s, r e je ita tam b ém o do B a tis ta
e de to d a a p ro fe c ia (M t 11,16-19; 21,23-32). M as Je su s n u n c a a firm a posi­
tiv a m e n te : Q uem o u v ir o cham ad o ao a rrep en d im en to (d o B a tis ta e dos p ro ­
f e ta s ) , a lia -se a m im . Isso n ã o o co rre p o r acaso, m a s é m o tiv ad o pelo con­
te ú d o d a m ensagem . O ch am ad o ao a rre p e n d im en to deles fra c a s s a p o r c a u sa
d a e s tr u tu r a h u m an a. T am b ém o b atism o que lev a Jo ã o um pouco m ais longe
qu e a p ro fe c ia n ã o re a liz a o a rre p e n d im en to . Jo ã o n ã o re p re s e n ta a p e n a s a
p ro fecia, m a s co nfessa ta m b é m d e fin itiv a m e n te suas lim ita çõ es: A ren o vação
é tr a z id a a p e n a s pelo b a tism o com o E s p írito daq u ele que h á de v ir; m a s
o q u e h á de v ir é tam b ém o ju iz !

c. E m J o ã o n ã o se evid en cia a p e n a s a lim itação , m as, im p licitam en te,


a aporia da p rofecia veterotestam entária: Se D eus v ie r como ju iz, n ão r e s ta r á
nin g u ém p a r a s e r reno v ad o , n ã o h a v e rá criação p a r a s e r concluída. E s s a a p o ­
r ia se d esfaz in esp erad am en te. O que h á de v ir n ã o vem p a ra b a tiz a r, m a s
p a r a s e r b a tiz a d o ! N e ssa m o d ificação se m o stra que a pro fecia veterotesta­
m e n tá ria se cu m p re de m aneira diversa d a e sp e ra d a p e la p ro fe c ia e d a que
a p ro fe c ia p o d ia e sp e ra r. O que h á de v ir n ã o vem com o o fin a l d a h istó ria ,
m a s no m eio d a h istó ria . E le vem de m a n e ira ab scô n d ita, o p ró p rio Jo ã o
n ã o o p o d e id e n tific a r cla ra m e n te. A in d a n a p risã o p e r g u n ta : «És t u aq u ele
qu e e s ta v a p a ra vir?» (M t 11,3). A p en as a p a r tir d a p ásco a o b atism o d e
Je su s, re a liz a d o p o r Jo ã o , com eça a f a la r e m o s tra o cam inho de J e su s e o
p la n o salv ífico de D eus. E n tã o se re v e la q u e: A v e rd a d e ira m issão do B a ­
t i s t a fo i a de b a tiz a r a Je su s. N e ssa p e rsp e c tiv a é v isto pelo q u a rto evange­
lis ta : «A fim de que ele fo sse m a n ife sta d o a Isra e l, vim , p a r a b a tiz a r com
águ a» ( J o 1,31).

6 ) O b a tism o de Jesu s.

A n a r r a tiv a sin ó tica, em M c 1,9-11, e s tá d iv id id a em d u a s p a rte s. A


p rim e ira a ) é v is ta em g e ra l com o sendo h istó ric a (v. 9 ). O f a to de J e su s
h a v e r recebido o b a tism o do arre p e n d im en to p a ra o p erd ão dos pecados d ev ia
s e r co n sid erad o alg o tã o escan d alo so e enig m ático p a r a a com unidade que
nin g u ém o te r ia in v en tad o . E s s a a titu d e de Jesus, no e n ta n to , a firm a d u as
co isa s: Je s u s s e id e n tific a com J o ã o B a tis ta , com o cam inho p o r ele indicado,
bem com o com a su a co m preensão do A T , e d istan cia-se com isso d a s o u tra s
concepções d os fa ris e u s e dos essênios. A v in d a de Je su s a té J o ã o é u m 90

90. Jesus, I9603, 45s.


II. A pregação do Batista 79

desvio que s e p a ra s u a com preensão do A T , e com e la tam b ém a com preensão


c ris tã do A T, d a d a sin ag o g a. P o r o u tro lado, n o en tan to , Je su s en v ered a
com isso p o r um cam in h o que se co m prova sem p re m ais em su a a tiv id a d e
p ú b lica: C oloca-se aqui, e sem pre, n o m eio dos que fo ra m ch am ad o s ao a r r e ­
pendim ento. E sse p asso de Je su s é co n firm ado no d esen ro lar d a n a rra tiv a .

b. S egundo a n a rra tiv a , no b a tism o o co rreu a co n firm ação de su a v o ca­


ção p a r a a a tiv id a d e m e s s iâ n ic a .” Segundo M arcos (1,10), a rev elação celes­
tia l se d irig e a J e s u s ; seg u n d o M ateus, a Jo ão . S e rá que M arcos q u e r r e la ta r
a un ção de Je s u s como M essias, e M ateu s u m a proclam ação, com o m u ita s
vezes fo i a firm a d o ? ” A q u ela co rre sp o n d e ría à ap o teo se do soberano, p o r oca­
sião d a en tro n ização , e e sta , à e p ifa n ia do so b eran o divino, no m undo hele-
n ista . Segundo seu gênero, n o e n ta n to , esses r e la to s ' fazem p a r te de um o u tro
com plexo. A n a r r a tiv a de M arcos n o s reco rd a, p asso a passo, a vocação de
p ro fe ta s x etero testam en tário s, especialm en te a de E zequiel (E z 1,1; 2 ,ls s ).
N o e n ta n to , em co n tra p o siç ã o aos re la to s veterotestam entários, esse re la to
n ão é um te ste m u n h o de si p ró p rio . T a l a u to testem u n h o n ã o c ab ería n a
tra d iç ã o a re sp e ito de Je su s. Je su s em s u a a tiv id a d e n u n c a a p o n ta p a ra u m a
vocação ou p a r a u m a in stru ç ã o d a p a r te de Deus. F a la e ag e sem p re a p a r tir
de um p o d e r p ró p rio . P o r isso os n a rra d o re s tiv e ra m que tra n s fo rm a r, d essa
m an e ira , o g ên ero v etero testam en tário , d a vocação dos p ro fe ta s.
O que e x iste de h istó ric o nisso tu d o ? A a tiv id a d e p ú blica de J e su s inicia
n essa h o ra , e se e n c e rra ap ó s dois a tr ê s anos. A ssem elha-se em g ra n d e
p a rte à a tiv id a d e dos p ro fe ta s vetero testam en tários . P o r isso pode-se d e d u z ir
que o seu batism o, realizad o p o r Jo ão , se tra n sfo rm o u em vocação. A vocação
lib era o que lh e f o ra concedido. N o m ais, d ificilm en te se po d e v erificar,
h isto ric a m e n te , a té que p o n to o a to o rig in al d a vocação vem à to n a nesse
re la to . Im p o rta n te é que o re la ta d o co rresp o nde te m a tic a m e n te à s c a ra c te rís ­
tic a s g e ra is de su a a tiv id a d e que e n co n tram o s v elad am en te n a s trad içõ es
iso lad as que se seguem . O re la to se tra n s fo rm a em um su m ário cristológico
que in tro d u z, in te rp re ta tiv a m e n te , à exposição d a a tiv id a d e de Je su s que se
segue. “
P ro c u ra re m o s a g o ra esb o çar a im agem teo ló g ica d a a tiv id a d e de Jesu s,
a q u a l in icia n a q u e la h o ra n o J o rd ã o e te rm in a a n te o S inédrio em Jerusalém . 9123

91. Q uanto à discussão histórico-tradicional, v. H ahn, H oheitstitel, 340-346.


92. B ultm ann, T rad., 264-270.
93. Cf. a exegese de J . Schniew ind e E. Schweizer, N TD Me n a passagem correspondente.
CAPÍTULO III

O Anúncio do Reino de Deus


por Intermédio de Jesus

Johannes W eiss, D ie Predigt Jesu vom Reiche Gottes, 1900* (Reimpr. 1964); Rudolf Otto. Reich
G ottes und Menschensohn, 1940*; Karl Ludwig Schmidt. ThW I (1933). 579-592; Bultmann. Theol
§ 1; W erner Georg Kdmmel, Verheissung und Erf HIlung. 19653; idem. Theol, 23-35; Philipp
Vielhauer, Gottesreich und Menschensohn in der Verkdndigung Jesu. em: FestschrJ. Günter Dehn,
1957, 51-79 ( ~ Aufs.z.NT, 1965, 55-91); Rudolf Schnackenburg, Gottes Herrschaft und Reich, 1965*•;
Eberhard Jüngel, Paulus und Jesus, 1967*, p. 87-215; Norman Perrin, The Kingdom of God in the
Teaching of Jesus, Londres 1963 (1966*); George Eldon Ladd, Jesus and the Kingdom, Londres
1966; J. Jeremias, Theol, 40-43.99-123.231-238.

A a tiv id a d e de Je s u s g ir a em to rn o de u m conceito fasc in a n te . T udo se


re la c io n a com ele e tu d o p ro v ém dele. E sse c en tro é a basileia to u theou,
o re in o de D eus. P a r a com preenderm os o conteúdo dessa concepção, p ro c u ra ­
rem o s d a r u m a v isão g e ra l do u so e d a p rocedência desse term o.

§ 5: O CONCEITO “REINO DE DEUS”, NA PREGAÇÃO


DE JESUS E EM SEU AMBIENTE
Paul Volz, Die Eschatologie der jüdischen Gemeinde, 1934‘ ; Gustav Dalman, Die W orte Jesu I,
1930s, 75-83; Billerbeck I, 172-184.418s; Kraus, Psalmen, p. 197-205; fí. Schnackenburg, Gottes
Herrschaft, 1-48; Jeremias, Theol. 40-43.

I. N os sum ários da pregação de Jesus

C ad a e v a n g e lista p ro c u ra s in te tiz a r, em um sum ário, o que Je su s d efen d ia em


seu ensino. M arcos o fo rm u la assim , em l,1 4 s : «A nunciava o evangelho de
D eus, d izendo: O tem p o e s tá cum p rid o e o reino de D eus e s tá pró x im o ;
arrep en d ei-v o s e crede n o evangelho». N essa fo rm u lação h á m u ita term in o lo g ia
d a com unidade. A p reg ação in a u g u ra l de Je su s em N azaré, com a q u al L u cas
in tro d u z su a p reg ação , em 4,18-21, e s tá m u ito m ais e stilizad a pela situ ação
d a com unidade. C onclui com a fó rm u la tam b ém em p reg ad a p o r M ateu s: «Ele
an u n c ia v a o evangelho do reino» (L c 4,43; 8,1; M t 4,23; 9 ,3 5 ).“ P o r seu
tu rn o , o b reve su m ário de M t 4,17, rep etid o em 10,7, term in o lo g icam en te
n ão v a i além dos d ia s de J e s u s : «V olvei; pois o reino dos céus se a p ro x i­
m ou!» Com a s m esm as p a la v ra s o e v a n g e lista resum e, em 3,2, a preg ação
do B a tis ta . Q uer a c e n tu a r, d essa m an eira, o que h á de com um ; a diferen ça 94

94. Lc: euangelizasthai te n basileia to u th eo u ; M t: kerysson to euangelion tes basileias.


II. Variantes do conceito 81

é in d ic a d a p o r m eio d a s citaçõ es d a E s c r itu ra que a c re sc en ta (3,3; 4,15s).


Sob o p o n to de v is ta h istó rico , a p re g a ç ã o do B a tis ta se o rie n ta v a n a v in d a
do «que h á de v ir» ; a de Jesu s, n o e n ta n to , se o rie n ta v a n a v in d a de Deus,
isto é, n o se u dom ínio. E ’ o que te ste m u n h am ditos, sem d ú v id a legítim os,
e p a rá b o la s em n ú m ero considerável. E n c o n tra m o s o te rm o tam b ém em v a '
riações.

II. V ariantes do conceito

E m M ateus, e só nele, além do evangelho judaico-cristão dos n azarenos,1


am iú d e é fa la d o do «reino d os céus». A tradição p a ra le la d e m o n stra que
a locução é te m a tic a m e n te id ê n tic a a «reino de Deus». E ’ p ro v en ien te de
u m co stu m e p alestin o . E v ita v a -s e u s a r o «anti» Tiram» de D eus e, p o r isso,
tran screv ia-se-o . «Céu» é u m a d a s transcrições costum eiras; en co n tram o -la
com o ta l tam b ém n o s evangelhos, p. ex., em Mc 8,11 e L c 15,18. «O reino
dos céus» — o p lu ra l re p ro d u z o te rm o h eb raico sch a m a im , que e ra usado
no p lu ra l — é p o rta n to o re in o d aq u ele que e s tá n o céu, não um reino que
e s tá n o céu ou que vem do céu. A concepção p o p u la r do reino dos céus,
com o um m u n d o celestial so b re o firm a m e n to , n o q u al os piedosos in g res­
s a rã o ap ó s a m o rte, n ã o se e n c o n tra no N T, m a s no s apocalipses ju d aico s
e em, o u tra fo rm a, n a gnose.
Je s u s pode te r u sad o p a ra le la m en te , com o m esm o sen tid o , «reino de
Deus» e «reino dos céus». “ P o r o u tro lado, a s fó rm u la s e n c o n tra d a s ocasio­
nalm en te, «reino do P ai» , «o reino» (a b so lu to ) ou «reino do filh o do hom em »
são fo rm u laçõ es c ris tã s secu n d árias.
A locução «reino de D eus» p ro v ém de Jesu s, pois fo ra dos ev angelhos
sin ó tico s q u ase que in e x iste n o N T . E s s a in ex istência, o b serv ad a tam b ém n o
evangelho de João, te m d u a s c a u sa s: l 9 E sse conceito, com um no ju d aísm o
d a P a le s tin a , d ificilm en te e ra co m preendido pelo hom em helen ista. P o r isso,
o evangelho de Jo ã o o s u b s titu i — com exceção de d u a s p assag en s 3,3.5 —
p ela ex p ressão «a v id a e te rn a » ou «a vida» (a b so lu to ). P ro v av elm en te já
o p ró p rio Jesu s, n o e n ta n to , a lg u m a s p o u cas vezes, usou o conceito «vida».
F a la de e n tr a r n o re in o de D eu s (M c 9,47), bem com o do « e n tra r n a vida»
(M c 9,43.45) ou do «cam inho que lev a à vida» (M t 7,14). O « h erd ar o re in o
de D eus» e o « h e rd a r a vida» (M t 25,34; M c 10,17 p a r) é o m esm o —■
e n ão o b s ta n te n ã o é o m esm o ; p o is o re in o de D eus e stá, p rim ariam en te,
o rie n ta d o de m a n e ira pessoal. 29 P o r isso o conceito é a fa sta d o , n a com uni­
dade, tam b ém p o r um m o tiv o teo ló g ico : D esde a páscoa, su rg e, ao la d o
d a p rece p e la v in d a d o reino, a p rece «Vem, S en h o r nosso!» (IC o 16,22;
A p 22,20). P o r isso P a u lo a n u n c ia o k y r ío s e q u ase n ã o f a la m a is a resp eito
d a basileia to u theou.
A o a n u n c ia r a v in d a do reino, Je su s n ã o in tro d u z u m te rm o novo.
N ã o anuncia a existên cia de u m reino de D eus, m a s o ia to d e que ele agora
vem . R ealm en te, o m eio am b ie n te p a le stin o -ju d aico j á fa la v a a resp eito do
«dom ínio re a l de D eus». N isso se p a r tia de concepções b ásicas com uns, m as,
no fu n d o , a s in te rp re ta ç õ e s divergiam . 95

95. Segundo Dalman, op. cit., 77, ele «preferiu» «reino de Deus», «pois p re fe ria e v ita r a
citação do nom e de Deus» (cf. Jerem ias, Theol. 2 0 s); segundo Jerem ias, Theol., 100, essa
transcrição se to rn o u corrente apenas no cristianism o judeu, pois é e ncontrada no judaísm o,
apenas 50 anos após Je su s (J. Qidd 59d 28).
82 § 5: O conceito «Reino de Deus» na pregação de Jesus

Se p e rg u n ta rm o s p e la orig em do conceito, verem os que se desenvolveu


a p e n a s n a época pós-vetero testam en tária, tendo, porém , seu s an teced en tes
fu n d a m e n ta lm e n te n o A T .

m . N o A ntigo Testam ento

N o A n tig o T e sta m e n to , D eus é v isto, fre q ü en tem en te, com o u m re i e é dito


que ele g o v e rn a ou g o v e rn a rá com o rei. A s fo rm u laçõ es são fe ita s p o r in te r­
m édio do v erb o m a la k ( — b a sileu ein ) ou do su b sta n tiv o pessoal m elek ( =
b a sileu s). O su b sta n tiv o im pessoal «reino» (m a lk u th = basileia) é usado
r a r a s vezes e a p e n a s com o p ronom e possessivo relacio n ad o com D eus (SI
103,19; 145,11.12.13; cf. T ob 13,1; D n 3,54L X X ; 4 ,3 4 ); em nen h u m a
p a r te do A T se e n c o n tra a locução «reino de D eus», como conceito co rren te.
Q uem m a is se a p ro x im a d essa conceitu ação é a a p o calíp tica veterotesta-
m e n tá ria : D n 2,44 (d if. 4,31) a n u n c ia que «o D eus do céu» su s c ita rá so b re
o m undo, n o fin a l, «um o u tro reino» que p erm an ecerá etern am en te. N a fig u ra
v isio n á ria de D n 7,13, «o reino» so b re o m undo s e rá tra n sm itid o ao «filho
do hom em », i. é, segundo a in te rp re ta ç ã o em 7,27, «aos san to s» . N o fin a l
«o rein o se rá de Jav é» , com o é d ito em Ob 21.
Q uanto a seu conteúdo, e ssa s indicações q u a n to ao re in a r ré g io de
D eus se dividem especialm ente em q u a tro g ru p o s:

1) A orig em d a concepção ta lv e z se evidencie no s salm os da ascensão ao


trono, SI 47.93.96-99. N e ste s salm os sem p re de novo é confessado, de m a n e ira
litú rg ic a : «Jav é se to rn o u rei», ou, em o u tra tra d u ç ã o : «Javé é rei». “ J á a
L X X tra d u z ia -o no p rim eiro se n tid o : ebasileusen ho k y iio s . E s s a confissão
é com plem entada, p. ex., no SI 99,1, d a seg u in te m a n e ira : «Javé to rn o u -se
rei, tre m e m os povos, ele e s tá en tro n iz a d o acim a dos querubins, tre m e a
te r r a ; Ja v é é g ra n d e em Sião, sobrem odo elevado e s tá so b re to d o s os po­
v o s . . . , u m poderoso, que a m a a ju stiç a , é rei». Como D eus se to m o u rei
d essa m a n e ira u n iv e rsa l? O fa to de D eus se r rei, n ão pode se r co n sta ta d o
n a criação e n a h istó ria , sim , lá a in d a n ão se to m o u realid ad e. M as, p a ra
a com unidade, a re a le z a de D eus se to m a f a to p re se n te no cu lto e é p o r
ela confessada.
Como ch eg a a com unidade a fo rm u la r ta l confissão? A concepção pode
te r-se o rig in ad o de u m a tra d iç ã o c u ltu a i de Jeru salém , a n te rio r ao s isra e ­
lita s, segundo a q u al se e n c o n tra , no Sião, «o D eus suprem o» que g o v ern a
d ali com o rei, e que é criador, o sen h o r e o ju iz do m undo. M as p a ra a
com unidade c u ltu a i isra e lita , essa co n fissão a fa v o r de seu D eus e s tá b asead a
n a eleição de Je ru sa lé m e de D a v i.9697 E sse é o p o n to de p a rtid a que d eterm in a
a s dem ais afirm ações.

2 ) A m iúde se confessa, em fo rm a doxológica, que o dom ínio régio de


J a v é j á se m a n ife sta no presente. N ão se vê, contudo, ta l m an ifestação no
seu senhorio ab scô n d ito sobre tod o s aco n tecim entos no universo, m a s n o s
seu s a to s salv ífico s j á realizados em Is ra e l (Ê x 15,18; SI 44,1-5), ou n a
a ssistê n c ia às su a s c ria tu ra s (SI 145,1.13; 146,10), ou em am bos (SI 74,12).

96. Q uanto à p rim eira trad u ção : v. Rad, Theol. I, 374, q uanto à seg u n d a: K raus, P s a l-
m en I, 202.
97. K rau s, P salm en I, 203s.
UI. No Antigo Testamento 83

O SI 145 co n fessa em a d o ra ç ã o h in o ló g ica: «Q uero e x a lta r-te , m eu D eus


e r e i . . . T e u re in o (h e basileia sou, m a lk u te k a ) é u m re in o p a r a to d a a
e te rn id a d e e te u dom ínio s u b siste d e g e ra ç ão em g e r a ç ã o ... O S en h o r sus-
té m a to d o s q u e caem e p õ e em p é to d o s os p ro stra d o s. O s olhos de todos
esp e ra m em t i e tu , a se u tem po, lh e s d ás seu alim ento».

3 ) N a profecia, a tra d iç ã o d oxológica do te rm o Jav é-rei, do s a n tu á rio


de Jeru salém , fo i a d o ta d a p o r D t-Is. Com isso a concepção sa i «do am b ien te
de glo rificaçõ es c u ltu a is e, em u m se n tid o escatológico, to m a -s e u m f a to r
a tiv o n a h is tó r ia » .98 A p ro fe c ia v iv e do f a to de que D eus, o S en h o r d e tu d o
o qu e sucede, se to m a eficaz em ju íz o e g ra ç a a tra v é s d a p a la v ra p ro fética,
a ssim com o a té a g o ra se h a v ia m a n ife sta d o n a s u a ação de eleg er Isra e l.
Se u n irm o s a concepção D eu s-rei com esse prin cíp io d a profecia, terem o s
o an ú n cio de um re in o escatológico d e D eus. Os relacio n am en to s se eviden­
ciam n a p a ssa g e m c e n tra l de I s 45,18-25, que diz, no v. 18: «A ssim diz o
S en h o r que crio u os céus, o ú n ico D eus, que fo rm o u a t e r r a e a f e z . . . : ‘E u
so u o S en h o r e n in g u ém m a is’ !» E m a c e n tu a d a te n sã o com a p rim e ira a fir­
m ação, o d iscu rso divino conclui com o an úncio do v. 23: « P o r m im m esm o
j u r e i . . . : ‘D ia n te de m im se d o b ra rá to d o joelho, ju r a r á to d a lín g u a e d irá :
A p en as no S en h o r h á sa lv a ç ã o e fo rç a ’. A ele v irã o e se en v e rg o n h a rão todos
os que se irr ita m c o n tra ele». Com o pode s e r com binado e ste an ú ncio com
a p rim e ira a firm a ç ã o ? Com o C riad o r, D eus j á sem p re é S en h o r de to d o
aco n tecim en to , caso c o n trá rio n ão s e ria D eus. S egundo I s 10,5-15, os p ró p rio s
g ra n d e s re is n ã o p a ssa m de m ach ad o e v a r a em su a m ão. E le é o Senhor,
m as n ã o é reconhecido com o ta l. O alvo é que, depois de seu s a to s de eleição
em Isra e l, to d o s dev erão reconhecê-lo p razerosam ente; pois isso sig n ific a rá
«salvação» p a r a to d o s e se to m a r á realid ad e, com o o a n u n c ia I s 52,7-10,
a tra v é s d a eleição fin a l de D eus, a tra v é s de su a v o lta d e fin itiv a p a r a Sião:
«Que fo rm o so s são so b re os m o n te s os pés do p o rta d o r de b o a s -n o v a s que
a n u n c ia paz, tr a z b o a-n o v a ( euangelizetai), a n u n c ia salvação, diz a S ião :
T eu D eus se to m o u r e i ! . . . E x u lta i, m in a s de J e ru s a lé m ! P o is o S en h o r
con so la o seu povo, red im e a J e r u s a lé m .. . e to d o s os co nfins d a t e r r a vêem
a salv ação d o n o sso D eus». S egundo e ssa p a ssa g e m o fu tu ro re in o de sa l­
v ação de D eus se rá erig id o n a h is tó ria a tra v é s d a su a p ro clam ação, a tra v é s
d a boa-nova. E la te m c a r á te r «escatológico», p o is sig n ifica u m a salvação
d efin itiv a.

4 ) E s s a d ife re n ç a e n tre o re in o d e D eus fu tu ro , escatológico, e o seu


sen h o rio p re se n te so b re tu d o o q u e o corre, assum e, desde ca. 200 aC, um
c a r á te r re la tiv a m e n te d u a lis ta n a apocalíptica. E m D n 7 os q u a tro anim ais,
que re p re se n ta m os re in o s d a te r r a , em ergem do m a r; o filh o do hom em ,
que re p re s e n ta o rein o dos sa n to s, vem so bre as n u v en s do céu. «E m baixo»
e «em cim a» sã o g ra n d e z a s o p o stas. N o e n ta n to , n ã o se t r a t a d e u m d u alis­
m o a b so lu to ; p o is tam b ém o q u e o co rre em baixo, e s tá co n tid o no p lan o de
D eus. M as m esm o assim , a m o d ificação em se n tid o d u a lista fre n te a D t-Is
é ind iscu tív el. E s s a m odificação su rg iu , p o r um lado, po rq u e a p re ssã o ex er­
cid a pelos re in o s h elen istas, p rin c ip a lm e n te sin c re tista s, so b re Isra e l, fa z ia
a p a re c e r a d ife re n ç a de m a n e ira m a rc a n te ; p o r o u tro lado, po rq u e tra d iç õ e s

98. K raus, Psalm en X, 205; na época pré-exílica, a profecia não falava do reino de Javé,
com exceção de Is 6,1.5.
84 § 5: O conceito «Reino de Deus» na pregação de Jesus

ira n ia n a s o fereciam concepções e te rm in o lo g ias co rrespondentes. E s s a s tr a d i­


ções p o ssib ilita ra m que o c a r á te r escato ló gico do rein o v in d o u ro fo sse ex ­
presso de m a n e ira c la ra com o auxílio de fó rm u la s d u a lis ta s ; n o e n ta n to ,
tro u x e ra m consigo u m a e stra tific a ç ã o a tr a v é s d a lig ação a aco n tecim entos
cósm icos. ” O ap o calip se de Isa ía s, p. ex., a n u n cia que «Deus se to m a rei»
p o r m eio de u m a c a tá s tro fe cósm ica ( I s 24,18b-23; cf. D n 2,44). S om ente
n a ép o ca p ó s-v etero testam en tária esse d esenvolvim ento to m a -s e p len am en te
evidente.

IV. N o judaísm o

1 ) Os apocalipses ju d a ico s d esd o b ram a lin h a o b serv ad a n o A n tig o T e sta ­


m ento, « m D an iel e em I s 24-27. T ípico é, p. ex., a e th H e n 1,3-9: «O g ra n d e
sa n to s a ir á d e s u a m o ra d a e o D eus do m undo p is a rá n o m o n te Sião, evi-
den ciar-se-á com os se u s e x é r c i t o s ... E n tã o os hom ens se a te m o r iz a r ã o ...,
os a lto s m o n te s se rã o a b a l a d o s ..., u m ju lg a m e n to de to d o s s e rá feito. M as
com os ju s to s f a r á p a z . . . e a lu z de D eus b rilh a rá p a ra eles». Segundo essa
p assag em , o invisível, p o r c u ja v in d a os que sã o fiéis à lei anseiam , s u rg irá
p o d ero sa e visivelm ente. O s p ecad o res p erecerão em c a tá s tro fe s cósm icas.
P a r a os ju sto s, p orém , o ju íz o se rá o p rincípio d a salvação. T udo isso sig ­
n ific a o e rg u im e n to d o re in o de D eu s; m as esse te rm o n ão é usado aqui.
E nco n tram o -lo , com sig n ificad o escatológico, ap en as n o s apocalipses, em Sib
O r 3,461.767s e A ss M os 10,1: « E n tã o o seu rein o a p a re c e rá so bre to d a a
su a c ria tu ra , e n tã o o diabo e n c o n tra rá o seu f i m . . . ; pois o su p rem o D eus
se e r g u e r á . . . e a p a re c e rá a b e rta m e n te p a ra c a s tig a r os gentios. E n tã o tu
s e rá s feliz, Isra e l!» . «Reino de D eus» n ão foi, p o rta n to , u m term o -ch av e d a
ap o calíp tica. ”°
N a a p o c a líp tic a p o ste rio r, o d ualism o se ex p ressa no esquem a dos dois
éo n s: E s s a concepção su rg e j á desenvolvida, p o r v o lta de 90 dC, em B aru q u e
sírio e em IV E s d ra s . ” A m u d a n ç a dos éons é d e sc rita de m a n e ira im p res­
sio n a n te em IV E s d r a s 7,30ss: « E n tã o o m undo v o lta rá ao silêncio do tem po
im em orial, d u ra n te s e te d ias, com o no p rin cíp io im em orial de m a n e ira que
n in g u ém re s ta rá . D epois de se te dias, o éon que a g o ra dorm e a c o rd a rá e a
p ró p ria c o rru p tib ilid a d e p erecerá. A te r r a devolve os que n e la d e s c a n s a m ...,
o su p rem o a p a re c e n a c a d e ira de ju i z . . . , su rg e a d esfo rra, as b o as ações
d esp e rta m , a s m á s n ã o dorm em m ais», e o a u to r do apo calip se co m en ta:
«A g o ra v e jo que o m u n d o v in d o u ro t r a r á p a r a poucos a le n to ; p a r a m uitos,
porém , so frim en to » (7 ,4 7 ). É -lh e re sp o n d id o : « Ju sta m e n te p o r isso o suprem o
n ã o crio u um éon, m a s dois» (7 ,5 0 ). A concepção do «éon vindouro», de
u m novo m undo e de u m novo tem po, q u e n ã o é tem po, m as etern id ad e, deixa
a concepção do re in o de D eu s p a s s a r p a ra u m segundo p la n o ; e n q u a d ra a
ação de D eu s n u m processo cósm ico.
E s s a s concepções se esp a lh a m tam b ém no ju d aísm o fa risa ic o -ra b ín ic o ;
m as, m esm o assim , a tô n ic a d a d a p o r ele é o u tra. 910

99. Otto, op. clt., 3-33.


100. A designação transcreve, d iversas vezes, o fato de D eus se r re i no p resente, no sentido
d a s afirm ações ap resen tad as em lb , assim a e th H en 84,2: «Teu poder, reino e grandeza
perm anecem em to d a a eternidade». O m esm o deve se r dito a respeito de SI Sal 5,18s; 17,3 e
principalm ente a respeito de Sap 6,4; 10,10.
101. As passagens m ais a n tig a s d a apocalíptica, a e th H en 71,15 (48,7), e do rabinism o, o
dito de H illel A both 2,7, são in ce rta s sob o ponto de v ista histórico-tradicional, de m aneira
que a teste m u n h a m ais a n tig a e c la ra do rabinism o é Jo h a n a n ben Zakkai, p o r v olta d e 80
(Ber. R. 44) (Dalman, op. cit., 120s; T hW X, 206s).
IV. No judaísmo 85

2 ) N o ju d a ísm o íarisaico-rabínico esp era-se a n sio sam en te pelo re i m es­


siânico, o b en D avid, que, p o r se u re in o de paz, n a h istó ria , lib e rta rá Isra e l
do dom ínio do inim igo. M as, a o m esm o tem po, sã o a d o ta d o s elem entos d a
esca to lo g ia có sm ico -tran scen d en tal, sem q u e se p ro cu re a ju s ta r os dois. A
im agem a re sp e ito dos ev en to s fin a is, c ria d a p ela escato lo g ia rab ín ica, é
a in d a m enos u n ifo rm e do q u e a c ria d a p ela apo calíp tica.
Com o tu d o , o re in o de D eus é v isto a p a r tir d a lei. F a la -se a re sp e ito
dele esp ecialm en te em d u a s fó rm u la s e sta b elecid a s: 102 A p rim eira, que p ro v a ­
velm en te j á e ra com um n o s d ia s d e Jesu s, é a se g u in te : assum e-se «o ju g o
do re in o do céu» ou «o rein o dos céus». Isso o co rre q u an d o a g o ra n o s con­
fessa m o s a d e p to s do m onoteísm o e d a T o ra, a tra v é s do re c ita r do Schem a.
E s s a concepção receb e m a is ta r d e a se g u in te explicação h istó rico -teo ló g ica:
Deus, com o c ria d o r do m undo, fo i tam b ém seu re i; m a s a h u m an id ad e não
quis o seu dom ínio. A p en as A b ra ã o e p rin cip alm en te Is ra e l no Sinai acei­
ta ra m -n o n o v am en te. R eino de D eus, p o rta n to , é a reiv in d icação do c ria d o r
a rtic u la d a n a lei. M u ito m a is im p o rta n te e a n tig a do q u e e ssa p rim e ira
fó rm u la e s u a in te rp re ta ç ã o teo ló g ica é a seg u n d a que, com certeza, n a
época de Je su s e ra com um n a s orações. N a l l 4 p rece d a o ração d a s 18
preces, c u ja p a r te p rin c ip a l j á n a época de J e s u s e ra re c ita d a d u a s vezes
ao d ia p o r to d o ju d e u piedoso, ro g a -se p ela im posição b rev e e p ú b lica do
re in o de D eu s no m u n d o : « T raze n o v am en te os nossos ju iz e s com o a n te s . . .
e sê re i so b re nós, tu so m e n te » .m N a Q addisch que, n o am b ien te d e Jesus,
j á e ra a o ra ç ã o fin a l do cu lto sin ag o g al, a fo rm u la ç ã o m ais a n tig a diz:
«G lorificado e sa n tific a d o se ja o se u g ra n d e nom e n o m u n d o que ele criou,
segundo a s u a v o n ta d e ; e rg a ele o seu re in o d u ra n te a v o ssa v id a < . . e d u ­
r a n te a v id a de to d a a c a sa de Isra e l, d e p ressa e logo. L o u v ad o s e ja o seu
g ra n d e nom e de e te rn id a d e a etern id a d e . E dizei a isso : A m ém ».141 O reino
de D eu s s e rá erig id o q u a n d o ele lib e r ta r Isra e l d a escrav id ão sob os povos
do m undo, p o r m eio de p o d ero so s sin ais, h istó ric o s e cósm icos, e o b rig a r os
ho m en s a reconhecê-lo com o Senhor.

3 ) E n q u a n to que o ju d a ísm o sin ag o g al u n ia a s d iv ersas esp eran ças a


re sp e ito dos tem p o s fin ais, sem a s s iste m a tiz a r, a e sp eran ça dos essênios se
c o n c e n tra n a v in d a de dois v u lto s m essiân icos — tam b ém n esse p o n to Jo ão
B a tis ta se assem elh a a eles. R a ra s vezes é m encionado o rein o de D eus e,
n a m a io ria d a s vezes, n o s tre c h o s d u a lis ta s que contêm reflex õ es a resp eito
d a lu ta e n tre D eus e B e lia l.10213405 T am bém aqui, rein o de D eus é a reivindicação
de D eus, re su m id a n a lei, reiv in d icação e s ta que é im p o sta com p o d er p a ra
salv ação d os sa n to s, p a r a ju ízo so b re os dem ais, a tra v é s d a im in en te v in d a
de D eu s: «M as ao D eu s de Is ra e l p e rte n c e rá o reino, e n o s sa n to s d e seu
povo d e m o n s tra rá poder» (1QM 6,6).
Se com pararm os essas a firm açõ es ju d a ic a s a resp eito do rein o de D eus
com as pala vra s de J esu s a re sp e ito dele, com o a s vim os a té a g o ra a tra v é s
dos su m ário s e d a e s ta tís tic a do conceito, poderem os j á a g o ra c o n s ta ta r o
se g u in te : A concepção de u m re in o de D eus, que se rá erig id o no fu tu ro , é
co n h ecid a a to d o s g ru p o s do a m b ie n te ju d e u de J e su s; m as p o r nenhum
deles o con ceito é u sad o de m a n e ira tã o c o m p acta e c e n tra l com o p o r Jesus.

102. D alm an, op. cit., 79-81; B illerb. I, 172-180.


103. B illerb. IV, 210-223.
104. Conform e Jerem ias, Theol., 192.
105. Jürgen Beeker, Das H eil Gottes, 1964, 74-103.
86 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

T o d as lin h a s ju d a ic a s tê m d u a s coisas em com um q u a n to ao fu tu ro re in o


de D eu s: a ) O re in o de D eu s a in d a n ã o é dado com o f a to de D eus se r
S en h o r so b re o d e se n ro la r d a h is tó ria ; te m que se r erigido em oposição ao
m undo. Isso o co rre p o r m eio de um ju íz o fin al, como evento escatológico.
b) S ua re alização p ro v o ca u m a n o v a h istó ria , u m a situ a ç ã o cósm ica que
sig n ific a sa lv ação p a r a to d o s os que d ela p articip am , especialm ente p a ra o
povo de Deus. O c ria d o r é reconhecido p o r to d o s como seu D eus; a su a
v o n ta d e que tra n s m ite S halom é fe ita . T am bém p a r a Jesu s, o rein o de Deus,
sem d úvida, é ex clu siv am en te u m a g ra n d e z a escato ló g ica; n ão con co rd a com
os fa ris e u s que eles j á te n h a m to m ad o so b re si «o ju g o do rein o de Deus».
T am bém p a r a ele, esse rein o sig n ific a que a v o n ta d e de D eus é cu m p rid a
de b o a v o n ta d e e que tu d o se to m a são. N o en ta n to , esse alvo p a ra ele
não é alcançado, com o n o caso d a s dem ais lin h as do ju daísm o, p o r m eio
d a obediência do hom em à lei e a tra v é s d a dem o n stração do p o d er de Deus,
m as p o r u m m eio to ta lm e n te d iferen te. D epois do que vim os, não podem os
dizer que as p a la v ra s de Je s u s a resp eito d a v in d a do reino de D eus p a rte m
de u m a d e te rm in a d a lin h a do judaísm o. Isso é válid o especialm ente com
rela ç ã o à ap o calíp tica. C e rta m e n te ele com preende o conceito «escatologica-
m en te» ; m a s poderem os p e rg u n ta r se, seg u n d o ele, o E sc h a to n , o b ásica e
d efin itiv a m e n te novo, deve s e r definido m a is no sen tid o de D t-Is ou m ais
no d a ap o calíp tica. A lém disso o rein o de D eus em sen tid o escatológico de
m a n e ira n e n h u m a é um conceito b ásico d a ap o c a líp tic a ; não é p o r acaso
que, ex cetu an d o -se o p ró p rio liv ro de D aniel, não se en co n tre n a tra d iç ã o
sin ó tic a n en h u m a p assag em d a a p o c a líp tic a ju d a ic a que nos s e ja conhecida.
P o r o u tro lado, J e s u s p a r te no pai-nosso, q u a n to a estilo e conteúdo, d a
o ra ç ã o d a s 18 p re c e s e d a Q a d d isc h ; 108 e ssa concepção de reino de Deus, en ­
c o n tra d a n e ssa tra d iç ã o de oração , ele a p ressupôs em seu am b ien te judeu.
O que ali é ro g a d o d ia ria m e n te , ele o a n u n cia com a fo rm u lação que n ão
en c o n tra m o s em n e n h u m a p a r te n o ju d a ísm o : «O rein o de D eus é chegado»
e tra n sfo rm a -o em cen tro de s u a p reg ação. P o r isso o estabelecim ento do
re in o é o sin a l que an teced e to d a s a s preces, en q u an to que, no judaísm o,
é o alvo. «V enha o te u reino!» — u m a fo rm u lação tam b ém sin g u la r em seu
a m b ie n te .1OT
Se o b serv arm o s a te n ta m e n te a m a n e ira como Je su s fa la a resp eito d a
v in d a do re in o de D eus, verem o s que n ã o fa la ap en as de u m a v in d a fu tu ra ,
m a s ta m b é m de u m a v in d a p resen te. Com o é que o rein o pode v ir ao m esm o
tem p o de m a n e ira p re se n te e f u tu r a e, m esm o assim , n ão e s ta r p resen te
a tra v é s d a reiv in d icação d a lei? E s ta é a questão-chave, p o sta p e la s p a la v ra s
de Je su s a re sp e ito d a basileia.

§ 6: A VINDA FUTURA E A VINDA PRESENTE DO REINO


Ad I: Gõsta Lundstrõm, The Kingdom of God in the Teaching of Jesus. A History O f Interpretation
from the Last Decades o f the Nineteenth Century to the Present Day, 1963; Norman Perrin, The
Kingdom, 13-157; Ulrich Duchrow, C hristenheit und Weltverantwortung. Traditionsgeschichte und
system atische Struktur der Zweireichelehre, 1970. — Ad II: W erner Georg Kümmel, Verheissung
und Erfüllung, 19563; idem, Die Naherwartung in der Verkündigung Jesu, em: Z eit und Geschichte.
Dankesgabe an R. Buitmann, 1964, 31-46 IL itl); Erich Grãsser, Das Problem der Parusieverzõgerung
in den synoptischen Evangelien und in der Apostelgeschichte, 1957. 7966'; Jan Lambrecht, Die
Redaktion der Markus-Apokalypse, Roma 1967; Rudolf Pesch, Naherwartung. Tradition und Redaktion
In M k 13, 1968.1067
106. Cf. nota 103.
107. Jeremias, Theol., 41.
I. V isão geral da história da pesquisa 87

I. V isão geral da história da pesquisa

1 ) A té h o je tem o s n a discu ssão a in flu ên cia d a teologia liberal. Seu


cria d o r, A lb re c h t R itsc h l, a f ir m o u :108109 O que Je su s diz a re sp e ito d a revelação
fu tu r a do re in o p o r c a tá s tro fe s cósm icas, fo i to m ad o d a ap o calíp tica ju d aica
sem d a r-lh e a m esm a acen tu ação . O q u e lhe e ra p ecu liar e p ró p rio fo r a m
a s p a la v ra s a re sp e ito d a v in d a p re se n te do re in o : «O reino e s tá d e n tro em
vós» (L c 17,2 0 )! O re in o de D eu s e s tá p re se n te e é «interior». V isto de
Deus, é o su p rem o bem ao q u al o a m o r de D eus q u e r le v a r os h o m ens; v isto
dos hom ens, é a com unhão é tic a do g ên ero h u m an o re a liz a d a p o r m eio de
ação re c íp ro c a de am or. C om o ta l cresce, com o o in d icam a s p a rá b o la s d a
se m e n te ira em M t 13, a tra v é s de u m desenvolvim ento h istó rico . E s s a in te r­
p re ta ç ã o o b v iam en te e s tá m a is sob a in flu ên cia de K a n t do que do co n tex to
h istó ric o ; seg u n d o K a n t, o re in o de D eus é «a h u m an id ad e o rg a n iz a d a se­
gun d o leis d a v irtu d e» . **

2 ) Q u an d o o n e o k a n tism o fo i s u b stitu íd o pelo histo rism o , Jo h a n n es W eiss


elab o ro u u m a concepção que a firm a v a e x a ta m e n te o co n trário , em seu escrito
revo lu cio n ário «Die P re d ig t J e s u vom R eich G ottes», 1892 (reim p r. 1 9 64):
A concepção de Je s u s n ã o p ode s e r ex p licad a a p a r tir d a filo so fia d a Id a d e
M o d ern a; te m que se r d ed u zid a d a co n tin u id ad e de p en sam en to de seu am ­
biente. D esse p rin cíp io h erm en êu tico s u rg iu a te se que p a r a m u ito s fo i
dogm a h istó ric o a té bem pouco te m p o : Je su s assu m e a concepção do reino
de D eus d a a p o c a líp tic a ju d a ic a . O re in o de D eus p a r a ele é u m a g ran d eza
rig o ro sa m e n te escato ló g ica e su p ra te rre n a . S u rg irá em u m fu tu ro próxim o,
a in d a n a p re se n te g eração , a tra v é s de u m a c a tá s tro fe cósm ica, como o novo
m undo de D eus. Se Je s u s f a la o casio n alm ente a resp eito de u m a p resen ça
do reino, isso o co rre em e n tu siasm o p ro fético m om entâneo.
Se o re in o deve s e r esp erad o ex clu siv am en te p a r a o fu tu ro , to d a a
p re g a ç ã o de J e su s é colocada so b u m a d e te rm in a d a p ersp ectiv a. E n tã o a
a tiv id a d e de Je s u s n ã o pode, p. ex., s e r m essiânica. Je su s «não te m n a d a em
com um com o filh o do hom em , a n ã o s e r a p re te n sã o de q u e re r sê-lo». A s
exig ên cias é tic a s de Je s u s são, en tão , n a d a m a is do que «condições p a r a a
adm issão» ao re in o que e s tá p re ste s a ch eg ar, e n ã o ex p ressão do esch ato n
p resen te. T o d a a ação de Je s u s é re la c io n a d a com a v in d a im in en te do reino.
P o r isso, n a h is tó ria d a pesq u isa, e ssa concepção leva o nom e de «escatologia
con seq u en te» . 110

E s s a in te r p r e ta ç ã o to m o u -s e a m p la m e n te co n h ecid a , a lé m d a c iê n c ia te o ­
ló g ic a , a tr a v é s d e A lb e r t S c h w e itz e r ; e n c o n tr a m o -la e m s u a « G esch ic h te d e r
L eb e n -J e su -F o r sch u n g » , b e m com o e m su a « M y stik d e s A p o ste is P a u lu s» , em
s u a c o n c ep çã o d e J e su s , b e m c o m o e m s u a c o n c e p ç ã o d a te o lo g ia p a u lin a .
E s s a te s e p r o v e n ie n te d a p e sq u isa h istó r ic a to m o u -s e n e le u m p r o te sto c o n tr a
o m u n d o b u r g u ê s do lib er a lism o . O c en tr o e o s e n tid o d a p r e g a ç ã o d e J e su s
é o fim d e s te m u n d o, e n ã o u m a id é ia q u e d e v a s e r c o n c r e tiz a d a p e la h u m a ­
n id a d e n a h istó r ia ! N e s s a te s e p r e n u n cia -se o fim d e u m a f é q u e e sp e r a v a
a v in d a d o r e in o d e D e u s a tr a v é s d e u m p r o g r e sso im a n e n te . E s s e f im se
t o m o u p a te n te e m 1918.

108. D ie christliche Lehre vou der R echtíertigung und VersBhnung, 1883*, Vol. 3,12 em
Kümmel, Erforschung 227s.
109. D ie Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vem unft, 3» parte.
110. Citações apud Kümmel, Erforschung, 286ss.
88 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

3) A pós 1918, o ex am e h istó ric o do c a rá te r escatológico d a m ensagem


d e Je su s fo i a tu a liz a d o te o lo g ic a m e n te : A p a r tir d a escato lo g ia consequente,
R u d o li B u ltm a n n e M a rtin D ibelins d esenvolveram a escatologia a tual. U m a
te o lo g ia em g ra n d e p a r te d e te rm in a d a p o r e s ta escato lo g ia s u b s titu ía a
teo lo g ia do liberalism o.
B u ltm a n n p a r te d a se g u in te p r e ssu p o siç ã o : A e sc a to lo g ia c o n se q u e n te v iu
a p r e g a ç ã o d e J e s u s d e m a n e ir a c o rr eta , so b o p o n to d e v is t a m e r a m e n te
h istó r ico . J e s u s r e a lm e n te a d o to u a c o n c e p ç ã o do r ein o d e D e u s d a ap oca­
líp tic a . N u n c a fa lo u a r esp e ito d e u m a v in d a p r e se n te do r ein o ; to d o s o s
d ito s, c ita d o s p a r a ta n to , d e v e m se r e n te n d id o s d e o u tr a m a n e ira . L c 17,20,
p. e x , q u er a n u n c ia r: «O r e in o d e D e u s e s tá (r e p e n tin a m e n te ) e n tr e v ó s!»
J e s u s fo i u m p r o fe ta q u e a n u n c io u , a e x em p lo d e J o ã o B a tis ta , o fim im i­
n e n te . E s s e a n ú n c io m ític o d o f im im in e n te d o m u n d o q u er s e r in te r p r e ta d o
e x is te n c ia lm e n te . J e su s , d e s s a m a n e ir a , u s a o u tr a s p a la v r a s p a r a d iz er que
a g o r a é d ad a, fr e n te a s u a p a la v r a , a ú ltim a o p o r tu n id a d e d e d e c isã o em
fa v o r d e D e u s c o n tr a o m u n d o.
«A c e r te z a d e q u e a p o siç ã o d o h o m e m fr e n te a D e u s d e c id e a r e sp e ito
d e s e u d e stin o e de que a h o r a de s u a d e c isã o é lim ita d a , to m a a fo r m a
d a c e r te z a d e qu e a h o r a d a d e c is ã o p a r a o m u n d o é ch e g a d a » (T h eo l. § 3,1).

4) T a m b é m n e s s e p o n to , a p a r tir d e 1960, su r g e u m a m o d ific a ç ã o e u m a


c is ã o n a e sc o la d e B u ltm a n n .131 M a n tém -se, q u a n to ao to d o , a a fir m a ç ã o d e
q u e o r e in o d e D e u s p a r a J e su s é u m a g r a n d e z a su p e rio r a o m u n d o e q u e
e le n ã o f a la d e s u a v in d a p r e se n te , m a s d e su a v in d a fu tu r a . M as n e g a -se
a g o r a q u e J e s u s te n h a im a g in a d o a v in d a d o rein o d e m a n e ir a a p o c a líp tic a .
O qu e B u ltm a n n d e d u zir a d a e sp e r a n ç a a p o c a líp tic a , p o r m e io d a in te rp re ­
ta ç ã o e x is te n c ia l, co m o se n d o a in te n ç ã o p r im o rd ia l d e J e su s , é tr a n sfo r m a d o
e v is to a g o r a co m o se n d o s u a o p in ião. A s s e g u in te s tr ê s e x p lic a ç õ e s sã o
típ ic a s p a r a ta n to : H a n s C o n ze lm a n n p e r m a n e c e m a is p r ó x im o d e B u ltm a n n
a o a c e n tu a r : O r ein o e s tá tã o p ró x im o p a r a J e s u s q u e c h e g a a p r o je ta r a s
su a s so m b ra s. N ã o s e p o d e o b serv á -lo d e u m a c e r ta d istâ n c ia . Mais o o b ser ­
v a d o r é a b so rv id o to ta lm e n te . J e s u s d e ix a d e lad o a p e r g u n ta p e lo qu and o.
Q u em o u v ir o s e u ch a m a d o , n ã o d e v e d a r a te n ç ã o a n a d a m a is, a n ã o se r
a o a r re p e n d im e n to . “ D e m a n e ir a se m e lh a n te , p o r é m co m o u tr a tô n ic a , E m s t
K â s e m a n n d e se n v o lv e a p o siç ã o de B ultm ainn a o a firm a r : A p r e g a ç ã o de
J e s u s n ã o e s ta v a d e te r m in a d a p e la a p o c a líp tic a ; n e s s e p o n to d iv e r g e do p e n ­
s a m e n to d a p r im eira co m u n id a d e. U m fim d o m u n d o q u e p o s s a s e r fix a d o
c r o n o lo g ic a m e n te n ã o te m im p o r tâ n c ia p a r a ele. E le a n u n c ia a im in ê n c ia
d a p r e se n ç a d e D e u s, n ã o co m o e x ig ê n c ia , c o m o o v ê C o n zelm a n n , m a s com o
o fe r ta . “ *
T a m b é m E b e r h a r d J ü n g e l s e a fa s ta d a lin h a d e B u ltm a n n , se g u in d o a
E m s t F u c h s. E le p a r te d a s p a rá b o la s, à s q u a is B u ltm a n n m a l d e r a a ten çã o ,
e a firm a : A p a r á b o la d a se m e n te ir a q u e c r e sc e p o r si, p. e x , e n sin a -n o s a
v e r o a g o r a a p a r tir d e s e u fu tu r o . D e s s a m a n e ir a , o d o m ín io d e D e u s é v isto
co m o a lg o fu tu ro . «M as a p e c u lia r id a d e d e s s a fu tu r id a d e do r ein o d e D e u s
r e sid e n o fa to d e qu e o fu tu r o n ã o é c o n c eb id o co m o u m a d istâ n c ia e m r ela çã o
a o ag o ra , m a s s e e v id e n c ia c o m o u m fu tu r o p r ó x im o qu e fa z d o p r e se n te
o s e u p rin cíp io . E s s e fu tu r o n ã o e s tá p or v ir, m a s p r o je ta -se n o p r e se n te.
D e m a n e ir a n e n h u m a p o d e s e r p e r ce b id o co m o u m a d is tâ n c ia te m p o r a l e
e sp a c ia l e e sq u iv a -se ta m b é m à d o u tr in a d a ‘e sp e r a n ç a im in e n te ’ d e Jesu s».
O fu tu ro , o r e in o v in d o u ro , p r o je ta -se n o p r e s e n te c o m o a o fe r ta d o a m o r de
D e u s, o fe r ta e s s a q u e s e e n c o n tr a e m J e su s .™

D essa m a n e ira , a p re g a ç ã o a re sp e ito do re in o de D eus é fin a lm e n te


lib e rta d a d o condicio n am en to a q u e e s ta v a su b m e tid a n o esquem a apocalíp- 1234

111. R elato em Küm m el, N ah erw artu n g , 29s.


112. T h e o l, 129s.
113. Z T hK 57 (1960), 179, Z ThK 59 (1962), 26L
114. P a u lu s u n d Je su s, 1967s, 154.
II. A vinda futura do reino 89

tic o ,11516 m as, no ú ltim o esquem a, é a p ro x im a d a n o v am en te à concepção liberal,


d a q u al esse d esenvolvim ento p a r tir a . u*

5) N a p e sq u isa a n g lo -sa x ô n ic a é la r g a m e n te d e fe n d id a u m a co n c ep çã o que


a fir m a que, p a r a J e su s , a v in d a d o rein o s e d á n o p r e se n te — lin h a con ­
tr á r ia a J o h a n n e s W e is s, p a r a q u em a v in d a do rein o é fu tu r a . E s s a c o n c ep ­
ç ã o fo i d e se n v o lv id a p o r C h a rle s H a r o ld D o d d , p r in c ip a lm e n te e m s u a ob ra
b a s ta n te d ifu n d id a «T he P a r a b le s o f th e K in g d o m » , 1935.196517. A s s im com o
B u ltm a n n n ã o a c eita , e x e g e tic a m e n te , n e n h u m a a fir m a ç ã o d e J e s u s co m o se
r efe rin d o a u m a v in d a p r e se n te d o rein o, D o d d n ã o a c e ita q u a se n e n h u m a
a r e s p e ito d a v in d a fu tu r a . «O r e in o d e D e u s c h eg o u » (M t 4,17), fo i, n a
su a o p in iã o , o te o r d a p r e g a ç ã o d e J e su s ; o s p o u co s d ito s e x is te n te s a r es­
p e ito d e u m a v in d a fu tu r a n ã o tê m a m e s m a ê n fa se ; n o fu n d o q u er e m a p e n a s
su b lin h a r, d e m a n e ir a sim b ó lica , o c a r á te r e sc a to ló g ic o do p r e se n te (p. 107s).
A d o u tr in a d e J e s u s a r e s p e ito d o rein o d e D e u s « a p r e se n ta a s u a a tiv id a d e
com o» — aq u i su r g e o c o n h e c id o c o n c e ito — « e sc a to lo g ia r ea liza d a (r ea liz e d
e sc h a to lo g y )» , i. é, c o m o o irro m p er do p o d er do m u n d o fu tu r o n e s s e m u n d o,
e m u m a sé r ie de e v en to s» (p. 51). C o n se q ü en te m e n te , p a r a D o d d , o r ein o n ã o
é, co m o p a r a R its c h l, m o r a lid a d e, é tic a d o a m o r; m a s, co m o p a r a R u d o lf O tto ,
p od er. O rein o d e D e u s é a im p o siç ã o e fic a z d a so b e r a n ia de D e u s, fr e n te
a to d o o m a l e to d a a m a ld a d e que h á n o m u n d o (p. 50). M a is ta rd e, e m
d isc u s sã o co m D od d , J e r e m ia s su g e r iu a fó r m u la « e sc a to lo g ia q u e e s tá se
rea liza n d o (in a u g u r a te d e s c h a t o lo g y } » ao in v é s de « e sc a to lo g ia r e a liz a d a » ,117
p o is e sse p r o c e sso a p e n a s in ic ia r ia c o m J e su s . E s s a fó r m u la , n o en ta n to ,
c a r e c e d e cla reza .

O resu m o a p re se n ta d o a re sp e ito de exem plos típ ic o s d a discussão p er­


m ite-n o s v e r que a com preensão d a s a firm açõ es so bre a v in d a do rein o cor­
resp o n d e à s concepções que se te m de seu conteúdo. Sem e n tr a r em m u ito s
d e ta lh e s a re sp e ito desse co n teú d o e esclarecer assim a q u estão, W ern er G.
K ü m m e l provou, em su a p esq u isa «V erh eissung u n d E rfü llu n g » , 19563, que
Jesu s, com to d a a p ro b ab ilid ad e, a um só tem p o fa lo u de u m a v in d a p re se n te
e f u tu r a do re in o de D eus. K üm m el p ro v a isso p o r m eio d e u m a a c u ra d a
a n álise c rític o -tra d ic io n a l de to d a a tra d iç ã o . P ro c u ra re m o s v e r a g o ra com o
Je su s e n te n d ia esses dois tip o s de vinda.

n . A vinda futura do reino

P esq u isan d o a s a firm açõ es de Je s u s so b re u m a v in d a f u tu r a do rein o de


Deus, verem o s que, ao lad o do reino, a in d a a n u n c ia o u tra s co isas como
fu tu ro escatológico. A p e rg u n ta pelo q u an d o e com o so m en te pode s e r escla­
rec id a se tiv e rm o s em v is ta esses o u tro s anúncios. P o r isso, em p rim eiro
lu g a r, p ro c u ra re m o s in fo rm a r-n o s a re sp e ito deles.

115. H e rb e rt B raun, Je su s, 1969, 61.148, tran sfo rm a -a em um a c ifra apocalíptica, q u e q u e r


ad m o estar o hom em p a ra que não aconteça que o hom em não se encontre a si mesmo. E la tem
que se r elim inada hoje, sem que, com isso, h a ja um a desvantagem p a ra a v e rd ad e ira pregação
de Je su s.
116. F o ra d a ciência neo testam en tária, o reino de D eus é visto, desde a década de 60,
na «Teologia d a Revolução» e, em o u tras correntes, como um a grandeza que é alvo ou modelo
p a ra um a ação político-social. G ü n th er K lein, «Reieh G ottes» ais bib lisch er Z entralbegriff,
Ev. Theol. 30 (1970), 642-670, d iscute com esse fenôm eno que nos reco rd a o Social Gospel
d a conferência do Conselho M undial de Ig re ja s, em Estocolmo.
117. Küm m el, E rfo rsch u n g 567. n o ta 458. J. Jerem ias, Gleichnisse, 19657, 227, hav ia suge­
rido essa fórm ula. Em s u a teologia, ele com preende a g o ra a v inda do reino de D eus como
um processo apocalíptico de m udança e consum ação do m undo que p rin cip ia com o batism o
de Je su s. As afirm ações de J e su s são in te rp re ta d a s a p a r tir d a apocalíptica ju d a ic a e equi­
p a ra d a s a ela com isso.
90 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

1 ) O u tro s te rm o s p a r a d e sig n a r o f u tu ro escatológico.

E m u m a sé rie de d ito s é fa la d o de m a n e ira m iste rio sa so b re «aquele dia».


E sse con ceito vem de longe. A p ro fe c ia vetero testam en tária a p o n ta, desde
A m ós 5,18ss, p a r a o «dia de Jav é» . Os ap o calipses ju d a ic o s an u n ciam o d ia
que e s tá p o r v ir e que s e rá o fim d e to d o s os d ia s .118 «Aquele dia» é, nesse
sen tid o , o d ia escatológico. Com ele e stã o re la c io n a d as três concepções, n a
tra d iç ã o a re sp e ito de Je s u s :

a. A concepção d o m in a n te se e n c o n tra em L c 10,12: «N aquele dia h a v e rá


m enos rig o r p a r a S odom a do que p a r a a q u ela cidade», i. é, do que p a ra as
cid ad es g aliléias que re je ita ra m a Jesu s. N o te x to p ara le lo de M t 10,15, é
d ito com o ex p licação : «no dia do ju ízo » . N os sinóticos en co n tram o s essa
locução com um à ap o calíp tica, a p e n a s em M ateu s: 11,22 (p a r L c 10,14: «no
ju íz o » ); 11,24; 12,36 S. M esm o que a tra d iç ã o dessas locuções s e ja co n tro ­
v e rtid a , p erm an ece o fa to de q u e Je su s an u n ciav a u m a v in d a de D eus como
ju iz , u m a v in d a q u e s e ria o fin a l d a h istó ria . Isso pode s e r deduzido, com
to d a a certeza, d a s p a rá b o la s d a crise, p. ex., d a p a rá b o la c o n sta n te no
fin a l do serm ão do m onte.

b. A lém de s e r relacio n ad o com a e sp eran ça do juízo, «aquele dia» é


relacio n ad o com a v in d a do filh o do hom em . O discurso escatológico, p ro v e­
n ie n te de Q, L c 17,22-37, a p o n ta , d iv e rsa s vezes e com sen tid o v ariad o , p a ra
o d ia o u os dias do iilh o do h o m e m : L c 17,22.24.26.30. P re c isa e pro v av el­
m e n te o rig in a l é a a firm a ç ã o c o n tid a em L c 17,24: «A ssim como o relâm ­
p ag o b rilh a de u m a à o u tr a e x tre m id a d e do céu, assim s e rá no seu dia
com o filh o do hom em ». M ateu s inclui tam b ém aq u i (24,27) u m a locução
que lh e é típ ic a : «A ssim s e rá a parousia do filh o do hom em ». A penas ele
a d o ta esse conceito do lin g u a ja r d a com unidade (24,3.27.37.39). A parousia
no m undo h e le n ista e ra a v in d a de d iv in d ad es ou de go v ern an tes. A parousia
do filh o do hom em é a su a vin d a, e n ã o a su a v o lta. N o v am en te co n statam o s
que à ca m a d a m a is a n tig a de Mc e Q é fa m ilia r a id éia de um a v in d a fu tu ra
do filh o do hom em (§ 18, I V ), m esm o n ão h av en d o re fe rê n cia ex p ressa
àqu ele dia.

c. F in a lm e n te , aquele d ia tam b ém é relacio n ad o com o rein o de Deus,


em Mc 14,25: «Am ém , ja m a is beberei do f ru to d a v id e ira a té aquele d ia em
que o h ei de beber, novo, n o rein o de D eus».
R esum indo os re su lta d o s d essa a n á lise tem o s o se g u in te :

1" J á n a s c a m a d a s m a is a n tig a s dos d ito s e d a s p a rá b o la s de Jesus,


anu n ciam -se p a ra le la m e n te a v in d a f u tu r a do reino de Deus, do ju ízo e do
filh o do hom em . E sse s an ú n cio s n ão sã o relacio n ad o s e n tre si ou siste m a ­
tiz a d o s em u m todo. P elo c o n trá rio , so b ressai o f a to de que n u n ca encon­
tra m o s ju n to s, n u m a m esm a a firm ação , o reino d e D eus e o filh o do hom em
(§ 18,111,2). E m p a r te a lg u m a en co n tram o s um esboço de u m a im agem do
fu tu ro , ex cetu an d o -se o d iscu rso ap o calíp tico em M c 13, m a s sem p re tem os
que c o n s ta ta r que os a n ú n cio s isolados e stã o d ire ta m e n te relacio n ad o s com

118. G e rh ard D elling, T hW I I , 954s.


II. A vinda futura do reino 91

o p resen te. Se os sep arássem o s d essa s u a relação com o p re se n te e os siste ­


m a tiz á sse m o s em u m a im agem d o fu tu ro , e staríam o s d isto rcen d o se u c a rá te r.
N ão querem a n u n c ia r a p e n a s u m f u tu ro que vem com to d a a certeza, m as
qu erem fa z e r com que o p re se n te p a rticip e desse fu tu ro .

2" E sse fu tu ro n ã o su rg e d a h istó ria , n a co n tin u id ad e de u m desenvol­


v im e n to co n stan te, m a s su rg e em c o n fro n to com a h istó ria . P o is «aquele dia»
é, seg u n d o o sig n ificad o vetero testam en tário, do conceito, o d ia do co n fro n to
d e D eus com a h istó ria .
E s s a v in d a fu tu ra , em se n tid o e x p ressiv am en te tem p o ral, do reino, do
ju ízo , do filh o do hom em e, nisso tu d o , de D eus, e s tá p ró x im a p a r a Jesus.
V e ja m o s em que sen tid o !

2 ) A v in d a pró x im a.

N o s su m á rio s (M c 1,15; M t 4,17), m a s tam b ém j á n a tra d iç ã o de Q


a re sp e ito do envio dos s e te n ta (L c 10,9.11 p a r M t 10,7, cf. 21,31), encon­
tra m o s a fó rm u la : én g iken hê basileia to u theou, o rein o de D eus se ap ro ­
xim ou. D odd p e n sa v a que én g iken pudesse sig n ific a r «presente» ou d esig n ar
sim p lesm en te a p ro x im id ad e no espaço. A pós 1960 tam b ém E r n s t F uchs e
o u tro s q u e lh e e sta v a m p ró x im o s te n d ia m a a c e ita r essa in te rp re ta ç ã o . N o
e n ta n to , W e rn e r Georg K ü m m e l p ro v o u m que o p e rfe ito éng iken a firm a em
to d a s a s p a ssa g e n s n e o te s ta m e n tá ria s : «E le se aproxim ou». E sse anúncio,
com c a r á te r de fó rm u la, p ro v a v e lm e n te é d a a u to ria de Jesu s, p o is o quérig-
m a m issio n ário d a com unidade e ra d ife re n te e ao ju d aísm o ela e ra desco­
nhecida. “
P o d em o s v e r c la ra m e n te que J e s u s a n u n ciav a de m a n e ira «m issionária»
u m a p ro x im id ad e te m p o ra l d a v in d a fin a l de D eus, n a m e tá fo ra d a fig u e ira :
«Q uando seu s g alh o s fic a m verdes, sab eis que o v e rã o e s tá próxim o. Q uando
v ird e s isso acon tecer, sabei que e s tá p róxim o à p o rta » (M c 13,28s p a r ) .
E s s a m e tá fo ra é u m to q u e de a lv o ra d a que ch am a a a ten ção p a r a os sin ais
do tem p o (L c 12,54ss), a a tiv id a d e de Jesu s. A m esm a in ten ção q u erig m ática
d esse engys (p ró x im o ) te m o én g iken (a p ro x im o u -se).
E m co n trap o sição , o u tra s indicações q u a n to à p ro x im id ad e são p a la v ra s
de consolo p a r a os discípulos. A exp licação que vem ap ó s a p a rá b o la do ju iz
iníquo, L c 18,8a, p ro m e te que D eu s f a r á ju s tiç a em b rev e (en ta c h e i) ao s
q u e a ele clam am . T alv ez isso s e ja d ito ao s discípulos que o ra m p e la v in d a
do reino.
M ais tr ê s p a ssa g e n s citam , com a m esm a in ten ção q u erig m ática, u m
p ra z o b rev e e d eterm in ad o . N o d iscu rso apocalíptico, e n co n tram o s o d ito iso­
lad o de Mc 13,30 p a r : «E m v e rd a d e v os digo que n ã o p a s s a rá e s ta g eração
a té que tu d o isso aco n teça» . «T udo isso» sã o a q u i os aco n tecim en to s fin ais.
« E s ta geração » é a g e ra ç ã o p re se n te . A in d a n e ssa g e ra ç ã o o fim v irá !
E sse m esm o p ra z o é citad o , m a is categ o ricam en te, pelo d ito b a s ta n te
c o n tro v e rtid o d a tra d iç ã o de M arcos, M c 9,1: «E m v e rd a d e vos afirm o que
h á a lg u n s d e n tre os q u e aq u i se e n c o n tra m que n ã o sa b o re a rã o a m o rte a té
qu e v e ja m te r chegado co m p o d er o re in o de D eus». I s to é, a lg u n s do círculo
d a q u e le s que fo ra m co n fro n ta d o s com a a tiv id a d e te rre n a de J e su s v erão o 1920

119. Küm m el, N aherw artung, 35.


120. Jerem ias, Theol. 41.
92 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

rein o de D eus v ir com o m odificação d a s condições do m undo. E sse a n ú n c io


n ão se concretizou. P a r a e v ita r a im p ressão de que Jesu s houvesse se equi­
vocado, p ro cu ro u -se in te rp re tá -lo ; essas te n ta tiv a s , n o en ta n to , são fo rja d a s.
Im p o rta n te , porém , é que se v e ja a in te n ção q u e rig m á tic a desse an ú n cio .
B u ltm a n n 1222 su pôs q u e u m p ro fe ta c ris tã o p rim itiv o quisesse co n so lar a co­
m u n id ad e com e ssa p a la v ra p o r ca u sa d a d em o ra d a p a ru s ia : P elo m enos
a lg u n s a in d a h ão de p resen ciá-la. Os d iscíp ulos de Jesu s, porém , n ão so friam
p o r c a u sa d a d em o ra d a p a ru sia , m as e ra m te n ta d o s porque, a p e sa r de to d a s
a s p ro m essas, a m o rte g ra s s a v a n o m eio deles. A p e rg u n ta que os m ovia já
é in d ic a d a n a m a is a n tig a c a r ta d o N T , ran I T s 4,13ss. A li é in d ic a d a um a
p a la v ra do Senhor, seg u n d o a q u al o s q u e v iverem a té a p a ru sia , de m odo
alg u m p reced erão ao s que dorm em (4 ,1 4 s). T am bém o co n tex to red acio n al
de n o ssa passag em , bem como s u a a p licação de c a r á te r len d ário em Jo 21,23,
relacio n a-se com essa p e rg u n ta ; a q u i e lá, o an ú n cio t i r a conclusões q u a n to
ao d iscip u lad ó sob a cruz. A p e sa r d e tu d o , e ssa p a la v ra é um consolo: A lg u n s
dos discípulos n ão p re c isa rã o b e b e r o cálice, a p o n ta d o ao s filh o s de Zebedeu
(M c 10,38 p a r ) , p o r c a u sa d a v in d a im in en te do dom ínio de D eus. A ssim ,
essa p a la v ra pode p ro v ir d a situ a ç ã o de J e su s; p a r a a com unidade, o seu
não cu m p rim en to tra z ia , com o p a s s a r do tem po, sem pre m aio res dificuldades.
O que dissem os v a le tam b ém , em p a rte , p a r a M t 10,23b S : «E m v erd ad e
vos digo q u e n ã o ch e g a re is ao fim d a s cidades de Is ra e l a té que v e n h a o
filh o do hom em ». N ão ch eg arão ao fim do quê? P ro v av elm en te essa p a la v ra
o rig in a lm e n te n ã o se re fe ria à m issão, com o o c o n tex to de M t 10, m a s à
fu g a dos discípulos, com o o in d ic a a com posição de M t 10,23a. C aso fo rem
perseg u id o s, os discípulos e n c o n tra rão , a té o fim , refú g io n a s cidades d e
Isra e l. T am bém e ssa p a la v ra p ode p ro v ir d a situ a ç ã o de Jesu s. E ’ pouco
p ro v áv el que s e ja u m a p a la v ra p ro fé tic a , su rg id a n a com unidade p rim itiv a
d a P a le s tin a , em v irtu d e d a situ a ç ã o a li ex isten te.
Q ue re s u lta d e sta a n á lise d a s p a la v ra s so bre a esp eran ça p ela vinda
im in e n te ? S e rá que a p re g a ç ã o e a ação de Je su s e stav am re a lm e n te d e te r­
m in a d a s p o r u m a e sp e ra n ç a in te n siv a p ela v in d a im inente, como o a firm av a
a esc a to lo g ia co n seqiiente? O resu lta d o d e nossa análise é o seg u in te:

a ) A s p a la v ra s so b re a e sp e ra n ç a p e la v in d a im inente n ã o sã o m u ito
num ero sas. D e m a n e ira a lg u m a sã o tã o fid e d ig n a s como a s p a rá b o la s a re s­
p eito d a v in d a p re se n te do reino. T am b ém n ão são fid e d ig n a s sob o p o n to
de v is ta d a h is tó ria d a tra d iç ã o . N o e n ta n to , é c e rto que Je su s e sp e ra v a o
d ia do ju íz o e do e rg u im e n to visível do dom ínio de Deus, em u m fu tu ro
im in e n te m e n te próxim o. T alv ez te n h a fa la d o d ire ta m e n te de u m a v in d a do
fin a l do m u n d o em s u a g eração.

b ) Im p o rta n te é q u e n ã o fa lo u de tu d o isso n o sen tid o d a apo calíp tica.


A a p o c a líp tic a p ro c u ra , desd e D n 7, c a lc u la r a h o ra do fim do m undo, a t r a ­
v és de v isõ es a le g ó ric a s do d e se n ro la r d a h istó ria . Jesu s, no e n ta n to , recu sa-
se a a c e ita r, p o r princípio, o cálculo de prazos, c a ra c te rístic o à apo calíp tica,
n ão a p re se n ta n d o p o r isso u m esboço d o desenvolvim ento d a h istó ria . L c
17,20s S : O re in o n ã o vem m e ta paratêrêseõs, n ã o vem de m a n e ira que se

121. Cf. a discussão a resp eito de Mc 9,1 e 13,30, em Pesch, N aherw artung, 181-188; KUmmeJ,
V erheissung, 19ss.
122. T rad., 128; idem G rãsser, op. cit., 136.
II. A vinda futura do reino 93

p o ssa d ed u zir su a vin d a, an te c ip a d am e n te , de sinais. Mc 13,32 p a r M t ( L c ) :


«A re sp e ito d aq u ele d ia ou d a q u e la h o ra n inguém sabe, nem os an jo s, nem o
filho » . E s s a re s triç ã o d ificilm en te fo i c ria d a p e la com unidade e p o s ta n a boca
d e Jesu s. P ro b lem ático , n o e n ta n to , é a té q ue po n to a fo rm u lação p rovém de
Jesu s.

c) O f a to de Je s u s re c u sa r-se a a c e ita r cálculos d á à s u a p reg ação um


o u tro acen to . A a p o c a líp tic a a p o n ta p a r a o p o n te iro do relógio do m u n d o :
A ten d e-v o s à lei, o tem p o é b rev e! Jesu s, no e n ta n to , expõe os seu s ouvintes,
d e m a n e ira incisiva, à v in d a p ró x im a de D eus. N ã o o s coloca n u m p razo
d e esp era, m a s tam b ém n ão os põe sob a p re ssã o d o tem p o . A fa s ta tu d o o
q u e d is ta n c ia o hom em d a v in d a de D eus, espaço e tem po, e coloca-o in certo
f r e n te a e ssa v in d a q u e n ã o pode s e r c a lc u la d a; p a r a ch am á-lo a o a rre p e n ­
dim ento. A lu d e a p ra z o s a p e n a s p a r a co n so lar os discípulos.
' Se o an ú n cio d a v in d a te m essa e s tru tu ra , co n fere com u m a série de
p a la v ra s de Je su s que, a p rin cíp io , p arecem co n trad izê-lo :

3 ) A e x o rta ç ã o p a r a u m a e sp e ra a le rta .

E n c o n tra m o s e ssa ex o rtação , p o r u m lado, no discurso apocalíptico, Mc


13 p a r, e, p o r outro , n a s cinco parábolas da parusia.
O d iscurso apocalíptico, e m M c 13,1-37, é u m a com posição do evange­
lis ta , te n d o sido g ra n d e m e n te am p liad o em M t 21,1-37 e L c 21,5-36. A s t r a ­
dições a q u i e la b o ra d a s p o r M arco s p ro v êm a p e n a s em peq u en a esc a la do
p ró p rio Jesu s, o que é u m a exceção; o esquem a, bem com o a m a io r p a r te
do assu n to , pro v ém d a a p o c a líp tic a c ris tã p rim itiv a. 523 P o r isso, ap e n a s m a is
ta rd e ap ro v e ita m o s teo lo g icam en te esse esquem a em n o ssa exposição. A n teci­
p am o s a g o ra a p e n a s o se g u in te : E s s e esboço c ristã o p rim itiv o difere, em su a
e s tru tu ra , fu n d a m e n ta lm e n te d a s im ag en s que en co n tram o s n a a p o calíp tica
ju d a ic a , re la tiv a s à h is tó ria fin a l. F a lta a q u i esp ecialm ente a divisão do de­
se n ro la r d a h is tó ria em p erío d o s que p o ssib ilitam u m cálculo d a h o ra do
fin a l do m undo, tã o c a ra c te rís tic a p a r a a a p o c a líp tic a ju d a ic a . N isso consiste
o novo p rin cíp io de Jesu s. Je s u s recusou-se e n fa tic a m en te a c a lcu lar a s h o ra s
d ecisiv a s p a r a o m undo, em M c 13,22 e em o u tra s p assag en s. P o r isso, os
h o rro re s apocalíptico s, como g u e rra , fom e, terrem o to s, n ã o sã o enum erados
p a r a c ita r «sinais an te c ip a tó rio s» d o fim , m a s p a r a c a ra c te riz a r a feição
essen cial do d e se n ro la r d a h is tó ria que lev a ao fim . Os cre n te s n ão devem
f ix a r os olhos n o s h o rro re s, m a s s a b e r: T udo isso te m que o c o rre r (1 3 ,7 );
im p o rta n te é a p en as e sp e ra r, a le rta , a v in d a do S en h o r e p e rm itir que aquilo
q u e lhes fo i co n fiad o se desenvolva. A s p o u cas tra d iç õ e s p ro v en ien tes de
Je su s, c o n tid a s nesse discurso, j á in d icav am essa direção.
A n te s de exam iná-lo, é n e cessário q u e se cite, p a r a fin s de o rien tação
a re sp e ito dos te x to s, u m a se g u n d a ap o calip se sin ó tica, a d e L c 1 7 ,(2 0 ).
22-37. P ro v ém p ro v av elm en te de Q, sendo re d ig id a levem ente p o r L u c a s,
a tra v é s d a inclusão d os vers. 22.35.37a. A p resen ta-se a g o ra com o u m a in d i­
cação a re sp e ito de u m d e se n ro la r h istó rico -salv ífico prolongado. S u a fo rm a
b ásica, que p ro v av elm en te pro v ém de Jesu s, co n siste em p a la v ra s de am eaça.
S egu n d o elas, o fim , o d ia do filh o do hom em , su rg e re p e n tin a m e n te so b re
u m a h u m an id ad e p re o c u p a d a com o seu d ia-a-d ia (24.26s.28-30), e s e p a ra 123

123. L ite ra tu ra e discussão em Pesch, op. cit.


94 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

tam b é m se re s h u m an o s in tim a m e n te lig a d o s n o co tid ian o (34s.37b). E s s a s


p a la v ra s podem te r s u a orig em n o ch am ad o ao arrep en d im en to , dirig id o p o r
Je su s ao público.
E m co n trap o sição , a s p o u cas p a la v ra s de Je su s c o n tid as no ap o calip se
d e M arcos, p rin c ip a lm e n te a p a rá b o la fin a l a re sp e ito do p o rte iro (M c 13,
34ss), co n têm essen cialm en te en sin am en to s d irig id o s aos discípulos. A in d i­
cação m a is im p o rta n te q u a n to a o fim , a p a rá b o la , é u m a d as cinco parábolas
da paru sia d a tra d iç ã o sin ó tica. A s q u a tro p a rá b o la s re s ta n te s e stã o re u n id a s
em M t 24,43-25,30. T rê s d e la s pro v êm de Q : O p ai de fa m ília e o lad rão ,
M t 24,43s p a r L c ; o se n h o r q u e sa i em v iag em e seu ad m in istra d o r, 24,45-51
p a r L c (o se n h o r que v o lta d a s f e s ta s de casam ento, L c 12,36-38 S, ta lv e z
s e ja u m a v a r ia n te ) ; os ta le n to s confiados, 25,14-30 p a r L c ; e, fin alm en te,
as d ez v irg en s, 25,1-13 S.
P a r a os ev an g elistas, e ssa s p a rá b o la s ex p ressam a dem o ra d a p a ru s ia ;
pois, cedo, a s p a rá b o la s fo ra m co m preendidas em se n tid o alegórico, com o
d e m o n stra m a s in te rp re ta ç õ e s em Mc 4 p a r. P a r a eles a s p a rá b o la s n ã o d ão
re sp o s ta a u m a p ro c u ra a n g u s tia n te p ela p a ru s ia — pois esse n ão e ra o
p ro b lem a d a c o m u n id a d e 321 — , m a s à situ a ç ã o su rg id a com a d em o ra d a p a ru sia ,
in d ife re n ç a e a fro u x a m e n to ; isso o co rreu p o rq u e se to m a r a d ifícil m a n te r-se
firm e n a m issão recebida, m a s n ã o p o rq u e a esp eran ça h a v ia sido f r u s tra d a .
O serv o m a u diz: «M eu se n h o r dem ora-se» (M t 2 4 ,4 8 ); p o r isso, ele fa lh a
em s u a m issão p a r a com os irm ã o s e e n tre g a -se ao vício. « T ard an d o o noivo»
(M t 25,5), a s dez v irg e n s adorm ecem .
Q ual o sen tid o o rig in a l d essas p a rá b o la s? S egundo Jo a ch im J e re m ia s,m
to d a s a s cinco p a rá b o la s d a p a ru s ia e ra m p a rá b o la s d a crise: «Q uerem sa ­
cu d ir um povo cego e seu s guias, f re n te à h o rrív el seried ad e do m om ento.
Q uerem d izer: A c a tá s tro fe v irá tã o re p e n tin a m e n te como o la d rã o n o tu rn o ,
com o o noivo que ap a re c e à m eia-noite, como o se n h o r que v o lta a lta s horas,
d a fe s ta , com o o se n h o r que v o lta d a lo n g a viag em ! N ão se ja is su rp re e n ­
didos d esp rep arad o s!» S erá que com isso o te rtiu m co m p aratio n is d essas
p a rá b o la s fo i re a lm e n te p erceb id o ? T o d a s elas n ão fa la m a p e n a s de u m a
su rp re s a d esag rad áv el, m a s d a resp o n sab ilid ad e p o r coisas que fo ra m co n fia­
d as ou p o r e n carg o s pelos q u a is te m que se p re s ta r co n tas re p en tin am en te.
Isso co n fere ta m b é m q u a n to ao p a i de fa m ília que p ro te g e ria su a casa
fre n te ao lad rão . C onseq ü en tem en te q uerem a firm a r: A g o ra tu d o depende do
fa to de a d m in istra rm o s as coisas a n ó s co nfiadas, de ta l m a n e ira que p o ssa­
m os s u b s is tr n a h o ra d a p re s ta ç ã o de co n tas, que vem re p en tin am en te. N o
que to c a à s coisas confiad as, Je s u s n ã o p en sa n a m issão co n fiad a p o r D eus
a Is ra e l e seu s líd e re s; n ã o ad m o esto u p a r a que se cum prisse o p a c to do
Sinai. Je su s resp o n sab iliza sem p re de novo os hom ens p o r aquilo que lhes
sucede p o r m eio de s u a a tiv id a d e . P o r isso a s p a rá b o la s são p rin c ip a lm e n te
p a la v ra s d irig id a s ao s discípulos. O discípulo é ch am ado a a d m in is tra r o que
lhe fo i confiado, te n d o em v is ta o d ia d a p re sta ç ã o de c o n ta s; esse d ia não
pode se r calculado, m a s v ir á in e sp e ra d a e re p en tin am en te. O rig in alm en te o
d ia d a p re s ta ç ã o de c o n ta s n ão e ra o d ia do juízo, m a s o d ia do filh o do 1245*

124. Inclusive os adversários, em 2Pe 3,4, form ulam a p e rg u n ta : «Onde e stá a prom essa
de su a paru. ia?» apenas p a ra re fu ta r, como gnósticos, to d a a escatologia fu tu ra (contra
G rásser, op. cit„ 137ss).
125. G leichnisse7, 60; Jerem ias, Theol., 128-140, reconstrói um a esperança fu tu ra de Jesus,
que coloca to d a a su a atividade no horizonte d a «catástrofe» im inente (v. n o ta 117), enquanto
que p a ra Je su s ela está, sem dúvida nenhum a, antes de m ais nada, sob a luz d a g ra ça vin­
do u ra do reino de Deus.
III. A vinda presente do reino de Deus 95

hom em . O f a to d e q u e e ssa s p a rá b o la s e ra m d irig id a s a discípulos se evi­


d encia em u m a c o m p aração com o u tra s sem elh an tes. N o fin a l do serm ão
do m o n te é d ito a o s o u v in tes d a s in stru ç õ es de J e su s: «Quem ouve e s ta s
m in h a s p a la v ra s e a s p ra tic a assem elha-se a u m hom em sáb io que ed ificou
a s u a c a sa so b re a ro c h a » ; p o is ele so b re v iv erá à c a tá s tro fe do ju ízo (M t
7,24ss p a r L c ). N e ssa p a rá b o la n ã o se f a la d e co isas confiadas, m a s d a
c o n stru ç ã o de u m a casa, d a to m a d a de posição f re n te à o fe rta de Jesus.
R esu m in d o to d a s essas com p lex as a firm açõ es a re sp e ito d a vinda iu tu r a
do d om ínio d e D eus, podem os a firm a r o s e g u in te :

a ) J e s u s desenvolveu, sem d úvida, u m a in te n siv a escato lo g ia f u tu r a : O


dom ínio de D eus e o ju íz o d e D eu s e stã o incalcu lav elm en te p ró x im o s; m a s
tr a ta - s e do f u tu r o te m p o ra l de u m d ia q u e a in d a n ã o é h oje.

b ) E s s e an ú n cio te m p a ra le lo s n a s e sp eran ças ap o calíp ticas do am b ien te


ju d e u , e, m esm o assim , d iv erg e dele. C o m p a rtilh a com os ap o calíp tico s e os
essênios a e sp e ran ç a p e la v in d a im inente. A e sp e ra n ç a im in en te n ão é algo
p ec u lia r a J e s u s ou à com unidade p rim itiv a . P e c u lia r lhe sã o ap en as o m odo
e a fin a lid a d e do an ú n cio d a im inência. Os apocalipses e os te x to s essênios
exigem , p o r m eio d o an ú n cio d a im inência, que Is ra e l a p e sa r de to d a s a s
d ificu ld ad es se d ecida p e la obediência à lei e que a observe a in d a p o r pouco
tem po. Jesu s, p orém , q u e r m a is do que decisão p a r a a s su a s ex ig ên cias e
prom essas.

c ) C a ra c te rístic o é que p a r a ele o co nteúdo do que h á de v ir n ã o é p ri­


m aria m e n te , com o ali, o juízo, m a s a salv ação que vem do dom ínio de D eus.
A cim a de tu d o , porém , é c a ra c te rístic o que ele re la c io n a o dom ínio v in d o u ro
de D eus com o p re se n te de u m a m a n e ira to ta lm e n te d iv e rsa d a e n c o n tra d a
no s ap o calip ses e e n tre o s essênios. N a escola b u ltm a n n ia n a falav a-se, n a
d écad a de 60, indo além de B u ltm a n n , de u m a im p endência do rein o no
p rese n te . U m a t a l im p en d ên cia ta m b é m é conhecida pelos fa ris e u s : T om a-se,
j á ag o ra, o ju g o do rein o de D eu s so b re si. T am bém Jo ã o B a tis ta realiza,
j á ag o ra , u m b a tism o com o o que h á de vir. Jesu s, porém , relacio n a o p re ­
se n te de o u tro m odo com o f u tu ro escatológico. T am bém diz, a p rin cíp io de
m a n e ira incom preensível, q u e o dom ínio de D eus j á vem no presen te, e essa
v in d a p re se n te ju s ta m e n te a in d a n ã o é a fu tu ra .

m . A v in d a p re se n te do re in o d e D eus

A s p a la v ra s so b re a v in d a p re se n te do reino, sob o p o n to d e v is ta h istó ric o -


trad ic io n a l, n ã o só fo ra m tra n s m itid a s de m a n e ira m u ito m ais fid ed ig n a, m as
tam b ém q u a n to ao co nteúdo são m u ito m a is c e n tra is do que a s que fa la m
d a v in d a fu tu r a !

1 ) Os sin a is d a g raça.

A reiv in d icação de que o re in o d e D eus v e n h a n o p resen te é le v a n ta d a


p o r Jesu s, em p rim e iro lu g a r, com re la ção à s u a a tiv id a d e m ilag ro sa.
Je su s c a ra c te riz a as su a s c u ra s com o sin ais do te m p o d a g ra ç a e com isso
fa z u m a reiv in d icação q u e n ã o pode se r d ed u zid a d e s u a a tiv id a d e : «Se,
96 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

p o rém , e u expulso o s dem ônios p elo d edo (M t: E s p irito ) d e D eus, o rein o


d e D e u s j á chegou a t é vós» (L c 11,20 p a r M t 12,28). O s e x o rc ista s ju d e u s
fa z e m e x te rio rm e n te o m esm o com o J e s u s m esm o diz em M t 12,27 p a r. P o r
isso J e s u s resp o n d e a J o ã o B a tis ta q u e p e rg u n to u pelo cu m p rim en to d e su a
m issã o : « . . . r e la ta i a Jo ã o o q u e ouv is e ved es: C egos vêem , coxos an d am ,
lep ro so s s ã o p u rific a d o s, m o rto s sã o r e s s u s c ita d o s ...» (M t 11,4s p a r L c ).
E s s a ex p licação a d o ta p ro fe c ia s v etero testam en tárias, re fe re n te s ao tem p o d a
g r a ç a ( I s 29,18s; 3 5 ,5 ss). O q u e aco n te c e a g o ra , p o r in term éd io de Jesu s,
deve s e r r e la ta d o com a s p a la v ra s d a p ro fecia. N o v am en te J e s u s a p re s e n ta
u m a p re te n s ã o in a u d ita : O e sta d o u n iv e rsa l de g ra ç a , a n u n ciad o p a r a o
te m p o d a g ra ç a , o c o rre a g o ra a tr a v é s de su a a tiv id ad e. E , m esm o assim ,
p o r se u in te rm éd io , v isiv elm en te n ã o o c o rre m a is do que n o s re la to s a re s­
p e ito de M oisés e E lia s q u e e n c o n tra m o s n o A T . D e m odo a lg um , pode-se
f a l a r de u m e sta d o u n iv e rsa l de g ra ç a .
C om o devem os e n te n d e r e ssa p re te n s ã o ? B u ltm a n n a firm a a re sp e ito dos
d o is d ito s : «T udo isso n ã o s ig n ific a q u e o re in o de D eus j á e s tá p re se n te ;
m a s a firm a q u e v a i irro m p e r» .” E C o nzelm ann a c re sc e n ta : «N ão se pode
id e n tific a r sim p lesm en te os sin ais, que a g o ra ocorrem , com o re in o d e D eus.
Q u an d o ele vier, e n tã o a l u t a . . . t e r á cheg ad o a o fim » .” O u tro s, p o r seu
tu rn o , dizem q u e a s c u ra s d e Je su s, seg u n d o o d ito d e M t 11,4s, n ã o s ã o
a p e n a s s in a is d o re in o q u e e s tá p o r v ir, m a s sin a is d a p re se n ç a d a g ra ç a ,
e vêem , p o r isso, o d ito com o u m a in te rp re ta ç ã o d a a tiv id a d e te rre n a , fe ita
p e la com unidade. ” A m b a s a s explicaçõ es desv iam d a p re te n s ã o desses d itos,
à q u a l fa re m o s ju s tiç a a p e n a s se a n a lisa rm o s, em u m p a rá g ra fo especial (§
1 5 ), o s a ssim ch a m a d o s m ila g re s de Je su s, lev an d o em c o n ta a se g u in te p e r­
g u n ta : S e rá que, n o co n te x to d e to d a a a tiv id a d e d e Jesu s, eles ex p ressam
a lg o m a is do que, p. ex., o s m ila g re s d e E lia s, e x te rio rm e n te sem elh an tes?
A n te s, n ã o se ria m d e f a to ev e n to s de cu m p rim en to , sin a is d a v in d a p re se n te
d o re in o de D eu s?
A c o n tin u a ç ã o d a re s p o s ta à p e rg u n ta de Jo ã o B a tis ta põe ta m b é m to d a
a p re g a ç ã o de J e s u s so b a p e rg u n ta b á sic a : S e rá que ela é «evangelho»?

2 ) O evangelho.

« E ao s p o b re s é p re g a d o o evangelho» é a c o n tin u a ç ã o d a re s p o s ta à
p e r g u n ta de Jo ã o B a tis ta . T am b ém a q u i é to m a d a u m a p ro fe c ia v étero -tes-
ta m e n tá r ia ( I s 61,l s ) . N ela, p orém , euangelizesthai, a n u n c ia r b oa-nova, se
to m o u , p rin c ip a lm e n te p o r m eio d e D t-Is, te rm o té cn ico p a r a a pro clam ação
do re in o d a g ra ç a d e D eus, do fin a l d o s tem pos. A tra v é s d essa p ro clam ação,
o re in o inicia. É a se g u in te a b o a -n o v a : «T eu D eus s e to m o u rei» ( I s 52,7).
A e sp e ra p o r esse m e n sa g e iro escato ló g ico d a a le g ria e s ta v a v iv a n o a m b ien te
ju d e u do tem p o d e Je su s, d e m a n e ira que a p a la v ra d e J e su s tin h a que se r
v is ta p o r to d o s com o u m a in d ic a ç ã o a re sp e ito d a v in d a d e ste m e n s a g e iro .” 126*89

126. Theol, 6; Jeremias, TheoL, 105s, vê, na passagem, apenas uma metáfora que, sem
te r relação com as curas e a pregação de Jesus, sim plesm ente form ula a pretensão: « . . . a con­
sumação do mundo está próxima. E muito próxima».
127 Gegenwart und Zukunft in der synoptischen Tradition, ZThK 54 (1957), 286.
128. £ o que d eixa supor a estatística dos termos para a qual aponta N. Perrin, The
K ingdom of God, 1963, 131: Das 165 palavras, usadas em Mc 18,5-27, um alto indice, 53 pala­
vras, não são encontradas no restante do evangelho de Marcos; a metade dessas 53 palavras
é encontada no Apocalipse de João.
129. Apontando para a palavra aqui citada, I s 61,1, ou para a passagem básica de I s 52,7,
te x to s essênios e rablnicos esperam pelo m ensageiro das alegrias escatológicas que, na
maioria das vezes, é descrito como o profeta escatológico: Em 1 QH 18,14, I s 61,1 talvez seja
relacionado com o M estre da Justiça, em 11 Q Melch 6, com o profeta escatológico; I s 52,7
III. A vinda presente do reino de Deus 97

P o r isso, M t 11,5 c a ra c te riz a ta m b é m a p reg ação e o ensino de Je su s como


evento de cu m prim ento, com o «evangelho». M esm o assim , s u a preg ação , p. ex.
as b em -av en tu ran ças, assem elha-se à dos p ro fe ta s e seu ensino, ao dos escribas.
A reiv in d icação tam b ém n ã o p ode s e r d ed u zida disso de m a n e ira visível. E la
nos oferece a p e n a s a p e rg u n ta p o r m eio d a q u al a s exig ên cias e a o fe rta
de Je su s devem s e r a n a lisa d a s. S e rá que, p. ex., a o fe rta de g ra ç a d a s bem-
a v e n tu ra n ç a s é prom issão p ro fé tic a ou «evangelho», a boa-nova a re sp e ito d a
g ra ç a do fin a l dos te m p o s que a g o ra d e sp o n ta? S e rá que os que tê m fom e
j á sã o sa c ia d o s a g o ra e os que e stã o tr is te s j á são consolados a g o ra ?
A re s p o s ta n ã o pode s e r ded u zid a n em d as ações, nem das p a la v ra s de
J e su s ; ela é d a d a a p e n a s pelo to d o de s u a ativ id ad e, re p re se n ta d a p e la
su a pessoa. P o r isso a re s p o s ta à p e rg u n ta de Jo ã o term in a, em M t 11,6 p a r,
com : « B em -av en tu rad o é aq uele que n ão a c h a r em m im m o tiv o de tro p eço !»
A p e rg u n ta p ela v in d a p re se n te d o reino, com o j á se evidencia em M t 12,28,
em ú ltim a an á lise é a p e rg u n ta p ela p esso a de Jesus.

3 ) O p o rta d o r d a g ra ç a .

O d ito m a is conhecido a re sp e ito d a p resen ça do rein o de Deus, L c 17,


20s S, c u ja a u te n tic id a d e q u ase n ã o é d iscu tid a, leva-nos d ire ta m e n te à p e r­
g u n ta p a ra fra s e a d a p o r M t 11,6:

« N ã o v e m o re in o d e D e u s d e m a n e i r a q u e se o p o s s a o b s e rv a r,
n e m se d i r á : a q u i o u lá !
P o r q u e o r e in o d e D e u s e s t á e n tr e v ó s!»

A s d u a s p rim e ira s lin h a s do d ito a firm a m : A v in d a do rein o de D eus


n ão pode s e r dedu zid a de sin a is a n te c ip a tó rio s, com o o q u er a ap ocalíptica.
T am bém n ã o se pode c o n s ta tá -la aq u i ou lá. P o r que n ã o ? A te rc e ira lin h a
no s d á u m a ex p licação p a ra d o x a l e su rp re e n d e n te : iâ o u g a r entos h y m õ n estin.
E n tõ s sig n ifica, n o grego, « d en tro de, no m eio de» ; pode, p o r isso, tam b ém
sig n ific a r, n a L X X , «por d e n tro de». A te o lo g ia lib eral d a v o lta do século
tra d u z ia , com L u te ro , « d en tro em vós» e a firm a v a : P a r a Jesu s, o rein o não
vem p o r m eio de um esp etácu lo ap o calíp tico ; é u m a g ra n d e z a ético -esp iritu al.
E s s a tra d u ç ã o , porém , c o n tra d iz a m o ld u ra do d ito ; o d ito é d irig id o aos
fa rise u s! N o e n ta n to essa m o ld u ra pode s e r secu n d ária. E ssa tra d u ç ã o con­
tra d iz tam b ém a concepção que Je s u s te m do re in o de D eus: Q uando o reino
de D eus f o r erigido, n ã o so m en te os corações serão pu rificad o s, seg u n d o
as b em -av en tu ran ças, m a s tam b ém os fa m in to s se rã o fa rto s . O reino de D eus
vem so b re o hom em e ab ra n g e -o to ta lm e n te . A ssim e n to s só pode sig n ific a r:
E le e s tá e n tre vós. M as com o p ode o re in o de D eus e s ta r p re se n te e n tre
os hom ens, de m a n e ira q u e n ã o se p recise m ais p ro c u ra r p o r sin a is ap o ca­
líp tic o s? B u ltm a n n ™ ju lg o u que houvesse aq u i um p re se n te com c a ra c te ­
rístic a s f u tu r a s e tra d u z iu : «O re in o de D eus e s tá (re p e n tin a m en te ) e n tre
vós», i. é, n ã o se f a r á a n u n c ia r p o r m eio de sin ais a n tecip ató rio s, e s ta rá
re p e n tin a m e n te e n tre vós. N o e n ta n to , esse « rep entinam ente» é um a ad ição ;

é citado a se g u ir em 11 Q M eleh 15s e tam bém é relacionado com aquele. N a trad ição fa ri-
saico-rabínica, a segunda passagem e stá m ais em evidência: Si Sal 11,1: «Anunciai em J e ru ­
salém a voz de um que tra z boa nova (euangelizom enou): D eus se com iserou de Isra e l e oa
visitou». As passagens rabínicas em G erhard F ried rich , T hW II, 712-714; cf. P e te r S tuhlm a-
cher, Das paulinische Evangelium , I. Vorgeschichte, 1968, 141-153.
130. B ultm ann, Theol.*, 5; idem Jerem ias, Theol., 104.
98 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino
além disso o « en tre vós» n ã o se c o ad u n a com o reino fu tu ro , im ag in ad o
de m a n e ira a p o c a líp tic a com o novo m undo. A o ração deve p erm an ecer n o
tem p o p resen te. P o r isso tem o s que p e r g u n ta r: D e que m a n e ira o re in o de
D eus j á a g o ra e s tá p re se n te e n tre os h o m ens? K ü m m e l e x p lic o u :131132 «O reino
de D eus se to m o u a n te c ip a d am e n te a tiv o em J e su s e nos aco n tecim en to s do
p re se n te que se m a n ife sta m com a s u a pessoa». S e rá co rre to isso? S erá que,
n a p esso a e n a a tiv id a d e de Jesu s, o dom ínio escatológico de D eus j á se
to m a a tiv o ? P a r a b u sc a r u m a re sp o sta , te rem o s que p e rg u n ta r, em um p a rá ­
g ra fo especial, pelo se n tid o de s u a m issão e pelo sig n ificad o de s u a pessoa (§ 16).
M as o rein o de D eus n ão pode s e r a p en as u m p o n to lum inoso, Je su s;
n ã o h á re i sem povo! M t 11 ta m b é m f a la v a de u m e sta d o de g ra ç a p a ra
todos. P o r isso su rg e a in d a a p e rg u n ta : O nde e stã o os hom ens, o povo do
rein o de D eus?

4 ) O povo do rein o de Deus.


O d ito de M t ll,1 2 s , p ro v en ien te de Q, a p o n ta de m a n e ira en ig m ática
p a r a esse asp ecto do rein o de D eu s: «D esde os dias de Jo ã o B a tis ta a té
a g o ra , o rein o de D eus é to m ad o à fo rç a e hom ens violentos apoderam -se
d ele; p o rq u e to d o s os p ro fe ta s e a lei p ro fe tiz a ra m a té João». E sses v e rsí­
culos, de difícil tra d u ç ã o , su g e re m u m a im agem d rá s tic a : O re in o de D eu s não
é a d q u irid o leg alm en te; obtém -se-o com o o la d rã o a m u am b a. — N esse sen­
tid o L c 16,16 tra d u z a p a la v ra p a r a a lin g u ag em m issio n á ria : «Desde esse
tem p o é a n u n ciad o o evang elh o do re in o de Deus». — D e f a to ocorre algo
in a u d ito ; Je s u s m o stra -o a o s fa rise u s, à fin a flo r d a com unidade ju d a ic a :
«Am ém , digo-vos que p u b lican o s e m e re triz es e n tra rã o a n te s de vós no reino
d e D eus» (M t 21,31 S ). O co m p a ra tiv o te m se n tid o a b so lu to : E le s en tra rã o ,
vocês n ã o ! N ã o os g ru p o s dos piedosos, dos que se em penham h o n estam en te,
m a s p u b lican o s e m e re triz e s h e rd a m o reino de D eus. E isso oco rre ag o ra,
desd e os d ia s de J o ã o .1® A g o ra se cu m p re o tem p o d a profecia, o cu m p ri­
m e n to se in icia; ag o ra, d essa m a n e ira in au d ita, o povo do rein o de D eus
é reunido. S e rá que os d iscípulos de Je s u s j á são o povo do reino de D eus?
T am bém essa p e rg u n ta te r á que s e r a b o rd a d a em u m tre c h o especial (§ 19).
A s a firm açõ es de Je su s so b re a v in d a p re se n te do reino n c s fornecem
a s p e rg u n ta s básicas para a exposição de sua a tivid a d e: Como podem seus
m ilagres, su a s exigências, s u a s prom essas de graça, s u a pessoa e seu círculo
de discípulos se r u m a ex p ressão d a v in d a p re se n te do reino? E s s a reiv in d i­
cação de Je su s é e n ig m ática e escandalosa. P o r isso o p ró p rio Je su s a explicou
n a s p a rá b o la s a re sp e ito do re in o de D eus, de m a n e ira q u erig m ática.
5 ) A s p a rá b o la s a re sp e ito d a v in d a do reino de D e u s .133

M arco s reúne, em 4,1-34, q u a tro p a rá b o la s que, segundo o d ito sobre o


sig n ificad o do d iscu rso d a s p a rá b o la s (4,10-12), devem esclarecer aos discí­
131. V erheissung, 28.
132. Jerem ias, Theol., 54, entende as referências à atividade de João B atista, em Mt.
no v. 12 («desde os dias de João B atista»), como inclusivas e, no v. 13 («até João»), como
exclusivas; «Segundo M t . .. o B a tista já faz p a rte do novo éon, ou inicia um a época in te r­
m ediária que é o prelúdio p a ra o novo éon». E ssa te ria sido a intenção de Je su s nos ditos.
No entanto, Je su s não pensa em term os d a categoria do «éon» e não eq u ip a ra o B atista,
dessa m aneira, consigo; p a ra ele, o reino vem de m an e ira dinâm ica, através de su a a ti­
vidade (Cf. § 7,11).
133. L it.; Adolf Jülicher, D ie G leichnisreden J e s u F . II, 1910; C harles H arold Dodd,
T he P a ra b le s of th e K ingdom , 1936 (1961); N ils A lstru p D ahl, T h e P a ra b le s of th e Growth,
S tT h 5 (1951), 132-165; Joachim Jerem ias, Die G leichnisse Jesu , 19627- E ta L innem ann,
G leichnisse Jesu , 19695; D an O. Via, Die Gleichnisse Jesu , 1970; G eorg Eichholz, G leichnisse
d e r E vangelien, 1971.
III. A vinda presente do reino de Deus 99

pulos «o m isté rio d o re in o de D eus». E ’ seguido p o r L u c a s (8,4-18), que,


porém , m u d a a posição de u m a d a s p a rá b o las. M ateus, p o r s u a vez, reú n e
se te p a rá b o la s so b re esse tem a, em u m d iscurso (13,1-52), e a in d a relacio n a
m a is q u a tro o u tra s p a rá b o la s com o re in o de D eu s: 18,23; 20,1; 22,2; 25,1.
N o am b ie n te de Jesu s, co stu m av a-se f a la r em lin g u ag em fig u ra d a ; no en­
ta n to , a s p a rá b o la s que dele n o s fo ra m tra n s m itid a s divergem d e ta l m a ­
n e ira d a s que lh e são com p aráv eis, em v irtu d e de su a esp o n tan eid ad e, que
h o je em g e ra l são v is ta s com o d a a u to ria do p ró p rio Jesus. A s P a rá b o la s
de M t 13 a b o rd a m ju s ta m e n te a s p e rg u n ta s p ro v o cad as p o r su a e n ig m ática
reiv in d icação de que, com a s u a ativ id ad e, o rein o de D eus j á vem ag o ra.
E s s a v in d a p re se n te é «o m isté rio do re in o de D eus» (M c 4,11 p a r ) .
S egundo a parábola do sem eador, n a a tiv id a d e de Je su s aco n tece u m
-sem ear ao qual, além dos insucessos, seg u e u m a fru tific a ç ã o sem pre d e novo
e x tra o rd in á ria . «Um sem ead o r sa i a sem ear, u m a m ensagem é a n u n c ia d a —
n a d a m a is ; e isso sig n ific a u m m undo novo». E s s a in te rp re ta ç ã o de Scbnie-
w in d 134135 a tin g e o essencial, em lin g u ag em de p re g a ç ã o com v ista s à situ a ç ã o
d a com unidade. N a situ a ç ã o de Jesu s, o sem ear n ão é a p e n a s a p a la v ra d e
Jesu s, m a s to d a a su a ex istên cia. A p a rá b o la au x ilia-n o s a ro m p er a con­
tem p lação m u d a do m u n d o e a p e rg u n ta r pelo acontecim ento abscôndito,
sem tra n s fo rm á -lo em id é ia p latô n ica, ao que s e in clin a D o d d . 3® A p a rá b o la
n ão é a p e n a s explicação, m a s ta m b é m p ro m issão : A tra v é s d a a tiv id a d e de
Jesu s, o re in o vem com ta n t a c e rte z a com o a tra v é s do sem ear a colheita.
O f ru to n ã o vem p o rq u e a a tiv id a d e de Je su s é p o rta d o ra de u m a id éia que
p a u la tin a m e n te v a i tra n s fo rm a n d o o m undo, m a s — com o co rresp o n d e a o
p en sam en to p a le stin o — p o rq u e o p ró p rio D eus e s tá a g in d o ab sco n d itam en te
nela. _
$
M as é n ecessário q u e se ro m p a m a is do que u m a contem plação m u d a
do m undo. Isso se ev idencia n a s p a rá b o la s do jo io no m eio do trig o e d a
rede (M t 13,24-30.47s S ). A s d u a s p a rá b o la s querem d e ix a r g ra v a d o o se ­
g u in te : Jo io e trig o , p eixes p o d res e bons so m en te p o d erão se r se p a ra d o s no
fin a l. E s s a im agem ev id en tem en te se re la c io n a com u m a p e rg u n ta p ro v o cad a
em c a d a o u v in te p e la s afirm a ç õ es de Je s u s so b re a v in d a p re se n te do reino.
Segundo a esp e ra n ç a com um a to d o s os p a rtid o s ju d eu s, tam b ém a Jo ã o B a ­
tis ta e à p ro fe c ia v etero testam en tária, o rein o de D eus vem p o r m eio d a
g ra n d e se p aração . A quele que tr a z o re in o de D eus assem elha-se a u m a g ri­
c u lto r que s e p a ra a p a lh a do trig o . N a a tiv id a d e de Je su s n ão se n o ta n a d a
d essa se p aração . M esm o em seu círculo de discípulos, o te n ta d o r e s tá agindo.
A p a rá b o la ex p lic a : O re in o de D eu s vem p o r in term éd io do se m e a r e do
re c o lh e r; a se p a ra ç ão n e c e ssá ria seg u ir-se-á a essas d u as coisas. E to d o aq u ele
que ouviu Je s u s d izer: «A tu a fé te salvou», com preende que so m en te dessa
m a n e ira pode v ir o re in o de D eus. O discípulo tem que s u p o rta r a m is tu ra
de trig o e joio, tam b ém em s u a p ró p ria ex istência. O e v a n g e lista M ateu s
a p lic a a p a rá b o la , n a in te rp re ta ç ã o p o r ele fo rm u la d a (M t 13,36-40), à situ a ­
ção d a com unidade. P a r a ele, a p a rá b o la m o s tra que a igreja é u m corpus
m ix tu m ; essa in te rp re ta ç ã o t i r a to d o o p a to s fa risa ic o d a discip lin a com uni­
tá ria , p o r ele defen d id a, com o p o r n en h u m o u tro no N T, em 18,15-20 e 22,

134. NTD Mc n a passagem correspondente.


135. C orreta é a afirm ação de Eiehholz, op. cit., 78: «Jesus in te rp re ta as cifras d a insig­
nificância do começo como c ifra do reino que h á de vir. N a insignificância, esconde-se, já
agora, o d ia vindouro de Deus». E m contraposição, Jerem ias, Gleichnisse, 149s, oculta o escopo
quando vê n a p a ráb o la um consolo p a ra os insucessos do trab a lh o p re p ara tó rio de Jesus
para a vinda do reino.
100 § 6: A vinda futura e a vinda presente do Reino

11-14. O rig in alm en te, porém , a p a rá b o la tin h a u m c a rá te r m u ito m ais axio-


m á tic o : Je s u s t r a z a g ra ç a à q u a l se seg u e a krisis, o juízo, u san d o term in o ­
lo g ia jo a n in a , e n ã o a g ra ç a como consequência d a krisis.
C o n tra u m a o b jeção sem elhante, v o lta -se a d u p la p a rá b o la do grão de
m osta rd a e do fe rm e n to , M t 13,31-33. A m bas a s vezes, um início in sig n ifi­
c a n te p ro v o ca um re su lta d o fin a l de sig n ificad o global. E sse te rtiu m com pa-
ra tio n is a b o rd a o conflito, ev id en te n o d ito de M t 11,4s. N a época d a g ra ç a ,
doença e m o rte d e sap arecerão do m u n d o ; Jesu s, porém , c u ra alg u m as pou­
cas p esso as e a e las tam b ém a p e n a s p a ssa g eiram en te. E m ais a in d a : T am bém
a p a la v ra de D eus sem p re c o n q u ista a p e n a s alguns, e tam b ém os que seguem
a Je su s, e rra m sem p re de novo. Com o se pode c h a m a r a isso de evangelho,
pro clam ação do re in o u n iv e rsa l de D eus? A d ife re n ç a e n tre o que sucede
p ela a tiv id a d e de Je s u s e o q u e é an u nciado com o cu m p rim en to d a profecia,
resp e c tiv a m en te com o a v in d a do reino, n ão é ap en as q u a n tita tiv a , m as so b re­
tu d o q u a lita tiv a : M esm o os poucos que fo ra m cu rad o s p o r Jesus, ou que
fo ra m ch am ad o s ao discipulado, n ã o s e to rn a m visivelm ente novos hom ens,
nem co rp o ral, nem esp iritu alm en te. A p a rá b o la ex p lica: O que ocorre, p o r
in term éd io de Jesu s, equip ara-se, q u a n tita tiv a e q u alita tiv a m e n te , a um g rã o
de m o s ta rd a do q u a l s u rg e u m a g ra n d e árv o re, que j á em D aniel sim boliza
o rein o que a b ra n g e todo o m u n d o ; ou se e q u ip a ra ao ferm en to que leveda
to d a a m assa. J u s ta m e n te p o r in term éd io d essa a tiv id a d e in sig n ific a n te de
Jesu s, e tã o so m en te p o r esse in term éd io , é que vem o rein o de D eus, p o r
m eio do q u a l tu d o fic a novo. E s s a p a rá b o la c o n tin u a a te r seu sig n ificad o
in a lte ra d o em n o sso s d ia s: O q u e se p ode v e r do novo hom em e do novo
m undo, a p ó s u m a h is tó ria de dois m il an o s n a qu al o c ristia n ism o esteve
p re s e n te com o relig ião u n iv e rsa l? N a d a m ais do que o g rã o de m o sta rd a !
H om ens que, a tra v é s d a m ensagem , são cham ados à fé e ao discipulado. E
m esm o assim o novo m undo vem a p e n a s d essa m a n e ira ; isso, ap ó s a P ásco a,
se to rn o u m ais c e rto do que an tes.
Se o re in o de D eu s vem d essa m a n e ira, en tão n ã o pode s e r conseguido
p o r m eios hum an o s, n em pelo p rin cíp io de o b ra s m e ritó ria s dos fa rise u s,
nem pelo rig o rism o dos essênios, nem p e la a tiv id a d e rev o lu cio n ária dos ze-
lotes. E n tã o a p e n a s p ode s e r en co n trad o com o o tesouro n o cam po e com o a
pérola d e g ra n d e valor. E quem a en co n trou, d á tu d o p o r ela, esp o n tan ea­
m e n te e com ale g ria . A d u p la p a rá b o la do teso u ro e d a pérola, M t 13,44-46,
ex p lica em especial o cham ado de Je s u s ao discipulado. E le p arece s e r de­
m asiad o duro, p o r so b rep o r-se a to d a s a s relações h u m a n a s: M t 8,18-22. A
p a rá b o la ex p lica a to d o s que o se g u ira m sem d isc u tir o preço, p o r te re m
sid o atin g id o s, o que lhes o co rreu : E ’ ju s ta m e n te d essa m an eira, a tra v é s do
discipulado, que se e n c o n tra m o te so u ro e a p érola. E ’ um a a titu d e sá b ia
d a r tu d o em tro c a deles. E m a is : A a le g ria so b re o que fo i en co n trad o ,
to m a fá c il o d a r tu d o . S om en te d essa m a n e ira se consegue o re in o de Deus.

R esum am os o re su lta d o :

a) A s p aráb o las, em M t 13, a resp eito d a v in d a do reino afirm am o


seg u in te : O rein o de D eus n ã o vem, como a in d a o e sp erav a Jo ã o B a tista ,
de m a n e ira visível, m a s ab sco n d itam en te, a tra v é s d a ação h u m an a de um
sem eador. N ão vem p o r m eio de se p a ra ç ão ju d icial, m as p o r m eio do sem ear
I. A essência do reino de Deus 101

e a ju n ta r ; n ã o vem de m a n e ira u n iv e rsa l e to ta l, m a s pelo g rã o de m o sta rd a .


P o r isso n ão p ode s e r c o n q u istad o p o r o b ra h u m an a, m a s so m en te s e r encon­
tra d o .

b ) T u d o isso n ão é desenvolvido com o d o u trin a , m a s é d ito como in te r­


p re ta ç ã o d a a tiv id a d e de Je su s. A s p a rá b o la s explicam o que oco rre p o r m eio
d e Je su s e o que ele reiv in d ica. N ão o explicam de m a n e ira d escritiv a, m as
convidando e apelan d o . O o u v in te sem p re de novo é p ersu ad id o pelo p o d er
d a s im ag en s: A ssim re a lm e n te é, deve s e r v erd ad e! N o e n ta n to , com preen­
d e rá a c a u sa a p e n a s q u an d o d ela p a r tic ip a r a tra v é s do discipulado.

c ) A ssim , p o rta n to , a s p a rá b o la s de J e su s so b re o re in o se dirigem


a to d o s ; m a s a p e n a s os que o seguem com preendem a cau sa em q u e stã o :
«A v ó s é d ad o o m isté rio do re in o de D e u s; aos o u tro s, porém , tu d o sucede
em p a la v ra s en ig m áticas» (M c 4,11).
C om tu d o isso tem os, n o fin al, a seg u in te p e rg u n ta : Com o im ag in a
J e s u s o rein o de D eus, de m a n e ira que p o ssa assem elh ar-se ao g rã o de m os­
ta r d a e à g ra n d e árv o re, que p o ssa v ir, no p re se n te e no fu tu ro , a u m só
tem p o ?

§ 7 : O C O N TEÚ D O D O K E IN O D E D E U S E SU A K ELA ÇÃ O
COM A E X IS T Ê N C IA DO M UNDO

Vide Lit. § 6 e notas 133. 139. 142. 149.

Je s u s em p a r te a lg u m a d efin iu o seu conceito de reino de Deus, nem o deli­


m ito u com re la ç ã o ao do seu am b ien te. D isso B u ltm a n n ™ in fe riu que ele
hou v esse a d o ta d o o conceito d o se u am biente. M as Je su s n u n c a a n a lisa con­
ceito s teó rico s com o P la tã o e n u n c a c ria im aginações com o a apo calíp tica.
O s conceitos q u e a d o ta do seu am b ien te to m am o seu sig n ificad o p ró p rio
só n o a to co n creto q u an d o Je s u s fa la ao hom em . P o r isso podem os deduzir
a concepção que Je su s te m do co n teú d o do rein o de D eus, de dois d ito s
que d irig e ao s h om ens e que, sem d ú v id a, são de su a a u to ria : a s bem -aven-
tu ra n ç a s e o pai-nosso. O q u e deduzirm os deles p a r a a com preensão do
conceito, se rá re c ip ro c am e n te confirm ado.

I. A e ssên cia do re in o de D eus

1 ) A s b e m -a v e n tu ra n ç a s:m E m 5,3-12, M ateu s a p re se n ta oito bem -aventu-


ra n ç a s, que sã o co m p lem en tad as p o r u m a nona, que foge ao esquem a. E m
L u c a s en co n tram o s, no m esm o trech o , no prin cíp io do serm ão do cam po, em
6,20-23, q u a tro b e m -a v e n tu ran ç a s; co rresp ondem à p rim eria, te rc e ira , q u a rta
e n o n a em M ateus. P e lo m en o s e ssa s q u a tro b em -a v e n tu ran ç a s c e rta m e n te
p ro v êm do p ró p rio Jesu s. S u a fo rm a b ásica pode s e r facilm en te reconhecida
p o r t r á s do ap erfeiço am en to re d a c io n a l fe ito p elo s dois ev an gelistas. 1367

136. Theol., § 3,1.


137. Lit.: Jacques Dupont, Les Béatitudes, 1969.
102 § 7: O conteúdo do Reino de Deus e sua relação com o mundo

A p rim e ira b e m -a v e n tu ran ç a a n u n c ia a o s pobres a p a rtic ip a ç ã o no reino


de D eu s: «B em -av en tu rad o s os p o b re s; p o is deles é o reino de D eus!» A s
d u a s b e m -a v e n tu ran ç a s seg u in tes a n u n ciam ao s fa m in to s que se rã o fa r to s e
aos tr is te s que se rã o consolados. Se p e n sarm o s n a relação desses anúncios
com a p a rtic ip a ç ã o n o rein o de Deus, verem os que h á ap en as u m a re sp o sta :
O sa c ia r a fom e e o consolo são p ro m essas p a ra o tem po d a g raça. T udo
isso o co rre q u ando vem o re in o de D eus. N a s prom issões d a s bem -av en tu ­
ra n ç a s se desdobra, p o rta n to , como no e sp ectro de um arco -íris, o que é
tra z id o p elo rein o de Deus. P o r isso podem os deduzir d a s bem -av en tu ran ças,
p a ra a concepção do re in o de D eus de Jesus, o se g u in te :

a ) O rein o de D eus tr a z o consolo que a f a s ta to d a a d o r e a saciedade


que põe fim a to d a fom e. C ad a u m dos e v a n g elistas a c e n tu a um asp ecto
específico desse e sta d o de g ra ç a ; L ucas, a fom e de p ã o ; M ateus, a fom e de
ju stiç a . A prom issão de Jesu s, porém , se re fe re a fom e e so frim e n to de
m a n e ira tã o g e n e ra liz ad a com o a s tra d iç õ e s v etero testam en tárias que estão
p o r t r á s dela. O rein o de D eus, p o r conseguinte, tra z um esta d o de graça
co rp o ral e e sp iritu a l, i. é, um n o vo m u n d o sem carê n c ia e so frim en to , u m
m undo de p az e ju stiç a . B aseado n a s b e m -av en tu ran ças de Jesu s, o v id en te
Jo ã o expõe a v isão do novo m undo, em A p 21,1-5.

b ) Com o v em esse n o v o ? O rein o vem p o r m eio de u m a ação de D eus


no hom em . S egundo uso c o rre n te n a P a le stin a , D eus é o su je ito d a s prom issões
fo rm u la d a s em voz p a ssiv a : «E les se rã o consolados» sig n ific a : D eus os con­
so la rá . «E les serão fa rto s » s ig n ific a : D eus f a r ta r á os fam in to s. Se to m arm o s
a in d a o seg u n d o g ru p o de b e m -av en tu ran ças, em M ateus, que pelo conteúdo
podem s e r d a a u to ria de Jesu s, podem os d izer: E le se a p ie d a rá dos m iseri­
cordiosos e c h a m a rá de seus filh o s os p a cificad o res (M t 5,7-10). C onseqüen-
te m e n te aq u i a v in d a do reino é v ista , p rim ariam en te, de m a n e ira teocêntrica,
com o aç ã o p esso al de D eus n o hom em . O rein o vem de m a n e ira que D eus
se e n c o n tra com o hom em e o to m a p a rtic ip a n te de su a com unhão. S u rg e ali
onde D eus su p e ra o so frim e n to e a fom e, recebendo, enfim , m iserico rd io sa­
m en te, o hom em com o filho.
Se o re in o de D eus vem d essa m an eira, podem os e n te n d e r p o r que Je su s
pode f a la r de u m a v in d a p re se n te do reino, m esm o que o m undo d a fom e
e d a m o rte co n tin u e a ex istir. E m s u a prem issa, a v in d a do re in o se to m a
ind ep en d en te d a m u d a n ç a d a s e s tru tu ra s do m u n d o .1*

c ) A v a n g u a rd a do re in o que h á de v ir, é, p o rta n to , a condescendência


d e D eus p a r a com o hom em , q u e se realiza, com o j á se evidenciou, na ativi-
dade de Jesus. N o ju d aísm o , a v a n g u a rd a e ra to ta lm e n te d iferen te. P a r a o
farise u , a coisa p rim e ira e essencial e ra a ex igência d a lei, com a q u al se
to m a v a so b re s i o ju g o do dom ínio régio. P a r a to d o s e ra o ju ízo segundo
a lei, a q u ed a d os poderosos, a tra n s fo rm a ç ã o do cosmo. T udo isso n ã o é
sim p lesm en te an u la d o p o r Je su s, m a s n ã o é m ais v isto com o o p reced en te
in d isp en sáv el à v in d a do re in o de D eus. O rein o de D eus vem ind ep en d en te­
m e n te d a lei, in d ep en d en tem en te d a m u d a n ç a d a s e s tru tu ra s ; a m u d a n ç a d as
e s tr u tu r a s seg u ir-se-á com o consequência. 138

138. Segundo Jerem ias, Theol., 122, «no evangelho d a m isericórdia divina p a ra com os
pobres, já» irrom pe «algo d a h asileia fu tu ra, no presente». N a realidade, porém , não irrom pe
«algo» dela, m as ela própria. E isso não ocorre num a «prom issão» de perdão como após
a páscoa, m as n a dedicaeão de Jesus.
I. A essência do reino de Deus 103

d) Is s o tu d o n ã o sig n ifica, com o o p in av a o liberalism o, que J e su s só


se in te re ssa v a p o r D eus e p e la alm a. A sacied ad e co rp o ra l e s tá incluída, do
m esm o m odo como a elim in ação d a m o rte . Jesu s, em M t 11,4s, n ã o a p o n ta
a p e n a s p a r a a s u a p a la v ra , m a s ta m b é m e em p rim eiro lu g a r p a r a a s su a s
curas. O reino de D eu s ta m b é m tra z n o v a s e stru tu ra s, u m a n o v a sociedade,
m as não v e m a tra v é s da m o d ifica çã o d as e stru tu ra s, m a s a p a r tir do c e n tro
d a h is tó ria u n iv e rsa l: O reino v e m q u a n d o a relação en tre D eus e h o m em
se to rn a sã, n o se n tid o da p ro m issã o veterotestam entária a respeito da aliança.
Je su s n ã o ra c io c in a com o F ilão , d e m a n e ira filo só fico -esp iritu alista, m a s de
m a n e ira te o c ê n tric a ; n ã o p e n sa em co n stru çõ es ap o calípticas, m a s a p a r tir
d a p ro m issã o d a E s c ritu ra .

2) O pai-nosso. ** N o pai-nosso (M t 6,9-15 p a r L c ) se co n firm a que


Je su s v ia o re in o de D eu s d essa m a n e ira . A ssim com o a s b em -av en tu ran ças
oferecem o reino, o pai-nosso en sin a a r o g a r pelo re in o .3" O fe rta e pedido
se correspondem .

a ) A e stru tu ra d a o ra ç ã o p e rm ite reco n h ecer o conteúdo do reino d e D eus.


A s tr ê s p rim e ira s p reces in te rp re ta m -s e m u tu a m e n te . O re in o de D eus vem
q u an d o D eus é a ceito com o D eus e é f e ita a su a v o n ta d e m isericordiosa.
T am b ém a q u i a s u a v in d a e s tá o rie n ta d a rig o ro sa m e n te de m a n e ira te o ­
cên trica. A se g u n d a m e ta d e d a o ra ç ã o co rresp o n d e à p rim eira. C ita aq uilo
que s e p a ra o p e d in te do re in o de D eus. Se ele se to r n a r p a rtic ip a n te d o
rein o de D eus, D eus a f a s ta r á a p reo cu p ação pelo p ã o e a culpa. T am bém
aq u i o re in o de D eus im p lica u m a n o v a re la ç ã o p a ra com D eus, p o r m eio
d a q u a l a s condições c o rp o ra l e e s p iritu a l se to m a m s ã s .311

b ) E s s a v in d a do reino, v is ta de m a n e ira teo cên trica, é tam b ém a q u i


a v a n g u a rd a e n ã o a co n seqüência d a m o d ificação escatológica. T alvez Je su s
te n h a d a d o esse m odelo de o ração a o s seu s discípulos, em su b stitu iç ã o à
oração d a s 18 p reces q u e lh e é fo rm a lm e n te sem elh an te. “ N e ssa o ra ç ã o
d iá ria d o hom em ju d eu , a p rece p e la in s ta la ç ã o do re in o de D eus e r a a
décim a p rim e ira . N e la o re in o é esp erad o como conseqüência d a m odificação
d as e s tr u tu r a s do m undo. N o pai-nosso «busca-se e m prim eiro lu g a r o
reino d e D eus», cf. o d ito de M t 6,33; tu d o o que segue é pedido com o
conseqüência desse reino.

c) Se o discípulo, a quem é d a d a e ssa oração, p e rg u n ta r com o são


a te n d id a s a s s u a s preces, ele v ê aq u ele q u e a f a s ta n o ssas p reocupações e
a c e ita os p ecadores. C a d a p rece do pai-nosso te m o seu cu m p rim en to n a ­
quilo q u e J esu s realiza agora, m esm o q u e isso se assem elhe a u m g rã o d e 139402

139. L it.: E m st Lohmeyer, Das Vaterunser, 1946 (1962®); T. W. Manson, The Lord’s
Prayer, B ulletin o í the John Rylands Library 38, Manchester, 1955/56, 99-113.436-448;
H einz Sehtirmann, Das Gebet des H erm erlãutert aus der Verkündigung Jesu, 1961; Joachim
Jeremias, Abba, 1966, 152-171; idem, TheoL 188-196; cf. nota 142.
140. Original não é nem o texto mais longo, em Mt 6,9-15, nem o mais curto, em Lc 11,2-4,
como tal; a parte original tem que ser deduzida do3 dois. Constata-se então que as preces
3 e 7, em Mt, são ampliações, mas que as formulações de Mt', em geral, são mais antigas.
Em seu todo, a formulação original tinha, sem dúvida, a mesma estrutura que o presente
texto; certamente é da autoria de Jesus.
141. Essa compreensão do relacionamento interno, dado pela estrutura da oração, 6
obstruída, caso equipararmos, com base em um preconceito histórico-religioso, o pedido da
vinda do reino com a do novo éon, como p. ex. Grãsser, Parusieverzõgerung, 99.
142. Paul Fiebig, Das Vaterunser, 1927; Dalman, W orte Jesu, 283-321 (365); Billerb. IV,
306-220; Karl Georg Kuhn. Achtzehnbittengebet und Vaterunser und der Reim, 1960.
104 § 7: O conteúdo do Reino de Deus e sua relação com o mundo

m o sta rd a f re n te ao to d o d as preces. A tra v é s dessa a tiv id a d e vem realm en te


o re in o d e D eus, m esm o q u e em fo rm a p ro v isó ria. “*
Q ue re su lta disso tu d o ? Se o re in o d e D eus e s tá d eterm in ad o d essa
m a n e ira q u a n to a o se u conteúdo, é com preensível que ele v en h a sim u lta n e a ­
m e n te n o p re se n te e n o fu tu ro . Se o c e n tro decisivo do re in o de D eus é o
desejo de q u e a re la ç ã o de D eu s p a r a com o hom em s e to m e p erfe ita , e n tã o
ele s u rg e a li o nde p o r J e s u s a re la ç ã o d e u m hom em com D eus se to r n a
nova, m esm o que a v id a c o rp o ra l e o m u n d o a in d a n ã o se te n h a m to m a d o
salvos. E n tã o a s u a v in d a n ã o p ode se a t e r ap en as a uma, n o v a re la ç ã o
com D eus, m a s ta m b é m a v id a c o rp o ra l e a h is tó ria p recisam s e r a b ra n ­
g id a s ; p o is D eus é o criad o r.
P o r isso a v in d a do re in o j á a g o ra in flu en cia a e x istên cia do m undo.

n . O re in o q u e h á d e v ir e a h is tó ria

1 ) O q u e acab am o s d e d ed u zir d o co n teú d o d a concepção de re in o d e D eus,


a sa b e r, a s u a in d ep en d ên cia d e um p re c ed en te cósmico, confirm a-se ao
o b serv arm o s a s a firm açõ es de J e s u s a re s p e ito d a concepção cósm ico-apo-
calíp tica, esp ecialm en te a concepção dos d o is éons. Com o j á se evidenciou
(§ 5,IV ,3 ), essa concepção s u rg iu a p e n a s n a época d e Jesu s. S egundo ela,
o éon f u tu ro (h a o lã m habbã, h o aiõn h o erchom enos ou ho m ellõ n ) é o m undo
q u e h á d e v ir, bem com o a n o v a e r a ; ele su b stitu irá , com o novo cosmo,
o éon p re s e n te (h a o lã m hasseh = h o aiõn h o u to s). S egundo a apo calíp tica,
o re in o escato ló g ico d e D eus, se é q u e f a la dele (§ 5,IV ,3 ), vem p ra tic a m e n te
no in v ó lu cro do n o v o éon. N a p re g a ç ã o de Je su s essa concepção cósm ica d a
ap o c a líp tic a n ã o te m im p o rtâ n c ia . N os d ito s sin ó tico s d e Jesu s, o te im o
aiõn r a r a s vezes te m o sig n ific a d o de «éon». E m q u ase to d a s a s p assag en s
a tra d iç ã o p a ra le la d e m o n stra t e r sid o incluído p o ste rio rm e n te p e la te o lo g ia
d a com unidade. E m M t 12,32 lem os: «N ão lh e s e rá isso p erd o ad o nem nesse
nem n o éon fu tu ro » , m a s e ssa locução f a l t a n a s tra d iç õ e s p a ra le la s de Mc
3,29 e L c 12,10. E m Mc 10,30 en c o n tra m o s a se g u in te c o n trap o sição : « Já
no p resen te» , ( e n tõ ka irõ to u tõ ) e «no éon fu tu ro » ; essas d u a s locuções n ã o
se e n c o n tra m em M t 19,29. T am bém em L c 20,34s a d iferen ciação f e ita
e n tre «este» e «aquele éon» é se c u n d á ria f re n te ao s p ara le lo s d e M c e M t.
C o n seq ü en tem en te o p ró p rio J e s u s n u n c a fa lo u do «éon f u tu r o » ; “ essa
locução n ã o se p re s ta v a p a r a e x p re ssa r a s u a m ensagem , p o r im p licar a
v in d a escato ló g ica d e D eus em u m aco n tecim en to cósm ico. A ú n ic a locução
que en co n tram o s, além d essas, e que c ita «este éon», L c 16,8, tam b é m é
secu n d á ria , com o o d e m o n stra s u a re p e tiç ã o em L c 20,34.
P a r a Je su s, a v in d a do re in o de D eu s n ã o e s tá in clu íd a n a h is tó ria e
su b o rd in a d a à m esm a, m a s dá ao m u n d o p re se n te b e m com o ao fu tu r o a
sua feiçã o . A m bos o s a sp e c to s a in d a se rã o b rev em en te a b o rd ad o s no que
segue. 1435

143. E ssa é a Interpretação excepcional de Julius Schniewind, NTD Mt ad 6,9-13.


144. O mesmo deve ser dito a respeito de Paulo que fala somente «deste éon» para carac­
terizar a situação presente do mundo, o que em geral não é observado.
145. Em uma série de passagens que originalmente falam apenas de aion = mundo, foi
introduzido diversas vezes o houtos = este que é crltico-textualm ente secundário, cf. Mc (4,19)
par Mt 13,22; Mt 13, (39.) 40.49; 24,3; (28,20).
II. O reino que há de vir e a história 105

2 ) A im agem do m u n d o fu tu ro .

A o c o n trá rio d a a p o c a líp tic a e do rab inism o, J e s u s se n e g a a d escrever


o m u n d o fu tu r o q u e se rá fo rm a d o pelo rein o de D eus. C a ra c te riz a esse
estad o s u p ra m u n d a n o a p e n a s d e duas m aneiras:

a ) A d o ta d iv e rsa s vezes a im ag em vetero testam en tária e ju d a ic a do


ban q u ete escatológico da alegria. S egundo o apo calip se d e Isa ía s, I s 25,6,
D eus d a r á a to d o s os povos, n a consum ação, u m b a n q u e te ; seg u n d o 1 Q Sa
2,11-21, o M essias reúne, q u an d o de s u a v in d a, to d o s o s essênios em u m
b a n q u e te de a l e g r i a . J e s u s a d o ta e ssa im agem , a q u i e fre q ü e n te m en te u s a ­
da, p a r a d izer que a consum ação s ig n ific a p a rtic ip a ç ã o : «M uitos v irã o do
o rie n te e do ocid en te e to m a rã o lu g a re s à m e sa com A b raão , Isa q u e e Jacó»
(M t 8,11 p a r ) . «Am ém , n ã o m a is beb erei do f r u to d a v id eira, a té aqu ele
d ia em que o h ei de beber, novo, n o re in o d e D eus» (M c 14,25 p a r ) , e M t
26,29 a c re sc e n ta : «convosco». N a consum ação, a co m unhão d e m e sa de Je su s
com os seu s se rá ren o v ad a. E m L c 22,15-18, esse an ú n cio é d e ta lh a d o e
com plem entado pelo d ito s in g u la r: « E u v os dou o re in o p a r a que com ais
e b eb ais com igo à m in h a m esa» (L c 22,29s). A fo rm u lação desse anúncio
é se c u n d á ria com o o d e m o n stra , p. ex., o conceito ab so lu to «o reino», m as
pode te r p o r b ase u m a a firm a ç ã o o rig in alm en te d a a u to ria de Jesu s. A
ten d ê n c ia b á sic a d essas p a la v ra s é ev id e n te: O re in o d e D eu s n ã o é, em
p rim eiro lu g a r, um estad o p a ra d isía c o n a consum ação fu tu ra , m a s a co­
m u n h ão com Je su s e, p o r seu in term éd io , a com unhão escato ló g ica no b a n ­
q u ete com Deus.

b ) N o m ais, Je s u s diz a p e n a s m a is o se g u in te a resp eito d a v id a f u tu r a :


S erá to ta lm e n te n o v a ! S egundo M c 14,25, o beber s e rá «novo». T alvez, n essa
passagem , «novo» e s te ja q u alificad o n o m esm o sen tid o com o n a m e tá fo ra do
vin h o e dos odres, Mc 2,22 p a r. S egundo e s ta m e tá fo ra , o tem po d a g ra ç a
tr a z a lg o que n ã o p ode s e r m is tu ra d o com o velho. T ra z a lg o novo no
sen tid o d a p ro fe c ia v etero testam en tária: «E is que faço coisa n o v a . . . » ( I s
43,19). Jesu s, n o e n ta n to , a in d a n ã o u s a v a o conceito «novo» como con­
ceito escatológico assim com o P au lo , e p o r isso p ro v av elm en te p ensou n a
no v a alian ça, q u an d o d a in stitu iç ã o d a C eia, m a s n ã o a citou, como em
IC o 11,2 5 .MI
S u a p alavra a resp eito da ressurreição, Mc 12,18-27 p a r, a firm a que o
rein o tr a z consigo u m a situ a ç ã o to ta lm e n te n o v a : «Q uando re ssu sc ita re m de
e n tre o s m o rto s, n em c asarão , nem se d a rã o em casa m e n to ; porém sã o com o
os a n jo s dos céus». P a r a os rab in o s, o m undo fu tu ro e ra a p e n a s u m a re s­
ta u ra ç ã o do e sta d o o rig in al, u m a co n tin u ação desse m u n d o sem o m al, a
doença e a m o rte. A v id a se x u a l c o n tin u a do m esm o m odo com o o com er
e o b eb er; ta m b é m a lei c o n tin u a a v ig o r a r .1* M as seg u n d o a s p a la v ra s de 14678

146. Billerb. IV, 1146s; ThW II,34s.


147. ThW H I. 451s.
148. Billerb. I,888s. Em algumas passagens da apocalíptica judaica, os perfeitos são com­
parados, como aqui, aos anjos (aeth Hen 51,4s: «Todos serão (como) anjos no céu. Sua face
brilhará de a le g r ia ...» ; idem sir Bar 51, 9s; cf. aeth H en 104,4). Em um outro contexto é
dito a respeito dos anjos que para eles «não foram criadas mulheres» como para os homens
perecíveis (aeth Hen 15,7). A perícope, pois, parte, tanto na pergunta como na resposta,
do pensamento judeu. Mas seus argumentos vão muito além dessas concepções da apoca­
líptica jud aica Isso ocorre na linha do pensamento teocêntrico de Jesus. P or outro lado,
não aparece nenhum aspecto pascal como normalmente o encontramos nas afirmações da
comunidade a respeito da ressurreição. O diálogo provém, portanto, da situação de J esu s (com
Jeremias, Theol., 180, nota 28, contra Bultmann, Trad., 25.51 e o.).
106 § 7: O conteúdo do Reino de Deus e sua relação com o mundo

Jesu s, n ã o m a is e x istirã o a s fo rm a s m a is e lem en tares d a v id a desse m undo,


casam en to e p ro criação . O reino de D eu s n ã o r e s ta u ra sim plesm ente a c ria ­
ção o rig in al, m a s co n su m a-a n u m a nova.
P o r isso, p o r c a u sa d o re in o de D eus, Je su s n ão co n cita ap en as a que
os h o m en s se a fa s te m d o m al, m a s ta m b é m d a s fo rm a s d e v id a d a p rim e ira
criação . H á h om ens q u e sã o «eunucos p o r c a u sa do re in o dos céus», i. é,
que d e siste m d e c a sa r, p . ex., o p ró p rio J e su s (M t 19,12).
J u s ta m e n te p o r isso, p elo f a to de a v id a que vem com o re in o de D eus
s e r to ta lm e n te diferen te, é que J e s u s n ã o a descreve (cf. IC o 15,35ss).
O re in o v in d o u ro de D eu s n ã o d eix a s u rg ir ap en as a im agem de um a
v id a f u tu r a e nova, m a s ilu m in a ta m b é m a v id a h istó ric a presen te.

3 ) A e s tr u tu r a d a n a tu re z a e d a h is tó ria à luz do reino vindouro.

A lu z do reino v in d o u ro de D eus n ão p o ssib ilita ap en as que vejam os


de m a n e ira m a is c la ra a situ a ç ã o n e ste m undo, m a s pro v o ca o su rg im en to
de fa to re s p o sitiv o s e n eg a tivo s.

a ) Ã luz do re in o que h á de v ir se evidencia o que é a criação d e D e u s .m


S em p re de novo se p e rg u n ta com a d m ira ç ã o : Com o pode alguém que an u n cia
o fin a l p ró x im o do m u n d o f a la r de m a n e ira tã o p o sitiv a a re sp e ito daquilo
que desig n am o s de « n atu reza» , u sa n d o u m conceito g re g o ? (M t 6,26 p a r L c:
«O bservai a s av es sob o céu : n ão sem eiam , n ã o colhem , n em a ju n ta m em
celeiros, c o n tu d o vosso P a i celeste (L c : D eu s) a s s u s te n ta . N ão valeis vós
m a is do q u e elas?» E a in d a em 6,28 p a r : «A prendei dos lírio s do cam po,
com o crescem ; eles n ã o tra b a lh a m n em fiam . E u , contudo, vo s digo que
nem Salom ão, em to d a a s u a g ló ria, se v e stiu com o um deles. Se Deus,
porém , v e ste assim a e rv a do c a m p o ... q u a n to m ais a vós, hom ens de
peq u en a fé?» M t 10,29 p a r : «N enhum p a rd a l cai do telh a d o sem o (consen­
tim e n to ) de vosso P ai» (L c 12,6: d ia n te de D e u s). S em elhante é M t 7,11 p a r.
A te o lo g ia lib e ra l a c e n tu a v a essas a firm açõ es que lhe fu n d a m e n ta v a m
a f é n a p ro v id ên cia e b o n d ad e p a te rn a l de D eus. A escato lo g ia conseqüente
a fa sto u -a s. Sob a in flu ên cia d a te o lo g ia d ia lé tic a que ren u n c ia v a a to d a
e q u a lq u e r fo rm a n a tu r a l d a rev elação divina, elas q u ase n ã o fo ra m m ais
o b serv ad as. B u ltm a n n a s d e ix a de la d o o b serv an d o que essas p a la v ra s seriam
ex p ressão d a p ied ad e p o p u la r isra e lita , n ã o sendo específicas p a r a Jesu s. ”
D e f a to essa s p a la v ra s p ro v o cam a p e rg u n ta : S erá que se po d e d ed u zir a
b o n d ad e do C riad o r, de m a n e ira tã o sim ples, d a n atu reza, com o o co rre n essas
p a la v ra s ? S e rá que n ã o e x istem ta m b é m p á ssa ro s fa m in to s e s e rá que n ão
h á se re s h u m an o s em situ a ç ã o m a is m iseráv el do que eles? O p ró p rio Jesu s
n ã o ig n o ra isso ; co n ta, p. ex., q u e o filh o p erd id o in v e ja os porcos p o r
c a u sa d a s u a com ida (L c 15,16). N ã o a p o n ta p a r a a n a tu re z a à m an e ira
d a te o lo g ia n a tu ra l. P odem os v e r n o estoicism o, a te o lo g ia n a tu r a l clássica
d a ép o ca de Je su s, com o s e ria u m a conclusão ra c io n a l a re sp e ito d a p ro ­
vidência, que p a rtis s e d a observ ação d a n atu re z a . O estoicism o en sin a o se­
g u in te : “ A p ro v id ên cia que d o ta to d o s os se re s d a n a tu re z a , no rm alm en te
p ro v e rá ta m b é m o que é n ecessário ao hom em . Se essa re g r a v ie r a fa lh a r, 14950

149. Adolf von H am ack, Das W esen des Christentums, 1901, 40-46.
150. Trad., 109; idem Jesus (1926) 1964, 110-118.
151. Cf. ThW VI, 13.
II. O reino que há de vir e a história 107

o hom em t e r á q u e se elevar, com lib erd ad e in te rn a , so b re o que lhe f a lta


e x te rio rm e n te . E m caso ex trem o , te r á q u e e v ita r u m a situ a ç ã o in d ig n a do
hom em , p o r m eio do «suicídio p rem ed itad o » .
A s p a la v ra s de Je su s a re sp e ito d a s preocupações tê m o u tro c a rá te r:
N ão p a rte m de u m a a n á lise ra c io n a l d a n a tu re z a p a r a c h e g a r a conclusões
h ip o té tic a s a re sp e ito d a p ro v id ên cia. E la s p a rte m do D eus que se aproxim a
erig in d o o se u reino, e m o stra m r a s tr o s n o que oco rre n a n a tu re z a . A série
de d ito s n a q u al en c o n tra m o s a s p a la v ra s a re sp e ito dos lírio s e dos p ássaro s,
conclui, em M t 6,33 p a r, com a indicação q u a n to a o re in o que h á de v ir:
«Buscai, em p rim eiro lu g a r, o re in o de D e u s ... e to d a s e s ta s coisas vos
se rã o a crescen tad as» . O rein o de D eus é buscado p o r aquele que o ra e vive
no se n tid o do pai-nosso. A ele s e rá d a d a u m a e x istên cia com se n tid o e
d u ra d o u ra , a v ida. A p a r t i r d essa rev elação escato ló g ica d e D eus, Je su s
a p o n ta p a r a os sin a is d a m ise ric ó rd ia do C riador, u m a m isericó rd ia que
m an té m a v id a em u m m u n d o d e term in ad o pelo m aL A p o n ta r sig n ifica
a q u i: a n u n c ia r. A ssim com o o u tr o r a Is ra e l chegou à confissão d e D eus,
o C riad o r, a p a r tir do D eus d a alian ça, Je su s d e ix a en tre v e r, à luz do
rein o de D eus que e s tá irro m p en d o , os r a s tr o s d a m isericó rd ia do C riad o r
n e ste m undo.
S em elh an tem en te, a d iscussão em to m o do divórcio, Mc 10,5-9 p a r M t,
p a r te d a situ a ç ã o a tu a l de u m m a trim ô n io im p erfeito e a p o n ta p a r a a ordem
o rig in a l d a criação. J á nesse exem plo se evidencia com o a c riação fo i de­
tu rp a d a .

b ) O rein o que vem d e sm a sc a ra a deturpação da criação, e m ais a in d a :


p ro v o ca a in te n sific a ç ão d a s t r e v a s .152 Is s o é explicado n a discussão de M t
12,24-30 p a r L c 11,15-23; cf. Mc 3,22-27. Os a d v e rsá rio s explicam os e x o r­
cism os de Je su s com o m ila g re s dem oníacos: E x p u lsa dem ônios com o aux ílio
d e u m p rín c ip e dos dem ônios. E m co n trap o sição , J e su s a p re se n ta a s u a
visão do dem oníaco: T ra ta -s e de u m rein o sob o dom ínio de u m p ríncipe,
S a tã (M t 12,26 p a r L c 11,18). Os dem ônios co n stitu em se u p o derio (d yn a m is
L c 1 0 ,1 9 ); ele é o se n h o r d essa c a s a (B eelzebul, M t 10,25).
O ju d a ísm o rab ín ico desconhece essa concepção. P a r a o rabinism o, o
dem oníaco é um e sta d o fe d e ra tiv o f r o u x o ; 153 p a ra Jesu s, é um reg im e to t a ­
litá rio , o re in o de S a tã . P o r se u tu rn o , o s essênios, b asead o s em u m du alism o
rela tiv o , d esenvolveram a concepção de que u m re in o d a s tre v a s se con­
tra p õ e ao re in o d a lu z : «N a m ão do p rín cip e d a s lu zes ( = o a n jo d a
lu z) e s tá o dom ínio so b re to d o s os filh o s d a j u s t i ç a . . . , e n a m ão do a n jo
d a s l.revas e s tá to d o o dom ínio so b re os filh o s d a i n j u s t i ç a ...» (1 QS 3,
20-24). O tem p o do m u n d o é o tem p o «do dom ínio de B elial» — designação
u su a l p a r a o p rín c ip e d a s tre v a s — (1 QS 1,19). A re fe rê n cia de Jesu s
a o rein o de S a tã independe d esse dualism o essênio; ele n ã o u s a a te rm i­
n o lo g ia dos essênios, m a s a d a sin ag o g a. D esenvolve a concepção a p a r tir
d a su a m issão. P o r t r á s d a re fe rê n c ia ao rein o de S a tã e s tá u m d ito a re s ­
peito d a v in d a do re in o de D eus, M t 12,28 p a r : «Se, porém , eu expulso os
dem ônios pelo E s p írito de D eus, c e rta m e n te é chegado o rein o de D eu s a té
vós». F re n te ao rein o de D eus q u e irro m p e com a a tiv id a d e de Jesu s, unem -

152. Lit.: Billerb. IV, 501-535: A respeito da demonologia judaica antiga: W erner Foerster,
lalm on, ThW II, 1-21; diabolo*, ThW II, 69-80; satanas, ThW VII, 151-164.
153. T hW II. 18.
108 § 7: O conteúdo do Reino de Deus e sua relação com o mundo

se to d a s a s tre v a s em u m re in o dem oníaco sob S a tã . Com o u tra s p a la v ra s,


o m a l n ã o é a p e n a s reconhecido com o u m p o d er su p ra-in d iv id u al que a
tu d o a b ra n g e , m a s ta m b é m é provocado. A s concepções e os te rm o s ju d a ic o s
ofereciam u m a p o ssib ilid ad e p a r a c a ra c te riz a r e ssa re a lid a d e ; P a u lo a des­
cre v e ría m a is ta r d e d e o u tr a m a n e ira .
A s desig n açõ es desse p o d e r su p ra -in d iv id u a l (s a ta n á s com o tra n sc riç ã o
g re g a do h eb r. s a ta n ; diabolos é a tra d u ç ã o d a L X X ) bem com o a s con­
cepções a re sp e ito d e su a s fu n çõ es fo ra m a d o ta d a s p ela tra d iç ã o sin ó tic a d a
tra d iç ã o v é te ro -te s ta m e n tá ria e ju d a ic a . C onfere a S a tã tr ê s funções p rin ­
c ip a is: l 9 E le é o que ac u sa p e ra n te D eu s: Lc 10,18; cf. Jó 1,6, e 2" E le
é o te n ta d o r, o p eirazõn, q u e q u e stio n a a relação p a r a com D eu s: Mc 1,13;
M t 4,1-11 p a r ; M c 8,33 p a r. 39 E le é o se n h o r dos dem ônios, aquele q u e
c a u sa m a le s n o corpo e n a alm a d os h o m ens que a ele se e n tre g a m : M c
3,26s; M t 12,26.29 p a r ; Lc 13,16 S. P o r isso ele é o m au, o d ep rav ad o r,
o p o nêros.* * '
S a tã é o g ra n d e a d v e rsá rio d e Je su s. O ev a n g e lista M ateu s desig n a-o ,
n a s p a rá b o la s, d e ech th ro s, inim igo (13,25.28.39, tam b ém L c 10,19). N em
to d o o m a l e to d a a m iséria, n o e n ta n to , são a trib u íd o s a S a tã ou aos
dem ônios. N ão se desenvolve n e n h u m a te o ria a resp eito d a origem do m a l
e d a m iséria. F a lta tam b ém to d o e q u a lq u er d u alism o : Je su s n ã o se con­
f r o n ta com S a tã como, em 1 QS, o p rín c ip e dos a n jo s d a luz com o p rín cip e
d a s tre v a s . O p o d e r de S a tã e s tá sem p re envolvido pelo g o verno de D eus
so b re o m undo.
F r e n te ao rein o em apro x im ação , o m u n d o que envolve os hom ens a d q u ire
u m p e rfil definido. C om o vê Je s u s o hom em que n e ste m undo é c o n fro n tad o
com o re in o v in d o u ro ? Isso n o s m o s tra a se g u n d a m e ta d e dos sum ários,
no s q u ais os e v a n g e lista s resum em a s u a m ensagem : «Fazei p en itência, pois
o re in o d os céus se aproxim ou» (M t 4,17; cf. Mc 1,15). Je su s ch am a o
hom em ao a rre p e n d im en to f r e n te ao re in o de D eus que se ap ro x im a. O con­
ceito a rre p e n d im en to re su m e tu d o o que deve o c o rre r p o r p a rte do hom em ,
fre n te ao re in o vind o u ro . P o r isso colocam os a s d u a s p a rte s p rin c ip a is se­
g u in te s sob esse tem a. 164

164. Quanto aos antecedentes dessa concepçfio, ThW II, 74-78.


CAPÍTULO IV

O Arrependimento como Exigência


(As Instruções Éticas de Jesus)

U m a observação r e fe re n te ao uso d o te rm o «a rrep en d im en to » ( c í. § 4,11,2).

1 ) D e aco rd o com a e s ta tís tic a d o te rm o , « arrependim ento» nã o é um


co rrela to de reino d e D eus. Os te rm o s m eta n o ia e m eta n o ein não sã o u sad o s
tã o am iú d e com o basileia. E n c o n tra m -se p o u cas vezes no s evangelhos, e ge­
ra lm e n te n a s observações re d a c io n a is d os ev an g elistas. E n c o n tra m o s os con­
c e ito s — com exceção d o s re la to s so b re Jo ã o B a tis ta (M t 3,2.8.11; M c 1,4
p a r L c 3,8) — n o s su m á rio s re d a c io n a is M c 1,14 (cf. 6,12) e M t 4,17 (cf.
1 1 ,2 0 ), e m Q a p e n a s em M t 11,21 ( p a r L e 10,13) e 12,41 ( p a r L c 11,32) —
a m b a s a s vezes com o re fe rê n c ia a situ a ç õ e s vetero testam en tárias — e fin al-
m e n te n o S de L u ca s, L c 5,32 ( R ) ; 13,3.5; 15,7; 17,3s ( R ) ; 16,30; (24,47).
«A rrep en d im en to » , p o rta n to , é q u ase que u m conceito coletivo, n o q u al p rin ­
cip a lm e n te os e v a n g e lista s resum em o q u e Je su s esp e ra do hom em . O p ró p rio
Jesu s, n o e n ta n to , esp ecifica em co n cretizações d ife re n c iad a s o que agora
co n vém ao h o m e m : s e r p o b re n o se n tid o d a s b em -a v e n tu ran ç a s e o e n g a ja ­
m e n to to ta l n o se n tid o d o s p re c e ito s específicos do serm ão do m o n te. R esum e
em dois conceitos n o vo s o que ele e sp e ra do hom em : seg u ir e crer, discipu-
lad o e fé. N o e n ta n to , o conceito tra d ic io n a l «arrependim ento» a b ra n g e tu d o
isso se o en te n d e rm o s com o a p ro fe c ia ou o q u erig m a m issio n ário d a com u­
n id a d e ( A t 2,38; 3,19; 17,30 e o .). F é e discipulado, to m a r-s e p o b re e obe­
d iên c ia to ta l sig n ificam arrep en d im en to .

2 ) M esm o a ssim te m que se p e rg u n ta r: S erá que «arrependim ento» é


u m conceito apropriado? E r a a p ro p ria d o q u an d o os p ro fe ta s c h a m a ra m Is ra e l
d e v o lta ao seu D eus e à s u a alian ça. M as o re in o vindouro exige u m a o rien ­
ta ç ã o em direção ao fu tu ro , e n ã o u m a v o lta ao p a ssa d o ! M esm o assim ,
com o re in o n ã o vem u m novo D eus, m a s ju s ta m e n te o D eus de Isra e l!
S eg u n d o M t 11,3-6, ele v em p a r a c o n c re tiz ar a su a prom issão. P o r isso o
d irig ir-s e ao re in o de D eu s é ta m b é m a v o lta a o D eus de Isra e l, o reg resso
do filh o p erd id o , tam b ém a v o lta d a c r ia tu ra a o seu C riador.

3 ) P o r isso a a tiv id a d e de J e s u s n ã o e s tá a p e n a s o rie n ta d a p a r a o rein o


q u e h á de vir, m a s ta m b é m e n q u a d ra d a na relação d e a té e n tã o e n tre D eus e
Isra e l. B u ltm a n n via, a ssim com o a escato lo g ia conseqüente, a p e n a s u m pólo, o
re in o que h á de v ir; o lib eralism o a c e n tu a v a a oposição de Je su s fre n te ao
ju d aísm o , m a s v ia n isso a p e n a s u m a ex p ressão d a «religião d a lei», com o
se d iz ia desde Schleierm acher. P a r a Jesus, porém , o o u tro pólo é o cham ado
110 § 8 : 0 chamado acusador ao arrependimento

d e D eus a Isra el, se u m a n d a m e n to e s u a prom issão. Je su s n ã o d á seu s


p re c e ito s a p e n a s em re la ç ã o a o re in o que h á d e v ir, m a s tam b ém com o «Eu,
porém , v o s digo» em a n títe s e à lei. A ssim n ã o relacio n a a s u a a tiv id a d e
sa lv ífic a a p e n a s com o re in o q u e h á de v ir, m a s a p re se n ta -a com o cu m p ri­
m en to d a s p ro fe c ia s e de tip o s v etero testam entários: «A qui h á algo m a io r
do que o tem plo» (M t 1 2 ,6 )! Cada p a r te da a tiv id a d e d e Jesu s quer se r
com preendida a p a r tir da relação com esses dois p ó lo s: a a lia n ç a de D eus
com Isra e l, e o re in o que h á de v ir. J u s ta m e n te n e s ta p o la rid a d e ela se
to m a h is tó ric a e u n iv e rsa lm e n te eficaz, pois, segundo P au lo , n ão so m en te
Isra e l, m a s to d a a h u m a n id a d e e s tá a té o fin a l sob a lei e sob a p ro m issão
f e ita ao s p a tr ia r c a s (R m 1,18-3,20; 4 ). O reino, porém , desde a pásco a,
vem com m u ito m a is certeza, com o o dom ín io daquele que fo i glo rificad o .

§ 8 : O CHAM ADO A C U SA D O R AO A R R E P E N D IM E N T O

Ad I; Hendrik Bolkensteln, W ohitStlgkelt und Armenpflege im vorchrlstllchen A ltertum , 1939:


Joachim Jeremias, Jerusalem zur Z e lt Jesu, 1962’, 101-161; Rudolf Schnackenburg, D ie sittllche-
Botschaft des NT, 1962J; Engebert Neuhãusler, Anspruch und A ntw ort Gottes. Zur Lehre von den
Weisungen Innerhalb der synoptlschen Jesusüberlleferung, 1962; Peter N oll, Jesus und das Gesetz,
1968; Helnz-Dietrlch Wendland, EthlK des NT, 1970, 6-33; M artin Hengel, Elgentum und Relchtum
In der frQhen Klrche. Aspekte elner frühchrlstllchen Sozlalgeschlchte, 1973 (92-96); Robert Koch,
D ie W ertung des Besitzes Im Lukas-Evangellum, Blblica 38 (1957), 151-169; Hans-Joachlm
Degenhardt, Lukas Evangelist der Armen, 1965; Ernst Bammel, ptochos, ThW VI, 894-915; Rudolf
Bultmann, merlmnao, ThW IV , 593-598; Leonhard Goppelt, pelnao, ThW VI, 12-22; Friedrich
Hauck, ploutos, ThW, 316-330; outra literatura cf. ThW VI, 885s. Ad II: J. Jeremias, op. clt.,
265-303; Idem, Theol, 142-150; B lllerbeck II, 647-661; Ernst Haenchen, Matthaus 23, em; Gott
und Mensch, 1965, 29-54; Georg Strecker, Der Weg der Gerechtigkeit, 1966’ , 137-143; Hans-
Frledrlch W eiss, Pharlsalos, ThW IX, 41-45; U lrich W llckens, hypokrltes, ThW V III,558-567.

C o n tra a s lid e ra n ç a s d a sociedade que o cerca, Je su s d irig e u m ai que sig ­


n ific a co n d en ação esc a to ló g ic a : A i d e vós, os rico s! A i de vós, fariseu s, e
a i de vós, e scrib as! Os e v a n g e lista s a c e n tu a m d ife re n te m en te esse ch am ad o
ao a rre p e n d im en to . L u c a s a c e n tu a o ai c o n tra a classe social dom inante,
c o n tra os ricos. A c re sc e n ta à s q u a tro b e m -av en tu ran ças de 6,24-26 q u a tro
a is d irig id o s a o s ricos, a o s fa rto s , a o s q u e rie m e ao s que sã o re sp e ita d o s.
M ateu s, p o r se u tu rn o , d irig e a p a la v ra d e a rre p e n d im en to à s su p e rio re s
classes religiosas. E m se u ev an g elh o a p reg ação p ú b lica de Je su s inicia,
no cap. 5, com a b e m -a v e n tu ran ç a dos e sp iritu a lm e n te p o b res e conclui,
no cap. 23, com o a i d irig id o a o s e scrib as e fariseu s. A o lad o disso M a te u s
m a n té m a s p a la v ra s a c e rb a s c o n tra os ric o s (M t 19,16-30), e L u cas, o ai
d irig id o a o s ju s to s (L c 11,39-52). Im p o rta n te , porém , é o f a to de que o
ch am ad o ao a rrep en d im en to , d irig id o ao s d ois g rupos, a tin g e d e ta l m a n e ira
a s ra íz e s d a ex istê n c ia h u m a n a que, n o fu ndo, todos sã o atin g id o s. P o r isso
podem os a n te c ip a r o s e n tid o d o ch am ad o ao arrep en d im en to , resum indo-o
no títu lo :

I. O ch am ad o a o a rre p e n d im en to , dirigido
c o n tra a c o n fian ça n a p ro p ried ad e

In ic ia re m o s com a s p a la v ra s d a m a té ria ex clu siv a de L ucas, d irig id a c o n tra


os ric o s p o te n ta d o s. O bservarem os, após, o d ito end ereçad o ao ric o ju s to , o
jo v em rico, q u e en co n tram o s n a tra d iç ã o d e M arcos, e concluirem os com a s
I. Chamado ao arrependimento, contra a confiança na propriedade 111

p a la v ra s c o n tra o acúm ulo d e te so u ro s e a preocupação, que e n c o n tra m o s


em Q. D essa m a n e ira a posição de Je s u s f r e n te a o p ro b lem a «rico e pobre»
s u rg irá p a u la tin a m e n te e ev id en ciar-se-á q u e ela a tra v e s s a to d a s a s e s tru ­
tu r a s e a tin g e a todos.

1 ) A co n d enação dos ric o s p o te n ta d o s n a m a té ria exclusiva de L u c a s.

O b serv arem o s p rim e iro a s a firm a ç õ es seg u n d o o te x to red acio n al, d ep o is


p e rg u n ta re m o s pelo que fo i d ito p o r Je su s!
L u c a s tra z , em 6,24, ap ó s o « b em -av en turados vós, os pobres», o « A í
de vós, os ricos». A quem sã o d irig id a s e ssa s p a la v ra s ? A q u estão ex eg ética
é a s e g u in te : S e rá q u e e ssa p a la v ra d irig id a c o n tra os rico s e x p re ssa apenas
o desejo de um a m u dança d a s e s tr u tu r a s so ciais? E s ta se ria a concepção
eb io n ita, q u e se m p re de novo é a v e n ta d a : O rico s e rá condenado p o r s e r
rico e o p o b re se rá sa lv o p o rq u e é p o b re! E s s a in te rp re ta ç ã o eb io n ita é
a fa s ta d a p e la fu n d a m e n ta ç ã o : «Ai de vós, os ricos! p o is receb estes o vosso
consolo». O v erb o apechein d esigna, p ra tic a m e n te, u m a q u ita ç ã o : R ecebeu o
que q u eria. Com esse v erb o é an u n ciad o , em M t 6,2.5.16, aos ju s to s q u e
p ro c u ra m reco n h ecim en to público p o r c a u sa de su a p ied ad e: V ós receb estes
o vosso p rêm io ! A exclam ação n ã o se dirig e, p o rta n to , a quem é rico, m a s
àquele q u e n a d a m a is q u e r do que s e r rico. Q uem se com praz com a su a
riqueza, n a d a m a is re c e b e rá de D eus.
D a m esm a fo rm a o rico é c a ra c teriz a d o , em L c 16,19-31, n a n a r r a tiv a
ex em p la r do h o m em rico e o p o b re L á za ro . E le n ã o é desig n ad o como um
hom em m a u ou de co ração em pedernido. P o r isso B u ltm a n n 355 p ensou que
e ssa n a r r a tiv a s e ria a ú n ic a d e o rig em re a lm e n te eb io n ita no evangelho d e
L ucas. M as ta m b é m a q u i o rico n ã o é sim p lesm en te condenado p o r s e r rico,
m as pelo f a to de v e r a p e n a s a s u a riq u e z a e c o n te n ta r-se com isso. E m
16,25 lh e é d ito : « L em b ra-te d e q u e re c e b e ste o te u bem (n ã o bem , m a s
te u bem ) em t u a vida». E s s e v erb o apelabes corresp o n d e ao apechein em
6,24. E essa c a ra c te rís tic a a tin g e a v e rd a d e ira situ a ç ã o , de m a n e ira m a is
e x a ta do que u m a m o ralização que, m u ita s vezes, se p ro cu ro u in tro d u z ir
n essa n a rra tiv a . P o r o u tro lado, L á z a ro n ã o é salv o p o r s e r pobre. A n a r r a ­
tiv a n ão f a la a p e n a s d a s u a pobreza, m a s tam b ém do se u anseio. E le não
d e se ja a f a r t u r a do rico, m a s e sp e ra p e la s m ig a lh a s d a su a m esa, com o o
filh o p erd id o p e la com ida dos p o rco s (cf. L c 16,21 e 15,16). L á z a ro é o
hom em q u e se e n c o n tra n a e s ta c a zero d a g ló ria h u m an a. D esistiu d e a u x i­
liar-se a si m esm o e to rn o u -se u m q u e esp era, N ão se diz que ele esp e ra
em D eus, m a s é a c e n tu a d o que ele é u m filh o de A b raão . A p a rá b o la a in d a
n ão o c a ra c te riz a de p o b re a s e r co nsiderado b em -av en tu rad o . E la q u e r
ap en a s a p o n ta r o cam in h o q u e lev a a e ssa pobreza, q u e r le v a r à e sta c a
z e ro ; p o is a e sta c a zero co rresp o n d e à s m ã o s vazias, m ão s v azias que D eus
q u e r e n c h e r.”* O ric o a in d a é c a ra c te riz a d o n o exem plo do a g ricu lto r rico,
L c 12,16-21: «Louco, e s ta n o ite t e p e d irã o a t u a alm a», a alm a à qual, há
pouco, a in d a h a v ia a sse g u ra d o tra n q ü ilid a d e (12,19s). L ouco é, seg u n d o o
A T, o hom em que q u e r v iv e r p ra tic a m e n te sem D eus (SI 14,1). O a g ric u lto r
n ão é louco p o r fa z e r se u s cálculos sem o f a to D eus, com o m u ita s vezes
fo i d ito , m a s p o r t e r fe ito o cálculo to d o sob u m p re fix o e rra d o . E ’ louco 156

155. Trad., 221.


156. Cf. ThW VI, 18.
112 § 8: O chamado acusador ao arrependimento

p o r p e n s a r que pode v iv e r com os se u s b ens. E , m esm o assim , ele a p e n a s


fez o q u e o hom em n o rm a lm e n te faz. T am b ém esse exem plo q u e r s e r p a rá ­
bola, i. é, q u e r d e s p e rta r a co m preensão do o u v in te p a ra a a tiv id a d e d e
Jesu s, p a r a a s u a m en sag em do reino. S e rá que o hom em pode s e r lib e rta d o
p o r Je s u s d essa te n ta tiv a n ecessária, m as, em ú ltim a análise, vã, de se g a ­
r a n ti r a si m esm o?
P o d e ria m o s e n c o n tra r u m a o u tra c a ra c te rístic a , de origem eb ionita, n a
locução c e rta m e n te re d acio n al u s a d a p o r L u cas n a s s u a s considerações a re s ­
p e ito do m ordom o in ju sto . E m L c 16,9 e 11 f a la d a «riqueza de o rig em
iníqua». E s s a locução e ra u sa d a , n o s te x to s de Q um ran, p a r a c a ra c te riz a r
to d a a p ro p rie d a d e com o iníqua. H e rb e rt B raun vê em L u cas o m esm o
sig n ific a d o . m L ucas, porém , q u e r a p e n a s d izer que m u ita in iq ü id ad e e stá
re la c io n a d a com a riqueza.
D istrib u in d o e ssa s a firm a ç õ es d a m a té ria exclusiva de L u cas em cam adas
h istó rico -tra d icio n a is, podem os a firm a r de m a n e ira su m á ria : A m a io r p a r te
ev id e n te m e n te é tra d iç ã o a n te rio r a L u cas. M as L u cas n ão pegou essa t r a ­
dição casu alm en te, m a s te n d o em m e n te u m objetivo. Isso é rev elad o p o r
s u a s con sid eraçõ es re d a c io n a is ** e p o r se u s su m ário s a re sp e ito d a com unhão
de bens, n a com unidade p rim itiv a ( A t 2,44s; 4,32.34s). L u cas escreve p a r a
o m u n d o h e le n ista : V ê com o a li tu d o o que ele ch am a de riq u eza o b stró i
o acesso ao novo m u n d o que é tra z id o p o r Jesu s. E n q u a n to o hom em n ã o
p u d e r r o g a r a D eus pelo p ão diário , n ã o ro g a tam b ém p ela v in d a do novo
m undo. M as a tra d iç ã o especial, a d o ta d a ex clu siv am en te p o r L ucas, p arece
t e r sid o tra n s m itid a p o r círcu lo s ju d a ic o -c ristão s d a P a le s tin a que pensavam
de aco rd o com o M ag n ificat, L c l,5 2 s. E s s a s tra d iç õ e s provêm , essencial­
m en te, do pró p rio Jesus, especialm en te a s p a ráb o las. Isso é co n firm ad o pelas
s u a s d eclaraçõ es ra d ic a is so b re a p ro p ried ad e, seg u n d o M arcos e Q.

2 ) A vocação do ju s to rico ao discipulado, conform e M c 10,17-27.

E s s a p eríco p e em s u a p rim e ira p a rte , 10,17-22, é u m a n a r r a tiv a do d is­


cipulad o . O rico n ã o é co n fro n tad o , com o o c o rre ra a té aqui, com o rein o que
h á de v ir, m a s com o ch am ad o de Je s u s ao discipulado. M as o ensino aos
d iscíp u lo s que se segue, em 10,25 f a la do e n tr a r no re in o : A v o lta em d ireção
a o rein o concretiza-se, p o rta n to , n a p a rtic ip a ç ão do discipulado.
O escopo d essa n a rra tiv a de discipulado se evidencia n itid a m e n te se a
co m p a ra rm o s com a tra d iç ã o de M arcos a resp eito d a vocação do publicano
L ev i (M c 2,14). O rico vem esp o n tan eam en te, como N icodem os ( J o 3 ), a
Je su s, e Je s u s lig a o seu cham ado ao discipulado a condições; L evi, porém ,
é buscado, p o r in ic ia tiv a de Je su s, sem que s e ja c ita d a u m a condição. O s
dois re p re se n ta m p o n to s de p a r tid a o p o sto s; L evi é um «pecador», o rico é,
seg u n d o a term in o lo g ia p a le stin a , u m «justo». E le pode d izer a resp eito dos
m an d a m e n to s d a se g u n d a tá b u a , segundo M ateus a té a re sp e ito do m a n d a ­
m e n to do am o r ao p ró x im o : «Tudo isso te n h o observado desde a m in h a
ju v e n tu d e » . Je s u s n ã o põe isso em dúvida, ap e n a s lhe d iz: «Só u m a coisa
te fa lta , v en d e o que te n s e segue-m e!» Q ual o sig n ificad o d essa ex igência?
E la n ã o descobre um f a to r q u e a in d a e s te ja fa lta n d o , m as a p o n ta n o v a­
m e n te p a r a o p re fix o que d e te rm in a to d a a a titu d e . M ateus fo rm u la de 1578

157. R adikalism us IX, 74, n o ta 3, c o n tra isso N euhausler, op. cit., 94, n o ta 184
158. Lc 5,28 vai além d e Mc, dizendo a respeito d e L evi: «Ele abandonou tudo»; cí. 16,9.11 e. o.
I. Chamado ao arrependimento, contra a confiança na propriedade 113

m an eira p o sitiv a : «Q ueres s e r p e r f e i t o ...» . P e rfe ito , teleios, n ão é p a ra M a­


te u s quem , n o se n tid o g rego, a lcan ça o m ais a lto deg rau , m as quem , segundo
o sig n ificad o vetero testam en tário . se em p enha to ta lm e n te . P o r isso n ão é
possível com preender, em M ateus, a in d icação como «conselho evangélico»
p a ra aqueles que querem a lc a n ç a r o m a is a lto g ra u de perfeição. Q ual, pois,
é o sig n ific a d o d essa condição? E la ex p ressa, de m a n e ira c o n c re ta p a r a essa
situ ação , o que c o n sta n te m e n te fa z p a r te do discipulado. O discipulado se­
p a ra -n o s de tu d o o que e x is tia a té a g o ra . Isso n ã o é cita d o como condição
p a ra L evi e p a r a os p escad o res ju n to a o lago, e s tá contido n a o fe rta do
discipulado. M as aqui e s ta im p licân cia é e x p ressa como n o s d ito s a resp eito
do discipulado. Isso é n ecessário n essa situ ação , com o o d e m o n stra a reação
do rico. E n q u a n to que L evi a b a n d o n a seu s b en s in certos, o rico n ã o consegue
se p a ra r-se d a riq u eza que ju lg a s e r u m a reco m p en sa de su a ju stiç a . A b ando­
n an d o a riqueza, e s ta ria re n u n c ia n d o ta m b ém à su a ju stiç a . P a r a ele a
v en d a dos b ens n ã o sig n ific a ria u m esforço especial, m a s realização , con­
c retiz a çã o a tu a liz a d a do discipulado. N e s te se n tid o a in stru ç ã o «vende o que
tens» n ão é u m a exig ên cia de v a lid a d e g eral, m as u m m an d am en to a tu a l
n essa situ a ç ã o — e essa situ a ç ã o p ode v o ltar.
O diálogo que se seg u e com os discípulos esclarece isso a in d a m elhor,
Mc 10.23-27; n ã o im p o rta o nde esses d ito s te n h a m sid o p ro n u n ciad o s orig i­
nalm en te, n a a tiv id a d e de Je su s. M c 10,25 p a r : « E ’ m a is fá c il p a s s a r um
cam elo pelo olho d a ag u lh a, do que e n tr a r u m rico no rein o de D eus».
E s s a im agem p a ra d o x a l n ã o p ode s e r sim p lificad a p o r m eio de a rtifíc io s
filológicos; a fig u ra fa la do olho de u m a a g u lh a, e n ã o de u m a p o r ta d a
cid ad e; de um cam elo, e n ão, de u m a a m a rra de navio. E ’ re a lm e n te im ­
possível q u e u m rico e n tre n o re in o d e D eus — u m rico que n ã o n ecessita
de D eus o u q u e o tra n s fo rm a n o se u a u x ilia r que reco m p en sa s u a ju stiç a .
E ssa p a la v ra a tin g e a to d o s; ta m b é m os discípulos se a ssu sta m e p e rg u n ­
ta m : « E n tão , quem pode s e r salvo?» A p en as os po b res que se e n tre g a m
to ta lm e n te a D eus! E quem consegue fa z e r isso? A re sp o sta so a com o um a
sen te n ç a g en érica, Mc 10,27: « P a ra os h om ens é im possível, m a s n ão p a ra
D eus; p o is p a r a D eus tu d o é possível». C om o p o ssib ilita D eus isso? Je su s
oferece o discipulado, e quem o seg u e n ã o diz que se decidiu, m a s diz que
ele «encontrou» (M t 13,44s) a p é ro la preciosa, que D eus lhe revelou o que
e sta v a escondido (M t 11,25).
O s d ito s de Q m o stra m c la ra m e n te como a p a la v ra d e Je su s c o n tra os
rico s a tin g e a todos.

3) O s d ito s de Q a re sp e ito do acúm ulo de riq u ezas e d as preocupações


(M t 6,19-34 p a r L c 12,16-31).

Q uando Je su s diz em M t 6,19-21: «N ão acum uleis tesouros p a ra vós sobre


a t e r r a . . . » , é n ecessário que observem os d u as co isas: Je su s n ã o proíbe, como
os essênios, a posse de b ens te rre n o s, m a s o acúm ulo. P o r o u tro lad o não
fa la d a p ro p rie d a d e , m as de teso u ro s. T eso u ro s são to d a s a q u elas coisas
n a s q u ais o hom em d e p o sita su a confiança, s u a seg u ran ça, seu consolo.
P o r isso a preocupação co rresp o n d e ao a c u m u la r tesouros. A preocupação,
pro ib id a p o r Je s u s segundo M t 6,25-34, é a te n ta tiv a p ro v o cad a pelo m edo
de g a r a n tir a ex istê n c ia p o r m eio de posses. P a r a lib e rta r o hom em dessa
preocupação, Je su s a p o n ta p rim e iro p a r a a b o n d ad e e fid elid ad e do C riad o r
114 § 8 : 0 chamado acusador ao arrependimento

(§ 7,11,3), p a r a e n tã o a p o n ta r p a r a o n o vo reino de D eu s: «B uscai, em


p rim e iro lu g a r, o re in o de D e u s . . . , e to d a s e sta s coisas vos se rã o ac re s­
cen tad as» (M t 6,33 p a r ) . A p ro ib ição do acúm ulo de te so u ro s bem com o
d a p reo cu p ação , p o r conseguinte, q u e r c h a m a r a to d o s ao arrep en d im en to
n o re in o d e D eus. E s s e arre p e n d im en to se realiza, com o vim os, a tra v é s do
discipulado.

4) O que p ode s e r deduzido de to d a s essas tra d iç õ e s a resp eito d a posi­


ção de J e s u s f re n te a «rico e p o b re» ?

a ) A posição de Je su s d iv erg e ta m b ém n essa q uestão, fu n d a m e n ta l­


m en te, d a s p o ssib ilid ad es desen v o lv id as pelo seu am biente.

1 ) O rab in ism o fa risa ico su b o rd in o u a q u estão d a p ro p ried ad e ao seu


p rin cíp io de ju stiç a . O ju s to deve se a le g ra r com su a p ro p ried ad e, tam b ém
com su a riq u eza, com o reco m p en sa p e la s u a ju stiç a . C ondenados sã o ap en as
os in ju sto s, q u e n ão ag em seg u n d o a lei. C ondenados são os rico s que ad q u i­
rem e u sam s u a p ro p rie d a d e de m a n e ira in ju s ta ; que, p. ex., n ã o dão es­
m o las devidam ente. “

2 ) Com b a se n a s ex p eriên cias a m a rg a s tid a s com a classe relisriosa


d o m in an te, vê-se, em Q um ran, com o a g a n â n c ia p ela p ro p rie d a d e se ap o d era
d o s h o m en s e d ific u lta a re la ç ã o em a m o r ao próxim o. P ro c u ra m lib e rta r-se
disso, in stitu c io n a lm e n te , p o r m eio de u m a n o v a e s tru tu ra social. Q uem e n tra
n a o rdem e n tre g a su a s posses e seu s g a n h o s (1 QS l , l l s s ) . U m a econom ia
co le tiv a lib e rta os m em b ro s d a riqu eza, que é essencialm ente in ju sta , de
m a n e ira q u e p o ssam p re p a ra r-s e p a r a a im in en te g u e rra s a n ta c o n tra os
in ju sto s.

b) J esu s to m a o u tro cam inho q u e am bos, pois vê o p o nto de referên cia


de m a n e ira d iversa.

1 ) T am b ém p a r a ele a m edida, a prin cípio, é a lei. N e ste se n tid o é fo r­


m u la d a a p a la v ra de L c 16,29 d ita ao s irm ão s do hom em ric o : «E les tê m
M oisés e os p ro fe ta s ; ouçam -nos». M as a lei p a r a ele n ão é u m a su m a de
reg u la m e n ta çõ e s que p o ssib ilitam u m a e x istên cia b u rg u e sa ou que a elim i­
n a m rad icalm en te. P a r a ele a lei e s tá re su m id a n o duplo m an d am en to do
am o r, M c 12,28-31. M as o in te re s s a n te é que, aqui, a m ed id a d a d a n ã o é a
a titu d e do ric o p a r a com o se u p róxim o, m a s o prim eiro m a n d a m en to . P o r
tr á s d a s p a rá b o la s de L u c a s e s ta v a a p e rg u n ta d e que p re te n d e v iv e r o
h om em ; en ten d e-se a si m esm o com o c r ia tu ra ou c o n te n ta -se com os teso u ro s
e a se g u ra n ç a p o r eles p ro p o rcio n ad a. A a cu sação f e ita te m s u a co rresp o n ­
d ên c ia m a is p ró x im a n a p ro fe c ia v etero testam entária: «Ai dos que vivem
sem receio n o s m o n te s d e S a m a ria !» «B uscai o S en h o r e v iv ereis!» (A m
6 ,1 ; 5 ,4 ).

2 ) P o r t r á s d a s p a rá b o la s n ão está, n o e n ta n to , a p e n a s o p rim eiro m a n ­


dam en to , m a s o reino que v e m com a a tiv id a d e de Jesu s. Q uem ag e com o o
a g ric u lto r rico, esp ecialm en te ag o ra, é u m louco; pois ao s que b u scam o1 5960
159. B illerb. I, 666.818s.826ss.
160. B raun, R adikalism us I, 36s; idem, Q um ran II, 155ss.
II. O chamado ao arrependimento que condena os justos 115

reino de D eus, s e r á a c re sc en ta d o o que ele, em vão, p ro c u ra g a ra n tir. O «ai»


dirigido ao s ric o s é a a n títe s e ao « b em -aventurados» dirig id o ao s pobres
que h e rd a rã o o reino. A g o ra v a le a a lte rn a tiv a to ta l, M t 6,24 p a r : «N ão
podeis s e rv ir a D eus e à s riq u ezas!»

c) D essa m a n e ira se evid en cia a in te n ção q u e rig m á tic a d a s p a la v ra s de


L u c a s d irig id a s a o s ric o s: A co n d en ação dos «ricos» a tin g e a to d o s; pois
to do s q uerem g a r a n tir s u a ex istên cia. N o fu ndo, a condenação é u m cham ado
ao arrep en d im en to . C a d a «rico» deve co m p reender a o p o rtu n id a d e oferecid a
p o r J e s u s e, com o «pobre», t e r a p a r te n o re in o que sa c ia to d a s a s necessidades.

d ) A tra d iç ã o de M arco s a re sp e ito do «jovem rico» (M c 10,17-22) a in d a


evid en cia m a is u m a co isa: R iq u eza e ju s tiç a sã o a so m a d a oposição ao ch a ­
m ad o ao arre p e n d im en to p ro clam ad o p o r Jesu s. E v id en cia tam b ém que liv re
to rn a -s e a p e n a s aq uele a quem Je s u s consegue t o m a r seu discípulo. P o is n a
b u sca d a riq u e z a e stá , seg u n d o o d ito de Q, u m a te n ta tiv a id ó la tra de o b te r
a v id a p o r m eios p ró p rio s, com o m edo de p erd ê-la p o r c a u sa d a s coisas que
n ã o se possui.
A ssim Je su s n ã o quer, com o os fa rise u s, su b m e te r a p ro p rie d a d e à ju s ­
tiç a , nem , com o os essênios, su sp en d ê-la p o r m eio d e u m a n o v a e s tr u tu r a
social. E le põe a ex istê n c ia so b re u m novo fu n d am en to , so bre o rein o esca-
tológico de D eu s q u e vem em s u a ativ id a d e , so b re o discipulado.
O cham ad o ao arrep en d im en to , d irig id o ao s «ricos», corresp o n d e àquele
o u tro d irig id o a o s ju s to s ; dele pod erem o s desenvolver, aqui, a p e n a s a p ri­
m eira p a rte , que e x p re ssa a condenação.

II. O chamado ao arrependimento que condena os justos


N o cap ítu lo 23, M ateu s com pila u m discurso dirig id o ao s «escribas e
farise u s» . A p re se n ta , em 23,13-36, se te exclam ações que, com ap e n a s u m a ex­
ceção (v. 16 ), in iciam com a fó rm u la : «Ai de vós, escrib as e fariseu s, hipó­
c rita s» (2 3 ,1 3 .[14 ].1 5 .2 3 .2 5 .2 7 .2 9 ).161162 E m L c 11,39-52, en co n tram o s seis ex­
clam ações co rresp o n d en tes, d irig id a s a o s fa rise u s e ao s escribas. E s s a divisão,
p ro v in d a p ro v av elm en te de Q, co rresp o n d e à situ a ç ã o de J e su s; pois am bos
os g ru p o s devem s e r d istin g u id o s. Os fa riseu s defen d iam a lei n a p rá tic a ; a
eles são d irig id a s a s tr ê s exclam açõ es em 11,39-44. O s escribas, p o r seu tu rn o ,
d efen d iam a lei n o en sin o ; a eles são d irig id a s as tr ê s exclam ações em 11,
45-52 (cf. 20,46s). O tr a ta m e n to «hip ó critas» n ã o se e n c o n tra em L u c a s; é
in te rp re ta ç ã o re d acio n al de M ateus. A fó rm u la «escribas e fariseu s» co rres­
pon d e à situ a ç ã o d a P a le s tin a a p ó s o a n o 70, n a q u al escrib as de o rien tação
fa ris a ic a re o rg a n iz a ra m o ju d aísm o , a fa s ta n d o os ju d aico -cristão s. A tra d iç ã o
de M arcos a p re se n ta , em 12,37b-40 p a r L c 20,45s, u m a a d v e rtê n c ia fre n te
ao s escribas, que p o r M ateu s é in clu íd a n a in tro d u ç ã o do cap ítu lo 23.
A a c u sação d irig id a c o n tra os re p re s e n ta n te s teó rico s e p rá tic o s d a lei,
p ro v av elm en te é d a a u to ria de Jesu s, q u a n to a seu c e rn e .1® Seu conteúdo
pode se r a q u ila ta d o c la ra m e n te com o au x ílio do conceito «hipócrita» u sad o
p o r M ateus. E s te term o , que en c o n tra m o s tre z e vezes em M ateus, ap en as

161. O riginalm ente as acusações, em 23,1-13.16-22.29-36, são d irig id as aos escribas, em


23,23-28 e talvez 23,15, aos fariseu s (cf. Jerem ias, Theol., 144).
162. D iscussão de G rundm ann, T h H K Mt, 482, n o ta 2.
116 § 8: O chamado acusador ao arrependimento

uma vez em M arcos e tr ê s vezes em L ucas, n ã o te m eq u iv alen te hebraico.


P o r isso te m que s e r explicado a p a r tir do grego. O h y p o k ritê s o rig in a lm e n te
é o a to r. O a to r re p re s e n ta a lg o d ife re n te do que ele re alm en te é. O hipó­
c rita fa z o m esm o sem que o a d m ita p e ra n te si p ró p rio e p e ra n te terceiro s.
R ealm en te, e ssa s acusações desv en d am u m a d iscrep ân cia e n tre se r e p arecer,
e isso em tr ê s se n tid o s:

1) Segundo L c 11,46 p a r M t 23,4, os escrib as so b re c a rreg a m o hom em


com fa rd o s pesados, m a s eles p ró p rio s n ã o m ovem um dedo. E n tre en sin a­
m en to e v iv ên cia h á u m h ia to . A in te n ç ã o de Jesu s, n essa a cu sação em si
tã o com um , é ex p licad a p o r M ateu s em d u as fra se s re tó ric a s e x a g e ra d as
to m a d a s d a tra d iç ã o . M t 23,3: « F azei tu d o q u an to eles (o s e scrib as) vos
disserem ,- p o rém n ão os im iteis n a s su a s ob ras!» Se tom ássem os essa fra se
ao p é d a le tra , ela e s ta r ia o b rig an d o os discípulos de Je su s a se g u ir a halaká
rab ín ic a . M as essa o ração p ro v av elm en te n u n ca te v e o u tro se n tid o que o
retó ric o . Com u m a ên fase p a ra d o x a q u e r a c e n tu a r: Je su s n ão se in te re ssa
p o r u m a d iscussão so b re a in te rp re ta ç ã o d a lei, m as p e la a titu d e . A in tenção
é a m esm a em M t 23,23b p a r L c 11,42b: «Devíeis, porém , fa z e r e sta s coisas
(o s g ra n d e s m a n d a m e n to s), sem o m itir a q u elas (os pequenos m an d am en to s
cerim o n iais)» . P a r a M ateus, ta m b é m essa in stru ç ã o é ex agero retó rico , m as
ela pode s e r o riu n d a d a tra d iç ã o de u m a com unidade ju d a ic o -c ristã que
em p re g a v a a lei d essa m a n e ir a .163 A tra v é s dessas fra s e s re tó ric a s e x a g e ra ­
das, a d iv erg ên cia e x iste n te e n tre te o ria e p rá tic a é p o s ta a descoberto de
m a n e ira que n ã o m ais se p ode a c e itá -la in d ife re n te m en te com o alg o c o rri­
queiro.
2 ) M ais longe v a i n e ssa d ireção ta m b é m a seg u n d a acu sação : Z elam p ela
lei, m a s seu zelo tem , no fundo, a p e n a s a fin alid ad e de contornar a lei. A
c a su ístic a d os e scrib as p re te n d e , com u m a p ersp icácia sem lim ites, fa z e r v a ­
le r a lei em to d a s a s situ açõ es e p ro te g ê -la com o p o r um m u ro ; m as, n a re a ­
lidade, esse em penho serv e p a r a tra n s g re d ir a lei (M t 23,16-22 S ; cf. Mc
7,6-13 p a r M t). A ssim os fa ris e u s se en g an am a si e ao s ou tro s, p o r cum ­
p rire m zelo sam en te a s m en o res e m ín im as leis, de m odo que os m an d am en to s
m a io re s e c e n tra is fic a m de lado (M t 23,23s.25s p a r L c ) : «D ais o dízim o
d a h o rte lã , do en d ro e do com inho e d eix ais de lad o o m a is im p o rta n te n a
lei, a ju stiç a , a m ise ric ó rd ia e a fé». C oam m o sq u ito s e engolem cam elos!
(M t 23,24 S ).
3 ) A te rc e ira acu sação te m a se g u in te in ten ção : E m todo seu zelo, em
ú ltim a an álise, n ão se in te re ssa m p o r D eus, m a s pelo próprio p restíg io : Os
esc rib a s g o zam a g ló ria q u e lhes é a trib u íd a p o r cau sa de seu zelo p ela lei
(M c 12,38s p a r M t 23,6 s; p a r L c 20,46), e os fa rise u s gozam a consideração
que tê m n a sociedade e que lh es é a trib u íd a p o r cau sa de su a fid elid ad e à
lei (M t 23,5 S, cf. 6,1-18 S ). A eles é d ito o m esm o que aos rico s em Lc
6, 24, apechousin, j á re ceb eram o que queriam , de D eus n a d a m ais receb erão
(M t 6,2.5.16). N e ssa m a n e ira de m a n ip u la r a lei p a r a o p ró p rio pro v eito é
que re sid e a s u a h ip o crisia e o seu dilem a. A lei q u e r to m á-lo s a serviço
de D eus, e eles to m a m a lei a seu serviço. A lei n ã o é a p e n a s d eix ad a de
lad o ou tra n s g re d id a aq u i e ali, abusa-se dela com o um todo e e m tudo,
tam b ém e ju s ta m e n te a tra v é s do cu m p rim ento de o rd en s isoladas. O hom em
p o r m eio d a lei p ro c u ra g a n h a r u m a posição p ró p ria.

163. Quanto à relação de tradição e redação em Mt 23, cf. Strecker, op. cit., 137-141.
Nota preliminar referente ao conceito «lei» 117
E s s a in co m p etên cia to ta l to m a co m preensível a in ten ção p rin cip al de
to d a s e ssa s acu saçõ es: E la s são g e ra is! N ã o é d ito que t a l in com petência
e x is tia tam b ém e n tre os fa rise u s, ela a fe ta a to d o s: «Os eseribas», «os
farise u s» fa lh a m , n a te o ria e n a p rá tic a , f r e n te à le i! ”* E s s a a firm a ç ão ge­
n e ra liz a d a p ressu p õ e q u e a fa lh a é forçosa. A tr ip la d iscrep ân cia n ã o p ro ­
vém de um a to de v o n ta d e su b jetiv o , m as é co n d icionada inconsciente­
m en te. Os fa ris e u s são d ife re n te s n ã o so m en te do que querem parecer, m a s
ta m b é m do q u e querem ser. T ra ta -s e de u m a h ip o crisia não su b jetiv a, m as
o b je tiv a , com o o d em o n stro u S c h n ie w in d . “ P o d em e x is tir n a sociedade só
se re p re se n ta re m seu p ap el de a to re s. Se tra d u z irm o s a s acusações de Je su s
p a r a u m a a n tro p o lo g ia teológica, terem o s, p asso a passo, a s afirm açõ es pau-
lin a s a re sp e ito do hom em sob a lei, a té R m 7,15-24.
A b ase p a r a e ssa s afirm açõ es, Je s u s a consegue n a d iscussão c o n c re ta
com os re p re s e n ta n te s d a lei, ao d iscu tir, p. ex., a resp eito do m an d a m e n to
d o sáb ad o , d as p rescriçõ es d a p u re z a ou do serv iço no tem plo. ** A discussão
d e m o n stra sem p re de novo q u e a s re açõ es e a s arg u m e n ta ç õ es n ão são indi­
v id u a is e casuais, m a s b ásicas e n ecessárias. D esse m odo su rg e a posição
d e Je s u s f re n te à g ra n d e z a que d e te rm in a a v id a de seu am biente, a lei.

§ 9 : A PO SIÇÃO D E JE S U S F R E N T E À L E I COMO NORM A

W alter Gutbrod, nomos, ThW IV 11942], 1029-1057; Hans Hübner, Das Gesetz in der synoptischen
Tradition, 1973 (L it!]; W alter Zim m erli, Das Gesetz im AT, ThLZ (I960], 481-498; idem, Das Gesetz
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Christian Era l. ll, Cambridge 1927 (1966u); W erner Georg KOmmel, Jesus und der iildische
Traditionsgedanke, ZNW 33 (1934), 105-130; Hans Joachim Schoeps, Aus fm hchristilcher Zeit,
1950, 212-220: Jesus und das (udlsche Gesetz; Herbert Braun, Spãtjüdisch-hãretlscher und
friih c ristlic h er Radikalism us l. ll, 1957; ad 11,1: Rudolf Meyer-Friedrich Hauck, katharos, ThW
III, 416-433; Braun, Radikalismus II, 64-69; v.Rad, Theol. H, 285-293; R o lf Rendtorff-Eduard
Lohse, Rein und Unrein, RGG3 V, 942ss; — ad 11,2: Billerbeck I, 610-670; Eduard Lohse, sabbaton,
ThW V III, 1-34; W illy Rordorf, Der Sonntag, esp. p. 55-79; Jürgen Roioff, Das Kerygma und der
irdische Jesus, 1970, 51-88; — ad 11,3: G ottlob Schrenk, hieron, ThW III, 232-245; Braun, Radikalismus
II, 62-64; B ertil Gartner, The Temple and the Community in Qumran and the New Testament,
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An exegetical Study of Jesus and the Law in M atthew w ith Emphasis on 5:17-48, Diss. Hamburg
1967; Wolfgang Trilling , Das wahre Israel, 1964’ 167-186; Jeremias, Theol, 87-89.240-242; Gerhard
Barth, Das Gesetzesverstandnis des Evangelisten Matthaus, em G.Bornkamm, G.Barth, H.J.Held,
Oberlieferung und Ausiegung im MtEv, 1964‘; M.Jack Suggs, Wisdom Christology and Law in
M atthew 's Gospel, 1970.

N o ta p relim in a r re fe re n te ao conceito <tleh:

N o p re se n te p a rá g ra fo p e rg u n ta re m o s p ela lei como norm a, i. é, pelos


m a n d a m e n to s d a lei, e n ão p o r s u a o rdem de g raça. N ão poderem os in tro - 6415
164. Essa generalização não foi introduzida pela redação de Mateus, mesmo que ela tenha
tipificado «os fariseus» intensamente (contra Grundmann, ThHK Mt, 482, nota 2, e. o.).
165. NTD Mt, 77.231.
166. Falta, no entanto — o que não é casual —, a discussão direta com o clero, que era
118 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

d u z ir in o p in ad am en te nosso conceito de lei. A s concepções que co ntem pora-


n eam e n te lig am o s ao conceito «lei» fo ra m fo rm a d a s p o r K a n t, p e la R efo rm a
e p o r P aulo. Q ual o conceito de lei de J e su s?

1. A teologia do A T de G erhard v o n R a d conclui, conscientem ente, com


u m p a rá g ra fo a re sp e ito d a lei. N ele c o n sta ta m o s o se g u in te : O A T conhece
ex ig ên cias d a v o n ta d e d iv in a sob d iv e rsa s fo rm a s e in te rp re ta çõ e s, m as n ão
conhece o conceito «a lei», com o designação co letiva p a ra u m a g ra n d e z a
definida.

2. P o r o u tro lado, p a ra o ju d a ísm o da época de Jesus, Tora é o te rm o


d o m in an te e n tre a s m u ita s d esignações com a s qu ais o A T descreve as m a ­
n ife sta ç õ e s d a v o n ta d e de D eus. E s s e uso é p re p a ra d o pelo livro de D eute-
ronôm io, q u e se d esig n a a si m esm o de sep her ha torah. E n c o n tra m o -lo pela
p rim e ira vez n a O b ra C ro n ística, 2C r 23,18 etc., on d e o P e n ta te u c o é ch a ­
m ad o de « T ora de M oisés». O te rm o h eb raico torah, usad o dessa m an eira,
é tra d u z id o p ela L X X com h o nom os. A L X X tam b ém a p re s e n ta essa t r a ­
dução em p a ssa g e n s m a is a n tig a s e que tê m o u tro sentido.
N a lite r a tu r a ju d a ic a d a época de Jesu s, ho no m o s d esig n a o ra fo rm al­
m e n te o P e n ta te u c o , o ra seu conteúdo, a lei m osaica. T o d a a lite r a tu r a ju ­
d aic a concorda, a p e s a r d a s d iv erg ên cias e x iste n te s n a s d iv ersas linhas, que,
n a posição que se to m a f re n te à T o ra, se decide se um indivíduo se con­
fe ss a a D eu s e ao ju d aísm o , se decide o d estin o do m undo.

3. O co n teú d o da Tora, em to m o do q u al tu d o g ira , os seu s m a n d a ­


m en to s, sã o v isto s de d iv e rsa s m a n e ira s n o s p a rtid o s ju d eu s. O rab in ism o
farisa ic o , q u e j á d o m in av a a s in a g o g a n o s d ia s de Jesu s, vê-o com o u m a
su m a de o rd en s e p roibições q u e podem s e r p ra tic a d a s sem m a io re s p ro ­
blem as. N ã o é f e ita n en h u m a d iferen ciação e n tre m an d am en to s ético s e cúlti-
cos ou ritu a is . Tem -se, ao todo, como o d em o n stra B illerbeck I, 900 s, 613
m an d am en to s, (n o g reg o entolai, n o rab in ism o m iz w o t), ou se ja , 248 ord en s
e 365 proibições.
C a d a u m desses m a n d a m e n to s é envolvido, com o p o r «um m uro» (A b o th
3,13), p o r u m a sé rie de indicações c a su ísticas q u a n to ao seu uso. E ssa s
indicações, desenv o lv id as e tra n s m itid a s pelos rab in o s, são c h am ad as de
H ala ká (h a la k a — c o m p o rta m e n to ); a H a la k á pode s e r ta n to a decisão ju r í­
dica iso lad a, q u a n to o seu todo, o d ireito . H a la k á n ã o é ap en as a in te rp re ­
ta ç ã o d a T o ra , m a s tam b ém d ire ito co n su etu d in ário , que é fu n d am en tad o
p o ste rio rm e n te n a T o ra . E ’ tra n s m itid a o ralm ente, com o tra d iç ã o o b rig a tó ria
n a sucessão rab ín ica, e co m p lem en tad a c o n tin u am en te p o r o u tra s d eterm i­
nações. A p en as p o r v o lta de 200 dC, a H a la k á foi fix a d a p o r e scrito n a
M ishná ( = tr a d i ç ã o ) .”1

4. A p e rg u n ta p ela posição de Je s u s f re n te à lei se to m a co n c re ta ap en as


quan d o se v ê que, no ju d aísm o , h á H a la k á e T o ra lad o a lado. O nde com eça

central para o movimento essênio. Não é dirigido um «ai» contra os sacerdotes como contra
os escribas e os fariseus. Se Jeremias, Theol., 142-146, equipara a discussão com os tr ê s
grupos, essa equiparação não está de acordo com a tradição a respeito de Jesus. A discussão
de Jesus com Israel concentrou-se nos representantes da lei, não somente por t e r ocorrido
principalmente na Galiléia, mas porque, para ele, a vida depende do acordo com a vontade
de Deus (cf. Mc 10,17ss par).
167. Hermann-Ludwig Strack, Einleitung in Talmud und Midras, 1930s, 5-23; Chanoch-
Albeck, Einfiihrung in die Mischna, 1970.
I. A posição de Jesus frente à Halaká 119

a c rític a de Je s u s a o conceito ju d a ic o de lei? K ü m m e lm a firm a : Je su s


e n tro u em co n flito com os e scrib as p o r n ã o in te rp re ta r a lei conform e a
H ala k á , con fo rm e a tra d iç ã o d e in te rp re ta ç ã o em v ig o r. E s ta ex p licação
e s tá c o rre ta n a negação, m a s n ã o a b ra n g e tu d o , n ã o a b ra n g e especialm ente
o m o tiv o p rin c ip a l do conflito. Se o c o n flito se c o n cen trasse a p e n a s n a
discu ssão em to m o d a H a la ká , J e s u s assem elhar-se-ia, n esse sen tid o , ao M es­
t r e d a J u s tiç a de Q u m ran . O M e stre d a J u s tiç a e n tro u em c o n flito com a
lin h a do m in an te, p o r in te r p r e ta r a lei de m a n e ira m a is ra d ic a l. J á B u ltm a n n ”
d e fin ira a relação de J e s u s p a r a com a lei com a fó rm u la : J e su s rad icalizo u a lei
em su a s exigências. E s s a te s e levou se u d iscípulo H e rb e rt B ra u n a escrev er a
an á lise « S p ã tjü d isc h -h â re tisc h er u n d frü h c h ristlic h e r R ad ikalism us» (1957),
após a d e sc o b e rta dos te x to s de Q um ran.
Se quiserm os, p o rta n to , co m p reen d er a posição de Je su s fre n te à lei,
tere m o s q u e e x p lic a r p rim e iro a posição de J e su s f re n te a o lad o -a-lad o de
T ora e H a la ká .

I. A posição d e J e s u s f r e n te à H a la k á

O ra b in ism o fa ris a ic o c o n fere à H a la ká a m esm a a u to rid a d e que à p ró p ria


T o ra . S eg u n d o b .T .N id d a 45a, R a b i A k ib a en sin a : «A ssim com o to d a a
T o ra é lei do S inai, d irig id a a M oisés, a ssim tam b ém u m a p eq u en a sen ten ça
d o u trin á ria é u m a s e n te n ç a do S inai, d irig id a a M oisés». P a r a fu n d a m e n ta r
h isto ric a m e n te essa ig u ald ad e, a H a la k á é a p re se n ta d a com o u m a tra d iç ã o
o ra l se c re ta , p ro v e n ie n te de M o isé s.1™ Jesu s, porém , a p o n ta p a r a a d iferen ça
fu n d a m e n ta l q u e e x iste e n tre T o ra e H a la k á. F a z isso de u m a m a n e ira que
choca o seu am b ien te.

1 ) P o d em o s v e r isso, prim eiro , n a discussão a re sp e ito do la v a r a s m ãos,


Mc 7,1-8, e n a p a la v ra que se segue, Mc 7,9-13, a re sp e ito do Corbã. M ateu s
u n iu esses dois tre c h o s em um só, M t 15,1-9; n ã o os e n co n tram o s em L ucas,
talv e z p o r tr a ta r e m de u m assu n to e stra n h o a c ristã o s não -ju d eu s. Segundo
B u ltm a n n ,m esses dois tre c h o s p ro v êm d a com unidade p a lestin a. M as a p e r­
g u n ta — o u tr a coisa é a fo rm u la ç ã o d a re sp o sta — n ã o te m seu p o n to de
p a rtid a n a situ a ç ã o d a com unidade p a le stin a , m a s n a situ a ç ã o de Jesu s. E r a
co tid ian o o f a to de a lg u m a s p esso as do A m ha-arez n ã o ob serv arem o r ito
do la v a -m ã o s; esse fa to , n o e n ta n to , se to m a pro b lem ático q u an d o Jesu s,
com o ra b in o e p ro fe ta , p ro p o sita d a m e n te d eix a esse r ito de lado. E essa fo i
sem d ú v id a u m a in ic ia tiv a su a, e n ã o d a ig re ja p a le stin a (§ 9,11,1). P o r
isso a p e rg u n ta é o p o rtu n a a p e n a s n a situ a ç ã o de J e su s: « P o r que n ão
an d a m os te u s discípulos de co n fo rm id ad e com a tra d iç ã o dos anciãos, m as
com em o p ão com m ão s com uns (M c 7 ,5)?» «A tra d iç ã o dos anciãos» é a
H a la k á ! «Os anciãos» o u «os p resb ítero s» são, aqui, os m e stre s do passado,
que tam b ém e ra m ch am ad o s d e «pais» . m S egundo a H a laká, dever-se-ia lim ­
p a r a s m ão s a n te s d a refeição, p elo m en o s à m o d a le v ític a p o r m eio d e asper-
são, com o o ex p lica Mc 7,3 a o s le ito re s n ão -ju d eu s. “ P o r que J e s u s lev a 16897023

168. Op. c it , 125ss.


169. Theol., § 2,3.
170. A both 1,1.
171. Trad., 15s.
172. Billerb. I, 691s.918s.
173. Billerb. I, 695-704.
120 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

seu s discípulos a o m itir o sten siv am en te esse rito ? N ão fa z isso p o r se r


lib eral! A re s p o s ta é d a d a em Mc 7,6s, a tra v é s do cita d o de I s 29,13. E s ta
H ala ká é «preceito de hom ens» (7,6 p a r ) ou « trad ição dos hom ens» (7 ,8).
Isso sig n ific a : E s s a p re sc riç ã o vem de hom ens, n ão de D eus, ela ch eg a a
se r c o n trá ria à su a v o ntade. E m M c 7,9-13 p a r M t é m o strad o , com b ase
n a p re sc riç ã o d o Corbã, que a H a la k á e s tá em desaco rd o com o m an d am en to
de D eus. S egundo a H alaká, o filh o pode p r e s ta r d ia n te de seu s p a is o se­
g u in te ju ra m e n to : «A quilo que p o d e ría s a p ro v e ita r de m im é Corbã, isto é,
o fe rta ao tem plo». E n tã o os p a is estã o p ro ib id o s de u s u fru ir d a p ro p ried ad e
do filho, sem q u e e ste s e ja o b rig ad o a e n tre g a r alg o ao tem plo. D essa m a ­
n e ira o filh o pode, com o au x ílio d a H a laká, d e ix a r de s u s te n ta r os p ais
e tr a n s g r e d ir o q u a rto m an d am en to . Isso é a p e n a s um único exem plo, m as
m o stra , seg u n d o Jesu s, a situ a ç ã o de to d o o siste m a : E s s a in te rp re ta ç ã o
d a lei lev a a fo rm u laçõ es que ju stific a m a tra n sg re ssã o do m an d am en to
divino. N e ssa in te rp re ta ç ã o Je s u s tam b ém v ê o hom em que se a f a s ta de
D eus, a tra v é s do seu zelo p e la lei. P o r isso esse único exem plo condena
to d o o sistem a.

2 ) A H a la ká tam b ém é co n d en ad a n a tra d iç ã o exclusiva de L ucas, Lc


13,15 e 14,5s, com o n a tra d iç ã o de M arcos; a se g u n d a a rg u m e n ta ç ão é
to m a d a d a tra d iç ã o o ral em M t 1 2 ,lls s . Segundo Lc 13,10-17, Je su s c u ra
no sábado, n a sin ag o g a, u m a m u lh e r en cu rv ad a. O chefe d a sin ag o g a, que
p re c isa z e la r p e la o rd em n a sin ag o g a, a d m o esta a m u ltid ã o : «Seis d ias h á
em que se deve tr a b a lh a r ; vinde, pois, n esses d ias p a ra serdes curados, e
n ã o n o d ia de sábado» (13,14). A H a la ká p e rm ite o aux ílio m édico ap e n a s
em caso de a c id e n te s; o que é lógico. M as Je su s cham a o chefe d a sin ag o g a
de «h ip ó crita» . T am bém a q u i ele e n c o n tra u m a inco erên cia: E s s a c a su ística
a p a re n te m e n te q u er d escrev er a ex ig ên cia de D eus fre n te ao h o m e m ; n a
realid ad e, porém , q u e r d e lim ita r a p ro p o rção d a resp o n sab ilid ad e do hom em
fre n te a D eus.
T em os assim u m a im agem u n ifo rm e a re sp e ito d a posição de Jesus
fre n te à H alaká, in d ep en d en tem en te d a a u te n tic id a d e de a lg u n s elem entos
d a tra d iç ã o !

a ) Je s u s diferencia c la ra m e n te o m a n d am en to v eterotestam entário da


H a la k á dos escribas, d iv erg in d o d a o p in ião g e ra l de seu am b ien te ju d eu .

b ) R e je ita a H a la ká com o « m an d am ento hum ano» e « trad ição de ho­


m ens», p o r e s ta r n o rte a d a p ela in te n ç ã o h u m a n a de lim ita r o m an d am en to
divino e de tra n sg re d i-lo . E m esm o assim : S e rá que é necessário que se
p e rg u n te p elo s lim ites? N ã o p e rg u n ta o escriba, em L c 10,29, com razão , a
resp e ito do m a n d a m e n to do a m o r ao p ró x im o : «Quem é o m eu próxim o?»
O nde e s tá o lim ite do d a r e do a u x ilia r? Q ual o lim ite de m in h as obrigações?
E ju s ta m e n te essas delim itaçõ es que o hom em ju lg a serem n ecessárias, Jesu s
a s re je ita com o «m an d am en to hum ano».

c ) E ’ com preensível que ele s e ja o único a ter essa concepção no seu


a m b ien te. O s essênios c ritic a v a m a H a la k á oficial do rab in ism o farisaico e
opu n h am -lh e u m a in te rp re ta ç ã o rad ical. M as n ã o ex iste n en h u m a an alo g ia
com a s p a la v ra s d e J e s u s a re sp e ito d a paradosis, M c 7,8s no s te x to s de
II. A posição de Jesus frente aos mandamentos do AT 121

Q um ran. O D am polem iza c o n tra «os co n fu n d id o res de fro n te ira s» que di­
m in u íram a s ex igências d a T o ra (D am 5,20; 19,15s; cf. l,1 5 s ), m as, em
n en h u m a p a rte , a H a la ká é tã o ra d ic a lm e n te re je ita d a . Com ta l juízo e sta r-
se-ia d e sa c re d itan d o a p ró p ria in te rp re ta ç ã o d a lei.

d ) P o r re je ita r d ecid id am en te a H alaká, J e su s nã o d iscu te a respeito da


in terp reta çã o da le i com o seu am b ien te e não opõe, com o os essênios, uma
in te rp re ta ç ã o p ró p ria d a lei à in te rp re ta ç ã o fa risa ic a . E le m o d ifica a relação
do h o m e m fr e n te à pró p ria lei. A visão ju d a ic a d a lei leva n ecessariam en te
à c a su ístic a ; a visão de J e s u s a exclui.

I I . A p o siçã o de J esu s fr en te a os m an d am en tos


v etero testa m en tá rio s

O que acab am o s de d ed u zir pode se r observado nos te x to s : A re jeição d a


H alaká ref. à p u rificação lev a à elim inação do m an d am en to d a p u rificação ;
a re je iç ã o d a c a su ístic a do sáb ad o lev a à elim inação do m an d am en to do
sábado.

1) Os m a n d a m e n to s d a p u rificação .

E m Mc 7 a d iscussão a re sp e ito d a s abluções dos fa rise u s é seg u id a de


um a d eclaração fu n d a m e n ta l a re sp e ito dos m an d am en to s d a p u rificação do
A T. Seu c e n tro é fo rm a d o pelo d ito de Mc 7,15, que a firm a em paralelism o
a n tité tic o :

« N a d a d o q u e v e m d e f o r a e e n t r a n o h o m e m p o d e c o n ta m in á -lo ,
m a s o q u e s a i d o h o m e m é o q u e c o n ta m in a o h o m e m » .

E s s a a firm a ç ã o é co m en tad a a se g u ir em u m diálogo com os discípulos:


N os v. 18s tem o s a p rim e ira lin h a n e g a tiv a e, no v. 21s, a segunda, que é
p o sitiv a. E s s a explicação um ta n to m aciça é d o u trin a d a com unidade. M as
o p ró p rio d ito sem d ú v id a é au tên tico , pois re je ita o que e ra v álido em todo
o a m b ien te de Je s u s ; p o r m u ito tem po, fo i m a n tid o n a com unidade pós-
p asc a l como o d e m o n stra o in cid en te de A n tio q u ia (G1 2,11-14). A sen ten ça
rejeita todas as disposições do A T a respeito da p u rificação levítica . Com
essa re je iç ã o cai tam b ém p o r te rra , in d iretam en te, a diferen ciação que se
fazia, em to d o o m u n d o an tig o , e n tre sacro e p ro fan o . E s s a diferenciação
já é p o s ta em dú v id a p e la fé n a cria ç ã o do A T. Seguindo e ssa fé n a criação,
Je su s a n u la aq u i u m a série de m a n d a m e n to s veterotestam entários. Q ual o
sen tid o d essa an u la ç ã o ?
O am b ien te ju d e u de Je s u s bem como a d iá sp o ra h e le n ista a tin h a -se
e strita m e n te ao s m a n d a m e n to s d a p u rificação . S u a ob serv ân cia e ra tid a como
con fissão f r e n te ao sin cretism o h elen ista. P o r isso os jo v en s m acab eu s são
e x a lta d o s p o r p re fe rire m s e r a to rm e n ta d o s a té a m o rte, ao invés de com er
alim en to s im p u ro s (IV M acb 7,6; cf. I M acb l,6 2 s ). O m odelo p a ra o ju d eu
d a d iá sp o ra é aq u i ta m b é m D an iel (D n 1 ,8 ). A o m esm o tem po, porém ,
re p re s e n ta n te s do ju d a ísm o h e le n is ta in te rp re ta m a s prescriçõ es ritu a is, ale-
g o rizan d o -as em sen tid o ético. J á n a c a r ta de A risté ia s, su rg id a p o r v o lta
de 90 aC, a s p rescriçõ es do A T são a p re s e n ta d a s como re fe rê n cia s se c re ta s
122 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

a re sp e ito de p rin cíp io s éticos. P . ex., a s a v es p ro ib id as com o im p u ras, em


L v 11,13-19 e D t 14,12-18, sã o av es de ra p in a ; «Ao dizer (o leg islad o r)
q u e sã o im p u ras, d á a e n te n d e r q u e aqueles, ao s q u ais a lei é d a d a . . . não
v io le n ta m a n in g u ém n em lh es tira m algo, con fiad o s em su a f o r ç a . . . e
n ã o fazem uso d a v io lê n c ia .. . p a r a d izim ar o m ais fraco» (v. 147ss).
E s s a in te rp re ta ç ã o aleg ó rica d a s p rescriçõ es de p u rific a ç ão n ã o quer, no en­
ta n to , e lim in a r a s u a o b serv ân cia n o sen tid o lite ra l, m a s q u er ju stific á -la s
a p o lo g e tic a m e n te f re n te à so cied ad e h e le n ista liberal. E s s a concepção ta m ­
bém é re p re s e n ta d a p o r F ilão, que u s a c o n sta n te m e n te e ssa fo rm a alegórica.
(E ss e p ro ced im en to fo i ad o ta d o d a in te rp re ta ç ã o a leg ó rica dos m ito s e do
cu lto com a q u a l a filo so fia d a época, p rin cip alm en te o estoicism o, co n ti­
n u a v a a p o s s ib ilita r à s la rg a s ca m a d a s d os filo so ficam en te esclarecidos o
acesso a o s cu lto s tra d ic io n a is ). A in te rp re ta ç ã o alegórica, m esm o assim , re ­
v e la que o c ú ltic o -ritu a l e ra depreciad o em relação ao ético.
F o i p o r isso que a lg u n s co m p reen d eram esse d ito de Je su s com o um a
e x p re ssã o d essa d esv alo rização filo só fica do c ú ltic o -ritu a l em relação ao
ético . T a l concepção a in d a se fa z s e n tir q u an d o B u ltm a n n co m en ta esse dito
d e Je su s, e o u tro s sem elh an tes, sob o títu lo : « C o n tra o ritu a lism o d a le i» .114
A in te n ç ã o de Jesu s, porém , é bem o u tra . E lim in a a diferen ciação v étero -
te s ta m e n tá ria de p u ro e im puro, p o r q u e re r u m a p u re z a to ta l e u m a s a n ti­
fic a ç ã o to ta l. E s s a s a n tific a ç ã o se rá co n c retizad a n o fin a l dos tem pos, se­
gundo vozes v etero testam en tárias com o N m 14,21 e Zc 14,21. Je su s de­
s e ja , p o rta n to , a pureza to ta l que corresponde ao íin a l dos tem pos. S u as ou­
tr a s a firm a ç õ es a re sp e ito de m a n d a m e n to s v eterotestam entários confirm am
q u e é esse o sig n ificad o de s u a p a la v ra a resp eito d as prescriçõ es de p u ri­
ficação.

2 ) O sábado.

N o s evan g elh o s e n co n tram o s n a d a m en os que seis discussões a respeito


d o sáb ad o , d u a s n a tra d iç ã o de Mc, Mc 2,23-28; 3,1-6; d u as n a tra d iç ã o
ex clu siv a de L ucas, L c 13,10-17; 14,1-6 e d u a s n a de Jo ão , Jo 5 e 9. E sses
re la to s j á concordam , e n tre si, em g ra n d e p a r te no f a to de que Jesu s des­
resp e ita o sábado, p o r u m a a titu d e o sten siva . Isso fo i observado no v am en te
desde q u e n o ssa cosm ovisão fo i m o d ific a d a p o r u m a filo so fia d a esp eran ça
e d a a ç ã o ; a a titu d e de Je s u s em rela ç ã o ao sáb ad o é sem p re de novo c ita d a
com o u m s in a l de que ele ro m p e a s e s tr u tu ra s ex isten tes, de m a n e ira rev o ­
lu cio n á ria .
A a titu d e de Je s u s em re la ç ã o ao sá b ad o j á tem , a p a re n te m en te , um
sig n ific a d o e xem p la r seg u n d o a s u a p ró p ria intenção. O m an d am en to do
sá b a d o e ra a p ro p ria d o p a r a e v id en ciar e p ô r em p r á tic a o novo que ele
tr a z ia em re la ç ã o à lei. A o b serv ân cia do sétim o d ia com o d ia de descanso
e r a u m m a n d a m e n to básico, e ra o te rc e iro m an d am en to do decálogo. D esde
a época do exílio, su a o b serv ân cia e ra tid a com o a to de confissão, fre n te
a o a m b ie n te n ã o -ju d e u ( I s 56,2ss; E z 20,16ss; N e 13,15). O sáb ad o m u ita s
vezes fo i m o tiv o de escárn io do m undo h elen ista, pois o m undo a n tig o
con h ecia d ia s festiv o s, m a s n ão u m d ia de descanso re g u la r. O te rc e iro m an ­
d a m e n to provocou, p ra tic a m e n te em to d o o m undo, a criação de um d ia de 174

174. Theol., 5 2,3.


II. A posição de Jesus frente aos mandamentos do AT 123

descanso. Je su s, porém , in frin g e esse m a n d am en to e m o s tra com isso o que


ele te m de novo a tr a z e r em re la ç ã o à lei. O m an d am en to e ra a p ro p ria d o
p a r a isso, p o rq u e s u a o b serv ân cia e r a fá c il d e s e r c o n tro la d a e p o rq u e o rab i-
nism o o h a v ia su ste n ta d o p o r m eio de u m a im en sa casu ística. O bservarem os
os se g u in te s p a sso s:

a ) N a s d u a s n a r r a tiv a s a re sp e ito do sáb ad o d a tra d iç ã o ex clu siv a de


L ucas, L c 13 e 14, Je s u s re je ita a casuística dos escrib as a resp eito do
sá b a d o , a H a la ká . E la fo i d esenvolvida p a r a d e lim ita r a ob rig ação do hom em .

b ) N a s d u a s n a r r a tiv a s d a tra d iç ã o de M arcos, a discussão n ã o g ira


e m to m o d a in te rp re ta ç ã o do m a n d a m e n to do sáb ad o , m a s d a validade do
p ró p rio m a n d a m en to . N a s d u a s períco p es, Je su s ju s tific a o ocorrido, basead o
no f a to de que o m a n d a m e n to j á f o r a violado.

c ) D e que m a n e ira ele se ju s tific a ? A p eríco p e M c 3,1-6 p a rte d a p re s­


su p o sição c e rta m e n te c o rre ta de que Jesu s, p o r d iv e rsa s vezes, re a liz a ra
c u ra s n o sáb ad o . M a n d a q u e o d o e n te se coloque o sten siv am en te n o m eio
d a re u n iã o sin ag o g al. T em -se a im p ressão de v e r um o u tro Jesu s, d ife re n te
d a s n a r r a tiv a s d e c u ra s n a s q u ais sã o ate n d id o s os ped id o s de cu ra, abscon-
d ita m e n te , com b ase n a fé. T endo em v is ta a cura, ele p e rg u n ta , segundo
M c 3,4: « E ’ líc ito n o sá b a d o f a z e r o bem ou fa z e r o m al, s a lv a r u m a v id a
ou tirá -la ? » E s s a p e rg u n ta a p re s e n ta u m a a lte rn a tiv a que a b ra n g e to d o o
co m p o rta m e n to do hom em . O p a ra le lism o a firm a : E ’ bom s a lv a r u m a v id a ;
é m a u t i r a r a v id a de alguém . T em os a q u i u m a ex igência to ta l: T em os que
a g ir, sem p re e em to d a a p a rte , de t a l m a n e ira que to rn e m o s possível a
v id a n o sen tid o de D eus! Q ue sig n ificad o a in d a tem a re fe rê n cia ao sábado,
ao la d o desse am plo p rin c íp io ? E v id e n te m e n te o m an d a m e n to do sábado
n ã o te m m a is um sig n ificad o autônom o, ao lado desse princípio, que engloba
ao sáb ad o . O p rin cíp io de Je s u s é u m a ex p ressão d a su a ex igência to ta l, como
a en c o n tra m o s n o serm ão do m onte. Je s u s elim ina o m a n d a m en to do sábado
com o do g m a isolado e coloca-o sob u m a exigência to ta l que a tu d o sobrepuja.
E s s a ex ig ên cia to ta l, contudo, p ro v o ca a p e rg u n ta p ela possib ilid ad e de
cu m p ri-la : Q uem pode a g ir de ta l m a n e ira que a su a a titu d e po ssib ilite um a
v id a n o se n tid o de D eus, em to d a s c irc u n stâ n c ias? N o ju d aísm o m u ita s vezes
é a firm ad o , a té o d ia de h o je : A ex ig ên cia to ta l de Je su s é d ig n a de louvor,
m as ilu só ria. O s m an d a m e n to s específicos e lim ita d o s d a lei é que co rres­
po n d em à condição h u m a n a .115

d ) S egundo a n a rra tiv a , Je s u s resp o n d e ao silêncio d a com unidade s i­


n ag o g al, bem com o à s u a p ró p ria p e rg u n ta , com a c u ra do do en te (M c 3,5).
A tra v é s d essa c u ra ele q u er m o s tr a r q u e a ex igência to ta l, d irig id a h á pouco
a todos, é concretizada p o r ele. A tra v é s dele se re a liz a o que, em si, é a
o b ra de D eus. A a tiv id a d e de J e s u s e lim in a o sáb ad o , ao cu m p rir a su a
in te n ç ã o o rig in a l de m a n te r a v id a do hom em .

e ) T a m b ém os que seg u em a J esu s p a rtic ip a m d essa su a liberdade. Isso


é o q u e a firm a a n a r r a tiv a d a co lh e ita d a s espigas, M c 2,23-28. E s s a p a ssa ­
gem n ã o ju s tific a a a titu d e dos discíp u lo s com o ta l, m a s o f a to de que Je su s 175

175. G õsta Lindeskog, D ie J e su s íra g e im neuzeitlichen Ju d e n tu m , 1938, 232-250.


124 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

o perm ite. O p rim eiro arg u m en to , Mc 2,25s, c o m p ara Je su s e seus d iscíp u lo s


com D av i e o s q u e o aco m p an h av am . E s s a co m p aração tip o ló g ica q u e r
d izer: Se D avi pôde tra n s g re d ir a lei, com er os p ã e s d a proposição e d á -lo s
tam b é m a o s que o aco m p an h av am , p o r c a u sa d a su a m issão, m u ito m ais
razão tin h a Je s u s p a r a d e ix a r a lei de la d o e d a r a lim en to a seu s discípulos.
E s s a conclusão é desenvolvida c la ra m e n te n a se g u n d a ju stificação , acrescen ­
ta d a p o r M ateu s ( 1 2 ,5 s ): Se os sa c e rd o te s podem v io la r o sáb ad o p o r c a u sa
do serv iço n o tem plo, m u ito m a is o pode Je su s p o r cau sa do d iscip u lad o ;
pois «aqui», em Jesu s, « está quem é m a io r do que o tem plo». E m Je su s,
D eus e s tá m u ito m ais p re se n te , p a r a a u x iliar, do que no tem plo.
O que vim os a té aqui, co n firm a que o d iscipulado lib e rta do m a n d a ­
m en to iso lad o ; p o is ele é o cu m p rim en to d a ex igência to ta l de Je su s q u e
elim ina o sábado.

i ) O sig n ificad o g e ra l d a s d u as perícopes é ex presso pelos v ersículos


fin a is : A p rim e ira p e ríco p e conclui com o d ito do filh o do hom em , Mc 2 ,2 8 :
«O filh o do hom em é se n h o r so b re o sá b a d o » : E le pode colocá-lo a serviço
de s u a m issão. R ealm en te, a s d u a s p eríco p es têm um se n tid o im p lic ita m e n te
escatológico-cristológico.
A se g u n d a p e ríco p e a p re se n ta , n o fin a l, a reação do a m biente. Os f a r i­
seu s resolvem , de com um aco rd o com os h erodianos, elim in ar a Je su s p o r
cau sa d essa a titu d e . Je s u s n ão defende u m a o u tra in te rp re ta ç ã o do sá b a d o
que p o ssa s e r p o s ta em discussão. E le elim ina o m an d am en to do sáb ad o
com o t a l e, com isso, a lei, a b ase do ju daísm o. P o r isso só ex iste um a
a lte rn a tiv a fre n te a ele: A ceita-se su a exigência to ta l, que elim ina o m a n ­
d am e n to do sáb ad o , ou m antém -se-o, elim in ando a Je su s do seio do ju d a ísm o .

g ) S e rá que o co n teú d o d essas d u a s p erícopes é d a a u to ria do p ró p rio


Jesu s, levando-se em conta a crítica da tradição? A té. h o je nega-se isso ,
m u ita s vezes, q u a n to à p rim e ira . Como m o tiv o p rin c ip a l é c ita d a a sen ten ça
que e n c o n tram o s a p e n a s em M c 2,27: «O sáb ad o fo i estabelecido p o r c a u sa
do hom em , e n ão o hom em p o r c a u sa do sábado». E . K à sem a n n o b serv a a
seu r e s p e ito : ™ E s s a se n te n ç a é «lim itada» p e la com unidade, no v. 28,
« a tra v é s do acréscim o » : «o filh o do hom em é sen h o r do sábado». «A com u­
n id a d e p o d ia con ced er a seu m e s tre o q u e n ão o u sav a ex ig ir p a r a si m esm a.
Seu acréscim o d elim ita d o r d e m o n stra que ela se a ssu sta v a d a lib erd ad e o fe­
re c id a p o r Je su s, re fu g ia n d o -se p o r isso n u m ju d a ísm o cristian izad o » . Is s o
sig n ific a que J e s u s co n ced era ao hom em a lib erd ad e em relação ao sáb ad o ;
a com unidade concede-a so m en te a Je su s, p o r se r ele o m essias. D ela p rovém
a perícope d a c o lh e ita de espigas, com exceção d a p assag em de Mc 2,27.
M as, se colocarm os e ssa p assa g e m no co n te x to dos d ito s a u tê n tic o s de Je su s,
tam b é m esse d ito n ã o te m sig n ific a d o h u m an o g eral, m a s eseatológico. A
relação do hom em p a r a com o sáb ad o , n o se n tid o o rig in a l d a criação, é o b tid a
a p e n a s q u an d o a «du reza do coração» do hom em encu rv ad o so bre si m esm o
fo r solu cio n ad a, con fo rm e o d iz M t 19,3-8 a resp eito do sen tid o o rig in a l do
m atrim ô n io . A te se de Mc 2,27 é tã o v á lid a q u a n to a sen ten ça-ch av e d a
seg u n d a perícope, Mc 3,4, q u e n o rm a lm e n te é tid a p o r au tên tica, m a s con­
c retiz a -se a p e n a s p o r m eio de Je s u s e p o r m eio de hom ens que se to m a ra m
liv re s a tra v é s do discipulado. P o r isso M arcos ligou o d ito em 2,27, co e re n te - 176

176. E xeg. Vers. I, 219.


II. A posição de Jesus frente aos mandamentos do AT 125

m en te, com o d ito do filh o do hom em em 2,28: Ju s ta m e n te p o rq u e o sáb ad o


fo i c riad o p o r c a u sa do hom em , o hom em (« essa g eração » ) n ão é sen h o r
so b re o sáb ad o , m a s o filh o do hom em , o hom em de D eus. m
A vio lação do m a n d a m e n to do sá b a d o p e la c u ra de Je su s n ão q u er
so b re p o r a necessidade h u m an a, o u o m an d am en to do am o r ao m an d am en to
d o sábado. A ssim com o a elim inação dos m an d am en to s de p u rificação , ela
te m m u ito m a is c a rá te r escato ló g ico : A tra v é s de Jesu s, a v o n ta d e de Deus,
que q u e r a v id a do hom em , deve s e r c u m p rid a de m a n e ira ilim itad a.

3 ) O tem plo.

T am bém nesse p o n to a s a firm a ç õ es de Je su s divergem fu n d a m e n ta lm e n te


d a c rític a f e ita tam b ém p o r seu s contem p orâneos. O s essênios qu eriam re ­
fo rm a r ra d ic a lm e n te u m tem p lo p ro fa n a d o . E m a lg u n s ra m o s do ju d aísm o
h e le n is ta p ro c u ra -se e sp iritu a liz a r o r ito sa crificial. M as o p en sam en to de
J e s u s é o u tro . A ceita, a princípio, a v a lid ad e do tem p lo assim com o obser­
vou n o rm a lm e n te com seus discípulos o sáb ado. Diz, seg u n d o M c 1,44, aos
le p ro so s que fo ra m curados, que se a p re sen tem ao sacerd o te, segundo a s
p resc riç õ e s d a lei, p a r a serem d e clarad o s lim pos. S obretudo, ele p ró p rio fre -
q ü e n ta o te m p lo ; p o r isso a com unidade de Jeru salém , a in d a decênios ap ó s
a s u a m o rte , a s s is tiu a o cu lto n o te m p lo ( A t 2,46; 21,20-26). O d ito de M t
5,23: «Q uando tro u x e re s ao a l t a r a tu a o f e r t a . . . » n ão fa z p a r te desse con­
te x to ; n ã o p ressu p õ e que os discípulos de Je su s c o n tin u a ra m a tr a z e r o fe rta s
ao te m p lo ; tr a ta - s e de u m a m e tá fo ra . O q ue Je su s tr a z com o n o v id ad e com
rela ç ã o ao tem p lo se evid en cia em p rim e iro lu g a r n a «pu rifica çã o do tem plo».
E m u m a ação que d iv erg e p e c u lia rm en te d a su a ativ id ad e, Jesu s, se­
g u n d o M c 11,15-19 p a r, ex p u lsa os c a m b istas e ven d ed o res de a n im ais do
a ssim ch am ad o á tr io dos pag ão s, m esm o que se ja m necessário s ao serviço
d o tem plo. Je s u s p ro v av elm en te n ã o lim pou o á tr io to d o desse m ovim ento
com ercial, com o au x ílio dos p e re g rin o s g alileu s que h a v ia m vin d o p a ra a
fe s ta . C aso c o n trá rio , a polícia do tem p lo ou a tro p a ro m a n a esta c io n a d a no
f o r t e vizinho, A n tô n ia , te r ia in terv in d o . P ro v av elm en te tr a ta - s e de u m a de­
m o n stra ç ã o p ro fé tic a q u e fo i e x a g e ra d a pelos evangelhos, sem elh an te à vio­
la ç ã o do sáb ad o . M esm o assim J e s u s fa z uso d a fo rça, n ã o c o n tra os hom ens,
m a s c o n tra o fa to .
Q ual o sig n ificad o de s u a a ção ? C e rta m e n te não se t r a t a de u m a ação
rev o lu cio n ária, com o fo i d ito p o r d iv e rsa s vezes (§ 3,11,5). N o te x to , o d ito
ad icio n al de M c 11,17 d á u m a ex p licação ; alu d e à c rític a p ro fé tic a n o te m ­
plo, J r 7,11, e a p o n ta p a r a a p ro fe c ia de I s 56,7, seg u n d o a q u al o tem plo
d e v e rá s e r u m a c a s a de o ra ç ã o p a r a to d o s os povos. S egundo esse dito, a
a titu d e de Je s u s n ã o é u m a to d e re fo rm a do tem plo, m a s u m sin a l: O
c u lto ju d aico , que a b u sa do tem p lo e d a lei p a r a se g a r a n tir fre n te a Deus,
se rá su b stitu íd o pelo cu lto escatológico do q u al to d o s os povos p a rtic ip a rã o .
P ro v a v e lm e n te , no e n ta n to , esse d ito c o n stitu i u m a in te rp re ta ç ã o p o ste rio r;
a ssim tam b ém o v. 16 que é b a s ta n te s in g u la r e que p arece in te rp re ta r o 17

177. Não podem os d isc u tir aqui a té q u e ponto a lguns versículos, especialm ente Mc 2,28 e
3,6, provêm da situação de Je su s ; cf. a apreciação m inuciosa em Roloíf, K erygm a, 52-88.
Não íaz sentido q u e rer v e r as pericopes a respeito do sábado como um reflexo d a situação
da com unidade, pois um a discussão a respeito do sábado não e ra algo que afetasse a
com unidade; A ig re ja p a le stin a ju d aic o -c ristã observava-o; p a ra a ig re ja h e le n ista e ra algo
superado. Se o sábado e ra ocasionalm ente propagado (Cl 2,16),), isso não o co rria p o r causa
d a Tora.
126 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

aco n tecim en to com o u m a in terv en ção em fa v o r d a p u rificação (escato ló g ica)


do tem plo. U m a in te rp re ta ç ã o m a is p ro fu n d a é a p re se n ta d a em J o 2,16-22,
que lig a a « p u rificação do tem plo» com o d ito a resp eito d a d estru iç ã o do
tem plo, Mc 14,58. P ro v a v e lm e n te s e ja a q u e m a is se a p ro x im a do se n tid o
o rig in al. T alvez o a to p ro fético sim bólico q u e ira d izer o se g u in te : Je su s
a ta c a u m a in s titu iç ã o q u e e s tá em ev id en te d esacordo com o significado do
tem p lo e que, m esm o assim , é n e c e ssá ria p o r c a u sa dele. E s s a in tervenção,
que é u m ch am ad o escatológico ao arre p e n d im en to , q u e r d e sm a sc a ra r a dubie­
d ad e do e x is te n te e c h a m a r a ate n ç ã o p a r a algo novo, fo rçan d o os re p re ­
s e n ta n te s do tem p lo e do ju d a ísm o a to m a re m u m a posição d e fin itiv a fre n te
a Jesu s. T alv ez a p e rg u n ta pelo p o d er d e Je su s o rig in alm en te se g u ia im e­
d ia ta m e n te a e s ta n a rra tiv a , d e m a n e ira q u e a fo rm a m ais a n tig a d a n a r r a ­
tiv a a b ra n g ia Mc 11,15. (1 8 a) .28-33.
O novo que J e s u s v isa com re sp e ito ao tem p lo é percep tív el no an ú n cio
de su a d estruição, Mc 13,2 p a r, o qual, g eralm en te, é aceito com o sendo
a u tê n tic o ,158 e n o d ito a resp eito da dem olição e da reconstrução do tem plo.
E sse d ito é tra d ic io n a d o cinco vezes n o N T , em c a d a p assag em de fo rm a
u m pouco d ife re n te . J á p a r a os p o rta d o re s d a tra d iç ã o n ã o e ra m ais to ta l­
m e n te com preensível, m a s c e rta m e n te é d a a u to ria de Jesu s. P ro v av elm en te
a re p ro d u ç ã o e n c o n tra d a em J o 2,19 s e ja a que m a is se a p ro x im a d a fo rm a
o rig in a l: « d estru í e ste tem p lo , e em tr ê s d ias eu o re co n stru irei» . O d ito
a n u n c ia q u e o te m p lo se rá su b stitu íd o , de m a n e ira escatológica, p o r um novo
local d a p re se n ç a sa lv ífic a de D eus. E s te local não é p a r a Jesu s, nem p a ra
a tra d iç ã o d a com unidade d a P a le s tin a em A p 21,22, u m novo tem plo, nem
a no v a com unidade, m a s a v in d a escato ló g ica de D eus. O d ito pressupõe
que isso o co rre a tra v é s d a re je iç ã o de Je su s, rejeição que é p ro v o cad a p o r
ele a tra v é s de su a a titu d e . S egundo Mc 14,58 p a r M t, ju s ta m e n te este d ito
a resp e ito do te m p lo p rovocou a co n d enação d e Je su s (bem com o a de E s ­
têv ão em A t 6,14). "* Segundo M t 12,6: («A qui e s tá quem é m a io r que o
tem p lo » ), J e s u s em p e sso a s u b s titu i o tem plo.
A ssim o sig n ificad o d a p u rific a ç ão do tem plo n a situ a ç ã o de Jesu s, bem
com o d os d ito s a re sp e ito do tem p lo , n ã o podem se r com preendidos de m a ­
n e ira p len a, a p e s a r de am b a s a s a firm a ç õ es te re m um cerne h istó rico . E m
to d o o caso, p e rm ite m e n tre v e r q u e J e s u s re alm en te su p la n ta o ju d aísm o ,
em su a base, p o r alg o novo. E isso n ão se relacio n a ap en as com as p re s ­
crições do A T a re sp e ito d e p u rificação , sá b ad o e culto, m as tam b ém com
a s in stru ç õ e s que, sob p o n to de v is ta filosófico, são d esig n ad as de ético-
religio sas.

4 ) A se g u n d a tá b u a do decálogo e o m an d am en to do am or.

T am b ém esses m a n d a m e n to s n ã o sã o sim plesm ente aceitos, m a s su p la n ­


ta d o s p o r n o v a s in stru ç õ e s de Jesu s. Isso o c o rre o ra p o r m eio de um a in cre-
m en ta ç ã o p o sitiv a, o ra p o r m eio de u m a in crem en tação a n tité tic a . E m am ­
b o s os casos, o s m a n d a m e n to s v é te ro -te s ta m e n tá rio s são v isto s de m a n e ira
d iferen te. 1789

178. B raun, B adikalism us II, 63, n o ta 5. Mc 14,58, no entanto, não é, como ele o supõe,
«transform ação cristológica pós-pascal» de Mc 13,2; tra ta -s e de um a tradição própria. T ra ta -s e
de um maschal, um d ito enigm ático, que, em v irtu d e de su a form a, se coaduna m ais com
Je su s do que com a com unidade prim itiva.
179. É, no entanto, caracterizado de testem unho fa lso ; em Mc 15,29 p a r Mt, é posto n a
boca dos escam ecedores ao pé d a cruz.
II. A posição de Jesus frente aos mandamentos do AT 127

a ) A in crem entaçáo p o sitiv a do decálogo, resp . do m an d am en to do


am o r, e n c o n tra -se em d u a s p a s s a g e n s : E m Mc 10,19 p a r, Je su s lem b ra ao
rico ju sto , de m a n e ira p o sitiv a, a se g u n d a tá b u a do decálogo, in crem en­
tan d o , e n tã o a in s tru ç ã o v etero testam en tárias p ela ex ig ên cia do discipulado.
A in crem en taçáo é q u a lita tiv a e n ã o q u a n tita tiv a (§ 9,11). F r e n te ao decá­
logo, o ju s to p ode a f ir m a r — sem q u e isso s e ja co rrig id o — : «Tudo isso
observei», m a s fra c a s s a f r e n te à ex ig ên cia to ta l de Jesu s. E videncia-se, assim ,
a a p o ria d a se g u n d a tá b u a d o d ecálo g o : E la po d e se r «cum prida» tam b ém
a tra v é s de u m a o b ediência lim itad a, p a rc ia l.
S em elh an tem en te o m a n d a m e n to v etero testam en tário do am o r ao p ró ­
xim o é, in icialm en te, aceito, d e m a n e ira p o sitiv a, n a p e rg u n ta a re sp e ito
do m a n d a m e n to m a is im p o rta n te e n c o n tra d a em M c 12,28-34 p a r M t e,
m o d ificad a, n a m a té ria ex clu siv a de L ucas, L c 10,25-28. E m M c p a r M t
ele é d e sta c a d o d e n tre to d o s os d em ais m a n d am en to s, com o a in d a o verem os
(cf. 111,1), em L c é re in te rp re ta d o , c o n tra ria n d o a c a su ístic a ju d aica. O
rab in o , f re n te ao m an d am en to , fa z a p e rg u n ta o b je tiv a m e n te c o rre ta : «Quem
é o m eu próxim o?» (L c 10,29). E Je s u s resp o n d e com o exem plo do bom
sa m a rita n o (L c 10,30-37). D esse d iálo g o que red ac io n a lm en te te m a tiz a a
p ará b o la , de m a n e ira c o r r e ta ,3*1 podem os d ed u zir o se g u in te : O m an d am en to
do am o r do A T p o ssib ilita-n o s, sim , n o s o b rig a, a p e rg u n ta r pelo lim ite;
m as a n a r r a tiv a de J e s u s c h a m a p a r a u m a d em o n stração de am o r sem
lim ites. A n a r r a tiv a conclui, em L c 10,36, com a p e rg u n ta : «Q ual d e ste s
tr ê s te p a re c e te r-se to m a d o o p ró x im o do que caiu n a s m ão s dos s a lte a ­
dores?» Je s u s p ra tic a m e n te in v e rte a p e rg u n ta do rab in o . L eva-o a n ão
p e rg u n ta r: Q ual o lim ite de m in h a o b rig ação ? M as: O nde é que D eu s exige
alg o de m im ? J e s u s t o m a o m a n d a m e n to do am or, bem com o to d o m a n d a ­
m en to , tr a n s p a r e n te p a r a p o ssib ilita r a exig ên cia to ta l d e D eus. A ssim o
m an d am en to n ã o é m a is um d o g m a que d e te rm in a o lim ite d a s obrigações
do hom em f r e n te a D eus, m a s ex p ressão v iv a de s u a v o n ta d e que b u sca o
indivíduo, de m a n e ira a tu a l, a tra v é s d a situ a ç ã o h istó ric a . T am b ém e ssa
n a r r a tiv a ex em p lar q u e r ser, no fun d o , u m a p a rá b o la p a r a nos fa z e r e n te n d e r
a situ a ç ã o de Jesu s.

b ) A c rític a que e s tá im p líc ita n a in crem en taçáo p o sitiv a dos m a n d a ­


m en to s v etero testam en tário s é e x p re ssa de f a to n a s a n títeses do serm ão do
m o n te, M t 5,21-48. Jesu s, p o r seis vezes, opõe su a in stru ç ã o a u m m a n d a ­
m en to que provém , em seu cerne, esp ecialm ente do q u in to , se x to e oitav o
m an d a m e n to s d o decálogo e do m a n d a m e n to do am o r ao próxim o.
A fo rm a a n tité tic a p ecu liar, p a r a a q u al n ã o ex istem a n a lo g ia s ju d a ic a s
ou c ristã s-p rim itiv a s, é original n a p rim e ira, seg u n d a e q u a rta in stru çõ es,
que são tra d iç ã o ex clu siv a de M a te u s; p o is so m en te n essa fo rm a seu con­
te ú d o te m sentido. E s s a s a n títe s e s c e rta m e n te sã o d a a u to ria de Jesu s. P o r
o u tro lado, a te rc e ira , q u in ta e s e x ta a n títe s e s n ã o tê m fo rm a a n tité tic a
n a tra d iç ã o de Q q u e e n c o n tra m o s em L ucas. E la s fo ra m in clu íd as n e ssa
passag em , p o sterio rm en te, ta lv e z p o r M t, com o im itação in te rp re ta tiv a d a s 180

180. A perícope L c 10,25-37 u n e duas tradições o riginalm ente independentes, o dupln


m andam ento do amor, L c 10,25-28, e a p a ráb o la do bom sam aritano, L c 10,30-37. A p e rg u n ta de
L c 10,28: «Quem é o m eu próximo», que lig a as duas, descreve plenam ente o tem a d a paráb o la
(essa opinião é com p artilh ad a tam bém p o r H einrich Greeven, T hW VI, 315, e G eorg Eichholz,
Gleichnisse d e r E vangelien, 1971, 149s.l57ss.
128 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

o u tra s t r ê s . 1® A tra v é s d essa in te rp re ta ç ã o , o c a rá te r d a s in stru çõ es de Jesus


e d e seu p o d e r fo ra m c o rre ta m e n te destacad os.
A fó rm u la a n tité tic a , que é m o d ific a d a re ite ra d a m e n te n a s seis vezes
em que é em p reg ad a, q u e r a firm a r em o u tra s p a la v ra s o se g u in te : Ouvistes,'
n a sin ag o g a, o que fo i d ito p o r D eus, p o r in term éd io de M oisés, ao s antigos,
a vossos p ais, no S i n a i . . . E u , porém , vos digo. Jesus p o rta n to , opõe a su a
in stru ç ã o ao m a n d a m en to d ivin o d o A T . w N o e n ta n to , a p rim e ira m e ta d e
d a s a n títe s e s n ã o co n fere to ta lm e n te com os m an d am en to s v étero -testam en -
tá rio s . A p a r te inicial d a p rim e ira a n títe se , M t 5,21, lig a o q u in to m a n d a ­
m e n to ap odítico, «N ão m a ta rá s» , com a s e n te n ç a casu ístic a : «Quem, porém ,
m a ta r, d ev erá su je ita r-s e ao trib u n a l (lo c a l)» . O sex to m an d am en to , m en­
cio nad o n a se g u n d a a n títe se , é c ita d o lite ra lm e n te em M t 5,27, m as, a tra v é s
d a te rc e ira a n títe se , é relacio n ad o com a legislação do divórcio. D ecisivo é
que, n a s e x ta a n títe se , in clusive o m a n d a m en to do am o r ao próxim o é re ­
pro d u zid o e m ío rm a p ecu lia rm en te r e s tr itiv a : « A m arás o te u próxim o e
o d ia rá s o te u inim igo» (5,43).
S erá que essas p a rá fra s e s p e cu liares fazem referên cia a d eform ações dos
m an d a m e n to s v é te ro -te sta m e n tá rio s n o a m b ien te ju d e u de Je su s? N u n ca o
rab in ism o p ro p ô s ao m a n d a m e n to do a m o r ao p róxim o o ad en d o «e o d iarás
o te u inim igo». M as j á n o A T e a in d a m a is n a concepção ju d a ic a , age-se
d essa m a n e ira . S egundo o c o n te x to v eterotestam entário de L v 19,18, o
p ró x im o é a p e n a s aq u ele que p e rte n c e ao povo de D eus. P o r ju lg a r-se o
único e v e rd a d e iro Isra e l, a com unidade de Q u m ran fo rm ulou, em 1 QS
1,9-11: «A m ar to d o s os filh o s d a l u z . . . e o d ia r to d o s os filh o s d a s trev as» .
M a s a s p rim e ira s p a rte s d a s a n títe s e s de m a n e ira alg u m a se re fe re m à in te r­
p re ta ç ã o d a lei dos essênios; pois, em q u estões de m atrim ô n io ou de ju r a ­
m ento, eles n ã o en sin am com o aq u elas prem issas, m as como o p ró p rio Jesus.
A s p re m issa s n ã o assum em fo rm u laçõ es ju d aicas, m as os m an d am en to s v étero-
te sta m e n tá rio s , to d a v ia em u m a p a rá fra s e p ró p ria e in te rp re ta tiv a .
E la s caracterizam , d essa m a n e ira , os m a n d a m en to s veterotesíam entários,
em p rim eiro lu g ar, com o d ireito que p o d e se r executado. Como se evidenciou,
o m a n d a m e n to ap o d ítico é lig ad o a u m a s e n te n ç a casu ística, n a p rim e ira a n tí­
tese. E m segundo lu g ar, e s ta s in stru ç õ e s ju ríd ic a s pressupõem o m a l com o
algo o b je tiv o , que n ã o pode s e r elim inado. A firm a-se, p. ex., ex p ressam en te
em rela ç ã o à q u a rta a n títe s e : O que fa z com que u m ju ra m e n to se ja neces­
sário , além de um Sim, vem «do m aligno» (5,37). Ju ra -se po rq u e a m e n tira
é alg o objetiv o . C onseqüentem ente, a s p re m issas d as a n títe se s cara c teriz a m
as o rien taçõ es d iv in as que vêm do A T, com o sen ten ças ju ríd ic a s que devem
s e r e x e c u ta d a s pelo hom em , e que to rn a m possível a convivência dos hom ens,
onde o m al é algo o bjetivo, que não pode se r elim inado, m as tão -so m en te
se r lim itado.
D onde p ro vém esta caracterização dos m a n d a m en to s veterotestam entários?
A exem plo d a fo rm u la ç ã o d as p rem issas, n ão fo i a d o ta d a do judaísm o. Ao 182

181. A locução «eu ouvi», usad a em sentido técnico, tam bém pode sig n ificar: «Eu ouvi
como tradição» (Billerb. I, 253). Je su s e sta ria então opondo, aqui, a sua in terp retação d a lei
à in terp retação rabinica da lei que era exposta como trad ição n a sin a g o g a Seu «eu, porém,
vos digo», que isolado dá m argem a m uitas interpretações, in tro d u z iria sim plesm ente, como
n a discussão dos escribas (G. D alm an, Jesus-Jeschua, 1929, 65) um a contribuição à discussão.
E sse sentido técnico da locução é elim inado aqui pelo conteúdo.
182. Jerem ias, Theol., 240ss, quer pro v ar que to d as as seis an títeses são d a a u to ria de
Je su s. Seus argum entos, porém , evidenciam que a diferenciação dos dois grupos foi até ag o ra
m uito esquem ática. Som ente um a análise h istórico-tradicional que se ocupasse com a am pli­
tu d e da discussão poderia levar a novos resu ltad o s (cf. T rilling, op. cit., 207).
II. A posição de Jesus frente aos mandamentos do AT 129

c o n trá rio , ta n to e n tre o s ra b in o s com o em Q um ran, a s in stru çõ es p ro v en ien tes


do A T sã o a d o ta d a s de a c o rd o com o se u p ró p rio c a rá te r, p o r u m lado,
com o s e n te n ç a ju ríd ic a e, p o r o u tro lado, com o in stru ç õ e s é tic a s q u e v ã o
m uito além do c a r á te r d a se n te n ç a ju ríd ic a . A s exigências éticas, desenvol­
v id a s d essa m an eira, d iv erg em a p e n a s de m a n e ira re la tiv a deis in stru çõ es
de Jesu s. T am bém os ra b in o s p ro íb em que se olbe u m a m u lh er com intenções
im p u ras, e tam b ém o s essênios p ro íb em o ju ra m e n to . A p ecu liarid ad e d as
in stru ç õ e s de Je s u s ev idencia-se ju s ta m e n te n a fo rm a a n tité tic a . A a n títe se
s e p a ra o que e s tá lig ad o n o ju d a ísm o e n o A T , se n te n ç a s ju ríd ic a s e in s­
tru ç õ e s ap o d íticas. Com isso a m b a s assu m em o u tro c a rá te r. Com a sep aração ,
o que e ra v isto no ju d a ísm o com o ex ig ên cia é tic a m áxim a, p a ssa a s e r m a n ­
d am e n to ab so lu to . O c a ra c te rís tic o desse m an d a m e n to ab so lu to é que ele
não p ressu p õ e o m a l com o u m f a to invencível, n ão o delim itando, p o r isso,
ju rid ic a m e n te . A p a r t i r desse m a n d a m e n to ab so lu to evidencia-se, no en tan to ,
re tro sp e c tiv a m en te , que a s in stru ç õ e s v etero testam en tárias são, com o um
todo, em seu cerne, d ire ito fo re n se e que tê m que p erm an ecer sendo d ire ito
forense. A ssim , a s p rem issas descrevem e x a ta m e n te a im a g e m dos m a n d a ­
m e n to s v etero testam en tário s que resulta, retro sp ectiva m en te, do m a n d a m en to
absoluto d e Jesus. A p e n a s a in stru ç ã o to ta l de Je su s p erm ite que, a p a r tir
do cu m p rim en to escatológico, s e ja s e p a ra d o o que no p ró p rio A T a in d a está
ligad o de m a n e ira in d e fin id a : S e n te n ç a ju ríd ic a e m an d am en to ap o d ítico —
bem com o a o rdem in e re n te à lei, e a g ra ç a in e re n te ao p acto.
Âs in stru ç õ e s v etero testam en tárias assim ca ra c teriz a d a s, o s m a n d a m en to s
de J esu s n ão são o p o sto s com o in crem en tação p o sitiv a, m a s com o revogação
a n tité tic a . O conteúdo deles é u m a a n títe s e decidida. C ondenam o m al e exi­
gem o bem , sem re striç õ e s. R e je ita m o m eio -term o e n tre o d ireito e o m al,
que n a socied ad e é n o rm a l e necessário . D essa m an eira, to d a s a s in stru çõ es
de Je s u s d iv erg em d a s p re m issa s v etero testam en tárias, m esm o que a p e n a s
a s tr ê s fo rm u laçõ es re d a c io n a is d iv irja m , exp ressam en te, d a s a firm açõ es ve­
tero testam en tárias, e n q u a n to que a s tr ê s o rig in a is a p e n a s fo rm a lm e n te a s
so b rep u jam e rad icalizam .

c) D esse m odo os m a n d a m e n to s v etero testam en tário s e a relação d a s


in stru ç õ e s de Je s u s p a r a com eles são v is to s sob dois aspectos d ife re n te s n a
tra d iç ã o sin ó tica. Com o se p o d e exp lica r a coexistência desses dois aspectos?
O s dois a sp e c to s a d o ta m a s d u a s fa c e s dos m an d am en to s, d a d a s j á no p ró ­
p rio A T : E m p a r te são m a n d a m e n to s ap odíticos, em p a r te sen ten ças ju r í­
dicas. D ependendo d a situ a ç ã o q u e rig m á tica, su rg em os dois aspectos, de
m odo que n ã o é n e cessário q u e se o s d ed u za de d iv ersas cam ad as d a tra d iç ã o .
O hom em que p e rg u n ta a Jesu s, com o o ju s to rico, p e la v o n ta d e de Deus,
vê o A T, a n te s de m a is n a d a , com o m a n d am en to apodítico. T odos os que
agem de aco rd o com a ju s tiç a m e d ia n a dos fariseu s, que é q u estio n ad a
em M t 5,20, p rep aram -se, com o au x ílio d a s in stru çõ es v etero testam en tárias,
p a ra u m a co ex istên cia com o m al, v en d o -as p o r isso com o se n te n ç a s ju r í­
dicas. Jesu s, n o e n ta n to , v a i alé m d essas d u as possibilidades, n ã o som ente
em se n tid o q u a n tita tiv o , m a s ta m b é m em se n tid o q u a lita tiv o . Isso se evi­
den cia d e fin itiv a m e n te n a m a n e ira se g u n d o a q u a l J e su s v ê os m an d am en to s
vetero testam en tário s, seg u n d o a tra d iç ã o sin ó tica, i. é, com o lei.
130 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

m . A posição d e J e s u s f re n te à lei

«Lei», (n o m o s, T o ra ), n ã o é a p en as u m coletivo que d esig n a a to ta lid a d e


dos m an d am en to s, m a s um conceito teo ló g ico que e x p ressa u m a concepção
g en é ric a a re sp e ito d os m an d am en to s. O te rm o é u sad o d e m a n e ira fre q ü e n te
nos te x to s ju d a ic o s; em D am , p. ex., 30 vezes. N o s ev angelhos sinótícos,
en co n tram o -lo apenas espo ra d ica m en te: em M t, em 8 p a ssa g e n s; em L c (dei-
x an d o -se L c 2 de la d o ), em 4, e em M c nem u m a ú n ica vez. E tam bém
é in c e rto se u m a d essas p a ssa g e n s pro v ém de Jesus. Je su s desenvolveu su a
posição f r e n te àq u ilo q u e e ra o m a is im p o rta n te p a r a o judeu, f re n te à lei,
observ an d o c o n c re ta m en te o m a n d a m e n to isolado. S om ente em d u as p a s s a ­
gen s d a tra d iç ã o s in ó tic a s u a posição é resu m id a, essen cialm ente: n a p e rg u n ta
pelo g ra n d e m an d am en to e n o p reâm b u lo d a s an títe se s.

1) A p e rg u n ta pelo g ra n d e m a n d a m en to fo i tra n s m itid a p o r Mc, em 12,


28-34 p a r M t, e, com c e rta s m odificações, p o r u m a tra d iç ã o p a rtic u la r de
L ucas, em L c 10,25-28. O con ceito «lei», é e n c o n tra d o a p e n a s em M t 22,36
( p a r L c 10,26; ta lv e z te n h a sid o elim inado p o r M c) e em 22,40. A p e rg u n ta
in tro d u tó ria a re sp e ito do «prim eiro» o u «grande» m an d am en to (M c, M t)
corresp o n d e à v isão r a b ín ic a 2* e exige o re lacio n am en to com a lei (M t), e
n ã o com o u tro s m a n d a m e n to s ( M c ) .“* A p e rg u n ta é resp o n d id a, tam bém
em s u a m o d ificação secu n d ária, em L c (cf. 18,18), com o d u plo m a n d a m en to
do a m o r ( D t 6,4s; L v 19,18).
S erá que essa resp o sta corresponde às concepções judaicas? A tra v é s d a
re c ita ç ã o d iá ria do Schem a, to d o hom em piedoso reconhece que D t 6,4s:
«Ouve I s r a e l . . . a m a rá s o S e n h o r te u D e u s ...» , é o p rim eiro m an d am en to .
A lig ação desse m a n d a m e n to com o do a m o r ao p ró x im o não se en co n tra
e n tre os rab in o s, m a s n a ca m a d a ju d a ic a de T e s t X II, p o rta n to em tra d iç ã o
essê n ia : «A m ai o S en h o r em to d a a v o ssa v id a e u n s a o s o u tro s com corações
sinceros» (D ã 5,2; cf. Is s 5,2; 7,6). E m to d o o caso é re p re se n ta d a p o r
F ilã o : « . . . h á d o is e n sin am en to s b ásico s ao s q u ais e stã o su b o rd in ad o s os
in ú m ero s en sin a m e n to s e d o g m as iso lad o s: em re la ç ã o a D eus, o m an d a­
m en to d a v en eração de D eus e d a p ie d a d e; em re la ç ã o ao hom em , o do
a m o r a o p ró x im o e d a ju stiç a » (S pec.L eg. 11,63). Com o resum o d a lei,
o ra b in ism o a p re se n ta , assim com o o A T (M q 6,8; SI 15; I s 33,15s), d iv er­
sa s form ulações. J á R a b b i H illel (20 aC ) en sin av a: «N ão fa ç a s ao te u
p róx im o o q u e n ã o t e a g ra d a . Is s o é to d a a T o ra, o m a is é su a in te rp re ta ­
ção». *“ A isso corresponde, com m odificações, a re g ra áu re a , como resum o
d a lei, em M t 7,12 (S ).
M a te u s ex p lica de m a n e ira c o rre ta , em 22,40, o q u e a referência de
Jesu s ao duplo m a n d a m e n to do a m o r a firm a com re la ç ã o a isso : «D estes
dois m a n d a m e n to s dependem to d a a lei e os p ro fe ta s» — assim como a
p o rta , de se u s gonzos. A lei q u e r s e r o b serv ad a sob ou a p a r tir d a p rio ri­
d ad e d esses m an d am en to s, que são, claram en te, a culm inância da lei. E m
co n trap o sição , o fa risa ísm o a tém -se p ra tic a m e n te, n a opinião de Je su s se­
g u n d o M t 23,23, a o s m u ito s pequenos m a n d a m e n to s d a lei. Segundo in te n - 1834

183. Q uadro sinótico d a presença de nom os n a tradiçSo sinótica, em B raun, R adika-


lism us II, 7; inclui n a cam ada m ais antiga, que possivelm ente é d a a u to ria d e Je su s, apenas
M t 15,6 v. 1.; 22,36; L c 10,26.
184. Billerb. I, 901s.
186. B Schab 31a; cf. Billerb. I, 907s.
III. A posição de Jesus frente à lei 131

ção ra b ín ic a o p rin cíp io do Schem a, D t 6,4, deve le m b ra r a obediência à


T o ra e m o tiv á-la. N o e n ta n to , o s resu m os acim a a p re se n ta d o s tê m sen­
tid o p ed ag ó g ico ; s u a fin a lid a d e n ã o é a de estab elecer p rio rid ad es.
N o e n ta n to , é n e cessário q u e s e v e ja que Jesus, e m o u tra s afirm ações,
não se c o n te n ta co m a caracterização d o m a n d a m en to d o am or com o culm i­
nância da lei. T am bém n ã o re v o g a os d em ais m an d am en to s d a lei p a r a
fa v o re c e r o dup lo m a n d a m e n to do a m o r do A T. O m a n d a m e n to do am or
adquire u m n o v o se n tid o q u an d o J e s u s o p ro c la m a n a 6* a n títe s e ou n a
p a rá b o la do bom sa m a rita n o . E lim in a o m a n d a m en to veterotestconentário,
increm entando-o. O m an d am en to do a m o r p a ssa a ser, em s u a boca, um
«novo m an d am en to » , com o c o rre ta m e n te o in te rp re ta Jo 13,34, e su a re a li­
zação p a ssa a s e r o cu m p rim en to in cre m e n tad o d a 2* tá b u a d a lei.
S erá q u e o d ito a re sp e ito do m a io r m an d a m e n to p rovém do p ró p rio
J e su s ? N ão s e rá p o r a c a so u m a redu ção , d a in stru ç ã o de Jesu s, à T o ra n a
cateq u ese d a ig re ja d a P a le s tin a ? P o d e p ro v ir d e Jesu s, caso n ão f o r c o m ­
preen d id o com o d o g m a de catecism o, m a s como p reg ação que q u e r s e r um
au x ílio : J esu s responde àqu ele q u e p e rg u n ta p ela v o n ta d e de D eus, antepondo
o duplo m a n d a m e n to do am or à lei, para conduzi-lo ao «novo m a n d a m e n to ».
A p a r tir desse «novo m an d am en to » , a lei ap arece, retro sp e c tiv a m en te , assim
com o o serm ão do m o n te a a p re se n ta .

2) A concepção d a lei que en c o n tra m o s n a s a n títe se s do serm ão d o m o n te,


é d e s c rita n o preâm bulo, M t 5,17-20, que M t lh es a n te p õ e red acio n alm en te,
porém , com m u ita p recisão. A s p re m issa s d a s a n títe se s descrevem p a r a M t
«a lei»; a s in stru ç õ e s de Jesu s, n o e n ta n to , devem p ro v o c a r o seu «cum pri­
m ento». S e rá que com isso Je su s fo i in te rp re ta d o c o rre ta m e n te ?

a ) C om o se evidenciou, en c o n tra m o s n a s a n títe se s re a lm e n te um a com ­


preensão d os m a n d a m e n to s v etero testam en tário s com o u m todo, p o rta n to da
Tora, que pro v ém de Jesu s, em seu cerne. S egundo e ssa com preensão, a lei
em su a essência é d ire ito que p ode s e r p ra tic a d o e que p ressu p õ e o m al
com o um f a to que n ã o p ode s e r vencido, m a s a p e n a s co n tro lad o . E e ssa é
a im agem d a T o ra que re su lta , re tro sp e c tiv a m en te , do m an d a m e n to absoluto
de Jesu s.

b ) O p reâm b u lo p e rg u n ta : Será que as in stru çõ es de J esu s querem «eli­


m in a r» esta lei?
O p reâm b u lo n ã o fo i so m en te in tro d u zid o p o r M t n a com posição, m as
tam b ém fo i fo rm u lad o , redacionalm ente, p o r ele p ró p rio : R ed ig iu o dito,
p ro v e n ie n te de Q, M t 5,18 p a r L e 16,17, e in te rp re to u -o com o auxílio dos
vers. 17 e 19, ao a d o ta r, ta lv e z ta m b é m aqui, elem entos d a trad ição .
D onde p ro v é m a tradição contida e m 5,18? D esde F erd in a n d C hristian
B a u r a té R u d o lf B u ltm a n n , a lin h a d a p esq u isa c a ra c te riz a d a p o r esses no­
m es defende a se g u in te concepção: E s s a s a firm açõ es n ã o podem p ro v ir de
Jesu s, p o is ele e ra lib e ra l f r e n te à lei. N essas afirm açõ es, o cristian ism o
ju d a ic o d a P a le s tin a e s tá p o lem izando c o n tra o cristia n ism o h e len ista, que
se co n sid era liv re d a lei e põe n a b o ca de Je su s a su a polêm ica: «N enhum
p o n tin h o . . . d a lei d ev erá s e r afa sta d o » . S egundo H einrich Ju liu s H o ltz-
m a n n ,188 o e v a n g e lista n ã o se n tiu a te n sã o em que se en c o n tra m essas a fir-
186. Theol. I, 50S e 512.
132 § 9: A posição de Jesus frente à Lei como norma

inações f re n te à s que se seguem . E le se a p ro x im a dos ju d aico -cristão s con­


serv ad o res, com o preâm bulo, e d os ju d a ic o -c ristã o s liberais, com as a n tí­
teses, fav o recen d o d essa m a n e ira a sín tese co n ciliad o ra do catolicism o p ri­
m itivo.
N o e n ta n to , o d ito do «em v erd ad e vos digo» de 5,18 q u e r a c e n tu a r
que a le i continuará a ser válida. O ú n ico p ro b lem a que perm an ece é a
p e rg u n ta : E m que se n tid o a lei c o n tin u a rá a se r v á lid a ? E m p rim eiro lu g ar,
é ac e n tu a d o que a lei p e rm an ecerá inalterada. N ão se rá lib eralizad a pela
elim inação de c e rto s tre c h o s (cf. A t 21,21). (Je su s n ão q u e ria p ô r «vinho
novo em o d re s velh o s» ). A lei p e rm a n e c erá in a lte ra d a como um to d o — «até
que o céu e a te r r a passem » e «até que tu d o se cum pra». E sse duplo «até»
n ão a c e n tu a a p en a s a d u ração, m a s tam bém , pelo m enos p a ra M ateus, um
espaço de tem p o d eterm in ad o . «A té que o céu e a t e r r a passem » não q u er
a firm a r de m a n e ira g e n é ric a : p a r a sem pre, m as p re c isa r: a té o fim desse
m un d o ; pois a s p a la v ra s de Jesus, segundo Mc 13,31 p ar, «não passarão » ,
m esm o q u e o céu e a t e r r a passem . A lei fa z p a rte d a ex istên cia desse m undo,
m a s n ã o te m v alid ad e além desse m undo, como supõem os rabinos. A isso
corresp o n d e a o u tra lim ita ç ã o : «A té que tu d o se cum pra», i. é, a té que o
ev e n to escatológico de cu m p rim en to s u b s titu a a lei e os p ro fe ta s. E s s a
expressão , que n ão en co n tram o s em L ucas, foi in tro d u zid a aq u i p o r M ateus
e to m a d a de Mc 13,30 p a r M t 24,34, p a r a lig a r esse d ito com o versículo
preced en te, v. 17.
O d ito do êlthon, 5,17, ex p lica: O e ven to de cu m p rim en to já está p resen te!
A m issão de Je s u s n ão co n siste em decom por a lei, como se p o d eria su p o r
em su a s a firm açõ es a resp eito do sáb ad o , m as em «cum pri-la ». O term o
«cum prir» sem p re sig n ifica, n o ev an g elh o de M ateus, q u an d o relacio n ad o à
E s c r itu r a (cf. 11,13), a co n cretização d a p rofecia. Je su s q u er fa z e r com que
a lei s e ja cum prida, com o fo i an u n c ia d o p a r a o tem po d a g ra ç a : A v o n tade
de D eus é « escrita n o s corações» dos hom ens. E la é com preendida e fe ita
com b ase em u m a n o v a com unhão do hom em com D eus ( J r 31,31-34; cf.
E z 11,19 e o . ) . MI E sse cu m p rim en to escatológico, que so b re p u ja tudo, já
a g o ra elim in a a lei, m esm o que e s ta co n tin u e a se r v álid a en q u an to o
m undo e x istir.
E s s a a firm a ç ão an tep õ e o sinal decisivo a n te as a n títe se s que se seguem :
A s ex ig ên cias to ta is que Je su s c o n tra p õ e à lei, n a s an títe se s, correspondem
ao cu m p rim en to escatológico que vem p o r seu interm édio. E la s tê m c a rá te r
escatológico. N ão su b stitu e m a lei de que se fa la n a s p rem issas d as a n títeses,
em se n tid o cronológico, m a s em se n tid o escatológico. I. é, a lei que co n tin u a
a v ig o ra r só pode s e r elim in ad a p o r u m cu m prim ento escatológico que a
so b re p u ja .
C o n seq u en tem en te n ã o tem os, em M t 5,17s, o ju d aísm o que ex ig ia dos
c ristã o s u m a ad ição d a lei e do m an d am en to de Jesus, m as um a interpretação 187

187. O fa to de que a época d a g ra ça tr a r á ura cum prim ento d a lei no sentido d a profecia,
e ra corrente não só p a ra P au lo (2Co 3,3.6) e p a ra o a u to r de H eb reu s (10,15ss), m as p a ra
todo o cristianism o p rim itivo; pois ele confessa, no culto eucarístico, a Jesus, segundo
suas pró p rias palavras, como o m ediador d a (nova) aliança (Mc 14,25 p a r). J á os essênios
relacionavam su a radicalização d a lei com a concepção d a nova (i. é, aqui renovada) aliança
(Dam 6,5; 7,19; 8,21 e o.). Segundo o contexto, segundo M t 5,19, o oposto a «revogar» é
«observar e ensinar». «Cum prir» não significa, portanto, como m u itas vezes foi dito, ap re ­
se n ta r o verdadeiro sentido d a lei e fazê-la vigorar. Jerem ias, Theol., 87ss, deduz d a re p ro ­
dução (posterior) do dito (de M t), em b. Schab 116b e n um a fonte ju d aico -cristã redescoberta,
onde encontram os «acrescentar» e «complementar» em lu g a r de «cumprir», que o dito se
re fira à «m edida cheia» que corresponde ao tem po fin a l: esse conceito apocalíptico, no entanto,
ain d a tem que se r interpretado.
I. Será que as exigências de Jesus resultam em ética? 133

escatológica que ia z ju stiç a à in stru çã o de Jesus. Je su s sem p re p a rtiu em


to d a s a s su a s discussões a re sp e ito d e m a n d a m e n to s v e te ro te sta m en tário s,
d a p ressu p o sição de que esses m a n d a m e n to s c o n tin u am em vigor. N ã o eli­
m ina, p. ex., o sábado, m a s «desrespeita-o» sem pre de novo, ao tra n sg re d i-lo
e so b rep u já-lo com seu s sin a is d e salv ação . E s ta in crem en tação e sobrepu-
ja n ç a n ão é u m a ra d ic a liz aç ã o in tra m u n d an a, m a s o cu m p rim en to d a lei
an u n ciad o p a r a o tem p o d a g ra ç a q u e re v e la rá o novo hom em . Se, pois, a s
a n títe s e s que seguem n ã o v isam u m a su b stitu iç ã o h istó ric a d efin itiv a, m as
u m c o n fro n to escatológico, en tão a ex ig ên cia de Je su s c o n tin u a a se r v á lid a
a p e n a s n essa a n títe s e f r e n te à lei, e a lei m o saica re p re se n ta a s fo rm a s de
v id a desse m undo d e te rm in a d a s p e la co ex istên cia com o m al, o d ireito , bem
com o a s n o rm as é tic a s d a s d iv e rsa s in stitu iç õ e s d a sociedade.

§ 10: A S E X IG Ê N C IA S É T IC A S D E JE S U S

Ad I e II: Além da literatura ref. ao § 7,1 e § 8,111 ver as partes éticas dos livro s a respeito
de Jesus; G ottfried Quell, agapao, ThW I, 20-49 (outra lit. em WB term o agape); — Ad II:
M ichaelRostovtzeff, Die hellenistische W elt. G esellschaft und W irtschart, 3 Vols., 1955; Roland
de Vaux, Das AT und seine Lebensordnungen, 2 Vols.. 1964/65'; — ad 111,1: Johannes Leipoldt,
Die Frau in der antiken W elt und im Urchristentum, 1954; W erner Plautz, Monogamie und Polygynie
im AT, ZAW 75 (1963), 3-26; idem, D ie Form der Eheschliessung im AT, ZAW 76 (1964), 298-318;
Claus Westermann, Der Mensch im Urgeschehen, KuD 13 (1967), 231-246; Paul W inter, Sadoqite
Fragments IV, 20-21 and the Exegesis of G t i 1,27 in late Judaism, ZAW 68 (1956), 71-84; Manfred
R. Lehmann, Gen 2,24 as the Basis fo r Divorce in Halakhah and New Testament, ZAW 72 (I960),
263-267; Gerhard Del ling. Das Logion M ark X,11 (und seine Abwandlungen) im NT, NovTest I
(1956), 263-274; Josef B linzler, Eisln eunouchoi, Zur Auslegung von M t 19,12, ZNW 48 (1957),
254-270; Heinrich Greeven, Ehe nach dem NT, NT S t 15 (1969), 365-388; Hermann Ringeling, Die
bibl. Begründung der Monogamie, ZEE X (1966), 81-102; Heinrich Baltensw eiler, D ie Ehe im
NT, 1967; — Johannes Behm, Sklerokardia, ThW III, 616; Friedrich Hauck, moicheuo, ThW IV,
737-743; Albrecht Oepke, gyne, ThW I, 776-790; Ethelbert Stauffer, gameo, ThW I, 646-655;
Thomas W. Manson, The Pericope de Adultera (Joh 7,53-8,11), ZNW 44 (1952/53), 255s; Josef
B linzler, Die Strafe fur Ehebruch in Bibel und Halacha, Zur Auslegung von Joh 8,5,NTSt 4
(1957/58), 32-47; U lrich Becker, Jesus und die Ehebrecherin, Untersuchungen zur Text- u.
Oberlieferungsgeschichte von Joh 7,53-8,11, 1963; — ad III, 2: M artin Dibelius, Rom und die
Christen im I.Jh, em: Botschaft und Geschichte II, 1956, 177-228;Ethelbert Stauffer, Die
Geschichte vom Zinsgroschen, em: Chrlstus und die Cãsaren, 1964s, 121-149; O tto Eck, Urgemeinde
und Imperium, 1940; Leonhard Goppelt, Die F re ihe it zur Kaisersteuer, em: Christologie und
Ethik, 1968, 208-219; — ad IV : M artin Dibelius, Die Bergpredigt, em: Botschaft und Geschichte I,
1953, 79-174; Thaddãus Soiron, Die Bergpredigt Jesu, 1941, 1-96; Erich Fascher, Bergpredigt,
RGG' I, 1050-1053; Leonhard Goppelt, Das Problem der Bergpredigt. Jesu Gebot und die W irkllch-
ke it dieser W elt, em: C hristologie und Ethik, 1968, 27-43.

I. S e rá q u e a s ex ig ên cias de J e s u s re s u lta m em é tic a ?

A o que tu d o in d ica, Je s u s desenvolveu su a s exigências, n a m a io ria d as vezes,


com o in stru ç õ e s isoladas, com o o p odem os v e r n a discussão a re sp e ito do
sáb a d o em Mc 3,4 ou a re sp e ito do trib u to a C ésar em Mc 12,17. E le não
c ria um siste m a ético, n em ao m en o s m a n d a m e n to s que, como o decálogo,
ab ra n g e sse m os asp e c to s m a is im p o rta n te s d a v ida. A série d e a n títe s e s do
serm ã o do m o n te, em M ateu s, é u m a com posição do ev an g e lista que se o rie n ta
n a se g u n d a tá b u a do d ecálo g o ; n o serm ão d a planície, em L u cas 6, tem os,
em seu lu g a r, a p e n a s o m a n d a m e n to do a m o r ao in im igo; n ão tem os, p o r­
ta n to , nem ao m enos um m a n d a m e n to do am o r com o p rincípio g eral. P o r
o u tro lado, M ateu s n ã o a p e n a s c o o rd en a a s in stru ç õ e s de Je su s em séries
de m a n d a m e n to s sem elh an tes a u m catecism o, m a s conclui-as ta m b é m com
134 § 10: As exigências éticas de Jesus

p rin cíp io s resu m id o res: «Deveis s e r p e r f e i t o s ...» (5,48). «Tudo que qu ereis
que os hom ens vos f a ç a m . . . » (7,12). E s ta s d u as possibilidades fo ra m m ais
ta rd e desenv o lv id as de u m a m a n e ira que d e tu rp o u as exig ên cias d e Jesu s.
E v id en ciarem o s isso em dois exem plos.

1 ) 0 catolicism o p rim itiv o a d o ta as exigências de Jesu s com o p a rte de


um a n ova lei. J á a e p ísto la de B a rn a b é fa la , em 2,6, d a «nova lei de nosso
S enh o r Je su s C risto». Os teólo g o s d a ig re ja cató lic a p rim itiv a , lid erad o s
p o r J u stin o e Irin eu , a p re se n ta m o conteúdo d a n o v a lei ao in tro d u zirem ,
p au la tin a m e n te , a s ex ig ên cias de Je su s n o s m an d am en to s ético-religiosos do
A T . S egundo a opinião deles, Je s u s te r ia an ulado a p e n a s a s leis p o p u lares
e cerim o n iais do A T ; pois e sta s e ra m p re v istas, desde o início, ap e n a s p a ra
I s r a e l.188 E m co n tra p o siç ã o te r ia con firm ad o a s in stru çõ es ético-religiosas. E s ­
ta s j á eram v á lid a s a n te s d a legislação do Sinai. São m an d am en to s com
v alid a d e g enérica, p o is co n ferem com o que é ju s to e bom p o r n a tu r e z a .388
E s tã o resu m id o s n o decálogo. Je s u s te r ia a d o tad o estes m an d am en to s com o
base, am p lian d o -o s e su p eran d o -o s p o r m eio de seu s p ró p rio s m an d am en to s,
«ao conceder ao hom em a g ra ç a de a m a r a D eus de to d o o coração». S ua
lei e s tá re su m id a no duplo m a n d a m e n to do a m o r .181 E s ta é tic a g rad u al,
desen v o lv id a n o séc. I I , fo i co m p lem en tad a m ais ta rd e p ela concepção das
tr ê s p raecepta evangélica. O s tr ê s «preceitos evangélicos», ren ú n cia ao m a ­
trim ô n io , à p ro p rie d a d e e à fo rm ação de u m a v o n tad e p ró p ria (M t 19,12.21;
M c 10,43s) su rg em com o a cu lm in ân cia desse esquem a g rad u al. E sse esboço
vê, com razão , q u e a s ex ig ên cias de Je s u s pressupõem a v a lid ad e p erm an en te
d a lei. M as ig n o ra q u e n ã o e stã o lig a d a s à lei a tra v é s de u m a sín tese com ­
p a ra tiv a , m a s que d ivergem d ela q u a lita tiv a ou a n tite tic a m e n te. ”*

2) E m co n trap o sição , p. ex., a «T eologia do N ovo T estam en to » de


B u ltm a n n red u z as in stru çõ es éticas de J e su s a u m princípio. A v o n tad e po­
s itiv a d e D eu s é «a exig ên cia do am or», e x p ressa n o duplo m an d am en to do
am or. P orém , «a ex ig ên cia do a m o r n ã o n ecessita de d eterm in açõ es fo rm u ­
la d a s ; o exem plo do bom sa m a rita n o m o s tra que o hom em pode e deve
sa b e r o q u e te m que fazer» (§ 2,4). E s s a solução, m u ita s vezes aceita,
red u z a s in stru ç õ e s de Je s u s a u m a é tic a de decisão p essoal e in d iv id u a l."
M as n ã o fa z ju s tiç a n em à p a la v ra de Je s u s nem à re a lid a d e d a sociedade.
O d ito de Je s u s a resp eito do divórcio (M c 10,11 p a r ) , p. ex., não pode
s e r red u zid o ao a m o r ao p ró x im o ; seg u n do M c 10,2-9 p a r n ã o é fu n d a ­
m e n ta d o a p a r tir do p rin cíp io do am or, m a s a p a r tir d a fin a lid a d e de ho­
m em e m u lh e r segundo a criação. A p en as q u an d o o b servarm os a s in stru çõ es
p a rtic u la re s de Je su s e p e rg u n ta rm o s p elos se u s princípios, é que terem o s
o p o n to de p a r tid a p a r a u m a é tic a que a b ra n ja a realid ad e d a v ida. Isso
se ev idencia em u m a a n álise d a to ta lid a d e d as exig ên cias de Jesus. 189023

188. J u s t, D ial 44,2; Irin h a er IV, 14s: 25,1.


189. J u s t, D ial 45,3s; 47,1s; Irin h a er IV, 15,1.
190. Irin h a e r IV, 16,3s. Q uanto ao todo, cf. L eonhard Goppelt, C hristentum u n d Ju d e n tu m
im e rsten und zw eiten Ja h rh u n d e rt, 1954, 294ss; 304ss.
191. J u s t, D ial 93,2.
192. E m H einz-D ietrich W endland, E th ik des NT, 1970, 12s, a relação e n tre o decálogo
que continua em vigor, e o m andam ento do am or no q u a l ele resum e as instruções de Jesus,
perm anece pendente.
193. W olfgang Schrage, D ie k onkreten E inzelgebote in d e r paulinischen Par&nese, 1961,
9-48, faz um relató rio a respeito d a discussão sobre essa m an eira de re g is tra r as instruções
de Jesus.
II. O conteúdo das exigências de Jesus 135

I I . O conteúdo das exigências de Jesns

1 ) Se o b se rv a rm o s o c e n tro d a s ex ig ên cias d e Jesu s, com preenderem os logo


p o r que tê m u m c a r á te r tã o casu al, e x e m p la r: E la s visa m , n o seu centro,
sem p re a um a e m e sm a coisa, ao a rrep en d im en to to ta l. E s s a te s e po d e s e r
d e m o n stra d a d a se g u in te m a n e ira :

a ) A s ex ig ên cias de J e s u s s ã o in e v ita v e lm e n te concretas. E le n ã o f a la


a re sp e ito d o estad o , m a s a re sp e ito d a n eg ação d e p a g a r trib u to a C ésar
(M c 12,13-17). N ão o p in a a re sp e ito do m atrim ô n io , m a s a resp eito d a
po ssib ilid ad e do divórcio (M c 10,2-12; M t 5,27-32). N ã o cham a, d e m a n e ira
g en e ra liz ad a , à recon ciliação , m a s ex ig e q u e aq u ele q u e p rin c ip ia a o ra r
p ense n a s u a rela ç ã o com o se u irm ã o (M t 5,23).

b ) P a rtin d o d e s ta s p e rg u n ta s co n cretas, J e su s v isa ao cen tro da vida


da pessoa. P a r te d a p e rg u n ta a tu a l a re sp e ito do trib u to devido a C ésar e
ex ig e: «D ai a D eus o q u e é de D eus» — tu d o (M c 12,17 p a r ) . R e je ita a
possib ilid ad e de d iv ó rcio e x te n siv a a to d o s e a ta c a a d u re z a do coração (M c
10,9 p a r ) . E m c a d a q u e stã o ta n g e n te à a titu d e , exige, sem p re e em p rim eiro
lu g a r, u m a coisa, o a rre p e n d im e n to escatológico.

c ) O a rre p e n d im e n to escatológico, n o e n ta n to , n ão se d e m o n stra ap en as


em u m a n o v a a titu d e d e v id a, m a s ta m b é m em u m n o v o co m p o rta m en to ,
p. ex., n o p a g a m e n to do tr ib u to devido a C é sa r e n a reco n ciliação com o
irm ão . M as com o pod em o s reco n h ecer o q u e é ex ig id o a g o ra com o novo
co m p o rtam en to , se a s in stru ç õ e s de Je s u s a p e n a s o in d icam c a su a l e exem ­
p la rm e n te ?

2) Se o b serv arm o s a s in stru ç õ e s iso lad as de Je su s q u a n to ao novo com ­


p o rta m e n to , ex ig id o com o alvo, v erem o s q u e os dados a resp eito do alvo
se e n c o n tra m d isp erso s e m três se to re s o u p la n o s d ife re n te s, que, sob o p o n to
de v is ta ético, m u ita s vezes se c o n tra d iz e m :

a ) Je s u s c o n c ita a q u e n o s a fa ste m o s d o s e s ta tu to s h u m an o s e n o s
vo ltem o s a o s m a n d a m e n to s d ivin o s d o A T (cf. Mc 7,9-13 p a r ) . E le s são
a p o n ta d o s ao jo v em ric o (M c 10,19 p a r ) . J e su s d á a eles u m alv o no
duplo m a n d a m e n to do a m o r (M c 12,28-31). D ev erão c o n tin u a r a v ig o ra r
com o lei a té o fim do m u n d o (M t 5,18 p a r ) .

b ) Ao m esm o tem po, J e s u s v a i além dos m a n d a m e n to s v étero -testam en -


tá rio s , e a té c o n tra eles, ao c h a m a r-n o s à o rd em o rig in a l da criação (M c
10,6ss p a r ) . N a q u e stã o a re sp e ito do im p o sto devido a C ésar, ele a p o n ta
p a r a u m a ex ig ên cia de D eu s q u e f a la d ire ta m e n te d a h is tó ria (M c 12,15s p a r).

c ) E m ev id en te te n sã o com essas s u a s p ró p ria s in stru çõ es, pode, no


e n ta n to , f a la r a re sp e ito de um a b a n d o n a r a fa m ília p o r c a u sa do discipu-
lado ou de u m a renúncia ao m a trim ô n io p o r causa do reino d e D eus (L c
14,26s [ p a r M t ] ; M t 19,12; cf. L c 9,57-62 p a r ) . P ro íb e que se p eça o apoio
ju ríd ic o do esta d o (M t 5,39ss p a r ) a q u e se te m d ire ito em v irtu d e do p a g a ­
m en to do im posto.
136 § 10: As exigências éticas de Jesus

D essa m a n e ira a s in stru ç õ e s d e J e s u s c e rta m e n te não levam a u m a


n o v a é tic a e stá tic a . A p a r t i r de seu alvo, so m en te p o d erão s e r v is ta s como
u m a u n id ad e, g u an d o isso n ã o c o n s titu ir e s tru tu ra ç ã o do m undo, m a s a
u n ião do hom em com o seu D eu s; p o is a vo n ta d e d e D eus s e co n fro n ta co­
nosco, agora, e m io rm a s d iferen cia d a s. P e lo f a to de o seu re in o escatológico
h a v e r sid o e rig id o d e m a n e ira ab scô n d ita, n a h istó ria , p o r isso a s u a v o n ta d e
se c o n fro n ta conosco, a g o ra , com o a ex ig ên cia do re in o escato ló g ico e com o
a ex ig ên cia d a c ria ç ã o o rig in al, bem com o d a lei que é d a d a p a ra um a
c ria ç ã o c a ra c te riz a d a p elo m al, te n d o em v is ta «a d u re z a do coração».
E s s a s ex ig ên cias d iferen ciad as, n o e n ta n to , n ã o fo ram , com o o ju lg a v a m
os te ó lo g o s do cato licism o p rim itiv o , u m a escad a ascen sio n al que p a r te d a
lei. A q u estã o p rim á ria e d ecisiv a é a exig ên cia do reino escatológico de
D eu s: «B uscai, em p rim e iro lu g a r, o re in o de D e u s ...» (M t 6,33 p a r),
tam b é m a q u i é válido. A o ração do discípulo p a rte d a p rece p e la v in d a do
re in o (M t 6,10 p a r ) . A ex ig ên cia d o re in o de D eus, que e n co n tram o s na
a tiv id a d e de Je su s, cham a, a n te s de m a is n a d a , a c a d a u m p a r a q u e se
lib e rte de to d a s a s lig açõ es que tin h a a té então, tam b ém d a lig ação a seu
p ró p rio E u . S o m e n te o a rrep en d im en to escatológico to ta l, ou m elhor, a en­
tra d a n o se rv iç o do reino de D eus, lib e rta tam b é m p a r a o próxim o, p a ra
o m a trim ô n io no se n tid o o rig in al, p a r a o trib u to devido a C ésar e p a ra o
d ire ito d o m undo. A s resp o n sa b ilid a d e s p a ra com a criação e a lei n ã o se
to m a m in d ife re n te s f re n te à ex ig ên cia do rein o de D eus, pelo c o n trário ,
sã o evid en ciad as, m a s estão, m esm o assim , em segundo lu g ar.
N e sse se n tid o a s e x em p lares ex ig ên cias iso lad as d e J e su s n o s cham am
a u m a a tu a ç ã o m u ltifo rm e e, contudo, u n ifo rm e: à u n iã o com a s exigências
a tu a is de D eus. M as com o se p o d erão s e n tir essas exigências, a p o n ta d a s
a p e n a s em exem plos?

3) Se p ro c u ra rm o s u m p rin cip io do qual su rja o conteúdo do com por­


ta m e n to ético, c e rta m e n te pod erem o s c a ra c te riz a r o m étodo, u sad o p o r Jesu s
p a r a o b te r in stru ç õ e s éticas, de «ética de relação». E le a p o n ta , ex em p lar­
m en te, p a r a d e te rm in a d a s relaçõ es do E u -T u , n a s q u ais o hom em é d esa­
fia d o p ela situ a ç ã o ex isten te.

a ) A n te s de m a is n a d a , Je s u s a b re o cam inho p a r a um a no va relação


d ireta com D eus. S u b lin h a o p rim e iro m a n d a m e n to : «A m arás o S en h o r te u
D eu s de to d o o c o r a ç ã o ...» (M c 12,29s p a r ) . E sse m a n d a m e n to sig nifica,
a g o ra , com o o s e n te o jo v em ric o : a b a n d o n a r tu d o e s e g u ir a Je su s (Mc
10,21 p a r ) . T am b ém p o d e sig n ific a r, com o é d ito n a s n a rra tiv a s de cura,
«crer» f r e n te à a tiv id a d e de J e s u s (M t 8,10 p a r ) . E quem e n tr a r n e s ta
relação , o r a r á de m a n e ira n o v a e com n ovo conteúdo (M t 6,5-15; 7,7-11;
M c l l ,2 4 s ) . E s s a rela ç ã o é a n te rio r a to d a s a s relaçõ es in tra -h u m a n a s e,
m esm o assim , e s tá in se p a ra v e lm en te lig a d a a e la s .1*1

b ) J e s u s a p o n ta , ao m esm o tem po, p a r a a relação com o p ró x im o a


q u a l exig e a d em o n stra ç ã o do am o r. C om preende «am ar» d a m esm a m an eira
com o o m a n d a m e n to v é te ro -te sta m e n tá rio , com o d e m o n stra r am or, e não
com o s im p a tiz a r com alguém . Segundo a p a rá b o la do bom sa m a rita n o , os 194

194. Cf. Günther Bornkamm, Jesus von Nazareth, 1956, 119-126.


III. As palavras de Jesus frente a instituições da sociedade 137

hom ens se to rn a m p ró x im o s um do o u tro a tra v é s d a situ a ç ã o h istó ric a es­


pecífica; n ã o a tra v é s de u m a casu ística, m a s q u an d o D eus lh es põe no
cam inho um hom em que n e c e ssita de au x ílio ab n eg ad o (L c 1 0 ,3 0 ss): «Tive
fom e e m e d e ste s de com er» (M t 25,35ss). U m a relação de p róxim o pode
se d a r p a r a com q u a lq u e r pessoa, tam b ém p a r a com o inim igo, inclusive
o inim igo de D eus: J e s u s ra d ic a liz a o am o r ao próxim o no am o r a o inim igo
(M t 5,44 p a r ) . A re la ç ã o de p ró x im o tam b ém n ã o te rm in a quando o o u tro
nos d e sa p o n ta e n ão re trib u i o a m o r recebido. O discípulo o ra : « P erdoa,
assim c o m o .. . nós tem o s perdoado» (M t 6,12 p a r). «E se te u irm ão p e c a r
se te vezes no d ia c o n tra t i , . . . perdoa-o» (L c 17,4 p a r M t). O am o r se
to r n a ilim itad o a tra v é s do p erd ão . P o r d e trá s d este am o r e stá, com o n a
n o v a relação p a r a com D eus, n ã o som ente a exigência to ta l de Jesu s, m as
m u ito m a is o p erd ão de D eus com o q u al som os c o n fro n ta d o s em Jesus:
(§ 12 , 111) .

c) A lém d a relação in d iv id u al com o próxim o, J e su s a p o n ta s u rp re e n ­


d en te m e n te tam b ém p a r a a s relações sociais que são d a d a s pelas in stitu içõ es
d a sociedade. T r a ta de com prom issos que re su lta m do m atrim ô n io , d a f a ­
m ília, d a p ro p ried a d e e d a situ a ç ã o p o lítica, n a s q u ais o am o r ao p róxim o
é ilim itado. N isso a c e n tu a a s ex ig ên cias c o n c re ta s d a v id a h istó ric a e, ao
m esm o tem po, conduz p a r a a d istâ n c ia escatológica.

d ) E m a lg u m a s re fe rê n c ia s ap a re c e en fim u m a n o v a relação social,


a dos discípulos e n tre si. Je s u s põe-na, seg u n d o Mc 10,42-44 p a r Lc, sob
o conceito «servir». E s s e te rm o p a r a ele é u m a im ag em ; n a com unidade
tra n sfo rm a -se em co n ceito : «M as e n tre v ó s n ã o s e rá a s s i m . . . , quem q u ise r
to m a r-s e g ra n d e e n tre vós, s e ja vosso servo». E n tr e os discípulos, e n tre os
que fo ra m a b ra n g id o s pelo re in o de D eus, v ale rã o fu n d a m e n ta lm e n te o u tra s
re g ra s do que n o cam po do rein o político. E sse conceito deve se r o rig in á rio
de Jesu s, m esm o que, em g eral, os d ito s d irig id o s ao s discípulos sejam , em
g ra n d e p a rte , in flu en ciad o s p ela situ a ç ã o d a com unidade.
A e s tr u tu r a d a s ex ig ên cias de Jesu s, a s q u ais descrevem os d e sta m a ­
n e ira fu n d a m e n ta l, ev id en ciar-se-á im p re ssio n an tem en te n o te rc e iro seto r, n o s
seu s d ito s a re sp e ito d a s in stitu iç õ e s d a sociedade. P o r isso a n alisarem o s,
em u m a te rc e ira p a r te especial, seu s d ito s a resp eito de dois cam pos d e ste
seto r.

m . A s palavras de Jesus frente


a instituições da sociedade

1 ) D ito s de Je su s a re sp e ito do m atrim ô n io .

E les p arecem d iv e rg ir em trê s direções:

a) U m dito , tra n s m itid o em M arcos ( 1 0 ,lls p a r M t 19,9), bem como


em Q (M t 5,32 p a r Lc 16,18) e j á c ita d o em IC o 7,10, tem em s u a fo rm a
m ais a n tig a o se g u in te te o r (L c 1 6 ,1 8 ): «Quem s e d iv o rc ia r de s u a m u lh e r
e c a sa r com o u tra , com ete a d u lté rio . E quem se c a sa com a m u lh e r re p u ­
d iad a pelo m arido, com ete ad u ltério » . A s e n te n ç a e s tá fo rm u la d a no estilo
do d ire ito divino casu ístico . O estilo c a ra c te riz a a afirm ação , aqui, com o
138 § 10: Aa exigências éticas de Jesus

em M t 5,32, com o d ire ito d ivino e n ã o com o d ire ito p ra tic a d o pelos ho­
m ens, com o p ro ib ição ap o d ítica. A se n te n ç a ju ríd ic a e n ig m ática n ão q u e r
p ro ib ir o seg u n d o m a trim ô n io de m a n e ira casu ística, m a s condenar todo
divórcio com o M aschal. E s s a condenação de q u a lq u e r espécie de divórcio
é s in g u la r n o a m b ie n te ju d e u de Jesu s. 190 U m a p assag em de D am (4,20-5,6).
n a q u a l se ju lg a v a e n c o n tra r u m p aralelo , pro íb e a poligam ia, m a s n ão o
d iv ó rc io .19® É com preensível q u e e s ta p ro ibição te n h a sido p ro b le m á tic a p a r a
a com unidade, desde o prin cíp io . P od e-se ded u zir isso d e IC o 7,10ss bem
com o d a cláu su la de M ateus. E s ta ú ltim a evidencia clara m e n te a su a p ro ­
blem ática.
E m M a teu s 5,32 e 19,9 fo i in tro d u z id a um a cláusula que tem , n a p ri­
m e ira p assagem , o se g u in te te o r: «exceto em caso de im pudicícia». S eu
sig n ificad o é c o n tro v e rtid o n a exegese. N a exegese p ro te s ta n te m ais recen te
m u ita s vezes é d ito que a clá u su la q u e r a ju s ta r o d ito à s ex ig ên cias d a
p r á tic a e que, p o r isso, d e lim ita a p ro ib ição a p o d ític a de m a n e ira c a su ístic a :
E m caso de im pudicícia, i. é, de ad u lté rio , o m a trim ô n io pode se r d e s fe ito .1951697198
E s s a explicação, n o e n ta n to , e s tá em desacordo com o co n texto. M ateu s não
so m en te in tro d u z iu a cláusula, m a s tam b ém colocou o d ito de Je su s em a n tí­
te se ao d ire ito de divórcio m osaico (M t 5,31 — D t 24,1), e não a u m a
p r á tic a ju d a ic a m a is flexível. P ro v av elm en te fo rm u lo u a cláu su la com in­
ten ç ã o apolo g ética, pois sem p re de novo c o n te sta arg u m e n to s polêm icos dos
ju d eu s. A clá u su la f a la de im pudicícia, e n ão d e ad u ltério . E m caso de
im pudicícia, q u an d o um dos p a rc e iro s vive se en treg an d o a ou tro s, o d iv ó r­
cio e ra o b rig a tó rio seg u n d o o d ire ito m osaico. Q ue q u er a proibição apo­
d ític a de Je s u s a n te ta is p o ssib ilid ad es? N ão faz ju s tiç a à realidade, é a b s u r­
d a ! M ateu s defende-se c o n tra t a l a c u sação e esclarece: A o rien tação de
Je s u s é v álid a, «exceto em caso de im pudicícia». E la n ã o diz o que deve
o c o rre r em t a l situ ação . N ão é u m a se n te n ç a ju ríd ic a casu ística. P o r isso
tam b ém n ão exig e u m a m a n u te n ç ã o do m atrim ô n io p o r to d o s os m eios; e
nesse p o n to M a te u s se a p ro x im a de IC o 7,10ss. P o r m o tiv o s «de im pudi­
cícia» o divórcio pode se r necessário.
A in te n ç ã o do dito é explicada n a discussão de Mc 10,2-9 p a r M t 19,
3-8. E le q u e r c o n d en ar o q u e e s tá p o r tr á s dos m atrim ô n io s que se des­
fazem , e re n o v a r a fin a lid a d e do m a trim ô n io co rresp o n d en te à c riação a
p a r tir do eschaton. O d ire ito m osaico do divórcio é n ecessário «por causa
d a d u re z a do coração» (M c 10,5), en q u a n to que o m atrim ô n io indissolúvel
é a v o n ta d e o rig in a l do C riad o r. A p roibição de Je su s atin g e, p o rta n to ,
u m a p o ssib ilid ad e sem a q u al o m a trim ô n io e n tre os seres h u m an o s se to m a
im possível. E x ig e, em p rim eiro lu g a r, de to d o s a elim inação da «dureza do
coração». E sse term o , que é desconhecido no g reg o ex tran eo testam en tário ,
lem b ra-n o s a p ro fe c ia do A T . “® Segundo ela a d u reza do coração s e rá eli­
m in a d a a p e n a s n o tem po d a g ra ç a (E z 11,17-19; 36,26). A pro ib ição de
Je s u s se ria , p o rta n to , u m a co n d enação a b su rd a, se n ã o ap resen tasse, ao m es­
m o tem po, a ren o v ação p ro m e tid a . A p en as en tão o m atrim ô n io indissolúvel
se t o m a r á u m a possibilidade. ( E m esm o en tão a realização , com o o ensina
IC o 7,10-16, se rá q u e stio n a d a n ã o so m en te p ela fa lh a de c a d a um , m as
tam b ém p ela situ a ç ã o so cial).

195. Cf. B illerbeck I, 312-321; B raun, R adikalism us II, 89, n o ta 3, 108-114.


196. Idem B raun, Q um ran I, 40ss.
197. D iscussão em F . H auck/S . Schulz, T hW VX, 590-592, e B altensw eiler, op. c it , 87-«2.
198. N a L X X D t 10,16; J r 4,4 (H b r «prepúcio do coração»); S ir 16,10; Ez 3,7; sinônim o:
E z 11,19; 36,26 («o coração de pedra»).
III. As palavras de Jesus frente a instituições da sociedade 139

b ) D essa m a n e ira J e s u s p ro íb e to d o divórcio, com o tam b ém condena o


o lh a r cobiçoso com o a d u lté rio (M t 5 ,28), e, p o r o u tro lado, a c e ita p ro s ti­
tu ta s n a s u a com unhão e n a do re in o de D eus, sem im p o r condições, p e r­
d o an d o -a s (L c 7,36-50), de m a n e ira q u e « p ro s titu ta s e publicanos» e n tra m
p o r seu in term éd io n o rein o de D eus (M t 21,31s). A períco p e a p ó c rifa
d a m u lh e r adúltera, ( J o 7,53-8,11), m a n té m esse te ste m u n h o ; nela, no en ­
ta n to , esse p e rd ão assu m e a fo rm a de u m a re g ra de sa b e d o ria (8 ,7 ). Como
s e p ode c o a d u n a r essa «indulgência» com a s rig o ro sa s ex ig ên cias? H á so ­
m e n te u m a explicação, com o se ev id e n c ia rá (§ 12,11 e I I I ) : Q uando Je su s
a c e ita os culpados, é conseguido o a rre p e n d im en to to ta l que é exigido pelos
m an d a m e n to s to ta is !

c ) F in a lm e n te Je s u s ex ig e e p o ssib ilita n ã o so m en te um m atrim ô n io


indissolúvel, m a s ad v o g a tam b ém u m a renúncia ao m a trim ô n io po r a m o r ao
reino de D eus, b em com o u m ab an d o n o de m a trim ô n io e fa m ília p o r cau sa
do discipulado.
M t 19,12 ( S ) : «H á eunucos que se c a s tra ra m a si m esm os p o r cau sa
do re in o dos céus. Q uem o p u d e r com preender, com preenda-o!» « C a stra r-
se» sig n ifica, em se n tid o fig u ra d o , a re n ú n cia ao m a trim ô n io e à v id a
s e x u a l.3" E s s a re n ú n c ia ao m a trim ô n io te m um c a r á te r to ta lm e n te diverso
d a d os essênios. E n tr e eles a re n ú n c ia é ex ig id a p a ra p re p a ra r um g ru p o
escolhido p a r a a g u e rra s a n ta , p ela q u al o rein o de D eus é erigido.® 0 Jesu s
a d v o g a u m a re n ú n c ia que é im p o sta a alguns, p rin cip alm en te a ele p róprio,
pois sã o to ta lm e n te ab so rv id o s pelo re in o que vem no presen te.
T alv ez ele ju s tifiq u e com e ssa p a la v ra a in d a o fa to de que, pelo m e­
n o s p o r tem po d eterm in ad o , te n h a s e p a ra d o os seu s discípulos do m a tr i­
m ô n io e d a fa m ília : «Quem vem a m im e n ã o odeia seu pai, a m ãe, a
m u lh e r e os f i l h o s . . . e a in d a a s u a p ró p ria vida, n ã o po d e s e r m eu discí­
pulo» (L c 1 4 ,2 6 ).192001 E sse ódio é o re v e rso do am o r exclusivo (cf. M t 6 ,2 4 );
em p a r M t 10,37s, «odiar» é su b stitu íd o p o r « am ar m ais». A essa ren ú n cia
ao m a trim ô n io co rresp o n d e a re n ú n c ia à p ro p ried ad e, segundo Mc 10,21 p a r
(§ 11,11,3; § 8,1,2).
E ssa renúncia ao m a trim ô n io n ão é u m a exig ên cia a r b itr á r ia ; ela cor­
responde a e stru tu ra do reino que há de v ir; pois nele, segundo M c 12,35
p a r, «não m a is se c a s a rá e n ã o se d a r á em casam ento». E s s a ren ú n c ia
n ão só elim in a a lig ação à lei e ao m al, m a s tam b ém a fin a lid a d e d a
c ria ç ã o ; ela co rresp o n d e à p erfeição de u m a n o v a corp o ralid ad e. T am bém
p a ra os discípulos a p e rfe iç ão a in d a n ã o e s tá p re se n te e tam b ém n ão pode
s e r a n te c ip a d a p o r eles a rb itra ria m e n te (IC o 4 ,8 ). A re n ú n c ia so m en te
co rre sp o n d e à in te n ç ã o de Je s u s quando é «dada» (M t 19,11.12c), q u an d o é
c a rism a (IC o 7,7) p a r a s e rv ir — n ã o q u an d o é ex ig id a como pressu p o ­
siç ã o do servir.
D essa m a n e ira a s p a la v ra s de J e s u s a re sp e ito do m atrim ô n io a p re se n ­
ta m um c o rte tra n s v e rs a l a tra v é s de to d a a a m p litu d e de s u a a tiv id a d e ;
elas so m en te podem s e r v is ta s com o u m a u n id ad e a p a r tir d a v in d a do
rein o . A lgo sem elh an te ta m b é m é válido com relação a su a s a firm açõ es a
re sp e ito do estad o .

199. T hW n , 765s.
200. B raun, R adikalism us I, 84.
201. E m p a r M t 10,37s, são citados apenas pais e filh o s; em p a r Tom é 55. (101), apenas
p ais e irm ão s; a citação com pleta de todos os p arentes, tam bém d a esposa, em Lucas, é
se cu n d ária, m as conforme.
140 § 10: As exigências éticas de Jesus

2 ) D ito s de Je s u s a re sp e ito do estad o .

a ) N a época de Jesu s, a discussão em to rn o d a relação de Is ra e l com


a s p o tê n c ia s m u n d ia is h a v ia se co n cen trad o n a q u estão em to rn o do trib u to
devid o ao César. Je su s to m o u posição f re n te a essa questão, segundo Mc
12,13-17 p a r. Os zelo tes «reconheciam a p e n as D eus com o o seu sen h o r e
rei» e n egavam -se, p o r isso, a reco n h ecer o im p e ra d o r ro m an o a tra v é s do
p a g a m e n to de im p o s to s .202 R e sistia m p o r m eio de g u e rrilh a s e lev a ra m o
povo à re v o lta m essiân ica c o n tra R om a, no ano de 66; sob o p o n to de v ista
político, a re v o lta e ra sem sen tid o , m a s eles esp e ra ra m a té o fim pelo
m ila g re de D eus. Je su s co ndena esse cam inho, ao elim in ar as su as prem issas. Sua
re sp o s ta p a r te d a m o ed a que, n a época, p o ssib ilita o com ércio. Com isso
ele ig n o ra a posição te o c rá tic a de Is ra e l bem com o su a lei e a p o n ta p a ra
a v o n ta d e de D eus com o o se n h o r d a h istó ria , o qu al se m a n ife sta a tra v é s
d a situ ação . Q uem te m d ire ito de c u n h a r m oedas, é rei, e D eus é quem ,
seg u n d o D n 2,21, in s ta la e rem ove reis. A m oeda dem o n stra, p o rta n to , à
luz d a E s c r itu r a bem com o do rein o que h á de vir, que o im p erad o r deve
s e r reconhecido a tra v é s do p a g a m e n to do trib u to : «Dai ao C ésar, o que é
do C ésar — e a D eus o que é de D eus», a sa b e r: tu d o ! E v id en tem en te
o seg u n d o perío d o é o p o n to alto , n e ste dito, assim com o no d ito a resp eito
do divórcio a re fe rê n c ia à «dureza do coração». E le descreve a exigência
to ta l de Jesu s. O p rim e iro período lh e é subordinado. E m esm o assim o
d ito n ã o desenvolve u m «paralelism o irônico». 203 O p rim eiro período con­
firm a o tr ib u to ao im p erad o r, o que n ã o e ra possível p a ra nenhum hom em
ju d e u ; so m en te quem segue a exig ên cia to ta l de Je su s e «dá a D eus o que
é de D eus», e s tá livre d a p ro b le m á tic a que sig n ifica o im pério p ag ão p a ra
os h om ens n a te o c ra c ia ju d a ic a sob a lei. E le pode deduzir d a m oeda o
que o sen h o rio de D eus so b re a h is tó ria exige a g o ra e aceitá-lo a tra v é s
do p a g a m e n to do trib u to .
Se o b serv arm o s que essa co n firm ação do trib u to ao im p erad o r provém
do cham ad o escatológico ao arrep en d im en to , com preenderem os que tam bém
aq u i a resp o n sab ilid ad e fre n te à h is tó ria é so b re p u ja d a p e la ren úncia.

b ) Je s u s ad v o g a o p a g a m e n to do tr ib u to com o q u al a polícia e o ju iz
são p a g o s e exige, a o m esm o tem po, a renúncia fr e n te ao d ireito e o poder,
os p rin cíp io s d a ex istê n c ia do e sta d o : «O uvistes o que foi d ito : Olho p o r
olho, d e n te p o r dente. E u , porém , v o s d ig o : N ão re sista is ao p erv erso ; m as
a q u a lq u e r q u e te f e r ir n a fa c e d ire ita , v o lta-lh e tam b ém a o u tra» (M t
5,38 s). O sig n ificad o desse «não re sistir» é deduzido d a p rem issa bem como
do exem plo que se segue. A o u tr a p o ssib ilidade é, seg u n d o a p rem issa, o
iu s ta lio n is, o p rin cíp io do a n tig o d ire ito penal. A a n títe s e proíbe defender-
se de u m p re ju íz o m alicioso com o au x ílio do d ire ito penal. P ro v av elm en te
fo i fo rm u la d a p o r M ateus, m a s o exem plo que segue e que com to d a a
c e rte z a v em d e Jesu s, a firm a o m esm o. R ad icaliza a in stru ç ã o de m a n e ira
in d iv id u a l e p e s s o a l: «Se alg u ém te f e r ir n a fa c e d ir e ita . . . » . Isso n ão pode
s e r conseguido de m a n e ira in stitu c io n a l, a tra v é s d a elim inação ou d a re ­
fo rm a d a p o lícia o u d a ju stiç a , m a s so m en te a tra v é s d a m u d an ça do cau ­
sad o r. O o ferecim en to d a o u tra face, seg u n d o Q (L c 6,27ss), é p ro v a do

202. Jos Ant 18,1,6; B ell 2,8,1.


203. Dibelius, op. c lt, 178.
IV. A realização das exigências de Jesus na sociedade 141

a m o r ao in im ig o ; so m en te a ssim co rresp o n d e à in ten ção de Jesu s. A q u in ta


an títe se , o n ão re s is tir, é o re v e rso n e g a tiv o d a se x ta , o am o r ao inim igo.
O se n tid o do n ã o re s is tir é, com o P a u lo bem o in te rp re to u em R m 12,21,
s o b re p u ja r o m a l com o bem.
E s s a re n ú n c ia ao d ire ito inclui a re n ú n c ia ao poder. E la é ex ig id a ex­
p ressa m e n te d aqueles que fo ra m ch am ad o s ao reino de D eus, d o s discípulos,
no d ito a re sp e ito do se rv ir, Mc 10,42-45 p ar. N esse d ito se evidencia ta m ­
bém que a re n ú n c ia ao d ire ito e ao p o d e r corresponde, assim com o a re ­
n ú n c ia ao m a trim ô n io e à fa m ília , à v in d a do rein o de D eus. J e su s n ão o
tr a z a tra v é s de u m a ação ju ríd ic a em u m ju ízo seg u n d o a s obras, nem
a tra v é s de u m a d em o n stra ç ã o de poder, d e stru in d o os poderosos, m a s a tr a ­
vés do se rv ir. P o r isso, quem re n u n c ia ao d ireito e ao p o d er e e n fre n ta
o m al, d em o n stran d o am or, ab re-se ao re in o de D eus que vem p o r in te r­
m édio de Jesu s.

c) Com o p ode e s ta re n ú n c ia se r coadunada com o p a g a m e n to do im ­


p o sto ? A s d u a s coisas n ão ex istem in d ep en d en tem en te, lad o a lado, m a s são
conseqüência, com o j á se evidenciou n a q u estão do trib u to devido ao im pe­
ra d o r, do arre p e n d im en to . E m am bos revela-se a vo lta ao reino d e D eus que
v e m agora. O n ã o re s is tir, o a m o r ao inim igo, e s tá d ire ta m e n te d e acordo
com e la ; o re s is tir é sem pre a se g u n d a coisa, é a re tro a ç ã o n ec e ssá ria
so b re a h istó ria . P o rq u e o rein o a in d a vem ab sco n d itam en te, a s condições
d a h is tó ria tê m que s e r m a n tid a s f r e n te a su a v in d a ab sc ô n d ita bem como
a su a v in d a visível. Com b a se n e s ta m o tiv ação , tam b ém o re s is tir assum e
novo c a rá te r. Q uem en c o n tro u a lib e rd a d e de n ão re sistir, re s is tirá de o u tra
m a n e ira que o hom em que, cheio de an seio s e desejos, q u e r a s s e g u ra r p o r
c o n ta p ró p ria o seu â m b ito de v ida. N ã o o d ia rá nem d e sp re z a rá o o u tro ,
m esm o q u an d o re p e lir a in ju s tiç a com o au x ílio do d ireito e do p o d e r;
so fre p o r t e r que re s is tir. T am bém e ssa n o v a m a n e ira d e r e s is tir é u m a
a titu d e co n fo rm e com o serm ão do m onte.
A q u estão , q u ando n ão devem os re s is tir e q u an d o devem os re s is tir n a
v id a p rá tic a , so m en te pode s e r decid id a a p a r tir d a situ ação . O p ró p rio
J e s u s seg u iu u n ila te ra lm e n te o cam inho do n ã o re sistir, com o tam b é m do
am o r e ju s ta m e n te em relação ao s inim ig os de D eus, e, m esm o assim , re ­
conheceu o u so de d ire ito e poder, b a sic a e p ra tic a m e n te. E sse reco n h eci­
m en to p rá tic o talv ez se evidencie tam b ém no d ito b a s ta n te dúbio a re s ­
p eito d as d u a s espadas, L c 22,35-38, bem com o n a re p re e n sã o que m u ita s
vezes é c ita d a nesse c o n te x to J o 18,22 e que d ificilm en te é h istó ric a . O
cam inho de Je su s n a te o c ra c ia ju d a ic a , que e ra de f a to u m estad o de
direito , lev a ao ju lg a m e n to a tra v é s d a s in stâ n c ia s e sta ta is. Isso, e não um a
m u d an ça d a s e s tru tu ra s , é o q u e seu s seg u id o res devem e sp e ra r; assim o
an u n c ia m os d ito s d a p erseg u ição que,sem dúvida, fo ra m in fluenciados
pela situ a ç ã o d a com unidade (M t 10,17-25).

IV . A realização d a s ex igências d e J e s u s n a sociedade

A n te s de co n tin u a rm o s a p ro c u ra r, n a s p a rte s seg u in tes, a re s p o s ta d a t r a ­


dição de Jesu s, p ro cu rarem o s a p re s e n ta r um resum o d a s re sp o sta s que fo ­
ra m d esenvolvidas no decurso de u m a h is tó ria eclesiástica de dois m il anos."* 204

204. H istó ria d a in terp retação em Soiron, op. cit., 1-96.


142 § 10: As exigências éticas de Jesus

E m c a d a u m a d elas so b ressai u m a sp ecto d a im pressão c a u sa d a p o r Je su s


n a h istó ria . N ão podem os esquecer esse f a to ao tr a ta rm o s de c a ra c teriz á -la s
e de ex am in á-las à lu z do te x to n e o te sta m e n tá rio . Se p ro c u ra rm o s classi­
ficá-las, pod erem o s d e stin g u ir tr ê s soluções «clássicas» que fo ra m re p re se n ­
ta d a s a tra v é s dos séculos.

1) A s soluções «clássicas»: a ) Â p rim e ira v is ta p arece que os círcu lo s


que n a h is tó ria eclesiástica se convencionou c h am ar de esp írito s en tu sia sta s;
re p re se n ta m u m a solução re a lm e n te co n seq ü ente: O m ovim ento fran ciscan o ,
a a la e sq u erd a d a R e fo rm a e m u ito s que a té h o je os seg u em : O s m a n d a ­
m en to s de Je s u s tê m que s e r seguidos ao p é d a le tra . D evem s u b s titu ir,
com o o rdem d a v id a c r is tã e a té de to d o s os hom ens, a lei a té aq u i v á lid a .
D eve-se re n u n c ia r à violência e ao ju ra m e n to , e n a p o lítica, p. ex., d ev e
se r p ra tic a d o o « d ireito do am or». ** E s s a concepção e n tu s ia s ta tr a n s fo rm a
Je su s em le g isla d o r; ele im põe ao m undo u m a lei que ig n o ra a m ald ad e e
que é u tó p ica. E s ta solução desconhece que a s a n títe se s tê m sen tid o esca-
tológico, e n ão cronológico. Os m a n d a m e n to s de Je su s estã o sem p re em a n tí­
tese à lei que p erm anece « até que o céu e a te r r a passem » (M t 5,18; v.
§ 9,111,2).

b ) E m c o n trap o sição a concepção católica tradicional in te g ra g ra d u a l­


m en te, d esd e o séc. I I , os m a n d a m e n to s de Je su s n a lei (§ 10,1). S u a re a ­
lização é d is trib u íd a e n tre o s d iv erso s g ra u s d a v id a c ristã . E n q u a n to que
os leigos vivem m a is de aco rd o com o decálogo, os clérigos e m onges ad o ­
ta m m a is os «conselhos evangélicos». A m bos os g ru p o s in terced em com o
p a rte s do corpus ch ristia n u m , v ic a ria m e n te u m pelo o u tro . ** E s s a solução
im p re ssio n a n te to m a a s ex ig ên cias de Je su s a o pé d a le tra , s itu a -a s n a re a ­
lid ad e e to m a -a s , assim , e x tre m a m e n te eficazes. N o en ta n to , n ã o se dâ
c o n ta de q u e os m a n d a m e n to s d e Je s u s e s tã o em u m a a n títe se a tu a l à lei;
a a n títe s e se tra n s fo rm a em s ín te se e a a tu a lid a d e se tra n s fo rm a em dis­
trib u iç ã o e stá tic a .

c ) P o r seu tu rn o , a R e io rm a lu tera n a defende a concepção de que todo


c ristã o pode, a q u a lq u e r h o ra, s e r exigido pelo novo m an d am e n to de Je su s
ou p e la o rd em d e ste m undo, a lei. O prim eiro, o n ã o re s is tir e s o fre r in ju s­
tiç a s é n ecessário q u an d o se t r a t a de n o ssa p ró p ria p esso a; o segundo, o
a fa s ta m e n to d a in ju stiç a , quan d o s e t r a t a do próxim o. ” M as, q u ando é
que se t r a t a re a lm e n te a p e n a s de m in h a p esso a e n ã o do o u tro ? E s s a qu es­
tã o p erm an ece a b e rta . N o m ais, essa concepção, d iscu tid a a té h o je com o
«dou trin a dos dois reinos», a tém -se ao essencial d a ex igência de Jesu s, o
sig n ificad o escatológico d a a n títe se . 20567

205. Cf. K arlm an n Beyschlag, D ie B e rg p red ig t u n d F ra n z von Assisi, 1955; secu larizad a
em Leão T olslói, M inha fé, 1885: « ...q u e C risto diz ju stam e n te o que ele diz. ‘Não resistais
ao m al’ q u e r dizer: ‘N unca faças uso d a violência’». Como exegese histórica, H an s W indisch,
D er Sinn d e r B ergpredigt, 19372, 91: «Ela tem sen tid o totalm ente p erfeccionista».
206. Soiron, op. cit., 3ss.
207. L u te ro a respeito de M t 5,39 (WA 11,255): «As duas coisas estão p e ríe ita m e n te re la ­
cionadas, que satisfaças ao m esmo tem po o reino de D eus e o reino do m undo, in te rio r e
exteriorm ente, que sofras ao mesmo tem po m aldade e in ju stiç a e que mesmo assim castigues
a m aldade e a injustiça, que a um só tem po não re sistas à m aldade e m esmo assim lhe
r e s is ta s ; pois com um a coisa cuidas de ti e do que é teu, e com a ou tra, do próxim o
e do que é seu». Cf. P a u l A lthaus, D ie E th ik M artin L u th e rs, 1965, 68-84; U lrich Duchrow,
C hristenheit u n d W eltverantw ortung, 1970, 536-552.
IV. A realização das exigências de Jesus na sociedade 143

2) A o lad o d essas soluções clássicas que tiv e ra m u m a la rg a repercussão,


h á u m a sé rie de esboços q u e fo ra m desenvolvidos n a teologia neoprotes-
ta n te e que tiv e ra m bem p o u ca in flu ê n c ia n a h istó ria . P a rte m sem p re d e
u m a d e te rm in a d a concepção de re in o de D eus e esquecem com isso a re la ç ã o
p a ra com a lei.

a ) O p ro te s ta n tis m o liberal d a v o lta d o século, n a A lem anha, com preen­


de a s ex ig ên cias de Je s u s com o in tro d u ç ã o a u m a ética d e in ten çã o (G esin-
n u n g se th ik ). E la s n ão podem m a is s e r a p lic a d a s lite ra lm e n te à sociedade
a tu a l, que é to ta lm e n te d ife re n te ; elas descrevem sim plesm ente a in ten ção
do am or, p ro n to ao sacrifício . N e ssa in te n ção é n ecessário que se a ja de
acordo com a s n o rm a s d a v id a d a so cied ade a tu a l e que se p ra tiq u e , em
um a e s tr e ita e sfe ra d a v id a p riv a d a , a b o n d ad e p e rd o ad o ra. D essa m a n e ira
a d o u trin a dos dois rein o s é tra n s fo rm a d a em um dualism o ético. O rein o
de D eus p a r a o q u al a p o n ta m a s ex ig ên cias de Je su s é a com unhão é tic a
do gên ero hum ano, c o n c re tiz ad a p a u la tin a m e n te , a tra v é s d a ação, n a in te n ­
ção de um a m o r p ro n to p a r a o sacrifício . P o r t r á s d a é tic a de in ten ção e s tá
a concepção de re in o de D eus de A lb r e c h t R its c h l (§ 6 ,1 ,1 ).“®

b ) A lb e r t S c h w e itze r p ro te sto u , p o r v o lta d e 1900, em nom e d a esca-


tologia conseqiiente, c o n tra e ssa in te rp re ta ç ã o d as ex ig ên cias de Je su s: Os
m an d a m e n to s de Je s u s n ão q u erem u m a m elh o ra re la tiv a d a v id a n esse
m undo. E le s querem , m u ito a n te s, t i r a r o s hom ens d a s condições de v id a
desse m u n d o e m obilizá-los em direção a o novo m u n d o de D eus que em
breve, irro m p e rá . E le s são ética de ín terim . Com o a e sp eran ça de Je su s não
se concretizou, n ão po d em m a is s e r to m a d a s lite ra lm e n te em nossos dias.
T ra n sfo rm a m -se em um ch am ad o a u m a h u m an id ad e h eróica. ** P o r isso
A lb e rt S ch w eitzer seguiu, com o m édico d a s selvas, p a r a L am b aren e. O
cam inho p o r ele ap o n ta d o no seio do n e o p ro te sta n tism o fo i um sinal, m as
não a re a liz a çã o dos m a n d a m e n to s de Je su s. E le n ão levou em c o n ta que,
p a r a Jesu s, o rein o de D eus n ã o e ra visível ap e n a s em u m fu tu ro próxim o,
m a s que j á vem a b sc o n d ita m e n te no p re se n te ; p o r isso a p rem issa dos
m an d am en to s, ta n to n a q u e la época com o h oje, é fu n d a m e n ta lm e n te a m esm a.

c ) A pós 1918, M a rtin D ib e liu s“ e R u d o ll B u ltm a n n desenvolveram a


escato lo g ia co nseqiiente em atual. A concepção b u ltm a n n ia n a de J e su s p r a ti­
cam en te pode s e r re su m id a n a se n te n ç a : A ssim como a m ensagem do rein o
que h á de vir, os m a n d a m e n to s de Je s u s querem u m a decisão em fa v o r 20891

208. W ilhelm H errm ann, p. ex., D ie sittlich e W eisung Jesu , 1904.1921», é d a opinião de
que aquelas palavras p aradoxais de Je su s não seriam um a re g ra de c a rá te r genérico, um a
exigência que tivesse que se r cu m prida ao pé d a letra, não se ria esse o sentido que d e ra a
elas. E las seriam um apelo à consciência do indivíduo, querendo dizer-lhe: « Ju lg a tu mesmo
com tu a p ró p ria consciência o que aquelas p alav ras exigem de ti, n a situação m undial a tu a l
e em tu a situação especial. E, então, faze-o sem reservas, não pela m etade, m as plenam ente.
Em situação especial, o cum prim ento ao pé d a le tra tam bém pode se r exigido de ti, quando
tu a consciência te d isse r que assim é ; J e su s exige a todo o custo que tu a intenção se iguale
à dele». «Queremos o estado nacional a p a r tir da intenção n a qual concordam os com J e s u s ...
e não nos deixam os confundir, quando m u itas coisas n essa im agem d a n a tu re za hum ana
estão em co n traste tão evidente com a vida e a m oral de Je su s, como o arm am ento e o seu
uso violento» (p. 60).
209. Soiron, op. cit., 21ss.
210. D ibelius, op. cit., 90s: «Não é o fa ze r que é necessário, pois este pode d iv erg ir
nus d iversas situações, m as o hom em que o faz. E le e stá sem pre d ian te de Deus, do D eus que
há de vir. A m ensagem do reino não o to rn a m elhor, m as ela se apossa de todo o
seu se r e transform a-o. E o que ele então diz ou faz, se rá dito ou feito tendo em v ista
o reino». «E ste se r an te D eus — que não é um estado, m as um ouvir e obedecer sem pre
pronto — Je su s variou em um a série de m andam entos, sem pre de novo».
144 § 10: As exigências éticas de Jesus

d e D eus c o n tra o m undo. M as e ssa decisão é co n firm ad a sem pre n a situ a ç ã o


c o n c re ta do co n fro n to com o p róxim o, como ação que b ro ta do am o r. ai
E s s a solução, n o e n ta n to , n ã o fa z ju s tiç a à relação d a s ex ig ências de Je su s
p a r a com a s n o rm a s e x iste n te s d a v id a d a sociedade, nem ao reino que
h á de v ir ; se ria m sem sentido, caso o rein o já n ão viesse tam b ém no p resen te.

d) E m oposição à e scato lo g ia a tu a l, Joachim J e r e m i a s defende a con­


cepção d a «escatologia que está se realizando». A s in stru çõ es do serm ão
do m o n te p ressu p õ em o d e sp o n ta r do re in o de D eus. «Os d ito s de Jesus,
reu n id o s no serm ão do m onte, são com ponentes do evangelho. A cad a um
desses d ito s aco m p an h a a m en sag em : o velho éon e s tá perecendo. A tra v é s
d a p re g a ç ã o do ev angelho e a tra v é s do discipulado, sois colocados no novo
éon de D eus» (p. 2 6 ). «U m a n o v a v id a su rg e do ag rad ecim en to do filho
red im id o de D eus» (p . 2 9 ). A qui a v in d a do reino é com preendida, de
m a n e ira p erfeicio n ista, com o o su rg im en to de u m a no v a a titu d e n a h istó ria,
com o cristian ism o de conversão.

e) E m c o n tra p a rtid a , p a r a K a rl B a rth a p resen ça do rein o de D eus


e stá p o r dem ais p o s ta v e rtic a lm e n te no s e r de Jesu s. A exig ên cia de Jesu s
descreve, p a r a ele, a con d ição h u m a n a que som ente Je su s viveu v icaria-
m e n te e que D eus tra n sfo rm o u , p o r se u interm édio, em condição de v id a
d a c o m u n id a d e .20 E s s a concepção coloca o a cen to ao c o n trá rio d as escato-
lo g ia s co n sequente e a tu a l. O re in o de D eus j á foi erig id o a tra v é s d a v in d a
de Jesu s. N o e n ta n to , a acen tu a çã o do já -a g o ra n ã o p erm ite um desenvol­
v im en to to ta l do ainda-n ão . E m conseqüência disso, o m an d am en to de Je su s
é v isto ex clu siv am en te com o cu m p rim en to d a lei, e n ão tam b ém em a n títe se
à lei. P o r isso a d o u trin a lu te ra n a dos dois rein o s é v io len tam en te re c h a ­
ç a d a e, so m en te em época m a is recen te, foi a c e ita com o sendo conceito-
lim ite . “
N o fin a l d essa sinopse d a h is tó ria d a in te rp re ta çã o , só nos re s ta adm i­
ra rm o s a s in flu ên cias a té h o je p ro v o cad as p o r e sta s poucas sen ten ças. N ossas
objeções à s c ita d a s soluções tê m sem p re u m c a rá te r d ialé tic o ; pois, em
c a d a u m a delas, u m asp ecto d essas p a la v ra s se evidenciou.

3) R esum indo a fin a l a nossa concepção a re sp e ito dos te x to s em duas


teses, som os levad o s ao o u tro asp ecto d a a tiv id a d e de Je su s:

a ) C a d a u m a d as ex ig ên cias de Je s u s n ã o q u e r n a d a m enos do que


u m a m u d a n ç a ra d ic a l do hom em , o arrep en d im en to to ta l (§ 10,11,1). Se 1234

211. Theol., § 3,2: «A certeza de que a posição do hom em fre n te a D eus decide a resp eito
d e seu destino e de que e sta decisão é lim itada, su rg e (em Je su s) n a certeza de que a
h o ra d a decisão p a ra o m undo e stá aí». § 2,5: «Ambos, o anúncio escatológico e a exigência
ética, apontam ao hom em o fato de e sta r fre n te a Deus, a im inência de D eu s; apontam -lhe
o seu ag o ra como a h o ra d a decisão fre n te a Deus». § 2,4: «E o que é a v ontade p ositiva de
D eus? A exigência do amor», ex p ressa no duplo m andam ento do am or. Mas, «não existe
nenhum a obediência fre n te a D eus q u e não te n h a que se co n firm ar n a situação concreta
do encontro com o próximo».
212. Joachim Jerem ias, D ie B ergpredigt, Calw er H efte 27, 1959. Cf. n o ta 117.
213. K a rl B arth, D ie K irchliche D ogm atik 11,2, 766-782: O serm ão do m onte p a rafra se ia
«as condições de vida da com unidade de Deus», sob a condição de que D eus «tenha colocado
o homem, eficaz e definitivam ente, n a pessoa de seu próprio Filho, nesse âm bito. E ste é o
evento do reino, da pessoa de Jesus, do novo hom em que se re fle te nas exigências do
serm ão do m onte» (p. 778). Sem elhantem ente: E d u a rd T hurneysen, D ie B erg p red ig t, T hW 46.
1936; W ern e r S chm auch-E rnest W olf, K b n ig sh e rrsc h aít C hristi, T hE 64, 1958.
214. E rn s t W olf, K o n ig sh errsch aft Je su C hristi u n d Zweireichelehre, D ritte V ariation zu
einem h e u te aufgegebenen Them a, em : Vom H errengeheim nis d e r W ahrheit, F e stsc h rift für
H. Vogel, ed. K u rt Scharf, 1962, 301s.
IV. A realização das exigências de Jesus na sociedade 145

p e rg u n ta rm o s p o r u m a tra d iç ã o a re sp e ito de J e s u s on d e se ja m cita d o s se re s


hu m an o s que re a liz a ra m seu s m an d am en to s, verem os que o m an d am en to de
Je su s só é vivenciado d ire ta m e n te p o r ele p ró p rio . D em o n stra nos o u tro s o
am or, com o ele o e x ig e ; e so m e n te p o r isso eles sã o m o tiv a d o s a ía ze r o
que as su a s in stru ç õ e s e x ig e m : E le consegue que o hom em siga, ou seja,
creia. A tra v é s d essas d u a s coisas ocorre, com o logo o verem os, a m u d an ça
ra d ic a l a que s u a s ex ig ên cias p reten d em . P a r a aqu ele que crê, ou seja, segue,
a n o v a a titu d e pesso al se to m a possível. D e su a realização, no e n ta n to , não
fa la m a s tra d iç õ e s d os evan g elh o s a re sp e ito d e Jesu s, m as a s referên cias
n e o te s ta m e n tá ria s à com unidade.

b ) A a titu d e que re s u lta do discípula do, em c a d a situ a ç ã o te m u m a


fo rm a to ta lm e n te d ife re n te , co n fo rm e a s exig ên cias d e Jesu s. S u a e s tru tu ra
já se evidenciou no exem plo d o r e a g ir e do n ã o -re a g ir (§ 10,111,2). O não-
re a g ir, a d e m o n stra ç ã o d o a m o r ao inim igo, só é possível, assim com o a s
c u ra s de Je s u s n o sáb ad o , com o sin a l que ro m p e a s fo rm a s de v id a desse
m undo e te ste m u n h a a re sp e ito d a v in d a do rein o escatológico de D eus no
presen te. P erm an ece se m p re u m sin a l ab scôndito, a ssim com o o fo ra m os
sin a is d os d ia s te rre n o s de Jesu s, e p erm an ece sem p re sendo u m sin a l obscure-
cido a tra v é s d a s fa lh a s, o q u e n ã o aco n teceu com os s in a is de Jesus.
D essa m a n e ira a s ex ig ên cias d e J e s u s n ã o a lcan çam d ire ta m e n te o
alvo. N ão s u rg e u m g ru p o q u e v iv e de a co rd o com os m an d am en to s de
Jesu s, com o aco n teceu com o M e stre d a J u s tiç a de Q um ran. S u as exigências
a p o n ta m p a r a a su a a tiv id a d e salv ífica, a tra v é s d a q u a l ela s chegam indi­
re ta m e n te ao alvo.
CAPÍTULO V

O Arrependimento
como Dádiva
do Reino de Deus
(A Nova Ordem Salvífica)

§ 11: A O R D EM S A L V ÍF IC A D A L E I, S E U R E C O N H E C IM E N T O
E REV O G A ÇÃO

Ad l,U G ottfried Q uell, diatheke lm AT, ThW II, 106-127; Ernst W ürthwein, m isthos im AT,
ThW IV, 710-718; Klaus Koch, Gibt es ein Vergeltungsdogma Im AT? ZThK 52 (1955), 1-42;
Klaus Baltzer, Das Bundesformular, 1960 (1964s); Lothar Perlitt, Bundestheologie Im AT, 1970; Ad
1,2: Paul Volz, Die Eschatologíe der füdischen Gemeinde Im neutestamentlichen Zeitalter, 1934*,
§ 26 e § 39; Blllerb. IV, 484-500 (Die rabb. Lohnlehre); IV, 1199-1212 ( Das Endgericht in den
Pseudepigraphen und beI den Rabbinen); Braun, Radikalism us II, 41, nota 1: Entre os essênlos
a concepção do m érito desaparece em 1 QS e não em Dam; Ad ll-IV : Johannes Behm,
diatheke, ThW II, 127-137; Herbert Preisker, misthos, ThW IV, 718-725; W ilhelm Pesch, Der
Lohngedanke In der Lehre Jesu, 1955; Gunther Bornkamm, Der Lohngedanke im Neuen Tesatment,
em: G es.A ufs.il, 1959, 69-92; Jacques Dupont,Les béatitudes, Lõwen 1958s (reim pr. 1969).

I. A reco m p en sa

T o d a s a s exigências ad v o g a d a s p o r Jesu s, se ja a p a r tir do A T, s e ja p o r


si m esm o, estã o sob u m p ressá g io : São ex ig ên cias de D eus a c u ja obser­
v ân c ia ou desprezo D eus responde. A m a n e ira d e sta re sp o sta é d a d a pelas
concepções v etero testam en tárias e ju d aicas.

1) N o A n tig o T e sta m e n to os m a n d a m en to s de D eus estão no co n texto


da aliança. A a lia n ç a é p ro m essa g racio sa, m as seu cum prim ento depende da
observ ân cia dos m a n d a m e n to s: «Se o u v ird es a m in h a voz e g u a rd a rd e s a
m in h a alian ça, sereis a m in h a p ro p rie d a d e d e n tre os povos» (Ê x 19,5). «Eu,
Jav é, te u Deus, sou um D eus cium ento, que v is ita a cu lp a dos p a i s . . . , m as
que u s a de g ra ç a p a ra com os filh o s d aqueles que m e am am e g u a rd a m
os m eus m an d am en to s» (Ê x 20,5 s).

2 ) N o ju d a ísm o , a concepção d a recom pensa assum e a fo rm a de que


c a d a in divíduo te r á re trib u iç ã o , em um ju ízo escatológico, conform e a sua
a titu d e fre n te à lei — e co ntudo pode e sp e ra r p o r g ra ç a p o r am o r dos
p a tria rc a s . M esm o assim j á se esp e ra p o r reco m p en sa d u ra n te e s ta v id a ;
m a s ta m b é m pode aco n tecer q u e um hom em piedoso s e ja castigado, j á n e s ta
vida, p o r c a u sa de alg u m as fa lh a s, p a r a que, n o além , receb a ap en as o m érito.

3 ) T am bém Jesu s esp e ra p o r um ju íz o fin a l no q u al se rá fe ita a co n ta


d a v id a h istó ric a . E le a c e n tu a que e n tã o a a titu d e do hom em s e rá levada
II. «Jesus em relação à ordem da recompensa 147

a sé rio a té os m ín im o s d etalh es. O hom em p r e s ta r á c o n ta s p o r to d a p a la v ra


p ro fe rid a em v ã o (M t 12,36 S ), m a s ta m b ém o copo de á g u a que h o u v er
dado, n ã o s e rá esquecido (M c 9,41 p a r M t).

II. Jesus em relação à ordem da recom pensa

N a f u tu r a p re sta ç ã o de co n tas, os h o m en s ao s q u ais Je su s se d irig iu serão


p e rg u n ta d o s p e la s u a posição f r e n te a e le : «A to d o o que m e co n fessar
d ia n te dos hom ens, o filh o do hom em c o n fe ssa rá d ia n te do s a n jo s de Deus»
(L c 12,8 p a r = M c 8,38 p a r ; cf. M t 11,20-24 p a r ; 12,41s p a r ) . E s s a p re s­
ta ç ã o d e c o n ta s pessoal, a n te o D eu s q u e h á de v ir ou a n te o filh o do h o ­
m em e a sa lv a ç ã o a tra v é s d a «relação» com J e s u s (cf. tam b ém M t 25,34s),
é o c e n tro d a e sp e ra n ç a de J e s u s a re sp e ito do juízo, e n ã o o irro m p im en to
de c a tá s tro fe s an ô n im as de o rd em h is tó ric a e cósm ica so b re « esta geração»,
a p re s e n ta d a s p e la ap ocalíptica.™
O d ito a re sp e ito do filh o do hom em a n u n c ia o cern e d a e x p e c ta tiv a de
Jesu s a re sp e ito do ju ízo e, a o m esm o tem po, a ú n ic a p o ssibilidade de po d er
s u b s is tir n o juízo , com o a in d a se ev id en ciará.
A m a n e ira p e la q u al a e x p e c ta tiv a de Je su s a re sp e ito do ju íz o a d o ta
a tra d iç ã o v etero testam en tário -ju d aica e, ao m esm o tem po, a m odifica, evi-
dencia-se in icialm en te, de m a n e ira ex em p lar, no m odo com o f a la a re sp e ito
d e galardão e recom pensa. O s in ú m ero s d ito s sin ó tico s a re sp e ito do g a la r­
dão (M t 5,12 p a r L c 6,23; 5,46s p a r L c 6,32-35; M c 9,41 p a r M t 10,41s; S
M t 6,1.2.5.16; 20,8) p ro v a v e lm e n te são, em p a rte , d a a u to ria do p ró p rio
Jesu s. T am bém a fig u r a a re sp e ito do « tesouro n o s céus» pode se r de su a
a u to r ia (M t 6,19ss p a r Mc 10,21).
E s s a m aneira, d e f a la r a re sp e ito de g a la rd ã o e reco m p en sa causa es­
tra n h e za ; pois, de P la tã o a té K a n t, d efende-se n a filo so fia a concepção de
que a ju s tiç a tr a z o seu g a la rd ã o em si m esm a e que o bem te m que se r
p ra tic a d o p e la f a to de s e r bom . P o r t r á s d e sta concepção e s tá a im agem
d a a u to n o m ia do hom em . E le a d o ta u m a lei m o ra l ou u m p rin cíp io ético
p a r a re a liz a r-se d essa m a n e ira . E s ta a u to n o m ia b a se a d a em s i m esm a é
ilu são seg u n d o o p e n sam en to bíblico. O hom em n ã o v ê que, desde sem pre,
j á se e n c o n tra colocado em u m a relação com o seu C riad o r e com o seu
próxim o.
Q uando o A T , em co n trap o sição , a n u n c ia g a la rd ã o e recom pensa, q u er
a firm a r: D eus n ã o se c o n fro n ta com o hom em com o o p o d er m udo d a
h is tó ria e o hom em n ã o se tra n s fo rm a em m a rio n e te do destino. D eus tr a n s ­
fo rm a o hom em em hom em ao f a la r com ele, ao c ria r u m a re la ç ã o com ele
e ao levá-lo a sé rio com o parceiro, respondendo-lhe. Q uando o C ria d o r p e r­
m an ece fie l a Is ra e l d e a c o rd o com o p acto , p o ssib ilitan d o -lh e a vida, isso
sig n ific a « g alard ão » (cf. G n 15,1). C om o o p acto do Sinai im põe o cum pri­
m en to dos m a n d a m e n to s com o condição (Ê x 19,4ss), o hom em pode des-
v irtu á -lo p a r a se lib e r ta r d e D eus. P o d e a p re s e n ta r a o b serv ân ica dos
m a n d a m e n to s com o re a liz a çã o e e x ig ir u m a reco m p en sa p o r seu s m érito s. 215

215. Se Jerem ias, Theol., § 13, a p rese n ta a esperança fu tu ra d e Je su s como um fin a l do


m undo atrav és de «catástrofes» apocalípticas e p o r isso a p re se n ta a v inda d a baelleia como
«consumação do m undo», o escopo d a pregação de J e su s é obscurecido com o auxílio de
elem entos, m uitas vezes secundários, d a trad içã o de J e su s e, principalm ente, p o r causa de
um a in terp retação d a trad içã o a p a r tir d e analogias judaico-apócalipticas.
148 § 11: Ordem salvífica da Lei, seu reconhecimento e revogação

In ú m e ro s exem plos do am b ien te ju d e u de Je su s e a p ró p ria tra d iç ã o a re s­


p e ito de Je s u s m o stra m como, a tra v é s d e ssa concepção d e realização e m é ­
rito , a re la ç ã o com D eus e com o p ró x im o fo i d e sv irtu a d a (cf. M t 6,2.5.16;
L c 7,39; 1 8 ,l l s ) . E s s e d e sv irtu a m e n to d a recom pensa, a tra v é s do p rin cíp io
d e realizaçõ es e do cálculo e de m érito s, é co n d en ad a p o r J e su s d a m esm a
m a n e ira com o co n d en a a c a ta lo g a ç ã o d a s ex ig ên cias d a lei p e la H a la k á .

m . C o n tra o cálculo e o p rincípio do m é rito


1 ) Je s u s j á r e je ita o cálculo n e g a tiv o sobre pecado e castigo. A ssim como o
A T , ele sab e q u e o m a l e a m ald ad e, a in ju s tiç a e o so frim en to se encon­
tr a m em u m a re la ç ã o de recip ro cid ad e. M as pro íb e que se p ro cu re esclarecer
e ssa relação . Q uando os o u tro s são a tin g id o s p o r algum d esastre, n ã o deve­
m os a p o n ta r p a r a a cu lp a deles, m a s v e r esse d e sa stre como u m a conde­
n a ç ã o d e n o ssa p ró p ria culpa. E ’ o q u e a firm a m dois d ito s em L c 13,1-5 ( S ) :
P ila to s m a n d o u e x e c u ta r p e re g rin o s galileu s, n o tem plo, p o r ocasião do s a c ri­
fício dos co rd eiro s p ascais. E sse f a to ta lv ez estivesse relacio n ad o com a s
a tiv id a d e s dos zelotes. E J e s u s a firm a a o s g alileu s: «P en sais que esses g a­
lileu s e ra m m a is p ecad o res do q u e to d o s o s o u tro s g a lile u s .. . ? N ão, eu
vo-lo a firm o ; se, porém , n ã o v os a rrep en d erd es, to d o s ig u alm en te p erecereis!»

2) A ssim com o co n d en a o cálculo do castig o , condena, com m u ito m ais


ênfase, o cálculo do m é r ito : J u s ta m e n te a p a la v ra de J e su s a re sp e ito d as
tr ê s o b ra s d a piedade, em M t 6,1-18, q u e f a la com m a io r in te n sid a d e a
re sp e ito do m é rito , lev a o p e n sa m e n to tra d ic io n a l a re sp e ito do m é rito e do
m erecim en to a d a b surdum . E le a firm a so b re c a d a indivíduo que o lh a p a ra
a s u a aç ã o e a a p re s e n ta como m é rito : « Já recebeu a s u a recom pensa»
(M t 6,2.5.16). S om en te quem p r a tic a o bem , ab sco n d itam en te, recebe recom ­
p e n sa (M t 6 ,4.6.18): «Teu P a i q u e v ê o secreto , te reco m p en sará» (6 ,4 ).
A o d a r, «ign o re a t u a esq u e rd a o que f a z a tu a d ireita» (6 ,3 ). O hom em
n ã o sab e p o r q u e u m a co isa é f e ita em «secreto». O s que fo re m a ceito s
n o ju ízo fin a l, n ã o sab em p o r que se a g e dessa m a n e ira com eles: «Senhor,
q u an d o fo i q u e te v im os com f o m e . . . ? » (M t 25,37). E sse d e ix a r de o lh a r
p a r a a s p ró p ria s o b ra s só é possível, o nde a ex istên cia do hom em fre n te
a D eu s n ã o s e b a se ia m a is nele m esm o, i. é, q u an d o a ordem salv ífica da
p ró p ria lei f o r elim in ad a.

IV . A elim inação d a o rd em salv ífica d a lei

D a m esm a m a n e ira com o a lei, com o e s ta tu to , lev a à H a la k á , a lei, como


condição d a alian ça, lev a ao p e n sa m e n to do m érito . P o r isso Je su s revoga
a lei n o s d o is caso s — n ã o o fa z de m a n e ira cronológica, m as de m an eira
esca to ló g ic a a tu a l. A v id a do hom em c o n tin u a a se r d e te rm in a d a p e la o r­
dem d a recom pensa. C a d a indiv íd u o é, a p rincípio, o que se to m o u em v ir­
tu d e d e s u a a titu d e . N in g u ém esc a p a à p re sta ç ã o d e c o n ta s fin a l, m a s a
p a rtic ip a ç ã o n o re in o é con ced id a a p e s a r d essa ordem d a recom pensa. 1

1 ) A p a rticip a çã o do reino assem elha-se, nesse sen tid o , ao p roprietário


da v in h a q u e a s s a la ria tra b a lh a d o re s , em d iv ersas h o ra s do d ia e que, à
IV. A eliminação da ordem salvífica da lei 149

n o ite, p a g a a c a d a u m o m esm o s a lá rio (M t 20,1-15 S ). E sse p rin cíp io é


socialm en te in ju s to ; a p a rá b o la que, sem d úvida, é d a a u to ria d e Jesu s, q u er
a p re s e n ta r a lg o f o r a d o com um , q u e ro m p e a ordem ex iste n te , e x iste n te com
raz ã o . O p a g a m e n to f o r a do com um é ex p licad o com o sen d o d em o n stração
d e b o n d ad e que exclui um cálculo c o m p a ra tiv o : «São m a u s os te u s olhos
p o rq u e eu so u bom ?» (20,15). E , m esm o assim , n ã o é um a to a rb itrá rio :
«N ão te fa ç o in ju s tiç a ; n ão co m b in aste com igo u m denário?» (20,13). O
S en h o r é ju s to n o s te rm o s do A T ; ele a g e de acordo com u m a com binação
e sp o n tâ n e a . D essa m a n e ira to d o o q u e f o r « assalariado» é fe ito p a rtic ip a n te
do rein o de D eus, in d ep en d en tem en te d e s u a produção. Isso sig n ific a : A
aliança que ia z com q u e a sa lvação ta m b ém dependa da obra do h o m em ê
elim in a d a ; p o r isso to d o cálculo e to d a reiv in d icação são elim inados. O ho­
m em que é « assalariad o » p o r D eu s n ã o te m d ire ito à reivindicação, com o o
a c e n tu a a p a rá b o la do escravo, L c 17,7-10 S. “ M uito m a is im p o rta n te , no
e n ta n to , é que se v e ja a m ise ric ó rd ia e a ju s tiç a que concedem liv rem en te e,
m esm o assim , com b a se em um «acordo», a filiação no reino d e D eus como
« g alard ão » . A s p a rá b o la s do fa ris e u e do p u b lican o (L c 18,10-14) e do
filh o p e rd id o (L c 15,11-32; cf. 7,42) lev am o o u v in te a reco n h ecer e ssa
m ise ric ó rd ia n a a tiv id a d e d e Jesu s. J u s ta m e n te essas p a rá b o la s p erm item que
se reco n h eça a a c e ita ç ã o dos pecad o res, o ch am ad o ao discip u lad o ou à fé,
com o p ro m e ssa de salv ação , com o «acordo». E s s a prom essa, q u e é fe ita n o
en c o n tro p esso al com o indivíduo, é e n g lo b ad a p ela p ro m essa d a s bem -aven-
tu ra n ç a s .
O ch am ad o de Je s u s ao a rre p e n d im en to em relação ao re in o m o s tra
a fo rm a que esse aco rd o assu m e n a h is tó ria : a n te s dele, porém , e n c o n tra ­
m os, j á n a tra d iç ã o b á sic a do serm ão do m o n te, a s b e m -a v e n tu ran ç a s que
oferecem o re in o com o a rre p e n d im en to .

2) A q u em se d irig e a o ie rta d as b em -a ven tu ra n ça s? A s q u a tro bem -


a v e n tu ra n ç a s c o n sta n te s em L c 6,20-23 c ita m p esso as à s q u ais fa lta m a l­
g u m a co isa: O s pobres, o s fa m in to s, os tris te s , os perseguidos. E m c o n tra ­
posição, sã o co n sid erad o s b em -av en tu rad o s, em u m seg u n d o g ru p o de q u a tro
b e m -a v e n tu ra n ç a s que e n c o n tra m o s a p e n a s em M t 5,7-10, os que se preo cu p am
m iserico rd io sam en te pelo so frim e n to dos o u tro s e o s que são perseg u id o s
p o r c a u sa d e s u a in te rv e n ç ã o em fa v o r d a ju stiç a , M a rtin D ibelius ex p resso u
a o p in ião de m u ito s e x e g e ta s a o a firm a r que essas b e m -a v e n tu ran ç a s seriam
«condições de adm issão» ao re in o de D eus ou «um c a tá lo g o d e v irtu d e s
qu e d ev eríam s e r v iv en ciad as n a com unidade c ristã» . M ateu s te r ia inclusive
com preendido a s q u a tro p rim e ira s b e m -a v en tu ran ças n esse se n tid o : T e r to m e
d e ju s tiç a e s ta ria sig n ifican d o o esfo rço m áx im o p e la su a concretização.™
E s s a co m preensão m o ra lis ta do segundo gru p o , n o e n ta n to , é tã o fa lh a
com o a in te rp re ta ç ã o so cial-eb io n ita do p rim e iro (cf. § 8,1,1). P a r a v e r
qu em sã o o s m iserico rd io so s de q u e aq u i se fa la , te m o s que o b se rv a r a
te rm in o lo g ia de M ateu s q u e f a la e x p re ssa m e n te d e m ise ric ó rd ia e q u e deu
a fo rm a re d a c io n a l a essa s b em -a v e n tu ran ças. J á a m a n e ira p e la q u al os
fa ris e u s u sa m de «m isericórdia», d a n d o esm olas, evidencia em g ra n d e p a r te 2167

216. O escravo não recebe um salário como é o caso do trabalhador; som ente isso deve
ser deduzido da parábola, e não o fato de que o homem se assem elha a um escravo, sem
direitos diante de Deus.
217. Botschaft und Geschichte I, 120; assim também Georg Strecker, Der W eg der
Gerechtigkeit, 1966a, 157, e. o.
150 § 11: Ordem salvífica da Lei, seu reconhecimento e revogação

que eles se o rie n ta m n a a u to -re a liza ç ã o e n ã o n o s o u tro s (M t 6,2-4). P o r ­


ta n to , se eles s e irrita m com a a tiv id a d e sa lv ífic a de Jesu s, fa lh a m n aq u ilo
que j á O s 6,6 e x ig ia : « M isericórdia q uero e n ã o sacrifício» (M t 9,13; 12,7).
M isericordioso, p o rta n to , é so m e n te aquele que concede m isericó rd ia e que
se a le g ra com a m a n e ira p e la q u a l Je s u s au x ilia — p o is ele p ró p rio só
esp e ra n a m ise ric ó rd ia d e D eus. I. é, m isericordioso, no sen tid o da bem -aven-
turança, só se to m a aquele que espera o seu iu tu r o da sua p ro m e ssa ; n ão
aqu ele q u e q u e r co n seg u ir um reco n h ecim en to a tra v é s de u m esfo rço h u m a­
n itá rio . C o n fo rm e esse exem plo, o seg u n d o g ru p o d as b e m -a v e n tu ran ç a s n ão
se d irige, a ssim com o o p rim eiro , a um d eterm in ad o círculo de hom ens,
m a s in tro d u z à existên cia que é d ita bem -aventurada, i. é, à q u al é a d ju ­
d icad a j á a g o ra a re alização d o s e n tid o d a existência.
E n te n d e n d o assim o seg u n d o gru p o , seg undo o co n tex to de M ateus, e sta
p a r te pode, em seu p rincípio, s e r da autoria do próprio Jesus, sem que se
p o ssa p ro v a r isso em d e ta lh e s; p o is u m a d as c a ra c te rístic a s de s u a a tiv i­
d ad e e ra a de u s a r de m ise ric ó rd ia com o hom em , p a r a to m á -lo m ise ri­
cordioso. A o serv o in fiel é d ito n a p a rá b o la : «N ão dev ias t u co m p ad ecer-te
do te u conservo, com o eu m e com padecí de ti?» (M t 18,33).
D e q u a lq u e r m an eira, a s b e m -a v e n tu ran ças sem exceção, p rom etem a
g ra ç a escatológica, sem c ita r com u m a só p a la v ra o cu m p rim en to d a lei como
condição. P ro m e te m -n a a to d o s que, sob e ssa prom essa, percebem que são
p o b re s p e ra n te D eu s e que esten d em a s m ão s v azias p a ra ele. T am bém o
segu n d o g ru p o n ã o se re fe re àq u ilo q u e o s ju d e u s cham am de ju s tiç a e os
g reg o s de v irtu d e . S egundo ele, j á a lc a n ç a ra m a g o ra o sen tid o d a ex istên cia
to d o s aq u eles q u e se to m a m m isericordiosos, pois esp eram p e la m isericó rd ia
de D eu s; q u e se to m a m sim p les p o rq u e p ro c u ra m p o r D eu s; que se to m a m
p acific a d o re s p o rq u e q uerem q u e a v o n ta d e de D eus se ja f e ita ; que se to r ­
n a m p erseg u id o s p o rq u e p e rg u n ta m p o r D eus. T o m a r-se p o b re ou m iserico r­
dioso, n esse sen tid o , sig n ific a a rre p e n d im en to ! A s b em -av en tu ran ças o fere­
cem o que a s a n títe s e s exigem . E la s oferecem , com a p a rtic ip a ç ão no reino
de D eus, o arrep en d im en to .
T a l é ta m b é m o o b jetiv o d a parábola d o g ra n d e ju lg a m en to , em M t 25,
31-46 S, u m d ito de Je s u s co n sid erav elm en te am p liad o : E la p arece f a la r a
resp e ito de u m c ristia n ism o la te n te d a h u m an id ad e. O ju iz a firm a àq u eles
que ele a c e ita (2 5 ,3 4 s): « E n tra i n a posse do rein o que vos e s tá p re p a ra d o ;
pois tiv e fo m e e m e d estes de c o m e r__ ». E eles re tru c a m : «Senhor, onde
fo i que t e vim os com fom e?» E ele re sp o n d e: «O que fizestes a u m d e ste s
m eus p eq u en in o s irm ãos, a m im o fizestes». S egundo Jo achim Jerem ia s, “
essa p a rá b o la v is a re sp o n d e r a se g u in te p e rg u n ta : D e acordo com que m e­
d id a se rã o ju lg a d o s os g e n tio s? M as ev id en tem en te ela n ã o q u e r d a r in fo r­
m ações so b re o p ro ced im en to do ju iz do m undo com o u tra s pessoas, m a s
q u er p e rg u n ta r ao p ró p rio o u v in te , se ele a uxilia se m o lhar para a sua pró­
p ria ação (M t 6 ,3 s). E s s a p e rg u n ta se to m a esp ecialm ente a g u d a p ela soli-
d ariz a ç ão p e c u lia r d o ju iz do m u n d o com to d o s os que n ecessitam de a u ­
xilio. E la n ã o é g n ó stic a nem id e a lista , m a s ju ríd ic a : O ju iz do m u n d o vê
c a d a d em o n stra ç ão de a m o r com o se fo sse d irig id a a ele pró p rio . T ra n sfe ­
re-se p a r a o filh o do hom em o que os ra b in o s en sin am a resp eito de D eus:
«Q uando houverd es d a d o de co m er ao pobre, eu vo-lo ab o n arei, com o se 218

218. Glelchnisse', 206s.


I. Os pecadores 151

houvésseis d a d o a m im d e com er».*" A lém disso e ssa so lid arização do filh o


do hom em , ju iz u n iv ersal, é fu n d a m e n ta d a aq u i d ire ta m e n te ; pois, segundo
M t 11,29, ele m esm o e ra u m a naw , u m pobre. A p e sa r disso, tam b ém a
com unidade n e o te s ta m e n tá ria n u n c a vê o s c a re n te s de au x ilio com o re p re ­
s e n ta n te s id eais de Jesu s.

3) A p a rá b o la p e rg u n ta a in d a com m a io r in sistê n c ia que a s bem -aven-


tu ra n ç a s : Com o su rg e m ta is hom en s, que p ra tic a m a m o r ao p ró x im o nesse
sen tid o ? B a sta rá a p a la vra da p ro m issã o p a r a fa z e r com que su rja m ?
U m a re s p o s ta p o d e s e r d ed u zid a do c o n te x to in te rn o d a tra d iç ã o dos
ditos. S egundo M t 11,6, a b e m -a v e n tu ra n ç a n ã o se d irig e m a is ao s po b res
e ao s m isericordiosos, m a s ao s q u e n ã o a c h arem em J e su s m o tiv o d e tropeço,
— ao s q u e p e ra n te ele d e m o n stra m f é em D eus. A m esm a re s p o s ta é d a d a
p ela com posição de M ateus. E le lig a o se rm ão do m onte, no s c a p ítu lo s 5-7,
com o re la to a re sp e ito d a a tiv id a d e sa lv ífica d e Jesu s, n o s ca p ítu lo s 8s,
p o r m eio de observações re d a c io n a is (4,23; 9,35), fo rm an d o u m a com posição.
H om ens, com o os que sã o v isad o s p e la s b e m -a v e n tu ran ç a s e a s ex ig ên cias de
Jesu s, n ã o su rg e m d ire ta m e n te d essa p re g a ção — em n en h u m a p a rte encon­
tra m o s um re la to n e ste sen tid o . E le s su rg e m em fo rm a d e discípulos e crentes,
a tra v é s d a a tiv id a d e sa lv ífic a de Jesu s. E s s a a tiv id a d e salv ífica, n o en tan to ,
p rin c ip ia b em em baixo n a socied ad e ju d a ic a , e n tre hom en s desig n ad o s de
«pecadores» n o am b ien te de Jesu s.

§ 12: SALV A ÇÃ O P A R A O S P E C A D O R E S

Karl Heinrich Rengstorf, hamartolos, ThW I, 320-336; Rudolf Bultmann, aphlemi, ThW I, 506-509;
O tto Michel, telones, ThW V III, 88-106; Erik Sjòberg, G ott und die Sunder im palãstinischen
Judentum, 1938; Julius Schniewind, Die Freude der Busse, 19567; H.Braun, Radikalism us II, 115-
136; Jürgen Becker, Das H eiI Gottes. H eils- und Sündenbegriffe in den Qumrantexten und im
Neuen Testament, 1964; R off Knierim, Die Hauptbegriffe fu r Sünde Im A lie n Testament, 1965;
Klaus Koch, Sünde und Sündenvergebund um die Wende von der exilischen zur nachexilischen
Zeit, EvTheol 26 (1966), 217-239; Hartw ig Thyen, Studien zur Sundenvergebung im Neuen
Testament und seinen atl. und jüdischen Voraussetzungen, 1970; v. tb. § 4,11,1 (Arrependimento)
e § 15,11 e IV (Fé).

Os re la to s d a a tiv id a d e sa lv ífic a d e J e s u s diferen ciam eo n sta n te m e n te e n tre


pecad o res e ju s to s in fo rm a m que J e s u s te r ia se dedicado p rim e ira m e n te aos
pecadores, ao p asso q u e seu ch am ad o ao a rre p e n d im en to se d irig ia ao s ju sto s.

I. O s pecadores

O te rm o ham artolos, r a r a s vezes u sa d o n o grego, d esig n a o in d ivíduo


que fe re o d ireito , a o rd em e a m o ra l de u m a m a n e ira fo ra do com um ,
N a L X X é u sa d o p a r a d e sig n a r o s reschaim , os ím pios dos salm os. O salm o
1 co n trap õ e «os ím pios» ao s « ju sto s» : O ím pio é p a lh a que o v en to d isp e rsa ;
ele p ró p rio se exclui d a com unhão com D eus e com o seu povo, p o r n ã o
q u e re r e x is tir no âm b ito d a T o ra . E n q u a n to que o ju s to esp e ra em D eus, 219

219. Citado em Jeremias, Gleichnisse*, 205 (cf. Rm 2,26). Lit.: J. A. Robinson, The
«Parable» of the Sheep and the Goats NTSt 2(1955/56), 225-237; L. Goppelt, Calwer P redigthilfen
Vol. 11, 1972, 221-228.
152 § 12: Salvação para os pecadores

o ímpio se baseia na sua própria força (SI 49,7; cf. 10,4; 36,2). N o judaís­
mo, essa designação orienta-se unilateralmente na relação do indivíduo para
com a lei. Mischna Aboth 5,14 pode afirmar: «Quem vai (à sinagoga) e
age de acordo, é piedoso. E quem não vai e não age de acordo, é um rascha,
um pecador». Dessa maneira é «pecador» quem não conhece a lei ou não
a leva a sério. Por isso os partidos judeus delimitam o círculo dos peca­
dores, segundo a sua concepção da lei. Os fariseus maldizem, segundo Jo 7,49,
«a plebe que não conhece a lei», o am ha’a ie z. Os essênios consideram peca­
dores todos os que não compartilham de sua concepção da Tora nem de
sua prática da T ora.”
Na tradição sinótica, especialmente os publicanos (Mc 2,17 par; Lc 18,13;
19,7; cf. 6,32; 15,7.10), as prostitutas (Lc 7,34.37.39) e os gentios (Mc
14,41 par; Lc 6,33 par Mt 5,47) são caracterizados como «pecadores».
Por isso a expressão «publicano e pecador» que encontramos no centro da
tradição em Mc (2,15s par), em Q (Mt 11,19 par) e em Lc S (15,1), afirma:
os publicanos são pecadores. E ssa locução, da qual também faz parte Lc
13,2, encontramos também nos ditos de Jesus. Apenas Lc 5,8 diverge desse
uso como terminologia da comunidade.
Baseando-se nesse uso do conceito, Joachim Jerem ias “ julgou poder fa ­
zer a seguinte definição: Segundo o povo, pecadores são homens que têm
uma profissão desonesta ou levam uma vida imoral. Com isso, no entanto,
não se evidencia a intenção querigmática com a qual Jesus adota esta clas­
sificação de seu ambiente. Ele não quer isolar um círculo de pecadores, mas
evidenciar, em exemplos marcantes, o que ele tem a oferecer aos «pecadores».
No encontro de Jesus com os publicanos, evidencia-se para todos, de ma­
neira exemplar, como Jesus se situa frente aos pecadores e frente aos justos.

II. A dedicação aos pecadores

Segundo um relato da tradição de Q, Mt 11,19 par Lc, Jesus é depreciati­


vamente caracterizado de «amigo de publicanos e pecadores». A atitude aqui
atacada é ilustrada pela história de Zaqueu (Lc 19,1-10 S ). Quando o pro­
feta de Nazaré vai em peregrinação a Jerusalém e passa por Jerico, hospe­
da-se na casa do maioral dos publicanos, Zaqueu, provocando com isso não
só escândalo entre os fariseus, mas entre todas as pessoas (L c 19,7). A
tradição de Marcos e de Q e especialmente a matéria exclusiva (S ) de Lucas
relatam a respeito de um tal contacto (Mc 2,14.15-17 par; Mt 11,19 par;
Lc 7,36-50; 15,l s ; 19,1-10; cf. 18,9-14).
O significado dessa atitude é esclarecido na perícope da ceia com os
publicanos, Mc 2,15-17 par. Jesus e seus discípulos assentam-se à mesa com
os publicanos. A bênção da mesa reúne os que partilham do mesmo pão,
em uma comunhão de mesa, que é símbolo de comunhão muito profunda.
Escribas do partido dos fariseus formulam, indignados, a seguinte pergunta
a seus discípulos: «Ele come com publicanos e pecadores?» Jesus, fere, evi­
dentemente, a norma correta do SI 1,1: «Bem-aventurado o homem que não
anda no conselho dos ímpios!» Quem se solidariza com os pecadores, baga-
teliza o desprezo da Tora, tomando-se também impuro. Por isso a resposta 201

220. BUlerb. II, 494-519; Braun, Radikalismus I, 41s.


221. ZCllner und Sünder, ZNW 30 (1931), 295.300 (cf. idem, Jerusalem* 337-347).
III. A explicação da dedicação aos pecadores 153

de Jesus respeita, em parte, essas ponderações: «Os sãos não precisam de


médico, mas os doentes». Jesus não se assenta entre os pecadores para igua­
lar-se a eles, mas fá-lo como o seu médico. E ssa metáfora é acentuada, no
v. 17b, com um dito programático de ê lth o n : A missão de Jesus consiste
em chamar os pecadores ao reino de Deus, e isso significa, de maneira
indireta, como o complementa Lucas, chamá-los «ao arrependimento».
A cena apresenta-se como um todo, mas h isto ric a m e n te não é concreta.
Como é que os escribas são admitidos à ceia? Por que dirigem a sua pergunta
aos discípulos de Jesus e não a ele? Aparentemente reproduzem-se aqui
elementos típicos da tradição. Não refletem uma situação da comunidade.
A comunidade se preocupava com a admissão ao batismo e à ceia do Senhor,
mas não com a comunhão de mesa com os pecadores. E sta última era uma
das características da atividade de Jesus. E la é interpretada pela metáfora
do médico e não é uma construção ilustrativa desse dito. Deseja-se que a
comunidade sinta, através da perícope, o que Jesus lhe oferece em outra forma.
Jesus quer ser m éd ico dos pecadores, ao te r com unhão de m esa com os
publicanos, sem impor condições. A problemática dessa intenção evidencia-se
ainda mais se a compararmos com o interesse dos fariseus pelos pecadores: “
Continuamente admoestam, na sinagoga, para que as pessoas se afastem con­
cretamente da transgressão dos mandamentos. Excomungam os que praticam
transgressões graves e os excluem da sinagoga até que ocorra uma melhora.
Exercem pressão social, evitando a companhia dos pecadores. Como pode
Jesus esperar que, pondo em jogo a sua pessoa, venha a conseguir o que
eles, com a sua autoridade sacral e com as suas medidas de ordem pedagógica e
político-social, só conseguiram parcialmente?

m . A explicação da dedicação aos pecadores

Segundo a introdução redacional (v. Is), as três parábolas a resp eito do


perdido, em Lc 15, devem explicar aos justos a comunhão de Jesus com
os pecadores. A introdução narra em estilo generalizante de redação: «E
aproximaram-se dele todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E mur­
muravam os fariseus e os escribas dizendo: ‘E ste recebe os pecadores e come
com eles’». Para explicar a sua atitude aos que murmuram, Jesus conta as
três parábolas a respeito do perdido. Será que Lucas relacionou correta­
mente as parábolas com a situação de Jesus? Analisemos as parábolas!
A dupla parábola da ovelha e da dracm a perd id a s — uma, relacionada
com o mundo do homem e a outra, com o mundo da mulher — quer acentuar
o seguinte: Reencontrar a coisa perdida traz grande alegria. E sse acento
refere-se, sem dúvida, à preocupação de Jesus pelos pecadores. Se um peca­
dor é conseguido para o reino de Deus, algo perdido é reencontrado, e isso
significa uma alegria toda especial. (Em Mt 18,12ss a parábola da ovelha
perdida tem que ser repetida para os «fariseus» que existem na comunidade).
Mas será que, através de Jesus, os pecadores são realmente devolvidos
a Deus? A parábola do iilh o p e rd id o se ocupa com essa pergunta. A s duas
linhas da interpretação da parábola divergem, desde tempos imemoráveis,2

222. Billerb. I, 170ss.878s: a admoestação ao arrependimento diário; IV, 297-304; A excomu­


nhão da sinagoga; 1,787: o dever basicamente reconhecido de se ocupar com o concidadão
que errou, é deslocado especialmente em época posterior, pela teoria de que uma reserva
discreta ainda seria melhor.
154 § 12: Salvação para os pecadores

na aplicação dessa parábola na situação de Jesus: Alguns encaram a pará­


bola como uma figura através da qual Jesus ilustra sua pregação; outros
— assim como Lucas — uma interpretação de sua atividade. A primeira
interpretação é adotada por A d o li Jiilich er e pela teologia liberal como um
anúncio ilustrativo: Deus não é, como o afirmam os judeus, um juiz rigo­
roso; ele é o Pai misericordioso, que perdoa, quando o homem se arrepende.222
B u ltm a n n permanece nessa linha em sua hermenêutica, mas diz no sentido
de sua teologia querigmática da crise: A parábola não quer evidenciar a
misericórdia paterna de Deus; mas quer anunciar autoritaria e profetica­
mente: A misericórdia paterna de Deus perdoa sem impor condições, quando
o homem se arrepende, condenando-se a si m esm o.22324 Em contraposição a
isso, H e rb e rt B ra u n acentuava mais categórico: A aceitação dos pecadores,
que é .representada pela parábola do filho perdido, não se realiza por uma
sentença que vem de cima, m as através da dedicação do homem Jesus a
eles. «Deus demonstra misericórdia quando homens assumem o papel do
médico presente para os doentes».22526 Assim, portanto, B u ltm a n n vê somente
a palavra vinda da parte de Deus, e B r a u n somente o evento da aceitação
através do homem Jesus. No entanto, segundo a tradição a respeito de Jesus,
os dois fatos estão ligados. Por isso podemos reproduzir o sentido da pará­
bola, nos termos da segunda tradição de interpretação,236 da seguinte ma­
neira: E la interpreta e anuncia a dedicação de Jesus aos pecadores, como
sua (deles) aceitação por Deus. Ela não descreve o que fazem os pecadores
aceitos ou os justos que murmuram; ela anuncia o que Deus faz. Jesus se
tom a médico dos pecadores, pois em sua dedicação, o próprio Deus, o
Pai, os aceita.
Como pode isso ser afirmado a respeito da pessoa de Jesus? Jesus
volta-se aos pecadores como aquele que ele é, através de toda a sua atividade
em palavra e em ação. Ele está presente entre eles como aquele, através
de cuja atividade em palavra e em ação o reino escatológico de Deus se
evidencia e se tom a eficaz.
Dessa maneira as parábolas a respeito do perdido revelam o sen tid o
ce n tra l da a tiv id a d e terrena d e J e su s: Onde Jesu s oferece aos pecadores
a su a com unhão, seja através da comunhão de mesa, seja através da cura
de um doente, seja através do chamado ao discipulado, ocorre, sem que isso
seja afirmado, o perdão de Deus. E esse perdão é muito mais do que o
termo normalmente significa: Agora perdão não significa apenas eliminação
de culpa, mas restabelecimento de comunhão, a n o va aceitação da criatura
a tra v é s de se u C riador, com o a d m issão n a vida do reino escatológico de D eus.
O fato de o pecador se entregar à comunhão com Jesus é a su a vo lta ao
reino de Deus. O pecador somente tem a aceitação concedida sem condições,
quando retoma.
Lucas age corretamente ao incluir no contexto os term o s tra dicionais;
eles recebem assim um n o v o co n teú d o a partir do novo evento. O perdido
encontrado é, segundo Lc 15,7.10, h o h a m a rtõ lo s m etanoõn, o pecador que
regressa. E Lc 7,47 afirma a respeito da pecadora que é aceita por Jesus:

223. Adolf Jülicher, D ie Gleichnisreden Jesu II, 1910», 363.


224. Trad., 212; Theol., § 3,2.
225. Jesus, 1969, 167; Radikalismus II, 25.37s.l32ss.
226. Seguimos com isso desenvolvendo a linha de Schlatter-Schniewind. E ta Linnemann,
Gleichnisse Jesu, 1969*, 156, nota 24 e 26, objeta com certa razão, ao reproduzir a discussão
contra a interpretação deles, que eles vêem por demais a parábola como uma descrição dos
pecadores aceitos e dos fariseus que murmuram.
IV. Salvação — perdão dos pecados — fé 155

«Perdoados lhe são muitos pecados; pois ela muito amou». (N o grego en­
contramos o verbo aphienai, ao qual corresponde o substantivo aph esis).
E ssa frase é, ao lado de Mc 2,5 par, a única passagem da tradição sinótica
na qual Jesus fala expressamente de p erdão dos pecados. Encontramo-la
no final da narrativa a respeito da grande pecadora, como um adendo. N ela
não é prometido perdão; é anunciado que ocorreu perdão. A s demonstrações
de amor da mulher são citadas como sinais de reconhecimento, e não como
causa. O perdão não foi um ato, mas um processo; ocorreu como aceitação,
da parte de Jesus, à qual correspondeu a volta dela para ele. O perdão
trazido por intermédio de Jesus ocorre através de sua dedicação e é expresso
através de suas parábolas. Somente em uma passagem, em Mc 2,5, ele é
anunciado quase que provocativamente, para revelar ao público uma di­
mensão maior.

IV. Salvação — perdão dos pecados — fé

A perícope da cura do p a ra lítico , em Mc 2,1-12 par, abrange, segundo o


gênero, duas partes distintas: Uma narrativa de milagre, em 2,1-5 e 10b-12,
e uma discussão a respeito do perdão dos pecados, em 6-10a. Julgava-se
amiúde que aqui haviam sido combinadas duas tradições originalmente inde­
pendentes. Hoje admite-se mais e mais que a discussão foi construída como
interpretação à narrativa do milagre que reproduz um fato histórico. A
promessa do perdão dos pecados (v. 5b) faz parte do trecho original da
narrativa; pois a ligação de perdão dos pecados e cura é típica para Jesus,
enquanto que a comunidade posterior liga perdão dos pecados e doação do
Espírito (A t 2 ,3 8 ).“
A introdução da narrativa do milagre interpreta o fato de trazerem o
doente como demonstração de fé. Jesus anuncia publicamente, em relação a
esta fé, o que ele tem a oferecer ao doente que procura com ele o auxílio
de Deus. Enquanto que todos esperam a cima, ele anuncia prim eiro o perdão
d o s pecados. Em 2,11 segue então a palavra que cura. Isso quer dizer:
Perdão significa cura do homem todo e vice-versa: A s curas de Jesus im­
plicam uma dedicação perdoadora de Deus.
Essa ação de Jesus provoca o p ro te sto dos escribas, como sua cura no
sábado. Esse protesto é articulado pela discussão: «Ele blasfema; quem po­
de perdoar pecados, senão um, que é Deus?» (2,7).
E realmente não existe nenhuma analogia veterotestam entária ou ju ­
daica a esse anúncio de perdão dos pecados realizado por Jesus. No AT,
em Ê x 34,6, é acentuado que Deus é misericordioso e perdoa os pecados,
mas somente ele. Ocasionalmente esse perdão é anunciado através de ditos
de profetas: Conforme 2Sm 12,13, N atã diz a Davi: «Assim o Senhor te
perdoou o teu pecado». Em Is 43,25s; 44,22, o perdão de Deus é anunciado
a todo o povo: «Eu desfiz a tua transgressão como uma nuvem». Os ritos
de expiação sacerdotais e as fórmulas de absolvição a eles ligados dificil­
mente podem ser comparados com o anúncio de Jesus; além do mais, difi­
cilmente são compreensíveis sob ponto de vista histórico. “ No ambiente 278

227. Cf. Eduard Schweizer, NTD U c, n a passagem correspondente.


228. V. Rad, Theol. I«, 282ss.
156 § 12: Salvação para os pecadores

judeu de Jesus conhecia-se apenas um sistem a institucional de penitência


e perdão, mas não um anúncio (§ 4,11,2).
Dessa maneira o protesto é procedente: Jesus realiza o que compete
tão somente a Deus. Assim como contrapõe, nas antíteses o seu ‘Eu porém
vos digo’ ao mandamento divino transmitido por Moisés, fala também aqui
com plenos poderes, como é dito posteriormente, em 2,10. Tomando-se ainda
a afirmação da parábola do perdido, constata-se o seguinte: N a pessoa d e
Jesus, o p ró p rio D e u s que ergue agora o seu reino escatológico, s e d irig e
ao h o m em . E sta é a base da cristologia neotestamentária!
E sse fundo evidenciado pela discussão permite que se compreenda por
que o evangelista relaciona, em 2,5, o anúncio do perdão e a cura com a
ié . F é não significa confiança em um taumaturgo, como se vê aqui, mas
confiança na automanifestação de Deus através de Jesus. Também no final
da narrativa sobre a grande pecadora, o perdão é relacionado com a fé
(Lc 7,50).
Assim o perdão aqui é relacionado com a fé, mas, em Lc 15, com o
arrependimento.

V. Perdão — arrependimento — fé

Em Lc 15,7.10, fala-se aos fariseus a respeito do «pecador que se arrepende»_


Em Mc 2,5 e em Lc 7,48.50, os homens aos quais se anuncia o perdão são
designados de crentes. Os conceitos mudam de acordo com a direção do
quérigma: Aos que não foram atingidos, fala-se de arrependimento; aos
que o foram, de fé. Da mesma maneira usa-se os dois conceitos em relação
às curas. A s aldeias da Galiléia, que rejeitam Jesus, são acusadas, em Mt
11,21 par, de não se haverem arrependido frente aos atos salvíficos de
Jesus. Em contraposição, pergunta-se pela fé das pessoas que vêm procurar
o auxílio de Jesus.
O uso alternado dos dois conceitos, no entanto, somente é possível
porque eles se correspondem q u a n to ao conteúdo. Realmente, a volta do filho
perdido é caracterizada com locuções semelhantes à da confiança do een-
turião de Cafarnaum a Jesus. O primeiro diz: «Irei ter com meu pai e lhe
direi: ‘Não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um doa
teus trabalhadores’» (Lc 15,19). E o último: «Não sou digno de que entres
em minha casa. Dize apenas uma p a la v r a ...» . E Jesus explica: «Em nin­
guém encontrei tal fé em Israel» (Mt 8,8.10). Conforme estas palavras,
ié é a realização iu n d a m e n ta l d o a rrep endim ento, pois crer não significa
mais basear-se nas próprias possibilidades, mas entregar-se à proteção e ao
auxilio de Deus. Quem crê, é um p o b re que deve ser considerado bem-aven­
turado! (Mt 5,3; 11,5).VI.

VI. A prova do arrependimento

Onde se pode notar que os pecadores, aos quais Jesus concede a sua comu­
nhão e auxílio, s e arrep en d em d e fa to ? Isso não pode ser demonstrado,
so m e n te p o d e se r co n sta ta d o a tra v é s d e sin ais. A tradição sinótica menciona
os seguintes sinais: Quando Jesus se coloca a seu lado, Zaqueu declara, em
VII. Perdão e amor ao próximo 157

L c 19,8: «Resolvo dar aos pobres a metade de meus b e n s ...» . Segundo Lc


7,44-47, o fariseu deve reconhecer, nas demonstrações de amor da pecadora,
que a ela muito foi perdoado. O publicano Levi se ergue e segue a Jesus,
tão logo Jesus se volta a ele e o aceita como seu discípulo (Mc 2,14 par).
No discipulado concretiza-se o que a perícope seguinte afirma a respeito da
ceia com os publicanos: Jesus dedicou-se aos publicanos como médico. Tudo
isso, a mudança do comportamento social, a demonstração do amor, o disci­
pulado, são sinais, mas não provas do arrependimento.
O mesmo deve ser dito, por outro lado, com referência ao perdão de
Jesus: A cura do paralítico é citada na discussão como sinal do poder de
Jesus de perdoar pecados (Mc 2,10). Para nenhum judeu uma cura é prova
da intervenção de Deus; também a cura só pode ser um sinal (§ 15,11 e
IV ; § 6,111,1).

V IL Perdão e amor ao próximo

Assim como o homem só tem o perdão d e D eu s quando se volta, quando


regressa para Deus, assim também só p o d e fic a r com o perdão quando se
vo lta p a ra o p ró xim o . E ’ o que expressa a parábola do servo infiel, Mt
18,23-35 S. A parábola quer ser relacionada com o perdão de Jesus: Pelo
fato de o perdão de Jesus incluir comunhão pessoal com Deus, ele se perde
quando o homem se negar como pessoa ao próximo. Quem não perdoa o
próximo quando perdoado por Deus, perde o perdão de Deus. Assim tam­
bém quer ser compreendida a quinta prece do pai-nosso, Mt 6,12 par:
«Perdoa, assim como nós temos perdoado». E ste não é o princípio, mas a
continuação. E ’ a prece do discípulo que, como toda prece do pai-nosso ,
parte do grande perdão de Deus, mediado por Jesus. O fato é acentuado
também por uma série de ditos: Mc ll,2 5 s (par) Mt 6,14s; Mt 5,23s; 18,35.
E ssa reciprocidade não é idêntica a uma relação de d o - u t - d e s mas cor­
responde à circulação sangiiínea: A circulação entre o perdão de Deus e
do homem é obstruída, caso o segundo passo for negado.
Assim como o perdão de Jesus, o perdão em relação ao próximo não
consiste apenas em palavras, mas no restabelecimento da comunhão. Assim
como o perdão de Jesus não se acaba, assim também o perdão em relação
ao próximo: «Não até sete vezes, mas até setenta vezes sete»! (Mt 18,21s).
Para concluir, temos que acentuar mais uma vez: O perdão de Jesus
permite aos pecadores o acesso a Deus e ao próximo, pois oferece-lhes ante­
cipadamente, sem nada exigir, a comunhão total com Deus. E sse perdão
de Jesus está sempre relacionado com o seu interesse pessoal por indivíduos,
jamais é anunciado como uma absolvição geral. “ O perdão não se restringe
aos pecadores aos quais Jesus se dedica e àqueles que o procuram, pedindo
auxílio. A aceitação dos pecadores atinge também e justamente os justos.2930

229. Contra Braun, Radtkalismus II, 127, nota 1.


230. E sse traço decisivo é deixado de lado quando, em Jeremias, TheoL, 115-119, a ativi­
dade salvifica de Deus é transformada em uma «boa nova», indiferenciada para «os pobres»
que são comodamente equiparados «aos pecadores». A atividade de Jesus tem uma forma
fundamentalmente diferente da pregação pós-pascal!
158 § 13: 0 perdão de Jesus e os justos

§ 13: O PERDÃO DE JESUS E OS JUSTOS


V. lit. § 8 e § 12; Isra el Abrahams, Studies In Pharisaism and the Gospels, 1917 (retm pr. 1967).
W ollgang Bellner, C hrlstus und die PharlsSer, 1959; Asher Finkel. The Pharisees and the Teacher
o f Nazareth, Leiden 1964; Samuel Umen, Pharisaism and Jesus, New York, 1963; Hugo Odeberg,
Pharisaism and C hristianity, S aint Louis, 1964; Hand-Frledrlch Weiss, D er PharlsSIsmus Im Llcht
der Oberlleferung des NT, em: SAS, Vol. 110, 2,1965; Jacob Neusner, The Rabbinic Traditions
about the Pharisees before 70, 1971.

Através da aceitação dos pecadores, a falha e a chance dos justos se tom am


patentes. Isso se evidencia na pessoa do irmão do filho perdido, em Lc 15,25-32.

I. A falha

1 ) A recepção festiva do perdido leva o irmão mais velho a fazer o cálculo


de sua atitude: «Há tantos anos te sirvo e jamais transgredi a tua ordem,
e nunca me deste um cabrito sequer para que eu m e alegrasse com os meus
amigos» (Lc 15,29). E também o rico justo assegura: «Tudo isso observei
desde a minha juventude» (Mc 10,20). Aqui justamente o protesto contra
a aceitação do irmão revela o motivo desse cumprimento da lei. E le não
viveu como filho, mas como empregado. Interiormente distanciou-se do pai,
da mesma maneira que o filho m ais jovem (15,31). Sua posição frente ao
pai corresponde a sua posição frente ao irmão. O irmão é usado como fundo
escuro que permite ressaltar a própria justiça relativa: «Quando, porém,
veio este teu filho, que desperdiçou os teus bens com m eretrizes...» (15,30).
«Graças te dou porque não sou c o m o ...» (Lc 18,11). O ju sto , p o rta n to ,
já fa lh a seg u n d o a le i: Apesar do cumprimento dos mandamentos, nega seu
amor ao pai e ao próximo. Mas somente a aceitação do pecador é que pro­
voca a crise entre o justo e Deus.

2 ) Por que o p erd ã o de Jesu s se tra n sfo rm a na crise do ju sto ? Quando


o mais velho ficou sabendo da aceitação do mais novo, «irou-se e não queria
entrar» (15,28). Irrita-se porque foi eliminada a base de sua existência.
Porque o perdão foi concedido por graça, o mérito relativo que poderia
ser apresentado pelo justo se tornou supérfluo, e a ordem do pacto do
Sinai, que não visava esse cálculo e essa reclamação, mas as possibilitava,
foi eliminada.

3 ) Como vê, portanto, Jesus a fa lh a do ju sto ?

a ) O justo erra de maneira diferente que o pecador. Os pecadores são


semelhantes ao filho que abandonou o pai e os seus mandamentos. Apode­
ram-se das dádivas de seu Criador e tornam-se autônomos em relação a ele.
Os justos são semelhantes ao irmão mais velho: Permanecem na proximidade
dos mandamentos e atêm-se a eles. A atitude de ambos não é nivelada des-
preocupadamente; Jesus distingue deveras entre pecadores e justos.

b ) Mas, por trás das diversas posições, distingue-se a insufieiência de


ambos: Ambos não vivem como filhos; negam seu caráter de criatura, bem
como o pacto de Israel.
II. A oferta da graça aos justos 159

c) Essa falha dos justos já é evidenciada pelas advertências dirigidas


aos fariseus (§ 8,11). Mas a atividade salvífica de Jesus faz com que a falha
deles irrompa. Ela se mostra no protesto dos justos contra a demonstração
do amor de Jesus que deixa a lei de lado. Manifesta-se, finalmente, na sua
condenação, na sua crucificação.
4) Jesus apresenta essa falha apenas por meio de alegorias, ainda não
em um a n o va term in o lo g ia teológica. U sa os conceitos «pecador» (§ 12,1)
bem como «pecado» apenas no sentido de seu ambiente. Raras vezes encon­
tramos os conceitos de pecado (grego, h a m a rtia e h a m a rtê m a ) nos sinóticos,
quase só na expressão «perdoar pecados »(Mc 2,7ss par; Lc 7,47ss; cf. Mc
3,28s par). Em Mt 26,28, o conceito foi introduzido, posteriormente, no dito
do cálice. Da mesma maneira Lc 11,4 substitui com ele o termo «dívidas»,
no pai-nosso. Em todas essas passagens, «pecados» são transgressões dos
mandamentos divinos, segundo o uso corrente. Paulo é quem vai resumir,
em uma nova terminologia teológica, o que Jesus havia desvendado. E le
caracteriza, p. ex., em Rm 1, os pecadores e, em Rm 2, os justos e assi­
nala a posição comum aos dois com o novo conceito de pecado, usado no
singular (Rm 3,9).
A parábola de Jesus não conclui com o protesto do justo, mas com o
convite do pai.

n . A oferta da graça aos justos

A parábola do filho perdido é narrada aos justos, convidando-os, com a


última frase (15,32), a alegrar-se com a salvação do perdido, i. é, a asso­
ciar-se à comunhão dos pecadores com Jesus. Com a mesma intenção, é
narrada a um fariseu, interiormente indignado com a aceitação de uma
prostituta, a parábola dos dois devedores (Lc 7,40-47), e a um outro, a
parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14). E sse convite é a oferta
de graça, feita por Jesus aos justos; também eles são chamados a um
arrependimento que significa alegria. O justo se arrepende quando abandona
sua posição de servo frente a Deus e aceita a comunhão com o Pai, quando
deixa de julgar o irmão e se alegra com a sua salvação. Seu arrependimento
tem, assim como o seu erro, uma outra forma que o do pecador. O caminho
que leva ao arrependimento, para ele, não é tão longo como para o pecador,
mas é mais difícil; pois ele não tem que abandonar apenas sua miséria
e sua impureza, mas também sua justiça relativa.

m . A posição dos justos na atividade salvífica de Jesus

Aparentemente a imagem da atividade salvífica, que deduzimos principal­


mente da parábola do filho perdido, é questionada por outras tradições.
1 ) Alguns ditos parecem afirmar que um arrependimento dos justos não
é necessário ou que não é exigido: «Não vim chamar os justos, e, sim,
pecadores» (Mc 2,17 par). Quando Lc 15,7.10 fala de justos «que não
necessitam de arrependimento», o contexto no qual se encontra inserido esse
dito mostra que essas afirmações são retoricamente exageradas.
2 ) Também a forma original da parábola da g ra n d e ceia, Mt 22,1-10 par
Lc 14,16-24, parece querer dizer aos fariseus: «Sois semelhantes aos convi-
160 § 13: O perdão de Jesus e os justos

dados que ignoram o c o n v ite !... Por isso Deus chama os publicanos e os
pecadores, oferecendo-lhes a salvação». “ Jesus, porém, não cogitava em
dirigir-se preferencialmente aos justos, como o esperavam os fariseus e os
essênios; suas bem-aventuranças anunciam justamente o contrário. O convite
de Jesus, segundo as bem-aventuranças, dirige-se a todos em Israel, mas não
vai além de Israel. A parábola, portanto, quer advertir a todos em Israel,
começando por seus representantes, a que não deixem de lado o convite,
perdendo assim a alegria da ceia. Deus não depende de Israel; ele pode e há
de convidar outros! «Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lu­
gares à mesa com A b raão.. . no reino dos céus» (Mt 8,11). A parábola dos
lavradores maus acentua algo semelhante (Mc 12,1-12 par). N a formulação
da parábola que encontramos em Mateus, os dois grupos de convidados são
relacionados com Israel e os gentios, o que corresponde à intenção original,
se bem que haja outra acentuação. Somente Lucas relaciona o convite pos­
terior com os pobres em Israel e os gentios, introduzindo assim, em parte,
o relacionamento com justos e pecadores. Com isso ele quer recordar o surgi­
mento da igreja, mas não quer dizer que o publicano Levi tenha sido cha­
mado apenas quando o rico justo declinara o convite.

3) L u cas deixa o co n vite aos justos a b erto ; esta é a última palavra


de sua parábola dos dois filhos. Em contraposição, M ateus (21,28-31) trans­
m ite uma parábola de dois filhos, que pressupõe a negação do ju sto . O
primeiro filho concorda com a instrução do pai, mas não a cumpre; ele é
a imagem do justo. O outro, porém, que a princípio a rejeita, mas que no
final ainda a segue, é a imagem do pecador que é levado ao arrependimento
por intermédio de Jesus. E ssa parábola não é convite para os justos, mas
uma ameaça: «Em verdade vos digo, publicanos e meretrizes entrarão
antes de vós no reino de Deus» (21,31). E ste «antes» não tem sentido
comparativo, mas exclusivo: E les entram, e vocês não. Também essa ameaça
pode provir diretamente de Jesus. O fato de Mateus se contentar com a
palavra penitencial de castigo em relação aos fariseus e de nunca apresentar
Jesus como hóspede em suas casas, como Lucas (7,36; 11,37; 14,1), corres­
ponde à sua experiência com eles, após o ano 70, mas não à atitude de Jesus.
Dessa maneira, a oferta de graça, feita por Jesus nas bem-aventuranças
e na dedicação pessoal ao indivíduo, abrange também os justos. O único
caminho que lhes oferece, no entanto, é o da solidarização com os «peca­
dores», o arrependimento, mesmo que a forma seja outra. A parábola de
M t 21 relaciona a aceitação da oferta com o reino de Deus, lembrando com
isso o alvo do arrependimento e do perdão, que não é mencionado de ma­
neira direta em Lc 15. Através do perdão de Jesus não é estabilizada a
situação mundial, como o querem os ritos expiatórios do escrito sacerdotal;
através de seu perdão é inaugurada a renovação escatológica. E a atividade
salvífica de Jesus não procura apenas a renovação da atitude interna e da
atitude ético-religiosa, mas também a da vida corporal e histórica. Isso mos­
tram os assim chamados milagres.231

231. Jeremias, Gleichnisse'', 61.


I. Os relatos e sua crítica 161

§ 14: A ANALISE HISTÓRICA DAS NARRATIVAS DE MILAfiRF.ft

Ad 111,1: O tto W elnreich, A ntlke Hellungswunder, 1909; R.Herzog, Dig Wunderhellungen von
Epidauros, 1931; W erner Foerster, dalmon, ThW II, 1-20; Albrecht Oepke, laomal, ThW
III, 194-213; Robert M. Grant, M iracle and Natural Law in Greco-Roman and Early C hristian Thought,
Amsterdam 1952; L.C ottrell, Wonders of A ntiquity, Londres, 1960; W erner Peek, F iin f Wunderge-
achlchten aus dem A sklepielon von Epldauros, 1963, em: AHS 56,3. — Ad III, 2: Paul Flebig,
Rabbinische Wundergeschichten des n tl. Zeltalters, 1911; A dolf Schlatter, Das Wunder In der
Synagoge, 1912; B llle rb .IV , 1277 v. term o Wunder. — Ad V ; H.Seng, D ie Heilungen Jesu in
m edlzlnlscher Beleuchtung, 1926; Hermann Schllngenslepen, D ie Wunder des NT. Wage und
Abmege ihrer Deutung in der alten Kirche b is zur M ltte des 5. Jh., 1933; Erich Fascher.
K rltlk am Wunder (Elne theologlegeschichtllche Orientierung), 1960; L.Monden, Theologie des
Wunders, 1961; Jõrg Baur, Wunder, dogmengeschlchtllch, RGG* V I (1962), 1838-1841; Wolfgang
W eidtich, Fragen der Naturwissenschaft an den chrlstllchen Glauben, ZThK 64 (1967), 241-257;
Hans Schwarz, Das Verstãndnls des Wunders bei Heim und Bultmann, 1965.

I. Os relatos e sua crítica

Nos evangelhos, por um lado, narram-se milagres que ocorreram com Jesus,
quando do seu nascimento, batismo, transfiguração e principalmente da pás­
coa; por outro lado, milagres que ele mesmo realizou. Aqui, na exposição
da atividade salvífica de Jesus, interessa-nos sobretudo o segundo grupo de
milagres. Eles são divididos nos seguintes grupos: a ) curas, b ) curas de
endemoninhados, c) reanimação de pessoas recém-falecidas (Mc 5,21-43
par; S Lc 7,11-17; Jo 11) e d ) milagres na natureza: A s alimentações (Mc
6,30-44 ; 8,1-9), o acalmar da tempestade (Mc 4,36-41 par), a caminhada
sobre o mar (Mc 6,45-52), a pesca maravilhosa (Lc 5,1-11), o amaldiçoa-
mento da figueira (Mc ll,1 2 s s ), o milagre do vinho em Caná, que corres­
ponde ao da alimentação (Jo 2,1-11).I.

II. A crítica aos relatos

As objeções críticas, provocadas por estes relatos em toda mente racional,


evidenciam-se nas seguintes sentenças: Certamente «muitas coisas receberam
um caráter maravilhoso apenas no relato dos d iscípulos.. . Mas admitamos
que Jesus tenha praticado esses milagres, que tenha curado enfermos, res­
suscitado mortos e alimentado uma grande multidão». O que há de especial
nisso? Alguns milagreiros oferecem, por pouco dinheiro, coisas ainda mais
maravilhosas: «Expulsam demônios, fazem desaparecer doenças, conjuram
almas de heróis, mostram ceias v a lio s a s..., que na realidade nem existem.
. . . Se essas pessoas fazem tais coisas, temos que considerá-las filhos de
Deus?» Esse citado não provém da crítica formulada pelo pensamento mo­
derno, desde a época do Iluminismo, mas do escrito do filósofo Celso contra
o cristianismo, por volta de 160 dC (Orig.c.Cels. 1,68). Celso usa os dois
critérios válidos até os nossos dias: Questiona os relatos de milagres, sob
o ponto de vista histórico, a partir de seu surgimento, e, quanto ao con­
teúdo, a partir de analogias.
Desde a época do Iluminismo, a própria teologia assumiu esta função
crítica. N a linha «meramente histórica» da pesquisa neotestamentária, ela
foi observada, a princípio, de uma maneira muito simplista, que ficava muito
aquém da reflexão da teologia sistemática. Partia-se do princípio: O que é
impossível sob o ponto de vista objetivo, i. é, para o pensamento raciona-
162 § 14: A análise histórica das narrativas de milagres
lista do presente, também não pode ter acontecido historicamente, A partir
desta pressuposição, procurou-se explicar racionalmente o surgimento das
narrativas de milagres, por meio de reconstruções históricas bastante simples.
1 ) Uma das possibilidades de explicação, existente de forma mais sutil
até hoje, foi desenvolvida pelo racionalismo teológico no final do séc. XVIII:
As narrativas baseiam-se em equívocos das primeiras testemunhas. Apresen­
tam as impressões subjetivas dos discípulos a respeito de eventos que podem
ser explicados racionalmente. P. ex., o dito proferido para acalmar a tem­
pestade foi proferido quando o barco dobrou um cabo, ficando a sota-vento,
sendo por isso mal-entendido pelos discípulos. N a caminhada sobre o mar,
Jesus estava caminhando na margem, sendo confundido com um fantasma
pelos discípulos que estavam no barco. A s ressurreições deveriam ter por
título: Jesus evita que pessoas sejam enterradas vivas; pois tratava-se de
catalépticos. “
2 ) D a v id F riedrich S trau ss merecidamente ridicularizou esta explicação
racionalista, em seu livro «Leben Jesu», 1835 (reimpr. 1969), e qualificou
as narrativas de milagres de revestimento mítico de idéias: Os narradores
projetaram sobre Jesus relatos de milagres, principalmente do AT, para
evidenciar o seu significado. O que o AT conta a respeito de Moisés e Elias,
alimentações e reanimações de mortos, com muito mais razão tinha que ser
creditado a Jesus. Sob o ponto de vista histórico, Jesus apenas curou alguns
endemoninhados; no entanto, não é importante que se examinem os evan­
gelhos quanto a esse cerne histórico. Precisa-se deduzir o que eles dizem
a respeito de Jesus em linguagem mítica.
3 ) Hoje os métodos da crítica temática, bem como da crítica histórica
tornaram-se bastante diferenciados e requintados, em relação a esses inícios,
mesmo que, de vez em quando surja um racionalismo simplista. Procura­
remos desenvolver, em traços gerais, o que se pode averiguar, em nossos
dias, a respeito da apreciação crítica das narrativas de milagres, ocupando-
nos, em uma parte final, da problemática.
Para que se possa fazer uma apreciação histórica das narrativas de
milagres dos evangelhos, é necessário que se veja a posição ocupada pelos
m ilagres na com preensão d e m undo d o hom em antigo. Já em virtude da
compreensão de mundo que se reflete neles, é importante que nos ocupemos
com essa questão.

III. O milagre na compreensão de mundo do ambiente de Jesus

N a discussão a respeito dos milagres de Jesus, afirma-se amiúde: Para o


homem antigo, os milagres são naturais; para o moderno, não imagináveis.
O homem antigo busca cura junto ao taumaturgo, o moderno vai ao médico.
Esses julgamentos globais não atingem a realidade histórica, como já se
evidenciou no caso de Celso.
1) No m undo h e le n ista " conhecia-se, na época do NT, não somente
curas m ilagrosas, mas também uma m edicina grandemente desenvolvida e 2 3
232. Schweitzer, Leben-Jesu-Forschung, 52ss.
233. Literatura e passagens comprobatórias ao que segue, c t Albrecht Oepke, ThW HX.
196-199.
III. O milagre na compreensão de mundo do ambiente de Jesus 163

especializada, p. ex., dentistas que obturavam os dentes e que fabricavam


dentes de ouro. Característico é o fato de que o limite entre a cura mila­
grosa e a arte médica oscilava muito mais do que entre nós. O santuário
do deus Asklepios em Epidauros, no Peloponeso, assemelhava-se a um local
de peregrinação como Lourdes. O santuário na Ilha K os assemelhava-se,
no entanto, mais a um estabelecimento balneário. N o primeiro encontraram-
se, quando das escavações, placas votivas que falam a respeito de curas
milagrosas. No último não se encontraram placas votivas, m as instrumentos
médicos; os sacerdotes haviam se aliado a médicos. Por um lado, os sacer­
dotes faziam uso de recursos médicos e, por outro lado, os médicos contavam
com uma intervenção direta da divindade. O criador da medicina no ambiente
grego, H ip o cra tes, formulara o princípio: «Tudo é divino e tudo é humano».
D e modo geral, a concepção de mundo dos antigos difere da nossa no fato de
que eles permitiam que o racional-natural e o irracional-antinatural se inter-
relacionassem, enquanto que nós os separamos, separamos talvez até demais.
E sta situação é o pano de fundo das n a rra tiva s h elen istas d e m ilagres.
Se quisermos utilizá-las sensatamente, temos que levar em conta o gênero
literário que representam. Relatos de placas votivas e a Biografia de A polônio
d e T yan a, escrita por F iló stra to por volta de 200 dC, têm certa pretensão
de historicidade subjetiva. E sse filósofo peripatético, neopitagórico, percorreu
os mesmos caminhos como os missionários do cristianismo primitivo. Expul­
sou demônios, reanimou mortos (4,45), pôs fim a uma epidemia, etc. Ele
é o tipo do th eio s anêr, do homem através do qual poderes divinos se tor­
nam ativos. Sua biografia já se aproxima um pouco das aretologias que
narram as a reta i, fatos excepcionais de heróis m íticos e históricos. Boa
parte dos A tos dos Apóstolos apócrifos do 2" século surgiram de aretologias
populares.5** E ssa literatura era aceita pelo povo, assim como homens cultos
liam os antigos romances. Não se levava a historicidade dos relatos muito
a sério. Por isso é errado querer-se deduzir, das narrativas de milagres dessa
literatura, a crença natural do homem antigo em milagres. Acima de tudo,
ela não permite que se tirem conclusões a respeito do ambiente imediato de
Jesus.

2 ) O ambiente judeu de Jesus.

Em Israel a fé em Deus, o Criador e Senhor, eliminara a compreensão


mágica do mundo. O homem judeu também sabia que não estava entregue
a um destino cego, como o helenista, e a um sistem a de poderes que domi­
nava o curso da história. Baseava sua existência na promessa do pacto,
que lhe havia sido feita por seu Deus como um parceiro pessoal, e na
certeza de que Deus conduz a história de acordo com a sua palavra. Isso é
o que vale, apesar das diversas deturpações da manifestação veterotestamen •
tária de Deus, também no ambiente judeu de Jesus.
Por isso é que principalmente se ora pela cura em caso de doença,
dando-se à arte médica um valor auxiliar bastante secundário. E ssa posição
é representada inclusive por um judeu com formação helenista como Filão.
Por isso, em última análise, não se conhecem taumaturgos no ambiente
judeu de Jesus, que provocam a cura por meio de fórmulas e práticas eficazes.
Apenas o exorcismo era conhecido, como o próprio Jesus o observa, em Mt234

234. Hennecke IP , 115.


164 § 14: A análise histórica das narrativas de milagres

12,27; endemoninhados são curados através de palavras e gestos que ex­


pulsam os demônios. No mais, recorre-se a pessoas das quais se espera uma
intercessão (oração) eficaz e fala-se a respeito de curas por elas mediadas.**
O que a tradição sinótica relata a respeito de curas de Jesus, por esse
motivo quase não tem analogias no seu ambiente judeu.** Os judeus conhe­
ciam fatos semelhantes apenas das narrativas veterotestamentárias a res­
peito de Elias e Eliseu.
Em crítica de tradição, as narrativas dos evangelhos têm que ser ana­
lisadas sob esse pano de fundo.

IV. Crítica da tradição

Toda exegese científica das narrativas de milagres procura analisá-las se ­


gundo a crítica da tradição. Nenhuma análise até agora excede, em ceti­
cismo, ao que a S yn o p tisch e T ra d itio rf de B ukm an n , p. 223-260, apresen­
ta. “ Desenvolvemos, por isso, o que pode ser dito quanto à crítica da tradição,
em discussão com essa crítica. Trata-se do seguinte:

1 ) Durante a tradição, as narrativas de milagres foram am pliadas por


intermédio de duplicatas e variantes. Já se pode observar isso no desenvol­
vimento da tradição de Marcos para Mateus e Lucas. Mateus, p. ex., em
9,27-34, cria duplicatas de duas narrativas de milagres, apresentadas por
ele, segundo as suas fontes, em Mt 20,29-34 e 12,22-24. Dessa maneira ele
quer complementar a série de dez milagres nos capítulos 8s. Da mesma ma­
neira pode ter surgido, em um estágio precoce da tradição, ao lado da
alimentação dos 5.000, a alimentação dos 4.000. Em crítica de tradição, no
entanto, é impossível acompanhar-se B ultm ann quando considera também as
narrativas do centurião e da mulher sírio-fenícia como duplicatas, que se­
gundo ele apresentam o mesmo motivo.

2 ) N o processo da tradição, além disso pode-se constatar a tendência


de a u m e n ta i o ca rá ter m iraculoso. Coletâneas redacionais como Mt 9,35 ge­
neralizam as curas de Jesus, indo muito além daquilo que pode ser deduzido
de tradições isoladas. N as narrativas de milagres de João, que foram escritas
mais tarde, pode-se notar um aumento do caráter maravilhoso, em relação
a relatos sinóticos comparáveis. Lázaro é retirado do túmulo, segundo Jo
11, enquanto que a filha de Jairo é reanimada pouco após a morte; em
Jo 11, no entanto, ainda existem, além dessa tendência, motivos teológicos.

3) Provavelmente alguns elem en tos das aparições pascais foram proje­


tados nos d ia s terren os. Em Jo 21,3.5-8, a pesca maravilhosa está ligada
a uma aparição pascal; em Lc 5,1-11, com a vocação dos discípulos nos
dias terrenos. Provavelmente também a narrativa da caminhada sobre o mar
(Mc 6,45-52 par) tem uma narrativa pascal por base. Mas não é possível,
como o sugere B ultm ann, deduzir de testemunhos pascais as narrativas da
confissão de Pedro e da transfiguração.23567
235. P. ex. Billerb. III, 441.
236. As Inúmeras correspondências apresentadas por Fiebig, op. cit., sfio em grande parte
lendas rabínicas do 3» e 4? séculos, como o demonstra Schlatter, op. cit.
237. Jeremias, Theol., 90-96, que concorda em grande parte com Bultmann e complementa
sua crítica.
IV. Critica da tradição 165

4 ) E ’ certo que m e tá io ra s de Jesus foram transformadas e m n a rra tiva s.


Dessa maneira surgiu, p. ex., a narrativa do amaldiçoamento da figueira
(Mc 11,12-14.20). Talvez a pesca maravilhosa tenha surgido da metáfora
a respeito dos pescadores de homens (Lc 5,10) que pode ser situada no'
envio por parte do ressurreto.

5 ) Finalmente temos que considerar até que ponto se atribuiu a Jesus


m o tiv o s m ilagrosos e x is te n te s n o a m b ien te. E sse acontecimento foi, segundo
,m
B u ltm a n n a fonte básica do surgimento das narrativas sinóticas de mila­
gres. Os paralelos do ambiente por ele mencionados, no entanto, não coin­
cidem, em grande parte, com seus traços essenciais. Segundo M. D ibelius, 23823940
apenas três narrativas foram atribuídas a Jesus, as do endemoninhado gera-
seno (Mc 5,1-20 par), do milagre do vinho em Caná (Jo 2,1-11) e da
moeda na boca do peixe (Mt 17,26s). A última narrativa, sem dúvida, adota
um motivo lendário; as outras duas, principalmente o milagre do vinho,
não foram simplesmente «adotadas», mas surgiram em um processo bem
mais complexo. Evidencia-se, geralmente, que o contacto com as analogias
do ambiente se dá especialmente na maneira da exposição, e não na
afirmação propriamente dita. Quase não se encontra uma tendência de cre­
ditar motivos de milagres a Jesus; pois as analogias veterotestamentárias,
bastante afins, exerceram pouca influência, o que é de admirar.
O que resu lta da crítica da tradição h istó rica , pode ser resumido da
seguinte maneira:

a ) Durante a formação e a tradição das narrativas de milagres surgi­


ram ampliações e modificações consideráveis.

b ) Em todo o caso é historicamente certo que Jesus realizou curas,


em número considerável, não somente de endemoninhados, mas também de
outros doentes. Essa atividade, em grande parte, é algo exclusivo de Jesus,
em seu ambiente judeu. Nunca se atribuíram curas milagrosas a personali­
dades semelhantes de seu ambiente, p. ex., João Batista ou o Mestre da
Justiça de Qumran.

c ) Entre as tradições sobre assim chamados milagres na natureza,


somente a alimentação e o acalmar da tempestade parecem ter alguma rela­
ção com os dias terrenos de Jesus. No início, contudo, se encontram acon­
tecimentos que já não eram compreensíveis para os que deles participaram.
E ’ significativo que os participantes desses milagres são sempre discípulos.
Também a alimentação maravilhosa, no fundo, é percebida apenas por eles;
com exceção de Jo 6, não se fala de uma admiração da multidão.
À crítica histórica das narrativas de milagres, mais do que de outras
passagens, liga-se a crítica temática. Por isso segue uma breve observação
a seu respeito.
238. Trad., 246-255.
239. Jesus1, 72-77.
240. O tópico das antigas narrativas de milagre (o peso da doença e as tentativas de cura,
até então infrutíferas, o processo da cura com gestos e mezinhas, a demonstração da cura
realizada, o final com o coro que expressa a impressão causada pela cura) encontra-se, em
parte, de maneira pronunciada, nas narrativas do NT, em parte apenas como fragmento e,
às vezes, esse aspecto falta totalm ente (cf. G. Delling, Antike W undertexte, 1960a). Jeremias,
Theol., 93s, atribui, de maneira muito gíobal, o primeiro à camada da tradição helenista e o
último à camada da tradição palestina.
166 § 15: O significado teológico dos milagres de Jesus

V. A critica temática

1) O princípio: o que é c ie n tific a m e n te impossível também não pode ter


ocorrido h isto ric a m e n te , somente é correto se logo continuarmos a perguntar
criticamente: O que afinal é cientificamente impossível? O que é «impossível»
sob o ponto de vista da medicina? Observe-se historicamente que o homem
antigo não somente encarava o mundo de maneira diferente, mas que tam­
bém o vivia de maneira diferente. Missionários podem relatar, ainda hoje,
a respeito de exorcismos em certos círculos. Note-se também que os relatos
dos evangelhos fogem a uma averiguação médico-científica, através de suas
formulações. Não se deveria abraçar irrefletidamente um cientificismo, mas
chamar à atenção de que hoje não existe uma compreensão filo só fic a uni­
forme e universalmente reconhecida da realidade. Justamente por isso é
completamente errado querer-se constatar lacunas na ciência natural, para
nelas introduzir «milagres». Após essas referências é necessário que se faça
uma reflexão filosófica e teológica profunda a respeito do assunto.

2) Ao lado da questão científico-filosófica deve ser considerada a teo­


lógica. Qual é afinal o sentido teológico dessa questão? Teologicamente, i. é,
a partir da pergunta por Deus, certamente não há nenhum interesse em
querer-se salvar, de maneira apologética, em determinado ponto da história
universal, alguns acontecimentos de caráter milagroso. No entanto, através
dos séculos, as narrativas de milagres dos evangelhos fizeram com que se
pensasse a respeito da relação de Deus com a história. Sob este aspecto
todos os grandes teólogos, A g o stin h o , T o m á s de A q u in o , L u te r o e Schleier-
m acher, se ocuparam com elas. Será que a história é apenas um produto do
destino e de manipulações humanas, e Deus apenas uma cifra para o hori­
zonte distante, ante o qual os fatos sucedem — uma cifra que atualmente
cada vez mais parece ser prescindível? Ou será que ainda é possível que se
veja, através de toda a mecanização, Deus agindo? Um sa c rific iu m in te l­
l e c t s , do qual frequentemente se falou neste contexto, seria falho. F é e
reflexão, fé e razão estão relacionadas. Mas temos que distinguir entre um
pensamento que tem como premissa a explicação matemática de todas as
coisas e um pensamento crente, disposto a confrontar-se com a realidade
de Deus que vem e transforma o mundo.
Mas o que significa realidade do Deus que vem ao nosso encontro?
Será que ela vem ter conosco nos milagres de Jesus? Com isso atingimos
o aspecto decisivo: Apenas podemos continuar falando sensatamente dos mi­
lagres de Jesus, se trocarmos o aspecto exterior, o questionamento histó-
rico-filosófico bem como o teológico-sistemático, pelo aspecto interior, e per­
guntarmos pela intenção propriamente dita das narrativas de milagres. Onde
reside, para os evangelhos respectivamente para Jesus, o sentido de seus
milagres?

§ 15: O SIGNIFICADO TEOLÓGICO DOS MILAGRES DE JESUS

Ad I e II: Ernst Kãsemann, Wunder im NT, RGG1 VI (1962), 1835-1837: H. van der Loos,
The M iracles of Jesus, Leiden 1965: Reginald H. Fuller, Die Wunder Jesu in Exegese Und
Verkundigung, 1967; Urban Forell, W underbegriff und loglsche Analyse, 1967; Karl Heinrich
Rengstorf, semeion, ThW V II, 229-261; Idem, teras, ThW V III, 125-127; — Ad I I I . e IV : A dolt
I. As designações 167
Schlatter, Der Glaube Im NT, 1927 ( 1963s); Gerhard Ebellng, Jesus und der Glaube, ZThK 55
(1958], 64-110 ( = Idem, W ort und Glaube, 1967s, 203-254); Ernst Fuchs, Jesus und der Glaube,
ZThK 55 (1958), 170-185; Leonhard Goppelt, BegrOndung des Glaubens durcb Jesus, em: C hrlstologle
und Ethlk, 1968, 44-65; O tto Betz, The Concept o f the So-called 'D iv in e M a n" In M a rk's Chrlstology,
em: Studies In New Testament and Early Christian Literature, ed. David Edward Aune, Leiden
1972 (NT Suppl. 33).

A maneira como os evangelhos compreendem os milagres de Jesus já pode


em grande parte ser deduzida da designação por eles usada.

I. A s designações

Os evangelistas nunca usam o termo equivalente a «m ilagre», grego to thaum a,


latim m i r a c u l u m E sses acontecimentos não se caracterizam, para eles, co­
mo eventos incomuns, inexplicáveis, que tenham que provocar admiração ou
veneração ao taumaturgo. Não são feitos mágico-miraculosos. Por isso usa­
remos o termo «milagre» apenas como sigla. Os acontecimentos que chama­
mos de milagres são caracterizados, nos sinóticos bem como no restante do
NT, com três conceitos: sem eia, te ra ta e dyn am eis; encontramo-los lado a
lado em A t 2,22, 2Co 12,12 e Hb 2,4.

1 ) O NT adota esses conceitos da LXX: to te r as significa, no grego


extra-bíblico, o sinal divino que admoesta ou encoraja, o prodígio. O NT,
no entanto, segue diretamente a linha da LXX. Usa o conceito tera s sempre
em conexão com sêm eion. Com essa conexão a LXX designa, seguidas veze 3 ,
feitos extraordinários de Deus, p. ex., o que sucede aos egípcios por ocasião
do Êxodo (Êx 7,3; D t 4,34). Conseqüentemente tera s é o evento extraor­
dinário que aponta para Deus; de maneira que podemos traduzir o termo
com «milagre». *“ Sêm eion, quando usado em sentido teológico, é para a
LXX todo acontecimento que aponta para Deus e especialmente para a sua
disposição de auxiliar; de maneira que o podemos traduzir com «sinal» .m
D ynam is para a LXX, é o poder de Deus que forma a história. Israel sentiu
este poder fundamentalmente na libertação no E gito (Ê x 6,26; 7,4; D t 3,24).
Apenas no NT o conceito adquire o significado especial de «ação poderosa»
(de Deus). “*

2 ) Como são usados estes conceitos neotestamentários de milagre nos


sinóticos? Encontramos a fórmula sêm eia kai tera ta apenas uma vez; com
ela, Mc 13,22 par anuncia «sinais e milagres» de falsos profetas.
Sêm eion caracteriza, nos sinóticos, o sinal que os judeus pedem a Jesus
e que deveria demonstrar com toda a clareza a sua origem divina (Mc 8,
11-13 par; Mt 12,38s par; Lc 23,8). Talvez Paulo parta dessa passagens,
ao afirmar em ICo 1,22: Os judeus pedem sêm eia. Enquanto que o con­
ceito é usado pelos sinóticos in m alam partem , no evangelho de João passa
a ser o conceito permanente para os milagres de Jesus em sentido positivo.
Os sinóticos sempre designam os milagres de Jesus, tanto nos ditos
como nas narrativas, de d yn a m eis; nos ditos, (p. ex., Mt 11,21 par L c),
em observações de contemporâneos, (Mc 6,2 par Mt) e nas narrativas, (Mc2413

241. Apenas esporadicamente: thatnnastos em Mt 21,15 e p&radoxon em Lc 5,26.


242. K. H. Rengstorf, ThW VIII, 115-121.125S.
243. K H. Rengstorf, ThW VII, 214s.219s.232ss.
244. W. Grundmann, ThW II, 302ss.
168 § 15: O significado teológico dos milagres de Jesus

6,5 par M t), Assim os milagres de Jesus são compreendidos como exte­
riorizações do poder de Deus, que provoca salvação na história e que a
conduz rumo à salvação. Não se procura explicar até que ponto eles são
inexplicáveis frente ao desenvolvimento da história. A isso corresponde o
duplo contexto no qual Jesus introduz, interpretativamente, os seus milagres.

IL Os milagres e a vinda do reino de Deus

1) A reivindicação.

N a resposta dirigida a João Batista (Mt 11,2-6 par) Jesus descreve sua
atividade milagrosa ** com palavras da profecia veterotestamentária, sem
citá-las diretamente (§ 6,111.1). Reivindica veladamente que, através de sua
atividade milagrosa e de sua pregação, esteja ocorrendo o que fo i anunciado
p a ia o te m p o da g ra ça : Males e morte são eliminados, tudo está sendo
sarado. E, mesmo assim, se tomarmos as narrativas como fatos históricos,
por seu intermédio não ocorre mais do que o AT relata a respeito de E lias
e Eliseu: Alguns doentes são curados temporariamente e pessoas recém-fa-
lecidas são temporariamente devolvidas à vida. (Os milagres na natureza
não abordamos neste contexto; eles têm um caráter diferente, estando rela­
cionados com os discípulos). Por isso não é de estranhar que essa palavra
dirigida a João Batista seja muitas vezes moderada na exegese ou expli­
cada como uma transfiguração posterior dos dias terrenos, por parte da
comunidade. Mesmo assim Mt 12,28 par não quer afirmar outra coisa: «Se
eu expulso os demônios com o Espírito (dedo) de Deus, o reino de Deus
é chegado até vós». Somos assim confrontados com a pergunta: Será que
os milagres de Jesus não significam mais do que os de Elias?

2) Se compararmos os relatos, a atuação m ilagrosa d e Jesu s diverge,


já exteriormente, em dois aspectos, fu n d a m e n ta l m e n te da de E lia s: a ) Em
Jesus não encontram os, em qualquer camada da tradição, o m ila g re de castigo.
O único fato comparável seria o amaldiçoamento da figueira, Mc ll,12ss.20s
par Mt. Esse ato de juízo, no entanto, é apenas uma ação parabólica, tendo
sido originalmente talvez apenas uma metáfora. Não é por acaso que falta
o milagre de castigo; essa falta corresponde justamente à maneira pela qual
Jesus traz o reino de Deus: Contrariando as esperanças de todos os parti­
dários do judaísmo, ele não o erigiu com demonstração de poder e julga­
mento, mas através de uma demonstração incondicional de amor, também
em relação aos inimigos de Deus, através de seu perdão. Por isso Lc 9,51-56 S
com razão, faz com que Jesus rejeite o milagre de castigo, quando os filhos
de Zebedeu exigem que ele, assim como E lias (2Rs 1,10), «mande descer
fogo do céu». Já esse traço fundamental da atividade milagrosa de Jesus,
mantido em todas as camadas da tradição, mostra que ela não corresponde
à atividade de Elias, mas à ação mediadora de graça escatológica de Jesus.245
245. Segundo Jeremias, Theol., 106s, Mateus e Lucas entendem o dito de Mt 11,5 par
Lc 7,23 como uma «enumeração de ações milagrosas», enquanto que, originalmente, o dito
se refere apenas de maneira geral ao irrompimento da «consumação do mundo». A meu ver,
a primeira afirmação confere apenas no que toca a Lucas (cf. 7,21). Mateus, no entanto, vê
o dito, no fundo, como o interpretamos (§ 6,111.1), como referência à atividade salvifica de
Jesus, como um todo (Mt 5-9), e também a sua atividade milagrosa. Ele não considera m ais
a distância frente à profecia reproduzida e a atividade salvifica de Jesus tão grande como
originalm ente se apresentava
III. O relacionamento com a fé 169

b) De uma outra diferença evidente pode-se deduzir por que, contra


todas as aparências constatáveis, com ele surge o tempo da graça para o
mundo: J esu s relaciona a sua a tiv id a d e m ilagrosa com a fé , e nisso difere
de Elias. Por isso ele se nega a executar um milagre espetacular. Segundo
Mc 6,5 par Mt, não pode realizar milagres em sua cidade natal, por causa
da incredulidade do seu povo. «Não pode», não porque faltasse a predis­
posição psicológica, mas porque seria contrário à natureza da sua missão
satisfazer uma necessidade de sensação, através de um milagre extraordiná­
rio. O que é relatado aqui pelo evangelista, é dito pelo próprio Jesus com
a sua negação em m o stra r u m sinal. Segundo Mc (8 ,lls s par) bem como Q
(Mt 12,38s), os representantes do judaísmo exigem dele «um sinal do céu»,
o qual demonstre, com toda a clareza, poderes delegados a ele por Deus;
pois seus poderes são ambíguos, podem também ser originários de demônios
(Mc 3,22 par). Jesus nega-se a satisfazer tal exigência; o cumprimento
desse desejo estaria em contradição com a sua missão. Uma revelação de
Deus não permite uma posição neutra de observador, mas significa sempre
graça ou juízo para o homem por ela atingido. Se Deus se colocasse clara­
mente diante do homem, diante «dessa geração», teríamos o juízo escato-
lógico. Mas a missão de Jesus é a de salvar, e não a de julgar. Por isso
tem que se recusar a cumprir o exigido. Enquanto que a tradição de Marcos
se satisfaz com essa negativa (8,12), Q ainda anuncia um sinal, o sinal
de Jonas. Em que consiste esse sinal? Os próprios evangelistas já não o
sabem mais ao certo. Segundo Mt 12,40, aparentemente, a ressurreição de
Jesus é esse sinal; segundo Mt 28,4 os guardas percebem a abertura do
sepulcro. Outrossim, segundo Lc 11,30, o próprio Jonas, i. é, o filho do
homem, é o sinal. Ele o será — a fórmula é futura — , será um juiz do
mundo que vem como uma pessoa que saiu da morte. Talvez essa explicação
se aproxime do sentido original do dito a respeito do sinal de Jonas. A
referência ao sinal de Jonas confirmaria então o que se evidenciou, até aqui,
a respeito da negativa de apresentar um milagre de castigo ou um milagre
extraordinário: Os dois tipos de milagre não se coadunam com a missão
de Jesus, que consiste em salvar os crentes, através do servir, através da
demonstração de amor.
Assim como o milagre extraordinário é rejeitado, o milagre do auxílio
é concedido. E relacionado com ele, Jesus introduz o que, desde então, é
tido como a atitude religiosa central do cristianismo, a fé.

in . O relacionamento com a fé

1 ) O pano de fundo.

Na pesquisa, A d o lf S c h la tte r evidenciou, com sua monografia revolucioná­


ria «Der Glaube im NT» (1882.1963°), que o conceito fé que encontramos
no NT e que provém de Jesus, foi algo co m p leta m en te no vo no a m b ie n te
h istó rico religioso. A teologia liberal e a escola baseada na crítica histórico-
comparativa das religiões não adotaram essa indicação; viam a religião do
cristianismo primitivo como algo intuitivo ou como experiência. Bultmann
e sua escola compreenderam que, para a comunidade pós-pascal e principal­
mente para Paulo, cristianismo é fé. Mas somente quando começou a surgir
170 § 15: O significado teológico dos milagres de Jesus

novamente o interesse pelo Jesus histórico, descobriu-se, nesta linha da


pesquisa, que a fé é «a dádiva decisiva de Jesus», como o formulou G erhard
E b elin g . ~
Realmente, no ambiente h elen ista de Jesus não existiu nenhuma religião
que fizesse propaganda para uma fé em relação à divindade. A religião do
homem grego sempre partiu da suposição: Todo homem pode perceber pela
reflexão que a essência do mundo é divina, por isso não é necessário que
se creia nisso. Também o culto ao imperador não se baseava em fé; todo
indivíduo dotado de razão poderia notar que o imperador Augusto era divino,
por causa de seu governo que proporciona ordem, paz e bem-estar para
todos. N a filosofia popular estóica prova-se a existência da divindade, atra­
vés de conclusões racionais a partir da natureza e da história. N a religião
de mistérios ou no gnosticismo, ela é vivida em fenômenos extáticos ou
vista de maneira mística. Por isso o homem helenista não pensa em falar
de fé em sua religião."1 N o ambiente ju d e u de Jesus, a atitude religiosa
básica era a de obediência em relação à Tora; fé era a confissão a Deus,
exigida pela lei e que tinha que ser comprovada, por seu turno, na obe­
diência à lei. Assim a fé tom a-se uma obra entre outras. Característico é
que a expressão extrema do judaísmo, em Qumran, falava de uma justifica­
ção sola g ra tia — a graça possibilita a obediência à lei e cobre as falhas — ,
mas a fé não desempenha nenhuma função."® N e s te ambiente Jesus formulou
a norma: «A tua fé te salvou».

2) Analisando as afirmações sinóticas a respeito de p iste u e in e p is tis ,


crer e fé, na p a r te r e fe re n te à h istó ria da tradição,™ constatamos logo no
início um bom número de passagens nas quais esses conceitos são usados
segundo a terminologia da comunidade, p. ex., Mc 1,15 «Crede no evan­
gelho»."0 Mas descobre-se também uma maneira de falar a respeito da fé
que diverge do ambiente judeu e da terminologia da comunidade e que
sem dúvida é da autoria de Jesus. Essas passagens estão distribuídas em
dois contextos importantes: Em uma série de ditos os discípulos são cha­
mados a comprovar a fé, especialmente no dito a respeito da fé capaz de
transportar montanhas, transmitido quatro vezes (Mc 11,23 par Mt; Mt
17,20 par Lc; cf. ICo 13,2), e no dito da oração de fé (Mc 11,24 par M t).
A esse grupo de ditos também pertence a admoestação à fé por ocasião
do acalmar da tempestade (Mc 4,40 p a r ).2® Por outro lado encontramos,
seis vezes, a referência de Jesus à fé, na parte básica das narrativas de
cura: Mc 5,34 par.36b par Lc; 10,52 par Lc; Lc 17,19 S; Mt 8,10 par Lc e
Mc 9,23 S. Em algumas outras passagens Mateus incluiu essa referência 246789501

246. Jesus und der Glaube, ZThK 55 (1958), 102.


247. H . Kleinknecht, ThW III, 65-79; R. Bultmann, ThW VI, 178s.
248. A. Schlatter, Glaube, 1963', 9-80; Billerbeck III, 187-193; J. Becker, Das H eil Gottes,
1964, 176-180 (especialmente quanto ao uso de H c 2,4 em lQpHab 8,2). 276-279.
249. Cf. Ebeling, op. cit. (nota 246), 86-95; Roloff, Kerygma, 152-173.
250. Idem Mc 11,22: «Tende fé em Deus»; Lc 8,12s (cf. nota 253); 18,8. Além disso devem
ser eliminadas as passagens que não se referem à atividade terrena de Jesus: Mc 11,31 par;
Mt 21,32S (João B a tista ); Mc 13,21 par Mt 24,23.26 (senhas escatológicas desorientadoras).
bem como as passagens dos antecedentes históricos (Lc 1,20.45) e da história pascal
(Lc 24,11.41). O escamecimento do crucificado relaciona-se vagamente com a terminologia
dos dias terrenos: Mc 15,32 par Mt 27,42 (Mateus inclui aqui «nele», em contraposição a
Marcos; o mesmo ocorre, em 18,6, em contraposição a Mc 9,42).
251. Ao invés da pergunta: «Não tendes fé?», que é uma acusação, par Mt 8,26 apresenta
«de pequena fé»; Mateus também inclui este adjetivo, em 14,31 e 16,8, e o substantivo em
17,20. O adjetivo tem somente um paralelo em Mt 6,30 (Lucas). A inclusão dos vocábulos
que não têm antecedentes gregos, mas aramaicos (ThW VI, 205), é, provavelmente, uma semi-
tização posterior.
III. O relacionamento com a fé 171

de maneira adequada na parte básica: 8,13; 9,29 e 15,28. O mesmo deve


ser dito a respeito da palavra dirigida à grande pecadora, em Lc 7,50.
Em duas passagens, os evangelistas apontam da mesma maneira para a fé:
Mc 2,5 par; 6,6 par Mt. Em duas oportunidades, nessas passagens secun­
dárias não se relaciona uma cura com a fé, mas o perdão dos pecados: Mc
2,5 par; Lc 7,50 S.
O fato de que a base dessas afirmações é da autoria do próprio Jesus
evidencia-se na fórmula com a qual concluem, amiúde, as narrativas de
curas: «Tua fé te salvou» (Mc 5,34 par; 10,52 par; Lc 17,19 S; cf. 7,50 S ) . 25532546
E ssa frase por certo lembra a fórmula missionária do cristianismo primitivo:
«Crê no Senhor Jesus, e serás salvo» (Rm 10,9; A t 16,31).553 N o entanto,
a locução «tua fé» distingue-se de maneira tão característica dessa fórmula,
que não podemos ver naquela frase uma posterior projeção aos dias terrenos.
Por outro lado, a frase não tem correspondência no ambiente judeu de
Jesus, mas a n teced en tes que permitem compreender a sua formulação por
intermédio de Jesus.
No AT, sõzein, salvar, hebr. hoschia, é um termo usado para designar
a salvação de Deus, onde quer que haja aflição. N esse sentido os salmos
falam cerca de 80 vezes em salvação, prometendo-a, principalmente, ao
a n a w , ao humilde, a quem também são dirigidas as bem-aventuranças de
Jesus. “* E ssa promessa dos salmos veterotestamentários foi adotada, no am­
biente de Jesus, nos Hodajoth de Qumran (2,32; 5,18), bem como nos
Salmos de Salomão dos fariseus (6,1; 15,1). O fato novo e exclusivo de
Jesus é que ele promete salvação exclusivamente à fé. Certamente já o AT,
basicamente, espera toda a salvação da fé; mas raras vezes fala expressa­
mente dela e, quando isso ocorre, usa outras formulações.

3) Essa orientação própria de Jesus a respeito da fé assume um papel


especial e m to d a a sua a tivid a d e. N a pregação pública, p. ex., nas bem-
aventuranças, Jesus anuncia a salvação também para os a n aw im , e não aos
crentes, como o faz mais tarde a prédica missionária. Por isso também
nunca se diz que pessoas houvessem crido em virtude da pregação pública
de Jesus. ** A «fé» surge sempre somente n o en co n tro in d ivid u a l e a tu a l
com a pessoa de Jesus; quando Jesus se dirige, certamente a partir do todo
de sua atividade, a um indivíduo que o procura em determinada aflição,
concedendo-lhe, através de palavra e auxílio concreto, a sua comunhão. Típico
é o relato a respeito do centurião de Cafarnaum. Ele procura o auxílio de
Jesus, seu pedido é esclarecido em um diálogo, e Jesus afirma, concluindo:
«Não achei em Israel fé como esta» (Mt 8,10 par). Também em outras
ocasiões não são os pedintes ou o narrador que falam de fé, mas o próprio

252. Uma segunda fórmula: «Seja feito conforme a tua fé», encontra-se apenas em Mateus,
8,13 e, semelhantemente, em 9,29 e 15,28.
253. A ela corresponde a interpretação da parábola do semeador em Lucas: Lc 8,12s:
« .. .para que não creiam e sejam salvos».
254. G. Fohrer, ThW VII,977. A correspondência mais próxima, em uma narrativa, é
ISm 1,17 (Eli a Ana): «Vai-te em paz. O Deus de Israel te concederá o que dele pediste».
255. V. Rad, Theol. II5, 402-407. Uma das poucas passagens explicitas dos tempos antigos
é Êx 14,31 (após a salvação junto ao m ar): «Então o povo tem eu a Javé e creu em Javé
e em seu servo Moisés» ( J ) ; cf. ainda Is 7,9; 28,16.
256. A afirmação de Jeremias, T h eo l, 163: «Quanto à intenção, toda a mensagem de Jesus
4 um chamado à aceitação do oferecimento da graça . . . . i. é, um chamado à fé, mesmo que
esta palavra não surja muitas vezes», não observa o significado especifico do conceito «fé»
em Jesus e a forma específica de su a atividade. Sua ampliação do uso do conceito não está
exegeticam ente fundamentada. Na missão posterior à páscoa, o perfil do conceito «fé» é
incluído no nome de Jesus!
172 § 15: O significado teológico dos milagres de Jesus

Jesus. E através dessa fé se realiza, como se evidenciou (§ 12,V ), a intenção


de toda a atividade de Jesus, o retorno do homem de seus próprios cami­
nhos para o reino salvador de Deus. Dessa maneira a fé se encontra a o
cen tro da a tiv id a d e d e Jesus. Para que se possa compreender isso, temos
que esclarecer seu conteúdo e sua base.

4 ) O conteúdo.

Surpreendentemente, nas passagens que provêm da situação de Jesus,


nunca se diz o que é crido. Fala-se em sentido absoluto de «a fé».
A única qualificação consiste no pronome possessivo: «Tua fé te salvou»,
ou «seja feito conforme a tua fé» (S Mt 9,29; cf. 8,13), ou «grande é tua
fé; faça-se contigo como queres» (S Mt 15,28). Essas expressões levam à
conclusão: Pode-se pressupor o que é crido. O importante é que seja crido.
Não se pergunta por uma crença geral com a qual se concorde, mas por
fé como participação atual e pessoal. Por isso apenas ao centurião de Ca-
fam aum é atribuída fé, enquanto que, em Israel, cada homem piedoso con­
fessava, todos dias duas vezes, no schem a, o Deus dos patriarcas como o
seu Deus, procurando demonstrar isso em sua vida segundo a lei.*" E ssa
crença, essa situação de saber e ter certeza, para Jesus, ainda não é fé que
salva. A fé toma forma apenas quando o indivíduo desiste de se auxiliar
a si mesmo e de ser altivo, e busca e encontra auxílio nele. F é tem que
ser abandono do s ta tu s quo.
Mesmo assim, também este abandono ainda não seria fé, se não fosse
um abandono em direção a D eus. Fé aqui não significa, como ainda o pensava
B ultm ann, simplesmente «fé no poder milagroso de Jesus».208 Segundo E beling,
a fé está relacionada com Deus, mas é vista, em primeiro lugar, como mu­
dança de consciência do homem. Não importa o seu conteúdo; também ao
centurião não-judeu se atribuiría fé. Fé seria certeza, e mais, «a própria sal­
vação». A s narrativas de curas não seriam narrativas de milagres, mas de
fé. 558 Mas a palavra de Jesus significa: Salvação, graça por fé! E ssa outra
função da fé é conseqüência de seu conteúdo, sem se deixar de lado sua
função transformadora do homem.
O centurião pede a Jesus o auxílio do D eus de Israel, e Jesus afirma ter
ele uma fé como não a encontrou em Israel (Mt 8,10 par). Em Israel,
porém, a fé, segundo o conceito, já está determinada pela relação com um
determinado conteúdo. O termo hebraico para «crer» (he’emin), significa reco­
nhecer que uma pessoa que nos assegura algo, o possa cumprir."0 Quem
crê em Deus, confia naquilo que ele prometeu. Gn 15,6: E Abraão não
crê na palavra que lhe foi dada, mas crê em Deus, conforme essa palavra.
Confia em que ele há de concretizar a promessa a ele feita, e prepara-se
para um futuro. E sta fé totalmente orientada no parceiro é o extremo oposto
da p is tis no estoicismo. Ali p is tis é a fidelidade para consigo mesmo. E la
acentua o que é próprio do homem. O homem deve ser fiel e livre como
Deus. *"25789601

257. Billerb. IV, 196s.


258. Artigo pistis, ThW VI, 206; por isso o conceito «fé» nSo é citado na atividade de
Jesus, na «Theologie des NT».
259. Op. cit. (nota 246), 102.109.
260. A. W eiser, ThW VI, 184, 19ss.
261. ThW VI, 181s,
III. O relacionamento com a fé 173

Quando Jesus atribui fé a pessoas que nele buscam auxílio e o encon­


tram, ele quer afirmar: E las aceitaram a prom essa do D eus d e Israel, vinda
po r in term édio dele, e procu ram seu auxílio nele. A promessa se encontra,
p. ex., nas bem-aventuranças; quem a aceita, procura na aflição, como anaw,
em Jesus o auxílio daquele que agora está erguendo o seu reino de salvação.
E ste é o conteúdo que transforma fé em fé.
Então a fé, definida como atitude humana, certamente também é obe­
diência, como B ultm ann o afirma quanto a Paulo, e também certeza, como
o quer E beling, mas antes de tudo confiança. «Dize apenas uma palavra, e
meu empregado será curado» (Mt 8,8). Nessa confiança se anuncia a mu­
dança decisiva na existência humana, a volta ao Deus que agora quer trazer
o seu mundo de volta para casa.
Se a fé deve ser definida dessa maneira quanto ao seu conteúdo, evi­
dencia-se também como ela surgiu por intermédio de Jesus.

5 ) Base e origem dos enunciados de fé.

Também aqui a tradição sinótica não estabelece relações biográfico-his-


tóricas. Não ficamos sabendo o que levou o centurião a se dirigir a Jesus
— muito menos o que aconteceu com ele mais tarde. Mas chegamos a ver
os passos essenciais. Sob a impressão da atividade pública de Jesus e sob a
pressão de uma necessidade, as pessoas se dirigem a Jesus, buscam e en­
contram auxílio, e então Jesus denomina essa confiança muitas vezes pouco
clara, que leva o homem a ele, de fé: «Tua fé te salvou». E ssa afirmação
não é simplesmente uma análise do que ocorreu, mas uma prom issão que
leva adiante. Quando isso, p. ex., é dito à mulher que tem uma hemorragia,
sua confiança bastante obscura não é reconhecida como fé, mas é levada
à fé (Mc 5,34).
Somente essa promissão, no entanto, não bastaria para transformar uma
confiança supersticiosa em fé. Por isso temos que perguntar: Como conse­
gue Jesus o b te r uma confiança do hom em que possa v ir a se r fé? Segundo
E beling isso ocorreu através da certeza que Jesus tinha de agir em nome
de Deus. “ Isso podería estar correto se fé pudesse ser definida como auto­
confiança e meio para dominar o mundo; a «fé» do industrial, p. ex., pode
ser transmitida a todos seus operários. Mas a fé como confiança na pro­
messa de Deus somente pode ser obtida pelo próprio Deus. E ssa consideração
teórica é confirmada pelos textos: A s narrativas de curas nunca falam da
própria fé de Jesus, mas de sua exousia, de seu poder. Aparentemente, po­
rém, Mc 9,23 S parece apontar para a fé de Jesus. Jesus responde a um pai
que lhe pede algo: «Que significa esse ‘se podes’? Tudo é possível àquele
que crê!» Jesus, no entanto não fala aqui de sua fé, mas inverte a dúvida
do pai. O pai havia perguntado pelas possibilidades de Jesus e Jesus per­
gunta a respeito da fé dele. Também Mc 11,23 e o restante do NT, p. ex., Hb
12,2, não falam de uma fé de Jesus. Não é uma potência religiosa vicária,
mas a exousia de Jesus, seu poder, que leva o centurião, segundo Mt 8,9,
a se dirigir a ele. Já a pregação pública de Jesus, como está exemplarmente
resumida no sermão do monte, tem o seu sentido e o seu alvo no fato de
que Deus se encontra aqui de maneira direta com o homem, com promissão
e mandamento, o Deus do AT e, mesmo assim, em forma nova e definitiva.26

262. Op. cit. (nota 246), 99-102.


174 § 15: O significado teológico dos milagres de Jesus

E ssa vinda e aproxim ação d e D eus, no entanto, torna-se inevitável quando


Jesus oferece a sua comunhão a indivíduos, dirigindo-se a eles e auxiliando-os.
N a dedicação de Jesus a «pecadores» e doentes, como se evidenciou (§ 12,
III), ocorre a demonstração do amor de Deus que perdoa e auxilia, de ma­
neira decisiva. E ssa dedicação de Deus faz com que o homem tom e a ele,
o que Jesus chama de fé.
Onde surge fé, dá-se a ligação entre os dois pólos, Deus e homem, que
é o alvo da atividade de Jesus: O homem é introduzido no domínio do amor
de Deus. A partir daí se torna transparente o contexto no qual a fé se
apresenta.

IV. Fé — cura milagrosa — vinda do reino

1 ) Jesus pretende que suas curas sejam evento de cumprimento (Mt 11,3s
par) ou vinda do reino (Mt 12,18 par). Isso pode ser compreendido quando
seres humanos se transformam em crentes; pois com isso sua relação para
com D eus e a ssim tudo se torna são. Onde surge fé, se realiza fundamental­
mente a promissão de que tudo ficará são e restabelecido.

2 ) Será que para tanto é necessária uma cura corporal? Não seria me­
lhor denominarem-se realmente as narrativas de curas de «narrativas de
fé » ? 2® Doença e cura estão bastante relacionadas com a fé. Através da
doença o homem nota, muito mais do que por culpa e desconsideração so­
cial, que é um «pobre», i. é, alguém que depende totalmente de seu Criador,
e essa condição pessoal é o ponto de partida para a fé. E existe também o
outro lado: se fé significa salvação, a sanidade corporal é parte integrante
dessa salvação, segundo a profecia. Se abandonássemos a vida corporal às
leis da natureza e reduzíssemos a vida religiosa à contemplação, como no
Liberalismo, Deus não seria mais Deus, o Criador.

3 ) A sanidade corporal, contudo, é apenas um sinal abscôndito do novo,


na atividade terrena de Jesus; o novo, o reino de Deus, está presente nessa
atividade porque por intermédio da fé o essencial, a relação com Deus, se
tom a sã. Por isso o essencial nos milagres de Jesus não é a diferença exte­
riormente constatável desses milagres frente ao que normalmente ocorre no
mundo, mas a quebra do esquema da recompensa: O homem recebe graça
onde deveria contar com desgraça e merecê-la.
Os milagres dos dias terrenos são sinais abscônditos do novo; o novo
surge na páscoa, não mais como sinal, mas como a realidade da ressurreição,
mas continua ainda a ser uma realidade abscôndita. Qual é então o signi­
ficado dos milagres e sinais provisórios dos dias terrenos, para a comunidade
de após-páscoa?

V. O significado querigmático das narrativas de milagre

Podemos deduzir da forma redacional a opinião dos evangelistas a respeito do


significado das narrativas de milagres para a com unidade de após-páscoa. 263
263. Karin Bornkamm, e. o., Wunder und Zeugnis, 1968.
V. O significado querigmático das narrativas de milagre 175

1 ) As narrativas de milagres como introdu ção exem plar à fé. Mateus


conclui a narrativa do centurião com uma frase que é de sua autoria; «Vai-te,
e seja feito conforme a tua fé» (M t 8,13). E ssa palavra é o que primeiro
se fixa na mente de quem ouve essa narrativa. A partir do seu final, ele
é atraído para a situação da narrativa. Através dela, sente de maneira
exemplar como surge a fé e o que é possível à fé, podendo aplicar o que
sente à sua situação, que é diferente. Da mesma forma Mateus, divergindo
de Marcos e Lucas, antepõe na perícope da tempestade (Mt 8,23-27), bem
como na narrativa em Mt 9,21, o chamado à fé ao auxílio. Através dessa
inversão, Mateus não quer transferir o acento do milagre para a fé. 384 Ele
não quer desvalorizar o milagre de outrora, mas salientar o aspecto de então
que é importante hoje. Do comentário de 2Co l,8 ss podemos deduzir como
reagia o discípulo, na situação da comunidade, a um perigo mortal. Paulo
foi levado por um perigo mortal, «a não mais confiar em si, e, sim, no
Deus que ressuscita os mortos». E ssa fé tem a mesma estrutura que a do
centurião, mas seu alvo é outro: E la se dirige em primeiro lugar à vida
da ressurreição que já é algo presente. A libertação dessa situação é então
um sinal acessório, pelo qual Paulo agradece e pelo qual continua esperando.
Consequentemente as curas milagrosas que, segundo os Atos dos Após­
tolos e segundo Paulo (2Co 12,12), ocorrem na comunidade de após-páscoa,
não estão mais tão diretamente ligadas à fé, como na atividade de Jesus:®*
a fé é sempre provocada, em primeiro lugar, pelo testemunho pascal (cf.
A t 3,1-8; 14,8-14).
Os d ito s a resp e ito da i ê se cumprem na atividade global dos discípulos,
especialmente na formação da igreja. O dito da fé capaz de transportar
montes (M t 17,20 par) é uma hipérbole drástica. O transportar monta­
nhas, segundo a «Escritura», somente é possível a Deus, o Criador: «Que
por tua força consolidas os montes» (SI 65,7). Com isso o dito quer dizer:
A fé consegue o que é possível somente a Deus e a nenhum homem. E la o
consegue, como o explica o dito da oração de fé (Mc 11,24 par M t), atra­
vés da oração. A fé pode orar e por isso também mandar, dar ordens ao
monte, principalmente ao monte do mal. Através da fé se concretiza princi­
palmente a orientação das antíteses de se vencer o mal com o bem. Os discí­
pulos trazem «paz», a salvação (Lc 10,5 par), não porque a fé em sentido
político seja capaz de tudo, mas porque agem de acordo com a promessa
a eles dada e porque Deus age por intermédio deles.

2 ) Ao lado da iniciação a uma fé que tem a mesma estrutura, mas um


outro conteúdo a partir da páscoa, surge ainda um segundo e fe ito querig­
m ático das narrativas de curas. Já em Marcos, a narrativa da tempestade
conclui com a frase: «Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?»
(Mc 4,41 par). A s n a rra tiva s d e m ila g res dizem , no contexto de toda a tra­
dição a respeito de Jesus, quem é o ex a ltado que atua com o seu Espírito
na comunidade. Evidenciam, p. ex., com toda a clareza, que também a vida
corporal pertence a ele (IC o 6,13).
No mais, os diversos evangelistas acentuam, através da elaboração reda-
cional dos relatos de milagres, diversos aspectos da pessoa de Jesus. Muitas
vezes se afirmou que Marcos queria fazer propaganda para Jesus, ao apre-2645

264. Contra G. Bornkamm, Jesus von Nazareth, 1956, 190, nota 40.
265. Essa diferença é apresentada por Roloíf, Kerygma, 196ss; em At 3,16 pensa-se, pro­
vavelmente, na fé dos apóstolos.
176 § 15: O significado teológico dos milagres de Jesus

sentá-lo como «homem divino» em suas narrativas de m ilagres.”* Mas, se­


gundo Marcos, as dyn am eis de Jesus não querem simplesmente anunciar po­
der divino, mas o poder salvador do reino de Deus prometido (Mc 3,27)
que põe fim ao poder de Satã.*” Segundo Mateus, Jesus através das curas
se apresenta como o servo misericordioso de Deus que toma a doença dos
outros sobre si (M t 8,17; 12,17-21; cf. 9,13). Lucas, p. ex., redige a narra­
tiva do centurião de maneira histórica, no início e no fim, assim que se
evidencia a distância em relação à situação da comunidade. A comunidade
deve ver: No encontro de Jesus com o centurião, ocorreu naquela época
o que hoje ocorre sob outra forma de missão: Jesus manifesta-se como o
Salvador para aqueles que crêem.
A partir dessas e de outras referências querigmáticas, podemos afirmar
o que é válido para toda a tradição sinótica: Suas narrativas de milagres
não refletem o que sucedia na com unidade. Querem relatar o que ocorreu
p o r in term édio d e Jesus, para que a comunidade saiba o que ela pode esperar,
mas em forma diversa, do exaltado.
Assim a atividade salvífica de Jesus se concentra sempre de novo na
pergunta: Quem pretendia ser Jesus? Pois não era somente a sua palavra
e o seu auxílio como tais que levavam à fé, mas ambos somente como de­
dicação da sua pessoa.267

266. P. ex., Conzelmann, Theol., 164; H elnz-W olígang Kuhn, Altere Sammlungen im MkEv,
1971, 203-206.
267. Em Mc 1,23-28 e 5,6-10, os exorcismos são apresentados como luta (Otto Bauernfeind
apontou essa característica, D ie W orte der Dãmonen im MkEv, 1927). Os ditos de Jesus,
Mc 3,27 par Lc 11,21 e Lc 13,16, já afirmam algo semelhante, de maneira que, em Lc 10,18,
pode ser apresentado o seguinte resultado: «VI Satanás caindo do céu como um relâmpago».
CAPÍTULO VI

A Autocompreensão
de Jesus

E3se tema abrange a questão do significado global da atividade de Jesus,


bem como a do princípio da cristologia neotestamentária. Por isso inicia­
remos com uma visão geral da discussão.

§ 16: A AUTOCOMPREENSÃO DE JESUS N A PESQUISA

W erner Georg Kümmel, Das Neue Testament, Geschlchte der Erforschung seiner Probleme, 19TV,
592 v. term o ‘ Jesusbild"; Ferdinand Hahn, Methodenprobleme einer C hristologie des Neuen Testa­
ments, VF 15 [1970], 3-41; Jürgen fíoloff, Das Kerygma und der historische Jesus, 1970; — V.
tb . lit, § 2.

No centro do evangelho mais antigo, em Mc 8,29, encontra-se a confissão do


discípulo: «Tu és o Cristo», i. é, o Messias prometido. Durante séculos, essa
confissão foi vista como a resposta normal a nossa pergunta: Quem pre­
tendia ser Jesus e quem consideravam os seus discípulos ser ele? Lendo uma.
pesquisa anglo-saxônica ou escandinava, veremos que, freqüentemente, se su­
põe que Jesus queria ser o Messias. Mas há duas objeções a essa tese. Essas
objeções provêm especialmente de dois grupos alemães da pesquisa neotesta­
mentária, da escola baseada na crítica histórico-comparativa das religiões e
de sua continuadora, a escola de B ultm ann. As teses desses grupos, que ne­
gam uma autocompreensão messiânica de Jesus, têm um peso tão grande
que são discutidas em toda a parte, tomando-se, na Alemanha, algo natural
para muitos. No entanto, nem essas teses, nem a antiga aceitação da mes-
sianidade de Jesus podem ser vistas como algo natural. Apenas a discussão
crítica com esses dois fatos leva à questão. E ’ necessário que esclareçamos a
maneira de pôr o problema!
A autocompreensão messiânica de Jesus é posta em dúvida por duas
relações: a sua relação para com o reino de Deus e para com as concepções
messiânicas.

I. A relação de Jesus para com o reino que há de vir

A escola baseada na crítica histórico-comparativa das religiões compreende,


como se mostrou (§ 6,1,2), a esperança de Jesus referente ao reino de Deus,
no sentido da escatologia conseqüente: Reino de Deus é, para ele, como na
178 § 16: A autocompreensão de Jesus na pesquisa

apocalíptica, o m u n d o n o v o d o fu tu r o . Por isso Jo h a n n es W eiss afirmou:


Jesus estava convicto, em virtude da experiência tida no batismo, de haver
sido escolhido para juiz e soberano, no futuro reino de Deus. Jesus não
teria nada em comum com o filho do homem, a não ser o vir a sê-lo."8
M. Dibelius acompanha essa explicação: «No ambiente desse mundo secular,
o Messias é apenas designado, mas não entronizado. Jesus se reconhecia
Messias eleito por Deus para o futuro, principalmente quando entrou em
Jerusalém, apresentando-se como Senhor no tem p lo...»." * Jesus teria se
compreendido como Messias designado.
Em contrapartida, segundo B u ltm a n n , Jesus não estabelece n en h u m a re­
lação p essoal entre a sua pessoa e o próximo eschaton: Ele é «o sinal do
tempo» que, agora, em relação ao reino de Deus que é exclusivamente futuro,
exige a decisão.170 Segundo o único dito autêntico a respeito do filho do
homem, Lc 12,8, a posição que se adota frente à pregação de Jesus decide
a respeito da sentença do juiz do mundo."1 N o fundo, Jesus não é mais
nem menos que João Batista. E ssa concepção é adotada por H . C onzelm ann:
A única resposta que se pode dar à pergunta a respeito da autocompreensão
de Jesus, é que ele «relacionava o anúncio do reino de Deus consigo mesmo,
como o sinal desse reino». «Vale, portanto, a regra: O reino está próximo
— os sinais estão aí!»."*
Por seu turno, G ü n th er B o rn k a m m afirma: «N o p róprio Jesus, o ir rom ­
p im e n to d o reino d e D eus se torna e v e n to ». Mas «Jesus se dissolve na sua
palavra e na sua ação e não transforma a sua dignidade em tema próprio
de sua mensagem». «Não pretendeu para si nem um único título messiânico,
dos que lhe eram oferecidos pela tradição. E ’ certo que se procurou revestir
Jesus de concepções messiânicas, mas ele rejeitou a todas, deixando que
elas se despedaçassem na sua pessoa»."8 E ssa solução parece, à primeira
vista, ser a melhor. O que afinal há de importante em um título messiânico?
Será que se pode afirmar algo maior a respeito de Jesus do que: Por seu
intermédio vem o reino de Deus? Contudo, Jesus não é uma marionete do
reino de Deus, mas uma pessoa independente. Será que ele encontrou, como
é de se esperar, uma autocompreensão de sua pessoa? Será que ele a pôde
obter das esperanças veterotestamentárias e judaicas a respeito do media­
dor da graça?

II. Jesus e as esperanças veterotestamentário-judaácas


a respeito do mediador da graça
A escola baseada na crítica histórico-comparativa das religiões"* chegou às
seguintes conclusões, na análise dessa pergunta:
a ) Comparada com as concepções veterotestamentário-judaicas, a ati­
vidade terrena de Jesus não era messiânica.
b ) Por isso também não é de se supor que ele tenha relacionado títulos
messiânicos com a sua pessoa.
268. Segundo Kümmel, Erforschung, 287.
269. Jesus*, 85.
270. Theol., § 1,2.
271. Theol., S 4,3.
272. Theol., 159.130.
273. Jesus, 155S.158.
274. Cf. Bousset, Kyrlos*, 1-75, especialmente p. 1-6.67-72; cf. Kümmel, Erforschung, 358-372.
II. Jesus e as esperanças veterotestamentário-judaicas 179

c) A veracidade dessa suposição pode ser comprovada pela crítica da


tradição sinótica, bem como pelo surgimento da cristologia mais antiga.
Para muitos essa comprovação foi apresentada de maneira convincente
por W illia m W rede.

1 ) W red e afirmou, em 1901, em um escrito que marcou época, «Das


M essiasgeheim nis in d e n E v a n g e lie n », que segundo Marcos, o mais antigo
dos evangelhos, Jesus teria ocultado a sua messianidade frente ao povo. Teria
revelado esse mistério somente a seus discípulos; esses não o teriam enten­
dido. Essas afirmações seriam teoria do evangelista. Por meio dessa teoria,
o evangelista estaria procurando explicar por que a atividade de Jesus não
tinha uma forma messiânica, segundo a tradição da época: Jesus teria
ocultado sua messianidade! E ssa teoria estaria mostrando ao historiador a
situação original: A atividade terrena de Jesus não foi messiânica e tam­
bém não o pretendia ser.
B u ltm a n n ainda adotou sem restrições essa tese de W red e em sua Teo­
logia, § 4,4. G. B o rn k a m m (Jesus, p. 157s) e H . C onzelm ann (Theol., p. 159)
concordam com ela apenas no ponto em que diz ser o mistério messiânico
uma teoria de Marcos. A intenção dessa teoria é vista por eles de maneira
diferente. Segundo C onzelm ann, a tradição a respeito de Jesus, encontrada
por Marcos, já era messiânica. E ssa teoria quer mostrar o caráter para­
doxo da fé: Para os crentes o mistério está desvendado, para o mundo con­
tinua oculto após a páscoa.

2 ) Segundo Wrede inclusive a cristologia m a is a n tig a se volta contra


uma consciência messiânica de Jesus: Somente através da ressurreição, Jesus
se tornou Messias para a comunidade primitiva. Para ela, Jesus não é o
que veio, mas o Messias que há de vir em um futuro próxim o.m W ilh elm
B o u sse t (Kyrios Christos) desenvolveu esta tese com variações: A comuni­
dade primitiva transferiu para Jesus a concepção de filho do homem, da
apocalíptica judaica, dando assim expressão a sua fé pascal (p. 3.17.24s).
Essas concepções foram adotadas com ênfase por Bultmann, em sua
Teologia (§ 4,1), que cita como prova o versículo de A t 2,36 e, principal­
mente, Rm l,3 s: « . . . investido como filho de Deus em poder desde a
ressurreição dentre os mortos». H . C onzelm ann afasta-se dessa interpretação
da fórmula de Rm l,3 s (p. 96), afirmando: «No início não havia interesse
pela pergunta, quando e como Jesus se tom ara Messias» (p. 92).

3 ) Semelhante é também a resposta que se dá à pergunta: Qual a po­


sição do próprio J e su s ír e n te a o s títu lo s m essiânicos? Segundo G. B o rn k a m m
(Jesus, p. 157s), entre outros, Jesus foi revestido com concepções messiâ­
nicas, inclusive por Pedro; o próprio Jesus, no entanto, não teria relacio­
nado nenhuma dessas designações de dignificação a sua pessoa. Teria apenas
falado do filho do homem que havería de vir, mas não se teria identificado
com ele, opinião essa também aceita por Bultmann. Segundo C onzelm ann
(Theol. p. 147-157), Jesus nunca teria falado a respeito de designações de
dignificação messiânica, nem mesmo a respeito do título filho do homem.
O uso das designações de dignificação messiânica, nos sinóticos, foi anali-275

275. Cf. Kümmel, Erforschung, 365.


180 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

sado detalhadamente, por último por F erdinand Hahn, Christologische Hoheits­


titel, 1963, segundo o método da crítica da tradição. Depois de longa discus­
são com a problemática e após minucioso exame crítico-tradicional dos textos,
ele chega praticamente ao mesmo resultado, como o defendido por seu
mestre G. B ornkam m .
Dessa maneira a crítica histórico-tradicional das afirmações sinóticas que
falam a respeito de uma consciência messiânica de Jesus, modificou-se con­
sideravelmente na linha da pesquisa proveniente da escola baseada na crítica
histórico-comparativa das religiões, se tivermos em conta as premissas das
quais partiu. N o entanto, continua-se negando, com fortes argumentos, o
fato de que Jesus tenha expressado uma consciência «messiânica». Nenhum
dos complexos da tradição, abordados nesse contexto — a origem do mis­
tério messiânico, a posição de Jesus frente aos títulos messiânicos e os
primórdios da cristologia na comunidade — foi, no entanto, verdadeiramente
esclarecido. A tese principal, a partir da qual a consciência messiânica de
Jesus é contestada e que afirma que a atividade de Jesus não estaria de
acordo com as imagens messiânicas do AT e do judaísmo, no entanto, não
fo i alterada. Joachim Jerem ias procurou demonstrar, a partir de sua posição,
que houve círculos do judaísmo da Palestina que esperavam, de maneira
esotérica, a vinda de um messias sofredor; a demonstração dessa tese, no
entanto, não fo i bem sucedida.”' A tese principal não pode ser refutada com
os métodos da fenomenologia da religião. E la proíbe qualquer constatação
sim plista da messianidade de Jesus. Mas, mesmo assim, ela tem que ser
examinada. E ’ necessário que se pergunte se essa colocação corresponde à
peculiaridade da atividade de Jesus. E ssa pergunta leva a uma nova colo­
cação e a outros resultados. Por isso perguntaremos, em primeiro lugar, pela
posição assumida por Jesus face às tentativas de identificá-lo.

§ 17: JESUS E OS TÍTULOS A ELE CONCEDIDOS

Ad I: Erlch Fascher, Jesus der Lehrer, ThLZ 79 (1954), 325-342; Eduard Lohse, ThW V I, 962-966;
Ferdinand Hahn, H oheltstltel, 74-81. — Ad II: Oscar Cullmann, Chrlstologle, 11-49; Rudolf M eyer
— Gerhard Friedrich, ThW V I. 813-828.842-849; Hahn, H oheltstitel, 351-404; M artin Hengel,
Nachlolge und Charisma, 1968, 46-74. — Ad I I I: B lllerb. I, 11ss.525; Cullmann, Chrlstologle,
128-134; Hahn, H oheltstltel, 242-279; Eduard Schweitzer, ThW V III, 376s. — Ad IV ,1: Josef
Klausner, D ie messlanlschen Vorstellungen des jüdlschen Volkes Im Zeltalter der Tannaiten, 1904;
H elm er Rlnggren, The Messiah In the Old Testament, 1956.1967a; Sigmund M owlnckel, He That
Cometh, 1956; Adam Simon van der Woude, D ie messlanlschen Vorstellungen der Gemeinde
von Qumran, 1957; G ert Jeremias, Der Lehrer der Gerechtlgkelt, 1963; Hahn, H oheitstitel,
133-158; Franz Hesse — M arlnus de Jonge — Adam S. van der Woude, ThW IX, 495-518. —
Ad IV ,2-4: Cullmann, Chrlstologle, 11-128; Hahn, H oheitstitel, 159-179 (189); O tto Betz, D ie
Frage nach dem messlanlschen Bewusstsein Jesu, Nov Test 6 (1963), 20-48; W alter Grundmann,
ThW IX , 518-525; Anton Võgtle, Messiasbekenntnls und Petrusverhelssung, em: Das Evangellum
und die Evangellen, 1971, 137-170. — Ad V: W illia m Wrede, Das Messiasgeheimnls In den
Evangellen, (1901) 1963a; Julius Schnlewlnd, Messiasgeheimnls und Eschatologle, em: Nachgelassene
Reden und AulsStze, 1952, p. 1-15 (usado na reedição do evangelho de Marcos no NTD); Hans
Jürgen Ebellng. Das Messiasgeheimnls und die Botschalt des Markusevangellsten, 1939 (Rela­
tó rio a respeito da pesquisa); E rik Sjoberg, Der verborgene Menschensohn In den Evangellen,
1955; T.A .B urklll, M ysterious Revelation, 1963: Eduard Schweizer, Zur Frage des Messlasgehelmnisses
beI Markus, ZNW 56 (1965), 1-8 (usado na reedição do evangelho de Marcos no NTD); Ulrich
Luz, Das G eheim nlsm otlv und d ie markinlsche Chrlstologle, ZNW 56 (1965), 9-30; Jürgen R ololl,
Das Markusevangellum als Geschlchtsdarstellung, Ev Theol 29 (1969), 84-92.

m ThW V,697; cf. 5 18.VII.2.


I. O Rabi 181

I. O Rabi

Jesus oferece a seu ambiente, primariamente, a imagem de um escriba, ”*


sendo conseqiientemente chamado de rabbi™ ou de didaskalos, m estre,”* o
que tem o mesmo significado. Mas ao mesmo tempo essa imagem é desfeita
pela maneira de seu ensino, bem como pela relação com seus alunos.

1 ) B ultm ann opinou a respeito de seu ensino: «Sua interpretação crítica


da lei se encontra, apesar de sua radicalidade, no âmbito da discussão dos
escribas».580 Vimos, no entanto (§ 9,1), que Jesus rejeita decididamente a
discussão dos esc ribas, a Halaká, opondo à lei instruções próprias, que a
eliminam. E le não a elimina através de uma reforma, mas através do cumpri­
mento escatológico. A proibição de Jesus em relação ao divórcio pressupõe,
p. ex., a novidade do homem prometida para o tempo da graça (§ 10,111,1).
Jesus diverge do Mestre da Justiça de Qumran por não radicalizar apenas
a Tora, em seu ensino, mas por pressupor que principiou o cumprimento
da profecia.

2 ) Assim como o conteúdo de seu ensino, também a relação d e Jesus


tre n te a seus discípu los rompe a imagem do rabi. Já a maneira pela qual
cria o seu círculo de discípulos, não tem analogias. “ O discípulo de um
rabi escolhe seu mestre. Os discípulos de Jesus, no entanto, são chamados
por meio de uma ordem sem analogias em seu ambiente: «Segue-me!» Jo
15,16 interpreta de maneira correta: «Não fostes vós que me escolhestes a
mim; pelo contrário, eu vos escolhi».
Tão peculiar como o surgimento dessa relação de discípulo é também o
seu alvo. Os discípulos de Jesus não se tom arão mestres como ele, o que
era lógico para todo discípulo de um rabi. Mt 23,8 S: «Vós não sereis 278901
277. K. H. Rengstorf, ThW II, 155-158; cf. § 3.HI.1.
278. O aramaico ra b b i, de rab, «senhor»: «Meu senhor», (posterior designação palestina
para as pessoas doutas) mantém-se em sua transcrição grega, no am biente de fala grega,
como titulo de Jesus: Ê ainda usado por Marcos (não por Q): 9,5; 11,21; 14,45; em Mc 10,51
encontramos (como em Jo 20,16) o aumentativo ra b b o u n i, «meu senhor» (ThW VI,962s).
Mateus acentua que esse título dos escribas não deve ser usado entre os discípulos (23,7s),
restringindo por isso esse tratamento de Jesus ao traidor real ou potencial (26,25.49 par Mc 14,45).
Lc deixa-o totalm ente de lado, enquanto que João o cita m ais vezes com base em sua tradição
o u em contextos que quer apresentar como algo do passado: Jo 1,38.49 ; 3,2; 4,31; 6,25; 9,2;
11,8; (20,6); 3,26 como título de João Batista. Em Jo 1,38; 20,16 (cf. 3,2) explica: «rabbouni»,
L é, «dldaakale», mestre. No ambiente de Jesus ainda não se designavam de ra b b l exclusiva­
m ente os m estres da Tora, os escribas, como na época do evangelho de João, mas dava-se-lhes
um a certa preferência (Billerb. I, 916; ThW VI, 963); por isso o titulo pode ser traduzido,
apropriadamente, com «mestre».
279. O titulo d ld ask ale, mestre, encontra-se dez vezes na camada mais antiga de Marcos
e quatro vezes na m atéria exclusiva (S) de Lucas, como tradução grega apropriada de ra b b i.
£ usado pelo povo (Mc 9,17), pelos discípulos (Mc 4,38; 9,38; 10,35; 13,1) bem como pelos
adversários e por pessoas estranhas (Mc 10,17 par 20; 12,14 par 19 par 32; Lc 7,40; 11,45; 12,13;
19,39), de maneira irrefletida, portanto, sem caráter de depoimento. Mateus eliminou-o, em
diversas passagens, assim como ra b b l (cf. nota 277), mantendo-o apenas para as pessoas estra­
nhas e os adversários: 8,19 e 12,38 (par Lc—); 19,16 par Mc; 22,16 par Mc.24 par M c.36 par Lc;
cf. Mc 12,32. Lucas adota-o, na maioria das vezes, quando o encontra em Marcos, mas não o
introduz; por isso as quatro passagens em S Lc também podem provir da tradição: 7,40;
11,45; 12,13; 19,39. Ele faz com que os discípulos e os que procuram auxílio chamem a Jesus
de epistata, m estre; esta palavra que é usada no NT apenas por ele, substitui em 8,24 e
9,49 d ld ask ale, em 9,38 ra b b l e em 8,45 um titulo que falta; isso também deve ter ocorrido nas
duas passagens da matéria exclusiva (S) (5,5 e 17,13). Mesmo reprimindo, por um lado, o
termo d id ask alo s como titulo, Mateus o usa, de maneira mais acentuada que a tradição para­
lela, como carcterização de Jesus (cf. a locução proverbial de Mt 10,24s frente a Lc 6,40;
Cf. Jo 13,16; 15,20), reserva-a em S Mt 23,8 exclusivamente para Jesus, adotando o uso abso­
luto que ainda não é acentuado em Mc 5,35 par e que não é titular em Mc 14,14. (A desig­
nação tem sentido titular também em Jo 3,2; 11,27s; 13,13s). Cf. Hahn, H oheitstitel, 76-81.
280. Theol., 8 5,2.
281. K. H. Rengstorf, ThW IV, 447.
182 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

chamados de rabi, porque um só é o vosso m estre!».882 Quem é este único


mestre? Segundo o versículo seguinte (v. 9), poder-se-ia pensar em Deus;
segundo Jr 31,34, no tempo da graça todos serão ensinados diretamente por
Deus. Segundo o v. 10, com sua interpretação secundária, Jesus é o único
mestre. Em todo o caso o dito afirma: Em contraposição ao aluno de um
rabi, o discípulo de Jesus jamais será um rabi. E como o próprio Jesus
aceita a designação de rabi, esse fato também quer dizer: Jesus quer ser
e permanecer o único mestre em seu círculo de discípulos. E ssa interpretação
corresponde ao fato de que o círculo de discípulos de Jesus continuou a ser,
mais tarde, a única linha do judaísmo que não conhecia o rabinado. Seu
representante principal seria o apóstolo, o representante e testemunha de
Jesus (§ 19,111,2). Os «mestres», que mais tarde surgiram no cristianismo,
não têm uma função que possa ser comparada ao rabinado.
Resumindo: Jesus aceita a designação de rabi e atua, a princípio, da
mesma forma como os escribas. Mas dá a essa atuação um novo conteúdo.
Era mestre de maneira toda especial e provavelmente também o queria
ser.083 Mas «mestre» não foi o título no qual essa pretensão se expressou.
O grupo de Qumran designava seu fundador de «o Mestre da Justiça»; na
comunidade cristã não foi criada uma designação semelhante.®4
Pelo fato de Jesus não haver apenas ensinado, mas por haver pregado
com poder e realizado milagres, foi muitas vezes considerado um profeta.

II. O Profeta

A comparação de Jesus com a imagem do profeta veterotestamentário -ju­


daico ocupa boa parte da tradição sinótica.

1) Segundo um trecho da tradição, apresentado por Marcos em 6,14b-16


e em 8,28, a opinião pública compara Jesus de três maneiras com um profeta:

a) Jesus seria o profeta E lias (Mc 6,15 par Lc 9,7; 8,28 par), que
havería de voltar antes do fim, segundo Ml 3,1.23s.

b ) E le seria a reencamação de João Batista, que havia sido morto por


Herodes (Mc 6,14.16 par Lc 9,9; 8,28 par) e que, em geral, era tido como
profeta (Mc 11,32b par; Mt 11,9 par. 14,5 S).

c ) Ele seria, de maneira geral, «Um profeta como um dos profetas»


(Mc 6,15; 8,28).
E m que sen tido, pois, Jesus é v is to com o pro feta ? Lucas (9,8.19) inclui
na frase há pouco citada: «Como um dos antigos profetas». Mateus age
de maneira semelhante: «Jeremias, ou algum dos profetas» (16,14). Gerhard
F rie d ric h 385 deduz desse fato a constatação de que, originalmente, se consi-2 8345

282. O dito pode ter sido formado na comunidade da Palestina; Mt 23,10 já é uma amplia­
ção para a comunidade helenista. Seu conteúdo confere exatamente com a situação de Jesus.
283. Martin Hengel, Nachfolge und Charisma, 1968, 46-63, aponta muito bem quanto a
atividade de Jesus diferia da de um escriba. Vai, no entanto, muito longe ao negar que a
forma de sua atividade seguia, em grande parte, esse modelo. Jesus surgiu, antes de mais
nada, como mestre e não como um carismático cheio de espirito, como o querem H engel e
Jeremias (Theol., 81-89). E ssa é também a Opinião de Eduard Schweizer, ThW VI, 400-403
284. O uso titular de d ld aak alo s restringe-se a tentativas modestas (cf. nota 279).
285. Billerb. I, 125ss. ThW VI, 842s.
II. O Profeta 183

derava Jesus apenas um dos profetas contemporâneos; a equiparação aos


profetas veterotestamentários teria sido efetuada posteriormente por Mateus
e Lucas. Essa explicação, contudo, não é correta. Com certeza também fa­
lou-se de Jesus como do «profeta de Nazaré» (cf. Mt 21,11; Lc 7,16; 24,19),
sem dar maiores explicações a respeito dessa designação. Mas um profeta
não era nada comum no ambiente de Jesus. Para a linha dominante do
judaísmo farisaico-sinagogal, o espírito da profecia havia desaparecido desde
a época de E sdras.286 Os essênios aceitavam uma inspiração, mas apenas
o «Mestre da Justiça» como o profeta escatológico. A profecia restrita a
vultos excepcionais como João ou a alguns entusiastas entre os zelotes (Jos
ant 20,97.167-170; bell 11,261s).287289 Por isso não é de estranhar que os con­
temporâneos de Jesus, vendo sua atuação, se tenham lembrado de E l i a s ,
aplicando a Jesus de maneira bastante vaga a esperança generalizada de
sua volta. Esse pensamento não provém da comunidade, pois ela vê em
João Batista o Elias que volta (Mt 11,14) e relaciona com a pessoa de
Jesus, em um estágio mais antigo, a profecia de D t 18,18, que fala de
um profeta semelhante a Moisés que virá no final dos tempos (A t 3,22;
7,22b.25.37ss).2SS
Diante desse pano de fundo é de se compreender que o próprio Jesus
relacionava a sua atividade com João Batista bem como com os profetas
do AT.

2 ) Jesus e João Batista.

O testemunho a respeito do Batista, Mt 11,7-19 par (Q ), com certeza


contém tradições isoladas autênticas, os v. 7b-9.11.12s e 16-19.282 N essas pa­
lavras, João é altamente valorizado: «Ele é mais do que um profeta» (v. 9
par), «o maior entre os nascidos de mulher» (v. 11a par). Ele se aproxima
do profeta escatológico que era esperado por todos, especialmente pelos
essênios (1 QS 9,10s e.o.). 290291 Mas não é igualado a esse profeta, como o
supõe G. F riedrich , “ nem é «totalmente separado do grupo dos profetas»,
como o quer F. H áhn . 222 Segundo o v. 11 par e o v. 12s par, a profecia
chega ao seu auge e alvo com João, depois disso vem o reino de Deus.
Quem é, portanto, Jesus, que encara dessa maneira a profecia?

3 ) Je s u s e a p ro fe c ia v etero testam en tária.

Os ditos de Mt 12,41s par declaram: «Aqui há m a is do que Jonas», i. é,


aqui alguém chama com muito mais autoridade ao arrependimento do que
os profetas; e «aqui há mais do que Salomão», aqui há uma revelação da
sabedoria de Deus que sobrepuja a Salomão (cf. Mt 12,6 S ). Por trás
destas palavras se encontra um princípio hermenêutico, conhecido pela tra-

286. R. Meyer, ThW VI, 817-820.


287. Segundo Rudolf Meyer, ThW VI, 823-828, havia um movimento profético bastante
intenso no ambiente de Jesus; a meu ver, no entanto, os elementos carismáticos do judaismo
são por demais ampliados nessa ezposigão e equiparados, de maneira não muito crítica, com
os elementos proféticos.
288. Cf. Hahn, H oheitstitel, 356ss e 380ss.
289. A parábola, no v. 16s, é relacionada, através da antiga interpretação do v. 18s, com
Jesus e João B atista; segundo Jeremias, Gleichnisse, 139ss, a interpretação também provém
de Jesus, sendo esta tese negada por Hahn, H oheitstitel, 374.
290. Quadro sinótico dessa esperança em Hahn, H oheitstitel, 351-374.
291. T hW V I, 840s.
292. H oh eitstitel, 374s.
184 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

dição veterotestamentário -judaica, a saber, a tipologia: O eschatoa traz a


renovação cabal do tempo da graça que se passou (cf. Is 43,16-21; 54,9s).
E agora Jesus — como único a fazer isso no judaísmo — relaciona com o
seu presente essa renovação esperada para o eschatoa. Característico é que
ele não levanta a pretensão formal de ser ele o profeta escatológico espe­
rado; ele desvenda a situação a partir do conteúdo, falando de maneira
peculiarmente velada: Quem tomar a sua atividade como um evento, vindo
da parte de Deus, pode deduzir de seu conteúdo: «Aqui há m ais do que
Jonas». Aqui se exige e se provoca arrependimento, de maneira defini­
tiv a .”* Também na comunidade esse relacionamento significativo com a pro­
fecia não foi transformado em um título, a não ser na designação bastante
esporádica de «servo de Deus». Alguns relatos a respeito da atividade e
do caminho de Jesus, foram, no entanto, formulados, interpretativamente,
com o auxílio dessa tipologia de profetas.”*
Além do tratamento de rabi e da comparação com profetas, apenas al­
gumas outras identificações isoladas foram aplicadas a Jesus.

m . O filho de Davi
1 ) Segundo a narrativa certamente histórica de Marcos, Jesus foi invocado
em Jerico, por um cego, quando da peregrinação da páscoa para Jerusalém:
«Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim». A invocação provavelmente faz
parte do cerne histórico dessa tradição.2* O título não se relaciona apenas
com a origem de Jesus, provavelmente conhecida, da família de Davi (cf.
Rm 1,3). «Filho de Davi» ( b en -d a v id ), é um termo para designar o rei
da graça do eschatoa. A esperança do judaísmo farisaico-sinagogal se con­
centra sempre mais na sua vinda. E la já é anunciada nos Salmos de Salomão
(17s; cf. 17,21) e na 14* prece da oração das dezoito preces.”* N esta ora­
ção pede-se constantemente pela sua vinda. N o entanto, não se esperam cirnas
milagrosas do ben-d a vid ; isso, porém, não impede que um cego procure
conseguir auxílio do profeta de Nazaré, por meio de um tratamento excep­
cional.
No mais, a esperança da vinda do b en-david somente aparece, em Mar­
cos, na narrativa sobre a entrada em Jerusalém, ornamentada de maneira
lendária com a aclamação um tanto difícil de entender: «Bendito o reino
vindouro de nosso pai Davi» (Mc 11,10). Mateus usa a formulação: «Hosana
ao filho de Davi» (Mt 21,9.15).
Segundo a tradição, p o rta n to , não s e p o d e d ize r q u e se tenha aplicado,
seguidas vezes, a esperança do rei messiânico à pessoa d e Jesus, como o
afirma B o rn k a m m (Jesus, p. 158). A única coisa certa é que, perante os
romanos, se conseguiu torná-lo suspeito como pretendente a Messias.
2) Será que J e su s se m a n ife sto u a respeito dessas concepções? Segundo
Mc 12,35-37a par, Jesus teria formulado a pergunta: O Messias é filho de293456
293. Provas em I* Goppelt, ThW V IU , 254-256.
294. Goppelt, Typos, 70-97; Hahn (H olieitstitel, 390-404) desconhece a origem cristã inde­
pendente, bem como o caráter histórico-salvífico desse relacionamento de Jesus com os pro­
fetas, ao ver nele apenas uma aplicação da esperança judaica do profeta escatológico «como
Holsés», segundo D t 18,15ss.
295. A invocação «filho de Davi» não exclui o fato de que o cego venha a tratar Jesus
de rabbouni, mais tarde (Mc 10,51). A invocação «tem compaixão» é uma fórmula conhecida
tanto no ambiente veterotestamentário-judaico como no helenista ThW IV, 481, nota 102).
296. E sse pedido provém, em principio, dos dias de Jesus (van der Woude, ThW IX , 512s).
185

Davi ou senhor de Davi? E teria respondido: Segundo o SI 110,1, o Messias


seria o senhor de Davi! Como se podería então chamá-lo de filho de Davi?
Esse questionamento, no entanto, corresponde à crístologia da comunidade
primitiva da Palestina, e não à situação de Jesus. A antiga confissão, de
Rm l,3s, vê a descendência davídica como sinal da humildade, em relação
à entronização como rei messiânico através da ressurreição, e a fórmula
de A t 2,36 equipara os termos Cristo e Senhor. Provavelmente essa atitude
da igreja primitiva da Palestina se originasse de afirmações de Jesus que
foram ampliadas pela perícope de Mc 12.

3) Apenas um autor do NT destaca a designação «filho d e D avi», a


saber, M ateus (1,1; 9,27; 12,23; 15,22; 21,9.15). Com isso quer acentuar
apologeticamente que Jesus é o messias esperado.
Somente a descendência d e D avi, que apenas alude à missão de Jesus,
é acentuada em uma tradição palestina que também foi mantida na cristo-
logia da igreja helenista, em prejuízo do título honorífico «filho de Davi».
Encontramo-la na fórmula confessional palestina de Rm l,3 s ( = 2Tm 2,8),
nas metáforas do Ap (5,5; 22,16) e nas duas genealogias (M t 1,1-17; Lc
3,23-38). As árvores genealógicas correspondem à forma das genealogias bí­
blicas; não querem provar a descendência davídica de Jesus, mas caracterizar
a Jesus, também dessa maneira, como o alvo da história salvífica vétero-
testamentária. No final das duas árvores genealógicas, a relação sangüínea
é interrompida pela concepção virginal. Pelo menos em Mateus, a lista de
nomes está orientada, desde o início, com vistas a esta ruptura.
A designação do prom etido, a qual predominava na sinagoga, segundo
este levantamento mal aparece na atividade terrena de Jesus; talvez ele
tenha sido invocado assim por algum estranho, e talvez tenha feito obser­
vações críticas (não conservadas) referentes a essa designação. De forma
bem diferente se nos apresenta a designação «Messias» que, para a sinagoga,
inicialmente era idêntica com ben-david.

IV. O Messias

Tradicionalmente se pergunta, na igreja e na teologia, pela messianidade de


Jesus e pelas profecias messiânicas do AT. Nisso, porém, se usa o conceito
«Messias» em um sentido que se desenvolveu apenas na igreja primitiva da
Palestina. (O estrangeirismo «Messias» aparece apenas em Jo 1,41; 4,25 no
N T ). 1

1) N o A T , o conceito m ashiah, grego h o christos, «o ungido», ainda não


é uma designação para o mediador da graça escatológica. Os salmos que
falam a respeito de Javé e de seu ungido, referem-se originalmente ao rei
israelita que está no governo. SI 2,2: «Os reis da terra se levan tam .. . con­
tra Javé e seu ungido» (cf. SI 18,51; 20,7 e o.).
Apenas na época pós-veterotestam entória, «o ungido» tom ou-se uma
designação do mediador escatológico da graça, através da interpretação esca­
tológica dos salmos reais. E la é usada em duplo sentido: a) Geralmente «o
ungido» é o rei da graça davídico. E le é designado, em SI Sal 17,32 e 18,
5.7), de «o ungido do Senhor» ou, em IV Esdras (7,28; 12,32 e no Baruque
186 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

sírio 29,3 etc.), de «o ungido». (A mais antiga comprovação para o uso


absoluto é, provavelmente, 1 QSa 2,12, que se refere ao rei messiânico),
b) Ao lado disso a designação se refere, mais raramente, de maneira geral
ao mediador escatológico da graça. Segundo 1 QS 9,11, os essênios falam
«dos ungidos, dos Messias, de Arão e Israel». Em aeth Hen 48,10; 52,4,
também o filho do homem é caracterizado de «seu ungido». Esse emprego
da designação não pode ser eliminado como locução especial.

2 ) O uso do conceito nos sinóticos.

Os evangelistas relatam diversas vezes a respeito «do Cristo» e usam


também o nome «Cristo» (p. ex., Mc 1,1). Como tradição originária de
seus dias terrenos, a designação aparece, com exceção de Mc 12,35, apenas
em duas passagens, na confissão de Pedro e no processo de Jesus.

3 ) O processo contra «o Cristo».

Segundo Mc 15,26 par, Jesus morreu sob o título posto na cruz: «O


rei dos judeus». Esse dado, com toda a probabilidade, é histórico. A inscri­
ção afirmava então, em formulação romana, o que os sumos sacerdotes di­
ziam, zombando, segundo Mc 15,32 (par): «O Cristo, o rei de Israel». Coe­
rentemente o processo ante o Sinédrio se concentra, segundo Marcos, na
pergunta: «És tu o Cristo, o filho do Bendito?» (Mc 14,61 par). E Jesus
responde: Eu o sou, mas como o filho do homem que será exaltado e que
vem para o juízo. A historicidade dessas afirmações somente pode ser abor­
dada em uma análise da história da paixão. Independentemente disso, pode-
se afirmar: Jesus caiu sob a suspeita de querer aparecer como o Cristo, i. é,
como o rei da graça, e foi por isso condenado (§ 21,11,1).

4 ) A confissão de Pedro.

Conforme as tradições independentes entre si de Mc 8,29 par e Jo 6,69,


Pedro confessou, em nome do círculo mais restrito dos discípulos, que Jesus
era — segundo a formulação mais antiga — «o Cristo». A perícope de Mc
8,27-33 par se constitui de diversos elementos da tradição. N a pesquisa
proveniente de B ultm ann, G. B oin kam m 297 e H . C onzelm ann 29829 não atribuem
nada desse trecho a Jesus, enquanto que F. Hahn™ relaciona os v. 27a.29.33
à pessoa de Jesus: Pedro teria expressado a esperança de que Jesus se
evidenciaria como rei messiânico, sendo por isso repelido. E ssa reconstrução
parece recomendar-se pelo relacionamento fácil do v. 33 com o v. 29b. Apesar
do pedido dos filhos de Zebedeu (Mc 10,37 par) essa esperança de Pedro
é bastante improvável; pois todas as palavras de Jesus a contrariavam. O
fato de Jesus repelir a Pedro, v. 33, «Arreda! Satanás», refere-se a sua
objeção ao anúncio do sofrimento.
No presente texto, a designação «Cristo» não se refere ao rei messiâ­
nico. Segundo Mc 8,27-29a, Pedro por meio de um diálogo de fé, como o
centurião, é levado a afirmar: Jesus é, para ele, «mais» do que para o povo,
«mais» do que um profeta. Quem supera os profetas não é o rei da graça,
mas o que foi anunciado.

297. Jesus von Nazareth, 1956, 159.


298. Theol., 15U
299. H oheitstitel, 226-230.
IV. O Messias 187

N esse sentido genérico, a designação Messias foi usada pela igreja pri­
m itiva da Palestina e por ela confessada: Deus o fez «Senhor e Cristo»
(A t 2,36; cf. Rm l,3 s).
Por isso a pergunta crítico-tradicional referente ao conteúdo tem que
ter a seguinte formulação: Será que os discípulos já podiam v e r a Jesus,
como o p ro m etid o , antes da páscoa, e designá-lo nesse sentido genérico de
«o M essias »? Segundo B u ltm a n n , 300 isso era impossível, pois a atividade de
Jesus não correspondería a nenhuma das imagens de Messias da concepção
vétero-testamentário-judaica, e Jesus não teria criado nenhuma, nova imagem
própria de Messias. Essas duas constatações são corretas. Jesus jamais criou
novas concepções e conceitos como definição, mas deu novo conteúdo a con­
ceitos tradicionais, como «reino de Deus» e «arrependimento». Por isso tem
que se perguntar: a) Será que Jesus deu n ova dorm a à im a g em do pro m etid o ?
Ele fala e age como um rabi ou um profeta; mas, no fundo, se encontra
sempre, como vimos, a reivindicação de que, por seu intermédio, a promessa
de salvação se cumpre e a basileia busca o homem. A maneira adequada
de identificá-lo se evidencia em Mt 11,2-6 par. A única pessoa que, segundo
a tradição sinótica, cogita seriamente a respeito da sua «messianidade»,
nos dias terrenos, é João Batista. João não pergunta se há correspondência
com as imagens veterotestamentário-judaicas a respeito do Messias, mas
pergunta a respeito do cumprimento da promessa: «És tu o que há de vir?»
E Jesus não aponta para algumas profecias isoladas que pudessem ser veri­
ficadas, mas para o conteúdo central do tempo da graça, anunciado por
todas as profecias, e afirma: Por meu intermédio isso ocorre — para aqueles
que não se escandalizam, mas crêem. Conseqüentemente precisa-se perguntar:
b) Será que os d iscípulos com p reen d ia m que Jesus queria ser o prometido
nesse sentido? Segundo Mc 4,11 par e Mt ll,2 5 s par, Jesus aponta para
pessoas que compreendem o mistério da sua atividade, velado ou abscôndito
para os outros. Será que isso não se refere ao círculo m ais restrito de
seus discípulos? Será que Jesus, de cuja atividade faz parte integrante o
diálogo de fé, não os teria aproximado desse reconhecimento de fé? c) Será
que eles podiam expressar esse reconhecimento de fé com a designação
«M essias»? A primeira comunidade de após-páscoa agiu dessa maneira. Será
que não existiram alguns graus antecedentes desse fato, em forma de um
ensinamento preliminar de Jesus nos dias terrenos? A designação «Messias»
já era usada no judaísmo, em sentido genérico, se bem que esporadicamente
(§ 17,IV,1).
Nesse sentido, a afirmação de Pedro pode ser imaginada, nos dias terre­
nos, não somente como uma esperança vaga, mas como confissão nos dias
terrenos, se m p re com o co n íissã o a tu a l e m o m en tâ n ea que pode ser superada
por um reconhecimento progressivo ou pela tentação, confissão que ainda
está substancialmente muito distante da confissão pós-pascal da primeira
comunidade.

5) Qual o significado da confissão na situ a çã o dos dias terrenos? Se­


gundo / . Jerem ias,** a confissão provoca uma mudança na relação entre
Jesus e seus discípulos: desde aquela ocasião, toda refeição teria sido uma
comunhão messiânica de mesa. N o entanto, a composição de Marcos ainda 301

300. Theol., 5 4.
301. Abendmahlsworte*. 197.
188 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

afirma o contrário: E la põe a confissão no centro do evangelho, como inter­


pretação de toda a atividade terrena, mas faz com que ela seja superada
pelo anúncio do sofrimento, de maneira que a perícope conclui com a rejei­
ção do confessor.
Apenas em Mt, na palavra dirigida a Pedro, Jesus responde à confissão,
cujos predicados agora são compreendidos no sentido da comunidade pos­
terior, e responde com a aprovação, que é complementar. Mas, em Marcos,
ele a complementa com o primeiro dito a respeito do sofrimento do filho
do homem, e Pedro não pode concordar com isso. De maneira semelhante,
Mc faz com que Jesus responda a pergunta do sumo-sacerdote, a respeito
de sua messianidade, com um dito do filho do homem (Mc 14,62 par M t).
Sob o ponto de vista histórico, e de acordo com as tradições mais anti­
gas, a confissão somente podia ser extrema ousadia tateante da fé, que
resplandeceu por um instante, para logo em seguida ser questionada pela
tentação, provinda especialmente do caminho do sofrimento escolhido por
Jesus.
Que importa, então, se a confissão já foi proferida ocasionalmente antes
da páscoa?

a ) A im p o rtâ n cia não reside no fato de que a confissão tenha sido pro­
ferida, mas no fato de que Jesus era o que ela afirmava — por isso Marcos
também a coloca no centro do evangelho; — pois se Jesus não era aquele
por meio de quem o reino vem no presente e a promessa é cumprida, as
suas palavras são vazias e a sua ressurreição é um milagre sem sentido.
Que mais podería significar a ressurreição singular de um rabi e profeta?

b ) E ssa consideração sugere o seguinte ju íz o de probabilidade h istó rica :


Crer que Jesus era o prometido, sem que ele próprio o soubesse e o reve­
lasse a seus discípulos, é algo muito improvável. Da mesma forma é pouco
provável que os discípulos formulassem, após a páscoa, a confissão de que
ele se tornara Messias através da ressurreição, se antes a pretensão da mes­
sianidade lhe houvesse sido atribuída apenas pelos adversários, mas nunca
houvesse sido sugerida por ele próprio.
O mais antigo dos evangelistas explica a relação entre a situação an­
terior e posterior à páscoa, no que toca a essa pergunta, com o «m isté rio
do M essias» (Mc 8,30; 9,9s). Mas o mistério do Messias de forma alguma é
apenas teoria de Marcos (§ 16,11,1); ele é um complexo da tradição que
abrange muitos elementos e que é central; através da sua substância básica,
pode-se esclarecer melhor a espécie da «messianidade» de Jesus.

V. O mistério do Messias

1 ) A tradição marquina.

As partes do evangelho segundo Marcos, caracterizadas por W illia m W rede


de mistério do Messias, compreendem quatro séries de afirmações. Não for­
mam uma unidade literária, como se evidenciou na pesquisa,*" mas perten-302

302. Oltima análise: JUrgen Roloff, Das M arkusevangelium ais Geschichtsdarstellung.


Ev Theol. 29 1969), 84-92.
V. O mistério do Messias 189

cem a d iversa s cam adas de tradição. Encontramos, inicialmente, trê s séries


d e ordens para m a n te r silêncio que, segundo a história da tradição, são de
origens diversas:

a ) Jesus ordena que os dem ônios, que o caracterizam de enviado de


Deus, silenciem: Mc 1,25 par Lc; 4,35; 1,34; 3,12 par Mt 4,16 (resumo).
E ssas «aclamações» defensivas dos demônios e a ordem para manter silêncio
fazem parte do to p o s do exorcismo; o primeiro fato também se encontra
em Mc 5,7. Esse traço é assumido por Marcos, como tradição, e acentuado.

b ) Jesus proíbe os curados de propalar a sua cura: Mc 1,44 (par Mt


8,4; Lc 5,14, acentuado em M c); 5,43 (par Lc 8,56; eliminada em M t);
7,36 S. A última passagem é um resumo formulado por Marcos: «Ordenou-
lhes que a ninguém o dissessem; contudo, quanto mais o proibia, tanto mais
eles o divulgavam». De maneira semelhante, o sumário de Mc 6,53-56 diz
que lhe traziam todos os doentes e que ele os curava. A atuação milagrosa
de Jesus torna-se cada vez m ais pública; as ordens de manter silêncio são
o pano de fundo que devem evidenciar essa dinâmica. Provavelmente tam­
bém elas já são, em parte, tradição.

c ) Mas, uma terceira série de afirmações é da autoria de Marcos. Ela


se compõe de três componentes: Jesus revela a seus discípulos, e somente
a eles, a sua m essianidade, por ocasião da confissão de Pedro e da trans­
figuração. Ao mesmo tempo, ele lhes ordena manter silêncio a respeito do
mistério, até a época posterior à ressurreição: Mc 8,30 par; 9,9 par Mt 17,9.
Mas até os discípulos sempre de novo não o entendem: Mc 4,13; 6,52; 8,
17s.21; 9,10; 10,32. O último detalhe, a incompreensão dos discípulos, era
tão escandalosa para os demais evangelistas que eles não a adotaram em
nenhuma passagem.

d ) Uma quarta afirmação diverge de tudo o que vimos até aqui: Se­
gundo Mc 4 ,ll s par, Jesus oculta «o m isté rio do reino d e D eus» em um
enigma, para que os de fora não o percebam. Esse dito não fala da mes­
sianidade que deva ser ocultada, mas do mistério do reino de Deus do
qual se fala de maneira velada, Esse dito provavelmente foi introduzido
por Marcos no discurso de parábolas, com base em alguma tradição. (O
dito fala, no plural, das parabolai, enquanto que, antes e depois, só se cita
uma parábola).
Temos, portanto, um «mistério messiânico» apenas na terceira série de
afirmações, um complexo de tradição que em grande parte é peculiar a
Marcos, e, ao lado disso, um «mistério do reino de Deus», na quarta série,
como uma tradição anterior a Marcos. Esses dois complexos têm que ser
examinados em maiores detalhes.

2) Qual a intenção de M arcos com o «mistério messiânico», esse con­


junto de revelação especial aos discípulos, de ordem para manter silêncio
e de incompreensão? A ligação de revelação especial e ordem para manter
silêncio lembra-nos o esoterismo, que vogava no judaísmo palestino."530

303. Erik Sjõberg, Der verborgene Menschensohn in den Evangelien, 1955, 1-10; Jeremias,
Jerusalem ', 270-278; cf. notas 304 e 305.
190 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

Encontramo-lo especialmente em dois círculos: E le era um elemento


essencial da apocalíptica: Os mistérios de Deus são revelados neste éon ape­
nas aos justos, aos apocalípticos e aos seus discípulos. Somente no final
os mistérios se esclarecerão para todos. O conteúdo do mistério, para os
apocalípticos, é a essência de Deus, a estrutura do mundo e o plano de
Deus para com o mundo. Encontramos o esoterismo especialmente em Qum-
r a n ,m onde assume forma institucional: Somente aos membros da seita po­
dem ser transmitidos os mistérios que foram revelados pelo Espírito ao
Mestre da Justiça, a saber, o verdadeiro sentido da Tora, a essência de
Deus e o plano de Deus para com o mundo. Uma severa disciplina arcana
proíbe os membros da seita a transmitir esses mistérios aos de fora.
H erb ert Braun** afirma que Jesus não tinha nada a ver com o esote­
rismo, mas que Marcos o teria adotado do judaísmo e aplicado a Jesus.
Entretanto, as duas primeiras componentes da série de afirmações, revelação
especial e ordem de manter silêncio, combinam formalmente com o esote­
rismo essênio, mas não a terceira, a incompreensão dos discípulos. No eso­
terismo, os iniciados tornam-se conhecedores dos m istérios; em Marcos, no
entanto, os discípulos são sempre de novo aqueles que não entendem. Não
entendem porque são pessoas que crêem e que, portanto, são tentadas. Atra­
vés da revelação especial não lhes é transmitido apenas um conhecimento
que não é oferecido a outros, mas dado um reconhecimento de fé. O diá­
logo que leva à confissão de Pedro, é um diálogo que visa reconhecimento
de fé. O reconhecimento revelado a eles deverá ser transmitido a todos,
após a páscoa, quando a missão de Jesus estiver consumada, e então os
próprios discípulos verão com maior clareza.
Por isso a série de afirmações de Marcos, a respeito do mistério do
Messias, realmente apresenta traços de um esoterismo, mas o centro da con­
cepção de Marcos não corresponde a esse conceito. Pois o centro não é um
conhecimento de mistério, mas reconhecimento de fé que compreende cir­
cunstâncias incompreensíveis para a opinião pública, mas que mesmo sem­
pre permanece dúbio.
Segundo o que vimos, Marcos não adotou do esoterismo o seu esquema
— antes da páscoa: revelação da messianidade para os discípulos, ordem de
manter silêncio e incompreensão; após a páscoa: anúncio público. Com o
auxílio do esoterismo, ele o desenvolveu, teologicamente, a partir de uma
tradição mais antiga a respeito «do mistério do reino de Deus», para des­
crever a diferença entre a imagem de Jesus da tradição a seu respeito e o
quérigma da comunidade pós-pascal. Também o fez para apresentar essa
imagem de Jesus como «evangelho» (Mc 1,1), i. é, como a mensagem de
salvação da aparição oculta do Cristo. O esquema «mistério do Messias»
contribuiu para criar o gênero «evangelho». Examinemos agora a tradição
encontrada por Marcos.

3 ) 0 mistério do Messias antes de Marcos e em Q.

Com toda a certeza Marcos adotou o dito de Mc 4,11, da tradição:

304. Em forma literária, encontramo-lo apenas em 1 QS (p. ex. 5,15s; 9,16s) e em


1 QpHab, mas não em Dam (cf. Jos bell 2,141s). Cf. Braun, Radikalismus I, 162; idem.
Qumran II, 235-242.
305. Radikalismus II, 21, nota 4.
V. O mistério do Messias 191
«A v ó s é d ad o o m isté r io d o r e in o d e D e u s,
aos de fo r a tu d o su c e d e e m p aráb olas».

Que é o m isté rio do rein o d e D eus? 0 conceito m y stê rio n , que encon­
tramos apenas aqui nos sinóticos, designa, na terminologia judaica bem como
na terminologia do cristianismo primitivo (p. ex., Rm 11,25), o plano sal-
vífico de Deus para o esc h a to n . «O mistério do reino de Deus» é a ma­
neira da sua vinda escatológica. Para a tradição a respeito de Jesus, o
mistério não é a sua vinda próxima (cf. Mc l,1 4 s), mas a sua vinda p re­
sen te, na a tiv id a d e d e Jesus, e com isso é dado o seu verdadeiro sentido.
O reconhecimento desse mistério é «dado» por Deus apenas aos discípulos
(Mt 13,16s).
A esse dar a conhecer corresponde, na segunda linha, um o cu lta r p o r
m eio d e parábolas. (Se tirarmos o dito de seu contexto redacional, o discurso
de parábolas, temos que traduzir parabolê no sentido do termo hebraico
m aschal, como «palavra enigmática»). Será que podemos observar, na ativi­
dade de Jesus, um encobrir por meio de palavras enigmáticas? Temos obser­
vado diversas vezes que por trás das palavras e da ação de Jesus se en­
contra uma experiência que sempre é expressa de maneira indireta, i. é,
em u m d ista n c ia m e n to sin g u la r da pessoa de Jesus. Dessa maneira é anun­
ciada a) em um distanciamento singular da pessoa de Jesus, a vinda p re ­
se n te do rein o : «Se eu expulso os demônios com o dedo de Deus, certa­
mente o reino de Deus chegou até vós» (Mt 12,28 par) e: « . . . Ele está
dentro em vós» (Lc 17,21). E ssa reivindicação velada é explicada apenas
por meio de parábolas e não por meio de constatações teológicas: A pará­
bola leva a uma compreensão engajada da situação, tornando impossível
uma discussão meramente intelectual a respeito de afirmações teológicas
que não levam ao alvo. Nesse sentido também as parábolas em parte são
palavra enigmática, b) Da mesma maneira velada fala-se do cu m p rim en to
da profecia. A s exigências de Jesus pressupõem que a novidade do homem
começa no presente (§ 9,111,2). A resposta de Jesus a João Batista, Mt
11,2-6 par, reivindica que a sua atividade seja evento de cumprimento; m as
a referência é tão obscura como a referência à pessoa de Jesus. A presença
de Jesus também é encoberta por referências tipológicas ao AT e caracte­
rizada como situação de cumprimento: «Aqui há m ais do que Jonas!» (M t
12,41 par), c) Da mesma maneira Jesus usa o único título «messiânico»
por ele proferido, a designação de « filh o d o h o m em » . Somente Jesus, na
tradição sinótica, fala do filho do homem, mas cita-o sempre com uma certa
distância, na terceira pessoa, como se falasse de um terceiro. Além do mais,
a designação filho do homem é enigmática e tem sentido ambivalente; no
aramaico, filho do homem significa, sobretudo homem (§ 18,1,1).
Consequentemente, o dito a respeito da palavra enigmática confere, exa­
tamente, com um elem en to c e n tra l da e stru tu ra da tradição a resp eito d e
Jesu s: T odas as a firm ações so b re o verdadeiro se n tid o d e su a a tivid a d e,
sobre a presença do reino, so b re o cu m p rim en to da pro fecia e sobre o pro ­
m e tid o estã o codificadas, de m a n eira sin g ular, na cam ada m a is a n tig a d a
tradição. Podemos caracterizá-las de palavras enigmáticas.3 06

306. Cf. também G. Bornkamm, ThW IV, 823-825; já na apocalíptica (p. ex. aeth Hen 38,3;
51,3; IV Esdras 14,5; Bar sir 81,4) e em Qumran (p. ex. 1 QS 3,23; 4,18), é legado aos.
Iniciados «o mistério» (hebr. raz) de como se realizará a revelação escatológica.
192 § 17: Jesus e os títulos a Ele concedidos

Donde provém essa maneira de fazer afirmações em código? Ela não


pode ter sido incluída posteriormente na tradição, em toda a sua extensão,
para interpretar uma atividade não messiânica de maneira messiânica. Ela
também não corresponde, em sua estrutura, à cristologia primitiva, mas à
essência da a tivid a d e de Jesu s. Jesus teve que rejeitar a exigência de sinais
porque queria salvar por meio de fé. Por isso o verdadeiro sentido de sua
atividade não pôde ser compreendido a partir de uma posição mundana.
Por isso a reivindicação de Jesus teve que ser distanciada de sua pessoa
e encoberta, enquanto essa pessoa estava presente. O ouvinte tinha que ser
atingido pelo conteúdo, sem poder determinar formalmente a pessoa que o
representava. E sse enco b rim en to desaparece depois da páscoa; desde então,
Jesus é pregado, de maneira pública, como o prometido. Mas p erm anece a
abscondidade da revelação salvífica escatológica, acentuada por Paulo em
ICo 1,20-24, face ao anseio dos coríntios pela sophia, a constatação cons­
ciente: Deus esconde a sua auto-revelação em loucura e fraqueza, para salvar
os crentes. Esse aspecto foi registrado, de maneira magistral, na história
da teologia, no programa da theologia crucis de Lutero. m Essa abscondi­
dade da revelação da graça para o crente requer, nos dias terrenos, o enco­
brimento por meio de palavras enigmáticas.
Justamente essa abscondidade é expressa também no d ito da tradição
d e Q, Mt ll,2 5 s par Lc. O dito que, quanto ao seu conteúdo, provém da
tradição sapiencial, afirma no estilo da exomologese*":

«Graças te rendo, P ai, Senhor do céu e da terra,


porque ocultaste e sta s co isa s aos sabedores e entendidos,
e a s revelaste aos pequeninos,
sim , P ai, porque este fo i o teu agrado».

E sse dito agradece pela m aneira pela qual D eus revela, a tra vés da a ti­
vid a d e d e Jesu s, a si m e sm o e, co m isso, a sua graça. Isso ocorreu de acordo
com as bem-aventuranças. O maior de todos os mistérios foi revelado aos
anaw im . Ao mesmo tempo, foi ocultado àqueles que queriam viver a partir
de si mesmos. Eles não somente não se deram conta do mistério, ele lhes
fo i ocultado. O irmão mais velho se opunha porque havia sido subjugado
pela dureza de seu coração; ele foi «entregue» a ela (Rm 1,24). Ele não
pôde simplesmente «passar por cima» da atividade de Jesus que vinha
a seu encontro, ele encontrou nela motivo de tropeço (Mt 11,6 par). Isso
ocorreu, nos dias terrenos, justamente por meio de uma atividade de Jesus
que ocultava a sua reivindicação pessoal; pois com isso, os atingidos não
eram confrontados com uma exigência formal de um homem, mas com a
obra de Deus que se realizava por intermédio deste homem.3078

307. Theologus vero gloriae (id est qui non cum Apostolo solum cruciíixum et abscondi-
tum dum novit, sed gloriosum cum gentibus, e x visibilibus invisibilia eius, ubique presentem.
omnia potentem videt et loquitur) discit ex A ristotele__ Theologus crucis, id est de deo
crucifixo et abscondito loquens (Disputação de Heidelberg, W A I, 614,17ss); cf. W alter von
Loewenich, Luthers Theologia crucis, 1929.
308. F elix Christ, Jesus Sophia. D ie Sophia-Christologie bei den Synoptikem , 1970. 81-99,
quer evidenciar que Jesus fala, aqui, como a sabedoria. A passagem estaria expressando uma
cristologia que também se encontra em Mt 11,19b par. 28-30; Lc 11,49-51 par M t); Mt 23,37-39
par: «Jesus aparece nos sinóticos como porta-voz e portador da sabedoria e, além disso, como
a própria sabedoria» (p. 153). Os mais antigos representantes dessa cristologia de sophl»
teriam sido, provavelmente, «círculos judaico-cristâos ‘gnostizantes’ na Palestina»; provavel­
mente o próprio Jesus ter-se-ia compreendido como soplila (p. 154). A meu ver, Christ e
W ilckens, ThW VII, 516, deduzem, precipitadamente, do uso de certas locuções, uma identi­
ficação pessoal com a sabedoria. O fato de se haver adotado, posteriormente, na cristologia
helenista, afirmações a respeito da sophia, p. ex. sua pré-existência, como auxílio para uma
melhor compreensão, não significa ainda a existência de uma «cristologia de sophia».
V. O mistério do Messias 193

4 ) A história da tradição do «mistério do Messias».

Na década de 1930, a discussão dessa pergunta havia se concentrado


em uma alternativa: B ultm ann e sua escola defendiam, com W. Wrede,
a concepção de que o mistério do Messias não seria nada mais que tuna
teoria do evangelista Marcos. Voltando-se contra isso, Julius Schniew ind
desenvolveu, em sua reedição dos evangelhos de Marcos e de Mateus para
o NTD, a tese de que o mistério do Messias era uma realidade da atividade
terrena de Jesus. O livro de E iik S jõ b erg a respeito do filho do homem
abscôndito, apresenta um resumo da discussão. Hoje esta alternativa está
superada; o complexo «mistério do Messias» está dividido em qu atro cam adas
diferen tes.

a ) A camada mais antiga é a do mistério do Messias como elem ento


estru tu ra l d a a tivid a d e de Jesu s: Jesus fala da vinda presente do reino, do
cumprimento e do filho do homem apenas de maneira enigmática. Isso deve
ter sido uma característica histórica essencial de sua atividade.

b ) E sse elemento estrutural de sua atividade é expresso nos d ito s a


respeito do mistério do reino (Mc 4,11 par) e a respeito da revelação abscôn-
dita (Mt ll,2 5 s ). E sses ditos poderíam ser reflexão pneumática da comuni­
dade primitiva; o mais provável, no entanto, é que eles provenham do pró­
prio Jesus. Eles caracterizam o mistério como encobrimento ou abscondidade
da revelação.

c ) A partir dessa tradição, M arcos desenvolveu o esquema: revelação


da messianidade aos discípulos, com ordem de manter silêncio e incompreen­
são, até a glorificação de Jesus. Com o auxílio desse esquema, Marcos criou
o gênero «evangelho», acentuando para todo leitor: Se alguém reconhecer
a Jesus como o prometido, esse fato não é descoberta sua, mas dádiva.

d ) Enquanto Marcos assim desenvolvia esse complexo da tradição, M a­


teus e L u cas o reprimem. Eles acentuam apenas a abscondidade da reve­
lação da graça: Mt ll,2 5 s par; 16,17. O encobrimento é transmitido apenas
em alguns elementos da tradição. Encontramo-los, surpreendentemente, tam­
bém no evangelho de João, que não depende da tradição sinótica, p. ex., em
Jo 10,24: «Até quando nos deixarás a mente em suspenso? Se tu és o
Cristo, dize-o francamente! Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não
credes».
A partir do «mistério do Messias», o uso da designação «filho do ho­
mem» se torna em parte compreensível.

§ 18 : O F IL H O DO HOM EM

Ad t-V : Hans Uetzmann, Der Menschensohn, 1896: Rudolf Otto, Reich Gottes und Menschensohn,
1934; E rik Sjõberg, Der Menschensohn im ãthlopischen Henochbuch, Lund 1946; idem, Der verborgene
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1955.1963*; Erich Fascher. Jes 53 In christllcher und JBdischer Sicht, 1958; W alter Zim m erll-
Joachlm Jeremias, pals theou, ThW V, (1959), 653-713; Joachim Jeremias, pollot, ThW V I, (1959),
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Heinz Schürmann, W ie hat Jesus seinen Tod bestanden und verstanden? In; O rientierung an
Jesus. Festschr.f.Josef Schmid, ed. por Paul Hoffmann, 1973, 325-363. — Ad IX: Joachim Bieneck,
Sohn Gottes als Chrlstusbezeichnung der Synoptiker, 1951; Ferdinand Hahn, Christologische
H oheltstitel, 1962.1966’ , 280-346; Oscar Cullmann, Die Christologie des NT, 1966*, 276-313; W erner
Kramer, Christos — Kyrlos — Gottessohn, 1963, 105-123; B.M.F. van lersel, Der Sohn in den
synoptischen Jesusworten, 1964*; Peter W ulflng von M artitz, Georg Fohrer, Eduard Lohse, Eduard
Schweizer, hyios, ThW V III (1969), 336-340. 347-354. 361-363. 367-392; Felix Christ, Jesus Sophia.
Die Sophia-Christologie bei den Synoptikern, 1970, 85-99.

Com o presente título examinaremos, concluindo, a autocompreensão de


Jesus, especialmente o mistério de sua paixão bem como de sua designação
divina; pois os sinóticos desenvolvem esta questão, em grande parte, em
afirmações a respeito do «filho do homem». E ’ certo que a maneira pela
qual Jesus se compreendia a si mesmo e a sua missão, não depende da
medida e do sentido com o qual ele aplicava a designação de «filho do
homem» a si mesmo. Decisivo é o que ele expressava a respeito de si mes­
mo, na maneira pela qual se envolvia com o ser humano. A análise do
título, no entanto, nos auxilia a entender de maneira precisa esse fato e
a definir o pano de fundo de sua atividade. Foi por isso que a pesquisa
se ocupou, detalhadamente, com essa única autodesignação de Jesus.

I. Incidência e significado do conceito

1) Encontramos n o s eva n g elh o s sinóticos, cerca de 70 vezes, a locução sin­


gular «o filho do homem», h o h y io s to u a nthrõpou, e sempre em declarações
do próprio Jesus. A locução é estranha ao grego e ao alemão. Reproduz
literalmente uma locução corrente no hebraico ou no aramaico: ben-adam ou
bar-enascha, que significam, no ambiente de Jesus, «o homem» como inte­
grante de um coletivo humano, ou «um homem» ou «alguém»; no entanto,
a locução não significa apenas «eu». Ela não teria sido adotada no grego,
de maneira literal, caso não houvesse sido vista como conceito. E ’ usada nos
evangelhos como já o fora na apocalíptica judaica, como uma designação
do m ed ia d o r escatológico da graça. ** Poder-se-ia perguntar ainda se, em
outra passagem, o conceito não tinha significado de título.

2 ) N o re sta n te do N T , encontramos a locução 12 vezes no evangelho


de João e, no mais, apenas uma vez na visão de Estêvão, A t 7,56. Além
disso ela consta duas vezes, como citado de Dn 7,13, em Ap l,13ss e 14,14,
bem como, uma vez, como citado de SI 8,6, Hb 2,6. N a última passagem
encontramos o significado geral «homem», nas demais, o título que podemos
reproduzir com «filho do homem».309

309. Colpe, ThW VIU, 404-408, especialmente nota 17.


II. Conclusões a respeito da origem histórico-tradicional 195

II. Conclusões a respeito da origem histórico-tradicional

A estatística do conceito já nos oferece conclusões importantes:

1) Sem dúvida, a designação «filho do homem» não fo i usada pela ig reja


h elen ista n a cristo lo g ia ; não a encontramos em todas as cartas do NT.®”
Para o homem de fala grega era incompreensível; Inácio (E f 20,2) usa a
titulação para afirmar a origem humana de Jesus: « . . . em Jesus Cristo,
o filho do homem e filho de Deus».

2 ) No entanto, encontramos a designação no evangelho de João, sur­


gido por volta de 100, mesmo não ocupando lugar na cristologia do evange­
lista e de sua comunidade. Ela, portanto, e stá ligada à tradição dos eva n ­
gelhos, na qual, as afirmações a respeito do filho do homem não foram sim­
plesmente transmitidas, mas d esen vo lvid a s através de reflexão.
Inequivocamente as referências de João a respeito do filho do homem
foram ampliadas além das referências correspondentes dos sinóticos. Enquanto
que, em Mc 8,31, é dito: «O filho do homem tem que sofrer muitas coisas
e ser re jeita d o ... e ressuscitar depois de três dias», Jo 3,14 afirma: «Im­
porta que o filho do homem seja levantado», e entende o «levantar» em
duplo sentido, pensando no fato de ser ele levantado na cruz e de ser le­
vantado, elevado, a Deus.
Sem dúvida, afirmações a respeito do filho do homem também foram
desenvolvidas continuamente na tradição sinótica. Característico é o fato de
que, já na tradição paralela, freqüentemente, a designação e o pro n o m e
pessoal são trocados. Vejamos: Em Mc 8,27, o diálogo que leva à confissão
de Pedro é introduzido pela pergunta: «Quem dizem os homens que sou eu?»
Mateus escreve nesta passagem: « . . . ser o filho do homem?», sendo que
a designação misteriosa é explicada para o ouvinte através da confissão que
se segue — e isso de maneira diferente da de Inácio: O filho do homem é
«o Cristo, o filho do Deus vivo». Inversamente, no entanto com a mesma
intenção, Mateus formula, em 10,32: «Todo aquele que me confessar diante
dos homens, também eu o co n fessa rei...» , enquanto que Lc 12,8 continua:
«O filho do homem o confessará». Não se pode provar que a designação
tenha sido usada mais vezes para substituir o pronome pessoal do que vice-
versa, como o supõem Jo a ch im Jerem ia s e, secundando-o, também C arsten
Colpe

3 ) A ra iz histórico-tradicional das referências a respeito do filho do ho­


mem deveria ser procurada, segundo a estatística do conceito, com o próprio
Jesus, mesmo que durante o processo de transmissão se tenham multiplicado;
pois são sem p re auto-a firm a çõ es. — Por isso é estranho ouvir, desde W ilh elm
B o u sse t até H a n z C onzelm ann, ®“ que as afirmações sobre o filho do homem 3 102
310. Provavelmente Paulo conheceu o título: Interpreta o SI 8 que fala do «filho do
homem», messianicamente (ICo 15,27; F p 3,21), e contrapõe Cristo, como «homem», tipolo-
gicamente, a Adão (ICo 15,21; Rm 5,15). Mas nunca usa o título.
311. Joachim Jeremias, D ie ãlteste Schicht der M enschensohn-Logien, ZNW 58 (1967),
159-172; idem, Theol., 250s: Não se poderia «provar, em nenhum único caso», que o título
houvesse sido substituído pelo pronome; idem Colpe, ThW VIII, 441s. A meu ver, no entanto,
o dito enigmático a respeito do filho do homem, Lc 12,8, é desvendado posteriormente no
dito a respeito da confissão de Mt 10,32, pelo fato de encontrarmos, em lugar de «filho do
homem», «eu».
312. Bousset, Kyrios, 5-10 (com a restrição de que «talvez essa ou aquela» passagem possa
provir de J e s u s ); Conzelmann, TheoL, 152-156.
196 § 18: O Filho do Homem

sejam originalmente cristologia da ig reja p rim itiv a da P a lestina. Neste caso


não teria sido conservada n e m um a única fo rm u la da com unidade a respeito
dessa cristologia, nem quérigma, nem confissão, nem oração, tanto nos evan­
gelhos como à parte deles! As poucas afirmações a respeito do filho do
homem que encontramos fora dos sinóticos, são sempre visões proféticas:
A t 7,56; Ap l,13ss; 14,14. A «cristologia do filho do homem» deveria ter
sido assim, originalmente, apenas uma palavra de profecia cristã primitiva.
A primeira comunidade teria sido então um grupo apocalíptico entusiasta,
— uma concepção que é desmentida também pelas conclusões das cartas
paulinas. No entanto, foram motivos de peso que levaram a essa suposição,
como veremos.

m . A discussão sobre a origem das concepções

Os ditos sinóticos sobre o filho do homem desenvolvem trê s concepções


precisas a se u respeito, as quais ainda podem ser subdivididas: a) O filho
do homem aparecerá, em futuro próximo, como juiz do mundo; b) O filho
do homem tem que sofrer e ressuscitar segundo o plano salvífico de Deus,
sendo ele o sujeito do anúncio dos sofrimentos; c) O filho do homem já
está presente em poder ou também em humildade.
A origem desses três círculos de concepções foi explicada, na discussão
m oderna, da seguinte maneira:

1 ) Segundo B u ltm a n n (Theol § 4,3), apenas a primeira concepção pro­


vém de Jesus; pois ela teria suas pressuposições na apocalíptica judaica,
que esperava o filho do homem como o juiz vindouro do mundo. Jesus
teria adotado essa esperança ao afirmar, em Lc 12,8s: «Quem me confessar
diante dos homens, também o filho do homem o confessará diante dos anjos
de Deus. Mas o que me negar diante dos homens, será negado diante dos
anjos de Deus». O filho do homem seria uma pessoa diferente de Jesus, mas
julgaria de acordo com a decisão exigida, agora, a favor ou contra a pregação
de Jesus. A comunidade teria então, naturalmente, identificado Jesus e o
filho do homem. Os anúncios de sofrimento, não pressupostos em nenhuma
tradição histórico religiosa, seriam todos va ticin ia e x e v e n tu , formulações
posteriores da comunidade. Um ou outro dos ditos a respeito do filho do
homem presente poderíam ser autênticos (§ 18,V ), mas o conceito não teria
o significado de um título, mas o significado comum de «homem».
E sse juízo histórico-tradicional é compreensível. Pois, não é quase in­
concebível que o homem Jesus se tenha considerado o juiz cósmico idêntico
com Deus? Por isso a escola de B u ltm a n n , em grande escala, seguiu esse
juízo. E ’ adotado, p. ex., por G ü n th er B o rn k a m m (Jesus von Nazareth, p.
206ss) bem como pelas dissertações afins de H e in z E d u a rd T õ d t, (Der Men-
schensohn in der synoptischen Überlieferung, 1959) e F erd in a n d H a h n (Chri-
stologische Hoheitstitel, 1963), os quais, através de uma análise minuciosa
pretendem averiguar o desenvolvimento desse complexo da tradição.

2 ) Outros representantes da escola, P h ilip p V ielhauer, *" E r n e s t K àse-


m a n n *“ e H a n s C onzelm ann, continuaram desenvolvendo esse princípio. Se-3 14

313. Gottes Reich und Menschensohn in der Verkündigung Jesu. (1957) em ' idem.
Auísatze zum NT. 1966, 55-91. ’
314. Exeg. Vers. XI, 102 e. o.
III. A discussão sobre a origem das concepções 197

gundo C onzelm ann, o dito a respeito do confessar e do negar, Lc 12,8,


pressupõe a identidade de Jesus com o filho do homem e a situação dos
discípulos perante o tribunal; o dito, por isso, só poderia ter surgido na
comunidade, após a páscoa. “ Quanto a Jesus, ter-se-ia que afirmar o que
já anteriormente V ielh a u er formulara: «Nenhum dito a respeito do filho do
homem é autêntico; Jesus não anunciou o filho do homem, nem se identi­
ficando com ele, nem esperando um outro como o filho do homem».®* Os
ditos teriam sido postos em sua boca porque partiam de profetas cristãos
primitivos que falavam em seu nome. ®7 Não se coadunariam, quanto ao
conteúdo, com a pregação de Jesus; pois ele teria anunciado a vinda do
domínio régio de Deus. Ao lado dessa vinda de Deus, u m messias ou filho
do homem não teria lugar. O rein o de D eu s e o filh o do h o m e m nã o estariam
com binados e m n e n h u m d ito ! E ssa observação é correta, mas deve ser expli­
cada de outra maneira: A vinda do reino é anunciada publicamente; a do
filho do homem, esp ecia lm en te aos d iscíp u lo s. 318
Evidentemente é difícil compreender as palavras a respeito do filho do
homem, a partir da concepção apocalíptica do filho do homem-juiz do
mundo. Como se o pode relacionar com o Jesus histórico? Como se pode
falar de sua atividade e especialmente de seu sofrimento na história?

3) Por isso E d u a rd S c h w e iz e r “ procurou um outro ponto de partida


histórico-conceitual: O profeta E ze q u ie l é chamado, cerca de 87 vezes, de
«filho do homem», e o que é dito a ele, se adapta a Jesus e a seus ditos a
respeito do filho do homem: «Como ‘filho do homem’ (Ezequiel) tem que
estar cheio do espírito de Deus (2 ,lss; 3,24s; 11,4s) e, como guarda de
Israel (3,17; 33,7), tem que ficar com a palavra de Deus e anunciá-la a
seu povo (2,3ss). Com isso não precisava apenas ver os pecados de Israel
(8,5ss), mas viver entre os que têm olhos para ver, e não vêem; ouvidos
para ouvir, e não ouvem (12,2s), que falam a seu respeito, que correm atrás
dele e, mesmo assim, não obedecem suas palavras (33,30ss), porque julgam
que o juízo ainda está distante (12,27). Por isso a pregação se transforma
em enigma e em parábola (17,2; cf. 21,5). Tem que anunciar-lhes o juízo
(6 ,lss; 7 ,lss e.o.), com sua pregação, pronunciar a sentença dos pecadores
(20,3; 22,2; 23,36) e praticamente matá-los (11,4.13; 21,19ss). Além disso,
inclusive tem que tomar sobre si privações e sofrimentos, como um sinal para
a miséria de Israel (4,9ss; 5 ,lss; 12,6.11.17ss; 21,11.17; 24,16ss.27), mas
também anunciar o bom pastor que há de vir (34,23ss), a purificação esca-
tológica através do Espírito de Deus (36,17.25ss), a ‘ressurreição dos mortos’
(3 7 ,lss) e a glória futura (40,4; 43,7.10; 47,6), inclusive provocar a ressur­
reição e o juízo do mundo (37,9s cf. 15ss; 39,17ss ) » . w A partir desse ponto
de partida histórico-conceitual, resulta, para S chw eizer, sob o ponto de vista
histórico-tradicional, que cada um dos três círculos de afirmação, em suas
palavras centrais, provém do próprio Jesus; pois neste sentido Jesus se podia
compreender como «filho do homem», i. é, como profeta (escatológico). 315678920

315. Theol., 155s.


316. Jesus und der Menschensohn, ZThK 60 (1963), 170.
317. idem, 172.
318. Ê essa também, agora, a opinião de Jeremias, Theol., 254s.
319. Der Menschensohn (zur eschatologischen Erwartung Jesu), ZNW 50 (1959), 195-209;
idem, Erniedrigung und ErhOhung2, 33-52.
320. E. Schweizer, Erniedrigung und ErhOhung1, 34s.
198 § 18: O Filho do Homem

A meu ver é possível que este uso do conceito, conhecido tanto por
Jesus como pela comunidade primitiva, tenha influído na formação dos ditos
sinóticos a respeito do filho do homem; no entanto, não há nenhuma deri­
vação de um dito de Ezequiel que o comprove. O verdadeiro ponto de parti­
da, em todo caso é o filho do homem apocalíptico que, segundo Dn 7,
representa a vinda do reino de Deus. E ’ por isso que a reflexão posterior a
respeito do filho do homem aponta para Dn 7,13 (Mc 13,26; 14,62; Ap
1,13; 14,14), mas nunca para Ezequiel ou para o Salmo 8.

4) A concepção apocalíptica a respeito do filho do homem necessita, no


entanto, de um novo esclarecim en to histórico-religioso, que vá além do que
B ou sset e B ultm ann pressupunham. Carsten Colpe encetou-o no ThW VIH,
403-433. Evidenciou que os três textos da apocalíptica veterotestamentário-
judaica a respeito do filho do homem (Dn 7, Enoque etíope e IV Esdras)
desenvolvem concepções bastante diversas. Além disso, transformou a deri­
vação histórico-religiosa da concepção, segundo a qual a transmissão do do­
mínio do «ancião de dias» para o «filho do homem» (Dn 7,14) teria sua
correspondência mais próxima num m ythologum enon cananeu, de acordo com
o qual o domínio passa do deus velho para o novo (p. 418-422). E afirmou
que não se encontraria nenhuma analogia real nas diversas formas de con­
cepção do homem original, nas quais muitas vezes se pensou, especialmente
nas especulações judaicas a respeito de Adão ou na concepção gnóstica a
respeito do homem original (p. 411-418).
Se existisse uma relação genética com aquela correspondência, — nesse
caso ela deveria ter sido transmitida através de uma série de etapas inter­
mediárias desconhecidas, — teria ocorrido, por ocasião da adoção dessa con­
cepção, uma divisão das afirmações veterotestamentárias a respeito de Deus,
semelhante à que mais tarde viria a ocorrer na cristologia, quando as afir­
mações vétero-testamentárias a respeito da aparição escatológica de Deus
(Is 45,22ss) foram transferidas ao glorificado como o k yrio s (F p 2,10s).
Essa dedução esclarecería, em todo caso, por que o filho do homem assume
as funções escatológicas de Deus.®1
Com base nessas discussões, procuremos desenvolver uma concepção pró­
pria.

IV. O filho do homem que há de vir

1 ) Observemos primeiro o s trech os m ais im p o rta n tes desse círculo! Das três
passagens da tradição de Marcos a respeito da vinda futura do filho do ho­
mem, Mc 13,26b e 14,62b são secundárias e foram formuladas com base em
Dn 7,13. Por outro lado, Mc 8,38 par Lc 9,26 é uma antiga duplicata da
tradição de Mt 10,32 par Lc 12,8. Das três passagens restantes, provenientes
de Q, uma é o chamado à vigilância, em Mt 24,44, que é secundário, en­
quanto que duas apontam, segundo Lc 17,24.26, para o «dia do filho do
homem»; Mt 24,27.(= 30.)37 substitui esta formulação por «a parusia do
filho do homem». Ainda encontramos algumas tradições antigas na matéria
exclusiva, Mt 10,23; 19,28 (cf. Lc 22,30) e Lc 18,8. Em contraposição, Mt321

321. A hipótese de J. Jeremias, Theol., 257s, de que o filho do homem seria um homem
assunto a Deus que haveria de voltar, não o pode esclarecer. No fundo ela somente pode se
basear na assunção de Enoque que é indicada somente no final dos discursos metafóricos
do Enoque etíope (70s).
IV. O filho do homem que há de vir 199

24.30 e 25,31 bem como Lc 17,22.30; 21,36 são formulações redacionais.


Segundo Colpe (p. 435-441), provavelmente oito ditos a respeito do filho
do homem que há de vir provêm do próprio Jesus: Lc 17,24.26 par Mt;
17.30 S; 18,8 S; 21,36 S; 22,69 S; Mt 10,23 S. E sses ditos, com exceção de
Lc 22,69 (que a meu ver é uma passagem redacional), são todos dirigidos
aos discípulos, segundo o contexto principal; provavelmente os ditos a res­
peito do filho do homem foram originalmente palavras dirigidas aos dis-
cípulos!
Temos que considerar a autoria de Jesus nesses ditos, principalmente a
partir do dito a respeito da confissão e da negação, que é considerado, por
Colpe, um dito de egõ e im i (cf. nota 311). Em sua forma mais antiga, ele
tem o seguinte teor (Lc 12,8):

«Todo aquele que m e con fessar d ian te dos hom ens,


tam bém o filh o do hom em o con fessará d iante dos anjos de D eus.
O que m e n egar d iante dos hom ens,
será negado diante dos anjos de Deus».

Qual é a função, aqui, atribuída ao filho do homem? Ao que tudo indica,


não é testemunha no julgamento do mundo, mas juiz que assume o lugar
de Deus. A partir de que tradição e a partir de que situação podemos expli­
car esta afirmação?

2 ) Encontramos afirm ações sem e lh a n tes a respeito do filho do homem


na apocalíptica veterotestam entário-judaica, em três textos:

a) Em Dn 7, numa visão apocalíptica, quatro feras que emergem do


mar são seguidas por «um como um filho do homem», que vem de cima,
com as nuvens dos céus. A ele é dado, segundo Dn 7,14, o domínio sobre
o mundo pelo «ancião de dias». A s quatro feras são imagens dos quatro
últimos reinos mundiais; o homem que v a n de cima simboliza o reino «dos
santos do Altíssimo» (7,27).

b ) N os discursos alegóricos d o E n o q u e etíope, cap. 37-71, surgidos pro­


vavelmente no séc. I aC, *° o filho do homem não é mais um símbolo
visionário, mas uma imagem celestial pré-existente que surgirá no final,
não apenas como senhor do mundo, mas também como juiz do mundo. E xis­
tia, já antes da criação do mundo, junto ao trono do Altíssimo (48,3.6s;
62,7); no final dos séculos não somente assumirá o governo do mundo,
como em Daniel (48,5; 69,26), mas também promoverá o juízo (62,5; 69,
27.29). A s afirmações são bastante diferenciadas. Também não falam «do
filho do homem», mas «desse filho do homem», citando ao lado dele o
«eleito», que provavelmente é idêntico com ele.

c ) No 4" liv ro d e E sd ra s, escrito por volta de 90 dC, o filho do homem


é, a princípio, novamente como em Daniel, uma imagem de uma visão apo­
calíptica: Do centro do mar vem «algo como um homem», e «esse homem»32
322. Segundo Erik Sjõberg, Der Menschensohn im ãthiopischen Henochbuch, 1946, J. Jere­
mias, Theol., 257, e como pode ser deduzido de aeth H en 56,7, foram escritos após a invasão
dos partos na P alestina (40/39 aC). Dificilm ente foram escritos apenas após a guerra de
Trajano contra os partos, como o quer J. C. H indley, Towards a Date for th e Sim ilitudes of
Enoch, NTSt 14 (1967/8), 551-565. O fato de se haver encontrado, até agora, fragmentos das
quatro partes restantes do Enoque etíope, mas nenhum dos discursos metafóricos, não põe
em dúvida sua origem judaica, mas sua divulgagão na época de Jesus.
200 § 18: O Filho do Homem

voa nas nuvens dos céus, derrota um exército incontável e reúne um exér­
cito pacífico (13,1-13). Segundo a interpretação da imagem (13,25-52), «o
homem» é aquele através do qual Deus «quer redimir a criação» (13,25),
«seu filho» (originalmente, provavelmente «seu servo») (13,32).*" Mas a ele
é atribuído apenas o que, segundo SI Sal 17, é esperado do messias, a
vitória sobre os povos inimigos de Deus e a reunião do verdadeiro Israel. “
Pelo que vimos, os três textos apocalípticos não apresentam uma ima­
gem uniforme do filho do homem. Se os compararmos com os ditos sinóticos
veremos que as afirmações do Enoque etíope e de IV Esdras nunca têm
paralelos diretos com eles. Também quanto ao conteúdo as duas imagens
divergem consideravelmente dos sinóticos, nos quais, p. ex., nunca se liga
a concepção de uma preexistência com o filho do homem, como no Enoque
etíope, se bem que já Marcos conhecesse uma cristologia semelhante. Por
conseguinte, as afirmações sinóticas não partem de tradições apocalípticas,
representadas pelo Enoque etíope e por IV Esdras. Outrossim, Dn 7,13 é
citado diversas vezes, mas somente em passagens posteriores, secundárias
(Mc 13,26 par; 14,62 par). Mesmo assim, esse capítulo era conhecido por
Jesus e pela comunidade primitiva. Para eles, era um ponto de partida no
que toca à concepção do filho do homem, como também o era para o Enoque
etíope, IV Esdras e para os rabinos. As afirmações sinóticas a respeito do
filho do homem parecem pressupor apenas uma concepção muito genérica,
semelhante àquelas a respeito do reino de Deus: Como mediador escato-
lógico da graça o filho do homem realizará o julgamento do mundo e erguerá
o reino de Deus. Não é de se supor que os sinóticos adotem uma tradição
judaica própria, como o supõe C olpe (p. 431s). Pelo contrário, o conteúdo
específico das afirmações a respeito do filho do homem foi desenvolvido a
partir da atividade de Jesus. A única questão que permanece, é a seguinte:
A té que ponto isso foi feito por ele próprio e até que ponto aconteceu na
comunidade, através da reflexão que desenvolveu a tradição a respeito de
Jesus?

3) Para esclarecer esta pergunta quanto a Lc 12,8, precisa-se evidenciar,


antes de mais nada, com o aqui se relaciona Jesus com o iilh o do homem.
O teor do dito exige a identidade; pois «negar» significa querer desconhecer
alguém que se conhece (Mc 14,71s). N o entanto, pode-se imaginar que o
homem Jesus tenha se identificado com o juiz escatológico do mundo? Ele
nunca explica como virá a ser o filho do homem-juiz universal celestial!
Inclusive os anúncios do sofrimento levam somente à ressurreição, e nunca
à parusia. Mas o caráter peculiarmente enigmático da afirmação não se
amolda à situação da comunidade, mas à de Jesus. O dito não apresenta
uma identificação inequívoca; não apresenta um esoterismo apocalíptico que
seja elucidativo, mas encobrimento no sentido da camada básica do mistério
do m essias (§ 17,V,3). Aos discípulos é dada uma promessa que os liga a
Jesus e que é compreensível apenas para quem o segue: Quem, aqui, se
deixa iniciar no discipulado, será confessado pelo juiz do mundo como alguém
a quem ele conhece. Quem permanecer firme no discipulado, será salvo 324

323. Cf. Joachim Jeremias, ThW V, 680, nota 196.


324. Talvez a referência ao «homem», em Sib 5,256.414 (ca. 70-100 dC), também é de ori­
gem judaica e não, cristã (cf. Jeremias, Theol., 257, nota 61). Entre os rabinos, Dn 7.13
é interpretado como referência ao messias, mas isso ocorre raras vezes (Billerb. I, 486s.956ss);
essa interpretação também é representada por Tryphon, no Diálogo de Justino (32,1).
V. O filho do homem presente 201

para sempre. O juiz o confessará assim como Jesus o faz agora, e esse fato
será, como agora, a condescendência graciosa de Deus. Por isso não se trata
de uma brincadeira fantástica, mas de um p ro lo n g a m en to d e sua a tivid a d e
presen te, se Jesus se identifica nessa promessa querigmática velada com o
juiz do mundo que há de vir — sem explicar e sem poder explicar como
ele virá nesta posição. (A suposição de que se pense, aqui, no filho do ho­
mem como uma testemunha de defesa ou de acusação no julgamento, elimina
a intenção da afirmação, sem eliminar a problemática.) A atividade de Jesus
aponta realmente para uma tal acentuação pessoal da esperança escatológica;
pois ela vive em função do reino que, através de sua pessoa, busca o homem.
Ele nunca dá apenas alguma coisa ao homem, mas sempre se dá a si próprio.
Conseqüentemente, com muita probabilidade, o próprio Jesus tomou a
concepção do filho do homem como modelo, dando-lhe tal conteúdo que ela
se transformou em expressão central de sua missão. Será que ele desenvolveu
também os outros dois círculos de afirmações, não mais relacionadas direta­
mente com a concepção apocalíptica a respeito do filho do homem?

V. O filho do homem presente

Entre as passagens referentes ao filho do homem presente, os versículos Mt


13,37.41; 16,13.28, bem como Lc 19,10; 22,48 (todos S ), são redacionais.
Na tradição mais antiga, no entanto, sobressaem duas séries d e a firm a çõ es;
uma é tradição de Marcos, e a outra, tradição de Q.

1) Em Marcos acentua-se, em duas ocasiões, uma a u toridade p resen te do


filho do homem: Ele é «senhor do sábado» (Mc 2,28 par) e tem «autoridade
para perdoar pecados» (Mc 2,10 par), — justamente estas duas afirmações
são acentuadas redacionalmente por Mateus com um citado de Os 6,6 (Mt
9,13; 12,7).
Segundo B u ltm a n n , “ ambas as passagens provêm de Jesus; no entanto,
filho do homem não seria originalmente um título, mas «perífrase para ‘Eu’».
Em contraposição, C o n ze lm a n n 328 considera, com razão, que os dois versículos
visam a uma autoridade própria de Jesus e atribui-os, por isso, à comunidade.
Mas, por que não poderia o próprio Jesus ter afirmado o que ocorria por
seu intermédio? Se ele adotou «filho do homem» como uma sigla, também
podia, por seu intermédio, expressar, em ambigüidade ocultante, esta ação
«judicial» escatológica «do homem».

2) Estas considerações histórico-tradicionais conferem também com os


três ditos provenientes de Q a respeito da hum ild a d e do filh o do hom em .
Segundo B u l t m a n n poderíam ser da autoria de Jesus, no entanto, não te-
riam o significado de um título. Mas, Mt 8,20 par: «As raposas têm c o v is .. . ,
o filho do homem não tem onde reclinar sua cabeça», não fala tristemente
da condição apátrida do homem, mas do filho do homem que é um foras­
teiro na terra, porque pertence aos céus. Também em Mt 11,19 par: «Veio
o filho do homem, que come e bebe,. . . o amigo de publicanos e pecadores»,
ele é o forasteiro e o das alturas que se dirige aos pecadores. Segundo Mt32567

325. Trad., 13.160s.


326. Theol., 153.
327. Theol., § 4,3.
202 § 18: O Filho do Homem

12,32 par, a «palavra contra o filho do homem» é perdoada por ser ele o
divino encoberto em humildade. Os três ditos têm significado de título; o
primeiro, em todo caso, é típico para a situação de Jesus, mas não para
a situação da comunidade. “

VL O sofrimento do filho do homem

Bem mais difícil é este terceiro círculo de concepções. Aqui a designação de


filho do homem nos leva a uma outra perspectiva importante da pessoa de
Jesus: Enquanto que o primeiro círculo aponta para a vinda do reino esca-
tológico de Deus, por seu intermédio, e o segundo, para a presença do
«totalmente diferente» nele, este terceiro aponta para a consum ação d e sua
m issã o a tra v é s d a p a ixã o . N a análise histórico-tradicional, é aqui que sempre
de novo se cruzam as duas perguntas: Donde provêm esses anúncios da
paixão? e como vieram a ser relacionados com a imagem do filho do homem,
quando anunciadas?

1 ) A primeira pergunta histórico-tradicional já surge aqui, em virtude


da grande desproporção existente na ireq ü ência dos ditos a respeito da pai­
xão do filho do homem, nas diversas fo n te s sin ó tica s: Enquanto que o pri­
meiro círculo de afirmações está distribuído de maneira mais ou menos uni­
forme pelas duas fontes sinóticas, tendo o segundo, em Marcos e em Q,
caráter distinto, o terceiro aparece de maneira intensiva e m M arcos, fa lta n d o
e m Q ; pois a única afirmação a respeito da morte do filho do homem em
lima passagem de Q, Mt 12,40, é secundária frente a par Lc.
C om o se p o d e ex p lic a r essa in e x istê n c ia e m Q? Supôs-se que os anúncios
da paixão tivessem surgido tão tardiamente que não mais foram incluídos
em Q, a mais antiga das fontes sinóticas. Outros procuram explicar esta
inexistência a partir da intenção querigmática desta fonte: Q não preten­
dería testemunhar a missão de Jesus, mas simplesmente «conservar a pre­
gação de Jesus para uma pregação posterior»;*" não teria sido esboçada a
partir do quérigma da paixão. N o entanto, temos que diferenciar um pouco
mais. Também Q vê, por trás da atividade de Jesus, sua rejeição por parte
de Israel. Segundo Lc 13,34s par Mt, Jesus é rejeitado como todo3 os men­
sageiros da sabedoria: A locução «vós não o quisestes» inclui, para Q, a
morte, e o anúncio de sua nova vinda se refere a sua aparição como filho
do homem, como o qual já está presente.*" Dessa maneira se aponta, tam­
bém aqui, para uma paixão do filho do homem, no entanto, de maneira
fundamentalmente diferente dos anúncios de sofrimento. E stes estão rela­
cionados com a história da paixão e são delineados por ela. Não os encon­
tramos na fonte dos ditos, porque ela não contém uma história da paixão —
ela a pressupõe como tradição de Marcos.

2 ) Os anúncios do sofrimento dividem-se em d ife re n te s grupos, n o evan­


g elh o d e M arco s: a) Os três anúncios do sofrimento, no sentido mais restrito
do conceito; b) o anúncio da traição, Mc 14,21 par; c) dois ditos a respeito 32890

328. E ssa é também a opinião de E. Schweizer, E m ied rlgun g und Erhohung, 44-46, contra
Conzelmann, Theol., 153.
329. T5dt, op. cit., 231.
330. Cf. P aul Hoffmann, Studlen zur Theologie der Logienquelle, 1972, 187-190.
VI. 0 sofrimento do filho do homem 203

do caráter expiatório da morte: Mc 10,45 par Mt 20,28; 12,24 par; cf. ICo
11,25; d) alegorias da morte de Jesus: Mc 10,38a; 14,36 par e Mc 10,38b S;
Lc 12,50 S. Sujeito desses anúncios é, em grande parte, o filho do homem,
se bem que nem sempre.

3) Os trê s anúncios d o so frim e n to , no sentido mais restrito do conceito,


na forma atual, são a camada mais recente desse conjunto da tradição. Antes
de tudo, são o fio vermelho redacional com cujo auxilio Marcos formou o
trecho entre a confissão de Pedro e a entrada em Jerusalém: Mc 8,31; 9,31;
10,33s. Se as analisarmos isoladamente, veremos que o terceiro, Mc 10,33s,
é u m su m á rio da h istó ria da p a ixã o na forma de anúncio antecipatório: «O
filho do homem será entregue aos sumo-sacerdotes e aos escribas, e condená-
lo-ão à morte e o entregarão aos gentios e hão de escam ecê-lo...» .
Tanto mais notável é o fato de que, no prim eiro anúncio do so frim e n to ,
Mc 8,31 par, m locuções do querigma da paixão e da história da paixão te­
nham que ser distinguidas claramente de um acervo mais antigo. Pois en­
contramos nele as locuções «sofrer muitas coisas» e «ser rejeitado», que,
originalmente, se referem a toda a paixão. “ A partir dessa e de outras
observações pode-se deduzir um acervo básico que tem o seguinte teor: «O
filho do homem tem que sofrer muito e ser rejeitado (e ressuscitar depois
de três dias)». Dessa maneira a formulação sucinta, em Mc 9,12 S; cf. Lc
17,25 S, é a que, ao que tudo indica, mais se aproxima do efetivo original.
Se perguntarmos pela o rig e m desse efetivo básico do primeiro anúncio
do sofrimento, veremos, a partir de indícios filológicos, que essa formulação
não foi traduzida diretamente do aramaico. O dei, «importa que», provém
do grego. N o grego extrabíblico significa o ía tu m , o destino; na apocalíptica
judaica de idioma grego, o plano salvífico escatológico preestabelecido de
Deus; nos evangelhos, o cumprimento da promessa de salvação da Escritura:
Em Mc 9,12, o d ei de Mc 8,31 é substituído por uma referência à Escritura:
«Pois como está escrito sobre o filho do homem, ...? » * * Segundo estas rela­
ções filológicas, o efetivo básico do primeiro anúncio do sofrimento prova­
velmente foi formulado na comunidade primitiva da Palestina, que falava
grego.
N o seg u n d o a núncio d o so frim e n to , Mc 9,31, * a primeira frase se dis­
tingue como efetivo básico. E ela praticamente nos força a reproduzi-la em
aramaico; pois então temos um jogo de palavras: «O filho do homem é en­
tregue nas mãos dos homens (aramaico: dos filhos do hom em ).*5 Esse dito
enigm ático muito provavelmente é da autoria do próprio Jesus:** Deus re­
jeita o filho do homem — trata-se de um p a ssiv u m d iv in u m — e entrega-o
aos homens; isso significa juízo! Quanto ao conteúdo, essa afirmação se 312456

331. D ele fazem parte Lc 17,25 («primeiro tem que padecer m uitas c o isa s...» ) e Mc 9,12b
(«como está e sc r ito ..., que sofresse m u ito ...» ). A análise histórico-tradicional desse grupo
encontra-se em Patsch, op. cit., 186-197.
332. Ernst Lohmeyer, Meyer-K. no que toca a Mc 8,31 e W ilhelm Michaelis, ThW V,
912-915, apontaram para esse fato.
333. E sse sentido de dal, «importa que», é justificado mmuciosamente por W alter Grund-
mann, ThW II, 21-25, e por Erich Fascher, Theologische Beobaehtungen zu d e l im AT,
ZNW 45 (1954), 244-252.
334. D ele fazem parte: Mc 14,41c par («entregue nas mãos dos pecadores») e Lc 24,7 S;
Ml 26,2 é redacional.
335. J. Jeremias, ThW V, 711; idem, Theol., 267.
336. Assim também Patsch, op. cit., 194s, e, com outros m otivos importantes Jeremias,
Theol., 267s. Popkes, op. cit., 165-169, quer deixar a questão aberta, especialmente por causa
do titulo «filho do homem». Esse titulo, no entanto, é «constitutivo» para a afirmação (Roloff,
op. cit., 39, nota 3).
204 § 18: O Filho do Homem

adapta às alegorias reunidas em Mc 10,38, que com muita certeza provêm


de Jesus: Jesus espera o batismo, a torrente, que segundo o AT significa
juízo, e o cálice, que segundo o AT também representa o juízo que vem
das mãos de Deus. A mesma visão é apresentada na única palavra da cruz,
provavelmente oriunda do próprio Jesus, Mc 15,34 par Mt 27,46: «Meu
D e u s ..., por que me abandonaste?» Jesus se sente excluído da ligação com
Deus, que para ele significava a vida.
Assim os anúncios do sofrimento de Mc, que atingem a sua culminân­
cia na noite da traição, bem como na palavra do cálice, se evidenciam na
história da tradição como um complexo de diversas camadas. E ’ difícil de
se compreender que C onzelm ann (Theol. p. 151) ainda concorde com o juízo
global de B u ltm a n n (Theol § 4,3) de que todos sejam vaticin ia e x e v e n tu .

4 ) E sse juízo falha por desconhecer o gênero do anúncio do s o frim e n to ,


E les não são va ticin ia , com exceção de Mt 10,33s, nem oráculos, nem pre-
núncios proféticos, como os que acompanhavam a Paulo em sua última via­
gem a Jerusalém: A t 20,23; 21,4.11. Eles não pretendem prever ou explicar
o destino do homem Jesus, mas desvendar o caminho do prometido. Um
dos últimos anúncios, o dito escatológico da instituição da santa ceia, Mc
14,25s, fala a seu respeito sem que seja usado um título correspondente:
Jesus anuncia renovação da comunhão com ele na consumação, pelo fato
de os seus haverem estado ligados a Deus por seu intermédio. Por isso é
correto que o sujeito do segundo anúncio do sofrimento tenha sido eviden­
temente, desde o início, o filho do homem. O dito é, segundo a sua forma,
uma profecia apocalíptica a respeito do caminho do filho do homem, e Jesus
é visto como o seu cumprimento.
A partir dessa análise da tradição e da forma, a pergunta pelo surgi­
mento dos «anúncios do sofrimento» precisa ser assim colocada: Como
surgiu a concepção de que o caminho do prometido tenha que passar por
sofrimento de morte, segundo o plano salvífico de Deus, e como o termo
«filho do homem» se tornou seu sujeito?

VIL O sofrimento mortal do prometido

1 ) Segundo a exposição dos evangelistas, a comunidade julga poder encontrar


essa concepção na «E sc ritu ra ». O evangelho de Marcos aponta seis vezes a
um cumprimento da Escritura por intermédio de Jesus. Com exceção de uma
passagem, todas estas passagens se referem a seu sofrimento. Dessas cinco
passagens, no entanto, apenas duas citam determinadas profecias: Mc 12,10s
cita SI 118,22: «A pedra que os construtores rejeitaram ...», e Mc 14,27
cita Zc 13,7: «Ferirei o p a sto r ...» . A s outras três passagens aludem ape­
nas de maneira generalizada à Escritura: Mc 9,12s; 14,21.49. O mesmo
resultado trazem as referências adicionais em Mateus e Lucas; elas apre­
sentam apenas mais um único citado, Lc 22,37 = Is 53,12.
O resultado, portanto, é o seguinte: Ensina-se, com ênfase, que o sofri­
mento da morte de Jesus corresponde à profecia da Escritura a respeito
do prometido. N o entanto, quase não se encontram passagens correspondentes
da Escritura. Ao que tudo indica, a concepção do sofrimento mortal do pro­
metido n ão fo i d eduzida do A T ; e realmente não a encontramos na Escritura
VII. O sofrimento mortal do prometido 205

— se deixarmos de lado a passagem obscura de Is 53. Antes foi inserida na


Escritura como um postulado que apenas posteriormente pôde ser comprovado
através de uma interpretação artificial. Será que então a raiz dos anúncios
do sofrimento é apenas um postulado dos teólogos do cristianismo primitivo?

2 ) Será que a concepção de um sofrimento do prometido havia sido


preparada pela esperança ju d a ic a ?
Em 1888 G u stav D alm an, numa extensa análise,®1 chegou à conclusão
de que, na época de Jesus, o judaísmo não teria conhecido a concepção de
um messias sofredor. A partir deste fato, outros inferiram que as referên­
cias do anúncio do sofrimento à Escritura seriam postulados da comunidade
e de que os anúncios do sofrimento seriam vaticin ia e x even tu . A fim de
refutar historicamente estas deduções, Joachim Jerem ias procurou demonstrar,
em diversas publicações, por último no artigo do ThW a respeito do pais
theou, que no judaísmo se teria ensinado esotericamente a respeito do messias
sofredor. 37383940 Seus argumentos, no entanto, foram refutados por E rik Sjô~
b erg ,** de maneira que, no momento, parecem vigorar as seguintes con­
vicções:

a ) A s imagens do filho do homem do Enoque etíope e de IV Esdras


não contêm referências a um sofrimento. No livro de Enoque, algumas
locuções dos hinos sobre o servo de Deus de D t-Is são transferidas para o
filho do homem,*" e, em IV Esdras 13,32.37.52, ele é designado de «meu
servo»; no entanto, em ambas as ocasiões, não se alude a um sofrimento.

b ) O ambiente judeu de Jesus não falou de um sofrimento de morte do


prometido, mesmo fazendo uso de outras designações. Billerb. II, 274ss e E.
Sjõberg demonstraram isso de maneira convincente.

c ) Também a imagem do profeta-mártir, em Is 53, não foi interpretada


de maneira messiânica (Billerb. I, 481ss).
A obstinada incompreensão de parte dos discípulos com respeito ao ca­
minho de sofrimento de Jesus mostra quão estranha era, para o ambiente de
Jesus, a concepção de que o prometido tivesse que sofrer segundo a vontade
de Deus. Contra esta obstinação é que se volta a palavra severa dirigida a
Pedro, Mc 8,33 par: «Afasta-te de mim, Satanás!»
Logo, a afirmação do anúncio do sofrimento, de que o prometido seria
glo