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Título do original cm russo:

EVOLYUTSIÔNNOE VVEDENTE V’PSIKHOLÓGUIYU

Capa:
Do u n ê

Diagramação:
L éa C a ULLIRAUX

Revisão:
U m b e r t o F . P in t o
e M a r io E l b e r C u n h a

Direitos desta edição adquiridos


com exclusividade para a língua portuguesa pela
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S.A.
Rua Muniz Barreto, 91-93,
«10 DE JANEIRO — R J,
que se reserva a propriedade desta tradução,

1979

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
Sumário

I — A P s ic o l o g ía Co m o Ciê n c ia . O O b j e t o е а
I m po r t â n c ia P r á t ic a 1
A história da Psicologia como ciência 2
A Psicologia е outras ciências 7
Partes principais da Psicologia 11
Os métodos em Psicologia , 17
A importância prática da Psicologia 23
1
П — A E v o l u ç ã o d o P s iq u is m o 29
A origem do psiquismo 29
Variabilidade do comportamento dos protozoários 32
Mecanismos do comportamento dos protozoários 34
Origem do sistema nervoso e suas formas mais
simples 36
O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos
programas de comportamento mais simples 38
Surgimento das formas complexas de programa-
ção hereditária do comportamento ( “instintivo” ) 42
O sistema nervoso central e o comportamento
individualmente variável dos vertebrados 50
Mecanismos do comportamento individualmente
variável 56
O comportamento “intelectual” dos animais 62
Fronteiras do comportamento individualmente va-
riável dos animais 68
C o n s c ie n t e do Ho me m e Su a s

gerais
e a formação da atividade consciente
linguagem e a consciência do homem
A importância da linguagem para a formação dos
processos psíquicos

IV — O Cé r e b r o E os P r o c e s s o s P s íq u ic o s

O problema da relação dos processos psíquicos


com o cérebro
Princípios da organização funcional do cérebro
humano
Os três “blocos” principais do cérebro
O bloco do tônus do córtex ou bloco energético
do cérebro
Bloco do recebimento, elaboração e conservação
da informação
O bloco da programação, regulação e controle de
atividade
O princípio da lateralização no funcionamento dos
grandes hemisférios

>
71

71
95
77
I
81

85 A Psicologia Como Ciencia.


O Objeto e a Importancia
85
Prática
93
94

95

100

107 O h o m e m v iv e e atua em um meio social. Sente necessi-


dades c procura satisfazê-las, recebe informação do meio circun-
113 dante e por ele se orienta, forma imagens conscientes da realida-
de, cria planos e programas de ação, compara os resultados de
sua atividade com as intenções iniciais, experimenta estados
emocionais e corrige os erros cometidos.
Tudo isto representa a atividade do homem no plano psico-
lógico, que constitui o objeto de uma ciência: a Psicologia.
Esta ciência se propõe a tarefa de estabelecer as leis básicas
da atividade psicológica. / estudar as vias de sua evolução^
descobrir os mecanismos que lhe servem de base/e descrever
as mudanças que ocorrem nessa atividade nos estados patológi-
cos. Só uma ciência capaz de estudar as leis da atividade psico-
lógica com uma precisão possível pode assegurar o conhecimento
dessa atividade e sua direção em bases científicas. Ê justamente
por isso que a Psicologia científica se torna uma das disciplinas
mais importantes, cujo significado crescerá cada vez mais com o

I
desenvolvimento da sociedade e o contínuo aperfeiçoamento dos
seus métodos.

A história da Psicologia como ciência

.IGE é muito breve a história da Psicologia como ciência. No


'NSC entanto remontam a um passado muito distante as primeiras
tentativas de descrever a vida psíquica do homem e explicar
A as causas dos seus atos. Na Antiguidade, por exemplo, os médi-
ca ( cos já entendiam que para identificar as doenças era necessário
ria c saber descrever a consciência do homem e descobrir as causas
Psi. dos seus atos.
nent Esse enfoque materialista do comportamento do homem
rsos foi, séculos a fio, combatido pela filosofia idealista e a Igreja,
rsida que viam na consciência do homem uma manifestação da sua
o e vida espiritual, considerando que esta não obedecia às mesmas
ibon leis a que se subordinava toda a natureza material e por isto
trodi sua análise não podia ser feita a partir da explicação causal dos
fenômenos.
fina Por esses motivos o mundo psicológico do homem e sua
dos consciência foram vistos durante séculos como fenômenos ds
га C tipo especial, isolados de todos os outros processos naturais.
£• Os filósofos assumiam diferentes posições em relação à cons-
presi ciência, considerando-a manifestação da razão divina ou resul-
) da tado de sensações subjetivas, onde eles viam os “elementos”
ulo mais simples que serviam de base à consciência. Mas todos os
: leit filósofos idealistas estavam imbuídos da convicção de que a vida
ndar psíquica devia ser entendida como xnanifesTãçlo de um mundò
esta subjetivo especial, que podia ser revelado somente nà atitcP
onis observação, sendo inacessível à análise científica objetiva ou
ienti à explicação cientiíIcãT
/oluc Séculos a fio esse enfoque dos processos psíquicos deteve
ualis a evolução da psicologia científica, e mesmo depois de os pro-
lexif: cessos do mundo exterior se haverem tornado objeto de estudo
m i científico preciso os fenômenos da vida psíquica do homem
istór continuaram sendo vistos como manifestação de um mundo
volui espiritual específico, acessível apenas à descrição subjetiva.
diV' A divisão de todos os fenômenos em duas grandes catego-
iso rias — a categoria dos fenômenos físicos, acessíveis à explicação
,uria causal, e a dos fenômenos psíquicos, inacessíveis à análise cien-
ue t
e o
■roce 2
tífica objetiva — foi consolidada pelas teses básicas da filosofia
dualística de Descartes, para quem todos os processos físicos,
incluindo-se o comportamento animal, estão subordinados ás
leis da mecânica, ao passo que os fenómenos psíquicos devem
ser considerados como formas do espirito, cuja fonte de conhe-
cimento pode ser encontrada apenas na razão ou intuição.
O enfoque dualista se manteve ató período recente na filo-
sofia e Psicologia em muitos países. Se considerarmos que os
pensadores do século XIX começaram a focalizar os processos
elementares dos campos físico e psíquico (incluindo sensações
c movimentos) como processos naturais suscetíveis de estudo
por métodos científicos exatos, os fenômenos sdperiores do
campo psíquico (consciência, pensamento) continuavam a ser
considerados manifestação do campo espiritual, que podia ser
abordado somente por meio da descrição subjetiva dos fenóme-
nos que nele ocorrem. Essa tese lej^ou à divisão real da Psicolo-
gia em dois campos no final do século XIX: a Psicologia natura-
lista científica ou Psicologia fisiologista, que tentava estudar com
precisão e explicar pela causalidade os processos psicológicos
elementares e definir-lhes as leis objetivas, e a Psicologia descri-
tiva ou subjetiva, que estudava as formas superiores do campo
consciente do homem, enfocando-as como manifestações do
espírito. O enfoque dualista aos fenômenos do campo psicoló-
gico refletiu-se nos trabalhos dos clássicos da psicologia como
os psicólogos alemães Wilhelm Wundt (1832-1920), Hermann
Ebblnghaus (1856-1909), o psicólogo americano William James
(1842-1910) e o representante da filosofía idealista Wilhelm
Dilthey (1833-1911) e outros.
A influência do enfoque dualista dos fenómenos psicológi-
cos levou a Psicologia ao impasse e provocou tentativas naturais
de superar a estagnação surgida nessa ciência, de aplicar méto-
dos das ciencias naturais ao estudo dos processos psicológicos
c fazer destes a mesma análise que se fazia de todos os outros
fenômenos da natureza.
Essa tendência, que já surgira com os materialistas france-
ses e ganhara formulação nítida com os democratas revolucio-
nários russos em meados do século XIX, teve sua patente mani-
festação na obra do célebre fisiologista russo Ivan Mikháylo-
vitch Sétchcnov (1829-1905).
Em sua famosa obra, Os reflexos do cérebro, Sétcheuov
expôs a idéia segundo a qual até os processos mais complexos
do campo psíquico devem receber tratamento materialista e sor
' V'U1
í#
abordados como reflexos complexos; segundo essa idéia, o
pensamento é um reflexo igualmente complexo pofém inibido,
carente dc fim motor externo. Para ele, os fenômenos do mundo
psíquico devem ser estudados pelo naturalista com os mesmos
meios empregados no estudo de outros fenômenos da natureza.
Essa linha de pensamento foi seguida por outro notável fisiolo-
gista russo, Ivan Petrov Pávlov (1849-1936), criador do estudo
objetivo da atividade nervosa (psíquica) superior com a aplica-
ção dos reflexos condicionados. Outros notáveis representantes
da ciência russa, como M. D. Bckhteryev (1857-1927), A. A.
Ukhtomsky (1857-1942) e outros tentaram formalizar um
enfoque das bases objetivas e fisiológicas da atividade psíquica
e fundamentar a possibilidade de uma Psicologia objetiva e
naturalista.
São essas as razões pelas quais o mundo psicológico do
homem e sua consciência foram tratados, durante séculos, como
fenômenos de tipo especial, isolados de todos os outros processos
naturais.
A doutrina dos reflexos condicionados de Pávlov, que ele
mesmo via como base fisiológica da ciência psicológica, exerceu
infltrêrtcnr тагсапте~на evolução da Psicología americana. Em
fins do século XIX, o psicólogo americano Edward Lee Thorn-
dike começou a estudar o comportamento dos animais, aplicando
métodos que permitiam observar como os animais adquiriam
novas habilidades em laboratório. Essas pesquisas serviram de
base a uma nova corrente na Psicologia, denominada behavio-
rismo (ciência do comportamento) pelo psicólogo americano
J . B. Watson. Nessa corrente, Watson via a forms científica
natural da ciência psicológica, que devia substituir a Psicologia.
Partindo da tese segundo a qual a “consciência” não passa de
um conceito subjetivo, inacessível à pesquisa objetiva, os beha-
vioristas americanos propuseram que se considerasse objeto da
pesquisa cientifica apenas o comportamento externo do animal,
comportamento esse que eles consideravam resultado das incli-
nações (necessidades) biológicas dos animais e dos reflexos
condicionados a eles sobrepostos. Assim surgiu uma nova cor-
rente па ciencia, ~que abandonava todo o estudo do mundo
subjetivo c limitava-se à descrição das formas exteriores de
comportamento, cujas leis eram tratadas como sistema de habi-
lidades mecanicamente constituído, inteiramente suscetíveis de
análise naturalista.
A tentativa de substituir a Psicologia pelo estudo do com -1
portamento exterior e das leis da aquisição de habilidades
complexas era reflexo da luta por uma Psicologia científica
objetiva e teve importância progressista em sua época.
Mas o behavíorismo americano, como exemplo de um
enfoque excessivamente mecanicista da atividade psíquica, iria
revelar muito breve as suas limitações e levar a Psicologia a
uma crise não menos patente do que a crise do enfoque dualista
dos fenômenos psíquicos,
Por outro lado, o que ficou evidente alguns anos após a
tempestuosa evolução do behaviorismo americano, a explicação
mecanicista nele dominante de processos como a formação de
habilidades não mostrava os autênticos mecanismos fisiológicos
destas e substituía sua pesquisa fisiológica científica por uma
descrição exterior c uma interpretação mecanicista desses fenô-
menos. Por outro lado, a imensa p a ra la de formas complexas
da atividade psíquica do homem, que se manifesta na atividade
consciente dos modos e procedimentos superiores de compor-
tamento específicamente humanos, de atenção ativa, da memo-
rização arbitrária e do pensamento lógico era gcralmente mantida
à margem do campo da pesquisa científica.
Era por isso que nos limites do próprio behaviorismo já
começava a surgir a necessidade de ultrapassar os limites das
descrições mecanicistas simplificadas das habilidades elementares
e passar a uma análise científica das formas mais complexas da
atividade psíquica do homem.
Foi essa necessidade de criação de uma Psicologia auténti-
camente científica, capaz de abordar com métodos científicos
objetivos as formas mais complexas da vida psíquica do homem,
que se converteu na questão fundamental que a década de 30
do nosso século assimilou como condição que podia tirar a
Psicologia do estado de brise.
As vias para superar a crise na Psicologia foram formula-
das pela primeira vez pelo notável psicólogo soviético Lyev
Semiônovitch Vigotsky (1896-1934); elas se converteram na
base para a posterior evolução da Psicologia como ciência, a
princípio na URSS e em seguida além de suas fronteiras.
Como já tivemos oportunidade de salientar, o sentido
histórico da crise da Psicologia deveu-se ao fato da evolução
desta ciência ter assumido duas direções. A primeira, que dava
continuidade às tradições do enfoque científico-natural dos
fenômenos, propunha-se a tarefa de explicar os processos psí-

5
quicos limitándose de fato aos processos psicofisiológicos mais
elementares e recusándose a examinar os fenômenos complexos
e específicamente humanos da atividade consciente. A segunda
orientação tomou como objeto de sua análise justamente esses
fenômenos exteriores da atividade consciente especificamente
humanos, limitando-se, porém, à descrição das manifestações
subjetivas de tais fenômenos, considerando-os manifestação do
espírito e recusando-se a dar aos mesmos ura enfoque científico
causal.
Para Vigotsky, a tarefa principal para superar essa crise
consistia em converter em objeto da pesquisa as formas superio-
res e especificamente humanas de atividade consciente e enfocá-
las da ótica da análise científica, explicar por via causal a sua
origem e definir as leis objetivas a que elas se subordinam.
Mas a execução dessa tarefa exigia uma revisão radical das
teses básicas da Psicologia.
—■
— p7 Como observou Vigotsky, a tentativa de enfocar o psiquis-
mo como função imediata do cérebro e procurar a sua fonte
no recôndito do cérebro é tão inútil quanto a tentativa de consi-
derar o psiquismo como forma de existência do espírito. A vida
psíquica dos animais surge no processo de sua atividade e é
uma fornia de representação da realidade, é realizada pelo cére-
bro mas pode ser explicada somente pelas leis objetivas dessa
atividade representativa. De modo semelhante, as formas supe-
riores de atividade consciente, de atenção ativa, memorização
arbitrária e pensamento lógico que são específicas do homem
não podem ser consideradas produto natural da evolução do
cérebro, sendo o resultado da forma social esvecUica de vida.
que é característica do homem. Para explicar por via causal as
funções psíquicas superiores do homem, é necessário ir além dos
limites do organismo e procurar-lhes as fontes não no recôndi-
to da alma ou nas peculiaridades do cérebro mas na história social
da humanidade, nas formas de linguagem e trabalho social que
se constituíram ao longo da história da sociedade e trouxeram
para a vida tipos mais aperfeiçoados de comunicação e novas
formas de atividade consciente.
Ão procurar tornar-se ciência autêntica, a Psicologia deve
estudar a origem socialmente histórica das formas superiores
de atividade consciente e assegurar uma análise científica das
leis que lhes servem de base.
Essas teses básicas mudam radicalmente as tradições da
psicologia dualista e delineiam nitidamente o objeto de uma
Psicologia científica.
A Psicologia do homem deve ocupar-se da análise das^
formas complexas de representação da realidade, que se consti-

cérebro humano. Ela deve substituir a anterior descrição subje-


tiva das formas complexas de atividade consciente por unia
análise científica objetiva dessas formas, sem substituir essa tare-
fa pelo estudo dos processos fisiológicos que lhes servem de
base nem limitar-se à descrição exterior dos mesmos. É essa a
tarefa da ciência psicológica, que deve estabelecer as leis da
sensação e percepção humana, regular os processos de atenção e
memorização, de realização do pensamento lógico, formação das
necessidades complexas e da personalidade, considerando todos
esses fenômenos como produto da história social e sem sepa-.
гаг esse estudo da análise dos mecanismos fisiológicos_queJhes
servem de base. IÉ isto que constituirá a essência da Psicologsj
geral no todo e da psicologia do homem no particular.

A Psicologia e outras ciências

A Psicologia só pode desenvolver-se em estreita ligação


com outras ciências, que não a substituem mas lhe asseguram
informação importante para que ela possa ser bem-sucedida na
elucidação do seu próprio objeto.
A biologia é a primeira ciência com a qual a Psicologia
deve manter a mais estreita ligação.
Se a Psicologia animal opera com as formas de comporta-
mento dos animais que se desenvolvem no processo de interação
deles com o meio, toma-se absolutamente claro que a completa
interpretação das leis do comportamento animal é impossível
sem o conhecimento das formas básicas de vida que constituem
o objeto da biologia, ê necessário ter uma noção suficientemente
nítida das diferenças que existem na vida dos vegetais e animais
para perceber o principal que distingue todo tipo de comporta-
mento ativo, baseado na orientação no meio circundante, das
formas de vida que se esgotam com os processos de metabolismo
e podem ocorrer fora das condições de uma orientação ativa
na realidade. Ê necessário ter uma noção precisa do que muda

7
ф

nas condições de vida com a transição da existência de unicelu-


lares num meio aquático homogéneo a formas incomparavel-
mente mais complexas de vida multicelular, sobretudo nas con-
dições de existência terrestre, que apresenta exigências imensas
à orientação ativa baseada nas condições do meio, orientação
essa que é a única que pode assegurar sucesso na obtenção de
alimentos e conjuração de perigos. É necessário conhecer bem a
diferença de princípios de vida entre o mundo dos insetos, com
sólidos programas congénitos que asseguram uma sobrevivência
bem-sucedida em condições estáveis e são capazes de conservar
a espécie até em condições de mudança, e o mundo dos verte-
brados superiores com seus poucos descendentes, que podem
sobreviver somente com a evolução de novas formas individual-
mente mutáveis de comportamento, que garantem a adaptação
ao meio em mudança. Sem esses conhecimentos dos princípios
biológicos gerais de adaptação não se pode assegurar nenhuma
compreensão nítida das peculiaridades do comportamento dos
animais e qualquer tentativa de interpretar as complexas formas
dc atividade psíquica do homem perderá sua base biológica.
Eis porque é absolutamente necessário para a Psicologia
científica levar em conta as leis básicas da biologia e novas
partes delas como a ecologia (doutrina que estuda as condições
do meio e suas influências) e a etologia (doutrina das formas
congénitas de comportamento). £ natural que os fatos consti-
tuintes do objeto da ciência psicológica não podem, em hipóte-
se nenhuma, reduzir-se a fatos biológicos.
A segunda ciência com a oual a Psicologia deve manter a
mais estreita ligação é a fisloloBia. sobretudo a parte referente
à atividade nervosa superior.
A fisiologia trata dos mecanismos que exercem diferentes
funções no organismo, ocupando-se da atividade nervosa supe-
rior dos mecanismos de trabalho do sistema nervoso que concre-
tizam o “equilíbrio” do organismo com o meio.
Ê fácil perceber a absoluta necessidade de conhecer o pape!
desempenhado nesse último processo pelas diferentes fases do
sistema nervoso, de conhecer as leis pelas quais realiza-se a
regulação dos processos de metabolismo no organismo, pelas
quais se regulam as leis de funcionamento do tecido nervoso, que
materializa os processos de excitação e inibição, e das comple-
xas formações nervosas que executam os processos de análise e
síntese, de confluência das conexões nervosas, c asseguram os
processos de irradiação e concentração da excitação; é igual-
mente importante o conhecimento das formas básicas de traba-
lho das células nervosas, que se encontram em estado normal
ou inibido (fásico). Tudo isso é absolutamente necessário para
que o psicólogo, que estuda os tipos principais de atividade
psíquica do homem, não se limite à simples descrição desses
tipos mas saiba em que mecanismos se baseiam essas formas
altamente complexas de atividade, conheça os dispositivos que
as executam, os sistemas em que elas ocorrem. Desconhecer as
leis da fisiologia implicaria em privar a Psicologia je uma das ¡
fontes mais importantes de conhecimento científico. Para a Psi-
cologia, tem importância decisiva a sua ligação com as ciências
sociais.
As formas principais de atividade psíquica do homem
surgem nas condições da história social, desenvolvem-se no pro-
cesso de atividade material surgido ao longo da história, baseiam-
se nos meios que se formaram no processo de trabalho, de
emprego dos instrumentos de trabalho e da linguagem. Se não
usasse os instrumentos de trabalho e a linguagem, o homem não
disporia sequer de uma ínfima parte das possibilidades de que
dispõe o seu comportamento concreto, ficaria privado da comu-
nicação com o meio ambiente, evoluiria à margem das condi-
ções do mundo material — surgido no processo da história da
sociedade — nem assimilaria a experiência de toda a humani-
dade, que é transmitida por meio da linguagem, esse receptáculo
da informação. ¡E natural que as formas de atividade do homem
são executadas pelo cérebro c se apóiam nas leis dos seus pro-
I cessos nervosos superiores. Por si mesmo nenhum sistema nervo-

I
so é capaz de assegurar a formação da capacidade de usar
instrumentos de trabalho e linguagem e explicar o surgimento
das formas altamente complexas de atividade humana, surgidas
no processo da história social.
A verdadeira relação entre a Psicologia e a fisiologia con-
siste em que a primeira estuda as formas e meios de atividade
que surgiram no processo da história social e determinam o
comportamento, enquanto a fisiologia da atividade nervosa
superior estuda os mecanismos naturais que materializam ou
realizam esse comportamento.
Tentar reduzir a Psicologia do homem à fisiologia da ativi-
dade nervosa superior — como em certa época propunham os
pensadores mecanicistas — implicaria em cometer o mesmo
erro do arquiteto que tentasse reduzir a origem e a análise dos
estilos gótico e barroco ou o estilo Império às leis da resistência

9
dos materiais que ele naturalmente deve levar em conta mas cf¡/b
em hipótese nenhuma podem explicar a origem dos estilos
arquitetônicos.
O êxito do desenvolvimento da Psicologia depende grande-
mente da correta compreensão da correlação dessas duas ciên-
cias e tanto o desconhecimento da fisiologia como a tentativa de
reduzir a Psicologia à fisiologia retardariam o desenvolvimento
da ciência psicológica.
O que acabamos de afirmar deixa clara a imensa importân-
cia que tem para a Psicologia a sua ligação com as ciências
sociais. Se na formação do comportamento do animal as condi-
ções biológicas de vida desempenham papel determinante, na
formação do comportamento do homem esse papel é desempe-
nhado pelas condições da história social, que cria formas novas
de uma complexa relação com a realidade, mediada pelas condi-
ções de trabalho, formas essas que são as fontes de novas formas
específicamente humanas de atividade psíquica.
Adiante teremos oportunidade de ver que o primeiro empre-
go de instrumentos de trabalho e a primeira forma de trabalho
social introduziram mudança radical nas principais leis biológicas
de construção do comportamento e que o surgimento c, poste-
riormente, o emprego da linguagem — que permite conservar e
transmitir a experiência de gerações — levaram ao surgimento
de uma nova forma de evolução inexistente entre os animais:
a forma de evolução mediante a assimilação da experiência
social. A ciência psicológica atual, que estuda antes de tudo
as formas específicamente humanas de atividade psíquica, não
pode dar um só passo sem levar em conta os dados que obtém
das ciências sociais: do materialismo histórico, que enriquece
as leis básicas do desenvolvimento da sociedade, e da lingüística,
que estuda as formas básicas de linguagem, surgida na história
da sociedade.
Só levando minuciosamente em coata as condições sociais,
que formam a atividade psíquica do homem, pode a Psicologia
obter uma sólida base científica. Encontraremos a aplicação
desse princípio em todas as páginas seguintes, quando exami-
naremos todos os fatos psicológicos concretos. Ê essa a relação
da Psicologia científica com as outras ciências, com as quais ela
se desenvolve em estreito contato.
Partes principais da Psicologia

A Psicologia, que até recentemente não era uma ciência


dividida, representa hoje um sistema amplamente ramificado de
disciplinas, que estudam a atividade psíquica do homem em
diferentes aspectos. O que já dissemos antes deixa claro que
algumas partes da Psicologia estudam as bases naturais dos
processos psíquicos, aproximando-se da biologia e Jisiología,
enquanto outras partes estudam os fundamentos sociais da ativi-
dade psíquica, aproximando-se das ciências sociais.
A posição central cabe à Psicologia Geral, que estuda as
formas básicas de atividade psíquica e constitui a viga-mestra
de todo o sistema de disciplinas psicológicas. Afora a introdução
teórica evolucionista, o exame de várias partes científicas faz
parte da composição da Psicologia Geral. Entre essas partes
incluímos a análise dos processos cognitivos (começando pelas
sensações e percepções e terminando nas formas mais complexas
de pensamento; compõem essa parte a análise das condições em
que ocorrem os processos psíquicos e a análise das leis do pensa-
mento, da memória, imaginação, etc.), a análise dos processos
afetivos (as necessidades do homem, as formas complexas de
emoções), a análise da estrutura psicológica da atividade do
homem e da regulação do seu desempenho e, por último, a análi-
se da psicologia do indivíduo e das diferenças individuais.
As partes aqui referidas serão objeto de exame das próxi-
mas páginas do presente livro.
A elaboração dos problemas gerais da Psicologia foi objeto
de trabalhos de muitos pensadores célebres, entre os quais se
situam clássicos como W. Wundt na Alemanha, W. James nos
EUA, A . Binct e P . Janet na Franca e contemporâneos com o
L. S. Vigotsky, S. L. Rubinstein, A. N. Leôntyev, A. A. Smimov
e V. M. Têplov na u r s s , A . Vallon, A. Piéron e P . Fraisse na
França. E. Nolman, G. Miller e J . Bruner nos e u a , uonãíd!
Hebb no Canadá e J. Broadbent na Inglaterra, etc.
é contíguo à Psicologia Geral o grupo de partes biológicas
da Psicologia. Todas elas estudam as bases naturalistas da ativi-
dade psíquica do homem.
A primeira dessas disciplinas é a Psicologia comparativa ou
Psicologia animal. Esta disciplina estuda as peculiaridades do
comportamento animal em etapas sucessivas da evolução, aque-
...

Ias peculiaridades que dependem das condições de vida c da


estrutura anatômica dos animais. Ela descreve os processos de
mudança das formas de comportamento animal dependendo das
exigências que o meio lhes impõe c dos principais tipos de adap-
tação às condições de vida, que são dc caráter muito variado
quando se tornam complexas as formas de vida.
A segunda das disciplinas pertencentes ao grupo biológico
das ciências psicológicas é a Psicologia fisiologista ou Psico-
jisiologia.
As bases dessa ciência foram lançadas na segunda metade
do século XIX por pensadores que se propunham a tarefa de
estudar os processos psicológicos do homem com a aplicação
de diversos métodos fisiológicos, dc estudar os mecanismos
fisiológicos dos processos psicológicos. Foram precisamente esses
pensadores que organizaram os primeiros laboratórios de Psico-
logia e elaboraram minuciosamente partes da Psicologia como
a doutrina das sensações, sua medida e seus mecanismos bási-
cos, a doutrina das leis básicas da memória e da atenção, a
doutrina dos mecanismos psicofisiológicos do movimento, etc.
É natural que a Psicologia fisiologista sc aproxime da fisio-
logia, particularmente da fisiologia dos órgãos dos sentidos e
da fisiologia da atividade nervosa superior. A diferença consiste
em que os cientistas que se ocupam desse problema tomam
como objeto a análise das formas concretas de atividade psíqui-
ca, estudando as sensações e percepções, a atenção e a memória
do homem, bem como a estrutura dos seus processos motores
e a mudança destes no processo de exercício e fadiga, procuram,
empregando os métodos mais precisos, estabelecer os mecanis-
mos fisiológicos e as leis pelas quais esses processos se realizam.
A psicofisiologia, permanecendo disciplina psicológica especial,
está para a fisiologia assim como a bioquímica está para a
química ou a biofísica para a física. Ela não abstrai um instante
sequer o fato de que os processos por ela estudados fazem parte
da complexa atividade psíquica do homem, não esquece as com-
plexas peculiaridades da estrutura desses processos e apenas
tenta descobrir os mecanismos fisiológicos que lhes servem de
base.
Uma parcela considerável dos conhecimentos das leis de
realização de processos psíquicos particulares foi acumulada
justamente por essa área da ciência psicológica, à qual estão
estreitamente ligados os nomes de grandes cientistas como Gustav
Fechner e Weber (os primeiros a medir as sensações), Wilhelm
Wundt (o primeiro a aplicar amplamente métodos psicofiáioló-
gicos de estudo dos processos psíquicos), Hermann Ebbinghaus
c Hermann Joseph Müller (os primeiros a abordar métodos
exatos de medição da memória e seus mecanismos específicos),
assim como Piéron na França, Edward Titchener nos e u a , os
i grandes psicólogos atuais como O. R. Lindsley ( e u a ), Broad-
bent (Inglaterra), Fraisse (França) e outros.
Essa área da ciência psicológica recebeu imensa informa-
ção dos trabalhos de clássicos notáveis da fisiologia como Pávlov,
criador da doutrina da atividade nervosa superior, N.4È. Vve-
densky, criador da doutrina da génese patológica, A. A.
Ukhtomsky, cujos trabalhos permitiram introduzir uma nova
área da ciência do comportamento: a doutrina dos dominantes,
L. A. Orbeli, autor de importante contribuição à fisiologia evolu-
cionista bem como fisiologistas contemporâneos como P. A .
Anokhin, criador da doutrina dos sistemas funcionais, N.
A . Bernstein, introdutor do novo conceito de organização do
movimento, G. V. Gershuni e S. V. Kravkov, que enriqueceram a
ciência com dados relativos ao funcionamento da audição e
visão, etc.
A terceira disciplina componente do grupo biológico das
ciências psicológicas c a neuropsicologia.
Esta disciplina tem por tarefa o estudo do papel que desem-
penham os aparelhos particulares do sistema nervoso na estru-
turação dos processos psíquicos.
É fácil perceber que o papel das formações subcorticais e
do paleocórtex no processo da atividade psíquica é inteiramente
diferente do papel do neocórtex e dos grandes hemisférios cere-
brais . Há, porém, fundamentos para supor que também o papel
do algumas regiões do córtex cerebral na organização dos com-
г plexos processuais psíquicos não é idêntico e que todas as áreas
do cérebro — parietais, temporais e occipitais — dão sua con-
tribuição toda especial para o processo de atividade psicológica.
Esse novo campo da Psicologia emprega em suas pesquisas
uma análise psicológica minuciosa tanto das irritações como
das destruições de áreas isoladas do cérebro, estuda as mudanças
dos processos psíquicos que surgem quando ocorrem afecções
locais do cérebro e tira, de suas observações, conclusões rela-
cionadas com a estrutura interna dos processos psíquicos.
Esse campo da Psicologia é representado por estudiosos de
diversos países como K. S. Lashley e К, H. Pribram ( e u a ),

13
* £ -' -Ь*" - — ^ 4 i h A ü a L Í - a n i - - i T - o - g - i b . ’. ' - - ift.iinmiUff)

A. R. Luria ( u r s s ), O. L. Zangwjli (Inglaterra), B. Milner


(Canadá) e outros. Podemos colocar ao lado da neuropsicologia
a psicopatologia, que estuda as peculiaridades dos processos
psíquicos observáveis nos doentes psíquicos, e permite que nos
aproximemos mais de um estudo científico das doenças mentais
e do descobrimento de algumas leis gerais da atividade psíquica
que se manifesta nos estados patológicos.
A psicopatologia fpi elaborada com êxito por muitos psi-
quiatras (Kraepelin, na Alemanha, Janet, na França, Békhterev,
na Rússia) e pelos psicólogos contemporáneos (В. V. Zcygar-
nik, na u r s s , Pecheau, na França, e outros).
Uma área especial, situada nas fronteiras da psicofisiologia
e da neuropsicologia, é representada pelo estudo dos mecanis-
mos neurônicos da atividade psicológica. Os dentistas que elabo-
raram essa área (D. H. Hubei e T. N. Wiesel na Inglaterra, Jung
na Alemanha, H. H. Jasper no Canadá, E. N. Sokolov e O. S.
Vinográdov na u r s s ) se propõem a tarefa de investigar as
formas de funcionamento de grupos isolados de neurónios c
efetuar uma análise dos processos nervosos mais elementares,
que servem de base ao comportamento. Importantes descober-
tas dos mecanismos fisiológicos de ativação e habituação foram
obtidos no estudo das formas mais simples de comportamento
em base nemónica.
No sistema das ciências psicológicas, cabe posição especial
à psicologia infantil ou genética.
A importância dessa área das ciências psicológicas para a
Psicologia geral consiste em que a Psicologia genética ou infantil
estuda a formação da atividade psíquica no processo de evolu-
ção da criança e permite acompanhar a formação dos complexos
processos psíquicos e das etapas pelas quais eles passam em sua
evolução.
A Psicologia genética permite abordar os processos psíqui-
cos superiores do homem como produto da evolução, dando,
com isto, a possibilidade de considerar as formas complexas de
atividade psíquica do homem não como “propriedades" ou
“faculdades” do psiquismo primitivamente existentes mas como
resultado de uma longa formação, que deixou vestígios na estru-
tura dos processos psíquicos.
Foi justamente por isto que a Psicologia genética, que estu-
da a formação (génese) das formas superiores de atividade psí-
quica, adquiriu importância decisiva tanto para uma área prática

14
I como a pedagogia quanto para a Psicologia geral. Foi justa-
monte graças aos êxitos da Psicologia genética, relacionados com
a contribuição dada ao estudo dessa disciplina pelos notáveis
estudiosos Jean Piaget e Lyév S. Vigotsky, que a Psicologia
geral obteve provas convincentes de que as formas básicas dos
processos psíquicos (percepção e ação, memorização e pensa-
mento) possuem estrutura complexa que se forma no processo
de evolução da criança. A importância da Psicologia genética
lhe permitiu ocupar posição central na Psicologia atual.
Г :: Outro campo da Psicologia, que deve ser colocado ao lado
da Psicologia genética e costuma ser chamado de psicologia dife-
"efe- Tendal ou psicologia das diferenças individuais, ocupa posição
r >importante.
P Í: Sabe-se que as pessoas têm traços comuns, estudados pela
Psicologia geral, e revelam diferenças individuais. Estas podem
ser diferenças de propriedades do sistema nervoso, de peculiari-
.... d tides individuais do campo emocional e do caráter, traços
característicos do processo cognitivo e do talento.
A Psicologia diferencial se propõe a tarefa de estudar essas
___ __ cnças individuais, descrever os tipos de comportamento e
" lttlvldade psíquica das pessoas que se distinguem umas das outras
ípor traços característicos.
A Psicologia diferencial é de importância decisiva para a
avaliação do nível de evolução da criança, das formas indivi-
I duais de assimilação do trabalho e para a análise das peculiari-
dades tipológicas cujo conhecimento é indispensável à solução
das questões práticas da Psicologia.
Os fundamentos da Psicologia diferencial foram lançados
em sua época pelo psicólogo alemão W. Ster (1B71-1938); em
nossa época os problemas das diferenças individuais foram
estudados com êxito por cientistas como Charles Edward Spear-
man, na Inglaterra, L. L. Thurstone, nos e u a , e В. M. Teplov,
na uuss.
in
Aos referidos campos da Psicologia incorpora-se um grupo
' de áreas intimamente vinculadas às ciências sociais. Nessas áreas
examinam-se as condições histórico-sociais em que se formou
a atividade psíquica do homem e as formas sociais em que essa
atividade se manifesta.
Nesse grupo ocupa posição essencial a etnopsicologia ou
ciência das particularidades que distinguem os processos psíqui-

15
cos em diferentes formações e estruturas históricas e em diferen-
tes culturas.
Nas etapas iniciais do desenvolvimento da Psicologia, fize-
ram-se tentativas de criar uma “psicologia dos povos” como
forma especial de psicologia social e de elaborar uma ciência
que fosse capaz de revelar as bases psicológicas da formação
da linguagem, dos mitos, crenças, do direito, etc. Fracassou essa
tentativa, que partiu de um dos criadores da Psicologia moder-
na, W. Wundt, autor do livro A psicologia dos povos.
Wundt tentou dar uma explicação psicológica dos fenôme-
nos da vida social, cujas bases não são psicológicas mas econó-
micas ou histórico-sociais. Por este motivo as tentativas de “psi-
cologizar a história” retiveram durante muito tempo o desenvol-
vimento desse importante campo da ciência psicológica, que
devia investigar um processo inverso: a influência formadora,
exercida pelas condições histórico-sociais sobre o desenvolvi-
mento da atividade psicológica do homem.
Essa tarefa se converteu em objeto das pesquisas de gran-
des cientistas de diversos países (Frazer e Malinowsky, na Ingla-
terra, Janet e Lévy-Bruhl, na França, Turnwald, na Alemanha,
e M. Mead, nos e u a ) e foram justamente essas pesquisas que
lançaram as bases da etnopsicologia atual. O estudo dos pe-
culiaridades da atividade psíquica de pessoas pertencentes a
diferentes culturas constitui atualmente uma área importante
da ciência psicológica.
A psicolingiiistica, disciplina que nos últimos decénios se
converteu em área independente e se situa na fronteira entre
a Psicologia e a lingüística, representa um campo especial da
Psicologia. A psicolingiiistica se propõe o estudo das leis básicas
da linguagem enquanto meio de comunicação, dos processos de
codificação e decodificaçâo da informação veiculada pela lingua-
gem e dos processos psicológicos que se baseiam nos códigos da
língua e sc materializam na linguagem do homem.
A Psicologia social é uma área importante porém pouco
desenvolvida. Esta disciplina estuda as leis psicológicas da
comunicação entre os homens, as peculiaridades psicológicas
da divulgação de informação por meios como a imprensa e o
cinema, as particularidades do comportamento no processo de
trabalho, competição, etc. Um campo especial da Psicologia
social tem como objeto o estudo das inter-relaçõcs humanas em
pequenos grupos, a análise dos fatores que servem de base a
tipos concretos de interação entre os homens, de formação da
autoridade, promoção de líderes, etc.
Entre essas disciplinas, que mantêm afinidades com as
ciências sociais, inclui-se a Psicologia da arte, que estuda as ba-
ses psicológicas da criação artística e as leis psicológicas que
servem de base às obras de arte que aplicam diversos procedi-
mentos e asseguram uma influência máxima das obras sobre o
leitor c espectador, ^
Tomamos conhecimento apenas dos ramos fundamentais da
Psicologia, mas estes podem mostrar que sistema ramificado de
disciplina a Psicologia moderna representa.

Os métodos em Psicologia

ê condição fundamental da evolução de toda ciência a


existência de métodos suficientemente objetivos, precisos e
seguros.
O papel do método de uma ciência deve-se ao fato de que
a essência do processo em estudo não coincide com as mani-
festações em que ela aparece. São necessários procedimentos
especiais, que permitam penetrar além dos limites dos fenôme-
nos acessíveis à observação imediata, penetrar nas leis internas
que constituem a essência do processo em estudo. Esse caminho
do fenômeno à essência, que lança mão de toda uma série de
procedimentos objetivos de pesquisa, caracteriza as pesquisas
verdadeiramente científicas.
Em que consistem os métodos empregados pela Psicologia?
Houve um longo período em que a Psicologia era definida
como ciência do mundo subjetivo do homem; à definição do
conteúdo da ciência correspondia a escolha dos seus métodos.
Segundo a concepção idealista, que separava o psiquismo de
todos os outrofc fenômenos da natureza e da sociedade, a Psico-
logia tinha como objeto o estudo dos estados subjetivos da cons-
ciência. Segundo os psicólogos idealistas, esses processos da
consciência se distinguiam dos outros processos da realidade
objetiva pelo fato de que o fenômeno coincidia com a essência:
as formas de consciência que o homem podia observar em si
mesmo (clareza ou imprecisão de consciência, vivência da
liberdade do ato volitivo, etc.) eram consideradas por esses

17
psicólogos como propriedades fundamentais do espírito ou como
essência dos processos psíquicos subjetivos. Para eles, essa coin-
cidência dos fenômenos com a essência constituía o fundamento
da Psicologia e lhe definia o método, ou seja, consideravam
como fundamental e única a descrição subjetiva dos fenômenos
da consciência, descrição essa que se obtinha no processo de
introspecção. O reconhecimento da introspecção como método
fundamental da Psicologia não apenas separava esta ciência das
outras como fechava de fato todos os caminhos para a evolução
da Psicologia enquanto ciência autêntica. Excluía, ainda, a
explicação objetiva e causal dos processos psíquicos, reduzindo
a Psicologia ã descrição subjetiva de formas da vida espiritual e
dos fenômenos psíquicos.
É fácil entender que uma “ciência” que se negava a consi-
derar os processos psíquicos como produtos do desenvolvimento
objetivo, que não levantava os problemas da origem e dos
mecanismos objetivos desses processos não podia ter existência
própria; durante muito tempo continuou sendo uma área singu-
lar da filosofia idealista sem se incluir no círculo das ciências
autênticas.
Por isto mudou radicalmente o tratamento dispensado ao
método básico da Psicologia desde o período em que esta disci-
plina passou a ser interpretada como ciência de uma forma espe-
cífica de atividade psíquica, que permite ao homem orientar-se
na realidade ambiente, refleti-la, formar programas de compor-
tamento e controlar a sua execução.
A tarefa dos psicólogos consistia em criar métodos objeti-
vos de estudo dos processos psíquicos do homem, sem nunca
se limitar ao método da introspecção, referindo-se a de apenas
como um procedimento auxiliar de sentido antes heurístico, que
permitia levantar questões, o que dava a possibilidade de expli-
car por via causal os fenômenos e encontrar as leis que lhes
serviam de base. A revisão radical da introspecção como méto-
do de conhecimento científico devia-se ao fato de que a própria
introspecção passara a ser vista como um tipo complexo de ativi-
dade psíquica, que era produto de uma longa evolução, empre-
gava formulação discursiva dos fenômenos observados e tinha
aplicação muito restrita porque nem de longe os processos psí-
quicos ocorrem todos por via consciente, bem como porque a
auto-observação dos seus processos psíquicos pode introduzir
mudanças consideráveis na ocorrência desses processos.
A Psicologia passou a ter como tarefa fundamental a elabo-
ração de métodos objetivos de pesquisa que usassem os mesmos
procedimentos que todas as outras ciências usavam para obser-
var o desenvolvimento desse ou daquele tipo de atividade c da
mudança experimental das condições do seu exercício, de méto-
dos que fossem capazes de ir além dos limites da descrição
exterior dessa atividade no sentido das leis que lhe servem de
base.
O procedimento principal da Psicologia passou a ser a
observação do comportamento do homem em condições naturais
e experimentais, com a análise das mudanças que ocorrem cm
determinadas condições que podem ser mudadas pelo experi-
mentador. Foi nesse caminho que surgiram os três métodos
básicos de pesquisa psicológica, convencionalmente chamados
de método de análise estrutural, método genético-experimental e
método patológico-experimental (ou método de análise sindrô-
mica).
O método de análise estrutural dos processos psicológicos
consiste no seguinte: o psicólogo, ao estudar essa ou aquela
forma de atividade psíquica, coloca diante do sujeito experimen-
tal uma tarefa correspondente e acompanha a organização estru-
tural dos processos (procedimentos, meios, formas de compor-
tamento) mediante os quais o sujeito experimental resolve a
tarefa dada.
Isto significa que o psicólogo não apenas registra o resul-
tado final (memorização do material proposto, reação motora
ao sinal, resposta à tarefa proposta) mas acompanho atenta-
mente o processo de solução da tarefa proposta, os meios auxi-
liares em que ele se baseou, etc. Essa descrição da estrutura
psicológica do processo estudado e a análise das suas partes
•componentes rcprcsenftm dificuldades consideráveis e exigem
vários procedimentos auxiliares especiais.
Esses procedimentos, que permitem efetuar uma análise
estrutural bastante completa, podem ter caráter direto ou indi-
reto.
Pertence aos procedlmontos diretos a mudança da estrutura
■da tarefa proposta ao sujeito experimental (com difleultação
paulatina, inclusão de novas exigências, que tornam necessária
a inserção de novas operações nn solução da tarefa), bem como a
proposta de vários procedimentos que ajudam à solução (esco-
lha dc apoios externos, procedimentos auxiliares, etc.). O
■emprego desses procedimentos diretos de análise estrutural muda

19
o curso objetivo do processo psicológico e permite estabelecer
quais dentre os procedimentos empregados surtem um efeito
máximo.
As referidas formas de análise estrutural se aplicam antes
de tudo ao estudo objetivo de formas contíguas de atividade
psíquica como a assimilação ou memorização do material, a
solução das tarefas, a realização de operações construtivas ou
lógicas, o estudo da estrutura das formas complexas dos atos
conscientes.
Entre os procedimentos indiretos ou complementares situa-
se o emprego de indícios, que, não sendo eles mesmos elementos
de atividade do homem, podem ser índices do seu estado geral,
das tensões por ele experimentadas, etc. Entre esses procedi-
mentos, por exemplo, incluímos a aplicação de métodos de
registro dos processos fisiológicos (eletroencefalogramas, eletro-
miogramas, reação galvánica da pele, pletismograma), que por
si mesmos não revelam as peculiaridades da realização da ativi-
dade psíquica mas podem refletir as condições fisiológicas gerais
que caracterizam essa realização.
£ natural que a aplicação desses procedimentos indiretos
ou complementares pode adquirir sentido somente havendo
organização precisa da própria atividade psíquica estudada pelo
psicólogo.
Ao lado do método analítico-estrutural, que ocnpa posição
central na Psicologia, podemos colocar o método genético-expe-
rimental, que tem importância especialmente grande para a Psi-
cologia genética.
Sabe-se que todos os processos psicológicos superiores são
produto de uma longa evolução. Por isto é sobretudo importante
para o psicólogo acompanhar a marcha desse processo de evolu-
ção, que etapas foram incluídas nele e que fatores determinam
o surgimento de processos psicológicos superiores.
Pode-sc obter resposta a esta questão não apenas acompa-
nhando a execução das mesmas tarefas em fases sucessivas do
desenvolvimento da criança (esse método recebeu na Psicologia
a denominação de método dos cortes genéticos) como também
criando condições experimentais que permitam mostrar como se
forma essa ou aquela atividade psíquica. Com este fim coloca-se
em diferentes condições o sujeito experimental, a quem se pro-
põe resolver essa ou aquela tarefa. Nuns casos exige-se dele
solução independente da tarefa, noutros, presta-se-lhe ajuda,
empregando diversos meios de apoios extremos evidentemente
eficazes, sugerindo cm voz alta as vias de solução, por um lado,
observando cómo ele aproveita essa ajuda, por outro.
Aplicando os procedimentos que constituem a essência do
método genético-experimental, o estudioso se mostra capaz não
apenas de revelar as condições com cujo aproveitamento o sujei-
to experimental pode assimilar de modo ideal dada atividade,
como também de formular experimentalmente os complexos
processos psíquicos e abordar mais de perto a sua estrutura. O
método genético-experimental foi amplamente aplicado na Psi-
cologia na URSS por Vigotsky, A. V. Zaporojets, P, Y. Galpe-
rina e produziu muitos fatos valiosos que se incorporaram sóli-
damente à Psicologia.
O terceiro método da Psicologia, especialmente importante
para a neuropsicologia c psicopatologia, é o método patológico-
experimental ou método da análise sindrômica das mudanças de
comportamento que ocorrem nos estados patológicos do cérebro
ou num desenvolvimento exclusivo de um setor dos processos
psíquicos.
Esse método é aplicável em casos relativamente raros.
Conhecendo um fator que muda notoriamente o curso dos pro-
cessos psíquicos, o psicólogo pode saber qual a influência que
esse fator exerce sobre o curso de toda a atividade psíquica do
sujeito.
Esse método se manifesta nas formas mais claras nas pes-
quisas neuropsicológicas, consistindo no seguinte: o psicólogo
que' estuda minuciosamente os pacientes nos quais a aíecçSo
local do cérebro provoca o deslocamento ou a deformação de
uma das condições do curso normal dos processos psíquicos
(por exemplo, da percepção visual, da memória auditiva ou da
sólida manutenção do programa de atividade), analisa detalla-
damente a realização de todo um conjunto de processos psíquicos
e dçíinc qitais desses processos se mantêm intactos e quais fi-
cam perturbados.. Semelhante análise permite estabelecer quais
são precisamente ps processos psíquicos internamente relaciona-
dos com o ftltór perturbado (ou excluído) e quais são indepen-
dentes deste; permite descrever toda uma síndrome (por outras
palavras,- todo um conjunto de mudanças) que surge com a
mudánça ds uma função 0 dá a possibilidade de mostrar a inter-
dependência (correlação) dc processos psicológicos isolados.
O mésnio método pode ser aplicado na Psicologia geral ou
na Psicologln das diferenças Individuais, nas quais a supcrcvolu-
ção de utn aspecto do campo psíquico (por exemplo, da memória

21
visual clara) ou alguma peculiaridade individual dos processos
nervosos (por exemplo, a fraqueza ou a mobilidade insuficiente
dos processos nervosos) pode provocar a reestruturação de todos
os processos psicológicos e tornar-se fator decisivo no surgimen-
to de todo um,conjunto de peculiaridades individuais da pessoa.
Todos os métodos que descrevemos em linhas gerais são
métodos da pesquisa psicológica. A par com eles, entretanto,
têm grande importância para a Psicologia os métodos breves de
avaliação qualitativa e quantitativa dos processos psíquicos (dos
conhecimentos, habilidades, aptidões) e os métodos simples de
medição do nível de evolução dos processos psíquicos.
Esses métodos se aplicam amplamente na Psicologia e são
conhecidos pela denominação de testes psicológicos. Os testes
psicológicos consistem de tarefas, que se propõem a um amplo
círculo de sujeitos experimentais para estabelecer seus conheci-
mentos, habilidades ou aptidões. Para que esses testes possam
produzir dados objetivos e mensuráveis, são feitos previamente
com um grande número de sujeitos experimentais (crianças de
uma determinada idade ou pessoas do mesmo nível de educa-
ção). Entre essas tarefas escolhem-se aquelas que um número
considerável (dois terços, por exemplo) de sujeitos experimen-
tais consegue resolver com êxito e só depois disto elas são pro-
postas àqueles sujeitos cujos conhecimentos, habilidades ou
aptidões são mensuráveis. Os resultados dessas pesquisas são
avaliados por pontos ou por lugar (indica-se o lugar que um
dado sujeito experimental poderia ocupar em relação ao grupo
correspondente de sujeitos).
A aplicação dos testes psicológicos pode ter certa impor-
tância para que se tenha uma orientação acerca das peculiarida-
des psicológicas dos grandes hemisférios. Faremos adiante uma
apreciação crítica desse método, quando examinarmos a sua
importância para a medição das diferenças individuais de dife-
rentes sujeitos.
Ê fácil ver que a importância de todos os referidos métodos
não é a mesma para as diferentes áreas da Psicologia a que nos
referimos, e se o método de análise estrutural continua sendo o
método básico para todas as áreas psicológicas, o método gené-
tico-experimental ocupa posição dominante na Psicologia genéti-
ca, ocupando o método de análise sindrômica posição-chave na
Psicologia patológica ou diferencial.
A Importância prática da Psicologia

A Psicologia tem grande importância não apenas para a


solução de uma série de questões teóricas do campo psicológico
e da atividade consciente do homem.
Ela tem importância também prática, que aumenta à medi-
da que a direção do comportamento do homem em bases cientí-
ficas e a consideração do fator humano na indústria e nas rela-
ções sociais se tornam questão central da vida social.
A ciência psicológica é de grande importância prática para
vários campos, dentre os quais mencionamos apenas os mais
importantes.
O primeiro desses campos é o da indústria e do trabalho;
a área da Psicologia aplicada que se dedica a questões ligadas a
esses campos é denominada engenharia psicológica e psicologia
do trabalho.
A indústria moderna, que compreende a direção de meca-
nismos, do transporte, aviação, etc., subentende uma complexa
interação do sistema homem-niàqulna. A técnica complexa deve
estar adaptada às possibilidades do homem. É necessário criar
condições nas quais a direção dos sistemas transcorra numa
variante ideal e possa realizar-se com a menor perda de tempo
e o menor número de erros. Essas exigências devem referir-se
principalmente à construção racional dos painéis de direção, que
nos mecanismos modernos consistem de grande número de indi-
cadores, que exigem revisão sumamente rigorosa e que a infor-
mação que recebem tenha a máxima acessibilidade. É natural que
essas exigências podem ser atendidas somente levando-se em
conta as leis da percepção humana, o volume da memória huma-
na e os modos de originalizá-las, que poderiam, da melhor ma-
neira, adaptar a máquina às possibilidades do homem. Por outro
lado, a indústria moderna coloca uma série de questões atinen-
tes à seleção de pessoas mais aptas para as condições dessas ou
daquelas formas de trabalho, querendo, com isto, que se criem
condições que assegurem circunstâncias ideais para a manuten-
ção da atenção e o menor esgotamento do homem. Coloca-se a
questão: que fatores psicológicos devem-se levar em conta para
garantir a máxima segurança do trabalho e o mínimo de avarias?
'Podas essas questões são elaboradas pela engenharia psico-
lógica e pela Psicologia do trabalho, que estão se convertendo

23-
em importante componente da organização científica da pro-
dução.
Outra área de aplicação prática da Psicologia é o ensino
e a educação da geração adolescente, em suma, a área da
pedagogia, t
'£ sabido que o crescente volume de conhecimentos, que
devem ser assimilados no processo de ensino escolar, exige orga-
nização mais racional dos métodos de ensino. Isto depende
substancialmente das peculiaridades psicológicas da criança, da
idade e dos seus processos cognitivos na aprendizagem escolar.
A Psicologia pedagógica é a área da Psicologia aplicada
que deve assegurar a argumentação científica dos programas e
métodos de ensino, estabelecer o círculo dos conceitos acessí-
veis às crianças da idade correspondente e os métodos de trans-
missão do material que garantirão sua melhor assimilação. O
ensino programado (ou teoria da assimilação programada, por
etapa, dos conhecimentos), nova área da pedagogia que se
desenvolveu últimamente, apresenta a base psicológica científi-
ca para a elaboração de uma seqiiência otimal do material pro-
posto bem como a aplicação dos mécodos mais eficazes de ensi-
no. Questões como o grau dc desdobramento do processo de
assimilação dos conhecimentos por etapa, a correlação dos meios
direto e lógico-verbais de ensino, os modos de formulação otimal
de regras, os procedimentos que asseguram assimilação adequa-
da dos conceitos e a transferência de princípios assimilados no
processo de ensino constituem apenas uma parte das questões
estudadas pela psicologia pedagógica, que dá contribuição subs-
tancia] para a fundamentação científica do processo pedagógico.
O segundo aspecto do emprego da Psicologia para a cons-
trução racional do ensino e da educação é a análise das peculia-
ridades psicológicas das crianças, que cria obstáculo para levar-
lhes instrução com êxito.
£ sabido que o sucesso do ensino depende não só dos
programas e métodos racionalmente organizados mas também
da própria composição dos alunos. Em toda classe, paralela-
mente aos alunos adiantados, há aqueles que não conseguem
assimilar com êxito o programa escolar e retardam o bom rendi-
mento do trabalho de toda a turma.
O essencial, porém, é o fato de que a falta de aproveita-
mento que esses alunos demonstram pode ter fundamento
variado.
.life.*, u i . A .i ~ — i - l l '- V . i b ..‘
«J

Uns alunos não acompanham o aproveitamento por serem


mentalmente retardados e o atraso orgânico do seu cérebro os
torna incapazes de assimilar material de complexidade mínima.
Essas crianças devem ser transferidas da escola de massa para
urna escola especial, auxiliar. As outras são crianças plenamente
normais, mas o seu atraso deve-se ao fato de que. não tendo
assistido a determinada parte do programa, elas não podem
avançar com sucesso porque a assimilação do novo material
não encontra nelas a necessária base de conhecimentos. Essas
crianças necessitam de aulas complementares especiais que pos-
sam eliminar as suas lacunas.
Outros alunos (terceiros) demonstram dificuldades na
aprendizagem por serem fisicamente fracos, por terem sofrido
uma doença qualquer. Eles são capazes de concentrar com êxito
suas atenções apenas durante tempo limitado, ficam rapidamente
exaustos e não têm condições de assimilar o material corres-
pondente. Eles devem estudar sujeitos a um regime correspon-
dente e nessas condições podem cumprir com êxito o programa.
Por último, o quarto grupo de alunos experimenta dificuldades
de aprendizagem não porque as crianças que o compõem sejam
mentalmente retardadas mas porque apresentam algumas defi-
ciências, como deficiências auditivas, que dificultam ã comuni-
cação verbal oportuna e plena e provocam retardamento tempo-
rário do desenvolvimento. Essas crianças devem ser transferidas
para escolas destinadas a alunos de audição difícil, onde proce-
dimentos e métodos especiais permitirão compensar tais defi-
ciências.
A tarefa mais importante deve ser a identificação oportuna
das causas do atraso de diferentes grupos de crianças e o diag-
nóstico das diversas formas de atraso no programa. Essa tarefa
pode ser cumprida somente com íntima participação dos psicó-
logos, que possam descrever as peculiaridades psicológicas das
crianças que não conseguem acompanhar o programa, explicar
as causas principais do retardamento da sua evolução e prestar
ajuda substancial na eliminação das deficiências descritas.
O terceiro campo de aplicação prática da Psicologia é a
medicina.
É sabido que o desenvolvimento de uma doença depende
não apenas do agente patogénico e do estado do organismo mas
também de como o próprio doente encara sua doença e como
a avalia; por outras palavras, depende daquilo a que os terapeu-
tas chamam de “quadro interno da doença”. No entanto, a pró-

25
pria atitude em relação à doença está relacionada com uma
série de fatores psicológicos, com as peculiaridades da estrutura
emocional do indivíduo, com o caráter das generalizações que
o indivíduo faz. O estudo das peculiaridades caracterológicas e
da estrutura do indivíduo, estudo esse feito pela Psicologia, tem
por isto grande importância para a medicina, permitindo focali-
zar mais de perto o fundamento científico da prática da psico-
terapia, da psico-higicne e da psicoprofflaxia.
A Psicologia ocupa posição especial em áreas específicas
da medicina como a neurologia e a psiquiatria.
Nessa área ela pode prestar ajuda substancial na solução
de duas importantíssimas questões: o diagnóstico e a natureza
da doença, por um lado, e o restabelecimento das funções
perturbadas, por outro.
Sabe-se que as afecções locais do cérebro só parcialmente
se manifestam em sintomas da neurologia clássica como a
mudança de sensibilidade, dos reflexos, do tônus e dos movi-
mentos. Parte considerável dos grandes hemisférios cerebrais não
tem relação direta com nenhum dos referidos processos e a
afecção dessas áreas do cérebro não provoca perturbações visí-
veis nestes. Essas partes dos grandes hemisférios estão relacio-
nadas com a realização das formas superiores de atividade
psíquica como a análise do afluxo de informação, a formação
de planos e programas de ação e o controle do desenvolvimento
da atividade consciente. ¡E justamente por isto que, sem provo-
car sintomas fisiológicos nítidos, a afecção dessas áreas do cére-
bro provoca perturbações visíveis das formas complexas de ativi-
dade psíquica.
Nos últimos decénios surgiu um novo campo da Psicolo-
gia — a ucuropsicologia — já mencionado por nós. Este permi-
tiu ver quais os fatores que, fazendo parte das formas complexas
de atividade psíquica, estão relacionados com determinadas
áreas do cérebro, permitindo ver, ainda, que tipos de perturba-
ção dos processos psíquicos se verificam na afecção dessas áreas.
Graças a isto tomou-se possível introduzir um método novo e
prático de diagnóstico das afecções locais do cérebro, que aplica
a análise psicológica do caráter das perturbações dos processos
psíquicos superiores pelo diagnóstico tópico das afecções cere-
brais. Esse método consolidou-se na prática da neurologia e
neurocirurgia clínicas. Nos capítulos correspondentes do presen-
te livro mostraremos os dados de que dispõe a Psicologia para
a solução dessas questões práticas.

26
Não é menor a importância da Psicologia para precisar o
diagnóstico das doenças mentais. As perturbações da percepçâo
e da ação, da memória e do pensamento assumem caráter abso-
lutamente diverso sob diferentes formas de retardamento men-
tal e diferentes doenças mentais. Por isto a aplicação dos méto-
dos da psicopatologia experimental na psiquiatria clínica permite
precisar substancialmente o diagnóstico das doenças mentais e
se converte em componente essencial da Psicologia geral.
ÍÉ grande a importância prática da Psicologia na elaboração
das bases científicas do restabelecimento das funções pertur-
badas nas afecções cerebrais.
H á relativamente pouco tempo ainda se considerava que
as funções, perturbadas como resultados de afecções locais do
cérebro, não se restabeleciam e a afecção do cérebro (principal-
mente do seu hemisfério central, dominante) provocava pertur-
bações irreversíveis e condenava o doente à total invalidez.
Mas a doutrina da complexa construção sistémica dos pro-
cessos psíquicos superiores mostrou que cada forma complexa
de atividade psíquica é realizada com o auxílio de todo um
sistema de zonas cerebrais que trabalham conjuntamente e per-
mitiu rever radicalmente essas teses. Mostrou que os sistemas
funcionais, que se perturbam cora qualquer afecção local do
cérebro, podem ser reestruturados com base na criação de novos
sistemas funcionais, baseados nas áreas cerebrais não-afetadas.
Deste modo, as funções perturbadas podem ser restabelecidas
em novas bases.
A teoria do restabelecimento das funções psíquicas supe-
riores (perturbadas durante afecções locais do cérebro) por
meio de um restaurador especial da aprendizagem, elaborada
pela Psicologia, tornou-se um importante componente da medi-
cina moderna.
Por último, cabe mencionar o último campo de aplicação
prática da Psicologia: a psicologia forense. O promotor e o juiz
estão constantemente diante de formas complexas de atividade
psíquica do homem, dos seus motivos e traços caracterológicos,
da gradação da percepçâo e da memória, das peculiaridades do
seu pensamento. Por isto a consideração das características psi-
cológicas desses processos deve ser componente obrigatório da
preparação e da atividade do pessoal de atividade forense.
A Psicologia elaborou um enfoque científico de duas impor-
tantes áreas da prática forense: a análise dos depoimentos das

27
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testemunhas e o diagnóstico psicológico da coparticipação no
) crime.
) Ficou demonstrado que os depoimentos de testemunhas
asseguram matéria autêntica apenas em certos limites e que o
) grau dessa autenticidade pode ser estabelecido mediante a aplica-
> ção de uma investigação psicológico-experimental.
Por outro lado, o crime cometido deixa vestígios não só
) na situação externa como também no próprio psiquismo do cri-
, ) minoso, daí existirem métodos psicológicos especiais pelos quais
esses vestígios podem ser descobertos.
) £ natural que a incorporação da Psicologia à solução desses
problemas permite dar uma contribuição importante para a cons-
T)
trução da causa judicial em bases científicas e constitui área
) importante da aplicação prática da Psicologia.
. ) Deste modo, a Psicologia não é apenas uma área impor-
tante da ciência como tem campos amplamente ramificados de
) aplicação prática, fornecendo bases científicas para importantes
campos da prática.
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II

A Evolução do Psiquismo

К c a pít u l o anterior vimos como a ciência moderna


entende o objeto da Psicología e que aplicações práticas tem
esse campo de atividade.
Agora enfocaremos um dos mais importantes problemas
da evolução da atividade psíquica.

A origem do psiquismo

A Psicologia pré-científica, que se desenvolveu nos pri-


mórdios da filosofia idealista, considerava o psiquismo como
uma das propriedades primárias do homem e a consciência
como manifestação direta da “vida espiritual” . Por esta razão
nem se colocava o problema das raízes naturais do psiquismp,
de sua origem e dos graus de sua evolução. A filosofia dua-
lista supunha que a consciência era tão eterna quanto a ma-
téria, que aquela sempre existia paralelamente a esta.

29-
A Psicologia científica parte de teses inteiramente di-
versas e se propõe a tarefa de encontrar uma resposta para
o problema da origem do psiquismo, de descrever as condi-
ções nas quais deve ter surgido essa forma altamente com-
plexa de vida.
Sabe-se que a condição fundamental de surgimento da
vida é o surgimento dc complexas moléculas albuminosas,
que não podem existir sem um constante metabolismo com
o meio. Para sobreviver, elas devem assimilar do meio am-
biente as substâncias que são objeto de alimentação e neces-
sárias para mantê-las vivas. Ao mesmo tempo, elas devem
segregar para o ambiente externo os produtos da desinte-
gração cuja assimilação pode perturbar-lhes a existência nor-
mal. Esses dois processos — a assimilação e a eliminação —
Integram o processo de metabolismo e são condição fundamental
de existência dessas complexas formações albuminosas.
Ê natural que essas moléculas albuminosas altamente
complexas (às vezes são chamadas coacérvalos) possuam
propriedades especiais, que respondem à ação das substân-
cias úteis ou das condições que contribuem para a assimi-
lação dessas substâncias, respondendo também à influência
nociva que lhes ameaça a existência. Deste modo, essas mo-
léculas reagem positivamente tanto às substâncias alimentí-
cias como a condições como a luz e o calor, que também
contribuem para a assimilação. Reagem negativamente aos
efeitos mecânicos ou químicos superfortes que lhes dificul-
tam a existência normal. Elas não reagem às influências
“neutras” estranhas ao processo de metabolismo.
Chama-se excitabilidade a propriedade que têm os coacer-
vatos de responder às influências que integram o processo de
metabolismo (sem dar resposta às influências exteriores “in-
diferentes” ) . Essa propriedade fundamental se manifesta no
processo de transformação da matéria inorgânica em orgâ-
nica. Junta-se a ela uma segunda propriedade: a possibi-
lidade de conservação das propriedades altamente especializa-
das da excitabilidade diante das influências, transmitindo de
geração a geração as respectivas modificações das moléculas
albuminosas. Essa última propriedade parece relacionar-se
com a modificação de algumas frações dos aminoácidos (par-
ticularmente do ácido ribonucléico, que constitui o funda-
mento molecular da vida) e costuma ser considerada como
importante processo que serve de base à memória biológica.
Os processos de excitação diante de influências bióticas
de importância vital, a aquisição de formas de excitação al-
tamente especializadas e sua conservação com a transmis-
são imediata às gerações seguintes caracterizam o estágio de
evolução da vida habitualmente denominado vida vegetativa.
Esses processos caracterizam toda a vida, começando
pelas algas mais simples e terminando com as formas com-
plexas de vida vegetativa. Eles condicionam os chamados
“movimentos dos vegetais”, que, em essência, são apenas for-
mas de uma intensa troca ou crescimento, dirigido pela ex-
citação em relação às influências bióticas (umidade, ilumi-
nação, etc.). Fenômenos como o crescimento da raiz do ve-
getal no sentido da profundidade do solo ou o crescimento
irregular do tronco dependendo da iluminação ou a inclina-
ção dos vegetais no sentido dos raios solares constituem ape-
nas o resultado do fenômenos da “excitação” diante das in-
fluências bióticas (não indiferentes para a vida).
Há uma circunstância que é essencial para a vida ve-
getativa. O vegetal que responde com um intenso metabolis-
mo às influências bióticas não reage às influências exteriores,
que integram o processo imediato do metabolismo. Ele não
se orienta ativamente no meio ambiente e pode, por exem-
plo, morrer por falta de luz ou umidade, mesmo que as fon-
tes de luz e umidade estejam bem próximas mas não tenham
efeito imediato sobre ele.
Dessa forma passiva de vitalidade distinguem-se acen-
tuadamente as formas de existência na etapa seguinte da evo-
lução: o estágio da vida animal.
Cada organismo animal, a começar pelos protozoários,
caracteriza-se pelo fato de que o animal reage não só ¿ls in-
fluências bióticas, que integram o processo imediato do me-
tabolismo, mas também às influências “neutras” , não-bióti-
cas, se estas anunciam o surgimento de influências (“bióti-
cas” ) de importância vital. Noutros termos, os animais (mes-
mo os protozoários) se orientam ativamente na claridade,
procuram condições de importância vital e reagem a todas
as mudanças do meio, que são um sinal do surgimento des-
sas condições. Quanto mais intenso é o metabolismo, quanto
maior é a necessidade de obter alimentação que o ser vivo
simples sente, tanto mais ativos são os seus movimentos e

31
tanto mais vivificadas são as formas em que se produz sua
atividade dc “orientação" ou “procura”.
Essa capacidade de reagir aos instigadores “abióticos"
neutros sob a condição de que eles sinalizem para o surgi-
mento de influências de importância vital, capacidade essa
que surge 'no estágio de transição para o mundo animal, é
chamada sensibilidade, diferentemente dos fenômenos da ex-
citabilidade. E o surgimento da sensibilidade que pode ser-
vir de indício biológico objetivo do surgimento do psiquismo.

Variabilidade do comportamento dos protozoários

A sensibilidade aos instigadores “neutros”, se estes co-


meçam n dnr sinais do surgimento de influências de impor-
tüncin vital, provoca mudanças radicais nas formas de vida.
O principal consiste cm que o ser vivo começa a “orientar-se”
no melo iiniblcnte, a reagir ativamente a cada mudança que
neste se processa, ou seja, começa a adquirir formas de com-
portamento Individualmente variáveis, que não existiam no
mundo vegetal.
Nos primeiros períodos a aquisição desse comportamen-
to individualmente variável se processa com relativa lentidão,
mas apesar disto consegue-se observar o fenômeno até em
condições de experimento.
Citemos um experimento típico, realizado pelo pesqui-
sador alemão Bramstedt.
Sabe-se que os unicelulares, usados nesse experimento,
são sensíveis ao calor (que é para eles condição biótica de
importância vital, indispensável ao metabolismo) mas são
insensíveis à luz. Por isto se os colocarmos numa câmara
igualmente aquecida, com uma parte clara e outra escura,
eles se distribuem igualmente por toda a câmara. Se, ao con-
trário, aquecermos uma parte da câmara igualmente ilumi-
nada, eles se concentram no canto aquecido. Mas se duran-
te longo período iluminarmos o canto aquecido c escurecer-
mos o não-aquecido, a situação muda e os unicelulares se
tomam sensíveis à luz, que agora adquire para eles o signifi-
cado de sinal de elevação da temperatura e começam a con-
centrar-se no canto iluminado da câmara, apesar das diferen-
ças de temperatura.

32
É fato característico que essa sensibilidade à claridade se
forma paulatinamente entre os unicelulares, podendo de-
saparecer inteiramente se durante longo período a luz não
for reforçada pelo calor.
Essa mutabilidade individual do comportamento dos pro-
tozoários pode ser provocada com base em suas reações de-
fensivas, se mudarmos as condições que provocam essas rea-
ções. Pode servir de exemplo o experimento do conhecido
pesquisador polonês Edward Dembowski.
Colocados numa proveta arredondada com água, os pro-
tozoários fazem movimentos que lhes são característicos. Co-
locados em tubo idêntico porém com uma seção quadrangular,
eles começam a bater-se contra os vidros dessa proveta mas
logo seus movimentos adquirem caráter modificado, que ga-
rantem o mínimo de batidas contra as paredes do vaso. Por
conseguinte, a trajetória desses movimentos começa a refletir
a configuração do vaso. A trajetória por eles adquirida se
mantém inclusive quando eles são recolocados num vaso ar-
redondado e passara algum tempo fazendo os mesmos movi-
mentos pela trajetória rómbica.
O processo de mutabilidade do comportamento individual
dos protozoários, que os distingue acentuadamente dos ve-
getais, transcorre com relativa lentidão e as mudanças que
surgem desaparecem com a mesma lentidão. Mas essas mu-
danças são tão importantes que as novas formas de compor-
tamento emergentes (de adaptação às novas condições) per-
mitem realizar as respostas necessárias de adaptação às no-
vas condições de modo muito mais rápido do que se verifi-
cava em nível inferior da escada evolutiva.
Exemplo típico desse processo encontramos no experi-
mento do estudioso americano A . Smith.
Um ciliado (tipo de protozoário) foi colocado num
vaso estreito com seção microscópica. A seção era tão pe-
quena que para sair do tubo no sentido da ação do agente
biótico (a luz) o ciliado tinha de virar-se, batendo contra as
paredes do tubo. No começo do teste ele gastava de 3 a 6
minutos para virar-se. Mas se esses experimentos eram repe-
tidos várias vezes durante 10-12 horas, o ciliado começava a
virar-se com rapidez bem maior e no final do teste gastava
apenas 1-2 segundos para virar-se. Assim, sob a influência
das novas condições, obtinha-se uma nova “habilidade”, que

33
se processava com uma rapidez 180-200 vezes superior à
reação inicial.
Como vemos, a formação de um novo tipo de compor-
tamento, que corresponde às condições mudadas, exige dos
protozoários bastante tempo, ê característico que, uma vez
surgida, a mudança do comportamento se mantém entre eles
durante período bastante longo, sendo necessário muito tem-
po para desaparecer.
Isto pode ser observado tanto entre os protozoários uni-
celulares como entre os pluricelulares de organização relativa-
mente simples,
O exemplo, que mostra esse surgimento tão lento e o
desaparecimento igualmente lento da nova forma de compor-
tamento, pode ser visto no experimento realizado inicialmen-
te pelo pesquisador belga Blesson, posteriormente pelo pes-
quisador soviético A . N . Leôntyev (cf. Leôntyev, A. N.,
Problemas da evolução do psiquismo).
Ainda não conhecemos os mecanismos biológicos dessa
manifestação de sensibilidade ao agente neutro inicial. £ pos-
sível que ela esteja relacionada com a mudança paulatina
das propriedades bioquímicas do protoplasma. No entanto o
fato da manifestação, em vida, de novas formas de reação
indica o surgimento ide uma mutabilidade individual no com-
portamento dos protozoários e dá fundamento para falar-se
do surgimento de um comportamento autêntico, embora mui-
to elementar, nessa fase da evolução.

Mecanismos do comportamento dos protozoários

A ciência ainda conhece muito pouco a respeito das


condições físico-químicas do comportamento dos protozoá-
rios e das causas dos seus movimentos positivos ou negati-
vos (movimento no sentido de uns objetos ou o movimento a
partir de outros objetos, respectivamente).
Sabe-se que o protoplasma, que compõe o corpo do ani-
mal protozoário (unicelular), é constituído de uma camada
exterior mais sólida (plasma-gel) e de uma camada in-
terior mais líquida (plasma-sol). Sabe-se também que as
camadas externas do protoplasma do unicelular são mais
excitáveis do que as camadas intemas, e cada ação externa
provoca intenso metabolismo, que se estende paulatinamen-
te das camadas extemas ás intemas, extinguindo-se conforme
o tipo de gradiente de excitação paulatinamente decrescen-
te. Esses gradientes de excitação, ao que parece, servem de
base aos movimentos do unicelular, que surgem tão logo
a influência externa provoca intenso metabolismo no ponto
correspondente de sua superfície ou quando os processos in-
ternos levam à necessidade de procurar ativamente as subs-
tâncias necessárias para assegurar semelhante metabolismo.
Alguns autores supõem que influências adequadas de
força moderada provocam reação positiva do unicelular e
levam a um movimento no sentido da respectiva influência,
ao passo que influências inadequadas (ultrafortes ou noci-
vas) provocam movimento negativo, dirigido a partir do obje-
to influente. O movimento positivo leva a que o objeto que
provoca irritação é inicialmente envolvido pelos filetes do
protoplasma, que, entre os unicelulares mais simples (ame-
bas), é depositado no lugar de metabolismo mais intensivo
e fecha-se em tomo desse objeto, incluindo-o na composi-
ção do corpo do unicelular. Se esse objeto é alimentício,
ele é absorvido pelo corpo do unicelular, segregando-se
para o meio o produto da desintegração. Não sendo alimen-
tício, ele é rejeitado para o meio ambiente pelo mesmo ca-
minho que foi apanhado.
Seria, entretanto, incorreto supor que todos os movi-
mentos dos unicelulares se processam por um esquema tão
simples. Uma peculiaridade do comportamento dos unice-
lulares é o fato de que as influências que chegam até eles po-
dem, elas mesmas, sofrer as mais complexas modificações. O
próprio protoplasma do unicelular nunca se encontra em
estado de tranquilidade, mas se caracteriza por sistemas al-
tamente diferenciados e seletivos de excitação, que mudam
segundo o processo de metabolismo que nele se opera e leva
ao surgimento de formas dominantes de excitação.
Como mostraram os experimentos de Fogler, a influência
mecânica de certa força provoca apenas reações relativamen-
te fracas do protozoário, sendo que a excitação pela luz pode
não provocar nenhuma reação. Mas se sobre o protozoário
agem simultaneamente a instigação mecânica de determina-
da força e a excitação por luz, esses dois estímulos se so-
mam e levam a intensivas reações do protozoário.

35
Sabe-se que a capacidade de reação da ameba faminta
é maior do que a mesma capacidade da ameba saciada, c
ela cria elevada disposição de responder aos estímulos posi-
tivos correspondentes ou às instigações que sinalizam o sur-
gimento destes,
Por último, o unicelular pode “acostumar-se” aos es-
tímulos correspondentes, reduzindo a resposta a eles na me-
dida do seu prenúncio repetido e longo.
Os mecanismos que servem de base a esse fenômeno
ainda são pouco conhecidos e só as observações últimamen-
te feitas levam a pensar que o surgimento e a manutenção
desses estímulos são o resultado dc certas modificações e do
ácido ribonucléico, que é um dos componentes básicos do seu
plasma.
Cabe observar que o corpo dos protozoários é relativa-
mente homogéneo e que o processo do metabolismo mais
intensivo pode surgir nele no lugar da excitação que surge
imediatamente, formando com isto o extremo “cerebral” pro-
visório do seu corpo.
Os unicelulares mais complexos têm estrutura incom-
paravelmente mais complexa. Neles podemos distinguir “ór-
gãos” permanentes em forma de áreas sensíveis do protoplas-
ma, que formam, por exemplo, os “flagelos” das bactérias.
Esses “flagelos” estão cm movimento permanente e são agen-
tes das funções mais importantes de orientação no meio ex-
terior; é neles que surgem os gradientes de excitação cons-
tante, que, espalhando-se pelo resto do corpo do unicelular,
coloca-o em movimento.
A riqueza de comportamento dos unicelulares é muito
grande e ainda será objeto de estudo especial, assim como os
mecanismos que lhe servem de base. Mas o que já sabemos
u seu respeito nos leva a pensar que, aqui, estão lançadas as
bases da complexa atividade da orientação ativa no meio.
que mais tarde constituirão traço importantíssimo da ativi-
dade psíquica.

Origem do sistema nervoso e suas formas mais simples

Os processos descritos de irritação em face das influ-


ências bióticas, de sensibilidade às influências neutras que
anunciam o surgimento de influências de importância vital e
de conservação elementar dos vestígios são suficientes para
a conservação da vida dos animais unicelulares.
Mas eles se tornam insuficientes com a transição aos plu-
ricelulares.
A transição para os multicelulares complica substancial-
mente as condições de vida. A alimentação por meio da di-
fusão direta de substâncias alimentícias, que ocupou posição
central no nível dos protozoários, agora é substituída pelo
consumo de comida discreta (concentrada); eleva-se o pa-
pel da orientação ativa no meio externo. Torna-se necessá-
rio assegurar movimentos bem mais diferenciais e uma con-
dutibilidade da excitação bem mais rápida do que aquela que
se obteve por meio da difusão paulatina dos gradientes de
excitação no protoplasma dos unicelulares, é isto que leva a
uma considerável complicação da estrutura do corpo do plu-
ricelular, à separação das células de uma recepção especial
de irritações que chegaram ao corpo do animal, e ao surgi-
mento das primeiras células contrativas, agentes da função
que nas etapas posteriores da evolução será assumida pelas
células musculares. Isto leva, por último, a que nos lugares
dos antigos gradientes de excitação comecem a formar-se
passagens do protoplasma mais excitável e se constitua a for-
ma mais elementar do sistema nervoso, que entre esses ani-
mais tem o caráter de sistema nervoso difuso e com forma
de rede.
Tudo isto pode ser visto com nitidez especial na estru-
tura dos pluricelulares relativamente simples, pertencentes à
classe dos celenterados, por exemplo, na estrutura do corpo
da medusa, anêmona-do-mar e estrela-do-mar.
Esse estágio da evolução dos pluricelulares se caracteriza
pelo fato de que a condutibilidade da excitação se acelera
muitas vezes graças ao surgimento do sistema nervoso reti-
cular. Se o processo da excitação pelo protoplasma não vai
além da velocidade de 1-2 microns por segundo, com o sur-
gimento do sistema nervoso mais simples (reticular) a velo-
cidade do processo é igual a 0,5m por segundo (observe-
mos que com a contínua evolução do sistema nervoso e a
passagem para as etapas seguintes de sua complicação, a ve-
locidade do processo de excitação aumenta ainda mais,
chegando nos sapos a 35 metros por segundo e a 125 me-
tros por segundo nos vertebrados superiores).

37
No entanto as vantagens consideráveis, que surgem com
o aparecimento do sistema nervoso difuso primário (reticu-
lar), têm também os seus limites. Como nas etapas da evo-
lução já descritas, os animais com sistema nervoso reticular
ainda não têm extremidade cerebral permanente que dirija
o seu comportamento. A excitação se difunde de maneira
igual pelo sistema nervoso reticular em todo o corpo do ani-
mal, e o lugar da aplicação da instigação exterior se toma
c ponto principal provisório. Só entre os celenterados mais
complexos, uma parte do corpo (por exemplo, um raio da
estrela-do-mar) não difere pela estrutura de outras panes do
corpo (raios), pode tomar-se dominante e assume a função
de órgão mais ativo no movimento. Se amputarmos na es-
trela-do-mar esse raio “dominante” , o papel de “dominan-
te” passará para outro raio, disposto ao lado dele.
É natural que essa falta de um órgão dominante perma-
nente, capaz não só de receber mas também de processar,
codificar a informação recebida e criar programas de com-
portamento diferenciado, limita substancialmente as possi-
bilidades do comportamento nesse nível. Esses defeitos são
eliminados nas etapas posteriores da evolução, sobretudo com
a transição para a vida terrena e com a formação de um sis-
tema nervoso ganglionar de construção mais complexa.

O sistema nervoso ganglionar e o surgimento dos programas


de comportamento mais simples

A transição para a vida em terra está relacionada com


uma considerável complicação das condições de vida. A di-
fusão direta de substâncias alimentícias do meio circundante
torna-se impossível, tornando-se incomparavelmente menor a
quantidade de comida sólida (discreta) pronta. Essa alimen-
tação encontra-se agora num meio acentuadamente hetero-
géneo e a orientação necessária para obtê-la se tom a bem
mais difícil.
Tudo isso gera a necessidade de sucessiva complicação
do organismo dos animais, criando antes de tudo uma evo-
lução posterior dos órgãos complexos de recepção e movi-
mentos e de formação de aparelhos complexos e centralizados
de processamento da informação e regulamento dos movimen-

3S
tos. E a isto que corresponde a etapa seguinte da evolução
do sistema nervoso, que leva ao surgimento do sistema ner-
voso em cadeia ou ganglionar, que aparece pela primeira vez
nos vermes e adquire a máxima complexidade nos inverte-
brados superiores, principalmente nos insetos.
Tanto o surgimento do sistema nervoso ganglionar como
a formação do comportamento, que se processa com a ajuda
dele, marca um salto de suma importância na evolução da
atividade vital.
Nos invertebrados mais simples (vermes) já se pode
observar um princípio inteiramente novo de organização do
sistema nervoso em comparação com o estágio anterior. Na
extremidade frontal do verme, concentram-se filamentos que
terminam em receptores químicos e táteis, distribuídos de
maneira especialmente densa. Esses aparelhos percebem mu-
danças químicas, térmicas e de luz que ocorrem no meio ex-
terior, bem como mudanças de umidade. Os sinais dessas
mudanças passam pelos filamentos e chegam ao núcleo fron-
tal ou gãnglio, onde se concentram no primeiro “centro” que
surge pela primeira vez nessa fase da evolução. Aqui esses
sinais são codificados, e os “programas” de comportamento
que surgem em forma de impulsos motores se difundem pela
cadeia dos gânglios nervosos; cada um desses gânglios cor-
responde a um segmento particular do corpo do verme. Os
impulsos que chegam a esses gânglios provocam movimentos
correspondentes cuja direção é programada e regulada pelo
gãnglio frontal.
Aqui surge um novo princípio: o da centralidade do sis-
tema nervoso, que se distingue acentuadamente do princípio
da construção do sistema nervoso difuso (reticulado). A
extremidade da cabeça do verme, onde se concentra uma
rede especialmente densa de hemo.-mecano,-termo,-foto e hi-
dro-receptores, assume papel principal, ao passo que os gân-
glios segmentares conservam apenas uma autonomia relativa.
Isto é facilmente verificável se dividirmos ao meio o corpo
do verme. Neste caso a parte dianteira se enfiará no chão,
conservando seus movimentos organizados, enquanto a parte
traseira se limitará a simples contorções, sem revelar nenhum
indício de movimento organizado.
A complicação da esrtutura do sistema nervoso no está-
gio dos vermos permite observar entre eles tipos mais perfei-
tos (se bem que ainda muito primitivos) de formação de no-

39
vos modelos de comportamento individualmente adquiridos.
Isso foi demonstrado em seu tempo pelo famoso psicólogo
americano R . M . Yerkes, que colocou minhocas num tubo
cm forma de T, labirinto extremamente simples. No extremo
esquerdo do tubo a minhoca recebia choque elétrico, que
provocava reação defensiva. Com várias repetições desse
experimento, a minhoca podia adquirir a “habilidade” de
evitar o choque elétrico e encaminhar-se para o lado direito.
A lentidão com que se desenvolveu esse processo pode ser
vista no seguinte: foram necessários mais de 150 testes para
que o comportamento da minhoca adquirisse caráter organi-
zado c na grande maioria do testes ela começasse a encami-
nhar-se para a direita, evitando o choque elétrico.

Processo de "ensinamento" Processo de '*reensinamento" da


da minhoca no labirinto em minhoca no labirinto em forma
form a de T de T
Testes N0 de erros Testes NO de erros
1-40 — 17 Ensinamento repetido
41-80 — 14 1-40 — 19
81-120 — 13 41-80 — 9
121-160 — 9 81-120 4
161-200 — 4 Reensinamento
201-240 — 4 161-165 — 4
166-175 — 7
176-185 — 7
186-195 — 7
196-205 — 5
206-215 — 3
216-225 — 2

Repetindo-se esse mesmo experimento após uma longa


pausa, a “aprendizagem" começa a a processar-se duas vezes
mais rápido e depois de 80 experimentos o número de erros
já é m ínimo. Foi sintomático, ainda, que os experimentos de
“ reensinamento" da minhoca (nesses testes a minhoca já
começava a receber choque elétrico da direita e não da es-
querda) se desenvolveram de modo consideravelmente mais
lento e só depois de 200 testes começava a manifestar-sc
algum efeito do “reensinamento” .
/*

Isto mostra que o sistema nervoso ganglionar dos ver-


mes permite adquirir não apenas novas formas de compor-
tamento como também conservar as “ habilidades” adquiri-
das, noutros termos, que a minhoca possui uma forma primi-
tiva de memória.
Ultimamente têm sido realizados experimentos que per-
mitem que nos convençamos da possibilidade de transmissão
dessa “habilidade” e demos alguns passos no sentido da elu-
cidação dos mecanismos bioquímicos que servem de base à
memória elementar. Nesses experimentos, o pesquisador ame-
ricano J . V. M cConnell “ensinou" a um grupo de vermes o
comportamento necessário num labirinto muito simples. Depois
disto, ele triturou os corpos desses vermes, fez deles um ex-
trato e com este alimentou outros vermes que nunca haviam
sido ensinados. Como mostrou o experimento, os vermes que
absorveram esse extrato “ assimilaram” simultaneamente as ha-
bilidades adquiridas pelo primeiro grupo de vermes. Ao se-
rem colocados pela primeira vez no labirinto, eles cometeram
imediatamente bem menos erros do que os vermes comuns
não-ensinados. Esse fato levou Mc Connell a supor que a
aquisição de “habilidade” nessas etapas da evolução está re-
lacionada com profundas mudanças bioquímicas do proto-
plasma e que a “habilidade” adquirida pode ser “ transmitida”
por via humoral.
A ciência não dispõe de uma apreciação definitiva e pela
interpretação dos dados obtidos nesse experimento pode-se
apenas supor que as mudanças, provocadas por semelhante
“aprendizagem", estão relacionadas com a modificação do
ácido ribonucléico ( a r n ) . Isto foi mostrado pelos experi-
mentos nos quais os corpos dos vermes “ensinados” foram
previamente depositados em solução de ribonuclease (fer-
mento que dissolve o a r n ) . Depois disto o extrato das par-
tes posteriores do corpo dos vermes “ensinados" não provo-
cou o efeito necessário, ao passo que o extrato das partes
anteriores dos vermes “ensinados” (incluindo a substância
de ganglio frontal) continuou provocando o mesmo efeito.
Esses experimentos se referem tanto à importância do ácido
ribonucléico para a conservação da “habilidade” como à im-
portância que para a conservação da “memória” do verme
tem o ganglio frontal, cujas células são imunes ao efeito dis-
solvente do ribonuclease.

41
Até hoje se discute na ciencia se esses experimentos se
referem à “transmissão de informação” por via humoral ou
apenas ao aumento geral da “excitabilidade”, verificado na
assimilação da substância dos corpos dos vermes ensinados.
Apesar de nâo haver uma resposta definitiva a essa questão,
os resultados dos experimentos mostram que nessa etapa da
evolução é possível a aquisição de uma “habilidade” estável
e que todas as células do corpo do animal parecem partici-
par da conservação dessa “habilidade”.

Surgimento das formas complexas de programação


hereditária do comportamento ("instintivo”)

A evolução posterior do comportamento está relacio-


nada com o surgimento de aparelhos complexo-difercnciados
de recepção, que permitem assimilar uma informação alta-
mente especializada que vem do meio exterior. Essa evolução
está relacionada, ainda, com o desenvolvimento de programas
sumamente complexos, que permitem ao anima] adaptar-sc às
condições complexas porém permanentes e estáveis do meio.
Tudo isso se torna possível nas etapas posteriores da evolu-
ção do sistema nervoso ganglionar e se manifesta com niti-
dez especial nos articulados.
As complexas condições de vida tornam necessária a for-
mação de órgãos multiformes de sensibilidade, que permitam
registrar as diversas influências do meio exterior. Vejamos
isto no exemplo da evolução dos fotorreceptores. A princí-
pio, as células sensíveis à luz estavam simplesmente concen-
tradas na superfície frontal do corpo, dando ao animal a
possibilidade de assimilar o efeito da luz mas não permitia
localizar a fonte da luz no espaço. Na etapa seguinte da evo-
lução, as células sensíveis à luz se concentravam em dois dis-
cos sensíveis à 1иг, localizados nos dois lados da extremida-
de frontal do corpo. Isto permitia aos animais orientar-se a
respeito da posição espacial da fonte de luz e voltar o tronco
para a direita ou a esquerda mas ainda nâo permitia distinguir
as propriedades do objeto que agia sobre o organismo. Só
na última etapa da evolução, os discos hipersensíveis se
arqueavam, adquirindo a forma de uma esfera vazia. Um pe-
queno orifício, que mais tarde foi preenchido pelo meio refra-
tário (o cristalino), permitia a refração da luz cedente e o efei-

42
to de objeto luminoso se imprimia na camada sensível dessa
esfera vazia. Surgia o órgão do complexo receptor fotossensível
— o olho — , que pela primeira vez permitia não apenas reagir
à existencia da luz como também refletir as propriedades do
objeto agente.
A estrutura do olho, o mais importante órgão receptor
de luz, é diferente cm animais diferentes. Nos insetos ela tem
o caráter de “olho de faceta”, construído, às vezes, de muitos
milhares de células independentes. Entre os vertebrados as-
sume a forma do olho único tão familiar entre nós, que per-
mite perceber o reflexo do objeto e mudar a nitidez do re-
flexo por meio de um sistema auto-regulável de aparelho
refratário. Mas em todos os casos o surgimento de um órgão
complexo, que permite reconhecer à distância os objetos
agentes, continua sendo uma das conquistas mais importan-
tes da evolução.
Os insetos possuem um grande número de receptores
altamente diferenciados. A par com o complexo fotorrecep-
tor (o olho), eles têm receptores químico-táteis especiais (si-
tuados nas antenas), receptores de sabor (situados na
cavidade bucal, nas pernas), que captam as mínimas
mudanças de sabor, receptores de vibração (situados nos
tímpanos das pem as), que reagem às mais ínfimas vibrações
ultra-sônicas, às vezes até a 600.000 vibrações por segundo.
E possível que eles ainda tenham toda uma série de órgãos re-
ceptores por nós desconhecidos, cuja especialização foi por
eles desenvolvida em um processo de milhões de gerações.
As excitações, provocadas pelos efeitos que atingem es-
ses aparelhos receptores, difundem-se pelos filamentos ner-
vosos e chegam ao gânglio frontal, que é um protótipo do
cérebro e um aparelho que reúne (codifica) os impulsos que
chegam até ele e transferem esses impulsos para os sistemas
ultracomplexos de programas congénitos de comportamento,
que servem de base aos movimentos de adaptação dos in-
setos .
O gânglio frontal dos insetos superiores, das abelhas,
por exemplo, apresenta uma estrutura muito complexa. Ê
formado por um acúmulo de células nervosas diferenciadas,
às quais chegam os impulsos dos receptores periféricos. Na
parte frontal desse gânglio se situam principalmente as célu-
las visuais, na parte média, as células olfativas, na parte pos-
terior, as células sensíveis da cavidade bucal. E característi-

43.
со que a disposição dessas células tem caráter organizado.
Nelas já se pode observar uma estrutura plana de “vídeo”,
que permite que as excitações provocadas se difundam nas
estruturas neurônicas do gânglio frontal em forma organiza-
da. assegurando com isto o reflexo de determinadas influên-
cias estruturalmente organizadas.
Como foi estabelecido pelas últimas pesquisas, é carac-
terístico que já nessa fase da evolução façam parte da com-
posição do gânglio frontal os neurônios altamente especiali-
zados. que reagem aos mínimos indícios particulares da in-
formação que chega ao organismo, dividindo-a em grande
número de elementos componentes e permitindo, posterior-
mente, reuni-los em estruturas integrais (adiante falaremos
da forma de funcionamento desses neurônios).
Tudo isso torna o gânglio frontal dos insetos superiores
um aparelho central sumamente complexo, que permite captar
as múltiplas influências do meio e codificar as influências
captáveis em sistemas integrais.
Os códigos de excitações, que surgem em determinadas
irritações no gânglio frontal dos insetos, são transmitidos na
forma de programas complexos de comportamento ao gân-
glio toráxico situado abaixo, onde surgem os impulsos dos
complexos movimentos de adaptação do inseto, impulsos es-
ses que lhe formam o comportamento.
Os complexíssimos programas de comportamento dos in-
setos representam um interesse tão grande que exigem aná-
lise especial e minuciosa.
A peculiaridade dos programas sumamente complexos,
que representam uma parcela de absoluto predomínio no com-
portamento dos insetos, consiste em que tais programas são
congénitos e transmissíveis por hereditariedade. Esses pro-
gramas são produzidos por milhões de gerações e transmiti-
dos por hereditariedade do mesmo modo que as peculiarida-
des da estrutura do corpo (as formas das asas, as caracterís-
ticas da tromba, a estrutura dos órgãos receptores. Eles estão
bem adaptados às condições de existência dos insetos).
São inúmeros os exemplos de programas congénitos de
comportamento entre os insetos. Freqiientemente eles são de tal
forma complexos e racionais que alguns autores os conside-
raram exemplo de comportamento racional.
É sabido que a larva do gorgulho da bétula corta-lhe
a folha numa forma geométrica ideal, próxima da estrutura
ideal matematicamente calculada, para em seguida transfor-
má-la em canudo e utilizá-lo para metamorfosear-se em cri-
sálida. O mosquito deita as células sobre a superficie da
úgua c nunca na terra, onde elas secam fatalmente. A vespa
csfccídea deita as células no corpo da lagarta para que as
larvas que venham a nascer não sintam falta de alimento.
Para tanto ela fura previamente o gânglio do tronco da la-
garta de maneira a que esta não morra mas fique apenas
sem movimento; isto ela faz com admirável precisão. NSo é
necessário falar dos programas congénitos de comportamen-
to da aranha, que tece uma teia impressionante pela cons-
trução, ou dos programas congénitos de comportamento da
abelha, que constrói favos de forma economicamente ideal,
enche esses favos de mel e os lacra com cera tão logo eles
estejam suficientemente cheios.
Os exemplos citados de comportamento racional al-
tamente complexo, e muitos outros, são congénitos, os in-
setos não precisam estudá-lo, nascem com essas formas de
comportamento assim como nascem com uma estrutura dos
órgãos dos sentidos impressionante pela racionalidade.
Tudo isso deu a muitos autores fundamentos para falar
da racionalidade dos instintos e aproximá-los do comporta-
mento racional.
Só últimamente as pesquisas dos zoólogos, particular-
mente da corrente denominada etologia (etos — comporta-
m ento), deram certa clareza à forma misteriosa do compor-
tamento e mostraram que essa forma de atividade, que impres-
siona pela complexidade e a aparente racionalidade, encobre
mecanismos elementares. Essas pesquisas mostraram que os
complexíssimos programas de comportamento "instintivo” são
gerados de jato por estímulos elementares, que colocam em
ação os ciclos congénitos dos atos de adaptação.
Assim, o brilho da água leva o mosquito a deitar células
na superfície ~ ‘ to basta substituir a água por
um espelho mosquito começar a depositar
células em sua superfície. O complexo programa congénito
de atividade da aranha, que ataca a mosca que se enreda
na teia e a devora, é gerado de fato pela vibração da teia;
se um diapasão vibrante toca a teia, a aranha sc lança con-
tra ele assim como se lança contra a mosca.
Os mecanismos descritos permitem avançar considera-
velmente no sentido de melhorar a compreensão dos pro-
cessos que servem de base ao comportamento congénito e

45
passar da simples descrição à sua explicação, mostrar o quan-
to o comportamento instintivo difere do comportamento ra-
cional.
Citemos apenas um exemplo, que mostra a complexi-
dade com que se desenvolve semelhante pesquisa e que in-
teressantes são os resultados a que ela conduz.
ê sabido que algumas variedades de minhocas, após se
abastecerem de folhas para o inverno, arrastam-nas para os
seus buracos pela extremidade fina. Isto se considerava ma-
nifestação da “atividade racional” das minhocas, à qual Dar-
win se referiu em sua época, e levava a supor que a minhoca
percebe a forma da folha e “calcula” por que extremidade
c melhor arrastá-la para o buraco.
Essa hipótese mudou substancialmente depois que o pes-
quisador alemão Haneli realizou o seguinte experimento:
cortou de uma folha uni pedaço, reproduzindo a forma des-
sa folha mas com a ponta para baixo. Neste caso a minhoca
tentou arrastar a folha para o buraco não pela ponta fina,
mas pela grossa. A causa desse comportamento da minhoca
tomou-se objeto da pesquisa de outro cientista — Manholdt.
Este supôs que o comportamento da minhoca fosse deter-
minado não pela percepção da forma mas por uma sensibili-
dade química bem mais elementar. Para verificar isto ele co-
locou diante da minhoca vários pauzinhos iguais, mas passou
seiva da parte superior da folha numa ponta dos pauzinhos,
fazendo o mesmo na ponta de outros com seiva da base da
folha e, ainda, seiva da parte superior numa ponta e seiva
de enxerto noutra. Como testes de controle, passou seiva da
parte superior ou do enxerto da folha numa ponta dos pau-
zinhos, passando gelatina neutra em outra. Os resultados do
teste mostraram que, nesses casos, a freqiiência com que a mi-
nhoca arrastava o pauzinho para o buraco por uma ou outra
ponta não era a mesma e que o fator principal que resolvia
a questão era a diferença de distinção química entre a parte
superior e seu enxerto.
(a) (b) (a/b)
seivn da parte superior — bases da folha (b) rchçiío de preferên-
da Tolhn (s) cia de tiraa ou ou-
parte superior da folha (s) — enxerto co tra extremidade da
parte superior da folha (s) — gelatina Cg) folha
enxerto (e) — gelatina Cê ) 51:49
68:32
Assim, se uma ponta do pauzinho estava untada com
seiva da parte superior da folha e a outra ponta com seiva
da base, a minhoca não manifestava qualquer preferência
por essa ou aquela ponta. Sc uma ponta estava untada com
seiva da parte superior da folha e a outra com seiva do en-
xerto, a minhoca preferia duas vezes mais a ponta com seiva
da parte superior. No teste de controle cm que se passava
gelatina neutra numa ponta do pauzinho, essa preferência
pela seiva da parte superior da folha foi ainda mais nítida.
Deste modo, a hipótese segundo a qual a minhoca rea-
ge à forma da folha foi abandonada, mostrando-se que um
sentido químico bem mais simples desempenha papel deci-
sivo no processo dessa complexa forma de atividade.
Todas as observações descritas permitiram que nos con-
vencêssemos de que, apesar dos programas de comportamen-
to congénito muito complexos que dominam nos invertebra-
dos (principalmente nos insetos), eles podem ser acionados
por sinais relativamente simples. Esses sinais, que acionam
mecanismos congénitos muito complexos, refletem as con-
dições ecológicas de vida do animal e são produtos de uma
longa evolução.
As condições que põem em ação os programas congé-
nitos de comportamento, manifestaram-se com nitidez espe-
cial na análise dos indícios a que reage o inseto (a abelha,
por exemplo), quando esta pousa seletivamente sobre essas
ou aquelas espécies de flores melíferas.
Verificou-se que esses indícios podem ser constituídos
pela forma complexa da flor c às vezes por seu colorido.
Como mostraram em pesquisa o famoso zoólogo ale-
mão Frisch e posteriormente Hertz com seus experimentos,
nos quais a abelha era treinada para pousar cm xícaras com
solução de açúcar, cobertas por desenhos de diferentes for-
mas geométricas, é com dificuldade que a abelha distingue
formas geométricas simples como o triângulo e o quadrado,
mas distingue facilmente formas complexas como a estrela
pentagonal e hexagonal ou figuras cruciformes, dispostas sob
ângulos diversos. Por último, a abelha distingue com a mesma
facilidade o círculo simples e o cortado, não pousando so-
bre o primeiro e reagindo seletivamente ao segundo.
Essas pesquisas mostram que o fator que permite à
abelha distinguir as formas correspondentes não é constituí-

47
do pela simplicidade geométrica destas mas por sua seme-
lhança com os instigadores naturais: a forma das flores.
Deram resultados análogos experimentos em que a abe-
lha distinguiu coloridos diferentes. Eles mostraram que a
abelha .distingue com dificuldade as cores puras, distingue
com muito mais facilidade as cores mistas (vermelho-amare-
lo, amarelo-verde, verde-azul, etc.), que reproduzem o colorido
de flores diferentes.
Tudo isso mostra que o fator decisivo para a distinção
dos indícios que acionam os programas congénitos (instinti-
vos) de comportamento são as condições naturais de vida
(condições ecológicas), que determinam exatamente o indí-
cio distinguido pelo animal.
Ê muito possível que essa elevada seletividade dos indí-
cios a que reage o inseto esteja relacionada com o surgimen-
to de neurônios do ganglio frontal altamente especializados,
que, no processo de evolução, adquiriram a capacidade de
responder seletivamente aos estímulos de importancia vital
como as cores mistas, o aspecto estrelário ou o corte das
formas, a disposição das formas no espaço, etc.
As pesquisas, realizadas por zoólogos e psicólogos, con-
venceram de mais uma importantíssima peculiaridade do com-
portamento congénito “instintivo”. Verificou-se que os pro-
gramas congénitos de comportamento “instintivos” são racionais
apenas em determinadas condições rigorosamente padro-
nizadas, dc acordo com as quais esses programas se forma-
ram no processo de evolução. Mas basta mudar um pouco
essas condições para que os programas congénitos deixem
de ser racionais e percam seu caráter “racional” .
Essa tese pode ser ilustrada com dois exemplos. Sabe-se
que uma espécie de vespas formou um comportamento mui-
to “racional”. Ao chegar com a presa ao buraco onde a
guada, ela deixa a presa junto do buraco, entra nele c depois
de encontrá-lo vazio sai, traz a presa para dentro e se retira.
Mas a questão muda substancialmente quando num ex-
perimento especial, aproveitando o momento em que a ves-
pa faz seu reconhecimento no buraco, pega-se a presa que
está na boca do buraco, afastando-a alguns centímetros. Nes-
te caso, ao sair do buraco e não encontrar a presa no lugar
anterior, a vespa torna a arrastá-la para a posição anterior
e . . . volta a entrar no buraco que acaba de inspecionar. A

48
¿ M 'v W .

vespa pode repetir esse comportamento muitas vezes conse-


cutivas, e sempre que a presa se desloca alguns centímetros
ela continua a repetir mecanicamente o reconhecimento do
buraco, perdendo nessas condições a sua racionalidade.
Observações análogas foram feitas com abelhas. É sa-
bido que a abelha enche os favos com mel e, após depositar
a quantidade suficiente de mel, lacra os favos. Mas se em
condições de um experimento especial corta-se todo o fundo
dos favos, derramando-se o mel neles depositados pela abe-
lha, esta continua a lacrar os favos vazios durante o período
fixado em seu programa instintivo. E aqui o comportamento,
que fora racional em condições padronizadas e permanentes
de vida, perde sua racionalidade quando essas condições se
^modificam.
Tudo isso mostra que os programas congénitos “instinti-
vos” de comportamento, predominantes na atividade dos in-
setos, são programas rotineiros, mecânicos, conservando sua
aparente “racionalidade” apenas sob condições padronizadas
permanentes segundo as quais eles foram adquiridos no pro-
cesso da evolução.
A racionalidade desse predomínio de programas especí-
ficos de comportamento corresponde ao princípio biológico
fundamental de vida dos insetos. Via de regra, estes deposi-
tam um imenso número de células, que se distingue por um
grande excesso. Só um pequeno número de vespas que nas-
ce dessas células consegue sobreviver, mas esse número já é
o suficiente para a preservação da espécie. Por isto, apesar
de que grande número de vespas morre quando as mudanças
das condições tornam os programas congénitos inadequados,
assim mesmo conserva-se a espécie e os programas congéni-
tos de comportamento “ instintivo” são suficientes para a pre-
servação da espécie.
Esse tipo de adaptação dos programas congénitos de
comportamento, com uma mutabilidade lenta e difícil, é bio-
logicamente racional sob as condições de grande excesso de
reprodução que se verifica no mundo dos insetos. No entanto
ele se torna biologicamente insuficiente para outro ramo da
evolução — os vertebrados. Entre estes não se verifica esse
excesso de reprodução, criando-se condições que tornam ra-
cional outro tipo de comportamento: o comportamento in-
dividualmente mutável no nível mais elevado.

49
O sistema nervoso central e o comportamento
individualmente variável dos vertebrados

Tudo o que sabemos acerca dos modos de vida e do


comportamento dos vertebrados mostra que tanto as formas
de vida como as formas de comportamento dessa espécie
obedecem a um princípio inteiramente distinto.
Só os vertebrados inferiores, que habitam o meio aquo-
so, apresentam um excesso de reprodução tão grande que os
aproxima da classe dos insetos, pois sobrevive apenas um
número relativamente pequeno de indivíduos que nascem de
ovas fecundas. Por isto só entre os peixes a prevalência de for-
mas de comportamento pouco variáveis e hereditariamen-
te programadas é suficiente para a preservação da espécie.
Diferente é o quadro que observamos com a passagem
dos vertebrados à vida em terra. As condições de alimentação
se tornam mais complexas, o meio mais mutável, aumentando
infinitamente as necessidades de orientação nesse meio em
constante mudança. Muda simultaneamente também o tipo
de reprodução: cada indivíduo reproduz apenas 2-3 e mais
raramente 5-6 semelhantes, e a sobrevivência dos indivíduos
isolados se torna uma condição para a preservação da espécie.
Tudo isso cria uma necessidade biológica para que, pa-
ralelamente ao comportamento “instintivo” (ou de espécie)
congénito e pouco mutável, surja um novo comportamento
individualmente variável. Essa nova forma de comportamen-
to existe em embrião nos vertebrados inferiores mas nas fa-
ses posteriores da evolução começam a ocupar posição cada
vez mais destacada para nos mamíferos superiores (maca-
cos) e, em seguida, no homem, afastar definitivamente as for-
mas congénitas (“instintivas” ) inferiores de comportamento.
A necessidade da complicação das formas de orientação
na realidade ambiente e aquisição de novas possibilidades
de orientação individual nas condições mutáveis do meio c
a criação de novas formas individualmente mutáveis de adap-
tação levam, no processo de evolução, à criação de órgãos
nervosos basicamente novos, que seriam capazes não apenas
de receber os sinais do meio e pôr em acão os programas de
comportamento “ instintivo”, transmissíveis por hereditarieda-
de. como também de analisar a informação recebida e fechar
as novas ligações, assegurando novas formas individualmente
variáveis de comportamento. Esse órgão é o cérebro, cuja es-
trutura reflete o longo caminho percorrido pela evolução.
A formação do cérebro do animal obedece ao tipo de
série de níveis ou camadas sobrepostas umas às outras.
Os níveis inferiores, situados no tronco cerebral, garan-
tem os processos de regulagem do estado interno do orga-
nismo — metabolismo (hipófise), respiração e circulação
sanguínea (tronco) e respostas reflexas aos instigadores ele-
mentares que do meio exterior chegam ao animal (corpo qua-
drigémeo) . Esses órgãos, construídos segundo o tipo de con-
juntos nervoso-secretórios ou de núcleos nervosos (gânglios),
predominam entre os vertebrados inferiores e permitem-lhes
-♦'realizar programas congénitos mais elementares de atividade
adaptadora, que por pouca coisa diferem dos tipos de ativi-
dade intensiva acima descritos.
Exemplo típico dessa construção de cérebro c o cérebro
da rã, que é constituído de formações do tronco superior com
um corpo quadrigémeo poderosamente desenvolvido e estru-
turas mais elevadas apenas esboçadas, assegurando acima de
tudo o cumprimento dos programas "instintivos” e pouco
mutáveis de comportamento que se formaram no processo
da evolução. Esses programas de comportamento apresentam
estrutura semelhante à acima descrita. Ao регссЬет uma
mosca, a rã salta de mandíbulas abertas e a apanha com sua
língua viscosa. Esse comportamento complexo é determina-
do por um estímulo relativamente elementar — uma cinti-
lação visualmente perceptive] — , não sendo, absolutamente,
resposta a um sinal previamente analisado. Isto pode ser fa-
cilmente visto se pendurarmos uma pequena nesga de pa-
pel num fio de cabelo e a pusermos em movimento torcen-
do esse fio. Neste caso a cintilação aciona os programas con-
génitos de comportamento e a rã se lança automaticamente
contra o papel cintilante como o faz contra a mosca.
Sobre o órgão do tronco constituem-se formações mais
elevadas, que incluem inicialmente o sistema talâmico-estria-
do (regiões subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo), in-
cluindo posteriormente, nos vertebrados superiores, formações
de uma nova camada de grandes hemisférios, que se desen-
volvem cada vez mais e aos poucos vão começando a domi-
nar inteiramente as formações de nível inferior.

51
Os órgãos do sistema talâmico-estriado, que começam
a predominar nos répteis e nas aves e, posteriormente, os
órgãos da camada antiga, asseguram formas de comportamen-
to individual mais plásticas do que as formas que se obser-
vavam nos vertebrados inferiores. Mas essas formas de com-
portamento, que já adquirem traços de variedade individual,
ainda estão estreitamente vinculadas a formas congénitas maus
elementares dc comportamento e apresentam traços dos tipos
de atividade adaptadora que são congénitas no animal e re-
fletem as peculiaridades da sua ecologia (i. e., das formas
biológicas estáveis de sua existência).
Uma análise atenta mostra que esses programas congé-
nitos de comportamento, às vezes muito complexos, podem
ser gerados por estímulos relativamente simples, que refle-
tem as formas de vida do animal.
Como mostraram as observações de diversos autores, en-
tre elas as do fisiologista soviético A. D . Slônim, os com-
plexos movimentos de sucção do animal recém-nascido são
efetivamente provocados por diferentes sinais que refletem as
condições biológicas de sua vida: os movimentos de sucção
do filhote de cão são provocados pela maciez do pêlo (in-
dício principal da fêmea lactante); no cordeiro, esses movi-
mentos são provocados pelo escurecimento da teta (que re-
flete o fato biológico de que o cordeiro que começa a mamar
aproxima-se da ovelha e mama sacudindo a cabeça).
Esse mesmo condicionamento ecológico das reações se-
letivas caracteriza muitos animais e depende mais do seu
modo de vida do que da classe zoológica a que eles perten-
cem.
Assim, o pato doméstico (que se alimenta de comidas
vegetais) é indiferente aos cheiros de podre mas tem o olfato
apurado para os cheiros de vetegais, ao passo que o esmeri-
lhão, que se alimenta de carniça, tem o olíato apurado para
os cheiros de podre mas é indiferente aos cheiros de ve-
getais.
Ё sintomático que as peculiaridades ecológicas se refle-
tem também em formas mais complexas c!e comportamento-
animal. Ё fato bem conhecido que o cão começa a salivar
ao ver urna ave. No entanto, o que é menos conhecido, a ra-
posa que se prepara para obter alimento sofre inibição ao
vê-lo e retém a saliva.
Todos esses exemplos mostrara que as formas comple-
xas de comportamento natural, realizado pelos órgãos das
áreas mais elevadas do cérebro, mantêm a mais estreita li-
gação com os programas Congénitos de comportamento, que
se formam no processo da evolução sob a influência das con-
dições de existência (ecologia) dos animais.
Sobre os órgãos que acabamos de descrever, edificam-se
os órgãos do nível seguinte e mais elevado do sistema ner-
voso dos grandes hemisférios, particularmente do novo cór-
tex cerebral cujo peso, como mostram os dados que abaixo
citamos, começam a ocupar posição cada vez maior em re-
lação ao peso do corpo.

baleia leão cão macaco homem


1/10.000 1/540 1/250 "l/lO O 1/40

Os grandes hemisférios cerebrais começam a adquirir


não apenas um grande peso relativo no processo da evolução
dos vertebrados superiores como ainda assumem grande im-
portância. Se nos mamíferos inferiores o córtex ainda não
tem papel dominante e a regulação dos processos de com-
portamento pode ser realizada com êxito mesmo que o cór-
tex seja destruído, já nos mamíferos superiores ele adquire
importância de maior peso e os processos de comportamen-
to, por mais insignificante que seja a sua complexidade, já
não podem ser realizados com a destruição do córtex.
Os fatos que sugerem uma grande dependência das fun-
ções em relação ao córtex cerebral, em outros termos, que su-
gerem uma verticalizaçõo progressiva das funções podem ser
vistos nos resultados das observações do pesquisador alemão
Schafer, que mostram que processos de percepção e que
movimentos podem permanecer em diferentes etapas da evo-
lução dos mamíferos depois da extinção do córtex.
Colocamos num quadro sinóptico os resultados das ob-
servações.

53
Influência da extirpação do córtex cerebral sobre os pro-
cessos visuais e motores nas fases sucessivas da evolu-
ção (segundo Schafer)

funções visuais Funções motoras

A ave, depois da extirpação do A ave, depois da extirpação do cór-


córtex dos grandes hemisférios, lex dos grandes hemisférios, con-
cominua a ver, a pousar no lugar tinua a voar, mantendo os seus mo-
marcado. vimentos.
O rato, depois da extirpação do O gato, depois da extirpação das
córtex dos hemisférios, não dis- áreas correspondentes dos grandes
tingue as formas e só reage à luz, hemisférios, recupera seus movi-
mentos algumas horas depois.
O macaco fica cego após a extir- O cõo, 24 horas após a extirpação
pação das áreas correspondentes das áreas correspondentes do cór-
dos grandes hemisférios. tex dos grandes hemisférios, pode
manter-se em pé mas sc desorga-
nizam os seus movimentos indepen-
dentes.
O macaco, após a extirpação das
áreas correspondentes dos grandes
hemisférios, pode manter-se em pé
somente ajudado.

Tudo isso mostra que os grandes hemisférios não apenas


começam a ocupar posição de grande destaque em relação
ao restante do cérebro como ainda desempenham papel do-
minante na regulação da formas complexas de comporta-
mento animal,
A função principal dos grandes hemisférios e do seu
componente fundamental — o córtex cerebral — consiste em
que este é um órgão que não só recebe os sinais e põe
em ação os programas alicerçados de comportamento da es-
pécie como ainda permite analisar a informação recebida do
meio exterior, orientarse nas suas mudanças, fechar novas
ligações c formar novos programas de comportamento indi-
vidualmente variáveis, correspondentes a essas mudanças.
A essa nova tarefa corresponde a estrutura do córtex
dos grandes hemisférios cerebrais, cuja massa é constituída
de um imenso número de células (neurônios) nervosas isola-
das, distribuídas em seis camadas principais; a quarta destas
С лой Ц

é о pomo onde terminam os tecidos que levam a irritação dos


órgãos dos sentidos e das superficies receptoras do corpo e
onde as irritações se transferem para outros neurônios. A quin-
ta camada é o lugar de onde os impulsos motores se dirigem
aos músculos e, finalmente, o último grupo de camadas (a
segunda e a terceira) concentra um imenso número de neu-
rônios, que reelaboram (recodificam) os impulsos que chegam
ao córtex cerebral e fecham novas ligações, que asseguram
a formação de novos programas de comportamento individu-
almente variáveis (no IV capítulo faremos uma descrição
minuciosa da estrutura do córtex dos grandes hemisférios,
incluindo aí as camadas restantes).
O traço característico do córtex dos grandes hemisférios
consiste em que as suas diversas regiões estão ocupadas com
a projeção dos diferentes órgãos dos sentidos (tato, visão,
olfato, audição e sensibilidade neurom uscular). O princípio
ecológico de construção e funcionamento do aparelho nervo-
so central se manifesta também aqui, e quanto maior í a
importância desse ou daquele tipo de sensibilidade na vida
do animal, tanto mais importante é o seu lugar no córtex ce-
rebral.
Deste modo, no córtex cerebral do ouriço (este animal
se orienta predominantemente pelo olfato) as regiões olfa-
tivas do cérebro ocupam quase um terço dos hemisférios, ao
passo que no homem as regiões olfativas do cérebro são acen-
tuadamente reduzidas.
No macaco, a orientação no mundo exterior é altamente
relevante porque as áreas visuais do córtex ocupam posição
dc grande destaque, ao passo que no cão (animal predomi-
nantemente olfativo) as áreas dos grandes hemisférios
ocupam posição bem inferior.
O mesmo podemos dizer da posição relativa que ocupam
no córtex cerebral as projeções dos órgãos do corpo. Isto
ficou evidenciado nos experimentos do fisologista inglês Adrian,
que estabeleceu por um método eletrofisiológico especial que
o território ocupado pela projeção da anca no cérebro do
porco é muito pequeno, ao passo que a projeção do “focinho”
do porco (que é para este o mais importante órgão do ta-
to, do faro, e tc .) ocupa um território imenso, desproporcional
ao seu tamanho. É uma peculiaridade que a projeção dos
lábios da ovelha — principal órgão de orientação desse ani-
mal — ocupa idêntica posição desproporcional nos grandes

55
— =w— i * UtU_iJlftfGl j-

hemisférios desse mamífero. Tudo isso mostra que o córtex


dos grandes hemisférios do cérebro, que se desenvolve de
maneira potente nas etapas tardias da evolução dos verte-
brados superiores, forma-se sob a ação direta das condições
ecológicas e é justamente esse fator que o converte em ór-
gão principal, que assegura as formas mats complexas de aná-
lise e síntese da informação recebida do meio exterior, bem
como em órgão fundamental de regulação do comportamen-
to individualmente variável.

Mecanismos do comportamento individualmente variável

Se os mecanismos dos programas instintivos de compor-


tamento se reduzissem a que um estímulo qualquer, surgido
no processo de evolução de uma espécie, acionasse progra-
mas complexos de comportamento, gerados no processo da
evolução, então seria bem mais complexo o mecanismo do
comportamento individualmente variável, que se realiza atra-
vés do córtex cerebral. Este se reduz a que, como resultado
de uma ativa orientação do animal nas condições do meio,
o estímulo que tenha sido de importância essencial e dê o
sinal do surgimento de condições de significado vital (alimen-
to, perigo) começa a distinguir-se do meio ambiente e leva
ao fechamento de ligações e ao surgimento de novos progra-
mas de comportamento, por meio dos quais o animal atinge
o fim necessário ou evita o perigo que o ameaça.
Os mecanismos fisiológicos, que levam ao surgimento de
novas formas de comportamento individualmente variáveis,
foram estudados em pormenores na escola de Pávlov e cons-
tituem a essência da doutrina das ligações temporárias e dos
reflexos condicionados.
Ê de interesse, entretanto, a descrição das condições sob
as quais surgem novas formas individualmente modificadas
de comportamento adaptador do animal e es etapas pelas quais
eles passam em sua formação.
As condições e etapas do surgimento de novas formas
de comportamento individualmente variáveis foram estuda-
das minuciosamente por um grande número de pesquisado-
res, mas enfatizou-se a atenção na maneira como o animal
atinge o fim necessário e os meios pelos quais ele adquire
novas modalidades de comportamento.
ifcl И if rffti ¡y* ' i“ iV i ' i " i1 - Щ шЛт

Para resolver tais problemas, os estudiosos aplicaram


métodos que receberam a denominação de "aquisição de ha-
bilidades” ou "reflexos condicionados instrumentais ou ope-
rativos” . Com essa finalidade colocou-se o animal numa cé-
lula especial (a chamada caixa problemática), separando-o
do estímulo (a comida) por um obstáculo (por exemplo, uma
porta fechada a ferrolho). O animal dedvia mover um pedal
ou puxar o ferrolho com a pata e então a porta se abria e o
objetivo era atingido.
Outro método de estudo do modo de surgimento de no-
vas formas individualmente variáveis de comportamento con-
sistia no seguinte: colocava-se o animal num complicado la-
birinto, em cujo extremo bavia um estímulo (objetivo). O
pesquisador observava como м animal superava paulatina-
mente os caminhos errados, encontrando o caminho certo
para chegar ao objetivo.
A diferença essencial entre os experimentos de formação
de complexas habilidades ou “reflexos condicionados ins-
trumentais” e o método dos “reflexos condicionados clássi-
cos”, aplicado por Pávlov, consistia em que o éxito ou o
fracasso do animal dependia do seu desempenho ativo, nou-
tros termos, do caráter das tentativas que ele empreendia.
Embora o método de estudo da aquisição de novas formas
individualmente variáveis de comportamento do animal per-
desse em precisão fisiológica em relação ao método dos “re-
flexos condicionados clássicos”, sem dar as possibilidades de
estudo fisiológico dos processos nervosos (sua irradiação e
concentração e indução mútua) que dava o método de Pávlov,
aquele método ganhava no estudo dos modos concretos de
comportamento que o animal aplicava para resolver as tarefas
que se lhe colocavam e assim permitia acompanhar as etapas
fundamentais de formação de novos atos adaptadores, con-
dizentes com as novas condições. O processo de aquisição de
novas formas individualmente variáveis de comportamento,
que levam à solução das tarefas colocadas diante do
animal, era explicado de modo diferente por diversas
pesquisas. Uns explicavam esse processo a partir de po-
sições mecanicistas (partilhavam essas posições os insignes pes-
quisadores americanos Thorndike, Watson e muitos represen-
tantes do behaviorismo americano), considerando que as no-
vas formas de comportamento, que levam o animal a atingir
o objetivo, surgem no processo de testes e erros desordenados.
Nesse processo de testes um dos movimentos do animal le-

57
.a * - - - :_ U ■ •J .ia ta h . ,; .,.• » . . M t J i l l y w n — I

vava casualmente à abertura da porta e o animal recebia a Um desses fatos foi estabelecido numa análise minucio-
comida. Posteriormente, o reforço pelo êxito desses movi- sa da manôira pela qual o animal (o rato) adquire a habili-
mentos casualmente surgidos e sua constante repetição le- dade dc encontrar o caminho certo nas condições de um la-
varam a que os movimentos inadequados fossem extintos, re- Wrlmo complexo.
forçando-se os bem-sucedidos.
■: ' Como mostrou o pesquisador americano Dashnul, os
Essa explicação do processo de aquisição de novas for-
mas de comportamento por meio do reforço de movimentos iéslíis .TiMtÓs pelo animal colocado em labirinto não são ca-
bem-sucedidos casualmente surgidos explicava bem o refor- miflls. vía tile regra vão sempre em direção ao objetivo; por
ço dessas formas mas deixava à margem da análise o próprio iíió,.;o animal que ao menos uma vez tenha se orientado no
processo de seu surgimento. Irtbiru'ito, cria um sistema geral de direção no qual ele corre
Outro grupo de autores mantinha outras posições, ao \ è,; entra nos becos sem saída do labirinto, situados na direção
tentarem examinar as regras pelas quais se formavam as bus- .mho dado, com muito mais freqiiência do que nos
cas da solução pelo animal e que levavam ao surgimento de sem saída do labirinto, situados na direção oposta ao
procedimentos bem-sucedidos de solução das tarefas coloca- esquema do movimento.
das diante do animal. Deste modo, pode-se ver claramente que os movimentos
Esse grupo de pesquisadores (ao qual pertenciam os psi- do animal no labirinto não têm caráter casual mas são su-
cólogos americanos E . Tolman, D. Krech, o fisiologista so- bordinados a uma direção que o pesquisador americano
viético V. P . Protopópov eoutros) partia da tese segundo 1 ,r Crich caracterizou como surgimento de uma “hipótese mo-
a qual os movimentos que oanimal empreende tentando re- •- tora”, que orienta o sentido geral das tentativas dos ratos
solver a tarefa não têm caráter caótico e casual mas surgem que adquirem "habilidade" no labirinto. Os testes com a
no processo de um ativo desempenho de orientação. Nesse chamada “aprendizagem latente” confirmam o fato de que as
desempenho o animal tenta atingir o objetivo, analisa a situa- tentativas que o animal empreende no processo de aquisição
ção, escolhe a direção dos movimentos que corresponde à de novos programas de comportamento não são casuais mas
posição do objetivo. Essa situação da “tarefa” (que esses constituem o resultado da orientação ativa do animal nas
psicólogos entendem como objetivo dado em determinadas condições do meio.
condições) ou como situação “estímulo-obstáculo” leva a
que as tentativas do animal, dirigidas pelo objetivo, restrin- Nesses testes de “aprendizagem latente” , compara-se
gem-se paulatinamente e o animal vai chegando pouco a pou- a rapidez da aquisição da habilidade nos animais, que
co ao ponto em que surgem nele as necessárias reações mo- são imediatamente colocados no labirinto para percor-
toras adequadas ao objetivo, que são posteriormente reforça- rê-lo, com a rapidez dos animais do segundo grupo, aos
das. quais se permite simplesmente correr pelo labirinto,
A vantagem dessa teoria consiste em que ela tenta ex- f dando-se-lhes a possibilidade de se orientarem previa-
plicar o surgimento das necessárias formas de solução da mente nas condições do labirinto.
S"
tarefa ou surgimento da “habilidade” a partir de uma aná- Como mostraranl esses testes realizados por pes-
lise motora da situação, abandonando a hipótese de que os quisadores americanos, o segundo grupo de animais ad-
movimentos necessários surgem “por acaso”. quiria a habilidade bem mais rapidamente do que o
Várias observações, realizadas por pesquisadores ameri- primeiro. Foi característico o fato de que a aquisição
canos, confirmaram o fato dc que, às vezes, os programas da habilidade eficiente era especialmente significativa
bastante complexos de comportamento do animal que tenta quando se permitia ao animal orientar-se ativamente
atingir os objetivos não são adquiridos por acaso mas se for- nas condições do labirinto. Esse experimento foi rea-
mam no processo de uma orientação ativa nas novas condi- lizado peio pesquisador americano Hald, que permitiu
ções e são dirigidos por essa orientação na situação e por ao animal movimentar-se ativamente pela caixa pro-
sua análise. blema, enquanto outro animal observava passiva-

58 59
mente essa caixa do carrinho que havia levado o pri-
meiro animal. Também neste caso o primeiro animal,
que se orientara ativamente na situação, adquiriu a ha-
bilidade motora com rapidez bem maior do que o se-
gundo. Esse fato mostra o papel desempenhado na aqui-
sição do novo programa de ação pela orientação prévia
do animal nas condições do teste.

O complexo caráter dinâmico da habilidade motora ad-


quirida, que não é mera finalidade dos movimentos mecani-
camente adquiridos, é confirmado, finalmente, por uma sé-
rie especial de testes, que mostram que essa “habilidade” read-
quirida pode conservar-se inclusive nos casos em que um
conjunto inteiramente novo de movimentos se faz necessário
para colocá-la em prática.

Uma dessas pesquisas foi realizada pelo pesquisa-


sador americano Hunter, em cujo teste o rato adquiriu
a habilidade de encontrar o caminho necessário no la-
birinto. Depois que essa habilidade foi adquirida, uma
parte do labirinto foi excluída, colocando-se em seu
lugar uma b ad a com água. Neste caso o rato devia
atravessar a bacia a nado, i. e., fazendo movimentos in-
teiramente novos; mas com isto não perdeu a habili-
dade adquirida.
Fatos análogos foram registrados por outros meios
por Lashley, Após formar no rato a habilidade de en-
contrar os caminhos no labirinto, destruiu-lhe em se-
guida o cerebelo. Como resultado dessa operação, o
rato perdeu o equilíbrio e todos os movimentos ante-
riores se desorganizaram. Movendo-se, porém, por
cambaleios (i. e., por meio de movimentos inteiramente
novos), o rato acabou se colocando no rumo certo e
atingindo o objetivo.

Tudo isso mostra que os programas motores, adquiridos


em condições de tarefas especiais, não são, em hipótese algu-
ma, um fim mecânico dos reflexos; são, antes, esquemas di-
nâmicos complexos, que se formam no animal no processo de
sua atividade orientada.
¿ d t t l b U & tia w — i.-------------

Dois trnços são característicos da aquisição dessas novas


formas de atividade adaptadora entre os vertebrados. Um de-
les consiste em quo o processo de orientação ou busca é inse-
parável dos movimentos ativos e o descobrimento da solução
' ‘ i M n rttUeccde a execução do programa motor mas
ná ^fecessc) dos testes motores.
VO sitptinclo. trnço característico consiste em que o cará-
1 orientação do animal e o caráter das novas
' odfçjtilrídos dc comportamento dependem ao máximo
s-fornias naturais de comportamento, que se constituíram em
jmníitó -dbtttato com a peculiaridade da vida (com a ecolo-
dò animal. Nos herbívoros, principalmente nos animais
ijiao ingerem alimentação pronta (por exemplo a galinha, a
a vaca), a atividade dirigida tem caráter passivo, li-
mitado, os programas naturais de comportamento predominam
Ж c a aquisição de novas fomas de comportamento individual-
mente variáveis é um processo lento. Ocorre o contTário com
OS carnívoros, que em condições naturais são obrigados a
procurar a comida, a caçar a presa (as aves de rapina, a ra-
posa); nestes a atividade dirigida se processa na forma de
buscas ativas, sendo bem mais rápida a aquisição de novas
formas de comportamento, que correspondem a uma situação
variável.
E um dado essencial o fato de que o caráter das formas
adquiridas de um novo comportamento individualmente variá-
vel conserva nesses animais uma estreita ligação com as suas
formas congénitas (“instintivas” ) de atividade ou “reflexos
naturais” . Deste modo, o leão-marinho, no qual o mergulho
e a perseguição à presa fazem parte dos programas congéni-
tos de comportamento, aprende com especial facilidade a fazer
malabarismos com a bola ou agarrá-la. O guaxinim ou o urso,
que se erguem freqiientemente sobre as patas traseiras, deixan-
do livres as dianteiras, podem aprender facilmente a executar
movimentos que imitara uma “lavagem de roupa”, etc.
Essa estreitíssima ligação dos programas congénitos de
comportamento (ou “reflexos naturais") com a aquisição
de novas formas de atividade individualmente variáveis continua
sendo característica do comportamento dos vertebrados supe-
riores em dada etapa da evolução.

6L
O comportamento “intelectual" dos animais

A descrição da forma de surgimento do comportamento


individualmente variável não representa o limite supremo da
evolução do comportamento no mundo animal.
Nos vertebrados, que se encontram no topo da escada da
evolução, particularmente os primatas, surgem novas formas
de comportamento individualmente variável, que, com pleno
fundamento, podemos denominar comportamento “ intelectual” .
A peculiaridade do comportamento “ intelectual” dos ani-
mais consiste em que o processo de orientação nas condições
da tarefa não ocorre nas condições dos testes motores mas
começa a antecedê-los, d¡st¡nguindo-$e como forma especial de
atividade prévia de orientação. No processo dessa atividade
começa a formar-sc o esquema (programa) de solução sucessiva
da tarefa, ao passo que os movimentos se tornam um simples
elo executor nessa atividade de construção complexa. Assim,
nas etapas superiores da evolução começam a formar-se tipos
especialmente complexos de comportamento de complexa estru-
tura desmembrada, da qual fazem parte:

— a atividade de procura c orientação, que leva à forma-


ção do esquema de solução da tarefa;
— a formação de programas plasticamente variáveis de
movimentos voltados para a obtenção do objetivo;
— a comparação das ações executadas com a intenção
inicial.

Essa estrutura da atividade complexa se caracteriza pelo


caráter auto-regulador. Se a ação leva ao efeito necessário, ela
cessa; se não leva a esse efeito, o cérebro do animal recebe
sinais da “ discordância" dos resultados da ação com a intenção
inicial e reiniciam-se as tentativas de solução da tarefa. Esse
mecanismo de “aceptor da ação" (P. K. Anokhin), i. c., de
controle dinâmico da ação é o elo mais importante de todo
comportamento individualmente variável do animal mas sc
manifesta com nitidez especia] na fase mais complexa da evo-
lução do comportamento: no comportamento intelectual.
Dois fenômenos essenciais, cujos embriões jà podem ser
vistos nas fases primordiais da evolução dos vertebrados, ante-
cedem a formação dessa modalidade mais elevada de compor-
tomento dos animais. O primeiro deles é o surgimento de uma
forma especial de atividade orientada, à qual o pesquisador
soviético L , V . Krushinsky chamou “reflexo extrapolative” .
O segundo é o fato das formas de desenvolvimento da memória
dos animais, que se tornam mais complexas.
Nas observações, efetuadas nos últimos anos por Krushtns-
ky, foi estabelecido que alguns animais mostram em seu
coniportamento a não-capacidade de sujeitar-se à percepção
Itntfdmta do objeto mas de acompanhar-lhe os movimentos e
orièntar-se em relação ao deslocamento esperado do objeto.
Snbe-íc que o cíio que atravessa uma rua não corre diretamente
nn frente dos carros em movimento mas dá voltas, considerando
O: ‘movimento dos carros c inclusive a velocidade deles. Foi
efcstv teflóxa. que “ extrapola” o movimento observado e leva
em conta o deslocamento, que Krushinsky observou em vários

• Nesses lestes, colocava-se diante do animal um tubo com


iirilí furo.n.0 centro. À vista do animal, prendia-se um estimu-
lante n um arame que passava por dentro do tubo. O esti-
mulante aparecia aos olhos do animal no furo do tubo e con-
tinuava em movimento, tomando a aparecer no final do tubo.
O animal so colocava diante do furo e observava o movimento
do estimulante.
ÊS'909 observações mostraram que os animais, que se en-
contram numa fase inferior de evolução, sobretudo os animais
qu» Unham apenas a propriedade de apanhar comida pronta
(a galinha, por exemplo), reagiam imediatamente ao lugar
onde o alimento aparecia e não se afastava dele. Ao contrário,
os animais que se encontram em fase mais elevada de evolução,
especialmente aqueles que levam modo de vida carnívoro,
Observam a presa e a perseguem (o corvo, o cão), observavam
os movimentos do alimento e, “ extrapolando” esse movimento
(ao que pnrece, orientando seu comportamento pelo movimento
dos olhos), contornavam o tubo e esperavam o alimento no
lugar em que ele aparecia.
O “ reflexo extrapolativo", que tem a forma especial de
comportamento “ antecipante”, representa uma das importantes
fontes para a formação dos tipos “ intelectuais” mais elevados
de comportamento individualmente variável nos vertebrados
superiores.
O segundo fato, que cria condições essenciais para a for-
mação do comportamento “ intelectual” dos vertebrados supc-

63
ñores, é a crescente complexidade do processo de percepção
e a grande estabilidade da memória nas fases subseqiientes da
evolução dos animais.
Ё sabido que se os vertebrados inferiores reagem apenas
a certos indicios de influências provenientes do meio exterior,
já os vertebrados superiores reagem mais a complexos inteiros
de indícios ou às imagens dos objetos circundantes. Essa reação
dos animais foi estudada minuciosamente pelo fisiologista e
acadêmico soviético I . S. Beritov c constitui a condição mais
importante para a evolução das formas mais complexas de
comportamento.
Simultaneamente com a formação da percepção por ima-
gem, nas etapas superiores da evolução dos vertebrados obser-
va-se uma crescente estabilidade da memória visual. Esse fato
foi observado minuciosamente nos testes com as chamadas
“reações retardadas” dos animais.
Os testes com “reações retardadas’ foram efetuados por
muitos pesquisadores americanos, pelo psicólogo soviético N.
Y. Voitonis e o fisiologista polonês Y . Konorsky. A essência
do teste consistia no seguinte:

Postava-se o animal diante de uma caixa hermetica-


mente fechada, na qual se colocava o estimulante à vista
do animal. Este se mantinha algum tempo amarrado a
um pau por um cabresto, sendo depois libertado. Se o
animal retinha na memória algum vestígio do estimulante
colocado na caixa, corria imediatamente para esta, não
o fazendo se o vestígio desaparecia.
Em testes mais complexos, cuja tarefa consistia em
verificar a precisão do vestígio conservado no animal,
substituía-se o estimulante na caixa sem que o animal o
percebesse. Se o animal conservava o vestígio do pri-
meiro estimulante e ao correr para a caixa encontrava
outro, ele o apanhava. Isto era indício de que o animal
conservava a imagem seletiva do estimulante que havia
visto,
Noutros testes, colocava-se o animal entre duas cai-
xas, numa das quais colocava-se um estimulante aos olhos
do animal. Percorrido certo tempo, libertava-se o ani-
mal do cabresto. Se o vestígio do estimulante colocado
numa das caixas se mantinha, o animal corria para essa
caixa; se o vestígio não se mantinha, o animal não apre-
sentava movimento dirigido.
Os testes de “ reações retardadas” mostram que, ñas
fases posteriores da evolução dos vertebrados, aumenta a dura-
ção da conservação das respectivas imagens.

Duração da conservação dos vestígios de meinória


visual provocada urna só vez em animais diferentes

o rato conserva o vestígio da imagem de 10 a 20 segundos


o cao " " ” até 10 minutos
o macaco " ” ” de 16 a 48 horas.

£ natural que a conservação das imagens por longo tempo


aumenta na medida cm que se tornam complexas as estruturas
cerebrais e cria urna segunda condição importante para o surgi-
mento de formas “ intelectuais” superiores de comportamento
do animal.
O conhecido psicólogo alemão Wolfgang Kohler inciou,
no inicio da década de 20 do corrente século, pesquisas siste-
máticas do comportamento “ intelectual” dos animais superiores
(os m acacos). Para estudar essa forma de comportamento,
Kõhler colocou macacos (chimpanzés) em condições sob as
quais a obtenção imediata do objetivo era inacessível e o macaco
devia orientar-se em situações complexas nas quais lhe era dado
o objetivo, usando o rodeio a fim de conseguir o chamariz ou
aplicando para isto instrumentos especiais.

Descrevamos três situações típicas nas quais Kõhler


fez suas pesquisas do comportamento “ intelectual” dos
macacos. A primeira situação exigia “ caminho em ro-
deio” . Colocava-se o macaco numa grande jaula, ao lado
da qual havia sido colocado o estimulante que se encon-
trava a uma distância que não permitia que a mão do
macaco o alcançasse. Para atingir o objetivo, o macaco
devia desistir das tentativas de obtenção imediata do obje-
tivo, usando um contorno por uma porta situada na
parede traseira da jaula.
A segunda situação era idêntica à que acabamos do
descrever; colocava-se o macaco numa jaula fechada,
desta feita com portas. O estimulante continuava distante
e o animal não conseguia alcançá-lo. Diferentemente da
primeira situação, porém, em frente à jaula havia uma
vara a uma distância equivalente a um braço estirado.
O macaco podia obter o estimulante se conseguisse a vara
e com esta alcançasse o objetivo. Em testes mais com-
plexos, o estimulante se encontrava a uma distância ainda
maior, mas no campo de visão do macaco havia duas
varas: uma curta, ao alcance do braço, e outra comprida,
um pouco adiante. Para resolver a tarefa, o macaco devia
realizar um programa de comportamento mais complexo.
A princípio, devia alcançar a vara mais próxima — a
curta — e, com o auxílio desta, obter em seguida a vara
comprida, situada mais adiante e, já com ajuda desta,
obter o estimulante. Por último, na terceira variante dos
testes, pendurava-se o estimulante de tal modo que o
macaco não conseguia alcançá-lo. Mas na mesma área
foram colocados caixotes; para alcançar o estimulante, o
animal devia arrastá-los para perto deste, colocá-los uns
sobre os outros e trepar.

As pesquisas de Kohler permitiram-lhe observar o seguinte


quadro. A princípio o macaco tentava sem êxito obter o esti-
mulante por via direta, estirando-se ou saltando em sua direção.
Essas tentativas inúteis podiam durar muito, até o macaco ficar
exausto e abandoná-las. Em seguida vinha o segundo período,
na qual o animal permanecia sentado, imóvel, limitando-se a
examinar a situação; neste caso a orientação na situação se
transferia dos testes motores bem desenvolvidos para o “ campo
visual” da percepção e se realizava por meio dos respectivos
movimentos dos olhos. Depois disto vinha o momento decisivo,
que Kohler descrevia como surgimento inesperado do insight.
O macaco se dirigia imediatamcnie à porta, situada na parede
traseira da jaula e, contornando-a, obtinha o estimulante ou
desistia de suas tentativas e apanhava a vara. Com ela conseguia
o alimento ou uma vara mais comprida, com a qual alcançava o
alimento. Finalmente, na última situação, o macaco abandonava
todas as tentativas de alcançar a comida por via direta, olhava
em torno, arrastava ¡mediatamente os caixotes, colocava-os um
sobre o outro, trepava, e obtinha o alimento. Todos esses testes
apresentaram como característica o fato de que a solução da
tarefa se transferia do período dos testes imediatos ao período
da observação antecedente da tentativa, e os alimentos do ma-
caco se tomavam ato executivo para a realização de um “ plano
de solução” anteriormente adquirido.

66
Foram justamente essas observações que deram a Kohler
fuñdamonto para considerar o comportamento do macaco um
exemplo de comportamento “ intelectual” .
Se nos experimentos de. Kõhlcr a descrição do comporta-
mento dos macacos 6 definitiva, a explicação das vias pelas
quais o animal chega à solução “ intelectual" da tarefa apresenta
complexidades consideráveis e diferentes pesquisadores dão a
esse processo interpretação diversa.
O conhecido psicólogo americano Yerkes, que repetiu a
pesquisa de Kohler, acha possível aproximar essas formas de
comportamento do macaco do intelecto humano e considerá-las
por via antropomórfica como manifestações de “ iluminação
criativa” .
O psicólogo austríaco K. Bühler cita a experiência ante-
rior do animal para explicar esse comportamento e considera
que o emprego de instrumentos pelos macacos deve ser visto
como resultado da transferência de uma experiência anterior
(os macacos, que viviam em árvores, tinham de puxar os frutos
para si junto com os ram os).
O próprio Kõhler expressa a hipótese de que, no compor-
tamento “ intelectual” dos macacos, a análise da situação se
transfere da área dos movimentos ao plano da percepção e o
macaco, ao examinar a situação, “ aproxima” os objetos que
dela fazem parte no “ campo visual” , fechando-os em certas
“ estruturas visuais” . A solução posterior da tarefa é, segundo
Kõhler, apenas a realização de estruturas “ visuais” em movi-
mentos reais. Kõhler vê a confirmação dessa hipótese no fato
de que, quando a vara e o alimento (uma fruta) ou mesmo
as varas que o macaco deve obter sucessivamente estão dispostas
de tal modo que não caem apenas no campo de visão, a tarefa
se torna insolúvel para o macaco.
Kõhlcr tenta confirmar sua hipótese com experimentos nos
quais o macaco devo antes preparar o instrumento que usará
posteriormente para conseguir q nlimeñto; por exemplo,*0 ma-
caco devo enfiar uma vara de bambu em outra .porá, nlcngart»
do-а, colher uma fruta. Esses nç&cs se tarnnm bem mais eUfíceis
para o macaco e podem «er realizados „«amerite na pontua
de ambas as varas 'estiverem no Campo de.vMn direto, Segundo
Kõhler, essa incidindo dos dual varai num. áolco entripo de
visão é o que pode levtír ô solução adequada ca inreftt
O problema dos mecanismos que servem de base ao surgi-
mento de comportamento “ intelectual” do macaco não pode
ser considerado definitivamente resolvido. Se uns pesquisadores
o opõem às formas mais elementares de comportamento indivi-
dualmente variável dos animais, outros (por exemplo, Pávlov,
que fez observações com o comportamento dos macacos) acham
possível não opô-lo às formas mais dementares de comporta-
mento e consideram o comportamento “ intelectual” dos ma-
cacos como uma espécie de “ pensamento manual'', realizável
num processo de testes e erros, que adquire caráter mais rico
em decorrência do fato de que as mãos dos macacos, livres
da função de andar, começam a executar formas mais comple-
xas de atividade orientada.

Fronteiras do comportamento individualmente variável


dos animais

Vimos que o comportamento adaptador individualmente


variável dos vertebrados superiores pode adquirir formas muito
complexas. Surge uma pergunta natural: quais são os seus
traços característicos e quais os limites que o comportamento
dos animais não pode ultrapassar? A análise do comporta-
mento dos animais permite indicar três traços fundamentais.
O primeiro é o fato de que todo comportamento indivi-
dualmente variável (mesmo o mais complexo) do animal con-
serva sua ligação com os motivos biológicos c não pode ultra-
passar-lhe os limites. Todo comportamento animal tem por
base as inclinações biológicas ou necessidades (necessidade de
alimento, autoconservação ou necessidade sexual). Só nas
etapas mais elevadas da evolução a elas se incorpora a necessi-
dade de orientar-se no meio ambiente, a que Pávlov chamava
de reflexo orientador e que, no macaco, atinge desenvolvimento
considerável. Nenhuma atividade desvinculada de todas essas
necessidades biológicas é possível para o animal, razão por que
o comportamento do animal pode ser considerado com todo
fundamento como comportamento cortical-subcortical.
O segundo traço, que caracteriza o comportamento de todo
animal, consiste em que esse comportamento é sempre deter-
minado por estímulos imediatamente perceptíveis ( “ pelo campo
exterior” ) ou por vestígios da experiência anterior, não podendo

6R
ocorrer abstraindo-os nem muito menos entrando em conflito
com eles.
O psicólogo holandês Buytendijk ilustra bem essa tese
com uma pesquisa famosa, de importância capital.
Ele colocou diante de um animal várias caixas nas quais
poder-sc-ia encontrar alimento, No primeiro teste o alimento
foi posto aos olhos do animal na primeira caixa, permitindo-se
ao animal apanhá-lo. No segundo teste, o alimento (também
aos olhos do animal) foi transferido para uma segunda caixa,
em seguida para uma terceira. Depois, nos experimentos seguin-
tes, começou-se (já sem qué o animal o percebesse) a trans-
ferir sucessivamente o alimento para cada caixa seguinte, per-
mitindo-se sempre ao animal correr livremente para a caixa
onde ele supunha encontrnr o alimento.
A pesquisa mostrou que o animal corre sempre para
a caixa onde vira que havia sido posto o alimento, ou para a
caixa onde antes se encontrava o alimento. Nenhum animal
pode assimilar o princípio do “deslocamento sucessivo" e nunca
corre para a caixa seguinte na qual ainda não houve alimento
mas onde é fácil esperá-lo caso se leve em conta um princípio
abstrato.
O comportamento do animal é sempre dirigido pela expe-
riência imediata ou pela experiência passada, e ele nunca pode
impedir a reação ao lugar anteriormente memorizado e dirigir-se
a lugar que não tinha sido memorizado, O experimento de Buy-
tendijk realizado com animais de diferentes grupos, mostra que
o animal, segundo Kõhler, é “um escravo do seu campo visual"
ou “ escravo da sua experiência passada” , e seu comportamento
nunca se liberta dessas influências diretas, não se dirige pela
abstração destas, noutros termos, não se torna livre.
O terceiro traço do comportamento do animal consiste nas
limitações das fontes desse comportamento.
Podem ser fonte de comportamento do animal os progra-
mas alicerçados em sua experiência de espécie, que se transmi-
tem cm códigos hereditários ( “ comportamento instintivo” ) ou
que se formam na experiência imediata de dado indivíduo (com-
porlamcnto individualmente variável ou reflexivo-condicionado).
Os animais nEto têm nenhuma possibilidade de assimilação da
experiência alheia o de um indivíduo transmiti-la assimilada a
outro indivíduo, e muito menos de transmitir a experiência
formada em várias gerações. Os fenômenos que se descrevem
como “ Imitação" ocupam lugar relativamenie limitado na for-

69
mação do comportamento dos animais, sendo antes uma forma
de transmissão prática direta da própria experiência que uma
transmissão de informação acumulada na história de várias
gerações, que lembre o mínimo sequer a assimilação da expe-
riência material ou intelectual das gerações passadas, assimi-
lação essa que caracteriza a história social do homem.
São esses três traços que constituem as peculiaridades fun-
damentais de todo comportamento e o distinguem radicalmente
da atividade consciente do homem.
Ill

A Atividade Consciente do
Homem e Suas Raízes Histórico-
Sociais

Princípios gerais

P o r s u a s peculiaridades fundamentais, a atividade cons-


ciente do homem difere acentuadamente do comportamento
individualmente variável dos animais.
As diferenças da atividade consciente do homem sinteti-
zam-se em três traços fundamentais, opostos àqueles pelos quais
acabamos de caracterizar o comportamento dos animais.
O primeiro desses traços consiste em que a atividade cons-
ciente do homem não esiá obrigatoriamente Usada a motivos
biológicos. Além do mais, a grande maioria dos nossos atos
não se baseia em quaisquer inclinações ou necessidades bioló-
gicas. Via de regra, a atividade do homem-é regida_poiLcom-
plexas necessidades, frequentemente chamadas de “ superiores”
nu “ intelectuais” Situam-se entre elas as necessidades coeni-
i i m ^ q u e incentivara o homem à aquisição de novos conheci-

71
mentos, a necessidade de comunicação, a necessidade de ser
útil á sociedade, de ocupar, nesta, determinada posição, etc.
Encontramos freqiientemente situações nas quais a ativi-
dade consciente do homem, além de não se sujeitar às influên-
cias e necessidades biológicas, ainda entra em conflito com elas
e chega inclusive a reprimi-las. São amplamente conhecidos
casos de heroísmo em que o homem, movido por elevados
motivos de patriotismo, cobre com seu corpo bocas de fogo
ou se lança à morte sob tanques; esses casos são apenas exem-
plos da independência do comportamento do homem em relação
aos motivos biológicos.
Entre os animais não há semelhantes formas de compor-
tamento “ desinteressado” , que se baseiam em motivos não-
biológicos .
Q_segundQ..traco.característico da atividade consciente do
liam.cm..consiste .sm .q u e> ..d iferen ça do çomportameniQ .do
animal, ela não é forcosamente determinada por impressões
evidentes, recebidas do meio, ou por vestigios da experiência
individual imediata.
Sabe-se que o homem pode refletir as condições do meio
de modo ¡mediatamente mais profundo do que o animal. Ele
pode abstrair a impressão imediata, penetrar nas conexões e
dependências profundas das coisas, conhecer a dependência
causal dos acontecimentos e, após interpretá-los, tomar como
orientação não impressões exteriores porém leis mais profun-
das. Assim, ao sair a passeio num claro dia de outono, o
homem pode levar guarda-chuva, pois sabe que o tempo é
instável no outono. Aqui ele obedece a um profundo conheci-
mento das leis da natureza e não à impressão imediata de um
tempo de sol e céu claro. Sabendo que a água do poço está
envenenada, o homem nunca irá bebê-la, mesmo que esteja com
muita sede; neste caso, seu comportamento não é orientado
pela impressão imediata da água que o atrai mas por um conhe-
cimento mais profundo que ele tem da situação.
A atividade consciente do homem não pode tomar como
orientação n impressão imediata da situação exterior e sim um
conhecimento mais profundo das leis interiores dessa situação,
razão por que há todo fundamento para afirmar-se que o
comportamento humano, baseado no reconhecimento da neces-
sidade, é livre.
Por último, há o terceiro traço característico, que difere
a atividade consciente do homem do componamento do animal.
Diferentemente do animal, cujo comportamento tem apenas duas
fontes — 1) os programas hereditários de comportamento,
jacentes no genótipo e 2) os resultados da experiência indivi-
dual — , a atividade consciente do homem possui ainda uma
terceira fonte: a grande maioria dos conhecimentos e habilidades
do homem se forma por meio da assimilação da experiência
cie ioda a humanidade, acumulada no processo da história social
e transmissível no processo de aprendizagem 1
Desde o momento em que nasce, a criança forma o seu
comportamento sob a inñuéncia das coisas que se formaram
na história: senta-se à mesa, come com colher, bebe em xícaTa
e mais tarde corta o pão com a faca. Ele assimila aquelas
habilidades que foram criadas pela história social ao longo de
milénios. Por meio da fala transmitem-lhe os conhecimentos
mais elementares e posteriormente, por meio da linguagem, ele
assimila na escola as mais importantes aquisições da humani-
dade. A grande maioria de conhecimentos, habilidades e pro-^
sedimentos do ,ç.ompprtamgmQ-dg aus dispõe.o homem., não.
são, o resultado de sua experiência própria mas adquiridos nela
assimilação da experiência histórico-social de gerações. Este
traço diferencia radicalmente a atividade consciente do homem
do comportamento do animaL
Há muito tempo uma questão tem ocupado a filosofia e a
Psicologia: como explicar os traços da atividade consciente do
homem que acabamos de numerar?
Na história da filosofia e da ciência podemos distinguir
duas vias inteiramente diferentes de solução dessa questão.
Uma delas, típica da lilosofia idealista, partia das posições
do dualismo. A tese básica dessa corrente reduzia-se não só
ao reconhecimento de acentuadas diferenças de princípio entre
o comportamento do animal e a consciência do homem, como
também à tentativa de explicar essas diferenças alegando que
a consciência do homem deve ser considerada como manifes-
tação de um princípio espiritual especial de que carece o animal.
A tese segundo a qual o animal deve ser visto como uma
máquina complexa, cujo comportamento obedece as leis da
mecânica, e o homem como dotado do princípio espiritual com
livre-arbítrio partiu de Descartes, tendo sido repetida poste-
riormente pela filosofia idealista sem mudança considerável. Ê
fácil perceber que, apontando a diferença de princípio entre o
comportamento do animal e a atividade consciente do homem,

73
essa corrente não dá nenhuma explicação científica aos referidos
fatos.
A segunda via de solução do problema da originalidade
da atividade consciente caracteriza o positivismo evolucionista.
Segundo essa teoria, a atividade consciente do homem é resul-
tado direto da evolução do mundo animal, já se podendo obser-
var nos animais todos os fundamentos da consciência humana.
O primeiro cientista a formular essas teses foi Charles Darwin,
que em várias de suas obras tentou mostrar que, na forma em-
brionária, os animais já têm todas as formas de atividade racio-
nal inerente ao homem e que não há limites precisos e basilares
entre o comportamento dos animais e a atividade consciente
do homem.
O enfoque naturalista, que tentava estudar uma linha única
de desenvolvimento da consciência dos animais ao homem,
desempenhou papel positivo em seu tempo no combate às con-
cepções dualistas pré-científicas. No entanto as afirmações de
que os animais têm em embrião todas as formas da vida cons-
ciente do homem, o enfoque antropomórfico da ‘razão” e das
“ vivências” dos animais, bem como a falta de vontade de
reconhecer as diferenças de princípio entre o comportamento
dos animais e a atividade consciente do homem continuaram
a ser o ponto fraco do positivismo naturalista. Ficava sem
solução o problema da origem, das peculiaridades da atividade
consciente do homem, que foram ressaltadas acima.
A Psicologia científica, que parte dos princípios do mar-
xismo, focaliza de posições inteiramente diferentes o problema
da origem da atividade consciente do homem.
Ê sabido que toda a atividade psíquica dos animais, que
cria a base para a orientação no meio ambiente, forma-se nas
condições das formas de vida que caracterizam uma espécie de
animais.
O que é que caracteriza as formas de vida que diferenciam
a atividade consciente do homem do comportamento dos ani-
mais c nas quais devemos procurar as condições que formam
essa atividade consciente?
As peculiaridades da forma superior de vida, inerente ареЛ
nas an homem, devem ser procuradas na forma histórico-socialX
de atividade, que está relacionada com o trabalho social. cõm~\
o empreso de instrumentos de trabalho e com o surgimento da |
linguagem. Essas formas de vida não existem nos animais, e J
a transição da história natural do animal à história social da
humanidade deve ser considerada um importante passo assim
como a transição da matéria inanimada à animada ou da vida
vegetal à animal. ••
Por isto as raízes do surgimento da atividade consciente d ó \
homem não devem ser procuradas nas peculiaridades da “alma" '
nem no íntimo do organismo humano mas nas condições sociais Г
de vida historicamente formadas, J
São justamente essas condições que fazem com que, com''
a transição para a história social, mude radicalmente a estrutura
do comportamento. Junto com os motivos biológicos do com-
portamento, surgem os motivos superiores (“ intelectuais” ) e
necessidades, concomitantes com o comportamento que depende
da percepção imediata do meio. Surgem formas superiores de
comportamento, baseadas na abstração das influências imediatas
do meio, e, juntamente com as duas fontes do comportamento
— os programas de comportamento consolidados nor via here-
ditária e a influência da experiência passada do próprio indi-
víduo — . surge uma terceira fonte formadora da atividade: a
transmissão e assimilação da experiência de toda a humanidade.
Abordemos mais detidamente as raízes histórico-sociais da
complexa atividade consciente do homem. , ,

O trabalho e a formação da atividade consciente

A ciência histórica destaca dois fatores, que servem de


fonte à transição da história natural dos animais à história
social do homem. Um desses fatores é o trabalho social e o |
empreso dos instrumentos de trabalho, o outro, o surgimento p
da üneuaeem. T
Examinemos o papel desempenhado por esses dois fatores
na mudança radical das formas de atividade psíquica e no
surgimento da consciência.
Sabe-se que, à diferença do animal, o homem tanto empre-
ga os instrumentos de trabalho como prepara esses instrumentos.
Os remanescentes desses instrumentos, que pertencem à época
mais antiga da história da humanidade, mostram que, se as las-
cas de pedra tosca são os instrumentos de trabalho mais primiti-
vos, na etapa posterior já surgem os instrumentos (a lâmina, a
flecha) preparados especialmente pelo homem. Nesses instru-
mentos podemos distinguir tanto o gume, com o qual o homemi

75
primitivo podia esfolar o animal morto ou cortar pedaços de
árvore, como a “ lombada” , a parte arredondada, que servia
para manter-se comodamente na mão. Ê natural que arma dessa
natureza exige preparo especial, que, pelo visto, cabia aos prefe-
ridos do grupo primitivo ou à mulher, que ficava em casa
enquanto o homem ia à caça.
A preparação dos instrumentos (que às vezes subentendia
também a divisão natural do trabalho) por si só já mudava
radicalmente a atividade do homem primitivo, distinguindo-a do
comportamento do animal. O trabalho desenvolvido na prepa-
ração dos instrumentos já não é uma simples atividade, deter-
minada por motivo biológico imediato (a necessidade de ali-
mento) . Por si só a atividade de elaboração da pedra carece
de sentido e não tem qualquer justificativa em termos bioló-
gicos; ela adquire sentido somente a partir do uso posterior
do instrumento preparado na caça, ou seja, exige, motamente
com o conhecimento da operação a ser executada, o conhe-
cimento do futuro emprego do instrumento. £ esta a condição
fundamental, que surge no processo de preparação do instru-
mento de trabalho, e pode ser chamada de primeiro surgimento
da consciência, noutros termos, primeira forma de atividade
consciente.
Essa atividade de preparação dos instrumentos de trabalho
leva a uma mudança radical de toda a estrutura do comporta-
mento .
O comportamento do animal fora sempre voltado imedia-
tamente para a satisfação de urna necessidade. Diferentemente
disto, no homem que preparava seus instrumentos de trabalho,
o comportamento adquiria caráter de estrutura complexa; da
atividade, voltada para a satisfação imediata de uma necessidade,
separa-se uma ação especial, que adquire seu sentido posterior-
mente, quando o produto dessa ação (preparação do instru-
mento) será empregado para matar a vítima c deste modo
satisfazer a necessidade de alimento. A mudança mais impor-
tante da estrutura geral do comportamento — surgida no pro-
cesso de transição da história natural do animal à história social
do homem — dárse guando, da atividade geral, separa-se uma
"acãn'‘ aue não é dirieida imediatamente d or motivo biológico
c só adauire sentido com o empreso posterior dos seus resul-
tados. Perecebe-se facilmente aue. na medida em que se tornam
mais complexas a sociedade e as formas de produção. essas
ações, não dirigidas imediatamente por motivos biológicos.

76
comeram a ocupar posição cada vez mais marcante na atividade
consciente do homem.
Contudo, a complicação da estrutura da atividade durante
a transição à história social do homem não se limita à mudança
que acabamos de mencionar.
A preparação dos instrumentos de trabalho requer uma
série de procedimentos e modos (desbastar uma pedra com
outra, friccionar dois pedaços de madeira na obtenção do fogo),
por outras palavras, exiee a separação de várias operações
auxiliares. A separação dessas “ operações" 6 o que constitui,
a sucessiva complicação da estrutura da atividade.
Deste modo, a separação entre a atividade biológica geralX
e as “ ações” especiais não é determinada m ediatam ente por \
motivo biológico, mas é dirigida pelo objetivo consciente, que \
adquire sentido apenas na comparação dessas ações com o resul~ I
lado final. O surgimento de várias ‘'operaçoes1’ auxiliares por I
meio das quais se executa essa atividade é o que constitui a \
mudança radical do comportamento, que é o que representa uma )
nova estrutura de atividade conscience do hom em A complexa
organização de “ações” conscientes, que se separa da atividade
geral, leva ao surgimento de formas de comportamento, que
não são diretamente dirigidas por motivos biológicos, podendo
inclusive opor-se algumas vezes a eles.
Assim é, por exemplo, a caça na sociedade primitiva,
durante a qual um grupo de caçadores “ assusta” e afugenta
a caça que deve ser apanhada, enquanto outro grupo arma
emboscada para ela; aqui poderia parecer que as ações do
primeiro grupo contradizem as necessidades naturais de apanhar
a caça e só adquirem sentido a paríir das ações do segundo
grupo cujo resultado é a caça da vítima pelos caçadores. :
Torna-se claro que a atividade consciente do homem пар
é produto do desenvolvimento natura! de propriedades jacentes
no organismo mas o resultado de novas formas historico-sociaiS"
de atividade-trabalho.

A linguagem e a consciência do homem

O surgimento da linguagem é a segunda condição aue leva


à formação da atividade consciente de estrutura complexa do
homem.

77
Costuma-se entender por linguagem um sistema de códigos
por meio dos quais são designados os objetos do mundo exterior,
suas ações. qualidades, relações entre eles, etc. Assim, na lingua-
gem, a palavra “ cadeira” designa um tipo de' móvel que serve
de assento, a palavra “ pão” designa um objeto comestível,
enquanto “ dorme", “ corre” designam ações, “ ácido”, “ plano"
designam qualidades dos objetos e as palavras auxiliares “ so-
bre” , “ sob”, “ juntamente”, “ em conseqilência” designam rela-
ções diferentes por complexidade entre os objetos.
£ natural que as palavras, unidas em frases, são os prin-
cipais meios de comunicação mediante quais o homem con-
serva e transmite informação e as'sitnila a experiência acumu-
lada por gerações inteiras de outras pessoas.
Essa linguagem não existe entre os animais e surge somente
no processo de transição à sociedade humana. 0 animal possui
meios muito variados de expressão de seus estados, que são
percebidos por outros animais e podem exercer influência subs-
tanciai sobre o comportamento destes. O guia de um bando de
cegonhas, ao sentir o perigo, solta gritos alarmantes aos quais o
bando reage vivamente. Numa manada de macacos podemos
observar todo um conjunto de sons, que expressa satisfação,
agressão, medo ao perigo, etc. Podemos observar um sistema
muito complexo de movimentos expressivos nas chamadas
“ danças” das abelhas, que mudam de caráter dependendo de
ter a abelha regressado do vôo com boa prenda e modificam-se
dependendo da direção e da distância do caminho percorrido.
Esses “ segredos” são transmitidos a outros indivíduos e podem
orientar de modos diferentes o comportamento das abelhas.
Mas a “ linguagem" dos animais nunca designa coisas, não
distingue acôcs nem qualidades, portanto, não e lineuaeem na
verdadeira oceocão da palavra,
O problema do surgimento da linguagem humana é o
objeto de inúmeras hipóteses e teorias.
Algumas delas consideram a linguagem manifestação do
campo espiritual, atribuindo-lhe, de acordo cora a Bíblia, “ ori-
gem divina” . Essas teorias são muito vagas e omitem o fato
de que a linguagem é uma especial “ forma simbólica de exis-
tência”, que faz distinção entre a vida intelectual e qualquer
manifestação do mundo material.
Outras teorias, seguindo as tradições do positivismo natu-
ralista, tentam, inutilmente, ver a linguagem como resultado da
evolução do mundo animal e interpretam como formas iniciais

7$
da evolução da linguagem os fenômenos de “ comunicação’*
entre os animais que descrevemos.
Mas a solução científica do problema da origem da lingua-
gem só se tornou possível quando a filosofia e a ciência aban-
donaram as tentativas de procurar as raízes da linguagem no
ámago do organismo e de deduzi-la diretamente das peculiari-
dades do “ espírito” ou do cérebro, concluindo que as condições
que originaram o fenômeno devem ser procuradas nas relações
sociais do trabalho cuios primórdios de surgimento remontan ao
período de trartsicão da história natural â história humana.
A ciência não disppe de métodos que permitam observar
imediatamente as condições •que originaram a linguagem, res-
tando para a área da ciência, denominada “ paleontologia da
fala” , apenas o caminho das hipóteses que se confirmam por
via indireta. Hà muitos fundamentos para se pensar que o
surgimento da linguagem teve seus primórdios nas formas de
comunicação contraídas pelos homens no processo de trabalho..
A forma conjunta de atividade prática faz surgir forçosa-
mente no homem a necessidade de transmitir a outros certa
informação: esta não pode ficar restrita à expressão de estados
subjetivos (vivências), devendo, ao contrário, desienar os obje-
tos (coisas ou instrumento) auc fazem parte ¿ia atividade do
trabalho conjunto. Segundo as teorias originárias da segunda
metade do século XIX, os primeiros sons que designam objetos
surgiram no processo do trabalho conjunto.
Entretanto seria incorreto pensar que os sons, que assu-
miram paulatinamente a função de transmitir certa informação,
eram “ palavras” capazes de designar com independência os
objetos, suas qualidades, ação ou relações. Os sons, que comeA
çavam a indicar determinados objetos, ainda não tinham exis-l
tência autónoma. Estavam entrelaçados na atividade prática, l
eram acompanhados de gestos e entonações expressivas, razão |
por que só era possível interpretar o seu significado conhecendo I
a situação evidente em que eles surgiam. Além do mais, nesse ]
complexo de meios de expressão parece oue. a princípio, coube
posição determinante aos atos e gestos: estes, segundo muitos
autores, constituíam os fundamentos de uma original linguagem
ativa ou “ linear” e só bem mais tarde o papel determinante
passou a ser desempenhado pelos sons, que propiciaram a base
para uma evolução paulatina de uma linguagem de sons inde-
pendente . Durante muito tempo, porém, essa linguagem man-
tgyg Д mais estreita ligaçãp com g gcsiQ_e_Q_at.9_e_E9;-LS,tQ_Q
mesmo complexo de sons (ou “ protovocâbulo” ) podia desig-

79
ЬьъгО з —> b i s j o i j лол/ь o t y M -o ¡ л £ £ л ы й а

r i á j ^ / h o +¿/<'/¿>vM¿jem'? —■^ ¿W c w %,c í¿ a )&i ü


nar o objeto para o gual a mão apõntava. a própria mão e a
ACão produzida com esse objeto. Só depois dc muitos milêniosn
a linguagem dos sons começou a separar-se da ação prática e |
a adquirir independência. £ a essa época que pertence o sur-
gimento das primeiras palavras autónomas, que designavam
objetos e bem mais tarde passaram a servir para distinguir as
ações e as qualidades dos objetos. Surgiu a língua como um
sistema de códigos independentes, que durante um longo período
histórico posterior de desenvolvimento assumiu a forma que
distingue as línguas atuais.
Enouanto sistema de códigos que designam os objetos, suas
ações, cualidades ou relações e serve de meio de transmissão
de informação, a linguagem teve importância decisiva para a
posterior reorganização da atividade consciente do homem. P or
isto têm razão os cientistas que afirmam que, a par com o
trabalho, a linguagem é o iator lundamental dc íormcção cia
consciência.
O surgimento da linguagem imprime ao menos três mu-
danças essenciais à atividade consciente do bomem. A primeira
dessas mudanças consiste em que, designando os obietos e
eventos do mundo exterior com palavras isoladas ou combina-
ções de palavras, a linguagem permite discriminar esses objetos,
dirigir a atenção para eles e conservá-los na memória. Resulta
daí que o homem está em condições de lidar com os objetos
do mundo exterior inclusive quando eles estão ausentes. E
bastante a pronúncia interna ou externa dc uma palavra para
o surgimento da imagem do objeto correspondente c o homem
pôr-se em condições de operar com essa imagem. Por isto
podemos dizer que a linguagem duplica o mundo perceptive!.
permite conservar a informação .recebida do mundo exterior e
cria um mundo de imagens interiores. Perccbe-se facilmente
que importância tem o surgimento desse mundo “ interior” de
imagens, que surge como base na linguagem e pode ser usado
pelo homem em sua atividade.
O segundo papel essencial da linguagem na formação da
consciência consiste em que as palavras de uma língua não ape-
nas indicam determinadas coisas como abstraem as proprieda-
des essenciais destas, relacionam as coisas perceptivas a deter-
minadas categorias. Essa possibilidade de assegurar o processo
de abstração e generalização representa a segunda contribuição
importantíssima da linguagem para a formação da consciência.
Por exemplo, as palavras “ relógio” e “ mesa” designam não
apenas certos objetos. A palavra “ re'.ógi indica, д ^ с esse

80 ~ "
ft't.
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objeto serve para marcar as horas (do latim horologio); a pa-
lavra “ mesa” indica que esse objeto serve para sei coberto (do
latim mensa). Além do mais, as palavras “ relógio” e “ mesa”
designam todas as modalidades desses objetos, independente-
mente de sua fotma exterior ou do tamanho. Isto significa que
a palavra que distingue (abstrai) de fato os respectivos indícios
do objeto e generaliza objetos diferentes pelo aspecto exterior
mas pertencentes à mesma categoria transmite automaticamente
ao homem a experiência das gerações e serve de meio de repre-
sentação do mundo mais poderoso que a simples percepção. ..
Deste modo, a palavra faz pelo homem o grandioso trabalho
de análise e classificação dos objetos, que se formou no longo
processo da história social. Isto dá à linguagem a possibilidade
de tornar-se não apenas meio de comunicação mas também o
veículo mais importante do pensamento, que assegura a tran-
sição do sensorial ao racional na representação do mundo.
O que acaba de ser dito dâ fundamento para designar a
terceira função essencial da linguagem na formação da cons-
ciência. A linguagem é o veículo fundamental de transmissão
de informação, que se formou na história social da humanidade,
ou seja, ela cria uma terceira fonte de evolução dos processos
psíquicos que, no estágio do homem, aproximam-se das duas
fontes (os programas de comportamento transmissíveis por
hereditariedade e as formas de comportamento resultantes da
experiência de dado indivíduo) que se verificavam nos animais.
Ao transmitir a informação mais complexa, produzida ao
longo de muitos séculos de prática histórico-social, a linguagem
permite ao homem assimilar essa experiência e por meio dela
dominar um ciclo imensurável de conhecimentos, habilidades e
modos de comportamento, que em hipótese alguma poderiam
ser resultado da atividade independente dc um indivíduo isolado.
Isto significa que com o surgimento da linguagem surge no
homem um tioa inteiramente novo de desenvolvimento psíquico
desconhecido dos animais, e que a linguagem é realmente o
meio mais importante de desenvolvimento da consciência.

A importância da linguagem para a formação


dos processos psíquicos

A importância da linguagem para a formação da cons-


ciência consiste em que d a efetivamente penetra em todos os

81
campos da atividade consciente do homem, eleva a um novo
nível o desenrolar dos seus processos psíquicos. Por isto a
análise da linguagem e do discurso (da forma de transmissão
da informação que emprega meios de linguagem) não pode ser
vista apenas como capítulo especial da Psicologia mas deve
ser considerada também como fatos de construção de todo o
conjunto da vida consciente do homem. £ justamente рог isto
que o papel da linguagem ou “ segundo sistema de sinais da rea-
lidade” , como a denominou Pávlov, deve ser enfocado como
parte conclusiva da introdução evolucionista à Psicologia,
A linguagem reorganiza substancialmente os processos de
percepção do mundo exterior e cria novas leis dessa percepcâo.
Ê sabido que existe no mundo um número imenso de obje-
tos, formas, matizes de cores, mas é muito limitado o número
de palavras que designam esses objetos, formas e matizes. Isto
leva a que, quando relacionamos o objeto, a forma ou matiz
com alguma palavra (“ mesa”, “ relógio”, “ círculo", “ triângulo”
ou “ vermelho”, “ amarelo” ), nós realmente selecionamos os
traços essenciais e generalizamos os objetos, formas e cores
percept iveis em determinados grupos ou catcporias. Isto dá à
percepção humana traços que a distinguem radicalmente da
percepção do animal. A percepção humana se toma mais pro-
funda, relacionada com a discriminação dos indícios essenciais
do objeto, generalizada e permanente.
A linguagem muda essencialmente os processos de atenção
do homem.
Se a atenção do animal tinha caráter imediato, era deter-
minada pela força, a novidade ou valor biológico do objeto que
dirigiam automaticamente (arbitrariamente) a atenção do ani-
mal , _ç^i2_£_surgimento_daJinguagem_e_^
se acha em condições de dirigir arbitrariamente a sua atenção.
Quando a mãe diz ao filho “isto é uma xícara” , ela está
distinguindo esse objeto de todos os demais e dirigindo para
ele a atenção da criança. Quando posteriormente a própria
criança assimila o discurso (a princípio exterior, depois inte-
rior), acha-se em condições de discriminar sozinha os objetos
nomeados, as qualidades ou ações, tornando-se sua atenção
dirigível, arbitrária.
A linguagem muda esscncialmente também os processos
da memória do homem. £ sabido que a memória do animal
depende consideravelmente da orientação no meio ambiente
e dos motivos biológicos, que servem de reforço daquilo que é
lembrado com êxito. No nível humano e apoiada nos processos
do discurso, a linguagem se torna pela primeira vez atividade
mnemónica consciente, na ciual o homem coloca fins especiais
de lembrar, organiza o material a ser lembrado e acha-se em
condições não só de ampliar de modo imensurável o volume
de informação que se mantém na memória como ainda de vol-
tar-se arbitrariamente para o passado, selecionando nele, no
processo de memorização, aquilo que em dada etapa se lhe
afigura mais importante.
A linguagem do homem lhe permite desligar-se pela prPl
meira vez da experiência imediata e assegura o surgimento dal
imaginação, processo que não existe no animal e serve de base
à criação orientada e dirigida cujo estudo constitui área especial
da Psicologia.
Ê dispensável dizer que só com base na linguagem e com
sua participação imediata "constituem-se as complexas formas de
pensamento abstrata e generalizado; o surgimento dessas formas
representa uma das aquisições mais importantes da humanidade
e garante a transição do “ sensorial ao racional”, considerada
pela filosofia do materialismo dialético como um salto que pela
importância é igual à transição da matéria inanimada para a
animada ou da vida vegetal para a animal.
Não são menos importantes as mudanças introduzidas na
reorganização da vivência emocional pelo surgimento da lin-
guagem, que eleva a um novo nível os processos psíquicos.
Nos animais conhecemos apenas as reações afetivas expres-
sas, que ocorrem com a participação dominante dos sistemas
subcorticais e são diretamente relacionadas com o êxito ou
fracasso de sua atividade e conservam plenamente sua ligação
com as necessidades biológicas. O mundo emocional do homem
não é apenas incomparavelmente mais rico nem só isolado dos
motivos biológicos; a avaliação das correlações das ações real-
mente exeqüíveis com as intenções iniciais, a possibilidade de
uma formação generalizada do caráter e do nível dos seus acer-
tos leva a que, paralelamente às categorias afetivas, formem-se
no homem vivências e demorados estados-de-espirito que vão
muito além dos limites das reações afetivas imediatas e são
inseparáveis do seu pensamento, que se processa com a parti-
cipação imediata da linguagem.
Por último, não se pode omitir a última tese, cuja impor-
tância é especialmente grande,
É sabido que as novas formas de comportamento indivi-
dualmente variável do animal são adquiridas com base em sua
orientação imediata no meio ambiente e que a aquisição de

83
formas estáveis de semelhante comportamento se baseia nas
leis dos reflexos condicionados, estudadas minuciosamente pela
escola de Pávlov,
ê fato bem conhecido que a aquisição de novas formas
de comportamento exige um reforço relativamente longo da
resposta ao sinal condicional, a repetição multiplicada da coin-
cidência dos sinais condicionais com o reforço incondicionado.
Essa ligação é adquirida paulatinamente, começa a extinguir-se
tão logo desaparece o reforço e se reorganiza com relativa difi-
culdade num novo sistema de ligações.
Não encontramos nada semelhante na formação de novas
modalidades de comportamento consciente do homem. A nova
forma de atividade consciente pode surgir no homem à base da
formulação discursiva de uma regra, que o homem estabelece
com o auxílio da linguagem. Basta instruir o homem no sen-
tido de erguer o braço ou girar a chave em resposta a um
sinal vermelho e não fazer nenhum movimento a um azul para
surgir imediatamente e consolidar-se essa nova relação. O']
advento de qualquer ação, executável com base em instrução)
discursiva, dispensa qualquer reforço “incondicional" (ou bio-[
lógico) . Sua formação dispensa elaboração longa e se estabelece i
de imediato; essa ação, que se estabelece de acordo com uma
regra formulada no discurso, mostra-sc imediatamente sólida,
dispensa repetição permanente da instrução e não se extingue
se essa instrução não se repete. Por último, a “ conversão” dessa
ação numa nova não apresenta, na norma, nenhuma dificuldade,
c, para que a relação anteriormente criada seja imediatamente
substituída por uma contrária, basta sugerir ao sujeito uma nova.
instrução, dizendo-lhe, por exemplo, que agora de deve fazer
o contrário: cm resposta ao sinal azul. levantar o braço (ou
girar a chave), nada fazendo ao sinal vermelho.
Tudo isso se refere à imensa plasticidade e ao caráter diri-
gível dos processos de atividade consciente do homem, que
distingue acentuadamente o seu comportamento do comporta-
mento do animal.
A análise minuciosa das formas dessa atividade consciente,
dos meios de sua direção, das leis que servem de base ao seu
desenvolvimento e das formas de sua perturbação nos estados
patológicos constitui uma das tarefas fundamentais da Psicologia.
IV

O Cérebro е os Processos
Psíquicos

P a r a e n t e n d e r melhor a estrutura dos processos psíqui-


cos do homem e das leis que os regem, devemos conhecer
acima de tudo a maneira pela qual se construiu o órgãos prin-
cipal da atividade psíquica — o cérebro humano — e 3S rela-
ções dos processos psíquicos com ele.

O problema da relação dos proceisos psíquicos com o cérebro

O problema da relação dos processos psíquicos com o


cérebro e dos princípios de trabalho do cérebro enquanto subs-
trato material da atividade psíquica teve soluções diferentes em
períodos diversos de evolução da ciência. O caráter da solução
desse problema dependia muito da maneira como se interpre-
tavam os processos psíquicos do homem e como se enfocavam
os seus fundamentos cerebrais.
Na Idade Média já se formara na filosofia e na Psicologia
a ela relacionada a concepção segundo a qual os processos
psíquicos eram formas especiais de existência do espírito ou

85
I

“ faculdades” irredutíveis a quaisquer componentes tnais ele-


mentares.
.01
Estabeleceu-se a opinião segundo a qual podem-sc distin-
fe- guir ao menos três “ faculdades” básicas: a faculdade da per-
ar, cepção ou imaginação, a faculdade do raciocínio e a faculdade
da memória.
i i Os pensadores, que procuravam a base material dessas
faculdades, aventavam a hipótese de que elas estavam locali-
r> zadas no líquido que preenche três “ ventrículos cerebrais", e
s 1 consideravam que no ventrículo anterior estava situada a “ fa-
culdade da percepção ou imaginação” , ПО ventrículo médio, a
t' “ faculdade do raciocínio” , e no ventrículo posterior a “ facul-
iCt,
dade da memória” .
A idéia de que os processos psíquicos, que são a seguir
> “ faculdades" indivisíveis, podiam estar imediatamente “ locali-
c ., zados” em determinadas formações cerebrais, manteve-se du-
■A*1 rante muitos séculos e continuou basicamente imutável inclu-
on sive depois que os cientistas deixaram de considerar substrato
do psiquismo o líquido que preenche os “ ventrículos cerebrais”
atiJ e chegaram à opinião de que o fundamento da atividade psí-
quica devia ser procurado na substância sólida do cérebro,
sobretudo no córtex.
as A primeira tentativa de semelhante “ localização das facul-
8* dades psíquicas” foi empreendida no começo do século XIX
por F. J. Gall. Ele apresentou a hipótese dc que o substrato
■e de diversas “ faculdades" psíquicas é constituído por pequenas
áreas do tecido nervoso do córtex cerebral, que crescem muito
'K com o desenvolvimento dessas “ faculdades” . Após distinguir
•о um grande número dessas “ faculdades” congénitas (às quais,
.C u
segundo ele, pertenciam “ faculdades” como a “ parcimónia” , a
“ honestidade”, o “ respeito aos pais” e o “ amor às crianças” ).
Gall localizou cada uma delas em determinada área do cérebro
e considerava que o intenso crescimento dessa ou daquela área
. v i.
cerebral, que levava à formação de protuberâncias no CTânio,
indicava uma evolução especial dessa “ faculdade” . Essa hipó-
en tese acabou servindo de base a um campo especial da “ ciência”
— a “ frenología” — , que, segundo Gall, com base no estudo
de1 das protuberâncias no crânio podia fazer conclusões relativas
dlS às capacidades individuais do homem.
lti Apesar de a “ frenología” de Gall ter sido considerada
fantástica e sem fundamento científico ainda com seu criadcr
vivo, a idéia da “ localização" direta de certas funções psíqui-

86

\
I
cas do córtex cerebral continuou em evidência. Por isto os
cientistas cujo método principal passou a ser o estudo das mu-
danças nos processos psíquicos, que ocorrem nos casos de
afecções limitadas (locais) do cérebro, continuarem por muito
tempo a fazer tentativas de “ localização” direta das funções
psíquicas em áreas isoladas do córtex cerebral.
Ao descobrir que a afecção de áreas da terceira circunvo-
lução frontal do hemisfério esquerdo leva à perturbação da
fala articulada, o anatomista francês Paul Broca (1861) lançou
a hipótese segundo a qual estão “ localizadas” nessa região as
imagens motoras da palavra. O psiquiatra alemão K . Wernicke
(1873) descobriu que a afecção da parte posterior da cincun-
volução temporal superior do hemisfério esquerdo mantém
intacta a linguagem motora mas perturba a compreensão das
palavras; ele lançou a tese de que essa região do córtex é o
“ centro da palavra sensória” .
Essas tentativas de localização direta das funções psíquicas
em áreas limitadas do cérebro inspiravam os estudiosos (psi-
quiatras e neurologistas). A partir da década de 70 do século
passado, o estudo das observações clínicas mostrou que a afec-
ção de áreas limitadas do córtex cerebral faz predominar a
queda de "funções psíquicas” perfeitamente determinadas.
Essas descobertas deram aos pesquisadores fundamentos para
distinguir, no córtex cerebral, as áreas que passaram a ser con-
sideradas “ centros da escrita” , “ centros do cálculo” , “ centro
dos conceitos” , etc. Essas tentativas foram reunidas num siste-
ma pelo psiquiatra alemão K. Kleist (1934), que, com base em
observações feitas em cérebros de feridos durante a I Guerra
Mundial, colocou-as num “ mapa sinótico localizado” , no qual
até as “ funções” psíquicas mais complexas coincidiram com
as áreas limitadas do córtex cerebral.
Apesar de que em seu tempo eram progressistas as tenta-
tivas de “ localização” direta das complexas “ funções” psíquicas
nas áreas limitadas do córtex cerebral, pois tais tentativas refle-
tiam o esforço de fazer um enfoque materialista dos processos
psíquicos e seu substrato cerebral, elas logo mostraram sua
inconsistência e deixavam de satisfazer aos estudiosos.
Isto tinha por base tanto considerações teóricas como as
contradições do material factual em relação a essas considera-
ções. Por um lado, levantaram-se dúvidas legítimas de que
processos complexos como a fala, a escrita, a leitura e o

87
cálculo, já sem falar da atividade intelectual, podium ser enten-
didos como simples “ faculdades” congénitas, podendo-se pro-
curar sua “ localização” em áreas limitadas do córtex cerebral.
Por outro lado, a análise minuciosa dos fatos das observa-
ções clínicas mostrou que a atribuição direta dos complexos
processos psíquicos às áreas limitadas do córtex cerebral carece
de fundamento. Verificou-se que perturbações de processos
psíquicos tão complexos como a fala, a escrita, a leitura c o
cálculo podem surgir com afecções corticais inteiramente dife-
rentes pela posição, fato que por si só já contrariava n idéia
da estreita ‘'localização" das funções psíquicas nas áreas iso-
ladas do córtex. Observou-se que a afccção de áreas limitadas
do córtex cerebral leva, via de regra, à perturbação de todo
um grupo de processos psíquicos, que à primeira vista parecem
inteiramente diferentes. Assim, a afccção do lebo temporal
esquerdo provoca a perturbação da compreensão da fala, dis-
túrbios na escrita, dificuldades de encontrar palavras, e tc .,
enquanto a afecção das áreas parietais e occipitais do córtex
cerebral do hemisfério esquerdo provoca distúrbios na orien-
tação no espaço, dificuldades de percepção da luz, impossibi-
lidade de compreender as complexas relações lógico-gramaticais
e vários outros distúrbios congéneres da atividade intelectual.
Isto gerou uma crise das concepções anteriores da “ locali-
zação" direta dos processos psíquicos nas áreas limitadas do
córtex cerebral e levou vários pesquisadores (entre estes gran-
des psicólogos como K . S. Lashley e neurologistas como K.
Goldstein, C. Monakow e outros) a lançarem a idéia de que
os processos psíquicos são função de todo o cérebro e não
podem ser “ localizados" nas áreas limitadas do cónex cerebral.
Essa idéia, que levou ao surgimento de uma corrente cien-
tífica conhecida como “ antilocalizacionismo", era uma reação
legítima às concepções simplistas do “ localizacionismo estreito” .
No entanto ela não tardou a mostrar sua inconsistência.
Tanto as sutis pesquisas histológicas como as observações
fisiológicas mostraram que o córtex cerebral é ura aparelho
bastante diversijicado, que áreas corticais distintas apresentam
estrutura diferente c que os neurônios, integrantes do córtex
cerebral, são amiúde tão especializados que dentre cies podemos
distinguir os que reagem apenas a irritações muito especiais ou
a indícios muito especiais (por exemplo, só reagem aos movi-
mentos do centro à periferia ou da periferia ao centro, às linhas
retas e curvas ou somente às linhas quebradas, e tc .). Essas
г
linhas, parte das quais é o resultado de descobertas obtidas
últimamente como decorrência de pesquisas fisiológicas, reali-
zadas em certos neurônios, tomaram muito pouco prováveis as
hipóteses da homogeneidade de toda a massa cerebral c as afir-
mações segundo as quais o cérebro sempre funciona como ura
todo único.
Criou-se uma nova crise na doutrina dos princípios da
organização funcional do cérebro e na doutrina da “ localização"
dos processos psíquicos no córtex cerebral.
A saída para essa crise estava relacionada com a revisão
radical do conceito de “funções psíquicas" e com a mudança ra-
dical dos principais enfoques dos princípios da “ localização”
cerebral dessas “funções” .
O conceito de “ função” tem em biologia dois significados
intelramente diversos.
Strictu sensu, entende-se por “ função” a direção de deter-
minado tecido. Sabe-se que a função do fígado é a regulação
da troca de hidrato de carbono, a função do pâncreas é a
segregação de insulina, a função do alvéolo pulmonar, difusão
do oxigénio e sua transmissão aos eritrócitos do sangue.
Mas o conceito de “ função" tem um outro significado
mais amplo. Ele pode designar a atividade de adaptação de
lodo um organismo. Neste sentido fala-se de função da respi-
ração, função da digestão, função da locomoção. Compreen-
de-se perfeitamente que nesse segundo significado mais amplo,
a função se constitui numa complexa atividade, exercida pelo
trabalho conjunto de todo um sistema de órgãos, cada um dos
quais integra esse “sistema funcionar (termo de P , K . Ano-
khin) em seus próprios papéis, assegurando esse ou aquele
aspecto desse sistema funcional.
Assim, a “ função da respiração” é exercida pelo trabalho
conjunto de todo um grupo de músculos e alvéolos pulmonares.
É característico que os músculos, que participam do ato de
respiração, podem substituir mutuamente uns aos outros, e se
de um sistema funcional extingue-se a participação de um gru-
po dc músculos (os músculos do diafragma, por exemplo), essa
falha é compensada pelo trabalho reforçado de outro crupo
de músculos (os músculos intercostais). Deste modo, o sistema
funcional representa um complexo todo dinâmico, no qual o
objetivo final permanente (“invariante") é realizado pelo sistema
mutável (“variante") de suas partes componentes.

89 J
O mesmo podemos dizer da “ função da digestão", que
representa o mais complexo sistema funcional de órgãos diges-
tivos que funcionam em conjunto, bem como da “ função do
movimento” (ou locomoção), na qual o objetivo final (deslo-
camento de um lugar para outro, o acerto em dado alvo, a
batida do martelo, e tc .) é realizado por um complexo sistema
de músculos cuja inter-relação varia com a mudança da posição
do corpo, dependendo da tensão, da consolidação da habili-
dade, etc.
Ê natural que um sistema funcional tão complexo não pode
ser “localizado” em determinada área limitada do sistema ner-
voso. Pávlov já indicara que “ se antes o centro respiratório
era concebido como um ponto do tamanho da cabeça de um
alfinete no bulbo raquidiano, . .. agora ele está extremamente
espalhado, subiu para o cérebro e desceu para a medula espi-
nhal e hoje ninguém indicará com precisão a sua fronteira”
(I. P. Pávlov, Obras completas, t. 1П, p. 127).
Se tão amplo significado do conceito de “ função” se refere
a um grande número de atos biológicos de adaptação, é com
maior fundamento que ele deve ser aplicado às complexas “fun-
ções psicológicas".
Como mostraram pesquisas psicofisiológicas e psicológicas,
até "funções” relativamente simples como o movimento arbi-
trário, a marcha, o acerto no alvo, já sem falar de funções como
a fala, a escrita e o cálculo, têm estrutura sumamente complexa,
compreendendo em sua composição um número considerável
de elos componentes.

Рага executar o movimento mais simples (por exem-


plo, acertar um ponto com a ponta do dedo ou dar uma
martelada) é necessário antes de tudo manter uma pro-
funda sensibilidade proprioceptiva do braço que se move
dando o sinal da sua posição no espaço e do grau das
distensões dos músculos em funcionamento. Sem essa
sinalização permanente da posição do extremo que se
move, garantindo a necessária correção da direção, ne-
nhum movimento organizado é possível. Para a sua exe-
cução é necessário um reflexo preciso das coordenadas
espaciais exteriores em cujos limites exccuta-se o movi-
mento, o movimento perde sua precisão e se torna impos-
sível. A execução de um movimento exige a mudança
harmoniosa dos seus elementos; até para se darem dois
passos é necessário inicialraente enervar um sistema de
músculos e, em seguida, transferindo os impulsos para
outro sistema de músculos, desenervar o primeiro e pas-
sar harmoniosameme ao elo seguinte do ato m otor.

Tudo isso mostra que até um movimento arbitrário relati-


vamente simples é um complexo sistema funcionai, que inclui
em sua composição todo um conjunto de impulsos tanto senso-
riais (aferentes) como motores.
£ ainda mais complexa a estrutura de tipos de atividade
psíquica como a fala, a escrita, a leitura ou o cálculo, formados
no processo da história da sociedade.
Tomemos como exemplo a análise da maneira como foi
construído o ato da escrita e mostremos que elos complexos
integram esse sistema funcional.

Para escrever uma palavra, devemos discriminar antes


de tudo os sons que integram a sua composição, noutros
termos, devemos fazer a sua análise acústica, decompondo
fluxo permanente de sons nas unidades sonoras compo-
nentes da língua — os “ fonemas” (que em cada língua
podem ter caráter diverso). Amiúde a separação desses
fonemas se faz não só “ de ouvido” mas com a partici-
pação imediata da articulação, por meio da qual é como
se nós “ sondássemos” os sons e os distinguíssemos de
outros próximos. Somente depois desse trabalho prévio
a composição sonora da palavra se considera definida e a
palavra pronta para o registro. Aqui o processo da
escrita passa à fase seguinte: os elementos sonoros ( “ fo-
nemas” ) devem ser recodificados em elementos motor-
visuais da escrita (“ grafemas” ) . Para executar essa ação
é necessário dispor tanto de um esquema motor-visual de
“ grafemas” ou letras como manter a correta disposição
destes no espaço. No entanto a escrita não termina nesse
processo. Ela representa um complexo programa de
movimentos, nos quais um elo deve incorporar-se harmo-
niosamente ao seguinte. O cumprimento dessa condição
exige a inclusão de dispositivos inteiramente diferentes,
sem os quais a escrita harmoniosa se torna impossível.
Por último, o processo da escrita deve sempre estar sujeito
a uma tarefa geral (escrever uma frase, uma carta, expor

91
uma idéia, eic.) e só com a sólida manutenção desse
programa correspondente a necessária tarefa pode ser
cumprida.
Cabe observar que em diferentes línguas a escrita
pode apresentar estrutura diferente. Se na grande maioria
das línguas (indo-européias, turcas) a escrita apresenta a
estrutura que acabamos de descrever, há línguas (o chinês,
por exemplo) em que a escrita não é um processo de
transferência das unidades sonoras (“ fonemas” ) para as
respectivas letras ( “ grafemas” ); nelas o escrevente repre-
senta ¡mediatamente os conceitos com determinados sinais
convencionais (hieróglifos). é natural que para seme-
lhante escrita a primeira fase (a análise sonora da palavra)
se torna desnecessária e o processo da escrita adquire
inteiramente outro caráter.

O que acaba de ser dito mostra de modo bastante convin-


cente que deve ser abandonada cm seus primórdios a própria
idéia de que ura processo tão complexo tcuha sido “ localizado”
em determinada área limitada do cérebro c realizado por um
grupo relativamente insignificante de células. Por isto a tarefa
de “ localização” das funções psíquicas nas áreas limitadas do
cérebro pode ser substituída por outra tarefa: a análise do
sistema de zonas cerebrais que funcionam em conjunto, que
põem em ação dado “sistema funcional", noutros termos, a
análise da maneira pela qual esse sistema funcional se distribui
pelos aparelhos do córtex cerebral segundo as respectivas estru-
turas cerebrais.
Esse enfoque torna compreensível também o fato de que
a afecção de determinada área limitada do cérebro pode levar
d desintegração todo um sistema funcional, e sempre que haja
afecção limitada do cérebro não será afetada um “ função” mas
todos os sistemas funcionais cuja realização tem a participação
da área cerebral afetada. Torna-se compreensível que a mesma
afecção do cérebro pode provocar a perturbação dos mais diver-
sos sistemas funcionais (só se forem integrados por determinado
elo geral ou “ fator” geral cujo funcionamento esteja diretamente
relacionado com a afecção da área) c que um mesmo sistema
funcional (o ato da escrita ou da fala. por exemplo) pode ser
afetado com a afecção de diferentes áreas do cérebro, que asse-
guram elos diversos, integrantes da composição de dada função.
Assim, sc um movimento arbitrário inclui em sua compo-
sição elementos sensórios (anestésicos) espaço-visuais, que
que criam a base “aferente” do movimento e os impulsos efe-
rentes propriamente ditos, então é perfeítamente natural que
esse movimento possa ser afetado tanto com a afeccção das
áreas sensórias e espaço-visuais como com a afecção das áreas
corticais propriamente motoras.
Se o processo da escrita inclui em sua composição a aná-
lise auditiva, cinestésica (articular) da estrutura da letra, a
realização do respectivo programa motor será naturalmente
perturbado tanto com a afecção das áreas auditivas, anestésicas
ou visuais como das áreas motoras do cérebro, e essa perturba-
ção será cada vez diferente.
A análise do caráter das perturbações dos complexos sis-
temas funcionais nos casos de afecções locais limitadas, do
cérebro constitui o objeto dc um campo especial da Psicologia
— a neuropsicologia. Os dados desta ciência são de grande
importância tanto para o campo prático da neurologia — defi-
nição do diagnóstico local (tópico) das afecções cerebrais —
como para uma compreensão mais profunda da estrutra fisio-
lógica dos complexos processos psicológicos .
Para entender a organização cerebral dos complexos pro-
cessos psíquicos, é necessário, antes de tudo, ter uma noção
precisa dos dados atuais atinentes à organização funcional do
cérebro humano.

Princípios da organização funcional do cérebro humano

Como já foi dito (cap. I I ) , o cérebro humano, sendo pro-


duto de шла longa evolução, é um complexo sistema cons-
truído por hierarquia, que se distingue pelo fato de que, aos
aparelhos do tronco e do córtex primitivo — bastante desen-
volvido já nos vertebrados superiores — sobrepõem-se os
grandes hemisférios, que no homem chegam a um nível espe-
cialmente alto de desenvolvimento.
Se os aparelhos do tronco e de suas áreas superiores são
aquelas partes do cérebro que incluem em sua composição os
núcleos (grupos de células que regulam os processos de res-
piração, circulação sanguínea e do metabolismo bioquímico,
que executa os mais importantes processos vitais), já os apa-

9S
relhos do corpo quadrigémeo e dos nós subcorticais (tálamo
ótico e sistema palium estriado) são as primeiras instâncias que
asseguram a obtenção das instigações do mundo exterior
que chegam através dos órgãos superiores dos sentidos (recep-
tores de contato e distância), a inclusão delas nos aparelhos
motores (corpo quadrigémeo) e sua integração primária com a
execução de complexas sinergias (sistema talâmico-estriado).
Esses últimos aparelhos desempenham papel dominante nos
vertebrados inferiores (anfíbios, peixes, aves) mas são paula-
tinamente afastados pelas áreas superiores do cérebro anterior
— os grandes hemisférios. Estes são os dispositivos mais com-
plexos, que asseguram a análise e a síntese das excitações que
chegam do mundo exterior, a assimilação e elaboração da infor-
mação recebida, o fechamento de novas ligações, o processa-
mento de programas de atividade complexa e regulação da
realização das formas superiores de comportamento. As áreas
superiores do sistema nervoso central são os grandes hemisfé-
rios: o córtex cerebral e a substância branca subjacente, cons-
tituída de fibras de projeção, que Ligam o córtex às formações
subcorticais subjacentes, e de fibras de associação, que ligam
regiões corticais isoladas. Os grandes hemisférios começam a
ocupar posição dominante nos vertebrados superiores, toman-
do-se o aparelho fundamental, o mais importante da atividade
psíquica do homem.
Pesquisas realizadas nos últimos decénios deram certa cla-
reza não apenas à característica morfológica dos aparelhos
cerebrais como também aos princípios fundamentais de sua
organização funcional. Ê isto que se reveste de importância
essencial para a Psicologia.

Os três "blocos" principais do cérebro

Como já indicamos, o cérebro humano, que assegura o


recebimento e a elaboração da informação e a criação de pro-
gramas de suas próprias ações bem como o controle da exe-
cução destes, trabalha sempre como um todo único. Contudo
o cérebro é um aparelho complexo e altamente diferençado,
composto de várias partes; a perturbação do funcionamento
normal de cada parte se reflete fatalmente no seu trabalho.

94
No cérebro humano podemos distinguir ao menos três
“blocos” principais, cada um desempenhando papel especial
na atividade psíquica.
O primeiro mantém o necessário tônus do córtex, indis-
pensável para o bom andamento dos processos de recebimento
e elaboração da informação, bem como dos processos de for-
mação de programas e controle da execução destes. O segundo
bloco assegura o próprio processo de recebimento, elaboração
e conservação da informação que chega ao homem do mundo
exterior (dos aparelhos do seu próprio corpo). O terceiro bloco
elabora programas de comportamento, assegura e regula sua
realização e participa do controle do seu cumprimento.
Todos os três blocos se instalam em órgãos isolados do
cérebro e só o trabalho bem organizado leva a uma acertada
organização da atividade consciente do homem.

O bloco do tônus do córtex ou bloco energético do cérebro

Para que o homem possa realizar normalmente o recebi-


mento, a elaboração e conservação da informação, criar e
executar os complexos programas de comportamento, acom-
panhar o êxito das ações executadas e fazer a necessária auto-
rcgulaçâo do comportamento, é necessária uma permanente
manutenção do tônus otimal do córtex. Só esse tônus pode
assegurar a escolha acertada dos sinais essenciais, a conser-
vação dos seus vestígios, a elaboração dos necessários pro-
gramas de comportamento e um controle permanente da exe-
cução destes.
Coube a Pávlov apresentar uma característica fisiológica
desse tônus otimal do córtex, indicando que os processos que
ocorrem no córtex normal obedecem à “lei da força” , segundo
a qual um instigador forte (ou mais significativo) provoca uma
reação forte, que deixa o vestígio mais estável, ao passo que
o instigador fraco (ou menos significativo) provoca uma rea-
ção mais fraca cujo vestígio se extingue ou se inibe mais
facilmente.
A existência dessa “lei da força” , que caracteriza a exci-
tabilidade otimal do córtex, é necessária para a realização de
atividade seletiva organizada, para a criação de sistemas domi-

95
names de excitação, para a conservação de sistemas de infor-
mação organizados e programas estáveis de comportamento.
£ bera conhecido que com a redução do tônus do córtex este
pode passar ao estado inibido ou “fásico”: os instigadores
fracos começam a provocar reações idênticas às que provocam
os instigadores fortes ( “fase niveladora") ou até reações mais
fortes do que as dos instigadores fortes ( “fase paradoxal").
Essa peculiaridade do trabalho surge, por exemplo, по estado
de sono ou sonolência.
Ê natural que em tais condições a atividade consciente or-
ganizada se torna impossível e o fluxo seletivo organizado de
ideias é substituído pelo aparecimento de associações "casuais”
(ou secundárias).
Uma importante descoberta da fisiologia nos últimos vinte
anos consiste em que inúmeras observações c experimentos de
vários pesquisadores célebres (Magoun H. W„ Moruzzi G. Jas-
per H. H .) mostraram que nesse processo desempenham pa-
pel substancial as formações das áreas superiores do tronco
cerebral, particularmente as formações do hipotálamo, do tá-
lamo ótico e do sistema de fibras reticulares ( “formação re-
ticular” ), que une essas formações por uma ligação bilateral
com o córtex cerebral. Essas formações são as componentes
principais do "primeiro bioco" do cérebro-bloco humano, que
assegura o tônus gerai ou estado de vigília do córtex,
A esses órgãos devemos incorporar os órgãos do córtex
primitivo oti límbico, que está situado nas áreas internas (mé-
dias) dos grandes hemisférios e é estreitamente ligado aos
órgãos recém-referidos do tronco superior. Eles compreendem
em sua composição formações antiquíssimas do grande cérebro
como o hipocampo, o núcleo do tálamo ótico, os antimuros e
os corpos mamilares; o movimento da excitação nesse sistema,
que recebeu a denominação de “ciclo do hipocampo” é uma
das condições mais importantes de manutenção do tônus corti-
cal, de garantia do estado emocional normal e cria condições
para a sólida manutenção dos indícios surgidos.
Todo o complexo aparelho que integra o bloco desem-
penha importante papel no funcionamento normal do córtex
cerebral e merece abordagem minuciosa.
A manutenção do tônus permanente do córtex tem basi-
camente duas fontes (às quais só mais tarde acrcscenta-se
uma terceira, mais com plexa).

96
Por um lado, para manter o estado de vigília do córtex
é necessário um afiuxo permanente de informação do mundo
exterior; privado dessa afluência de excitações do mundo ex-
terior, o animal adormece. Sabe-se, ainda, o efeito provocado
pela '‘fome de informação”, que surge no homem após um
longo período de isolamento numa cela escura à prova de
som. As observações efetuadas nos últimos anos mostram que,
nesses casos, começam faoilmcnte a surgir alucinações no
homem, que compensam em parte essa insuficiência de aflu-
ência permanente de instigações exteriores. Por isto, para man-
ter o lônus ideal do córtex, tem importância decisiva o estado
de conservação do tronco superior e do tálamo ótico que são
a primeira instância do recebimento das instigações afluentes
de fora. O corte das vias que levam do tronco superior ao
córtex na composição da “formação reticular ativa ascendente”
leva inevitavelmente ao adormecimento; esse mesmo efeito
pode ser provocado pela irritação das paredes do terceiro ven-
trículo (que tem como componentes os órgãos do tálamo
ótico): a irritação das paredes do terceiro ventrículo durante
operações cerebrais realizadas pelo famoso cirurgião soviético
N. N. Burdenko, levou freqíientemente o paciente a adormecer.
Deste modo, a primeira fonte do estado de vigília do
córtex é a afluência constante de irritações da periferia, no
qual os órgãos do tronco superior e a formação reticular as-
cendente desempenham papel principal.
A segunda fonte igualmente importante do tônus perma-
nente do córtex é constituída pelos impulsos que a este chegam
dos processos internos de metabolismo do organismo, que for-
mam a base das inclinações biológicas do organismo.
É sabido que o estado do organismo (o nível de açúcar
no sangue, por exemplo, que é um índice do estado de fome
ou saciação, o nível de oxigénio no sangue, que, caindo para
um nível inferior ao necessário, é um índice da “fome de oxi-
génio” ) é regulado pelos órgãos do tronco superior e do hipo-
tálamo. Sabe-se, ainda, que o tronco superior e o encéfalo
primitivo são compostos também por aparelhos especiais, que
regulam processos como os reflexos sexuais, os reflexos da
agressão, etc.
Irritando as respectivas áreas do tronco superior e do
encéfalo primitivo, os pesquisadores (N. Miller, J. Olds, Mc
Lean, Delgado e outros) provocaram no animal formas ex-
pressas de comportamento sexual instintivo, ates de agressão,

97
fome constante e sede, etc. A existencia, nas referidas zonas
do encéfalo, de formações nervosas que regulam as inclinações
citadas, foi utilizada por alguns pesquisadores (Olds e Del-
gado) para provocar nos animais reações duradouras de “auto-
estimulação” . Ao fechar a corrente que se dirigia aos eletrodos
introduzidos nessas áreas do encéfalo, o animal provocava
sozinho e demoradamente a excitação desses aparelhos, con-
siderados pelos referidos autores como “centros” sui generis,
reguladores do estado emocional do animal.
Os impulsos que partem dessas formações do hipotálamo
e do tálamo ótico, que são transmitidos ao córtex através da
formação reticular ascendente, constituem a segunda fonte de
manutenção do tônus conical e seu estado de vigília. A afecção
desses aparelhos do hipotálamo e dos núcleos do tálamo ótico
no homem pode mudar substancialmente o tônus do córtex.
Exemplos de mudança do tônus podemos ver nos casos de
distúrbio das funções da hipófise, por um lado, e de tumores
das paredes do terceiro ventrículo, por outro.
Aos aparelhos do tronco superior da formação reticular,
que asseguram a manutenção do tônus do córtex, devemos
incorporar os aparelhos do córtex primitivo ( “límbico” ), situa-
dos nas áreas internas (mediais) dos grandes hemisférios e
participantes do trabalho do bloco “energético” do encéfalo.
O córtex primitivo “límbico” foi, durante muito tempo,
considerado parte essencial do “corpo olfativo” . Essa hipótese
se baseava no faio de que esse córtex é especialmente desen-
volvido nos animais nos quais o olfato desempenha papel
dominante no comportamento. Mas a existência dessa área nos
animais sem olfato (delfins), bem como várias observações
fisiológicas levaram à mudança desse ponto de vista; levaram
a incluir na região o hipocampo e os órgãos componentes,
de funções bem mais complexas, e a considerar o córtex pri-
mitivo e a região límbica como “encéfalo-vegetativos” , tendo
participação essencial na regulação da ocorrência dos pro-
cessos vegetativos e afetivos cujo papel é importante para a
conservação dos vestígios da memória.
Essas hipóteses foram formuladas pelos grandes pesqui-
sadores americanos K. Klüver e P. Buey que, depois da dani-
ficação da região límbica (particularmente das áreas mediais
do lobo temporal) observaram nos animais acentuada exci-
tação das reações emocionais e perturbações da memória. Da-
dos aproximados foram obtidos também nas observações pos-
teriores de Me Lean, Olds e outros, que tiveram oportunidade
de presenciar mudanças substanciais das inclinações e dos pro-
cessos afetivos, que ocorrem nos animais como resultado da
danificação do hipocampo. Por último, importantes observa-
ções realizadas em pessoas com afecção bilateral do hipocampo
pelos pesquisadores americanos W. Penfield, B. M ilner e W.
Scoville permitiram mostrar que, nesses casos, muda subs-
tancialmente o tônus do córtex e afeta-se profundamente a
memória.
A explicação para esses fenômenos foi encontrada quando
os fisiologistas (Viesel, Jasper e outros) descobriram que no
hipocampo existe um grande número de neur&nios que não
reagem a instigadores específicos (visuais, auditivos ou táteis)
mas reagem sutilmente a cada mudança que surge no meio
ambiente. A existência desses neurônios de cujas funções faz
parte a comparação dos instigadores com os vestigios ante-
cedentes, fazendo parte também as reações à “descoordena-
ção” destes, parece explicar o papel desempenhado pelas for-
mações do córtex primitivo nos processos de reflexo orientado
(atenção não-dirigida) e memorização.
O papel dos aparelhos do primeiro bloco na manutenção
do tônus do córtex e do estado de vigília é assegurado pelas
suas estreitíssimas ligações com o córtex, que são realizadas
através das fibras da formação reticular ativadora. Cabe ob-
servar que essa formação tem tecidos tanto ascendentes como
descendentes. Através dos primeiros ( “formação reticular ati-
vadora ascendente” ) efetua-se a excitação do córtex pelos im-
pulsos decorrentes das formações das áreas superiores do tronco
do encéfalo. Por meio dos segundos ("formação reticular ati-
vadora descendente") realizam-se aquelas influências que as
áreas superiores do cérebro, particularmente o seu córtex, exer-
cem sobre os segmentos do tronco encefálico. Por isto o apare-
lho da “formação reticular descendente” desempenha papel
substancial na transmissão do colorido afetivo e na garantia
do tônus para os programas de comportamento que surgem no
córtex em decorrencia da informação recebida e das formas
exteriores de programas e necessidades que se formam no ho-
mem com a participação da fala. Ê esse aparelho que assegura
a terceira fonte de manutenção do estado de vigília, que ape-
nas mencionamos e que está ligado aos complexos programas
e necessidades que surgem no homem como resultado de sua
atividade consciente.

99
Deste modo, o primeiro bloco do cérebro de cuja com-
posição fazem parte os aparelhos do tronco superior, da for-
mação reticular e do córtex primitivo, assegura o tônus geral
(vigília) do córtex e a possibilidade de duradoura conservação
dos vestígios da excitação. O funcionamento desse bloco não
está relacionado especialmente com os outros órgãos dos sen-
tidos e tem caráter “modal-não-específico” , assegurando o tônus
geral do córtex.

Bloco do recebimento, elaboração e conservação da informação

Se o primeiro bloco que acabamos de descrever assegura


o tônus do córtex mas ele mesmo ainda não participa do rece-
bimento e processamento da informação nem da elaboração
dos programas de comportamento, já o segundo bloco está
imediatamente ligado ao trabalho de análise e síntese dos sinais
trazidos do mundo exterior pelos órgãos dos sentidos, noutros
termos, está relacionado com o recebimento, o processamento
e a conservação da informação recebida pelo homem .
Esse bloco é composto de órgãos situados nas seções pos-
teriores do córtex cerebral (áreas parietal, temporal e occipi-
tal) e, diferentemente dos aparelhos do primeiro bloco, tem
caráter modal-específico, sendo um sistema de dispositivos cen-
trais que registra a informação visual, auditiva e tátil, pro-
cessam-na ou “codificam-na” e conservam na memória os ves-
tígios da experiência adquirida.
Os aparelhos desse bloco podem ser considerados extre-
midades centrais (corticais) dos sistemas perceptivos (analisa-
dores), sendo que as extremidades corticais do analisador vi-
sual estão situadas na região occipital, as auditivas na região
temporal e as táteis na região tátil-cinestésica.
Nessas seções corticais terminam os tecidos procedentes
dos respectivos aparelhos receptores, distinguindo-se e sepa-
rando-se aqui indícios isolados da informação visual, auditiva
e tátil afluente. Nas seções mais complexas dessas zonas eles
se reúnem, sintetizam-se e combinam-se em estruturas mais
complexas. A esssa tarefa corresponde a delicada estrutura
celular das zonas corticais. Como todas as outras regiões do
novo córtex, essas zonas têm uma estrutura hexassegmentar. A
mais desenvolvida nessas zonas é a seção IV do córtex, aonde

100
chegam as fibras que começam nos aparelhos sensitivos peri-
féricos. Aqui elas se transferem para outros neurônios. Al-
gumas fibras descem diretamente para a seção V do córtex,
onde estão instaladas as células piramidais (m o to ras). As fi-
bras se dirigem de algumas dessas células para a periferia e,
deste modo, fecha-se o arco dos reflexos sensórios mais sim-
ples. Outros tecidos, que chegam dos órgãos sensitivos à seção
IV do córtex, transferem-se ali para os neurônios de ação
curta, que servem de aparelhos de transferência das excitações
para células associativas mais complexas. Grande parte das
células associativas ou células de ação curta, que têm a forma
de pequenas pirâmides ou células asteróides, está situada nas
seções II e П1 do córtex, que constituem o aparelho principal
de transmissão das excitações de uns neurônios a outros. Nas
zonas corticais aonde chegam diretamente as fibras vindas dos
órgãos sensitivos periféricos (mudando apenas nos núcleos sub-
corticais), que são denominadas zonas primárias ou de pro-
jeção, a posição de maior destaque cabe à seção IV receptora
das células. Nas zonas corticais contíguas às zonas de projeção
e denominadas zonas secundárias ou de projeto e associação,
as seções celulares II e III são poderosamente desenvolvidas.
As seções I e VI não examinaaas têm importância especial:
па I estão instaladas as ligações horizontais “transcorticais” ,
que contactam as áreas contíguas do córtex, instalando-se na
VI as projeções das células vegetativas, que contactam o córtex
com as áreas profundas do encéfalo.
Toda a substância branca situada sob o córtex é cons-
tituída de fibras longas, que contactam o córtex com as for-
mações subjacentes (tecidos de projeção) ou ligam áreas iso-
ladas do córtex a outras regiões corticais (tecidos transcor-
ticais) . Os dois hemisférios do córtex são ligados entre si
por ura feixe especialmente potente de fibras transcorticais,
denominado “corpo caloso” . Quando se corta o corpo caloso,
parte considerável dos grandes hemisférios fica desconexa e os
dois hemisférios começam a funcionar isoladamente.
O princípio de construção hierárquica de cada zona cor-
tical, integrante da composição do bloco por nós examinado,
é um dos princípios mais importantes de estruturação do córtex
cerebral. Como mostraram as pesquisas, a informação que
chega do receptor visual, auditivo ou tátil às zonas primárias
(ou de projeção do córtex) é aqui fracionada em grande nú-
mero de indícios que a compõem. Isto se deve a que nessas

101
zonas de projeção do córtex estão instalados ncurônios alta-
mente especializados, que, como mostraram pesquisas de al-
guns fisiologistas, respondem somente a alguns indícios parti-
culares das instigações. Assim, na zona de projeção do córtex
occipital (visual) há neurônios que só reagem ao movimento'
do ponto que ilumina do centro à periferia ou da periferia ao
centro, só às linhas curvas harmoniosas, às linhas quebradas
agudas, etc. Essas mesmas células, com elevadíssima especia-
lização, existem no córtex temporal (auditivo) e tátil (parietal).
Isto permite dividir a excitação em mínimos elementos isolados
e os transforma num mosaico funcional das instigações, acessível
à organização posterior.
Sobre cada zona primária ou de projeção do córtex estão
edificadas zonas secundárias ou de projeto e associação. Os
tecidos que aqui chegam não são diretamente originários, via
de regra, do receptor periférico; eles ou mudam nos respec-
tivos núcleos subcorticais e já veiculam impulsos generaliza-
dos ou chegam das zonas primárias às zonas secundárias do
córtex.
À diferença das zonas primárias do córtex, essas zonas
se constituem basicamente das seções celulares II e 1П (de
associação) poderosamente desenvolvidas. A maioria esmaga-
dora dos neurônios componentes dessas zonas não se distingue
por uma especialização tão sutil como os neurônios das zonas
primárias (de associação). Eles não reagem a indícios isola-
dos divididos, porém, mais amiúde, a todo um complexo de
instigadores específico-modais (visuais, auditivos, táteis), sendo
que alguns deles têm inclusive caráter multimodal, reagindo a
instigações de diversas modalidades. A importância dessas zo-
nas secundárias parece consistir em reunir as irritações que
lhes chegam dos núcleos subcorticais subjacentes ou das zonas
primárias do córtex e codificá-las em determinadas estruturas
dinámicas m óveis.
Esse fato é demonstrado por uma série de experimentos
fisiológicos e psicofisiológicos.
Como mostraram as pesquisas de Mc Culloch, a irritação
das zonas primárias com estricnina, depositada num pedaço
de papel, surte efeito somente nas áreas corticais imediata-
mente próximas; ao contrário, a irritação das zonas secundá-
rias com estricnina provoca excitação, que se espalha a fundo
nas zonas contíguas. Isto mostra que as zonas secundárias das
áreas corticais de cada analisador difundem realmente a exci-
tação a áreas consideráveis e deste modo incorpora ao pro-
cesso de excitação sistemas complexos inteiros de neurônios,
garantindo o funcionamento conjunto de grandes zonas do
córtex.
A importância psicológica das zonas primárias e secun-
dárias do córtex da sensibilidade tomou-se clara graças aos
experimentos em pacientes submetidos a cirurgia cerebral. £
sabido que o córtex do cérebro, esse órgão superior da sen-
sibilidade, é por si mesmo indolor, razão por que as cirurgias
cerebrais podem ser feitas sem anestesia; irritando partes iso-
ladas do córtex, podem-se observar as reações do doente.
Foi isto que permitiu aos pesquisadores (O. Foerster, O.
Poetzl c W. Penfield) chegarem a uma conclusão sobre as
funções originais das áreas primárias e secundárias do córtex.
Como mostraram as pesquisas, a irritação do córtex vi-
sual ou auditivo faz surgirem no sujeito sensações correspon-
dentes (alucinações).
No entanto varia inteiramente o caráter dessas alucina-
ções com a irritação das zonas primárias e secundárias do
córtex.
Assim, as irritações das zonas primárias do córtex visual
(campo 17) provocam no sujeito sensações visuais sem -forma
definida (o homem vô "luz colorida” , “chama”, “bolas lu-
minosas”, e tc .). Diferentemente disto, a irritação das zonas
secundárias do córtex visual faz o homem começar a ver obje-
tos de forma definida (borboletas, feras, rostos conhecidos,
e tc .) . Resultados análogos são obtidos com a irritação do
córtex auditivo: com a irritação das zonas primárias do córtex
auditivo o homem começa a ouvir tons ou sons isolados, pas-
sando a ouvir melodias inteiras com a irritação das zonas
secundárias desse córtex, etc.
Tudo isso indica que as zonas primárias do córtex da
sensibilidade têm as funções de distinguir esses e aqueles in-
dícios específico-modais (visuais, auditivos, táteis), noutros ter-
mos, exercem a função de fracionar (analisar) em partes com-
ponentes a informação recebida, ao passo que as zonas visuais
dessas mesmas áreas corticais implicam a função de unificar
(sintetizar) ou proceder a uma elaboração complexa da infor-
mação que chega ao sujeito.
Cabe observar mais tuna peculiaridade importante do
funcionamento das zonas primárias (de projeção) e secundá-
rias (de projeção e associação) do córtex.

103
As zonas primárias do córtex, aonde os tecidos dc pro-
jeção chegam dos respectivos receptores periféricos, apresen-
tam uma rigorosa estrutura somatotópica. Isto significa que
as fibras nervosas, que chegam das regiões receptoras ao córtex
dessas zonas, não estão distribuídas por acaso mas dispostas
era ordem rigorosa, estando cada ponto da superfície receptora
representado num ponto absolutamente determinado do córtex
de projeção. Assim, os tecidos que vão das superfícies cutáneas
das zonas inferiores do corpo, cruzando-se no tronco do encé-
falo, chegam às zonas superiores da circunvolução anterior
central do hemisfério oposto, ao passo que os tecidos que
conduzem os impulsos da sensibilidade cutánea das mãos sc
situam na parte intermediária e os tecidos que levam os im-
pulsos sensíveis da pele do rosto e da cabeça se situam nas
partes inferiores da circunvolução central anterior do hemis-
fério oposto; é de importância especial o fato de que a área,
ocupada pela projeção dessas ou daquelas partes do corpo, é
proporcional à importância que essas regiões do corpo real-
mente têm. Deste modo, a área ocupada pela projeção do
quadril ou da perna no córtex cerebral é muito insignificante,
ao passo que as projeções da mão (especialmente do polegar
c do indicador), da boca e dos lábios, são muito grandes.
Isto garante maior direção para os órgãos que devem sujeitar-
sc com precisão especial a uma regulação central, ê caracterís-
tico que a destruição de determinados trechos das áreas cor-
ticais da região parietal (póstero-central) leva à queda da
sensibilidade nas áreas rigorosamente limitadas do lado oposto
do corpo, sendo que a queda da sensibilidade na pele da
perna, do braço ou do rosto dá fundamentos para avaliar o
lugar no córtex de projeção e sensibilidade ou em suas vias
condutoras, destruídas por processo patológico. Ao contrário,
a irritação das zonas primárias (de projeção) do córtex leva
ao aparecimento de sensações visuais ou auditivas, que surgem
na ausência das respectivas influências exteriores. O típico para
esses casos 6 a “aura” (fase inicial) dos acessos epilépticos,
que surgem como resultado da influência irritante de cicatriz
localizada na zona correspondente do córtex cerebral. Assim,
uma cicatriz localizada nas áreas superiores da circunvolução
póstero-central provoca sensação de “choque" ou “formiga-
mento” na extremidade inferior do lado oposto, a cicatriz loca-
lizada nas zonas intermediárias dessa região provoca as mesmas
sensações no braço oposto, e a situada nas partes inferiores
do córtex dessa região provoca as mesmas sensações na face
oposta do rosto.
O princípio análogo da projeção somatotópica ocorre em
outras áreas do córtex. Assim, as fibras que vão de áreas iso-
ladas da retina, que constituem partes do campo visual, pro-
jetam-se em trechos absolutamente determinados da zona de
projeção do córtex occipital (visual), resultando que a afec-
ção de determinadas áreas do córtex visual leva à eliminação
de áreas perfeitamente determinadas do campo visual; a irri-
tação de áreas isoladas da região occipital leva ao surgimento
de sensações visuais ( “fosfenos” ) em determinadas áreas do
campo visual.
O mesmo ocorre nas áreas de projeção do córtex tempo-
ral (auditivo): os tecidos que implicam excitação, que cor-
responde a tônus elevados, projetam-se nas áreas internas da
zona auditiva primária do córtex, enquanto os tecidos que
implicam excitações, correspondentes aos tônus baixos, pro-
jetam-se nas áreas laterais do córtex. Por isto a irritação desses
setores do córtex ou de suas vias condutoras provoca sensa-
ções auditivas correspondentes, que podem ser o início (aura)
de acessos epilépticos.
A consideração dos referidos fatos da estrutura somato-
tópica das zonas primárias do córtex é de grande importância
prática, pois os sintomas de sua afecção ou irritação servem
de importante indício diagnóstico para a atividade tópica de
suas afecções.
Esse princípio da rigorosa projeção somatotópica de de-
terminadas superfícies sensíveis (receptoras) em certas áreas
dos campos corticais de projeção (princípio esse que permite
usar os sintomas de queda da sensibilidade em determinadas
áreas do corpo para o diagnóstico tópico das afecções) carac-
teriza a organização funcional dos campos corticais primários.
No entanto ele não tem qualquer validade para a avaliação
do funcionamento dos campos corticais secundários.
Como já foi dito, os campos corticais secundários do
bloco por nós examinado asseguram a síntese das excitações
que chegam ao campo primário, “codificando-as"; eles substi-
tuem o princípio de projeção somatotópica por outro prin-
cípio: o da organização fundamental das respectivas excitações.
Por isto a destruição dessas zonas não leva a ocorrências de
quedas de sensibilidade, levadas a coincidirem com determi-
nadas regiões do corpo ou a certa parte do campo da per-

105
cepção, mas suscita uma desintegração geral no funcionamento
desse ou daquele analisador, a qual se manifesta na complexa
decodificação da informação que chega ao sujeito, noutros
termos, leva à perturbação das formas complexas de percepção
visual, auditiva ou tátil, conhecida na clínica pela denomi-
nação de “agnosia” . Ainda voltaremos a abordar a análise
desses fenômenos quando analisarmos os processos de per-
cepção.
As zonas primárias e secundárias do córtex não esgotam
os aparelhos corticais do bloco em análise.
Sobre elas estão edificados os aparelhos das zonas terciá-
rias do córtex (ou “zonas” de cobertura das extremidades
corticais de determinados analisadores), sumamente importan-
tes para garantir as formas mais complexas de funcionamento
desse bloco.
As zonas terciárias do córtex cerebral surgem nas etapas
mais tardias da escada filogenética e são, até certo ponto, for-
mações específicamente humanas. Até nos carnívoros as zonas
corticais de certos analisadores estão em contato direto umas
com as outras, sendo apenas esboçadas no macaco, ao passo
que no homem elas ocupam parte considerável das áreas pos-
teriores do córtex.
As zonas terciárias do córtex cerebral amadurecem só
muito tardíamente, na ontogénese. Como mostrou o anato-
mista alemão P. Flechsig, o processo de revestimento dos
tecidos que surgem nessas zonas — a mielina, que os torna
aptos para o funcionamento — termina bem mais tarde do
que era outras zonas. Tudo isso mostra que as zonas terciárias
ou “zonas de cobertura” são as áreas do córtex cerebral mais
jovens, que começam a funcionar mais tardíamente.
Pela estrutura histológica, essas zonas pertencem àquelas
em que predominam inteiramente as camadas II e Ш de célu-
las de associação. Isto se refere às suas funções básicas, que
consistem na unificação da informação que chega de diferentes
analisadores ao córtex cerebral. As zonas terciárias das áreas
posteriores do córtex cerebral estão situadas nos limites da
região parietal, occipital e temporal e compreendem os campos
39, 40, 37 das áreas parietais inferiores do córtex. Quando
elas se irritam, não surgem quaisquer reações sensitivas ou ob-
servações, sua afecção não provoca a queda da sensibilidade
visual, auditiva ou tátil. A importância dessas áreas do córtex
para a unificação da informação, que chega de analisadores
isolados, pode ser vista analisando-se os comportamentos dos
doentes com afecção dessas áreas do córtex cerebral. Via de
regra, surgem nesses doentes dificuldades de fazer uma codi-
ficação mais complexa da informação recebida, predominando
a dificuldade de unificar cm esquema espadais simultâneos as
irritações sucessivas que chegam ao encéfalo. Distiguindo os
objetos e sons visualmcntc perceptíveis, os doentes começara a
sentir dificuldades de orientar-se no espaço, confundem a dire-
ção, não conseguem distinguir os lados direito e esquerdo, en-
tender a posição dos ponteiros do relógio e correlação dos
países no mapa geográfico. Esses pacientes ficam sem condi-
ções de fazer operações matemáticas que exigem tomar como
orientação a ordem numérica, subtrações e divisões rápidas e
começam a experimentar sérias dificuldades na interpretação
das complexas estruturas gramaticais e de operações lógicas
que incluem relações complexas.
Tudo isso mostra que as zonas terciárias do córtex são
um importante aparelho, indispensável para as formas mais
complexas de elaboração e codificação da informação recebida.

O bloco da programação, regulação e controle da atividade

O terceiro bloco cerebral do homem faz a programação, a


regulação e o controle do desempenho ativo do homem. E
integrado por órgãos situados nas áreas anteriores dos grandes
hemisférios, cabendo nele posição dominante as seções frontais
do encéfalo.
A atividade consciente do homem apenas começa com
a obtenção da informação e sua elaboração, terminando com a
formação das intenções, do respectivo programa de ação e com
a realização desse programa em atos exteriores (motores) ou
interiores (m entais). Para isto é necessário um aparelho es-
pecial, capaz de criar e manter as necessárias intenções, ela-
borar programas de ação a elas correspondentes, realizá-los
nos devidos atos e, o que é de suma importância, acompa-
nhar as ações em curso, comparando o efeito da ação exercida
com as intenções iniciais.
Todas essas funções são exercidas pelas áreas anteriores,
do encéfalo e seus lobos frontais.

10T
'i" n - i ii* - i Í M Í № f i i i r i É - w 'r i i h ^ f i Ü I

Pelo caráter de sua estrutura, as áreas anteriores do cór-


tex distinguem-se substancialmente das posteriores; se o córtex
das áreas posteriores do encéfalo apresentava como carac-
terística raias transversais, o córtex das áreas anteriores se
caracterizava por raias verticais, o que sugere o caráter motor
das estruturas nele dominantes. Se no córtex das áreas poste-
riores do encéfalo (principalmente em suas zonas primárias)
predomina a camada IV (aferente) de células, no córtex das
áreas anteriores (especialmente em sua zona primária) pre-
domina a camada eferente de células com as grandes pirâmides,
cujas ações levam à periferia os impulsos formados, fazendo-os
chegar aos músculos dos braços e assim provocando os movi-
mentos correspondentes cujos programas foram preparados por
todo o córtex cerebral, particularmente por sua região frontal.
Como as áreas posteriores, as áreas anteriores têm as
mais estreitas ligações com as formações subjacentes da for-
mação reticular, sendo importante que aqui estão poderosa-
mente representados tanto as fibras ascendentes como as des-
cendentes da formação reticular, que acompanham os impulsos
formados nos lobos frontais do córtex e deste modo regulam
o estado geral da atividade do organismo, mudando-a de con-
formidade com as intenções formadas no córtex.
Como os sistemas das áreas posteriores do córtex, as áreas
anteriores têm estrutura hierárquica com a única diferença de
que as zonas primárias do córtex motor não são as primeiras
(aonde chegam os instigadores que atingem o encéfalo) mas
as últimas pela ordem de funcionamento: a elas chegam os
impulsos preparados nas áreas mais altas do córtex e elas
dirigem esses impulsos para a periferia, provocando movi-
mentos correspondentes.
Por uma questão de simplicidade da nossa exposição,
manteremos no exame das zonas primárias do cérebro a mesma
ordem que adotamos na abordagem das estruturas hierarqui-
camente organizadas das áreas posteriores do córtex.
Ê zona primária ou de projeção das áreas anteriores do
encéfalo a circunvolução central anterior ou a região motora
do córtex (4? área de Brodmann), sobre a qual está cons-
truído o campo pré-motor secundário (6* área de Brodmann);
mais acima estão situadas as formações do córtex propria-
mente frontal ou região pré-frontal (áreas 9. 10, 11, 46 de
Brodm ann).

108
li I - Ь .

Apesar de todas essas zonas corticais apresentarem como


característica a “estrutura de raias verticais” já referida, as es-
truturas celulares de cada uma dás referidas zonas difere muito
uma das outras.
O córtex primário ou de projeção está situado em forma
de uma faixa longa nos limites da circunvolução anterior
central, predominando nele a camada eferente constituída de
gigantescas células piramidais, descobertas pelo anatomista russo
V. A. Bets. Essas gigantescas pirâmides dão início a longos
axônios, que, passando no tronco cerebral para o lado oposto,
descem, chegam aos cornos anteriores da medula espinhal e
são portadores de impulsos motores que, em suma, levam a
conhecidos grupos musculares.
Como outras zonas de projeção, os campos motores pri-
mários do córtex têm precisa estrutura somátotópica: as gi-
gantescas células piramidais das suas áreas superiores levam os
impulsos motores aos músculos das extremidades inferiores do
lado oposto do corpo, as gigantescas pirâmides das zonas mé-
dias levam esses impulsos aos músculos das extremidades su-
periores, as células piramidais das zonas inferiores desse campo
levam os impulsos aos músculos do pescoço, da cabeça e do
rosto. Como nas zonas sensórias de projeção, o território
do campo motor primário representa os respectivos grupos mus-
culares não pelo traço geométrico mas pelo funcional; quanto
mais dirigível deve ser o respectivo grupo muscular, tanto
maior território ocupa sua projeção na zona motora primária
do córtex. ...
Essa organização somatotópica da circunvolução central
anterior e suas vias condutoras é de suma importância para o
diagnóstico tônico das afecções cerebrais: a destruição das
áreas superiores dessa região cerebral ou de suas vias condu-
toras leva à paralisia na perna oposta, a afecçâo das áreas
médias leva à paralisia do braço oposto, a afecção das áreas in-
feriores leva à paralisia ou paresia dos nervos do lado oposto
do rosto. De acordo com isto, as cicatrizes situadas nessas
áreas do córtex, e que o irritam, provocam contração ou con-
vulsões das partes correspondentes do corpo, razão por que o
caráter da aura (período inicial dos acessos epilépticos que
surgem em casos semelhantes) é de grande importância diag-
nóstica, indicando o lugar da cicatriz.
Sobre a zona motora primária do córtex cerebral edifica-se
a região pré-motora, que tem em sua composição a 6a área

109
) 'á é & tü iit w » i а . и' i'i'«MÉIf i rtjiffrtr'iiliiia ^ 11 i* r-

>
>
)
de Brodmann. Essa região prepara o lançamento dos impulsos mente pequeno nos macacos, desenvolvendo-se poderosamente
)
motores e cria a "melodia cinética” que põe em funcionamento apenas no homem, no qual representa quase um terço de toda
) as "teclas” da zona motora do córtex. a massa dos hemisférios. Por isto o córtex pré-frontal pode
A diferença da zona motora de projeção, nessa região ser considerado formação específicamente humana.
)
pré-motora predominam pequenas células piramidais das ca- Os órgãos do córtex pré-frontal amadurecem bem no final
) madas II e Ш do córtex, células essas que desempenham da ontogênese, ocupando pelo tempo de maturação um dos
papel de projeção e associação; aqui o princípio da projeção últimos lugares no mapa de micíinização de Flechsig. Por últi-
) somatotópica está incomparavelmente menos representado do mo, o que é de suma importância, as regiões pré-frontais do
) que na zona motora de projeção. Por isto a afecção da zona córtex estão ligadas a todas as áreas do cérebro e às áreas
pré-motora não leva ao surgimento de paralisias em determina- subjacentes da formação reticular. Essas ligações são especial-
) dos grupos musculares. A importância da zona pré-motora do mente significativas nas regiões mediais e basais dos lobos fron-
) córtex (ou “campo motor extrapiramidal” ) consiste em que tais; como já dissemos anteriormente, concomitantemente com
ela cria condições para o funcionamento sistemático do apa- as fibras ascendentes da formação reticular, nela se desenvol-
') relho motor e, em particular, assegura a transferência harmo- vem com força especial as fibras da formação reticular des-

яв - ...I.
niosa dos impulsos de uns elos de movimento a outros, ga-
) rantindo a execução de complexas melodias motoras. A zona cendente. Isto permite aos lobos frontais do encéfalo manter
pré-motora do córtex adquire importância especialmente grande permanentemente o tônus do córtex por meio de tecidos básicos,
) que os contactam com as formações subjacentes do tronco.
para a criação de habilidades motoras, nas quais um elo motor
deve ser harmoniosamente substituído por outro. £ por isto A importância dos lobos frontais do córtex cerebral é
que, com a irritação da zona prc-motora do córtex, não surgem muito grande para a organização do comportamento, embora

шчж- ...g—i
contrações de grupos musculares isolados mas complexos mo- durante muito tempo ela não se tenha prestado a uma definição
vimentos conjuntos (viradas da cabeça e dos olhos, movimentos científica precisa.
de agarramcnto com os braços;; com a afecção dessa zona Isto se devia à impossibilidade que havia de expressar as
I surgem perdas da transferência harmoniosa de um elo a outro, funções dos lobos frontais do encéfalo nos conceitos clássicos
I ou seja, em outros termos, a perturbação das “melodias ciné- do raio refletor; a afecção dos lobos frontais do encéfalo não
ticas” ou habilidades motoras. levava a nenhuma perturbação dos movimentos elementares,
Nas zonas pré-motoras do córtex cabe papel especial à não provocava paralisia, distúrbios da sensibilidade nem per-
/ {N área dc Brodmann, que é um centro anterior de movimen- turbação da fala. Isto dava a alguns autores fundamentos para
tação dos olhos, que garante ativos movimentos harmoniosos considerar as regiões frontais do córtex cerebral como “zona
> dos olhos. Com sua afecção, mantêm-se os movimentos refle- muda” sem quaisquer funções especiais. A questão mudou subs-
tores dos olhos, que acompanham os objetos em movimento, tancíalmente quando os pesquisadores passaram a enfocar o
) perturbando-se os movimentos rápidos e harmoniosos dos olhos. cérebro como um sistema auto-regulador sumamente complexo,
) Sobre a zona pré-motora edificam-se as áreas terciárias do que cria complexos programas de comportamento, regula a
córtex frontal ou região pré-frontal, integradas pelas áreas 9, •ocorrência de atos motores e exerce controle sobre estes. A
I 10, 11 e 46 de Brodmann, de estrutura inteiramente diferente. luz dessas concepções conseguiu-se definir com precisão bem
À diferença da zona motora e pré-motora, essas áreas do maior a função do cérebro.
córtex não têm entre seus componentes grandes células pira- Dotados de poderosas ligações com a formação reticular
midais, estando toda a massa cortical ocupada por células ascendente e a descendente, os lobos frontais do encéfalo se
de pequenos axônios e células asteróides cujos corpos são muito constituíam acima de tudo em um aparelho de poderoso papel
pequenos e constituem embriões ou grânulos (por isto a região ativador. Como mostraram os estudos, em cada tensão inte-
) pré-frontal é às vezes chamada de “córtex frontal granular” ). lectual (expectativa do sinal, cálculo complexo) surgem nos
Ela apenas se esboça nos vertebrados, ocupa lugar relativa- lobos frontais do cérebro ondas lentas especiais, que se esten-
1
) 110 111
)
1
dem a outras áreas do córtex e foram denominadas “ondas da
expectativa” pelo fisiologista inglês Walter Gray. Essas ondas
desaparecem quando começa a cessar a expectativa do sinal.
O trabalho intelectual tenso, que exige elevado tônus do córtex,
provoca nos lobos frontais um elevado número de pontos de
funcionamento conjunto, que se excitam sincrónicamente. Como
mostrou o cientista soviético M . N. Livanov, esses pontos de
funcionamento sincrónico se conservam durante toda a dura-
ção do trabalho intelectual complexo c desaparecem quando
este cessa.
O papel dos lobos frontais na manutenção do estado ativo,
provocado pela instrução do discurso ou uma tarefa intelectual,
foi mostrado no exame de pacientes com afecções locais (tu-
mores ou traumas) dos lobos frontais do encéfalo. Os experi-
mentos da psicóloga soviética E. D. Chomskaya mostraram
que se a instrução do discurso, que provoca tensão, leva nos
sujeitos normais ao surgimento de longos estímulos de ativa-
ção (que se expressam em reações vasculares ou eletrofisioló-
gicas), então esse estado persistente de elevada ativação não
surge ou desaparece muito rapidamente nos doentes com afec-
ção dos lobos frontais do encéfalo (especialmente das suas
regiões mediais e basais, dotadas de ligações sobretudo po-
tentes com a formação reticular ativante).
Ao manter o tônus do córtex, indispensável para a reali-
zação da tarefa colocada, as regiões frontais do encéfalo de-
sempenham papel decisivo na criação de intenções e formula-
ção de programas de ação que concretizam essas intenções.
Neuropsicólogos (Luria e outros) mostraram com suas
observações que a afecção bilateral dos lobos frontais do encé-
falo impede que os pacientes fiquem em condições de con-
servar sólidamente as intenções, manter os programas comple-
xos de ação, inibir os impulsos não-correspondentes aos pro-
gramas e regular a atividade sujeita a esses programas. Eles
não podem concentrar a atenção na tarefa que 6e lhes colocou
e fogem facilmente ao seu cumprimento, substituindo as ações
necessárias ora por simples respostas a instigadores semelhan-
tes, ora pela repetição apática dos estereótipos surgidos, que
continuam a reproduzir-se indupendentemente da tarefa colo-
cada, dificultando-lhe o cumprimento adequado.
É natural que a atividade intelectual organizada, orien-
tada pela tarefa colocada, é substancialmeme perturbada com.
a afecção dos lobos frontais do cérebro; aqui os planos com-
plexos de solução das tarefas são substituídos por respostas
fragmentárias surgidas de modo impulsivo ou pela reprodução
apática dos estereótipos uma vez assimilados (A. Luria e L. S.
Tsvetkova).
É sobretudo importante o fato de que os lobos do encé-
falo desempenham papel essencial na realização do controle
permanente da atividade em processo. Os pacientes com afec-
ção dos lobos frontais do encéfalo não podem comparar os
resultados das suas ações com a intenção inicial, perdem a
atitude crítica em face das suas próprias ações e ficam sem
condições de reconhecer seus próprios erros e corrigi-los. Isto
dá fundamento para considerar que os lobos frontais são im-
portante componente do mecanismo do “ aceptor de ação”
(P. A. Anokhin) que desempenha papel de suma importância
na garantia da atividade auto-reguladora do homem.

O principio da laterallzação no funcionamento dos grandes


hemisférios

A descrição dos três blocos principais cujo funcionamento


conjunto é assegurado pela atividade do cérebro humano não
esgota os princípios fundamentais do seu funcionamento. Con-
tudo essa descrição deve ser completada com mais um prin-
cípio, que serve de base ao funcionamento do cérebro humano.
Se os dois hemisférios dos animais são equivalentes, no
homem um deles (via de regra, o hemisfério esquerdo), é do-
minante e o outro, dominado. Ao que parece, o caráter dor*''*""' 11- ;;
name do hemisfério esquerdo começou com o surgim ento;
trabalho e o destaque do braço direito como executor d¡
pel principal na atividade de tTabalho. Por isto o hem
esquerdo desempenha papel dominante nos destros, cnc^
nos canhotos o papel dominante oblitera-se ou piisete ;püi m
hemisfério direito, Vbi:- v
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O indício mais importante do pape! dominai wrffis- •'• • •
fério esquerdo no destro é o fato de esse f.
estreitamente ligado à fala. Apesar de, em t-tiíj
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querdo (regiões temporal e parietal) estão relacifinfítli;*.
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o discurso receptor (diferença dos sons da fala, formação de


■) articulações da fala e codificação do discurso falado, que chega
ao sujeito em complexos sistemas lógico-gramaticais), sendo
) as áreas inferiores da zona pré-motora um aparelho que asse-
gura a transformação dos movimentos da fala em complexas
■)
“melodias cinéticas” do discurso e em articulação fluente da
) fala. Ê por isso mesmo que a afecção das áreas posteriores da re-
gião temporal superior esquerda leva à perturbação da capa-
) cidade de distinguir os complexos sons da fala, provocando a
) desintegração da compreensão da fala (a chamada “afasia sen-
sória” ); a afecção das áreas inferiores da região pós-central
) leva à perturbação das articulações precisas ( “afasia motora
1 aferente” ); a afecção das áreas posteriores da circunvolução
frontal inferior (ou áreas inferiores da zona pré-motora es-
) querda) leva à perturbação da fala expressiva fluente ( “afasia
motora aferente” ) . E natural que as afecções de todas as refe-
. )
ridas regiões do córtex do hemisfério esquerdo levam fatal-
) mente à perturbação de formas complexas da fala como os
processos de localização dos nomes necessários, da fala inde-
pendente organizada, da escrita e, em alguns casos, à pertur-
_) bação da leitura, do cálculo, etc. £ característico que a afecção
das zonas correspondentes do hemisfério direito (subdominan-
) te) não provoca tais distúrbios.
> O caráter dominante do hemisfério esquerdo (nos des-
tros) não se manifesta apenas na ocorrência normal dos pro-
) cessos da fala. Como mostraram observações clínicas, a inte-
gridade do hemisfério esquerdo é importante também para o
> desenvolvimento de todas as foimas de atividade consciente
) relacionada com o discurso falado.
) Assim, a afecção das regiões do córtex cerebral, contí-
guas às zonas do discurso e pertencentes às regiões terciárias
> do córtex, provoca a perturbação das fornas complexas de
percepção (agnosia), a desintegração das formas mais com-
) plexas de operações lógico-gramaticais que servem dc base aos
) processos intelectuais ("afasia sem ântica"), De modo dife-
rente, as afecções de áreas análogas do hemisfério direito (sub-
1 dominante) não provocam semelhantes distúrbios dos processos
cognitivos e se refletem em maior medida no distúrbio da per-
) cepção direta e do campo emocional do homem.
) Há fundamentos para supor que da íntima ligação dos
processos da fala com o córtex do hemisfério esquerdo (do-
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minante) resulta que o seu funcionamento transcorre de modo

114
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turbadi s dessas áreas cerebrais.