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DIREITO PENAL

TEORIA DA
IMPUTAÇÃO OBJETIVA
Gilbert Uzêda Stivanello

RESUMO

Apresenta de forma sintética a Teoria da Imputação Objetiva, indicando sua origem e finalidade na resolução de problemas não-solucionados pelo
causalismo e finalismo.
Assevera que, não obstante o desconhecimento da referida teoria, esta costuma despertar reações polarizadas no meio acadêmico-científico, ao propor,
sobretudo, uma inovadora conceituação para a tipicidade, distinta da oferecida pelas teorias causalista e finalista.
Desenvolve sua tese inspirado no pensamento de autores da doutrina pátria, ao apresentar a concepção original da Teoria da Imputação Objetiva
formulada por Claus Roxin, bem como a valiosa vertente manifestada por Günther Jakobs.
Admite persistirem resistências quanto à adoção de tal teoria pelos doutrinadores brasileiros, tendo em vista a possibilidade de resolução de algumas
controvérsias com fulcro em outros segmentos teóricos.
Por fim, enfatiza a importância do debate e da pesquisa, elementos essenciais à descoberta de soluções originais, porquanto propiciam um avanço no
âmbito do Direito Penal com reflexos em suas conseqüências processuais, com o escopo de se evitarem prejuízos à devida aplicação da justiça em
virtude do desnecessário elastério do processo penal.

PALAVRAS-CHAVE
Teoria da Imputação Objetiva; Direito Penal; Direito Processual Penal; Teoria Causalista e Teoria Finalista.

70 R. CEJ, Brasília, n. 22, p. 70-75, jul./set. 2003


INTRODUÇÃO Pode-se destarte afirmar que o estruturadas uma sobre a outra, en-

T
grande progresso da Teoria Finalista quanto em primeiro lugar deve ser
ipo penal, na definição de foi a criação do tipo subjetivo, pela examinada a causalidade (empírica)
Eugênio Raúl Zaffaroni, é um inclusão do dolo e da culpa no con- do resultado e, se afirmada que ela
instrumento legal, logicamente ceito amplo de tipo. seja, a imputação (normativa) do re-
necessário e de natureza predomi- Uma vez que o tipo penal pas- sultado5.
nantemente descritiva, que tem por sou a conter elementos objetivos e
função a individualização de condutas subjetivos, passou o mesmo a ser · Para as Teorias Causalista e
humanas penalmente relevantes1 . denominado “tipo complexo”. Em Finalista:
Cabe ao tipo penal descrever a decorrência deste novo conceito de
conduta que se deseja proibir ou tipo, que apenas se perfaz mediante TIPO OBJETIVO = (Presença dos)
impor, sob ameaça de sanção. a conjugação de seus elementos ob- ELEMENTOS DO TIPO OBJETIVO
Para que se conheça o alcan- jetivos e subjetivos, a ausência de
ce da proibição ou imposição, neces- qualquer deles passou a implicar em · Para a Teoria da Imputação
sário se faz que ele contenha elemen- atipicidade. Objetiva:
tos de natureza objetiva2.
Tais elementos de natureza TIPO = TIPO COMPLEXO = TIPO TIPO OBJETIVO = (Presença dos)
objetiva descrevem a ação e seu ob- OBJETIVO + TIPO SUBJETIVO ELEMENTOS DO TIPO OBJETIVO +
jeto, e, quando necessário, o resulta- (Teoria Finalista) IMPUTAÇÃO OBJETIVA
do, a pessoa do autor, circunstâncias
externas do fato, o sujeito passivo Não se mostrava, entretanto, a Logo, para a Teoria da Imputa-
etc. Teoria Finalista como instrumento su- ção Objetiva:
Enquanto prevaleceu a Teoria ficiente para a solução de uma série
Causalista, bastavam ao tipo seus de situações jurídicas, eis que seu TIPO COMPLEXO= TIPO OBJETIVO
elementos objetivos, eis que o dolo e conceito de tipo objetivo ainda per- (=ELEMENTOS DO TIPO
a culpa não integravam o fato típico, manecia por demasiado extenso... OBJETIVO+IMPUTAÇÃO OBJETIVA)
mas sim a culpabilidade. + TIPO SUBJETIVO
A TEORIA DA IMPUTAÇÃO OBJETIVA
TIPO = TIPO OBJETIVO A TEORIA DA IMPUTAÇÃO OBJETIVA
(Teoria Causalista) A Teoria da Imputação Objeti- SEGUNDO CLAUS ROXIN6, 7
va surgiu na Alemanha, havendo
Nas palavras de Johannes seus primeiros conceitos partido de Criou então Claus Roxin uma
Wessels: ...A ele pertencem a descri- Hegel, com posterior revisão por Teoria Geral da Imputação Objetiva,
ção do sujeito, do objeto e da ação Richard Hönig em 1930. Retomada, apontando as hipóteses normativas
executiva, incluindo eventualmente desenvolvida e aperfeiçoada na dé- que autorizam a imputação do resul-
formas especiais de comissão, meios cada de 1970 por Claus Roxin, que tado ao autor, aperfeiçoando dessarte
ou outras modalidades do fato. Na lhe deu seus contornos atuais, tem o tipo objetivo, eis que, segundo tal
maioria das vezes pressupõe-se no esta teoria por finalidade resolver os teoria, deve o tipo objetivo compre-
tipo objetivo a ocorrência de um de- problemas não solucionados pelo ender tanto a causalidade material
terminado resultado como efeito exte- causalismo e finalismo, por intermé- quanto a causalidade normativa (im-
rior da ação. Nesses delitos de resul- dio de uma nova metodologia de aná- putação objetiva).
tado o nexo causal entre ação e resul- lise e delimitação do alcance do tipo Para que possa haver a impu-
tado constitui igualmente um elemen- objetivo. tação objetiva, pela Teoria de Claus
to (não escrito) do tipo objetivo3, 4. Ao se empregar tal teoria, dei- Roxin, seria portanto necessária a
Com a posterior adoção da xa-se de analisar, quanto ao tipo ob- concorrência de três condições, quais
Teoria Finalista, o dolo e a culpa fo- jetivo, uma relação de causalidade sejam:
ram retirados da culpabilidade e in- puramente material. Torna-se esta 1) A criação ou aumento de um
seridos no tipo, que passou desta mera condição mínima, a ela se agre- risco não-permitido;
maneira a possuir também um ele- gando outra, de natureza jurídica, que 2) A realização deste risco não-
mento subjetivo. consiste em verificar se o resultado permitido no resultado concreto;
O tipo deixou de ser conside- previsto pode ou não ser imputado 3) Que o resultado se encontre
rado realizado tão-somente em decor- ao autor. Não basta apenas que o re- dentro do alcance do tipo / esfera de
rência do fenômeno natural da cau- sultado tenha sido praticado pelo proteção da norma.
sação, passando a ser exigido tam- agente para que se possa afirmar a Assim esclarece Roxin: um re-
bém um direcionamento, guiado pela sua relação de causalidade. Passa a sultado causado pelo agente só deve
vontade humana, de um curso cau- ser necessário também que ele pos- ser imputado como sua obra e preen-
sal no sentido de um determinado fim. sa lhe ser imputado juridicamente. che o tipo objetivo unicamente quan-
A conduta passou a ser analisada Assim leciona Maurach: do o comportamento do autor cria um
como um ato finalístico, orientado a ... É este precisamente o inte- risco não-permitido para o objeto da
um objetivo. resse principal da Teoria da Imputa- ação, quando o risco se realiza no
O tipo objetivo, entretanto, con- ção Objetiva do resultado; para esta, resultado concreto, e este resultado
tinuou a ser considerado como reali- a causalidade somente é a condição se encontra dentro do alcance do
zado pela Teoria Finalista por meio da mínima; a ela deve agregar-se a rele- tipo8.
mera relação de causalidade. Em ou- vância jurídica da relação causal en- A contrario sensu, podemos
tras palavras, manteve a Teoria tre o sujeito atuante e o resultado. afirmar não poder o resultado ser im-
Finalista o conceito de tipo objetivo Portanto, a investigação da causali- putado ao agente, não se aperfeiço-
já adotado na Teoria Causalista. dade tem lugar em duas etapas, ando, dessarte, o tipo objetivo, sem-

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pre que ocorrer uma das seguintes
situações:
1) O resultado decorra do exer-
cício de um de risco permitido ou de
uma ação do agente que tenha visa-
do apenas diminuir um risco não-per-
O risco será considerado permitido sempre que o resultado
mitido; pretendido pelo agente não depender exclusivamente de sua
2) O risco não-permitido não
chegue a se realizar no resultado con-
vontade. Caso venha a ocorrer nesta situação, deverá ser
creto; atribuído ao acaso. Para que haja a criação de um risco não-
3) O resultado se encontre fora permitido, deve haver domínio do resultado por meio da
do alcance do tipo ou da esfera de
proteção da norma. vontade do agente.
Analisaremos, a partir de en-
tão, as condições necessárias para
que possa haver a imputação objeti-
va.

CRIAÇÃO OU AUMENTO DE UM
RISCO NÃO-PERMITIDO porventura delas venha a decorrer um a seu amigo surfista “B” viagens ao
resultado de dano. O mesmo valerá local, na expectativa de que este fa-
Nas palavras de J. Antonio C. quando se tratar de risco inevitável leça ao praticar o surfe em suas peri-
Moltalvo, há uma zona cinzenta, in- ou realmente necessário para o avan- gosas praias, o que de fato acaba por
certa e difusa, separando o risco per- ço tecnológico das empresas que in- acontecer. Apesar do desejo de “A”,
mitido do risco proibido9... tegram nossa sociedade industriali- não deve o mesmo ser confundido
Visando a clarear a diferença zada. com uma “intenção”, eis que “A” ja-
entre tais figuras, levantou a doutrina · Princípio da Confiança mais deteve o domínio do resultado,
uma série de elementos e princípios Também tratar-se-á de risco não podendo este destarte ser-lhe
a serem empregados para tal distin- permitido aquele admitido em decor- atribuído...
ção, alguns dos quais passaremos a rência do princípio da confiança, eis · Diminuição do risco
analisar: que a sociedade não pode funcionar Não haverá imputação objeti-
· Utilidade Social; sem bens passíveis de abuso. Asse- va quando o agente tiver como fim
· Inevitabilidade do Risco; gura o referido princípio poder-se con- diminuir risco de dano maior ao bem
· Necessidade de Certas Em- fiar que os outros se comportarão jurídico, mesmo que para tal venha a
presas conforme ao Direito, enquanto não causar dano menor, que seria em tese
Ensina Claudia López Díaz existirem pontos de apoio concretos proibido, ao bem.
que: Enquanto o risco pertence ao em sentido contrário, os quais não Podemos exemplificar a situa-
mundo natural, a permissão e a proi- seriam de se afirmar diante de uma ção imaginando o agente “A” que dá
bição determinaram-se de acordo aparência suspeita, mas apenas di- um empurrão em “B”, fazendo-o as-
com as regras do ordenamento soci- ante de uma reconhecível inclinação sim desviar-se de um carro desgo-
al. A tolerância para a realização da para o fato. vernado que o atropelaria, causando-
conduta criadora de risco advém das Não realiza conduta típica lhe, porém, lesões corporais leves
estruturas sociais que, por intermé- aquele que, confiando em terceiro e com tal ato...
dio de diferentes critérios, disciplinam agindo conforme o Direito, envolve- · Incremento do Risco
o que é lícito e o que é desaprovado. se em situação na qual este terceiro Tratar-se-á de criação de risco
Na aplicação desses métodos deve- produza resultado danoso. proibido, a autorizar a imputação ob-
mos ter em conta, em primeiro lugar, Penalmente irrelevante será, jetiva, a conduta do agente que au-
a consideração da natureza do bem portanto, a ação do padeiro que te- mentar um risco pré-existente, mes-
jurídico, que deve ser encontrada na nha vendido um bolo para um homi- mo que permitido, ou ultrapassar os
Constituição Federal. Esses critérios cida, que, posteriormente, nele inse- limites para os quais tal risco seria
são os seguintes: a utilidade social, riu veneno, vindo a matar terceiro que juridicamente tolerado.
a inevitabilidade do risco e as neces- dele provou.
sidades de certas empresas 10. · Ausência de domínio do re- REALIZAÇÃO DO RISCO NÃO-
Qualquer contato social impli- sultado PERMITIDO
ca um risco. Uma vez que uma soci- O risco será considerado per-
edade sem riscos não é possível, mitido sempre que o resultado pre- O risco não-permitido, criado
uma garantia normativa que implicas- tendido pelo agente não depender pelo autor, deve se realizar. Deve ter
se na total ausência de riscos não exclusivamente de sua vontade. Caso sido a causa do resultado. Não bas-
seria factível. O risco inerente à con- venha a ocorrer nesta situação, de- ta, para que haja a imputação objeti-
figuração social deve ser irremedia- verá ser atribuído ao acaso. Para que va, a simples criação ou aumento do
velmente tolerado como risco permi- haja a criação de um risco não-permi- risco proibido, fazendo-se também
tido. tido, deve haver domínio do resulta- necessária a sua realização no resul-
Desta forma, o risco será con- do por meio da vontade do agente. tado.
siderado permitido nas ações perigo- Podemos exemplificar tal situ- No clássico exemplo do indiví-
sas que sejam autorizadas pelo le- ação através da hipótese em que “A”, duo que é baleado, mas vem a fale-
gislador, em virtude de sua prepon- sabedor da violência das ondas em cer em razão de acidente envolven-
derante utilidade social, mesmo que certas praias do Havaí, proporciona do a ambulância que o transportava

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para o hospital, pode-se afirmar que trânsito, mas jamais pelas lesões cor- jetiva criado por Roxin, muito voltado
o autor do disparo criou risco não- porais culposas. para a imputação do resultado, um
permitido que, entretanto, não se re- Também delimita o alcance do novo conceito, qual seja o da imputa-
alizou, eis que a vítima não faleceu tipo o critério da auto-responsabilida- ção objetiva do comportamento.
em decorrência do tiro, mas sim do de da vítima. Afirma que, por tratar-se de um
acidente. Desta forma o autor do dis- Afirma Roxin que não poderá ser social, o ser humano divide seu
paro apenas poderia ser punido pela ser punível a participação em auto- espaço, mantendo contatos sociais,
tentativa, jamais pela consumação, colocação em perigo, quando houver no qual cada um é portador de um
pois, apesar de haver criado um ris- por parte da vítima uma completa vi- papel.
co não-permitido, este não chegou a são do risco. Assegura não abranger Aquele que violou seu papel,
se realizar. o alcance do tipo tal hipótese, por administrando-o de forma deficiente,
Interessante observar que o encontrar o efeito protetivo da norma responderá jurídico-penalmente. Se foi
emprego da Teoria Finalista nos con- seu limite na auto-responsabilidade da a vítima quem violou seu papel, de-
duziria a idêntica solução, porém por vítima. verá esta assumir o dano por si mes-
intermédio de um caminho diferente, Cita como exemplo caso hipo- ma. Se todos se comportaram con-
qual seja, a análise do desvio do cur- tético do traficante que entrega hero- forme seu papel, o ocorrido terá sido
so causal, que seria realizada poste- ína ao viciado, vindo este último a mera fatalidade não imputável. Tal
riormente à confirmação do tipo obje- falecer de overdose ao consumi-la. assertiva também é aplicável aos cri-
tivo... Esclarece que o ato de entrega da mes culposos.
droga constitui criação de risco não- No conceito de imputação ob-
ALCANCE DO TIPO E FIM DE permitido, risco este que se realizou, jetiva de Jakobs deverá portanto o
PROTEÇÃO DA NORMA quando o viciado faleceu graças à tipo objetivo ser acrescido de um novo
injeção da droga. Ensina entretanto, elemento essencial, qual seja, a vio-
Não basta que haja um nexo que, apesar da causação da morte, lação de um papel.
causal entre o resultado e o risco não- com dolo eventual, não terá a ação Os limites dos papéis corres-
permitido criado pelo causador. É pre- do traficante sido de homicídio, ca- pondem aos limites da responsabili-
ciso, além disso, que o resultado es- bendo a este responder apenas pelo dade do agente. Apenas caberá a
teja abrangido pelo fim de proteção tráfico. O usuário da droga possuía imputação objetiva quando o agente
da norma de cuidado. Deve a condu- completa visão do risco e optou livre- violar o seu papel social.
ta afrontar a finalidade protetiva da mente pela auto-colocação em peri- Aponta então o ilustre doutri-
norma para que possa haver imputa- go, impedindo, dessarte, que o tipo nador quatro instituições, esclarecen-
ção. do homicídio alcance o traficante. do delimitarem estas “os fundamen-
Trabalhando com exemplo se- Importante salientar que no Di- tos do edifício da imputação objeti-
melhante ao apresentado por Roxin, reito Penal brasileiro, distintamente va”, deixando em aberto discussão
imaginemos dois carros que trafegam do alemão, existe previsão legal de acerca da conveniência de sua maior
à noite, um atrás do outro, ambos com punibilidade para uma situação de fragmentação.
suas lanternas e faróis apagados... participação suicídio, constante do As instituições “delimitadoras
Em razão da diminuição de sua visi- art. 121 do Código Penal. Punem-se da imputação objetiva” são as se-
bilidade pela escuridão, o motorista a instigação e o induzimento ao sui- guintes:
que seguia à frente colide com um cídio, não sendo portanto válido, pe- 1) Risco Permitido;
terceiro motorista, que vinha em dire- rante nosso ordenamento jurídico, o 2) Princípio da Confiança;
ção contrária. O resultado teria sido argumento apresentado por Roxin de 3) Proibição de Regresso;
evitado se o motorista que seguia que: se no Direito alemão, sequer a 4) Competência ou Capacida-
atrás tivesse ligado a iluminação de participação dolosa em suicídio é pu- de da Vítima.
seu carro... nível, um simples argumentum a Analisaremos tais instituições,
Evidentemente o motorista que maiore ad minus leva ao resultado cuja incidência assegurará a não-vio-
seguia à frente deve ser punido por de que também não será punível a lação do papel social pelo agente,
lesões corporais culposas, pois o participação em auto-colocação em impedindo a imputação objetiva:
dever de usar o farol tem por fim (den- perigo.
tre outros) evitar colisões. Ao dirigir A aplicação do princípio da RISCO PERMITIDO
com o farol apagado, o primeiro mo- auto-responsabilidade em nossa rea-
torista criou perigo não-permitido e lidade jurídica imprenscinde de uma Elemento já presente na teoria
este perigo se realizou. adaptação ao nosso ordenamento le- de Roxin, afirma Jakobs não fazer
Quanto ao segundo motorista, gal, a qual passaria pela admissi- parte do papel de nenhum cidadão
este também criou o perigo, que se bilidade da excepcionalidade do art. eliminar todo o risco de lesão de ou-
realizou por meio do acidente que 122 do Código Penal. tro.
envolveu o primeiro motorista, eis que, Esclarece que a proibição de
caso tivesse empregado sua ilumina- A TEORIA DA IMPUTAÇÃO OBJETIVA qualquer colocação em perigo torna-
ção, teria evitado o acidente. A ele SEGUNDO GÜNTHER JAKOBS 11 ria impossível a realização de qual-
porém, nenhum resultado poderá ser quer comportamento social, inclusive
imputado na esfera criminal... É que Günther Jakobs, por sua vez, os de salvação.
a finalidade do dever de iluminação é traçou novos elementos a serem ana- Afirma que muitas espécies de
de evitar colisões próprias e não as lisados quanto à imputação objetiva. riscos permitidos decorreram de sim-
alheias! Ele não realizou o risco não- Alguns deles coincidiram com os já ples aceitações históricas, e que es-
permitido que a lei pretendia evitar apresentados por Claus Roxin, outros tes estão e sempre estiveram presen-
mediante seu comando, podendo entretanto são inéditos. Acrescenta tes em todos os âmbitos vitais, “não
portanto ser punido pela infração de então ao conceito de imputação ob- sendo filhos da técnica”.

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Se o agente se comportar den-
tro do seu papel social, se enqua-
drando nos limites aceitos pela so-
ciedade, mesmo que sua conduta im-
plique em lesão ou perigo de lesão,
vedar-se-á a imputação objetiva, Se o agente se comportar dentro do seu papel social, se
pela inexistência de violação ao pa- enquadrando nos limites aceitos pela sociedade, mesmo
pel social, atribuindo-se o resultado
ao acaso. que sua conduta implique em lesão ou perigo de lesão,
Complementa Paz Aguado o vedar-se-á a imputação objetiva, pela inexistência de
conceito, expondo que: a determina-
ção do risco permitido há de ser feita violação ao papel social, atribuindo-se o resultado ao
em cada caso concreto, sem que acaso.
seja possível generalizar-se, sequer
entre casos similares. Para isso ha-
verá de se valorar em primeiro lugar
as normas administrativas de contro-
le da atividade, se é que existem,
assim como as normas técnicas es-
critas ou consuetudinárias, deonto-
lógicas ou da experiência que regem quer modo o terceiro assume perante pode ser a única explicação... Um
a atividade, etc 12. o autor um comportamento comum li- comportamento do agente, do qual se
mitado e circunscrito por seu próprio saiba que decorrerão lesões, segue
PRINCÍPIO DA CONFIANÇA papel; comportamento comum e do conforme seu papel na medida em
qual não se pode considerar seja par- que a vítima não tenha direito a que
Elemento também presente na te de um delito. não se produza o resultado lesivo.
teoria de Roxin, recebeu a seguinte Não poderá ser incriminada a Jakobs apresenta como o caso
análise por Jakobs: Quando o compor- conduta daquele que tenha atuado de provavelmente mais relevante neste
tamento dos seres humanos se entre- acordo com seu papel, mesmo que campo o da eutanásia. Expõe que,
laça, não faz parte do papel do cida- tenha contribuído para o êxito da in- no âmbito dos cuidados intensivos,
dão controlar de maneira permanente fração penal praticada pelo agente. é lícito suspenderem-se determinadas
todos os demais; de outro modo não Retornando à situação do pa- prestações que se realizam por meio
seria possível a divisão do trabalho. deiro que vende um bolo, sendo este de aparelhos que conservam a vida
Não ocorrerá violação de papel, posteriormente envenenado por um do paciente quando ditas prestações
vedando-se a imputação objetiva, homicida que o utiliza para matar ter- não estejam indicadas medicamente.
para aquele que atuou confiando que ceiro, mesmo que tal padeiro conhe- Nessas hipóteses, ainda que a
os demais se manteriam dentro dos cesse a finalidade ilícita do homici- desconexão dos aparelhos, é dizer,
limites do perigo permitido. da, ainda assim não poderia respon- um atuar positivo, tenha efeitos cau-
der pela infração, eis que a atividade sais a respeito da morte do paciente,
PROIBIÇÃO DE REGRESSO de vender o bolo consiste na realiza- o médico se mantém dentro do seu
ção comum e circunscrita de seu pa- papel e não se atribui uma atividade
Esclarece Jakobs que: O ca- pel de padeiro. Deve-se observar que alheia: pelo contrário, constitui uma
ráter conjunto de um comportamen- a proibição da contribuição do padei- fatalidade do paciente o fato de estar
to não pode impor-se de modo unila- ro na venda do bolo não seria susce- posicionado de maneira propensa a
teral arbitrário. Portanto, quem assu- tível, de fato, a evitar a conduta do sofrer dano...
me com outro um vínculo que de homicida que poderia sem nenhum As ações a próprio risco repre-
modo invariavelmente considerado é esforço obtê-lo de outra forma2. sentam as hipóteses cuja explicação
inofensivo, não viola seu papel como deixa de ser a fatalidade decorrente
cidadão, ainda que o outro incorpo- COMPETÊNCIA OU CAPACIDADE DA da posição da vítima, passando a ser
re esse vínculo numa atividade não VÍTIMA uma lesão ao dever de auto-proteção
permitida. desta ou o seu próprio consentimen-
Um comportamento que de Assim ensina Jakobs: pode to como ato voluntário.
modo invariavelmente considerado é ser que a configuração de um contra- No que se refere à lesão ao
inofensivo, não constitui participação to social seja de competência não só dever de auto-proteção, a vítima não
em uma atividade não permitida. do autor, mas também da vítima, in- pode assumir um contato social ar-
Prossegue Jakobs seu raciocí- clusive num duplo sentido: pode ser riscado sem aceitar como fruto de seu
nio expondo que: ... é certo que pode que o próprio comportamento da víti- comportamento as conseqüências
suceder que no caso concreto fosse ma fundamente que se lhe impute a que conforme um prognóstico objeti-
possível evitar o comportamento do conseqüência lesiva, e pode ser que vo são previsíveis. Como exemplo
autor. Mas, inclusive, se isto ocorres- a vítima esteja na lastimável situação temos o praticante de esportes radi-
se, e aqui o ponto decisivo, a contri- de encontrar-se nessa posição por cais, que, sabedor do risco de lesões
buição do terceiro não só é algo co- obra do destino, por infortúnio. a que se expõe, não poderá imputá-
mum, mas seu significado é de modo Merecem destaque nesta ins- las posteriormente ao seu instrutor que
invariavelmente considerado inofensi- tituição duas situações: a posição da agira com plena observância ao seu
vo. O autor não pode, de sua parte, vítima e as ações a próprio risco. dever de cuidado. Defende Jakobs
modificar esta definição do significa- No que tange à posição da ví- também aplicar-se igual solução
do do comportamento, já que de qual- tima, por vezes o infortúnio desta àquele que decide participar de uma

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luta de boxe, caso lhe sobrevenham 10 DÍAZ, Claudia López. Introducción a la
lesões, e àquele que mantém rela- imputación objetiva. Bogotá: Centro de
ções sexuais com pessoa que se Investigaciones de Derecho Penal y
Filosofia del Derecho, Universidad Exter-
prostitui, caso lhe sobrevenha conta-
nado de Colombia, 1996. p. 108.
minação por HIV, afirmando, entretan- 11 JAKOBS, Günther. A Imputação Objetiva
to, ainda pairarem controvérsias acer- no Direito Penal. Trad. André Luís Callegari.
ca desta última situação. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000.
Quanto ao consentimento da 12 AGUADO, Mercedes de la Cuesta Paz.
vítima, estando presentes os requisi- Tipicidad e imputación objetiva. Argentina:
tos para que este seja admitido como Cuyo. p.150.
13 JESUS, Damásio Evangelista de. Impu-
válido, também afastará a imputação tação Objetiva. São Paulo: Saraiva, 2000.
ao agente. Naturalmente, para que se 14 JESHECK, Tratado de Derecho Penal –
possa admitir como válido tal consen- Parte General. Trad. José Luis Manzanares
timento deverá o mesmo dizer respei- Samaniego. Granada: Comares, 1993.
to a bens disponíveis.
Encerrada esta breve análise Artigo recebido em 12/02/2003.
dos conceitos da Teoria da Imputa-
ção Objetiva, pela ótica de seus dois ABSTRACT
principais expositores, quais sejam
Claus Roxin e Günther Jakobs, cabe The author presents, in a synthetic way,
por fim salientar que persistem resis- the Objective Imputation Theory, showing its
tências à sua adoção pela doutrina origin and its purpose in the resolution of
pátria, eis que ainda carecedora de problems neither solved by causalism nor by
finalism.
maior uniformidade doutrinária, bem
He asserts that, nevertheless the
como pelo fato de ainda poderem al- ignorance about the above – mentioned theory,
gumas de suas soluções também ser this usually arouses polarized reactions in the
oferecidas por outros segmentos te- academic – scientific sphere, by proposing,
óricos. above all, an innovative evaluation to the type
O contínuo debate e pesquisa of this theory, different from the one that is
acerca da mesma é, entretanto, rele- offered by the causalist and finalist theories.
He develops his thesis inspired by the
vante e enriquecedor, posto que nos
authors of the original doctrine’s thought, when
apresenta soluções originais e que he presents the original conception of the
poderão representar um grande avan- Objective Imputation Theory that was
ço não somente no âmbito do Direito formulated by Claus Roxin, as well as the
Penal e de suas conseqüências pro- valuable understanding manifested by Günther
cessuais, como também de cunho Jakobs.
social, uma vez que um desnecessá- Furthermore, he admits that resistances
persist in relation to the adoption of such theory
rio elastério do processo penal, na by the Brazilian doctriners, taking into account
maioria das vezes, acaba por se the possibility of solution of some controversies
transformar em severa e injusta lesão based on other theoretical segments.
ao ser humano. To conclude, he emphasizes the
importance of the debate and research,
essential elements to the discovery of original
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS solutions, since they favor an advance within
the Criminal Law’s scope with reflections on its
procedural consequences, aiming to avoid
1 ZAFFARONI, Eugênio Raúl. Manual de damages to the proper application of the justice
Derecho Penal. Parte General. Buenos owing to the unnecessary criminal proceeding’s
Aires: Ediar, 1988. p.371. elasticity.
2 GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal –
Parte Geral. Rio de Janeiro: Impetus, 2002. KEYWORDS - Objective Imputation
3 WESSELS, Johannes. Direito Penal – Parte Theory; Criminal Law; Criminal Procedural Law;
Geral. Porto Alegre: Fabris, 1976. p.33. Causalist Theory; Finalist Theory.
4 _______. Strafrecht – Allgemeiner Teil. 5.
ed. Alemanha: Verlag GmbH – Karlsruhe,
1975.
5 MAURACH, Reinhart; ZIPF, Heinz. Derecho
Penal – Parte general. p. 317-318.
6 ROXIN, Claus. Strafrecht – Allgemeiner Teil.
Alemanha, 1992.
7 _______. A Teoria da Imputação Objetiva.
Trad. Luís Greco. In: Revista Brasileira de
Ciências Criminais, n. 38, São Paulo, abril-
junho, 2002.
8 _______. Die Lehre von der objektiven
Zurechnung, In: Chengchi Law Review, n.
50, maio, 1994.
9 MONTALVO, J. Antonio Choclán. Deber Gilbert Uzêda Stivanello é Assessor da
de cuidado y delito imprudente. Barcelona: Coordenação-Geral do Conselho da
Bosch, 1998. p.152. Justiça Federal.

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