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Mentalidade Colonizada e esquizofrenia política

Deleuze afirma que a função da filosofia é criar conceitos. São os conceitos que ajudam o
filósofo a explicar suas ideias, portanto o verdadeiro filósofo deve criar seus conceitos. Claro
que não se trata de uma tarefa fácil, para criar conceitos o filósofo deve ir além do filosofar
espontâneo e mergulhar no caos e na filosofia sistemática. Porém, não pode se afogar nem no
caos e nem no academiscimo, deve retornar e criar os conceitos que ajudam na compreensão
de sua realidade.

É neste sentido que, para compreender o presente precisamos de conceitos que não existiam.
Assim, neste texto, buscaremos criar dois conceitos que são necessários e essenciais para
compreender a realidade brasileira do século XXI: A mentalidade Colonizada e a Esquizofrenia
Política.

É praticamente impossível compreender o presente sem conhecer o passado. Toda realidade


atual é o resultado de um processo histórico que molda o presente com as formas do passado.
Sendo assim, podemos afirmar que a mentalidade brasileira atual é o resultado de um
processo histórico cujas raízes estão fortemente fincadas no período colonial.

Ao longo da história do Brasil existe modo de pensar que é o resultado de uma mentalidade
colonizada. Essa mentalidade criou no povo brasileiro uma falta de perspectiva de futuro como
nação. A mentalidade colonizada também pode explicar a falta de planejamento e a busca de
políticas públicas que diminuam as desigualdades sociais. A mentalidade colonizada também
nos ajuda a compreender os motivos que levam os grupos economicamente mais favorecidos
a preferirem políticas imediatistas a criarem um planejamento de desenvolvimento à longo
prazo. Também podemos citar a mentalidade colonizada como a responsável pelo desapego
de políticos, empresários e parte da classe média com as riquezas nacionais e com o território
brasileiro. A classe média em seu sonho de enriquecimento fácil para então abandonar o país
é o exemplo mais claro da mentalidade colonizada em uma parcela significativa da população.

Neste texto, buscaremos as raízes históricas da “mentalidade colonizada”, conceito que


fundamentaremos para elucidar a questões sociais do presente.

Deleuze em seu livro “O que é filosofia” afirma que a função da filosofia é criar conceitos. São
os conceitos criados pela filosofia que explicam a realidade e nos ajudam a compreender o
presente. Mais que isso, os conceitos nos ajudam a questionar o stabilishment. Neste sentido,
podemos já podemos lançar o seguinte questionamento: o que seria o conceito da
“mentalidade colonizada”? Como essa mentalidade foi construída historicamente? Como o
conceito da “mentalidade colonizada” nos ajuda a compreender o presente?

Claro que podemos remeter a mentalidade colonizada à outros tempos e outros povos. Porém,
por motivos metodológicos e didáticos limitaremos o início de nosso conceito ao
“descobrimento” e colonização do Brasil, já que podemos situar as raízes da mentalidade
colonizada nos registros da formalização e da tomada de posse pelos portugueses do território
que hoje é chamado de Brasil. Já no registro do primeiro contato entre nativos e se
apresentam traços do pensamento que viria a forjar a mentalidade colonizada no povo
brasileiro: os nativos recebem os portugueses com presentes sem esperar nada em troca e a
busca pelas riquezas materiais se faz presente e explicita na passagem da carta de Caminha:
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou
outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra
em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de
Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os
achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal
maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela
tudo; por causa das águas que tem!

A necessidade de se encontrar ouro, prata ou pedras preciosas é própria do metalismo


existente neste período e o desejo de se encontrar riquezas materiais já se apresenta de
maneira muito clara no registro do descobrimento. O primeiro registro oficial português sobre
nosso território já demonstra que o pensamento não era de um plano de desenvolvimento,
mas sim de exploração.

A falta de riquezas aparentes faz com que o início da colonização brasileira não aconteça de
maneira imediata. Somente após a descoberta de ouro de aluvião no território do Paraná atual
é que o envolvimento Português com a colonização do novo território se intensificará. Assim,
situamos a colonização portuguesa do nosso território na década de 1530. E a instalação de
instrumentos jurídicos de dominação final do século XVI e não imediatamente após a
descoberta.

É importante ressaltar que o principal símbolo da justiça portuguesa durante todo o século XVI
era o pelourinho. Erguido no centro das cidades, o pelourinho servia como símbolo de
dominação e referência de punição para aqueles que desrespeitassem o poder português. Os
açoites serviam como demonstrações de força e de que não seriam toleradas ações que
desrespeitassem a vontade da metrópole portuguesa.

O pelourinho, um símbolo de justiça e de autoridade real,


erguia-se no centro da maior parte das cidades portuguesas do
século XVI. À sua sombra as autoridades civis liam
proclamações e puniam criminosos. Sua localização bem no
centro da comunidade, ilustrava a crença ibérica de que a
administração da justiça era o atributo mais importante do
governo. (Schwartz – burocracia e sociedade no Brasil colonial
pg 3)

Podemos assim dizer que, sob o jugo português, nosso país se embriona sob a égide da
punição física e pela busca da riqueza imediata. O planejamento da colônia se desenvolve em
torno do escoamento das riquezas naturais e não como um projeto de fundação de uma
nação. Tanto é que o processo de povoamento do território nacional se deu de acordo com a
dinâmica mineradora. Cidades surgiam e desapareciam em função da mineração. Caminhos
eram abertos para o escoamento

O perigo da ascensão totalitária e a destruição das políticas de bem estar social no início do
Século XXI

Vivemos em tempos sombrios, misto de duplipensar com ideias de higienização racial.


Ao mesmo tempo as maiores contradições se tornam possíveis: informação com ignorância;
Paz com guerra, Democracia sem povo. Além disso, torna se mais evidente a lei do eterno
retorno: a cada passo para frente, são dois para trás. Direitos básicos são derrubados, Direitos
Humanos são criminalizados. A ascensão de um neofascismo caminha a passos largos. Parece
que nos encaminhamos para o fim dos paradigmas e ideais iluministas. Assistimos o
desvelamento de discursos que pareciam superados.
Com o fim da guerra fria, a superação da demonização do comunismo parecia que era
certa. Nos círculos acadêmicos nacionais o marxismo dava sinais de estagnação. A História
Cultural e a Nova História ditavam os rumos da historiografia nacional. Os poucos marxistas
estavam restritos às analises do colapso do socialismo. Existiam aqueles que diziam que
vivíamos o fim das utopias. As ciências humanas se voltavam para o fim de si mesmas.
Enquanto isso, principalmente nos cursos de Direito mais elitistas, o neo-positivismo
se alastrava e distanciava ainda mais os filhos das elites da realidade social. Formavam se
“doutores” em direito sem nenhuma humanidade. Não que isso fosse uma novidade, os cursos
onde o setor judiciário é formado ainda são elitistas. A lógica fria da Lei sempre se aplica, ainda
mais contra o pobre o negro e os marginalizados (o classismo do sistema judiciário nacional).

Essa é a mentalidade colonizada que faz com que nunca se pense no futuro do país. O
que se quer é enriquecer e voltar para a metrópole. Esse pensamento se araizou na alma
do brasileiro que não se enxerga como um morador da colônia, mas sim como um
potencial habitante da metrópole. Assim, vão se embora da nossa terra assim que podem
e nunca plantam a semente de um futuro melhor que o presente

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