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Células Tronco, células da esperança.

uma célula-tronco injetada no coração se transforme


numa célula renal ou num neurônio, por exemplo.
As descobertas têm sido anunciadas num ritmo ver-
tiginoso. Uma das mais importantes é a de que células-
tronco armazenadas naturalmente funcionam como um
batalhão de defesa, que entra em ação em casos de
emergência. Por exemplo, até três anos atrás, acredita-
va-se que o coração seria incapaz de regenerar. Engano.
Constatou-se que, no momento de um infarto, células-
tronco migram para a área da lesão com o objetivo de
regenerar o músculo cardíaco. Elas, porém, não são em
quantidade suficiente. Se fossem, não haveria necessi-
dade de intervenções como pontes de safena e
angioplastias. O coração seria capaz de se regenerar por
si só, da mesma forma que a pele que sofre um leve
machucado.
É na cardiologia que esses avanços têm aplicação
Células tronco em imagem ampliada mais imediata. Ao observarem a movimentação desse
batalhão de células-tronco, os cientistas imaginaram for-
Hoje se sabe que o organismo de um adulto tem mas de transformá-lo num grande exército. O procedi-
aproximadamente 75 trilhões de células, agrupadas em mento mais usual é retirar da medula óssea uma quanti-
cerca de 220 tipos distintos. Cada um desses tipos é dade de células-tronco e transplantá-las diretamente para
responsável pela formação de uma parte do corpo hu- a área do músculo cardíaco lesionada. Por meio de um
mano. Nos dias imediatamente posteriores à concepção, cateter, as células-tronco são transportadas para a re-
contudo, um embrião não passa de um amontoado de gião a ser regenerada. Demora em média apenas qua-
100 a 200 células indiferenciadas entre si, envoltas por renta dias para que elas se transformem em células car-
uma membrana que formará a placenta. Só a partir de díacas, repovoando a porção necrosada pelo infarto. É
uma semana de vida, mais ou menos, é que essas célu- simplesmente incrível. A cirurgia não leva mais de três
las embrionárias começam a diferenciar-se. Umas viram horas e a internação não passa de dois dias. Dos 21
células sangüíneas, outras cardíacas, cerebrais, muscu- pacientes operados no Brasil dezessete levam hoje uma
lares, ósseas, hepáticas, renais e assim por diante. A vida normal. No mês passado Dohmann deu início a uma
metamorfose é que permite que um embrião se trans- nova experiência: injeções de células-tronco imediata-
forme num feto e, finalmente, numa criança. mente depois de o processo de infarto ter sido denota-
Para efeito de comparação, é como se cada célula- do. O objetivo é fazer com que a necrose do músculo
tronco tivesse em seu interior inúmeros botões de liga- cardíaco, resultante do ataque, não seja tão grande a
desliga. No processo de diferenciação, por meio de um ponto de incapacitar o paciente.
comando genético, um desses botões é acionado. Se o No instituto do coração de São Paulo uma frente de
comando determinar que a célula-tronco deve se trans- estudo, coordenada pelo cardiologista Edimar Bicchi des-
formar numa célula cardíaca, é o botão do “liga-cora- tina-se à recuperação de pacientes com insuficiência car-
ção” que será ativado. Quanto aos outros botões, eles díaca. Em vez de coletar as células e transplantá-las para
serão desligados para sempre. Uma parte das células do o coração, o médico, com a ajuda de remédios faz com
organismo, no entanto, permanece sendo tronco. Algu- que elas migrem da medula óssea para o músculo cardí-
mas delas ficam localizadas no cordão umbilical. Outras aco. Ao longo de quatro meses, os participantes dessa
incrustam-se em diversas regiões do organismo, sobre- experiência receberam injeções de uma proteína especi-
tudo na medula óssea. É com esse material, proveniente al, que estimula a passagem das células-tronco para a
de cordões umbilicais e de medulas ósseas, que os cien- corrente sangüínea. Como é que elas vão parar no cora-
tistas andam promovendo a maioria de suas experiênci- ção? Substâncias liberadas naturalmente apenas na pre-
as. Nas terapias, quando elas são injetadas numa certa sença de lesões as atraem. De onze pacientes tratados
região do corpo, o comando genético é dado por meio até o momento, oito já recuperaram parte das funções
de proteínas específicas do órgão para o qual foram en- cardíacas. Cardiopatias graves causadas por Doença de
viadas. É graças a esse fenômeno que é impossível que Chagas também estão sendo tratadas.
Experimentos em seres humanos (além do coração)
CÉREBRO OLHOS
No transplante de células-tronco da medula óssea Experiências em humanos
de camundongos para os cérebros dos roedores, novos já mostraram ser possível ob-
neurônios surgiram no lugar ter células da córnea a par-
das células nervosas tir do cultivo de células-
danificadas. O sucesso tronco retiradas da me-
dessas experiências dula óssea dos próprios
pode ser a chave para pacientes. Pode ser
o tratamento de víti- uma alternativa para a
mas de derrame, recuperação da visão de
Parkinson, Alzheimer pacientes com doenças
e epilepsia. Até o fim degenerativas.
deste semestre, pes-
quisadores da Uni-
versidade Federal
do Rio de Janeiro
Experimentos com animais
iniciam os primeiros ARTICULAÇÕES
testes com pacien-
tes acometidos por Pesquisadores
derrames. americanos consegui-
ram recuperar as arti-
culações do joelho de
MEDULA ESPINHAL cabras. Em seres hu-
manos, vislumbra-se
Estudo conduzido por médicos da Universidade de um tratamento contra
São Paulo com paraplégicos e tetraplégicos mostrou ser a osteoartrite.
possível restaurar parte da sensibilidade dos membros
paralisados. O transplante de células-tronco refez a pon- OSSOS
te entre a área lesada e o resto da medula espinhal.
Com isso, os estímulos nervosos voltaram a trafegar. A regeneração de tecido ósseo
a partir de células-tronco vem sendo estudada para re-
SISTEMA IMUNOLÓGICO parar fraturas extensas, que requerem prótese ou pla-
cas de platina.
Em pesquisas promovidas pela Universidade de São
Paulo, no Campus de Ribeirão Preto, células-tronco são
PÂNCREAS
utilizadas para refazer o sistema imunológico de pacien-
tes vítimas de doenças auto-imunes, como diabetes tipo Pretende-se criar células produtoras do hormônio
1, lúpus e esclerose múltipla. Nesses distúrbios, o orga- insulina a partir de células-tronco extraídas da medula
nismo dos pacientes é atacado pelas próprias células de óssea de pessoas com diabetes tipo 1.
defesa.
FÍGADO
MAMAS A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia ini-
Recentemente, pesquisadores da Universidade de ciou experiências que utilizam células-tronco na regene-
Tóquio anunciaram ter conseguido aumentar o volume ração de áreas lesadas do fígado.
das mamas de uma paciente por
meio de uma mistura de cé- ESPERMATOZÓIDES
lulas de gordura com cé-
Pesquisadores americanos e japoneses conseguiram
lulas-tronco. As células-
que células-tronco se transformas-
tronco, segundo eles,
sem em espermatozóides.
promoveram o nasci-
mento de novas células
ÓVULOS
adiposas e de uma rede
de vasos sangüíneos Centros de pesquisas
para irrigar a região. já criaram óvulos a partir
Agora eles pretendem am- das células-tronco da medu-
pliar as experiências para la óssea.
trinta pacientes. Se der certo,
pode estar aí o substituto para as próteses de silicone. Revista Veja – 24/03/2004
GENÉTICA
Nasce a camundonga Kaguya, a verdadeira filha da mãe.
“Um dogma da ciência na área da reprodução foi quebrado
na quarta-feira 21. Desde que o mundo é mundo, acreditava-
se ser impossível o nascimento de um mamífero sem a presen-
ça do sexo masculino no processo de fecundação. Um artigo
publicado na revista britânica Nature, uma das mais conceitu-
adas no mundo, relata o nascimento de uma fêmea de camun-
dongo produzida por partenogênese (leia abaixo). Ou seja:
essa camundonga batizada de Kaguya tem duas mães e ne-
nhum pai, foi gerada sem a presença de espermatozóide –
algo como uma imaculada concepção. Foi uma equipe de pes-
quisadores da Universidade de Agricultura de Tóquio quem
pôs essa Kaguya no mundo valendo-se de uma mágica biológi-
ca. O primeiro passo foi a criação de uma camundonga
transgênica com óvulos ativados geneticamente para que eles
desenvolvessem o gene IGF-2. Esse gene é próprio dos
espermatozóides – ou seja, os cientistas masculinizaram o óvulo
da mocinha. O segundo passo foi a transferência do núcleo do “Dos embriões (no processo) 371 foram implan-
óvulo dessa camundonga para outro óvulo normal.” tados em fêmeas normais. Apenas duas gestações
chegaram ao fim. Das duas fêmeas nascidas, uma
Revista ISTO É – 28 de abril de 2004 sobreviveu (Kaguya) e já deu à luz filhotes saudá-
veis”.
Revista VEJA.

O que é Partenogênese?
É um tipo de reprodução em que o gameta feminino
(óvulo) se desenvolve sem haver fecundação. Como não
há fusão de gametas, muitos cientistas a consideram como
um tipo de reprodução assexuada. A partenogênese é
encontrada em diversos grupos de seres vivos como plan-
tas, vermes, insetos, algumas espécies de peixes, de
anfíbios e de répteis. Agora, pela primeira vez, a ge-
nética conseguiu que dois mamíferos do mesmo sexo
combinassem seus genomas para originar um ou-
tro mamífero.

Partenogênese em abelhas (gênero Apis). A rai-


nha, única fêmea fértil da colméia, é capaz de controlar
a fecundação. Depois de copular com zangões e armazenar
seu sêmen, ela pode pôr ovos fecundados e óvulos não-fecun-
dados. Os ovos, diplóides, originam fêmeas, que poderão ser
rainhas ou operárias, dependendo de sua alimentação. Já os óvu-
los, haplóides, desenvolvem-se por partenogênese, originando ape-
nas machos, os zangões.

Fundamentos da Biologia Moderna (Vol. único)


Amabis e Martho - Pg152 - Ed. Moderna