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CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL

Gabinete do Deputado José Gomes - Gab 02

PROJETO DE LEI Nº , DE 2021


(Autoria: Deputado José Gomes - Gab 02)

Veda à administração pública direta


e indireta de qualquer dos poderes
do Distrito Federal, e também
autarquias, fundações, empresas
públicas, sociedades de economia
mista, suas subsidiárias, e
sociedades controladas, direta ou
indiretamente, pelo poder público, o
uso da chamada “linguagem neutra”
em quaisquer comunicações oficiais
ou extraoficiais, internas ou
externas.

A CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL decreta:

Artigo 1º - Fica vedado o uso da chamada “linguagem neutra” pela administração


pública direta e indireta de qualquer dos poderes do Distrito Federal, e também autarquias,
fundações, empresas públicas, sociedades de economia mista, suas subsidiárias, e
sociedades controladas, direta ou indiretamente, pelo poder público, em quaisquer
comunicações oficiais ou extraoficiais, internas ou externas, voltadas aos próprios servidores
ou à população em geral, incluindo por meio de páginas oficiais dos órgãos e autoridades nas
redes sociais.
Parágrafo único - O descumprimento da vedação estabelecida pelo caput configura
ato de improbidade administrativa e sujeita o agente infrator às sanções estipuladas em lei.
Artigo 2º - Esta lei entra em vigor na data da sua publicação.

JUSTIFICAÇÃO
O presente projeto de lei objetiva frear uma tentativa absurda de subverter os
mecanismos naturais de funcionamento da língua pátria, instrumento de maior importância na
preservação da cultura de um povo, em nome de uma ideologia estrangeira importada, com
propósitos nefastos e hostis aos valores mais caros ao povo brasileiro.
Dessa forma, qualquer medida que se proponha para modificar a estrutura de uma
língua não é inconsequente. E se a medida é ainda por cima completamente artificial, sem
que os próprios falantes, usuários e senhores desta língua tenham qualquer voz no processo,

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é de se suspeitar que haja por trás disso um interesse escuso com objetivos nocivos à
vontade dos falantes.
É exatamente o caso relativo à linguagem neutra, que a pretextos nominais de
inclusão social, pretende modificar a morfologia da língua portuguesa, para introduzir no
idioma uma categoria nele inexistente: o gênero neutro.
O português é descendente direto do Latim, língua indo-europeia em que estavam
presentes três gêneros: o masculino, o feminino e o neutro. Apesar de haver exceções, era
possível prever o gênero de cada palavra latina a partir de sua desinência declinativa: no
nominativo, as palavras masculinas terminavam em -us (1ª declinação), as femininas em -a
(2ª declinação) e as neutras em -um (também 1ª declinação).
Os habitantes da província lusitana, na sua comunicação diária, e ao longo de
séculos, foram paulatinamente “barbarizando” o latim, até que passaram a utilizar as palavras
exclusivamente no caso acusativo, cuja terminação designativa era idêntica para o masculino
e para o neutro (-um na 1ª declinação, -em¬ na terceira declinação).
Com a posterior e progressiva perda da nasalidade, esses dois gêneros latinos se
fundiram em um único gênero na língua que se formou em Portugal (masculino + neutro), ou
seja, o masculino assumiu as atribuições do neutro e sua desinência se fixou, na maioria das
palavras, em -o (noutras, em -e). O que se descreveu acima nada teve que ver com
machismos ou patriarcalismos (patriarcalismo por patriarcalismo a sociedade romana, falante
do latim com três gêneros, também o era).
Tratou-se isto sim de um processo de desenvolvimento natural que partiu do próprio
povo falante, a quem realmente incumbe a evolução do idioma. Devido a isso, sem nenhuma
surpresa, abundam exceções na nossa língua, como normalmente decorre da formação de
uma língua.
Há palavras masculinas que terminam em -a, como dentista, artista, problema etc. e,
da mesma forma, palavras femininas que terminam em -o, como aflição, nação, tribo, foto etc.
Isso prova que o gênero gramatical do significante independe do sexo biológico do ente
significado, que pode nem mesmo ter “sexo”, fato que é claro para todos os falantes do idioma.
Fica claro que suas motivações não são linguísticas, mas puramente políticas. Ou
seja, a propagada linguagem “neutra” não é neutra de forma alguma, mas produto de uma
ideologia específica: a ideologia de gênero.
O mérito, ou melhor, os vícios dessa perniciosa ideologia podem ser deixados de lado
para focarmos num fato. A administração pública no Brasil rege-se pelo princípio da
impessoalidade (CF, artigo 37). Entre muitas outras coisas, isso significa que ela não pode
tomar parte em conflitos ideológicos, pois ela sim é verdadeiramente neutra e, por isso, no
seu proceder deve pautar-se por normas prévias e objetivas de conduta.
No plano da comunicação, significa que ela deve acatar as normas pré-estabelecidas
na gramática da língua, que não é, como muitos querem, decretada por ninguém, mas a
sistematização dos meios de expressão criados pela lavra coletiva dos grandes mestres do
idioma e dos usos da população falante através dos séculos.
Assim, a única hipótese em que a utilização dessa “linguagem neutra” poderia ser
considerada aceitável seria se o povo brasileiro a adotasse organicamente. Se um dia o
melhor da literatura brasileira vier a adotar sistematicamente a linguagem neutra, se largas
parcelas da população, de todas as idades, de ambos os sexos, de todas as regiões, de todas
as etnias, utilizarem-na normalmente no discurso de forma espontânea ou forem capazes de
entendê-la, e se isto se verificar por mais de uma geração, então neste dia a administração
pública estará autorizada a empregá-la. Enquanto isso não ocorre, e esperamos que jamais
ocorra, não faz sentido sequer considerar essa hipótese.
Seria extremamente nefasto impor uma tendência tão estranha aos nossos costumes,
ainda mais quando ela contribui para o acirramento de tensões sociais pouco presentes na
nossa cultura. Além dos malefícios práticos mais imediatos da adoção de tal medida, como a

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dificuldade adicional na alfabetização de cegos, surdos e disléxicos, obrigados a decifrar
novos símbolos criados para a linguagem neutra que prejudicam sua leitura, teríamos de lidar
com uma nova categorização linguística para determinadas pessoas, o que pode levar a
conflitos e até mesmo à violência, caso elas se sintam destratadas por quem não respeite a
nova regra gramatical, que por sua própria natureza é tão vaga e subjetiva quanto a
orientação sexual de quem queira se beneficiar dela.
Logo, de acordo com as premissas da linguagem neutra, entre elas a obrigação da
estrutura gramatical da língua se moldar para satisfazer o sentimento de inclusão de todos os
falantes, tantos quanto forem os gêneros sexuais, terão de ser os gêneros gramaticais.
Consequentemente, cria-se um ambiente de confusão. O usuário é obrigado a tratar
outra pessoa não da forma como ela se mostra, ou seja, objetivamente, mas a partir da
absolutamente subjetiva visão dela de si mesma, o que ele não tem mesmo como saber antes
de interagir com a pessoa.
Constrangendo-se a linguagem, constrange-se a sua função fática, e, por
conseguinte, as próprias relações sociais que ela serve para estabelecer. O efeito da
linguagem neutra, em última conta, é esgarçar o próprio tecido social no qual ela, contradição
das contradições, busca agregar os “excluídos”. A fim de promover inclusão, o que ela
promove de fato, como consequência final, é absoluta segregação social.
Por fim, ressalta-se mais uma vez que a administração pública tem o dever de servir a
todos os cidadãos sem discriminá-los, e isso implica em utilizar uma linguagem para ser
compreendida por eles, e não confundir suas mentes.
Ante ao exposto conclamo os nobres pares apoio na aprovação deste Projeto de Lei.
Sala das sessões, em

JOSÉ GOMES
Deputado Distrital

Praça Municipal, Quadra 2, Lote 5, 2º Andar, Gab 2 - CEP: 70094902 - Brasília - DF - Tel.: (61)3348-8022
www.cl.df.gov.br - dep.josegomes@cl.df.gov.br

Documento assinado eletronicamente por JOSE GOMES FERREIRA FILHO - Matr. Nº 00152,
Deputado(a) Distrital, em 26/08/2021, às 12:05:59

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