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DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO

Fragmentos Filosóficos
1947
(Dialektik der Aufklärung – Philosophische Fragmente)

Theodor W. Adorno
&
Max Horkheimer

ÍNDICE

Sobre a Nova Edição Alemã .......................................................................................... 1


Prefácio ............................................................................................................................ 2
O Conceito de Esclarecimento ....................................................................................... 5
EXCURSO I: Ulisses ou Mito e Esclarecimento ........................................................ 23
EXCURSO II: Juliette ou Esclarecimento e Moral................................................... 40
A Indústria Cultural: O Esclarecimento Como Mistificação das Massas............... 57
Elementos do Anti-Semitismo: Limites do esclarecimento ....................................... 80
Notas e Esboços ............................................................................................................. 99

CONTRA OS QUE TÊM RESPOSTA PARA TUDO ....................................................................................... 99


CONVERSÃO DA IDEIA EM DOMINAÇAO ................................................................................................ 100
SOBRE A TEORIA DOS FANTASMAS ......................................................................................................... 101
QUAND MÊME .................................................................................................................................................. 102
PSICOLOGIA ANIMAL ................................................................................................................................... 102
PARA VOLTAIRE ............................................................................................................................................. 103
CLASSIFICAÇAO ............................................................................................................................................. 103
AVALANCHA .................................................................................................................................................... 103
ISOLAMENTO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇAO ................................................................................ 104
PARA UMA CRITICA DA FILOSOFIA DA HISTÓRIA .............................................................................. 104
MONUMENTOS DA HUMANIDADE............................................................................................................. 106
FRAGMENTO DE UMA TEORIA DO CRIMINOSO ................................................................................... 106
LE PRIX DU PROGRÉS ................................................................................................................................... 108
VÃO ESPANTO.................................................................................................................................................. 108
O INTERESSE PELO CORPO ......................................................................................................................... 108
SOCIEDADE DE MASSAS ............................................................................................................................... 111
CONTRADIÇOES .............................................................................................................................................. 111
MARCADOS ....................................................................................................................................................... 112
FILOSOFIA E DIVISÃO DO TRABALHO .................................................................................................... 113
O PENSAMENTO .............................................................................................................................................. 114
O HOMEM E O ANIMAL................................................................................................................................. 115
PROPAGANDA .................................................................................................................................................. 119
SOBRE A GÉNESE DA BURRICE .................................................................................................................. 120
Para Friedrich Pollock informações à maneira positivista. Crítica da
filosofia que é, não quer abrir mão da filosofia.
Retornámos dos Estados Unidos, onde o livro
Sobre a Nova Edição Alemã foi escrito, para a Alemanha, na convicção de que
aqui poderemos fazer mais do que em outro lugar,
A “Dialéctica do Esclarecimento” saiu em tanto teórica quanto praticamente. Juntamente com
1947 pela editora Querido em Amsterdão. O livro, Friedrich Pollock, a quem o livro é agora dedicado
que só pouco a pouco se difundiu, está há muito por seus 75 anos, como já o era por seus 50 anos,
esgotado. Ao reeditá-lo agora, decorridos mais de reconstruímos o Instituto para Pesquisa Social com
vinte anos, não somos movidos apenas pelas o pensamento de prosseguir a concepção formulada
múltiplas solicitações, mas pela crença de que não na “Dialéctica”. No desenvolvimento de nossa
poucos dos pensamentos ainda são atuais e têm teoria e nas experiências comuns que se seguiram,
determinado em larga medida nossos esforços tivemos a ajuda, no mais belo sentido, de Gretel
teóricos ulteriores. É difícil para alguém de fora Adorno, como já ocorrera por ocasião da primeira
fazer ideia da medida em que somos ambos redacção.
responsáveis por cada frase. Juntos ditamos largos Quanto às alterações, fomos muito mais
trechos, e a tensão dos dois temperamentos parcimoniosos do que o costume na reedição de
intelectuais que se juntaram na “Dialéctica” é seu livros publicados há mais de uma década. Não
elemento vital. queríamos retocar o que havíamos escrito, nem
Não nos agarramos sem modificações a tudo o mesmo as passagens manifestamente inadequadas.
que está dito no livro. Isso seria incompatível com Actualizar todo o texto teria significado nada menos
uma teoria que atribui à verdade um núcleo do que um novo livro. A ideia de que hoje importa
temporal, em vez de opô-la ao movimento histórico mais conservar a liberdade, ampliá-la e desdobrá-la,
como algo de imutável. O livro foi redigido num em vez de acelerar, ainda que indirectamente, a
momento em que já se podia enxergar o fim do marcha em direcção ao mundo administrado, é algo
terror nacional-socialista. Mas não são poucas as que também exprimimos em nossos escritos
passagens em que a formulação não é mais ulteriores. Contentamo-nos, no essencial, com a
adequada à realidade atual. E, no entanto, não se correcção de erros tipográficos e coisas que tais.
pode dizer que, mesmo naquela época, tenhamos Semelhante reserva transforma o livro numa
avaliado de maneira excessivamente inócua o documentação; temos a esperança de que seja, ao
processo de transição para o mundo administrado. mesmo tempo, mais do que isso.
No período da grande divisão política em dois
blocos colossais, objectivamente compelidos a Frankfurt am Main, abril, 1969.
colidirem um com o outro, o horror continuou. Os
conflitos no Terceiro Mundo, o crescimento Theodor W. Adorno e Max Horkheimer
renovado do totalitarismo não são meros incidentes
históricos, assim como tampouco o foi, segundo a
“Dialéctica”, o fascismo em sua época. O
pensamento crítico, que não se detém nem mesmo
diante do progresso, exige hoje que se tome partido
pelos últimos resíduos de liberdade, pelas
tendências ainda existentes a uma humanidade real,
ainda que pareçam impotentes em face da grande
marcha da história.
O desenvolvimento que diagnosticamos neste
livro em direcção à integração total está suspenso,
mas não interrompido; ele ameaça se completar
através de ditaduras e guerras. O prognóstico da
conversão correlata do esclarecimento no
positivismo, o mito dos factos, finalmente a
identidade da inteligência e da hostilidade ao
espírito encontraram uma confirmação avassaladora.
Nossa concepção da história não presume estar livre
disso, mas, certamente, não está à cata de

1
Prefácio Elas não se modificaram menos do que a ideologia à
qual se referiam. Com elas se passa o que sempre
Quando começámos o trabalho, cujas sucedeu ao pensamento triunfante. Se ele sai
primeiras provas dedicamos a Friedrich Pollock, voluntariamente de seu elemento crítico como um
tínhamos a esperança de poder apresentar o todo mero instrumento ao serviço da ordem existente, ele
concluído por ocasião de seu quinquagésimo tende, contra sua própria vontade, a transformar
aniversário. Mas quanto mais nos aprofundávamos aquilo que escolheu como positivo em algo de
em nossa tarefa, mais claramente percebíamos a negativo, de destrutivo. A filosofia que, no século
desproporção entre ela e nossas forças. O que nos dezoito, apesar das fogueiras levantadas para os
propuséramos era, de facto, nada menos do que livros e as pessoas, infundia um medo mortal na
descobrir por que a humanidade, em vez de entrar infâmia,1 sob Bonaparte já passava para o lado
em um estado verdadeiramente humano, está se desta. Finalmente, a escola apologética de Comte
afundando em uma nova espécie de barbárie. usurpou a sucessão dos enciclopedistas
Subestimámos as dificuldades da exposição porque intransigentes e estendeu a mão a tudo aquilo contra
ainda tínhamos uma excessiva confiança na o qual estes se haviam colocado. As metamorfoses
consciência do momento presente. Embora da crítica na afirmação tampouco deixam incólume
tivéssemos observado há muitos anos que, na o conteúdo teórico, sua verdade volatiliza-se. Agora,
actividade científica moderna, o preço das grandes é verdade, a história motorizada toma a dianteira
invenções é a ruína progressiva da cultura teórica, desses desenvolvimentos intelectuais e os porta-
acreditávamos de qualquer modo que podíamos nos vozes oficiais, movidos por outros cuidados,
dedicar a ela na medida em que fosse possível liquidam a teoria que os ajudou a encontrar um
limitar nosso desempenho à crítica ou ao lugar ao sol, antes que esta consiga prostituir-se
desenvolvimento de temáticas especializadas. Nosso direito.
desempenho devia restringir-se, pelo menos Ao tomar consciência da sua própria culpa, o
tematicamente, às disciplinas tradicionais: à pensamento vê-se por isso privado não só do uso
sociologia, à psicologia e à teoria do conhecimento. afirmativo da linguagem conceptual científica e
Os fragmentos que aqui reunimos mostram, quotidiana, mas igualmente da linguagem da
contudo, que tivemos de abandonar aquela oposição. Não há mais nenhuma expressão que não
confiança. Se uma parte do conhecimento consiste tenda a concordar com as direcções dominantes do
no cultivo e no exame atentos da tradição científica pensamento, e o que a linguagem desgastada não faz
(especialmente onde ela se vê entregue ao espontaneamente é suprido com precisão pelos
esquecimento como um lastro inútil pelos mecanismos sociais. Aos censores, que as fábricas
expurgadores positivistas), em compensação, no de filmes mantêm voluntariamente por medo de
colapso actual da civilização burguesa, o que se acarretar no final um aumento dos custos,
torna problemático é não apenas a actividade, mas o correspondem instâncias análogas em todas as áreas.
sentido da ciência. O que os fascistas ferrenhos O processo a que se submete um texto literário, se
elogiam hipocritamente e os dóceis especialistas da não na previsão automática do seu produtor, pelo
humanidade ingenuamente levam a cabo, a menos pelo corpo de leitores, editores, redactores e
infatigável autodestruição do esclarecimento, força ghost-writers dentro e fora do escritório da editora,
o pensamento a recusar o último vestígio de é muito mais minucioso que qualquer censura.
inocência em face dos costumes e das tendências do Tornar inteiramente supérfluas suas funções parece
espírito da época. Se a opinião pública atingiu um ser, apesar de todas as reformas benéficas, a
estado em que o pensamento inevitavelmente se ambição do sistema educacional. Na crença de que
converte em mercadoria e a linguagem em seu ficaria excessivamente susceptível à charlatanice e à
encarecimento, então a tentativa de pôr a nu superstição, se não se restringisse à constatação de
semelhante depravação tem de recusar lealdade às factos e ao cálculo de probabilidades, o espírito
convenções linguísticas e conceituais em vigor, conhecedor prepara um chão suficientemente
antes que suas consequências para a história ressequido para acolher com avidez a charlatanice e
universal frustrem completamente essa tentativa. a superstição. Assim como a proibição sempre abriu
Se se tratasse apenas dos obstáculos as portas para um produto mais tóxico ainda, assim
resultantes da instrumentação desmemoriada da também o cerceamento da imaginação teórica
ciência, o pensamento sobre questões sociais preparou o caminho para o desvario político. E,
poderia, pelo menos, tomar como ponto de partida mesmo quando as pessoas ainda não sucumbiram a
as tendências opostas à ciência oficial. Mas também
estas são presas do processo global de produção. 1
Alusão à expressão com que Voltaire designava a
superstição: “écrasez l’infâme”. (N. T.).

2
ele, elas vêem-se privadas dos meios de resistência sobre ele, esse conceito mantém o espírito sob o
pelos mecanismos de censura, tanto os externos domínio da mais profunda cegueira. É característico
quanto os implantados dentro delas próprias. de uma situação sem saída que até mesmo o mais
A aporia com que defrontamos em nosso honesto dos reformadores, ao usar uma linguagem
trabalho revela-se assim como o primeiro objecto a desgastada para recomendar a inovação, adopta
investigar: a autodestruição do esclarecimento. Não também o aparelho categorial inculcado e a má
alimentamos dúvida nenhuma – e nisso reside nossa filosofia que se esconde por trás dele, e assim
petitio principii – de que a liberdade na sociedade é reforça o poder da ordem existente que ele gostaria
inseparável do pensamento esclarecedor. Contudo, de romper. A falsa clareza é apenas uma outra
acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza expressão do mito. Este sempre foi obscuro e
que o próprio conceito desse pensamento, tanto iluminante ao mesmo tempo. Suas credenciais têm
quanto as formas históricas concretas, as instituições sido desde sempre a familiaridade e o facto de
da sociedade com as quais está entrelaçado, contém dispensar do trabalho do conceito.
o germe para a regressão que hoje tem lugar por A naturalização dos homens hoje em dia não é
toda parte. Se o esclarecimento não acolhe dentro de dissociável do progresso social. O aumento da
si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está produtividade económica, que por um lado produz
selando seu próprio destino. Abandonando a seus as condições para um mundo mais justo, confere por
inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais
progresso, o pensamento cegamente pragmatizado que o controlam uma superioridade imensa sobre o
perde seu carácter superador e, por isso, também sua resto da população. O indivíduo vê-se
relação com a verdade. A disposição enigmática das completamente anulado em face dos poderes
massas educadas tecnologicamente a deixar económicos. Ao mesmo tempo, estes elevam o
dominar-se pelo fascínio de um despotismo poder da sociedade sobre a natureza a um nível
qualquer, sua afinidade autodestrutiva com a jamais imaginado. Desaparecendo diante do
paranóia racista, todo esse absurdo incompreendido aparelho a que serve, o indivíduo vê-se, ao mesmo
manifesta a fraqueza do poder de compreensão do tempo, melhor do que nunca provido por ele. Numa
pensamento teórico atual. situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da
Acreditamos contribuir com estes fragmentos massa aumentam com a quantidade de bens a ela
para essa compreensão, mostrando que a causa da destinados. A elevação do padrão de vida das
recaída do esclarecimento na mitologia não deve ser classes inferiores, materialmente considerável e
buscada tanto nas mitologias nacionalistas, pagãs e socialmente lastimável, reflecte-se na difusão
em outras mitologias modernas especificamente hipócrita do espírito. Sua verdadeira aspiração é a
idealizadas em vista dessa recaída, mas no próprio negação da reificação. Mas ele necessariamente se
esclarecimento paralisado pelo temor da verdade. esvai quando se vê concretizado em um bem
Neste respeito, os dois conceitos devem ser cultural e distribuído para fins de consumo. A
compreendidos não apenas como histórico-culturais, enxurrada de informações precisas e diversões
mas como reais. Assim como o esclarecimento assépticas desperta e idiotiza as pessoas ao mesmo
exprime o movimento real da sociedade burguesa tempo.
como um todo sob o aspecto da encarnação de sua O que está em questão não é a cultura como
Ideia em pessoas e instituições, assim também a valor, como pensam os críticos da civilização
verdade não significa meramente a consciência Huxley, Jaspers, Ortega y Gasset e outros. A
racional mas, do mesmo modo, a figura que esta questão é que o esclarecimento tem que tomar
assume na realidade efectiva. O medo que o bom consciência de si mesmo, se os homens não devem
filho da civilização moderna tem de afastar-se dos ser completamente traídos. Não é da conservação do
factos – factos esses que, no entanto, já estão pré- passado, mas de resgatar a esperança passada que se
moldados como clichés na própria percepção pelas trata. Hoje, porém, o passado prolonga-se como
usanças dominantes na ciência, nos negócios e na destruição do passado. Se a cultura respeitável
política – é exactamente o mesmo medo do desvio constituiu até ao século dezanove um privilégio,
social. Essas usanças também definem o conceito de cujo preço era o aumento do sofrimento dos
clareza na linguagem e no pensamento a que a arte, incultos, no século vinte o espaço higiénico da
a literatura e a filosofia devem conformar-se hoje. fábrica teve por preço a fusão de todos os elementos
Ao tachar de complicação obscura e, de preferência, da cultura num cadinho gigantesco. Talvez isso não
de alienígena o pensamento que se aplica fosse um preço tão alto, como acreditam aqueles
negativamente aos factos, bem como às formas de defensores da cultura, se a venda em liquidação da
pensar dominantes, e ao colocar assim um tabu

3
cultura não contribuísse para a conversão das que existe e do poder pelo qual a técnica é
conquistas económicas em seu contrário. controlada. No tratamento dessa contradição, a
Nas condições atuais, os próprios bens da indústria cultural é levada mais a sério do que
fortuna convertem-se em elementos do infortúnio. gostaria. Mas como a invocação de seu próprio
Enquanto no período passado a massa desses bens, carácter comercial, de sua profissão de uma verdade
na falta de um sujeito social, resultava na chamada atenuada, há muito se tornou uma evasiva com a
superprodução, em meio às crises da economia qual ela tenta furtar-se à responsabilidade pela
interna, hoje ela produz, com a entronização dos mentira que difunde, nossa análise atém-se à
grupos que detêm o poder no lugar desse sujeito pretensão, objectivamente inerente aos produtos, de
social, a ameaça internacional do fascismo: o serem obras estéticas e, por isso mesmo, uma
progresso converte-se em regressão. O facto de que configuração da verdade. Ela revela, na nulidade
o espaço higiénico da fábrica e tudo o que dessa pretensão, o carácter maligno do social. O
acompanha isso, o Volkswagen e o Palácio dos segmento sobre a indústria cultural é ainda mais
Desportos, levem a uma liquidação estúpida da fragmentário do que os outros.
metafísica, ainda seria indiferente, mas que eles A discussão dos “Elementos do Anti-
próprios se tornem, no interior do todo social, a semitismo” através de teses trata do retorno efectivo
metafísica, a cortina ideológica atrás da qual se da civilização esclarecida à barbárie. A tendência
concentra a desgraça real não é indiferente. Eis aí o não apenas ideal, mas também prática, à
ponto de partida dos nossos fragmentos. autodestruição, caracteriza a racionalidade desde o
O primeiro estudo, o fundamento teórico dos início e de modo nenhum apenas a fase em que essa
seguintes, procura tornar mais inteligível o tendência se evidencia sem disfarces. Neste sentido,
entrelaçamento da racionalidade e da realidade esboçamos uma pré-história filosófica do anti-
social, bem como o entrelaçamento, inseparável do semitismo. Seu “irracionalismo” é derivado da
primeiro, da natureza e da dominação da natureza. A essência da própria razão dominante e do mundo
crítica aí feita ao esclarecimento deve preparar um correspondente a sua imagem. Os “Elementos”
conceito positivo do esclarecimento, que o solte do estão directamente ligados a pesquisas empíricas do
emaranhado que o prende a uma dominação cega. Instituto para Pesquisa Social, a fundação instituída
Em linhas gerais, o primeiro estudo pode ser e mantida por Felix Weil, sem a qual não teriam
reduzido em sua parte crítica a duas teses: o mito já sido possíveis, não apenas nossos estudos, mas uma
é esclarecimento e o esclarecimento acaba por boa parte do trabalho teórico dos emigrantes
reverter à mitologia. Nos dois excursos, essas teses alemães, que teve prosseguimento apesar de Hitler.
são desenvolvidas a propósito de objectos As primeiras três teses foram escritas
específicos. O primeiro acompanha a dialéctica do juntamente com Leo Löwenthal, com quem desde os
mito e do esclarecimento na Odisseia como um dos primeiros anos de Frankfurt trabalhamos em muitas
mais precoces e representativos testemunhos da questões científicas.
civilização burguesa ocidental. No centro estão os Na última parte publicam-se notas e esboços
conceitos de sacrifício e renúncia, nos quais se que, em parte, pertencem ao horizonte intelectual
revelam tanto a diferença quanto a unidade da dos estudos precedentes, sem encontrar aí seu lugar,
natureza mítica e do domínio esclarecido da e em parte traçam um esboço provisório de
natureza. O segundo excurso ocupa-se de Kant, problemas a serem tratados num trabalho futuro. A
Sade e Nietzsche, os implacáveis realizadores do maioria deles refere-se a uma antropologia
esclarecimento. Ele mostra como a submissão de dialéctica.
tudo aquilo que é natural ao sujeito autocrático
culmina exactamente no domínio de uma natureza e Los Angeles, Califórnia, Maio, 1944.
uma objectividade cegas. Essa tendência aplaina
todas as antinomias do pensamento burguês, em O livro não contém nenhuma modificação
especial a antinomia do rigor moral e da absoluta essencial do texto tal como concluído ainda durante
amoralidade. a guerra. Só a última tese dos “Elementos do Anti-
O segmento sobre a “indústria cultural” mostra semitismo” foi acrescentada ulteriormente.
a regressão do esclarecimento à ideologia, que
encontra no cinema e no rádio sua expressão mais Junho, 1947
influente. O esclarecimento consiste aí, sobretudo,
no cálculo da eficácia e na técnica de produção e Theodor W. Adorno e Max Horkheimer
difusão. Em conformidade com seu verdadeiro
conteúdo, a ideologia se esgota na idolatria daquilo

4
O Conceito de Esclarecimento desencantada. O saber que é poder não conhece
nenhuma barreira, nem na escravização da criatura,
No sentido mais amplo do progresso do nem na complacência em face dos senhores do
pensamento, o esclarecimento tem perseguido mundo. Do mesmo modo que está a serviço de todos
sempre o objectivo de livrar os homens do medo e os fins da economia burguesa na fábrica e no campo
de investi-los na posição de senhores. Mas a terra de batalha, assim também está à disposição dos
totalmente esclarecida resplandece sob o signo de empresários, não importa sua origem. Os reis não
uma calamidade triunfal. O programa do controlam a técnica mais directamente do que os
esclarecimento era o desencantamento do mundo. comerciantes: ela é tão democrática quanto o
Sua meta era dissolver os mitos e substituir a sistema económico com o qual se desenvolve. A
imaginação pelo saber. Bacon, “o pai da filosofia técnica é a essência desse saber, que não visa
experimental”1, já reunira seus diferentes temas. Ele conceitos e imagens, nem o prazer do
desprezava os adeptos da tradição, que “primeiro discernimento, mas o método, a utilização do
acreditam que os outros sabem o que eles não trabalho de outros, o capital. As múltiplas coisas
sabem; e depois que eles próprios sabem o que não que, segundo Bacon, ele ainda encerra nada mais
sabem. Contudo, a credulidade, a aversão à dúvida, são do que instrumentos: o rádio, que é a imprensa
a temeridade no responder, o vangloriar-se com o sublimada; o avião de caça, que é uma artilharia
saber, a timidez no contradizer, o agir por interesse, mais eficaz; o controle remoto, que é uma bússola
a preguiça nas investigações pessoais, o fetichismo mais confiável. O que os homens querem aprender
verbal, o deter-se em conhecimentos parciais: isto e da natureza é como empregá-la para dominar
coisas semelhantes impediram um casamento feliz completamente a ela e aos homens. Nada mais
do entendimento humano com a natureza das coisas importa. Sem a menor consideração consigo mesmo,
e o acasalaram, em vez disso, a conceitos vãos e o esclarecimento eliminou com seu cautério o
experimentos erráticos; o fruto e a posteridade de último resto de sua própria autoconsciência. Só o
tão gloriosa união pode-se facilmente imaginar. A pensamento que se faz violência a si mesmo é
imprensa não passou de uma invenção grosseira; o suficientemente duro para destruir os mitos. Diante
canhão era uma invenção que já estava praticamente do actual triunfo da mentalidade factual, até mesmo
assegurada; a bússola já era, até certo ponto, o credo nominalista de Bacon seria suspeito de
conhecida. Mas que mudança essas três invenções metafísica e incorreria no veredicto de vacuidade
produziram – uma na ciência, a outra na guerra, a que proferiu contra a escolástica. Poder e
terceira nas finanças, no comércio e na navegação! conhecimento são sinónimos.3 Para Bacon, como
E foi apenas por acaso, digo eu, que a gente para Lutero, o estéril prazer que o conhecimento
tropeçou e caiu sobre elas. Portanto, a superioridade proporciona não passa de uma espécie de lascívia. O
do homem está no saber, disso não há dúvida. Nele que importa não é aquela satisfação que, para os
muitas coisas estão guardadas que os reis, com homens, se chama “verdade”, mas a “operation”, o
todos os seus tesouros, não podem comprar, sobre as procedimento eficaz. Pois não é nos “discursos
quais sua vontade não impera, das quais seus espias plausíveis, capazes de proporcionar deleite, de
e informantes nenhuma notícia trazem, e que inspirar respeito ou de impressionar de uma maneira
provêm de países que seus navegantes e qualquer, nem em quaisquer argumentos verosímeis,
descobridores não podem alcançar. Hoje, apenas mas em obrar e trabalhar e na descoberta de
presumimos dominar a natureza, mas, de facto, particularidades antes desconhecidas, para melhor
estamos submetidos à sua necessidade; se contudo prover e auxiliar a vida”, que reside “o verdadeiro
nos deixássemos guiar por ela na invenção, nós a objectivo e função da ciência”.4 Não deve haver
comandaríamos na prática”.2 nenhum mistério, mas tampouco o desejo de sua
Apesar de seu alheamento à matemática, revelação.
Bacon capturou bem a mentalidade da ciência que Desencantar o mundo é destruir o animismo.
se fez depois dele. O casamento feliz entre o Xenófanes zombava da multidão de deuses, porque
entendimento humano e a natureza das coisas que eram iguais aos homens, que os produziram, em
ele tem em mente é patriarcal: o entendimento que tudo aquilo que é contingente e mau, e a lógica mais
vence a superstição deve imperar sobre a natureza recente denuncia as palavras cunhadas pela
linguagem como moedas falsas, que será melhor
1
substituir por fichas neutras. O mundo torna-se o
Voltaire, Lettres philosophiques X1l, Oeuvres completes.
Ed. Garnier. Paris, 1879. Vol. XXII, p. 118.
2 3
Bacon, In Parisse of. Knowledge. Miscellaneous Tracts Cf. Bacon, Novum Organum, op. cit. vol. XIV, p. 31.
4
upon Human Philosophy. The Works of Francis Bacon. Ed. Bacon, Valerius Terminus: Of the lnterpretation of Nature.
Basil Montagu. Londres, 1825. Vol. l, pp. 254 sg. Miscelaneous Tracts, op. cit. Vol. l, p. 281.

5
caos, e a síntese, a salvação. Nenhuma distinção ainda se reconhece a si mesmo nos próprios mitos.
deve haver entre o animal totémico, os sonhos do Quaisquer que sejam os mitos de que possa se valer
visionário e a Ideia absoluta. No trajecto para a a resistência, o simples facto de que eles se tornam
ciência moderna, os homens renunciaram ao sentido argumentos por uma tal oposição significa que eles
e substituíram o conceito pela fórmula, a causa pela adoptam o princípio da racionalidade corrosiva da
regra e pela probabilidade. A causa foi apenas o qual acusam o esclarecimento. O esclarecimento é
último conceito filosófico que serviu de padrão para totalitário.
a crítica científica, porque ela era, por assim dizer, Para ele, o elemento básico do mito foi sempre
dentre todas as ideias antigas, o único conceito que a o antropomorfismo, a projeção do subjetivo na
ela ainda se apresentava, derradeira secularização do natureza.6 O sobrenatural, o espírito e os demónios
princípio criador. A filosofia buscou sempre, desde seriam as imagens especulares dos homens que se
Bacon, uma definição moderna de substância e deixam amedrontar pelo natural. Todas as figuras
qualidade, de acção e paixão, do ser e da existência, míticas podem se reduzir, segundo o esclarecimento,
mas a ciência já podia passar sem semelhantes ao mesmo denominador, a saber, ao sujeito. A
categorias. Essas categorias tinham ficado para trás resposta de Édipo ao enigma da esfinge: “É o
como idola theatri da antiga metafísica e já eram, homem!” é a informação estereotipada
em sua época, monumentos de entidades e potências invariavelmente repetida pelo esclarecimento, não
de um passado pré-histórico. Para este, a vida e a importa se este se confronta com uma parte de um
morte haviam se explicado e entrelaçado nos mitos. sentido objectivo, o esboço de uma ordem, o medo
As categorias, nas quais a filosofia ocidental de potências maléficas ou a esperança da redenção.
determinava sua ordem natural eterna, marcavam os De antemão, o esclarecimento só reconhece como
lugares outrora ocupados por Ocnos e Perséfone, ser e acontecer o que se deixa captar pela unidade.
Ariadne e Nereu. As cosmologias pré-socráticas Seu ideal é o sistema do qual se pode deduzir toda e
fixam o instante da transição. O húmido, o indiviso, cada coisa. Não é nisso que sua versão racionalista
o ar, o fogo, aí citados como a matéria primordial da se distingue da versão empirista. Embora as
natureza, são apenas sedimentos racionalizados da diferentes escolas interpretassem de maneira
intuição mítica. Assim como as imagens da geração diferente os axiomas, a estrutura da ciência unitária
a partir das águas do rio e da terra se tornaram, entre era sempre a mesma. O postulado baconiano da una
os gregos, princípios hilozoistas, elementos, assim scientia universalis7 é, apesar de todo o pluralismo
também toda a luxuriante plurivocidade dos das áreas de pesquisa, tão hostil ao que não pode ser
demónios míticos espiritualizou-se na forma pura vinculado, quanto a mathesis universalis de Leibniz
das entidades ontológicas. Com as Idéias de Platão, à descontinuidade. A multiplicidade das figuras se
finalmente, também os deuses patriarcais do Olimpo reduz à posição e à ordem, a história ao facto, as
foram capturados pelo logos filosófico. O coisas à matéria. Ainda de acordo com Bacon, entre
esclarecimento, porém, reconheceu as antigas os primeiros princípios e os enunciados
potências no legado platónico e aristotélico da observacionais deve subsistir uma ligação lógica
metafísica e instaurou um processo contra a unívoca, medida por graus de universalidade. De
pretensão de verdade dos universais, acusando-a de Maistre zomba de Bacon por cultivar “une idole
superstição. Na autoridade dos conceitos universais d’échelle”.8 A lógica formal era a grande escola da
ele crê enxergar ainda o medo pelos demónios, cujas unificação. Ela oferecia aos esclarecedores o
imagens eram o meio, de que se serviam os homens, esquema da calculabilidade do mundo. O
no ritual mágico, para tentar influenciar a natureza. equacionamento mitologizante das Ideias com os
Doravante, a matéria deve ser dominada sem o números nos últimos escritos de Platão exprime o
recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, anseio de toda desmitologização: o número tomou-
sem a ilusão de qualidades ocultas. O que não se se o cânon do esclarecimento. As mesmas equações
submete ao critério da calculabilidade e da utilidade dominam a justiça burguesa e a troca mercantil.
torna-se suspeito para o esclarecimento. A partir do “Não é a regra: ‘se adicionares o desigual ao igual
momento em que ele pode se desenvolver sem a
interferência da coerção externa, nada mais pode pp. 410 sg.
segurá-lo. Passa-se então com as suas ideias acerca 6
Xenófanes, Montaigne, Hume, Feuerbach e Salomon
do direito humano o mesmo que se passou com os Reinach estão de acordo nesse ponto. Quanto a Reinach, cf.
universais mais antigos. Cada resistência espiritual Orpheus (trad. de F. Simmons). Londres e Nova York, 1909,
que ele encontra serve apenas para aumentar sua pp. 6 sg.
7
Bacon, De augmentis scientiarum, op. cit. Vol. VIII, p.
força.5 Isso se deve ao facto de que o esclarecimento 152.
8
Les Soirées de Saint-Petersbourg. 5ieme entretien.
5
Cf. Hegel, Phänomenologie des Geistes. Werke. Vol. II. Oeuvres complètes Lyon, 1891. Vol. IV, p. 256.

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obterás algo de desigual’ (Si inaequalibus aequalia pai, sois o senhor dos céus, e a vosso olhar não
addas, omnia erunt inaequalia) um princípio tanto escapa nenhuma obra humana, sacrílegas ou justas,
da justiça quanto da matemática? E não existe uma e nem mesmo a turbulência dos animais, e estimais
verdadeira coincidência entre a justiça cumulativa e a rectidão.”11 “E assim se passa que um expia logo,
distributiva por um lado e as proporções um outro mais tarde. E mesmo que alguém escape
geométricas e aritméticas por outro lado?9 A ao castigo e o fado ameaçador dos deuses não o
sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. alcance, este acaba sempre por chegar, e são pessoas
Ela torna o heterogéneo comparável, reduzindo-o a inocentes – seus filhos ou uma outra geração – que
grandezas abstractas. Para o esclarecimento, aquilo terão de expiar o crime.”12 Perante os deuses, só
que não se reduz a números e, por fim, ao uno, passa consegue se afirmar quem se submete sem
a ser ilusão: o positivismo moderno remete-o para a restrições. O despertar do sujeito tem por preço o
literatura. “Unidade” continua a ser a divisa, de reconhecimento do poder como o princípio de todas
Parménides a Russell. O que se continua a exigir as relações. Em face da unidade de tal razão, a
insistentemente é a destruição dos deuses e das separação de Deus e do homem reduz-se àquela
qualidades. irrelevância que, inabalável, a razão assinalava
Mas os mitos que caem vítimas do desde a mais antiga crítica de Homero. Enquanto
esclarecimento já eram o produto do próprio soberanos da natureza, o deus criador e o espírito
esclarecimento. No cálculo científico dos ordenador se igualam. A imagem e semelhança
acontecimentos anula-se a conta que outrora o divinas do homem consistem na soberania sobre a
pensamento dera, nos mitos, dos acontecimentos. O existência, no olhar do senhor, no comando.
mito queria relatar, denominar, dizer a origem, mas O mito converte-se em esclarecimento, e a
também expor, fixar, explicar. Com o registo e a natureza em mera objectividade. O preço que os
colecção dos mitos, essa tendência reforçou-se. homens pagam pelo aumento de seu poder é a
Muito cedo deixaram de ser um relato, para se alienação daquilo sobre o que exercem o poder. O
tornarem uma doutrina. Todo ritual inclui uma esclarecimento comporta-se com as coisas como o
representação dos acontecimentos bem como do ditador se comporta com os homens. Este conhece-
processo a ser influenciado pela magia. Esse os na medida em que pode manipulá-los. O homem
elemento teórico do ritual tornou-se autónomo nas de ciência conhece as coisas na medida em que pode
primeiras epopeias dos povos. Os mitos, como os fazê-las. É assim que seu em-si torna para-ele.
encontraram os poetas trágicos, já se encontram sob Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se
o signo daquela disciplina e poder que Bacon como sempre a mesma, como substrato da
enaltece como o objectivo a se alcançar. O lugar dos dominação. Essa identidade constitui a unidade da
espíritos e demónios locais foi tomado pelo céu e natureza. Assim como a unidade do sujeito, ela
sua hierarquia; o lugar das práticas de conjuração do tampouco constitui um pressuposto da conjuração
feiticeiro e da tribo, pelo sacrifício bem dosado e mágica. Os ritos do xamã dirigiam-se ao vento, à
pelo trabalho servil mediado pelo comando. As chuva, à serpente lá fora ou ao demónio dentro do
deidades olímpicas não se identificam mais doente, não a matérias ou exemplares. Não era um e
directamente aos elementos, mas passam a significá- o mesmo espírito que se dedicava à magia; ele
los. Em Homero, Zeus preside o céu diurno, Apolo mudava igual às máscaras do culto, que deviam se
guia o sol, Hélio e Éo já tendem para o alegórico. assemelhar aos múltiplos espíritos. A magia é a pura
Os deuses separam-se dos elementos materiais como e simples inverdade, mas nela a dominação ainda
sua suprema manifestação. De agora em diante, o não é negada, ao se colocar, transformada na pura
ser se resolve no logos – que, com o progresso da verdade, como a base do mundo que a ela sucumbiu.
filosofia, se reduz à mónada, mero ponto de O feiticeiro torna-se semelhante aos demónios; para
referência – e na massa de todas as coisas e criaturas assustá-los ou suavizá-los, ele assume um ar
exteriores a ele. Uma única distinção, a distinção assustadiço ou suave. Embora seu ofício seja a
entre a própria existência e a realidade, engolfa repetição, diferentemente do civilizado – para quem
todas as outras distinções. Destruídas as distinções, os modestos campos de caça se transformam no
o mundo é submetido ao domínio dos homens. cosmo unificado, no conjunto de todas as
Nisso estão de acordo a história judia da criação e a possibilidades de presas – ele ainda não se declarou
religião olímpica. “...e dominarão os peixes do mar à imagem e semelhança do poder invisível. É só
e as aves do céu e o gado e a terra inteira e todos os
répteis que se arrastam sobre a terra.”10 “Zeus, nosso 11
Arquíloco, frag. 87. Citado por Deussen, Allgemeine
Geschichte der Philosophie. Vol. II, 1ª secção. Leipzig. 1911,
9
Bacon, Advancement of Learning, op. cit. Vol. II, p. 126. p. 18.
10 12
Génesis I, 26. Sólon, frag. 13. 25 sg., ibid., p. 20.

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enquanto tal imagem e semelhança que o homem dos processos psíquicos por oposição à realidade”,
alcança a identidade do eu que não pode se perder quando o pensamento e a realidade não estão
na identificação com o outro, mas toma radicalmente separados. A “confiança inabalável na
definitivamente posse de si como máscara possibilidade de dominar o mundo”,15 que Freud
impenetrável. É à identidade do espírito e a seu anacronicamente atribui à magia, só vem
correlato, à unidade da natureza, que sucumbem as corresponder a uma dominação realista do mundo
múltiplas qualidades. A natureza desqualificada graças a uma ciência mais astuciosa do que a magia.
torna-se a matéria caótica para uma simples Para substituir as práticas localizadas do curandeiro
classificação, e o eu todo-poderoso torna-se o mero pela técnica industrial universal foi preciso,
ter, a identidade abstracta. Na magia existe uma primeiro, que os pensamentos se tornassem
substitutividade específica. O que acontece à lança autónomos em face dos objectos, como ocorre no
do inimigo, à sua cabeleira, a seu nome, afecta ao ego ajustado à realidade.
mesmo tempo a pessoa; em vez do deus, é o animal Enquanto totalidade desenvolvida
sacrificial que é massacrado. A substituição no linguisticamente, que desvaloriza, com sua
sacrifício assinala um novo passo em direcção à pretensão de verdade, a crença mítica mais antiga: a
lógica discursiva. Embora a cerva oferecida em religião popular, o mito patriarcal solar é ele próprio
lugar da filha e o cordeiro em lugar do primogénito esclarecimento, com o qual o esclarecimento
ainda devessem ter qualidades próprias, eles já filosófico pode-se medir no mesmo plano. A ele se
representavam o género e exibiam a indiferença do paga, agora, na mesma moeda. A própria mitologia
exemplar. Mas a sacralidade do hic et nunc, a desfecha o processo sem fim do esclarecimento, no
singularidade histórica do escolhido, que recai sobre qual toda concepção teórica determinada acaba
o elemento substituto, distingue-o radicalmente, fatalmente por sucumbir a uma crítica arrasadora, à
torna-o introcável na troca. É a isso que a ciência dá crítica de ser apenas uma crença, até que os próprios
fim. Nela não há nenhuma substitutividade conceitos de espírito, de verdade, e até mesmo de
específica: se ainda há animais sacrificiais, não há esclarecimento tenham-se convertido em magia
mais Deus. A substitutividade converte-se na animista. O princípio da necessidade fatal, que traz a
fungibilidade universal. Um átomo é desintegrado, desgraça aos heróis míticos e que se desdobra a
não em substituição, mas como um espécime da partir da sentença oracular como uma consequência
matéria, e a cobaia atravessa, não em substituição, lógica, não apenas domina todo sistema racionalista
mas desconhecida como um simples exemplar, a da filosofia ocidental, onde se vê depurado até
paixão do laboratório. Porque na ciência funcional atingir o rigor da lógica formal, mas impera até
as distinções são tão fluidas que tudo desaparece na mesmo sobre a série dos sistemas, que começa com
matéria una, o objecto científico se petrifica, e o a hierarquia dos deuses e, num permanente
rígido ritual de outrora parece flexível porquanto crepúsculo dos ídolos, transmite sempre o mesmo
substituía a um também o outro. O mundo da magia conteúdo: a ira pela falta de honestidade. Do mesmo
ainda continha distinções, cujos vestígios modo que os mitos já levam a cabo o
desapareceram até mesmo da forma linguística.13 As esclarecimento, assim também o esclarecimento fica
múltiplas afinidades entre os entes são recalcadas cada vez mais enredado, a cada passo que dá, na
pela única relação entre o sujeito doador de sentido mitologia. Todo conteúdo, ele o recebe dos mitos,
e o objecto sem sentido, entre o significado racional para destruí-los, e ao julgá-los, ele cai na órbita do
e o portador ocasional do significado. No estágio mito. Ele quer se furtar ao processo do destino e da
mágico, sonho e imagem não eram tidos como retribuição, fazendo-o pagão, ele próprio, uma
meros sinais da coisa, mas como ligados a esta por retribuição. No mito, tudo o que acontece deve
semelhança ou pelo nome. A relação não é a da expiar uma pena pelo facto de ter acontecido. E
intenção, mas do parentesco. Como a ciência, a assim continua no esclarecimento: o facto torna-se
magia visa fins, mas ela os persegue pela mimese, nulo, mal acabou de acontecer. A doutrina da
não pelo distanciamento progressivo em relação ao igualdade entre a acção e a reacção afirmava o
objecto. Ela não se baseia de modo algum na poder da repetição sobre o que existe muito tempo
“omnipotência dos pensamentos”, que o primitivo após os homens terem renunciado à ilusão de que
se atribuiria, segundo se diz, assim como o pela repetição poderiam se identificar com a
neurótico.14 Não pode haver uma “superestimação realidade repetida e, assim, escapar a seu poder.
Mas quanto mais se desvanece a ilusão mágica,
13 tanto mais inexoravelmente a repetição, sob o título
Cf. p. ex. Robert H. Lowie, An Introduction to Cultural
Anthropology, Nova York, 1940, pp. 344 sgg.
da submissão à lei, prende o homem naquele ciclo
14
Cf. Freud, Totem und Tabu. Gesamtheite werke Vol. IX.
15
pp. 106 sgg. lbid., p. 110.

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que, objectualizado sob a forma da lei natural, romper as imposições da natureza rompendo a
parecia garanti-lo como um sujeito livre. O princípio natureza, resulta numa submissão ainda mais
da imanência, a explicação de todo acontecimento profunda às imposições da natureza. Tal foi o rumo
como repetição, que o esclarecimento defende tomado pela civilização europeia. A abstracção, que
contra a imaginação mítica, é o princípio do próprio é o instrumento do esclarecimento, comporta-se
mito. A insossa sabedoria para a qual não há nada com seus objectos do mesmo modo que o destino,
de novo sob o sol, porque todas as cartas do jogo cujo conceito é por ele eliminado, ou seja, ela se
sem-sentido já teriam sido jogadas, porque todos comporta como um processo de liquidação. Sob o
grandes pensamentos já teriam sido pensados, domínio nivelador do abstracto, que transforma
porque as descobertas possíveis poderiam ser todas as coisas na natureza em algo de reproduzível,
projectadas de antemão, e os homens estariam e da indústria, para a qual esse domínio do abstracto
forçados a assegurar a autoconservação pela prepara o reproduzível, os próprios liberados
adaptação – essa insossa sabedoria reproduz tão- acabaram por se transformar naquele
16
somente a sabedoria fantástica que ela rejeita: a “destacamento” que Hegel designou como o
ratificação do destino que, pela retribuição, reproduz resultado do esclarecimento.
sem cessar o que já era. O que seria diferente é A distância do sujeito com relação ao objecto,
igualado. Esse é o veredicto que estabelece que é o pressuposto da abstracção, está fundada na
criticamente os limites da experiência possível. O distância em relação à coisa, que o senhor conquista
preço que se paga pela identidade de tudo com tudo através do dominado. Os cantos de Homero e os
é o facto de que nada, ao mesmo tempo, pode ser hinos do Rigveda datam da época da dominação
idêntico consigo mesmo. O esclarecimento corrói a territorial e dos lugares fortificados, quando uma
injustiça da antiga desigualdade, o senhorio não belicosa nação de senhores se estabeleceu sobre a
mediatizado; perpetua-o, porém, ao mesmo tempo, massa dos autóctones vencidos.17 O deus supremo
na mediação universal, na relação de cada ente com entre os deuses surgiu com esse mundo civil, onde o
cada ente. Ele faz aquilo que Kirkegaard celebra em rei, como chefe da nobreza armada, mantém os
sua ética protestante e que se encontra no ciclo subjugados presos à terra, enquanto os médicos,
épico de Héracles como uma das imagens adivinhos, artesãos e comerciantes se ocupam do
primordiais do poder mítico: ele elimina o intercâmbio social. Com o fim do nomadismo, a
incomensurável. Não apenas são as qualidades ordem social foi instaurada sobre a base da
dissolvidas no pensamento, mas os homens são propriedade fixa. Dominação e trabalho separam-se.
forçados à real conformidade. O preço dessa Um proprietário como Ulisses “dirige a distância
vantagem, que é a indiferença do mercado pela um pessoal numeroso, meticulosamente organizado,
origem das pessoas que nele vêm trocar suas composto de servidores e pastores de bois, de
mercadorias, é pago por elas mesmas ao deixarem ovelhas e de porcos. Ao anoitecer, depois de ver de
que suas possibilidades inatas sejam modeladas pela seu palácio a terra iluminada por mil fogueiras, pode
produção das mercadorias que se podem comprar no entregar-se sossegado ao sono: ele sabe que seus
mercado. Os homens receberam o seu eu como algo bravos servidores vigiam, para afastar os animais
pertencente a cada um, diferente de todos os outros, selvagens e expulsar os ladrões dos coutos que estão
para que ele possa com tanto maior segurança se encarregados de guardar”.18 A universalidade dos
tornar igual. Mas, como isso nunca se realizou pensamentos, como a desenvolve a lógica
inteiramente, o esclarecimento sempre simpatizou, discursiva, a dominação na esfera do conceito,
mesmo durante o período do liberalismo, com a eleva-se fundamentada na dominação do real. É a
coerção social. A unidade da colectividade substituição da herança mágica, isto é, das antigas
manipulada consiste na negação de cada indivíduo; representações difusas, pela unidade conceptual que
seria digna de escárnio a sociedade que conseguisse exprime a nova forma de vida, organizada com base
transformar os homens em indivíduos. A horda, cujo no comando e determinada pelos homens livres. O
nome sem dúvida está presente na organização da eu, que aprendeu a ordem e a subordinação com a
Juventude Hitleriana, não é nenhuma recaída na sujeição do mundo, não demorou a identificar a
antiga barbárie, mas o triunfo da igualdade verdade em geral com o pensamento ordenador, e
repressiva, a realização pelos iguais da igualdade do
direito à injustiça. O mito de fancaria dos fascistas
16
evidencia-se como o autêntico mito da antiguidade, 17
Hegel, Phänomenologie des Geistes, op. cit., p. 424.
na medida em que o mito autêntico conseguiu Cf. W. Kirfel, Geschichte Indiens, em:
Propyläenweltgeschichte. Vol. III, pp. 261 sg., e G. Glotz,
enxergar a retribuição, enquanto o falso cobrava-a Histoire Grècque. Vol. I, em: Histoire Ancienne. Paris, 1938,
cegamente de suas vítimas. Toda tentativa de pp. 137 sg.
18
G. Glotz, op. cit., p. 140.

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essa verdade não pode subsistir sem as rígidas não idêntica.20 Através da divindade, a linguagem
diferenciações daquele pensamento ordenador. passa da tautologia à linguagem. O conceito, que se
Juntamente com a magia mimética, ele tornou tabu costuma definir como a unidade característica do
o conhecimento que atinge efectivamente o objecto. que está nele subsumido, já era desde o início o
Seu ódio volta-se contra a imagem do mundo pré- produto do pensamento dialéctico, no qual cada
histórico superado e sua felicidade imaginária. Os coisa só é o que ela é tornando-se aquilo que ela não
deuses ctónicos dos habitantes primitivos são é. Eis aí a forma primitiva da determinação
banidos para o inferno em que se converte a terra, objectivadora na qual se separavam o conceito e a
sob a religião do sol e da luz de Indra e Zeus. coisa, determinação essa que já está amplamente
O céu e o inferno, porém, estão ligados um ao desenvolvida na epopeia homérica e que se acelera
outro. Assim como, em cultos que não se excluíam, na ciência positiva moderna. Mas essa dialéctica
o nome de Zeus era dado tanto a um deus permanece impotente na medida em que se
subterrâneo quanto a um deus da luz,19 e os deuses desenvolve a partir do grito de terror que é a própria
olímpicos cultivavam toda espécie de relações com duplicação, a tautologia do terror. Os deuses não
os ctónicos, assim também as potências do bem e do podem livrar os homens do medo, pois são as vozes
mal, a graça e a desgraça, não eram claramente petrificadas do medo que eles trazem como nome.
separadas. Elas estavam ligadas como o vir-a-ser e o Do medo o homem presume estar livre quando não
parecer, a vida e a morte, o verão e o inverno. No há nada mais de desconhecido. É isso que determina
mundo luminoso da religião grega perdura a obscura o trajecto da desmitologização e do esclarecimento,
indivisão do princípio religioso venerado sob o que identifica o animado ao inanimado, assim como
nome de “mana” nos mais antigos estágios que se o mito identifica o inanimado ao animado. O
conhecem da humanidade. Primário, indiferenciado, esclarecimento é a radicalização da angústia mítica.
ele é tudo o que é desconhecido, estranho: aquilo A pura imanência do positivismo, seu derradeiro
que transcende o âmbito da experiência, aquilo que produto, nada mais é do que um tabu, por assim
nas coisas é mais do que sua realidade já conhecida. dizer, universal. Nada mais pode ficar de fora,
O que o primitivo aí sente como algo de porque a simples ideia do “fora” é a verdadeira
sobrenatural não é nenhuma substância espiritual fonte da angústia... Se o primitivo apaziguava, às
oposta à substância material, mas o emaranhado da vezes, seu desejo de vingar o assassinato de um dos
natureza em face do elemento individual. O grito de seus acolhendo o assassino na própria família,21 isso
terror com que é vivido o insólito torna-se seu significava, tanto quanto a vingança, a infusão do
nome. Ele fixa a transcendência do desconhecido sangue alheio no próprio sangue, a restauração da
em face do conhecido e, assim, o horror como imanência. O dualismo mítico não ultrapassa o
sacralidade. A duplicação da natureza como âmbito da existência. O mundo totalmente
aparência e essência, acção e força, que torna dominado pelo mana, bem como o mundo do mito
possível tanto o mito quanto a ciência, provém do indiano e grego, são, ao mesmo tempo, sem saída e
medo do homem, cuja expressão se converte na eternamente iguais. Todo nascimento se paga com a
explicação. Não é a alma que é transposta para a morte, toda ventura com a desventura. Homens e
natureza, como o psicologismo faz crer. O mana, o deuses podem tentar, no prazo que lhes cabe,
espírito que move, não é nenhuma projecção, mas o distribuir a sorte de cada um segundo critérios
eco da real supremacia da natureza nas almas fracas diferentes do curso cego do destino; ao fim e ao
dos selvagens. A separação do animado e do cabo, a realidade triunfa sobre eles. Até mesmo sua
inanimado, a ocupação de lugares determinados por justiça, arrancada que foi à fatalidade, exibe ainda
demónios e divindades, tem origem nesse pré- os seus traços. Ela corresponde ao olhar que os
animismo. Nele já está virtualmente contida até homens, tanto os primitivos quanto os gregos e os
mesmo a separação do sujeito e do objecto. Quando bárbaros, lançam sobre o mundo a partir de uma
uma árvore é considerada não mais simplesmente sociedade da opressão e da miséria. Por isso, tanto a
como árvore, mas como testemunho de uma outra justiça mítica como a esclarecida consideram a
coisa, como sede do mana, a linguagem exprime a culpa e a expiação, a ventura e a desventura como
contradição de que uma coisa seria ao mesmo tempo
ela mesma e outra coisa diferente dela, idêntica e 20
Hubert e Mauss descrevem da seguinte maneira o
conteúdo ideacional da “simpatia”, da mimese: “L’un est le
tout, tout est dans l’un, la nature triomphe de la nature.” (“O
uno é o todo, tudo está no uno, a natureza triunfa sobre a
natureza.”) H. Hubert e M. Mauss, Théorie générale de Ia
19
Cf. Kurt Eckerrnann, Jahrbuch der Religionsgeschichte Magie, em: L’Année Sociologique, 1902-3, p. 100.
21
und Mytho1ogie. Halle, 1845. Vol. l, p. 241. e O. Kern, Die Cf. Westermack, Ursprung der Moralbegriffe. Leipzig,
Religion der Griechen. Berlirn, 1926. Vol. I. pp. 181 sg. 1913. Vol. I. p. 402.

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os dois lados de uma única equação. A justiça se palavra propriamente dita, ela se vê dividida entre as
absorve no direito. O xamã esconjura o perigo com diferentes artes, sem jamais deixar-se reconstituir
a imagem do perigo. A igualdade é o seu através de sua adição, através da sinestesia ou da
instrumento. É ela que, na civilização, regula o arte total. Enquanto signo, a linguagem deve
castigo e o mérito. As representações míticas resignar-se ao cálculo; para conhecer a natureza,
também podem se reduzir integralmente a relações deve renunciar à pretensão de ser semelhante a ela.
naturais. Assim como a constelação dos Gémeos Enquanto imagem, deve resignar-se à cópia; para ser
remete, como todos os outros símbolos da totalmente natureza, deve renunciar à pretensão de
dualidade, ao ciclo inescapável da natureza; assim conhecê-la. Com o progresso do esclarecimento, só
como este mesmo ciclo tem, no símbolo do ovo, do as obras de arte autênticas conseguiram escapar à
qual provêm os demais, seu símbolo mais remoto; mera imitação daquilo que, de um modo qualquer, já
assim também a balança nas mãos de Zeus, que é. A antítese corrente da arte e da ciência, que as
simboliza a justiça de todo o mundo patriarcal, separa como domínios culturais, a fim de torná-las
remete à mera natureza. A passagem do caos para a administráveis conjuntamente como domínios
civilização, onde as condições naturais não mais culturais, faz com que elas acabem por se
exercem seu poder de maneira imediata, mas através confundirem como opostos exactos graças às suas
da consciência dos homens, nada modificou no próprias tendências. A ciência em sua interpretação
princípio da igualdade. Aliás, os homens expiaram neopositivista torna-se esteticismo, sistema de
essa passagem justamente com a adoração daquilo a signos desligados, destituídos de toda intenção
que estavam outrora submetidos como as demais transcendendo o sistema: ela se torna aquele jogo
criaturas. Antes, os fetiches estavam sob a lei da que os matemáticos há muito orgulhosamente
igualdade. Agora, a própria igualdade torna-se declararam assunto deles. A arte da copiabilidade
fetiche. A venda sobre os olhos da Justiça não integral, porém, entregou-se até mesmo em suas
significa apenas que não se deve interferir no técnicas à ciência positivista. De facto, ela retorna
direito, mas que ele não nasceu da liberdade. mais uma vez ao mundo, na duplicação ideológica,
A doutrina dos sacerdotes era simbólica no na reprodução dócil. A separação do signo e da
sentido de que nela coincidiam o signo e a imagem. imagem é inevitável. Contudo, se ela é, uma vez
Como atestam os hieróglifos, a palavra exerceu mais, hipostasiada numa atitude ao mesmo tempo
originariamente também a função da imagem. Esta inconsciente e autocomplacente, então cada um dos
função passou para os mitos. Os mitos, assim como dois princípios isolados tende para a destruição da
os ritos mágicos, têm em vista a natureza que se verdade.
repete. Ela é o âmago do simbólico: um ser ou um O abismo que se abriu com a separação, a
processo representado como eterno porque deve filosofia enxergou-o na relação entre a intuição e o
voltar sempre a ocorrer na efectuação do símbolo. conceito e tentou sempre em vão fechá-lo de novo:
Inexauribilidade, renovação infinita, permanência aliás, é por essa tentativa que ela é definida. Na
do significado não são apenas atributos de todos os maioria das vezes, porém, ela se colocou do lado do
símbolos, mas seu verdadeiro conteúdo. As qual recebia o nome. Platão baniu a poesia com o
representações da criação nas quais o mundo surge mesmo gesto com que o positivismo baniu a
da Mãe primordial, da Vaca ou do Ovo, são, ao doutrina das Ideias. Com sua arte celebrada,
contrário do Génesis judeu, simbólicas. A zombaria Homero, segundo se diz, não levou a cabo nem
com que os antigos ridicularizaram os deuses reformas públicas nem privadas, não ganhou
demasiadamente humanos deixou incólume seu nenhuma guerra nem fez nenhuma invenção. Não
âmago. A individualidade não esgota a essência dos sabemos, diz-se, da existência de numerosos
deuses. Eles tinham ainda algo do mana dentro de seguidores que o tenham honrado ou amado. A arte
si; eles personificavam a natureza como um poder teria, primeiro, que mostrar a sua utilidade.22 A
universal. Com seus traços pré-animistas, eles se imitação está proscrita tanto em Homero como entre
destacam no esclarecimento. Sob o véu pudico da os judeus. A razão e a religião declaram anátema o
chronique scandaleuse olímpica já se havia formado princípio da magia. Mesmo na distância
a doutrina da mistura, da pressão e do choque dos renunciadora da vida, enquanto arte, ele permanece
elementos, que logo se estabeleceu como ciência e desonroso; as pessoas que o praticam tornam-se
transformou os mitos em obras da fantasia. Com a vagabundos, nómadas sobreviventes que não
nítida separação da ciência e da poesia, a divisão de encontram pátria entre os que se tornaram
trabalho já efectuada com sua ajuda estende-se à sedentários. A natureza não deve mais ser
linguagem. É enquanto signo que a palavra chega à influenciada pela assimilação, mas deve ser
ciência. Enquanto som, enquanto imagem, enquanto
22
Cf. Platão, o décimo livro da República.

11
dominada pelo trabalho. A obra de arte ainda tem inverdade, a confissão objectiva de que quem
em comum com a magia o facto de estabelecer um apenas crê por isso mesmo não mais crê. A má
domínio próprio, fechado em si mesmo e arrebatado consciência é sua segunda natureza. Na secreta
ao contexto da vida profana. Neste domínio consciência da deficiência que lhe é
imperam leis particulares. Assim como a primeira necessariamente inerente, da contradição imanente
coisa que o feiticeiro fazia em sua cerimonia era nela e que consiste em fazer da reconciliação sua
delimitar em face do mundo ambiente o lugar onde vocação, está a razão por que toda a honestidade dos
as forças sagradas deviam actuar, assim também, fiéis sempre foi irascível e perigosa. Não foi como
com cada obra de arte, seu círculo fechado se exagero mas como realização do próprio princípio
destaca do real. É exactamente a renúncia a agir, da fé que se cometeram os horrores do fogo e da
pela qual a arte se separa da simpatia mágica, que espada, da contra-reforma e da reforma. A fé não
fixa ainda mais profundamente a herança mágica. cessa de mostrar que é do mesmo jaez que a história
Esta renúncia coloca a imagem pura em oposição à universal, sobre a qual gostaria de imperar; nos
realidade mesma, cujos elementos ela supera tempos modernos, ela até mesmo se converte em
retendo-os (aufhebt) dentro de si. Pertence ao seu instrumento preferido, sua astúcia particular.
sentido da obra de arte, da aparência estética, ser Não é apenas o esclarecimento do século dezoito
aquilo em que se converteu, na magia do primitivo, que é irresistível, como atestou Hegel, mas (e
o novo e terrível: a manifestação do todo no ninguém sabia melhor do que ele) o movimento do
particular. Na obra de arte volta sempre a realizar-se próprio pensamento. Tanto o mais superficial
a duplicação pela qual a coisa se manifestava como quanto o mais profundo discernimento já contêm o
algo de espiritual, como exteriorização do mana. É discernimento de sua distância com relação à
isto que constitui sua aura. Enquanto expressão da verdade que faz do apologeta um mentiroso. O
totalidade, a arte reclama a dignidade do absoluto. paradoxo da fé acaba por degenerar no embuste, no
Isso, às vezes, levou a filosofia a atribuir-lhe mito do século vinte, enquanto sua irracionalidade
prioridade em face do conhecimento conceptual. degenera na cerimónia organizada racionalmente
Segundo Schelling, a arte entra em acção quando o sob o controle dos integralmente esclarecidos e que,
saber desampara os homens. Para ele, a arte é “o no entanto, dirigem a sociedade em direcção à
modelo da ciência, e é aonde está a arte que a barbárie.
ciência deve ainda chegar”.23 Em sua doutrina, a Quando a linguagem penetra na história, seus
separação da imagem e do signo é “totalmente mestres já são sacerdotes e feiticeiros. Quem viola
suprimida por cada representação artística”.24 Só os símbolos fica sujeito, em nome das potências
muito raramente o mundo burguês esteve aberto a supraterrenas, às potências terrenas, cujos
semelhante confiança na arte. Quando ele limitava o representantes são esses órgãos comissionados da
saber, isso acontecia via de regra, não para abrir sociedade. O que precedeu a isso está envolto em
espaço para a arte, mas para a fé. É através da fé que sombras. Onde quer que a etnologia o encontre, o
a religiosidade militante dos novos tempos – sentimento de horror de que se origina o mana já
Torquemada, Lutero, Maomé – pretendia reconciliar tinha recebido a sanção pelo menos dos mais velhos
o espírito e a vida. Mas a fé é um conceito privativo: da tribo. O mana não-idêntico e difuso é tornado
ela se anula com fé se não ressalta continuamente consistente pelos homens e materializado à força.
sua oposição ao saber ou sua concordância com ele. Logo os feiticeiros povoam todo lugar de
Permanecendo dependente da limitação do saber, emanações e correlacionam a multiplicidade dos
ela própria fica limitada. A tentativa da fé, ritos sagrados à dos domínios sagrados. Eles
empreendida no protestantismo, de encontrar, como expandem o mundo dos espíritos e suas
outrora, o princípio da verdade que a transcende, e particularidades e, com ele, seu saber corporativo e
sem a qual não pode existir directamente, na própria seu poder. A essência sagrada transfere-se para os
palavra e de restituir a esta a força simbólica – essa feiticeiros que lidam com ela. Nas primeiras fases
tentativa teve como preço a obediência à palavra, do nomadismo, os membros da tribo têm ainda uma
aliás a uma palavra que não era a sagrada. parte autónoma nas acções destinadas a influenciar
Permanecendo inevitavelmente presa ao saber como o curso da natureza. Os homens rastreiam a caça, as
amiga ou inimiga, a fé perpetua a separação na luta mulheres cuidam do trabalho que pode ser feito sem
para superá-la: seu fanatismo é a marca de sua um comando rígido. Quanta violência foi necessária
antes que as pessoas se acostumassem a uma
23 coordenação tão simples como essa é impossível
Erster Entwurf eines Systems der Naturphilosophie.
Fünfter Hauptabschnitt. Werke. Erste Abteilung. Vol. II, p.
determinar. Nela, o mundo já está dividido numa
623. esfera do poder e numa esfera profana. Nela, o curso
24
Ibid., p. 626.

12
da natureza enquanto eflúvio do mana já está erigido uma colectividade. É essa unidade de colectividade
em norma, que exige a submissão. Mas, se o e dominação e não a universalidade social imediata,
selvagem nómada, apesar de toda a submissão, a solidariedade, que se sedimenta nas formas do
ainda participava da magia que a limitava e se pensamento. Os conceitos filosóficos nos quais
disfarçava no animal caçado para surpreendê-lo, em Platão e Aristóteles expõem o mundo, exigiram,
períodos posteriores o comércio com os espíritos e a com sua pretensão de validade universal, as relações
submissão foram divididos pelas diferentes classes por eles fundamentadas como a verdadeira e
da humanidade: o poder está de um lado, a efectiva realidade. Esses conceitos provêm, como
obediência do outro. Os processos naturais diz Vico,26 da praça do mercado de Atenas. Eles
recorrentes e eternamente iguais são inculcados reflectiam com a mesma pureza das leis da física a
como ritmo do trabalho nos homens submetidos, igualdade dos cidadãos plenos e a inferioridade das
seja por tribos estrangeiras, seja pelas próprias mulheres, das crianças e dos escravos. A própria
cliques de governantes, no compasso da maça e do linguagem conferia ao que era dito, isto é, às
porrete que ecoa em todo tambor bárbaro, em todo relações da dominação, aquela universalidade que
ritual monótono. Os símbolos assumem a expressão ela tinha assumido como veículo de uma sociedade
do fetiche. A repetição da natureza, que é o seu civil. A ênfase metafísica, a sanção através de ideias
significado, acaba sempre por se mostrar como a e normas, nada mais era senão a hipostasiação da
permanência, por eles representada, da coerção dureza e da exclusividade que os conceitos tinham
social. O sentimento de horror materializado numa que assumir onde quer que a linguagem reunisse a
imagem sólida torna-se o sinal da dominação comunidade dos dominantes para o exercício do
consolidada dos privilegiados. Mas isso é o que os comando. Na medida em que constituíam
conceitos universais continuam a ser mesmo quando semelhante reforço do poder social da linguagem, as
se desfizeram de todo aspecto figurativo. A forma ideias se tornavam tanto mais supérfluas quanto
dedutiva da ciência reflecte ainda a hierarquia e a mais crescia esse poder, e a linguagem da ciência
coerção. Assim como as primeiras categorias preparou-lhes o fim. Não era à justificação
representavam a tribo organizada e seu poder sobre consciente que se ligava a sugestão que ainda
os indivíduos, assim também a ordem lógica em seu conserva algo do terror do fetiche. A unidade de
conjunto – a dependência, o encadeamento, a colectividade e dominação mostra-se antes de tudo
extensão e união dos conceitos – baseia-se nas na universalidade que o mau conteúdo
relações correspondentes da realidade social, da necessariamente assume na linguagem, tanto
divisão do trabalho.25 Só que, é verdade, esse metafísica quanto científica. A apologia metafísica
carácter social das formas do pensamento não é, deixava entrever a injustiça da ordem existente pelo
como ensina Durkheim, expressão da solidariedade menos através da incongruência do conceito e da
social, mas testemunho da unidade impenetrável da realidade. Na imparcialidade da linguagem
sociedade e da dominação. A dominação confere científica, o impotente perdeu inteiramente a força
maior consistência e força ao todo social no qual se para se exprimir, e só o existente encontra aí seu
estabelece. A divisão do trabalho, em que culmina o signo neutro. Tal neutralidade é mais metafísica do
processo social da dominação, serve à que a metafísica. O esclarecimento acabou por
autoconservação do todo dominado. Dessa maneira, consumir não apenas os símbolos mas também seus
porém, o todo enquanto todo, a activação da razão a sucessores, os conceitos universais, e da metafísica
ele imanente, converte-se necessariamente na não deixou nada senão o medo abstracto frente à
execução do particular. A dominação defronta o colectividade da qual surgira. Diante do
indivíduo como o universal, como a razão na esclarecimento, os conceitos estão na mesma
realidade efectiva. O poder de todos os membros da situação que os aposentados diante dos trusts
sociedade, que enquanto tais não têm outra saída, industriais: ninguém pode sentir-se seguro. Se o
acaba sempre, pela divisão do trabalho a eles positivismo lógico ainda deu uma chance à
imposta, por se agregar no sentido justamente da probabilidade, o positivismo etnológico equipara-a
realização do todo, cuja racionalidade é assim mais já à essência. “Nos idées vagues de chance et de
uma vez multiplicada. Aquilo que acontece a todos quintessence sont de pâles survivances de cette
por obra e graça de poucos realiza-se sempre como
a subjugação dos indivíduos por muitos: a opressão
da sociedade tem sempre o carácter da opressão por

25 26
Cf. E. Durkheim, De quelques formes primitives de G. Vico, Die Neue Wissenschaft über die
classification. L ‘Année Sociologique. Vol. IV, 1903. pp. 66 gemeinschaftliche Natur der Völker (trad. alemã de Auerbach)
sg. .München, 1924, p. 397.

13
notion beaucoup plus riche”,27 a saber da substância que um simples sistema de signos. Com o conceito
mágica. da negação determinada, Hegel destacou um
O esclarecimento nominalista detém-se diante elemento que distingue o esclarecimento da
do nomen, o conceito sem extensão, punctual, o desagregação positivista à qual ele o atribui. É
nome próprio. A questão se os nomes próprios, verdade, porém, que ele acabou por fazer um
como alguns afirmaram,28 eram originariamente, ao absoluto do resultado sabido do processo total da
mesmo tempo, nomes genéricos, não se pode mais negação: a totalidade no sistema e na história, e que,
decidir com certeza; contudo os primeiros ainda não ao fazer isso, infringiu a proibição e sucumbiu ele
partilharam o destino dos últimos. A substância do próprio à mitologia.
ego negada por Hume e Mach não é a mesma que o Isso não ocorreu apenas à sua filosofia
nome. Na religião judaica, onde a ideia do enquanto apoteose do pensamento em progresso,
patriarcado culmina na destruição do mito, o liame mas ao próprio esclarecimento, entendido como a
entre o nome e o ser permanece reconhecido através sobriedade pela qual este acredita distinguir-se de
da proibição de pronunciar o nome de Deus. O Hegel e da metafísica em geral. Pois o
mundo desencantado do judaísmo reconcilia a esclarecimento é totalitário como qualquer outro
magia através de sua negação na ideia de Deus. A sistema. Sua inverdade não está naquilo que seus
religião judaica não tolera nenhuma palavra que inimigos românticos sempre lhe censuraram: o
proporcione consolo ao desespero de qualquer método analítico, o retorno aos elementos, a
mortal. Ela associa a esperança unicamente à decomposição pela reflexão, mas sim no facto de
proibição de invocar o falso como Deus, o finito que para ele o processo está decidido de antemão.
como o infinito, a mentira como verdade. O penhor Quando, no procedimento matemático, o
da salvação consiste na recusa de toda fé que se desconhecido se torna a incógnita de uma equação,
substitua a ela, o conhecimento na denúncia da ele se vê caracterizado por isso mesmo como algo
ilusão. A negação, todavia, não é abstracta. A de há muito conhecido, antes mesmo que se
contestação indiferenciada de tudo o que é positivo, introduza qualquer valor. A natureza é, antes e
a fórmula estereotipada da nulidade, como a depois da teoria quântica, o que deve ser apreendido
emprega o budismo, passa por cima da proibição de matematicamente. Até mesmo aquilo que não se
dar nomes ao absoluto, do mesmo modo que seu deixa compreender, a indissolubilidade e a
contrário, o panteísmo, ou sua caricatura, o irracionalidade, é cercado por teoremas
cepticismo burguês. As explicações do mundo como matemáticos. Através da identificação antecipatória
o nada ou o todo são mitologias, e os caminhos do mundo totalmente matematizado com a verdade,
garantidos para a redenção, práticas mágicas o esclarecimento acredita estar a salvo do retorno do
sublimadas. A autocomplacência do saber de mítico. Ele confunde o pensamento e a matemática.
antemão e a transfiguração da negatividade em Desse modo, esta se vê por assim dizer solta,
redenção são formas falsas da resistência à transformada na instância absoluta. “Um mundo
impostura. O direito da imagem é salvo na execução infinito, no caso um mundo de idealidades, é
fiel de sua proibição. Semelhante execução, concebido como um mundo cujos objectos não se
“negação determinada”,29 não está imunizada pela tornam acessíveis ao nosso conhecimento um por
soberania do conceito abstracto contra a intuição um, de maneira imperfeita e como que por acaso;
sedutora, como o está o cepticismo para o qual são mas, ao contrário, um método racional, dotado de
nulos tanto o falso quanto o verdadeiro. A negação uma unidade sistemática, acaba por alcançar numa
determinada rejeita as representações imperfeitas do progressão infinita – todo o objecto tal como ele é
absoluto, os ídolos, mas não como o rigorismo, em si mesmo. Na matematização galileana da
opondo-lhes a Ideia que elas não podem satisfazer. natureza, a natureza ela própria é agora idealizada
A dialéctica revela, ao contrário, toda imagem como sob a égide da nova matemática, ou, para exprimi-lo
uma forma de escrita. Ela ensina a ler em seus de uma maneira moderna, ela se torna ela própria
traços a confissão de sua falsidade, confissão essa uma multiplicidade matemática”.30 O pensar reifica-
que a priva de seu poder e o transfere para a se num processo automático e autónomo, emulando
verdade. Desse modo, a linguagem torna-se mais a máquina que ele próprio produz para que ela possa
finalmente substituí-lo. O esclarecimento31 pôs de
27
“Nossas idéias vagas de acaso e de quintessência são
30
pálidos remanescentes dessa noção muito mais rica”, Hubert e Edmund Husserl, Die Krisis der europäischen
Mauss, op. cit., p. 118. Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie, em:
28
Cf. Tönnies, Philosophische Terminologie, em: Philosophia. Belgrado, 1936, pp. 95 sg.
31
Psychologisch-Soziologische Ansicht. Leipzig, 1908, p. 31. Cf. Schopenhauer, Parerga und Paralipomena. Vol. II, §
29
Hegel, op. cit., p. 65. 356. Werke. Ed. Deussen. Vol. V, p. 671.

14
lado a exigência clássica de pensar o pensamento – propriedade possui além da de ser um substrato para
a filosofia de Fichte é o seu desdobramento radical – semelhante posse. A equação do espírito e do
porque ela desviaria do imperativo de comandar a mundo acaba por se resolver, mas apenas com a
práxis, que o próprio Fichte no entanto queria mútua redução de seus dois lados. Na redução do
obedecer. O procedimento matemático tornou-se, pensamento a uma aparelhagem matemática está
por assim dizer, o ritual do pensamento. Apesar da implícita a ratificação do mundo como sua própria
autolimitação axiomática, ele se instaura como medida. O que aparece como triunfo da
necessário e objectivo: ele transforma o pensamento racionalidade objectiva, a submissão de todo ente ao
em coisa, em instrumento, como ele próprio o formalismo lógico, tem por preço a subordinação
denomina. Mas, com essa mimese, na qual o obediente da razão ao imediatamente dado.
pensamento se iguala ao mundo, o factual tornou-se Compreender o dado enquanto tal, descobrir nos
agora a tal ponto a única referência, que até mesmo dados não apenas suas relações espácio-temporais
a negação de Deus sucumbe ao juízo sobre a abstractas, com as quais se possa então agarrá-las,
metafísica. Para o positivismo que assumiu a mas ao contrário pensá-las como a superfície, como
magistratura da razão esclarecida, extravagar em aspectos mediatizados do conceito, que só se
mundos inteligíveis é não apenas proibido, mas é realizam no desdobramento de seu sentido social,
tido como um palavreado sem sentido. Ele não histórico, humano – toda a pretensão do
precisa – para sorte sua – ser ateu, porque o conhecimento é abandonada. Ela não consiste no
pensamento coisificado não pode sequer colocar a mero perceber, classificar e calcular, mas
questão. De bom grado o censor positivista deixa precisamente na negação determinante de cada dado
passar o culto oficial, do mesmo modo que a arte, imediato. Ora, ao invés disso, o formalismo
como um domínio particular da actividade social matemático, cujo instrumento é o número, a figura
nada tendo a ver com o conhecimento; mas a mais abstracta do imediato, mantém o pensamento
negação que se apresenta ela própria com a firmemente preso à mera imediatidade. O factual
pretensão de ser conhecimento, jamais. Para a tem a última palavra, o conhecimento restringe-se à
mentalidade científica, o desinteresse do sua repetição, o pensamento transforma-se na mera
pensamento pela tarefa de preparar o factual, a tautologia. Quanto mais a maquinaria do
transgressão da esfera da realidade é desvario e pensamento subjuga o que existe, tanto mais
autodestruição, do mesmo modo que, para o cegamente ela se contenta com essa reprodução.
feiticeiro do mundo primitivo, a transgressão do Desse modo, o esclarecimento regride à mitologia
círculo mágico traçado para a invocação, e nos dois da qual jamais soube escapar. Pois, em suas figuras,
casos tomam-se providências para que a infracção a mitologia reflectira a essência da ordem existente
do tabu acabe realmente em desgraça para o – o processo cíclico, o destino, a dominação do
sacrílego. A dominação da natureza traça o círculo mundo – como a verdade e abdicara da esperança.
dentro do qual a Crítica da Razão Pura baniu o Na pregnância da imagem mítica, bem como na
pensamento. Kant combinou a doutrina da clareza da fórmula científica, a eternidade do factual
incessante e laboriosa progressão do pensamento ao se vê confirmada e a mera existência expressa como
infinito com a insistência em sua insuficiência e o sentido que ela obstrui. O mundo como um
eterna limitação. Sua lição é um oráculo. Não há gigantesco juízo analítico, o único sonho que restou
nenhum ser no mundo que a ciência não possa de todos os sonhos da ciência, é da mesma espécie
penetrar, mas o que pode ser penetrado pela ciência que o mito cósmico que associava a mudança da
não é o ser. É o novo, segundo Kant, que o juízo primavera e do outono ao rapto da Perséfone. A
filosófico visa e, no entanto, ele não conhece nada singularidade do evento mítico, que deve legitimar o
de novo, porque repete tão-somente o que a razão já evento factual, é ilusão. Originariamente, o rapto da
colocou no objecto. Mas este pensamento, deusa identificava-se imediatamente à morte da
resguardado dos sonhos de um visionário nas natureza. Ele se repetia em cada outono, e mesmo a
diversas disciplinas da ciência, recebe a conta: a repetição não era uma sequência de ocorrências
dominação universal da natureza volta-se contra o separadas, mas a mesma cada vez. Com o
próprio sujeito pensante; nada sobra dele senão enrijecimento da consciência do tempo, o evento foi
justamente esse eu penso eternamente igual que tem fixado como tendo ocorrido uma única vez no
que poder acompanhar todas as minhas passado, e tentou-se apaziguar ritualmente o medo
representações. Sujeito e objecto tornam-se ambos da morte em cada novo ciclo das estações com o
nulos. O eu abstracto, o título que dá o direito a recurso a algo ocorrido há muito tempo. Mas a
protocolar e sistematizar, não tem diante de si outra separação é impotente. Em virtude da colocação
coisa senão o material abstracto, que nenhuma outra dessa ocorrência única do passado, o ciclo assume o

15
carácter do inevitável, e o medo irradia-se desse indivíduo é tão pouco representativa da verdadeira
acontecimento antigo para todos os demais como qualidade dos homens quanto o valor o é dos
sua mera repetição. A subsunção do factual, seja sob objectos de uso. A figura demoniacamente
a pré-história lendária, mítica, seja sob o formalismo distorcida, que as coisas e os homens assumiram sob
matemático, o relacionamento simbólico do presente a luz do conhecimento isento de preconceitos,
ao evento mítico no rito ou à categoria abstracta na remete de volta à dominação, ao princípio que já
ciência, faz com que o novo apareça como algo operava a especificação do mana nos espíritos e
predeterminado, que é assim na verdade o antigo. divindades e fascinava o olhar nas fantasmagorias
Quem fica privado da esperança não é a existência, dos feiticeiros e curandeiros. A fatalidade com que
mas o saber que no símbolo figurativo ou os tempos pré-históricos sancionavam a morte
matemático se apropria da existência enquanto ininteligível passa a caracterizar a realidade
esquema e a perpetua como tal. integralmente inteligível. O pânico meridiano com
No mundo esclarecido, a mitologia invadiu a que os homens de repente se deram conta da
esfera profana. A existência expurgada dos natureza como totalidade encontrou sua
demónios e de seus descendentes conceituais correspondência no pânico que hoje está pronto a
assume em sua pura naturalidade o carácter irromper a qualquer instante: os homens aguardam
numinoso que o mundo de outrora atribuía aos que este mundo sem saída seja incendiado por uma
demónios. Sob o título dos factos brutos, a injustiça totalidade que eles próprios constituem e sobre a
social da qual esses provêm é sacramentada hoje em qual nada podem.
dia como algo eternamente intangível e isso com a O horror mítico do esclarecimento tem por
mesma segurança com que o curandeiro se fazia objecto o mito. Ele não o descobre meramente em
sacrossanto sob a protecção de seus deuses. O preço conceitos e palavras não aclarados, como presume a
da dominação não é meramente a alienação dos crítica da linguagem, mas em toda manifestação
homens com relação aos objectos dominados; com a humana que não se situe no quadro teleológico da
coisificação do espírito, as próprias relações dos autoconservação. A frase de Spinoza: “Conatus sese
homens foram enfeitiçadas, inclusive as relações de conservandi primum et unicum virtutis est
cada indivíduo consigo mesmo. Ele se reduz a um fundamentum”33 contém a verdadeira máxima de
ponto nodal das reacções e funções convencionais toda a civilização ocidental, onde vêm se aquietar as
que se esperam dele como algo objectivo. O diferenças religiosas e filosóficas da burguesia. O eu
animismo havia dotado a coisa de uma alma, o que, após o extermínio metódico de todos os
industrialismo coisifica as almas. O aparelho vestígios naturais como algo de mitológico, não
económico, antes mesmo do planejamento total, já queria mais ser nem corpo, nem sangue, nem alma e
provê espontaneamente as mercadorias dos valores nem mesmo um eu natural, constituiu, sublimado
que decidem sobre o comportamento dos homens. A num sujeito transcendental ou lógico, o ponto de
partir do momento em que as mercadorias, com o referência da razão, a instância legisladora da acção.
fim do livre intercâmbio, perderam todas suas Segundo o juízo do esclarecimento, bem como o do
qualidades económicas salvo seu carácter de fetiche, protestantismo, quem se abandona imediatamente à
este se espalhou como uma paralisia sobre a vida da vida sem relação racional com a autoconservação
sociedade em todos os seus aspectos. As inúmeras regride à pré-história. O instinto enquanto tal seria
agências da produção em massa e da cultura por ela tão mítico quanto a superstição; servir a um Deus
criada servem para inculcar no indivíduo os não postulado pelo eu, tão insano quanto o
comportamentos normalizados como os únicos alcoolismo. O progresso reservou a mesma sorte
naturais, decentes, racionais. De agora em diante, tanto para a adoração quanto para a queda no ser
ele só se determina como coisa, como elemento natural imediato: ele amaldiçoou do mesmo modo
estatístico, como success or failure.32 Seu padrão é a aquele que, esquecido de si, se abandona tanto ao
autoconservação, a assemelhação bem ou mal pensamento quanto ao prazer. O trabalho social de
sucedida à objectividade da sua função e aos todo indivíduo está mediatizado pelo princípio do eu
modelos colocados para ela. Tudo o mais, Ideia e na economia burguesa; a um ele deve restituir o
criminalidade, experimenta a força da colectividade capital aumentado, a outro a força para um
que tudo vigia, da sala de aula ao sindicato. excedente de trabalho. Mas quanto mais o processo
Contudo, mesmo essa colectividade ameaçadora da autoconservação é assegurado pela divisão
pertence tão-somente à superfície ilusória, sob a burguesa do trabalho, tanto mais ele força a auto-
qual se abrigam as potências que a manipulam como
algo de violento. A brutalidade com que enquadra o 33
“O esforço para se conservar a si mesmo é o primeiro e
único fundamento da virtude”, Ethica, pars IV. Propos. XXII.
32
Sucesso ou fracasso. (N. T.). Coroll.

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alienação dos indivíduos, que têm que se formar no civilização se reduz a um elemento dessa
corpo e na alma segundo a aparelhagem técnica. inumanidade, à qual a civilização desde o início
Mas isso, mais uma vez, é levado em conta pelo procurou escapar. Concretiza-se assim o mais antigo
pensamento esclarecido: aparentemente, o próprio medo, o medo da perda do próprio nome. Para a
sujeito transcendental do conhecimento acaba por civilização, a vida no estado natural puro, a vida
ser suprimido como a última reminiscência da animal e vegetativa, constituía o perigo absoluto.
subjectividade e é substituído pelo trabalho tanto Um após o outro, os comportamentos mimético,
mais suave dos mecanismos automáticos de mítico e metafísico foram considerados como eras
controle. A subjectividade volatilizou-se na lógica superadas, de tal sorte que a ideia de recair neles
de regras de jogo pretensamente indeterminadas, a estava associada ao pavor de que o eu revertesse à
fim de dispor de uma maneira ainda mais mera natureza, da qual havia se alienado com
desembaraçada. O positivismo – que afinal não esforço indizível e que por isso mesmo infundia nele
recuou nem mesmo diante do pensamento, essa indizível terror. A lembrança viva dos tempos
quimera tecida pelo cérebro no sentido mais liberal pretéritos – do nomadismo e, com muito mais razão,
do termo34 – eliminou a última instância dos estágios propriamente pré-patriarcais – fora
intermediária entre a acção individual e a norma extirpada da consciência dos homens ao longo dos
social. O processo técnico, no qual o sujeito se milénios com as penas mais terríveis. O espírito
coisificou após sua eliminação da consciência, está esclarecido substituiu a roda e o fogo pelo estigma
livre da plurivocidade do pensamento mítico bem que imprimiu em toda irracionalidade, já que esta
como de toda significação em geral, porque a leva à ruína. O hedonismo era moderado, os
própria razão se tornou um mero adminículo da extremos não lhe eram menos odiosos do que para
aparelhagem económica que a tudo engloba. Ela é Aristóteles. O ideal burguês da naturalidade não visa
usada como um instrumento universal servindo para a natureza amorfa, mas a virtude do meio. A
a fabricação de todos os demais instrumentos. promiscuidade e a ascese, a abundância e a fome
Rigidamente funcionalizada, ela é tão fatal quanto a são, apesar de opostas, imediatamente idênticas
manipulação calculada com exactidão na produção enquanto potências da dissolução. Ao subordinar a
material e cujos resultados para os homens escapam vida inteira às exigências de sua conservação, a
a todo cálculo. Cumpriu-se afinal sua velha ambição minoria que detém o poder garante, justamente com
de ser um órgão puro dos fins. A exclusividade das sua própria segurança, a perpetuação do todo. De
leis lógicas tem origem nessa univocidade da Homero aos tempos modernos, o espírito dominante
função, em última análise no carácter coercitivo da quer navegar entre a Cila da regressão à simples
autoconservação. Esta culmina sempre na escolha reprodução e a Caribde da satisfação desenfreada;
entre a sobrevivência ou a morte, escolha essa na ele sempre desconfiou de qualquer outra estrela-guia
qual se pode perceber ainda um reflexo no princípio que não fosse a do mal menor. Os neopagãos e
de que, entre duas proposições contraditórias, só belicistas alemães querem liberar de novo o prazer.
uma pode ser verdadeira e só uma falsa. O Mas como o prazer, sob a pressão milenar do
formalismo desse princípio e de toda a lógica, que é trabalho, aprendeu a se odiar, ele permanece, na
o modo como ele se estabelece, deriva da opacidade emancipação totalitária, vulgar e mutilado, em
e do entrelaçamento de interesses numa sociedade virtude de seu autodesprezo. Ele permanece preso à
na qual só por acaso coincidem a conservação das autoconservação, para a qual o educara a razão
formas e a dos indivíduos. A expulsão do entrementes deposta. Nos momentos decisivos da
pensamento da lógica ratifica na sala de aula a civilização ocidental, da transição para a religião
coisificação do homem na fábrica e no escritório. olímpica ao renascimento, à reforma e ao ateísmo
Assim, o tabu estende-se ao próprio poder de impor burguês, todas as vezes que novos povos e camadas
tabus, o esclarecimento ao espírito em que ele sociais recalcavam o mito, de maneira mais
próprio consiste. Mas, desse modo, a natureza decidida, o medo da natureza não compreendida e
enquanto verdadeira autoconservação é atiçada pelo ameaçadora – consequência da sua própria
processo que prometia exorcizá-la, tanto no materialização e objectivação – era degradado em
indivíduo quanto no destino colectivo da crise e da superstição animista, e a dominação da natureza
guerra. Se a única norma que resta para a teoria é o interna e externa tornava-se o fim absoluto da vida.
ideal da ciência unificada, então a práxis tem que Quando afinal a autoconservação se automatiza, a
sucumbir ao processo irreprimível da história razão é abandonada por aqueles que assumiram sua
universal. O eu integralmente capturado pela herança a título de organizadores da produção e
agora a temem nos deserdados. A essência do
34
Hirngespinst = quimera, fantasia; literalmente; tecido, teia esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a
(Gespinst) do cérebro (Hirn). (N. T.)

17
dominação. Os homens sempre tiveram de escolher aconteceu, o preço que cobram por esse
entre submeter-se à natureza ou submeter a natureza conhecimento é o futuro, e a promissão do alegre
ao eu. Com a difusão da economia mercantil retorno é o embuste com que o passado captura o
burguesa, o horizonte sombrio do mito é aclarado saudoso. Ulisses foi alertado por Circe, a divindade
pelo sol da razão calculadora, sob cujos raios da reconversão ao estado animal, à qual resistira e
gelados amadurece a sementeira da nova barbárie. que, em troca disso, fortaleceu-o para resistir a
Forçado pela dominação, o trabalho humano tendeu outras potências da dissolução. Mas a sedução das
sempre a afastar-se do mito, voltando a cair sob o Sereias permanece mais poderosa. Ninguém que
seu influxo, levado pela mesma dominação. ouve sua canção pode escapar a ela. A humanidade
Esse entrelaçamento de mito, dominação e teve que se submeter a terríveis provações até que se
trabalho está conservado em uma das narrativas de formasse o eu, o carácter idêntico, determinado e
Homero. O duodécimo canto da Odisseia relata o viril do homem, e toda infância ainda é de certa
encontro com as Sereias. A sedução que exercem é a forma a repetição disso. O esforço para manter a
de se deixar perder no que passou. Mas o herói a coesão do ego marca-o em todas as suas fases, e a
quem se destina a sedução emancipou-se com o tentação de perdê-lo jamais deixou de acompanhar a
sofrimento. Nos perigos mortais que teve de determinação cega de conservá-lo. A embriaguez
arrostar, foi dando têmpera à unidade de sua própria narcótica, que expia com um sono parecido à morte
vida e à identidade da pessoa. Assim como a água, a a euforia na qual o eu está suspenso, é uma das mais
terra e o ar, assim também separam-se para ele os antigas cerimónias sociais mediadoras entre a
domínios do tempo. Para ele, a preia-mar do que já autoconservação e a autodestruição, uma tentativa
foi recuou da rocha do presente, e as nuvens do do eu de sobreviver a si mesmo. O medo de perder o
futuro estão acampadas no horizonte. O que Ulisses eu e o de suprimir com o eu o limite entre si mesmo
deixou para trás entra no mundo das sombras: o eu e a outra vida, o temor da morte e da destruição, está
ainda está tão próximo do mito de outrora, de cujo irmanado a uma promessa de felicidade, que
seio se arrancou, que o próprio passado por ele ameaçava a cada instante a civilização. O caminho
vivido se transforma para ele num outrora mítico. É da civilização era o da obediência e do trabalho,
através de uma ordenação fixa do tempo que ele sobre o qual a satisfação não brilha senão como
procura fazer face a isso. O esquema tripartido deve mera aparência, como beleza destituída de poder. O
liberar o instante presente do poder do passado, pensamento de Ulisses, igualmente hostil à sua
desterrando-o para trás do limite absoluto do própria morte e à sua própria felicidade, sabe disso.
irrecuperável e colocando-o à disposição do agora Ele conhece apenas duas possibilidades de escapar.
como um saber praticável. A ânsia de salvar o Uma é a que ele prescreve aos companheiros. Ele
passado como algo de vivo, em vez de utilizá-lo tapa seus ouvidos com cera e obriga-os a remar com
como material para o progresso, só se acalmava na todas as forças de seus músculos. Quem quiser
arte, à qual pertence a própria História como vencer a provação não deve prestar ouvidos ao
descrição da vida passada. Enquanto a arte renunciar chamado sedutor do irrecuperável e só o conseguirá
a ser aceita como conhecimento, isolando-se assim se conseguir não ouvi-lo. Disso a civilização sempre
da práxis, ela será tolerada, como o prazer, pela cuidou. Alertas e concentrados, os trabalhadores têm
práxis social. Mas o canto das Sereias ainda não foi que olhar para frente e esquecer o que foi posto de
reduzido à impotência da arte. Elas sabem “tudo o lado. A tendência que impele à distracção, eles têm
que jamais ocorreu sobre a terra tão fértil”,35 que se encarniçar em sublimá-la num esforço
sobretudo os acontecimentos de que participara o suplementar. É assim que se tornam práticos. A
próprio Ulisses e “o quanto sofreram os filhos de outra possibilidade é a escolhida pelo próprio
Argos e os troianos por vontade dos Deuses”.36 Ao Ulisses, o senhor de terras que faz os outros
conjurar imediatamente o passado recente, elas trabalharem para ele. Ele escuta, mas amarrado
ameaçam com a promessa irresistível do prazer – impotente ao mastro, e quanto maior se torna a
que é a maneira como seu canto é percebido – a sedução, tanto mais fortemente ele se deixa atar,
ordem patriarcal, que só restitui a vida de cada um exactamente como, muito depois, os burgueses, que
em troca de sua plena medida de tempo. Quem se recusavam a si mesmos a felicidade com tanto maior
deixa atrair por suas ilusões está condenado à obstinação quanto mais acessível ela se tornava com
perdição, quando só uma contínua presença de o aumento de seu poderio. O que ele escuta não tem
espírito consegue arrancar um meio de vida à consequências para ele, a única coisa que consegue
natureza. Se as sereias nada ignoram do que fazer é acenar com a cabeça para que o desatem;
mas é tarde demais, os companheiros – que nada
35
Odisseia, XII. 191. escutam – só sabem do perigo da canção, não de sua
36
Ibid., XII, 189-90.

18
beleza – e o deixam no mastro para salvar a ele e a forçada a regredir a estágios antropologicamente
si mesmos. Eles reproduzem a vida do opressor mais primitivos, pois a persistência da dominação
juntamente com a própria vida, e aquele não determina, com a facilitação técnica da existência, a
consegue mais escapar a seu papel social. Os laços fixação do instinto através de uma repressão mais
com que irrevogavelmente se atou à práxis mantêm forte. A fantasia atrofia-se. A desgraça não está em
ao mesmo tempo as Sereias afastadas da práxis: sua que os indivíduos tenham se atrasado relativamente
sedução transforma-se, neutralizada num mero à sociedade ou à sua produção material. Quando o
objecto da contemplação, em arte. Amarrado, desenvolvimento da máquina já se converteu em
Ulisses assiste a um concerto, a escutar imóvel desenvolvimento da maquinaria da dominação – de
como os futuros frequentadores de concertos, e seu tal sorte que as tendências técnica e social,
brado de libertação cheio de entusiasmo já ecoa entrelaçadas desde sempre, convergem no
como um aplauso. Assim a fruição artística e o apoderamento total dos homens – os atrasados não
trabalho manual já se separam na despedida do representam meramente a inverdade. Por outro lado,
mundo pré-histórico. A epopeia já contém a teoria a adaptação ao poder do progresso envolve o
correcta. O património cultural está em exacta progresso do poder, levando sempre de novo
correlação com o trabalho comandado, e ambos se àquelas formações recessivas que mostram que não
baseiam na inescapável compulsão à dominação é o malogro do progresso, mas exactamente o
social da natureza. progresso bem-sucedido que é culpado de seu
As medidas tomadas por Ulisses quando seu próprio oposto. A maldição do progresso irrefreável
navio se aproxima das Sereias pressagiam é a irrefreável regressão.
alegoricamente a dialéctica do esclarecimento. Esta não se limita à experiência do mundo
Assim como a substituibilidade é a medida da sensível, que está ligada à proximidade das coisas
dominação e o mais poderoso é aquele que pode se mesmas, mas afecta ao mesmo tempo o intelecto
fazer substituir na maioria das funções, assim autocrático, que se separa da experiência sensível
também a substituibilidade é o veículo do progresso para submetê-la. A unificação da função intelectual,
e, ao mesmo tempo, da regressão. Na situação dada, graças à qual se efectua a dominação dos sentidos, a
estar excluído do trabalho também significa resignação do pensamento em vista da produção da
mutilação, tanto para os desempregados, quanto unanimidade, significa o empobrecimento do
para os que estão no pólo social oposto. Os chefes, pensamento bem como da experiência: a separação
que não precisam mais se ocupar da vida, não têm dos dois domínios prejudica a ambos. A limitação
mais outra experiência dela senão como substrato e do pensamento à organização e à administração,
deixam-se empedernir integralmente no eu que praticada pelos governantes desde o astucioso
comanda. O primitivo só tinha experiência da coisa Ulisses até os ingénuos directores-gerais, inclui
natural como objecto fugidio do desejo, “mas o também a limitação que acomete os grandes tão
senhor, que interpôs o servo entre a coisa e ele logo não se trate mais apenas da manipulação dos
próprio, só se prende à dependência da coisa e pequenos. O espírito torna-se de facto o aparelho da
desfruta-a em sua pureza; o aspecto da dominação e do autodomínio, como sempre havia
independência, porém, abandona-o ao servo que a suposto erroneamente a filosofia burguesa. Os
trabalha”.37 Ulisses é substituído no trabalho. Assim ouvidos moucos, que é o que sobrou aos dóceis
como não pode ceder à tentação de se abandonar, proletários desde os tempos míticos, não superam
assim também acaba por renunciar enquanto em nada a imobilidade do senhor. É da imaturidade
proprietário a participar do trabalho e, por fim, até dos dominados que se nutre a hipermaturidade da
mesmo a dirigi-lo, enquanto os companheiros, sociedade. Quanto mais complicada e mais refinada
apesar de toda proximidade às coisas, não podem a aparelhagem social, económica e científica, para
desfrutar do trabalho porque este se efectua sob cujo manejo o corpo já há muito foi ajustado pelo
coacção, desesperadamente, com os sentidos sistema de produção, tanto mais empobrecidas as
fechados à força. O servo permanece subjugado no vivências de que ele é capaz. Graças aos modos de
corpo e na alma, o senhor regride. Nenhuma trabalho racionalizados, a eliminação das qualidades
dominação conseguiu ainda evitar pagar esse preço, e sua conversão em funções transferem-se da
e a aparência cíclica da história em seu progresso ciência para o mundo da experiência dos povos e
também se explica por semelhante enfraquecimento, tende a assemelhá-lo de novo ao mundo dos
que é o equivalente do poderio. A humanidade, anfíbios. A regressão das massas, de que hoje se
cujas habilidades e conhecimentos se diferenciam fala, nada mais é senão a incapacidade de poder
com a divisão do trabalho, é ao mesmo tempo ouvir o imediato com os próprios ouvidos, de poder
tocar o intocado com as próprias mãos: a nova
37
Hegel, Phänomenologie des Geistes, p. 146.

19
forma de ofuscamento que vem substituir as formas se tão amplamente que, por causa dela, o
míticas superadas. Pela mediação da sociedade total, pensamento é negado pelos próprios dominadores
que engloba todas as relações e emoções, os homens como mera ideologia. A expressão que trai a má-
se reconvertem exactamente naquilo contra o que se consciência das cliques, nas quais acaba por
voltara a lei evolutiva da sociedade, o princípio do encarnar a necessidade económica, é o facto de que
eu: meros seres genéricos, iguais uns aos outros pelo suas revelações – das intuições do chefe à visão
isolamento na colectividade governada pela força. dinâmica do mundo – não reconhecem mais, em
Os remadores que não podem se falar estão decidida oposição à apologética burguesa anterior,
atrelados a um compasso, assim como o trabalhador os próprios crimes como consequências necessárias
moderno na fábrica, no cinema e no colectivo. São de sistemas de leis. As mentiras mitológicas da
as condições concretas do trabalho na sociedade que missão e do destino que elas mobilizam em seu
forçam o conformismo e não as influências lugar nem sequer chegam a dizer uma total
conscientes, as quais por acréscimo embruteceriam inverdade: não eram mais as leis objectivas do
e afastariam da verdade os homens oprimidos. A mercado que imperavam nas acções dos empresários
impotência dos trabalhadores não é mero pretexto e impeliam à catástrofe. Antes pelo contrário, a
dos dominantes, mas a consequência lógica da decisão consciente dos directores gerais, como
sociedade industrial, na qual o fado antigo acabou resultante tão fatal quanto os mais cegos
por se transformar no esforço de a ele escapar. mecanismos de preços, leva a efeito a velha lei do
Essa necessidade lógica, porém, não é valor e assim cumpre o destino do capitalismo. Os
definitiva. Ela permanece presa à dominação, como próprios dominadores não acreditam em nenhuma
seu reflexo e seu instrumento ao mesmo tempo. Por necessidade objectiva, mesmo que às vezes dêem
isso, sua verdade é tão questionável quanto sua esse nome a suas maquinações. Eles se arvoram em
evidência inevitável. É verdade que o pensamento engenheiros da história universal. Só os dominados
sempre bastou para designar concretamente seu aceitam como necessidade intangível o processo
próprio carácter questionável. Ele é o servo que o que, a cada decreto elevando o nível de vida,
senhor não pode deter a seu bel-prazer. Ao se aumenta o grau de sua impotência. Agora que uma
reificar na lei e na organização, quando os homens parte mínima do tempo de trabalho à disposição dos
se tornaram sedentários e, depois, na economia donos da sociedade é suficiente para assegurar a
mercantil, a dominação teve que limitar-se. O subsistência daqueles que ainda se fazem
instrumento ganha autonomia: a instância necessários para o manejo das máquinas, o resto
mediadora do espírito, independentemente da supérfluo, a massa imensa da população, é adestrado
vontade dos dirigentes, suaviza o carácter imediato como uma guarda suplementar do sistema, a serviço
da injustiça económica. Os instrumentos da de seus planos grandiosos para o presente e o futuro.
dominação destinados a alcançar a todos – a Eles são sustentados como um exército dos
linguagem, as armas e por fim as máquinas – devem desempregados. Rebaixados ao nível de simples
se deixar alcançar por todos. É assim que o aspecto objectos do sistema administrativo, que preforma
da racionalidade se impõe na dominação como um todos os estores da vida moderna, inclusive a
aspecto que é também distinto dela. A objectividade linguagem e a percepção, sua degradação reflecte
do meio, que o torna universalmente disponível, sua para eles a necessidade objectiva contra a qual se
“objectividade” para todos, já implica a crítica da crêem impotentes. Na medida em que cresce a
dominação da qual o pensamento surgiu, como um capacidade de eliminar duradouramente toda
de seus meios. No trajecto da mitologia à logística, miséria, cresce também desmesuradamente a
o pensamento perdeu o elemento da reflexão sobre miséria enquanto antítese da potência e da
si mesmo, e hoje a maquinaria mutila os homens, impotência. Nenhum indivíduo é capaz de penetrar a
mesmo quando os alimenta. Sob a forma das floresta de cliques e instituições que, dos mais altos
máquinas, porém, a ratio alienada move-se em níveis de comando da economia até às últimas
direcção a uma sociedade que reconcilia o gangues profissionais, zelam pela permanência
pensamento solidificado, enquanto aparelhagem ilimitada do status quo. Perante um líder sindical,
material e aparelhagem intelectual, com o ser vivo para não falar do director da fábrica, o proletário
liberado e o relaciona com a própria sociedade como que por acaso se faça notar não passará de um
seu sujeito real. A origem particular do pensamento número a mais, enquanto que o líder deve por sua
e sua perspectiva universal foram sempre vez tremer diante da possibilidade de sua própria
inseparáveis. Hoje, com a metamorfose que liquidação.
transformou o mundo em indústria, a perspectiva do O absurdo desta situação, em que o poder do
universal, a realização social do pensamento, abriu- sistema sobre os homens cresce na mesma medida

20
em que os subtrai ao poder da natureza, denuncia natureza, sem o que o espírito não existe, consiste
como obsoleta a razão da sociedade racional. Sua em sucumbir à natureza. Graças à resignação com
necessidade não é menos aparente do que a que se confessa como dominação e se retrata na
liberdade dos empresários, que acaba por revelar sua natureza, o espírito perde a pretensão senhorial que
natureza compulsiva nas lutas e acordos a que não justamente o escraviza à natureza. Se é verdade que
conseguem escapar. Essa aparência, na qual se a humanidade na fuga da necessidade, no progresso
perde a humanidade inteiramente esclarecida, não e na civilização, não consegue se deter sem
pode ser dissipada pelo pensamento que tem de abandonar o próprio conhecimento, pelo menos ela
escolher, enquanto órgão da dominação, entre o não mais toma por garantias da liberdade vindoura
comando e a obediência. Incapaz de escapar ao os baluartes que levanta contra a necessidade, a
envolvimento que o mantém preso à pré-história, ele saber, as instituições, as práticas da dominação que
consegue no entanto reconhecer na lógica da sempre constituíram o revide sobre a sociedade da
alternativa, da consequência e da antinomia, com a submissão da natureza. Todo progresso da
qual se emancipou radicalmente da natureza, a civilização tem renovado, ao mesmo tempo, a
própria natureza, irreconciliada e alienada de si dominação e a perspectiva de seu abrandamento.
mesma. O pensamento, cujos mecanismos de Contudo, enquanto a história real se teceu a partir de
compulsão reflectem e prolongam a natureza, um sofrimento real, que de modo algum diminui
também se reflecte a si mesmo, em virtude proporcionalmente ao crescimento dos meios para
justamente de sua consequência inelutável, como a sua eliminação, a concretização desta perspectiva
própria natureza esquecida de si mesma, como depende do conceito. Pois ele é não somente,
mecanismo de compulsão. É verdade que a enquanto ciência, um instrumento que serve para
representação é só um instrumento. Pensando, os distanciar os homens da natureza, mas é também,
homens distanciam-se da natureza a fim de torná-la enquanto tomada de consciência do próprio
presente38 de modo a ser dominada. Semelhante à pensamento que, sob a forma da ciência, permanece
coisa, à ferramenta material – que pegamos e preso à evolução cega da economia, um instrumento
conservamos em diferentes situações como a que permite medir a distância perpetuadora da
mesma, destacando assim o mundo como o caótico, injustiça. Graças a essa consciência da natureza no
multifário, disparatado do conhecido, uno, idêntico sujeito, que encerra a verdade ignorada de toda
– o conceito é a ferramenta ideal que se encaixa nas cultura, o esclarecimento se opõe à dominação em
coisas pelo lado por onde se pode pegá-las. Pois o geral, e o apelo a pôr fim ao esclarecimento também
pensamento se torna ilusório sempre que tenta ressoou nos tempos de Vanini, menos por medo da
renegar sua função separadora, de distanciamento e ciência exacta do que por ódio ao pensamento
objectivação. Toda união mística permanece um indisciplinado, que escapa à órbita da natureza
logro, o vestígio impotentemente introvertido da confessando-se como o próprio tremor da natureza
revolução malbaratada. Mas enquanto o diante de si mesma. Os sacerdotes sempre vingaram
esclarecimento prova que estava com a razão contra o mana no esclarecedor que conciliava o mana
toda hipostasiação da utopia e proclama impassível assustando-se com o susto que trazia o seu nome, e
a dominação sob a forma da desunião, a ruptura na hybris os áugures do esclarecimento se punham
entre o sujeito e o objecto que ele proíbe recobrir, de acordo com os sacerdotes. Muito antes de Turgot
torna-se, ela própria, o índice da inverdade dessa e d’ Alembert, a forma burguesa do esclarecimento
ruptura e o índice da verdade. A condenação da já se perdera em seu aspecto positivista. Ele jamais
superstição significa sempre, ao mesmo tempo, o foi imune à tentação de confundir a liberdade com a
progresso da dominação e o seu desnudamento. O busca da autoconservação. A suspensão do conceito
esclarecimento é mais que esclarecimento: natureza – não importa se isso ocorreu em nome do progresso
que se torna perceptível em sua alienação. No ou da cultura, que há muito já haviam se coligado
autoconhecimento do espírito como natureza em contra a verdade – abriu caminho à mentira. Esta
desunião consigo mesma, a natureza se chama a si encontrava lugar num mundo que se contentava em
mesma como antigamente, mas não mais verificar sentenças protocolares e conservava o
imediatamente com seu nome presumido, que pensamento – degradado em obra dos grandes
significa omnipotência, isto é, como “mana”, mas pensadores – como uma espécie de slogan
como algo de cego, mutilado. A dominação da antiquado, do qual não se pode mais distinguir a
verdade neutralizada como património cultural.
38 Reconhecer, porém, a presença da dominação
Vor sich hinstellen = colocar à sua frente. Os autores
jogam com o significado de Vorstellung = representação, que é
dentro do próprio pensamento como natureza não
uma expressão formada de Stellung = posição, colocação e vor reconciliada seria um meio de afrouxar essa
= à frente. (N. T.)

21
necessidade que o próprio socialismo veio a espírito dessa teoria intransigente seria capaz de
confirmar precipitadamente como algo de eterno, inverter a direcção do espírito do progresso
fazendo assim uma concessão ao common sense impiedoso, ainda que este estivesse em vias de
reaccionário. Ao fazer da necessidade, para todo o atingir sua meta. Seu arauto, Bacon, sonhou com as
sempre, a base e ao depravar o espírito de maneira inúmeras coisas “que os reis com todos os seus
tipicamente idealista como o ápice, ele se agarrou tesouros não podem comprar, sobre as quais seu
com excessiva rigidez à herança da filosofia comando não impera, das quais seus espias e
burguesa. Assim, a relação da necessidade com o informantes nenhuma notícia trazem”. Como ele
reino da liberdade permaneceria meramente desejava, elas couberam aos burgueses, os herdeiros
quantitativa, mecânica, e a natureza – colocada esclarecidos do rei. Multiplicando o poder pela
como algo inteiramente alheio e estranho, como mediação do mercado, a economia burguesa
ocorre na primeira mitologia – tornar-se-ia também multiplicou seus objectos e suas forças a tal
totalitária e absorveria a liberdade juntamente com o ponto que para sua administração não só não precisa
socialismo. Com o abandono do pensamento – que, mais dos reis como também dos burgueses: agora
em sua figura coisificada como matemática, ela só precisa de todos. Eles aprendem com o poder
máquina, organização, se vinga dos homens dele das coisas a, afinal, dispensar o poder. O
esquecidos – o esclarecimento abdicou de sua esclarecimento se consuma e se supera quando os
própria realização. Ao disciplinar tudo o que é único fins práticos mais próximos se revelam como o
e individual, ele permitiu que o todo não- objectivo mais distante finalmente atingido, e os
compreendido se voltasse, enquanto dominação das países, “dos quais seus espias e informantes
coisas, contra o ser e a consciência dos homens. nenhuma notícia trazem”, a saber, a natureza
Mas uma verdadeira práxis revolucionária depende ignorada pela ciência dominadora, são recordados
da intransigência da teoria em face da inconsciência como os países da origem. Hoje, quando a utopia
com que a sociedade deixa que o pensamento se baconiana de “imperar na prática sobre a natureza”
enrijeça. Não são as condições materiais da se realizou numa escala telúrica, tornou-se
satisfação nem a técnica deixada à solta enquanto manifesta a essência da coacção que ele atribuía à
tal, que a colocam em questão. Isso é o que afirmam natureza não dominada. Era a própria dominação. É
os sociólogos, que estão de novo a meditar sobre um à sua dissolução que pode agora proceder o saber
antídoto, ainda que de natureza colectivista, a fim de em que Bacon vê a “superioridade dos homens”.
dominar o antídoto.39 A culpa é da ofuscação em Mas, em face dessa possibilidade, o esclarecimento
que está mergulhada a sociedade. O mítico respeito se converte, a serviço do presente, na total
científico dos povos pelo dado, que eles no entanto mistificação das massas.
estão continuamente a criar, acaba por se tornar ele
próprio um facto positivo, a fortaleza diante da qual
a imaginação revolucionária se envergonha de si
mesma como utopismo e degenera numa confiança
dócil na tendência objectiva da história. Enquanto
órgão de semelhante adaptação, enquanto mera
construção de meios, o esclarecimento é tão
destrutivo como o acusam seus inimigos
românticos. Ele só se reencontrará consigo mesmo
quando renunciar ao último acordo com esses
inimigos e tiver a ousadia de superar o falso
absoluto que é o princípio da dominação cega. O
39
“The supreme question which confronts our generation
today – the question to which all other problems are mere1y
corollaries – is whether techno1ogy can be brought under
control... Nobody can be sure of the formula by which this end
can be achieved... We must draw on all the resources to which
access can be had...”
[“A questão suprema que nossa geração enfrenta
actualmente – a questão da qual todos os outros problemas são
meros corolários – é se a tecnologia pode ser colocada sob
controle... Ninguém tem certeza de saber a fórmula pela qual
esse objectivo pode ser alcançado... Temos que nos valer de
todos os recursos a que se possa ter acesso...”] (The Rockfeller
Foundation. A Review for 1943. Nova York, 1944, pp. 33 sg.).

22
EXCURSO I: Ulisses ou Mito e Esclarecimento buscados como ‘progresso’!”2 Quando essa
duplicidade do esclarecimento se destaca como um
Assim como o episódio das sereias mostra o motivo histórico fundamental, seu conceito como
entrelaçamento do mito e do trabalho racional, pensamento progressivo é estendido até o início da
assim também a Odisseia em seu todo dá história tradicional. Todavia, a relação de Nietzsche
testemunho da dialéctica do esclarecimento. com o esclarecimento, e portanto com Homero,
Sobretudo em seus elementos mais antigos, a permanecia ela própria contraditória. Assim ele
epopeia mostra-se ligada ao mito: as aventuras têm enxergava no esclarecimento tanto o movimento
origem na tradição popular. Mas, ao se apoderar dos universal do espírito soberano, do qual se sentia o
mitos, ao “organizá-los”, o espírito homérico entra realizador último, quanto a potência hostil à vida,
em contradição com eles. A assimilação habitual da “nihilista”. Em seus seguidores pré-fascistas, porém,
epopeia ao mito – que a moderna filologia clássica, apenas o segundo aspecto se conservou e se
aliás, desfez – mostra-se à crítica filosófica como perverteu em ideologia. Esta ideologia torna-se a
uma perfeita ilusão. São dois conceitos distintos, cega exaltação da vida cega, à qual se entrega a
que marcam duas fases de um processo histórico nos mesma prática pela qual tudo o que é vivo é
pontos de sutura da própria narrativa homérica. O oprimido. Isso está claramente expresso na posição
discurso homérico produz a universidade da dos intelectuais fascistas em face de Homero. Eles
linguagem, se já não a pressupõe. Ele dissolve a farejam na descrição homérica das relações feudais
ordem hierárquica da sociedade pela forma um elemento democrático, classificam o poema
exotérica de sua exposição, mesmo e justamente como uma obra de marinheiros e negociantes e
onde ele a glorifica. Cantar a ira de Aquiles e as rejeitam a epopeia jónica como um discurso
aventuras de Ulisses já é uma estilização nostálgica demasiado racional e uma comunicação demasiado
daquilo que não se deixa mais cantar, e o herói das corrente. O mau-olhado daqueles que se sentem
aventuras revela-se precisamente como um identificados com toda dominação que pareça
protótipo do indivíduo burguês, cujo conceito tem directa e que proscrevem toda mediação, o
origem naquela auto-afirmação unitária que “liberalismo” em qualquer nível, captou algo de
encontra seu modelo mais antigo no herói errante. correcto. De facto, as linhas da razão, da
Na epopeia, que é o oposto histórico-filosófico do liberalidade, da civilidade burguesa se estendem
romance, acabam por surgir traços que a incomparavelmente mais longe do que supõem os
assemelham ao romance, e o cosmo venerável do historiadores que datam o conceito do burguês a
mundo homérico pleno de sentido revela-se como partir tão-somente do fim do feudalismo medieval.
obra da razão ordenadora, que destrói o mito graças Ao identificar o burguês justamente onde o
precisamente à ordem racional na qual ela o reflecte. humanismo burguês mais antigo presumia uma
O discernimento do elemento esclarecedor aurora sagrada destinada a legitimá-lo, a reacção
burguês em Homero foi enfatizado pelos intérpretes neo-romântica identifica a história universal e o
da antiguidade ligados ao romantismo tardio alemão esclarecimento. A ideologia na moda, que faz da
e que seguiam os primeiros escritos de Nietzsche. liquidação do esclarecimento a primeira de suas
Nietzsche conhecia como poucos, desde Hegel, a causas, presta-lhe uma reverência involuntária e se
dialéctica do esclarecimento. Foi ele que formulou vê forçada a reconhecer a presença do pensamento
sua relação contraditória com a dominação. É esclarecido até mesmo no mais remoto passado. É
preciso “levar o esclarecimento ao povo, para que os justamente o vestígio mais antigo desse pensamento
padres se tornem todos padres cheios de má que representa para a má consciência dos espíritos
consciência – é preciso fazer a mesma coisa com o arcaicos de hoje a ameaça de desfechar mais uma
Estado. Eis a tarefa do esclarecimento: tornar, para vez todo o processo que intentaram sufocar e que,
os príncipes e estadistas, todo seu procedimento no entanto, ao mesmo tempo levam a cabo de
uma mentira deliberada. ..”1 Por outro lado, o maneira inconsciente.
esclarecimento sempre foi um meio dos “grandes Mas o discernimento do carácter
virtuosos na arte de governar (Confúcio na China, o antimitológico e esclarecido de Homero, de sua
Imperium Romanum, Napoleão, o papado na época oposição à mitologia ctónica, permanece longe da
em que se voltara para o poder e não apenas para o verdade na medida em que é limitado. Ao serviço da
mundo) ... A maneira pela qual as massas se ideologia repressiva, Rudolf Borchardt, por exemplo
enganam acerca desse ponto, por exemplo em toda o mais importante e por isso o mais impotente entre
democracia, é extremamente valiosa: o os pensadores esotéricos da indústria pesada alemã,
apequenamento e a governabilidade dos homens são interrompe cedo demais a análise. Ele não vê que os
1 2
Nietzsche, Nachlass. Werke. Vol. XIV, p. 206. Ibid., vol. XV, p. 235.

23
poderes originários enaltecidos já representam uma emergiram no pavor dos tempos primitivos. Mas as
fase do esclarecimento. Ao denunciar sem maiores aventuras contemplam cada lugar com seu nome, e é
qualificações a epopeia como romance, ele deixa a partir delas que se pode ter uma visão de conjunto
escapar que a epopeia e o mito têm de facto em e racional do espaço. O náufrago trémulo antecipa o
comum dominação e exploração. O elemento trabalho da bússola. Sua impotência, para a qual
ignóbil que ele condena na epopeia – a mediação e a nenhum lugar do mar permanece desconhecido, visa
circulação – é apenas o desdobramento desse ao mesmo tempo a destituição das potências. Mas a
duvidoso elemento de nobreza que ele diviniza no simples inverdade dos mitos – a saber, que o mar e a
mito: a violência nua e crua. A pretensa terra na verdade não são povoados de demónios,
autenticidade, o princípio arcaico do sangue e do efeitos do embuste mágico e da difusão da religião
sacrifício, já está marcado por algo da má popular tradicional – torna-se aos olhos do
consciência e da astúcia da dominação, que são emancipado um “erro” ou “desvio” comparado à
características da renovação nacional que se serve univocidade do fim que visa em seu esforço de
hoje dos tempos primitivos como recurso autoconservação: o retorno à pátria e aos bens
propagandístico. O mito original já contém o sólidos. As aventuras de que Ulisses sai vitorioso
aspecto da mentira que triunfa no carácter são todas elas perigosas seduções que desviam o eu
embusteiro do fascismo e que esse imputa ao da trajectória de sua lógica. Ele cede sempre a cada
esclarecimento. Mas nenhuma obra presta um nova sedução, experimenta-a como um aprendiz
testemunho mais eloquente do entrelaçamento do incorrigível e até mesmo, às vezes, impelido por
esclarecimento e do mito do que a obra homérica, o uma tola curiosidade, assim como um actor
texto fundamental da civilização europeia. Em experimenta insaciavelmente os seus papéis. “Mas
Homero, epopeia e mito, forma e conteúdo, não se onde há perigo, cresce também o que salva”:4 o
separam simplesmente, mas se confrontam e se saber em que consiste sua identidade e que lhe
elucidam mutuamente. O dualismo estético atesta a possibilita sobreviver tira sua substância da
tendência histórico-filosófica. “O Homero apolíneo experiência de tudo aquilo que é múltiplo, que
é apenas o continuador daquele processo artístico desvia, que dissolve e o sobrevivente sábio é ao
humano universal ao qual devemos a mesmo tempo aquele que se expõe mais
individuação.”3 audaciosamente à ameaça da morte, na qual se torna
Os mitos depositaram-se nas diversas duro e forte para a vida. Eis aí o segredo do
estratificações do texto homérico; mas o seu relato, processo entre a epopeia e o mito: o eu não constitui
a unidade extraída às lendas difusas, é ao mesmo o oposto rígido da aventura, mas só vem a se formar
tempo a descrição do trajecto de fuga que o sujeito em sua rigidez através dessa oposição, unidade que
empreende diante das potências míticas. Isto já vale é tão somente na multiplicidade de tudo aquilo que é
num sentido mais profundo para a Ilíada. A cólera negado por essa unidade.5 Como os heróis de todos
do filho mítico de uma deusa contra o rei guerreiro e
organizador racional, a inactividade indisciplinada 4
Hölderlin, Patmos (edição completa da Inselverlag, texto
desse herói, finalmente o facto de que o destino estabelecido por Zinkernagel) .Leipzig, s. d., p. 230.
5
nacional-helénico e não mais tribal alcança o morto Esse processo está directamente documentado no começo
do vigésimo canto. Ulisses observa como as servas se
vitorioso através da lealdade mítica ao companheiro esgueiram de noite ao encontro dos pretendentes “e o coração
morto, tudo isso confirma o entrelaçamento da em seu peito ladrava. Assim como a cadela valente anda em
história e da pré-história. Isso vale tanto mais redor de seus frágeis cachorrinhos e ladra para o desconhecido,
drasticamente para a Odisseia quanto mais esta se instigando-se para a luta, assim também ladrava o coração em
aproxima da forma do romance de aventuras. A seu peito, enfurecido pela conduta vergonhosa das servas.
Batendo no coração, punia-o com as seguintes palavras:
oposição do ego sobrevivente às múltiplas ‘Aguenta, coração! Mais duras penas suportaste no dia em que
peripécias do destino exprime a oposição do o ciclope monstruoso devorou enfurecido meus bravos amigos.
esclarecimento ao mito. A viagem errante de Tróia a Suportaste sozinho até que, graças a um estratagema, escapaste
Ítaca é o caminho percorrido através dos mitos por da caverna onde antevias uma noite horrorosa!” Assim falou.
um eu fisicamente muito fraco em face das forças da punindo o coração no peito irado. Logo o coração recobrou a
calma e quedou inabalável. Ele. porém, continuava a revolver-
natureza e que só vem a se formar na consciência de se para lá e para cá” (XX. 13/24). O sujeito ainda não está
si. O mundo pré-histórico está secularizado no configurado em sua identidade interna. Seus ímpetos. seu
espaço que ele atravessa; os antigos demónios ânimo e seu coração excitam-se independentemente dele. “No
povoam a margem distante e as ilhas do começo de y, ladra a kradia [kardía, coração] ou ainda o étor
Mediterrâneo civilizado, forçados a retroceder à [coração] (as duas palavras são sinónimas, 17.22) e Ulisses
bate no peito. logo contra o coração, e interpela-o. Ele sente o
forma do rochedo e da caverna, de onde outrora coração palpitar. logo esta parte de seu corpo excita-se contra
sua vontade. Assim, sua interpelação não é meramente formal
3
Nietzsche, op. cit. Vol. IX, p. 289. (como em Eurípedes, que interpela a mão e o pé quando estes

24
romances posteriores, Ulisses por assim dizer se os selvagens oferecendo-lhes contas de vidro
perde a fim de se ganhar. Para alienar-se da natureza coloridas em troca de marfim. É verdade que só às
ele se abandona à natureza, com a qual se mede em vezes ele aparece fazendo trocas, a saber, quando se
toda aventura, e, ironicamente, essa natureza dão e se recebem os presentes da hospitalidade. O
inexorável que ele comanda triunfa quando ele volta presente de hospitalidade homérico está a meio
– inexorável – para casa, como juiz e vingador do caminho entre a troca e o sacrifício. Como um acto
legado dos poderes de que escapou. Na fase sacrificial, ele deve pagar pelo sangue incorrido,
homérica, a identidade do eu é a tal ponto função do seja do estrangeiro, seja do residente vencido pelos
não-idêntico, dos mitos dissociados, inarticulados, piratas, e selar a paz. Mas, ao mesmo tempo, o
que ela tem que se buscar neles. Ainda é tão fraca a presente anuncia o princípio do equivalente: o
forma de organização interna da individualidade, o hospedeiro recebe real ou simbolicamente o
tempo, que a unidade das aventuras permanece equivalente de sua prestação, o hóspede um viático
exterior e sua sequência não passa da mudança que, basicamente, deve capacitá-lo a chegar em
espacial dos cenários, dos sítios das divindades casa. Mesmo que o hospedeiro não receba nenhuma
locais, para onde o arrasta a tempestade. Todas as compensação imediata, ele pode ter a certeza de que
vezes que o eu voltou a experimentar historicamente ele próprio ou seus parentes serão recebidos da
semelhante enfraquecimento, ou que o modo de mesma maneira: como sacrifício às divindades
expor pressupôs semelhante fraqueza no leitor, a elementares, o presente é ao mesmo tempo um
narrativa da vida resvalou novamente para a seguro rudimentar contra elas. A extensa mas
sucessão de aventuras. Na imagem da viagem, o perigosa navegação na Grécia antiga é o pressuposto
tempo histórico se desprende laboriosa e pragmático disto. O próprio Posseidon, o inimigo
revogavelmente do espaço, o esquema irrevogável elementar de Ulisses, pensa em termos de
de todo tempo mítico. equivalência, queixando-se de que aquele receba em
O recurso do eu para sair vencedor das todas as etapas de sua errática viagem mais
aventuras, perder-se para se conservar, é a astúcia. presentes do que teria sido sua parte nos despojos de
O navegador Ulisses logra as divindades da Tróia, caso Posseidon não lhe houvesse impedido
natureza, como depois o viajante civilizado logrará transportá-la. Em Homero, porém, é possível derivar
semelhante racionalização dos actos sacrificiais
devem entrar em acção), mas o coração age de maneira
propriamente ditos. Pode-se contar com a
autónoma” (Wilamowitz-Moellendorff, Die Heimkehr des benevolência das divindades conforme a magnitude
Odysseus. Berlim, 1927. p. 189). O ímpeto é equiparado ao das hecatombes. Se a troca é a secularização do
animal que o homem subjuga: a comparação da cadela sacrifício, o próprio sacrifício já aparece como o
pertence ao mesmo nível de experiência a que remete a esquema mágico da troca racional, uma cerimónia
imagem dos companheiros metamorfoseados em porcos. O
sujeito, ainda dividido e forçado a usar de violência contra a
organizada pelos homens com o fim de dominar os
natureza tanto dentro dele quanto fora dele, “pune” o coração deuses, que são derrubados exactamente pelo
exortando-o à paciência e negando-lhe com o olhar posto no sistema de veneração de que são objectos.6
futuro – o presente imediato. Bater no peito tornou-se depois
um gesto de triunfo: com esse gesto, o vencedor exprime o
6
facto de que sua vitória é sempre uma vitória sobre sua própria Contra a interpretação materialista de Nietzsche, Klages
natureza. Esse feito é levado a cabo pela razão interpretou a conexão entre o sacrifício e a troca num sentido
autoconservadora. “...a princípio, o narrador ainda estava inteiramente mágico: “A obrigação do sacrifício concerne a
pensando no coração que batia rebelde; superior a este era a cada um, porque a porção que cada um pode arrebatar à vida e
métís [inteligência, discernimento], que é assim claramente ao conjunto de seus bens – o suum cuique originário – só é
apresentada como uma outra força interna: foi ela que salvou conseguida num processo contínuo de dar e devolver. Mas não
Ulisses. Os filósofos posteriores tê-la-iam contraposto se trata da troca no sentido da troca de bens usual (que, aliás,
enquanto nous [razão, espírito, entendimento] ou logistikon [ também recebe sua consagração originária da noção de
(poder) capaz de entender, calcular] à parte da alma desprovida sacrifício), mas do intercâmbio dos fluidos ou essências pela
de entendimento” (Wilamowjtz. op. cit., p. 190). Do “eu” – entrega de sua própria alma à vida de que tudo depende e se
autós – só se fala no verso 24: depois que a razão conseguiu alimenta” (Ludwig Klages. Der Geist als Widersacher der
domar o instinto. Se atribuímos à escolha e sequência das Seele. Leipzig, 1932. Vol. Ill. 2.a parte. p. 1409). Contudo. o
palavras um valor demonstrativo, é preciso admitir que carácter dual do sacrifício – o mágico autoabandono do
Homero só vem a considerar o ego idêntico como o resultado indivíduo à colectividade, não importa se para seu bem ou para
do domínio da natureza intra-humana. Este novo eu estremece seu mal, e a autoconservação dessa magia pela técnica –
dentro de si, uma coisa. o corpo, depois que o coração foi implica uma contradição objectiva que impele justamente ao
punido nele. De qualquer maneira, a justaposição dos desenvolvimento do elemento racional no sacrifício. Sob o
elementos da alma (analisada em detalhe por Wilamowitz) influxo constante da magia, a racionalidade converte-se
.que frequentemente se dirigem uns aos outros, parece enquanto oomportamento do sacrificante em astúcia. O próprio
confirmar a frouxa e efémera composição do sujeito, cuja Klages, autor de uma entusiástica apologia do mito e do
substância consiste unicamente na coordenação desses sacrifício. tropeçou com isso e viu-se forçado a fazer uma
elementos. distinção, mesmo na imagem ideal da era pelásgica. entre a

25
A parte que o logro desempenha no sacrifício assassínio pela apoteose do escolhido. Algo desse
é o protótipo das astúcias de Ulisses, e é assim que embuste – que erige justamente a pessoa inerme em
muitos de seus estratagemas são armados à maneira portador da substância divina – sempre se pôde
de um sacrifício oferecido às divindades da perceber no ego, que deve sua própria existência ao
natureza.7 As divindades da natureza são logradas sacrifício do momento presente ao futuro. Sua
pelo herói do mesmo modo que pelos deuses substancialidade é aparência, assim como a
solares. Assim os amigos olímpicos de Ulisses imortalidade da vítima abatida. Não é à toa que
valem-se da estada de Posseidon entre os etíopes – Ulisses foi tido por muitos como uma divindade.
selvagens que ainda o veneram e lhe oferecem Enquanto os indivíduos forem sacrificados,
enormes sacrifícios – para escoltar a salvo seu enquanto o sacrifício implicar a oposição entre a
protegido. O logro já está envolvido no próprio colectividade e o indivíduo, a impostura será uma
sacrifício que Posseidon aceita prazerosamente: a componente objectiva do sacrifício. Se a fé na
limitação do amorfo deus do mar a uma localidade substituição pela vítima sacrificada significa a
determinada, a área sagrada, limita ao mesmo tempo reminiscência de algo que não é um aspecto
sua potência, e, para saciar-se nos bois etíopes, ele originário do eu, mas proveniente da história da
deve em troca renunciar a dar vazão à sua cólera em dominação, ele se converte para o eu plenamente
Ulisses. Todas as acções sacrificiais humanas, desenvolvido numa inverdade: o eu é exactamente o
executadas segundo um plano, logram o deus ao indivíduo humano ao qual não se credita mais a
qual são dirigidas: elas o subordinam ao primado força mágica da substituição. A constituição do eu
dos fins humanos, dissolvem seu poderio, e o logro corta exactamente aquela conexão flutuante com a
de que ele é objecto se prolonga sem ruptura no natureza que o sacrifício do eu pretende estabelecer.
logro que os sacerdotes incrédulos praticam sobre a Todo sacrifício é uma restauração desmentida pela
comunidade crédula. A astúcia tem origem no culto. realidade histórica na qual ela é empreendida. A fé
O próprio Ulisses actua ao mesmo tempo como venerável no sacrifício, porém, já é provavelmente
vítima e sacerdote. Ao calcular seu próprio um esquema inculcado, segundo o qual os
sacrifício, ele efectua a negação da potência a que se indivíduos subjugados infligem mais uma vez a si
destina esse sacrifício. Ele recupera assim a vida próprios a injustiça que lhes foi infligida, a fim de
que deixara entregue. Mas o logro, a astúcia e a poder suportá-la. O sacrifício não salva, por uma
racionalidade não se opõem simplesmente ao restituição substitutiva, a comunicação imediata
arcaísmo do sacrifício. O que Ulisses faz é tão- apenas interrompida que os mitólogos de hoje lhe
somente elevar à consciência de si a parte de logro atribuem, mas, ao contrário, a instituição do
inerente ao sacrifício, que é talvez a razão mais sacrifício é ela própria a marca de uma catástrofe
profunda para o carácter ilusório do mito. A histórica, um acto de violência que atinge os
experiência de que a comunicação simbólica com a homens e a natureza igualmente. A astúcia nada
divindade através do sacrifício nada tem de real só mais é do que o desdobramento subjectivo dessa
pode ser uma experiência antiquíssima. A inverdade objectiva do sacrifício que ela vem
substituição que ocorre no sacrifício, exaltada pelos substituir. Talvez essa inverdade não tenha sido
defensores de um irracionalismo em moda, não deve sempre apenas uma inverdade. Pode ser que, em
ser separada da divinização do sacrificado, ou seja, determinada época8 dos tempos primitivos, os
do embuste que é a racionalização sacerdotal do sacrifícios tenham possuído uma espécie de
racionalidade crua, que no entanto já então mal se
podia separar da sede de privilégios. A teoria do
genuína comunicação com a natureza e a mentira. sem sacrifício predominante hoje em dia relaciona-o à
conseguir no entanto derivar do próprio pensamento mítico um
princípio oposto à aparência da dominação mágica da
representação do corpo colectivo, da tribo, à qual
natureza, porque essa aparência constitui justamente a essência deve refluir como força o sangue derramado do
do mito. “Já não é mais simplesmente a fé pagã, já é também
superstição pagã quando, por exemplo. o rei-deus tem que
8
jurar. ao subir ao trono, que fará o sol brilhar e o campo cobrir- Dificilmente na mais antiga. “O costume do sacrifício
se de frutos” (Klages, op. cit., p. 1408). humano. ..é muito mais difundido entre bárbaros e povos
7
Isso se harmoniza com o facto de que os sacrifícios semicivilazados do que entre os verdadeiros selvagens, e é
humanos propriamente ditos não ocorrem em Homero. A praticamente desconhecido nos estágios inferiores da cultura.
tendência civilizatória da epopeia manifesta-se na escolha dos Em vários povos observou-se que ele foi se difundindo ao
acontecimentos relatados. “With one exception...both Iliad and longo do tempo. como, por exemplo, nas Ilhas da Sociedade,
Odyssey are completely expurgated of the abomination of na Polinésia. na India. entre os Astecas. “Relativamente aos
Human Sacrifict” [“Com uma única exceção. ..tanto a Ilíada africanos, diz Winwood Read: ‘Quanto mais poderosa a nação,
quanto a Odisseia estão completamente expurgadas da tanto mais importante o sacrifício’” (Eduard Westermarck,
abominação do Sacrifício Humano”] (Gilbert Murray, The Rise Ursprung und Entwicklung der Moralbegriffe. Leipzig, 1913,
of the Greek Epic. Oxford, 1911. p. 150). vol. I, p. 363).

26
membro da tribo. Embora o totemismo já fosse em mais recentes são apenas reprises das mais antigas,
sua época uma ideologia, ele marca no entanto um que se estendem tanto mais aquém das ideologias
estado real em que a razão dominante precisava dos anteriormente conhecidas quanto mais o
sacrifícios. É um estado de carência arcaica, onde é desenvolvimento da sociedade de classes desmente
difícil distinguir os sacrifícios humanos do as ideologias anteriormente sancionadas. A
canibalismo. Em certos momentos, com seu irracionalidade tão invocada do sacrifício exprime
aumento numérico, a colectividade só consegue simplesmente o facto de que a prática dos sacrifícios
sobreviver provando a carne humana. É possível sobreviveu à sua própria necessidade racional, que
que, em muitos grupos étnicos ou sociais, o prazer já constituía uma inverdade, isto é, já era particular.
estivesse ligado ao canibalismo de uma maneira da É dessa separação entre a racionalidade e a
qual só o horror da carne humana dá hoje irracionalidade do sacrifício que a astúcia se utiliza.
testemunho. Costumes de épocas posteriores como o Toda desmitologização tem a forma da experiência
do ver sacrum, onde em tempos de fome uma inevitável da inanidade e superfluidade dos
geração inteira de adolescentes era forçada a sacrifícios.
emigrar em meio a cerimônias rituais, conservam de Se, por causa de sua irracionalidade, o
uma maneira bastante clara os traços dessa princípio do sacrifício se revela efémero, ele perdura
racionalidade bárbara e transfigurada. O carácter ao mesmo tempo em virtude de sua racionalidade.
ilusório dessa racionalidade deve ter se revelado Essa se transformou, não desapareceu. O eu
muito antes da formação das religiões populares: consegue escapar à dissolução na natureza cega,
assim, quando a caça sistemática começou a prover cuja pretensão o sacrifício não cessa de proclamar.
a tribo de um número suficiente de animais para Mas ao fazer isso ele permanece justamente preso
tornar supérflua a antropofagia, os caçadores e ao contexto natural como um ser vivo que quer se
colocadores de armadilhas sensatos devem ter afirmar contra um outro ser vivo. A substituição do
ficado desconcertados com a ordem dos feiticeiros sacrifício pela racionalidade autoconservadora não é
de que os membros da tribo se deixassem devorar.9 menos troca do que o fora o sacrifício. Contudo, o
A interpretação mágica e colectiva do sacrifício, que eu que persiste idêntico e que surge com a
nega totalmente sua racionalidade, é a sua superação do sacrifício volta imediatamente a ser
racionalização; mas a hipótese esclarecida e linear um ritual sacrificial duro, petrificado, que o homem
de que o que hoje seria ideologia poderia ter sido se celebra para si mesmo opondo sua consciência ao
outrora verdade é ingénua demais:10 as ideologias contexto da natureza. Eis aí a verdade da célebre
narrativa da mitologia nórdica, segundo a qual Odin
9
se pendurou numa árvore em sacrifício por si
Entre os povos antropófagos, como os da África Ocidental, mesmo, e da tese de Klages que todo sacrifício é o
não podiam “provar dessa iguaria nem as mulheres nem os
adolescentes” (E. Westermarck, op. cit. Leipzig, 1909. Vol II,
sacrifício do deus ao deus, tal como ainda se
p. 459). apresenta nesse disfarce monoteísta do mito que é a
10
Wilamowitz coloca o nous em “nítida oposição” ao logos
(Glaube der Hellenen, Berlim, 1931. Vol. I, pp. 41 sg). O mito
é para ele uma “história como a gente se conta a si mesma”,
fábula infantil, inverdade, ou ainda, ao mesmo tempo, a
verdade suprema que não é passível de prova, como em Platão. grego sobre coisas gregas” (op. cit., p. 10). Como
Enquanto Wilamowitz está consciente do carácter ilusório dos compatibilizar isso, a saber, a opinião expressa sem maiores
mitos, ele equipara-os à poesia. Ou por outra: ele procura-os justificativas e segundo a qual “o germe da divindade platónica
em primeiro lugar na linguagem significativa que já está em já se encontrava no mais antigo helenismo”, com a concepção
contradição objectiva com sua intenção, contradição essa que histórica defendida por Kirchhoff e adoptada por Wilamowitz,
ela, enquanto poesia. tenta racionalizar: “O mito é, antes de que vê nos encontros míticos do nostos [retorno, volta à casa,
mais nada, o discurso falado; a palavra não concerne jamais a viagem] o núcleo mais antigo do livro da Odisseia? Isso não é
seu conteúdo” (loc. cit.). Ao hipostasiar esse conceito tardio do esclarecido e o próprio conceito do mito, que é um conceito
mito. que já pressupõe a razão como sua contrapartida central, não encontra em Wilamowitz uma articulação
explícita, e polemizando implicitamente com Bachofen – que é filosófica suficiente. Entretanto, sua resistência ao
para ele um modismo de que zomba sem, no entanto, irracionalismo que enaltece o mito e sua insistência na
pronunciar seu nome –, ele chega a uma nítida separação da inverdade dos mitos contém um profundo discernimento, que
mitologia e da religião (op. cit., p. 5), na qual o mito aparece, não devemos ignorar. A aversão ao pensamento primitivo e à
não como a fase mais antiga, mas justamente como a mais pré-história destaca com clareza tanto maior a tensão que já
recente: “Estou tentando seguir o vir-a-ser, as transformações e havia sempre entre a palavra enganosa e a verdade. 0 que
a passagem da fé ao mito” (op. cit, p. 1). A obstinada Wilamowitz censura aos mitos posteriores, o arbítrio da
arrogância departamental do helenista impede-lhe o invenção. já devia estar presente nos mais antigos em virtude
discernimento da dialéctica do mito, da religião e do do pseudos [mentira, inverdade, engano] dos sacrifícios. Esse
esclarecimento. “Não compreendo as línguas às quais se pseudos tem justamente um parentesco com a divindade
tomaram as palavras tabu e totem;, mana e orenda, mas platónica que Wilamowitz faz remontar à fase arcaica do
considero um caminho viável ater-me aos gregos e pensar espírito helénico.

27
cristologia.11 Só que o extracto da mitologia no qual sempre a se refrear12 e assim deixa escapar a vida
o eu aparece como sacrifício a si mesmo não que salvou e que só recorda como uma viagem de
exprime tanto a concepção originária da religião erros. No entanto, ele é ao mesmo tempo uma
popular quanto a acolhida do mito na civilização. vítima que se sacrifica pela abolição do sacrifício.
Na história das classes, a hostilidade do eu ao Sua renúncia senhoril é, enquanto luta com o mito,
sacrifício incluía um sacrifício do eu, porque seu representativa de uma sociedade que não precisa
preço era a negação da natureza no homem, em vista mais da renúncia e da dominação: que se tornou
da dominação sobre a natureza extra-humana e senhora de si, não para fazer violência a si mesma e
sobre os outros homens. Exactamente essa negação, aos outros, mas para a reconciliação.
núcleo de toda racionalidade civilizatória, é a célula A transformação do sacrifício em
da proliferação da irracionalidade mítica. Com a subjectividade tem lugar sob o signo daquela astúcia
negação da natureza no homem, não apenas o telos que sempre teve uma parte no sacrifício. Na
da dominação externa da natureza, mas também o inverdade da astúcia, a fraude presente no sacrifício
telos da própria vida se torna confuso e opaco. No torna-se um elemento do carácter, uma mutilação do
instante em que o homem elide a consciência de si herói astuto arrojado pelo mar13 e cuja fisionomia
mesmo como natureza, todos os fins para os quais está marcada pelos golpes que desferiu contra si
ele se mantém vivo – o progresso social, o aumento mesmo a fim de se autoconservar. Aí se exprime a
de suas forças materiais e espirituais, até mesmo a relação entre o espírito e a força física. O portador
própria consciência – tornam-se nulos, e a do espírito, o que comanda (e é assim que o
entronização do meio como fim, que assume no astucioso Ulisses é quase sempre apresentado) é,
capitalismo tardio o carácter de um manifesto apesar dos relatos de suas façanhas, sempre
desvario, já é perceptível na proto-história da fisicamente mais fraco do que as potências dos
subjectividade. O domínio do homem sobre si tempos primitivos com as quais deve lutar pela vida.
mesmo, em que se funda o seu ser, é sempre a Os episódios celebrando a pura força física do
destruição virtual do sujeito ao serviço do qual ele aventureiro, o pugilato patrocinado pelos
ocorre; pois a substância dominada, oprimida e
dissolvida pela autoconservação, nada mais é senão 12
o ser vivo, cujas funções configuram, elas tão- Assim, por exemplo, quando renuncia a matar
imediatamente Polifemo (IX, 302); quando suporta os
somente, as actividades da autoconservação, por maltratos de Antinoo para não se trair (XVII, 460 sgg.). Cf.
conseguinte exactamente aquilo que na verdade além disso o episódio com os ventos (X, 50 sgg.) e a profecia
devia ser conservado. A anti-razão do capitalismo de Tirésias na primeira nekyia [sacrifício aos mortos] (XI, 105
totalitário, cuja técnica de satisfazer necessidades, sgg.), que põe a volta à casa na dependência de sua capacidade
em sua forma objectualizada, determinada pela de domar o coração. Todavia, a renúncia de Ulisses ainda não
tem um carácter definitivo, mas apenas de adiamento: as
dominação, torna impossível a satisfação de vinganças que ele se proíbe, no mais das vezes ele as perpetra
necessidades e impele ao extermínio dos homens – depois de uma maneira ainda mais perfeita: O sofredor é o
essa anti-razão está desenvolvida de maneira paciente. Até certo ponto, seu comportamento manifesta
prototípica no herói que se furta ao sacrifício abertamente, como uma finalidade espontânea, o que depois se
sacrificando-se. A história da civilização é a história esconde na renúncia total e imperativa, para só então tomar
uma força irresistível, a força da subjugação universal da
da introversão do sacrifício. Ou por outra, a história natureza. Transposta para o sujeito, emancipada do conteúdo
da renúncia. Quem pratica a renúncia dá mais de sua mítico dado, essa subjugação torna-se “objectiva”, dotada da
vida do que lhe é restituído, mais do que a vida que autonomia de uma coisa em face de toda finalidade particular
ele defende. Isso fica evidente no contexto da falsa do homem; ele se torna uma lei racional universal. Já na
sociedade. Nela cada um é demais e se vê logrado. paciência de Ulisses, e de maneira muito nítida após a matança
dos pretendentes, a vingança se transforma num procedimento
Mas é por uma necessidade social que quem quer jurídico: é justamente a satisfação finita da ânsia mítica que se
que se furte à troca universal, desigual e injusta, que torna o instrumento objectivo da dominação. O direito é a
não renuncie, mas agarre imediatamente o todo vingança abdicante. Mas, ao se formar com base em algo que
inteiro, por isso mesmo há de perder tudo, até está fora dela: a nostalgia da pátria, essa paciência judicial
mesmo o resto miserável que a auto-conservação lhe adquire traços humanos e até mesmo, quase, os da confiança,
que transcendem a vingança diferida. Depois, na sociedade
concede. Todos esses sacrifícios supérfluos são burguesa plenamente desenvolvida, as duas coisas são
necessários: contra o sacrifício. Uma vítima de um cobradas: com a ideia da vingança, a nostalgia também
desses sacrifícios é o próprio Ulisses, o eu que está sucumbe ao tabu, o que significa justamente a entronização da
vingança, mediada como vingança do eu contra si mesmo.
13
Os autores jogam com o duplo sentido da palavra alemã
verschlagen. que significa: 1) astuto. ardiloso, manhoso; 2)
11
Essa concepção do cristianismo como religião sacrificial arremessado, arrojado (à praia, à costa) pelo mar ou pelo
pagã é essencialmente a base do livro de Werner Hegemann: acaso, bem como com seu parentesco com Schlag [golpe] e
Geretteter Christus. Potsdam, 1928. schlagen [bater, golpear] .(N. do T.)

28
pretendentes com o mendigo Iros e o retesamento do sobrevivência na dependência por assim dizer da
arco, são de natureza desportiva. A autoconservação confissão da própria derrota e virtualmente da
e a força física separaram-se: as habilidades atléticas morte, já contém in nuce o princípio da desilusão
de Ulisses são as do gentleman, que, livre dos burguesa, o esquema exterior para a interiorização
cuidados práticos, pode treinar de uma maneira ao do sacrifício, a renúncia. O astucioso só sobrevive
mesmo tempo senhoril e controlada. A força ao preço de seu próprio sonho, a quem ele faz as
dissociada da autoconservação reverte em proveito contas desencantando-se a si mesmo bem como aos
da autoconservação: no agon14 com o mendigo poderes exteriores. Ele jamais pode ter o todo; tem
fraco, voraz, indisciplinado, ou com os que vivem sempre de saber esperar, ter paciência, renunciar;
no ócio, Ulisses inflige simbolicamente aos não pode provar do lótus nem tampouco da carne
atrasados aquilo que a dominação territorial dos bois de Hipérion; e quando guia sua nau por
organizada há muito já fizera com eles na realidade, entre os rochedos, tem de incluir em seu cálculo a
e assim prova sua nobreza. Quando, porém, perda dos companheiros que Cila arranca ao navio.
encontra potências do mundo primitivo, que não se Ele tem que se virar, eis aí sua maneira de
domesticaram nem se afrouxaram, suas dificuldades sobreviver, e toda a glória que ele próprio e os
são maiores. Ele não pode jamais travar luta física outros aí lhe concedem confirma apenas que a
com os poderes míticos que continuam a existir à dignidade de herói só é conquistada humilhando a
margem da civilização. Ele tem que reconhecer ânsia de uma felicidade total, universal, indivisa.
como um. facto os cerimoniais sacrificiais com os A fórmula para a astúcia de Ulisses consiste
quais acaba sempre por se envolver, pois não tem em fazer com que o espírito instrumental,
força para infringi-los. Em vez disso, faz deles o amoldando-se resignadamente à natureza, dê a esta
pressuposto formal de sua própria decisão racional, o que a ela pertence e assim justamente a logre. Os
que se realizará sempre, por assim dizer, no interior monstros míticos em cujo poder ele cai representam
do veredicto proto-histórico subjacente à situação sempre, por assim dizer, contratos petrificados,
sacrificial. O facto de que o sacrifício antigo se reivindicações pré-históricas. É assim que a religião
tornara entrementes ele próprio irracional apresenta- popular antiga, numa fase avançada da era
se à inteligência do mais fraco como a estupidez do patriarcal, se apresenta em suas relíquias dispersas:
ritual. Ele permanece aceite, sua letra é estritamente sob o céu olímpico, elas se tornaram figuras do
observada. Mas a sentença que perdeu o sentido destino abstracto, da necessidade distante dos
refuta-se a si mesma pelo facto de que seu próprio sentidos. A impossibilidade, por exemplo, de
estatuto dá margem a que se esquive a ela. É escolher uma rota diversa da que passa por entre
exactamente o espírito dominador da natureza que Cila e Caríbdis pode ser compreendida de maneira
reivindica sempre a superioridade da natureza na racionalista como a transformação mítica da
competição. Todo esclarecimento burguês está de superioridade das correntes marítimas sobre as
acordo na exigência de sobriedade, realismo, pequenas embarcações da antiguidade. Mas, nessa
avaliação correcta de relações de força. O desejo transferência objectualizadora operada pelo mito, a
não deve ser o pai do pensamento. Mas isso deriva relação natural entre força e impotência já assumiu o
do facto de que, na sociedade de classes, todo carácter de uma relação jurídica. Cila e Caríbdis têm
poderio está ligado à consciência incómoda da o direito de reclamar aquilo que lhes cai entre os
própria impotência diante da natureza física e de dentes, assim como Circe tem o direito de
seus herdeiros sociais, a maioria. Só a adaptação metamorfosear quem quer que não seja imune à sua
conscientemente controlada à natureza a coloca sob mágica, ou Polifemo o direito de devorar seus
o poder dos fisicamente mais fracos. A ratio, que hóspedes. Cada uma das figuras míticas está
recalca a mimese, não é simplesmente seu contrário. obrigada a fazer sempre a mesma coisa. Todas
Ela própria é mimese: a mimese do que está morto. consistem na repetição: o malogro desta seria seu
O espírito subjectivo que exclui a alma da natureza fim. Todas têm os traços daquilo que, nos mitos
só domina essa natureza privada da alma imitando punitivos do inferno – os mitos de Tântalo, de
sua rigidez e excluindo-se a si mesmo como Sísifo, das Danaides –, se fundamenta no veredicto
animista. A imitação se põe ao serviço da do Olimpo. São figuras da compulsão: as
dominação na medida em que até o homem se atrocidades que cometem representam a maldição
transforma num antropomorfismo para o homem. O que pesa sobre elas. A inevitabilidade mítica é
esquema da astúcia ulissiana é a dominação da definida pela equivalência entre essa maldição, o
natureza mediante essa assimilação. A avaliação das crime que a expia e a culpa que dele resulta e
relações de força, que de antemão coloca a reproduz a maldição. A justiça traz até hoje a marca
desse esquema. No mito, cada ponto do ciclo faz
14
Palavra grega que significa “luta”. (N. do T.)

29
reparação ao precedente e ajuda assim a instalar Esfinge quando Édipo resolveu o enigma,
como lei as relações de culpa. É a isso que se opõe cumprindo sua ordem e assim precipitando sua
Ulisses. O eu representa a universalidade racional queda. Pois o direito das figuras míticas, que é o
contra a inevitabilidade do destino. Mas, como ele direito do mais forte, vive tão-somente da
encontra o universal e o inevitável entrelaçados, sua impossibilidade de cumprir seu estatuto. Se este é
racionalidade assume necessariamente uma forma satisfeito, então tudo acabou para os mitos até sua
restritiva, a da excepção. Ele está obrigado a se mais remota posteridade. Desde o feliz e malogrado
subtrair às relações jurídicas que o encerram e o encontro de Ulisses com as Sereias, todas as
ameaçam e que, de certa maneira, estão inscritas em canções ficaram afectadas, e a música ocidental
cada figura mítica. Ele satisfaz o estatuto jurídico de inteira labora no contra-senso que representa o canto
tal sorte que este perde seu poder sobre ele, na na civilização, mas que, ao mesmo tempo, constitui
medida mesmo em que lhe concede esse poder. É de novo a força motora de toda arte musical.
possível ouvir as Sereias e a elas não sucumbir: não Com a dissolução do contrato através de sua
se pode desafiá-las. Desafio e cegueira são uma só observância literal, altera-se a posição histórica da
coisa, e quem as desafia está por isso mesmo linguagem: ela começa a transformar-se em
entregue ao mito ao qual se expõe. A astúcia, designação. O destino mítico, fatum, e a palavra
porém, é o desafio que se tornou racional. Ulisses falada eram uma só coisa. A esfera das
não tenta tomar um caminho diverso do que passa representações a que pertencem as sentenças do
pela ilha das Sereias. Tampouco tenta, por exemplo, destino executadas invariavelmente pelas figuras
alardear a superioridade de seu saber e escutar míticas ainda não conhece a distinção entre palavra
livremente as sedutoras, na presunção de que sua e objecto. A palavra deve ter um poderio imediato
liberdade constitua protecção suficiente. Ele se sobre a coisa, expressão e intenção confluem. A
apequena, o navio toma sua rota predeterminada e astúcia, contudo, consiste em explorar a distinção,
fatal, e ele se dá conta de que continua como agarrando-se à palavra, para modificar a coisa.
ouvinte entregue à natureza, por mais que se Surge assim a consciência da intenção: premido pela
distancie conscientemente dela. Ele cumpre o necessidade, Ulisses se apercebe do dualismo, ao
contrato de sua servidão15 e se debate amarrado ao descobrir que a palavra idêntica pode significar
mastro para se precipitar nos braços das corruptoras. coisas diferentes. Como o nome Oudeis16 pode ser
Mas ele descobriu no contrato uma lacuna pela qual atribuído tanto ao herói quanto a ninguém, Ulisses
escapa às suas normas, cumprindo-as. O contrato consegue romper o encanto do nome. As palavras
antiquíssimo não prevê se o navegante que passa ao imutáveis permanecem fórmulas para o contexto
largo deve escutar a canção amarrado ou inexorável da natureza. Na magia, sua rigidez já
desamarrado. O costume de amarrar os prisioneiros devia fazer face à rigidez do destino que ao mesmo
pertence a uma fase em que eles não são mais tempo se reflectia nela. Isso já implicava a oposição
sumariamente executados. Ulisses reconhece a entre a palavra e aquilo ao qual ela se assimilava.
superioridade arcaica da canção deixando-se, Na fase homérica, essa oposição torna-se
tecnicamente esclarecido, amarrar. Ele se inclina à determinante. Ulisses descobre nas palavras o que
canção do prazer e frustra-a como frustra a morte. O na sociedade burguesa plenamente desenvolvida se
ouvinte amarrado quer ir ter com as Sereias como chama formalismo: o preço de sua validade
qualquer outro. Só que ele arranjou um modo de, permanente é o facto de que elas se distanciam do
entregando-se, não ficar entregue a elas. Apesar da conteúdo que as preenche em cada caso e que, a
violência de seu desejo, que reflecte a violência das distância, se referem a todo conteúdo possível, tanto
próprias semideusas, ele não pode reunir-se a elas, a ninguém quanto ao próprio Ulisses. É do
porque os companheiros a remar, com os ouvidos formalismo dos nomes e estatutos míticos, que
tapados de cera, estão surdos não apenas para as querem reger com a mesma indiferença da natureza
semideusas, mas também para o grito desesperado os homens e a história, que surge o nominalismo, o
de seu comandante. As Sereias recebem sua parte, protótipo do pensamento burguês. A astúcia da
mas, na proto-história da burguesia, isto já se autoconservação vive do processo que rege a
neutralizou na nostalgia de quem passa ao largo. A relação entre a palavra e a coisa. Os dois actos
epopeia cala-se acerca do que acontece às cantoras contraditórios de Ulisses no encontro com Polifemo
depois que o navio desapareceu. Mas, na tragédia, – sua obediência ao nome e seu repúdio dele – são,
deveria ter sido sua última hora, como foi a da porém, mais uma vez a mesma coisa. Ele faz

15 16
Os autores jogam com a origem comum das palavras Oudeis, palavra grega que significa “ninguém” e que é o
Hörender [ouvinte, o que escuta] e Hörigkeit [servidão] .(N. nome que Ulisses se dá ao falar com ciclope Polifemo. (N. do
do T.) T.)

30
profissão de si mesmo negando-se como Ninguém, lucro. Do ponto de vista das sociedades de troca
ele salva a própria vida fazendo-se desaparecer. desenvolvidas e dos indivíduos que as compõem, as
Essa adaptação pela linguagem ao que está morto aventuras de Ulisses nada mais são do que a
contém o esquema da matemática moderna. descrição dos riscos que constituem o caminho para
A astúcia como meio de uma troca onde tudo o sucesso. Ulisses vive segundo o princípio
se passa correctamente, onde o contrato é respeitado primordial que constituiu outrora a sociedade
e, no entanto, o parceiro é logrado, remete a um burguesa. A escolha era entre lograr ou arruinar-se.
modelo económico que aparece, senão nos tempos O logro era a marca da ratio, traindo sua
míticos, pelo menos na aurora da antiguidade: é a particularidade. Por isso a socialização universal,
antiquíssima “troca ocasional” entre economias esboçada na história de Ulisses, o navegante do
domésticas fechadas. “Os excedentes são trocados mundo, e na de Robinson, o fabricante solitário, já
ocasionalmente, mas a principal fonte do implica desde a origem a solidão absoluta, que se
abastecimento é a autoprodução.”17 O torna manifesta ao fim da era burguesa. Socialização
comportamento do aventureiro Ulisses lembra o radical significa alienação radical. Ulisses e
comportamento do trocador ocasional. Mesmo sob a Robinson têm ambos a ver com a totalidade: aquele
figura patética do mendigo, o homem feudal exibe a percorre, este a produz. Ambos só a realizam em
os traços do comerciante oriental18 que retorna com total separação de todos os demais homens. Estes só
riquezas inauditas, porque, pela primeira vez e vêm ao encontro dos dois em uma feição alienada,
opondo-se à tradição, saiu do âmbito da economia como inimigos ou como pontos de apoio, sempre
doméstica e “embarcou”. Do ponto de vista como instrumentos, como coisas.
económico, o elemento aventureiro de seus Uma das primeiras aventuras do nostos19
empreendimentos nada mais é do que o aspecto propriamente dito remonta, é verdade, muito mais
irracional de sua ratio em face da forma económica alto, e até mesmo muito aquém da era bárbara das
tradicionalista ainda predominante. Essa caretas dos demónios e das divindades mágicas.
irracionalidade da ratio sedimentou-se na astúcia Trata-se da narrativa dos lotófagos, dos comedores
enquanto assimilação da razão burguesa – àquela de lótus. Quem prova de sua comida sucumbe como
irrazão que vem a seu encontro como um poder os que escutam as Sereias ou como os que foram
ainda maior. O solitário astucioso já é o homo tocados pela varinha de Circe. Todavia, nenhum mal
oeconomicus, ao qual se assemelham todos os seres é feito a suas vítimas: “Os lotófagos nenhum mal
racionais: por isso, a Odisseia já é uma robinsonada. fizeram aos homens de nosso grupo.”20 A única
Os dois náufragos prototípicos fazem de sua ameaça é o esquecimento e a destruição da vontade.
fraqueza – a fraqueza do indivíduo que se separa da A maldição condena-os unicamente ao estado
colectividade – sua força social. Entregues ao acaso primitivo sem trabalho e sem luta na “fértil
das ondas, desamparadamente isolados, seu campina”:21 “ora, quem saboreava a planta do lótus,
isolamento dita-lhes a perseguição implacável do mais doce do que o mel, não pensava mais em trazer
interesse atomístico. Eles personificam o princípio notícias nem em voltar, mas só queria ficar aí, na
da economia capitalista, antes mesmo que esta companhia dos lotófagos, colhendo o lótus, e
recorra aos serviços de um trabalhador: mas os bens esquecido da pátria”.22 Essa cena idílica – que
que salvam do naufrágio para empregar em um novo lembra a felicidade dos narcóticos, de que se servem
empreendimento transfiguram a verdade segundo a as camadas oprimidas nas sociedades endurecidas, a
qual o empresário jamais enfrentou a competição fim de suportar o insuportável –, essa cena, a razão
unicamente com o labor de suas mãos. Sua autoconservadora não pode admiti-la entre os seus.
impotência em face da natureza já funciona como Esse idílio é na verdade a mera aparência da
justificação ideológica de sua supremacia social. O felicidade, um estado apático e vegetativo, pobre
desamparo de Ulisses diante da fúria do mar já soa como a vida dos animais e no melhor dos casos a
como a legitimação do viajante que se enriquece à ausência da consciência da infelicidade. Mas a
custa do nativo. Foi isso que a teoria económica felicidade encerra a verdade. Ela é essencialmente
burguesa fixou posteriormente no conceito do risco: um resultado e se desenvolve na superação do
a possibilidade da ruína é a justificação moral do sofrimento. E essa a justificação do herói sofredor,
que não sofre permanecer entre os lotófagos. Ele
17
Max Weber. Wirtschaftsgeschichte. Munique e Leipzig,
19
1924, p. 3. Nostos, palavra grega que significa retorno, volta à casa,
18
Victor Bérard ressaltou com particular ênfase (mas não, é viagem (cf. “nostalgia”). (N. do T.)
20
verdade, sem alguma construção apócrifa) o elemento semítico Odisseia IX, 92 sg.
21
da Odisseia. Cf. o capítulo: “Les Phéniciens et l’Odyssée” em Ibid. XXIII, 311.
22
sua Résurrection d’Homer. Paris, 1930, pp. 111 sgg. Ibid. IX, 94 sgg.

31
defende contra estes a própria causa deles, a traz em seu olho do tamanho de uma roda o vestígio
realização da utopia, através do trabalho histórico, do mesmo mundo pré-histórico: esse olho único
pois o simples facto de se demorar na imagem da lembra o nariz e a boca, mais primitivos do que a
beatitude é suficiente para roubar-lhe o vigor. Mas simetria dos olhos e dos ouvidos,28 que, na unidade
ao perceber essa justificação, a racionalidade, isto é, de duas percepções coincidentes, vem possibilitar a
Ulisses, entra forçosamente no contexto da injustiça. identificação, a profundidade e a objectualidade em
Enquanto imediata, sua própria acção resulta em geral. Mas ele representa, no entanto, em face dos
favor da dominação. Essa felicidade “nos limites do lotófagos, uma era posterior, a era propriamente
mundo”23 é tão inadmissível para a razão bárbara, que é a dos caçadores e pastores. Ele chama
autoconservadora quanto a felicidade mais perigosa os ciclopes de “celerados sem lei”,29 porque eles (e
de fases posteriores. Os preguiçosos são despertados nisso há algo que se assemelha a uma secreta
e transportados para as galeras: “mas eu os trouxe confissão de culpa da própria civilização)
de novo à força, debulhados em lágrimas, para as “confiando no poderio dos deuses imortais, nada
naus; arrastei-os para os navios espaçosos e amarrei- cultivam com as mãos, plantando ou lavrando; mas,
os debaixo dos bancos.”24 O lótus é um alimento sem ninguém para plantar ou cultivar, crescem as
oriental. Ainda hoje, cortado em finas fatias, plantas, tanto o trigo quanto a cevada e as nobres
desempenha seu papel na cozinha chinesa e indiana. cepas, carregadas de grandes cachos, que a chuva de
A tentação que lhe é atribuída, não é talvez, outra Crônion vem nutrir”.30 A abundância não precisa da
coisa senão a da regressão à fase da colecta dos lei e a acusação civilizatória da anarquia soa quase
frutos da terra25 e do mar, anterior à agricultura, à como uma denúncia da abundância: “aí não há nem
pecuária e mesmo à caça, em suma, a toda a leis nem assembleias do povo, mas habitam em
produção. Não é certamente por acaso que a epopeia volta dos penhascos das montanhas em grutas
liga a imagem do país de Cocanha à alimentação de côncavas; e cada um dita arbitrariamente a lei às
flores, mesmo que se trate de flores nas quais nada mulheres e às crianças; e ninguém tem consideração
de semelhante se possa hoje notar. O hábito de pelos outros”.31 Já é uma sociedade patriarcal,
comer flores – que ainda se pratica à sobremesa no baseada na opressão dos fisicamente mais fracos,
Próximo Oriente e que as crianças europeias mas ainda não organizada segundo o critério da
conhecem das massas assadas com leite de rosas e propriedade fixa e de sua hierarquia; e é a ausência
das violetas cristalizadas – é a promessa de um de vínculos entre os habitantes das cavernas que
estado em que a reprodução da vida se tornou explica a ausência de uma lei objectiva e assim
independente da autoconservação consciente e o justifica a censura homérica da desconsideração
prazer de se fartar se tornou independente da recíproca, característica do estado selvagem. Ao
utilidade de uma alimentação planejada. A mesmo tempo, a fidelidade pragmática do narrador
lembrança da felicidade mais remota e mais antiga, desmente numa passagem posterior seu juízo
que desperta o sentido do olfacto, ainda está civilizado: toda a tribo atende ao grito de pavor do
intimamente ligada à proximidade extrema da ciclope cegado para ajudá-lo, e apenas o
incorporação. Ela remete à proto-história. Não estratagema que Ulisses arma com seu nome impede
importa quantos tormentos os homens aí padeceram, os tolos de darem assistência ao seu semelhante.32 A
eles não conseguem imaginar nenhuma felicidade estupidez e a ausência de leis aparecem como o
que não se nutra da imagem dessa proto-história: mesmo atributo: quando Homero chama o ciclope
“assim prosseguimos viagem, com o coração de “monstro que pensa sem lei”,33 isso não significa
amargurado”.26 meramente que ele não respeite em seu pensamento
A próxima figura à qual o astucioso Ulisses é as leis da civilidade. Isso significa também que o
arremessado – em Homero ser arremessado e ser seu próprio pensamento é sem lei, assistemático,
astucioso são equivalentes27 –, o ciclope Polifemo, rapsódico, quando por exemplo não consegue
resolver o singelo problema de raciocínio, que
23
consiste em saber de que maneira seus hóspedes
Jacob Burckhahrdt. Griechische Kulturgeschichte, não-indesejáveis conseguem escapar da caverna (a
Stuttgart. s. d. Vol. III. p.95.
24
Odisseia IX, 98 sg.
saber, agarrando-se ao ventre dos carneiros, ao invés
25
Na mitologia indiana, Lótus é a deusa da terra (cf.
28
Heinrich Zimmer. Maja. Stuttgart e Berlim, 1936, pp. 105 Segundo Wilamowitz, os ciclopes são “na verdade
sgg.). Se há uma conexão com a tradição mítica em que se animais” (Glaube der Hellenen. Vol. I, p. 14).
29
baseia o velho nostos homérico, convém caracterizar também Odisseia. IX, 106.
30
o encontro com os 1otófagos como uma etapa no confronto Ibid.. 107 sgg.
31
com as potências ctónicas. Ibid.. 112 sgg.
26 32
Odisseia, IX. 105. Cf. ibid.. 403 sgg.
27 33
V. n. 12. (N. do T.) Ibid., 428.

32
de cavalgá-los) e também quando não se dá conta do fala com malícia. De maneira jactanciosa e
sofístico duplo sentido do nome falso de Ulisses. arrebatada, o embriagado promete presentes de
Polifemo, que confia no poderio dos imortais, é no hospitalidade36 a Ulisses e só a ideia de Ulisses
entanto um antropófago e é por isso que, apesar como Ninguém leva-o ao pérfido pensamento de
dessa confiança, recusa reverência aos deuses: “tu és cobrar o presente de hospitalidade devorando por
louco, estranho, ou vens de longe” – em épocas último o chefe – talvez porque esse se denominou
posteriores, a distinção entre o louco e o estranho Ninguém e por isso não conta como existente para a
era menos escrupulosa e o desconhecimento do fraca inteligência do ciclope.37 A brutalidade física
costume, assim como todo modo de ser estranho, desse ente monstruosamente forte é a sua confiança
eram imediatamente tachados de loucura –, “tu que inconstante. Por isso o cumprimento do estatuto
me exortas a temer os deuses e sua vingança! Pois mítico, que é sempre injustiça para o condenado,
de nada valem para os ciclopes o trovejador Zeus torna-se injustiça também para o poder natural que
Crônion, nem os deuses bem-aventurados, pois estabelece o direito. Polifemo e os outros monstros
somos muito superiores!”34 “Superiores”, escarnece ludibriados por Ulisses já são os modelos para os
o narrador Ulisses. Mas o que ele de facto queria diabos estúpidos da era cristã até Shylock e
dizer era: mais velhos. O poderio do sistema solar é Mefistófeles. A estupidez do gigante, substância de
reconhecido, porém mais ou menos assim como um sua bárbara brutalidade enquanto tudo corre bem
senhor feudal reconhece o poderio da riqueza para ele, passa a representar algo de melhor tão logo
burguesa, embora secretamente se sinta como o é esmagada por quem deveria saber melhor. Ulisses
mais nobre, sem perceber que a injustiça que lhe foi insinua-se na confiança de Polifemo e assim ao
feita é da mesma ordem que a injustiça que ele direito de presa à carne humana que ele representa,
próprio representa. Posseidon, o deus marinho segundo o esquema da astúcia que destrói o estatuto
próximo, pai de Polifemo e inimigo de Ulisses, é cumprindo-o: “Toma, ciclope, e bebe; o vinho vai
mais velho do que Zeus, o deus celeste universal e bem com a carne humana; vê que delícia é a bebida
distante, e é por assim dizer sobre o dorso do sujeito guardada, no navio que nos trouxe”,38 recomenda o
que é decidido o conflito entre a religião popular representante da cultura.
elementarista e a religião logocêntrica da lei. Mas o A assimilação da ratio ao seu contrário, um
Polifemo sem lei não é o simples vilão em que o estado de consciência a partir do qual ainda não se
transformam os tabus da civilização, quando o cristalizou uma identidade estável e representado
apresentam no mundo fabuloso da infância pelo gigante trapalhão, completa-se, porém, na
esclarecida como o monstro Golias. No domínio astúcia do nome. Ela pertence a um folclore muito
restrito, em que sua autoconservação levou-o a difundido. Em grego trata-se de um jogo de
adoptar uma certa ordem e costume, não lhe falta palavras; na única palavra que se conserva separam-
um aspecto conciliante. Quando achega os filhotes se o nome – Odysseus (Ulisses) – e a intenção –
ao ubre de suas ovelhas e cabras, esse acto prático Ninguém. Para ouvidos modernos, Odysseus e
implica o desvelo pela própria criatura. E o famoso Oudeis ainda têm um som semelhante, e é fácil
discurso que o gigante faz, depois de ficar cego, ao imaginar que, em um dos dialectos em que se
carneiro-mestre (que chama de seu amigo e de quem transmitiu a história do retorno a Ítaca, o nome do
indaga por que agora abandona por último a caverna rei desta ilha era de facto um homófono do nome de
e se por acaso lhe faz pena o infortúnio de seu Ninguém. O cálculo que Ulisses faz de que
senhor) atinge uma intensidade de emoção que só é Polifemo, indagado por sua tribo quanto ao nome do
atingida de novo na passagem que representa o culpado, responderia dizendo: “Ninguém” e assim
ponto culminante da Odisseia, quando Ulisses, ajudaria a ocultar o acontecido e a subtrair o
retornando a casa, é reconhecido pelo velho cão culpado à perseguição, dá a impressão de ser uma
Argos, em que pese a abominável crueza com que transparente racionalização. Na verdade, o sujeito
termina o discurso. O comportamento do gigante Ulisses renega a própria identidade que o transforma
ainda não se objectivou na forma do carácter. Ele em sujeito e preserva a vida por uma imitação mim
responde às súplicas de Ulisses não simplesmente ética do amorfo. Ele se denomina Ninguém porque
com a expressão do ódio selvagem, mas apenas com Polifemo não é um eu e a confusão do nome e da
a recusa da lei que ainda não o alcançou realmente: coisa impede ao bárbaro logrado escapar à
ele não quer poupar Ulisses e os seus companheiros:
“se meu coração não mandar”,35 e não é certo se ele 36
realmente, como afirma Ulisses em sua narrativa, Cf. ibid., 355 sgg.
37
“Finalmente a habitual puerilidade do demente poderia ser
considerada à luz de um humor natimorto” (Klages, ap. cit.,
34
Ibid., 273 sgg. 1469).
35 38
Ibid., 278. Odisseia, loc. cit., 347 sg.

33
armadilha: seu grito, na medida em que é um grito força e a injustiça como seu próprio princípio e
por vingança, permanece magicamente ligado ao assim excita sempre aquele que deve ser temido a
nome daquele de quem se quer vingar, e esse nome cometer exactamente a acção temida. A mítica
condena o grito à impotência. Pois ao introduzir no compulsão da palavra nos tempos pré-históricos
nome a intenção, Ulisses o subtraiu ao domínio da perpetua-se na desgraça que a palavra esclarecida
magia. Mas sua auto-afirmação é, como na epopeia atrai para si própria. Oudeis, que se dá
inteira, como em toda civilização, uma compulsivamente a conhecer como Ulisses, já
autodenegação. Desse modo o eu cai precisamente apresenta os traços característicos do judeu que,
no círculo compulsivo da necessidade natural ao mesmo na angústia da morte, se gaba da
qual tentava escapar pela assimilação. Quem, para superioridade que dela resulta; e a vingança contra o
se salvar, se denomina Ninguém e manipula os mediador não aparece só ao fim da sociedade
processos de assimilação ao estado natural como um burguesa, mas já está em seu começo como a utopia
meio de dominar a natureza sucumbe à hybris. O negativa à qual toda forma de violência sempre
astucioso Ulisses não pode agir de outro modo: ao tende.
fugir, ainda ao alcance das pedras arremessadas pelo Diferentemente das lendas que narram a fuga
gigante, não se contenta em zombar dele, mas revela do mito como a fuga da barbárie do canibalismo, a
seu verdadeiro nome e sua origem, como se o história mágica de Circe remete à fase mágica
mundo primitivo, ao qual sempre acaba por escapar, propriamente dita. A magia desintegra o eu que
ainda tivesse sobre ele um tal poder que, por ter se volta a cair em seu poder e assim se vê rebaixado a
chamado de Ninguém, devesse temer voltar a ser uma espécie biológica mais antiga. Mas a força
Ninguém, se não restaurasse sua própria identidade dessa dissolução é, mais uma vez, a do
graças à palavra mágica, que a identidade racional esquecimento. Ela se apodera ao mesmo tempo da
acabara de substituir. Os amigos tentam em vão ordem fixa do tempo e da vontade fixa do sujeito
preservá-lo da tolice de proclamar sua sagacidade, e que se orienta por essa ordem. Circe induz
é por um fio que escapa às rochas arremessadas por sedutoramente os homens a se abandonarem à
Polifemo. Ao mesmo tempo, foi a designação de seu pulsão instintiva: a forma animal dos seduzidos foi
nome que provavelmente atraiu para ele o ódio de sempre relacionada com isso e Circe transformou-se
Posseidon – que não se pode dizer que tenha sido no protótipo da hetaira, imagem essa motivada
apresentado como omnisciente. A astúcia, que para provavelmente pelos versos de Hermes que lhe
o inteligente consiste em assumir a aparência da atribuíam como um facto óbvio a iniciativa erótica:
estupidez, converte-se em estupidez tão pronto ele “Assustada, ela instará contigo a que partilhes de teu
renuncie a essa aparência. Eis aí a dialéctica da leito. Não resistas diante do leito da deusa.”39 A
eloquência. Da antiguidade ao fascismo, tem-se marca distintiva de Circe é a ambiguidade, ao
censurado a Homero o palavrório de seus heróis e aparecer na acção, sucessivamente, como corruptora
do próprio narrador. Mas o Jónio revelou-se e benfeitora: ela é a filha de Hélio e a neta de
profeticamente superior tanto aos antigos quanto aos Oceano40. Nela estão inseparavelmente mesclados
jovens espartanos ao mostrar a fatalidade que o os elementos do fogo e da água, e é essa
discurso do astucioso – o mediador – faz recair indivisibilidade, no sentido de uma oposição ao
sobre ele. O discurso que suplanta a força física é primado de um aspecto determinado da natureza –
incapaz de se deter. Seu fluxo acompanha como seja o matriarcal, seja o patriarcal –, que constitui a
uma paródia a corrente da consciência, o próprio essência da promiscuidade, o hetáirico, que ainda
pensamento, cuja autonomia imperturbável assume brilha no olhar da prostituta, o húmido reflexo do
um aspecto de loucura – o aspecto maníaco – astro.41 A hetaira distribui a felicidade e destrói a
quando entra na realidade pelo discurso, como se o autonomia de quem fez feliz, eis aí sua
pensamento e a realidade fossem homónimos, ao ambiguidade. Mas o indivíduo, ela não o destrói
passo que o pensamento só tem poder sobre a necessariamente: ela fixa uma forma de vida mais
realidade pela distância. Essa distância, porém, é ao antiga42. Como os lotófagos, Circe não fere
mesmo tempo sofrimento. Por isso, o inteligente – mortalmente seus hóspedes, e até mesmo aqueles
contrariamente ao provérbio está sempre tentado a que ela transformou em animais selvagens são
falar demais. Ele está objectivamente condicionado
pelo medo de que a frágil vantagem da palavra
39
sobre a força poderá lhe ser de novo tomada pela 40
Ibid., X, 296/7.
força se não se agarrar o tempo todo a ela. Pois a Cf. ibid., 138 sg. Cf. também F. C. Bauer, Symbolik und
Mythologie Stuttgart. 1824. Vol. I, p. 47.
palavra sabe-se mais fraca do que a natureza que ela 41
Cf. Baudelaire, Le vin du solitaire, Les fleurs du mal.
enganou. Quem fala demais deixa transparecer a 42
Cf. J. A. K. Thompson, Studies in the Odyssey. Oxford,
1914, p. 153.

34
pacíficos: “Em volta viam-se também lobos olfacto como o sentido cada vez mais reprimido e
monteses e leões de grandes jubas que ela própria recalcado e que mais próximo está tanto do sexo
enfeitiçara com suas drogas nocivas. Todavia, não quanto da lembrança dos tempos primitivos46. Mas,
investiam contra os homens, mas festejavam-nos, na imagem do porco, o prazer do olfacto já está
erguendo-se sobre as patas e abanando as caudas. desfigurado no fungar47 compulsivo de quem arrasta
Do mesmo modo que os cães cercam o dono, o nariz pelo chão e renunciou ao andar erecto. É
quando este volta de um banquete, porque sempre como se a hetaira encantadora repetisse no ritual a
lhes traz bons petiscos, assim lobos e leões de fortes que submete os homens o ritual ao qual ela própria é
garras cercavam os homens abanando as caudas”43. o tempo todo submetida pela sociedade patriarcal.
As pessoas encantadas comportam-se como os Igual a ela, as mulheres se inclinam, sob a pressão
animais selvagens que ouvem Orfeu tocar. A mítica da civilização, a adoptar o juízo civilizatório sobre a
injunção a que sucumbem dá rédeas ao mesmo mulher e a difamar o sexo. No debate do
tempo à liberdade neles reprimida. O que é esclarecimento e do mito, cujos vestígios a epopeia
revogado em sua recaída no mito é ele próprio mito. ainda conserva, a poderosa sedutora já se mostra
A repressão do instinto, a qual os transformou num fraca, obsoleta, vulnerável, e precisa dos animais
eu e os distinguiu do animal, era a introversão da submissos por escolta48. Como representante da
repressão no ciclo desesperadamente fechado da natureza, a mulher tornou-se na sociedade burguesa
natureza, a que alude, segundo uma concepção mais a imagem enigmática da sedução irresistível49 e da
antiga, o nome Circe. Em compensação, o violento impotência. Ela espelha assim para a dominação a
sortilégio que lhes recorda a proto-história vã mentira que substitui a reconciliação pela
idealizada produz não só a animalidade, mas subjugação da natureza.
também – como no idílio dos lotófagos – a ilusão da O casamento é a via média que a sociedade
reconciliação. Contudo, como já foram homens, a segue para se acomodar a isso: a mulher continua a
epopeia civilizatória não sabe apresentar o que lhes ser impotente na medida em que o poder só lhe é
ocorreu a não ser como uma queda nefasta, e no concedido pela mediação do homem. Isso já está,
relato homérico mal se percebe sequer o vestígio do até certo ponto, delineado na Odisseia com a derrota
prazer. Ele é expurgado com ênfase tanto maior da deusa hetaira, enquanto o casamento plenamente
quanto mais civilizadas são as vítimas configurado com Penélope, literariamente mais
sacrificadas.44 Os companheiros de Ulisses não se recente, representa um estágio posterior da
transformam como os hóspedes anteriores nas objectividade da instituição patriarcal. Com a
criaturas sagradas das regiões selvagens, mas em conduta de Ulisses em Eéia50, a ambiguidade da
animais domésticos impuros, porcos. Na história de relação do homem com a mulher – desejo e
Circe insinua-se talvez a reminiscência do culto comando – já assume a forma de uma troca
ctônico de Deméter, para quem o porco era garantida por contratos. A renúncia é o pressuposto
sagrado.45 Mas talvez também seja a ideia de uma disso. Ulisses resiste à magia de Circe e assim
semelhança entre a anatomia do porco e a do consegue aquilo que a magia só ilusoriamente
homem e de sua nudez que explique esse motivo: promete aos que não resistem a ela. Ulisses dorme
como se entre os jónios houvesse o mesmo tabu que com ela. Antes porém faz com que profira o grande
há entre os judeus acerca da mistura com os juramento dos bem-aventurados, o juramento
semelhantes. Finalmente, pode-se pensar na olímpico. O juramento deve proteger o homem da
proibição do canibalismo, pois, como em Juvenal, o mutilação, da vingança para a proibição da
sabor da carne humana é sempre descrito como
semelhante ao da carne de porco. Em todo caso, 46
Cf. Freud, Das Unbehagen in der Kultur, em: Gesammelte
todas as civilizações posteriores preferiram Werke, vol. XIV. Frankfurt am Main. 1968, p. 459, nota.
qualificar de porcos aqueles cujo instinto buscava 47
Uma das notas de Wilamowitz remete
um prazer diverso daquele que a sociedade sanciona surpreendentemente à conexão entre o conceito de “fungar” e
para seus fins. Magia e contramagia estão ligadas, o conceito do noos [nous. cf. n. 5], isto é, da razão autónoma:
na metamorfose dos companheiros de Ulisses, a “Schwyzer ligou de maneira muito convincente noos com
bufar e fungar” (Wilamowitz-Moellendorff, Die Heimkehr des
ervas e ao vinho; à embriaguez e ao despertar, ao Odysseus, p. 191). Wilamowitz contesta, é verdade, que o
parentesco etimológico dê alguma contribuição para o
43
Odisseia, loc. cit., 212 sgg. significado.
44 48
Murray trata das “sexual expurgations” a que foram Odisseia, X. 434.
49
submetidos os poemas homéricos no curso da redação (cf. op. A consciência da irresistibilidade exprimiu-se mais tarde
cit., pp. 141 sgg.). no culto de Afrodite Peithon [a persuasiva] “cuja magia não
45
“Os porcos são os animais sacrificiais de Deméter em tolera nenhuma recusa” (Wilamowitz-Moe11endorff. Der
geral”. (Wilamowitz-Moellendorff. Der Glaube der Hellenen. Glaube der Hellenen. Vol. II, p. 152).
50
Vol. II, p. 53). Eéia: a ilha de Circe. (N. do T.)

35
promiscuidade e para a dominação masculina, que, bela e aspecto muito mais nobre.”53 Mas os homens
no entanto, enquanto renúncia permanente ao assim confirmados e fortalecidos em sua
instinto, ainda realizam simbolicamente a masculinidade não são felizes: “Todos estavam
automutilação do homem. Aquele que resistiu a ela, tomados de uma melancolia agridoce e o palácio
o senhor, o eu, e a quem Circe por causa de sua ressoava com suas queixas.”54 Talvez tenha soado
imutabilidade censura por trazer “no peito um assim o mais antigo hino nupcial, cantado para
coração insensível e obstinado”51 é aquele a quem acompanhar o banquete celebrando o casamento
Circe se dispõe fazer as vontades: “Pois bem! primitivo que dura apenas um ano. O verdadeiro
Guarda a espada e vamos logo para o nosso leito a casamento com Penélope tem mais em comum com
fim de que, unidos no leito e no amor, aprendamos a esse do que se poderia presumir. A prostituta e a
confiar um no outro”52. Para o prazer que concede esposa são elementos complementares da auto-
ela estabelece como preço o desdém do prazer: a alienação da mulher no mundo patriarcal: a esposa
última hetaira se afirma como o primeiro carácter deixa transparecer prazer com a ordem fixa da vida
feminino. Na transição da lenda para a história, ela e da propriedade, enquanto a prostituta toma o que
faz uma contribuição decisiva para a frieza os direitos de posse da esposa deixam livre e, como
burguesa. Seu comportamento pratica a proibição do sua secreta aliada, de novo o submete às relações de
amor, que posteriormente se impôs tanto mais posse, vendendo o prazer. Circe como Calipso, as
poderosamente quanto mais o amor teve, enquanto cortesãs, são apresentadas como diligentes teceloas,
ideologia, de se prestar à tarefa de dissimular o ódio exactamente como as potências míticas do destino55
dos competidores. No mundo da troca, quem está e as donas-de-casa, ao passo que Penélope,
errado é quem dá mais; o amante, porém, é sempre o desconfiada como uma prostituta, examina o
que ama mais. Ao mesmo tempo que seu sacrifício é retornado, perguntando-se se não é realmente
glorificado, zela-se ciumentamente para que o apenas um mendigo velho ou quem sabe um Deus
amante não seja poupado do sacrifício. É em busca de aventuras. Todavia, a famosa cena do
exactamente no amor que o amante fica sem razão e reconhecimento com Ulisses tem um carácter
é punido. A incapacidade de dominar a si mesmo e verdadeiramente patrício: “Por muito tempo ela
aos outros, de que dá provas seu amor, é motivo sentou-se calada, pois o espanto tomava todo o seu
suficiente para lhe recusar satisfação. Com a coração. Ora achava-o parecido, atentando em seu
sociedade, reproduz-se de maneira amplificada a rosto, ora de novo o desconhecia envolto em vis
solidão. Esse mecanismo prevalece até mesmo nas andrajos.”56 Nenhuma emoção espontânea vem à
mais ternas manifestações do sentimento, a tal ponto tona, pois não quer cometer nenhum erro, que de
que o próprio amor, a fim de abrir um caminho mais a mais, sob a pressão da ordem que pesa sobre
qualquer até ao outro, é forçado a tamanha frieza ela, dificilmente se poderia permitir. O jovem
que se destrói com a própria realização. – A força de Telémaco, que ainda não se adaptou direito à sua
Circe, que submete e reduz os homens à servidão, futura posição, irrita-se com isso, mas já se sente
converte-se na servidão do homem que, pela homem o bastante para repreender a mãe. A censura
renúncia, recusou a submissão. A influência sobre a de teimosia e dureza que dirige a ela é exactamente
natureza, que o poeta atribui à deusa Circe, reduz-se a mesma que Circe fizera antes a Ulisses. Se a
ao vaticínio sacerdotal e à prudente previsão de hetaira se apropria da ordem de valores patriarcal, a
futuras dificuldades náuticas. Tudo isso sobrevive esposa monogâmica não se contenta ela própria com
na caricatura da prudência feminina. As profecias da isso e não descansa enquanto não houver se
feiticeira destituída de seus poderes sobre as Sereias, igualado ao carácter masculino. É assim que se
Cila e Caríbdis só aproveitam, afinal, à entendem os casados. O teste a que submete o
autoconservação masculina. retornado tem por conteúdo a posição irremovível
Quanto custou o preço pago pela instauração do leito nupcial, que o esposo em sua juventude
de relações ordenadas para a reprodução sexual é o havia construído em torno de uma oliveira, símbolo
que deixam apenas entrever os versos obscuros que da unidade do sexo e da propriedade. Com uma
descrevem o comportamento dos amigos que Circe astúcia tocante ela fala como se essa cama pudesse
reconverte em homens por ordem de seu senhor ser tirada do lugar, e “zangado” o esposo responde-
contratual. Dizem primeiro: “Logo se lhe com a narrativa circunstanciada da obra de seu
transformaram de novo em homens, mais jovens do duradouro artesanato: como protótipo do burguês
que haviam sido e também de aparência muito mais
53
Ibid., 395 sg.
54
Ibid., 398 sg.
51 55
Odisseia, X, 329. Cf. Bauer, op. cit., p. 49.
52 56
Ibid., 333 sgg. Odisseia, XXIII, 93 sgg.

36
vivo e habilidoso que é, ele tem um hobby. O hobby alucinação como a própria narrativa épica nos
consiste na repetição do trabalho artesanal, do qual momentos em que abandona a linguagem à imagem.
– no quadro de relações de propriedade – está É preciso do sangue sacrificado como penhor de
necessariamente excluído há muito tempo. Ele se uma lembrança viva para dar fala à imagem, para
compraz nele porque a liberdade de fazer o que para que esta, ainda que em vão e efemeramente, se
ele é supérfluo confirma seu poder de dispor sobre arranque à mudez mítica. É só quando se torna
aqueles que têm que realizar tais trabalhos para senhora de si no reconhecimento da inanidade das
viver. É nisso que o reconhece a engenhosa imagens que a subjectividade chega a participar da
Penélope, que o lisonjeia com o louvor de sua esperança que as imagens prometem em vão. A terra
excepcional inteligência. Mas à lisonja, que já prometida de Ulisses não é o reino arcaico das
contém uma dose de escárnio, juntam-se – numa imagens. Todas as imagens, enquanto sombras no
súbita cesura que interrompe o discurso – as mundo dos mortos, acabam por lhe revelar sua
palavras que buscam a razão de todo o sofrimento verdadeira essência, a aparência. Ele se livra delas
dos esposos na inveja dos deuses pela felicidade que depois de tê-las reconhecido como mortas e de tê-las
só é garantida pelo casamento, os “pensamentos afastado, com o gesto imperioso da
confirmados da permanência”57: “Os imortais nos autoconservação, do sacrifício que só oferece a
cumularam de desgraças, achando demais que quem lhe concede um saber útil para sua vida, na
desfrutássemos juntos e em paz de nossa juventude qual o poder do mito só continua a se afirmar como
e que suavemente nos aproximássemos da imaginação transposta para o espírito. O reino dos
velhice”.58 O casamento não significa apenas a mortos, onde se reúnem os mitos destituídos de seu
ordenação da vida segundo relações de poder, é o ponto mais distante da terra natal, e é só
reciprocidade, mas também a solidariedade diante na mais extrema distância que ele se comunica com
da morte. Nele a reconciliação cresce em torno da ela. Se seguirmos Kirchhoff na hipótese de que a
submissão, assim como, em toda a história até visita de Ulisses ao inferno pertence à camada mais
agora, o humano só floresceu sobre a barbárie que a antiga, propriamente lendária da epopeia63, é aí
humanidade justamente oculta. Se o contrato entre também que encontramos o traço que – assim como
os esposos não faz senão redimir penosamente uma na tradição das descidas de Orfeu e Hércules ao
hostilidade antiquíssima, os que envelhecem inferno – mais nitidamente se destaca do mito, pois
pacificamente se esvaem na imagem de Filémon e o motivo do arrombamento das portas do inferno, da
Baucis, assim como a fumaça do altar sacrificial se supressão da morte, constitui o núcleo de todo
transforma na fumaça salutar da lareira. O pensamento antimitológico. Este elemento
casamento pertence certamente à rocha primeira do antimitológico está contido no vaticínio de Tirésias
mito na base da civilização. Mas sua mítica dureza e sobre a possível reconciliação de Posseidon. Ulisses
solidez emerge do mito assim como o pequeno reino há de errar, com um remo sobre o ombro, até
insular do mar infinito. alcançar os homens “que não conhecem o mar e
A última etapa da viagem de erros jamais provaram comida temperada com sal”64.
propriamente dita não é nenhum refúgio dessa Quando encontrar um viandante e este lhe disser que
espécie. É o Hades. As figuras que o aventureiro está carregando uma pá sobre os ‘ombros, terá
enxerga na primeira nekyia59 são antes de mais nada atingido o lugar certo para oferecer a Posseidon o
as imagens matriarcais60 banidas pela religião da sacrifício reconciliador. O ponto central do vaticínio
luz: depois da própria mãe, diante de quem Ulisses é o equívoco do remo pela pá, que deve ter parecido
se força a assumir a atitude patriarcal de uma enormemente cómico ao Jónio. Mas essa
conveniente dureza61, vêm as heroínas comicidade, de que depende a reconciliação, não
antiquíssimas. Contudo, a imagem da mãe é pode estar destinada aos homens, mas à ira de
impotente, cega e muda62, a imagem de uma

próprio filho nem a proferir qualquer palavra. Diz, senhor, o


57
Goethe, Wilhelm Meisters Lehrjahre. Jubiläumsausgabe. que fazer, para que ela me reconheça como filho” (ibid., 141
Stuttgart e Berlim. Vol. I, cap. 16, p. 70. sgg.).
58 63
Odisseia, XXIII, 210 sgg. “Não posso deixar de considerar todo o livro 11, com
59
Sacrifício aos mortos. (N. do T.) excepção de algumas passagens... como um fragmento do
60
Cf. Thomson. op. cit., p. 28. velho nostos, que foi apenas deslocado; seria assim a parte
61
“Ao vê-la, meus olhos marejaram e lamentei de todo mais antiga do poema” (Kirchhoff, Die homerische Odyssee.
coração. Contudo. proibi a ela também, embora cheio de Berlim, 1879, p. 226). – “Whatever else is original in the myth
íntima melancolia, que se aproximasse do sangue antes que eu of Odysseus, the Visit to Death is” [“se alguma coisa é original
interrogasse Tirésias” (Odisseia, XI, 87 sgg.). no mito de Ulisses, a Visita à Morte é uma delas”] (Thomson,
62
“Vejo aí a alma de minha defunta mãe, mas ela se mantém op. cit., p. 95).
64
muda junto à poça de sangue e não se atreve a olhar para o Odisseia, XI, 122 sg.

37
Posseidon.65 O equívoco deve fazer rir o colérico objecto de toda nostalgia e saudade. A definição de
deus elementar, para que em sua gargalhada a raiva Novalis segundo a qual toda filosofia é nostalgia só
se dissipe. Encontramos uma situação análoga em é correcta se a nostalgia não se resolve no fantasma
um dos contos dos irmãos Grimm com o conselho de um antiquíssimo estado perdido, mas representa a
que a vizinha dá à mãe sobre como se livrar da pátria, a própria natureza, como algo de extraído ao
figura monstruosa que substituíram a seu filho mito. A pátria é o estado de quem escapou. Por isso
recém-nascido: “Disse a ela que levasse o monstro a censura feita às lendas homéricas de “se afastarem
para a cozinha, o colocasse sobre o fogão, acendesse da terra” é a garantia de sua verdade. “Elas voltam-
o fogo e pusesse água a ferver em duas cascas de se para a humanidade.”67 A transposição dos mitos
ovo: isso faria o monstro rir e, quando risse, ele para o romance, tal como ocorre na narrativa das
estaria acabado.”66 Se o riso é até hoje o sinal da aventuras, é menos uma falsificação dos mitos do
violência, o prorrompimento de uma natureza cega e que um meio de arrastar o mito para dentro do
insensível, ele não deixa de conter o elemento tempo, descobrindo o abismo que o separa da pátria
contrário: com o riso. a natureza cega toma e da reconciliação. Terrível é a vingança que a
consciência de si mesma enquanto tal e se priva civilização praticou contra o mundo pré-histórico, e
assim da violência destruidora. Esse duplo sentido nisso ela se assemelha à pré-história, como se pode
do riso está próximo do duplo sentido do nome, e ver em seu mais atroz documento em Homero: o
talvez os nomes nada mais sejam do que risadas relato da mutilação do pastor de cabras Melântio. O
petrificadas, assim como ainda hoje os apelidos, os que a eleva acima do mundo pré-histórico não é o
únicos nos quais perdura ainda algo do acto conteúdo dos crimes relatados. É a tomada de
originário da denominação. O riso está ligado à consciência que faz com que a violência se
culpa da subjectividade, mas, na suspensão do interrompa no momento da narrativa. A própria fala,
direito que ele anuncia, também aponta para além da a linguagem em sua oposição ao canto mítico, a
servidão. Ele promete o caminho para a pátria. É a possibilidade de fixar na memória a desgraça
saudade de casa que desfecha as aventuras por meio ocorrida, é a lei da fuga em Homero. Não é à toa
das quais a subjectividade (cuja proto-história é que o herói que escapa é sempre reintroduzido como
narrada pela Odisseia) escapa ao mundo primitivo. narrador. É a fria distância da narrativa que, ao
O facto de que o conceito de pátria se opõe ao mito apresentar as atrocidades como algo destinado ao
(que a mentira fascista quer transformar na pátria) entretenimento, permite ao mesmo tempo destacar a
constitui o paradoxo mais profundo da epopeia. É aí atrocidade que, na canção, se confunde solenemente
que se encontra sedimentada a lembrança da como destino. Mas a interrupção da fala é a cesura,
passagem histórica da vida nomádica à vida a transformação dos factos relatados em
sedentária, que é o pressuposto da existência de acontecimentos de um passado remoto, que faz
qualquer pátria. Se é na ordem fixa da propriedade cintilar a aparência da liberdade que, desde então, a
dada com a vida sedentária, que se origina a civilização não extinguiu mais por inteiro. No canto
alienação dos homens, de onde nasce a nostalgia e a XXII da Odisseia, descreve-se a punição infligida
saudade do estado originário perdido, é também na pelo filho de Ulisses nas servas infiéis que haviam
vida sedentária, em compensação, e na propriedade recaído na condição de hetairas. Com frieza e
fixa apenas que se forma o conceito da pátria, serenidade, com uma impassibilidade inumana e só
igualada pelos grandes narradores do século
65
Ele era originariamente o “esposo da Terra” (cf. dezanove, Homero descreve a sorte das enforcadas e
Wilamowitz, Glaube der Hellenen, vol. I, pp. 112 sgg.) e só compara-a sem comentários à morte dos pássaros no
mais tarde tomou-se o deus do mar. A profecia de Tirésias laço, calando-se num silêncio que é o verdadeiro
pode aludir à sua essência dual. É concebível que sua
reconciliação por meio de um sacrifício terreno, longe do mar,
resto de toda fala. A passagem termina com o verso
se baseie na restauração simbólica de sua potência ctónica. que descreve como as mulheres enforcadas em
Essa restauração exprime possivelmente a substituição da fileira “debateram-se um pouco com os pés, mas
pirataria pela agricultura; os cultos de Posseidon e Deméter se não por muito tempo”68. A precisão com que o autor
confundiram (cf. Thomson, op. cit, p. 96 n.). descreve o facto e que já tem alguma coisa da frieza
66
Irmãos Grimm, Kinder und Hausmärchen, Leipzig, s.d., p.
208. Há temas intimamente aparentados a esse que remontam à
da anatomia e da vivissecção69 faz do relato uma
antiguidade, ligados aliás a Deméter. Quando esta chegou a
67
Elêusis, “em busca de sua filha raptada”, encontrou “acolhida Hölderlin, Der Herbst. op. cit., p. 1066.
68
junto de Dysaules e sua mulher Baubo, mas recusou-se em sua Odisseia, XXII, 473.
69
profunda tristeza a tocar em comida ou bebida. Então sua Wilamowitz é de opinião que a punição “foi narrada
hospedeira Baubo fez com que ela risse, levantando de repente prazerosamente pelo poeta” (Die Heimkehr des Odysseus, p.
a roupa e descobrindo o corpo” (Freud, Gesammelte Werke, 67) .Mas, como o autoritário filólogo se entusiasma com a
vol. X. p. 399. Cf. Salomon Reinach, Cultes, Mythes et metáfora da armadilha de pássaros porque “descreve de
Religions. Paris, 1911, vol. IV, pp. 115 sgg.). maneira precisa e… muito moderna como ficam a balouçar os

38
acta romanceada dos espasmos das mulheres
submetidas que, sob o signo do direito e da lei, são
arrastadas para o reino de onde escapou o juiz
Ulisses. Como um cidadão meditando sobre a
execução, Homero consola-se a si mesmo e aos
ouvintes, que são na verdade leitores, com a
constatação tranquilizadora de que não durou muito:
um instante e tudo se acabou70. Mas, após o “não
por muito tempo”, o fluxo interno da narrativa
estanca. Não por muito tempo? pergunta o gesto do
narrador e desmente sua serenidade. Interrompendo
o relato, ele nos impede de esquecer as mulheres
executadas e revela o inominável e eterno tormento
daquele único segundo durante o qual as servas
lutam com a morte. O único eco desse “não por
muito tempo” que subsiste é aquele “quo usque
tandem”71 que os retores da época posteriores
inadvertidamente profanaram ao se atribuírem a si
mesmos a paciência. Mas, no relato do crime, resta
uma esperança, que se prende ao facto de ter
ocorrido há muito tempo. Homero ergue sua voz
consoladora sobre essa mistura inextricável da pré-
história, da barbárie e da cultura recorrendo ao “era
uma vez”. É só como romance que a epopeia se
transforma em conto de fadas.

cadáveres das escravas enforcadas” (loc. cit., cf. também p.


76), o prazer em grande parte parece ser dele próprio. Os
escritos de Wilamowitz se incluem entre os documentos mais
enfáticos da mescla bem alemã de barbárie e cultura, que está
na base do moderno filo-helenismo.
70
Gilbert Murray chama a atenção para a intenção
consoladora do verso. Segundo sua teoria, a censura
civilizatória expurgou de Homero as cenas de tortura.
Restaram a morte de Melântio e das escravas (op. cit., p. 146).
71
“Até quando enfim” (N. do T.).

39
EXCURSO II: Juliette ou Esclarecimento e mecanismo intelectual que já estrutura a percepção
Moral em correspondência com o entendimento. O
entendimento imprime na coisa como qualidade
Nas palavras de Kant, o esclarecimento “é a objectiva a inteligibilidade que o juízo subjectivo
saída do homem de sua menoridade, da qual é o nela encontra, antes mesmo que ela penetre no ego.
próprio culpado. A menoridade é a incapacidade de Sem esse esquematismo, em suma, sem a
se servir de seu entendimento sem a direcção de intelectualidade da percepção, nenhuma impressão
outrem”1. “Entendimento sem a direcção de outrem” se ajustaria ao conceito, nenhuma categoria ao
é o entendimento dirigido pela razão. Isso significa exemplar, e muito menos o pensamento teria
simplesmente que, graças a sua própria coerência, qualquer unidade, para não falar da unidade do
ele reúne em um sistema os diversos conhecimentos sistema, para a qual porém tudo está dirigido.
isolados. “A razão... tem por único objecto o Produzir essa unidade é a tarefa consciente da
entendimento e sua aplicação funcional.”2 Ela ciência. Se “todas as leis empíricas… são apenas
estabelece, “como objectivo das operações do determinações particulares das leis puras do
entendimento, uma certa unidade colectiva”3, e essa entendimento”7, a investigação deve cuidar sempre
unidade é o sistema. Seus preceitos são instruções para que os princípios permaneçam correctamente
para a construção hierárquica dos conceitos. Em ligados aos juizos factuais. “Essa concordância da
Kant, tanto quanto em Leibniz e Descartes, a natureza com nosso poder de conhecer é pressuposta
racionalidade consiste em “levar a cabo a conexão a priori ... pelo juízo”8. Ela é o “fio condutor”9 para
sistemática, tanto ao subir aos géneros superiores a experiência organizada.
quanto ao descer às espécies inferiores”4. O aspecto O sistema deve ser conservado em harmonia
“sistemático” do conhecimento consiste na com a natureza. Do mesmo modo que os factos são
“conexão dos conhecimentos a partir de um previstos a partir do sistema, assim também os
princípio”5. O pensamento, no sentido do factos devem por sua vez confirmá-lo. Os factos,
esclarecimento, é a produção de uma ordem porém, pertencem à práxis. Eles caracterizam
científica unitária e a derivação do conhecimento sempre o contacto do sujeito individual com a
factual a partir de princípios, não importa se estes natureza como objecto social: a experiência é
são interpretados como axiomas arbitrariamente sempre um agir e um sofrer reais. É verdade que, na
escolhidos, ideias inatas ou abstracções supremas. física, a percepção pela qual a teoria se deixa testar
As leis lógicas estabelecem as relações mais gerais se reduz em geral à centelha eléctrica que relampeja
no interior da ordem, elas as definem. A unidade na aparelhagem experimental. Sua ausência é, via de
reside na concordância. O princípio da contradição é regra, sem consequência prática, ela destrói apenas
o sistema in nuce. O conhecimento consiste na uma teoria ou, no máximo, a carreira do assistente
subsunção a princípios. Ele coincide com o juízo responsável pelo experimento. As condições do
que se inscreve no sistema. Um pensamento que não laboratório, porém, são a excepção. O pensamento
se oriente para o sistema é sem direcção ou que não consegue harmonizar o sistema e a intuição
autoritário. A razão fornece apenas a ideia da desrespeita algo mais do que simples impressões
unidade sistemática, os elementos formais de uma visuais isoladas: ele entra em conflito com a prática
sólida conexão conceptual. Todo objectivo a que se real. Não apenas a ocorrência esperada deixa de ter
refiram os homens como um discernimento da razão lugar, mas também o inesperado acontece: a ponte
é, no sentido rigoroso do esclarecimento, desvario, cai, a sementeira definha, o remédio faz adoecer. A
mentira, “racionalização”, mesmo que os filósofos centelha que assinala da maneira mais pregnante a
dediquem seus melhores esforços para evitar essa falha no pensamento sistemático, o desrespeito da
consequência e desviar a atenção para o sentimento lógica, não é nenhuma percepção fugidia, mas a
filantrópico. A razão é “um poder... de derivar o morte súbita. O sistema visado pelo esclarecimento
particular do universal”6. A homogeneidade do é a forma de conhecimento que lida melhor com os
universal e do particular é garantida, segundo Kant, factos e mais eficazmente apoia o sujeito na
pelo “esquematismo do entendimento puro”. Assim dominação da natureza. Seus princípios são o da
se chama o funcionamento inconsciente do autoconservação. A menoridade revela-se como a
incapacidade conservar a si mesmo. O burguês nas
1
Kant, Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung? Kants figuras sucessivas do senhor de escravos, do
Werke. Akademie-Ausgabe. Vol. VIII, p. 35.
2
Kritik der reinen Vernunft, op. cit., vol. III (2.a ed.), p. 427.
3
Ibid.
4 7
Ibid., pp. 435 sg. Op. cit., vol. IV (1ª ed.), p. 93.
5 8
Ibid., p. 428. Kritik der Urteilskraft, op. cit., vol. V, p. 185.
6 9
Ibid., p. 429. lbid.

40
empresário livre e do administrador é o sujeito classificações da actividade social. Ninguém é
lógico do esclarecimento. diferente daquilo em que se converteu: um membro
As dificuldades no conceito da razão, útil, bem-sucedido ou fracassado, de grupos
provenientes do facto de que seus sujeitos, os profissionais e nacionais. Ele é um representante
portadores de uma e a mesma razão, se encontram qualquer de seu tipo geográfico, sociológico. A
em oposição uns aos outros, estão escondidas no lógica é democrática, nela os grandes não têm
esclarecimento ocidental por trás da aparente clareza nenhuma vantagem sobre os pequenos. Aqueles
de seus juízos. Na Crítica da Razão Pura, ao pertencem à categoria das pessoas eminentes, ao
contrário, elas se exprimem na relação obscura do passo que estes se contam entre os objectos
ego transcendental com o ego empírico e nas demais eventuais da assistência social. A ciência em geral
contradições não resolvidas. Os conceitos kantianos não se comporta com relação a natureza e aos
são ambíguos. A razão contém enquanto ego homens diferentemente da ciência actuarial, em
transcendental supra-individual a Ideia de uma particular, com relação à vida e à morte. Quem
convivência baseada na liberdade, na qual os morre é indiferente, o que importa é a proporção das
homens se organizem como um sujeito universal e ocorrências relativamente às obrigações da
superem o conflito entre a razão pura e a empírica companhia. É a lei do grande número, não o caso
na solidariedade consciente do todo. A Ideia desse individual, que se repete sempre na fórmula. A
convívio representa a verdadeira universalidade, a concordância do universal e do particular também
Utopia. Mas ao mesmo tempo, a razão constitui a não está mais oculta em um intelecto que percebe
instância do pensamento calculador que prepara o cada particular tão-somente como caso do universal
mundo para os fins da autoconservação e não e o universal tão-somente como o lado do particular
conhece nenhuma outra função senão a de preparar pelo qual ele se deixa pegar e manejar. A ciência ela
o objecto a partir de um mero material sensorial própria não tem consciência de si, ela é um
como material para a subjugação. A verdadeira instrumento, enquanto o esclarecimento é a filosofia
natureza do esquematismo, que consiste em que identifica a verdade ao sistema científico. A
harmonizar exteriormente o universal e o particular, tentativa de fundamentar essa identidade, que Kant
o conceito e a instância singular, acaba por se empreendeu ainda numa intenção filosófica, levou a
revelar na ciência actual como o interesse da conceitos que, no plano científico, são destituídos de
sociedade industrial. O ser é intuído sob o aspecto sentido, porquanto não são simples instruções em
da manipulação e da administração. Tudo, inclusive vista da manipulação segundo as regras do jogo. A
o indivíduo humano, para não falar do animal, ideia de uma autocompreensão da ciência contradiz
converte-se num processo reiterável e substituível, a ideia da própria ciência. A obra de Kant
mero exemplo para os modelos conceituais do transcende a experiência como simples operação,
sistema. O conflito entre a ciência que serve para razão por que ela é hoje – em virtude de seus
administrar e reificar, entre o espírito público e a próprios princípios – renegada pelo esclarecimento
experiência do indivíduo, é evitado pelas como dogmática. Com a confirmação do sistema
circunstâncias. Os sentidos já estão condicionados científico como figura da verdade – confirmação
pelo aparelho conceptual antes que a percepção essa que é um resultado da obra de Kant – o
ocorra, o cidadão vê a priori o mundo como a pensamento sela sua própria nulidade, pois a ciência
matéria com a qual ele o produz para si próprio. é um exercício técnico, tão afastado de uma reflexão
Kant antecipou intuitivamente o que só Hollywood sobre seus próprios fins como o são as outras formas
realizou conscientemente: as imagens já são pré- de trabalho sob a pressão do sistema.
censuradas por ocasião de sua própria produção As doutrinas morais do esclarecimento dão
segundo os padrões do entendimento que decidirá testemunho da tentativa desesperada de colocar no
depois como devem ser vistas. A percepção pela lugar da religião enfraquecida um motivo intelectual
qual o juízo público se encontra confirmado já para perseverar na sociedade quando o interesse
estava preparada por ele antes mesmo de surgir. Se é falha. Como autênticos burgueses, os filósofos
verdade que a secreta utopia contida no conceito da pactuam na prática com as potências que sua teoria
razão atravessava as diferenças ocasionais dos condena. As teorias são duras e coerentes, as
sujeitos apontando para seu interesse idêntico doutrinas morais propagandísticas e sentimentais,
recalcado, por outro lado a razão, na medida em que mesmo quando parecem rigoristas, ou então são
funciona condicionada pelos fins como uma mera golpes de força consecutivos à consciência da
ciência sistemática, nivela com essas diferenças impossibilidade de derivar a moral, como o recurso
justamente o interesse idêntico. As únicas kantiano às forças éticas como um facto. Sua
determinações válidas que ela admite são as tentativa de derivar de uma lei da razão o dever do

41
respeito mútuo – ainda que empreendida de maneira mostra o “entendimento sem a direcção de outrem”,
mais prudente do que toda a filosofia ocidental – isto é, o sujeito burguês liberto de toda tutela.
não encontra nenhum apoio na crítica. É a tentativa A autoconservação é o princípio constitutivo
usual do pensamento burguês de dar à consideração, da ciência, a alma da tábua das categorias, mesmo
sem a qual a civilização não pode existir, uma quando deve ser deduzida idealisticamente como em
fundamentação diversa do interesse material e da Kant. Até mesmo o ego, a unidade sintética da
força, sublime e paradoxal como nenhuma outra apercepção, a instância que Kant define como o
tentativa anterior, e efémera como todas elas. O ponto supremo a que é preciso ligar a lógica
burguês que deixasse escapar um lucro pelo motivo inteira12, é na verdade, ao mesmo tempo, o produto
kantiano do respeito à mera forma da lei não seria e a condição da existência material. Os indivíduos,
esclarecido, mas supersticioso – um tolo. A raiz do que têm de cuidar de si mesmos, desenvolvem o ego
optimismo kantiano, segundo o qual o agir moral é como a instância da visão antecipadora e da visão de
racional mesmo quando a infâmia tem boas conjunto reflexionantes. Ao longo das gerações, o
perspectivas, é o horror que inspira a regressão à ego se expande e se contrai com as perspectivas da
barbárie. Caso desaparecesse – escreve Kant, autonomia económica e da propriedade produtiva.
seguindo aqui a lição de Haller10 – uma dessas Finalmente, ele passa dos burgueses desapropriados
grandes forças éticas, o amor recíproco e o respeito, para os donos-de-trustes totalitários, cuja ciência
“então o nada (da imoralidade) se abriria como um acabou por se reduzir ao conjunto de métodos de
abismo para tragar como uma gota d’água o reino reprodução da sociedade de massas submetida. Sade
inteiro dos seres (morais)”. Mas, segundo Kant, as erigiu um primeiro monumento a seu sentido de
forças éticas, perante a razão científica, são de facto planejamento. Graças à sua inflexível organização, a
impulsos e comportamentos não menos neutros do conjuração dos poderosos contra o povo está tão
que as forças aéticas, nas quais se convertem tão próxima do espírito esclarecido desde Maquiavel e
logo deixem de se orientar para aquela possibilidade Hobbes quanto a república burguesa. Este espírito
oculta, buscando a reconciliação com o poder. O só é hostil à autoridade, quando ela não tem o poder
esclarecimento expulsa da teoria a diferença. Ele de impor a obediência, e à força quando esta não é
considera as paixões “ac si quaestio de lineis, planis um facto. Enquanto nos abstrairmos de quem
aut de corporibus esset”11. A ordem totalitária levou emprega a razão, ela terá tanta afinidade com a força
isso muito a sério. Liberado do controle de sua quanto com a mediação; conforme a situação do
própria classe, que ligava o negociante do século indivíduo e dos grupos, ela faz com que a paz ou a
dezanove ao respeito e amor recíproco kantianos, o guerra, a tolerância ou a repressão, apareçam como
fascismo, que através de uma disciplina férrea o melhor. Como ela desmascara nos objectivos
poupa o povo dos sentimentos morais, não precisa materialmente determinados o poderio da natureza
mais observar disciplina alguma. Em oposição ao sobre o espírito, como ameaça à integridade de sua
imperativo categórico e em harmonia tanto mais autolegislação, a razão se encontra, formal como é,
profunda com a razão pura, ele trata os homens à disposição de todo interesse natural. O
como coisas, centros de comportamentos. Os pensamento torna-se um puro e simples órgão e se
dirigentes estavam dispostos a proteger o mundo vê rebaixado à natureza. Para os governantes,
burguês contra o oceano da violência aberta que porém, os homens tornam-se uma espécie de
realmente assolou a Europa, apenas enquanto a material, como o é a natureza inteira para a
concentração económica ainda não havia progredido sociedade. Após o breve interlúdio do liberalismo,
suficientemente. Antes, só os pobres e os selvagens quando os burgueses mantiveram uns aos outros em
estavam expostos à fúria dos elementos xeque, a dominação revela-se como um terror
desencadeados pelo capitalismo. Mas a ordem arcaico sob a forma racionalizada do fascismo.
totalitária instala o pensamento calculador em todos “Então”, diz o príncipe de Francavilla durante um
os seus direitos e atém-se à ciência enquanto tal. Seu sarau na corte do rei Ferdinando de Nápoles, “é pelo
cânon é sua própria eficiência sanguinária. A mais extremo terror que é preciso substituir as
filosofia, da crítica de Kant à Genealogia de quimeras religiosas. Liberte-se o povo do temor a
Nietzsche, proclamara-o; só um desenvolveu-o em um inferno futuro, e ele se entregará em seguida,
todos os pormenores. A obra do marquês de Sade destruído o medo, a tudo. Em vez disso, substitua-se
esse pavor quimérico por leis penais de uma
severidade prodigiosa e que atinjam a ele apenas.
10 Pois só ele perturba o Estado: é em sua classe
Metaphysische Anfänge der Tugendlehre, op. cit., vol. VI.
p. 449.
11 12
[Como se fosse uma questão de linhas, planos ou Kritik der reinen Vernunft, op. cit., vol. III (2.a ed.), p.
volumes.] Spinoza, Ethica, parte III. Prefácio. 109.

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apenas que nascem os descontentes. Que importa ao Neste sentido, Sade escreve: “É preciso, replicou o
rico a ideia de um freio que não cai jamais sobre sua príncipe, que o governo regule ele próprio a
cabeça, se ele compra com essa vã aparência o população, que ele tenha em suas mãos todos os
direito de atormentar todos os que vivem sob seu meios de extingui-la, se ele a teme; de aumentá-la,
jugo? Não encontraremos ninguém nessa classe que se ele o crê necessário; e que ele não tenha jamais
não permita que se imponha a ele a mais densa outra balança para sua justiça senão a de seus
sombra da tirania, desde que sua realidade recaia interesses ou de suas paixões, unicamente
sobre os outros”13. A razão é o órgão do cálculo, do combinados com as paixões e os interesses daqueles
plano, ela é neutra com respeito a objectivos, seu que, como acabamos de dizer, receberam dele toda a
elemento é a coordenação. Aquilo que Kant porção de autoridade necessária para centuplicar a
fundamentou transcendentalmente, a afinidade entre sua própria”14. O príncipe indica o caminho trilhado
o conhecimento e o plano, que imprime o carácter desde sempre pelo imperialismo como a figura mais
de uma inescapável funcionalidade à vida burguesa terrível da ratio. “…ateizai e desmoralizai
integralmente racionalizada, inclusive em suas incessantemente o povo que quereis subjugar;
pausas para respiração, Sade realizou empiricamente enquanto ele não adorar um deus diverso do vosso,
um século antes do advento do desporto. As equipes não tiver costumes diferentes dos vossos, sereis
desportivas modernas, cuja cooperação está sempre seu soberano... em compensação deixai a ele
regulada de tal sorte que nenhum membro tenha a mais extensa faculdade criminal, puni-o somente
dúvidas sobre seu papel e para cada um haja um quando seus dardos se dirigirem contra vós”15.
suplente a postos, encontram seu modelo exacto nos Como a razão não estabelece objectivos
teams sexuais de Juliette, onde nenhum instante fica materiais, todos os aspectos estão igualmente
ocioso, nenhuma abertura do corpo é desdenhada, distantes dela. Eles são puramente naturais. O
nenhuma função permanece inactiva. No desporto, princípio segundo o qual a razão está simplesmente
assim como em todos os ramos da cultura de oposta a tudo o que é irracional fundamenta a
massas, reina uma actividade intensa e funcional, de verdadeira oposição entre o esclarecimento e a
tal modo que só o espectador perfeitamente iniciado mitologia. A mitologia só conhece o espírito na
pode compreender a diferença das combinações, o medida em que este está imerso na natureza, como
sentido das peripécias, determinado pelas regras potência natural. Assim como as forças exteriores,
arbitrariamente estabelecidas. A estrutura os impulsos internos são para ela potências vivas de
arquitecónica própria do sistema kantiano, como as origem divina ou demoníaca. O esclarecimento, ao
pirâmides de ginastas das orgias de Sade e os contrário, repõe toda coerência, sentido, vida, dentro
princípios das primeiras lojas maçónicas burguesas da subjectividade que só vem a se constituir
(a imagem cínica que a espelha é o rigoroso propriamente nesse processo de reposição. A razão é
regulamento da sociedade de libertinos das 120 para ele o agente químico que absorve a própria
journées anuncia uma forma de organização integral substância das coisas e a volatiza na pura autonomia
da vida desprovida de todo fim tendo um conteúdo da própria razão. Para escapar ao medo
determinado. Mais do que o prazer, o que parece supersticioso da natureza, ela pôs a nu todas as
importar em semelhantes formalidades é o afã com figuras e entidades objectivas, sem excepção, como
que são conduzidas, a organização, do mesmo modo disfarces de um material caótico, amaldiçoando sua
que em outras épocas desmitologizadas, a Roma dos influência sobre a humanidade como escravidão, até
Césares e do Renascimento, ou o barroco, o que o sujeito se convertesse – em conformidade com
esquema da actividade pesava mais do que seu sua Ideia – na única autoridade irrestrita e vazia.
conteúdo. Nos tempos modernos, o esclarecimento Toda força da natureza reduziu-se a uma simples e
desligou as Idéias de harmonia e perfeição de sua indiferenciada resistência ao poder abstracto do
hipostasiação no além religioso e, sob a forma do sujeito. A mitologia particular de que o
sistema, deu-as como critérios às aspirações esclarecimento ocidental (até mesmo sob a forma do
humanas. Depois que a utopia que instilara a calvinismo) teve de se desembaraçar era a doutrina
esperança na Revolução francesa penetrou – potente católica da ordo e a religião popular pagã que
e impotente – ao mesmo tempo na música e na continuava a viajar à sua sombra. Liberar os homens
filosofia alemãs, a ordem burguesa estabelecida de sua influência, tal era o objectivo da filosofia
funcionalizou completamente a razão. Ela se tornou burguesa. A liberação, porém, foi mais longe do que
a finalidade sem fim que, por isso mesmo, se deixa esperavam seus autores humanos. A economia de
atrelar a todos os fins. Ela é o plano considerado em mercado que se viu desencadeada era ao mesmo
si mesmo. O Estado totalitário manipula as nações.
14
Ibid., pp. 322 sg.
13 15
Histoire de Juliette, Holanda, 1797. Vol. V. pp. 319 sg. Ibid., p. 324.

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tempo a forma actual da razão e a potência na qual a vazias está muito longe de resistir à ratio industrial.
razão se destroçou. Os reaccionários românticos Se a grande filosofia, representada por Leibniz e
nada mais fizeram do que exprimir a experiência Hegel, descobrira também uma pretensão de
dos próprios burgueses, a saber, que em seu mundo verdade nas manifestações subjectivas e objectivas
a liberdade tendia à anarquia organizada. A crítica que ainda não são pensamentos (ou seja, em
da contra-revolução católica provou que tinha razão sentimentos, instituições, obras de arte), o
contra o esclarecimento, assim como este tinha irracionalismo, de seu lado, isola o sentimento,
razão contra o catolicismo. O esclarecimento assim como a religião e a arte, de tudo o que merece
comprometera-se com o liberalismo. Se todos os o nome de conhecimento, e nisso como em outras
afectos se valem, a autoconservação – que domina coisas revela seu parentesco com o positivismo
de qualquer modo a figura do sistema – parece moderno, a escória do esclarecimento. Ele limita, é
constituir a fonte mais provável das máximas de verdade, a fria razão em proveito da vida imediata,
acção. É ela que viria a ser liberada no mercado convertendo, porém, a vida num princípio hostil ao
livre. Os escritores sombrios dos primórdios da pensamento. Sob a aparência dessa hostilidade, o
burguesia, como Maquiavel, Hobbes, Mandeville, sentimento e, no final das contas, toda expressão
que foram os porta-vozes do egoísmo do eu, humana e, inclusive, a cultura em geral são
reconheceram por isso mesmo a sociedade como o subtraídos à responsabilidade perante o pensamento,
princípio destruidor e denunciaram a harmonia, mas por isso mesmo se transformam no elemento
antes que ela fosse erigida em doutrina oficial pelos neutralizado da ratio universal do sistema
autores luminosos, os clássicos. Aqueles louvaram a económico que há muito se tornou irracional. Desde
totalidade da ordem burguesa porque viam nela o o início, ela não pôde se fiar unicamente em sua
horror que, ao fim e ao cabo, tragava a ambos, o força de atracção e teve que complementá-la com o
universal e o particular, a sociedade e o eu. Com o culto dos sentimentos. Mas quando ela conclama
desenvolvimento do sistema económico, no qual o aos sentimentos, ela se volta contra seu próprio
domínio do aparelho económico por grupos meio, o pensamento, que também foi sempre
privados divide os homens, a autoconservação suspeito para ela, a razão auto-alienada. A efusão
confirmada pela razão, que é o instinto que os ternos amantes exibem no filme já tem o
objectualizado do indivíduo burguês, revelou-se efeito de um golpe assestado contra a teoria
como um poder destrutivo da natureza, inseparável impassível, mas ela se prolonga na argumentação
da autodestruição. Estes dois poderes passaram a se sentimental contra o pensamento que ataca a
confundir turvamente. A razão pura tornou-se injustiça. Quando os sentimentos são erigidos assim
irrazão, o procedimento sem erro e sem conteúdo. em ideologia, o desprezo a que estão submetidos na
Mas a utopia que anunciava a reconciliação da realidade não fica superado. O facto de que,
natureza e do eu surgiu com a vanguarda comparados à altura sideral a que a ideologia os
revolucionária de seu esconderijo na filosofia alemã, transporta, apareçam sempre como demasiado
e se apresentou, de um modo ao mesmo tempo vulgares ajuda também a proscrevê-los. O veredicto
racional e irracional, como a Ideia de uma sobre os sentimentos já estava implícito na
associação de homens livres, atraindo para si toda a formalização da razão. A autoconservação continua
fúria da ratio. Na sociedade tal como ela é, a a ter, enquanto instinto natural e como os demais
autoconservação permanece livre da utopia impulsos, uma má consciência. Só a actividade
denunciada como mito, apesar das pobres tentativas industriosa e as instituições que devem servir a ela –
moralistas de propagar a humanidade como o mais isto é, a mediação que conquistou autonomia, o
racional dos meios. Para os dirigentes, a forma aparelho, a organização, o sistemático – gozam,
astuciosa da autoconservação é a luta pelo poder tanto no conhecimento quanto na prática, da
fascista e, para os indivíduos, é a adaptação a reputação de serem racionais. As emoções estão
qualquer preço à injustiça. A razão esclarecida é tão inseri das nisso.
incapaz de encontrar uma medida para graduar um O esclarecimento dos tempos modernos esteve
instinto em si mesmo e relativamente aos demais, desde o começo sob o signo da radicalidade: é isso
como para ordenar o universo em esferas. Muito que o distingue de toda etapa anterior da
acertadamente, ela desmascarou a concepção de desmitologização. Quando uma nova forma de vida
uma hierarquia na natureza como um reflexo da social surgia na história universal juntamente com
sociedade medieval, e as tentativas posteriores de uma nova religião e uma nova mentalidade,
comprovar uma hierarquia de valores nova e derrubavam-se os velhos deuses, juntamente com as
objectiva trazem na testa o estigma da mentira. O velhas classes, tribos e povos. Mas é sobretudo
irracionalismo que se denuncia nessas reconstruções quando um povo, os judeus por exemplo, era

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arrastado por seu próprio destino para uma nova hierarquia, quando estas há muito já haviam se
forma de vida social, que os antigos e amados convertido em mentiras graças ao esclarecimento.
costumes, as acções sagradas e os objectos de Mas o esclarecimento não possuía argumentos nem
veneração, se viam como que por encanto mesmo contra semelhante perversão de si mesmo,
transformados em crimes nefandos e espectros pois a pura verdade não goza de nenhum privilégio
medonhos. Os medos e as idiossincrasias actuais, os em face da distorção, a racionalização em face da
traços do carácter escarnecidos e detestados, podem ratio, se não tem nenhum privilégio prático a exibir
ser interpretados como marcas de progressos em seu favor. Com a formalização da razão, a
violentos ao longo do desenvolvimento humano. Do própria teoria, na medida em que pretende ser mais
nojo dos excrementos e da carne humana até o do que um símbolo para procedimentos neutros,
desprezo do fanatismo, da preguiça, da pobreza converte-se num conceito ininteligível, e o
material e espiritual, vemos desenrolar-se uma linha pensamento só é aceito como dotado de sentido após
de comportamentos que, de adequados e o abandono do sentido. Atrelado ao modo de
necessários, se converteram em condutas produção dominante, o esclarecimento, que se
execráveis. Essa linha é ao mesmo tempo a da empenha em solapar a ordem tornada repressiva,
destruição e a da civilização. Cada passo foi um dissolve-se a si mesmo. Isso ficou manifesto já nos
progresso, uma etapa do esclarecimento. Mas, primeiros ataques que o esclarecimento corrente
enquanto todas as mudanças anteriores (do empreendeu contra Kant, o “triturador universal”.
préanimismo à magia, da cultura matriarcal à Do mesmo modo que a filosofia moral de Kant
patriarcal, do politeísmo dos escravocratas à limitou sua crítica esclarecedora para salvar a
hierarquia católica) colocavam novas mitologias, possibilidade da razão, assim também,
ainda que esclarecidas, no lugar das antigas (o deus inversamente, o pensamento esclarecido mas
dos exércitos no lugar da Grande Mãe, a adoração irreflectido empenhou-se sempre, por uma questão
do cordeiro no lugar do totem), toda forma de de autoconservação, em superar-se a si mesmo no
devotamento que se considerava objectiva, cepticismo, a fim de abrir espaço suficiente para a
fundamentada na coisa, dissipava-se à luz da razão ordem existente.
esclarecida. Todos os vínculos dados previamente A obra de Sade, como a de Nietzsche, forma
sucumbiam assim ao veredicto que impunha o tabu, ao contrário a crítica intransigente da razão prática,
sem excluir aqueles que eram necessários para a comparada à qual a obra do “triturador universal”
existência da própria ordem burguesa. O aparece como uma revogação de seu próprio
instrumento com o qual a burguesia chegou ao pensamento. Ela eleva o princípio cientificista a um
poder – o desencadeamento das forças, a liberdade grau aniquilador. Kant, todavia, já expurgara a lei
universal, a autodeterminação, em suma, o moral em mim de toda fé heteronómica, e isso há
esclarecimento – voltava-se contra a burguesia tão tanto tempo que o respeito por suas asseverações se
logo era forçado, enquanto sistema da dominação, a tornaram um mero facto natural psicológico, como é
recorrer à opressão. Obedecendo a seu próprio um facto natural físico o céu estrelado sobre mim.
princípio, o esclarecimento não se detém nem “Um factum da razão”, como ele próprio o chama16,
mesmo diante do mínimo de fé sem o qual o mundo “un instinct général de société”, como o denomina
burguês não pode subsistir. Ele não presta à Leibniz.17 Mas os factos não valem nada quando
dominação os serviços confiáveis que as antigas não estão dados. Sade não nega sua ocorrência.
ideologias sempre lhe prestaram. Sua tendência anti- Justine, a boa dentre as duas irmãs, é uma mártir da
autoritária – que apenas subterraneamente, é lei moral. Juliette, porém, tira as consequências que
verdade, se comunica com a utopia implícita no a burguesia queria evitar: ela amaldiçoa o
conceito de razão – acaba por torná-la tão hostil à catolicismo, no qual vê a mitologia mais recente e,
burguesia estabelecida quanto à aristocracia, da qual com ele, a civilização em geral. As energias ligadas
aliás logo se tornou também uma aliada. O princípio ao sacramento são redirecionadas para o sacrilégio.
anti-autoritário acaba tendo que se converter em seu Essa inversão, porém, é transferida pura e
próprio contrário, numa instância hostil à própria simplesmente à comunidade. Em tudo isso, Juliette
razão: ele elimina tudo aquilo que é intrinsecamente não procede de modo algum com o fanatismo dos
obrigatório, e essa eliminação permite à dominação católicos em face dos incas. Ela apenas se dedica
decretar e manipular soberanamente as obrigações esclarecidamente, diligentemente, à faina do
que lhe são adequadas em cada caso. Depois de
proclamar a virtude burguesa e a filantropia, para as 16
Kritik der praktischen Vernunft, op. cit., vol. V, pp. 31,
quais já não tinha boas razões, a filosofia também 47, 55 entre outras.
proclamou como virtudes a autoridade e a 17
Nouveaux Essais sur l’Entendement Humain. Ed.
Erdmann, Berlim, 1840. Livro I, cap. II., § 9, p. 215.

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sacrilégio, que os católicos também têm no sangue ou do ódio. O arrependimento apresenta como
desde tempos arcaicos. Os comportamentos proto- existente o passado que a burguesia, ao contrário da
históricos que a civilização declarara tabu e que ideologia popular, sempre considerou como um
haviam se transformado sob o estigma da nada; ele é a recaída, e sua única justificativa
bestialidade em comportamentos destrutivos, perante a práxis burguesa seria preveni-la. Ou como
continuaram a levar uma vida subterrânea. Juliette diz Spinoza seguindo os estóicos: “poenitentia
não os pratica mais como comportamentos naturais, virtus non est, sive ex ratione non oritur, sed is,
mas proibidos por um tabu. Ela compensa o juízo de quem pacti poenitet, bis miser seu impotens est”.22
valor contrário, sem fundamento na medida em que Ele acrescenta imediatamente, porém, bem no
nenhum juízo de valor tem fundamento, pelo seu espírito do príncipe de Francavilla, o seguinte:
oposto. Assim, quando repete as reacções “terret vulgus, nisi metuat”23 e opina por isso como
primitivas, já não são mais as primitivas, mas as bom maquiavelista que a humildade e o
bestiais. Juliette, e nisso ela não é diferente do arrependimento assim como o medo e a esperança,
Merteuil de Liaisons Dangereuses18, não encarna, apesar de toda sua irracionalidade, seriam bastante
em termos psicológicos, nem a libido não-sublimada úteis. “A apatia (considerada como fortaleza) é um
nem a libido regredida, mas o gosto intelectual pela pressuposto indispensável da virtude”, diz Kant24,
regressão, amor intellectualis diaboli, o prazer de distinguindo essa “apatia moral” (um pouco à
derrotar a civilização com suas próprias armas. Ela maneira de Sade) da insensibilidade no sentido da
ama o sistema e a coerência, e maneja indiferença a estímulos sensíveis. O entusiasmo é
excelentemente o órgão do pensamento racional. No mau. A calma e a determinação constituem a força
que concerne ao autodomínio, suas instruções estão da virtude. “Tal é o estado de saúde na vida moral;
para as de Kant, às vezes, assim como a aplicação ao contrário, a emoção, mesmo quando é excitada
especial está para o princípio. “A virtude”, diz pela representação do bem, é uma brilhante e
Kant19, “na medida em que está fundada na instantânea aparição que deixa atrás de si a
liberdade interior, também contém para os homens lassidão”25. A amiga de Juliette, Clairwil constata o
um mandamento afirmativo, que é o de submeter mesmo do vício. “Minha alma é dura, e estou longe
todos os seus poderes e inclinações ao seu poder (da de achar a sensibilidade preferível à feliz apatia de
razão), por conseguinte o mandamento do domínio que desfruto. Ó Juliette,... tu te enganas talvez sobre
de si mesmo, que se acrescenta à proibição de essa sensibilidade perigosa de que se orgulham
deixar-se dominar por suas emoções e inclinações (o tantos imbecis”26. A apatia surge nos momentos
dever da apatia): porque, se a razão não toma em decisivos da história burguesa, e mesmo da
mãos as rédeas do governo, aquelas agem sobre os antiguidade, quando os pauci beati27, em face da
homens como se fossem seus amos.” Juliette força superior da tendência histórica, se dão conta
disserta sobre a autodisciplina do criminoso. da própria impotência. Ela assinala o recuo da
“Primeiro, imagine seu plano com vários dias de espontaneidade individual-humana para a esfera
antecedência, reflicta sobre todas as consequências, privada, que só então logra se constituir, assim
examine com atenção o que poderá lhe ser útil... o como a autêntica forma de vida burguesa. O
que seria susceptível de traí-la, e pese essas coisas estoicismo – e é nisto que consiste a filosofia
com o mesmo sangue-frio como se tivesse a certeza burguesa – torna mais fácil para os privilegiados,
de ser descoberta”20. A fisionomia do assassino deve em face dos sofrimentos dos outros, enfrentar as
revelar a maior calma. “... faça reinar nela a calma e ameaças a si próprios. Ele preserva o universal,
a indiferença e trate de adquirir o maior sangue-frio elevando a vida privada ao nível de um princípio
possível nessa situação... se você não tivesse a para se proteger dele. A esfera privada do burguês é
certeza de não ter nenhum remorso, e jamais a terá o património cultural decaído da classe superior.
senão pelo hábito do crime, se, eu dizia, você não
tivesse a inteira certeza disso, em vão você
trabalharia para se tornar senhora do jogo de sua 22
fisionomia”21. A liberdade de remorsos é tão [“O arrependimento não é uma virtude, ou não se origina
da razão, mas quem se arrepende do que fez é duas vezes
essencial para a razão formalista quanto a do amor miserável ou impotente”.] Spinoza, Ethica, parte IV, prop.
LIV. p. 368.
23
[“O povo mete medo, a não ser que tenha medo”] .lbid.,
18
Cf. a introdução de Heinrich Mann à edição da Schol.
24
Inselverlag. Metaphysische Anfänge der Tugendlehre, op. cit., vol. VI,
19
Metaphysische Anfänge der Tugendlehre, op. cit., vol. VI, p. 408.
25
p. 408. Ibid., p. 409.
20 26
Juliette, op. cit., vol. IV, p. 58. Juliette, op. cit., V. II, p. 114.
21 27
Ibid., pp. 60 sg. “Poucos bem-aventurados.” (N. do T.)

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O credo de Juliette é a ciência. Ela abomina longo encerramento e clausura na paz da
toda veneração cuja racionalidade não se possa comunidade, eles retornam à inocência moral do
demonstrar: a fé em Deus e em seu filho morto, a animal de rapina, como monstros a se rejubilar,
obediência aos dez mandamentos, a superioridade talvez saindo de uma série horrorosa de
do bem sobre o mal, da salvação sobre o pecado. Ela assassinatos, incêndios, estupros, torturas, com a
se vê atraída pelas reacções proscritas pelas lendas insolência e a serenidade de quem cometeu apenas
da civilização. Ela opera com a semântica e com a uma travessura de estudantes, convencidos de que
sintaxe lógica como o mais moderno positivismo, os poetas terão agora e por muito tempo algo a
mas diferentemente desse empregado da mais nova cantar e a celebrar... Essa ‘audácia’ de raças nobres,
administração, ela não dirige sua crítica linguística louca, absurda, súbita, tal como se exprime, o
de preferência contra o pensamento e a filosofia, próprio carácter imprevisível e improvável de seus
mas, filha que é do esclarecimento militante, contra empreendimentos… sua indiferença e desprezo por
a religião. “Um Deus morto!” diz ela de Cristo28, segurança, corpo, vida, conforto, sua terrível
“nada é mais cómico do que essa incoerência do jovialidade e a profundidade do prazer em destruir,
dicionário católico: Deus, quer dizer eterno; morto, do prazer que se tira de todas as volúpias da vitória
quer dizer não eterno. Cristãos imbecis, o que e da crueldade”34, essa audácia, que Nietzsche
quereis fazer com vosso Deus morto?” A proclama, também arrebatou Juliette. “Viver
transformação do que é condenado sem prova perigosamente” é também sua mensagem: “... oser
científica em algo digno de ser ambicionado, bem tout dorénavant sans peur”35. Há os fracos e os
como do que é reconhecido sem base em provas em fortes, há classes, raças e nações que dominam e há
objecto da abominação, a transvaloração dos as que se deixaram vencer. “Onde está”, exclama o
valores, “a coragem para o proibido”29 sem o senhor de Verneuil36, “o mortal que seria idiota o
traiçoeiro “vamos!” de Nietzsche, sem o seu bastante para assegurar contra toda evidência que os
idealismo biológico, eis aí sua paixão específica. homens nascem iguais de direito e de facto! Coube a
“Serão precisos pretextos para cometer um crime?” um misantropo como Rousseau formular semelhante
exclama a princesa Borghese, sua boa amiga, bem paradoxo, pois, extremamente fraco como era,
em seu espírito30. Nietzsche proclama a queria rebaixar à sua altura aqueles à altura dos
quintessência de sua doutrina31. “Os fracos e os quais não conseguia se elevar. Mas que
malformados devem perecer: primeira proposição imprudência, pergunto eu, podia autorizar esse
de nossa filantropia. E convém ainda ajudá-los a pigmeu de quatro pés e duas polegadas a se
isso. O que é mais prejudicial do que qualquer vício comparar à estatura que a natureza dotou da força e
– a compaixão activa por todos os malformados e do aspecto de um Hércules? Não é como se a mosca
fracos – o cristianismo...”32 A religião cristã, tentasse se assemelhar aos elefantes? Força, beleza,
“singularmente interessada em domar os tiranos e estatura, eloquência: nos primórdios da sociedade,
reduzi-los a princípios de fraternidade ... essas virtudes eram determinantes quando a
desempenha aqui o papel do fraco; ela o representa, autoridade passou para as mãos dos dominantes”. –
ela deve falar como ele... e devemos estar “Exigir da força”, continua Nietzsche37, “que ela
persuadidos de que esse laço [de fraternidade -trad.] não se manifeste como força, que ela não seja uma
foi, na verdade, proposto pelo fraco, foi sancionado vontade de vencer, abater e dominar, que ela não
por ele quando a autoridade sacerdotal encontrou-se seja uma sede de inimigos, resistência e triunfos, é
por acaso em suas mãos”33. É isso que Noirceuil, o um contra-senso tão grande quanto exigir da
mentor de Juliette, contribui à genealogia da moral. fraqueza que ela se manifeste como a força”. –
Maldosamente Nietzsche celebra os poderosos e sua “Como é que o senhor quer”, diz Verneuil,38 “que
crueldade exercida “para fora, onde começa a terra aquele que recebeu da natureza a máxima
alheia”, quer dizer, perante tudo o que não pertence disposição para o crime, seja pela superioridade de
a eles próprios. “Eles gozam aí da liberdade de toda suas forças e a fineza de seus órgãos, seja pela
coerção social, eles buscam nas regiões selvagens educação condizente com seu estado ou suas
uma compensação para a tensão provocada por um riquezas; como é que o senhor quer, repito, que esse
indivíduo seja julgado em conformidade com a
28
Op. cit., vol. III, p. 282.
29 34
Fr. Nietzsche. Umwertung a1ler Werte. Werke. Kröner, Genealogie der Moral, op. cit., vol. VII, pp. 321 sgg.
35
vol. VIII, p. 213 [“Ousar tudo doravante sem medo”] Juliette, op. cit., vol.
30
Juliette, op. cit., vol. IV, p. 204. I, p. 300
31 36
E. Dühren apontou esse parentesco em suas Neuen Histoire de Justine. Holanda, 1797, vol. IV, p. 4.
Forschungen (Berlim, 1904, pp. 453 sgg.). (Também citado em Dühren, op. cit., p. 452.)
32 37
Nietzsche. op. cit.. vol. VIlI, p. 218. Genea1ogie der Moral, op. cit., vol. VII, p. 326 sg.
33 38
Juliette, op. cit., vol. I, pp. 315 sg. Justine. op. cit., vol. IV, p. 7.

47
mesma lei como aquele que tudo incita à virtude e à ela criou-o para ser escravo e pobre, ele não quer
moderação? Seria mais justa a lei se ela punisse os submeter-se a isso, eis aí sua falta”42. Nesses
dois homens da mesma maneira? Será natural que o discursos magistrais, Dorval, o cabeça de uma
homem a quem tudo convida a fazer o mal seja respeitável gangue parisiense, desenvolve perante
tratado como o homem que tudo impele a se Juliette o credo secreto de todas as classes
comportar com prudência”? Depois que a ordem dominantes, que Nietzsche censurou, acrescido da
objectiva da natureza foi posta de lado a título de psicologia do ressentimento, aos seus
prejuízo e mito, só restou a natureza enquanto massa contemporâneos. Como Juliette ele admira “a
de matéria. Nietzsche não admite nenhuma lei “que terrível beleza do crime”43 ainda que, professor
não apenas conheçamos, mas também alemão que é, se distinga de Sade por desaprovar o
reconheçamos sobre nós”39. Se o entendimento, criminoso porque seu egoísmo “se dirige e se
formado segundo a norma da autoconservação, restringe a metas tão baixas. Se as metas são
percebe uma lei da vida, esta lei é a lei do mais grandiosas, a humanidade usa um outro padrão e
forte. Mesmo que o formalismo da razão a impeça não avalia como tal o ‘crime’, nem mesmo os meios
de proporcionar à humanidade um modelo mais terríveis”44. Desse preconceito favorável ao
necessário, ela tem sobre a ideologia mentirosa a que é grande, que de facto caracteriza o mundo
vantagem da factualidade. Os culpados, eis aí a burguês, ainda está livre a esclarecida Juliette. Para
doutrina de Nietzsche, são os fracos, eles iludem ela, o escroque não é menos simpático do que o
com sua astúcia a lei natural. “O grande perigo para ministro simplesmente porque suas vítimas são em
os homens são os indivíduos doentios, não os maus, menor número. Para o alemão, porém, a beleza
não os ‘predadores’. São os desgraçados, os provém do alcance do acto; ele não consegue se
vencidos, os destruídos de antemão – são eles, são livrar, em meio a todo o crepúsculo dos ídolos, do
os fracos que mais solapam a vida entre os homens, costume idealista de querer enforcar o pequeno
que envenenam e colocam em questão da maneira ladrão e transformar os assaltos imperialistas em
mais perigosa nossa confiança na vida e nos missões histórico-universais. Ao erigir o culto da
homens”40. Eles difundiram o cristianismo no força em doutrina histórico-universal, o fascismo
mundo, que Nietzsche não abomina e odeia menos alemão reduziu-o ao mesmo tempo ao absurdo que o
do que Sade. “... na verdade, não são as represálias caracteriza. Enquanto protesto contra a civilização, a
do fraco contra o forte que estão na natureza; elas aí moral dos senhores defendeu indirectamente os
estão no moral, mas não no físico, já que, para oprimidos: o ódio pelos instintos atrofiados
empregar essas represálias, é preciso que ele use denuncia objectivamente a verdadeira natureza do
forças que não recebeu, é preciso que adopte um mestre disciplinador, que só se manifesta em suas
carácter que não lhe é dado, que ele constranja de vítimas. Mas enquanto grande potência e religião do
alguma maneira a natureza. Mas o que, Estado, a moral dos senhores entrega-se
verdadeiramente, está nas leis dessa mãe sábia é a definitivamente aos civilizatórios powers that be45, à
lesão do fraco pelo forte, já que, para chegar a esse maioria compacta, ao ressentimento e a tudo aquilo
procedimento, ele não faz senão usar os dons que a que antes se opunha. É a realização das próprias
recebeu. Ele não precisa se revestir, como o fraco, ideias que refuta Nietzsche e ao mesmo tempo libera
de um carácter diferente do seu: ele só coloca em nele a verdade que, apesar de toda afirmação da
acção os efeitos do carácter que recebeu da vida, era hostil ao espírito da realidade.
natureza. Por isso, tudo o que daí resulta é natural: Se o arrependimento já era considerado como
sua opressão, suas violências, suas crueldades, suas contrário à razão, a compaixão é o pecado pura e
tiranias, suas injustiças,... são, pois, puras como a simplesmente. Quem cede a ela “perverte a lei
mão que as gravou; e quando ele usa de todos os universal: donde resulta que a piedade, longe de ser
seus direitos para oprimir o fraco, para despojá-lo, uma virtude, se torna um verdadeiro vício tão pronto
não faz senão a coisa mais natural do mundo... Não ela nos leva a interferir com uma desigualdade
tenhamos, pois, escrúpulos quanto ao que podemos prescrita pelas leis da natureza”46. Sade e Nietzsche
tomar do fraco, pois não somos nós que cometemos viram que, após a formalização da razão, a
o crime, é a defesa ou a vingança do fraco que compaixão subsistia por assim dizer como a
caracteriza o crime”41. Quando o fraco se defende, consciência sensível da identidade do universal e do
ele comete pois uma injustiça, a saber, a injustiça
“de sair do carácter que a natureza imprimiu nele: 42
Ibid.. pp. 211 sg.
43
Jenseits von Gut und Böse, op. cit., vol. III, p. 100.
39 44
Nachlass, op. cit., vol. XI, p. 214. Nachlass, op. cit., vol. XII, p. 108.
40 45
Genealogie der Moral, op. cit., vol. VII, p. 433. Potências existentes. (N. do T.)
41 46
Juliette, op. cit., vol. I, pp. 208 sgg. Juliette, op. cit., vol. I, p. 313.

48
particular, como a mediação naturalizada. Ela compaixão: daí a necessidade da descarga através da
constitui o preconceito mais compulsivo, “quamvis tragédia. Vemos assim como essa inclinação lhes
pietatis specimen prae se ferre videatur”, como diz parecia suspeita. Ela é perigosa para o Estado, tira a
Spinoza47, “pois quem não é levado a ajudar os necessária dureza e rigor, faz com que os heróis se
outros nem pela razão, nem pela compaixão é com comportem como mulheres em prantos etc.”57
razão chamado desumano”.48 A commiseratio é a Zaratustra prega: “Vejo tanta bondade, tanta
humanidade em sua figura imediata, mas ao mesmo fraqueza. Tanta justiça e compaixão, tanta
tempo “mala et inutilis”49, a saber, o contrário do fraqueza”58. De facto, a compaixão tem um aspecto
valor viril que, da virtus romana passando pelos que não se coaduna com a justiça, com a qual porém
Medicis até a efficiency da família Ford, foi sempre Nietzsche a confunde. Ela confirma a regra da
a única virtude verdadeiramente burguesa. desumanidade através da excepção que ela pratica.
Efeminada e infantil, eis como Clairwil chama a Ao reservar aos azares do amor ao próximo a tarefa
compaixão, jactando-se de seu “estoicismo”, do de superar a injustiça, a compaixão acata a lei da
“repouso das paixões”, que lhe permite tudo “fazer e alienação universal, que ela queria abrandar, como
tudo aguentar sem emoção”50. “... a piedade, longe algo inalterável. Certamente, o compassivo defende
de ser uma virtude, não é senão uma fraqueza como indivíduo a pretensão do universal – a saber,
nascida do temor e do infortúnio, fraqueza que é de viver – contra o universal, contra a natureza e a
preciso absorver, sobretudo quando nos sociedade que a recusam. Mas a unidade com o
empenhamos em embotar uma excessiva universal, entendida como interioridade, que o
sensibilidade incompatível com as máximas da indivíduo pratica, revela-se como falaciosa em sua
filosofia”51. É das mulheres que provêm “as própria fraqueza. Não é a moleza, mas o aspecto
explosões de ilimitada compaixão”52. Sade e limitador da compaixão, que a torna questionável,
Nietzsche sabiam que sua doutrina da ela é sempre insuficiente. Do mesmo modo que a
pecaminosidade da compaixão era uma velha apatia estóica (que serve para adestrar a frieza
herança burguesa. Este aponta para todas as “épocas burguesa, o contrário da compaixão) conservou
fortes”, para as “civilizações superiores”, aquele melhor do que a vulgaridade participativa, que se
para Aristóteles53 e os peripatéticos54. A compaixão adaptou ao todo, a mísera lealdade ao universal de
não resiste à filosofia, e o próprio Kant não que se afastara, assim também aqueles que
constituiu excepção. Para Kant, ela é “uma certa desmascararam a compaixão declararam-se
sentimentalidade” e não teria “em si a dignidade da negativamente pela revolução. As deformações
virtude”55. Ele não vê, porém, que o princípio da narcísicas da compaixão, como os sentimentos
“benevolência universal para com a raça humana”56, sublimes do filantropo e a arrogância moral do
pelo qual tenta substituir, em oposição ao assistente social, são a confirmação interiorizada da
racionalismo de Clairwil, a compaixão, incorre na diferença entre ricos e pobres. Todavia, o facto de
mesma maldição da irracionalidade lançada sobre que a filosofia divulgou imprudentemente o prazer
essa “paixão bondosa” que pode facilmente tentar o proporcionado pela dureza, colocou-o à disposição
homem a se tornar “um ocioso sentimental”. O daqueles que menos lhe perdoam a confissão. Os
esclarecimento não se deixa enganar; nele o facto fascistas que dominaram o mundo traduziram o
universal não tem nenhum privilégio sobre o facto horror pela compaixão no horror pela indulgência
particular, nem o amor sem limites” sobre o amor política e no recurso à lei marcial, no que se uniram
limitado. A compaixão é suspeita. Como Sade, a Schopenhauer, o metafísico da compaixão. Este
Nitezsche também recorre à ars poetica para uma considerava a esperança de instituir a humanidade
avaliação crítica. “Segundo Aristóteles os gregos como a loucura temerária daqueles cuja única
sofriam frequentemente de um excesso de esperança é a infelicidade. Os inimigos da
compaixão não queriam identificar o homem com a
infelicidade, cuja existência era, para eles, uma
47
[“Embora pareça ser uma espécie de piedade”.] Ethica, vergonha. Sua delicada impotência não tolerava que
parte IV, apêndice, cap. XVI. o homem fosse objecto de lamentações.
48
Ibid., prop. L. .Schol.
49
Ibid., prop. L.
Desesperada, ela se converteu no louvor da potência
50
Juliette, op. cit., vol. II, p. 125. que, no entanto, renegavam na prática sempre que se
51
Ibid. oferecia a eles.
52
53
Nietzsche contra Wagner, op. cit., vol. VIII, p. 204. A bondade e a beneficência tornam-se pecado,
Juliette, op. cit., vol. I. p. 313. a dominação e a opressão virtude. “Todas as coisas
54
Op. cit., vol. II, p. 126.
55
Beobachtungen über das Gefühl des Schonen und
57
Erhabenen, op. cit.. vol. II, pp. 215 sg. Nachlass, op. cit., vol. XI, pp. 227 sg.
56 58
Ibid. Also Sprach Zarathustra, op. cit., vol. VI, p. 248.

49
boas foram outrora coisas ruins; todo pecado superioridade racional, Juliette conserva ainda uma
original transformou-se numa virtude original”59. superstição. Ela reconhece a ingenuidade do
Juliette leva-o a sério também agora, na nova época; sacrilégio, mas acaba por tirar prazer dele. Todo
pela primeira vez ela procede de maneira consciente gozo, porém, deixa transparecer uma idolatria: ele é
à transvaloração. Uma vez destruídas todas as o abandono de si mesmo a uma outra coisa. A
ideologias, ela adopta como moral pessoal aquilo natureza não conhece propriamente o gozo: ela não
que a cristandade considerava execrável na o prolonga além do que é preciso para a satisfação
ideologia, embora nem sempre na prática. Como da necessidade. Todo prazer é social, quer nas
boa filósofa, ela permanece, ao fazer isso, fria e emoções não sublimadas quer nas sublimadas, e tem
reflectida. Tudo se passa sem ilusões. Quando origem na alienação. Mesmo quando o gozo ignora
Clairwil lhe propõe cometer um sacrilégio, ela dá a a proibição que transgride, ele tem sempre por
seguinte resposta: “A partir do momento em que não origem a civilização, a ordem fixa, a partir da qual
cremos em Deus, minha cara, as profanações que aspira retornar à natureza, da qual aquela o protege.
desejas nada mais são do que criancices Os homens só sentem a magia do gozo quando o
absolutamente inúteis... talvez eu seja mais segura sonho, liberando-os da compulsão ao trabalho, da
do que tu; meu ateísmo está no auge. Não imagines, ligação do indivíduo a uma determinada função
portanto, que eu tenha necessidade, para me social e finalmente a um eu, leva-os de volta a um
fortalecer, das criancices que me propões; estou passado pré-histórico sem dominação e sem
pronta a executá-las, já que te agradam, mas como disciplina. É a nostalgia dos indivíduos presos na
simples divertimentos” – a assassina americana civilização, o “desespero objectivo” daqueles que
Annie Henry teria dito: just for fun60 – “e jamais tiveram que se tornar em elementos da ordem social,
como uma coisa necessária, seja para fortificar que alimenta o amor pelos deuses e demónios; era
minha maneira de pensar, seja para convencer os para estes, enquanto natureza transfigurada, que eles
outros”61. Transfigurada por um efémero impulso de se voltavam na adoração. O pensamento tem origem
benevolência para com a cúmplice, ela deixa que no processo de liberação dessa natureza terrível, que
seus princípios prevaleçam. Até mesmo a injustiça, acabou por ser inteiramente dominada. O gozo é por
o ódio e a destruição tornam-se uma actividade assim dizer sua vingança. Nele os homens se livram
maquinal depois que, devido à formalização da do pensamento, escapam à civilização. Nas
razão, todos os objectivos perderam, como uma sociedades mais antigas, os festivais possibilitavam
miragem, o carácter da necessidade e objectividade. este retorno à natureza como um retorno em
A magia transfere-se para o mero fazer, para o meio, comum. As orgias primitivas são a origem colectiva
em suma, para a indústria. A formalização da razão do gozo. “Esse intervalo de universal confusão que
é a mera expressão intelectual do modo de produção constitui a festa”, diz Roger Caillois, “aparece assim
maquinal. O meio é fetichizado: ele absorve o como o espaço de tempo em que a ordem do mundo
prazer. Assim como o esclarecimento transformava está suspensa. Eis por que todos os excessos são
teoricamente em ilusões os objetivos com que se então permitidos. O que importa é agir contra as
adornava a antiga dominação, assim também ele os regras. Tudo deve ser feito ao contrário. Na época
priva, com a possibilidade da abundância, de seu mítica, o curso do tempo estava invertido: nascia-se
fundamento prático. A dominação sobrevive como velho, morria-se criança... Assim, todas as
fim em si mesmo, sob a forma do poder económico. prescrições que protegem a boa ordenação natural e
O gozo já parece algo de antiquado, irrealista, como social são então sistematicamente violadas”63. As
a metafísica que o proibia. Juliette fala sobre os pessoas se abandonam às potências transfiguradas
motivos do crime62. Ela própria não é menos ávida da origem; mas, do ponto de vista da suspensão da
de honrarias e dinheiro do que seu amigo Sbrigani, proibição, esse modo de agir tem o carácter do
mas ela idolatra o proibido. Sbrigani, que é um excesso e do desvario64. É só com o progresso da
homem dos meios e do dever, é mais avançado: “O civilização e do esclarecimento que o eu fortalecido
que importa é nos enriquecer, e nós nos tornamos e a dominação consolidada transformam o festival
gravemente culpados se não atingimos essa meta; só em simples farsa. Os dominadores apresentam o
quando estamos bem adiantados no caminho da gozo como algo racional, como tributo à natureza
riqueza podemos nos permitir colher os prazeres: até não inteiramente domada; ao mesmo tempo
aí, é preciso esquecê-los”. Apesar de toda procuram torná-lo inócuo para seu uso e conservá-lo
na cultura superior; e finalmente, na impossibilidade
59
Genealogie der Moral, op. cit., vol. VII, p. 421.
60 63
Só pelo prazer, só para se divertir. (N. do T.) Théorie de la Fête, em Nouvelle Revue Française, jan.
61
Juliette, op. cit., vol. III, pp. 78 sg. 1940, p. 49
62 64
Op. cit., vol. IV, pp. 126 sg. cf. Caillois, op. cit.

50
de eliminá-lo totalmente, tentam dosá-lo para os burguês. Os adolescentes não têm mais a família
dominados. O gozo torna-se objecto da manipulação como seu horizonte, a autonomia do pai desaparece
até desaparecer inteiramente nos divertimentos e com ela a resistência a sua autoridade. Antes, a
organizados. O processo se desenvolve do festival servidão na casa paterna acendia na moça a paixão
primitivo até as férias. “Quanto mais se acentua a que parecia levar à liberdade, ainda que esta não se
complexidade do organismo social, menos ela tolera realizasse nem no casamento nem em nenhum outro
a interrupção do curso ordinário da vida. É preciso lugar. Mas, ao mesmo tempo que se abre para a
que tudo continue hoje como ontem e amanhã como moça a possibilidade do job67, fecham-se para ela as
hoje. A efervescência geral não é mais possível. O perspectivas do amor. Quanto mais universalmente
período de turbulência individualizou-se. As férias o sistema industrial moderno exige de cada um que
sucedem à festa.”65 No regime fascista, elas são se deixe assalariar, mais se acentua a tendência a
complementadas pela falsa euforia colectiva transformar os que não foram engolfados neste mar
produzida pelo rádio, pelos slogans e pela do white trash68, em que se converteu o trabalho e o
benzedrina. Sbrigani tem um certo pressentimento desemprego não-qualificados, no pequeno
disso. Ele se permite algum divertimento “sur la especialista, obrigado a cuidar de sua própria vida.
route de la fortune”, a título de férias. Juliette, ao Sob a forma do trabalho qualificado, a autonomia do
contrário, simpatiza com o Ancien Régime. Ela empresário – que já pertence ao passado – torna-se
diviniza o pecado. Sua libertinagem está sob a característica de todos os que são admitidos no
ascendência do catolicismo, assim como o êxtase da processo de produção e assim também da mulher
freira sob o signo do paganismo. “profissional”. O respeito próprio das pessoas cresce
Nietzsche sabe que todo gozo tem um carácter proporcionalmente a sua fungibilidade. A oposição
mítico. Abandonando-se à natureza, o gozo abdica à família não é mais uma audácia, do mesmo modo
do que seria possível, assim como a compaixão que o namoro com o boy-friend69 tampouco é o
renuncia à mudança do todo. Ambos contêm um paraíso na terra. As pessoas assumem em face das
elemento de resignação. Nietzsche detecta-o em outras aquela relação racional, calculadora, que há
todos os cantos, como o gozo de si mesmo na muito fora proclamada como uma antiga sabedoria
solidão, como o prazer masoquista nas depressões no círculo esclarecido de Juliette. O espírito e o
do autotorturador. “Contra todos os que se corpo são separados na realidade, como haviam
contentam em gozar!”66 Juliette procura salvá-lo exigido aqueles libertinos, que não passavam de
recusando o amor abnegado, o amor burguês que, burgueses indiscretos. “De novo, parece-me” -
enquanto resistência à inteligência da burguesia, é decreta Noirceuil como bom racionalista70 – “que é
característico de seu último século. No amor, o gozo uma coisa muito diferente amar e gozar... Pois os
estava associado à divinização da pessoa que o sentimentos de ternura correspondem às relações de
concedia, ele era a paixão propriamente humana. humor e de conveniências, mas não se devem de
Mas acaba por ser revogado como um juízo de valor modo algum à beleza de um colo ou ao bonito
condicionado pelo sexo. Na adoração exaltada do torneado dos quadris; e esses objectos que, segundo
amante, assim como na admiração irrestrita que lhe o gosto de cada um, podem excitar vivamente as
devia a amada, o que se repetia sempre era a afecções físicas, não têm, porém, parece-me, o
transfigura da efectiva servidão da mulher. Com mesmo direito às afecções morais. Para completar
base no reconhecimento dessa servidão, os sexos minha comparação, Bélize é feia, tem quarenta anos,
voltavam sempre a se reconciliar: a mulher parecia sua pessoa não tem a menor graça, não tem um só
assumir livremente a derrota, o homem conceder-lhe traço regular, um único atractivo; mas Bélize tem
a vitória. O cristianismo transfigurou no casamento, espírito, um carácter delicioso, um milhão de coisas
como união dos corações, a hierarquia dos sexos e o que se encadeiam com meus sentimentos e meus
jugo imposto ao carácter feminino pela ordenação gostos; não tenho nenhum desejo de me deitar com
masculina da propriedade, aplacando assim a Bélize, – mas nem por isso eu a amarei menos
lembrança de um passado mais feliz desfrutado pelo loucamente; desejarei fortemente ter Araminthe,
sexo feminino na era pré-patriarcal. Na sociedade mas eu a detestarei cordialmente tão logo a febre do
industrial, o amor é facturado. A ruína da desejo houver passado...” A consequência
propriedade média e o desaparecimento do sujeito inevitável, implicitamente colocada com a divisão
económico livre afectam a família: ela não é mais a cartesiana do homem na substância pensante e na
célula da sociedade, outrora tão celebrada, já que
não constitui mais a base da vida económica do 67
Emprego. (N. do T.)
68
A ralé, o zé-povinho branco. (N. do T.)
65 69
Ibid., pp. 58 sg. Namorado. (N. do T.)
66 70
Nachlass, op. cit., vol. XII, p. 364. Juliette, op. cit., vol. II, pp. 81 sg.

51
substância extensa, é proferida com toda clareza sexual, à psicanálise e à terapêutica hormonal, no
como a destruição do amor romântico. Este é homem prático e aberto que estende à vida sexual
considerado como disfarce, racionalização do sua fé no desporto e na higiene. A crítica de Juliette
instinto físico, “uma falsa e sempre perigosa é dividida como o próprio esclarecimento. Na
metafísica”71, como explica o conde de Belmor em medida em que a destruição sacrílega do tabu, que
seu grande discurso sobre o amor. Apesar de toda a se aliou em certa época à revolução burguesa, não
libertinagem, os amigos de Juliette atribuem à levou a um novo senso de realidade, ela continua a
sexualidade em oposição à ternura, ao amor terreno conviver com o amor sublime no sentido da
em oposição ao celestial, não apenas um poder um fidelidade a uma utopia agora mais próxima e que
pouquinho excessivo, mas também um carácter põe o gozo físico ao alcance de todos.
excessivamente inócuo. A beleza do colo e o “O entusiasmo ridículo, que nos consagrou a
torneado dos quadris agem sobre a sexualidade não um indivíduo determinado e a ele só, a exaltação da
como factos a-históricos, puramente naturais, mas mulher no amor, leva-nos de volta, para além do
como imagens que encerram toda a experiência cristianismo, à sociedade matriarcal”. “... é certo que
social. Nesta experiência está viva a intenção de nosso espírito de galanteria cavalheiresca, que
algo diverso da natureza, o amor não limitado ao ridiculamente presta homenagem a um objecto feito
sexo. Mas a ternura, até mesmo a mais incorpórea, é tão-somente para nossas necessidades, é certo,
a sexualidade metamorfoseada. A mão acariciando repito, que esse espírito nasce do antigo respeito que
os cabelos e o beijo na fronte, que exprimem o nossos ancestrais tinham outrora pelas mulheres, em
desvario do amor espiritual, são formas apaziguadas razão do ofício de profetisas que exerciam nas
de golpes e mordidas que acompanham, por cidades e nos campos: por medo, passamos do
exemplo, o acto sexual dos selvagens australianos. respeito ao culto, e a galanteria nasceu no seio da
A separação é abstracta. A metafísica falsifica, superstição. Mas esse respeito não esteve jamais na
ensina Belmor, os factos, ela impede de ver o amado natureza, seria perda de tempo buscá-lo aí. A
como ele é, ela nasce da magia, ela é um véu. “E eu inferioridade desse sexo relativamente ao nosso está
não o arranco! É fraqueza... pusilanimidade. Vamos suficientemente bem estabelecida para que jamais
analisar, após o gozo, esta deusa que me cegava possa excitar em nós um motivo sólido para
antes.”72 O próprio amor é um conceito não- respeitá-lo, e o amor que nasce desse respeito cego,
científico: “... as definições erróneas nos induzem não passa de um preconceito como ele próprio”.75 É
sempre em erro”, explica Dolmance no memorável na violência, por mais que ela se esconda sob os
5º diálogo da Philosophie dans le Boudoir, “não sei véus da legalidade, que repousa afinal a hierarquia
o que é isto, o coração. Este é um nome que dou social. A dominação da natureza se reproduz no
apenas à fraqueza do espírito”73. “Passemos um interior da humanidade. A civilização cristã – que
momento, como Lucrécio diz aos “bastidores da permitiu que a ideia de proteger os fisicamente
vida”74, isto é, à análise “e veremos que nem a fracos revertesse em proveito da exploração do
exaltação da amante nem o sentimento romântico servo forte – jamais conseguiu conquistar
resiste à análise… é o corpo apenas que amo e é o inteiramente os corações dos povos convertidos. O
corpo apenas que lamento embora possa reencontrá- princípio do amor foi excessivamente desmentido
lo a qualquer instante”. O que é verdadeiro nisso pelo entendimento agudo e pelas armas ainda mais
tudo é o discernimento da dissociação do amor, obra aguçadas dos senhores cristãos, até que o
do progresso. Através dessa dissociação, que luteranismo eliminou a antítese do Estado e da
mecaniza o prazer e distorce o anseio em trapaça, o doutrina, fazendo da espada e do açoite a
amor é atacado em seu núcleo. Quando Juliette faz quintessência do evangelho. Ele identificou
do louvor da sexualidade genital e perversa uma directamente a liberdade espiritual à afirmação da
crítica do não-natural, do imaterial, do ilusório, a opressão real. Mas a mulher traz o estigma da
libertina já passou ela própria para o lado dessa fraqueza e por causa dessa fraqueza está em
normalidade que deprecia não somente o minoria, mesmo quando numericamente é superior
arrebatamento utópico do amor, mas também o gozo ao homem. Como no caso dos autóctones
físico, não somente a felicidade mais celestial, mas subjugados nas primeiras formações estatais, assim,
também a mais terrena. O devasso sem ilusões que como no caso dos indígenas nas colónias, atrasados
Juliette defende transforma-se, graças à pedagogia relativamente aos conquistadores em termos de
organização e armas, bem como no caso dos judeus
71 entre os arianos, o desamparo da mulher é a
Op. cit., vol. III, pp. 172 sg.
72
Op. cit., vol. III, pp. 176 sg.
justificação legal de sua opressão. Sade formula as
73
Edition privée par Helpey. p. 267.
74 75
Juliette, loc. cit. Ibid., pp. 178 sg.

52
reflexões de Strindberg. “Não duvidemos de que ser pretensamente natural é produto da história que a
haja uma diferença tão certa e tão importante entre desnatura. A vontade desesperada de destruir tudo
um homem e uma mulher como entre o homem e o aquilo que encarna a fascinação da natureza, do
macaco da floresta. As razões que teríamos para inferiorizado fisiológica, biológica, nacional e
recusar que as mulheres façam parte de nossa socialmente, mostra que a tentativa do cristianismo
espécie são tão boas como as razões que temos para fracassou. “… que ne puis-je, d’un mot, les réduire
recusar que esses macacos sejam nossos irmãos. toutes en cet état!”79 Extirpar inteiramente a odiosa,
Examinemos atentamente uma mulher nua ao lado irresistível tentação de recair na natureza, eis aí a
de um homem de sua idade e nu como ela e nos crueldade que nasce na civilização malograda, a
convenceremos facilmente da diferença sensível que barbárie, o outro lado da cultura. “Todas!” Pois a
existe (sexo à parte) na composição desses dois destruição não admite excepções, a vontade de
seres, veremos bem claramente que a mulher não destruir é totalitária, e totalitária é só a vontade de
passa de uma degradação do homem; as diferenças destruir. “Estou a ponto”, diz Juliette ao papa, “de
existem igualmente no interior, e a anatomia de desejar como Tibério que o género humano só tenha
ambas as espécies, feita ao mesmo tempo e com a uma cabeça para ter o prazer de cortá-la com um só
mais escrupulosa atenção, descobre essas golpe”80. Os sinais de impotência, os movimentos
verdades”.76 A tentativa do cristianismo de bruscos e descoordenados, a angústia do pobre-
compensar ideologicamente a opressão do sexo pelo coitado, o tumulto, provocam a vontade de matar. A
respeito à mulher e, assim, enobrecer a explicação do ódio contra a mulher, enquanto
reminiscência dos tempos arcaicos, ao invés de criatura mais fraca em termos de poder físico e
simplesmente recalcá-la, é respondida com o rancor espiritual e marcada na testa pelo estigma da
pela mulher sublimada e pelo prazer teoricamente dominação, é a mesma do ódio aos judeus. Nas
emancipado. O sentimento que se ajusta à prática da mulheres e nos judeus é fácil ver que há milénios
opressão é o desprezo, não a veneração, e, nos não exercem nenhuma dominação. Eles vivem,
séculos cristãos, o amor ao próximo dissimulou embora fosse possível eliminá-los, e seu medo e
sempre o ódio proibido e obsessivo pelo objecto que fraqueza, sua maior afinidade com a natureza em
não cessava de evocar a inutilidade desse esforço: a razão da pressão incessante a que estão submetidos,
mulher. Ela pagou o culto da madona com a caça às é seu elemento vital. Isso irrita e leva a uma fúria
bruxas, que não foi senão uma vingança exercida cega o homem forte, que paga sua força com um
sobre a imagem da profetisa da era pré-cristã, que intenso distanciamento da natureza e deve
punha secretamente em questão a ordem sagrada da eternamente se proibir o medo. Ele se identifica com
dominação patriarcal. A mulher excita a fúria a natureza multiplicando por mil o grito que arranca
selvagem do homem semiconvertido, obrigado a a suas vítimas e que ele próprio não pode soltar.
honrá-la, assim como o fraco em geral suscita a “Loucas criaturas”, escreve o presidente Blammont
inimizade mortal do homem forte superficialmente em Aline et Valcour sobre as mulheres, “como gosto
civilizado e obrigado a poupá-lo. “Jamais acreditei”, de vê-las a se debater em minhas mãos! Elas são
diz o conde Ghigi, chefe da polícia romana, “que da como o cordeiro entre as garras do leão”81. E na
junção de dois corpos pudesse resultar a de dois mesma carta: “É como na conquista de uma cidade;
corações: vejo nessa junção física fortes motivos de é preciso se apoderar das elevações..., nós nos
desprezo... de nojo, mas nem um só de amor”77. E o instalamos em todas as posições dominantes e, a
ministro Saint-Fonds exclama, quando uma jovem partir delas, caímos sobre a praça sem temer mais a
aterrorizada por ele rompe em lágrimas: “É assim resistência”82. Quem está inferiorizado atrai sobre si
que eu gosto das mulheres... ah, se eu pudesse, com o ataque: o maior prazer é humilhar aqueles que já
uma só palavra, reduzi-las todas a esse estado78.” O foram golpeados pelo infortúnio. Quanto menor o
homem dominador recusa à mulher a honra de risco para quem estiver em posição de
individualizá-la. A mulher tomada individualmente superioridade, mais tranquilo o prazer
é, do ponto de vista social, um exemplar da espécie, proporcionado: é só diante do desespero total da
um representante de seu sexo e é por isso que ela, na vítima que a dominação fica divertida e triunfa com
medida em que está inteiramente capturada pela o abandono de seu próprio princípio, a disciplina. O
lógica masculina, representa a natureza, o substrato medo que não ameaça mais explode na risada
de uma subsunção sem fim na Ideia, de uma
submissão sem fim na realidade. A mulher enquanto 79
“... se eu pudesse, com uma só palavra, reduzi-las todas a
esse estado”. (N. do T.)
76 80
lbid., pp. 188-99. Juliette, op. cit., vol. IV, p. 379.
77 81
Juliette, op. cit., vol. IV, p. 261. Aline et Valcour. Bruxelas. 1883. Vol. I, p. 58.
78 82
Op. cit., vol. II, p. 273. lbid., p. 57.

53
efusiva, expressão do endurecimento interior do Para a ratio, o abandono à criatura adorada
indivíduo e que ele só libera verdadeiramente na não passa de idolatria. O necessário
colectividade. A gargalhada sonora sempre desaparecimento da divinização é uma consequência
denunciou a civilização. “De todas as lavas lançadas da proibição da mitologia, tal como decretada no
pela boca humana, esta cratera, a mais corrosiva é a monoteísmo judeu e executada na história do
alegria”, diz Victor Hugo no capítulo intitulado “As pensamento sobre as diversas formas da veneração
tempestades dos homens, piores que as tempestades por sua forma secularizada, o esclarecimento. A
do oceano83.” “É sobre o infortúnio”, ensina desagregação da realidade económica subjacente à
Juliette84, “que é preciso, o mais possível, fazer cair superstição liberou as forças específicas da negação.
o peso de suas maldades; as lágrimas que se O cristianismo, porém, propagou o amor: a pura
arrancam à indigência têm um azedume que adoração de Jesus. Pela santificação do casamento,
desperta poderosamente o fluido nervoso...”85. Em ele procurou elevar o instinto sexual cego, assim
vez de se aliar à ternura, o prazer se alia à crueldade, como tentara aproximar da terra pela graça celestial
e o amor sexual torna-se aquilo que ele sempre foi, a luz cristalina da lei. A reconciliação da civilização
segundo Nietzsche86: “em seus meios, a guerra; em com a natureza, que o cristianismo queria obter
seu fundo, o ódio mortal dos sexos”. “No macho e prematuramente através da doutrina do deus
na fêmea”, ensina a zoologia, “o ‘amor’ ou a crucificado, permaneceu tão estranha ao judaísmo
atracção sexual é originariamente e sobretudo quanto o rigorismo do esclarecimento. Moisés e
‘sádico’; sem dúvida, é próprio do amor infligir a Kant não pregaram o sentimento, sua lei fria não
dor; ele é tão cruel como a fome”87. Assim a conhece nem o amor nem a fogueira. A luta de
civilização nos traz de volta à natureza terrível como Nietzsche contra o monoteísmo atinge a doutrina
se este fosse seu último resultado. O amor fatal, cristã mais profundamente do que a judaica. É
sobre o qual incide toda a luz da exposição de Sade, verdade que ele nega a lei, mas ele quer pertencer ao
e a generosidade pudicamente impudica de “eu superior”88, não ao natural mas ao mais-que-
Nietzsche, que gostaria de poupar a qualquer preço natural. Ele quer substituir Deus pelo superhomem
a vergonha a quem sofre, vale dizer: as fantasias da porque o monoteísmo, sobretudo em sua forma
crueldade e da grandeza, tratam os homens, no jogo corrompida, o cristianismo, se tornou transparente
e na ficção, com tanta dureza quanto o fascismo como mitologia. Mas do mesmo modo que os
alemão na realidade. Mas enquanto na realidade este velhos ideais ascéticos a serviço desse eu superior
colosso inconsciente que é o capitalismo sem sujeito são enaltecidos por Nietzsche a título de auto-
leva a cabo cegamente a destruição, o desvario do superação “em vista do desenvolvimento da força
sujeito rebelde espera dessa destruição sua dominadora”89, assim também o eu superior revela-
realização e assim irradia para os homens tratados se como uma tentativa desesperada de salvar Deus,
como coisas ao mesmo tempo sua frieza glacial e o que morreu, e como a renovação do
amor pervertido que, no mundo das coisas, tomou o empreendimento de Kant no sentido de transformar
lugar do amor espontâneo. A doença torna-se a lei divina em autonomia, a fim de salvar a
sintoma de convalescença. Na transfiguração das civilização europeia que, no cepticismo inglês já
vítimas, o desvario reconhece sua humilhação. Ele havia entregue o espírito. O princípio kantiano de
se iguala ao monstro da dominação, que ele não “fazer tudo com base na máxima de sua vontade
pode superar na realidade. Sob a forma do horror, a enquanto tal, de tal modo que essa vontade possa ao
imaginação procura resistir ao horror. O provérbio mesmo tempo ter por objecto a si mesma como uma
romano, segundo o qual a severidade é o verdadeiro vontade legisladora universal”90 é também o segredo
prazer, está em vigor, não é uma simples incitação do super-homem. Sua vontade não é menos
ao trabalho. Ele exprime também a contradição despótica do que o imperativo categórico. Ambos os
insolúvel da ordem que transforma a felicidade em princípios visam a independência em face de
sua paródia onde ela a sanciona, e só a produz onde potências exteriores, a emancipação incondicional
ela a proscreve. Imortalizando essa contradição, determinada como a essência do esclarecimento.
Sade e Nietzsche contribuíram para elevá-la ao Todavia, quando o temor da mentira (que o próprio
conceito. Nietzsche nos momentos mais luminosos tachou de
83
Victor Hugo, L’Homme qui rit. Vol. VIII, cap. 7.
84
Juliette, op. cit., vol. IV. p. 199.
85
Cf. Les 120 Journées de Sodome. Paris, 1935. Vol. II, p.
88
308. Nachlass, op. cit., vol. XI, p. 216.
86 89
Der Fall Wagner, op. cit., vol. VIII, p. 10. Op. cit., vol. XIV, p. 273.
87 90
R. Briffault, The Mothers. Nova York, 1927. Vol. I. p. Grundlegung zur Metaphysik der Sitten, op. cit., vol. IV,
119. p. 432.

54
“quixotismo”)91 substitui a lei pela autolegislação e amada, nem o dos pais nem o dos filhos. O duque de
tudo se torna transparente como uma única grande Blangis anuncia aos subordinados que os parentes
superstição desnudada, o próprio esclarecimento e dos senhores, filhas e esposas, serão tratados tão
até mesmo a verdade em todas as suas formas rigorosamente, ou melhor, ainda mais rigorosamente
tornam-se um ídolo, e nós percebemos “que também do que os outros, “e isso justamente para mostrar-
nós, os conhecedores de hoje, nós ateus e vos a que ponto são desprezíveis a nossos olhos os
antimetafísicos, também tomamos nosso fogo do laços pelos quais imaginais que estamos presos”97.
incêndio ateado por uma fé milenar, aquela fé dos O amor da mulher é substituído assim como o do
cristãos que também foi a de Platão, para a qual homem. As regras da libertinagem que Saint-Fonds
Deus é a verdade e a verdade, divina”92. Portanto, comunica a Juliette devem valer para todas as
mesmo a ciência sucumbe à crítica à metafísica. A mulheres98. Dolmance formula o desencantamento
negação de Deus contém em si a contradição materialista do amor parental. “Esses laços
insolúvel, ela nega o próprio saber. Sade não decorrem do medo que têm os genitores de serem
aprofundou a ideia do esclarecimento até esse ponto abandonados na velhice, e o cuidado interessado que
de inversão. A reflexão da ciência sobre si mesma, a dedicam à nossa infância deve proporcionar-lhes a
consciência moral do esclarecimento, estava mesma atenção em sua velhice.”99 O argumento de
reservada à filosofia, isto é, aos alemães. Para Sade, Sade é tão velho como a burguesia. Demócrito já
o esclarecimento não é tanto um fenómeno denunciara o amor parental humano como tendo
espiritual quanto social. Ele aprofundou a motivos económicos100. Mas Sade desencanta
dissolução dos laços (que Nietzsche presumia também a exogamia, o fundamento da civilização.
superar idealisticamente pelo eu superior) isto é, à Segundo ele, não há nenhum argumento racional
crítica à solidariedade com a sociedade, as funções e contra o incesto,101 e o argumento higiénico que se
a família93, até o ponto de proclamar a anarquia. Sua opunha a ele acabou sendo retirado pela ciência
obra desvenda o carácter mitológico dos princípios mais avançada. Ela ratificou o frio juízo de Sade. “...
nos quais, segundo a religião, se funda a civilização: não está absolutamente provado que as crianças
do decálogo, da autoridade paterna, da propriedade. nascidas do incesto têm mais tendência do que as
É a inversão exacta da teoria social que Le Play outras a serem cretinas, surdas-mudas, raquíticas,
desenvolveu cem anos depois94. Cada um dos dez etc...”102 A família – cuja coesão é assegurada não
mandamentos vê comprovada sua nulidade perante a pelo amor romântico entre os sexos, mas pelo amor
instância da razão formal. Seu carácter ideológico materno, que constitui a base de toda ternura e dos
fica inteiramente comprovado. O arrazoado em sentimentos sociais103 – entra em conflito com a
defesa do assassínio, é o próprio papa que o própria sociedade. “Não pensem vocês que poderão
pronuncia a pedido de Juliette.95 Para ele, fazer bons republicanos enquanto isolarem na
racionalizar os actos não-cristãos é uma tarefa mais família as crianças que devem pertencer à
fácil do que a tentativa feita outrora de racionalizar comunidade apenas... Se é extremamente nocivo
pela luz natural os princípios cristãos segundo os permitir que as crianças absorvam em sua família
quais esses actos provêm do diabo. O “philosophe interesses que divergem muitas vezes
mitré”96 precisa recorrer a menos sofismas para profundamente dos da pátria, é por isso mesmo
justificar o assassinato do que Maimônides e Santo extremamente vantajoso separá-las dela”104. Os
Tomás para condená-lo. A razão romana, mais ainda “laços do himeneu” devem ser destruídos por razões
do que o Deus prussiano, se alinha ao lado dos sociais, o conhecimento dos pais deve ser
batalhões mais poderosos. Mas a lei está destronada, “absolument interdit(e)” aos filhos, eles são
e o amor que devia humanizá-la está desmascarado “uniquement les enfants de la patrie”105, e a
como regressão à idolatria. Não foi apenas o amor anarquia, o individualismo, que Sade proclamou na
romântico entre os sexos que, enquanto metafísica,
sucumbiu à ciência e à indústria, mas todo o amor
97
em geral, pois nenhum prevalece diante da razão: 98
Les 120 Journées de Sodome, op. cit., vol. I, p. 72.
nem o da mulher pelo homem nem o do amante pela Cf. Juliette, op. cit., vol. II, p. 234. nota.
99
La Phi1osophie dans le Boudoir, op. cit., p. 185.
100
Cf. Demócrito, Diels Fragment 278. Berlim, 1912. Vol.
91
Die Fröhliche Wissenschaft, op. cit., vol. V. p. 275. Cf. II. pp. 117 sg.
101
Genealogie der Moral, op. cit., vol. VII, pp. 267-71. La Philosophie dans le Boudoir, op. cit., p. 242.
92 102
Die Fröhliche Wissenschaft, loc. cit. S. Reinach, “La prohibition de l’inceste et le sentiment de
93
Cf. Nietzsche, Nachlass, op. cit., vol. XI, p. 216. la pudeur”. em: Cultes, Mythes et Religions. Paris, 1905, Vol.
94
Cf. Le Play, Les Ouvriers Européens. Paris, 1879. Vol. I, I, p. 157.
103
especialmente pp. 133 sgg. La Philosophie dans le Boudoir, op. cit. p. 238.
95 104
Juliette, op. cit., vol. IV, pp. 303 sgg. Ibid., pp. 238-49.
96 105
O “filósofo mitrado”. (N. do T.) Ibid.

55
luta contra as leis,106 desemboca no domínio essência que somente surge à luz na descrição
absoluto do universal, a república. Do mesmo modo exacta da excepção, ou seja, da mais terrível tortura.
que o Deus derrubado ressurge em um ídolo mais Uma vida feliz num mundo de horror é refutada
duro, assim também o velho Estado-gendarme como algo de infame pela mera existência desse
burguês ressurge na violência da colectividade mundo. Este torna-se assim a essência, aquela algo
fascista. Sade levou às últimas consequências o de nulo. Certamente, o assassinato dos próprios
conceito do socialismo de Estado, em cujos filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são
primeiros passos Saint-Just e Robespierre haviam muito mais raros entre os governantes durante a era
fracassado. Se a burguesia os enviou à guilhotina, a burguesa do que entre os governados, que
eles, seus políticos mais fiéis, ela também baniu seu adoptaram os costumes dos senhores de épocas
mais franco escritor para o inferno da Bibliotheque anteriores. Em compensação, quando estava em
Nationale. Pois a chronique scandaleuse de Justine jogo o poder, estes ergueram montanhas de
e Juliette – que, produzida em série, prefigurou no cadáveres mesmo nos séculos mais recentes.
estilo do século dezoito o folhetim do século Comparada à mentalidade e aos actos dos senhores
dezanove e a literatura de massas do século vinte – é no fascismo, onde a dominação realizou sua
a epopeia homérica liberada do último invólucro essência, a descrição entusiástica da vida de Brisa-
mitológico: a história do pensamento como órgão da Testa (na qual, porém, é possível reconhecer aquela)
dominação. Assustado com a própria imagem cai ao nível de uma banalidade inofensiva. Os vícios
reflectida no espelho, o pensamento abre uma privados são em Sade, como já eram em
perspectiva para o que está situado além dele. Não é Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes
o ideal de uma sociedade harmoniosa, a dealbar no públicas da era totalitária. O facto de ter, não
futuro até mesmo para Sade: “gardez vos frontieres encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a
et restez chez vous”107, e nem mesmo a utopia impossibilidade de apresentar um argumento de
socialista desenvolvida na história de Zamé108, mas princípio contra o assassinato ateou o ódio com que
é, sim, o facto de que Sade não deixou a cargo dos os progressistas ainda hoje perseguem Sade e
adversários a tarefa de levar o esclarecimento a se Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico,
horrorizar consigo mesmo, que faz de sua obra uma ambos tomaram a ciência ao pé da letra. O facto de
alavanca para salvar o esclarecimento. que insistem na ratio de uma maneira ainda mais
Ao contrário de seus apologetas, os escritores decidida do que o positivismo tem o sentido secreto
sombrios da burguesia não tentaram distorcer as de liberar de seu invólucro a utopia contida, como
consequências do esclarecimento recorrendo a no conceito kantiano de razão, em toda grande
doutrinas harmonizadoras. Não pretenderam que a filosofia: a utopia de uma humanidade que, não
razão formalista tivesse uma ligação mais íntima sendo mais desfigurada, não precisa mais de
com a moral do que com a imoralidade. Enquanto os desfigurar o que quer que seja. Proclamando a
escritores luminosos protegiam pela negação a união identidade da dominação e da razão, as doutrinas
indissolúvel da razão e do crime, da sociedade sem compaixão são mais misericordiosas do que as
burguesa e da dominação, aqueles proferiam doutrinas dos lacaios morais da burguesia. “Onde
brutalmente a verdade chocante. “... É nas mãos estão os piores perigos para ti?”, indagou um dia
sujas pelo assassinato das esposas e dos filhos, pela Nietzsche110 “Na compaixão”. Negando-a, ele
sodomia, pelos homicídios, pela prostituição e pelas salvou a confiança inabalável no homem, traída
infâmias que o céu coloca essas riquezas; e para me cada vez que se faz uma afirmação consoladora.
recompensar por essas abominações, ele as põe à
minha disposição”, diz Clairwil no resumo da vida
de seu irmão109. Ela exagera. A justiça da má
dominação não é consequente a ponto de
recompensar apenas as atrocidades. Mas só o
exagero é verdadeiro. A essência da pré-história é o
aparecimento do horror supremo no detalhe. Por trás
do cômputo estatístico das vítimas do progrom, que
inclui os fuzilados por misericórdia, oculta-se a

106
Juliette, op. cit., vol. IV, pp. 240-44.
107
[“Guardem suas fronteiras e fiquem em casa”.] La
Philosophie dans le Boudoir, op. cit., p. 263.
108
Aline et Valcour, op. cit., vol. II, pp. 181 sgg.
109 110
Juliette, op. cit., vol. V, p. 232. Die Fröhliche Wissenschaft, op. cit., vol. V. p. 205.

56
A Indústria Cultural: O Esclarecimento Como mesmos como indústrias, e as cifras publicadas dos
Mistificação das Massas rendimentos de seus directores gerais suprimem
toda dúvida quanto à necessidade social de seus
Na opinião dos sociólogos, a perda do apoio produtos.
que a religião objectiva fornecia, a dissolução dos Os interessados inclinam-se a dar uma
últimos resíduos pré-capitalistas, a diferenciação explicação tecnológica da indústria cultural. O facto
técnica e social e a extrema especialização levaram de que milhões de pessoas participam dessa
a um caos cultural. Ora, essa opinião encontra a indústria imporia métodos de reprodução que, por
cada dia um novo desmentido. Pois a cultura sua vez, tornam inevitável a disseminação de bens
contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. padronizados para a satisfação de necessidades
O cinema, o rádio e as revistas constituem um iguais. O contraste técnico entre poucos centros de
sistema. Cada sector é coerente em si mesmo e produção e uma recepção dispersa condicionaria a
todos o são em conjunto. Até mesmo as organização e o planejamento pela direção. Os
manifestações estéticas de tendências políticas padrões teriam resultado originariamente das
opostas entoam o mesmo louvor do ritmo de aço. Os necessidades dos consumidores: eis por que são
decorativos prédios administrativos e os centros de aceitos sem resistência. De facto, o que o explica é o
exposição industriais mal se distinguem nos países círculo da manipulação e da necessidade retroactiva,
autoritários e nos demais países. Os edifícios no qual a unidade do sistema se torna cada vez mais
monumentais e luminosos que se elevam por toda coesa. O que não se diz é que o terreno no qual a
parte são os sinais exteriores do engenhoso técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o
planejamento das corporações internacionais, para o poder que os economicamente mais fortes exercem
qual já se precipitava a livre iniciativa dos sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a
empresários, cujos monumentos são os sombrios racionalidade da própria dominação. Ela é o carácter
prédios residenciais e comerciais de nossas compulsivo da sociedade alienada de si mesma. Os
desoladoras cidades. Os prédios mais antigos em automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o
torno dos centros urbanos feitos de concreto já todo e chega o momento em que seu elemento
parecem slums1 e os novos bungalows na periferia nivelador mostra sua força na própria injustiça à
da cidade já proclamam, como as frágeis qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria
construções das feiras internacionais, o louvor do cultural levou apenas à padronização e à produção
progresso técnico e convidam a descartá-los como em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a
latas de conserva após um breve período de uso. lógica da obra e a do sistema social. Isso, porém,
Mas os projectos de urbanização que, em pequenos não deve ser atribuído a nenhuma lei evolutiva da
apartamentos higiénicos, destinam-se a perpetuar o técnica enquanto tal, mas à sua função na economia
indivíduo como se ele fosse independente, actual. A necessidade que talvez pudesse escapar ao
submetem-no ainda mais profundamente a seu controle central já é recalcada pelo controle da
adversário, o poder absoluto do capital. Do mesmo consciência individual. A passagem do telefone ao
modo que os moradores são enviados para os rádio separou claramente os papéis. Liberal, o
centros, como produtores e consumidores, em busca telefone permitia que os participantes ainda
de trabalho e diversão, assim também as células desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o
habitacionais cristalizam-se em complexos densos e rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes,
bem organizados. A unidade evidente do para entregá-los autoritariamente aos programas,
macrocosmo e do microcosmo demonstra para os iguais uns aos outros, das diferentes estações. Não
homens o modelo de sua cultura: a falsa identidade se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as
do universal e do particular. Sob o poder do emissões privadas são submetidas ao controle. Elas
monopólio, toda cultura de massas é idêntica, e seu limitam-se ao domínio apócrifo dos “amadores”,
esqueleto, a ossatura conceitual fabricada por que ainda por cima são organizados de cima para
aquele, começa a se delinear. Os dirigentes não baixo. No quadro da rádio oficial, porém, todo traço
estão mais sequer muito interessados em encobri-lo, de espontaneidade no público é dirigido e absorvido,
seu poder se fortalece quanto mais brutalmente ele numa selecção profissional, por caçadores de
se confessa de público. O cinema e o rádio não talentos, competições diante do microfone e toda
precisam mais se apresentar como arte. A verdade espécie de programas patrocinados. Os talentos já
de que não passam de um negócio, eles a utilizam pertencem à indústria muito antes de serem
como uma ideologia destinada a legitimar o lixo que apresentados por ela: de outro modo não se
propositalmente produzem. Eles se definem a si integrariam tão fervorosamente. A atitude do
público que, pretensamente e de facto, favorece o
1
Cortiços. (N. do T.)

57
sistema da indústria cultural é uma parte do sistema, as distinções são acentuadas e difundidas. O
não sua desculpa. Quando um ramo artístico segue a fornecimento ao público de uma hierarquia de
mesma receita usada por outro muito afastado dele qualidades serve apenas para uma quantificação
quanto aos recursos e ao conteúdo; quando, ainda mais completa. Cada qual deve se comportar,
finalmente, os conflitos dramáticos das novelas como que espontaneamente, em conformidade com
radiofónicas tornam-se o exemplo pedagógico para seu level3, previamente caracterizado por certos
a solução de dificuldades técnicas, que à maneira do sinais, e escolher a categoria dos produtos de massa
jam2, são dominadas do mesmo modo que nos fabricada para seu tipo. Reduzidos a um simples
pontos culminantes da vida jazzística; ou quando a material estatístico, os consumidores são
“adaptação” deturpadora de um movimento de distribuídos nos mapas dos institutos de pesquisa
Beethoven se efectua do mesmo modo que a (que não se distinguem mais dos de propaganda) em
adaptação de um romance de Tolstoi pelo cinema, o grupos de rendimentos assinalados por zonas
recurso aos desejos espontâneos do público torna-se vermelhas, verdes e azuis.
uma desculpa esfarrapada. Uma explicação que se O esquematismo do procedimento mostra-se
aproxima mais da realidade é a explicação a partir no facto de que os produtos mecanicamente
do peso específico do aparelho técnico e do pessoal, diferenciados acabam por se revelar sempre como a
que devem todavia ser compreendidos, em seus mesma coisa. A diferença entre a série Chrysler e a
menores detalhes, como partes do mecanismo série General Motors é no fundo uma distinção
económico de selecção. Acresce a isso o acordo, ou ilusória, como já sabe toda criança interessada em
pelo menos a determinação comum dos poderosos modelos de automóveis. As vantagens e
executivos, de nada produzir ou deixar passar que desvantagens que os conhecedores discutem servem
não corresponda a suas tabelas, à ideia que fazem apenas para perpetuar a ilusão da concorrência e da
dos consumidores e, sobretudo, que não se possibilidade de escolha. O mesmo se passa com as
assemelha a eles próprios. produções da Warner Brothers e da Metro Goldwyn
Se, em nossa época, a tendência social Mayer. Até mesmo as diferenças entre os modelos
objectiva se encarna nas obscuras intenções mais caros e mais baratos da mesma firma se
subjectivas dos directores gerais, estas são reduzem cada vez mais: nos automóveis, elas se
basicamente as dos sectores mais poderosos da reduzem ao número de cilindros, capacidade,
indústria: aço, petróleo, electricidade, química. novidade dos gadgets4, nos filmes ao número de
Comparados a esses, os monopólios culturais são estrelas, à exuberância da técnica, do trabalho e do
fracos e dependentes. Eles têm que se apressar em equipamento, e ao emprego de fórmulas
dar razão aos verdadeiros donos do poder, para que psicológicas mais recentes. O critério unitário de
sua esfera na sociedade de massas – esfera essa que valor consiste na dosagem da conspicuous
produz um tipo específico de mercadoria que ainda production5, do investimento ostensivo. Os valores
tem muito a ver com o liberalismo bonachão e os orçamentários da indústria cultural nada têm a ver
intelectuais judeus – não seja submetida a uma série com os valores objectivos, com o sentido dos
de expurgos. A dependência em que se encontra a produtos. Os próprios meios técnicos tendem cada
mais poderosa sociedade radiofónica em face da vez mais a se uniformizar. A televisão visa uma
indústria eléctrica, ou a do cinema relativamente aos síntese do rádio e do cinema, que é retardada
bancos, caracteriza a esfera inteira, cujos sectores enquanto os interessados não se põem de acordo,
individuais por sua vez se interpenetram numa mas cujas possibilidades ilimitadas prometem
confusa trama económica. Tudo está tão aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos
estreitamente justaposto que a concentração do a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos
espírito atinge um volume tal que lhe permite passar produtos da indústria cultural pode vir a triunfar
por cima da linha de demarcação entre as diferentes abertamente já amanhã – numa realização
firmas e sectores técnicos. A unidade implacável da escarninha do sonho wagneriano da obra de arte
indústria cultural atesta a unidade em formação da total. A harmonização da palavra, da imagem e da
política. As distinções enfáticas que se fazem entre música logra um êxito ainda mais perfeito do que no
os filmes das categorias A e B, ou entre as histórias Tristão, porque os elementos sensíveis – que
publicadas em revistas de diferentes preços, têm registram sem protestos, todos eles, a superfície da
menos a ver com seu conteúdo do que com sua realidade social – são em princípio produzidos pelo
utilidade para a classificação, organização e mesmo processo técnico e exprimem sua unidade
computação estatística dos consumidores. Para
todos algo está previsto; para que ninguém escape, 3
Nível. (N. do T.)
4
Todo o aparelho mecânico pequeno, acessório. (N. do T.)
2 5
Improvisação jazzística. (N. do T.) Produção ostensiva. (N. do T.)

58
como seu verdadeiro conteúdo. Esse processo de perfeitamente capaz, desde os primeiros compassos,
elaboração integra todos os elementos da produção, de adivinhar o desenvolvimento do tema e sente-se
desde a concepção do romance (que já tinha um feliz quando ele tem lugar como previsto. O número
olho voltado para o cinema) até o último efeito médio de palavras da short story é algo em que não
sonoro. Ele é o triunfo do capital investido. Gravar se pode mexer. Até mesmo as gags, efeitos e piadas
sua omnipotência no coração dos esbulhados que se são calculados, assim como o quadro em que se
tornaram candidatos a jobs6 como a omnipotência inserem. Sua produção é administrada por
de seu senhor, eis aí o que constitui o sentido de especialistas, e sua pequena diversidade permite
todos os filmes, não importa o plot7 escolhido em reparti-las facilmente no escritório. A indústria
cada caso pela direcção de produção. cultural desenvolveu-se com o predomínio que o
Em seu lazer, as pessoas devem se orientar por efeito, a performance tangível e o detalhe técnico
essa unidade que caracteriza a produção. A função alcançaram sobre a obra, que era outrora o veículo
que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao da Ideia e com essa foi liquidada. Emancipando-se,
sujeito, a saber, referir de antemão a multiplicidade o detalhe tornara-se rebelde e, do romantismo ao
sensível aos conceitos fundamentais, é tomada ao expressionismo, afirmara-se como expressão
sujeito pela indústria. O esquematismo é o primeiro indómita, como veículo do protesto contra a
serviço prestado por ela ao cliente. Na alma devia organização. O efeito harmónico isolado havia
actuar um mecanismo secreto destinado a preparar obliterado, na música, a consciência do todo formal;
os dados imediatos de modo a se ajustarem ao a cor particular na pintura, a composição pictórica; a
sistema da razão pura. Mas o segredo está hoje penetração psicológica no romance, a arquitectura.
decifrado. Muito embora o planejamento do A tudo isso deu fim a indústria cultural mediante a
mecanismo pelos organizadores dos dados, isto é, totalidade. Embora nada mais conheça além dos
pela indústria cultural, seja imposto a esta pelo peso efeitos, ela vence sua insubordinação e os submete à
da sociedade que permanece irracional apesar de fórmula que substitui a obra. Ela atinge igualmente
toda racionalização, essa tendência fatal é o todo e a parte. O todo se antepõe inexoravelmente
transformada em sua passagem pelas agências do aos detalhes como algo sem relação com eles; assim
capital do modo a aparecer como o sábio desígnio como na carreira de um homem de sucesso, tudo
dessas agências. Para o consumidor, não há nada deve servir de ilustração e prova, ao passo que ela
mais a classificar que não tenha sido antecipado no própria nada mais é do que a soma desses
esquematismo da produção. A arte sem sonho acontecimentos idiotas. A chamada Ideia abrangente
destinada ao povo realiza aquele idealismo sonhador é um classificador que serve para estabelecer ordem,
que ia longe demais para o idealismo crítico. Tudo mas não conexão. O todo e o detalhe exibem os
vem da consciência, em Malebranche e Berkeley da mesmos traços, na medida em que entre eles não
consciência de Deus; na arte para as massas, da existe nem oposição nem ligação. Sua harmonia
consciência terrena das equipes de produção. Não garantida de antemão é um escárnio da harmonia
somente os tipos das canções de sucesso, os astros, conquistada pela grande obra de arte burguesa. Na
as novelas ressurgem ciclicamente como invariantes Alemanha, a paz sepulcral da ditadura já pairava
fixos, mas o conteúdo específico do espectáculo é sobre os mais alegres filmes da democracia.
ele próprio derivado deles e só varia na aparência. O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro
Os detalhes tornam-se fungíveis. A breve sequência da indústria cultural. A velha experiência do
de intervalos, fácil de memorizar, como mostrou a espectador de cinema, que percebe a rua como um
canção de sucesso; o fracasso temporário do herói, prolongamento do filme que acabou de ver, porque
que ele sabe suportar como good sport8 que é; a boa este pretende ele próprio reproduzir rigorosamente o
palmada que a namorada recebe da mão forte do mundo da percepção quotidiana, tornou-se a norma
astro; sua rude reserva em face da herdeira mimada da produção. Quanto maior a perfeição com que
são, como todos os detalhes, clichés prontos para suas técnicas duplicam os objectos empíricos, mais
serem empregados arbitrariamente aqui e ali e fácil se torna hoje obter a ilusão de que o mundo
completamente definidos pela finalidade que lhes exterior é o prolongamento sem ruptura do mundo
cabe no esquema. Confirmá-lo, compondo-o, eis aí que se descobre no filme. Desde a súbita introdução
sua razão de ser. Desde o começo do filme já se do filme sonoro, a reprodução mecânica pôs-se ao
sabe como ele termina, quem é recompensado, e, ao inteiro serviço desse projecto. A vida não deve mais,
escutar a música ligeira, o ouvido treinado é tendencialmente, deixar-se distinguir do filme
sonoro. Ultrapassando de longe o teatro de ilusões, o
6
Empregos. (N. do T.)
filme não deixa mais à fantasia e ao pensamento dos
7
Enredo. (N. do T.) espectadores nenhuma dimensão na qual estes
8
Bom perdedor. (N. do T.)

59
possam, sem perder o fio, passear e divagar no transfigurar em algo de orgânico o passado pré-
quadro da obra fílmica permanecendo, no entanto, capitalista. Nenhum Palestrina podia ser mais
livres do controle de seus dados exactos, e é assim purista na perseguição da dissonância inesperada e
precisamente que o filme adestra o espectador não resolvida do que o arranjador de jazz na
entregue a ele para se identificar imediatamente com perseguição de todo desenvolvimento que não se
a realidade. Actualmente, a atrofia da imaginação e ajuste exactamente ao seu jargão. Se ele adapta
da espontaneidade do consumidor cultural não Mozart ao jazz, ele não o modifica apenas nas
precisa ser reduzida a mecanismos psicológicos. Os passagens em que Mozart seria difícil ou sério
próprios produtos – e entre eles em primeiro lugar o demais, mas também nas passagens em que este se
mais característico, o filme sonoro – paralisam essas limitava a harmonizar de uma maneira diferente, ou
capacidades em virtude de sua própria constituição até mesmo de uma maneira mais simples do que é
objectiva. São feitos de tal forma que sua apreensão costume hoje. Nenhum construtor medieval poderia
adequada exige, é verdade, presteza, dom de ter passado em revista os temas dos vitrais e
observação, conhecimentos específicos, mas esculturas com maior desconfiança do que a
também de tal sorte que proíbem a actividade hierarquia dos estúdios de cinema ao examinar um
intelectual do espectador, se ele não quiser perder os tema de Balzac ou Victor Rugo, antes de lhe dar o
factos que desfilam velozmente diante de seus imprimatur do aceitável. Nenhum concílio poderia
olhos. O esforço, contudo, está tão profundamente ter designado o lugar a ser ocupado pelas caretas
inculcado que não precisa ser actualizado em cada diabólicas e pelos tormentos dos danados na ordo do
caso para recalcar a imaginação. Quem está tão amor supremo com maior cuidado do que a direcção
absorvido pelo universo do filme – pelos gestos, de produção ao calcular a tortura do herói ou a
imagens e palavras –, que não precisa lhe altura da saia da leading lady na ladainha do
acrescentar aquilo que fez dele um universo, não superespetáculo. O catálogo explícito e implícito,
precisa necessariamente estar inteiramente esotérico e exotérico, do proibido e do tolerado
dominado no momento da exibição pelos efeitos estende-se a tal ponto que ele não apenas
particulares dessa maquinaria. Os outros filmes e circunscreve a margem de liberdade, mas também
produtos culturais que deve obrigatoriamente domina-a completamente. Os menores detalhes são
conhecer tornaram-no tão familiarizado com os modelados de acordo com ele. Exactamente como
desempenhos exigidos da atenção, que estes têm seu adversário, a arte de vanguarda, é com as
lugar automaticamente. A violência da sociedade proibições que a indústria cultural fixa
industrial instalou-se nos homens de uma vez por positivamente sua própria linguagem com sua
todas. Os produtos da indústria cultural podem ter a sintaxe e seu vocabulário. A compulsão permanente
certeza de que até mesmo os distraídos vão a produzir novos efeitos (que, no entanto,
consumi-los abertamente. Cada qual é um modelo permanecem ligados ao velho esquema) serve
da gigantesca maquinaria económica que, desde o apenas para aumentar, como uma regra suplementar,
início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho o poder da tradição ao qual pretende escapar cada
quanto no descanso, que tanto se assemelha ao efeito particular. Tudo o que vem a público está tão
trabalho. É possível depreender de qualquer filme profundamente marcado que nada pode surgir sem
sonoro, de qualquer emissão de rádio, o impacto que exibir de antemão os traços do jargão e sem se
não se poderia atribuir a nenhum deles credenciar à aprovação ao primeiro olhar. Os
isoladamente, mas só a todos em conjunto na grandes astros, porém, os que produzem e
sociedade. Inevitavelmente, cada manifestação da reproduzem, são aqueles que falam o jargão com
indústria cultural reproduz as pessoas tais como as tanta facilidade, espontaneidade e alegria como se
modelou a indústria em seu todo. E todos os seus ele fosse a linguagem que ele, no entanto, há muito
agentes, do producer às associações femininas, reduziu ao silêncio. Eis aí o ideal do natural neste
velam para que o processo da reprodução simples do ramo. Ele se impõe tanto mais imperiosamente
espírito não leve à reprodução ampliada. quanto mais a técnica aperfeiçoada reduz a tensão
As queixas dos historiadores da arte e dos entre a obra produzida e a vida quotidiana. O
defensores da cultura acerca da extinção da força paradoxo da rotina travestida de natureza pode ser
criadora do estilo no Ocidente são assustadoramente notado em todas as manifestações da indústria
destituídas de fundamento. A tradução estereotipada cultural, e em muitas ele é tangível. Um músico de
de tudo, até mesmo do que ainda não foi pensado, jazz que tenha de tocar uma peça de música séria,
no esquema da reprodutibilidade mecânica supera por exemplo o mais simples minueto de Beethoven,
em rigor e valor todo verdadeiro estilo, cujo é levado involuntariamente a sincopá-lo, e é com
conceito serve aos amigos da cultura para um sorriso soberano que ele, por fim, aceita seguir o

60
compasso. É essa natureza, complicada pelas Santa Bernadette já aparecia aos olhos de seu poeta
exigências sempre presentes e sempre exageradas do como um apelo publicitário para todos os consórcios
medium específico, que constitui o novo estilo, a interessados, e isso resultava das potencialidades da
saber, “um sistema da não-cultura, à qual se pode figura. Eis por que o estilo da indústria cultural, que
conceder até mesmo uma certa ‘unidade de estilo’, não tem mais de se pôr à prova em nenhum material
se é que ainda tem sentido falar em uma barbárie refractário, é ao mesmo tempo a negação do estilo.
estilizada”.9 A reconciliação do universal e do particular, da
A obrigatoriedade universal dessa estilização regra e da pretensão específica do objecto, que é a
pode superar a dos preceitos e proibições oficiais. única coisa que pode dar substância ao estilo, é
Actualmente, é mais fácil perdoar a uma canção de vazia, porque não chega mais a haver uma tensão
sucesso que ela não se atenha aos 32 compassos ou entre os pólos: os extremos que se tocam passaram a
à extensão do intervalo de nona, do que a uma turva identidade, o universal pode substituir o
introdução, por mais secreto que seja, de um detalhe particular e vice-versa.
melódico ou harmónico que não se conforme ao No entanto, essa caricatura do estilo descobre
idioma. Todas as infracções cometidas por Orson algo acerca do estilo autêntico do passado. O
Welles contra as usanças de seu ofício lhe são conceito do estilo autêntico torna-se transparente na
perdoadas, porque, enquanto incorrecções indústria cultural como um equivalente estético da
calculadas, apenas confirmam ainda mais dominação. A idéia do estilo como uma
zelosamente a validade do sistema. A compulsão do conformidade a leis meramente estéticas é uma
idioma tecnicamente condicionado, que os astros e fantasia romântica retrospectiva. O que se exprime
os directores têm que produzir como algo de natural na unidade do estilo não apenas da Idade Média
para que o povo possa transformá-lo em seu idioma, cristã, mas também do Renascimento, é a estrutura
tem a ver com nuanças tão finas que elas quase diversificada do poder social, não a experiência
alcançam a subtileza dos meios de uma obra de obscura dos dominados que encerrava o universal.
vanguarda, graças à qual esta, ao contrário daquelas, Os grandes artistas jamais foram aqueles que
serve à verdade. A capacidade rara de satisfazer encarnaram o estilo da maneira mais íntegra e mais
minuciosamente as exigências do idioma da perfeita, mas aqueles que acolheram o estilo em sua
naturalidade em todos os sectores da indústria obra como uma atitude dura contra a expressão
cultural toma-se o padrão de competência. O que e caótica do sofrimento, como verdade negativa. No
como o dizem deve ser controlável pela linguagem estilo de suas obras, a expressão conquistava a força
quotidiana, como no positivismo lógico. Os sem a qual a vida se dilui sem ser ouvida. As
produtores são especialistas. O idioma exige a mais próprias obras que se chamam clássicas, como a
espantosa força produtiva, que ele absorve e música de Mozart, contêm tendências objectivas
desperdiça. Ele superou satanicamente a distinção orientadas num sentido diverso do estilo que elas
própria do conservadorismo cultural entre o estilo encarnavam. Até Schõnberg e Picasso, os grandes
autêntico e o estilo artificial. Artificial poder-se-ia artistas conservaram a desconfiança contra o estilo
dizer um estilo imposto de fora às potencialidades e, nas questões decisivas, se ativeram menos a esse
de uma figura. Na indústria cultural, porém, os do que à lógica do tema. Aquilo que os
menores elementos do tema têm origem na mesma expressionistas e dadaístas chamaram
aparelhagem que o jargão no qual é acolhido. As polemicamente de inverdade do estilo enquanto tal
brigas em que os especialistas em arte se envolvem triunfa actualmente no jargão cantado do crooner,
com o sponsor10 e o censor sobre uma mentira óbvia na graça consumada da estrela do cinema e até
demais atestam menos uma tensão intrinsecamente mesmo na perfeição da fotografia da choça
estética do que uma divergência de interesses. O miserável de um camponês. Em toda obra de arte, o
renome dos especialistas, onde às vezes ainda se estilo é uma promessa. Ao ser acolhido nas formas
vem refugiar um último resquício de autonomia dominantes da universalidade: a linguagem musical,
temática, entra em conflito com a política comercial pictórica, verbal, aquilo que é expresso pelo estilo
da igreja ou da corporação que produz a mercadoria deve se reconciliar com a Ideia da verdadeira
cultural. Mas o tema já está, em virtude de sua universalidade. Essa promessa da obra de arte de
própria essência, reificado como aceitável antes instituir a verdade imprimindo a figura nas formas
mesmo que as instâncias competentes comecem a transmitidas pela sociedade é tão necessária quanto
disputar. Antes mesmo de ser adquirida por Zanuck, hipócrita. Ela coloca as formas reais do existente
como algo de absoluto, pretextando antecipar a
9
Nietzsche. Unzeitgemässe Betrachtungen. Werke
satisfação nos derivados estéticos delas. Nessa
(Grossoktavausgabe). Leipzig, 1917. Vol. I, p. 187 medida, a pretensão da arte é sempre ao mesmo
10
Patrocinador. (N. do T.)

61
tempo ideologia. No entanto, é tão-somente neste actual não admite nenhuma acusação perceptível em
confronto com a tradição, que se sedimenta no cujo tom os bons entendedores não vislumbrem a
estilo, que a arte encontra expressão para o proeminência sob cujo signo o revoltado com eles se
sofrimento. O elemento graças ao qual a obra de arte reconcilia. Quanto mais incomensurável é o abismo
transcende a realidade, de facto, é inseparável do entre o coro e os protagonistas, mais certamente
estilo. Contudo, ele não consiste na realização da haverá lugar entre estes para todo aquele que
harmonia – a unidade problemática da forma e do mostrar sua superioridade por uma notoriedade bem
conteúdo, do interior e do exterior, do indivíduo e planejada. Assim, também sobrevive na indústria
da sociedade –, mas nos traços em que aparece a cultural a tendência do liberalismo a deixar caminho
discrepância, no necessário fracasso do esforço livre a seus homens capazes. Abrir caminho para
apaixonado em busca da identidade. Ao invés de se esses competentes ainda é a função do mercado, que
expor a esse fracasso, no qual o estilo da grande sob outros aspectos já é extensamente regulado e
obra de arte sempre se negou, a obra medíocre cuja liberdade consistia mesmo na época de seu
sempre se ateve à semelhança com outras, isto é, ao maior brilho – para os artistas bem como para outros
sucedâneo da identidade. A indústria cultural acaba idiotas – em morrer de fome. Não é à toa que o
por colocar a imitação como algo de absoluto. sistema da indústria cultural provém dos países
Reduzida ao estilo, ela trai seu segredo, a obediência industriais liberais, e é neles que triunfam todos os
à hierarquia social. A barbárie estética consuma hoje seus meios característicos, sobretudo o cinema, o
a ameaça que sempre pairou sobre as criações do rádio, o jazz e as revistas. É verdade que seu
espírito desde que foram reunidas e neutralizadas a projecto teve origem nas leis universais do capital.
título de cultura. Falar em cultura foi sempre Gaumont e Pathé, Ullstein e Hugenberg conheceram
contrário à cultura. O denominador comum o sucesso seguindo a tendência internacional; a
“cultura” já contém virtualmente o levantamento dependência económica em face dos Estados
estatístico, a catalogação, a classificação que Unidos, em que se encontrou o continente europeu
introduz a cultura no domínio da administração. Só depois da guerra e da inflação, teve uma parte nesse
a subsunção industrializada e consequente é processo. A crença de que a barbárie da indústria
inteiramente adequada a esse conceito de cultura. cultural é uma consequência do cultural lag11, do
Ao subordinar da mesma maneira todos os sectores atraso da consciência norte-americana relativamente
da produção espiritual a este fim único: ocupar os ao desenvolvimento da técnica, é profundamente
sentidos dos homens da saída da fábrica, à noitinha, ilusória. Atrasada relativamente à tendência ao
até a chegada ao relógio do ponto, na manhã monopólio cultural estava a Europa pré-fascista.
seguinte, com o selo da tarefa de que devem se Mas era exactamente esse atraso que deixava ao
ocupar durante o dia, essa subsunção realiza espírito um resto de autonomia e assegurava a seus
ironicamente o conceito da cultura unitária que os últimos representantes a possibilidade de existir
filósofos da personalidade opunham à massificação. ainda que oprimidos. Na Alemanha, a incapacidade
Assim a indústria cultural, o mais inflexível de de submeter a vida a um controle democrático teve
todos os estilos, revela-se justamente como a meta um efeito paradoxal. Muita coisa escapou ao
do liberalismo, ao qual se censura a falta de estilo. mecanismo de mercado que se desencadeou nos
Não somente suas categorias e conteúdos são países ocidentais. O sistema educativo alemão
provenientes da esfera liberal, tanto do naturalismo juntamente com as universidades, os teatros mais
domesticado quanto da opereta e da revista: as importantes na vida artística, as grandes orquestras,
modernas companhias culturais são o lugar os museus estavam sob protecção. Os poderes
económico onde ainda sobrevive, juntamente com políticos, o Estado e as municipalidades, aos quais
os correspondentes tipos de empresários, uma parte essas instituições foram legadas como herança do
da esfera de circulação já em processo de absolutismo, haviam preservado para elas uma parte
desagregação. Aí ainda é possível fazer fortuna, daquela independência das relações de dominação
desde que não se seja demasiado inflexível e se vigentes no mercado, que os príncipes e senhores
mostre que é uma pessoa com quem se pode feudais haviam assegurado até o século dezanove.
conversar. Quem resiste só pode sobreviver Isso resguardou a arte em sua fase tardia contra o
integrando-se. Uma vez registrado em sua diferença veredicto da oferta e da procura e aumentou sua
pela indústria cultural, ele passa a pertencer a ela resistência muito acima da protecção de que
assim como o participante da reforma agrária ao desfrutava de facto. No próprio mercado, o tributo a
capitalismo. A rebeldia realista torna-se a marca uma qualidade sem utilidade e ainda sem curso
registada de quem tem uma nova ideia a trazer à converteu-se em poder de compra: é por essa razão
actividade industrial. A esfera pública da sociedade
11
Atraso cultural. (N. do T.)

62
que editores literários e musicais decentes puderam explorar a fundo o contrato com a estrela em
cultivar por exemplo autores que rendiam pouco decadência são custos legítimos para o sistema
mais do que o respeito do conhecedor. Só a inteiro. Ao ratificar com refinada astúcia a demanda
obrigação de se inserir incessantemente, sob a mais de porcarias, ele inaugura a harmonia total. A
drástica das ameaças, na vida dos negócios como competência e a perícia são proscritas como
um especialista estético impôs um freio definitivo arrogância de quem se acha melhor do que os
ao artista. Outrora, eles firmavam suas cartas como outros, quando a cultura distribui tão
Kant e Hume – com um “humilde servidor”, ao democraticamente seu privilégio a todos. Em face
mesmo tempo que solapavam os fundamentos do da trégua ideológica, o conformismo dos
trono e do altar. Hoje chamam os chefes de governo compradores, assim como o descaramento da
pelo primeiro nome e estão submetidos em cada um produção que eles mantêm em marcha, adquire boa
de seus impulsos artísticos ao juízo de seus patrões consciência. Ele se contenta com a reprodução do
iletrados. A análise feita há cem anos por que é sempre o mesmo.
Tocqueville verificou-se integralmente nesse meio Essa mesmice regula também as relações com
tempo. Sob o monopólio privado da cultura “a o que passou. O que é novo na fase da cultura de
tirania deixa o corpo livre e vai directo à alma. O massas em comparação com a fase do liberalismo
mestre não diz mais: você pensará como eu ou avançado é a exclusão do novo. A máquina gira sem
morrerá. Ele diz: você é livre de não pensar como sair do lugar. Ao mesmo tempo que já determina o
eu: sua vida, seus bens, tudo você há-de conservar, consumo, ela descarta o que ainda não foi
mas de hoje em diante você será um estrangeiro experimentado porque é um risco. É com
entre nós”12. Quem não se conforma é punido com desconfiança que os cineastas consideram todo
uma impotência económica que se prolonga na manuscrito que não se baseie, para tranquilidade
impotência espiritual do individualista. Excluído da sua, em um best-seller. Por isso é que se fala
actividade industrial, ele terá sua insuficiência continuamente em idea, novelty e surprise, em algo
facilmente comprovada. Actualmente em fase de que seria ao mesmo tempo familiar a todos sem ter
desagregação na esfera da produção material, o jamais ocorrido. A seu serviço estão o ritmo e a
mecanismo da oferta e da procura continua actuante dinâmica. Nada deve ficar como era, tudo deve estar
na superestrutura como mecanismo de controle em em constante movimento. Pois só a vitória universal
favor dos dominantes. Os consumidores são os do ritmo da produção e reprodução mecânica é a
trabalhadores e os empregados, os lavradores e os garantia de que nada mudará, de que nada surgirá
pequenos burgueses. A produção capitalista os que não se adapte. O menor acréscimo ao inventário
mantém tão bem presos em corpo e alma que eles cultural comprovado é um risco excessivo. Formas
sucumbem sem resistência ao que Ihes é oferecido. fixas como o sketch, a história curta, o filme de tese,
Assim como os dominados sempre levaram mais a o êxito de bilheteria são a média, orientada
sério do que os dominadores a moral que deles normativamente e imposta ameaçadoramente, do
recebiam, hoje em dia as massas logradas gosto característico do liberalismo avançado. Os
sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do directores das agências culturais – que estão numa
que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles. harmonia como só os managers sabem criar, não
Obstinadamente, insistem na ideologia que as importa se provêm da indústria de confecções ou de
escraviza. O amor funesto do povo pelo mal que a um college – há muito sanaram e racionalizaram o
ele se faz chega a se antecipar à astúcia das espírito objectivo. Tudo se passa como se uma
instâncias de controle. Ele chega a superar o instância omnipresente houvesse examinado o
rigorismo do Hays-Office13, quando este, nos material e estabelecido o catálogo oficial dos bens
grandes momentos históricos, incitou contra o povo culturais, registrando de maneira clara e concisa as
instâncias mais altas como o terror dos tribunais. Ele séries disponíveis. As ideias estão inscritas no céu
exige Mickey Rooney contra a trágica Garbo e o cultural, onde já haviam sido enumeradas por Platão
Pato Donald contra Betty Boop. A indústria ajusta- e onde, números elas próprias, estavam encerradas
se ao voto que ela própria conjurou. O que sem possibilidade de aumento ou transformação.
representa faux frais14 para a firma que não pode O entretenimento e os elementos da indústria
cultural já existiam muito tempo antes dela. Agora,
são tirados do alto e nivelados à altura dos tempos
12
A. de Tocqueville, De la Démocratie en Amérique. Paris, atuais. A indústria cultural pode se ufanar de ter
1864. Vol. II. P. 151 levado a cabo com energia e de ter erigido em
13
Código de censura instituído em 1934 pela indústria
cinematográfica de Hollywood. (N. do T.)
princípio a transferência muitas vezes desajeitada da
14
Despesas acidentais, que se acrescentam às despesas arte para a esfera do consumo, de ter despido a
principais. (N. do T.)

63
diversão de suas ingenuidades inoportunas e de ter suas inovações características não passem de
aperfeiçoado o feitio das mercadorias. Quanto mais aperfeiçoamentos da produção em massa não é
total ela se. tomou, quanto mais impiedosamente exterior ao sistema. É com razão que o interesse de
forçou os outsiders15 seja a declarar falência seja a inúmeros consumidores se prende à técnica, não aos
entrar para o sindicato, mais fina e mais elevada ela conteúdos teimosamente repetidos, ocos e já em
se tornou, para enfim desembocar na síntese de parte abandonados. O poderio social que os
Beethoven e do Casino de Paris. Sua vitória é dupla: espectadores adoram é mais eficazmente afirmado
a verdade, que ela extingue lá fora, dentro ela pode na omnipresença do estereótipo imposta pela técnica
reproduzir a seu bel-prazer como mentira. A arte do que nas ideologias rançosas pelas quais os
“leve” como tal, a diversão, não é uma forma conteúdos efémeros devem responder. Todavia, a
decadente. Quem a lastima como traição do ideal da indústria cultural permanece a indústria da diversão.
expressão pura está alimentando ilusões sobre a Seu controle sobre os consumidores é mediado pela
sociedade. A pureza da arte burguesa, que se diversão, e não é por um mero decreto que esta
hipostasiou como reino da liberdade em oposição à acaba por se destruir, mas pela hostilidade inerente
práxis material, foi obtida desde o início ao preço da ao princípio da diversão por tudo aquilo que seja
exclusão das classes inferiores, mas é à causa destas mais do que ela própria. Como a absorção de ‘todas
classes – a verdadeira universalidade – que a arte se as tendências da indústria cultural na carne e no
mantém fiel exactamente pela liberdade dos fins da sangue do público se realiza através do processo
falsa universalidade. A arte séria recusou-se àqueles social inteiro, a sobrevivência do mercado neste
para quem as necessidades e a pressão da vida ramo actua favoravelmente sobre essas tendências.
fizeram da seriedade um escárnio e que têm todos os A demanda ainda não foi substituída pela simples
motivos para ficarem contentes quando podem usar obediência. Pois a grande reorganização do cinema
como simples passatempo o tempo que não passam pouco antes da Primeira Guerra Mundial – condição
junto às máquinas. A arte leve acompanhou a arte material de sua expansão – consistiu exactamente na
autónoma como uma sombra. Ela é a má adaptação consciente às necessidades do público
consciência social da arte séria. O que esta – em registradas com base nas bilheterias, necessidades
virtude de seus pressupostos sociais – perdeu em essas que as pessoas mal acreditavam ter que levar
termos de verdade confere àquela a aparência de um em conta na época pioneira do cinema. Ainda hoje
direito objectivo. Essa divisão é ela própria a pensam assim os capitães da indústria
verdade: ela exprime pelo menos a negatividade da cinematográfica – que no entanto se baseiam no
cultura formada pela adição das duas esferas. A pior exemplo dos sucessos mais ou menos fenomenais, e
maneira de reconciliar essa antítese é absorver a arte não, com muita sabedoria, no contra-exemplo da
leve na arte séria ou vice-versa. Mas é isto que tenta verdade. Sua ideologia é o negócio. A verdade em
a indústria cultural. A excentricidade do circo, do tudo isso é que o poder da indústria cultural provém
museu de cera e do bordel relativamente à sociedade de sua identificação com a necessidade produzida,
é tão penosa para ela como a de Schönberg e Karl não da simples oposição a ela, mesmo que se
Kraus. É por isso que o jazzista Benny Goodman tratasse de uma oposição entre a omnipotência e
deve se apresentar juntamente com o Quarteto de impotência. – A diversão é o prolongamento do
Budapeste, mais meticuloso quanto ao ritmo do que trabalho sob o capitalismo tardio. Ela é procurada
qualquer clarinetista filarmónico, enquanto os por quem quer escapar ao processo de trabalho
músicos de Budapeste tocam, em compensação, de mecanizado, para se pôr de novo em condições de
maneira tão uniforme e adocicada como Guy enfrentá-lo. Mas, ao mesmo tempo, a mecanização
Lombardo. O que é significativo não é a incultura, a atingiu um tal poderio sobre: a pessoa em seu lazer e
burrice e a impolidez nua e crua. O refugo de sobre a sua felicidade, ela determina tão
outrora foi eliminado pela indústria cultural graças à profundamente a fabricação das mercadorias
sua própria perfeição, graças à proibição e à destinadas à diversão, que esta pessoa não pode
domesticação do diletantismo, muito embora ela não mais perceber outra coisa senão as cópias que
cesse de cometer erros crassos, sem os quais o nível reproduzem o próprio processo de trabalho. O
do estilo elevado seria absolutamente inconcebível. pretenso conteúdo não passa de uma fachada
Mas o que é novo é que os elementos desbotada; o que fica gravado é a sequência
irreconciliáveis da cultura, da arte e da distracção se automatizada de operações padronizadas. Ao
reduzem mediante sua subordinação ao fim a uma processo de trabalho na fábrica e no escritório só se
única fórmula falsa: a totalidade da indústria pode escapar adaptando-se a ele durante o ócio. Eis
cultural. Ela consiste na repetição. O facto de que aí a doença incurável de toda diversão. O prazer
acaba por se congelar no aborrecimento, porquanto,
15
Estranhos, forasteiros, marginais. (N. do T.)

64
para continuar a ser um prazer, não deve mais exigir do filme. Seu procedimento assemelhava-se nisso ao
esforço e, por isso, tem de se mover rigorosamente velho costume da slapstick comedy17. Mas agora as
nos trilhos gastos das associações habituais. O relações temporais deslocaram-se. As primeiras
espectador não deve ter necessidade de nenhum sequências do filme de animação ainda esboçam
pensamento próprio, o produto prescreve toda uma acção temática, destinada, porém, a ser
reacção: não por sua estrutura temática – que demolida no curso do filme: sob a gritaria do
desmorona na medida em que exige o pensamento – público, o protagonista é jogado para cá e para lá
mas através de sinais. Toda ligação lógica que como um farrapo. Assim a quantidade da diversão
pressuponha um esforço intelectual é organizada converte-se na qualidade da crueldade
escrupulosamente evitada. Os desenvolvimentos organizada. Os autodesignados censores da indústria
devem resultar tanto quanto possível da situação cinematográfica, ligados a ela por uma afinidade
imediatamente anterior, e não da Ideia do todo. Não electiva, vigiam a duração do crime a que se dá a
há enredo que resista ao zelo com que os roteiristas dimensão de uma caçada. A hilariedade põe fim ao
se empenham em tirar de cada cena tudo o que se prazer que a cena de um abraço poderia
pode depreender dela. Por fim, o próprio esquema pretensamente proporcionar e adia a satisfação para
parece perigoso na medida em que estabelece uma o dia do pogrom. Na medida em que os filmes de
conexão inteligível, por mais pobre que seja, onde animação fazem mais do que habituar os sentidos ao
só é aceitável a falta de sentido. Muitas vezes se novo ritmo, eles inculcam em todas as cabeças a
recusa maldosamente à acção o desenvolvimento antiga verdade de que a condição de vida nesta
que os personagens e o tema exigiam segundo o sociedade é o desgaste contínuo, o esmagamento de
esquema antigo. Ao invés disso, a nova etapa toda resistência individual. Assim como o Pato
escolhida é a ideia aparentemente mais eficaz que Donald nos cartoons, assim também os desgraçados
ocorre aos roteiristas para a situação dada. Uma na vida real recebem a sua sova para que os
surpresa estupidamente arquitectada irrompe na espectadores possam se acostumar com a que eles
acção fílmica. A tendência do produto a recorrer próprios recebem.
malignamente ao puro absurdo – um ingrediente O prazer com a violência infligida ao
legítimo da arte popular, da farsa e da bufonaria personagem transforma-se em violência contra o
desde os seus primórdios até Chaplin e os irmãos espectador, a diversão em esforço. Ao olho cansado
Marx – aparece da maneira mais evidente nos do espectador nada deve escapar daquilo que os
géneros menos pretensiosos. Enquanto nos filmes de especialistas excogitaram como estímulo; ninguém
Greer Garson e Bette Davis a unidade do caso tem o direito de se mostrar estúpido diante da
social-psicológico ainda justifica a pretensão de uma esperteza do espectáculo; é preciso acompanhar
acção coerente, essa tendência impôs-se totalmente tudo e reagir com aquela presteza que o espectáculo
no texto da novelty song, no filme policial e nos exibe e propaga. Deste modo, pode-se questionar se
cartoons16. Exactamente como os objectos dos a indústria cultural ainda preenche a função de
filmes cómicos e de terror, o pensamento é ele distrair, de que ela se gaba tão estentoreamente. Se a
próprio massacrado e despedaçado. As novelty maior parte das rádios e dos cinemas fossem
songs sempre viveram do desprezo pelo sentido fechados, provavelmente os consumidores não
inteligível, que elas – como predecessoras e sentiriam tanta falta assim. O passo que leva da rua
sucessoras da psicanálise – reduzem à monotonia da ao cinema não leva mais, em todo caso, ao sonho, e,
simbólica sexual. Os filmes policiais e de aventuras desde que a mera existência das instituições deixou
não mais permitem ao espectador de hoje assistir à de obrigar à sua utilização, também deixou de haver
marcha do esclarecimento. Mesmo nas produções uma ânsia tão grande assim de utilizá-las. Esse
do género destituídas de ironia, ele tem que se fechamento de rádios e cinemas não seria nada de
contentar com os sustos proporcionados por comparável a uma destruição reaccionária de
situações precariamente interligadas. máquinas. Os frustrados não seriam tanto os fãs
Os filmes de animação eram outrora expoentes quanto aqueles que sempre “pagam o pato”, os
da fantasia contra o racionalismo. Eles faziam atrasados. A obscuridade do cinema oferece à dona-
justiça aos animais e coisas electrizados por sua de-casa, apesar dos filmes destinados a integrá-la,
técnica, dando aos mutilados uma segunda vida. um refúgio onde ela pode passar algumas horas sem
Hoje, apenas confirmam a vitória da razão controle, assim como outrora, quando ainda havia
tecnológica sobre a verdade. Até poucos anos atrás, lares e folgas vespertinas, ela podia se pôr à janela
tinham enredos consistentes que só se esfacelavam para ficar olhando a rua. Os desocupados dos
no torvelhinho da perseguição dos últimos minutos grandes centros encontram o frio no verão e o calor
16 17
Desenhos animados. (N. do T.) Comédia de pastelão. (N. do T.)

65
no inverno nos locais climatizados. Fora isso, – não deixa mais nenhuma margem para a idolatria
mesmo pelo critério da ordem existente essa inconsciente a que se ligava o belo. O triunfo sobre
aparelhagem inflada do prazer não torna a vida mais o belo é levado a cabo pelo humor, a alegria
humana para os homens. A ideia de “esgotar” as maldosa que se experimenta com toda renúncia
possibilidades técnicas dadas, a ideia da plena bem-sucedida. Rimos do facto de que não há nada
utilização de capacidades em vista do consumo de que se rir. O riso, tanto o riso da reconciliação
estético massificado, é própria do sistema quanto o riso de terror, acompanha sempre o
económico que recusa a utilização de capacidades instante em que o medo passa. Ele indica a
quando se trata da eliminação da fome. liberação, seja do perigo físico, seja das garras da
A indústria cultural não cessa de lograr seus lógica. O riso da reconciliação é como que o eco do
consumidores quanto àquilo que está continuamente facto de ter escapado à potência, o riso mau vence o
a lhes prometer. A promissória Sobre o prazer, medo passando para o lado das instâncias que
emitida pelo enredo e pela encenação, é prorrogada inspiram temor. Ele é o eco da potência como algo
indefinidamente: maldosamente, a promessa a que de inescapável. Fun19 é um banho medicinal, que a
afinal se reduz o espectáculo significa que jamais indústria do prazer prescreve incessantemente. O
chegaremos à coisa mesma, que o convidado deve riso torna-se nela o meio fraudulento de ludibriar a
se contentar com a leitura do cardápio. Ao desejo, felicidade. Os instantes da felicidade não o
excitado por nomes e imagens cheios de brilho, o conhecem, só as operetas e depois os filmes
que enfim se serve é o simples encómio do representam o sexo com uma gargalhada sonora.
quotidiano cinzento ao qual ele queria escapar. De Mas Baudelaire é tão sem humor como Hölderlin.
seu lado, as obras de arte tampouco consistiam em Na falsa sociedade, o riso atacou – como uma
exibições sexuais. Todavia, apresentando a renúncia doença – a felicidade, arrastando-a para a indigna
como algo de negativo, elas revogavam por assim totalidade dessa sociedade. Rir-se de alguma coisa é
dizer a humilhação da pulsão e salvavam aquilo a sempre ridicularizar, e a vida que, segundo Bergson,
que se renunciara como algo mediatizado. Eis aí o rompe com o riso a consolidação dos costumes, é na
segredo da sublimação estética: apresentar a verdade a vida que irrompe barbaramente, a auto-
satisfação como uma promessa rompida. A indústria afirmação que ousa festejar numa ocasião social sua
cultural não sublima, mas reprime. Expondo liberação do escrúpulo. Um grupo de pessoas a rir é
repetidamente o objecto do desejo, o busto no suéter uma paródia da humanidade. São mônadas, cada
e o torso nu do herói desportivo, ela apenas excita o uma das quais se entrega ao prazer de estar decidida
prazer preliminar não sublimado que o hábito da a tudo às custas dos demais e com o respaldo da
renúncia há muito mutilou e reduziu ao maioria. Sua harmonia é a caricatura da
masoquismo. Não há nenhuma situação erótica que solidariedade. O diabólico no riso falso está
não junte à alusão e à excitação a indicação precisa justamente em que ele é forçosamente uma paródia
de que jamais se deve chegar a esse ponto. O Hays até mesmo daquilo que há de melhor: a
Office apenas confirma o ritual que a indústria reconciliação. O prazer, contudo, é rigoroso: res
cultural de qualquer modo já instaurou: o de severa verum gaudium20. A ideologia dos
Tântalo. As obras de arte são ascéticas e sem pudor, conventos, segundo a qual não é a ascese, mas o
a indústria cultural é pornográfica e puritana. Assim, acto sexual, que demonstra a renúncia a uma
ela reduz o amor ao romance, e, uma vez reduzido, felicidade alcançável, é confirmada negativamente
muita coisa é permitida, até mesmo a libertinagem pela seriedade do amante que, cheio de
como uma especialidade vendável em pequenas pressentimentos, atrela sua vida ao instante fugidio.
doses e com a marca comercial “daring”18. A A indústria cultural coloca a renúncia jovial no lugar
produção em série do objecto sexual produz da dor, que está presente na embriaguês como na
automaticamente seu recalcamento. O astro do ascese. A lei suprema é que eles não devem a
cinema de quem as mulheres devem se enamorar é nenhum preço atingir seu alvo, e é exactamente com
de antemão, em sua ubiquidade, sua própria cópia. isso que eles devem, rindo, se satisfazer. Cada
Toda voz de tenor acaba por soar como um disco de espectáculo da indústria cultural vem mais uma vez
Caruso, e os rostos das moças texanas já se aplicar e demonstrar de maneira inequívoca a
assemelham em sua espontaneidade natural aos renúncia permanente que a civilização impõe às
modelos que fizeram sucesso, seguindo os padrões pessoas. Oferecer-lhes algo e ao mesmo tempo
de Hollywood. A reprodução mecânica do belo – à privá-las disso é a mesma coisa. É isso o que
qual serve a fortiori, com sua idolatria metódica da proporciona a indústria do erotismo. É justamente
individualidade, a exaltação reaccionária da cultura
19
Gracejo, brincadeira (N. do T.)
18 20
Ousado, audacioso. (N. do T.) A severidade é a verdadeira alegria. (N. do T.)

66
porque nunca deve ter lugar, que tudo gira em torno sobretudo nas farsas e nos funnies22, reluz em certos
do coito. Assim, por exemplo, confessar num filme instantes a possibilidade dessa negação. Mas,
a ilegitimidade de uma relação sem impor aos naturalmente, não é lícito chegar ao ponto de
culpados a correspondente punição é objecto de um realizá-la. O puro entretenimento em sua lógica, o
tabu mais rigoroso do que, digamos, a militância no abandono descontraído à multiplicidade das
movimento operário por parte do futuro genro de associações e ao absurdo feliz, é cerceado pelo
um milionário. Contrariamente ao que se passa na entretenimento corrente: ele é estorvado pela
era liberal, a cultura industrializada pode se contrafacção de um sentido coerente que a indústria
permitir, tanto quanto a cultura nacional-popular cultural teima em acrescentar a seus produtos e de
(völkisch) no fascismo, a indignação com o que ela, ao mesmo tempo, abusa espertamente como
capitalismo; o que ela não pode se permitir é a um mero pretexto para a aparição dos astros.
abdicação da ameaça de castração. Pois esta Biografias e outras fábulas remendam os retalhos do
constitui a sua própria essência. Essa ameaça absurdo de modo a constituir um enredo cretino.
sobrevive ao relaxamento organizado dos costumes, Não são os guizos da carapuça do bufão que se
quando se trata de homens uniformizados nos filmes põem a tilintar, mas o molho de chaves da razão
alegres produzidos para eles, e sobreviverá, por fim, capitalista, que mesmo na tela liga o prazer aos
na realidade. O que é decisivo, hoje, não é o projectos de expansão. Cada beijo no filme musical
puritanismo, muito embora ela ainda se faça valer deve contribuir para a carreira do boxeador ou
sob a forma das organizações femininas, mas a qualquer outro perito em sucessos cuja carreira
necessidade imanente ao sistema de não soltar o esteja sendo glorificada. O logro, pois, não está em
consumidor, de não lhe dar em nenhum momento o que a indústria cultural proponha diversões, mas no
pressentimento da possibilidade da resistência. O facto de que ela estraga o prazer com o
princípio impõe que todas as necessidades lhe sejam envolvimento de seu tino comercial nos clichés
apresentadas como podendo ser satisfeitas pela ideológicos da cultura em vias de se liquidar a si
indústria cultural, mas, por outro lado, que essas mesma. A ética e o gosto podam a diversão
necessidades sejam de antemão organizadas de tal irrefreada como “ingénua” – a ingenuidade é
sorte que ele se veja nelas unicamente como um considerada tão grave quanto o intelectualismo – e
eterno consumidor, como objecto da indústria impõem restrições até mesmo à potencialidade
cultural. Não somente ela lhe faz crer que o logro técnica. A indústria cultural está corrompida, mas
que ela oferece seria a satisfação, mas dá a entender não como uma Babilónia do pecado, e sim como
além disso que ele teria, seja como for, de se catedral do divertimento de alto nível. Em todos os
arranjar com o que lhe é oferecido. A fuga do seus níveis, de Hemingway a Emil Ludwig, de Mrs.
quotidiano, que a indústria cultural promete em Miniver ao Lone Ranger, de Toscanini a Guy
todos os seus ramos, se passa do mesmo modo que o Lombardo, a inverdade é inerente a um espírito que
rapto da moça numa folha humorística norte- foi recebido pronto da arte e da ciência. A indústria
americana: é o próprio pai que está segurando a cultural conserva o vestígio de algo melhor nos
escada no escuro. A indústria cultural volta a traços que a aproximam do circo, na habilidade
oferecer como paraíso o mesmo quotidiano. Tanto o obstinada e insensata dos cavaleiros, acrobatas e
escape quanto o elopement21 estão de antemão palhaços, na “defesa e justificação da arte corporal
destinados a reconduzir ao ponto de partida. A em face da arte espiritual23”. Mas os últimos
diversão favorece a resignação, que nela quer se refúgios da arte circense que perdeu a alma, mas que
esquecer. representa o humano contra o mecanismo social, são
Livre de toda restrição, o entretenimento não inexoravelmente descobertos por uma razão
seria a mera antítese da arte, mas o extremo que a planejadora, que obriga todas as coisas a provarem
toca. O absurdo tipo Mark Twain, que a indústria sua significação e eficácia. Ela faz com que o sem-
cultural norte-americana às vezes se põe a namorar, sentido na base da escala desapareça tão
poderia significar um correctivo da arte. Quanto radicalmente quanto, no topo, o sentido das obras de
mais a sério ela leva a contradição com a vida, tanto arte.
mais ela se parece com a seriedade da vida, seu A fusão actual da cultura e do entretenimento
oposto; quanto mais trabalho emprega para se não se realiza apenas como depravação da cultura,
desenvolver em toda sua pureza a partir da lei de sua mas igualmente como espiritualização forçada da
própria forma, mais ela volta a exigir trabalho do diversão. Ela já está presente no facto de que só
entendimento, quando ela queria justamente negar o
peso deste trabalho. Em muitos musicais, mas 22
Quadrinhos ou filmes cómicos. (N. do T.)
23
Frank Wedeking, Gesammelte Werke. Munique, 1921.
21
Fuga e rapto. (N. do T.) Vol. IX, p. 426

67
temos acesso a ela em suas reproduções, como diversão mostra-se em seu próprio sentido: a
cinematografia ou emissão radiofónica. Na era da apologia da sociedade. Divertir-se significa estar de
expansão liberal, a diversão vivia da fé intacta no acordo. Isso só é possível se isso se isola do
futuro: tudo ficaria como estava e, no entanto, se processo social em seu todo, se idiotiza e abandona
tornaria melhor. Hoje a fé é de novo espiritualizada; desde o início a pretensão inescapável de toda obra,
ela se torna tão subtil que perde de vista todo mesmo da mais insignificante, de reflectir em sua
objectivo e se reduz agora ao fundo dourado limitação o todo. Divertir significa sempre: não ter
projectado por trás da realidade. Ela se compõe dos que pensar nisso, esquecer o sofrimento até mesmo
valores com os quais, em perfeito paralelismo com a onde ele é mostrado. A impotência é a sua própria
vida, novamente se investem, no espectáculo, o base. É na verdade uma fuga, mas não, como
rapaz maravilhoso, o engenheiro, a jovem dinâmica, afirma, uma fuga da realidade ruim, mas da última
a falta de escrúpulos disfarçada de carácter, o ideia de resistência que essa realidade ainda deixa
interesse esportivo e, finalmente, os automóveis e subsistir. A liberação prometida pela diversão é a
cigarros, mesmo quando o entretenimento não é liberação do pensamento como negação. O
posto na conta de publicidade de seu produtor descaramento da pergunta retórica: “Mas o que é
imediato, mas na conta do sistema como um todo. A que as pessoas querem?” consiste em dirigir-se às
diversão se alinha ela própria entre os ideais, ela pessoas como sujeitos pensantes, quando sua missão
toma o lugar dos bens superiores, que ela expulsa específica é desacostumá-las da subjectividade.
inteiramente das massas, repetindo-os de uma Mesmo quando o público se rebela contra a
maneira ainda mais estereotipada do que os indústria cultural, essa rebelião é o resultado lógico
reclames publicitários pagos por firmas privadas. A do desamparo para o qual ela própria o educou.
inferioridade, forma subjectivamente limitada da Todavia, tornou-se cada vez mais difícil persuadir as
verdade, foi sempre mais submissa aos senhores pessoas a colaborar. O progresso da estultificação
externos do que ela desconfiava. A indústria cultural não pode ficar atrás do simultâneo progresso da
transforma-a numa mentira patente. A única inteligência. Na era da estatística, as massas estão
impressão que ela ainda produz é a de uma lenga- muito escaldadas para se identificar com o
lenga que as pessoas toleram nos best-sellers milionário na tela, mas muito embrutecidas para: se
religiosos, nos filmes psicológicos e nos women’s desviar um milímetro sequer da lei do grande
serials24, como um ingrediente ao mesmo tempo número. A ideologia se esconde no cálculo de
penoso e agradável, para que possam dominar com probabilidade. A felicidade não deve chegar para
maior segurança na vida real seus próprios impulsos todos, mas para quem tira a sorte, ou melhor, para
humanos. Neste sentido, a diversão realiza a quem é designado por uma potência superior – na
purificação das paixões que Aristóteles já atribuía à maioria das vezes a própria indústria do prazer, que
tragédia e agora Mortimer Adler ao filme. Assim é incessantemente apresentada como estando em
como ocorreu com o estilo, a indústria cultural busca dessa pessoa. As personagens descobertas
desvenda a verdade sobre a catarse. pelos caçadores de talentos e depois lançadas em
Quanto mais firmes se tornam as posições da grande escala pelos estúdios são tipos ideais da nova
indústria cultural, mais sumariamente ela pode classe média dependente. A starlet deve simbolizar
proceder com as necessidades dos consumidores, a empregada de escritório, mas de tal sorte que,
produzindo-as, dirigindo-as, disciplinando-as e, diferentemente da verdadeira, o grande vestido de
inclusive suspendendo a diversão: nenhuma barreira noite já parece talhado para ela. Assim, ela fixa para
se eleva contra o progresso cultural. Mas essa a espectadora, não apenas a possibilidade de
tendência já é imanente ao próprio princípio da também vir a se mostrar na tela, mas ainda mais
diversão enquanto princípio burguês esclarecido. Se enfaticamente a distância entre elas. Só uma pode
a necessidade de diversão foi em larga medida tirar a sorte grande, só um pode se tornar célebre, e
produzida pela indústria, que às massas mesmo se todos têm a mesma probabilidade, esta é
recomendava a obra por seu tema, a oleogravura para cada um tão mínima que é melhor riscá-la de
pela iguaria representada e, inversamente, o pudim vez e regozijar-se com a felicidade do outro, que
em pó pela imagem do pudim, foi sempre possível poderia ser ele próprio e que, no entanto, jamais é.
notar na diversão a tentativa de impingir Mesmo quando a indústria cultural ainda convida a
mercadorias, a sales talk25, o pregão do charlatão de uma identificação ingénua, esta se vê imediatamente
feira. Mas a afinidade original entre os negócios e a desmentida. Ninguém pode mais se perder de si
mesmo. Outrora, o espectador via no filme, no
24
Romance folhetim, publicado em revistas femininas. (N.
casamento representado no filme o seu próprio
do T.) casamento. Agora os felizardos exibidos na tela são
25
Conversa de vendedor, lábia. (N. do T.)

68
exemplares pertencendo ao mesmo género a que transformou a vida deixaria espaço para relações
pertence cada pessoa do público, mas esta igualdade espontâneas e directas entre os homens. Essa
implica a separação insuperável dos elementos liberdade é simbolizada nos diferentes meios da
humanos. A semelhança perfeita é a diferença indústria cultural pela selecção arbitrária de casos
absoluta. A identidade do género proíbe a dos casos. representando a média. As reportagens detalhadas
A indústria cultural realizou maldosamente o sobre as viagens tão brilhantes e tão modestas do
homem como ser genérico. Cada um é tão-somente feliz ganhador do concurso organizado pela revista
aquilo mediante o que pode substituir todos os – de preferência uma dactilógrafa que
outros: ele é fungível, um mero exemplar. Ele provavelmente ganhou o concurso graças a suas
próprio, enquanto indivíduo, é o absolutamente relações com as sumidades locais – reflectem a
substituível, o puro nada, e é isso mesmo que ele impotência de todos. Eles não passam de um
vem a perceber quando perde com o tempo a simples material, a tal ponto que os que dispõem
semelhança. É assim que se modifica a estrutura deles podem elevar um deles aos céus para depois
interna da religião do sucesso, à qual, aliás, as jogá-lo fora: que ele fique mofando com seus
pessoas permanecem tão rigidamente agarradas. O direitos e seu trabalho. A indústria só se interessa
caminho per aspera ad astra26, que pressupõe a pelos homens como clientes e empregados e, de
penúria e o esforço, é substituído cada vez mais pela facto, reduziu a humanidade inteira, bem como cada
premiação. A parte do acaso cego que intervém na um de seus elementos, a essa fórmula exaustiva.
escolha rotineira da canção que se presta ao sucesso, Conforme o aspecto determinante em cada caso, a
da figurante apta ao papel da heroína, é decantada ideologia dá ênfase ao planejamento ou ao acaso, à
pela ideologia. Os filmes dão ênfase ao acaso. técnica ou à vida, à civilização ou à natureza.
Obrigando seus personagens, com excepção do Enquanto empregados, eles são lembrados da
vilão, a uma igualdade essencial, ao ponto de excluir organização racional e exortados a se inserir nela
as fisionomias rebeldes como, por exemplo, como com bom-senso. Enquanto clientes, verão o cinema
no caso de Greta Garbo, as que não parecem que se e a imprensa demonstrar-lhes, com base em
possa saudar com um familiar “Hello sister”27 acontecimentos da vida privada das pessoas, a
facilita-se a princípio, é verdade, a vida do liberdade de escolha, que é o encanto do
espectador. Assegura-se a eles que absolutamente incompreendido. Objectos é que continuarão a ser
não precisam ser diferentes do que são e que em ambos os casos.
poderiam ter o mesmo sucesso sem exigir deles Quanto menos promessas a indústria cultural
aquilo que se sabem incapazes. Mas, ao mesmo tem a fazer, quanto menos ela consegue dar uma
tempo, dá-se a entender a eles que o esforço também explicação da vida como algo dotado de sentido,
não serviria para nada, porque a felicidade burguesa mais vazia torna-se necessariamente a ideologia que
não tem mais nenhuma ligação com o efeito ela difunde. Mesmo os ideais abstractos da
calculável de seu próprio trabalho. No fundo, todos harmonia e da bondade da sociedade são demasiado
reconhecem o acaso, através do qual um indivíduo concretos na era da propaganda universal. Pois as
fez a sua sorte, como o outro lado do planejamento. abstracções são justamente o que aprendemos a
É justamente porque as forças da sociedade já se identificar como propaganda. A linguagem que
desenvolveram no caminho da racionalidade, a tal apela apenas à verdade desperta tão-somente a
ponto que qualquer um poderia tornar-se um impaciência de chegar logo ao objectivo comercial
engenheiro ou um manager, que se tornou que ela na realidade persegue. A palavra que não é
inteiramente irracional a escolha da pessoa em que a simples meio para algum fim parece destituída de
sociedade deve investir uma formação prévia ou a sentido, e as outras parecem simples ficção,
confiança para o exercício dessas funções. O acaso e inverdade. Os juízos de valor são percebidos ou
o planejamento tornam-se idênticos porque, em face como publicidade ou como conversa fiada. A
da igualdade dos homens, a felicidade e a ideologia assim reduzida a um discurso vago e
infelicidade do indivíduo – da base ao topo da descompromissado nem por isso se torna mais
sociedade – perde toda significação económica. O transparente e, tampouco, mais fraca. Justamente
próprio acaso é planejado; não no sentido de atingir sua vagueza, a aversão quase científica a fixar-se em
tal ou qual indivíduo determinado, mas no sentido, qualquer coisa que não se deixe verificar, funciona
justamente, de fazer crer que ele impere. Ele serve como instrumento da dominação. Ela se converte na
como álibi dos planejadores e dá a aparência de que proclamação enfática e sistemática do existente. A
o tecido de transações e medidas em que se indústria cultural tem a tendência de se transformar
num conjunto de proposições protocolares e, por
26
Pelos caminhos ásperos aos astros (N. do T.) isso mesmo, no profeta irrefutável da ordem
27
Olá garota. (N. do T.)

69
existente. Ela se esgueira com mestria entre os das especialidades, apesar de toda a actividade
escolhos da informação ostensivamente falsa e da trepidante, o pão com que a indústria cultural
verdade manifesta, reproduzindo com fidelidade o alimenta os homens continua a ser a pedra da
fenómeno cuja opacidade bloqueia o discernimento estereotipia. Ela se nutre do ciclo, do assombro sem
e erige em ideal o fenómeno omnipresente. A dúvida justificado – de que as mães apesar de tudo
ideologia fica cindida entre a fotografia de uma vida continuem a parir filhos, de que as rodas ainda não
estupidamente monótona e a mentira nua e crua tenham parado. É isso que fortalece a imutabilidade
sobre o seu sentido, que não chega a ser proferida, é das situações. Os campos de trigo que ondulam ao
verdade, mas, apenas sugerida, e inculcada nas vento ao final do filme de Chaplin sobre Hitler
pessoas. Para demonstrar a divindade do real, a desmentem o discurso antifascista da liberdade. Eles
indústria cultural limita-se a repeti-lo cinicamente. se assemelham às melenas louras da moça alemã,
Uma prova foto lógica como essa, na verdade, não é que a Ufa fotografou em sua vida ao ar livre e ao
rigorosa, mas é avassaladora. Quem ainda duvida do vento do verão. É justamente porque o mecanismo
poderio da monotonia não passa de um tolo. A de dominação social a vê como a antítese salutar da
indústria cultural derruba a objecção que lhe é feita sociedade que a natureza se vê integrada à sociedade
com a mesma facilidade com que derruba a incurável e, assim, malbaratada. As imagens
objecção ao mundo que ela duplica com reiterando que as árvores são verdes, que o céu é
imparcialidade. Só há duas opções: participar ou azul e as nuvens derivam ao vento tornam-se já
omitir-se. Os provincianos que invocam a beleza critpogramas para chaminés de fábricas e postos de
eterna e recorrem ao teatro amador contra o cinema gasolina. Inversamente, as rodas e as peças de
e o rádio já chegaram, politicamente, ao ponto para máquinas têm que reluzir expressivamente,
o qual a cultura de massas ainda está empurrando degradadas que foram a suportes dessa alma das
seus clientes. Ela está bastante acerada para, árvores e das nuvens. Assim a natureza e a técnica
conforme a necessidade, escarnecer ou se valer são mobilizadas contra o mofo, contra a lembrança
ideologicamente dos velhos sonhos eles próprios, falsificada da sociedade liberal, na qual, segundo se
quer se trate do ideal paterno quer do sentimento diz, as pessoas se fechavam em quartos abafados
absoluto. A nova ideologia tem por objecto o mundo revestidos de pelúcia, ao invés de praticar, como é o
enquanto tal. Ela recorre ao culto do facto, costume hoje em dia, um naturismo assexuado; ou
limitando-se a elevar – graças a uma representação na qual sofriam panes em modelos antediluvianos
tão precisa quanto possível – a existência ruim ao da Benz, ao invés de se mandar com a velocidade de
reino dos factos. Essa transferência converte a um foguete do lugar em que se está, de uma ou de
própria existência num sucedâneo do sentido e do outra maneira, para outro lugar exactamente igual.
direito. Belo é tudo que a câmara reproduza. A O triunfo das corporações gigantescas sobre a livre
decepção da esperança de ganhar a viagem em torno iniciativa empresarial é decantada pela indústria
do mundo corresponde a exactidão as regiões que se cultural como eternidade da livre iniciativa
atravessariam durante a viagem. O que se oferece empresarial. O inimigo que se combate é o inimigo
não é a Itália, mas a prova visível de sua existência. que já está derrotado, o sujeito pensante. A
O cinema pode se permitir mostrar Paris, onde a ressurreição do anti-filistino Hans Sonnenstõsser na
jovem norte-americana pensa realizar suas Alemanha e o prazer proporcionado por Life with
aspirações, como uma paisagem erma e desolada, a Father têm o mesmo sentido.
fim de empurrá-la ainda mais inexoravelmente para Há uma coisa, porém, a propósito da qual a
o jovem e vivo compatriota, que ela poderia ter ideologia oca não admite brincadeiras: a previdência
conhecido em casa. Que tudo isso continue, que o social. “Ninguém deve sentir fome e frio; quem
sistema – mesmo em sua fase mais recente – sentir vai para o campo de concentração: “essa
reproduza a vida daqueles que o constituem, ao pilhéria da Alemanha hitlerista poderia estar a
invés de eliminá-los logo, é mais uma razão para brilhar como uma máxima sobre todos os portais da
que se reconheça seu sentido e seu mérito. O indústria cultural. Ela pressupõe com astuta
simples facto de continuar a existir e continuar a ingenuidade o estado que caracteriza a sociedade
operar converte-se em justificação da permanência mais recente: o facto de que ela sabe muito bem
cega do sistema e, até mesmo, de sua imutabilidade. reconhecer os seus. A liberdade formal de cada um
O que é salutar é o que se repete, como os processos está garantida. Ninguém tem que se responsabilizar
cíclicos da natureza e da indústria. Eternamente oficialmente pelo que pensa. Em compensação, cada
sorriem os mesmos bebés nas revistas, eternamente um se vê desde cedo num sistema de igrejas, clubes,
ecoa o estrondo da máquina de jazz. Apesar de todo associações profissionais e outros relacionamentos,
o progresso da técnica de representação, das regras e que representam o mais sensível instrumento de

70
controle social. Quem não quiser se arruinar deve individuais curáveis, na medida em que a
tomar cuidado para que, pesado segundo a escala depravação da pessoa em questão não constitua um
desse aparelho, não seja julgado leve demais. De obstáculo. A manutenção de uma atmosfera de
outro modo, dará para trás na vida e acabará por ir a camaradagem segundo os princípios da ciência
pique. O facto de que em toda carreira, mas empresarial – atmosfera essa que toda fábrica se
sobretudo nas profissões liberais, os conhecimentos esforça por introduzir a fim de aumentar a produção
especializados estão, via de regra, ligados a uma – coloca sob controle social o último impulso
mentalidade de conformismo às normas enseja privado, justamente na medida em que ela
facilmente a ilusão de que os conhecimentos aparentemente torna imediatas, reprivatiza, as
especializados são os únicos que contam. Na relações dos homens na produção. Esta espécie de
verdade, faz parte do planejamento irracional dessa “assistência aos flagelados” espiritual lança uma
sociedade reproduzir sofrivelmente tão-somente as sombra conciliatória sobre os produtos audiovisuais
vidas de seus fiéis. A escala do padrão de vida da indústria cultural muito antes que esse auxílio
corresponde com bastante exactidão à ligação saia da fábrica e se estenda sobre toda a sociedade.
interna das classes e dos indivíduos com o sistema. Mas os grandes ajudantes e benfeitores da
Pode-se confiar no manager, e confiável também é humanidade, cujos feitos científicos têm de ser
o pequeno empregado, Dagwood, tal como este vive apresentados pelos escritores como actos de
na página humorística e na realidade. Quem tem frio compaixão, a fim de extrair deles um fictício
e fome, sobretudo quando já teve boas perspectivas, interesse humano, funcionam como lugar-tenentes
está marcado. Ele é um outsider e, abstracção feita dos chefes das nações, e estes acabam por decretar a
de certos crimes capitais, a culpa mais grave é a de eliminação da compaixão e sabem prevenir todo
ser um outsider. Nos filmes, ele será no melhor dos contágio depois de exterminado o último paralítico.
casos um indivíduo original, objecto de um Essa insistência sobre a bondade é a maneira
humorismo maldosamente indulgente. Na maioria pela qual a sociedade confessa o sofrimento que ela
dos casos, será o vilão, identificado como tal desde causa: todos sabem que não podem mais, neste
sua primeira aparição, muito antes que a acção tenha sistema, ajudar-se a si mesmos, e é isso que a
se desenvolvido o suficiente para não dar margem ideologia deve levar em conta. Muito longe de
ao erro de acreditar, ainda que por um instante simplesmente encobrir o sofrimento sob o véu de
apenas, que a sociedade se volta contra as pessoas uma camaradagem improvisada, a indústria cultural
de boa vontade. De facto, o que se desenvolve põe toda a honra da firma em encará-lo virilmente
actualmente é uma espécie de Estado de bem-estar nos olhos e admiti-lo com uma fleuma difícil de
social em grande escala. Para afirmar sua própria manter. O patos da frieza de ânimo justifica o
posição, as pessoas conservam em movimento a mundo que a torna necessária. Assim é a vida, tão
economia na qual, graças à técnica extremamente dura, mas por isso mesmo tão maravilhosa, tão
desenvolvida, as massas do próprio país já são, em sadia. A mentira não recua diante do trágico. Do
princípio, supérfluas enquanto produtoras. Os mesmo modo que a sociedade total não suprime o
trabalhadores, que são na verdade aqueles que sofrimento de seus membros, mas registra e planeja,
provêem a alimentação dos demais, são assim também a cultura de massas faz com o
alimentados, como quer a ilusão ideológica, pelos trágico. Eis por que ela teima em tomar
chefes económicos, que são na verdade os empréstimos à arte. A arte fornece a substância
alimentados. A posição do indivíduo torna-se assim trágica que a pura diversão não pode por si só trazer,
precária. No liberalismo, o pobre era tido como mas da qual ela precisa, se quiser se manter fiel de
preguiçoso, hoje ele é automaticamente suspeito. O uma ou de outra maneira ao princípio da reprodução
lugar de quem não é objecto da assistência externa exacta do fenómeno. O trágico, transformado em
de ninguém é o campo de concentração, ou pelo um aspecto calculado e aceito do mundo, torna-se
menos o inferno do trabalho mais humilde e dos uma bênção para ele. Ele nos protege da censura de
slums. A indústria cultural, porém, reflecte a não sermos muito escrupulosos com a verdade,
assistência positiva e negativa dispensada aos quando de facto nos apropriamos dela com cínico
administrados como a solidariedade imediata dos pesar. Ele torna interessante a insipidez da
homens no mundo dos competentes. Ninguém é felicidade que passou pelo crivo da censura e põe ao
esquecido, todos estão cercados de vizinhos, alcance de todos o que é interessante. Ele oferece ao
assistentes sociais, Dr. Gillespies e filósofos consumidor que já viu melhores dias na vida
domésticos de bom coração, que intervêm cultural o sucedâneo da profundidade há muito
bondosamente junto a cada pessoa para transformar abolida e ao espectador assíduo a escória cultural de
a miséria perpetuada socialmente em casos que deve dispor para fins de prestígio. A todos ele

71
concede o consolo de que um destino humano forte algo a mais. Ela exercita o indivíduo no
e autêntico ainda é possível e de que é preenchimento da condição sob a qual ele está
imprescindível representá-lo sem reservas. A autorizado a levar essa vida inexorável. O indivíduo
realidade compacta e fechada que a ideologia actual deve aproveitar seu fastio universal como uma força
tem por fim reduplicar dá a impressão de ser muito instintiva para se abandonar ao poder colectivo de
mais grandiosa, magnífica e poderosa, quanto mais que está enfastiado. Ao serem reproduzidas, as
profundamente é impregnada com o sofrimento situações desesperadas que estão sempre a desgastar
necessário. Ela assume o aspecto do destino. O os espectadores em seu dia-a-dia tornam-se, não se
trágico é reduzido à ameaça da destruição de quem sabe como, a promessa de que é possível continuar a
não coopera, ao passo que seu sentido paradoxal viver. Basta se dar conta de sua própria nulidade,
consistia outrora numa resistência desesperada à subscrever a derrota – e já estamos integrados. A
ameaça mítica. O destino trágico converte-se na sociedade é uma sociedade de desesperados e, por
punição justa, na qual a estética burguesa sempre isso mesmo, a presa de bandidos. Em alguns dos
aspirou transformá-la. A moral da cultura de massas mais significativos romances do pré-fascismo, como
é a moral degradada dos livros infantis de ontem. Berlin Alexanderplatz29 e Kleiner Mann, was
Assim, por exemplo, nas produções de melhor nun?30, essa tendência manifesta-se tão
qualidade, o vilão aparece revestido dos trajes da drasticamente como na média dos filmes e na
histérica que, num estudo de pretensa exactidão técnica do jazz. No fundo, neles todos se trata do
clínica, tenta enganar sua adversária mais ajustada homem que escarnece de si mesmo. A possibilidade
para roubar sua felicidade, encontrando aí ela de tornar-se sujeito económico, um empresário, um
própria uma morte bem pouco teatral. Mas as coisas proprietário, está completamente liquidada. As
só se passam de maneira tão científica no topo da empresas autónomas (incluindo-se aí as mais
escala. Mais abaixo, nas produções de menor custo, humildes lojinhas), cuja direcção e transmissão
não é preciso recorrer à psicologia social para hereditária constituíam a base da família burguesa e
arrancar as garras ao trágico. Assim como toda da posição de seu chefe, caíram numa dependência
opereta vienense digna desse nome deve encontrar sem perspectivas. Todos tornaram-se empregados e,
seu final trágico no segundo acto, deixando para o na civilização dos empregados, desapareceu a
terceiro unicamente a tarefa de desfazer os mal- dignidade (aliás duvidosa) do pai. O comportamento
entendidos, assim também a indústria cultural do indivíduo com relação ao crime organizado –
determina para o trágico um lugar fixo na rotina. A seja nos negócios, na profissão ou no partido, seja
simples existência de uma receita conhecida é antes ou depois da admissão – a gesticulação do
suficiente para apaziguar o medo de que o trágico Führer diante da massa, do homem enamorado
possa escapar ao controle. A fórmula dramática diante da mulher cortejada, assumem traços
descrita uma vez por uma dona-de-casa como peculiarmente masoquistas. A postura que todos são
“getting into trouble and out again”28 abrange toda forçados a assumir, para comprovar continuamente
a cultura de massas desde o mais cretino women’s sua aptidão moral a integrar essa sociedade, faz
serial até a obra mais bem executada. Mesmo o pior lembrar aqueles rapazinhos que, ao serem recebidos
dos finais, que tinha outrora um objectivo mais alto, na tribo sob as pancadas dos sacerdotes, movem-se
é mais uma confirmação da ordem e uma corrupção em círculos com um sorriso estereotipado nos
do trágico, seja porque a amante que infringe as lábios. A vida no capitalismo tardio é um contínuo
prescrições da moral paga com a morte seus breves rito de iniciação. Todos têm que mostrar que se
dias de felicidade, seja porque o final infeliz do identificam integralmente com o poder de quem não
filme torna mais clara a impossibilidade de destruir cessam de receber pancadas. Eis aí, aliás, o
a vida real. O cinema torna-se efectivamente uma princípio do jazz, a síncope, que ao mesmo tempo
instituição de aperfeiçoamento moral. As massas zomba do tropeção e erige-o em norma. A voz de
desmoralizadas por uma vida submetida à coerção eunuco do crooner a cantar no rádio, o galã bonitão
do sistema, e cujo único sinal de civilização são que, ao cortejar a herdeira, cai dentro, da piscina
comportamentos inculcados à força e deixando vestido de smoking, são modelos para as pessoas
transparecer sempre sua fúria e rebeldia latentes, que devem se transformar naquilo que o sistema,
devem ser compelidas à ordem pelo espectáculo de triturando-as, força-as a ser. Todos podem ser como
uma vida inexorável e da conduta exemplar das a sociedade todo-poderosa, todos podem se tornar
pessoas concernidas. A cultura sempre contribuiu felizes, desde que se entreguem de corpo e alma,
para domar os instintos revolucionários, e não desde que renunciem à pretensão de felicidade. Na
apenas os bárbaros. A cultura industrializada faz
29
Romance A. Döblin. (N. do T.)
28 30
Meter-se em apuros e depois safar-se. (N. do T.) Romance de H. Fallada. (N. do T.)

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fraqueza deles, a sociedade reconhece sua própria nas quais a vida e a fisionomia de todos os
força e lhes confere uma parte dela. Seu desamparo indivíduos – da estrela do cinema ao encarcerado –
qualifica-os como pessoas de confiança. É assim se transformam, em face do poderio do universal. A
que se elimina o trágico. Outrora, a oposição do pseudo-individualidade é um pressuposto para
indivíduo à sociedade era a própria substância da compreender e tirar da tragédia sua virulência: é só
sociedade. Ela glorificava “a valentia e a liberdade porque os indivíduos não são mais indivíduos, mas
do sentimento em face de um inimigo poderoso, de sim meras encruzilhadas das tendências do
uma adversidade sublime, de um problema universal, que é possível reintegrá-los totalmente na
terrificante”31. Hoje, o trágico dissolveu-se neste universalidade. A cultura de massas revela assim o
nada que é a falsa identidade da sociedade e do carácter fictício que a forma do indivíduo sempre
sujeito, cujo horror ainda se pode divisar exibiu na era da burguesia, e seu único erro é
fugidiamente na aparência nula do trágico. Mas o vangloriar-se por essa duvidosa harmonia do
milagre da integração, o permanente acto de graça universal e do particular. O princípio da
da autoridade em acolher o desamparado, forçado a individualidade estava cheio de contradições desde
engolir sua renitência, tudo isso significa o o início. Por um lado, a individuação jamais chegou
fascismo. Ele já se deixa entrever no sentimento a se realizar de facto. O carácter de classe da
humanitário onde Döblin encontra um refúgio para autoconservação fixava cada um no estágio do mero
seu personagem Biberkopf, assim como nos filmes ser genérico. Todo personagem burguês exprimia,
de temática social. A própria capacidade de apesar de seu desvio e graças justamente a ele, a
encontrar refúgios e subterfúgios, de sobreviver à mesma coisa: a dureza da sociedade competitiva. O
própria ruína, com que o trágico é superado, é uma indivíduo, sobre o qual a sociedade se apoiava,
capacidade própria da nova geração. Eles são aptos trazia em si mesmo sua mácula; em sua aparente
para qualquer trabalho porque o processo de liberdade, ele era o produto de sua aparelhagem
trabalho não os liga a nenhum em particular. Isso económica e social. O poder recorria às relações de
lembra o carácter tristemente amoldável do soldado poder dominantes quando solicitava o juízo das
que retoma de uma guerra que não lhe dizia pessoas a elas submetidas. Ao mesmo tempo, a
respeito, ou do trabalhador que vive de biscates e sociedade burguesa também desenvolveu, em seu
acaba entrando em ligas e organizações processo, o indivíduo. Contra a vontade de seus
paramilitares. A liquidação do trágico confirma a senhores, a técnica transformou os homens de
eliminação do indivíduo. crianças em pessoas. Mas cada um desses
Na indústria, o indivíduo é ilusório não apenas progressos da individuação se fez à custa da
por causa da padronização do modo de produção. individualidade em cujo nome tinha lugar, e deles
Ele só é tolerado na medida em que sua identidade nada sobrou senão a decisão de perseguir apenas os
incondicional com o universal está fora de questão. fins privados. O burguês cuja vida se divide entre o
Da improvisação padronizada no jazz até os tipos negócio e a vida privada, cuja vida privada se divide
originais do cinema, que têm de deixar a franja cair entre a esfera da representação e a intimidade, cuja
sobre os olhos para serem reconhecidos como tais, o intimidade se divide entre a comunidade mal-
que domina é a pseudo-individualidade. O humorada do casamento e o amargo consolo de estar
individual reduz-se à capacidade do universal de completamente sozinho, rompido consigo e com
marcar tão integralmente o contingente que ele todos, já é virtualmente o nazista que ao mesmo
possa ser conservado como o mesmo. Assim, por tempo se deixa entusiasmar e se põe a praguejar, ou
exemplo, o ar de obstinada reserva ou a postura o habitante das grandes cidades de hoje, que só pode
elegante do indivíduo exibido numa cena conceber a amizade como social contact, como o
determinada é algo que se produz em série contacto social de pessoas que não se tocam
exactamente como as fechaduras Yale, que só por intimamente. É só por isso que a indústria cultural
fracções de milímetros se distinguem umas das pode maltratar com tanto sucesso a individualidade,
outras. As particularidades do eu são mercadorias porque nela sempre se reproduziu a fragilidade da
monopolizadas e socialmente condicionadas, que se sociedade. Nos rostos dos heróis do cinema ou das
fazem passar por algo de natural. Elas se reduzem pessoas privadas, confeccionados segundo o modelo
ao bigode, ao sotaque francês, à voz grave da das capas de revistas, dissipa-se uma aparência na
mulher de vida livre, ao Lubitsch touch32: são como qual, de resto, ninguém mais acredita, e o amor por
impressões digitais em cédulas de identidade que, esses modelos de heróis nutre-se da secreta
não fosse por elas, seriam rigorosamente iguais e satisfação de estar afinal dispensado de esforço da
individuação pelo esforço (mais penoso, é verdade)
31
Nietzsche, Götzendämmerung. Werke. Vol. VIII, p. 136. da imitação. É vã a esperança de que a pessoa
32
O toque a marca de Lubitsch. (N. do T.)

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contraditória em si mesma e em via de cinema apega-se cheio de compreensão à
desintegração não conseguirá sobreviver a muitas instituição. Mas com a barateza dos produtos de
gerações, que o sistema tem que desmoronar com luxo fabricados em série e seu complemento, a
essa cisão psicológica, que a substituição mentirosa fraude universal, o carácter mercantil da própria arte
do individual pelo estereotipado há de se tornar por está em vias de se modificar. O novo não é o
si mesma insuportável aos homens. Desde o Hamlet carácter mercantil da obra de arte, mas o facto de
de Shakespeare, já se descobrira que a unidade da que, hoje, ele se declara deliberadamente como tal, e
personalidade não passa de uma aparência. Hoje, as é o facto de que a arte renega sua própria
fisionomias produzidas sinteticamente mostram que autonomia, incluindo-se orgulhosamente entre os
já se esqueceu até mesmo de que já houve uma bens de consumo, que lhe confere o encanto da
noção da vida humana. Ao longo dos séculos, a novidade. A arte como um domínio separado só foi
sociedade se preparou para Victor Mature e Mickey possível, em todos os tempos, como arte burguesa.
Rooney. Sua obra de dissolução é ao mesmo tempo Até mesmo sua liberdade, entendida como negação
uma realização. da finalidade social, tal como esta se impõe através
A heroificação do indivíduo mediano faz parte do mercado, permanece essencialmente ligada ao
do culto do barato. As estrelas mais bem pagas pressuposto da economia de mercado. As puras
assemelham-se a reclames publicitários para artigos obras de arte, que negam o carácter mercantil da
de marca não especificada. Não é à toa que são sociedade pelo simples facto de seguirem sua
escolhidas muitas vezes entre os modelos própria lei, sempre foram ao mesmo tempo
comerciais. O gosto dominante toma seu ideal da mercadorias: até o século dezoito, a protecção dos
publicidade, da beleza utilitária. Assim a frase de patronos preservava os artistas do mercado, mas, em
Sócrates, segundo a qual o belo é o útil, acabou por compensação, eles ficavam nesta mesma medida
se realizar de maneira irónica. O cinema faz submetidos a seus patronos e aos objectivos destes.
propaganda do truste cultural enquanto totalidade; A falta de finalidade da grande obra de arte moderna
no rádio, as mercadorias em função das quais se cria vive do anonimato do mercado. As demandas do
o património cultural também são recomendadas mercado passam por tantas mediações que o artista
individualmente. Por cinquenta centavos vê-se o escapa a exigências determinadas, mas em certa
filme de milhões de dólares; por dez recebe-se a medida apenas, é verdade, pois ao longo de toda a
goma de mascar por trás da qual se encontra toda a história burguesa esteve sempre associado à sua
riqueza do mundo e cuja venda serve para que esta autonomia, enquanto autonomia meramente
cresça ainda mais. In absentia, estando todos tolerada, um aspecto de inverdade que acabou por se
sintonizados, investigam-se as finanças dos desenvolver no sentido de uma liquidação social da
exércitos, sem que se tolere, todavia, a prostituição arte. O Beethoven mortalmente doente, que joga
no interior do país. As “melhores orquestras” (que longe um romance de Walter Scott com o grito:
não o são) são entregues grátis a domicílio. Tudo “Este sujeito escreve para ganhar dinheiro” e que,
isso é uma paródia do país de Cocanha, assim como ao mesmo tempo, se mostra na exploração dos
a “comunidade da nação” (Volksgemeinschaft)33 é últimos quartetos – a mais extremada recusa do
uma paródia da comunidade humana. Todos são mercado – como um negociante altamente
servidos de alguma coisa. A constatação de um experimentado e obstinado, fornece o exemplo mais
espectador provinciano do velho Monopoltheater de grandioso da unidade dos contrários, mercado e
Berlim: “É espantoso o que se oferece pelo preço de autonomia, na arte burguesa. Os que sucumbem à
uma entrada!” há muito foi retomada pela indústria ideologia são exactamente os que ocultam a
cultural e transformada na substância da própria contradição, em vez de acolhê-la na consciência de
produção. Esta não apenas se acompanha sempre do sua própria produção, como Beethoven. Este
triunfo consistindo no simples facto de ser possível, exprimiu musicalmente a cólera pelo vintém perdido
mas é em larga medida esse próprio triunfo. “Show” e derivou das reclamações da senhoria a exigir o
significa mostrar a todos o que se tem e o que se pagamento do aluguel aquele metafísico “Es Muss
pode. Até hoje, ele ainda é uma feira, só que Sein” (“Tem que ser”), que tenta superar
incuravelmente atingido pelo mal da cultura. Assim esteticamente as limitações impostas pelo mundo, O
como as pessoas atraídas pela voz do pregoeiro princípio da estética idealista, a finalidade sem fim,
superavam a decepção nas barraquinhas com um é a inversão do esquema a que obedece socialmente
sorriso valente, porque afinal já sabiam de antemão a arte burguesa: a falta de finalidade para os fins
o que as esperava, assim também o espectador de determinados pelo mercado. Para concluir, na
exigência de entretenimento e relaxamento, o fim
33
Expressão própria do discurso ideológico nacional- absorveu o reino da falta de finalidade. Mas, na
socialista. (N. do T.)

74
medida em que a pretensão de utilizar a arte se torna desvios liberais como aqueles que os industriais do
total, começa a se delinear um deslocamento na cinema ainda podem se permitir em seu próprio
estrutura económica interna das mercadorias sector. Ele é um empreendimento privado que já
culturais. Pois a utilidade que os homens aguardam representa o todo soberano, no que se encontra um
da obra de arte na sociedade antagonística é passo à frente das outras corporações. Chesterfield é
justamente, em larga medida, a existência do inútil, apenas o cigarro da nação, mas o rádio é o porta-voz
que no entanto é abolido pela subsunção à utilidade. dela. Ao integrar todos os produtos culturais na
Assimilando-se totalmente à necessidade, a obra de esfera das mercadorias, o rádio renuncia totalmente
arte defrauda de antemão os homens justamente da a vender como mercadorias seus próprios produtos
liberação do princípio da utilidade, liberação essa culturais. Nos Estados Unidos, ele não cobra
que a ela incumbia realizar. O que se poderia nenhuma taxa do público. Deste modo, ele assume a
chamar de valor de uso na recepção dos bens forma de uma autoridade desinteressada, acima dos
culturais é substituído pelo valor de troca; ao invés partidos, que é como que talhada sob medida para o
do prazer, o que se busca é assistir e estar fascismo. O rádio torna-se aí a voz universal do
informado, o que se quer é conquistar prestígio e Führer; nos alto-falantes de rua, sua voz se
não se tornar um conhecedor. O consumidor torna- transforma no uivo das sirenes anunciando o pânico,
se a ideologia da indústria da diversão, de cujas das quais, aliás, a propaganda moderna é difícil de
instituições não consegue escapar. E preciso ver se distinguir. Os próprios nacional-socialistas
Mrs. Miniver, do mesmo modo que é preciso assinar sabiam que o rádio dera forma à sua causa, do
as revistas Life e Time. Tudo é percebido do ponto mesmo modo que a imprensa fizera para a Reforma.
de vista da possibilidade de servir para outra coisa, O carisma metafísico do Führer, inventado pela
por mais vaga que seja a percepção dessa coisa. sociologia da religião, acabou por se revelar como a
Tudo só tem valor na medida em que se pode trocá- simples omnipresença de seus discursos
lo, não na medida em que é algo em si mesmo. O radiofónicos, que são uma paródia demoníaca da
valor de uso da arte, seu ser, é considerado como um omnipresença do espírito divino. O facto gigantesco
fetiche, e o fetiche, a avaliação social que é de que o discurso penetra em toda parte substitui seu
erroneamente entendida como hierarquia das obras conteúdo, assim como o favor que nos fazem com a
de arte – torna-se seu único valor de uso, a única transmissão do concerto de Toscanini toma o lugar
qualidade que elas desfrutam. E assim que o de seu conteúdo, a sinfonia. Nenhum ouvinte
carácter mercantil da arte se desfaz ao se realizar consegue mais apreender seu verdadeiro sentido,
completamente. Ela é um género de mercadorias, enquanto o discurso do Führer é, de qualquer modo,
preparadas, computadas, assimiladas à produção a mentira. Colocar a palavra humana como algo de
industrial, compráveis e fungíveis, mas a arte como absoluto, como um falso imperativo, é a tendência
um género de mercadorias, que vivia de ser vendida imanente do rádio. A recomendação transforma-se
e, no entanto, de ser invendível, torna-se algo em um comando. A apologia das mercadorias,
hipocritamente invendível, tão logo o negócio deixa sempre as mesmas sob diversas marcas, o elogio do
de ser meramente sua intenção e passa a ser seu laxante, cientificamente fundamentado, na voz
único princípio. O concerto de Toscanini adocicada do locutor entre as aberturas da Traviata
transmitido pelo rádio é, de certa maneira, e de Rienzi, tornaram-se, já por sua cretinice,
invendível. É de graça que o escutamos, e cada nota insuportáveis. Um belo dia, a propaganda de marcas
da sinfonia é como que acompanhada de um específicas, isto é, o decreto da produção escondido
sublime comercial anunciando que a sinfonia não é na aparência da possibilidade de escolha, pode
interrompida por comerciais -”this concert is acabar se transformando no comando aberto do
brought to you as public service”34. A ilusão Führer. Numa sociedade dominada pelos grandes
realiza-se indirectamente através do lucro de todos bandidos fascistas, que se puseram de acordo sobre
os fabricantes de automóveis e sabão reunidos, que a parte do produto social a ser destinado às
financiam as estações, e naturalmente através do primeiras necessidades do povo, pareceria enfim
aumento de vendas da indústria eléctrica que produz anacrónico convidar ao uso de um determinado
os aparelhos de recepção. O rádio, esse retardatário sabão em pó. O Führer ordena de maneira mais
progressista da cultura de massas, tira todas as moderna e sem maior cerimónia tanto o holocausto
consequências que o pseudomercado do cinema por quanto a compra de bugigangas.
enquanto recusa a este. A estrutura técnica do Actualmente, as obras de arte são apresentadas
sistema radiofónico comercial torna-o imune a como os slogans políticos e, como eles, inculcadas a
um público relutante a preços reduzidos. Elas
34
Este concerto é levado até você como um serviço público. tornaram-se tão acessíveis quanto os parques
(N. do T.)

75
públicos. Mas isso não significa que, ao perderem o radiofónicos, não são meros acidentes, mas apenas
carácter de uma autêntica mercadoria, estariam prolongam o que se passa com os próprios produtos
preservadas na vida de uma sociedade livre, mas, ao culturais. A sinfonia torna-se um prémio para o
contrário, que agora caiu também a última protecção simples facto de se escutar rádio, e se a técnica
contra sua degradação em bens culturais. A pudesse impor sua vontade, os filmes já seriam
eliminação do privilégio da cultura pela venda em fornecidos em cada apartamento segundo o modelo
liquidação dos bens culturais não introduz as massas do rádio. Eles já tendem para o commercial system.
nas áreas de que eram antes excluídas, mas serve, ao A televisão anuncia uma evolução que poderia
contrário, nas condições sociais existentes, facilmente forçar os irmãos Warner a assumir a
justamente para a decadência da cultura e para o posição, certamente incómoda para eles, de
progresso da incoerência bárbara. Quem, no século produtores de um teatro doméstico e de
dezanove ou no início do século vinte, conservadores culturais. Mas o sistema de prémios
desembolsava uma certa quantia para ver uma peça já se sedimentou no comportamento dos
teatral ou para assistir a um concerto dispensava ao consumidores. Na medida em que a cultura se
espectáculo pelo menos tanto respeito quanto ao apresenta como um brinde, cujas vantagens privadas
dinheiro gasto. O burguês que pretendesse auferir e sociais no entanto estão fora de questão, sua
alguma vantagem com isso podia eventualmente recepção converte-se no aproveitamento de chances.
buscar algum contacto com a obra. As introduções Os consumidores se esforçam por medo de perder
aos dramas musicais de Wagner, por exemplo, e os alguma coisa. O quê – não está claro, de qualquer
comentários do Fausto dão testemunho disso. São modo só tem chance quem não se exclui. O
eles que servem de transição para a embalagem fascismo, porém, espera reorganizar os recebedores
biográfica e outras práticas a que se submetem de dádivas, treinados pela indústria cultural, nos
actualmente as obras de arte. Mesmo na flor da batalhões regulares de sua clientela compulsiva.
idade dos negócios, o valor de troca não arrastou o A cultura é uma mercadoria paradoxal. Ela
valor de uso como um mero apêndice, mas também está tão completamente submetida à lei da troca que
o desenvolveu como o pressuposto de sua própria não é mais trocada. Ela se confunde tão cegamente
existência, e isso foi socialmente vantajoso para as com o uso que não se pode mais usá-la. É por isso
obras de arte. A arte manteve o burguês dentro de que ela se funde com a publicidade. Quanto mais
certos limites enquanto foi cara. Mas isso acabou. destituída de sentido esta parece ser no regime do
Sua proximidade ilimitada, não mais mediatizada monopólio, mais todo-poderosa ela se torna. Os
pelo dinheiro, às pessoas expostas a ela consuma a motivos são marcadamente económicos. Quanto
alienação e assimila um ao outro sob o signo de uma maior é a certeza de que se poderia viver sem toda
triunfal reificação. Na indústria cultural, essa indústria cultural, maior a saturação e a apatia
desaparecem tanto a crítica quanto o respeito: a que ela não pode deixar de produzir entre os
primeira transforma-se na produção mecânica de consumidores. Por si só ela não consegue fazer
laudos periciais, o segundo é herdado pelo culto muito contra essa tendência. A publicidade é seu
desmemoriado da personalidade. Para os elixir da vida. Mas como seu produto reduz
consumidores nada mais é caro. Ao mesmo tempo, incessantemente o prazer que promete como
porém, eles desconfiam que, quanto menos custa mercadoria a uma simples promessa, ele acaba por
uma coisa, menos ela lhes é dada de presente. A coincidir com a publicidade de que precisa, por ser
dupla desconfiança contra a cultura tradicional intragável. Na sociedade concorrencial a
enquanto ideologia mescla-se à desconfiança contra publicidade tinha por função orientar o comprador
a cultura industrializada enquanto fraude. pelo mercado, ela facilitava a escolha e possibilitava
Transformadas em simples brindes, as obras de arte ao fornecedor desconhecido e mais produtivo
depravadas são secretamente recusadas pelos colocar sua mercadoria. Não apenas não custava
contemplados juntamente com as bugigangas a que tempo de trabalho, mas também economizava-o.
são assimiladas pelos meios de comunicação. Os Hoje, quando o mercado livre vai acabando, os
espectadores devem se alegrar com o facto de que donos do sistema se entrincheiram nela. Ela
há tantas coisas a ver e a ouvir. A rigor pode-se ter consolida os grilhões que encadeiam os
tudo. Os screenos e vaudevilles35 no cinema, os consumidores às grandes corporações. Só quem
concursos de identificação de temas musicais, os pode pagar continuamente as taxas exorbitantes
exemplares grátis, os prémios e presentes oferecidos cobradas pejas agências de publicidade, pelo rádio
aos ouvintes de determinados programas sobretudo, isto é, quem já faz parte do sistema ou é
cooptado com base nas decisões do capital bancário
35
Nos primórdios do cinema, intervalos durante os quais se e industrial, pode entrar como vendedor no
organizavam concursos entre os espectadores. (N. do T.)

76
pseudomercado. Os custos de publicidade, que redacional ainda se esforça por atingir. Cada filme é
acabam por retornar aos bolsos das corporações, um trailer do filme seguinte, que promete reunir
poupam as dificuldades de eliminar pela mais uma vez sob o mesmo sol exótico o mesmo par
concorrência os intrusos indesejáveis. Esses custos de heróis; o retardatário não sabe se está assistindo
garantem que os detentores do poder de decisão ao trailer ou ao filme mesmo. O carácter de
ficarão entre si; aliás, como ocorre nas resoluções montagem da indústria cultural, a fabricação
dos conselhos económicos que controlam, no Estado sintética e dirigida de seus produtos, que é industrial
totalitário, a criação e a gestão das empresas. A não apenas no estúdio – cinematográfico, mas
publicidade é hoje em dia um princípio negativo, também (pelo menos virtualmente) na compilação
um dispositivo de bloqueio: tudo aquilo que não das biografias baratas, romances-reportagem e
traga seu sinete é economicamente suspeito. A canções de sucesso, já estão adaptados de antemão à
publicidade universal não é absolutamente publicidade: na medida em que cada elemento se
necessária para que as pessoas conheçam os tipos de torna separável, fungível e também tecnicamente
mercadoria, aos quais a oferta de qualquer modo alienado à totalidade significativa, ele se presta a
está limitada. Só indirectamente ela serve à venda. finalidades exteriores à obra. O efeito, o truque,
O abandono de uma prática publicitária corrente por cada desempenho isolado e receptível foram sempre
uma firma particular significa uma perda de cúmplices da exibição de mercadorias para fins
prestígio, na verdade uma infracção da disciplina publicitários, e actualmente todo close de uma actriz
que a clique dominante impõe aos seus. Durante a de cinema serve de publicidade de seu nome, todo
guerra, continua-se a fazer publicidade de sucesso tornou-se um plug36 de sua melodia. Tanto
mercadorias que já não podem mais ser fornecidas, técnica quanto economicamente, a publicidade e a
com o único fim de exibir o poderio industrial. Mais indústria cultural se confundem. Tanto lá como cá, a
importante do que a repetição do nome, então, é a mesma coisa aparece em inúmeros lugares, e a
subvenção dos meios ideológicos. Na medida em repetição mecânica do mesmo produto cultural já é a
que a pressão do sistema obrigou todo produto a repetição do mesmo slogan propagandístico. Lá
utilizar a técnica da publicidade, esta invadiu o como cá, sob o imperativo da eficácia, a técnica
idioma, o “estilo”, da indústria cultural. Sua vitória converte-se em psicotécnica, em procedimento de
é tão completa que ela sequer precisa ficar explícita manipulação das pessoas. Lá como cá, reinam as
nas posições decisivas: os edifícios monumentais normas do surpreendente e no entanto familiar, do
das maiores firmas, publicidade petrificada sob a luz fácil e no entanto marcante, do sofisticado e no
dos holofotes, estão livres de reclames publicitários entanto simples. O que importa é subjugar o cliente
e exibem no melhor dos casos em suas ameias, que se imagina como distraído ou relutante.
brilhando lapidarmente e dispensadas do auto- Pela linguagem que fala, ele próprio dá sua
elogio, as iniciais da firma. Ao contrário, os prédios contribuição ao carácter publicitário da cultura. Pois
que sobrevivem do século dezanove e cuja quanto mais completamente a linguagem se absorve
arquitectura ainda revela vergonhosamente a na comunicação, quanto mais as palavras se
utilidade como bem de consumo, ou seja, sua convertem de veículos substanciais do significado
finalidade habitacional, estão recobertos do andar em signos destituídos de qualidade, quanto maior a
térreo ao telhado de painéis e anúncios luminosos; a pureza e a transparência com que transmitem o que
paisagem torna-se um mero pano de fundo para se quer dizer, mais impenetráveis elas se tornam. A
letreiros e logotipos. A publicidade converte-se na desmitologização da linguagem, enquanto elemento
arte pura e simplesmente, com a qual Goebbels do processo total de esclarecimento, é uma recaída
identificou-a premonitoriamente, l’art pour l’art, na magia. Distintos e inseparáveis, a palavra e o
publicidade de si mesma, pura representação do conteúdo estavam associados um ao outro.
poderio social. Nas mais importantes revistas norte- Conceitos como melancolia, história e mesmo vida,
americanas, Life e Fortune, o olhar fugidio mal pode eram reconhecidos na palavra que os destacava e
distinguir o texto e a imagem publicitários do texto conservava. Sua forma constituía-os e, ao mesmo
e imagem da parte redacional. Assim, por exemplo, tempo, reflectia-os. A decisão de separar o texto
redacional é a reportagem ilustrada, que descreve literal como contingente e a correlação com o
entusiástica e gratuitamente os hábitos e os cuidados objecto como arbitrária acaba com a mistura
com o corpo de uma personalidade em evidência e supersticiosa da palavra e da coisa. O que, numa
que serve para granjear-lhe novos fãs, enquanto as sucessão determinada de letras, vai além da
páginas publicitárias se apoiam em fotos e correlação com o evento é proscrito como obscuro e
indicações tão objectivas e realistas que elas
representam o ideal da informação que a parte 36
Públicidade, recomendação de alguém ou alguma coisa,
por exemplo, num programa radiofónico. (N. do T.)

77
como verbalismo metafísico. Mas deste modo a com que os modelos linguísticos são colocados em
palavra, que não deve significar mais nada e agora circulação de cima para baixo. Se é verdade que as
só pode designar, fica tão fixada na coisa que ela se canções folclóricas podem ser consideradas como
torna uma fórmula petrificada. Isso afecta tanto a resultando de uma degradação do património
linguagem quanto o objecto. Ao invés de trazer o cultural de camadas superiores, em todo caso, foi
objecto à experiência, a palavra purificada serve num processo longo e muito mediatizado da
para exibi-lo como instância de um aspecto experiência que seus elementos adquiriram sua
abstracto, e tudo o mais, desligado da expressão forma popular. A difusão das popular songs ocorre
(que não existe mais) pela busca compulsiva de uma de um só golpe. A expressão norte-americana
impiedosa clareza, se atrofia também na realidade. “fad”37, usada para se referir a modas que surgem
O ponta-esquerda no futebol, o camisa-negra, o como epidemias (isto é, que são lançadas por
membro da Juventude Hitlerista etc. nada mais são potências económicas altamente concentradas), já
do que o nome que os designa. Se, antes de sua designava o fenómeno muito tempo antes que os
racionalização, a palavra permitira não só a chefes totalitários da publicidade impusessem as
nostalgia mas também a mentira, a palavra linhas gerais da cultura. Se os fascistas alemães
racionalizada transformou-se em uma camisa de lançam um dia pelo alto-falante uma palavra como
força para a nostalgia, muito mais do que para “insuportável”, no dia seguinte o povo inteiro estará
mentira. A cegueira e o mutismo dos factos a que o dizendo “insuportável”. Foi segundo o mesmo
positivismo reduziu o mundo estendem-se à própria esquema que as nações visadas pelo Blitzkrieg
linguagem, que se limita ao registro desses dados. (guerra-relâmpago) alemão acolheram esse termo
Assim, as próprias designações se tornam em seu jargão. A repetição universal dos termos
impenetráveis, elas adquirem uma contundência, designando as decisões tomadas torna-as por assim
uma força de adesão e repulsão que as assimila a seu dizer familiares, do mesmo modo que, na época do
extremo oposto, as fórmulas de encantamento mercado livre, a divulgação do nome de uma
mágico. Elas voltam a operar como uma espécie de mercadoria fazia aumentar sua venda. A repetição
manipulações, seja para compor o nome da diva no cega e rapidamente difundida de palavras
estúdio com base na experiência estatística, seja designadas liga a publicidade à palavra de ordem
para lançar o anátema sobre o governo voltado para totalitária. O tipo de experiência que personalizava
o bem-estar social recorrendo a nomes tabus como as palavras ligando-as às pessoas que as
“burocratas” e “intelectuais”, seja acobertando a pronunciavam foi esvaziado, e a pronta apropriação
infâmia com o nome da Pátria. Sobretudo o nome, das palavras faz com que a linguagem assuma
ao qual a magia se prende de preferência, está aquela frieza que era própria dela apenas nos
passando actualmente por uma alteração química. cartazes e na parte de anúncios dos jornais.
Ele está se transformando em designações Inúmeras pessoas usam palavras e locuções que elas
arbitrárias e manejáveis, cuja eficácia se pode agora, ou não compreendem mais de todo, ou empregam
é verdade, calcular, mas que por isso mesmo se segundo seu valor behaviorista, assim como marcas
tornou tão despótica como em sua forma arcaica. Os comerciais, que acabam por aderir tanto mais
prenomes, que são resíduos arcaicos, foram compulsivamente a seus objectos, quanto menos seu
modernizados: ou bem mediante uma estilização sentido linguístico é captado. O ministro da
que os transformou em marcas publicitárias – para Instrução Pública (Volksauf kliirung) fala de forças
os astros do cinema, os sobrenomes também são dinâmicas sem saber do que se trata, e os sucessos
prenomes – ou bem mediante uma padronização musicais falam sem cessar em rêverie e rhapsody38
colectiva. Em compensação, parece antiquado o e baseiam sua popularidade justamente na magia do
nome burguês, o nome de família, que, ao contrário incompreensível considerado como frémito de –
das marcas comerciais, individualiza o portador uma vida superior. Outros estereótipos, como
relacionando-o à sua própria história. Ele desperta memory, ainda são de certa maneira compreendidos,
nos norte-americanos um estranho embaraço. Para mas escapam à experiência que poderia lhes dar um
disfarçar a incómoda distância entre indivíduos sentido. Eles se inserem como enclaves na
particulares, eles se chamam de Bob e Harry, como linguagem falada. Na rádio alemã de Flesch e
elementos intercambiáveis de teams. Tal prática Hitler, eles podem ser notados no alto-alemão
degrada as relações pessoais à fraternidade do afectado do locutor, quando este declama para a
público esportivo, que impede a verdadeira nação um “Boa noite” ou “Aqui fala a Juventude
fraternidade. A significação, única função da Hitlerista” e mesmo “O Führer”, com uma
palavra admitida pela semântica, consuma-se no
sinal. Seu carácter de sinal reforça-se com a rapidez 37
Moda, mania. (N. do T.)
38
Devaneio e rapsódia. (N. do T.)

78
entonação imitada por milhões. Essas expressões identificam às mercadorias culturais que eles, ao
rompem o último laço entre a experiência mesmo tempo, decifram muito bem.
sedimentada e a linguagem, laço este que durante o
século dezanove, ainda exercia, no interior do
dialecto, uma influência conciliatória. O Redakteur
que, com sua mentalidade maleável, transformou-se
num Schriftleiter alemão39 vê as palavras alemãs se
petrificando sub-repticiamente sob a sua pena em
palavras estrangeiras. É possível distinguir em cada
palavra até que ponto ela foi desfigurada pela
“comunidade nacional” (Volksgemeinschaft)
fascista. Essa linguagem, é verdade, acabou por se
tornar universal, totalitária. Não se consegue mais
perceber nas palavras a violência que elas sofrem. O
locutor de rádio não precisa mais falar de maneira
pomposa. Aliás, ele seria esquisito, caso sua
entonação se distinguisse da entonação de seu
público ouvinte. Em compensação, a linguagem e os
gestos dos ouvintes e espectadores, até mesmo
naquelas nuanças que nenhum método experimental
conseguiu captar até agora, estão impregnados mais
fortemente do que nunca pelos esquemas da
indústria cultural. Hoje, a indústria cultural assumiu
a herança civilizatória da democracia de pioneiros e
empresários, que tampouco desenvolvera uma
fineza de sentido para os desvios espirituais. Todos
são livres para dançar e para se divertir, do mesmo
modo que, desde a neutralização histórica da
religião, são livres para entrar em qualquer uma das
inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da
ideologia, que reflecte sempre a coerção económica,
revela-se em todos os sectores como a liberdade de
escolher o que é sempre a mesma coisa. A maneira
pela qual uma jovem aceita e se desincumbe do
date40 obrigatório, a entonação no telefone e na mais
familiar situação, a escolha das palavras na
conversa, e até mesmo a vida interior organizada
segundo os conceitos classificatórios da psicologia
profunda vulgarizada, tudo isso atesta a tentativa de
fazer de si mesmo um aparelho eficiente e que
corresponda, mesmo nos mais profundos impulsos
instintivos, ao modelo apresentado pela indústria
cultural. As mais íntimas reacções das pessoas estão
tão completamente reificadas para elas próprias que
a ideia de algo peculiar a elas só perdura na mais
extrema abstracção: personality significa para elas
pouco mais do que possuir dentes
deslumbrantemente brancos e estar livres do suor
nas axilas e das emoções. Eis aí o triunfo da
publicidade na indústria cultural, a mimese
compulsiva dos consumidores, pela qual se

39
Schriftleiter é o termo adoptado pelos puristas da língua
alemã, para substituir a expressão Redakteur, de origem
francesa. (N. do T.)
40
Encontro (com o namorado). (N. do T.)

79
Elementos do Anti-Semitismo: Limites do colocar a unidade dos homens como já realizada por
esclarecimento princípio, ela ajuda a fazer a apologia do existente.
A tentativa de desviar a mais extrema ameaça
I mediante uma política de minorias e uma estratégia
democrática é ambígua, como aliás o é a defensiva
Actualmente, o anti-semitismo é considerado dos derradeiros burgueses liberais em geral. Sua
por uns como uma questão vital da humanidade, por impotência atrai o inimigo da impotência. A vida e o
outros como mero pretexto. Para os fascistas, os aspecto dos judeus comprometem a universalidade
judeus não são uma minoria, mas a anti-raça, o existente em razão de sua adaptação deficiente. O
princípio negativo enquanto tal; de sua apego inflexível às suas próprias formas de
exterminação dependeria a felicidade do mundo. No ordenamento da vida levou-os a uma relação
extremo oposto está a tese de que os judeus, livres insegura com a ordem dominante. Eles esperavam
de características nacionais ou raciais, formariam que esta os protegesse, mesmo sem dominá-la. Sua
um grupo baseado na opinião e na tradição relação com todos os povos soberanos se fundava na
religiosas e nada mais. Só se poderia falar de cobiça e no temor. Todavia, sempre que
características judaicas a propósito dos judeus renunciavam à diferença relativamente ao modo de
orientais e, em todo caso, unicamente a propósito ser dominante, os bem-sucedidos recebiam em troca
dos que ainda não foram inteiramente assimilados. o carácter frio e estóico que a sociedade até hoje
Ambas as doutrinas são verdadeiras e falsas ao impõe às pessoas. O entrelaçamento dialéctico do
mesmo tempo. esclarecimento e da dominação, a dupla relação do
A primeira é verdadeira no sentido em que o progresso com a crueldade e a liberação, que os
fascismo a tornou verdadeira. Os judeus são hoje o judeus tiveram que provar nos grandes
grupo que, tanto prática quanto teoricamente, atraem esclarecedores bem como nos movimentos
sobre si a vontade de destruição que uma falsa populares democráticos, também se mostra no ser
ordem social gerou dentro de si mesma. Eles são dos próprios assimilados. O autodomínio
estigmatizados pelo mal absoluto como o mal esclarecido com que os judeus adaptados superaram
absoluto. Assim, eles são de facto o povo eleito. Ao inteiramente as lembranças penosas da dominação
mesmo tempo que se afirma que, economicamente, imposta por outros (por assim dizer, a segunda
a dominação não seria mais necessária, os judeus circuncisão) tirou-os de sua comunidade carcomida
são designados como o objecto absoluto de uma e os jogou sem mais na burguesia moderna, que já
dominação pura e simples. Aos trabalhadores, que avançava inexoravelmente para a recaída na simples
afinal são os visados, ninguém o diz na cara (e com repressão, ou seja, para sua reorganização como
razão); os negros, é preciso conservá-los em seu raça pura. A raça não é imediatamente, como
lugar; mas, quanto aos judeus, a terra precisa ser querem os racistas, uma característica natural
purificada deles, e o grito que conclama a particular. Ela é, antes, a redução ao natural, à pura
exterminá-los como insectos encontra eco no violência, a particularidade obstinada que, no
coração de todos os fascistas em potencial de todos existente, é justamente o universal. A raça, hoje, é a
os países. Os racistas (die Völkischen)1 exprimem auto-afirmação do indivíduo burguês integrado à
sua própria essência na imagem que projectam dos colectividade bárbara. Os judeus liberais, que
judeus. Sua ânsia é a posse exclusiva, a apropriação, professaram a harmonia da sociedade, acabaram
o poder sem limites, a qualquer preço. O judeu, tendo que sofrê-la em sua própria carne como a
sobre o qual descarregam a própria culpa e que harmonia da comunidade étnica
escarnecem como dominador, eles o pregam na (Volksgemeinschaft). Eles achavam que era o anti-
cruz, repetindo interminavelmente o sacrifício em semitismo que vinha desfigurar a ordem, quando, na
cuja eficácia não conseguem mais acreditar. verdade, é a ordem que não pode viver sem a
A outra, a tese liberal, é verdadeira enquanto desfiguração dos homens. A perseguição dos judeus,
Ideia. Ela contém a imagem da sociedade na qual a como a perseguição em geral, não se pode separar
cólera não se reproduz mais e está em busca de de semelhante ordem. Sua essência, por mais que se
atributos nos quais possa se descarregar. Mas, ao esconda às vezes, é a violência que hoje se
manifesta.
1
O termo völkisch, de difícil tradução, é um adjectivo II
derivado de Volk = povo – e designa, no jargão nacional-
socialista. tudo aquilo que se refere ao “povo” entendido como
uma unidade nacional, i.e., racial e cultural, vale dizer como
O anti-semitismo enquanto movimento
uma etnia. À falta de melhor solução, traduzimos völkisch, popular foi sempre aquilo que seus instigadores
conforme o contexto, por racista ou nacionalista. (No do T.)

80
gostavam de censurar aos socialdemocratas: o enquanto sujeitos. Para as pessoas envolvidas, seus
nivelamento por baixo. Os que não têm nenhum gestos são reacções letais e, no entanto, sem sentido,
poder de comando devem passar tão mal como o como as que os behavioristas constatam sem
povo. Do funcionário alemão aos negros do Harlem, interpretar. O anti-semitismo é um esquema
os ávidos prosélitos sempre souberam, no fundo, profundamente arraigado, um ritual da civilização, e
que no final não teriam nada senão o prazer de que os pogroms são os verdadeiros assassinatos rituais.
os outros tampouco teriam mais do que eles. A Neles fica demonstrada a impotência daquilo que
arianização da propriedade judaica (que, aliás, na poderia refreá-los, a impotência da reflexão, da
maioria dos casos beneficiou as classes superiores) significação e, por fim, da verdade. O passatempo
não trouxe para as massas do III Reich, vantagens pueril do homicídio é uma confirmação da vida
muito maiores do que, para os cossacos, o miserável estúpida a que as pessoas se conformam.
espólio que estes arrastavam dos guetos saqueados. Só a cegueira do anti-semitismo, sua falta de
A vantagem real era uma ideologia parcialmente objectivo, confere uma certa verdade à explicação
devassada. O facto de que a demonstração de sua de que ele seria uma válvula de escape. A cólera é
inutilidade económica antes aumenta do que modera descarregada sobre os desamparados que chamam a
a força de atracção da panaceia racista (völkisch) atenção. E como as vítimas são intercambiáveis
indica sua verdadeira natureza: ele não auxilia os segundo a conjuntura: vagabundos, judeus,
homens, mas sua ânsia de destruição. O verdadeiro protestantes, católicos, cada uma delas pode tomar o
ganho com que conta o “camarada de etnia” lugar do assassino, na mesma volúpia cega do
(Volksgenosse)2 é a ratificação colectiva de sua homicídio, tão logo se converta na norma e se sinta
fúria. Quanto menores são as vantagens, mais poderosa enquanto tal. Não existe um genuíno anti-
obstinadamente e contra seu próprio discernimento semitismo e, certamente, não há nenhum anti-semita
ele se aferra ao movimento. O anti-semitismo nato. Os adultos, para os quais o brado pelo sangue
mostrou-se imune ao argumento da falta de judeu tornou-se uma segunda natureza, conhecem
rentabilidade. Para o povo, ele é um luxo. tão pouco a razão disso quanto os jovens que devem
Sua utilidade para a dominação é patente. Ele derramá-lo. Os mandantes altamente situados, é
é usado como manobra de diversão, como meio verdade, que a conhecem, não odeiam os judeus e
barato de corrupção, como exemplo terrorista. Os não amam os que obedecem seu comando. Estes,
bandidos respeitáveis o subvencionam e os não- porém, que não se satisfazem nem económica nem
respeitáveis o praticam. Mas a figura do espírito sexualmente, têm um ódio sem fim; não admitem
social e individual que se manifesta no anti- nenhum relaxamento, porque não conhecem
semitismo, isto é, o enredamento pré-histórico e nenhuma satisfação. Assim, é uma espécie de
histórico ao qual fica preso enquanto tentativa idealismo dinâmico que, de facto, anima o bando
desesperada de evasão, permanece em total organizado dos ladrões assassinos. Eles saem a
obscuridade. Se um mal tão profundamente pilhar e constróem uma ideologia grandiosa para
arraigado na civilização não encontra sua isso, e falam disparatadamente da salvação da
justificação no conhecimento, o indivíduo também família, da pátria, da humanidade. Mas como
não conseguirá aplacá-lo, ainda que seja tão bem- continuam a ser os logrados – o que já pressentiam
intencionado quanto a própria vítima. Por mais secretamente –, seu mísero motivo racional, o
correctas que sejam, as explicações e os contra- roubo, ao qual devia servir a racionalização,
argumentos racionais, de natureza económica e desaparece inteiramente, e esta ideologia torna-se
política, não conseguem fazê-lo, porque a involuntariamente sincera. A obscura pulsão, com
racionalidade ligada à dominação está ela própria na que desde o início tinham maior afinidade do que
base do sofrimento. Na medida em que agridem com a razão, toma conta deles totalmente. A ilha
cegamente e cegamente se defendem, perseguidores racional é inundada e os desesperados aparecem
e vítimas pertencem ao mesmo circuito funesto. O agora unicamente como os defensores da verdade,
comportamento anti-semita é desencadeado em os renovadores da terra, que têm que reformar até o
situações em que os indivíduos obcecados e seu último recanto. Tudo o que vive converte-se em
privados de sua subjectividade se vêem soltos material de seu dever atroz, que nenhuma inclinação
mais vem prejudicar. A acção torna-se realmente um
2
O Genosse = camarada, companheiro, é, como se sabe, o fim em si e autónomo, ela encobre sua própria falta
termo com que se tratam os correligionários de partidos de finalidade. O anti-semitismo conclama sempre a
socialistas ou comunistas. Os nacional-socialistas adoptaram o ir até o fim do trabalho. Entre o anti-semitismo e a
termo Volksgenosse para designar aqueles que vêem seu laço
de solidariedade no pertencimento a um mesmo povo ou etnia
totalidade havia desde o início a mais íntima
(Volk). Por isso, traduzimos o termo por “camarada de etnia”
ou “camarada da ideologia racista”. (N. do T.)

81
conexão. A cegueira alcança tudo, porque nada que deve recuar diante do fogo sagrado daqueles
compreende. que erigiram o negócio em algo de absoluto.
O liberalismo havia concedido a posse aos O anti-semitismo burguês tem um fundamento
judeus, mas não o mando. O sentido dos direitos especificamente económico: o disfarce da
humanos era prometer a felicidade mesmo na dominação na produção. Se, em épocas mais
ausência de qualquer tipo de poder. Como as massas antigas, os dominadores eram imediatamente
enganadas pressentem que essa promessa, na repressivos, de tal sorte que não somente
medida em que é universal, permanecerá uma abandonavam todo o trabalho às classes inferiores,
mentira enquanto houver classes, sua fúria se vê mas declaravam o trabalho como a ignomínia que
excitada; pois se sentem escarnecidas. Mesmo a sempre foi sob a dominação, no mercantilismo, o
título de possibilidade, de Ideia, elas sempre devem monarca absoluto sofre uma metamorfose e
recalcar novamente a noção daquela felicidade, e transforma-se nos mais poderosos donos de
elas a renegam com tanto maior ferocidade quanto manufacturas. A produção passa a ser aceitável na
mais próxima está sua hora. Toda vez que ela parece corte. Os senhores transformados em burgueses
realizada em meio a renúncias fundamentais, elas acabaram por despir o casaco colorido e passaram a
têm que repetir a repressão infligida às próprias envergar um traje civil. O trabalho não envergonha,
aspirações. Tudo aquilo que dá ocasião a semelhante diziam, para se apoderar mais racionalmente do
repetição (por mais desgraçado que possa ser, trabalho de outrem. Eles próprios se incluíam entre
Ahasver e Mignon, costumes estranhos que os produtores, ao passo que continuavam a ser os
lembram a terra prometida, a beleza que lembra o mesmos rapinadores de sempre. O fabricante
sexo, o animal execrado como repugnante porque arriscava e embolsava, como o negociante e o
evoca a promiscuidade), tudo isso atrai sobre si o banqueiro. Ele calculava, dispunha, comprava,
desejo de destruição dos civilizados que jamais vendia. No mercado, ele concorria com todos por
puderam realizar totalmente o doloroso processo um lucro compatível com seu capital. Só que ele não
civilizatório. Os que exercem um domínio crispado rapinava apenas no mercado, mas também na fonte:
sobre a natureza vêem na natureza atormentada o como representante de sua classe, tomava cuidados
reflexo provocante da felicidade impotente. A noção para não ficar prejudicado no trabalho de sua gente.
de uma felicidade sem poder é intolerável pois só Os trabalhadores tinham de fornecer o máximo
ela seria a felicidade pura e simples. O fantasma da possível. Como o verdadeiro Shylock, ele insistia
conspiração de concupiscentes banqueiros judeus a em sua promissória. Com base na posse das
financiar o bolchevismo é o sinal de uma impotência máquinas e do material, ele forçava os outros a
inata; a boa vida é o sinal da felicidade. Associa-se a produzir. Ele se denominava “produtor”, mas como
isso a imagem do intelectual; ele parece pensar, o qualquer um sabia no íntimo a verdade. O trabalho
que os outros não se permitem, e não derrama o suor produtivo do capitalista – não importa se justificava
da fadiga e do esforço físico. O banqueiro e o seu lucro como salário do empresário, como no
intelectual, o dinheiro e o espírito, expoentes da liberalismo, ou como vencimentos de director, como
circulação, são o sonho renegado daqueles que a hoje em dia – era a ideologia que encobria a
dominação mutilou e de que ela se serve para sua essência do contrato de trabalho e a natureza
própria perpetuação. rapinante do sistema económico em geral.
Por isso as pessoas gritam: “pega ladrão!” e
III apontam para o judeu. Ele é, de facto, o bode
expiatório, não somente para manobras e
A sociedade actual, onde os renascimentos e maquinações particulares, mas no sentido mais
os sentimentos religiosos primitivos, bem como o amplo em que a injustiça económica da classe
legado das revoluções, estão à venda no mercado; inteira é descarregada nele. Na fábrica, o fabricante
onde os chefes fascistas negociam atrás das portas o tem sob os olhos seus devedores, os trabalhadores, e
território e a vida das nações, enquanto o público controla sua contrapartida antes mesmo de adiantar
esperto calcula o preço no rádio; a sociedade, onde a o dinheiro. O que na realidade se passou eles só
palavra que a desmascara se legitima por isso percebem quando vêem o que podem comprar em
mesmo como recomendação para a admissão no troca: o menor dos magnatas pode dispor de um
banditismo político; essa sociedade, na qual a quantum de serviços e bens como jamais pôde
política não é mais somente um negócio, mas o nenhum senhor antes; os trabalhadores, porém
negócio é a política inteira – essa sociedade se toma recebem o chamado mínimo cultural. Não bastava
de indignação contra o retrógrado mercantilismo do descobrir no mercado como são poucos os bens que
judeu e designa-o como o materialista, o traficante, lhes cabem, o vendedor ainda elogia o que eles não

82
podem se permitir. Só a relação do salário com os indústria cultural vive, em todo seu esplendor, numa
preços exprime o que é negado aos trabalhadores. defensiva sem perspectivas de mudança. O caftã era
Com seu salário, eles aceitaram ao mesmo tempo o uma relíquia fantasmagórica do antiquíssimo traje
princípio da expropriação do salário (Entlohnung). burguês. Hoje, ele mostra que seus portadores foram
O comerciante apresenta-lhes a letra que assinaram lançados à margem da sociedade que, totalmente
para o fabricante. O comerciante é o oficial de esclarecida ela própria, exorciza os fantasmas de sua
justiça para o sistema inteiro e atrai para si o ódio pré-história. Aqueles que propagaram o
voltado aos outros. A responsabilidade do sector da individualismo, o direito abstracto, o conceito da
circulação pela exploração é uma aparência pessoa, estão degradados agora a uma espécie.
socialmente necessária. Aqueles que jamais puderam gozar tranquilamente
Os judeus não foram os únicos a ocupar o dos direitos civis e políticos, que deviam lhes
sector da circulação, mas ficaram encerrados nele conferir a qualidade da humanidade, são de novo
tempo demais para não reflectir em sua maneira de indistintamente designados como “o judeu”. Mesmo
ser o ódio que sempre suportaram. Ao contrário de no século dezanove, o judeu permanecia dependente
seu colega ariano, o acesso à origem da mais-valia de uma aliança com o poder central. O direito
ficou-lhes em larga medida vedado. Foi só após universal garantido pelo Estado era o penhor de sua
inúmeras dificuldades e tardiamente que lhes foi segurança a lei de excepção, seu espantalho. Ele
permitido o acesso à propriedade dos meios de permaneceu um objecto à mercê dos poderosos,
produção. É verdade que os judeus baptizados mesmo quando insistia em seu direito. O comércio
chegaram, na história da Europa e mesmo no não foi sua profissão, mas seu destino. Ele foi o
Império alemão, a posições elevadas na trauma do cavaleiro da indústria, que tinha que se
administração e na indústria. Contudo, sempre arvorar em criador. O jargão judeu dizia-lhe a razão
tiveram de justificá-lo com redobrado devotamento, por que secretamente se desprezava a si mesmo: seu
enorme aplicação e uma abnegação tenaz. Eles só anti-semitismo é ódio de si mesmo, é a má
eram admitidos se aceitassem tacitamente com seu consciência do parasita.
comportamento o veredicto sobre os outros judeus e
mais uma vez o confirmassem: eis o sentido do IV
baptizado. Nenhum dos grandes feitos dos que se
destacaram levou os povos da Europa a darem O anti-semitismo racista quer se abstrair da
acolhida ao judeu; não se permitiu que lançasse religião. Ele afirma que se trata da pureza da raça e
raízes sendo, por isso, acoimado de desenraizado. da nação. Os nacional-socialistas notaram que os
Eis por que o judeu permaneceu sempre um homens há muito deixaram de se preocupar com a
tutelado, dependente dos imperadores, dos príncipes salvação eterna. Actualmente, a média dos fiéis já é
ou do Estado absolutista. Todos eles foram, em certa tão esperta como só os cardeais antigamente. Acusar
época, economicamente adiantados em face da os judeus de serem infiéis obstinados não mexe mais
população atrasada. Na medida em que podiam usar com as massas. Mas é muito improvável que a
o judeu como intermediário, eles o protegiam das hostilidade religiosa que, durante dois milénios,
massas que tinham de pagar a conta do progresso. impeliu à perseguição dos judeus tenha se
Os judeus foram os colonizadores do progresso. extinguido inteiramente. Muito ao contrário, o zelo
Desde a época em que ajudaram, como com que o anti-semitismo renega sua tradição
comerciantes, a difundir a civilização romana entre religiosa mostra que ela está, ainda que em segredo,
os gentios europeus, eles sempre foram, em tão profundamente arraigada nele, como outrora a
consonância com sua religião patriarcal, os idiossincrasia profana no zelo religioso. A religião
representantes de condições citadinas, burguesas e, foi integrada como património cultural, mas não
por fim, industriais. Eles introduziram formas de abolida. A aliança entre o esclarecimento e a
vida capitalistas nos diversos países e atraíram sobre dominação impediu que sua parte de verdade tivesse
si o ódio dos que tinham de sofrer sob elas. Por acesso à consciência e conservou suas formas
causa do progresso económico, que é hoje sua reificadas. As duas coisas acabam por beneficiar o
perda, os judeus foram sempre um espinho na carne fascismo: a nostalgia incontrolada é canalizada
dos artesãos e camponeses, que o capitalismo como uma rebelião racista; os descendentes dos
desclassificara. Agora, eles experimentam em sua visionários evangelizadores são convertidos,
própria carne o carácter exclusivo e particular do segundo o modelo wagneriano dos cavaleiros do
capitalismo. Os que sempre quiseram ser os Santo Graal, em conjurados da confraria do sangue
primeiros são deixados para trás. Até mesmo o e em guardas de elite; a religião enquanto instituição
director judeu de um truste norte-americano da é, em parte, confundida de maneira directa e

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inextrincável com o sistema e, em parte, transposta tendo uma essência espiritual justamente aquilo que,
na pompa da cultura de massa e das paradas. A fé diante do espírito, se revela como tendo uma
fanática, de que se vangloriavam os chefes e seus essência natural. O espírito consiste exactamente no
seguidores, não é outra senão a fé encarniçada que desdobramento da contradição contra semelhante
ajudava, outrora, os desesperados a aguentar, só o pretensão do finito. Assim, a má consciência tem
seu conteúdo se perdeu. Esta continua a nutrir tão- que recomendar o profeta como símbolo, a prática
somente o ódio pelos que não partilham a fé. Entre mágica como transformação. Isso faz do
os cristãos alemães, a única coisa que sobrou da cristianismo uma religião, em certo sentido a única:
religião do amor foi o anti-semitismo. uma ligação intelectual com o intelectualmente
O cristianismo não é apenas um retrocesso suspeito, um domínio cultural particular. Como os
relativamente ao judaísmo. Ao passar da forma grandes sistemas asiáticos, o judaísmo pré-cristão
henoteísta para a forma universal, seu deus ainda era uma fé praticamente indiferenciada da vida
não despiu inteiramente os traços do demónio nacional, isto é, da autoconservação universal. A
natural. O terror que tem origem no passado pré- transformação do ritual pagão do sacrifício não se
animista passa da natureza para o conceito do eu consumou apenas no culto, nem apenas na mente,
absoluto que submete inteiramente a natureza como pois ela também determinava a forma do processo
seu criador e dominador. Apesar de todo seu de trabalho. É como o esquema desse processo que
indescritível poderio e magnificência, que essa o sacrifício se torna racional. O tabu transforma-se
alienação lhe confere, ele é alcançável pelo na regulação racional do processo de trabalho, Ele
pensamento, que se torna universal justamente pela ordena a administração na guerra e na paz, o semear
relação com um ser supremo e transcendente. Deus e o colher, o preparo da comida e o abate de
enquanto espírito opõe-se à natureza como o outro animais. Se as regras não se originam da reflexão
princípio, que não garante simplesmente seu ciclo racional, pelo menos a racionalidade se origina
cego, como todos os deuses míticos, mas pode nos delas. O esforço por se liberar do medo imediato
liberar desse ciclo. Mas ao mesmo tempo, a deu origem, entre os primitivos, à organização do
abstracção e a distância desse deus reforçou o terror ritual que, no judaísmo, se purifica no ritmo
do incomensurável, e esse verbo inflexível: Eu sou, sacralizado da vida de família e do Estado. Os
que nada tolera a seu lado, supera com sua sacerdotes eram guardiães designados para velar
inescapável violência a sentença mais cega (e, por pela obediência do costume. Sua função na
isso mesmo, mais ambígua também) do destino dominação estava patente na práxis teocrática; o
anónimo. O deus do judaísmo exige o que lhe é cristianismo, porém, queria permanecer espiritual,
devido e ajusta contas com o devedor relapso. Ele mesmo quando aspirava à dominação. Através do
enreda sua criatura no tecido da culpa e do sacrifício derradeiro, o sacrifício do homem-deus,
merecimento. O cristianismo, ao contrário, enfatizou ele destruiu na ideologia a autoconservação, mas por
o aspecto da graça, que está contido, é verdade, no isso mesmo entregou a vida desvalorizada ao
próprio judaísmo, na aliança de Deus com os profano: a lei mosaica é abolida, mas a César se dá o
homens e na promessa messiânica. O cristianismo que é de César, assim como a Deus o que é de Deus.
suavizou o terror do absoluto, na medida em que a As autoridades temporais são confirmadas ou
criatura se reencontra a si mesma na divindade: o usurpadas, a prática cristã se torna concessionária do
mediador divino é invocado por um nome humano e sector da salvação. Ordena-se a superação da
morre uma morte humana. Sua mensagem é: não autoconservação pela imitação de Cristo. Assim, o
temais; a lei desaparece diante da fé; maior que toda amor abnegado é despido da ingenuidade, separado
majestade é o amor, o único mandamento. do amor natural e contabilizado como mérito. Ao
Mas, as mesmas ideias, que permitem ao mesmo tempo, o amor mediado pelo saber de
cristianismo reabilitar a religião natural, ressuscitam salvação deve ser o amor imediato; nele estariam
a idolatria sob uma forma espiritualizada. Na mesma reconciliados o natural e o sobrenatural. É nisso que
medida em que o absoluto é aproximado do finito, o reside sua inverdade: no sentido enganosamente
finito é absolutizado. Cristo, o espírito que se tornou afirmativo que é dado à auto-abnegação.
carne, é o feiticeiro divinizado. A auto-reflexão Essa doação de sentido é enganosa porque a
humana no absoluto, a humanização de Deus por igreja vive, é verdade, do facto de que os homens
Cristo é o proton pseudos. O progresso para além do vêem o caminho para a salvação na obediência à sua
judaísmo tem por preço a afirmação de que o doutrina (não importa se ela exige obras, como a
homem Jesus era Deus. É justamente o aspecto versão católica, ou a fé, como a versão protestante),
reflexivo do cristianismo, a espiritualização da mas não pode garantir o objectivo. O facto de que a
magia, que está na raiz do mal. Apresenta-se como promessa espiritual da salvação não cria nenhuma

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obrigação – esse aspecto judeu e negativo na canais da ordem conceptual para se tornar algo
doutrina cristã, pelo qual a magia e, por fim, a dotado de finalidade; o som estridente do lápis
própria igreja é relativizada – é tacitamente rejeitado riscando a lousa e penetrando até a medula dos
pelo crente ingénuo; o cristianismo, o ossos; o haut goût3 que lembra a sujeira e a
supranaturalismo, torna-se para ele um ritual putrefacção; o suor que poreja a testa da pessoa
mágico, uma religião natural. Ele só crê esquecendo atarefada; tudo o que não se ajustou inteiramente ou
sua própria fé. Ele se persuade do saber e da certeza que fira os interditos em que se sedimentou o
como os astrólogos e os espíritas, mas isso não é progresso secular tem um efeito irritante e provoca
necessariamente o pior em face da teologia uma repugnância compulsiva.
espiritualizada. A velhinha italiana que, em sua Os motivos a que responde a idiossincrasia
piedosa simplicidade, consagra uma vela a San remetem às origens. Eles reproduzem momentos da
Gennaro em favor do neto que partiu para a guerra, proto-história biológica: sinais de perigo cujo ruído
pode estar mais próxima da verdade do que os papas fazia os cabelos se eriçarem e o coração cessar de
e os bispos que, imunes à idolatria, abençoam as bater. Na idiossincrasia, determinados órgãos
armas contra as quais San Gennaro é impotente. escapam de novo ao domínio do sujeito;
Mas, para a simplicidade, a própria religião torna-se independentes, obedecem a estímulos biológicos
um sucedâneo da religião. Desde os primeiros dias, fundamentais. O ego que se apreende em reacções
o cristianismo teve esse pressentimento, mas só os como as contracções da pele, dos músculos e dos
cristãos paradoxais, os anti-oficiais, de Pascal a membros não tem um domínio total delas. Em
Barth passando por Lessing e Kierkegaard, fizeram certos instantes, essas reacções efectuam uma
dele a pedra angular de sua filosofia. Nessa assimilação à imóvel natureza ambiente. Mas, ao
consciência, eles foram não somente os radicais, mesmo tempo que o móvel se aproxima do imóvel,
mas também os tolerantes. Mas os outros, que a vida mais evoluída da mera natureza, a primeira se
recalcavam esse pressentimento e, com má aliena desta, pois a natureza imóvel – na qual o ser
consciência, procuravam se persuadir do vivo, como Dafne, tenta, numa extrema excitação,
cristianismo como uma posse segura, tinham que se transformar – só é capaz da relação mais exterior,
buscar a confirmação de sua salvação eterna na a espacial. O espaço é a alienação absoluta. Quando
desgraça terrena daqueles que não faziam o turvo o humano quer se tornar como a natureza, ele se
sacrifício da razão. Eis aí a origem religiosa do anti- enrijece contra ela. A protecção pelo susto é uma
semitismo. Os adeptos da religião do Pai são forma do mimetismo. Essas reacções de contracção
odiados pelos adeptos da religião do Filho porque no homem são esquemas arcaicos da
acham que sabem tudo. É a hostilidade ao espírito autoconservação: a vida paga o tributo de sua
própria do espírito que se endurece na presunção de sobrevivência assimilando-se ao que é morto.
ser a salvação. O que escandaliza os inimigos Inicialmente, em sua fase mágica, a civilização
cristãos dos judeus é a verdade que resiste ao mal havia substituído a adaptação orgânica ao outro, isto
sem racionalizá-lo e retém a Ideia da beatitude é, o comportamento propriamente mimético, pela
imerecida contra o curso do mundo e a ordem da manipulação organizada da mimese e, por fim, na
salvação, que deveriam pretensamente realizá-la. O fase histórica, pela práxis racional, isto é, pelo
anti-semitismo deve confirmar a legitimidade do trabalho. A mimese incontrolada é proscrita. O anjo
ritual da fé e da história, executando-o naqueles que com a espada de fogo, que expulsou os homens do
o negam. paraíso e os colocou no caminho do progresso
técnico, é o próprio símbolo desse progresso. O
V rigor com que os dominadores impediram no curso
dos séculos a seus próprios descendentes, bem como
“Não se esqueça de que não suporto você”, diz às massas dominadas, a recaída em modos de vida
Siegfried a Mime, que solicita seu amor. A velha miméticos – começando pela proibição de imagens
resposta de todos os anti-semitas é o apelo à na religião, passando pela proscrição social dos
idiossincrasia. A emancipação da sociedade actores e dos ciganos e chegando, enfim, a uma
relativamente ao anti-semitismo depende da pedagogia que desacostuma as crianças de serem
possibilidade de elevar ao conceito o conteúdo da infantis – é a própria condição da civilização. A
idiossincrasia e de tomar consciência de seu educação social e individual reforça nos homens seu
absurdo. A idiossincrasia, porém, apega-se ao comportamento objectivamente enquanto
particular. O que se considera como natural é o trabalhadores e impede-os de se perderem nas
universal, o que se encaixa no contexto funcional da flutuações da natureza ambiente. Toda diversão,
sociedade. Mas a natureza que não se purificou nos
3
Haut goût = gosto intenso e penetrante. (N. do T.)

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todo abandono tem algo de mimetismo. Foi se credor com súplicas. Finalmente, todo impulso em
enrijecendo contra isso que o ego se forjou. É geral produz um efeito penoso, a excitação
através de sua constituição que se realiza a parecendo menos penosa. Toda expressão não-
passagem da mimese reflectora para a reflexão manipulada se parece com a careta que sempre foi a
controlada. A assimilação física da natureza é expressão manipulada – no cinema, no linchamento,
substituída pela “recognição no conceito”, a no discurso do Führer. A mímica indisciplinada é o
compreensão do diverso sob o mesmo, o idêntico. A ferrete da antiga dominação, impresso na substância
constelação, porém, na qual a identidade se produz – viva dos dominados e, graças a um inconsciente
a identidade imediata da mimese assim como a processo de imitação, transmitida na mais tenra
identidade mediatizada da síntese, a assimilação à infância de geração em geração, do belchior judeu
coisa no ato cego de viver, assim como a ao banqueiro. Essa mímica provoca a fúria porque,
comparação dos objectos reificados na em face das novas relações de produção, ela põe à
conceitualidade científica – continua a ser a mostra o antigo medo que foi preciso esquecer para
constelação do terror. A sociedade é um nelas poder sobreviver. É ao elemento compulsivo,
prolongamento da natureza ameaçadora enquanto à fúria do verdugo e à fúria do torturado, que
compulsão duradoura e organizada que, reaparecem indiferenciadas na careta, que reage à
reproduzindo-se no indivíduo como uma fúria do civilizado. A aparência impotente responde
autoconservação consequente, repercute sobre a a realidade letal; ao fingimento, a seriedade.
natureza enquanto dominação social dá natureza. A A careta parece fingida porque, ao invés de se
ciência é repetição, aprimorada como regularidade pôr seriamente a trabalhar, ela prefere representar o
observada e conservada em estereótipos. A fórmula desagrado. Ela parece furtar-se à seriedade da vida
matemática é uma regressão conscientemente porque confessa-a sem reservas: por isso ela é
manipulada, como já o era o rito mágico; é a mais inautêntica. Mas toda expressão é o eco doloroso de
sublime modalidade do mimetismo. A técnica um poder superior, a violência que se exprime na
efectua a adaptação ao inanimado a serviço da lamentação. Ela é sempre exagerada, por mais
autoconservação, não mais como a magia, através sincera que seja, pois, assim como em toda obra de
da imitação corporal da natureza externa, mas arte, cada lamentação parece conter o mundo
através da automatização dos processos espirituais, inteiro. Só a obra realizada é adequada. É ela e não a
isto é, através de sua transformação em processos mimese que consegue pôr termo ao sofrimento. Mas
cegos. Com seu triunfo, as manifestações humanas sua consequência é a face imóvel e impassível e, por
tornam-se ao mesmo tempo controláveis e fim, ao término desta era, o rosto de bebé dos
compulsivas. Da assimilação à natureza resta apenas homens de aço, dos políticos, padres, directores
o enrijecimento contra ela. Hoje, a coloração gerais e gângsteres. A voz uivante dos demagogos e
destinada a proteger e a repelir é a dominação cega chefes de campos de concentração fascistas mostra
da natureza, que é idêntica à funcionalidade o reverso da mesma situação social. Os uivos são
prognosticadora. tão frios quanto os negócios. Eles expropriam os
No modo de produção burguês, a indelével sons naturais da lamentação e fazem deles o
herança mimética de toda práxis é abandonada ao elemento de sua técnica. Seus urros são para o
esquecimento. Os homens obcecados pela pogrom o que o dispositivo de alarme é para a
civilização só se apercebem de seus próprios traços bomba voadora alemã: acciona-se o grito de terror
miméticos, que se tornaram tabus, em certos gestos que traz o terror. Ê pelo gemido da vítima que, pela
e comportamentos que encontram nos outros e que primeira vez, chamou a violência por seu nome, e
se destacam em seu mundo racionalizado como até mesmo pela simples palavra que visa as vítimas:
resíduos isolados e traços rudimentares francês, negro, judeu, que eles se deixam
verdadeiramente vergonhosos. O que repele por sua intencionalmente transportar para o desespero dos
estranheza é, na verdade, demasiado familiar4. São perseguidos obrigados a reagir com violência. Eles
os gestos contagiosos dos contactos directos são o falso retracto da mimese assustadora. Eles
reprimidos pela civilização: tocar, aconchegar-se, reproduzem em si a insaciabilidade da potência de
aplacar, induzir. O escandaloso, hoje, é o carácter que têm medo. Tudo deve ser usado, tudo deve lhes
extemporâneo desses impulsos. Eles parecem pertencer. A mera existência do outro é motivo de
retraduzir as relações humanas reificadas em irritação. Todos os outros são “muito espaçosos” e
relações pessoais de poderio, amolecendo o devem ser recolocados em seus limites, que são os
comprador com lisonjas, o devedor com ameaças, o limites do terror sem limites. Quem busca refúgio
não deve encontrá-lo; os que exprimem aquilo a que
4
Cf. Freud, Das Unheimliche. Gesammelte Werke. Vol. XII. todos aspiram, a paz, a pátria, a liberdade, ou seja,
pp. 254, 259, entre outras.

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os nómades e os saltimbancos, viram sempre como é o caso do gracejo ou da facécia, a mísera
recusado o seu direito de cidadania. O que eles paródia da satisfação. Desprezada e desprezando-se
temem lhes será feito. Mesmo o último repouso não a si mesma, a função mimética é saboreada
deve ser um repouso. A devastação dos cemitérios maldosamente. Quem fareja cheiros para eliminá-
não é um excesso do anti-semitismo, ela é o próprio los, “maus” cheiros, pode imitar à vontade o fungar
anti-semitismo. Os proscritos despertam o desejo de que encontra no cheiro um prazer não-racionalizado.
proscrever. No sinal que a violência deixou neles O impulso recusado é permitido na medida em que
inflama-se sem cessar a violência. Deve-se o civilizado o desinfecta através de sua identificação
exterminar aquilo que se contenta em vegetar. As incondicional com a instância recusadora. Passado o
reacções de fuga caoticamente regulares dos animais limiar, o riso aparece. É este o esquema da reacção
inferiores, a formigação das multidões de insectos, anti-semita. É para celebrar o instante da liberação
os gestos convulsivos dos martirizados exibem autoritária do proibido que os anti-semitas se
aquilo que, em nossa pobre vida, apesar de tudo, não reúnem, só ele transforma-os numa colectividade, e
se pode dominar inteiramente: o impulso mimético. constitui a comunidade da espécie. Seu alarido é a
É na agonia da criatura, no pólo extremo oposto à gargalhada organizada. Quanto mais medonhas as
liberdade, que aflora irresistivelmente a liberdade acusações e as ameaças, quanto maior a fúria, mais
enquanto determinação contrariada da matéria. É compulsório o escárnio. A fúria, o escárnio e a
contra isso que se dirige a idiossincrasia que serve imitação venenosa são a rigor a mesma coisa. O
de pretexto ao anti-semitismo. A energia psíquica sentido das fórmulas fascistas, da disciplina ritual,
mobilizada pelo anti-semitismo político é essa dos uniformes e de todo o aparato pretensamente
idiossincrasia racionalizada. Todos os pretextos irracional é possibilitar o comportamento mimético.
combinados pelos chefes e seus seguidores servem Os símbolos engenhosamente arquitectados,
para ceder à sedução mimética sem violar próprios a todo movimento contra-revolucionário, as
abertamente o princípio de realidade – por assim caveiras e mascaradas, o bárbaro rufar dos
dizer, com todas a honras. Eles não suportam o tambores, a monótona repetição de palavras e gestos
judeu e imitam-no continuamente. Não há anti- são outras tantas imitações organizadas de práticas
semita que não seja levado instintivamente a imitar mágicas, a mimese da mimese. O Führer, com sua
o que ele considera judeu. O que se considera judeu, cara de canastrão e o carisma da histeria
aliás, são sempre cifras miméticas: o gesto da mão orquestrada, puxa a roda. Sua representação realiza
que argumenta; a entonação cantante com que substitutivamente e em imagem o que é vedado a
descreve, independentemente do sentido do juízo todos os demais na realidade. Hitler pode gesticular
proferido, uma imagem animada das coisas e dos como um palhaço; Mussolini pode arriscar notas
sentimentos; o nariz, principium individuationis erradas como um tenor de província; Goebbels pode
fisionômico é, por assim dizer, um caractere que falar com a fluência do representante comercial
inscreve no próprio rosto do indivíduo seu carácter judeu que ele exorta a assassinar; Coughlin pode
particular. Nas ambíguas inclinações dos prazeres pregar com a fé do Salvador, cuja crucifixão ele
do olfacto sobrevive ainda a antiga nostalgia pelas descreve a fim de que se volte sempre a derramar o
formas inferiores da vida, pela união imediata com a sangue. O fascismo também é totalitário na medida
natureza ambiente, com a terra e o barro. De todos em que se esforça por colocar directamente a
os sentidos, o ato de cheirar – que se deixa atrair serviço da dominação a própria rebelião da natureza
sem objectualizar – é o testemunho mais evidente da reprimida contra essa dominação.
ânsia de se perder no outro e com ele se identificar. Esse mecanismo precisa dos judeus. Sua
Por isso o cheiro, tanto como percepção quanto visibilidade artificialmente aumentada age sobre o
como percebido (ambos se identificam no ato), é filho legítimo da civilização gentia, por assim dizer,
mais expressivo do que os outros sentidos. Ao ver, a como um campo magnético. O facto de que o
gente permanece quem a gente é, ao cheirar, a gente indivíduo que tem raízes vê no que o diferencia do
se deixa absorver. É por isso que a civilização judeu a igualdade, o humano, induz nele o
considera o cheiro como uma ignomínia, como sinal sentimento de antagonismo e de estranheza. É assim
das camadas sociais mais baixas, das raças que os impulsos que são objecto de tabus e
inferiores e dos animais abjectos. Ao civilizado só contrários ao trabalho em sua forma dominante são
se permite o abandono a semelhante prazer quando convertidos em idiossincrasias conformistas. A
o interdito é suspenso por uma racionalização a posição económica dos judeus, os últimos
serviço de fins real ou aparentemente práticos. Só é enganadores enganados da ideologia liberal, não
lícito entregar-se a esse instinto condenado quando oferece nenhuma protecção confiável contra isso. Já
está fora de dúvida que o objectivo é destruí-lo, que são tão aptos a produzir semelhantes correntes

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de indução psíquica, eles se prestam passivamente a inculpados daquilo que foram os primeiros,
semelhantes funções. Eles compartilham a sorte da primeiros burgueses que foram, a romper em seu
natureza rebelde, em lugar da qual o fascismo os íntimo: a tendência a se deixar seduzir pelo inferior,
mobiliza: são usados cega e perspicazmente. Pouco a ânsia da animalidade e da terra, do culto das
importa se os judeus realmente ainda tenham como imagens. Porque inventaram o conceito do cashey5,
indivíduos esses traços miméticos que provocam são perseguidos como porcos. Os anti-semitas se
uma infecção maligna, ou se esses traços lhes são arvoram em executores do Velho Testamento: eles
apenas imputados. Tão logo os donos do poder providenciam para que os judeus, já que comeram
económico superem seu medo de empregar os da árvore do conhecimento, retornem ao pó.
administradores fascistas, produz-se em face dos
judeus a harmonia da comunidade racial VI
(Volksgemeinschaft) .Eles são abandonados pela
dominação quando esta, graças à sua progressiva O anti-semitismo baseia-se numa falsa
alienação, regride à simples natureza. Os judeus são projecção. Ele é o reverso da mimese genuína,
acusados em bloco da magia proibida, do ritual profundamente aparentada à mimese que foi
sanguinário. É só assim sob o disfarce da acusação recalcada, talvez o traço caracterial patológico em
que o desejo subliminar dos autóctones de retomar à que esta se sendimenta. Só a mimese se torna
prática mimética do sacrifício pode ressurgir em sua semelhante ao mundo ambiente, a falsa projecção
consciência. E quando todo o horror dos tempos torna o mundo ambiente semelhante a ela. Se o
primitivos abolidos pela civilização é reabilitado exterior se torna para a primeira o modelo ao qual o
como um interesse racional pela projecção sobre os interior se ajusta, o estranho tornando-se o familiar,
judeus, não há mais como parar. Ele pode, agora, ser a segunda transpõe o interior prestes a saltar para o
posto em prática, e a realização do mal ainda supera exterior e caracteriza o mais familiar como algo de
o conteúdo maligno da projecção. As fantasias hostil. Os impulsos que o sujeito não admite como
racistas sobre os crimes dos judeus, sobre os seus e que, no entanto, lhe pertencem são atribuídos
infanticídios e excessos sádicos, sobre o ao objecto: a vítima em potencial. Para o paranóico
envenenamento do povo e a conspiração usual, sua escolha não é livre, mas obedece às leis
internacional, definem exactamente o desejo onírico de sua doença. No fascismo, esse comportamento é
do anti-semita e ficam aquém de sua realização. adoptado pela política, o objecto da doença é
Tendo chegado a esse ponto, a mera palavra “judeu” determinado realisticamente; o sistema alucinatório
já se parece com a careta sanguinolenta, cujo torna-se a norma racional no mundo, e o desvio a
retracto é desfraldado pela bandeira da cruz gamada neurose. O mecanismo que a ordem totalitária põe a
ao mesmo tempo caveira e a cruz esquartejada. seu serviço é tão antigo quanto a civilização. Os
Chamar-se judeu equivale a um convite a seviciá-lo mesmos impulsos sexuais que a raça humana
até ficar igual a essa imagem. reprimiu souberam se conservar e se impor num
A civilização é a vitória da sociedade sobre a sistema diabólico, tanto dentro dos indivíduos,
natureza, vitória essa que tudo transforma em pura quanto dos povos, na metamorfose imaginária do
natureza. Os próprios judeus participaram desse mundo ambiente. O indivíduo obcecado pelo desejo
processo ao longo dos milénios, com espírito de matar sempre viu na vítima o perseguidor que o
esclarecido e com cinismo. Representantes do mais forçava a uma desesperada e legítima defesa, e os
antigo patriarcado ainda existente, encarnação do mais poderosos impérios sempre consideraram o
monoteísmo, eles transformaram os tabus em vizinho mais fraco como uma ameaça insuportável,
máximas civilizatórias, enquanto os outros se antes de cair sobre eles. A racionalização era uma
encontravam ainda no estágio da magia. Os judeus finta e, ao mesmo tempo, algo de compulsivo.
pareciam ter conseguido aquilo que o cristianismo Quem é escolhido para inimigo é percebido como
em vão buscava: destituir a magia de seu poder por inimigo. O distúrbio está na incapacidade de o
meio de sua própria força, que se volta contra si sujeito discernir no material projectado entre o que
mesma no culto religioso. Mais do que extirpar a provém dele e o que é alheio.
assimilação à natureza, o que fizeram foi superá-la Em certo sentido, perceber é projectar. A
conservando-a nos puros deveres do ritual. Desse projecção das impressões dos sentidos é um legado
modo, conservaram dela a memória expiatória, sem de nossa pré-história animal, um mecanismo para
recair pelo símbolo na mitologia. É por isso que são fins de protecção e obtenção de comida, o
considerados pela civilização avançada como
atrasados e muito avançados, como semelhantes e 5
Casher refere-se, entre os judeus, à carne dos animais
diferentes, inteligentes e estúpidos. Eles são abatidos segundo um ritual destinado a assegurar sua pureza.
(N. do T.)

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prolongamento da combatividade com que as mais do que dela recebe. O sujeito recria o mundo
espécies animais superiores reagiam ao movimento, fora dele a partir dos vestígios que o mundo deixa
com prazer ou desprazer e independentemente da em seus sentidos: a unidade da coisa em suas
intenção do objecto. A projecção está automatizada múltiplas propriedades e estados; e constitui desse
nos homens, assim como as outras funções de modo retroactivamente o ego, aprendendo a conferir
ataque e protecção, que se tornaram reflexos. É uma unidade sintética, não apenas às impressões
assim que se constitui seu mundo objectivo, como externas, mas também às impressões internas que se
um produto daquela “arte escondida nas separaram pouco a pouco daquelas. O ego idêntico é
profundezas da alma humana cujos procedimentos o produto constante mais tardio da projecção. Num
dificilmente haveremos de arrancar à natureza e processo que só pôde se efectuar com as forças
expor aos olhos de todos”6. O sistema das coisas, a desenvolvidas pela constituição fisiológica humana,
ordem fixa do universo, do qual a ciência constitui ele se desenvolveu como uma função unitária e, ao
tão-somente a expressão abstracta, é, se dermos uma mesmo tempo, excêntrica. Todavia, mesmo como
interpretação antropológica da crítica kantiana do ego objectivado de maneira autónoma, ele só é o
conhecimento, o produto inconsciente do que o mundo-objecto é para ele. A profundidade
instrumento que o animal usa na luta pela vida, isto interna do sujeito não consiste em nada mais senão a
é, daquela projecção espontânea. Na sociedade delicadeza e a riqueza do mundo da percepção
humana, porém, na qual tanto a vida intelectual externa. Quando o entrelaçamento é rompido, o ego
quanto a vida afectiva se diferenciam com a se petrifica. Quando ele se esgota, no registro
formação do indivíduo, o indivíduo precisa de um positivista de dados, sem nada dar ele próprio, se
controle crescente da projecção; ele tem que reduz a um simples ponto; e se ele, idealisticamente,
aprender ao mesmo tempo a aprimorá-la e a inibi-la. projecta o mundo a partir da origem insondável de si
Aprendendo a distinguir, compelido por motivos mesmo, se esgota numa obstinada repetição. Nos
económicos, entre pensamentos e sentimentos dois casos, ele sacrifica o espírito. Só a mediação,
próprios e alheios, surge a distinção do exterior e do pela qual o dado sensorial vazio leva o pensamento
interior, a possibilidade de distanciamento e a toda a produtividade de que é capaz e pela qual,
identificação, a consciência de si e a consciência por outro lado, o pensamento se abandona sem
moral. Para compreender a projecção colocada sob reservas à impressão que o sobrepuja, supera a
controle e sua degeneração na falsa projecção, que mórbida solidão em que está presa a natureza
pertence à essência do anti-semitismo, é preciso de inteira. Não é na certeza não afectada pelo
uma reflexão mais aprofundada. pensamento, nem na unidade pré-conceptual da
A doutrina fisiológica da percepção, percepção e do objecto, mas em sua oposição
desprezada pelos filósofos desde o kantismo como reflectida, que se mostra a possibilidade da
uma concepção ingenuamente realista e um reconciliação. A distinção ocorre no sujeito que tem
raciocínio circular, explica o mundo da percepção o mundo exterior na própria consciência e, no
como a imagem reflectida e dirigida pelo intelecto entanto, o conhece como outro. É por isso que esse
dos dados que o cérebro recebe dos objectos reais. reflectir, que é a vida da razão, se efectua como
Segundo esse modo de ver, a ordenação dos indícios projecção consciente.
punctuais recebidos, as impressões, é realizada pelo O patológico no anti-semitismo não é o
entendimento. Se os psicólogos gestaltistas também comportamento projectivo enquanto tal, mas a
insistem sobre o facto de que a substância ausência da reflexão que o caracteriza. Não
fisiológica não recebe pontos apenas, mas também conseguindo mais devolver ao objecto o que dele
estruturas, Schopenhauer e Helmholz – apesar e recebeu, o sujeito não se torna mais rico, porém,
justamente por causa do círculo lógico – sabiam mais pobre. Ele perde a reflexão nas duas direcções:
muito mais sobre as relações entrecruzadas do como não reflecte mais o objecto, ele não reflecte
sujeito e do objecto do que o prolongamento mais sobre si e perde assim a capacidade de
coerente e oficial da escola neopsicológica ou diferenciar. Ao invés de ouvir a voz da consciência
neokantiana: a imagem preceptiva contém, de facto, moral, ele ouve vozes; ao invés de entrar em si
conceitos e juízos. Entre o verdadeiro objecto e o mesmo, para fazer o exame de sua própria cobiça de
dado indubitável dos sentidos, entre o interior e o poder) ele atribui a outros os “Protocolos dos Sábios
exterior, abre-se um abismo que o sujeito tem de de Sião”. Ele incha e se atrofia ao mesmo tempo.
vencer por sua própria conta e risco. Para reflectir a Ele dota ilimitadamente o mundo exterior de tudo
coisa tal como ela é, o sujeito deve devolver-lhe aquilo que está nele mesmo; mas aquilo de que o
dota é o perfeito nada, a simples proliferação dos
6
Kant, Kritik der reinen Vernunft (2.a edição). Werke. Vol. meios, relações, manobras, a práxis sinistra sem a
III. pp. 180 sg.

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perspectiva do pensamento. A própria dominação acto de terror individual, seja mediante uma
que, mesmo sendo absoluta, é, em sentido próprio, estratégia de extermínio cuidadosamente planejada.
sempre um mero meio, torna-se nessa projecção É assim que tem êxito. Assim como as mulheres têm
irrefreada, ao mesmo tempo, seu próprio fim e o fim adoração pelo paranóide impassível, assim também
de outrem, ou melhor, o fim em geral. Com a os povos caem de joelhos frente ao fascismo
enfermidade do indivíduo, o aparelho intelectual totalitário. Nas próprias pessoas que se entregam, o
aguçado do homem atua de novo contra os homens elemento paranóico que elas possuem deixa-se atrair
como a arma cega da pré-história animal, que ele pelo indivíduo paranóico como um ser maléfico, e
nunca deixou de ser para a espécie, ao se voltar seus escrúpulos morais pelo indivíduo sem
contra todo o resto da natureza. Do mesmo modo escrúpulos, a quem devotam sua gratidão. Elas
que, desde sua ascensão, a espécie humana mostrou- seguem um homem que nem sequer olha para elas,
se em face das demais como a mais evoluída que não as considera como sujeitos, mas que as
historicamente e, por isso mesmo, como o mais deixa entregues aos múltiplos fins do aparelho
terrível poder de destruição, do mesmo modo que no social. Como todo o mundo, essas mulheres fizeram
interior da humanidade as raças mais avançadas se uma verdadeira religião da busca de posições de
confrontaram com as mais primitivas, e os povos poder, grandes ou pequenas, e se transformaram elas
tecnicamente mais bem equipados com os mais próprias nessas entidades maléficas que a sociedade
lentos, assim também o indivíduo doente se condenou-as a ser. Assim, o olhar que exorta-as à
confronta com os outros indivíduos, tanto na liberdade só pode atingi-las como o olhar de um
megalomania quanto na mania de perseguição. Nos sedutor extremamente ingénuo. Seu mundo está
dois casos, o sujeito está no centro, e o mundo, que invertido. Mas, ao mesmo tempo, elas sabem (como
é uma simples ocasião de seu delírio, torna-se a os deuses antigos, que receavam o olhar de seus
totalidade impotente ou omnipotente de tudo o que é fiéis), que, por trás do véu, só existe a morte. O
projectado nele. A resistência de que se queixa a olhar não-paranóico, confiante, recorda-lhes o
todo momento o paranóico é a consequência da falta espírito que se extinguiu dentro delas, porque, fora
de resistência e do vazio que produz em seu torno delas, só enxergam a frieza dos meios de sua
aquele que se coloca fora de foco. Ele não pode autoconservação. Esse contacto desperta nelas a
parar. A ideia que não encontra nenhum apoio firme vergonha e a fúria. Contudo, o louco não as atinge,
na realidade insiste e torna-se fixa. mesmo quando as encara, como o Führer. Ele
Na medida em que o paranóico só percebe o apenas as incendeia. O proverbial olhar nos olhos
mundo exterior da maneira como ele corresponde a não preserva a individualidade, como olhar livre.
seus fins cegos, ele só consegue repetir o seu eu Ele fixa. Ele constrange os outros a uma fidelidade
alienado numa mania abstracta. O puro esquema do unilateral, aprisionando-os entre os muros sem
poder enquanto tal, que domina totalmente tanto os janelas das mônadas de suas próprias pessoas. Ele
outros quanto o próprio eu rompido consigo mesmo, não desperta a consciência moral, mas de antemão
agarra o que se lhe oferece e insere-o em seu tecido vai exigindo a prestação de contas. O olhar
mítico, com total indiferença por suas penetrante e o olhar que ignora, o olhar hipnótico e
peculiaridades. O ciclo fechado do que é o olhar indiferente, são da mesma natureza: ambos
eternamente idêntico torna-se o sucedâneo da extinguem o sujeito. Porque a esses olhares falta a
omnipotência. É como se a promessa, feita pela reflexão, os irreflectidos deixam-se electrizar por
serpente aos primeiros homens, de se tornarem eles. Eles são traídos: as mulheres se vêem
iguais a Deus houvesse sido resgatada com o rejeitadas, a nação reduzida a cinzas. Assim, o
paranóico, que cria o mundo todo segundo sua ensimesmado é uma caricatura do poder divino.
imagem. Ele não parece precisar de ninguém e, no Assim como a seu gesto soberano falta inteiramente
entanto, exige que todos se ponham a seu serviço. o poder de criação na realidade, assim também lhe
Sua vontade penetra o todo, nada pode deixar de ter faltam, como ao demónio, os atributos do princípio
uma relação com ele. Seus sistemas não têm que ele usurpa: o amor atento e a liberdade auto-
lacunas. Como astrólogo, ele dota os astros de sustentada. Ele é mau, levado pela compulsão e tão
forças que provocam a ruína dos incautos – no fraco quanto sua força. Assim como se diz que a
estágio pré-clínico, do ego de outrem, e no estágio omnipotência divina atrai as criaturas para si, assim
clínico, de seu próprio ego. Como filósofo, ele também a potência satânica e imaginária tudo atrai
transforma a história universal na executora de para dentro da sua impotência. Eis aí o segredo de
catástrofes e decadências inevitáveis. Como louco seu domínio. O eu que projecta compulsivamente
consumado ou como ser absolutamente racional, ele não pode projectar senão a própria infelicidade,
aniquila a vítima predestinada, seja mediante um cujos motivos se encontram dentro dele mesmo, mas

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dos quais se encontra separado em sua falta de que as energias intelectuais estão intencionalmente
reflexão. Por isso os produtos da falsa projecção, os concentradas no mundo exterior, ou seja, sempre
esquemas estereotipados do pensamento e da que se trata de perseguir, constatar, captar (que são
realidade, são os mesmos da desgraça. Para o ego as funções que, tendo origem na empresa primitiva
que se afunda no abismo de sua falta do sentido, os de subjugação dos animais, se espiritualizaram nos
objectos tornam-se as alegorias de sua perdição métodos científicos da dominação da natureza),
encerrando o sentido de sua própria queda. tendemos a ignorar o processo subjectivo imanente
Segundo a teoria psicanalítica, a projecção à esquematização e a colocar o sistema como a coisa
patológica consiste substancialmente na mesma. Como o pensamento patológico, o
transferência para o objecto dos impulsos pensamento objectivador contém a arbitrariedade do
socialmente condenados do sujeito. Sob a pressão fim subjectivo que é estranho à coisa; ele esquece a
do superego, o ego projecta no mundo exterior, coisa e, por isso mesmo, inflige-lhe a violência a
como intenções más, os impulsos agressivos que que depois é, mais uma vez, submetida na prática. O
provêm do id e que, por causa de sua força, realismo incondicional da humanidade, que culmina
constituem uma ameaça para ele próprio. Deste no fascismo, é um caso especial do delírio
modo, consegue livrar-se deles como uma reacção a paranóico, que despovoa a natureza e, ao fim e ao
esse mundo exterior, seja imaginariamente pela cabo, os próprios povos. É nesse abismo de
identificação com o pretenso vilão, seja na realidade incerteza, que todo acto objectivador tem que
sob o pretexto de uma legítima defesa. O impulso atravessar, que se aninha a paranóia. Como não há
condenado e transformado em agressão é, na nenhum argumento absolutamente convincente
maioria das vezes, de natureza homossexual. Por contra os juízos materialmente falsos, não é possível
medo da castração, o indivíduo leva a obediência ao curar a percepção distorcida em que eles surgem.
pai ao extremo de antecipá-la, assimilando sua vida Toda percepção contém elementos conceituais
afectiva consciente à vida de uma menina, e o ódio inconscientes, assim como todo juízo contém
do pai se vê recalcado como um eterno rancor. Na elementos fenomenalistas não aclarados. Por
paranóia, esse ódio impele a um desejo de castração, conseguinte, como a verdade implica a imaginação,
sob a forma de uma ânsia de destruição pode sempre ocorrer que, para as pessoas cuja
generalizada. O doente regride à indiferenciação imaginação foi lesada, a verdade seja algo de
arcaica do amor e do desejo de subjugar. Para ele, o fantástico e sua ilusão, a verdade. O doente se nutre
que importa é a proximidade física, à posse, a do elemento imaginário imanente à própria verdade,
relação a qualquer preço. Como não pode confessar exibindo-o sem cessar. Democraticamente, ele
seu desejo, ele ataca o outro como um ciumento ou insiste em exigir a igualdade de direitos para o seu
um perseguidor, assim como o sodomita recalcado delírio, porque, de facto, a própria verdade não é
se dedica à caça ou à presa de animais. A atracção rigorosa. Se o burguês concede que o anti-semita
origina-se de uma ligação excessivamente estreita está errado, ele quer, pelo menos, que a vítima seja
ou se produz à primeira vista, ela pode emanar dos culpada. Assim, Hitler exige que se aceite o
grandes (como no caso dos quereladores e dos assassinato em massa em nome do princípio da
assassinos de presidentes) ou dos mais pobres soberania dos povos, que tolera a violência nos
(como no caso do autêntico pogrom). Os objectos da outros países. Como todo paranóico, ele se aproveita
fixação são intercambiáveis como as figuras da hipócrita identidade entre a verdade e a sofística;
paternas na infância; qualquer um serve, desde que sua separação é tão rigorosa, quanto difícil de se
ela se prenda; o delírio da busca de referência volta- impor. A percepção só é possível na medida em que
se para tudo sem nenhum referencial. A projecção a coisa já é percebida como determinada, por
patológica é um recurso desesperado do ego que, exemplo, como pertencendo a uma espécie. Ela é a
segundo Freud, proporciona uma protecção imediatidade mediatizada, o pensamento com a
infinitamente mais fraca contra os estímulos força de sedução da sensibilidade. O elemento
internos do que contra os estímulos externos. Sob a subjectivo é cegamente introduzido por ela na
pressão da agressão homossexual represada, o aparente auto-doação do objecto. Só o trabalho do
mecanismo psíquico esquece sua mais recente pensamento, consciente de si mesmo, consegue
conquista filogenética, a percepção de si, e enxerga escapar a esse poder alucinatório, e, segundo o
essa agressão como um inimigo no mundo para idealismo de Leibniz e de Hegel, a filosofia. Ao
melhor enfrentá-lo. identificar, no processo de conhecimento, como
Mas essa pressão pesa também sobre o conceituais os elementos conceituais directamente
processo cognitivo não-patológico como um factor presentes na percepção e que têm por isso um
de sua ingenuidade violenta e irreflectida. Sempre carácter necessário, o pensamento recupera-os

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progressivamente no sujeito e despoja-os de sua indivíduos nos quais a força dos mecanismos de
força intuitiva. Nesse processo, toda etapa anterior, projecção havia penetrado mais profundamente em
mesmo a da ciência, revela-se em face da filosofia, suas capacidades lógicas rudimentares, ou nos quais
por assim dizer, como uma percepção, como um essa força havia sido minimamente diminuída por
fenómeno alienado, entremeado de elementos um início precoce dos processos de reflexão. Assim
intelectuais desconhecidos; insistir neles, sem como, hoje em dia, os projectos científicos práticos
negação, é próprio da patologia do conhecimento. e fecundos requerem uma capacidade intacta de
Por mais universal que seja sua – actividade, quem definição, a capacidade de imobilizar o pensamento
absolutiza ingenuamente é um doente, vítima do num ponto determinado pelas necessidades da
poder ofuscante da falsa imediatidade. sociedade, de delimitar um campo a ser investigado
Essa ofuscação, porém, é um elemento em seus menores detalhes sem que o investigador o
constitutivo de todo juízo, uma aparência necessária. transcenda, assim também o paranóico não
Todo juízo, mesmo o negativo, é assertivo. Ainda consegue deixar de transgredir um complexo de
que um juízo possa sublinhar seu próprio isolamento interesses determinados por seu destino psicológico.
e relatividade para se corrigir a si mesmo, ele tem Seu discernimento consome-se no círculo traçado
que asserir seu próprio conteúdo, por mais prudente pela ideia fixa, assim como o engenho da
que seja sua formulação, isto é, tem que asserir o humanidade se liquida a si mesmo na órbita da
que assere como algo que não é meramente isolado civilização técnica. A paranóia é a sombra do
e relativo. É nisso que consiste essencialmente conhecimento.
enquanto juízo; as cláusulas servem simplesmente A tendência à falsa projecção é tão fatalmente
de defesa para sua pretensão. A verdade não tem inerente ao espírito que ela, esquema isolado da
graus como a verosimilhança. O passo com que a autoconservação, ameaça dominar tudo o que vai
negação vai além de um determinado juízo e que além dela: a cultura. A falsa projecção é o usurpador
salva sua verdade só é possível na medida em que o do reino da liberdade e da cultura; a paranóia é o
juízo se tomava a si mesmo como verdadeiro e, por sintoma do indivíduo semicultivado. Para ele, todas
assim dizer, na medida em que era paranóico. O as palavras convertem-se num sistema alucinatório,
verdadeiro tresloucar (das Verrückte) consiste na na tentativa de tomar posse pelo espírito de tudo
impossibilidade de se deslocar (Unverrü ckbarkeit), aquilo que sua experiência não alcança, de dar
na incapacidade do pensamento de atingir essa arbitrariamente um sentido ao mundo que torna o
negatividade, em que consiste, diferentemente do homem sem sentido, mas ao mesmo tempo se
juízo consolidado, o verdadeiro pensamento. A transformam também na tentativa de difamar o
excessiva coerência paranóica, esse mau infinito que espírito e a experiência de que está excluído e de
é o juízo sempre igual, é uma falta de coerência do imputar-lhes a culpa que, na verdade, é da sociedade
pensamento. Ao invés de elaborar intelectualmente que o exclui do espírito e da experiência. Uma
o fracasso da pretensão absoluta e assim continuar a semicultura que, por oposição à simples incultura,
determinar seu juízo, o paranóico se aferra à hipostasia o saber limitado como verdade não pode
pretensão que levou seu juízo ao fracasso. Ao invés mais suportar a ruptura entre o interior e o exterior,
de prosseguir, penetrando na coisa, o pensamento o destino individual é a lei social, a manifestação e a
inteiro se põe desesperadamente a serviço do juízo essência. Essa dor encerra, é claro, um elemento de
particular. Seu carácter irresistível é o mesmo que verdade em comparação com a simples aceitação da
sua positividade intacta, e a fraqueza do paranóico é realidade dada, à qual a racionalidade superior jurou
a fraqueza do próprio pensamento. Pois a reflexão lealdade. Contudo, a semicultura, em seu modo,
que, na pessoa sadia, rompe o poder da imediatidade recorre estereotipadamente à fórmula que lhe
nunca é tão convincente como a aparência que ela convém melhor em cada caso, ora para justificar a
suprime. Enquanto movimento negativo, reflectido e desgraça acontecida, ora para profetizar a catástrofe
não-retilíneo, ela carece da brutalidade que é disfarçada, às vezes, de regeneração. A explicação
inerente ao positivo. Se a energia psíquica da na qual o desejo do indivíduo aparece como uma
paranóia provém da dinâmica libidinal desvendada potência objectiva é sempre tão exterior e vazia de
pela psicanálise, sua intangibilidade objectiva se sentido como o próprio acontecimento isolado, ao
funda na ambiguidade inseparável do ato mesmo tempo pueril e sinistro. Os sistemas
objectivador; de facto, sua força alucinatória deve obscuros realizam hoje o que o mito do diabo da
ter sido originariamente decisiva. Poder-se-ia dizer, religião oficial permitia aos homens na Idade
na linguagem da teoria da selecção e para maior Média: a atribuição arbitrária de um sentido ao
clareza, que, durante o período de formação do mundo exterior, atribuição essa que o paranóico
aparelho sensorial humano, sobreviveram os também faz em seu isolamento segundo um

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esquema privado, que não é partilhado por ninguém comprometerem com suas alianças solda-os uns aos
e que por isso mesmo parece rigorosamente louco. outros e lhes confere uma violência quase
Para escapar a isso há os conventículos e panaceias irresistível.
fatais que se pretendem científicos e, ao mesmo Com a propriedade burguesa, a cultura
tempo, bloqueiam o pensamento: teosofia, também se difundiu. Ela havia empurrado a
numerologia, medicina natural, eurritmia, doutrinas paranóia para os recantos obscuros da sociedade e
pregando a abstinência, ioga e inúmeras outras da alma. Mas como a real emancipação dos homens
seitas, todas com academias, hierarquias, linguagens não ocorreu ao mesmo tempo que o esclarecimento
especializadas e as fórmulas fetichizadas da ciência do espírito, a própria cultura ficou doente. Quanto
e da religião. Do ponto de vista da cultura eram mais a realidade social se afastava da consciência
apócrifas e sem respeitabilidade. Mas hoje, quando cultivada, tanto mais esta se via submetida a um
a cultura está em vias de se extinguir por razões processo de reificação. A cultura converteu-se
económicas, criaram-se numa escala insuspeitada totalmente numa mercadoria, difundida como uma
novas condições para a paranóia das massas. Os informação, sem penetrar nos indivíduos dela
sistemas religiosos do passado, adoptados pelo povo informados. O pensamento perde o fôlego e limita-
como formas paranóides fechadas, tinham malhas se à apreensão do factual isolado. Rejeitam-se as
mais largas. Justamente por causa de sua formulação relações conceituais porque são um esforço
e carácter racionais, eles deixavam espaço – pelo incomodo e inútil. O aspecto evolutivo do
menos para cima – para a cultura e o espírito, cujo pensamento, e tudo o que é genético e intensivo
conceito constituía seu meio específico. Eles nele, é esquecido e nivelado ao imediatamente
chegaram mesmo, em certo sentido, a opor presente, ao extensivo. A organização actual da vida
resistência à paranóia. Freud denomina as neuroses não deixa espaço ao ego para tirar consequências
(e aqui com razão) “formações associais”: “elas espirituais. O pensamento reduzido ao saber é
procuram realizar com meios privados o que surgiu neutralizado e mobilizado para a simples
na sociedade graças ao trabalho coletivo”.7 Os qualificação nos mercados de trabalho específicos e
sistemas religiosos retêm algo dessa colectividade para aumentar o valor mercantil da personalidade.
que protege os indivíduos da doença. Esta se vê Assim naufraga essa auto-reflexão do espírito que se
socializada: na embriaguez do êxtase colectivo, e opõe à paranóia. Finalmente, sob as condições do
mesmo como a comunidade em geral, a cegueira é capitalismo tardio, a semicultura converteu-se no
transformada num relacionamento, e o mecanismo espírito objectivo. Na fase totalitária da dominação,
paranóico é tratado de modo a se tornar controlável, a semicultura chama de volta os charlatães
sem perder a capacidade do suscitar terror. Talvez provincianos da política e, com eles, como uma
seja essa uma das grandes contribuições das ultima ratio, o sistema delirante, e o impõe à
religiões para a, autoconservação da espécie. As maioria dos administrados já amolecidos, de
formas de consciência paranóides tendem à qualquer maneira, pela grande indústria e pela
formação de alianças, frondas e quadrilhas. Seus indústria cultural. Hoje em dia, é tão fácil para uma
adeptos têm medo de acreditar sozinhos em seu consciência só devassar o absurdo da dominação
delírio. Projectando, eles vêem por toda parte a que ela precisa da consciência doente para se manter
conjuração e o proselitismo. Os grupos viva. Só os loucos que sofrem de delírio de
estabelecidos sempre se comportaram perseguição toleram a perseguição em que
paranoicamente com relação aos outros; sob esse necessariamente resulta a dominação, na medida em
aspecto, os grandes impérios e até mesmo a que lhes é permitido perseguir os outros.
humanidade organizada como um todo não estão De qualquer modo, a consciência moral está
nem um passo à frente dos caçadores de cabeças. Os liquidada no fascismo, onde a responsabilidade pela
excluídos da humanidade contra sua própria vontade mulher e pela criança, tão penosamente cultivada
sabiam disso tanto quanto os que espontaneamente pela civilização burguesa, de novo desaparece por
se excluíram a si próprios por nostalgia da trás da necessidade em que se encontra o indivíduo
humanidade: sua perseguição reforçava essa de se orientar constantemente pelo regulamento a
mórbida coesão. Mas um membro normal da ele imposto. Contrariamente ao que imaginavam
sociedade substitui sua paranóia pela participação na Dostoievski e os apóstolos alemães da interioridade,
paranóia colectiva e se agarra apaixonadamente às a consciência moral consistia para o ego em
formas objectivadas, colectivas e comprovadas, do devotar-se ao substancial no mundo exterior, na
delírio. O horror vacui que os leva a se capacidade de fazer seu o verdadeiro interesse dos
outros. Essa capacidade é a aptidão à reflexão
7
Freud, Totem und Tabu. Gesammelte Werke. Vol. IX, p. enquanto síntese da receptividade e da imaginação.
91.

93
Na medida em que a grande indústria não cessa de reconciliação é o conceito supremo do judaísmo, e
subtrair à decisão moral sua base económica, todo o seu sentido consiste na espera; é da
eliminando o sujeito económico independente (seja incapacidade de esperar que surge a forma de
suprimindo o empresário autónomo, seja reacção paranóica. Os anti-semitas estão em vias de
transformando os trabalhadores em objectos de realizar com as próprias forças seu negativo
sindicatos), a própria reflexão não pode senão absoluto, eles estão transformando o mundo no
atrofiar. A alma, enquanto possibilidade de assumir inferno que sempre viram nele. Uma reviravolta vai
um sentimento de culpa que não se esconda de si depender da capacidade dos dominados, em face da
mesmo, se desfaz. A consciência moral perde seu loucura absoluta. de se tornarem senhores de si
objectivo, pois a responsabilidade do indivíduo por mesmos e de pôr termo a ela. Só com a liberação do
si mesmo e pelos seus é substituída muito pensamento relativamente à dominação e com a
simplesmente por sua contribuição ao aparelho, eliminação da violência seria possível .realizar a
mesmo que isso ocorra sob as antigas categorias ideia que até agora permaneceu uma inverdade, a
morais. Não é mais possível dar uma solução ao saber, que o judeu é um ser humano. Isso
conflito pulsional em que se forma a consciência representaria a passagem da sociedade anti-semita,
moral. Em vez da interiorização do imperativo que impele os judeus e os demais para uma
social – que não apenas lhe confere um carácter condição patológica, para a sociedade humana. Essa
mais obrigatório e ao mesmo tempo mais aberto, passagem realizaria, ao mesmo tempo, a mentira
mas também emancipa da sociedade e até mesmo fascista, mas como a sua contradição: a questão
faz com que se volte contra a sociedade – tem lugar judia se revelaria, de facto, como o momento
uma identificação pronta e imediata com as escalas decisivo da história. Superando a doença do espírito,
de valores estereotipadas. A mulher alemã que grassa no terreno da auto-afirmação imune à
exemplar, que monopolizou a feminilidade, e o reflexão, a humanidade deixaria de ser a contra-raça
genuíno homem alemão, que monopolizou a universal para se tornar a espécie que, embora
masculinidade, são – como as demais versões natureza. é mais do que a simples natureza, na
nacionais – tipos de associais conformistas. Apesar medida em que se apercebe de sua própria imagem.
e por causa de sua manifesta iniquidade, a A emancipação individual e social da dominação é o
dominação tornou-se tão poderosa que o indivíduo, movimento contrário à falsa projecção, e todo judeu
em sua impotência, só pode exorcizar seu destino que soubesse vencê-la dentro de si perderia toda
submetendo-se cegamente. semelhança com a desgraça que irrompe cegamente
Nessa constelação do poder, cabe ao acaso sobre ele, assim como sobre todos os perseguidos,
guiado pelo partido determinar à autoconservação homens ou animais.
desesperada onde projectar a culpa por seu terror. VII
Os judeus são os alvos predestinados dessa Mas não há mais anti-semitas. Os últimos
projecção. A esfera da circulação, onde se foram os liberais que queriam exprimir sua opinião
encontram suas posições de poder económico, está antiliberal. A distância que a nobreza e os militares
em vias de desaparecer. A forma liberal da empresa guardavam dos judeus era, no ocaso do século
ainda permitia uma certa influência política às dezanove, uma simples atitude reaccionária.
fortunas fragmentadas. Agora, os recém- Personagens modernos eram os Ahlwardt e os
emancipados estão entregues às potências do capital Knüppelkunze,8 que já tinham adeptos com o estofo
que se fundiram com o aparelho estatal e se do material humano do Führer e encontravam apoio
libertaram da concorrência. Pouco importa como entre os espíritos maléficos e as mentes confusas de
são os judeus realmente; sua imagem, na medida em todo o país. Quando a mentalidade anti-semita se
que é a imagem do que já foi superado, exibe os exprimia, ela se sentia ao mesmo tempo burguesa e
traços aos quais a dominação totalitária só pode ser rebelde. A vociferação racista ainda constituía uma
hostil: os traços da felicidade sem poder, da forma distorcida da liberdade civil. A política de
remuneração sem trabalho, da pátria sem fronteira, cervejaria dos anti-semitas desmascarava a mentira
da religião sem mito. Esses traços são condenados do liberalismo alemão, do qual se nutria e ao qual
pela dominação porque são a aspiração secreta dos acabou por dar fim. Muito embora tenham se valido
dominados. A dominação só pode perdurar na da própria mediocridade como uma espécie de carta
medida em que os próprios dominados branca autorizando o espancamento dos judeus e
transformarem suas aspirações em algo de odioso. contendo assim o germe do genocídio, eles ainda
Eles fazem isso graças à projecção patológica, pois
também o ódio leva à união com o objecto – na 8
Knüppelkunze: literalmente. Kunze do porrete. do cassetete
destruição. O ódio é o negativo da reconciliação. A (Knüppel). Ahlwardt e Hermann Kunze são autores anti-
semitas do século passado. (N. do T.)

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eram, economicamente, bastante previdentes para administração da justiça fizeram seu trabalho.
pesar os riscos de um III Reich em comparação com Antes, o juízo passava pela etapa da ponderação,
as vantagens de uma tolerância hostil. O anti- que proporcionava certa protecção ao sujeito do
semitismo ainda era um tema aberto à escolha juízo contra uma identificação brutal com o
subjectiva, e a decisão referia-se especificamente a predicado. Na sociedade industrial avançada, ocorre
ele. É verdade que a aceitação da tese racista já uma regressão a um modo de efectuação do juízo
implica todo o vocabulário chauvinista, e que os que se pode dizer desprovido de juízo, do poder de
juízos anti-semitas deram sempre testemunho de um discriminação. Quando o fascismo substituiu no
pensamento estereotipado. Mas, hoje, é só isto que processo penal os procedimentos legais complicados
resta. Continua-se a escolher, mas apenas entre por um procedimento mais rápido, os
totalidades. A psicologia anti-semita foi, em grande contemporâneos estavam economicamente
parte, substituída por um simples “sim” dado ao preparados para isso; eles haviam aprendido a ver as
ticket9 fascista, ao inventário de slogans da grande coisas, sem maior reflexão, através dos modelos
indústria militante. Do mesmo modo que a máquina conceituais e termos técnicos que constituem a
do partido de massas impõe aos eleitores, com as estrita ração imposta pela desintegração da
listas de candidatos, os nomes de pessoas de quem linguagem. O percebedor não se encontra mais
não têm o menor conhecimento e que só podem presente no processo da percepção. Ele não mobiliza
eleger em bloco, assim também os pontos mais a passividade activa do conhecimento, na qual
ideológicos centrais estão codificados em poucas os elementos categoriais se deixam modelar da
listas. É preciso optar em bloco por uma delas, se maneira adequada pelo “dado” convencionalmente
não se quiser ter a impressão de que a opinião préformado, e este por aqueles, de tal modo que se
pessoal é tão inócua como os votos dispersos em faça justiça ao objecto percebido. No campo das
comparação com as enormes cifras estatísticas. O ciências sociais bem como no da experiência
anti-semitismo praticamente deixou de ser um individual, a intuição cega e os conceitos vazios são
impulso independente, ele não é mais do que uma reunidos de maneira rígida e sem mediação. Na era
simples prancha da plataforma eleitoral: quem dá do vocabulário básico de trezentas palavras, a
uma chance qualquer ao fascismo subscreve capacidade de julgar e, com ela, a distinção do
automaticamente, juntamente com a destruição dos verdadeiro e do falso estão desaparecendo. Na
sindicatos e a cruzada antibolchevista, a eliminação medida em que o pensamento deixa de representar
dos judeus. A convicção – por mais mentirosa que uma peça do equipamento profissional, sob uma
seja – do anti-semita foi substituída pelos reflexos forma altamente especializada em diversos sectores
predeterminados dos expoentes despersonalizados da divisão do trabalho, ele se torna suspeito como
de suas posições. Quando as massas aceitam o ticket um objecto de luxo fora de moda: “aremchair
reaccionário contendo o elemento anti-semita, elas thinking”10. É preciso produzir alguma coisa.
obedecem a mecanismos sociais nos quais as Quanto mais a evolução da técnica torna supérfluo o
experiências de cada um com os judeus não têm a trabalho físico, tanto mais fervorosamente este é
menor importância. De facto, ficou provado que as transformado no modelo do trabalho espiritual, que
chances do anti-semitismo são tão grandes nas é preciso impedir, no entanto, não se tira as
regiões sem judeus como até mesmo em Hollywood. consequências disso. Eis aí o segredo do
A experiência é substituída pelo cliché e a embrutecimento que favorece o anti-semitismo. Se,
imaginação activa na experiência pela recepção no interior da própria lógica, o conceito cai sobre o
ávida. Sob pena de uma rápida ruína, os membros particular como algo de puramente exterior, com
de cada camada social devem engolir sua dose de muito mais razão, na sociedade, tudo o que
orientações. Eles têm que se orientar tanto no representa a diferença tem que tremer. As etiquetas
sentido de se informarem sobre os modelos de são coladas: ou se é amigo, ou inimigo. A falta de
aviões mais recentes, quanto no sentido da adesão a consideração pelo sujeito torna as coisas fáceis para
uma das instâncias dadas do poder. No mundo da a administração. Transferem-se grupos étnicos para
produção em série, a estereotipia – que é seu outras latitudes, enviam-se indivíduos rotulados de
esquema – substituí o trabalho categorial. O juízo judeus para as câmaras de gás. A indiferença pelo
não se apoia mais numa síntese efectivamente indivíduo que se exprime na lógica não é senão uma
realizada, mas numa cega subsunção. Se, numa fase conclusão tirada do processo económico. O
histórica primitiva, o julgar consistia num rápido indivíduo tornou-se um obstáculo à produção. A
discriminar capaz de desfechar sem hesitação a seta
envenenada, nesse meio tempo a prática da troca e a 10
Armchair thinking. literalmente: pensamento de poltrona;
pensamento ocioso, que não se baseia na prática ou na
9
experiência, especulação. (N. do T.)

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defasagem histórica na evolução técnica e humana, internos. As associações e as celebridades assumem
o “cultural lag”, sobre o qual se detiveram os as funções do ego e do superego, e as massas,
sociólogos, começa a desaparecer. A racionalidade despojadas até mesmo da aparência da
económica, esse princípio tão enaltecido do menor personalidade, deixam-se modelar muito mais
meio, continua incessantemente a remodelar as docilmente segundo os modelos e palavras de ordem
últimas unidades da economia: tanto a empresa dadas, do que os instintos pela censura interna. Se,
quanto os homens. A forma mais evoluída a cada no liberalismo, a individuação de uma parte da
momento torna-se a forma dominante. Assim, a população era uma condição da adaptação da
antiga loja especializada foi expropriada pela loja de sociedade em seu todo ao estágio da técnica, hoje, o
departamentos. Liberada da regulamentação funcionamento da aparelhagem económica exige
mercantilista, ela havia absorvido a iniciativa, a uma direcção das massas que não seja perturbada
disposição e a organização e se transformara, como pela individuação. A orientação economicamente
o velho moinho e a velha forja, numa livre empresa. determinada da sociedade em seu todo (que sempre
Mas nela, tudo se passava ainda de maneira prevaleceu na constituição física e espiritual dos
complicada, dispendiosa e cheia de riscos. Por isso, homens) provoca a atrofia dos órgãos do indivíduo
a competição acabou por impor a forma centralizada que actuavam no sentido de uma organização
mais eficaz do comércio varejista, que é a loja de autónoma de sua existência. Desde que o
departamentos. Com a pequena empresa pensamento se tornou um simples sector da divisão
psicológica, isto é, com o indivíduo, as coisas não se do trabalho, os planos dos chefes e especialistas
passam diferentemente. Ele surgira como uma competentes tornaram supérfluos os indivíduos que
célula dinâmica da actividade económica. planejam sua própria felicidade. A irracionalidade
Emancipado da tutela imposta em fases económicas da adaptação dócil e aplicada à realidade torna-se,
anteriores, ele cuidava de si mesmo: como para o indivíduo, mais racional do que a razão. Se,
proletário, assalariando-se no mercado de trabalho e outrora, os burgueses introjetavam a coacção em si
adaptando-se continuamente às novas condições mesmos e nos trabalhadores como um dever de
técnicas, ou como empresário, realizando consciência, agora o homem inteiro tornou-se o
incansavelmente o tipo ideal do homo economicus. sujeito-objeto da repressão. O progresso da
A psicanálise apresentou a pequena empresa interior sociedade industrial, que devia ter eliminado como
que assim se constituiu como uma dinâmica que por encanto a lei da pauperização que ela
complicada do inconsciente e do consciente, do id, própria produzira, acaba por destruir a ideia pela
ego e superego. No conflito com o superego, a qual o todo se justificava: o homem enquanto
instância de controle social no indivíduo, o ego pessoa, enquanto portador da razão. A dialéctica do
mantém as pulsões dentro dos limites da esclarecimento transforma-se objectivamente na
autoconservação. As zonas de atrito são grandes e as loucura.
neuroses, os faux fraixl11, dessa economia pulsional, A loucura é, ao mesmo tempo, uma loucura da
são inevitáveis. Não obstante, a complicada realidade política. O mundo, que resultou do denso
aparelhagem psíquica possibilitou a cooperação tecido das comunicações modernas, tornou-se tão
relativamente livre dos sujeitos em que se apoiava a uniforme, que as diferenças características dos
economia de mercado. Mas, na era das grandes desjejuns dos diplomatas em Dumbarton Oaks e na
corporações e das guerras mundiais, a mediação do Pérsia devem ser apresentadas como um colorido
processo social através das inúmeras mônadas nacional, ao passo que o carácter nacional deixa-se
mostra-se retrógrada. Os sujeitos da economia perceber melhor na fome de arroz dos milhões de
pulsional são expropriados psicologicamente e essa famintos que escaparam às malhas estreitas.
economia é gerida mais racionalmente pela própria Enquanto a abundância das riquezas, que poderiam
sociedade. A decisão que o indivíduo deve tomar ser produzidas por toda parte e ao mesmo tempo, faz
em cada situação não precisa mais resultar de uma com que a luta por matérias-primas e mercados
dolorosa dialéctica interna da consciência moral, da pareça cada vez mais anacrónica, a humanidade
autoconservação e das pulsões. Para as pessoas na continua dividida num pequeno número de blocos
esfera profissional, as decisões são tomadas pela armados. Esses blocos competem entre si mais
hierarquia que vai das associações até a desapiedadamente do que jamais o fizeram as
administração nacional; na esfera privada, pelo firmas, quando a produção de mercadorias ainda era
esquema da cultura de massa, que desapropria seus anárquica, e buscam liquidar-se reciprocamente.
consumidores forçados de seus últimos impulsos Quanto mais louco o antagonismo, mais rígidos os
blocos. É só quando a total identificação com essas
11
Despesas acidentais, que se acrescentam às despesas potências monstruosas é impressa nas pessoas
principais. (N. do T.)

96
concernidas como uma segunda natureza e quando agentes intra-humanos da falsa sociedade. Mas os
todos os poros da consciência são tapados, que as tipos caracteriológicos encontram agora seu lugar
massas são levadas a esse estado de absoluta apatia preciso no organograma da empresa de poder. Seus
que as torna capazes de realizações fantásticas. coeficientes de rendimento e de atrito estão
Quando ainda se deixa uma aparência de decisão ao incluídos no cálculo. O próprio ticket é uma roda da
indivíduo, esta já se encontra essencialmente engrenagem. Tudo o que, no mecanismo
predeterminada. A incompatibilidade das ideologias, psicológico, foi sempre compulsivo, sem liberdade e
trombeteada pelos políticos dos dois blocos, não irracional está adaptado a isso de uma maneira
passa ela própria da ideologia de uma cega precisa. O ticket reaccionário que contém o anti-
constelação de poder. A mentalidade do ticket, semitismo é adequado à síndroma destrutivo-
produto da industrialização e de sua propaganda, convencional. Originariamente, eles representam
adapta-se às relações internacionais. A escolha do menos uma reacção contra os judeus de que a
ticket comunista ou do ticket fascista depende da formação de uma orientação pulsional à qual só o
impressão que o Exército Vermelho ou os ticket fornece um objecto adequado de perseguição.
laboratórios do Ocidente deixam no indivíduo. A Os “elementos do anti-semitismo”, baseados na
reificação, graças à qual a estrutura de poder, experiência e anulados pela perda de experiência
possibilitada unicamente pela passividade das que se anuncia na mentalidade do ticket, são
massas, aparece às próprias massas como uma novamente mobilizados pelo ticket. Já tendo entrado
realidade indestrutível, tornou-se tão densa que toda em decomposição, eles trazem para o neo-anti-
espontaneidade e, mesmo, a simples ideia da semita a má consciência e, com ela, a
verdadeira situação tornou-se necessariamente uma insaciabilidade do mal. É justamente porque a
utopia extravagante, um desvio sectarista. A psicologia dos indivíduos e seus conteúdos só se
aparência ficou tão espessa que a possibilidade de produzem através dos esquemas sintéticos
devassá-la assumiu o carácter da alucinação. fornecidos pela sociedade que o anti-semitismo
Escolher um ticket, ao contrário, significa adaptar-se contemporâneo adquire uma natureza vazia e
a uma aparência petrificada como uma realidade e impenetrável. O intermediário judeu só se torna
que se prolonga a perder de vista graças a essa realmente a imagem do diabo depois que ele deixou
adaptação. Por isso mesmo, quem hesita se vê de existir economicamente. Isso facilita o triunfo e
proscrito como um desertor. Desde Hamlet, a torna o pai de família anti-semita um espectador
vacilação tem sido para os modernos um sinal do irresponsável da tendência histórica irresistível, que
pensamento e da humanidade. O tempo perdido só intervém quando o exige seu papel como
representava e mediatizava ao mesmo tempo a empregado do partido ou das fábricas que fabricam
distância entre o individual e o universal, como na o gás para os campos de extermínio. A
economia a circulação entre o consumo e a administração dos Estados totalitários, que procede
produção. Hoje, os indivíduos recebem do poder ao extermínio daqueles segmentos da população que
seus tickets já prontos, assim como os consumidores se tornaram anacrónicos, é apenas o carrasco que
que vão buscar seu automóvel nas concessionárias executa veredictos económicos há muito
da fábrica. O senso de realidade, a adaptação ao pronunciados. Os membros dos outros sectores da
poder, não é mais resultado de um processo divisão do trabalho podem ficar olhando com a
dialéctico entre o sujeito e a realidade, mas é indiferença que o leitor de jornais não perde ao ler,
imediatamente produzido pela engrenagem da por exemplo, uma notícia sobre os trabalhos de
indústria. O processo é um processo de liquidação limpeza no cenário da catástrofe do dia anterior. A
em vez de superação, é um processo de negação particularidade que forneceu o motivo para o
formal em vez da negação determinada. Não lhe foi assassinato das vítimas também já desapareceu há
concedendo a plena satisfação que os colossos muito tempo. As pessoas que caem sob a lei anti-
desencadeados na produção superaram o indivíduo, semita devem ser localizadas através de
mas extinguindo-o como sujeito. É nisso justamente questionários minuciosos, depois que, sob a pressão
que consiste sua racionalidade consumada, que niveladora da sociedade industrial tardia, as
coincide com sua loucura. A extrema desproporção religiões inimigas, que constituíam outrora a
entre a colectividade e os indivíduos anula a tensão, diferença, se viram transformadas em simples bens
mas a perfeita harmonia entre a omnipotência e a culturais, graças a uma assimilação bem-sucedida.
impotência é ela própria a contradição não- As próprias massas judias são tão susceptíveis à
mediatizada, a oposição absoluta à reconciliação. mentalidade do ticket como qualquer uma das
Por isso, não desapareceram com o indivíduo seus associações juvenis que lhes são hostis. O anti-
determinantes psicológicos, que sempre foram os semitismo, de certa maneira, tem que, primeiro,

97
inventar seu objecto. A paranóia não persegue mais entanto, persistente. Ao mesmo tempo que não
seu objectivo com base na história clínica individual admite nenhuma verdade com a qual possa ser
do perseguidor; tendo-se tornado um existencial confrontado, a verdade aparece negativamente, mas
social, ela deve antes se inserir no contexto de maneira tangível, em toda a extensão das
ofuscador das guerras e das conjunturas, antes que contradições desse ticket; dessa verdade, os
os camaradas da ideologia racista (Voksgenossen)12 destituídos do poder de julgar só podem ser
psicologicamente predispostos possam se precipitar, separados pela perda total do pensamento. O próprio
enquanto pacientes, interna e externamente sobre esclarecimento, em plena posse de si mesmo e
suas vítimas. transformando-se em violência, conseguiria romper
O facto de que o anti-semitismo só ocorre, os limites de esclarecimento.
tendencialmente, como uma posição no ticket
intercambiável, justifica sem sombra de dúvida a
esperança de que ele venha a desaparecer. Os judeus
são assassinados numa época em que os chefes
podem substituir o ponto anti-semita de sua
plataforma política com a mesma facilidade com
que as equipes de trabalho podem ser transferidas de
um centro de produção para outro. A base da
evolução que conduz à mentalidade do ticket é, de
qualquer modo, a redução universal de toda energia
específica a uma única forma de trabalho, igual e
abstracta, do campo de batalha ao estúdio
cinematográfico. Mas a passagem dessas condições
a uma situação mais humana não poderá ocorrer
porque o bem e o mal conhecem o mesmo destino.
A liberdade oferecida pelo ticket progressista é tão
extrínseca às estruturas do poder que resultam
necessariamente das decisões progressistas, quanto
o é a hostilidade aos judeus ao truste químico. É
verdade que os indivíduos psicologicamente mais
humanos são atraídos pelo ticket progressista,
contudo a perda progressiva de experiência acaba
por transformar os adeptos do ticket progressista em
inimigos da diferença. Não é só o ticket anti-semita
que é anti-semita, mas a mentalidade do ticket em
geral. A raiva feroz pela diferença é
teleologicamente imanente a essa mentalidade e está
– enquanto ressentimento dos sujeitos dominados da
dominação da natureza – pronta para se lançar
contra a minoria natural, mesmo quando eles são os
primeiros a ameaçar a minoria social. A elite
socialmente responsável é, de qualquer modo, muito
mais difícil de ser fixada do que as outras minorias.
No nevoeiro das relações de propriedade, de posse,
do direito de dispor e do gerenciamento, ela se furta
com sucesso à determinação teórica. Na ideologia
da raça e na realidade da classe só aparece ainda,
por assim dizer, a diferença abstracta em face da
maioria. Mas, se o ticket progressista tende para
algo pior do que seu conteúdo, o conteúdo do ticket
fascista é tão vazio, que ele só pode ser mantido de
pé como um sucedâneo do melhor – graças aos
esforços desesperados dos logrados. O que ele
contém de horrível é a mentira manifesta e, no
12
V. nota 2. (N. do T.)

98
Notas e Esboços inacessível à razão porque só a enxerga na
capitulação do outro.
CONTRA OS QUE TÊM RESPOSTA PARA A contradição que consiste na estupidez da
TUDO inteligência. é uma contradição necessária. Pois a
ratio burguesa tem que pretender a universalidade e,
Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou ao mesmo tempo, desenvolver-se no sentido de
é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não restringi-la. Assim como, na troca, cada um recebe
foram os argumentos bem fundamentados com que sua parte, daí resultando, porém, a injustiça social,
os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao assim também a forma reflexiva da economia da
poder, quando sua ascensão já estava clara como o troca, a razão dominante, é também justa, universal
dia! Tenho na lembrança uma conversa com um e, no entanto, particularista, isto é, o instrumento do
economista em que ele provava, com base nos privilégio na igualdade. É a ela que o fascista
interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade apresenta a conta. Ele representa abertamente o
da uniformização da Alemanha. Depois, os particular e revela assim as limitações da própria
inteligentes disseram que o fascismo era impossível ratio, que insiste injustificadamente em sua
no Ocidente. Os inteligentes sempre facilitaram as universalidade. O facto então de que, de repente, os
coisas para os bárbaros, porque são tão estúpidos. inteligentes são os estúpidos prova para a razão que
São os juízos bem informados e perspicazes, os ela é a irrazão.
prognósticos baseados na estatística e na Mas o fascista também é atormentado por essa
experiência, as declarações começando com as contradição. Pois a razão burguesa, de facto, não é
palavras: “Afinal de contas, disso eu entendo”, são meramente particular, mas também universal, e sua
os statements1 conclusivos e sólidos que são falsos. universalidade cai de surpresa sobre o fascismo,
Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas quando ele a renega. Os que tomaram o poder na
há um espírito que é também anti-humano: sua Alemanha eram mais inteligentes do que os liberais,
marca é a superioridade bem informada. e mais estúpidos. O progresso em direcção à nova
ordem recebeu um amplo apoio daqueles cuja
Adendo consciência não acompanhou o progresso, ou seja,
dos falidos, dos sectários, dos tolos. Eles estão a
A transformação da inteligência em estupidez salvo dos erros, na medida em que seu poder impede
é um aspecto tendencial da evolução histórica. Ser toda competição. Mas, na competição dos Estados,
razoável, no sentido em que o entendia os fascistas não só são igualmente capazes de
Chamberlain, quando, em Godesberg, chamava as cometer erros, mas também, com suas qualidades
exigências de Hitler de unreasonable2, significa que como miopia intelectual, obstinação,
é preciso respeitar a equivalência entre dar e tomar. desconhecimento das forças económicas e,
Essa concepção da razão foi elaborada com base na sobretudo, com a incapacidade de ver o negativo e
troca. Os fins só devem ser alcançados através de levá-lo em conta na avaliação da situação em seu
uma mediação, por assim dizer, através do mercado, conjunto, também contribuem subjectivamente para
graças à pequena vantagem que o poder consegue a catástrofe que, no íntimo, sempre esperaram.
tirar observando a regra do jogo: concessões em Neste país, não há nenhuma diferença entre o
troca de concessões. A inteligência é superada tão destino económico e o próprio homem. Todo o
logo o poder deixa de obedecer à regra do jogo e mundo é o que é sua fortuna, sua renda. sua posição,
passa à apropriação imediata. O meio da inteligência suas chances. Na consciência dos homens, a
tradicional burguesa, a discussão. se desfaz. Os máscara económica e o que está debaixo dela
indivíduos já não podem mais conversar e sabem coincidem nas mínimas reguingas. Cada um vale o
disso: por isso fizeram do jogo uma instituição séria, que ganha, cada um ganha o que vale. Ele aprende o
responsável e exigindo a utilização de todas as que ele é através das vicissitudes de sua vida
forças, de tal sorte que, por um lado, o diálogo não é económica. Ele não se conhece de outro modo. Se a
mais possível e, por outro, nem por isso é preciso se crítica materialista da sociedade objectou outrora ao
calar. As coisas não se passam de modo muito idealismo que não é a consciência que determina o
diferente numa escala maior. Não é fácil falar com ser, mas é o ser que determina a consciência, que a
um fascista. Quando o outro toma a palavra, ele verdade sobre a sociedade não será encontrada nas
reage interrompendo-o com insolência. Ele é concepções idealistas que ela elaborou sobre si
mesma, mas em sua economia, a autoconsciência
dos contemporâneos acabou por rejeitar semelhante
1
Declarações, enunciados. (N. do T.) idealismo. Eles julgam seu próprio eu segundo o
2
Não razoável, irracional. (N. do T.)

99
valor de mercado e aprendem o que são a partir do O passo que conduziu ao vedantismo, ao
que se passa com eles na economia capitalista. Seu estoicismo e ao cristianismo, movimentos que se
destino, por mais triste que seja, não lhes é exterior, mostraram capazes de assumir uma forma
eles o reconhecem. Despedindo-se o chinês, organizada, consistiu na decisão de participar da
“Disse com a voz velada de tristeza: Meu actividade social com a elaboração de um sistema
amigo teórico unitário. O que o tornou possível foi a
a sorte não me sorriu neste mundo. doutrina segundo a qual a salvação da alma não é
Para onde vou? Vou para as montanhas, prejudicada pelo engajamento activo na vida, desde
Busco sossego para meu coração solitário.” que se adopte uma atitude conveniente. O
cristianismo, é verdade, só chegou a esse ponto com
(“Sprach mil umjlorler Stimme: Du mein a doutrina de São Paulo. A Ideia que se distancia da
Freund Mir war das G/iick in dieser Well nicht ordem existente transforma-se em religião. Os
ho/d. Wohin ich geh? lch wandere in die Berge. intransigentes são censurados. Eles se distanciaram
Ich suche Ruhe jiir mein einsam Herz.”) do “desejo de ter filhos, de possuir bens do mundo e
passaram a vagar pelas cidades como mendigos.
I am a failure, diz o norte-americano. – And Pois o desejo de ter filhos é o desejo de possuir
that is that.3 bens, e o desejo de possuir bens é o desejo do
mundo; e ambos não passam de um vão desejo”.7
CONVERSÃO DA IDEIA EM DOMINAÇAO Quem assim fala pode estar dizendo a verdade,
como dizem os civilizadores, mas não está
A história antiga dos países exóticos revela às acompanhando a marcha da vida social. É por isso
vezes tendências semelhantes às da história mais que se tornaram loucos. De facto, eles se pareciam
recente e mais familiar, e que se tornam com São João Baptista, que “se vestia com um
particularmente nítidas com a distância. manto de pele de camelo e se cingia com um cinto
Em sua explicação do Içâ-Upanishad, de couro e se alimentava de gafanhotos e mel
Deussen4 observa que o progresso que o silvestre”.8 “Os cínicos”, diz Hegel, “têm pouca
pensamento indiano alcançou nessa obra formação filosófica e não chegaram a desenvolver
relativamente a outras mais antigas é semelhante ao um sistema, uma ciência.”9 Ele qualifica seus
progresso de Jesus, segundo o Evangelho de São sucessores de “mendigos obscenos e descarados”.10
Mateus,5 relativamente a São João Baptista e ao Os intransigentes de que ainda há notícia na
progresso dos estóicos relativamente aos cínicos. história dispunham de alguma forma de organização
Essa observação, contudo, é historicamente de seus adeptos, pois, de outro modo, seus nomes
unilateral, porque as ideias intransigentes de São não teriam sequer chegado até nós. Eles montaram,
João Baptista e dos cínicos – exactamente como as pelo menos, parte de uma doutrina sistemática ou de
concepções relativamente às quais os primeiros regras de comportamento sistemáticas. Mesmo os
versos do IçâUpanishad deveriam constituir um Upanishads mais radicais, atacados pelo primeiro,
progresso6 – mais se parecem com as dissidências eram versos e sentenças rituais elaborados por
de esquerda de cliques e partidos poderosos, do que confrarias religiosas.11 João Baptista não chegou a
com as linhas principais dos movimentos históricos fundar uma religião, mas fundou uma oróem.12 Os
de onde teriam derivado posteriormente a filosofia cínicos criaram uma escola filosófica; seu fundador,
europeia, o cristianismo e a vigorosa religião védica. Antístenes, chegou a delinear uma teoria do
Como relata o próprio Deussen, o IçâUpanishad é o Estado.13 Os sistemas teóricos e práticos desses
texto que as colectâneas indianas costumam colocar marginais da história não são, todavia, tão rígidos e
em primeiro lugar, por conseguinte, muito antes dos centralizados, mas se distinguem dos sistemas bem-
textos dos quais deve representar uma superação. sucedidos pelo elemento de anarquia que contêm.
Não obstante, essa primeira parte contém de facto Para eles, as Ideias e o indivíduo valem mais do que
algo como uma traição do radicalismo juvenil, da a administração e a colectividade. É por isso que
oposição revolucionária à realidade dominante.
7
Ibid., p. 436.
8
Marcos, cap. I, vers. 6.
9
J’-orlesungen iiber die Geschichte der Philosop/,ie, vol. II.
3
Sou um fracasso. – É isso aí. (N. do T.) W.erke, vol. XIV, pp. 159 sg.
4 10
Paul Deussen, Sechzig Upanishad’s des Veda. Leipzig, lbid., p. 168.
11
1905, p. 524. Cf. Deussen, op. cit., p. 373.
5 12
Capítulo II, vers. 17-19. Cf. Eduard Meyer. Ursprung und Anfiing,e des
6
Sobretudo Brihadâranyaka-Upanishad 3.5.1 c 4.4.22. G.hristentums, Stuttgart e Berlim, 1921, vol. I, p. 90.
13
Deussen. op. cit.. pp. 436 sg. e 479 sg. Diógenes Laércio, IV, 15.

100
provocam a fúria. São os cínicos que Platão, o reivindicações materiais das massas, do mesmo
defensor da dominação, tem em vista, quando brada modo que o ascétismo, enquanto meio de disciplina
contra a equiparação das funções de um rei com as imposta pelas cliques, visa a adaptação à injustiça.
de um simples pastor e contra uma frouxa A acomodação materialista à realidade existente, o
organização da humanidade sem fronteiras egoísmo particular, estiveram sempre associados à
nacionais, tachando-as de Estado de porcos.14 Os renúncia, ao passo que o sonhador antiburguês visa
indivíduos que não transigem podem estar dispostos além da realidade existente, buscando num sentido
a se unir e cooperar, mas foram incapazes de bem materialista a terra onde corre o leite e o mel.
constituir uma sólida hierarquia fechada para baixo. No verdadeiro materialismo, encontramos superado
Nem em sua teoria, que carecia de unidade e o ascetismo; e, no verdadeiro ascetismo, o
coerência, nem em sua prática, que carecia de materialismo. A história dessas antigas religiões e
coordenação e, por isso, de ímpeto, seu modo de ser escolas, assim como a história dos partidos e
reflectia o mundo tal como realmente era. revoluções modernas, pode nos ensinar, ao
Eis a diferença formal entre os movimentos contrário, a lição que o preço da sobrevivência é a
radicais e os movimentos conformistas na religião e colaboração prática, a transformação da Ideia em
na filosofia: não é o conteúdo isolado que a dominação.
determina. Assim, por exemplo, não era
absolutamente pela ideia de ascese que se SOBRE A TEORIA DOS FANTASMAS
diferenciavam. A seita do asceta Gotama conquistou
o mundo asiático. Pois, em sua vida, ele demonstrou A teoria de Freud, segundo a qual a crença nos
um grande talento de organização. Mesmo se não fantasmas provém dos maus pensamentos dos vivos
excluiu os humildes de sua doutrina, como o relativamente aos mortos, mais precisamente, da
reformador Cankara,15 ele reconhecia lembrança de antigos desejos de morte, é
expressamente o direito de propriedade sobre outros excessivamente esquemática. O ódio pelos mortos é,
homens e se vangloriava dos “filhos de nobres ao mesmo tempo, ciúme e sentimento de culpa.
estirpes” que entravam para sua ordem, onde os Quem ficou para trás sente-se abandonado e imputa
párias “aparentemente não passavam de uma rara sua dor ao morto, tomando-o como sua causa. Na
exceção”.16 Desde o início, os discípulos eram etapa da humanidade onde a morte ainda aparecia
repartidos segundo o modelo bramânico.17 O como um prolongamento da vida, o abandono na
ingresso de aleijados, doentes, criminosos e muitos morte parece necessariamente uma traição, e até
outros era proibido.18 Perguntava-se aos postulantes mesmo a pessoa esclarecida não costuma estar
se tinham lepra, escrófulas, lepra branca, inteiramente liberta dessa antiga crença. A
tuberculose, epilepsia e mais ainda: “Você é consciência não consegue pensar a morte como um
homem? Você é seu próprio senhor? Você não tem nada absoluto, pois o nada absoluto não é algo que
dívidas? Você não está a serviço do rei?” etc. Em se pense. E quando o fardo da vida pesa de novo
consonância com o patriarcalismo brutal da 1ndia, a sobre os que ficaram, é compreensível que a
primitiva ordem budista mostrava grande relutância situação do morto lhe pareça como preferível. A
em aceitar as mulheres como discípulas. Elas tinham maneira pela qual muitas pessoas reorganizam a
que se submeter aos homens e, de facto, vida após a morte de um parente, dedicando um
permaneciam tuteladas.19 A ordem inteira gozava do culto activo ao morto ou, ao contrário,
favor dos governantes e se integrava perfeitamente racionalizando o esquecimento como prova de tato,
na vida indiana. é a contrapartida moderna da aparição de fantasmas,
O ascetismo e o materialismo, esses dois que, não sublimada, continua a grassar no
contrários, são ambos ambíguos. O ascetismo, espiritismo. Só a perfeita conscientização do horror
enquanto recusa de colaborar com uma ordem que temos pelo aniquilamento estabelece um
existente má, une-se, em face da opressão, às verdadeiro relacionamento com os mortos: a
unidade com eles. Pois, como eles, somos vítimas
14 das mesmas condições e da mesma esperança
Cf. República, 372; Político, 267 sgg. e Eduard Zeller,
Díe Philosophie der Griechen. Leipzig, 1922, 2.a parte, cap. I,
decepcionada.
pp. 325 sg., nota.
15
Cf. Deussen, Das System des V.edanta. Leipzig, 1906. 2.a Adendo
ed., pp. 63 sgg.
16
Hermann Oldenberg. Buddha. Stuttgart e Berlim, 1914, O transtorno das relações com os mortos – o
pp. 174 sg.
17
Cf. ibid., p. 386.
facto de que são esquecidos e embalsamados – é um
18
lbid., pp. 393 sg. dos sintomas da doença que afecta hoje nossa
19
Cf. ibid.” pp. 184 sgg. e 424 sgg.

101
experiência. Quase se poderia dizer que é o próprio facto, o que se faz com os mortos é rogar o que os
conceito da vida humana, enquanto unidade da antigos judeus consideravam a pior das pragas: não
história de um homem, que se tornou caduco: a vida se lembrar deles. Em face dos mortos os homens
do indivíduo passa a ser definida por seu mero desabafam o desespero de não serem mais capazes
contrário, o aniquilamento, mas perdeu toda de se lembrarem de si próprios.
coerência, toda continuidade da lembrança
consciente e da memória involuntária, perdeu todo QUAND MÊME21
sentido. Os indivíduos se reduzem a uma simples
sucessão de instantes punctuais que não deixam O que levou os homens a superar a própria
nenhum vestígio, ou melhor: seu vestígio é por eles inércia e a produzir obras materiais e espirituais foi
odiado como irracional, supérfluo, no sentido mais a pressão externa. Nisto têm razão os pensadores, de
literal: superado. Do mesmo modo que todo livro Demócrito a Freud. A resistência da natureza
que não tenha sido publicado recentemente e toda externa, a que se reduz em última análise a pressão,
tentativa de pensar a história fora do sector prolonga-se no interior da sociedade através das
especializado da ciência histórica, enerva os tipos classes e atua sobre cada indivíduo, desde sua
contemporâneos, assim também o que passou infância, na dureza de seus semelhantes. Os homens
enfurece os homens. O que um indivíduo foi e são suaves, quando desejam alguma coisa dos mais
experimentou no passado é anulado em face daquilo fortes, e brutais, quando o solicitante é mais fraco
que ele agora é, daquilo que ele agora tem e do que eles. Eis aí, até agora, a chave para penetrar
eventualmente daquilo para o que pode agora ser na essência da pessoa na sociedade.
utilizado. O primeiro conselho, ao mesmo tempo A conclusão de que o terror e a civilização são
bem-intencionado e ameaçador, que se costuma dar inseparáveis, que é a conclusão tirada pelos
ao emigrante e que consiste em esquecer todo o conservadores, é bem fundamentada. O que poderia
passado, já que não se pode transferi-lo, e anular levar os homens a se desenvolver, de modo a se
toda a vida pregressa para começar sem mais tornarem capazes de elaborar positivamente
cerimónias uma nova vida esse conselho visa tão- estímulos complicados, se não sua própria evolução
somente infligir verbalmente ao intruso espectral a permeada de esforços e desfechada pela resistência
mesma violência que as pessoas há muito externa? Primeiro, a resistência motivadora se
aprenderam a infligir a si próprias. As pessoas encarna no pai, depois ela cria mil cabeças: o
recalcam a história dentro de si mesmas e dentro das professor, o superior hierárquico, o cliente, o
outras, por medo de que ela possa recordar a ruína concorrente, os representantes dos poderes sociais e
de sua própria vida, ruína essa que consiste em larga estatais. Sua brutalidade estimula a espontaneidade
medida no recalcamento da história. O que se passa individual.
com todos os sentimentos, ou seja, a proscrição de A possibilidade de dosar no futuro a
tudo aquilo que não tenha valor mercantil, também severidade, a possibilidade de substituir por
se passa da maneira mais brutal com aquilo de que sanatórios os castigos sangrentos através dos quais a
não se pode sequer obter a reconstituição humanidade foi domada ao longo dos milénios, tudo
psicológica da força de trabalho: o luto. O luto isso parece um sonho. A coerção simulada é
torna-se a ferida que marca a civilização, a impotente, Foi sob o signo do carrasco que se
sentimentalidade associal que revela que ainda não realizou a evolução da cultura; nisso estão de acordo
se conseguiu comprometer inteiramente os homens o Génesis, que narra a expulsão do paraíso, e as
com o reino dos fins. Por isso o luto, mais do que Soirées de SaintPétersbourg. Sob o signo do
qualquer outra coisa, se vê desfigurado, carrasco estão o trabalho e o prazer. Querer negá-lo
conscientemente transformado numa formalidade significa esbofetear toda a ciência e toda a lógica.
social – coisa que o belo cadáver sempre foi para os Não se pode abolir o terror e conservar a civilização.
homens endurecidos. No funeral home e no Afrouxar o primeiro já significa o começo da
crematório, onde o morto é transformado em cinzas dissolução. As mais diferentes conclusões podem
transportáveis, numa incómoda propriedade, é de ser tiradas daí: da adoração da barbárie fascista à
facto muito pouco apropriado aos tempos atuais se busca de refúgio nos círculos do inferno. Mas há
descontrolar, e aquela menina que, ao descrever uma outra: zombar da lógica quando ela está contra
orgulhosamente o funeral de primeira classe a humanidade.
dedicado à sua avó, comentou: “a pity that daddy
lost control”,20 porque este derramara duas ou três PSICOLOGIA ANIMAL
lágrimas, exprime com perfeição a situação. De
20 21
Pena que o papai perdeu o controle. (N. do T.) Apesar de tudo. (N. do T.)

102
Um cachorro enorme atravessa a highway22. amargura infinita? – Só há uma expressão para a
Ele cai sob as rodas de um carro, ao prosseguir verdade: o pensamento que nega a injustiça. Se a
confiante seu caminho. Seu ar tranquilo mostra que insistência nos lados bons não for superada no todo
ele é, em outras circunstâncias, objecto de maiores negativo, ela transfigurará seu contrário: a violência.
cuidados, um animal doméstico a quem não se faz Com as palavras, posso intrigar, propalar, sugerir; é
nenhum mal. Mas será que os filhos da alta por aí que elas se vêem envolvidas como toda acção
burguesia, a quem não se faz nenhum mal, têm no na realidade, e é isso também a única coisa que a
rosto um ar tranquilo? Eles não foram objecto de mentira compreende. Ela insinua que até mesmo a
menores cuidados do que o cão que agora é recusa da ordem existente tem lugar a serviço de
atropelado. formas incipientes da violência, burocracias e
despotismos concorrentes. Em seu medo
PARA VOLTAIRE inominável, ela só pode e só quer enxergar o que ela
própria é. Tudo o que pertence a seu meio, isto é, à
Sua razão é unilateral, sussurra a razão linguagem usada como simples instrumento,
unilateral, você foi injusto com o poder. Você identifica-se à mentira, assim como as coisas se
trombeteou aos quatro ventos a ignomínia da tirania identificam umas às outras nas trevas. Mas, por mais
– pateticamente, plangentemente, sarcasticamente, verdadeira que seja a suposição de que não há
baruIhentamente. Mas o bem que o poder criou, nenhuma palavra de que a mentira não possa acabar
você omite. Sem a segurança que só o poder pode se servindo, não é através delas que sua bondade
instaurar, ele jamais poderia ter existido. Foi sob as resplandece, mas unicamente na dureza do
asas do poder que a vida e o amor brincaram, foram pensamento em face do poder. O ódio intransigente
elas que arrancaram à natureza hostil a felicidade de pelo terror perpetrado contra a última das criaturas
que você desfruta. – O que a apologética sugere é constitui a legítima gratidão dos que foram
verdadeiro e falso ao mesmo tempo. Apesar de poupados. A invocação do sol é idolatria. Só o olhar
todos os feitos do poder, só o poder pode cometer a voltado para a árvore ressecada por seu ardor faz
injustiça, pois só é injusto o julgamento seguido da pressentir a majestade do dia, que não precisa
execução, não o discurso do advogado que não é abrasar o mundo ao iluminá-lo.
aceito. O discurso só participa da injustiça geral na
medida em que ele próprio visa a opressão e CLASSIFICAÇAO
defende o poder em vez de defender a impotência. –
Mas o poder, sussurra de novo a razão unilateral, é Os conceitos universais, formados pelas
representado por homens. Ao expor o poder, você diversas ciências com base na abstracção ou na
faz desses homens um alvo. E depois deles virão axiomatização, constituem o material da
talvez outros piores. – A mentira diz a verdade. representação, assim como os nomes que servem
Quando os assassinos fascistas estão às portas, não para designar coisas individuais. A luta contra os
se deve açular o povo contra o governo fraco. Mas conceitos universais não tem sentido. Mas isso não
nem mesmo a aliança com o poder menos brutal tem nos diz o que pensar da dignidade do universal. O
por consequência lógica a necessidade de se calar que é comum a muitos indivíduos, ou o que
sobre as infâmias. O risco de prejudicar a boa causa reaparece sempre no indivíduo, não precisa
com a denúncia da injustiça que nos protege do absolutamente de ser mais estável, mais eterno, mais
diabo foi sempre, menor do que a vantagem que o profundo do que o particular. A escala dos géneros
diabo tirava quando se deixava a seu cargo a não é a escala da importância. Foi este justamente o
denúncia da injustiça. A que ponto deve ter chegado erro dos Eleatas e de todos os que os seguiram,
uma sociedade na qual só os crápulas ainda dizem a Platão e Aristóteles sobretudo.
verdade e onde Goebbels mantém viva a lembrança O mundo é único no tempo. A simples
dos linchamentos alegremente perpetrados! Não é o repetição dos aspectos que reaparecem sempre de
bem, mas o mal, que é objecto da teoria. Ela já novo como os mesmos parece mais uma vã e
pressupõe a reprodução da vida nas formas compulsiva ladainha do que a palavra salvadora. A
determinadas em cada caso. Seu elemento é a classificação é a condição do conhecimento, não o
liberdade, seu tema a opressão. Quando a linguagem próprio conhecimento, e o conhecimento por sua
se torna apologética, ela já está corrompida; por vez destrói a classificação.
essência, ela não pode ser nem neutra nem prática. –
Será que você não pode mostrar o lado bom e AVALANCHA
proclamar como princípio o amor, ao invés da
22
Estrada principal, auto-estrada. (N. do T.)

103
No presente não há mais nenhuma mudança. A linguagem mentirosa do locutor de rádio se
mudança das coisas é sempre a mudança para sedimenta no cérebro das pessoas como a imagem
melhor. Mas quando, em tempos como os nossos, a da linguagem e impede-as de falar umas com as
penúria é extrema, os céus se abrem e despejam seu outras, não apenas o louvor da Pepsi-Cola abafa o
fogo sobre aqueles que, de qualquer modo, já estão ruído do desmoronamento dos continentes, não
perdidos. apenas o modelo espectral dos heróis do cinema se
O que era comumente designado como o projecta sobre o abraço dos adolescentes e mesmo
social, o político, é a primeira coisa a dar essa sobre o adultério. O progresso separa literalmente as
impressão. A primeira página dos diários que, pessoas. O pequeno guichê da estação ou do banco
outrora, pareciam estranhos e vulgares às mulheres e possibilitava ao caixa cochichar com o colega e
crianças felizes – o jornal evocava as cervejarias e partilhar com ele seus pequenos segredos. As
as fanfarronadas –, a primeira página e suas janelas de vidro dos escritórios modernos, os salões
manchetes acabaram por invadir as casas como uma gigantescos onde inúmeros empregados trabalham
verdadeira ameaça. O rearmamento, os em comum, podendo ser facilmente vigiados pelo
acontecimentos de ultramar, a tensão no público e pelos chefes, não permitem mais nem
Mediterrâneo, e não sei que outros conceitos conversas particulares, nem idílios. Mesmo nas
grandiloquentes acabaram por mergulhar as pessoas repartições, o contribuinte está protegido do
numa verdadeira angústia até explodir a Primeira desperdício de tempo dos servidores. Mas os meios
Guerra Mundial. Surgiu então, com cifras cada vez de comunicação separam as pessoas também
mais vertiginosas, a inflação. Quando esta parou de fisicamente. A ferrovia foi substituída pelos
crescer, isso não significou nenhuma mudança, mas automóveis. O carro próprio reduz os contactos de
uma desgraça ainda maior, racionalização e viagem a hitchhikers23 algo inquietantes. As pessoas
desemprego. Quando as cifras eleitorais de Hitler viajam sobre pneus de borracha, rigorosamente
começaram a crescer, modestamente a princípio, isoladas umas das outras. Em compensação, só se
mas insistentemente, já estava claro que era o conversa num carro o que se discute em outro; a
movimento da avalancha. Os números eleitorais são conversa da família isolada está regulada pelos
típicos desse fenómeno. Quando, à noitinha das interesses práticos. Assim como toda família com
eleições pré-fascistas, começam a chegar os uma renda determinada gasta a mesma percentagem
resultados das diferentes regiões do país, um oitavo, com alojamento, cinema, cigarros, exactamente
um dezasseis avos já antecipa o total. Se dez ou como a estatística prescreve, assim também os
vinte distritos tomaram em bloco uma direcção, os temas são esquematizados segundo as classes de
cem restantes não se oporão a ela. Já é um estado de automóveis. Quando se encontram, aos domingos ou
espírito uniforme. A essência do mundo coincide viajando, em hotéis onde as acomodações e os
com a lei estatística pela qual sua superfície é cardápios são idênticos em cada faixa de preços, os
classificada. hóspedes descobrem que se tornaram, com o
Na Alemanha, o fascismo venceu sob uma isolamento, cada vez mais semelhantes. A
ideologia crassamente xenófoba, anticultural e comunicação cuida da assimilação dos homens
colectivista. Agora que ele está devastando a terra, isolando-os.
os povos têm que lutar contra ele, não há saída. Mas
quando tudo houver acabado, não é preciso que o PARA UMA CRITICA DA FILOSOFIA DA
espírito da liberdade se difunda sobre a Europa, suas HISTÓRIA
nações podem se tornar tão xenófobas, hostis à
cultura e pseudocoletivistas como era o fascismo do Não é a espécie humana que constitui, como já
qual tiveram que se defender. Mesmo a sua derrota se disse, um desvio na história natural, uma
não interrompe necessariamente o movimento da anomalia ou má-formação devida à hipertrofia do
avalancha. cérebro. Isso vale apenas para a razão em certos
O princípio da filosofia liberal era: “Não indivíduos e talvez, em curtos períodos, para alguns
apenas – Mas também.” Hoje parece vigorar o “Ou- países nos quais a economia deixou uma margem de
Ou”, mas como se o pior já houvesse sido escolhido. aço a semelhantes indivíduos. O órgão cerebral, a
inteligência humana, é bastante robusto para
ISOLAMENTO PELOS MEIOS DE constituir uma época regular da história terrestre. A
COMUNICAÇAO espécie humana juntamente com suas máquinas,
produtos químicos, forças organizatórias – e por que
A afirmação que o meio de comunicação isola não deveríamos atribuí-las à espécie humana assim
não vale apenas no domínio cultural. Não apenas a
23
Caronistas, caronas. (N. do T.)

104
como os dentes aos ursos, já que servem aos como poderia dar a entender o uso que o indivíduo
mesmos fins e só funcionam melhor? – é, nesta às vezes faz dela. Sua astúcia consiste em fazer dos
época, o dernier cri24 da adaptação. Os homens não homens feras dotadas de um poder cada vez mais
apenas superaram seus antecessores imediatos, mas extenso, e não em estabelecer a identidade do
já os exterminaram mais radicalmente do que sujeito e do objecto.
qualquer outra espécie, sem excluir os sáurios Uma construção filosófica da história
carnívoros. universal teria que mostrar como, apesar de todos os
Comparado a isso, parece uma ideia desvios e resistências, a dominação consequente da
extravagante a pretensão de construir a história natureza se impõe de uma maneira cada vez mais
universal, como fez Hegel, em função de categorias decidida e passa a integrar toda a interioridade
como liberdade e justiça. Pois essas categorias humana. Desse ponto de vista, dever-se-iam deduzir
provêm dos indivíduos anómalos, os indivíduos que, também as formas da economia, da dominação, da
do ponto de vista do todo, nada significam, a não ser cultura. É só no sentido do salto da quantidade para
que ajudaram a provocar condições sociais a qualidade que a ideia do super-homem poderia ser
transitórias em que se fabricam muitas máquinas e aplicada. Do mesmo modo que se poderia chamar o
produtos químicos, úteis para fortalecer a espécie e aviador, capaz de, em poucos voos, expurgar os
subjugar as outras. Do ponto de vista dessa história últimos continentes dos últimos animais livres com
séria, todas as ideias, proibições, religiões e credos um produto tóxico, de um super-homem comparado
políticos são interessantes apenas na medida em ao troglodita, assim também poderia surgir um
que, resultando de diversas condições, aumentam ou superanfíbio humano perto do qual o aviador actual.
diminuem as chances da espécie humana sobre a pareceria uma andorinha inofensiva. É duvidoso que
terra ou no universo. Libertar os burgueses da possa surgir na história natural uma genuína espécie
injustiça do passado feudalista e absolutista serviu, imediatamente superior ao homem. Pois o que há de
através do liberalismo, para desencadear o correcto no antropomorfismo é que a história
maquinismo, assim como a emancipação da mulher natural, por assim dizer, não contava com o lance de
desemboca em seu adestramento como parte das sorte que ela logrou criando o homem. A capacidade
forças militares. O espírito é uma monstruosidade e de destruição do homem ameaça tornar-se tão
tudo o que há de bom em sua origem e em sua grande que, quando vier a se esgotar, esta espécie
existência está inextricavelmente envolvido neste terá feito tabula rasa da natureza. Ou bem há de se
horror. O soro que o médico administra à criança dilacerar a si mesma, ou bem arrastará consigo para
doente se deve a um ataque contra uma criatura a destruição a fauna e a flora inteiras da terra, e se a
indefesa. As expressões de carinho dos amantes terra ainda for bastante jovem, a coisa toda – para
assim como os mais sagrados símbolos do variar uma frase célebre – deve começar de novo a
cristianismo ainda lembram o prazer de comer a um nível muito mais baixo.
carne do cordeiro, do mesmo modo que este prazer Quando a filosofia da história transpôs as
ainda lembra o respeito ambivalente pelo animal ideias humanas como forças atidas para dentro da
totêmico. Até mesmo a aptidão para a cozinha, a própria história e fez com que esta terminasse com o
igreja e o teatro é uma consequência da divisão triunfo dessas ideias, elas foram privadas da
refinada do trabalho que se faz a expensas da ingenuidade que faz parte de seu conteúdo. O papel
natureza dentro e fora da; sociedade humana. É no ridículo que fizeram, quando a economia, isto é, a
aumento retroactivo dessa organização que reside a força, não estava de seu lado, é o ridículo de todos
função histórica da cultura. Por isso, o pensamento os fracos, e é nele que os autores, sem querer, se
genuíno que se desliga dessa função, isto é, a razão identificam com a opressão que pretendiam abolir.
em sua forma. pura, assume os traços da loucura que Na filosofia da história repete-se “o que aconteceu
os autóctones sempre notaram. Se essa razão no cristianismo: o bem, que na verdade permanece
conquistasse uma vitória decisiva na humanidade, a entregue ao sofrimento, é disfarçado como uma
hegemonia da espécie estaria ameaçada. A teoria do força determinando o curso da história e triunfando
desvio tornar-se-ia finalmente verdadeira. Mas essa no final. Ele é divinizado como espírito do mundo
teoria, que pretendia cinicamente servir à crítica da ou, pelo menos, como uma lei imanente. Mas, desse
filosofia da história antropocêntrica, é ela própria modo, não apenas a história se vê directamente
excessivamente antropocêntrica para se impor como convertida em seu contrário, mas a própria Ideia,
correcta. A razão desempenha o papel do que devia romper a necessidade, o curso lógico do
instrumento de adaptação e não do tranquilizante, acontecer, é desfigurada. O risco do desvio é
evitado. A impotência erroneamente tomada pelo
24
Literalmente: o último grito, i.e., a última moda. (N. do poder é mais uma vez denegada mediante essa
T.)

105
elevação e, por assim dizer, subtraída à lembrança. torturado até a morte, para incutir na massa da
Assim, o cristianismo, o idealismo e o materialismo, população o respeito pela ordem e pela lei, porque o
que, a rigor, também contêm a verdade, têm também exemplo da severidade e da crueldade educa os
a sua culpa pelas patifarias cometidas em seu nome. severos e os cruéis para o amor. A pena de prisão
Como mensageiros do poder (ainda que do poder do regular pressupõe uma crescente necessidade de
bem), eles se tornaram eles próprios potências força de trabalho e reflecte o modo de vida burguês
históricas dotadas da força de organização e como sofrimento. As fileiras de células na moderna
desempenharam enquanto tais seu papel penitenciária representam mônadas no autêntico
sanguinolento na história real da espécie humana: o sentido de Leibniz. “As mônadas não têm janelas
papel de instrumentos da organização. pelas quais algo possa entrar ou sair. Os acidentes
Visto que a história enquanto correlato de uma não podem se desprender ou se mover fora das
teoria unitária, como algo de construível, não é o substâncias, como o faziam outrora as formas
bem, mas justamente o horror, o pensamento, na sensíveis dos filósofos escolásticos. Nem a
verdade, é um elemento negativo. A esperança de substância nem o acidente podem penetrar de fora
uma melhoria das condições, na medida em que não para dentro em uma mônada.”25 As mônadas não
é uma mera ilusão, funda-se menos na asseveração têm nenhuma influência directa umas sobre as
de que e1as seriam as condições garantidas, estáveis outras; quem regula e coordena sua vida é Deus,
e definitivas, do que precisamente na falta de vale dizer, a Direção.26 A absoluta solidão, o retomo
respeito por tudo aquilo que está tão solidamente forçado ao próprio eu, cujo ser se reduz à elaboração
fundado no sofrimento geral. A paciência infinita, o de um material no ritmo monótono do trabalho,
impu1so delicado e inextinguível que leva a criatura delineiam como um espectro horrível a existência
a buscar a expressão e a luz, que parece abrandar e do homem no mundo moderno. O isolamento
apaziguar em si mesma a violência da evolução radical e a redução radical ao mesmo nada sem
criadora, não prescreve, como as filosofias racionais esperança são idênticos. O homem na penitenciária
da história, nenhuma práxis determinada como a é a imagem virtual do tipo burguês em que ele deve
práxis salvadora, nem sequer a não-resistência. O se transformar na realidade. Os que não o fizerem lá
primeiro clarão da razão, que se anuncia nesse fora serão forçados a isso aí dentro numa terrível
impulso e se reflecte no pensamento recordante do pureza. Justificar a existência de penitenciárias com
homem, encontrará, mesmo em seu dia mais feliz, a necessidade de separar o criminoso da sociedade,
sua contradição insuperável: a fatalidade que a razão ou mesmo de regenerá-lo, não atinge o âmago da
sozinha não consegue mudar. questão. Elas são a imagem do mundo do trabalho
burguês levado às últimas consequências, imagem
MONUMENTOS DA HUMANIDADE essa que o ódio dos homens coloca no mundo como
um símbolo contra a realidade em que são forçados
A humanidade sempre se sentiu mais à a se transformar. O indivíduo fraco, atrasado,
vontade na França do que em qualquer outro lugar. animalizado tem que sofrer, qualificado, uma forma
Mas os franceses não o sabiam. mais. O que se de vida à qual se resigna sem amor; encamiçada, a
encontrava em seus livros era ideologia, facilmente violência introvertida repete-se nele. O criminoso
reconhecível por qualquer um. O que havia de que, ao cometer seu crime, pôs sua autoconservação
melhor levava uma vida separada: na inflexão da acima de tudo, tem na verdade um eu mais fraco e
voz, no torneio da frase, na cozinha refinada, nos mais instável, e o criminoso contumaz é um débil.
bordéis e nos mictórios de ferro fundido. Mas o Os prisioneiros são doentes. Sua fraqueza
governo Blum já havia declarado guerra a colocou-os numa situação que já havia atacado e
semelhante respeito do indivíduo, e os próprios continua a atacar o corpo e o espírito. A maioria
conservadores fizeram muito pouco para proteger deles já estava doente quando cometeram o crime
seus monumentos. que os jogou na prisão: por causa de sua
constituição e das circunstâncias. Outros agiram
FRAGMENTO DE UMA TEORIA DO como teria agido qualquer pessoa sadia na mesma
CRIMINOSO constelação de estímulos e motivos, só não tiveram
sorte. Os restantes eram mais cruéis e ruins do que a
...Assim como o criminoso, a pena de privação maioria dos homens livres, tão ruins e cruéis em sua
da liberdade também era uma instituição burguesa. pessoa quanto os donos fascistas do mundo pela
Na Idade Média, encarceravam-se os infantes reais
que simbolizassem uma incómoda pretensão 25
Leibniz. La Monadologie. Ed. Erdmann. Berlim, 1840, §
dinástica. O criminoso, em compensação, era 7, p. 705.
26
Cf. ibid., § 51, p. 709.

106
posição que ocupam. O acto do criminoso comum é não violentam o corpo, mas vão directo à alma,
obtuso, pessoal, imediatamente destrutivo. É assim também os castigos dessa espécie atacam a
provável que a substância viva, que é a mesma em alma. Seus supliciados não morrem mais amarrados
cada um, não conseguisse fugir a uma pressão da à roda após longos dias e noites, mas apodrecem
constituição física e do destino individual com a espiritualmente, como um exemplo invisível e
mesma força da pressão que levou o criminoso a silencioso, dentro dos enormes prédios das prisões,
esses actos extremos, de tal sorte que qualquer um que só o nome, na prática, separa dos manicómios.
de nós teria agido do mesmo modo que o assassino, O fascismo absorve os dois. A concentração
não houvesse um feliz encadeamento de do comando sobre a produção inteira traz de volta a
circunstâncias nos concedido a graça do sociedade ao nível da dominação directa. Com o
discernimento. E agora, como prisioneiros, eles são desaparecimento da necessidade de fazer um rodeio
apenas indivíduos que sofrem, e a punição que lhes passando pelo mercado no interior das nações,
é infligida é um castigo cego, um acontecimento desaparecem também as mediações espirituais, entre
alheio à sua vontade, uma desgraça como o câncer elas o direito. O pensamento que se desenvolvera na
ou o desmoronamento de uma casa. A prisão é uma transação, como resultado do egoísmo forçado a
longa moléstia. ~ o que revela a expressão dos negociar, se reduz ao planejamento da apropriação
prisioneiros, o andar cauteloso, a maneira violenta. O fascista capaz de genocídios surgiu
complicada de pensar. Como os doentes, eles só como a pura essência do fabricante alemão, só o
conseguem falar de sua doença. poder distingue-o ainda do criminoso. O rodeio
Quando os limites entre o banditismo tornou-se desnecessário. O direito civil, que
respeitável e o banditismo ilegal são objectivamente continuava a funcionar para dirimir os litígios dos
fluidos, como acontece hoje em dia, os tipos empresários que sobreviviam à sombra da grande
psicológicos também se confundem. Mas, enquanto indústria, tornou-se uma espécie de tribunal arbitral,
os criminosos eram doentes, como no século uma forma de justiça dispensada aos inferiores e não
dezanove, a prisão representou o inverso de sua levando mais em conta os interesses dos
fraqueza. A energia necessária para se destacar concernidos, em suma, o puro terror. Mas era
como um indivíduo do mundo ambiente e, ao através da protecção legal, agora em vias de
mesmo tempo, para estabelecer uma ligação com desaparecer, que a propriedade era definida. O
ele, através das formas de comunicação autorizadas, monopólio, enquanto forma acabada da propriedade
e assim nele se afirmar estava corroída no privada, destrói esse conceito. Do contrato social e
criminoso. Ele representava uma tendência político, que o fascismo substitui por tratados
profundamente arraigada no ser vivo e cuja secretos nas relações entre as potências, o fascismo
superação é um sinal de evolução: a tendência a só conserva no interior do país a coerção do
perder-se em vez de impor-se activamente no meio universal que seus servidores impõem
ambiente, a propensão a se largar, a regredir à espontaneamente ao resto da humanidade. No
natureza. Freud denominou-a pulsão de morte, Estado total, o crime e o castigo são liquidados
Caillois le mimétisme.27 Um vício semelhante como resíduos supersticiosos, e a prática do puro e
atravessa tudo o que se opõe ao progresso inflexível, simples extermínio dos recalcitrantes, certa de seu
desde o crime, que é um atalho evitando as formas objectivo político, vai se difundindo sob o regime
atuais do trabalho, até a obra de arte sublime. A dos criminosos pela Europa inteira. Comparada ao
moleza com respeito às coisas, sem a qual não existe campo de concentração, a penitenciária parece uma
a arte, não está tão afastada da violência crispada do lembrança dos bons velhos tempos, assim como a
criminoso. A incapacidade de dizer “não” que folha de anúncios de outrora, que, embora já
arrasta a adolescente à prostituição determina deixasse transparecer a verdade, também parece
igualmente a carreira do criminoso. No criminoso, é uma lembrança de bons tempos comparada à revista
a negação desprovida da resistência. É contra essa impressa em papel brilhante e tendo um conteúdo
fluidez, que, sem consciência determinada, tímida e literário que preenche ainda melhor do que os
impotente (mesmo em sua forma mais brutal), imita anúncios – mesmo quando trata de Miguel Angelo –
e ao mesmo tempo destrói a civilização impiedosa, a função de boletim comercial, sinal de dominação e
que esta eleva as sólidas muralhas das casas de propaganda. O isolamento, que outrora se infligia de
detenção e de correcção, que é seu ideal fixado na fora aos prisioneiros, se generalizou neste meio
pedra. Assim como, segundo Tocqueville, as tempo e se instilou no sangue e na carne dos
repúblicas burguesas, ao contrário das monarquias, indivíduos. Sua alma bem adestrada e sua felicidade
são tão desoladoras como as células da prisão, que
27
Cf. R. Cajllois, Le Mythe et L ‘Homme. Paris, 1938. pp. os donos do poder já podem dispensar, porque a
125 sgg.

107
totalidade da força de trabalho das nações caiu presa psíquico permanente nos doentes ou mesmo levem,
deles. A privação de liberdade é um pálido castigo durante a anestesia, a uma morte indescritivelmente
comparado com a realidade social. dolorosa, cujas peculiaridades permanecerão
eternamente ocultas aos parentes e ao mundo, Não
LE PRIX DU PROGRÉS28 seria este um preço excessivamente alto a pagar pelo
progresso?”
Numa carta recém-descoberta do fisiologista Se Flourens tivesse razão nesta carta, os
francês Pierre Flourens, que gozou um dia a triste obscuros caminhos do governo divino do mundo
gl6ria de ter sido eleito, concorrendo com Victor estariam pelo menos justificados. O animal estaria
Rugo, para a Academia Francesa, encontra-se uma vingado pelo sofrimento de seu carrasco: cada
estranha passagem: operação seria uma vivissecção. Surgiria então a
“Ainda não consigo aprovar a utilização do suspeita de que não nos comportamos com os
clorofórmio na prática corrente das operações. homens e com as criaturas em geral de maneira
Como o senhor sabe, consagrei a essa droga estudos diferente da maneira pela qual nos comportamos em
aprofundados e, baseando-me em experiências relação a nós mesmos depois de ter sofrido uma
efectuadas com animais, fui um dos primeiros a operação, ou seja, cegos para o sofrimento. O
descrever suas propriedades específicas. Meus espaço que nos separa dos outros significaria, para o
escrúpulos se fundam no simples facto de que as conhecimento, a mesma coisa que o tempo que se
operações praticadas com o auxílio do clorofórmio intercala entre nós e o sofrimento de nosso próprio
representam sem dúvida um embuste tão grande passado, a saber, uma barreira insuperável. Mas a
quanto as outras formas conhecidas de anestesia. As dominação perene da natureza, a técnica médica e
drogas utilizadas agem unicamente sobre certos não-médica, tira sua força dessa cegueira; só o
centros motores e de coordenação, bem como sobre esquecimento a tornaria possível. A perda da
a capacidade residual da substância nervosa. Sob a lembrança como condição transcendental da ciência.
influência do clorofórmio, ela perde uma parte Toda reificação é um esquecimento.
importante de sua aptidão a registrar vestígios de
impressões sensoriais, mas de modo nenhum a VÃO ESPANTO
capacidade sensorial enquanto tal. Minhas
observações mostram, ao contrário, que, em O olhar fixado na desgraça tem algo da
consequência da paralisia geral da inervação, as fascinação. Mas também algo de uma secreta
dores são sentidas ainda mais vivamente do que no cumplicidade. A má consciência social latente em
estado normal. O logro do público resulta da todos os que participam da injustiça e o ódio pela
incapacidade do paciente de lembrar-se após a vida realizada são tão fortes que, em situações
operação do que se passou. Se disséssemos a críticas, eles se voltam imediatamente contra o
verdade a nossos doentes, é provável que nenhum interesse do próprio indivíduo como uma vingança
deles escolheria essa droga, ao passo que agora, por imanente. Disso há, entre os burgueses franceses,
causa de nosso silêncio, costumam insistir no seu um exemplo fatal, que se assemelhava ironicamente
uso. ao ideal heróico dos fascistas: eles se alegravam
‘Mas, mesmo se fizermos abstracção do facto com o triunfo de seus iguais, como o que se
de que a única e duvidosa vantagem é um exprimiu na ascensão de Hitler, mesmo quando ele
enfraquecimento da memória relativa ao tempo da os ameaçava de ruína; eles chegavam mesmo a
intervenção, a difusão dessa prática parece-me tomar sua ruína como prova da justiça da ordem que
apresentar um outro risco sério. Dado que a defendiam. Uma prefiguração desse comportamento
formação académica geral de nossos médicos é cada é a atitude de muitos ricos em face do
vez mais superficial, a medicina poderia se ver empobrecimento, cuja imagem invocam para
encorajada pelo emprego ilimitado dessa droga a racionalizar a parcimónia, sua tendência latente
empreender despreocupadamente intervenções (apesar da tenacidade com que lutam por cada
cirúrgicas cada vez mais complicadas e mais graves. tostão) a eventualmente renunciar sem luta a todas
Em vez de proceder a essas experiências com as suas posses ou a colocá-las irresponsavelmente
animais para fins de pesquisa, nossos pacientes em jogo. No fascismo, eles conseguem realizar a
serão suas cobaias inocentes. É concebível que as síntese entre a cupidez de mandar e o ódio de si
excitações dolorosas, que, em razão de sua natureza mesmo, e o vão espanto é sempre acompanhado do
específica, podem ultrapassar todas as sensações gesto: foi assim que sempre imaginei as coisas.
conhecidas dessa espécie, provoquem um dano
O INTERESSE PELO CORPO
28
O preço do progresso. (N. do T.)

108
propagando, reforçava ao mesmo tempo, com o
Sob a história conhecida da Europa corre, controle sobre o corpo, essa obscena maldade que é
subterrânea, uma outra história. Ela consiste no o amor-ódio pelo corpo, que permeia a mentalidade
destino dos instintos e paixões humanas recalcados das massas ao longo dos séculos e que encontrou na
e desfigurados pela civilização. O fascismo atual., linguagem de Lutero sua expressão autêntica. Na
onde o que estava oculto aparece à luz do dia, revela relação do indivíduo com o corpo, o seu e o de
também a história manifesta em sua conexão com outrem, a irracionalidade e a injustiça da dominação
esse lado nocturno que é ignorado tanto na legenda reaparecem como crueldade, que está tão afastada
oficial dos Estados nacionais, quanto em sua crítica de uma relação compreensiva e de uma reflexão
progressista. feliz, quanto a dominação relativamente à liberdade.
Essa espécie de mutilação afecta sobretudo a Nietzsche, em sua teoria da crueldade, e sobretudo
relação com o corpo (Korper). A divisão do Sade reconheceram a importância desse factor, e
trabalho, onde o desfrute foi para um lado e o Freud interpretou-o psicologicamente em sua teoria
trabalho para o outro, proscreveu a força bruta. do narcisismo e da pulsão de morte.
Quanto menos os senhores podiam dispensar o O amor-ódio pelo corpo impregna toda a
trabalho dos outros, mais desprezível ele se tornava cultura moderna. O corpo se vê de novo escarnecido
a seus olhos. Assim como o escravo, também o e repelido como algo inferior e escravizado, e, ao
trabalho foi estigmatizado. O cristianismo louvou o mesmo tempo, desejado como o proibido, reificado,
trabalho, mas em compensação humilhou ainda alienado. É só a cultura que conhece o corpo como
mais a carne como fonte de todo mal. Ele anunciou coisa que se pode possuir; foi só nela que ele se
a ordem burguesa moderna -:em uníssono com o distinguiu do espírito, quinta-essência do poder e do
pagão Maquiavel – cantando o louvor do trabalho comando, como objecto, coisa morta, “corpus”.
que, mesmo no Velho Testamento, era considerado Com o auto-rebaixamento do homem ao corpus, a
como uma maldição. Para os Patriarcas do Deserto, natureza se vinga do facto de que o homem a
São Doroteu) Moisés o Ladrão, Paulo o Simples e rebaixou a um objecto de dominação, de matéria
outros pobres de espírito. o trabalho servia ainda bruta. A compulsão à crueldade e à destruição tem
directamente para entrar no céu. Para Lutero e origem no recalcamento orgânico da proximidade ao
Calvino, o laço que ligava o trabalho à salvação já corpo, de maneira análoga ao surgimento do nojo,
era tão complexo que a exortação febril ao trabalho, que teve origem, de acordo com a intuição genial de
típica da Reforma, quase parece um escárnio, como Freud, quando, com a postura erecta e o afastamento
uma bota pisando um verme. da terra, o sentido do olfacto, que atraía o animal
Os príncipes e patrícios podiam ignorar o humano para a fêmea menstruada, tornou-se objecto
abismo religioso que se abrira entre sua vida de um recalcamento orgânico. Na civilização
terrestre e seu destino eterno pensando nos ocidental e provavelmente em toda civilização, o
rendimentos que tiravam das horas de trabalho dos corpo é tabu, objecto de atracção e repulsão. Para os
outros. A irracionalidade da graça divina abria-lhes senhores da Grécia e do feudalismo, a relação com o
a possibilidade da salvação. Sobre os outros, porém, corpo ainda era determinada pela habilidade e
só recaía uma pressão ainda mais forte. Eles destreza pessoal como condição da dominação. O
pressentiam surdamente que a humilhação da carne cuidado com o corpo (Leib) tinha, ingenuamente,
pelo poder nada mais era do que o reflexo uma finalidade social. O kalos kagathos29 só em
ideológico da opressão a que eram submetidos. O parte era uma aparência, o ginásio servindo, por
destino dos escravos da antiguidade foi o destino de outra parte, para preservar o poder pessoal, pelo
todas as vítimas até os modernos povos colonizados: menos como training para uma postura dominadora.
eles tinham que passar como sendo os piores. Havia Quando a dominação assume completamente a
duas raças na natureza: os superiores e os inferiores. forma burguesa mediatizada pelo comércio e pelas
A libertação do indivíduo europeu realizou-se em comunicações e, sobretudo, quando surge a
ligação com uma transformação geral da cultura, indústria, começa a se delinear uma mutação formal.
que aprofundava cada vez mais a divisão, à medida A humanidade deixa-se escravizar, não mais pela
que diminuía a coerção física exercida de fora. O espada, mas pela gigantesca aparelhagem que acaba,
corpo explorado devia representar para os inferiores é verdade, por forjar de novo a espada. É assim que
o que é mau e o espírito, para o qual os outros desapareceu o sentido racional para a exaltação do
tinham o ócio necessário, devia representar o sumo corpo viril; as tentativas dos românticos, nos séculos
bem. Esse processo possibilitou à Europa realizar dezanove e vinte, de levar a um renascimento do
suas mais sublimes criações culturais, mas o corpo (Leib) apenas idealizam algo de morto e
pressentimento do logro, que desde o início foi se
29
Belo e bom. (N. do T.)

109
mutilado. Nietzsche, Gauguin, George, Klages dinheiro e posição, todos os lobisomens que vivem
reconheceram a inominável estupidez que é o nas trevas da história e alimentam o medo sem o
resultado do progresso. Mas tiraram a conclusão qual não haveria nenhuma dominação: neles, o
errada. Não denunciaram a injustiça como ela é, mas amor-ódio pelo corpo é brutal e imediato, eles
transfiguraram a injustiça como ela era. A reacção profanam tudo o que tocam, aniquilam tudo o que
contra a mecanização tornou-se o adorno da cultura vêem à luz, e esse aniquilamento é o rancor pela
industrial de massa, que não consegue abrir mão dos reificação, eles repetem numa fúria cega sobre o
gestos nobres. Os artistas, a contragosto, prepararam objecto vivo tudo o que não podem mais fazer
para a publicidade a imagem perdida da unidade do desacontecer: a cisão da vida no espírito e seu
corpo (Leib) e da alma. A exaltação dos fenómenos objecto. O homem os atrai irresistivelmente, eles
vitais, da fera loura ao nativo das ilhas do Sul, querem reduzi-lo ao corpo, nada deve continuar a
desemboca inevitavelmente no filme de sarongues, viver. Essa hostilidade dos inferiores, outrora
no cartaz publicitário das drágeas de vitaminas e dos cuidadosamente cultivada e alimentada pelos
cremes para a pele, que são apenas os substitutos do superiores laicos e espirituais, à vida que neles se
objectivo imanente da publicidade: o novo, grande, atrofiou e com a qual se relacionam, homossexual e
belo e nobre tipo humano, vale dizer, dos chefes paranoicamente, pelo homicídio, essa hostilidade foi
fascistas e suas tropas. Os chefes fascistas voltam a sempre um instrumento indispensável para a arte de
tomar em suas próprias mãos os instrumentos do governar. A hostilidade dos escravizados à vida é
assassínio, eles executam seus prisioneiros com a uma força inexaurível da esfera nocturna da história.
pistola e a chibata, mas não com base em sua força Até mesmo o excesso puritano, a bebedeira, é uma
superior, mas porque esse aparelho gigantesco e vingança desesperada contra a vida. O amor da
seus verdadeiros potentados, que continuam a não propaganda totalitária pela natureza e pelo destino é
fazê-lo com as próprias mãos, entregam-lhes as apenas uma superficial formação reactiva a essa
vítimas da razão de Estado nos porões dos quartéis- servidão ao corpo, à civilização malograda. Não
generais. podemos nos livrar do corpo e nós o louvamos
Não se pode mais reconverter o corpo físico quando. não podemos golpeá-lo. A cosmovisão
(Korper) no corpo vivo (Leib).30 Ele permanece um “trágica” do fascista são vésperas ideológicas a
cadáver, por mais exercitado que seja. A festejar verdadeiras núpcias de sangue. Os que na
transformação em algo de morto, que se anuncia em Alemanha louvavam o corpo, os ginastas e os
seu nome, foi uma parte desse processo perene que excursionistas, sempre tiveram com o homicídio a
transformava a natureza em matéria e material. As mais íntima afinidade, assim como os amantes da
obras da civilização são o produto da sublimação, natureza com a caça. Eles vêem o corpo como um
desse amor-ódio adquirido pelo corpo e pela terra, mecanismo móvel, em suas articulações as
dos quais a dominação arrancou todos os homens. A diferentes peças desse mecanismo, e na carne o
medicina torna produtiva a reacção psíquica à simples revestimento do esqueleto. Eles lidam com
corporificação do homem (Verkorperung); a técnica, o corpo, manejam seus membros como se estes já
a reacção à reificação da natureza inteira. Mas o estivessem separados. A tradição judia conservou a
assassino, o homicida, os colossos animalizados, aversão de medir as pessoas com um metro, porque
que são secretamente empregados pelos donos do é do morto que se tomam as medidas – para o
poder – legais e ilegais, grandes e pequenos – como caixão. É nisso que encontram prazer os
seus executores, os homens violentos, que estão manipuladores do corpo. Eles medem o outro, sem
sempre aí quando se trata de eliminar alguém, os saber, com o olhar do fabricante de caixões, e se
linchadores e os membros da Ku-Klux-Klan, o traem quando anunciam o resultado, dizendo, por
brutamontes que logo se ergue quando alguém exemplo, que a pessoa é comprida, pequena, gorda,
começa a querer aparecer, as figuras terríveis às pesada. Eles estão interessados na doença, à mesa já
quais a gente se vê entregue tão logo a mão estão à espreita da morte do comensal, e seu
protectora do poder se retira, quando se perde interesse por tudo isso é só muito superficialmente
racionalizado como interesse pela saúde. A
30
Na linguagem corrente, Korper e Leib são sinônimos. Não
linguagem acerta o passo com eles. Ela transformou
é raro, contudo, que o termo Korper seja usado por filósofos o passeio em movimento e os alimentos em calorias,
para designar o físico, e o termo Leib para designar o orgânico, de maneira análoga à designação da floresta viva na
o corpo vivo, como ocorre nesta frase. Não é certo, porém, que língua inglesa e francesa pelo mesmo nome que
os autores façam essa distinção sempre que usam um ou outro significa também “madeira”. Com as taxas de
termo. Por isso, optamos por traduzir os dois termos por
“corpo”, em consonância com o uso normal, mas colocando,
mortalidade, a sociedade degrada a vida a um
para controle do leitor, o termo Leib entre parênteses, sempre processo químico. Na diabólica humilhação do
que este aparece no original. (N. do T.)

110
prisioneiro no campo de concentração, que o certo modo, se vê recompensada por sua
carrasco moderno acrescenta sem um sentido desintegração. Os líderes tornaram-se totalmente o
racional a seu martírio, desponta a rebelião não- que sempre foram um pouco durante toda a era
sublimada e, no entanto, recalcada da natureza burguesa: actores representando o papel de líderes.
condenada. Ela atinge em toda sua atrocidade o A distância entre a individualidade de Bismarck e a
mártir do amor, o pretenso criminoso sexual e de Hitler é praticamente a mesma que existe entre a
libertino, pois o sexo é o corpo não-reduzido, aquilo prosa dos Pensamentos e Recordações e a algaravia
pelo que anseiam secreta e desesperadamente todos de Mein Kampf {Minha Luta). Os que lutam contra
eles Na sexualidade livre, o assassino teme a o fascismo não têm o menor interesse em reduzir as
imediatidade perdida, a unidade originária, na qual imagines31 inflaccionadas do Fuhrer à real medida
não pode mais viver. Ela é o morto que ressurge de sua nulidade. O filme de Chaplin tocou pelo
para a vida. O assassino reduz tudo a uma única menos um ponto essencial, mostrando a semelhança
coisa, reduzindo-a a nada, porque ele tem que entre o barbeiro do gueto e o ditador.
sufocar a unidade dentro de si mesmo. A vítima
representa para ele a vida que superou a separação, CONTRADIÇOES
ela, a vida, deve ser quebrada e o universo deve se
reduzir ao pó e ao poder abstracto. Uma moral como sistema, com princípios e
conclusões, uma lógica férrea e a possibilidade de
SOCIEDADE DE MASSAS uma aplicação segura a todo dilema moral – eis aí o
que se pede aos filósofos. Em geral, eles
O culto dos astros do cinema tem como responderam a essa expectativa. Mesmo quando não
complemento da celebridade o mecanismo social estabeleceram nenhum sistema prático ou uma
que nivela tudo o que chama a atenção. Os astros casuística elaborada, eles conseguiram deduzir do
são apenas os moldes para uma indústria de sistema teórico a obediência à autoridade. Na
confecção de dimensões mundiais e para a tesoura maioria das vezes, voltaram a fundamentar,
da justiça legal e económica, com a qual se valendo-se dos recursos da lógica, da intuição e da
eliminam as últimas pontas dos fios de linha. evidência, toda a escala dos valores tal como já a
sancionara a prática pública. “Honrai os deuses com
Adendo a religião legada por vossos ancestrais”, diz
Epícuro,32 e o próprio Hegel secundou-o. Quem
A opinião segundo a qual ao nivelamento e à hesita a se pronunciar nesse sentido será solicitado
padronização dos homens corresponde, por outro ainda mais energicamente a fornecer um princípio
lado, um crescimento da individualidade nas universal. Se o pensamento não se limita a ratificar
chamadas personalidades de líderes (Fuhrer), os preceitos vigentes, ele deverá se apresentar de
proporcionalmente a seu poder, é errónea e constitui maneira ainda mais segura de si, mais universal,
ela própria uma parte da ideologia. Os senhores mais autoritária, do que quando se limita a justificar
fascistas de hoje em dia são menos super-homens do o que já está em vigor. Será que você considera
que funções de seu próprio aparelho de publicidade, injusto o poder dominante? Quem sabe você quer
pontos de intersecção das reacções idênticas de que impere o caos e não o poder? Você está
inúmeros indivíduos. Se, na psicologia das massas criticando a uniformização da vida e o progresso?
hodiernas, o líder representa menos o pai do que a Será que, à noite, a gente deve voltar a acender velas
projecção colectiva e desmesuradamente aumentada de cera? Será que o fedor do lixo deve voltar a
do ego impotente de cada indivíduo, então as figuras empestar nossas cidades, como na Idade Média?
dos líderes correspondem a ele efectivamente. Não é Você não gosta dos matadouros, será que a
à toa que se parecem com cabeleireiros, actores de sociedade deve passar a comer legumes crus? Por
província e jornalistas chantagistas. Uma parte de mais absurdo que seja, a resposta positiva a essas
sua influência moral reside justamente no facto de questões encontra ouvidos. O anarquismo político, a
que, embora impotentes, se o consideramos em si reacção cultural baseada no artesanato, o
mesmos, no que se assemelham a todos os outros, vegetarianismo radical, as seitas e partidos
eles representam para esses a plenitude do poder, excêntricos têm o chamado apelo publicitário. A
sem por isso deixarem de ser simples lugares vazios
que o poder veio ocupar. Não é que eles constituam 31
uma excepção ao processo de desintegração da Pl. do latim imago, lit. imagem; em psicanálise, ~
protótipo inconsciente de personagens determinando a maneira
individualidade, mas se trata antes do facto que a como o indivíduo apreende o outro. (N. do T.)
individualidade desintegrada neles triunfa e, de 32
Wilhelm Nestle (org.), Die Nachsokratiker. Iena. 1923.
Vol. I, 72 a, p. 195.

111
doutrina só precisa ser geral, segura de si, universal A Mas se todos pensassem como você, e
e imperativa. O que é intolerável é a tentativa de ninguém quisesse sujar as mãos, então não haveria
escapar à disjuntiva “ou isso – ou aquilo”, a nem médicos nem juizes, e o mundo pareceria ainda
desconfiança do princípio abstracto, a firmeza sem mais horrível.
doutrina. B – Mas é justamente isso que me parece
Dois jovens conversam: A – Você não quer ser questionável, pois, se todos pensassem como eu,
médico? espero, não apenas os remédios contra o mal iam
B – Por causa da profissão, os médicos ‘estão diminuir, mas o próprio mal. A humanidade ainda
sempre lidando com os moribundos, e isso endurece tem outras possibilidades. Eu não sou a humanidade
as pessoas. Depois, com a institucionalização inteira e não posso simplesmente tomar o seu lugar
crescente, os médicos passam a representar em face em meus pensamentos. O preceito moral que diz
do doente a empresa com sua hierarquia. Muitas que cada uma de minhas acções deveria poder ser
vezes, ele se vê tentado a se apresentar como o tomada como uma máxima universal é muito
administrador da morte. Ele se torna o agente da problemático. Ele ignora a história. Por que minha
grande empresa em face dos consumidores. Quando aversão a ser médico deveria equivaler à opinião de
se trata de automóveis, isso não é tão grave assim, que não deve haver médicos? Na verdade, há tantas
mas quando os bens administrados são a vida e os pessoas aí que podem ser bons médicos e têm mais
consumidores são pessoas que sofrem, trata-se de de uma chance de vir a ser médicos; Se eles se
uma situação em que não gostaria de me encontrar. comportarem moralmente dentro dos limites
A profissão do médico de família talvez fosse mais traçados actualmente para sua profissão. terão
inofensiva, mas ela está em decadência. minha admiração. Talvez cheguem mesmo a
A – Você acha que não deveria mais haver minorar o mal que descrevi para você; talvez, ao
médicos e que deveríamos voltar aos charlatães? contrário, agravem-no ainda mais, apesar de toda a
B – Não disse isso. Só tenho horror de me sua competência técnica e toda a sua moralidade.
tornar médico, e sobretudo um desses diretores- Minha vida, tal como a imagino, meu horror e
médicos com poder de comando sobre um hospital minha vontade de conhecer parecem-me tão
público. Apesar disso, acho que é melhor, justificados como a própria profissão de médico,
naturalmente, que haja médicos e hospitais do que mesmo que eu não possa ajudar directamente a
deixar os doentes morrer. Também não quero ser ninguém.
nenhum promotor público, mas acho que dar A – Mas se você soubesse que você poderia,
liberdade aos assaltantes seria um mal muito maior se estudasse para médico, vir a salvar a vida de uma
do que a existência dessa corporação que os põe na pessoa amada, vida que ela perderia com toda a
cadeia. A justiça é racional. Não sou contra a razão, certeza, não fosse por você, você não se dedicaria
só quero enxergar a forma que ela assumiu. imediatamente ao estudo da medicina?
A – Você está se contradizendo. Você se B – Provavelmente, mas você mesmo está
aproveita o tempo todo dos serviços dos médicos e vendo que, com seu gosto por uma coerência
dos juizes. Você é tão culpado quanto eles próprios. inexorável, você acaba tendo de recorrer a um
Só que você não quer se dar ao trabalho de fazer o exemplo absurdo, enquanto eu, com minha teimosia
que os outros fazem por você. Sua própria sem nenhum sentido prático e com minhas
existência pressupõe o princípio a que você gostaria contradições, não me afastei do bom-senso.
de escapar . Esse diálogo se repete sempre que uma pessoa
B – Não nego isso, mas a contradição é não quer abrir mão do pensamento em benefício da
necessária. Ela é uma resposta à contradição prática. Ela vai sempre encontrar a lógica e a
objectiva da sociedade. Quando a divisão do coerência no lado contrário. Quem for contra a
trabalho é tão diferenciada como hoje em dia, é vivissecção não deve mais fazer nenhum movimento
possível que em dado lugar se manifeste um horror respiratório, porque isto pode custar a vida a um
responsável pela culpabilidade de todos. Se esse bacilo. A lógica está a serviço do progresso e da
horror se difundir, “e pelo menos uma pequena parte reacção, ou, em todo caso, da realidade. Mas, na
da humanidade se tornar consciente dele, talvez os época de uma educação radicalmente realista, os
manicómios e as penitenciárias se tornem mais diálogos tornaram-se mais raros, e o interlocutor
humanos e os tribunais acabem se tornando neurótico B precisa de uma força sobre-humana
supérfluos. Mas não é absolutamente por isso que eu para não ficar são.
quero ser escritor. Eu só queria ver com maior
clareza a situação terrível em que tudo se encontra MARCADOS
hoje em dia.

112
Ao atingir a década dos quarenta anos, as emancipação do homem, mas ela é, ao mesmo
pessoas costumam fazer uma estranha experiência. tempo, o resultado justamente dos mecanismos dos
Elas descobrem que a maioria das pessoas com que quais é preciso emancipar a humanidade. É na
cresceram e mantiveram contactos começa a autonomia e na incomparabilidade do indivíduo que
demonstrar distúrbios em seus costumes e em sua se cristaliza a resistência contra o poder cego e
consciência. Um torna-se tão negligente em seu opressor do todo irracional. Mas essa resistência só
trabalho que seus negócios começam a periclitar, foi possível historicamente através da cegueira e
outro destrói o casamento sem a menor culpa da irracionalidade daquele indivíduo autónomo e
mulher, um terceiro vem a cometer desfalques. Mas incomparável. Inversamente, tudo o que se opõe
também os que não passaram por acontecimentos incondicionalmente ao todo enquanto particular
marcantes apresentam indícios de decomposição. A permanece preso de maneira ruim e opaca à ordem
conversação com eles torna-se insípida, fanfarrona, existente. Os traços radicalmente individuais e
desconexa. Outrora, o quarentão ainda recebia dos irredutíveis de uma pessoa são sempre duas coisas
outros um élan intelectual, mas agora ele tem a num só: o que não foi totalmente capturado pelo
impressão de ser quase o único a demonstrar sistema dominante e sobrevive para sorte nossa e as
espontaneamente um interesse objectivo. marcas da mutilação que o sistema inflige a seus
A princípio, ele se inclina a considerar a membros. Esses traços repetem de maneira
evolução das pessoas de sua idade como um infeliz exagerada as determinações básicas do sistema: na
acaso. Justamente eles mudaram para pior. Talvez avareza, por exemplo, a propriedade fixa; na doença
isso tenha a ver com a geração e seu destino exterior imaginária, a autoconservação irreflectida. Na
particular. Finalmente, descobre que essa medida em que o indivíduo utiliza esses traços para
experiência é familiar, só que numa perspectiva se afirmar desesperadamente contra a compulsão –
diferente: a da juventude frente aos adultos. Pois ele da natureza e da sociedade, contra a doença e a
não se convencera então de que algo não estava bancarrota, esses traços assumem necessariamente
certo com este ou aquele professor do colégio, com um carácter compulsivo. Em sua célula mais íntima
os tios e as tias, os amigos dos pais e depois com os o indivíduo choca-se com o mesmo poder do qual
professores da universidade ou com o mestre dos ele foge para dentro de si mesmo. Isso torna sua
aprendizes! Seja porque exibiam algum traço fuga numa quimera sem esperança. As comédias de
maluco e ridículo, seja porque sua presença era Moliere conhecem essa maldição da individuação
particularmente maçante, incomoda, decepcionante. tão bem quanto os desenhos de Daumier; mas os
Nessa época, ele não pensava nisso, aceitava a nacional-socialistas, que abolem o indivíduo,
inferioridade dos adultos como um simples facto deleitam-se prazerosamente com essa maldição e
natural. Agora, ele tem a confirmação disso: nas instalam Spitzweg como seu pintor clássico. É só
condições atuais, o simples transcurso da vida, ainda contra a sociedade endurecida, e não em termos
que se conservem certas habilidades técnicas ou absolutos, que o indivíduo endurecedor apresenta o
intelectuais, é suficiente para levar, já na força da melhor. Ele fixa a vergonha que se sente em face
idade, ao cretinismo. Nem mesmo as pessoas daquilo que a colectividade volta sempre a infligir
experimentadas no trato dos homens e das coisas ao indivíduo e que se consuma quando não há mais
estão excluídas. É como se as pessoas, como castigo indivíduos. Os sequazes despersonalizados de hoje
de terem traído as esperanças de sua juventude e são a consequência dos boticários maníacos, dos
terem se ajustado ao mundo, fossem marcadas por apaixonados cultivadores de rosas e dos aleijados
uma precoce decadência. políticos dos tempos de outrora.

Adendo FILOSOFIA E DIVISÃO DO TRABALHO

Actualmente, o declínio da individualidade É fácil identificar o lugar da ciência na divisão


não ensina simplesmente a compreender sua social do trabalho. Ela tem por função estocar factos
categoria como algo de histórico, mas também e conexões funcionais de factos nas maiores
desperta dúvidas quanto à sua essência positiva. A quantidades possíveis. A ordem do armazenamento
injustiça que sofre o indivíduo era o princípio de sua deve ser clara. Ela deve possibilitar às diversas
própria existência na fase da concorrência. Mas isso indústrias descobrir prontamente a mercadoria
não se aplica apenas à função do indivíduo e de seus intelectual desejada na especificação desejada. Em
interesses particulares na sociedade, mas também à larga medida, a compilação já é feita em vista de
complexidade interna da própria individualidade. encomendas industriais precisas.
Foi sob o seu signo que se colocou a tendência à

113
Também as obras históricas devem fornecer a indústria mantém em seus estores intelectuais, as
material. A possibilidade de sua utilização não se universidades, igrejas e jornais, pedem à filosofia
deve buscar imediatamente na indústria, mas que apresente o passaporte dos princípios com que
mediatamente na administração. Assim como legitima suas buscas, ela cai num embaraço mortal.
Maquiavel escrevia para o uso dos príncipes e das Ela não reconhece nenhuma norma ou objectivo
repúblicas, assim também se trabalha hoje em dia abstractos que, ao contrário dos vigentes, fossem
para os comités económicos e políticos. É verdade praticáveis. Sua liberdade em face da força de
que a forma histórica se tornou um estorvo, assim é sugestão da ordem existente reside justamente no
melhor classificar logo o material histórico sob o facto de aceitar os ideais burgueses, sem transigir
ponto de vista de um determinado problema com eles, quer se trate dos ideais que seus
administrativo: por exemplo, a manipulação dos defensores ainda proclamam mesmo desfigurados,
preços das mercadorias ou dos estados de espírito quer se trate dos ideais que, apesar de toda
das massas. Ao lado da administração e dos manipulação, ainda possam ser reconhecidos como
consórcios industriais. entre os interessados o sentido objectivo das instituições, tanto técnicas
encontram-se também os sindicatos e os partidos. quanto culturais. A filosofia acredita na divisão do
A filosofia oficial serve à ciência que funciona trabalho e que ela exista para os homens, acredita no
dessa maneira. Ela deve, como uma espécie de progresso e que ele leve à liberdade. É por isso que
taylorismo do espírito, ajudar a aperfeiçoar seus entra facilmente em conflito com a divisão do
métodos de produção, a racionalizar a estocagem trabalho e com o progresso. Ela dá expressão à
dos conhecimentos, a impedir o desperdício de contradição entre a crença e a realidade e, ao fazer
energia intelectual. Ela encontra seu lugar na divisão isso, atém-se estritamente ao fenómeno
do trabalho, assim como a química e a bacteriologia. historicamente determinado. Para ela,
Os dois ou três restolhos filosóficos, que pregam a diferentemente dos jornais, o assassinato em massa,
volta à adoração do Deus da Idade Média e à apesar de suas proporções gigantescas, não é mais
contemplação de essências eternas, ainda são interessante do que a eliminação de alguns
tolerados nas universidades seculares porque elas internados em asilos. Ela não dá à intriga do
são tão reaccionárias. Além disso, ainda há estadista envolvido com o fascismo nenhuma
historiadores da filosofia que ensinam prioridade sobre um simples linchamento, nem
infatigavelmente Platão e Descartes, sem esquecer privilegia a vertiginosa publicidade da indústria
de acrescentar, naturalmente, que já estão cinematográfica de preferência a um simples
ultrapassados. Aqui e ali associam-se a eles algum anúncio funerário O pendor à grandeza é algo que
veterano do sensualismo ou algum perito está longe da filosofia. Por isso, relativamente ao
personalista. Eles separam do campo da ciência o existente, ela se mantém ao mesmo tempo alheia e
joio dialéctico que, de outro modo, poderia começar compreensiva. Sua voz pertence ao objecto, mas
a medrar . sem que este a queira: ela é a voz da contradição
Contrariamente a seus administradores, a que, sem ela, não se faria ouvir, mas triunfaria em
filosofia representa, entre outras coisas, o silêncio.
pensamento, na medida em que este não capitula
diante da divisão de trabalho dominante e não aceita O PENSAMENTO
que esta lhe prescreva suis tarefas. A ordem
existente não compele os homens unicamente pela Crer que a verdade de uma teoria é a mesma
força física e pelos interesses materiais, mas pelo coisa que sua fecundidade é um erro. Muitas
poder superior da sugestão. A filosofia não é síntese, pessoas parecem, no entanto, admitir o contrário
ciência básica ou ciência-cúpula, mas o esforço de disso. Elas acham que a teoria tem tão pouca
resistir à sugestão, a decisão resoluta pela liberdade necessidade de encontrar aplicação no pensamento,
intelectual e real. que ela deveria antes dispensá-lo pura e
A divisão do trabalho, tal como se formou sob simplesmente. Elas interpretam toda declaração
a dominação, não é absolutamente ignorada neste equivocadamente no sentido de uma definitiva
caso. A filosofia limita-se a escutar dela a mentira profissão de fé, imperativo ou tabu. Elas querem
de que ela seria inevitável. Não se deixando submeter-se à Ideia como se fora um Deus, ou
hipnotizar pela superioridade do poder, ela segue-o atacá-la como se fora um ídolo. O que lhes falta, em
em todos os cantos e recantos da maquinaria social face dela, é a liberdade. Mas é próprio da verdade o
que a priori não deve ser nem derrubada, nem facto de que participamos dela enquanto sujeitos
redireccionada, mas compreendida sem sucumbir à activos. Uma pessoa pode ouvir frases que são em si
fascinação que exerce. Quando os funcionários que mesmas verdadeiras, mas só perceberá sua verdade

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na medida em que está pensando e continua a A falta de razão não tem palavras. Eloquente é
pensar, ao ouvi-las. a sua posse, que estende seu domínio através de toda
Hoje em dia, esse fetichismo exprime-se sob a história manifesta. A terra inteira dá testemunho
uma forma drástica. Pedem-se prestações de contas da glória do homem. Na guerra e na paz, na arena e
pelo pensamento expresso, como se ele fosse a no matadouro, da morte lenta do elefante, que as
própria práxis. Justamente por isso toda palavra é hordas primitivas dos homens abatiam graças ao
intolerável: não apenas a palavra que pretende primeiro planejamento, até à exploração sistemática
atingir o poder, mas também a palavra que se move do mundo animal actualmente, as criaturas
tacteando, experimentando, jogando com a irracionais sempre tiveram que fazer a experiência
possibilidade do erro. Mas: não estar pronto e da razão. Esse processo visível esconde aos
acabado e saber que não está é o traço característico carrascos o processo invisível: a vida sem a luz da
daquele pensamento e precisamente daquele razão, a vida dos animais. Esta seria o tema genuíno
pensamento com o qual vale a pena morrer. A da psicologia, pois só a vida dos animais decorre
proposição segundo a qual a verdade é o todo segundo impulsões psíquicas; quando a psicologia
revela-se idêntica à proposição contrária, segundo a tem que explicar os homens, eles já regrediram e se
qual ela só existe em cada caso como parte. Dentre destruíram. E quando os homens chamam a
as desculpas que os intelectuais encontraram para os psicologia em seu socorro, o espaço reduzido de
carrascos – e, na última década, eles não ficaram de suas relações imediatas se vê ainda mais reduzido,
braços cruzados com relação a isso – a mais mesmo aí eles são convertidos em coisas. O recurso
deplorável é a desculpa de que o pensamento da à psicologia, para compreender o outro, é um gesto
vítima, responsável por seu assassinato, fora um descarado; para a explicação dos próprios motivos,
erro. um gesto sentimental. A psicologia, porém, perdeu
de vista seu objecto, esqueceu nas chicanas de seus
O HOMEM E O ANIMAL alçapões e labirintos que falar da alma, conhecê-la, é
algo que se impõe precisamente e tão-somente em
Na história europeia, a Ideia do homem face do animal. O próprio Aristóteles, que atribuiu
exprime-se na maneira pela qual ele é distinguido do aos animais uma alma, ainda que inferior, preferiu
animal. A ausência da razão no animal prova a tratar dos corpos, de suas partes, movimento e
dignidade do homem. Essa oposição foi geração, do que da existência própria dos animais.
matraqueada com tanta insistência e unanimidade O mundo do animal é um mundo sem
pelos predecessores do pensamento burguês, os conceito. Nele nenhuma palavra existe para fixar o
antigos judeus, os estóicos e os Padres da Igreja e, idêntico no fluxo dós fenómenos, a mesma espécie
depois, pela Idade Média afora e os Tempos na variação dos exemplos, a mesma coisa na
Modernos adentro, que ela passou a pertencer ao diversidade das situações. Mesmo que a recognição
património básico da antropologia ocidental. Ainda seja possível, a identificação está limitada ao que foi
hoje ela é reconhecida. Os behavioristas só predeterminado de maneira vital. No fluxo, nada se
aparentemente a esqueceram. O facto de que acha que se possa determinar como permanente e,
aplicam aos homens as mesmas fórmulas e no entanto, tudo permanece idêntico, porque não há
resultados que eles, desencadeados, arrancam a nenhum saber sólido acerca do passado e nenhum
animais indefesos em seus atrozes laboratórios de olhar claro mirando o futuro. O animal responde ao
fisiologia confirma essa diferença de maneira nome e não tem um eu, está fechado em si mesmo e,
particularmente refinada. A conclusão que tiram dos no entanto, abandonado; a cada momento surge uma
corpos mutilados dos animais não se ajusta ao nova compulsão, nenhuma ideia a transcende. O
animal em liberdade, mas ao homem atual. Ele animal não compensa a privação do consolo com a
prova, ao violentar o animal, que ele e só ele em diminuição do medo, a falta da consciência da
toda a criação funciona voluntariamente de maneira felicidade com a ausência da tristeza e a dor. Para
tão mecânica, cega e automática como as que a felicidade se torne substancial e confira a
convulsões da vítima encadeada, das quais se utiliza morte à existência, é preciso de uma reminiscência
o especialista. O professor na mesa de dissecação identificadora, de um conhecimento apaziguador, da
define-as cientificamente como reflexos, o arúspice Ideia religiosa ou filosófica, em suma, do conceito.
no altar proclamava-as como sinais de seus deuses. Há animais felizes, mas como é curta essa
O homem possui a razão, que procede felicidade! Para o animal, o transcorrer do tempo,
impiedosamente; o animal, do qual ele tira a que não é interrompido pelo pensamento libertador,
conclusão sanguinolenta, só tem o pavor irracional, é sombrio e depressivo. Para escapar ao vazio
o instinto da fuga que lhe é vedada. lancinante é necessário uma resistência cuja coluna

115
vertebral é a linguagem. Até mesmo o animal mais homens. Era este o sentido da razão de que se
forte é infinitamente débil. A doutrina de ufanavam. A mulher era menor e mais fraca, entre
Schopenhauer segundo a qual o pêndulo da vida ela e o homem havia uma diferença que ela não
oscila entre a dor e o tédio, entre instantes punctuais podia superar, uma diferença imposta pela natureza,
de satisfação do instinto e uma ânsia infinita aplica- a mais vergonhosa e humilhante que é possível na
se ao animal, que não pode pôr termo à fatalidade sociedade dos homens. Quando a dominação da
pelo conhecimento. Na alma do animal já estão natureza é o verdadeiro objectivo, a inferioridade
plantados os diferentes sentimentos e necessidades biológica será sempre o estigma por excelência, e a
do homem e, inclusive, os elementos do espírito, fraqueza impressa pela natureza a marca incitando à
sem o apoio que só a razão organizadora confere. Os violência. A Igreja que, no curso da história, poucas
melhores dias fluem numa mudança contínua como oportunidades perdeu para dizer sua palavrinha
um sonho, que Q animal, aliás, mal pode distinguir influente junto às instituições populares – não
da vigília. Falta-lhe uma transição c]ara do jogo importa se se tratava da escravidão, das cruzadas ou
para a seriedade, do despertar feliz do pesadelo para de simples pogroms – também se associou, apesar
a realidade. do Ave Maria, ao juízo de Platão sobre as mulheres.
A transformação das pessoas em animais A imagem da Madre Dolorosa de Deus foi uma
como castigo é um tema constante dos contos concessão a resíduos matriarcais. Todavia, a Igreja
infantis de todas as nações. Estar encantado no também ratificou com essa imagem a inferioridade
corpo de um animal equivale a uma condenação. da mulher, da qual, no entanto, a imagem devia
Para as crianças e os diferentes povos, a ideia de justamente resgatá-la. “Basta extinguir”, exclan13
semelhantes metamorfoses é imediatamente seu filho legítimo, De Maistre, “basta enfraquecer
compreensível e familiar. Também a crença na um pouquinho, num país cristão, a influência da lei
transmigração das almas, nas mais antigas culturas, divina, deixando subsistir a liberdade que dela
considera a figura animal como um castigo e um advém para as mulheres, e logo vocês verão essa
tormento. A muda ferocidade no olhar do tigre dá nobre e tocante liberdade degenerar numa
testemunho do mesmo horror que as pessoas vergonhosa licenciosidade. Elas se transformarão
receavam nessa transformação. Todo animal recorda nos instrumentos funestos de uma corrupção
uma desgraça infinita ocorrida em tempos universal que atingirá em pouco tempo as partes
primitivos. O conto infantil exprime o vitais do Estado. Ele cairá na podridão e sua
pressentimento das pessoas. Mas, enquanto o decrepitude gangrenosa fará ao mesmo tempo
príncipe conservou a razão, de tal modo que pôde vergonha e horror.”33 O terrorismo dos processos de
exprimir na hora certa sua dor e ser assim resgatado caça às bruxas, a que as gangues dos senhores
pela fada, a falta de razão exila eternamente o feudais recorriam contra a população quando se
animal em sua figura, a não ser que o homem que, viam em perigo, era ao mesmo tempo a celebração e
pelo passado, se identifica com ele descubra a a confirmação da vitória da sociedade dos homens
fórmula salvadora e com ela abrande no fim dos sobre as etapas evolutivas matriarcal e mimética dos
tempos o coração de pedra da eternidade. tempos primitivos. Os autos-de-fé eram as festivas
Para o ser racional, porém, a solicitude pelo fogueiras pagãs da Igreja, o triunfo da natureza sob
animal desprovido de razão é uma vã ocupação. A a forma da razão autoconservadora para glória da
civilização ocidental deixou-a ao encargo das dominação da natureza.
mulheres. Estas não tiveram nenhuma participação A burguesia embolsou junto à mulher a virtude
independente nas habilidades que produziram essa e o recato: como formações reactivas da rebelião
civilização. É o homem que deve sair para enfrentar matriarcal. Ela própria obteve para toda essa
a vida hostil, é ele que deve agir e lutar. A mulher natureza explorada a admissão no mundo da
não é sujeito. Ela não produz, mas cuida dos que dominação, mas como uma natureza vencida.
produzem, monumento vivo dos tempos há muito Subjugada, ela reflecte para o vencedor sua vitória
passados da economia doméstica fechada. A divisão através da submissão espontânea: a derrota, como
do trabalho imposta pelo homem foi-lhe pouco devotamento; o desespero, como a beleza da alma; o
favorável. Ela passou a encarnar a função biológica coração violentado, como o seio amante. Ao preço
e tornou-se o símbolo da natureza, cuja opressão é o de uma separação radical da prática, ao preço do
título de glória dessa civilização. Durante milénios retorno aos limites do círculo mágico, a natureza
os homens sonharam com o domínio ilimitado da recebe a reverência do senhor da criação. A arte, a
natureza e com a transformação do cosmo num moral, o amor sublime são máscaras da natureza,
infinito território de caça. É para isso que se
voltavam as ideias das pessoas numa sociedade de 33
Éclaircissement sur les Sacrifices. (Euvres. Lyon, 1892.
Vol. V. pp. 322 sg.

116
nas quais ela reaparece transformada e se torna treinado dos dois sexos, reduzindo-os a uma
expressão de seu próprio contrário. Através de suas uniformidade que faz desaparecer a careta. Contra o
máscaras, ela conquista a linguagem; em sua fundo dessa produção em massa, as increpações da
distorção, manifesta-se sua essência; a beleza é a megera, que pelo menos conservou sua própria cara,
serpente que mostra a ferida em que penetrava distinta das demais, tornam-se um sinal de
outrora o espinho. Por trás da: admiração do homem humanidade – e a feiúra, um vestígio do espírito. Se
pela beleza está emboscada a gargalhada sonora, o a moça nos séculos passados exibia sua submissão
escárnio desmedido, a bárbara obscenidade que o nos traços melancólicos e na devoção amorosa,
potente dirige à impotência, à morte, à natureza. imagem alienada da natureza, objecto estético-
Desde que os bufões aleijados, cujos saltos e guizos cultural, a megera acabou por descobrir uma nova
exprimiam em outros tempos a triste felicidade da vocação feminina. Como uma hiena social, ela se
natureza vencida, se livraram do serviço dos reis, as pôs a perseguir activamente objectivos culturais.
mulheres foram encarregadas do cultivo planejado Sua ambição aspira por honrarias e publicidade, mas
do belo. A puritana moderna aceitou o encargo seu sentido pela cultura masculina ainda não está
cheia de zelo. Ela se identificava totalmente com aguçado a ponto de impedir que reaja mal à dor que
tudo o que aconteceu, não com a natureza selvagem, lhe é infligida, mostrando assim que ainda não se
mas com a natureza domesticada. O que ainda sente à vontade na civilização dos homens. A
restava dos leques, cantos e danças das escravas de mulher solitária busca refúgio numa mistura de
Roma acabou se reduzindo, em Birmingham, à ciência e magia, em obras ridículas que nascem do
execução do piano e outros trabalhos manuais, até ideal de um conselheiro de Estado ou de uma
que os derradeiros vestígios da licenciosidade vidente nórdica. Ela sente-se atraída pela desgraça.
feminina se enobreceram totalmente e se A derradeira oposição feminina ao espírito da
transformaram em símbolos da civilização sociedade dos homens afunda-se no pântano das
patriarcal. Sob a pressão da publicidade universal, o pequenas extorsões, dos conventículos e dos
pó-de-arroz e o batom, rompendo com sua origem hobbies, ela se converte na agressão pervertida do
hetáirica, transformaram-se em produtos para a social work34 e da conversa fiada teosófica, no
protecção da pele, o maiô numa exigência de exercício dos pequenos rancores em obras de
higiene. Impossível escapar .A simples beneficência e na Christian Science. Nesse pântano,
circunstância de que tudo isso se passa no sistema a solidariedade com a criatura não se exprime tanto
totalmente organizado da dominação é suficiente nas sociedades protectoras de animais quanto no
para imprimir no próprio amor a marca da fábrica. interesse pelo neobudismo ou pelo pequinês, cuja
Na Alemanha, as mulheres prisioneiras do sistema cara desfigurada lembra ainda hoje, como nas velhas
continuam a provar pela promiscuidade a obediência gravuras, o rosto do bufão superado pelo progresso.
à ordem existente que demonstravam antigamente Os traços do cãozinho representam ainda, como os
pelo recato apenas; pelo acto sexual indiscriminado, saltos desajeitados do corcunda, a natureza
continuam a provar a rígida subordinação à razão mutilada, enquanto a indústria de massa e a cultura
dominante. de massa já aprenderam a preparar tanto os corpos
A megera se destaca nos tempos presentes dos animais de criação quanto os dos homens
como um fóssil da alta estima que a burguesia segundo métodos científicos. As massas
demonstrava pela mulher. Seus berros são, desde uniformizadas estão tão pouco conscientes de sua
tempos imemoriais, a vingança que ela tira em sua própria transformação, da qual no entanto
própria casa pelas misérias que seu sexo teve que participaram tão convulsivamente, que não precisam
sofrer. Na falta da genuflexão, que não lhe cabia, a mais de uma exibição simbólica dessa
velha ruim se põe a invectivar, mesmo fora de casa, transformação. Entre as pequenas notícias da
o distraído que deixa de se erguer em sua presença, segunda e terceira páginas dos jornais, que falam na
e derruba-lhe o chapéu da cabeça. De qualquer primeira das gloriosas e terríveis façanhas dos
maneira, este tinha que rolar pelo chão; é o que ela homens, pode-se ler às vezes o relato de incêndios
sempre exigiu na política, seja como reminiscência de circos e envenenamentos de grandes animais. Os
de seu passado de bacante, seja procurando superar animais são lembrados quando seus últimos
numa fúria impotente o próprio homem e sua espécimes, companheiros dos bufões da Idade
ordem. A sede de sangue que a mulher demonstra Média, perecem entre enormes tormentos,
no pogrom supera a do homem. A mulher oprimida representando uma perda de capital para seu dono,
como megera sobreviveu a sua época e continua a que, na era do concreto armado, não soube protegê-
mostrar a careta da natureza mutilada numa época los do fogo. A grande girafa e o sábio elefante são
em que a dominação já se pôs a modelar o corpo
34
Trabalho social. (N. do T.)

117
“oddities”35 que não divertem mais sequer um inteiro. Ninguém pode mais se dar, todos têm que
escolar sabido. Eles constituíram na África – o ficar dentro. A natureza, porém, é para a práxis algo
último canto da terra que procurou em vão proteger que está por fora e por baixo, um objecto, assim
suas pobres manadas da civilização – um obstáculo como a mulher do soldado na boca do povo. Agora,
para o pouso dos bombardeiros durante a última o sentimento permanece preso ao poder que se
guerra. Agora, estão em vias de serem refere a si mesmo como poder. O homem depõe as
completamente dizimados. A terra que se 1ornou armas diante do homem em sua frieza e sinistra
racional não carece mais do reflexo estético. A tenacidade, como o fazia antes a mulher. Ele se
exorcização dos demónios se efectua pela impressão torna a mulher que tem os olhos postos na
directa nos homens de seu carácter. A dominação dominação. Na colectividade fascista, com seus
não precisa mais de imagens luminosas, ela as teams e campos de concentração, cada um é, desde a
produz industrialmente e penetra através delas com primeira juventude, um prisioneiro em sua célula;
uma segurança ainda maior nos homens. ela cultiva a homossexualidade. É o animal que
A distorção que pertence à essência da obra de deve conservar os traços nobres. O rosto humano de
arte, assim como a mutilação pertence ao brilho da traços exagerados, lembrança embaraçosa de suas
beleza feminina, justamente aquela exibição da origens na natureza e de sua dependência dela, nada
ferida na qual a natureza se reconhece, foi retomada mais é senão uma irresistível incitação ao homicídio
pelo fascismo, mas não como aparência. Ela é qualificado. As caricaturas dos judeus sempre o
infligida directamente aos condenados. Nesta souberam, e a repugnância de Goethe pelos macacos
sociedade, não existe mais nenhum sector onde a revela os limites de sua humanidade. Quando os
dominação se declare, como na arte, como uma magnatas da indústria e os chefes fascistas têm
contradição, nenhuma duplicação exprime mais a animais em torno de si, não são cachorrinhos, mas
desfiguração. Essa expressão, porém, não se cães dinamarqueses e filhotes de leão. Eles devem
chamava outrora simplesmente beleza, mas temperar o poder com o terror que incutem. O
pensamento, espírito e mesmo linguagem. Hoje a colosso do carniceiro fascista fica tão cego diante da
linguagem calcula, designa, trai, inspira o natureza, que só pensa no animal para humilhar o
assassinato, ela não exprime nada. A indústria homem através dele. Ele, sim, merece a censura que
cultural tem seu padrão exacto fora de si mesma, ao Nietzsche fizera injustamente a Schopenhauer e
qual pode se ater como a ciência: o facto. Os astros Voltaire,a saber, que “souberam disfarçar seu ódio
do cinema são especialistas, suas criações são por certas coisas e pessoas sob o manto da
registros do comportamento natural, classificações misericórdia em face dos animais.”36 Um
de reacções; os directores e escritores produzem pressuposto da devoção dos fascistas pelos animais,
modelos para o comportamento adaptado. O pela natureza e pelas crianças é a vontade de
trabalho de precisão da indústria cultural exclui a perseguir. A carícia negligente da mão que roça os
distorção como um simples erro, como o acaso, o cabelos de uma criança ou o pêlo de um animal
aspecto mau da subjectividade e do natural. Exige- significa: esta mão pode destruir .Ela afaga
se do desvio o motivo prático que o integra na delicadamente uma vítima antes de abater a outra, e
razão. Só então ele se vê perdoado. A partir do sua escolha nada tem a ver com a culpa da vítima. A
momento em que a natureza começa a reflectir a carícia serve para ilustrar o facto de que todos são
dominação, o trágico desaparece, assim como o iguais diante do poder, que eles não têm nenhuma
cómico; os senhores mobilizam uma seriedade essência própria. Para a finalidade sangrenta da
proporcional à resistência a vencer, e um humor dominação, a criatura não passa de um material. É
proporcional ao desespero que vêem. O gozo assim que o Führer se interessa pelos inocentes, não
intelectual estava associado à representação do é por seu mérito que são escolhidos, do mesmo
sofrimento; eles, porém, brincam com o próprio modo que não é com base em seu merecimento que
horror. O amor sublime ligava-se à manifestação da são executados. A natureza é uma porcaria. Só a
força através da fraqueza, à beleza da mulher, mas força astuciosa capaz de sobreviver tem razão. Ela
eles se ligam directamente à força: o ídolo da própria, por sua vez, é pura natureza; toda a
sociedade atual. é o rosto masculino de traços maquinaria sofisticada da moderna sociedade
nobres e elegantes. A mulher está aí para trabalhar e industrial é a pura natureza se dilacerando. Não há
parir; ou então para realçar, quando é apresentável, mais nenhum meio capaz de exprimir essa
o prestígio do marido. Ela não leva o homem ao contradição. Ela se realiza com a seriedade
arrebatamento, e a adoração regride de novo para o obstinada do mundo do qual desapareceram a arte, o
egoísmo. O mundo com seus fins precisa do homem
36
1-. Nietzsche, Die frohliche Wissenschaft. Werke, vol. V,
35
Curiosidades, objetos singulares, estranhos. (N. do T.) p. 133.

118
pensamento, a negatividade. Os homens se tornaram objectivo, ela representa o antiespírito, a mentira e a
tão radicalmente alienados uns dos outros. e à bestialidade. É só quando é reconhecida tal como
natureza que a única coisa que ainda sabem é: para realmente é que ela se torna a ânsia que a vida tem
que precisam uns dos outros e o que se infligem pela paz, aquela consciência que desde o começo
mutuamente. Cada um é um factor, o sujeito ou o animou a resistência tenaz contra os chefes e contra
objecto de uma prática qualquer, algo com quem se a colectividade. O perigo que ameaça a prática
conta ou não se precisa mais contar. dominante e suas alternativas inevitáveis não é a
Neste mundo liberado da aparência, no qual os natureza – a natureza, muito ao contrário, coincide
homens depois da perda da reflexão de novo se com ela –, mas sim o facto de recordar a natureza.
tornaram os animais mais inteligentes, que
subjugam o resto do universo, quando não estão se PROPAGANDA
dilacerando entre si, respeitar o animal não é mais
considerado simplesmente como sentimentalismo, Propaganda para mudar o mundo, que
mas como uma traição do progresso. Seguindo a boa bobagem! A propaganda faz da linguagem um
tradição reaccionária, Gõring associou a protecção instrumento, uma alavanca, uma máquina. A
dos animais ao ódio racial, o prazer germânico e propaganda fixa o modo de ser dos homens tais
luterano em assassinar alegremente à amável como’ eles se tornaram sob a injustiça social, na
esportividade do fidalgo caçador. Os fronts estão medida em que ela os coloca em movimento. Ela
claramente separados: quem luta contra Hearst e conta com o facto de que se pode contar com eles.
Gõring se coloca do lado de Pavlov e da No íntimo, cada um sabe que ele próprio será
vivissecção, quem hesita é um alvo liberado para os transformado pelo meio num outro meio, como na
dois lados. Ele deve se render à razão.’ A escolha fábrica. A fúria que sentem quando se deixam levar
está predeterminada e é inevitável. Quem quiser por ela é a velha fúria dirigida contra o jugo,
mudar o mundo não deve por preço nenhum reforçada pelo pressentimento de que a saída
aterrissar nesse pântano das pequenas extorsões, indicada pela propaganda é uma falsa saída. A
onde se atolam, juntamente com os adivinhos, os propaganda manipula os homens; onde ela grita
políticos sectários, os utopistas e os anarquistas. O liberdade, ela se contradiz a si mesma. A falsidade é
intelectual, cujo pensamento não adere a nenhuma inseparável dela. É na comunidade da mentira que
potência histórica actuante, que não toma para os líderes (Führer) e seus liderados se reúnem
orientação nenhum dos pólos para os quais tende a graças à propaganda, mesmo quando os conteúdos
sociedade industrial, perderia a substância, seu enquanto tais são correctos. A própria verdade
pensamento perderia a base. Só o real seria racional. torna-se para ela um simples meio de conquistar
Nenhum dedo se levantará, dizem também os adeptos para sua causa, ela já a falsifica quando a
progressistas, para ajudar quem se recusa a coloca em sua boca. Por isso, a verdadeira
colaborar. Tudo depende da sociedade, até mesmo o resistência não conhece nenhuma propaganda. A
pensamento mais rigoroso teria que se vender às propaganda é inimiga dos homens. Ela pressupõe
poderosas tendências sociais, sem as quais se que o princípio segundo o qual a política deve
tornaria um simples capricho. Esse acordo une todos resultar de um discernimento em comum não passa
os que têm o senso da realidade; ele se declara pela de uma façon de parler.37
sociedade humana como se esta fosse uma prática Numa sociedade que sabiamente impõe limites
de extorsão em massa na natureza. A palavra que à superabundância que a ameaça, tudo o que é
não segue os objectivos de um dos ramos dessa recomendado a todos por outras pessoas merece
prática de extorsão provoca uma fúria desmedida. desconfiança. A advertência contra a publicidade
Ela lembra que ainda tem voz aquilo que só existe comercial, que chama a atenção para o facto de que
para ser quebrado: lembra a natureza, de onde nenhuma firma dá nada de graça, vale em toda parte
transbordam as mentiras dos que se voltam para e, depois da moderna fusão do mundo dos negócios
uma cultura racista (volkisch) e folclorista. Quando com a política, vale sobretudo para esta. Quanto
essa voz interrompe por um momento o coro dessas maiores os elogios, menor a qualidade;
mentiras, torna-se audível o horror que esse coro diferentemente de um Rolls-Royce, o Volkswagen
abafa, o horror que vive em cada animal e nos depende ,da publicidade. Os interesses da indústria e
próprios corações racionalizados e quebrados. As dos consumidores não se harmonizam nem mesmo
tendências que são trazidas à luz por essa palavra quando aquela tem algo de sério a oferecer. Até
são omnipresentes e cegas. A natureza em si mesma mesmo a propaganda da liberdade pode engendrar
não é nem boa, como queria o antigo romantismo, confusão, na medida em que deve necessariamente
nem nobre, como quer o novo. Como modelo e
37
Maneira de falar. (N. do T.)

119
nivelar a diferença entre a teoria e os interesses anos: foi ela que o fixou desde sempre em sua etapa
particulares daqueles a quem se destina. O fascismo evolutiva e impede, numa resistência sempre
defraudou os líderes trabalhistas assassinados na renovada, toda tentativa de ultrapassar essa etapa.
Alemanha da verdade de sua própria aço, porque Esse primeiro olhar tacteante é sempre fácil de
desmentia a solidariedade através da selecção da dobrar, ele tem por trás de si a boa vontade, a frágil
vingança. Quando o intelectual é torturado até a esperança, mas nenhuma energia constante. Tendo
morte no campo de concentração, nem por isso os sido definitivamente afugentado da direcção que
trabalhadores do lado de fora precisam passar pior. queria tomar, o animal torna-se tímido e burro. A
O fascismo não foi o mesmo para Ossietzky e para o burrice é uma cicatriz. Ela pode se referir a um tipo
proletariado. A propaganda enganou a ambos. de desempenho entre outros, ou a todos, práticos e
É bem verdade que o que é suspeito não é a intelectuais. Toda burrice parcial de uma pessoa
representação da realidade como um inferno, mas a designa um lugar em que o jogo dos músculos foi,
exortação rotineira a fugir dela. Se o discurso ainda em vez de favorecido, inibido no momento do
pode se dirigir a alguém hoje, não é nem às massas, despertar. Com a inibição, teve início a inútil
nem ao indivíduo, que é impotente, mas antes a uma repetição de tentativas desorganizadas e
testemunha imaginária, a quem o entregamos para desajeitadas. As perguntas sem fim da criança já são
que ele não desapareça totalmente connosco. sinais de uma dor secreta, de uma primeira questão
para a qual não encontrou resposta e que não sabe
SOBRE A GÉNESE DA BURRICE formular corretamente.39 A repetição lembra em
parte a vontade lúdica, por exemplo do cão que salta
O símbolo da inteligência é a antena do sem parar em frente da porta que ainda não sabe
caracol “com a visão tacteante”, graças à qual, a abrir, para afinal desistir, quando o trinco está alto
acreditar em Méfistófeles,38 ele é também capaz de demais; em parte obedece a uma compulsão
cheirar. Diante de um obstáculo, a antena é desesperada, por exemplo, quando o leão em sua
imediatamente retirada para o abrigo protector do jaula não pára de ir e vir, e o neurótico repete a
corpo, ela se identifica de novo com o todo e só reacção de defesa, que já se mostrara inútil. Se as
muito hesitantemente ousará sair de novo como um repetições já se reduziram na criança, ou se a
órgão independente. Se o perigo ainda estiver inibição foi excessivamente brutal, a atenção pode
presente, ela desaparecerá de novo, e a distância até se voltar numa outra direcção, a criança ficou mais
a repetição da tentativa aumentará. Em seus rica de experiências, como se diz, mas
começos, a vida intelectual é infinitamente delicada. frequentemente, no lugar onde o desejo foi atingido,
O sentido do caracol depende do músculo, e os fica uma cicatriz imperceptível, um pequeno
músculos ficam frouxos quando se prejudica seu enrijecimento, onde a superfície ficou insensível.
funcionamento. O corpo é paralisado pelo ferimento Essas cicatrizes constituem deformações. Elas
físico, o espírito pelo medo. Na origem, as duas podem criar caracteres, duros e capazes, podem
coisas são inseparáveis. tornar as pessoas burras – no sentido de uma
Os animais mais evoluídos devem o que são à manifestação de deficiência, da cegueira e da
sua maior liberdade; sua existência mostra que, impotência, quando ficam apenas estagnadas, no
outrora, suas antenas foram dirigidas em novas sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo,
direcções e não foram retiradas. Cada uma de suas quando desenvolvem um câncer em seu interior. A
espécies é o monumento de inumeráveis outras violência sofrida transforma a boa vontade em má.
espécies cuja tentativa de evoluir se frustrou desde o E não apenas a pergunta proibida, mas também a
início; que sucumbiram ao medo tão logo uma de condenação da imitação, do choro, da brincadeira
suas antenas se moveu na direcção de sua evolução. arriscada, pode provocar essas cicatrizes. Como as
A repressão das possibilidades pela resistência espécies da série animal, assim também as etapas
imediata da natureza ambiente prolongou-se intelectuais no interior do género humano e até
interiormente, com o atrofiamento dos órgãos pelo mesmo os pontos cegos no interior de um indivíduo
medo. Cada olhar de curiosidade que o animal lança designam as etapas em que a esperança se
anuncia uma forma nova dos seres vivos que imobilizou e que são o testemunho petrificado do
poderia surgir da espécie determinada a que facto de que todo ser vivo se encontra sob uma força
pertence o ser individual. Não é apenas seu carácter que domina.
determinado que o mantém sob a guarda de seu
antigo ser; a força que vem de encontro a esse olhar
é uma força cuja existência remonta a milhões de
39
Cf. Karl Landauer, lntelligenz und Dummheit, em: Das
38
Faust, 1.3 parte, verso 4068. Psychoanalyti.rche Volk.rbuch. Berna, 1939, p. 172.

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