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De pai para filho

Diálogos sobre o risco de educar

Franco Nembrini
tradução: Raul Faleiro Balardin

São Paulo - 2021


© Franco Nembrini

tradução: Raul Faleiro Balardin


preparação: Cláudio Cruz, Pedro Albernaz e Valéria Lopes
revisão: Cláudio Cruz
capa: Jessica Barcella
produção do e-book: Adriano Gaved

e-ISBN: 978-65-88359-19-8

Editora e Livraria Ltda.


Rua Florineia, 38 - Água Fria
02334-050 São Paulo (SP)
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www.companhiailimitada.com.br
Nota da edição brasileira
Caro assinante,
É com grande alegria que publicamos no Brasil esta versão do livro De pai para filho, do
educador italiano Franco Nembrini. Tivemos a oportunidade de conhecê-lo melhor na live que a
Revista Passos promoveu no dia 19 de setembro de 2020, com o tema da educação dos filhos. A
edição impressa será lançada ainda neste semestre pela Editora Companhia Ilimitada.
Franco Nembrini é o quarto filho de uma família de dez filhos. Foi aos 12 anos que ele tomou a
decisão de se dedicar ao estudo da literatura, mas aos 16, quando estava no ensino médio, sua
família enfrentou problemas financeiros graves e ele precisou parar de estudar para trabalhar
numa fábrica. Aos 18 anos ele se preparou sozinho para um exame de equivalência, e desde
então passou a cuidar dos próprios estudos, tendo se formado em Pedagogia pela Universidade
Católica de Milão. Tem muita experiência como professor e educador, e ajudou a fundar o
Centro Educacional La Traccia, em Bérgamo, que nasceu a partir de um pedido de ajuda de
alguns pais e oferece educação para jovens no ensino médio. Franco Nembrini é pai de quatro
filhos e contribuiu para formar milhares de alunos durante todos esses anos. É também autor de
várias obras, dentre elas Dante, poeta del desiderio ("Dante, poeta do desejo") e L'avventura di
Pinocchio ("A aventura de Pinóquio").
Esta versão digital é um presente aos assinantes da Revista Passos, com o desejo de que seja uma
ocasião especial para aprofundar o tema da educação, tão importante para todos.
Boa leitura!
Isabella Alberto
Diretora da Revista Passos
Prefácio
Tive a oportunidade de conhecer o professor Nembrini quando participamos do grande
Congresso da Diocese de Roma sobre educação, em 2007. Naquele dia, interveio o Santo Padre e
lembrou a todos os presentes, em primeiro lugar, que a educação, e especialmente a educação
cristã, precisa daquela proximidade que é própria do amor, e, portanto, que a relação educativa é
um encontro de liberdades, que envolve necessariamente a nossa capacidade de testemunhar; por
fim, relembrou a necessidade de uma “pastoral da inteligência”, ou seja, de um esforço para
expandir os espaços da racionalidade, tanto no aspecto técnico-prático, quanto no enfrentamento
do problema da verdade, do verdadeiro e do bem. Em seguida, foi a vez de Nembrini, e o que
constatei foi a sintonia que havia entre a sua exposição e a do Papa, ainda que com uma ótica
diferente: como se aquilo que Bento XVI dizia, do “alto” da experiência milenar da Igreja, se
confirmasse – por assim dizer – “pelo andar de baixo”, através de uma voz incisiva e concreta,
que demonstrava como os critérios mencionados pelo Santo Padre, com efeito, são reconhecíveis
na experiência do cotidiano. As temáticas trazidas à tona naquele Congresso retornam, ampliadas
e desenvolvidas, neste livro, que pode representar para todos os educadores cristãos uma leitura
salutar.
Aliás, em relação ao primeiro ponto mencionado pelo Papa, o professor Nembrini evidencia, por
diversas vezes, por que o outro nome da educação é misericórdia, em razão da qual o jovem
adquire a certeza de ser amado por Deus, ser encontrado e acolhido por Ele assim como é, com
todos os seus problemas, seus pecados, suas fraquezas; palavras que não devem ser lidas como
simples atitude de “bom-mocismo” – isto seria o contrário da educação –, mas no sentido de uma
generosidade e capacidade de doação, de entrega, exigida de quem quer realmente ser um
educador.
Sobre o tema da liberdade, pedra fundamental de suas explanações, Nembrini alerta contra dois
erros que podemos cometer, por temermos os danos que a liberdade das pessoas que amamos, e
que tentamos educar, pode produzir: o primeiro é ter a ilusão de promover o bem delas rejeitando
o desenvolvimento da sua liberdade; o segundo, hoje muito mais comum, é justificar e apoiar as
escolhas delas, mesmo quando equivocadas, em decorrência do medo de perder o carinho e a
confiança delas, retirando, porém, da criança, do jovem, mas também do adulto, aquele ponto de
referência, do qual têm uma necessidade essencial.
Portanto, sobre o tema do testemunho, Nembrini retoma sistematicamente o conceito de Mons.
Giussani de “coerência ideal”: que não indica uma coerência ética inatingível, mas sim uma
coerência que tem a honestidade e a humildade de reconhecer os próprios erros, e que incentiva o
educador a pôr em prática, em primeiro lugar, a conversão, que é um caráter essencial do
discípulo de Jesus Cristo que sabe não ser, ele próprio, o Mestre, mas reconhece o dever de
testemunhar a presença do único Mestre.
Por fim, parece-me que a necessidade de uma “pastoral da inteligência”, referida anteriormente,
encontre consonância na afirmação de Mons. Giussani de que a educação é “introdução ao
significado da realidade total”: a pastoral da inteligência não é acessória, ou separada do amor,
da liberdade, do testemunho pessoal. É indispensável, contemporaneamente a todas essas coisas,
se quisermos formar adultos e cristãos com raízes profundas.
Tudo isso emerge nas próximas páginas, não através de um academicismo, mas a partir de
milhares de exemplos da realidade cotidiana: a infância numa família “de antigamente”, na qual
a tradição cristã era o modo de vida; a crise daqueles anos cruciais, em meados do 68,1 que
arruinaram até mesmo o modo de viver a dimensão religiosa; em seguida, através do encontro
com um mestre, Dom Luigi Giussani, a redescoberta da pertinência da fé cristã às exigências
mais vibrantes do ser humano; e, a partir disso, uma dedicação sem limites para propor às
gerações futuras essa emocionante descoberta, sejam filhos ou alunos. Portanto, confirmando que
o que retratei ao final do Congresso de 2007 – “estamos bem conscientes da atual emergência
educativa, e de que essa emergência torna difícil a própria formação cristã, mas nem por isso
podemos adotar uma atitude de renúncia ou de defensiva. Ao contrário, somos desafiados a
tornar ainda mais visível aquele grande ‘sim’, que Deus, em Jesus Cristo, diz ao homem e à sua
vida, ao amor entre os Homens, à nossa liberdade e à nossa inteligência. Esse ‘sim’ nos leva a
assumir com confiança, e com esperança teologal, toda a profundidade do risco de educar,
conscientes de estarmos realizando, também, um grande serviço ao nosso país” – não é um
simples sermão, mas a descrição de uma realidade que muitos já vivem, e que é possível para
todos.

Cardeal Camillo Ruini

1 Na Europa, o ano 1968 é uma expressão que diz respeito ao período de contestação iniciado em maio daquele ano em Paris,
que caracterizou a vida social e política do Ocidente, até o fim da década de setenta, tendo como protagonistas os jovens que
contestavam radicalmente o status quo, inclusive através de embates entre ideologias políticas e luta armada. [N.d.T.]
1. Educador: herança de berço
Educador: herança de berço
Encontro na Paróquia Sant’Ignazio di Loyola,
Milão, 20 de fevereiro de 2004

Está se discutindo, às vezes com tons inflamados, a “reforma Moratti”1. Porém, quando se
discute a escola, devemos nos esforçar para esclarecer o que estamos falando, porque o
verdadeiro tema da escola é a educação. A tragédia do nosso tempo é que não existe mais
educação. É necessário que ao menos os adultos, os quais carregam inteiramente a
responsabilidade, recomecem daqui: talvez sejamos a primeira geração de adultos que vive de
maneira tão dramática o problema da tradição, isto é, da entrega para as próximas gerações de
um “patrimônio de conhecimento”, de valores, de certezas, de positividade, de uma ideia boa da
vida. Já não é tão evidente, nem tão imediato, que ocorra aquele milagre que sempre foi a
educação que garantiu, no bem e no mal, também em momentos terríveis da história, que o
mundo seguisse em frente.
Evidentemente, existem algumas razões. Por exemplo: a ideia de paternidade que foi
sistematicamente destruída por uma certa cultura. Porque é em torno deste nó que se joga a
partida da educação. A educação existe se, primeiramente, existir o adulto. Certa cultura em
primeiro lugar destruiu inclusive a ideia de Deus, de uma Paternidade grande à qual o homem faz
parte ou deseja pertencer. Em seguida, em efeito cascata, destruiu o resto.
Deus foi substituído por algumas grandes ideologias, razão pela qual se imaginou fosse possível
viver da esperança ou da índole ideal do comunismo. Mas assim, de algum modo, foi corroída a
própria certeza do homem de que exista algo bom e inteligente para dizer aos próprios filhos.
Como disse o grande Woody Allen: “Deus está morto, Marx está morto, e eu também não me
sinto muito bem”. Em três passagens sintetiza como a cultura do nosso tempo destruiu de modo
sistemático a ideia de paternidade. Nós todos nos tornamos adultos, os nossos filhos em
particular, lendo Mickey Mouse, isto é, uma história em quadrinhos repleta de tios e tias,
geralmente solteiros, na qual você não encontra um pai: é toda uma cultura que favorece o
desaparecimento da ideia de paternidade.
É preciso recomeçar daqui, da educação. Dom Giussani disse, recentemente: “Se houvesse uma
educação do povo, todos viveriam melhor”2. Pois bem, temos que recomeçar daqui. Então, é
necessário que cada adulto arregace as mangas e diga: “Eu quero reinventá-la, eu quero tentar
educar”. É preciso que cada um tente, mantendo o olhar fixo naquelas duas ou três pessoas,
naqueles dois ou três episódios, naqueles dois ou três momentos no qual lhe pareceu ter visto a
educação na prática, vê-la presente.

Em educação, meu pai e minha mãe são a minha primeira referência, porque evidentemente a
minha vida floresceu primeiramente com eles. Em uma situação difícil, meu pai, perto dos
quarenta anos, adoeceu de esclerose múltipla, condição que o acompanhou pelo resto de sua
vida. Assim, até mesmo caminhar era difícil para ele e por isso perdeu o trabalho, vivemos uma
situação difícil. Mais tarde trabalhou como zelador em uma escola, passando a envolver-se de
algum modo com educação. Logo, meu ofício vem de berço!
Pois bem, dentre as lembranças que carrego do meu falecido pai, além do carteado que
jogávamos juntos e do quanto ele gostava de contar sobre sua amizade com Giussani, que
conhecera pessoalmente e que estimava muitíssimo, dos tempos de criança recordo que à noite,
quando íamos dormir, meu pai vinha rezar conosco – tínhamos um quarto para os seis irmãos e
outro para as quatro irmãs, naturalmente, mesmo vivendo em um apartamento de sessenta metros
quadrados, e no quarto dos garotos havia dois beliches de três andares. Bem, a recordação mais
viva que tenho dele era de quando se ajoelhava no meio do quarto e começava: “Pai nosso, que
estais nos céus…” Isso sempre me emocionou muito, porque meu pai era daqueles que não dava
muitos sermões, falava pouco. Quando meu pai tentava falar italiano, era realmente engraçado,
porque nós crescemos em Bérgamo, e o italiano, para nós, era uma língua estrangeira, nem todos
estudavam e não o conheciam bem.3 Aliás, durante as conversas com Giussani, este morria de rir
ao ouvir meu pai falar em italiano. Por isso, o fato de meu pai se ajoelhar e começar a rezar o Pai
Nosso, sem dar lição de moral, sem dizer nada, era para nós algo de uma naturalidade incrível.
Meu pai nos criou simplesmente convidando-nos, de modo sempre implícito, a observar aquilo
que ele observava. Era como se ele dissesse: “Eu e vocês, caros filhos, estamos no mesmo barco,
e o único problema que vocês têm é ir na direção certa. Eu estou tentando: e assim vivo bem!
Assim se vive bem, sigam-me e provavelmente vocês se tornarão grandes também”.
Com o passar dos anos, a ideia que sempre tive do meu pai era de que fosse uma grande pessoa.
Quando o via sair de bicicleta para dar uma volta na região – graças a Deus, a sua esclerose
evoluiu lentamente, e por muito tempo lhe permitiu certa autonomia, de modo que com a sua
bicicleta ele conseguia se deslocar –, mesmo que pedalasse com enorme dificuldade, para mim
ele parecia um rei! Para mim, ele parecia o dono do universo. Eu o observava e, comparando-o
com os outros, meu pai era o rei do universo. Eu olhava para ele e entendia que nele a vida era
uma sabedoria. Meu pai tinha um modo de olhar para as coisas que os meus professores na
universidade, os quais procuraram ensinar-me o que era a educação, nem mesmo poderiam
sonhar. Ele observava as coisas e as conhecia: entendíamos pelo jeito como ele se movia, como
estava, como cantava, como jogava cartas, como servia os filhos à mesa e todos os amigos. Era
alguém que podíamos apostar que sabia das coisas, conhecia, sabia explicar o que é o bem e o
que é o mal, o que é a alegria, o que é a dor, por que se morre, por que existe a dificuldade, a
razão de viver e o que nos espera no fim de tudo. Exemplificava com a própria vida o que quer
dizer “mover-se em paz consigo mesmo e com o mundo”, sem dizer “não” a nenhuma das
responsabilidades, e aos estímulos que a realidade oferece. Quando criança, observando meu pai
eu dizia: “Quando crescer, quero ser assim”. Olhava meu pai e dizia: “Senhor, gostaria de ser
assim, não sei se serei pobre ou rico, se professor ou não, não sei o que farei quando crescer, sei
que quero ser um homem assim, senhor de todas as coisas porque capaz de ajoelhar e reconhecer
o verdadeiro Senhor”. Por isso, meu pai era um homem que possuía verdadeiramente as coisas.
Ademais, somem a isso a figura de minha mãe! Uma filha de camponeses, trancada em casa –
imaginem, com dez filhos em quinze anos! – praticamente sempre grávida, ou acamada, ou no
hospital. Faleceu muito jovem, em 1985, quando encontramos uma caixa em seu armário onde
havia escrito: “Se alguém encontrar estas coisas, não jogue fora, porque são a História – escrito
com “H” maiúsculo – dentro da história do mundo – com “h” minúsculo. Sabem o que havia
dentro? Retalhos de jornais que se referiam à história da Igreja: Papa João, a beatificação deste
ou daquele… Ela tinha guardado essas publicações e, de tanto em tanto, tirava da caixa e olhava
novamente a história da Igreja, do jeito que ela havia conhecido e entendido lendo a revista
Família Cristã ou outro jornal similar. Me recordo, em particular, de uma página do L’Eco di
Bergamo: “Eleito Papa João XXIII, bergamasco”. Esta é a narração da “História” dentro da
“história” do mundo: uma camponesa, tinha estudado até o terceiro ano elementar, mas tinha
uma grande consciência das coisas.

Então cresci, graças a Deus, com pais assim; de modo que para mim sempre foi fácil entender o
que é a educação: não é uma série de sermões, não é uma preocupação que devemos ter. É um
homem que vive. A educação nunca é um problema dos jovens, dos filhos, dos alunos, dos
rapazes, dos estudantes, é sempre um problema seu, do adulto. A educação é a capacidade que
você tem, ou não, de testemunhar algo. Quem quer que você seja, onde quer que você esteja, é o
testemunho de uma “certeza” e de uma “positividade” para que os filhos possam observar. Basta
isto.
Dou um exemplo mais concreto. Penso ter compreendido esta coisa quando começamos a ter
filhos. Tive somente quatro filhos, mas tive muitos alunos: decidi ser professor para tentar
comunicar aquilo que havia aprendido convivendo com meus pais. Há um episódio em particular
no qual posso afirmar ter enxergado com clareza o que estou contando a vocês. Meu primeiro
filho tinha quatro ou cinco anos, alto um tanto assim – sabem aquela altura quando sentados à
mesa enxergamos somente os olhos? Então, imaginem ele assim, de modo que só vemos os olhos
dele. Eu estava corrigindo as redações – o calvário dos professores de italiano – e me recordo
que, em dado momento, me dei conta que meu filho estava ali. Não havia percebido quando ele
chegou, não sabia há quanto tempo estava ali. Meu filho chegou e ficou ali tranquilo, observando
seu pai trabalhar. Com aquele olhar, naquele dia entendi, de repente, o que era a educação. Por
que meu filho, sem ter nenhuma necessidade particular, se aproximou de mim naquele dia? Não
queria água, não precisava comer, nem dormir: estava ali e me olhava. Cruzando com seu olhar,
eu senti a mente ser atravessada por uma pergunta absolutamente radical, entendi que naquele
olhar meu filho dizia: “Papai, garanta-me que vale a pena vir ao mundo. Diga-me que vale a pena
vir ao mundo. Diga qual esperança você tem. Por que levantar todas as manhãs e ir para a cama
todas as noites? Por que da dificuldade de viver, da morte, da dor, da fidelidade, do sacrifício?
Qual a razão verdadeira pela qual você me pôs no mundo e pela qual eu posso carregar o peso da
vida com dignidade, com esperança, com força? Pai, acompanhe-me nisto, é a única coisa que
peço”.
Desde aquele dia não consegui mais entrar em sala de aula e olhar para os alunos sem sentir
sobre mim esta pergunta: “Professor, o que é que o senhor faz no mundo?” A questão educativa é
esta: o esforço leal que faço para responder a esta pergunta. Eu, juntamente com minha esposa,
eu adulto. Porque os filhos não têm necessidade de outra coisa além deste testemunho: terem
perante si um adulto que sabe a razão por que vale a pena carregar o peso da vida. Tudo o mais é
consequência, em relação ao resto podemos ser absolutamente livres. Infelizmente, nossos filhos
e nossos alunos dizem o contrário, crescem em um ambiente minado por um desespero, por um
cinismo, por uma dúvida que corrói a bondade da vida e a bondade dos relacionamentos. Nossos
filhos não sentem mais como se a escola pudesse ser boa, como se a justiça pudesse ser boa,
como se o relacionamento entre pai e mãe pudesse ser bom, e crescem com um desespero para o
qual a resposta é, muitas vezes, a droga, a violência ou todos os dramas que vemos acontecer. Há
alguns anos li um preceito absolutamente sumário, que descreve a cultura em que estamos. Indro
Montanelli correspondia-se no Corriere della Sera com o Cardeal Martini e escrevia: “Confesso,
eu não vivi e não vivo a falta da fé com desespero; mas sempre a senti e a sinto como uma
profunda injustiça que tira da minha vida, agora que estou na prestação final de contas, todo o
sentido. Se é para fechar os olhos sem ter sabido de onde venho, para onde vou e o que vim fazer
aqui, era melhor se não os tivesse aberto”. Então, aos oitenta anos, um homem como Indro
Montanelli chega a afirmar que, se é para vir ao mundo sem saber as razões verdadeiras por que
vale a pena viver, seria melhor não ter nascido. É a fórmula sintética do cinismo terrível que os
nossos filhos respiram na escola, com frequência também em casa, e certamente na televisão, nas
brincadeiras dos amigos. Estamos em um mundo assim. Precisamos nos opor com toda força a
este cinismo!

Eu tenho em mente um episódio que exemplifica melhor. Há uns doze anos eu estava
substituindo o professor titular em uma turma de segundo ano do curso de Técnico em
Contabilidade. Falamos de vários assuntos. Depois de meia hora de debate chegamos ao assunto
que interessava, mas de uma maneira bem natural, e assim – em uma classe que eu não conhecia,
não eram meus alunos – em dado momento perguntei a um aluno: “Ouça, o que você tem para
me dizer sobre si mesmo?” Sabem o que ele me respondeu, um garoto de quinze anos? Ele disse:
“Professor, nada de mais…” – desculpem a expressão, mas relato como recebi – “eu sou o
resultado de uma transa”. Fica claro o que significa que um rapaz de quinze anos saiba dizer
sobre si mesmo apenas isso? Que esse rapaz se sinta simples e radicalmente o puro fruto
biológico de um mero ato sexual? Nem sequer de um ato de amor, mas de um mero ato sexual?
Entendem a violência impressionante guardada no coração de um jovem assim? Ele poderia
matar meio mundo, porque não existe nenhuma razão para que não o faça. Poderia matar a si
mesmo nas drogas ou matar com um fuzil, como já aconteceu nos Estados Unidos, esse rapaz
poderia ir à escola e atirar em todos aqueles que encontrar no caminho. Tudo seria uma
consequência compreensível de uma consciência tão atrofiada, tão bestial.
Fiquei aniquilado por dez minutos, depois tentei me recuperar e raciocinar. A verdadeira crise do
nosso tempo é que em nossos filhos e em nossos jovens está incorporado um cinismo. É claro
que mais tarde surgem as violências mais devastadoras. E aí saímos atrás do culpado: do
professor que deu uma nota baixa ou do pai que deu umas palmadas. Não é nada disso, é o
cinismo de uma sociedade inteira que não tem mais uma boa razão para a vida. É a questão da
educação.
Naquele mesmo dia, no intervalo, fui à lanchonete da escola muito impressionado pelo episódio
com aquele garoto e, por coincidência, encontrei uma brilhante colega, uma típica sessantottina4
de tempos atrás, a qual ficara sabendo que eu esperava o quarto filho, e assim se sentiu na
obrigação de fazer alguma brincadeira: “Ah, ah, caiu nesta outra vez!” Eu respondi: “Veja, eu
procuro e desejo ter filhos, não é que eu tenha ‘caído nessa’ exatamente. Melhor para você que
não caiu nessa, mas para mim não. Eu sempre quis ter filhos”. E ela com ares de espertinha
disse: “Sei que você é um daqueles que pensam que os filhos são uma dádiva dos céus”. Então
perdi a paciência: “Ouça, querida colega, se quiser falar seriamente, há somente duas
possibilidades: ou os filhos são dádiva dos céus, como você disse, o que é mesmo verdade, são
testemunha e presença do Ser, do Mistério presente, de Alguém maior do que eu e você; ou a
outra alternativa é que levo você até a sala de aula de uma determinada turma onde há um
rapazinho que pode lhe explicar o que são os filhos. Você deve escolher, porque não há uma
terceira possibilidade. Ou os filhos são o resultado de uma transa – mas você deve ter a coragem
de dizer isso aos filhos olhando nos olhos deles –, ou então deverá dizer aos filhos que eles são
dádivas dos céus. Isto é, misteriosamente, são o irromper de algo que é maior do que eu, do que
você e seu marido todos juntos. Não há uma terceira possibilidade”.
Esta é a raiz da questão! O problema é que aquela professora pensa como pensam todos, e na sua
brincadeira está presente todo o cinismo de uma cultura que destruiu a única coisa da qual nossos
filhos têm necessidade: saber a quem pertencem. Saber de quem são, porque é a única coisa que
os educa e os preserva, também psicologicamente, de todas as patologias pelas quais são
massacrados hoje em dia. Mas para que um filho possa saber a quem pertence, é preciso que
também os pais saibam a quem pertencem. Quando os vossos filhos começam a fazer certas
perguntas: “Papai, por que somos pobres?”, leiam e releiam o final do capítulo 6 do
Deuteronômio: “Quando, amanhã, teu filho te perguntar: ‘Que significam os ensinamentos, os
preceitos e as normas que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou?’” Ou seja: “Desculpa, pai, mas
por que eu deveria obedecer? Por que temos que ser bons? Os padres dizem que devemos ser
bons, enquanto o mundo inteiro me diz o contrário”. Ou seja: “Desculpa, pai, mas por que eu
deveria obedecer? Por que temos que ser bons? Os padres dizem que devemos ser bons,
enquanto o mundo inteiro me diz o contrário”. Parece mesmo proveitoso ser um pouco malandro,
dar um “jeitinho” para as coisas. Com as mulheres é melhor procurar uma relação séria… mas,
se por acaso aparecer uma oportunidade para uma “relação casual”, uma “pulada de cerca”, por
que não…? Então por que temos que ser diferentes? Por que temos sempre que fazer sacrifícios?
Vocês já tentaram dizer aos filhos que temos que fazer sacrifícios? Os filhos se rebelam: “Por
que temos que fazer isso?” De um ponto de vista lógico, se não há uma razão maior para que eu
faça um sacrifício, por que deveria fazê-lo? Por que temos que ser bons? Por que precisamos
dizer a verdade? Por que precisamos ser honestos? Por que não se pode roubar? Por que não é
bom ter relações antes do matrimônio? Concluindo, o que são estas instruções, estas leis, estas
normas que Deus nos deu? Que nos dá a Igreja, que nos entregaram como pilastras do
cristianismo? Mas aos filhos que perguntam “por quê?”, a resposta deve ser convicta: “Então
dirás a teu filho: ‘Nós éramos escravos do faraó, no Egito, e o Senhor nos fez sair do Egito com
mão poderosa. O Senhor fez, aos nossos olhos, sinais e prodígios grandes e terríveis contra o
Egito, contra o faraó e toda a sua casa. Ele nos fez sair de lá, para nos conduzir e nos dar a terra
que, com juramento, prometera a nossos pais. O Senhor nos ordenou praticar todos esses
preceitos e temer o Senhor, nosso Deus, para que nos suceda bem, todos os nossos dias – como
no dia de hoje’” (Dt 6,20-24). Belíssimo! Então podemos dizer aos filhos: “Bem, veja você,
pense por conta própria. Eu lhe sugiro que faça estas coisas, me siga se quiser. Eu lhe digo para
agir dessa forma para que você seja feliz, como eu sou”. Mas para dizer uma coisa assim a seu
filho, você deve fazer com que ele respire esta felicidade e este bem desde o berço, desde o
primeiro dia, desde a primeira hora. Caso contrário será somente enganação e ele logo percebe,
então você o perde já na largada. Para que você possa propor: “Meu filho, me siga! Eu escolhi
estas coisas, faço estes sacrifícios por uma conveniência suprema”, ele deve enxergar que você
vive esta realidade desde sempre. Assim ele poderá dizer: “É verdade! Vou atrás de você porque
entendo que é o melhor. Entendo que é o melhor, é uma conveniência suprema”.
Eu sempre disse aos meus alunos: ou o cristianismo é uma conveniência suprema, ou não é. A
quem interessaria o cristianismo se não fosse humanamente conveniente? Não interessaria a
ninguém. Todavia, na realidade, é conveniente viver impulsionado por um grande Pai, viver
afirmando a certeza de um pertencimento, de uma adesão a algo grande, resistindo contra a maré,
contra tudo, e por este motivo rogando, pedindo, rezando. Observando o modo como você vive,
seu filho deve poder dizer aquilo que, quando criança, eu dizia olhando para meu pai, e que é a
única coisa que hoje peço a Deus: que meus filhos possam me observar e dizer: “Seria
interessante tornar-me um adulto assim”. Me dá um arrepio pensar nisto, mas é o único desejo
que tenho como pai, que meus filhos possam dizer algo desse tipo. Não que digam: “Meu pai era
o melhor de todos, era perfeito, era confiável”. Nossos filhos usam a razão, sabem muito bem
que somos pobres coitados exatamente como eles. Fingir ser perfeito é inútil: exaspera, enche de
falsidades, enche os relacionamentos de chantagens. Aos filhos temos que dizer: “Eu sou um
esfarrapado como vocês. No entanto, estou olhando para algo maior, algo superior. Eu fui
perdoado!”
Diariamente eu sou perdoado e abraçado, somente assim podemos encarar a vida com grandeza,
encarar a morte, a dor, as coisas boas e as coisas ruins. “Vamos! Façam assim vocês também.
Pode funcionar assim também para vocês.” O segredo da educação me parece, em última análise,
estar aqui. No fundo se poderia dizer, por estranho que pareça, que o segredo da educação é não
se preocupar com a educação. É não ter o problema de educar, porque se for um problema para
você, logo se tornará um problema para os filhos. Se você tem o problema de convencê-los de
algo e de transformá-los em algo diferente, eles se rebelam, reagem, sentem que há uma coisa
que você quer impor-lhes e não aceitam, porque sentem uma restrição em sua liberdade. E têm
razão. Eles é que devem encontrar Jesus por conta própria durante a vida, e por isto precisam de
adultos que não tenham o problema de fazer com que eles se tornem cristãos. Isso até poderia ser
um desejo secreto expresso quando comungamos, mas depois não se deve mais pensar a respeito,
porque eles não precisam sentir esta preocupação; se a percebem, criam resistência. Os filhos
precisam de adultos que amem a liberdade deles, que apostem na liberdade deles, porque assim
ensinamos o amor de Deus por nós, e é tão forte esse amor que os filhos não deixaram de nos
seguir.
O pai deixou o filho pródigo partir, mesmo que fosse evidentemente um erro, que o filho
estivesse fazendo mal a si mesmo. Foi embora da casa do pai dizendo: “Estou farto desta casa,
quero ir embora”. Todas as crianças já fizeram as malas: alguns aos cinco anos, alguns aos três,
alguns aos onze, todos os filhos fizeram pelo menos uma vez a mala. E quando fazem a mala até
a idade de cinco anos, damos umas gargalhadas e seguimos em frente. Mas quando têm dezoito e
começam a dizer: “Estou farto desta casa”, é uma ferida terrível. O pai do filho pródigo deixou-o
partir. Nós nunca permitiríamos. Nós trancamos a porta e dizemos: “Não, daqui você não sai!
Esta é sua casa. Com todo o bem que lhe quis, com todas as coisas que fiz por você, o esforço
que fiz por todos estes anos…” Nessas condições o filho se machuca, ou machuca os pais. Nós
trancamos a porta à chave. O pai do filho pródigo, ao contrário, lhe deu a parte dos bens que lhe
era de direito e disse: “Vai”.
Mas por que o filho pródigo pôde voltar? Pela certeza absoluta de ter uma casa e alguém que
esperava por ele. O filho pródigo, diz o Evangelho (Lc 15,11-24), gastara todo o seu dinheiro, se
alimentava da comida dos porcos. Isto é, um morto de fome! Havia tocado o fundo antes de
poder dizer a si mesmo: “Que tolo! Na casa de meu pai, até mesmo os servos têm de comer, de
beber, onde dormir. Eu aqui me alimento daquilo que comem os porcos. Voltarei, voltarei para
meu pai! Eu me jogarei aos seus pés e direi ‘Pai, me perdoe’”. Mas este retorno para a casa do
pai foi possível porque aquele filho sabia que o acolhimento do pai o esperava, certamente com o
coração partido desde o dia em que o filho foi embora. Podemos imaginar esse pai, desde então,
por anos, todos os dias observando o horizonte na espera do retorno do filho, pronto para fazer
uma festa se o filho chegasse. O pai está sempre lá, ao primeiro clarear do amanhecer, na janela
mais alta da casa, a observar a estrada ao longe, para ver se por acaso o filho retornava. Esta é a
educação. Os nossos filhos com aqueles “cabos-de-guerra”, altos e baixos insensatos, nos deixam
com os nervos à flor da pele e nos põem à prova, querem saber se os pais “estão presentes”,
permanecem, se são a rocha da qual eles precisam. Se a nossa casa está fundada na rocha: isto
querem saber os filhos, e nos põem à prova, puxam para ver se a corda arrebenta. Mas você
resiste ali, presente, firme.
O outro erro que cometemos para não deixar os filhos irem embora, isto é, para não sofrer com a
ferida que a liberdade deles produz, preocupados como estamos pelo destino dos nossos filhos, é
fechar a casa e dizer: “Eu também vou com você. Vou junto, assim fico de olho, assim pelo
menos fico mais perto, controlo tudo”. Mas imaginem aquele filho pródigo se, no dia em que
percebe ser um tolo, quando se vê sujeito a comer com os porcos, em vez de ter um pai que o
espera em sua própria casa, tivesse um pai que está ali, um pobre coitado como ele: a casa não
existe mais. Que desespero! Ter o desejo de voltar para casa e dar-se conta de que o pai, para ir
atrás do filho, fechou e vendeu a casa, e não há mais uma casa. Não há mais quem possa nos
perdoar! Como em I due orfani de Giovanni Pascoli5, que Giussani nos ensinou a ler: “Não há
mais quem nos perdoe”. Isto é, não há mais um pai e uma mãe, não somos mais de ninguém,
somos completamente órfãos.
Os dois erros: fechar a casa para não permitir que os filhos saiam, ou então sair de casa com eles.
Na verdade, o adulto é aquele que resiste, que está presente. A minha falecida mãe, quando o
primeiro dos dez filhos deixou a família, por meses preparou um prato a mais e o mantinha
aquecido. Nós, os outros filhos, dizíamos: “Mãe, ele se foi, saiu de casa, desista! Partiu!”, e ela
falando sério replicava: “Pode ser que ele volte hoje à noite. Poderia voltar esta noite”. E por
meses e meses ela preparou um lugar à mesa para o meu primeiro irmão, naquela cadeira entre
meu pai e o segundo filho. Punha prato e talheres, porque meu irmão poderia voltar “naquela
noite”. Esta é a estatura dos nossos pais! E é a estatura que exigem de nós os nossos filhos.
Pessoas presentes, que resistem em decorrência de uma felicidade que nós próprios desfrutamos,
por um bem que nós presenciamos, por uma esperança que nós próprios vivemos. Esta é a única
coisa da qual têm necessidade os nossos filhos.

Então, surgem duas ou três consequências que menciono rapidamente. Primeiro: nunca tenham
medo de errar, para os nossos filhos somos os melhores pais possíveis. Se a educação é aquilo
que eu disse, não existe o problema da “coerência” e da “incoerência”: os filhos não são burros,
sabem que você é incoerente, e fingir ser um pai particularmente bom, espetacular, coerente é
uma coisa que não os convencerá. Nunca conseguiremos enganar os filhos, eles sabem muito
bem das incoerências de que somos capazes, sabem que somos uns pobres coitados como eles,
nunca os convenceremos do contrário. Os nossos filhos não precisam que sejamos coerentes de
um ponto de vista “moral”. Eles precisam daquilo que Giussani chama em Educar é um risco de
“função de coerência ideal”: é o “ser presente” que falei anteriormente. Os nossos filhos
perdoam a nossa fraqueza moral, mas não podem perdoar a falta de coragem, a falta de
responsabilidade perante a realidade, a ausência de uma certeza última em relação ao destino:
isto eles não perdoam.
Um outro exemplo vivido literalmente na minha pele: quando dez filhos, entre zero e quinze
anos, moram em uma casa com sessenta metros quadrados, é uma bela bagunça. No inverno
então, quando não se pode sair para ir ao centro comunitário da Paróquia, era ainda pior! Meu
pai chegava em casa à noite cansado do trabalho e, às vezes, a casa estava transformada em uma
espécie de selva, uma desordem total, e minha mãe não estava bem, estava grávida ou
amamentando… não lhe restavam muitos recursos, pobre homem! Então ele tirava o cinto da
cintura e “patapim e patapum”, chi ciapa ciapa e chi g’há paura scapa – em quem pegar pegou,
e quem tem medo que fuja. Ou seja, ao chegar em casa meu pai se deparava com um vidro
quebrado, dois filhos feridos, a mulher em lágrimas, o filho menor que esperneia: ele não tinha
muito tempo para fazer investigações preliminares para saber quem, daquela vez, tinha
começado a zorra. Então, me lembro de uma vez que cheguei em casa vindo da escola e, assim
que tirei a mochila das costas, chegou meu pai. Ele encontrou um alvoroço infernal. Daquela vez
eu não fui rápido o suficiente e sobrou para mim: me encheu de sopapos! A minha pobre mãe,
que sempre teve um olhar cauteloso comigo, correu para me socorrer e conteve meu pai, mas ele
já tinha me batido bastante! Ela o segurou e disse: “Dario! Franco entrou em casa agora, ele não
tem nada a ver!” Meu pai, muito sério, pôs uma mão no meu ombro e disse: “Tudo bem, põe na
conta para a próxima vez”. Não ocorreu a ele o problema de dizer: “Meu Deus, agora o
Franquinho ficará traumatizado por causa da surra que não merecia”. Ele disse: “Põe na conta
para a próxima vez”. E eu garanto a vocês que odiei fortemente os meus irmãos porque tinham
sido mais rápidos, só por isso.
Jamais me passou pela cabeça, sequer minimamente, a ideia de que meu pai não gostasse de
mim, ou não me amasse. Nem mesmo naquela situação difícil em que claramente ele estava
errado, quando tinha pecado de injustiça grave em relação a mim – pelo menos as surras para
mim pareciam graves… Quando eu digo: “Não se preocupem”, é disso que estou falando. Digo
mais: esta mania de que todos nós deveríamos ter um psicólogo fixo em casa! Ninguém é mais
capaz de ser pai, ninguém é mais capaz de ser mãe. Assim que acontece um problema, é como se
precisássemos ir ao especialista: é uma espécie de “hospitalização” ou “internação” do
relacionamento educativo, tanto na escola quanto na família! Parece que devemos ter três
faculdades para educar uma criança. Já chega com esta história, porque vocês são os melhores
pais possíveis, e não se preocupem quando cometerem erros, porque não é isto que traumatiza as
crianças: o que traumatiza é a sensação de caminhar sobre areia movediça, é o olhar incerto entre
o pai e a mãe quando dentro de casa, é a impressão de que a casa esteja construída sobre a areia e
que basta um sopro de vento para desabar tudo. São essas as coisas que assustam os filhos e à
noite não os deixam dormir, mesmo quando não gritam e não têm pesadelos. Ao contrário, se os
filhos têm a sensação de que sua casa é fundada sobre a rocha, mesmo quando você errar, mesmo
se você não acertar em tudo, eles irão sempre perceber a solidez dessa casa.
Do contrário, criamos para nós mesmos problemas absurdos: “Dou umas palmadas, ou não
dou?”, “Meu Deus, li que um psicólogo disse que determinado rapaz se jogou da ponte porque
tirou um quatro em matemática. O que devo fazer?” Não está aqui o problema.

Depois existe aquela armadilha incrível que é o uso da televisão. “Meu filho só vê documentário
e desenhos animados na televisão”. Disney, naturalmente: não tem sexo, não tem violência, não
há nada de ruim, então posso permitir – não há nem sequer pais e mães, para dizer a verdade…
Em relação à quantidade existem todas as vertentes: uma hora ao dia, uma hora e meia, duas, de
acordo com o boletim escolar, de acordo com as tarefas cumpridas. De um modo ou de outro,
mal não pode fazer. Quando os pais, com relação aos filhos, se perguntam: “Que mal há em
permitir que assistam a um pouco de televisão?”, já perderam a batalha, já desistiram. A pergunta
“Que mal há?” esconde a resignação do educador. A verdadeira pergunta, em se tratando de
educação, não deveria ser “Que mal há, qual o problema?”, mas sim “Que bem há?” Então você
descobre que, noventa por cento das vezes, haveria algo melhor a oferecer para os filhos. Desta
maneira, você é o protagonista da educação e não a televisão. A pergunta “Que mal há?” supõe
que você recuou e colocou a televisão na linha de frente para decidir sobre seu filho. A pergunta
deve ser sempre “Que bem há?” Que bem existe neste momento para este filho? Para o bem dele,
o que eu posso afirmar, o que há dizer? Uma excursão de bicicleta, pegá-lo pela mão e sair com
ele, passear por aí, sei lá. Algum bem sempre há!
A questão da escola me vem à mente. Esta doença mortal que quase todas as mães italianas têm,
as quais estão muito convencidas de que a escola é uma coisa séria. Uma vez me aconteceu de
uma conferência ter sido cancelada. Agenda limpa, uma quinta-feira livre. Uma coisa incrível!
Volto para casa na quarta-feira à noite e dou a grande notícia para minha esposa: “Grazia!
Amanhã estou livre, a conferência foi cancelada, vou com os filhos para a montanha”. Vocês
sabem o que ela disse? “Amanhã eles têm aula!” Eu achei graça: “Você ficou doida? Posso ficar
um dia todo com meus filhos, algo que nunca acontece, e você me diz que eles têm aula?” Não
sei por qual motivo as mães, hoje em dia, têm quase sempre esta fixação com a “aula”, e pensam
que seja menos importante estarmos todos reunidos. Não tenho nada contra a escola, claramente.
Sou um professor, e daqueles que vão à escola mesmo com uma febre de quarenta graus. Mas há
um modo de viver a escola que é terrível, se você não tiver uma medida justa, se não der o peso
justo. Quando os filhos chegam em casa com uma fome gigante, mortos de cansados –
experimentem vocês, ficar cinco horas parado em sala de aula ouvindo cinco senhores que dizem
coisas que não têm a menor importância para vocês – largam no chão a mochila: “Oi,
maaanhêêêê!” Resposta automática: “Põe no lugar essa mochila!” Depois a mãe coloca na sua
frente o prato de macarrão, o filho se lança, espeta a primeira garfada, está por levar à boca e
ouve a pergunta: “Como foi na escola esta manhã?” Eu jogaria tudo para o alto! É inevitável.
Este é o instinto quando, todo santo dia, a primeira coisa que um rapaz ouve é: “Como foi na
escola esta manhã?”, ainda sem ter dado a primeira garfada no prato de comida! Ele responde
como todos os estudantes: “Nada!” Porque a escola coincide com o nada! Eu digo isso tudo
brincando, mas vejam bem que essas brincadeiras contêm comportamentos psicológicos e
espirituais de um certo peso. Antes de tudo os pais devem deixar o filho dar pelo menos umas
três garfadas, depois, quando as primeiras contrações da fome se acalmaram um pouco, devem
olhar nos olhos do filho e dizer: “Como foi com seus amigos? Foi divertido?” Assim é outra
coisa! Porque o filho entende que está presente o problema do seu destino, da sua felicidade! Se
pescarmos o jovem deste modo, depois conseguiremos puxar também o assunto da escola. É
fácil, é óbvio. Ao contrário, se enfrentarmos continuamente como argumento principal a coisa
que ele mais odeia, e a colocarmos entre nós e os filhos, então será muito difícil que os jovens se
sintam livres para abrirem o jogo sobre outras questões, as preocupações, os gostos e os
desgostos que eles têm. Existencialmente se sentirão como estranhos, inimigos, não dirão nada
jamais. E depois nós reclamamos que os filhos não se abrem conosco… Nós mesmos
construímos esse abismo que nos separa, pondo em primeiro lugar coisas que não deveriam ser
as mais importantes.
A questão decisiva, no fundo, é o testemunho que temos coragem de dar. A minha família
também me perdoa por ficar pouco tempo em casa. Eu costumava ficar em casa duas noites por
semana, mas hoje em dia nas noites de domingo não consigo mais, contudo não me parece que
meus filhos tenham o problema de não ter o papai em casa. Primeiro, porque sem mim parece
que estão muito bem, obrigado. Segundo, porque o fato de estar pouco em casa torna muito
precioso o tempo que passamos juntos, no qual fazemos inúmeras coisas belas.
Há dois anos, num sábado, meu filho disse: “Pai, não é justo que você ande pela Itália explicando
Dante a meio mundo, e nunca me explique nada!” Era verdade. Na segunda-feira seguinte ele
tinha um debate sobre Dante na escola, então pus a mão na consciência e disse: “Você tem razão,
amanhã à noite vamos estudar um pouco de Dante juntos.” Começamos a ler Dante, eu, ele, seu
irmão maior e dois vizinhos. Expliquei o primeiro canto do Inferno, como explico aos meus
alunos na escola, e eles gostaram muito e me pediram para continuar. Assim, um ano mais tarde,
ainda nos encontramos todos os domingos à noite: eu, meus filhos e seus amigos lemos
Leopardi,6 Dante, assistimos filmes ou convidamos algum jornalista que nos fala a respeito da
guerra em Israel. Há dois ou três domingos, para a leitura de “Paolo e Francesca”, canto V do
Inferno de Dante, estavam presentes duzentos e cinquenta jovens, os quais, numa noite de
domingo, em vez de irem para a balada ou drogar-se em algum lugar isolado, vieram ouvir
Dante. Temos rodado por todas as casas possíveis e imagináveis à procura de uma sala de estar
sempre maior, agora nos encontramos em uma escola, porque nenhum outro lugar nos comporta.
Hoje existe uma possibilidade de educar como talvez nunca tenha existido antes. Os jovens de
hoje se agarram de um modo impressionante aos pedacinhos de novidade, de entusiasmo e de
beleza que encontram. Foi um boca a boca, de amigo para amigo, à namorada, o primo da
namorada, o sobrinho do vizinho. Há até mesmo trabalhadores. Quando há a presença de um
adulto, a educação entra em movimento. Desse modo os filhos seguem você, porque o problema
não é dizer as coisas para eles, mas mostrar.
Fui para Serra Leoa nestas férias de Natal com minha esposa e todos os meus quatro filhos.
Custou-me uma fortuna, peguei um dinheiro emprestado, mas para fazer essa viagem eu teria
mendigado pela rua, porque aqueles dez dias vividos com os meus filhos na Serra Leoa foram
fantásticos. Meus filhos perguntavam: “Por que ir? Não tem bastante ocupação por aqui, precisa
se meter também com a Serra Leoa?” Respondi: “O que eu deveria dizer ao Padre Berton? Ele
veio, me olhou nos olhos e pediu: ‘Você me dá uma mão?’ Eu poderia dizer não? Garotada,
como poderia dizer ‘não’ a Berton?!” Então levei todos comigo. Tudo mudou: a minha família
não é mais a mesma depois que estivemos em Serra Leoa. Existe outro modo de olharmos uns
nos olhos dos outros. Durante aqueles dez dias eu apenas disse a eles: “Olhem ao redor, depois
conversamos”. O resultado é que o nosso relacionamento se transformou. Meus filhos
observaram atentamente, viram coisas, compartilhamos uma responsabilidade. Agora, se fico
fora de casa dez noites seguidas, em vez de ficarem amargurados, meus filhos entendem e me
apoiam, me ligam para perguntar: “Como foi hoje? Tudo bem? Cuidado na direção”. É uma
coisa fantástica! Devemos acompanhar os filhos, e fazer com que eles observem o que nós
mesmos enxergamos.

1 A referência é à lei n. 53/2003, que regula o Sistema Nacional de Educação, e aos debates que acompanharam o processo
legislativo.
2 “Imaginem que canto popular poderia ressurgir se uma educação do coração das pessoas se tornasse horizonte de ação da
ONU, em vez dos duelos de morte entre quem quer que seja – muçulmanos, herdeiros dos antigos hebreus ou latinos –,
apoiados por aqueles que deveriam fazê-los cessar. Essa seria a verdadeira riqueza da vida de um povo! Se houvesse uma
educação do povo, todos viveriam melhor. O medo ou o desprezo pela Cruz de Cristo jamais nos permitirão participar da
alegria de viver dentro de uma festa popular ou de uma expressão familiar. O testemunho de Dante Alighieri floresceu uma vez
mais, na dor da senhora Coletta: ‘Em ti todo o perdão, toda a piedade, toda a doçura, no padrão superno confluem da mais
ínclita bondade’” (Luigi Giussani, abertura do telejornal italiano TG2 das 20h30, 18 de novembro de 2003, no dia seguinte ao
atentado em que perderam a vida dezenove soldados italianos em Nassíria, publicado na revista 30Dias, dezembro de 2003.
3 Em Bérgamo, ainda hoje, muitas pessoas têm como idioma nativo o dialeto, chamado bergamasco.

4 Referência ao ano de 1968. [N.d.T.]


4 G. Pascoli, “Il cieco”, de Primi poemetti. In: Poesie. Milão: Garzanti, 1994, p. 337.
2. Assunto para Homens
Primeira palestra do Curso para Educadores da Escola La Traccia
Calcinate1 (Bérgamo), 5 de Fevereiro de 2010

É uma tarefa complexa esta, que estamos prestes a realizar. O texto que pretendemos encarar,
Educar é um risco,2 não é fácil, até mesmo pela sua profundidade. O que vou propor tem a
intenção de ser somente uma breve apresentação e lançar algumas sugestões, esclarecer algumas
palavras que me parecem decisivas e fundamentais sobre a questão educativa, no modo como é
proposta por Giussani. Há um pré-requisito: para compreendê-lo, sobretudo na primeira parte,
em que ele propõe as duas grandes premissas, é preciso um ato de humildade.
Noutro texto, Giussani diz, relembrando um filósofo: “Raramente o homem aprende aquilo que
crê já saber”3. Por isso, devemos fazer um esforço para rever as coisas do início, para
compreender o desenvolvimento, as consequências, a dinâmica daquilo que chamamos
educação. É preciso um ato de coragem, indispensável para compreender o teor do desafio que o
texto apresenta, a proposta que nos faz, a raiz do problema; porque, como sabemos, a educação é
realmente um “assunto para Homens”.
A educação, precisamente, se identifica com a relação entre os Homens; a educação é o que faz
do relacionamento entre os Homens um convívio realmente humano. O que faz a diferença entre
o Homem e o animal é exatamente a educação, ou seja, a introdução à realidade: o
acompanhamento de uma criança, do Filho do Homem, ao encontro de seu destino, em direção
ao real, em direção ao significado das coisas. A educação é algo que diz respeito a todos os
homens e a todas as mulheres. Claro, em particular, o dever dos pais e, à sua maneira, o dever do
professor; mas é, em primeiro lugar, o dever do Homem. O Homem, por seu modo de ser, e ao
relacionar-se com outros Homens, educa: o Homem educa sempre. Isto que estamos fazendo esta
noite é educar-nos; quando nos encontramos pela rua, nos educamos; quando vamos ao trabalho,
nos educamos e educamos aos outros que nos observam. É preciso ter essa coragem, essa
lealdade, para tentar enxergar cada coisa em sua estrutura originária.
Tenho a pretensão, portanto, de oferecer uma introdução ao texto; a própria profundidade deste
me obriga a proceder praticamente com um título por vez. Vou procurar dar alguns exemplos e
comentar algumas páginas, alguns trechos que lerei, a fim de que cada um possa levar para casa
algumas ideias fundamentais, algumas palavras-chave.

Primeira premissa – Educação é introdução à realidade


Partamos do início, de uma constatação totalmente elementar. Poderia parecer óbvia, mas não é.
Como cada coisa realmente fundamental, que frequentemente é tida por notória, por conhecida, e
na verdade é exatamente algo que devemos rever e recuperar sempre. Eu começaria com uma
pergunta filosófica: O que temos ao nosso redor? Quem somos? O que somos? Quando viemos
ao mundo, quando uma criança sai do ventre de sua mãe, quando um homem entra na realidade,
o que ocorre? O que constatamos? Ou, por outro ponto de vista, a pergunta poderia ser: O que
fez Deus quando criou o mundo? O que fez Deus quando deu início à criação? Fez duas coisas –
e a fidelidade de Deus vê-se exatamente nisto: Deus é contínua e eternamente criador, porque
continua fazendo estas duas coisas que fez desde o princípio: a realidade (as coisas, o existir, o
mundo, o universo assim como o vemos); e o Homem, o coração do Homem. Bem, a educação
diz respeito a isto, diz respeito a esse Homem. Imaginem exatamente o bebê que sai do ventre de
sua mãe, quando vocês, maridos, o seguraram nos braços no hospital, tão logo a esposa de vocês
havia dado à luz, aquela criança veio ao mundo dotada da natureza, ou seja, destas duas coisas:
da realidade que há ao seu redor e de si mesma. Quando Giussani, na primeira premissa, diz que
a educação é introdução à realidade,4 fala justamente disto: pelo que somos responsáveis, como
pais e professores? Pelo encontro dessa criança, desse filho, com o real, com todas as coisas.
Essa criança tem o direito de encontrar a realidade por inteira, ou seja, de acordo com todas as
suas dimensões, por tudo o que é, por tudo o que representa, por tudo o que lhe suscita: é inata,
na criança, a necessidade de encontrar e de abraçar toda a realidade. Eu acredito que essa
necessidade exista desde quando Deus lhe infunde a alma, ou seja, desde a concepção – tanto é
que os especialistas dizem que, até mesmo durante os nove meses que passa na barriga da mãe, o
bebê já começa a construir esse relacionamento com a realidade; começa a se estruturar, ainda
que de modo completamente inconsciente, a exigência de um relacionamento com as coisas, de
um convívio com o real.
Por isso, quando Giussani diz, na primeira premissa, que a educação é uma introdução à
realidade total, significa o seguinte: a vida inteira é essa progressiva e interminável aventura
educativa – o fim será quando virmos o real e aquilo que o fundamenta, ou seja, o próprio Deus,
cara a cara, Jesus como Ele é, como disse São Paulo: “Se passassem cem anos, ou passassem
mil”, não termina nunca, justamente porque é um ingressar passo a passo neste mistério que é a
realidade.
Mas ingressamos dotados de quê? Armados com quê? Certos de quê? Do nosso coração! Ou
seja, daquele desejo inevitável que temos pelo bem, a exigência irrevogável de sentido. Para usar
uma palavra que aparecerá muitas vezes esta noite: dotados da nossa natureza, dotados por Deus
deste anseio de bem, de felicidade, desta inclinação a poder abraçar todas as coisas, conhecer
tudo, amá-las e servi-las. Como dizia uma antiga fórmula de catecismo: Por que Deus nos criou?
Os mais velhos entre nós irão lembrar: “Para conhecê-Lo, amá-Lo e servi-Lo nesta vida, e poder
gozar na outra, no paraíso”.
Conhecer, amar, servir. Esta é a irrevogável exigência do coração do homem, de cada ser
humano que venha ao mundo. Conhecer a verdade, conhecer as coisas, saber por que as coisas
existem, saber qual é o sentido das coisas, mas não para saber somente intelectualmente. Não é
suficiente para o Homem conhecer a realidade, tem uma outra exigência: de poder abraçá-la, de
poder amar a verdade. Porque o homem é feito não só de razão, mas também de sentimentos, de
afeto, de capacidade de aderir às coisas; é não só a exigência de conhecer a verdade, mas também
de amar a verdade, de abraçar a realidade e, portanto – terceira palavra –, é a exigência de que a
vida seja uma coisa positiva, seja uma beleza, uma maravilha. Em termos teológicos: que a vida
seja repleta de esperança!
Nos termos do catecismo, em termos da experiência cristã, essas exigências elementares que
temos, sintetizadas na palavra “felicidade”, se chamam “fé”, “caridade” e “esperança”. São as
três virtudes teologais, as três características de Deus, as três faces de Deus. São as três pessoas
da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Uma vez que somos feitos a imagem e semelhança de
Deus, ainda que sejamos capazes de toda traição, apesar de todo o mal que podemos carregar
conosco, somos invariavelmente feitos deste modo: exigência de verdade, exigência de bem e
exigência de beleza.
A primeira coisa que devemos dizer, portanto, é: se a educação é introdução à realidade, significa
que educar é acompanhar a criança, pouco a pouco, enquanto cresce, na satisfação desse desejo,
dessa aspiração, dessas exigências, para que tenha consciência delas e as verifique ao longo da
vida. É isso que todos nós fazemos, todos os dias.
É nesse sentido que eu estava dizendo: devemos repetir a nós mesmos as coisas que imaginamos
conhecer, porque justamente as coisas que aparentemente são as mais óbvias são aquelas às quais
devemos recorrer com mais frequência, sobretudo em um mundo que as nega de modo
sistemático e organizado, cientificamente determinado. Devemos nos ajudar uns aos outros a
recordar como somos feitos, qual é a nossa natureza e, portanto, como são feitos nossos filhos.
Até o Papa disse, em um memorável discurso sobre a educação, em Roma, há alguns anos,
usando esta expressão: os nossos filhos vêm ao mundo como nós viemos, e os nossos avós e
bisavós, Adão e Eva, cem anos atrás, mil anos atrás.5 São como devem ser, nascem segundo a
vontade de Deus, ou seja, com um coração feito para a felicidade. A educação será uma
introdução à realidade, ou seja, um acompanhar, uma ajuda que damos aos nossos filhos para que
caminhem dentro da vida, decididos, bradando, tratando seriamente o próprio coração, e esse
desejo de felicidade que os caracteriza e que – diga-se imediatamente – é tão frequentemente
esquecido, traído exatamente pela cultura na qual nos encontramos, pelo mundo em que estamos.

Segunda premissa – A realidade não é nunca realmente afirmada se não for afirmada a
existência de seu significado
Vou ler um trecho de uma carta que escrevera uma menina ao seu professor: “Nesses dias sinto,
como nunca, que estou vivendo de modo passivo” – cada um pense nos próprios alunos e nos
próprios filhos, porque a consciência dessa menina de dezesseis anos define exatamente o que
cada um de nós vive, o drama que cada um de nós vive – “e ao fazer isso, é como se eu já tivesse
morrido, e a última coisa que eu quero é morrer. Para ser sincera, me deparei pela primeira vez
com esse vazio, com esse sentimento de uma pessoa inútil que vive somente porque nasceu, há
dois anos, de modo muito intenso, mas, como muitas vezes acontece, esse amargor tomou conta
de mim por pouco tempo, e aí voltei para a vida como se estivesse tudo bem. O ponto é que
agora estou cansada, cansada de adiar a questão, quero encarar o que vejo, não importa se tenho
que sofrer, porque estou certa de que a satisfação, a paz, e a alegria que vou sentir quando
encontrar o que estou procurando será enorme. Agora me sinto grande o suficiente para bater de
frente com a realidade, por quanto possa ser dura. Quando falo com as pessoas próximas a mim,
meus amigos, meus pais e os adultos ao meu redor, na maioria das vezes, não me entendem; ao
contrário, me dizem que não tenho nada do que me queixar porque tenho tudo de que preciso:
sou amada, vou bem na escola, tenho todo o necessário. Quanta bobagem! E a pior coisa é que
me sinto incompreendida, me fizeram acreditar que esse problema diz respeito somente a mim e
que o que sinto é fruto dos meus complexos. Na verdade, acredito que no fundo, no fundo, eles
também se sentem como eu” – ou seja, os adultos, ou seja, nós – “mas são covardes demais para
admitir, e se renderam antes mesmo de fazer alguma coisa. Assim continuam a vida vazia deles,
sem nem ao menos tentar mudar alguma coisa, porque alguém pode ter dinheiro, pode ter fama,
pode ter sucesso, mas a felicidade, a única coisa que pode nos fazer vivos, é a coisa mais difícil
de ser alcançada”. Em seguida, escreve essa afirmação que já vislumbra uma possível solução,
um possível percurso. Diz, sempre se dirigindo ao professor: “Me tocou muito o fato de que
você, quando jovem, se sentia como eu, porque pela primeira vez me senti compreendida e me
senti normal. Eu achava mesmo que era maluca”.
Esse é o conteúdo da educação: esse sentimento de vazio que clama por preenchimento, essa
atração pela positividade das coisas. Quando, na primeira premissa, Giussani diz que a educação
é introdução à realidade total, acrescenta: o que quer dizer que a educação é uma introdução à
realidade total? Quer dizer que a educação é a introdução à realidade, afirmando o sentido,
afirmando o significado, afirmando uma possibilidade de bem. Todo o nosso dever como adultos
se resume nisso.
O termo “educação” pode ser identificado com outra palavra que já indica um método:
“testemunho”. O educador não deve fazer outra coisa senão testemunhar, dar uma explicação,
com os fatos, de uma experiência de positividade – não somente com as palavras. A educação é
um testemunho. O que os nossos filhos precisam enxergar, o que os nossos alunos precisam
enxergar é exatamente isto: um adulto que saiba aquilo que na vida é preciso saber. Aquilo que
na vida é preciso saber não é a física, não é a matemática, não é o grego. Pode ser que algum
dentre vocês não tenha feito estudos particularmente elevados, mas o que determina a estatura da
personalidade, o que demonstra o valor do homem, não é que saiba grego ou latim. A estatura do
homem, o valor da pessoa é dado pela certeza sobre a qual repousa o seu dia, a sua vida, as suas
decisões. É isso que os nossos filhos esperam de nós. É disso que eles precisam; e nesse sentido,
então, podemos dizer imediatamente qual é a questão fundamental: o problema não são os filhos.
Se é verdade o que tentei explicar, que os filhos vêm ao mundo como deve ser, vêm ao mundo
com o que é realmente necessário, todo o problema da educação recai sobre nós. O problema da
educação são os adultos, não os jovens, não as crianças. O dever da criança é observar. Ela não
sabe quando tem um ano, quando está no ventre materno; mas creio que, desde o ventre materno,
nossos filhos nos observam, sempre, com o “canto dos olhos”. Eles nos observam sempre. Parece
que estão fazendo outra coisa, parece que estão brincando entre si, parece que estão fazendo
birra, parece que estão comendo, que estão dormindo, parece que estão na creche, que vão à
escola, mas a verdadeira atividade que realizam é observar. Observam sempre o adulto que têm
diante de si; primeiro aos pais e depois, pouco a pouco, as outras figuras adultas que encontram –
ou seja, a professora, os instrutores –, e depois o ambiente em que vivem. Agora dá para
entender em que sentido todo o problema recai sobre nós: falar de educação é falar sobre os
adultos, não é falar sobre as crianças. Claro, não sou assim tão ingênuo para pensar que não
tenha valor o conhecimento de uma série de dinâmicas psicológicas, sei bem que precisamos
falar também sobre a criança, sobre seu percurso; mas a educação tem como protagonista, tem
como sujeito ativo, o adulto, porque é para onde a criança direciona seu olhar, é ali para onde o
aluno direciona o seu olhar.
Segunda premissa, portanto: a realidade não é nunca realmente afirmada se não for afirmado o
seu significado. O que significa? Significa que a responsabilidade do adulto é responder, de
algum modo, àquele anseio de bem, àquele desejo de sentido, de felicidade. Ou seja, significa
que a educação é um testemunho; e isso tem consequências importantes. Se é assim, a educação
não é questão de discursos; as palavras, em educação, são absolutamente secundárias. Confiamos
muito nos nossos discursos, nos nossos sermões, nos nossos conselhos, e, na verdade, as palavras
em educação contam pouquíssimo; às vezes, são necessárias – raramente – para descrever uma
experiência que se faça, mas jamais podem substituí-la. A educação é o testemunho de um bem
que se vive.

Ponto I – A lealdade com a tradição, fonte da capacidade de certeza


1. Valor deste princípio
Feitas essas duas premissas, entramos na definição das primeiras duas grandes palavras. A
primeira é assim indicada por Giussani: “A lealdade para com o dado, para com a tradição, fonte
da capacidade de certeza”.6. Um título que parece difícil, mas na verdade significa o que acabei
de dizer: a lealdade com a tradição significa que a criança tem a necessidade de observar
alguém. A tradição para ela será o quê? Serão, em primeiro lugar, seus pais, sua família, aquilo
que a precede. A lealdade com o que a precede é, para ela, a condição pela qual pode crescer
confiante na vida, segura na vida. O contrário disso é uma doença, dá origem a uma patologia. A
certeza da criança vive da certeza do adulto que tem diante de si, na solidez do adulto que está na
sua frente. Somente assim o jovem cresce sadio, porque cresce assertivo. Na lealdade, no
diálogo, na comparação com o adulto que tem perante si, o jovem cresce na sua própria certeza.
O exemplo que dou é sempre este: imaginem a criança que, com três anos, começa a fazer
perguntas e indaga ao pai: “Papai, o que é aquela coisa lá em cima no céu?”, e o pai lhe diz:
“Sabe que não sei? Tente perguntar para a mamãe”. Ela pergunta para a mãe: “Mamãe, o que é
aquela coisa lá em cima no céu?”, e a mãe responde: “Sei lá, acho que é a lua, mas a tia diz que é
o sol, e a vovó, ao contrário, diz que é uma coisa estranha que gira”. Imaginem essa criança que,
aos três anos, quando faz perguntas, ao invés de ouvir uma resposta, ouve uma dúvida sobre
tudo: seria como alguém obrigado a caminhar na areia movediça, cresceria incompleta,
invariavelmente. Na verdade, a criança precisa que lhe digam: “Meu filho, é o sol! Se chama
sol!” Depois a criança questionará por que o sol se move, por que gira em torno da Terra. O pai
talvez, porque não teve estudo, dê uma resposta errada, cientificamente errada, talvez diga:
“Porque a Terra está parada e o sol gira ao redor”. É mais importante a criança acreditar nessa
afirmação errada do que crescer no ceticismo terrível gerado pela ideia de que não existe uma
resposta; porque se ela acredita no que o pai diz, no que a mãe diz, nessa hipótese que lhe
oferece o adulto, cresce com uma hipótese segura, com uma certeza que, quando adulta, estará
até mesmo em condições de corrigir e de verificar. Irá à escola, e a professora lhe explicará que
não é assim, que é a Terra, na verdade, que gira em torno do sol, o sol está parado. Será a criança
que irá corrigir a hipótese do adulto; mas antes disso, tem o direito de receber uma hipótese, uma
possibilidade de certeza, do contrário cresce desorientada, cresce adoecida.
Giussani chama, portanto, “hipótese explicativa da realidade” a presença de um adulto capaz de
comunicar o sentido das coisas; ou seja, voltando à questão inicial, um adulto capaz de
testemunhar um bem na vida, uma positividade da vida. Esse é o grande segredo da educação.
Giussani o diz com estas palavras: “O encontro com alguém que seja portador daquela que
chamamos ‘hipótese explicativa da realidade’ não é algo que se possa evitar para a criança ou
para o jovem”.7 Não estou dizendo a vocês coisas com as quais, se estiverem de acordo tudo
bem, se não estiverem de acordo, não importa… É exatamente assim! A criança nos enxerga
dessa maneira, precisa receber de nós uma hipótese de realidade, uma hipótese sobre a realidade,
um modo de estar no mundo, queiramos nós ou não, sejamos conscientes ou não. Podemos até
negar, mas de qualquer jeito, pelo próprio fato de estarmos diante das crianças, já comunicamos
a elas um sentido sobre a realidade, bom ou ruim, positivo ou negativo.
“O encontro com alguém que seja portador daquela que chamamos ‘hipótese explicativa da
realidade’ não é algo que se possa evitar para a criança ou para o jovem. O primeiro lugar no
qual isto de fato acontece é a família: a hipótese inicial é a visão do mundo que têm os pais ou
aqueles a quem os pais demandam a responsabilidade de educar o filho. Não pode haver um
cuidado com o filho nem uma preocupação com a sua formação, senão possuindo nem que seja
uma vaga e confusa – quase instintiva – visão de um sentido do mundo. A educação consiste em
introduzir o jovem no conhecimento do real focalizando e desenvolvendo essa visão original.
Essa educação possui, desse modo, o mérito inestimável de conduzir o adolescente à certeza da
existência de um significado das coisas.”8
Toda a tragédia de hoje, toda a crise que chamamos de crise educacional, é a falta disso: temos
jovens que crescem cheios de medo e de incertezas, como se estivessem sobre uma areia
movediça, porque não têm diante de si adultos capazes de testemunhar uma certeza, não têm
diante de si adultos que tenham esperança suficiente perante a vida. Esse é o problema. O que
escreveu aquela menina é um grito, é um grito que reúne todos os nossos filhos e que deveria
reunir todos nós: “Alguém tenha piedade de mim, alguém me faça ver que a vida tem um sentido
positivo, tem um sentido bom; pai, mãe, me façam enxergar que valeu a pena vir ao mundo.
Preciso somente disto: posso perdoar tudo; pai, mãe, eu sei que vocês também são dois pobres
desafortunados, eu sei que vocês podem errar e perdoo seus erros, como espero que perdoem os
meus, mas lhes peço que me digam, me façam enxergar que valeu a pena vir ao mundo, que
existe uma razão positiva para a existência”.
Esta é a crise educacional em que vivemos: uma geração de adultos que não têm mais esperança
suficiente para comunicar aos próprios filhos, para mostrar-lhes! Não para comunicar com as
palavras, mas para demonstrar uma hipótese explicativa sobre a realidade! Podemos dizer de
outro modo, como está escrito no capítulo sexto de Deuteronômio: “Quando amanhã seu filho
lhe perguntar: ‘Que significam estes mandamentos, estas leis e estes preceitos que o Senhor
nosso Deus lhes deu?’ Você responderá a seu filho…” – ou seja: nós tentamos ensinar aos
nossos filhos as coisas boas, a se comportarem, a serem bons, a não mentirem; mas quando o
filho cresce, é como se perguntasse: “Pai, com licença, mas por que eu deveria ser bondoso em
um mundo que diz exatamente o contrário? Por que não deveria mentir quando fosse
conveniente? Por que não deveria roubar por aí?” Porque os valores enunciados, por si sós, não
são nada; os valores devem ser fundamentados, devem ter uma razão adequada. Quando seu filho
perguntar: “O que significam estas instruções e estas leis?” – como se dissesse: “Pai e mãe, por
que insistem tanto? Por que deveria me esforçar e trabalhar para aprender latim, matemática e
física?” – a resposta dos pais é: “Para o seu futuro, porque será útil quando você for grande”.
Nenhum de nós aceitaria uma reposta dessas. Não nos esforçamos no presente por uma razão
futura, nos esforçamos por uma razão presente, por um bem presente: “Então dirás a teu filho:
‘Nós éramos escravos do faraó, no Egito, e o Senhor nos fez sair do Egito com mão poderosa. O
Senhor fez, aos nossos olhos, sinais e prodígios grandes e terríveis contra o Egito, contra o faraó
e toda a sua casa. Ele nos fez sair de lá, para nos conduzir e nos dar a terra que, com juramento,
prometera a nossos pais” Dt 6,21-23).
Vamos traduzir em linguagem atual: o que deve responder um pai ao filho que lhe pergunta:
“Pai, por que devo ser bom? Onde brotam esses valores que você me pede para praticar?” Você
deve poder dizer: “Meu filho, eu sou como você, estamos no mesmo barco, eu tenho o mesmo
problema, o problema que você tem perante o mal, perante o tédio, perante o nada que às vezes
parece devorar as coisas; vivo o mesmo drama que você vive, vivo a mesma possibilidade de que
a vida seja, no fundo, uma tragédia. De tudo isso, dessa tragédia, dessa possibilidade de mal,
dessa possibilidade de que a vida no fim seja nada, seja pó, seja destruição, seja o nada que
vence, dessa possibilidade de mal, eu fui salvo, resgatado, me aconteceu uma coisa”.
Eu falo como cristão, mas o desafio é o mesmo para todos. Se alguém levantasse e me dissesse:
“Eu não tenho religião”, eu diria que não importa, vale a mesma coisa, transformem isso na
forma mais laica que conhecerem, o desafio é idêntico, é o seu filho que olha para você e diz:
“Me diga, afinal de contas, qual é a hipótese de bem em que se baseia a sua vida”. Você deve
saber responder, não com palavras, mas com uma experiência vivida, pelo testemunho de uma
experiência vivida. Eu, como cristão, procuro mostrar aos meus filhos o respeito a esse “nada”,
respeito a esse mal que há nas coisas da vida, como eu fui resgatado: “Deus manteve a promessa
que havia feito” – para usar a linguagem bíblica – “aos nossos pais”, que significa a promessa
que transmitimos de pai para filho, a promessa que possuímos intrínseca, a esperança da qual
somos constituídos. Deus manteve essa promessa, Deus colocou no meu coração um desejo de
felicidade. “Saiba, meu filho, que Deus manteve a promessa, me levou à terra que havia
prometido dar aos nossos pais.” Que terra é essa? Uma relação boa com o real, é a descoberta de
que a realidade é enfim boa, é, em última instância, positiva. Esta é a terra que Deus havia
prometido dar a cada um de nós e a cada um dos nossos filhos: um convívio positivo com o real,
ou seja, uma possibilidade de esperança: “Podemos ter esperança, sim, meu filho, valeu a pena
tê-lo trazido ao mundo, porque existe um bem maior que vence a tudo”. “O Senhor nos ordenou
praticar todos esses preceitos e temer o Senhor, nosso Deus, para que nos suceda bem, todos os
nossos dias – como no dia de hoje” (Dt 6,24).
Todo o segredo, toda a maravilha, toda a beleza da educação está nisto: que um filho possa
enxergar seu pai e sua mãe e perceber que existe uma promessa de bem na vida da qual o pai e a
mãe são testemunhas. Uma promessa que o encoraja, que o mantém firme, que o faz caminhar
assertivo, que o retira das areias movediças de uma incerteza que é a doença do século: a
incerteza, a insegurança, um medo da realidade – e, portanto, indubitavelmente, uma crueldade.
Quantas vezes nos demos conta disto: não é possível ficar triste por muito tempo sem nos
tornarmos maldosos, sem cedermos àquele instinto que nos empurra para a maldade. O que
ajuda, então, o homem a governar o próprio instinto? A educação! Anos e anos de educação
paciente, ou seja, de um paciente trabalho, através do qual alguém chega aos dezoito anos tendo
visto tanto bem, que lhe é mais fácil praticar a virtude, como dizia o bom Dante: “Essa pedra
preciosa, em que toda virtude se acha erguida”.9 A virtude, ser virtuoso, ser bom é possível se
formos muito felizes; somente se somos muito felizes, é possível tentarmos ser bons. É um
trabalho extenso e paciente: o problema não é insistir para que o outro seja bom, o outro é o que
é, exatamente como nós. Temos que insistir em fazer o outro feliz. Não é preciso insistir
exigindo isto ou aquilo, não com regras – que são até mesmo necessárias –, mas é no testemunho
da existência de um bem grande. Porque um coração feliz governa mais os próprios instintos,
governa melhor a própria capacidade de realizar o mal, conhece mais, governa mais a própria
liberdade.
Precisamos acompanhar-nos uns aos outros nesse testemunho de bem. “Meu filho, faça o que lhe
digo, porque eu e a mãe e os nossos amigos fazemos essas coisas para sermos felizes exatamente
como somos hoje.” Esta é a questão: poder olhar nos olhos dos próprios filhos e – sem
necessidade de discursos, sem precisar falar – mostrar um bem grande, um bem possível, uma
positividade vivenciada. Chama-se esperança, essa é a única coisa que nossos filhos precisam de
nós.
2. As consequências de sua negação
a) Em geral
Prosseguindo, Giussani dá outro passo: apreendido esse princípio – qual seja: a necessidade de
que o adulto seja portador de uma hipótese explicativa da realidade, dessa hipótese de bem que
tentei exemplificar –, quais são as consequências de negá-lo? Porque já fora afirmado, mesmo
teoricamente, que o problema não é esse. Foram escritos milhares de livros para dizer que não
devemos influenciar os filhos, para dizer que não devemos tomar o lugar da liberdade deles, para
dizer que são livres para escolher dentre milhares de hipóteses possíveis; foram impressos
milhões de livros para destruir essa ideia de educação, ou seja, de autoridade, de proposta, de
proposta positiva. Giussani pergunta, por sua vez: quais são as consequências quando esse
princípio é negado? Lerei um trecho: “As consequências disso, a longo prazo, serão gravíssimas
para o próprio caráter dos jovens. Ter de caminhar sem uma direção precisa é percebido, pela
sensibilidade de uma consciência viva, como perda de tempo”.10 Para quem está vivo, se o
tempo passa inutilmente e o vazio lhe cresce dentro, aquele buraco negro pequenino que lhe
corroía no sábado à noite antes de dormir, é como se crescesse e tomasse conta por inteiro e,
pouco a pouco, essa pessoa é devorada por tudo o que está ao redor. “Gera-se, então, aquela
incerteza característica que amedronta o jovem – por natureza, inscrito numa exigência óbvia de
possibilidade clara”, porque o jovem, o filho, é dotado, naturalmente, de uma óbvia exigência de
um pouco de bem, um pouco de clareza na vida, de uma estrada para percorrer. Logo, precisa de
uma proposta. “A ausência dessa proposta o confunde ou, em todo caso, o impacienta, porque a
indecisão lhe parece contraditória ao apelo de todas as coisas”. Esplêndida observação
psicológica: as coisas nos atraem para si, parecem exigir serem abraçadas. E como é verdadeiro!
É verdade que a própria realidade, por seu modo de ser, pelo modo como é feita, exige ser
encontrada, amada, estimada. Se, ao contrário, sugerimos ao filho constantemente uma dúvida,
uma incerteza, ele a percebe contraditória com sua natureza, não entende mais nada, fica
confuso.
b) Na escola
Giussani esclarece ainda mais: essa incerteza, o que produz em relação à escola? “O jovem
estudante carece, normalmente, de um guia que o ajude a descobrir justamente aquele sentimento
de unidade das coisas, sem o qual ele vive uma dissociação, sempre desgastante”,11 não aguenta
mais. Por que os jovens detestam a escola? Por essa razão! Porque em uma dissociação de
propostas diferentes, das quais nenhuma chega a acolher e determinar um senso do todo,
nenhuma explica o motivo pelo qual cada coisa vale a pena, então percebemos tudo
fragmentado; e tudo se transforma realmente em uma dificuldade enorme, a vida em geral, e a
vida na escola em particular.
No mesmo texto, Giussani cita a carta de um estudante que dizia assim:
O verdadeiro aspecto negativo da escola é o de não proporcionar o conhecimento do humano através dos valores que muitas
vezes, tão inutilmente, manuseamos: enquanto em cada ação o homem revela a sua índole, parece ridículo (ou trágico?) que
na escola, através do estudo das várias manifestações dos homens, percorram-se alguns milênios de civilização sem que se
saiba reconstruir com suficiente precisão a figura do homem e o seu significado na realidade. A nossa escola baseia-se num
neutralismo desnatural que anula todo e qualquer valor… mas a cegueira do nosso tempo raramente procede de forma tal
que a escola seja posta no banco dos réus, quando na verdade é ré. Será acusada por não ser considerada capaz de formar
bons técnicos, bons especialistas e profissionais competentes; será acusada por causa do Latim ou dos programas referentes
ao exame final; não se sentará no banco por não ter conseguido formar verdadeiros homens, a menos que esses “não
homens” cometam alguma estupidez grosseira e clamorosa, como por exemplo um episódio de intolerância racial.12.

Escrita em 1960, a carta parece ter sido escrita hoje, no dia seguinte a um dos episódios de
violência juvenil que ocorrem em demasia atualmente. Então explode o caos. Todos arrancam os
cabelos e gritam: “Socorro! Socorro! Onde está a escola, onde está a Igreja, onde está a família,
onde está o padre, onde está o psicólogo? Socorro! Socorro! Como é possível que esses quatro
jovens matem uma pessoa a pontapés por conta de um cigarro?”; mas depois de uma semana,
depois de algumas horas, passa tudo, é tudo esquecido. “O ceticismo, mais ou menos disfarçado
ou clamoroso, torna-se a atmosfera da alma do estudante, aura sutil e arrepiante ou, nos mais
sensíveis, tempestade dispersiva ou tufão que arrebenta; de qualquer forma, esvazia sua
capacidade de ímpeto e o estudante fica como um homem que anda na areia.”13
c) Na família
Faço uma breve referência à família. Os pais deveriam ter a preocupação de ser uma proposta
viva perante os filhos, de ter um questionamento sobre si: “Pois bem, eu: o que estou vivendo?
Colocamos um filho no mundo, um filho que nos observa vinte e quatro horas por dia, nos
observa sempre, e o que vê?” É como se o filho perguntasse: “Vocês dois, para onde irão, para
onde me levarão? Que testemunho me dão sobre o fato de que valha a pena ter me colocado no
mundo?”
Giussani chama indiferentismo o fato de que os pais menosprezem essa pergunta, que a
considerem irrelevante, “por enquanto, estude, faça as suas coisas…”. “O ‘tanto faz’ na família
torna-se, muitíssimas vezes, na alma do jovem, raiz de um ceticismo ainda mais tenaz de
arrancar do que a influência deletéria da escola neutra. A lealdade para com a origem é
necessária, antes de mais nada, por parte dos pais. Coincide com a lealdade para consigo
mesmos, uma vez que representam a origem dos filhos, e é propriamente por isso que merecem o
nome de genitores.”14 Uma lealdade para consigo mesmo, significa aquilo que dissemos antes,
quando o filho te observa, tem aquela exigência, tem o direito de receber de você uma hipótese
boa, uma esperança.
Então fica claro que tipo de responsabilidade, que tipo de exame de consciência temos que
realizar nós, adultos, sempre – não digo em termos necessariamente negativos, não digo como
julgamento: digo que é a temática para quem, dentre nós, pretende tomar com as próprias mãos
as rédeas da responsabilidade educacional. Não é algo que se resolve de uma vez por todas, que
em dado momento atingimos, e tudo certo: é a questão que se apresenta, todos os dias e todas as
manhãs quando acordamos, entre você e sua esposa – porque também nesse ponto se trata de
educação – mas, principalmente, entre os pais e os filhos.
Um professor que vai à escola, como pode não estremecer por conta dessa responsabilidade, no
momento em que sobe as escadas que levam até a sala de aula? Como pode não estremecer,
sabendo que é desse nível a espera daquela garotada? Bons ou maus, estudiosos ou não, mais
difíceis ou mais afáveis – pois há de tudo, evidentemente. Como pode não estremecer sabendo
que os jovens esperam dele esse testemunho de certeza e de bem ao realizar seu ofício? Não
estou dizendo que é necessário ir até a escola dar sermão: cada um cumpre a sua obrigação, os
padres cumprem a sua, os pais cumprem a deles, os professores cumprem a deles. Mas, dentro de
cada uma dessas profissões, existe essa provocação, é inerente esse indício, existe esse drama
enorme. Portanto, enquanto se explica a matemática, enquanto se demonstram os experimentos
de física, enquanto se amamenta, a criança, o garoto, o adolescente, o jovem grita esta exigência:
mostre-me que valeu a pena, por favor, transmita-me um pouco de esperança, testemunhe um
pouco de bem, porque sem isso não posso viver, porque nas areias movediças não dá para viver,
não dá para caminhar por muito tempo na areia movediça, mais cedo ou mais tarde, afundamos.
Existem, ainda, outros tantos modos de afundar, não há somente a droga e questões semelhantes,
afunda-se na doença, afunda-se na anorexia, afunda-se na bulimia, afunda-se no tédio mortal que
mata a vivacidade de tantos dos nossos jovens, da nossa garotada, afunda-se no indiferentismo
mais maldoso, afundamos nas manifestações de violência nos estádios, mais do que noutros
lugares e, de qualquer modo, afundamos nas próprias areias movediças dessa incerteza.

Ponto II – A autoridade: caráter existencial de uma proposta


No segundo ponto, a segunda grande palavra diz o seguinte: “autoridade, ou seja, a existência de
uma proposta”. É fácil, porque está já contido no que disse antes: se a educação é a oferta de uma
hipótese explicativa da realidade, de uma razão de bem, de uma possibilidade de esperança na
vida, é preciso que exista um lugar visível, verificável, no qual isso se concretize. Esse lugar, diz
Giussani, se chama autoridade, restituindo à palavra seu verdadeiro significado: “aquilo que faz
crescer”. A etimologia latina da palavra autoridade realmente indica aquilo que ajuda a crescer,
aquilo que acompanha. “A função educativa de uma verdadeira autoridade configura-se
precisamente como ‘função de coerência’: um chamado contínuo para os valores últimos e para o
compromisso da consciência com tais valores; um critério de juízo permanente sobre toda a
realidade15. Explico este último ponto, porque me parece absolutamente decisivo. Que quer dizer
uma função de “coerência ideal”? Não coerência ética, mas coerência comportamental; nossos
filhos, já aos três anos de idade, compreendem que somos uns pobres desafortunados como eles:
não é preciso lhes dizer, entendem bem cedo que o papai e a mamãe não são o super-homem, não
são Deus, não são perfeitos, e nos perdoam. O que eles têm dificuldade de perdoar é essa outra
coisa, é a falta de uma coerência ideal, a falta de uma hipótese boa sobre a vida; depois podemos
cair, podemos nos mostrar vulneráveis, podem transparecer todas as nossas misérias, todos os
nossos defeitos e a nossa fragilidade, tudo isso os filhos entendem muito bem.
Esta afirmação tem, ademais, um desfecho importantíssimo, sobre o qual vale a pena nos
concentrarmos: não tenham medo de errar! Não está aí o problema, não façamos questão de
sermos perfeitos, porque seremos somente ridículos. Os pais, o adulto que confundisse o
testemunho de esperança, sobre o qual falamos hoje, com uma perfeição que deve demonstrar,
daria pena, faria rir, porque perfeitos não somos, porque todos erramos.
Aquela que, por sua vez, Giussani define “função de coerência ideal” é outra coisa: não é a
coerência ética, não é o fato de sermos bons e justos, nem o fato de sermos honestos: é o fato de
que podemos errar em tudo, mas resistimos, ficamos firmes em relação à hipótese que nos faz
viver. Temos uma hipótese que nos faz viver, e os filhos nos veem comprometidos na
averiguação dela, sempre e constantemente; percebem o pai e a mãe como uma casa estabelecida
sobre a rocha, em decorrência dessa coerência ideal, por essa função de coerência ideal. Esta é a
autoridade – quantos professores poderiam confirmar: é isso que permite ao aluno observar com
estima verdadeira o próprio professor. Não porque saiba tudo, mas porque sabe para onde está
indo, sabe aonde o está levando; ele pode confiar. Não tenham medo de errar, pais e professores,
cada um no respectivo campo. Alguém pode até dizer aos próprios alunos: “Eu não sei tal coisa”,
ou então: “Errei e me corrijo”. Um pai e uma mãe podem dizer aos seus filhos: “Desculpe, errei,
como todo mundo erra”, não é esse o problema. O problema está na realização dessa função de
coerência ideal. Portanto, o filho observa os pais e compreende que o pai e a mãe resistem, são
sólidos em relação ao propósito da vida, persistem, mantendo a esperança que tentaram
testemunhar e comunicar aos filhos.
Aqui Giussani mostra como a autoridade, em primeiro lugar, são os pais. Depois de explicar que
“autoridade” é essa função de coerência ideal, que permite ao filho crescer, diz a propósito:
“Antes de mais nada, autoridade, conscientes ou não, são os pais. A sua função é originadora;
pelo próprio fato de ser assim, ela introduz num modo de conceber a realidade, num fluxo de
pensamento e de civilização. A sua autoridade, inevitável, é um fato, e uma responsabilidade. Tal
fato pode não ser considerado por eles mesmos, mas permanece. Eles representam na vida do
adolescente a permanente coerência da origem consigo mesma, a dependência contínua de um
sentido total da realidade, que precede e excede por todo lado o beneplácito do indivíduo.”16 Este
papel do adulto é tão importante, é tão decisivo, é tão essencial que é, em primeiro lugar,
“inevitável”; em segundo, é a “única real responsabilidade que se tem perante os filhos”; e
terceiro, impressionante, “é maior, excede o consentimento do próprio filho”.
Dou um último exemplo. Uma vez estive em Madri, falávamos de educação com um grupo de
pais e, ao final do encontro, vem uma mãe aos prantos, desesperada, contando histórias pesadas
de sua filha que, aos dezesseis ou dezessete anos apenas, a deixa perturbada. E eu não sabia o
que dizer. Pelo modo como me contava as coisas, comecei a perceber que algo não fechava,
havia alguma coisa no seu raciocínio que chamava a atenção; então fiz algumas perguntas, tentei
entender. A certa altura, me pareceu ter percebido que aquela pobre mãe dizia uma coisa
espantosa. Eu perguntei: “Senhora, desculpe, entendi bem? Desde que sua filha era pequenina, se
ela lhe dizia um ‘não’, a senhora chorava? A senhora começava a chorar diante dos ‘nãos’ de sua
filha?”, e ela me respondeu que sim, que eu havia entendido bem, desde que nascera a filha.
Então, me senti no dever de dizer-lhe: “Senhora, se dá conta do que fez?” Qual é o erro
gravíssimo que, sem se dar conta, essa pobre mãe tinha cometido? O erro gravíssimo é que a sua
felicidade dependia da resposta da filha. Isso é sério, porque uma garotinha, aos três anos ou aos
seis, não pode carregar o peso de uma responsabilidade tão grave, não pode suportar o peso da
responsabilidade sobre a felicidade de sua mãe e de seu pai, é esmagada por uma coisa assim.
Sua filha tinha direito, tem direito de ter perante si um pai e uma mãe para os quais a razão de
felicidade seja maior do que o filho, exista antes do filho, e também resista aos “nãos” do filho.
Essa é a função de coerência ideal de que fala Giussani. Quando, mais tarde, o filho vira
adolescente e apronta de tudo e parece desafiar tudo – e o faz de propósito, quando estica a corda
até quase rompê-la –, o que está fazendo? Está fazendo o seu dever. Está tentando compreender
se seu pai e sua mãe têm um motivo de esperança maior do que os seus altos e baixos, do que
seus humores de adolescente, do que seus “nãos” e seus caprichos. Para a criança, vale o mesmo:
precisa descobrir que seu pai e sua mãe estão contentes por uma razão muito maior do que seus
caprichos e suas manhas. O erro mais grave daquela mãe era: ela havia despejado sobre a filha,
durante toda a sua vida, a responsabilidade da própria felicidade. Os nossos filhos têm direito a
algo diverso, têm direito a pais ou professores para os quais a grandeza, a estabilidade, a
personalidade estão demonstradas na sua fisionomia, na sua capacidade de bem, por algo bem
distinto da resposta dos filhos. Como pai, sei muito bem quanta dor podemos passar, não estou
dizendo que para os pais não interessa a resposta dos filhos; mas que, quanto mais o filho disser
“não”, tanto mais o pai deve dizer “sim”. Quanto mais haja essa luta, esse desafio, esse
distanciamento – por vezes, com oposição violenta, conforme o filho cresce –, tanto mais os pais
devem enraizar-se em uma certeza, que é maior do que o comportamento dos filhos. Do
contrário, os filhos não sabem mais ao que se agarrar. E se, quando esticam a corda, ela
arrebenta, e nos perdem, então é o fim, aí sim é um momento realmente arriscado.

Resumindo. Primeira premissa, a educação é uma introdução à realidade; segunda premissa, a


realidade não existe se não é afirmado o seu significado, a esperança está contida nisso, o bem
que existe está contido aí, no significado. Primeiro ponto: a lealdade com a tradição, fonte da
capacidade de certeza. Ou seja, a única possibilidade de certeza para o filho, a única
possibilidade para o aluno crescer bem é poder se comparar lealmente com um adulto que sabe
aonde está indo, sabe o que quer, sabe o que é para si a felicidade, testemunha um bem possível.
Segunda grande palavra, a autoridade, a existência de uma proposta. Se tudo isso está presente,
se tudo isso é verdade, então devemos dizer que a grande palavra que define o verdadeiro
conteúdo da educação, o sinônimo mais adequado para sintetizar tudo o que tentamos dizer hoje
é: misericórdia! A educação é uma grande misericórdia, é um grande e permanente perdão,
“setenta vezes sete”, diz a Bíblia; é um contínuo abraçar ao outro, ainda antes que mude.
Misericórdia significa que eu te amo antes que você mude, antes que você se transforme como eu
gostaria, antes que você se torne bom, antes que você se torne melhor, antes que você tenha boas
notas na escola: em primeiro lugar, eu amo você, eu afirmo o seu valor antes de qualquer êxito,
antes de qualquer espera – quantas vezes a nossa espera se transforma em pretensão: eu, ao
contrário, afirmo o seu valor antes de qualquer pretensão. Isto é a educação: esse acolhimento,
esse abraço, esse perdão, essa misericórdia é o início da educação. Começa aí; a partir daí, pode
ter início a dinâmica na qual o aluno ou o filho começam a observar-nos com interesse e
admiração, com curiosidade e com vontade de aprender; e, portanto, aprendem o que lhes
ensinamos, quer sejam as recomendações que fazem os pais, ou a matemática que o professor
está tentando ensinar na sala de aula.

1 La Traccia é a escola que Franco Nembrini, junto com um grupo de pais, fundou em 1983 no bairro de Calcinate, em
Bérgamo (Itália). Tem mais de mil estudantes, desde o ensino fundamental até o ensino médio. [N.d.T.]
2 Luigi Giussani, Educar é um risco, São Paulo: Companhia Ilimitada, 2019.
3 Idem, O senso religioso, Jundiaí: Paco Editorial, 2017, p. 145.

4 Idem, Educar é um risco, op. cit., p. 65.


5 Cf. Discurso do Papa Bento XVI na abertura dos trabalhos do Congresso da Diocese de Roma, 11 de junho de 2007.

6 L. Giussani, Educar é um risco, op. cit., pp. 53-63.


7 Ibidem, p. 54.

8 Ibidem, p. 54
9 “Quella cara gioia sopra la quale ogni virtù si fonda” Dante Alighieri, A Divina Comédia, Paraíso, XXIV, vv. 89-90, trad.
José Pedro Xavier Pinheiro, disponível em www.dominiopublico.gov.br.
10 Luigi Giussani, Educar é um risco, op. cit., p. 56.
11 Ibidem, p. 59.

12 Ibidem, pp. 59-60.


13 Ibidem, p. 60.

14 Ibidem, p. 63.
15 Ibidem, p. 64.

16 Ibidem, p. 65.
3. O Risco de Educar
Segunda palestra do Curso para Educadores da Escola La Traccia
Calcinate (Bérgamo), 19 de fevereiro de 2010

Vamos retomar o nosso percurso a partir de algumas perguntas particularmente significativas,


dentre as muitas que foram enviadas. Um participante escreveu pedindo simplesmente que se
esclarecesse mais o que se entende por “coerência ideal” e por “coerência ética”. Uma mãe,
por sua vez, escreveu uma carta que basicamente refere o seguinte: “Ao presenciar um mau
comportamento, ao perceber uma atitude claramente negativa, como mentiras, notas ruins, falta
de estudo, de comprometimento, atitudes hostis e em qualquer modo problemáticas” – em uma
fase que fica claro serem os primeiros anos do liceu – prossegue: “Tenho a impressão de não ver
resultado algum. Quando imponho um castigo, se acostuma até mesmo com os castigos, e por
outro lado, em vista de algumas atitudes, especialmente em relação à mentira, à falsidade” – diz
literalmente – “perco o controle! É um momento difícil que impede a relação com meu filho,
com uma tensão crescente, uma situação que termina em gritos e falas pesadas”. Essa mãe
começou afirmando que sempre acreditara que o amor e o bom exemplo bastassem, e termina a
carta assim: “Às vezes me pergunto se não estou errando em tudo; talvez devesse conviver com
essa fase do meu filho de maneira mais serena, aceitando seu comportamento como um percurso
normal no caminho do amadurecimento, confiar novamente na minha ideia inicial do amor e do
bom exemplo, mas o medo de falhar é muito grande”.
Sobre a questão do medo de errar, entro de maneira decisiva, recuperando algumas coisas já
ditas. Resumo rapidamente: a primeira premissa explicava que a educação é uma introdução à
realidade, ou seja, o testemunho de um modo de se colocar em relação às coisas e em relação à
vida, o testemunho de uma possibilidade, de um bem possível, de uma verdade palpável que
pode ser amada, de uma beleza na vida. A segunda premissa dizia: “A realidade não é
verdadeiramente afirmada se não for afirmada a existência do seu significado”, ou seja, uma
derradeira positividade testemunhada pelo adulto.
Sucessivamente, no primeiro ponto, “A lealdade com a tradição, fonte da capacidade de certeza”,
vimos que a educação está contida por completo nesta oferta de uma hipótese positiva – a qual
Giussani chama de “hipótese explicativa da realidade” –, e se insere inteiramente na proposta que
o adulto representa, porque querendo ou não, conscientemente ou não, o adulto, uma vez que
está presente, é uma proposta.
O segundo ponto, que se intitula “A autoridade: caráter existencial de uma proposta”, esclarece
que esta hipótese explicativa da realidade ou pode ser efetivamente vivenciada, e tem um lugar
concreto onde pode ser vista em ação, ou então é pura teoria. E qual seria este lugar concreto no
qual se pode observar em ação, no qual se vê vivenciado e passível de ser experimentado algo de
bom na vida? É justamente a autoridade: os pais em primeiro lugar, a família, e depois, pouco a
pouco, na medida em que a criança cresce, o círculo de adultos que ela observa se alarga, até
abraçar naturalmente o mundo inteiro.
Nesse ponto, é referida uma definição de suma importância, sobre a qual me detenho um
momento antes de prosseguir porque me parece decisiva, qual seja, a definição de coerência
ideal: “A função do adulto é uma função de coerência ideal, e não de coerência ética”.
Retomemos um instante: o que significa dizer que aquilo de que a criança, o jovem, o aluno têm
necessidade é uma “coerência ideal”? Significa que a certeza e a segurança de quem nos observa,
de quem está sendo educado ou instruído, se apoia completamente na certeza e na segurança que
nós temos, na certeza de quem educa.
Portanto, o que posso dizer a essa mãe que tem medo de errar é: “Bem-vinda ao clube!” Porque a
educação é uma coisa tão grande e misteriosa, que nos deixa, em alguma medida, aflitos. No
entanto, se for “receio”, é um sentimento bom; se for “medo”, não: não devemos ter medo de
errar. Simplesmente por uma razão: errar é inevitável. Ter medo faz com que erremos ainda
mais. Os professores sabem muito bem: se quiserem que o aluno melhore seu rendimento, devem
procurar resolver o problema do medo, do pânico que lhe vem diante de uma prova ou quando
precisa apresentar uma tarefa diante da classe, porque o medo paralisa, é um sentimento que nos
torna inertes, indefesos, passivos, que não nos deixa jogar no ataque.
Uma mãe, um pai, um professor que se deixasse dominar pelo medo de errar, já teria perdido na
arrancada. Ao invés disso, é preciso ser audaz, repleto de convicção (sem ser orgulhoso, ou
presumir ser perfeito, o que é ridículo), porque é disso que necessitam nossos filhos, desta
segurança: a certeza deles, a solidez da personalidade cresce e se estrutura em torno a uma
certeza testemunhada, uma segurança demonstrada pelo adulto. Nesse sentido, o medo de errar é
perigoso, e talvez se possa dizer que o grande segredo da educação é exatamente este: não ter
medo de errar. E para não ter medo de errar, é preciso ter uma grande certeza, é necessário que
aquela hipótese explicativa da realidade, que oferecemos aos nossos filhos e aos nossos alunos,
seja vivida com extrema seriedade, extrema lealdade, e por isso, a responsabilidade recai
inteiramente sobre nós.

Ponto III – Verificação pessoal da hipótese educativa


Passemos, então, para a terceira palavra de Educar é um risco. O título do ponto diz o seguinte:
“Verificação pessoal da hipótese educativa, como condição do nascimento da convicção”, no
filho, no aluno ou no estudante. Em primeiro lugar, a tradição, a lealdade para com a tradição, ou
seja, o oferecimento de uma hipótese; em seguida, um lugar, uma autoridade em que essa
hipótese é vivida e testemunhada. Em determinado momento, é necessária a verificação pessoal
do aluno, do filho. O filho em um determinado momento começa a raciocinar, começa a
comparar as próprias exigências, a própria vida, as coisas que vê, os acontecimentos ao seu
redor, com a sugestão que os pais lhe dão, com os conselhos, os valores; enfim, com aquela
hipótese que o adulto oferece.
Giussani divide esse ponto em três partes. Em primeiro lugar, procura explicar por que é
necessária essa verificação pessoal; em seguida, explica em quais condições pode ocorrer; e por
fim, quais seriam as suas características fundamentais, suas dimensões. Esta é a temática deste
diálogo, juntamente com a palavra “risco”, palavra última, conclusiva e aterrorizante, porque é
exatamente aquela que traz à luz a questão da liberdade, que joga misteriosamente com a questão
educativa que é a grande dádiva de Deus aos homens.
1. Sua necessidade
Vou ler algumas passagens sobre como Giussani entende essa verificação e, em seguida,
apresentarei as condições e algumas características dessa proposta. “Hoje em dia a educação é
frágil por causa daquele posicionamento racionalista que esquece a importância do empenho
existencial como condição para uma experiência genuína de verdade e, portanto, para uma
convicção. Não é possível entender a realidade a não ser ‘estando nela’. […] A pessoa entende
que existe porque age. Quanto mais nos empenhamos, com as nossas exigências vitais, tanto
mais percebemos o que somos. Daqui se vê o quanto o educar de hoje peca normalmente por
superficialidade e abstração; muitas vezes, educar significa simplesmente esclarecer as ideias.
Mas, uma vez que as razões estejam diante dos olhos, há ainda muito o que fazer, porque essas
razões são abstratas, estranhas; são ainda sons e palavras. É necessária, então, uma intervenção
da energia, da liberdade. Com essa energia, posso fazer com que todo o meu ser adira à ideia e ao
programa da inteligência”.1
Frequentemente, nós, adultos, temos uma confiança excessiva, quase mágica, nas palavras:
temos a impressão, uma vez que algumas coisas são ditas, somente porque na nossa imaginação
está tudo claro, de que isso seja o suficiente para que a ideia seja comunicada; acreditamos,
portanto, que as palavras, o discurso, a argumentação possuam uma força tal, capaz de incutir no
jovem uma reação de energia e de interesse. Essa é uma questão que compreendi há muitos anos
conversando com um aluno, que me disse o seguinte em relação ao seu pai – com um sorriso um
tanto cínico: “Sabe, meu pai acredita que, simplesmente porque diz algumas coisas, essas coisas
existam”. Um pai como esse, tão convencido e seguro de si, tem as próprias ideias tão claras na
sua cabeça que se assusta, se impressiona quando as coisas não funcionam como ele mesmo diz;
como se simplesmente afirmar algo fosse o suficiente para convencer alguém da justeza do que
se afirma. A essa subjetividade Giussani contrapõe um princípio fundamental: “Mesmo quando
as ideias são claras (ou seja, quando estão claras as palavras), não é o suficiente; resta ainda
muito a se fazer, porque tais ideias são abstratas, estranhas, são ainda sons e palavras”. Mesmo
que eu tenha e proponha tais ideias com extrema clareza, isso não faz desencadear o fator
fundamental, qual seja, o interesse e a energia do jovem, capaz de fazê-lo aderir com liberdade à
proposta apresentada.
Na docência, esse fenômeno é realmente clamoroso, a mácula dos professores hoje se encontra
exatamente neste ponto: “Já que eu conheço determinadas coisas, uma vez que eu as tenha
explicado, você deveria compreender”. E se esquecem de uma pequena peculiaridade: o ser
humano não aprende se não entra em cena de algum modo a sua liberdade. Deve haver sempre
uma razão afetiva, um interesse em uma relação, por meio da qual possamos aprender o que nos
é explicado. Certamente não é a clareza das ideias, nem o modo sofisticado de expô-las que
convence o outro a aprender determinada coisa. O aprendizado se dá somente através de um
convívio, de um relacionamento. O professor deve ter isso sempre claro; na verdade, ainda que o
saiba, raramente se pergunta qual seria a natureza do relacionamento que está construindo com
seus alunos.
No caso dos pais, tudo isso deveria ser um pouco mais imediato, mais natural; porém,
infelizmente, me parece que quanto mais o tempo passa, menos isso seja natural até mesmo em
família: “Uma vez que eu expliquei ao meu filho determinada circunstância, ele deveria
comporta-se de tal maneira”. Não condiz com a realidade. Entre uma coisa e outra há uma
ruptura, há a autonomia de quem é livre. O ser humano aprende somente aquilo que, de algum
modo, ama. A convivência, a qualidade do relacionamento é como uma cola que nos faz
permanecer agarrados ao que o outro diz. A percepção que um aluno tem dentro da sala de aula
de que o professor é indiferente em relação a ele, e no mais das vezes igualmente apático em
relação ao conteúdo que está ensinando, é exatamente a razão pela qual o aluno não vai querer
aprender o que o professor explica. Porque aprender, “ad-prendere”, significa aderir, significa
precisamente grudar…
Qual é a razão pela qual determinada coisa “se aprende”, gruda, adere à mente e ao coração de
um aluno? Qual é o motivo pelo qual o que se ensina aos filhos é compreendido, e assimilado
por eles, permanece incorporado a eles? É a qualidade da relação! No fim das contas, é uma
questão – como acontece sempre na relação entre os homens – de amor. Sem amor, não existe
possibilidade de aprendizado; igualmente, inexiste a possibilidade de examinar o que o outro me
oferece como dever, ou seja, como “hipótese educativa”. Se, em vez disso, se acende essa
chama, se há um relacionamento, um envolvimento, então os valores que os pais e os educadores
propõem podem tornar-se meus, se transformam na descoberta da positividade que me é
ensinada. Uma vez que os transformo em meus e os verifico na minha própria pele, então se
torna interessante e se transforma em um critério pessoal; assim sendo, se morressem meus pais
ou desaparecessem meus professores, eu mesmo poderia aplicar aqueles valores na minha vida.
Sem a descoberta dessa positividade e dessa conveniência para si mesmo, experimentada na
própria pele, jamais poderá nascer uma certeza. A certeza nasce no momento em que aquilo que
me é explicado, afirmado como um bem para mim, se comprova através da experiência: somente
desse modo se transforma em algo pessoal para mim, torna-se uma experiência minha, torna-se
minha própria carne e meu sangue. É a diferença que existe entre falar sobre gastronomia ou
sobre uma receita, e comer ou beber: em relação ao que é apresentado, você pode realizar uma
experiência tal que, comendo e bebendo, se transforma em algo pessoal para sempre.
O homem cresce, também do ponto de vista biológico e físico, porque toma para si, consome
parte da realidade e a absorve, transformando-a em sua, através de determinados princípios,
critérios, instrumentos muito apurados com os quais o organismo é composto: uma parte da
realidade, comendo e bebendo, torna-se sua para sempre, estruturando seu físico que se
desenvolve e cresce. A personalidade é mais ou menos assim, precisa participar das coisas, entrar
na realidade, por meio de um juízo que realiza, pondo as mãos à obra, tentando repetidamente,
buscando comparar sempre o que vê, o que acontece, os problemas que se apresentam, aos
critérios que lhe são dados, em uma indagação contínua. O ser humano experimenta até que as
coisas sejam suas, até que tais critérios – fossem corretos, ou talvez reajustados – possam ser
vividos, experienciados com uma profundidade, às vezes, maior do que aquela oferecida pelo
adulto, pelo professor ou pelos pais.
Dessa forma, pode acontecer aquele espetáculo incrível que, às vezes, ocorre ao educar, através
do qual os pais – e é um grande milagre pelo que todos nós esperamos – podem se transformar
em filhos dos seus filhos. Como dizia Dante: “Virgem mãe, por teu filho procriada”.2 Este é o
vértice da educação: que os filhos, recebendo dos pais uma hipótese, possam verificá-la em uma
profundidade tal que é como se os ultrapassassem, os superassem; e então podemos começar a
observá-los crescer e ficar impressionados com o que ocorre, e podemos admirar curiosamente o
que acontece com eles. O discípulo que supera o mestre, no melhor e mais profundo sentido do
termo! É preciso ter muita paciência para acompanhar os filhos nessa verificação pessoal a fim
de que essa convicção possa amadurecer.
Sobre a questão da experiência é necessário um esclarecimento, porque, com frequência,
tropeçamos em equívocos evidentes. O mais flagrante de todos é o seguinte: chamamos de
“experiência” indiscriminadamente todas as coisas que os jovens vivenciam. Porém não é
verdade que, porque experimentam tantas coisas, adquirem mais experiência. É a cultura na qual
estamos imersos que nos faz acreditar nessa bobagem incrível. O exemplo que imediatamente me
vem em mente é o dos namoros. De tanto conversar com a garotada, aparentemente, de acordo
com a impressão deles, quanto mais relacionamentos acumulem, quanto mais namoros tenham
vivenciado, tanto mais experiência terão. É uma grande tolice, porque a história pessoal de
muitos deles demonstra exatamente o contrário: demonstra que vivenciar inúmeros
relacionamentos de modo superficial, jamais levados até sua consequência última, é exatamente
o que impede, eventualmente por toda uma vida, de ter um relacionamento que seja exatamente
aquilo que deveria ser. Dessa forma, eles chegam aos vinte ou vinte e cinco anos, tendo na
bagagem as ditas “experiências”, que constituem uma série infinita de cicatrizes, as cicatrizes de
feridas abertas… em vez disso, a experiência a que nos referimos é a intensidade e a verdade de
algo em que vamos realmente a fundo. É o relacionar-se com o real até as suas últimas
consequências, é a realidade encarada em todas as suas dimensões. Contudo, esse estranho
mundo os faz acreditar que, quanto mais namoricos vivenciam, mais rica será a experiência
deles. Como se, para encontrar a pessoa certa, tivéssemos que passar por todas! Ademais, se
entrássemos nessa ótica, nosso juízo permaneceria sempre suspenso, porque subsistiria a suspeita
de que a pessoa certa possa ser aquela que nos chamará atenção passando pela rua amanhã ou
depois.
Consequentemente, permanece sempre duvidosa nossa relação com a realidade: não se
concretiza nunca, é sempre incerta. Para identificar o bem e o mal, não é necessário experimentar
o mal! Se eu preciso ensinar a uma criança que o fogo queima, não devo necessariamente colocar
dez vezes sua mão no fogão, porque ela acaba por se queimar realmente; é suficiente que eu a
ajude a compreender a coisa certa a se fazer. O tempo não é nunca neutro; o que fazemos hoje
permanece importante por toda a eternidade e concretiza o bem ou o mal.
Tomemos como exemplo o uso que fazemos da televisão. Não é indiferente o modo como muitas
vezes passamos horas, dias, em meio a esse mar de bobagem, de porcarias. E não estou falando
em primeiro lugar do conteúdo erótico: nós nos criamos em um ambiente“pornofóbico”, no qual
o único pecado parecia ser aquele relacionado ao sexo; na verdade, existem coisas piores! Há
uma cultura muito pior do que a da pornografia, mais prejudicial do ponto de vista psicológico;
porque um certo tipo de filmes, de livros, de histórias em quadrinhos ou desenhos animados
corta pela raiz o sentimento de convicção acerca do real, nos tira do prumo, nos deixa realmente
alucinados.
Há toda uma cultura inventada especialmente para educar e criar os filhos – e,
consequentemente, futuros adultos – sem alguma certeza acerca da realidade.
Um aluno uma vez me disse atônito: “Professor, sabia que eu tenho medo de entrar no escuro no
quarto da minha mãe?” “Por quê? Tem medo do escuro?” “Sim, porque minha mãe poderia não
ser a que parece ser”. Pois bem, uma coisa desse tipo, manifestada aos 17 anos, claramente
representa uma patologia; mas percebam que, nessa geração dos nossos filhos, esse sentimento é
mais comum do que pensamos. A falta de certeza de que as coisas são aquilo que a evidência
demonstra é um dos fatores fundamentais dessa cultura na qual nos encontramos, e é destrutiva
para a moralidade e para a psicologia dos nossos filhos. Porque ao afirmar que “não tem certeza
de que sua mãe seja realmente sua mãe, a qual poderia revelar-se de uma hora para outra
diferente, uma outra pessoa”, exprime a naturalidade com que os jovens se colocam tanto diante
da realidade, quanto diante da fantasia, indistintamente, sem nem mesmo se preocuparem com
isso. Se eu assisto a um filme de terror, fico aterrorizado; os jovens, ao contrário, se divertem.
Têm uma familiaridade tão grande com o terrível que não se aterrorizam mais com o que é
aterrorizante. Ficam prejudicados os parâmetros de julgamento, de discernimento em relação ao
feio e ao belo, ao bem e ao mal, ao verdadeiro e ao falso. As três distinções que fazem com que o
ser humano seja humano: bem e mal, verdade e mentira, feio e belo! A cultura que nossos filhos
respiram tende a eliminá-las. Não podemos pensar que tais distinções estejam necessariamente
presentes em nossos filhos.
Tentem imaginar o que possa significar a palavra “amizade” para aquele aluno que diz “ter medo
de entrar no escuro no quarto da mãe porque ela poderia revelar-se algo diferente”. Esse rapaz, se
não confia em sua mãe, está impossibilitado de ter um amigo na vida, porque não acreditará
jamais que um amigo realmente seja tal. Não sei se terá condições de apaixonar-se por uma
mulher, com uma dúvida desse tipo na cabeça. Repito: esse é um caso exagerado e patológico,
mas a cultura em que estamos inseridos é dessa natureza e é, realmente, uma cultura nociva.
Nesse sentido, a nossa responsabilidade como educadores deve afirmar, com clareza, ao menos
esses pilares fundamentais; e não com palavras, mas com o testemunho. Porque dizer “isso é
bem, isso é mal”, em modo abstrato, teórico, não adianta de nada.
É preciso afirmar uma experiência que possa acompanhá-los, com a qual possam estar
envolvidos. Essa responsabilidade é enorme hoje: experienciar o belo, o bem e a verdade, poder
testemunhar para eles que existe a verdade, o bem e o belo, porque acarreta uma felicidade, um
êxito na vida, uma positividade, uma energia, um encorajamento em relação às coisas. Esse é o
testemunho que devemos dar aos nossos filhos. E apressadamente, porque o tempo urge. Eles
estão com a cabeça cheia de coisas horríveis, cheia de porcarias, de imagens que a mim,
instintivamente, causam ojeriza.
Então eu procuro dizer a eles: vejam bem que, se não ficarem atentos, a proximidade com o que
é horrível, com o que é falso, com o que é negativo, isso gruda em vocês, não passa batido; não
dá para dizer: “Eu sou o cara, sou inteligente, sou resolvido, portanto mesmo que eu passe quatro
horas por dia na frente da televisão vendo aquele besteirol não me faz mal algum”. Não é
verdade! Não é verdade nem mesmo para nós adultos; mas é ainda pior em certa idade, na qual
ficamos impressionados com mais facilidade. Então é preciso explicar aos jovens que não é
indiferente passar o tempo de um modo ou de outro; porque se convivemos com o mal, ele gruda
em nós. Alguma parte desse mal com o qual convivemos nos contagia; e aí é preciso tempo,
muito tempo, para curar, para que esse mal grudado em nós vá embora.
Posso dar um exemplo meio bobo, mas esclarecedor: vocês já limparam alguma vez anchovas
para pôr em conserva? Eu adoro anchovas, mas quando se compram vêm com muito sal, por isso
é preciso lavá-las com água corrente para remover o excesso, depois tirar as espinhas, e depois
pôr em conserva: ficam ótimas! O problema é que, quando termino de lavar as anchovas, não
posso cumprimentar nem dar a mão a ninguém, porque o cheiro continua impregnado por, pelo
menos, vinte e quatro horas. Acho que esse exemplo das anchovas esclarece bem a ideia de como
o mal fica grudado em nós (aliás, da mesma forma se fundamenta o conceito de indulgência na
Igreja Católica. O purgatório é essa circunstância em que, mesmo que tenham sido perdoados
nossos pecados, ainda não podemos ir ao Paraíso, porque não estamos completamente
purificados, há ainda algo de “negativo" impregnado em nós. Com a indulgência, ainda que
tivéssemos sido coniventes com o mal, não apenas o pecado é perdoado, mas se apaga também
aquilo de ruim que deixaria dentro de nós). Não pensem que ficar horas, dias cercado de maldade
seja indiferente; deixa uma marca, nós carregamos o cheiro desse mal, dessa negatividade. Por
isso, uma orientação sobre o uso do tempo é, sem dúvida, fundamental.
Às vezes, tenho a impressão de que esse mal vive dentro dos nossos jovens de tal modo que eles
não conseguem controlá-lo. Conversando com um garoto que havia feito uma grande bobagem,
eu disse: “Não me assusta o fato que você tenha cometido um erro, sabe o que me assusta? Que
você não se dê conta; parece que não o abala mais”. O mal vive dentro de cada um de nós; na
presença de alguém que me irritasse, poderia me passar pela cabeça a ideia: “Eu o mataria”. Sim,
em um acesso de raiva é possível. Mas um adulto, uma pessoa madura é aquela que controla esse
mal, que consegue impedir que o mesmo determine suas ações: o que me determina é outra
coisa. Assim, mesmo que essa ideia tenha me passado pela cabeça, não é ela que determina o
modo como vou me relacionar com a realidade: minha relação com a realidade está noutra
dimensão, no juízo mais profundo, mais sadio, mais inteligente que tenho sobre o meu valor, o
da outra pessoa, ou da amizade que há entre nós. Para aquele garoto, dei um exemplo mais
apropriado a ele: se você estivesse caminhando pela rua e passasse uma menina lindíssima,
poderia lhe passar pela cabeça a ideia de fazer sexo com ela; mas nem por isso você agiria dessa
maneira. Você se contém, porque sabe que esse não é o modo correto de tratá-la. A ideia passa
pela sua cabeça, mas quem a controla é você, tomando uma atitude, comportando-se do modo
mais correto. É isso, nossos filhos são assim: essa geração de jovens é fortemente controlada por
impulsos instintivos, mais do que deveria ser.
Claramente, o mal existe; dentro de mim, dentro de cada um de nós: não é isso que impressiona.
O mais impressionante é a fragilidade dos jovens ao avaliar e julgar, estando à mercê de seus
instintos. Isso é muito perigoso; porque apenas se criam as condições, uma série de
coincidências, e esse mal pode controlá-los a ponto de determinar não somente seus
pensamentos, mas também suas ações. Então acontecem as tragédias que já conhecemos; uma
cerveja a mais é o suficiente, duas palavras equivocadas, um segundo a mais ou a menos, e
acontecem coisas que não deveriam acontecer. Portanto, devemos rever a ideia de experiência:
não é necessário realizar experiências de todo tipo, indiscriminadamente. Existe o direito de
realizar uma experiência de bem, de verdade e de belo.

Portanto, funciona exatamente como para nós: o jovem, o aluno, o filho, explica Giussani,
“compreende que existe porque age”3. É através do agir que descobrimos a nós mesmos. Através
de nossas ações medimos, ponderamos, tiramos conclusões; ao agir, ou seja, ao conviver com a
realidade, compreendemos como somos e podemos conhecer realmente quem somos. Não
podemos pensar em educar à força, fazendo recomendações e dando discursos. Tampouco
imaginar que baste um “sermão” para que a missão esteja concluída; e ainda ficarmos
aborrecidos porque eles não aderiram a tais recomendações… A verificação pessoal, por meio da
qual devemos acompanhar nossos filhos, é uma verificação acerca da absoluta conveniência
daquilo que estamos dizendo; mas se eles não experienciarem tais coisas em tudo, em suas
próprias vidas, através da realidade, como podem saber se lhes convém?
Tentem ler o Evangelho: Jesus é o grande educador, o mestre – tinha uma turma com doze
alunos, na qual havia um ou outro cabeça-dura, porque depois de três anos, alguém ainda
perguntava algo que o irritava um pouco; e Ele disse: “Mas Filipe, faz três anos que vivemos
lado a lado e que eu lhe digo sempre, de todas as maneiras possíveis, e você ainda não
entendeu!”… Jesus também os desafiou a experimentar a absoluta conveniência daquilo que
dizia. Os milagres foram o quê? Foram o modo como Jesus demonstrava a absoluta conveniência
daquilo que dizia. “Segui-me.” “Por que deveríamos seguir-te?” “Porque vos convém.” “Mas
como podemos saber que nos convém?” “Lançai as redes.” “Ah! Deixa disso, passamos aqui a
noite toda, e não vimos nem mesmo uma sardinha.” “Jogai a rede.” “Está bem; sob a tua palavra,
eu tento.” Pescaram “cento e cinquenta e três grandes peixes”, diz o Evangelho (Jo 21,11). Foi
um milagre, também, que a rede não tenha se rompido. Então os apóstolos começaram a
suspeitar: talvez seja conveniente seguir esse sujeito aí. Estavam esfomeadas as cinco mil
pessoas que o haviam seguido, e ele, movido por piedade, disse: “Dai de comer a essa pobre
gente”. Não havia coisa alguma, ninguém se lembrou de passar no mercado. “O que faremos?”
“Preparai dois peixes que iremos distribuir!” E houve de comer para todos.
Os milagres eram aquilo que incutia nas pessoas a suspeita de que havia uma absoluta
conveniência nas palavras que Ele proferia. Todos os milagres são assim; até mesmo as
pregações que fazia eram desta forma: “O reino dos céus é semelhante a alguém que encontrou
um tesouro no campo: se não é tolo fica em silêncio, vai, vende tudo o que possui, compra o
campo e fica com o tesouro” (Mt 13,44). “O reino dos céus é semelhante a uma mulher que
encontra a dracma perdida” (Lc 15,8-10). “O reino dos céus, a proposta que eu vos faço de uma
relação comigo, é também cheia de sacrifícios” (porque dizia a todos: “Tome a sua cruz e siga-
me”), mas “está repleta de conveniência, é uma conveniência, experimentem”. Para demonstrar
que na vida brotava essa conveniência absoluta, Ele realizava os milagres.

No entanto, infelizmente, em decorrência de uma educação equivocada, deformada, nós muitas


vezes identificamos o bem com uma série de regras, com algo que devemos fazer. Ao dizer:
“Faça isso assim ou assado porque se deve; é de tal forma que deve ser feito isso ou aquilo”, no
fundo identificamos a nossa conduta com uma norma, com uma lei. No entanto, o cristianismo é
exatamente a libertação em relação à lei! A questão é a seguinte: a liberdade em relação à norma
e à regra; porque, na verdade, aquilo que o jovem deve poder descobrir é uma conveniência
absoluta.
Por exemplo, quando falamos aos nossos filhos sobre o pecado, o apresentamos quase sempre
como uma infração à lei. Mas, na verdade, o pecado é uma coisa que não te convém quando, por
outro lado, há uma maneira de agir extremamente conveniente para si mesmo. Aos meus alunos
eu dava o seguinte exemplo: “Imaginem que estamos saindo para um passeio com a escola: todos
aguardam ansiosamente, até que finalmente chega o dia. O passeio vai durar uma semana, que
beleza! Vocês querem que todos os colegas estejam presentes, que os amigos de vocês
participem; mas, de repente, quando estamos prestes a embarcar no ônibus, prontos para a
partida, falta um colega. Vocês se perguntam: ‘Por que ele não veio? Raios!’ Finalmente alguém
telefona para a casa do colega e recebe a notícia de que ele caiu da escada e quebrou a perna. E
todos dizem em coro: ‘Que pena! Que pecado!’ Aí está: o pecado é isso: é esse desgosto por não
poder realizar algo grandioso e esplêndido, algo que teria sido um bem”.
Temos de sentir o pecado desse jeito, na pele. Imaginem se puderem dizer isso aos filhos de
vocês – aliás, não dizer, não vou me cansar nunca de repetir, mas mostrar, em primeiro lugar, em
vocês mesmos, porque o Homem vale por aquilo que demonstra com suas ações, porque é com
ações que declaramos o que tem valor para nós. Portanto, testemunhar significa que o que
importa são as ações cotidianas: o uso do tempo, do dinheiro, da casa; o uso das próprias
energias, o modo de relacionar-se com os demais… porque os filhos nos observam sempre. Trate
de realizar um juízo sobre a existência, de viver como tem de ser e seja testemunha disso.
Posteriormente, podemos também falar, explicar que o pecado não consiste no fato de que existe
uma regra que infelizmente você infringiu e, por isso, deve receber uma punição (lógica perversa
e deseducativa, que consegue, via de regra, o efeito contrário). Aquilo que você propõe constitui
uma conveniência absoluta.
Nossos filhos devem entender o pecado neste sentido: “Que pena que nosso amigo não pode ir ao
passeio!”, porque pecado significa um bem menor. Eventualmente pode até parecer um algo a
mais, mas na verdade é algo inferior. Fica claro que existe uma revolução na educação moral em
relação aos nossos filhos? A qual comporta, em primeiro lugar, uma revolução na nossa cabeça,
no nosso modo de pensar e no modo como vivemos o problema do mal e do bem, quem sabe
entre marido e mulher, quem sabe no conselho dos professores?
Se tivermos como proposta as regras, é o fim, porque não se consegue nunca seguir à risca as
regras, porque as regras são um mecanismo perverso que gera sempre novas regras e nova
ruptura de regras, que transformam a vida num inferno, e a pedagogia e a educação como
imposição de regras é um inferno do qual nossos filhos fogem – e ainda bem, diga-se de
passagem. A lei é a característica mais clara desta cultura secular na qual naufragamos ou
estamos naufragando. Jesus veio para nos libertar da lei e ensinar que as regras têm, sim,
utilidade, mas devem servir ao comprometimento existencial de uma pessoa diante da realidade:
“O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado”. Veio para nos dizer que tudo
bem ter regras, “eu não mexo em nada da lei”, a lei permanece por inteira, mas se me pedirem
para sintetizá-la em um mandamento, digo-lhes imediatamente qual é: ame a Deus, ame ao
próximo, relacione-se com o real de modo positivo, descubra a infinita bondade da realidade.
Essa é a lei, essa é a nova lei que Jesus veio trazer e que construiu dois mil anos de civilização.
Fica claro que esse modo de ser é cada vez mais raro, haja vista que voltamos a recorrer à lei, à
escravidão da lei. E percebam que a escravidão da lei é sempre perigosa porque, quando nos
tornamos escravos da lei, significa que nos tornamos escravos de quem faz a lei, ou seja, do
poder: quando utilizamos as regras como os pagãos, tanto na escola como em casa, presumimos
que o fazemos pelo bem de nossos filhos, mas estamos arriscando de apresentarmo-nos como os
guardiões da lei, os sacerdotes, os grandes sacerdotes da lei e das regras.
Se dissermos aos jovens: “O pecado é uma ofensa grave a Deus”, estamos dizendo uma verdade
– como explica o Catecismo de São Pio X, “o pecado é uma ofensa grave feita a Deus” –
certamente, mas o problema é compreender que uma ofensa feita a Deus é uma ofensa grave a si
mesmo. “Quem comete pecado é escravo do pecado”, disse Jesus; ou seja, quem peca age contra
si mesmo. É preciso alcançar esse entendimento na própria pele e, portanto, na vida cotidiana, na
maneira como se vive e, por consequência, no testemunho feito aos nossos filhos de que o
pecado é um algo a menos, é algo inferior do que poderia ter sido: saímos perdendo se o
cometemos! A vida é muito mais!
Certa vez, em um apartamento de universitários, me aconteceu encontrar uma réplica da imagem
de Nossa Senhora Negra de Czestochowa e, atrás, estava pendurado um calendário da Pirelli,
daqueles com as beldades à mostra. É preciso saber explicar por que é pecado observar o
calendário da Pirelli em vez de Nossa Senhora. Se você disser somente “porque é uma coisa
errada”, eles não irão entender e o farão cada vez mais. Mas, se disser que eles saem perdendo,
que perdem porque o amor, a relação com as mulheres, o sexo são uma coisa belíssima se
vividas no modo correto, então eles entenderão. Isso eles conseguem entender. Portanto, ao
explicar que algo é pecado, devemos poder dizer e testemunhar o seguinte: “Veja bem, se você
considera o relacionamento com a mulher como o fazem seu cachorro e o seu gato, sai
perdendo”. Aí, sim, lhes interessa. Então, um rapaz de 15 anos, mesmo desnorteado como se
encontra pela cultura em que vive, dará ouvidos; e conseguiremos dar um passo em frente,
porque o convidamos para verificar, averiguar um critério que lhe é proposto, verificável na
própria pele, com suas condições pessoais. Nesses termos, realmente pode acontecer uma
verificação a partir da qual a proposta educativa se transforma, ao longo do tempo, e
pacientemente, em uma convicção pessoal, em algo da sua conta.
É nesse nível que Giussani requisita o comprometimento dos adultos ao acompanharem os
alunos e os jovens na verificação da conveniência absoluta da proposta. Ele refere em dado
momento: “Se dos 14 anos em diante…”, permitam-me abrir um parêntese, acredito que hoje
essa citação deve referir-se a alguns anos mais cedo, não porque sejam mais espertos do que
antigamente, ao contrário! As crianças de hoje apenas aparentam ser mais inteligentes do que as
de antigamente! Como digo sempre aos meus alunos: os bisavós de vocês pareciam menos
espertos, eu lembro que minha avó dizia ao meu pai quando éramos pequenos: “Olha só como
são inteligentes essas crianças hoje em dia” – porque respondíamos prontamente a tudo – “ao
contrário de nós que, quando éramos pequenos, não dizíamos uma palavra”. Por que será que a
geração deles, com 18 anos, eram homens e mulheres feitos e prontos, e minha avó, que ficou
viúva aos 30 anos, criou seis filhos, em tempos de guerra e de fome, com uma firmeza e uma
certeza incríveis? E as ditas “crianças inteligentes”, ao contrário, com 30 anos ainda devem
superar problemas da adolescência? Portanto tem algo que não fecha. Contudo, é verdade que
algumas problemáticas hoje aparecem, sem dúvida, de modo precoce; digamos que é como um
elástico: essa bendita adolescência que antigamente durava três, quatro anos, agora dura trinta ou
quarenta, se antecipa por um lado e se prorroga infinitamente por outro.
Mas aos 18 anos as cartas já estão postas na mesa de qualquer modo. Eu digo sempre aos meus
alunos: aos vinte anos, vocês terão decidido aquilo que serão na vida; podemos mudar sempre,
mas a estrutura da personalidade que vocês construíram, entre os doze e os vinte anos, é a que os
acompanhará na vida. Por isso, são anos certamente decisivos, os anos nos quais se matura uma
convicção pessoal, aquela certeza psicológica que permite crescer ao redor de uma hipótese que
nos foi oferecida e que vimos viva em alguns adultos.
Com uma observação: é preciso estar atento para não desmembrar as fases da idade de modo
brusco. A dinâmica educativa que tentamos descrever até aqui, efetivamente, começa quando se
nasce, começa no ventre materno, e simplesmente não termina nunca: a liberdade é um mistério
tão grande, que nos permite, aos sessenta anos, aos setenta, jogar tudo para cima, mudar para o
bem e para o mal de maneira absolutamente radical; há uma idade, porém, na qual essa passagem
acontece de maneira mais evidente, mais clara, pelo menos em suas contradições fundamentais,
que é a época da adolescência, da juventude.
Vamos continuar: “Se, dos 14 anos em diante, por 4 ou 5 anos, o jovem insistente e
sistematicamente não for ajudado a ver a ligação entre o dado (a ‘tradição’) e a vida, suas novas
experiências geram as premissas para que ele assuma uma das três posturas inimigas do
Cristianismo: a indiferença” – “tanto faz, é tudo a mesma coisa” –, “o tradicionalismo
meramente formal, ou a hostilidade. O método decisivo para impedir tais posturas numa certa
idade consiste em ajudar a experimentar o que foi dado [a tradição], que deve ser posto em
comparação com cada coisa”4. Imaginem como deve ser o educador: sempre em campo, sempre
na ativa, sempre no ataque. O professor é aquele que joga sempre no ataque, jamais inerte,
jamais com aquela ideia, que algumas vezes todos tivemos, de que os filhos podem crescer
sozinhos; como se nós devêssemos garantir a eles algumas coisinhas, talvez até simplesmente
bens materiais, algumas condições para que vivam normalmente, mas acreditando que, no fim,
crescem sozinhos. Quando nos damos conta de que, se não fomos nós quem criamos nossos
filhos, foi o mundo quem o fez, geralmente é tarde demais, ou pelo menos há inúmeros prejuízos.
O educador, desde o começo, desde quando doa a vida, quando abre a porta da sala de aula, ou
está presente ou não está; e se está, joga no ataque sempre, exatamente porque não existe
garantia de que aconteça esse amadurecimento, essa verificação pessoal do aluno, até que ele
experimente uma conveniência absoluta.
Por sua vez, “a mentalidade moderna” – prossegue o Educar é um risco – “infelizmente, ensina
os jovens a seguirem as coisas até uma medida, de algum modo, agradável para eles e basta. Por
isso, aquela ‘presença’ [a presença positiva da realidade, a existência das coisas] é encarada
como pretexto para afirmar preocupações próprias, esquemas próprios, não para ser seguida
fielmente até o fundo. Desse modo, lá onde aquela presença não corresponde a preocupações
pré-determinadas [ou seja, aos próprios preconceitos], a bateria dos ‘mas’ e dos ‘ses’ serve
muitas vezes como cobertura para uma falta de disponibilidade e de amor genuíno ao verdadeiro
e ao bem. Daí, então, aquele medo difundido, aquela estranha incapacidade nos jovens de afirmar
o ser”5.
Esta é a definição mais acertada, creio eu, que se possa dar sobre a condição existencial dos
nossos jovens: uma estranha incapacidade de afirmar a existência, um medo recorrente, porque
todo o pensamento moderno ensina a não se comprometer com a realidade. Por isso, não são
suficientes as palavras e os discursos, é preciso comprometimento com a existência. Ou seja, é
primordial que aquilo que o educador diz e tenta ensinar esteja presente imediatamente, desde o
começo da relação, desde quando se inicia; no caso dos pais, no momento em que nascem os
filhos; para os professores, no momento em que eles entram na sala de aula: tudo o que você diz
deve ser embasado por uma proposta, por um modo de agir, a partir do qual o jovem possa
verificar, em você, aquilo que você diz. Sem essa ação da sua liberdade, o “eu” do jovem não
existe, e a educação tampouco tem início.
Constatamos, com Giussani, que estamos num mundo que diz exatamente o contrário: quanto
menos você se comprometer com a realidade, quanto menos for a fundo nas questões, quanto
menos levar a sério suas condições pessoais, o ambiente em que vive, mais poderá ser feliz;
então não se esforce demais, não exagere. Quantas vezes, infelizmente, essa fórmula se
transforma também para nós, pais, numa fórmula educativa! Ou melhor, deseducativa, em
relação ao ímpeto com o qual, graças a Deus, a natureza lança nossos filhos perante a realidade.
Porque, quando eles têm uma certa idade, é a natureza que impulsiona em nossos filhos o ímpeto
de curiosidade, de energia em relação a tudo; depois, vem toda uma cultura que, em síntese, se
não tomarmos cuidado, suprime e reduz esse ímpeto natural e, aos vinte anos, eles podem estar
velhos e caducos. Quantas vezes acontece sermos cúmplices, decerto inconscientemente (senão
seria algo criminoso), desse modo de pensar: todas as vezes que um jovem, com o exagero típico
da idade, mergulha em alguma coisa, e nós lhe dizemos: “Puxa o freio” – com aquela maneira
um pouco cínica que equivale a dizer: “Vai passar” – e em seguida: “Agora se preocupe em
estudar”, quando na verdade é uma coisa boa que o adolescente comece a mudar, a refletir de
forma sadia em relação às grandes questões da vida.
Claro, é uma mudança que pode ser incômoda, mas fiquem tranquilos: na maioria das vezes, os
filhos agem pior do que realmente são, são malcriados de propósito, e dizem coisas nas quais, na
verdade, não acreditam… são tão seguros na relação com os pais, que tendem a usá-los como
lata de lixo, jogando dentro todas as suas amarguras, todo o rancor que têm em si. Diversas
vezes, fiz o teste dizendo a um dos meus filhos: “Então, vamos ver se você realmente acredita
nessa bobagem. Há somente uma maneira de ver se você acredita: chame os seus amigos e repita
na frente deles. Se for assim, eu acredito em você”. Nenhum deles jamais o fez. Porque, na frente
dos amigos, percebem que é uma grande besteira, por isso têm vergonha de falar. Aos pais,
porém, dizem com segurança, com uma arrogância que muitas vezes dá vontade de dar um tapa!
Mas é porque confiam que os pais estão presentes.
Aquilo que chamamos de “crise da adolescência” é a coisa mais bonita e sadia que pode
acontecer, corresponde àquilo que Jesus disse: “Se não vos converterdes e não vos tornardes
como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,3); ou seja, se não
estivermos em crise durante toda a vida, nesse sentido positivo, com esse anseio incessante de
que o Mistério da vida se faça presente, se não formos repletos de perguntas, de ímpeto e de
inquietude na vida, não entraremos no Reino dos Céus; ou seja, não participaremos da verdade
de tudo.
Pois bem, já que com frequência esse ímpeto, esse fervor, esse entusiasmo, essa busca, nós
mesmos acabamos perdendo, não o reconhecemos mais como uma coisa boa em nossos filhos,
quando a natureza o suscita neles; e então ficamos assustados porque estão em crise, porque
gritam ou ficam com raiva sem motivo ou são um pouco rígidos, malcriados e um tanto
exagerados em tudo. Então o que dizemos? “Vai passar! Agora pense em estudar! Vai ver que
com o tempo, daqui a uns três ou quatro anos, você vai ficar caduco como eu!” Esse é o máximo
de proposta educativa que ousamos fazer! Claro, não falamos exatamente assim, mas, com
frequência, o sentido é esse; os filhos percebem e acabam pensando: “Em vez de ficar caduco
como você, se for para passar o resto da vida assim, prefiro viver fazendo besteiras!”
“Quando você for grande, irá entender… você vai se dar conta de que as dúvidas e indagações
que tem agora são ingênuas, a vida não é bem assim, é difícil, é preciso pensar em ganhar
dinheiro, é uma luta…” Esse equívoco, em vez de dar suporte ao ímpeto de liberdade e ao fervor
dos nossos filhos, os corrompe. Não é pouca coisa. Eu considero um dos delitos mais graves que
ocorre na educação. Um delito educativo: porque é um erro grave não reconhecer a bondade na
indagação que, graças a Deus, a natureza, em uma certa idade, impõe aos nossos filhos, e que
poderia ser a ocasião para rejuvenescer a todos nós. Não no sentido de nos tornarmos iguais a
eles, na posição equivocada do pai que sai de casa junto com o filho rebelde; mas no sentido de
acompanhar a interrogação deles, percebendo-a fundamentalmente idêntica à nossa.
O pensamento moderno, que ensina os jovens a seguir as coisas somente até um certo ponto, a
fazer tudo sem ir a fundo, é justamente a causa dessa enorme incerteza perante a positividade do
real, fonte e nascente de todo o cinismo, de toda a violência, de todo o desespero, da anorexia, de
todos os fenômenos que mais tarde cada um interioriza e digere à sua maneira, é o que
caracteriza essa geração. É como se crescessem nessa incerteza em relação à realidade e não
tivessem mais pontos de referência e de comparação.
Para que possamos compreender as coisas, é necessário tanto que a inteligência e a lucidez do
pensamento descubram – de algum jeito – a singularidade e a positividade da proposta, quanto –
se quisermos que essa proposta se transforme em verdadeira convicção – a presença de um amor
demonstrado na dedicação, na devoção à existência, no comprometimento com a realidade, nesse
ímpeto, através do qual, normalmente em certa idade, o jovem agarra a vida.
Por isso, para ajudar na concretização dessa convicção, a educação deve, por um lado, propor
claramente e decisivamente um sentimento de unicidade de tudo e, por outro, deve incentivar
insaciavelmente o jovem a confrontar essa hipótese com tudo aquilo com que se relacione, com
cada encontro, cada acontecimento, cada aspecto da vida: comprometer-se com uma experiência
pessoal, em uma verificação existencial, uma verificação sua.
A clareza das ideias não é ainda educação: as ideias podem mudar pelas razões mais estúpidas da
noite para o dia; o juízo, ao contrário, é que é fruto da experiência, perdura no tempo.
2. Suas condições
A necessária verificação da proposta recebida se dá, todavia, diz Giussani, de acordo com três
condições: deve ocorrer no ambiente, deve ser uma verificação comunitária e deve acontecer no
tempo livre. Vamos ver brevemente cada uma dessas três condições:
a) No ambiente
“A primeira condição para que o adolescente possa verificar a sua hipótese é que ele seja ajudado
a se empenhar segundo um ideal no seu ambiente. […] Não há nada de mais deletério, debilitante
e, a longo prazo, exasperante para um adolescente do que não se sentir humanamente ajudado a
enfrentar o ambiente com a necessária clareza e decisão”6. O que se entende por ambiente?
Ambiente é, antes de mais nada, o lugar onde se vive, ou seja, a escola: o ambiente por
excelência para um jovem é a escola. Eles passam cinco horas por dia, todo santo dia da semana,
exceto domingo e, se é estudioso, acrescenta mais duas ou três horas por dia.
Fora de casa, é a escola o lugar principal onde entra em jogo a relação com a realidade, através
do qual podem verificar a hipótese que os pais ofereceram: é o ambiente. “A propósito disso,
família e escola têm responsabilidades formadoras tão cheias de consequências para as
convicções do jovem, que é inconcebível a sua maciça e, muitas vezes, inconsciente
superficialidade” tanto na família quando na escola7.
Se considerarmos “ambiente” o mundo externo, que hoje em dia invadiu nossas casas, quantas
reflexões deveríamos fazer sobre essa ilusão de que nossos filhos, porque navegam na internet,
parecem informados sobre tudo e têm acesso a tudo, tenham acesso à sabedoria universal e,
portanto, ao universo. É uma mentira evidente. Protejamo-nos dessa ilusão, digo aos professores
e aos pais!
Como aconteceu comigo, uma ex-aluna minha de dezenove anos me liga e diz: “Franco, eu fui
convidada a uma reunião em Milão”. “E qual é o problema?” “Nunca fui a Milão, me disseram
que precisa pegar o metrô, como funciona?” Essa é uma garota espertíssima e normal,
provavelmente na frente do computador é um arraso; mas não consegue ir até Milão! Devemos,
com certeza, considerar este aspecto: atualmente há uma separação entre o mundo imaginário –
do qual a cabeça dos jovens está repleta – e o mundo real; uma separação arrasadora do ponto de
vista do discernimento. Você acha que conhece o mundo inteiro porque navega na internet e sabe
muito bem onde se encontra alguma cidade norte-americana, e assiste à noite do Oscar ao vivo;
mas na verdade não sabe de nada, porque aos dezenove anos não sabe como ir até Milão, e talvez
se pergunte se Entratico8 é na Venezuela ou em Bangladesh, quando na verdade fica a cinco
quilômetros de sua casa.
Na base dessa situação, há uma questão muito grave: o ambiente, essa atmosfera que os nossos
filhos respiram, aparentemente tão abrangente e aberta ao real, na verdade é venenosa, porque é
cheia de imagens absolutamente falsas e construídas. A cabeça dos nossos jovens está repleta de
um imaginário de filmes, telenovelas, desenhos animados de um determinado tipo, nos quais os
protagonistas têm sempre uma personalidade extraordinária, excepcional. Sejam heróis positivos
ou negativos, seja o Super-Homem ou um cantor, o galã ou uma celebridade, ou uma dançarina
famosa, imaginem o que significa para os filhos de vocês crescerem, desde os três, quatro, cinco
anos, rodeados por esse imaginário: o resultado é que, aos quinze anos, não aguentam mais o
comum. Para eles, parece completamente banal, vazio e incompatível com a vida aquilo que cabe
a eles viver, a própria cidade, a família, os amigos do bairro; não suportam a escola, os livros que
devem folhear e estudar. “O que há de extraordinário no meu dia?” Nada. É a coisa mais banal,
mais vazia, mais estúpida e mais detestável que se possa imaginar; então a procura pelo
extraordinário se torna uma terrível tentação. E esse mal-estar, diante da monotonia insuportável
da vida, pode se transformar até mesmo em aversão a si mesmo, em doenças psicológicas e
outras patologias.
Devemos estar muito atentos à força do ambiente, que tem essa capacidade de enfraquecer as
energias e a possibilidade de relacionar-se com o real. “Nunca como hoje, o ambiente, entendido
como clima mental e modo de vida, teve à disposição instrumentos de invasão tão despótica das
consciências”9. Não pensem que eu queira demonizar as novas tecnologias, tudo certo com a
internet, o computador é importante, não quero nem discutir; estou só dando um alerta sobre este
fato: o ambiente, entendido como mundo que nos alcança dentro de nossas casas e dentro das
nossas escolas, jamais teve à disposição instrumentos tão autoritários para invadir as
consciências como hoje: “Hoje, mais do que nunca, o educador soberano, ou deseducador, é o
ambiente com todas as suas formas de expressão. Portanto, a crise se desenha em primeiro lugar
como inconsciência que transforma os próprios educadores em colaboradores involuntários desse
ambiente. E em segundo lugar, com o insuficiente vigor na conduta educativa, que impede o
combate enérgico à negatividade do ambiente, enquanto reafirma, em tais educadores, posições
esquemáticas tradicionais, formais, em vez de levá-los a renovar o Verbo, eterno redentor do
espírito da nova luta”.
É uma luta. É nesse sentido que eu dizia: ao realizar sua verificação frente ao ambiente, o jovem
tem de nos ver decididos firmemente na luta contra o ambiente nocivo e sua negatividade.
Incisivos, porém com uma proposta positiva; não é suficiente dizer: “Desligue a televisão!”,
porque o ambiente entra de qualquer modo, entra pelas frestas, entra no ar que eles respiram. O
que entra na cabeça não sai mais! Vale também dizer, quando deixamos os filhos na frente da TV
aos três anos e lhes permitimos assistir a desenhos animados da Walt Disney (eu, apesar de
presentear sempre os meus filhos no dia de Santa Lúcia10 com a assinatura dos canais, odeio o
Mickey, porque é um mundo totalmente sem pais, sem professores, sem educadores. Todos estão
sempre apaixonados e são todos sobrinhos e tios, não há ao menos uma família como deveria
ser).
Enfim, devemos estar sempre alertas. Pobres dos pais que raciocinam com a seguinte pergunta:
“Que mal há nisso?”: já saem perdendo, já foram derrotados. Se você, desde que nascem os
filhos, diante das escolhas que faz, tem como critério a pergunta “que mal há nisso?”, já perdeu:
o ambiente irá vencer, o ambiente irá te substituir, porque você está imóvel. A pergunta do
educador não é nunca: “Que mal há nisso?”, mas: “Que bem há nisso?” O que posso propor neste
momento ao meu filho? O que meu filho observa? Ao que meu filho se está agarrando, que
proposta de bem faço ao meu filho? “Que bem há nisso?” é a grande pergunta do educador que
desafia o ambiente no qual seu filho está crescendo.
Ao perguntar “que mal há nisso?” já perdemos, já entregamos para o ambiente, no sentido
prejudicial do termo do qual falei antes. Como farão para crescer nossos filhos, sentindo que
podem ser extraordinários, que a vida cotidiana de nós todos pode ser extraordinária? Do pai, da
mãe, dos professores, do dia a dia na escola, como farão para reconhecer, se não somos nós os
primeiros a fazê-lo, os primeiros a reconhecer o extraordinário da sua existência e, portanto,
possibilitar-lhes verificar a conveniência absoluta?
João Paulo II, quando foi a Nórcia e teve de sintetizar em um slogan maravilhoso o trabalho dos
beneditinos – esses padres anônimos que lenta e pacientemente refizeram a Europa trabalhando a
terra, escavando, construindo paredes, abrindo canais, construindo pontes, no anonimato mais
absoluto, pacientes como mulas ao trabalho –, ele disse: “Era necessário que o cotidiano se
tornasse heroico, e o heroico se tornasse cotidiano”. Esse é o desafio educativo hoje. Temos que
nos aproximar deste desafio: precisamos sentir nossa vida como heroica, ou seja, grandiosa; tão
cheia de bem e bondade que nos deixe sem ar, capaz de emocionar e, portanto, mobilizar nossos
filhos. Desse modo, eles serão ajudados a entrever o quão extraordinária é a própria vida deles e
suas experiências, o quão única é sua existência, a singularidade daquilo que são! Então, não
serão abatidos por esse sentimento cinzento de inutilidade, de efemeridade de tudo o que vivem,
tão forte sentimento, a ponto de precisarem refugiar-se nos chamados paraísos artificiais.
b) Comunitariamente
Segunda condição: é preciso que essa verificação seja comunitária; e comunitária significa que
não é mais suficiente apenas o nosso testemunho. A maior, mais perfeita e mais santa das
famílias nunca foi suficiente nem mesmo noutros tempos, mas hoje fica ainda mais evidente. Os
filhos devem perceber a proposta que fazemos como um pedaço de mundo que funciona de
maneira diversa do ambiente que têm ao redor de si, desse mundo que têm diante de si. Dou um
exemplo: meu filho Andrea, quando estava no liceu11, perguntou a mim e a minha esposa o
seguinte: “Pai, você está nos criando normais? É uma preocupação que tenho, porque você me
ensina algumas coisas, e eu acredito, me convencem até, eu gosto desse tipo de vida que fazemos
juntos, com a mãe, com meus irmãos; mas o mundo caminha completamente noutra direção.
Tem certeza de que você me educa capaz de conviver nesse mundo, ou será que mais tarde vou
estar como um peixe fora d’água, incapaz de estar no mundo?” Lembro que minha esposa e eu
refletimos muito, porque a pergunta era seríssima: o que temos de fazer para que os filhos
cresçam com a percepção de que a hipótese que propomos a eles seja realmente viável? Eles
devem enxergar que o pai e a mãe não estão sós, tentando desesperadamente resistir contra o
mundo, mas que existe um pedaço de mundo que funciona dessa forma: há muitos amigos que
vivem assim, muitas pessoas maravilhosas para observarmos, há muitos professores para
seguirmos. Então fica claro como muda o uso do tempo de uma família, o uso da casa, e o uso do
dinheiro, e a concepção de férias: levar os filhos para que possam ver como é grande o mundo;
por mais cruel que às vezes ele seja, há muito para ver. Há aquilo que ensinam o pai e a mãe, e
há La Traccia (considerando que você confie na La Traccia): se é preciso lutar, dia após dia,
pouco a pouco, artigo de jornal por artigo de jornal, uma guerra cotidiana, ter a escola como
aliada não é o mesmo que tê-la como inimiga; nesse sentido, como é valioso ter a possibilidade
de uma escola como esta! Essa luta não pode ser uma história de cavaleiros contra moinhos de
vento, o filho deve enxergar que a proposta que fazemos é compartilhada por outros; assim, isso
se transforma realmente em um modo de preestabelecer a casa, de abrir as portas a todas as
possíveis amizades e presenças, de sair para ver tudo aquilo de bom, de bem e de grande que
existe no mundo.
Lembro-me, por exemplo, que, no feriado de Todos os Santos, se dizia aos filhos: “Por que não
vamos visitar algum santo? É o feriado deles”. Fomos visitar um rapaz que eles conheciam e que
não estava bem, estava morrendo como um santo – foi escrito até um livro sobre ele12 –, e eu
fiquei tocado porque os meus filhos tinham me levado para conhecer um santo. Apresenta-se
para nós, então, uma criatividade no modo de viver a própria casa, no modo de usar o dinheiro e
o tempo. Há muito para fazer, muito para observarmos, porque onde não alcançamos nós,
alcança o ambiente, com alguma coisa o filho se preenche: ou daquilo que você lhe propõe ou de
algo diferente. Você, educador, deve estar no front assim, tão repleto de propostas, que um dia
não basta para as coisas grandiosas que gostaria de fazer com os filhos, e não basta uma semana,
não bastam as férias (quando muitas vezes, ao contrário, as férias são um momento de grande
tédio mortal que atinge os filhos…).
Isso abre, também, outra questão interessantíssima: essa abertura ao bem que existe, aos grandes
testemunhos do nosso tempo, a esse modo de escolher os livros, de ler o jornal, de ligar ou
desligar a televisão, é um modo de ser que implica uma decisão para o adulto. Respondo, então,
a uma pergunta que frequentemente me é feita ao final desses encontros: Se é assim, quem irá
educar a nós, adultos? Quem educa você? Que tipo de coisa comove você, por qual tipo de coisa
se deixa educar, o que significa para você, pai, para você, mãe, para você, professor, ter sempre
no canto do olho a verdade, o bem, o belo? O que significa dizer que o que te impulsiona no
decorrer do dia é aderir ao que existe de grande, aderir ao que torna a vida grandiosa? O que
você observa, quem você segue? Não podemos educar se não formos continuamente educados: o
educador é, em primeiro lugar, um educado, alguém que se deixa educar. “Tudo o que há de
grande, de belo, de bom, de verdadeiro, seja objeto de vossos pensamentos”, diz São Paulo (Fl
4,8), que ocupe o pensamento dos adultos, para que possa ocupar o dos filhos.
Para poder fazer isso, não devemos estar sozinhos! Seria triste se, quando questionados pelos
filhos: “Você faz parte do quê? A quem você segue? Para poder me convencer a seguir você, pai,
mãe, professor… a quem você segue?”, tivéssemos que responder que, no fundo, não seguimos
coisa alguma, que não acompanhamos ninguém. Ao invés disso, não se pode deixar de escolher
alguém ou algo a que pertencer, com toda a devoção, a coragem e o entusiasmo dos quais somos
capazes.
É dessa maneira que você deveria falar ao seu filho sobre a beleza da Igreja. Mas não existe “a
Igreja” genericamente. A Igreja só pode ser um determinado modo de participar, de pertencer à
Igreja. Quando se fala sobre a Igreja aos filhos, eles devem ter em mente alguns rostos, alguns
amigos que conhecem, alguns encontros dos quais participam, algumas parábolas que você
conta, livros que lê, determinadas pessoas às quais oferece seu dinheiro e amparo; eles devem ter
em mente uma história, um pedacinho de história. A palavra “Igreja”, para ser proposta de modo
educativo, realmente significativo, deve ter uma concretude, ser específica, determinada: deve
ser verificável, porque a Igreja de modo genérico jamais foi vista nem encontrada por ninguém.
Para usar uma imagem, a Igreja é como um trem imenso. Vocês já conseguiram entrar em um
trem de modo genérico? Não. Para tomar o trem, devemos subir em um determinado vagão.
Aquele vagão é o nosso modo de tomar o trem; ou ficamos de fora, ou, se decidimos apanhar o
trem, devemos escolher um vagão, ou melhor, uma cabine, um assento; esse é o nosso modo de
estar no trem. O trem é grande, há vários vagões, cada um tem o seu com um assento próprio, e o
trem segue viagem. O trem é tão grande que não vemos mais a locomotiva, que é Jesus Cristo. O
trem é tão comprido que não enxergamos a locomotiva, mas o fato de que o trem se move nos
faz jurar que a locomotiva existe e que funciona muito bem. O trem vai, o povo de Deus cresce,
seguem em frente no tempo e na história; mas nos encaixamos no trem somente subindo em um
vagão específico. E se aos nossos filhos devemos dizer: “Apanhem o trem comigo”, então
proponhamos: “Vamos entrar naquele vagão ali, porque me atrai mais do que os outros!” Por
isso, ou as propostas que fazemos aos nossos filhos são verificáveis, concretas, funcionais,
existentes, ou aquele pedaço de mundo do qual estamos falando para eles, aquela hipótese
positiva da qual falamos é tão genérica, abstrata, que não lhes importa coisa alguma. É nesse
sentido, acredito, que devemos entender o aspecto comunitário do qual falava Giussani.
c) O uso do tempo livre
Terceira e última condição: “Uma educação incapaz de fascinar o jovem no seu tempo livre […]
é limitada, humanamente inadequada”13: não podemos fazer como certo tipo de catequese para a
qual o problema, em relação ao tempo livre, é fazer com que os jovens se mantenham
comportados e evitem fazer determinadas coisas. Em vez disso, é preciso abordar direta e
realisticamente o jovem, com uma proposta séria de compromisso com valores, justamente no
tempo do qual somente ele pode dispor. Os jovens compreendem isso; assim, o dever educativo
fica seriamente organizado. “Através do compromisso com o ideal no tempo livre, o adolescente
aprenderá a buscar a sua hipótese também no resto do tempo, onde a pressão de necessidades e
influências contingentes torna a coisa mais difícil para ele”14. Eu digo que essa é uma intuição
genial, porque contém um critério educativo, também psicológico, decisivo: “Toda e qualquer
impaciência exigente dos educadores (escola ou família) para com essa passagem é injustificada;
revela abstração e falta de consciência da evolução segura, embora gradual, do fenômeno
educativo”15.
Não sejam impacientes, a lei da educação é o amor e tem o seu tempo; o tempo da educação se
chama paciência, a virtude de quem educa é a paciência, porque exige todo um desenvolvimento
necessário para que aquilo que acontece em um ponto de verdade atinja a vida por inteiro. É
preciso tempo, não podemos pretender que o jovem, a criança, o adolescente, tenha compromisso
total com a existência, é algo que ocorre gradativamente (às vezes, nem mesmo nós, adultos,
conseguimos fazer isso…). Devemos propô-la, claro, é o objetivo da educação; mas há um
processo a ser respeitado.
Dito isso, Giussani acrescenta: “Portanto, está fora de questão chamar a atenção do indivíduo
para o compromisso com o ‘dever’ escolar, familiar, etc., como para uma prioridade contrastante
com uma dedicação ideal já vivida no tempo livre”16. Tento explicar assim: “Comece a estudar e
depois a gente vê, depois falamos a respeito; primeiro o dever, depois a diversão”. Essas
bobagens, que às vezes dizemos como se fossem coisas banais, são destrutivas: devemos fazer o
contrário. Se um pai vem me dizer que o filho não estuda e não quer mais ir à escola, mas
descobre que, quando é o filho quem decide – ou seja, em seu tempo livre, se a sua
responsabilidade entra em jogo, ele se agarra a algo de verdadeiro, a algo bom, algo grandioso –,
é uma bobagem dizer “primeiro o dever”, porque a dinâmica educativa e psicológica prevê o
contrário. Esse pai descobre que seu filho, que neste momento odeia a escola, tem um amigo
interessante, o conhece e sabe que é um ótimo garoto. O filho é um desastre, não quer estudar,
não tem vontade de fazer as tarefas, não quer nada com nada, em casa é birrento, se deve dar
uma ajuda lhe cai o braço, mas vai com gosto visitar aquele garoto – não digo garota, porque
sugiro sempre não pôr o problema nessa idade, hoje o namoro é facilmente o túmulo da
educação, e à garotada é preciso explicar motivadamente. Porque apaixonar-se é a coisa mais
linda do mundo, sabemos muito bem, mas cada coisa a seu tempo, e o vazio da vida está fazendo
diminuir progressivamente a idade com que começam os namoros; mas são somente o
preenchimento de um vazio completo, de um vazio que, quando se revelar como tal no próprio
relacionamento, os levará a um inevitável desespero. É preciso fazer uma advertência: garotada,
percebam que não funciona dessa forma! – Mas quando eu visse meu filho se apegar àquele bom
amigo, quando eu entendesse que aquela companhia faz bem a ele, qual seria a coisa pior que
poderia dizer? Seria fazer-lhe sentir que sua decisão tomada em seu tempo livre é contrária aos
seus deveres, dizendo-lhe: “Não, você não vai mais à casa de fulano até que ponha a cabeça no
lugar, até que comece a estudar, e obedecer à sua mãe…” É um desastre! Os pais sábios, ao
contrário, fazem o quê? Agarram-se com unhas e dentes e com toda a esperança a essa amizade,
porque pode ser o ponto que, pouco a pouco, por osmose, invada o restante da vida de seu filho.
Quantas vezes cometemos esse erro, de contrapor a única hipótese positiva de nossos filhos com
os deveres que deveriam respeitar; e assim não alcançamos nem mesmo deveres, mas uma
grande irritação, e ainda retiramos deles a única possibilidade de verificação pessoal que tinham.
O bom educador, ao contrário, está atento ao que acontece no tempo livre, ao amigo que o filho
ou o aluno escolhe de modo responsável; porque é a partir desse ponto, afetivamente
significativo, que se pode recomeçar tudo. Se meu filho tem um amigo de cabeça boa, ainda mais
se for um amigo mais velho, um parente, um padre, ou professor, qualquer um; se eu vejo que é
um momento difícil, rezo todas as noites para que ele não perca esse amigo, para que se
aproximem ainda mais, porque o que sai pela porta pode entrar pela janela. Cultivando essa
amizade, poderá lentamente, com paciência, ao longo do tempo recuperar o significado do
estudo, recuperar o respeito pela família, pelo pai e pela mãe; não o contrário.
3. Suas “dimensões”
Último ponto, rapidamente mencionado: Giussani fala sobre as dimensões dessa verificação
pessoal; e é interessantíssimo, porque a questão se conecta àquilo que dissemos desde o início,
ao fato de que o nosso coração e o dos nossos filhos exige, por sua natureza, conhecer a verdade,
praticar o bem; e que a vida seja, ao passar do tempo, uma coisa bela, uma positividade, algo
grande. Afirma Giussani: é preciso que o nosso filho ou nosso aluno faça essa verificação em
todas as suas dimensões, de acordo com as proporções de cada ação humana; ou seja, de acordo
com suas três características: ser feito de conhecimento, ser feito de afeto, ser feito de certeza
sobre o futuro – sobre o presente e, portanto, sobre o futuro. A fé, a esperança, e a caridade.
a) Cultural
Como se traduz essa sede de saber, essa sede de amar, essa sede de beleza e de bem no aluno?
Giussani as traduz assim: “O motivo para alguém se empenhar na verificação da hipótese
educativa deve ser que ela se propõe como explicação total de tudo, sentido último da vida, do
mundo e da história. Todo ceticismo e enciclopedismo para os quais a cultura é apenas um
amontoado de materiais incapaz de uma explicação vital de cada pedaço da realidade; todo
consequente fideísmo [ou fé cega], segundo o qual a religião e a fé estão ‘fora’ de uma ‘cultura’
assim definida, incapazes de explicar cada realidade ou problema que apareça, deixarão o jovem
justamente frio, ou então hostil”17. Deve ser uma hipótese: imaginem a responsabilidade que
temos, se a verificação que nossos filhos devem realizar é cultural, ou seja, ao confrontarem
todas as coisas, quem irá lhes ensinar se não os pais, os professores e a escola, que vivem essa
hipótese em primeiro lugar? Onde irão aprender a confrontar tudo com a proposta que lhes foi
feita para descobrirem se é verdadeira?
b) Caridade
A segunda dimensão da verificação pessoal é a necessidade de uma grande caridade, no sentido
mais genuíno: é preciso acompanhar e ajudar os filhos a amar o que encontram, a valorizar a
realidade, a querer o bem das coisas, querer bem a si mesmos e às coisas que têm diante de si. O
amor, como sabemos, não é uma coisa que se ensina com palavras, o apreço pelas coisas pode
ser somente testemunhado, e se desejamos que o outro ame, isso só pode acontecer por atração.
De tão forte o nosso apreço pelas coisas, de tão grande o amor que temos pelo real, é como se ele
atraísse para dentro dessa aura positiva tudo o que encontra, em primeiro lugar nossos filhos e
nossos alunos. Trazer o aluno, trazer o filho para dentro desse apreço à realidade que vivemos,
para que também ele o possa sentir.
Aprender significa aderir, grudar. Quando um jovem aprende (ou seja, as coisas aderem a ele,
tornam-se suas), é através do afeto, através desse bem-querer, através desse sentimento positivo
sobre as coisas, é a partir dessa primeira atitude positiva frente à realidade que devemos
acompanhá-los, que devemos educá-los, ou seja, que devemos pacientemente testemunhar,
demonstrar.
c) Missionária
Por último, Giussani fala até mesmo de uma “dimensão missionária”, ou seja, que aquilo que é
proposto não é verdade para você se não for verdade para o mundo inteiro. A proposta que você
faz, a proposta que você vive, deve guardar relação com o mundo inteiro: se diz “católico” aquilo
que tem relação com tudo, que não deixa nada de fora, não deixa de fora nem mesmo a dimensão
espaço-temporal. Nós nos esforçamos tanto para que a nossa escola mantivesse, cultivasse,
alargasse a ligação com Serra Leoa18, e não é indiferente que sejamos uma escola que se
interessa por Serra Leoa, um pedaço de mundo esquecido pelos homens, mas não por Deus, isso
significa que você vai para La Traccia, mas ali está o mundo, ao menos como tentativa.
Existe a tentativa de estarmos abertos para o mundo inteiro, é uma escola “católica”, ou seja,
onde nada do mundo é deixado de lado, nada do que existe, nada do que é humanamente
significativo lhe é estranho: isso quer dizer ser católico. Então fica claro em que sentido a
educação deve ter como dimensão fundamental o catolicismo, a abertura ao mundo. Quando
ajuda a educar? Quando a educação nutre a essa abertura ao mundo!

Ponto IV – O risco necessário à liberdade


Quarta e última palavra: o risco necessário à liberdade. A liberdade exige do educador o risco de
educar. Por que essa última palavra dá título ao livro? Porque, no fim das contas, se concentra
tudo ali. Dito tudo o que dissemos – as dimensões, as condições, ao que estar atento ou não –,
resta essa coisa misteriosa que é a liberdade do outro, a liberdade do filho, a liberdade do aluno.
Por isso, por parte do adulto, a educação comporta sempre um risco, comporta sempre um
mistério, uma imprevisibilidade, a impossibilidade de dar por certas algumas coisas. O risco é
necessário à liberdade do outro, e apostar tudo na liberdade é a coisa mais difícil e mais terrível.
Por isso percebemos as regras como um atalho, se eu consigo impor ao meu filho o respeito à lei,
acredito ter exercido meu papel de educador; e na verdade, criei uma marionete, um inadequado,
alguém que observa as regras, mas não tem um critério seu de liberdade, uma convicção sua: o
educamos como um fantoche, um escravo – e não queremos educar os filhos e os alunos como
escravos.
Queremos correr esse risco da liberdade, esse risco terrível do qual fala a parábola do filho
pródigo, a maior parábola do Evangelho (Lc 15,11-32) sobre o tema da educação. Aquele pai,
que é o próprio Deus, tem dois filhos, o mais jovem – talvez aquele para o qual olhasse com mais
afeto, como frequentemente acontece com o caçula – lhe diz: “Parabéns, você fez tudo
perfeitamente, mas não me importo com nada, me dê a minha parte dos bens que vou gastar tudo
com prostitutas: quero jogar no lixo a vida, quero queimar a vida, quero me destruir”. O pai o
deixa ir, permite que o filho corra, até as últimas consequências, o risco da sua liberdade. Temos
a tendência de ler mal essa parábola, porque pensamos imediatamente que ela termina bem, pois
o filho retorna! E na verdade, que drama deve ter sido. Que coisa deve ter vivido aquele pai! E
ainda assim, Jesus sinaliza-o como modelo de educação. Que coisa deve ter sentido aquele pai ao
ouvir seu filho dizer: “Vou jogar no lixo a vida, quero ir morar com os porcos” – o que, para a
cultura hebraica, era a coisa mais infame, mais degradante, o pior dos males… – Aquele pai o
deixa ir.
Nós, como reação imediata, o que teríamos feito? Quase sempre, uma das duas coisas. A mais
instintiva, ficaríamos com raiva: “Como pode dizer uma coisa dessas, ai de você, não sairá desta
casa”, a solução autoritária. Esta obtém como resultado que já perdemos o filho (pode-se estar
sob o mesmo teto e viver a uma distância sideral: nós o perdemos de qualquer forma). Ou então,
aquela mais em voga hoje, o pai que dá uma de amigo do filho, que reflete um momento e depois
diz: “Eu vou com você, assim fico de olho, ainda sou jovem, e também já tive a sua idade…”
Assim, o pobre filho pródigo se encontra em “ótima” circunstância: uma vez que seu pai vendeu
tudo para segui-lo, no dia em que o filho decide retornar – e assim entendemos a função de
coerência ideal, porque esse pai podia ter sido um tinhoso, ter errado, pode ter se equivocado em
tudo, mas qual é a sua grande função? Permanecer! – ao se dar conta de que foi um tolo, o filho
compreende que errou, pensando ter um lugar para onde voltar, levanta-se, vira-se… e descobre
que seu pai está ali com ele. Esse garoto vai querer se jogar da ponte, porque foi retirada dele
qualquer possibilidade de retorno, qualquer possibilidade de perdão; está condenado ao
desespero completo, porque não há possibilidade de retornar.
A função de coerência ideal, de fato, é que aquele pai permanecera. Com toda a dor, com todo o
tormento que pode ter sofrido, o pai do filho pródigo permanece. Durante anos, deve ter subido
até a janela mais alta da casa para observar o horizonte – porque o Evangelho diz que o pai o viu
retornar ao longe; e não deve ter passado uma semana, anos devem ter se passado observando o
horizonte no anseio desesperado de que o filho retornasse, até que o vê exatamente em cima da
colina e corre ao seu encontro. O pai estava ali. Ao permanecer, tendo mantido a casa sobre a
rocha, a permanência do pai e da mãe satisfaz a grande condição pela qual a educação pode
esperar uma concretização, mesmo diante dos erros, das traições, dos caprichos de antes, e
depois dos grandes “nãos” da adolescência e da juventude. A esperança de que tudo se realize no
bem tão esperado é que o adulto seja uma presença, uma permanência, que aquela casa esteja lá;
porque do contrário, se não estiver mais, realmente está feito o estrago: é negada ao filho a
esperança, lhe é negado o perdão. A coisa de que todos necessitamos para viver é de perdão, é
saber que existe um lugar ao qual podemos retornar. Aquele pai correu o risco; e isso não será
preterido a nenhum de nós, nem aos professores nem aos pais, se quisermos ser educadores. Se
quisermos ser criadores de soldadinhos de chumbo, aí é outra questão… Do contrário, se
amamos a liberdade dos nossos filhos e dos nossos alunos, não podemos ignorar esse risco,
temos de corrê-lo até o fim.

Termino com três observações. A primeira é que, graças a Deus, estamos aprendendo a ideia de
mérito, a ideia católica e cristã de mérito. Quem assistiu ao filme da RAI sobre Santo
Agostinho19 viu o que foi para ele Mônica, sua mãe, com um filho realmente desgraçado que,
porém, se tornou santo. Essa história me comove, porque é a história de tantos que encontro por
aí andando pela Itália e pelo mundo; mães, sobretudo, porque as mães têm mais esta ideia, as
mulheres nos ensinam mais: a ideia de que eu dou a vida pelos meus filhos, dou a vida pelos
meus alunos, e depois será o que Deus quiser; mas tenho como última certeza, mesmo no
fracasso aparente: oferecer a minha vida a Deus “vale”, pela própria ideia que Deus teve de
mérito, porque, pelos méritos de Seu Filho, salvou a humanidade inteira. Do mesmo modo, o
meu sacrifício de hoje pode obter de Deus, por mérito de Maria, a salvação de meu filho.
Por fim, chegaram outras duas perguntas escritas que me impressionaram. Uma diz: “A essa
altura para mim é tarde”. Não podemos dizer isso, nenhum de nós pode dizer isso! Eu conheço
situações terríveis, muito dolorosas, que alguém vive com os filhos, mas não podemos jamais
dizer: “Agora é tarde”. Não somos do time de Nicodemos, o velho que vai até Jesus à noite,
envergonhado, e Lhe diz: “Agora é tarde, sou velho”; e Jesus responde que não é verdade, que é
possível recomeçar do zero – como fazem nossos filhos: “Pai, dá para recomeçar do zero?” –
Nicodemos: “Jesus, é possível nascer novamente, um velho como eu pode voltar ao ventre de sua
mãe?”, Jesus lhe responde que sim, que é um dom que o Espírito Santo pode oferecer, podemos
renascer (Jo, 3,1-8). Por isso o educador é sempre combativo, como a mãe que, mesmo ferida
pelo mal de seu filho, não se rende nunca, não consegue dizer: “Chega, não me interessa”, o que
quer que aconteça, até o último respiro: até o último suspiro, seu filho é seu filho, e ela acredita,
e reza, e espera, e luta para que alguma coisa possa acontecer, para que algo o faça recomeçar.
O professor é igual: o aluno que te dá aflição, justamente o mais difícil de todos, é a ele que você
diz: “Não desisto, até o último minuto da última hora de escola do dia 12 de junho,20 você é meu,
e eu estou aqui por você e não retrocedo. No momento seguinte, será o que você quiser, o que a
sua liberdade lhe consentir ser; mas eu estarei aqui até o último segundo do último minuto da
última hora de aula”. O adulto, o educador, não pode nunca dizer: “Para mim, a essa altura é
tarde”, é impensável!
A última observação nasce de uma pergunta: “Com frequência, na realidade cotidiana, parecem
prevalecer a avidez e o egoísmo, parece que as pessoas que conseguem mais, que seguem adiante
na vida e na carreira, são os mais malandros. Diante de tais coisas – e ainda mais diante da
doença, do sofrimento e da morte –, como podemos continuar afirmando e nutrindo uma
esperança de bem, uma hipótese de bondade?” Como se faz, diante do mal mais evidente, da
doença, do sofrimento e da morte, para afirmar perante os filhos uma esperança de bem? Aqui
recomeçamos do zero: é preciso que nós, adultos, tenhamos feito uma experiência tão clara e tão
grande desse bem, que possamos ao menos sussurrar, de acordo com o que pudemos verificar –
pelo que nossos olhos enxergaram e nossos ouvidos escutaram e nossas mãos tenham tocado –
não pelas nossas fantasias religiosas, mas pela experiência que fizemos durante a vida;
amadurecendo, devemos poder ao menos sussurrar, quem sabe com os dentes serrados e com
dificuldade, até um pouco envergonhados e encabulados em frente aos filhos, enquanto lhes
dizemos, mas devemos poder dizer: “Olha que é possível, juro que é possível, para mim é
possível!” Aquele percurso que é resumido no Cântico das Criaturas, de São Francisco,
“Louvado sejas, meu Senhor”21, é possível.
É preciso, antes, ter feito um encontro, devemos ter diante de nós um mestre, alguém que nos
faça ver; mas, em seguida, a vida é esse encontro positivo com a realidade, tão positivo que atrai
os homens e irmãos, tão positivo que, mesmo reconhecendo todo o mal que existe, é capaz de
abraçá-la. “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam por teu amor, e suportam
enfermidades e tribulações.” E depois chega a dizer aquela última palavra, que somente o
cristianismo poderia inventar, que não existe em nenhuma outra cultura e religião no mundo:
“Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal”. Podemos saber que a morte não
é a última palavra, que alguém venceu a morte e, portanto, é possível abraçar cada sofrimento,
por um bem último que permanece invencível, por uma vitória última definitiva. Com essas
condições, acredito que se possa imaginar uma tentativa de educação juntos, dando-nos a mão
uns aos outros.

1 Luigi Giussani, Educar é um risco, op. cit., pp. 67-68.

2 “Vergine madre, figlia del tuo figlio” (Dante Alighieri, A Divina Comédia, Paraíso, XXXIII, v. 1., op. cit.).
3 Luigi Giussani, O senso religioso, op. cit., pp. 60-62.
4 Cf. Idem, Educar é um risco, op. cit., p. 71.

5 Ibidem, p. 69.
6 Ibidem, p. 72.

7 Ibidem.
8 Pequeno povoado perto da casa do autor, na província de Bérgamo. [N.d.T.]

9 Ibidem, p. 72.
10 Em Bérgamo, como em outras zonas da Itália, manteve-se uma antiga tradição na qual quem traz presentes não é Papai
Noel ou a Befana, mas Santa Lúcia. A noite de presentes é, portanto, aquela entre 12 e 13 de dezembro.
11 O liceu é considerado o mais alto nível de formação escolar, que vai dos 14 aos 19 anos, e se divide em Clássico, Científico
e Linguístico. Pode ser comparado ao Ensino Médio brasileiro. [N.d.T.]
12 Nicola Fambri, Ne vedremo delle belle. Lettere agli amici, Castelbolognese: Itaca Libri, 2007.

13 Giussani, Educar é um risco, op. cit., pp. 74-75.


14 Ibidem, p. 75.

15 Ibidem.
16 Ibidem.

17 Ibidem, p. 77.

18 Após ter encontrado, em 2002, Padre Berton, missionário na Serra Leoa, Franco, sua esposa e alguns amigos colaboraram
na construção da escola Holy Family school, ainda hoje conveniada à escola La Traccia. [N.d.T.]
19 Sant’Agostino, dirigido por Cristian Duguay, Rai Production.
20 Aproximadamente o fim do ano letivo na Itália.

21 S. Francisco, Cântico das Criaturas, trad. Leonardo Boff, franciscanos.org.br.


4. Juntos somos capazes
Assembleia final do Curso para Educadores da Escola La Traccia
Calcinate (Bérgamo), 26 março de 2010

Franco Nembrini. Em primeiro lugar, eu quero agradecer as participações numerosas e as


contribuições escritas que chegaram até mim, as quais me permiti organizar para que possamos
dar uma olhada juntos. Li todas com muita atenção e por fim solicitei a alguns pais que
participassem, porque me pareceu que as questões propostas por eles e as observações
desenvolvidas reunissem as preocupações e as perguntas dos demais. Aliás, o objetivo do
encontro de hoje não é responder a todas as questões, mas podermos voltar para casa com as
perguntas certas: mais do que obter respostas, aventar hipóteses de como desenvolver o trabalho
a seguir, esclarecendo um pouco como e em que termos os problemas se fazem presentes, de
modo que poderemos retomá-los – espero – cada um na própria casa, e prosseguir esse diálogo
entre nós. Por isso, trata-se de uma tentativa, porque a educação é a aventura do Homem e nunca
termina: é um risco, algo imprevisível, é uma coisa para a qual nenhum de nós tem a solução ou
a definição última da questão. Em educação, o desafio é contínuo. Na noite de hoje, então,
iremos concluir o curso, mas terá início uma empreitada que eu espero prossiga. O que contamos
uns aos outros são tentativas, não são respostas, não são receitas prontas. Receitas não existem,
porque estamos lidando com pessoas. Logo, o que funcionaria para o meu filho pode não
funcionar para o filho de outro, o que deu certo com o seu primeiro filho pode não dar certo com
o segundo, e o que funciona hoje pode não funcionar amanhã. A educação funciona dessa
maneira. Devemos ajudar-nos uns aos outros a compreender bem os critérios, mas, em seguida,
cada um se move como pode e no ambiente em que se encontra.
Segunda advertência: esse risco da educação não deve nos amedrontar, não devemos temer. Um
medo recorrente nas contribuições escritas que recebi é o medo de errar: “A educação, no fundo,
me dá medo. Provavelmente é o medo que tenho em relação à própria vida que me faz ser tão
temerário em relação à educação dos filhos”. Devemos nos ajudar a não ter medo e a considerar-
nos competentes para realizar o nosso ofício – como pais e professores. É claro que há muito a
ser feito, mas isso não deve nos assustar. Em primeiro lugar porque não estamos sós, mas
sobretudo porque, se Deus confiou a nós os filhos, se Deus apostou em nós, é porque somos
capazes de fazê-lo. Isso não é garantia de que seremos exitosos, mas significa que devemos
tentar viver por completo essa experiência, de modo respeitoso e livre. Evitemos cair na
armadilha desta mentalidade que nos circunda, de que, no fundo, ninguém é capaz de educar. É
como se hoje para educar fosse preciso uma equipe de especialistas: o sociólogo, o perito, o
padre, o nutricionista… Não é assim que funciona. Devemos nos ajudar a pôr em prática a nossa
responsabilidade como adultos e assumi-la por completo, fazendo a nossa parte, convictos de que
a tarefa confiada a nós seja um trabalho realizável, em relação ao qual estamos à altura.
Aqui comigo hoje está Roberto Rossi, diretor da escola La Traccia, que irá me ajudar a conduzir
o evento e que propõe de imediato uma primeira questão.

Roberto Rossi. Quando voltei para casa, após os nossos encontros, comecei a conversar com
minha esposa, porque eu queria compartilhar com ela todas as ideias que me passavam pela
cabeça. Resolvi escrever o seguinte: Como marido, estou contente, porque me foram
presenteadas muitas ideias, muitas sugestões, muitas emoções que posso compartilhar com
minha esposa. Como pai, desde o primeiro encontro senti um alívio, porque recebi a confirmação
sobre como é valioso compartilhar os processos da vida familiar: compartir a própria dificuldade,
as próprias dores, as alegrias, as dúvidas e certezas, poder externar tudo em comunhão com os
demais é algo grandioso, e para os nossos filhos é uma hipótese educativa que se torna realidade.
Aquilo que ouvi durante os encontros me acompanhou com frequência nos dias sucessivos e me
despertou a alegria, a esperança e a paciência. Tantas vezes digo: “Senhor, dai-me mais cinco
minutos de paciência!”, e são o suficiente. Esses cinco minutos mudam totalmente o desenrolar
do dia, dos acontecimentos, são transformadores. É preciso paciência e muito amor que saiba
perdoar, é preciso descobrir a beleza do perdão. O amor que perdoa deve entrar em campo,
sobretudo porque não devemos perdoar em vista de um interesse, esperando que o outro se
transforme de acordo com o que desejamos. Não funciona dessa forma. Devemos perdoar para
seguir o exemplo de Jesus, que mesmo na cruz diz: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o
que fazem”. Às vezes, nem mesmo os nossos filhos percebem o que estão fazendo. Partindo
desse pressuposto – e imagino que Jesus tenha perdoado a todos aqueles que o fizeram sofrer, o
traíram, ofenderam e crucificaram –, como poderíamos nós, pais, não fazer o mesmo em relação
aos filhos que Deus nos confiou e que são motivo de grandes alegrias? Sem os filhos, aliás,
muitos progressos na nossa vida não teriam sido realizados. Ainda, se penso em Jesus como
filho, não esqueço o grito desesperado quando diz: “Pai, porque me abandonaste?” Fiquei
imaginando que um de nossos filhos poderia dizer algo assim. Ou, ainda pior, eu poderia não ser
capaz de ouvir esse pedido de ajuda. Talvez os nossos filhos nos procurem e estejamos
abarrotados pela rotina, tenhamos pressa, fiquemos irritados e não os escutemos.
Poderia existir um modo de sermos gratos todos os dias na vida cotidiana? Vocês já viram o
filme Como se fosse a primeira vez:1 fiquei tocado, porque nesse filme cada dia recomeça
sempre igual. Mas na verdade é um renascer. Se pudéssemos compreender que cada dia é uma
dádiva, talvez pudéssemos viver com mais alegria, entusiasmo, serenidade e paixão: dar bom-dia
à própria esposa, beijar os filhos… Não são “hábitos”, mas dádivas cotidianas. Se conseguirmos
passar essa consciência aos nossos filhos e a quem está próximo de nós, estaremos melhorando a
nossa vida. Refletindo sobre a parábola do Filho Pródigo me nasceu no peito a ideia de que não
podemos abandonar os nossos filhos. Ainda que eles digam mil vezes “não”, no momento em
que venham nos procurar não podemos estar ausentes. Não digo tanto fisicamente, mas como
ponto de referência sólido, mesmo que à custa de muito empenho. Somente assim estaremos
testemunhando que viver sendo verdadeiramente capaz de perdoar não é uma teoria, mas sim
uma experiência de vida real.

Nembrini. Obrigado. Com essas colocações você ajuda aqueles que ficaram com uma sensação
de abstração e dificuldade em relação ao que dissemos nos dois primeiros encontros. Ouvir você
dizer, pela própria experiência, que a vida pode ser “perdão” é algo muito interessante. É
realmente útil que entre nós haja um pai que diga aos demais: “não devemos desistir”, que
devemos estar presentes, que é preciso perdoar inúmeras vezes perante os “nãos” dos filhos, que
o grito: “Pai, porque me abandonaste?” poderia ser o grito escondido de alguns de nossos filhos
e, portanto, devemos nos posicionar perante eles positivamente, ir ao encontro deles com uma
novidade, com a casa, com tudo, com um ponto de partida extraordinariamente positivo.
Justamente em relação a esse perdão – ou como dissemos noutras ocasiões, seu sinônimo
“misericórdia” – se inicia o problema educativo.

Participante. Concordo muito com o que disse Roberto. Acredito que todos os dias devemos
exercitar o perdão para com os nossos filhos, independentemente do que se peça e do que se
obtenha como resposta: trata-se de perdoar. Mesmo que haja conflito, discussão, exaltação dos
ânimos, no fim existe sempre o encontro, a união entre os pais e os filhos.
Eu sou mais pragmático. No segundo encontro se falou de conveniência, naquele dia, voltando
para casa, pensei “vou tentar”, mas talvez eu não tenha entendido bem. Eu tentei criar uma
proposta, inventar algo para meu filho, tentando organizar para ele um método de estudo e de
comportamento dentro de casa e propondo a ele, como uma forma de conveniência, algo do tipo:
“Agir deste modo lhe convém”. Mas na realidade, pensando bem, isso se torna uma espécie de
chantagem, mais do que conveniência. Assim, a proposta não deu certo, entrou por um ouvido e
saiu pelo outro. Meu filho tem quinze anos. Então é preciso paciência e constância. A minha
esposa é mais insistente, e por isso os filhos se indispõem mais com ela do que comigo. Mas essa
“conveniência” que eu propus pode se tornar uma chantagem se não for realizada no modo
correto, se não for pensada e percebida no modo correto.

Nembrini. Essa observação me parece muito perspicaz. Nós falamos de conveniência nos
seguintes termos: o jovem deve perceber em nós, e em seguida deve poder experimentar sobre si
mesmo, a conveniência da proposta que apresentamos. Deve perceber que a proposta feita a ele é
uma proposta de bem. Como você disse, em dado momento a tentativa de mostrar aos filhos a
conveniência de obedecer se transformou imediatamente em uma espécie de chantagem: “Se agir
assim, terá certas coisas, se agir assado, não terá nada”. Qual a diferença entre a conveniência e a
chantagem? “Chantagem” é quando o bem, a prosperidade que prometemos ao outro, é externo à
pessoa: barganhar utilizando determinadas coisas. A “conveniência” deve ser prometida,
mostrada e testemunhada. Lembrem-se da indicação fundamental que demos a nós mesmos: a
educação é um testemunho. Tudo o que dissermos aos jovens, eles devem enxergar em nós
mesmos, é o ponto de partida fundamental. A conveniência que deve ser mostrada ao filho é
incrementar a própria personalidade dele, fazê-lo perceber que assim ele pode crescer. A
conveniência que devemos testemunhar não é que eles possam obter determinadas coisas, isso
seria realmente uma chantagem assustadora. Ou pior: assim estaríamos educando os filhos
através da lógica do consumismo, o que na verdade devemos combater. A conveniência que
queremos propor aos nossos filhos é que a vida deles possa ser grandiosa, próspera, que eles
sejam capazes de conhecer e amar todas as coisas, e assim possam dizem sobre si mesmos: “Sou
feliz na relação com todas as coisas, na vida de cada dia, cada vez mais posso ser eu mesmo, por
isso sou mais feliz, sou afortunado”. Essa é a conveniência que devem vislumbrar nossos filhos e
que nós devemos propor. Ao contrário, algo do tipo: “Eu possuo algo, eu te dou algo” não poderá
funcionar.
Participante. A conveniência que eu ofereci era a sua própria satisfação, não bens materiais.
Procurei fazer com que meu filho entendesse que, por exemplo, se estudasse teria resultados,
sentiria uma satisfação pessoal em relação ao que haveria realizado, teria novos conhecimentos
que poderia pôr em prática, para beneficiar a si mesmo, não a mim nem à sua mãe. Eu queria que
meu filho entendesse o seguinte: que devia fazer todas aquelas coisas para si próprio.

Nembrini. É preciso tempo, não é porque nós discutimos sobre essas coisas aqui que, quando
você voltar para casa à noite, seu filho irá entender imediatamente. É preciso tempo e muita
atenção, sobretudo em relação aos resultados escolares, que muitas vezes se tornam somente uma
questão de notas. Devemos estar atentos: muitas vezes usamos essa questão das notas como
chantagem, tanto os professores quanto os pais. Na verdade, o que nos interessa é justamente esta
conveniência que o senhor mesmo descreveu: “É para você, é para que você possa conhecer as
coisas e assim conhecer a si mesmo, e viver tudo de maneira mais plena, mais humana”. Mas não
basta dizer apenas uma vez: “É para você mesmo”, é um caminho que dura anos, é preciso fazer
companhia ao outro nesse caminho.

Participante. Meu filho tem catorze anos e meio. Digamos que não é um grande estudioso e os
nossos embates nascem sempre em decorrência disso. No começo me irritava muito e reagia mal,
estava sempre nervosa. Depois comecei a pensar que ele poderia ter pontos frágeis, que tinha
algumas fraquezas, e que eu deveria aceitá-lo assim como é, com todas as suas limitações.
Preciso ajudá-lo a amadurecer e a crescer. Então compreendi que não posso viver os insucessos
de meu filho como um fracasso meu. Quem não gostaria de ter um filho lindo e esperto,
inteligente, estudioso…? Mas entendi que, ao aceitar os limites dele, vivo mais tranquilamente,
no próprio relacionamento com ele. Estou contente porque obtive alguns resultados, estou
começando a perceber que essa abordagem diferente está amadurecendo, sempre com muita
paciência. Antes ele escondia muitas coisas e as piores não nos contava nunca, e acabávamos
descobrindo por outras pessoas. Agora, ao contrário, ele chega e diz as coisas mais diretamente,
por exemplo, que tirou uma nota péssima. É um passo que ele deu, que demos juntos. E foi
aceitando-o assim que o encorajamos. Os resultados são lentos, mas ele está mais consciente e
isso o levou a amadurecer um pouco. Para mim é um grande passo em frente, que tem tanta
paciência envolvida.

Nembrini. Me impressiona a fórmula que a senhora usou: “Compreendi que não posso viver os
insucessos de meu filho como um fracasso meu”. Por que a senhora relaciona essas duas coisas?
Por que afirma que a partir daí o relacionamento com o seu filho mudou, que ele tem mais
confiança em vocês e, quem sabe, até estuda um pouco mais?

Participante. Porque muitas vezes nós imaginamos conhecer os nossos filhos, fazemos perguntas
e imaginamos possuir as respostas, pensando conhecer o modo deles de ser e praticamente dando
a resposta no lugar deles. Depois, se a coisa não sai como gostaríamos, imaginamos termo-nos
equivocado. Mesmo porque nós gostaríamos sempre que os nossos filhos fossem melhores do
que os dos outros, como se tivessem de tirar primeiro lugar em tudo. Mas não é bem assim. Há
pouco tempo atrás, eu disse isso a meu filho, quando ele voltou para casa contando que um
garoto de treze anos foi contratado como jogador em um time de futebol. Ele se sentia medíocre,
porque não era um ótimo jogador de futebol e também na escola não se saía muito bem. Eu
respondi que ele era normal, não medíocre, mas uma pessoa como tantas outras: “Esse garoto de
treze anos é um fenômeno, mas ele é uma exceção. Os outros garotos são como você – talvez um
pouquinho mais estudiosos…”

Rossi. Eu diria o seguinte: se me dissessem que eu sou alguém “normal”, eu imaginaria que
aquele outro garoto, que é um fenômeno, não teve de se esforçar para chegar onde está, para
alcançar aquele sucesso. Na verdade, na vida dos Homens tudo é um grande trabalho, um grande
feito que se constrói um pedacinho por vez, e ninguém vai em frente economizando esforços.

Nembrini. Ao meu filho diria assim: “Você não é normal, você é extraordinário”. Anormal é
aquele outro garoto. Do contrário, corremos o risco de piorar a tragédia que a meninada de treze,
catorze anos já vive: eles têm perante si um imaginário realmente obsessivo de modelos que
pegam nos filmes, no telejornal, no esporte e nos espetáculos, que parecem fora do comum. Na
comparação, eles têm sempre um contraponto terrivelmente negativo sobre si mesmos, e sentem
a própria vida como banal e vazia, cinza, como se não houvesse nada de excepcional. Nós
devemos, sem dúvida, reverter essa concepção: “Você é extraordinário porque é único neste
mundo, como você não existe mais ninguém. A novidade e a beleza que aquele outro garoto
exprime jogando futebol, você pode exprimir pela profundidade como observa as coisas, pela
inteligência com que se comporta perante tudo, por saber amar e conhecer o mundo. Você tem
todas as condições para desencadear essa coisa extraordinária que você é para sua mãe e seu pai.
Perante Deus, aos meus olhos e de seu pai, não existe ninguém como você”. Devemos ajudar a
garotada a perceber o cotidiano em que vivem como algo extraordinário, grandíssimo, e assim
ajudá-los a realizar aquilo que Rossi estava dizendo, do contrário, se dissermos ao filho que ele é
normal e que o outro garoto é excepcional, resta como uma ideia mal resolvida, uma espécie de
imbróglio, como se alguma coisa tivesse dado errado para ele.

Participante. Eu estava me referindo mais ao futebol, porque mesmo nisso existe um aspecto de
verdade. Não sei se vocês já foram assistir a essas partidas de futebol desses garotos de catorze
anos: acabamos assistindo ao triste espetáculo dos pais em que todos pensam ter um filho que
seja o grande campeão. Eu digo ao meu: “Vai com calma, você joga bola, mas não é que seja
assim o melhor de todos”. Acho que é preciso educar também para estas coisas.

Nembrini. A senhora entende como um realismo sadio? Pois bem, nesse sentido estamos de
acordo. Aqueles pais malucos que à beira do campo poderiam matar o árbitro porque apitou
contra o filho deles… Vocês dão risada? Devemos tomar os exemplos de hoje como válidos para
todos nós. Todos temos a impressão de que os nossos filhos sejam prodígios. O drama da escola
muitas vezes é exatamente esse, os pais que dizem ao professor: “Como é que se dá ao direito de
dizer algo desse tipo em relação ao meu filho?” Eu tive sorte, porque participei somente uma vez
de uma partida de um dos meus filhos e, nessa única vez, meu filho fez um gol contra: qualquer
tipo de paixão esportiva terminou para ele, para mim e para todo mundo…

Participante. Penso que seja importante educar os jovens à normalidade, numa época em que os
modelos que recebemos através dos meios de comunicação dizem que a vida é feita de holofotes.
Existe até um livro chamado Il fascino della normalità [O charme da normalidade]…2 Pela
manhã, quando acompanho meus filhos à escola, eu adoro ouvir os professores que fazem refletir
sobre o fato de que um novo dia, uma nova jornada os espera, e alguém diz: “Quem sabe que
coisas extraordinárias o mistério da vida preparou para nós hoje!” Em um mundo que espera que
todos sejam extraordinários, formidáveis, esbeltos e na moda, a normalidade por si só parece
uma coisa extraordinária. Em um domingo qualquer, houve uma reunião para almoçarmos juntos
com a turma da minha filha e todos os pais, mais ou menos noventa pessoas: parecia uma coisa
excepcional, mas era de uma banalidade incrível. Não havia nada de extraordinário, porém
tornou-se algo especial, porque já não temos mais o sentido das coisas simples.

Nembrini. Extraordinário não é o que fazemos, mas como vivemos as situações. Dessa forma os
filhos podem perceber como a própria vida é extraordinária, se têm diante de si adultos, pais,
professores que façam exatamente aquilo que você disse. Se um garoto vai à escola e ouve de
uma professora, às oito da manhã: “Quais coisas extraordinárias o mistério da vida reservou para
nós hoje?”, fica claro que ele crescerá com a ideia de que as horas em sala de aula, a primavera
que se aproxima, a amizade com os colegas, são todas coisas extraordinárias que podem ser
tranquilamente comparadas com o jogador de futebol, ou com outras figuras e modelos. Ou
melhor, são preferíveis a esses modelos.

Participante. Tenho filhos nas primeiras séries da escola, logo meus problemas são um pouco
diferentes. Já foi dito que a insistência com as regras, por si só, não leva a coisa alguma e existe
o risco de obter o resultado contrário. Em linhas gerais, tendo a concordar, mas percebo que com
meus filhos, que são ainda muito pequenos, as regras se fazem necessárias. É a ocasião em que a
obediência se faz necessária, até mesmo para lhes dar segurança e também para deixar claro que
determinadas coisas não se devem fazer. Eu me pergunto como proceder diante das badernas ou
mesmo diante daquelas confusões que toda criança faz, e que põem em risco a própria segurança
dela. Qual a diferença entre dar uma punição e corrigir, educar? Como proceder para que a
punição não seja somente uma atitude que resolve a situação naquele momento, mas seja
realmente um modo para que as crianças amadureçam? O meu problema não é saber o que fazer
ou não para que os filhos entendam, mas compreender qual seria a minha posição como adulto, o
que significa dar um castigo, o que considerar no momento de dar uma punição para alcançar a
correção. Ou então, outra situação muito comum, como agir quando os filhos não correspondem
àquela conveniência que nós testemunhamos, quando mesmo perante a evidência desta
conveniência o filho não responde e procura deixar claro que ele é outra pessoa em relação aos
pais, e isso se revela uma provocação. O que significa dizer que o adulto resiste, apesar de tudo
isso?
Os exemplos que posso dar são banais: diante de uma mentira na qual o filho insiste, apesar de
claramente desmascarada, nós como pais dizemos: “Não agimos desse modo, é melhor viver de
outro modo, procurando ser sinceros”, mas o filho não desmente. O que significa que o adulto
“resiste” diante destas situações? Ou então outra situação muito comum: quando os irmãos
brigam entre si, mesmo sabendo que é melhor viver com serenidade e tranquilidade, o enorme
desgosto que nós sentimos representa, mais uma vez, que depositamos sobre os filhos um olhar
que quer enxergá-los sempre como perfeitos, ou se trata de uma exigência justa e legítima?

Nembrini. Do ponto de vista educativo, os problemas são idênticos independentemente da idade.


A dinâmica educativa, com desdobramentos muito diferentes, em seus aspectos fundamentais é a
mesma. A senhora coloca três ou quatro questões importantes: a questão das regras, a punição e a
correção, e a relação delas com a liberdade, a possibilidade de inexistência de uma resposta, o
que significa dizer “o adulto resiste”, e, ainda, quanto vale a pena insistir na correção das atitudes
consideradas equivocadas – o que pode gerar um conflito permanente. Vou tentar lançar algumas
observações introdutórias, fatores que posso destacar e que podem ser úteis para que cada um
procure uma resposta por si mesmo.
O primeiro ponto. Em se tratando de uma questão de segurança, podemos até mesmo dar umas
palmadas: a criança que põe o dedo na tomada deve entender que isso não se faz, que é perigoso,
porque se trata da sua saúde e integridade. Parece-me óbvio. Existem comportamentos que, em
decorrência da sua periculosidade para a criança e para os demais, devem ser vedados, sobretudo
numa idade específica em que a criança não compreende e teima em se comportar de
determinada maneira.
A questão das regras é mais interessante. É uma temática recorrente nas várias cartas que recebi
dos pais. Façamos uma reflexão: Jesus no Evangelho (Gl 5,1-6) diz duas coisas aparentemente
contraditórias. Por um lado, Ele afirma ter vindo nos libertar da escravidão da lei. Quando
questionado sobre qual seria a regra áurea da vida, Ele responde, aparentemente de modo banal,
que é o amor: “Amar a Deus”. Ou seja, “tenham um ideal grande na vida, aprendam a reconhecer
a grandeza da vida e de vocês mesmos como indivíduos, que é a grandeza infinita que Deus deu
a todos. Reconheçam essa dependência em relação a Deus como dádiva que os constitui e sejam
gratos a isso. Amem a Deus e ao próximo como a si mesmos”. Essa é a síntese de toda a lei. Por
outro lado, quando recriminado porque não respeitava o sábado, mais de uma vez Ele diz que
não veio para eliminar nem mesmo uma vírgula da lei. São duas afirmações aparentemente
contraditórias, mas é exatamente na coexistência de ambas que se encontra a posição correta. As
regras são necessárias: se nós não observássemos determinadas regras enquanto falamos, seria
um tumulto. Em sala de aula e em casa é a mesma coisa, não podemos pensar que a vida dos
seres humanos, tão ligada ao tempo e ao espaço, não exija leis e regras. Vivemos dentro das leis.
Pensem nas leis da física: se alguém saltar por uma janela a cinco metros de altura, quando
chegar lá em baixo vai se quebrar todo, porque existe a gravidade. Estamos sujeitos às leis. Mas
a regra deve ser um instrumento, jamais um objetivo. Nós presumimos que, pelo fato de querer
bem aos nossos filhos, o objetivo da vida possa se tornar que eles respeitem determinadas regras.
Isto é inaceitável. Ainda que no mais das vezes seja inconsciente, a substituição do objetivo pelo
instrumento é inaceitável. O objetivo é que os filhos vivam, que cresçam com liberdade, que
tenham liberdade inclusive para errar, porque é errando que nos corrigimos e muitas vezes
tomamos consciência da realidade. Os professores sabem bem: se ficassem irritados cada vez que
os alunos não sabem algo, então teriam que mudar de profissão. O ofício do professor,
justamente, é passar por cima dos erros do aluno, do não saber, da ignorância, e corrigi-los. Ao
realizar inúmeros trabalhos em sala de aula, provas e tudo o mais, o jovem acaba aprendendo.
Deve ser uma correção contínua para que os filhos possam viver, para que cresçam e sejam
livres, para que possam ser eles mesmos. Esse é o objetivo das regras. Às vezes, não nos damos
conta, mas tanto em sala de aula como em casa, nossa intenção é presumida: é claro que
queremos o bem dos filhos, somos pais e mães. Mas presumir o objetivo não é uma forma de se
relacionar, pois assim as regras se tornam o conteúdo do relacionamento. Aí está o erro.

Rossi. Em outro encontro, o tema relativo às regras também foi levantado fortemente, e eu
gostaria de desfazer uma ambiguidade que me pareceu surgir entre os pais. Este curso teve início
com a forte provocação de Franco em relação ao fato de que nossos filhos nos observam. Mas ai
de quem imaginar que, porque nossos filhos nos observam e uma vez que a nossa relação com
eles se baseia no respeito às regras, não podemos cometer equívocos – do contrário ficaremos
malucos.
Mas o que gostaria de dizer em relação à questão das regras e do amor é: num desses dias, às oito
da manhã, um aluno aqui da escola chutou uma bola de propósito contra os colegas, uma bela
bolada violenta que acabou quebrando os óculos de um dos alunos, destruindo totalmente as
lentes. Não era a primeira vez, alguns dias antes ele já tinha dado diversas boladas nos colegas.
Eu me reuni com os outros professores daquela turma para decidir o que seria o melhor a ser
feito para dar um alerta a ele e aos colegas, que já estavam assustados com esse seu modo de
agir. Enfim decidimos: no final de semana seguinte, a turma faria um passeio nas montanhas e
nós decidimos propor aos pais do aluno, se estivessem de acordo, que utilizassem a taxa de
inscrição do passeio para comprar novos óculos ao colega: ele não vai ao passeio, restitui uma
parte dos óculos ao colega e a família completaria o que faltasse. Liguei para a mãe desse aluno
explicando o ocorrido e ela concordou com esta solução. Antes que a manhã terminasse, entrei
com o dinheiro em sala de aula e entreguei ao garoto que havia perdido os óculos, explicando
que o colega que havia chutado a bola não iria mais ao passeio com a turma e ficaria em casa –
nós poderíamos discutir se essa atitude foi oportuna, eu mesmo tenho minhas dúvidas, mas
havíamos tomado essa decisão. Para mim foi fundamental não estar sozinho em relação a essa
situação. Talvez pudéssemos ter pensado em algo melhor, mas naquele momento acabamos
tomando essa decisão.
O fato interessante aconteceu na manhã seguinte. A mãe do garoto que teve os óculos quebrados
veio à escola e disse que não queria o dinheiro, porque preferia que o outro colega também
participasse do passeio na montanha. Devolveu o dinheiro dizendo que gostaria que o outro
colega fosse ao passeio! Em nome das regras, eu poderia ter dito: “Sou o diretor, decidi que tal
aluno não irá participar do passeio e portanto irá para casa”. Me reuni novamente com os
professores e novamente procuramos entender o melhor a fazer. Foi uma reflexão interessante.
No fim, tivemos que ficar de joelhos diante de algo muito maior do que a nossa regra, maior do
que aquilo que havíamos decidido: quando essa mãe veio à escola, ficou evidente que em relação
àquele garoto, que nos dias anteriores havia demonstrado repetidamente um comportamento
hostil em relação aos colegas, existia uma outra via. O aluno errou, foi punido, mas havia um
outro caminho maior até mesmo do que a nossa regra e do que a nossa punição. Ainda que não
tenha sido fácil para nós, professores, aceitar a ideia de que aquele aluno participaria do passeio,
mesmo depois do que havia feito, é como se imediatamente esse fato tivesse se imposto a nós.
Quando eu chamei o garoto que tinha dado a bolada – que, aliás, até o dia anterior insistia que
não havia feito de propósito – e lhe contei toda aquela história, ele se pôs a chorar e prometeu
pedir desculpas ao colega ao qual havia quebrado os óculos, admitindo seu erro. No fim do dia,
os dois garotos vieram até a minha sala, e aquele que teve seus óculos quebrados disse: “Veja,
professor, meu colega veio me pedir desculpas e eu gostaria que ele pudesse vir com os outros no
passeio”.
Nós poderíamos discutir durante semanas se eu e os pais fizemos a coisa certa, mas me parece
um bom exemplo, a partir de um incidente como tantos que acontecem na escola, que ilustra até
onde chegam as regras e a partir de que ponto o amor supera todas as regras. É um exemplo de
alguém que olha para nós, não em razão de como nós olhamos para os demais, mas que ensina
um olhar repleto de misericórdia, de perdão e de benevolência: “Apesar do mal que você me fez,
estou pronto para recomeçar”. Acredito que dar um passo atrás em relação ao nosso provimento
tenha sido um modo de querer bem àquele aluno.

Nembrini. Fica muito claro. Esse exemplo vale mais do que qualquer coisa que pudéssemos dizer
em relação ao tema.

Rossi. É interessante que, às vezes, os pais de outros alunos nos ajudam a perdoar aos nossos
próprios filhos. Outra coisa que me marcou muito nessa história é que, em determinado
momento, alguém pode ter uma ideia melhor do que a nossa sobre como se colocar perante
nossos filhos. Nós podemos ficar irritados e dizer que em relação aos nossos filhos somos nós
quem decidimos, nós fazemos as regras, ou então podemos nos inclinar diante de um bem maior.

Nembrini. Acredito realmente que esse exemplo seja de uma clareza cristalina. Provém de uma
mãe, não é uma intervenção da escola. Significa que é algo possível, demonstra uma profunda
verdade, qual seja, que o que sustenta o mundo e cada um de nós é a misericórdia. Parando para
pensar um segundo, vivemos todos da misericórdia de Deus, porque, se dependesse do que
somos e do que fazemos, Ele deveria nos fulminar neste exato momento. Nós vivemos de um
perdão contínuo, é algo em que podemos imitar a Deus um pouco, nesse perdão contínuo, nessa
contínua caridade. É o motor do mundo, aquilo que nos faz seguir em frente. Essa caridade, esse
perdão, significa que existe sempre a possibilidade de recomeçar para cada um de nós, para os
nossos filhos e para o pior dos alunos. Existe possibilidade de retomada sempre. Do contrário a
vida seria um inferno, uma cilada vingativa, uma escravidão à lei e às regras.
Não sei se vocês seguiram a questão da carta do Papa aos católicos da Irlanda,3 sugiro que leiam
porque é um exemplo impressionante de como se possam conciliar e manter as duas coisas:
obediência à lei e misericórdia. O Papa, em relação a um erro gravíssimo, uma culpa enorme
como aquela denunciada – a pedofilia por parte de sacerdotes, a maior culpa que eu consigo
imaginar –, lembra a uns e a outros, vítimas e malfeitores, a toda a Igreja e a cada um de nós, o
que significa misericórdia. Explica que não se trata de maneira alguma de fechar os olhos, e
também exige uma seriedade no arrependimento, exige a sujeição à lei e às punições, exige tudo
o que deve ser exigido: a lei é respeitada perfeitamente, mas não tem de modo algum a última
palavra. O mal realizado não é a última palavra. É uma carta que me impressionou muito, que
continuo relendo, porque me parece que a partir de uma posição desse tipo podemos aprender o
que quer dizer sermos pais frente aos maiores fracassos, aos piores erros e burrices que se
possam cometer. E perante nós mesmos, porque o verdadeiro problema é, em primeiro lugar,
perdoar a si mesmo, perante nossos amigos, perante a esposa e o marido, perante os filhos. É um
exemplo histórico e concreto do que significa a caridade, em todos os seus aspectos, inclusive no
que diz respeito às regras, que são um instrumento e não o escopo.
Eu gostaria de acrescentar duas observações em relação à fala precedente. A primeira é que as
brigas entre irmãos não são nada: eu poderia contar sobre a minha infância, quando, com meus
seis irmãos e três irmãs, vivíamos em sessenta e dois metros quadrados… Enquanto meus filhos
não caíssem na porrada, eu não me preocupava além da conta, me parece que uma disputa sadia
entre irmãos não seja um problema. É correto repetir a eles, todas as vezes, que parem de brigar,
mas com certa tolerância, sem considerar que isso seja um grave problema. O caso da mentira é
mais interessante. Também em relação a isso não me preocuparia em demasia com obter uma
confissão. O importante é que o filho saiba que os pais têm conhecimento da mentira, que está
claro para todo mundo que ele está mentindo. Existem razões de caráter psicológico,
temperamentais, de estima por si mesmo e outras razões pelas quais admitir a culpa perante os
próprios pais não seja nunca tarefa fácil. Independentemente disso, o filho sabe muito bem o que
fez e que está mentindo: a única coisa que deve ficar clara é que os pais sabem que o filho está
mentindo. Fim. O problema é fazer com que o filho compreenda que negar a própria
responsabilidade é deixar de crescer.

Participante. Fizemos um passeio muito legal com as turmas do segundo ano para Florença. No
segundo dia, durante a pausa para o almoço em frente ao convento de São Marco, a garotada
avançou na comida e a devorou apressada. Assim que mataram a fome, percebemos que eles
jogavam uns nos outros alguns sanduíches que sobraram, que davam de comer aos pombos e
jogavam “bola” com as laranjas. A princípio, ficamos irritados, porque era um desperdício
absurdo e um gesto horrível, desprovido de qualquer noção primária da realidade e de educação.
Entre professores nos olhamos e nos perguntamos como poderíamos corrigir os alunos naquele
momento. Roberto lembrou que, perto da praça onde fica o Hospital dos Inocentes, tinha
avistado muitos moradores de rua, e então, com outros dois professores, começamos a recolher
as laranjas e os sanduíches que restavam, enchemos quatro sacolas, chamamos os garotos que
começaram a baderna com a comida e dissemos a eles que nos seguissem. Eles primeiro nos
olharam desconfiados e depois vieram conosco, sem entender. Levamos as sacolas com a comida
até a praça e procuramos moradores de rua que quisessem o alimento. Os alunos nos seguiam um
pouco trêmulos, porque não entendiam muito bem o que estava acontecendo. Em vez de passar
um sermão, tínhamos levado aqueles garotos conosco. Aproximamo-nos dos dois primeiros
moradores de rua que encontramos, dois rapazes, e nossos alunos ficaram um pouco sem jeito.
Nós, professores, perguntamos aos dois rapazes se eles aceitariam um pouco de comida e eles
ficaram muito contentes, deram um grande sorriso e aceitaram os sanduíches e as laranjas.
Perguntamos se eles queriam um pouco de água, mas eles mostraram uma garrafa quase cheia
dizendo que já tinham água – nossos alunos nos fizeram notar que os dois rapazes perceberam
que poderíamos dar aquela água para outra pessoa e por isso disseram que já tinham uma garrafa
d’água.
Outra coisa que me impressionou é que nossos alunos puderam ver três diferentes modos de
receber. O primeiro foi esse que acabei de contar. Depois, em determinado momento sinto que
alguém puxa a minha sacola: era uma mulher cigana que, resmungando, começou a dizer que
tinha seis filhos e que devíamos lhe dar os sanduíches. Antes que pudéssemos reagir, ela
arrancou das minhas mãos a sacola e foi-se embora. Refletimos com os alunos que existem jeitos
diversos de receber: o primeiro é inteiramente humano, o segundo, que nem sequer olha nos
olhos, não é humano e não é realmente “receber”. O terceiro episódio é o seguinte: a certa altura,
estávamos num local com um forte cheiro de álcool e imediatamente encontramos alguns
mendigos que, assim que nos viram, correram na nossa direção perguntando se fazíamos parte de
alguma instituição de caridade. Respondemos que éramos de uma escola e que estávamos ali a
passeio. Estes últimos, ainda antes de receber qualquer coisa, começaram a contar sobre a vida
deles: um deles vinha do Vêneto, outro contou que já tinha participado de algumas festas nas
proximidades de Bérgamo…
Quando retornávamos, após esse gesto, era como se aquela atitude negativa dos alunos desse
espaço para algo muito maior, tanto que não se falava sobre culpa com eles, mas daquilo que
tinha ocorrido logo em seguida. Naquele momento entrou em cena um acontecimento de
excepcional grandeza, capaz de corrigir de maneira evidente a pequenez do gesto anterior, sem a
necessidade de nenhuma lição de moral. Quando voltamos, Roberto pediu que contássemos aos
demais o ocorrido, de modo que os garotos que antes tinham manchado a si mesmos com uma
ação vergonhosa, não digo que tenham se transformado em heróis, mas em pessoas tocadas por
uma experiência muito grande.

Nembrini. Esses dois exemplos são o suficiente. Frente aos garotos que brincavam com a
comida, a primeira reação seria o apelo à ira e às regras: “Não se deve fazer esse tipo de coisa,
adotaremos as medidas necessárias!” Não teria sido errado se tivessem reagido dessa forma,
nenhum de nós poderia retrucar. Porém existe sempre uma atitude maior, e neste sentido digo
que a regra não educa. Se tivessem dado uma sanção ao comportamento dos alunos, na próxima
vez teria sido exatamente igual, teriam jogado bola novamente com as laranjas. Foi necessária a
presença de alguns adultos como aqueles que tentaram imaginar qual a diferença entre punição e
correção. Para que a punição não seja somente uma punição, mas se torne uma correção, é
necessária a presença de um adulto que possa apresentar uma proposta vitoriosa, que possa
apresentar uma atitude positiva: assim, esse adulto percebe a possibilidade de propor esse desafio
com os moradores de rua, aposta na liberdade daqueles insensatos que estavam brincando com os
sanduíches e os desafia a serem protagonistas de um gesto muito maior. Quando conseguimos
fazer uma proposta desse tipo, os próprios alunos ficam maravilhados com o que acontece, tanto
é assim que, ao retornarem, continuaram debatendo sobre o ocorrido. O exemplo é muito claro.
Assim podemos entender que as regras devem existir e que a punição, às vezes, pode ser
necessária, mas o adulto educador insere algo a mais: consegue fazer daquele mal, daquele erro,
daquela derrota, uma oportunidade, transformando o aparente fracasso em ocasião, desafiando a
liberdade do outro.
Participante. Parece-me que falamos muito em relação à educação dos filhos, mas em primeiro
lugar é preciso educar os próprios pais. Talvez, a partir do momento em que forem educados os
pais, poderemos começar a pensar na educação dos filhos. No começo estávamos falando dos
medos: ver tanta gente aqui presente que veio ouvir me faz pensar que devemos ter menos medo
– e penso que o problema com os nossos filhos seja justamente escutá-los. Às vezes, tomados
pela pressa, talvez deixamos de fazê-lo. Logo, ao ver tantas pessoas que procuram enfrentar o
tema da educação, me parece que estamos dando algum passo em frente e, portanto, deveríamos
ser menos temerários. O fato de que nos coloquemos o problema e procuremos ouvir alguém que
entende mais sobre o assunto, por si só, me parece um avanço.
Eu costumava assistir às partidas da criançada que joga aos sábados, depois parei de ir pelo
incômodo causado pelos pais. Me lembro do tempo em que as mães sequer sabiam de que se
tratava o “impedimento”, me lembro de quando voltava para casa após as minhas partidas de
sábado, minha mãe preparava um chá e ouvia o que eu tinha para contar. Hoje me parece que
assim que a garotada sai do campo os pais estão prontos para dizer milhares de coisas, mas desse
modo com certeza os filhos têm menos vontade de falar.

Nembrini. Nós chegamos ao ponto de até mesmo falar no lugar deles! Claro, o tema fundamental
é a nossa própria educação, dos adultos, é uma posição que o adulto deve reconquistar. Eu
mesmo sou assim: me deteria irritado constatando o erro dos jovens. Mas é preciso ter coragem
de tomar a iniciativa. Tantas vezes nós mesmos sucumbimos a uma mentalidade devastadora: os
pais que discutem à beira do campo por um jogo de garotos de seis anos, xingando o árbitro, ou
as mães que acompanham as filhas de catorze anos para assistir a um certo tipo de filmes
completamente vazios, ou assistem com as filhas a determinados programas destrutivos,
compartilhando aquele tipo de comportamento com elas. São exemplos que dizem respeito a uma
mudança de mentalidade. Somos nós que devemos entrar em cena com a força da nossa
experiência e com a profundidade daquilo que vivemos, com a decisão de não nos enganarmos a
nós mesmos em primeiro lugar.

Participante. Reforço a dose, dizendo que esses comportamentos são fascinantes. Os nossos
jovens se relacionam entre si de modo completamente mimético, de acordo com o que observam.
Por exemplo, em relação a algumas paixonites entre a meninada de doze anos, percebo como é
difícil mostrar a um garoto nessa idade a ideia de que essa experiência não tem somente um jeito
de ser vivida, ou seja, a que se vê nos filmes. Estragaram até mesmo Rei Artur e Mago Merlin:
recentemente foi refeito um filme com um Rei Artur marombado que parece um surfista e age
como os adolescentes! Para muitos jovens, a única forma de viver a relação entre eles é a que
veem na televisão. A meninada tem dificuldade em encontrar no mundo uma alternativa às
modalidades de relacionamento em voga. O que mais me impressiona é quando percebo que até
mesmo nós adultos temos dificuldade em propor um modo diferente de viver as coisas. Isso vale
mais que a temática das regras, porque o problema não é simplesmente proibir beijos e abraços
entre os alunos, mas sim perguntar-lhes o que significa para a própria vida agir dessa maneira.
Esse é o ponto em relação ao qual é preciso educar os adultos. Eu sinto uma urgência fortíssima,
na relação com os pais e demais colegas, para que desenvolvamos uma capacidade de juízo em
relação à experiência humana que nós mesmos realizamos. Se um homem e uma mulher, um
marido e uma mulher vivem uma determinada experiência conjugal, não podem deixar de ajudar
o filho a construir um juízo. Às vezes, percebo muita confusão em relação à capacidade de
julgar.

Nembrini. E isso exige de nós um movimento de resistência cultural. Há anos que não assisto
televisão, mas me lembro de ter ficado espantado quando uma apresentadora idiota perguntou a
um garotinho de cinco ou seis anos que iria cantar no programa se ele tinha uma namoradinha.
Me deu vontade de jogar a televisão pela janela! Uma criança de cinco anos que ouve essas
asneiras cresce atordoada: ele não tinha nenhum problema, mas podemos criar-lhe alguns. O
garoto fica ali sem dizer nada, a apresentadora insiste e ele olha para ela como quem diz: “Do
que é que você está falando?”, e a apresentadora continuava insistindo. Terrível!
Acontece que vivemos uma cultura em que há muitos programas desse tipo. Sem falar daqueles
feitos para os garotos com dez, doze, catorze anos. Imaginem! O resultado é que aos vinte anos
eles já experimentaram de tudo e ficam desesperados – e aqui está o verdadeiro problema. Os
alunos que eu tive na escola pública, aos vinte anos, vivem em uma condição tal que, tendo já
experimentado tudo o que podiam, restam sós com o seu desesperado, tedioso e cinzento
cotidiano, no tédio mortal. Eles percebem, aos vinte anos, que nem mesmo o namorado ou a
namorada resolvem o problema. Tiveram inúmeros relacionamentos entre os quinze e os vinte
anos e percebem que isso é o mausoléu da vida, em vez de ser um suporte para viver. Tentam
preencher o vazio com uma relação afetiva vivida de acordo com os modelos correntes, para
depois descobrir que tais modelos são danosos. É uma batalha que devemos combater juntos, na
qual devemos apoiar uns aos outros, ser amigos e ter muitos amigos.

Participante. Hoje pela manhã um colega me contou que interpelou uma aluna pelos corredores:
“Há alguns dias que vejo você um pouco desanimada”. É uma garota que já experimentou muito
para a pouca idade que tem, que parece muito adulta no comportamento e no modo de se vestir.
Ao ouvir aquilo a garota começou a chorar. O professor perguntou o motivo e ela disse: “Essa
semana fomos com a turma da catequese encontrar algumas freiras de clausura. Aquelas freiras
estão trancadas lá dentro, mas são felizes, têm uma felicidade que eu desconheço”. E essa garota
é alguém que já coleciona inúmeras experiências.

Nembrini. Vou encerrar lendo uma carta, porque acredito que diga respeito a todos nós: “Eu me
dou conta de que não tenho a solidez e a certeza das quais você fala, mas gostaria de conquistá-
las e percebo que às vezes tenho medo. Medo da morte, medo da doença, medo do que pode
acontecer comigo e com as pessoas que amo: medo da realidade, e isso, depois de todo o bem ao
qual pude assistir e experimentar, me causa muita dor. Eu gostaria de entender melhor o que nos
leva a essa situação de incerteza e medo, e se podemos recuperar um olhar seguro de
positividade em relação à vida e à realidade”.
Uma vez que muitos propuseram questões semelhantes, eu gostaria de encerrar com essa
pergunta para que levemos conosco: todos nós temos o problema da dor, do mistério da vida e
também das privações, do sacrifício, do rompimento e da ferida. A única coisa que me vem à
mente é que faltam dez dias para a Páscoa, e vamos meditar juntos, na Quinta e na Sexta-Feira
Santa, toda a amplitude do mistério do sofrimento inocente, da dor incompreensível. Eu não
tenho respostas, mas uma possibilidade de responder ao mistério da dor que fere a nossa vida e a
de nossos filhos existe: observando aquela cruz, aquele homem, e vendo-o ressurgir após três
dias, vitorioso sobre todas as dores, sobre todo o sofrimento e sobre cada morte. Se há uma
possibilidade de bem na vida, se há esperança de bem para os nossos filhos, um bem último, se
podemos acreditar que o mal não vence – independentemente dos “nãos”, das negações e das
traições perpetradas –, é observando aquele homem que assumiu sobre si todas as dores, traições
e feridas, e as venceu. Isso compreendemos vivendo juntos: não estamos sós! Pensem na beleza
do encontro de hoje: os exemplos, as perguntas para uma averiguação, o fato de estarmos juntos,
de trabalharmos e de caminharmos juntos. Quanta ajuda! É preciso coragem, porque a educação
é uma daquelas coisas que tocam a intimidade da vida adulta, e deixar-se pôr em discussão sobre
como tratar os filhos é difícil. É uma questão que temos dificuldade em compartilhar, mesmo
com os amigos mais íntimos, mas devemos tentar, é preciso ter a coragem para fazê-lo.

1 Como se fosse a primeira vez, Direção Peter Segal, Estados Unidos, 2004.

2 A. Filosa, Bilancio settimanale. Il fascino della normalità, Florença, L’autore libri, 2007.
3 Carta Pastoral do Santo Padre Bento XVI aos Católicos na Irlanda, 19 de março de 2010.
5. Jesus é o Senhor
Depoimento na Convenção Eclesiástica da Diocese de Roma
“Jesus é o Senhor. Educar para a fé, para a companhia, para o testemunho”
Roma, 11 de junho de 2007

A educação como introdução à realidade


Só posso falar sobre educação narrando alguns episódios, alguns fatos através dos quais penso
ter entendido o que é a educação, mas tendo em mente a seguinte premissa: para poder falar da
minha “experiência como pai e como professor”, devo começar a partir da minha “experiência
como filho”, porque devo reconhecer que enxerguei pela primeira vez o que é a educação através
do meu pai e da minha mãe.
Sou o quarto de dez filhos, e a imagem mais clara que tenho do meu falecido pai é de quando se
ajoelhava no meio do quartinho onde dormiam os sete filhos homens (somos sete homens e três
mulheres) e começava a rezar o Pai Nosso. Este era o meu pai: alguém que enxergava algo maior
do que ele mesmo e nos convidava a segui-lo, sem a necessidade de dizer coisa alguma.
Quando eu já era um pouco mais velho e voltava para casa tarde da noite em razão dos milhares
de compromissos que tinha, eu encontrava meu pai sempre acordado, porque durante toda a sua
vida ele jamais fora dormir sem antes ter fechado a porta depois do último filho voltar para casa.
E quando eu chegava em casa às duas ou três da madrugada, para não o irritar eu dizia: “E aí,
pai, vamos rezar as Orações da Noite juntos?”, e ele me respondia: “Vai dormir, seu tolo, que
amanhã você tem que trabalhar: deixa que eu rezo no seu lugar”, e se punha a rezar pela quarta
ou quinta vez as Completas, rezava no meu lugar, para que eu pudesse ir logo descansar.
Um dia antes de morrer, paralisado na cama, completamente debilitado, eu perguntei como ele
estava e ele respondeu do mesmo modo como havia respondido durante toda a sua vida: “Farès
pecàt a lamentàm”,1 que significa “tudo é uma benção”. Meu pai era assim.
E também era assim minha mãe, que faleceu há muitos anos, em 1985, uma mulher muito
simples, filha de agricultores, que educou dez filhos e no leito de morte me confidenciou: “É
uma pena morrer, porque agora que vocês estão crescidos eu poderia realizar um pouco de bem”.
Sei que poderiam contestar: “Isso é coisa de filme, acontecimentos e comportamentos de um
mundo que não existe mais, como no A árvore dos tamancos”,2 e tal observação seria muito
razoável. Mas eu contei sobre os meus pais porque acredito que aprendi com eles um critério
fundamental, que o tempo revelou absolutamente decisivo no percurso educativo. Eu definiria
esse critério da seguinte maneira: a questão em relação à educação é poder testemunhar. Não é
um problema das crianças, dos adolescentes ou dos jovens. Se hoje eles se encontram
desorientados, não é culpa deles – ou melhor, é culpa deles também –, mas a responsabilidade é
primeiramente nossa. Em se tratando de educação, o problema não está na geração dos filhos,
mas na geração dos pais; não na geração dos discípulos, mas na geração dos mestres.
Em outras palavras: os filhos vêm ao mundo exatamente como há cem ou mil anos, com o
mesmo coração, com o mesmo fervor e a mesma paixão, com a mesma razão de sempre;
portanto, caracterizados por um inarredável desejo pela Verdade, pelo Bem e pelo Belo. Ou seja,
com o desejo de serem felizes.
Mas quais pais, quais professores, quais testemunhos têm os jovens perante si? Eu acredito ter
compreendido isso de modo radical quando, numa tarde em que estava em casa tranquilamente
com meu primeiro filho, Stefano, que deveria ter entre quatro ou cinco anos, corrigindo algumas
lições de casa como todo professor de italiano, eu estava tão compenetrado no trabalho que não
percebi quando Stefano se aproximou da minha mesa e, em silêncio, ficou me observando. Ele
não queria nada em particular, não precisava de nada, somente observava seu pai trabalhando.
Lembro que naquele dia, quando cruzei meu olhar com o de meu filho, fui tocado por esta
impressão: o olhar de meu filho tinha uma pergunta muito essencial, inevitável, à qual não
poderia deixar de responder. Era como se ele me perguntasse: “Pai, você me assegura que vale a
pena vir ao mundo?”
Então, eu disse a mim mesmo: essa é a questão da educação. A partir daquele momento não pude
mais entrar em sala de aula sem cruzar meu olhar com o dos meus alunos, sem ter a impressão de
que eles estivessem a me perguntar: “Qual é a esperança que o sustenta? É isso que eu preciso
saber para dar crédito às suas sugestões, aos seus ensinamentos, até mesmo às coisas que me diz
para estudar. Somente posso dar crédito a você em decorrência da presença de uma grande
esperança”.
A educação começa quando um adulto captura essa pergunta e percebe que tem o dever e a
reponsabilidade de responder a ela. Mas, evidentemente, não pode responder com regras,
recomendações, teorias: somente pode responder com a própria vida.
Como se pode ler em Deuteronômio 6,20-25: “Quando, amanhã, teu filho te perguntar: ‘Que
significam os ensinamentos, os preceitos e as normas que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou?’,
então dirás a teu filho: ‘Nós éramos escravos do faraó, no Egito, e o Senhor nos fez sair do Egito
com mão poderosa. O Senhor fez, aos nossos olhos, sinais e prodígios grandes e terríveis contra
o Egito, contra o faraó e toda a sua casa. Ele me fez sair de lá, para nos conduzir e nos dar a terra
que, com juramento, prometera a nossos pais. O Senhor nos ordenou praticar todos esses
preceitos e temer o Senhor, nosso Deus, para que nos suceda bem, todos os nossos dias – como
no dia de hoje. Nisto subsistirá nossa justiça: que guardemos todos estes mandamentos, para
praticá-los, diante do Senhor nosso Deus – como ele nos ordenou”.
Ou, como diz Dante no Paraíso, quando interrogado por São Pedro em relação à fé, ele ouve a
pergunta: “Essa pedra preciosa em que toda virtude se acha erguida, donde a tens?”3
Por qual razão, quando menino, eu pude desejar ser como meu pai? Porque eu pressentia, eu
sabia que meu pai conhecia as coisas que na vida são importantes. Ele sabia sobre o bem e o mal,
sobre a verdade e a mentira, sobre a alegria e a dor, sobre a vida e a morte. Ou seja, sem
discursos e sem sermões, ele nos introduzia, nos apresentava a um derradeiro sentimento positivo
sobre a existência, sobre todos os aspectos da vida. Era o testemunho vivo de uma Verdade que
havia conhecido.
Se a educação, como diz Giussani em Educar é um risco, é uma “introdução à realidade total”,4
pois bem, isso era exatamente o que meu pai fazia.
Parece-me que seja exatamente isso o que falta aos jovens hoje: eles crescem sem que lhes seja
apresentada esta “hipótese explicativa da realidade” e portanto, amedrontados, estão sempre
indecisos diante de tudo, são tristes e, por isso, muitas vezes violentos. Nós adultos sabemos o
porquê: não é possível permanecer triste por muito tempo sem se tornar mau. Será que
percebemos que a tristeza de nossos filhos é oriunda da nossa, que o tédio deles é oriundo do
nosso?
Aí está, meu pai nos educou – explico voluntariamente com um paradoxo – porque não tinha o
problema de dever nos educar, de convencer-nos de algo. Ele desejava, claro, rezava por isso,
mas era como se nos desafiasse: “Eu sou feliz, observem a minha vida, observem se encontram
algo melhor, e decidam”. Ele perseguia com tenacidade a realização da sua santidade, e não a
nossa. Ele sabia que somente por nossa livre e espontânea vontade poderíamos buscar a nossa
vocação.

A educação como misericórdia


Mas essa atitude de meu pai não foi o suficiente, porque se intrometeu na nossa relação algo que
a fragilizou. Aos dezessete anos, apesar da educação que recebi em casa, fui invadido pela
dúvida, pelo ceticismo; enfim, entrei numa crise profunda que me fazia sofrer muito. O que mais
me fazia sofrer era a percepção de que o nada devorava tudo o que era importante para mim,
devorava meu pai e minha mãe, meus irmãos e meus amigos: era um sentimento de
inconsistência da realidade, tudo virava pó.
Eu observava minha mãe trabalhando em casa e chorava, porque sentia que algo a estava levando
embora, nem mesmo o amor que eu sentia por ela podia impedir, perdiam a consistência todas as
coisas que tinham valor para mim.
Vivi durante um ou dois anos uma crise muito profunda, abandonando evidentemente a prática
religiosa, que não significava mais coisa alguma para mim, aliás, eu desafiava maldosamente
minha irmã que naquele período havia conhecido o movimento Comunhão e Libertação,
dizendo-lhe: “Explique-me de qual coisa a salvaria o Salvador, do que a libertaria o Redentor?
Vocês são como os outros, e até pior do que os outros, sofrem e morrem como os demais, onde
está a salvação? Do que você teria sido salva? Domingo, quando você sai da Missa, o que pode
dizer a respeito de si mesma além daquilo que eu mesmo posso dizer?”
Certamente ela não conseguiria responder naquele momento (aos dezenove anos) aquilo que hoje
responderíamos em coro: que esse algo a mais que Jesus trouxe para a vida é simplesmente o eu,
uma pessoa que antes não existia, uma consciência sobre si mesmo e sobre as coisas que antes
não existia, e que era exatamente aquilo que eu estava buscando.
O que não estava presente na educação que eu havia recebido? Aconteceu com os meus pais o
mesmo que aconteceria, anos mais tarde, com os pais de uma aluna minha. Vou contar
rapidamente este ocorrido.
Certa feita veio falar comigo o pai de uma aluna (meio esquisita, um pouco avoada), muito
preocupado, muito pesaroso e aflito em relação à filha. Ele havia compreendido que entre mim e
sua filha havia certa cumplicidade, que nos entendíamos, então, numa noite, esse pai resolveu vir
até a minha casa. Jantamos juntos, enfim abordamos o problema que lhe apertava o peito, e ele se
pôs a chorar, dobrou as mangas da camisa mostrando as veias e quase gritando desesperado
disse, batendo com a mão sobre o braço: “Professor, a fé corre no meu sangue, mas não sei como
dá-la a ninguém. Você pode fazer isso? Pode fazer isso, por favor? Faça, por caridade, porque eu
tenho a fé no sangue, mas não sei comunicá-la nem mesmo à minha filha”.
Pois bem, naquele momento eu entendi com clareza que o problema da Igreja era ter um método,
ter um caminho, e que toda a genialidade da contribuição de Giussani oferecida à Igreja e ao
mundo era esta: a descoberta de que a fé, concebida novamente como um acontecimento
presente, pudesse finalmente ser verbalizada, comunicada. Mais tarde compreendi que o drama
daquele pai era acreditar que entre ele e a sua filha houvesse uma geração de diferença, quando
na verdade havia entre eles quatrocentos anos, quinhentos anos de uma cultura que havia negado
toda a tradição e as coisas que ele vivia, e que a televisão e a escola – do segundo pós-guerra em
diante – trataram de colocar entre aquele pai e sua filha.
É exatamente isso que faltava aos meus pais e ao pai da minha aluna: a compreensão dessa
distância e um método, um caminho para superá-la. Tal distância somente poderia ser superada
propondo-se novamente o cristianismo em suas raízes mais elementares: como uma “presença
viva”, capaz de iluminar as contradições da existência de modo convincente. Não como solução
aos problemas, mas como um novo ponto de vista a partir do qual enfrentá-los. Não uma teoria
que se contrapõe a outras teorias, mas “a experiência de um grande amor através do qual todas as
coisas se transformam em um grande acontecimento” – como diria Romano Guardini.
É a grande advertência de Bento XVI, no memorável discurso de Verona à Igreja Italiana:
“Ampliem a razão, desafiem a modernidade para colherem tudo o que há de positivo, mas
também para denunciarem a insuficiência de uma cultura niilista e relativista que se construiu
nos últimos séculos e que, em tantos aspectos, revelou-se inimiga do Homem”.5
Mais tarde conheci Giussani: fulgurante! Ele veio à minha casa num momento de muita dor para
minha pobre mãe, porque o primeiro dos dez filhos havia deixado o seminário em decorrência da
onda de manifestações daquela época,6 e não havia apenas abandonado a prática religiosa e a
Igreja, mas fundara um dos primeiros grupos extraparlamentares na nossa região, junto a outros
sete ex-seminaristas. Meu irmão não estava em casa naquele dia em que Giussani viera conhecer
meus pais. Na ocasião, Giussani realizara a confissão de minha mãe, e acredito que ela tenha lhe
contado sobre a sua dor. Na semana seguinte recebemos de Milão um pacote de livros enviados a
esse meu irmão que Giussani não havia conhecido, e, para a minha grande surpresa, no pacote de
livros, ao invés da Bíblia ou dos Evangelhos, estava O Capital de Karl Marx e outros livros deste
tipo. Foi o primeiro dia em que suspeitei que Deus existisse realmente, porque somente Deus
poderia fazer uma coisa desse tipo. Entendi, assim, que o outro nome da educação é
misericórdia, caridade, é este fenômeno pelo qual Deus vem ao nosso encontro no lugar onde
estivermos: não exige de antemão que nos transformemos, não exige a priori que façamos algo,
Ele estará lá onde nós estivermos, com as nossas preferências, com os nossos interesses, nosso
temperamento, com os nossos pecados.
Ver Giussani que, sem medo, sem diminuir a si mesmo, dava de presente Karl Marx ao meu
irmão, porque sabia que ele se encontrava naquela posição, pois bem, isso me trouxe esta ideia: a
educação é a misericórdia em ação, pela qual Deus vem ao nosso encontro onde estivermos. Em
síntese, eu comecei a suspeitar que aquele homem tivesse alguma relação com Deus, porque
jamais teria me pedido para mudar antes de me amar: me amava da maneira como eu era.
Essa é a própria natureza do amor. Gratuidade absoluta. “Nisto está o amor: no fato de que Deus
nos ama previamente, quando ainda somos pecadores”. Esta identificação da educação como
misericórdia carrega consigo algumas consequências que me parecem decisivas:

a. Que a educação não se apoia em técnicas psicológicas, pedagógicas ou sociológicas.


Significa oferecer a própria vida à vida de outrem. É oferecer uma proposta de vida
significativa e convincente do ponto de vista existencial, que tem as suas raízes na
experiência serena e segura do testemunho. Se para educar fossem suficientes as palavras,
teria chovido Evangelhos; em vez disso, Ele veio acompanhar a nossa pobre existência.
b. Assim sendo, a ação missionária do cristão e da Igreja não é outra coisa senão um corajoso
testemunho de fé no ambiente onde vivem os Homens, onde os jovens consomem a sua
juventude, em primeiro lugar na escola. Não podemos mais imaginar uma ação pastoral que
se desenvolva em recintos fechados, distintos dos ambientes de estudo, de trabalho ou de
diversão. É preciso recomeçar a encontrar os nossos irmãos onde eles realizam os seus
interesses, seus afetos, sua inteligência e suas atividades. Uma fé que não se demonstre
pertinente à vida real, que não se mostre capaz de exaltar o eu, o coração e as expectativas
do indivíduo, não poderia jamais suscitar curiosidade nem interesse ou vontade de segui-la.
c. O problema com os filhos ou com os alunos não pode ser ter de transformá-los em cristãos,
obrigá-los a orar, forçá-los a ir à Igreja. Se nos colocamos dessa maneira, eles sentirão como
uma pretensão da qual se defender e tomar distância.

Penso que o segredo da educação seja o seguinte: os nossos filhos nos observam. Quando estão
brincando, não estão somente brincando: independentemente do que eles façam, na verdade com
o canto do olho nos observam sempre. O único modo que temos para educá-los é que eles nos
vejam serenos e felizes, seguros perante a realidade.
Serenos e seguros, não porque somos perfeitos – já que eles nunca acreditariam nisso, é patético
e triste ver pais que tentam esconder dos filhos o próprio mal –, mas porque somos os primeiros
a pedir e a conseguir ser perdoados sempre.
Ademais, desse modo podemos ser livres na relação com os filhos, até mesmo para nos
equivocarmos. Livres da angústia de ter que demonstrar uma coerência impossível, porque o
nosso dever como pais é simplesmente vislumbrar um ideal maior, sempre. Os filhos nos testam,
puxam a corda, nos colocam em situações difíceis sempre: são todos filhos pródigos.
É exatamente aquilo que em Educar é um risco se chama “função de coerência ideal”, é a grande
função educativa: que você permaneça firme, que você resista, perdure. Talvez os filhos se
afastem, e passem a observar sem dar na vista se você resiste no seu lugar, se você tem guarida,
se você é uma “casa”. Eles retornarão, mesmo quando agirem no pior dos modos possíveis.
Essa solidez, essa certeza, que você tem e vive com os amigos, ou no casamento, é a única coisa
da qual os filhos têm necessidade para serem educados, é a única coisa que mesmo sem saber
eles exigem, e é sobre este seu testemunho que debruçam a esperança. Educar é uma questão de
apostar tudo na liberdade deles.
Pensem na parábola do filho pródigo – a qual, depois de ter lido o livro do Papa, chamarei de
“parábola dos dois irmãos”7: nós somos sempre tentados a prender os filhos em casa, quando
eles querem ir encarar a realidade, e insistimos em mantê-los numa redoma de vidro. Temos
medo da liberdade deles, porque é uma ruptura, uma ferida que sangra. Ou então confundimos
essa responsabilidade com um “transformar-se como eles”: deixamos a casa junto com eles, para
quem sabe assim ficar de olho neles. Mas quão desesperador seria para os filhos se, no momento
em que ansiassem voltar para casa um dia, descobrissem que não têm mais um lugar para onde
voltar, não há mais alguém que os esteja aguardando, alguém que lhes perdoe! Este é o Risco
Educativo: um amor sem fim pela liberdade do outro, porque é esta liberdade que o Pai amou e
estimou, suportando até a separação do filho que vai embora.

A educação como ímpeto missionário


Uma vez meu filho Andrea, quando tinha por volta de quinze anos, me disse muito sério: “Pai,
nós somos uma família normal? Porque tudo fora daqui diz o contrário: a escola, a TV, os
amigos”. Então entendi que ele sentia uma incompatibilidade entre os ensinamentos em casa e a
vida no mundo “normal”. A questão era mostrar a ele um outro “mundo” dentro do mundo.
Compreendi que ele estava me pedindo para mostrar-lhe que o nosso jeito realmente funcionava,
que existiam amigos, famílias, realidades, movimentos, igrejas, paróquias, missões a partir das
quais é possível compreender e estar certo de que, quando fosse chamado a desafiar o mundo,
teria razões suficientes para levar consigo, carregaria a força e o peso de tantos testemunhos.
Talvez seja um mundo minoritário este que vive dessa maneira, mas é um mundo de verdade,
com famílias de verdade, amigos de verdade, ambientes de verdade, etc.
Certa vez hospedamos em casa um rapaz de Serra Leoa e mais tarde fomos convidados a visitar
esse país. Ali entendi que Deus estava nos ajudando, a mim e à minha esposa. Não havíamos
pensado nós, Ele estava nos oferecendo, em bandeja de prata, uma experiência missionária para
que a pergunta dos meus filhos tivesse solução. Assim, aproveitando essa amizade com algumas
pessoas na África, foi possível ajudar meus filhos a vencerem este desafio, a afirmarem que
podemos sair de casa seguros de um critério, de uma cultura, de uma caridade, de uma esperança
tão perseverante, capaz de desafiar as categorias culturais deste mundo aparentemente tão hostil.
Tudo converge naquilo que dissemos no início: o testemunho de um grande ideal, que pode ser
reconhecido a cada dia na comparação com todo o horizonte da experiência humana, com o
mundo inteiro. De tal modo que os próprios filhos possam dizer: “Esta é a vitória que vence o
mundo: a nossa fé”. Mas, para isso, devem receber uma proposta decisiva, íntegra, que leve em
consideração todos os aspectos da realidade, todas as dimensões do ser. Com a consciência de
que o êxito não está em nossas mãos: não sabemos o que Deus nos reserva, nem ao nosso país,
nem ao mundo. Provavelmente devemos aceitar a ideia de que, há muito tempo, somos uma
minoria, um pequeno rebanho, certos somente de duas coisas: a certeza de que “portae inferi non
prevalebunt” e a certeza de sua misericórdia, daquilo que a tradição chamou de “mérito”.
Ou seja, na esperança segura de que, pela fé de alguns, muitos serão salvos, como ensina o
episódio bíblico de Abraão, que contrata com Deus a salvação de toda a cidade pelos méritos dos
dez justos (cf. Gn 18).

1 “Cometeria pecado se me lamentasse”, no dialeto de Bérgamo. [N.d.T.]


2 Filme italiano em dialeto dirigido por Ermanno Olmi em 1978. [N.d.T.]

3 “Quella cara gioia sopra la quale ogni virtù si fonda, dimmi, donde ti venne?” (Dante Alighieri, A Divina Comédia,
Paraíso, XXIV, vv. 89-90, op. cit.).
4 L. Giussani, Educar è um risco, op. cit., p. 54.
5 Bento XVI, Pronunciamento no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja Italiana, Verona, 19 de outubro de 2006.

6 Na Europa, o período de contestação se inicia em maio de 1968 em Paris e caracteriza a vida social e politica do Ocidente,
até o fim da década de setenta, tendo como protagonistas os jovens que contestavam radicalmente o status quo, inclusive
através de embates entre ideologias politicas e luta armada. [N.d.T.]
7 Bento XVI, Jesus de Nazaré, São Paulo: Planeta, 2007.
6. Somos todos pais putativos
Encontro organizado pela
Associação Famílias para a Acolhida1
Vicenza, 2004

Para mim sempre foi particularmente significativo observar as Famílias para a Acolhida, porque
me parece que a total gratuidade com que uma família acolhe um filho que não é seu seja o único
modo possível para realmente ser pai ou mãe também dos próprios filhos naturais: é, para mim, o
único elemento a ser considerado e que estabelece a verdade da paternidade e da maternidade.
Somos todos pais “putativos”, pais emprestados, esta é a questão: nossos filhos não são nossos.
No momento do batismo nós os confiamos à Igreja, para que no batizado possa emergir a
verdade do que eles são: não nossos filhos, mas filhos da “Verdade”, filhos de Deus. “Somos
realmente filhos de Deus”, disse São João; mas quando alguém diz que os próprios filhos são
filhos de Deus, deve arcar com as consequências, deve reconhecer que eles não são seus.
Pediram-me que eu falasse sobre a relação entre educação e acolhida. Acredito que sejam
simplesmente a mesma coisa: são sinônimos. Como é possível falar de acolhimento se não é
colocada a questão educativa? E como é possível falar de educação senão como um
acolhimento? Ou melhor, vamos dar o nome certo para as duas palavras, encontremos uma
palavra que compreenda as duas: “misericórdia”. O que vocês vivem neste ambiente se chama
misericórdia.
Misericórdia é a natureza de Deus, e apenas Deus é misericórdia. Significa que Deus afirma a
bondade do ser, das coisas, da realidade, da vida de cada um de nós, mesmo antes que cada um
de nós seja digno dessa bondade. É próprio da natureza de Deus afirmar a nossa existência, nos
abraçar e nos perdoar – insisto – ainda antes que mereçamos. Nisto está o amor, disse São Paulo,
que Deus nos amou “quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Nisto consiste o acolhimento, e
nisto consiste a educação: educar é afirmar o valor do outro. A educação começa quando eu
acolho o outro no ponto em que se encontra. Todo o segredo da educação, creio, está nisso. Se
você cria o problema de dever transformar os filhos, eles sentem isso como uma armadilha,
como uma pretensão em relação a eles, e se defendem. Quantas vezes repeti: o segredo da
educação é não ter o problema de “educar”, porque, se é um problema para você, torna-se um
problema para os filhos. E perante um problema, uma exigência, ao ouvir alguém que lhe diz:
“Você deve mudar, deve ser diferente”, os filhos se defendem.
Se, ao contrário, o relacionamento entre o educador e o filho é: “Eu te amo assim como você é,
eu afirmo o seu valor por aquilo que é, mas estou neste caminho, saiba que eu estou indo nesta
direção, estou observando estas coisas que me fazem feliz, se você quiser, pode vir comigo”, isso
dá liberdade aos filhos, os deixa intrigados, curiosos, e quem sabe tenham vontade de ir com
você. Quando você tem o problema de educar, psicologicamente se torna um problema
insuportável para o filho. Você deve ter o problema de educar a si mesmo e basta, é o suficiente.
A educação quase não tem necessidade de palavras. Ou melhor, a única palavra que tem sentido
na educação é a resposta a uma pergunta que se apresenta, que os filhos explicitamente fazem.
Nunca dê respostas a questões que não foram feitas, que os jovens não percebam como urgentes.
Então, só a compreensão de que somos todos pais putativos, só a certeza de que educação é o
outro nome da misericórdia, estabelece aquela gratuidade que torna a paternidade e a
maternidade verdadeiras. Sem esse ponto de partida, a paternidade e a maternidade são fontes de
equívocos, de chantagem, tornam-se um lugar onde se derramam frustrações e desejos
equivocados. Somente se nos concebermos como pais putativos, isto é, como pessoas para as
quais um “Outro” entregou a vida de alguns, tanto na filiação natural como na que nasce do
acolhimento, somente assim podemos ter esperança de nos tornarmos pais e mães.
Durante um encontro com professores brasileiros, em um dado momento um deles disse: “Com
licença, mas talvez o senhor não tenha entendido uma coisa: não existem famílias aqui. A família
não existe e os filhos com os quais lidamos são filhos devastados, órfãos, gente que cresceu nas
favelas. Nas periferias das grandes cidades latino-americanas não há família, então por onde
começamos?” A resposta me veio espontânea, um impulso, que penso ser oriundo de dois mil
anos de cristianismo. Eu disse: “Qual é o problema? Vocês estão presentes”. Éramos todos
professores, eu disse a eles: “Qual é o problema? Vocês são os pais e as mães dessas crianças”.
Por séculos, a tradição da Igreja nos fez chamar “pais” os padres e “mães” as freiras. Por quê?
Porque indicava a verdadeira paternidade e a verdadeira maternidade nesta capacidade de um
homem e de uma mulher de dar a vida por um ideal, dedicando sua vida aos filhos dos outros.
Temos chamado por séculos “mãe” as freiras e “pai” os padres porque essa é a verdadeira
paternidade e a verdadeira maternidade. Portanto, aquilo que vocês vivem como Famílias para a
Acolhida, é exatamente aquilo que a Igreja intuiu e protegeu em dois mil anos de cristianismo:
que não existe paternidade se não for entregue por Deus através da misericórdia, da capacidade
de perdão, de acolhimento e de gratuidade que um homem e uma mulher possam exprimir. A
propósito, esta questão dos frades e das freiras que chamamos “padre” e “madre” é interessante,
porque os chamamos ao mesmo tempo “irmão” e “irmã” – “frade” e “freira” significam “irmão”
e “irmã”. É lindo! Porque diz que você não pode ser pai de ninguém se não for, em primeiro
lugar, irmão. Ou seja, se não for você quem, antes de mais nada, se coloca diante de um pai que
vive e educa você.
Parece-me que essa consideração oferece uma série de indicações também para nós, pais e mães.
Por exemplo: jamais somos pais e mães sozinhos, mas sempre em uma comunidade. É um povo.
É sempre e somente um povo que gera a vida verdadeira. Na solidão não geramos nada. A
família é um pequeno povo, é o exemplo do povo. Não por acaso o Concílio a chamou de Igreja
Doméstica. É o exemplo do povo, porque é somente no povo que Deus reside, e é para construir
um povo que alguém vive a gratuidade e o acolhimento. É o mistério através do qual Deus age
dentro da comunidade suscitando santos, suscitando vocações, suscitando tudo aquilo que
suscita: tudo para criar um povo de salvos, para dar vida continuamente ao Seu povo.
Deste ponto de vista, o meu santo de referência naturalmente é São José, o pai putativo de Jesus,
porque a ideia de paternidade que aprendi na vida é esta: a paternidade de todos, também a
nossa, que colocamos no mundo filhos da nossa própria carne, é a de São José. Jesus era seu
filho, mas não era seu “filho”. E o dever de todos está descrito de modo eficaz e extraordinário
por uma outra grande figura da história da salvação, São João Batista. Se eu tivesse que sintetizar
em uma imagem toda a educação seria a seguinte: que diante dos jovens alguém exclamasse:
“Olhem lá! Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!” O segredo da educação está na
presença de um adulto que possa dizer por experiência própria: “Eu vi onde a verdade está, e a
mostro a vocês”. Não indico a mim mesmo como caminho, não digo aos jovens “me sigam”, mas
sim “é melhor que O sigamos”. Toda a educação se resolve afinal nisto: na capacidade que um
adulto tem de educar continuamente a si mesmo.

Na minha vida, o trunfo com os meus filhos foi sempre procurar responder quando a realidade
chama, porque através da realidade Deus nos interpela, é Deus quem está chamando você.
Responder à realidade com alegria, com generosidade, procurando fazer o que for possível, é o
grande testemunho do qual nossos filhos têm necessidade. Se alguém acolhe a realidade – como
vocês mesmos me ensinam, se nos abrirmos para as necessidades que a realidade nos apresenta,
isso é indicação daquela felicidade, daquela solidez que é a única coisa que educa.
Certa feita me aconteceu que aparecessem alguns pais e mães na minha casa dizendo (era 1984):
“Professor Nembrini, estamos desesperados, a escola está destruindo nossos filhos, o que
fazemos?” O que responder? Você diria: “O problema é de vocês. Com meus filhos na escola
média, por acaso eu não tenho esses problemas?” Não. Você funda uma cooperativa e cria uma
escola. Hoje tal escola se tornou grande, mas quando fora criada foi bem assim: por meio de
quatro amigos que procuravam responder a três pais desesperados que tinham aparecido na
minha casa. Ou então acontece de encontrar no Meeting de Rímini Bepi Berton, um padre
salesiano vicentino que em Serra Leoa recolhe os garotos-soldados. Ele me pede uma ajuda. O
que você faria? Diria não? Ele disse: “Gostaria de mandar-lhe um menino para acolhimento
durante um ano, você o receberia?” Como dizer não ao Padre Berton? É impossível! Você diz
“sim!”, porque, quando tocam a campainha ou toca o telefone, é Deus quem está chamando.
Deus chama e o que você faz? Fui para a África. E quando meus filhos dizem: “Era só o que
faltava… ajudar a África agora? Agora sim, pacote completo…”, o que eu faço? Como posso
explicar aos meus filhos que a África não me passava pela cabeça, mas que desse momento em
diante daremos uma mão também aos africanos? O que faço? Como explicar a eles? Não
expliquei! Peguei um dinheiro emprestado – porque custou uma fortuna – e fomos para Serra
Leoa nas férias de Natal com minha esposa e os quatro filhos. Quando voltamos da viagem, me
disseram: “Pai, agora nos sentimos como se andássemos por aí com um cartaz pendurado no
pescoço escrito: se eu me queixar da vida atire em mim, porque não podemos mais reclamar do
que recebemos”. Temos que mostrar aos nossos filhos aquilo que nós enxergamos. Seria o caso
de dar sermão sobre a situação na África? Melhor levá-los para ver a África e encontrar nossos
amigos por lá, para que vejam o que está se criando por lá, e os filhos entenderão.
Ou ainda uma amiga psicóloga me liga e diz: “Tem um menino que precisa de ajuda”. O que
você faz, diz não? Eu olho para os meus filhos e pergunto: “O que acham? Vamos conseguir?”
“Sim!”, me respondem. E assim durante oito meses acolhemos em nossa casa um rapaz de
dezesseis anos que tinha alguns problemas. Eis o grande segredo da educação: responda para a
vida você mesmo em primeiro lugar, e então os filhos o seguem. E se não o seguem, problema
deles! Fiquem tranquilos em relação a isso. Eles são livres e crescidos, Deus os conduza e os
acompanhe.

Alguém me perguntou: “Como este acolhimento que nos educou pode educar os nossos filhos?
Os filhos, que tiveram tanta dificuldade com as pessoas que nós acolhemos em casa, o que terão
aprendido?” Respondo: tudo! Não há problema. Sigam em frente, assim já estarão educando os
filhos, que certamente estarão aprendendo muito mais do que parece. Ora, eu não sei dizer –
estas coisas vocês conhecem melhor do que eu – se é correto acolher alguém na própria casa
quando os filhos estão passando por um momento difícil. Eu e minha esposa, por exemplo, antes
de acolhermos aquele rapaz consultamos nossos filhos, e um deles – aquele mais diretamente
interessado na questão porque tinha a mesma idade do rapaz que estávamos acolhendo e,
evidentemente, seria destinado a uma possibilidade de relacionamento; os outros filhos estavam
na universidade e viviam em Milão – não concordou com o acolhimento. Portanto, eu disse não
para a nossa amiga psicóloga. O que eu poderia ter feito? Deveria tê-lo obrigado a aceitar o
acolhimento? Dois meses mais tarde, ao me ouvir dizer em determinada ocasião que “quando
toca o telefone é Deus que nos interpela”, meu filho mudou de ideia e disse: “Se é Deus que bate
à porta, não me parece o caso de não abrir!” Ele disse “sim”. Então eu e minha mulher também
dissemos sim.
Cabe-nos viver aquilo que Deus nos convida a viver, sem querer ser super-heróis, sem imaginar
estar realizando grandes feitos: façamos aquilo que Deus nos convida a viver, da maneira que
somos capazes e com muito realismo. Jamais, em nenhum caso, devemos colocar o peso da
nossa própria generosidade nas costas de outro. Se me pedissem hoje para acolher novamente
outro garoto, acho que diria não. Não podemos mais, estamos no limite. Com a vida que levamos
não conseguimos inserir nada mais. Pode ser que dizer “não” nos cause desconforto, mas sendo
realistas devemos levar em conta todos os fatores de uma determinada situação. Pois bem, esta
posição de abertura, de um ideal grande, pelo qual alguém sacrifica a vida, é a única coisa que
educa os nossos filhos. Mesmo se em dado momento os filhos não aceitassem esse ideal de
abertura, quem sabe porque se encontram em uma idade um pouco difícil, tudo bem. A única
coisa de que se recordarão é que tiveram um pai e uma mãe que respondiam à realidade em
virtude de um bem que encontraram, de um bem que buscavam, de uma certeza possível. É a
única coisa da qual eles têm necessidade, e nós passamos adiante isso tudo para eles de acordo
com a nossa vivência. Não devemos nos preocupar com o resto. O resto caminha por conta
própria.

Mesmo que os filhos não respondam imediatamente, não se preocupem. Alguém me perguntou
como lidar com um filho de oito anos que não quer ir à missa. Eu, por este ponto de vista tive
sorte, porque quando eu era criança minha mãe ia todos os dias à primeira missa, às cinco da
manhã, e uma das recordações mais belas que tenho era quando me dava o privilégio de ser o
escolhido: todas as manhãs ela escolhia um dentre os dez filhos. No silêncio da madrugada vinha
me acordar e dizia: “Franco, vamos à missa?” Tinha me escolhido! Talvez fôssemos bobos, não
sei. É claro que hoje a garotada é diferente, mas nessa história há talvez uma ideia inteligente:
tinha me escolhido. Este elemento da escolha tinha consigo dois pontos decisivos para que eu
visse como positiva aquela situação: primeiro um relacionamento absolutamente privilegiado e
de predileção com a mãe, que durante o dia tinha pouquíssimo tempo, mas naquele momento
tinha pensado em mim. Segundo, voltando da missa nós passávamos em uma padaria para tomar
um chocolate quente – era fantástico! – e via de regra não podíamos nos dar a esse luxo nunca!
Mas se fossemos à missa pela manhã, tomávamos chocolate quente. Para mim, Jesus não estava
na hóstia, estava no chocolate! Para mim, Jesus era bom, mas muito bom!
Quando criança eu unia duas coisas: Jesus é muito bom, boníssimo! Por isso sempre me pareceu
que levar aquele tipo de vida que minha mãe levava pudesse encher a existência de coisas boas.
Agora falo um pouco como brincadeira, mas talvez não seja tão ridículo: se um filho que não
quer ir à missa, com respostas do tipo: “Eu e sua mãe vamos juntos… para que você acompanhe
sua mãe… para nós é importante…”, ele não irá entender, para ele não importa. Deixe-o em casa
e diga: “Vá jogar futebol!” Você precisa encontrar algo de belo. A minha mãe tinha inventado o
chocolate. Dom Bosco tinha os bolsos sempre cheios de balas para seus meninos da periferia de
Turim. Cada um deve inventar alguma coisa: deve fazer com que o garoto fique com vontade de
participar. Ou seja, a meninada não deve sentir que é um sacrifício, e sim algo bom como tomar
um chocolate quente, que os faça exclamar: “Como você pôde perder, é mesmo um tolo!”
Experimentem dizer a eles algo assim uma vez! Ou melhor, sem dizer nada, são vocês que
devem ter uma concepção desse tipo!
Certo, serão necessários anos e uma vida e um esforço e um modo diferente para cada um,
porque os filhos não são todos iguais. Eu lembro quando o meu segundo filho, Andrea, era
pequeno – tinha três ou quatro anos, mas era já um tipo difícil desde o nascimento, tinha vocação
para chatonildo, era sua estrutura… – todas as noites antes de ir dormir dizíamos esta
oraçãozinha: “Vovó Anna e vovó Clementina – minha sogra e minha mãe, que já tinham falecido
–, ajudem-nos a nos tornarmos meninos do bem”. Certa vez fomos à missa, do lado de fora da
igreja há uma barraquinha que vende doces, e Andrea fez um escarcéu porque queria doces.
Então eu disse: “Andrea, se você fosse um pouco mais do bem, seria mais fácil para o pai e a
mãe comprar algum doce, lhe dar uma guloseima, mas assim fica difícil…” E aquele ser de
quatro anos, muito sério, me disse: “Mas pai, nós todas as noites pedimos à vó Anna e à vó
Clementina para sermos melhores, mas olha que, na minha opinião, aquelas duas não estão nem
aí!” Com um garoto desses, haja paciência para convencê-lo a ir à missa! Ele queria os doces, o
resto não lhe interessava! Enfim, de um jeito ou de outro ele cresceu, e hoje é ótimo!

Se começarmos a nos preocupar de correr atrás de especialistas, de assistentes sociais,


psicólogos… A esse respeito me permitam dizer uma coisa: é preciso distinguir tudo o que foi
dito até agora e os instrumentos. Se confundirmos estamos mortos. Digo com muita seriedade:
vocês são os melhores pais para seus filhos. A despeito de todos os psicólogos, os sociólogos, os
pedagogos e os assistentes sociais. Em relação a isso sou completamente radical. Na escola, eu
observo todos os dias o processo de medicalização, e o modo ambulatorial com que o problema
educativo é tratado. O professor que, com frequência, não consegue se relacionar com os alunos,
assim que surge um problema diz: “Não é a minha tarefa, estou aqui para ensinar, deve ir ao
especialista”. Para enfrentar um problema educativo vão ao psicólogo, ao médico, ao serviço de
orientação educacional… Loucura total! Tornar o problema educativo um problema médico é a
destruição da educação. Na verdade, são a força e a grandeza do coração com o qual Deus nos
colocou no mundo que nos fazem ser um pai ou uma mãe dignos, e por isso capazes de acolher.
Nesse ponto jamais recuem.
Mas o que torna vocês pessoas capazes, autorizadas a acolher? É a grandeza, a seriedade e a
magnanimidade com que carregam aquela questão dentro de vocês mesmos. Enfim, é tanto mais
capaz de acolher quanto mais humilde for uma pessoa, isto é, quanto mais a própria pessoa pede
para ser acolhida pelos demais a cada dia. Pensem nos meninos-soldados do Padre Berton em
Serra Leoa. São garotos de quinze ou vinte anos que foram raptados nos vilarejos quando tinham
quatro ou cinco anos, foram feitos de escravos na selva, depois, aos oito receberam uma
metralhadora em suas mãos. Esses garotos foram drogados, embriagados e enviados para
incendiar as aldeias e matar pessoas – ainda que morressem não importava, é fácil raptar outras
crianças na aldeia que estava sendo atacada. Atrás desses jovens-soldados vinham os adultos:
para terem menos perdas, mandavam na frente os meninos-soldados de oito anos com armas e
lança-chamas para incendiar pessoas vivas. Está clara a situação? Bem, qual é o problema desses
rapazes? O problema deles é um só: ter alguém que os perdoe pelo mal que fizeram. Esses
rapazes têm memórias assustadoras, aos dez anos cortaram em pedaços pessoas vivas com uma
serra-elétrica. Então alguém perguntaria ao Padre Berton: “Mas qual é o segredo da sua obra, do
seu trabalho? Como fez para acolher mais de três mil garotos e devolver dois mil deles às suas
famílias?” E, tranquilamente, Berton responde: “Só existe uma coisa: perdoá-los. Eles só têm a
necessidade de serem perdoados”. Fiquei impressionado quando um dos meus filhos disse: “Pai,
mas no fundo todos somos crianças-soldados”. Sim, todos somos crianças-soldados, porque
aquele “mal” está dentro de todos nós. Claro, nós não usamos a motosserra, não usamos o lança-
chamas, mas somos todos maus. É essa consciência que nos torna capazes de acolher o outro. O
resto seria somente um orgulho exagerado, uma generosidade que chantageia e mata, seria
somente uma presunção infinita. Em vez disso, se começarmos dizendo “somos todos maus” –
como disse Jesus: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto
mais o vosso Pai que está nos céus dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mt 7,11) – partindo
disso podemos ser acolhedores e educadores, porque somos nós que devemos ser perdoados, e a
maldade da criança que deve ser acolhida, o mal do jovem, o mal do mundo, é também a nossa
maldade.
Portanto, ou você mesmo experimenta este perdão, ou então como pretende perdoar aos outros?
Você não é capaz, você se debruça demais sobre o seu moralismo, as suas regras, as suas manias,
você lança sobre os outros o seu lado mais sombrio travestido de bondade, sem deixar espaço
para a liberdade, sem sombra de liberdade. Mas se você pede perdão e é perdoado, a cada dia,
isso torna você capaz de uma liberdade, de um acolhimento, de uma misericórdia infinita. Assim
nos tornamos os melhores pais que podem existir para nossos filhos.
Certo, considerando que somos católicos, e o perdão não é um devaneio noturno, pedimos
perdão à comunidade. É dizer, pedimos um juízo, um conselho, até sobre o gesto de acolhimento
que pensamos realizar: “O que você acha, nesta situação familiar, é bom que eu acolha uma
criança assim?” Ou seja, uma decisão dessas você não toma sozinho, é preciso encarar a situação
cercado de amigos. Ao tomar consciência do mal e da fragilidade dos quais você é feito, pedir
perdão é perguntar à comunidade, ao grupo: “o que acham?”, “vocês, o que fariam?” O
acolhimento supremo seria ouvir de alguém que tem melhores condições de discernimento do
que você: “Não. Não o faça, você não está pronto, a sua família não está pronta, você não tem as
condições necessárias. Aprecio e entendo, você é generoso, mas não o faça”. Então, por tudo o
que foi dito até agora, você aceita e obedece a esse juízo. Isto seria o acolhimento supremo:
obedecer aos próprios amigos, ao senso de comunidade que existe, até mesmo renunciando ao
gesto de acolhida que você poderia fazer, para realizar outro ainda maior: acolher a você mesmo
e àquilo que você é, com todos os seus limites.
A razão do acolhimento é o coração que Deus nos deu, os amigos que temos ao nosso lado, e o
acolhimento que experimentamos em relação a nós mesmos. Não se pode ir ao psicólogo e
perguntar a razão do acolhimento, ou você tem a resposta ou nenhum psicólogo, nenhum
pedagogo, nenhum assistente social lhe dará. O assistente social serve para a burocracia, o
psicólogo é um técnico que poderia dizer: “Berton, veja, se uma criança tem dez anos e passou o
que passou, fique atento… à noite é melhor que durma sozinho”, ou então “é melhor que durma
com outros dez garotos”. Pode ser um conselho importante, algo que Berton não imaginaria, mas
é claro que é um instrumento. Parece-me evidente a distinção entre o perdão vivido por Berton e
os instrumentos que poderiam ajudá-lo. Não há nada de errado com técnicas psicológicas,
quando falamos de casos muitas vezes desesperadores. Mas são instrumentos. Então quando
procuramos um psicólogo, buscamos ajuda de fulano, de beltrano: mas são somente
instrumentos. Por favor, distingam com clareza essas duas coisas, caso contrário não saberemos
mais o que se passa. Aliás, se seguirmos por este caminho, sabem quem em última instância é o
único autorizado a acolher? O Estado. Porque quem dá a habilitação aos especialistas é o Estado.
Então é o fim: caímos na ditadura estatal daqueles que sempre pensaram que o Estado vem antes
da família.

Se esta for a nossa posição, se vivermos dessa maneira, então podemos superar tudo, inclusive as
derrotas, até mesmo a “repulsa” de um filho acolhido – palavra que um de vocês utilizou
anteriormente – que você tem dificuldade em suportar, que parece a pior das derrotas, porque é
exatamente a negação do desejo de bem que nos movera inicialmente. Mas se formos leais a nós
mesmos, quem de nós poderia afirmar não ter sentido repulsa em relação aos filhos, ao marido, à
esposa em alguns momentos, em certas ocasiões? Se através de um milagre repentino
pudéssemos vislumbrar o mal de que somos capazes, nos esconderíamos de vergonha. Ou
alguém acha que está isento? Eu, às vezes, digo brincando que me incomoda um pouco ir para o
Paraíso, quando se verá todo o mal que já causei, eu morreria de vergonha, quem sabe há gente
que conheço por lá… Espero que lá não se possa ver todo o passado, que coloquem uma pedra
em cima, que fiquemos todos de bem.
Brincadeiras à parte, todos temos algo de que nos envergonhar. A questão é ter a companhia de
alguns amigos que nos perdoem independentemente disso, que queiram o nosso bem, embora
sejamos assim, mesmo quando sentimos repulsa pelos demais. O suficiente é que no
relacionamento com os filhos não tenhamos a intenção de afirmar a nossa capacidade de gostar
do outro, mas afirmar que alguém quer o nosso bem, nos ama – o que muda completamente de
figura. Caso contrário, o drama da coerência nos mata. Eu não sou capaz de querer o bem do
outro. No máximo posso demonstrar a fidelidade de Deus, não a minha. Mostrar, observar,
indicar aos filhos, à esposa, a todos a fidelidade com que Deus me abraça, isto é, a fidelidade da
companhia dos amigos em que me encontro. Para mim é o movimento Comunhão e Libertação,
para alguns será outro, cada um terá a sua companhia, mas é a fidelidade de Deus que faz tudo
funcionar. Até que ponto você pensa que a sua fidelidade pode chegar? Não resiste ao dia de
hoje. Somos limitados, somos repletos deste mal, não devemos ficar impressionados nem
aterrorizados. Aliás, Deus confiou em nós: nos entregou os filhos, e sabia muito bem como
somos feitos, e quanto mal somos capazes de realizar. Ou acham que Ele tenha se dado conta
disso depois? Foi Ele quem nos fez, sabe tudo de nós, e ainda assim nos entregou esses filhos!
1 Famílias para a Acolhida é uma associação fundada em 1982 por um grupo de famílias que tinham filhos em adoção ou sob
tutela, com o objetivo de “aprofundar as razões do ato de acolher e reforçar o seu significado, mediante momentos de
convivência, reuniões destinadas a ajuda recíproca, encontros com especialistas, cursos de formação destinados aos casais que
pretendem adotar ou acolher de forma temporária uma criança” (famiglieperaccoglienza.it).
7. “Não é bom que o homem esteja só”
Encontro com a Companhia das Obras1 da Espanha
Madri, 22 de abril de 2005

Cada um de nós, diante dos acontecimentos dos últimos meses – meses misteriosos em que
assistimos ao falecimento de Giussani, a quem muitos de nós, inclusive eu, éramos ligados
pessoalmente, e também à morte do grande Papa João Paulo II –, se questionou de modo radical,
ou pelo menos eu me questionei. Quando uma pessoa tão grandiosa morre, outorga para aqueles
que a amam uma enorme responsabilidade. É inerente à morte exigir dos demais uma atitude
que, em outras circunstâncias, teria sido impossível. Quando morre um pai – e foi mesmo assim
para mim – ele nos investe com uma responsabilidade: como se você naquele momento tivesse
se tornado de modo definitivo um homem. Foi assim quando meus pais morreram. Devem ter
experimentado a mesma coisa os apóstolos quando Jesus lhes disse: “Eu, porém, vos digo a
verdade: é bom para vós que eu vá. Se eu não for, o Paráclito não virá a vós, mas se eu for, eu o
enviarei a vós” (Jo 16,7). Portanto, a morte de Giussani e a morte de um papa como João Paulo
II, dois grandes pais, dois grandes educadores, exigem de nós que assumamos, de maneira
definitiva, uma grande responsabilidade, seja como pais, seja como educadores. E por esse ponto
de vista, desejo trazer-lhes três observações.
Qual é o ensinamento fundamental que recebemos desses grandes homens e de toda a tradição da
Igreja? Ter uma grande estima pelo nosso coração, pelo nosso próprio ser, porque o nosso
coração é bom, é naturalmente bom, e, ainda que possamos trair essa natureza, Deus nos colocou
na vida com um coração bom, semelhante ao d’Ele. Essa foi a primeira grande descoberta que fiz
encontrando o cristianismo: o meu coração – e, logo, o coração de qualquer homem que eu
encontrar – é feito para experimentar um grande amor pela verdade. É constituído de uma sede
infinita de saber o que é o bem e o que é o mal, o que é a vida e a morte, a alegria e a dor; é feito
do desejo de conhecer a verdade tanto nas pequenas como nas grandes coisas.
Quando estou perante meu filho, quando penso nas estrelas e no significado do mundo, esse
desejo de conhecer a verdade imediatamente torna-se, em mim, assim como em cada ser
humano, um desejo de bondade: desejo que a vida seja boa para mim e para todos os meus
irmãos homens. Somos constituídos por essa vontade de bem, por esse desejo de bem, e
acordamos todos os dias à procura do bem, para que, de algum modo, o tempo não passe
inutilmente! É a esperança com a qual nos levantamos todas as manhãs, mesmo quando não
percebemos; desejamos sempre que o tempo não seja inútil, que o dia seja bom e que possamos
construir coisas boas para nós e para toda a humanidade. Não há outra razão para que tenhamos a
coragem de pôr os filhos no mundo senão por esta esperança de bem. Devemos lembrar que a
natureza do nosso coração está neste desejo de conhecer a verdade, de amar o bem e construir
coisas boas.
Se nós somos feitos assim, se somos constituídos por este desejo de bem, de bondade, de beleza,
então nos direcionamos procurando viver assim. Cada ação que o homem realiza, o trabalho que
exerce, se encaminha nesta direção. Essa é a ideia de “trabalho”: o homem está sempre agindo,
trabalhando. Jesus chamou a Deus “o eterno trabalhador”, e se o ser humano compartilha da
natureza de Deus, então trabalha o tempo todo. As mães realizam um trabalho, quando em casa
se ocupam humildemente dos filhos e, perante Deus, perante a história, têm a mesma dignidade
de um empresário chefe de uma grande corporação. Assim, a ocupação do político, do padre, do
trabalhador e do professor é exatamente esse partilhar da natureza de Deus.
Por essa razão é que os seres humanos se reúnem: no momento em que começam a realizar um
trabalho, uma atividade, sentem a necessidade de estarem acompanhados, uma companhia de
homens em ação, que põe em jogo o desejo do próprio coração ao se confrontarem com a
realidade, na tentativa de modificá-la para melhor, para aproximar-se daquilo que Deus
imaginou.
Existe uma maldição que paira sobre a cabeça dos homens desde o tempo de Adão e Eva:
“Desafortunado o homem que vive só!” Relata a Bíblia: “Não é bom que o homem esteja só”
(Gn 2,18). E isso não se refere somente ao matrimônio, não descreve apenas a natureza do
relacionamento homem-mulher, descreve a natureza do homem em ação. Portanto, na sua
tentativa de modificar a realidade, de afirmar o bem, de fazer com que o mundo seja bom, o
homem não pode agir sozinho. Aliás, a ação do demônio consiste mesmo nisto: proporcionar a
solidão do homem. O mal absoluto é a divisão, e o empenho do demônio, do mal, é fazer com
que o homem fique só, porque essa condição é exatamente o oposto da estrutura originária do
homem. Sendo o homem a imagem de Deus, que é Trindade, é na inclinação à união com seu
semelhante que o homem se realiza. Bem como, biologicamente, é intrínseco o fato de que, para
gerar um ser humano, é necessária uma união de dois seres, homem e mulher. E tal condição é
verdadeira, seja lá o que possa afirmar a cultura mentirosa na qual estamos mergulhados.
Precisamos de amigos que nos ajudem a manter esse compromisso, este esforço de um “eu” que
se aventura no mundo. Se me perguntassem por qual razão Deus veio à Terra, responderia que é
para dar a possibilidade da amizade entre os homens, algo aparentemente impossível e que
começa a ser possível: “Eu vos chamo amigos” (Jo 15,15) – aliás, no Evangelho, a única pessoa
a qual Jesus se refere diretamente como “amigo” foi justamente quem o traiu.
Aproximamo-nos uns dos outros porque respeitamos e estimamos o coração uns dos outros, em
toda a dimensão de nossos anseios, de nossos desejos. Impressionou-me muito Giorgio Vittadini,
fundador e durante muito tempo presidente da Companhia das Obras, quando publicou esta
reflexão acerca da morte de Giussani: “Obrigado, Giussani, por ter nos permitido viver à altura
dos nossos desígnios, do nosso desejo, por ter sido profeta de um mundo à altura do nosso
desejo”. Percebam que quando alguém vive à altura do próprio desejo não pode deixar de
encontrar o desejo do outro, e ao perceber qualquer minúsculo rastro de verdade, de beleza, de
bondade, sente como se fosse seu, o valoriza e abraça. Por isso é possível uma amizade e uma
colaboração entre pessoas que venham de diferentes regiões e culturas, exatamente pelo
reconhecimento desta origem comum, deste coração comum.
Se o objetivo é encarar a vida deste modo e nos unirmos para enfrentar esta tarefa, então o único
problema é nos educarmos para viver assim. A educação é a grande tarefa do adulto, e não
apenas para os adultos que são pais e educadores: o ser humano, enquanto tal, deve ser educado,
porque sozinho não consegue suportar o desafio da realidade, principalmente em um mundo
como o nosso, no qual, como já disse, tudo conspira para que o homem esteja só. Na verdade,
cada vez mais vemos em ação no mundo duas culturas: uma cultura – igualmente na corrente
política de direita ou de esquerda – que quer condenar o homem à solidão, porque assim o
homem fica nas mãos do Poder. E a cultura cristã – que também é compartilhada felizmente
pelos leigos – que defende o coração do homem e seu anseio pela amizade e pela unidade.
Devemos nos dar conta disso para não cair na tentação de pensar que a educação seja uma
temática para especialistas quando na verdade é problema inerente ao homem, que somente pode
ser chamado como tal na medida em que pode ser educado. É verdade que hoje nada e ninguém
mais educa. A família não educa, porque foi destruída pela cultura que relega os papéis do
homem e da mulher dentro do núcleo familiar. As profissões não educam, nem o trabalho,
ambiente que, na tradição europeia, sempre foi espaço de educação, no qual a sabedoria e a
competência de gerações de artesãos, camponeses e operários eram transmitidas aos jovens.
Hoje, ao contrário, a cultura da solidão exaspera a competição e a rivalidade, até gerar um
comportamento oposto: “Eu não te ensino as minhas competências para evitar que você ocupe o
meu lugar”. Na Itália, há uma geração de artesãos, de pequenos empreendedores que fizeram
fortuna, que desenvolveram empresas de maneira extraordinária, e hoje estão em dificuldade
para transmitir esse patrimônio aos filhos, porque estes são despreparados, não são adultos, não
são homens, não são maduros. Portanto, na passagem das empresas de uma geração para outra,
observa-se um grande número de insucessos.
Digo sempre aos meus filhos que os bisavôs deles, aos dezoito anos, estavam na guerra, aos vinte
já começavam uma família e aos trinta tinham uma sabedoria ao encarar a vida incomparável
com a dos jovens de hoje, os quais aos trinta anos têm medo do casamento e vivem na casa dos
pais, debaixo da saia da mãe. Penso naquelas mães que, quando olham para seus filhos de dois
ou três anos, dizem: “Mas como é inteligente meu filho, como é esperto!”, e me lembro de mim
mesmo quando meus pais falavam e eu ficava em silêncio. Mas dizer que as crianças de hoje são
mais inteligentes é uma mentira, são apenas hiperestimuladas pela televisão e por tantas outras
coisas, mas são artificiais, não interiorizam nada, não têm juízo ou critério próprio, estão
totalmente nas mãos do Poder, de quem fala mais alto, dos jornais que leem, do que escutam.
Assim, com trinta anos podem ter uma certa opinião pela manhã quando se levantam, podem ter
mudado de opinião ao meio-dia e ter ainda outra diferente à noite. O coração do homem deseja
unicamente conhecer a verdade, enquanto estes rapazes crescem em um relativismo que os faz
dizer: “Bem, seja como for, a verdade não existe!” O coração do homem tem a necessidade de
construir algo de bom; no entanto, é como se estes jovens fossem impossibilitados de construir,
não terminam coisa alguma, e por isso há um ceticismo terrível e um medo grande de enfrentar a
vida.
Perante esta emergência educativa, a nossa tarefa é clara: precisamos arregaçar as mangas e
começar. Portanto, é um sinal positivo a existência de uma iniciativa que tenha como razão de
existir o compromisso com a educação: o fato de que uma escola como esta em que estamos
exista é um sinal de que é possível educar, é um sinal de esperança. Se aqueles que realizam esta
escola – pais e professores – acreditam que seja possível educar os jovens, significa que também
eu posso acreditar em uma educação possível. Dentro de uma escola como esta pode germinar
uma grande companhia de obras, de ações. A mãe que realiza um grande esforço para criar os
filhos sabe que não está sozinha. O trabalhador que se esforça no trabalho sabe que não está
sozinho, e assim nasce um povo.
A grande recomendação que fez Giussani, antes de sua morte, é que volte a existir uma educação
do povo. Ao lado de uma mãe comprometida com a educação de seus filhos nasce uma obra. Ou
seja, as pessoas próximas a ela querem se tornar suas amigas e se comportar como ela. Assim se
constrói uma obra. Três amigos que ajudam uma família em crise, que se reúnem para salvar
aquela família, realizam uma grandíssima obra. Um empreendedor que se une a outros para fazer
algo que ajude os jovens a encontrar um trabalho (porque a maior injustiça é não ter um trabalho)
e pouco a pouco dão vida à Companhia das Obras realizam uma obra extraordinária. A
Companhia das Obras é um povo que vive, visível, que constrói obras: é o povo cristão que
considera como amigos todos os homens de boa vontade. Jesus nasceu na estrebaria em Belém
enquanto os anjos cantavam: “Paz na Terra aos homens de boa vontade”. Isso é o cristianismo.
A última observação que quero fazer é uma menção a uma grande aliança com tudo o que de
melhor há na sociedade, porque a educação deve ser afirmada como tarefa prioritária da
sociedade, da família, de cada adulto. É preciso movimentação social, mesmo em âmbito
político, para a defesa dos direitos da pessoa e, portanto, da mais indefesa, que é a criança. O
grande direito da criança é ter perante si um adulto que dê o testemunho da positividade da vida,
o único verdadeiro delito com relação à infância é a falta de esperança. Deve ser um movimento
de todos os adultos, de trabalhadores, de pessoas com diversas origens culturais e sociais, de
todos os homens de boa vontade, que se unem para assumir esta responsabilidade.

1 A CdO é uma associação com o objetivo de ajudar empresários, organizações sem fins lucrativos, gestores e profissionais a
desenvolver empresas e atividades profissionais para o bem de todos. cdo.org.br
8. Aprendizagem: uma relação de amor
Encontro organizado pela Fundação San Benedetto
Lugano, 29 de setembro de 2004

Videoconferência da Companhia das Obras com as escolas da América Latina


29 de julho de 2004

No que diz respeito ao professor, a educação passa através da instrução. Não há um momento no
qual se educa e outro no qual se instrui. Não existe. Seria uma esquizofrenia.
Eu, que sou professor de italiano, educo na medida em que ensino italiano. Darei um exemplo
muito simples: se me encontro perante um menino faminto de Serra Leoa, dou-lhe um pedaço de
pão. Diante de um menino que tem fome, ofereço um pedaço de pão. Do contrário, como eu
deveria educá-lo? Dizendo-lhe – e, quem sabe, mostrando-lhe o pão para que me ouça: “Tenha
paciência, antes devo te explicar quem é Deus, o que é a Igreja, a moral cristã e te batizar…”?
Não! Dou ao garoto o pão e pronto. A questão é a consciência que eu tenho ao lhe dar aquele
pedaço de pão. É como a mãe que amamenta seu bebê: dá o leite e ponto; mas há maneiras e
maneiras de amamentar. Existe um modo pelo qual, mamando o leite, o bebê mama todo o amor
de sua mãe, juntamente com o leite, ingere o sentimento de positividade vivido pela mãe. Existe
outro modo no qual, ingerindo o leite, se contamina com um sentimento negativo em relação à
existência. Há modos e modos, mas a mãe dá o leite ao filho sem lhe dar sermão sobre os valores
da vida para quando for adulto: tudo depende do sentimento que a mãe tem por si mesma e pelo
mundo.
Então, se me chamam para ensinar italiano, devo ensinar italiano; não devo fazer sermões. O
problema é que há um modo de encarar o ensino do italiano através do qual a garotada,
inesperadamente, abre os olhos: “Mas, então, estudar é interessante!” A partir daí, são eles que
levantam questões, são eles que fazem perguntas: “Você, professor, de onde vem? Por que diz
essas coisas?” Se eu chegasse à sala de aula massacrando os alunos, com a pretensão de ensinar a
Divina Comédia, como é a sua estrutura, os cânticos, as rimas, as referências, a retórica… A
garotada enlouquece e, dali a meia hora, desiste. Uma vez que eles não podem fazer nada contra
mim, fazem contra si mesmos, se anestesiam, se perdem, se drogam… Se, em vez disso, entro
em classe e digo: “Rapaziada, quando tinha a idade de vocês, descobri que Dante falava de mim,
e saibam que talvez ele fale também de vocês”. Mesmo que olhem e digam: “Não fale bobagem,
professor”, eu começo a contar a minha história. Quem sabe conto a eles que durante um verão,
no final do primeiro ano da escola média, eu trabalhava de garçom em um botequim de Bérgamo
(na época era assim, trabalhava-se no verão para dar uma ajuda no sustento da família), com
choros e lágrimas sem fim, porque, aos doze anos, morar na casa dos patrões de segunda-feira a
sábado não era uma coisa muito fácil. Enquanto eu ia para cima e para baixo pela escada da
cantina, carregando engradados de água muito pesados, me veio à mente, de repente, um verso
de Dante, aquele que a professora de italiano tinha feito a gente decorar. Nesse verso, o trisavô
de Dante, Cacciaguida, prevê o exílio do poeta: “Sentirás quanto amarga; quanto anseia / O sal
de estranho pão; que é dura estrada / Subir, descer degraus da escada alheia”.1 Chorei,
emocionado, nos degraus da escada, porque percebi a minha própria experiência narrada por um
homem do século XIV, que em três versos tinha fotografado aquilo que estava acontecendo
comigo. Então, quando voltei para casa corri para ler Dante, e depois Leopardi, e depois
Pirandello, e tornei-me professor por causa dessa descoberta, porque toda a literatura fala de
mim, e é entusiasmante ler, porque compreendo a mim mesmo, reconheço a mim mesmo e
reconheço os outros.
Assim, quando vou dar a minha aula, digo: “Pessoal, escutem essa: ‘Da nossa vida, em meio da
jornada, achei-me numa selva tenebrosa’.2 Aí está! Quando vocês vão dormir à noite, aflitos, às
lágrimas, porque há algo errado, porque as expectativas de vocês foram decepcionadas, quando
percebem que a esperança de felicidade depositada no final de semana não se realiza, vocês não
têm a sensação de estar ‘numa selva tenebrosa’? Essas palavras não exprimem exatamente o
sentimento de vocês? A vida é uma selva tenebrosa onde não entendemos coisa alguma”.
Então a garotada diz: “Poxa! É verdade!”, e agora são eles que gostariam que a aula não acabasse
tão cedo, e me visitam em casa à tarde para prosseguir com a leitura. Então vamos juntos nessa
viagem com Dante, percebendo que existe um modo de ver as coisas, e que existe um ‘bem’,
representado na colina iluminada pelo sol e no desejo de chegar ao topo, mas Dante não
consegue porque uma loba, um leão e um lince – é dizer, o pecado, a fragilidade de cada um – o
empurram com força para trás, até que ele emite aquele grito magnífico, “Miserere!”, “alguém
tenha piedade de mim!” Poderia haver algo mais bonito para dizer a respeito de si mesmo?
Refiro-me exatamente a isso quando digo que eu educo ensinando a minha matéria, também
assim o fazem os pais indo ao trabalho, ou desempenhando os afazeres da casa: para educar, as
palavras servem pouco. Vivendo o que nos é dado viver, damos um testemunho educativo.
O que os professores deveriam fazer? Deveriam se comportar desse modo, deveriam se ajudar
para trabalhar dessa maneira que tentei descrever. Fim de papo. Considerando que sozinhos não
realizamos nada, não venceríamos um desafio desses, então o dever dos professores é se
ajudarem mutuamente. Quando foi a minha vez de enfrentar o problema de ser um bom
professor, sempre pedi ajuda, procurei alguns amigos professores e pedi: “Me ajude a preparar a
aula sobre Ariosto”, ou Maquiavel, ou qualquer outro. Pedia que eles me explicassem o jeito
como faziam, o que acontecia em sala de aula. Os truques do ofício se aprendem: se alguém já
teve uma boa ideia, em vez de cada um levar dez anos para descobrir por conta própria, basta
pedir que nos conte. Assim, tudo fica mais fácil, certo? É preciso estar entre amigos: foi sempre
sustentado por uma amizade que procurei ensinar, como narrei até agora.
A primeira coisa que essa amizade sugere é que você educa a meninada antes mesmo de começar
a falar em sala de aula. Sabemos bem o que nossos filhos dizem quando retornam a casa, depois
do primeiro dia de escola ou depois de uma hora de aula: “Pai, com o professor de italiano, esse
ano não vai ser brincadeira, mas com o de matemática posso até nem abrir os livros que dá no
mesmo…” A garotada é assim, são incríveis, em um piscar de olhos nos fotografam. Você revela
aquilo que é mesmo sem querer: pela maneira como entra em classe, pelo jeito como dá bom-dia,
por como se veste, ou como trata a turma…
Para dar um exemplo: como se faz para ensinar aos rapazes a organização e a beleza? Explicando
que eles têm o direito de viver em um belo ambiente, e, portanto, deixar papéis e inúmeras
porcarias espalhadas por aí seria uma estupidez. E assim, a cada dia, você inventa algo novo.
Certa vez, em uma classe, eu disse: “Não entro neste estábulo, vou ao bar, me chamem quando
estiver limpo”. Enquanto eles não foram à manutenção da escola pedir vassoura e balde e não
limparam a sala, não retornei. Quando me perguntaram o motivo, respondi: “Porque vocês têm o
direito de viver em um belo lugar, não pode ficar tudo uma porcaria assim, vocês não são porcos,
têm um direito enorme à beleza, por isso a sala deve estar em ordem”. Em outra ocasião, você
percebe que discutir com os alunos seria improdutivo e, então, tenta algo diferente: você mesmo
limpa. Ao verem o professor no corredor, durante o intervalo, recolhendo a sujeira, ficam
envergonhados. Até que um aluno o ajuda. Você venceu. Venceu todos eles. Esse é o tipo de
coisa que se compartilha entre professores. É preciso ter amigos que nos ajudem a manter um
olhar altivo.
Desse modo, criamos o ambiente escolar, instruímos, lidamos com o conhecimento das matérias
e da realidade como um caminho rumo à verdade, que é realização da única coisa da qual a
garotada necessita: que, através do ensino, através das matérias, se consiga passar um grande
valor pelo qual vale a pena viver.
Sempre me impressionou que os medievais chamassem as matérias, isto é, os diversos modos de
conhecer a realidade, de trivium e quadrivium, três vias e quatro vias: as formas do saber. Os
pontos de vista com os quais enxergamos a realidade são vias, estradas em direção ao único
significado que todos procuram e que dá sentido a tudo. Na verdade os medievais chamavam as
matérias “servas da teologia”, serviam todas para chegar ao conhecimento de Deus e de si
mesmo.

Outro aspecto que me parece importante sublinhar é que a aprendizagem acontece só em uma
relação de amor e afeto. Na vida, aprende-se somente aquilo que de algum modo já amamos.
Não existe relacionamento educativo senão dentro de uma relação de amor. É mesmo uma lei da
dinâmica do conhecimento. Como se faz para que um garoto se apaixone pela física, pela
astronomia, pela geografia? E por que a garotada tem dificuldade em aprender as coisas? Porque
não está presente a cola que faz grudar neles todas as coisas que dizemos. Qual seria essa cola
que mantém grudadas neles as coisas que dizemos, ou seja, aquilo que chamamos de matérias ou
disciplinas? É o interesse pelo sentido do todo. Antes de exigir: “Faça de mim um engenheiro,
faça de mim um mecânico”, o jovem que observa você interroga (ainda que não admita, é
verdade): “Por que você está no mundo? Faça-me entender por que vale a pena me esforçar,
estudar, fazer as coisas. Deve haver uma razão que justifique tudo.” O entusiasmo da explicação
proposta pelo adulto é o que faz grudar, aderir, é o que faz aprender. Pensemos na palavra
aprender, aprendizagem: significa fixar, aderir, grudar, colar em si mesmo as coisas. Sem essa
cola, nada pode resistir. Sem um adulto que, através do que ensina, saiba mostrar as razões da
própria esperança, as razões do próprio entusiasmo, as razões da própria felicidade, os jovens
não têm razões suficientes para aprender as coisas na escola.
As coisas que alguém nos diz ficam grudadas, aderem em nós, na proporção do relacionamento
que vivemos com esse alguém, e de quanta “cola” há. No relacionamento educativo, essa cola é a
intensidade do apreço que o aluno sente que nutrimos por ele. Um garoto que parece ter
dificuldade em uma matéria, e que mesmo se esforçando não aprende, dentro de uma relação
afetiva significativa pode aprender muito e velozmente.
Na Itália, temos muita dificuldade para ensinar inglês; os jovens, às vezes, parecem
completamente incapazes para aprender idiomas estrangeiros; mas, quando escutam uma canção
em inglês que lhes agrada, aprendem imediatamente: isto significa que eles conseguem aprender
inglês. A diferença está no fato de que, de um lado, entra em jogo o interesse dos jovens pela
realidade e, do outro, ele fica de fora. O problema é que toda a pedagogia moderna, toda a ideia
moderna de ensino pretende excluir exatamente o aspecto do relacionamento que, na verdade, é
decisivo: se imaginarmos, como já se teorizou, que o dever da escola é instruir e não educar,
sem dúvida a escola será devastada.
Nos dois mil anos de história da Igreja, houve períodos de barbárie nos quais a própria ideia de
paternidade fora atacada, ainda que provavelmente nunca de maneira tão radical e grave como na
cultura moderna, quando no mundo inteiro se trabalha para destruir o Pai Eterno e, por
consequência, o pai terreno. Em condições similares, a tradição da Igreja pensou em chamar de
“pai” o padre/sacerdote: ainda hoje chamamos de “pai” o sacerdote, o consagrado, e chamamos
de “mãe” as freiras. Isso quer dizer que a Igreja sempre percebeu a sua própria presença e, em
particular, a presença dos próprios consagrados como fonte de uma possível maternidade e
paternidade. Portanto, cada cristão é pai ou mãe, mas, ainda mais surpreendente: são pai e mãe
cada um daqueles que se consagram na Verdade, isto é, quem se consagra em Cristo, em um
mundo no qual já não há pais. Se é assim, então o papel que temos no mundo é ser uma casa
onde haja um pai e uma mãe.
Isso é tão verdadeiro que, em certo ponto da minha vida, Giussani foi um pai para mim, mais do
que o meu próprio pai. Aliás, o relacionamento com Giussani foi uma possibilidade de descobrir
e valorizar o relacionamento com meu pai. Então, a única coisa que posso dizer aos professores
que vivem em uma sociedade sem pai e sem mãe é: “Sejam vocês mesmos pais e mães para
todos os seus alunos. Que as nossas escolas sejam casas onde essa paternidade possa ser vivida.
Isso, talvez, ensine inclusive aos adultos que vocês vão encontrar a serem um pouco mais pais e
mães”.
A minha experiência de professor me fez viver na pele essa situação. Uma vez, no primeiro dia
de aula do quarto ano de Técnico em Contabilidade, entrando na sala, vejo uma menina sentada
no chão. Nenhum professor tinha conseguido convencê-la a sentar-se na cadeira. Passava todas
as manhãs sentada no chão e, por um tique nervoso, arrancava os cabelos e as sobrancelhas, de
modo que estava já um pouco calva. Ninguém conseguia convencê-la. Comecei a fazer meu
trabalho, as minhas aulas sobre Dante (para variar). Pouco a pouco, vi que a coisa lhe
interessava: começou a levantar a cabeça. E então, noutra ocasião, deparei-me com ela um pouco
erguida e, mais tarde, totalmente de pé, até que finalmente sentou-se na cadeira. Tempos depois,
descobri que ela gravava, escondida, todas as minhas aulas e, em casa, as transcrevia. Dois anos
depois, quando ela realizou o exame de conclusão da escola, me presenteou com um grande
embrulho com cadernos enormes onde havia transcrito todas as aulas durante aquele período.
Quando lhe perguntei o porquê de tanta dedicação naquele trabalho de transcrever palavra por
palavra todas as aulas, ela me respondeu: “Porque é belo, porque essas coisas são belas!”
Tínhamos nos tornado um pouco amigos; sua mãe veio me encontrar dizendo: “Vejo que minha
filha, desde que conheceu o senhor, está um pouco mais alegre. O senhor poderia ajudar? Não sei
mais a quem recorrer para remediar esse vício de arrancar os cabelos”. Eu conhecia um centro de
consulta psicológica (aquele caso tinha real necessidade de intervenção) e lhe recomendei.
Passado um mês que a menina frequentava esse centro, a mãe torna a me procurar com o laudo
do psicólogo, que dizia o seguinte: “A menina tem um grave problema de conflito com a figura
paterna (o pai a tinha abandonado), do qual o professor Nembrini tornou-se substituto.
Aconselha-se o imediato afastamento da escola e de toda a possibilidade de relacionamento com
o referido professor”. A mãe estava em lágrimas: “Que faço? Minha filha fica melhor quando o
senhor ajuda um pouco”. Respondi: “Senhora, faça o que achar melhor… no seu lugar, eu
rasgaria essa carta. Depois, vamos em frente e vemos como ficam as coisas”. No fim, aquela
menina se curou: teve um casamento feliz, formada em Letras Modernas com nota máxima na
Universidade Católica de Milão, e eu sou o padrinho de um dos seus filhos. Que aconteceu com
aquela menininha sem pai? Encontrou um adulto que (na medida do possível, porque, como já
disse, somos o que somos, fazemos o que podemos e não conseguimos estar em todos os lados
ao mesmo tempo) lhe disse: “Olha, eu estou aqui, não sou seu pai, mas juntos podemos caminhar
uma parte do caminho”.
Vocês podem imaginar centenas de professores que tratassem assim as turmas? Dentre a nossa
garotada, são cada vez em maior número aqueles que não têm um pai, ou têm um apenas de faz
de conta. Devemos ter capacidade de dizer a eles: “Pessoal, não sei se vocês têm um pai ou uma
mãe, mas juntos podemos caminhar uma parte do caminho!” Essa é a paternidade que todos
podemos viver, oferecendo possibilidade inesperada também aos rapazes que não têm um pai.
Somos todos “pais putativos” de toda a humanidade. Cada um é responsável do jeito que pode.
São milhões de crianças sem pai, mas o Pai Eterno pensará em todos: eu respondo por aquilo que
compete a mim.
Assim, a escola, cuja tarefa específica é a instrução, se encarrega também daquele nível de
educação que a família não desempenha mais. Sendo muito realista, porquanto a escola tem uma
modalidade, um tempo e um espaço de trabalho que são seus, e não são como os da família. Mas
quando vivemos o ensino dessa maneira, frequentemente a família se sente interpelada e,
acompanhada pela escola, pode reencontrar o seu papel educativo. Hoje, com frequência, ambos
os pais trabalham e, à noite, querem manter a vida despreocupada que tinham antes do
casamento, segundo aquele modelo “juvenil” que, hoje em dia, todas as mídias tendem a impor
como o único modelo de vida que vale a pena, e então transferem a educação para a escola.
O papel da escola é procurar estabelecer as atividades de modo a não favorecer essa
transferência, por exemplo, estabelecendo o horário escolar somente pela manhã, fazendo com
que quem pode voltar para casa o faça. Por outro lado, com frequência, os pais realmente
precisam de ajuda para realizar a tarefa deles: é necessário apoiá-los e, ao mesmo tempo,
responsabilizá-los, lembrando-os de que são os melhores pais para seus filhos, quem sabe pondo
em prática estratégias que os ajude – como se faz, por exemplo, na minha escola, com seminários
para os pais. Com o passar do tempo, isso tem se demonstrado muito útil, alguns pais nos dizem:
“A experiência, nessa escola, tem se mostrado mais importante para mim do que para os meus
filhos”.

Claro, para que o ensino seja vivido dessa maneira, é necessário que haja uma parceria, uma
cumplicidade entre os professores, uma amizade verdadeira. Não podemos gerar se não formos
gerados, e isso não acontece de uma vez por todas, mas está em jogo a cada momento na vida.
Isso quer dizer que um colégio docente, uma comunidade de professores não pode deixar de
interrogar-se, avaliar-se, acompanhar-se, averiguando continuamente o modo de educar, através
do próprio trabalho. É a mesma regra que vale para as crianças: uma vez que não pode existir
uma classe, senão em torno a um professor – porque um grupo de alunos deixados por conta
própria não pode ativar um acontecimento educativo –, do mesmo modo, um grupo de
educadores não pode deixar de ter uma referência que aponte um critério, que ampare e corrija o
trabalho. Entre o aspecto organizativo e o aspecto existencial, há uma profunda analogia: para
que uma escola funcione, deve ser guiada por alguém que dê forma à instituição e tome decisões,
bem como, do ponto de vista existencial, deve haver alguém a quem possamos observar, através
do qual minha liberdade será provocada e educada. Se não há alguém que viva essa experiência,
é melhor fechar a escola, para evitar causar maiores danos. Do contrário, se há quem viva essa
relação de amizade, então ao redor deles, pouco a pouco, podem nascer também professores,
mesmo que inicialmente não tenham vivido uma experiência educativa desse tipo.
Um pequeno grupo de professores, que viva uma amizade assim, torna-se, então, capaz de
descobrir e valorizar todos os instrumentos à disposição, de aprender a partir do que outros
fizeram antes deles. É a eterna questão das “competências”, das específicas capacidades
profissionais que um professor deveria ter. É claro que tudo o que dissemos até agora, quando é
posto em prática, necessita de uma forma muito precisa: não há nada que possa ser vivido,
comunicado, senão dentro de formas precisas. É como ter que levar água de um lugar para o
outro: para deslocar a água, é preciso que ela tome uma forma, é preciso colocá-la dentro de um
recipiente, senão, no máximo, conseguirei levar algumas gotas que ficam grudadas em mim, mas
a água eu não mudo de lugar.
Então alguém se põe a estudar, lê alguns livros, se põe em movimento para aprender como outros
fizeram para ensinar isto ou aquilo: seria estúpido ter que descobrir tudo de novo, sozinho, sem
tirar proveito daquilo que outros já realizaram. No entanto, as formas devem permanecer
instrumentos, em relação aos quais temos de permanecer livres, avaliá-los, mudá-los
constantemente, corrigi-los. A primeira condição é ter coragem de arriscar, tentando inventar
instrumentos e modalidades com os quais aquilo que dissemos pode ser vivido e comunicado. A
rede de relacionamentos que cada um vive é o primeiro grande recurso no qual investir: não
conseguiríamos nem ao menos copiar aquilo que fazem outras pessoas, senão como uma ajuda,
uma tentativa para nós mesmos fazermos depois. Copiar somente é perigoso, tornamo-nos
rígidos e violentos. No entanto, observar um exemplo e tentar pô-lo em prática, a partir da
própria situação, é mais interessante.
Sempre com muito realismo: não iremos salvar o mundo! Façamos o que podemos e, depois,
vamos dormir tranquilos. São Francisco Xavier tinha este lema: “Zarpar pelos mares, salvar uma
alma e depois morrer”. Dá e chega! Madre Teresa de Calcutá, com o mar de necessitados que
encontrava, quando um jornalista lhe perguntou: “Se tivesse de escolher duas ou três coisas para
mudar, o que mudaria?”, respondeu: “Pediria para mudar o meu coração e o seu”. É a grandeza
dos santos, que sabem que é a Providência de Deus quem realiza tudo, não somos nós.

1 “Tu proverai sì come sa di sale lo pane altrui e come è duro calle / lo scendere e ‘l salir per l’altrui scale” (Dante Alighieri,
A Divina Comédia, Paraíso, XVII, vv. 58-60, op. cit.).
2 “Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura” (Dante Alighieri, A Divina Comédia, Inferno, I,
vv. 1-2, op. cit.).
9. Avaliar: afirmar o valor do outro
Palestra ao grupo de docentes da Escola La Traccia
Calcinate (Bérgamo), 3 de setembro de 2010

No trabalho dos professores, a questão da avaliação é de grande relevância, porque o modo como
avaliamos também determina o modo como acompanhamos o percurso de cada aluno. Então é
necessário dedicar uma reflexão profunda a essa questão.
Para começar, observemos que os termos que usamos no cotidiano do nosso trabalho como
professores são todos termos positivos. Tomemos a palavra avaliar. Avaliar significa, antes de
tudo, reconhecer um valor, reconhecer e afirmar o valor do outro e o valor da realidade como um
todo. Quando alguém avalia, “dá valor” para as coisas, reconhece imediatamente, percebe, no
momento em que abre a porta da sala de aula, o valor que o outro é. Não o valor que o outro
“tem”, como se lhe fosse atribuído por alguém, ou pudesse não ter nenhum valor, mas o valor
que o outro “é”.
Pensemos na palavra verificar, termo ainda mais incisivo. O que quer dizer verificar? O que quer
dizer fazer uma verificação? Verificar quer dizer verum facere, “tornar verdadeiro”. Tornar
verdadeiro o quê? Tornar verdadeiro a quem? Verificar quer dizer: ajudar o outro a aderir ao
verdadeiro, a aderir à verdade, a reconhecê-la, isto é, tomá-la para si. Verificar é uma operação
através da qual o aluno é acompanhado a aderir à verdade, a reconhecê-la, a fazê-la própria, a
tomar para si aquele pedacinho de verdade que está contido nas coisas, na proposta que você lhe
apresenta, nas coisas que você lhe ensinou. Inclusive o termo corrigir quer dizer “sustentar”,
ajudar a caminhar, dar suporte, cum regere, andar juntos, ajudar-se a caminhar; literalmente,
ajudar-se a estar de pé ou a não deixar cair. Avaliar, verificar, corrigir são três modos para
afirmar uma positividade.
A avaliação nunca tem um valor punitivo, não tem nunca valor ou significado de condenação do
outro, mesmo quando se trata de dar uma nota baixa ou de reprovar. Porque se pode dar uma
nota baixa ou reprovar pelo bem do outro, para afirmar o valor do outro, para acompanhá-lo,
para ajudá-lo. Exatamente como quando você dá um remédio amargo, como quando você corta
com o bisturi, ou quando você dá uma palmada se é necessário. A avaliação é operação sempre
positiva, nunca negativa, nunca punitiva.
Por esse ponto de vista, a avaliação coincide com a educação, porque avaliar, isto é, dar um
juízo, é reconhecer um valor. Reconhecer o valor não é uma operação que você faz uma vez ao
mês, quando se realiza uma tarefa em sala de aula, não é uma operação extemporânea que você
realiza uma vez ao ano, ou quando acontecem os conselhos de classe. Se é verdade o que
estamos dizendo, o professor avalia – reconhece o valor do outro – sempre.
Reconhecer o valor do outro é inerente ao relacionamento entre as pessoas, não é algo que
fazemos em certos momentos sim, e em outros não. Em ocasiões específicas, você fará provas e
avaliações; em certas ocasiões, você vai medir, também de um ponto de vista quantitativo, um
resultado, uma aprendizagem. Mas a avaliação como reconhecimento e afirmação de valor, como
suporte ao outro para que possa seguir em frente, é um procedimento que você realiza a cada dia,
que você faz sempre, é parte do relacionamento educativo, é inerente à relação de educação.
Pensem no modo como os pais observam seu filho sempre: mesmo quando o filho dorme,
também quando o filho não está fazendo nada, desde quando ele existe, pelo simples fato de que
existe, é um pensamento sempre presente, uma atenção sempre presente. É como se, quando os
pais estão fazendo alguma coisa, com o rabo do olho, observassem sempre o filho, observassem
aquilo que amam, tivessem sempre em consideração aquilo que é importante. Os pais não
conseguem pensar em nada do que fazem senão em função daquele bem, daquele filho, daquela
responsabilidade. É um pouco assim também para nós, professores: o problema é ter consciência
disso.
Por isso queremos nos ajudar a ter consciência de qual condição, de qual postura cultural e moral
exige a tarefa de professor. O nosso ofício, na verdade, exige uma moralidade, isto é, exige esse
tipo de comportamento, de observar os jovens que temos na nossa frente. Se não for para
reconhecer um valor, um bem; se não for para verificar uma verdade; se não for para corrigir,
oferecer uma companhia, é melhor que troquemos de profissão. Porque o nosso trabalho
funciona assim: é um modo de observar, um olhar atento aos nossos alunos.
Recentemente, encontrei Alessandro D’Avenia, que também é professor e autor do livro Branca
como o leite, vermelha como o sangue, e ele me mostrou um exemplo que me impressionou
muito. Disse: “Observava, há algum tempo, o meu sobrinho de dois anos e notei um fato
interessante: quando ele cai, se não se machuca de verdade, não começa a chorar
automaticamente. Ele olha ao redor e observa o adulto. Se nota um olhar assustado, desata a
chorar. Se ele encontra um sorriso, um olhar seguro, levanta-se novamente e volta a brincar”.
Aquela queda, aquele sofrimento é a imagem da necessidade que nossos alunos têm: eles
também caem, se machucam, não sabem das coisas. O ponto de partida deles é uma necessidade,
um não saber, um desconhecimento. A possibilidade para eles de retomada do caminho, para
aprenderem – caminho, aqui, significa aprender algo, tornar-se grande, conhecer a realidade, de
acordo com a particularidade de cada um deles –, é dada a partir do olhar que o adulto lança
sobre eles: se é um sorriso, uma certeza de bem comunicada pelo adulto, o jovem pode aprender.
Pelo contrário, se o adulto tem um olhar assustado, se é dominado pelo medo – depois vou falar
de que maneira, às vezes, somos dominados pelo medo e transmitimos aos nossos alunos,
pequenos ou grandes que sejam – o jovem terá medo e, com medo, não se aprende. Ao contrário,
defende-se do que deveria aprender. É na certeza, na segurança de um valor afirmado, de uma
verdade reconhecida que podemos crescer e aprender, tanto nós, adultos, quanto os jovens.
Resumo este ponto com duas palavras que tenho utilizado repetidas vezes e que me vêm à mente
cada vez que procuro entender por que é tão difícil avaliar! É porque se trata de um problema tão
profundo que não alcançaremos jamais o fim. Se, como disse, avaliar coincide com educar, ou
seja, é uma modalidade de relacionamento entre dois seres humanos, então evidentemente é
impossível chegar ao fim da questão, não podemos jamais imaginar termos compreendido ou
termos experimentado o suficiente: porque é uma coisa que só Deus sabe fazer. Avaliar consiste
no seguinte: que a misericórdia e a verdade possam se encontrar! É a grande promessa que foi
feita aos Homens: o que acontecerá, diz o salmista, qual novidade Deus irá trazer ao mundo no
dia em que vestir panos mortais e for companheiro de estrada do Homem? Acontecerá esta coisa
impossível: “A verdade e a misericórdia se encontrarão” (Sl 84,11) e estarão juntas.
Não é um slogan distante: pensem no que acontece quando avaliamos, quando devemos decidir
quem aprovar e quem reprovar. Os Homens normalmente têm dificuldade para conciliar essas
duas coisas: temos a percepção de que fomos feitos para sermos bons, para vivermos a
misericórdia. Mas é como se, para sermos misericordiosos, fôssemos compelidos a renunciar à
verdade, isto é, renunciar a sermos justos. Por outro lado, quando tentamos ser justos, ou seja,
tentamos afirmar a verdade, é como se devêssemos renunciar a sermos bons. Logo, ao tentarmos
preservar a verdade e a justiça, sacrificamos a misericórdia.
Nisso se resume a dificuldade da educação, aí está toda a dificuldade da formação. Toda a
frustração, todo o desconforto que sentimos quando estamos no conselho de classe e devemos
decidir, é um desconforto infinito. É como se sentíssemos em contradição essas duas coisas e
tivéssemos dificuldade em realizá-las contemporaneamente. Pois bem, o desafio que devemos
vencer no nosso ofício é esse mesmo: fazer com que coexistam o amor pelo outro – uma
misericórdia, um afeto, um acolhimento, uma benevolência pelo outro – e uma justiça, um senso
justo das coisas. Poder chamar as coisas com o próprio nome: o bem, bem; e o mal, mal.
Para podermos desempenhar essa atividade, devemos reconhecer o que está presente e o que
falta: o erro, mesmo aquele grave, pode ser olhado com amor. Assim conseguiremos superar a
dicotomia que, com frequência, vivemos, que se reflete na percepção que os estudantes têm de
que os professores se dividem em bons e maus. Os bons são aqueles que, no fim, fecham um
olho (o da justiça), e os maus são aqueles que fecham o outro olho (o da misericórdia). Mas isso
seria uma falsa atitude de bom-mocismo, incompleta e genérica, como se, no fim das contas,
disséssemos: “Não tem problema, não faz mal…”, o que impede o crescimento. Esse bom-
mocismo, o sentimentalismo, o “tapinha nas costas” não levam a lugar algum; ao contrário,
travam. Parece bondade, mas na verdade é uma maldade, porque impede a verdadeira correção;
isto é, trava o caminho, impede o desenvolvimento.
Esse bom-mocismo é o problema mais difundido hoje nas famílias. Temerosos e assustados do
próprio dever, os pais procuram eliminar toda ocasião de dificuldade dos filhos e, assim,
impedem o crescimento deles, que permanecem crianças até os trinta anos. Essa falsa
benevolência não dá nada em troca, não vale a pena, não tem nada a ver com a educação.
No entanto, aquele modo duro de ser também não tem nada a ver com educação, aquele modo de
afirmar a verdade e a justiça sem misericórdia, no qual nos tornamos escravos da lei. As regras:
“Eu dei a você o que devia, agora é contigo, o problema é seu. Já cumpri com a minha obrigação,
agora é a sua vez, eu me limitarei a medir se você consegue realizar os seus deveres”. Agir dessa
forma é uma grande tentação, já presenciei em muitas famílias que se refugiam nas regras! O
atalho mais rápido dos pais e dos professores quando se refutam a educar é a lei, a mera
aplicação das regras.
Os dois atalhos de quem se nega a educar são estes: um genérico, algo do tipo “queremos um o
bem do outro, tudo certo…”, o que não leva a lugar algum. Ou então um cumprimento tão rígido
das regras, das tarefas, dos objetivos – uma aferição impiedosa –, que sufoca o outro, afasta-o de
nós, deixa-o sozinho, abandonado completamente. Quem precisa desses atalhos? O adulto que
tem medo de abraçar por inteiro o desafio que é educar, o desafio que é esse relacionamento
educativo. Por que o nosso trabalho é tão cansativo? Por que os professores são a categoria social
mais em risco de esgotamento nervoso? Porque essa profissão requer que sustentemos um
relacionamento, que mergulhemos cada vez mais em sua profundidade e intensidade, com a
totalidade das suas exigências. Ter a capacidade de olhar para uma classe – talvez três ou até
nove classes – desse modo, viver centenas de relacionamentos com os colegas e com os alunos
nesse modo, lidar com esse desafio, torna-se uma tensão moral e psicológica altíssima. Viver
essa tensão, ou seja, viver um relacionamento à altura do seu significado, exige pessoas capazes
de suportar um grandíssimo esforço.
Na verdade, muitas vezes, temos medo, e por isso procuramos ou o atalho da falsa benevolência,
ou o atalho da aplicação estrita das regras. O medo é a verdadeira razão pela qual evitamos a
verdadeira educação e buscamos esses atalhos. Para não ter medo, é preciso estar certo do que se
vive, isto é, que o que tentamos comunicar seja uma experiência vivida, experienciada.
Parece-me que a palavra que contém, ao mesmo tempo, a misericórdia e a verdade seja “amor”.
Contudo devemos despir essa palavra de qualquer concepção adocicada, melosa e sentimental.
“Amar” quer dizer amar aquilo que o outro é e o destino dele. Amar significa afirmar o valor do
outro e carregar, no próprio peito, o destino de alguém e a possibilidade de que o outro floresça
para o bem ao qual foi concebido, para que veja, conheça e possa aderir à verdade e crescer
como pessoa.
Entre esse valor inicial afirmado e o seu destino, há o ano letivo. Há o tempo, toda a ação da
escola e do aprendizado. O tempo, a escola, a aprendizagem são ofertados para que o outro possa
desabrochar para o bem, para a felicidade. A nós, professores, cabe dar os instrumentos e o
apoio: corrigindo, ajudando a sustentar a vida, para que o outro possa aderir à verdade.
Parece-me que a palavra amor – ao valor do outro e ao seu destino – determina a qualidade do
tempo que transcorre e, portanto, do agir cotidiano. É por isso que avaliamos sempre! Se avaliar
é olhar para si mesmo e para os garotos que foram entregues em nossas mãos, não
interrompemos nunca essa ação, nem mesmo quando vamos dormir, nem quando vamos para
casa após o horário escolar.

Usando uma frase talvez um pouco dura, mas significativa, poderíamos dizer que, na avaliação, a
alternativa é entre a redenção e a chantagem.
Há um modo de avaliar que é realmente libertador, uma possibilidade de realizar o bem do outro.
Ao realizar as tarefas em sala de aula, ao fazer as provas, ao chamar os alunos à lousa, mantendo
sempre um certo olhar sobre eles. Um olhar que, a cada dia, é uma maneira de realizar o bem do
outro – e, consequentemente, o nosso próprio bem –, uma grande possibilidade de fazer com que
eles deem um passo em frente, rumo ao seu destino. Se avaliar é confirmar o valor do outro, se é
esse acompanhar o crescimento de alguém, vê-lo dar um passo, mesmo que pequeno, é motivo
de alegria, é algo que dá sentido ao cotidiano e ao esforço que fazemos.
Ou avaliar – estou falando das notas, dos nossos registros – é essa possibilidade de bem, de
redenção para os alunos e para nós, ou então é uma extorsão, um exercício de poder, de
autoridade – no fundo, é uma violência. Existe um modo de crucificar o outro ao próprio limite, à
própria necessidade, à própria ignorância, àquilo que não sabe, e aos erros que comete. Esse
modo de avaliar tranca o outro na prisão do próprio limite. No fim das contas, pela posição
institucional que ocupamos, um poder exercido, uma autoridade, uma condenação, uma
violência.
Não poderia nos fugir à memoria, diante de uma temática como essa, a frase de Jesus: “Não
julgueis, e não sereis julgados” (Lc 6,37). Avaliar poderia parecer o oposto, avaliar é julgar. Em
que sentido Jesus convidou todos a não julgar? Ele nos alertou que, com a mesma medida com
que julgarmos, seremos julgados, e isso deveria nos fazer estremecer: há um modo de julgar e
avaliar o outro que é crucificá-lo aos seus limites e às suas necessidades, ao seu mal e ao seu
erro. Esta é a razão, creio eu, também existencial e psicológica, pela qual os rapazes odeiam a
escola. Por que se odeia a escola? Por que se odeiam os professores? Por que não se aprende?
Porque se está sob o peso dessa chantagem, isto é, dessa violência. Ao contrário, num olhar
como o que descrevemos antes, há uma possibilidade de resgate, de salvação, de redenção e de
bem, a partir do qual nasce a vontade de aprender e de conhecer cada vez mais.
Procuremos entender melhor. Julgar é o ato mais humano que existe: os animais não julgam; os
Homens, sim. Então, somos impelidos a julgar, e “avaliação” é o nome que, na escola, se dá a
um ato de juízo: afirmar, estabelecer um valor através de instrumentos avaliativos. Pois bem, e
por que Jesus, em algumas circunstâncias, diz “não julgueis para não serdes julgados”, e em
outras ocasiões diz que devemos julgar, como quando, por exemplo, São Paulo diz: “Examinai
tudo e guardai o que for bom” (1Ts 5,21)? É como se dissesse: “Atenção! O Juízo Final cabe a
Deus, a tarefa de vocês, Homens, é julgar sem condenar. Fiquem atentos para que o vosso juízo
não seja o fim do diálogo, uma renúncia à esperança. Não digam nunca: ‘acabou, sem chance’”.
Não façamos confusão: não quer dizer que o professor, no fim do ano, não possa reprovar ou dar
uma nota baixa. Significa apenas que, embora reprovemos ou demos uma nota quatro, o fazemos
realmente para acompanhar o outro, dar suporte ao aluno. Mesmo uma nota baixa pode conter
uma abertura: quando dou uma nota baixa para um aluno, isso me serve de estímulo a fazer de
tudo para entender como ele é, como ajudá-lo a melhorar.
A imagem mais categórica do filme O milagre de Anne Sullivan1 é a angústia de uma professora
quando, olhando para uma garota, se pergunta: “O que posso fazer para me aproximar de você?
Há uma espécie de barreira entre nós, há um muro que nos impede de ter um relacionamento, de
dar a mão à sua inteligência, ao seu coração, à sua dificuldade, e percorrermos juntas uma parte
do caminho. Mas não consigo me aproximar de você”. O tormento daquela professora está no
desejo de descobrir como poder alcançar a garota.
Aquele “não julgueis” do Evangelho se refere a um juízo do tipo: “Chega! Não há mais nada a
fazer, nunca poderei me aproximar de você”. Agir assim seria desistir e condenar o outro à
solidão, e, por isso, é um ato de violência. “Não julgueis, e não sereis julgados” quer dizer “não
fecheis nunca, jamais, as possibilidades”. Como disse certa vez um professor: “Aquele aluno é
meu até o último minuto da última hora de aula”. Não deem por encerradas as possibilidades,
jamais!
Não julgar, nesse sentido, quer dizer perdoar. Quantas vezes o professor é convidado a começar
de novo na relação com o aluno? Sempre, sempre, setenta vezes sete: a toda hora, a cada dia, a
cada momento. É uma dimensão inerente ao relacionamento. Por isso é uma questão moral.
Manter essa abertura, apostar numa possibilidade de bem para o outro, dá forma e conteúdo a
todos os instrumentos que inventarmos para avaliar. É claro que nisso está contida uma
determinada maneira de realizar as tarefas em classe, e de realizar uma prova: não é um ato de
força pelo qual se trata apenas de medir, aferir. É uma possibilidade para que os próprios alunos
verifiquem, ou seja, avancem um passo no conhecimento, avancem um passo em direção à
verdade. Desse modo, o ideal seria que as atividades, que as provas fossem pensadas, estudadas,
adequadas e ajustadas à realidade, a uma determinada classe e, se fosse possível, a cada aluno.
Assim, até mesmo corrigir as provas não será mais um momento de deleite sádico do tipo: “Eu
tinha razão, você é realmente um cabeça-dura…”
É exatamente o contrário: é como o pranto de uma mãe que vê a criança cair e lhe diz “levanta”,
“fica de pé”, e se cai novamente começa a se perguntar, a interrogar-se: “Por que ele apoia o
pezinho assim?”, e talvez leve o filho ao ortopedista. A mãe se mata de preocupação para
compreender qual é o ponto de fraqueza do filho sobre o qual possa intervir: tenta entender,
estuda, se preocupa, recorre à ajuda de quem sabe mais do que ela para identificar aquele ponto
que faria com que seu filho pudesse correr como os outros. Não começa a dar-lhe palmadas
dizendo: “Eu te mostrei como se faz, agora anda!” Todos sabemos o que significa estar diante de
um aluno e, com paixão, tentar entender por que ele não fala e não estuda, por que não dispara o
gatilho, qual seria a sua necessidade realmente…

Prossigo elencando algumas consequências das observações feitas:

Primeira consequência: descobrimos que a postura correta é uma espécie de escolha, de


preferência. Essa preferência é o modo natural e inevitável do relacionamento entre os Homens.
É tão verdadeira, que até mesmo Deus, ao fazer-se Homem, utilizou o mesmo método, caso
contrário não teria conseguido se comunicar: Ele escolheu alguns, deu-lhes preferência, de modo
que aquilo que os escolhidos vivenciassem pudesse ser vivenciado por todos.
Em sala de aula, a preferência está nesse comportamento, a partir do qual você consegue preferir
todos. Como quando eram pequenos os meus quatro filhos e me perguntavam: “Qual de nós você
prefere?”, sempre respondi: “Prefiro todos os quatro”. Existe uma atenção com cada um deles, de
modo que, quando observo um, este deve sentir-se observado como preferido, isto é, com uma
atenção e dedicação absolutas: nesse momento, para mim, é como se existisse só ele. Isso é a
preferência, fazer o outro sentir que, quando você olha para ele, quando está com ele – e se pode
fazer isso também com toda uma classe – você está ali inteiramente para ele, e ele é tudo para
você, como um relacionamento exclusivo. Chama-se amor o fato de que o outro se sente
totalmente entregue a você porque você se entrega totalmente a essa relação.
“Preferência”, aliás, é o nome mais adequado para indicar aquilo que os programas escolares
oficiais chamam de percurso personalizado. Chama-se preferência, um amor capaz de preferir a
todos: você tem a paixão de entender cada um, identificar cada necessidade pessoal, acompanhar
de perto seus passos. Posso entender que existam diversas dificuldades, entendo perfeitamente
que as coisas que estou dizendo abrem uma discussão infinita, mas é justo que sejam objeto de
uma reflexão, de uma elaboração que nunca termina.

Segunda consequência: a avaliação não é jamais ação de uma pessoa singularmente, é sempre ato
de um coletivo. Para sustentar a esperança e o caminho de uma criança, são necessários um pai e
uma mãe. São necessários pai e mãe para dar a vida e, ainda mais, são necessários um pai e uma
mãe para amparar a esperança na vida. Um coletivo, ou melhor, em termos mais profundos, uma
comunidade: aquele que educa, aquele que ampara, apoia e sustenta, aquele que corrige; é
sempre uma comunhão de indivíduos. Mas não só estrategicamente – porque quatro olhos
enxergam melhor que dois –, e sim substancialmente, porque o limite que cada um tem requer o
auxílio e o apoio dos demais: “O que você vê naquele aluno? Que coisa não consigo enxergar e
você consegue?” Colegiado, comunidade, comunhão, significa exatamente que procuramos
aprender uns com os outros.
O Conselho de Classe não é um ambiente no qual defendo a minha ideia, a minha visão pessoal,
ostentando uma armadura de ferro como se fosse uma batalha, porque sei que a diretora vai
defender os alunos que eu imagino que devam ser reprovados. Porém, infelizmente, é exatamente
o que acontece, vamos ao Conselho de Classe com essa postura. Usamos um tom de voz muito
educado e comedido, mas, no fim, cada um tenta afirmar a própria posição, a própria ideia.
Desse modo, justamente no momento de avaliar, nos tornamos maus; em primeiro lugar, com
nós mesmos e, depois, também com os colegas. Justamente o momento da avaliação é, às vezes,
o momento de maior e pior rigidez e austeridade, e de defesa dos nossos pré-conceitos. É claro
que cada professor deve chegar ao Conselho com um juízo, caso contrário, que tipo de professor
seria? Um professor não pode chegar, depois de um ano de relacionamento com o aluno, com a
cabeça vazia. Nesse caso, é melhor trocar de profissão: vamos ao Conselho com um juízo, com
um conceito justificado e fundamentado. Porém o Conselho de Classe deveria ser o lugar onde,
com curiosidade, você pergunta aos colegas: “O que vocês observaram? O que vocês
perceberam? O que entenderam?” Nesse sentido, avaliar é sempre uma operação realizada em
grupo, na qual deve predominar a curiosidade – porque sempre podemos aprender com os
demais, graças a Deus! Há sempre alguém que possui uma genialidade educativa, uma
genialidade no modo de se relacionar, uma sensibilidade em relação ao outro mais aguda e mais
profunda do que a nossa, com quem vale a pena aprender.
Desse modo, nós também “vamos à escola”, aprendemos com os colegas que são mais
experientes e mais sábios, que não necessariamente são os mais velhos, porque não existem
automatismos na vida. Podemos envelhecer e nos tornar sábios, como muitos, ou envelhecer e
nos tornar inflexíveis. A idade nem sempre é sinônimo de sabedoria. Aliás, Deus muitas vezes se
diverte fazendo o contrário: escolhe o último, o mais jovem, e o põe como modelo perante os
mais velhos e os mais antigos da aldeia. Pensemos na escolha do rei Davi, um exemplo que vale
para todas as situações humanas: o Profeta vai até o pai de Davi e pede para conhecer seus filhos
e, observando cada um deles, diz: “Não… este não, nem este, não é ele, nem esse… Você tem
certeza de que seus filhos estão todos aqui?”, “Sim, estão todos aqui, menos o mais novo que
está lá fora cuidando das ovelhas, mas como ele poderia lhe interessar?”, “Vá chamá-lo!” O
garoto que estava lá fora com as ovelhas, que o pai nem levava em consideração, era Davi. No
momento de apresentar os filhos ao Profeta, ele não tinha sequer sido considerado: pois bem,
aquele era o rei. Na vida, graças a Deus, funciona assim.

Últimas três palavras. A palavra “amor” significa um amor pelo valor do outro hoje, agora,
imediatamente, do jeito que é, antes ainda que você possa depositar sobre ele expectativas,
exigências, objetivos, e determina a qualidade do tempo e do relacionamento com o outro.
Avaliar exige tempo, se dá em um relacionamento, com paciência. Jamais podemos perder a
paciência: três anos, cinco anos, seis para alguns… e você não desiste nunca. Trata-se, então, de
entender o que acontece ao longo tempo: qual a relação entre avaliação e tempo? Permitam-me
um exemplo de mau uso da relação entre avaliação e tempo: às vezes, somos tentados a dar a
nota final fazendo a média matemática das notas obtidas ao longo do ano. Eu não consigo
imaginar coisa mais irracional e insensata do que aplicar esse tipo de média na escola. Calcular a
média poderia ser um método racional, mas aqui é inapropriado: por si só é um método justo,
mas aplicado num contexto errado. A abordagem que descrevemos acima afasta a ideia de que o
juízo que você dá seja uma medida matemática daquilo que acontece: nós pertencemos a uma
cultura, a uma concepção da vida na qual o instante presente redime o passado. O valor, a
avaliação, é sempre um valor presente, o valor do momento presente. Se Jesus perante o bom
ladrão tivesse feito a média entre trinta ou quarenta anos de furto, homicídio, adultério e apenas
um momento de bondade, a média não teria sido suficiente para afirmar: “Hoje você entrará nos
céus comigo”. Para nós, é como se a avaliação recolhesse todo o passado e o salvasse. Em suma:
avaliar é salvar hoje, no presente, todo o passado, todo o mal e todo o bem que possibilitaram o
que está acontecendo neste momento, no presente.
Então, avaliar no final do ano é olhar para um determinado aluno pelo progresso que fez, pelo
ponto de chegada naquele momento. Foram necessárias inúmeras notas baixas para atingir a
“suficiência”? Nesse caso, ele é ainda mais merecedor. É como se alguém chegasse ao topo de
uma montanha depois de ter caído inúmeras vezes. Quando esse alguém chega ao topo, você o
abraça e o parabeniza mais do que a todos os outros. Ele caiu dez vezes para chegar até aquele
ponto, mas o que dá sentido ao percurso, redimindo todas as quedas, é ter chegado lá em cima.
Por isso é inútil fazer a média: dez “quedas” mais “chegada” igual a “reprovado”, derrubando-o
montanha abaixo porque não merecia chegar até ali, porque o aluno “deu uma de malandro”, e a
malandragem não deve ser recompensada. Situação corriqueira na escola: “Não aceito que me
tenha enganado, aquele ali não fez nada o ano inteiro e, agora, porque estudou uma semana, dado
que é um gênio, eu deveria aprová-lo? Eu não me deixo enganar, agora eu o farei pagar…” A
nossa desumanidade, a nossa maldade, as chantagens ficam evidentes em expressões desse tipo.
Se em vez disso, nesse caso, pensássemos em como todos nós gostaríamos de ser tratados…

Penúltima observação. Se a avaliação é o que temos dito até agora, pertence também a ela a
responsabilidade no relacionamento com a família dos alunos. Há um problema grave na
avaliação: tendencialmente, o professor e a escola deveriam ser capazes de explicar como se dá o
processo de avaliação e, por isso, capazes de comunicar, envolvendo e tratando com
responsabilidade a família. Não há nada pior do que uma família que se reduz a esperar o
resultado final dos filhos, como uma sentença caída do céu, totalmente afastada do percurso que
o levou àquele resultado.

Por fim, o último ponto. O tema da avaliação abordado de acordo com essa perspectiva fortalece
um profissionalismo. O que foi dito até aqui não estimula em nenhum modo a imprecisão, a
superficialidade e o desrespeito aos instrumentos de avaliação. É exatamente o contrário:
devemos aperfeiçoar tais instrumentos. Os boletins escolares, as notas, entender melhor o que
significa exatamente dar uma nota seis, sete, oito… O amor tem como característica modificar a
realidade até nos seus pormenores. Ou melhor, é exatamente o amor que nos faz atentos a cada
detalhe e, por isso, também a todos os instrumentos. Em contrapartida, no “desamor” tudo o que
dizemos é sem valor, o que fazemos é percebido como burocracia estúpida, formulários a serem
preenchidos, formalismos aos quais devemos nos conformar: montanhas de papéis que não têm
nada a ver com o ofício de professor. Ao demonstrarmos uma falta de afeição em relação aos
instrumentos, transparece uma falta de afeição em relação a nós mesmos e ao outro. Em vez
disso, quando alguém tem afeição por si mesmo, por seu trabalho e pelo outro, melhora e
aperfeiçoa também os instrumentos: torna-se mais profissional, mais preciso, mais atento, mais
criativo. Se não tem os instrumentos, inventa-os.
O que dissemos até agora não é um conselho genérico. Se na prática cotidiana tudo permanecer
igual nem sequer teremos iniciado o processo que descrevemos até aqui. Ficará evidente que
entramos na ótica que apresentei quando soubermos aperfeiçoar os instrumentos, no menor
particular, no mínimo detalhe, estando sempre dispostos a mudá-los, a mandar tudo pelos ares,
porque podemos nos equivocar mil vezes, errar, mas devemos perseguir sempre o instrumento
justo, o mais adequado.

Um exemplo dessa abordagem descrita que me emocionou muito foi o que aconteceu com um
professor: no último período, no último dia de aula de uma turma do último ano do liceu, ele se
pergunta como poderia se despedir adequadamente de seus alunos, após a trajetória de três anos,
na qual justamente o último se revelara o mais difícil e complexo, um fracasso em relação às
expectativas geradas pelo entusiasmo dos dois primeiros anos. O professor assistiu ao apagão
daquela turma. Como se despedir de uma classe que ele acompanhara por três anos e que, no fim,
o deixara desapontado? Então o professor decidiu escrever e presentear os alunos com uma
história. Leio a introdução e a conclusão:
Sentado à sombra de uma oliveira, o camponês desfrutava os raios de sol matutino, o olhar pousara sobre as mãos como se
não fossem suas, objetos nodosos, escuros e repletos de calos. Não recordava nem ao menos o momento em que apareceram
todas aquelas escoriações. Com o passar do tempo, deixou de se envergonhar, de andar por aí ostentando aqueles dedos
grosseiros e encardidos. Eram os instrumentos do seu ofício, o que ele poderia fazer se os dedos haviam se tornado assim
sujos e calejados? Atrás dele, o jardim que o patrão lhe tinha confiado e que em breve ele teria que restituir aguardava
silencioso. “É um bom jardim”, dizia a si mesmo, “me foi dado um bom jardim e espero poder devolver um jardim ainda
melhor”, repetia isso tentando memorizar, imaginando o seu próximo encontro com o patrão. A terra é boa, o gérmen é bom,
isso ele sabia. Não era tão estúpido a ponto de pôr a culpa na terra ou nos brotos se alguma das árvores crescia mal. Era a
propósito um jardim de árvores, e de tanto dedicar-se, com a ajuda de Deus, ele conhecia cada uma delas. Chegou até
mesmo a chamar aquelas árvores pelo nome, tanto que as pessoas se perguntavam se ele havia endoidecido devido ao seu
jardim. Então, respondia, com um cândido sorriso, que o jardim não era seu, e que, se agia assim, era somente porque tudo
aquilo lhe fora concedido em confiança, e não se brinca com o que nos é confiado, ama-se. Levantou-se no dia abafado,
apoiou a enxada sobre os ombros e abriu a cerca, queria entrar novamente para dar uma olhada. Era um belo campo, embora
cá e lá houvesse alguma erva daninha ou folhas caídas: o camponês sabia que o patrão era bom e não fazia caso por
banalidades. “Por sorte – disse sorrindo – por sorte.” E ali está ele apoiado na enxada, na frente do primeiro tronco, como
um escultor faria perante a sua estátua que interrompeu por um instante de liberar do mármore. “Tu és o Fulano”, murmurou
sorrindo…

E prossegue descrevendo as qualidades e os defeitos de cada uma das vinte e sete árvores, isto é,
dos seus alunos. Ele os julga, podemos dizer. Leio somente aquilo que escreveu de um aluno,
que mais do que todos, durante os três anos, o fez penar:
Estava ao seu lado um tronco robusto e selvagem. O camponês sorriu com ternura: “Meu caro, quanto sofri por ti. Nas noites
de tempestade, o furor de teus vigorosos ramos se agitava ao vento, e as outras plantas tremiam assustadas” [Era um rapaz
que batia nos seus colegas]. “Os mesmos agricultores que comigo dividem a renda [o Conselho de Classe] me diziam
frequentemente que eras uma árvore impossível de cultivar. Mas agora tu cresceste. Tu me ensinaste a paciência na aridez e
a alegria dos novos brotos no ramo seco. Tu, mais do que todos, exigiste de mim aprender a antiga arte de escolher as
sementes [isto é, de procurar entender de quais coisas necessitava para aquele momento]. Tu, mais do que todos, me fizeste
mendicante de chuva, e eu sou grato a ti, jovem caule de carvalho. Serás uma grande árvore, porque corre em ti boa água, e
se Deus e tu o quiserdes, muitos virão procurar abrigo, procurar boa sombra embaixo da tua copada”.

E agora, a conclusão:
O camponês calou-se ao vento, depois coçou a cabeça. Estava cansado, sabia que o tempo minguava e que faltava pouco
para restituir aquele jardim a quem lho concedera. E disse às suas plantas: “Eu não conheço o destino reservado a cada uma
de vocês pelo patrão, mas, conhecendo as recomendações e a insistência para que vos desse somente o melhor, acredito
realmente que será grande a vossa estrada e que nos parques e nos belos jardins da cidade, ou talvez nos altos cumes das
montanhas, assentareis raiz. Peço desculpas por estas minhas mãos, por vezes tão rudes, por vezes tão frágeis [verdade e
misericórdia]. Sabeis que não poupei fibra ou calo delas. Mas, agora, eu vejo que em ótima terra fostes inseridas e que bom
é o sol que a cada manhã se derrama sobre vós, como derrama sobre mim, e eu convosco aprendi a aproveitar deste sol, bem
como desta água que sacia a vossa sede e a minha. Assim, agradeço ao patrão que a mim, mísero camponês, deu em custódia
para cultivar, neste local e neste tempo, as suas árvores mais preciosas. Ao dizer isso, o camponês sai do recinto sorrindo.
Outra tarefa o esperava.

Parece-me um exemplo particularmente significativo de que, nessa possibilidade de bem intuída


– e na medida do possível realizada –, exista ainda uma possibilidade de liberarmo-nos do
“resultado”: fazemos o que sabemos fazer com as nossas pobres mãos, mas é um Outro e a
liberdade do outro que decidem. Mas, em linhas gerais, o exemplo desse professor me parece
extraordinário para explicar o que é a avaliação, o que significa avaliar: também esse professor
terá realizado provas, exames, avaliações e terá sido obrigado a decidir reprovar e qual nota dar
aos alunos, terá usado os instrumentos e terá procurado melhorá-los, mas a avaliação que tem
uma posição moral é a contida na história do camponês e suas árvores – o professor e seus
alunos.

1 O milagre de Anne Sullivan, filme de 1962, direção de Arthur Penn e inspirado em um fato real. Conta a história de uma
menina surda-muda e cega na qual a instrutora consegue, depois de uma dura luta, ensinar a menina a se comunicar com uma
linguagem verbal, graças ao tato.
10. Porque me tornei professor
Testemunho à Comunidade dos Colegiais1 de Varese
1 de outubro de 2006

Hoje quero, muito simplesmente, lhes contar como me apaixonei pela literatura e pelo trabalho
de professor.
Não vamos à escola para estudar, mas para conhecer. Para conhecer o quê? Tenho cinquenta
anos, faz trinta que ensino, mas vivo ainda com uma intensidade de certa maneira extraordinária;
hoje, quando me levanto pela manhã, vivo como se ainda tivesse dezesseis ou dezessete anos.
Tudo o que aprendi nos anos que se sucederam foi o desenrolar da questão que de alguma
maneira foi estabelecida quando eu tinha a idade de vocês.
Digo, com frequência, aos meus alunos e aos meus filhos: “Entre os quinze e vinte anos, aquilo
que vocês decidem ser é o que serão para toda a vida. Somente às custas de uma enorme dor,
pode-se mudar quando já na fase adulta. A vida é o desenvolvimento de uma semente, de uma
configuração, de uma posição que vocês decidem agora. Neste momento, vocês estão apostando,
de modo mais sério do que possam imaginar, no futuro de vocês e naquilo que serão por toda a
vida. Desse ponto de vista, vocês são responsáveis, pensem sobre isso, não desperdicem o tempo,
pois passa rápido, e não sabemos quanto tempo temos à disposição – não digo isso para atrair má
sorte, mas a vida é realmente um drama, não sabemos o que nos espera nem de que maneira
iremos encarar, dependerá do que tivermos decidido precedentemente”.
A primeira coisa que posso dizer a vocês é uma intuição sobre o que significa o estudo. Tenham
presente, que ninguém estuda por estudar, ninguém trabalha por trabalhar, e ninguém ama por
amar; o verdadeiro propósito da vida é um amor para consigo mesmo, é uma preocupação com
nós mesmos, é querer realizar coisas grandes: essa é a razão pela qual nos movemos, estudamos,
trabalhamos, amamos, temos filhos, fazemos sacrifícios. Não haveria motivo, se não existisse um
amor por si mesmo, pelo próprio coração, também porque, como diz o Evangelho, não se pode
amar aos outros se não se ama a si próprio: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt
22,39). Parece uma fórmula reduzida, mas sabem por que Jesus não disse: “Amarás o teu
próximo mais do que a ti mesmo”? Porque não é possível: amamos no outro aquilo que amamos
em nós mesmos; amamos no outro o destino bom que descobrimos para nós; amamos no outro as
coisas belas, grandes e verdadeiras que nos foi possibilitado ver e encontrar; se não as amamos
para nós mesmos, não poderemos amá-las para o outro. Não é possível amar se não for assim. A
paixão que temos pelos outros, e pela realidade, é proporcional ao cuidado que temos conosco.
Aí está: alguém estuda porque ama a si mesmo, cuida de si mesmo.
Entendi isso pela primeira vez, quando cursava o primeiro ano da escola média.2 Eu tinha uma
professora de italiano maravilhosa; ela tinha pouco mais de vinte anos, mas era uma grandíssima
professora, apaixonada pelas coisas que ensinava. E eu, no primeiro ano da escola média, o que
esperariam que eu fizesse? Quando devíamos estudar, se estudava! Até decorando algumas
coisas, memorizando, mesmo sem entender bem por que era preciso decorar. Entendi, depois,
naquele verão, porque meu pai adoeceu gravemente e eu, do primeiro ao último dia das férias,
trabalhei na cidade de Bérgamo como garçom em um botequim, das seis da manhã de segunda
até as oito da noite de sábado, pernoitando na casa dos patrões. Foi o meu primeiro exílio: foi
difícil e cansativo, eu chorava, também porque eram “patrões à moda antiga”, e, depois de
trabalhar doze horas ao dia, eu ficava esgotado com a situação.
Uma noite, terminada a jornada de trabalho, me pediram para organizar um carregamento de
caixas de água e vinho recém-chegado. O trabalho consistia em levá-las ao depósito, um porão
escuro, que tinha acesso somente por uma escada muito íngreme: eu fiquei mal e chorava.
Nasceu ali – sinto a presença daquele momento como se fosse agora – a minha descoberta da
literatura, e a descoberta de por que valia a pena estudar e memorizar. A memória é realmente
uma coisa fantástica, é um depósito no qual você põe material e depois ela funciona sozinha, no
momento oportuno, pescando aquele verso, aquela poesia, aquela recordação que será útil para
iluminar a experiência que você estiver vivendo: essa é a coisa grande que faz a memória. Se o
“depósito” da memória estiver vazio, perante a realidade não virá nada em sua mente; no entanto,
se o “depósito” estiver cheio de coisas belas que você estudou, memorizou, a vida se tornará uma
coisa inacreditável: qualquer coisa que ocorra, a memória buscará aquele verso que te ajuda, e
ilumina o que estiver acontecendo com você no presente.
Então, quando eu estava descendo por aquela escada, na metade do caminho, me vi fulminado
por uma estrofe de Dante: de repente, me veio à cabeça um daqueles enfadonhos pedacinhos da
Divina Comédia que eu havia decorado. É uma passagem da obra na qual Dante encontra o
trisavô Cacciaguida, que, profetizando-lhe o exílio – semelhante ao meu, longe de casa – lhe diz:
“Sentirás quanto amarga; quanto anseia / O sal de estranho pão; que é dura estrada / Subir, descer
degraus da escada alheia”.3 Fiquei estupefato de espanto e, pela primeira vez, chorei de alegria,
no sentido de que a primeira coisa que pensei foi: Dante, seiscentos anos antes de mim,
descrevera com um verso, de um modo perfeito, aquilo que eu sentia naquele momento. Foi uma
felicidade incontrolável, e disse a mim mesmo: o verso de Dante fala sobre mim! Nunca tinha
entendido por que devesse estudar a Divina Comédia e descubro que ela fala sobre mim: esse é o
supremo proveito de tudo o que se estuda.
Depois, quanto mais a gente cresce, mais o leque se alarga: não é mais só a paixão pela literatura,
torna-se uma paixão pelo cinema, pelas ciências naturais, pela astronomia… desejamos conhecer
tudo! Mas é começando por isto: que tudo, de alguma maneira, fala sobre nós. Não há nada que
não me encontre interessado, desde a folha de grama à grande poesia. “Interesse” deriva do latim
“inter-esse”, significa estar dentro; estar presente. O interesse é a descoberta de que você está
contido em algo. Por que interessa a você determinada poesia? Porque fala de você, o tema é
você. A primeira grande descoberta da minha vida foi este interesse: uma poesia de Dante falava
de mim.
Voltei para casa e comecei a ler incontrolavelmente, a estudar de verdade; inesperadamente me
dava prazer, é como se o tédio que eu tinha experimentado no ano anterior tivesse desaparecido.
Por que diante de uma pintura, uma música, um filme, uma mulher linda, você fica de boca
aberta, encantado com tanta beleza? O que faz você dizer que algo é belo? Aliás, o que é a arte?
A arte é a capacidade de alguém falar sobre você. Você fica de boca aberta porque tem a ver com
você, lhe diz respeito. Porque você gostaria de ter dito aquela determinada coisa, você gostaria
de tê-la feito; o autor que leio me interpreta melhor do que eu mesmo.
Os acontecimentos, depois, andaram de um modo tal que, embora tivesse terminado a escola
jurando à professora que me tornaria professor de italiano – minha vocação nascera descendo
aquelas escadas naquele dia sozinho (eu não poderia amar a literatura se não tivesse encontrado
aquela professora) –, comecei o liceu só no Natal,4 porque meu pai queria que eu fosse trabalhar;
mas os professores fizeram uma procissão até a minha casa para convencê-lo. Enfim,
sensibilizado, ele decidiu mandar-me para a escola. Fiquei muito contente, e sonhava em entrar
na universidade. Porém, mais tarde meu pai disse que eu não poderia entrar no liceu, porque ele
não conseguiria pagar os cinco anos de estudo, suportaria no máximo dois ou três, e assim, me
mandou para uma escola técnica de secretariado para empresas.
Aguentei por um mês. Eu me lembro de quando chegou a professora de estenografia, foi à lousa
e começou a rabiscar algumas coisas incompreensíveis. Ali entendi que não era a minha estrada,
e assim fechei a mochila, com muita educação me aproximei da professora e disse que havia
escolhido o curso errado: a partir daquele dia, não me viram mais. Voltei para casa e disse ao
meu pai que iria trabalhar. Assim, ele se convenceu, e tentamos o caminho do liceu. O clássico
não era possível (por problemas burocráticos), então optei pelo científico, porque havia matérias
que me agradavam.
Resisti dois anos, depois não aguentei mais; porque naqueles dois primeiros anos de liceu, fui
tomado por uma crise: tinha dentro de mim uma interrogação, uma dúvida radical, que me
afastou, em primeiro lugar, da fé. Era o ano de 19685 – e por este ponto de vista, me considero
afortunado.
Vocês não têm a mesma sorte, porque vivem em um mundo onde tudo conspira para fazê-los
abandonar as dúvidas, as interrogações mais belas que existem dentro de vocês. Eu, ao contrário,
vivi aquela geração para a qual tudo dizia respeito à busca de respostas – mesmo tendo durado
pouco, porque depois tudo foi jogado, largado na política. Naqueles anos, era normal tomar o
ônibus para ir à escola, sentar-se ao lado de um rapaz que você nunca havia visto e fazer
amizade, porque um perguntava seriamente ao outro: “Você está contente com a vida que leva?
Por que vai à escola?” É isso, faço parte de uma geração na qual, por dois ou três anos, um
ajudava o outro a manter vivo esse tipo de interrogação, questionando-se o porquê daquele
“amargo na boca”.
Naquela época, eu estava muito mal, passava as noites caminhando sozinho, perdi os amigos
porque diziam que eu estava louco, que tinha perdido o juízo. Eu os desafiava sobre esta questão,
não dava trégua, queria uma razão pela qual valesse a pena estar no mundo: não me bastava o
grupo de jovens da paróquia, o futebol, o pebolim, sequer a namorada me bastava.
Vagava na noite lendo Leopardi e Pirandello. Ir à escola começou a me dar náuseas, porque não
havia nenhum professor que encarasse com seriedade a interrogação que me assolava: a única
coisa que eu tinha claro era que ia à escola para resolver essa interrogação, todo o resto não
importava. Por certo, ainda havia aquela vaga recordação de Dante, mas estava sufocada por uma
dor maior. Até que, em um certo momento, não consegui mais frequentar as aulas, e deixei a
escola.
Disse a meu pai que eu não estava bem, e, ademais, ele havia perdido o emprego, portanto fui
trabalhar em uma fábrica para dar uma ajuda em casa. Porém persistia dentro de mim essa
interrogação corrosiva. Sim, estava contente por poder ajudar a minha família, mas aquela
interrogação não me deixava em paz.
Até que um belo dia cedi à insistência de alguns amigos, que me arrastaram aos “três dias” de
Páscoa com os Colegiais.6 Eu não sabia de modo algum o que era o movimento CL. Fui a
Pesaro,7 um pouco com a ideia de repousar porque estava morto de cansaço, por outro lado
porque iria ver pela primeira vez o mar (o qual, na verdade, acabei não vendo, porque fazíamos
apenas o trajeto auditório-hotel, hotel-auditório): naqueles três dias aconteceu um milagre. Não
sei qual significado vocês dão a essa palavra, mas acho que é a palavra adequada. Depois
daqueles três dias, voltei para casa como outra pessoa. Comecei a suspeitar que Deus existisse:
aquela interrogação que havia dentro de mim de um modo tão radical, naquele ambiente era
considerada uma coisa oportuna, isso me impressionou!
Aqueles sujeitos que falavam – tenho ainda as anotações: primeira palestra, Dom Luigi Giussani;
segunda palestra, Pe. Francesco Ricci; terceira palestra, Pe. Luigi Negri – aqueles três sujeitos,
pela primeira vez, consideravam a minha dor, o meu sofrimento, valorizaram a minha angústia;
aliás, me diziam: “Você que tem essa interrogação é o único que pensa realmente, está no
caminho certo, mergulhe fundo. Não dê ouvidos àquele mundo de adultos cínicos e perversos
que dizem: se tem alguma dúvida ou indagação, fique tranquilo, vai ver que passa”. Esta era a
coisa que eu mais odiava: se você possui dentro uma interrogação, uma busca de sentido, um
adulto não pode se permitir dizer “vai passar”. A única coisa realmente minha, porque todo o
resto me parecia porcaria, era que eu queria ser feliz.
Dizia aos meus amigos de então (que poderiam testemunhar agora): “Quero entender, me digam
por que é tão difícil viver, por que a vida é um drama, que coisa é essa realidade que tenho ao
meu entorno, me expliquem”. Se tivessem dito: “Olha, Franco, na África há um feiticeiro que
tem a resposta para essas perguntas”, eu teria ido a pé, porque não tinha nada a perder. Se você
não entende o sentido das coisas, já perdeu tudo. Pelo que você irá lutar? E eu sentia que já tinha
perdido tudo: tinha perdido meu pai, os meus irmãos, os meus amigos, e a razão pela qual
estudava.
Há uma história interessante, que mostra o quanto era sério quando eu dizia que “é tudo uma
porcaria”. Eu nunca fui lindo de morrer, mas havia algumas garotas que foram a fim de mim; eu
me lembro de uma em particular – eu a chamarei de “Maria” –, era linda, realmente muito
bonita, seus belos olhos azuis me faziam enlouquecer, lembro deles ainda hoje. Dizia-me que
estava interessada em mim. Uma noite, chamei-a num canto e lhe disse: “Escuta, deixe disso,
porque gosto realmente de você, vamos deixar de lado. Estou na lama até o pescoço, e me parece
uma coisa criminosa arrastar para a lama uma garota legal como você, fique longe de mim, sou
um perigo”.
Um padre me ensinou, uma vez, que quando alguém diz a outra pessoa “te amo”, quer dizer que
quer o seu bem. Eu disse à Maria: “Eu não sei nem mesmo o que seja o bem para mim, como
posso saber o que é o bem para você? Recuso-me a estar com você, porque te levaria a um
desastre, nos veremos de novo. Quando na vida eu conseguir dizer, com um pouco de seriedade,
o que é o bem para mim, então saberei dizer a uma mulher ‘eu te amo’, mas enquanto não chegar
esse momento, eu não quero ter a responsabilidade de te arrastar para a lama junto comigo”.
Este, certamente, era o legado de uma educação que tinha recebido dos meus pais, embora eu, na
época, – foi antes da famosa jornada de três dias de Páscoa com os Colegiais de Pesaro –
estivesse convencido de que não fosse possível amar, pela mesma razão que me fazia acreditar
ser inexistente um verdadeiro motivo para estudar.
Vamos ver pelo lado positivo: se nós descobrimos a razão pela qual vale a pena estudar,
descobrimos também a razão pela qual vale a pena amar; as duas coisas, eu juro, caminham
juntas. No final, há uma única razão que sustenta tudo: o amor por uma mulher, o amor pelos
amigos, o amor pelos estudos, o amor pelos pobres do terceiro mundo. O amor ou está presente
ou não está. Se está, abrange tudo, se não está, então você está em apuros, inclusive quando
pensa poder amar uma mulher. Esta, para mim, é uma regra absoluta!
Então, quando voltei de Pesaro salvo por aquele milagre, suspeitando que Deus existisse, no meu
primeiro encontro, chamado de Raio8 com a comunidade (éramos ao todo uma dezena), eu disse
aos outros nove que estavam comigo em Pesaro: “Ouçam, vocês despertaram em mim a dúvida
de que Deus exista, agora devem me mostrar, agora quero vê-lo”. Bem, desde aquele 29 de
setembro de 1972, quando voltei de Pesaro, percebo que os anos seguintes foram o desenrolar
daquele momento.
Tenho cinquenta e um anos, me levanto pela manhã e, juro a vocês, é como quando eu tinha
dezessete anos, perguntem à minha esposa, aos meus filhos: levanto-me, abro a janela e peço à
realidade que me mostre o seu significado. Eu quero amar a realidade. Tenho interesse na
realidade, porque tenho interesse em mim; eu quero ser grande: ser grande significa ser capaz de
abraçar toda a realidade, de abraçar todas as coisas. Significa poder declarar a uma mulher,
depois de vinte e cinco anos de casamento, “eu te amo” com frescor e intensidade ainda maiores
do que quando lhe disse pela primeira vez. Poder ler uma poesia e comover-me, como quando eu
tinha dezessete anos e vagava como um pobre coitado sozinho. Eu vivo do resultado daqueles
três dias lá, de como a minha vida se organizou a partir daqueles três dias. A coisa que mais me
surpreendeu e impressionou é que entendi que tinha acontecido algo grandioso, algo poderoso
para a minha vida.
A partir do momento em que retornei de Pesaro, repentinamente voltei a me encantar com os
estudos, renasceu em mim uma paixão: tentem imaginar que alguém volte para casa com a
suspeita, na realidade quase com uma certeza de que as coisas que viu e ouviu digam respeito a
si mesmo. Eu me pus a estudar com seriedade e a ler com uma paixão da qual não tinha ideia,
descobri que tudo realmente dizia respeito a mim, independentemente do escritor, tudo falava do
interesse que eu tinha pelas coisas.
Junto a tudo isso, me apaixonei perdidamente: desmoronou mesmo a incerteza, a dúvida que eu
tinha sobre a possibilidade de um relacionamento com as mulheres. Fui ao meu primeiro
encontro na comunidade sem muita pretensão e ali, no auge dos meus dezessete anos, eu a vi:
ela, Grazia, hoje minha mulher. Apaixonei-me perdidamente, logo eu que, havia pouco tempo,
tinha dado aquela resposta à “Maria”. Eu, que teorizava que o amor entre um homem e uma
mulher não fosse possível. Eu, que tinha náuseas frente ao estudo, quando voltei, me pus a
estudar como uma fera, encantado com tudo o que lia. Eu, que pensava que não pudesse existir
futuro no amor, me apaixonei perdidamente por essa garota de quinze anos, que teve a grande
sabedoria – Deus a abençoe pela eternidade – de dizer-me “não” por quatro anos: eu tive que
conquistá-la!
Como disse, tinha perdido a cabeça por ela já na primeira vez que a vi; mas duas ou três semanas
depois, durante outro Raio, levanta-se um “tal” que, publicamente, diz estar apaixonado pela
Grazia. Então, eu disse a mim mesmo: “Esse tal aí vai acabar levando ela embora”, portanto,
levantei a mão e disse: “Quero dizer uma coisa: também estou apaixonado pela Grazia”. O que
vocês acham, a gente se salva como pode, tratei de me adiantar… Mais tarde, enquanto eu a
acompanhava até sua casa, ela disse: “Escuta, pode esquecer”. Perguntei a ela se podia ter
alguma esperança, mas ela repetiu que eu não contasse com isso. De vez em quando, eu tentava
de novo, a cada mês ou dois, discretamente, eu dizia: “Ainda estou aqui”. Eu tinha na cabeça a
ideia de que ou casaria com ela ou com nenhuma outra e, de tanto em tanto, eu relembrava isso a
ela, e a coisa seguiu em diante assim.
O que aprendi com seu “não” naqueles quatro anos – tive que esperar até os vinte e um anos,
quando, inesperadamente, de repente, em um dia qualquer, ela me disse “sim”: é o tipo de coisa
que Deus faz. Não tenho recordações dos três dias sucessivos, do tanto que fiquei fora de mim…
– foi uma coisa grande, que me salvou a pele: tive a possibilidade de viver. Agradeço a ela ainda
hoje pelo “não”. Aquilo me permitiu investir – o que é apropriado, na idade de vocês. Vocês têm
o direito de tornarem-se adultos e, dado que um relacionamento amoroso sério exige muitíssimo
em termos de energia, de tempo e psicologicamente, vocês têm o direito de investir todas as
energias intelectuais, dinheiro, tempo, para tornarem-se grandes, adultos; grandes, isto é, livres:
livres para viver plenamente todas as ocasiões, todos os encontros. Vocês devem agarrar todas as
boas oportunidades e desfrutar de todas as coisas boas que a vida pode lhes oferecer, não deixar
nada de fora.
Vocês têm o direito de agarrar o melhor da vida, para que possam apresentar-se a uma mulher
sendo grandes. Depois, quando eu e Grazia ficamos juntos, como foi maravilhoso! Quando
éramos namorados nos víamos uma vez ao mês; morávamos a cem metros de distância, mas nos
víamos somente uma vez ao mês. Porque eu tinha apostado tudo no seguinte: “Grazia, minha
querida, eu quero casar com a mulher mais magnífica do mundo! Por menos, não me caso. E
você tem o direito de esposar o homem mais magnífico do mundo, por menos do que isso, não se
case. Eu não quero ter o mesmo fim dos nossos amigos (e os nomeava), que, porque têm um
relacionamento, comprometeram a terça-feira, a quinta-feira, a tarde de sábado e a noite de
domingo. Eu não quero ser enterrado vivo! Essa gente já está morta, são cadáveres”. Ela, naquele
período, já trabalhava, eu me dedicava a estudar; duas vidas diferentes, mas esta foi a grandeza:
eu via Grazia uma vez por mês, e a cada mês me parecia uma mulher diferente, cada vez melhor!
Ela me contava as coisas que tinha feito, as reuniões, as responsabilidades que tinha assumido,
sobre como era o mundo do trabalho, e eu a via tornar-se grande sob os meus olhos.
Em síntese, o encontro com Comunhão e Libertação, para mim, significou um amor por mim
mesmo tão forte e tão potente, capaz de fazer com que eu me apaixonasse novamente pelas duas
coisas mais importantes da vida: o conhecimento (eu queria conhecer as coisas) e o amor (eu
queria uma mulher, mas uma mulher de verdade e um relacionamento absolutamente verdadeiro,
isto é, no qual estivesse em jogo a minha felicidade e a dela, o meu destino e o dela). Se não for
assim, tratamos um ao outro como cães pela estrada, e, para mim, isso não servia.
É claro que pode haver o interesse por uma mulher que nos agrada, porque é bonita, porque é
loira. Mas, com o tempo, quantas vezes assisti a relacionamentos que acabaram mal, porque, no
final das contas, essas coisas não perduram! Aliás, quando se começa a suspeitar que alguém está
com você só porque o agrada, você sente que está sendo usado, e então você começa a se cansar,
mais do que isso, você chega a odiar esse relacionamento no qual se sente usado.
Por outro lado, se alguém fica do seu lado e lhe dá a mão para caminhar rumo ao seu destino,
percebem que é outra história? Vocês entendem, então, que os olhos azuis, os cabelos loiros e
todo o resto são apenas a inspiração inicial, através da qual Deus faz com que você se interesse
por uma mulher, para que ela possa ser companheira do seu destino: é algo completamente
diferente! O amor pelo estudo, o amor por outra pessoa, no fim das contas, o amor pela vida, é
um só; e se funciona numa ponta, funciona também na outra.
O resto é simples: estudei, fiz o exame de conclusão da escola estudando por conta própria, aos
sábados, aos domingos, de madrugada. Depois, cursei a universidade sem ter assistido a uma
aula sequer, comparecendo somente para fazer os exames, pois precisava trabalhar, nunca parei
de trabalhar. Enfim, consegui tornar-me professor de italiano.

Agora, gostaria de contar-lhes como, depois que comecei a estudar literatura, tudo o que tentei
dizer até aqui se revelou de uma maneira absolutamente clamorosa. Tenham presente que a
maioria dos meus alunos fazia o técnico contábil em Bérgamo, na maior parte das vezes, filhos
de pequenos empresários que conquistaram, por conta própria, muito dinheiro apesar da pouca
instrução. Para eles, o italiano era a primeira língua estrangeira,9 e tinham como destino
programado seguir o negócio dos pais. Para eles, o resultado máximo que almejavam na vida era
tornarem-se administradores, sua única leitura era o caderno de esportes do jornal ou, no
máximo, o caderno de economia.
Eu entendia, então, que o meu trabalho como professor seria fazê-los entusiasmarem-se pelos
estudos, fazer nascer neles a paixão pelos estudos, pela leitura. Portanto, na maioria das vezes, eu
iniciava o ano com a Lettera a Francesco Vettori, de Maquiavel, um trecho que amo muitíssimo
e que contém uma das passagens mais bonitas, na minha opinião, sobre o que significa estudar.
Ali, na verdade, Maquiavel, que naquele momento está no exílio, conta a seu amigo como passa
o dia: de manhã, fazia tal coisa; depois, o almoço na taverna; à tarde, outra coisa e, por último,
escreve:
Chegada a noite, retorno para casa e entro no meu escritório; na porta, dispo a roupa quotidiana, cheia de barro e lodo
[finalmente há um ponto em que posso deixar a lama em que normalmente vivemos o dia todo, o dia a dia], visto roupas
dignas de rei e da corte [visto-me como rei, ali eu sou um rei, sou um senhor das cortes] e, vestido assim condignamente,
penetro nas antigas cortes dos homens do passado onde, por eles recebido amavelmente, nutro-me daquele alimento que é
unicamente meu, para o qual eu nasci [a consciência daquilo que me corroía por dentro quando era criança, quando era
jovem. Aquele alimento para o qual viemos ao mundo, para conhecer a realidade, amá-la e servi-la (entendemos que a
servimos depois de crescidos)]; não me envergonho ao falar com eles e perguntar-lhes das razões de suas ações. Eles, por
sua humanidade, me respondem, e eu não sinto durante quatro horas qualquer tédio, esqueço todas as aflições, não temo a
pobreza, não me amedronta a morte: eu me integro inteiramente neles.10

Aí está, isto é o estudo: falar com as pessoas, dialogar com os "homens do passado”, com os
sábios que nos precederam, que tinham a nossa mesma interrogação, a mesma busca. Como foi
para mim naquelas escadas com Dante: interrogar os grandes homens que nos precederam e ver a
tentativa deles de encontrar uma resposta. É como se perguntássemos a Dante: como você fez,
tendo essa mesma interrogação, como fez para encontrar a resposta, para superá-la? É como se
pudéssemos questionar as razões das ações deles; e eles, pela sua humanidade, nos respondem.
Pela humanidade deles, ou seja, pelo elemento que temos em comum, o coração. Pelo coração
que temos em comum, eles me respondem, e eu, por quatro horas, não percebo o tempo passar,
não sinto aborrecimento algum, não temo nenhuma aflição, não me impressiona a morte, e “eu
me integro inteiramente neles”: estudar é isso. Uma interlocução com os antigos, que todavia
pressupõe que você tenha em consideração a si próprio, tenha uma preocupação consigo mesmo,
que você viva de coração aberto. Saibam que é muito difícil hoje em dia, é mais difícil do que foi
para nós, e entendo vocês quando têm dificuldade, porque precisam se esforçar mais do que eu
precisei, visto que hoje tudo conspira a fazê-los esquecer essas dúvidas, essas interrogações, a
abandoná-las.
Aliás, qual o motivo de estarmos reunidos? Por que vocês idealizaram uma Jornada como esta?
Por que vocês participam dos Colegiais? Mesmo os que estão aqui pela primeira vez, por que
vieram? É porque finalmente encontraram pessoas que respeitam suas dúvidas, sua inquietação,
têm estima por seu coração aflito, em um mundo que conspira para fazê-los esquecer.
Preocupem-se com o coração de vocês, cuidem de si mesmos, é isto que dizem os amigos que
estão aqui com vocês, esta é também a única coisa que posso lhes dizer: tenham uma
preocupação para com vocês mesmos.
Assim, começamos a perceber que, qualquer pessoa relevante na historia da humanidade,
qualquer artista, qualquer gênio, não fez outra coisa diferente disto: levar em consideração a si
mesmo, pensar a respeito de si, e assim souberam tocar as cordas da sua própria humanidade e de
suas experiências, fazendo-as soar como um diapasão, e da mesma forma fazendo vibrar as
nossas. Percebemos que o nosso coração é idêntico, feito do mesmo modo. Peguemos o início
famoso da Divina Comédia:
Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Dizer qual era é cousa tão penosa,


Desta brava espessura a asperidade,
Que a memória a relembra inda cuidosa11.

Pessoal, digam-me se alguma vez encontraram uma definição melhor daquilo que vocês são,
daquilo que somos todos nós? Perdidos, perdidos numa selva tenebrosa, significa que estamos na
escuridão, porque tudo está contra nós, e por isso tudo nos dá medo, e é uma experiência tão
amarga e tão terrível que se assemelha à morte. Pode-se morrer desse medo mesmo aos quinze
ou aos dezessete anos. Então lhes pergunto: já ouviram falar com uma verdade assim tão grande
sobre a vida de vocês?
Quando vocês vão se deitar, na noite de sábado ou de domingo – como disse o grande Leopardi12
em O Sábado da Aldeia – estão com um amargo na boca porque a festa não realizou a promessa
que parecia oferecer. A expectativa do sábado nunca é cumprida pelo domingo; vocês se sentem
desiludidos e começam a gritar, como Leopardi: “Ó Natura, ó Natura, por que assim regateias o
que então nos prometes? Por que assim teus filhos negaceias?”13 Não percebem descrita nesta
linha a sua experiência de cada dia? Não se interessariam em conversar com esse homem que
teve a coragem de dizer: “Mas para o bem narrar lá deparado / De outras cousas que vi, direi
verdade”?14 Interessaria a vocês realizarem juntos esse percurso?
E depois, Dante vai em frente e diz que a vida seria mais bela se houvesse a luz, porque na luz
nós compreendemos as coisas, mas se não há luz, estamos todos cegos, somos todos como o
cego de nascença, apoiados no muro gritando: “Senhor, tem compaixão de mim!”, porque não
vemos as coisas (Jo 9,1-41). Na idade de vocês, se eu tivesse podido ouvir um adulto dizer:
“Estive em apuros, porém, neste mal fui até o fundo, tão fundo que enfim encontrei o bem, quem
quiser que me siga”, se tivesse escutado alguém assim, repito, teria ido até o centro da África a
pé – eu o teria seguido, porque esse é o único modo que existe.

Hoje, aos cinquenta anos, entendo que não tenho mais o tempo para conseguir outros diplomas,
me chateio comigo mesmo pelo quanto sou ignorante. Não entendo a música, não recebi uma
educação musical e lamento tanto. Os meus filhos me ultrapassaram: ouvem uma música e a
entendem. Eu ouço uma música e é um ruído, não a interpreto, não entendo, sou surdo. É isso,
somos todos assim, olhamos para as coisas, mas não as vemos: não as encontramos, não as
conhecemos realmente. Olhamos uma montanha e não entendemos nada, para nós é tudo igual,
são as corcundas do terreno.
Eu gosto muito, fico maluco quando levamos nossos alunos do liceu em excursão, acompanhado
pelo Armando, que é um gênio nessas coisas de leitura da natureza, entende de montanhas, de
árvores, de folhas, de insetos: coisas inacreditáveis! Ele realmente enxerga as coisas; eu às vezes
me chateio porque não vejo essas coisas como ele. Imaginem: podemos ter uma pessoa ao nosso
lado e não a enxergar jamais durante toda a vida, não ver nunca o que ela é exatamente, em toda
a sua dimensão. Eu quero poder ver as coisas e possuí-las dentro de mim, saber dar nome às
coisas, e, no limite do possível, abraçá-las, amar as coisas, tornar o tempo construtivo, cheio de
alegria, cheio de bem.
Então pergunto aos meus alunos: se existe alguém que diz ter conseguido de fato fazer isso, não
interessaria a vocês seguir essa pessoa? E aí se inicia, começamos a ler a Divina Comédia, que
nos faz encontrar esse homem que diz que a luz existe, que seria belo se a luz existisse, e nos
mostra tudo entusiasmado. Mas ele falha, porque uma loba, um leão e um lince cruzam o seu
caminho. Por isso, digo para a garotada: quantas vezes tentaram sozinhos sair deste drama? Não
conseguimos, porque existe um vício dentro de nós, incurável; ou melhor, curável, mas somente
com certas condições: há uma fragilidade no nosso coração a partir da qual intuímos que a vida
deveria ser bela, mas sozinhos não se consegue, porque há esta debilidade chamada pecado
original.
Tudo isso quer dizer que, se queremos ser profundamente sinceros, temos uma só possibilidade.
No pior momento da nossa vida, quando percebemos que não estamos aguentando mais, temos
que ser honestos e gritar, como fez Dante – vocês lembram? Ele estava para ser engolido pela
selva tenebrosa:
Quando ao vale eu já ia baquear-me [enquanto eu afundava]
Alguém fraco de voz diviso perto, [um encontro inesperado, imprevisível, uma resposta imediata]
Que após largo silêncio quer falar-me.

Tanto que o vejo nesse grão deserto,


- “Tem compaixão de mim” – bradei transido –
“Quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”15

A primeira palavra de Dante, personagem da Divina Comédia: “Pobre de mim!” Digo aos
jovens: é a única coisa que podemos fazer, gritar: “Alguém tenha piedade de mim”, pedir que
alguém me dê a mão para eu sair do buraco.
Quem Dante encontrou foi Virgílio, que lhe explica: “Você tem razão, você é feito para a luz.
Você está coberto de razão, eu estimo a sua aspiração, mas errou a estrada, seu método está
equivocado; eu vim para lhe mostrar a estrada certa. Se você vier comigo, percorreremos juntos
todo o inferno que faz parte de você, isto é, todo o mal que você é capaz de realizar;
percorreremos juntos à procura de uma possibilidade de redenção. Depois, você irá se aventurar
no incrível encontro com o ‘verum, bonum, pulchrum’, com a verdade, o bem, a beleza, porque
na vida é possível conhecer a verdade, o bem, a beleza. Regressará à terra completamente novo,
para dizer aos homens que a vida é grande e positiva, que a última palavra não é a selva
tenebrosa, mas uma luz infinita, uma beleza infinita.”
Aos quinze anos, por conta própria, eu comecei a ler Leopardi, que considero de uma grandeza
extraordinária, e, somente mais tarde, compreendi que ele se encontra no ponto mais elevado da
cultura europeia. Antes do declínio da Europa, antes de cair no nada, no niilismo que a
devastaria, inclusive do ponto de vista físico e material (as grandes guerras e os campos de
concentração), surge Leopardi, um homem corcunda e disforme, doente, solitário na sua absoluta
grandeza, o qual dizia que não conhecemos o porquê das coisas, não sabemos responder à única
pergunta que vale a pena responder: “E eu, quem sou?” Então devemos deixar Leopardi sempre
ali na mesa de cabeceira, ao lado da cama, e lê-lo durante a vida toda, agradecendo-lhe por ter
aberto nossa mente, por ter mantido vivo tal questionamento, porque, se deixarmos de lado essa
questão, é o fim, acabou.
O objetivo de mantermos nossa amizade, o objetivo pelo qual estamos aqui reunidos hoje, a
razão do que tenho feito nos últimos trinta anos, tudo isso existe somente porque Leopardi
manteve aberta em mim essa ferida e, mantendo-a aberta, me faz capaz de conhecer as coisas.
A poesia de Leopardi que leio com maior satisfação é uma que não está nas antologias, se intitula
Ao Conde Carlo Pepoli. É uma coisa incrível, diz aquilo que procurei dizer, mas de um modo
muito mais bonito. Falando sobre os jovens, diz que o sentimento prevalente no Homem, aquilo
que lhe dá grandeza, é o tédio, ou seja, o sentimento de desproporção que existe entre a
expectativa do coração e a realidade que trai essa expectativa. Leopardi, pobre coitado, não era
cristão, não sabia que, por trás da realidade, está escondido o seu verdadeiro significado, não
soube enxergar (esta é a grande ideia cristã do sacramento: dentro da própria realidade está
escondido o seu significado), então disse que a vida é um tédio imortal, um tédio que nos
acompanha sempre; porque a realidade sem significado é realmente bruta, feia, horrível.
Descrevendo a vida dos jovens daquele tempo, disse profeticamente:
Das vestes e cabelos o cuidado,
dos atos, dos passeios, e os preparos
dos coches, dos cavalos, e a frequência
das salas e das praças rumorosas,
e os jardins, os jantares, e invejados
bailes o ocupam noite e dia; o riso
já lhe foge do lábio; ai!, mas no peito,
dentro do peito, grave, firme, imóvel,
como coluna adamantina, jaz
tédio mortal contra o qual nada pode
o vigor juvenil, que não abala
doce palavra de rosado lábio,
nem o trêmulo e terno olhar de duas
negras pupilas, o querido olhar,
a mais digna do céu coisa mortal.16

Esta é a coisa mais grandiosa que ele podia ter escrito: Ainda que passem o dia entre jogos,
apesar dos “invejados bailes”, com as mais belas, e com as feias, sempre contentes como tolos,
esse “tédio imortal” não termina, não vai embora. Nem mesmo com “doce palavra de rosado
lábio”: de todas as coisas no mundo que podem acontecer, a mais bela, a que nos leva mais
próximo do Paraíso, é apaixonar-se. Muito bem, mas isso não basta, a mulher mais linda do
mundo não é o suficiente para romper essa crosta de tédio infinito. Foi isso que eu tinha
entendido quando disse aquelas palavras para “Maria”. E não é por ser jovem que temos uma
percepção menor a esse respeito; pelo contrário, por natureza, pelo menos até os vinte anos mais
ou menos, essa inquietude ainda é sentida. Depois, quando nos tornamos adultos, a sepultamos.
Leiam também os Cadernos de Serafino Gubbio Operador, de Pirandello, outra obra pouco
conhecida. Ouçam como é grande quando escreve:
Espio as pessoas nas suas atividades mais banais, para tentar descobrir nos outros aquilo que me falta em todas as coisas que
faço: a certeza de que compreendem o que estão a fazer [nós precisamos de uma coisa apenas, da certeza daquilo que
fazemos, ou seja, uma certeza sobre a realidade].
Num primeiro momento, sim, parece-me que muitos a tenham [observem em torno, pensem nos colegas de vocês, mas
também em vocês mesmos, damos sempre a impressão de termos muita certeza sobre aquilo que estamos fazendo], pela
forma como se olham e se cumprimentam, correndo de um lado para outro atrás das suas ocupações ou dos seus caprichos.
Mas depois, se me detenho um pouco para olhá-los nos olhos [quando paramos por um segundo, se alguém nos olhar
detidamente dentro dos olhos, ficamos com raiva], com estes meus olhos atentos e silenciosos, eis que logo se enchem de
sombras. Alguns deles perdem-se, aliás, numa perplexidade tão inquieta que se continuasse a perscrutá-los um pouco mais,
talvez me insultassem ou agredissem [este é o problema: quando dizemos a verdade, incomodamos aos demais, porque
fazemos indagações verdadeiras, aquelas que nos fazem estar mal].
Ora, bem, descansai. Basta-me isto: saber, meus senhores, que nem para vós é claro ou certo esse pouco que vai sendo
determinado pelas condições perfeitamente normais em que viveis [não temos certeza de nada em relação àquilo que
vivemos]. Há um ‘além’ em tudo. Não quereis ou não sabeis vê-lo. No entanto, assim que esse além brilha nos olhos de um
ocioso como eu, que se põe a observar-vos, eis que vos perdeis, perturbais ou irritais.
Eu também conheço o dispositivo externo [se chama negligência, desleixo, Giussani a chamava “descaso para consigo
mesmo”17], quer dizer, mecânico, da vida que estrepitosa e vertiginosamente nos envolve sem descanso. Hoje, tal e tal; isto
e aquilo por fazer; correr para cá, de relógio na mão, para lá chegar a tempo. – Não, obrigado, meu caro: não posso! – Ah,
sim, ah sério? Que sorte! Tenho de ir... – Pequeno almoço, às 11. – O jornal, a pasta, o escritório, a escola... – O tempo está
bom, que pena! Mas os negócios... – Quem passa? Ah, um carro funerário...despedir-se, à pressa, de quem faleceu. – A
oficina, a fábrica, o tribunal...
Ninguém tem o tempo ou o modo de parar um instante para considerar se aquilo que vê os outros fazerem, aquilo que ele
próprio faz, será realmente o que acima de tudo lhe convém, o que lhe poderá dar essa certeza verdadeira, a única capaz de
lhe trazer sossego. O sossego que nos é dado depois de tanto estrépito e tanta vertigem chega carregado de um tal cansaço,
atordoado de um tal transtorno, que já não é possível pararmos um minuto para pensar. Com uma das mãos sustentamos a
cabeça, com a outra fazemos um gesto de bêbado.
- Vamos distrair-nos!
Sim. Achamos mais cansativas e complicadas do que o trabalho as diversões que nos são oferecidas; é assim que do repouso
não obtemos outra coisa que não seja um aumento do cansaço18.

Se alguém lê uma página assim, não esquece mais pelo resto da vida: não encontramos um
momento para parar e pensar se o que estamos vivendo é oportuno realmente, isto é, se
cultivamos uma certeza na qual nosso coração poderia encontrar repouso.
Então podemos entender a razão de juntar-se aos outros, entender a razão de existir o
Movimento, entender a razão de existir a Igreja: já que viveríamos nessa indiferença absurda, na
qual mesmo o maior chamado de Deus, o amor, poderia passar pela nossa frente sem que nos
déssemos conta, então estamos juntos para que alguém nos diga: “Pare, levante a cabeça, abra
seu coração e escute. Faça isto: tenha cuidado com você mesmo, dê um tempo para escutar e
seguir seu coração”. Este é o único objetivo pelo qual Deus nos uniu; se Deus coloca juntos um
homem e uma mulher é para isso, e, por menos, sequer vale a pena o casamento. Este é o único
objetivo pelo qual vale a pena frequentar a escola: por menos, sequer vale a pena entrar em sala
de aula.

1 Em italiano, Gioventù Studentesca (GS). Originalmente é o nome dos primeiros grupos de estudantes que seguiam Dom
Luigi Giussani. Mais tarde, estes grupos mudaram seu nome para CL, Comunhão e Libertação, mas mantiveram GS referindo-
se ao grupo de estudantes do ensino médio do Movimento, conhecidos no Brasil com o nome de Colegiais. [N.d.T.]
2 A escola média, na Itália, é o segundo ciclo do percurso escolar obrigatório, que vai dos 11 aos 13 anos. [N.d.T.]
3 “Tu proverai sì come sa di sale lo pane altrui e come è duro calle / lo scendere e ‘l salir per l’altrui scale” (Dante Alighieri,
A Divina Comédia, Paraíso, XVII, vv. 58-60, op. cit.).
4 Na Itália o ano escolar tem início em setembro. [N.d.T.]

5 Na Europa, o ano 1968 é uma expressão que diz respeito ao período de contestação iniciado em maio daquele ano em Paris,
que caracterizou a vida social e política do Ocidente, até o fim da década de setenta, tendo como protagonistas os jovens que
contestavam radicalmente o status quo, inclusive através de embates entre ideologias políticas e luta armada. [N.d.T.]
6 Desde o início, um dos momentos mais significativos da história da Gioventù Studentesca, era a celebração a nível nacional
da liturgia do Tríduo Pascal. [N.d.T.]
7 Pequeno município no centro da Itália. [N.d.T.]

8 Raggio: assim era chamado, no movimento Ação Católica dos anos cinquenta, o encontro semanal, indicando que cada um
dos participantes amarrava sua experiência particular a um ponto central; desde então, foi utilizado para nomear os encontros
de GS e, mais tarde, de CL.
9 Em Bérgamo, ainda hoje, muitas pessoas tem como idioma nativo o dialeto, chamado bergamasco.

10 Carta escrita em 10 de dezembro de 1513, endereçada por N. Maquiavél a Francesco Vettori, seu amigo e embaixador de
Florença na corte romana de Leão X. Em N. Maquiavél, O Príncipe. São Paulo, Legatus Editora, 2010, p. 109.
11 Dante Alighieri, A Divina Comédia, Inferno, I, vv. 1-6, op. cit.

12 Giacomo Leopardi (1798-1837) é um poeta, um dos maiores expoentes do Romantismo italiano. [N.d.T]
13 G. Leopardi, Cantos, trad. Renato Suttana 2012, ed. digital corrigida, 2014.

14 Dante Alighieri, A Divina Comédia, Inferno, I, vv. 8-9, op. cit.


15 Ibidem, vv. 61-66.

16 G. Leopardi, Ao Conde Carlo Pepoli, em Cantos, trad. Renato Suttana 2012, ed. digital corrigida, 2014.
17 “O supremo obstáculo ao nosso caminho humano é ‘a negligência’ do eu. No contrário dessa ‘negligência’, isto é, no
interesse pelo próprio eu, está o primeiro passo de um caminho realmente humano”. Luigi Giussani, Em busca do rosto do
homem, São Paulo: Companhia Ilimitada, 1996, p. 11.
18 L. Pirandello, Cadernos de Serafino Gubbio, Operador de Câmara, Fim de Século Edições, 2009.
11. Pinóquio: esse desconhecido
Conferência para o ciclo de encontros “Eu e o Infinito”
Organizado pela associação cultural Paola Bernabei
Roma, 2 de dezembro de 2007

A minha relação com Pinóquio é tão antiga quanto a com Dante. Recordo-me que, juntamente
com a edição n. 16 de Tex Willer,1 O Fogo, Pinóquio talvez tenha sido o primeiro texto – logo
na primeira série, quando eu era apenas um recém-leitor – em cuja leitura me deleitei, pois era
algo belo. Porém, como às vezes acontece, eu o abandonei. Somente mais tarde eu o redescobri
de modo arrebatador, aos 24 ou 25 anos, quando comecei a ensinar religião. Ensinei religião por
oito anos, antes de virar professor de italiano, e, naquele período, tive a sorte de ler um livro que
havia me chamado a atenção simplesmente pelo título, um livro que, talvez, vocês conheçam, ao
qual sou devedor de tudo o que vou contar, porque na vida é preciso ser modesto: descobri que
era possível ler Pinóquio da maneira que faremos hoje à noite graças a um livro do Cardeal
Giacomo Biffi, que se chama Contro Mastro Ciliegia. Commento teologico a “Le aventure di
Pinocchio”.2
Hoje, iremos simplesmente referir algumas coisas, saborear um petisco do começo da história,
mas, se quiserem tomar as considerações que faremos hoje e prosseguir na leitura de toda a
aventura de Pinóquio, a partir do ponto de vista que irei propor, tomem como referência o livro
de Biffi.
Pareceu-me tão extraordinária a interpretação de Biffi, que acabei relendo diversas vezes aquele
livro e, naturalmente, lia e relia a fábula de Pinóquio, até que decidi utilizá-lo como texto de
religião. E assim, durante oito anos, fiz com que os alunos trouxessem o livro de Pinóquio – o
original de Collodi – e, durante as aulas de religião, líamos a fábula e comentávamos livremente,
como, em certa medida, iremos fazer aqui hoje.
Pois bem, realmente essa é uma leitura que me acompanhou durante todos esses anos, a qual
retomo com frequência e muito gosto: quando estou cansado ou quando preciso tornar a
compreender algumas questões fundamentais, absolutamente profundas, as imagens de Pinóquio
me ajudam sempre. De um modo divertido, com aquela leveza que é típica de uma fábula, mas
que, como toda fábula, tem um calibre e uma profundidade inexplicáveis.
Antes de começar a leitura de fato, gostaria de sublinhar o seguinte: é realmente um caso literário
incrível. Por que o livro obteve tanta aceitação? Como é possível que uma simples fábula seja, de
acordo com alguns, o segundo livro mais traduzido na história da literatura universal depois da
Bíblia? Traduzido em mais de cem idiomas e dialetos locais, um sucesso sem fim.
Trata-se de uma fábula! Aliás, uma fábula estranhíssima, aparentemente cheia de contradições,
dentre elas, a que lhe deu origem. Vejam: no capítulo XV, quando Pinóquio é enforcado naquela
grande árvore de carvalho, Collodi havia encerrado a história. O capítulo foi publicado no
Corriere dei Ragazzi3 com a palavra “Fim” em letras garrafais, encerra-se o contrato entre o
periódico e Collodi, que viaja para a América do Sul. Mas, imediatamente, um turbilhão de
cartas de crianças que lamentavam pelo triste fim do boneco de madeira chega ao Corriere. Não
pode terminar assim! Diversas mães, filhos, grupos de escolas escrevem ao editor reclamando e
protestando pela história ter terminado daquela maneira.
O editor do jornal é compelido a ir buscar Collodi, trazê-lo de volta e dar um jeito para que ele
continuasse a história de Pinóquio. É incrível imaginar! Exatamente esse ocorrido, esse acidente
de percurso, justo no ponto central, talvez o mais decisivo, dá à história um desenrolar
fundamental e a torna completa! Não seria a história que leremos hoje, não fosse por aquele fato
incrível de uma morte que não é somente uma morte, da qual, de algum modo, advém uma
espécie de ressurreição.
Portanto, é uma história realmente estranha. Digo isso, para tentar explicar algo que muitos
tentaram explicar: o porquê. Como é possível que essa bendita fábula não morra? Por qual razão
é lida e relida, e não há uma criança em toda a Itália, talvez em toda a Europa, que não tenha
visto passar por suas mãos a história de Pinóquio?
As teorias são tantas, foi dito de tudo e mais um pouco, cada um puxa para o seu lado: há quem
tenha visto o modelo de educação sabauda,4quem tenha visto um esboço da crítica marxista à
sociedade burguesa, outros encontraram símbolos sexuais disfarçados psicanaliticamente
decifráveis… Eu, pessoalmente, estou convencido da interpretação que apresentarei hoje. Uma
interpretação, a meu ver, genial, de Giacomo Biffi, que, quando publicara a primeira edição,
ainda não era Arcebispo de Bolonha.
Por que me convence? Porque me parece que, em relação às outras interpretações, leve em conta
todos os fatores, ou seja, é mais convincente justamente em relação à adesão ao texto. Convence-
me! Vocês irão perceber, é incrível como toda essa história seja legível através de uma hipótese
extraordinariamente simples e extraordinariamente universal. Ao que tudo indica, a história de
Pinóquio poderia ser uma síntese da ortodoxia católica: de tudo aquilo que a Igreja sempre
ensinou sobre o Homem, em relação ao seu destino, sua origem, seu fim, sobre sua luta durante a
vida para a realização completa do seu ser. Aliás, as analogias com a Divina Comédia são
muitas! A minha leitura de Pinóquio poderia receber o mesmo título de uma leitura minha da
Divina Comédia: “À procura do Eu perdido”. E, hoje, vamos tentar esclarecer o porquê disso.

Poderia surgir uma indagação, então vamos imediatamente varrer para longe qualquer equívoco:
seria legítimo ler Pinóquio desta forma, sabendo que a história pessoal de Collodi, em
determinado período, era fortemente anticlerical? Ele chamava a si mesmo de inimigo dos padres
e, certamente, não tinha intenção alguma de dizer as palavras que Biffi colocou em sua boca. A
minha resposta: claramente, sim. O importante é sermos leais, ou seja, não atribuir ao autor uma
intenção que ele não tinha. Mas o que importa é que a beleza de algo belo vai além das intenções
do autor, sempre! O que torna eficaz e interessante a comunicação entre os Homens é que os
gestos e as palavras de cada um contêm sempre mais do que aquilo que quem os realiza tinha
intenção de manifestar. Essa é a beleza da comunicação. É preciso ter lealdade ao questionar com
critérios objetivos, critérios rigorosos, o que um autor queria dizer, mas uma vez realizado esse
trabalho de exegese, de reconstrução da intenção do autor, a coisa mais interessante de uma obra
literária é que cada um encontra nela aquilo que vive. A obra literária é bela quando é verdadeira.
Imaginemos Dante: acho difícil acreditar que Dante, quando escrevera a Divina Comédia, tivesse
em mente os milhões de exemplares que foram publicados para tentar entender, cada um com seu
próprio ponto de vista, o que está contido no texto. É uma dinâmica extraordinária, por meio da
qual a obra de arte é completada pelo leitor. Quando sai da caneta, do pincel do pintor, é como se
nascesse somente a metade de uma obra. Diante das pinturas de Giotto, na Basílica de São
Francisco em Assis, ficamos encantados. O que acontece? O que ocorre é que inserimos algo
pessoal, dialogamos com aquele afresco, estamos interpelando aquela obra, e nasce um diálogo,
razão pela qual cada um de nós, ao observar uma pintura de Giotto, poderia levar consigo uma
palavra secreta somente sua. E isto é, sem dúvida, legítimo. É a beleza da arte, a beleza da
comunicação.
Esclarecido isso, acredito que a operação que estamos prestes a realizar não seja inapropriada.
Faremos uma espécie de operação ao quadrado, aliás, fico quase sem jeito: apresentar a
apresentação de um livro… Mas não importa! Hoje tentarei contar como eu leio Pinóquio, aquilo
que com o passar dos anos, lendo com meus alunos, o livro me sugeriu, aquilo que me ensinou e
me ensina ainda hoje. Ofereço como possível leitura também para vocês, a ser realizada nos
mesmos termos: na nossa vida, tínhamos perguntas, a realidade nos fere, nos provoca, nos chama
e, ao encontrarmos uma obra literária aparentemente para crianças – mas saibam que todas as
palavras ditas de modo verdadeiro para os pequenos valem também para os adultos – e
aparentemente leve como uma fábula poderia ser, encontramos respostas significativas e
extraordinárias para nós mesmos, para o nosso drama, para a nossa existência. Portanto, somos
todos livres para realizar esta operação – que os sábios realizam sempre – de interrogar a
realidade e procurar pistas para responder às próprias perguntas onde quer que estejamos.
Fazemos sempre assim. Eu não gostaria que vocês fossem embora fazendo a seguinte objeção:
“Bem, na minha opinião, forçaram um pouco a mão, forçaram com essa interpretação…
Nembrini coloca palavras na boca de Collodi que ele não queria dizer…” Eu sei muito bem! As
coisas que vou dizer, sou eu quem diz, não Collodi. E digo tais coisas porque aprendi com Biffi a
ler de maneira que essa obra me dissesse certas coisas.
Já deve ter ocorrido com vocês, alguma vez, dizerem algo de modo totalmente inconsciente, lá
pelas oito da manhã… Eu começo a “engrenar” por volta das quatro da tarde; até essa hora, a
consciência que eu tenho de mim mesmo é muito baixa, portanto, é possível que eu encontre uma
aluna na porta da sala e, sem me dar conta, ponha a mão no seu ombro e diga: “Não fique assim,
coragem! Vamos juntos, força!” – algo que no minuto seguinte irei esquecer. Se eu encontro
meus alunos às oito da manhã com certas caras, não consigo evitar reagir instintivamente e dizer
uma boa palavra, dentro do possível… E pode ser que, no momento seguinte, eu tenha
esquecido, mas talvez descubra, anos mais tarde, que aquela palavra dita por acaso, totalmente
sem consciência do valor que poderia ter para aquele aluno, tenha sido decisiva. Quem sabe
tenha sido a primeira vez que um professor olhou nos seus olhos… É só um exemplo, cada um
poderia dar o próprio: é a beleza da comunicação entre os humanos. Pois bem, ler Pinóquio é
algo desse tipo. Não sei o que Collodi queria dizer, mas quando leio, dialogando com Pinóquio,
descubro coisas maravilhosas em relação à minha vida.

Então vamos à leitura do texto. Talvez a maior estranheza do livro esteja justamente no primeiro
capítulo: há um marceneiro que tem em suas mãos um pedaço de madeira. Esse marceneiro,
Mestre Cereja, desaparece de cena. O pedaço de madeira é entregue nas mãos de Gepeto e Cereja
não aparece mais. Realmente uma esquisitice daquelas que fazem pensar: o Pai Eterno, às vezes,
se diverte mandando suas mensagens e seus ensinamentos através de canais impensáveis e
inesperados. Algo assim deve ter acontecido com Collodi. Se ele tivesse dito: “Era uma vez um
bloco de madeira que foi parar por acaso na marcenaria de um tal Gepeto” e assim por diante, a
fábula teria funcionado com a mesma perfeição. Qual a razão desse estranho capítulo, desse
personagem que surge e logo desaparece completamente? A hipótese de Biffi é que esse primeiro
capítulo seja a chave de leitura da história inteira. Compreender o primeiro capítulo significa
compreender toda a configuração da fábula, a estrutura do percurso. Então, vamos ver do que se
trata.
Era uma vez…
– Um rei! – dirão imediatamente meus pequenos leitores.
– Não, crianças, estão enganadas. Era uma vez um pedaço de pau.
Não era madeira nobre, mas um simples pedaço de lenha, desses que, no inverno, metem-se nos fogões e nas lareiras para
acender o fogo e aquecer a casa.
Não sei como aconteceu, mas o fato é que, num belo dia, esse pedaço de pau foi parar na oficina de um velho marceneiro,
que tinha por nome Mestre Antônio, embora todo mundo o chamasse de Mestre Cereja, por causa da ponta de seu nariz, que
estava sempre brilhante e vermelha, como uma cereja madura.5

E em relação a essas primeiras linhas já haveria muito a ser dito, porque este começo convida a
refletir. Era uma vez… Todas as fábulas começam com “era uma vez”. Se pensarmos por um
momento, o problema da existência, o problema do destino de cada um de nós e da história da
humanidade, depende do tipo de resposta que damos a esta pergunta: “Era uma vez Quem?” O
que está na origem de tudo? Qual o ponto de partida? Por onde começamos? O que se encontra
no início de tudo, no começo do real?
Normalmente, pelo menos na concepção que a história cristã carregou consigo por dois mil anos,
era uma vez um rei. O Rei. A humanidade sempre deu a essa pergunta a mesma resposta: na
origem existe um Rei, existe o Senhor da realidade, existe o Senhor do Universo e, a partir daí,
se desenrolam todas as histórias. Em vez disso, desta vez, há um pedaço de madeira. Biffi faz,
nesse ponto, um percurso muito interessante, intrigante: hoje em dia, temos dificuldade em
sustentar a existência de Deus como ponto de partida, precisamos partir da realidade! Precisamos
começar, com maior dificuldade talvez, a partir da realidade, daquilo que existe! “Era uma vez
um pedaço de madeira”: a realidade, a natureza, todas as coisas, o ser. Aquilo que existe.
Identifiquemos a realidade, neste caso, com esse pedaço de madeira. Um pedaço de madeira
aparentemente normal, aparentemente algo que estamos acostumados a ver e a tocar todos os
dias. Ademais, existe um verbo a ser considerado: “Não sei como aconteceu, mas o fato é que,
num belo dia, esse pedaço de pau foi parar na oficina de um velho marceneiro”. Aconteceu. A
conduta de Mestre Cereja é o modo como não devemos ser para entrar na história de Pinóquio, é
o preâmbulo para toda a história de Pinóquio, porque explica como não devemos encarar os
acontecimentos na vida. Portanto, é uma figura claramente negativa, em contraposição à postura
muito diferente que terá Gepeto. Para Mestre Cereja, as coisas “acontecem” e não lhe interessa
muito saber sua origem, de onde vêm: as coisas caem em suas mãos e pronto.
Assim que Mestre Cereja viu aquele pedaço de pau, alegrou-se todo; e, dando uma esfregadela nas mãos de contentamento,
murmurou a meia-voz:
– Esta madeira apareceu bem a tempo: vou usar para fazer uma perna de mesinha.

Diante da realidade, alguém materialista e racionalista, como Mestre Cereja, não consegue
imaginar nada melhor do que aquilo que ele próprio seria capaz de realizar. A realidade não
possui para ele nenhum mistério escondido, a realidade é o que está diante dos olhos, a realidade
é o que é, o que os sentidos podem captar, é aquilo com que estamos acostumados a lidar. Um
pedaço de pau, no máximo, poderia se transformar em pé de mesinha. A realidade, no máximo,
poderá se curvar à minha vontade e ao meu projeto, será utilizada para a minha comodidade, para
uma finalidade, para algum interesse meu. É o máximo de imaginação que Cereja consegue ter.
Dito e feito. Pegou logo um machado afiado para começar a tirar a casca e desbastar o pau, mas, quando se preparou para a
primeira machadada, ficou com o braço suspenso no ar, porque ouviu uma voz fininha, fininha, que disse – Não me bata tão
forte!
Imaginai como ficou o bom velhinho do Mestre Cereja!
Girou os olhos pela oficina para ver se descobria de onde podia ter saído aquela voz e não viu ninguém!6

Todo o percurso terrível de Mestre Cereja é que algo acontece: a realidade é misteriosa, contém
um princípio que ele não quer admitir, não quer reconhecer, por isso tenta, constantemente,
encontrar uma explicação. Mas o fato está diante dele: ele ouve aquela bendita voz fininha! A
última coisa que ele poderia imaginar é que venha dali, daquilo que ele continuará a considerar
simplesmente um toco de madeira.
Olhou embaixo do banco, ninguém; olhou dentro de um armário que estava sempre fechado, ninguém; olhou no cesto de
cavacos e serragem, ninguém; abriu a porta da oficina para dar uma olhada também na rua, e não tinha ninguém. Ué…

O princípio misterioso que o interpela, a partir da realidade, é evitado! Cereja prefere não o
reconhecer, vai à procura de uma explicação de acordo com os cânones que ele tem em mente.
Lembra-me um professor que, depois de meses explicando o corpo humano, fez com que os
alunos escrevessem em seus cadernos o seguinte: “Caros alunos, vocês viram com clareza:
estudamos como é feito o cérebro, como é feito o coração, como é feito o estômago. Ali não se
encontra a alma, nem aqui, nem acolá; portanto, a alma não existe”. Tal professor ditou isso aos
alunos da segunda série, utilizando o mesmo tipo de procedimento de Mestre Cereja.
– Entendi – disse, então, rindo e coçando a peruca.
– Vai ver fui eu que inventei aquela voz fininha, fininha. Vamos trabalhar.

O materialista, no fim das contas, é obrigado a considerar a si mesmo um pouco estúpido, porque
é obrigado a afirmar: “Acho que estou sonhando, claramente estamos sonhando, exercitamos em
demasia a fantasia… Provavelmente foi um delírio, ou um pesadelo, ou é uma indigestão…
Vamos voltar ao trabalho, vamos ficar no ‘mundo dos fatos’”.
E retomou o machado, mandou um tremendo golpe no pedaço de pau.
Ai! Feriste-me! – gritou a mesma voz fininha, fininha, queixando-se.
Desta vez, Mestre Cereja ficou paralisado, os olhos saltando fora da cabeça de tanto medo, a boca escancarada e a língua
caindo até o queixo, como aquelas grandes caras das estátuas de chafariz. Assim que conseguiu falar, começou a dizer,
tremendo e balbuciando de medo:

O desconhecido em determinado momento dá medo, é realmente assustador.


– Mas de onde saiu essa voz que disse ai?… E, no entanto, não tem alma viva por aqui. Será que esse pedaço de pau
aprendeu a chorar e a lamentar-se como um menino?

Aí está a fé que professa o materialista:


Não posso acreditar. Aqui está esse pau.

Isto se parece com algumas declarações acerca do Ser Humano, as quais ouvimos às vezes,
infelizmente, até mesmo de grandes professores, de grandes acadêmicos, no debate sobre a
eutanásia, sobre eugenia, sobre bioética… É o mesmo que dizer: “Isso é o Homem, um
amontoado de nervos, músculos, um monte de ossos particularmente arrojados e nada mais”.
Aqui está esse pau; é lenha de lareira, como todos os outros, e, uma vez no fogo, faz ferver uma panela de feijão…

O destino vazio, a destruição.


Ué… Será que tem alguém escondido dentro?

Acabamos imaginando coisas sem sentido! Quando alguém se agarra a uma percepção
materialista da realidade, acaba dizendo coisas totalmente sem sentido: como se pudesse existir a
possibilidade de que alguém esteja ali escondido, ao invés de reconhecer o mistério que o Ser
representa, que a realidade pode comunicar e veicular à consciência humana.
Será que tem alguém escondido dentro? Se alguém se escondeu aí, pior para ele! Vou dar um jeito nele!

A ideologia, no seu furor, com sua vontade cega de negar, custe o que custar, esse aspecto
misterioso que a realidade carrega consigo, acaba se tornando violenta sempre.
E, assim dizendo, segurou o pobre pedaço de pau com as duas mãos e se pôs a batê-lo com toda a força contra as paredes da
oficina.
Depois ficou ouvindo, para ver se a voz fininha, fininha, se lamentaria. Esperou dois minutos e nada; cinco minutos e nada;
dez minutos e nada!
– Entendi – disse, então, esforçando-se para rir e ajeitando a peruca. – Vai ver fui eu que inventei aquela voz fininha,
fininha. Vamos trabalhar.

Pela segunda vez, se vê obrigado a considerar-se delirante.


E como estava morrendo de medo, começou a cantarolar para tomar coragem.
Entrementes, encostou o machado e pegou a plaina para aplainar e polir o pedaço de pau, mas, quando estava fazendo
justamente isso, ouviu a tal voz fininha, fininha, rindo e dizendo:
– Para! Estás a fazer-me cócegas!
Desta vez, o pobre Mestre Cereja caiu como fulminado. Quando voltou a si, estava sentado no chão.
Seu rosto estava transfigurado e até a ponta do nariz passou de vermelhinha a roxa, de tanto medo.

Em resumo, o comportamento de Cereja é de tipo relativista, ou científico se preferirem, muito


difundido hoje em dia. Li, há pouco tempo, a Encíclica Spe Salvi,7e é como ler Pinóquio! Ela
descreve toda a trajetória histórica, todo o percurso e demonstra exatamente como as ideologias
dos últimos dois ou três séculos, imbuídas pelo relativismo, se revelaram uma violência
impensável e, no fim das contas, uma derrota para o Homem, que seria incapaz de governar, de
amar e de abraçar a realidade pelo que é – uma vez que não sabe reconhecer na realidade um
princípio maior do que aquilo que a ciência pode dizer sobre o real. Assim sendo, não há
escapatória: tentaremos dobrar violentamente a realidade, curvando-a aos nossos próprios planos.
Vamos ver, então, como a realidade poderia ser tratada, ou melhor, como poderia nascer a
realidade, o universo inteiro: é a outra hipótese, aquela apresentada por Gepeto. Se a chave de
leitura que estou apresentando é correta, Gepeto é Deus em seu ato de criação.
A essa altura, bateram na porta.
– Entre – disse o marceneiro, sem forças para levantar.8

Entra esse senhor alegre que, apesar da semelhança com Cereja, é o seu completo oposto.
– Bom dia, Mestre Antônio – disse Gepeto. – O que fazeis no chão?
– Ensino matemática às formigas.
– Bom proveito.
– O que vos traz a mim, compadre Gepeto?
– As pernas! Sabei, Mestre Antônio, que vim pedir-vos um favor.
– Aqui estou, pronto a servir-vos – respondeu o marceneiro, ajoelhando-se.
– Hoje de manhã, brotou uma ideia no meu cérebro.

Percebem? Para Cereja as coisas acontecem, ocorrem, aparecem, são uma casualidade absoluta,
sem que ele nem ao menos se pergunte acerca do porquê e da origem das coisas. Para Gepeto,
existe um desejo, uma ideia, uma ação voluntária.
– Pensei em fabricar uma bela marionete de madeira; mas uma marionete maravilhosa, que saiba dançar, pratique esgrima e
dê saltos mortais. Com essa marionete, quero girar o mundo para ganhar meu pão e um copinho de vinho. Que vos parece?

É impressionante! Quando Gepeto põe as mãos naquele toco de madeira, lhe vem em mente essa
ideia aparentemente maluca. Como pode imaginar obter, através da matéria bruta, um boneco
maravilhoso que seja nosso companheiro por toda a vida, ou melhor, que seja companheiro de
Deus para toda a eternidade, já que a vida de Deus é a eternidade?! Um boneco, companheiro
alegre e contente, “que saiba dançar, lutar esgrima e dar saltos-mortais”. Somente Deus poderia
ter uma imaginação assim. Criar o Ser a partir do nada, inventar o Homem a partir da matéria. E
a operação que Gepeto irá realizar lembra claramente o ato criador de Deus, que realiza com
argila a sua marionete, doando-lhe uma alma, ou seja, compartilha da sua própria natureza. Nessa
passagem da fábula, ocorre exatamente a mesma coisa.
Em seguida, acontece um alvoroço e um falatório entre Cereja e Gepeto, porque aquela “voz
fininha” continuava a irritar a ambos – não sei se vocês lembram, a vozinha continuava falando e
cada um deles pensa que o outro é que está tirando sarro dele. No fim das contas, Gepeto “pegou
seu belo pedaço de pau e voltou mancando para casa”.
Acabada a batalha, Mestre Antônio tinha dois arranhões no nariz e o outro tinha dois botões a menos no colete. Empatados
dessa forma, apertaram as mãos e juraram permanecerem bons amigos pela vida toda. No fim, Gepeto pegou o seu belo
pedaço de pau e, tendo agradecido ao Mestre Antônio, voltou mancando para casa.

Terceiro Capítulo: a criação. Maravilhosa. Aqui também fico me perguntando como tenha
passado pela cabeça de Gepeto essa ideia. Ouçam as diversas etapas através das quais ele cria a
sua marionete:
A casa de Gepeto era um quartinho térreo, que recebia luz do vão sob uma escadaria. A mobília não podia ser mais simples:
uma cadeira ruim, uma cama nada boa e uma mesa toda estragada. Na parede do fundo, havia uma lareira com o fogo aceso;
mas o fogo era pintado e, junto ao fogo, estava pintada uma panela fervendo alegremente e expelindo uma nuvem de vapor
que parecia vapor de verdade.
Assim que entrou em casa, Gepeto pegou logo as ferramentas e se pôs a entalhar a madeira para fabricar sua marionete.
– Que nome lhe vou dar? – disse para consigo. – Vou chamá-la de Pinóquio.9

Nesse ponto, naturalmente, existe toda a questão do nome. Quem conhece o verdadeiro nome de
cada um de nós? O que quer dizer dar nome? O que acontece quando Deus coloca perante Adão
todos os seres vivos e lhe diz: “Tu irás dar nome a cada um deles”? Dizer o nome, dar o nome,
saber o nome, na linguagem bíblica, mas também na linguagem psicanalítica, é conhecer a
estrutura profunda daquele cujo nome se pronuncia. Dizer o nome é pronunciar a identidade do
ser que temos perante nós. Gepeto, ao dar o nome, é Deus criador, que estabelece a natureza
daquilo que está realizando e conhece a natureza daquilo que está criando.
Quando decidiu o nome de sua marionete, então começou a trabalhar mesmo e fez logo os cabelos, depois a testa, depois os
olhos.
Feitos os olhos, imaginai a sua surpresa quando percebeu que se moviam e que o miravam fixamente.

Biffi nos chama a atenção para essa particularidade, que encontramos até mesmo em Dante. Os
olhos que se moviam e que o miravam fixamente. Como podem dois olhos mover-se e mirar
fixamente, simultaneamente? Moviam-se, porque os olhos, o olhar do Homem é propenso a
abraçar toda a realidade. Move-se, pula daqui para lá, quer agarrar tudo, compreender tudo,
abraçar e amar tudo. Por outro lado, a condição para que isso seja possível é ter o olhar certeiro,
fixo n’Aquele que tudo realiza, tudo funda e tudo mantém vivo. Que belo esse olhar que se apoia
sobre toda a realidade e, ao mesmo tempo, mira fixamente os olhos do Pai! É o olhar do Homem,
aquele que deveria ser o olhar do Homem conforme fora realizado pelas mãos de Deus.
Gepeto ficou quase bravo e disse, com um tom ressentido:
– Olhões de pau, por que me encaram?
Ninguém respondeu.
Então, depois dos olhos, fez o nariz, mas o nariz, assim que ficou pronto, começou a crescer: e cresceu, cresceu, cresceu, até
que, em poucos minutos, tornou-se um narigão que não acabava mais.
O pobre Gepeto cansava de cortá-lo; mas quanto mais cortava e talhava, maior ficava aquele nariz impertinente!
Depois do nariz, fez a boca.
A boca ainda não estava pronta e já começou caçoar.

Imediatamente, caçoa do próprio pai. É o primeiro passo da rebelião inicial, daquilo que é o
pecado original, a fuga do pai, a negação da própria origem. Através de uma sucessão trágica de
acontecimentos e de decisões, irá chegar à escolha definitiva: essa criança que veio ao mundo, ao
contrário de todas as crianças que nascem chorando e provocando o sorriso dos próprios pais,
essa criança veio ao mundo rindo e provocando o pranto de seu pai.
– Pare de rir! – disse Gepeto, melindrado; mas foi como falar com as paredes.
– Pare de rir, repito! – gritou, com voz ameaçadora.
Então a boca parou de rir, mas botou para fora a língua toda.
Para não se desgastar, Gepeto fingiu não perceber e continuou a trabalhar.
Depois da boca, fez o queixo, o colo, os ombros, a barriga, os braços e as mãos.
Assim que terminou as mãos, Gepeto sentiu que lhe tiravam a peruca da cabeça. Olhou para cima e o que viu? Viu sua
peruca amarela na mão da marionete.
– Pinóquio!… Devolva já a minha peruca!
E Pinóquio, em vez de devolver a peruca, colocou-a na própria cabeça, ficando meio afogado debaixo dela.
Diante da atitude insolente e derrisória, Gepeto ficou triste e melancólico como nunca.

O mistério da tristeza de Deus perante a negação do Homem, a rejeição da própria origem e da


paternidade da qual depende.
Gepeto ficou triste e melancólico como nunca. Voltou-se para Pinóquio e disse:
– Filho patife!

Essa é a coisa mais clamorosa: a declaração explícita da intenção de Gepeto. Tinha em mente
não apenas uma marionete, sabia desde o início que estava criando um filho, em todos os
sentidos. E essa palavra estabelece o valor e o sentido de todo o texto, de toda a aventura. O
grande problema de Pinóquio será voltar a ser filho. Será realizar o propósito para o qual foi
posto no mundo. O fim da história, impressionante por este ponto de vista, incrível, será
exatamente a transformação dessa marionete, que na escatologia final, após o juízo final, depois
da ressurreição, irá se tornar finalmente aquilo para o que foi criado: filho de seu pai, uma
criança de carne e osso! A aventura de Pinóquio, por inteira, é o drama do Homem que, ao
escapar da casa do Pai, renega e perde a própria natureza de filho de Deus, luta incessantemente
durante a vida toda, tentando recuperar e reconstruir, para que se torne verdade, para que se
realize, da maneira que prevê o destino que lhe fora traçado.
– Filho patife! Ainda nem está pronto e já começa a faltar com o respeito ao seu pai! Mau, meu rapaz, mau!
E enxugou uma lágrima.
Ainda faltava fazer as pernas e os pés.
Quando Gepeto acabou de fazer os pés, sentiu logo um chute na ponta do nariz.
– Eu mereço! – disse, então, para consigo. – Devia ter pensado antes! Agora é tarde!

“É tarde”, por conta da completa fidelidade de Deus. Após ter criado o Homem, não pode mais
voltar atrás. Por que é tarde? O que poderia ser “tarde demais” para Deus? É tarde porque no seu
ato criador, no seu ato de amor, Deus não pode negar aquilo que realizou. É tarde. Ele terá de
morrer na cruz para unir os pontos novamente, porque, a partir do momento em que Ele decidiu
ultrapassar a sua infinidade para criar outra coisa, outra coisa quase infinita – a liberdade do
Homem é realmente parte da natureza de Deus. Após criar essa liberdade, Ele deve aceitar todas
as consequências. Mas Deus é fiel e não volta atrás.
Em seguida, segurou a marionete e a colocou no chão, para fazê-la caminhar.
Pinóquio tinha as pernas enrijecidas e não sabia mover-se, e Gepeto o conduzia pela mão, para ensiná-lo a dar um passo
depois do outro.

Parece uma releitura, uma citação do Antigo Testamento, de uma passagem do profeta Oséias:
“Eu ensinei Efraim a andar” (Os 11,3).
Quando as pernas amoleceram, Pinóquio começou a caminhar por si mesmo e a correr pelo aposento; até que, passada a
porta da casa, saltou para a rua e fugiu.
E o pobre Gepeto correndo atrás, sem conseguir alcançá-lo, porque aquele espertalhão do Pinóquio andava aos saltos como
uma lebre e, batendo seus pés de madeira no pavimento da rua, fazia um estrondo, como vinte pares de tamancos de
camponeses.
– Agarrem-no! Agarrem-no! – gritava Gepeto. Mas o povo que estava pela rua, vendo aquela marionete de madeira que
galopava como um cavalo de corrida, parava para ver a cena com encantamento e ria, ria e ria, porque não conseguia
entender nada.
No fim, e por sorte, apareceu um guarda…

Logo surge o Poder Civil, a Força Policial, o Estado. O poder que organiza e deveria servir para
tutelar a correta e justa convivência entre os Homens. Ambíguo, como tudo o que diz respeito ao
Homem após o pecado original. Ambíguo e, portanto, passível de erros gritantes. A tentativa do
Homem de realizar a Justiça é sempre precária, inconclusiva.
…um guarda que, ouvindo toda aquela algazarra, achou que se tratasse de um potro que fugira do dono e se plantou
corajosamente no meio da rua com as pernas abertas, decidido a pará-lo e a impedir possíveis maiores desgraças.
Mas Pinóquio, quando viu de longe o guarda, como uma barricada no meio da rua, imaginou que passaria pelo meio das
pernas dele, de surpresa, mas foi um fiasco. Sem nem se mexer, o guarda agarrou-o educadamente pelo nariz (era um
narigão despropositado, que parecia ter sido feito justamente para ser agarrado pelos guardas) e o colocou bem nas mãos de
Gepeto; o qual, a título de corretivo, queria dar-lhe, na hora, um bom puxão de orelhas. […]
Então o apanhou pelo cangote e, enquanto o reconduzia, balançava ameaçadoramente a cabeça e dizia – Vamos já para casa.
Quando estivermos em casa, não duvida que faremos nossas contas!
Ao ouvir esse refrão, Pinóquio jogou-se por terra e não quis mais caminhar.

Estamos diante do momento em que o pai deve dar uma lição ao filho. Outra passagem muito
impressionante do livro, porque o julgamento do policial, que deveria ser servo da verdade, é
completamente manipulado e distorcido pela opinião pública dos calhordas: “Entrementes, os
curiosos e os desocupados começaram a parar ali e a fazer rodinha”, ou seja, aquelas pessoas que
não têm mais o que fazer, o vadio, que inventa as próprias histórias e as fofocas. Lembram-me
um pouco os jornalistas…
Entrementes, os curiosos e os desocupados começaram a parar ali e a fazer rodinha. Uns diziam uma coisa, os outros diziam
outra. – Coitada da marionetinha! – diziam uns. – Tem toda razão de não querer voltar para casa! Vai saber quanto apanharia
desse homão do Gepeto!…

Pensem em certos posicionamentos ou modos de tratar o problema do bullying, o modo como se


comportam os jovens…
– Tem toda razão de não querer voltar para casa! Vai saber quanto apanharia desse homão do Gepeto!… E outros
acrescentavam com maldade – Esse Gepeto parece um cavalheiro! Mas é um verdadeiro tirano com os meninos! Se
deixarem essa pobre marionete em suas mãos, é bem capaz de fazê-la em pedaços!
Em suma, tanto disseram e tanto fizeram, que o guarda colocou Pinóquio em liberdade e levou preso o pobre Gepeto. O
qual, não tendo palavras para defender-se na hora, chorava como um porquinho e, enquanto caminhava para o cárcere,
balbuciava soluçando:
– Filhote desgraçado! E pensar que penei tanto para torná-lo uma boa marionete! Mas a culpa é minha! Devia ter pensado
antes!…

Novamente a absoluta fidelidade de Deus.


O que aconteceu depois é uma história difícil de acreditar e vou contá-la nos próximos capítulos.

No quarto capítulo, memorável: Pinóquio, “ultrapassando o estado de menoridade” – como


diziam os grandes iluministas do século XVIII10–, finalmente se dá conta de que o mundo é a sua
casa, deixando de lado esse anfitrião muito incômodo que era Deus e, portanto, renunciando aos
mitos da antiguidade, razão pela qual em sua “minoridade” tinha necessidade de fábulas
religiosas, a religião como conto de fadas. Superada essa “menoridade”, o Homem teria plena
consciência da própria razão – aquela com “R” maiúsculo, Razão para a qual se faziam estátuas
para serem adoradas – adquirindo plena consciência da própria razão, autoproclamando-se
Senhor do mundo. Finalmente, Gepeto desaparece de vista, Deus não é mais “uma pedra no
sapato”, podemos começar a raciocinar como Homens adultos, Homens prontos. Não
dependemos mais das antigas fábulas, temos plena consciência de todas as nossas possibilidades:
e as desenvolvemos, no total controle da realidade.
Enquanto o pobre Gepeto era conduzido sem culpa à prisão, aquele moleque do Pinóquio, livre das garras do guarda…11

A liberdade, no modo em que é entendida pelo Homem moderno, infelizmente…


…livre das garras do guarda, corria pelos campos para chegar mais rápido em casa; e, na fúria de correr, saltava penhascos
altíssimos, sebes de espinhos e fossos cheios d’água, tal e qual fariam um cabrito ou um coelhinho perseguido por
caçadores. Quando chegou, encontrou a porta da rua fechada. Empurrou, entrou e, assim que baixou a tranca, jogou-se no
chão e deu um grande suspiro de contentamento.

Ah! Finalmente Senhor da vida! Senhor da realidade, do mundo, da natureza.


Mas a alegria durou pouco, porque ouviu na casa alguém que fez:
– Cri-cri-cri!
– Quem é que me chama? – disse Pinóquio, todo apavorado.
– Sou eu!
Pinóquio virou-se e viu um grande grilo, que subia lentamente pela parede.

“Sou eu” é o modo como Deus se apresenta a Abraão, se apresenta a Moisés, é a expressão que
utiliza Jesus para se apresentar aos apóstolos. Biffi define o Grilo Falante como “mistério da
consciência moral”. Lindo! Mesmo retirando Deus do caminho, permanece um pequeno
problema a ser resolvido: dentro de nós há uma misteriosa presença Sua; há algo, isto a Bíblia
define como “imagem e semelhança de Deus”, com a qual fomos criados, há algo que nos faz
relembrar d’Ele! A Sua voz, de algum modo, ecoa em nós, ainda que tivéssemos enxotado Deus
para fora de casa, fora dos nossos pensamentos, fora do nosso entendimento. Um rastro d’Ele,
um carimbo d’Ele permanece em nós e, de vez em quando, nos faz ouvir a Sua voz. Chama-se
consciência: a consciência do que é o bem e do que é o mal, que carregam todos os Homens
consigo.
– Dize-me, Grilo: quem és tu?
– Eu sou o Grilo Falante…

Observação impressionante: todos os animais em Pinóquio falam. Por que somente o Grilo se
chama Falante? Exatamente porque, talvez, é um animal especial, não como os demais,
representa alguma coisa. E o que poderia representar o único animal da fábula que se
autodetermina falante? Aquele que por definição é a Palavra. É a Palavra, o animal que fala. É a
consciência que não pode silenciar, não pode deixar de dizer. Por isso, somente a ele é atribuído
este adjetivo: o Grilo Falante.
…e moro neste quarto há mais de cem anos.

Existo antes de você e, nesse sentido, existe algo de realmente divino, cem anos significa a
eternidade. Estou aqui desde sempre, existo desde sempre.
– Mas hoje este quarto é meu – disse a marionete – e, se quiseres me fazer um grande favor, vai embora já, sem nem olhar
para trás.
– Eu não vou embora daqui – respondeu o Grilo – sem antes te dizer uma grande verdade.
– Diz e anda logo.
– Ai das crianças que se rebelam contra seus pais e que abandonam a casa paterna por um capricho. Nunca se darão bem
neste mundo; e, mais cedo ou mais tarde, vão se arrepender amargamente.

Pobre do Homem que se rebela contra a paternidade de Deus, contra a dependência de Deus,
porque somente poderiam ocorrer coisas ruins a ele: “Nunca se darão bem neste mundo; e, mais
cedo ou mais tarde, vão se arrepender amargamente”.
– Vai cantando, meu Grilo, como quiser e gostar: mas eu sei que amanhã, ao alvorecer, vou-me embora daqui, porque, se
ficar, vai acontecer o que acontece a todos os outros meninos, ou seja, vão me mandar à escola e vou ter de estudar, por
amor ou por força; e, cá entre nós, não tenho a menor vontade de estudar e me divirto muito mais correndo atrás de
borboletas e subindo em árvores para pegar os passarinhos no ninho.
– Pobre tolinho! Mas não sabes que, se fizeres isso, quando cresceres, serás um belíssimo burro e que todo mundo vai se
aproveitar de ti?

É dizer: “Não sabes que esse caminho leva ao empobrecimento do Homem, à sua diminuição até
que se torne um animal?” Todo o percurso, dramático por esse ponto de vista, se baseia sempre
nesta alternativa, não existe uma terceira via: ou buscamos a nossa própria e verdadeira
identidade, a nossa própria fisionomia – ou Pinóquio vira filho de Gepeto –, ou o outro caminho,
que marca tanto o destino de Pavio, é tornar-se um burro, uma mula, e não termina aí! Quando
ele se transforma em um burro, é lançado ao mar com uma pedra amarrada no pescoço para que
pudessem obter uma pele para tambor (se não fosse pela aparição da fada…). A marionete, que
tinha em si um destino glorioso, luminoso, de tornar-se filho de Gepeto, pode nadar na torpeza,
na progressiva negação de si mesmo, até o ponto em que se pareça com os animais, com as
coisas, com o nada! O retorno ao nada: esta é a outra opção.
– Cala a boca, Grilão de mau augúrio! – gritou Pinóquio.
Mas o grilo, que era paciente e filósofo, em vez de se incomodar com a impertinência, continuou com o mesmo tom de voz:
– E, se não gostas de ir à escola, por que não aprendes ao menos um ofício, para poderes ganhar honestamente um pedaço de
pão?
– Queres saber? – replicou Pinóquio, que começava a perder a paciência. – Entre todos os ofícios do mundo, só há um que
me agrada.
– E qual seria esse ofício?
– O de comer, beber, dormir, divertir-me e viver como um vagabundo da manhã à noite.

O descompromisso total em relação à própria responsabilidade como Homem, de se tornar aquilo


para o qual fomos feitos. Isso, sem dúvida, exige esforço!
– Para tua informação – disse o Grilo Falante com sua calma habitual –, todos os que praticam esse ofício terminam, quase
sempre, no hospital ou na prisão.

Serão feridos no corpo e no espírito, e terão furtada de si a possibilidade de se moverem, a


própria liberdade.
– Cuidado, Grilão de mau augúrio! Se eu ficar nervoso, ai de ti!
– Pobre Pinóquio! Tu me dás mesmo pena!…
– Por que te dou pena?
– Porque és uma marionete e, o que é pior, porque tens a cabeça de pau.
Ao ouvir essas palavras, Pinóquio deu um salto enfurecido, pegou um martelo de madeira que estava sobre o banco e o
lançou contra o Grilo Falante. Talvez não achasse que acertaria: mas, desgraçadamente, acertou justamente na cabeça, tanto
que o pobre Grilo só teve fôlego para fazer um cri-cri-cri e depois ficou ali, duro e grudado na parede.

Podemos calar, com a violência, essa voz da consciência que, de algum modo, é o eco da voz do
Pai, que nos lembra a todo momento da nossa responsabilidade como Homens. Podemos calar
essa voz em favor do instinto, em favor de uma comodidade, do desinteresse, de uma
irresponsabilidade, em favor do que quisermos, podemos ferir de morte a própria consciência.
Mas há uma surpresa que iremos encontrar prosseguindo com a leitura: o Grilo não morre. De
diferentes maneiras, com outro aspecto, ele irá retornar sempre no decorrer de toda a fábula,
porque, graças a Deus, a consciência, o superior tribunal da consciência não pode ser silenciado.
É suficiente qualquer pequeno acontecimento, um encontro, às vezes um arrependimento é
suficiente, a sombra de um arrependimento, e a consciência que parecia morta volta à vida,
recomeça a falar. Portanto, o que pareceria o derradeiro fim do Grilo, descobriremos, no decorrer
da história, ser o contrário: o Grilo reaparecerá.
Por enquanto, todavia, o nosso Pinóquio logrou matar o pai e a própria consciência. Pareceria
abrir-se a porta para a razão, entendida de modo iluminista, que fala sobre a beleza da liberdade,
da completude na vida, da satisfação. Ao invés disso, aquilo que pareciam tempos de liberdade,
de completa realização de si mesmo, inicia com um quadro tragicamente negativo. Poderia
parecer que a cena se desenvolvesse em um dia tranquilo de sol, mas, de repente…
Entrementes, começou a anoitecer e Pinóquio, lembrando-se de que não havia comido nada, sentiu um vazio no estômago
que parecia muitíssimo com apetite.12

A fábula ainda não havia citado a fome, uma necessidade assim tão radical. Porém, morto o pai,
morta a consciência moral… como disse Woody Allen em um célebre e fortíssimo aforismo:
“Deus morreu, Marx morreu, e eu também não me sinto muito bem”. É o resumo desses
trezentos anos de modernidade.
O pobre Pinóquio correu logo para a lareira, onde havia uma panela fervendo, e quis tirar a tampa, para ver o que havia
dentro, mas a panela estava pintada na parede.

Aquilo que parecia satisfazer se revela sonho, ficção, fantasia, teatro, tragédia.
Imaginai como ficou. Seu nariz, que já era comprido, cresceu pelo menos mais quatro dedos. Então começou a correr pela
casa…

O quarto é o mundo, a casa de Gepeto é o mundo. A casa onde Gepeto vive, onde era possível
mover-se livremente como amigo de Gepeto, como amigo do significado verdadeiro, do
verdadeiro sentido, do verdadeiro propósito, amigo do Pai.
Começou a correr pela casa e a vasculhar todas as caixas e todos os escaninhos, em busca de um pouco de pão, quem sabe
um pouco de pão duro, uma casquinha de pão, um osso para o cachorro, um pouco de polenta embolorada, um caroço de
cereja, enfim, qualquer coisa para mastigar: mas não encontrou nada, nadica, nada mesmo.
E a fome crescia, continuava crescendo: e o único consolo do pobre Pinóquio era bocejar, e seus bocejos eram tão longos
que, às vezes, a boca lhe chegava até as orelhas. E, depois de bocejar, cuspia, e sentia que o estômago ia embora.
Então, chorando e se desesperando, dizia:
– O Grilo Falante tinha razão. Fiz mal em me rebelar contra meu pai e fugir de casa… se meu pai estivesse aqui, não estaria
agora morrendo de bocejar! Oh! Que doença feia é a fome!

Uma fome atroz, uma fome que claramente não é somente a fome do estômago, mas, sim, uma
“outra” fome, da qual falava Jesus: a fome de um significado, de um bem possível, de uma
felicidade possível. Uma fome tão aguda que obriga o Homem a dar-se por satisfeito com
qualquer coisa, a fim de ter a ilusão de saciedade.
De vez em quando, o Homem tem esses momentos de retomada de consciência, de verdade em
relação a si mesmo, ao menos reconhecendo a própria carência.
Quando, de repente, no meio de um monte de lixo, viu uma coisa redonda e branca que parecia muito com um ovo de
galinha. De uma só vez, saltou e chegou lá. Era mesmo um ovo.
É impossível descrever a alegria da marionete: é preciso saber imaginá-la. Quase pensando que era um sonho, ela girava o
ovo entre as mãos, tocava-o, beijava-o e, enquanto beijava, dizia:
– E agora, como vou cozinhá-lo? Farei uma omelete? Não, é melhor cozê-lo!… Ou não seria mais saboroso se o fritasse na
frigideira? Ou se o cozinhasse um pouquinho só para poder bebê-lo?

A essas alturas, o único poder que Pinóquio tem sobre a realidade é em relação a um ovo de
galinha. Sujeito a procurar algo para sobreviver, algo que possa satisfazer a própria fome nos
restos de lixo.
Não, o mais rápido seria fritá-lo na chapa ou na panelinha: tenho muita vontade de comê-lo!

É exatamente a idolatria: expulso o pai, acabamos por adorar um ovo de galinha em um monte de
lixo. Qual é o resultado? Depositar as próprias esperanças no ovo de galinha, no ídolo da vez.
Dito e feito: pôs uma frigideirinha sobre um fogareiro cheio de brasas; em vez de azeite ou manteiga, colocou um pouco
d’água na frigideira; e, quando a água começou a ferver, tac!… quebrou a casca do ovo e começou a abri-lo.
Mas, em vez de clara e gema, o que saiu foi um passarinho todo alegre e educado, o qual, fazendo uma bela reverência,
disse:
– Mil obrigados, senhor Pinóquio, de me ter poupado o trabalho de quebrar a casca! Adeusinho, fique bem e muitas
lembranças em casa!
Dito isto, abriu as asas e, pela janela aberta, voou a perder de vista.
A pobre marionete ficou ali, como encantada, com os olhos fixos, com a boca aberta e com a casca do ovo na mão. Mas, tão
logo se recuperou do susto, começou a chorar, a gritar, a bater os pés no chão, por desespero, e chorando dizia:
– E o Grilo Falante tinha mesmo razão! Se não tivesse fugido de casa e se meu pai estivesse aqui, agora não estaria
morrendo de fome! Oh! Que doença feia é a fome!…
Mas se torna um queixume, um lamento. Não é uma decisão verdadeira de tornar a procurar por
seu pai. É simplesmente um lamento.
E, como seu corpo continuasse a reclamar mais do que nunca e não sabia como aquietá-lo, pensou em sair de casa e dar uma
fugida até a aldeia mais próxima…

Aventura-se mundo afora, à procura do sentido perdido, da paternidade perdida, da filiação


perdida, porque a fome é enorme! A fome de beleza, de verdade, de coisas boas… Tentando
encontrar algo pelo que viver! Mas, em um mundo sem Deus, em uma casa sem pai, no que se
transforma?
Ainda por cima era uma noite de inverno. Trovejava forte, relampejava como se o céu estivesse em chamas, e um vento frio
e violento, assobiando raivosamente e levantando uma enorme nuvem de poeira, fazia gemer e ranger todas as árvores do
campo.
Pinóquio tinha muito medo dos trovões e dos relâmpagos; mas a fome era mais forte que o medo. Por isso, empurrou a porta
da casa e saiu correndo: em uma centena de saltos chegou à aldeia, com a língua de fora e bufando como um cão de caça.13

Vimos, anteriormente, como a perda do pai estabeleceu uma imbatível inimizade com a
realidade, com tudo: a panela desenhada na parede, o ovo que o sacaneia. Nem mesmo na
realidade, na concretude das coisas, é mantida a promessa de um bem que deveria cumprir-se.
Não encontramos resposta para a pergunta que carregamos no coração, para essa fome. Alguém
poderia ter esperança em uma espécie de solidariedade entre os Homens, de amizade, como
Leopardi em A Giesta, ou a flor do deserto,14 mas, na verdade, descobre-se que mesmo o
relacionamento com os outros não resiste, não permanece de pé. Sem um pai em comum, como
poderíamos ser todos irmãos? Para que sejamos irmãos, deve existir um pai. Sem um Pai comum
a todos, a fraternidade se torna impossível.
Do mesmo modo, a amizade entre os Homens se torna incompreensão, cada relacionamento
entre os Seres Humanos está prestes a ruir, a se revelar o contrário do que parece. A imagem
correspondente a isso, contida na Bíblia, é a Torre de Babel. A rebelião contra Deus estabelece,
incrivelmente, o fim da possibilidade de comunicação entre os Homens. “Daquele dia em diante,
falaram línguas diferentes”: não mais se compreendiam. Exatamente o que se passa com
Pinóquio. Ele sai pelo vilarejo, pela comunidade dos Homens, onde há outras pessoas, onde se
esperaria encontrar um pouco de compreensão, de solidariedade: ali estão os seus irmãos, ali
alguém lhe estenderá a mão!
Mas encontrou tudo escuro e tudo deserto. As lojas estavam fechadas; as portas das casas, fechadas; as janelas, fechadas e,
na rua, nem mesmo um cão. Parecia a terra dos mortos.

Assim se torna o mundo sem um Pai.


Então, tomado pelo desespero e pela fome, Pinóquio puxou a sineta de uma casa e começou a tocar à vontade, dizendo para
consigo: – Alguém vai aparecer.
De fato, apareceu um velhinho com a touca de dormir na cabeça e gritou, zangado: – O que queres a esta hora?
– Que me dessem um pouco de pão.
– Espera aí que volto já – respondeu o velhinho, certo de estar lidando com aqueles meninos chatos…

É justamente um mal-entendido! Não nos entendemos mais: Pinóquio realmente tinha fome, mas
o velhinho não acredita, e tem a sua parcela de razão.
…certo de estar lidando com aqueles meninos chatos, que se divertem à noite tocando a sineta das casas, para aborrecer
gente boa, que está dormindo tranquilamente.
Passado meio minuto, a janela reabriu e a voz do mesmo velhinho gritou para Pinóquio: – Estenda seu gorro.
Pinóquio tirou na hora seu gorrinho para receber o pão; mas enquanto se preparava, sentiu chover sobre si um enorme balde
d’água, que o encharcou todo, da cabeça aos pés, como se fosse um vaso de gerânios murchos.
Voltou para casa molhado feito um pinto e acabado de cansaço e fome; e como já não tinha forças para se manter em pé,
sentou-se, apoiando os pés úmidos e enlameados, sobre um fogareiro cheio de brasas.

Estamos no terceiro nível de negação, o maior de todos. Após perder a amizade com a realidade,
perder a amizade com os outros Homens, a maior tragédia de todas qual seria? Perder a amizade
consigo mesmo. Quem comete pecado contradiz a si mesmo, diz o Evangelho. O problema não é
desobedecer a Deus ou desrespeitá-Lo. O mal, o afastamento da verdade, a negação da verdade
nos afasta de nós mesmos, nos destrói, faz mal a nós mesmos. E assim, nosso Pinóquio, que se
vangloriava de ter finalmente conquistado a independência do Pai, se vê inimigo de tudo e de
todos, mas sobretudo inimigo de si mesmo. Inconsciente, dorme. E, enquanto dorme, seus pés
incendeiam. Queima-se, consome-se, retorna ao nada, retorna ao destino que lhe havia
determinado o pensamento baixo, desesperançado, como Mestre Cereja: um pedaço de madeira
bom para acender o fogo e esquentar os cômodos. Pinóquio queima, volta a ser cinza. Parece ser
a última palavra, o nada vence.
E ali adormeceu; enquanto dormia, os pés, que eram de madeira, pegaram fogo e, devagarzinho, carbonizaram-se e viraram
cinzas.

De quantas maneiras podemos dormir, inconscientes, em relação a nós mesmos e em relação ao


que nos circunda, acerca das nossas responsabilidades: e a vida acaba não sendo outra coisa
senão esse dormir, essa letargia e, pouco a pouco, tudo se transforma em cinzas. A parte final da
encíclica papal sobre o juízo final explica justamente a respeito desse tema. O que é o juízo
final? É quando nos tornamos aquilo que buscamos ser durante toda a vida. Se durante toda a
vida dormimos com os pés sobre um tição de brasa acesa, o juízo final será que nos tornaremos
cinzas, seremos nada. O inferno é exatamente isso.
E Pinóquio continuava a dormir e a roncar, como se os seus pés fossem de outra pessoa.

Podemos dormir e roncar na vida, como se o coração que está se deteriorando não fosse o nosso,
mas o de outra pessoa, como se a própria razão estragada fosse a de outra pessoa e não sua.
Finalmente, quando amanheceu, acordou…

O que poderia nos remover desse torpor? O que poderia nos acordar se estamos adormecidos e
queimamos lentamente? Que coisa poderia recriar aquilo que foi perdido? O que poderia
recuperar nossos pés incendiados, o coração pequeno e mesquinho que acabamos construindo, a
nossa razão pequena e mesquinha? O que poderia nos redimir com a verdade, com a plenitude da
vida?
Finalmente, quando amanheceu, acordou porque alguém havia batido na porta.

Belíssimo! Todos os dias, podemos despertar porque alguém bate à nossa porta enquanto
dormíamos. Se dependesse de nós mesmos, permaneceríamos adormecidos, porém não é assim.
Despertamos porque alguém bate à nossa porta. E quem bate à porta? Deus! O próprio Deus bate
à porta de cada um de nós diariamente para nos manter acordados, atentos, vigilantes.
– Quem é? – perguntou, bocejando e esfregando os olhos.
– Sou eu – respondeu uma voz.
Aquela voz era a voz de Gepeto.
O pobre Pinóquio, que continuava com os olhos adormecidos, ainda não vira os próprios pés, que haviam queimado. Assim,
tão logo ouviu a voz de seu pai, desceu correndo do banquinho para abrir a porta. Mas, depois de dois ou três trambolhões,
caiu estendido no chão.15

Vocês se lembram da surpresa de Dante? A selva tenebrosa, ele está morrendo, está definhando,
como Pinóquio, está despencando no nada, está se transformando em pó, até o momento em que
vislumbra a colina iluminada pelo sol, a salvação se faz presente, então partimos apressados, na
tentativa de escalar a colina… e nada feito… Surge o leão, a loba, ou no caso de Pinóquio os pés
incendiados: uma fraqueza extrema, uma ferida originária, uma incapacidade estrutural priva o
Homem daquilo que gostaria de realizar: correr para os braços de Deus quando percebe a Sua
presença, quando gostaria que Ele fosse presente.
Ou ainda, lembram-se da parábola de Ícaro? Aquilo que conheciam bem os antigos, que o
Homem, somente com as próprias forças, não é capaz de alcançar a Deus, de chegar ao sol.
E, ao bater no piso, fez o mesmo barulho que teria feito um monte de objetos caindo do quinto andar.
– Abre para mim! – gritava Gepeto da rua.
– Meu papai, não posso – respondia a marionete, chorando e rodopiando no chão.
– Por que não podes?
– Porque me comeram os pés.
– E quem te comeu os pés?
– O gato – disse Pinóquio, ao ver o gato que, com suas patinhas, se divertia brincando com uns pedacinhos de pau.
– Abre para mim, digo-te! – repetiu Gepeto. – Senão, vais tomar uma surra quando eu entrar!
– Não consigo ficar de pé, acredite em mim. Oh, pobre de mim! Pobre de mim, que terei de caminhar ajoelhado por toda a
vida!
Gepeto, achando que toda essa choradeira fosse outra molecagem da marionete, resolveu acabar com aquilo e pulou o muro,
entrando na casa pela janela.

Incrível! Deus entra na vida do Homem de maneira inédita. É uma surpresa: uma maneira que o
Homem jamais teria imaginado. Como poderia o Homem, após ter tomado consciência de sua
própria fragilidade, de uma impossibilidade de abrir a porta, como poderia ter imaginado que
Deus entraria pela janela? Poderia imaginar o Homem, após tomar consciência da
impossibilidade de se tornar como Deus, que Deus se tornaria como o Homem? Como
poderíamos pensar que, não sendo capazes de voar, Deus desceria na Terra e nasceria em uma
manjedoura, se tornaria uma criança e seria morto na cruz para fazer-nos companhia, para nos
salvar? Deus entra na história de maneira totalmente imprevisível, fora de qualquer esquema:
Deus entra sempre pela janela, nunca pela porta principal! Entra sempre de um modo
surpreendente, de um modo impensável, de modo gratuito.
No começo, queria fazer e acontecer. Mas, depois, quando viu seu Pinóquio esparramado pelo chão e realmente sem os pés,
então se enterneceu. E o pegou no colo imediatamente, pôs-se a beijá-lo e a fazer-lhe mil carícias e mil dengos e, em meio às
lágrimas que lhe caiam aos borbotões, disse soluçando:
– Meu Pinoquinho! Como foi que queimaste os pés?

Meu povo, o que fizeste? Onde estiveste? E Pinóquio começa a contar toda a história…
E o pobre Pinóquio começou a chorar e a berrar tão forte, que dava para ouvir a cinco quilômetros dali. Gepeto, que de toda
essa conversa confusa, só tinha entendido uma coisa, ou seja, que a marionete estava morrendo de fome…

Ou seja, Pinóquio sentia uma grande fome! Essa é a única coisa que Deus observa naquele monte
de baboseiras que Pinóquio narra: olha para ele e vê a sua necessidade, e abraça a sua carência.
Deus é misericórdia: abraça a miséria do Homem.
…tirou do bolso três peras e, oferecendo-as, disse:
– Estas três peras seriam meu desjejum; mas dou-as a ti de boa vontade. Come-as e faz bom proveito.

E imediatamente, no instante em que Deus realiza essa ação, vindo ao encontro da carência do
Homem, entrando pela janela, abraçando-o, beijando e perdoando, doando-lhe a própria refeição
para saciar sua fome, imediatamente, o Homem infla o seu orgulho e pensa que tudo lhe seja
devido.
– Se queres que eu as coma, faz-me o favor de descascá-las.

O Homem, mesmo perante Deus, de modo incompreensível, é como se tivesse ainda uma
exigência a mais. Biffi escreve – numa dentre suas tantas ideias divertidas: “Às vezes, parece
possível que o Homem, ainda que conseguisse chegar ao Paraíso no fim dos tempos, pudesse
olhar a sua volta com uma expressão um tanto enojada, como a de quem já viu algo melhor em
sua terra natal”. Somos exatamente assim: capazes de entrar no Paraíso com a cara de quem já
viu coisa melhor na própria cidade.
Depois, Gepeto dá de presente para Pinóquio o abecedário. O abecedário é a razão, presenteia-o
com a razão, ou seja, a capacidade de discernimento, a capacidade de ser, de existir. Escola
significa tomar consciência de si mesmo. Finalmente, ir à escola significa ter acesso ao
conhecimento do que é o bem e o que é mal. Participar da vida de Deus, ou seja, de Gepeto, é
conhecer o bem e o mal, a verdade, a verdadeira vida. A escola seria isso. Ainda assim, Pinóquio
faz milhares de promessas, como fazem sempre os Homens… Como fazemos para evitar o
comprometimento com a singularidade da vida cotidiana? Imaginando que realizaremos amanhã
ou depois algum grande feito.
Quero comprar um belo casaco novo para meu pai, todo de ouro e prata e com botões de brilhantes; e depois quero comprar
uma cartilha para mim.

Propósitos muito bonitos, mas, infelizmente, tão bonitos quanto impossíveis. Teria sido muito
mais sério, grandioso e digno o humilde propósito de ir à escola. Mas, ao invés disso, o
desenrolar da história nos leva até o episódio de Comefogo: arrastado para o teatro de
marionetes, Pinóquio irá vender o abecedário que Gepeto lhe havia comprado – vendendo por
sua vez seu casaco. Pinóquio vende o abecedário, ou seja, vende a própria razão para participar
no teatro das marionetes.
É possível jogar fora a própria razão, a própria alma, a própria consciência! Podemos jogar fora a
própria razão, porque é infinitamente mais simples, mais fácil entrar para o teatro das marionetes,
deixar-se enganchar por três fios e deixar-se comandar pelos vários ventríloquos desse mundo e
viver assim, dar-se por satisfeito com o destino de ser queimado para cozinhar o carneiro de
Comefogo – que é a alternativa ao Pai.
Novamente, tertium non datur, ou um pai ou um patrão, ou Gepeto ou Comefogo. Ou somos
dependentes de Deus e livres de todo o resto, ou livres de Deus e escravos de tudo, dos milhares
de Comefogos que o mundo de hoje nos oferece.
Em seguida – salto para a conclusão – Collodi narra, em sequência, a salvação que intervém
através de Comefogo, o episódio das moedas, o gato e a raposa; ou seja, o mistério do mal, o
diabo, até o enforcamento que recorda exatamente a Sexta-feira Santa: “Paizinho, se tu estivesses
aqui!” O grito de Pinóquio é aquele de Jesus na cruz: “Pai, por que me abandonaste?”, enquanto
a escuridão recai sobre a terra.
Depois, Pinóquio é resgatado, salvo e devolvido vivo, após a intervenção dessa estranha
personagem Fada dos Cabelos Turquesa, uma fada extraordinária de cabelos azuis, que outra
coisa não é senão a Igreja: uma presença extraordinária e misteriosa, à primeira vista
contraditória, que, a partir do sacrifício de Pinóquio/Cristo – poderíamos até mesmo dizer que
divide a fábula em Antigo e Novo Testamento, antes e depois do episódio da morte – irá
acompanhar Pinóquio na sua tentativa de retornar ao pai. Nos momentos de necessidade, ela
estará presente com todas as suas exigências, ordens, e seus remédios, sem dúvida difíceis de
ingerir – ou seja, os sacramentos – e, muitas vezes, Pinóquio não vai querer tomá-los, mas a
Igreja com os seus medicamentos (a Fada dos Cabelos Turquesa) está sempre ali, pronta, no
momento de necessidade, para ajudá-lo a retomar o caminho, presente em mil maneiras e modos
diferentes, até a conclusão da história com aquele impressionante capítulo em que, finalmente,
Pinóquio retorna para a casa do pai – que, não por acaso, irá reencontrar no oceano, no meio
d’água: o mistério do Batismo, o renascimento da vida na água.
Na visão escatológica final, Pinóquio acorda e, com um sorriso de satisfação e pacífica aceitação,
vê, caída em um campo, já imóvel, a velha marionete, um pedaço de pau, reconhecendo a si
mesmo como um garoto de verdade, de carne e osso finalmente, definitivamente filho de seu Pai.

1 Tex Willer é uma revista em quadrinhos escrita e realizada em 1948 por Giovanni Luigi Bonelli e pelo desenhista Aurelio
Galleppini, e ainda hoje publicada na Itália pela Editora Sergio Bonelli.
2 G.Biffi, Contro maestro Ciliegia, Milão: Jaca Book, 2009.
3 Caderno especial para jovens do histórico jornal italiano Corriere della Sera, com histórias em quadrinhos e atualidades,
publicado na Itália nos anos setenta. [N.d.T.]
4 Relativo à dinastia Savoia, família real desde a constituição do Reino d’Italia (1861) até a instauração da República (1946).
[N.d.T.]
5 C. Collodi, As aventuras de Pinóquio. História de uma marionete, Tradução de Leda Beck. São Paulo: Editora Martin
Claret, 2015, cap. I.
6 Ibidem, cap. I
7 Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi sobre a esperança cristã, 2007.

8 C. Collodi, As aventuras de Pinóquio, op. cit., cap. II.


9 Ibidem, cap. III.

10 “O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado”, I. Kant, Resposta à pergunta: O que
é o Iluminismo. In: Da paz perpétua e outros opúsculos. Lisboa: Edições 70, 2009.
11 C. Collodi, As aventuras de Pinóquio, op. cit., cap. IV.

12 Ibidem, cap. V.
13 Ibidem, cap. VI.

14 G. Leopardi, Canto XXXIV, A Giesta, ou a flor do deserto, em Cantos, Edição digital 2014, trad. Renato Suttana.
15 C. Collodi, As aventuras de Pinóquio, op. cit., cap. VII.
Biografia
Para Franco Nembrini, pai de quatro filhos, professor e diretor escolar por mais de quarenta anos,
a educação é a vocação de nossas vidas. O presente volume reúne aulas, encontros e testemunhos
colhidos em conferências realizadas pelo autor em centros culturais, escolas, universidades e
paróquias. Procurou-se salvaguardar ao máximo a imediatez de sua comunicação, apresentando
na íntegra uma seleção de diálogos que tratam sobre diversos aspectos da temática educativa.
Franco nasceu em Bérgamo (Itália) em 1955, quarto de dez filhos. Formou-se em Pedagogia na
Universidade Católica de Milão e ensinou por mais de quarenta anos Religião, Literatura e
História na escola pública. Em 1982, juntamente com um grupo de pais, fundou a escola La
Traccia, que hoje conta com mais de mil alunos do Ensino Fundamental e Médio.
De 1999 a 2006 foi presidente da Federazione Opere Educative, fez parte do Conselho Nacional
italiano de Escolas Católicas, da Comissão Nacional da Pastoral Escolar da Conferência
Episcopal Italiana, e ainda da Commissione per la Parità Scolastica do Ministério da Educação
italiano.
Desde 2015 produz com Tv2000 programas culturais sobre Dante Alighieri e Pinóquio.
Em 2018 foi nomeado membro do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, e em 2020
sócio honorário da União Católica de Artistas Italianos.
Atualmente está preparando para a editora Mondadori uma versão integralmente comentada da
Divina Comédia, ilustrada por Gabriele Dell’Otto.
www.franconembrini.com

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