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C o m e n t á r io B íb l ic o

E x p o s it iv o

Antigo Testamento
Volume I —Pentateuco

W arren W. W iersbe

T r a d u z id o p o r
S u s a n a E. K lassen

I a Edição
5 a Impressão

Geogrófka
Santo André, SP - Brasil
2010
Comentário Bíblico Expositivo
Categoria: Teologia / Referência

Copyright ® 2001 por Warren W. Wiersbe


Publicado originalmente pela Cook Communications Ministries,
Colorado, e u a .

Título Original em Inglês: The Bible Exposition Commentary - Old


Testament: Pentateuch *

Preparação: Liege Maria de S. Marucci


Revisão: Theófilo Vieira
Capa: Douglas Lucas
Diagramação: Viviane R. Fernandes Costa
Impressão e Acabamento: Geográfica Editora

Os textos das referências bíblicas foram extraídos da versão Almeida


Revista e Atualizada, 2 a edição (Sociedade Bíblica do Brasil), salvo indi­
cação específica.

A 1a edição brasileira foi publicada em maio de 2006.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Wiersbe, Warren W.
Com entário Bíblico Expositivo : Antigo Testam ento : volum e I,
Pentateuco / Warren W. Wiersbe ; traduzido por Susana E. Klassen. -
Santo André, SP : Geográfica editora, 2006.

Título original: The Bible Exposition Commentary -


Old Testament: Pentateuch

ISBN 85-89956-48-2

1. Bíblia A.T. - Comentários I. Título.

06-3968 CDD-221.7
índice para catálogo sistemático:
1. Antigo Testamento : Bíblia : Comentários 221.7
2. Comentários : Antigo Testamento : Bíblia 221.7

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados pela:

Geo-Gráfica e editora Itda.


Av. Presidente Costa e Silva, 2151 - Pq. Capuava - Santo André - SP - Brasil
Site: www.geograficaeditora.com.br
S u m á r io

G ên esis ................................................................................................... 7

Ê x o d o ................................................................................................ 232

L ev ít ic o .............................................................................................. 329

N ú m e r o s ........................................................................................... 408

D e u t e r o n ô m io ................................................................................. 4 9 0
G ên esis

ESBO ÇO Observe as dez "gerações" em Gênesis: Os


céus e a Terra (1:1 - 2:46); Adão (5:1 -
Tema-chave: Começos 6:8); Noé (6:9 - 9:29); Sem, Cam e Jafé
Versículo-chave: "No princípio, criou Deus..." (10:1 - 11:9); Sem (11:10-26); Tera (11:27
( 1 :1 ) - 25:11); Ismael (25:12-18); Isaque (25:19
- 35:29); Esaú (36:1 - 37:1); Jacó (37:2 -
I. DEUS CRIA O UNIVERSO - 1 50:26).

II. ADÃO E EVA - 2-5 CONTEÚDO


1. O jardim - 2 1. A.C.: Antes da criação
2. A queda - 3 (Gn 1:1)............................................ 9
3. As conseqüências da queda - 4-5 2. Quando Deus fala, algo acontece
(Gn 1)............................................ 15
III. NOÉ E SUA FAMÍLIA - 6:1 - 3. As primeiras coisas primeiro
11:9 (Gn 2)............................................ 21
1. O dilúvio - 6-7 4. Este é o mundo de meu Pai -
2. A nova Terra - 8 ou não?.......................................... 28
3. A aliança - 9 5. Perigos no paraíso
4. As nações - 10 (Gn 3)............................................ 34
5. A torre de Babel - 11:1-9 6. Caim no centro do palco
(Gn 4:1-24).................................... 42
IV. ABRAÃO E SARA - 11:10 - 7. Quando as perspectivas são
25:11 sombrias, tente olhar para cima
O começo do povo hebreu (Gn 4:25 - 6:8)...............................48
8. Um homem e sua fé, um homem
V. ISAQ UE E REBECA - 25:12 - e sua família (Gn 6:9-7:24)................ 54
28:22 9. O Deus dos recomeços
(Gn 8)............................................ 60
VI. JACÓ E SUA FAMÍLIA - 29:1 - 10. À vida! À vida!
38:30 (Gn 9:1-17).................................... 66
O estabelecimento do povo hebreu como 1 1 .0 resto da história
nação (Gn 9:18 - 10:32).............................. 71
12. Cuidado - Deus trabalhando
VII. JOSÉ E SEU MINISTÉRIO - (Gn 11).......................................... 77
39:1 - 50:26 13. De volta aos fundamentos
A proteção dos hebreus como nação (Revisão de Gn 1 - 11)..................... 82
8 G Ê N E S IS

14. Um novo começo 27. Uma obra-prima arruinada


(Gn 11:27 - 12:9)..........................86 (Gn 27 - 28)................................. 156
15. Fome, rebanhos e rixas 28. Disciplina e decisões
(Gn 12:10 - 13:18)........................91 (Gn 2 9 - 3 1 )................................. 163
16. Crer é vitória 29. Pondo o passado em ordem
(Gn 14).......................................... 96 (Gn 32 - 34)................................. 170
17. A noite escura da alma 30. Você pode voltar para casa
(Gn 15)........................................ 102 (Gn 35 - 36).................................. 177
18. Cuidado com os desvios! 31. Apresento-lhes o herói
(Gn 16)........................................ 107 (Gn 37)......................................... 182
19. O que é um nome? Interlúdio: Judá e Tamar
(Gn 17)........................................ 112 (Gn 38)......................................... 188
20. Como pelo fogo 32. O Senhor faz a diferença
(Gn 18- 19)................................. 117 (Gn 3 9 -41)................................... 190
21. Abraão, o vizinho 33. Quando os sonhos se realizam
(Gn 20; 21:22-34)......................... 123 (Gn 42 - 43).................................. 197
22. "Tempo de chorar, tempo de rir" 34. A verdade e suas conseqüências
(Gn 21:1 -21; GI 4:21-31)................128 (Gn 44 - 45)................................... 204
23. A maior prova de todas 35. A sabedoria do avô
(Gn 22)......................................... 133 (Gn 46 - 48)................................... 210
24. Lá vem a noiva! 36. Uma família de futuro
(Gn 24)........................................ 138 (Gn 49)......................................... 216
25. "Tempo de morrer" 3 7. Três ataúdes
(Gn 23; 25:1-11)............................143 (Gn 50)......................................... 222
26. Tal pai, tal filho... quase 38. Seja autêntico:
(Gn 25 - 26)................................. 149 Visão geral e resumo....................... 228
Se você quer confundir sua cabeça, me­
1 dite sobre o conceito de eterno, algo que
não tem começo nem fim. Sendo criaturas
ligadas ao tempo, você e eu podemos facil­
A .C .: A ntes d a C ria ç ã o mente nos concentrar nas coisas passageiras
ao nosso redor. No entanto, é difícil - para
G ê n e s is 1 :1 não dizer impossível - imaginar aquilo que é
eterno.3 Contemplar a natureza e o caráter
do Deus Trino que sempre foi, que é, e que
sempre será, daquele que nunca muda, é uma
tarefa grande demais para nós. "No princí­
pio, criou Deus"; Moisés escreveu: "Antes
pesar do nome "Gênesis", que significa que os montes nascessem e se formassem a
A "começos", e de sua localização como o
primeiro livro da Bíblia, o Livro de Gênesis
terra e o mundo, de eternidade a eternidade,
tu és Deus" (SI 90:2). Frederick Faber ex­
não é o começo de tudo. Gênesis 1:1 nos pressou esse fato da seguinte maneira:
lembra que: "No princípio, criou Deus". Assim,
antes de estudar os fundamentos apresenta­ Além do tempo, do espaço, único e só.4
dos em Gênesis 1-11, vamos nos familiarizar E, no entanto, Três em sua sublimidade,
com o que Deus fez antes daquilo que se Tu és, grandiosamente
encontra registrado em Gênesis. Depois disso, e para sempre, somente
estudaremos o que Deus fez e que aparece Deus em unidade!5
no relato de Gênesis e, por fim, o que ocorreu
depois de Gênesis. Isso nos dará a visão mais A "teologia de processo", uma antiga here­
ampla de que precisamos para estudar o res­ sia com uma roupagem moderna, fala de um
tante da revelação de Deus na Bíblia. "deus limitado" que se encontra no proces­
so de tornar-se um deus "maior". Contudo,
1. A n tes d e G ê n e s is : o p l a n o d e se Deus é Deus, da forma como entendemos
REDENÇÃO essa palavra, então ele é eterno e não precisa
O que estava acontecendo antes de Deus de nada; ele é onisciente, onipotente e
criar o Universo com sua palavra? Essa pode onipresente. A fim de ter um "deus limita­
parecer uma pergunta hipotética e pouco do", é preciso, antes de tudo, redefinir a pa­
razoável do tipo: "Quantos anjos cabem na lavra "Deus", pois de acordo com a própria
cabeça de um alfinete?", mas não é!1Afinal, definição desse termo, Deus não pode ser
Deus não age de modo arbitrário, e o fato de [imitado.
ter criado algo indica que devia ter em men­ Além disso, se Deus é limitado e "está
te um propósito magnífico. Qual era, então, se expandindo", que poder o está tornando
a situação antes de Gênesis 1:1 e o que ela maior? Esse poder teria de ser maior do que
nos ensina sobre Deus e sobre nós mesmos? "Deus" e, portanto, ser Deus! Isso não faria,
Deus existia em glória sublime. Deus é então, com que tivéssemos dois deuses em
eterno. Ele não tem começo nem fim. As­ vez de um?6 Porém, o Deus da Bíblia é eter­
sim, é totalmente auto-suficiente, não pre­ no e não tem começo. Ele é infinito e não
cisa de nada além dele mesmo para existir e possui qualquer limitação de tempo ou es­
agir. De acordo com A. W. Tozer: "Deus tem paço. Ele é perfeito e não tem como "me­
uma relação voluntária com tudo o que lhorar"; por ser imutável, não tem como
criou, mas não tem uma relação necessária sofrer qualquer alteração.
com coisa alguma além dele próprio".2 O Deus que Abraão adorava é o Deus
Deus não precisa de nada, nem do Univer­ eterno (Gn 21:33), e Moisés disse aos
so material e nem da raça humana, e, no israelitas: "O Deus eterno é a tua habitação
entanto, criou os dois. e, por baixo de ti, estende os braços eternos"
10 G Ê N E S IS 1 :1

(Dt 33:27). Habacuque disse que Deus era não foi criado e que é o único e verdadeiro
"desde a eternidade" (Hc 1:12; ver também Deus. Adorar os falsos deuses dos povos que
3:6), e Paulo chamou-o de "Deus eterno" viviam a seu redor foi a grande tentação e o
(Rm 16:26; ver também 1 Tm 1:17). pecado no qual Israel caiu repetidamente,
A Trindade divina encontrava-se em co­ de modo que Moisés e os profetas bateram
munhão de amor. "No princípio, criou Deus" sempre na tecla da unidade e da singularida­
seria uma declaração assustadora para um de do Deus de Israel. Até hoje, o adorador
cidadão de Ur dos caldeus, lugar de onde judeu devoto recita o Shema todos os dias:
Abraão veio, pois os caldeus e os povos ao "Ouve [shema], Israel, o S e n h o r , nosso Deus,
seu redor adoravam uma miríade de deuses é o único S e n h o r . Amarás, pois, o S e n h o r , teu
e deusas maiores e menores. No entanto, o Deus, de todo o teu coração, de toda a tua
Deus de Gênesis é o único Deus verdadeiro alma e de toda a tua força" (Dt 6:4,5). O
e não tem "deuses rivais" para contender com Deus revelado nas Escrituras não tem seme­
ele, como acontece nas fábulas e mitos do lhantes nem rivais.
mundo antigo (ver Êx 15:1; 20:3; Dt 6:4; 1 Rs No entanto, o Antigo Testamento apre­
8:60; 2 Rs 19:15; SI 18:31). senta vislumbres e alusões à maravilhosa
Esse Deus verdadeiro e único existe na verdade da Trindade, uma verdade que mais
forma de três pessoas: Deus o Pai, Deus o tarde seria claramente revelada por Cristo e
Filho, e Deus o Espírito Santo (ver Mt 3:16, pelos apóstolos no Novo Testamento. As de­
17; 28:18-207; Jo 3:34, 35; 14:15-17; At clarações na terceira pessoa do plural en­
2:32, 33; 38,39; 10:36-38; 1 Co 12:1-6; 2 Co contradas em Gênesis (Gn 1:26; 3:22; 11:7;
13:14; Ef 1:3-14; 4:1-6; 2 Ts 2:13, 14; Tt ver também Is 6:8) indicam que as Pessoas
3:4-6; 1 Pe 1:1, 2). Isso não quer dizer que da Divindade trabalham juntas, e as diversas
um só Deus se manifesta de três formas di­ ocasiões em que "o Anjo do S e n h o r " entrou
ferentes nem que há três deuses, mas sim em cena, mostram a presença do Filho de
que um Deus existe em três Pessoas, iguais Deus (ver Gn 16:7-11; 21:17; 22:11, 15;
em seus atributos e, no entanto, individuais 24:7, 40; 31:11; 32:20-24; Êx 3:1-4 com At
e distintas no que se refere a seus ofícios, 7:30-34; 14:19; 23:20-26; 32:33 - 33:17; Js
incumbências e ministérios. De acordo com 5:13ss; Jz 2:1-5 e 6:11 ss).
o Credo de Nicéia (325 d.C.), "Cremos em O Messias (Deus, o Filho) fala de si mes­
um só Deus, Pai [...] e em um só Senhor, mo, do Espírito e do Senhor (Pai) em Isaías
Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo 48:16, 17 e 61:1-3; e o Salmo 2:7 declara
Pai [...] Luz da Luz, Deus verdadeiro do que Jeová tem um Filho. Jesus tomou o
Deus verdadeiro, gerado, não criado, de versículo 7 para si quando desafiou os inimi­
uma só substância com o Pai [...]. Cremos gos que não o aceitavam como Filho de Deus
no Espírito Santo". (Mt 22:41-46). Em Gênesis 1:2 e 6:3, o Espí­
Certa vez, ouvi um pastor começar um rito de Deus é distinguido do Senhor (Pai), e
culto orando: "Pai, obrigado por morrer por essa mesma distinção pode ser encontrada
nós na cruz". Contudo, foi Deus, o Filho, não em Números 27:18; Salmo 51:11; Isaías
Deus, o Pai, quem morreu pelos pecadores 40:13; 48:16; e Ageu 2:4,5.
na cruz; e é Deus, o Espírito Santo, que con­ Apesar de a palavra "trindade" não apa­
vence os pecadores e os conduz ao arrepen­ recer em parte alguma da Bíblia, a doutrina
dimento e à salvação. Misturar e confundir certamente está presente, oculta no Antigo
as três Pessoas da Divindade implica fazer Testamento e revelada no Novo. Essa doutri­
algo arriscado: mudar o que é ensinado nas na profunda e misteriosa tem algum signifi­
Escrituras. cado prático para o cristão da atualidade?
A doutrina da Trindade não foi revelada Sem dúvida, pois as três Pessoas da Divinda­
claramente no Antigo Testamento, pois a ên­ de estão todas envolvidas no planejamento
fase dessa parte das Escrituras é sobre o fato e na execução da vontade divina para o Uni­
de que o Deus de Israel é um só Deus, que verso, inclusive o plano da salvação.
G Ê N E S IS 1:1 11

A Trindade divina planejou a redenção. em Cristo antes da fundação do mundo. No


O maravilhoso plano de redenção não foi entanto, eu não tinha conhecimento algum
algo improvisado para o povo de Deus es­ da eleição divina até que fui convertido9. No
colhido em Cristo "antes da fundação do que se refere ao Filho, fui salvo quando ele
mundo" (Ef 1:4; Ap 17:8) e entregue ao Filho morreu por mim na cruz, e eu sabia dessa
pelo Pai tanto para pertencer a seu reino (Mt grande verdade desde os primeiros dias de
25:34) quanto para participar de sua glória minha vida. No entanto, no que se refere ao
(Jo 17:2, 6, 9, 11,12, 24). A morte sacrificial Espírito Santo, fui salvo em maio de 1945,
do Filho não foi um acidente, mas sim um quando fui convencido pelo Éspírito de Deus
compromisso (At 2:23; 4:27, 28); pois ele e confiei em Jesus Cristo. Então, concretizou-
"foi morto desde a fundação do mundo" (Ap se em minha vida aquilo que Deus havia pla­
13:8). nejado desde a eternidade.
Nas deliberações eternas, a Divindade de­ O nascimento espiritual é um tanto pare­
cidiu criar um mundo que incluiria seres hu­ cido com o nascimento humano: você passa
manos feitos à imagem de Deus. Não só o por ele, mas leva algum tempo para com­
Pai (Gn 1:1; 2 Rs 19:15; At 4:24), mas tam­ preendê-lo! Afinal, eu não saberia o dia de
bém o Filho (Jo 1:1-3, 10; Ci 1:16; Hb 1:2) e meu aniversário se alguém não tivesse me
o Espírito Santo (Gn 1:2; SI 104:30) partici­ contado. É só depois que nascemos na famí­
param da criação. Deus não criou o mundo lia de Deus que toda essa maravilha nos é
porque precisava de alguma coisa, mas sim revelada pela Palavra e desejamos, então,
para que pudesse compartilhar seu amor compartilhá-la com outras pessoas.
com suas criaturas que, diferentes dos an­ Quando você pensa na profundidade dos
jos, são feitas à imagem de Deus e podem planos eternos de Deus, percebe que são
corresponder a seu amor livremente. grandes demais para sua mente. Mas não de­
A Divindade determinou que o Filho vi­ sanime, pois, ao longo dos séculos, teólogos
ria à Terra e morreria pelos pecados do mun­ competentes e devotos não conseguiram
do, e Jesus veio para fazer a vontade do Pai chegar a um consenso sobre suas especula­
(Jo 10:17, 18; Hb 10:7). As palavras de Je­ ções e conclusões. Um de meus professores
sus vinham do Pai (Jo 14:24), e suas obras no seminário costumava nos lembrar do se­
eram comissionadas pelo Pai (Jo 5:17-21, guinte fato: "Tente explicar essas coisas e
36; At 2:22) e investidas do poder do Espí­ você pode perder a cabeça, mas tente desfa­
rito (At 10:38). O Filho glorifica o Pai (Jo zer-se delas e perderá sua alma".
14:13; 17:1, 4), e o Espírito glorifica o Filho Moisés expressou muito bem essa ver­
(Jo 16:14). As Pessoas da Trindade traba­ dade: "As coisas encobertas pertencem ao
lham em conjunto para realizar a vontade S e n h o r , nosso Deus, porém as reveladas nos
de Deus. pertencem, a nós e a nossos filhos, para sem­
De acordo com Efésios 1:3-14, o plano pre, para que cumpramos todas as palavras
da salvação é trinitário: somos escolhidos desta lei" (Dt 29:29). O importante não é
pelo Pai (vv. 3-6), redimidos pelo Filho (vv. saber tudo o que Deus sabe, mas obedecer
7-12) e selados com o Espírito (vv. 13, 14) a tudo o que ele nos ordena. "Porque nós
- tudo isso para o louvor da glória de Deus conhecemos em parte" (1 Co 13:9).
(vv. 6, 12, 14)8. O Pai concedeu autoridade
ao Filho para dar vida eterna àqueles que 2. G ê n e s is : a p r o m e s s a d e r e d e n ç ã o

ele entregou ao Filho (Jo 17:1-3). Tudo isso Quando Deus escreveu a Bíblia, não nos deu
foi planejado antes mesmo que o mundo um livro de teologia enfadonho divido em
existisse! seções chamadas Deus, a Criação, o Homem,
E importante observar que as três Pes­ o Pecado e assim por diante. Em vez disso,
soas da Divindade têm um papel na salvação deu-nos uma história, uma narrativa que co­
dos pecadores perdidos. No que se refere a meça na eternidade passada e termina na eter­
Deus o Pai, ele, em sua graça, me escolheu nidade futura. Trata-se de uma história sobre
12 G Ê N E S IS 1:1

Deus e seu relacionamento com todos os como nação. Gênesis 1 - 11 é um registro


tipos de pessoas e como elas reagiram a sua do fracasso humano, mas Deus recomeçou
Palavra. Ao ler essas narrações, aprendemos com o chamado de Abraão. O pecado do
um bocado de coisas sobre Deus, sobre nós homem trouxe a maldição de Deus (3:14,
mesmos e sobre nosso mundo. Além disso, 1 7; 4:11), mas pela graça, a aliança de Deus
descobrimos que nossa história pessoal pode com Abraão trouxe bênçãos a todo o mun­
ser encontrada em algum lugar nas páginas do (12:1-3).
das Escrituras. Se você ler com tempo e ho­ Também observamos que, no registro de
nestidade suficientes, descobrirá a si mesmo Gênesis, quando o homem consegue mos­
dentro da Bíblia. trar o que tem de pior e atingir seu ponto
O Livro de Gênesis tem cinqüenta ca­ mais baixo, Deus lhe dá um recomeço. De
pítulos em nossas versões da Bíblia, mas o acordo com o Dr. G. Campbell Morgan, o
texto hebraico original não possui divisões. ciclo de Gênesis é composto de "geração,
Depois de descrever a criação (1:1 - 2:3), degeneração e regeneração".11 Caim matou
Moisés apresentou uma lista de onze "gera­ Abel, mas Deus deu Sete para continuar a
ções" que constituem a narração de Gênesis: linhagem temente a ele. A Terra tornou-se
os céus e a Terra (2:4 - 4:26); Adão (5:1 - violenta e perversa, de modo que Deus
6:8); Noé (6:9 - 9:29); os filhos de Noé, Sem, exterminou a humanidade, mas escolheu Noé
Cam e Jafé (10:1 - 11:9), dando ênfase a e sua família para prosseguir com a obra di­
Sem, o pai dos semitas (11:10-26); Tera, pai vina. Deus chamou Abraão e Sara dentre os
de Abraão (11:27 - 25:11); Ismael (25:12- pagãos de Ur dos caldeus e deu-lhes um fi­
18); Isaque (25:19 - 35:29); Esaú 36:1-8), lho chamado Isaque. O futuro do plano de
que também é chamado de Edom (36:9 - Deus para a salvação estava nesse filho.
37:1); e Jacó (37:2 - 50:26). São esses os Isaque e Rebeca tiveram dois filhos, Esaú e
indivíduos apresentados em Gênesis. Jacó, mas Deus rejeitou Esaú e escolheu Jacó
Os onze primeiros capítulos de Gênesis para constituir as doze tribos de Israel e her­
tratam da humanidade em geral e concentram- dar as bênçãos da aliança.
se em quatro acontecimentos principais: a Em outras palavras, do começo ao fim,
criação (1 - 2), a queda do homem e suas Gênesis é a história da vontade soberana e
conseqüências (3 - 5), o dilúvio (6 - 9) e a da graça eletiva de Deus. Isso não significa
rebelião em Babel (10 - 11). O restante de que as pessoas da história eram simples ro­
Gênesis volta-se para Israel de modo específi­ bôs, uma vez que erraram e até tentaram
co (12 - 50) e relata a vida de quatro grandes impedir a realização do plano de Deus. No
homens: Abraão (12:1 - 25:18), Isaque (25:19 entanto, sempre que as pessoas resistiram
- 27:46), Jacó (28 - 36) e José (37 - 50).'° ao domínio de Deus, ele prevaleceu e cum­
Chamamos esses homens de "patriarcas", pois priu seu propósito divino de qualquer modo.
foram os fundadores de Israel como nação. "O conselho do S e n h o r dura para sempre; os
Durante nosso estudo do Livro de Gêne­ desígnios do seu coração, por todas as gera­
sis, tenha sempre em mente que Moisés não ções" (SI 33:11).
escreveu.uma história detalhada de cada pes­ Aquilo que tem início em Gênesis é desen­
soa ou acontecimento. Ele registrou apenas volvido ao longo de toda a Bíblia e, então,
aquelas coisas que o ajudaram a cumprir encontra sua plena consumação no Livro de
seu propósito, que era explicar a origem das Apocalipse, como podemos ver no seguinte
coisas, especialmente a origem dos judeus resumo:
G Ê N E S IS 1 :1 13

G ê n e s is A p o c a l ip s e

O primeiro céu e a primeira Terra. O novo céu e a nova Terra.


O primeiro jardim; a Arvore da Vida é A "cidade do jardim" e a Arvore da Vida
guardada. disponível.
O primeiro casamento. O último casamento, as bodas do Cordeiro.
Satanás tenta Eva a pecar. Satanás é lançado no lago de fogo.
A morte entra em cena. Não há mais morte.
A construção de Babilônia. A destruição de Babilônia.
A promessa de um Redentor. O reino do Redentor.

Há muitas outras comparações entre esses Depois de uma era trágica de governo
dois livros, mas as que apresentamos acima dos juizes e do reinado de Saul, registrados
dão uma idéia de quão importante é o Livro no Livro de Juizes e em 1 Samuel, Deus un­
de Gênesis para se compreender o plano de giu Davi para ser rei e revelou que o Reden­
Deus e o restante das Escrituras. tor prometido procederia da família de Davi
(2 Sm 7). Não apenas seria o "filho de Davi",
3. D e p o is d e G ê n e s is : como também nasceria em Belém, a cidade
o c u m p r im e n t o d a r e d e n ç ã o de Davi (Mq 5:2). Por intermédio do profeta
Deus revelou seu grandioso plano de salva­ Isaías, Deus anunciou que o Redentor nasce­
ção de maneira gradual. Em primeiro lugar, ria de uma virgem de modo miraculoso (Is
ele deu uma promessa (Gn 3:1 5), a primeira 7:14; ver Lc 1:26-38).
promessa de salvação encontrada nas Escri­ Sem dúvida, ao longo das eras do Anti­
turas. Trata-se da promessa de um Redentor go Testamento, Satanás fez todo o possível
que nasceria de uma mulher, derrotaria Sa­ para impedir os planos de Deus. Caim era
tanás e traria a salvação para a humanidade. do diabo (1 Jo 3:12) e matou seu irmão
O Salvador prometido seria um homem, não Abel, mas Deus deu Sete para continuar
um anjo, e salvaria seres humanos, não anjos essa linhagem temente ao Senhor (Gn 4:25,
caídos (Hb 2:5-18). 26). Durante o dilúvio, Deus preservou
De onde viria esse Redentor prometido? Noé e sua família. Da família de Sete nas­
Gênesis 12:1-3 responde a essa pergunta: o ceu Abraão, o pai dos hebreus, uma nova
Redentor será um judeu, do povo de Abraão. nação.
Por meio de um milagre de Deus, Abraão e Em pelo menos quatro ocasiões, essa
Sara tiveram Isaque; e Isaque foi o pai de linhagem temente a Deus foi ameaçada de
Jacó. No entanto, Jacó teve doze filhos que extinção. Abraão mentiu duas vezes sobre
fundaram as doze tribos de Israel. Qual des­ a esposa, Sara, e ela foi levada por reis pa­
sas tribos daria ao mundo o Salvador? Gê­ gãos (12:10-20; 20:1 ss). Seu filho, Isaque,
nesis 49:10 nos diz: o Redentor virá da tribo cometeu o mesmo pecado e colocou em
de Judá. risco a esposa, Rebeca (26:6-16). Durante
O Livro de Êxodo conta como Deus cons­ os dias sombrios que posteriormente so­
truiu a grande nação de Israel, enquanto esse brevieram à monarquia hebraica, a perver­
povo sofria no Egito e, então, como ele os sa rainha-mãe Atalia ordenou a morte de
libertou com seu grande poder. O povo de­ todos os descendentes da linhagem real. No
veria ter se apropriado da herança de Canaã, entanto, um pequeno príncipe chamado
mas, em sua incredulidade, desobedeceram Joás foi salvo e, assim, deu continuidade à
a Deus e acabaram vagando pelo deserto linhagem de Davi (2 Rs 11).
durante quarenta anos (Nm 13 - 14). Que fim teve essa história? "Vindo, po­
Josué liderou a nova geração, conduzin- rém, a plenitude do tempo, Deus enviou
do-a para a Terra Prometida, onde estabe­ seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a
leceu a nação. lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a
14 G Ê N E S IS 1:1

fim de que recebêssemos a adoção de fi­ A promessa havia se cumprido! E tudo


lhos" (Cl 4:4, 5). O anjo anunciou aos pas­ começou em Gênesis!
tores: "É que hoje vos nasceu, na cidade de Agora, voltemo-nos para o magnífico e
Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor" inspirado registro de Moisés sobre a criação
(Lc 2:11). dos céus, da Terra e da vida humana.

1. É questionável que os teólogos da antigüidade, em algum momento, tenham feito essa determinada pergunta, mas a

questão não é totalmente irrelevante. Anjos são espíritos e não possuem corpo material, exceto de modo temporário
quando são enviados em missões especiais; assim, como podem ocupar espaço? Tomás de Aquino discutiu essa

questão em sua Summa Theologica, de modo que ela deve ser considerada importante.

2. T o zer , A. W . The Knowledge of the Hoiy. Nova York: Harper and Brothers, 1961, p. 39.

3. É claro que todo ser humano existirá para sempre, quer seja no céu quer no inferno; mas no que se refere a este

mundo, somos todos forasteiros e peregrinos, estamos todos "de passagem".

4. O termo "só" não indica que Deus precisasse de amigos. A palavra significa "sozinho".
5. T o zer , A. W . The Christian Book of Mystical Verse. Harrisburg, Pa.: Christian Publications, 1963, p. 7.

6. Aquilo que conhecemos hoje como "teologia de processo" teve origem nos ensinamentos do filósofo inglês Alfred
North Whitehead (1861-1947), amplamente difundidos por seu discípulo Charles Hartshore. A teologia de processo

foi popularizada peío rabino Haroid Kushner em seu (ívro Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas (São Paulo:
Nobel). De acordo com Kushner, no momento, Deus é fraco demais para fazer alguma coisa sobre o câncer, as guerras

e as tragédias da vida; mas, à medida que confiamos nele e fazemos o bem, nós o fortalecemos para que ele alcance
maiores realizações. Para conhecer o ponto de vista evangélico sobre a teologia de processo, ver On Process Theoíogy,

editado por Ronald H. Nash (Baker Book House, 1987), e minha obra W hy Us? When Bad Things Happen to God's

People (Fleming, H. Reveli, 1984).


7. A conjunção aditiva "e " na frase batismal é importante, pois mostra a igualdade das Pessoas da Divindade.

8. A doutrina da eleição divina não é uma desculpa para não se falar do evangelho a outros. O mesmo Deusque ordenou

o fim - a salvação dos perdidos - também ordenou o meio para se alcançar esse fim, que é o testemunho de seu povo

e as orações para que sua Palavra seja bem-sucedida. Deus escolhe pessoas para serem salvas, e então as chama por
meio do evangelho (2 Ts 2:13, 14). As duas coisas andam juntas. Não sabemos quem são os eleitos, e o Senhor

ordenou que levássemos o evangelho ao mundo todo (M c 16:15; At 1:8).

9. O Dr. H. A. Ironside, que pastoreou durante dezoito anos a Igreja Moody de Chicago, costumava ilustrar essa verdade

ao descrever uma porta na qual havia uma placa onde estava escrito: "Todo aquele que vier pode entrar". Crendo

nessas palavras, você passa pela porta e é salvo. Então, olhando para trás, vê outra placa do lado de dentro, que diz:

“ Escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo".

10. Essa divisão de capítulos é arbitrária, uma vez que existe uma sobreposição de gerações nas narrações, como sempre
acontece na história dos seres humanos. Tecnicamente, a seção "gerações de Jacó" começa em 37:2, mas a história de

Jacó inicia muito antes e coloca Isaque em segundo plano. Não há uma seção chamada "gerações de José", uma vez

que José faz parte da narração de Jacó, que encerra o Livro de Gênesis.

11. Ver as obras de Morgan, The Analyzed Bible e Living Messages of the Books of the Bible, ambas publicadas por Fleming

H. Revell. •
Jesus Cristo, o Verbo vivo de Deus, existia
2 como o Filho de Deus. João não estava suge­
rindo que Jesus teve um começo. Jesus Cris­
to é o Filho eterno de Deus que existia antes
Q uando D eu s F a l a , de todas as coisas, pois fez todas as coisas
(Jo 1:3; Cl 1:16, 17; Hb 1:2). Assim, o "co­
A lg o A c o n t ec e
meço" de João é anterior ao de Gênesis 1:1,2
G ênesis 1 O Evangelho de Marcos começa com as
palavras: "Princípio do evangelho de Jesus
Cristo, Filho de Deus". A mensagem do evan­
gelho não começou com o ministério de
João Batista, pois as boas novas da graça
lgumas pessoas dizem que o presidente
A
de Deus foram anunciadas em Gênesis 3:15.
dos Estados Unidos é "o líder mais po­ De acordo com o testemunho de Hebreus
deroso do mundo", porém mais de um ex- 11, houve pessoas que creram na promes­
presidente iria discordar dessa afirmação. sa de Deus ao longo de todo o Antigo Testa­
Ex-presidentes confessaram que suas ordens mento, e esses que creram foram salvos (ver
executivas não eram sempre obedecidas e Gl 3:1-9 e Rm 4). O ministério de João Ba­
que não podiam fazer muita coisa sobre tista, o precursor de Jesus, foi o princípio
isso. da proclamação da mensagem sobre Jesus
Durante o primeiro mandato do pre­ Cristo de Nazaré (ver At 1:21, 22 e 10:37).
sidente Nixon, por exemplo, ele ordenou A frase: "No princípio, criou Deus os
que fossem removidas de Washington D.C. céus e a terra" (Gn 1:1) refere-se a um pas­
algumas construções temporárias de aspec­ sado indeterminado, no qual Deus fez com
to desagradável, prédios feios que estavam que o Universo viesse a existir a partir do
lá desde a época da 1a Guerra Mundial; no nada (SI 33:6; Rm 4:17; Hb 1:3).3 Gênesis
entanto, levou meses para que sua ordem 1:1, 2 é a declaração de que Deus criou o
fosse acatada. Quando os jornalistas come­ Universo, enquanto a explicação sobre seus
çaram a escrever sobre "a presidência im­ dias de trabalho criativo é apresentada no
perial", Nixon afirmou que se tratava de uma restante do capítulo.
idéia "absurda".1 Pode ser que presidentes No capítulo 1, o Deus criador é chama­
declarem e assinem ordens oficiais, mas isso do trinta e duas vezes de Elohim, uma pala­
não garante que alguma coisa vai, de fato, vra hebraica que enfatiza sua majestade e
acontecer. poder (o nome "Jeová", usado no contexto
No entanto, quando Deus fala, algo da aliança, aparece pela primeira vez em
acontece! "Pois ele falou, e tudo se fez; ele Gn 2:4). Elohim é um substantivo plural
ordenou, e tudo passou a existir" (SI 33:9). usado com freqüência junto a verbos e ad­
Quando refletimos sobre os atos de Deus jetivos no singular (os tempos verbais
registrados em Gênesis 1, não podemos hebraicos são singulares, duais ou plurais).
deixar de nos curvar reverentemente em Alguns acreditam que essa forma plural é o
adoração, pois seus atos criadores reve­ que a gramática chama de "plural de majes­
lam um Deus de poder e de sabedoria, cuja tade" ou, ainda, que pode ser uma indica­
palavra tem autoridade. ção da existência de Deus em três Pessoas.
Nas Escrituras, a criação é atribuída ao Pai
1. Deus c r i a (G n 1:1, 2) (At 4:24), ao Filho (Jo 1:1-3) e ao Espírito
Três livros da Bíblia abrem com "começos": Santo (Sl 104:30).
Gênesis 1:1; Marcos 1:1 e João 1:1. Cada Elohim revela seu poder ao criar todas as
um desses começos é importante. As pala­ coisas simplesmente ordenando-as pela pa­
vras: "No princípio era o Verbo" (Jo 1:1) re­ lavra falada. A matéria não é eterna; ela teve
metem-nos à eternidade passada, quando início quando Deus falou e tudo passou a
16 G Ê N E S IS 1

existir (Ef 3:9; Cl 1:16; Ap 4:11; 5:13). As para iluminação do conhecimento da glória
Escrituras não revelam o motivo de Deus de Deus, na face de Cristo" (2 Co 4:6). "A
ter decidido começar sua obra criativa com vida estava nele [Jesus] e a vida era a luz dos
uma massa escura, sem forma e vazia;4 mas homens" (Jo 1:4).
o Espirito Santo, que se movia sobre as Nas Escrituras, a luz é associada a Cristo
águas,5 teria dado ordem ao caos e beleza (Jo 8:12), à Palavra de Deus (Sl 119:105,
e plenitude ao que antes era vazio.6 O Espí­ 1 30), ao povo de Deus (Mt 5:14-16; Ef 5:8)
rito ainda pode fazer isso, hoje em dia, na e à bênção de Deus (Pv 4:18), enquanto as
vida de todo aquele que se entrega a ele. trevas são associadas a Satanás (Lc 23:53; Ef
As nações que cercavam o povo de Israel 6:12), ao pecado (Mt 6:22, 23; Jo 3:19-21),
possuíam antigas tradições que "explicavam" à morte (Jó 3:4-6, 9), à ignorância espiritual
a origem do Universo e da humanidade. Es­ (Jo 1:5) e ao julgamento divino (Mt 8:12).
ses mitos falavam de monstros que lutaram Isso explica por que Deus separou a luz das
nas profundezas dos oceanos e de deuses trevas, uma vez que as duas não têm nada
que guerrearam para que o Universo viesse em comum. O povo de Deus deve "andar na
a existir. No entanto, o relato simples de luz" (1 Jo 1:5-10), pois "que comunhão, da
Gênesis apresenta-nos um Deus que, sozi­ luz com as trevas?" (2 Co 6:14-16; Ef 5:1-14)
nho, criou todas as coisas e ainda está no Desde o primeiro dia da criação, Deus
controle de sua criação. Se o povo de Israel estabeleceu o princípio da separação. Ele
tivesse prestado mais atenção ao que não apenas separou a luz das trevas (Gn
Moisés havia escrito, jamais teria adorado 1:4), mas também o dia da noite (v. 14),
os ídolos de seus vizinhos pagãos. como, posteriormente, separou as águas
sobre o firmamento das águas debaixo do
2. D eus fo rm a ( G n 1 : 3 -13 ) firmamento (vv. 6-8) e a terra das águas (vv.
Existe um padrão nas atividades de Deus 9, 10). Por meio de Moisés, Deus ordenou
durante a semana da criação: primeiro ele ao povo de Israel que permanecesse sepa­
formou e depois encheu. Fez três esferas rado das nações a seu redor (Êx 34:10-17;
de atividade: os céus, a Terra e as águas e, Dt 7:1-11), e quando transgrediram esse
então, encheu-as com as formas de vida mandamento, sofreram as conseqüências.
apropriadas. Hoje em dia, o povo de Deus precisar ter
Primeiro dia (w . 3-5). Deus ordenou que cuidado com seu modo de viver (Sl 1:1) e
a luz brilhasse e, depois, separou a luz das não ser contaminado pelo mundo (Rm 12:1,
trevas. Mas como podia haver luz se os lu­ 2; Tg 1:7; 4:4; 1 Jo 2:15-17).
minares são mencionados apenas no quarto Tendo em vista que Deus é o Criador, ele
dia (vv. 14-19)? Uma vez que não é mencio­ tem o direito de dar às coisas o nome que
nado que essa luz procedesse de qualquer lhe aprouver; assim, temos "dia" e "noite". A
um dos luminares criados por Deus, é pro­ palavra "dia" pode referir-se à porção de tem­
vável que se originava do próprio Deus, que po em que é possível ver o Sol bem como a
é luz (Jo 1:5) e que se cobre com um manto todo o período de vinte e quatro horas com­
de luz (Sl 104:2; Hc 3:3, 4). A cidade eterna posto de "tarde e manhã" (Gn 1:5).8 As ve­
terá luz sem fim e sem a ajuda do Sol ou da zes, os escritores bíblicos usavam a palavra
Lua (Ap 22:5), portanto, não é possível que "dia" para descrever um período mais lon­
houvesse luz desde o princípio do tempo, go, durante o qual Deus cumpre um deter­
antes da criação dos luminares?7 minado propósito como "o dia do S e n h o r "
A vida como a conhecemos não poderia (Is 2:12) ou "o dia do Juízo" (Mt 10:15).
existir sem a luz do Sol. Paulo viu nesse ato Quando falamos de coisas espirituais, é
criador a obra de Deus na nova criação, a importante que usemos o dicionário de Deus
salvação dos perdidos. "Porque Deus, que bem como seu vocabulário. As palavras tra­
disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele zem consigo certos significados próprios, e
mesmo resplandeceu em nosso coração, se atribuímos o significado incorreto a uma
G Ê N E S IS 1 17

palavra, isso pode nos colocar em sérias Deus também fez surgir a flora sobre a
dificuldades. Seria um erro fatal para o pa­ terra: a relva, as ervas que dão semente e as
ciente se o médico confundisse "arsênico" árvores que dão frutos "segundo a sua espé­
com "aspirina", de modo que os profissio­ cie", o que possibilita a ordem na natureza.
nais da saúde têm o cuidado de usar a ter­ Deus colocou limites de reprodução tanto
minologia exata. O "vocabulário cristão" é para plantas como para animais (Gn 1:21),
ainda mais importante, pois a conseqüên­ pois ele é Senhor da criação. Não há sugestão
cia de uma confusão pode ser a morte eter­ de algum tipo de "evolução". Deus estava
na. A Bíblia explica e ilustra palavras como preparando a Terra para ser habitada pelos
pecado, graça, perdão, justificação e fé, e seres humanos e animais, e as plantas ajuda­
mudar seu significado é o mesmo que colo­ riam a prover o alimento para eles. Pela se­
car mentiras no lugar da verdade de Deus. gunda vez, Deus diz que aquilo que fez é
"Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, bom (v. 12).
mal; que fazem da escuridade luz e da luz,
escuridade; põem o amargo por doce e o 3. D e u s p re e n c h e (G n 1:14-27; 2:7)
doce, por amargo" (Is 5:20). Deus criou três "espaços" específicos: a terra,
Segundo dia (vv. 6-8). Deus colocou um os mares e o firmamento dos céus. Durante
firmamento entre as águas superiores e infe­ os três dias criativos que se seguiram, preen­
riores e o chamou de "Céus", aquilo que cheu esses espaços.
conhecemos como "céu". Ao que parece, Quarto dia (w. 14-19). No firmamento
as águas eram como um "manto" de vapor dos céus Deus colocou os corpos celestes e
que cobria inicialmente a massa usada na deu-lhes sua incumbência: fazer a divisão
criação. Quando foram separadas da por­ entre a noite e o dia e oferecer "sinais" para
ção seca, as águas inferiores tornaram-se os marcar os dias, anos e estações. A luz já ha­
oceanos e mares, e as águas superiores de­ via aparecido no primeiro dia, mas no quar­
sempenharam um papel no dilúvio no tem­ to dia foi concentrada nos corpos celestes.
po de Noé (Gn 7:11, 12; 9:11-15). Em função de suas práticas religiosas, o
A palavra traduzida por "firmamento" povo de Israel precisava saber as datas e
significa "compreender". Nas Escrituras, por estações, quando começava e terminava o
vezes faz-se referência ao céu como uma sábado, quando tinha início um novo mês e
abóbada ou cobertura; no entanto, em ne­ quando era época de comemorar suas fes­
nhuma passagem as Escrituras apóiam a idéia tas anuais (Lv 26). Antes da invenção do
pagã mitológica de que o céu é algum tipo relógio e da bússola, as atividades do ser
de cobertura sólida. Os luminares foram co­ humano estavam intimamente ligadas aos
locados no firmamento (Gn 1:14-17), e sob ciclos da natureza, e os navegadores de­
ele voam as aves (v. 20). pendiam das estrelas para guiá-los. Israel
Terceiro dia (vv. 9-13). Deus reuniu as precisava da ajuda dos corpos celestes para
águas e fez surgir a porção seca, criando, orientar suas atividades, e Deus usou sinais
assim, a "Terra" e os "Mares". Os vizinhos dos céus para comunicar-se com seu povo
pagãos de Israel acreditavam em todo tipo aqui na Terra.9
de mito sobre os céus, a Terra e os mares. Deus ordenou aos israelitas que não
No entanto, Moisés deixou claro que imitassem seus vizinhos pagãos adorando
Elohim, o único e verdadeiro Deus, era Se­ corpos celestes (Êx 20:1-6; Dt 4:15-19;
nhor de tudo. Pela primeira vez, Deus de­ 1 7:2-7). Deviam adorar o verdadeiro Deus
clarou aquilo que havia feito como sendo que havia criado as "hostes celestiais", o
"bom" (v. 10). A criação de Deus ainda é exército dos céus que obedecia às suas
boa, mesmo que sofra por causa do pe­ ordens. Porém, o povo não obedeceu ao
cado (Rm 8:20-22) e que tenha sido de­ mandamento de Deus (Jr 8:2; 19:13; Ez
vastada e explorada por seres humanos 8:16; Sf 1:4-6), e seus pecados trouxeram
pecadores. grande sofrimento.
18 G Ê N E S IS 1

Os povos da Antiguidade eram fascina­ depois da morte (Ec 3:19, 20). No entanto,
dos pela Lua, pelas estrelas, pelos movimen­ os seres humanos e os animais são diferen­
tos do Sol e dos planetas, e há apenas uma tes. Não importa quão inteligentes sejam
linha muito tênue entre admiração e adora­ alguns animais ou quanto possam apren­
ção. Nas palavras de Ralph Waldo Emerson: der, não foram dotados da "imagem de
"Se as estrelas aparecessem apenas numa Deus" como os seres humanos.”
noite a cada mil anos, como poderiam os A criação do primeiro homem é conside­
homens crer, adorar e preservar por muitas rada uma ocasião muito especial, pois antes
gerações a lembrança da cidade de Deus do acontecimento é realizada uma "confe­
que havia sido mostrada...".10 rência". As palavras "Façamos o homem à
Quinto dia (w. 20-23). Deus havia cria­ nossa imagem" parecem ser a conclusão de
do os céus e as águas e, então, encheu-os uma deliberação entre as Pessoas da Divin­
abundantemente de criaturas viventes. Fez dade.12 Não é possível que Deus estivesse
pássaros para voar nos céus e criaturas aquá­ discutindo seus planos com os anjos, pois
ticas para brincar nos mares. "Que variedade, eles não foram feitos à imagem dele ("à nos­
S e n h o r , nas tuas obras! Todas com sabedoria sa imagem") e não tiveram nada a ver com a
as fizeste; cheia está a terra das tuas rique­ criação de Adão.
zas. Eis o mar vasto, imenso, no qual se mo­ "Então, formou o S e n h o r Deus ao homem
vem seres sem conta, animais pequenos e do pó da terra e lhe soprou nas narinas o
grandes" (Sl 104:24, 25). fôlego de vida, e o homem passou a ser alma
Nesse dia, foi acrescentado um novo ele­ vivente" (Gn 2:7). O verbo "formou" faz lem­
mento à obra de Deus: ele não apenas viu brar o oleiro criando uma obra de arte com
que isso era "bom", mas também abençoou suas mãos habilidosas. O corpo humano é,
os seres que havia criado. Essa é a primeira de fato, uma obra de arte, um organismo
vez que o termo "abençoar" aparece na Bí­ incrivelmente complexo, que só teria sido
blia. A bênção de Deus permitiu que os ani­ idealizado pela sabedoria de Deus e criado
mais e as aves se reproduzissem em pelo seu poder.
abundância, desfrutando de tudo o que A matéria física do corpo de Adão veio
Deus havia criado para eles. Deus também da terra, pois o nome "Adão" significa "tira­
abençoou o primeiro homem e a mulher (Gn do da terra"; a vida de Adão, porém, veio
1:28; 5:2), o sábado (2:3) e Noé e sua família de Deus. É claro que Deus é espírito e não
(9:2). Depois da criação, talvez a ocasião tem pulmões para respirar e soprar. Essa
mais importante em que Deus concedeu sua declaração consiste em algo que os teólo­
bênção foi quando, por sua graça, fez alian­ gos chamam de "antropomorfismo", o uso
ça com Abraão e seus descendentes (Gn de características humanas para explicar
12:1-3). Essa bênção estende-se até o povo uma obra ou atributo divino.13
de Deus nos dias de hoje (Gl 3:1-9). Há vários fatos importantes a observar
Sexto dia (w. 24-31; 2:7). Deus havia for­ sobre a origem dos seres humanos. Em pri­
mado os céus e os preenchido com os lumi­ meiro lugar, fomos criados por Deus. Não
nares celestes e as aves que voam. Havia somos produto de algum acidente galáctico
formado os mares e enchido as águas com nem ocupamos o degrau mais alto da esca­
várias criaturas aquáticas. A criação chegou da evolutiva. Foi Deus quem nos fez, o que
a seu ápice quando, no sexto dia, o Senhor significa que somos criaturas e dependemos
criou a fauna e, depois, o primeiro homem, o inteiramente dele. "Pois nele vivemos, e nos
qual, juntamente com sua esposa, teria do­ movemos, e existimos" (At 17:28). Lucas
mínio sobre a Terra e suas criaturas. 3:38 chama Adão de "filho de Deus".
Assim como o primeiro homem, os ani­ Em segundo lugar, fomos criados à ima­
mais foram feitos do pó da terra (2:7), o gem de Deus (Gn 2:26, 27). Diferentemente
que explica por que o corpo tanto de seres dos anjos e dos animais, os seres humanos
humanos quanto de animais volta ao pó podem ter um relacionamento muito especial
G Ê N E S IS 1 19

com Deus. Não apenas nos deu personali­ as boas dádivas que Deus compartilha
dade - a mente para pensar, emoções para conosco (1 Tm 6:1 7). Davi observou toda a
sentir, arbítrio para tomar decisões -, mas criação de Deus e perguntou: "Que é o ho­
também nos concedeu uma natureza espiri­ mem, que dele te lembres? E o filho do
tual interior que nos permite conhecê-lo e homem, que o visites?" (S l 8:4). A Terra não
adorá-lo. A imagem de Deus presente nos passa de um pequeno planeta orbitando den­
homens e nas mulheres foi desfigurada pelo tro de uma imensa galáxia e, ainda assim:
pecado (Ef 4:18, 19), mas por meio da fé em "Ao S e n h o r pertence a terra" (S l 24:1). Foi o
Cristo e da submissão à obra do Espírito San­ planeta que ele escolheu para visitar e remir!
to, os cristãos podem ter a natureza divina As criaturas celestiais diante do trono de
renovada dentro de si (2 Pe 1:4; Ef 4:20-24; Deus o louvam por sua criação, e nós deve­
Cl 3:9, 10; Rm 12:2; 2 Co 3:18). Um dia, mos fazer o mesmo. "Tu és digno, Senhor e
quando virem Jesus, todos os filhos de Deus Deus nosso, de receber a glória, a honra e o
compartilharão da gloriosa imagem de Cris­ poder, porque todas as coisas tu criaste, sim,
to (1 Jo 3:1-3; Rm 8:29; 1 Co 15:49). por causa da tua vontade vieram a existir e
Em terceiro lugar, fomos criados para ter foram criadas" (Ap 4:11). Quando curvamos
domínio sobre a Terra (Gn 2:26, 28).14 Adão nossa cabeça para orar antes das refeições e
e Eva foram os primeiros regentes da criação agradecer ao Senhor a comida que ele pro­
de Deus (Sl 8:6-8). "Os céus são os céus do vê, quando vemos o sol e a chuva que nos
S e n h o r , mas a terra, deu-a ele aos filhos dos são oferecidos sem qualquer custo e quando
homens" (Sl 115:16). No entanto, quando vemos o desenrolar das estações, devemos
Adão acreditou na mentira de Satanás e co­ elevar nosso coração em louvor ao Criador
meu do fruto proibido, perdeu seu domínio, por sua fidelidade e generosidade.
e agora o pecado e a morte é que reinam Por fim, devemos ser bons despenseiros
sobre a Terra (Rm 5:12-21). da criação. Isso significa que devemos respei­
Quando Jesus Cristo, o último Adão (1 Co tar os outros seres humanos também feitos à
15:45), veio à Terra, exerceu o domínio que imagem de Deus (Gn 9:6). Significa apreciar
o primeiro Adão havia perdido. Demons­ as dádivas que recebemos da criação e não
trou ter autoridade sobre os peixes (Lc 5:1- desperdiçá-las nem abusar delas. Veremos
7; Jo 21:1-6; Mt 1 7:24-27), as aves (Mt essas questões em mais detalhes adiante, mas
26:69-75) e outros animais (Mc 1:13; 11:3- é válido observar que não podemos honrar
7). Quando morreu na cruz, conquistou o ao Deus da criação se desonramos aquilo
pecado e a morte, de modo que agora a gra­ que ele criou.
ça pode reinar (Rm 5:21), e o povo de Deus Devemos aceitar a criação como uma
"reinará em vida" (Rm 5:17) por meio de dádiva e empregá-la para a glória de Deus.
Jesus Cristo. Um dia, quando voltar, Jesus São de Isaac Watts estas belas palavras:
irá devolver aos seus o domínio perdido em
função do pecado de Adão (Hb 2:5ss). A bondade do Senhor louvo eu,
Até o dilúvio (Gn 1:29, 30; 9:1-4), tanto pois a Terra de alimento encheu.
Adão quanto os animais eram vegetarianos. Com sua palavra as criaturas formou,
Isaías 11:7 indica que os animais carnívoros "São boas", no final, declarou.
voltarão a ser herbívoros quando Cristo vol­ Senhor, tuas maravilhas patentes estão,
tar e estabelecer seu reinado na Terra. para onde quer que volte meu olhar;
Em quarto lugar, esse Criador maravi­ Quer seja o caminho por onde meus pés
lhoso é digno do nosso louvor, da nossa ado­ vão,
ração e obediência. Quando Deus fez um quer nos céus que estou a fitar.
levantamento de sua criação, viu que tudo
era "muito bom" (Gn 1:31). Ao contrário do " O S enhor é bom para todos, e as suas ternas
que algumas religiões e filosofias ensinam, a misericórdias permeiam todas as suas obras"
criação não é um mal, e não é pecado gozar (S l 145:9).
20 G Ê N E S IS 1

1. Ver In the Arena. Richard M. Nixon. Nova York: Simon and Schuster, 1990, p. 206.

2. João descreve sete dias na vida de Jesus (Jo 1:19-28, 29-34, 35-42, 43-51; 2:1), o que, obviamente, é um paralelo com

Gênesis 1. Moisés escreveu sobre a antiga criação, mas joão faia da nova criação (2 Co 5:17).

3. A palavra hebraica bara significa "iniciar algo novo, fazer existir". É usada no relato da criação para descrever a criação

dos peixes e das aves (Gn 1:21), a criação do homem e da muiher (v. 27) e toda a obra criadora (Gn 1; 2:3, 4).

4. A "teoria da lacuna", apresentada no livro Earth's Earliest Ages [Eras antigas da Terra], de G. H. Pember, e popularizada

pela Bíblia de Referência Scofieid, afirma que a criação original de Gênesis 1:1 foi julgada na queda de Satanás e que

os versículos 3 em diante descrevem a restauração da criação destruída. O versículo 2 deve ser lido: "A terra, porém,

tornou-se sem forma e vazia". Assim, houve uma "lacuna" de duração indeterminada entre o primeiro e o segundo

versículos de Gênesis. Contudo, que motivo Deus teria para destruir a criação toda só por causa da rebelião de Satanás?

E se ele a criou instantaneamente, por que levaria seis dias para restaurá-la? As duas idéias têm defensores competen­

tes, e todos afirmam apoiar-se no texto original hebraico. Ao que me parece, os versículos 3 em diante descrevem os

atos originais de criação divina e não é necessário colocar uma "lacuna" entre o versículo 1 e o versículo 2 para resolver

quaisquer dificuldades.
5. A imagem do versículo 5 é semelhante è de uma águia pairando sobre seus filhotes (Dt 32:11). Tanto no hebraico (ruah)

como no grego (pneuma), a palavra para "'Espírito" também quer dizer "vento" (ver Jo 3:8), de modo que o versículo

pode ser traduzido como "o vento de Deus pairava sobre as águas". No entanto,a tradução mais lógica parece ser

"Espírito".
6. "Sem forma e vazia" corresponde à expressão hebraica tohu wabohu, que descreve absoluta devastação, vazio e ruína.

Jeremias tomou essa imagem emprestada para descrever o julgamento de Deus sobre a terra de judá (Jr 4:23) e Isaías

empregou-a para descrever a ruína de Edom (Is 34:11).


7. Alguns comentaristas acred/tam que o trabalho de Deus no quarto dia não foi de criar luzeiros, mas de atribuir-lhes suas

funções. No entanto, a descrição de Gênesis 1:14-19 é paralela àquela dos outros cinco dias e dá todas as evidências

de ser uma explicação do ato criador de Deus.


8. Ao referir-se ao dia de vinte e quatro horas, o povo judeu dizia "tarde e manhã" e não "manhã e tarde", pois seus dias

começavam com o pôr-do-sol e não o com o nascer do sol. Assim, o pôr-do-sol da quinta-feira deu início à sexta-feira e

o pôr-do-sol de sexta trouxe o sábado.

9. Quem usa mapas astrais para orientar suas decisões está seguindo antigos e fúteis costumes pagãos. Não há evidência

alguma de que a posição dos corpos celeste influencie a vida humana aqui na Terra. A Bíblia condena toda tentativa do

ser humano de prever ou de controlar o futuro (Dt 18:10-13; Is 47:13; Jr 10:2). A declaração de que o Sol e a Lua foram

feitos para "governar" o dia e a noite, respectivamente, não significa que exerçam qualquer influência particular sobre

questões pessoais, mas sim que o dia e a noite são os momentos em que operam. De acordo com a rotação da Terra,

sua órbita ao redor do Sol bem como a órbita da Lua ao redor da Terra, o Sol e a Lua governam a quantidade de luz que
incide sobre a Terra.

10. Em er so n , Ralph Waldo. Nature. Boston: Beacon Press, 1985, pp. 9, 10.

11. Ainda que muitos animais sejam mais fortes e vivam mais tempo do que nós, Deus deu aos seres humanos o domínio

sobre eles. No entanto, isso não significa que podemos abusar e fazer o que bem entendermos com as criaturas de

Deus (Jr 27:5). Apesar de os animais nos terem sido dados para servir-nos, devemos tratá-los como criaturas feitas por

Deus. "O justo atenta para vida dos seus animais" (Pv 12:10). "Não atarás a boca ao boi quando debulha" (Dt 25:4).

Deus cufda dos animais (Sl 36:6; 104:10-18; Mt 6:26) e sabe quando estão sofrendo (Jl 1:18-20; 2:22; Jn 4:11). Deus
se interessa até mesmo pela forma como tratamos os frágeis passarinhos (Dt 22:6, 7). Aqueles que abusam da criação

de Deus e a exploram, um dia, serão julgados (Ap 11:18).

12. Encontramos um "diálogo" parecido em Gênesis 3:22; 11:7; ver também Isaías 6:8.
13. Como vimos, a palavra hebraica ruah significa "fôlego" e "espírito" (ou Espírito). O fôlego de Deus deu vida a Adão,

assim como o Espírito de Deus dá vida ao pecador que crê em Cristo (Jo 3:7, 8; 20:22).

14. É possível que Lúcifer desejasse ter o privilégio de exercer domínio sobre a Terra e suas criaturas, quando se rebelou

contra Deus e liderou alguns anjos numa revolta conta o Senhor. Isaías 14:12-17 fala principalmente da queda do rei

da Babilônia, mas por trás dessa passagem misteriosa esconde-se a imagem do "filho da alva", que queria ser como o
Senhor e que prometeu tornar Eva como Deus (Gn 3:5).
Precisamos considerar três diferentes sába­
3 dos que encontramos na Bíblia.
O sábado pessoal do Senhor Deus (w. 1-3).
Esse primeiro sábado não ocorreu porque
A s P r im e ir a s C o isa s Deus estivesse cansado depois de toda a
sua obra criadora, uma vez que Deus não
P r im e ir o se fatiga (is 40:28). Deus separou o sétimo
G ênesis 2 dia porque sua criação estava concluída e
ele estava contente e satisfeito com o que
havia criado. "Viu Deus tudo quanto fizera,
e eis que era muito bom" (Gn 1:31).
Há três coisas que distinguem o sétimo
e você pudesse estar presente para tes­ dia dos demais. Em primeiro lugar, não é
S temunhar qualquer um dos aconte­
cimentos históricos da Bíblia, qual deles
mencionada a expressão "tarde e manhã", o
que sugere que o repouso do sábado de
escolheria? Deus não teria fim. Infelizmente, o pecado
Certa vez fiz essa pergunta a vários lí­ do homem interrompeu o descanso de Deus,
deres cristãos conhecidos, e as respostas e ele teve de procurar Adão e Eva e tratar
foram variadas: a crucificação de Cristo, a com eles (Gn 3:8, 9 e Jo 5:9, 17). Em segun­
ressurreição de Cristo, o dilúvio, Israel atra­ do lugar, não há qualquer registro de que ele
vessando o mar Vermelho e até mesmo Davi tenha abençoado algum dos outros dias, mas
derrubando Golias. No entanto, um deles Deus abençoou o sábado (Gn 2:3), tornan­
disse: "Gostaria de ter estado presente quan­ do-o uma bênção. Em terceiro lugar, depois
do Deus terminou sua criação. Deve ter de abençoar o sétimo dia, Deus o santifi-
sido algo maravilhoso de se ver!" cou (v. 3), o que significa que ele o separou
Alguns cientistas afirmam que, se pu­ para seus propósitos especiais.2
déssemos viajar com velocidade suficiente Jeová é o Deus do tempo, bem como
no espaço e ir longe o bastante, conseguiría­ Senhor da eternidade. Foi ele quem criou o
mos "alcançar" os raios de luz do passado e tempo e determinou a rotação dos planetas
ver a história desenrolando-se diante de nos­ e sua órbita ao redor do Sol. Foi ele quem
sos olhos. Talvez o Senhor nos permita fazer definiu uma semana de sete dias e separou
isso quando chegarmos ao céu. Espero que um dia para si. Todas os seres viventes cria­
sim, pois gostaria de ver os acontecimentos dos por Deus vivem um dia de cada vez,
extraordinários descritos por Moisés em exceto os seres humanos feitos à imagem de
Gênesis 1 e 2. Deus! As pessoas vivem numa rotina frené­
Gênesis 2 nos apresenta uma série de "pri­ tica, sempre planejando descansar, mas, apa­
meiras coisas" importantes para nós, caso rentemente, nunca cumprindo seu plano.
desejemos construir nossa vida de acordo Alguém disse que a maioria das pessoas
com os fundamentos que Deus colocou em em nosso mundo está sendo "crucificada en­
seu Universo. tre dois ladrões": os arrependimentos de on­
tem e as preocupações de amanhã, por isso
1. O PRIM EIRO SÁBADO (G n 2:1-3) não consegue desfrutar o dia de hoje. Com
A palavra "sábado" não se encontra nesse os meios de transporte e de comunicação
parágrafo, mas Moisés está escrevendo so­ modernos, procuramos viver dois ou três
bre o sábado, o sétimo dia da semana. A dias de cada vez, só para acabar batendo de
expressão "dia sétimo" é mencionada três frente com o ciclo da criação do Universo.
vezes nos versículos 2 e 3. O termo "sába­ Os resultados são dolorosos e, com freqüên­
do" vem da palavra hebraica shabbath que cia, catastróficos.
significa "cessar o trabalho, descansar" e Um conhecido estudioso chinês foi aos
está relacionada à palavra hebraica "sete".1 Estados Unidos para lecionar em várias uni-
22 G Ê N E S IS 2

versídades e, durante uma de suas viagens, tanto um gesto humanitário quanto um de­
foi recebido numa movimentada estação de ver religioso. O Senhor ordenou que seu
trem por seu anfitrião. povo observasse o sétimo ano fazendo dele
— Se corrermos, poderemos pegar o pró­ um ano sabático e que a cada cinqüenta anos
ximo trem e economizar três minutos — disse houvesse um ano de jubileu. Isso permitiria
o norte-americano. que a terra também tivesse seu sábado e
O estudioso perguntou calmamente: descansasse (Lv 25).
— E o que vamos fazer de significativo com O sábado não estava apenas ligado à
os três minutos que ganharmos se corrermos? criação. No final da entrega da lei, esse dia
Uma boa pergunta, que não pôde ser res­ foi investido de significado especial como
pondida. Há mais de um século, na sua obra um sinal entre Israel e jeová (Êx 31:12-17;
Walden, Henry David Thoreau escreveu: "A Ne 9:13-15). "Certamente, guardareis os
massa de seres humanos leva uma vida de meus sábados; pois é sinal entre mim e vós
desespero silencioso". Fico pensando o que nas vossas gerações; para que saibais que
ele diria se visse as pessoas agitadas corren­ eu sou o S e n h o r , que vos santifica" (Êx
do para cima e para baixo pelas escadas ro­ 31:13). (Vão há evidência alguma de que
lantes nos terminais de nossos aeroportos! Deus tenha exigido de qualquer outra nação
Deus fez muitas coisas maravilhosas du­ que observasse o sábado, pois somente os
rante os seis dias da criação, mas o ápice israelitas eram o povo escolhido de Deus.
dessa semana foi quando Deus "descansou" Existe uma terceira relação entre o sá­
depois de seu trabalho. Como veremos, bado e o povo de Israel. Quando Moisés
Deus santificou tanto o trabalho quanto o recitou a lei para a nova geração prestes a
descanso, mas, hoje em dia, o descanso pa­ entrar em Canaã, relacionou o sábado com
rece ser aquilo que as pessoas mais necessi­ sua libertação do Egito (Dt 5:12-15). O sá­
tam em seu coração. Agostinho estava certo bado semanal e a festa anual da Páscoa lem­
quando escreveu: "Tu nos criaste para ti, e brariam Israel da misericórdia e do poder
nosso coração não encontra repouso até que de Deus ao libertar o povo de sua escravi­
descanse em ti". dão. Além disso, esse descanso semanal
O sábado nacional de Israel. Não en­ também serviria de prenuncio para o des­
contramos nenhuma menção ao sábado nas canso que gozariam na Terra Prometida (Dt
Escrituras antes de Êxodo 16:23, quando 3:20; 12:10; 25:19; Js 22:4). Deus os havia
Deus apresenta a Israel as prescrições para tirado do Egito para que pudesse conduzi-
que recolhessem o maná diário. A julgar pela los até a Terra Prometida, a fim de se apro­
forma como essa ordem foi expressa, ela su­ priarem de sua herança (Dt 4:37, 38). No
gere que os israelitas já sabiam da importân­ Livro de Hebreus, esse conceito de "des­
cia do sábado e observavam-no como um canso prometido" é aplicado aos cristãos
dia de descanso. Ao dar o sábado a Israel, o de nossos dias.
Senhor relacionou esse dia especial com ou­ A nação de Israel acabou entrando em
tros acontecimentos da história sagrada. declínio espiritual e deixou de observar as
Em primeiro lugar, quando Deus deu a leis de Deus, inclusive o sábado; por fim,
Israel a lei no monte Sinai, o sábado foi as­ foram castigados por sua desobediência
sociado à criação (Êx 20:8-11). Deus era o (2 Cr 36:14-21; Ez 20:1 ss; Is 58:13, 14; Jr
generoso Provedor de todas as necessida­ 17:19-27). Israel, o reino do Norte, foi traga­
des do povo, e Israel devia reconhecê-lo do pelos assírios, e Judá, o reino do Sul, foi
como tal ao adorar o Criador e não a cria­ levado para o cativeiro pela Babilônia.
ção. Não devia imitar as nações pagãs a seu No tempo do ministério de Jesus, os
redor (Rm 1:18ss), Moisés até mencionou escribas e fariseus haviam acrescentado suas
o descanso semanal necessário para os ser­ próprias tradições à Palavra de Deus e
vos e animais usados pelo homem (Êx transformado a lei em geral, mas especial­
23:12), de modo que guardar o sábado era mente o sábado, numa forma de escravidão
G Ê N E S IS 2 23

religiosa. As poucas proibições encontradas optem por honrar o dia de sábado como sen­
nos escritos de Moisés (Êx 16:29; 35:2, 3; do "para o Senhor", e os cristãos não devem
Nm 15:32-36) foram expandidas de modo a julgar nem condenar uns aos outros em fun­
constituírem inúmeras regras. Jesus, porém, ção disso. Quando pessoas boas e tementes
rejeitou as tradições deles e chegou até a a Deus discordam sobre questões de cons­
realizar milagres no sábado! Ele disse: "O ciência, devem colocar em prática o amor
sábado foi estabelecido por causa do ho­ mútuo e a aceitação, concedendo liberdade
mem, e não o homem por causa do sábado" uns aos outros (Rm 14:1 - 15:7). "Ninguém,
(Mc 2:27). pois, vos julgue por causa de comida e bebi­
O sábado espiritual do cristão (Hb 4:1- da [as leis alimentares], ou dia de festa, ou
11). Hebreus 4 junta o descanso de Deus na lua nova [as festas judaicas], ou sábados"
criação (v. 4) com o descanso de Israel em (Cl 2:16).
Canaã (v. 8) para nos ensinar sobre o descan­
so espiritual que os cristãos encontram em 2. O PRIM EIRO l a r (G n 2:4-14)
Cristo (vv. 9-11). Quando você confia em Alguns estudiosos do Antigo Testamento
Jesus Cristo, passa a ser "nova criatura" (2 Co afirmam que essa parte de Gênesis 2 é um
5:17) e a gozar o descanso espiritual no segundo relato da criação escrito por ou­
Senhor (Mt 11:28-30). Também passa a ser tro autor, cuja mensagem diverge daquela
co-herdeiro da herança espiritual que ele dá que encontramos no capítulo 1. Essa teo­
a todos os que nele confiam (At 20:32; Ef ria não é amplamente divulgada hoje em
1:18; Cl 1:12). Os cristãos não se encontram dia, pois nesses versículos Moisés conta a
sob a escravidão da lei (Gl 5:1), pois quando mesma história da criação, porém acres­
nos entregamos ao Espírito Santo, ele cum­ centa detalhes necessários à compreensão
pre os preceitos da lei em nós (Rm 8:1-3). de acontecimentos que ocorreram poste­
Os primeiros cristãos reuniam-se diaria­ riormente. Gênesis 2:4 é a primeira de onze
mente para adorar a Deus e para ter comu­ declarações sobre "gerações" que marcam
nhão (At 2:46), mas também reuniam-se no o progresso da história escrita por Moisés
primeiro dia da semana, no dia que Cristo no Livro de Gênesis. (Ver capítulo 1, seção
ressuscitou dos mortos (Jo 20:19, 26; At 2, página 12.)
20:7; 1 Co 16:2). O primeiro dia ficou co­ Adão, o trabalhador. Ao recapitular o
nhecido como o "dia do Senhor" (Ap 1:10), terceiro dia (Gn 1:9-13), Moisés relatou
e transformar o "dia do Senhor" num sábado como Deus criou a vegetação e proveu uma
cristão é fazer confusão quanto ao que esses "névoa" para regar as plantas. A chuva não
dias representam dentro do plano de Deus aparece em Gênesis até o dilúvio. E interes­
para a salvação. sante que Deus precisava de alguém para
O sétimo dia da semana, o sábado ju­ cultivar a terra e para ajudar a produzir o
daico, simboliza a antiga criação e a aliança alimento necessário. Os seres humanos são
da lei; primeiro você trabalha, depois des­ despenseiros das bênçãos da criação de
cansa. O primeiro dia da semana, o dia do Deus e devem usar as dádivas do Senhor
Senhor, simboliza a nova criação e a aliança conforme ele ordena. Deus e o homem tra­
da graça: primeiro você crê em Cristo e en­ balham juntos, pois Deus colocou o homem
contra descanso, depois trabalha (Ef 2:8- no Éden para fazer seu trabalho ao cultivar
10). Dentro da nova criação, o Espírito de a terra e cuidar do jardim (v. 15).
Deus permite que façamos da semana toda Certo homem aposentado, cansou-se de
uma experiência de adoração, louvor e ser­ ver um terreno baldio quando saía para fa­
viço para a glória de Deus. zer sua caminhada diária e pediu permissão
A lei judaica do sábado cumpriu-se por ao proprietário para plantar um jardim na­
meio de Cristo na cruz, e o povo de Deus quela área. Levou dias para tirar de lá todo o
não está mais preso a ela (Gl 4:1-11; Cl 2:16, entulho acumulado e mais tempo ainda para
17). No entanto, pode ser que alguns cristãos preparar o solo, mas o homem trabalhou com
24 G Ê N E S IS 2

afinco. No ano seguinte, o terreno chamava Não temos nenhuma informação sobre
a atenção de todos os que ali passavam por os rios Pisom e Giom; e, apesar de o Tigre e
seu jardim cheio de vida e beleza. o Eufrates serem dois rios conhecidos, não
— Deus certamente lhe deu um terreno temos dados suficientes para determinar a
muito bonito — disse um visitante enquanto localização exata do jardim do Éden. A loca­
admirava as flores e o trabalho de paisagismo. lização da terra de Havilá também é incerta;
— Sem dúvida — respondeu o atarefado alguns dizem que fica na Armênia, outros na
jardineiro que cuidava das flores —mas você Mesopotâmia. A versão King James da Bíblia
deveria ter visto este terreno quando era só em inglês identifica a terra de Cuxe como a
de Deus! Etiópia, mas hoje em dia nem todos aceitam
Essa resposta foi sábia e de forma algu­ essa interpretação. Felizmente, não é neces­
ma irreverente. O mesmo Deus que ordena sário dominar a geografia da Antiguidade
o fim - um belo jardim - também ordena os para compreender as lições espirituais des­
meios para alcançá-lo - alguém para reali­ ses primeiros capítulos de Gênesis.
zar o trabalho. Afinal, "a fé sem obras é mor­ Nesse magnífico jardim, Deus proveu tan­
ta" (Tg 2:26), e não há orações nem estudos to abundância quanto beleza; Adão e Eva ti­
bíblicos capazes de substituir o trabalho nham alimento para comer e a maravilhosa
de um jardineiro lavrando o solo, semeando, obra das mãos de Deus para se deleitarem.
regando as plantas e arrancando as ervas Até então, o pecado não havia entrado no
daninhas. "Porque de Deus somos coope- jardim e transtornado sua felicidade.
radores" (1 Co 3:9).
O trabalho não é uma maldição, mas sim 3. A PRIMEIRA ALIANÇA (G n 2:16, 17)
uma oportunidade de usar nossas aptidões Uma aliança é um compromisso entre duas
e de cooperar com Deus, sendo despenseiros ou mais partes que governa o relacionamen­
fiéis de sua criação. Depois que o homem to entre elas.3A palavra ordem é introduzida
pecou, o trabalho transformou-se em labuta nesse ponto, pois é Deus quem determina os
(Gn 3:17-19), mas essa não era a intenção termos do acordo. Deus é o Criador, e o ho­
original de Deus. Todos nós temos aptidões mem é a criatura, o "inquilino real" no mundo
e oportunidades e devemos descobrir o que maravilhoso de Deus, de modo que Deus tem
o Senhor deseja que façamos com nossa vida 0 direito de dizer ao homem o que ele pode
neste mundo, para o bem de outros e para a ou não fazer. Deus não pediu o conselho de
glória de Deus. Algum dia, queremos ser Adão; simplesmente lhe deu sua ordem.
capazes de estar diante de Deus e de dizer Deus havia concedido grande honra e pri­
como Jesus: "Eu te glorifiquei na terra, consu­ vilégio a Adão ao fazer dele seu vice-regente
mando a obra que me confiaste para fazer" da Terra (Gn 1:28), mas o privilégio sempre
(Jo 17:4). traz responsabilidades. A mesma Palavra di­
Adão, o inquilino. Deus plantou "um jar­ vina que fez surgir o Universo também ex­
dim no Éden, na direção do Oriente" (Gn 2:8). pressou o amor de Deus e sua vontade para
Éden significa "deleite" ou "lugar de muita Adão, Eva e seus descendentes (Sl 33:11). A
água" e in.dica que esse jardim era um pa­ obediência à Palavra manteria os seres hu­
raíso vindo das mãos de Deus. A história da manos dentro da esfera de comunhão e de
Bíblia começa com um belo jardim, no qual aprovação de Deus. Todas as ordens de Deus
o homem caiu em pecado, mas termina com são boas e trazem benefícios para aqueles
a "nova Jerusalém", uma cidade de grande que lhes obedecem (Sl 119:39; Pv 6:20-23).
beleza (Ap 21 - 22), na qual não haverá pe­ "Ora, os seus mandamentos não são peno­
cado. O que causou essa mudança? Outro sos" (1 Jo 5:3).
jardim chamado de Getsêmani, onde Jesus Deus colocou duas árvores especiais no
entregou-se à vontade do Pai e levou adiante meio do jardim: a árvore da vida e a árvore
seu trabalho ao morrer na cruz pelos pecados do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:9,
do mundo. 17; 3:3, 22, 24). Os frutos da árvore da vida
G Ê N E S IS 2 25

conferiam a imortalidade (v. 22). Os frutos A dignidade da mulher (w . 18-22). De


da outra árvore conferiam um conhecimen­ modo algum a mulher era uma "criatura infe­
to experimental do bem e do mal, mas tam­ rior". O mesmo Deus que fez Adão também
bém causavam a morte (Gn 2:1 7).4 Tendo fez Eva e criou-a à sua própria imagem (Gn
em vista que jamais haviam experimentado 1:27). Tanto Adão quanto Eva exerciam do­
o mal, Adão e Eva eram inocentes como mínio sobre a criação (v. 29). Adão foi feito
crianças (Dt 1:39; Is 7:15, 16). Quando de­ do pó da terra, mas Eva foi feita de uma cos­
sobedeceram a Deus, tornaram-se como ele tela de Adão, osso de seus ossos e carne de
no sentido de serem capazes de distinguir sua carne (Gn 2:23).
entre o bem e o mal. No entanto, tornaram- A verdade pura e simples é que Adão
se diferentes dele no sentido de que perde­ precisava de Eva. Nenhum animal que Deus
ram sua inocência e imortalidade. havia criado realizaria o papel de Eva na vida
Mas por que Deus precisou pôr Adão e de Adão. Ela era uma auxiliadora "idônea
Eva ã prova? Pode haver uma porção de res­ [adequada]" para ele. Quando Deus trouxe
postas a essa pergunta, mas uma coisa é cer­ todos os animais para que Adão lhes desse
ta: Deus queria que os seres humanos o nome, sem dúvida passaram diante dele em
amassem e lhe obedecessem livre e esponta­ pares, cada um com sua companheira, e tal­
neamente e não que fossem programados vez Adão tenha se perguntado: "Por que eu
como robôs sem qualquer outra opção a não tenho uma companheira?"
não ser obedecer. Em certo sentido, Deus Apesar de Eva ser a "auxiliadora idônea"
"se arriscou" quando criou Adão e Eva à sua de Adão, ela não foi criada para ser uma es­
imagem e deu-lhes o privilégio do livre-arbí- crava. O conhecido comentarista bíblico
trio; mas esse foi o modo que ele definiu Matthew Henry escreveu: "Ela não foi feita
para que aprendessem sobre a liberdade e a da cabeça para governar sobre ele, nem dos
obediência. Uma das verdades fundamentais pés para ser pisada por ele, mas da sua cos­
da vida é que a obediência traz bênçãos e a tela para ser igual a ele, sob seu braço para
desobediência traz julgamento. ser protegida por ele, perto de seu coração
para ser amada por ele". Paulo escreveu que
4 . O PRIMEIRO c a s a m e n to ( G n 2 :1 9 - 2 5 ) "a mulher é glória do homem" (1 Co 11:7);
No final do sexto dia da criação, Deus viu pois se o homem é o cabeça (1 Co 11:1-16;
tudo o que havia feito e declarou que era Ef 5:22-33), então a mulher é a coroa que a
"muito bom" (Gn 1:31). Mas, então, Deus enobrece.
diz que há algo em seu mundo maravilhoso A santidade do casamento (vv. 23, 24).5
que não é bom: o homem está só. Na reali­ O modelo de Deus para o casamento não
dade, no texto hebraico as palavras "Não é foi criado por Adão. Como diz a cerimônia
bom" aparecem logo no início da declara­ tradicional de casamento: "O casamento
ção do Senhor em Gênesis 2:18. nasceu no coração amoroso de Deus para
O que "não era bom" na solidão do ho­ abençoar e beneficiar a humanidade". Não
mem? Afinal, Adão podia ter comunhão com importa o que os tribunais decretem ou a
Deus, aproveitar a beleza do jardim, comer sociedade permita; quando se trata do ca­
de seus frutos, realizar seu trabalho diário e samento, Deus tem a primeira e terá a últi­
até brincar com os animais. O que mais ele ma palavra (Hb 13:4; Ap 22:15). Talvez o
poderia desejar? Deus sabia do que Adão Senhor olhe para tantos casamentos contrá­
precisava: de "uma auxiliadora que lhe [fos­ rios ao modelo bíblico e diga: "Não foi as­
se] idônea (v. 18). Não havia ninguém assim sim desde o princípio" (Mt 19:8). Seu plano
dentre os animais, de modo que Deus criou original era que um homem e uma mulher
a primeira mulher e apresentou-a ao homem se tornassem uma só carne por toda a vida.
como sua esposa, companheira e auxilia­ Deus tinha pelo menos quatro propósi­
dora. Ela foi o presente especial de amor tos em mente quando realizou o primeiro
que Deus deu a Adão (Gn 3:12). casamento no jardim do Éden. Em primeiro
26 G Ê N E S IS 2

lugar, desejava oferecer a Adão companhia Deus fez com que Adão dormisse para
adequada, de modo que deu-lhe uma es­ tirar dele uma costela de modo que pudes­
posa. Concedeu-lhe uma pessoa e não um se ter uma esposa, mas Jesus morreu na cruz
animal, alguém que era sua igual e que, por­ e derramou seu sangue para que pudesse
tanto, podia compreendê-lo e ajudá-lo. ter uma noiva, a Igreja (Jo 3:29). Cristo ama
Martinho Lutero chamou corretamente o ca­ a Igreja, cuida dela e deseja purificá-la e
samento de "escola do caráter". Quando torná-la mais bela para a glória de Deus.
duas pessoas vivem juntas em sagrado ma­ Um dia, Cristo virá buscar sua noiva para
trimônio, a experiência extrai o que há de apresentã-la no céu em toda a sua pureza e
melhor nelas ou o que há de pior. É uma glória (Jd 24; Ap 19:1-9).
oportunidade de exercitar a fé, a esperança Quando Adão viu sua noiva, irrompeu
e o amor e de amadurecer por meio do sa­ em alegre louvor (Gn 2:23), como se estivesse
crifício e do serviço mútuos para a glória de dizendo: "Finalmente tenho uma companhei­
Deus. ra apropriada!" (A Nova Versão Internacional
Em segundo lugar, mediante o casamen­ da Bíblia e a a r a separam essas palavras
to Deus concedeu o direito de desfrutar o como um poema.) A identidade dela -
sexo e ter filhos. O Senhor ordenou: "Sede "varoa" - serviria para lembrar a todos que
fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra" (Gn ela havia se originado do "varão".7Ela foi fei­
1:28). Isso não significa que o amor sexual ta dele e para ele, e ele precisava dela. As­
vise somente a procriação, pois há muitas sim, os dois sempre pertencerão um ao ou­
pessoas que se casaram que já não podem tro e servir-se-ão mutuamente em amor.
mais ter filhos. Porém, os filhos são uma par­ Não foi Adão quem disse as palavras
te importante da união matrimonial (1 Tm registradas nos versículos 24 e 25. Elas são
5:14).6 uma reflexão de Deus sobre aquele aconte­
Em terceiro lugar, outro propósito do cimento e sua declaração do princípio da
casamento é estimular o domínio próprio unidade matrimonial declarada por Adão.
(1 Co 7:1-7). "É melhor casar do que viver A mulher está unida ao homem tanto no
abrasado" (1 Co 7:9). Um casamento que que se refere a sua origem (veio do homem)
se baseia apenas na paixão sexual prova­ quanto ao casamento. Na união sexual e
velmente não será forte nem maduro. O em seus filhos, homem e mulher são "uma
amor sexual deve servir para enriquecer o só carne". O casamento é um relacionamen­
relacionamento e não só para torná-lo exci­ to civil regulamentado por lei e deve ser um
tante. E preciso que haja respeito mútuo relacionamento espiritual e emocional go­
entre os cônjuges de modo que o sexo não vernado pela Palavra de Deus e motivado
seja somente uma forma de usar o outro. pelo amor. O homem e a mulher não são,
Ao longo de todas as Escrituras, a união antes de tudo, "um só espírito" ou "um só
sexual fora do casamento é condenada e coração", por mais essenciais que sejam
mostra-se destrutiva, sendo que o mesmo essas duas coisas, mas sim "uma só carne".
se aplica às perversões dessa união (Rm Desse modo, "deixar" pai e mãe e "unir-se"
1:24-27).-Não importa o que juizes ou ao cônjuge (Ef 5:30, 31) é algo importante a
terapeutas conjugais digam: "Deus julgará ser cultivado e protegido.
os impuros e adúlteros" (Hb 13:4). A expressão "uma só carne" deixa implí­
Por fim, o casamento é uma ilustração cito que qualquer coisa que rompa o laço
do relacionamento íntimo e amoroso entre físico do casamento também pode romper o
Cristo e sua igreja (Ef 5:22-33). Paulo cha­ próprio casamento. Uma dessas coisas é a
mou isso de "grande mistério", ou seja, uma morte, pois se um dos cônjuges morre, o
profunda verdade espiritual outrora oculta, outro está livre para casar-se novamente, ten­
mas que foi revelada pelo Espírito. Jesus Cris­ do em vista que o laço matrimonial foi rom­
to é o último Adão (1 Co 15:45) e, portanto, pido (Rm 7:1-3; 1 Co 7:8, 9; 1 Tm 5:14). Em
símbolo do primeiro Adão. Mateus 19:1-9, Jesus ensina que o adultério
G Ê N E S IS 2 27

também pode romper o laço matrimonial. De pecados contra os laços do matrimônio po­
acordo com a lei do Antigo Testamento, qual­ dem ser perdoados, e os casais podem exer­
quer um que cometesse adultério devia ser citar o perdão e recomeçar no Senhor.
morto por apedrejamento (Dt 22:22-24; Jo Vivemos num mundo criado por Deus,
8:3-7), liberando desse modo o cônjuge ino­ somos criaturas feitas à imagem de Deus e
cente para casar-se outra vez. No entanto, essa gozamos várias bênçãos das mãos do Se­
lei não foi determinada para a Igreja do Novo nhor. Como é triste que tantas pessoas dei­
Testamento. Ao que parece, no Novo Testa­ xem Deus fora de sua vida e tornem-se
mento, o divórcio eqüivale à morte no Anti­ andarilhos confusos neste mundo nada amis­
go, no sentido de que o cônjuge inocente está toso, quando poderiam ser filhos de Deus
livre para casar-se novamente. No entanto, os no mundo de seu Pai.

1. Nas Escrituras, o número sete com freqüência representa plenitude e inteireza. De acordo com Levítico 23, o calendário

hebraico foi desenvolvido a partir de uma série de setes. O sétimo dia da semana era o sábado, o Pentecostes era

comemorado sete semanas depois da Festa das Primícias. Durante o sétimo mês, os judeus celebravam o Dia da

Expíação, a Festa das Trombetas e a Festa dos Tabernácufos. O sétimo ano era sabático e o qüinquagésimo ano era de

jubileu.

2. A palavra hebraica qadas significa "separar, tornar santo" e pode ser aplicada a pessoas (Êx 13:2; 19:14; 28:14), a objetos

inanimados (Èx 29:36, 37, 44), a acontecimentos, tais como jejuns (Jl 1:14) e guerras (Jr 6:4, em que o termo "preparai"

corresponde a qadas), e até mesmo ao nome de Deus (Ez 36:23). Aquilo que Deus santifica jamais deve ser tratado
como algo comum.

3. Em português, o termo aliança está associado ao verbo aliar-se, que significa unir-se, juntar-se por pacto, acordo ou
contrato. O aluguel de uma casa permite que duas partes juntem-se através de um contato comercial. Os votos

matrimoniais, autorizados por uma certidão de casamento, permitem que um homem e uma mulher vivam juntos como

marido e mulher. Sem tais acordos, a sociedade se desintegraria.


4. A árvore da vida é uma imagem que aparece repetidamente em Provérbios (3:18; 11:30; 13:12; 15:4, e também no Livro

de Apocalipse (2:7; 22:2, 14, 19). A árvore da vida encontra-se na "nova Jerusalém" e provê sustento e cura.

5. Em Mateus 19:10-12, Jesus deixou claro que nem todos devem se casar, apesar de ser esperado que a maioria das

pessoas se case e que provavelmente deseje fazê-lo. O estado solteiro não é desventurado. Deus dá diferentes dons
a cada um (1 Co 7:7) e chama as pessoas para tarefas adequadas a seus dons. Na Igreja, nem o sexo nem o estado civil

determinam a espiritualidade ou a comunhão (Cl 4:26-29).

6. O Livro de Cantares de Salomão engrandece o prazer do amor matrimonial e não diz nada sobre a concepção de filhos.

Na sociedade judaica da Antiguidade, era considerado uma desgraça não ter filhos. No entanto, muitos casamentos

excelentes não foram abençoados com filhos, como acontece também nos dias de hoje.
7. No hebraico, o texto diz: "Chamar-se-á ishsha, pois foi tirada de ish". Os estudiosos não são unânimes quanto ao

significado de ishsha como termo derivado de ish. Talvez se trate de um paralelo às palavras adão (homem) e adama

(terra) em 2:7 e 3:19. O homem foi feito do pó da terra, e a mulher foi feita do homem.
Jesus na cruz libertará toda a natureza. Um
4 dia, a criação de Deus entrará em regozijo
na "liberdade da glória dos filhos de Deus"
(Rm 8:21). Aleluia!
Este É o M u n d o de No entanto, nem todos concordam com
M eu Pai - ou NAo? Davi, Paulo e os adoradores celestes que
este é o "mundo de nosso Pai". Em seu tex­
to Prejudices: Third Series [Preconceitos: Ter­
ceira Série], o editor, jornalista e ensaísta
norte-americano H. L. Mencken escreveu:
"O Universo é uma roda-gigante girando a
dez mil rotações por minuto. O ser humano
onfesso, um tanto envergonhado, que, é uma mosca atordoada passeando nessa
C durante meus primeiros anos de minis­
tério, evitava que a igreja cantasse o hino
roda. A religião é a teoria de que a roda foi
criada e posta para funcionar a fim de levar
"Este é o mundo de meu Pai'' durante os essa mosca para passear". De acordo com
cultos. Com exceção de uma linha, esse o ensaísta britânico Walter Savage Landor:
cântico enfatiza o Deus da natureza e não o "Considerado em sua totalidade, o Univer­
Deus da cruz, e eu queria que todos os ele­ so é um absurdo", e nas palavras do físico
mentos de nossos cultos fossem "evangéli­ norte-americano Steven Weinberg: "Quan­
cos". Além disso, considerava a linguagem to mais o Universo parece compreensível,
do hino sentimental demais para meu gosto mais também parece despropositado".
e ficava imaginando que tipo de pessoa era Bem, você pode escolher a idéia que
o compositor. Sem ao menos investigar, con­ achar mais interessante! Mas tome cuidado,
cluí que qualquer pessoa chamada Maltbie pois sua escolha determinará o tipo de vida
D. Babcock tinha de ser um recluso que so­ que você levará aqui na Terra e seu destino
fria de tuberculose e passava as longas horas eterno quando você deixar este lugar. Os
de cada dia olhando pela janela e escreven­ ateus dizem que o Universo não passa de
do poemas cheios de sentimentalismo. um acidente ordenado. Os agnósticos ad­
Imaginem como fiquei estarrecido e até mitem que simplesmente não sabem e não
encabulado quando descobri que Maltbie se preocupam muito com isso. Os teístas
D. Babcock (1858-1901) era um pastor confessam que foi Deus quem criou todas
presbiteriano vigoroso, excelente lançador as coisas, mas, há muito tempo atrás, aban­
de beisebol e campeão de natação. Quase donou sua criação. No entanto, ainda as­
todas as manhãs, ele saía para correr de doze sim o cristão canta: "Este é o mundo de meu
a dezesseis quilômetros! Costumava dizer: Pai".
"Estou saindo para ver o mundo de meu Pai''. Que diferença faz o fato de o cristão
E claro que amadureci um pouco des­ acreditar em um Criador que não apenas
de aqueles tempos de inexperiência e me fez o Universo, mas também o governa e
arrependi de minha leviandade. Algum dia, controla seu destino? Se cantamos "Este é o
quero encontrar-me com o pastor Babcock mundo de meu Pai" na igreja, então como
no céu e pedir-lhe desculpas. Percebi que devemos viver no lugar onde trabalhamos e
Davi estava certo em louvar o Criador em moramos para provar que é isso mesmo que
seus salmos e que os seres glorificados no queremos dizer?
céu estão fazendo o que é certo quando
adoram a Deus tanto como Criador (Ap 4) 1. A d o r a r em o s so m ente a D eus
quanto como Redentor (Ap 5), pois as duas "Tema ao S e n h o r toda a terra, temam-no to­
coisas andam juntas. A criação e a reden­ dos os habitantes do mundo. Pois ele falou,
ção fazem parte de um único e grandioso e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a
plano, pois a redenção concretizada por existir" (S l 33:8, 9).
G Ê N E S IS 29

A criação revela a existência, o poder e a Senhor, tuas maravilhas patentes estão,


sabedoria de Deus. A idéia de que este Uni­ para onde quer que volte meu olhar;
verso tão complexo apareceu acidentalmen­ Quer seja o caminho por onde meus pés
te do nada por causa de um big-bang é tão vão,
provável quanto achar que as obras de quer seja nos céus que estou a fitar.
Shakespeare resultaram de uma explosão (Isaac Watts)
numa gráfica. Somente um Deus poderoso
seria capaz de criar algo do nada e somente Um guia de um laboratório atômico deu ao
um Deus de sabedoria seria capaz de colo­ seu grupo de visitantes a oportunidade de
car sua criação em funcionamento. Os cien­ fazer perguntas e um deles indagou:
tistas só fazem suas descobertas depois de — Você diz que este mundo, que parece
já realizados os feitos de Deus e apenas des­ tão sólido, não passa de partículas elétricas
cobrem as leis que o Senhor estabeleceu em em movimento. Se isso é verdade, o que as
seu mundo na criação. mantém unidas?
Paulo declarou que, com referência a — Não sabemos — foi a resposta franca
Deus, a criação prova o "seu eterno poder, do guia.
como também sua própria divindade" (Rm No entanto, Paulo respondeu a essa per­
1:20), e Davi entoou um cântico dizendo: gunta séculos atrás: "Tudo foi criado por meio
"Os céus proclamam a glória de Deus, e o dele [Jesus Cristo] e para ele. Ele é antes de
firmamento anuncia as obras das suas mãos" todas as coisas. Nele tudo subsiste" (Cl 1:16,
(Sl 19:1). Jesus não hesitou em usar a pala­ 1 7). Esse é o Deus que adoramos e que leva
vra "criação" (Mc 10:6; 13:19), nem Paulo a criação a unir-se a nós em louvores a ele
(Rm 8:1-20, 22), nem Pedro (2 Pe 3:4); (Sl 19:1-5; 96:10-13; 148:1-13).
Romanos 1:18-32 explica a involução da
humanidade abandonando o conhecimen­ 2 .S e r e m o s b o n s d e s p e n s e ir o s d a c r ia ç ã o

to do verdadeiro Deus vivo e dedicando-se Quando Deus deu ao primeiro homem e à


à adoração de falsos deuses e ídolos sem primeira mulher o domínio sobre a criação
vida. Ao contrário do que ensinam aqueles (Gn 1:26-30), fê-los, assim como seus des­
que se dedicam ao estudo comparativo das cendentes, responsáveis por valorizar as dá­
religiões, a humanidade não começou sua divas dele e por usá-las com cuidado para a
jornada religiosa com a adoração de coisas glória do Criador. Deus criou todas as coi­
da natureza para, então, gradualmente, ir sas para sua glória e seu prazer (Ap 4:11),
alcançando níveis mais elevados e passan­ bem como para serem desfrutadas e usadas
do a adorar um único Deus. Na realidade, a por nós (1 Tm 6:17; At 17:24-28), e deve­
humanidade começou do alto, tendo em si mos sempre nos considerar despenseiros do
o conhecimento do verdadeiro Deus. Con­ mundo de Deus. Destruir a criação e desper­
tudo, a fim de satisfazer seus apetites pas­ diçar sua abundância é pecar contra Deus.
sionais, os seres humanos recusaram-se a Neste Universo, há Deus, as pessoas e
adorá-lo e, em vez disso, voltaram-se para as coisas que Deus fez - dentre elas, a água,
os ídolos. "E assim o mundo te esquece, ó a terra, a fauna, a flora, o ar e os vastos re­
Criador", escreveu Agostinho, "e apaixona- cursos subterrâneos. Os mandamentos que
se por aquilo que tu criaste em vez de amar recebemos determinam que adoremos a
a ti". Deus, amemos as pessoas e usemos as coi­
Quando Davi meditou sobre a grandeza sas para a glória de Deus e para o bem dos
dos céus, sentiu-se compelido a perguntar: outros. A criação de Deus sofre quando há
"Que é o homem, que dele te lembres? E o confusão nessa ordem divina. Quando nos­
filho do homem, que o visites?" (Sl 8:3, 4). O sa ganância nos leva a desejar as coisas, logo
profeta Isaías contemplou a magnitude do passamos a ignorar a Deus, a abusar das
Criador e viu o desatino da idolatria (Is 40:12- pessoas e a destruir a criação. O romancis­
26; 45:5-18). ta Alan Paton escreveu: "A terra é santa, pois
30 G Ê N E S IS

veio do Criador. Conserve-a, guarde-a e cui­ "não possuem qualquer meio invisível de sus­
de dela, pois ela conserva, guarda e cuida tento". Para eles, o Universo é uma máquina
dos seres humanos. Destrua a terra e terá impessoal que se criou a si mesma, não a
destruído o homem". criação de um Deus sábio e um Pai amoro­
Deus mostrou na lei de Moisés sua preo­ so. Contudo, os cristãos vêem a criação
cupação pelas pessoas, animais e plantas, como o mundo de seu Pai. Chamam o Cria­
bem como pela terra e seus recursos. A lei dor de "Pai" e confiam a ele sua vida, suas
do sábado prescrevia o descanso tanto de circunstâncias e seu futuro.
trabalhadores quanto de animais (Êx 20:8- Todas as coisas da natureza louvam ao
11; 23:12), enquanto o ano sabático e o ano Senhor e nele buscam tudo de que necessi­
de jubileu davam descanso à terra (Lv 25). tam. "Todos esperam de ti que lhes dês de
Por não obedecer a essas leis, os judeus fo­ comer a seu tempo" (Sl 104:27). Não há ne­
ram levados cativos, a fim de que a terra nhum indício de que aves, como os tordos,
pudesse desfrutar de seus sábados e ser re­ por exemplo, sofram de úlcera ou de que
novada (2 Cr 36:14-21). animais, como os coelhos, tenham colapsos
Deus deu prescrições a Israel sobre ani­ nervosos.
mais perdidos e caídos (Dt 22:1-4), aves no
ninho (Dt 22:6, 7), animais usados para la­ O tordo disse ao pardal:
vrar a terra (Dt 22:10) e filhotes recém-nasci­ "Tenho uma curiosidade:
dos (Lv 22:26-28). O salmista louvou a Deus por que os humanos, cheios de ansiedade,
por sua constante preocupação e cuidado se preocupam de modo tal?"
com as pessoas e animais (Sl 102:10-30). E ao tordo respondeu o pardal:
Não há como negar o fato de que Deus não "Acho que sei por quê;
abandonou sua criação, mas que, certamen­ Vai ver que não têm um Pai celestial
te, a humanidade a degradou e destruiu. Como o que cuida de mim e de você".
Isso porque as pessoas acreditam ser do­
nas da criação. Elas se esquecem de que O Universo não é uma engenhoca gigantes­
somos inquilinos de Deus e despenseiros ca que Deus criou, deu corda e abandonou.
de suas dádivas. "Ao S e n h o r pertence a terra e tudo o que
Os ecologistas afirmam que cem espé­ nela se contém, o mundo e os que nele habi­
cies de plantas e de animais tornam-se extin­ tam" (S l 24:1). "Tudo quanto aprouve ao S e­
tas todos os dias e que, com o passar do n h o r , ele o fez, nos céus e na terra, no mar e

tempo, a destruição de florestas e a polui­ em todos os abismos" (S l 135:6). "Na sua


ção das águas e do ar produzirão cada vez mão está a alma de todo ser vivente e o espí­
mais tragédias ecológicas. No entanto, Deus rito de todo o gênero humano"(Jó 12:10).
ama sua criação e deseja que nós a usemos O termo "providência" vem de duas pa­
com amor. "O S e n h o r é bom para todos, e lavras do latim que, juntas, significam "ver
as suas ternas misericórdias permeiam to­ de antemão". Não importa o que precisa ser
das as suas obras [...] O S e n h o r é fiel em todas feito, o Senhor tomará as medidas necessárias
as suas palavras e santo em todas as suas (Gn 22:13, 14). Nosso planeta não está cam­
obras [...] Justo é o S e n h o r em todos os seus baleando pelo espaço feito um bêbado aban­
caminhos, benigno em todas as suas obras" donado. Deus tem o mundo inteiro em suas
(Sl 145:9, 13, 17). Será que ousamos explo­ mãos e está cumprindo seus propósitos di­
rar e destruir a criação que Deus ama? vinos para o bem de seu povo e a glória do
seu nome. Não importa quão difíceis sejam
3. C o n f ia r e m o s n a p r o v id ê n c ia de as circunstâncias, é essa certeza que dá paz
D eus e n ã o no s preo c u pa rem o s c o m ao seu povo. "O S e n h o r dos Exércitos está
c o is a a l g u m a conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio
Os agnósticos e ateus têm todo o direito de [...] Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus"
se preocupar, pois (como disse alguém), (S l 46:7, 10).
G Ê N E S IS 31

No sermão da montanha (Mt 5-7), Jesus 5. Não t e m e r e m o s s o f r e r p o r a m o r a ele


diz como tratar da ansiedade. Devemos co­ "Por isso, também os que sofrem segundo a
locar nossa vida nas mãos do Pai e confiar vontade de Deus encomendem a sua alma
que ele nos guiará e proverá um dia de cada ao fiel Criador, na prática do bem" (1 Pe
vez (Mt 6:24-34). Se colocarmos as coisas 4:19). A palavra grega traduzida por "enco­
em primeiro lugar em nossa vida, então esta­ mendar" é um termo bancário que significa
remos sempre preocupados e aflitos. Porém, "depositar para guardar em segurança" e
se pusermos o reino de Deus em primeiro deixa implícitas duas coisas: em primeiro lu­
lugar, o Senhor suprirá nossas necessidades gar, que seu povo é de grande valor para o
e nos dará paz (v. 33). Ele está trabalhando, a Senhor e, em segundo lugar, que podemos
fim de que todas as coisas cooperem para o depender dele para cuidar de nós. "Lançan­
bem desde já (Rm 8:28), mesmo que talvez do sobre ele toda a vossa ansiedade, porque
não sejamos capazes de ver nem de compre­ ele tem cuidado de vós" (1 Pe 5:7). Afinal, se
ender tudo o que está fazendo por nós. o Criador é capaz de manter o Universo coe­
so e funcionando a fim de realizar sua vonta­
4. O rarem o s a n o sso P ai de, não pode fazer o mesmo por nossa vida,
Se Deus, o Criador e Senhor do Universo, é família e ministério? O Criador, que sabe
nosso Pai, então faz sentido que converse­ quantas estrelas existem e conhece o nome
mos com ele sobre as coisas que nos preo­ de todas elas, também sabe quem somos e
cupam. "Ora, se vós, que sois maus, sabeis pode suprir nossas necessidades mais pro­
dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto fundas (Sl 147:3-6).
mais vosso Pai, que está nos céus, dará Pedro escreveu sua carta aos cristãos
boas coisas aos que lhe pedirem?" (Mt que viviam no império romano; estavam
7:1 1) prestes a entrar na "fornalha de fogo" (1 Pe
No entanto, se Deus é soberano e tem 1:7; 4:1 2ss) e sofrer perseguição por sua fé.
um plano traçado para seu povo e seu mun­ Porém, quando seu povo está na fornalha
do, para que orar? A oração não é uma inter­ de fogo, o Criador não tira os olhos do reló­
ferência na vontade de Deus? Não. A oração gio nem a mão do termostato. Sabe quanto
é um dos meios ordenados por Deus para calor permitir e por quanto tempo deixá-lo
realizar sua vontade no mundo. Alguém dis­ arder; Deus está sempre no controle.
se bem que o propósito da oração não é
levar nossa vontade a ser feita no céu, mas a Quando pelas provas de fogo teu caminho
vontade de Deus a ser feita aqui na Terra. passar,
"Faça-se a tua vontade, assim na terra como Minha graça que sempre basta a ti irá
no céu" (Mt 6:10). Se não pedimos, não po­ suprir.
demos receber (Lc 11:9, 10; Tg 4:1-3), e por A chama não virá a te ferir,
meio de seu exemplo, instruções e promes­ Pois esse fogo a queimar
sas, Jesus nos incentiva a pedir. É só para a escória consumir,
Oramos ao Pai, pois sabemos que ele é o E teu ouro purificar.
Criador e "Senhor dos céus e da terra". To­ (John Wade)
dos os grandes intercessores da Bíblia po­
diam dizer: "O meu socorro vem do S e n h o r , 6. A m a r e m o s e s e r v ir e m o s a h u m a n i d a d e

que fez o céu e a terra" (Sl 121:2). Essas Quando Paulo dirigiu-se aos filósofos gre­
foram as palavras de Abraão (Gn 14:22), de gos no Areópago, deu-lhes um curso rápido
Ezequias (2 Rs 19:1 5), dos apóstolos, da Igre­ de teologia e de antropologia (At 17:22-34).
ja primitiva (At 4:24), de Paulo (Ef 3:15) e Disse-lhes que Deus era o Criador e que não
até mesmo de nosso Senhor Jesus Cristo (Lc precisava de seus templos e ídolos feitos por
10:21). Quando você se concentra na gran­ mãos humanas, pois ele é Senhor dos céus e
deza de Deus, seus problemas e fardos tor­ da Terra. Não há nada que possamos dar a
nam-se menores e mais leves. Deus, pois ele fez todas as coisas e é ele
32 G Ê N E S IS

quem "a todos dá vida, respiração e tudo nos ajudar. Não perguntaram nossa nacio­
mais" (v. 25). nalidade nem nossa convicção religiosa,
Então, Paulo entrou num assunto delica­ simplesmente puseram-se a trabalhar e ti­
do quando afirmou que Deus havia criado raram o carro da vala. Agradecemos pro­
toda a raça humana "de um só" (v. 26), uma fusamente, e eles seguiram seu caminho.
declaração que deve ter perturbado os or­ Aquilo que o poeta escocês Robert Burns
gulhosos gregos. Naquela época, considera­ chamou de "desumanidade do ser humano"
vam-se um povo superior e todos os outros sem dúvida não foi o que testemunhamos
eram "bárbaros". Mas Paulo sabia que to­ naquele dia!
dos os povos haviam surgido de Adão e que O estudioso judeu Abraham Joshua
todas as raças e nações eram uma só família Heschel chamou o preconceito racial de "o
diante do Criador. Em sua providência, Deus máximo de ódio com o mínimo de razão".
permite que nações se elevem, caiam e até No entanto, se somos criados "de um só ",
que ocupem novos territórios, mas todos como podemos nos desprezar e maltratar
são suas criaturas, feitos do pó e sustenta­ mutuamente? Com essa atitude, também
dos por seu poder. causamos mal a nós mesmos.
Na lei do Antigo Testamento, Deus orde­
nou que os israelitas demonstrassem bonda­ 7. L er em o s e est u d a rem o s a P alavra de

de para com os estrangeiros e forasteiros no D eus

meio deles (Êx 23:9; Lv 19:34; 23:22; Dt "As tuas mão me fizeram e me afeiçoaram;
10:1 7-19; 26:1-11). Jesus mostrou misericór­ ensina-me para que aprenda os teus man­
dia tanto para com os gentios quanto para damentos" (Sl 119:73). As mãos que nos
com os judeus e usou um samaritano como teceram no interior do ventre materno (Sl
exemplo de alguém que fez o bem ao ajudar 139:13-16) também escreveram a Palavra
o próximo (Lc 10:25-37). Alguns dos judeus para nos conduzir em nossa vida diária.1
da Igreja primitiva tinham dificuldade em Quando você compra um carro ou
aceitar os gentios, mas Deus deixou claro eletrodoméstico novo, lê o manual de ins­
que, no meio do povo dele, não havia lugar truções para ter certeza de que sabe como
para preconceito (At 10; 11:1-24; 15:1-29; funciona. A Bíblia é o "manual de instruções"
Cl 3:26-29). da vida. Ela nos diz de onde viemos, quem
Enquanto houver necessidades a suprir, somos e o que Deus espera que façamos. O
devemos ajudar uns aos outros. Não basta Deus que nos criou sabe melhor do que nós
ser fiéis cumprindo nossos deveres religio­ como devemos viver, e se ignorarmos seus
sos; devemos também ter compaixão dos conselhos e advertências, estaremos pro­
necessitados (Is 58:6-11; 1 Jo 3:16-24; Tg curando complicações. Levar nossa vida sem
2:14-17). Mesmo que as pessoas não pro­ obedecer à Palavra de Deus é como pilotar
fessem crer em Cristo, são seres humanos um avião sem antes ter lido o manual de vôo
feitos à imagem de Deus, e devemos fazer e sem freqüentar uma escola de aviação:
tudo o que pudermos por elas. estamos fadados a uma queda e tanto!
Certo dia, no mês de dezembro, quan­ O Senhor tem um propósito divino para
do minha esposa e eu estávamos viajando cada um de nós cumprir, e descobrimos esse
de carro para visitar a família dela no Esta­ propósito ao ler a sua Palavra e lhe obede­
do de Wisconsin, derrapamos na pista e fo­ cer. "O que a mim me concerne o S e n h o r
mos parar dentro de uma vala. Não ficamos levará a bom termo; a tua misericórdia, ó
feridos e o automóvel não sofreu qualquer S e n h o r , dura para sempre; não desampares
dano, mas não fazíamos a mínima idéia de as obras das tuas mãos" (S l 138:8). O Se­
como colocaríamos o carro de volta na es­ nhor quer guiar e permitir que cada um de
trada. Alguns minutos depois, três homens nós desfrute aquilo que ele planejou para
dentro de um automóvel passaram por nós, seus filhos, mas precisamos estar dispostos
viram nossa dificuldade e pararam a fim de a cooperar. Ignorar a Bíblia é o mesmo que
G Ê N E S IS 33

deixar de lado o maior "manual de vida" já algumas delas obedeceram ao Senhor e ou­
oferecido à humanidade. tras não; a partir das experiências dessas
"Confia no S e n h o r de todo o teu coração pessoas, podemos aprender muita coisa
e não te estribes no teu próprio entendimen­ sobre o que devemos evitar ao longo do
to. Reconhece-o em todos os teus caminhos, caminho da vida.
e ele endireitará as tuas veredas" (Pv 3:5, 6). Sem dúvida alguma devemos aprender
Sem dúvida, devemos usar nosso intelecto e tudo o que pudermos, mas tudo o que apren­
refletir sobre as coisas, mas não devemos dermos deve ser testado de acordo com a
nos apoiar em nosso próprio raciocínio sem Palavra de Deus. O físico norte-americano e
levar em consideração a Palavra de Deus. O vencedor do prêmio Nobel, Robert A.
bom-senso disse ao jovem Davi que o gi­ Millikan, disse: "Acredito que um conheci­
gante Golias era maior e mais forte do que mento íntimo da Bíblia é uma qualificação
ele, mas a fé disse que Deus iria derrotar o indispensável para um homem bem instruí­
gigante (1 Sm 17). O raciocínio humano dis­ do". O professor William Lyon Phelps, da Uni­
se a três homens hebreus que a fornalha de versidade Yale, concordou quando disse:
fogo iria cremá-los, mas a fé em Deus os "Todos os que têm um profundo conheci­
protegeu e preservou (Dn 3). "E, assim, a fé mento da Bíblia podem ser chamados, ver­
vem pela pregação, e a pregação, pela pala­ dadeiramente, de pessoas estudadas [...]
vra de Cristo" (Rm 10:17). creio que o conhecimento da Bíblia sem um
Deus é o Criador, e ele deu à sua cria­ curso universitário vale mais do que um cur­
ção um livro para ajudá-la a compreender so universitário sem a Bíblia".
quem ele é, como opera e o que deseja Se você crê que Deus é seu Criador e
que faça. Trata-se de um livro com precei­ que você está vivendo no Universo dele, en­
tos para obedecer, promessas para crer e tão ouça o que ele tem a dizer e obedeça,
princípios para entender. Também é um li­ pois esse é o segredo da verdadeira realiza­
vro que fala de pessoas reais, sendo que ção e sucesso (Js 1:7-9).

1. No Salmo 139, depois de refletir sobre o fato de Deus o haver entretecido no ventre de sua mae, Davi menciona, logo

em seguida, a Palavra de Deus (vv. 17, 18).


seria inconveniente, mas podemos, pelo me­
5 nos, respeitar seus talentos".3 Um famoso
comediante da TV norte-americana sempre
arrancava risadas do público quando dizia:
P e r ig o s no P a r a ís o "Foi o diabo que me obrigou a fazer isso!"
Apesar de não termos detalhes sobre suas
G ên esis 3 origens,4sabemos que Satanás é real, é nosso
inimigo e é perigoso. Em Gênesis 3, Satanás é
comparado a uma serpente, imagem esta que
se repete em 2 Coríntios 11:3. Em Apocalipse
12, ele é chamado de dragão, e os dois no­
mes são usados em conjunto em Apocalipse
e Gênesis 3 não estivesse na Bíblia, a Bí­
S
20:2. No entanto, Satanás não é apenas uma
blia como a conhecemos não existiria. serpente enganadora, mas também um leão
Isso porque o resto das Escrituras documen­ que ruge e devora (1 Pe 5:8). Dentre seus
ta as tristes conseqüências do pecado de nomes, encontramos "Abadom" e "Apoliom",
Adão e explica o que Deus, em sua graça, o mesmo que "destruidor" (Ap 9:11); "Sata­
fez para nos resgatar. Ao compreender as nás", que significa “adversário" e "diabo" que
verdades fundamentais desse importante ca­ quer dizer "caluniador".
pítulo, é possível entender melhor a argu­ Em João 8:44, Jesus chamou Satanás de
mentação de Paulo sobre a justificação em homicida e "pai da mentira". Chamou-o, ain­
Romanos 5, seus ensinamentos sobre homens da, de "maligno" (Mt 13:19) e de "príncipe
e mulheres na igreja em 1 Timóteo 2:8-1 5 e deste mundo" (Jo 12:31). Paulo e João tam­
sua explicação sobre a futura ressurreição bém chamaram o diabo de "maligno" (1 Ts
em 1 Coríntios 15. 3:3; 1 Jo 3:12), e Paulo disse que Satanás era
A desobediência de Adão trouxe o peca­ "o deus deste século" (2 Co 4:4), governante
do para dentro da raça humana. No entanto, do sistema mundial (Ef 2:2) e líder das forças
a Bíblia não nos oferece qualquer explica­ demoníacas do mal (Ef 6:10-12).
ção sobre a existência de Satanás e do mal Em resumo, Satanás não é um frouxo, e o
antes da queda do homem. O registro de povo de Deus deve cuidar-se, a fim de não
Gênesis 3 não é um mito. Se a queda do dar espaço para ele em sua vida (Ef 4:27).
homem, na verdade, não ocorreu, então a fé Por isso estamos estudando a Palavra de
cristã foi construída sobre fábulas, não fatos, Deus e procurando compreender a estraté­
e Jesus Cristo sofreu desnecessariamente na gia de Satanás (2 Co 2:11).
cruz. De Gênesis 3 até Apocalipse 21, a Bí­
blia registra o conflito entre Deus e Satanás, o 2. A e s t r a t é g ia de S a t a n á s (G n 3:1 b-5)
pecado e a justiça e insta os pecadores a se A tentação é a oportunidade de fazer uma
arrepender e confiar em Deus. coisa boa do jeito errado. É bom tirar nota
alta numa prova na escola, mas é errado con­
1. O in im ig o (G n 3 : 1 a ) 1 seguir isso colando. E bom pagar as contas,
Satanás já foi tão caricaturado por vários es­ mas é errado roubar para fazer esses paga­
critores, artistas, atores e comediantes que a mentos. Em última análise, o que Satanás
maioria das pessoas não acredita que ele disse a Eva foi: "Posso dar-lhe algo que você
existe de fato; ou, se acredita em sua exis­ precisa e deseja. Você pode tê-lo e desfrutá-
tência, não o leva a sério. O romancista in­ lo agora. E o melhor de tudo é que não have­
glês Samuel Butler, por exemplo, escreveu: rá qualquer conseqüência dolorosa. Que
"E preciso lembrar que só ouvimos um lado oportunidade!" Observe os estágios da ten­
da história, uma vez que Deus escreveu to­ tação de Eva.5
dos os livros".2 E Mark Twain comentou: Satanás usou um disfarce (v. 1a). Satanás
"Não podemos reverenciar Satanás, pois isso não dá origem a nada; é um astuto imitador,
G Ê N E S IS 3 35

que disfarça seu verdadeiro caráter. Se ne­ como Eva também imitou o diabo quando
cessário, pode até fazer se passar por um falou de "Deus" (Elohim) e não do "Senhor
anjo de luz (2 Co 11:14).6 Quando chegou [Jeová] Deus", o Deus da aliança. Por fim,
ao jardim, Satanás usou o corpo de uma ser­ ela disse "para que não morrais" - uma pos­
pente, uma das criaturas de Deus e que o sibilidade - em vez de "certamente morre-
Senhor havia declarado ser "boa" (Gn 1:31). rás" - um fato. Assim, ela subtraiu elementos
Eva não pareceu perturbar-se com a presen­ da Palavra de Deus, acrescentou coisas à Pa­
ça da serpente ou com o fato de ela falar, de lavra de Deus e mudou a Palavra de Deus,
modo que podemos supor que ela não viu todas ofensas graves (Dt 4:2; 12:32; Pv 30:6;
nada de ameaçador nesse encontro. Talvez Ap 22:19). Eva começava a duvidar da bon­
Eva não tivesse sido apresentada a essa es­ dade e da sinceridade de Deus.
pécie e concluiu que a serpente podia falar.7 Satanás negou a Palavra de Deus (v. 4).
Ainda hoje, Satanás trabalha como gran­ "E certo que não morrereis" é uma contra­
de imitador. Produz uma falsa justiça, dife­ dição direta do que Deus disse: "Certamente
rente daquela que procede somente da fé morrerás" (2:17). Mas Satanás é um men­
no Salvador (Rm 9:30 - 10:13). Satanás tem tiroso (Jo 8:44), e Deus é o Deus da verdade
falsos mestres (2 Co 11:13-16), que pre­ (Dt 32:4). Assim, nossa resposta ao que Deus
gam o evangelho (Gl 1:6-10), e falsos irmãos diz deve ser: "Por isso, tenho por, em tudo,
(e irmãs), que se opõem ao verdadeiro evan­ retos os teus preceitos todos" (Sl 119:128).
gelho (2 Co 11:26). O diabo reuniu seus A essa altura, Eva deveria ter se lembrado
cristãos falsos em igrejas falsas que Deus da Palavra de Deus, crido nela, deixado a
chama de "sinagogas de Satanás" (Ap 2:9), serpente e ido procurar o marido. É quando
e é nessas assembléias que são ensinadas nos demoramos no lugar da tentação que
"as coisas profundas de Satanás" (v. 24). nos metemos em dificuldades, especialmen­
Satanás questionou a Palavra de Deus te quando sabemos que nossos pensamen­
(v. 1b). 2 Coríntios 11:3 deixa claro que o tos são contrários à verdade de Deus. A
alvo de Satanás foi o intelecto de Eva, e sua verdade de Deus é nosso pavês e escudo
arma, a falsidade. Ao questionar o que Deus (Sl 91:4; Ef 6:16), mas ela só nos protege
havia dito, Satanás levantou dúvidas na men­ quando a tomamos pela fé e a colocamos
te de Eva sobre a verdade da Palavra de Deus em uso.
e a bondade do coração de Deus. No lugar da verdade de Deus, Satanás
— Está falando sério?! Não pode comer colocou sua própria mentira (Gn 3:5). "E,
de nenhuma árvore? —foi o conteúdo da per­ como Deus, sereis" é uma promessa que pode
gunta sutil. — Se Deus a amasse de verdade, chamar a atenção de qualquer um.8"Glórias
teria sido muito mais generoso... Ele está ao homem nas maiores alturas!" sempre foi
ridicando! o brado daqueles que rejeitam a revelação
Satanás queria que Eva se esquecesse de bíblica, quer favoreçam o humanismo sem
que Deus havia dito a Adão (que, por sua Deus, quer seja o materialismo ou a chama­
vez, havia falado a ela) que poderiam comer da religião da Nova Era. (Na verdade, a filo­
livremente das árvores do jardim. Para o pró­ sofia da Nova Era não tem nada de novo. É
prio bem deles, o Senhor fez uma restrição: tão antiga quanto Gênesis 3!)
que não comessem da árvore proibida no Romanos 1:18-32 descreve como a ci­
meio do jardim (Gn 2:15-1 7). vilização gentia, desde o tempo de Caim,
A resposta de Eva mostrou que ela esta­ rejeitou a verdade de Deus e escolheu a
va seguindo o exemplo de Satanás e alteran­ insensatez e as mentiras. "Pois eles mudaram
do a Palavra de Deus. Compare Gênesis 3:2, a verdade de Deus em mentira, adorando e
3 com 2:16, 17 e você verá que Eva deixou servindo a criatura em lugar do Criador"
de fora a palavra "livremente", acrescentou (Rm 1:25). Ao falar sobre Satanás, Jesus dis­
"nem tocareis nele" e não mencionou que se: "Porque é mentiroso e pai da mentira" (Jo
Deus "lhe deu essa ordem". Observe, ainda, 8:44). Em rebeldia a Deus, os seres humanos
36 G Ê N E S IS 3

trocaram a verdade dele pela "mentira" (ob­ (Rm 5:12-21). "Em Adão, todos morrem"
serve o singular) e seguiram a Satanás, o pai (1 Co 15:22).
"da mentira" (novamente no singular). Deus considera o primeiro Adão como o
Qual é "a mentira" que tem governado a cabeça da raça humana, a velha criação.
civilização desde a queda do homem? É a Quando Adão pecou, nós pecamos nele e
convicção de que todo homem e mulher através dele sofremos as conseqüências do
pode ser seu próprio deus e viver em função pecado e da morte. No entanto, Deus consi­
da criação e não do Criador sem sofrer qual­ dera Jesus Cristo o Cabeça da igreja, a nova
quer conseqüência. Ao crer nisso, os seres criação (2 Co 5:17), e, por intermédio de
humanos se recusam a submeter-se à verda­ seu ato justo de obediência ao morrer na
de de Deus, preferindo acreditar nas menti­ cruz, temos justiça e vida. Sem dúvida, a
ras de Satanás e seguir seu plano diabólico morte e o pecado reinam no mundo, mas a
para a destruição deles. Não se dão conta graça e a justiça também, por meio de Cristo
de que Satanás é seu mestre (Ef 2:1-3) e de (Rm 5:14, 17, 21). A fé em Jesus Cristo nos
que seu destino é o lago de fogo (Mt 7:13- tira de Adão e nos coloca em Cristo, e so­
23; Ap 20:10-15). mos aceitos na sua justiça.
Ao rever essa seqüência, é possível com­ Eva pecou, pois foi atraída pelo fruto da
preender melhor como Satanás conduz as árvore proibida. Ela não estava agindo de
pessoas a uma atitude de desobediência. acordo com a fé na Palavra de Deus, mas
Uma vez que começamos a questionar a pelo que era certo a seus próprios olhos.
Palavra de Deus, estamos abertos para negá- Gênesis 3:6 é um paralelo de 1 João 2:16:
la e para crer nas mentiras de Satanás. En­ "boa para se comer" - "concupiscência da
tão, só é preciso mais um pequeno passo carne"; "agradável aos olhos" - "concupis­
para acreditar nas promessas de Satanás e cência dos olhos"; "desejável para dar enten­
desobedecer aos mandamentos de Deus. dimento" - "soberba da vida". Essas são as
Quando nosso Senhor foi tentado (Mt 4:1- coisas que motivam as pessoas hoje em dia;
11), ele respondeu às mentiras de Satanás e, quando o povo de Deus começa a pen­
com a verdade de Deus e em três ocasiões sar como o mundo, começa a viver como o
declarou: "Está escrito"! Satanás deseja con­ mundo.
fundir nossa mente (2 Co 11:3), mas nós o Sabemos o motivo de Eva ter sucumbi­
derrotamos ao usar as armas espirituais que do à tentação, mas por que Adão pecou
Deus provê (Ef 6:10-18; 2 Co 10:4, 5). deliberadamente, quando sabia que o que
fazia era contrário à vontade de Deus? Viu a
3. A t r a g é d ia (Gn 3:6, 7) mudança em Eva e percebeu que a vida da
A necessidade de crer em algo faz parte dos mulher não era mais a mesma? Teve de es­
seres humanos; e, se não crêem na verdade, colher entre obedecer a Deus e ficar com a
então vão acabar acreditando em mentiras esposa que, sem dúvida, amava? Essas per­
(2 Ts 2:10). Mas se crêem em mentiras, terão guntas não são levantadas nem respondidas
de sofrer as conseqüências que sempre acom­ pela Bíblia e não é prudente especular so­
panham a decisão de rejeitar a verdade de bre elas. Adão fez uma escolha, a escolha
Deus. errada, e a humanidade tem sofrido desde
Desobediência (v. 6). Primeiro, Eva to­ então.
mou o fruto e comeu dele; depois, levou Conhecim ento (v. 7a). Satanás pro­
uma parte do fruto a seu marido e ele tam­ meteu que seriam "como Deus", tendo
bém comeu, de modo que ambos desobe­ conhecimento do bem e do mal, e sua pro­
deceram ao Senhor. Eva foi enganada, mas messa cumpriu-se tragicamente. Adão e Eva
Adão pecou intencional e conscientemente perderam a inocência e, pela primeira vez,
(1 Tm 2:14). E por isso que Paulo indica perceberam o que significava pecar. Esse
Adão - e não Eva - como aquele que trou­ conhecimento não era necessário para a fe­
xe o pecado e a morte sobre a raça humana licidade deles e teria sido muito melhor que
G Ê N E S IS 3 37

tivessem obedecido e crescido no conheci­ A culpa e o medo normalmente andam jun­


mento de Deus (Jo 7:17). tos, o que explica por que o primeiro casal
Nas Escrituras, a exposição desavergo­ não quis desfrutar a comunhão com o Se­
nhada do corpo nu é associada à idolatria nhor no jardim no final do dia. Adão admitiu:
(Êx 32:25), à embriaguez (Gn 9:20-23; Hc "Tive medo" (v. 10). Certamente, é inútil ten­
2:15) e à possessão demoníaca (Lc 8:26-39; tar esconder-se do Senhor (Sl 139:1-12), e,
At 19:16). A marca de uma sociedade deca­ no entanto, em sua culpa os pecadores sem­
dente, ã beira da destruição, é o hábito de pre tentam fazer o impossível.
expor o corpo nu do ser humano a fim de A vergonha, o medo e a culpa transfor­
transformá-lo em objeto de prazer, quer em maram o ser interior de Adão e Eva a ponto
pessoas, quer em figuras, quer em filmes. A de não poderem mais se deleitar com o ma­
pornografia é um grande negócio na socie­ ravilhoso jardim onde viviam. As árvores
dade de hoje. que haviam admirado, das quais haviam cui­
Vergonha (v. 7b). Ao perceber sua nudez dado e se alimentado, transformaram-se em
pela primeira vez (Gn 2:25), apressaram-se a "coisas" a ser usadas para que os dois pe­
providenciar algo para cobrir o corpo. O pe­ cadores assustados se escondessem de
cado faz com que nos envergonhemos de Deus. Não era o que as árvores desejavam
nós mesmos. Deus nos deu um juiz interior fazer, mas não tinham outra escolha. A na­
chamado "consciência", que nos acusa quan­ tureza é uma janela através da qual vemos
do fazemos algo de errado e aprova quando Deus, mas Adão e Eva transformaram-na
fazemos algo correto (Rm 2:12-16). Um ín­ numa porta trancada para manter Deus do
dio norte-americano comparou a consciência lado de fora! Um dia, o Salvador iria morrer
à ponta de uma flecha dentro de seu cora­ sobre um madeiro para que os pecadores
ção. "Se faço o que é errado, ela vira e me assustados pudessem ir até o Senhor e en­
machuca até que eu faça o que é certo. Po­ contrar o perdão.
rém, se persisto em fazer o que é errado, ela
continua virando, e suas pontas se desgas­ 4. A d esc o berta (Gn 3:9-13)
tam, de modo que ela deixa de machucar." Não recebemos nenhuma explicação sobre
A Bíblia chama isso de "má consciência" a forma como Deus se manifestava aos nos­
(Hb 10:22) ou uma "consciência cauteriza- sos primeiros antepassados de modo a ter
da" (1 Tm 4:2), que não funciona mais como comunhão com eles. É provável que assu­
deveria. misse, temporariamente, um corpo que co­
Quando as pessoas não se envergonham bria sua glória, como fez quando visitou
mais de seus pecados, seu caráter está prati­ Abraão muitos anos depois (Gn 18:1 ss).
camente extinto. "Serão envergonhados, por­ Buscando (v. 8). Adão e Eva deveriam ter
que cometem abominação sem sentir por corrido ao encontro do Senhor, confessando
isso vergonha; nem sabem que coisa é enver­ seu pecado e pedindo o perdão dele. Em
gonhar-se" (Jr 6:15; 8:12). "Tu tens a fronte vez disso, porém, esconderam-se de Deus, e
de prostituta e não queres ter vergonha" (Jr ele precisou encontrá-los. "Não há quem
3:3). Os pecados que costumavam ser co­ entenda, não há quem busque a Deus" (Rm
metidos ocultos pela escuridão, agora são 3:11). De acordo com o evangelista Billy
exibidos abertamente em filmes e na televi­ Sunday, os pecadores não são capazes de
são e, quando as pessoas protestam, são encontrar a Deus pelo mesmo motivo que
chamadas de "pudicas" ou de "puritanas". os criminosos não são capazes de encontrar
Medo (v. 8). O pecado produz tanto ver­ um policial: não o estão procurando! O Pai
gonha quanto culpa, e essas duas coisas interrompeu seu descanso sabático para pro­
criam no pecador o desejo de se esconder. curar o homem e a mulher que havia criado
Adão e Eva se envergonharam por causa de à sua própria imagem.9 Quando Jesus mi­
sua condição (nudez) e sentiram culpa por nistrou aqui na Terra, disse: "Porque o Filho
causa de sua ação (desobediência a Deus). do Homem veio buscar e salvar o perdido"
38 G Ê N E S IS 3

(Lc 19:10). Ele também interrompeu o sába­ pensado nisso). Houve justificativas, mas
do para curar um enfermo (Jo 5:1-16) e um nenhuma confissão.
cego (Jo 9), e sua defesa diante dos líderes Mais uma vez, nas palavras de Billy
religiosos intolerantes foi: "Meu Pai trabalha Sunday: "Uma desculpa é um invólucro de
até agora, e eu trabalho também [...] o Filho razão preenchido com uma mentira". Sem
nada pode fazer de si mesmo, senão somen­ dúvida, Eva deu do fruto a Adão porque a
te aquilo que vir fazer o Pai; porque tudo o serpente a enganou, mas Adão não tinha ne­
que este fizer, o Filho também semelhante­ nhum motivo para desobedecer a Deus.
mente o faz" (Jo 5:17, 19). Nos dias de hoje, Quando as pessoas começam a inventar des­
por meio do testemunho da igreja, o Espírito culpas, isso mostra que não têm idéia da
Santo está buscando os perdidos e condu­ enormidade de seus pecados ou que não
zindo-os ao Salvador (Jo 16:7-11; At 1:8). desejam confessá-los e arrepender-se. Se os
Falando (w. 9-13). Deus não faz pergun­ pecadores conseguem achar uma brecha,
tas porque precisa de informações. Sendo usam-na, mais que depressa, para fugir!
Deus, sabe de todas as coisas. Antes, per­
gunta para nosso próprio bem, para nos dar 5. O c a s t ig o (G n 3:14-19)
a oportunidade de encarar os fatos, de ser O amor de Deus pelo pecador de maneira
honestos e de confessar nossos pecados. No alguma elimina sua abominação santa pelo
entanto, não devemos pensar em Deus falan­ pecado, pois, ainda que seja verdade que
do a Adão e Eva como um senhor cruel se "Deus é amor" (1 Jo 4:8, 16), também é ver­
dirige a um escravo desobediente ou um juiz dade que "Deus é luz" (1 Jo 1:5). Um Deus
irado a um criminoso condenado. O diálogo santo deve tratar do pecado, para o bem do
foi mais parecido com aquele de um pai en­ pecador e para a glória de seu nome.
tristecido conversando amorosamente com A serpente (w. 14, 15). Deus proferiu a
os filhos que perderam o rumo. sentença primeiro para a serpente e depois
Em primeiro lugar, Deus chamou Adão para o diabo, que havia usado a serpente.
para dar-lhe a oportunidade de responder e Ao que parece, a criatura que Satanás usou
de sair de seu esconderijo.10 O simples fato não costumava rastejar pela terra, pois essa
de Deus o chamar foi um ato de bondade, foi a condenação de Deus para humilhá-la
pois ele poderia, justificadamente, ter pro­ (Sl 72:9; Is 49:23; Mq 7:17). Deus amaldi­
nunciado o julgamento e destruído Adão e çoou a serpente e o solo (Gn 3:1 7), mas em
Eva. Outro aspecto surpreendente dessa momento algum amaldiçoou Adão e Eva.
bondade foi o fato de Adão ser capaz de As palavras de Deus a Satanás (v. 15) são
ouvir a voz de Deus e de responder, uma chamadas de protoevangelium, "o primeiro
vez que sua natureza interior encontrava-se evangelho", pois trata-se da primeira ocasião
tão poluída pelo pecado que ele nem dese­ na Bíblia em que é anunciada a vinda do Re­
java encarar a Deus. dentor. Para o povo de Deus na antiga alian­
Uma vez que Adão e Eva saíram de seu ça, esse versículo era um raio de esperança
esconderijo, Adão confessou que estavam (Gl 4:1-4); para Satanás, era a declaração de
envergonhados (por causa de sua nudez) e guerra da parte de Deus, atingindo seu ápice
que sentiam medo (por causa de sua culpa). na condenação do inimigo (Rm 16:20); para
Sem dizê-lo abertamente, Adão admitia que Eva, era a certeza de que havia sido perdoa­
haviam comido da árvore proibida. No en­ da e de que Deus usaria a mulher para trazer
tanto, quando Deus lhe perguntou direta­ ao mundo o Redentor (1 Tm 2:1 3-1 5).
mente se havia comido da árvore, em mo­ A descendência da serpente e a da mu­
mento algum Adão disse: "Sim, eu comi!" lher representam a família de Satanás e a
Em vez disso, culpou tanto Deus quan­ família de Deus. Na parábola do joio (Mt
to sua esposa! Quando Deus interrogou 13:24-30, 36-43), Jesus afirma claramente
Eva, ela culpou a serpente (Eva não disse: que Satanás tem "filhos", pessoas que
"A serpente que tu criaste", mas talvez tenha professam ser cristãs sinceras, mas que, na
G Ê N E S IS 3 39

realidade, não passam de dissimuladas. A submissão não é identificada como parte de


parábola revela que em todo lugar onde uma maldição nem como uma ordem para
Deus "planta" um verdadeiro filho do reino, que os maridos exerçam poder soberano
Satanás vem e planta um falso cristão. Os sobre a esposa. O Novo Testamento deixa
dois crescem juntos e só serão separados na claro que maridos e esposas que se amam e
colheita, no final dos tempos. que são cheios do Espírito Santo são mutua­
Essas são as pessoas que rejeitam a Jesus mente submissos (Ef 5:18ss; 1 Co 7:1-6).
Cristo e que dependem confiantemente de O homem (w . 17-19). Eva teria dores de
sua própria hipocrisia religiosa para chegar parto, mas Adão sofreria diariamente ao tra­
ao céu. De acordo com João Batista, os balhar no campo. Ao esforçar-se para obter
fariseus eram "raça de víboras" (Mt 3:7-10), seu alimento, Adão se depararia com obstá­
e Jesus usou a mesma expressão para defi- culos e teria de labutar e de suar para conse­
ni-los, dando a entender que eram filhos do guir a colheita; isso serviria para lembrá-lo
diabo (Mt 12:34; 23:15, 28, 33; Jo 8:44). de que sua desobediência havia afetado a
Não há qualquer registro de que, em algum criação (Rm 8:18-23). Além disso, enquanto
momento, Jesus tenha chamado os lavrasse o solo, se lembraria de que um dia
publicanos e pecadores de "raça de víbo­ morreria e voltaria para o solo de onde havia
ras"; ele reservou esse título para os fariseus vindo. Adão, o jardineiro, tornou-se Adão, o
hipócritas que o crucificaram. labutador.
Portanto, ao longo da história, Satanás e
Deus, os filhos de Satanás e os filhos de Deus 6. A rec u pera ç ã o (Gn 3:20-24)
encontram-se em conflito. Como veremos em Por amor a seu próprio caráter e a sua lei,
nosso próximo estudo, a bataiha teve conti­ Deus deve julgar o pecado; mas por amor a
nuidade quando Caim matou Abel, pois seu Filho querido, Deus está disposto a per­
Caim "era do Maligno" (1 Jo 3:12), ou seja, doar o pecado. Lembre-se de que Jesus é o
um filho do diabo. Na história de Israel, os Cordeiro, "morto desde a fundação do mun­
inimigos dos profetas eram falsos profetas do" (Ap 13:8; ver At 2:23; 4:27, 28), de
que falavam em nome de Jeová. modo que Deus já havia provido o perdão
Tanto Jesus quanto Paulo retrataram os e a salvação.
falsos mestres como dissimulados, "lobos Um novo nome (v. 20). Adão creu nas
disfarçados em pele de ovelhas" (Mt 7:13- promessas de Deus (vv. 15, 16) e chamou
15; At 20:28-31). Satanás, o grande engana­ sua esposa de "Eva", que significa "viva". A
dor, sempre teve filhos dispostos a opor-se fé simplesmente aceita o que Deus diz e age
ao povo de Deus. No fim dos tempos, esse de acordo com isso.
conflito culminará no confronto de Cristo Roupas novas (v. 21). A resposta de Deus
com o Anticristo, a obra-prima da falsifica­ à fé de Adão e de Eva foi remover os trajes
ção de Satanás. (2 Ts 2; Ap 13).11 Na cruz, frágeis confeccionados por mãos humanas e
Satanás "feriu" o calcanhar de Cristo, mas, vesti-los com roupas aceitáveis, providas
por causa de sua morte e ressurreição, Cris­ pelas próprias mãos divinas (Is 61:10). Foi
to pisou a cabeça de Satanás e alcançou a preciso que animais inocentes morressem
vitória absoluta sobre ele (Ef 1:17-23; Cl para que o homem e a mulher recomeças­
2:14, 15). sem e voltassem a ter comunhão com o Se­
A mulher (v. 16). Deus reforçou sua pala­ nhor. Esse é um retrato daquilo que Cristo
vra de esperança para Eva ao garantir-lhe que fez pelos pecadores na cruz quando morreu
ela teria filhos e, portanto, que não morreria por um mundo pecaminoso (2 Co 5:21).
imediatamente.12 No entanto, o privilégio es­ Um novo lar (w . 22-24). Se Adão e Eva
pecial da mulher como aquela que dá à luz comessem da árvore da vida, viveriam para
(e, em última análise, aquela que traz ao sempre na Terra como pecadores, e seu fu­
mundo o Redentor) incluiria dores multipli­ turo seria sombrio. Era preciso que morres­
cadas no parto e submissão ao marido. Essa sem, pois "o salário do pecado é a morte"
40 G Ê N E S IS 3

(Rm 6:23). Assim, Deus removeu o casal do labutar pelo pão e criar sua família. Ainda
jardim, ou melhor, de acordo com Gênesis poderiam ter comunhão com Deus, mas so-
3:24, ele os "expulsou" (ver Gn 4:14 e freriam diariamente as conseqüências de
21:10.) Deus colocou anjos para guardar a seu pecado, e o mesmo aconteceria com
entrada do jardim e garantir que Adão e Eva seus descendentes. A lei do pecado e da
não tentariam entrar lá outra vez. Um dia, morte passaria a vigorar na família até o fim
Jesus Cristo reabriria o caminho para a "Árvo­ dos tempos, mas a morte e a ressurreição
re da Vida" mediante sua morte na cruz (Jo do Salvador introduziriam uma nova lei:
14:6; Hb 10:1-25; Ap 2:7; 22:1, 2, 14, 19).13 "Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo
Para o homem e a mulher, a vida diária Jesus, te livrou da lei do pecado e da mor­
passaria a ser uma luta fora do jardim ao te" (Rm 8:2).

1. Apesar de Satanás certamente atuar ao iongo de toda a história bíbiica no Antigo Testamento, ele realiza quatro
"aparições pessoais": para tentar Eva (Gn 3); para pedir permissão de atacar jó (Jó 1 e 2); para tentar Davi (2 Sm 24:1;

1 Cr 21) e para acusar Josué, o sumo sacerdote (Zc 3). A fim de fazer um estudo dessas passagens e de seu significado
para a igreja nos dias de hoje, ver minha obra The Strategy of Satan (Tyndale House). Outros Üvros que podem ser de

ajuda para entender melhor Satanás e seus ardis são: The Voice of the Devil, de G. Campbell Morgan (reimpressão,

Baker); ! Believe in Satan's Downfall, de Michaeí Green (Eerdmans); Satan: His Motives and Methods, de Lewis Sperry

Chafer (Zondervan); Your Adversary the Devii, de Dwight Pentecost (Zondervan) e O Adversário, de Mark Bubeck (São

Paulo: Vida Nova).

2. B utler , Samuei. The Note Books of Samuel Butler. Editado por Henry F. jones. Nova York: E. P. Dutton, 1921, p. 217.

3. NfiiDER, Charles. The Complete Essays of Mark Twain. Garden City, Nova York: Doubieday, 1963, p. 237. Assim como Butler,

Twain diz: "Não temos outras provas senão aquelas apresentadas pela procuradoria e, ainda assim, já demos o veredicto".

4. Muitos estudiosos acreditam que a queda de Satanás (Lúcifer) está por trás da descrição do “ hino de escárnio" da

derrota do rei da Babilônia, que se encontra em Isaías 14:12-17. john Milton assimilou essa idéia (e desenvolveu-a)

quando escreveu Paraíso Perdido (São Paulo: Martin Claret).

5. Em Gênesis 3:1-5, tanto Satanás quanto Eva usam pronomes no piural, sugerindo que talvez Adão estivesse presente,

mas não houvesse dito nada. No entanto, é provável que esses pronomes na forma plural simplesmente indiquem que

Satanás e Eva incluíram Adão, pois era a ele que Deus havia dado a proibição sobre as árvores primeiro (Gn 2:15-17).

Deus usa o pronome singular quando fala com Adão, de modo que Eva ouviu a ordem divina de seu marido.

6. Muitas pessoas que afirmam ter passado por experiências "fora do corpo" relatam que sentiram medo, pois "viram uma

luz brilhante no fim de um túnel escuro". Pensando que essa luz fosse a presença de Deus no céu, tiveram a certeza
de que estavam prontas para encontrar-se com ele. No entanto, Satanás, o imitador, sabe produzir luz e imitar até os
anjos de Deus.

7. A reação inocente de Eva diante de um animal que falava é outro argumento em favor da ausência de Adão; do contrário,

é preciso crer que no Éden os seres humanos podiam se comunicar com os animais. Uma vez que Adão havia dado

nomes a todos os animais, conhecia a natureza da serpente e que ela não podia falar. Adão já foi culpado de não estar
com a esposa, mas precisava trabalhar, e é provável que o jardim fosse grande. Quanto a Gênesis 2:15 - "Colocou [o

homem] no jardim do Éden para o cultivar e o guardar" a palavra hebraica traduzida por "guardar" pode significar,

também, "cuidar" e foi assim traduzida em Gênesis 3:24. Tendo em vista que Deus havia declarado que a serpente era

"boa", que motivo Adão teria para considerá-la parte de um plano perverso e achar que sua esposa estava em perigo?
Sem saber de antemão o que viria a acontecer, o que nós teríamos feito no lugar de Adão?

8. Se Isaías 14:12-15 é uma descrição da queda de Satanás, então a declaração "serei semelhante ao Altíssimo" (v. 14)

revela a motivação oculta por trás da rebelião de Satanás: desejava ser semelhante a Deus. Ele não conseguiu atingir
esse objetivo, de modo que passou o desejo adiante para Eva na forma de uma promessa. Satanás quer receber a

adoração e o serviço que pertencem somente ao Senhor (M t 4:8-10).

9. É curioso fazer um contraste entre Gênesis 3:8 ("Pela viração [vento brando] do dia") e 18:1 ("no maior calor do dia").
A visita de Deus ao jardim visava chamar o homem ao arrependimento, mas sua visita a Abraão era para anunciar, dentre

outras coisas, a destruição das cidades perversas da planície.


G Ê N E S IS 3 41

10. Observe três perguntas interessantes que Deus faz em Gn: “ Onde estás?" (3:9); ;,O nde está o teu irmao?" (4:9); e

"Tua mulher, onde está?" (18:9).


11. O prefixo grego anti significa tanto "em vez de" (isto é, um faiso Cristo) quanto "contrário a Cristo". Havia "anticristos"
(falsos mestres) opondo-se à igreja do primeiro século (1 Jo 2:18-29) e eles ainda estão presentes em nosso meio nos

dias de hoje. O teste para detectar falsos mestres é aquilo que ensinam sobre a Pessoa e a obra de Jesus Cristo.

12. A frase hebraica em Gênesis 2:17 é "morrendo, morrerás", que significa "certamente morrerás". No entanto, ela sugere
tanto uma crise quanto um processo. Morrer significa estar separado de Deus, que foi o que aconteceu com nossos
primeiros antepassados no momento em que pecaram. Mas a morte também pode significar a separação entre o corpo

e o espírito (Tg 1:26), e o processo de morrer começou com sua desobediência e terminou anos depois,quando

faleceram. Em função da lei do pecado e da morte, a vidaé uma batalha constante para conquistar a morte.

13. O primeiro Adão era ladrão e foi expulso do paraíso.O Último Adão, quando estava pendurado na cruz, disse a um

ladrão: "H oje estarás comigo no paraíso" (Lc 23:43).


da igreja primitiva ficariam estarrecidos com
6 as estatísticas de abortos nos dias de hoje e
com as filosofias das pessoas associadas a
essa prática.
C a im no C en t r o do O nome "Caim" tem um som parecido
com a palavra hebraica para "adquirido". Eva
P alco louvou a Deus por ajudá-la durante sua ges­
tação. Afinal, era uma experiência nova, e ela
G ênesis 4:1-24
não contava com um médico ou parteira para
ajudá-la. Depois de sua segunda gestação, ela
deu à luz Abel. Seu nome significa "fôlego", e
é a palavra traduzida por "vaidade" pelo me­
// mundo todo é um palco, e homens nos trinta e três vezes no Livro de Eclesiastes.
e mulheres, não mais que meros O nome de Caim nos lembra que a vida vem
atores. Entram e saem de cena e, ao longo de de Deus, enquanto o de Abel nos diz que a
sua existência, podem desempenhar vários vida é breve.
papéis", escreveu Shakespeare.1 Gênesis é a história de uma família e fala
Shakespeare estava certo: temos muitos um bocado sobre irmãos. Pelo fato de ser o
papéis a interpretar ao longo da vida e, de filho primogênito, Caim era especial. No en­
tempos em tempos, nos relacionamos com tanto, por causa de seu pecado, perdeu tudo,
pessoas diferentes e enfrentamos situações e Sete tomou seu lugar (Gn 4:25). Ismael era
diversas. O importante é que deixemos Deus o primogênito de Abraão, mas Deus esco­
escrever o texto da peça, escolher o elenco e lheu Isaque. Esaú era o primogênito de
dirigir a apresentação. Se não o levarmos em Isaque, mas foi preterido e seu lugar foi to­
consideração e tentarmos fazer nossa pró­ mado por Jacó; por fim, Rúben, o primogênito
pria produção, a história terá um fim trágico. de Jacó, foi substituído pelos dois filhos de
Foi isso o que arruinou Caim, o primeiro José (Gn 49:3, 4; 1 Cr 5:1, 2). De fato, Deus
bebê humano a nascer no palco do planeta chegou a reorganizar a ordem de nascimen­
Terra: ele ignorou o texto de Deus, resolveu to dos filhos de José (Gn 48:8-22). Ao longo
fazer uma "produção independente" e foi um da história do Antigo Testamento, a sobera­
fiasco total. Gênesis 4 volta a atenção para nia de Deus é demonstrada nas escolhas dele
Caim; seu nome é citado dezesseis vezes, e com referência a quem receberá sua bênção,
em sete ocasiões Abel é identificado como uma vez que tudo o que recebemos é pela
"seu irmão". Ao refletir sobre a vida de Caim graça de Deus.
e alguns papéis que desempenhou, você po­ A rivalidade entre irmãos é outro tema
derá entender melhor como é importante co­ de Gênesis. Ismael perseguiu Isaque; Jacó
nhecer a Deus e fazer sua vontade. fugiu de casa para não ser morto por Esaú;
os irmãos de José tinham a intenção de matá-
1. O ir m ã o (G n 4 :1 , 2 a ) lo, mas resolveram vendê-lo como escravo.
Deus ordenou a nossos primeiros ancestrais: Quando o pecado entrou na raça humana,
"sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a ter­ deu-nos um legado de lares com problemas
ra" (Gn 1:28), e eles obedeceram a essa or­ e desfeitos, e somente o Senhor pode restau­
dem (Gn 5:4). Apesar de ser verdade que a rar as famílias.
constituição de uma família não é o único
propósito do casamento e que nem todo 2 . O TRABALHADOR ( G n 4 :2 b )
casamento é abençoado com filhos, tam­ À medida que seus filhos foram crescendo,
bém é fato que os filhos são uma dádiva Adão colocou-os para trabalhar nos campos.
preciosa de Deus (Gn 33:5; 48:9; Sl 127:3) Com o passar dos anos, tornou-se evidente
e devem ser recebidos com alegria. O povo que cada menino tinha seus próprios interes­
judeu do Antigo Testamento e os cristãos ses e aptidões. Caim tornou-se lavrador, e
G Ê N E S I S 4:1-24 43

Abel, pastor, o primeiro de muitos pastores sentença de Deus - "No suor do teu rosto
que encontramos na Bíblia, como Abraão, comerás o teu pão" (Gn 3:17-19) - era ines-
Isaque, Jacó e seus filhos, Moisés e Davi. capável. No entanto, essa pergunta deu a
Sem dúvida, Adão ensinou a seus filhos o Adão a oportunidade de lembrar aos filhos a
motivo de precisarem trabalhar: era parte do promessa de Deus sobre um Redentor e um
mandamento de Deus na criação, e eles eram dia em que a criação seria libertada da es­
colaboradores de Deus (Gn 1:26-31). O tra­ cravidão do pecado (Gn 3:15).
balho não é um castigo de Deus por causa
do pecado, pois Adão já trabalhava no jar­ 3. O adorador (Gn 4:3-7)
dim antes de sua esposa cair na tentação de Adão e Eva haviam aprendido a adorar a
Satanás. A abordagem bíblica do trabalho é Deus durante seus dias maravilhosos no jar­
que somos privilegiados em cooperar com dim, antes que o pecado trouxesse maldição
Deus ao usar as dádivas de sua criação para para a vida deles e para a terra. Certamente,
o bem das pessoas e a glória de Deus (ver Cl haviam ensinado aos filhos sobre o Senhor e
3:22, 23; 1 Ts 4:11, 12; Ec 9:10). sobre a importância de adorá-lo. Os tra­
O trabalho é a vontade de Deus e não balhadores precisam ser adoradores, do
uma maldição; é uma bênção. O manda­ contrário, podem tornar-se idólatras, con­
mento "seis dias trabalharás e farás toda a centrando-se nos dons e não naquele que
tua obra" (Êx 20:9) fazia parte da lei de Deus os concedeu, esquecendo-se de que é Deus
tanto quanto sua ordem para que se guar­ quem dá a capacidade de trabalhar e de
dasse o sábado. A Bíblia não tem nada de adquirir riquezas (Dt 8:10-20).
bom a dizer sobre o ócio ou sobre pessoas Quando Deus vestiu Adão e Eva com
ociosas que esperam que outros provejam peles de animais (Gn 3:21), talvez tenha lhes
para elas (2 Ts 3:6-15). Antes de começar ensinado sobre os sacrifícios e o derrama­
seu ministério público, Jesus trabalhou mento de sangue. E possível que eles, por
como carpinteiro (Mc 6:3). Quando não sua vez, tenham passado essa verdade para
estava viajando ou pregando, o apóstolo seus filhos. A verdadeira adoração é algo que
Paulo trabalhava confeccionando tendas (At devemos aprender com o próprio Deus, pois
18:1-3). somente ele tem o direito de determinar as
Como cristãos, não devemos trabalhar regras para nos aproximarmos dele e para
simplesmente para pagar as contas e suprir lhe agradar em adoração.
nossas necessidades. Devemos trabalhar Deus aceitou Abel e suas ofertas e talvez
porque esse foi o meio ordenado por Deus tenha indicado esse fato ao enviar fogo do
para que sirvamos ao Senhor e aos outros céu para consumir os animais sacrificados
e, assim, glorifiquemos a Deus em nossa (Lv 9:24; 1 Rs 18:38; 1 Cr 28:26). No entan­
vida (1 Co 10:31). Não trabalhamos só para to, rejeitou Caim e suas ofertas. Caim não foi
ganhar a vida; trabalhamos para ter uma rejeitado por causa da oferta que escolheu,
vida, desenvolver as aptidões que recebe­ mas sua oferta foi rejeitada por causa de
mos de Deus e aumentar a qualidade e a Caim: seu coração não estava em ordem com
quantidade de nosso trabalho. Martinho Deus. Foi "pela fé" que Abel ofereceu um
Lutero disse às moças ordenhadeiras que sacrifício mais aceitável a Deus do que Caim
poderiam ordenhar vacas para a glória de (Hb 11:4), o que significa que ele cria em
Deus, e, de acordo com Theodore Roose- Deus e sua vida estava em ordem com o
velt, "o melhor prêmio que a vida oferece é Senhor.
a oportunidade de realizar com afinco o tra­ Muitos anos depois, a lei de Moisés pres­
balho que é digno de ser realizado". Talvez creveu a oferta de grãos e de frutas (Lv 2; Dt
os meninos tenham perguntado ao pai por 26:1-11), de modo que não temos motivos
que o trabalho deles era tão difícil, e Adão para acreditar que tais ofertas não eram
teve de explicar que Deus amaldiçoou a aceitáveis desde o princípio. Contudo, mes­
terra por causa da desobediência dele. A mo que Caim tivesse sacrificado animais e
44 G Ê N E S I S 4:1-24

derramado o sangue deles, não teriam sido tanto nossos irmãos e irmãs naturais como
aceitáveis para Deus por causa da condição aqueles em Cristo.) Um espírito rancoroso
do coração de Caim. Abel trouxe o que ti­ como o que possuiu Caim impede a adora­
nha de melhor e procurou verdadeiramente ção e destrói nossa comunhão com Deus e
agradar a Deus; Caim, porém, não teve essa com o povo de Deus (Mt 5:21-26; 6:14-16).
atitude de fé. "Eis que o obedecer é melhor É melhor interromper nossa adoração e acer­
do que o sacrificar, e o atender, melhor do tar o que é preciso com um irmão do que
que a gordura de carneiros" (1 Sm 15:22; corromper nosso sacrifício com nossa atitu­
ver também Is 1:11-13; Os 6:6; Mq 6:6-8; de incorreta.
Mc 12:28-34). Homicídio (v. 8). A ira é uma emoção
O fato de muitas pessoas freqüentarem poderosa que pode levar à violência e, até
cultos religiosos e participarem de ativida­ mesmo, ao homicídio. Jesus ensinou que a
des da igreja não é prova de que são cristãs ira no coração eqüivale moralmente ao ho­
autênticas. E possível ter uma "forma de pie­ micídio executado com as próprias mãos (Mt
dade" (2 Tm 3:5) e, ainda assim, jamais ex­ 5:21-26). A cada ano, nas rodovias norte-
perimentar seu poder salvador. "Este povo americanas, motoristas enfurecidos causam
se aproxima de mim e com a sua boca e com acidentes que matam vinte e oito mil pes­
os seus lábios me honra, mas o seu coração soas, e funcionários irados, depois de ser
está longe de mim" (ls 29:1 3; Mt 15:8). Sem despedidos de seus empregos, já mataram
um coração submisso, nem mesmo as mais centenas de pessoas inocentes. Se Caim tives­
preciosas ofertas podem tornar o adorador se dado ouvidos ao aviso de Deus e aceitado
aceitável diante de Deus (Sl 51:16, 17). "O o convite gracioso do Senhor (Gn 4:7), ja­
caminho de Caim" (Jd 11) é o caminho da mais teria se transformado num homicida.
vontade própria e da incredulidade. Quanto tempo se passou entre a rejei­
Quando Deus rejeitou sua oferta, Caim ção das ofertas de Caim e o momento em
ficou muito irado. (A palavra hebraica deixa que ele atraiu seu irmão para longe de casa e
implícito que ele estava "consumindo-se de o matou? Foi no mesmo dia, ou Caim re-
cólera".) Deus falou com ele pessoalmente e moeu a questão durante algum tempo? E
tentou conduzi-lo de volta ao caminho certo provável que, em seu coração, tenha assas­
da fé, mas Caim resistiu. É típico do Senhor sinado o irmão várias vezes antes de come­
nos dar mais uma oportunidade de lhe obe­ ter o ato em si. Invejava o irmão por causa
decer, e é típico dos pecadores obstinados do relacionamento que Abel tinha com Deus
recusar sua ajuda graciosa. (1 Jo 3:12) e, ainda assim, não se dispôs a
O Senhor advertiu Caim de que a tenta­ acertar sua situação com o Senhor. Quando
ção é como uma besta feroz que jazia à odiamos outras pessoas, é sinal de que não
porta de sua vida e que era melhor não abrir estamos andando na luz (1 Jo 2:9-11) e de
essa porta. E perigoso carregar rancores e que não temos o amor de Deus em nosso
nutrir sentimentos de amargura em nosso coração (1 Jo 3:10-16).
coração, pois podem ser usados por Sata­ Mentira (w. 9, 10). Caim era um filho do
nás para nos levar à tentação e ao pecado. diabo (1 Jo 3:12),2 o que significa que ele
Era a isso que Paulo se referia quando es­ era homicida e mentiroso (Jo 8:44). Mentiu
creveu: "nem deis lugar ao diabo" (Ef 4:27). para o irmão quando o atraiu para o lugar
Se não tomarmos cuidado, poderemos ser­ onde o matou. Mentiu para si mesmo ao
vir de tentação para nós mesmos e causar pensar que poderia cometer um crime tão
nossa própria destruição. hediondo e escapar impune. Caim chegou
a tentar mentir para Deus e encobrir seus
4. O h o m ic id a (Gn 4:8-10) atos perversos!3
Não podemos separar nosso relacionamen­ Sem dúvida, existe um paralelo entre a
to com Deus dos relacionamentos que te­ forma como Deus tratou com Caim em
mos com nossos irmãos e irmãs. (Isso inclui Gênesis 4 e a forma como tratou com Adão
G Ê N E S I S 4:1-24 45

e Eva no capítulo 3. Em ambos os casos, o para Caim, jamais haveria qualquer fruto de
Senhor fez perguntas, não para obter infor­ seu trabalho. Assim, ele não poderia conti­
mações (ele sabe de todas as coisas), mas nuar sendo lavrador. Tudo o que lhe restava
para dar aos culpados a oportunidade de era vagar de um lugar para outro e procurar
dizer a verdade e de confessar os pecados. sobreviver.
Em ambos os casos, os pecadores foram O remorso de Caim (w . 13, 14). Caim
evasivos e tentaram encobrir o que haviam jamais se arrependeu de seus pecados. Suas
feito, mas nas duas vezes Deus trouxe os palavras revelam apenas remorso e pesar.
pecados à luz e eles admitiram sua culpa. Ele não disse: "Minha culpa é maior do que
Adão e Eva haviam corrido para se es­ posso suportar". Estava preocupado apenas
conder quando ouviram a voz de Deus (Gn com seu castigo, não com seu caráter. Se
3:8), mas Deus ouviu a voz de Abel claman­ vagasse de um lugar para outro, estaria se
do da terra, e Caim não pôde se esconder.4 arriscando; mas se ficasse num mesmo lu­
O derramamento de sangue inocente conta­ gar, morreria de fome. A terra havia se volta­
mina a terra (Nm 35:30-34), e esse sangue do contra ele, Deus havia se voltado contra
clama por justiça (Jó 16:18; Is 26:21; Ap 6:9, ele6 e as pessoas se voltariam contra ele.
10).5 Adão e Eva foram expulsos do jardim, Qualquer um com quem Caim se deparasse
e Caim tornou-se um errante rejeitado sobre seria um parente desejando vingar-se da
a Terra. morte de Abel. O que poderia fazer?
Quanto mais se pensa no pecado de Ao odiar e matar o irmão e ao recusar-se
Caim, mais hediondo ele se torna. O homicí­ a se arrepender, Caim criou para si uma vida
dio não foi motivado por um ímpeto pas­ insuportável. Abriu a porta para a tentação
sional; foi cuidadosamente premeditado. (Gn 4:7) e fechou-a para a família, para Deus
Não matou um estranho em defesa própria; e para seu futuro. Não importava onde vi­
assassinou seu próprio irmão por inveja e vesse ou o que fizesse, Caim seria sempre
ódio. Além disso, Caim o fez depois de estar um homem sem paz, para o qual não havia
diante do altar adorando a Deus e apesar da qualquer saída.
advertência e da promessa de Deus. Por fim, A misericórdia de Deus (v. 15). Deus fez
uma vez realizado o ato horrendo, Caim não uma coisa estranha: colocou em Caim uma
se abalou e ainda tentou escapar mentindo. marca que o protegeria do ataque das pes­
soas que quisessem matá-lo. Não sabemos
5. O e rra n te (G n 4:11-15) o que era essa marca ou o que levaria as
Um vagabundo não tem lar; um fugitivo cor­ pessoas a reconhecerem-na como o selo de
re para longe do lar; um errante está longe proteção divina; mas ela funcionou. Esse foi
do lar; mas um peregrino viaja rumo ao lar. um ato da mais pura misericórdia da parte
"Os céus e a terra tomo, hoje, por testemu­ de Deus. Por que Deus permitiria que um
nhas contra ti, que te propus a vida e a mor­ homicida perverso como Caim ficasse livre?
te, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a Em sua misericórdia, Deus não nos retribui
vida" (Dt 30:19). Caim fez a escolha errada conforme o que merecemos, e, em sua gra­
e, em vez de ser um peregrino, tornou-se um ça, ele nos dá aquilo que não merecemos.
errante e um fugitivo, vagando sobre a terra. Essa é a natureza de Deus. O Senhor pou­
A m aldição de Deus (v. 12). Jeová havia pou a vida de Caim, mas a história não termi­
amaldiçoado a serpente (Gn 3:14) e a terra na aí. Cedo ou tarde, Caim acabou morrendo,
(v. 17), mas não Adão e Eva. No entanto, vindo "depois disso o juízo" (Hb 9:27). A
amaldiçoou o filho deles, Caim, um filho do civilização toda que construiu foi destruída
diabo (da serpente). Caim havia contamina­ no dilúvio, e o registro de sua vida deixado
do a terra com o sangue de seu irmão, de nas Escrituras é uma advertência para qual­
modo que a terra não trabalharia em seu quer um que finge adorar a Deus, que brinca
favor. Se Adão labutasse e lutasse diaria­ com o pecado e que não leva a tentação a
mente, teria uma colheita (vv. 17-19); mas sério. "O caminho de Caim" (Jd 11) não é o
46 G Ê N E S I S 4:1-24

caminho estreito que conduz à vida (Mt Deus também se estendia a ele. Se Deus vin­
7:13, 14). garia um homicida como Caim, então certa­
mente vingaria Lameque por "defender-se".
6. O c o n s tru to r (G n 4:16-24) Observe que Lameque deseja a proteção
Deus foi fiel à sua palavra e protegeu Caim, divina, mas não menciona o nome de Deus.
enquanto ele vagava de um lugar para ou­ O povo da cidade de Enoque tinha vá­
tro. Certo dia, ele encontrou um lugar que rias ocupações. Alguns seguiam Jaba! e to­
parecia bom para ele ficar e decidiu construir mavam conta de rebanhos (v. 20). Outros
uma cidade. A terra não dava seus frutos a foram aprendizes de Jubal e dedicaram-se a
Caim como lavrador, porém ele conseguiu confeccionar e a tocar instrumentos musi­
trabalhar e construir sobre a terra e ser bem- cais (v. 21). Os seguidores de Tubalcaim
sucedido. No entanto, Caim jamais deixou eram artífices de metais (v. 22), o que suge­
de ser um fugitivo, como indica o nome da re que confeccionavam implementos para
terra onde se estabeleceu, que significa "va­ lavradores, faziam ferramentas e armas pes­
gar". Sua cidadania não se encontrava no céu soais. Caim viveu numa sociedade rica em
(Fp 3:20, 21), tampouco havia qualquer es­ cultura, manufatura e produção de alimen­
perança de ele alcançar a cidade celestial tos. Os habitantes da cidade de Enoque ti­
(Hb 11:9-16). O único céu que Caim conhe­ nham de tudo, exceto Deus.
ceu foi sua cidade na terra.7 Ao comparar a árvore genealógica de
Caim era casado antes de sair do Éden Caim com a de Sete (cap. 5), é impossível
ou encontrou uma esposa durante suas via­ não observar a semelhança entre os nomes.
gens? Ele contou a sua mulher que havia Há um Enoque (4:18) e um Enoque (5:18),
assassinado o irmão? Não sabemos, mas cer­ há um Meujael (4:18) e um Maalalel (5:12);
tamente teve de explicar a marca que Deus um Metusael (4:18) e um Metusalém (5:21);
havia colocado nele. Era natural Caim pro­ e há um Lameque (4:18) e outro Lameque
curar uma esposa; não apenas desejava (5:25). O Lameque de Caim teve três filhos
construir uma cidade como também que­ (jabal, Jubal e Tubalcaim), e Noé, descen­
ria constituir uma família. De que outra for­ dente do outro Lameque, teve três filhos
ma seu nome poderia ser lembrado senão (Sem, Cam e Jafé).
por meio de seus descendentes? Caim não Qual o significado dessa semelhança de
sabia que seu nome e seus atos perversos nomes? Talvez seja a maneira de Deus nos
seriam escritos na Palavra de Deus para que dizer que a linhagem perversa de Caim (que
todos lessem. ainda existe) faz todo o possível para imitar
A esposa de Caim deu-lhe um filho, ao a linhagem piedosa de Sete. Afinal de contas,
qual ele chamou Enoque, nome relacionado Satanás é um falsificador. Ele pode imitar o
à palavra hebraica para "consagrado". Caim nome de cristãos verdadeiros, mas não pode
deu à sua cidade o mesmo nome do filho, criar os cristãos. Há um Enoque nas duas
mas a Bíblia não diz a quem ou a que a cida­ genealogias, mas o Enoque de Caim não an­
de era consagrada. Seis gerações de Caim dou com Deus e nem desapareceu um dia e
aparecem nas Escrituras (Gn 4:17-22), sen­ foi para o céu! (5:24). "Qual a importância
do que algumas delas são bem conhecidas. de um nome?" Nenhuma, se você não co­
Lameque foi o primeiro bígamo; também nhece o Senhor e não pertence a ele!
foi um homem arrogante e um homicida. Não O mais triste, porém, é que essas duas
se sabe o motivo pelo qual um rapaz o feriu linhagens - a descendência perversa de Caim
e nem a forma como o fez. Mas por que matar e a descendência piedosa de Sete - conver­
um rapaz por ter ferido alguém? A menção giram e uniram-se (Gn 6:1, 2). O muro de
que Lameque faz da proteção de Caim (v. 24) separação desabou, e isso acabou criando
dá a entender que a história de Caim foi pas­ uma sociedade depravada cujos pecados
sada de geração em geração. Indica, ainda, trouxeram o juízo do dilúvio. Violência se­
que Lameque acreditava que a proteção de melhante à de Lameque espalhou-se pela
G Ê N E S I S 4:1-24 47

Terra (vv. 5, 11, 12), e na época do dilúvio, filhos deram ao mundo um recomeço de­
apenas oito pessoas creram no aviso de Deus pois do dilúvio. O mundo daquele tempo
e agiram pela fé. O restante foi destruído. provavelmente admirava as realizações de
A árvore genealógica de Caim termina Caim; Deus as eliminou da face da Terra.
com a família de Lameque (Gn 4:19-24), um "Ora, o mundo passa, bem como a sua
homicida arrogante cujos três filhos produ­ concupiscência; aquele, porém, que faz a
ziam coisas para este mundo. A linhagem de vontade de Deus permanece eternamente"
Sete termina com Noé ("consolo"), cujos três (1 Jo 2:17).

1. S h a k esp ea r e , William. As Vou Like It, Ato 2, cena 7, linha 139.

2. É comum ouvir que, se você não é filho de Deus, então, automaticamente, é filho do diabo. No entanto, eu questiono
esse clichê evangélico. De acordo com Efésios 2:1-3, por natureza, nascemos "filhos da ira" e, por escolha, nos tornamos

"filhos da desobediência". Se rejeitarmos a justiça de Cristo e dependermos de nossa própria falsa devoção, então

tornamo-nos "filhos do diabo". Ver os comentários sobre Gênesis 3:15 no capítulo 5, seção 5.

3. Essa seqüência pode ser encontrada em 1 João 1:6, 8 e 10.

4. O piedoso AbeJ (M t 23:35) fala ao povo de Deus nos dias de hoje tanto por meio de seus sacrifícios (Hb 71:4) como
por seu sangue derramado (Hb 12:24). Nessa última passagem, o escritor faz um contraste entre o sangue de Cristo

e o sangue de Abel. O sangue de Abel representa a Terra, mas o sangue de Cristo representa o céu. O sangue de
Abel clama por justiça, mas o sangue de Cristo refere-se à justiça satisfeita na cruz. O sangue de Abel declarou a culpa

de Caim e transformou-o num errante, mas o sangue de Cristo representa a graça e o perdão e reconcilia com Deus

o pecador que crê.

5. A placa do lado de fora da "Câmara da Destruição", no museu do holocausto no Monte Sião em Jerusalém diz: "Ouça!

O sangue de teu irmão clama!"


6. Não sabemos quantas pessoas habitavam a Terra naquela época, apesar de sermos informados de que Adão "teve filhos

e filhas" (Gn 5:4). O pecado ainda não havia exercido todo o seu efeito sobre o corpo humano e o mundo natural, de

modo que as pessoas viviam mais tempo e, provavelmente, eram mais férteis.
7. Não devemos imaginar que a "cidade" de Caim fosse como as nossas cidades modernas. Tratava-se de um assentamen­

to de pessoas reunidas para ter ajuda e proteção mútuas. Algumas viviam em tendas, outras em habitações mais

permanentes; talvez houvesse um muro para protegê-las.


insensatos e pecaminosos da humanidade.
7 Pelo fato de ser o Deus soberano, "faz todas
as coisas conforme o conselho da sua vonta­
de" (Ef 1:11). "No céu está o nosso Deus e
Q u a n d o as P erspectivas tudo faz como lhe agrada" (Sl 11 5:3). O Se­
nhor permitiu que Eva concebesse e desse à
S ã o S o m b r ia s , T ente luz um filho, ao qual ela chamou de Sete
O lhar para C im a ("concedido"), pois Deus o escolheu para
substituir Abel.
G ênesis 4 :2 5 - 6:8 Gênesis 5 é a primeira genealogia das
Escrituras e apresenta o "livro da genealogia
de Adão" (v. 1). Nessa passagem, encontra­
pecado havia entrado na raça huma­ mos uma lista de dez gerações, desde Adão
O na, e não demorou para a corrupção
que originou se espalhasse e contaminasse
até Noé, assim como são apresentadas dez
gerações entre Sem e Abraão nas "gerações
a criação de Deus. Como um tumor cance­ de Sem" (Gn 11:10-26).' Em oito ocasiões,
roso, o mal infectou a civilização e, por ao longo de Gênesis 5, encontra-se a ex­
onde passou, levou consigo a morte. Os pressão melancólica: "e morreu", pois a
vice-regentes de Deus na Terra, criados à morte havia passado a governar a humani­
imagem de Deus, não conseguiam nem dade por causa do pecado de Adão (Rm
administrar a própria vida, quanto mais a 5:1 2-1 7, 21). O pecado e a morte ainda rei­
criação divina, e, logo, as coisas começa­ nam nos dias de hoje, mas, por intermédio
ram a se desintegrar. de Jesus Cristo, podemos "reinar em vida"
Esta seção de Gênesis abrange mais de (Rm 5:17, 21).
mil e quinhentos anos da história humana, Na história da Bíblia, em várias ocasiões,
um período obscurecido pelo pecado e pela o nascimento de um bebê fez a diferença
tristeza. No entanto, é quando a noite está entre a derrota e a vitória para o povo de
mais escura que as estrelas brilham com mais Deus. Foi durante os anos difíceis dos ju­
intensidade; é quando as perspectivas são deus no Egito que Moisés nasceu e tornou-
mais sombrias que olhar para cima nos alenta se o libertador de seu povo (Êx 2:1-10).
mais. Nesta seção, encontramos os nomes Quando a chama da profecia bruxuleava
de treze pessoas, e quatro delas se desta­ prestes a apagar-se, Samuel nasceu para
cam por estarem ligadas a algo especial que conduzir Israel de volta à Palavra de Deus
Deus fez para animar seu povo. São elas Sete, (1 Sm 1 - 3), e quando o reino estava se
Enos, Enoque e Noé. desintegrando sob o governo de Saul, Deus
deu a Jessé um filho, chamado Davi, o ho­
1 . Se te - um r e c o m e ç o de D e u s mem escolhido por Deus para suceder Saul
(G n 4:25; 5:1-5) no reinado (Rt 4:18-22; 1 Sm 16). Num mo­
O único raio de esperança naquele tempo mento de grande degradação na história dos
de escuridão era a promessa de Deus de que, judeus, pela graça do Senhor, um menino
um dia, um Redentor nasceria da mulher e deu continuidade à linhagem de Davi (2 Rs
venceria a serpente (Gn 3:15). No entanto, 11:1 -3). Apesar dos ataque de Satanás e da
Abel estava morto, de modo que não podia desobediência do povo, Deus foi fiel, ope­
gerar filhos; e Caim, o homicida incrédulo, rando de modo a cumprir sua promessa de
havia deixado seu lar para construir uma ci­ um Redentor.
dade na terra de Node, a leste do Éden. A O conhecimento desses fatos deve ani­
promessa de Deus iria mesmo se cumprir? mar o povo de Deus, ao ver o mundo voltar-
De que modo? se cada vez mais para o pecado e para a
Deus é soberano em todas as coisas, e rebelião. Deus é soberano, e seus propósitos
seus planos não são frustrados pelos caminhos não serão frustrados.
G Ê N E S I S 4:25 - 6:8 49

2. EN O S - CLAMANDO POR Ü E U S salvo a cidade da destruição (Gn 18:16ss), e


(G n 4:26; 5:6-11) Jesus disse que estaria presente onde ape­
Sete estava com cento e cinco anos quando nas dois ou três se reunissem em seu nome
seu filho, Enos, nasceu (Gn 5:6). "Enos" signi­ (Mt 18:20). Em Pentecostes, Jesus enviou o
fica "homem" e vem de uma palavra hebraica Espírito Santo para dar poder a cento e vinte
que quer dizer "frágil, fraco". É o termo usa­ cristãos, e Paulo evangelizou o império ro­
do para identificar o ser humano que enfatiza mano com um pequeno grupo de homens e
quão frágeis e fracos somos. mulheres inteiramente dedicados ao Senhor.
Há algo extraordinário registrado em re­ Deus sempre esperou que o remanescente
lação ao nascimento desse menino: naquela orasse, confiasse nele e realizasse sua obra.
época, o povo começou a reunir-se para Assim, quando a obra do Senhor parece
adorar a Deus, proclamar seu nome e orar.2 estar fracassando, e você se sente como o
Houve um reavivamento do culto público e único que restou para servir a Deus, lembre-
das oração sinceras quando os descenden­ se de Enos e do remanescente piedoso de
tes de Sete passaram a reunir-se em nome do sua época, que clamou ao Senhor. "Porque
Senhor. Enquanto os descendentes perver­ para o S e n h o r nenhum impedimento há de
sos de Caim se vangloriavam de sua força e livrar com muitos ou com poucos" (1 Sm
valentia (Gn 4:23, 24), os descendentes pie­ 14:6).
dosos de Sete davam glórias ao nome do
Senhor. 3. E n o q u e - a n d a n d o co m Deus
Ao longo de toda a história sagrada, foi o (G n 5:12-27)
remanescente piedoso que sempre deu con­ Pessoas como Cainã, Maalalel e Jarede po­
tinuidade à obra do Senhor neste mundo. De dem não parecer relevantes para a grande
tempos em tempos, a nação de Israel se per­ história da salvação divina, mas são elementos
deu na idolatria e na letargia espiritual, mas importantes, pois constituíram "elos vivos"
um remanescente de crentes foi levantado na longa cadeia de gerações que se esten­
para manter a chama ardendo. Essas pessoas deu de Sete até o nascimento de Jesus Cris­
corajosas clamaram a Deus pedindo livra­ to. A promessa de Deus em Gênesis 3:15
mento, e ele as ouviu e respondeu às suas jamais poderia ter-se cumprido não fosse pela
orações. fidelidade de muitas pessoas indistintas, que
Depois do dilúvio, a pequena família de para nós não passam de nomes estranhos
Noé foi o remanescente que Deus usou numa genealogia antiga.
para popular a Terra. O profeta Elias pensa­ Quando Enoque estava com sessenta e
va estar sozinho em seu serviço a Jeová, cinco anos, sua esposa deu à luz um filho, ao
mas havia na Terra sete mil pessoas que con­ qual deram o nome de Metusalém ("homem
tinuavam fiéis ao Senhor (1 Rs 19:9-18). O do dardo"). Tratou-se de um ponto crítico na
autor do Salmo 119 fazia parte do rema­ vida de Enoque, pois foi a partir de então
nescente fiel de sua época (v. 63), e os pro­ que ele começou a andar com o Senhor (Gn
fetas escreveram sobre o remanescente fiel 5:22, 24, NVI; ver 6:9). Será que a responsa­
de seus dias (Is 10:20-23; 37:31, 32; Jr 11:23; bilidade de criar um filho num mundo tão
Mq 4:7; Ml 3:16). Isaías deu a um de seus perverso desafiou Enoque a ponto de ele
filhos o nome de "Um-Resto-Volverá" (Is 7:3) saber que precisava da ajuda do Senhor? Ou
e, de fato, um remanescente voltou à sua será que, quando o bebê nasceu, Deus deu
terra depois do cativeiro na Babilônia. Deus a Enoque discernimento sobre o futuro para
usou essas pessoas para reconstruir o tem­ que ele soubesse que o dilúvio estava por
plo e a cidade de Jerusalém e para restaurar vir? Não se pode dizer ao certo. No entanto,
a nação judaica como entidade política. sabemos que a chegada dessa criança mu­
Quantas pessoas são necessárias para dou a vida de Enoque.
que Deus possa realizar sua obra? Dez O significado do nome Metusalém não
pessoas piedosas em Sodoma poderiam ter é importante, mas sua vida longeva, de no­
50 G Ê N E S I S 4:25 - 6:8

vecentos e sessenta e nove anos, sim. O dilú­ todo motivo para nos encher de coragem
vio veio no ano em que Metusalém morreu!3 em nossa caminhada com Deus.
Talvez o Senhor tenha dado essa notícia a
Enoque no dia em que o bebê nasceu, e ela 4. Noé - d e s c a n s o e c o n so lo de D eus
tocou seu coração a tal ponto que ele come­ (Gn 5:28 - 6:8)
çou a andar com o Senhor e a fazer a vonta­ Apesar de o nome ser o mesmo, o Lameque
de de Deus. "Visto que todas essa coisas da linhagem de Sete era completamente di­
hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais ferente do Lameque da linhagem de Caim
como os que vivem em santo procedimento (Gn 4:18-24). O Lameque de Sete teve um
e piedade" (2 Pe 3:11). O fato de Jesus estar filho chamado Noé, que andava com Deus
prestes a voltar, a fim de julgar o mundo, deve (Gn 6:9), e foi usado por Deus para salvar a
motivar o povo de Deus a viver em santidade raça humana e dar continuidade à promessa
e em serviço obediente (1 Jo 2:28 - 3:3). messiânica. O Lameque de Caim assassinou
A expressão melancólica "e morreu" não um rapaz que o havia ferido e, então, vanglo-
se aplica a Enoque, pois ele é um dos dois riou-se de seu ato perverso relatando-o às
homens das Escrituras que não morreram. suas esposas.
Tanto Enoque quanto EJias foram levados Esperança (5:28-32). A grande preocupa­
para o céu ainda vivos (2 Rs 2:1-11). Alguns ção de Lameque era que a humanidade en­
estudiosos vêem nesse "arrebatamento" de contrasse consolo e descanso em meio a um
Enoque antes do dilúvio um retrato da igreja mundo perverso, onde era necessário labu­
sendo levada para o céu antes da tribulação tar e suar só para sobreviver. A vida era difí­
que Deus enviará sobre a Terra (1 Ts 4:13 - cil, e a única esperança dos crentes sinceros
5:11). era a vinda do Redentor prometido. Lame­
Enoque foi levado ao céu "pela fé" (Hb que chamou seu filho de Noé, nome que se
11:5). Ele creu em Deus, andou com Deus parece com a palavra hebraica para "con­
e foi para junto de Deus - um exemplo a ser solo". Lameque orava para que, de alguma
seguido por todos nós. Imagine como deve forma, seu filho trouxesse ao mundo o des­
ter sido difícil andar com Deus durante canso e o consolo tão necessários. Séculos
aqueles anos que antecederam o dilúvio, depois, pessoas exaustas ouviram a voz de
quando a libertinagem e a violência preva­ Jesus dizer: "Vinde a mim, todos os que estais
leciam e apenas um remanescente cria em cansados e sobrecarregados, e eu vos alivia­
Deus (Gn 6:5). Mas a vida de fé de Enoque rei" (Mt 11:28).
não era desenvolvida apenas em devoção Lameque tinha 682 anos e Noé 500 anos
particular, pois ele anunciou com ousadia quando Jafé 8 o filho de Noé - nasceu. A
que Deus viria para julgar o mundo por seus lista de Gênesis 5:32 não apresenta os filhos
pecados (jd 14, 15). O julgamento do dilúvio em ordem de nascimento, pois Cam era o
veio no tempo de Enoque; porém, o julga­ filho mais jovem de Noé (Gn 9:20-24) e Jafé
mento que ele estava anunciando ocorrerá o mais velho (Gn 10:21). A ordem de nas­
quando Jesus Cristo voltar, liderando os exér­ cimento seria Jafé, Sem e Cam.
citos dos céus e condenando Satanás e suas Condescendência (6:1-7). Depois do ca­
hostes (Ap 19:11 ss). A vida e o testemunho pítulo 3, Satanás não é mais mencionado pelo
de Enoque nos lembram de que é possível nome em Gênesis, mas ele e suas hostes de­
ser fiel a Deus em meio a uma "geração per­ moníacas estavam se esforçando ao máxi­
vertida e corrupta" (Fp 2:15). Não importa mo para impedir o nascimento do Redentor
quão tenebroso seja nosso tempo ou quão prometido. Foi esse o propósito de Satanás
terríveis as notícias, pois temos a promessa ao longo de toda a história do Antigo Testa­
da volta de nosso Senhor para nos encorajar mento. Afinal, ele não queria que sua cabeça
e motivar a ser piedosos. Um dia, o pecado fosse pisada pelo Salvador (Gn 3:15)! Deus
será julgado, e o povo de Deus será recom­ havia declarado guerra contra Satanás, e o
pensado por sua fidelidade. Assim, temos enganador pretendia resistir.
G Ê N E S I S 4:25 - 6:8 51

Um dos recursos mais bem-sucedidos com mulheres e assentar-se na Terra? Certa­


de Satanás é a condescendência. Se ele mente, suas esposas e vizinhos iriam notar
consegue iludir o povo de Deus para que algo de diferente neles e isso criaria proble­
abandone sua posição privilegiada de se­ mas. Além do mais, a ênfase de Gênesis 6 é
paração do pecado e de comunhão com sobre o pecado do homem e não sobre a
Deus, então pode corrompê-lo e levá-lo a rebelião dos anjos. A palavra "homem" é
pecar. Foi o que fez com Israel na terra de usada nove vezes nos versículos 1-7, e Deus
Moabe (Nm 25; Sl 106:28-31) e, também, afirma claramente que o julgamento estava
depois da conquista de Canaã (Jd 2; Sl por vir graças a tudo o que os seres humanos
106:34-48). Os profetas advertiram o povo haviam feito. "Viu o S e n h o r que a maldade do
de Deus para não condescender com a ado­ homem se havia multiplicado na terra" (v. 5).
ração idólatra dos pagãos a seu redor; a O limite de cento e vinte anos expresso
nação não deu ouvidos e sofreu uma vergo­ no versículo 3 provavelmente se refere aos
nhosa derrota nas mãos de seus inimigos. anos que precederam o dilúvio. Deus é
Qual era o plano de Satanás para derro­ longânimo com os pecadores perdidos, mas
tar o povo de Deus no tempo de Noé? Levar chega um momento em que deve realizar
a linhagem piedosa de Sete ("os filhos de seu julgamento. Durante aquele "período da
Deus") a misturar-se com a linhagem perver­ graça", Noé preparou a arca e deu testemu­
sa de Caim ("as filhas dos homens") e, assim, nho do julgamento vindouro (2 Pe 2:5), a
abandonar sua devoção ao Senhor. Trata-se mesma mensagem que Enoque havia trans­
da mesma tentação enfrentada pelos cristãos mitido ao longo de sua vida (Jd 14, 15). Deus
dos dias de hoje: ter amizade com o mundo transmitiu sua mensagem por meio de duas
(Tg 4:4), amar o mundo (1 Jo 2:15-1 7) e con­ testemunhas, mas o povo não ouviu.
formar-se com o mundo (Rm 12:2), em vez A palavra "gigantes", em Gênesis 6:4, é
de separar-se dele (2 Co 6:14 - 7:1). E claro uma tradução do termo hebraico nefilim, que
que isso poderia levar o povo de Deus a ser quer dizer "caídos". Alguns daqueles que
"condenado com o mundo" (1 Co 11:32). aceitam a "teoria dos anjos" para o capítulo
Ló é um exemplo desse perigo (Gn 13; 19). 6 acreditam que se tratava de anjos caídos,
Alguns intérpretes consideram que cujos filhos tornaram-se grandes líderes.
Gênesis 6:1-7 trata de uma invasão de anjos Como vimos anteriormente, se esses nefilim
caídos que coabitaram com mulheres e pro­ fossem anjos em forma humana, ou eles so­
duziram uma raça de gigantes.4 No entanto, breviveram ao dilúvio (pois os espias hebreus
por mais interessante que seja essa teoria, os viram em Canaã; Nm 13:31-33), ou então
ela cria mais problemas do que os resolve, houve uma segunda invasão de "anjos caí­
sendo que uma das questões mais com­ dos". As duas idéias parecem um tanto
plicadas é a união de seres espirituais, sem inacreditáveis.
corpo, com seres humanos de carne e osso. A interpretação mais provável para
Mesmo que tais uniões tenham ocorrido, Gênesis 6:4 é que Deus considerava as pes­
seria possível a geração de filhos? E por que soas daquele tempo "caídas", enquanto os
seriam gigantes? Além disso, como esses homens viam-nas como grandes líderes. Ain­
"gigantes" (nefilim, "caídos") sobreviveram da hoje, muitas das coisas admiradas pelo
ao dilúvio (v. 4; Nm 13:31-33)? Será que mundo são rejeitadas pelo Senhor (Lc
houve outra invasão de anjos caídos depois 16:15). Quando os descendentes de Sete
do dilúvio? condescenderam e se misturaram com os
De fato, o termo "filhos de Deus" refere- cananeus, perderam a bênção de Deus. O
se a anjos em Jó 1:6; 2:1; 38:7; porém nesse Senhor entristeceu-se por eles se casarem
caso, não são anjos caídos, mas sim anjos com as perversas descendentes de Caim,
servindo fielmente a Deus.5 Mesmo que an­ escolhendo esposas como bem desejavam,
jos caídos fossem capazes de aparecer em sem levar em consideração a vontade de
corpo humano, por que iriam querer casar-se Deus (Gn 6:2). Ao fazê-lo, colocaram em
52 G Ê N E S I S 4:25 - 6:8

perigo o cumprimento da promessa de para a salvação da sua casa" (Hb 11:7). A


Gênesis 3:15, pois de que modo Deus pode­ verdadeira fé envolve todo o ser interior da
ria trazer um Redentor ao mundo por meio pessoa: a mente compreende a advertência
de um povo que não era santo? As pessoas de Deus; o coração teme o que está por vir;
daquele tempo "Casavam-se e davam-se em e a iniciativa leva à ação em obediência à
casamento" (Mt 24:37-39) e não deram aten­ Palavra de Deus.
ção alguma às advertências de Enoque e de Entender a Palavra de Deus e não agir de
Noé a respeito do julgamento vindouro. A acordo com ela não é fé bíblica, mas apenas
história humana chegou a um ponto em que uma aceitação intelectual da verdade reli­
somente Noé e sua família - oito pessoas - giosa. Ser emocionalmente tocado sem com­
acreditavam em Deus e obedeciam à sua preender a mensagem de Deus não é fé, pois
Palavra. O Espírito de Deus lutava para alcan­ a verdadeira fé baseia-se num entendimento
çar as pessoas perdidas, mas elas resistiam da verdade (Mt 13:18-23). Ter a mente
ao chamado do Senhor, entristecendo-o pro­ esclarecida e o coração tocado, mas não agir
fundamente com seus atos.6 em obediência à mensagem não é fé, pois "a
Para uma descrição da civilização da­ fé sem obras é morta" (Tg 2:14-26). A mente,
quele tempo, leia Romanos 1:1 7ss. A per­ o coração e a iniciativa fazem parte da ver­
versidade do homem era grande, e toda a dadeira fé bíblica.
imaginação de todos os seus pensamentos Todos os remidos foram salvos do peca­
era exclusiva e continuamente perversa. As­ do "pela graça, mediante a fé", e isso inclui
sim, não é de se surpreender que Deus resol­ as pessoas de valor do Antigo Testamento
vesse enviar seu julgamento. que aparecem em Hebreus 11. Ninguém
Graça (v. 8). A única maneira de as pes­ jamais foi salvo por levar um sacrifício a
soas serem salvas da ira de Deus é pela gra­ Deus (Hb 10:1-4; Sl 51:16, 17), por obe­
ça divina (Ef 2:8, 9). No entanto, a graça de decer à lei (Gl 2:16) ou por fazer boas obras
Deus não é uma recompensa por uma vida (Rm 4:5). A salvação é um dom de Deus,
boa: é a resposta de Deus à fé salvadora. em sua graça, que pode ser rejeitado ou
"Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca aceito pela fé. Assim como Noé, devemos
de acontecimentos que ainda não se viam e todos encontrar "graça diante do S e n h o r "
sendo temente a Deus, aparelhou uma arca (Gn 6:8).

1. Alguns estudiosos do Antigo Testamento nos advertem a não estruturar uma cronologia bíblica muito rígida tomando

por base exclusivamente as listas encontradas em Gênesis 5, 10 e 11. A comparação com outras genealogias nas

Escrituras indica que essas listas podem não ser completas. O fato de as genealogias, tanto em Gênesis 5 quanto
11, apresentarem dez gerações sugere que pode tratar-se de um padrão artificial (ver também Rt 4:18-22). Além do

mais, os povos semitas da Antiguidade usavam o termo "p a i" para referir-se a qualquer antepassado do sexo
masculino.

2. A palavra hebraica traduzida como "invocar" tem o sentido de orar a Deus e de proclamar seu nome em adoração. Essa

expressão também pode ser traduzida por: "os homens começaram a se chamar pelo nome do Senhor". É provável que
os três sentidos sejam válidos: os crentes que restaram reuniam-se para adorar a Deus e orar, pedindo sua ajuda e, com

o tempo, passaram a identificar-se como portadores do nome dete.

3. Ao somar-se a idade de Metusalém, Lameque e Noé quando seus filhos mais velhos nasceram (187 + 182 + 500),
acrescentando a isso os cem anos entre Gênesis 5:32 e 7:11, tem-se um total de 969 anos.

4. Ver Pember, G. H. A s eras mais primitivas da Terra (Editora dos Clássicos) e os escritos de B u llin c e r , E. W., especialmente

The Companion Bible (The Lamp Press) e H ow to Enjoy the Bible (Londres: Eyre and Spottiswoode, 1928). James M.

Gray também defende a "teoria dos anjos" em sua obra Christian Worker's Commentary (reimpressão, Kregel). Para uma

refutação competente da "teoria dos anjos", ver Sidlow Baxter, Studies in Problem Texts (Zondervan). A teoria é
resultado da manipulação de algumas passagens difíceis de interpretar (Jd 6, 7; 1 Pe 3:19, 20; 2 Pe 2:4-9) e a omissão

de alguns princípios fundamentais de hermenêutica.


G Ê N E S I S 4:25 - 6:8 53

"Filhos de Deus" também pode referir-se a seres humanos. Ver Deuteronômio 14:1; Salmo 82:6; Isaías 43:6; Oséias 11:1.

Deus, o Pai, entristeceu-se com o pecado dos seres humanos aqui na Terra (Gn 6:6); Deus, o Filho, entristeceu-se com
a dureza do coração das pessoas religiosas (M c 3:5 ); e Deus, o Espírito, pode ser entristecido pelo pecado dos santos
(Ef 4:38).
1. Um h o m e m
8 D eus (G n
cren te q u e a n d ava c o m
6 :9 - 1 3 )
"Porém Noé achou graça diante do S e n h o r "
(v. 8). Essa é a frase que introduz a terceira
U m H o m e m e S u a F é, história de "gerações" em Gênesis: "Eis a
história de Noé" (v. 9). Noé não foi um pe­
u m H o m em e S ua
queno coadjuvante na história da redenção;
F a m ília ele é citado cinqüenta vezes em nove livros
da Bíblia.
G ê n e sis 6 :9 - 7:24 Noé era um homem justo (v. 9; 7:1).
Essa é a primeira vez que a palavra "justo"
aparece na Bíblia, mas a justiça de Noé tam­
xceto pelo aumento na criminalidade e bém é mencionada em outras passagens (Ez
E na violência, as coisas iam bem. As pes­
soas estavam "comendo, bebendo e dando-se
14:14, 20; Hb 11:7; 2 Pe 2:5). A justiça de
Noé não vinha de suas boas obras; eram
em casamento" (Mt 24:38), e a vida prosse­ suas boas obras que vinham de sua justiça.
guia como de costume. Quando os amigos Sua justiça, como a de Abraão, era uma dá­
se encontravam nas festas de casamento ou diva de Deus em resposta à sua fé pessoal.
no mercado, riam de Noé e de sua família Tanto Abraão quanto Noé creram na Pala­
("Imagine só, construir um barco enorme em vra de Deus, "e isso lhe[s] foi imputado para
terra seca!"), comentavam sobre Metusalém, justiça" (Gn 15:6; ver Hb 11:7; Rm 4:9ss; Gl
o homem mais velho do mundo ("Pode crer 3:1 ss).
que um dia desses ele morre!") ou falavam A única justiça que Deus aceita é a justi­
sobre Enoque, o homem que havia desapa­ ça de Jesus Cristo, seu Filho (2 Co 5:21), e a
recido de repente ("A coisa mais estranha única forma de as pessoas receberem essa
que eu já vi!"). justiça é pela confissão de seus pecados e
Metusalém era avô de Noé, e Noé sabia pela fé na salvação em Jesus Cristo (Rm 3:19-
que, quando ele morresse, não haveria nada 30; Gl 2:16). Noé deve ter aprendido essa
que impedisse o julgamento de Deus sobre verdade importante com seu pai, Lameque
o mundo perverso. Havia mais de um século, (Gn 5:28, 29), o qual, por sua vez, apren-
Noé falava às pessoas a respeito do julga­ deu-a com Metusalém, que a ouviu de
mento iminente, mas apenas sua própria fa­ Enoque. Como é importante ensinar nossos
mília havia crido nele e confiava no Senhor. filhos e netos a confiar no Senhor!
Então, Metusalém faleceu, e as coisas co­ Noé era um homem íntegro (v. 9). Se o
meçaram a acontecer. Um dia, Noé e sua adjetivo "justo" descreve a situação de Noé
família entraram em seu "barco" e vieram as diante de Deus, então "íntegro" descreve sua
chuvas. ("Ela não pode durar para sempre", conduta diante das pessoas. "íntegro" não
dizia o povo. "Um dia desses ela pára...") significa "sem pecado", pois, exceto Jesus
Mas choveu durante quarenta dias e quaren­ Cristo, ninguém viveu aqui na Terra sem pe­
ta noites, e explosões subterrâneas libera­ cado algum (1 Pe 2:21, 22). Essa palavra
ram ainda mais água na superfície da terra. significa "inteiro, irrepreensível, imaculado".
Até mesmo depois que a chuva parou, a Esse termo era usado para descrever os ani­
água continuou a subir e, em cinco meses, a mais aceitáveis a Deus como sacrifício (Êx
terra toda encontrava-se submersa, e todo 12:5; Lv 1:3, 10). A conduta de Noé era tal
ser que respirava estava morto. As únicas que seus vizinhos não tinham como encon­
exceções eram Noé e sua família, as oito pes­ trar nele qualquer motivo de repreensão (Fp
soas das quais todos haviam zombado. 2:12-16).
Que tipo de pessoa era Noé? Ele era o A pessoa correta diante de Deus pela fé
tipo de pessoa que você e eu devemos ser em Cristo deve levar uma vida reta diante
ao viver em nosso mundo de hoje. das pessoas, pois "a fé sem obras é morta"
G Ê N E S I S 6:9 - 7:24 55

(Tg 2:14ss). Paulo advertiu sobre "insubor­ dia ouvimos falar muito da "pressão social".
dinados, palradores frívolos e enganadores Essa é a desculpa para todo tipo de compor­
[...] no tocante a Deus, professam conhecê- tamento ilegal e imoral, desde sonegar im­
lo; entretanto, o negam por suas obras" (Tt postos até trair o cônjuge. No entanto, ao
1:10, 16). Noé não era esse tipo de pessoa. longo da história, todos aqueles que desen­
Ele era um homem que andava com Deus volveram um caráter piedoso tiveram de lu­
(Gn 6:9). Seu bisavô, Enoque, havia "andado tar contra essa pressão da sociedade a seu
com Deus" e tinha sido repentinamente leva­ redor. Foi o que aconteceu com Noé e sua
do para o céu e salvo do julgamento vindou­ família, com Abraão e sua família, com
ro do dilúvio (Gn 5:24). Noé andou com Deus Moisés no Egito (Hb 11:24-26) e Daniel e
e foi mantido em segurança durante o julga­ seus amigos na Babilônia (Dn 1). Resistir à
mento. Enoque foi exemplo de uma vida pressão dos colegas e amigos significa não
consagrada para Metusalém. É provável que apenas dizer um "não" categórico às pes­
Metusalém tenha passado valores piedosos soas, mas também um "sim" consagrado ao
para o filho, Lameque, que os transmitiu a Senhor (Rm 12:1, 2).
Noé. Como é maravilhoso quando, geração A maioria das pessoas sabe que Noé
após geração, uma família é fiel ao Senhor, construiu uma arca. O que provavelmente
especialmente num momento da história em não sabem, porém, é que ele construiu um
que a corrupção e a violência fazem parte caráter piedoso e uma família temente a
do modo de vida comum. Deus. Se não fosse pela família devota de
A vida de fé e obediência é comparada Noé, Abraão não teria nascido. Sem Abraão,
com uma "caminhada" que começa com teria havido uma nação judaica, a Bíblia e o
um passo: crer em Jesus Cristo como Se­ Salvador?
nhor e Salvador. Esse passo de fé conduz a
uma jornada diária, um passo de cada vez, 2. Um h o m e m f ie l q u e tr a ba lh a v a para
à medida que o Senhor nos guia. Ele diz que D e u s ( G n 6:14-22)
devemos "andar em amor" (Ef 5:2), "andar "A intimidade do S e n h o r é para os que o te­
como filhos da luz" (v. 8), "andar no Espíri­ mem, aos quais ele dará a conhecer a sua
to" (Gl 5:16, 25) e "andar prudentemente" aliança" (Sl 25:14). Quando você anda com
(Ef 5:15). Um passo de cada vez, um dia de Deus, ele fala com você por meio da Palavra
cada vez, andamos com o Senhor, e ele nos dele e lhe diz o que precisa saber e o que
conduz à sua vontade e nos abençoa com deve fazer. Os cristãos são mais do que sim­
sua sabedoria e força. ples servos que fazem a vontade do Senhor;
Noé era um homem obediente (Gn 6:22; também são amigos de Deus, que conhe­
7:5, 16). Uma das principais mensagens das cem seus planos (Jo 15:14, 15). O plano de
Escrituras é que não devemos apenas ouvir Deus para Noé e sua família envolvia três
a Palavra de Deus, mas também lhe obede­ responsabilidades.
cer (Tg 1:22-25). Pelo fato de Noé ter sido Construir uma arca (w . 14-17). Deus dis­
obediente ao Senhor, sua "casa" não foi se a Noé qual era sua tarefa: construir uma
destruída quando veio a tempestade (Mt embarcação de madeira que sobreviveria às
7:24-27). Não foi fácil para Noé e sua família águas do dilúvio e manteria Noé e sua famí­
obedecer ao Senhor, pois o resto do povo lia em segurança. Se o côvado citado era a
era desobediente e rebelde à vontade de medida padrão de aproximadamente meio
Deus. De acordo com Enoque, eram pessoas metro, então a embarcação tinha cento e cin­
ímpias, cometendo impiamente obras de qüenta metros de comprimento, vinte e cinco
impiedade e proferindo palavras insolentes de largura e quinze de altura. Possuía três
contra o Senhor Deus (Jd 15). conveses, uma porta e uma série de peque­
Quer seja associada à abstinência sexual, nas janelas, meio metro abaixo do teto, que
ao uso de álcool e de drogas ou à participa­ ofereciam iluminação e ventilação. Os três
ção em gangues e infrações da lei, hoje em conveses eram divididos em compartimentos
56 G Ê N E S I S 6:9 - 7:24

(Gn 6:14), onde seriam mantidos os diver­ precisavam enquanto preparavam a arca e,
sos animais e onde Noé e sua família iriam depois, quando moraram dentro dela por
morar. mais de um ano. Deus é fiel em cumprir
A embarcação foi projetada para boiar. suas promessas e, como povo da aliança
Era uma enorme caixa de madeira que po­ de Deus, aqueles oito crentes não tinham
dia flutuar na água e manter seu conteúdo nada a temer.
seguro e seco. De acordo com os cálculos Juntar os animais (w . 19-22). Deus não
do Dr. Henry Morris, a arca era grande o desejava preservar apenas os seres humanos
suficiente para abrigar o conteúdo de qui­ da destruição, mas também todo tipo de
nhentos vagões ferroviários de gado, ofere­ criatura que se afogaria nas águas do dilú­
cendo espaço para cerca de cento e vinte e vio. Mas como Noé juntaria um número tão
cinco mil animais. E claro que muitos deles grande de animais, aves e insetos? Deus faria
eram bem pequenos e não precisavam de com que as criaturas fossem até Noé (v. 20;
muito espaço. Quanto às grandes espécies, 7:8, 15) e, então, Noé as conduziria para
sem dúvida Noé juntou representantes mais dentro da arca (Gn 6:19). Isso incluía não
jovens e menores.' Havia espaço suficiente apenas os pares de animais impuros que po­
na embarcação para levar alimento tanto deriam se reproduzir depois do dilúvio,
para as pessoas quanto para os animais (v. como também sete pares de animais puros,
21), e os insetos e criaturas pequenas não sendo que alguns deles deviam ser usados
teriam problema em encontrar um lugar para para sacrifícios (Gn 8:20; 9:3). Além de apren­
viver na arca. der sobre a fidelidade de Deus, Noé e sua
Confiar na aliança de Deus (v. 18). Essa é família viram a soberania de Deus em ação.
primeira vez que a palavra aliança é usada Em seu poder soberano, Deus levou os
na Bíblia. O termo aparece com freqüência animais até Noé e seus filhos e controlou-os
nas Escrituras, pois o conceito de aliança de modo que obedecessem à sua vontade.
constitui parte importante do grande plano No entanto, a demonstração extraordinária
redentor divino (Deus explicou seu plano de do poder de Deus não tocou o coração dos
aliança a Noé depois que ele saiu da arca; vizinhos de Noé, e eles pereceram no dilú­
Gn 8:20 - 9:1 7). Uma aliança é um acordo vio. As aves, animais e insetos conheciam a
que implica obrigações e benefícios para as voz do seu Criador e lhe obedeceram, mas
partes envolvidas. Em algumas alianças, Deus o povo feito à imagem de Deus recusou-se
é a única "parte pactuai" e faz promessas a ouvir o chamado de Deus. Séculos de­
incondicionais a seu povo. No entanto, tam­ pois, Deus diria por meio de seu servo Isaías:
bém houve alianças que requereram do "O boi conhece o seu possuidor, e o jumen­
povo preencher certas condições antes de to, o dono da sua manjedoura; mas Israel
receber a bênção de Deus. não tem conhecimento, o meu povo não
As palavras de Deus em Gênesis 6:1 3-21 entende" (Is 1:3).
são dirigidas especificamente a Noé, mas Ao longo de todas essas atividades im­
Deus também incluiu a família de Noé na portantes, Noé estava servindo ao Senhor e
aliança (v. 18). Noé teve seu primeiro filho dando testemunho em um mundo cheio de
só aos quinhentos anos de idade (Gn 5:32) e pecado. Durante cento e vinte anos (Gn
entrou na arca quando estava com seiscentos 6:3), Deus foi longânimo para com os peca­
anos (Gn 7:6). Assim, seus três filhos ainda dores indiferentes e rebeldes. Eles, porém,
eram "jovens" para os padrões da época an­ ignoraram sua mensagem e perderam a opor­
terior ao dilúvio. Cam era o filho mais novo tunidade de salvação.
(Gn 9:24) e Jafé o mais velho (Gn 10:21), e
os três rapazes eram casados (Gn 7:13).2 3. Um hom em s e g u r o q u e esperava em
O fato de Deus haver feito uma aliança Deus (G n 7:1-24)
prometendo cuidar de Noé e de sua famí­ "Não sejais como o cavalo ou a mula", ad­
lia deu-lhes a paz e a segurança de que moestou o Senhor no Salmo 32:9, e Noé
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obedeceu a essa admoestação. Por vezes, o todas as fontes do grande abismo" (v. 11),
cavalo quer correr à frente impetuosamente de modo que até mesmo as montanhas mais
e a mula quer arrastar-se obstinadamente e altas foram cobertas pelas águas (v. 20). Deus
ficar para trás. Noé, porém, andou com o havia esperado durante mais de um século
Senhor, trabalhou para ele e deixou que Deus para que os pecadores se arrependessem, e
operasse a seu tempo. agora era tarde demais. "Buscai o S e n h o r en­
Uma semana de espera (vv. 1-10). Tendo quanto se pode achar, invocai-o enquanto
em vista que as chuvas começaram no déci­ está perto" (Is 55:6).
mo sétimo dia do segundo mês (Gn 7:11), A chuva cessou depois de quarenta dias,
foi no décimo dia do segundo mês que, em correspondendo ao vigésimo sétimo dia do
obediência às instruções de Deus, Noé e sua terceiro mês (Gn 7:12). No entanto, as águas
família se mudaram para a arca (v. 1). Duran­ continuaram a subir por mais cento e dez
te aquela última semana antes do dilúvio, dias e chegaram a seu ponto mais elevado
terminaram de reunir os animais e de estocar depois de cento e cinqüenta dias (v. 24). En­
os suprimentos. Seguiram as instruções do tão, a arca foi parar no pico do monte Ararate
Senhor, confiaram em sua promessa pactuai, (Gn 8:4). Foi preciso que se passassem mais
sabendo que não havia nada a temer. cento e cinqüenta dias para que as águas
Davi observou uma tempestade se apro­ baixassem (v. 3), o que nos leva ao décimo
ximando e, a partir dessa experiência, es­ segundo mês, décimo sétimo dia. Dois me­
creveu um hino contando como havia visto ses e dez dias depois, Noé e sua família saí­
e ouvido Deus naquela tempestade. Ao re­ ram da arca e libertaram os animais (v. 14).
fletir sobre o que havia acontecido, Davi Desde o dia em que Deus os havia trancado
pensou na tempestade no tempo de Noé, a na embarcação, tinham passado dentro dela
chuva mais conhecida da história, e escre­ um ano e dez dias.
veu: "O S e n h o r preside aos dilúvios; como Um julgamento universal. Nos últimos
rei, o S e n h o r presidirá para sempre" (S l anos, há quem intente adaptar as Escrituras
29:10). A chuva violenta, o estrondo dos às idéias da ciência moderna optando por
trovões e o lampejo dos raios lembraram um dilúvio "limitado" e não universal. Suge­
Davi da soberania de Deus. Não importa re-se que o escritor de Gênesis usou uma
quão grande seja a tempestade da vida, "descrição do aparente", falando somente
Deus ainda está no controle levando tudo a daquilo que podia ver.
cooperar para o bem. Por isso, Davi termi­ Há certas dificuldades nos dois pontos
nou seu hino dizendo: "O S e n h o r dá força de vista, mas a interpretação "limitada" pa­
ao seu povo, o S e n h o r abençoa com paz ao rece ser a menos lógica das duas.3 A lingua­
seu povo" (S l 29:11). gem clara do texto indica que Deus estava
No final daquela última semana de pre­ enviando um julgamento universal. Referin­
parativos, Noé e sua família obedeceram à do-se à destruição de seres humanos e de
ordem de Deus e entraram na arca. Então, animais, Deus disse: "farei desaparecer da
Deus fechou e trancou a porta (Gn 7:16). face da terra" (Gn 6:7)4, e declarou que des­
Eles não sabiam quanto tempo iriam passar truiria "todos os seres que [fez]" (Gn 7:4, 21-
dentro da arca, mas o Senhor conhecia todas 23; 8:21). Se as montanhas ficaram cobertas
as coisas, e era isso o que importava. "Nas de modo que a arca pôde boiar até o pico
tuas mãos estão os meus dias" (Sl 31:15). do monte Ararate, então o planeta todo deve
Um ano e dez dias depois, ele abriu a porta ter ficado completamente submerso (Gn
e convidou-os a sair e viver na terra que ha- 7:18-20). Uma pessoa, lendo Gênesis 6 - 9
\ia acabado de purificar (Gn 8:16). pela primeira vez, concluiria que o dilúvio
O dia do acerto de contas (w.11-24). O foi universal.
dilúvio foi o julgamento de Deus para um mun­ No entanto, se o dilúvio não foi univer­
do perverso. Deus abriu as comportas do céu, sal, por que Deus deu o arco-íris como sinal
fez cair chuvas torrenciais e "romperam-se universal de sua aliança (Gn 9:11-15)? Por
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que o povo de uma só região precisaria de Uma família paciente. Apesar da destrui­
um sinal como esse? Além disso, se o dilúvio ção do lado de fora, Noé, sua família e os
foi um acontecimento local, por que Deus animais estavam seguros dentro da arca. Não
ordenou a Noé que construísse uma em­ importava como eles se sentiam ou quanto
barcação tão grande para salvar sua família a arca era lançada de um lado para o outro
e os animais? Certamente não foi por falta de pelas águas, estavam seguros dentro da von­
tempo que Noé não reuniu sua família e os tade de Deus. Aguardaram pacientemente
animais daquela região e levou-os a um lu­ até que Deus completasse seu trabalho e os
gar que não seria atingido pelo dilúvio.5 colocasse de volta em terra seca. Noé e sua
Deus prometeu que nunca mais manda­ família passaram um ano e dezessete dias na
ria outro dilúvio como aquele (vv. 8-17). arca e, ainda que tivessem tarefas diárias a
Porém, se o dilúvio foi apenas um aconteci­ cumprir, isso é um bocado de tempo para
mento local, Deus não cumpriu sua promes­ ficar fechado num lugar só. Porém, é "pela fé
sa! Ao longo dos séculos, houve diversas e pela longanimidade" (Hb 6:12; 10:36) que
enchentes locais, sendo que algumas delas herdamos as bênçãos prometidas de Deus,
causaram morte e devastação em regiões e Noé estava disposto a esperar no Senhor.
inteiras. Só em 1996, uma grande enchente Pedro viu na experiência de Noé uma
no Afeganistão durante o mês de abril dei­ ilustração da salvação pela fé em Jesus Cris­
xou três mil pessoas desabrigadas; em ju­ to (1 Pe 3:18-22). No tempo de Noé, a Terra
lho, cheias em Bangladesh destruíram as foi submergida em água, mas a arca boiou e
casas de mais de dois milhões de pessoas. levou Noé e sua família a um lugar seguro.
Em julho e agosto, os rios Amarelo, Yangtze Para Pedro, essa era uma imagem do batis­
e Hai inundaram nove províncias da China, mo: morte, sepultamento e ressurreição. A
matando duas mil pessoas. Se o dilúvio de Terra estava "morta" e foi "sepultada" pelas
Noé foi um acontecimento local como es­ águas, mas a arca elevou-se ("ressurreição"),
sas enchentes, então a promessa de Deus e a fim de transportar aquela família em segu­
o arco-íris como sinal da aliança não têm rança.6Jesus morreu, foi sepultado e ressus­
qualquer significado. citou, e, por meio dessa obra completada
A simples leitura do texto nos convence por ele, temos a salvação do pecado. Pedro
de que o dilúvio foi um julgamento univer­ deixa claro que a água do batismo não pu­
sal, "porque todo ser vivente havia corrom­ rifica do pecado. Somos batizados em obe­
pido o seu caminho [de Deus] na terra" (Gn diência ao Senhor (Mt 28:19-20), e é essa
6:12). Não sabemos o quanto a civilização obediência que purifica nossa consciência
havia se espalhado pelo planeta, mas aon­ de modo que possamos estar em ordem
de quer que os seres humanos tivessem ido, diante de Deus.
havia pecado que precisava ser julgado. O Nas palavras do intérprete britânico
dilúvio testemunha o pecado universal e o Alexander Maclaren:
julgamento universal.
Tanto Jesus quanto Pedro usaram o di­ Durante cento e vinte anos, os zomba-
lúvio para ilustrar acontecimentos futuros dores riram, as pessoas de "bom senso"
que irão abranger o mundo todo; a volta imaginaram o que estaria acontecendo
de Cristo (Mt 24:37-39; Lc 17:26, 27) e o e o santo paciente prosseguiu, martelan­
julgamento de fogo em toda a Terra (2 Pe do e cobrindo de piche sua arca. Porém,
3:3-7). Se o dilúvio foi apenas local, essas numa certa manhã, a chuva começou e,
analogias são falsas e enganosas. Pedro aos poucos, de algum modo Noé não
também escreveu que Deus não poupou parecia mais tão tolo. A zombaria já não
"o mundo daquele tempo" quando enviou era mais a mesma quando as águas che­
o dilúvio, o que deixa implícito um territó­ garam à altura dos joelhos e o sarcasmo
rio muito mais extenso do que uma área enroscou-se em sua garganta enquanto
limitada. se afogavam.
G Ê N E S I S 6:9 - 7:24 59

As coisas são sempre assim. E serão enquanto aqueles que não tiveram ne­
assim no último grande dia. Quando o nhum objetivo além das coisas temporais,
futuro transformar-se em presente e o pre­ que desaparecem no horizonte melan­
sente se transformar em passado e desa­ cólico, despertarão tarde demais para a
parecer para sempre, ficará evidente que convicção de que estão fora da arca de
os homens que viveram em função do segurança, e que seu verdadeiro epitáfio
futuro, pela fé em Cristo, são sábios, será: "És tolo".7

!. M o r r is , Henry M . The Cenesis Record. Baker, 1976, p.180ss. Ver também Henry M . M o r r is , e John Whitcomb, jr. The

Cenesis Flood. Baker, 1967 e Henry M. Morris. Studies in the Bible and Science. Baker, 1966.

_. Os três rapazes normalmente são identificados como filhos de Noé e não pelos seus nomes (Gn 6:18; 7:7; 8:16, 18;
9:1, 8). Em momento aigum nos é dito o nome da esposa de Noé ou de suas três noras. A aliança de Deus com Noé

incluía todos os membros de sua família.


3. Para uma discussão equilibrada sobre os dois pontos de vista, tendendo para a idéia de um dilúvio limitado, ver Ronald

F. Youngblood. The Book o f Cenesis: An Introductory Commentary. 2. ed. Baker, 1991, capítulo 10.

4. Apesar de ser verdade que a palavra hebraica que identifica o planeta Terra também pode significar um território

limitado, isso não se enquadra nas declarações universais do texto, como as que encontramos em Gênesis 6:12, 13,

em que Deus promete exterminar "toda a carne", e em 7:4, em que se refere à destruição de "todos os seres que

[fez]".

5. Argumentar em favor da idéia de que a arca era um "testemunho para o povo" implica ignorar o que Deus disse sobre

a arca, sobre seu propósito de manter as pessoas e os animais vivos durante o dilúvio (Gn 6:19, 20; 7:23). Apesar de

a construção da arca certamente ter chamado a atenção, o texto não menciona, em momento algum, que a arca serviu

de testemunho para os perdidos.


6. O batismo do Novo Testamento era por imersão, retratando a identificação do cristão com Cristo em sua morte,

sepultamento e ressurreição (Rm 6).


M a cla ren , Alexander. Expositions of Holy Scripture. Baker, 1974, v. 1, p. 84.
Ásia tinham sido tão graves que ele havia
9 quase desistido da vida (2 Co 1:8), e Jesus,
que passou por todas as provações huma­
nas, clamou da cruz: "Deus meu, Deus meu,
O D eus d o s por que me desamparaste?" (Mt 27:46).
Sentir-se desamparado não é nenhuma no­
R eco m eço s
vidade para o povo de Deus; mas, então, é
G ênesis 8 possível lembrar-se da canção:

Deus no trono ainda está,


E dos seus se lembrará!

Q
uando cristãos ansiosos buscam na Bí­ O termo "lembrar-se", em Gênesis 8:1, não
blia alguma palavra de encorajamento, significa trazer à memória alguma coisa que
e bem mais provável que abram em Roma­ se havia esquecido. Deus não se esquece de
nos 8 do que em Gênesis 8. Afinal de contas, nada, pois ele conhece todas as coisas do
Romanos 8 é um dos capítulos mais encora- princípio ao fim. Antes, o termo significa
jadores das Escrituras, enquanto Gênesis 8 "atentar para, cumprir uma promessa e rea­
descreve a operação de "limpeza" que Deus lizar um gesto em favor de alguém". Deus
realizou depois do dilúvio. promete, por exemplo: "Também de nenhum
No entanto, da próxima vez que você se modo me lembrarei dos seus pecados e das
vir em meio a uma tempestade, o texto de suas iniqüidades, para sempre" (Hb 10:17),
Gênesis 8 pode lhe dar nova esperança e e com isso quer dizer que não usará essas
ânimo. Isso porque o tema desse capítulo é iniqüidades contra nós, tratando-nos como
a restauração e o descanso depois da tribu- pecadores. Sem dúvida Deus sabe o que
lação. O capítulo relata o final de uma tem­ fizemos. No entanto, em função de nossa fé
pestade e o começo de uma nova vida e em Jesus Cristo, nossos pecados são "es­
esperança para o povo e a criação de Deus. quecidos". Deus nos trata como se esses
Reflita sobre o que Deus faz em Gênesis 8 e pecados jamais tivessem sido cometidos!
tenha bom ânimo! O Senhor não considera mais esses peca­
dos como testemunhas contra nós.
1. D e u s se le m b ra d o s seus (G n 8:1 a) Lembrar-se significa agir em favor do ou­
É fácil sentir-se abandonado quando passa­ tro. Deus lembrou-se de Abraão e salvou
mos por tempestades. "Acho que o Senhor Ló da destruição de Sodoma (Gn 19:29). O
se esqueceu de mim", disse uma senhora Senhor lembrou-se tanto de Raquel quanto
cristã que eu visitava no hospital. de Ana e permitiu que concebessem e ti­
Em sua mente, ela era capaz de se lembrar vessem filhos (Gn 30:22; 1 Sm 1:11, 19). O
de Hebreus 13:5 e de citar essa passagem Senhor lembrou-se de sua aliança e livrou
("De maneira alguma te deixarei, nunca ja­ seu povo do cativeiro no Egito (Êx 2:24;
mais te abandonarei"); mas, em seu coração, 6:5). "Lembrar-se" deixa implícito um
sentia-se só e abandonada. Onde estava o compromisso anterior de Deus e anuncia o
Deus dela? Quando aquela tempestade che­ cumprimento de sua promessa.' Noé, sua
garia ao fim? família e os animais haviam passado um ano
A sensação de abandono é uma emo­ juntos na arca, o que é um bocado de tem­
ção humana normal que quase todos nós já po para tanta "proximidade". Será que per­
experimentamos, quer admitamos quer não. deram a paciência uns com os outros e com
"Por que, S e n h o r , te conservas longe?", os animais? Não há registro algum de que
perguntou o salmista. "[Por que] te escon­ Deus tenha falado com eles depois que os
des nas horas de tribulação?" (S l 10:1). fechou dentro da arca, de modo que tal­
Paulo confessou que suas dificuldades na vez alguém da família sentisse um temor
G Ê N E S IS 8 61

passageiro, de vez em quando, ao pensar que poderoso o suficiente para cobrir a terra de
talvez Deus não se importasse mais com eles. água também é sábio o suficiente para livrar-
Deus não apenas se lembrou de Noé e se dela uma vez concluído o seu trabalho.
de sua família, como também se lembrou Séculos depois, os ventos do Senhor so­
dos animais que estavam com eles na arca.2 praram para o Egito a praga de gafanhotos e,
Deus poupou essas criaturas para que depois, levaram-nos até o mar (Êx 10:10-20).
pudessem viver no mundo renovado e repro- O vento de Deus também abriu o mar Ver­
duzir-se, cada uma segundo sua espécie. melho, criando um caminho em terra seca
Deus desejava que suas criaturas desfru­ para o povo de Israel quando este estava
tassem a terra e contribuíssem para a aler­ deixando o Egito (Êx 14:21, 22; 15:10). "Os
gia das pessoas que ele havia criado à sua ventos procelosos lhe executam a palavra
própria imagem. Como veremos mais adian­ [de Deus]" (Sl 148:8).
te, os animais foram incluídos na aliança de No sétimo dia do sétimo mês, a arca foi
Deus com Noé. descansar no alto do monte Ararate, na atual
Podemos estar certos de que Deus jamais Turquia. Não sabemos em qual pico a arca
se esquece de seu povo nem o abandona - ficou, e exploradores em busca dos restos
não apenas em função de suas promessas,3 da embarcação não contam com muitos
mas também por causa de seu caráter. Deus dados bíblicos para ajudá-los. Posteriormen­
é amor, e onde há amor, há fidelidade. Ele te, o sétimo mês tornou-se muito especial
jamais pode negar-se a si mesmo ou à sua para os judeus, pois durante esse mês da­
Palavra, pois Deus é fiel. Ele jamais pode vam as boas-vindas ao novo ano com a Fes­
mudar, pois é imutável. Pelo fato de ser per­ ta das Trombetas e celebravam o Dia da
feito, é impossível Deus mudar para me­ Expiação e a Festa dos Tabernáculos (Lv
lhor, e pelo fato de ser santo, é impossível 23:23-44).5
mudar para pior. Não importa como nos O texto hebraico diz que "a arca repou­
sentimos, podemos depender de Deus em sou", lembrando-nos de que o nome de Noé
toda e qualquer circunstância. significa "conforto" ou "repouso" e de que
a esperança de seu pai, Lameque, era que
2. D eus r en o v a seu m u n d o seu filho trouxesse repouso para um mun­
(G n 8 :1 b-14) do exausto (Gn 5:28, 29). Apesar de a arca
De acordo com Gênesis 7:24, o dilúvio che­ ter repousado em segurança, Noé ficou
gou a seu auge em cento e cinqüenta dias. A aguardando as instruções de Deus. Espe­
chuva torrencial e as erupções subterrâneas rou durante quarenta dias e, então, enviou
de água cessaram (Gn 8:2), e durante os cin­ o corvo; uma vez que era uma ave impura e
co meses seguintes, Deus fez com que a água carniceira (Lv 11:13-15), sentiu-se comple­
baixasse, deixando para trás a terra seca. tamente à vontade no meio das carcaças
Para onde foram as águas do dilúvio? que boiavam.
Jamais subestime a força da água em movi­ Noé esperou uma semana e, depois, en­
mento! E possível que o dilúvio tenha alte­ viou uma pomba, a qual, sendo uma ave
rado de modo significativo os contornos da pura, não encontrou lugar algum para pou­
superfície terrestre bem como de suas re­ sar, de modo que voltou para a arca (Gn
giões subterrâneas.4 Uma vez que houve 8:8, 9). Uma semana depois, Noé enviou a
erupções abaixo da superfície da Terra (Gn pomba novamente, e, quando ela voltou
_ :11), é possível que cadeias de montanhas com um ramo novo de oliveira, Noé soube
e continentes inteiros tenham surgido e de­ que as plantas estavam crescendo e que
saparecido, criando enormes regiões para nova vida estava aparecendo na terra (vv.
onde a água pudesse escoar. Os ventos que 10, 11). Uma pomba carregando no bico um
Deus enviou à Terra ajudaram a evaporar a ramo de oliveira é um símbolo de paz co­
água e também a colocá-la no lugar que nhecido em todo o mundo. Passada mais
Deus havia providenciado para ela. Um Deus uma semana, Noé enviou a pomba pela
62 G Ê N E S IS 8

terceira vez, e ela não voltou; assim, ele sou­ de um ano e preparar a terra para eles de
be que a água secara.6 modo que pudessem deixar a embarcação.
Noé havia feito uma "janela" no convés Noé foi como um "segundo Adão" ao reco­
superior da arca (v. 9) e abriu-a para dar uma meçar a raça humana. Deus havia separado
olhada no mundo lá fora. Isso foi no dia em a terra das águas durante a semana da cria­
que se completava um ano que os passagei­ ção, preparando-a para Adão e Eva. Então,
ros estavam dentro daquela embarcação. fez a terra passar pelo dilúvio e preparou-a
Noé viu que, de fato, a terra estava seca, para Noé e sua família. O Senhor chegou até
mas não tomou nenhuma providência até a repetir o mandamento que havia dado na
receber do Senhor a permissão para sair. Vinte criação: "Sede fecundos, multiplicai-vos" (Gn
e seis dias depois, recebeu a ordem e lhe 8:17; 1:22, 28).
obedeceu (v. 15). Noé preparou a arca "para a salvação
de sua casa" (Hb 11:7), e Deus foi fiel ao
3. D e u s re c o m p e n s a a fé (G n 8:15-19) salvar sua casa. Não há qualquer indicação
Noé era um homem de fé, cujo nome en­ nas Escrituras de que, ao testemunhar para
contra-se registrado em Hebreus 11 ao lado os outros, Noé os convidava para que se
dos outros heróis da fé (v. 7). Teve fé para juntassem a ele e à sua família na arca, mas
andar com Deus quando as pessoas do mun­ é bem provável que os tivesse incentivado
do ignoravam e desobedeciam ao Senhor. a confiar em Deus e a preparar suas pró­
Teve fé para trabalhar para Deus e ser sua prias arcas. É claro que ninguém levou sua
testemunha em um mundo no qual mentir mensagem a sério, e o mundo daquele tem­
era a maior moda. Uma vez terminado o po foi extinto (2 Pe 3:6).
dilúvio, exerceu fé ao aguardar as instru­ O que levou o povo a rejeitar a palavra
ções de Deus antes de sair da arca. de Deus e perecer? Fizeram como as pes­
Depois de passarem mais de um ano con­ soas na parábola de Jesus (Lc 14:16-24) que
finados na arca, é bem provável que Noé e se ocuparam com os afazeres da vida coti­
sua família ansiassem por voltar à terra seca. diana (Mt 24:37-39) e deixaram de lado as
Contudo, esperaram pela orientação divina. coisas da eternidade. Acreditaram que a
As situação na terra parecia favorável para vida prosseguiria como sempre e que nada
que desembarcassem, mas isso não era ga­ mudaria. Disseram que Deus não iria inva­
rantia de que Deus desejava que saíssem dir o mundo deles nem interromper o fluxo
imediatamente e que começassem sua nova habitual das coisas, mas foi exatamente o
vida. A fé obediente é nossa resposta à Pala­ que ele fez! Hoje em dia, as pessoas têm
vra de Deus, pois "a fé vem pela pregação, e essa mesma atitude com relação à volta do
a pregação, pela Palavra de Cristo" (Rm Senhor (2 Pe 3:1-9; 1 Ts 5:1-10).
10:17). No que se refere à fé salvadora, cada um
Noé estava demonstrando incredulida­ de nós deve confiar em Jesus Cristo pessoal­
de ao enviar os pássaros ou ao abrir a janela mente; não podemos ser salvos pela fé de
para observar o terreno a seu redor? Não. um substituto. A esposa de Noé, seus três
Estava simplesmente usando as oportunida­ filhos e as três noras também eram crentes;
des disponíveis para ajuntar informações. provaram isso ao permanecer ao lado de Noé
Não é 'errado fazer um reconhecimento da enquanto ele trabalhava e testemunhava e,
situação; o importante é não se apoiar no depois, quando entraram na arca em obe­
próprio entendimento (Pv 3:5, 6). Obedecer diência ao Senhor.7
à vontade de Deus implica não apenas fazer
a coisa certa, do jeito certo, com a motiva­ 4. D e u s recebe a a d o r a ç ã o (G n 8:20)
ção certa, mas também no tempo certo. "Nas Depois de sair da arca e de pôr os pés na
tuas mãos estão os meus dias" (Sl 31:15). terra restaurada, Noé estava tão grato que
Deus recompensou a fé de Noé e de sua seu primeiro ato foi dirigir a família em
família ao cuidar deles na arca durante mais adoração. Construiu um altar e ofereceu
G Ê N E S IS 8 63

alguns dos animais limpos como sacrifício em quem me comprazo" (Mt 3:1 7). Aqueles
ao Senhor. que depositam sua fé em Cristo estão "em
Noé era um crente firme em sua fé. Anda­ Cristo" (2 Co 5:17), e, quando o Pai olha
da com o Senhor em amorosa comunhão e para eles, vê a justiça de seu Filho (2 Co
desfrutava da presença de Deus. Trabalhou 5:21). Os cristãos são aceitos no Filho "ama­
para o Senhor na construção da arca e deu do", que é agradável ao Pai (Ef 1:6). Assim
testemunho do Senhor como "pregador da como a arca salvou Noé e sua família das
justiça" (2 Pe 2:5). Enquanto estava na arca, turbulentas águas do dilúvio, Jesus Cristo
esperou pelas instruções de Deus sobre o passou pela tempestade do julgamento de
momento de sair e, ao descer em terra firme, Deus em nosso lugar. Jonas, um símbolo de
adorou ao Senhor. Assim como Abel, deu ao Cristo em sua morte, sepultamento e res­
Senhor o que tinha de melhor (Gn 4:4) e, surreição (Mt 12:38-40), passou pela tem­
como o remanescente semita, invocou o pestade da ira de Deus por causa de sua
nome do Senhor (Gn 4:26). A verdadeira desobediência, mas Cristo passou pela tem­
adoração ao Senhor havia sido restituída na pestade em obediência à vontade de Deus.
Terra. Assim, Jesus pôde dizer: "Todas as tuas on­
Nos tempos do Antigo Testamento, quan­ das e vagas passaram sobre mim" (Sl 42:7;
do se sacrificava um holocausto, dava-se o Jn 2:3). O sofrimento de Jesus na cruz foi o
animal inteiro ao Senhor, sem tomar nada "batismo" ao qual Jesus se referiu em Lucas
para si (Lv 1). De acordo com a lei bíblica, o 12:50 e que foi retratado quando João bati­
adorador deveria colocar "tudo isso sobre zou Jesus no rio Jordão.
o altar" (Lv 1:9), pois o sacrifício simboliza­
da consagração total ao Senhor.8 Dando 5 . D e u s r e a fir m a a o r d e m n a t u r a l
mais um passo de compromisso, Noé con­ (G n 8 :2 1 , 2 2 )
sagrou a si mesmo e a sua família completa­ O Senhor não disse essas palavras a Noé;
mente ao Senhor. Em sua graça, Deus os disse-as para si mesmo em seu próprio cora­
havia protegido durante o dilúvio e, portan­ ção. Foi assim que, em sua graça, respondeu
to, era mais do que apropriado que eles se à fé, à obediência e à adoração de Noé. O
colocassem à disposição do Senhor para que Deus prometeu?
fazer sua vontade. A terra não será mais amaldiçoada (v. 2 1a).
Quando a descrição diz que Deus "aspi­ Deus havia amaldiçoado a terra pelo peca­
rou o suave cheiro" (Gn 8:21), trata-se de do de Adão (Gn 3:1 7) e havia acrescentado
uma forma humana de declarar uma verda­ outra maldição pelo pecado de Caim (Gn
de divina: Deus ficou satisfeito com o sacrifí­ 4:11, 12). A promessa de Deus registrada
cio, aceitou-o e agradou-se de seu povo e da nesse versículo não anula as outras mal­
adoração dele (Lv 1:9; 3:16). Se Deus se re­ dições, que não serão removidas até que
cusasse a "aspirar" o aroma do sacrifício, Jesus volte e o povo de Deus habite na ci­
queria dizer que estava descontente com os dade santa (Ap 22:3). No entanto, por sua
adoradores (Lv 26:31; Is 1:11-1 5).9 Na lin­ graça, Deus decidiu não aumentar a aflição
guagem do Novo Testamento, o sacrifício do homem.
refere-se ao próprio Jesus Cristo oferecendo- Não haverá mais dilúvios universais
se por nós. "E andai em amor, como também (v. 21b). Deus também determinou que, no
Cristo nos amou e se entregou a si mesmo futuro, não haveria outros dilúvios. A razão
por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em que Deus apresenta no versículo 21 já foi
aroma suave" (Ef 5:2). explicada de várias maneiras, e essa expli­
Não podemos agradar a Deus com nos­ cação depende, até certo ponto, da tradu­
sas próprias forças, mediante aquilo que so­ ção do texto. Deus disse "porque é mau o
mos ou fazemos; porém, pela fé, podemos desígnio íntimo do homem" ou "mesmo
ser aceitos em Jesus Cristo. O Pai referiu-se a sendo mau o desígnio do seu coração"?
Jesus dizendo: "Este é o meu Filho amado, Deus havia enviado o dilúvio por causa da
64 G Ê N E S IS 8

perversidade do coração das pessoas (Gn mas não será um julgamento pela água e,
6:5), de modo que não mandar outro julga­ sim, pelo fogo (2 Pe 3).
mento daria a entender que o dilúvio havia O ciclo da natureza não será interrom­
sido um erro ou um fracasso, ou ainda que pido (v. 22). O dilúvio interrompeu o ciclo
Deus havia desistido da raça humana criada normal das estações durante um ano, mas
à sua própria imagem. isso não voltaria a acontecer. Pelo contrá­
Se entendermos a expressão de Gênesis rio, Deus reiterou que o ritmo dos dias e
8:21 como "porque", então Deus está di­ semanas bem como das estações continua­
zendo: "o coração do homem é irremedia­ ria enquanto durasse a Terra. Sem essa ga­
velmente perverso. O dilúvio exterminou rantia, a humanidade jamais poderia estar
os transgressores, mas não pôde mudar o certa de que suas necessidades vitais seriam
coração humano. Assim, enviar outro jul­ supridas.
gamento não resolveria o problema". Se a Sabemos que o ciclo constante de dias e
traduzirmos por "mesmo sendo", então noites, semanas e meses, estações e anos é
Deus está dizendo: "Sem dúvida, eles me­ mantido pela rotação da Terra em seu pró­
recem o julgamento, pois seu coração é prio eixo e em sua órbita ao redor do Sol.
perverso. E persistir no pecado sem apren­ Deus assim o fez para que seu Universo fun­
der a lição desse dilúvio só mostra como cionasse com eficiência. Apesar de haver
são perversos. Porém, pela graça, não man­ miríades de galáxias dentre as quais poderia
darei outro dilúvio nem outra maldição so­ escolher, o Senhor optou por derramar a sua
bre a terra". graça sobre os habitantes de nosso planeta
Talvez ambas as declarações sejam ver­ Terra. "Ao S e n h o r pertence a terra" (Sl 24:1).
dadeiras. O importante é que Deus disse O Senhor também organizou o Universo de
essas palavras em resposta ao sacrifício de modo a sustentar tudo o que tem vida na
Noé, e que o sacrifício foi uma representa­ Terra, e isso inclui homens e mulheres que,
ção do sacrifício de Cristo (Hb 10:1-10; Ef com freqüência, se esquecem do cuidado
5:2). Tomando por base a expiação reali­ de Deus.
zada por Jesus Cristo na cruz, Deus podia A garantia de Gênesis 8:22 nos dá espe­
dizer: "Foi pago um preço pelos pecados rança e coragem ao enfrentarmos um futuro
do mundo, de modo que posso reter o jul­ incerto. Todas as noites, quando vamos para
gamento. Fez-se justiça, minha lei foi pre­ cama, ou sempre que viramos a folha do ca­
servada e posso usar de bondade para com lendário, devemos nos lembrar de que Deus
o mundo perdido. Não enviarei outro dilú­ se preocupa com o planeta Terra e com seus
vio para exterminar a raça humana. Antes, habitantes. Com a invenção da luz elétrica e
darei a eles minha grande salvação". dos meios de transporte e de comunicação
Isso não significa que Deus não julga o modernos, nosso mundo distanciou-se da
pecado hoje em dia nem que não haverá qual­ vida marcada pelos ciclos da natureza de­
quer julgamento futuro para o mundo. Ro­ terminados por Deus. Não vamos mais dor­
manos 1:18ss deixa claro que o julgamento mir quando o Sol se põe nem acordamos
de Deus já está sendo revelado contra os quando ele se levanta; se não gostamos de
pecadores mediante as conseqüências de como está o tempo no lugar onde nos en­
seus pecados. Deus os entregou à sua pró­ contramos, podemos viajar rapidamente para
pria escravidão de pecado e às conseqüên­ um clima diferente. No entanto, se Deus apa­
cias de seus pecados em seu próprio corpo. gasse o Sol, reorganizasse as estações ou in­
Um dos maiores julgamentos que Deus pode clinasse a Terra em outro ângulo, nossa vida
enviar aos pecadores é deixar que vivam à estaria em risco.
sua maneira e, depois, que paguem por isso Deus nos convida a viver um dia de cada
com a própria vida. No momento, é esse o vez. Jesus nos ensinou a orar: " o pão nosso
julgamento que o mundo está experimen­ de cada dia dá-nos hoje" (Mt 6:11) e a ser
tando. Haverá um futuro julgamento global, gratos por isso. "Como os teus dias, durará
G Ê N E S IS 8 65

a tua paz" (Dt 33:25; ver Mt 6:25-34). Quan­ aliança do Senhor com eles jamais será rom­
do os discípulos advertiram Jesus a não ir pida (Is 54:7-10).
oara Betânia, ele respondeu: "Não são doze Temos a tendência de não apreciar o va­
as horas do dia?" (Jo 11:9) Ele obedecia ao lor do nascer e do pôr-do-sol, da passagem
cronograma do Pai e vivia um dia de cada das fases da Lua e das mudanças das esta­
•ez, confiando que o Pai cuidaria dele. ções, mas todas essas funções não passam
A aliança do Senhor com o dia e a noite é de provas de que Deus está assentado em
especialmente significativa para o povo de seu trono, cumprindo suas promessas. Toda
israel, pois lhes serve de garantia do cuidado a criação proclama, dia após dia, estação
e da proteção de Deus, de modo que jamais após estação, a certeza do cuidado amo­
deixarão de ser uma nação (Jr 33:19-26). A roso de Deus. Podemos confiar em sua Pa­
promessa de Deus de que não enviará outro lavra, pois "nem uma só palavra falhou de
dilúvio é a segurança dos judeus de que a todas as suas promessas" (1 Rs 8:56).

Moisés usou essa abordagem quando intercedeu diante de Deus pelo povo pecador de israel: "Lembra-te de Abraão,

de Isaque e de IsraeJ" (Êx 32:13), e essa foi, freqüentemente, a oração de Neemias (Ne 13.14, 22, 29, 31). Pedir a Deus

para lembrar-se é fazê-lo recordar de suas promessas e apropríar-se delas (Sl 25:6, 7; 105:8, 42; 106:4, 45; 132:1;

136:23). Maria regozíjou-se, pois Deus íembrou-se de sua misericórdia (Lc 1:54, 55), e Zacarias cantou sobre isso
quando João Batista nasceu (Lc 1:72, 73). O nome Zacarias significa "Deus se lembra".

I. Para uma revisão da preocupação especial de Deus com os animais, ler a nota 11 do capítulo dois.

5. Ver Gênesis 28:15; Deuteronômio 4:31; 31:6; Josué 1:5; 1 Reis 8:57; 1 Crônicas 28:9, 20; Isaías 42:16; Mateus 28:20;
Hebreus 13:5.

-i. Quando Kay Orr era governador de Nebraska, deu-me o título de Almirante da Marinha de seu estado. Quando

perguntei a alguém que morava em Nebraska há muitos anos por que um estado sem saída para o mar possuía marinha,

ele me explicou que era pelo fato de encontrar-se sobre "um oceano de água", o que explica seus vastos sistemas de

irrigação agrícola. Nebraska também tem alguns dos mais ricos sítios arqueológicos de animais pré-históricos. Será isso

algo que devemos atribuir ao dilúvio? Talvez.

?. A partir do êxodo, o povo de Israel passou a ter tanto um calendário civil quanto um religioso. O ano civil começava

no sétimo mês (tisri), que eqüivale à nossa segunda quinzena de setembro e primeira quinzena de outubro;

contudo, de acordo com os padrões religiosos, o ano iniciava na Páscoa, no décimo quarto dia de nisã (Êx 12:2), que

corresponde à nossa segunda quinzena de março e primeira quinzena de abril. No entanto, nisã seria o sétimo mês
do ano civil, e o décimo sétimo dia do sétimo mês seria três dias depois da Páscoa, o dia da ressurreição de nosso

Senhor. Isso explica o motivo de Pedro haver associado a arca à ressurreição de Jesus Cristo (1 Pe 3:18-22), pois a

arca repousou no monte Ararate na mesma data em que nosso Senhor ressuscitou dentre os mortos.

t Desde o tempo dos patriarcas da igreja, os pregadores vêem as duas aves como ilustração das duas naturezas (e

disposições) presentes no filho de Deus, a carne e o espírito (Gl 5:16-26). Sem dúvida, a pomba caracteriza o Espírito

de Deus (M t 3:18).

Deus se preocupa com a salvação e devoção de toda a família, motivo pelo qual instruiu os país e as mães israelitas a

ensinar a Paiavra a seus filhos. Ver Deuteronômio 6:4-9 e Salmos 78:1-8; 102:28; 103:17,18; 112:1, 2. Em Pentecostes,
Pedro declarou que a promessa de Deus incluía os filhos, de modo que também pudessem crer e ser salvos (At 2:38,

39), e Paulo deu a mesma garantia ao carcereiro filipense (At 16:31). Não podemos crer no lugar de nossos filhos, mas

podemos prepará-los para que creiam.

; O holocausto também envolvia a expiação pelo pecado (Lv 1:4; Jó 1:5) e as ações de graças a Deus.

f Foi Deus quem proveu os sacrifícios, pois ordenou a Noé que levasse os animais limpos consigo na arca (Gn 7:2, 3).

Damos a Deus aquilo que antes recebemos deíe (1 Cr 29:14), não porque lhe falte algo (Sl 50:7-15) ou porque careça
de alguma coisa (At 17:24, 25). Nossas ofertas alegram o Senhor, mas não enriquecem a Deus pessoalmente. Antes,

o gesto de dar enriquece o adorador (Fp 4:18).


plano de Deus, mas especialmente a linha­
10 gem de Sem. Dessa linhagem nasceria
Abraão, o homem que Deus escolheu para
fundar a nação judaica. Dessa nação viria o
À V id a ! À V id a ! Redentor, que cumpriria a promessa de
Gênesis 3:1 5 e pisaria a cabeça da serpente.
G ê n e sis 9:1-17 Nas Escrituras, os filhos são descritos
como bênção e não como maldição. Ter
muitos filhos e netos era prova do favor de
Deus (Gn 24:60; Sl 127:3-5; 128:3, 4). Deus
prometeu a Abraão que sua descendência
V
seria como as estrelas do céu e a areia do
A vida! é uma das canções mais alegres de mar (Gn 15:5; 22:17), e os patriarcas pe­
/ " V Um violinista no telhado, o musical que diram a bênção da fertilidade sobre seus
dramatiza a vida dos judeus no vilarejo de herdeiros (Gn 28:3; 35:11; 48:4). O Senhor
Anatevka. fez uma aliança com Israel na qual daria a
Tevye, o leiteiro, e seus vizinhos eram in­ esse povo muitos filhos, se a nação obede­
defesos e pobres, e seu futuro na Rússia cesse às leis divinas (Lv 26:9; Dt 7:13).
czarista era incerto. Mas, ainda assim, cele­ Hoje em dia, muitas pessoas parecem
bravam a vida como uma alegre dádiva de não ter essa mesma atitude com relação aos
um Deus generoso. Fosse pelo anúncio de filhos. Desde a Guerra Revolucionária, ao
um noivado, pelo nascimento de um bebê longo de 200 anos de história norte-ameri­
ou até mesmo pela chegada de uma máqui­ cana, cerca de um milhão e duzentos mil
na de costura, os humildes moradores de militares foram mortos em nove grandes
Anatevka sempre encontravam motivos para guerras. Contudo, em apenas um ano, por
agradecer pelas bênçãos da vida. volta de um milhão e seiscentos mil bebês
Nesse parágrafo (Gn 9:1-17), Deus diri­ foram legalmente abortados nos Estados
giu-se aos oito sobreviventes do dilúvio e Unidos.1 Nos tempos bíblicos, os casais ju­
deu-lhes instruções sobre quatro áreas da deus nem sequer pensariam em abortar uma
vida. Apesar de, inicialmente, essas instru­ criança, independentemente de quão difí­
ções terem sido apresentadas a Noé e sua ceis fossem suas circunstâncias ou escas­
família, elas se aplicam a todas as pessoas, sos seus recursos. A vida era uma dádiva
de todas as idades e de todos os lugares. Tra­ de Deus, e os filhos, uma herança do Se­
tam-se de prescrições permanentes de Deus nhor, tesouros a ser protegidos e investidos
para toda a humanidade e não devem ser igno­ para a glória dele.
radas nem alteradas. A vida é preciosa e deve
ser levada com cuidado. 2. S u s t e n t a n d o a v id a (G n 9:2-4)
Uma pesquisa feita em 1900 mostrou que,
1. M u lt ip lic a n d o a v id a (G n 9:1, 7) para viver normalmente e sentir satisfação,
Quando Noé saiu da arca, era como um acreditava-se que era preciso possuir seten­
"segundo Adão" prestes a encabeçar um ta e dois itens. Cinqüenta anos depois, numa
novo começo para a raça humana na Terra. pesquisa semelhante, o total de itens che­
A fé no Senhor havia salvo Noé e sua família gou a quase quinhentos! No entanto, a Bíblia
da destruição, e seus três filhos iriam popu­ só apresenta duas coisas: "Tendo sustento
lar a Terra outra vez (v. 18). e com que nos vestir, estejamos contentes"
Deus havia dito a Adão e Eva: "Sede fe­ (1 Tm 6:8).
cundos, multiplicai-vos, enchei a terra" (Gn No sermão da montanha, Jesus ensinou a
1:28) e repetiu essa ordem duas vezes para mesma verdade quando falou sobre os pás­
Noé e sua família (Gn 9:1, 7). Todos os des­ saros e as flores (Mt 6:24-34). Se o Pai celeste
cendentes de Noé eram importantes para o cobre as flores de beleza e dá aos pássaros
G Ê N E S I S 9:1-17 67

seu alimento, certamente proverá comida e da Igreja primitiva que fossem cautelosos
\estimentas para seus próprios filhos tão quanto a comer carne (At 15:1 9-21; 24-29).3
queridos. "Pois vosso Pai celeste sabe que O conselho de Paulo foi o seguinte: rece­
necessitais de todas elas [estas coisas]" (Mt bam uns aos outros, amem uns aos outros,
6:32). não façam nada que leve outro a tropeçar
Quando Deus colocou Adão e Eva em e procurem edificar-se mutuamente na fé.
seu lar no jardim, deu-lhes frutas e plantas A abordagem era o amor - o objetivo, a
para alimento (Gn 1:29; 2:9, 16); mas, de­ maturidade.
pois do dilúvio, ampliou a dieta dos seres
humanos de modo a incluir carne. A harmonia 3. P ro teg en d o a v id a (Gn 9:5, 6)
natural da qual Adão e Eva haviam desfruta­ Depois de instruir Noé sobre o derramamen­
do no jardim já não existia mais, pois Noé e to de sangue animal, o Senhor prosseguiu
sua família não tinham "domínio" sobre os discutindo um assunto ainda mais importan­
animais (Gn 1:26, 28). Os animais passariam te: o derramamento de sangue humano. Até
a temer os seres humanos e a fazer todo o então, a humanidade não tinha um histórico
possível para fugir da ameaça de morte. Uma muito bom no que se referia a cuidar uns
\ez que a maior parte dos animais se repro­ dos outros. Caim havia assassinado o irmão,
duz rapidamente e que seus filhotes também Abel (Gn 4:8); Lameque havia assassinado
não demoram a alcançar a maturidade, os um rapaz e se vangloriado disso (vv. 23, 24);
animais poderiam facilmente ter ultrapassa­ e a Terra havia se enchido de toda espécie de
do a população humana, de modo que Deus violência (Gn 6:11, 13). Deus colocou no
colocou nos animais o medo do homem. coração dos animais o medo dos seres huma­
Caim era lavrador, Abel era pastor, mas Noé nos, mas pôs o temor de Deus no coração
e seus filhos eram caçadores. dos seres humanos para que não destruís­
No entanto, Deus impôs uma restrição sem uns aos outros!
sobre o uso de carne animal para alimento: Aqueles que matarem outro ser huma­
não deveria conter sangue (Gn 9:4). Deus no terão de prestar contas de seus atos a
declarou a Noé, de modo conciso, aquilo Deus, pois homens e mulheres são criados
que explicaria em mais detalhes por meio de à imagem de Deus.4Atacar um ser humano
Moisés: a vida encontra-se no sangue e deve é o mesmo que atacar a Deus, e o Senhor
ser respeitada, mesmo ao abater um animal trará julgamento sobre o transgressor. Toda
para usá-lo como alimento. (Ver Lv 3:17; vida é uma dádiva de Deus, e tomar uma
” 26, 27; 17:10-14; 19:26; Dt 12:16, 23-25; vida significa tomar o lugar de Deus. O Se­
15:23).2 Nessa restrição, Deus revelou, mais nhor dá a vida e, assim, só ele tem o direito
jma vez, sua preocupação com a vida ani­ de autorizar que seja tirada (Jó 1:21).
mal. A vida está no sangue, ela vem de Deus Mas de que modo Deus providenciou
e deve ser respeitada. Além disso, o sangue um castigo para os assassinos e para que se
dos animais seria importante para a maioria fizesse justiça? Estabeleceu um governo hu­
dos sacrifícios mosaicos, de modo que era mano na Terra e, ao fazê-lo, compartilhou
preciso tratá-lo com reverência. com a humanidade o poder assustador de
Jesus ensinou que era permitido comer tomar a vida de seres humanos. Esse é o
:odo tipo de alimento (M c 7:1-23), e tanto conteúdo da ordem de Deus em Gênesis
Pedro (At 10) quanto Paulo (1 Tm 4:3, 4; 9:6. O governo humano e a pena capital
Ci 2:16) reafirmaram esse fato. Porém, a andam juntos, conforme Paulo explicou em
igreja primitiva ainda enfrentava divergên­ Romanos 13:1-7. As autoridades governa­
cias sobre as questões alimentares (Rm mentais têm consigo a espada e o direito de
^4:1 - 15:7). Para evitar que os cristãos usá-la.
gentios escandalizassem os cristãos judeus Sob o regime da lei no Antigo Testamen­
d j aqueles que estavam começando a bus­ to, não havia qualquer tipo de força policial
car ao Senhor, foi aconselhado aos cristãos como a conhecemos. Se era cometido um
68 G Ê N E S I S 9:1-1 7

homicídio, cabia à família da vítima encon­ Ninguém sabe quantas pessoas pensam duas
trar o culpado e levá-lo à justiça. Há uma vezes antes de cometer um crime quando
diferença entre homicídio doloso (intencio­ ficam sabendo das penas, caso sejam conde­
nal) e homicídio culposo (involuntário) (Êx nadas. A lei também ajuda a proteger e a
21:12-14), de modo que o Senhor instruiu a compensar pessoas inocentes vítimas de
nação de Israel a criar seis cidades de refúgio comportamentos ilegais.
para onde uma pessoa acusada de homicí­ Nem tudo o que é legal é bíblico. Inde­
dio poderia fugir em busca de segurança (Nm pendentemente daquilo que filósofos, par­
35:6-34; Dt 19:1-13). Os anciãos da cidade lamentares e tribunais possam dizer, o
protegeriam o acusado até que o caso fosse mandamento de Deus para a prática da
investigado. Se fosse considerado culpado, a pena de morte começa com as palavras
família da vítima poderia realizar a execução. "se alguém". Essa lei foi dada por Deus,
Uma vez que o assassino havia derramado portanto deve ser respeitada e obedecida
sangue, o sangue dele também deveria ser por todas as pessoas.
derramado.
Deus instituiu o governo, pois o cora­ 4. D e s f r u t a n d o a v id a (G n 9:8-17)
ção humano é perverso (Gn 6:5), e o medo Esta seção é o que os teólogos chamam de
do castigo pode refrear possíveis infratores "Aliança com Noé". Apesar de Deus falar
da lei. A lei é capaz de impor limites, mas especificamente a Noé e a seus filhos, essa
não de regenerar; somente a graça de Deus aliança inclui todos os descendentes de Noé
é capaz de transformar o coração humano (v. 9), sendo válida "para perpétuas gera­
(jr 31:31-34; Hb 8:7-13). No entanto, se in­ ções" (v. 12). Contudo, a aliança não pára
divíduos, famílias ou grupos tivessem per­ por aí, pois também inclui todos os seres
missão de tratar com criminosos a seu vivos (vv. 10, 12) e refere-se a "todos os
modo, a sociedade viveria num estado cons­ seres viventes de toda carne" (v. 15). Seres
tante de caos. O governo humano tem suas humanos, aves, animais domésticos e selva­
fraquezas e limitações, mas é melhor do gens são todos incluídos nessa maravilhosa
que a anarquia e do que permitir que cada aliança.
um faça aquilo que considera mais reto aos Nela, Deus prometeu, de modo irres­
seus próprios olhos (Jz 17:6; 18:1; 19:1; trito, que jamais mandaria outro dilúvio para
21:25).5 destruir toda a vida na Terra. E, como se
Deus ordenou e estabeleceu três institui­ desejasse dar ênfase ao fato, declarou três
ções aqui na Terra: o casamento e a família vezes "não mais" (vv. 11, 15). Ele não apre­
(Gn 1:26-28; 2:18-25), o governo humano sentou qualquer condição a que homens e
(Gn 9:5, 6) e a Igreja (Mt 16:13-19; At 2). mulheres precisariam obedecer; simples­
Cada uma tem sua esfera de responsabilida­ mente declarou o fato de que não haveria
des, e uma não pode substituir a outra. A mais dilúvios universais. Daquele dia em
Igreja empunha a espada do Espírito (Hb diante, Noé e sua família poderiam desfru­
4:12), não a espada da justiça (Rm 13:4; Jo tar a vida e não se preocupar cada vez que
18:36); porém, se o governo interfere em começasse a chover.
questões referentes à consciência cristã, os Uma aliança com a criação. Nessa alian­
cristãos têm o direito de desobedecer (At ça, o Senhor mencionou, pelo menos qua­
4:18-20). tro vezes, "todos os seres viventes". Com
Aqueles que se opõem à pena de morte isso, referia-se aos animais e aves que Noé
perguntam: "A pena de morte reprime a havia mantido em segurança na arca duran­
criminalidade?" Mas será que qualquer lei, te o dilúvio (v. 10). Mais uma vez, somos
inclusive as leis de trânsito, é capaz de refre­ lembrados da preocupação especial de
ar a criminalidade? Talvez não tanto quanto Deus com os animais.
gostaríamos, mas a punição de criminosos Quando o apóstolo João contemplou
ajuda a sociedade a respeitar a lei e a justiça. a sala do trono no céu, viu quatro "seres
G Ê N E S I S 9:1-17 69

viventes" incomuns adorando perante o tro­ de "a multiforme graça de Deus" (1 Pe 4:10).
no do Senhor, sendo que cada um se parecia A palavra grega traduzida como "multiforme"
com um animal diferente (Ap 4:6, 7). O pri­ significa "variada, de muitas cores, sortida".
meiro era semelhante a um leão; o segundo, O arco-íris nos lembra da aliança bondosa
a um novilho; o terceiro tinha o rosto de um de Deus e da "multicolorida" graça divina.
homem; e o quarto era semelhante a uma Vamos refletir um pouco mais sobre essa
águia. Essas quatro aparências representam idéia. Se o arco-íris nos faz lembrar da fide­
os quatro tipos de criatura com as quais lidade e da graça de Deus, então por que
Deus fez essa aliança: os animais selvagens, nos afligimos e nos preocupamos? Deus não
os animais domésticos, os seres humanos e prometeu que jamais passaremos por tem­
as aves (ver Gn 9:9, 10). Essas criaturas en­ pestades, mas prometeu que as tempesta­
contram-se perpetuamente representadas des não nos destruiriam. "Quando passares
diante do trono de Deus, pois o Senhor se pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos
preocupa com sua criação. Elas nos fazem rios, eles não te submergirão" (Is 43:2). Não
lembrar que toda a criação adora e louva ao temos o que temer quando as nuvens apare­
Senhor, que provê para todas as criaturas e cem e o Sol se esconde.
alegra-se com sua adoração.6 Ao pensar no arco, lembramo-nos de que
Um sinal da aliança. Para ajudar seu ele é um instrumento de guerra. No entanto,
oovo a lembrar-se das alianças com ele, Deus Deus o transformou num símbolo de sua gra­
lhes dava um sinal visível. Sua aliança com ça e de fidelidade, numa garantia de paz.
Abraão foi selada com o sinal da circunci­ Deus certamente poderia voltar contra nós
são (Gn 17:11; Rm 4:9-12), e a aliança com o arco da justiça, pois transgredimos sua lei
Moisés no Sinai, com o sinal do sétimo dia e merecemos ser julgados. No entanto, ele
de cada semana (Êx 31:16, 17). A aliança voltou seu arco para o céu e tomou o castigo
de Deus com Noé e a criação animal foi sobre si! Quando Jesus morreu na cruz, foi o
selada com o sinal do arco-íris. Sempre que Justo quem sofreu pelo injusto (1 Pe 3:18) e
as pessoas vissem o arco-íris, poderiam se levou sobre si o sofrimento que nos perten­
embrar da promessa de Deus de não enviar cia por direito. Os arco-íris são universais;
-nais tempestades que se tornassem um di­ podem ser vistos no mundo todo. A graça
lúvio mundial para destruir a humanidade. multiforme de Deus é suficiente para o mun­
Mark Twain e seu amigo William Dean do todo e precisa ser anunciada a toda a
Howells saíram da igreja exatamente quan­ Terra. Afinal, Deus amou o mundo (Jo 3:16),
do estava começando um forte temporal. e Cristo morreu pelos pecados do mundo
Howells perguntou: (1 Jo 4:10, 14).
— Será que vai parar? Mas o arco-íris não foi feito para ser visto
— Até hoje, sempre parou — Mark Twain apenas por nós, pois o Senhor disse: "eu vê-
'espondeu. lo-ei" (Gn 9:16). Certamente, Deus não se
Ele estava certo: os temporais sempre ces­ esquece de suas alianças com seu povo, mas
sam. Isso porque Deus fez uma aliança e ele essa é apenas outra forma de nos garantir
sempre cumpre sua palavra. que não precisamos temer. Quando vemos
Deus falou do arco-íris como se Noé e um arco-íris, sabemos que o Pai também está
sua família já o conhecessem, de modo que olhando para ele e, assim, ele se torna uma
era algo que devia existir antes do dilúvio. ponte que une o Pai a seus filhos.
Os arco-íris são formados pela luz do Sol Três arco-íris. Três homens nas Escrituras
~!írada pela água no ar, sendo que cada gota viram arco-íris importantes. Noé viu o arco-
:ransforma-se num prisma e separa as cores íris depois da tempestade, como o povo de
nresentes na luz branca do Sol. Os arco-íris Deus vê hoje em dia. O profeta Ezequiel viu
são frágeis, porém belos, e ninguém precisa o arco-íris no meio da tempestade, quando
oagar para vê-los! Suas cores maravilho­ teve a visão extraordinária das rodas e do
sas nos falam daquilo que Pedro chamou trono (Ez 1:28). Ezequiel também viu seres
70 G Ê N E S I S 9:1-17

viventes e cada um tinha quatro rostos! Um versão de Romanos 8:28 apresentada no


era semelhante ao de um homem, outro ao Antigo Testamento.
de um leão, outro ao de um novilho [N.T.: A A aliança de Deus com a criação afeta
versão Almeida Revista e Atualizada ( a r a ) todos os seres vivos da Terra. Sem ela, não
diz que um dos rostos era semelhante ao haveria certeza da continuidade da natureza
de "querubim", não de novilho, sendo que, de a cada dia e a cada estação. Jamais sabería­
acordo com a nota explicativa da Living Bible, mos, ao certo, quando viria a próxima tem­
a tradução "novilho" é literal (Ez 10:14)] e o pestade e se seria a última.
outro ao de uma águia - os mesmos rostos Deus deseja que desfrutemos as bênçãos
que João viu (Ap 4:6, 7). da vida natural e espiritual, pois ele "tudo
É claro que o apóstolo João viu o arco- nos proporciona ricamente para nosso
íris antes de vir a tempestade do julgamento aprazimento" (1 Tm 6:17). Quando você
(Ap 4:3). Na realidade, João viu um arco- conhece Jesus Cristo como seu Senhor e Sal­
íris completo ao redor do trono de Deus! vador, o mundo natural a seu redor passa a
Na Terra, vemos apenas "em parte", mas um ser muito mais maravilhoso, pois o Criador
dia - no céu - veremos as coisas em sua tornou-se seu Pai.
plenitude, como elas são de fato (1 Co Quando já era de idade, o evangelista
13:12). norte-americano D. L. Moody contava so­
A lição pessoal para o povo de Deus é bre sua conversão na adolescência. "Estava
esta: durante as tempestades da vida, olhe em um novo mundo. Na manhã seguinte, o
sempre para o arco-íris da promessa da Sol brilhou com mais intensidade, e as aves
aliança de Deus. Assim como João, pode cantaram com mais dulçor [...] os velhos
ser que você veja o arco-íris antes da tem­ olmos agitaram seus galhos em contenta­
pestade; como Ezequiel, pode ser que mento, e toda a natureza estava em paz.
você o veja no meio da tempestade ou, Foi a mais deliciosa alegria que já havia ex­
como Noé, pode ser que tenha de esperar perimentado."7
até depois da tempestade. No entanto, O Deus da criação é o Deus da salvação.
sempre verá o arco-íris da promessa de Confie em Jesus Cristo e poderá cantar de
Deus, se olhar com os olhos da fé. Essa é a coração: "Este é o mundo de meu Pai".

1. Ver Z u c k , Roy B. Precious in His Sight: Childhood and Chiídren in the Bible. Baker, 1996, p. 71. Todo pai e mãe, pastor,

obreiro que trabalha com crianças e professor de crianças deve ler esse livro.
2. "Mas você não deve comer a carne de um animal que ainda está vivo." É assim que Stephen Mitchel! traduz Gênesis

9:4, em Cenesis: A New Transiation of the Classic Biblical Stories (Nova York: Harper Collins, 1996, p. 17). Uma vez que
o sangue é a vida, então a carne com sangue ainda é considerada viva.

3. O que estava em debate na reunião em Jerusalém relatada em Atos 15 não era uma questão de saúde, mas sim de

teologia: um gentio deveria tornar-se judeu a fim de ser cristão? A resposta, obviamente, é um alto e bem claro "não". A

pergunta relacionada a essa e sobre a qual Paulo discorreu em Romanos 1 4 - 1 5 era: "O cristão deve viver como judeu

a fim de ser um bom cristão?". Tratava-se de uma questão de amor pessoal: não fazer nada que pudesse levar os cristãos
mais fracos a tropeçar, mas não permitir que permanecessem fracos. Ajudá-los a ver a verdade e a ter fé para lhe obedecer.

4. De acordo com a lei de Moisés, se um animal matava um ser humano, o animal devia ser morto. Caso já se tivesse
conhecimento de que o animal era perigoso, mas este não estivesse preso, o dono do animal também corria o risco
de perder sua vida. Ver Êxodo 21:28-32.

5. Para um estudo bíblico da pena de morte, ver William H. Baker, On Capital Punishment (Chicago: M oody Press, 1985).

Ver também o ensaio magistral de C. S. Lewis, The Humanitarian Theory of Punishment, em C od in the Dock: Essays

on Theology and Ethics, editado por Walter Hooper. Crand Rapids: Eerdmans, 1970, p. 287-94.

6. O Salmo 104 enfatiza que toda a criação depende de Deus e o adora, inclusive as feras do campo (vv. 11, 21), as aves
(vv. 12, 17), os animais que pastam (v. 14) e os seres humanos (vv. 14, 23).

7. C ur t is , Ricbard K. Jhey Called Him Mr. Moody. Crand Rapids: Eerdmans, 1967, p. 53.
pode sentir-se tentado a pular essas listas
11 de nomes desconhecidos, mas isso não di­
minui a importância deles. Essas "pessoas
desconhecidas" fundaram nações que se
O R esto da H ist ó r ia relacionaram entre si ao longo da história da
Bíblia e ajudaram a cumprir os propósitos
G ênesis 9 :1 8 - 10:32 de Deus aqui na Terra. Os descendentes
de Sem - o povo de Israel - desempe­
nharam um papel importanté no palco da
história.
Desgraça (w . 20, 21). Ao tornar-se um
lavrador, Noé seguiu a vocação de seu pai,
ou um leitor inveterado de biografias e Lameque (Gn 5:28, 29). Apesar de a Bíblia
de autobiografias e muitas vezes me ar­ condenar a embriaguez (Pv 20:1; 23:19-21,
rependi de ter virado a página de um livro j 29-35; Is 5:11; Hc 2:1 5; Rm 13:13; 1 Co 6:10;
só para descobrir algum "podre" de uma j Ef 5:18), ela não condena o cultivo e o con­
pessoa que admirava. Nas palavras do j sumo de uvas nem o hábito de beber vinho.
colunista norte-americano Russel Baker: "O i As uvas, passas e vinho eram elementos im­
problema do biógrafo é que ele nunca sabe | portantes da dieta dos povos do Oriente. Na
o suficiente. O problema do autobiógrafo é verdade, na sociedade do Antigo Testamen­
que ele sabe demais".1 Contudo, quando to, o vinho era considerado uma bênção de
Deus escreve a história, ele sabe tudo so- j Deus (Sl 104:14, 15; Dt 14:26) e era usado
bre todos e sempre diz a verdade - e ele o j até mesmo com os sacrifícios (Lv 23:1 3; Nm
faz para nosso próprio bem. 28:7).
A história de Noé e de sua família deslo­ Vemos, aqui, a primeira vez que o vinho
ca-se do arco-íris para as sombras, e vemos é mencionado nas Escrituras, mas a produ­
os pecados vergonhosos de um grande ho­ ção de vinho já era realizada antes do dilú­
mem de fé. O Dr. William Culbertson, que vio, e Noé sem dúvida sabia o que podia lhe
durante muitos anos foi presidente do Insti­ acontecer se bebesse vinho demais. Numa
tuto Bíblico Moody, em Chicago, com fre­ tentativa de exonerar Noé de culpa, alguns
qüência encerrava suas orações públicas estudiosos afirmam que o dilúvio causou
dizendo: "Senhor, nos ajude a terminar bem". uma transformação na atmosfera da Terra, e
Deus respondeu a essa oração do Dr. Cul­ isso levou o suco de uva a fermentar pela
bertson, mas nem todo cristão que agora primeira vez; no entanto, essa defesa não é
está no céu terminou a corrida ouvindo Deus muito sólida. Noé colheu as uvas, espremeu-
dizer: "Muito bem!" Sejamos, porém, bon­ as no lagar, colocou o suco em odres e espe­
dosos e nos lembremos da advertência de rou que fermentasse.
Paulo: "Aquele, pois, que pensa estar em Tanto sua embriaguez quanto sua nu­
pé veja que não caia" (1 Co 10:12). Afinal, dez foram vergonhosas, e as duas coisas
Noé não achava que isso poderia aconte­ com freqüência andam juntas (Gn 19:30-
cer com ele! 38; Hc 2:15, 16; Lm 4:21). O álcool não é
um estimulante, é um narcótico; quando o
1. U m a t r a g é d ia f a m ilia r (G n 9:18-23) cérebro é afetado pelo álcool, a pessoa per­
O índice para "o resto da história" encon­ de o autocontrole. Pelo menos Noé estava
tra-se nos versículos 18 e 19. Os persona­ em sua própria tenda quando isso aconte­
gens principais são relacionados - Noé, ceu, não em algum lugar público. No entan­
Sem, Cam e Jafé, e o tema principal dessa to, quando pensamos em quem ele era (um
seção é enunciado: de que modo a família pregador da justiça) e no que havia feito
de Noé multiplicou-se e espalhou-se pela (salvo sua família da morte), seu pecado
Terra. Um leitor contemporâneo da Bíblia torna-se ainda mais repulsivo.
72 G Ê N E S I S 9:18 - 10:32

A Bíblia não apresenta desculpas para os Por que um filho mostraria tamanho desres­
pecados dos santos, mas sim os menciona peito para com o pai? Apesar de Cam ser o
como advertências para que não façamos mais jovem dos três, talvez representasse,
como eles (1 Co 10:6-13). Como disse no Antigo Testamento, o equivalente ao ir­
Spurgeon: "Deus nunca permite que seus fi­ mão mais velho do filho pródigo na parábola
lhos pequem com sucesso". Há sempre um de Lucas 15:25-32, zangado com o pai por
preço a ser pago. não haver recebido alguma coisa. Com esse
Em duas ocasiões, Abraão mentiu sobre gesto, Cam revelou uma fraqueza de seu
a esposa (Gn 12:10-20; 20:1ss),e o filho, caráter, algo que poderia aparecer em seus
Isaque, seguiu seu mau exemplo (26:6-16). descendentes.
Moisés perdeu a calma e, como resultado, Decência (v. 23). Em vez de rir junto com
foi privado do privilégio de entrar na Terra o irmão e de ir ver a cena humilhante, Sem e
Santa (Nm 20:7-13). Josué tirou conclusões Jafé demonstraram amor pelo pai ao colocar
precipitadas e acabou defendendo o inimi­ em prática o que diz Provérbios 10:12: "O
go (Js 9 - 10). Davi cometeu adultério com amor cobre todas as transgressões" (ver 1 Pe
Bate-Seba e providenciou para que o mari­ 4:8). Juntos, os irmãos seguraram uma ves­
do dela fosse morto na guerra (2 Sm 11); a timenta atrás de si, entraram de costas na
espada trouxe sofrimento à sua família nos tenda olhando para outra direção e cobri­
anos que se seguiram. ram o corpo nu de Noé. "O que encobre a
Noé não planejou embriagar-se e expor- transgressão adquire amor" (Pv 17:9), e "o
se vergonhosamente, mas, de qualquer prudente oculta a afronta" (Pv 12:16).
modo, foi o que aconteceu. Os japoneses O amor não purifica do pecado, pois isso
têm um provérbio muito apropriado: "Pri­ é algo que só pode ser feito pelo sangue de
meiro o homem toma um trago, depois o Cristo (1 Jo 1:7). O amor também não é co­
trago toma um trago e, então, o trago toma nivente com o pecado, pois o amor quer o
o homem". melhor de Deus para os outros. Contudo, o
Desrespeito (v. 22). Cam não deveria ter amor cobre o pecado e não sai por aí ex­
entrado na tenda do pai sem ser convidado. pondo-o e incentivando outros a espalhar
Chamou o pai e não ouviu uma resposta? más notícias. Quando uma pessoa peca e
Perguntou a si mesmo se Noé estava doen­ nós ficamos sabendo, nossa tarefa é ajudar a
te ou talvez morto? Sabia que Noé havia restaurar essa pessoa em sua fraqueza espi­
bebido vinho? Há certas perguntas a que o ritual (Gl 6:1, 2). Já foi dito que, no campo
texto não responde, de modo que é inútil de batalha da vida, os cristãos têm a ten­
tentar especular. Uma coisa é certa: Cam dência de chutar os feridos, e muitas vezes
desrespeitou o pai. isso é verdade. Porém, antes de condenar os
A forma como as pessoas reagem ao pe­ outros, é melhor que pensemos em nossos
cado e à vergonha de outros é uma indica­ próprios atos, pois todos nós estamos sujei­
ção de seu caráter. Cam poderia ter espiado tos a nos portar de modo impróprio para um
na tenda, visto rapidamente qual era a situa­ cristão.
ção e coberto o corpo do pai, sem comentar
o incidente com ninguém. Em vez disso, pa­ 2. A PROFECIA SOBRE A FAMÍLIA
receu ter se divertido com a cena e, em se­ (G n 9:24-29)
guida, foi contá-la aos dois irmãos de modo Quando Noé despertou de sua bebedei­
um tanto desrespeitoso. É possível que ti­ ra, provavelmente ficou envergonhado
vesse até sugerido que os outros fossem lá com o que havia feito; mas também ficou
olhar. surpreso de ver que estava coberto com
Moisés ainda não havia dito: "Honra teu uma vestimenta. Naturalmente, ficou ima­
pai e tua mãe" (Êx 20:12), mas certamente ginando o que havia acontecido na tenda
esse é um impulso natural dos filhos e deve­ enquanto dormia. Pela lógica, falou com
ria ter estado presente no coração de Cam. Jafé, seu primogênito. É provável que Jafé
G Ê N E S I S 9:18 - 1 0:32 73

e Sem tenham contado a Noé o que Cam apesar de seus caminhos maus, alguns des­
havia feito. ses povos descendentes de Cam formaram
Essa declaração de Noé são suas únicas grandes civilizações avançadas, como a dos
palavras registras nas Escrituras. É uma pena babilônios, dos assírios e dos egípcios. Em
que esse breve discurso tenha sido distor­ certo sentido, podemos dizer que os des­
cido e interpretado incorretamente como cendentes de Cam "serviram" o mundo
uma "maldição", pois aquilo que Noé disse todo através das idéias e implementos que
teve muito mais o caráter de profecia de um descobriram e desenvolveram. Assim como
pai sobre seus filhos e netos. A palavra "mal­ os descendentes de Caim (Gn 4:1 7-24), es­
dito" só é usada uma vez, mas refere-se a sas nações foram dotadas de talento para
Canaã, o filho mais novo de Cam, e não ao criar coisas para este mundo (Lc 16:8).
próprio Cam. Isso indica que Noé estava Sem - enriquecimento (v. 26). Noé não
descrevendo o futuro de seus filhos e de um abençoou Sem. Sua bênção foi para "o Se­
de seus netos tomando por base o que via n h o r , Deus de Sem". Ao fazê-lo, Noé deu

no caráter deles, algo não muito diferente do glória a Deus por aquilo que faria com os
que Jacó fez antes de morrer (Gn 49). descendentes de Sem. Noé reconheceu dian­
Canaã - escravidão (v. 25). Se a intenção te de seus filhos que tudo o que Sem viesse
de Noé fosse proferir uma maldição, teria a possuir seria dádiva de Deus e quaisquer
sido sobre Cam, o filho que havia pecado que fossem as bênçãos que trouxesse ao
contra seu pai. Contudo, em vez disso, citou mundo no futuro, elas seriam resultantes da
0 nome de Canaã três vezes. Era um prin­ graça de Deus.
cípio da lei judaica posterior que os filhos Sem é, obviamente, antepassado de
podiam ser castigados pelo pecado de seus Abraão (Gn 11:10-32), o qual, por sua vez,
pais (Dt 24:16; Jr 31:29, 30; Ez 18:1-4), e é fundou a nação hebraica, de modo que Noé
bem provável que isso também estivesse em estava se referindo ao povo hebreu. A pro­
vigor no tempo dos patriarcas.2 messa do Senhor de que enriqueceria espi­
Ao olhar para os séculos futuros, Noé ritualmente o povo de Israel foi feita a
predisse três vezes que os descendentes de Abraão (Gn 12:1-3) e, mais tarde, explicada
Canaã tornar-se-iam servos desprezíveis.3Os por Paulo (Rm 3:1-4; 9:1-13). É por inter­
cananeus aparecem na relação de Gênesis médio de Israel que temos conhecimento
10:15-19 e são justamente as nações que do verdadeiro Deus, que nos foi dada a
Israel conquistou e em cujas terras habitou Palavra de Deus, e temos o Salvador Jesus
iGn 15:18-21; Êx 3:8, 17; Nm 13:29; Js 3:10; Cristo, que nasceu em Belém, da tribo de
1 Rs 9:20). É difícil descrever a corrupção Judá. Em hebraico, Sem significa "nome", e
moral da sociedade cananéia, especialmen­ é o povo de Israel que preserva o nome do
te a degeneração de suas práticas religiosas. Senhor.
No entanto, as leis apresentadas em Levítico Sem era o segundo filho de Noé (Gn 9:24;
18 podem dar uma idéia de como aquele 10:21), mas sempre que aparecem os no­
povo vivia.4 Deus advertiu os judeus a não mes dos três filhos, o de Sem é colocado
ser condescendentes com o modo de vida primeiro (Gn 5:32; 6:10; 9:18; 10:1; 1 Cr 1:4).
cananeu, ordenando que destruíssem tudo Trata-se de mais um caso em Gênesis no qual
o que poderia tentá-los nesse sentido (Êx a graça de Deus elevou o segundo filho à
34:10-17; Dt 7). posição de primogênito. Deus escolheu
Há duas idéias equivocadas que devem Abel em lugar de Caim (Gn 4:4, 5), Isaque
ser esclarecidas. Em primeiro lugar, os des­ em lugar de Ismael (Gn 17:15-22) e Jacó
cendentes de Cam não eram membros da em lugar de Esaú (Gn 25:19-23). Paulo dis­
raça negra, mas sim caucasianos, de modo cute essa profunda questão teológica em
que não há qualquer fundamento para a Romanos 9.
instituição da escravidão nessa chamada Jafé - expansão (v. 27). Ele foi o ancestral
"maldição de Canaã". Em segundo lugar, das nações que normalmente chamamos de
74 G Ê N E S I S 9:18 - 10:32

"gentias". Há, aqui, um jogo de palavras, pois, explicar como, depois do dilúvio, a Terra
no hebraico, o nome Jafé é muito parecido voltou a ser povoada pelos descendentes
com a palavra que significa "expandir". Os dos três filhos de Noé. Pode-se encontrar
descendentes de Cam construíram grandes uma lista semelhante (porém não idêntica)
civilizações no leste, e os semitas assentaram- em 1 Crônicas 1.
se nas terras de Canaã e territórios vizinhos. Cuidado! Antes de verificar alguns deta­
Já os descendentes de Jafé espalharam-se lhes deste capítulo e de procurar tirar dele
para lugares muito mais distantes que seus algumas lições espirituais, precisamos usar
parentes e chegaram até as regiões que co­ de cautela com algumas questões.
nhecemos hoje como Ásia Menor e Europa. Em primeiro lugar, essa listagem não é
Eram um povo que se multiplicaria e se mu­ uma genealogia típica, que apresenta ape­
daria para novos territórios. nas o nome dos descendentes. O escritor
Porém, apesar de os descendentes de Jafé nos lembra de que esses povos antigos eram
serem bem-sucedidos em suas conquistas, organizados "segundo as suas famílias, se­
no que se tratava de questões espirituais, gundo as suas línguas, em suas terras, em
dependiam de Sem. Deus é o Deus de Sem, suas nações" (Gn 10:31). Em outras pala­
e os descendentes de Jafé podiam encontrar vras, trata-se de uma genealogia acrescida
a Deus "nas tendas de Sem". Israel foi esco­ de um atlas e de um livro de história. Por
lhido por Deus para ser "luz para os gentios" meio dela, observamos os movimentos dos
(Is 42:6; 49:6), pois "a salvação vem dos povos e das nações no mundo antigo.
judeus" (Jo 4:22). É triste dizer que, em sua Em segundo lugar, a listagem não é com­
maior parte, a nação de Israel não deu tes­ pleta. Não encontramos menção, por exem­
temunho aos gentios para que pudessem plo, a Edom, Moabe e Amom e, no entanto,
vir a crer no Deus vivo e verdadeiro (Is 52:5; trata-se de nações importantes na história
Rm 2:24). bíblica. O fato de haver setenta nações na
Quando Jesus veio à Terra, trouxe luz lista sugere que sua organização pode ser
para os gentios (Lc 2:32), e os apóstolos da intencionalmente artificial, abordagem usa­
Igreja primitiva levaram essa luz às nações da com freqüência ao se fazer esse tipo de
(At 1:8; 13:47). Descendentes dos três filhos lista.6 Havia setenta pessoas na família de
de Noé encontravam-se representados na Jacó quando esta foi para o Egito (Gn 46:27;
Igreja primitiva: o tesoureiro etíope, descen­ Êx 1:5), e o Senhor Jesus enviou setenta dis­
dente de Cam (At 8:26ss),5 Paulo, descen­ cípulos para pregar a Palavra (Lc 10:1).
dente de Sem (At 9) e Cornélio e sua família, Em terceiro lugar, é difícil identificar al­
descendentes de Jafé (At 10). gumas dessas nações e dar-lhes nomes
Noé viveu mais três séculos e meio, e "modernos". Ao longo dos séculos, pode
temos bons motivos para crer que ele andou acontecer de nações mudarem de nome,
com Deus e serviu-o fielmente. No que se irem para outros lugares, modificarem sua
refere aos registros escritos, caiu em uma linguagem e até mesmo alterarem sua com­
ocasião, mas certamente se arrependeu, e o posição racial por meio de miscigenação.
Senhor o perdoou. Em nossa caminhada com Os descendentes de Jafé (w . 2-5). São
Deus, subimos os montes e, por vezes, des­ apresentados sete filhos e sete netos de ape­
cemos até os vales. Como Ceorge Morrison nas dois desses filhos. Isso significa que os
costumava dizer: "A vida é uma série de outros cinco não tiveram filhos ou que se
recomeços". trata de mais uma evidência de abordagem
seletiva do compilador? Jafé é o ancestral
3. U m le g a d o de f a m ília ( G n 10:1-32) das nações gentias que se assentaram ao nor­
Este capítulo é conhecido como "tabela das te e oeste da terra de Canaã. Essas viriam a
nações" e é um material singular nos anais ser as nações que representavam os "confins
da história antiga. O propósito do capítulo é da terra" para a maior parte dos judeus do
apresentado no início (v. 1) e no final (v. 32): Antigo Testamento (Sl 72:8-10).
G Ê N E S I S 9:18 - 10:32 75

Os descendentes de Cam (w. 6-20). Cuxe no capítulo 11. No entanto, alguns estudio­
é o nome dado à antiga Etiópia (não à nação sos acreditam que essa divisão refere-se a
moderna); Mizraim corresponde ao Egito, e uma divisão específica dos continentes e
Pute, possivelmente à Líbia. Já mencionamos reposicionamento de grandes porções de
anteriormente os povos de Canaã. Os des­ terra.9
cendentes de Cam assentaram-se em regiões Importância. Essa lista de nomes e de
que identificamos como Egito, Palestina, lugares contém certas verdades teológicas
Sudão, Arábia Saudita e lêmen. importantes, sendo que uma das mais rele­
Neste ponto da listagem, encontramos vantes é o fato de que jeová é o Senhor das
um "parêntese" que trata de um homem fa­ nações. Deus deu sua herança às nações (Dt
moso chamado Ninrode, fundador de um 32:8), "havendo fixado os tempos previamen­
grande império (vv. 8-12). Ele é mencionado te estabelecidos e os limites da sua habita­
porque as nações que fundou tiveram papel ção" (At 17:26). Apesar de déspotas como
importante na história de Israel e, também, Ninrode, Jeová é o Deus acima da geografia
porque uma delas (Babel) é discutida na se­ e da história. É ele quem está no controle.
ção seguinte de Gênesis. Aquilo que Deus promete, ele cumpre. A pro­
Ninrode é chamado de "poderoso na ter­ fecia de Noé sobre seus filhos se cumpriu.
ra" e de "poderoso caçador diante do S e­ Em segundo lugar, apesar das diferenças
n h o r " (vv. 8, 9). A palavra traduzida por externas, todas as nações pertencem à mes­
"poderoso" refere-se a um campeão, alguém ma família humana. "De um só [Deus] fez
superior em força e coragem. É traduzida toda a raça humana" (At 17:26), e não há
como "valentes" em 1 Reis 1:8 e 10 e refere- etnia ou povo que possa afirmar ser superior
se à guarda especial de Davi. O texto não a qualquer outra parte da raça humana. Ape­
retrata Ninrode como um esportista ca­ sar de, em sua providência [Deus] haver per­
çando,7 mas sim como um tirano em suas mitido que certas nações progredissem mais
conquistas impiedosas e no processo de fun­ do que outras em termos econômicos e po­
dação de um império. Ninrode construiu líticos, essas realizações não provam que tais
quatro cidades em Sinar (Babilônia) e ou­ nações sejam melhores do que outras (Pv
tras quatro na Assíria. Tanto a Babilônia quan­ 22 :2 ).
to a Assíria tornaram-se inimigas de Israel e Em terceiro lugar, Deus tem um propósi­
foram usadas por Deus para disciplinar seu to a ser cumprido pelas nações. O relato em
povo desobediente. Veremos mais detalhes Gênesis 9:24 - 11:32 deixa claro que Israel
sobre a Babilônia em nosso próximo estudo. era a nação escolhida por Deus. Do capítulo
Os descendentes de Sem (vv. 21-31). 12 em diante, Israel passa a ocupar o espaço
Normalmente, Sem é mencionado primei­ central no palco da narração. No entanto,
ro, mas desta vez ele aparece em último Deus também usou o Egito, a Babilônia, a
lugar, de modo que a narrativa possa entrar Assíria, a Média-Pérsia e Roma para cumprir
diretamente na história de Babel e na seus propósitos com referência ao povo ju­
genealogia de Abraão, um dos descenden­ deu. Deus pode usar governantes pagãos
tes de Sem (Gn 11:1 Oss). São citados os como Nabucodonosor, Ciro, Dario e até
nomes de cinco filhos, mas a ênfase fica so­ mesmo César Augusto.
bre a família de Arfaxade, pois ele foi o avô Em quarto lugar, Deus se preocupa com
de Héber (Gn 10:24). Abraão, pai dos todas as nações. No Livro de Salmos, encon­
hebreus, veio da linhagem de Héber, e sua tramos, com freqüência, a expressão "todas
história começa no capítulo 12.8 as nações" ou "todos os povos". Os Salmos
Há outro "parêntese" em Gênesis 10:25 66:1-8 e 67 expressam essa visão universal
para discutir a ocasião em que se "repartiu a de que todas as nações da Terra devem
terra" durante os dias de Pelegue, nome que conhecer a Deus e lhe servir. A comissão da
significa "divisão". Trata-se, possivelmente, Igreja para ir a todo o mundo não é uma
da divisão e dispersão das nações descritas idéia acrescentada no Novo Testamento -
76 G Ê N E S I S 9:18 - 10:32

ela se encontra entretecida na história do lhe aprouvesse. A conquista de Canaã foi


Antigo Testamento. Por fim, aquilo que está uma vitória de fé nas promessas de Deus,
escrito em Gênesis 9 - 1 0 deve ter servido o que explica por que o Senhor admoes­
de incentivo para o povo de Israel quando tou Josué a meditar na Palavra de Deus (Js
conquistaram Canaã. Os israelitas sabiam 1 : 8 ).
que eram o povo escolhido de Deus e que Os três filhos de Noé deixaram para o
os cananeus seriam seus servos. Sabiam, mundo um legado misto, mas o Senhor das
também, que seu Deus era o Senhor das nações ainda está no controle, e a história
nações e que delas poderia dispor como ainda lhe pertence.10

1. B a k e r, Russell. "Life With Mother." Inventing the Truth. Editado por William Zinsser. Nova York: Book-of-íhe-Month Club,

1987, p. 49.

2. Êxodo 20:5, 6 e 34:7 contrabalançam esse princípio: de fato, Deus castiga os filhos pelos pecados de seus pais se os

pecados dos pais são repetidos por seus filhos, como acontece com frequência. Quer seja por causa de fraquezas

herdadas geneticamente, quer pela influência de maus exempios, por vezes os filhos seguem os passos de seus pais.
3. Alguns estudiosos consideram esse "servir" não como escravidão, mas como a prestação de serviços a outros e, talvez,

essa idéia esteja incluída na declaração de Noé. Algumas das civilizações descendentes de Cam contribuíram grande­

mente para o progresso material e intelectual do mundo.

4. Tendo em vista o que ocorreu com Noé, é importante observar que o termo "nudez" - ou outras palavras relacionadas

- aparece vinte e quatro vezes nesse capítulo. "Descobrir a nudez" significa, obviamente, ter relações sexuais com uma

pessoa.

5. Não se trata da Etiópia moderna, mas de uma nação africana identificada como "Cuxe" nas traduções mais atuais. Cuxe

era filho de Cam.

6. já observamos que há listas de dez gerações de Adão a Noé (Gn 5), de Sem a Abraão (Gn 11:10-26) e de Perez a Davi
(Rt 4:18-22). A genealogia de nosso Senhor apresentada por Mateus segue um padrão de três conjuntos de catorze

gerações cada, de Abraão até Cristo (M t 1:1-17). Deuteronômio 32:8 afirma que a divisão das nações era "segundo o

número dos filhos de Israel” . Trata-se de uma referência às setenta pessoas da família de Jacó (Israel)? Alguns textos

trazem "segundo o número dos filhos de Deus", o que pode ser uma referência aos anjos (jó 1 e 2), uma vez que a

tradição judaica dizia haver setenta "anjos territoriais" e que cada um foi incumbido de uma nação (Dn 10:12-21).

7. Certa vez, vi uma loja de produtos esportivos chamada "Rode e Ninrode", sugerindo que vendiam equipamentos para
os mais diversos esportes, desde pesca até caça.

8. É possível que o termo "hebreu" tenha se originado de "Héber", mas nem todos os especialistas na língua hebraica
concordam. Alguns associam "hebreu" com uma palavra que significa "atravessar ou passar sobre", isto é, "vindo do

outro lado, um forasteiro, um estrangeiro". Abraão, o estrangeiro, era designado "o hebreu" (Gn 14:13), e josé também
era chamado dessa forma no Egito (Gn 39:14; 41:12; 43:32).

9. Em 1868, Robert S. Candlish propôs uma interpretação curiosa desse versículo intrigante. Sugeriu que Deus disse a

Héber como deveria dividir as diversas nações e para onde deveria enviá-las. Ninrode estava procurando consolidar os
povos sob seu domínio, mas Deus frustrou seus esforços ao dispersar os vários clãs. Ver Robert S. Candlish, Studies in

Genesis. Grand Rapids: Kregel Publications, 1979, pp. 172, 3.

10. O Dr. Â. T. Pierson costumava dizer que: "A história humana é a história de Deus".
de Caim, e Deus teve de limpar toda a Terra
12 com o dilúvio. Porém, Noé e sua família cre­
ram na Palavra de Deus e foram poupados.
Depois do dilúvio, os descendentes dos três
C u id a d o - D eus filhos de Noé repovoaram a Terra. No entan­
to, o recomeço com Noé acabou levando a
T rabalh an d o
uma das mais arrogantes revoltas contra
G ênesis 11 Deus já registradas em todas as Escrituras.
Rebelião (vv. 1-4). É bem provável que
os acontecimentos do capítulo 11 tenham
ocorrido antes daqueles que se encontram
no capítulo 10 e que a dispersão descrita
// / ^ \ homem propõe, mas Deus dispõe." no capítulo 10 tenha sido conseqüência do
V__>/ Essa declaração tão conhecida é julgamento de Deus em Babel. Talvez a his­
quase um clichê religioso. Muitas pessoas tória tenha sido colocada aqui em Gênesis
que a usam nem sequer sabem o que signifi­ para que pudesse conduzir à genealogia de
ca. Essas palavras foram escritas pelo monge Sem, a qual, por sua vez, leva à genealogia
agostiniano Thomas à Kempis (aproxima­ de Abraão, o fundador do povo hebreu.
damente 1380-1471) em seu livro clássico Assim, a organização do texto é literária,
Imitação de Cristo. Uma versão ampliada não cronológica.
aparece no seguinte provérbio: "O homem Deus ordenou que os povos fossem fér­
faz o que pode, mas Deus faz o que quer". teis, que se multiplicassem e que se espa­
Salomão usou mais palavras, mas se expres­ lhassem por toda a Terra, mas decidiram
sou melhor: "Muitos propósitos há no cora­ mudar para a cidade de Ninrode, na Babi­
ção do homem, mas o desígnio do S e n h o r lônia, e assentar-se ali (Gn 11:8-12). Essa
permanecerá" (Pv 19:21). mudança representou uma rebelião explíci­
Poucos capítulos da Bíblia ilustram essa ta contra a ordem de Deus para que o povo
verdade de modo mais claro do que Gênesis se espalhasse. Ao que parece, Ninrode dese­
11. Quando lemos a narração de Babel e, java tê-los em sua cidade e sob seu domínio.
então, as genealogias subseqüentes, nossa A "torre" que construíram em Babel era
impressão imediata é a de que Deus está uma estrutura conhecida como "zigurate".
trabalhando em seu mundo e cumprindo Arqueólogos já escavaram várias dessas es­
seus propósitos apesar dos planos e proje­ truturas enormes construídas principalmen­
tos dos pecadores. te para fins religiosos. Um zigurate era como
uma pirâmide, exceto pelo fato de que cada
1. D e u s impede u m a r e v o lt a nível acima era menor, criando uma suces­
(G n 1 1 :1 - 9 ) são de "degraus" que permitiam subir até o
Gênesis 1-11 registra quatro grandes acon­ topo. Ali ficava um santuário especial consa­
tecimentos: a criação do Universo, a queda grado a um deus ou deusa. Ao construir essa
do homem, o dilúvio e a tentativa de cons­ estrutura, as pessoas não estavam tentando
truir a torre de Babel. Esses capítulos revelam subir até o céu para destronar a Deus. Antes,
que, sempre que a humanidade desobedece esperavam que o deus ou a deusa que ado­
a Deus, o Senhor julga o pecado e, então, ravam descesse do céu para encontrar-se
sua graça oferece um recomeço. com elas. Tanto a estrutura quanto a cidade
Adão e Eva pecaram, mas Deus vestiu-os eram chamadas de "Babel", que significa
e prometeu enviar ao mundo um Redentor. "portal dos deuses".
Caim matou Abel, mas o Senhor enviou Sete Esse projeto odioso foi uma declaração
para dar continuidade a uma linhagem te­ arrogante de guerra contra Deus, não muito
mente a Deus. Os descendentes de Sete mis­ diferente da rebelião descrita no Salmo 2:1-
turaram-se com os perversos descendentes 3. Para começar, o povo estava resistindo à
78 G Ê N E S IS 11

determinação divina para que se espalhasse deu-lhes uma oportunidade de voltar para
e repovoasse a Terra. Motivados, talvez, por o Senhor. Poderia ter destruído os cons­
medo bem como por orgulho, decidiram trutores, a cidade e a torre, mas escolheu
construir uma cidade e um grande zigurate e permitir que vivessem.
ficar todos juntos. Porém, mais do que isso, A palavra "Babel" é parecida com o ter­
desejaram tornar célebre seu nome, de modo mo hebraico balai, que quer dizer "confu­
que outros os admirassem e, talvez, até se são". Por causa do julgamento de Deus, o
juntassem a eles. Ao declarar seu propósito, "portal dos deuses" transformou-se na "por­
repetiam a mentira do diabo no Éden: "como ta para a confusão". Em vez de tornarem
Deus sereis" (Gn 3:5). célebre seu nome, o projeto deles recebeu
Esse povo tinha várias elementos a seu de Deus um novo nome! Em sua igreja,
favor. Eram, verdadeiramente, um conjunto "Deus não é de confusão" (1 Co 14:33);
de "nações unidas", um só povo (Gn 11:6) porém, no mundo, por vezes Deus usa a
que falava a mesma língua e usava um único confusão para humilhar as pessoas e impe-
vocabulário e dicionário.' Era motivado por di-las de se unirem contra a vontade dele.
um só espírito de orgulho e pelo desejo A palavra "Sem" significa "nome" em
instigante de se tornar célebre. A única coisa hebraico, e Deus prometeu a Abraão, um
que lhe faltava era a aprovação de Deus. descendente de Sem, que engrandeceria seu
A reação de Deus (vv. 5-9). "Antes de nome (Gn 12:2). As pessoas do mundo de­
destruir alguém", escreveu o historiador pendem de sua própria sabedoria e de seus
Charles Beard, "os deuses o inebriam de po­ próprios esforços e, ainda assim, não con­
der".2 De Babel a Belsazar (Dn 5) e de seguem criar para si um nome que perma­
Herodes (At 12:20-25) a Hitler, Deus de­ neça. Quem conhece o nome de alguém que
monstrou repetidamente que não vale a pena tenha trabalhado na famosa torre de Babel?
rebelar-se contra sua vontade. "A soberba Contudo, o nome de Abraão é conhecido
precede a ruína, e a altivez do espírito, a ao redor do mundo e reverenciado por ju­
queda" (Pv 16:18), e Jesus advertiu que aque­ deus, muçulmanos e cristãos. Há uma enor­
les que se exaltassem seriam humilhados (Mt me diferença entre a humanidade dizer:
23:12). "Tornemos célebre nosso nome!" e Deus
O Deus do céu jamais fica perplexo nem dizer: "Te engrandecerei o nome!"
paralisado com aquilo que as pessoas fazem O Livro de Gênesis dá ênfase aos nomes,
aqui na Terra. A arrogante exclamação de e, nesse livro, Deus muda vários nomes.
Babel "Subamos!" foi respondida com tran­ Abrão, por exemplo, tornou-se Abraão; Sarai
qüilidade pelo céu: "Desçamos!". "Ri-se passou a ser Sara; Esaú tornou-se Edom; Jacó
aquele que habita nos céus; o Senhor zomba tornou-se Israel, e assim por diante. O nome
deles" (Sl 2:4). É claro que Deus não precisa que Deus dá a algo ou a alguém é muito
realizar uma investigação para saber o que mais importante do que a designação que
está acontecendo em seu Universo; a lingua­ usamos. Quando estava criando o mundo,
gem usada serve apenas para dramatizar a Deus deu nome às coisas e pediu a Adão
intervenção divina. que desse nome aos animais. Hoje em dia, a
Assim como aconteceu com Adão e Eva palavra "Babel" faz pouca gente pensar em
no jardim (Gn 3:22-24), o julgamento de "portal dos deuses"; ao ouvir esse nome, a
Deus em Babel não tratou apenas dos pe­ maioria pensa em "confusão".
cados imediatos, mas também ajudou a Nossa resposta. A história de Babel não é
prevenir futuros problemas. A unificação apenas uma parte da história antiga, pois
da humanidade só serviria para dar às pes­ Babel e a Babilônia apresentam um desafio
soas uma idéia falsa de poder que as leva­ espiritual para cada cristão da atualidade.
ria a uma rebeldia ainda maior contra Deus. A Babilônia acabou tornando-se uma
Ao confundir sua linguagem e dispersá-las, grande cidade e um grande império. Em 606-
Deus, em sua graça, poupou a vida delas e 586 a.C., os exércitos babilônios atacaram
G Ê N E S IS 11 79

e capturaram o reino de Judá, queimaram o em Jesus são um em Cristo (Gl 3:27) e, um


templo e a cidade de Jerusalém e levaram dia, partilharão do céu, independentemente
milhares de judeus cativos para a Babilônia. de raça, cor, língua ou tribo (Ap 7:9). En­
Deus usou os cruéis e idólatras babilônios quanto o sistema do mundo produz uma
para disciplinar seu povo desobediente. uniformidade exterior, em seu interior está
Contudo, nas Escrituras, a Babilônia sim­ se desintegrando. A vida das pessoas vem
boliza o orgulho perverso, a corrupção moral sendo controlada por aquilo que os sociólo­
e a rebeldia contra Deus. A Bíblia apresenta o gos chamam, atualmente, de "tecnopólio".5
contraste entre a cidade terrena da Babilô­ No entanto, o Espírito Santo usa a Igreja
nia, que se rebela contra Deus, e a cidade como uma agente de reconciliação, de modo
celestial de Jerusalém, que glorifica a Deus. a promover a unificação em Jesus Cristo (Ef
A fim de examinar melhor o contraste entre 1:10; 2 Co 5:14-21). Em certo sentido, o Pen-
essas duas cidades, é interessante ler Jere­ tecostes foi o inverso do que ocorreu em
mias 50 e 51 e Apocalipse 17 - 19. A Babilô­ Babel, pois as pessoas que se encontravam
nia representa o sistema do mundo que se em Jerusalém naquela ocasião ouviram lou­
opõe a Deus, odeia a Jesus Cristo e é atraen­ vores a Deus em suas próprias línguas (At
te aos apetites mais abjetos da natureza 2:1-12). Um dia, pessoas virão de todas as
humana. A Babilônia é o oposto da Jerusa­ tribos e nações para adorar a Jesus Cristo
lém celestial, que é a cidade dos santos (Hb (Ap 15:4), e o julgamento de Babel terá fim
12:1 8ss). (Sf 3:9).
Na cidade de Babel, as pessoas queriam Cada pessoa deve fazer uma escolha.
construir uma torre que chegasse até o céu, Vamos nos identificar com Babilônia ou com
mas na Babilônia de Apocalipse 17 e 18, o Jerusalém, com a prostituta deste mundo
pecado da cidade é que chega até o céu ou com a noiva celestial?
(Ap 18:5). Aquela primeira unificação mun­
dial que Ninrode desejava para a Babilônia 2. D e u s p re s e rv a u m a fa m ília
de Gênesis um dia será obtida pelo sistema ( G n 11:10-26)
mundial perverso de Satanás (vv. 3, 9, 11, Deus havia prometido que enviaria um Re­
23). A Babilônia terrena é chamada de pros­ dentor, um descendente da mulher (Gn 3:1 5)
tituta, enquanto a cidade santa do céu é que derrotaria Satanás e traria a salvação. A
chamada de noiva de Cristo (1 7:1; 21:9ss). profecia de Noé revelou que Deus abençoa­
"Toda geração constrói suas próprias tor­ ria o mundo por meio da linhagem de Sem,
res", escreveu a psicoterapeuta Naomi H. os "semitas", antepassados do povo hebreu
Rosenblatt, e ela tem razão.3Quer sejam ver­ (Gn 9:26, 27). "Sem, que foi pai de todos os
dadeiros arranha-céus (como as torres Sears filhos de Héber" (Gn 10:21), e é bem possí­
eTribune, em Chicago, a torre Eiffel, em Paris, vel que a palavra "hebreu" venha do nome
a torre Trump, em Nova York), quer corpora­ "Héber".
ções gigantesca que abrangem todo o glo­ Gênesis apresenta duas genealogias de
bo, a idéia é a mesma: "Tornaremos nosso Sem, em 10:21-29 e em 11:10-26. A primei­
nome célebre". O povo de Deus não pode ra genealogia dá uma relação de todos os
evitar de estar no mundo, pois é no mundo cinco filhos e de cinco dos seus netos, mas
que se encontra nosso ministério; no entan­ depois se concentra nos descendentes de
to, não devemos ser do mundo. Não estamos Arfaxade: Salá, Héber e os dois filhos de
aqui para construir as torres arrogantes de Héber, Pelegue e Joctã. Encontramos uma
seres humanos. Estamos aqui para ajudar a lista dos muitos filhos de Joctã, mas não há
edificar a Igreja de Cristo.4 nada sobre os descendentes de Pelegue.
Aquilo que a humanidade não pode rea­ Contudo, a genealogia do capítulo 11 trata
lizar por meio de suas "torres de orgulho", da parte da família relacionada a Pelegue e
Jesus Cristo realizou ao morrer numa cruz nos conduz a Abraão. A genealogia de
de humilhação. Todos aqueles que confiam Gênesis 5 vai de Adão até Noé, e a de Gênesis
80 G Ê N E S IS 11

11 vai de Sem, filho de Noé, até Terá e seu dos caldeus como em Harã, o povo adorava
filho, Abraão. o deus Lua.
Exceto pelo fato de as duas listas terem De acordo com Estêvão (At 7:2), "o Deus
dez gerações, a relação de Gênesis 11:10- da glória" apareceu a Abraão e chamou-o
26 é diferente da genealogia de Gênesis 5. para ir para Canaã. E provável que Abraão
Dentre outras coisas, ela não traz a expres­ tenha contado a sua família sobre essa men­
são repetida "e morreu". A ênfase é sobre a sagem incrível e avisado que ele e Sara esta­
idade do homem por ocasião do nascimento vam indo embora. Ele devia tomar apenas
de seu primogênito. As pessoas que apare­ Sara e partir, deixando a família para trás (Gn
cem em Gênesis 11:10-26 não viveram tan­ 12:1). Porém, com exceção de seu irmão
to tempo quanto os homens citados em Naor e, obviamente, de seu irmão Harã, que
Gênesis 5. A lista começa falando dos nove­ havia falecido, todos foram com ele. Naor e
centos e cinqüenta anos de Noé, e essa ida­ a esposa, Milca, aparecem novamente mais
de vai diminuindo até chegar aos cento e adiante na história (Gn 22:20), mas Naor foi
quarenta e oito anos de Naor. As gerações o homem que ficou. Será que, apesar de ter
pós-diluvianas estavam começando a sentir permanecido na região idólatra de Ur dos
as conseqüências físicas do pecado sobre o caldeus, Naor creu na mensagem que seu
corpo humano. irmão lhe transmitiu sobre o verdadeiro Deus
O que importa nessa genealogia é o fato da glória? Esperamos que sim.
de registrar a fidelidade de Deus ao cuidar Ao que parece, Tera creu nessa men­
de seu povo e cumprir suas promessas. Aqui­ sagem e encarregou-se de cuidar da família
lo que para nós não passa de uma lista de e de suas viagens (Gn 11:31), mas Tera foi o
nomes, para Deus foi uma "ponte" da esco- homem que parou. Ele viajou cerca de sete-
iha de Sem até o chamado de Abraão. Deus centos e cinqüenta quilômetros, até a cida­
dignou-se a usar pessoas para ajudar a reali­ de de Harã. Lá ele fez seu assentamento e lá
zar sua vontade aqui na Terra. As pessoas ele morreu. Talvez a viagem fosse longa de­
são frágeis e nem sempre obedientes. No mais para ele, mas fazia parte do plano de
entanto, a "ponte" foi construída, e as pro­ Deus que Abraão e Sara o seguissem sem
messas da aliança, mantidas. sua família. Com a morte de Tera, restou
apenas Ló, o filho de Harã, o irmão de
3. D e u s c o m e ç a um a n a ç ã o Abraão que havia falecido em Ur. Ló tor-
(G n 11:27-32) nou-se o homem que se desviou, pois aca­
Se Gênesis 1 - 11 é um registro de quatro bou deixando Abraão e assentando-se na
acontecimentos-chave - a criação, a queda, cidade perversa de Sodoma (Gn 13:10-13;
o dilúvio e o julgamento de Babel -, então 14:12; 19:1 ss).
Gênesis 12 - 50 é o registro da vida de qua­ O mais extraordinário sobre o chamado
tro homens-chave: Abraão, Isaque, Jacó e de Deus a Abraão e Sara é o fato de o casal
José. Cinco pessoas destacam-se nesse pará­ não ter filhos. Abrão significa "pai exaltado",
grafo: Abraão e sua esposa, Sara;6 Terá, pai mas ele nem era pai! Os dois eram os candi­
de Abraão; e Naor e Harã, irmãos de Abraão. datos com a menor probabilidade de ter uma
Naor morreu e deixou um filho chamado Ló. família e de construir uma grande nação. Mas
O propósito de Deus era chamar um ho­ os caminhos de Deus não são os nossos ca­
mem e sua esposa e, a partir deles, constituir minhos (Is 55:8, 9), e, ao chamar e abençoar
uma família. Dessa família formaria uma na­ aquele casal estéril, o Senhor revelou a sua
ção e, a partir dessa nação, Deus abençoaria glória e a grandeza de seu poder. Abrão se­
todas as nações do mundo (Gn 12:1-3; ria chamado de "Abraão" que significa "pai
18:18). Foi uma obra da graça de Deus do de muitas nações".
começo ao fim, pois quando Deus chamou Existe um contraste e tanto entre os ca­
Abraão e Sara, faziam parte de uma família minhos do homem em Babel e os caminhos
que adorava ídolos (Js 24:2). Tanto em Ur de Deus ao chamar Abraão e Sara. O mundo
G Ê N E S IS 11 81

depende de um grande número de pessoas com o vigor da carne e motivada pelo orgu­
poderosas a fim de realizar seus propósitos. lho, mas a nação de Israel foi construída pela
Deus, porém, escolheu duas pessoas fracas graça e pelo poder de Deus e apesar das
e deu início a uma nova nação. O povo de fraquezas humanas.
Babel desejava tornar seu nome célebre, mas Vivemos num mundo confuso, e Babel
Deus prometeu engrandecer o nome de ainda está aqui conosco. Mas Deus conti­
Abraão. Os que trabalhavam na torre de nua a ter um remanescente fiel que o segue
Babel seguiram a sabedoria deste mundo, pela fé e mantém seus olhos firrrres na cidade
mas Abraão e Sara confiaram na Palavra de celestial (Hb 11:1 3-1 6).
Deus (Hb 11:11, 12). Babel foi construída Você faz parte desse remanescente?

Mesmo quando as pessoas falam a mesma linguagem, é possível que usem diferentes dialetos locais e que as mesmas

palavras tenha significados distintos em diferentes lugares. Diz-se que, de acordo com George Bemard Shaw, a

Inglaterra e os Estados Unidos são dois países divididos por uma linguagem em comum.
2. Nesse caso, Beard estava parafraseando uma declaração do dramaturgo grego Sófocles: "Aquele que Zeus pretende

destruir efe antes leva à loucura". Essa declaração tornou-se um provérbio com diferentes versões em várias línguas.
3. R osenblatt , Naomi H. e H o r o w it z , Joshua. Wrestíing with Angeis. Nova York: Deil Publishing, 1995, p. 82.

-. Com isso, não estamos sugerindo que toda a tecnologia global e as enormes corporações multinacionais sejam,

necessariamente, más em si, É o espírito e o propósito dessas "torres" que devem ser evitados pelos cristãos. "N ão
vos conformeis com este século" (Rm 12:2). "Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que

faz a vontade de Deus permanece eternamente" (1 Jo 2:17). O povo de Deus pode fazer bom uso da tecnologia global

para divulgar o evangelho e edificar a igreja, mas nossa fé deve estar no Senhor e nosso propósito deve ser de glorificar

a Deus. A Bíblia adverte os cristãos, repetidamente, a que não se identifiquem com o sistema deste mundo para que,

assim, não sejam identificados com tal sistema no dia do julgamento final deste mundo (Is 48:20; Jr 50:8; 51:6, 45; 1 Co

11:32; Ap 18:4).

5. Ver P ostm an , Neil. Technopoly: The Surrender of Culture to Technology. Nova York: Knopf, 1992; reimpresso por Vintage

Books, 1993; e Ellul , jacques, The Technological Bluff. Grand Rapids: Eerdmans, 1990.

6. O nome dos dois foi mudado, posteriormente, de Abrão para Abraão e de Sarai para Sara (Gn 17:1-17).
pessoais de Adão, Eva e Caim e também os
13 pecados conjuntos do povo pré-diluviano e
dos moradores de Babel. Contudo, ao mes­
mo tempo, ele é um Deus de amor, que nos
D e V olta a o s criou à sua imagem e anseia ter comunhão
conosco e revelar-se a nós. Nossos pecados
Fun d am en to s o entristecem, mas, em sua graça, ele per­
doa aqueles que confiam nele e dá-lhes mais
R e v isã o de G ên esis 1 - 1 1
uma chance.
O Deus de Gênesis tem um plano para a
humanidade. Ele prometeu enviar um Re­
dentor que conquistaria Satanás e traria a
Livro de Gênesis é para a Bíblia o que salvação para a raça humana (Gn 3:15).
O os alicerces são para uma casa, o que a
constituição é para a lei de um país e o que
Cumpriu essa promessa ao enviar Jesus Cris­
to, o Filho de Deus, para morrer na cruz
a tabela periódica dos elementos é para a pelos pecados do mundo. Não conhecemos
química. Uma compreensão das verdades a Deus até que tenhamos crido em Jesus
fundamentais de Gênesis, especialmente dos Cristo para nos salvar de nossos pecados.
capítulos 1 a 11, lhe dará a chave necessária
para abrir as portas do resto das Escrituras e 2. V iv e m o s n a c r i a ç ã o d e D eus

viver para a glória de Deus. No entanto, você O Universo foi criado por Deus e não pelo
não pára em Gênesis 1 -11, mas sim edifica acaso. Ele fez todas as coisas e ele mantém
sobre seus alicerces. todas as coisas. O Universo não é um aci­
Façamos uma revisão de alguns desses dente. É a obra-prima singular de um Deus
fundamentos. sábio e poderoso, que faz todas as coi­
sas segundo os desígnios da sua perfeita
1. D e u s é r ea l e p o d e m o s c o n f ia r n ele vontade.
A Bíblia começa com uma declaração de que A complexidade do Universo revela o
Deus existe: "No princípio, criou Deus" (Gn poder e a sabedoria de Deus, e a beleza do
1:1). Gênesis não apresenta nenhum argumen­ Universo mostra seu amor. Poderia ter cria­
to filosófico para provar a existência de Deus; do um mundo enfadonho, mas enfeitou-o
simplesmente o coloca no começo de tudo. com uma abundância de cores e deu-nos
Quando abrimos nossa Bíblia, Deus está lá; uma enorme variedade de plantas, animais
ele’ estava lá antes de a Bíblia ser escrita ou e pessoas para desfrutar. Dia após dia e
antes mesmo de o Universo ser criado. noite após noite, a criação revela a glória de
O Deus com o qual nos deparamos em Deus (Sl 19).
Gênesis 1 - 1 1 não é apenas eterno, mas Pelo fato de a criação pertencer a Deus,
também sábio e poderoso. Ele é um grande somos apenas despenseiros daquilo que ele
Deus, e seu poder é tão extraordinário que nos deu. Devemos usar a riqueza da criação
ele só precisa falar para que as coisas acon­ para o bem de outros e para a glória de Deus,
teçam. Sua sabedoria é tão grande que aqui­ lembrando-nos de que um dia prestaremos
lo que ele cria funciona! Desde o menor dos contas a Deus pela administração de seus
seres unicelulares até a mais vasta galáxia, o recursos. Desperdiçar ou explorar a criação
poder e a sabedoria de Deus são manifestos e descuidadamente poluir sua beleza é pe­
em toda a criação. cado contra Deus. Não se trata apenas de
E, no entanto, esse grande Deus é um uma questão de ecologia; é uma questão de
Deus pessoal. Ele nos dá atenção e quer ser teologia; este é o mundo de nosso Pai.
nosso Senhor e nosso Amigo! Em sua generosidade, Deus "tudo nos pro­
Ele é um Deus santo que não condes- porciona [todas as coisas] ricamente para o
cende com o pecado. Julgou os pecados nosso aprazimento" (1 Tm 6:17), e devemos
R E V I S Ã O DE G Ê N E S I S 1 - 1 1 83

agradecer a ele por suas dádivas e usá-las e tornou-se um errante. Noé obedeceu a
com sabedoria. Deus, e o Senhor salvou esse homem reto e
sua família da destruição e os abençoou
3. S o m o s f e it o s à i m a g e m d e D eus depois do dilúvio. Sempre que desobede­
Homens e mulheres foram criados. Não evo­ cemos a Deus, rompemos nossa comunica­
luíram, mas sim foram criados à imagem de ção com ele e perdemos a alegria de sua
Deus. Esse é um privilégio tremendo e uma presença. A obediência é a chave para a
grande responsabilidade. Cada bebê con­ bênção; a desobediência é ó caminho que
cebido é feito à imagem de Deus e tem o conduz à infelicidade e à disciplina.
direito de viver, de fazer parte de uma famí­
lia amorosa, de conhecer a Deus por meio 5. S atanás é r ea l, m a s é u m in im ig o
de jesus Cristo e de gozar uma vida cheia Satanás não é eterno; ele é um ser que foi
de propósito e de realização. criado. Não é onisciente, onipotente nem
Uma vez que Deus nos deu uma mente onipresente. E limitado, mas quer que você
para pensar, precisamos ler sua Palavra e pense que é tão grande quanto Deus e dig­
aprender sua verdade. Ele nos deu livre-ar- no de sua obediência. Satanás é muito pode­
bítrio para tomar decisões, e devemos de­ roso e sutil e, sozinhos, não somos páreo
cidir com sabedoria, de modo agradável ao para ele.
Senhor. Temos o coração para amá-lo, e de­ Satanás quer ser o deus de nossa vida.
monstramos esse amor ao ter comunhão Quer nossa adoração e nosso serviço. Ele
com Deus e ao obedecer-lhe. Nosso ser in­ nos tenta ao questionar a Palavra de Deus:
terior é espiritual, e precisamos que Deus "Foi isso mesmo que Deus disse?"
habite em nós, a fim de encontrarmos paz Promete nos tornar iguais a Deus, mas
interior e satisfação. jamais cumpre essa promessa. O primeiro
"Tu nos fizeste para ti", escreveu Agosti­ passo para a vitória sobre Satanás é não dar
nho, "e nosso coração persiste em inquietar- ouvidos a suas ofertas nem crer em suas pro­
se até que descanse em ti". messas. Precisamos conhecer a verdade de
O fato de sermos todos criados à ima­ Deus e crer nela se desejamos detectar e frus­
gem de Deus significa que devemos amar e trar as mentiras do diabo.
proteger uns aos outros. É Deus quem dá a Satanás já foi derrotado por Jesus Cristo
vida e somente ele pode tirá-la. Ele deu ao e, através de Cristo, podemos nos apropriar
governo humano a autoridade de aplicar a da vitória (Cl 2:15; Rm 16:20; 1 Co 10:13).
pena de morte, pois o homicida ataca a pró­
pria imagem de Deus. 6 . O PECADO EXISTE
A imagem de Deus em nós foi distorcida O mundo pode chamar de lapso, erro, fra­
pelo pecado, mas essa imagem pode ser queza ou acidente, mas se é desobediência
restaurada ao andarmos com Deus e ao dei­ à vontade de Deus, o Senhor chama isso de
xarmos que seu Espírito opere em nós (2 Co pecado. O pecado é sério, pois conduz à
3:18). Tendo em vista que foi Deus quem morte e ao julgamento. Como todo Pai amo­
nos fez, ele sabe o que é melhor para nós e roso, Deus se entristece com o pecado de
nos deu sua Palavra como um livro de instru­ seus filhos e o julga. No entanto, Deus tam­
ções para a vida. É o "manual de instruções" bém perdoa e provê a purificação de que
com o qual devemos nos familiarizar. Quan­ precisamos.
do tudo falhar, leia as instruções. Quando pecamos, nossa tendência é fu­
gir e tentar nos esconder, mas essa é a pior
4 . A OBEDIÊNCIA é a ch ave para a coisa que podemos fazer. E impossível es­
PRODUTIVIDADE, A ALEGRIA E A BÊNÇÃO conder-se de Deus. A única coisa a fazer é
Nossos primeiros antepassados desobede­ arrepender-se, confessar e apropriar-se do
ceram à Palavra de Deus e lançaram toda a perdão divino. Deus nos dá outra oportuni­
raça humana no pecado. Caim desobedeceu dade de obedecer-lhe e de ser abençoados.
84 R E V I S Ã O DE G Ê N E S I S 1 - 1 1

7. D eu s c r io u o s e x o e sa be m e l h o r d o Israel a fim de que servisse de bênção para


QUE NÓS C O M O DEVE SER USADO todo o mundo, e, por causa de Israel, temos
Deus criou os primeiros seres humanos "ho­ o conhecimento do verdadeiro Deus, a Pala­
mem e mulher". Ele os fez não apenas para vra de Deus em sua forma escrita e, acima
que pudessem se reproduzir e dar continui­ de tudo, o Salvador Jesus Cristo. Nenhum
dade à raça humana, mas também para que cristão deve nutrir qualquer forma de anti-
aprendessem a amar e a desfrutar um do semitismo em pensamentos, palavras ou
outro e para que descobrissem seu relacio­ atos.
namento de amor com o Senhor. Sua inten­
ção original era que um homem se unisse a 10. D e u s n ã o m u d a e está s e m p r e n o
uma mulher pelo resto da vida. co ntro le
A Bíblia não é um "manual de sexo", mas Deus ainda está no trono e sabe, a todo o
deixa algumas coisas bem claras. É evidente tempo, o que está fazendo. Ele é longânimo
que os pecados sexuais são destrutivos não para com os pecadores, mas, um dia, sem­
apenas para o corpo e para o ser interior, pre julga o pecado e recompensa o justo.
mas também para outras pessoas, especial­ Quer seja a mais distante estrela, quer seja o
mente o cônjuge e a família daquele que peca. mais minúsculo dos átomos, Deus sabe onde
Deus criou o homem e a mulher um para o todas as coisas estão e o que todas elas es­
outro; qualquer combinação diferente dessa tão fazendo, e, no final, tudo o que ele criou
está fora da vontade de Deus, não importa o realizará sua vontade aqui na Terra.
que a sociedade ou os tribunais de justiça Deus criou as leis que regem o Univer­
digam. Deus instituiu o casamento, e o sexo so. Se lhes obedecermos, elas trabalham a
fora dos laços de amor do matrimônio é nosso favor, mas se lhes desobedecermos,
errado. trabalham contra nós. A ciência é simples­
mente a reflexão e a aplicação de tais leis.
8. T o d o s o s seres h u m a n o s sã o u m a O Criador tem o direito de "quebrar" suas
só raça próprias regras e de fazer milagres.
Deus separou os descendentes de Noé em
várias línguas e ações, mas todos eles são 1 1 . N O S S O RELACIONAMENTO COM D E U S
filhos e filhas de Adão e Eva. Pela providência BASEIA-SE NA FÉ
de Deus, algumas nações e povos progredi­ "D e fato, sem fé é impossível agradar a
ram mais rapidamente do que outras neste Deus, porquanto é necessário que aquele
mundo, mas isso não significa que essas na­ que se aproxima de Deus creia que ele exis­
ções mais avançadas sejam melhores do que te e que se torna galardoador dos que o
outros povos. Somos todos uma só raça, e buscam" (Hb 11:6).
nem um povo pode afirmar que é melhor do Vivemos de promessas e não de expli­
que outro. cações.
Deus ordenou que homens e mulheres
trabalhassem. O trabalho não é uma for­ 1 2 . A VIDA MAIS GRATIEICANTE É AQUELA
ma de castigo. Antes, é uma oportunidade DEDICADA A D E U S
de cooperar com Deus cuidando de sua Deus tem um propósito diferente para cada
criação. um de nós cumprir, e ele nos capacita para
isso à medida que confiamos em sua Pala­
9. I sra el é o p o v o e s c o l h id o d e D eus vra e obedecemos à sua vontade. Qual­
Isso não significa que sejam melhores do quer que seja a tarefa para a qual ele nos
que outros, mas apenas que receberam um chama, pode ser realizada a fim de glorifi­
chamado de Deus e, portanto, têm mais res­ car a Deus. Apesar de haver ocasiões em
ponsabilidades neste mundo. Deus os esco­ que os justos sofrem e os perversos são
lheu porque os amava, não por causa de seu bem-sucedidos, no final, os justos recebe­
valor intrínseco (Dt 7:6-11). Deus chamou rão sua recompensa eterna, e os perversos,
R E V I S Ã O DE G Ê N E S I S 1 - 1 1 85

o castigo eterno. Mesmo não sendo a mais ciais, edificamos sobre alicerces firmes que
fácil, a vida cristã é a mais satisfatória e grati- não podem ser abalados. Ignorar tais funda­
ficante de todas. mentos é o mesmo que construir sobre a
Estes são apenas alguns dos fundamen­ areia e criar para si uma existência que não
tos que se encontram em Gênesis 1 - 11 e suportará as tempestades da vida e nem o
são ilustrados e explicados no restante da julgamento final de Deus. Jesus nos chama
Bíblia. Quando entregamos nossa vida a Cris­ de volta aos fundamentos. Leia e reflita so­
to e construímos sobre essas verdades essen­ bre Mateus 7:21-27.

Infelizmente, algumas pessoas têm colocado em discussão o pronome que devemos usar quando nos referimos a Deus.
A Bíblia usa sempre "ele", mas não porque o gênero masculino seja o mais apropriado para Deus. Deus é espírito, e

criaturas espirituais (inclusive os anjos) não têm gênero. Por alguma razão, pessoas que se opõem a que chamemos a

Deus de e/e não são contrárias a usarmos o mesmo pronome para Satanás; no entanto, Satanás também é uma criatura

espiritual, e portanto sem sexo.


recomeço à humanidade. Em conseqüência
14 do chamado de Deus e de sua fé obediente,
Abraão e Sara*, em última análise, propicia­
ram ao mundo a nação judaica, a Bíblia e o
U m N ovo C o m eço Salvador. Onde estaríamos hoje se Abraão e
Sara não tivessem confiado em Deus?
G ênesis 1 1 :2 7 - 12:9 Consideremos os elementos envolvidos
em sua experiência.

1. U m c h a m a d o (G n 12:1 a)
Quando Deus chamou. A salvação vem por­
que Deus, em sua graça, chama o pecador,
/ / Ç e os outros planetas são habitados", o qual responde pela fé (Ef 2:8, 9; 2 Ts 2:1 3,
brincou George Bernard Shaw, "en­ 14). Deus chamou Abraão do meio da idola­
tão devem estar usando a Terra como seu tria (Js 24:2) quando se encontrava em Ur
manicômio". dos caldeus (Gn 11:28, 31; 15:7; Ne 9:7),
Podemos achar esse comentário engra­ uma cidade dedicada a Nanar, o deus Lua.
çado, mas ele nos faz lembrar de um fato Abraão não conhecia o verdadeiro Deus e
triste: o mundo encontra-se num estado de não havia feito nada para merecer conhecê-
caos, e as coisas não parecem estar melho­ lo, mas, em sua graça, Deus o chamou. "Não
rando. Qual é o problema? fostes vós que me escolhestes a mim; pelo
A origem de tudo isso remonta aos acon­ contrário, eu vos escolhi a vós outros" (Jo
tecimentos registrados no Livro de Gênesis. 15:16).
Com exceção do relato nos capítulos 1 e 2, Abraão tinha setenta e cinco anos quan­
os onze primeiros capítulos de Gênesis re­ do Deus o chamou, de modo que a idade
gistram uma sucessão de erros dos seres hu­ não é obstáculo para a fé. Ele confiou em
manos, erros estes que estão se repetindo Deus durante cem anos (Gn 25:7), e hoje
nos dias de hoje. Primeiro, o homem e a podemos aprender com sua experiência a
mulher desobedeceram a Deus e foram ex­ andar pela fé e a viver de modo agradável a
pulsos do jardim (cap. 3). Caim matou seu Deus.
irmão, Abel, e mentiu sobre o que havia feito Abraão era casado com Sara, sua meia-
(cap. 4). A humanidade tornou-se tão cor­ irmã (Gn 20:12), e não tinham filhos. No
rompida que Deus limpou a Terra com um entanto, Deus usou esse casal para fundar
dilúvio (caps. 6 - 8). Noé embriagou-se, e uma grande nação! "Porque era ele [Abraão]
seu filho, Cam, viu a nudez do pai (cap. 9). único, quando eu o chamei, o abençoei e o
Rebelando-se contra Deus, os seres huma­ multipliquei" (Is 51:2). Por que Deus cha­
nos construíram uma cidade e uma torre, e maria um casal nada promissor como esse
Deus precisou mandar confusão para aca­ para uma tarefa tão importante? Paulo dá a
bar com essa rebelião (cap. 10). resposta em 1 Coríntios 1:26-31.
Desobediência, homicídio, engano, be­ Deus chamou Abraão depois que os gen­
bedeira, nudez e rebelião parecem coisas tios haviam caído em pecado e se afastado
bem atuais, não é? Se você fosse Deus, o do verdadeiro Deus vivo. O processo de
que você faria com tais pecadores, homens involução é explicado em Romanos 1:18-32.
e mulheres criados à sua imagem? "Prova­ O ser humano conhecia, desde o princípio, o
velmente eu os destruiria!" poderia ser sua verdadeiro Deus, mas recusou-se a glorifi-
resposta. cá-lo ou a dar-lhe graças por sua bondosa
Mas não foi isso o que Deus vez. Antes,
chamou um homem e sua esposa para que * O nom e deles, originalmente, era Abrão e Sarai, mas
deixassem seu lar e fossem para uma no­ seguiremos o exem plo de Estêvão, em Atos 7:2, e usa­
remos seus novos nom es (G n 17), uma vez que são
va terra, de modo que pudessem dar um mais conhecidos.
G Ê N E S I S 11:27 - 12:9 87

provisão, colocando ídolos no lugar do Filho ao mundo por meio do povo de Is­
Deus vivo. A idolatria levou à imoralidade rael. Cristo morreu pelos pecados do mun­
e à indecência, e não demorou para que o do (1 Jo 2:2; 4:14) e quer que sua Igreja
mundo gentio estivesse tão corrompido que conte as boas novas da salvação a toda a
Deus teve de abrir mão dele (Rm 1:24, 26, Terra (Mc 16:15).
28). Então, chamou Abraão, o primeiro Existe, porém, um terceiro motivo: a vida
hebreu, e começou de novo com ele. de Abraão é um exemplo para todos os cris­
Como Deus chamou. "O Deus da glória tãos que desejam andar pela fé. Abraão foi
apareceu a Abraão, nosso pai" (At 7:2). Não salvo pela fé (Gn 15:6; Rm 4:1-5; Gl 3:6-14)
nos é dito como Deus apareceu a Abraão, e viveu pela fé (Hb 11:8-19), e essa fé ficou
mas, de acordo com o registro de Cênesis, evidente em sua obediência (Tg 2:14-26).
foi a primeira de sete vezes que Deus se Abraão obedeceu quando não sabia onde
comunicou com Abraão. A revelação de (Hb 11:9, 10), como (vv. 11, 12), quando
Deus deve ter mostrado a Abraão a vaida­ (v. 13-16) nem por que (vv. 17-19), e nós
de e insensatez da idolatria em Ur. Quem devemos fazer o mesmo.
iria querer adorar um ídolo morto depois Abraão e Sara não eram perfeitos, mas,
de ter um encontro com o Deus vivo? 1 Tes- de modo geral, sua caminhada caracte-
salonicenses 1:9, 10 e 2 Coríntios 4:6 des­ rizou-se pela fé e pela fidelidade. Quando
crevem essa experiência de salvação. pecaram, sofreram por isso, e o Senhor
No entanto, Deus também falou a mostrou-se sempre pronto a perdoá-los
Abraão (Gn 12:1-3), e a Palavra realizou o quando se arrependeram. "A vida cristã vi­
milagre da fé. "Assim, a fé vem pela prega­ toriosa", disse George Morrison, "é uma
ção, e a pregação, pela palavra de Cristo" série de recomeços". Ao estudar a vida de
'Rm 10:17). Foi um chamado para que Abraão e Sara, você verá o que é fé e como
Abraão se separasse da corrupção a seu andar pela fé. Descobrirá que, quando
redor, e ele obedeceu pela fé (Hb 11:8). A você confia no Senhor, nenhuma prova­
\erdadeira fé baseia-se na Palavra de Deus ção é impossível de vencer e nenhum fra­
e conduz à obediência. Deus não poderia casso é permanente.
abençoar e usar Abraão e Sara a menos que
estivessem no lugar onde o Senhor queria 2 . U ma a lia n ç a ( G n 12 : 1-3 )
que estivessem (2 Co 6:14 - 7:1). A fé não se baseia em sentimentos, apesar
É pouco provável que os pecadores per­ de, sem dúvida, as emoções fazerem parte
didos de hoje recebam uma revelação es­ da experiência de fé em certas ocasiões
pecial da glória de Deus como aconteceu (Hb 11:7). A verdadeira fé baseia-se na
com Abraão e Sara. Contudo, podem ver a Palavra de Deus (Rm 10:17). Deus falou a
glória de Deus na vida de seu povo (Mt Abraão e disse o que faria para ele e por
5:16) e ouvir sua Palavra pela fé quando o meio dele, se ele confiasse e obedecesse.
povo de Deus dá seu testemunho. Deus fa­ "Grandes vidas são moldadas por grandes
lou diretamente a Abraão, mas hoje em dia promessas", escreveu Joseph Parker, e cer­
ouvimos a verdade da salvação por meio tamente esse foi o caso de Abraão e Sara.
do testemunho do povo de Deus (At 1:8). A aliança de Deus concedeu-lhe a fé e as
Por que Deus chamou. Há pelo menos forças de que precisavam para uma vida
três motivos pelos quais Deus chamou toda de peregrinação.
Abraão e Sara. Em seu amor, Deus estava Não somos salvos ao fazer promessas a
preocupado com a salvação deles, de modo Deus. Somos salvos ao crer nas promessas
que revelou sua glória e compartilhou com de Deus. Foi Deus quem, em sua graça, deu
eles suas bondosas promessas. Mas, além sua aliança a Abraão, e ele respondeu com
da salvação pessoal deles, o propósito de fé e obediência (Hb 11:8-10). A maneira
Deus era abençoar todos os povos da Ter- como você responde às promessas de Deus
ra. Isso aconteceu quando Deus enviou seu determina aquilo que ele fará na sua vida.
88 G Ê N E S I S 11:27 - 12:9

A Bíblia registra várias alianças de Deus, pliou diversos elementos dessa aliança, mas
começando com a promessa de um Reden­ deu a Abraão e Sara elementos suficientes
tor, em Gênesis 3:15, e culminando com a da verdade para que cressem nele e partis­
nova aliança por meio do sangue de Jesus sem pela fé.
Cristo (Lc 22:20; Hb 8). A palavra hebraica
traduzida por "aliança" tem vários significa­ 3. U m a concessão
dos: (1) comer com alguém, o que sugere ( G n 1 1 :2 7 - 3 2 ; 1 2 :4 )
comunhão e concordância; (2) atar ou acor­ Os primeiros passos de fé nem sempre são
rentar, o que significa compromisso; e (3) gigantescos, o que explica o motivo de
distribuir, o que sugere compartilhar. Quan­ Abraão não ter sido completamente obe­
do Deus faz uma aliança, entra num acordo diente a Deus. Em vez de deixar a família,
e compromete-se a cumprir suas promessas. conforme Deus havia ordenado, quando
Trata-se de um ato da mais pura graça. saiu de Ur, Abraão levou consigo o pai e o
Deus não deu a Abraão motivos ou ex­ sobrinho, Ló, e todos permaneceram em
plicações. Deu-lhe, simplesmente, uma pro­ Harã até que seu pai morreu. Tudo aquilo
messa: "Te mostrarei [...] de ti farei [...] te que você traz consigo da antiga vida para a
abençoarei [...] abençoarei os que te aben­ nova pode causar problemas. Tera, o pai de
çoarem" (Gn 12:1-3). Deus prometeu mos­ Abraão, serviu de empecilho para que
trar-lhe uma terra, fazer dele uma grande Abraão obedecesse plenamente ao Senhor,
nação e usar essa nação para abençoar o e Ló criou sérias dificuldades para Abraão
mundo todo. Deus nos abençoa para que até que os dois finalmente decidiram se se­
possamos ser uma bênção para outros, e parar. Quando saíram de Ur (Gn 20:13),
sua grande preocupação é que o mundo Abraão e Sara levaram consigo uma conces­
todo seja abençoado. A comissão missioná­ são pecaminosa que em duas ocasiões lhes
ria da Igreja não começa com João 3:16 nem causou problemas (Gn 12:10-20; 20:1-18).
com Mateus 28:T8-20. Começa com a alian­ A vida de fé exige separação total daqui­
ça entre Deus e Abraão. Somos abençoados lo que é mau e dedicação total àquilo que é
para que sejamos uma bênção. santo (2 Co 6:14 - 7:1). Ao estudar a vida de
Observe o contraste entre Gênesis 11:1-9 Abraão, veremos que, com freqüência, ele
e Gênesis 12:1-3. Em Babel, os homens disse­ foi tentado a ser condescendente e, por ve­
ram: "Façamos!", mas para Abraão Deus disse: zes, chegou a ceder. Deus nos testa a fim de
"Farei". Em Babel, os homens queriam tornar edificar nossa fé e de extrair o que há de
seu nome célebre, mas foi Deus quem en­ melhor em nós, mas o diabo nos tenta a fim
grandeceu o nome de Abraão. Em Babel, os de destruir nossa fé e de extrair o que há de
trabalhadores tentaram unir os homens para pior em nós.
depois dividi-los. Mas, por meio de Abraão, o Quando andamos pela fé, só podemos
mundo todo foi abençoado e todos os cris­ nos apoiar em Deus: sua Palavra, seu cará­
tãos são unidos em Jesus Cristo. É claro que ter, sua vontade e seu poder. Não que você
Pentecostes (At 2) é o "inverso" de Babel; tenha de se isolar de sua família e amigos,
porém Pentecostes não poderia ter ocorrido mas não os considera mais seu primeiro amor
sem a aliança de Deus com Abraão (Gl 3:14). e primeira responsabilidade (Lc 14:25-27).
Deve ter sido difícil para Abraão e Sara Seu amor por Deus é tão intenso a ponto de
crerem que Deus iria abençoar o mundo fazer com que, em termos comparativos, o
todo por meio de um casal idoso e sem amor pela família pareça ódio! Deus nos cha­
filhos, mas foi exatamente o que ele fez. ma para a "solidão" (Is 51:1-3), e não deve­
Deles procedeu a nação de Israel, e de Is­ mos fazer concessões.
rael procedeu a Bíblia e o Salvador. Deus
reafirmou sua aliança com Isaque (Gn 26:4) 4. U m c o m p r o m is s o ( G n 1 2 :4 - 9 )
e Jacó (Gn 28:14) e cumpriu-a em Cristo Thomas Fuller, um pregador puritano do sé­
(At 3:25, 26). Ao longo dos anos, Deus am­ culo xvn, disse que toda a humanidade foi
G Ê N E S I S 11:27 - 1 2:9 89

dividida em três classes: os planejadores, os obedecer ao Senhor pela fé? Onde estaríamos
empreendedores e os realizadores. É possí­ se gerações anteriores de cristãos não tives­
vel que Tera fosse um planejador, mas não sem se entregado inteiramente ao Senhor?
chegou à terra da promessa. Até certa altu­ Nós, que chegamos depois, não devemos, de
ra, Ló foi um empreendedor, mas fracassou forma alguma, deixar de reconhecer o valor
terrivelmente, pois não foi capaz de andar daquilo que gerações anteriores pagaram um
pela fé. Abraão e Sara foram realizadores, alto preço para obter. Que a próxima gera­
pois confiaram em Deus para realizar aquilo ção olhe para nós e diga: "Eles foram fiéis!"
que havia prometido (Rm 4:18-21). Assumi- A fé nos conduz ao objetivo (w . 6-8).
-am um compromisso com Deus e dedica­ Deus nos coloca em ação para nos conduzir
ram a ele seu futuro, obedeceram ao que o ao objetivo que tem para nós (Dt 6:23). Não
Senhor ordenou e receberam tudo o que sabemos nada sobre a longa jornada de
Deus havia planejado para eles. Abraão e Sara de Harã até Canaã, pois o que
A fé nos leva a mudar (w . 4, 5). Pode ter importava era seu destino. Séculos depois,
sido o amor de um filho por seu pai idoso Deus daria aquela terra aos descendentes
que fez Abraão protelar (Lc 9:59-62), mas de Abraão. No entanto, quando Abraão e
finalmente chegou o dia em que ele e Sara Sara chegaram, eram "estrangeiros e peregri­
íi\eram de sair de Harã e dirigir-se à terra nos" (Hb 11:13) em meio a uma sociedade
que Deus havia escolhido para eles. É im­ pagã.
possível ter fé e duvidar (Tg 1:6-8), e não se Apesar do que diz uma velha canção po­
pode servir a dois senhores (Mt 6:24). A fé pular, entrar em Canaã não é como morrer e
exige compromisso. ir para o céu. Entrar na terra prometida é
Âs vezes, tenho a impressão de que com­ uma figura do cristão que toma posse de
promisso é algo em extinção no mundo de sua herança pela fé. Deus determinou uma
hoje. Muitas pessoas não querem se compro­ "terra de Canaã" para cada um de seus filhos
meter com seu emprego, com seus votos (Ef 2:10), e ela só é alcançada pela fé. Tomar
matrimoniais nem umas com as outras. "Vou posse da herança implica passar por provas
fazer as minhas coisas do meu jeito!" e tentações, desafios e batalhas, mas Deus
Essa é a essência da filosofia de nossos pode nos conduzir a seu objetivo (Fp 1:6).
tempos e a atitude que também invadiu as A obediência nos leva a uma nova segu­
igrejas. Muitos cristãos não se comprometem rança em Deus e a novas promessas dele
com um ministério da igreja e vão de uma (Cn 12:7; Jo 7:17). Que consolo deve ter
igreja para a outra sempre que muda o pastor sido para Abraão e Sara quando receberam
ou a programação musical. Hoje em dia, a essa nova revelação de Deus ao chegarem a
palavra-chave é "temporário": professores uma terra estranha e perigosa. Quando ca­
temporários de escola dominical, coordenado­ minha pela fé, sabe que Deus está com você
res temporários do grupo de jovens, membros e não há nada a temer (Hb 13:5, 6; At 18:9,
temporários do coral, membros temporários 10; 2 Tm 4:17). Deus cumprirá seus propó­
da igreja e até pastores temporários. sitos e realizará em você e por seu intermé­
"Vivemos um tempo de declarações dio tudo o que está no coração dele.
efêmeras", disse Vance Havner. "Os credos A maioria de nós não recebe uma ordem
fundamentais da igreja encontram-se no final para levantar acampamento e ir para outro
do hinário, mas desapareceram da vida da país, mas os desafios de fé são igualmente
maioria de seus membros - se é que chega- reais. Por vezes, há problemas sérios em casa,
'am a significar alguma coisa. Declarações no trabalho ou na igreja e nos perguntamos
de dedicação pessoal desvanecem e pre­ por que Deus permite que tais coisas acon­
cisam ser renovadas. São tempos de decla- teçam. A fim de se apropriar de sua herança
'ações de compromisso enfraquecidas!" espiritual em Cristo, você deve demonstrar
Onde estaríamos hoje se Abraão e Sara fé na Palavra de Deus e obediência à vonta­
não tivessem assumido o compromisso de de de Deus.
90 G Ê N E S I S 11:27 - 12:9

Para onde quer que Abraão fosse em Não tinha "lugares sagrados", mas construía
Canaã, lá ele levantava sua tenda e seu altar seu altar onde levantava sua tenda. Era possí­
(Gn 12:7, 8; 13:3, 4, 18). A tenda indicava vel traçar o caminho que Abraão havia percor­
que ele era um "estrangeiro e peregrino" rido até então seguindo o rastro dos altares
que não pertencia a este mundo (Hb 11:9- que havia deixado para trás. Não se enver­
16; 1 Pe 2:11), e o altar indicava que ele era gonhava de adorar a Deus abertamente en­
um cidadão do céu que adorava o verdadei­ quanto seus vizinhos pagãos o observavam.
ro Deus vivo. Abraão testemunhava a todos Na vida do peregrino, devemos prosse­
que era separado deste mundo (a tenda) e guir "de fé em fé" (Rm 1:1 7) para caminhar
consagrado ao Senhor (o altar). Sempre que "de força em força" (Sl 84:7). G. A.
Abraão abandonava sua tenda e seu altar, Studdert Kennedy disse: "Fé não é crer ape­
metia-se em apuros. sar das evidências, é obedecer apesar das
O lugar onde Abraão colocou sua tenda conseqüências". "Pela fé, Abraão [...] obe­
tinha Betei a oeste e Ai a leste (Gn 12:8). Os deceu" (Hb 11:8). A fé sem obediência é
nomes da Bíblia por vezes têm significados morta (Tg 2:14-26), e a ação sem fé é peca­
importantes, apesar de não podermos levar do (Rm 14:23). Deus ligou a fé à obediên­
isso ao extremo. Betei significa "a casa de cia como os dois lados de uma moeda - as
Deus" (Gn 28:19) e Ai significa "ruína". Em duas são inseparáveis.
termos figurativos, Abraão e Sara estavam Isso não significa que os pecadores são
andando na luz, do Leste para o Oeste, da salvos pela fé e também pelas obras, pois as
cidade da ruína para a casa de Deus! O siste­ Escrituras declaram que os pecadores são
ma deste mundo está corrompido, mas os salvos somente pela fé (Jo 3:16-18; Ef 2:8,
verdadeiros cristãos deram as costas para o 9). Certa vez, o Dr. H. A. ironside - que du­
mundo e voltaram o rosto para o lar celestial rante muito tempo foi pastor da Igreja Moody
de Deus. "Mas a vereda dos justos é como a em Chicago - ouviu uma senhora dizer que
luz da aurora, que vai brilhando mais e mais esperava ir para o céu tanto por sua fé quan­
até ser dia perfeito" (Pv 4:18). to por suas boas obras.
A fé nos coloca em movimento (v. 9). A — E como remar um barco — ela expli­
vida de fé não deve jamais tornar-se estag­ cou. — E preciso dois remos para fazê-lo
nada, pois se nossos pés estão se movendo, mover-se; do contrário, a pessoa só andará
nossa fé está crescendo. Observe os verbos em círculos.
usados para descrever a vida de Abraão: Ao que o Dr. Ironside replicou:
ele partiu (Gn 12:4), partiu e chegou (v. 5), — E uma ótima ilustração, exceto por
atravessou (v. 6), passou dali (v. 8) e seguiu uma coisa: Eu não vou para o céu de barco!
dali (v. 9). Deus manteve Abraão em movi­ A fé que salva é demonstrada por meio
mento para que se deparasse com novos das boas obras (Ef 2:8-10; Tt 2:14; 3:8, 14).
desafios e fosse forçado a confiar em Deus Abraão foi salvo pela fé (Hb 11:8; Gn 15:6;
para receber "graça para socorro em oca­ Rm 4:1-5), mas essa fé foi comprovada por
sião oportuna" (Hb 4:16). O cristianismo sua obediência (Tg 2:21-24).
confortável é o oposto da vida de fé, pois A essa altura da narrativa bíblica, Abraão
"peregrinos e estrangeiros" devem enfren­ encontra-se no lugar que Deus reservou para
tar novas circunstâncias, a fim de obter no­ ele, fazendo o que Deus ordenou. Mas a
vas percepções sobre si mesmos e sobre história não termina aí - esse é só o come­
seu Senhor. "Deixemo-nos levar para o que ço! Mesmo quando você está vivendo em
é perfeito" (Hb 6:1). obediência, passa por testes e enfrenta pro­
Como Abraão soube para onde ir e o vações, pois é assim que a fé cresce. Mas o
que fazer? Ele "invocou o nome do S e n h o r " mesmo Senhor que fez você mudar, alcançar
(Gn 12:8). Orou ao Senhor, e Deus o aju­ o objetivo e continuar em movimento tam­
dou. Os vizinhos pagãos de Abraão viram que bém o fará atravessar as provações, se você
ele possuía um altar, mas não tinha ídolos. o seguir pela fé.
Por que Deus permitiu essa falta de ali­
15 mento? Para ensinar a Abraão e Sara uma
lição fundamental na "escola da fé", uma
lição que você também deve aprender: mui­
Fo m e , R eb a n h o s e R ixas tas vezes, as vitórias são seguidas de prova­
ções. Esse princípio é ilustrado pela história
G ênesis 1 2 :1 0 - 13 :18 de Israel. Assim que o povo foi liberto do
Egito, sofreu a perseguição do exército egíp­
cio e viu-se encurralado diante do mar
Vermelho (Êx 12 -15). Vitória seguida de
provação. Deus os livrou, mas logo passa­
ram por outra prova: a falta de água (Êx
// A vida pode ser difícil", escreveu Amy 15:22-27). Depois disso veio a fome (Êx 16)
/ \ Carmichael, missionária na índia. e um ataque dos amalequitas (Êx 17). As
"Às vezes o inimigo vem como uma inun­ provações vêm depois das vitórias.
dação. Mas essa é a hora de provar nossa "Pensei que aceitar a salvação iria resol­
fé e de viver aquilo que cantamos" (Candles ver todos os meus problemas", disse-me um
in the Dark, p. 51). recém-convertido. "Mas agora sei que a fé
Não dá para confiar numa fé que não se em Cristo criou para mim uma série de pro­
pode provar. Pedro comparou as provações blemas novos! Só que, agora, duas coisas
do cristão à prova do ouro na fornalha (1 Pe são diferentes", acrescentou com um sorri­
1:7), e o patriarca Jó usou a mesma imagem: so. "Não enfrento esses problemas sozinho,
"Mas ele sabe o meu caminho; se ele me pois o Senhor está comigo. Além disso, sei
provasse, sairia eu como o ouro" (Jó 23:10). que ele permite as dificuldades para meu
O propósito de Deus ao permitir as prova­ próprio bem e para a glória dele."
ções não é apenas avaliar nossa fé, mas tam­ Um dos inimigos da vida de fé é o orgu­
bém purificá-la e remover toda a escória. lho. Quando você alcança uma vitória,
Deus sabe que tipo de fé nós temos, mas nós pode ficar confiante demais e começar a
não sabemos; a única maneira de progredir dizer a si mesmo que é capaz de derrotar
na "escola da fé" é passar nas provas. qualquer inimigo a qualquer hora. Começa
Assim como Abraão, passamos por três a depender de suas experiências passadas
provas especiais para progredir na "escola da e de seu conhecimento cada vez maior da
fé": as circunstâncias (Gn 12:10), as pessoas Palavra, em vez de depender inteiramente
Gn 12:11 - 13:4) e as coisas (Gn 13:5-18). do Senhor. Isso explica o motivo de a pro­
messa de 1 Coríntios 10:13 ser precedida
1. C ir c u n s t â n c ia s (G n 12:10) de uma advertência no versículo 12: "Aque­
Ao deixar sua família e viajar para uma terra le, pois, que pensa estar em pé veja que
desconhecida, Abraão deu um grande pas­ não caia". Deus não queria que Abraão se
so de fé. Depois que chegou, viu Deus pela tornasse orgulhoso nem que ficasse con­
segunda vez e ouviu sua promessa. Abraão fiante demais, assim colocou a ele e sua fé
e Sara, provavelmente, esperavam assentar- na fornalha da provação.
se e aproveitar o novo lar, mas Deus tinha Depois de ter alcançado uma grande vi­
outros planos. Em vez disso, permitiu que tória pela fé, espere um ataque do inimigo
houvesse uma grande fome sobre a terra. ou uma prova do Senhor - ou ambas as coi­
Não há nenhum registro de que Abraão ti­ sas. Essa é a única maneira de crescer na fé.
vesse enfrentado escassez de alimento em Deus usa as circunstâncias difíceis da vida
L r ou Harã, mas agora que estava na terra para fortalecer os músculos da sua fé e
de Deus, precisava encontrar comida para guardá-lo de confiar em outra coisa que não
um grupo grande de pessoas e para todos seja a Palavra dele. Não tente fugir dos pro­
os seus rebanhos (ver Gn 14:14). blemas. Não vai dar certo.
92 G Ê N E S I S 12:10 - 13:18

Em vez de permanecer na terra e de con­ tratar com um Faraó arrogante e seus ofi­
fiar que o Senhor o ajudaria, Abraão "desceu ciais. O Faraó era considerado uma divin­
[...] ao Egito" (Gn 12:10). Na Bíblia, o Egito é dade, mas não era um deus como o Deus
símbolo do sistema do mundo e de sua es­ de Abraão - amoroso, generoso e fiel.
cravidão, enquanto a terra de Israel é um Abraão logo descobriu que teria sido me­
retrato da herança das bênçãos que Deus lhor lidar com as circunstâncias de Canaã
tem para você (Dt 11:10-12). Quando as pes­ do que com o povo no Egito.
soas iam para Jerusalém, subiam até a cida­ Para começar, Abraão deixou de confiar
de; mas quando iam para o Egito, desciam e começou a tramar. Abraão não tinha um
àquela terra. Em termos espirituais, "descer altar no Egito, e não o vemos clamando ao
para o Egito" significa duvidar das promes­ Senhor em busca de orientação e de ajuda.
sas de Deus e correr para o mundo em bus­ Quando eu trabalhava com o ministério Mo­
ca de ajuda (ver Nm 11; 14; Is 30:1, 2; 31:1; cidade para Cristo, meu amigo e colega Pete
e Jr 42:1 3ss). Quist com freqüência nos lembrava de que
Quando as circunstâncias se complica­ "Crer é viver sem tramar". Quando você pára
rem e você se vir dentro da fornalha da pro­ de confiar na Palavra de Deus, começa a
vação, fique onde Deus o colocou até que apoiar-se na sabedoria humana, e isso traz
ele diga para você se mover. A fé nos coloca problemas (Pv 3:5, 6; 1 Co 3:1 8-20). Abraão
no rumo da paz e da esperança, mas a incre­ e Sara trouxeram consigo de Ur uma "meia-
dulidade nos leva à inquietação e ao medo. verdade" (Gn 20:13). Usaram-na no Egito e
"Aquele que crer não foge" (Is 28:16). Em em Gerar (Gn 20), e, mais tarde, seu filho,
tempos de provação, a pergunta importante Isaque, adotou o mesmo esquema (Gn 26).
não é: "Como posso sair dessa situação?", Quando você se pega tramando a fim de es­
mas sim: "O que posso aprender com essa capar de problemas com pessoas, tome cui­
situação?" (ver Tg 1:1-12). Deus está traba­ dado; coisas piores ainda estão por vir!
lhando para edificar sua fé. Além disso, Abraão deixou de confiar e
Somente Deus tem o controle das cir­ começou a temer. Quando você se encontra
cunstâncias. Você está mais seguro passan­ no lugar que Deus escolheu, não precisa ja­
do por uma grande fome dentro da vontade mais temer; isso porque a fé e o temor não
dele do que vivendo num palácio fora da podem habitar no mesmo coração (Is 12:2;
vontade dele. Alguém disse muito bem: "A Mc 4:40). O temor do Senhor conquista to­
vontade de Deus jamais o conduzirá a um dos os outros medos (Sl 112; Is 8:13). Mas
lugar em que a graça de Deus não pode "quem teme ao homem arma ciladas" (Pv
guardá-lo". Abraão não foi aprovado no tes­ 29:25). Deus havia dito, repetidamente, a
te das circunstâncias e afastou-se da vonta­ Abraão: "Eu farei", mas Abraão dizia: "os egíp­
de de Deus. cios [...] vão" (Gn 12:12; ênfase minha). Dei­
xou de olhar para o Senhor e começou a
2. P essoas ( G n 1 2 :1 1 - 1 3 :4 ) olhar para as pessoas.
Uma vez no Egito, Abraão enfrentou uma Ocorreu, ainda, outra mudança: e/e dei­
nova série de problemas. Isso acontece por­ xou de preocupar-se com os outros e passou
que, se alguém foge de uma prova, logo a preocupar-se consigo mesmo. Mentiu e ex­
enfrenta outra. Uma vez que você se matri­ plicou a Sara o motivo: "para que me consi­
cula na "escola da fé", não tem como "de­ derem por amor de ti" (Gn 12:13). Como
sistir do curso" só porque não passou em marido, Abraão deveria ter pensado primei­
uma prova. Deus tem um propósito a cum­ ro na esposa e não em si mesmo (1 Pe 3:7;
prir em você e por meio de sua vida, e ele Ef 5:25, 28, 29). Na verdade, nem sequer
fará todo o necessário para que seja bem- deveria tê-la levado consigo! Um marido
sucedido (Si 138:8; Fp 1:6). que não está dentro da vontade de Deus
Em Canaã, Abraão só precisava lidar com pode causar inúmeros problemas para a es­
a falta de alimento. No Egito, porém, teve de posa e a família.
G Ê N E S I S 12:10 - 13:18 93

Isso nos leva à quarta mudança: ele dei­ ruína de sua família. A desobediência não
xou de trazer bênçãos e começou a trazer traz nenhum benefício.
iulgamento. Deus chamou Abraão para ser A lição prática de tudo isso é simples­
uma bênção às nações (Gn 12:1-3). No en­ mente esta: nunca abandone seu altar. Man­
tanto, por causa da desobediência de tenha-se em comunhão com Deus, quaisquer
Abraão, o Faraó e sua casa receberam jul­ que sejam as circunstâncias. Se você deso­
gamento (v. 17). O mesmo ocorreu anos de­ bedeceu, e Deus o está disciplinando, volte
pois em Gerar (Gn 20). Se você deseja ser para o lugar onde você deixou o Senhor e
uma bênção para outros, então fique dentro coloque as coisas em ordem. Lembre-se: "A
da vontade de Deus. Jonas fugiu da vontade vida cristã vitoriosa é uma série de recome-
de Deus e causou uma tempestade que qua­ ços". Isso não serve de desculpa para pecar,
se afundou o navio. Assim como Jonas, mas é um incentivo ao arrependimento.
Abraão perdeu seu testemunho diante de
incrédulos e teve de sofrer a vergonha e a 3. C o is a s (G n 1 3 :5 - 1 8 )
repreensão. Fico imaginando quantas brigas de família
Em sua graça, Deus cuidou de seu servo foram causadas pelo amor ao dinheiro. O
e tirou-o de uma situação difícil. Se Sara ti­ jornal sempre traz reportagens de famílias
vesse se tornado uma das esposas do Faraó, lutando nos tribunais por causa de uma he­
o que teria acontecido com a promessa do rança ou de um prêmio de loteria. Pessoas
Redentor? Quando não deixamos Deus con­ que costumavam amar e gostar umas das
trolar nossa vida, ele prevalece e cumpre seus outras começam a atacar-se só para conse­
propósitos, mas nós pagamos um alto preço guir dinheiro; mas o dinheiro não é capaz de
por nossa desobediência. comprar as bênçãos que a família concede
Abraão aprendeu a lição, arrependeu-se gratuitamente.
e "saiu" do Egito (Gn 13:1). Quando deso­ Abraão pode ter sido reprovado nos dois
bedecemos à vontade de Deus, a única coi­ primeiros testes, mas passou com nota má­
sa certa a fazer é voltar para o lugar onde xima no terceiro. Essa provação não foi fácil,
deixamos o Senhor para trás e recomeçar pois envolvia terras e riqueza. No entanto,
1 Jo 1:9). Na "escola da fé", nenhum fracas­ Abraão deu o exemplo daquilo que todo o
so é permanente. Abraão voltou para sua cristão deve fazer quando se vê envolvido
tenda e seu altar e para uma vida de "pe­ em disputas por coisas materiais.
regrino e estrangeiro". Abraão resolveu ser um pacificador e não
Alguém, observando esse episódio de um encrenqueiro. O problema entre Abraão
passagem, pode concluir: "O que aconte­ e Ló não foi causado pela terra, pela falta de
ceu com Abraão não foi tão ruim. O Faraó comida, pela riqueza (os dois eram muito
deu-lhe muitas riquezas (Gn 12:16; 13:2) ricos) nem pelos pastores (Gn 13:7). O co­
e Sara recebeu Agar, uma serva só para si ração de todo problema é o problema do
Gn 16:1). Deus perdoou o pecado de coração. O coração de Ló estava nas rique­
Abraão, e ele começou de novo. Então, qual zas e realizações do mundo, enquanto
é o problema?" Abraão só desejava agradar a Deus. "Anda­
O "problema" é que tudo o que Abraão rão dois juntos, se não houver entre eles
■ecebeu no Egito acabou causando transtor­ acordo?" (Am 3:3)
nos. Por causa de sua grande riqueza, Foi triste uma contenda separar paren­
Abraão e Ló não puderam mais viver juntos tes chegados (Gn 13:8). Porém, mais triste
e precisaram separar-se (Gn 13:5, 6). Agar, ainda foi ela ser testemunhada pelos pagãos
a escrava egípcia, trouxe divisão e tristeza da terra onde os dois habitavam (v. 7). Quan­
para aquele lar (Gn 16). Uma vez tendo pro­ do cristãos entram em conflito, isso prejudica
vado o que havia no Egito (no mundo), Ló o testemunho do Senhor. Ao longo de meu
começou a medir tudo pelos parâmetros ministério pastoral, muitas vezes visitava pa­
de lá (Gn 13:10, 11), e isso levou à queda e rentes e amigos não cristãos de membros da
94 G Ê N E S I S 12:10 - 13:18

igreja, procurando levá-los a se interessar primeiro em si mesmo (Gn 12:12, 13); mas
pelas coisas espirituais, só para descobrir quando voltou para seu altar em Canaã, co­
que sabiam de todas as "brigas de igreja" locou Deus em primeiro lugar e, depois, os
que aconteciam na cidade. Não é de se ad­ outros. Como "líder ancião" do acampamen­
mirar que nosso Senhor orou para que seu to, Abraão tinha todo o direito de decidir a
povo fosse um, a fim de que o mundo pu­ questão e dizer a Ló o que fazer. No entanto,
desse crer (Jo 17:20-23). A união dos cris­ deixou que Ló escolhesse primeiro. "Amai-
tãos é um bom aroma e dá frutos (Sl 133). A vos cordialmente uns aos outros com amor
desunião, porém, transforma esse bom per­ fraternal, preferindo-vos em honra uns aos
fume em mau cheiro e o pomar em deserto. outros" (Rm 12:10). O cristão espiritual não
O texto de Tiago 3:13 - 4:10 explica por insiste em seus direitos, cedendo-os de bom
que Ló era um agitador e não um pacifica­ grado a outros.
dor. Seu coração não estava em ordem com Em sua velhice, o general William Booth,
Deus. Ele seguiu a sabedoria deste mundo fundador do Exército de Salvação, estava fra­
(como seu tio, Abraão, havia feito no Egito) co demais para comparecer aos congressos
e não a sabedoria de Deus. A sabedoria e a mundiais da organização, mas costumava
riqueza do mundo, que parecem dar tanta enviar representantes com uma mensagem.
satisfação, no final, só trazem decepção. Num desses anos, mandou-lhes um telegra­
A cobiça - um apetite insaciável por mais ma contendo uma única palavra: OUTROS.
coisas - leva a todo tipo de mal (1 Tm 6:10). Tive o privilégio de ministrar com o Exército
A fim de conseguir mais dinheiro, as pessoas de Salvação em várias partes do mundo e
mentem (Pv 21:6), maltratam os outros (Pv posso testemunhar que levam essa palavra
22:16), usam de meios desonestos para en­ - OUTROS - muito a sério. "Não tenha cada
riquecer (Pv 28:8) e afligem a própria família um em vista o que é propriamente seu, se­
(Pv 15:27). "A cobiça é o começo e o fim do não também cada qual o que é dos outros"
alfabeto do diabo", escreveu Robert South, (Fp 2:4).
"é o primeiro mal a surgir na natureza cor­ Abraão viveu pela fé e não pelas aparên­
rupta e o último a morrer". cias. Qualquer que fosse a decisão de Ló,
Abraão havia causado problemas no Egi­ Abraão não estava preocupado com o futu­
to porque estava no lugar errado, e Ló cau­ ro, pois sabia que tudo estava nas mãos do
sou problemas em Canaã por estar no lugar Senhor. Abraão nunca leu o Salmo 47:4 nem
errado: Na realidade, seu coração estava no Mateus 6:33, mas colocou essas duas pas­
Egito (Gn 13:10). De acordo com 1 Corín­ sagens em prática. Havia se encontrado com
tios 2:14 - 3:3, existem apenas três tipos de Deus no altar e sabia que tudo estava sob
pessoa no mundo: as naturais (não salvas), controle. Quando Deus ocupa o primeiro lu­
as carnais (salvas, mas vivem no mundo e na gar em sua vida, não faz diferença quem está
carne) e as espirituais (dedicadas a Deus). em segundo ou em último.
Você encontra esses três tipos em Gênesis Ló possuía uma tenda, mas não tinha um
13: natural (homens de Sodoma; v. 13), car­ altar (Gn 13:5), o que significa que não invo­
nal (Ló) e espiritual (Abraão). Ló era um ho­ cava o Senhor pedindo sabedoria em suas
mem reto (2 Pe 2:7, 8), porém não dedicado decisões (Tg 1:5). Em vez de levantar os olhos
ao Senhor. Ele não podia andar com Abraão, para o céu, Ló levantou os olhos para a cam­
pois seu tio era amigo de Deus (2 Cr 20:7; Is pina do Jordão (Gn 13:10) e fixou-se lá. Os
41:8), e Ló era amigo do mundo (Tg 4:4). olhos vêem o que o coração ama. Abraão
Muitas divisões de igreja e brigas de família havia tirado Ló de dentro do Egito, mas não
são causadas por cristãos carnais que não conseguiu tirar o Egito de dentro de Ló. A
estão andando com o Senhor nem com ou­ forma de ver as coisas ajuda a determinar os
tros cristãos. resultados. Os olhos de Abraão estavam vol­
Abraão vivia para os outros e não para si. tados para a cidade santa de Deus (Hb 11:13-
Enquanto estava no Egito, Abraão pensou 16), e ele caminhou com o Senhor até herdar
G Ê N E S I S 12:10 - 13:18 95

suas bênçãos. Os olhos de Ló estavam volta­ sua herança pela fé! (Js 1:1-3; Dt 11:24). A
dos para as cidades pecaminosas dos homens, disciplina pela qual Abraão passou ao des­
e ele obteve o sucesso do mundo, a falência cer para o Egito ensinou-o a respeitar os
espiritual e um fim vergonhoso. limites, de modo que Deus pôde, então, -
Ló teve uma excelente oportunidade confiar-lhe os horizontes, É a sua fé em Deus \
de tornar-se um homem de Deus enquanto que determina quanto das bênçãos dele você
estava com Abraão, mas não encontramos vai desfrutar.
nenhuma informação de que Ló tivesse cons­ Quando você creu em Jesus Cristo como
truído um altar ou invocado o nome do Se­ seu Salvador, Deus lhe deu-"toda sorte de
nhor. Primeiro, olhou para Sodoma (Gn 13:10); bênção espiritual nas regiões celestiais em
depois, partiu para aquela região (Gn 13:11, Cristo" (Ef 1:3). Agora, você tem sua heran­
12) e, por fim, mudou-se para Sodoma (Gn ça! Tudo o que precisa fazer é apropriar-se
14:12). Em vez de ser um peregrino, progre­ dela pela fé e usufruir da "sua riqueza [de
dindo rumo a seu lar, Ló regrediu, rumando Deus] em glória" (Fp 4:19). A Palavra de
para o mundo e afastando-se da bênção do Deus é o "testamento" que diz quão rico
Senhor (Sl 1:1). "Partiu para o Oriente" (Gn você é, e a fé é a chave que abre o cofre para
13:11) e deu as costas a Betei ("casa de Deus"), que possa apropriar-se de sua herança.
rumando para Ai ("ruínas"; ver 12:8). Talvez, Abraão deu graças a Deus. Abraão não
para Ló, o povo de Sodoma não parecesse apenas ergueu os olhos e olhou (Gn 13:14);
perverso, mas com certeza o era para Deus, ele levantou-se e percorreu a terra (v. 17),
e isso é o que importa. como também elevou o coração e adorou
Abraão deixou que Deus escolhesse por a Deus, agradecendo-lhe por suas genero­
ele. Depois que Ló partiu, Abraão teve ou­ sas bênçãos. Mudou a tenda de acampa­
tro encontro com o Senhor (Gn 13:14-18). mento em acampamento conforme Deus o
Ló havia levantado seus olhos e visto o que dirigia e construiu seu altar de testemunho
o mundo tinha a oferecer; então, Deus convi­ e de adoração. O povo de Sodoma orgu­
dou Abraão a levantar os olhos e ver o que o lhava-se de sua afluência (Ez 16:49), mas
céu tinha a oferecer. Ló escolheu um pedaço Abraão possuía uma riqueza da qual eles
de terra que acabou perdendo, mas Deus não tinham qualquer conhecimento (Jo
deu a Abraão toda a terra que ainda perten­ 4:31-34). Caminhava em comunhão com
ce a ele e a seus descendentes. Ló "escolheu Deus, e seu coração estava satisfeito.
para si" as terras que desejava. Deus disse a Satanás quer usar circunstâncias, pessoas
Abraão "eu te darei". Que contraste! e coisas para tentá-lo e para extrair o que há
Ló perdeu sua família, mas Abraão rece­ de pior em você. Deus quer usar tudo isso
beu a promessa de uma família tão grande para prová-lo e para extrair o que há de me­
que não poderia ser contada. (Lembre-se de lhor em você. Abraão foi reprovado nos dois
que Abraão e Sara eram idosos e não tinham primeiros testes, pois recorreu à sabedoria
filhos.) Ló estava vivendo para o possível, mas humana em vez de usar a fé na Palavra de
Abraão confiava em Deus para o impossível. Deus. No entanto, passou no terceiro teste
Depois de dizer: "Ergue os olhos e olha" com honras, pois deixou que Deus assumis­
■v. 14), o Senhor disse a Abraão: "Levanta-te, se o controle. "E esta é a vitória que vence o
percorre essa terra" (v. 17). Aproprie-se de mundo: a nossa fé" (1 Jo 5:4).
1. A b r a ã o , o o b s e r v a d o r ( G n 14:1-12)
16 Esse trecho registra a primeira guerra men­
cionada na Bíblia, e não teria sido incluída
aqui se Abraão não estivesse envolvido. Po­
C rer E V itó ria demos encontrar muitos relatos históricos
nas Escrituras. Mas, como disse o Dr. A. T.
G ênesis 14 Pierson, "a história humana é a história de
Deus". Aquilo que está escrito nos ajuda a
entender melhor como Deus realizou seu
grande plano de salvação no mundo. Na Bí­
blia, com freqüência, os fatos históricos são
janelas para verdades espirituais.

Q
uando você se matricula na "escola da As cinco cidades-estados da planície do
fé", nunca sabe o que pode acontecer Jordão (Gn 14:2; ver 13:10) haviam se sujei­
em seguida. Num dia, Abraão pode ser visto
tado a doze anos de governo sob os reis de
resolvendo uma disputa de terras. Noutro, quatro cidades-estados do Oriente (Gn 14:1)
prepara-se para uma batalha. Por que isso e acabaram revoltando-se contra elas. Obvia­
acontece? mente, isso representou uma declaração de
Dentre outras coisas, Deus quer que al­ guerra. Assim, os quatro reis invadiram a pla­
cancemos a maturidade em todas as áreas nície do Jordão para subjugar os cinco reis
da vida, mas não é fácil amadurecer. Não das cidades daquela região. De nosso ponto
pode haver crescimento sem que haja desa­ de vista moderno, a invasão foi um pequeno
fios. Se as circunstâncias nunca mudassem, conflito sem muita importância. No entanto,
tudo seria previsível, e quanto mais previsí­ para os padrões daquela época, isso foi consi­
vel a vida se torna, menos desafios oferece. derado um conflito internacional de grandes
William Cullen Bryant escreveu: proporções.
É claro que cinco reis deveriam ser ca­
Não chores porque o mundo se trans­ pazes de derrotar quatro reis, especialmente
forma - porque lutavam em seu próprio território.
Se o mundo insistisse em conservar Mas o exército das cidades da planície foi
Um estado imutável e sem reforma - completamente derrotado pelos reis inva­
Então motivo terias, em verdade, para sores! Ao que parece, os cinco reis nem se­
chorar. quer conheciam suas próprias terras, pois
ficaram presos em poços de betume (v. 10).
Quando você anda na luz (1 jo 1:5-10), Tudo o que seu exército conseguiu fazer foi
pode enxergar o que acontece, e sua vida fugir para os montes.
terá variedade. Na escuridão, porém, tudo Diz-se que, certa vez, ao passar em revis­
parece igual. Não é de se admirar que pes­ ta suas tropas, o Duque de Wellington falou:
soas ainda não-salvas (e cristãos que aban­ "Não sei que impressão esses homens cau­
donaram a fé) sintam-se tão entediadas e sarão no inimigo, mas eles me dão medo!"
precisem sempre buscar uma forma de Ezequiel 16:49, 50 indica que o estilo de
fugir désse tédio! A vida de fé apresenta vida do povo de Sodoma e de Gomorra não
desafios que fazem você se mover - e os havia preparado para a guerra (comparar
crescer! Ez 16:49, 50 com 1 Jo 2:15-17).
Neste capítulo, Abraão, o homem de fé, Quaisquer que fossem os propósitos
desempenha três papéis especiais: o de ob­ dos reis naquele conflito, Deus tinha um
servador (Gn 14:1-12), o de batalhador (vv. plano específico para Ló: ele foi capturado
13-16) e o de adorador (vv. 17-24). Nesses como prisioneiro de guerra. Ló ergueu os
três papéis, Abraão exercitou a fé em Deus e olhos para Sodoma, rumou para Sodoma
tomou as decisões certas. (Gn 13:10-13) e, naquele tempo, vivia em
G Ê N E S IS 14 97

Sodoma (Gn 14:12; ver Sl 1:1). É possível se refere a cuidar dos outros e "promover o
que você não perceba isso pela conduta dele, bem-estar geral". Quando você vê pessoas
mas Ló era um homem justo (2 Pe 2:6-8). em dificuldade, não pede que dêem um tes­
Onde foi que ele errou? temunho antes de ajudá-las (Lc 10:25-37; Gl
Enquanto estava no Egito com Abraão, 6:10). O serviço sacrificial é uma das manei­
Ló provou um pouco do sabor do mundo e ras de mostrar a outros o amor de Cristo (Mt
gostou. Em lugar algum as Escrituras regis­ 5:16). Se os cristãos não carregam sua par­
tram que Ló tivesse construído um altar e cela dos fardos comuns da vida, como po­
buscado ao Senhor, como fez seu tio, Abraão. dem ser o sal da terra e a luz do mundo?
Abraão era amigo de Deus (Tg 2:23), mas José, por exemplo, serviu no Egito, e Deus
Ló era amigo do mundo (Tg 4:4). Com o o usou para preservar sua família e a nação
tempo, Ló acabou conformando-se com o judaica. Neemias serviu a um rei pagão e, no
mundo (Rm 12:2), e quando Sodoma per­ entanto, Deus usou a autoridade e os recur­
deu a guerra, Ló foi condenado junto com o sos desse rei para permitir que Neemias re­
mundo (1 Co 11:32). Se você se identifica construísse Jerusalém. Ester era uma judia
com o mundo, então espere sofrer aquilo que se casou com um rei gentio, e Deus a
que o mundo sofre. usou para proteger o povo judeu de um ex­
A captura de Ló foi a forma usada por termínio quase certo. Na Babilônia, Daniel
Deus para discipliná-lo e lembrá-lo de que jamais abriu mão de suas convicções, mas
não devia estar em Sodoma. Sem dúvida, ainda assim assistiu a vários reis e foi grande­
Abraão orava fielmente por seu sobrinho, mente usado por Deus. Podemos cooperar
para que se separasse do mundo e começas­ com diversas pessoas em inúmeras ocasiões
se a viver como um verdadeiro "estrangeiro a fim de alcançar diversos objetivos, mas de­
e peregrino". Deus disciplina seus filhos por­ vemos sempre ter consciência de nossa obri­
que ele os ama e quer o melhor para eles (Pv gação de glorificar a Deus.
3:11, 12; Hb 12:1-11). Se não ouvimos as Abraão tratou seu sobrinho com amor,
repreensões de Deus, então ele é obrigado a tanto quando deixou que Ló escolhesse pri­
chamar nossa atenção de algum outro modo, meiro as terras que desejava (Gn 13:9) quan­
e esse modo normalmente é doloroso. to na ocasião em que arriscou sua própria
vida para salvá-lo. Ló não havia usado de
2. A b r a ã o , o ba talh ad o r bondade para com Abraão, e Abraão tinha
(Gn 1 4 :1 3 - 1 6 ) todos os motivos para deixar que o sobri­
Sua atitude. Abraão não se envolveu na guer­ nho sofresse as conseqüências dolorosas de
ra até ficar sabendo que Ló havia sido captu­ suas próprias decisões insensatas. No entan­
rado. Só então ele tomou uma atitude. to, Ló era seu "sobrinho"(o termo usado no
Abraão estava separado do mundo, porém original pode ser traduzido como "irmão";
não isolado dele; era independente, porém Gn 14:16), de modo que Abraão colocou
não indiferente. Na verdade, ele e alguns dos em prática o amor fraternal e venceu o mal
príncipes da região haviam formado uma com o bem (Rm 12:17-21; Gl 6:1, 2).
aliança justamente para esse tipo de emer­ Seu exército. Apesar de ser um homem
gência (v. 13). Ele era "Abrão, o hebreu" (v. 13), pacífico, Abraão estava preparado para a
que significa, "o estrangeiro, a pessoa que guerra. Ele não lutou por motivos egoístas
não tem uma posição garantida na socie­ nem em benefício próprio; lutou porque
dade". Não era "Abraão, o cruel". Era "pere­ amava Ló e desejava ajudá-lo. Ao refletir so­
grino e estrangeiro" naquela terra, mas isso bre as características do exército de Abraão,
não servia de desculpa para a inércia. vê-se o que é preciso ter, na esfera espiritual,
Ainda que não devam condescender com para obter a vitória sobre o mundo.
incrédulos em questões referentes à vida es­ (1) Os homens eram nascidos em sua
piritual e ao ministério (2 Co 6:14 - 7:1), os casa (v. 14). Em termos espirituais, isso nos
cristãos podem cooperar com eles no que lembra de que "Todo o que é nascido de
98 G Ê N E S IS 14

Deus vence o mundo" (1 Jo 5:4). Nosso pri­ e é assim que a Igreja deve lutar nos dias de
meiro nascimento nos fez filhos de Adão, e hoje.
ele foi vencido; ao nascermos de novo, po­ (5) Eram unidos. Não eram três exérci­
rém, tornamo-nos filhos de Deus, e Jesus tos com três líderes; era um único exército,
Cristo é o Vencedor. Ele subjugou todos os e Abraão estava no comando. Que vitórias
inimigos (Ef 1:19-23) e compartilha sua vi­ conquistaríamos se o povo de Deus de nos­
tória com todos aqueles que confiam nele. sos dias estivesse unido em amor! Canta­
"E esta é a vitória que vence o mundo: a mos o hino que diz: "Como um poderoso
nossa fé" (1 Jo 5:4). exército / Avança a Igreja do Senhor"; mas
(2) Estavam armados (v. 14). É preciso na realidade a Igreja é muito diferente de
mais do que zelo e coragem para vencer uma um exército, especialmente no que se refe­
guerra: é necessário ter um equipamento efi­ re à disciplina de marchar todos juntos. "O
caz. Os soldados cristãos devem usar toda a problema da Igreja", disse um pastor amigo
armadura de Deus e as armas espirituais que meu, "é que não há um número suficiente
Deus ofereceu (Ef 6:10-18). Nossas armas de soldados rasos".
são espirituais, não carnais (2 Co 10:3-5), e (6)Tinham um único e firme propósito.
são usadas no poder do Espírito Santo. A Seu objetivo não era a vingança nem o lucro
Palavra de Deus e a oração (At 6:4) são nos­ pessoal (Gn 14:22, 23), mas sim a vitória
sas armas mais eficazes e devemos empu­ sobre o inimigo para que os prisioneiros pu­
nhá-las pela fé. Como diz a letra de um cântico: dessem ser soltos. Um soldado hesitante em
"Veste a armadura do evangelho / Cada uma seus propósitos está destinado à derrota:
de suas partes / Veste em oração". "Nenhum soldado em serviço se envolve
(3) Eram treinados (v. 14). Não importa com negócios desta vida, porque o seu ob­
quão excelente seja o equipamento; se os jetivo é satisfazer àquele que o arregimentou"
soldados não forem treinados, serão facil­ (2 Tm 2:4). Quando nos lembramos de Acã
mente derrotados. Um dos propósitos da (Js 7), de Sansão (Jz 13 - 16) e de Saul (1 Sm
igreja local é treinar o povo de Deus para 15), vemos como isso é verdade.
usar a Bíblia com eficácia, orar, reconhecer o Sua conquista. Abraão e seus aliados
inimigo e obedecer a ordens como soldados eram tão fortes que perseguiram o inimigo
do exército de Cristo. Quanto melhor você por mais de cento e cinqüenta quilômetros,
conhece a Bíblia, mais bem equipado você libertaram todos os prisioneiros e recupera­
está para a batalha (2 Tm 3:16, 17). O Capi­ ram todos os espólios. Será que Abraão e
tão de sua salvação deseja treiná-lo para seu sobrinho materialista tiveram uma longa
"aperfeiçoar" você (Hb 13:20, 21), sendo conversa no caminho de volta? Será que Ló
que, no grego, esse termo significa "equipar cumpriu a promessa que fez quando estava
um exército". Se fracassamos na batalha, a preso? Será que fez promessas a Abraão?
culpa não é do equipamento nem da estraté­ Não temos como responder a essas per­
gia de nosso Capitão. O problema está nos guntas, mas uma coisa é certa: nem a disci­
soldados. plina do Senhor nem sua bondade ao salvar
(4) Acreditavam em seu líder. Abraão e Ló adiantaram. A bondade de Deus deveria
seus aliados viajaram quase duzentos quilô­ ter conduzido Ló ao arrependimento (Lc
metros para realizar um ataque surpresa aos 15:14-19; Rm 2:4), mas, em vez de se arre­
quatro reis e tiveram vitória absoluta. Ao que pender, Ló voltou para Sodoma. Ele poderia
parece, Abraão seguiu instruções do Senhor, ter se juntado novamente a Abraão, mas es­
fazendo daquela investida uma vitória de fé. colheu voltar ao pecado.
A aplicação espiritual é clara: se o povo de "Abraão foi o pai dos fiéis", escreveu
Deus espera derrotar seus inimigos, deve con­ Alexander W hyte em sua obra clássica
fiar no Senhor e obedecer a suas ordens. Foi Biblical Characters, "e seu sobrinho, Ló, foi
assim que Josué conquistou a Terra Prometi­ o pai de todos os que são salvos por um triz".
da e que Davi derrotou os inimigos de Israel, Algumas pessoas serão salvas, "todavia, como
G Ê N E S IS 14 99

que através do fogo" (1 Co 3:15), mas é (Is 32:17; Hb 12:11). Sem dúvida, podemos
muito melhor ter "amplamente suprida a ver no pão e no vinho a lembrança da morte
entrada" (2 Pe 1:11) no reino eterno do do Senhor por nós na cruz.
Senhor. Assim, quando Abraão rejeitou Bera e
aceitou Melquisedeque, estava fazendo uma
3. A b r a ã o , o ad o rad o r (G n 14:17-24) declaração de fé: "Levem o mundo, eu fico
Mais uma batalha. As vezes, enfrentamos os com Jesus". Ló deveria ter tomado essa mes­
maiores perigos após vencer uma batalha. ma decisão, mas ele escolheu voltar para sua
Foi depois de haver tomado Jericó que a vida de condescendência cóm as coisas
autoconfiança dos israelitas levou-os à der­ terrenas.
rota em Ai (Js 7). Foi depois de seu sucesso Por que teria sido errado Abraão aceitar
no monte Carmelo que Elias entrou em pâni­ os espólios? Afinal, ele não arriscou sua vida
co e fugiu amedrontado (1 Rs 19). Não é de e a de seus soldados para derrotar os reis
se admirar que o devoto pastor escocês, invasores e salvar os prisioneiros? Em termos
Andrew Bonar (1810-1892), disse: "Este­ legais, Abraão tinha todo o direito de se apro­
jamos tão alertas depois da vitória quanto priar dos espólios, mas em termos morais,
estávamos antes da batalha". essas riquezas estavam fora de seus limites.
Quando Abraão voltou da batalha, dois Muitas coisas no mundo estão dentro da lei
reis foram a seu encontro: Bera, rei de Sodo­ para os tribunais de justiça, mas são moral­
ma ("queimando"), e Melquisedeque, rei de mente erradas para o povo de Deus.
Salém ("paz"). Bera ofereceu a Abraão to­ Além disso, antes de tomar para si os
dos os espólios em troca da libertação das espólios, Abraão precisava concordar em
pessoas, e Melquisedeque deu-lhe pão e vi­ entregar o povo de Sodoma a seu rei, que
nho. Abraão rejeitou a oferta de Bera, mas disse: "Dá-me as pessoas" (Gn 14:21). As­
aceitou o pão e o vinho de Melquisedeque e sim como Deus quer usar o corpo humano
lhe deu o dízimo dos espólios. Tudo isso é para sua glória (Rm 12:1, 2; 1 Co 6:19, 20),
simbólico e apresenta algumas importantes o inimigo deseja usar o corpo humano para
verdades espirituais que você deve enten­ propósitos perversos (Rm 6:12, 13). De fato,
der e aplicar. o inimigo disse para José (Gn 39) e para
Abraão teve de escolher entre dois reis Daniel (Dn 1): "Dá-me o seu corpo", mas os
que representavam dois estilos de vida opos­ dois disseram "Não!" Quando, porém, o ini­
tos. Sodoma era uma cidade perversa (Gn migo pediu a mesma coisa a Sansão (Jz 16),
13:13; Ez 16:49, 50), e Bera representava o a Davi (2 Sm 11) e a Judas (Jo 13:27), eles
domínio desse sistema tão atraente à carne disseram "Sim!" E que preço pagaram por
Ef 2:1-3). O nome Bera quer dizer "dádi­ isso!
va", sugerindo que o mundo tenta comprar Abraão não aceitou a oferta do rei Bera.
sua fidelidade. Contudo, Sodoma significa É bem provável que, em vez disso, tenha
"queimando", portanto tenha cuidado ao dado a todos aqueles que libertou a oportu­
escolher! Se você se inclinar para Bera, tudo nidade de se juntarem a ele e de confiarem
o que há de mais importante em sua vida no verdadeiro Deus vivo. Abraão era um che­
um dia arderá em chamas. Foi o que acon­ fe de tribo poderoso e seus vizinhos sabiam
teceu a Ló! de sua tenda e de seu altar. No entanto, não
Melquisedeque significa "rei da justiça", há qualquer indicação de que algum deles
e Salém quer dizer "paz". Tanto Hebreus 7 (inclusive a família de Ló), tenha aceito o con­
quanto o Salmo 110 associam Melquisede­ vite de Abraão. Com exceção de Ló e de
que a Jesus Cristo, "Rei da paz" e "Rei da suas duas filhas, todos pereceram na des­
justiça" (Sl 85:10). Assim como foi Melqui­ truição de Sodoma.
sedeque no tempo de Abraão, Jesus Cristo Mais uma bênção. Melquisedeque tinha
é nosso Rei e Sacerdote no céu, permitin­ algo melhor a oferecer para Abraão: a bên­
do que gozemos justiça e paz ao lhe servir ção do "Deus Altíssimo que possui os céus
100 G Ê N E S IS 14

e a terra". Abraão vivia pelas bênçãos do Por esse motivo, muitos cristãos de hoje
Senhor e não pelos subornos do mundo. Ele acreditam que o povo de Deus deve come­
não queria que alguém pensasse que o çar a ofertar ao Senhor entregando o dízimo.
mundo o havia tornado um homem rico. Um diácono muito devotado me disse: "Se
Até uma coisa pequena como um cadarço o judeu do Antigo Testamento, que vivia sob
poderia afetar sua caminhada com Deus! a lei, podia dar seu dízimo, nós, cristãos do
Muitos servos do Senhor enfraqueceram seu Novo Testamento vivendo sob a graça, de­
testemunho por ter aceito aplausos e pre­ veríamos dar muito mais!"
sentes de pessoas do mundo. Não se pode Em 2 Coríntios 8 - 9 , encontramos deli­
ser um servo de Deus e uma celebridade neado o plano para a contribuição com
do mundo ao mesmo tempo. dízimos e ofertas. O falecido R. G. LeTour-
M elquisedeque encontrou-se com neau, conhecido industrial e filantropo cris­
Abraão depois da batalha, a fim de fortalecê- tão, costumava dizer: "Se você dá o dízimo
lo para a vitória. O Senhor conhece as tenta­ pensando nos lucros, vai sair no prejuízo!"
ções que enfrentamos depois que derrota­ Abraão, porém, nos dá um excelente
mos o inimigo. Abraão havia se encontrado exemplo de contribuição. Levou seus presen­
com o Senhor antes da batalha e prometido tes a Jesus Cristo por meio da pessoa de
que não tomaria para si nenhuma parte dos Melquisedeque (ver Hb 7:1-10). Não damos
espólios da vitória. Ele manteve firme seu nossos dízimos e ofertas para a igreja, para o
propósito ao liderar seu exército, e Deus lhe pastor ou para os tesoureiros. Se nossa con­
deu a vitória. tribuição é um gesto sincero de adoração,
Abraão não impôs sua convicção a seus nós a entregamos ao Senhor e, por esse mo­
aliados - Aner, Escol e Manre (Gn 14:24). tivo, desejamos dar o que temos de melhor
Deixou a critério deles resolver se deseja­ (Ml 1:6-8).
vam tomar para si a parte que lhes cabia Numa das igrejas que pastoreei, não
dos espólios. Também não esperou que recolhíamos ofertas aos domingos. Em vez
dessem o dízimo a Melquisedeque. Abraão disso, tínhamos caixas especiais para esse
era um peregrino e estrangeiro, enquanto fim colocadas na saída antes ou depois dos
os aliados eram homens do mundo, cuja cultos. Certo dia, um menino que estava
conduta era governada por um conjunto di­ visitando a igreja perguntou a seu amigo
ferente de valores. "Os outros podem - você para que serviam aquelas caixas, e o outro
não deve". respondeu:
Encontramos em Gênesis 14:20 a pri­ — E lá que colocamos nossas ofertas.
meira menção que a Bíblia faz ao dízimo. — E o que acontece com o dinheiro? —
Dar o dízimo significa dedicar a Deus 10%, perguntou o visitante.
seja de dinheiro, de colheitas ou de animais — Acho que o entregam ao irmão Eastep
(a palavra hebraica significa "dez".) Quan­ — respondeu o menino. (Na época, o Dr. D.
do damos o dízimo, reconhecemos que B. Eastep era o pastor dessa igreja.)
tudo pertence a Deus e que somos despen­ Ainda mais perplexo, o menino pergun­
seiros agradecidos de sua riqueza. Os ju­ tou:
deus pagavam um dízimo anual ao Senhor —Tudo bem, mas o que o irmão Eastep
(Lv 27:30-33), bem como um dízimo a cada faz com o dinheiro?
três anos, que era dedicado especificamen­ Dessa vez, seu amigo estava pronto para
te aos pobres (Dt 26:12-15). Também po­ responder:
diam dar o dízimo dos 90% restantes como —Não sei como ele faz isso, mas o irmão
"oferta comemorativa" a ser desfrutada em Eastep entrega o dinheiro para Deus!
Jerusalém (Dt 12:5-19). Meu piedoso antecessor naquela igreja
A prática de dar o dízimo é anterior à lei deu boas risadas quando ouviu essa his­
de Moisés. Vemos não apenas Abraão dan­ tória. Sabia (como todos nós) que cada
do o dízimo, mas também Jacó (Gn 28:22). adorador deve levar suas ofertas ao Senhor
G Ê N E S IS 14 101

e entregá-las com um coração agradecido. e os ídolos pagãos! O Deus de Abraão é o


Todo aquele que faz parte do povo de Deus possuidor (Criador) dos céus e da Terra (Gn
é sacerdote e pode levar seus sacrifícios a 14:19; ver Is 40). Ele merece toda a adora­
ele (1 Pe 2:5, 9). ção e louvor de seu povo.
Abraão deu prontamente. Tinha os prin­ Antes da batalha, Abraão levantou as
cípios de despenseiro firmemente guardados mãos pela fé num voto solene a Deus de que
em seu coração, de modo que não havia não tomaria para si coisa alguma dos espóli­
motivo para adiar a oferta. os. Seu coração e sua mente estavam firmes
Ele também deu proporcionalmente, um em seu propósito (Mt 6:24).
procedimento incentivado pelo apóstolo Durante a batalha, Abraão empunhou sua
Paulo (1 Co 16:1, 2). O dízimo é um bom espada pela fé e confiou que Deus lhe daria
começo; mas à medida que Deus abençoa, a vitória.
devemos aumentar essa porcentagem, se de­ Depois da batalha, pela fé, Abraão fechou
sejamos colocar em prática aquilo que é as mãos ao rei de Sodoma e abriu-as para o
descrito em 2 Coríntios 8 - 9 . rei de Salém, ao receber pão e vinho e dar o
Abraão deu porque amava ao Senhor e dízimo.
desejava reconhecer sua grandeza e bonda­ "E esta é a vitória que vence o mundo: a
de. Que contraste entre o "Deus Altíssimo" nossa fé" (1 Jo 5:4).
( G n 1 5 :1 )
17 1. S u a s e g u r a n ç a
Ouvindo a si mesmo. O capítulo anterior
concentrou-se nas ações de Abraão, mas
este capítulo trata de suas emoções, inclu­
A N o ite E s c u r a sive de "grande pavor e cerradas trevas" (Gn
15:12). Pessoas de fé também têm senti­
da A lm a
mentos que não devem ser desmerecidos
G ê n e s is 15 nem ignorados. Muitos cristãos ortodoxos
têm a tendência de enfatizar a mente e a
vontade e de minimizar as emoções. Trata-
se de um erro grave que pode levar a uma
vida desequilibrada.
// A quele que verdadeiramente teme e Somos feitos à imagem de Deus, e isso
/ V obedece ao Senhor pode ver-se numa inclui nossas emoções. Ao mesmo tempo que
situação de escuridão, sem ter qualquer luz. não é sábio confiar nas emoções e ignorar o
Pode ser que ande muitos dias e anos nessa que diz a mente, também não é sábio negar
situação..." e reprimir as emoções e tornar-se um autô­
Assim escreveu o teólogo puritano mato religioso. No Livro de Salmos, Davi e
Thomas Goodwin (1600-1679), concordan­ outros escritores foram honestos em dizer a
do com as palavras do profeta Isaías: Deus aquilo que sentiam sobre ele, sobre si
"Quem há entre vós que tema ao S e n h o r e mesmos e sobre suas circunstâncias, dando-
que ouça a voz do seu Servo? Aquele que nos um exemplo a ser seguido. Jesus era um
andou em trevas, sem nenhuma luz, confie homem verdadeiro e expressou abertamen­
em o nome do S e n h o r e se firme sobre o seu te suas emoções de alegria, tristeza, ira san­
Deus" (Is 50:10). ta e amor.
Às vezes, até o mais dedicado dos cris­ O que Abraão tinha a temer, uma vez
tãos sente que está "no escuro" e se per­ que havia vencido a batalha? Dentre outras
gunta por que Deus parece tão distante. coisas, ele era humano, e nossas emoções
Durante a Rebelião dos Boxers, a Missão "se desintegram" depois de um período de
do Interior da China passou por grande so­ grande perigo e dificuldade. Isso ajuda a
frimento, e seu fundador, J. Hudson Taylor, explicar por que o profeta Elias ficou tão
disse a um amigo: "Não consigo ler, não desanimado depois da vitória sobre Baal
consigo pensar, nem sequer consigo orar; no monte Carmelo (1 Rs 19). Depois do pico
mas posso confiar". Foi um período de tre­ da montanha, vem o vale.
vas, mas Deus, a seu tempo, trouxe a luz. Havia, ainda, a possibilidade de os qua­
Abraão passou por uma experiência que tro reis voltarem com reforços e de ataca­
alguns líderes espirituais chamam de "noite rem o acampamento de Abraão. Ele sabia
escura da alma". O termo vem de um clássi­ que uma derrota como aquela era uma
co espiritual do século xvi com esse mesmo questão muito séria para os reis do Oriente
nome e escrito por São João da Cruz. To­ e que não se esqueceriam dela tão cedo. E
mando por base as cenas noturnas descritas se Abraão fosse morto? O que aconteceria
em Cantares de Salomão, o livro conta como à aliança e à promessa de Deus?
o filho de Deus chega ao mais profundo Ouvindo a Deus. Sem dúvida você deve
amor e fé ao passar pela escuridão tempo­ "dar ouvidos a seus sentimentos" e ser hones­
rária e parecer distante de Deus. Não se to sobre eles. De acordo com o psiquiatra
trata de uma experiência fácil, mas por ve­ David Viscott: "Quando uma pessoa assu­
zes é necessária. me a responsabilidade por seus sentimentos,
Abraão tinha três grandes preocupações. também assume a responsabilidade por seu
Quando o patriarca passou por essa "noite mundo". Mas não pare por aí. Dedique tem­
escura", Deus tratou dessas três questões. po para ouvir a Deus e receba as palavras de
G Ê N E S IS 15 103

encorajamento do Senhor. Essa é a primeira no Antigo Testamento, aos textos de Mateus


vez na Bíblia em que encontramos a expres­ 6:33 e Filipenses 4:19.
são "Veio a palavra do S e n h o r ", e ela é usada Proteção e provisão são bênçãos que o
mais de cem vezes no Antigo Testamento. A mundo está buscando e que os políticos pro­
te que conquista o medo é a fé na Palavra, metem sempre que concorrem a um cargo.
não nos sentimentos. Os candidatos oferecem aos eleitores prote­
Deus chamou seu amigo pelo nome (Jo ção contra guerras e contra a violência das
10:3). Quando eu era pequeno, ia sempre ruas, bem como a provisão de empregos,
fazer compras para minha mãe, e os balco­ saúde, educação e aposentadoria. Algumas
nistas das lojas me chamavam pelo nome e das promessas são cumpridas, mas muitas
me perguntavam da família. Quando meus são esquecidas. O Deus Todo-Poderoso é o
pais iam ao banco, normalmente os caixas único que pode fazer promessas de prote­
os reconheciam e cumprimentavam. Salvo ção e de provisão e cumpri-las. "Porque o
raras exceções, os balconistas e caixas que S e n h o r Deus é sol e escudo; o S e n h o r dá gra­
me atendem hoje consideram-me apenas ça e glória; nenhum bem sonega aos que an­
mais um número no computador. Parece dam retamente" (S l 84:11).
incrível, mas o Deus que dá nome a todas
as estrelas e que as numera sabe seu nome 2. S e u h e r d e ir o (Gn 15:2-6)
e se preocupa com suas necessidades (Sl Pedindo (w . 2, 3). Deus havia prometido a
147:3, 4). Abraão que seus descendentes seriam tão
Nessa passagem, também vemos, pela numerosos quanto o pó da terra (Gn 13:16)
primeira vez na Bíblia, estas palavras que ins­ e que trariam bênçãos para o mundo todo
piram confiança: "Não temas". Deus repe- (Gn 12:1-3). Contudo, Abraão e Sara ainda
tiu-as para Isaque (Gn 26:24), para Jacó (Gn não tinham filhos e, se Abraão morresse, o
46:3) e, em várias ocasiões, para o povo de único herdeiro seria seu "primeiro-secretá-
Israel (Êx 14:13; 20:20; Nm 14:9; Dt 1:21). rio", Eliezer (é possível que ele seja o servo
As promessas contendo "não temas" em citado em Gn 24:2). Ló havia saído de cena,
Isaías são ótimas para ler e meditar naqueles e os outros parentes de Abraão estavam a
momentos em que você está lidando com o quase oitocentos quilômetros de lá, na
medo (Is 41:10, 13, 14; 43:1, 5; 44:2, 8). Mesopotâmia. O que havia acontecido com
O remédio do Senhor para o medo de a promessa?
Abraão foi lembrá-lo de quem era seu Deus: A preocupação de Abraão não era ape­
"Eu sou o teu escudo, e teu galardão será nas consigo mesmo e com sua esposa, mes­
sobremodo grande" (Gn 15:1). O EU SOU mo que, como todos os casais do Oriente,
de Deus é perfeitamente oportuno quando eles desejassem ter filhos. Estava preocupa­
o homem diz: "eu não sou". "Aquietai-vos e do com a concretização do plano de Deus
sabei que eu sou Deus" (Sl 46:10). Sua vida para a salvação de todo o mundo. O Se­
é tão grande quanto sua fé, e sua fé é tão nhor tinha um plano glorioso e havia feito
grande quanto seu Deus. Se você passar o uma promessa generosa, mas Deus parecia
tempo todo olhando para si mesmo, ficará não estar fazendo nada! Abraão e Sara es­
desanimado, mas se olhar para Deus pela fé, tavam envelhecendo, e o tempo estava se
será encorajado. esgotando.
Deus é nosso escudo e nosso galardão, Essa é uma das lições fundamentais da
nossa proteção e provisão. Abraão não pre­ "escola da fé": A vontade de Deus deve
cisava se preocupar com outra batalha, pois cumprir-se do jeito de Deus e no tempo de
o Senhor o protegeria. Também não precisa­ Deus. Deus não esperava que Abraão e Sara
va se arrepender de ter perdido a riqueza descobrissem uma forma de ter um herdei­
que o rei de Sodoma havia lhe oferecido, ro. Tudo o que pediu foi que estivessem à
pois Deus iria recompensá-lo de maneiras mui­ disposição para que ele pudesse cumprir
to maiores. Essa passagem é o equivalente, seu propósito neles e por intermédio deles.
104 G Ê N E S IS 15

O que Abraão e Sara não podiam ver era O original hebraico de Gênesis 15:6 con­
que Deus estava esperando até que estives­ tém apenas cinco palavras, mas como são
sem "amortecidos", a fim de que somente o ricas em significado! O versículo é citado três
Senhor recebesse todo o poder e glória. vezes no Novo Testamento: Gálatas 3:16,
É bom compartilhar suas preocupações Romanos 4:3 e Tiago 2:23. As três palavras-
com o Senhor, mesmo que as coisas que chave são: crer, imputado e justiça.
você diz sejam prova da incredulidade ou Abraão creu em Deus, o que, literalmen­
da impaciência do seu coração. Deus não te, significa "Abraão disse: 'Amém, Deus!'"
fecha seus ouvidos para suas perguntas e A palavra hebraica traduzida por "crer" sig­
não é insensível para com os seus sentimen­ nifica "apoiar todo o peso sobre". Abraão
tos. Ele não repreendeu Abraão. Antes, deu- apoiou-se completamente na promessa de
lhe a certeza de que precisava. "Lançando Deus e no Deus da promessa. Não somos
sobre ele toda a vossa ansiedade, porque salvos ao fazermos promessas para Deus,
ele tem cuidado de vós" (1 Pe 5:7). mas sim ao crer nas promessas de Deus. No
Procurando (w . 4, 5). Deus deixou claro Evangelho de João, escrito para dizer às pes­
que somente Abraão seria o pai do futuro soas como encontrar a salvação (Jo 20:31),
herdeiro. A hereditariedade depende da pa­ a palavra crer é usada quase cem vezes. A
ternidade (Rm 8:14-1 7). Então, de modo co­ salvação é uma dádiva generosa de Deus e
movente, Deus garantiu a Abraão que esse é recebida pela fé (Ef 2:8, 9).
herdeiro seria o pai de tantos descendes que Qual era a maior necessidade de Abraão?
ninguém conseguiria contá-los. Mesmo quan­ justiça. Essa é a maior necessidade das pes­
do a vida está escura, você ainda pode ver as soas em nosso mundo de hoje, pois "todos
estrelas. Abraão estava procurando a solu­ pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm
ção para o problema a seu redor, mas a res­ 3:23). "Não há justo, nem um sequer" (Rm
posta era buscar a solução lá no alto. 3:10). Não basta ser "religioso"; Deus re­
O Catálogo Geral usado pelos astrônomos quer de nós perfeita justiça, do contrário
tem cerca de trinta mil estrelas registradas, não permitirá que entremos em seu lar
mas calcula-se que, além dessas, ainda haja celestial.
mais de cem bilhões! Deus não disse que De que modo Abraão recebeu essa justi­
Abraão teria esse número de descendentes, ça? Ele creu no Senhor, e a justiça lhe foi
mas sim que, como as estrelas, seriam de­ imputada. "Imputar" quer dizer "atribuir a
mais para poder contar. Quer Abraão olhas­ alguém, caracterizar como". Na cruz, nos­
se para baixo e visse o pó da terra (Gn 13:14), sos pecados foram atribuídos a Jesus ("foi
quer olhasse para cima e visse as estrelas contado com os transgressores" Is 53:12),
(Gn 15:5), iria lembrar-se da promessa de quando ele sofreu o castigo que nos era de­
Deus e confiar. Essa promessa foi repetida a vido (Is 53:6). Ao confiar em Cristo, a justiça
Abraão (Gn 22:1 7) e reafirmada a Isaque (Gn dele lhe é atribuída (2 Co 5:21), e você pode
26:4). apresentar-se justo e perdoado diante de um
Crendo (v. 6). As promessas não nos ser­ Deus santo.
vem de nada se não crermos nelas e se não Abraão provou sua fé por meio de suas
agirmos em função delas. Abraão já havia obras quando ofereceu Isaque no altar (Tg
confiado na promessa de Deus (Gn 12:1-3) e 2:14-24). Abraão não foi salvo por sua obe­
provado essa confiança ao deixar seu lar e ir diência a Deus, nem por prometer ser obe­
para Canaã (Hb 11:8). No entanto, Gênesis diente a ele; contudo, sua obediência provou
15:6 é a primeira referência que a Bíblia faz à sua fé. Os pecadores não são salvos pela fé
fé do patriarca Abraão. Esse versículo do acrescida de obras, mas por uma fé que re­
Antigo Testamento eqüivale a João 3:16, e, dunda em obras.
por esse motivo, os escritores do Novo Tes­ Gaste algum tempo lendo Gálatas 3, Ro­
tamento usaram essa passagem para ilustrar manos 4 e Tiago 2 e você verá como Abraão
a salvação pela fé. ilustra a salvação pela fé. Em Gálatas 3, Paulo
G Ê N E S IS 15 105

concentra-se no crer; em Romanos 4, ele tra­ colocando uma metade de frente para a
ta do imputar; em Tiago 2, Tiago explica a outra no chão. Então, as partes envolvidas
justiça. São necessários três capítulos do caminhavam pelo meio dos sacrifícios de­
Novo Testamento para explicar um versículo! clarando que, se deixassem de cumprir sua
A resposta ao medo de Abraão foi a pre­ promessa, mereciam o mesmo fim que
sença de Deus: EU SOU. A resposta ã preo­ aqueles animais (ver Jr 34:18, 19).
cupação de Abraão quanto a seu herdeiro No entanto, não foi o que aconteceu com
foi a promessa de Deus: EU VOU. De que Abraão. Ele abateu os animais, colocou-os
modo Deus respondeu à terceira preocupa­ no chão e passou o restante do dia espantan­
ção de Abraão? do as aves de rapina atraídas pela carne e
pelo sangue. Quando o sol se pôs, ele caiu
3. S u a terra (Gn 1 5 :7 - 2 1 ) em sono profundo e, então, Deus apareceu
Afirmação (v. 7). Deus disse a Abraão que para ele e lhe falou. Mas só Deus passou no
daria a terra de Canaã a ele e a seus descen­ meio das partes dos sacrifícios! (Gn 15:17).
dentes (Gn 12:7; 13:15, 17), e então reafir­ Foi Deus quem fez as promessas a Abraão,
mou essa promessa. A terra é uma parte não o contrário. Eram promessas incondicio­
importante da aliança, pois é na terra de nais; a aliança da graça veio do coração ge­
Israel que se desenrola o drama divino da neroso de Deus.
"história da salvação". Israel também serve Esperança (vv. 13-21). Em meio a "pa­
de palco para o último ato desse drama, vor e cerradas trevas", Abraão ouviu os
quando o Messias voltar para reinar na Terra. termos da aliança de Deus e descobriu qual
Durante séculos, Israel foi uma nação era o plano de Deus para a nação (vv. 13,14,
sem terra, e tudo indicava que a promessa 16, 17), para ele (v. 15) e para a terra (vv.
não se cumpriria. Em 1932, o comentarista 18-21).
inglês G. Campbell Morgan escreveu: "Ago­ A nação (w . 13, 14, 16, 17). Jacó e sua
ra estou quase inteiramente convencido de família foram para o Egito a fim de ser prote­
que o ensinamento das Escrituras, como um gidos por José; lá cresceram e transforma­
todo, é este: não há futuro algum para Israel ram-se num povo forte (Gn 46 - Êx 1). Os
como povo aqui na Terra" (This Was His Faith, judeus chegaram ao Egito como convidados
p. 290). Então, em 14 de maio de 1948, a de honra e acabaram tornando-se uma ame­
nação de Israel voltou a existir! Assim como aça. Assim, o Faraó transformou-os em es­
Deus cumpriu sua promessa a Abraão e en­ cravos e afligiu-os grandemente (Êx 1:11,12).
viou o Messias, também cumprirá sua pro­ Talvez o fogareiro fumegante (Gn 15:17) fos­
messa e restaurará a terra a seu povo. se um símbolo do sofrimento do povo no
G arantiã (vv. 8-12). A pergunta de Egito (Dt 4:20). A crueldade do Faraó não
Abraão não era uma demonstração de in­ foi capaz de exterminar a nação, pois Deus
credulidade, mas sim o pedido de um sinal tinha planos para seu povo escolhido. Deus
como garantia. Ele estava certo de que Deus julgou o Egito com dez pragas e, então, per­
lhe daria o filho prometido, mas a terra esta­ mitiu que Moisés liderasse o povo em triun­
va na mão de nações pagãs (vv. 19-21). Uma fo para fora daquela terra (Êx 5 - 15).
coisa era Abraão possuir a terra, mas como Os acontecimentos e o tempo de cada
seus descendentes tomariam sua posse para um estavam nas mãos do Senhor. Os quatro­
que pudessem desfrutar dela? centos anos de Gênesis 15:13 referem-se a
A descrição dos versículos 9-1 7 mos­ todo o tempo que Israel ficou no Egito, des­
tra aquilo que, na época, era chamado de de a chegada de jacó até o êxodo. É um
"aliança de corte". Esse ritual solene incluía número arredondado, pois, pelo cálculo de
a morte de animais e o compromisso das Êxodo 12:40, foram quatrocentos e trinta
pessoas com uma promessa. As pessoas anos (ver também At 7:6). Por que Deus es­
que estavam realizando a aliança sacrifica­ perou tanto tempo para libertar seu povo?
vam vários animais e dividiam as carcaças, Porque Deus foi longânimo com as nações
106 G Ê N E S IS 15

em Canaã e adiou seu julgamento de modo Salomão governou uma região vasta (1 Rs
que tivessem mais tempo para se arrepen­ 4:21; Sl 72:8), mas Israel não possuía toda
der (2 Pe 3:8, 9; Mt 23:32). Aqueles que aquela terra. Os reis simplesmente reconhe­
condenam Israel (e Deus) pela forma como ciam a soberania de Salomão e pagavam-lhe
os cananeus foram tratados se esquecem de tributo. Quando Jesus Cristo reinar no trono
que Deus concedeu-lhes séculos para se ar­ de Davi (Mt 19:28; Lc 1:32), a terra de Israel
rependerem de sua perversidade. chegará às dimensões completas prometidas
Abraão (v. 5). Os "dias da vida de Abraão" por Deus.
foram cento e setenta e cinco anos (Gn 25:7), Não importa em que Israel crê, a aliança
0 que significa que ele andou com Deus du­ de Deus com Abraão permanece. Ela é in­
rante um século (Gn 12:4). Apesar de seus condicional; seu cumprimento não depende
erros ocasionais, Abraão realizou a vontade da fé nem da fidelidade de seres humanos.
de Deus e trouxe bênção para o mundo Semelhantemente, a nova aliança estabele­
todo. Essa promessa de Deus deve ter dado cida por Jesus Cristo não depende de as
grande ânimo a Abraão e Sara durante seus pessoas aceitarem-na ou não. Aqueles que
tempos de dificuldades, assim como as pro­ depositam sua fé em Jesus Cristo entram
messas de Filipenses 1:6 e Efésios 2:10 ser­ nessa aliança e recebem salvação eterna (Hb
vem de encorajamento para as pessoas hoje 5:9; 9:12), uma herança eterna (Hb 9:15) e
em dia. glória eterna (1 Pe 5:10).
A terra (w . 8-27). No começo da pere­ Quando Abraão preocupou-se consigo
grinação de Abraão, Deus lhe disse: "Vai mesmo, Deus deu-lhe segurança dizendo:
para a terra que te mostrarei" (Gn 12:1). "EU SOU!". Quando se preocupou com seu
Mais tarde, disse: "eu ta darei" (Gn 13:15- herdeiro, ouviu o Senhor dizer: "Eu vou!".
17). Então, sua palavra a Abraão foi: "À tua Quando sua preocupação foi com a terra,
descendência dei esta terra" (Gn 15:18). A Deus respondeu: "Eu já te dei!"
aliança de Deus declarou que aquela ques­ Em Jesus Cristo, Deus dá essas mesmas
tão estava resolvida. A terra pertencia aos garantias para seu povo nos dias de hoje.
descendentes de Abraão pela linhagem de Abraão creu em Deus.
Isaque. Você crê?
A
18 1. espera ( G n 1 6 :1 a )
Abraão estava com oitenta e cinco anos de
idade. Sua caminhada com o Senhor havia
começado dez anos antes, e ele havia apren­
C u id a d o c o m os dido algumas lições preciosas sobre a fé.
Deus havia prometido um filho a Abraão e
D e s v io s !
Sara, mas não disse quando essa criança
G ê n e s is 1 6 iria nascer. Era um período de espera, e a
maioria das pessoas não gosta de esperar.
Contudo, é "pela fé e pela longanimidade
[que os cristãos] herdam as promessas" (Hb
6 : 12 ).
a década de 1960, minha esposa e eu
N
Deus tem um tempo perfeito para todas
passamos alguns dias de férias perto as coisas que deseja fazer. Afinal, esse acon­
das montanhas Apalaches. Quando estáva- tecimento não era só o nascimento de mais
mos voltando para casa, ela disse: "Vamos um bebê: era parte do grande plano de Deus
pegar essa estrada secundária. Parece um para a salvação do mundo todo. Porém, Sara
caminho interessante". ficou impaciente enquanto esperava que al­
Interessante?... Na verdade era uma das guma coisa acontecesse.
piores estradas de terra que já havíamos Por que Deus demorou tanto? Porque
visto, inclusive considerando algumas em queria que Abraão e Sara estivessem "amor­
campos missionários no exterior. Não ha­ tecidos" (Hb 11:12), a fim de que a glória
via buracos, só crateras. Quanto mais poei­ fosse dada somente ao Senhor. Aos oitenta
ra o carro levantava, mais mal-humorado e e cinco anos de idade, Abraão ainda se mos­
impaciente eu ficava. Ao fazer uma curva trou viril o suficiente para ter um filho com
com todo o cuidado, chegamos à conclu­ Agar, de modo que não era chegado o mo­
são de que quase ninguém passava por ali; mento de o bebê que resultaria de um mila­
isso porque, na nossa frente, passeando bem gre nascer. Aquilo que é verdadeiramente
no meio da estrada, havia duas tartarugas. feito pela fé é realizado para a glória de Deus
Quando, finalmente, chegamos à civili­ (Rm 4:20), não para a exaltação do homem.
zação e entramos numa estrada asfaltada, Disposição para esperar no Senhor é
pensei nas palavras que Vince Havner costu­ outra prova de que você está andando pela
mava dizer: "O desvio é sempre pior que a fé. "Aquele que crer não foge" (Is 28:16).
estrada principal". Paulo citou esse versículo em Romanos
Gênesis 16 mostra um doloroso desvio 10:11 e ampliou seu significado: "Todo
que Abraão e Sara tomaram em sua peregri­ aquele que nele crê não será confundido".
nação, o qual trouxe conflitos não apenas ao (Foi o mesmo Espírito Santo que inspirou
lar dos dois, mas também ao mundo todo. tanto Isaías quanto Paulo e ele tem o direi­
Aquilo que os jornalistas chamam, hoje em to de fazer tais alterações.) Sempre que dei­
dia, de "conflito árabe-israelita" começou xamos de confiar em Deus, começamos a
com esse desvio. "fugir" para a direção errada e acabamos
No entanto, o relato é muito mais do que sendo confundidos.
uma parte da história antiga com suas con­ Outra indicação de fé é agir de acordo
seqüências contemporâneas. Trata-se de uma com a autoridade da Palavra de Deus. "A fé
ótima lição para o povo de Deus sobre an­ vem pela pregação, e a pregação, pela pa­
dar pela fé e esperar que Deus cumpra suas lavra de Cristo" (Rm 10:17). Se você está
promessas do jeito dele e no tempo dele. Ao obedecendo ao que Deus diz em sua Pala­
estudar as etapas dessa experiência, você vra, pode agir pela fé e saber que Deus o
verá como é perigoso depender de sua pró­ abençoará. Hebreus 11 registra os atos po­
pria sabedoria. derosos de homens e de mulheres comuns,
108 G Ê N E S IS 16

que ousaram crer nas promessas de Deus e De acordo com as leis matrimoniais da­
obedecer a seus mandamentos. quela época, era perfeitamente aceitável que
Por fim, sempre que estiver vivendo pela Abraão tomasse Agar para ser sua segunda
fé, Deus lhe dará alegria e paz. "E o Deus da esposa. Anos depois, Jacó casou-se com Bila
esperança vos encha de todo o gozo e paz e Zilpa - servas de suas esposas -, e cada
no vosso crer" (Rm 15:1 3). Você pode estar uma delas lhe deu dois filhos. Além disso, o
cercado de conflitos, mas terá a paz e a ale­ plano parecia ter dado certo, uma vez que
gria de Deus. Agar concebeu. Talvez, no final das contas,
Estas são, portanto, as evidências da ver­ Sara tivesse razão.
dadeira fé bíblica: (1) estar disposto a espe­ No entanto, nem tudo o que é permitido
rar; (2) estar preocupado somente com a pela lei ou que parece dar certo é aprovado
glória de Deus; (3) obedecer à Palavra de pela vontade de Deus. Em momento algum,
Deus; e (4) ter a alegria e a paz de Deus em Deus aceitou Agar como esposa de Abraão;
seu ser. Enquanto Abraão e Sara esperavam, o anjo do Senhor chamou-a de "serva de
Deus aumentava a fé e a paciência do casal Sarai" (Gn 16:8). Mais tarde, ela foi referida
e construía seu caráter (Tg 1:1-4). Então, como "essa escrava e seu filho" (Gn 21:10) e
Abraão e Sara resolveram tomar um dolo­ não "a esposa e o filho de Abraão", isso por­
roso desvio. que "tudo o que não provém de fé é peca­
do" (Rm 14:23). Deus rejeitou a trama toda,
2. O plan o (G n 1 6 : 1 b -4a ) pois tinha algo muito melhor em mente para
Sara sabia que não podia ter filhos, mas que Abraão e Sara.
seu marido ainda era capaz de gerar uma Ao recapitular as quatro evidências da
criança. Deus havia designado Abraão es­ fé bíblica explicadas acima, você pode ob­
pecificamente como o pai do herdeiro pro­ servar que Abraão e Sara não passaram no
metido, mas ainda não havia identificado a teste. Não estavam dispostos a esperar no
mãe. Pela lógica, deveria ser a esposa de Senhor e se precipitaram colocando em prá­
Abraão; mas talvez Deus tivesse outros pla­ tica seus próprios planos. Agiram de modo
nos. Sara estava tentando prever o que Deus a satisfazer apenas a si mesmos e não a glo­
faria - uma atitude perigosa. Lembre-se de rificar a Deus. Não estavam obedecendo à
que a verdadeira fé baseia-se na Palavra de Palavra e, certamente, não trouxeram ale­
Deus (Rm 10:1 7) e não na sabedoria huma­ gria e paz para seu coração e seu lar.
na (Pv 3:5, 6), pois "crer é viver sem tra­ O romancista escocês George MacDo-
mar". Quando Sara sugeriu seu plano a nald estava certo quando disse: "Em tudo o
Abraão, não havia convicção em suas pala­ que faz sem Deus, o homem fracassa desgra­
vras. Deus havia dito a Abraão: "Sabe, com çadamente ou alcança o sucesso ainda mais
certeza" (Gn 15:1 3); mas Sara não tinha tal desgraçadamente". O que nos leva à tercei­
certeza para servir de base para suas ações. ra etapa do "desvio" que Abraão e Sara to­
Além disso, Sara não estava preocupada maram.
com a glória de Deus. Seu único objetivo
fica claro quando ela diz: "assim me edifi- 3. O c o n f l it o ( G n 1 6 :4 b - 6 )
carei com filhos por meio dela" (Gn 16:2). Quando você age conforme a sabedoria do
Talvez houvesse uma pontinha de decepção mundo, acaba lutando como o mundo (Tg
com Deus e até mesmo a intenção de culpar 3:13-18). De todos os conflitos, as brigas em
Deus em suas palavras: "O S e n h o r me tem família são as mais dolorosas e as mais difí­
impedido de dar à luz" (v. 2). Diz-se com ceis de resolver. As coisas poderiam ter sido
freqüência que, para Deus, adiar não é o mes­ diferentes, se Agar tivesse mantido uma ati­
mo que negar. Contudo, Satanás sussurra: tude de serva. No entanto, ela se tornou or­
"Deus está retendo aquilo que lhe é de direi­ gulhosa e irritou sua senhora (Pv 30:21-23).
to! Se amasse você, as coisas seriam diferen­ Vemos na casa de Abraão a ilustração da
tes! Ponha a culpa nele!" (Ver Gn 3:1-6.) pergunta de Paulo em Gálatas 3:3: "Sois as­
G Ê N E S IS 16 109

sim insensatos que, tendo começado no podemos esperar ter paz com Deus e uns
Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando com os outros se vivemos para o inimigo?!
na carne?" Abraão e Sara haviam começa­ "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça
do no Espírito quando colocaram sua fé no aos humildes. Sujeitai-vos, portanto, a Deus;
Senhor, mas depois buscaram ajuda na car­ mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós" (Tg
ne, e algumas das obras da carne estavam 4:6-7).
com eçando a aparecer (C l 5:19-21). Agar teve de se submeter ao Senhor (w.
Abraão, Sara e Agar guerreavam entre si 7-14). É nessa passagem que. aparece, pela
porque estavam em guerra com o Senhor. primeira vez nas Escrituras, o Anjo do S e n h o r,
Estavam em guerra com o Senhor porque geralmente identificado com Jesus Cristo. Em
tinham desejos egoístas que guerreavam Gênesis 16:10, o anjo prometeu fazer aquilo
dentro do coração (Tg 4:1-10). que somente Deus pode fazer, e, no versículo
A primeira coisa que deveriam ter feito 13, Agar chamou o anjo de "Deus". Essas
era construir um altar, adorar a Deus e con- visitas de Jesus Cristo à Terra em sua forma
tar-lhe seus problemas. Deveriam ter confes­ preencarnada tinham por finalidade ir ao en­
sado seus pecados e recebido o perdão que contro de necessidades específicas ou reali­
Deus concede em sua graça. Ao parar de zar tarefas especiais. O fato de o Filho de
lutar com Deus e consigo mesmo, será mais Deus ter assumido temporariamente uma for­
fácil não lutar com os outros. O primeiro pas­ ma física, deixado o céu e descido para aju­
so para a reconciliação com os outros é colo­ dar uma serva rejeitada certamente revela
car as coisas em ordem com Deus. sua graça e seu amor. Seus servos Abraão e
Porém, em vez de encarar seus pecados Sara haviam pecado contra o Senhor e con­
com honestidade, cada pessoa envolvida tra Agar, mas o Senhor não os abandonou.
tomou um rumo diferente. A solução de Sara O anjo chamou-a de "serva de Sara", o
foi expressar toda sua raiva culpando o mari­ que indica que Deus não aceitou seu casa­
do e maltratando sua serva. Parecia ter se mento com Abraão. Ao que parece, Agar
esquecido de que a idéia daquela união ha­ estava voltando para o Egito quando se de­
via partido dela. A solução de Abraão foi parou com o anjo, mas Deus lhe disse para
ceder à esposa e abdicar da liderança espiri­ voltar para o acampamento de Abraão e su­
tual de seu lar. Deveria ter se compadecido jeitar-se a sua senhora. Para isso, seria neces­
de uma serva desamparada e grávida, mas sário um bocado de fé, uma vez que Sara
permitiu que Sara a maltratasse. Deveria ter havia maltratado Agar antes e poderia fazê-
chamado todos para o altar, mas não o fez. lo de novo.
A solução de Agar foi fugir do proble­ Então, Deus lhe disse que estava grávida
ma, uma tática que todos nós aprendemos de um filho e que deveria chamá-lo de Ismael
com Adão e Eva (Gn 3:8). No entanto, logo ("Deus ouve"). Ainda que não fosse o her­
se descobre que não é possível resolver os deiro de Abraão na aliança, desfrutaria as
problemas fugindo deles. Abraão aprendeu bênçãos de Deus, uma vez que era filho de
essa lição quando fugiu para o Egito (Gn Abraão. Deus prometeu multiplicar os des­
12:10ss). Houve paz no lar durante algum cendentes de Ismael e transformá-los numa
tempo, mas não era a "paz de Deus". Era grande nação (Gn 21:18; 25:12-18), e assim
apenas uma trégua, frágil e temporária, que o fez, pois de Ismael originaram-se os povos
logo acabaria. árabes.
Ismael seria "como um jumento selva­
4. A s u b m is s ã o (G n 1 6 :7 - 1 6 ) gem" (Gn 16:12), uma descrição não muito
Tiago 4:1-10 explica o que leva os cristãos a lisonjeira. Ela o identificava com o deserto
entrar em conflito e como podem viver em onde viveu usando de sua grande habilidade
paz. As brigas ocorrem em nosso meio por­ como flecheiro (Gn 21:20, 21; Jó 24:5). Tam­
que obedecemos a três inimigos: o mundo bém revelava sua natureza independente e
(Tg 4:4), a carne (v. 1) e o diabo (v. 7). Como belicosa.
110 G Ê N E S IS 16

Seria um homem odiado, vivendo "fron­ um tanto passivo. Deixou que Sara o con­
teiro a todos os seus irmãos" (Gn 16:12). vencesse a casar-se com Agar e permitiu
Não devemos aplicar essas características que Sara a maltratasse e a expulsasse do
a todos os descendentes de Ismael, mas as acampamento. Temos a impressão de que
hostilidades entre judeus e árabes ao lon­ Abraão não ofereceu qualquer tipo de aju­
go dos séculos são por demais conhecidas da a Agar. (Posteriormente, ele tomou uma
para ser ignoradas. As nações árabes são atitude; Gn 21:9ss.) No entanto, quando seu
povos independentes que habitam nas ter­ filho nasceu, Abraão reconheceu-o e,
ras do deserto e resistem à intromissão de obedientemente, deu-lhe o nome que Deus
outras nações, especialmente Israel e seus havia determinado.
aliados. Tanto Abraão quanto Sara tiveram de
A experiência de Agar no deserto colo­ aprender a viver com seus erros. Certamen­
cou-a face a face com Deus e ensinou-lhe te Abraão gostava de ver o menino crescen­
algumas verdades importantes sobre o Se­ do, e o coração do patriarca idoso era cheio
nhor. Ela aprendeu que ele é o Deus vivo, de amor por ele (Gn 17:18). No entanto,
que nos vê e ouve nosso clamor quando so­ Abraão sabia que Ismael não seria parte
fremos. O nome do poço onde Agar encon­ permanente da família da aliança. A solu­
trou-se com o anjo é "Beer-Laai-Roi", que sig­ ção de Deus para o "problema de Ismael"
nifica "o poço daquele que vive e me vê". Ele foi não culpar Abraão, Sara ou Agar, mas
é um Deus pessoal, que se preocupa com as enviar outro bebê àquele lar: Isaque. Ismael
vítimas de abuso e com bebês ainda não não causou problemas a Abraão e Sara até
nascidos. Conhece o futuro e cuida daque­ que Isaque nasceu. Então, o menino começou
les que nele confiam. a dar trabalho (Gn 21:1-11). Como vere­
Agar voltou e submeteu-se a Sara. Cer­ mos em capítulos mais adiante, todas essas
tamente, pediu perdão por ser arrogante, coisas têm um profundo significado teoló­
por desprezar sua senhora e por fugir. Con­ gico para o cristão de hoje.
fiou em Deus para protegê-la e a seu filho e Ao rever o capítulo 18, você verá que
para cuidar deles nos anos vindouros. Ja­ vários textos-chave da epístola aos Roma­
mais resolvemos os problemas da vida fu­ nos são ilustrados por aquilo que é relatado
gindo deles. As coisas cooperam para o aqui em Gênesis.
nosso bem e para a glória de Deus quando "Tudo o que não provém de fé é pe­
nos submetemos ao Senhor e confiamos cado" (Rm 14:23). Certifique-se de que seus
nele. planos e procedimentos passam pelos qua­
Sara teve de se submeter a Deus. Como tro "testes da fé" apresentados acima. As
Sara se sentiu quando Agar voltou para o pessoas podem concordar com você, a lei
acampamento e contou que Deus havia fala­ pode defendê-lo, mas se Deus não puder
do com ela? Será que Deus tinha tempo para abençoá-lo, não leve seu plano adiante! Dei­
atender uma pobre serva? Deus se preocupa­ xe que Deus realize sua vontade a seu modo
va com o bebê de uma escrava? Será que o e a seu tempo. Sara tentou adiantar-se ao
Deus de Israel se importava com uma egíp­ Senhor e criou problemas que persistem até
cia? Sim,- pois o filho daquela egípcia tam­ hoje.
bém era filho de Abraão, e Deus havia feito "[...] os que recebem a abundância da
uma aliança com Abraão. O texto não diz graça e o dom da justiça reinarão em vida"
qual foi a reação de Sara, mas, ao que parece, (Rm 5:17). Em Gênesis 15, a graça reinava
ela acreditou no relato de Agar e aceitou-a de pela justiça em função da fé de Abraão (v. 6),
volta como sua serva. Sara não voltou a e Abraão estava reinando em vida para a gló­
maltratá-la, pois, afinal de contas, Deus esta­ ria de Deus. No entanto, no capítulo 16, ele
va vendo! abdicou do trono, e o pecado começou a
Abraão teve de se submeter a Deus. Em reinar. A incredulidade, a impaciência, o or­
todo esse episódio, Abraão teve um papel gulho e a indiferença tomaram conta do lar
G Ê N E S IS 16 111

de Abraão e quase destruíram sua família. Do ponto de vista humano, esse "des­
O povo de Deus é composto de reis e de vio" foi uma tragédia que interrompeu o
sacerdotes (Ap 1:6), que devem "reinar em grande plano divino da salvação. Conside­
vida" ao entregarem-se a Jesus Cristo (ver re, porém, o ponto de vista de Deus. Ele
Rm 6:11-14). nunca é pego de surpresa. Quando não
"M as onde abundou o pecado, supera- domina todos os acontecimentos, ele pre­
bundou a graça" (Rm 5:20). Isso não signifi­ valece e sempre cumpre seus propósitos.
ca que Deus faz vista grossa para o pecado e Satanás quer nos convencer de que nos­
que a abundância de pecados é a chave para sos "desvios de desobediência" devem tor­
a abundância da graça (Rm 6:1-7). Antes, nar-se estradas permanentes para o resto de
quer dizer que a graça de Deus é maior do nossa vida, mas isso é mentira. Como Abraão
que o pecado do homem e pode realizar o e Sara, podemos confessar nossos pecados,
que Deus tem de melhor, mesmo quando o receber a purificação de Deus (1 Jo 1:9) e,
homem age de acordo com o que tem de então, aprender a conviver com nossos er­
pior. Em sua graça, Deus viu Agar fugindo ros. Sem dúvida, haverá dor e desgosto, mas,
para o Egito, foi a seu encontro e supriu suas no final, tudo isso será superado pela graça
necessidades. O Senhor tornou-a mãe de uma de Deus.
grande nação. E claro que ele o fez por causa Vale a pena citar George Morrison nova­
de Abraão, mas a aliança de Deus com mente: "A vida cristã vitoriosa é uma série de
Abraão era uma aliança da graça divina. recomeços".
"Todo-Poderoso" 48 vezes no Antigo Testa­
19 mento. No Novo Testamento, o equivalente
grego é usado em 2 Coríntios 6:18 e
/
Apocalipse 1:8; 4:8; 11:17; 15:3; 16:7 e 14;
O Q ue E um N o m e? 19:6 e 15; e 21:22 e também é traduzido
por "Todo-Poderoso".
G ênesis 17 El é o nome de Deus e refere-se a poder,
mas o que significa Shaddai? Os estudiosos
não são unânimes quanto a isso. Alguns di­
zem que vem de uma palavra hebraica que
significa "ser forte"; outros preferem uma pa­
lavra que quer dizer "montanha" ou "seio".
e você já leu Romeu e Julieta, de Shakes­
S
Em termos metafóricos, uma montanha é um
peare, pode ser que tenha notado no se­ "seio" que se eleva da planície e, certamente,
gundo ato a famosa frase: "O que é um nome? constitui um símbolo de força. Se com­
Aquilo que chamamos de rosa teria um per­ binarmos todas essas idéias, podemos dizer
fume igualmente doce com qualquer outro que El-Shaddai é o nome do "Deus Todo-
nome". Poderoso e absoluto, que pode fazer qual­
Julieta disse essas palavras enquanto fa­ quer coisa e suprir qualquer necessidade".
lava sozinha na sacada, sem saber que Mas por que Deus revelaria esse nome
Romeu estava embaixo ouvindo. Ela estava a Abraão nessa ocasião, depois de treze
refletindo sobre o fato de pertencer à famí­ anos de silêncio? Porque Deus estava pres­
lia Capuleto e de Romeu ser da família rival tes a dizer a seu amigo que Sara daria à luz
dos Montéquio e sobre como esse acaso um filho. O Senhor queria que Abraão sou­
de seu nascimento os impedia de se casa­ besse que ele é o Deus absoluto e Todo-
rem. Que diferença faziam os dois nomes? Poderoso e que nada é difícil demais para
Não importava o nome, Romeu ainda era ele. Neste capítulo, Deus diz doze vezes o
seu grande amor! que fará ("Farei", "Estabelecerei", "Dar-te-
Não obstante Shakespeare, se você tivesse e i" --.) -
feito a pergunta: "O que é um nome?" para um Depois da batalha de Abraão com os
personagem bíblico, a resposta seria: "Tudo! quatro reis, Deus dirigiu-se a ele como um
Nosso nome é extremamente importante!" guerreiro e disse que era seu "escudo". Quan­
Os nomes podem registrar algo significati­ do Abraão refletiu sobre o fato de ter rejeita­
vo sobre o nascimento (Gn 29:31 - 30:24) do a riqueza de Sodoma, Deus disse: "teu
ou sobre alguma experiência que transformou galardão será sobremodo grande" (Gn 15:1).
a vida da pessoa. Jacó passou a se chamar E, no capítulo 17, quando Abraão e Sara es­
Israel depois da noite em que lutou com Deus tavam "amortecidos", Deus garantiu-lhes que
(Gn 32:24-32), e Simão recebeu o nome Pedro ele era mais do que suficiente para realizar o
("rocha") quando encontrou Jesus Cristo (Jo milagre do nascimento. Deus vem até nós da
1:40-42). Os nomes dados a bebês ainda não forma que mais precisamos.
nascidos também serviam para transmitir Responsabilidade. A revelação sempre
mensagens (Gn 16:11; Mt 1:18-25). traz consigo responsabilidade. Enoque e Noé
Neste capítulo, você vai descobrir qua­ haviam andado com Deus (Gn 5:22; 6:8,
tro nomes novos e um nome que sempre 9), mas Abraão deveria andar na presença
será antigo, pois não pode ser mudado. de Deus, ou seja, viver sabendo que os olhos
de Deus estavam sempre sobre ele (Hb
1. Deus T o d o - P o d e ro s o (G n 17:1, 2) 4:1 3). A palavra "perfeito" não significa "im­
Revelação. El-Shaddai, no hebraico; esta é a pecável", pois ninguém poderia alcançar
primeira vez que esse nome aparece nas Es­ esse objetivo (1 Rs 8:46). O termo quer di­
crituras. O termo Shaddai é traduzido por zer "honesto, sem culpa, sincero, inteiramente
G Ê N E S IS 17 113

dedicado ao Senhor". Em Êxodo 12:5, a pa­ Quer ele olhasse para a terra sob seus
lavra refere-se a um sacrifício "perfeito", pés quer para o céu, ou sempre que alguém
imaculado. Trata-se de um chamado à in­ o chamava pelo nome, Abraão era lembrado
tegridade. de que Deus, em sua graça, havia prometido
Isso não significa que o povo de Deus dar-lhe muitos descendentes.
deve se contentar com qualquer coisa aquém Não se esqueça de que os descendentes
do desejo de estar absolutamente dentro da de Abraão incluem não apenas os judeus,
vontade do Senhor. "A vontade dele deve ser mas também o mundo árab.e (pela linhagem
nosso objetivo e desejo", escreveu Alexander de Ismael) e as nações relacionadas em
Maclaren. "Maior é a bênção de ter o mais Gênesis 25:1-4. Todos aqueles que confiam
profundo desejo de conquistar o inconquis- em Jesus Cristo como Salvador são filhos
tado do que de estagnar num contentamen­ espirituais de Abraão (Gl 3:6-9). No final, sua
to ignóbil de realizações parciais. É melhor descendência será, de fato, uma grande mul­
escalar, com a face voltada para o alto, o tidão (Ap 7:9).
cume inacessível do que deitar-se em pláci­ Não temos nada dentro de nós mesmos
dos vales" (Expositions of Holy Scripture, v. que nos permita dar frutos para Deus. Abraão
1, p. 120 [Baker Book House, 1974]). e Sara tentaram pôr em prática seu próprio
A adoração pessoal ao Senhor é o segre­ plano, mas fracassaram vergonhosamente.
do de caminhar em perfeição diante de Deus. Jesus disse: "Sem mim nada podeis fazer"
Assim como Abraão, todo cristão deve pros­ (Jo 15:5). "Dizemos ser dependentes do Es­
trar-se diante de Deus e entregar-lhe tudo. Se pírito Santo", escreveu Vance Havner, "mas
ele é El-Shaddai, o Deus Todo-Poderoso", na verdade acreditamos ter tantos recursos
então quem somos nós para resistir à sua que, se o fogo não descer do céu, podemos
vontade? apertar um botão e produzir nosso próprio
Relacionamento. A expressão "minha fogo falso".
aliança" é usada nove vezes neste capítulo Li sobre um jovem pastor escocês que
e define o relacionamento de Deus com andou com altivez até o púlpito para pregar
Abraão. Não era outra aliança, diferente da seu primeiro sermão. Era dotado de uma
que Deus já havia feito com Abraão (Gn mente brilhante e de uma boa educação e
12:1-3; 15:1-21). Era uma reafirmação da­ sentia-se seguro de si ao encarar sua primei­
quela aliança com o acréscimo importante ra congregação. Porém, no decorrer do ser­
da circuncisão, o sinal e selo da aliança. mão, foi ficando cada vez consciente de que
Abraão e sua esposa não tinham filhos, "o Senhor não estava no vento". Concluiu
porém, mais uma vez, Deus prometeu multi­ sua mensagem rapidamente e desceu do
plicar sua família. Seus descendentes seriam púlpito com a cabeça abaixada, sem todo o
como "o pó da terra" (Gn 13:16) e as estrelas orgulho de antes. Mais tarde, um dos mem­
do céu (Gn 15:5). Essas duas comparações bros da igreja lhe disse: "Se você tivesse subi­
- terra e céu - sugerem que Abraão teria do ao púlpito da forma como desceu, teria
uma família material, os judeus (Mt 3:9), e saído da forma como subiu".
uma família espiritual constituída de todos A terra. A aliança perpétua de Deus tam­
os que crêem em Jesus Cristo (Gl 3:26-29). bém incluía uma posse perpétua: a terra de
Canaã. Hoje em dia, essa terra é um campo
2. A braão (G n 1 7 :3 - 1 4 , 2 3 - 2 7 ) de batalha, e será assim até que o Senhor
O povo. O nome "Abrão" significa "pai exal­ volte para reinar. No entanto, no que se re­
tado"; Abraão quer dizer "pai de muitos". fere à aliança de Deus, a terra pertence a
Quando Abraão informou ao povo de seu Israel.
acampamento que tinha um novo nome, O direito de propriedade que os judeus
alguns devem ter sorrido e dito: "Pai de mui­ têm àquela terra depende única e exclusi­
tos... Mas ele e a esposa são velhos demais vamente da aliança que Deus, em sua gra­
para ter filhos!" ça, fez com Abraão: Deus lhe deu a terra.
114 G Ê N E S IS 17

No entanto, sua posse e usufruto dependem No entanto, seja Israel fiel ou infiel, a terra lhe
da fidelidade dos israelitas em obedecer ao pertence, e um dia o povo a herdará e a des­
Senhor. Esse foi o tema das mensagens de frutará para a glória de Deus. A escritura da
Moisés em Deuteronômio. Nesse livro, terra no nome de Israel é uma parte essencial
Moisés disse ao povo mais de sessenta ve­ da aliança perpétua que Deus fez com
zes que iriam herdar ou ter a posse da terra. Abraão.
Em pelo menos vinte e cinco ocasiões, O sinal. Em Gênesis 17:4, Deus disse:
Moisés lembrou-os de que a terra era uma "quanto a mim", mas no versículo 9 disse:
dádiva do Senhor. O nome de Deus estava "quanto a ti". A parte de Abraão na aliança
lá (Dt 12:5, 11, 21) e ele iria cuidar da terra era obedecer a Deus e colocar em cada pes­
e abençoá-la, caso seu povo andasse em soa do sexo masculino em sua casa o sinal
seus caminhos. da aliança. A circuncisão não era um ritual
O único pedaço de terra que todos os novo, pois outras nações a realizavam no
patriarcas possuíram foi a caverna que tempo de Abraão; porém, Deus deu uma
Abraão comprou de Efrom, filho de Zoar, a nova importância e um significado especial
fim de usar como sepultura para a família a essa prática. Para os descendentes de
(Cn 23; 49:29-31). Jacó e sua família tive­ Abraão, a circuncisão não era uma opção,
ram de deixar a terra e ir para o Egito (Gn era uma obrigação.
46), mas Deus havia prometido que volta­ E importante observar que a circuncisão
riam a Canaã no tempo determinado (Gn não era um "sacramento". Sua realização não
15:13-17). transmitia uma bênção espiritual ao recipien­
Josué liderou o povo até a terra onde te. Um menino de oito dias (Lv 12:3) nem
conquistaram os cananeus e apropriaram-se podia entender o que estava acontecendo e,
da herança. No entanto, o povo não perma­ quando crescesse, o ritual teria de ser explica­
neceu fiel à aliança, de modo que Deus teve do a ele. O importante era a obediência dos
de discipliná-los na terra (Jz 2:10-23). O Se­ pais, pois caso não obedecessem a Deus
nhor levantou nações inimigas para derrotar nessa questão, seu filho seria excluído de seu
Israel e para escravizá-lo. Israel estava na ter­ povo (Gn 17:14). O povo da aliança deveria
ra, mas não a controlava e nem a desfrutava levar em seu corpo a marca da aliança.
(Dt 28:1 5ss). Tendo em vista que a aliança incluía a
Durante o reinado de Davi e, posterior­ "descendência" de Abraão, era apropriado
mente, de Salomão, o povo desfrutou sua que a marca da aliança fosse feita no órgão
herança e serviu ao Senhor fielmente. Con­ reprodutor masculino. Uma vez que todas
tudo, depois que o reino se dividiu, tanto as pessoas eram concebidas em pecado (Sl
Israel quanto Judá degeneraram-se espi­ 51:5), essa marca serviria para lembrá-las de
ritualmente (exceto por alguns interlúdios que eram aceitas por Deus por causa da ali­
ocasionais de reavivamento), e o povo foi ança que ele, em sua graça, havia feito com
levado cativo. A Assíria derrotou Israel e a Abraão. Foi Deus quem escolheu os judeus
Babilônia conquistou Judá. Assim, Deus dis­ e não os judeus que escolheram Deus (Dt
ciplinou o povo fora da sua terra. Era como 7:1-11). Ele os escolheu para que fossem um
se estivesse dizendo: "Vocês poluíram mi­ povo santo. A imoralidade corria solta no
nha terra com seus ídolos, portanto, vou meio dos cananeus, chegando a ser parte de
colocá-los numa terra de idólatras. Aprovei­ sua religião. Porém, o povo de Israel era "mar­
tem! Depois que tiverem passado setenta cado" para ser separado do mal a seu redor.
anos longe da terra da herança, talvez apren­ Infelizmente, os israelitas acabaram trans­
dam a apreciar o que eu lhes dei". formando a circuncisão num meio de sal­
Deus permitiu que um remanescente vação. Esse ritual era uma garantia de ser
voltasse para a terra, reconstruísse a cidade aceito por Deus. (Hoje em dia, algumas pes­
e o templo e restaurasse a nação; mas ela soas colocam uma falsa confiança desse tipo
nunca mais tornou-se uma grande potência. no batismo, na Santa Ceia e em outros ritos
G Ê N E S IS 17 115

religiosos, que podem ser muito significati­ cisão de Moisés", mas sim da "circuncisão de
vos se usados corretamente.) O povo não Cristo", que é o que importa para o cristão.
se dava conta de que a circuncisão represen­ Donald Grey Barnhouse disse: "Temos
tava algo muito mais profundo: o relaciona­ uma natureza pecaminosa que precisa ser
mento da pessoa com Deus. Deus quer que tratada com o bisturi [...] Deve ser tratada
pratiquemos a "circuncisão do coração" e como um todo e não em pequenas partes".
que nos dediquemos totalmente a ele em Em Cristo, podemos "[andar] no Espírito e
amor e obediência (Dt 10:16; 30:6; Jr 4:4; [...] não [satisfazer] as concupis-cências da
Rm 2:28, 29). carne" (Gl 5:16).
Romanos 4:9-12 deixa claro que a ope­ Abraão obedeceu a Deus sem demora e
ração física não tinha qualquer relação com colocou em todos os homens e meninos de
a salvação eterna de Abraão. Abraão havia sua casa a marca da aliança. Sem dúvida,
crido em Deus e recebido a justiça de Deus quando contou qual era seu novo nome, tam­
antes de ser circuncidado (Gn 15:6). A cir­ bém explicou o significado desse ritual.
cuncisão não era um meio de obter a salva­
ção, mas sim uma marca da separação dele 3. S a r a ( G n 1 7 :1 5 - 1 7 )
como homem em relacionamento de aliança O outro novo nome foi "Sara", que significa
com Deus. Os membros legalistas da Igreja "princesa". (Não se sabe ao certo o significa­
primitiva tentaram transformar a circuncisão do de "Sarai". Alguns dizem que quer dizer
e a obediência à lei num requisito para a "escarnecer" ou "ser contenciosa". Poderia
salvação dos gentios, mas essa heresia foi ainda ser outra forma da palavra "prince­
refutada (At 15:1-35). Em sua epístola aos sa".) Uma vez que viria a ser a mãe de reis,
gálatas, Paulo argumentou, de modo persua- era mais do que apropriado ser chamada
sivo, em favor da salvação exclusivamente de "princesa"!
pela graça. Não devemos subestimar o lugar de Sara
Qual o significado de tudo isso para o no grande plano de Deus para a salvação.
cristão da atualidade? O selo da nossa salva­ Assim como seu marido (e como todos nós),
ção não é um rito exterior, mas a presença Sara tinha lá seus defeitos; no entanto, tam­
de uma testemunha interior, na pessoa do bém como o marido, confiou em Deus e
Espírito Santo de Deus (Ef 1:13; 4:30; Rm cumpriu os propósitos do Senhor (Hb 11:11).
8:9, 16). Passamos por uma "circuncisão de Não é apenas a mãe do povo judeu (Is 51:2),
Cristo" (Cl 2:9-12) que nos torna parte da mas também um bom exemplo a ser segui­
"verdadeira circuncisão" (Fp 3:1-3). No dia do pelas esposas cristãs (1 Pe 3:1-6). O ma­
em que confiamos em Cristo para nos salvar, rido cristão deve tratar a esposa como uma
o Espírito de Deus realizou uma "cirurgia princesa, pois é sua identidade no Senhor.
espiritual" que nos permite ter vitória sobre Há três ocasiões relacionadas ao nasci­
os desejos da velha natureza e da velha vida. mento de Isaque em que houve riso: Abraão
A circuncisão remove apenas uma parte do riu de alegria quando soube que a esposa
corpo, mas a verdadeira "circuncisão espiri­ daria à iuz o filho prometido (Gn 17:1 7); Sara
tual" significa um "despojamento do corpo riu de incredulidade quando ouviu essa no­
da carne" (Cl 2:11) e trata a natureza peca­ tícia (Gn 18:9-15); e Sara riu de felicidade
minosa de modo radical. quando o menino nasceu (Gn 21:6, 7). O
Essa "circuncisão espiritual" é realizada nome Isaque significa "ele ri".
na conversão, quando o pecador crê em Cris­ A maternidade deve ser considerada em
to e é batizado pelo Espírito, passando a fa­ alta estima, e o nascimento de um bebê deve
zer parte do corpo de Cristo (1 Co 12:13). ser recebido com alegria. Apesar de Deus
Esse batismo identifica o cristão com Cristo não chamar todas as mulheres para se casar
em sua morte, sepultamento, ressurreição e nem todas as mulheres casadas para ter fi­
ascensão e, também, em sua circuncisão (Ci lhos, ele se preocupa de maneira especial
2:11, 12; Lc 2:21). Não se trata da "circun­ tanto com a maternidade quanto com os
116 G Ê N E S IS 17

filhos (Sl 113:9; 127:3-5; Mt 19:14). Numa Encontramos, aqui, uma lição prática
sociedade egoísta, muitas pessoas encaram para todo o que deseja viver pela fé: não se
a maternidade como um empecilho, e os apegue ás coisas do passado quando Deus
filhos como um fardo. Na verdade, algumas está preparando um futuro brilhante para
pessoas consideram filhos um fardo tão gran­ você. Ismael representava o passado, e
de que dão cabo deles antes que tenham a Isaque, o futuro. Ismael simbolizava o modo
oportunidade de tornar-se uma bênção. carnal de o ser humano realizar algo para
O ventre de uma mulher é um santuário Deus; mas Isaque era a criança do milagre,
onde Deus age (Sl 139:13-18). Como é triste nascido pelo poder de Deus. Ismael trou­
quando transformamos esse lugar de vida xe dissensão àquele lar, mas Isaque trouxe
num lugar de morte, e o santuário num riso. Se você tem um "Ismael" em sua vida,
holocausto! entregue-o a Deus. O Senhor tem um pla­
no perfeito, e aquilo que ele pretende fa­
4. Is a q u e (G n 17:18-22) zer é o melhor. Pode ser difícil abrir mão
O primeiro bebê da Bíblia a receber um nome de seus sonhos tão preciosos, mas os ca­
antes de nascer foi Ismael (Gn 16:11) e o minhos de Deus são sempre os caminhos
segundo foi Isaque. Como veremos quando certos.
estudarmos Gênesis 21, esses dois meninos Amy Carmichael, missionária na índia, es­
representam dois nascimentos diferentes: (1) creveu a uma amiga que estava lidando com
Ismael, nosso primeiro nascimento segundo uma experiência difícil: "Eu lhe direi o que
a carne; e (2) Isaque, nosso novo nascimento nosso Pai celeste me disse há muito tempo e
segundo o Espírito (ver Jo 3:1-8 e Gl 4:21 - ainda me diz com freqüência: 'Veja nisso tudo
31, especialmente os vv. 28, 29.) uma oportunidade de morrer"'.
Do ponto de vista humano, podemos Talvez todos nós precisemos orar: "Que
entender o motivo de Abraão ao interceder morra o 'Ismael' dentro de mim!"
por Ismael. Ele era seu filho, e o pai o amava Ismael não recebeu um novo nome, pois
profundamente. Viviam juntos havia treze representa a carne, e a carne não pode ser
anos, e Ismael estava entrando na vida adul­ mudada. "O que é nascido da carne é carne"
ta. Será que Deus desperdiçaria tudo o que (Jo 3:6) e sempre será carne. "Porque eu sei
Abraão havia investido em Ismael? O meni­ que em mim, isto é, na minha carne, não ha­
no não teria futuro algum? Afinal, Ismael não bita bem nenhum" (Rm 7:18).
era culpado de ter nascido! Abraão e Sara "O espírito é o que vivifíca; a carne para
haviam pecado, e não o menino. nada aproveita" (Jo 6:63). A velha natureza
No entanto, do ponto de vista espiritual, pode ser disciplinada, reprimida e, até certo
Ismael não podia substituir Isaque nem mes­ ponto, controlada, mas não pode ser muda­
mo igualar-se a ele no plano divino da alian­ da. Até que recebamos o corpo glorificado
ça. Deus já havia prometido abençoar Ismael na presença do Senhor, a luta entre a carne e
(Gn 16:11) e cumpriu sua promessa (Gn o Espírito continuará (Gl 5:16-26).
25:12-16), mas as bênçãos da aliança não Era o começo de um novo dia para
faziam parte da herança de Ismael. Somente Abraão e Sara, pois Sara ia ter um menino!
Isaque herdaria todas as coisas (Gn 25:5, 6; "Abraão, vosso pai, alegrou-se por ver o
Rm 9:6-13). meu dia, viu-o e regozijou-se" (Jo 8:56).
Ele m inistrou ao Senhor (vv. 1-8). Todo
20 ministério deve, antes de tudo, ser voltado
para o Senhor, pois se não somos uma bên­
ção para o Senhor, jamais seremos uma
C o m o pelo F o g o bênção para outros. Era assim com os sa­
cerdotes de Israel (Êx 28:1, 3, 4, 41; 29:1)
G ê n e s is 1 8 - 1 9 e com os servos de Deus na Igreja primiti­
va (At 13:1, 2). "Tudo quanto fizerdes,
fazei-o de todo o coração, como para o
Senhor e não para homens [...] A Cristo, o
Senhor, é que estais servindo" (Cl 3:23, 24).
Abraão estava em seu descanso diário
/ / lv | ° campo dos conflitos humanos, durante o calor do dia quando viu três es­
I N nunca tanta gente deveu tanto a tão tranhos se aproximando. Poucas pessoas
poucos." viajavam quando o sol estava tão quente,
Sir Winston Churchill declarou essas de modo que Abraão imediatamente ficou
palavras ao parlamento inglês no dia 20 curioso, mas também foi cortês. A hospita­
de agosto de 1940. Fez uma retrospectiva lidade é uma lei importantíssima no Orien­
do primeiro ano de guerra e, em seguida, te, e Abraão cumpriu-a com fidelidade.
prestou um tributo especial aos pilotos Os três estranhos eram o Senhor Jesus
da Força Aérea britânica "que mudaram o Cristo e dois de seus anjos (Gn 18:1, 22;
rumo da Guerra Mundial com sua bravura 19:1). Nada na aparência deles indicou a
e dedicação". Abraão quem eram; mas ao ter comunhão
Os cidadãos da Grã-Bretanha sabiam o com eles, Abraão descobriu que estava rece­
que a força área estava fazendo por eles, mas bendo visitantes da realeza. Seu ministério
os cidadãos de Sodoma e Gomorra e das ao Senhor foi tão agradável que deve servir
outras cidades da planície não sabiam que de exemplo para nós hoje em dia.
três pessoas - Abraão, Ló e Jesus Cristo - Em primeiro lugar, ele serviu ao Senhor
eram tudo o que havia entre eles e a total pessoalmente. Lembre-se de que Abraão ti­
destruição. nha noventa e nove anos de idade, era um
chefe de tribo muito rico e poderia ter in­
1. A b r a ã o , o a m i g o d e D e u s ( G n 1 8 ) cumbido seu assessor ou um de seus mais
Abraão recebe esse título especial em de trezentos servos (Gn 14:14) de cuidar
2 Cr 20:7; Is 41:8 e Tg 2:23, e é a única pes­ dos três viajantes. Em lugar disso, resolveu
soa na Bíblia com essa designação. Jesus ministrar ao Senhor pessoalmente.
chamou Lázaro de seu amigo (Jo 11:11) e Ele também ministrou imediatamente.
chama de "amigos" aqueles que crêem nele Abraão poderia tê-los ignorado, fingindo es­
e lhe obedecem (Jo 15:13-15). Como ami­ tar dormindo, ou poderia ter pedido que se
gos dele, podemos compartilhar de seu amor assentassem e esperassem até que tivesse
e comunhão e podemos conhecer sua von­ terminado seu cochilo. Mas Abraão era um
tade. "Se somos atacados por um inimigo homem de fé, e a fé não protela para servir
invisível", escreveu Vance Havner, "também ao Senhor.
somos ajudados por um Amigo Invisível. Este capítulo enfatiza que Abraão ser­
Grande é nosso adversário, porém maior ain­ viu ao Senhor com rapidez. Ele correu ao
da é nosso Aliado". encontro dos visitantes (Gn 18:2), apressou-
A amizade envolve ministério, e nesse ca­ se para a tenda de Sara e pediu que ela fi­
pítulo você verá Abraão ministrando em três zesse pão (v. 6). Correu ao gado, escolheu
áreas diferentes: ao Senhor (Gn 18:1-8), a seu um novilho e deu-o ao criado, que se apres­
lar (vv. 9-15) e aos perdidos do mundo (vv. sou em prepará-lo (v. 7). Não se esqueça de
16-33). que estamos falando de um homem de idade
118 G Ê N E S I S 18 - 19

correndo no calor do dia! Abraão só parou de hotéis e de restaurantes, raramente pensa­


depois que havia servido seus visitantes mos no que significa acolher pessoas desco­
(v. 8). nhecidas (Hb 13:1, 2); mas a hospitalidade é
Abraão serviu ao Senhor com generosi­ parte importante do ministério cristão (Rm
dade e deu-lhe o melhor daquilo que tinha. 12:13; 1 Pe 4:9). Na verdade, ser "hospita­
Sara preparou o pão da "flor de farinha" (v. leiro" (1 Tm 3:2; Tt 1:8) é um dos requisitos
6), e o novilho era "tenro e bom" (v. 7). Não para a liderança da igreja local. Ao servir a
ofereceu restos nem produtos de segunda outros em amor, servimos a Jesus Cristo, nos­
para visitantes tão ilustres! Que contraste so Senhor (Mt 25:34-40), e promovemos a
entre ele e os sacerdotes do tempo de propagação da verdade de Deus (3 Jo 5-8).
Malaquias, que não davam ao Senhor o que Ele ministrou à esposa (vv. 9-15). Pelo
tinham de melhor (Ml 1:6-14)! fato de Abraão ser fiel ao Senhor, tornou-se
O serviço de Abraão foi marcado pela um canal das bênçãos divinas para a esposa
humildade. Ele prostrou-se em terra diante e, posteriormente, para a família (v. 19). Sara
de seus visitantes (Gn 18:2) e chamou a si tinha um papel importante a desempenhar
mesmo de servo (vv. 3, 5). Quanto ao ban­ na realização do plano de Deus para a sal­
quete, disse tratar-se apenas de um "bocado vação do mundo e fez sua parte (Hb 11:11;
de pão". Serviu os três visitantes e, então, 1 Pe 3:1-7; Rm 4:18-21). Estava com oitenta
permaneceu de pé, à disposição, caso preci­ anos de idade e, ainda assim, era uma mu­
sassem dele. Interrompeu seu gostoso co­ lher desejável, com seu charme e beleza (Gn
chilo da tarde para tornar-se um servo de 20), em parte porque o marido a amava e a
três desconhecidos, mas, por causa desse tratava como a princesa que ela era.
serviço, recebeu enormes bênçãos para si e O Senhor tinha vindo lá do céu para anun­
para a esposa. ciar algo a Abraão e Sara. No ano seguinte,
Por fim, Abraão serviu ao Senhor coo- naquela mesma época, Sara daria à luz o
perativamente e envolveu o ministério de filho prometido! A notícia era tão incrível
outros. Sara assou o pão; um criado prepa­ que Sara riu e perguntou se uma coisa des­
rou a carne e, sem dúvida,outros servos le­ sas poderia acontecer a dois velhos. O riso
varam a coalhada e o leite. "Preferia pôr de Abraão brotou de sua fé repleta de ale­
dez homens para trabalhar do que fazer o gria (Gn 17:1 7), mas o riso de Sara foi mar­
trabalho de dez homens", disse, com toda cado pela incredulidade, mesmo que ela o
razão, o evangelista D. L. Moody. negasse.
Ao longo dos anos, estudei a biografia E claro que, quando duvidamos de Deus,
de grandes homens e mulheres de Deus e questionamos tanto sua veracidade quanto
aprendi que os servos dedicados do Senhor sua capacidade. Ele cumpre suas promessas?
incentivam e inspiram outros a servir a Deus. Ele tem poder de realizar aquilo que se com­
D. L. Moody foi usado por Deus para promete a fazer? A resposta para ambas as
arregimentar e assistir um exército de obrei­ perguntas é: sim! (ver Rm 4:20, 21.)
ros, que incluía F. B. Meyer, G. Campbell "Acaso, para o S e n h o r há coisa demasia­
Morgan e R. A. Torrey. Paul Rader teve um damente difícil?" (Gn 18:14) Claro que não!
trabalho parecido em sua geração, ajudan­ Se você precisa de provas, então veja o que
do a começar ministérios que existem até disseram Jó (42:2), Jeremias (32:17, 27), o
hoje. Quando servimos a nós mesmos ou anjo Gabriel (Lc 1:37) e o apóstolo Paulo (Ef
ao nosso próprio ministério, nosso trabalho 3:20-21). Se Deus faz uma promessa, você
perece, mas quando servimos ao Senhor, pode ter certeza de que tem poder de cum­
ele nos dá frutos duradouros e abundantes pri-la e continuará sendo fiel, mesmo que nós
(Jo 12:20-28). não tenhamos fé (2 Tm 2:13). Mais tarde,
Antes de terminar esta seção, gostaria Sara se arrependeu de sua incredulidade e,
de falar sobre a importância da hospitalida­ juntamente com o marido, confiou em Deus.
de cristã. Hoje em dia, com a conveniência O Senhor lhes deu o filho prometido.
G Ê N E S I S 18 - 19 119

O marido que ministra ao Senhor tam­ Deve estar próximo o suficiente do Senhor
bém se verá ministrando aos membros de para aprender a ter "intimidade" (Am 3:7; Sl
sua família, especialmente à esposa. Ele será 25:14) e para saber sobre o que orar. As
uma fonte de bênçãos em seu lar. Quando palavras do Senhor: "eu o conheço" (Gn
estudarmos Gênesis 19, veremos o contras­ 18:19) significam "eu o escolhi e ele é meu
te com Ló, um homem apegado às coisas do amigo íntimo" (ver Jol 5:1 5). Abraão sabia
mundo e que não teve qualquer influência mais sobre o futuro de Sodoma do que os
espiritual sobre seu lar. próprios moradores daquela cidade, inclusi­
Ele ministrou aos perdidos do mundo ve Ló. O cristão consagrado compartilha dos
(w. 16-33). Abraão pertencia àquele grupo segredos de Deus.
seleto de pessoas de Deus conhecidas como Sara e os servos ajudaram Abraão quan­
intercessoras - indivíduos como Moisés, do ele preparou uma refeição para os três
Samuel, Elias, Jeremias, os apóstolos e o pró­ visitantes, mas, em seu ministério de inter­
prio Senhor Jesus. Na verdade, o ministério cessão, Abraão precisava servir sozinho.
de nosso Senhor no céu, agora mesmo, é um Abraão aproximou-se do Senhor (Tg 4:8); a
ministério de intercessão (Rm 8:34). Assim, palavra usada no hebraico significa "ir a um
em momento algum somos mais parecidos tribunal para defender uma causa". Abraão
com Cristo do que quando estamos inter­ sentia um peso no coração por Ló e sua fa­
cedendo por outros. Não basta ser uma bên­ mília, bem como pelos pecadores perdidos
ção para nosso Senhor e nosso lar; também das cinco cidades da planície, e precisava
devemos procurar ganhar um mundo per­ compartilhar esse peso com o Senhor.
dido e levar os pecadores ao Salvador. A oração de Abraão não se baseava na
Charles Spurgeon disse: "Se eles [os pe­ misericórdia de Deus, mas sim em sua justi­
cadores perdidos] não querem ouvir você ça. "Não fará justiça o Juiz de toda a terra?"
falar, não podem impedi-lo de orar. Zom­ (Gn 18:25; ver Dt 32:4). Um Deus justo e
bam de suas exortações? Não podem santo não podia destruir crentes retos junta­
perturbá-lo enquanto ora. Está longe demais mente com incrédulos perversos, e Ló era
para alcançá-los? Suas orações podem che­ um crente (2 Pe 2:6-9), mesmo que suas
gar até eles. Declararam que nunca mais o ações e palavras parecessem desmentir esse
ouvirão nem verão seu rosto? Não se preo­ fato.
cupe. Deus tem uma voz que não podem As cidades de Sodoma e Gomorra eram
deixar de ouvir. Fale com Deus, e ele tocará extremamente perversas (Gn 13:13), pois os
o coração deles. Mesmo que agora tratem homens dessas cidades eram dados a práti­
você com desprezo, retribuindo seu bem cas sexuais contrárias à natureza (Gn 19:5;
com o mal, siga-os com suas orações. Ja­ Jd 7; Rm 1:27). A palavra "sodomia" é sinô­
mais permita que pereçam por falta de súpli­ nimo de tais práticas homossexuais. Os ho­
cas de sua parte" (Metropolitan Pulpit, v. 18, mens não tentaram esconder seus pecados
pp. 263, 4). (Is 3:9) nem se arrependeram deles (Jr 23:14).
O Senhor e os dois anjos deixaram o acam­ A destruição repentina de Sodom a e
pamento de Abraão e rumaram para Sodoma, Gomorra é usada nas Escrituras como exem­
mas o Senhor ficou para trás enquanto os plo do julgamento justo de Deus sobre os
anjos prosseguiam (Gn 18:16, 22; 19:1). Na pecadores (Is 1:9; 3:9; Lm 4:6; Sf 2:9; 2 Pe
primeira metade do capítulo, vemos Abraão 2:6ss), e Jesus a usou como advertência ao
correndo de um lado para o outro. Nesta povo no fim dos tempos (Lc 17:28-32).
última parte, porém, ele está reverentemen­ Mas por que Abraão iria querer que
te na presença do Senhor intercedendo por Deus poupasse um povo tão perverso? Se­
Ló e pelo povo de Sodoma. Bem-aventura- ria muito melhor que fosse exterminado da
dos aqueles que sabem ter equilíbrio! face Terra! E claro que, antes de tudo, Abraão
Um intercessor deve conhecer o Senhor estava preocupado com Ló e sua família.
pessoalmente e ser obediente à vontade dele. Na verdade, Abraão já havia salvo o povo
120 G Ê N E S I S 18 - 19

de Sodoma exclusivamente por causa de 4:4), e não é difícil visualizar o contraste


Ló (Gn 14:12-16),ainda que, aparentemen­ entre esses dois homens.
te, nenhum dos cidadãos tivesse dado o Lugares (v. 1). Quando a comitiva celes­
devido valor ao que Abraão havia feito por te visitou Abraão, ele estava à porta da sua
eles. Todos voltaram a seu antigo modo de tenda. Ló, por sua vez, estava sentado à por­
vida e não deram ouvidos à advertência de ta de uma cidade perversa. Abraão era um
Deus. peregrino e um estrangeiro apenas de passa­
No entanto, além da situação de Ló gem neste mundo. Ló havia, gradativamente,
(que, para começar, nem deveria estar em abandonado sua tenda e se assentado em
Sodoma), Abraão não queria que todas aque­ Sodoma. Em vez de manter seu olhar fixo na
las pessoas se perdessem para sempre. Deus cidade celestial (Hb 11:10, 14-16), Ló olhou
"não [quer] que nenhum [ser humano] pe­ para Sodoma e começou a andar pelas apa­
reça" (2 Pe 3:9) e "deseja que todos os ho­ rências (Gn 13:10, 11). Em seguida, mudou-
mens sejam salvos" (1 Tm 2:4). "Não tenho se para as proximidades de Sodoma (v. 12)
prazer na morte do perverso, mas em que o e, por fim, para dentro da cidade (Gn 14:12).
perverso se converta do seu caminho e viva" O lugar onde Ló se encontrava - na porta da
(Ez 33:11). A questão não é o tipo de pe­ cidade - indica que ele era um homem de
cado que as pessoas cometem, apesar de uma certa autoridade, uma vez que era ali
alguns terem conseqüências mais sérias que que se realizavam os negócios (Rt 4:1 ss).
outros, mas sim o fato de que "o salário do Se Ló tivesse ido para Sodoma por ter
pecado é a morte" (Rm 6:23) e, além des­ recebido uma orientação de Deus, o fato de
sa morte, o que os espera para a eternida­ estar lá teria cumprido os propósitos divi­
de é o inferno. Os intercessores devem ter nos. Afinal, Deus colocou José no Egito, Daniel
um coração compassivo e uma profunda na Babilônia e Ester na Pérsia. Uma vida mun­
preocupação com a salvação dos perdidos, dana não é uma questão de localização geo­
independentemente de quais sejam os pe­ gráfica, mas sim de atitude de coração (1 Jo
cados deles (ver Rm 9:1-3; 10:1). 2:15-17). O coração de Ló já estava em
Não devemos ficar com a impressão de Sodoma muito antes de seu corpo mudar-se
que Abraão discutiu com o Senhor, pois não para lá. Sem dúvida, ele se apaixonou pelo
foi isso o que ele fez. Antes, colocou-se hu­ mundo quando foi para o Egito com Abraão
mildemente diante de Deus e apresentou sua (Gn 13:1, 10) e jamais superou essa paixão.
causa (Gn 18:27, 30-32). Abraão estava Horas (v. 1). Era o começo da tarde quan­
certo de que havia pelo menos dez crentes do o Senhor e seus anjos visitaram Abraão
naquela cidade. (Gn 18:1), mas era noite quando os anjos
Nunca subestime a importância de um entraram em Sodoma. Abraão estava "andan­
grupo de crentes, mesmo que seja pequeno. do na luz", enquanto Ló estava "andando
Ainda que houvesse só dez pessoas tementes nas trevas" (1 Jo 1:5-10).
a Deus, a cidade teria sido salva da destrui­ Visitantes (v. 1). Só os dois anjos visita­
ção! Se Ló tivesse levado apenas sua família a ram Ló, pois o Senhor não podia ter comu­
crer no Senhor, o julgamento teria sido evita­ nhão com Ló e sua família como teve com
do. Não importa quão insignificante você se Abraão e Sara. Apesar de Ló ser cristão, sua
sinta, seu testemunho pessoal nos dias de hoje vida era tal que o Senhor não se sentia "à
é muito importante para Deus. vontade" com ele. E o cristão consagrado
que desfruta da intimidade (2 Co 6:14-18)
2. LÓ, O A M IG O DO M UND O (Gn 19) e da comunhão (Jo 14:21-24) com o Se­
Este capítulo relata as tristes conseqüências nhor. Kenneth Wuest, estudioso da língua
do declínio espiritual de Ló; então, Ló sai de grega, traduziu a oração de Paulo em Efésios
cena, enquanto a história de Abraão conti­ 3:17 da seguinte forma: "que Cr isto, por
nua (ver 1 Jo 2:17). Abraão era amigo de fim, se acomode e sinta-se completamente
Deus, mas Ló era amigo do mundo (ver Tg em casa em seu coração por meio de sua
G ÊN ES IS 1 8 - 1 9 121

fé". Ao contrário de Abraão, Ló não possuía permitido que seu caráter se deteriorasse e,
uma tenda nem um altar, e o Senhor não com ele, sua influência.
podia ter comunhão com ele. Atitude (w. 15-26). Na primeira vez em
Hospitalidade (w. 2-11). Ló chamava- que Deus salvou Ló, ele era um prisioneiro
se de "servo", mas não o vemos apressan­ de guerra (Gn 14:12, 16). Ao se ver livre, Ló
do-se para preparar uma refeição, como fez voltou direto a Sodoma. Aquela experiência
Abraão, e em pé esperando para ver o que dolorosa deveria ter servido para adverti-lo
mais poderia fazer para servir. Aquela noi­ de que estava fora da vontade de Deus. Mas
te, porém, culminou com a chegada dos ho­ se Ló ouviu o aviso, certamente não lhe deu
mens da cidade à porta da casa de Ló, para atenção. Então, Deus precisou tomar Ló pela
onde foram com intenções imorais ("Traze- mão e arrastá-lo à força para fora de Sodoma!
os fora a nós para que abusemos deles"; v. Primeiro, Ló demorou-se; depois, discutiu;
5). Ló estava disposto a sacrificar suas duas por último, implorou para que o deixassem
filhas virgens à luxúria daquela multidão (ver seguir seu caminho. Em vez de ser grato a
Jd 19), mas os anjos intervieram. O que ha­ Deus por sua misericórdia e de obedecer
via acontecido com os valores pessoais de aos anjos enviados para salvá-lo, Ló resistiu
Ló a ponto de oferecer as filhas para satisfa­ a eles e causou-lhes problemas. Num con­
zer a sensualidade de um bando de homens? traste claro, Abraão obedeceu à vontade de
(Abraão, pelo contrário, ofereceu o filho ao Deus a ponto de oferecer-lhe o próprio filho.
Senhor.) Conseqüências (w. 27-38). O resultado
Mensagens (w. 2-13). A mensagem de da visita do Senhor a Abraão foi nova espe­
Deus para Abraão era uma mensagem de rança e entusiasmo, enquanto Abraão e Sara
alegria: dentro de um ano, ele e Sara teriam aguardavam ansiosamente o nascimento de
o filho prometido. A mensagem para Ló, por um filho. Porém, Ló perdeu tudo quando
outro lado, era assustadora: Deus iria des­ Sodoma foi destruída e ele próprio foi salvo
truir Sodoma e tudo o que havia na cidade! apenas "como que através do fogo" (1 Co
O Senhor teria poupado a cidade se os an­ 3:15). Suas filhas deram à luz dois filhos, cujos
jos tivessem achado dez pessoas tementes descendentes seriam inimigos do povo ju­
a Deus ali. No entanto, uma vez que isso deu. Quando Abraão viu as cidades da planí­
não aconteceu, em toda sua misericórdia, cie destruídas (Sl 91:8), soube que Deus não
Deus salvou os crentes que pôde encontrar havia encontrado nelas dez pessoas justas.
(v. 16). A mensagem para o mundo perdido No entanto, Deus livrou Ló por causa de
é que o julgamento está próximo, mas sua Abraão (Gn 19:29). Tratou-se da mais pura
promessa ao próprio povo é de que ele os demonstração da graça e misericórdia de
salvará (1 Ts 5:1-11; 2 Pe 2:4-10). Deus (v. 19).
Influência (v. 14). Por causa de sua fé e Ló conformou-se com o mundo (Rm
obediência, Abraão foi uma bênção para sua 12:2). Tudo aquilo a que se havia dedicado
casa e para todo o mundo. Por causa de seu virou cinzas e perdeu-se em meio às ruínas,
apego às coisas do mundo, Ló não teve in­ em algum lugar na região do mar Morto. Ló
fluência espiritual nem sobre sua cidade, nem serve de advertência para que os cristãos
sobre seu próprio lar. Suas filhas casadas e não amem o mundo, não se tornem amigos
genros zombaram dele e recusaram-se a dei­ do mundo, nem sejam corrompidos pelo
xar a cidade. Até mesmo a esposa amava mundo (Tg 1:27), pois mais cedo ou mais
tanto Sodoma que precisou virar-se e olhar tarde o julgamento vem.
para a cidade uma última vez - e por olhar
para trás, morreu (Gn 19:26; Lc 17:32). As 3. J esu s, o A m ig o d o s pec a d o r es
duas filhas solteiras de Ló fugiram da cidade Apesar de ser verdade que a destruição de
com ele, mas acabaram numa caverna, em­ Sodoma e Gomorra é um exemplo do jul­
briagando o pai e cometendo incesto com gamento justo de Deus (Jd 7), também é
ele. Depois de se separar de Abraão, Ló havia fato que o amor de Deus pelos pecadores
122 G Ê N E S I S 18 - 19

perdidos pode ser visto de maneira clara pelos injustos, para conduzir-vos a Deus"
nessa história. Por certo, Jesus não aprovava (1 Pe 3:18). Cristo não morreu pelas pessoas
o estilo de vida dos homens de Sodoma. Con­ boas, pois elas não existem. Ele morreu pe­
tudo, veio para salvar pecadores exatamen­ los "ímpios" (Rm 5:6) e pelos "pecadores"
te como aqueles de Sodoma e Gomorra (Mt (v. 8). Pode ser que não tenhamos cometido
9:9-17). Quando ministrou na Terra, Jesus os mesmos pecados que o povo de Sodoma
ficou conhecido como "amigo de publicanos e Gomorra, mas ainda assim somos pecado­
e pecadores" (Mt 11:19) - e foi mesmo! res; sem fé em Jesus Cristo, não poderemos
Considere, por exemplo, o amor de nos­ ser salvos do julgamento vindouro.
so Senhor pelas pessoas perversas das cida­ A situação não é diferente nos dias de
des da planície. Para começar, foi longânimo hoje. Jesus ainda é o Amigo dos pecadores e
com elas ao ver seu pecado (Gn 18:20; salvará todos os que se voltarem para ele
19:13). Assim como o sangue de Abel cla­ com verdadeiro arrependimento e fé. Ele pre­
mou ao Senhor da terra (Gn 4:10), também cisa de intercessores e de testemunhas, pes­
os pecados do povo clamaram das cidades soas que orem pelos pecadores perdidos e
perversas. Deus é longânimo e retém seu que lhes digam que Jesus morreu por eles e
julgamento para que os pecadores tenham que podem começar de novo, se crerem nele.
tempo de se arrepender (2 Pe 3:1-9). Ao despertar aquela manhã, os habitan­
Não apenas o Senhor foi longânimo, mas tes das cidades da planície não tinham idéia
também se mostrou disposto a ouvir a inter- de que seria o último dia da vida deles (Gn
cessão de Abraão e a pensar em poupar 19:23). A vida seguia sua rotina habitual...
Sodoma, caso lá houvesse dez justos. Quan­ então veio o fogo (Lc 17:26-30).
do chegou a hora de as cidades serem quei­ Quando vier o julgamento, você será
madas, Deus enviou seus anjos para livrar como Abraão e não terá de se preocupar
Ló, mesmo que não pudesse ter encontrado com a ira de Deus? Ou, semelhantemente a
dez pessoas justas! "[...] onde abundou o pe­ Ló, será salvo "como que através do fogo"?
cado, superabundou a graça" (Rm 5:20). Ló Ou, ainda, como o povo de Sodoma, se per­
merecia ser livrado? Claro que não! Mas será derá para sempre?
que qualquer um de nós merece ser salvo da "Buscai o S e n h o r enquanto se pode
ira vindoura? Claro que não! achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe
O mais impressionante é que Jesus Cris­ o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus
to morreu pelos pecadores de Sodoma pensamentos; converta-se ao S e n h o r , que se
e Comorra! "Pois também Cristo morreu, compadecerá dele, e volte-se para o nosso
uma única vez, pelos pecados, o justo Deus, porque é rico em perdoar" (Is 55:6, 7).
Deus? Certamente não seria Abraão, o menti­
21 roso! Não foi Abraão quem mostrou integri­
dade e não foi Abraão a quem Deus guardou
do pecado. O que Abraão fez foi egoísta,
A b r a ã o , o V iz in h o mas Abimeleque respondeu com generosi­
dade. Se há alguém nessa história que revela
Gênesis 20; 2 1 :22-34 um excelente caráter é Abimeleque e não
Abraão, o "amigo de Deus".
No entanto, antes de tirar conclusões
injustificadas, considere com calma os fatos
revelados nesse acontecimento. Os erros de
Abraão são trágicos, mas com eles aprende­
// ós fazemos nossos amigos e inimi- mos algumas lições de grande valor para nos
I N gos", escreveu G. K. Chesterton, ajudar em nossa caminhada de fé.
"mas é Deus quem determina quem serão O s cristãos pecam> sim. Esse capítulo
nossos vizinhos". Alguém disse que um vi­ seria vergonhoso para nós se não fosse por
zinho "é uma pessoa que leva um minuto uma coisa: a Bíblia diz a verdade sobre to­
para entrar em sua casa e duas horas para das as pessoas, e isso inclui o povo de Deus.
sair". Vizinhos podem ser uma grande fonte Ela não esconde o fato de que Noé embebe-
de bênçãos e tornar-se até mais chegados a dou-se e expôs-se de modo indecoroso (Gn
nós do que parentes. "Mais vale um vizinho 9:20-23), de que Moisés perdeu a calma
perto do que o irmão longe" (Pv 27:10). No (Nm 20:1-13) ou de que Davi cometeu adul­
entanto, cristãos ou não, podem ser um pro­ tério e tramou a morte de um soldado va­
blema. Na verdade, podemos ser um estor­ lente (2 Sm 11). Pedro negou o Senhor três
vo para nossos vizinhos! vezes (Mt 26:69-75), e Barnabé deixou-se
Costumamos pensar em Abraão como levar por uma falsa doutrina (Gl 2:13).
um homem que estava sempre realizando Essas coisas não foram registradas para
grandes atos de fé e nos esquecemos de que nos incentivar a pecar, mas sim para nos ad­
sua vida diária era um tanto rotineira. Preci­ vertir do pecado. Afinal, se até mesmo esses
sava tomar conta de uma esposa grávida e grandes homens de fé desobedeceram ao Se­
de um filho jovem e tinha de administrar gran­ nhor, então nós, "santos comuns", devemos
des rebanhos e de cuidar dos negócios do ter cuidado! "Aquele, pois, que pensa estar
acampamento. Abraão e seu assessor eram em pé veja que não caia" (1 Co 10:12)
responsáveis por resolver disputas cotidia­ Por que Abraão pecou?
nas e por tomar decisões importantes. Um dos motivos foi que, apesar de
Além disso, precisava relacionar-se com Abraão ter sido justificado pela fé (Gn 15:6),
os vizinhos como Abimeleque, rei de Gerar. ainda possuía uma natureza pecaminosa.
Nas relações com os vizinhos, o patriarca é Deus havia lhe dado um novo nome (de
visto primeiro como agitador (Gn 20) e, de­ "Abrão" para "Abraão"), mas isso não mu­
pois, como pacificador (Gn 21:22-34). Ao dou sua velha natureza. "Se dissermos que
estudar essas duas experiências, podemos não temos pecado nenhum, a nós mesmos
aprender como nos relacionar de modo po­ nos enganamos, e a verdade não está em nós"
sitivo com pessoas que não compartilham (1 Jo 1:8). Por causa do Espírito que habita
da nossa fé e melhorar nosso testemunho a em nós (Gl 5:16ss) e da obra de Cristo na
elas (Cl 4:5; 1 Ts 4:12; 1 Tm 3:7). cruz (Rm 6), os cristãos podem dominar a
velha natureza, mas isso não acontece auto­
1. A b r a ã o , o a g it a d o r ( G n 2 0 ) maticamente. Se esperamos vencer a tenta­
Se você nunca tivesse ouvido falar de Abraão ção, devemos andar no Espírito.
e lesse este capítulo pela primeira vez, qual Isso nos leva à segunda questão: Abraão
dos dois homens você diria que é temente a mudou-se para o "território inimigo". Depois
124 G Ê N E S I S 20; 21 :22-34

de viver em Hebrom ("comunhão") durante William James, pai da psicologia norte-ame­


cerca de vinte anos, decidiu ir para a terra ricana, escreveu: "Para aqueles que con­
dos filisteus. Gerar ficava próximo à frontei­ fessam, as dissimulações chegaram ao fim e
ra, mas ainda assim era perigoso ficar lá. Tal­ começaram as realidades".
vez tenha sido a destruição de Sodoma e Abraão e Sara haviam se convencido de
Gomorra que levou Abraão a querer mudar- que não estavam contando nenhuma men­
se; qualquer que tenha sido o motivo, não tira, apenas uma "meia verdade" (Gn 20:12)
foi uma decisão sábia. E verdade que Abraão - e, supostamente, meias verdades não são
não desceu para o Egito como havia feito tão vergonhosas quanto mentiras inteiras.
antes (Gn 12). Ainda estava dentro dos limi­ São ainda piores! "Uma mentira consiste tan­
tes da terra que Deus havia lhe prometido, to da motivação quanto das palavras em
mas sua mudança colocou-o numa posição si", escreveu F. B. Meyer. Uma meia verdade
arriscada. "Vigiai e orai, para que não entreis tem tanto o teor suficiente de fatos para torná-
em tentação" (Mt 26:41). la plausível como de falsidade para torná-la
Depois de chegar a Gerar, Abraão come­ perigosa.
çou a andar pelas aparências e não pela fé, Assim, os cristãos caem em pecado. No
pois passou a ter medo (Gn 20:11). O medo entanto, isso não anula sua fé nem destrói
de homens e a fé em Deus são duas coisas sua salvação, mas pode fazer levar seu teste­
que não podem habitar juntas no mesmo co­ munho a cair em descrédito. Abraão ainda
ração. "Quem teme ao homem arma cila­ era filho de Deus, apesar de seu testemunho
das, mas o que confia no S e n h o r está seguro" do Senhor ter sido extremamente enfraque­
(Pv 29:25). Abraão se esqueceu de que seu cido. Abimeleque, porém, encontrava-se
Deus era o "Deus Todo-Poderoso" (Gn 17:1) numa posição muito mais perigosa do que
que podia fazer qualquer coisa (Gn 18:14) e Abraão, pois encontrava-se sob uma senten­
que havia entrado em aliança para abençoar ça de morte (Gn 20:3, 7).
Abraão e Sara. Abimeleque era um homem íntegro, e
No entanto, o motivo fundamental do quando Deus lhe falou, ele obedeceu. Pos­
erro de Abraão foi o triste fato de que ele e suía muitas qualidades excelentes, contu­
Sara não haviam se arrependido do pecado do não cria em Deus e, portanto, era um
que haviam cometido no Egito (ver Gn 12:10- homem morto (Ef 2:1-3). Isso não minimiza
20). Admitiram sua transgressão ao Faraó e a enormidade do pecado de Abraão, pois
a confessaram a Deus, mas o fato de ela apa­ seu proceder não foi digno de um crente.
recer novamente indica que não tinham se No entanto, diante de Deus, Abraão e
arrependido inteiramente nem deixado para Abimeleque encontravam-se em duas posi­
trás esse pecado (Pv 28:13). Na verdade, o ções diferentes: um deles era salvo, o outro
pecado havia ficado ainda pior, pois Sara estava perdido. Assim, qualquer pessoa não
passou a mentir com Abraão (Gn 20:5). As salva, que deseje usar Gênesis 20 como
coisas certamente não vão muito bem num "munição" contra os cristãos ("Vocês são
lar unido por uma mentira. todos uns hipócritas!"), deve refletir melhor
Uma admissão descomprometida do sobre sua situação espiritual diante de
pecado não é o mesmo que uma confissão Deus. Se uma pessoa não salva concorda
feita com um coração quebrantado (Sl com o que a Bíblia diz sobre Abraão - que
51:17). Se temos uma atitude correta, va­ ele mentiu -, então também deve concor­
mos odiar nosso pecado e sentir horror de dar com o que a Bíblia diz sobre ela: que
nós mesmos por ter pecado (Ez 6:9; 36:31), está morta em suas transgressões e peca­
recusando até a lembrança de tal trans­ dos. Apesar de sua desobediência, Abraão
gressão. As pessoas que relembram seus pe­ era aceito diante de Deus; Abimeleque, no
cados com alegria e prazer, em momento entanto, era rejeitado e vivia sob a conde­
algum se arrependeram verdadeiramente nação divina (Jo 3:18-21). Deus disciplinou
nem viram quão pecadores são de fato. Abraão, mas condenou Abimeleque.
G Ê N E S I S 20; 21 :22-34 125

Q uando os cristãos pecam , eles sofrem. tem um enorme poder para o diabo", escre­
Charles Spurgeon disse: "Deus não permite veu James Strahan em Hebrew Ideais (Kregel,
que seus filhos pequem com sucesso". Quan­ 1982, p.141).
do desobedecemos a Deus deliberada­ Imagine a humilhação de Abraão quan­
mente, sofremos tanto as conseqüências de do Abimeleque o chamou, confrontou e re­
nossos pecados quanto a disciplina da mão preendeu. Já é difícil o suficiente sujeitar-se à
de Deus, a menos que nos arrependamos e repreensão de um irmão ou irmã em Cristo,
nos humilhemos (Hb 12:5-11). Em sua gra­ mas aceitar a repreensão de uma pessoa não
ça, Deus perdoará nossos pecados (1 Jo 1:5- salva exige um bocado de honestidade e de
10), mas em sua soberania, deve permitir humildade. "Tu me fizeste o que não se deve
que o pecado produza uma triste colheita fazer" (Gn 20:9). Essas palavras feriram pro­
(Gl 6:7). Leia os Salmos 32 e 51 para ver o fundamente! Os cristãos devem ter cuidado
que aconteceu a Davi física e espiritualmen­ com a maneira como se relacionam com "os
te enquanto não se arrependeu e confessou de fora" (Cl 4:5; 1 Ts 4:12).
seus pecados ao Senhor. Ele perdeu seu ministério, pois em lugar
Levou apenas alguns segundos para de ser fonte de bênção (Gn 12:1-3), foi moti­
Abraão contar uma mentira, mas essa menti­ vo de julgamento. Nenhuma criança nasceu
ra consistiu em muito mais do que simples durante o tempo que Abraão passou em Ge­
sons e ar saindo por entre seus lábios. Tor­ rar (Gn 20:17, 18). Quando um filho de Deus
nou-se uma semente plantada, que cresceu começa a caminhar fora da vontade do Pai,
e deu frutos amargos. Deus detesta mentiras normalmente a disciplina de Deus não tarda.
(Pv 6:17; 12:22). Ele é o Deus da verdade Jonas causou uma tempestade que quase fez
(Dt 32:4), o Espírito é o Espírito da Verdade naufragar um navio (Jn 1); Acã levou o exérci­
(Jo 14:1 7), e a Palavra é a Palavra da Verda­ to a ser derrotado (Js 7) e Davi trouxe grande
de (Tg 1:18). "Uma língua mentirosa dura tristeza sobre sua família (2 Sm 12:10).
apenas um momento", escreveu Matthew Abraão quase perdeu Sara e Isaque. Na­
Henry. "A verdade é a filha do tempo e, com quele tempo, o rei tinha o direito de tomar
o tempo, ela se revelará." para seu harém qualquer mulher solteira que
O que essa mentira custou a Abraão? lhe aprouvesse. Abimeleque pensou que Sara
Para começar, custou-lhe seu caráter. Phillips era uma mulher solteira, de modo que a to­
Brooks disse: "O propósito da vida é cons­ mou para si. E, se não fosse pela intervenção
truir o caráter mediante a verdade". Deus de Deus, o rei teria consumado fisicamente
não está apenas "salvando almas" e levando seu relacionamento com ela. Aquilo que o
as pessoas para o céu. Por meio de testes e rei fez colocou em perigo o grande plano de
provações da vida, torna as pessoas salvas Deus para a salvação, de modo que o Se­
mais semelhantes a Jesus Cristo e, assim, glo­ nhor teve de agir para proteger Sara e Isaque.
rifica seu nome. Abraão parou de perguntar: Sempre que fazemos alguma coisa que obri­
"O que é certo?" e começou a perguntar: "O ga Deus a intervir miraculosamente, estamos
que é seguro?", e isso o levou à sua queda. tentando o Senhor; e tentar a Deus é pecado
Uma vez que o sal perder o sabor, como (Dt 6:16; Mt 4:7).
fazê-lo voltar ao que era? Talvez uma das conseqüências mais la­
Além disso, perdeu seu testemunho. Como mentáveis do pecado de Abraão tenha sido
Abraão poderia falar a seus vizinhos pagãos o fato de que Isaque fez a mesma coisa anos
da verdade de Deus quando ele próprio ha­ depois (Gn 26:7-11). E triste quando nossos
via contado uma mentira? Ló perdeu seu tes­ pecados afetam pessoas de fora, mas é ain­
temunho em Sodoma, e Abraão perdeu o seu da mais triste quando são imitados por nos­
em Gerar. "O exemplo de um homem mau sa própria família. Na verdade, a mentira de
tem pouca influência sobre homens bons. Po­ Isaque foi pior que a do pai, pois, de fato,
rém, o mau exemplo de um homem bom, de Sara era meia-irmã de Abraão, enquanto
posição eminente e de reputação impecável, Rebeca era apenas prima de Isaque.
126 G Ê N E S I S 20; 21 :22-34

Quando os cristãos pecam, são discipli­ pode voltar a abençoá-lo. O propósito da


nados por Deus até que cheguem ao arre­ disciplina é a restauração, e o propósito da res­
pendimento e à confissão. Essa disciplina não tauração é o ministério e a bênção. Não ape­
é agradável, mas extremamente proveitosa nas a riqueza de Abraão aumentou como
e, no final, produz alegria e santidade para a também Isaque nasceu, e esse "filho do mila­
glória de Deus. gre" deve ter sido o assunto de todas as con­
O s cristãos que pecam podem ser p e r­ versas dos vizinhos.
doados e restaurados. Apesar de não defen­ Abimeleque não era um nome, mas sim
der o pecado de Abraão, Deus defendeu um título oficial, de modo que não pode­
Abraão e controlou as circunstâncias de mos ter certeza de que o Abimeleque desse
modo que seu servo não fosse completa­ episódio seja o mesmo homem que repreen­
mente abatido. Na verdade, Deus chamou deu Abraão anteriormente. O fato de ele
Abraão de profeta e disse que a intercessão querer uma garantia da fidelidade de Abraão
de Abraão era a única coisa que separava indica que a falsidade do patriarca levou à
Abimeleque da morte (Gn 20:7). O fato de falta de confiança por parte de seus vizinhos.
Deus ter respondido à oração de Abraão Queriam ter certeza de que iria "jogar lim­
por Abimeleque mostra que Abraão havia po" com eles, pois era um homem muito
confessado seu pecado e que o Senhor o poderoso.
havia perdoado (Sl 66:18-20). Que testemunho: "Deus é contigo em
Deus não rejeita seus filhos quando pe­ tudo o que fazes" (Gn 21:22)! Abraão não
cam, assim como um pai ou mãe não rejei­ permitiu que um lapso na fé o derrubasse;
tam um filho desobediente (Is 49:13-16). colocou sua vida em ordem com Deus e co­
Abraão foi justificado pela fé e era um ho­ meçou novamente. James Strahan disse: "Os
mem reto diante de Deus (Rm 4:1-5). A justi­ homens não devem ser julgados pela presen­
ficação não muda; não importa o que somos ça ou ausência de defeitos, mas sim pelo rumo
por nós mesmos, fomos aceitos em Jesus de sua vida" (Hebrew Ideais, p. 142). Deus
Cristo (2 Co 5:1 7, 21; Ef 1:6). Obviamente, o está disposto a nos abençoar quando nos
fato de sermos justificados diante de Deus posicionamos para ser abençoados (Sl 1:1-3).
significa que haverá uma mudança em nossa Enquanto estava vivendo em Hebrom,
vida, pois "a fé sem obras é morta" (Tg 2:20). Abraão havia se afiado a alguns dos líderes
No entanto, nossa situação em Cristo (justifi­ da região (Gn 14:13), de modo que não ha­
cação) não será alterada por nosso proceder via problema algum em fazer um acordo com
aqui na Terra (santificação). Abimeleque. Com isso, Abraão não estava
O importante é que tratemos de nossos comprometendo seu testemunho. O povo
pecados com humildade e honestidade, de Deus coopera com várias pessoas dife­
confessando-os a Deus, arrependendo-nos rentes, em diferentes momentos e com dife­
deles e, então, deixando-os para trás e nos rentes propósitos, e o cristão que tem
apropriando das promessas divinas de per­ discernimento sabe quando uma aliança não
dão (1 Jo 1:9; Mq 7:18, 19; Is 55:6-13). está de acordo com a vontade de Deus.
Abraão e Sara começaram de novo, e você Reprovação (vv. 25, 26). A água ainda é
também pode fazê-lo. um bem muito precioso na Terra Santa. Hoje
em dia, são usados vários métodos de irri­
2. A b r a ã o , o p a c i f i c a d o r gação. No tempo de Abraão, porém, era
(Gn 21:22-34) necessário cavar poços e guardá-los com
Juramento (w. 22-24). É possível que tenham cuidado. Se alguém não vigiasse seu poço,
se passado até quatro anos desde os aconteci­ os inimigos poderiam apossar-se dele ou
mentos de Gênesis 20, e, durante esse tempo, enchê-lo (Gn 26:18). O tratado não havia
ficou claro que Deus estava abençoando adiantado muito, pois alguns dos servos de
Abraão e Sara. Sempre que um cristão é res­ Abimeleque tinham tomado à força o poço
taurado à comunhão com o Senhor, Deus de Abraão.
G Ê N E S I S 20; 21 :22-34 127

Abraão teve a atitude correta e confron­ madeira muito dura e de folhas sempre ver­
tou seu vizinho com os fatos, mas Abimele­ des. Ao construir um oásis, Abraão cer­
que declarou que não sabia de nada. Estaria tamente tinha interesses ecológicos (água e
dizendo a verdade? Só Deus sabe, mas árvores), porém, mais do que isso, estava
Abraão providenciou para que o problema dando testemunho do que Deus havia feito
não se repetisse. por ele. Passara por uma experiência difícil
Testem unho (vv. 27-32). A palavra em sua vida e havia deixado bênçãos para a
hebraica para "jurar" significa "atar com sete posteridade. Era como o peregrino descrito
coisas", e as palavras "juramento" (sefaa) e no Salmo 84:6, que passa pelo vale árido e
"sete" (saba) são muito parecidas. Dessa vez, faz dele um lugar de mananciais que refres­
os homens foram além de um simples jura­ carão a outros.
mento: fizeram uma aliança que incluía o abate Adoração (v. 33). Você poderia acompa­
de animais (Gn 21:27; 15:9, 10). Ao andar no nhar a jornada de Abraão pelos poços que
meio das carcaças dos animais, na realida­ cavava e os altares que construía (Gn 12:7,
de, Abraão e Abimeleque estavam dizendo: 8; 13:4,18). Ele não se envergonhava de cons­
"Que Deus faça o mesmo e até mais conosco, truir um altar na presença dos vizinhos e de
se não mantivermos nossa aliança um com o oferecer sua adoração ao Senhor. Um novo
outro". Era um assunto muito sério. nome para Deus é apresentado neste
No entanto, Abraão foi ainda mais longe: versículo: El-Olam, o "Deus eterno". Abraão
separou sete cordeiras de grande valor como já conhecia El-Elyon ("Deus Altíssimo" - Gn
testemunhas vivas de que ele havia cavado 14:19, 22) e El-Shaddai ("Deus Todo-Pode­
um poço e que a água lhe pertencia. Deu as roso" - Gn 17:1); mas passou a ter um novo
cordeiras a Abimeleque. Este as guardou nome para usar em sua adoração. E impor­
com cuidado, como "recibos" garantindo tante que, ao longo da vida, aprendamos mais
que Abraão era o proprietário do poço. O e mais sobre Deus de modo que possamos
nome do poço (Berseba, que quer dizer adorá-lo melhor.
"poço do juramento") também serviu como Que grande encorajamento conhecer o
testemunho da transação. Os dois homens "Deus Eterno"! Os poços desapareceriam,
juraram manter a aliança, e o problema foi as árvores seriam cortadas, as cordeiras cres­
resolvido. ceriam e morreriam, os altares ruiriam e os
A transação toda envolveu três elemen­ tratados se extinguiriam, mas o Deus Eterno
tos: sacrifícios (Gn 21:27), testemunhas (vv. permaneceria. Esse Deus eterno havia feito
28-30) e promessas (vv. 31, 32). Podemos uma aliança perpétua com Abraão e seus
encontrar esses mesmos elementos na alian­ descendentes (Gn 17:7, 13, 19) e havia lhes
ça de Deus conosco por intermédio de Jesus dado a terra de Canaã como posse perpétua
Cristo, conforme vemos em Hebreus 10:1- (v. 8; 48:4). Ao encarar os anos vindouros,
18. Em primeiro lugar, temos o sacrifício de Abraão sabia que Deus não mudaria e que
Jesus Cristo na cruz (vv. 1-14); depois, o tes­ seria sempre o Deus que, "por baixo de ti,
temunho do Espírito Santo dentro do cristão estende os braços eternos" (Dt 33:27).
'v. 15), e, por fim, a promessa da Palavra de Espera (v. 34). A expressão "muito tem­
Deus (vv. 16-18). A aliança de Abraão com po", neste versículo, pode significar até dez
Abimeleque apenas garantia a posse de um ou quinze anos, pois Isaque era um rapaz
poço, o qual oferece água para sustentar a quando acompanhou Abraão até o monte
vida. A aliança de Deus com seu povo nos Moriá (Gn 22). Deve ter sido um tempo de
garante a água viva, que dá vida eterna a paz para Abraão, Sara e Isaque e um tempo
todo aquele que confia no Salvador! de grande felicidade, enquanto acompanha­
Plantio (v. 33). As tamargueiras também vam o crescimento de seu filho tão querido.
faziam parte da aliança, como testemunho Mal sabiam que o maior teste ainda estava
das promessas que Abraão e Abimeleque por vir, mas Deus os estava preparando, e
haviam feito. A tamargueira é um arbusto de eles estariam prontos.
era Abraão, "pai de uma multidão". Ele era
22 pai de um filho, Ismael, mas isso não era
muito, e Sara jamais havia dado à luz. Mas,
agora, toda a sua vergonha havia se extingui­
" T e m p o de C h o r a r , do, e Abraão e Sara estavam se regozijando
com a chegada de seu filho.
T e m p o de R ir "
Contudo, o nascimento de Isaque envol­
via muito mais do que a alegria dos pais,
G ênesis 2 1 :1-21; G álatas
pois significava o cumprimento da promessa
4:21-31 de Deus. Quando Deus chamou Abraão, ha­
via prometido fazer dele uma grande nação
que abençoaria o mundo todo (Gn 12:1-3);
/ / A vida cristã é uma terra de montes e e, em várias ocasiões, prometera que daria a
/ V de vales", disse o pregador escocês terra de Canaã aos descendentes de Abraão
George Morrison baseando suas palavras em (Gn 17:7) e que os multiplicaria grandemente
Deuteronômio 11:11. Salomão expressou a (Gn 13:15-1 7). Abraão seria o pai do herdei­
mesma idéia quando escreveu, em Eclesias- ro prometido (Gn 15:4), e Sara (não Agar),
tes 3:4, que há "tempo de chorar e tempo de a mãe (Gn 17:19; 18:9-15). O nascimento
rir". O céu é um lugar de alegria sem fim; o de Isaque lembra que, a seu modo e a seu
inferno é um lugar de sofrimento sem fim. tempo, Deus cumpre suas promessas. Ape­
Contudo, enquanto estamos aqui na Terra, sar de seus lapsos ocasionais, Abraão e Sara
devemos esperar tanto alegrias quanto tris­ criam em Deus, e o Senhor honrou sua fé
tezas, tanto riso quanto lágrimas. Não há (Hb 11:8-11).
montes sem vales. O nascimento de Isaque também signifi­
Isso é verdade especialmente na vida fa­ ca a recompensa pela paciência. Abraão e
miliar, pois as mesmas pessoas que nos dão Sara tiveram de esperar vinte e cinco anos
alegria também podem nos causar tristeza. pelo nascimento do filho, pois, "pela fé e pela
Os relacionamentos podem tornar-se des­ longanimidade, [herdamos] as promessas"
gastados e mudar de uma hora para outra, (Hb 6:12; ver Hb 10:36). Confiar nas pro­
enquanto nos perguntamos o que aconte­ messas de Deus não apenas lhe propicia uma
ceu com um lar antes tão feliz. De acordo bênção no final, mas também lhe concede
com um provérbio chinês: "Ninguém tem uma bênção enquanto espera. Assim como
uma família que possa pendurar na porta de os atletas olímpicos desenvolvem suas habi­
sua casa uma placa dizendo: 'Aqui não há lidades ao treinar por muito tempo e com
nada de errado"'. afinco antes do grande evento, também os
A chegada de Isaque ao lar de Abraão e filhos de Deus crescem em devoção e em fé
Sara trouxe-lhes tanto tristezas como ale­ enquanto esperam pelo cumprimento das
grias. Ao observar as pessoas envolvidas promessas de Deus. A fé é uma jornada, e
nesse acontecimento importante, é possí­ cada destino feliz é o início de uma nova
vel aprender algumas lições preciosas so­ caminhada. Quando Deus deseja desenvol­
bre fundamentos da doutrina cristã e sobre ver nossa paciência, ele nos dá promessas,
como viver a vida cristã. nos manda provações e nos diz para confiar
nele (Tg 1:1-8).
1 . A b r a ã o e S a r a : fé e p ro m essa O nascimento de isaque certamente foi
(G n 21:1-7) a revelação do poder de Deus. Esse foi um
Sara havia carregado consigo o fardo da es­ dos motivos pelos quais Deus esperou tanto
terilidade durante muitos anos. Aliás, um far­ tempo: ele queria que Abraão e Sara estives­
do extremamente pesado naquela cultura e sem "amortecidos" para que o nascimento
naquela época. As pessoas deviam sorrir de seu filho fosse um milagre de Deus, não
quando ouviam que o nome de seu marido algum tipo de maravilha da natureza humana
G Ê N E S I S 21:1-21; G Á L A T A S 4:21-31 129

(Rm 4:17-21). Abraão e Sara experimenta­ de modo que Isaque nasceu "pela graça [...]
ram o poder de ressurreição de Deus em mediante a fé" (Ef 2:8, 9). Essa e a única ma­
sua vida, pois se entregaram a ele e creram neira de um pecador entrar para a família de
em sua Palavra. A fé nas promessas de Deus Deus (Jo 3:16-18).
libera o poder divino (Ef 3:20, 21; Fp 3:10), É importante observar que, no registro
"Porque para Deus não haverá impossíveis bíblico, em várias ocasiões Deus rejeitou o
em todas as suas promessas" (Lc 1:37). primogênito e aceitou aquele que nasceu
Por fim, o nascimento de Isaque foi mais depois. Rejeitou Caim e escolheu Abel (Gn
um passo no processo de cumprir o propósi­ 4:1-15). Rejeitou Ismael, o primogênito de
to de Deus. A futura redenção de um mundo Abraão, e escolheu Isaque. Deixou de lado
perdido encontrava-se num bebê! Isaque Esaú, o primogênito de Isaque, e escolheu
geraria Jacó; Jacó daria ao mundo as doze Jacó (Rm 9:8-13). Escolheu também Efraim
tribos de Israel; e de Israel nasceria o Mes­ em vez de Manassés (Gn 48). No Egito, o
sias prometido. Ao longo dos séculos, alguns Senhor condenou todos os primogênitos (Êx
"elos viventes" na cadeia das promessas po­ 11 - 12) e poupou apenas os que "nasce­
dem ter parecido insignificantes e fracos, mas ram de novo", pois foram protegidos pela fé
ajudaram a cumprir os propósitos de Deus. no sangue do cordeiro.
Você pode se perguntar se aquilo que Isaque é o retrato do filho de Deus não
faz é, de fato, importante para Deus e sua apenas em seu nascimento, mas também na
obra aqui neste mundo. Mas se for fiel em alegria que trouxe. Isaque significa "riso", e
confiar na Palavra de Deus e fizer a vontade dessa vez não foi um riso de incredulidade
dele, o que você faz tem valor. Da próxima (Gn 18:9-15). Nas parábolas registradas em
vez que se sentir desanimado e derrotado, Lucas 15, Jesus enfatizou a alegria resultan­
lembre-se de Abraão e de Sara e lembre-se te do arrependimento dos pecadores que se
de que a fé e a promessa andam juntas. Deus voltam para o Senhor. O pastor alegrou-se
cumpre suas promessas e lhe dá o poder quando encontrou sua ovelha perdida; a
de que necessita para cumprir a vontade mulher alegrou-se quando encontrou a moe­
dele. Não importa quanto tempo demore, da que havia perdido, e os dois convidaram
pode estar certo de que Deus realizará seus seus amigos a participar de sua alegria. O
propósitos. pai alegrou-se quando o filho pródigo vol­
tou para casa e convidou os vizinhos para
2. I s a q u e e I s m a e l : E s p ír it o e carne um banquete, a fim de que compartilhassem
(Gn 21:8-11). de sua alegria. Há até mesmo alegria no céu
Em Gálatas 4:28, 29, Paulo deixa claro que quando os pecadores voltam-se para Deus
Ismael representa o primeiro nascimento do (Lc 15:7, 10).
cristão (a carne) e que Isaque representa o Não lemos em parte alguma que Ismael
novo nascimento (o Espírito). Ismael foi "nas­ trouxe grande alegria ao lar de Abraão.
cido da carne" (Gn 16), pois Abraão ainda Abraão amava o filho e desejava o que havia
não estava "amortecido" e ainda podia gerar de melhor para ele (Gn 17:18). Desde seu
filhos. Isaque foi "nascido do Espírito", pois, nascimento, Ismael foi a origem de conflitos
quando foi concebido, seus pais estavam dolorosos (Gn 16); depois que ficou mais
"amortecidos", e só o poder de Deus seria velho, causou desavenças ainda maiores na
capaz de concretizar sua concepção e nasci­ família (Gn 21:9). Não importa quanto se
mento. Ismael nasceu primeiro, pois o natu­ esforce, a velha natureza não é capaz de pro­
ral vem antes do espiritual (1 Co 15:46). duzir o fruto do Espírito (Gl 5:16-26).
Quando você crê em Jesus Cristo, passa Observe, ainda, outra comparação entre
por um nascimento miraculoso que vem de Isaque e o filho de Deus: "Isaque cresceu e
Deus (Jo 1:11-13) e que é obra do Espírito foi desmamado" (Gn 21:8, ênfase minha). O
Santo de Deus (Jo 3:1-8). Abraão representa novo nascimento não é o fim, mas sim o come­
a fé e Sara representa a graça (Gl 4:24-26), ço, e o cristão deve alimentar-se da Palavra
130 G Ê N E S I S 21:1-21; G Á L A T A S 4:21-31

de Deus e crescer espiritualmente (Mt 4:4; A liberdade é um dos principais temas de


1 Co 3:1-3; Hb 5:12-14; 1 Pe 2:1-3; 2 Pe Gálatas (5:1) e uma das maiores bênçãos da
3:18). Ao amadurecer no Senhor, devemos vida cristã (Gl 4:31). E claro que a liberdade
"[desistir] das coisas próprias de menino" cristã não é sinônimo de anarquia, uma vez
(1 Co 13:9-11) e permitir que Deus venha a que esse é o pior tipo de escravidão. A liber­
nos "desmamar" (Sl 131) das ajudas temporá­ dade cristã significa desembaraço de tudo
rias que se tornam empecilhos permanentes. para ser e fazer tudo o que Deus tem para
A mãe desmama o filho, pois ela o ama e nós em Jesus Cristo. "Nenhum homem deste
deseja que tenha a liberdade de crescer sem mundo obtém a liberdade de qualquer es­
depender mais dela. No entanto, a criança pécie de escravidão a não ser para entrar
interpreta suas ações como uma expressão numa servidão mais elevada", disse Phillips
de rejeição e de ódio. O filho apega-se ao Brooks, e essa "servidão mais elevada" é a
conforto do passado, e a mãe tenta incenti­ entrega pessoal a Jesus Cristo. Ninguém tem
var a criança a crescer e a encarar os desafios mais liberdade do que o filho de Deus que
do futuro. Chega um momento, em toda vida se agrada do Senhor e faz sua vontade de
cristã, que os brinquedos devem ser substi­ todo o coração.
tuídos por ferramentas e que a segurança
egoísta deve ser substituída pelo serviço al­ 3. S a r a e A g a r : a g r a ç a e a lei

truísta (Jo 12:23-26). (Gn 21:9-13)


Como todo filho de Deus, Isaque foi per­ Sara estava errada quando disse a Abraão
seguido (Gn 21:9; Gl 4:29). Ao que parece, para casar-se com Agar (Gn 16:1, 2), mas
Ismael era um filho obediente até que Isaque estava certa quando pediu a Abraão que ex­
entrou na família. Então, a "carne" começou pulsasse Agar e Ismael do acampamento. O
a opor-se ao "Espírito". Alguém disse bem apóstolo Paulo considerou esse aconteci­
que a velha natureza não respeita nenhuma mento uma alegoria envolvendo a lei de
lei, mas a nova natureza não precisa de ne­ Moisés e a graça de Deus (Gl 4:21-31). Sara
nhuma lei; isso sem dúvida ficava claro nos representa a graça (a Jerusalém celestial) e
dois filhos de Abraão. Agar representa a lei (a Jerusalém terrestre
As crianças israelitas normalmente eram em escravidão). A lição é, simplesmente, que
desmamadas por volta dos três anos de ida­ os filhos de Deus devem viver sob as bên­
de. Assim, nessa época, é provável que çãos da graça e não sob a escravidão da lei.
Ismael estivesse com cerca de dezesseis Os conflitos dentro do lar de Abraão pode­
anos (Gn 16:16). Quanta arrogância de um riam ter sido resolvidos de quatro maneiras.
adolescente atormentar um garotinho Isaque poderia ter sido mandado embora,
quatorze anos mais jovem! Mas Deus havia mas isso significaria rejeitar as promessas de
dito que Ismael se tornaria "um jumento Deus e tudo o que ele havia planejado para
selvagem" (Gn 16:12), e essa previsão se o futuro. Isaque e Ismael poderiam ter vivi­
cumpriu. O constante conflito entre a carne do juntos, mas isso implicaria intermináveis
e o Espírito persistirá até que vejamos o conflitos. A natureza de Ismael poderia ter
Senhor (Gl 5:16-26). sido transformada de modo a torná-lo mais
. Quando, assim como Isaque, você é nas­ tratável, mas para isso seria preciso um mila­
cido do Espírito, nasceu na riqueza (Gn 21:10). gre. "O que é nascido da carne é carne" (Jo
Isaque era o herdeiro de tudo o que seu pai 3:6) e sempre será carne. A única solução era
possuía, e os filhos de Deus são "herdeiros expulsar Ismael e sua mãe do acampamento
de Deus e co-herdeiros com Cristo" (Rm e tornar Isaque o único herdeiro.
8:17). Abraão cuidou de Ismael enquanto o Ao refletir sobre os fatos referentes a Agar,
menino estava em casa, mas "Abraão deu você poderá entender melhor a relação en­
tudo o que possuía a Isaque" (Gn 25:5). tre a lei e a graça na vida cristã.
Por fim, Isaque nasceu livre, enquanto Em primeiro lugar, Agar era a segunda es­
Ismael era filho de uma escrava (Gl 4:22). posa de Abraão. Ela havia sido acrescentada
G Ê N E S I S 21:1-21; G Á L A T A S 4:21-31 131

à família ao lado de Sara. Assim também a lei Agar foi expulsa. Não houve condescen­
foi "acrescentada" ao lado das promessas já dência: ela foi completa e permanentemente
existentes de Deus, e seu caráter era tempo­ expulsa e levou Ismael consigo. Em vez de
rário (Cl 3:19, 24, 25). Deus não começou subjugar a carne, a lei serve para incitá-la
com a lei; começou com a graça. Seu rela­ (Rm 7:7-12), pois "A força do pecado é a lei"
cionamento com Adão e Eva baseava-se na (1 Co 15:56). Os cristãos não precisam de
graça e não na lei, apesar de ele os ter testa­ submeter-se a algum tipo de lei religiosa a
do por meio de uma única e simples restri­ fim de se tornarem semelhantes a Cristo, pois
ção (Gn 2:15-17). A redenção de Israel do em Cristo já são aperfeiçoados e plenos (Cl
Egito foi um gesto da graça de Deus, como 2:8-23) e têm o Espírito Santo para capacitá-
foi sua provisão, os sacrifícios e o sacerdó­ los a vencer o pecado (Rm 8:1-4).
cio. Antes de Moisés dar a lei, a nação de Por fim, Agar nunca se casou de novo.
Israel já se encontrava num relacionamento Deus deu sua lei somente à nação de Israel e
de aliança com o Senhor ("casada com em momento algum a impôs sobre os gen­
Deus") por meio das promessas de Deus aos tios ou sobre a Igreja. Nove dos dez manda­
patriarcas (Êx 19:1-8). mentos são citados nas Epístolas, indicando
Em segundo lugar, Agar era uma serva. sua aplicação para os crentes da atualidade,
"Qual, pois, a razão de ser da lei?", pergunta e devemos obedecer a esses mandamentos.
Paulo em Gálatas 3:19, que, em seguida, res­ No entanto, não recebemos qualquer pres­
ponde. A lei servia a Deus como um "aio" ou crição que determine nossa obediência às
"tutor" para manter a jovem nação de Israel leis cerimonias dadas apenas a Israel (ver Rm
sob controle e prepará-la para o Redentor 13:8-10). Paulo afirma que é o amor que
que viria (Gl 3:24, 25; 4:1-5). A lei foi dada cumpre a lei. Quando amamos a Deus e uns
para revelar o pecado (Rm 3:20), mas não aos outros, queremos obedecer a Deus e,
para nos redimir do pecado. A graça não ser­ pelo poder do Espírito, desejamos fazer aqui­
ve à lei; é a lei que serve à graça! A lei revela lo que é certo.
nossa necessidade da graça, e a graça nos Antes de concluir esta seção, devemos
salva de modo absolutamente separado das observar que há uma "utilização legítima da
obras da lei (Rm 3:20, 28). lei" (1 Tm 1:1-11). Apesar de a lei não poder
Há um terceiro fato que fica evidente: nos salvar nem nos santificar, revela a santi­
Agar não deveria ter um filho. A lei não pode dade de Deus e o horror do pecado. A parte
dar aquilo que somente Jesus Cristo pode cerimonial da lei serve para ilustrar a pessoa
oferecer: vida (Gl 3:21), justiça (2:21), o e a obra de Jesus Cristo. A lei é o espelho
Espírito Santo (3:2) e uma herança eterna que nos ajuda a ver nossos pecados (Tg 1:21-
3:18). Todas essas bênçãos vêm somente 25), mas você não lava o rosto no espelho!
"pela graça [Sara] [...] mediante a fé Ela é apenas um espelho que revela a glória
'Abraão]" (Ef 2:8, 9). de Jesus Cristo e, ao meditar nele, pode­
Isso nos leva ao quarto fato: Agar deu à mos ser transformados de modo a nos tor­
luz um escravo. Se você decide viver sob a narmos mais parecidos com ele (2 Co 3:18).
lei, torna-se filho de Agar, um escravo, pois a lei Qualquer sistema religioso que o leve à
gera escravidão e não liberdade. A primeira escravidão não serve para engrandecer o
batalha doutrinária da Igreja foi debater jus­ evangelho do Novo Testamento da graça de
tamente essa questão. Foi decidido que os Deus (2 Co 3:17; Jo 8:31-36).
pecadores são salvos exclusivamente pela
graça, independentemente de guardar a lei 4. Deus e A g a r : a p ro m e ss a e a
de Moisés (At 15:1-32). Os legalistas nas igre­ p r o v is ã o (Gn 2 1 :1 2 - 2 1 )
jas de hoje estão transformando filhos em Foi "penoso" (Gn 21:11, 12) para Abraão
escravos e substituindo a liberdade pela es­ despedir-se de seu filho, mas era a ordem
cravidão (Gl 4:1-11); no entanto, Deus nos de Deus, e ele precisava obedecer. O que
chama à liberdade (Gl 5:1)! ele não sabia é que sua obediência era uma
132 G Ê N E S I S 21:1-21; G Á L A T A S 4:21-31

preparação para um teste ainda maior, no promessas que Deus havia lhe feito sobre
qual teria de colocar Isaque sobre o altar. A seu filho, mas Ismael deve ter se lembrado
palavra traduzida como "penoso" significa delas, pois clamou ao Senhor pedindo so­
"sacudido violentamente", como cortinas corro. Deus ouviu o clamor do rapaz e sal­
agitando-se com o vento. Abraão foi profun­ vou-os por amor a Abraão.
damente movido em seu interior e talvez te­ Quantas vezes, durante as provações da
nha ficado um tanto descontente com essa vida, somos incapazes de ver as provisões
mudança de rumo nos acontecimentos. divinas preparadas para nós e nos esquece­
No entanto, Deus não abandonou Agar mos das promessas que Deus nos fez. Es­
e Ismael, pois Ismael era filho de Abraão, o tendemos as mãos buscando e pedindo
amigo de Deus (v. 13). Se Ismael e Agar aquilo que julgamos necessário, em lugar
guardavam qualquer mágoa de Abraão, cer­ de pedir que Deus abra nossos olhos para
tamente não estavam com a razão; tudo o vermos o que já temos. A resposta à maior
que Deus fez por eles foi por causa de sua parte dos problemas está a nosso alcance,
fidelidade a Abraão. O Senhor reafirmou sua caso sejamos capazes de enxergar (Jo 6:1-
promessa de que Ismael tornar-se-ia uma 13; 21 : 1-6 ).
grande nação (vv. 13, 18; 17:20) e cumpriu Sem dúvida, Agar é um retrato das multi­
essa promessa (Gn 21:12-16). Hoje em dões necessitadas do mundo de hoje: pessoas
dia, o mundo árabe é uma potência digna vagando sem destino, cansadas, sedentas, ce­
de reconhecimento, e tudo começou com gas e se entregando ao desespero. Como é
Ismael. importante levar a essa gente as boas novas
Apesar das ilustrações que às vezes apa­ de que a água da vida está à sua disposição
recem em revistas de escola dominical e em e de que o poço não fica longe (Jo 4:10-14;
livros de histórias da Bíblia, Ismael era um 7.37-39)! Deus é cheio de graça e de bonda­
adolescente, não uma criança, quando isso de para com todos os que o invocam, por
aconteceu. A palavra traduzida por "meni­ amor a seu Filho amado, Jesus Cristo.
no" pode referir-se a um feto (Êx 21:22), a Horatius Bonar escreveu estas palavras:
bebês recém-nascidos (Êx 1:17, 18), a crian­
ças pequenas (1 Rs 17:21-23) ou até mesmo Ouvi a voz de Jesus dizer:
a adolescentes (1 Rs 12:8-14; Dn 1:4ss). "Eis que te dou liberalmente
Nesse caso, refere-se a um menino de pelo Da água viva, ó sedento.
menos dezesseis anos de idade. Abaixa-te, bebe e passa a viver".
Ismael e Agar se perderam no deserto, a Fui a Jesus e bebi,
água acabou e, desesperados, entregaram-se Do manancial vivificador;
à sua sorte. Essa experiência foi bem diferente Minha sede saciada, minh'alma revigorada,
da primeira vez em que Agar encontrou-se Agora vivo no Senhor.
com Deus no deserto (Gn 16:7ss). Dezesseis
anos antes, ela havia encontrado uma fonte; "Se alguém tem sede, venha a mim e beba"
mas dessa vez não via esperança alguma. (Jo 7:37). "E quem quiser receba de graça a
Ao que parece, Agar havia se esquecido das água da vida" (Ap 22:17).
esse texto também apresenta um belo retra­
23 to do sacrifício de nosso Senhor no Calvário,
mas a principal lição refere-se à fé obediente
que supera todas as provações da vida. Abraão
A M a io r P ro va nos ensina como encarar e tratar as provas
de nossa vida para a glória de Deus. Pense
de T odas
nestas cinco instruções simples:
G ênesis 22
1 . E spere que D eu s m a n d e provas
(Gn 22:1, 2)
Na "escola da fé", precisamos, periodicamente,
passar por provas. De outro modo, jamais
ma inscrição no relógio de uma cate­ ficaremos sabendo onde nos encontramos em
U dral diz: termos espirituais. Abraão teve sua cota de
provas desde o começo. Primeiro, foi a "pro­
Quando em minha infância eu ria e va da família", quando teve de deixar seus
chorava, entes queridos e dar um passo de fé dirigin­
O tempo se arrastava. do-se a uma nova terra (Gn 11:27 - 12:5).
Quando em minha juventude eu sonhava Logo em seguida, veio a "prova da fome", na
e falava, qual Abraão não passou, pois duvidou de
O tempo caminhava. Deus e foi buscar ajuda no Egito (Gn 12:10 -
Quando um homem crescido vim a ser, 13:4).
O tempo passou a correr. Uma vez de volta à terra, Abraão passou
E, mais tarde, ao mais velho ficar, pela "prova de cordialidade", quando deixou
Vi o tempo voar. que Ló escolhesse primeiro as terras para pas­
Logo, nesta jornada em que estou, tagem (Gn 13:5-18). Também passou pela
Verei que o tempo passou. "prova da luta", quando derrotou os reis (Gn
14:1-16), e na "prova da fortuna", ao dizer
Abraão matriculou-se na "escola da fé" aos "não" às riquezas de Sodoma (vv. 17-24). No
setenta e cinco anos de idade. Nesta pas­ entanto, foi reprovado na "prova da pater­
sagem, estava com mais de cem anos e conti­ nidade", quando Sara impacientou-se com
nuava passando por experiências intensas. Deus e sugeriu que Abraão tivesse um filho
Nunca somos velhos demais para enfrentar com Agar (Gn 16). Quando chegou o mo­
novos desafios, para lutar novas batalhas e mento de mandar Ismael embora, Abraão pas­
para aprender novas verdades. Quando para­ sou na "prova da despedida" (Gn 21:14-21).
mos de aprender, deixamos de crescer, e quan­ Nem toda experiência difícil na vida é,
do deixamos de crescer, paramos de viver. necessariamente, um teste pessoal de Deus.
"Os primeiros quarenta anos de vida nos (É claro que qualquer experiência pode tor-
dão o texto", escreveu Arthur Schopenhauer, nar-se uma prova ou tentação, dependendo
"e os outros trinta nos apresentam o comen­ de como lidamos com ela. Ver Tg 1:12-16.)
tário". Para o cristão, o texto é Habacuque Por vezes, é nossa própria desobediência que
2:4: "O justo viverá pela fé". O "comentário" causa dor ou decepção, como aconteceu
está sendo escrito quando ouvimos a voz de com Abraão quando foi para o Egito (Gn
Deus e obedecemos à sua direção, um dia 12:1 Oss) e para Gerar (Gn 20). As vezes,
de cada vez. É triste dizer, mas algumas pes­ nosso sofrimento é simplesmente uma parte
soas não entendem nem o texto nem o co­ normal da vida humana: como quando enve­
mentário, e sua vida acaba antes que tenham lhecemos, quando amigos e entes queridos
começado a viver de fato. vão para longe ou morrem, quando a vida
Gênesis 22 registra a maior prova pela muda a nosso redor e devemos nos adaptar,
qual Abraão teve de passar. É verdade que mesmo que seja doloroso.
134 C E N E S I S 22

Aprenda a distinguir entre provações e Davi na caverna, quer para Jesus no Calvário,
tentações. As tentações vêm dos desejos a lição é a mesma: vivemos pelas promes­
dentro de nós (Tg 1:12-16), enquanto as pro­ sas, não pelas explicações.
vações vêm do Senhor, que tem um propósi­ Pense em como foi absurdo o pedido de
to específico a cumprir. As tentações podem Deus. Isaque era o único filho de Abraão, e o
ser usadas pelo inimigo para estimular o que futuro da aliança dependia dele. Isaque era
há de pior em nós, mas as provações são o filho do milagre, a dádiva de Deus a Abraão
usadas pelo Espírito Santo para extrair o que e Sara em resposta à sua fé. Abraão e Sara
há de melhor em nós (Tg 1:1-6). As tentações amavam Isaque profundamente e haviam
parecem lógicas, enquanto as provações pa­ construído todo o seu futuro em torno dele.
recem não fazer sentido algum. Por que Deus Quando Deus pediu a Abraão para oferecer
daria um filho a Abraão para, depois, pedir seu filho em sacrifício, estava testando a fé, a
que matasse o menino? esperança e o amor. Parecia que Deus esta­
Todos os cristãos são tentados a pecar va acabando com tudo pelo que Abraão e
de forma parecida (1 Co 10:13), mas nem Sara haviam vivido.
todos os cristãos passam pelas mesmas pro­ Quando Deus nos manda uma provação,
vações de fé. As provas de Deus são feitas normalmente nossa primeira reação é per­
sob medida para cada um de seus filhos, e a guntar: "Por que, Senhor?" e, depois: "Por
experiência de cada um deles é singular. que eu?". Mais que depressa, queremos que
Deus jamais pediu a Ló que passasse pelas Deus nos dê explicações. E claro que sa­
mesmas provas que Abraão. Isso porque bemos que Deus tem seus motivos para
Ló estava sendo tentado pelo mundo e pela mandar essas provas - talvez para purificar
carne e jamais alcançou o mesmo nível de nossa fé (1 Pe 1:6-9), para aperfeiçoar nosso
maturidade que Abraão. Em certo sentido, caráter (Tg 1:1-4) ou até mesmo para nos
o fato de Deus nos mandar provações é um proteger do pecado (2 Co 12:7-10) -, mas
elogio - mostra que Deus deseja nos levar não vemos de que modo tais coisas se apli­
para o estágio seguinte da "escola da fé". cam a nós. O fato de pedirmos explicações
Deus jamais envia uma prova até que saiba ao nosso Pai indica que não nos conhece­
que estamos preparados para ela. mos como deveríamos ou que não conhe­
"A vida é difícil", escreveu o psiquiatra cemos a Deus como deveríamos.
M. Scott Peck. "Uma vez que sabemos, de Abraão ouviu a Palavra de Deus e obe­
fato, que a vida é difícil - uma vez que sabe­ deceu imediatamente pela fé. Ele sabia que
mos e que aceitamos isso então a vida Deus jamais entraria em contradição com
deixa de ser difícil" (The Road Less Traveled, suas promessas, de modo que se apegou à
p. 15). Essa é a primeira lição que devemos promessa de que "por Isaque será chama­
aprender. Espere provas de Deus, pois a vida da a tua descendência" (Gn 21:12). Abraão
cristã não é fácil. creu que Deus, mesmo que lhe permitisse
sacrificar seu filho, poderia ressuscitar
2 . CONCENTRE-SE NAS PROMESSAS, NÃO Isaque dentre os mortos (Hb 11:17-19). A
NAS EXPLICAÇÕES ( G n 2 2 :3 - 5 ) fé não exige uma explicação; ela descansa
"No início da vida espiritual", escreveu a nas promessas.
religiosa francesa Madame Guyon, "nossa Abraão disse a seus dois servos: "Eu e o
tarefa mais difícil é sofrer com nosso próxi­ rapaz iremos até lá e, havendo adorado, vol­
mo; ao longo de seu progresso, conosco taremos para junto de vós" (Gn 22:5). Pelo
mesmos; e, no final, com Deus". Nossa fé não fato de Abraão crer em Deus, não tinha in­
é verdadeiramente testada até que Deus nos tenção de trazer de volta um morto! Já foi
peça para suportar aquilo que parece insu­ dito que Abraão creu em Deus e obedeceu
portável e para esperar aquilo que parece im­ a ele quando não sabia onde (Hb 11:8), quan­
possível. Quer você olhe para José na prisão, do (Hb 11:9-10, 13-16), como (Hb 11:11,
para Moisés e Israel no mar Vermelho, para 12) nem por quê (Hb 11:17-19).
G Ê N E S I S 22 135

3 . D e p e n d a d a p r o v is ã o de D e u s para Deus - "Jeová-Jiré" - que pode ser tra­


(G n 22:6-14) duzido como "o Senhor proverá" ou "o Se­
Há duas declarações que revelam a ênfase nhor será visto". A declaração: "No monte
dessa passagem: "Deus proverá para si, meu do S e n h o r se proverá" nos ajuda a compre­
filho, o cordeiro para o holocausto" (v. 8); e ender algumas verdades sobre a provisão do
"Jeová-Jiré" (Gn 22:14), isto é, "O S e n h o r Senhor.
proverá". Ao subir o monte Moriá com seu Onde o Senhor provê nossas necessida­
filho, Abraão estava confiante de que Deus des? No lugar indicado por ele. Abraão es­
supriria todas as necessidades. tava no lugar certo, de modo que Deus pôde
Em que Abraão podia confiar? Certamen­ ir ao encontro de suas necessidades. Não
te não em seus sentimentos, pois devia sen­ temos o direito de esperar pela provisão de
tir uma dor terrível dentro dele ao pensar em Deus se não estivermos dentro da vontade
sacrificar o filho no altar. Amava seu único de Deus.
filho, mas também amava a Deus e desejava Quando Deus provê nossas necessida­
lhe obedecer. des? Exatamente quando precisarmos, nem
Abraão também não podia depender de um minuto antes. Quando você coloca seu
outras pessoas. Sara ficou em casa, e os dois pedido diante do trono da graça, Deus res­
servos que o haviam acompanhado perma­ ponde com misericórdia e graça "em oca­
neceram no acampamento. Agradecemos a sião oportuna" (Hb 4:1 6). Por vezes, temos
Deus pelos amigos e membros da família que a impressão de que Deus espera até o últi­
nos ajudam a carregar nossos fardos, mas há mo minuto para nos socorrer, mas esse é
provações na vida que precisamos enfrentar apenas nosso ponto de vista humano. Deus
sozinhos. É somente nessas ocasiões que po­ nunca chega atrasado.
demos ver o que nosso Pai pode, de fato, fa­ Como Deus provê? De maneiras que,
zer por nós! normalmente, são bastante naturais. Deus
Abraão podia confiar na promessa e na não enviou um anjo junto com o sacrifício;
provisão do Senhor. Já havia experimentado simplesmente permitiu que um carneiro fi­
o poder de ressurreição de Deus em seu pró­ casse preso pelos chifres nos arbustos no
prio corpo (Rm 4:19-21), e assim sabia que momento em que Abraão precisava e num
Deus poderia ressuscitar Isaque dentre os lugar que Abraão podia alcançar. Abraão
mortos, caso esse fosse seu plano. Ao que só necessitava de um animal, de modo que
parece, não houve nenhum caso de ressur­ Deus não mandou um rebanho de ovelhas.
reição antes daquela época, de modo que A quem Deus concede sua provisão?
Abraão estava exercitando grande fé em Àqueles que confiam nele e que obedecem
Deus. a suas instruções. Quando estamos fazen­
De acordo com Efésios 1:1 9, 20 e 3:20, do a vontade de Deus, temos o direito de
21, os cristãos têm o poder da ressurreição esperar pela provisão divina. Um diácono
de Cristo disponível em seu corpo ao entre­ da primeira igreja que pastoreei costumava
gar-se ao Espírito Santo. Podemos conhe­ nos lembrar de que: "Quando a obra é feita
cer "o poder da sua ressurreição" (Fp 3:10) à maneira de Deus, não carecerá do apoio
ao enfrentar aquilo que a vida diária exige de Deus". O Senhor não tem obrigação de
de nós, bem como suas provações. Quando abençoar minhas idéias e projetos, mas tem
a situação parece desesperadora, pergun­ obrigação de apoiar sua obra, se ela é feita
te-se: "Acaso, para o S e n h o r há coisa demasia­ da maneira correta.
damente difícil?" (Gn 18:14), e lembre-se: Por que Deus supre todas as nossas ne­
"Tudo posso naquele que me fortalece" (Fp cessidades? Para a glória de seu nome! "San­
4:13). tificado seja o teu nome" (Mt 6:9-13) é a
Deus providenciou o sacrifício, e um car­ primeira petição da oração do Pai-Nosso e
neiro tomou o lugar de Isaque no altar (Gn governa todos os outros pedidos. Deus foi
22:13). Abraão descobriu um novo nome glorificado no monte Moriá, pois Abraão e
136 G Ê N E S I S 22

Isaque fizeram a vontade do Senhor e glori- O Filho precisava m orrer. Abraão levou
ficaram a Jesus Cristo. Devemos parar e re­ consigo uma faca e uma tocha. Dois instru­
fletir sobre essa importante verdade. mentos usados para a morte. A faca daria
cabo da vida física de Isaque e o fogo quei­
4. P r o c u r e g l o r if ic a r a C r is t o maria a lenha no altar onde seu corpo seria
Durante as provações, é fácil pensar apenas colocado. No caso de Isaque, um substituto
em nossas necessidades e em nossos fardos; morreu em seu lugar; mas ninguém podia
em vez disso, devemos nos concentrar em assumir o lugar de lesus na cruz. Ele era o úni­
glorificar a Jesus Cristo. Pegamo-nos pergun­ co sacrifício capaz, de modo completo e de­
tando: "Como posso sair dessa situação?" finitivo, de tirar os pecados do mundo. Deus
em lugar de: "O que posso aprender com proveu um carneiro. A resposta à pergunta
isso de modo a honrar ao Senhor?". Por ve­ de Isaque: "Onde está o cordeiro?" foi dada
zes, desperdiçamos nosso sofrimento ao por João Batista: "Eis o Cordeiro de Deus,
negligenciar ou ignorar as oportunidades de que tira o pecado do mundo!" (Jo 1:29).
revelar Jesus Cristo a outros que nos obser­ Na Bíblia, o fogo com freqüência sim­
vam, enquanto passamos pela fornalha de boliza a santidade de Deus (Dt 4:24; 9:3; Hb
fogo. 12:29). A cruz foi o instrumento físico da
Se já houve duas pessoas sofredoras que morte. No Calvário, porém, Cristo expe­
revelaram Jesus Cristo foram Abraão e Isaque rimentou muito mais do que a morte. Ele
no monte Moriá. Sua experiência é um retra­ sentiu o julgamento de Deus pelos pecados
to do Pai, do Filho e da cruz e um dos símbo­ do mundo. Isaque não sentiu nem a faca nem
los mais antigos de Cristo encontrados em o fogo, mas Jesus sofreu com ambos. O pai
todo o Antigo Testamento. Jesus disse aos amoroso de Isaque estava perto dele, mas
judeus: "Abraão, vosso pai, alegrou-se por Jesus foi abandonado por seu Pai quando se
ver o meu dia, viu-o e regozijou-se" (Jo 8:56). fez pecado por nós (Mt 27:45, 46; 2 Co
No nascimento miraculoso de Isaque, Abraão 5:21). Que maravilhoso amor!
viu o dia do nascimento de Cristo. E no casa­ O Filho levou o fardo do pecado. E inte­
mento de Isaque (Gn 24), viu o dia da volta ressante que a lenha seja mencionada cinco
de Cristo para buscar sua noiva. No monte vezes nessa narrativa e que Isaque não co­
Moriá, porém, quando Isaque estava dispos­ meçasse a carregá-la até que chegaram ao
to a colocar-se no altar, Abraão viu o dia da monte Moriá. A lenha não é um símbolo da
morte e ressurreição de Cristo. Encontramos cruz, pois Jesus não carregou sua cruz o ca­
várias verdades sobre a expiação nesse acon­ minho todo até o Calvário. A lenha parece
tecimento. retratar o fardo do pecado que Jesus levou
O Pai e o Filho agiram em conjun to. A por nós (1 Pe 2:24). Abraão tomou a lenha
frase comovente: "Caminhavam ambos jun­ "e a colocou sobre Isaque, seu filho" (Gn
tos" (Gn 22:6, 8) aparece duas vezes du­ 22:6), e "o S e n h o r fez cair sobre ele [Jesus] a
rante a narração. Em nosso testemunho iniqüidade de nós todos" (Is 53:6). O fogo
evangelístico, muitas vezes damos ênfase consumiu a lenha como um retrato do julga­
ao amor do Pai pelos pecadores perdidos mento de Deus contra o pecado.
(Jo 3:1-6) e ao amor do Filho por aqueles O Filho foi ressurreto dentre os mortos.
pelos quais morreu (1 Jo 3:16), mas deixa­ Isaque não chegou a morrer, mas, "figurada-
mos de mencionar que o Pai e o Filho amam mente" (Hb 11:19), morreu e foi ressurreto
um ao outro. Jesus Cristo é o "Filho amado" dentre os mortos. Jesus, porém, morreu de
(Mt 3:1 7) de seu Pai, e o Filho disse: "para fato e foi sepultado, mas foi ressurreto de
que o mundo saiba que eu amo o Pai" (Jo modo triunfante. É interessante o fato de que
14:31). Abraão não reteve seu filho para si Abraão voltou para onde estavam os dois
(Gn 22:16), assim como o Pai não poupou servos (Gn 22:19), mas não se faz menção
seu Filho, mas "por todos nós o entregou" alguma de Isaque. Na realidade, não é dito
(Rm 8:32). mais nada sobre Isaque até que o vemos
C Ê N E S 1 S 22 137

encontrando-se com sua noiva (Gn 24:62). para que as dádivas de Deus não tomem o
Apesar de ser óbvio que Isaque voltou para lugar dele.
casa com o pai, a simbologia bíblica lembra Deus deu a Abraão novas garantias (Gn
que o próximo acontecimento no calendá­ 22:16-18). O patriarca tinha ouvido essas
rio de Deus é a volta de Jesus Cristo para promessas antes, mas elas adquiriram novo
buscar sua noiva, a Igreja. significado. Charles Spurgeon costumava di­
A melhor coisa que pode acontecer ao zer que as promessas de Deus nunca brilham
passarmos pelas provações que Deus envia com tanta intensidade quanto na fornalha da
é nos aproximarmos de nosso Pai e nos tor­ aflição. Aquilo que dois homens fizeram num
narmos mais semelhantes a Jesus Cristo. O altar solitário um dia serviria de bênção para
Calvário não é apenas o lugar em que Cristo o mundo todo!
morreu por nossos pecados. É também o lu­ Abraão também descobriu um novo
gar onde ele santificou o sofrimento e, através nome para Deus (Gn 22:14). Como vimos,
de sua ressurreição, transformou o sofrimento "Jeová-Jiré" quer dizer "o Senhor será visto"
em glória. Procure glorificar ao Senhor, e ele ou "o S e n h o r proverá". O templo judeu foi
cuidará do resto. construído sobre o monte Moriá (2 Cr 3:1),
Nas palavras de Martinho Lutero: "Nos­ e, durante o ministério de nosso Senhor aqui
so sofrimento não é digno de receber esse na Terra, ele foi visto lá. Cristo era o verda­
nome. Quando penso em minhas cruzes, deiro Cordeiro de Deus oferecido por Deus
tribulações e tentações, me envergonho pelos pecados do mundo.
profundamente de pensar no que são em O fundador do ministério Missão para o
comparação com os sofrimentos de meu Interior da China (conhecido hoje como
bendito Senhor Cristo Jesus". Overseas Missionary Fellowship), J. Hudson
Taylor, costumava pendurar em sua casa uma
5. E spere c o m g r a n d e e x p e c t a t iv a placa com duas palavras em hebraico:
a q u il o q u e D eu s t em r e se r v a d o para "Ebenézer" e "Jeová-Jiré", que significam, res­
você (Gn 22:15-24) pectivamente "pedra de ajuda" (Até aqui nos
Nas provas da vida, há sempre um "depois" ajudou o S e n h o r ", 1 Sm 7:12) e "o S e n h o r
(Hb 12:11; 1 Pe 5:1 0), pois Deus nunca des­ proverá". Quer olhasse para o passado, quer
perdiça o sofrimento. "Mas ele sabe o meu para o futuro, Hudson Taylor sabia que o
caminho; se ele me provasse, sairia eu como Senhor estava trabalhando, portanto ele não
o ouro" (Jó 23:10). Abraão recebeu várias tinha nada a temer.
bênçãos de Deus por causa de sua fé obe­ Quando chegou em casa, Abraão ouviu
diente. outro nome novo: Rebeca (Gn 22:23), a
Em primeiro lugar, Abraão recebeu nova moça que Deus estava reservando para
aprovação de Deus (Gn 22:12). Abraão ha­ Isaque. Um homem com um único filho po­
via descrito toda essa experiência difícil deria ter desanimado ao ouvir a lista de no­
como "adoração" (v. 5), pois, para ele, era mes da família do irmão de Abraão, mas o
nisso que consistia. Ele obedeceu à vontade patriarca não se abalou. Afinal, Deus havia
de Deus e procurou agradar o coração do prometido que seus descendentes seriam tão
Senhor, e Deus o elogiou. Vale a pena passar numerosos quanto as estrelas no céu e a areia
por provações se, no final, o Pai puder lhe na praia do mar (Gn 22:1 7)!
dizer: "Muito bem!" Por fim, Abraão saiu dessa provação
Ele recebeu de volta um novo filho. Isaque com um amor mais profundo pelo Senhor.
e Abraão tinham estado no altar juntos, e Jesus nos fala desse amor mais profundo
Isaque passou a ser um "sacrifício vivo" (Rm em João 14:21-24, e Paulo ora sobre isso
12:1,2). Deus deu Isaque a Abraão, e Abraão em Efésios 3:14-21. Você já experimentou
devolveu Isaque a Deus. Devemos cuidar esse amor?
seu Filho (Mt 22:1-14). A Igreja é compara­
24 da a uma noiva (2 Co 11:2, 3; Ef 5:22-33), e,
na presente era, o Espírito Santo está concla­
mando as pessoas a confiarem em Cristo e a
LA Vem a N o iv a ! pertencerem a ele (Rm 7:4). Os elementos
que fazem parte do casamento de Isaque
G ênesis 2 4 com Rebeca também estão presentes no ca­
samento de Cristo com sua Igreja. Podemos
citar quatro:

1. A VONTADE DO pai (G n 24:1-9)


Abraão estava com cento e quarenta anos
arece estranho que o capítulo mais lon­ de idade (Gn 21:5; 25:20) e ainda viveria
P go de Gênesis conte como um homem
conseguiu sua esposa. Apesar de tratar-se
mais trinta e cinco anos (25: 7). Sua grande
preocupação era conseguir encontrar, an­
de um assunto importante e, certamente, de tes de morrer, uma esposa para seu único
esta ser uma linda história, será que merecia filho, Isaque. Só então Deus cumpriria suas
tanto espaço? Apenas trinta e um versículos promessas da aliança de abençoar Abraão
são dedicados ao relato da criação em com muitos descendentes e de dar-lhes a
Gênesis 1. Aqui, são usados sessenta e sete terra de Canaã por herança (Gn 12:1-3;
versículos para relatar como Rebeca tornou- 13:14-17; 15:18; 21:12). Naquele tempo,
se esposa de Isaque. Por quê? eram os pais que arranjavam os casamen­
Um dos motivos é que o capítulo enfa­ tos. Um homem e uma mulher se casavam
tiza a separação. Abraão deixou claro que e depois aprendiam a se amar (Gn 24:67).
seu filho não deveria se casar com uma mu­ Hoje em dia, isso mudou muito na maior
lher cananéia (Gn 24:3). A lei de Moisés não parte do mundo.
permitia que os homens israelitas se casas­ Não sabemos quem era esse "mais anti­
sem com mulheres pagãs (Dt 7:1-11). Os go servo". Se era Eliezer (1 5:2), então devia
cristãos também não devem se casar com estar bastante idoso, uma vez que os acon­
pessoas incrédulas (2 Co 6:14-18; 1 Co 7:39, tecimentos registrados em Gênesis 15:2 ha­
40). Gênesis 24 é cheio de encorajamento viam ocorrido mais de cinqüenta anos antes.
para aqueles que querem ajuda na hora de Abraão fez com que ele jurasse três coisas:
escolher seu cônjuge. Hoje em dia, apesar (1) que não escolheria uma esposa para
de não usarmos o mesmo procedimento Isaque dentre as mulheres cananéias; (2) que
que o servo de Abraão, ainda podemos apli­ a escolheria dentre os parentes de Abraão; e
car o princípio então utilizado. Devemos (3) que não levaria Isaque de volta para a
desejar a vontade de Deus, orar, buscar sua terra de onde Abraão havia saído.
orientação e ficar atentos para o que Deus Sabendo que havia incumbido seu servo
está fazendo. de uma tarefa difícil, Abraão também disse-
É claro que quando o marido da história lhe algumas palavras de encorajamento (Gn
é Isaque, o filho amado de Abraão, a narrati­ 24:7, 39-41). Deus havia guiado e abençoa­
va adquire maior importância. Afinal, Isaque do Abraão durante sessenta e cinco anos e
era o próximo "elo vivo" da cadeia de bên­ não iria abandoná-lo naquele momento. Além
çãos que culminaria no nascimento do Sal­ disso, Deus havia dado uma promessa es­
vador, Jesus Cristo; assim, tudo aquilo que pecífica a Abraão de que sua descendência
acontecia com Isaque era de suma impor­ herdaria a terra. Portanto, isso significava que
tância no plano de Deus para a salvação. seu filho precisaria ter uma esposa que lhe
Contudo, esse capítulo vai além da his­ desse um herdeiro. Por fim, o anjo de Deus
tória e trata de teologia. Apresenta um retra­ iria adiante do servo e o guiaria até a mulher
to do Pai celestial oferecendo uma noiva a certa.
G Ê N E S I S 24 139

Abraão era um homem de fé, que acredita­ servo anônimo, absolutamente dedicado a
va na Palavra de Deus e sabia como aplicá-la Abraão. Sempre chamava Abraão de "se­
a situações e decisões específicas. Procurava nhor", termo que usou dezenove vezes nessa
obedecer à Palavra de Deus, pois a verdadei­ narrativa. Vivia e servia apenas para agradar
ra fé sempre leva à obediência. Quanto mais seu senhor - um ótimo exemplo para nós
meditar sobre a Palavra de Deus, mais verda­ hoje em dia.
des encontrará dentro dela e mais orientação O servo recebeu as ordens de seu se­
obterá dela. Isso se aplica a decisões sobre nhor e não se desviou delas. Seu juramento
casamento, vocação, ministério e a outras de obediência foi sincero, e ele manteve sua
áreas da vida. A menos que confiemos na Pa­ palavra. Fosse ele bem-sucedido em sua
lavra de Deus e que obedeçamos ao que ela missão ou não, o servo sabia que teria de
diz, Deus não irá nos guiar (Pv 3:5, 6). prestar contas a seu senhor e desejava po­
Assim como Abraão queria uma noiva der fazê-lo sem qualquer embaraço. (Ver
para o filho, Deus, o Pai, escolheu oferecer Rm 14:10-12 e 1 Jo 2:28.)
uma noiva a seu Filho amado. Por quê? Não Mas o que ele faria para encontrar a mu­
porque Jesus precisasse de qualquer coisa, lher certa para o filho de seu senhor? O ser­
pois o Filho eterno de Deus é em tudo auto- vo agiu pela fé no Deus de Abraão e Isaque
suficiente. A noiva é uma dádiva de amor do (Gn 24:12). Ele creu na promessa de Deus e
Pai para o Filho. Normalmente, enfatizamos confiou na providência divina para dirigi-lo
que o Filho é a dádiva de amor do Pai ao (v. 27). Separou um tempo para orar e pe­
mundo (Jo 3:16) e nos esquecemos de que a dir a ajuda de Deus e, então, ficou de olhos
Igreja é a dádiva de amor do Pai para o Filho bem abertos para ver o que Deus poderia
(Jo 17:2, 6, 9, 11, 12, 24). fazer. Na verdade, enquanto estava oran­
Em seus desígnios eternos, o Pai esco­ do, Deus já estava enviando a resposta (Is
lheu salvar os pecadores perdidos por sua 65:24). O servo não foi impulsivo, antes es­
graça, o Filho concordou em morrer pelos perou no Senhor para ver o que ele faria (Gn
pecados do mundo e o Espírito Santo con­ 24:21). "Aquele que crer não se apressará"
cordou em realizar essa obra na vida de (Is 28:1 6, v .r .).
todos aqueles que cressem. Esse fato é re­ A noivã. Em sua providência, Deus levou
velado em Efésios 1:1-14, em que vemos a Rebeca para junto do poço justamente no
obra de Deus, o Pai (vv. 3-6), de Deus, o momento em que o servo estava orando, e
Filho (vv. 7-12) e de Deus, o Espírito Santo ela fez exatamente o que ele estava dizendo
(vv. 13, 14). Observe, especialmente, que o em sua oração. O servo usou o mesmo tipo
motivo para esse grande plano de salvação de procedimento que Gideão usaria anos
é a glória de Deus (vv. 6, 12, 14). Aqueles depois: "[pôs] uma porção de lã na eira" (Jz
que confiassem em Cristo seriam um povo 6:36-40). Essa não é melhor maneira de o
separado, sua herança (v. 18) e sua noiva povo de Deus determinar a vontade do Pai,
(Ef 5:22-33). Sua noiva traria glória para Cris­ pois as condições que apresentamos a Deus
to na Terra e por toda a eternidade. Um dia, podem não estar de acordo com a vontade
Jesus Cristo teria a honra de apresentar sua dele. Com isso, andamos pelas aparências e
noiva em glória para o Pai (Hb 12:2; Jd 24). não pela fé e podemos acabar tentando Deus.
Da próxima vez que tiver o privilégio de Mas Deus adaptou-se às necessidades do
testemunhar de Jesus Cristo, lembre-se de servo (e de Gideão) e guiou-os conforme
que está convidando as pessoas para irem a pediram.
um casamento! Rebeca não fazia idéia de que realizar
uma tarefa tão simples para um desconheci­
2. O TESTEMUNHO DO SERVO do faria dela a noiva de um homem rico, que
(G n 24:10-49) desfrutava de um relacionamento de aliança
O servo. Nem Abraão e nem Isaque foram com Deus. Ela se tornaria a mãe de Jacó, que
em busca da noiva; a tarefa foi dada a um seria o pai das doze tribos de Israel! Anos
140 C E N E S I S 24

atrás, li uma citação de um autor, identifica­ família a deixaria ir e será que ela concorda­
do apenas como "Marsden", e suas palavras ria em partir?
ficaram gravadas em minha memória: "Faça Antes de ficarmos sabendo as respostas
de toda ocasião uma grande ocasião, pois a essas perguntas, devemos fazer uma pau­
você nunca sabe quando alguém o está ava­ sa para ver de que modo o servo retrata a
liando para algo mais elevado". obra do Espírito Santo no mundo de hoje
O servo avaliava Rebeca, a fim de deter­ quando usa os cristãos para testemunhar de
minar se ela seria uma boa esposa para Jesus Cristo (At 1:8). Ele não falou de si mes­
Isaque. Podia ver que ela era gentil, agradá­ mo, mas de seu senhor e das riquezas dele
vel, humilde, saudável e esforçada. Dar água (Jo 15:26; 16:13, 14). Deu provas das rique­
a dez camelos não é um trabalho fácil! De­ zas de seu mestre, assim como o Espírito
pois de uma longa caminhada, um camelo nos dá as "primícias" como "penhor" de nos­
pode chegar a beber até cento e cinqüenta sas riquezas espirituais em Cristo (Ef 1:13,
litros de água, e Rebeca precisava tirar toda 14). O melhor ainda está por vir!
água do poço manualmente. A tarefa do servo não era argumentar nem
A pergunta: "De quem és filha?" (Gn subornar, mas apenas dar testemunho da
24:23) é fundamental para qualquer preten­ grandeza de seu senhor. Ele não forçou
dente. É claro que o servo estava interessa­ Rebeca a casar-se com Isaque; simplesmen­
do na família dela, mas para os cristãos de te lhe apresentou os fatos e deu-lhe a opor­
hoje - tanto homens quanto mulheres - essa tunidade de tomar uma decisão. Apesar de
pergunta tem uma aplicação mais ampla. não haver nada de errado em exortar as pes­
"Você é filho(a) de Deus? Nasceu de novo na soas a buscar a salvação (At 2:40), devemos
família de Deus?" Como é trágico quando ter o cuidado de não tentar assumir o lugar
cristãos se casam com incrédulos e tentam do Espírito, pois somente ele pode realizar a
começar um lar sem a mais plena bênção de obra de convencer o coração humano (Jo
Deus. 16:7-11).
A fam ília. Rebeca pegou seus presentes
e correu para casa, a fim de contar aos pais 3. A p r o n t i d ã o d a n o iv a (Gn 24:50-60)
e ao irmão, Labão (aparentemente, o chefe O irmão e a mãe de Rebeca consentiram que
da família), que um desconhecido generoso ela se casasse com Isaque, porém deseja­
precisava de um lugar para passar a noite. vam que a moça esperasse pelo menos dez
A hospitalidade é uma lei de grande impor­ dias antes de partir. Era um pedido natural,
tância no Oriente, de modo que a família foi uma vez que os pais queriam passar o máxi­
encontrar o visitante. O caráter de Labão é mo de tempo com ela e, talvez, até convidar
revelado no versículo 30: ficou mais em­ os vizinhos para comemorar com a família
polgado com os presentes caros do que com (Gn 31:25-27). É claro que ficaram encanta­
o privilégio de demonstrar hospitalidade dos com os ricos presentes que o servo lhes
para um desconhecido. Jacó, o filho de Isa­ deu, provavelmente o dote de casamento;
que e de Rebeca, descobriria, anos mais sem dúvida, queriam saber mais sobre Isaque
tarde, quão astuto e enganador era Labão e o lar que Rebeca iria dividir com ele.
(Gn 29. - 31). Assim como o servo não se demorou em
O servo não aceitou comer até que tives­ apresentar seu pedido (Gn 24:33), também
se cumprido sua missão (Gn 24:33; Jo 4:32). não desejava adiar a conclusão de sua mis­
Não falou de si mesmo, mas sim de Isaque e são. Quando o Senhor está operando, é hora
da grande riqueza dele. (A caravana de dez de ir em frente! Ele pediu que deixassem
camelos ajudava a reforçar o que contava.) Rebeca decidir, e a resposta dela foi:
Recapitulou o que havia acontecido próxi­ "Eu vou!"
mo ao poço e, só então, Rebeca descobriu Essa é uma decisão que todo pecador
que estava sendo "avaliada" para uma nova deve tomar para se comprometer com Deus
e emocionante incumbência. Mas será que a e compartilhar de seu lar no céu.
G Ê N E S I S 24 141

O que levou Rebeca a tomar a decisão Cento e cinqüenta anos antes, Charles
certa? Ela ouviu o que o servo tinha a dizer Spurgeon disse à sua congregação em Lon­
sobre Isaque e acreditou em seu relato. Viu dres: "Dez dias podem não parecer muito
provas de sua grandeza, generosidade e ri­ tempo, mas talvez dez dias seja muito tarde.
queza e sentiu o desejo de pertencer a ele Um dia não é muita coisa, mas talvez um dia
pelo resto da vida. Nunca tinha visto Isaque a mais represente um dia de atraso eterno;
(1 Pe 1:8), mas o que ouviu a respeito dele um minuto de atraso pode significar estar
a convenceu a ir para Canaã com o servo. atrasado para sem pre!" (M etropolitan
Seus pais e amigos poderiam ter apre­ Tabernacle Pulpit, v. 13, p. 533.)
sentado a Rebeca muitos argumentos con­ A história toda deixa claro que Deus ha­
trários à sua decisão. via escolhido Rebeca para Isaque; sua orien­
— Você nunca viu esse homem! tação providencial é vista a cada passo do
— Talvez o servo seja um impostor! caminho. No entanto, Rebeca teve de decidir
— Isaque mora a quase oitocentos quilô­ se ficaria com Isaque. Não há conflito algum
metros daqui. E uma viagem e tanto! entre a soberania divina (o plano de Deus) e
—Talvez você nunca mais volte a ver sua a responsabilidade humana (a decisão do
família! homem). Na verdade, Jesus ensinou sobre
Mas ela estava decidida a fazer a longa e ambas em uma só declaração: "Todo aquele
difícil viagem e a tornar-se a esposa de um que o Pai me dá, esse virá a mim [respon­
homem sobre o qual só tinha ouvido falar. sabilidade divina]; e o que vem a mim [res­
Fica clara a aplicação para aqueles que ponsabilidade humana], de modo nenhum o
ainda não são salvos nos dias de hoje: não lançarei fora" (Jo 6:37).
devem adiar sua decisão de seguir a Cristo. É O pecador não deve se perguntar se é
uma decisão de fé, baseada nas evidências um dos eleitos de Deus. A admoestação
oferecidas pelo Espírito Santo por meio da para "confirmar a vossa vocação e eleição"
Palavra e do testemunho da Igreja. O peca­ (2 Pe 1:10) foi escrita para cristãos, não para
dor que protela pode perder a oportunidade pecadores. O que os pecadores perdidos
de pertencer à família de Deus e de viver no devem perguntar é: "Que devo fazer para
céu (Jo 14:1-6). "Hoje, se ouvirdes a sua voz, que seja salvo?" (At 16:30; ver 2:37). E a
não endureçais o vosso coração" (Hb 3:7, resposta é: "Crê no Senhor Jesus" (At 16:31;
8,1 5). "Eis, agora, o tempo sobremodo opor­ cf. 2:37). Quando Deus falar com você, essa
tuno, eis, agora, o dia da salvação" (2 Co é a hora de responder e de colocar sua fé
6 : 2 ). em Cristo (Is 55:6, 7).
No culto de encerramento de uma gran­ "Definimos quais serão nossas decisões",
de cruzada evangelística realizada em Fort escreveu Frank Boreham. "Então, a situação
Worth, no Estado do Texas, o Dr. George se inverte, e as decisões é que nos definem".
W. Truett, que naquela época era pastor da Desde o minuto em que saiu de casa (Gn
Primeira Igreja Batista de Dallas, disse ao 35:8), Rebeca viu-se sob o cuidado provi­
grande público ali presente: "Satanás não dencial de Deus e passou a fazer parte de
se importa que homens e mulheres venham um plano emocionante, que traria a salva­
à casa de Deus e a cultos públicos como ção para o mundo todo (Gn 12:1-3). Se
este; nem que prestem atenção e sejam pro­ Rebeca tivesse ficado na Mesopotâmia e se
fundamente tocados, desde que deixem casado com um dos homens da região, nun­
passar essa oportunidade religiosa e vão ca mais teríamos ouvido falar dela.
embora sem que nada mude. Que possibi­
lidade assustadora, deixar passar essa opor­ 4. A r e c e p ç ã o d o n o iv o (Gn 24:61-67)
tunidade, abrir mão de sua alma e permitir Os camelos viajavam cerca de trinta e oito
que se perca para sempre" (A Quest for quilômetros por dia; podiam percorrer até
Souls, p. 362). De fato, é uma possibilidade oitenta quilômetros diariamente, se fosse ne­
assustadora! cessário, enquanto a média de uma pessoa a
142 G Ê N E S I S 24

pé seria de cerca de trinta quilômetros por casal. Os dois se viram de longe, e Rebeca
dia. Uma caravana de dez camelos com apeou do camelo para poder caminhar ao
servos e guardas podia, facilmente, fazer a encontro de Isaque. Naquele tempo, era
viagem de ida e volta entre Hebrom e a Me- considerado falta de etiqueta as mulheres
sopotâmia em menos de dois meses. O ser­ andarem em animais de montaria na pre­
vo era o tipo de homem que não permitia sença de homens desconhecidos. Além dis­
atrasos e estava ansioso para completar com so, ela se cobriu com um véu como sinal de
sucesso sua incumbência. Certamente, recato e de submissão.
Abraão e Isaque estavam orando por ele O fato de Isaque encontrar-se com sua
e por sua missão, e suas orações foram res­ noiva "ao cair da tarde" (Gn 24:63) é signifi­
pondidas. cativo, pois quando Jesus vier buscar sua
Com seu nascimento miraculoso, Isaque igreja, será um tempo de escuridão espiri­
é um retrato de nosso Senhor Jesus Cristo tual (Rm 13:11-14). Assim como um novo
(Gn 21). Também prefigura o Senhor em sua dia nasceu para Rebeca, também a vinda de
disposição de obedecer ao pai e de entregar Jesus Cristo trará um novo dia para seu povo
sua vida (Gn 22). Já observamos que o (1 Ts 5:1-11).
versículo 19 não diz que Isaque voltou do No entanto, aquele encontro envolveu
monte Moriá com o pai, apesar de certamen­ muito mais do que um noivo tomando para
te ter sido isso que fez (v. 5). Essa omissão si sua noiva. O servo também prestou con­
sugere a ascensão de nosso Senhor: ele vol­ tas ao filho de seu senhor (Gn 24:66). Quan­
tou para a glória a fim de esperar pelo mo­ do Jesus Cristo vier buscar sua Igreja, não
mento de receber sua noiva (1 Ts 4:13-18). haverá apenas uma alegre festa de casamen­
Naquele tempo, Isaque não estava mo­ to (Ap 19:1-9), mas também um tribunal
rando com o pai, mas sim ao sul de Hebrom, solene (Rm 14:10-13; 2 Co 5:9, 10) em que
preparando-se para começar seu próprio lar. nossas obras serão examinadas, a fim de
Isaque é identificado com poços (Gn 24:62; que sejam distribuídas as devidas recom­
25:11; 26:1 7-33), assim como Abraão é iden­ pensas (1 Co 3:13-15; 4:1-5).
tificado com altares. A água era um bem pre­ Para Isaque, foi um caso de "amor à pri­
cioso e precisava ser guardada com cuidado. meira vista", mas o que Jesus Cristo viu em
O nome do poço deve ter servido de nós para nos querer como sua noiva? Éra­
encorajamento para Isaque enquanto espe­ mos pecadores rebeldes sem qualquer bele­
rava pela volta do servo: "Poço Daquele que za nem mérito de que nos gloriar e, ainda
Vive e Me Vê" (Gn 16:14, NTLH). Se Deus assim, Jesus nos amou e morreu por nós (Rm
havia tomado conta de Agar e suprido suas 5:6-8).
necessidades, certamente cuidaria de Isaque Rebeca havia recebido alguns presentes
e lhe daria a esposa de que ele precisava, a de Isaque, mas, quando tornou-se esposa
fim de manter a linhagem messiânica. Jeová dele, passou a compartilhar de tudo o que
é o Deus vivo, que vê todas as coisas e que ele possuía. A vida dos dois convergiu em
planeja todas as coisas para sua glória e para uma só - e o mesmo acontece com Cristo e
o bem de seus filhos. sua Igreja (Ef 5:22-33).
Gênesis 24:63 indica que isaque era um Trata-se de algo muito maior do que uma
homem quieto e meditativo que buscava a história antiga e idílica de amor. Essa pode
solitude para ponderar as coisas do Senhor ser sua história de amor hoje, se você confiar
(Sl 1:2). Sua esposa era mais ativa, de modo em Jesus Cristo e disser:
que haveria um bom equilíbrio no lar do "Eu vou!"
As lágrimas de Abraão (w. 1,2). Quantas
25 vezes, ao longo de meu ministério pastoral,
ouvi pessoas bem-intencionadas, porém ig­
norantes, dizerem a amigos ou parentes so­
" T em po de M o rrer" frendo profunda dor: "Ah! não chore!"
Esse é um péssimo conselho, pois Deus
G ênesis 23; 25:1-11 nos criou com a capacidade de chorar e es­
pera que choremos. Até Jesus chorou (Jo
11:35). A tristeza é uma das dádivas de Deus
para ajudar a curar o coração alquebrado
quando a morte toma de nós as pessoas que
amamos. Paulo não disse aos cristãos de
as palavras do rei Salomão: "Melhor é a Tessalônica que não deveriam chorar; acau-
N boa fama do que o ungüento precioso,
e o dia da morte, melhor que o dia do nasci­
telou-os para que não se angustiassem "como
os demais, que não têm esperança" (1 Ts
mento" (Ec 7:1). Ele não disse que a morte é 4:13-18). A tristeza do cristão deve ser dife­
melhor do que o nascimento, pois, afinal de rente da tristeza do incrédulo.
contas, é preciso nascer antes de morrer. Abraão amava sua esposa, e a morte de
A idéia de Salomão era que o nome que Sara foi uma experiência dolorosa para ele.
você recebe quando nasce é como um un­ O patriarca demonstrou seu amor e sua tris­
güento perfumado, e você deve mantê-lo as­ teza ao chorar. Essas são as primeiras lágri­
sim até o dia da sua morte. Quando você mas registradas na Bíblia, e as lágrimas não
nasceu e recebeu um nome, ninguém sabia cessarão até que Deus as enxugue na glória
o que você faria com ele; porém, ao chegar o (Ap 21:4). Mesmo sendo um homem de fé,
momento da morte, esse nome é repleto Abraão não considerou suas lágrimas um
de perfume ou de mau cheiro. Se é repleto de sinal de incredulidade.
perfume, as pessoas têm motivo para se ale­ Sara morreu caminhando na fé (Hb 11:11-
grar, pois, após a morte, não há nada que 13), de modo que Abraão sabia que ela es­
mude essa boa fama. Assim, para uma pes­ tava sob os cuidados do Senhor. No Antigo
soa com boa fama, o dia da morte é melhor Testamento, pouca coisa havia sido revela­
do que o dia do nascimento. da sobre a vida depois da morte. No entanto,
Abraão e Sara tiveram boa fama na vida e as pessoas que pertenciam ao povo de Deus
na morte e ainda hoje são repletos de bom sabiam que Deus as receberia quando mor­
perfume. Nestes capítulos, encontramos ressem (Sl 73:24).
Abraão e Sara no fim de sua caminhada, e A esposa do falecido Vance Havner cha-
aprendemos com eles o significado da mor­ mava-se Sara. Logo depois da morte súbita
te para os que andam pela fé. de sua mulher, encontrei-me com o Dr.
Havner no Instituto Bíblico Moody e com­
1. A MORTE DE UM A PRINCESA partilhei com ele minhas condolências.
(G n 23:1-20) — Lamento pela sua perda — disse-lhe
Sara havia sido uma boa esposa para Abraão quando nos encontramos no refeitório.
e uma boa mãe para Isaque. Sem dúvida, Ele sorriu e respondeu:
como todos nós, tinha seus defeitos. Porém, —Meu filho, quando você sabe onde uma
Deus a chamou de princesa (Gn 17:15) e pessoa está, você não a perdeu.
colocou-a entre os heróis e heroínas da fé Para o cristão, "estar ausente no corpo"
(Hb 11:11). O apóstolo Pedro citou-a como significa "estar presente com o Senhor" (Fp
um bom exemplo a ser seguido pelas espo­ 1:21-23; 2 Co 5:1-8); de modo que o cristão
sas cristãs (1 Pe 3:1-6), e Paulo usou-a para não encara a morte com medo. "Bem-aven­
ilustrar a graça de Deus na vida do cristão turados os mortos que, desde agora, mor­
(Gl 4:21-31). rem no Senhor. [...] para que descansem de
144 G Ê N E S I S 23; 25:1-1 1

suas fadigas, pois as suas obras os acompa­ É maravilhoso quando, num momento de
nham" (Ap 14:13). profunda tristeza, o filho de Deus dá forte
A morte dos perversos é descrita de for­ testemunho aos perdidos. Há uma tristeza
ma bastante clara em Jó 18... e que retrato natural que todos esperam que manifeste­
assustador! Quando os perversos morrem, é mos; porém há também a graça sobrenatural
como uma luz que se apaga (vv. 5, 6), como que Deus concede, de modo que possamos
um animal ou ave que cai numa armadilha nos alegrar em meio à tristeza. Aqueles que
(vv. 7-10), como perseguir um criminoso não são salvos poderão notar a diferença, e
(vv. 11-14) ou como arrancar uma árvore isso nos dá a oportunidade de compartilhar
(vv. 15-21). Como faz diferença quando Je­ as boas novas do evangelho.
sus Cristo é seu Salvador, "a ressurreição e a O tato de Abraão (w . 7-16). Na cultura
vida" (Jo 11:25, 26; 2 Tm 1:10)! oriental daquele tempo, a maior parte das
O testemunho de Abraão (w . 3-6). Não transações comerciais era realizada à porta
podemos prantear nossos mortos para sem­ da cidade (v. 10), tendo o povo como teste­
pre. Chega um momento em que devemos munha (v. 7). Para se chegar a um preço final,
aceitar o que aconteceu, encarar a vida e passava-se pelo processo de pechinchar e
cumprir nossos compromissos tanto para de demonstrar uma cortesia cheia de defe­
com os vivos quanto para com os mortos. rência, que, às vezes, servia para esconder a
Pelo fato de não ser um cidadão da terra ganância e a intriga. Abraão, porém, fez um
onde morava (Hb 11:13), Abraão precisou pedido franco e honesto: desejava comprar
pedir um lugar para sepultar sua esposa. A a caverna de Macpela de Efrom, que naque­
verdade é que aquelas terras pertenciam a la ocasião encontrava-se no meio do povo.
Abraão. Deus as havia dado a ele, mas o Seguindo o costume do Oriente, Efrom
patriarca não tinha como convencer seus vi­ ofereceu como presente a Abraão não ape­
zinhos desse fato. nas a caverna, mas também os campos em
Assim como aconteceu com Abraão, o volta. E claro que se tratava apenas de uma
povo de Deus, hoje em dia, é também "pe­ astuta manobra de sua parte, uma vez que
regrino" e "estrangeiro" (1 Pe 1:1; 2:11, NVI). não tinha qualquer intenção de doar tal pro­
Vivemos em "tabernáculos" (2 Co 5:1-8) priedade valiosa, especialmente para um ho­
que, um dia, serão desfeitos quando nos mem tão rico quanto Abraão. No entanto, a
mudarmos para a glória. Quando Paulo es­ resposta de Efrom deu a Abraão duas infor­
creveu: "o tempo da minha partida é chega­ mações: Efrom estava disposto a vender, mas
do" (2 Tm 4:6), usou um termo militar que queria fechar negócio com a propriedade
significa: "desarmar a tenda e avançar". O toda, não somente a caverna.
corpo que temos agora é temporário, mas Efrom havia colocado Abraão numa si­
um dia receberemos um corpo glorificado tuação difícil e sabia disso. Sara precisava
como o que Jesus Cristo tem agora no céu ser sepultada logo, e Efrom possuía a única
(Fp 3:20, 21; 1 Jo 3:1-3). propriedade que atendia as necessidades
Os homens de Canaã chamavam Abraão de Abraão. Assim, Abraão concordou em
de "príncipe de Deus" (Gn 23:6). Ele dava comprar a caverna e os campos ao redor
um bom testemunho em meio a esses ho­ antes mesmo que Efrom fizesse seu preço.
mens, e eles o respeitavam. Apesar de o Isso é o que se chama viver pela fé! O preço
mundo não ser nosso lar, como peregrinos e de Efrom foi extremamente alto, mas Abraão
estrangeiros, devemos ter o cuidado de dar pagou-o e tomou posse da propriedade.
bom testemunho para os de fora (1 Ts 4:12; Em Atos 7:15, 16, Estêvão parece entrar
Cl 4:5; 1 Pe 2:11 ss). Esses heteus não adora­ em contradição com o relato de Gênesis ao
vam o Deus de Abraão, mas respeitavam o dizer que Abraão comprou a propriedade
patriarca e sua fé. Na verdade, ofereceram a de Hamor, situada em Siquém, e não Hebrom
ele que usasse uma das sepulturas deles (Gn (Gn 23:19). No entanto, certamente se tra­
23:6), mas Abraão recusou a oferta. tam de duas sepulturas diferentes. É provável
G Ê N E S I S 23; 25:1-11 145

que Abraão tivesse comprado de Hamor ou­ Devemos ressaltar, porém, que a ressur­
tra propriedade para usar de sepultura e que, reição não é uma "reconstrução", e que Deus
anos mais tarde, Jacó teve de comprá-la de não vai reconstituir o pó do corpo e restaurá-
volta (Gn 33:18, 19). Uma vez que Abraão, lo à sua condição anterior. Deus nos promete
Isaque e Jacó mudavam-se com freqüência, um novo corpo! Em 1 Coríntios 15:35-38,
era difícil para os moradores daquela terra Paulo deixa claro que há continuidade porém
saber exatamente onde estavam aqueles es­ não identidade entre o antigo corpo e o novo.
trangeiros e quais eram suas propriedades. O apóstolo ilustrou esse milagre ao falar
Em nossos negócios com pessoas do da plantação de uma semente. A semente
mundo, devemos ter o cuidado de manter a morre e se decompõe, mas dela sai uma lin­
honestidade e a integridade e de colocar o da flor ou algum tipo de grão. Há continui­
testemunho do Senhor antes do lucro. dade, porém não identidade: O que brota
Abraão sabia que Efrom o havia colocado do solo não é a mesma semente plantada,
num beco sem saída, e, por mais que o povo mas aquilo que saiu dessa semente. O se­
do Oriente goste de negociar, era inútil rega­ pultamento do cristão serve como testemu­
tear sobre o preço. nho de que cremos na futura ressurreição.
O túmulo de Abraão (w . 17-20). A ora- No final de Gênesis, a sepultura de
ção-chave desse capítulo usada sete vezes é Abraão encontra-se bastante cheia. Sara foi
"sepultar ali a minha [tua] morta". Apesar de sepultada lá, depois Abraão, Isaque,
Sara já não estar mais com ele, Abraão mos­ Rebeca e Lia (Gn 49:29-31) e, posteriormen­
trou respeito para com seu corpo e quis dar- te, Jacó (Gn 50:13). Gênesis termina com
lhe um sepultamento apropriado. Esse é o um sepulcro cheio, mas os quatro Evan­
costume para o povo de Deus ao longo de gelhos terminam com um sepulcro vaz/o!
todas as Escrituras. Nem os judeus do Antigo Jesus conquistou a morte e tirou dela seu
Testamento nem os cristãos do Novo Testa­ aguilhão (1 Co 15:55-58). Por causa de sua
mento cremavam seus mortos. Em vez disso, vitória, não precisamos temer a morte nem
lavavam o corpo, envolviam-no em um pano a sepultura.
limpo com especiarias e colocavam-no no Abraão era dono de toda aquela terra,
solo ou num sepulcro. Apesar de haver al­ mas a única propriedade que lhe pertencia
guns casos em que a cremação pode ser o legalmente era uma sepultura. Se o Senhor
melhor fim a ser dado para o corpo, a maior Jesus não voltar para nos levar para o céu, a
parte dos cristãos prefere o sepultamento. única propriedade que cada um de nós terá
Assim foi feito com o corpo de nosso Senhor neste mundo será um pequeno lote no cemi­
depois de sua morte (Mt 27:57-61) e, ao tério! Não levaremos nada conosco, deixa­
que parece, Paulo ensina sobre o sepulta­ remos tudo para trás (1 Tm 6:7). No entanto,
mento em 1 Coríntios 15:35-46. se estamos investindo em coisas eternas,
Quando Abraão comprou a caverna de podemos "despachá-las com antecedência"
Macpela para usá-la como sepultura, esta­ (Mt 6:19-34). Se vivemos pela fé, então po­
ca fazendo uma declaração de fé a todos os demos morrer pela fé. Quando você morre
presentes. Não levou Sara de volta a seu pela fé, seu futuro é maravilhoso.
antigo lar em Ur, mas sepultou-a na terra Em novembro de 1858, o missionário
que Deus havia dado a ele e a seus descen­ John Paton chegou às ilhas Hebrides para
dentes. Não desconsiderou o corpo, mas começar um ministério entre o povo de lá.
sim deu-lhe um sepultamento adequado, No dia 12 de fevereiro de 1859, sua esposa
tendo em vista a ressurreição prometida. deu à luz um filho e, no dia 3 de março, ela
Quando Deus nos salva, ele o faz como um faleceu. Dezessete dias depois, o bebê mor­
todo e não só "a alma". O corpo tem um reu. "Se não fosse por Jesus que ali com­
futuro, e o sepultamento é testemunho de partilhou de meu sofrimento", disse Patton,
nossa fé na volta de Cristo e na ressurreição "eu teria enlouquecido e morrido ao lado
do corpo. daquele túmulo solitário".
146 G Ê N E S I S 23; 25:1-1 1

No entanto, não nos angustiamos como "embaixo do morro". Porém, para aquele
aqueles que não têm esperança! Nascemos que confia em Jesus Cristo e vive por sua
de novo "para uma viva esperança, median­ Palavra, a morte não é uma ameaça. A velhi­
te a ressurreição de Jesus Cristo dentre os ce pode ser um tempo de experiências ricas
mortos" (1 Pe 1:3) e estamos "aguardando a com o Senhor e de oportunidades maravi­
bendita esperança e a manifestação da gló­ lhosas de compartilhar dele com a geração
ria do nosso grande Deus e Salvador Cristo seguinte (Sl 48:13, 14; 78:5-7). Então, quan­
Jesus" (Tt 2:13). do a morte chegar, você encontrará o Senhor
com alegre confiança.
2. A MORTE DE UM PATRIARCA Deus prometeu que Abraão morreria "em
(G n 25:1-11) paz" (Gn 15:15), e assim foi. O poeta galês
Depois que uma pessoa morre, lemos o obi- Dylan Thomas escreveu que: "a velhice deve
tuário e, depois do sepultamento, lemos o inflamar-se e enfurecer-se com o dia que se
testamento. Façamos o mesmo com Abraão. vai"; mas essa não é a atitude do cristão com
O obituário de Abraão (w. 7, 8). Ele "mor­ relação à velhice ou à morte. Abraão foi sal­
reu em ditosa velhice" (Gn 15:1 5), conforme vo pela fé (v. 6) desfrutando, assim, de "paz
o Senhor havia lhe prometido. Havia cami­ com Deus" (Rm 5:1). Andara no caminho da
nhado com Deus durante um século (Gn justiça e, portanto, estava em paz com o
12:4) sendo "o amigo de Deus" (Tg 2:23). A Senhor (Is 32:1 7). O Deus que o havia guia­
velhice é boa quando se tem a bênção do do ao longo de um século não o abandona­
Senhor na vida (Pv 16:31). Apesar da dege- ria na reta final (Is 46:4).
neração física e da fraqueza, é possível des­ Assim como todas as outras coisas na
frutar a presença de Deus e a vontade dele vida, para ser bem-sucedido na velhice, deve-
até o fim (2 Co 4:16 - 5:8). se começar a trabalhar nisso ainda jovem.
Assim como Sara antes dele, Abraão "mor­ Esse é o conselho de Salomão em Eclesiastes
reu caminhando na fé". Durante cem anos, 12. Esse capítulo descreve alguns dos pro­
ele foi estrangeiro e peregrino na terra, em blemas físicos inevitáveis da velhice, mas
busca de um país celestial e, por fim, seus também enfatiza que uma vida piedosa co­
anseios foram atendidos (Hb 11:13-16). Sua meça na juventude, como um investimento
vida não foi fácil, mas ele andou pela fé, um que paga altos juros quando a vida vai che­
dia de cada vez, e o Senhor o acompanhou gando ao fim.
até o fim. Sempre que Abraão falhava diante A expressão "e foi reunido ao seu povo"
do Senhor, voltava para Deus e começava (Gn 25:8) não significa que foi sepultado
de novo, e o Senhor lhe dava um recomeço. com a família, pois na sepultura da família
Além disso, morreu "avançado em anos" só havia o corpo de Sara. E a primeira vez
(Gn 25:8). Isso indica mais do que quantida­ que essa expressão aparece na Bíblia e sig­
de de tempo; sugere qualidade de vida. James nifica ir para onde estão aqueles que morre­
Strahan traduz essa oração como "satisfeito ram, referindo-se ao espírito, não ao corpo
com a vida" (Hebrew Ideais, p. 197). Abraão, (Tg 2:26). A palavra do Antigo Testamento
que continuou próspero e produtivo até a para o lugar onde estão os que morreram é
idade avançada, foi uma demonstração viva sheol; no Novo Testamento, seu equivalente
do retrato de velhice apresentado no Salmo é hades. Trata-se do "lar" temporário dos
92:12-15. Como são poucas as pessoas que espíritos dos mortos que aguardam a res­
experimentam verdadeira alegria e satisfação surreição (Ap 20:11-15).
ao chegar a uma idade avançada! Quando O lar permanente dos salvos é o céu, e o
olham para trás, é com arrependimento; quan­ dos perdidos, o inferno. Lucas 16:19-31 in­
do olham para frente, é com medo; e quando dica que esse sheol-hades é dividido em duas
olham ao redor, é com murmuração. partes, separadas por um enorme abismo,
Diz o comentário espirituoso que é me­ e que os salvos estão num lugar de bênção,
lhor estar "indo morro abaixo" do que estar enquanto os perdidos encontram-se num
G Ê N E S I S 23; 25:1-1 1 147

lugar de dor. É bem possível que Jesus tenha Abraão foi salvo única e exclusivamente pela
esvaziado a parte do sheol-hades correspon­ fé (ver Hb 11 e Gl 3).
dente ao paraíso quando voltou para o céu Contudo, Abraão também nos deixou o
em glória (Ef 4:8-10). A parte do hades reser­ exemplo de uma vida fiel. Tiago usou Abraão
vada ao castigo será esvaziada na ressurrei­ para ilustrar a importância de aperfeiçoar nos­
ção que antecede o julgamento diante do sa fé pelas obras (Tg 2:14-26). Aonde quer
grande trono branco (Ap 20:11-1 5). Para os que Abraão fosse, montava sua tenda e cons­
perdidos, o hades é a cadeia da delegacia, truía seu altar. Também deixava claro para o
enquanto o inferno é a penitenciária. povo da terra que era um adorador do Deus
Um dia você será "reunido ao seu povo". vivo e verdadeiro. Quando ofereceu Isaque
Se o povo de Deus foi seu povo em vida, no altar, Abraão provou sua fé em Deus e
então estará com ele depois da morte, no lar seu amor pelo Senhor. O patriarca não foi
que Jesus está preparando (Jo 14:1-6). Se a salvo por obras, mas provou sua fé pelas
família cristã não é seu "povo", então você obras.
ficará com a multidão que está indo para o Com Abraão, aprendemos a andar pela
inferno, conforme a descrição de Apocalipse fé. É verdade que, ocasionalmente, sofreu
21:8, 27. É melhor tomar a decisão certa, alguns lapsos de fé; contudo, no balanço
pois a eternidade é para sempre. geral, sua vida evidenciou fé na Palavra de
O testa m en to d e A b ra ã o (vv. 1-6). Deus. "Pela fé, Abraão [...] obedeceu" (Hb
Abraão deixou sua riqueza material para a 11:8). "O cerne, a essência da fé", disse
família e a riqueza espiritual para o mundo, Charles Spurgeon, "encontra-se na total con­
para todos aqueles que crerem em Jesus fiança nas promessas".
Cristo. O falecido maestro e compositor Leonard
Quando Deus renovou as forças naturais Bernstein disse numa entrevista: "Creio em
de Abraão para gerar Isaque, não retirou dele tudo, creio em qualquer coisa que qualquer
essas forças. Assim, depois da morte de Sara, pessoa crê, pois creio nas pessoas. Em ou­
Abraão pôde se casar novamente e ter outra tras palavras, creio na convicção, creio na
família. No entanto, fez uma distinção entre fé" (Maestro: Encounters With Conductors of
esses outros seis filhos e seu filho Isaque, pois Today, Helena Matheopoulos, Harper & Row,
Isaque havia sido escolhido por Deus para 1982, p. 7).
dar continuidade à linhagem da aliança. Os Contudo, "crer na fé" não é o mesmo que
filhos de Quetura receberam presentes, mas crer em Deus, pois é uma convicção sem
Isaque recebeu a herança e as bênçãos da fundamento. É como construir sobre a areia
aliança. (Mt 7:24-27). A verdadeira fé é uma resposta
Todos os que confiam em Jesus Cristo de obediência à Palavra de Deus. Deus fala,
são "filhos da promessa, como Isaque" (Gl nós o ouvimos, cremos e, então, fazemos o
4:28). Isso significa que temos parte no tes­ que ele ordena. Abraão e Sara apegaram-se
tamento de Abraão! O que ele deixou de às promessas de Deus, e o Senhor recom­
herança para nós? pensou sua fé.
Primeiramente, Abraão nos deixou um Abraão deu ao mundo a nação judaica e,
testemunho claro da salvação pela fé. Paulo por intermédio dos judeus, temos conheci­
citou seu exemplo em Romanos 4:1-5, rela­ mento do verdadeiro Deus, da Palavra de
cionando-o à experiência de Abraão em Deus e da salvação de Deus (Jo 4:22). Para
Gênesis 15. Era impossível que a salvação mim, é absolutamente incompreensível que
de Abraão fosse resultado de guardar a lei, alguém seja anti-semita, tendo em vista quan­
pois a lei ainda não havia sido dada. Ele não to os judeus deram ao mundo e quanto so­
podia ter sido salvo pelo ritual da circunci­ freram no mundo. E uma pena que os judeus
são, pois Deus o declarou justo muito antes pensassem que o fato de serem descenden­
de Abraão ser circuncidado. Como todas as tes de Abraão e de Sara era suficiente para
outras pessoas que já aceitaram a salvação, salvá-los (Mt 3:7-12; Jo 8:33-59), quando,
148 G Ê N E S I S 23; 25:1-1 1

na verdade, não são em nada diferentes dos as maneiras possíveis de torná-las conheci­
gentios perdidos que acreditam que vão para das a todo o mundo.
o céu porque seus pais ou avós eram cris­ No grande plano de redenção de Deus,
tãos (Jo 1:11-13). só pode haver um Abraão e uma Sara, mas
Por fim, graças a Abraão, temos um Salva­ você e eu temos tarefas a cumprir dentro
dor. No primeiro versículo do Novo Testamen­ da vontade de Deus (Ef 2:10). No que se
to (Mt 1:1), o nome de Abraão é associado refere a sua herança espiritual, é hoje que
ao nome de Davi e de Jesus Cristo! Deus pro­ você está escrevendo seu obituário e pre­
meteu a Abraão que, por meio dele, todo o parando seu testamento. É hoje que você
mundo seria abençoado (Gn12:1-3), e Deus está se aprontando para a última etapa da
cumpriu sua promessa. O problema é que a jornada da vida.
Igreja não está dizendo ao mundo todo que Está fazendo os devidos preparativos?
Jesus é, de fato, "o Salvador do mundo" (Jo Está vivendo pela fé?
4:42). Estamos guardando as boas novas Se você vive pela fé, então, como Abraão,
quando deveríamos estar procurando todas será OBEDIENTE.
precisam descobrir sua verdadeira identida­
26 de e viver de acordo com ela e não passar a
vida toda procurando servilmente imitar seus
antepassados. "Os homens nascem iguais",
T al P a i , T al F il h o ... escreveu o psiquiatra Erich Fromm em sua
obra Fuga da liberdade, "mas também nas­
Q u a se
cem diferentes". Descobrir nosso caráter
G ên esis 25 - 2 6 singular e usá-lo para a glória de Deus é o
desafio essencial da vida. Por que ser uma
imitação barata, quando pode ser um valio­
so original?
Nenhuma geração existe isoladamente,
saque era filho de pai famoso (Abraão) e
I
pois quer gostemos disso quer não, cada
pai de filho famoso (Jacó); por esses moti­ nova geração está ligada às anteriores. Isaque
vos é, por vezes, considerado um "peso leve" estava unido a Abraão e Sara por laços que
entre os patriarcas. Comparada aos grandes não podiam ser facilmente ignorados nem
feitos de Abraão e de Jacó, a vida de Isaque rompidos. Vejamos alguns desses laços e o
parece, de fato, um tanto convencional e que eles nos ensinam sobre nossa própria
comum. Apesar de ter vivido mais tempo do vida de fé nos dias de hoje.
que Abraão ou Jacó, o registro de Gênesis
dedica apenas seis capítulos à vida de Isaque 1 . Is a q u e r e c e b e u a h e r a n ç a d e s e u pai
e só há um versículo sobre ele em Hebreus (Gn 25:1-18)
11 (v. 9). Abraão reconheceu seus outros filhos ao dar-
Isaque era um homem quieto e medita­ lhes presentes e enviá-los para outros luga­
tivo (Gn 24:63), que preferia arrumar as coi­ res, garantindo, assim, que não tomariam o
sas e ir embora a confrontar os inimigos. lugar de Isaque como herdeiro de direito.
Durante seus muitos anos de vida, não via­ Juntamente com uma enorme riqueza (Gn
jou para lugares distantes. Abraão havia rea­ 13:2; 23:6), Isaque também herdou as bên­
lizado uma longa jornada de Harã a Canaã çãos da aliança que Deus havia dado a Abraão
e até mesmo visitado o Egito. Jacó foi bus­ e Sara (Gn 12:1-3; 13:14-18; 15:1-6). Isaque
car uma esposa em Harã, mas Isaque pas­ tinha pais que criam em Deus e, apesar de
sou a vida toda mudando de um lado para alguns deslizes ocasionais, procuravam agra­
outro dentro da terra de Canaã. Se no anti­ dar ao Senhor.
go Oriente Médio existisse o modismo que Ismael, o primogênito de Abraão (cap.
há hoje de viajar para lugares badalados, 16), não foi escolhido para ser o filho da pro­
Isaque não teria feito parte de todo esse messa e herdeiro das bênçãos da aliança.
agito. Deus prometeu abençoar Ismael e fazer dele
No entanto, existem mais pessoas como uma grande nação e cumpriu sua promessa
Isaque no mundo do que como Abraão e (Gn 17:20, 21; 25:12-16); "a minha aliança,
jacó. São pessoas que fazem contribuições j porém, estabelecê-la-ei com Isaque" (Gn
importantes para a sociedade e para a Igreja, 1 7:21; ver também Rm 9:6-1 3). Ismael esta­
mesmo que seus nomes não apareçam escri­ va presente no funeral de seu pai (Gn 25:9),
tos em néon nem sejam citados no boletim mas não estava incluído na leitura do testa­
do culto de domingo. Além disso, Isaque era mento de Abraão.
parte viva do plano divino que, a seu tempo, Ismael é o retrato da pessoa "natural"
produziria a nação judaica, nos daria a Bí­ (1 Co 2:14), ainda não salva, que está fora
blia e traria Jesus Cristo ao mundo, o que da fé e é hostil para com as coisas de Deus.
não é pouco para um único povo. Isaque, porém, é o retrato daqueles que cre­
Isaque não era um fracassado, apenas di­ ram em Jesus Cristo e experimentaram o
ferente. Afinal, as pessoas de cada geração milagre do novo nascimento pelo poder de
150 G Ê N E S I S 25 - 26

Deus (1 Pe 1:22, 23). "Vós, porém, irmãos, de família. Mas talvez ela fosse exatamente
sois filhos da promessa, como Isaque" (Gl o tipo de esposa de que Isaque precisava.
4:28). Ismael nasceu escravo, mas Isaque Quaisquer que sejam os erros cometidos por
nasceu livre (Gl 4:21-31; 5:1, 2); Ismael nas­ Isaque como marido e pai, uma coisa é certa:
ceu pobre, mas Isaque nasceu rico. Todo quando era jovem, colocou-se espontanea­
aquele que crê em Jesus Cristo compartilha mente sobre o altar a fim de obedecer ao pai
de todas as bênçãos do Espírito em Cristo e de agradar ao Senhor (Gn 22; Rm 12:1,2).
(Ef 1:3) e é parte da gloriosa herança de Cris­ Um lar desiludido (v. 21). Isaque e Rebeca
to (vv. 11,18). esperaram vinte anos por uma família, mas
Desde o momento em que nascemos, os filhos não vieram. O Livro todo de Gênesis
todos nós dependemos da geração mais ve­ enfatiza a soberania de Deus e a sabedoria
lha para cuidar de nós até que possamos de suas "demoras". Abraão e Sara tiveram
fazer isso sozinhos. Também temos uma dí­ de esperar vinte e cinco anos antes que Isaque
vida para com as gerações anteriores por nascesse; Jacó teve de trabalhar arduamente
guardar e passar a nós o conhecimento, as durante quatorze anos para conseguir suas
aptidões, as tradições e a cultura - elemen­ duas esposas; José precisou esperar mais de
tos extremamente importantes para nossa vinte anos antes de reconciliar-se com os ir­
vida diária. Imagine como seria a vida se cada mãos. Nosso tempo está nas mãos de Deus
nova geração tivesse de produzir o alfabeto, (Sl 31:1 5), e seu tempo é perfeito.
inventar a impressão, descobrir a eletricida­ Assim como Abraão, Isaque era um ho­
de ou criar a roda! mem de oração, de modo que intercedeu
A parte mais importante do legado de junto ao Senhor por sua esposa estéril. Isaque
Isaque não era a grande riqueza material tinha todo o direito de pedir filhos a Deus
deixada pelo pai, mas sim a riqueza espiri­ tomando por base as promessas da aliança
tual que lhe deixaram seu pai e sua mãe: que o Senhor havia feito ao pai e à mãe, pro­
conhecer o Deus vivo e verdadeiro, confiar messas que Isaque havia ouvido repetida­
nele e ser parte das bênçãos da aliança que mente em sua família e nas quais ele cria. Se
Deus, em sua graça, havia concedido a Abraão Rebeca permanecesse estéril, de que modo
e Sara e a seus descendentes. Como é triste a descendência de Abraão poderia se multi­
quando filhos de cristãos consagrados dão plicar como o pó da terra e as estrelas do
as costas para sua herança espiritual de va­ céu? De que modo a descendência de
lor inestimável - como fizeram Ismael e Esaú Abraão se tornaria uma bênção para o mun­
- e vivem para o mundo e para a carne, em do todo? (Gn 12:1-3; 13:16; 15:5; 17:6)
vez de se dedicarem ao Senhor! É certo que o propósito da oração não é
conseguir que seja feita nossa vontade no
2 . E le orou ao D e u s d e s e u pai céu, mas sim a vontade de Deus na Terra.
(G n 2 5 :1 9 - 3 4 ) Mesmo que todo casal hebreu quisesse ter
Gênesis é um registro de dez "gerações"1 filhos, Isaque não estava orando de modo
sucessivas. As gerações passam, mas o Se­ egoísta. Estava preocupado com o plano de
nhor permanece e não muda. "Senhor, tu Deus para cumprir sua aliança e abençoar o
tens sido o nosso refúgio, de geração em mundo todo através do Messias prometido
geração" (Sl 90:1). (Gn 3:15; 12:1-3). A verdadeira oração im­
Um lar dedicado (w . 19, 20). Quando plica preocupar-se com a vontade de Deus,
Isaque estava com quarenta anos de idade, não com nossos próprios desejos, e apro­
Deus escolheu Rebeca para ser sua esposa priar-se das promessas de Deus na Palavra.
(Gn 24; 25:20), e temos motivos para crer O Senhor respondeu à oração de Isaque e
que os dois eram dedicados ao Senhor e um permitiu que Rebeca concebesse.
ao outro. O relato indica que, dos dois, era Um lar angustiado (w. 22, 23). Um pro­
Rebeca quem possuía uma personalidade blema logo puxou outro, pois a gestação de
mais agressiva no que se referia às questões Rebeca foi difícil: os bebês em seu ventre
G Ê N E S I S 25 - 26 151

estavam lutando entre si. A palavra hebraica que estava acontecendo dentro de sua casa,
usada nessa passagem significa "esmagar ou e podia elaborar formas de conseguir o que
oprimir", sugerindo que os movimentos dos julgava ser o melhor para todos.
fetos não eram normais. Rebeca ficou ima­ É triste quando os lares se dividem por­
ginando se Deus estava tentando lhe dizer que pais e filhos colocam seus desejos pes­
alguma coisa e foi buscar uma resposta. soais acima da vontade de Deus. Isaque
Isaque era feliz por ter uma esposa que não gostava de comer a saborosa carne de caça
apenas sabia orar, mas também desejava que Esaú trazia para casa, fato que, poste­
compreender a vontade de Deus para si riormente, seria importante para a história
mesma e para seus filhos. da família (Gn 27). Isaque, o homem quieto,
Na história da salvação, a concepção e o realizava seus sonhos em Esaú, o homem co­
nascimento de filhos é um acontecimento di­ rajoso e, ao que parece, ignorava o fato de
vinamente ordenado que tem conseqüências que seu filho mais velho era um homem do
significativas. Foi o caso do nascimento de mundo.3 Isaque fazia idéia de que Esaú ha­
Isaque (Gn 18 e 21), dos doze filhos de Jacó via aberto mão de seu direito de primoge-
(Gn 29:30 - 30:24), de Moisés (Êx 1), de nitura? O relato não diz. Mas sabia que Deus
Samuel (1 Sm 1 - 2), de Davi (Rt 4:17-22) e havia escolhido o filho mais jovem em lugar
de nosso Senhor Jesus Cristo (Gl 4:4, 5). A do mais velho.
concepção, o nascimento e a morte são desíg­ Um amigo meu tinha sob o vidro da es­
nios divinos, não acidentes humanos, e cons­ crivaninha em seu escritório um cartão que
tituem parte do plano amoroso e sábio de dizia: "Crer é viver sem tramar". Esse cartão
Deus para seu povo (Sl 116:15; 139:13-16). teria sido bom para Jacó. Antes de seu nas­
Imagine a surpresa de Rebeca quando cimento, havia sido escolhido por Deus para
soube que seus dois filhos lutariam um con­ receber o direito de herança e a bênção. As­
tra o outro a vida toda! Cada filho daria ori­ sim, não havia necessidade alguma de ela­
gem a uma nação, e essas duas nações borar tramas nem de se aproveitar do irmão.
(Edom e Israel) se rivalizariam, porém o mais É bem provável que Jacó já tivesse visto vá­
jovem seria senhor do mais velho. Assim rios indícios de que Esaú não se preocupava
como Deus havia escolhido Isaque - o se­ com as coisas espirituais, uma atitude que o
gundo filho - e não Ismael, o primogênito, tornava inadequado para receber as bênçãos
também escolheu jacó, o segundo a nascer, do Senhor e para realizar a vontade de Deus.
e não Esaú, o primogênito. O fato de o mais Talvez Jacó e sua mãe tivessem discutido
jovem ser senhor do mais velho ia contra a essa questão.
tradição humana e a lógica, mas foi o que O nome "Jacó" vem de uma palavra
decidiu o Deus soberano (Rm 9:10-12),2 e hebraica (yaaqob) que significa "que Deus
Deus nunca erra. proteja"; mas pelo fato de soar como as pala­
Um lar dividido (vv. 24-28). O nome vras aqueb ("calcanhar") e aqab ("espreitar"
"Esaú" provavelmente significa "peludo". Ele ou "surpreender"), seu nome transformou-
também tinha um apelido: "Edom", que quer se num apelido: "ele agarra meu calcanhar"
dizer "ruivo" e refere-se à cor do seu cabelo ou "enganador". Jacó e Esaú já haviam luta­
e à sopa de lentilhas que Jacó lhe vendeu (vv. do antes de nascer e, durante o parto, Jacó
25, 30). Os gêmeos não eram diferentes ape­ agarrou o calcanhar de seu irmão. Esse gesto
nas em aparência, mas também em persona­ foi interpretado como indicação de que Jacó
lidade. Esaú era robusto, gostava de viver ao faria seu irmão tropeçar e se aproveitaria
ar livre e era um ótimo caçador. Jacó era dele. A previsão mostrou-se verdadeira.
mais "caseiro". Seria de se pensar que Isaque O fato de que Deus já havia decidido dar
mostraria preferência por Jacó, uma vez que as bênçãos da aliança a Jacó não absolve
os interesses dele eram mais parecidos com ninguém de sua família das obrigações que
os seus, mas Jacó era o preferido de Rebeca. tinham diante do Senhor. Todos eram res­
Ela era uma mãe muito prática, que sabia o ponsáveis por suas ações, pois a soberania
152 C E N E S I S 25 - 26

divina não elimina a responsabilidade huma­ ficava ao sul, apesar de Deus os ter adver­
na. Na verdade, o fato de saber que se é o tido para não levar essa possibilidade em
escolhido de Deus significa ter responsabili­ consideração.
dade ainda maior de fazer a vontade dele. Deus permitiu que Isaque ficasse na Filistia
e prometeu abençoá-lo. Deus havia prome­
3 . E le e n f r e n t o u as te n t a ç õ e s de seu tido a Abraão que seus descendentes se
pai ( G n 2 6 :1 - 1 1 ) multiplicariam grandemente e que, um dia,
A verdadeira fé é sempre testada, seja pelas possuiriam todas aquelas terras. Assim,
tentações dentro de nós ou pelas provações Isaque tinha o direito de estar lá, desde que
a nosso redor (Tg 1:1-18), pois uma fé que fosse com a aprovação de Deus (ver Gn 12:2,
não pode ser testada não é digna de con­ 3; 13:16; 15:5; 17:3-8; 22;1 5-1 8). Deus aben­
fiança. Deus nos testa para extrair o que há çoou Isaque por amor a Abraão (Gn 26:5;
de melhor em nós, mas Satanás nos tenta ver também v. 24), assim como abençoa os
para extrair o que há de pior em nós. De uma crentes de hoje por amor a Jesus Cristo.
forma de ou de outra, cada nova geração É impossível fugir das provações, pois
deve passar pelas mesmas provas que as Deus providencia para que seus filhos apren­
gerações anteriores, mesmo que seja para dam suas lições de fé aonde quer que vão.
descobrir que o inimigo não muda e que a Não podemos crescer na fé ao fugir das difi­
natureza humana não progride. Neste capí­ culdades, porque "a tribulação produz per­
tulo, Abraão é mencionado oito vezes, e severança; e a perseverança, experiência" (Rm
podemos encontrar a palavra "pai" em seis 5:3, 4). Assim como Davi, talvez desejemos
ocasiões. Isaque era muito parecido com o ter "asas como de pomba" para poder [voar]
pai. Abraham Lincoln estava certo: "Não e [achar] pouso" (Sl 55:6), mas se fizésse­
podemos escapar da história".4 mos isso, seriamos sempre como pombas,
A tentação de fugir (w . 1-6). Quando quando, na verdade, Deus quer nos ver su­
Abraão chegou a Canaã, deparou-se com bir "com asas como águias" (Is 40:31).
uma grande fome naquela terra e enfrentou A tentação de mentir (vv. 7-11). Isaque
seu primeiro teste importante de fé (Gn conseguiu fugir da fome, mas quando se co­
12:10 - 13:4). A solução que encontrou foi locou numa situação da qual não tinha como
abandonar o lugar que Deus havia escolhido escapar, teve de recorrer à falsidade a fim de
para ele, o lugar de obediência, e correr para se proteger. Abraão cometeu o mesmo pe­
o Egito, dando assim um mau exemplo para cado em duas ocasiões: uma vez no Egito
seus descendentes, propensos a imitá-lo.5 O (Gn 12:14-20) e outra na Filistia (Gn 20).
lugar mais seguro do mundo é dentro da von­ Lembre-se de que "crer é viver sem tramar",
tade de Deus, pois a vontade de Deus nunca e mentir é uma das maneiras prediletas da
nos conduz a um lugar em que sua graça humanidade de fugir da responsabilidade.
deixe de prover o que necessitamos. A incre­ Perguntaram a Isaque quem era a mulher
dulidade pergunta: “ Como posso sair dessa que estava com ele e, assim como seu pai,
situação? Enquanto a pergunta da fé é: "O Abraão, havia feito antes dele, Isaque res­
que posso aprender com essa situação?" pondeu que era sua irmã.7No entanto, quan­
Q.uando Isaque enfrentou o problema da do Abimeleque viu Isaque acariciando
fome, decidiu ir para Gerar, a capital dos Rebeca, soube que ela era esposa dele.8 O
filisteus, e buscar a ajuda de Abimeleque.6 E que levou Isaque a mentir? O medo de que
bem provável que, naquele tempo, Isaque e os pagãos o matassem para ficar com sua
Rebeca estivessem vivendo em Beer-Laai-Roi linda esposa. Sua mentira foi uma demons­
(Gn 25:11), o que significa que viajaram cer­ tração de incredulidade, pois se ele havia se
ca de cento e dez quilômetros a noroeste para apropriado da promessa da aliança quando
chegar a Gerar. Mesmo depois de chegarem orou pedindo filhos (Gn 25:21), por que não
lá, é possível que Isaque e Rebeca tivessem lembrar-se de que essa mesma promessa o
se sentido tentados a ir para o Egito, que protegeria e à sua esposa?
G Ê N E S I S 25 - 26 153

O poeta inglês John Dryden escreveu: permanecesse na terra prometida e não fos­
"A verdade é o alicerce de todo conheci­ se para o Egito.
mento e a argamassa de todas as socieda­ Deus também abençoou Isaque por cau­
des". Quando as pessoas não cumprem sua sa da vida e da fé de Abraão (Gn 26:5),
palavra, os alicerces da sociedade são aba­ assim como ele nos abençoa por amor a
lados, e as coisas começam a desmoronar. Jesus Cristo. Até que cheguemos ao céu,
Lares felizes, amizades duradouras, negó­ não saberemos quantas de nossas bênçãos
cios prósperos, governos estáveis e igrejas foram "dividendos" de investimentos espi­
que dão fruto - o sucesso de todas essas rituais feitos por amigos e familiares piedo­
coisas depende da verdade. O pregador sos que trilharam esse caminho antes de nós.
norte-americano Phillip Brooks disse: "A O conflito (w . 14-17). Apesar de suas
verdade é sempre forte, não importa quão bênçãos materiais, Isaque, ainda assim, so­
frágil pareça; a mentira, por sua vez, é sem­ freu em função de sua mentira, pois as
pre fraca, não importa quão forte pareça". bênçãos que recebeu trouxeram fardos e ba­
A verdade é como argamassa, a mentira, talhas para sua vida. Ao ver sua grande ri­
como caiação. queza, os filisteus ficaram com inveja dele e
Quando se viu em dificuldade, Isaque foi decidiram que Isaque era uma ameaça a sua
tentado a fugir e a mentir. Enfrentamos essa segurança. (Uma situação semelhante ocor­
mesma tentação hoje em dia. Isaque sucum­ reria mais tarde, quando o povo hebreu se
biu à tentação e foi descoberto. E triste quan­ multiplicou no Egito. Ver Êx 1:8ss.) "A bên­
do pessoas incrédulas, como Abimeleque, ção do S e n h o r enriquece, e, com ela, ele não
expõem publicamente as mentiras contadas traz desgosto" (Pv 10:22). Se Isaque não ti­
por um servo de Deus. Quanta vergonha para vesse mentido sobre sua esposa, Deus não o
a causa do Senhor, a causa da verdade! teria disciplinado, antes lhe teria dado paz
com os vizinhos (Pv 16:7). Por causa de seu
4. C a v o u n o v a m e n t e o s p o ç o s d e seu pecado, porém, as bênçãos materiais de
pa i (Gn 26:12-33) Isaque lhe causaram transtornos.
Isaque herdou diversos rebanhos do pai, que Os filisteus tentaram convencer Isaque a
havia levado uma vida nômade. Com sua sair de lá e a assentar-se em algum outro
riqueza, o herdeiro fixou-se num só lugar e lugar e, para compeli-lo, taparam os poços
tornou-se um fazendeiro, permanecendo em de Abraão, de modo que os rebanhos ficaram
Gerar "por muito tempo" (v. 8). sem a água, da qual precisavam tão encare-
A bênção (w . 12-14). Isaque e seus vi­ cidamente. A água era um bem precioso no
zinhos tinham acesso ao mesmo solo e de­ Oriente Próximo, e ainda hoje é necessário
pendiam do mesmo sol e da mesma chuva, cavar determinados tipos de poço para pros­
mas as colheitas de Isaque eram mais fartas perar naquela terra. A crise ocorreu quando
do que as deles, e seus rebanhos multiplica­ o rei ordenou que Isaque mudasse de lá, e
vam-se com mais abundância. Qual era o Isaque obedeceu.
segredo? Deus cumpriu sua promessa e aben­ A busca (w. 18-22). Não importava quan­
çoou Isaque e tudo o que ele fazia (vv. 3-5). to isaque viajasse, o inimigo o seguia e con­
Anos depois, Deus daria uma bênção seme­ fiscava os poços de seu pai bem como os
lhante a Jacó (Gn 31). novos poços que os servos de Isaque cava­
No entanto, Isaque era um enganador! vam. Encontrar um poço de "água nascen­
Como o Senhor podia abençoar alguém que te" (v. 19) era uma bênção especial, pois
afirmava ser crente e, no entanto, mentia garantia água fresca em todo o tempo, mas
deliberadamente para os vizinhos? Porque os filisteus também lhe tomaram esse poço.
Deus é sempre fiel a sua aliança e cumpre Os nomes dos poços que Isaque cavou
suas promessas (2 Tm 2:11-13), e a única mostram os problemas que teve com os vi­
condição que Deus colocou para cumprir zinhos, pois Eseque significa "contenda" e
suas promessas de bênçãos era que Isaque Sitna quer dizer "ódio". Reobote, porém,
154 G Ê N E S I S 25 - 26

significa "expansão", pois Isaque finalmente 23:11; 27:23, 24; 2 Tm 2:19). Não importa
encontrou um lugar onde foi deixado em paz quem está contra nós, Deus está conosco e
e achou espaço suficiente para seu acampa­ é por nós (ver Gn 28:15; 31:3; Rm 8:31-39),
mento e seus rebanhos. por isso não precisamos temer. Em resposta
Sempre que Abraão tinha um problema à promessa bondosa de Deus, Isaque cons­
com alguém, ele o confrontava com ousadia truiu um altar e adorou ao Senhor. Estava
e acertava a questão, fosse seu sobrinho Ló pronto a enfrentar seus adversários.
(Gn 13:5-18), reis invasores (Gn 14), Agar e Assim como o pai, Abraão, Isaque era
Ismael (Gn 21:9ss) ou os filisteus (vv. 22ss). identificado por sua tenda e seu altar (Gn
No entanto, Isaque era um homem prestes a 26:25; ver Gn 12:7, 8; 13:3, 4, 18). Isaque
se aposentar, que desejava evitar confrontos. era rico o suficiente para construir para si
Como era um peregrino, podia mudar seu uma mansão, mas sua tenda o identificava
acampamento de lugar e ser um pacificador. como um peregrino e estrangeiro naquela
A cada situação difícil da vida, é preciso terra (Hb 11:8-10, 13-16). Um fugitivo foge
ter o discernimento de Deus para saber se o de casa; um vagabundo não tem casa; um
Senhor deseja que sejamos confrontadores, estrangeiro está longe de casa; mas um pere­
como Abraão, ou pacificadores, como Isa­ grino está rumando para casa. A tenda mos­
que, pois Deus pode abençoar e usar as duas trava que Isaque era um peregrino, e o altar
abordagens. "Quanto depender de vós, ten­ anunciava que ele adorava a Jeová e estava
de paz com todos os homens" (Rm 12:18). a caminho do reino celestial.
As vezes, isso não é possível, mas devemos Como Isaque, todos os que confiam em
pelo menos tentar. Devemos, também, de­ Jesus Cristo são estrangeiros neste mundo e
pender da sabedoria do alto, que é "pura" e peregrinos a caminho de um mundo melhor
"pacífica" (Tg 3:17). (1 Pe 1:1; 2:11). O corpo no qual vivemos é
Ao observar a experiência de Isaque do nosso "tabernáculo"; um dia, ele será des­
ponto de vista espiritual, podemos aprender feito, e iremos para a cidade celestial (2 Co
uma lição importante. Na Bíblia, os poços, 5:1-8). A vida aqui na Terra é curta e tempo­
alguma vezes, simbolizam bênçãos das mãos rária, pois este tabernáculo é frágil, mas o
do Senhor (Gn 16:14; 21:19; 49:22; Êx 15:27; corpo glorificado será nosso por toda a eter­
Nm 21:16-18; Pv 5:15; 16:22; 18:4; Ct 4:15; nidade (Fp 3:20, 21; 1 Jo 3:1-3). Mas, en­
Is 12:3; Jo 4:14).9 A Igreja vive buscando al­ quanto estamos aqui na Terra, sejamos fiéis
guma coisa nova quando, na verdade, tudo em construir altares e em dar testemunho de
o que precisamos é cavar novamente os anti­ que Jesus Cristo é o Salvador do mundo.
gos poços de vida espiritual que têm susten­ O a cord o (w . 26-33). A estratégia de
tado o povo de Deus desde o começo - a Isaque deu certo, pois os líderes filisteus fo­
Palavra de Deus, a oração, a adoração, a fé, ram até ele a fim de acertar a questão dos
o poder do Espírito, o sacrifício e o serviço - direitos de propriedade (ver Gn 21:22ss). For­
poços que permitimos que o inimigo tapasse. talecido pelas promessas de Deus, Isaque foi
Sempre que houve um reavivamento espiri­ muito mais ousado em sua abordagem e con­
tual de poder na história da Igreja, foi porque frontou os filisteus com seus delitos. Vale a
alguém cavou novamente os velhos poços, pena observar que a conduta de Isaque du­
de modo que o Espírito vivificador de Deus rante esse conflito causou grande impacto
tivesse liberdade de operar. sobre esses líderes, que puderam ver que o
A segurança (w . 23-25). Berseba era um Senhor o abençoava ricamente. Mais impor­
lugar muito especial para Isaque, pois era lá tante do que o direito de propriedade dos
que seu pai havia feito uma aliança com os poços foi o privilégio que Isaque teve de com­
líderes filisteus (Gn 21:22ss). "Berseba" quer partilhar seu testemunho com vizinhos pagãos.
dizer "o poço do juramento". O Senhor nos (Para uma situação oposta, ver 1 Co 6:1-8.)
dá sua palavra de segurança quando preci­ Isaque e os líderes conseguiram chegar
samos de encorajamento (ver At 18:9-11; a um acordo. Para selar o tratado, Isaque
G Ê N E S I S 25 - 26 155

ofereceu um banquete, uma vez que, naque­ Todos nós gostaríamos de encontrar nos­
la cultura, comer com outros era uma forma so "Reobote" (expansão), de forma a ter es­
de criar laços fortes de amizade e de apoio paço em abundância e sem contendas, mas
mútuo. Naquele mesmo dia, os servos en­ Isaque só o encontrou depois de suportar
contraram um dos poços de Abraão (Gn conflitos. É por meio das dificuldades que
21:25-31) e abriram-no. isaque chamou-o Deus nos faz crescer para que ocupemos
novamente de Berseba. "O poço do juramen­ os lugares mais amplos que tem preparado
to" passou, assim, a referir-se tanto ao trata­ para nós. "Ouve-me quando eu clamo, ó
do de Isaque como ao de Abraão. Deus da minha justiça; na angústia me des­
Mais conflitos (w . 34, 35). Isaque esta­ te largueza; tem misericórdia de mim e
va em paz com seus vizinhos, mas seu lar ouve a minha oração" (Sl 4:1, a r c ). Quando
encontrava-se em pé de guerra. Esaú, o filho crescem as aflições de nosso coração e con­
profano, havia se casado com duas esposas fiamos em Deus, ele nos faz crescer também
pagãs que deram muita tristeza a Isaque e (Sl 25:17) e nos leva "para um lugar espa­
Rebeca. (Mais tarde, só para provocar os çoso" (Sl 18:19). Se queremos "espaço",
pais, ele se casou com uma terceira mulher precisamos passar pelos sofrimentos, pois
pagã. Ver Gn 29:8, 9.) Tendo em vista a esse é o único modo de nos desenvolver­
vida pecaminosa que Esaú levava, é de se mos e de nos sentirmos em casa nos lugares
perguntar por que Isaque desejava dar-lhe a espaçosos que Deus nos dá quando esta­
bênção patriarcal (Gn 27). mos prontos para isso.

1. Essas dez orações são citadas em Gênesis 2:4; 5:1; 6:9; 10:1; 11:10; 11:27; 25:12, 19; 36:1; 37:2.

2. É indiscutível que Deus tem o direito soberano de escolher como lhe apraz. Seus pensamentos são muito mais

elevados do que os nossos, e seus caminhos, "inescrutáveis" (Rm 11:33-36). Na verdade, Paulo deixou claro que o fato

de Deus ter escolhido Jacó foi um ato da mais pura graça, não baseado em qualquer mérito de Jacó (Rm 9:10-12).

Aqueles que acham a passagem de Malaquias 1:2, 3 ("amei a Jacó, porém aborreci a Esaú") perturbadora devem se

lembrar de que "amar" e "aborrecer" são termos relativos (como em Gn 29:31-33; Dt 21:15-17; Lc 14:26). Nem Jacó

e nem Esaú mereciam a graça de Deus mais do que qualquer um de nós a merece hoje em dia (Ef 2:8, 9). O fato de

Deus haver escolhido jacó, mesmo com todas as suas tramas, é tão misterioso quanto o de o Senhor ter escolhido para

sua obra o sangüinário Saulo de Tarso.


3. O autor de Hebreus 12:16 chamou Esaú de "profano". A palavra grega significa "acessível a qualquer pessoa", o oposto
de sagrado ou de santificado. O termo, do latim profanus. de onde vem a palavra em português, significa "fora do

templo, comum, ordinário". Esaú não tinha desejos nem parâmetros piedosos; era acessível a qualquer um e a qualquer

coisa. Como homem profano bem-sucedido, ignorava a vontade de Deus e fazia as coisas a seu modo. O fato de haver

se casado com duas mulheres do povo heteu prova que não estava interessado nas coisas de Deus (Gn 26:34, 35).

4. Mensagem do Presidente Lincoln ao Congresso em 1s de dezembro de 1862.

5. Sempre que se viam em dificuldades, os israelitas ameaçavam voltar para o Egito (Êx 16:1-3; 17:1-4; Nm 11; 14}. Durante
o declínio do reino, em vez de confiarem em Deus, os reis de Judá muitas vezes buscaram a ajuda do Egito (Is 30:1,

2; 31:1; Jr 42:13ss; Os 7:11).


6. Essa jornada, provavelmente, foi realizada durante os vinte anos em que Isaque e Rebeca ficaram sem filhos, quase um

século depois que Abraão e Sara tinham estado em Gerar (Gn 20). E possível que "Abimeleque" fosse alguém com o

mesmo nome do rei com o qual Abraão havia se encontrado ou talvez esse fosse um título da reaieza.

/. O pecado de Isaque foi maior, pois ele sabia o que havia acontecido com o pai em duas ocasiões e Rebeca não era sua

irmã. Abraão contou uma meia verdade, enquanto Isaque mentiu descaradamente.

8. A paiavra traduzida por "acariciar" vem do mesmo radical hebraico do nome "Isaque", que significa "rir" ou "brincar" (ver

Gn 17:17; 18:12, 13, 15; 21:6). Apesar de seu amor ser louvável, Isaque e Rebeca estavam trocando expressões de
afeto mais apropriadas para a privacidade de seus aposentos.

9. A palavra hebraica para "poço" é be'er, o que explica por que há lugares na Terra Santa chamados de Berseba ("poço

do juramento"; Gn 21:30-31) e de Beer-Laai-Roi ("poço daquele que vive e me vê"; Gn 16:14).


completou sua corrida vitorioso, mas não é
27 o que acontece com todos os cristãos.
Um bom começo não é garantia de um
bom final. Essa é uma das lições que as Escri­
U ma O b r a -Pr im a turas ensinam repetidamente, confirmada de
maneira trágica na vida de Ló, Gideão,
A r r u in a d a
Sansão, Saul, Salomão, Demas e muitos ou­
tros. Acrescentemos Isaque a essa lista. Se já
G ên esis 2 7 - 2 8
houve um homem abençoado com um co­
meço extraordinário, esse homem foi Isaque.
No entanto, terminou a vida envolto em som­
bras. Considere alguns de seus pecados.
filósofo George Santayana chamou Colocou a si mesmo antes do Senhor.
O a família de "uma das obras-primas da
natureza". Se isso é verdade, então muitas
Isaque estava certo de que ia morrer1e, ain­
da assim, seu maior desejo era desfrutar uma
dessas obras-primas tornaram-se apenas boa refeição feita pelo filho e cozinheiro fa­
obras arruinadas, pois se esqueceram do vorito, Esaú (Gn 25:28).2 Quando Abraão, o
Mestre. Gênesis 27 descreve uma família pai de Isaque, estava se preparando para
dessas. morrer, sua preocupação foi encontrar uma
Se eu tivesse vivido no tempo dos pa­ noiva para o filho e manter a promessa da
triarcas, provavelmente teria dito que o ca­ aliança. Quando o rei Davi estava chegando
samento de Isaque e Rebeca seria muito ao fim de sua vida, organizou os preparati­
bem-sucedido. Afinal, Isaque era um ho­ vos para a construção do templo, e a preo­
mem dedicado que se colocou no altar em cupação de Paulo antes de seu martírio era
obediência ao Senhor (Gn 22; Rm 12:1,2). que Timóteo fosse fiel em pregar a Palavra e
Ele confiou em Deus para escolher uma guardar a fé.
esposa para ele (Gn 24) e amou a mulher Alguém disse bem: "O fim da vida revela
que Deus lhe enviou (v. 67). Tanto Isaque os fins para os quais foi vivida". Quando P. T.
quanto Rebeca sabiam como orar e bus­ Barnum, promotor de eventos, estava mor­
car a vontade de Deus para seu lar (Gn rendo, perguntou:
25:19-23). O que mais um casal poderia — Quanto foi a arrecadação de hoje?
querer? Napoleão gritou em seu leito de morte:
No entanto, apesar dessas vantagens, a — Exército! General do exército!
família se desintegrou rapidamente quando O naturalista David Thoreau disse ape­
Isaque envelheceu. Isso porque seus mem­ nas duas palavras:
bros colocaram as próprias tramas e intrigas — Alce... índio.
no lugar da fé, cada um procurando con­ Porém Isaque, o homem que havia medi­
seguir o que queria. Ao observar as cenas tado e orado nos campos ao cair da tarde
dessa tragédia, vamos estudar cada um dos (Gn 24:63) e que havia intercedido junto ao
membros da família de Isaque e ver qual foi Senhor por sua esposa (Gn 25:21), queria
sua contribuição para o problema ou para a apenas uma coisa: uma saborosa refeição
solução. de carne de caça. Em vez de procurar pacifi­
car a contenda em sua família, causada pelo
1. Isa q u e: d e c l ín io (Gn 27:1-4) favoritismo egoísta dele e de sua esposa,
Durante os vinte e três anos em que foi Isaque perpetuou a rixa e destruiu a própria
presidente do Instituto Bíblico Moody, em família.
Chicago, o Dr. William Culbertson, com Desobedeceu o mandamento de Deus.
freqüência, terminava suas orações dizen­ Antes de os meninos nascerem, Deus havia
do: "Senhor, ajuda-nos a terminar bem". dito a Isaque e Rebeca que Jacó, o filho
Deus ouviu suas orações, e o Dr. Culbertson mais novo, receberia a bênção da aliança
G Ê N E S I S 27 - 28 157

(Gn 27:19-23). No entanto, Isaque planeja­ "Oh! que teias emaranhadas tecemos /
va dar a bênção a Esaú. Certamente Isaque Quando pela primeira vez a arte de enganar
sabia que Esaú havia desprezado seu direito praticamos."
de primogenitura vendendo-o a Jacó e que Lembre-se de que crer é viver sem tra­
havia se tornado indigno da bênção ao ca­ mar. Crer significa obedecer a Deus indepen­
sar-se com mulheres pagãs. Será que Isaque dentemente da forma como nos sentimos,
não se lembrava de que seu pai havia man­ daquilo que pensamos ou daquilo que pode
dado um servo percorrer quase oitocentos acontecer. A obediência resultante da fé foi
quilômetros até Harã para encontrar uma o segredo da vida de Abraão'(Hb 11:8), mas
esposa adequada para ele? Isaque pensava a falta dessa obediência pela fé gerou pro­
mesmo que poderia enganar a Deus e dar a blemas no lar de Isaque e Rebeca.
bênção ao profano e incrédulo Esaú? Ouvindo furtivamente (v. 5). Rebeca per­
Viveu de a cordo com seus sentim entos. cebeu quando Isaque chamou Esaú para ir à
Isaque estava cego e, ao que parece, não sua tenda e ficou por perto para saber o que
podia mais se levantar (Gn 27:1 9, 31). É de estava acontecendo. Mais tarde, quando
se pensar que, numa situação dessas, ele Esaú revelou que planejava matar o irmão,
confiaria em Deus e buscaria seu auxílio. Rebeca também o ouviu (v. 42), de modo
Em vez disso, Isaque rejeitou o caminho da que devia ter o hábito de ouvir furtivamente
fé e confiou em seus próprios sentidos: pala­ e de ficar a par do que acontecia na família.
dar (vv. 4, 9, 25), tato (v. 21), audição (v. 22) Entretanto, que tragédia quando um ma­
e olfato (v. 27). Ele usou a "abordagem cien­ rido e sua esposa, antes tão dedicados ao
tífica", e ela o decepcionou. "Muitos pro­ Senhor e um ao outro, deixam de se relacio­
pósitos há no coração do homem, mas o nar, não conversam mais sobre a Palavra de
desígnio do S e n h o r perm anecerá" (Pv Deus e nem oram juntos.
19:21). A rm ando intrigas (vv. 6-10). Sabendo
Um personagem do romance de Ernest que Jacó havia sido escolhido para receber
Hemingway, Morte na tarde, provavelmente a bênção da aliança, Rebeca imediatamen­
expressa uma das convicções do próprio te encarregou-se de garantir que o filho pre­
Hemingway ao dizer: "Tudo o que sei é que, dileto não perderia o que o Senhor lhe havia
depois de fazer coisas morais, você se sente prometido. Se ela e Jacó tivessem conver­
bem, e depois de fazer coisas imorais, você sado com Isaque enquanto Esaú estivesse
se sente mal". Hoje em dia, a maior parte das fora, talvez o patriarca reconhecesse o que
pessoas apoiaria essa filosofia de vida, to­ estava acontecendo e concordasse com
mando decisões com base apenas no senti­ eles. Em vez disso, porém, Rebeca decidiu
mento e não no que se encontra na Palavra manipular Jacó e enganar o marido.
de Deus. "Se eu me sinto bem, então é bom!" O comentário do Novo Testamento so­
Isaque era um crente em declínio, viven­ bre essa cena encontra-se em Tiago 3:13-18.
do de acordo com as coisas naturais em Isaque confiava em seus próprios sentidos,
vez das sobrenaturais, confiando em seus mas Rebeca dependia de sua sabedoria
próprios sentidos em lugar de crer na Pala­ terrena. Contudo, a sabedoria terrena sempre
vra de Deus e de lhe obedecer. Estava cego, termina mal. "Pois, onde há inveja e senti­
preso ao leito e afirmando que ia morrer, mento faccioso, aí há confusão e toda espé­
mas, ainda assim, tinha um ótimo apetite. cie de coisas ruins" (Tg 3:16).
Com um pai desses como cabeça do lar, A rapidez com que Rebeca elaborou seu
não é de causar espanto que a família se plano nos leva a suspeitar de que ela já havia
desintegrasse. pensado nisso de antemão. Ela sabia que
Esaú era o filho predileto do marido e que
2. R ebeca: d is s im u l a ç ã o (Gn 27:5-17) Isaque não era mais o homem espiritual de
Sir Walter Scott escreveu em seu poema outrora. Rebeca estava até com a receita
"Marmion": pronta e devia mesmo ser uma excelente
158 G Ê N E S I S 27 - 28

cozinheira para fazer com que carne de ca­ Mentiu sobre a comida e sobre o Senhor
brito ficasse com gosto de carne de caça! (w. 19, 20). Disse ter atendido os desejos de
Jurando (w. 11-17). A preocupação de seu pai (a segunda mentira) e, em seguida,
Jacó não era: "Será que isso é certo?", mas chamou a carne de cabrito de "minha caça"
sim: "Será que vai dar certo?". Estava preo­ (terceira mentira). Chegou até a dar crédito
cupado com o décimo primeiro mandamen­ ao Senhor por tê-lo ajudado a encontrar a
to: "Não serás pego em flagrante". No entanto, caça tão rapidamente (quarta mentira). Não
Rebeca não planejava usar apenas a carne apenas mentiu sobre si mesmo, mas também
do cabrito, mas também a pele, de modo a sobre o Senhor! Usar o Senhor para encobrir
fazer com que Jacó, um rapaz de pele lisa, um pecado é um passo rumo à blasfêmia.
ficasse parecido com Esaú, que era coberto Mentiu novamente sobre sua identida­
de pêlos. Ela também vestiu Jacó com as de e sobre seu amor (w. 21-27). Não queren­
roupas de Esaú para que ele ficasse com o do confiar em seus ouvidos, Isaque sentiu as
cheiro do irmão, que vivia ao ar livre. Para mãos de Jacó e confundiu a pele de cabrito
encorajar seu filho, Jacó, Rebeca disse: "Caia com os pêlos de homem, e Jacó garantiu-lhe,
sobre mim essa maldição" (v. 13), mas não novamente, que era, de fato, Esaú (quinta
fazia idéia do que estava falando. Depois que mentira). Como é trágico ver um filho deson­
Jacó partiu para Harã, Rebeca nunca mais rar o pai dessa maneira! Depois que Isaque
viu o filho predileto. havia terminado a refeição, pediu a Jacó que
A filosofia de Isaque era: "Se faz com que o beijasse, e esse beijo foi a sexta mentira,
eu me sinta bem, então é bom", mas a filo­ pois foi um beijo hipócrita (Lc 22:48). Como
sofia de Rebeca era: "Os fins justificam os Jacó podia afirmar que amava o pai exata­
meios". Ela não pôde confiar que Deus cum­ mente enquanto o enganava? Uma vez que
priria seu plano e teve de ajudar o Senhor... o cheiro das roupas finalmente convenceu
afinal, era por uma boa causa. Contudo, não Isaque de que era Esaú quem estava lá, tudo
há lugar para a dissimulação na vida do cris­ estava pronto para que fosse dada a bênção.
tão, pois Satanás é o enganador (2 Co 11:3), Isaque abençoou Jacó com bênçãos natu­
mas Jesus Cristo é a verdade (Jo 14:6). "Bem- rais e materiais, tão importantes para aqueles
aventurado o homem [...] em cujo espírito que vivem da terra, mas acrescentou ainda
não há dolo" (Sl 32:2). autoridade política com referência a seu pró­
prio povo e a outras nações (Gn 27:29).
3. J a c ó : d efesa (G n 2 7 :1 8 - 2 9 ) Isaque reafirmou o que Deus havia dito sobre
Ao cooperar com a intriga, Jacó estava ape­ os meninos (Gn 25:23) e, ao usar substanti­
nas obedecendo à sua mãe, mas poderia ter vos no plural ("irmãos" e "filhos"), foi além
se recusado e sugerido que encarassem a dos dias de Jacó, pensando no tempo em
situação de forma honesta e confrontassem que a descendência de Jacó se multiplicaria.
Isaque. No entanto, uma vez que Jacó ves­ Durante o reinado de Davi e, depois, no de
tiu-se com as roupas de Esaú e tomou aque­ Salomão, outras nações se sujeitaram ao
la saborosa refeição em suas mãos, a sorte governo de Israel. Isaque garantiu a Jacó não
estava lançada, e ele precisava desempenhar apenas as bênçãos de Deus, mas também a
seu papel com sucesso. proteção divina e citou a primeira promessa
Mentiu sobre seu nome (vv. 18, 19). feita pelo Senhor a Abraão (Gn 12:3).
Isaque pediu que ele se identificasse porque Estava feito. Isaque não podia revogar a
não podia ouvir bem? Provavelmente não bênção, e ninguém da família conseguiria al­
(v. 22). É possível que estivesse desconfiado, terar as conseqüências.
pois não esperava que Esaú voltasse tão rapi­
damente da sua caçada (v. 20). Além disso, a 4. E sa ú : d esespero

voz que ouviu não soava como a de seu ( G n 2 7 :3 0 - 4 0 ; H b 1 2 :1 6 , 1 7 )


filho mais velho. Foi, então, que Jacó contou Por pouco Jacó não se encontrou com Esaú
a primeira mentira: afirmou que era Esaú. voltando da caçada. Que mentira Jacó teria
G Ê N E S I S 27 - 28 159

contado para explicar por que estava vestin­ 5 . Is a q u e , R e b e ca e J a c ó : desp edida


do as roupas de seu irmão? Não demorou ( G n 2 7 :4 1 - 2 8 : 9 )
para que Isaque e Esaú descobrissem a cons­ Finalmente, os membros daquela família
piração, mas cada um deles reagiu de forma de crentes se reuniram e tomaram decisões
diferente. sábias. No entanto, ainda há certa dissimu­
Isaque estremeceu de violenta comoção lação no ar, pois havia mais de um motivo
(w. 30-33). Um estudioso de hebraico tra­ para Jacó sair de casa.
duziu esse versículo por: "ele tremeu de es­ Para proteger a vida de Jacó (w. 41-45).
tremecimento sobremodo excessivo".3 Por A filosofia do "Não se irrite, vá 'à forra" é
que Isaque ficou tão agitado? Pois sabia que bem aceita, especialmente no meio dos
o Senhor havia prevalecido sobre seu plano políticos, mas Esaú era adepto das duas coi­
egoísta de modo que seu filho predileto não sas: cultivava profundo rancor pelo irmão e
recebeu a bênção. Isaque havia mentido planejava matá-lo. Afinal, se Esaú não po­
para Abimeleque em Gerar (Gn 26) e havia dia desfrutar as bênçãos, Jacó também não.
tentado mentir para Deus ao desobedecer à O homem destinado a viver pela espada co­
Palavra (Gn 25:23), mas suas mentiras o ha­ meçaria usando-a em casa.
viam alcançado. Sempre por dentro das últimas notícias
Esaú chorou e implorou pela bênção da família, Rebeca ouviu a ameaça e pôs-se
(w. 34-40). O homem que desprezou seu em ação. Seu plano era mandar Jacó para
direito de primogenitura e casou-se com Harã, a fim de viver com o irmão dela, Labão,
duas mulheres pagãs chorou e clamou para e mais tarde mandar buscá-lo, quando fosse
que o pai o abençoasse. É claro que a culpa seguro ele voltar para casa. Sua pergunta:
não era dele e sim do irmão ardiloso.4Quan­ "Por que hei de eu perder os meus dois fi­
do estiver em dúvida, jogue a culpa sobre lhos num só dia?" (Gn 27:45) deixa implícito
outra pessoa. que esperava que alguém, talvez Deus, se
Hebreus 12:16, 17 é o comentário de vingasse do assassinato de Jacó e matasse
Deus sobre esse acontecimento. Esaú ten­ Esaú. O período de "alguns dias" transfor-
tou arrepender-se, mas seu próprio coração mou-se em vinte anos, e ela nunca mais viu
estava endurecido demais, e não conseguiu Jacó aqui na Terra.
fazer o pai mudar de idéia. As lágrimas de Para encontrar uma esposa adequada
Esaú não eram de arrependimento por ser para Jacó (27:46 - 28:9). Uma vez que as
um homem profano, mas sim de desgosto, duas esposas pagãs de Esaú (Gn 26:34, 35)
pois havia perdido a bênção da aliança. eram um aborrecimento em seu lar, Rebeca
Esaú queria a bênção, mas não desejava usou isso como desculpa para discutir com
ser o tipo de homem que Deus poderia o marido o futuro de Jacó. Tendo em vista
abençoar! Podemos nos esquecer de nos­ que Jacó havia recebido a bênção da alian­
sas decisões, mas elas não se esquecem de ça, era importante que se casasse com a
nós. mulher certa e não com uma das pagãs de
A "bênção" de Isaque (Gn 27:39, 40) man­ Canaã.
dou Esaú para "longe" das bênçãos da terra Isaque concordou e chamou Jacó para
e do céu concedidas a Jacó. Em vez de go­ comunicar-lhe a decisão. Ao ser chamado
vernar, Esaú viveria pela espada. Os edomitas para falar com o pai, talvez Jacó esperasse
- descendentes de Esaú (Edom) - construí­ uma repreensão por aquilo que havia feito,
ram sua nação no monte Seir (Gn 36:5-8), na mas não foi o que Isaque fez. O ancião havia
extremidade sudeste do mar Morto, e foram sido pego em sua própria rede e sabia que
inimigos constantes dos israelitas. Durante o os planos de Deus eram melhores que os
reinado de Davi, os edomitas eram súditos seus próprios. Não apenas Isaque falou ao
de Israel, mas quando Jorão era rei de Judá, filho com bondade como também deu-lhe
rebelaram-se e conquistaram sua liberdade mais uma bênção antes de ele começar sua
2 Rs 8:20-22). longa jornada para Harã. Dessa vez, o mais
160 G Ê N E S I S 27 - 28

importante foi a "bênção de Abraão", o cum­ antes, disse palavras de promessa e de segu­
primento da promessa de Deus de abençoar rança. O mesmo Deus que havia cuidado de
a terra por intermédio dos descendentes de seu pai e de seu avô comprometeu-se a cui­
Jacó (Gl 3:14). dar dele e de dar-lhe a terra sobre a qual
A reação de Esaú a essa notícia foi mais estava deitado. Também multiplicaria sua
uma prova de que ele desprezava tudo o descendência e cumpriria a promessa de
que era espiritual, pois saiu e tomou para si abençoar todo o mundo por meio de seus
outra esposa. Uma vez que Jacó estava pro­ descendentes.
curando uma esposa dentre as filhas de seu O Senhor prometeu estar presente com
tio, Labão, Esaú escolheu sua mulher da famí­ Jacó, quaisquer que fossem as circunstân­
lia de seu tio Ismael. Talvez tivesse pensado cias por vir. Naquele tempo, as pessoas acha­
que sua escolha o qualificaria para receber vam que, ao sair de casa, deixavam seu deus
algum tipo de bênção de Deus, mas isso só para trás. No entanto, o Senhor de toda a
aumentou a irritação dos pais. Terra prometeu ir com Jacó, protegê-lo e, um
dia, levá-lo de volta para casa. Independen­
6. Jacó: d e d ic a ç ã o (Gn 28:10-22) temente do que viesse a ocorrer, Deus reali­
Jacó, o rapaz "caseiro", não tinha mais um zaria sua vontade em Jacó e por meio dele.
lar e estava começando uma caminhada de A promessa da presença de Deus com seu
quase oitocentos quilômetros até Harã fu­ povo é repetida com freqüência nas Escritu­
gindo de um irmão irado. Tinha diante de si ras (Dt 31:6-8; Js 1:5; 1 Sm 12:22; 1 Cr 28:20;
um futuro incerto, e a única coisa na qual Mt 28:20; Hb 13:5). Sem dúvida, "O Deus
podia se apoiar era a bênção de seu pai. de jacó é o nosso refúgio" (Sl 46:7, 11).
Daquele momento em diante, o rapaz casei­ Deus voltaria a aparecer para jacó pelo
ro teria de tornar-se um peregrino e de andar menos mais cinco vezes ao longo dos anos,
pela fé. Era uma viagem de três dias até Betei, mas esse primeiro encontro foi muito impor­
e aqueles três primeiros dias de sua aventu­ tante. Ele descobriu que Deus se interessava
ra devem ter sido extremamente difíceis. Esaú por ele e estava trabalhando em sua vida.
iria segui-lo e tentar matá-lo? Teria comida Daquela noite em diante, desde que confiasse
suficiente para prosseguir? (Ver Gn 32:10.) no Senhor e fizesse sua vontade, não teria o
Quando resolveu passar a noite em Betei,5 que temer.
não fazia idéia de que Deus iria encontrar-se Uma decisão importante (w . 16-22). Ao
com ele lá e, a partir daquela noite, Betei despertar, a primeira reação de Jacó foi de
seria um lugar muito especial para Jacó (Gn medo e de surpresa. Deus estava naquele
35:1 ss). lugar, e ele não o sabia! Mas, "o temor do
Um sonho importante (w . 11, 12). Jacó S e n h o r é o princípio do saber" (Pv 1:7), de
dormiu no chão, tendo uma pedra como modo que a reação de jacó foi correta. Ele
"travesseiro" (vv. 11, 18), prática comum no descobriu que podia encontrar Deus nos lu­
Oriente Próximo. A pedra, provavelmente, gares mais inesperados e que qualquer lugar
servia mais como proteção do que como é a "casa de Deus" (Betei), pois Deus está lá.
travesseiro. Enquanto dormia, teve um so­ Jacó passaria pelo menos vinte anos longe
nho no qual viu uma escada ou escadaria6 da casa de seu pai, mas o Senhor seria seu
com anjos subindo e descendo entre o céu e "refúgio" (Sl 90:1) aonde quer que ele fosse.
a Terra. Jacó descobriu que não estava sozi­ Seu próximo gesto foi adorar ao Deus
nho, mas que Deus estava com ele! O Deus que lhe havia aparecido. Transformou o tra­
de Abraão e de Isaque cuidava dele, e seus vesseiro em um pilar de modo a criar um
anjos estavam lá para guardá-lo e servi-lo.7 memorial da experiência extraordinária
Uma declaração importante (w . 13-15). daquela noite. Ao derramar óleo sobre a pe­
Jacó viu o Senhor acima dele e, em seguida, dra, consagrou-a ao Senhor. Não usou a pe­
ouviu-o falar. O Senhor não repreendeu Jacó dra para fazer um sacrifício; simplesmente
por ter participado da intriga de Rebeca; separou-a como um marco. Posteriormente,
G Ê N E S I S 27 - 28 161

na liturgia hebraica, o ato de derramar um suas jornadas, Jacó sofreu as conseqüências


líquido seria símbolo do derramamento da de seus pecados. Em sua graça, Deus nos
vida de uma pessoa em devoção ao Senhor perdoa, mas, em seu justo juízo, providen­
i Ê x 29:38-41; ver também Fp 2:17; 2 Co cia para que ceifemos aquilo que semeamos.
12:15). Jacó havia enganado Isaque, mas seu so­
Porém, o mais importante de tudo foi gro, Labão, mentiu para Jacó e logrou-o. Jacó
que, naquela manhã, Jacó consagrou-se ao usou um cabrito para enganar o pai, e os
Senhor e apropriou-se das promessas que filhos de Jacó usaram um cabrito para enganá-
Deus havia lhe feito (Gn 28:13-15). O "se" lo (Gn 37:29-35). Durante os anos em que
que aparece em várias traduções no trabalhou para Labão, Jacó suportou muitas
versículo 20 também pode ser entendido provações, tanto como pastor quanto como
como "uma vez que". Jacó não estava nego­ marido de quatro esposas e pai de muitos
ciando com Deus; estava afirmando sua fé filhos (Gn 31:36ss). Era sua fé nas promessas
em Deus. Uma vez que Deus havia prometi­ de Deus que o sustentava quando as coisas
do cuidar dele, ficar com ele e levá-lo de ficavam difíceis. Deus havia prometido estar
volta ao lar em segurança, Jacó afirmaria sua com ele, e era disso que Jacó dependia (Gn
fé em Deus e buscaria adorá-lo e honrar so­ 31:42; 49:24-25).
mente ao Senhor. O Senhor não o abandonou e nem nos
Nos anos que se seguiram, Jacó não teve abandonará. "O S e n h o r dos Exércitos está
uma vida fácil, pois, apesar de Deus ter per­ conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio"
doado seus pecados e de acompanhá-lo em (S l 46:7).

T. Não é possível determinar com exatidão a idade de Isaque nessa ocasião. Se os acontecimentos do capítulo 27

ocorreram logo depois dos casamentos de Esaú (Gn 26:34-45), então Isaque estava com apenas cem anos. Uma vez

que ele morreu com cento e oitenta anos de idade (Gn 35:28-29), parece estranho ele ter pensado que o fim estava

tão próximo, a menos que estivesse apenas fingindo para poder dar a bênção a Esaú o mais rápido possível. No entanto,

se fizermos as contas tomando a idade de jacó quando ele foi para o Egito (Gn 47:9), então em Gênesis 37 Isaque

estaria com centro e trinta e sete anos, restando-lhe ainda mais quarenta e três anos de vida. Mas isso significaria que

jacó estava com setenta e sete anos quando foi para Harã, uma idade um pouco avançada para procurar uma esposa.

A cronologia das Escrituras não é exata e não sabemos com quantos anos jacó estava quando cada um de seus doze

filhos nasceu.
2. Foi sugerido que o fato de o pai dividir uma refeição com o filho a ser abençoado fazia parte da cerimônia. No entanto,

não encontramos nada que indique que Isaque tenha convidado Jacó para comer com ele, mesmo pensando que Jacó

fosse Esaú.
3. Leu po ld , H. C. Exposition of Genesis. Grand Rapids, M L: Baker Book House, 1953, v. 2, p. 752.

4. É uma pena que os cristãos em geral tenham adotado a visão preconceituosa de Esaú com relação a jacó caracterizan­

do-o como um enganador astuto, sempre tentando aproveitar-se de alguém, jacó errou ao enganar o pai, mas estava

certo ao crer na Palavra de Deus e ao saber que a bênção da aliança era dele. Não roubou o direito de primogenitura,

mas sim o comprou. Foi um homem diligente, que trabalhou arduamente durante quatorze anos para conseguir suas

esposas e outros seis anos para adquirir seus rebanhos. Foi Labão quem defraudou Jacó e não jacó quem roubou de

Labão. Não era perfeito, mas era um homem de fé que se tornou "Israel, um príncipe de Deus". Em várias ocasiões nas

Escrituras, Deus houve por bem chamar-se de "Deus de Jacó" e "Deus de Israel". Em nenhum momento, vemos Deus

repreendendo Jacó por enganar alguém. Muito pelo contrário, ao longo da vida de jacó, Deus cumpriu o significado

básico de seu nome: "Deus protegerá"; Esaú, porém, usou o apelido de Jacó: "ele agarra o calcanhar".

3. Foi Jacó quem deu ao lugar onde descansou (que antes se chamava Luz) o nome de "Betei", que significa "casa de

Deus". O novo nome aparece em Gênesis 12:8 e 13:3, pois na época em que Moisés escreveu, Betei era o nome mais

conhecido pelos leitores. Infelizmente, anos depois, Betei tornou-se um santuário de idolatria (1 Rs 12:26 - 13:10)

condenado pelos profetas (Am 3:14; 4:4; 5:5, 6; 7:13; Os 4:15; 5:8; 10:5). O rei Josias destruiu o santuário de Betei
(2 Rs 23:15).
162 G Ê N E S I S 27 - 28

6. Jacó viu uma "escada" ou "escadarias" ? A palavra hebraica é encontrada apenas nesta passagem do Antigo Testamento,
de modo que não temos nenhum outro contexto para usar como comparação. O termo, provavelmente, vem de um

radicai que significa "levantar", como na construção de uma rampa. No entanto, havia escadas naquele tempo, e existem

palavras em hebraico para escadarias que poderiam ter sido empregadas nesse caso. O sonho é simbólico, uma vez que

anjos não precisam subir e descer escadas. Assim, quer Jacó tenha visto uma escada quer escadarias, isso não afeta o

significado do sonho.
7. Jesus aplicou essa imagem a si mesmo (Jo 1:51), pois ele é o Mediador entre Deus e o homem (1 Tm 2:5) e o "elo

vivo'" entre Deus e seu povo aqui na Terra.


vezes. Contudo, não há registro algum de
28 que Jacó tenha orado como fez o servo de
seu avô; mas talvez orasse pedindo a orien­
tação de Deus a cada passo de sua longa
D isc ip lin a e D ec isõ es jornada.
Tenho a impressão de que, quando Jacó
G ê n e s is 2 9 - 3 1 viu Raquel, foi amor à primeira vista. Se esse
foi o caso, isso explica por que ele tentou
fazer com que os pastores déssem água a
seus rebanhos e fossem embora logo - ele
queria ficar a sós com Raquel em seu primei­
ro encontro. A pedra que cobria o poço era
vida não é fácil, e aquilo que ela faz
A
grande (Gn 29:2), mas Jacó conseguiu movê-
conosco depende muito daquilo que la de modo que pudesse dar de beber ao
encontra em nós. Pode ter sido fácil para Jacó rebanho de Raquel. Quando se apresentou,
deixar os problemas de família para trás, mas ela correu para dar a notícia a Labão. No
teve de levar consigo seu maior problema - antigo Oriente, os laços de família eram mui­
ele mesmo. Durante vinte anos (Gn 31:41), to fortes, e, quando um parente ia visitar os
Jacó passaria por muitas provações penosas familiares, mesmo que não se conhecessem,
na casa de Labão, mas, no final, tornar-se-ia era bem recebido na casa daqueles de seu
um homem de Deus, que realizaria a vonta­ próprio sangue.
de de Deus. Vemos a providência de Deus nesse
Contudo, não leia estes capítulos como encontro. Jacó poderia ter tomado em­
uma história antiga sobre a família de um prestadas as palavras do servo de Abraão:
homem. Trata-se de uma história contem­ "Estando no caminho, o S e n h o r me guiou"
porânea sobre todos nós, que estamos to­ (Gn 24:27). Para os incrédulos, esse acon­
mando decisões importantes ao longo da tecimento pode ser chamado de "uma feliz
estrada da vida, decisões que determinam coincidência", mas para os cristãos foi a orien­
nosso caráter e destino. tação da bondosa mão de Deus. Na vida do
cristão que confia, nada é acidental, tudo
1. C a sa m e n t o : e n c o n t r a n d o su a tem um propósito.
c a r a -m e t a d e (Gn 2 9 :1 - 3 0 ) No entanto, vemos também nesse acon­
Jesus deixou claro que nem todo mundo tecimento o começo de algumas mudanças
deve se casar (Mt 19:1-12). No entanto, para para melhor no caráter de Jacó. Observe, por
Jacó, o casamento não era uma opção, mas exemplo, sua ousadia ao confrontar os pas­
sim uma obrigação. O sucesso das promes­ tores, ao mover a pedra e ao apresentar-se a
sas da aliança que Deus havia feito a Abraão Raquel. Veja sua honestidade ao contar sua
iGn 12:1-3; 28:1-4) dependia de Jacó en­ história a Labão, pai de Raquel (Gn 29:18).
contrar uma esposa e de constituir com ela O texto não diz exatamente quanto da histó­
uma família que, um dia, seria o povo de ria de sua família Jacó incluiu no relato dos
Israel, a nação que traria ao mundo o Re­ "acontecimentos de viagem", mas por certo
dentor prometido. teve de explicar por que estava lá e quais
O encontro (Vv. 1-13). Fortalecido pe­ eram seus planos para o futuro. Ao lembrar-
las promessas que Deus, em sua graça, ha­ se da riqueza que sua irmã havia recebido
via lhe dado em Betei (Gn 27:10-22), Jacó de Isaque, talvez Labão esperasse que Jacó
realizou a longa jornada até Padã-Arã. O fosse ser igualmente generoso.
episódio do poço nos lembra do servo de O acordo (w . 14-20). Durante o primei­
Abraão, quando estava à procura de uma ro mês na casa de Labão, Jacó fazia sua
esposa para Isaque (Gn 24:1 Oss), história parte do trabalho e ficava feliz com todas a
que Jacó certamente havia ouvido muitas oportunidades que surgiam de estar com
164 G Ê N E S I S 29 - 31

Raquel. O que Jacó não percebeu foi que esse drama se desenrolava? Podemos imagi­
Labão era um enganador experiente que con­ nar várias possibilidades, mas é impossível
trolaria sua vida pelos próximos vinte anos. ter certeza de qualquer uma delas.
Na empolgação daquele momento de deci­ Se Lia quisesse, poderia facilmente ter
são, que incluía aceitar um emprego e ficar revelado toda a intriga, mas teria envergo­
noivo de uma bela mulher, Jacó não notou nhado Labão diante de seus convidados e
que Labão não fez promessa alguma de que até levado Jacó a ser expulso da casa deles
lhe daria Raquel no final dos sete anos. Ape­ sem sua amada Raquel. Então, pelo resto de
nas concordou que lhe daria Raquel como sua vida, Lia teria de viver com uma irmã
esposa. desiludida e com um pai irado, que encon­
Mais uma vez, vemos crescimento no ca­ traria alguma forma de vingar-se da filha mais
ráter de Jacó enquanto ele, pacientemente, velha. Assim, não valeria a pena revelar o
serviu Labão durante sete anos difíceis. Ser que estava acontecendo. A minha impres­
pastor de ovelhas não é um trabalho fácil, e são é de que Lia foi cúmplice voluntária, fe­
sete anos é um bocado de tempo, mas o liz por conseguir um marido tão trabalhador
amor de Jacó por Raquel tornou o fardo do quanto Jacó e que, um dia, herdaria toda a
trabalho mais leve e fez com que o tempo riqueza de Isaque e desfrutaria as bênçãos
passasse rapidamente. Alguém disse, de for­ da aliança de Abraão. Sem dúvida, ela sabia
ma acertada, que a felicidade consiste em que Raquel também seria parte da negocia­
ter alguém para amar, algo para fazer e algu­ ção, mas estava disposta a correr os riscos,
ma expectativa; Jacó tinha essas três coisas. quaisquer que fossem as dificuldades do fu­
A dissimulação (w. 21-30). O homem que turo. É possível que Lia tenha "tomado em­
enganou o pai foi enganado pelo sogro, e o prestadas" algumas das roupas de sua irmã
homem que se passou por primogênito re­ e, talvez, até aprendido a imitar alguns de
cebeu a primogênita como esposa.' É uma seus gestos. Se foi esse o caso, tratou Jacó
lei inescapável da vida que cedo ou tarde exatamente da forma como ele havia trata­
colhemos aquilo que semeamos (Gl 6:7, 8). do o pai ao passar-se por Esaú.
Em sua graça, Deus perdoa nossos pecados Imagine, porém, o noivo acordando na
quando os confessamos (1 Jo 1:9), porém primeira manhã de sua semana de comemo­
em sua justiça, permite que arquemos com rações nupciais só para descobrir que havia
as conseqüências desses pecados. Para Jacó, se casado com a mulher errada! No meio do
a decepção foi só o começo da colheita. povo semita, era costume tratar o noivo e a
As mulheres do Oriente eram mantidas noiva como reis durante setes dias depois
em certa reclusão e, naquela cultura, não de seu casamento, mas Jacó deve ter se sen­
havia nada parecido com "namoro". Mas tido mais como o bobo da corte. Labão o
certamente Jacó teve a oportunidade de co­ havia logrado, mas Jacó não tinha o que fa­
nhecer Raquel e Lia relativamente bem du­ zer, pois o patriarca da casa era sua autorida­
rante aqueles sete anos. Então, como foi tão de suprema. Seu sogro inescrupuloso havia
facilmente enganado? Tendo em vista que casado duas filhas com um homem que, pro­
os aposentos nupciais eram escuros, que a vavelmente, seria extremamente rico e, além
noiva usava um véu (Gn 24:65) e que, tal­ disso, como brinde, havia garantido mais sete
vez, na intimidade do leito nupcial, tivesse anos de serviço do seu genro!
apenas sussurrado suas palavras, como Jacó Jacó queixou-se da forma como ele e
poderia saber quem era a mulher? Raquel foram tratados por Labão, mas acei­
Será que Jacó havia comemorado de­ tou mansamente sua sorte e voltou a traba­
mais? Talvez.2 Ou pode ser que estivesse lhar durante mais sete anos. Aos poucos,
inebriado demais de tanto amor apaixona­ Jacó aprendia a submeter-se à amorosa mão
do (Pv 5:19). Lia concordou com a intriga do Senhor, crescendo na fé e em caráter. No
ou seu inescrupuloso pai obrigou-a a lhe final da semana de comemorações, Jacó
obedecer? E onde estava Raquel enquanto casou-se com Raquel, a mulher que amava,
G Ê N E S I S 29 - 31 165

e teve mais uma semana para viver como rei. O fato de Lia dar seis filhos e uma filha a
No entanto, dali em diante, teria de suportar Jacó indica que ele cumpriu suas responsa­
treze anos de dificuldades e de conflitos, bilidades conjugais para com ela, porém ela
não apenas por causa de seus parentes, mas sabia que o coração de Jacó pertencia a
também de suas duas esposas e respecti­ Raquel.
vas servas.3 j| O Senhor também sabia disso, de modo
Labão devia estar muito satisfeito con­ que abençoou Lia dando-lhe filhos. É um
sigo mesmo pelo sucesso de sua intriga, sem paradoxo que, apesar de quatorze anos de
fazer idéia de que o Senhor governava sobe­ trabalho de Jacó para pagar por suas duas
rano e prevalecia em todos os acontecimen­ esposas, apenas uma delas estava tendo fi­
tos. "Não há sabedoria, nem inteligência, nem lhos. Jacó sabia que os filhos eram uma bên­
mesmo conselho contra o S e n h o r " (Pv 21:30). ção do Senhor (Gn 30:1, 2), pois foi Deus
Como diria José, o filho de Jacó, anos mais quem deu Isaque a Abraão e Sara e, tam­
tarde: "Vós, na verdade, intentastes o mal bém, Esaú e Jacó a Isaque e Rebeca (ver Sl
contra mim; porém Deus o tornou em bem" 139:13-16).
iCn 50:20). Hoje em dia, os cristãos cita­ Lia chamou seu primogênito de Rúhen,
riam Romanos 8:28. que significa "veja - um filho!" Na língua
hebraica, o nome soa como "Ele [Deus] viu a
2. P a t e r n id a d e : c o n s t i t u i n d o u m a minha aflição". Uma vez que todo pai hebreu
f a m ília (G n 29:31 - 30:24) queria filhos do sexo masculino (Sl 127:4,
Cantares de Salomão nos lembra de que o 5), Lia tinha certeza de que esse bebê faria
povo hebreu de modo algum subestimava com que seu marido a amasse. No entanto,
os prazeres pessoais do casamento. No en­ estava errada. O nome Simeão quer dizer
tanto, também enfatizava a responsabilida­ "aquele que ouve" e sugere que Lia havia
de de ter filhos e de constituir uma família falado com Deus sobre seu sofrimento. Anos
temente a Deus. "Se o S e n h o r não edificar a depois, Jacó colocaria no lugar de Rúben e
casa, em vão trabalham os que a edificam de Simeão os dois filhos de José, Efraim e
[...] Herança do S e n h o r são os filhos; o fruto Manassés (Gn 48:1-6). Foram substituídos
do ventre, seu galardão" (S l 127:1, 3). porque Rúben cometeu um pecado sexual
Os hebreus encaravam a paternidade e (Gn 35:22; 49:3, 4; 1 Cr 5:1-2) e Simeão par­
a maternidade como uma forma de serviço ticipou do massacre do povo de Siquém (Gn
a Deus, o que se aplicava ainda mais ao !i 34:24-31; 49:5-7).
caso de Jacó, cujos descendentes se multi- !i Lia chamou o terceiro filho de Levi, que
plicariam "como as estrelas dos céus e significa, "apegado", pois ela ainda tinha es­
como a areia na praia do mar" (Gn 22:1 7). peranças de que Jacó a amaria por causa
Deus honraria Jacó fazendo dele o pai das dos filhos que havia lhe dado. Deve ter sido
doze tribos de Israel, mas o fato de haver doloroso para Lia entregar-se a um marido
quatro mulheres envolvidas na constituição que estava apenas cumprindo sua obrigação
de sua família criaria sucessivos problemas e não demonstrando afeição. No entanto, o
para Jacó. O homem que havia crescido num nascimento do quarto filho pareceu trazer
lar competitivo e dividido (Gn 25:28) aca­ nova alegria a sua vida, pois ela o chamou
baria formando uma família igualmente di- |i de Judá, que vem da palavra hebraica que
vidida e competitiva. significa "louvor". Em vez de queixar-se ao
Os filhos de Lia (29:31-35; 30:17-21). A Senhor sobre a falta de amor do marido, ela
palavra "desprezada", no versículo 31, não estava dando graças a Deus por suas bên­
implica abuso da parte de Jacó; significa, çãos. "Esta vez louvarei o S e n h o r " (Gn
simplesmente, que Jacó amava a Raquel 29:35).4
mais do que a Lia e que dava mais atenção e Depois de um tempo sem conceber,
carinho a Raquel. (Ver Dt 21:1 5-1 7 e as pala- Deus permitiu que Lia tivesse mais dois
\ras do Senhor em Mt 6:24 e em Lc 14:26.) j| filhos: Issacar, que significa "recompensa",
166 G Ê N E S I S 29 - 31

e Zebulom, que provavelmente quer dizer desfrutadas pela irmã mais fértil. Depois do
"honra" (Gn 30:14-21). nascimento de Naftali, Bila não concebeu mais.
Naquele tempo, o fruto da mandrágora Zilpa (30:9-13). A esterilidade temporá­
era chamado de "maçã do amor" e consi­ ria de Lia (compare o v. 9 com os vv. 14-21)
derado um poderoso afrodisíaco. Quando serviu de motivação para que desse a Jacó a
Raquel viu as mandrágoras que Rúben havia quarta esposa, sua serva Zilpa, e, como Ra­
apanhado, ela as desejou para seu próprio quel, tomasse para si os filhos de Zilpa como
uso e dispôs-se a dar a Lia uma noite com sendo seus próprios. Ela deu ao primeiro
Jacó como forma de "pagamento" pelas plan­ menino o nome de Gac/e ("a sorte veio, afor­
tas. Talvez Raquel tivesse pensado que os tunada")6 e ao segundo, Aser ("abençoada,
frutos da mandrágora a tornariam fértil. feliz").
Vemos nesse episódio mais um sinal do Raquel (30:22-24). Finalmente, Raquel
crescimento espiritual de Jacó, pois não ape­ concebeu e deu à luz um filho, que chamou
nas Labão lhe dava ordens como também as de ]osé. As mandrágoras não tiveram nada a
próprias esposas de Jacó faziam acordos ver com sua concepção. Foi Deus quem a
sobre os quais ele não ficava sabendo até abençoou e ouviu sua oração. A palavra
que voltasse para casa no fim de um dia can­ hebraica qsaf quer dizer "tirar" e yosef signi­
sativo cuidando dos rebanhos. Raquel e Lia fica "acrescentar". Deus havia tirado sua ver­
trataram Jacó como um servo e usaram-no gonha por não ter filhos e lhe acrescentara
como um peão nas suas negociações de fa­ bênçãos. Sua oração, "dê-me o S e n h o r ainda
mília, e ele suportou pacientemente. outro filho" (v. 24), foi respondida com o
Os filhos de Bila (30:1-8). O fato de Jacó nascimento de Benjamim ("filho da minha des­
zangar-se com a esposa predileta não deve tra"), mas Raquel morreu no parto (Gn 35:16-
nos causar surpresa. Até mesmo os casais 20). José seria o filho usado por Deus para
mais amorosos de vez em quando têm de­ salvar a família toda quando veio uma terrí­
sentendimentos. E, afinal de contas, ela o es­ vel fome.
tava culpando por algo que se encontrava
totalmente fora do controle de Jacó. No en­ 3. V o c a ç ã o : g a r a n t i n d o seu s u s te n to
tanto, Raquel precisava não de uma aula de (G n 30:25-43)
teologia nem de tratamento ginecológico, FJavia chegado a hora de Jacó mudar sua
mas sim da carinhosa compreensão de seu grande família para a terra de sua possessão,
marido e do encorajamento que só o amor onde viveriam por conta própria. A essa al­
dele poderia dar. tura, tinha onze filhos e uma filha7 e havia
Ao oferecer sua serva Bila para ser mãe feito mais do que o necessário para cumprir
em seu lugar (ver capítulo 16), Raquel esta­ sua parte do acordo. Merecia o direito a sua
va exercendo seu direito de acordo com a liberdade. Era hora de parar de trabalhar para
lei daquela terra e concordando que Bila de­ Labão e de começar a construir sua própria
veria tornar-se esposa de Jacó.5 A oração, segurança para o futuro.
"eu traga filhos ao meu colo" (Gn 30:3), refe­ No entanto, o ardiloso Labão não estava
re-se à adoção legal de quaisquer filhos que disposto a perder o genro, especialmente
Jacó tivesse com Bila (ver Gn 50:23). quando sabia que a presença de Jacó havia
O Senhor respondeu às orações de Ra­ lhe trazido as bênçãos de Deus (vv. 27-30).8
quel (Gn 30:6), pois Bila concebeu e deu à Mas Labão não estava interessado no Senhor,
luz um filho, o qual Raquel tomou para si apenas nas bênçãos que recebia por causa
como seu próprio bebê e chamou-o de Dã, do Deus de Jacó. Sem dúvida, Labão sabia
que vem de uma palavra hebraica que sig­ das promessas que Deus havia feito a Abraão
nifica "vindicação, julgamento". Ela chamou e a seus descendentes (Gn 12:3) e queria
o segundo filho de Bila de Nafta// ("minha tirar o máximo de proveito delas.
luta") por causa das dificuldades que ha­ Dessa vez, porém, Jacó estava prepara­
via suportado em decorrência das bênçãos do para o sogro, pois o Senhor lhe falou em
G Ê N E S I S 29 - 31 167

um sonho dizendo exatamente o que fazer dias de hoje: falando-lhe ao coração, usando
(Gn 31:1-13). Tudo o que Jacó queria como as circunstâncias externas da vida e a verda­
pagamento era o privilégio de formar seu de de sua Palavra.
próprio rebanho de ovelhas, bodes e cabras Seis anos antes, Deus havia colocado no
a partir dos animais listados, malhados e salpi­ coração de Jacó o desejo de voltar a sua
cados que, de qualquer modo, eram consi­ terra (Gn 30:25), e esse desejo ainda estava
derados inferiores. Esses seriam separados lá. Apesar de nem todo anseio do coração
dos rebanhos de Labão por uma jornada de humano ser necessariamente a voz de Deus
três dias para que, a qualquer momento, (Jr 17:9) e de ser preciso usar cautelosamen­
Labão pudesse investigá-los e saber imedia­ te de discernimento, o Senhor, com freqüên­
tamente se Jacó o estava roubando. cia, começa a nos falar dessa maneira.
As varas descascadas de Jacó pertencem Juntamente com o desejo dentro de nós,
à mesma categoria das mandrágoras de Ra­ Deus também nos dirige, como fez com Jacó,
quel: eram práticas supersticiosas, que não por meio das circunstâncias (Gn 31:1, 2).
tiveram nada a ver com aquilo que, de fato, Mais perto do fim daqueles seis anos críticos,
ocorreu. Foi Deus quem controlou a estru­ Jacó observou que seus parentes não eram
tura genética dos animais e multiplicou as mais tão amigáveis com ele quanto costu­
ovelhas, bodes e cabras, aumentando rapi­ mavam ser. Isso se devia, em grande parte,
damente a riqueza de Jacó. Em Betei, Deus ao fato de sua riqueza haver aumentado.
havia prometido abençoar Jacó e cumpriu Nem sempre as circunstâncias são o dedo
sua promessa (Gn 28:13-15). Uma vez que de Deus apontando para seu caminho (At
Labão tinha concordado com os termos de 27:1-15), mas podem ser indicadores impor­
Jacó, não havia nada que pudesse fazer quan­ tantes da vontade dele. Quando Deus quer
to aos resultados. nos levar a outro lugar, por vezes ele nos tira
Durante os seis anos seguintes, Jacó tor­ o conforto e "desperta a sua ninhada" (Dt
nou-se um homem extremamente rico por 32:11).
causa de sua fé e pela bênção do Senhor. A terceira e mais importante forma como
Então, estava pronto par declarar indepen­ Deus nos conduz é por intermédio da sua
dência, voltar para sua própria terra e seu Palavra. Deus já havia falado com Jacó em
povo e cumprir os propósitos que Deus ti­ um sonho (Gn 31:10-13), mas Jacó perma­
nha para ele. Quando havia chegado a Padã- neceu em Padã-Arã para enriquecer. Então,
Arã vinte anos antes, tudo o que tinha era Deus lhe disse: "Torna à terra de teus pais e à
seu cajado (Gn 32:10). No entanto, havia tua parentela; e eu serei contigo" (v. 3). Â
trabalhado com afinco, sofrido muito e con­ medida que a história de Jacó se desenrola,
fiado em Deus. Tinha constituído uma gran­ vamos descobrindo que Deus lhe falou em
de família e era dono de enormes rebanhos todas as crises importantes de sua vida: ao
de ovelhas, bodes e cabras saudáveis, bem sair de casa (Gn 28:12-15), ao voltar para
como de camelos, jumentos e servos para casa (Gn 31:1-13), ao encontrar-se com Esaú
cuidar de todos os animais. (Gn 32:24ss), ao visitar Betei (Gn 35:1 ss) e
ao mudar-se para o Egito (Gn 46:1-4). Deus
4. L ib e rd a d e : r e c u p e r a n d o su a s ra íz e s nos orienta pelos caminhos da justiça, se es­
(G n 31:1-55) tivermos dispostos a segui-lo (Sl 23:3).
Jacó havia passado vinte anos longe de casa No entanto, Jacó levou algum tempo para
e era chegada a hora de voltar a suas raízes. dizer a Raquel e Lia o que tinha em mente;
Isaque, seu pai, e Esaú, seu irmão, ainda es­ afinal, estava pedindo-lhes que deixassem seu
tavam vivos, e Jacó tinha alguns "negócios povo e sua terra e que o acompanhassem
pendentes" a resolver com os dois. para outra terra com outro povo. Apesar de
Fugã (w . 1-21). De que modo o Senhor a Palavra de Deus ser nossa principal fonte
comunicou a Jacó que era hora de partir? Da de sabedoria ao tomar decisões (Sl 119:105),
mesma forma como orienta seu povo nos é apropriado consultar e buscar o conselho
168 G Ê N E S I S 29 - 31

de outras pessoas, especialmente daquelas tinha razão; Raquel havia roubado os ídolos
mais próximas de nós. Tanto Raquel quanto (v. 19), mas Jacó não o sabia. O fato de Labão
Lia concordaram que seu pai não havia sido ter ficado tão perturbado mostra que depo­
justo com Jacó nem amoroso para com elas sitava sua fé em ídolos, não no verdadeiro
e que era hora de começar de novo. Não Deus a quem Jacó servia.9Ao fingir estar im­
apenas Labão havia tratado o marido delas pura por causa de sua menstruação, Raquel
como escravo como também havia usado escapou de ser pega e de ter mais proble­
os dotes pagos pelas duas (Gn 31:14, 15). mas com o pai.
Contudo, em vez de encarar Labão de Jacó encheu-se de ira - e com razão -
maneira honesta e de confiar que o Senhor com o atrevimento do sogro perverso de re­
manteria suas promessas e cuidaria de tudo, vistar os bens de sua família. Sentimentos
Jacó fugiu com a família como se fosse um que haviam ficado guardados em seu cora­
criminoso driblando a justiça. Foi um ato de ção durante vinte anos vieram à tona. Jacó
medo e de incredulidade e não um ato de fé, falou abertamente sobre as práticas escusas
pois "aquele que crer não foge" (Is 28:16). de Labão, sobre como havia enganado Jacó,
Na verdade, mais tarde Jacó admitiu a dado a ele o trabalho mais pesado e muda­
Labão que havia partido às pressas e em do seu salário uma porção de vezes. Deus
segredo porque havia ficado com medo (Gn havia abençoado Labão por causa de Jacó,
31:31). Não basta conhecer e obedecer à mas Labão jamais havia agradecido a Deus e
vontade de Deus; também devemos fazer a nem a Jacó; sequer havia pago ao genro os
vontade dele da forma como ele quer, de animais perdidos que Jacó substituía à sua
modo a glorificar ao máximo o nome do própria custa.
Senhor. No entanto, a coisa mais importante do
Confronto (w . 22-42). Uma vez que o discurso de Jacó foi a maneira como ele glo-
acampamento de Jacó era separado por três rificou o Senhor: "Se não fora o Deus de meu
dias de jornada do acampamento de Labão pai, o Deus de Abraão e o Temor de Isaque,10
(Gn 30:36), demorou esse tempo para que por certo me despedirias agora de mãos va­
Labão soubesse da fuga de seu genro e, zias. Deus me atendeu ao sofrimento e ao
quando Labão recebeu a notícia, Jacó já trabalho das minhas mãos e te repreendeu
estava longe. Levou uma semana para Labão ontem à noite" (Gn 31:42). Que testemunho
alcançar a família fugitiva, e Labão e Jacó vindo de um homem acostumado a ceder
finalmente se encontraram na montanha de aos outros e a fazer o que lhe mandavam!
Gileade. Trégua (vv. 43-55). O aviso de Deus no
Mais que depressa, Labão tentou colocar- sonho e a defesa enérgica de Jacó mostra­
se numa posição de vantagem ao repreen­ ram a Labão que ele havia sido derrotado,
der Jacó pela maneira como havia deixado mas ainda assim o velho enganador assumiu
Padã-Arã furtivamente. Imagine aquele astu­ uma fachada de bravura e tentou convencer
to enganador perguntando a Jacó: "Por que a todos de que era um pacificador. As duas
fugiste ocultamente, e me lograste?" (Gn famílias ajuntaram pedras e fizeram um mon­
31:27). Lograr?! Labão havia passado vinte tão, ao lado do qual comeram juntos uma
anos logrando Jacó! Apesar de todo seu ba­ refeição como símbolo do acordo realiza­
rulho e comoção, não havia nada que Labão do. Dividir uma refeição era um costume
pudesse fazer contra Jacó, pois o Senhor o oriental praticado na realização de alianças
havia advertido para ter cuidado (vv. 24, 29). (Gn 26:26-33).
Deus prometeu proteger Jacó e cumpriu sua O monte de pedras deveria servir de tes­
promessa. temunho do acordo que haviam feito, mas
No entanto, o que havia deixado Labão deveria ser também uma torre de vigia
mais furioso era o fato de alguém ter rouba­ (Mispa) ou marco delimitando uma fronteira
do seus ídolos do lar, e estava certo de que que nem Jacó nem Labão tinham permissão
havia sido alguém da família de Jacó. Labão de cruzar. Na verdade, aquele "acordo" não
G Ê N E S I S 29 - 31 169

era uma declaração de paz, apenas uma tré­ participar da refeição sacrificial. Queria que
gua que podia ser quebrada se qualquer um 0 Deus de seus antepassados fosse honrado
dos lados violasse seus termos. diante dessa família pagã que havia lhe cau­
E uma pena que a "Bênção de Mispa" sado tanta tristeza. Na manhã seguinte, Labão
iCn 31:49) ainda se encontre em muitos hi- despediu-se e voltou para casa, e um longo
nários cristãos, pois aquilo que Labão disse e difícil capítulo da vida de Jacó se encerra­
a Jacó não foi, de forma alguma, uma bên­ va, capítulo esse em que Deus o acompa­
ção (vv. 48, 49). Uma paráfrase do que Labão nhou do começo ao fim (vv. 5, 24, 29, 42).
disse seria: "Estamos nos separando um do Contudo, uma nova etapa estava prestes a
outro, mas Deus estará nos vigiando. Se você começar, e nela seu irmão, Esaú, teria um
maltratar minhas filhas, eu não ficarei saben­ papel proeminente.
do, mas Deus verá. Portanto, tome cuida­ A vida não é fácil, mas se nos sujeitarmos
do!" Labão não via o Deus de Abraão e de à disciplina de Deus e se deixarmos que ele
Isaque como um Senhor bondoso que os ha­ nos conduza em nossas decisões, podere­
via unido, mas sim como um Juiz celestial mos suportar as dificuldades de modo triun­
que impediria que os dois fizessem mal um fante e desenvolver o tipo de caráter que
ao outro. Apesar de seus juramentos, Jacó e glorifica a Deus. Poderemos realizar conquis­
Labão não confiavam um no outro, de modo tas ao nos apropriarmos de promessas como
que precisavam confiar que o Senhor não 1 Pedro 5:10: "Ora, o Deus de toda a graça,
permitiria que se ferissem. Mispa era um mo­ que em Cristo vos chamou à sua eterna gló­
numento à desconfiança e ao medo, não ao ria, depois de terdes sofrido por um pouco,
amor e à confiança. ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, for­
Jacó encerrou o dia oferecendo sacrifí­ tificar e fundamentar".
cios ao Senhor e convidando seus parentes a O Deus de jacó nunca falha.

1. Jacó chamou Raquel de "minha mulher", pois o noivado era um compromisso tão sério quanto o casamento e só podia

ser desfeito pelo divórcio. Maria e José eram considerados marido e mulher mesmo que ainda não tivessem consumado

seu casamento (Lc 2:5; ver também Dt 22:22-24).

2. A palavra hebraica para "banquete", no versículo 22, significa "uma festa para beber" e vem de um radical que quer dizer

"beber".
3. A lei de Moisés proíbe um homem de casar-se com irmãs (Lv 18:18).

4. Para Lia, foi uma honra ser mãe de Levi, fundador da tribo sacerdotal, e de Judá, fundador da tribo dos reis, a tribo de

nosso Salvador Jesus Cristo.


5. A palavra hebraica também pode ser traduzida por "concubina"; contudo, até uma concubina tinha direitos legais,

apesar de sua condição de esposa secundária (Gn 25:6; 2 Sm 5:13; 15:16; 16:21). A lei de Moisés reconhece esse tipo
de relacionamento (Êx 21:7-11; Dt 21:10-14). Os filhos de concubinas eram considerados legítimos, mas elas próprias

tinham pouca ou nenhuma influência sobre os assuntos da casa.

6. Cade também pode ser traduzido como "boa sorte [fortuna]" ou como "tropa". No entanto, é difícil ver a relação entre

uma "tropa" e o nascimento de um bebê.

7. O autor de Gênesis 37:35 falou de "filhas", mas o termo também pode referir-se a cunhadas.

8. José, o filho predileto de Jacó, experimentaria a mesma bênção de Deus na terra distante do Egito (Gn 39:1-6).
9. Por que Raquel roubou os ídolos do lar da casa de seu pai? Evidências arqueológicas indicam que a pessoa que

estivesse de posse de tais ídolos garantiria a herança da família, mas Raquel estava saindo de casae não teriaherança

alguma. Raquel sentia-se profundamente magoada pela maneira como o pai a havia tratado, e essa foi sua retaliação.

Além disso, é possível que sua fé em Jeová não fosse tão forte. Pode ser que Labão usasse aqueles ídoios para

adivinhações (Gn 30:27), e que Raquel os tivesse roubado para evitar que ele soubesse demais. Posteriormente, jacó

ordenou que todos os membros de sua família entregassem seus ídolos, que, em seguida, foram enterrados (Gn 35:1-4).

10. O título "Temor de Isaque" é usado apenas aqui e no versículo 53. A palavra hebraica significa, simplesmente, "terror,

pavor" e, portanto, "o Deus que Isaque temia". Sugere que os outros também deviam temê-lo. (Ver Gn 15:1; 27:33; 28:17.)
ou mais tarde, iria se deparar com Esaú, pois,
29 ao viajar para Betei, passaria por perto do
monte Seir, onde Esaú vivia (Gn 33:16).
Preparativo. "O irmão ofendido resiste
Pondo o P assa d o mais que uma fortaleza" (Pv 18:19). Preven­
do uma reunião difícil com Esaú, Jacó usou
em O rd em
uma abordagem sábia e enviou diante dele
mensageiros para informar seu irmão de que
G ê n e s is 32 - 34
ele estava a caminho. Contudo, em vez de
entregar a questão toda ao Senhor, que o
havia protegido de Labão, Jacó usou de uma
atitude condescendente que não era própria
lema do partido político "Ingsoc", do para o homem que Deus havia escolhido para
O livro M il Novecentos e Oitenta e Qua­
tro, de George Orwell, era: "Aquele que con­
dar continuidade à aliança de Abraão. Enviar
os mensageiros foi uma boa idéia, mas cha­
trola o passado controla o futuro; aquele que mar Esaú de "meu senhor" e a ele próprio de
controla o presente controla o passado". "teu servo" bem como a tentativa de im­
Esse lema inteligente pode funcionar para pressionar Esaú com sua riqueza mostraram
políticos que têm autoridade para reescre­ claramente que Jacó não estava confiando
ver livros de história, mas ninguém é capaz que Deus cuidaria dele.
de mudar a história em si. Duas décadas an­ Proteção. Imagine a surpresa de Jacó
tes, Jacó havia fugido de Esaú para Labão; quando viu um exército de anjos diante dele!
agora, estava fugindo de Labão só para ser "Este é o acampamento de Deus!", exclamou
confrontado por Esaú! Para aflição de Jacó, chamando o lugar de Maanaim, que significa
depois de vinte anos, seu passado o estava "dois acampamentos" - o de Jacó e o de
alcançando. E estranho como nos convence­ Deus. Vinte anos antes, Jacó tinha visto os
mos de que somos capazes de escapar do anjos em Betei e descoberto que Deus esta­
passado e não colher o que semeamos. Ten­ va com ele (Gn 28:10-12). Mas agora ele
tamos nos esquecer de nossos pecados, mas descobria que o exército angelical de Deus
nossos pecados não se esquecem de nós. O estava ali para protegê-lo e para lutar por ele.
que havia feito ao pai e ao irmão tinha sido Assim, não havia motivo para temer. "Se Deus
perdoado por Deus, mas nem o tempo e nem é por nós, quem será contra nós?" (Rm 8:31).
a distância poderiam mudar as conseqüên­ A angelologia é um assunto da moda hoje
cias daqueles atos. em dia, e lojas seculares têm em exposição
À medida que você estuda as ações de dezenas de livros sobre anjos, sendo que nem
Jacó em seus momentos de crise, você vê todos são de conteúdo bíblico. Pode-se até
caracterizados muitos dos conflitos que participar de palestras sobre anjos e apren­
ocasionalmente todos nós experimentamos der a entrar em contato com eles, obtendo
entre fé e medo, confiar em Deus e tramar seu auxílio para resolver problemas. Anjos
contra ele, ou pedir a orientação do Senhor são seres reais e, de fato, ministram ao povo
e então agir como se não o conhecêssemos. de Deus (Sl 34:7; 46:7, 11; Hb 1:13, 14), mas
Uma crise não produz um homem; ela reve­ é Deus quem os ordena e não os simples
la do que ele é feito. seres humanos. Um dia, no céu, ficaremos
sabendo quanto ajudaram a família de Deus
1. C o n t e m p la ç ã o ( G n 32:1-8) em tempos de dificuldade e de perigo. Até
Grandemente aliviado com a partida de que isso aconteça, porém, precisamos dei­
Labão e com a presença de "Mispa" entre xar que Deus diga a suas hostes celestiais o
eles, Jacó rumou para Betei, o destino que que devem fazer.
Deus havia lhe indicado (Gn 3 J :3, J 3; 28:1 5; Plano. Enquanto Jacó, sua família, servos
35:1). No entanto, Jacó sabia que, mais cedo e rebanhos viajavam para o sudoeste rumo a
G Ê N E S I S 32 - 34 171

Betei, os mensageiros encaminhavam-se ra­ profundo dos caminhos e do caráter de Deus


pidamente para o monte Seir. Quando Jacó e, ainda assim, estava orando em desespero
chegou ao Jaboque, um afluente do rio e não cheio de confiança. Observe os argu­
Jordão, os mensageiros haviam voltado com mentos que ele apresentou a Deus para que
um recado funesto: Esaú e mais quatrocen­ o Senhor o livrasse de Esaú.
tos homens estavam indo ao encontro de A aliança de D eus (v. 9a). Em sua graça,
Jacó. Esperando pelo pior, Jacó chegou à Deus havia chamado Abraão e feito uma alian­
conclusão precipitada de que Esaú estava ça com ele (Gn 12:1-3), e essa aliança havia
indo lá para vingar-se e para acabar com ele sido reafirmada tanto a Isaque quanto a jacó.
e sua família. Uma consciência pesada, mui­ Foi com base nela que jacó pediu a Deus
tas vezes, nos leva a ver o quadro mais som­ pela ajuda de que precisava desespera­
brio possível. damente. Hoje em dia, o povo de Deus se
Quando o medo toma o lugar da fé, nos­ aproxima do trono da graça por intermédio
sa tendência é começar a fazer planos e a de Jesus Cristo tomando por base a nova
confiar em nossos próprios recursos. Uma aliança que ele fez por meio de seu próprio
senhora disse ao evangelista D. L. Moody: sangue (Hb 8:6-13; 12:22-24).
"Encontrei um versículo maravilhoso que A ordem de D eus (v. 9b). Sem dúvida,
me ajuda a vencer o medo" e, então, citou Jacó estava feliz por afastar-se do controle
Salmo 56:3: "Em me vindo o temor, hei de de Labão, mas Deus havia lhe dito para sair
confiar em ti". Posso lhe dar uma promessa de Padã-Arã e para voltar à sua própria terra
melhor, disse Moody, e citou Isaías 12:2: (Gn 31:13). Jacó se esqueceu de que uma
"Eis que Deus é a minha salvação; confiarei ordem de Deus sempre inclui a capacitação
e não temerei". de Deus, pois a vontade do Senhor nunca
Os cristãos que estão caminhando pela nos leva a um lugar em que o poder de Deus
fé não precisam temer o inimigo nem qual­ é incapaz de nos proteger e de suprir nossas
quer infortúnio que possa lhes ocorrer. "Não necessidades. Mas a imaginação de Jacó ul­
se atemoriza de más notícias; o seu coração trapassou sua teologia, e ele teve certeza de
é firme, confiante no S e n h o r " (S l 112:7). Mas que Esaú estava vindo para destruí-lo.
Jacó "teve medo e se perturbou" (Gn 32:7) O cuidado de D eus (v. 10). Ao fazer uma
e, assim, voltou ao antigo hábito de traçar retrospectiva dos últimos vinte anos, Jacó
seus próprios planos. lembrou Deus da maneira maravilhosa como
Em vez de se lembrar da animadora vi­ o Senhor havia cuidado dele. A cada fardo e
são do exército angelical de Deus, Jacó divi­ provação que Jacó precisou suportar, Deus
diu seu acampamento em dois bandos, de havia sido fiel e bondoso para com ele. Quan­
modo que se um grupo fosse atacado, o do Jacó chegou à casa de Labão, tudo o que
outro poderia fugir. Era uma péssima estra­ possuía era seu cajado de peregrino e, ago­
tégia contra quatrocentos homens, e teria ra, com a bênção de Deus, era um homem
sido melhor para Jacó manter os dois grupos abastado. Por que Deus cuidaria dele ao lon­
do começo - seu povo e o exército angelical go de vinte anos para, em seguida, permitir
de Deus - e confiar que o Senhor o livraria. que ele fosse assassinado pelo irmão?
O propósito de D eu s (v. 11). Jacó não
2. O ração (G n 32:9-12) estava pensando apenas em si mesmo, mas
A prece de Jacó é uma das grandes orações também tinha em mente sua família e o gran­
registradas nas Escrituras e, no entanto, tra- de plano de Deus. Os filhos de Jacó se mul­
ta-se da oração de um homem cuja fé era tiplicariam e se tornariam a nação de Israel.
extremamente fraca. Era como o pai do me­ Por meio de Israel, Deus abençoaria toda a
nino endemoninhado que clamou: "Eu creio! humanidade. O Salvador veio da tribo de
Ajuda-me na minha falta de fé!" (Mc 9:24). Judá para morrer pelos pecados do mun­
Cada uma das declarações dessa oração in­ do, e Paulo viria da tribo de Benjamim para
dica que Jacó possuía um conhecimento levar o evangelho aos gentios. Estaria esse
propósito eterno prestes a ser frustrado por senhor", Jacó estava se humilhando no­
causa da ira de um homem? vamente e ignorando o fato de que Deus o
A prom essa de D eus (v. 12). Jacó lem­ havia feito senhor sobre seus parentes, inclu­
brou o Senhor das promessas que ele lhe sive sobre Esaú (Gn 27:29). Jacó planejou
fizera em Betei (Gn 28:12-1 5), especialmen­ seguir discretamente atrás do último reba­
te de que lhe faria bem e de que multiplica­ nho, esperando que o impacto do presente
ria sua descendência. Deus disse a Jacó que preparasse Esaú para perdoá-lo e recebê-lo
estaria com ele, que o levaria de volta a Betei quando, finalmente, se encontrassem.
e que realizaria seus propósitos nele e por Já aprendemos que viver pela fé é viver
meio dele. Se Deus permitisse que os ho­ sem tramar. Contudo, antes de criticar Jacó,
mens de Esaú matassem Jacó e sua família, é preciso examinarmos nosso próprio co­
nenhuma dessas promessas se cumpriria. ração para ver se não fazemos o mesmo: ora­
Apesar de não desejarmos imitar o medo, mos com devoção e, depois, dependemos
a incredulidade, a dissimulação e a tendên­ de nossos próprios planos e recursos. E ver­
cia a tirar conclusões precipitadas de Jacó, dade que "a fé sem obras é morta" (Tg 2:20),
sua maneira de orar é um exemplo a ser se­ mas o presente de Jacó não foi um ato de fé,
guido. Ele se apropriou das promessas de uma vez que Deus não ordenou que ele o
Deus, lembrou-se da bondade do Senhor e oferecesse. O velho ditado: "Deus ajuda a
firmou-se no caráter e na aliança de Deus. quem se ajuda" é totalmente antibíblico. A
Não importam as circunstâncias que tenha­ verdadeira fé é baseada na Palavra de Deus
mos de enfrentar, nem o medo que se apo- (Rm 10:17), e tudo aquilo que fazemos
dere de nosso coração, podemos confiar que que não é motivado pela fé é pecado (Rm
Deus será fiel a seu caráter e a sua Palavra. 14:23), não importa quão bem-sucedido
"Confiarei e não temerei". possa parecer.'
O verdadeiro problema não era Esaú, mas
3. P a c i f i c a ç ã o (G n 32:13-21) sim Jacó. Portanto, Deus estava prestes a
Seria de se esperar que uma oração com um resolver esse problema.
conteúdo teológico tão sólido quanto esse
traria a paz de Deus ao coração de Jacó, 4. Luta (G n 32:22-32)
mas não foi o que aconteceu e, em sua in­ É perigoso cruzar o rio à noite, mas Jacó pre­
quietação, ele resolveu agir. "Eu o aplacarei" feria a travessia ao risco de perder seus entes
(v. 20), disse Jacó e preparou um presente queridos, de modo que levou sua família a
caro. um lugar que esperava que fosse seguro.
Sir Robert Walpole, primeiro-ministro da Tendo se esquecido do exército de Deus, ele
Inglaterra, comentou a respeito do Parlamen­ queria algo que protegesse sua família do
to: "Todos aqueles homens têm seu preço". exército de seu irmão. Jacó criou seus pró­
Muita gente do mundo segue essa filosofia prios "dois acampamentos".
("Toda pessoa tem seu preço"), e era jus­ E quando estamos sozinhos - como es­
tamente essa filosofia que Jacó estava se­ tava Jacó - e esgotamos nossos próprios
guindo quando preparou seu presente de recursos que Deus pode vir a nós, fazer al­
quinhentos e oitenta animais de grande va­ guma coisa em nós e por nós. Observe os
lor. Ele os dividiu em diferentes rebanhos e três encontros que Jacó teve naquela noite
ordenou que os servos deixassem um espaço difícil.
entre os rebanhos, de modo que Esaú não jacó encontrou-se com o Senhor (w. 22-
pudesse evitar de se impressionar com a ge­ 26). O ensaísta inglês Walter Savage Landor
nerosidade de seu irmão. estava certo ao chamar a solidão de "sala de
Além disso, cada servo deveria dizer a audiência de Deus". Quando estamos sozi­
mesma coisa a Esaú: "São de teu servo Jacó; nhos, não podemos fugir para o coração e a
é presente que ele envia a meu senhor Esaú" mente de outras pessoas nem nos distrair; pre­
(v. 18). Com essas palavras "teu servo" e "meu cisamos conviver conosco mesmos e encarar
G Ê N E S I S 32 - 34 173

a nós mesmos. Vinte anos antes, Jacó havia A pergunta: "Como te chamas?" queria di­
se encontrado com o Senhor quando estava zer: "Você vai continuar fazendo jus a seu
sozinho em Betei; então, em toda sua graça, nome ou vai admitir quem você é e deixar
Deus foi novamente ao encontro de Jacó em que eu o transforme?" Na Bíblia, receber um
seu momento de necessidade (vv. 28, 30; novo nome significa começar de novo (Gn
Os 12:2-6). 17:4, 5, 15; Nm 13:16; Jo 1:40-42), e aquela
Deus vai a nosso encontro no lugar onde era a oportunidade de Jacó ter um recome­
estamos e nos eleva até o lugar onde ele quer ço em sua vida.
que estejamos. Para Abraão, o peregrino, O novo nome que Deus fhe deu foi "Is­
Deus apareceu como um viajante (Gn 18); rael", vindo da palavra hebraica que quer
para Josué, o general, mostrou-se como um dizer "lutar". No entanto, os estudiosos ain­
soldado (Js 5:13-15). Jacó havia passado a da não chegaram a um consenso sobre o que
maior parte de sua vida adulta lutando com o nome significa. Alguns o traduzem como
as pessoas - Esaú, Isaque, Labão e até mes­ "aquele que luta com Deus", "Deus luta" ou
mo com suas esposas -, de modo que Deus "permita que Deus governe". De acordo com
se manifestou como um lutador. "Com o a explicação de Gênesis 32:28, Jacó recebeu
puro, puro te mostras; com o perverso, infle­ poder porque prevaleceu. Ele havia perdido
xível" (Sl 18:26). a batalha, mas tinha conquistado a vitória!
Em Betei, Deus havia prometido aben­ Ao buscar a bênção de Deus e, por fim, ser
çoar Jacó e, do ponto de vista material, a enfraquecido e forçado a entregar-se, havia
promessa havia se cumprido, pois Jacó era se tornado um "príncipe com poder recebido
um homem extremamente rico. No entanto, de Deus". Assim como Paulo, que precisou
as bênçãos de Deus são mais do que só re­ travar sua própria batalha, Jacó tornou-se
banhos e servos; também há o caráter piedo­ forte quando ficou fraco (2 Co 12:1-10).
so e a influência espiritual. Durante aquela G. Campbell Morgan chamou a expe­
"noite escura da alma", Jacó descobriu que riência de Jacó de "aleijamento recom-
havia passado toda sua vida lutando contra pensador" e interpretou o nome "Israel"
Deus e resistindo a sua vontade, e que o como "um homem governado por Deus".3
único caminho para a vitória era a entrega. Estou propenso a concordar com ele. Quan­
Como disse A. W. Tozer: "O Senhor não pode do Deus governa sobre nossa vida, então
abençoar plenamente um homem enquanto pode nos confiar seu poder, pois somente
não o tiver vencido".2 Deus venceu Jacó ao aqueles que estão sob sua autoridade têm o
enfraquecê-lo. direito de exercê-la. Enquanto vivia com os
Jacó encontrou-se consigo m esm o (vv. pais, Jacó havia servido a si mesmo e criado
27-32). Jacó desejava a bênção de Deus em problemas; durante vinte anos serviu a Labão
sua vida mais do que qualquer coisa, o que e criou ainda mais problemas; mas, dali em
é um desejo elogiável. No entanto, antes de diante, serviria a Deus e se tornaria parte da
podermos começar a ser como o Senhor, pre­ solução.
cisamos encarar quem realmente somos e Mais uma vez, Jacó deu um nome espe­
admitir qual é a nossa verdadeira natureza. cial a um lugar importante.4 Dessa vez, cha­
Por isso o Senhor perguntou-lhe: "Como te mou aquele lugar de Peniel (Gn 32:31), que
chamas?". No que se refere ao relato de quer dizer "a face de Deus". Jacó pensou
Gênesis, da última vez que Jacó ouviu essa que ver a face de Deus o levaria à morte,
pergunta, ele mentiu! Seu pai lhe perguntou: mas, na verdade, deu-lhe nova vida. Foi o
"Quem és tu, meu filho?", e Jacó disse: "Sou começo de um novo dia para Israel/Jacó
Esaú, teu primogênito" (Gn 27:18, 19). (v. 31): tinha um novo nome, um novo jeito
O Senhor não fez essa pergunta a fim de de andar (estava manquejando) e um novo
obter uma informação, pois certamente sabia relacionamento com Deus que iria ajudá-lo
o nome de Jacó e estava ciente de que Jacó a enfrentar e a resolver qualquer problema,
tinha a fama de ser dissimulado e enganador. desde que exercitasse sua fé. O grande teste
174 G Ê N E S I S 32 - 34

estava prestes a acontecer, pois Esaú havia ele. Não vemos Esaú se prostrando. Em vez
chegado ao lugar onde ele estava. disso, ele correu para o irmão, lançou-se a
Jacó estava pronto para o terceiro en­ seu pescoço e beijou-o.
contro: sua reunião com Esaú. Ao suplicar em vez de testem unhar (w.
8-15). O fato de Esaú correr para o irmão,
5. F ra ca sso (G n 33:1-1 7 a ) abraçá-lo, beijá-lo e chorar deixa claro que
Jacó erguera os olhos e vira anjos (Gn 32:1, havia ocorrido uma mudança em seu cora­
2), chegando até mesmo a ver a Deus face a ção. A porta se abriu para que Jacó falasse
face (v. 30), mas quando viu Esaú e seus qua­ com Esaú sobre o passado e colocasse em
trocentos homens, pareceu perder tudo o ordem as questões de família; afinal, o exér­
que havia ganho em sua luta consigo mesmo cito de Deus estava por perto, e Jacó não
e com o Senhor. Uma coisa é ser abençoado precisava temer. Contudo, em vez de con­
no alto da montanha com Deus; outra bem fessar seus pecados e de dar testemunho da
diferente é levar essa bênção ao fundo do graça de Deus em sua vida, Jacó gastou seu
vale. Jacó falhou consigo mesmo, com sua tempo implorando a Esaú que aceitasse os
família e com seu Deus em vários aspectos. presentes que havia mandado.
Ao tramar em vez de confiar (w . 1 ,2 ). O Jacó disse: "Se logrei mercê diante de ti,
"príncipe com Deus" deixou de reinar e co­ peço-te que aceites o meu presente, por­
meçou a tramar. Como muitos do povo de quanto vi o teu rosto como se tivesse con­
Deus, deixou de viver de acordo com sua templado o semblante de Deus" (v. 10). Jacó
nova posição no Senhor. Ao colocar Raquel havia visto o semblante de Deus, mas não
(sua esposa predileta) e José (seu filho pre­ disse nada sobre isso a Esaú! "Deus tem
dileto) atrás dos outros, criou mais um pro­ sido generoso para comigo" (v. 11), acres­
blema em seu lar, e não é de se admirar que centou, mas não contou exatamente como
os irmãos de José viessem a odiá-lo tanto isso havia acontecido nem deu glórias a
nos anos que se seguiram. Na casa de Jacó Deus. Não contou a Esaú que tinha um
todo mundo sabia, sem sombra de dúvida, novo nome - provavelmente porque, naque­
qual era seu lugar! la ocasião, ainda não estava vivendo de acor­
A o prostrar-se em vez de m anqu ejar do com esse nome. Deus fez dele um prín­
(w . 3-7). Quando o povo do Oriente se en­ cipe, mas Jacó estava agindo como um
contrava, muitas vezes prostravam-se e tro­ mendigo.5
cavam saudações tradicionais ("Saiaam" ou A o p rom eter porém não realizar (w . 12-
"Shalom"); mas a forma como Jacó e sua 17a). Esaú, num gesto de bondade, ofe­
família saudaram Esaú foi mais do que ape­ receu-se para acompanhar o irmão até o Sul,
nas uma questão de tradição. Jacó havia se onde ficava seu lar, no monte Seir, mas Jacó
tornado "príncipe com Deus", mas não es­ não queria passar mais tempo do que o ne­
tava agindo como tal. "Vi servos a cavalo e cessário com Esaú. Assim como sua des­
príncipes andando a pé como servos sobre pedida de Labão, o encontro de Jacó com
a terra" (Ec 10:7), e Jacó era prova dessa Esaú era uma trégua e não uma verdadeira
tragédia. Afinal, o mais velho (Esaú) deveria reconciliação. No entanto, Jacó deu a im­
serv.ir o mais jovem (Gn 27:29), então por pressão de que estava, de fato, rumando
que o irmão caçula precisava prostrar-se? para o monte Seir (v. 14) e ofereceu todas
A força de Jacó estava em seu manque­ as desculpas que conseguiu imaginar para
jar, pois era uma lembrança constante de que Esaú fosse adiante dele e o deixasse
que Deus o havia conquistado e de que ele prosseguir a seu próprio passo. A repetição
podia confiar que o Senhor estaria sempre da expressão "meu senhor", nesse parágra­
com ele. Se Jacó tivesse manquejado, seu fo, pode indicar respeito e cortesia da parte
irmão teria notado e perguntado a causa; de Jacó, mas também sugere que estava se
teria sido uma excelente oportunidade de humilhando novamente. Uma coisa é certa:
Jacó dizer-lhe o que Deus havia feito por Jacó estava enganando Esaú outra vez.
G Ê N E S I S 32 - 34 175

Esaú rumou de volta ao monte Seir, via­ O nome do Senhor não é mencionado
jando para o sul, enquanto Jacó foi para o nenhuma vez nesse capítulo e, sem dúvida,
noroeste, em direção a Sucote, e, depois, a a sabedoria do Senhor também não estava
Siquém. Não há registro algum de que Jacó, presente. Quando desobedecemos ao Se­
em alguma ocasião, tenha visitado o irmão nhor, colocamos a nós mesmos e a nossos
no monte Seir. É provável que depois do en­ entes queridos em perigo. Considere o que
contro dos dois, no funeral de Isaque, não aconteceu a Abraão no Egito (Gn 12:10-20)
tenham mais voltado a se ver (Gn 35:27-29). e em Gerar (Gn 20:1 ss), a Ló em Sodoma
(19:1 ss), a Isaque em Gerar'(Gn 26:6-16), a
6. P r o telaç ão ( G n 3 3 :1 7 b - 3 4 :3 1 ) Sansão na Filistia (Jz 14; 16), a Elimeleque e
Deus havia ordenado que Jacó voltasse a Noemi em Moabe (Rt 1) e a Pedro no pátio
Betei (Gn 31:13) e, depois, a seu lar em da casa do sumo sacerdote (Lc 22:54ss).
Hebrom, onde Isaque ainda vivia (Gn 35:27). Violação (w . 2-5). Por três vezes nessa
Em vez disso, Jacó primeiramente se demo­ passagem, a palavra "violada" é usada para
rou em Sucote e depois se assentou em descrever o ato perverso de Siquém (vv. 5,
Siquém. Em Sucote, o peregrino que deveria 13, 27).6 O jovem príncipe afirmou que a
viver numa tenda (Hb 11:9-16) construiu tomou para si porque a amava e queria que
para si uma casa e abrigos para seus reba­ ela fosse sua esposa. Mas violentar e manter
nhos. (A palavra "Sucote" significa "palho­ a moça confinada numa casa (v. 26) era uma
ças".) Quando se mudou para as cercanias forma muito estranha de declarar seu amor.
de Siquém, Jacó comprou uma propriedade No entanto, seus atos e palavras servi­
e tornou-se um "estrangeiro residente". Esta­ ram apenas para testemunhar que o povo de
va assentando-se naquela terra. Deus e o povo de Canaã tinham padrões di­
E evidente que Jacó não tinha nenhuma ferentes de conduta. Para os hebreus, o ato
pressa em obedecer a Deus e voltar para sexual que violava a lei de Deus profanava a
Betei. E elogiável o fato de ter erguido um vítima e trazia o julgamento de Deus sobre
altar e dado testemunho público de sua fé os culpados. Posteriormente, a lei mosaica e
no Senhor, mas o sacrifício não substitui a suas penalidades procuraram proteger as
obediência (1 Sm 15:22). O nome que deu pessoas ao declarar a conduta sexual impró­
ao altar ("Deus, o Deus de Israel") indica que pria como pecado e como crime (ver Lv 18).
ele se apropriou de seu novo nome, "Israel", O silêncio de Jacó ao ouvir a notícia trágica
mas certamente não estava vivendo de acor­ (Gn 34:5) não foi uma demonstração de in­
do com tudo o que ficava implícito nesse diferença nem de covardia da sua parte. Uma
nome. Pelo fato de haver se demorado nessa vez que seus filhos estavam no campo com
parte da terra, sua filha, Diná, foi violentada as ovelhas e o gado e tendo em vista que não
e dois de seus filhos tornaram-se assassinos. podia fazer nada sem a ajuda deles, foi sábio
Esse desvio do caminho custou muito caro. em esperar.
Descuido (34:1). Diná era ingênua, re­ Dissimulação (w . 6-24). Quando os fi­
belde ou simplesmente ignorante quanto às lhos de Jacó ficaram sabendo o que havia
coisas do mundo? Por que era tão importan­ acontecido, entristeceram-se profundamen­
te para ela conhecer as mulheres daquela te com o fato de sua irmã ter sido violentada
terra e por que sua mãe não a aconselhou e enfureceram-se com o homem que havia
nem mandou algum irmão junto para lhe fa­ feito tal coisa. Em vez de declararem guerra
zer companhia durante aquela viagem de "tu­ imediatamente, fingiram buscar a paz com
rismo"? (Seus irmãos estavam nos campos seus vizinhos e ofereceram fazer negócio com
com os rebanhos.) Em primeiro lugar, o que eles e até mesmo se casar com gente do povo
Jacó estava fazendo demorando-se naquela deles. Tudo o que os homens de Siquém pre­
região pagã e deliberadamente colocando a cisavam fazer era concordar em ser circun-
família em perigo? Deveria estar em Betei cidados. É claro que a circuncisão não seria
conduzindo-os para mais perto do Senhor. suficiente para transformar cananeus em
176 G Ê N E S I S 32 - 34

membros do povo de Deus, uma vez que havia enganado o próprio pai, Jacó não po­
não estavam presentes quaisquer outras das dia repreender os filhos sem incriminar-se a
condições da aliança. si mesmo.
Os cananeus viram nesse acordo uma Sem dúvida, Simeão e Levi foram longe
oportunidade de assimilar Israel e de, aos demais ao assassinar os cananeus e saquear
poucos, tomar para si as terras e riquezas de sua cidade a fim de vingar a irmã, e Jacó
seu povo. Os filhos de Jacó, porém, conside­ nunca se esqueceu disso (Gn 49:5-7). Com
raram-no um meio de enfraquecer os homens sua dissimulação e destruição implacável,
e de prepará-los para uma chacina. Sem sus­ acabaram com o testemunho de Jacó diante
peitar do perigo, os homens da cidade sub- do povo daquela terra. De que adiantava
meteram-se à cirurgia. Jacó construir um altar e adorar o Deus verda­
Vingança (w . 25-31). No momento em deiro diante de seus vizinhos pagãos se seus
que os homens de Siquém estavam sofrendo filhos também agiram como pagãos? No en­
dores demais para se defender, Simeão e Levi tanto, é triste ver que a maior preocupação
- dois dos irmãos de Diná também por parte de Jacó não era recuperar a pureza nem mes­
de mãe - reuniram alguns homens do acam­ mo seu testemunho na terra, mas sim sua
pamento de Jacó e atacaram os siquemitas, própria segurança. Se Jacó e sua família ti­
matando Hamor, seu filho e todos os homens vessem ido a Betei, que era seu lugar, é pos­
da cidade. Em seguida, saquearam o lugar e sível que tal tragédia não tivesse ocorrido.
levaram mulheres e crianças como escravos. Conforme havia dito (Gn 28:1 5), porém,
Foi um ato de perversidade, e, quando Jacó Deus ainda não terminara sua obra na vida
ficou sabendo, irou-se e teve medo. No en­ de Jacó. Ele passaria por sofrimentos e ale­
tanto, ao longo de sua vida, uma vez que grias, mas em tudo o Deus de Jacó se mos­
ele próprio havia tramado intrigas e também traria fiel.

1. Alguns comentaristas tentaram exonerar Jacó dizendo que seu presente não foi um suborno, mas sim uma tentativa de
fazer uma reparação e de compartilhar suas bênçãos com seu irmão. No entanto, a própria declaração de Jacó: "Eu o

aplacarei" (v. 20), deixa claro que o presente era um tipo de propiciação para aplacar a ira de Esaú.

2. T o zer, A. W . A Conquista Divina. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 35.

3. M o rgan, C. Campbell. The Westminster Pulpit. Londres: Pickering & Inglis, v. 7, p. 323.

4. Luz tornou-se Betei, "a casa de Deus" (Gn 28:19); Maanaim significa "os dois exércitos" (Gn 32:1, 2) e Sucote quer
dizer "palhoças" (Gn 33:16, 17).

5. Mesmo que Jacó não estivesse em seu melhor momento, Esaú ainda assim aceitou aquilo que seu irmão estava dizendo

como verdade e recebeu os presentes como uma expressão de amor e de boa vontade. Jacó falou sobre a graça, mas

foi Esaú quem demonstrou graça. Às vezes, as pessoas do mundo fazem o povo de Deus envergonhar-se de suas

atitudes não-cristãs {Gn 12:10-20; 20; 26:6-16).

6. A palavra hebraica usada no versículo 2 e traduzida por "humilhar" significava "violentar", enquanto a palavra usada nos

versículos 5, 13 e 27 quer dizer "tornar impura". Muitas vítimas de abuso sexual confessam terem se sentido "sujas"
por causa do que passaram.
Foi o que aconteceu a Abraão (Gn 13:1-4),
30 Isaque (Gn 26:17), Davi (2 Sm 12), Jonas (Jn
3:1-3), Pedro (Jo 21:15-19) e, então, com Jacó.
Deus falou a Jacó (v. 1). Jacó demorou-
V ocê P o d e V oltar se vários anos num lugar a menos de cin­
qüenta quilômetros de Betel e pagou caro
pa ra C a sa
por sua desobediência.'Então, o Senhor fa­
G ê n e s is 35 - 36 lou com ele e disse-lhe para ir a Betel assen­
tar-se lá. Jacó já sabia que Betel era o lugar
determinado por Deus para ele e sua famí­
lia (Gn 31:13), mas havia sido tardio em
obedecer. "Lembra-te, pois, de onde caíste,
r de Gênesis 34 para Gênesis 35 é como arrepende-te e volta à prática das primeiras
I sair de um deserto e ir para um jardim, de
um pronto-socorro para uma festa de casa­
obras" (Ap 2:5).
Jacó havia construído um altar na pro­
mento. O ambiente de Gênesis 35 é de fé e priedade que tinha comprado próximo a
obediência, e a ênfase é sobre a purificação Siquém e chamou esse altar de "Deus, o
e a renovação. Deus é mencionado dez ve­ Deus de Israel" (Gn 33:20). No entanto, Deus
zes no capítulo 35, e o nome usado para ele não se agradou com esse altar, pois queria
é El-Shaddai, que significa "Deus Todo-Pode­ que Jacó voltasse a adorar em Betel, "a casa
roso". O melhor de tudo é que, no capítulo de Deus". O Senhor lembrou Jacó de sua
35, vemos os peregrinos de Deus fazendo situação desesperadora vinte anos antes e
progresso e chegando ao lugar que Deus lhes de como ele o havia livrado e abençoado.
havia ordenado. Em Betel, Jacó havia feito alguns votos ao
No entanto, o novo passo de fé dado Senhor, e era chegada a hora de cumpri-los.
por Jacó não evitou que passasse por ou­ Muitos dos problemas na vida cristã e
tros problemas e provações. Durante esse na igreja local são resultado da obediência
tempo de renovação, Jacó sepultou o pai e incompleta. Sabemos o que o Senhor quer
sua esposa mais amada e, para aumentar que façamos, começamos a fazê-lo, mas
ainda mais seu profundo sofrimento, seu fi­ então paramos. Quando não continuamos
lho primogênito cometeu um pecado horrí­ a obedecer a Deus e a realizar sua vontade,
vel. Ser um cristão vitorioso não significa até mesmo aquilo que fizemos começa a
escapar das dificuldades da vida e apenas morrer. As palavras de Jesus para a igreja
desfrutar de dias despreocupados. Antes, de Sardis também são adequadas para nós
significa andar com Deu pela fé, sabendo hoje: "Sê vigilante e consolida o resto que
que ele está conosco e confiando que ele estava para morrer, porque não tenho acha­
nos ajudará para nosso bem e para sua gló­ do íntegras as tuas obras na presença do
ria, independentemente das dificuldades meu Deus" (Ap 3:2).
que ele permitir que passemos. O cristão Jacó instruiu os membros da sua casa
que está amadurecendo não ora perguntan­ (w . 2-4). E animador ver Jacó assumir o con­
do: "Como posso sair dessa?", mas sim: "O trole da situação e testemunhar com ousa­
que posso aprender com isso?". dia o que Deus lhe disse e o que o Senhor fez
por ele. Essas instruções aplicavam-se não
1. Um re c o m e ço (G n 35:1-15) apenas às esposas e filhos de Jacó, mas tam­
De acordo com as boas novas do evange­ bém a seus servos de Padã-Arã. Uma vez que
lho, não precisamos permanecer do jeito Jacó possuía grandes rebanhos e muito gado,
que somos. Não importa quantas vezes fra­ provavelmente precisava de um grande nú­
cassamos em nossa jornada com o Senhor, mero de homens para ajudar a cuidar de tudo.
podemos sempre voltar para casa, se nos Jacó pediu um tempo de purificação
arrependermos e obedecermos de coração. para todos, sendo que a primeira coisa que
178 G Ê N E S I S 35 - 36

precisavam fazer era livrar-se de seus ídolos. conhecida e, talvez, a mesma à qual se faz
Raquel havia roubado os ídolos do lar de referência em Gênesis 12:6.
seu pai (Gn 31:19, 34, 35), e Jacó sabia que Deus protegeu Jacó e sua casa (v. 5).
havia outros falsos deuses escondidos no Depois do ataque sangüinário de Simeão e
acampamento. A adoração aos deuses das Levi contra os siquemitas, Jacó temeu ser
nações pagãs sempre foi uma tentação para atacado pelos cananeus (Gn 34:30), mas
os israelitas. Moisés precisou adverti-los so­ Deus cumpriu sua promessa (Gn 28:15) e
bre a idolatria antes de entrarem na Terra Pro­ cuidou de Jacó e de seu povo enquanto se
metida (Dt 7), e Josué teve de desafiar os dirigiam a Betel (Sl 105:7-15). Esse mesmo
israelitas a abandonar seus deuses depois "terror de Deus" foi adiante de Israel em sua
que haviam conquistado a terra (Js 24:14, jornada rumo a Canaã e preparou o caminho
23, 24). Até mesmo Samuel enfrentou esse para que conquistassem a Terra Prometida
problema em seu tempo (1 Sm 7:2-4), e os (Êx 15:14-16; Dt 2:24, 25; Js 2:8-14). Quan­
profetas repreenderam a nação, em várias do o povo de Deus faz a vontade de Deus à
ocasiões, por edificar santuários em lugares maneira de Deus, pode contar com a prote­
altos e ali servir a falsos deuses. ção e provisão do Senhor (Is 41:10, 14; 44:2,
A segunda instrução foi "purificai-vos e 8; 43:1-5). Quando tememos a Deus não pre­
mudai vossas vestes" (Gn 35:2). A maioria cisamos temer a mais ninguém.
das pessoas, hoje em dia, está acostumada a Jacó adorou a Deus (w . 6-8). Deus havia
ter água encanada dentro de casa, sabone­ prometido conduzir Jacó em segurança até
tes perfumados e guarda-roupas cheios, de Betel (Gn 28:15) e cumpriu sua promessa,
modo que nos esquecemos de que os anti­ como sempre faz (Js 21:45; 23:14; 1 Rs 8:56).
gos povos nômades das terras bíblicas não Jacó cumpriu sua parte no acordo ao cons­
possuíam quaisquer conveniências desse truir um altar e liderar toda sua casa em ado­
tipo. Aliás, nossas práticas modernas de hi­ ração ao Senhor. Mais uma vez, Jacó deu
giene e os confortos que temos hoje em dia um novo nome a um velho lugar. Ele havia
eram desconhecidos pelas civilizações oci­ chamado Luz de "Betel, a casa de Deus" (Gn
dentais durante boa parte da história. Aqui­ 28:19) e, então, expandiu esse nome para "o
lo que agora chamamos de necessidade, Deus de Betel". O importante não era o lu­
nossos antepassados consideravam luxos. gar, mas sim o Deus do lugar e o que ele
Nas Escrituras, porém, o ato de lavar o havia feito em favor de Jacó.
corpo e de trocar as roupas simboliza um O povo judeu considerava vários luga­
recomeço. Assim como a sujeira, o pecado res especiais por causa daquilo que Deus
nos contamina e deve ser removido com a havia feito por eles ali - lugares como Betel,
água (Sl 51:2, 7; Is 1:16; 2 Co 7:1; 1 Jo 1:9). o monte Sinai, Jerusalém, o rio Jordão e
Nossas roupas velhas retratam a antiga vida Gilgal. É possível que todos tenhamos luga­
e seus erros (Is 64:6). Mas Deus, em sua mi­ res especialmente significativos para nós por
sericórdia, nos dá "vestes novas" para que causa de experiências espirituais que tive­
possamos recomeçar (Gn 3:21; Is 61:10; Zc mos neles, mas um "lugar santo" jamais deve
3:11-15; Lc 15:22; Ap 3:18). Antes de dar a substituir o Deus Santo. Visitar um lugar es­
lei a-Moisés no monte Sinai, Deus ordenou pecial e tentar rememorar antigas bênçãos é
que o povo se lavasse e trocasse de roupa, viver no passado. Vamos pedir a Deus novas
pois estava prestes a entrar em aliança sole­ bênçãos e uma nova revelação dele!
ne com o Senhor (Êx 19:9-15).2 Não sabemos em que momento Débora,
Todo o povo obedeceu às ordens de Jacó, a serva de Rebeca (Gn 24:59), tornou-se par­
entregou-lhe seus ídolos e jóias identificadas te da casa de Jacó, mas sua presença no
com deuses pagãos (ver também Êx 32:3; acampamento sugere que, àquela altura, a
Jz 8:24-27; Os 2:13). Jacó enterrou tudo sob mãe de Jacó havia morrido. Débora havia
o "carvalho que está junto a Siquém" (Gn ficado com Isaque até Jacó aproximar-se de
35:4), aparentemente uma árvore bastante Hebrom e, então, foi ao encontro do menino
G Ê N E S I S 35 - 36 179

que havia ajudado a criar tantos anos antes. Nascimento (w. 16, 17). Quando Raquel,
Será que foi ela quem contou a Jacó que a amada de Jacó, soube que estava grávida,
Rebeca havia morrido? O carinho com que a notícia deve ter sido motivo de grande ale­
Jacó tratou essa serva idosa é um exemplo a gria para os dois. Dera a Jacó apenas um
ser seguido por todos nós. filho chamado José ("acrescentar") e, ao dar-
Deus apareceu a Jacó (w . 9-15). Em sua lhe esse nome, havia expressado seu desejo
primeira experiência em Betel, Jacó havia de ter outro filho (Gn 30:22-24). Deus res­
visto Deus e os anjos em seu sonho (Gn pondeu a suas orações e deu-lhe mais um
28:12), mas, dessa vez, o Senhor apare­ menino. Assim, Jacó ficou com doze filhos,
ceu-lhe de alguma forma especial e o aben­ os fundadores das doze tribos de Israel.
çoou. Deus reafirmou o novo nome de Jacó Morte (w . 18a-19). Raquel havia dito a
- "Israel" - e seu próprio nome - "Deus Jacó: "Dá-me filhos, senão morrerei". Agora
Todo-Poderoso" (El-Shaddai; Gn 17:1; 28:3; estava prestes a dar-lhe o segundo filho, mas
43:14; 48:3; 49:25).3 Reafirmou, também, ao fazê-lo entregaria a própria vida em troca
a promessa sobre a multiplicação dos des­ da vida da criança (Gn 30:1). Não devemos,
cendentes de Jacó e sua posse da terra, porém, interpretar sua morte como um juízo
assegurando a Jacó que haveria nações e de Deus por causa de sua declaração preci­
reis em meio a sua descendência. Naquele pitada nem pelo fato de ela ter roubado os
tempo, Jacó tinha onze filhos, mas Deus ídolos de seu pai.4 A vida é um mosaico de
ainda lhe daria mais um filho, abençoaria luzes e sombras, de alegrias e tristezas, e o
todos eles abundantemente e aumentaria mesmo bebê que trouxe felicidade a Raquel
seu número. e a seu marido também lhe deu lágrimas.
Como havia feito anos antes em Betel, Fé (v. 18b). Benoni quer dizer "filho da
Jacó ergueu uma coluna de pedra e consa­ minha tristeza" ou "filho da minha dificulda­
grou-a ao Senhor (Gn 28:18). Ele não apenas de" e não é um nome muito agradável para
derramou óleo sobre o pilar, mas também um homem levar consigo ao longo de toda a
um pouco de vinho (uma "libação"). A vida, lembrando-o de que seu nascimento
libação era um complemento que fazia par­ havia contribuído para a morte da mãe. Seu
te dos sacrifícios comuns e era derramada aniversário teria sido obscurecido por um
sobre o altar enquanto o sacrifício queimava profundo pesar. Porém, Jacó estava sempre
(Êx 29:40-41; Nm 6:17; 15:5-10, 24; 29:22- pronto a dar novos nomes, de modo que
38). Era um símbolo de consagração, da vida chamou seu filho de Benjamim, que significa
do adorador sendo derramada para o Senhor "filho da minha destra", ou seja, um filho a
(2 Sm 23:16; Fp 2:17). ser honrado.5O primeiro rei de Israel viria da
A restauração de Jacó havia se comple­ tribo de Benjamim (1 Sm 9), bem como o
tado. Estava de volta ao lugar que Deus ha­ apóstolo Paulo (Fp 3:5).
via escolhido para ele; havia oferecido sua Am or (v. 20). Mais de vinte anos antes,
própria vida e seus sacrifícios ao Senhor; o Jacó erguera uma coluna de pedra em Betel
Senhor havia lhe falado, e as promessas da para comemorar seu encontro com Deus.
aliança haviam sido reafirmadas. Saíra da casa Então, colocou outra coluna para servir de
de Labão e chegara à casa de Deus e, apesar memorial à sua amada esposa, Raquel. Fi­
de ainda ter muito o que aprender sobre sua cava no "caminho de Efrata", outro nome
caminhada com o Senhor, Jacó estava come­ para Belém (Efrata significa "frutífera" e
çando a ser "Israel" e a viver como príncipe Belém quer dizer "casa do pão".) Diz a tra­
em vez de mendigo. dição que o túmulo de Raquel fica cerca de
um quilômetro e meio ao norte de Belém,
2. O u t r o f i l h o (G n 35:16-20) no caminho para Jerusalém, mas de acordo
Passamos agora da voz de Deus para o cho­ com Jeremias, encontrava-se perto de
ro de um bebê e para as últimas palavras de Ramá, cerca de oito quilômetros ao norte
sua mãe. de Jerusalém (Jr 31:1 5).
Se não fosse pelo nascimento de Jesus Ao que parece, portanto, a intenção de
em Belém, a cidade seria lembrada prin­ Rúben era assumir a liderança da família, o
cipalmente pela morte de Raquel. Pelo fato que tornava seu ato ainda mais vil. Assim
de ele ter nascido ali, temos "boas novas de como o filho mais moço da parábola de Je­
grande alegria" em vez de lágrimas de triste­ sus, Rúben não conseguiu esperar para rece­
za. Mateus associou a referência de Jeremias ber sua herança (Lc 15:11-24). Quis tê-la de
ao túmulo de Raquel com o assassinato de imediato.
milhares de crianças inocentes em Belém em A princípio, Jacó não tomou nenhuma pro­
cumprimento às ordens de Herodes (Mt vidência, mas certamente ficou arrasado com
2:18). O nascimento de Jesus trouxe alegria o que o filho havia feito. Rúben demonstrou
(Benjamim) e tristeza (Benoni). ter algum caráter ao proteger José para que
não fosse morto, mas não foi capaz de poupá-
3. O utro pesar ( G n 3 5 :2 1 , 2 2 ) lo da escravidão (Gn 37:20-30). Apesar de
A morte de uma esposa querida é, no míni­ Rúben ser o primogênito, seus irmãos não
mo, uma experiência normal na vida do ser pareciam respeitar sua liderança. Em sua
humano e não costuma trazer sentimentos velhice, Jacó expôs o pecado de Rúben e des-
de culpa, mas o que Rúben fez foi anormal e tituiu-o de seu direito de primogenitura, dan-
repleto de culpa e de vergonha. do-o a José (Gn 48:1-14; 49:3, 4; 1 Cr 5:1, 2).
Rúben era o primogênito de Jacó e, por­ Aqueles que ensinam que nossa dedica­
tanto, o mais velho de seus filhos (Gn 29:31, ção ao Senhor automaticamente nos protege
32). É bem provável que, nessa época, tives­ das dificuldades e das lágrimas precisam ler
se vinte e poucos anos. O episódio com as esse capítulo com muita atenção. Sem dúvi­
mandrágoras em sua infância pode ou não da, Deus havia perdoado Jacó e, com certe­
ser uma indicação de sua natureza (Gn 30:14, za, Jacó estava andando com o Senhor em fé
15). Bila era serva de Raquel e havia dado e obediência. Ainda assim, teve sua cota de
dois filhos a Jacó: Dã e Naftali (vv. 1-8). Tal­ provações. Se obedecermos a Deus apenas
vez a morte recente de Raquel tivesse des­ em função daquilo que ganharmos com isso
pertado em Bila o desejo de estar perto de e não porque ele é digno de nosso amor e
Jacó outra vez, e Rúben usou essa oportunida­ obediência, então nossa motivação e atitude
de para entrar em ação. Uma vez que o tex­ são erradas. Tornamo-nos o tipo de pessoa
to não indica que Rúben violentou a esposa que Satanás acusou Jó de ser (Jó 1:6 - 2:10).
do pai, supomos que ela foi cooperativa.
No entanto, o pecado de Rúben envolvia 4 . O u t r a s it u a ç ã o ( G n 3 5 :2 3 - 3 6 :4 3 )
muito mais do que simplesmente satisfazer Mais de vinte anos antes, Isaque havia pensa­
um desejo lascivo. Isso porque, quando um do estar prestes a morrer (Gn 24:1-4), mas a
filho tomava para si uma esposa do pai des­ morte só veio quando ele estava com cento e
sa maneira, estava declarando que, daquele oitenta anos de idade. Ele foi o patriarca que
momento em diante, era o chefe da família. teve uma vida mais longa e, no entanto, en­
Quando Abner tomou a concubina do rei contramos menos informações sobre ele do
Saul, Isbosete - o filho e herdeiro de Saul - que sobre seu pai, seus filhos e seu neto, José.6
protestou, pois significava que Abner estava Cremos que Isaque e Jacó reconciliaram-
usurpando a coroa (2 Sm 3:6-11). Quando se de todo e que o velho patriarca morreu
Davi sucedeu Saul como rei, recebeu as es­ "avançado em anos" (Gn 25:8), como seu
posas de Saul como se fossem suas próprias pai. Esaú veio do monte Seir para dar seus
mulheres (1 Sm 12:8). O rebelde Absalão pêsames e ajudar Jacó a sepultar o pai na
declarou-se rei ao tomar para si as concubi­ caverna de Macpela (Gn 49:29-32). Esaú era
nas de seu pai (2 Sm 16:20-23), e Adonias, um homem do mundo, não um filho da alian­
ao pedir para si a mão de Abisague como ça, mas ainda assim era filho de Isaque e
esposa, estava desafiando o direito de irmão de Jacó e tinha todo o direito de estar
Salomão ao trono (1 Rs 2:13-25). lá. A morte é uma experiência de todo ser
G Ê N E S I S 35 - 36 181

humano e que traz dor ao coração. Cuidar mas Jacó recebeu do Senhor as bênçãos da
do sepultamento dos mortos é responsabi­ aliança.
lidade de todos os membros da família - Gênesis 36 é um capítulo longo que con­
crentes e incrédulos. tém muitos nomes, mas no que se refere a
No entanto, a morte de Isaque mudou a Esaú, é o fim da história! Os edomitas são
situação de Jacó: ele passou a ser o chefe da citados no Antigo Testamento somente por­
família e herdeiro das bênçãos da aliança. que fazem parte da história de Israel. "Esaú"
Não apenas adquiriu a enorme riqueza de e "Edom", inimigos declarados dos israelitas,
Isaque como também herdou tudo o que são mencionados mais de duzentas vezes na
fazia parte da aliança com Abraão. Seu Deus Bíblia, mas os nomes "Jacó" e "Israel" apare­
viria a ser conhecido como o Deus de cem mais de duas mil vezes! Elifaz, filho de
Abraão, Isaque e Jacó. Esaú, foi o pai de Amaleque, e os amalequitas
Existe um grande contraste entre o regis­ também foram inimigos de Israel (Êx 17:8-
tro da família de Jacó, em Gênesis 35:23-26, 16; Nm 14:39-45; Dt 25:1 7-19; 1 Sm 15).
que apresenta a lista das quatro esposas de Gênesis 37 dá continuidade à história não
Jacó e de seus doze filhos, e a longa lista de de Esaú, mas de Jacó! A oração: "Esta é a
pessoas pertencentes à família de Esaú no história de Jacó" (Gn 37:2) é a décima vez
capítulo 36. em que uma das declarações de "geração"
Há seis listas de nomes, incluindo filhos aparece em Gênesis e apresenta a história de
|vv. 1-14, 20-28), príncipes (vv. 15-19, 29, José, o filho predileto de Jacó. Com todas as
30, 40-43) e reis (vv. 31-39), e parece haver, suas fraquezas e falhas, os filhos de Jacó da-
também, repetição de nomes (compare os riam continuidade à obra de Deus na Terra e
vv. 10-14 com 15-19, e 20-28 com 29, 30). cumpririam as promessas da aliança que
Esaú teve sua cota de bênçãos materiais,7 Deus havia feito a Abraão.

1. Se Jacó estava com setenta e sete anos quando saiu de casa e, uma vez que ficou vinte anos com Labão, isso significa

que estava com noventa e sete anos quando rumou para Betei. Isaque era sessenta anos mais velho que Jacó e,

portanto, estava com cento e cinqüenta e sete anos quando Jacó voltou e tinha ainda mais vinte e três anos de vida

(Gn 35:28). A morte de Isaque é registrada nos versículos 27-29, mas a seqüência dos acontecimentos no relato bíbSico

nem sempre é cronológica. Ver nota 6.


2. Paulo usou a imagem das vestimentas para ensinar sobre a "novidade de vida" para o cristãos (Rm 13:11-14; 1 Co 6:9-

11; Ef 4:17-32; Cl 3:8-17) bem como sobre o novo corpo que receberemos quando Cristo voltar (2 Co 5:1-5).

3. Para os estudiosos da língua hebraica, a interpretação tradicional de El-Shaddai é "Deus Todo-Poderoso" ou "Deus
Todo-Suficiente", o que relaciona a palavra ao termo hebraico para "seio". Assim, ele é o Deus que nutre e provê, que

sustenta e capacita. Estudos recentes sugerem "o Deus da montanha" (força, estabilidade) e "Deus meu destruidor"

(poder contra o inimigo).


4. Alguns traduzem Ben-oni como "filho do meu pecado", relacionando-o ao roubo dos ídoios de Labão. Esse nome

também já foi traduzido por "filho do Sul", uma vez que Benjamim foi o único filho de Jacó que não nasceu em Padã-

Arã. Também foi o único filho ao quai Jacó deu nome.


5. Aqueles que se dedicam aos estudos proféticos vêem nesses dois nomes os dois aspectos da vida e ministério de

nosso Senhor: seu sofrimento (Ben-oni) e sua glória (Benjamim) (ver Lc 24:26 e 1 Pe 5:1.)

6. Os acontecimentos dos capítulos 37 - 40 de Gênesis ocorreram enquanto Isaque ainda estava vivo, mesmo que sua

morte encontre-se registrada nessa passagem. Se Jacó estava com cento e trinta anos quando foi para oEgito (Gn 47:9)

e José com trinta e nove (41:46 [trinta anos de idade] mais sete anos de fartura e dois anos de fome[Gn 45:11J), então

jacó estava com noventa e um anos quando José nasceu. Se José tinha dezessete anos quando foi levado para o Egito

(Gn 37:2), então Jacó estava em Canaã havia onze anos e tinha 108 anos de idade. Seu pai, Isaque, estava então com

168 anos (Gn 25:26) e, portanto, ainda estava vivo quando José foi vendido. Isaque morreu doze anos depois, um ano

antes de José ser elevado à posição de vice-governador do Egito.

A separação de Jacó e Esaú (vv. 6-8) nos lembra o que aconteceu com Abraão e Ló (Gn 13:5-11).
o cerne do Deus da aliança que sempre cum­
31 pre suas promessas.
Para o cristão, existe ainda uma terceira
forma de ler essa história, pois José é uma
A p r es e n t o -lhes o H eró i das ilustrações mais ricas de Jesus Cristo no
Antigo Testamento. José é semelhante a Je­
G ê n e s is 37 sus por ser amado por seu pai e obediente à
sua vontade, rejeitado por seus próprios ir­
mãos e vendido como escravo, acusado fal­
samente e castigado injustamente e, por fim.
elevado de um lugar de sofrimento para um
trono de poder, salvando, desse modo, seu
declaração: "Esta é a história de Jacó" povo da morte. A maior diferença, porém, é
A (v. 2) informa que estamos entrando em
outra seção do Livro de Gênesis dedicada a
que o relato diz apenas que José morreu,
enquanto Jesus Cristo, de fato, deu sua vida
Jacó, que nos foi apresentado quando le­ na cruz, porém foi ressurreto da morte a fim
mos sobre "as gerações de Isaque" (Gn de nos salvar.2
25:19). Contudo, o ator principal dessa se­ Gênesis 37 mostra em detalhes a di­
ção de Gênesis sobre "Jacó" será José, men­ nâmica de uma família cujos membros
cionado duas vezes mais que seu pai nos conheciam o verdadeiro Deus vivo e, ain­
catorze capítulos a seguir.1Jacó não será igno­ da assim, pecaram contra ele e uns contra
rado, porém o centro do palco será ocupado os outros por meio de palavras e ações. A
por José. presença de José naquela casa não criou
A história de José pode ser lida pelo me­ os problemas, mas sim tornou-os aparen­
nos de três formas diferentes. Se a lermos tes. Considere as forças destrutivas ope­
como literatura, descobriremos uma história rando nessa família, forças sobre as quais
fascinante de um pai extremamente amoro­ Deus, em sua graça, prevaleceu para o pró­
so, um filho mimado, alguns irmãos enciuma­ prio bem daquelas pessoas. Onde abun­
dos, uma esposa dissimulada e uma escassez dou o pecado, superabundou a graça (Rm
de alimentos de abrangência internacional. 5:20).3
Não é de se admirar que, ao longo dos anos,
artistas criativos voltaram-se para essa his­ 1 . Ó d i o (G n 3 7 :1 - 4 )
tória em busca de inspiração. Em 1742, "Oh! Como é bom e agradável viverem uni­
Henry Fielding usou o José da Bíblia como dos os irmãos!" (Sl 133:1). Porém, a família
modelo para criar seu personagem Joseph de Jacó não desfrutava da bênção da união,
Andrews. No ano seguinte, Handel compôs pois, desde seu início, era um lar dividido.
o oratório josé. Num período de dezesseis As primeiras esposas de Jacó eram rivais, e
anos, o escritor alemão Thomas Mann es­ o acréscimo de duas concubinas não dimi­
creveu quatro romances baseados na vida nuiu a tensão. Um lar com um pai, quatro
de José. No entanto, Gênesis 37 - 50 é muito mães diferentes e doze filhos tem todos os
mais do que um texto de literatura dramá­ ingredientes para uma porção de proble­
tica, pois ao investigarmos seu conteúdo mas. Infelizmente, Jacó veio de um lar divi­
em mais detalhes, descobrimos uma histó­ dido e trouxe consigo esse mal. Por que os
ria repleta de profundas implicações teo­ irmãos odiavam tanto José?
lógicas. A mão de Deus fica evidente em José possuía integridade (v. 2). Os filhos
cada uma das cenas controlando e prevale­ de Bila eram Dã e Naftali, e os filhos de Zilpa,
cendo sobre as decisões das pessoas e, no Gade e Aser. Ao que parece, José cuidava
final, Deus constrói um herói, salva uma fa­ de ovelhas junto com eles e era seu assisten­
mília e cria uma nação que será bênção para te ou aprendiz. Ninguém sabia, então, que
o mundo todo. Por trás dessa história, está José estava destinado a coisas maiores que
G Ê N E S I S 37 183

aquelas e, no entanto, ele começou como a definição mais plausível parece ser de "um
servo (Mt 25:21). manto ricamente colorido". Exceto pelos
Não era fácil para José trabalhar com seus versículos 23 e 33, o único texto em que
meios-irmãos, pois o modo de vida deles era encontramos esse termo hebraico é 2 Sa­
diferente do seu. Será que os rapazes esta­ muel 13:18, que descreve as vestimentas
vam roubando o pai? Estariam envolvidos da filha de um rei. A "túnica" de José chega­
demais com o estilo de vida do povo daque­ va aos calcanhares e tinha mangas longas.
la terra? Não sabemos quais eram as coisas Era a vestimenta usada por governantes ri­
perversas que faziam, mas, quaisquer que cos, e nem o pastor mais bem-vestido pre­
fossem seus pecados, José achou que era cisaria de algo no gênero para trabalhar nos
preciso que Jacó ficasse sabendo de tudo. campos.
José também sabia o que seus outros irmãos No entanto, Jacó tinha em mente algo
faziam e relatava tudo a Jacó. mais importante do que a última moda
José tinha o direito de denunciar os ir­ quando deu a vestimenta especial a José.
mãos? Sempre o consideramos em alta esti­ É bem provável que fosse a forma de dizer
ma por seu caráter, mas será que, em sua que havia escolhido José para ser seu her­
juventude, não passava de um dedo-duro deiro. Rúben havia perdido sua condição
adolescente? Sem dúvida, não tinha autori­ de primogênito depois do pecado que co­
dade alguma sobre os irmãos e não precisa­ metera com Bila (Gn 35:22), e Simeão, o
va prestar contas do comportamento deles. filho seguinte, havia se envolvido juntamen­
Ia para os campos com eles para trabalhar e te com Levi na matança dos siquemitas.
não espioná-los. Além disso, os quatro primeiros filhos de
Os acontecimentos subseqüentes pro­ Jacó eram de sua união com Lia, uma mulher
varam que, por mais jovem que fosse, José com a qual não havia se casado volunta­
tinha bom-senso e discernimento. Assim, aqui­ riamente. O desejo absoluto de seu cora­
lo que seus irmãos estavam fazendo devia ção era casar-se com Raquel, mas Labão o
ser terrivelmente perverso; do contrário, José havia enganado. Talvez o raciocínio de Jacó
não teria relatado ao pai. Talvez Jacó suspei­ fosse de que, aos olhos de Deus, sua pri­
tasse da maldade dos filhos e tivesse pedido meira esposa era Raquel, e José era o
a José que contasse o que sabia. Certamen­ primogênito de sua união com ela. Assim,
te, o menino não mentiria ao pai e, quando José tinha o direito de ser tratado como
Jacó foi conversar com os filhos sobre seu primogênito.
comportamento, souberam na hora quem Se os irmãos viam a situação desse
havia sido o informante. modo, não é de se admirar que odiassem
José era o filho predileto (vv. 3, 4). Uma tanto José. Jacó sabia dos verdadeiros sen­
vez que havia sentido as tristes conseqüên­ timentos deles e chegou a mencioná-los em
cias do favoritismo no lar em que havia cres­ seu leito de morte. "Os flecheiros lhe dão
cido (Gn 25:28) e no tempo com Labão (Gn amargura [a José], atiram contra ele e o abor­
29:30), Jacó deveria ter demonstrado recem" (Gn 49:23).
discernimento e não ter mimado José como O ódio é um pecado de terríveis con­
fez. Porém, José era filho de Raquel, a espo­ seqüências, pois gera outros pecados. "O
sa predileta de Jacó, e o coração do ser ódio excita contendas, mas o amor cobre
humano por vezes engana a mente e leva as todas as transgressões" (Pv 10:12). "Aquele
pessoas a fazerem coisas inexplicáveis. que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até
Como escreveu Pascal em sua obra Pensees: agora, está nas trevas" (1 Jo 2:9). Em termos
"O coração tem razões que a razão desco­ morais, o ódio no coração eqüivale ao homi­
nhece". Ainda assim, não foi a maneira mais cídio (Mt 5:21-26). "Todo aquele que odeia
sábia de governar seu lar. a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que
Não sabemos, ao certo, como era exata­ todo assassino não tem a vida eterna perma­
mente a famosa "túnica talar" (Gn 37:3), mas nente em si" (1 Jo 3:15).
2 . I n v e j a ( G n 3 7 :5 - 1 1 ) Deus nos fala ainda hoje por meio de so­
O autor de um manual para pregadores do nhos? Ou somos guiados somente pelo Espí­
século xiv escreveu que a inveja "é a mais rito Santo usando a Palavra de Deus ao orar
preciosa filha do diabo, pois segue seus pas­ e buscar a vontade do Senhor? No Antigo
sos ao frustrar o bem e promover o mal".4O Testamento, Deus comunicou-se por meio
autor poderia ter acrescentado, ainda, que a de sonhos em muitas ocasiões, falando tan­
Inveja tem uma irmã chamada Malícia, e que to a crentes como a incrédulos, mas essa
as duas normalmente trabalham juntas (Tt não parece ser a norma no Novo Testamen­
3:3; 1 Pe 2:1). A inveja causa o sofrimento to. Deus usou sonhos para guiar José, o ma­
interior quando os outros são bem-sucedi­ rido de Maria (Mt 1:20-25; 2:12, 13, 19-22),
dos, e a malícia causa a satisfação interior mas não há evidência de nenhuma outra pes­
quando os outros fracassam. Com freqüên­ soa nos Evangelhos ou no Livro de Atos que
cia, a inveja e a malícia geram a maledicên­ tenha recebido orientação divina através de
cia e a crítica injusta, e, quando esses dois sonhos.6
pecados se escondem por trás do véu do Devemos usar de cautela quando as pes­
zelo religioso e da hipocrisia, produzem um soas afirmam que Deus lhes deu sonhos com
veneno ainda mais mortal. instruções e orientações para si mesmas e
De acordo com Max Beerbohm, humo­ para outros, pois os sonhos podem ser in­
rista britânico: "As pessoas que insistem em duzidos pela própria pessoa ou até influen­
contar seus sonhos são um dos terrores à ciados por Satanás (Jr 23:25-28). Já ouvi de
mesa do café da manhã". Será que José fez missionários que conheceram pessoas cujo
bem em contar seus sonhos para os familia­ primeiro interesse em Cristo e na Bíblia ti­
res ou essa foi só outra demonstração de nha vindo por meio de sonhos, mas foi a
sua imaturidade adolescente? Os dois so­ Palavra de Deus que as acabou conduzin­
nhos inevitavelmente irritaram a família e do ao Salvador. Certamente, Deus é sobe­
pioraram as coisas para ele. Afinal, como rano e pode usar sonhos para realizar sua
José poderia se tornar um governante e por vontade, caso não haja nenhum outro meio
que seus irmãos iriam prostrar-se diante disponível, mas sua maneira habitual de co­
dele? Era tudo muito absurdo. Quando José municar-se conosco é pelo Espírito nos en­
relatou o segundo sonho, até o pai ficou sinando a Palavra (Jo 14:25, 26; 16:12-15).
perturbado e o repreendeu.5 No entanto, Mais adiante em sua vida, José interpre­
quando estava sozinho, Jacó meditou so­ taria sonhos de outros homens (Gn 40 -
bre os sonhos. Afinal de contas, Jacó havia 41), mas não há qualquer indicação de que
recebido mensagens de Deus em seus so­ tivesse entendido imediatamente os dois
nhos (ver Gn 28:12ss; 31:1-13), de modo sonhos que ele próprio havia relatado. En­
que talvez fosse o Senhor que estivesse fa­ quanto esperava na prisão, sem dúvida o
lando com José. significado dos sonhos ficou mais claro e
Talvez José pudesse ter sido um pouco serviu para encorajá-lo (Sl 105:16-23). En­
mais diplomático na maneira de relatar seus tender o plano de Deus ajudou-o a decidir
sonhos, mas certamente estava certo em sobre o rumo que deveria tomar ao tratar
compartilhá-los com a família. Não se trata­ com os irmãos.
va de "entusiasmo adolescente", mas sim da O resultado imediato de José ter com­
vontade de Deus. Se os irmãos tivessem pres­ partilhado seus sonhos foi que seus irmãos
tado atenção nesses dois sonhos, estariam passaram a odiá-lo ainda mais e, também, a
mais bem preparados para o que aconteceu invejá-lo secretamente.7 Ele era o predileto
vinte anos depois. Se Jacó tivesse compreen­ do pai, escolhido para receber as bênçãos
dido o significado dos sonhos, poderia ter do primogênito, usava vestimentas distin­
crido que José ainda estava vivo e que o tas e sonhava com coisas estranhas. Por
veria novamente. E claro que é fácil criticar que precisava ser tão especial? O que iria
quando sabemos o fim da história. acontecer?
G Ê N E S I S 37 185

3. V io lê n c ia (G n 37:12-28) de viagem. Quando eles o viram ao longe,


A inveja é um dos frutos da carne, resultante reconheceram-no imediatamente (estava
do coração pecaminoso do ser humano (Mc usando sua vestimenta especial) e começa­
7:22; Cl 5:21). Por causa de sua inveja, os ram a fazer planos.
irmãos de José venderam-no a mercadores A combinação de ódio e inveja é letal.
(ver Mt 27:18 e Mc 15:10, em que se pode Fervilha no coração e espera pela faísca que
observar um paralelo com o sofrimento de causará a explosão. Não foi necessário ten­
Cristo). Seu ódio crescente era o mesmo que tar os irmãos para que fizessem mal a José.
homicídio (Mt 5:21-26), pois, apesar de não Só precisavam de uma oportunidade e vi­
terem assassinado José de fato com as pró­ ram que estava a caminho. Seu comentário
prias mãos, alguns deles haviam feito isso sarcástico: "Vem lá o tal sonhador!" (v. 19)
em seu coração muitas vezes. poderia ser traduzido por: "Vêm lá o espe­
Perguntas (w . 12-17). Ao ler essa seção, cialista em sonhos!". Nessa situação, os so­
surgem várias perguntas. Em primeiro lugar, nhos de José colocaram-no em dificuldades,
por que os filhos de Jacó estavam pasto­ porém treze anos mais tarde, os sonhos de
reando rebanhos a mais de setenta quilôme­ outras pessoas o tirariam de sua situação
tros de casa, quando, certamente, havia bons difícil. "Quão insondáveís são os seus juízos,
pastos disponíveis mais perto de Hebrom? e quão inescrutáveis, os seus caminhos [de
Uma possível resposta: não queriam ser es­ Deus]!" (Rm 11:33).
pionados por ninguém da família. Segunda Qual foi o primeiro irmão a sugerir que
pergunta: por que voltaram à região perigo­ matassem José?8 Não foi Rúben, pois seu
sa próxima a Siquém, já que a reputação da conselho foi que jogassem José numa cister­
família de Jacó entre aquele povo era tão na seca. Rúben planejava voltar mais tarde
terrível (Gn 34:30)? Podemos sugerir como e salvar o irmão, mas, mesmo que conse­
resposta: os irmãos estavam envolvidos com guisse, como poderia levar José de volta
o povo daquela terra e não queriam que Jacó para casa? Jacó certamente descobriria a
ficasse sabendo disso. verdade sobre os filhos e a reação dele cria­
Contudo, há uma terceira pergunta que ria ainda mais problemas dentro da famí­
nos deixa mais perplexos ainda: sabendo lia. É elogiável Rúben ter protegido José da
que seus filhos odiavam José, por que Jacó morte, especialmente porque Rúben era o
mandou que fosse visitá-los sozinho e usan­ filho primogênito que José havia substituí­
do a vestimenta especial que havia causado do (1 Cr 5:1).
tanta irritação nos outros? Um dos servos Indiferença (w . 25-28). Os irmãos de­
de confiança de Jacó poderia ter feito esse vem ter sentido grande prazer em tirar a
mesmo serviço mais rapidamente (José se túnica especial de José e em jogá-lo na cis­
perdeu) e talvez com igual eficiência. A res­ terna vazia. Normalmente, as cisternas eram
posta é que a mão providencial de Deus bastante fundas e tinham uma abertura lon­
estava operando de modo a realizar seus ga e estreita, alta demais para uma pessoa
propósitos divinos para Jacó e sua família subir. Quem caísse ali, precisaria que al­
e, em última análise, para o mundo todo. guém lhe jogasse uma corda e o puxasse
"Adiante deles enviou um homem, José, vendi­ para cima (Jr 38).
do como escravo" (Sl 105:1 7). Deus já havia É difícil entender como aqueles homens
determinado que José devia ir para o Egito, e foram capazes de sentar e comer calmamen­
esse foi seu meio de realizar tal intento. te, enquanto seu irmão sofria e implorava
Conspiração (w . 18-24). É possível que que o libertasse (Gn 42:21). Mas o coração
José tenha levado uns três dias para ir de endurecido pelo ódio e contaminado por
Hebrom a Siquém, mas quando chegou lá, pensamentos homicidas não está propenso
ficou sabendo que seus irmãos haviam se a prestar muita atenção nos clamores de sua
deslocado cerca de vinte quilômetros ao vítima. Contudo, pense no que o próprio
norte até Dotã, o que significou mais um dia povo de nosso Senhor fez com ele! Todos
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nós temos o potencial de agir como os ir­ o que havia se passado, rasgou as roupas em
mãos de José, pois "enganoso é o coração, sinal de lamentação.
mais do que todas as coisas, e desespe­ "O que cobre as suas transgressões ja­
radamente corrupto; quem o conhecerá?" mais prosperará" (Pv 28:13). Essa é a lei imu­
(Jr 17:9). tável de Deus, mas as pessoas ainda acham
Não demorou para que os irmãos avis­ que podem desafiá-la e escapar incólumes.
tassem uma caravana de mercadores midia- No meio dos filhos de Jacó, um pecado le­
nitas9 atravessando a planície, e com isso, vou a outro, enquanto aqueles homens falsi­
Judá teve uma idéia. Podiam vender o ir­ ficavam as provas de que José havia morrido
mão como escravo, livrando-se dele e, ao depois de ter sido atacado por uma fera do
mesmo tempo, ganhar algum dinheiro. Uma campo. Não seria difícil para Jacó identificar
vez que era quase impossível uma pessoa a túnica especial e não teria como saber de
levada para o Egito e vendida como escra­ quem era o sangue nas vestes do filho. Por
vo receber sua liberdade e voltar, não havia mais trágica e traiçoeira que fosse essa dis­
perigo de a conspiração ser descoberta. Eles simulação, Jacó estava apenas colhendo o
se esqueceram de que Deus estava vendo que ele próprio havia semeado. Muit