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PSICOLOGIA ARGUMENTO DOSSIÊ

doi: ISSN 0103-7013


Psicol. Argum., Curitiba, v. 31, n. 72, p. 79-87, jan./mar. 2013

[T]

A queixa escolar: Reflexões sobre o atendimento psicológico


[I]
School complaint: Reflections on the psychological care

[A]
Danilly Rafaelly Martins Cruz[a], Lucivanda Cavalcante Borges[b]
[R]

Resumo
[a]
Psicóloga pela Universidade Historicamente, a atuação do psicólogo na escola é caracterizada por uma prática diagnóstica,
Federal do Vale do São
em que são utilizados testes ou laudos com o objetivo de identificar os principais aspectos
Francisco (Univasf ),
Petrolina, PE - Brasil, e-mail: relacionados ao fracasso escolar e, consequentemente, emitir um parecer sobre os alunos ava-
danillycruz@hotmail.com liados. Consequentemente, na maioria dos casos, os alunos ou seus familiares eram conside-
[b] rados os únicos responsáveis pelo não aprendizado e passavam a vivenciar a exclusão. Este
Mestre em Psicologia Social pela
Universidade Federal da Paraíba estudo teve como objetivo conhecer o modelo de atuação dos psicólogos que atendem crianças
(UFPB), professora assistente com dificuldades no processo de escolarização. Foi realizada uma pesquisa qualitativa, com
da Universidade Federal do
Vale do São Francisco (Univasf),
um roteiro semiestruturado e o uso de um gravador. Foram entrevistados oito sujeitos, de
Petrolina, PE - Brasil, e-mail: instituições públicas de Petrolina (PE), sendo seis psicólogos e dois estagiários de Psicologia.
luci.cborges@ig.com.br Constatou-se que a maioria dos profissionais realiza uma avaliação breve da criança e a enca-
minha para exames e consultas médicas, ou emitem laudos psicológicos. Boa parte dos sujeitos
Recebido: 01/01/2012 relatou não realizar qualquer tipo de intervenção nesses casos, e quando necessário, realizam
Received: 01/01/2012 apenas psicoterapia. [#]
[P]
Aprovado: 27/03/2012
Palavras-chave: Educação. Psicologia escolar. Aprendizagem. Atuação profissional. [#]
Approved: 03/27/2012

[A]
Abstract
Historically, the school psychologist’s performance is characterized by a diagnostic practice, which
tests or reports are used, these in order to identify key issues related to school failure, and thus
give an opinion on the students evaluated. Consequently, in most cases, students or their families
were considered solely responsible for learning and not passed to experience exclusion. This study
aimed to assess the performance of psychologists who treat children with difficulties in the process
of schooling, in public institutions of Petrolina (PE - Brazil). We conducted a qualitative study, with
a semi-structured script and use of a recorder. Eight people were interviewed in public institutions,
six psychologists and two psychology interns. It was found that most professionals conduct a brief
assessment of the child and afterwards they issue psychological reports or lead to medical examina-
tions and consultations. Most of the subjects reported not taking any kind of intervention, in these
cases, when is necessary, they only accomplish individual or group psychotherapy. [#]
[K]

Keywords: Education. Educational psychology. Learning. Professional practice. [#]

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80 Cruz, D. R. M., & Borges, L. C.

Introdução Inúmeras pesquisas sobre o atendimento psico-


lógico a escolares na rede pública de saúde e em clí-
O discurso sobre o fracasso escolar esteve inú- nicas-escolas apontam que a grande demanda por
meras vezes relacionado a fatores extraescolares, esse tipo de atendimento decorre da inadaptação
como características do aluno e problemas fami- do aluno e das dificuldades de aprendizagem (Braga
liares. A partir da década de 70, esse problema se & Morais, 2007; Cabral & Sawaia, 2001).
deslocou da esfera biológica para a cultural, na qual Conforme Braga e Morais (2007), embora tais
principalmente crianças de baixa renda, conside- estudos apontem para a necessidade de investi-
radas como alunos com defasagem sociocultural, gar questões que vão além da dinâmica individual
eram “culpadas” por não conseguirem adquirir os e familiar, ainda é fator presente na atuação dos
conhecimentos que lhes eram transmitidos (Molina profissionais a culpabilização dos alunos, quan-
& Del Prette, 2006). Essa concepção decorre da teoria do atribui origem biológica ou psicológica a esses
da carência cultural, muito criticada por diferentes comportamentos.
autores (Braga & Morais, 2007; Patto, 1990; Sawaya, Os encaminhamentos das crianças que supos-
2000). tamente apresentam dificuldades de aprendiza-
Vários fatores podem ser abordados na análise gem chegam aos profissionais ligados às escolas,
desse problema, porém as reais causas necessitam Unidades Básicas de Saúde (UBS) e outros locais
de reavaliação, com base no conhecimento dos me- que oferecem atendimentos psicológicos (Souza,
canismos escolares produtores de dificuldades de 2007). Embora exista esse tipo de atendimento na
aprendizagem. maioria desses locais, é notório o despreparo de al-
A metodologia utilizada pelo educador pode ser guns psicólogos diante dessa demanda específica.
fator predominante, já que modelos adequados de Assim, para Dimenstein, uma parte deles assume
aprendizagem de um aluno ideal não encontram o modelo clínico liberal privatista em suas práticas
correspondência na realidade, e isso se deve não (Braga & Morais, 2007).
apenas às diferenças culturais, mas recai sobre a Esse modelo consiste numa prática ligada ao
inadequação da escola, visto que ela deveria con- atendimento individual e uma intervenção, biológi-
templar diferentes técnicas e métodos, com o intui- ca ou psicológica, que confere muito tempo e pouca
to de incluir os alunos no processo de ensino-apren- efetividade, visto que não integra a escola e a família
dizagem (Patto, 1997). nesse processo.
Historicamente, a atuação do psicólogo na esco- Consequentemente, uma parte desses profissio-
la é caracterizada por uma prática diagnóstica, com nais realiza atendimento e tratamento baseados em
testes ou laudos visando identificar os principais moldes ou teorias, padronizados, estudados duran-
aspectos relacionados ao fracasso escolar e, con- te a formação. Logo, desconsideram a singularidade
sequentemente, emitir um parecer sobre os alunos de cada processo de aprendizagem e não desenvol-
avaliados. Consequentemente, na maioria dos ca- vem uma intervenção que ultrapasse o espaço de
sos, os alunos ou seus familiares eram considerados atendimento. Assim, o psicólogo não intervém nas
os únicos responsáveis pelo não aprendizado e pas- singularidades, tampouco estabelece o diálogo en-
savam a vivenciar a exclusão (Andrada, 2005). tre os atores envolvidos – que seria uma das formas
Segundo Azevedo (2000), essa prática psicoló- de criar propostas de enfrentamento das dificulda-
gica distorcida decorre da demanda e expectativas des apresentadas pelas crianças.
das escolas. Estas buscam um atendimento indivi- Ao investigar e intervir na queixa escolar, é ne-
dualizado, direcionado apenas ao aluno, no intuito cessário considerar aspectos sociais, políticos e
de solucionar um maior número de “problemas”. O institucionais, além de compreender o ambiente
psicólogo deixa de compreender as relações consti- cultural em que a criança está inserida e conhecer
tuídas no espaço escolar e não desempenha a ação as relações estabelecidas no contexto escolar. Desse
de escutar os atores envolvidos, incorrendo no erro modo, alguns autores propõem uma nova forma de
de atribuir ao próprio aluno e à família a respon- atendimento à queixa escolar que abandona o foco
sabilidade pelo insucesso escolar (Nakamura, Lima, no indivíduo, ultrapassa o consultório e os muros
Tada & Junqueira, 2008). escolares (Braunstein, 2010).

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A queixa escolar 81

O psicólogo escolar/educacional Pesquisas demonstram a produção do fenômeno


diante dessa demanda chamado fracasso escolar, instaurado e sem pers-
pectivas de mudança.
A inserção do psicólogo nas escolas traz benefí- O psicólogo passa a ponderar alguns aspectos,
cios para a construção de uma nova identidade pro- e logo o questionamento frequente se define em:
fissional, antes baseada no atendimento individua- receber, ou não, casos ligados ao tema enfatizado
lizado de “alunos-problemas”. A regulamentação da acima? Em boa parte das oportunidades, o profis-
profissão, no âmbito da educação, aborda a possi- sional o aceita e realiza uma investigação centrada
bilidade de pesquisas, diagnósticos e intervenções na criança para remover o “suposto” obstáculo que
em todos os segmentos do sistema educacional que a impede de aprender e corresponder ao padrão de
participam do processo de ensino-aprendizagem comportamento estabelecido.
(Andrada, 2005). De acordo com Santos (2002), a análise individu-
Em boa parte de suas atuações, o psicólogo edu- alizada é fundamental, contudo outros fatores são
cacional se depara com a demanda da escola por relevantes, como o histórico escolar da criança, suas
laudos e diagnósticos, na expectativa de solucionar experiências anteriores ao processo de escolariza-
problemas de inadequação e dificuldades de apren- ção, sua opinião sobre a queixa, a posição da escola,
dizagem. Esse fato representa o quanto algumas es- dentre outras formas de investigação e avaliação
colas estão à margem das discussões sobre apren- baseadas no contexto em que o discente se insere,
dizagem, incorrendo na prática de encaminhar as de modo a fornecer uma prática sem a reprodução
crianças “indesejadas” aos diferentes tipos de aten- mecânica de técnicas e procedimentos.
dimento em saúde. Ainda segundo esse autor (2002), o ato educa-
Esse encaminhamento acarreta uma série de tivo é ainda um processo homogeneizado, do qual
agravantes, visto que os profissionais de saúde e se exclui a singularidade. A atuação do psicólogo
educação ainda apresentam a visão pautada no pa- deve ser pensada com objetivos terapêuticos, com
radigma normalidade versus anormalidade, no qual intervenções nas relações, nos discursos e nas prá-
se espera um padrão de comportamento “ideal” ticas cotidianas das escolas. Assim, os problemas de
para que exista o sucesso escolar (Andrada, 2005). aprendizagem podem ser identificados na origem
Desse modo, a medicalização passa a ser frequen- do processo, com o intuito de contribuir na trans-
te, tanto quanto a busca por uma causa para tais formação do cenário social.
comportamentos, e assim, como afirmam Collares e Embora a importância do psicólogo seja des-
Moysés (1994), as questões de origem social e política tacada, alguns fatores contribuem para o afasta-
tentam encontrar, no campo médico, causa e solução mento desses profissionais do campo da educação.
para seus problemas. Partindo desse pressuposto, a Aspectos como número reduzido de escolas que
aprendizagem e a dificuldade de aprendizagem são buscam tais profissionais, além das dificuldades de
apontadas como algo individual, isentando o profes- articulação dos profissionais da rede pública de saú-
sor de qualquer responsabilidade no processo desta- de com as escolas, são pontos negativos enfatizados.
cado, o que implica em um erro grave e frequente. Com o objetivo de estreitar as relações, existem
Esse equívoco se reflete nos diagnósticos de fra- políticas públicas de saúde que visam à articulação
casso entre alunos matriculados na 1ª série da rede desses espaços, porém na prática tais ações “esbar-
pública de ensino, em que os alunos apresentam ram” na falta de recursos humanos e na incompre-
algum problema de origem psicológica, biológica ensão de gestores e chefias. Surge a necessidade de
ou familiar, enquanto, segundo Santos, a instituição uma reorientação na formação profissional, bus-
escolar e o sistema educacional são raramente des- cando fomentar a atuação dos psicólogos na área
critos como causadores de tais “problemas” (Braga educacional.
& Morais, 2007). Nesse contexto, o presente trabalho teve como
Boa parte dos pesquisadores, tais como Patto objetivo conhecer a atuação dos psicólogos que
(1990), Braga e Morais (2007), Machado e Souza atuam em instituições públicas de Petrolina (PE),
(1997), enfatiza as reais razões da grande quan- diante da demanda por atendimentos a escola-
tidade de crianças que “não aprendem” ou não se res com supostos problemas ou dificuldades de
adequam aos métodos educacionais utilizados. aprendizagem.

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82 Cruz, D. R. M., & Borges, L. C.

A relevância deste estudo incide em fundamen- Resultados e discussões


tar a necessidade de ações articuladas entre servi-
ços de atenção à saúde e a instituições de ensino, Os sujeitos que participaram desse estudo cons-
já que boa parte desses encaminhamentos não se tituem uma população de adultos jovens, com o pre-
refere aos problemas de aprendizagem e poderiam domínio do sexo feminino. Tendo em vista o número
ser solucionados na própria escola, com família e reduzido de psicólogos entrevistados, foram garan-
professores. Ademais, considera-se necessária a tidos sigilo e anonimato, sem relacionar o sujeito ao
realização de mudanças nos espaços educativos seu respectivo local de trabalho.
e sociais que perpetuam ações que não levam em De maneira geral, percebe-se uma considerável
conta as diferenças na aprendizagem dos alunos, demanda de atendimentos a crianças e adolescen-
promovendo a psicologização e a medicalização tes com queixa de dificuldades de aprendizagem
nas escolas. nesses locais. As instituições chegam a receber de
um a cinco casos por dia. Alguns encaminhamentos
são feitos por escolas, e outros caracterizam uma
Participantes demanda espontânea da família.
Os psicólogos entrevistados têm formação em
Esta pesquisa foi realizada com oito sujeitos Psicologia, mas apenas um possui especialização
atuantes em instituições públicas de saúde, educa- para atender crianças com dificuldades de aprendi-
ção e assistência social na cidade de Petrolina (PE). zagem. Em relação aos atendimentos que realizam,
Nesses locais, foram entrevistados seis profissio- seis dos participantes afirmam atender crianças,
nais e dois estagiários de psicologia. Estes foram jovens e idosos, e os outros dois participantes aten-
incluídos na pesquisa, pois realizam atendimentos dem apenas crianças e seus pais. Ainda sobre a de-
nos locais visitados durante o processo de coleta manda das crianças e adolescentes, prevalecem os
de dados. Os critérios para seleção foram: realizar atendimentos aos do sexo masculino, de diferentes
atendimentos a crianças ou adolescentes em idade escolas públicas e de bairros periféricos. “A maioria
escolar, aceitar participar do estudo e dispor-se a é de meninos, entre 5 e 8 anos... e... a maioria vem dos
receber os pesquisadores. projetos dos bairros periféricos...” (Sujeito 1). “Todos
do sexo masculino, entre 6 e 17 anos... eles vêm de
diferentes escolas públicas, aqui do bairro mesmo...”
Instrumento (Sujeito 2).
Segundo pesquisas realizadas no Brasil, a ques-
Foi utilizado, como instrumento, um roteiro de tão de gênero é algo presente na educação, esses
entrevista semiestruturada. As entrevistas foram dados apontam um fracasso escolar maior entre
realizadas no local de trabalho, individualmente. os meninos. A análise dessa realidade vai desde a
questão cultural da masculinidade até outros ques-
tionamentos estereotipados da passividade femini-
Análise dos dados na. Assim, essa discussão é também necessária no
campo da educação, visto que deve ser priorizada a
A partir do material transcrito, fez-se o desdo- igualdade e a democracia (Carvalho, 2003).
bramento de todas as falas em temas ou unidades Boa parte desses encaminhamentos vem das
de significação, visando atingir uma representação escolas e se refere a dificuldades de aprendizagem,
do conteúdo e de sua expressão, o que possibilitou a comportamentos agressivos, problemas familiares,
organização do material coletado em temas: “causas falta de interesse do próprio aluno e metodologia do
das dificuldades de aprendizagem”, “atuação dos psi- professor em sala. Sobre esses encaminhamentos, a
cólogos”, “contato com os pais da criança”, “contato maioria dos pais desconhece os motivos da queixa e
com a escola ou professor da criança” e “como ava- levam os filhos para o atendimento psicológico sem
lia seu trabalho, em relação a esse tipo de demanda”. ter uma conversa com a escola ou o professor que o
Essas unidades temáticas foram analisadas qualitati- encaminhou ao profissional. Podemos perceber isso
vamente com base em seu referencial bibliográfico. na seguinte afirmação:

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A queixa escolar 83

... Os pais chegam aqui sem saber os motivos do Essa afirmação propõe que a escola também
encaminhamento, e muitas coisas podem ser resol- necessita modificar suas ações, no sentido de per-
vidas na própria escola, como é o caso da falta de ceber sua metodologia e ações diante dos alunos,
limites, que é uma coisa que vem da família e acaba visto que encaminhar para atendimento a maioria
prejudicando a escola... (Sujeito 4). de seus alunos pode representar uma necessidade
de reformulação de sua própria conduta educativa.
Tais dados corroboram aqueles encontrados No entanto, esses encaminhamentos são cons-
em pesquisas como as de Braga e Morais (2007) e tantes nos diferentes locais e isso preconiza o olhar
Souza (2007). faltoso, sendo o aluno culpado pela “não aprendiza-
gem”. Entende-se que lhe falta algo e, por isso, deve-
-se investigar a causa do seu problema, cuja origem
Causas das dificuldades de aprendizagem pode ser biológica, psicológica ou social. Desse
modo, essa demanda cresce desordenada e é uma
Nesta unidade temática, foram consideradas as das principais na maioria dos locais visitados.
dificuldades de aprendizagem como fatores de or- As respostas obtidas assemelham-se aos resul-
dem biopsicossocial, que influenciam na escolari- tados encontrados nas pesquisas citadas neste tra-
zação das crianças. Essas dificuldades decorrem de balho, como a de Braga e Morais (2007) e Souza
diferentes causas, incluindo as relações sociais, a (2007), quando afirmam a existência de uma vi-
metodologia de ensino abordada na escola e ques- são reducionista dos profissionais sobre as causas
tões biológicas e subjetivas da própria criança. das dificuldades de aprendizagem. A maioria deles
Aspectos como nível de renda familiar e escola- aponta o aluno, a família ou a condição socioeconô-
ridade, situação social, falta de informação, desinte- mica como principais causas para o “fracasso esco-
resse por parte de pais e responsáveis, além de pro- lar” das crianças, tornando isenta a instituição esco-
blemas de caráter familiar, foram pontos abordados lar nesse processo.
pelos sujeitos da pesquisa no intuito de justificar as
possíveis causas para as dificuldades de aprendiza-
gem identificadas nos diversos atendimentos reali- Atuação dos psicólogos
zados. Alguns trechos das entrevistas apresentam
esses fatores: “A condição socioeconômica e a falta Nesse aspecto, buscou-se considerar as dife-
de informação dos pais, o nível de escolaridade dos renças dos locais visitados: instituições de saúde,
pais...” (Sujeito 2). “Acredito que a maioria dessas di- educação e assistência social. Isso porque elas são
ficuldades se deve às condições socioeconômicas e o regidas por uma política institucional que deve ser
nível de escolaridade dos pais... a maioria tem pais incorporada em cada tipo de procedimento adota-
analfabetos e as crianças não tem perspectivas, inte- do, porém, demonstraram semelhanças no atendi-
resse... ou objetivos na vida...” (Sujeito 5). mento dessa demanda.
Segundo a literatura enfatizada nesse trabalho Em relação à atuação dos psicólogos, todos rece-
(Braga & Morais, 2007; Patto, 1990; Sawaya, 2000), bem determinada queixa da escola ou da família, e
percebe-se que essas afirmações são decorrentes realizam uma avaliação baseada em uma conversa
de uma visão pautada na teoria de carência cultu- com os pais e com a criança, ou seguem um rotei-
ral, segundo a qual a falta de instrução dos pais e as ro de anamnese preestabelecido, que pouco cum-
condições socioeconômicas são apontadas como a pre o objetivo de traçar um perfil do sujeito. Essa
causa das dificuldades das crianças. avaliação ocorre em apenas um encontro e nenhum
Apenas um dos entrevistados relata a institui- dos entrevistados utiliza testes psicométricos. Em
ção escolar como responsável pelas dificuldades seguida, são transmitidas orientações aos pais, são
demonstradas pelas crianças, conforme trecho a se- emitidos laudos sobre as crianças, ou são realizados
guir: “Acho que a escola é a principal responsável por encaminhamentos para exames, consultas médicas
essas dificuldades, quando não oferece uma educação ou psicoterapia.
de qualidade... alguns professores acabam encami- Os trechos abaixo apresentam alguns pon-
nhando a maioria dos seus alunos e não percebem tos que compõem grande parte do processo de
que existe algo errado nisso...” (Sujeito 4). atendimento:

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84 Cruz, D. R. M., & Borges, L. C.

Primeiro, as crianças passam por uma avaliação se sabe sobre essa queixa e, com base em relatos da
psicopedagógica, com as psicopedagogas, e só de- criança e dos pais, são emitidos pareceres, laudos e
pois elas chegam a mim, só algumas quando têm encaminhamentos. Podemos, então, perceber uma
algum trauma ou problema emocional, algum blo- mudança na atuação do psicólogo, que começa a as-
queio ou deficiência... Faço primeiro uma anamne- semelhar-se à postura médica, contemplando maior
se com os pais, bem detalhada, para investigar a resolutividade e um discurso genérico aplicado sem
causa das dificuldades de aprendizagem da crian- que o contexto e as inserções sociais sejam conside-
ça... Depois, eu converso com a criança, coloco al- rados (Saraiva, 2007).
guns brinquedos na mesa para ela se expressar... No entanto, devem ser incorporados nessa atu-
(Sujeito 4). ação mais elementos, desde um atendimento mais
prolongado a uma análise mais ampliada, que con-
Procuro investigar como foi a vida dessa criança temple mais informações e técnicas, pois a queixa
desde seu nascimento, a entrada na escola, se foi apresentada como dificuldade de aprendizagem
uma gravidez desejada, uma anamnese mesmo. De- pode ter outra origem ou ser solucionada com mu-
pois faço alguns testes, que vou criando na hora, de danças simples.
escrever palavras, desenhar... E sempre oriento os A partir desses relatos, podemos inferir a difi-
pais (Sujeito 6). culdade de profissionais que realizam algum tipo de
intervenção voltada para essa demanda na rede pú-
A partir disso, podemos inferir que a anamnese blica da cidade, o que gera encaminhamentos des-
é utilizada pelos profissionais que buscam investi- necessários para área da saúde, mesmo sem ter sido
gar a história de vida da criança. O primeiro trecho realizada uma investigação detalhada, na perspec-
aborda uma atuação em equipes onde essa triagem tiva multifatorial dos problemas de aprendizagem.
inicial é realizada por outros profissionais, e somen-
te alguns casos são direcionados para atendimento
psicológico. Já no segundo trecho, podemos perce- Contato com os pais da criança
ber no psicólogo uma tentativa de buscar as causas
das dificuldades de aprendizagem através da anam- Todos os entrevistados oferecem acolhimento aos
nese, assim como na observação de atividades dire- pais ou responsáveis, explicam a queixa e realizam
cionadas. “Aqui a gente não faz psicoterapia, então orientações, abordando aspectos observados du-
a gente escuta e encaminha para a policlínica, para rante o atendimento à criança, conforme afirmações
psicólogos, ou para fazer consultas médicas ou exa- apresentadas a seguir: “Sempre realizo o atendimento
mes” (Sujeito 6). e depois dou um feedback aos pais” (Sujeito 6).

Nosso primeiro papel é fazer a escuta, nesse primei- Aqui o trabalho é feito em equipe, depois nós sen-
ro momento, e quando o problema é identificado, a tamos e conversamos sobre os casos para chegar a
gente entra mais com um papel mais psicoterápico uma conclusão sobre esses eles e aconselhar os pais...
mesmo. Aí ele é inserido nos grupos, nas atividades Nosso objetivo é avaliar e orientar, o atendimento é
que nós temos aqui, que vão auxiliar, né? (Sujeito 8). breve... Se for um caso que necessite psicoterapia, eu
encaminho para outro psicólogo (Sujeito 4).
Nesses relatos, podemos identificar uma atuação
mais direcionada ao método psicoterápico. Embora Os entrevistados também apontam a ansiedade
o segundo entrevistado demonstre não realizar em solucionar o “problema” do filho como fator pre-
esse tipo de intervenção, em sua fala deixa claro que dominante nesses pais. Eles insistem em receber
essa seria sua forma de atuação nesses casos. Além algum tipo de retorno desses profissionais (enca-
disso, podemos identificar que existe um (re)enca- minhamento ou orientação), enquanto os entrevis-
minhamento das crianças para a policlínica ou para tados demonstram não saber lidar com essa situa-
exames e consultas médicas. ção, quando fornecem orientações e diagnósticos
Em relação a isso, é importante que o profissio- precoces.
nal psicólogo tenha mais cuidado na investigação Essa ansiedade que envolve os pais acerca do
dos problemas de aprendizagem, visto que pouco desempenho escolar dos filhos é uma das causas

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A queixa escolar 85

da busca pelos atendimentos psicológicos nesses la ver o que tá acontecendo, fazer um contato com o
locais. Desse modo, isso deve ser tratado com cui- professor... (Sujeito 8).
dado, pois muitas vezes essa ansiedade de desem-
penho pode gerar uma pressão exaustiva sobre a Esse desconhecimento do que acontece na esco-
criança. Da mesma forma, o diagnóstico conferido la faz com que muitos psicólogos desconsiderem a
pode representar uma mudança grande na forma importância de um laudo psicológico no meio edu-
como ela é vista e tratada pelos familiares. cacional, muitas vezes entendido como algo defini-
Assim, também é necessário que exista o estabe- tivo, que marca a vida escolar do aluno.
lecimento de um diálogo mais prolongado com es-
ses pais, a fim de conhecer realmente essa deman-
da e poder traçar estratégias capazes de contribuir Como avalia seu trabalho, em relação a esse tipo de demanda
para que as relações familiares intervenham positi-
vamente na vida da criança e em sua educação. Nesse núcleo, é possível observar uma análise
individual da atuação e das condições de trabalho
que a instituição oferece aos usuários desse serviço.
Contato com a escola ou professor da criança Assim, foram pontuados aspectos relativos à forma-
ção e aos atributos físicos do local.
Nessa investigação, foram considerados os con- Dentre os entrevistados, sete destacam as con-
tatos com a escola, como uma conversa com algum dições físicas do local como grande obstáculo nos
representante escolar ou uma comunicação escrita, atendimentos e no desenvolvimento das atividades
visando discutir o caso ou fornecer algum tipo de relativas a essa demanda. Isso também foi observa-
orientação sobre a aprendizagem da criança ou do do durante as visitas.
adolescente. Outro ponto relevante, citado por três entrevis-
Assim, seis dos psicólogos garantem realizar tados, refere-se à formação acadêmica, quando afir-
esse tipo de contato, apenas quando existe a neces- mam não ter tido um maior contato com esse tipo
sidade, mas, logo em seguida, afirmam que em boa de demanda específica, durante a graduação. Esses
parte dos casos não é necessário. Algumas afirma- tiveram apenas aulas teóricas e buscaram conhecer
ções como “... Quando necessário... mas, até agora mais sobre o assunto durante a prática. “É bem com-
não teve necessidade” e “Não, nunca realizei” refor- plicado, primeiro na graduação só temos mais teoria,
çam a ideia anterior. quase nada de prática...” (Sujeito 6).
Apenas dois entrevistados reconhecem a ne- Mesmo assim, seis entrevistados avaliam sua
cessidade do contato com a escola, e esse diálogo atuação de maneira positiva, quando abordam a im-
é realizado por outros profissionais, com o objetivo portância da atuação do psicólogo nas referidas insti-
de agregar dados para a “solução do problema”, não tuições e apontam para a necessidade de mais profis-
promovendo o diálogo entre a escola, a família e o sionais no serviço público. "É um trabalho importante,
aluno, que segundo Andrada (2005), seria funda- deveria ser dada mais importância ao psicólogo na
mental para o desenvolvimento de ações conjuntas, educação, porque esse trabalho é fundamental... Mas
para promover a aprendizagem do aluno: deveriam existir mais psicólogos, pois a demanda é
muito grande e poucos profissionais" (Sujeito 7).
A equipe vai à escola ouvir e conversar com os pro- Apenas um deles reconhece que sua atuação po-
fessores. Porque tem muitos casos de discriminação, deria ser melhor, se houvesse mais investimentos
por isso é importante orientar a escola. Nós tenta- em infraestrutura e formação. Já outro afirma que a
mos ouvir as duas partes – a escola e a família – política institucional é um dos fatores que prejudica
para chegar a uma solução... (Sujeito 4). sua atuação, quando impõe um modelo de atuação
e requer resultados quantitativos dos atendimen-
Fazemos um contato com a escola sim; quando o tos, conforme o trecho a seguir: “... Aqui se prioriza a
problema torna-se mais grave, o setor psicossocial quantidade ao invés da qualidade, temos que atender
é acionado. Então, a assistente social vai até a esco- a todos que chegam...” (Sujeito 6).

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86 Cruz, D. R. M., & Borges, L. C.

Considerações finais Outro fator relevante observado diz respeito à


ausência de falas que contemplem a necessidade de
As questões discutidas a partir das afirmações atuação do psicólogo escolar/educacional no am-
dos participantes apontam resultados semelhantes biente escolar. Todos afirmam que não há recursos
aos encontrados na literatura sobre a atuação do humanos suficientes para a demanda existente nas
psicólogo diante das dificuldades de aprendizagem instituições onde eles desempenham suas ativida-
das crianças. Assim, suas concepções orientam suas des, contudo nenhum afirma que isso poderia ser
ações profissionais, visto que a maioria dos profis- solucionado com a presença efetiva de psicólogos
sionais entrevistados mantêm uma visão clínica e nas escolas.
estereotipada dessas questões, quando apontam Isso reflete o quanto estão “acostumados” a re-
simplesmente o aluno, a família e as condições socio- ceber essa demanda que, na verdade, seria mais
econômicas como causadores dessas dificuldades. bem assistida no ambiente educacional, visto que
Nesse sentido, a atuação deles refere-se a uma aná- o psicólogo nesse espaço estabeleceria ações não
lise superficial dos casos, encaminhamentos, terapia apenas investigativas (que buscam a causa do pro-
individual ou grupal e uma orientação aos pais. blema), mas teria respaldo para intervir, com o in-
Assim, os resultados demonstram a necessida- tuito de promover ações articuladas com os atores
de de se reavaliar do papel do psicólogo que atua envolvidos.
com crianças com alguma queixa escolar. Ele deve Sabe-se que existem diferenças nas representa-
incluir, em sua investigação, mais elementos, dentre ções sociais entre os psicólogos que atuam no ser-
eles, a análise e a intervenção na instituição escolar. viço público e os que atendem em consultórios par-
É preciso que essa análise envolva mais encontros, ticulares. Consequentemente, este estudo pode ser
não se limitando à identificação dos problemas, mas tomado como base ou incentivo a novas pesquisas
também na criação de estratégias com os pais e a es- que busquem analisar tais diferenças e, também,
cola, a fim de recuperar esse diálogo e, assim, sejam aprofundar essas discussões.
superadas as supostas dificuldades.
Constatou-se que todos os profissionais entre-
vistados estão insatisfeitos quanto ao local de tra- Referências
balho, e isso é algo que também influencia a quali-
dade do serviço prestado, já que grande parte dos Andrada, E. G. C. (2005). Novos Paradigmas na Prática do
locais visitados não dispõe de material lúdico e edu- Psicólogo Escolar. Psicologia: Reflexão e Crítica, 18(2),
cativo, não possui uma sala adequada que forneça o 196-199. doi:10.1590/S0102-79722005000200007.
mínimo de privacidade. Desse modo, torna-se qua-
se impossível estabelecer um diálogo eficaz com a Azevedo, A. C. P. (2000). Psicologia escolar: O desa-
criança e seus responsáveis. fio do estágio. Lorena, SP: Stiliano. doi:10.1590/
A formação do psicólogo deve ser revista, por- S0103-65642007000400003.
quanto até hoje é caracterizada por um modelo Braga, S. G., & Morais, M. L. S. (2007). Queixa escolar:
clínico, que, na prática, pode representar um cam- Atuação do psicólogo e interfaces com a educação.
po distinto da educação, porém contempla ações e Revista Psicologia USP, 4, 35-51.
demandas semelhantes. Conforme abordagem reali-
zada nessa pesquisa, instituições de saúde, educa- Braunstein, V. C. (2010). Um atendimento em orienta-
ção e assistência social recebem diariamente essa ção à queixa escolar numa perspectiva winnicottia-
demanda, qualificada como própria da psicologia na: Muito além do indivíduo. In Souza, B. P. (Org.).
escolar/educacional. Orientação à queixa escolar. (pp. 59-78). São Paulo:
A reflexão sobre a necessidade de reorientar a Casa do Psicólogo.
formação dos psicólogos é pertinente, sendo reco- Cabral, E., & Sawaya, S. M. (2001). Concepções e atu-
mendável um desenvolvimento que contemple o diá- ação profissional diante das queixas escolares:
logo entre saúde e educação, ainda durante o pro- Os psicólogos nos serviços públicos de saúde.
cesso acadêmico, pois essa diferenciação “imposta” Estudos Psicologia, 6(2), 143-155. doi:10.1590/
não está presente no cotidiano da maioria das pes- S1413-294X2001000200003.
soas que buscam qualquer tipo de atendimento.

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A queixa escolar 87

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