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Paixão Ardente

Passion
Lisa Valdez

Inglaterra, 1851
Ela não conhecia o prazer... Ele não conhecia o amor...
Apesar de ser jovem, linda e viúva, Elizabeth não tinha planos de se envolver outra
vez com um homem, muito menos imaginava que se deixaria beijar por um
desconhecido em um local público. Porém, ao ver-se perseguida, nos corredores de
um suntuoso museu de Londres, por um cavalheiro atraente e sedutor, ela é incapaz
de resistir ao magnetismo sensual que lhe desperta um desejo novo e intenso. A
cada encontro furtivo e arrebatador, cresce a paixão que une Mark e Elizabeth,
levando-os a descobrir um sentimento raro e precioso. Mas uma vil chantagem
ameaça destruir aquele romance... Na iminência de um escândalo, eles terão de
escolher entre o dever e o desejo, o amor por suas famílias, e o amor que sentem
um pelo outro!

Digitalização Joyce
Prólogo

A carta fatídica
12 de julho de 1824
Querida Abigail,
Tenho novidades! Nem sei por onde começar a contar, minha querida e leal
confidente, minha amiga de infância e minha irmã de coração. Você que tanto me
avisou direta e honestamente sobre o que poderia acontecer caso eu deixasse o
coração guiar minha mente! E quão certa estava você! Agora aqui estou, sofrendo
as conseqüências de meus desejos desenfreados. Já adivinhou a situação em que
me encontro? Não duvido que sim. Entretanto, devo contar-lhe logo, pois tenho
certeza de que seus olhos estão esquadrinhando a missiva com rapidez para
descobrir meu segredo.
Eu, Lucinda Margarita Hawkmore, estou esperando um bebê. Um fato que na
maioria das vezes não é nada inusitado. Mas espere, minha querida, pois agora vem
a revelação que fará seus cabelos arrepiarem. Lembra-se daquele belo jardineiro
que contratei para ressuscitar meu roseiral? Aquele dos olhos incrivelmente azuis e
cabelos negros? Pois é, parece que, apesar de não ser capaz de fazer minhas rosas
crescerem, foi muito bem-sucedido em plantar uma semente de outro tipo, que
agora está florescendo em meu ventre e cujo fruto deverá nascer dentro de dois
meses.
Agora, minha querida, não deve me recriminar. Como sabe, sou inteiramente
devotada ao meu marido, lorde Fentworth. Já lhe dei, inclusive, um herdeiro. E como
ele é louco por crianças, tenho certeza de que aceitará e amará mais esta. Portanto,
nenhum mal foi feito. Eu, ao contrário, não suporto as atribuições e os fardos que
nos impõem os filhos. Como sabe, mal posso suportar o primeiro. Ainda bem que
estou livre por alguns meses!
Aí está, minha querida, você é a única que sabe de meu segredo. Aguardo
uma carta sua em breve, pois preciso saber sua opinião sobre tudo isso. Já posso
até ouvir sua gentil recriminação. Mas, como sempre, estou certa de que me
perdoará.
Com todo amor, Lucinda
P.S.: Tenho certeza de que posso confiar que, após ler esta carta, você a
destruirá.
Capítulo I

Londres, Palácio de Cristal, 4 de maio de 1851


Elizabeth Dare olhou para baixo e viu a mão enluvada pressionando-lhe o
abdômen. Um braço forte envolvia-lhe a cintura, apertando-a com força. Tanto que
podia sentir a pressão do corpo másculo atrás de si.
Será que ninguém estava vendo?
Não. Os espectadores e expositores encontravam-se muito ocupados
tentando segurar os três desordeiros que tombaram sobre a escultura em forma de
âncora, fazendo-a despencar da base, e tomando providências para que nenhuma
das valiosas peças de porcelana fosse danificada. Ocupados demais para notar seu
embaraço, após ter sido literalmente catapultada da frente da escultura, antes
mesmo que pudesse perceber a situação de perigo.
De súbito, a mão moveu-se, deslizando pelo vestido de seda, até envolver-lhe
um dos seios.
Ela sentiu o coração acelerar. Tentou erguer a cabeça para ver o rosto
daquele desconhecido, porém a aba de seu chapéu a impediu. Era como se
estivesse mergulhada em um sonho. Um completo estranho a mantinha cativa em
seus braços e a tocava com intimidade em público! Ele exalava uma agradável
fragrância de verbena. Por que se sentia tão segura?
Ao se virar para encará-lo, seu olhar seguiu a trilha da luva cinza que agora
lhe provocava um dos mamilos. Uma sensação desconhecida penetrou-lhe na pele,
inflamando-lhe os nervos e descendo pela espinha, até fazer suas pernas tremerem.
Liza abafou um gemido. Os dedos dele agora lhe pressionavam os ombros.
Quando fora a última vez que sentira desejo?
O burburinho de vozes chegou a seus ouvidos, fazendo-a despertar daquele
transe. Estava no Palácio de Cristal, o maravilhoso empreendimento do príncipe
Albert, para exibir as novidades mais avançadas do mundo em matéria de
artesanato, artigos têxteis e obras de arte. Tinha vindo até ali para se encontrar com
a prima Charlotte e não para ser acariciada por um estranho...
Azuis. Os olhos que a fitavam eram de um azul vívido e intenso, como as
asas de uma borboleta que certa vez vira voando da janela de seu quarto. Deu um
longo suspiro. Seria capaz de pintar olhos daquela cor? Conseguiria captar a
intensidade daquele olhar? Poderia reproduzir aquelas sobrancelhas espessas e
muito negras que se franziam sob a aba do chapéu? E o que dizer dos lábios
carnudos e sensuais que se curvavam num meio sorriso? Deus do céu! Jamais vira
um homem tão bonito em toda sua vida!
As mãos másculas deslizaram suavemente por seus braços até agarrar-lhe
os pulsos com firmeza. Liza não conseguia se mover, nem emitir som algum.
Apenas conseguia, com muito esforço, manter-se de pé, tremendo, enquanto aquele
olhar implacável a media de cima a baixo.
As pessoas se movimentavam em volta deles. Alguém riu alto e aquilo a
despertou. O estranho lançou um olhar fulminante à fonte do ruído e em seguida
voltou a fitá-la. Por um longo momento seus olhares ficaram presos um ao outro. Era
como se a terra tivesse parado de girar. Por fim, o desconhecido ergueu uma das
mãos até seu chapéu e com um aceno de cabeça girou sobre os calcanhares e se
afastou.
A respiração de Liza voltou ao normal. Seus olhos seguiram a figura alta do
homem enquanto ele se movia agilmente entre a multidão. Quando julgou que iria
desaparecer, ele estacou. Liza sentiu a tensão dominá-la de imediato e arregalou os
olhos quando o homem deu meia-volta e bem devagar começou a caminhar em sua
direção. Era impossível ler a expressão em seu olhar. O que aquele homem estaria
pensando?
Liza deu dois passos indecisos para trás. Em seguida, girou e correu em
direção à outra sala de exposição. Quando olhou por sobre o ombro, ele permanecia
em seu raio de visão, encurtando a distância que os separava, com uma intensidade
predatória no olhar.
Liza continuou correndo, saindo de uma sala para outra sem saber
exatamente onde se encontrava. Por fim, parou próximo a um grupo de pessoas que
ouvia as explicações de um guia com sotaque germânico. Relógios. O rapaz falando
algo sobre relógios suíços. Liza olhou para trás. Um súbito desapontamento atingiu-
lhe o peito. O estranho havia desaparecido. Procurou-o em vão entre as pessoas
agrupadas. De repente, por trás de um antigo relógio de pé, a mão na luva cinza
acenou para ela.
Desapontamento? Não. Alívio, talvez. Por que mentir para si mesma?
Desejava que ele a seguisse. Desejava que a tocasse apenas mais uma vez.
O pequeno homem suíço continuava a falar. A mão enluvada acenou outra
vez, enquanto o pêndulo do relógio balançava para frente e para trás. Liza fixou o
olhar no desconhecido até quase ficar hipnotizada. Ele estava muito próximo, porém
seu olhar fixava-se no guia, como se prestasse atenção a cada palavra. Enquanto
isso, um dos dedos longos introduziu-se dentro da luva feminina e deslizava com
sensualidade pela palma de sua mão. Ela fechou a mão apertando-lhe o dedo, e
observou um músculo da mandíbula máscula contrair-se.
Um aplauso cortês seguiu-se ao final da explanação do guia. Lisa, porém,
continuava a encarar o estranho a sua frente. As palavras saíram-lhe da boca sem
que pudesse evitá-las.
— Seu perfil deveria ser talhado em bronze.
Os incríveis olhos azuis fitaram-na com intensidade.
— Seu corpo deveria estar pressionado contra o meu.
A boca de Liza ficou seca. Sentia-se derreter por dentro.
— O que disse? — perguntou, dando um passo atrás.
— Disse que queria fazer amor com você.
O tom suave da voz máscula fez os músculos de suas coxas tremerem. Liza
mordeu o lábio inferior e engoliu várias vezes antes de arranjar forças para correr e
misturar-se à multidão.
Ela desacelerou o passo ao entrar na galeria principal do Palácio de Cristal.
Permaneceu um momento a observar o reflexo dos raios de sol que penetravam
pela torre em forma de abóbada. Sabia que deveria ir ao encontro da tia. Em vez
disso, olhou para trás.
Ele estava lá. Seguindo-a alguns passos atrás. Um canto da boca sensual
curvava-se em um meio sorriso.
Liza entrou em outra sala mais vazia. Peças de prata sobre pedestais
cobertos de veludo davam ao ambiente um brilho difuso. Parou em frente a uma
escultura etérea e sentiu a presença do estranho atrás de si. Estava tão próximo que
pressionava as várias camadas de saias e anáguas contra suas pernas. Ela mordeu
o lábio inferior. Não reagiu. O que ela estava fazendo? Por que não o impedia de
prosseguir?
Os dedos másculos deslizaram ao longo de suas costas. Em seguida, moveu-
se para o lado dela, observando a estátua.
Liza estudou-o. Era alto, com ombros largos, pernas compridas e um corpo
bem-proporcionado. Estava impecavelmente vestido, com um terno marrom e
calçava sapatos polidos.
— Passei no teste? — o estranho perguntou.
Lisa encarou-o e notou que ele a fitava com intensidade.
— Sim.
As pessoas passavam em volta, mas ela não se importava.
— Ótimo, pois você também obteve minha aprovação. Dizendo isso, puxou-a
de encontro ao peito e beijou-a com tal paixão, que a cabeça de Liza começou a
rodar.
Tentou desvencilhar-se dos braços fortes que a envolviam, mas ele a segurou
com firmeza. Os lábios dele se curvaram mais uma vez naquele meio sorriso que já
lhe era familiar e então enrijeceu ao notar que um grupo de pessoas se aproximava.
Involuntariamente começou a tremer.
— Temor ou excitação? — perguntou ele com o olhar cínico.
— Ambos — a palavra escapuliu de sua boca sem que pudesse evitar.
Ele soltou-a, mas deixou os dedos deslizarem pelos seios dela.
Liza, por um momento, observou o grupo de pessoas admirando o estranho
objeto de arte. Quão diferente se sentia daquela gente! Mas, a bem da verdade, com
exceção de suas irmãs, ela sempre se sentira um peixe fora d'água. E, naquele
momento, aquela sensação intensificava-se. Era como se estivesse se movendo em
um cenário idílico.
Fitou o misterioso estranho. Ele parecia bem real. E, apesar de desconhecido,
sentia como se fosse parte de sua vida. Ele estava recostado em uma pilastra
observando-a. O que estaria pensando? Que ela seria uma cortesã? Que situação
estranha! Logo ela, Elizabeth Dare, filha devotada, irmã dedicada e, principalmente,
uma viúva respeitável!
De repente, Liza sentiu uma necessidade enorme de sair daquele recinto.
Começou a correr de sala em sala. Não sabia para onde ir, nem o que fazer. Por fim,
entrou em uma sala de mobília gótica. Parou em frente a uma pintura enorme
retratando a fachada de um castelo medieval que estava posicionada em um canto
da sala.
Ela pressentiu a presença do estranho antes mesmo que a tocasse. Aspirou o
odor de verbena e por um momento julgou que iria desfalecer.
O estranho abraçou-a e com um movimento rápido puxou-a para trás do
quadro da fachada.
— Linda — disse ele com voz rouca. — Quero beijá-la agora.
Lisa cerrou as pálpebras e sentiu o frio da parede as suas costas. Mesmo
com a iluminação fosca, ela podia sentir a intensidade daqueles olhos azuis. Se ele
não a mantivesse firmemente segura pelos ombros, teria deslizado até o chão.
Tentou emitir algum som, porém as palavras morreram em sua garganta.
A voz dele soou baixa e muito calma, enquanto com uma das mãos
desamarrava a fita do chapéu que ela usava.
— Se quer dizer não, diga agora ou nunca mais.
Liza encarou-o. Sua respiração estava acelerada. Sentia-se em uma
encruzilhada. Aquele era o momento de retroceder. Jamais se imaginara outra vez
em situação de intimidade com nenhum homem. E ali estava ela. Na mais
inacreditável e inusitada situação. Aquele homem, aquele momento, aquela
circunstância jamais tornaria a acontecer. Seria capaz de fugir? Todas as moléculas
de seu corpo imploravam que ficasse.
Ela ergueu uma das mãos e, segurando o chapéu, retirou-o e jogou-o ao
chão, deixando a cascata de cabelos cair sobre as costas.
No momento seguinte a boca sensual do desconhecido tomava a sua. O
corpo rijo pressionava o seu. Ela mal conseguia respirar. Mas não importava. Seu
cérebro não precisava mais de oxigênio, pois tinha parado de raciocinar.
O estranho abraçou-a com força, como se quisesse absorvê-la por todos os
poros, enquanto sua língua percorria todos os cantos da boca feminina. Com uma
das mãos acariciava-lhe um seio, depois outro. Liza cogitou se seria possível morrer
de amor. Ela mal podia respirar. Todo seu corpo estava tomado por sensações
maravilhosas e alucinantes. Abraçou-o com força, sentindo os músculos das costas
do estranho vibrarem sob seus dedos. Aquela união de dois corpos a levava ao
delírio.
Inundada pelo êxtase, rendeu-se por completo àquele momento sublime e
pensou que enfim encontrara o verdadeiro sentido da vida.
— E então? Qual a aparência da srta. Charlotte Lawrence? Do lado de fora
do Palácio de Cristal, Mark caminhava ao lado do irmão.
— Não sei. Não a vi.
— Como não? Ela deveria estar no salão das porcelanas.
— Pois não estava.
— E o que ficou fazendo esse tempo todo lá dentro, então? — perguntou
Matthew, colocando as mãos nos bolsos da calça. — Vou acabar chegando
atrasado ao chá na casa de Rosalind.
— Você não acreditaria se eu lhe contasse. Vamos dizer apenas que
encontrei a mulher mais linda de todo universo.
— O quê? E como conseguiu o meu querido irmão essa façanha em meio a
todos os espectadores do Palácio de Cristal?
Eles acenaram com cortesia para duas matronas que passavam.
— Foi mais fácil do que imagina — respondeu Mark.
— Ah, essa história eu faço questão de ouvir.
— Nada disso. Você está atrasado para o chá. Matthew riu, enquanto erguia
o braço para o cocheiro.
— Conte-me no caminho — falou enquanto subia na carruagem com o brasão
dos Hawkmore.
— Vamos à casa dos Benchley — instruiu Matthew ao cocheiro, enquanto os
irmãos se acomodavam no interior do veículo.
Sentados um em frente ao outro, ambos descansavam os pés nos
respectivos assentos contrários. Eles sempre viajavam assim, desde a infância.
Mark mantinha os braços cruzados, enquanto o irmão reclinava-se, relaxado, no
assento.
— E então? — perguntou Matthew. Mark deu de ombros.
— O que quer que eu diga? O dia foi bem mais prazeroso do que jamais
esperei que fosse.
— Você é capaz de ser muito hilariante quando quer. Agora deixe de rodeios
e conte-me os detalhes.
— Eu a beijei atrás de um quadro enorme com a fachada de um castelo
medieval, no salão de mobília gótica. Tudo aconteceu muito depressa e
silenciosamente, dadas as circunstâncias. — Ele fez uma pausa. — E foi o melhor
encontro de toda minha vida.
— Você está exagerando. Ou então é uma brincadeira. Mark meneou a
cabeça em sinal de negativa e olhou para fora da janela, sem enxergar a paisagem.
Seu pensamento se concentrava na pele alva e macia, na boca carnuda e sensual
daquela desconhecida.
— Não. Foi melhor do que bom. Melhor do que magnífico. Melhor do que
qualquer coisa.
As feições de Matthew se iluminaram.
— Qual é o nome dela? Quem é?
— Não faço a menor idéia. O irmão franziu o cenho.
— Você teve uma mulher maravilhosa nos braços e não sabe quem ela é,
nem onde encontrá-la?
Mark jogou o chapéu sobre o banco.
— Exatamente.
— Muito bem. Pode começar a me contar. Como ela é? — Matthew inquiriu.
Mark sentiu o coração acelerar.
— Ela é linda, sensual, tentadora... Tem olhos cor de mel, expressivos e
convidativos. É diferente de todas as moças que já conheci. Tem a pele perfumada,
um sorriso cativante, uma voz inebriante.
— É jovem?
— Sim, e eu diria que é viúva. Usa uma fita preta amarrada no antebraço.
— Uma viúva jovem e linda — observou Matthew, com ar sonhador. —
Parece que você encontrou uma prenda, meu irmão.
As lágrimas de Liza mancharam o lenço de linho impecavelmente branco que
o estranho lhe oferecera. Ela olhou para a letra "M" bordada no lenço. Estava
sentada em um banco do salão mais movimentado do Palácio de Cristal, mas a
única coisa que conseguia enxergar era aquela inicial. Seu polegar movia-se sobre o
bordado em linha azul-marinho, seguindo os contornos da letra. Quem seria ele?
Onde estaria agora? Estaria pensando nela? Levou o lenço ao nariz e fechou os
olhos ao sentir a fragrância de verbena.
— Misericórdia! Onde você se enfiou? E onde está Charlotte? Liza abriu os
olhos para encontrar a tia sentada a seu lado. As
faces de Mathilda Dare estavam rubras e sua respiração saía entrecortada
como se tivesse participado de uma maratona.
— Desculpe, tia Matty. Charlotte não apareceu e eu... Bem, acho que fiquei
atordoada com todo esse movimento.
— Oh, nem me fale em movimento... Deixe-me pegar meu leque antes que eu
desmaie.
Liza deslizou o lenço do estranho discretamente para dentro do bolso da saia.
Não queria que a tia o visse e começasse um interrogatório. Não poderia falar sobre
isso. O simples pensamento a perturbava.
Agitando energicamente o leque negro que sempre carregava consigo,
Mathilda fechou os olhos. As plumas azuis de seu chapéu balançavam devido à
brisa que criava.
Por mais que Mathilda Dare ameaçasse desmaiar durante a vida inteira, Liza
jamais presenciara tal acontecimento, portanto não estava preocupada com a
encenação da tia.
— Está bem. Já me recuperei — anunciou a tia dramaticamente, virando-se
na direção da sobrinha. — Agora, conte-me onde estava. — Ela parou ao fitar a
sobrinha. — Deus do Céu! O que lhe aconteceu?
Liza prendeu a respiração alarmada. Seu coração batia descompassado e ela
levou uma das mãos à face. Santo Deus! Será que sua aparência denunciava o que
acabara de acontecer?
Mathilda apontou para o canto da boca de Liza.
— Tem uma marca vermelha aí. — Inclinou-se em direção à sobrinha e
ergueu o monóculo para examinar melhor. — Parece uma mordida!
Liza levou a mão ao peito. Ela odiava contar mentiras.
— Eu... quando estava aguardando Charlotte no salão de porcelanas uma
estátua despencou da base bem na minha frente. Achei que havia escapado
incólume, mas, pelo visto, algum pedaço dela esbarrou em mim.
Mathilda baixou o monóculo e afastou-se.
— Que coisa horrível! Você poderia ter perdido um olho — disse, abanando-
se com mais força ainda. — Esta exposição será um completo fracasso se os
organizadores não proporcionarem segurança aos visitantes.
Os braços fortes daquele estranho a seguraram com tamanha firmeza, que
Liza não sentiu um pingo de medo.
— É bastante seguro, tia. A estátua não teria caído se não fossem três jovens
arruaceiros.
Matty deu de ombros.
— Essa juventude rebelde e repugnante de hoje em dia — vociferou a tia. —
Eu mesma fui atropelada por um cavalheiro insolente que quase arrancou meu
dedão do pé fora e nem desculpas pediu. — Ela balançou a cabeça. — Aliás, nem
sei por que estou lhe creditando esse título. Ele estava com tamanha pressa, que
não via nada na frente.
Liza amassou o lenço dentro do bolso. Um cavalheiro apressado. Seria o
estranho?
— Não precisamos voltar — murmurou Liza quase para si mesma.
— Não precisamos voltar aqui? — A tia fitou-a surpresa. — Bem, por mim,
nem teria vindo. Fizeste sacrifício apenas por você. Pelo seu amor à arte. Até
combinei com Mary e Agnes Swittly de nos encontrarmos aqui durante toda esta
semana. — Mais abanadelas. Mais plumas esvoaçantes. — Devo cancelar o
encontro com elas, então? Apesar de elas terem de recusar vários outros convites
para se encontrarem comigo aqui. Mas se é esse seu desejo...
Liza não era ingênua. A tia e suas irmãs eram inseparáveis e a maioria de
seus eventos sociais consistia de visitas mútuas. Além disso, o que tinha a recear?
Apesar da experiência que acabara de viver ter sido censurável, ela e seu
amante se separaram tão rápido quanto se encontraram. Aquela foi uma experiência
única na vida. Jamais voltaria a encontrá-lo.
Ela deu umas palmadinhas na mão da tia.
— É claro que não precisa mudar seus planos por minha causa. Estava
apenas pensando na senhora. Pobrezinha, quase teve o dedo arrancado!
Matty fez uma expressão de puro sacrifício.
— Oh, sim. Meu pobre pé. E você quase ficou cega! Mas, para sua felicidade,
minha querida, enfrentarei esta horda de amantes da arte. — A tia pousou uma das
mãos sobre a de Liza. — Além do mais, temos que correr alguns riscos na vida. Só
porque.teve seu olho quase arrancado, não quer dizer que deva se fechar para o
mundo e esconder-se no campo como costuma fazer. Não. — Matty balançou a
cabeça. — Não permitirei que faça isso.
— Não permitirá?
— Definitivamente não.
Liza ficou em silêncio por alguns instantes. A tia possuía o poder espantoso
de mudar uma situação. O mais espantoso era que ela própria acabava acreditando
em suas justificativas.
— Muito bem, então — disse Liza. — Está decidido. Voltaremos amanhã.
— Claro, minha querida.
A tia parecia ter esquecido do tempo. Liza sorriu.
— Não acha que devemos ir? Charlotte não chegou até agora e estou certa
de que não virá, tendo em vista o adiantado da hora.
— Oh! — exclamou Matty. — Essa Charlotte Lawrence! Não entendo como
você consegue ter tanta paciência com sua prima. Ela jamais pintará flores em
porcelana tão bem quanto você, querida. — Liza ajudou-a a levantar-se. — E
acabamos perdendo o chá. Não admira que eu esteja a ponto de desmaiar.
Ele desejava intensamente vê-la de novo. O que estaria fazendo naquele
exato momento? Mark assoviava enquanto subia de dois em dois os degraus de sua
casa. O mordomo, Cranford, mantinha a porta aberta para ele.
— A condessa se encontra na biblioteca, milorde.
O humor de Mark de súbito mudou. Ele franziu o cenho, enquanto entregava
as luvas e o chapéu ao mordomo.
— Obrigado, Cranford.
Droga! A última pessoa que gostaria de ver naquele momento era sua mãe.
Desejava ficar sozinho... para pensar nela.
— Devo trazer alguns refrescos, milorde?
— Não. Minha mãe não vai demorar — disse em voz alta, enquanto
atravessava a biblioteca.
Lucinda Hawkmore encontrava-se estirada em um sofá com um copo de
conhaque na mão.
— Olá, meu filho. Isso é que chamo de uma recepção calorosa. Mark sentou-
se em uma poltrona diante da mãe e cruzou as pernas, encarando-a.
Lucinda lançou um olhar de desdém às botas do filho e em seguida em torno
do aposento.
— Quando vai vender esta casa minúscula e mudar-se para algum lugar mais
condizente com sua posição? Fico envergonhada de ser vista aqui.
— Então por que vem? Lucinda não lhe deu ouvidos.
— Você não consegue nem se divertir adequadamente aqui. — Ela apontou
em volta do aposento com o copo. — É uma caixa de fósforos.
— Não costumo vir a Londres para me divertir. Venho sempre a trabalho.
— Trabalho! — Lucinda fez um gesto de escárnio. — Que burguês! Como se
precisasse trabalhar.
Mark cerrou os dentes.
— Divirto-me na fazenda Hawkmore e trabalho porque amo a arquitetura.
Agora, mãe, o que deseja?
Lucinda deu de ombros.
— Quando se casar, vai precisar de uma casa adequada em Londres. Por
que não a constrói você mesmo? — Tomou um gole da bebida. — E então, o que
achou da sita. Lawrence? É uma moça adorável, não é mesmo?
— Não saberia lhe dizer. Não a vi.
— O quê? — Lucinda aprumou-se no sofá. — Abigail contou-me que ela
estaria na exposição. Você não viu uma jovem com um chapéu amarelo e uma
pluma escarlate?
— Já lhe disse, mãe. Ela não estava lá. — Mark lembrou-se de um par de
olhos cor de mel, circundados por longos cílios negros. — De qualquer forma, não
importa.
— Como assim? Não importa? O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que amanhã vou oferecer a sua querida amiga Abigail uma
substancial soma de dinheiro em troca daquela carta.
— Ela não se importa com dinheiro. O que deseja é um título para a filha. —
Lucinda tomou outro gole antes de perguntar: — Quanto dinheiro?
Ele pretendia oferecer quinze mil libras. Mas agora sentia uma necessidade
ainda maior de livrar-se daquele enredo. Não queria pensar em mais nada, nem em
mais ninguém, além dela.
— Vinte e cinco mil libras devem ser suficientes. Lucinda ofegou.
— Vai oferecer vinte e cinco mil libras àquela miserável? Ela está me
chantageando e você vai oferecer-lhe uma fortuna?
A fúria de Mark aflorou.
— Chantageando você? Diga-me, mãe, que preço a senhora está pagando
pela chantagem da sua amiga?
— Abigail Lawrence não é minha amiga há anos — argumentou Lucinda
arrogante. — Acho mesmo que nunca deve ter sido. Ela era de uma classe inferior a
minha. Mas eu era jovem e não reconhecia que não poderia ter nenhuma afinidade
com a filha de um comerciante, não importa quão rico fosse.
Mark cerrou os punhos.
— Oh, mas ela era sua confidente mais confiável. Sua irmã de coração — ele
vociferou antes de desferir um chute na mesa de centro entre eles.
Lucinda não se abalou com o gesto de fúria do filho.
— Quando descobri meu erro, eu a dispensei e em seguida toda a nobreza
fez o mesmo. Ela achava que iria arranjar um marido com um título por meu
intermédio. — Lucinda arqueou as sobrancelhas. — Pus um fim naquela amizade
sem sentido.
Levantando-se, Mark afastou-se da mãe e sentou-se em sua escrivaninha.
— Sua presunção é espantosa, mãe. Apesar de ser a única culpada dessa
situação, sou eu quem está sendo forçado a casar-se com a filha de Abigail. Ela não
está chantageando você e sim a mim. A mim e a Matthew. Mas, no que depender de
mim, ele jamais saberá.
Lucinda fitou o filho com frieza.
— Bem, eu tenho uma reputação a zelar, mesmo que não se incomode com
isso.
Mark soltou uma gargalhada.
— Sua reputação! A senhora pisou em sua reputação tantas vezes e com
tamanha energia, que se torna difícil acreditar que se preocupa com ela. Imagino se,
depois de tudo isso, ainda existe alguma reputação para zelar.
Lucinda sorveu o restante da bebida de um só gole, antes de depositar o
copo na mesa.
— Como você se parece com seu pai! Deus me proteja, você se torna a cada
dia mais parecido com ele.
— Aí é que a senhora se engana, mãe. Não sou tão parecido com ele a ponto
de me deixar destruir. — Mark sentia a respiração ofegante e tentou acalmar-se.
Não iria deixar que ela o provocasse com uma discussão sobre o pai. Não naquele
dia especial. — Saiba que não ligo a mínima para sua reputação. Nem tão pouco
estou preocupado comigo. Minha preocupação é com Matthew. Ele é meu irmão e
quero poupá-lo da revelação ultrajante de sua paternidade.
Mark fechou os olhos e imaginou o irmão tomando chá em casa da noiva,
lady Rosalind. Matthew estava tão apaixonado por ela! Olhou para a mãe e viu-a
pondo as luvas. Ótimo, ela estava de partida.
Ele gritou para a mãe que já estava em pé junto à porta.
— Lorde Benchley jamais permitiria que Rosalind se casasse com Matthew se
soubesse da verdade. Jure para mim que só escreveu uma única carta.
Lucinda virou-se para encarar o filho com os olhos verdes frios, mas não
respondeu.
O cenho de Mark franziu-se ainda mais.
— Diga-me, mãe. Mais alguns esqueletos vão sair de dentro do armário?
— Não. Fui estúpida uma única vez.
Mark sentia uma necessidade premente de ficar sozinho. Um segundo
depois, a porta da biblioteca bateu com força.
Ele respirou fundo e afastou a imagem da mãe de sua mente. Recostando-se
na cadeira, cerrou os olhos e deixou a imaginação voltar ao Palácio de Cristal. Como
não a notara de imediato? Deu graças a Deus pela presença dos jovens arruaceiros,
pois se não fosse a queda da estátua ele não a teria notado. Reagira por instinto,
puxando-a para longe do perigo.
No momento seguinte, tomou consciência da maciez do corpo dela, de seu
perfume. Aquela combinação deixou-o zonzo e quando ela se virou ele fitou a face
do desejo.
"M" de mistério.
Vestida em sua camisola e deitada na cama, Liza fitava o bordado no lenço
branco contra a vela acesa sobre o criado-mudo e pensava em seu homem
misterioso. O tecido era da melhor qualidade. Ela levou-o ao nariz e inalou seu
perfume. Seus olhos se fecharam. Com um suspiro, levou o lenço ao peito e
abraçou-o.
Ele a fizera sentir-se viva como jamais se sentira antes. Há quanto tempo se
sentia entorpecida? A resposta veio rápida. Desde seu casamento. Durante três
longos anos, seu marido a tratara com a mais pura indiferença. Jamais fora cruel,
nem tampouco fora gentil. Era apenas desinteressado. Desempenhava seu papel de
marido como se fosse uma obrigação. E, noite após noite, ano após ano Liza
sufocara em silêncio a aversão que seu corpo sentia por ele. Ela teria suportado
aquela situação se ao menos tivesse tido um bebê. Alguém para cuidar e amar. Mas
nem isso o destino quis lhe dar.
Não derramou uma lágrima quando o marido morreu. Mas naquela tarde
chorara.
E o estranho que encontrara era a encarnação dos sonhos que há muito
tempo esquecera. Ela quase podia sentir sua boca sobre a dela. Traçou com um
dedo o contorno dos lábios. Os dedos másculos daquele homem a haviam tocado
com tal intimidade como se ela fosse propriedade dele. Não houve um traço de hesi-
tação naquele toque. Ele a beijara com uma paixão tão veemente que não admitira
recusas, exigindo uma entrega incondicional. Em alguns minutos alcançara o êxtase
que jamais sentira.
Santo Deus! O que acontecera com ela? Entregara-se a um estranho! Mal
podia acreditar no que fizera. Elizabeth Dare, uma mulher sempre tão comedida.
Tão cumpridora de seus deveres de filha, irmã e esposa. Como podia ter se igualado
a mais vulgar das cortesãs?
Mas aquilo só poderia ter acontecido com ele, pensou. Jamais aconteceria
com qualquer outro homem. Ele era tão raro e irresistível quanto um meteoro
cruzando os céus.
Sua existência sempre tão pacata e monótona fora de repente atingida por
um terremoto. Deveres e obrigações sempre nortearam sua vida. E então, no
Palácio de Cristal, encontrara o prazer.
Liza dobrou o lenço com cuidado e colocou-o embaixo do travesseiro. Talvez
jamais voltasse a encontrar aquele estranho, mas o odor de verbena a faria lembrar-
se dele para sempre.
Virou-se de lado e encarou a chama da vela. No dia seguinte voltaria ao
Palácio de Cristal. Uma onda de excitação atingiu-lhe o peito. Um par de olhos
incrivelmente azuis fitando-a com intensidade surgiram em sua mente. Lembrou-se
da curva dos lábios sensuais, do ângulo de sua mandíbula. A despeito da insensatez
daquela situação, ansiava por encontrá-lo mais uma vez.

Capítulo II

Mark passou mais uma vez pela galeria principal do Palácio de Cristal,
observando com cuidado as pessoas que lá se encontravam naquele fim de manhã.
O lugar parecia mais concorrido do que no dia anterior. Onde estaria ela? Já estava
procurando há mais de meia hora. Um sentimento de frustração atingiu-lhe o peito.
Por que achara que seria tão fácil encontrá-la?
E se nunca mais a visse? Exasperado, afastou tal pensamento da mente. E
se ela estivesse lá? Eles poderiam caminhar o dia inteiro sem se encontrarem.
Tomou uma decisão. Ficaria em um local específico e aguardaria até que ela
aparecesse. A questão agora era onde ficar. No salão de exposição de porcelanas?
De prataria? Ou no salão de mobília gótica? Tomou uma decisão rapidamente. Sim,
ficaria no salão de mobília gótica. Afinal, aquele era o lugar deles.
Os ombros de Mark tensionaram enquanto seguia adiante. Ela viria. Tinha
que vir. Só precisava de um pouco de paciência. Ele odiava esperar.
Dezenas de pessoas se amontoavam em frente a cada peça exposta. No final
do salão um pequeno grupo se encontrava em frente a um oratório antigo. O olhar
de Mark fixou-se de imediato na figura feminina vestida de azul escuro. Os músculos
de sua mandíbula se contraíram. Quando o grupo se dispersou em direção a outra
peça, pôde ver a fita preta em volta do braço dela.
Seu corpo relaxou e o sangue pôde circular outra vez em suas veias. Ele a
encontrara afinal! Uma sensação de alívio fluía por seu corpo como as ondas do
mar. Alívio e outro sentimento indefinível que o fez sentir vontade de rir. Retirando
as luvas e desabotoando o sobretudo, ele se aproximou bem devagar.
Ao chegar bem perto, levantou uma das mãos e deu um suspiro. Seus dedos
tocaram-lhe os ombros com suavidade e em seguida deslizaram pelas costas
esguias.
Liza enrijeceu e depois visivelmente relaxou. Ele permanecia atrás dela
ocultando-a das pessoas que se encontravam no salão. Sentiu a fragrância de
baunilha e flor de laranjeira que emanava do corpo feminino.
Tocá-la e aspirar seu perfume deixava-o numa espécie de torpor, como se
estivesse no meio de um sonho. Graças a Deus a encontrara! A necessidade de
tomá-la nos braços era quase irresistível.
— Olá — cumprimentou com voz rouca.
— Olá. — Ela virou-se e Mark deixou as mãos deslizarem por sua cintura
antes de retirá-las.
Os olhos dela eram ainda mais bonitos do que se recordava. Seria por causa
daqueles aros dourados que circundavam as pupilas? Ou pela expressão de alegria
que eles irradiavam?
Seus olhares ficaram presos um ao outro enquanto um grupo de senhoras se
posicionava ao lado deles para admirar o oratório.
— Diga-me seu nome — pediu ele. Ela hesitou.
— Por quê?
— Porque gosto de saber o nome das moças com quem me relaciono.—Mark
sentiu uma ponta de arrependimento assim que proferiu aquelas palavras. Mas logo
em seguida descartou tal sentimento. Afinal, embora cruel, era verdade e ela não
deveria alimentar falsas ilusões acerca da presença dele ali.
As faces de Liza tornaram-se rubras, mas no momento seguinte estendeu a
mão direita.
— Meus amigos me chamam de Liza.
Mark encarou-a. A pena azul safira do chapéu que usava moldava-lhe o rosto
de uma forma feminina e sensual. Os lindos olhos encaravam-no sem pestanejar e a
maravilhosa boca escarlate eslava entreaberta. Ele sentiu algo vibrar em sua virilha
e tomou-lhe a mão na sua, levando-a ao peito e entrelaçando os dedos nos dela.
— Verdade? Eu sou Mark.
Ela mordeu delicadamente o lábio inferior, enquanto o observava de modo
discreto.
O que ela veria?, perguntou-se. Desejo, cobiça e algo mais que ele não sabia
definir. Mas aquela mulher não deveria ter nenhuma ilusão a seu respeito.
Naquele instante, tomou-a nos braços, fazendo-a sentir toda a força de sua
virilidade.
— Este é o motivo pelo qual estou aqui — informou ele. — Você entende?
— Sim, entendo. — Os lábios de Liza tremeram ao proferir essas palavras.
Uma vontade imperiosa de beijá-la tomou-o de assalto. Olhou por sobre o
ombro e viu alguns casais que se encontravam absortos do outro lado do salão.
Agarrou-a pelo pulso e em uma fração de segundo puxou-a para trás da fachada do
castelo medieval.
Mark encostou-se à parede e trouxe-a consigo. Seus braços esmagavam-na
num abraço apertado. De repente, tomou-lhe a boca de assalto, sugando-lhe o lábio
superior e explorando com a língua todas as reentrâncias, saboreando-a até quase
lhe roubar o ar. Sabia que não estava sendo gentil, mas a culpada era ela. Aquela
mulher instigava-lhe um desejo veemente e impetuoso, sem precedentes.
Liza lutava por sua respiração, mas não se afastava do corpo másculo nem
um milímetro. Ao contrário, colava-se cada vez mais a ele, abrindo a boca para
recebê-lo.
Ele sentiu-a retirando-lhe o chapéu da cabeça e quando os dedos femininos
deslizaram por seus cabelos, soltou um gemido abafado.
O corpo de Liza começou a mover-se suavemente sobre o dele e ele sentiu o
calor invadir seu corpo.
Mark sentia que não conseguiria controlar seu desejo por muito tempo mais,
mas lutava para não exceder-se. Uma de suas mãos acariciava-lhe o seio, enquanto
seus lábios traçavam uma linha de fogo do lóbulo da orelha até a curva do pescoço.
Foi então que a ouviu murmurar:
— Por favor...
— O quê?
— Eu... preciso...
Mark removeu a contragosto a boca da pele sedosa e encarou-a. Por um
momento reteve a respiração. O belo rosto de Liza era a própria imagem do desejo.
Um cacho de cabelos ruivos caía-lhe sobre a testa e as faces estavam rubras. Os
longos cílios negros adornavam os radiantes olhos cor de mel, de onde uma lágrima
brotava. Em seguida rolou-lhe pela face indo cair sobre o peito alvo.
— Diga-me o que precisa. — A voz dele soava baixa e rouca. Os olhos
úmidos de Liza fitaram-no.
— Você sabe.
— Sei, mas quero ouvi-la dizer. Diga-me.
Liza mordeu o lábio e suas mãos agarram-se à camisa dele. Mais uma
lágrima rolou.
Mark deslizou a língua pelas faces molhadas, beijando-lhe os olhos.
— Preciso de você — sussurrou ela, com voz trêmula. — Agora.
Naquele momento, ele julgou que poderia afogar-se nas profundezas
daqueles olhos.
Quando Liza baixou o rosto, ele ergueu-lhe o queixo com uma das mãos.
— Nunca sinta vergonha. Não há necessidade. Veja minha situação. Meus
amigos jamais acreditariam que, neste momento, me encontro escondido atrás de
uma pintura no Palácio de Cristal. Mas não sinto vergonha. Sabe por quê? Porque
estou aqui com você E é isso que importa. Foi por isso que viemos aqui hoje.
Sem conseguir esperar, ele tomou-lhe a boca num beijo longo e intenso. Em
seguida deslizou os lábios pela face quente de Liza e perguntou-lhe bem próximo ao
ouvido.
— Era isso que queria, não era? Foi por isso que voltou aqui?
— Sim... sim...
Permaneceram imóveis por um longo tempo. Abraçados e alheios ao
burburinho do outro lado do salão. Mark sentia seu coração bater acelerado no peito,
como se fosse um tambor. Ele não conseguia ouvir nenhum som, além das próprias
respirações. Abriu a boca sobre o ombro de Liza e saboreou-lhe a pele úmida.
Liza deu um longo suspiro e começou a recompor-se, passando as mãos
pelos cabelos.
— Deixe-me ajudá-la — murmurou ele.
— Obrigada.
Mark jamais havia ajudado uma mulher a se recompor. Nem mesmo suas
amantes. Nunca se preocupara. Na verdade, uma vez satisfeitas suas
necessidades, costumava desinteressar-se por completo pela mulher que estava a
seu lado. Nem mesmo tentava manter uma conversação cortês. Mas também,
jamais sentira com outra mulher o êxtase que Liza lhe proporcionara. Nenhuma
demonstrara tamanho desprendimento. Nenhuma lhe oferecera lágrimas. A voz
suave de Liza despertou-o de seus devaneios.
— Posso lhe perguntar uma coisa?
— Claro. — Ele notou que estava franzindo o cenho e suavizou a expressão.
— Você disse antes que gostava de saber o nome das mulheres com quem
se relaciona...
— Vá em frente.
— Você sempre faz isso?
— O que quer saber? Se sempre beijo desconhecidas? Ou se costumo
abordar mulheres em lugares públicos?
Ela considerou a pergunta por um momento.
— A segunda alternativa, eu acho. Mark conteve o riso.
— Nunca. — Mark traçou-lhe o contorno dos lábios com o dedo. — Com você
foi a primeira vez.
Liza estudou-o por um momento, como se quisesse certificar-se da
veracidade daquelas palavras.
— Obrigada pela resposta.
Ele deslizou a mão pelos cabelos ruivos de Liza antes de recolocar-lhe o
chapéu.
— Quero vê-la outra vez. Você pode me encontrar amanhã neste mesmo
lugar às dez e trinta?
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— E então? Você virá? — repetiu a pergunta, ansioso.
— Sim — Liza respondeu, sucinta.
Mark deu um sorriso largo e pegou seu chapéu.
— Ótimo.
Quando fitou aqueles olhos cor de mel, desejou poder fazer as pessoas
desaparecerem do salão para que pudesse amá-la outra vez.
— Até amanhã, então — disse ela.
— Beije-me.
Liza hesitou por um segundo e então envolveu-lhe o pescoço com os braços
e pôs-se na ponta dos pés. Quando Mark não se moveu, nem se inclinou, ela
estacou, encarando-o. Em seguida, pôs uma das mãos em sua nuca e gentilmente
puxou-o para baixo e o beijou.
Mark não respirou. Cerrou os olhos e deixou-se levar pela sensação
maravilhosa que experimentava. Uma onda de tontura o assolou, enquanto ela
pressionava os- lábios macios contra os dele e sugava-lhe a língua. E teve que se
amparar contra a parede para manter-se de pé. Foi com relutância que afastou o
corpo feminino do seu.
— É melhor você sair agora, antes que eu a impeça de fazê-lo. No instante
seguinte Liza havia desaparecido.
Liza pintava uma hortênsia azul em um prato de porcelana. Mas um par de
olhos azuis circundados por sobrancelhas pretas não lhe saía da mente. De vez em
quando seu corpo vibrava, como se ondas de eletricidade o percorressem.
— Desculpe-me. Não consegui encontrar-me com você ontem na exposição
— Charlotte explicou, enquanto tentava dar os retoques finais na rosa que pintava.
— Não tem problema. — Liza deslizava o pincel pelo centro do prato. Ela
conseguia ouvir a voz dele, rouca e sensual. Podia sentir as mãos fortes em sua
pele. E seus beijos... profundos e famintos faziam-na perder a respiração.
— Minha mãe me pressionou para ir, mas tive uma terrível enxaqueca.
— Hum. — Liza mergulhou o pincel na tinta azul e lembrou-se do olhar
penetrante de Mark. Sentiu o odor de verbena e imaginou-se aninhada nos braços
másculos.
— Não sei por que mamãe estava tão insistente — continuou Charlotte.
— Isso é estranho — Liza respondia alheia, enquanto se imaginava atrás da
fachada de um castelo medieval no Palácio de Cristal. Em um mundo onde a
realidade não existia.
— Se eu não tivesse começado a chorar, acho que ela me obrigaria a ir.
— É mesmo?
— Você não ficou brava comigo, não é? — perguntou Charlotte. — Eu disse à
mamãe que não ficaria.
— Claro que não. — Será que Mark estaria lá amanhã?, pensou Liza, dando
um profundo suspiro.
— Você ficou zangada, posso ver por sua expressão.
Liza por fim encarou a prima. O sol da tarde que entrava pela janela
iluminava-lhe os cabelos louros.
— Claro que não, querida. Seu bilhete de desculpas estava aqui quando
cheguei em casa. Não fiquei zangada. Qualquer um pode ter uma indisposição.
Charlotte abriu um cálido sorriso.
— Que bom! — Ela aplicou uma camada de tinta branca sobre o prato.
Liza voltou a atenção para sua pintura mais uma vez. Quão diferente teria
sido seu dia se a prima tivesse comparecido ao encontro. Seria possível que o rumo
de uma vida pudesse ser mudado por algo tão insignificante quanto uma
enxaqueca? Pois era verdade que hoje ela era uma mulher diferente. Ali, ela era
aparentemente a mesma. Ensinando a prima a pintar em porcelana. Mas no Palácio
de Cristal, tudo mudara.
Liza parou de pintar. Era claro que desejava que sua vida continuasse a ser
como sempre fora. Afinal, aquela era sua realidade. O que acontecera atrás da
fachada do castelo medieval estava relegado ao plano dos sonhos e dos segredos e
assim deveria permanecer para sempre. Ela olhou para a pintura da prima.
— Charlotte, você misturou a tinta branca com o estilete? A prima olhou para
a própria pintura diante dela.
— Sim. Por quê? Não está certo? Liza engoliu sua frustração.
— Não, querida. O branco e o amarelo ficam alterados em contato com o
metal. O estilete é somente para as outras cores.
— Oh... Sinto muito. Arruinei a pintura? — Charlotte estava quase chorando.
— Não tem importância. Veja. Limpe o estilete com terebentina e tentaremos
dar um jeito nisso.
Liza deu um suspiro de resignação. Havia comprado um pote novo de tinta
branca, que agora ficara danificado. Ao encarar a prima, no entanto, relaxou a
tensão. Aos dezesseis anos, Charlotte era tão linda e meiga, que não conseguia
nunca ficar zangada com ela.
— Que pena! Esta seria a melhor pintura que fiz até hoje.
— É verdade. Está melhorando a cada dia. Naquele instante Charlotte viu a
pintura da prima.
— Meu Deus! A sua ficou magnífica!
Liza fitou a hortênsia que acabara de pintar. Ela parecia estar viva em um
jardim, esperando para ser colhida. Como teria ela conseguido tal feito se nem ao
menos estava concentrada naquela pintura?
— Liza, por que você sempre põe as iniciais E.D.? Não deveria usar seu
nome de casada?
Jamais colocaria o nome do marido em suas pinturas, pensou ela.
— Para o mundo sou Elizabeth Redington, mas no meu coração e na minha
arte sou apenas Elizabeth Dare. E até que eu entregue meu coração a alguém,
assim permanecerei.
O som de vozes atraiu a atenção das moças.
— Estou tão feliz por o senhor ter vindo nos visitar! — a voz de Mathilda
soava alta e estridente, mesmo quando tentava ser discreta. — Sente-se, enquanto
vou chamar minha sobrinha e a prima dela.
No instante seguinte o chapéu de Mathilda apareceu à porta do estúdio,
— Meninas... venham comigo.
Liza e Charlotte levantaram-se e acompanharam a tia.
— Venham rápido — insistiu Mathilda. — Charlotte, você está com tinta nas
mãos. Liza, querida, deixe-me observá-la. Está perfeita.
Um homem alto e corpulento com cabelos louros levantou-se assim que elas
chegaram à sala de estar.
— Meninas, tenho a honra de lhes apresentar o sr. Alfred Swittly, sobrinho de
duas de nossas mais diletas amigas, a sra. Eustácia e a sra. Arabella Swittly.
Liza sentiu a mão da tia impulsioná-la para frente.
— Estou encantado, sra. Redington — disse o homem, olhando-a de cima a
baixo.
— E esta é Charlotte Lawrence, prima de Liza.
— Mais uma vez encantado.
Todos se sentaram e Liza temeu que a cadeira cedesse sob o peso do
homem. O móvel rangeu perigosamente quando o sr. Swittly conseguiu acomodar-
se.
— Deve perdoar-me por interromper sua aula de pintura, srta. Lawrence... —
ele começou. — Sua tia contou-me, sra. Redington, que está ensinando a sua prima
a bela arte de pintar botânica em porcelana. Devo dizer-lhe que considero uma das
mais adequadas formas de uma dama ocupar seu tempo. As mãos se mantêm
ocupadas, enquanto a mente não é sobrecarregada. E o resultado final é uma bela
peça para decorar a casa. — Ele sorriu. — Essas atividades domésticas são um
verdadeiro predicado de uma dama. Que maçante!, pensou Liza, forçando um
sorriso.
— Não sei como agradecer por tão comovente elogio. Sinto que
sobrecarregaria minha pobre mente se tentasse formular uma resposta apropriada.
Então permanecerei em silêncio ante a superioridade de sua sabedoria.
Mathilda lançou um olhar desconfiado à sobrinha por trás do leque, mas sir
Alfred sentiu-se visivelmente ufanado por tal condescendência.
—Deve orgulhar-se, sra. Dare, por ter sobrinhas tão famosas e encantadoras.
Mathilda sorriu.
— Eu me orgulho. As filhas de meu irmão são as meninas de meus olhos.
Contudo, Charlotte não é minha sobrinha. A mãe dela, Abigail Lawrence, era prima
da mãe de Lisa. — A voz de Mathilda traiu um leve toque de desdém e seu leque se
movimentou com mais vigor.
— Srta. Redington, sabe que temos mais coisas em comum do que pode
supor? Ambos somos viúvos — ele disse com tanto entusiasmo que Liza sentiu-se
compelida a ser cruel.
— Não diga! — exclamou, baixando a cabeça e procurando o lenço no bolso
da saia. Assim que o encontrou, levou-o aos olhos.
— Perdoe-me, sr. Swittly. Mas a simples menção dessa situação pesarosa
abre a ferida deixada em meu coração.
— Bem... eu... eu... — Alfred gaguejou, embaraçado. — Sua tia assegurou-
me que...
Liza soluçou alto e continuou a encenação.
— E tenho certeza de que minha dor é tão profunda quanto a sua, sr. Swittly.
Gotículas de suor brotaram na testa de Alfred.
— Bem... eu... claro — concordou ele, com expressão triste.
— Ainda lamento a perda de minha adorável esposa. Meu coração está tão
contrito quanto o seu, sra. Redington.
Liza deu um suspiro de alívio.
— Na qualidade de um companheiro de dor e luto, tenho certeza de que o
senhor não se incomodará se eu me retirar para prantear minha dor na privacidade
de meus aposentos.
— Claro, sra. Redington.
Liza levantou-se, seguida pela prima. Quando passaram por Mathilda ambas
depararam com seu olhar de censura, porém na presença de sir Alfred Swittly, ela
dispensou as moças sem protesto.
Já fora da sala de estar, Liza ouviu um fragmento da voz da tia dizendo algo
como "talhada para o casamento". Seu sangue congelou nas veias, enquanto subia
a escada. Santo Deus! Perdera a conta das vezes que já dissera à tia que não tinha
intenção de voltar a se casar, que gostava de sua vida do jeito que estava. Tinha
concordado em passar as férias em Londres apenas para despender algum tempo
em companhia da tia e da prima e talvez freqüentar alguns eventos sociais após seu
período de luto. Nada mais. E muito menos tinha intenção de encontrar um marido.
— Milady, não tenho intenção de me casar nem agora e nem nunca — Mark
sibilou por entre os dentes.
Sentada em sua cadeira, como uma rainha, Abigail Lawrence ergueu o queixo
e encarou seu interlocutor.
— Não imagino como poderá evitar esse fato, milorde. Mark levantou-se.
— É muito simples. Basta a senhora desistir dessa chantagem imoral e ilegal.
— Desistir? Por que faria isso? Que lei ou moral impediria uma mãe de
assegurar o futuro e a felicidade da filha? — Abigail sorveu pequenos goles de seu
chá e em seguida depositou a xícara na mesa. — Além disso, estou apenas
aproveitando uma oportunidade com a melhor das intenções.
— O inferno está cheio de boas intenções, milady. A senhora não sente o
bafo do demônio em seu pescoço?
Nem uma ponta de incerteza surgiu nos olhos da sra. Lawrence.
— Por que não faz essa pergunta a sua mãe?
Mark retirou a carteira do bolso da calça e colocou-a sobre a mesa.
— Quanto a senhora quer para me entregar a carta? Abigail reclinou-se em
sua cadeira.
— Não é uma questão de dinheiro, milorde. Mark tentava controlar sua ira.
— O que quer, então? — bradou. Abigail sorriu.
— Seu título de nobreza, é claro. Dinheiro é passageiro, milorde. Um título é
eterno, e minha Charlotte merece pertencer à nobreza.
— E quanto ao meu irmão? Ele não tem direito a se casar com a mulher que
ama? Se sua paternidade for exposta ele perderá tudo.
Abigail deu de ombros.
— Você tem o poder de salvar seu irmão.
— Com bastante dinheiro poderá comprar o título que tanto almeja — Mark
sugeriu.
— Para isso é preciso tempo e energia, e todos ficariam sabendo. Não é
assim que quero. Não há honra alguma nisso.
Mark caminhou até se posicionar atrás da cadeira de Abigail.
— Não mencione essa palavra na minha frente, milady. Ouvi-la de seus lábios
me ofende.
As faces de Abigail ficaram rubras de raiva.
— Pois trate de manter uma atitude civilizada, milorde, ou publicarei a história
do romance de sua mãe com o jardineiro em todos os periódicos de Londres.
— Não. A senhora não fará isso. E sabe por quê? Porque cobiça meu título
de nobreza. Portanto, não me ameace.
— Eu enviei uma minuta de contrato matrimonial ao seu advogado, milorde,
marcando a data do casamento para o dia dez de junho.
Mark sentiu o sangue ferver.
— Daqui a um mês? — Ele precisava de mais tempo para estudar uma forma
de se livrar daquela chantagem. — Todos vão pensar que sua querida filha está
grávida.
— O que me importa é assegurar o futuro de minha filha. Não me interessam
as fofocas que possam surgir. Quero que os proclamas comecem a correr ainda
esta semana.
Sem responder, Mark retirou-se do aposento batendo a porta atrás de si com
fúria.
— Aí está você, finalmente.
Mark ergueu os olhos do esboço de arquitetura e encarou o irmão.
— O que você quer?
— Por andou a tarde inteira? Esperei quase duas horas. Mark gostaria de
contar a Matthew a história de Abigail Lawrence, mas jamais estragaria a vida do
irmão.
— Tinha negócios a tratar.
Matthew sentou-se na beirada da mesa e sorriu.
— Mas insisto em saber se voltou a encontrar sua fada do Palácio de Cristal.
O sorriso de Mark se alargou.
— Encontrei.
— Eu sabia que ela voltaria lá. — Matthew inclinou-se na direção do irmão. —
Agora, não seja cruel e ponha-me a par dos detalhes sórdidos. Quem é ela?
— Só sei que se chama Liza.
— E o que mais? Vocês... beijaram-se outra vez?
— Sim — respondeu Mark lacônico.
— E foi como ontem?
— Foi melhor. Mas não vou discutir isso com você.
— Ora... Não o estou reconhecendo. Desde quando não quer discutir seus
casos amorosos comigo? O que essa mulher tem de especial?
— Nada. Apenas não estou com vontade de falar no assunto. E mais uma
coisa, guarde sua libido para Rosalind. Agora, deixe-me trabalhar.
Matthew levantou-se e encaminhou-se para a porta.
— Está bem. Ah, nossa mãe disse que você iria visitar os Lawrence hoje, é
verdade?
— Nossa mãe deveria aprender a manter a boca fechada — respondeu Mark,
irritado. — Sim, eu estive lá.
— E então? Encontrou Charlotte?
— Não. Ela não estava em casa.
— Hum... Essa moça está começando a ficar misteriosa. Tem certeza de que
ela existe?
— Infelizmente, sim.
— Mark, eu sei que não tem interesse nessa moça e ouvi minha vida inteira
você dizer que jamais se casaria. O que está acontecendo? Posso saber?
— Tem razão. Não tenho a mínima vontade de me transformar em um
marido, mas tenho vontade de ser pai.
Matthew fitou-o desconfiado.
— Você nem mesmo gosta de crianças.
— Não em geral. Mas tenho certeza de que com meu filho será diferente. É
apenas por isso que estou considerando a oferta da sra. Lawrence.
— Você é terrível! — exclamou Matthew. — Tenho pena da pobre srta.
Lawrence. O que pretende fazer? Enviar-lhe seu pedido de casamento por um
mensageiro?
— Sabe que não é má idéia? — Mark sorriu, enquanto o irmão se retirava da
biblioteca.
Quando ficou sozinho, Mark pensou nas palavras do irmão. De súbito um
pensamento audacioso surgiu em sua mente. Será que a sra. Lawrence guardava
aquela carta fatídica no cofre de sua casa?
Ele revirava o lápis nos dedos sem parar. Sabia exatamente quem poderia
ajudá-lo a descobrir. Na manhã seguinte procuraria Mickey.
Liza encontrava-se ajoelhada em frente ao oratório. Eram duas horas da tarde
e o salão do Palácio de Cristal estava quase deserto.
Seus olhos estavam cerrados como se estivesse concentrada em uma
oração.
— Desculpe-me. — Uma voz grave despertou-a de seus devaneios.
Liza encarou o estranho e uma sombra de desapontamento surgiu em seus
olhos.
— Não era minha intenção interrompê-la, mas a senhora está bem?
Algo no semblante daquele estranho a fez lembrar de Mark. Liza olhou em
volta e tornou a fitar o homem que a abordara.
— Estou perfeitamente bem, obrigada.
Naquele instante, Liza sentiu-se abraçada pela cintura ao mesmo tempo que
um aroma de verbena se fazia sentir no ar. Um estranho excitamento tomou conta
de seu corpo.
— Este cavalheiro a está incomodando, querida?
Liza estremeceu. Para todos os efeitos eles eram dois estranhos. Ninguém
sabia que eles se conheciam. Como ousava abraçá-la em público? Ainda assim, seu
coração palpitou de alegria ao ouvir aquela voz grave.
— Eu... ah... não.
Olhando de relance para o estranho a sua frente, Liza ficou surpresa por
encontrá-lo sorrindo.
— Bem... Agora que não está mais sozinha, permita-me que me retire. —
Assim dizendo, fez uma mesura e afastou-se.
— Como vai, Liza? — cumprimentou Mark assim que ficaram a sós.
— Bem, obrigada, Mark.
— Desculpe-me por ter me atrasado. Tive uns assuntos a tratar e demorei um
pouco mais do que o previsto.
Liza não pôde deixar de imaginar quem seriam seus amigos. Como seria a
vida daquele homem. O que fazia. Com quem moraria. Tinha consciência de que
jamais saberia as respostas para todas aquelas indagações. Afinal, aquele era o
penúltimo dia que tinham para se encontrar e depois disso não se veriam outra vez.
Uma ruga de apreensão franziu-lhe a testa.
— O que há de errado? — ele indagou, erguendo-lhe o queixo.
— Nada. Eu... estava apenas imaginando que tipo de homem é você. E
cheguei à conclusão de que nunca saberei. Quero dizer, devido às circunstâncias.
Mark fitou-a intensamente.
— Sou o tipo de homem que persegue aquilo que deseja, custe o que custar.
Mark tomou-a nos braços e beijou-a com voracidade. Em seguida afastou-a e
tomou-lhe a mão esquerda entre as suas.
— Fale-me sobre ele — pediu, fitando o anel de ouro que ela ainda usava.
— O que quer saber?
— Tudo que quiser me contar.
— Fui casada durante três anos, antes de meu marido morrer em
conseqüência da queda de um cavalo.
— Você o amava?
O coração de Liza se apertou. Nunca alguém lhe fizera tal pergunta.
— Não — respondeu num fio de voz.
— E ele a amava?
Liza suspirou longamente antes de responder:
— Não.
— Você tem filhos?
— Não posso ter filhos — respondeu Liza com uma ponta de tristeza na voz.
Mark ficou lívido. Por que aquela confissão o surpreendeu tanto? Por que
deveria se importar com isso?
Um segundo depois estavam atrás da fachada do castelo medieval, lutando
contra a força de beijos selvagens, de mãos que exploravam cada curva dos corpos
famintos. Até que tudo desapareceu da mente de Liza, o casamento sem amor, a
dor, a frustração, os anos perdidos, a necessidade veemente de amar e ser amada.
Quando afinal Liza conseguiu encontrar sua voz, encarou-o muito séria.
— Vou sentir falta de nossos encontros quando nos separarmos amanhã.
O corpo de Mark ficou rígido.
— Por que amanhã será nosso último encontro?
— Estou de visita em Londres — respondeu Liza. — E amanhã é o último dia
em que virei visitar o Palácio de Cristal com minha tia.
— Você irá embora de Londres amanhã?
— Ainda não, mas estou hospedada em casa de minha tia e não posso vir
aqui todos os dias.
— Quando tempo ficará em Londres?
— Dois meses. Talvez um pouco mais.
— E depois disso? Liza fez uma pausa.
— Depois... irei para casa.
— E onde fica sua casa?
Ela encarou-o com um brilho estranho no olhar.
— Mark, entenda uma coisa. Nunca fiz isso antes. Além de meu marido, você
foi o único homem que beijei. Meu pai é o vigário da minha cidade e lá sou uma
viúva respeitável. Não podemos continuar nos encontrando para sempre.
— "Para sempre" não existe no meu vocabulário, querida. Só quero que
continuemos a nos encontrar até que um de nós perca o interesse. Então, só
precisamos nos preocupar com a discrição. Na qualidade de viúva, deve ter um
certo grau de liberdade.
— Você não entende. Não posso me encontrar com você sem arruinar minha
reputação e magoar minha família. Momentos atrás, por exemplo, quando eu estava
conversando com aquele estranho, você me abraçou e me chamou de querida. E se
ele fosse meu conhecido? Minha reputação já estaria arruinada agora.
— Eu sabia que não o conhecia.
— Como poderia saber?
— Porque ele é meu irmão.
Os olhos de Liza alargaram-se e suas faces enrubesceram. Um longo silêncio
pairou entre eles.
— Você falou sobre mim com seu irmão?
— Ele é a única pessoa no mundo em quem confio e a quem conto tudo que
acontece comigo. Além disso, meu irmão é um cavalheiro. Sua reputação continua a
salvo.
— Talvez eu fale de você às minhas irmãs. Assim ficaremos quites.
— E onde residem essas suas irmãs? Ela arrumou os cabelos.
— Minha tia está me aguardando. Preciso ir. Mark segurou-a pelo braço.
— Droga, Liza. — Sua voz era quase um sussurro. — Não quero que isso
termine assim. É cedo demais.
Ela fitou a mão forte em seu braço.
— Você me forçaria, se eu o recusasse?
— Claro que não. — Soltou-a no mesmo instante e ela colocou o chapéu. —
Mas você também não quer que isso acabe, admita.
Liza ficou em silêncio por alguns instantes.
— Tem razão. Eu estaria mentindo se dissesse que sim. Uma onda de alívio
percorreu o corpo de Mark.
— Então, diga-me. Onde é a casa de sua tia?
— Contudo, estou acostumada a não ter o que desejo.

Capítulo III

Sentada sob a sombra da frondosa amendoeira no jardim de Mathilda, Liza


desenhava o esboço de uma nova figura para ser moldada sobre porcelana. Sua
mente, contudo, estava muito distante dali, atrás da fachada de um certo castelo
medieval.
Por que Mark se mostrara tão resistente à iminente separação? Afinal, depois
de tudo que ele lhe contara sobre sua personalidade, era de se esperar que
aceitasse o inevitável final daqueles loucos encontros sem a menor resistência. Um
homem como aquele não teria nenhuma dificuldade em encontrar muitas outras
mulheres que o satisfizessem. Será que sua relutância significava que precisava
dela além do plano físico? Claro que não! Liza descartou imediatamente tal
pensamento. Mark tinha sido bastante claro quanto as suas intenções e não devia
alimentar falsas ilusões. Bastava ter sido crédula uma vez.
No início de seu casamento acreditara nas palavras doces do marido e,
apesar de não amá-lo, pensara que o amor viria com o tempo e que construiriam um
lar feliz. Em vez disso, foi o período mais triste e vazio de toda sua existência.
— Aqui está ela! — a voz da tia arrancou-a de seus devaneios. — Veja quem
veio nos visitar.
Alfred Swittly e outro rapaz encontravam-se parados a sua frente.
— Sra. Redington — disse sir Alfred. — Que prazer encontrá-la mais uma
vez. Permita-me apresentar-lhe meu sobrinho, sr. John Crossman. Ele é herdeiro
dos Estaleiros Crossman.
— Encantada — cumprimentou Liza e preparou-se para mais uma tarde
enfadonha. Sua tia não desistia nunca de lhe arranjar um novo marido.
Mark encarava a delicada figura de Charlotte Lawrence sentada em frente a
ele e sua mente insistia em voltar a um certo recanto no Palácio de Cristal, atrás de
uma tela gigante. Não queria estar naquela sala em companhia da odiosa sra.
Lawrence e de sua mãe.
— Acabei de informar a minha filha hoje pela manhã de suas intenções,
milorde — comentou Abigail. — Expliquei-lhe como o senhor a viu na Ópera Italiana
e a achou adorável. — Mark olhou para moça, que baixou os olhos, fitando o tapete.
Cachos dourados caíam-lhe sobre os ombros. Era uma bela jovem. — Charlotte
ficou honrada e naturalmente orgulhosa de se tornar sua noiva. E coincidência feliz
que nós já nos conhecemos, não é mesmo, condessa?
Mark fitou a mãe de relance.
— Bem. Não nos vemos há anos, sra. Lawrence. — Lucinda disse em tom
frio. — Quase havia esquecido que um dia nos conhecemos.
Os olhos de Abigail faiscaram de ódio.
— Bem, agora teremos oportunidade de nos ver com mais freqüência. E
minha Charlotte será a nova condessa.
— É verdade. Meu filho sempre teve uma certa facilidade em freqüentar as
camadas inferiores. Não era de se espantar que acabasse arranjando uma noiva
entre elas. Espero que sua filha tenha a graça e inteligência para superar sua
descendência. Ostentar o título de condessa de Langley requer responsabilidade.
Abigail Lawrence cerrou os punhos.
— Talvez sua memória não a deixe lembrar de fatos do passado, mas...
— Bem, estou de partida — interrompeu Mark.
— De partida? — indagou Abigail. — Como assim? Não quer conversar com
Charlotte?
— Conversar? Eu não sabia que ela era capaz de falar, milady. A senhora
falou por ela o tempo todo. A senhorita realmente aceita esta proposta? Com certeza
deve ter uma fila de pretendentes.
A moça olhou nervosamente da mãe para o conde, sem saber o que
responder.
— Eu... eu... bem... não tenho conhecimento de nenhum pretendente e... sim,
aceito sua proposta.
Mark franziu o cenho.
— Quando minha mãe tinha sua idade casou-se com um homem que não
conhecia e acabou odiando-o e infernizando a vida dele até o dia de sua morte.
— Basta! — bradou a condessa. — Cale-se.
A moça encarava-o com uma profunda surpresa.
— Eu... eu...
— Minha filha não é sua mãe — atalhou a sra. Lawrence. — Que direito tem
de supor que ela agirá da mesma forma?
— Sendo sua filha, posso supor o que quiser — bradou ele.
— Falando em suposições, milorde. Minha filha supõe que o senhor deseja
sua mão em casamento. Estará ela enganada a esse respeito,?
Bruxa! Mark desejava estrangulá-la com as próprias mãos.
— Claro que meu filho deseja casar-se com a sita. Charlotte — interveio
Lucinda. — Ele apenas está zangado comigo e, como todos os homens, confunde
os sentimentos rios momentos importantes da vida. Só precisamos agora determinar
qual a melhor forma de informar a sociedade.
— Ótimo. Acho que já posso me retirar e deixá-las discutindo as formalidades
— Assim dizendo, Mark retirou-se sem olhar para trás.
Liza abandonou o sonho com relutância. Enquanto dormia, sua mente vagara
até uma floresta magnífica onde raios de sol iluminavam esplêndidas paisagens. Ela
abraçava um enorme leão e não sentia medo. O que a teria acordado? Queria voltar
ao mundo da fantasia.
Foi então que ouviu um som em sua janela. No mesmo instante, sentou-se na
cama. A luz da lua iluminava o quarto e podia ver que não havia nada lá. Mas, ao
mesmo tempo ouviu o barulho de algo caindo no chão. Levantou-se e pegou o
objeto. Era uma das pequenas pedras que decoravam o jardim de Mathilda.
Seu corpo todo tremeu. Só havia uma pessoa no mundo que teria a ousadia
de jogar pedras em seu quarto. Mas aquilo era impossível. Não poderia ser ele. Não
sabia onde ela morava.
Incerta, caminhou até a janela e deslizou as cortinas. Lá estava ele. Mark
equilibrava-se nas grades da varanda.
Liza ficou paralisada. Suas pernas tremiam. Sua respiração quase parou.
— Todos estão dormindo. Deixe-me entrar — a voz dele era quase um
murmúrio.
Como poderia deixá-lo entrar?
— Eu não posso.
— Preciso falar com você.
— Como descobriu onde eu morava?
— Depois da nossa conversa no Palácio de Cristal, pensei que talvez você
pudesse desaparecer. Então pedi que meu irmão a seguisse.
Por que não estava assustada? A razão lhe dizia que deveria.
— Você não deveria ter feito isso.
— Só quero conversar com você, Liza. E se eu prometer não tocá-la? — Um
longo silêncio pairou entre eles. — Apenas alguns minutos. É só o que peço.
Liza pressionou as têmporas. Aquilo era perigoso. Deveria pedir que ele se
retirasse, mas faltavam-lhe forças para proferir as palavras.
Com um movimento rápido, como se fosse um felino, Mark pulou para dentro
do quarto.
— Deixe-me acender uma lamparina. — Ela encaminhou-se até criado mudo
para pegar um fósforo. — Sente-se.
Subitamente o quarto tornou-se muito pequeno. Tudo parecia encolher na
presença daquele homem magnífico.
— Você é tão linda! Eu não quero perdê-la ainda. Que diferença faz se nós
nos encontrarmos no Palácio de Cristal ou em qualquer outro lugar? Que mal pode
fazer uma semana de amor? Ou um mês?
— Não. Não está certo. Não podemos continuar a nos encontrar. O que
compartilhamos deveria ter permanecido atrás da fachada daquele castelo
inexistente.
— Por quê? O que há de tão horrível? Estamos magoando alguém? Por
acaso alteramos o curso da história? — Liza tinha que admitir que a resposta era
não. No entanto, não podia dizê-lo. — Eu sei que isto não continuará para sempre,
mas também sei que não devemos nos privar desse prazer tão intenso que
proporcionamos um ao outro. O que existe entre nós não pode ser errado.
Seria verdade? Ou apenas o desejo falando mais alto? Liza permanecia de
pé, fitando as próprias mãos. Incapaz de encará-lo.
— Liza, ouça-me. Tenho uma proposta a fazer-lhe. — Ela ergueu os olhos.
Ele estava tão próximo. Teve que usar de todo seu autocontrole para não tocá-lo. —
Em dois meses partirá de Londres. Se concordar em continuar nosso
relacionamento nesse período, concordo em dizer-lhe adeus quando tiver que voltar
para sua cidade.
Uma pontada de apreensão apertou o peito de Liza. Quão difícil seria dizer
aquela palavra no final de dois meses?
— Você não quer dizer adeus agora. O que o faz pensar que o fará depois?
— Posso não querer, mas o farei.
— Tem certeza? — murmurou Liza.
— Hoje à tarde quando me disse que amanhã seria nosso último dia, foi uma
surpresa. Eu não gosto de surpresas. Se estiver preparado, posso lidar com
qualquer situação. E então? Qual a sua resposta? — Mark estava rígido aguardando
a sentença.
— Você é muito persuasivo. No entanto, uma parte de mim ainda diz que eu
deveria recusar sua proposta. — Fez uma longa pausa e encarou-o bem dentro dos
olhos. — Apesar dos meus medos, anseio por seus abraços. Aceito sua proposta,
Mark.
Ele deu um longo suspiro. A tensão afinal deixou seu corpo e foi substituída
por um turbilhão de emoções: alívio, satisfação, conforto e... desejo.
Mark pousou as mãos nos ombros de Liza e, lentamente, deslizou-as pelos
ombros macios, levando consigo a camisola. Em seguida, acariciou os seios, o
ventre, a curva dos quadris, descendo pelas coxas. E então, voltaram a subir com a
mesma lentidão e reverência.
Ela, porém, impediu-lhe o movimento.
— Isso não é justo. Estou despida e vulnerável e você continua vestido.
— Não seja por isso, minha querida dama. Dispa-me.
Liza acatou a ordem. Era a primeira vez em sua vida que despia um homem e
estava adorando.
Quando ambos se encontravam nus, Mark explorou aquele corpo alvo e
macio. Dessa vez, afagava-lhe as costas e as nádegas. Beijou-lhe a curva do
pescoço e os ombros. Enquanto uma das mãos lhe acariciava os seios, a outra
desceu até encontrar o caminho por entre as coxas dela.
Liza sentia os joelhos trêmulos. O prazer provocado por aquelas carícias
afugentava os últimos vestígios de incerteza.
Mark continuou explorando as reentrâncias daquele corpo maravilhoso, até
senti-la contorcer-se de puro prazer.
— Mark... por favor... eu... preciso... eu quero...
— Eu sei o que você quer, querida. Mas tenha calma. A noite está apenas
começando. Temos todo o tempo do mundo...
A luz débil da alvorada penetrou através das cortinas atingindo os olhos de
Liza e fazendo-a piscar várias vezes até despertar por completo. Alguma vez
sentira-se tão segura e aquecida? Aconchegou-se ainda mais ao corpo másculo
curvado a seu lado.
Mark!
Arregalou os olhos, fitando-o por sobre os ombros.
Ele estava acordado. Deitado de lado, apoiava-se sobre o cotovelo e com a
cabeça sustentada pela mão, observava-a com olhar sério. Só o Criador poderia ter
concebido tão belos olhos.
— Bom-dia — murmurou Mark.
Liza sentiu um rubor intenso subir-lhe à face.
— Bom-dia.
— Nunca havia passado uma noite com uma mulher. Surpresa e uma
agradável sensação de prazer perpassaram-lhe a alma.
— Está falando sério?
— Sim — respondeu, franzindo o cenho. — Durante o seu casamento dividia
a mesma cama com seu marido?
Desconcertada, Liza não respondeu de imediato.
— Bem... sim. — Por que ele insistia em fazer perguntas sobre seu ex-
marido? — Mas nunca dessa forma — completou, observando o peito musculoso. —
Ele não me tocava. Dormíamos um em cada canto da cama.
Ele franziu ainda mais a testa e deslizou a mão firme em volta da cintura
delgada.
— Fico feliz que ele nunca fez amor com você dessa maneira. Liza sorriu.
— Eu também — Ela olhou para a janela e depois para o relógio no criado-
mudo. — Deus! São quase cinco horas. — Desvencilhou-se dos braços fortes que a
seguravam e pegou a camisola que estava ao pé da cama antes de se levantar.
— Tem de ir agora. Os criados levantam às cinco e meia.
Ao notar que ele não parecia inclinado a se mover, franziu o cenho em
reprovação.
— Se formos surpreendidos juntos, minha tia terá um ataque apoplético. Sem
mencionar o escândalo.
Em resposta Mark apenas entrelaçou as mãos por detrás da cabeça,
parecendo bastante relaxado.
— Beije-me e partirei.
Oh, Deus! Um beijo poderia significar sua perdição. Arqueou a sobrancelha
num gesto incrédulo.
— Promete?
A estrutura dos ombros largos encolheu-se num suave movimento.
— Claro.
Segurando com firmeza o lençol preso ao corpo, Liza encaminhou-se para o
lado da cama que ele ocupava e inclinou-se de modo lento, roçando de leve os
lábios contra os dele num breve contato.
Não pôde deixar de notar o olhar de reprovação no rosto másculo de traços
perfeitos.
— Não posso chamar isso de beijo — reclamou, indignado.
— Oh, você é incorrigível — censurou-o Liza com pretensa repreensão. Em
seguida, sentou-se a seu lado, deslizando a mão de modo suave por detrás do
pescoço largo e envolvendo-lhe os lábios num beijo quente e úmido. Pretendia ser
breve, mas o gosto daquela boca sensual e o ardor com o qual ele correspondia a
detiveram por um tempo que pareceu uma eternidade.
Aprofundando o beijo, Mark puxou a mão livre de Liza, escorregando-a por
debaixo do lençol. Ela ofegou ao contato do corpo másculo.
Deus a ajudasse! Ainda ansiava por ele.
Ele a beijou de modo profundo e possessivo, em seguida afastou-se,
sorrindo.
— Prometi que se me beijasse eu partiria — disse, reunindo todas as forças
que possuía. — Não brinco com minha palavra.
Liza descerrou as pálpebras, franzindo o cenho.
— Malvado — protestou, fingindo-se aborrecida. Mark levantou-se e falou:
— Só estou partindo porque sei que a encontrarei mais tarde no Palácio de
Cristal. Prometa-me que a verei lá?
Ela se inclinou para pegar o robe que jazia no chão.
— Sim.
Enquanto abotoava a calça, observou-o se espreguiçar. Não pôde deixar de
admirar o magnífico corpo. Avantajado, porém de proporções perfeitas. Os ombros
largos emolduravam o peito musculoso e o torso esguio.
Mark deixou as mãos penderem ao lado do corpo. Em seguida, encaminhou-
se para o local onde havia deixado o restante de suas roupas.
Liza umedeceu os lábios e engoliu em seco. A masculinidade parcialmente
excitada a fazia ansiar por ele.
Lançando-lhe um olhar malicioso enquanto recolhia suas roupas, ele sorriu
zombeteiro.
— Se continuar olhando desse modo, não me responsabilizarei por meus
atos.
Corando, ela pegou a camisa pousada sobre a cadeira e ajudou-o a vesti-la.
Mark se voltou para encará-la, depositando-lhe um beijo suave e demorado
na testa.
— Obrigado.
Enquanto Liza o ajudava com os botões da camisa, ele examinou os objetos
que decoravam a cornija da lareira. Fixou o olhar no prato de porcelana com o
desenho de uma hortênsia e notou as iniciais E.D.
— Foi você quem o fez?
— Sim.
— É lindo — afirmou sem tirar os olhos da peça.
Ela achou graça da expressão de surpresa estampada no belo rosto.
— Obrigada.
— Também pinta em telas ou só em porcelana?
Uma sensação prazerosa tomou conta do coração de Liza.
— Ultimamente tenho pintado em telas, mas na maioria das vezes trabalho
em porcelana.
Ele continuou a observar a obra de arte, meneando a cabeça.
— É muito talentosa.
Liza exibiu um sorriso luminoso. A admiração de Mark a fazia exultar de
felicidade. Pelo que conhecia dele, sabia que estava sendo sincero. Do contrário,
não emitiria sua opinião.
— E.D. — repetiu ele, voltando-se para encará-la. — Não vai me dizer o
significado dessas letras?
Como seria fácil satisfazer-lhe o desejo. Tornarem-se mais íntimos do que
deveriam ser.
— Acho melhor continuarmos a ser apenas Mark e Liza. Ele sentou-se na
cadeira e começou a calçar as botas.
— Sei onde mora. Poderia facilmente descobrir seu nome. Ela franziu o
cenho.
— Mas não o fará, atendendo ao meu pedido.
Mark a observou por um logo instante e deu de ombros.
— De qualquer forma sei o que significam essas iniciais. Os olhos de Liza
dilataram-se de surpresa.
— Como pode saber?
Ele sorriu maroto, lançando-lhe um olhar encantador.
— Por hora não vou lhe dizer.
Ela compreendeu a brincadeira, dirigindo-se em seguida até à janela e
abrindo as cortinas.
— Sua carruagem, milorde.
Uma expressão preocupada perpassou no rosto másculo, que logo se
desanuviou. Ele caminhou em sua direção, estacando para fitá-la com olhar intenso.
— Deus! Que adorável criado de libré — dizendo isso, deslizou ambas as
mãos pela cascata de cabelos que caíam sobre os ombros alvos e delicados,
tomando-lhe os lábios num beijo longo e suave.
Liza ofegou, envolvendo-lhe a lapela com as mãos e puxando-o para si. O
desejo de ser possuída por aquele homem pulsava por todo seu corpo.
Ele se afastou, segurando-lhe a face afogueada com as mãos em concha. Ao
encontrar o olhar de Mark, ela teve a certeza de nunca ter visto espécime tão belo.
— Nunca senti tanto prazer como na noite passada — declarou ele, com os
olhos fixos nos dela.
Aquelas palavras aqueceram-lhe a alma e o coração.
— Tampouco eu.
Ele pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas apenas sorriu e beijou-a
outra vez. Em seguida, com um movimento rápido é preciso pulou a janela.
Quando alcançou o chão, ergueu o rosto para fitá-la.
— Vejo-a no Palácio de Cristal — sussurrou.
— Estarei lá.
Mark disparou pelo jardim, a longa capa esvoaçando atrás dele. Liza se
surpreendeu quando o viu estacar e olhar para trás.
Seus olhares se encontraram por um longo instante. A intensidade da
expressão daquele rosto que se tornara tão desejado fê-la tremer por dentro. Ela
ofegou, amparando-se contra o peitoril da varanda.
Como poderia abrir mão daquela sensação?
Observou-o desaparecer na luz difusa do alvorecer e sentiu as lágrimas
quentes brotarem dos olhos.
Deus! O que faria?
Mark jogou a capa sobre a cadeira ao lado da mesa do vestíbulo de entrada.
Apesar da noite agitada e da precocidade da hora, sentia-se totalmente desperto e
revigorado. Passou a mão por entre os cabelos e sorriu. Nada como uma boa noite
de sexo para reanimar um homem!
Caminhou até seu escritório. Pretendia trabalhar algumas horas no projeto da
Biblioteca até que chegasse a hora de ir para o Palácio de Cristal.
Abriu a porta e estacou surpreso. Matthew estava sentado próximo à janela
com uma bandeja de desjejum posta na mesa ao lado dele. O irmão lançou-lhe um
olhar especulativo.
— Bom-dia, mano.
Mark ergueu uma sobrancelha enquanto atravessava o aposento.
— Sinta-se em casa — gracejou ao mesmo tempo em que afundava na
cadeira.
— Sempre me disse para fazê-lo — retrucou o caçula, observando-o por
sobre a borda da xícara que levara aos lábios.
— Disse? — O conde franziu o cenho e, observando a bandeja, pegou um
pedaço de torrada.
— Presumo — começou Matthew, pousando a xícara sobre o pires. — Pela
sua aparência desleixada e pelo fato de ter me feito seguir uma certa dama ontem,
que acabou de chegar da cama de Liza.
— Acertou. E foi maravilhoso — afirmou, mordendo a torrada. Diante da
expressão nada divertida do irmão, ele ergueu o sobrolho.
— Qual o problema?
— Me parece que tem uma grande atração por essa mulher. Estou errado?
— E se eu tiver?
— Pensei que o conhecesse. Mark o fitou intrigado.
— O que está se passando em sua mente?
— Vou lhe dizer — disse Matthew, colocando o pedaço de torrada que estava
em sua mão de volta à bandeja. — Jantei com nossa mãe ontem à noite. Ela ficou
falando o tempo todo dessa tal srta. Charlotte Lawrence. Quão bonita, charmosa e
prendada ela é e o quanto seria perfeita para você. — O caçula se recostou, sem
desviar o olhar do irmão. — Então disse para mim mesmo. Mark não está
interessado em Charlotte Lawrence. Ele mesmo afirmou. Além disso, sei que ele
está ardendo por uma beldade chamada Liza. E meu irmão não costuma abrir mão
facilmente de uma bela mulher.
Mark sentiu os ombros tensionarem. Sabia onde seu irmão queria chegar.
— Então — continuou Matthew. — Pretendendo poupar meu caro irmão de
futuros aborrecimentos, disse a nossa mãe que ela devia esquecer a srta. Lawrence,
pois você estava interessado em outra mulher.
A expressão de Mark tornou-se sombria. Sua mãe não precisava saber da
existência de Liza.
— Imagine minha surpresa quando ela me informou que eu estava
completamente equivocado. — Matthew bateu com a mão sobre a mesa. — Pois
você havia ficado noivo da srta. Lawrence naquela mesma tarde!
— Calma — pediu o irmão mais velho.
— Você é meu irmão — afirmou Matthew, abaixando o tom de voz. —
Costumamos contar tudo um ao outro. Como pôde tomar uma decisão dessas sem
me informar? Algo tão importante quanto um noivado?—A expressão do rapaz era
de incredulidade. — Tive de saber através da mamãe?
Que situação!, pensou Mark. Sua mente estivera tão absorta em Liza que não
havia avaliado as implicações de se envolver na chantagem de Abigail Lawrence. Se
pretendia esconder a verdade do irmão, devia ter pensado num meio de fazê-lo.
Mark abandonou o pedaço de torrada na bandeja. Aquela situação estava
fugindo de seu controle. Contraiu a mandíbula, irritado. Detestava mentiras. Mais
ainda odiava a mulher conivente que o forçava a dizê-las.
Fitou o irmão nos olhos.
— Peço perdão por não tê-lo informado. — Deus! Como abominava ter de
mentir para Matthew. — Não esperava tomar esta decisão de modo tão repentino —
afirmou, dando de ombros. — Mas quero ter filhos.
A visão repentina de Liza com o ventre abaulado preencheu-lhe a mente.
Suspirou fundo e tentou fixar-se no irmão.
— Ela é graciosa. E parece bastante prendada. Sabe que nunca dei
importância a títulos. Na verdade, prefiro uma esposa plebéia.
Matthew o encarou com olhar severo.
— Plebeus costumam cometer adultério também. Achei que não queria o
mesmo fardo de nosso pai.
Mark engoliu em seco o gosto amargo que lhe assomara à garganta.
— Ao contrário de papai, não estou esperando fidelidade em meu casamento.
E não pretendo agonizar no inferno da abstinência.
Impassível, o caçula recostou-se na cadeira, pensando na situação.
— E Liza?
— É apenas um passatempo. O irmão franziu o cenho.
— Por quê?
Mark sentiu todos os músculos se contraírem de raiva e frustração.
— Porque tudo é passageiro. Tudo que é bonito morre. O que é doce torna-se
amargo. É apenas uma questão de tempo.
— Não penso assim.
— É uma pena.
Não suportando mais aquele diálogo, Mark se levantou da cadeira, dirigindo-
se a sua mesa. Os croquis do projeto da biblioteca estavam espalhados sobre ela,
bem como seus instrumentos de trabalho, mas não se sentia disposto a trabalhar.
Matthew o seguiu, estendendo a mão.
— Parabéns por seu noivado.
O irmão mais velho aceitou-a, relutante.
— Obrigado.
— Quando a conheceremos?
— Em breve. Matthew assentiu.
— Não se esqueça do jantar dos Benchley esta noite.
— Certo — concordou Mark com um fio de voz.
— E seja agradável. Costuma deixar Rosalind nervosa quando está mal-
humorado.
— Disse para ir para o inferno. O que ainda está fazendo aqui?
— Esperando que me mostre o caminho.
Mark observou o sorriso maroto do irmão. Quando Matthew pegou o chapéu
que estava sobre a mesa para partir, uma batida forte à porta se fez ouvir. Com a
anuência de Mark, Cranford, o mordomo, adentrou o aposento.
— Senhor, aquele jovem... acabou de chegar.
— Ótimo. Faça-o entrar.
— Se insiste, senhor.
A expressão do rosto de Mark se iluminou. Mickey Wilkes assomou à porta.
Cranford o introduziu no aposento e, franzindo o cenho para o rapaz, se retirou.
Matthew sorriu.
— O que este patife está fazendo aqui?
— Fui chamado, senhor—replicou o criado, alternando o olhar entre os dois
cavalheiros.
O irmão de Mark meneou a cabeça.
— Pensei que estava querendo empregá-lo aqui em sua casa. Acho que a
cidade não é o lugar adequado para que esse larápio perca seus velhos hábitos.
— Oh, estou completamente curado de meus maus hábitos, sr. Hawkmore —
argumentou o rapaz, contorcendo a aba do chapéu com as mãos.
Mark duvidava. Embora tivesse apenas dezessete anos, Mickey possuía a
segurança dos que já haviam passado por muitos apuros na vida, mas conseguiram
escapar sem sérias conseqüências.
— Estou precisando de um mensageiro — justificou Mark ante o olhar
inquisitivo do irmão.
Matthew o fitou por cima do ombro enquanto se retirava.
— Terá sorte se ele não for preso na sua primeira entrega. — E se retirou,
fechando a porta atrás de si.
Só então o conde se referiu ao rapaz.
— Sente-se. Tenho um trabalho para você.
— Não será capaz de adivinhar quem está aqui, querida — anunciou
Mathilda, chamando-a do primeiro andar.
Liza alisou o cetim cinza da saia, enquanto se movia pelo andar superior. O
sorriso congelou em sua face quando chegou ao topo da escada. Lá embaixo, com
seu imenso rosto sorridente, se encontrava Alfred Swittly.
— Bom-dia, sra. Redington. — O homem tinha uma das mãos pousadas
sobre o corrimão e um pé apoiado no primeiro degrau da escada, como se estivesse
a fazer pose. — Impressiona-me o fato de conseguir estar mais bela a cada dia que
passa.
Liza moveu-se lentamente escada abaixo, sentindo um rubor de desconforto
aquecer-lhe a face.
— Bom-dia, sr. Swittly. Que surpresa revê-lo.
— De fato — disse ele, tomando-lhe a mão nas suas, quando ela atingiu o pé
da escada. Liza retirou-a, assim que alcançaram o saguão. — Não pude deixar de
observar, sra. Redington, que o cetim cinza a faz parecer uma flor prestes a
desabrochar.
— Ou talvez uma lagarta, trocando sua pele para se tornar uma linda
borboleta — completou Mathilda, orgulhosa.
Liza contraiu a mandíbula para não irromper numa gargalhada. Sentia-se
como em um jogo de tênis. Seu olhar movia-se entre os dois, incrédula.
Pior ainda, a bola em jogo era ela.
No mesmo instante sentiu-se envergonhada de tal pensamento. Estaria se
tornando uma libertina, pensando apenas no seu próprio prazer? Não devia deixar
seus desejos carnais sobrepujarem a necessidade dos outros ou mesmo a
importância deles em sua vida.
Mas, à medida que a tia e o sr. Alfred enveredavam por uma longa conversa
sobre jardinagem, ela sentia os ombros tensionarem.
— Oh, sr. Swittly, não sabia que era um genuíno apreciador de jardins —
dizia Mathilda. Gostaria de visitar o nosso?
—Não, tia! — interveio Liza, sem conseguir conter as palavras. — Ambos a
fitaram, com expressão de surpresa. — Não estamos praticamente de partida para o
Palácio de Cristal? — perguntou em tom mais ameno. — Será nosso último dia, e
ainda há tantas coisas que desejo ver.
Mathilda anuiu.
— Claro, querida — e voltando-se para Alfred. — Sr. Swittly, teremos que
deixar o passeio pelo jardim para uma próxima oportunidade. Temos de ir agora.
— Sim, claro. Compreendo perfeitamente, senhora. Fica para uma outra hora.
Liza passou o braço pelo da tia.
— Sinto termos que nos despedir tão cedo, sr. Swittly. Sei que acabou de
chegar, mas minha tia e eu passamos a semana visitando o Palácio de Cristal e hoje
é nosso último dia.
Alfred franziu o cenho, confuso.
— Mas...
— Querida, eu convidei o sr. Swittly para juntar-se a nós.
— O quê? — O coração de Liza parecia querer pular pela boca. Mathilda deu
uma pancadinha em seu braço.
— Claro que os deixarei explorar o Palácio, sozinhos. Por certo, têm muita
coisa para conversar.
Não! Ela queria gritar a todos os pulmões, mas não conseguiu.
Se apressasse o passo naquele momento, poderia escapar de modo fácil
pela multidão de visitantes. Mas não podia fazer aquilo. Seria grosseiro e
embaraçoso para com a tia. Observou o homem a seu lado, e concluiu que tal
comportamento estava fora de questão.
— Como este lugar está repleto! — comentou Alfred. — Pessoalmente, sra.
Redington, aprecio multidões. Podemos ver e ser vistos com maior facilidade.
E como era visto!, pensou Liza. Com aquele corpanzil, esbarrava em todos
que atravessavam seu caminho.
Precisava que Mark soubesse por que não podia encontrá-lo.
— Gostaria de visitar o salão de móveis góticos, sr. Swittly? Há peças
admiráveis lá.
— Adoraria, sra. Redington — concordou o gigante, inclinando-se em sua
direção. — Estou a seu inteiro dispor.
Liza deu um passo para trás.
— Que gentileza! Ele sorriu, radiante.
Alfred discursava num tom de voz que podia ser ouvido por qualquer um que
passasse. Parecia estar mais interessado na reação dos transeuntes sobre suas
palavras do que na dela.
Liza corou de vergonha.
— Oh! Mas veja que tela assombrosa, sra. Redington! — exclamou o gigante.
— Já viu algo de tamanha proporção?
Liza voltou os olhos para a tela. Sentiu o corpo relaxar. Estendeu a mão para
tocar a madeira encravada. Aquela era sua tela e de Mark. Virou o rosto para olhar
por cima do ombro.
A uma curta distância, um par de olhos de um azul profundo a fitava com
intensidade. Sentiu o coração disparar de felicidade e sua pulsação acelerou.
Ele permaneceu onde estava, em um dos cantos do salão, destacado da
multidão. Liza observou-o lançar um olhar inquisitivo para Alfred.
Ela fitou o grandalhão a seu lado e depois voltou o olhar para Mark.
Detestava tê-lo tão perto dos olhos e tão longe do alcance das mãos. Ansiava
por sua proximidade, pelo seu toque ousado e macio. Deixou o olhar vaguear pela
compleição magnífica do corpo másculo. Sentiu o ventre contrair ante a lembrança
da última noite que passaram juntos. Oh, Deus! Como o desejava.
— Não vejo a utilidade de algo tão. grande — dizia Alfred a seu lado,
encarando-a como se esperasse uma resposta.
Liza engoliu em seco o próprio desejo.
— Como?
— Eu disse que a tela tem proporções gigantescas. Não ficaria bem em uma
casa. Impraticável em minha opinião.
Ela desviou o olhar para Mark outra vez. Ele se aproximava com as mãos
enfiadas nos bolsos da calça. Liza sentiu todo o corpo tremer.
— Para ser sincera, acho-a magnífica. Algumas vezes precisamos de algo
grande para preencher os espaços vazios.
O aroma de verbena inundou-lhe as narinas. Alfred observou a obra de arte
com mais atenção.
— Bem, pode ser.
Liza estremeceu ao sentir os dedos firmes de Mark traçarem toda a extensão
de suas costas. Ele estava postado a seu lado, fingindo apreciar a tela.
— Mas como poderia acomodar uma coisa tão grande? — perguntou o sr.
Swittly.
Ela se voltou para seu interlocutor, enquanto aquele homem magnífico
tomava-lhe uma das mãos na sua e a direcionava de encontro ao membro rijo. Liza
sentiu o coração disparar. Temia que as pessoas à sua volta percebessem.
— Não desejaria nada menor.
Em seguida, desvencilhou-se da mão de Mark ao notar Alfred se mover até
ficar de frente para ela.
— Verdade? Gostaria de ver o local onde colocaria tal coisa — sugeriu
sorrindo. — Talvez possa visitar sua casa em breve. Estou certo de que seus
parentes iriam gostar de me conhecer. — Segurando-a pelo ombro, afastou-a da
tela. — A sra. Dare me disse que seu pai a sustenta. Ele deve ter um abastado
vicariato para garantir uma vida tão confortável à irmã. — Liza afastou-se das mãos
descomunais de Alfred. — Deve ser bastante generoso além de rico — completou.
— Meu pai tem muitas qualidades, sr. Swittly. A maior de todas é o amor que
dedica às filhas.
Enquanto adentravam a lotada galeria principal, Liza olhou por sobre o
ombro. Mark os seguia com expressão sombria.
De repente, Alfred abriu os braços e começou a citar um trecho da obra O Rei
Lear de Shakespeare. Quando acabou, enlaçou com uma das mãos a cintura
delgada de Liza.
Ela observou os olhares curiosos dos que estavam em torno deles. Mark
encontrava-se bem próximo com os olhos fitos nela. Por que não podia estar
caminhando a seu lado? Por que tinha de estar na companhia de um homem que
gostava tanto de se vangloriar?
Franzindo o cenho, desvencilhou-se das mãos de Alfred.
— Devo dizer, sra. Redington, que estou impressionado pelo seu
conhecimento sobre arte. — afirmou, pousando mais uma vez a mão na cintura dela.
E mais uma vez Liza desviou de seu toque.
— Obrigada, sr. Swittly. — Liza percebeu que enquanto falava ele a guiava
para um recanto deserto do fundo da galeria. — Por favor, sr. Swittly!
Tentando tirar a mão daquele contato asqueroso, escrutinou o local à procura
de Mark. Ele estava parado a uma certa distância, conversando com um pequeno
grupo que admirava uma das obras expostas.
Ela ofegou quando Alfred a puxou para trás de uma grande escultura,
segurando-lhe firme a mão enluvada.
— Desculpe-me, sra. Redington, mas não pude deixar de notar a maneira
como me olha — afirmou, puxando-a para si e mantendo-a cativa em seus braços.
— Percebi a ânsia do desejo em seus lindos olhos. Não pode imaginar quão
prazeroso me sinto ao saber de seu interesse por mim.
Os olhos de Liza se arregalaram enquanto lutava para se esquivar dele.
— Solte-me agora mesmo, sr. Swittly!
— Não posso, minha pequena—declarou, começando a recitar outro trecho
shakespeariano.
O homem parecia uma muralha. Não tinha como livrar-se dele.
— Estou ordenando que me solte — argumentou ela, debatendo-se.
Ele inclinou a cabeça em sua direção. Uma gota de suor assomou-lhe à testa,
enquanto continuava a palrear de modo ininterrupto.
Liza lutava por ar ao mesmo tempo em que se contorcia sob os braços
imperiosos.
— Solte-me, solte-me — repetia frenética. — Senão vou gritar! O grandalhão
continuava a ameaçá-la. Os lábios descomunais cada vez mais próximos.
Quando os lábios de Liza se entreabriram para gritar, algo atingiu Alfred,
fazendo-o largá-la de pronto. Um gemido rouco saiu do fundo de sua garganta.
Ela fitou os olhos furiosos de Mark que estava parado atrás do homem que
caiu no chão.
— Você está bem? — perguntou ele com os punhos ainda cerrados.
Liza teve ímpetos de correr para aqueles braços fortes e protetores.
— Sim.
Ofegante, Alfred ergueu-se, lançando um olhar furioso a Mark.
— Estou acompanhando esta dama, senhor! Estamos visitando a galeria em
companhia um do outro.
— E eu terei o prazer de acompanhá-lo até lá fora onde o encherei de socos
se continuar molestando esta mulher.
O gigante conseguiu recompor-se.
— Não tem o direito de interferir dessa forma.
Liza percebeu os punhos de Mark cerrarem-se mais ainda e deu um passo à
frente.
— Obrigado pela sua ajuda, senhor — disse, tocando-lhe o braço e lançando-
lhe um olhar significativo. — Temo que este cavalheiro tenha confundido o
sentimento que achou ter vislumbrado em meu rosto.
— Isso mesmo — concordou Alfred, sacudindo a sujeira da capa. — E
embora possa parecer o contrário, minhas intenções para com esta dama são
honráveis.
Uma expressão estranha perpassou pelo belo rosto de Mark. Ele alternou o
olhar entre os dois, indeciso. O que ele estaria pensando?
Os olhos azuis fixaram-se nos dela.
— Esse homem não a merece, milady. — Dizendo isso, tocou o bordado seu
chapéu e girou nos calcanhares. — Adeus.
— Devo dizer que está completamente enganado, senhor. Sou talhado para
esta dama! — vociferou Alfred pelas costas de Mark.
Liza saiu de detrás da escultura e observou-o afastar-se até que
desaparecesse na multidão, sentindo-se desolada. Quando tornaria a vê-lo?

Capítulo IV

Mark desenhava os detalhes que comporiam o hall da Biblioteca Nacional no


croqui espalhado sobre a mesa. Tentava concentrar-se no trabalho que tinha à
frente, mas a imagem de Liza cativa nos braços daquele estranho povoava-lhe a
mente. Estaria ela considerando casar com homem tão rude? Pensaria ela em
casar-se afinal?
Consertou o traço imperfeito que acabara de fazer.
Por certo não ficaria de luto para sempre. Quantos homens a desejariam?
Uma onda inexorável de raiva e ciúme o invadiu. Seus dedos apertaram o
papel, amassando-o. Ele o jogou no chão com uma imprecação.
Quaisquer que fossem seus planos, ela lhe pertencia pelos próximos dois
meses. E não estava disposto a dividi-la com nenhum tolo intrometido.
Uma suave batida à porta se fez ouvir. Pegando outra folha de papel e
dispondo-a a sua frente, Mark solicitou que o visitante entrasse.
Cranford abriu a porta.
— A condessa, milorde.
Mark sentiu os ombros tensos, enquanto a mãe adentrava com graça e
elegância.
— Feche a porta — ordenou a condessa em tom ríspido. Mark assentiu para
o mordomo e voltou a atenção ao trabalho.
Lucinda serviu-se de um drinque antes de dirigir-se à mesa onde estava o
filho.
Ele ergueu a cabeça, fitando-a por sob os cílios longos.
— Importa-se de manter uma certa distância? Serei capaz de estrangulá-la se
deixar cair uma gota de bebida no meu trabalho.
Ela obedeceu, recuando um passo.
— Não acha que essa construção clássica está um tanto ultrapassada?
Mark não respondeu, continuando a traçar os contornos do hall de entrada.
— Sou mais afeita ao estilo do sr. Paxton.
— Ele projeta espetáculos, não construções...—Mark explicou em tom suave.
— Trata-se da Biblioteca Nacional e não de um Palácio de Cristal.
Lucinda deu de ombros, desdenhosa.
— Faça como quiser. Só estou tentando ajudar. . Mark suspirou exasperado.
— O que deseja, mãe?
— Muito bem. Matthew me contou que você está tendo um caso com uma
mulher que conheceu há pouco tempo.
Maldição! O que ele temia acontecera. Desviou o olhar do desenho e pousou-
o na mãe.
— Disse-me que está bastante envolvido e que eu deveria desistir de
empurrá-lo para Charlotte Lawrence. Claro que isso foi antes de eu informá-lo que
você havia ficado noivo dela.
Os músculos da face de Mark se contraíram de raiva. Lucinda sorveu um gole
de conhaque.
— Por falar nisso, ele ficou bastante aborrecido com o fato de você não lhe
ter comunicado. Não suporta admitir que a mútua confiança entre vocês sofra
qualquer abalo. Então, como você vai ter de lhe dizer mais algumas mentiras, sugiro
que pense bem antes de lhe contar qualquer versão da história.
Mark detestava que lhe dissessem o óbvio. Moveu os ombros para atenuar a
tensão.
— O que nos traz para este seu novo affair — continuou Lucinda. — Terá de
pôr um fim nele.
Aquilo era demais.
— Não — declarou, decidido.
A mãe pousou o copo na mesa com força.
— Tem noção de que o futuro de seu irmão depende disso? Seu descaso
pelos padrões de nossa classe leva a crer que seria capaz de unir-se em matrimônio
a uma mulher sem nobreza. Mas Abigail e eu estamos tentando dar um tom
romântico a esse casamento. A aceitação desse enlace pela corte depende disso.
Se espalhar-se a notícia de que está se relacionando com outra mulher, ninguém
acreditará no romance entre você e Charlotte.
Mark deu de ombros, e Lucinda levou as mãos à cintura, desafiadora.
— Pensa que ainda pode escapar desse casamento, não é? Muito bem, você
não pode! Há muita coisa em jogo para que ande se esbaldando por aí com uma
qualquer.
— Veja como fala! — enraiveceu-se Mark.
— Terá de terminar esse affair.
Ele respirou fundo, tentando relaxar.
— Já disse que não!
Lucinda caminhou resoluta até a janela.
— Que diferença faz se a deixar agora ou depois? De qualquer forma, logo se
cansará dela.
Dois meses... Era o tempo que lhe restava.
— Desta vez é diferente. Ela não é como as outras. Lucinda o encarou com
olhar fulminante.
— Está enganado. O que pensa, que ela concordará em ser sua amante para
sempre?
Não para sempre, pensou Mark, sentindo um aperto no estômago.
— E se pensa que vai prendê-la com seu poder de sedução está muito
enganado.
Mark apertou a caneta entre os dedos para não perder o controle.
— Seu pai também tinha esse magnetismo e não conseguiu me prender,
como está cansado de saber.
Mark franziu o cenho, tenso. Inconformada, Lucinda aproximou-se da mesa.
— Quer saber a verdade? Você não passa de uma novidade para essa
mulher. Quando ela se fartar, irá procurar outro que lhe ofereça algo melhor.
— Chega!
Lucinda não se deixou intimidar.
— Não seja ingênuo a ponto de acreditar em fidelidade — continuou ela. —
Fidelidade é para homens feios e ignorantes, que não têm muita escolha. Mesmo
esses às vezes se desgarram. Pergunte ao pai de seu irmão. Ele tinha uma esposa
meiga e doce, ao mesmo tempo que se encontrava comigo.
Mark ergueu-se num impulso, fazendo a cadeira cair no chão com estrondo.
Contornou a mesa e avançou com fúria em direção à mãe.
— Diga-me! Qual das duas coisas meu pai era? Feio ou ignorante?
Lucinda levou a mão ao colar de diamantes, manuseando-o de maneira
nervosa. — Sim, porque pobre ele não era. Ainda assim, mesmo depois que a
senhora o trocou por outro, ele continuou a lhe ser fiel e a sorrir para os homens
com quem sabia que a senhora se relacionava assim que ele virava as costas.
Mark inclinou-se ameaçador em direção à mãe.
— Certamente meu pai não era um homem desprovido de beleza, porque
depois que você se cansou dele, não faltaram belas mulheres dispostas a consolá-
lo. Mas meu pai não quis nenhuma delas. Não porque fosse ingênuo, ou ignorante,
mas porque acreditava em honra e lealdade. Pelo fato de que, mesmo sendo casado
com uma mulher mentirosa, ele a amava! — Os olhos de Mark cintilavam de raiva.
— Até que a senhora tanto fez que até isso conseguiu destruir!
Ante a expressão aturdida da mãe, Mark continuou:
— Agora sou eu que vou lhe dizer a verdade. A senhora não passa de uma
infeliz que sente prazer em infernizar a vida de todos que estão ao seu redor. E em
breve, quando seu último amante, seja ele quem for, a abandonar, estará velha e
sozinha para sempre! E não venha me procurar quando isso acontecer, porque serei
o primeiro a lhe dar as costas! — Fitou os olhos verdes frios de Lucinda. — Agora,
saia!
Sem dizer uma palavra, ela pegou o casaco e dirigiu-se à porta, onde parou e
virou-se para trás.
— Nunca pedi a seu pai que se apaixonasse por mim. Casamentos são
arranjos entre famílias e você se casará com Charlotte Lawrence, a despeito de seu
envolvimento com essa mulher. É isso ou a desgraça de seu irmão. — Fitou-o com
um brilho estranho no olhar. — Eu queria que fosse ao contrário. Se Matthew fosse
meu primogênito, ficaria tentada a mandar Abigail Lawrence para o inferno.
— Eu não esperaria outra coisa da senhora. E não pense que acredito que
está preocupada com a reputação de meu irmão, mas sim consigo mesma. A
sociedade nunca se agradou de ver o nariz enterrado na própria lama. Se essa carta
vier ao conhecimento da corte, ninguém mais a receberá. Terá de encarar o
ostracismo social. Perderá tudo que mais preza na vida. Portanto, não vamos fingir
que não sei o que está em jogo aqui! Agora suma e não apareça na minha casa
nunca mais!
Lucinda girou nos calcanhares e desapareceu no longo corredor.
Liza viu Charlotte entrar na sala.
— Pode afastar esse vaso um pouco para a esquerda, querida?
— Bom-dia para você também — provocou a prima, enquanto executava a
tarefa.
Liza sorriu.
— Desculpe-me.
— Charlotte! Sente-se e tome uma xícara de chá — ofereceu Mathilda. — A
criada já está trazendo os bolinhos.
— Daqui a pouco, tia. Antes tenho um comunicado a fazer. — Ela cruzou as
mãos à frente do corpo. — Mas para isso peço a completa atenção das duas.
Pousando o lápis, Liza notou um jornal embrulhado debaixo do braço da
prima. Trocou um olhar curioso com a tia.
— Estão prontas?
— Oh, por Deus do céu, criança, diga logo! — Mathilda apressou-a, curiosa.
— Estou noiva!
Os olhos de Liza se dilataram de surpresa.
— O quê?
Mathilda estava boquiaberta.
— É verdade — afirmou Charlotte.
— Oh, que boa notícia! Parabéns, querida! — cumprimentou Liza. Em
seguida levantou-se para abraçar a prima, tentando afastar o sentimento de pesar
por si própria. — Sente-se — convidou, guiando Charlotte até uma cadeira. — E
conte-nos tudo. Quem é o felizardo?
A prima se empertigou, erguendo o queixo, orgulhosa.
— Eu, Charlotte Lawrence, estou noiva de Randolph Hawkmore, oitavo conde
de Langley.
— Oitavo conde de Langley? — ecoou Mathilda.
— Vou ser condessa!
— É inacreditável! — interveio Liza. — Como pôde fazer segredo disso?
Charlotte deu de ombros num gesto que denotava inocência.
— Porque nem eu mesma sabia. — Pegou o jornal debaixo do braço. — O
que sei é que o conde me viu na Ópera Italiana — informou, corando. — E apesar
de não ter manifestado seu sentimento na ocasião, achou-me a moça mais adorável
que já vira. Com o passar do tempo continuou a pensar em mim. E ontem me pediu
em casamento.
Charlotte entregou o jornal a Liza.
— A história está na coluna social de hoje. Veja. Liza pegou o periódico e leu
em voz alta:
— Foram anunciadas as bodas do oitavo conde de Langley, Randolph
Hawkmore, com a srta. Charlotte Rebecca Lawrence. As núpcias acontecerão no
próximo dia dez de junho, em cerimônia restrita a familiares no castelo Hawkmore.
— Mamãe contou-me que o contrato de casamento será assinado em breve.
Mathilda ergueu o sobrolho, com expressão de dúvida.
— Oh, tia... Isso será ótimo para Charlotte — argumentou Liza.
— Eu sei — afirmou Mathilda, olhando para a sobrinha mais nova. — Estou
muito feliz por você. Mas agora sua mãe se tornará insuportável. Ela sempre se
julgou superior ao nosso lado da família. No dia do casamento com meu querido
irmão, nos tratou com menosprezo e durante todos esses anos praticamente nos ig-
norou. Agora, por certo, vamos deixar de existir. — Mathilda ergueu o queixo. —
Não que ela vá me fazer falta.
— Tia Matty! — repreendeu Liza. Charlotte meneou a cabeça em
concordância.
— Não faz mal, prima. Conheço minha mãe melhor do que ninguém. —
Suspirou, aborrecida. — Mas ela é minha mãe.
— Como foi o encontro de vocês? — Liza interrompeu a conversa.
— Devo confessar que nosso primeiro encontro não foi exata-mente o que eu
esperava.
Mathilda inclinou-se para frente, demonstrando interesse.
— Por quê? Ele é feio, defeituoso ou algo assim? Charlotte meneou a
cabeça, balançando os cachos que pendiam do penteado.
— Não. Ao contrário. É um dos homens mais belos que já conheci. E o mais
rico dos cavalheiros da corte.
— Então qual foi o problema? — questionou Liza, intrigada. Charlotte pareceu
pensativa.
— Ele não demonstra estar apaixonado por mim. Na verdade, o conde mal
me olhou.
Liza franziu o cenho, confusa.
— Ele foi extremamente rude com minha mãe e a condessa — continuou
Charlotte. — E quando partiu, parecia furioso com todas nós.
— Como ele poderia estar aborrecido com você? — ponderou Liza. — Talvez
estivesse apreensivo por alguma outra razão.
— É possível — replicou a jovem, pousando a xícara na bandeja de prata. —
A condessa disse que o filho estava zangado com ela. Suponho que tenham tido
uma discussão.
Mathilda desculpou-se e foi verificar o que estava atrasando os bolinhos.
Tão logo ela saiu, Charlotte inclinou-se para frente.
— Você precisava ver o tom com o qual ele se referiu a minha mãe e à dele.
Por um lado achei interessante. Muitas vezes tive vontade de responder a minha
mãe daquela maneira, mas nunca tive coragem. — Ela baixou o olhar. — Não pense
que sou um ser desprezível, mas só esse motivo bastaria para me casar com aquele
homem.
Liza não sabia o que dizer. Abigail Lawrence não primava por sua bondade
ou simpatia, mas uma filha sempre devia respeito à mãe.
— Estou certa de que terá outros motivos para amar seu futuro marido.
Mesmo porque ele a ama.
Charlotte não pareceu convencida.
— Se ele ainda me amar. Depois de conhecer minha mãe será capaz de
pensar que sou igual a ela. Acho que foi por isso que se mostrou tão frio.
— Então prove a ele que está errado.
— Espero conseguir. — O olhar da jovem tornou-se sonhador. — Já posso
vislumbrá-lo vestido de noivo...
A imagem de Mark parado no altar, fazendo os votos de casamento,
preencheu os pensamentos de Liza, que de pronto os varreu para um canto de sua
mente. Aquilo era algo que nunca poderiam compartilhar.
— Ele é lindo. Espere até conhecê-lo. Parece um deus grego. Tem os mais
extraordinários olhos azuis!
Liza lembrou-se da ternura que vira nos olhos de Mark naquela manhã e da
intensa luxúria com que a fitara na noite anterior. Nenhum homem poderia ter olhos
mais belos.
Mark fitou os olhos castanhos de Rosalind e forçou um sorriso, enquanto ela
lhe oferecia outra xícara de chocolate quente.
— Não, obrigado.
Os acordes harmoniosos do violoncelo que Matthew tocava reverberavam no
ambiente. Ela pousou o bule.
— Minha tia disse que pode contar conosco no que for necessário para a
adaptação de sua noiva à sociedade.
O conde contraiu o maxilar. Tinha ímpetos de esganar Lucinda por envolvê-lo
naquela enrascada.
A tia de Rosalind levantou os olhos dos naipes de cartas em sua mão.
— Quem recusaria um verdadeiro amor? Mark trocou um olhar com o irmão.
— Ah, o verdadeiro amor! — exclamou lorde Benchley. — Que bobagem!
Casamentos são realizados para melhoria de status ou negócios. — E fitando Mark
por sobre os óculos de aro fino, acrescentou: — O único motivo pelo qual acredito
que esteja de fato apaixonado é que não precisa incrementar seu status ou
negócios.
Matthew pousou o violoncelo de lado e juntou-se a Rosalind no sofá.
— Ora, senhor... Rosalind e eu estamos apaixonados.
— Isso é apenas uma feliz coincidência — retrucou o lorde, sem desviar o
olhar das cartas. — Casará com minha filha pelo fato de ser um Hawkmore e por ter
uma boa soma em dinheiro.
Matthew sorriu para a namorada, beijando-lhe a ponta dos dedos.
— Você me amaria mesmo que eu fosse pobre?
— Claro — replicou ela sorrindo. Mark cruzou os braços sobre o peito.
— Mesmo que não fosse um Hawkmore?
Matthew franziu a testa, surpreso, e depois se dirigiu a Rosalind.
— Sim. Amaria?
— Bem, claro — afirmou Rosalind, rindo divertida. — Mas você é um
Hawkmore, querido, e é rico também.
Matthew acariciou-lhe a mão.
— Boa resposta.
Mark os observou em silêncio e sentiu uma súbita antipatia por Rosalind
Benchley. Ela estava mentindo. Pelo menos o pai fora sincero. A noiva respondera
apenas o que o irmão queria ouvir. Detestava mentiras. Fechou os olhos e esfregou
os dedos na testa. Por que de repente se via cercado de mentiras? Em relação ao
irmão, aos Benchley. E agora, com o anúncio publicado no jornal, em relação ao
mundo. Aquilo lhe revirava o estômago.
Liza. Ela era seu bálsamo. Com sua musa só existia a verdade. Sentiu a
tensão sobre os ombros ceder. Quando estava a seu lado tudo de ruim parecia
desaparecer, dando lugar à felicidade e ao prazer.
Ficara bastante irritado ao vê-la acompanhada no Palácio de Cristal. Mas
quando ela o fitara, a expressão do rosto delicado o fizera ofegar. A emoção que
transparecera no rosto feminino denotava desejo, ânsia e ternura. E algo indefinível
que ainda não sabia explicar...
— Você está bem? — perguntou o irmão. Mark assentiu com a cabeça.
— Sim, apenas cansado. — Levantou-se, resoluto.—Acho que é hora de
partir.
Algo na expressão de Matthew lhe dizia que o irmão sabia qual era sua
intenção.
— Boa noite, então. Mande a carruagem de volta, por favor — e dirigindo-se
ao futuro sogro, falou: — Ainda vou jogar algumas partidas.
Mark saiu tão depressa quanto pôde. Orientou o cocheiro para deixá-lo a
alguns quarteirões da casa de Liza e mandou-o de volta para a residência dos
Benchley.
Enquanto subia os degraus da varanda, notou uma luz fraca iluminando o
quarto de Liza. Estaria acordada? Sorriu para si mesmo quando notou que a janela
estava aberta. Com um impulso, entrou no aposento.
Com o coração acelerado, deteve-se a observá-la. Liza estava deitada de
lado com os olhos fechados e a cascata de cabelos soltos sobre o travesseiro.
Estava voltada para a janela como se tivesse adormecido, esperando pela sua
chegada.
Mark tirou o chapéu. Tirou a capa e o fraque e encaminhou-se até a cama. Os
lábios perfeitos e sensuais estavam entreabertos e as pálpebras, talvez por
influência de algum sonho, tremiam suavemente.
Deus, como era linda!
Tomando cuidado para não acordá-la, acomodou-se a seu lado, quase se
encostando a ela. Inspirou o aroma de baunilha e flor de laranjeira. Liza murmurou
algo no sono, virando-se de lado.
Os lábios que tanto desejava estavam muito próximos para que resistisse.
Mark depositou um beijo suave na boca perfeita e aos poucos foi aprofundando o
beijo.
Em seguida percebeu a resposta suave e sensual de Liza. Ela deslizou uma
das mãos pelo pescoço largo e a outra pousou no queixo, puxando-o para si.
Mark gemeu contra os lábios quentes e convidativos e forçou a língua pela
abertura, explorando a boca apetitosa e depois de algum tempo teve de recorrer a
todas as forças para interromper o beijo.
Os olhos cor de mel piscaram várias vezes.
— Como vai? — sussurrou.
Os lábios úmidos e vermelhos arquearam-se num sorriso.
— Pensei que não viesse.
— Eu lhe disse que viria sempre que possível.
— É verdade — concordou Liza, ajudando-o a afrouxar a gravata.
Mark sentou-se a seu lado na cama.
— Desabotoe sua camisola.
Com movimentos lentos, ela sentou-se e começou a soltar os botões,
enquanto um rubor intenso lhe aflorava à face. Ele não conseguia desviar os olhos
da figura esguia.
— De hoje em diante, quero que durma despida — disse, afrouxando o
colarinho da camisa.
Liza deixou a camisola deslizar até a cintura, enquanto observava Mark se
despir.
— Tem uma chaleira de chocolate quente na lareira para você — disse ela
em tom suave.
Ele estacou estupefato.
— O quê?
— Trouxe chocolate quente para você. Achei que talvez quisesse beber algo
quente.
Mark a fitou com expressão de surpresa. Nenhuma das mulheres que foram
suas amantes lhe havia alguma vez oferecido uma bebida tão singela. Sempre lhe
fora sugerido conhaque, vinho, uísque, tudo que fosse estimulante. Mesmo quando
criança, nunca lhe deram nada como aquilo. Possuía muitos bens materiais, mas
nenhum gesto de carinho.
Sentiu os olhos arderem. Nada tão reconfortante e caloroso lhe fora dado
sem que ele tivesse que pedir. E havia deixado de pedir fazia muito tempo.
Liza franziu o cenho.
— Não gosta de chocolate quente?
Mark sentiu o tremor das próprias mãos enquanto acariciava os cabelos
longos e sedosos de Liza. Puxou-a para si, depositando um beijo longo na testa
alva.
— Eu adoraria uma xícara de chocolate quente.
Liza acordou assustada e arregalou os olhos. O óleo da lamparina ainda
queimava. Porém, não sentia o calor do corpo másculo a seu lado. Sentou-se na
cama com um suspiro de alívio.
Trajando apenas uma calça, Mark estava sentado em uma das cadeiras que
ladeavam a lareira, fitando-a fascinado.
— Pensei que tivesse partido — murmurou, sorrindo.
— Não.
Liza consultou o relógio no criado-mudo. Eram quase três horas da manhã.
Deslizou para fora da cama, pegando a camisola jogada ao chão.
— Eu deveria ter dado um sumiço nisso enquanto dormia.
Ela sorriu, corando e começou a caminhar em sua direção. Quando estava
próxima, Mark segurou-lhe a mão, puxando-a e a fazendo sentar-se em seu colo.
Sorrindo divertida, Liza afastou uma mecha de cabelos que caíra sobre a
testa dele.
— Por que não ficou na cama?
— Não conseguia dormir. — Os olhos azuis pousaram na pele alva do seio
que ficara exposto pela camisola.—E teria me sentido tentado a acordá-la se ficasse
deitado a seu lado.
Liza traçou-lhe a curva da orelha com o dedo indicador.
— Seria ótimo.
— Pensei que ainda estivesse dolorida — a voz máscula soou rouca e
sensual.
Ela meneou a cabeça em negativa.
— Já passou. Além do mais, a vontade de estar nos seus braços é maior.
— Oh, Liza! Você é a minha perdição. Não consigo resistir...
— Então não resista — sussurrou ela, antes de envolver-lhe os lábios num
beijo quente e cálido.
Liza sentiu a camisola ser arrancada de seu corpo, mas não ofereceu
resistência. Adorava a força e o poder que emanavam daquele homem!
Mark lutou por ar enquanto seus lábios procuravam os dela ansiosos.
Deslizou as mãos pelas curvas perfeitas do corpo feminino detendo-se em seu
quadril. Em seguida, interrompeu o beijo, fitando-a nos olhos. Neles, Liza viu
refletida a necessidade selvagem que aquele homem sentia por ela. Mas o brilho
dos olhos azuis também revelava dor. Por um momento não sabia o que fazer ou
dizer.
Então, decidiu lhe dar as duas únicas coisas que podia. Seu corpo e sua
alma. Puxou-o para si, abraçando-o com ternura.
— Estou aqui — sussurrou, depositando um beijo suave em sua orelha. —
Está seguro comigo.
Não sabia por que proferira aquelas palavras, mas sabia que
Mark precisava ouvi-las. Sentiu os braços másculos apertarem seu corpo até
quase perder a respiração.
— Você é mais do que bonita. É maravilhosa — sussurrou em tom suave.
Um calor intenso a envolveu.
— Fico feliz que pense assim.
Embora hipnotizada pelo brilho fulgurante dos olhos azuis, não pôde deixar
de notar o cenho franzido de Mark.
— Quem era aquele homem que a acompanhava hoje? Liza sentou-se na
cama e virou o rosto para encará-lo.
— É sobrinho de uma amiga de minha tia.
— Ele a está cortejando?
— Suponho que sim. Mas creio que em breve desistirá.
— Aquele homem é um paspalho — afirmou Mark. — E um devasso, pelo
que pude perceber. Podia ter quebrado os dentes dele pelo atrevimento de tocá-la.
Liza absteve-se de comentar que ele fizera o mesmo na primeira vez que a
vira.
Mark pareceu adivinhar seus pensamentos.
— Não tem comparação. Você me queria tanto quanto eu a você.
Liza tomou a mão forte nas suas.
— É verdade.
Mark a encarou com olhar sério.
— Por dois meses será minha e não tolerarei nenhum depravado
atravessando-se em meu caminho. Portanto, livre-se dele. Liza sentia a mesma
irritação em relação a Alfred.
— Na verdade, depois que você partiu, o sr. Swittly e eu encontramos um
grupo de crianças em visita ao Palácio de Cristal e, deliberadamente, o informei que
não posso ter filhos. — Baixou o olhar, incapaz de encará-lo. — Isso o fará desistir.
Espero que sim, pois não posso ser rude com ele. Isso criaria um transtorno para
minha tia.
—Transtorno é achar aquele homem apropriado para você. Ele é um
oportunista de primeira categoria. Concordará em se casar com você, com filhos ou
não, para ter acesso ao seu patrimônio.
— Estacou e franziu o cenho. — Qual é sua real situação financeira? Disse
que é filha de um vigário. Mas se veste de como uma dama da corte. Seu marido era
rico?
Liza mudou de posição, sentindo-se desconfortável.
— Ele era um homem próspero. Um fazendeiro em ascensão. Depois de sua
morte, passei todos os bens dele para meu pai. E recebo uma mesada por mês.
Minha outra fonte de renda é a herança de minha mãe. Ela trouxe um grande dote
quando se casou com meu pai. A família dela é muito rica e como não concordavam
com a união, fingem que nós não existimos. — Fitou-o nos olhos.
— Minha mãe se casou por amor e nunca se arrependeu disso. Mark
sustentou-lhe o olhar.
— Esse bufão nunca a fará feliz. Liza sorriu com ternura.
— Eu sei — concordou, traçando com o indicador as linhas da palma da mão
máscula. — Minha tia está apenas eufórica com o fato do meu luto estar terminando.
Ela adora fazer-se de cupido.
A expressão do rosto masculino endureceu.
— Foi para isso que veio para Londres?
Por que Mark parecia tão aborrecido? Estaria pensando que ela pretendia
fisgá-lo?
— Vim visitar minha tia e prima, visitar os museus e galerias de arte e me
divertir um pouco. Só.
A fisionomia preocupada de Mark não se alterou.
— Dentro de dois meses voltarei para casa. Para a mesma vida que levava
antes. E você estará livre... quer dizer... Já é livre para fazer o que quiser.
Mark franziu a testa.
— E quantos pretendentes a esperam lá?
Um misto de alívio e perplexidade tomou conta de Liza. Por que ele agia
como se sentisse ciúme? O que o estava preocupando?
— Tenho poucos admiradores — informou-o, meneando a cabeça. — Minhas
irmãs são muito mais cortejadas. Acho que as duas juntas são donas de todos os
corações masculinos da nossa cidade.
Mark não sorriu com o comentário.
— Está sendo muito modesta. E distraída, devo dizer.
Liza inclinou a cabeça para o lado e fitou-o com olhar inquisitivo.
— Por quê?
— Não notou todos os olhares masculinos pousados em você hoje no Palácio
de Cristal?
Foi a vez dela de franzir a testa.
— Quem?
— Muitos — ele resmungou, parecendo aborrecido. — Aposto que há uma
longa fila de cavalheiros ansiosos por suas atenções, lá onde mora.
Liza ficou pensativa por instantes.
— Para ser sincera, me lembro de apenas três que talvez tenham essa
intenção. Mas não estou interessada em nenhum deles.
Mark enrolou um cacho de cabelos sedosos entre seus dedos.
— Em quem está interessada?
A conversa estava tomando um rumo bastante estranho. Mark dissera que o
tempo deles era finito. Dois meses. Então por que se preocupava com o que ela
pudesse fazer depois disso?
— Não estou interessada em ninguém.
Mark desviou o olhar, parecendo decepcionado.
— Mas um dia pretende casar-se outra vez, não?
Em que aquilo poderia interessá-lo? O que esperava que respondesse? Era
impossível imaginar-se casada com Mark. Varrera aquela esperança de sua mente
no início do relacionamento dos dois. Só se permitia tal desejo em seus sonhos.
Os olhos azuis e profundos não paravam de fitá-la. Sentiu um aperto no
coração.
— Não sei — admitiu em tom suave. — Sempre pensei que não, mas agora...
— Observou a mão firme colada à sua.—Talvez comece a pensar sobre o assunto.
Capítulo V

Mark acordou e piscou várias vezes para se acostumar à fraca claridade do


alvorecer. Na varanda, uma pomba arrulhava sem cessar.
Aconchegada em seus braços, Liza suspirou e colou o corpo ao dele. A face
delicada estava pousada sobre seu peito e os cabelos longos roçavam em seu
braço.
Relutante, ele se afastou, tomando cuidado para não despertá-la. Por mais
que desejasse continuar deitado ao lado de Liza, eram quase cinco da manhã e
precisava partir.
Enquanto se vestia, notou uma paleta e um caderno de esboços sobre a
mesa. Aproximou-se curioso e admirou a violeta pintada em aquarela. Era idêntica à
original que se encontrava no pequeno vaso ao lado do desenho. Começou a folhear
o caderno com sucessivas pinturas de natureza morta e de pessoas, cada uma mais
bonita que a outra.
Deteve-se algum tempo admirando o retrato de duas lindas mulheres
sentadas uma em frente à outra. Uma tinha um livro na mão e a outra segurava uma
harpa. Na margem da página viu a legenda: Patience e Prim. Deviam ser as irmãs
de Liza, concluiu, observando certa semelhança nos traços dos rostos desenhados.
Mark meneou a cabeça, encantado. Liza era mais talentosa do que ele
imaginara. Conseguia captar a essência do que estava desenhando.
Continuou folheando o caderno, com esperança de encontrar um auto-retrato.
Foi então que em uma das últimas páginas deparou com algo inesperado.
Engoliu em seco. Será que era assim que ele se parecia? Reconheceu suas
feições e a expressão do próprio olhar, mas havia algo mais naquele desenho que
não conseguia definir. Talvez alguma coisa que somente aos olhos dela ressaltava.
Observou o retrato com atenção, mas a pintura era o reflexo da visão da
artista. Se ela o via assim tão belo, melhor. Uma sensação de calor envolveu seu
coração.
Mark voltou a fitá-la. Liza ainda dormia, a respiração compassada pelo sono.
Decidido, pegou uma caneta e escreveu um bilhete:
Até dormindo você é linda. Voltarei esta noite. M. P.S. Evelin Didlemot?
Colocou-o sobre a mesinha-de-cabeceira, onde ela não poderia deixar de ver.
— Perdoe-me, sra. Redington — entoou Alfred Swittly. — Mas sua imagem
encantadora me faz vir à mente a personagem Hérmia, embrenhando-se na floresta
à procura de seu amado Lisandro — afirmou o falastrão, referindo-se à obra de
Shakespeare, enquanto valsavam no salão de baile ao lado do Palácio de Cristal. O
amplo pavilhão fora dividido em dois ambientes para abrigar, além do baile
costumeiro, outra festa particular.
— Obrigada, sr. Swittly — agradeceu Liza, forçando um sorriso.
Embora o homem tentasse agir como se nada tivesse acontecido no dia
anterior, ela ainda se sentia desconfortável a seu lado. Apesar de ter se mostrado
decepcionado quando Liza lhe informou que não podia ter filhos, seu entusiasmo
reacendeu quando soube que a prima estava noiva de um conde.
Quando valsavam pelo local onde se encontravam Mathilda e as irmãs
Swittly, Liza avistou John Crossman em companhia delas.
— Oh, sr. Swittly. Veja. Lá está seu primo. Talvez deseje cumprimentá-lo —
sugeriu, querendo se livrar dos braços gigantes que a apertavam.
— Por certo, sra. Redington.
Ao perceber a presença de Liza, o rosto de John Crossman se iluminou num
sorriso, realçando suas belas feições. O rapaz pareceu não perceber a presença do
primo, tão absorto estava a fitá-la.
— Sra. Redington — cumprimentou-a assim que o par chegou à mesa.—
Pergunto-me como consegue superar sua própria beleza a cada dia — elogiou,
depositando um beijo na ponta dos dedos delicados. — Presumo que esteja
oficialmente fora do luto.
Liza sorriu e entreabriu os lábios para falar, mas a tia se adiantou.
— Sim. Já estava em tempo — aparteou, fixando os olhos na sobrinha. —
Uma jovem não deveria ficar de luto por tanto tempo.
John Crossman sorriu.
— Temo que não possa concordar com a senhora. Do contrário, não teria tido
a chance de testemunhar tão deslumbrante transformação.
— É verdade, sr. Crossman — concordou Mathilda, orgulhosa.
— Minha sobrinha está radiante.
— Não poderia ter escolhido melhor descrição — atalhou Al-fred Swittly.
Só então o primo cumprimentou Alfred. Em seguida levantou-se e ofereceu o
braço a Liza, quando os primeiros acordes da próxima valsa entoaram no salão.
— Dar-me-ia o prazer desta dança, sra. Redington? — E desviando o olhar
para o primo que ameaçava protestar, acrescentou:
— Não pode monopolizá-la a noite toda.
Liza aceitou o convite e ele a guiou pelo salão. Enquanto abriam caminho
entre os casais que valsavam, ela sorria divertida. Fazia muito tempo que não
dançava, e embora desejasse veementemente que o cavalheiro a sua frente fosse
Mark, não podia negar que John Crossman era uma excelente companhia.
— Costuma comandar os navios que constrói, sr. Crossman? . Navega pelo
salão com a segurança de um homem do mar.
John sorriu.
— Interessante a sua observação, mas a verdade é que nunca comandei um
navio. Meu pai nunca permitiu. Eu era seu único herdeiro e ele ficava preocupado
que algo me acontecesse.
— E quando pretende embarcar?
— Ainda não me decidi — replicou John, rodopiando mais rápido. — Gostaria
de uma taça de ponche?
— Sim. Por favor.
John a guiou até o balcão de bebidas.
— Liza! — ouviram uma voz chamar.
Charlotte correu em sua direção, atirando-se em seus braços.
— Vim até aqui na esperança de encontrá-la! Oh, querida... — exclamou,
afastando-se. — Muito me compraz vê-la assim tão radiante. Essa cor realça sua
beleza.
— São seus olhos. Mas como pôde abandonar a própria festa? — perguntou
Liza, tentando mudar de assunto.
Naquele momento a voz aguda de Abigail se fez ouvir.
— Pare de venerar sua prima como se ela fosse uma deusa do Olimpo —
recriminou. — Está fazendo um espetáculo.
— Mas milady — interveio John Crossman —, é tão raro testemunhar uma
genuína demonstração de afeto e admiração. Quem dera todas as mulheres fossem
tão graciosas e cúmplices!
Abigail pareceu se intimidar, já que não sabia quem a contrapunha.
— Não vai apresentar seu acompanhante? — perguntou a Liza. Desde que
chegara a Londres aquela era a primeira vez que
encontrava Abigail Lawrence. Não fora convidada uma vez sequer para a sua
residência. Era Charlotte quem sempre ia visitá-la.
— É um prazer revê-la, sra. Lawrence. Minha família lhe envia votos de saúde
e bem-estar.
A mulher levantou o queixo com altivez.
— Envie-lhes os meus também. Suponho que devo lhe agradecer por tentar
introduzir minha filha na arte da pintura. Foi muito gentil de sua parte, mas no
momento Charlotte tem coisas mais importantes a fazer. Temo que também não
tenha oportunidade para convidá-la e a sua tia para visitarem minha residência, tão
ocupada estou com os preparativos do casamento.
Liza anuiu com um movimento de cabeça. Tanto melhor. Contanto que
pudesse ver a prima, não fazia a menor questão de estar com Abigail.
— Sr. Crossman, permita-me apresentar-lhe a prima de minha mãe, sra.
Abigail Lawrence, e sua filha, Charlotte Lawrence.
Antes que o rapaz pudesse falar, Abigail deu um passo à frente.
— Tem alguma relação com os Estaleiros Crossman? John assentiu.
— Sim, milady. Sou o proprietário.
A atitude de Abigail se transformou de forma radical.
— Bem — disse, oferecendo-lhe um sorriso amável. — É um prazer conhecê-
lo, sr. Crossman. Peço desculpas, mas agora temos que nos retirar. Somos
convidadas de uma festa particular do outro lado do salão. É a primeira noite em
público de minha filha com o noivo. — Segurando o braço da filha, chamou: —
Venha, Charlotte. Não devemos deixar o conde esperando.
— Estamos atrasados — observou Matthew. — Mamãe vai ficar aborrecida.
Mark deu de ombros displicente enquanto adentravam o pavilhão de festas.
— Quanto menos tempo eu tiver de permanecer aqui, melhor. O irmão sorriu.
— Está detestando isso tudo, não? Mas não estou me referindo apenas a
nossa mãe. É uma indelicadeza com sua noiva também. É a primeira ocasião de
vocês em público.
Mark franziu a testa. Sua futura esposa lhe estava sendo impingida goela
abaixo, mas o irmão não podia saber disso. Era um
homem bom e decente e merecia ser feliz. Detestava ter de mentir para ele.
Resignado, anuiu com um movimento de cabeça.
— Acho que posso agüentar um pouco mais. Matthew sorriu aliviado.
— É assim que se fala!
Mas a tolerância de Mark durou pouco. No instante em que pousou os olhos
sobre a mãe e Abigail Lawrence juntas, toda a raiva que sentia por aquelas duas
criaturas emergiu. Charlotte estava parada ao lado da mãe.
Mark recorreu a toda a força que possuía para manter o semblante calmo
enquanto caminhava na direção delas. Os olhares dos convidados voltavam-se para
ele à medida que avançava pelo salão. Era forçado a cumprimentá-los, apertar-lhes
as mãos e fazer reverências seguidas até chegar a seu destino.
As damas sorriram quando Mark curvou-se numa reverência.
— Milady... Senhorita...
Um imperceptível empurrão da mãe levou a menina a dar um passo à frente e
estender-lhe a mão. Não que a artimanha tivesse passado despercebida a Mark.
Que megera..., pensou, engolindo a revolta e depositando um rápido beijo na
ponta dos dedos delicados. Em seguida, apresentou o irmão.
Matthew foi encantador como sempre e Lucinda sorriu, orgulhosa da
elegância do filho mais novo.
Enquanto Matthew trocava algumas palavras com Charlotte, Abigail
aproveitou a oportunidade para se aproximar de Mark.
— Não se atreva a deixar minha filha esperando dessa maneira. Está me
ouvindo?
— Vá para o inferno — murmurou ele.
Quase que instintivamente Mark voltou o olhar à mãe que o encarava furiosa.
O que mais podia esperar daquela mulher? Que viesse em sua defesa? Que
demonstrasse alguma afeição por ele como fazia com Matthew? Isso nunca
aconteceria.
Desviou o olhar para Charlotte e a jovem lhe voltou um sorriso doce.
Abominava a expressão sempre alegre estampada no rosto da noiva.
Em vez disso, estendeu o braço em sua direção.
— Concede-me essa dança, sita. Lawrence?
E assim se passaram as próximas intermináveis duas horas. Controlado pelos
olhares perscrutadores da mãe e de Abigail, continuou na companhia da
desagradável noiva. Um misto de frustração e raiva crescia dentro dele à medida
que os minutos se passavam.
Seu único alento era pensar em Liza. Se precisava sorrir, lembrava do rosto
de traços finos e delicados de sua musa. Se precisava mostrar-se amável, recordava
a suave entrega com que ela se abandonava em seus braços. Se era obrigado a
dançar com alguma das três detestáveis mulheres, sonhava com sua adorável
amante.
Mas naquele momento se sentia prestes a explodir. Conseguira escapar por
alguns momentos e encontrava-se em companhia dos Benchley, embora avistasse a
mãe caminhando em sua direção.
Tinha de arranjar um meio de sair dali. Sem dizer palavra, afastou-se do
grupo e abriu caminho entre a multidão. Logo, respirou aliviado. Quanto mais se
afastava para o outro lado do salão, melhor se sentia.
Em breve partiria ao encontro de Liza. E então poderia esquecer as agruras
daquela malfadada noite. Respirou fundo e pôs-se a observar os casais que
dançavam no outro baile que ocorria simultaneamente.
Ela atraiu sua atenção de imediato.
Observou-a deslizar pelo salão nos braços de um estranho. Os longos
cabelos ruivos ornados por fitas douradas estavam apanhados em um gracioso
penteado que mal lhe cobria a nuca. Enquanto ela se movia, notou o par de ombros
delicados e a cintura delgada envolvidos pelas fitas de cetim verde-esmeralda.
Franziu o cenho, observando o brilho lustroso do tecido do elegante vestido.
Seu par era um cavalheiro alto, bem-apessoado, e não o gigantesco bufão. Não
podia ser ela, não ali e nem nos braços daquele homem.
Sentiu o estômago revirar ao vê-la bailar graciosamente.
Era Liza. E estava tão linda como nuca vira.
Ela não notou sua presença. Sorria divertida para o parceiro que parecia lhe
dizer algo muito engraçado. Era óbvio que estava se divertindo.
A chama do ciúme queimava-lhe o peito. Sentia inveja, não só pela felicidade
que exibia, mas por ter sido excluído dela. Enquanto estivera sofrendo a pior das
torturas, Liza se divertia.
Sentiu que o coração parecia querer lhe sair pela boca. Deus! Como era
linda! E ele a queria. Droga! Liza lhe pertencia.
Matthew se materializou a seu lado. Seguindo o trajeto do olhar do irmão,
descobriu, sem esforço que ele observava Liza.
— Ela está linda! — exclamou o irmão sem conseguir se conter diante de tão
bela visão.
— Nunca vi nada igual — concordou Mark como que hipnotizado. Em seguida
olhou para trás, avaliando a distância em que se encontrava do outro salão.
— Eu não faria isso — disse Matthew, parecendo adivinhar-lhe o
pensamento. — Do jeito que vocês dois se olham, todos irão notar. f
— Será apenas uma dança.
Matthew segurou-lhe o braço, detendo-o.
— O que pretende? Arruiná-la? Você tem uma reputação a zelar. E por mais
que pense que as pessoas do outro lado do salão não estão prestando atenção no
que está fazendo, asseguro-lhe de que está enganado. Vi vários convidados da
nossa festa caminhando por aqui. Qualquer um que o conheça saberá que tem se
encontrado com ela. O que incitará a curiosidade sobre a identidade dela. É isso que
quer?
— Não — afirmou Mark sem tirar os olhos de Liza. Só então o irmão soltou-
lhe o braço.
— Além disso, é um homem comprometido agora. Não pode sair dançando
com quem lhe aprouver.
Mark sentiu todo o corpo tenciona.
Os últimos acordes da música soaram e o par de Liza a guiou para fora da
pista de dança.
Lá estava o inconveniente sr. Swittly, reconheceu Mark. Embora Liza sorrisse
atenciosa, sua expressão parecia cansada. Ela pressionou a palma da mão contra a
testa e a senhora a seu lado, observou-a através do monóculo.
Queria tomá-la nos braços e carregá-la para longe dali. A levaria para casa, a
despiria e a deitaria a seu lado na cama. E então poderia dormir por quanto tempo
quisesse, enquanto ele velaria seu sono.
Liza disse algo para a mulher e ao sr. Alfred e voltou o olhar para a pista de
dança. Os olhos vaguearam pelo salão, observando os casais que dançavam
entretidos.
Mark contraiu a mandíbula.
Encontre-me, querida, pediu em pensamento. Se não podia ir até Liza,
deixaria pelo menos que ela o visse.
Como que obedecendo ao comando tácito, os olhos dela pousaram em Mark.
Oh, Deus! O queixo de Liza se ergueu e os lábios se entreabriram numa
expressão de incredulidade. O desinteresse de seu olhar logo foi substituído por um
brilho de ternura e paixão. Era como se pudesse acariciá-lo a distância.
O sangue começou a correr rápido nas veias de Mark, bombeando-lhe o
coração com violência.
— Jesus Cristo! — exclamou Matthew.
No mesmo instante, Liza disse algo à senhora que a acompanhava, que de
pronto anuiu. Depois girou nos calcanhares e saiu.
Mark deu um passo à frente. Sabia que Liza queria que ele a seguisse.
Matthew segurou-lhe o braço mais uma vez.
Ele encarou o irmão furioso.
— Solte-me.
Quando saiu do pavilhão, Liza afastou-se da multidão que se aglomerava na
sacada para ver os fogos de artifício. Segurou a saia e correu tão depressa quanto
pôde. Sem olhar para trás, foi se afastando cada vez mais.
Será que Mark a seguiria? Esperava que sim.
Quando se viu sozinha, recostou-se na estatua de um leão.
Por que estava se escondendo?
Depois de alguns instantes uma sombra se moveu do outro lado da estátua.
Liza fechou os olhos, enquanto a essência de verbena embotava-lhe os sentidos.
— Ansiei por sua presença durante a noite inteira.
— E eu pela sua — replicou Mark.
Liza sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha e saiu de detrás da estátua.
Ele fechou a distância entre os dois. Aquele homem era incrivelmente belo.
— Não me contou que seu luto havia acabado.
— Não.
Mark estacou bem próximo a ela.
— Deveria ter me contado
Um leve tremor agitou o corpo feminino.
— Por quê?
Ele traçou com o indicador a linha da clavícula delicada.
— Porque quero saber tudo sobre você.
O que estaria pretendendo com aquilo? Passar para um nível a mais de
intimidade que só tornaria mais difícil abandoná-lo? Não fora ele que dissera que
não acreditava em relacionamentos duradouros?
No entanto, esquecendo toda a lógica, deixou-se guiar pelo coração.
— Também quero saber tudo sobre você.
Ele a tomou nos braços e Liza teve a impressão de estar no paraíso.
— Todo o tempo que eu dançava desejava que meu par fosse você —
declarou, enlaçando-lhe o pescoço largo. — E, de repente, você apareceu.
Mark sustentou-lhe a intensidade do olhar, meneando a cabeça.
— Você é diferente de qualquer mulher que já conheci — dizendo isso,
tomou-lhe os lábios num beijo quente e profundo.
Liza respondeu com a mesma intensidade, pressionando o corpo delgado
contra o dele.
Os acordes de uma nova valsa ecoaram a distância.
— Dance comigo — murmurou Mark em uma quase súplica. Começaram
devagar, mas conforme a música tocava, Mark a girou com força, guiando-a pela
grama úmida do jardim.
O coração de Liza batia descompassado, enquanto ele exibia um sorriso
luminoso.
Uma grande explosão de fogos de artifício se fez ouvir, iluminando o céu
escuro.
Continuaram a valsar alheios aos gritos de admiração da multidão que
assistia ao espetáculo.
Aquela felicidade era um presente de Deus, pensou Liza. Nunca tivera uma
noite tão perfeita.
Mark inspirou a brisa fria da manhã e sorriu ao entrar em casa. A noite
anterior fora uma tortura até encontrar Liza. Depois disso, tornara-se uma bênção.
Encaminhou-se ao escritório. Tomaria um drinque e depois dormiria por
algum tempo.
Ao alcançar a porta, suspirou exasperado. Matthew estava parado próximo à
janela.
— Não sabia que acordava tão cedo — disse ele, atravessando o aposento e
afundando no sofá. — Sei que lhe disse que podia vir à hora que quisesse, mas não
precisava ser tão cedo.
O irmão permaneceu onde estava.
— Teve uma noite agradável?
O corpo de Mark enrijeceu ao tom de voz de Matthew.
— Sabe que sim.
— Bom-dia, milorde — cumprimentou o mordomo, entrando com uma
bandeja de desjejum.
Depois que o criado partiu, Mark serviu-se de café em silêncio e em seguida,
dirigiu-se ao irmão.
— Sei que não tomou café da manhã, portanto sirva-se e diga logo o que veio
fazer aqui. Por certo não foi para me perguntar se tive uma boa noite.
Matthew sentou-se do lado oposto da mesa. Serviu-se de ovos mexidos,
salsicha e torradas amanteigadas e começou a comer.
Mark pegou a xícara de café e se encaminhou de volta ao sofá, estendendo
as pernas para pousá-las na mesa de centro. O irmão caçula sempre tivera um
apetite voraz pela manhã, talvez fosse a razão de estar ali.
— Por que não me diz o que está pretendendo fazer? — perguntou Matthew,
levando o garfo à salsicha.
— A que está se referindo?
— À questão do seu noivado — começou o irmão, inclinando-se para frente.
— Por que ficou noivo dela?
— Porque quero ter herdeiros.
— Essa é a única razão?
Matthew o estava obrigando a mentir outra vez.
—Todos lucrarão com essa união. Como uma plebéia, ela ficará feliz em se
tornar condessa e eu terei os filhos que quero. Além disso, não terei de entrar por
longas negociações de dote com pais avarentos como o seu futuro sogro.
— E Charlotte não será uma avarenta também? É só olhar para a mãe dela e
ver a cobiça exalando por todos os seus poros. Não gosto daquela mulher. — E
apontando para o irmão. — E sei que você a detesta.
Graças a Deus, um momento de sinceridade.
— Você está certo.
— Então esqueça esse casamento. Descubra um meio de se livrar delas.
— Vou casar com a filha, não com a mãe.
— Oh, desculpe-me — disse o irmão, sarcástico. — Esqueci o quanto está
apaixonado e como lhe é excitante a idéia de ter herdeiros. Cristo! Não consegue
ficar um segundo ao lado daquela mulher.
— Onde está querendo chegar? — questionou Mark, exasperado.
— Cale a boca e me escute — gritou Matthew, parecendo mais tenso que ele.
— Viu o modo como Liza o fitava?
O irmão estava entrando num terreno perigoso. Não gostava de ouvi-lo
referir-se a Liza.
— Claro que sim.
— É tudo que tem a dizer? — Matthew passou as mãos pelos cabelos sem
tirar os olhos do irmão. — Vou lhe dar um conselho e espero que o siga. Case-se
com Liza. Faça-a mãe de seus herdeiros. Ela satisfaz seu desejo de se unir a uma
plebéia. E, até onde sei, a família dela não é tão exasperante quanto os Lawrence.
Mark fitou o irmão por um longo instante. Como poderia casar com uma
mulher que não queria unir-se a ninguém?
— Não posso. Lisa é incapaz de ter filhos.
Não era verdadeira razão que o impedia de fazê-lo, mas não estava dizendo
uma mentira.
A expressão de Matthew não se modificou.
— Isso é tão importante assim? Eu e Rosalind teremos um filho. Que
chamaremos de Mark. Desde que o menino tenha o sangue dos Hawkmore, que
diferença faz se é meu ou seu?
Oh, aquilo era demais. Mark engoliu em seco, pressionando os dedos contra
a têmpora latejante. Em seguida dirigiu-se à janela e observou a paisagem. Estava
tudo errado. O irmão que tanto amava tentava desesperadamente mostrar-lhe que
não seria feliz. O problema era que ele não tinha noção das conseqüências advindas
do que estava lhe pedindo para fazer.
Sentia vergonha do papel que estava fazendo.
— Aprecio o que está fazendo — declarou cerrando os dentes. — Mas já
tomei minha decisão.
Um silêncio constrangedor abateu-se entre os dois.
— Então abandone Liza.
O coração de Mark pareceu pular pela boca, mediante tal sugestão.
— Não.
— Seja decente e deixe-a. Acabará por magoá-la.
Mark passou pelo irmão como uma flecha. A expressão fechada deixava claro
que a conversa tinha findado. Abriu a porta e segurou-a, encarando o irmão caçula.
Matthew caminhou até a porta, estacando quando lá chegou.
— Eu o perdoarei por isso. Liza por certo, também. Mas me pergunto se você
algum dia se perdoará.
O som estrondoso da porta se fechando, reverberou nos ouvidos de Mark.
— Tia Matty! Torna muito difícil desenhá-la quando fica se mexendo o tempo
todo.
— Desculpe-me, querida. Mas sabe que não consigo ficar parada. Quanto
tempo leva para fazer um retrato?
— Horas. Às vezes, dias.
— Oh, Deus!
Naquele instante Charlotte adentrou a sala.
— Graças a Deus que está aqui. Faça companhia a sua prima enquanto
caminho um pouco. Estou colada nesse assento por uma eternidade.
Liza sorriu para Charlotte enquanto Mathilda disparava para fora do aposento.
— Era minha primeira tentativa de fazer um retrato a óleo e já perdi a modelo.
A prima dirigiu-se a ela para observar o desenho recém-começado.
— Pensei que tivesse desistido de pintar retratos.
— E tinha.
— O que a fez mudar de idéia?
Mark. O nome veio à mente de Liza de imediato, fazendo-a corar.
— Sentia-me sem motivação. Mas alguém que sempre me diz a verdade
falou que eu tinha muito talento. Foi o incentivo de que estava precisando.
— De fato, essa pessoa tem toda a razão. É muito talentosa — elogiou
Charlotte, observando o esboço no papel.
Liza observou a expressão da prima. Apesar da constante suavidade, parecia
preocupada.
— Está com algum problema, querida? Charlotte largou-se na cadeira de
fronte para ela.
— A noite passada foi um fiasco — declarou, amargurada. Liza colocou o
caderno de desenho de lado e inclinou-se para frente.
— O que aconteceu?
— Não sei. Acho que tudo. O conde chegou atrasado e mamãe ficou furiosa.
Sabe que quando isso acontece, ela acaba descontando em mim.
— Minha querida, não se incomode com isso. Você é uma pessoa
maravilhosa e estava linda ontem noite. Não tive oportunidade para lhe dizer, mas
John Crossman mal conseguia desviar os olhos de você.
A prima não pareceu animada com o comentário.
— Acho que meu noivo me detesta.
— O quê?
— Vi no semblante dele. Logo quando chegou lançou-me um olhar de ódio.
— Deve estar enganada. Ele manteve esse comportamento pelo resto da
noite?
— Não. O resto do tempo parecia não me ver. E enquanto dançávamos, se
trocamos duas palavras foi muito.
Liza pensou na valsa que dançara com Mark. Desejava que Charlotte tivesse
tido um milésimo de sua felicidade.
— Eu não estava lá para testemunhar, mas foi a primeira vez que saíram em
público juntos. Talvez seu noivo não goste de eventos sociais. Ou mesmo estivesse
preocupado com algum de seus muitos negócios. — Estendeu a mão, acariciando o
rosto de Charlotte. — Seja razoável. Se não gostasse de você, por que motivo a
teria pedido em casamento?
— Isso é o que me pergunto o tempo todo.
Os pensamentos de Liza voltaram-se para Abigail Lawrence.
— Você disse que ele não gosta de sua mãe e que parece aborrecido com a
dele. As duas não estavam lá ontem?
— Sim.
— Então. Talvez o seu mau humor esteja explicado. — Não sabia como
expressar o que diria a seguir. — Outra possibilidade é o fato de ele pensar que
você é muito submissa a Abigail e que isso fará com que ela interfira na vida futura
de vocês.
— Tem razão. Eu que sou filha me assusto com seu jeito de ser, imagina os
de fora.
— Deve obedecer e respeitar sua mãe acima de tudo, mas acho que deveria
mostrar-se mais para seu noivo. É a única forma de ele perceber que você não é
igual a ela.
— Sei que tenho de ser mais forte — afirmou a prima. — Vou tentar seguir
seu conselho.
— Meninas... Temos visita — interrompeu Mathilda, introduzindo John
Crossman na sala.
— Por favor, sente-se. Vou providenciar um chá.
— Boa-tarde sr. Crossman — sorriu Liza. — Lembra-se de minha prima,
Charlotte Lawrence?
John fez uma reverencia em direção à mão estendida da jovem.
— Interrompo-as? Posso voltar uma outra hora.
— De forma alguma. Junte-se a nós. Estávamos mesmo discutindo os
acontecimentos da noite passada.
— E naquela ocasião não tive oportunidade de congratulá-la pelo noivado,
srta. Lawrence. Sua mãe mencionou um conde. Com quem exatamente vai se
casar?
— Obrigada, sr. Crossman. Estou noiva do sr. Randolph Hawkmore. O conde
de Langley.
— Oh, sim? Conheço o lorde.
— Verdade? — questionou Charlotte interessada.
— Apenas sua reputação. Ele é um grande investidor da frota Crossman. Meu
pai o conhecia bem.
Liza trocou um olhar significativo com a prima.
— Se não se importa, sr. Crossman. Poderia nos falar sobre a reputação do
conde?
— Sem dúvida. Ao contrário de muitos da sua classe é um homem com
talento para os negócios. É conhecido por seu caráter integro e honesto. Possui
poucos, mas sinceros, amigos. Algumas pessoas o acham muito rígido e às vezes
anti-social, mas meu pai tinha-no em alta conta.
Charlotte sorriu satisfeita.
— Aqui está o chá. — Mathilda adentrou o recinto, seguida da criada.
Mark observava os desenhos espalhados por sobre a sua mesa. O trabalho
sempre constituíra uma terapia para ele, mas não naquele dia. Desde o desjejum,
quando discutira com Matthew, seus pensamentos perturbavam-no.
Com um suspiro exasperado, largou a caneta na mesa e dirigiu-se à janela. O
jardim que projetara estava florescendo, mas nada parecia entretê-lo.
Liza também não lhe saía da mente. Sabia que ela era um dos motivos de
sua preocupação. Não porque não pudesse lhe dar herdeiros, mas porque o fizera
almejar mais do que a realidade lhe impunha.
Antes de conhecê-la, pensava que seu destino já estava traçado. Tiraria o
máximo de proveito da vida, seria um bom tio e o trabalho preencheria seus dias.
Mas Liza tinha lhe inspirado uma nova casta de aspirações e emoções. As
antigas lhe pareciam frias e distantes naquele momento.
Cranford bateu à porta.
— Perdão, senhor. O sr. Wilkes deseja vê-lo. Por Deus! Tomara que tivesse
encontrado a carta.
— Mande-o entrar.
Quando o mordomo fechou a porta atrás do rapaz, Mark foi direto ao assunto.
— E então? Pegou a carta?
Mickey retirou o chapéu.
— Ainda não. Mas quero lhe pôr à par do meu progresso, senhor.
Mark cruzou os braços sobre o peito, aguardando.
O ex-gatuno lhe contou que havia achado milhares de cartas no quarto de
Abigail na noite anterior, mas não encontrara a que procurava. Mas informou-o que
fizera amizade com a criada de quarto dela e esta lhe revelara que ninguém gostava
da patroa e que todos os criados estariam dispostos a fazer algo contra a dona da
casa.
— Mas ninguém pode descobrir seu propósito.
— Claro que não, senhor. Sou um profissional — retrucou o rapaz, quase
indignado.
Mark guiou o rapaz para a porta, colocando uma das mãos em seu ombro.
— Preste atenção. Preciso daquela carta o mais rápido possível. Entendeu?
— Perfeitamente, senhor.
— Então volte ao trabalho.
Quando o rapaz saiu, Mark voltou para sua mesa. Apesar de novo, Wilkes lhe
parecia bastante eficiente. Já conseguira bastante para um dia de trabalho.
Mickey encontraria a carta. Pensando nisso, voltou ao trabalho.
Liza revirou-se na cabine da carruagem, ajustando o véu. Já havia mais de
uma semana que tinha abandonado o luto. Passava as noites com Mark e durante o
dia ocupava-se com os passeios e visitas com a tia. Charlotte vinha lhe visitar quase
todos os dias. Nas festas, Mathilda sempre a acompanhava, bem como Alfred
Swittly e seu primo John Crossman, que compensava a enfadonha companhia do
primeiro.
Naquele dia dissera à tia que iria sair para fazer algumas compras. Na
verdade iria visitar Mark. Um tremor perpassou-lhe o corpo ante o risco que corria.
Não podia deixar de sentir uma pontada de arrependimento por estar mentindo para
a tia. Pretendia passar em alguma loja no caminho de volta, para que seu disfarce
fosse completo.
A chuva fina que começara havia poucos minutos agora se transformava
numa tempestade. Liza olhou através da janela cortinada. Havia poucas pessoas na
rua, mas não iria se arriscar. Solicitou ao cocheiro que parasse e saltou da
carruagem, abrindo a sombrinha. Teria de andar um pouco até a casa de Mark.
Quando lá chegou estacou, observando a construção. Situada em uma esquina, era
composta de dois andares. Era toda branca, com uma larga porta verde e uma
aldrava em forma de cabeça de leão. Liza deteve-se a observá-la por alguns
instantes. Por certo não entraria pela porta da frente.
Contornando a casa, aconchegou o guarda-chuva à face. Sabia que o leão de
seus sonhos representava Mark. Mas não pôde deixar de achar estranha a
coincidência.
Apressando o passo, abriu um pequeno portão de ferro lateral e encontrou a
entrada de serviço. Assim que a alcançou, a porta se escancarou de imediato,
revelando Mark. Ele a puxou para dentro com sombrinha e tudo. A porta se fechou e
ele a tomou nos braços.
Mark arrancou-lhe o véu e sorriu.
— O que a fez demorar tanto?
Liza deixou a sombrinha cair no chão ao lado deles.
— Estou atrasada?
Ele apossou-se dos lábios convidativos com um beijo ousado. Quando se
afastou, exibiu um sorriso malicioso.
— O que a fez demorar tanto para contornar a casa?
— Oh, bem... eu...
Mark não a deixou completar a frase. Seus lábios já estavam cobertos pelos
dele. Dessa vez num beijo terno e longo. Lisa ofegou quando Mark a soltou. Os
olhos azuis brilhavam.
— Deus! Como você é linda!
Em seguida guardou a sombrinha e guiou-a até a sala.
— Não se preocupe. Dei folga a todos os empregados.
— Dê-me sua capa e chapéu, milady. Ou devo chamá-la de Elvira Dartpoof?
Liza riu divertida.
— Oh, adivinhou — brincou. — Tenho de partir às quinze horas. Tenho um
jantar importante esta noite.
Enquanto falava, admirava o belo espécime masculino. Ele trajava um robe
azul por cima de um par de calças. Mark franziu o cenho.
— Que coincidência. Eu também tenho um jantar. Não tão importante. Aliás,
preferia não comparecer.
Embora o tivesse visto nu diversas vezes, nunca o tinha visto vestido como se
fosse entrar no banho. Corou ao entregar-lhe o chapéu.
— Está linda neste vestido — Mark elogiou.
Liza sorriu radiante. Aquele era um dos seus trajes favoritos e o escolhera,
pensando em agradá-lo. Ele segurou-lhe a mão.
— Venha comigo.
Mark a guiou pela sala que possuía uma elegante escada em caracol em um
dos cantos.
— Tem uma linda casa — observou ela, enquanto se encaminhavam ao
andar de cima.
— Obrigado. Quem a projetou foi Robert Adam — disse quando chegaram ao
segundo andar. — Gosto da maneira como projeta os ambientes.
— Presumo que seja um arquiteto.
— Sim. O melhor do último século.
Seguiram por um corredor com Mark sempre à frente. Quando chegaram ao
fundo, ele abriu uma porta, introduzindo-a em seu quarto. O aposento era largo,
comprido e decorado de forma magnífica. A cama larga estava coberta por uma
colcha de cetim verde com drapeado dourado. Ao fundo uma lareira acesa
esquentava o ambiente.
Uma mesa ampla estava bem localizada para receber a luz que vinha das
janelas. Quando passou por ela, Liza notou vários desenhos espalhados.
Aproximou-se curiosa. Projetos arquitetônicos preenchiam as folhas.
Ela o fitou curiosa quando Mark se aproximou.
— Você é arquiteto?
— Sim.
Liza observou os detalhes dos croquis com atenção.
— São lindos.
— Obrigado. É meu projeto para a nova Biblioteca Nacional. Isto é, se for
aceito.
— Acho que acertou em optar pelo estilo clássico — opinou ela, se atendo
aos detalhes do desenho. Acho que a tendência neo-gótica não se aplicaria a uma
biblioteca.
— Fico feliz que tenha gostado. Concordo plenamente com você. Acho que
esse tipo de construção deve ser livre de ornamentos extravagantes.
Liza o escutava, fascinada e acompanhava seu raciocínio enquanto lhe ia
apontando os detalhes da obra. Aquilo era sua fonte de prazer. Sentiu-se feliz por
Mark estar dividindo algo tão importante com ela.
— Estou certa de que seu projeto será aceito.
— Espero que sim. — E guiando-a até a janela. — Quero que veja uma coisa.
Olhe para baixo.
Através do vidro salpicado pelas gotas da chuva, Liza observou o jardim. Lá
se encontravam os mais variados tipos de plantas e flores compondo um arranjo
harmônico e belo. No centro estava uma fonte.
— É Afrodite? — perguntou sorrindo.
Mark depositou um beijo suave no lóbulo da orelha delicada.
— Sim. Eu a construí há pouco tempo. Ainda não está funcionando.
Liza recostou a face ao peito másculo, enquanto ele lhe envolvia a cintura
com uma das mãos e com a outra os seios.
Em seguida Mark a tomou nos braços e começou a desabotoar-lhe o corpete
do vestido.
— A despeito do quanto gosto do seu vestido prefiro vê-la sem ele —
sussurrou com voz rouca.
O coração de Liza começou a bater descompassado, enquanto o ajudava a
despi-la.
Os olhos azuis percorriam o corpo feminino com avidez e Lisa sentiu-se
estremecer ao perceber-se tão vulnerável. Estava sozinha com Mark. Confiava nele,
mas ao mesmo tempo sentia-se completamente à mercê daquele homem.
— Você me quer agora? — perguntou ele contra o lóbulo de sua orelha.
— Quero-o sempre — retrucou Liza sem saber como as palavras ousadas lhe
saíram pela boca.
A afirmação pareceu ter o efeito de fogo em palha seca.
Sem descolar os lábios da pele alva e macia, ele depositou beijos quentes e
úmidos no pescoço dela e foi descendo pelo colo e ventre até se ajoelhar sob o
olhar hipnotizado de Liza. Deslizou uma das mãos pela feminilidade pulsante e
começou a massageá-la, enquanto lhe beijava o interior das coxas trêmulas.
Lisa ofegava, lutando por ar. Sentindo os joelhos fraquejarem, se agarrou aos
vastos cabelos de Mark, emitindo sons ininteligíveis.
— Oh, Mark. Por favor... — suplicou, ofegando.
De modo lento, ele se ergueu, detendo-se por instantes para sugar-lhe um
mamilo. Em seguida, livrou-se da calça, jogando-as para o lado.
Liza o desejava com intensidade.
— Eu o quero tanto.
Mark sentou-se na beirada da cama, lançando-lhe um olhar de fogo.
— Venha — convidou-a, estendendo-lhe as mãos. — Sou todo seu.
Mark depositou beijos ternos na face afogueada de Liza, que estremeceu de
emoção com o toque daqueles lábios. Poderia ficar ali para sempre. Cativa nos
braços do homem mais belo que jamais conhecera.
— Tenho um presente para você — murmurou Mark. Liza sentiu o coração
flutuar.
— Você é meu presente.
Ele afastou um cacho de cabelos da testa de Liza e beijou-lhe o canto da
boca.
— E você o meu.
Virando-se de lado, ela se apoiou no cotovelo, sustentando a cabeça com a
mão. Observou-o mover-se pelo aposento. Quando teria se apaixonado por ele?
Sabia que não era algo novo. Quase percebera quando dançavam nos jardins do
Palácio de Cristal. Também tivera a mesma sensação na primeira vez que ele fora a
seu quarto.
Mark desapareceu por instantes e retornou com uma cesta de piquenique e
uma caixa preta atada com uma fita de cetim dourado, formando um laço gracioso.
Ele estacou, fitando-a nos olhos.
— Adoro vê-la deitada em minha, cama. Enquanto está aí, sei que me
pertence.
— Sou sua onde quer que eu esteja.
Ambos se fitaram por um longo tempo e em seguida Mark sentou-se a seu
lado.
Liza recostou-se no espaldar da cama e ele colocou a caixa sobre seu colo.
— Para você.
Ela sentiu um aperto no peito. Com movimentos lentos, querendo congelar
aquele momento para sempre, desatou o laço de fita.
— Nunca presenteei uma mulher antes — revelou com voz rouca. — Mas não
pude resistir. Esse parece ter sido feito para você.
Liza desviou o rosto para esconder as lágrimas que ameaçavam cair.
Retirou a tampa de papelão. Um papel de seda preto cobria o conteúdo.
Afastou as dobras do papel para descobrir um fino cachecol de lã estampado em
verde, vermelho, azul e preto. Liza ergueu a peça para observá-la melhor. Sua
beleza e qualidade eram dignas de uma rainha.
Não pôde mais controlar as lágrimas que rolaram livres pela. face delicada
enquanto admirava o presente.
— Obrigada, Mark. É lindo!
Ele roçou os lábios de leve nos dela.
— Se soubesse que ia gostar tanto, teria lhe comprado uma centena deles.
E então Lisa soube. Amara aquele homem desde a primeira vez que o vira.
Capítulo VI

Mark deixou a mão repousar sobre o joelho de Liza.


— Gostaria que ficasse parado — protestou ela, sorrindo e cobrindo com o
lençol a perna desnuda.
Haviam comido todo o conteúdo da cesta de piquenique e se encontravam
nus sentados na cama.
Liza estava tentando desenhar o perfil harmônico de Mark. O cachecol jogado
por sobre seus ombros e ele não parava de tentar acariciar-lhe as nádegas e as
pernas.
— Não estou movendo o rosto — argumentou Mark, deslizando uma das
mãos por baixo do lençol e tocando-lhe a perna.
— Se quer que o desenho fique bom, não deve tentar me distrair — retrucou
Liza, contendo o riso.
Ele suspirou resignado e tomou um gole de vinho.
— Por que não me conta algo sobre você? — sugeriu, enquanto traçava o
contorno do rosto másculo no papel.
— O quê, por exemplo?
— Deixe-me ver. — Liza ergueu os olhos para o teto, pensativa.
— Alguma passagem de sua adolescência.
— Não tenho histórias interessantes para contar. Ela o fitou com ternura.
— Nada?
Mark a observou por cima do caderno.
— Quando estava em Oxford, fizemos uma competição entre os garotos para
ver aquele que cuspia mais longe. Eu e meu irmão ganhamos.
Liza deu uma gargalhada.
— Não sabia que em Oxford se perdia tempo com coisas tão inusitadas.
— Algumas vezes estudamos também. Ela revirou os olhos.
— Ainda bem.
— Agora fale você. Nunca fez nada ousado antes de me conhecer?
Liza pensou por um tempo e depois riu divertida.
— Eu e minhas irmãs costumávamos nadar no rio, próximo da nossa casa,
completamente despidas.
— Verdade? — inquiriu Mark surpreso. — Que idade tinha na época?
— Quinze. Certa vez, depois de nadarmos por um longo tempo, deitamos na
grama e Prim, de repente, levantou gritando e sacudindo os quadris. Eu e Patience
corremos para acudi-la, mas não passava de uma joaninha que havia lhe mordido as
nádegas. Eu a arranquei, mas ela ficou com a marca.
A respiração de Mark acelerou. A imagem de Liza nua a beira de um lago,
excitou-o novamente.
— Gostaria de tê-la conhecido naquela época. Eu a acompanharia àquele
lago todos os dias. Assim, você conheceria o verdadeiro prazer aos quinze anos de
idade.
Liza sorriu, mas logo depois sua expressão se fechou.
— Quem me dera tê-lo conhecido naquela ocasião. Assim não teria casado
com meu ex-marido.
O pensamento da vida que Lisa levara ao lado de um frígido cafajeste o
enfurecia. Franziu o cenho.
— Eu não a deixaria casar com ele.
— E de que modo teria me impedido? A resposta dele veio de imediato.
— Casando-me com você.
As palavras ficaram suspensas no ar.
Mark sabia que estava sendo sincero e não sentiu nenhum desconforto em
proferi-las.
— Mas você disse que não acredita em relacionamentos duradouros —
contestou Liza.
Era verdade. Mas quando estava a seu lado tudo parecia diferente. Com ela,
sua vida parecia cheia de felicidade e novas possibilidades. Liza lhe trouxera de
volta a fé na eternidade dos sentimentos.
— Sim — disse Mark por fim. — Mas se a tivesse conhecido quando era
garoto, teria tido outra visão do amor.
— Mas só nos conhecemos agora.
— É verdade — concordou Mark, traçando com os dedos a curva dos seios
fartos. — Graças a Deus. — Deixou a mão escorregar para o ventre liso. — Estive
pensando. O fato de não ter tido filhos com seu marido não quer dizer que não os
possa conceber. O problema podia ser dele.
Liza o fitou, consternada.
— Era meu.
— Como sabe?
Ela piscou várias vezes para impedir as lágrimas que lhe brotavam aos olhos.
— Ele me traía com uma das criadas da fazenda. Observei-os duas vezes no
estábulo. Dentro de pouco tempo a moça ficou grávida. Quando ele soube,
ofereceu-lhe dinheiro para que partisse de lá.
— Sinto muito — disse Mark embaraçado. — Não deveria ter tocado no
assunto.
Ele se afastou, limpando uma lágrima do rosto delicado com a ponta do
polegar. Os olhos cor de mel estavam ligeiramente avermelhados. Queria que
brilhassem de felicidade e não de tristeza. Desejava fazê-la ciente de que só pelo
fato de o ex-marido ter se deitado com a criada, não queria dizer que o filho fosse
dele.
Mas deteve-se, inseguro. Podia estar enganado e não queria lhe dar falsas
esperanças. E então decidiu consolá-la, abordando o problema por outro ângulo.
— Alguns maridos perdem o desejo pela esposa no momento que põem o pé
fora da igreja — começou em tom suave. — E na maioria das vezes o problema não
é delas, mas do fato de estarem sempre ao alcance de suas mãos. Alguns perdem o
entusiasmo e se voltam para as que não podem ter.
Liza o fitou por um longo instante.
— É por isso que me deseja tanto?
Mark franziu o cenho. Seus sentimentos eram muito diversos do exemplo que
dera.
— Sabe muito bem que entre nós é diferente.
— Eu sei — afirmou Liza, sustentando-lhe o olhar. — Só queria ouvir você
dizer.
Ele ergueu-lhe o queixo, depositando um beijo suave em seus lábios.
— O que me faz desejá-la tanto é o fato de você se entregar inteira para mim.
Porque não me pede nada e aceita tudo que lhe ofereço. — Franziu a testa, fitando-
a com seriedade. — O que me faz desejar que me peça alguma coisa. Algo que
ninguém possa lhe dar. — Notou um brilho intenso e indefinido nos olhos dela.
Observou-a por instantes e reconheceu a mesma nuance intangível que vira no
desenho de seu retrato quando estava no quarto de Liza. A voz máscula soou
trêmula. — Acima de tudo a quero porque você é tudo que sempre sonhei na vida.
Liza acariciou o tecido fino do cachecol. Combinava com perfeição com o
vestido de seda vermelha que usava. Ajustou-o mais sobre o pescoço, enquanto
John Crossman a guiava em direção à casa dos Lawrence.
A residência parecia toda iluminada. Todo o clã Lawrence fora convidado
para o jantar de noivado de Charlotte.
Seria a única representante da família Dare. Os parentes campestres que
Abigail tanto evitava citar. A prima fizera questão de convidá-los para o casamento.
Mas o convite formal havia chegado naquele dia. Porém, para o jantar só ela fora
requisitada a comparecer. Mathilda fora excluída e Abigail tivera o atrevimento de
designar John Crossman como seu acompanhante.
Liza pensara em declinar do convite, mas Mathilda a fizera ver que Charlotte
ficaria muito magoada sem a sua presença.
Tocaram a campainha e foram admitidos por um mordomo vestido a rigor. O
vozerio que vinha dos salões de cima denunciava a presença de muitos convidados.
Abigail desceu a escada para recebê-los. O olhar altivo avaliava Liza com um quase
desdém.
— Que gentil em aceitar o convite — disse, dirigindo-se primeiro a John
Crossman. — Não sabia se sua agenda social o permitiria vir.
— Gentileza alguma, milady — replicou o milionário. — É um prazer estar em
companhia da sra. Redington. Cancelaria um compromisso com a rainha para
desfrutar de sua convivência.
Liza o fitou com um sorriso agradecido. John encarava Abigail com ar sério.
Só então a megera pareceu notar-lhe a presença.
— Charlotte ficará feliz em vê-la. Mas não a monopolize por muito tempo.
Quando está presente, minha filha parece não notar mais ninguém. Depois que for
apresentada a seu noivo, cuide para manter distância de minha filha.
Liza assentiu com um aceno de cabeça e, aceitando o braço estendido de
John Crossman, seguiu Abigail.
O volume da música e das vozes aumentou quando alcançaram o andar de
cima. Seguiram-na entre a multidão. Liza sorria e cumprimentava algumas pessoas
de seu conhecimento. E então seu olhar pouso sobre um par de ombros largos.
Liza franziu a testa com expressão interrogativa. Conhecia aquela compleição
física perfeita, mesmo em meio a uma multidão.
Sentiu as pernas tremerem e o coração disparar. Deus! Abigail parecia estar
os guiando em direção a ele.
— Milorde — disse a anfitriã.
Milorde? As palavras fizeram eco na mente de Liza. Por que se referia a ele
daquela maneira?
— Deixe-me apresentar a prima em segundo grau de Charlotte, sra.
Redington e seu acompanhante, sr. John Crossman dos Estaleiros Crossman.
Por um instante ninguém se moveu. Em seguida, o homem elegante com a
vasta cabeleira preta girou para encará-los.
Os olhos azuis pousaram-se diretamente em Liza. Os lábios carnudos e
sensuais se entreabriram e a expressão do rosto másculo de traços perfeitos se
fechou.
Liza tentou sorrir. Por que não parecia contente em vê-la?
— Liza! — exclamou Charlotte, correndo para abraçá-la. Ela retribuiu o
abraço com o coração ainda muito acelerado.
Até o momento não havia notado a presença da prima. Percebeu que o irmão
de Mark também estava presente e ao lado dele, uma senhora que devia ser a mãe
deles.
Mark estava cumprimentando John Crossman, enquanto Matthew, fitando-a
com expressão estranha no olhar, deu um passo a frente e estendeu a mão para
ela.
Liza estava confusa. Charlotte não lhe havia dito que o noivo tinha olhos
azuis?
— Prazer em conhecê-la, sra. Redington — disse o irmão de Mark. Sua mão
a segurava com tanta força que parecia querer ampará-la.
A prima estava cumprimentando John Crossman. O estômago de Liza
contorcia-se em antecipação.
— Estou tendo o prazer de conhecer o conde de Langley, milorde? —
perguntou ela com a voz trêmula. — O senhor é Randolph Hawkmore, não?
Matthew franziu o cenho, ao mesmo tempo em que se curvava numa
profunda reverência.
Mark tomou a mão de Liza do irmão e ela notou um brilho de compaixão nos
olhos azuis.
— Eu sou o conde de Langley, sra. Redington. Mark Randolph Hawkmore, as
suas ordens.
Não, Deus! Não podia ser verdade.
— Todos os condes de Langley são batizados com o nome Mark. Por isso,
costumamos nos identificar com nossos nomes intermediários — acrescentou com o
olhar cheio de ternura. — Só nos chamam pelo primeiro nome os que nos são muito
íntimos.
Liza sentia-se zonza. O estômago revirava com espasmos violentos. Lutava
por ar, sem lograr êxito e tudo a sua volta parecia rodar.
Mark franziu a testa, amparando-a com a outra mão.
Ela começou a tremer de modo descontrolado.
— Liza — Charlotte aproximou-se. — Está branca como uma folha de papel!
Gotas de suor assomaram-lhe à fronte.
— Eu... não estou me sentindo bem. — Ofegou. Não conseguia encará-lo,
embora ele ainda lhe segurasse a mão. Com muito esforço dirigiu-se ao seu
acompanhante. — Sr. Crossman, por favor...
John colocou a mão em seu ombro.
— Quer que chame um médico?
— Eu... não... — Tinha de sair dali antes que desmaiasse. — Fitou Crossman
através dos olhos banhados de lágrimas. — Leve-me para casa.
— Posso levá-la até um aposento contíguo — interveio Mark.
— Não! — o grito escapou sem perceber. Quando tentou se mover, os
joelhos cederam.
Mark precipitou-se em sua direção, mas John Crossman foi mais rápido e a
amparou, enlaçando-lhe a cintura.
Mark deu mais um passo a frente. A mandíbula contraída pela tensão, mas o
irmão segurou-lhe o braço enquanto John a levava embora.
Charlotte seguiu ao lado da prima. Liza levou a mão ao estômago, sentindo
uma profunda náusea. Não conseguia suportar a presença de Charlotte.
— Por favor, querida—conseguiu articular as palavras quando alcançaram o
andar térreo. — Volte para sua festa.
Mark correu até o salão com o irmão em seu encalço.
Percebendo que ele a seguia, Liza apressou-se pela escada, sempre se
amparando em John. A visão turvada pelas lágrimas, que agora lhe inundavam a
face, não lhe permitia ver nada a sua frente. Sem conseguir se conter começou a
soluçar.
Mark, o amor de sua vida, era o noivo de Charlotte!
Liza tropeçou e mais uma vez Crossman estava lá para ampará-la. Ouviu-o
falar algo para alguém sobre sua carruagem.
As últimas palavras de Mark reverberavam em seus ouvidos.
Era insuportável aceitar que durante todo o tempo em que ele a acariciava,
lhe fazia amor e deitava a seu lado, estava mentindo.
— Deixe-a ir — sussurrava Matthew ao ouvido do irmão. — Ela está
acompanhada. Não pode confortá-la agora.
Abigail e Lucinda surgiram ao lado deles.
— Milorde, os convidados aguardam sua presença — disse a primeira em
tom severo.
— Estamos preocupados com Liza — replicou Charlotte.
— Ora! — Aborreceu-se Abigail. — Espero que agora entenda por que eu não
queria convidá-la. Tinha de fazer um show particular. Agora todos só comentarão
sobre seu mal súbito e não sobre a sua apresentação à sociedade.
Mark teve ímpetos de estapeá-la.
— Cale-se ou saio daqui agora mesmo e então eles terão bons motivos para
comentários.
Os olhos de Charlotte se arregalaram de surpresa. Matthew apertou o braço
de irmão.
Abigail não pareceu se intimidar. Lançou-lhe um olhar gélido.
— Se o fizer, garanto que vai se arrepender.
Mark cerrou os dentes, furioso. Naquele exato momento, Liza estava
pensando as piores coisas a seu respeito, enquanto ele permanecia preso às garras
daquela chantagista.
Recuou um passo, mas o irmão adiantou-se com expressão indignada.
— O que pensa que está fazendo ao ameaçar um conde desse jeito? Deveria
estar prostrada nesses seus joelhos gordos, agradecendo pelo fato de um nobre
querer casar com sua filha. — Lucinda que até então apenas assistia à cena,
segurou o braço do filho mais novo. — Veja o modo como fala — continuou
Matthew. — Ou eu a farei se arrepender.
Mark pensou que tudo poderia ir pelos ares em instantes. E então estaria livre
para correr para Liza e convencê-la a ficar com ele.
— Vamos embora — disse o caçula, dirigindo-se ao irmão. — Essa mulher
não vale o chão que pisa.
Mark deu um passo à frente. Liza precisava dele. O irmão sobreviveria à
verdade.
— Querido! — exclamou Rosalind, aproximando-se de Matthew. — Está tudo
bem? Soube que alguém foi acometido de um mal súbito.
Mark sentiu a tensão tomar conta de todo o seu ser ao notar a expressão do
irmão se suavizar de pronto. As palavras de lorde Benchley ecoaram em seus
ouvidos: Só casará com minha filha porque é um Hawkmore.
Se a origem de Matthew fosse revelada, perderia o amor de sua vida.
— Pode ir se quiser — disse Mark ao irmão. — Eu vou ficar.
— Não estou entendo — argumentou o caçula, indignado. Abigail exibiu um
sorriso triunfante e girou nos calcanhares, seguindo pelo salão.
Mark fitou Charlotte por cima do ombro do irmão. Odiava aquela mulher que o
aprisionava enquanto Liza precisava dele.
— Por ela — disse, apontando em direção a Charlotte. Só então o irmão mais
novo pareceu percebê-la.
— Desculpe-me, srta. Lawrence. Espero que saiba que minha raiva não era
dirigida à senhorita. Tive a oportunidade de conhecê-la melhor nesta última semana
e pude perceber que não se parece em nada com a sua mãe.
A jovem assentiu com um aceno de cabeça, mas não parecia decidida se
ficava ou ia embora. Optou por fitar Mark.
— Conheço bem o temperamento de minha mãe. Mas garanto-lhe, milorde,
que não sou como ela.
Mark a encarou com frieza. Detestava aquela aparente apatia,
— Estarei com você dentro de alguns instantes. Charlotte fez uma pequena
reverência e partiu com Rosalind. Matthew lançou um olhar furioso à mãe, e dirigiu-
se ao irmão.
— Eu lhe disse, não? Eu o avisei que você a machucaria. Mas isso superou
todas as minhas expectativas. Escolheu o pior modo de fazê-lo.
Mark cerrou os punhos.
— Vá para o inferno! Eu não sabia que elas se conheciam.
— Suponho que agora vá abandoná-la para ficar atado a essa bruxa
interesseira! — esbravejou Matthew. — Sabe de uma coisa, meu dileto irmão? Você
merece ser infeliz.
Furioso, Mark girou nos calcanhares e desapareceu pelo salão. Enquanto se
afastava, consultou o relógio. Ainda era muito cedo. Não conseguiria ir ao encontro
de Liza por um bom tempo.
Deus! O que ela estaria pensando?
Abalada e exausta, Liza deitou-se, puxando o lençol até a altura do queixo.
Algumas horas haviam se passado desde que Mathilda e John Crossman a
deixaram a sós em seu quarto. O gosto de fel ainda lhe fustigava a garganta e as
lágrimas insistiam em rolar pela face pálida. A dor da traição lhe oprimia o peito de
maneira torturante.
Sentia-se ao mesmo tempo traída e traidora. E o pior. O único amor de sua
vida não passava de uma ilusão, que trouxera consigo danos e prejuízos.
Levou a mão ao coração. Não era verdade. Seu amor era puro e verdadeiro.
E indigno. Como pudera enganá-la daquela forma?
Sufocou um soluço e enterrou o rosto no travesseiro. Por que logo Charlotte?
A resposta atingiu-a como um raio, partindo-a ao meio. A prima era jovem e
rica. E um conde precisava de herdeiros.
Como poderia sobreviver ao casamento de sua querida prima com o seu
único e verdadeiro amor? Conseguiria esquecê-lo com o tempo?
— Estava certo de que encontraria a janela aberta.
Liza ofegou ao som da voz de Mark, erguendo o rosto par, encará-lo.
Ele a fitou com um misto de ternura e compaixão.
— Oh, Liza! — Conseguiu dizer, precipitando-se em direção à cama.
Lisa sentou-se com um movimento rápido, esticando o braço num gesto de
impedimento.
— Não se aproxime. — Deixara a janela aberta de propósito, mas agora que
ele estava ali, questionava sua decisão de conversar com Mark naquela noite. —
Pensei muito — começou Liza com a voz trêmula. — Mas por fim decidi que...
preciso lhe dizer adeus.
— Não há necessidade disso, querida.
Ela não sabia o que pensar. Como Mark era capaz de dizer uma coisa
daquelas?
— Em breve será o marido de minha prima. Como pode dizer que não
precisamos nos afastar? — A voz dela começou a falhar. — Deveríamos ter
acabado com isso há muito tempo.
Mark franziu o cenho.
— Nunca diga isso. Está mentindo. — Fitou-a com intensidade no olhar. —
Você é a melhor parte da minha vida. A parte perfeita.
Liza levou a mão ao coração que batia descompassado.
— Não percebe o que está dizendo? Você pertence a Charlotte.
— Não é verdade — protestou ele, passando a mão pelos cabelos vastos
num gesto cansado.
Em seguida pegou uma cadeira e aproximou-a da cama. Sentou-se, fitando
os punhos cerrados antes de erguer os olhos para encará-la.
— Vou lhe contar o que me levou a esse noivado.
Mark contou a história em todos os seus pormenores. A origem do irmão, a
traição que mãe fizera ao pai, a carta que ela escrevera a Abigail e por fim a infame
chantagem.
Liza escutava tudo, estarrecida. Sempre soubera que Abigail era uma mulher
interesseira e avarenta, mas jamais esperara que fosse capaz de tamanha sordidez.
— E então é isso — concluiu o conde. — Não só tenho de casar com
Charlotte, mas gerar filhos com ela. Só então Abigail concordará em me devolver a
missiva. Embora eu duvide muito que isso vá acontecer algum dia.
Liza lutava contra as emoções contraditórias que se agitavam dentro dela.
Envergonhava-se pelo fato de uma parte de sua família estar impingindo tal
sofrimento ao homem que amava. Mas por outro lado, ficara claro que ele não
queria Charlotte. Sentia-se aliviada e ao mesmo tempo pesarosa.
Apesar de tudo, não podia deixar aquela situação se perpetuar por nem mais
um segundo.
Juntando todas as forças que possuía, engoliu em seco, erguendo os olhos
rasos marejados de lágrimas para encará-lo.
— Essa é a ultima vez que nos encontramos desta maneira. Apesar de toda a
maldade da mãe, Charlotte é inocente. Deve ser um bom marido para ela.
— Não! — Mark protestou, elevando o tom de voz. — Não abrirei mão de
você. Não tenho intenção de casar com sua prima.
Ante o olhar surpreso de Liza, Mark lhe contou todo o seu plano para
recuperar a carta.
Grossas lágrimas rolavam pela face dela.
— Não pode fazer isso. Se abandonar Charlotte agora, o que será dela? Irá
difamá-la perante toda a sociedade.
— Isso não é justo. Não percebeu que estou sendo vítima da mais vil das
chantagens? Olhe, se espera que abra mão de você em detrimento de qualquer
outra coisa na vida está muito enganada.
— Espero que você seja o homem nobre e honrado que eu sei que é. Não
podemos manter nosso relacionamento. Você pertence a minha prima.
— Só pertenço a você — retrucou Mark com a voz embargada. — No dia em
que nos conhecemos no Palácio de Cristal eu estava lá para conhecer sua prima. Eu
e meu irmão estávamos andando pelos salões quando decidi que não queria vê-la.
Então, quando estávamos próximos da saída, algo me impeliu para a sala das
esculturas. Naquele instante não sabia o que era, mas agora sei. Tinha de conhecê-
la. Você. Elizabeth Dare. Não sua prima. — Suspirou fundo, lançando-lhe um olhar
intenso. — Quando a desviei da escultura que iria atingi-la, e fitei os seus lindos
olhos, soube que a queria mais do que tudo na vida.
— Basta — interrompeu-o Liza, sem poder escutar mais. — Você é um
conde. E os nobres precisam de herdeiros — disse, levando a mão ao ventre. —
Hoje à tarde, enquanto conversamos, fiquei imaginando como seria viver a seu lado.
Mas sabe que agora isso se torna impossível. É com minha prima que deve casar.
— Eu não a amo!
— Mas eu sim! — retrucou Liza, quase fenecendo. — E não a trairei.
Charlotte é inocente.
Mark ergueu-se com expressão sombria.
— Abigail Lawrence está colocando uma faca no meu pescoço. E Charlotte é
a ferramenta da minha tortura. Portanto, não me diga que ela é inocente. Sua prima
tem tanta participação no meu infortúnio quanto a mãe dela e a minha.—Liza ofegou
quando Mark lhe ergueu o queixo. — E eu não vou trocá-la por ela. Está me
ouvindo? Você me pertence.
Liza fechou os olhos. Não podia mais suportar tanto sofrimento. Mas quando
descerrou as pálpebras para encará-lo, ele já havia partido.
Sentiu o coração se despedaçar. Nunca mais se sentiria inteira outra vez.
Uma parte de si havia partido com Mark.

Capítulo VII

Mark enrolou as plantas já concluídas do projeto da nova Biblioteca Nacional


e atou-as com duas fitas verdes. Postou um selo com o brasão dos Hawkmore.
Observou-as por um longo instante. Há três semanas elas significavam muito.
No dia anterior, quando Liza as elogiara, sentira-se orgulhoso e recompensado por
todo seu esforço. Acreditara quando lhe dissera que seu projeto iria ser aprovado.
Naquele momento, o comentário parecia ter perdido totalmente o significado.
Colocou as plantas na prateleira.
— Concluiu-as? — ouviu a voz do irmão atrás de si.
— Sim — respondeu evasivo, apontando a bandeja coberta em cima da
mesa. — Seu café da manhã está ali.
Matthew esfregou a mãos e sentou-se, servindo-se de uma xícara de café.
— Sua cozinheira é mesmo excelente — afirmou, provando os ovos mexidos
com bacon.
Mark sentou-se em frente ao irmão.
— Desculpe-me por ontem à noite — começou Matthew. — Não tenho o
direito de intervir em sua vida. As obrigações advindas de seu título só dizem
respeito a você.
— Concordo.
Matthew adotou uma expressão séria.
— Você é meu irmão. E embora discorde do caminho que está querendo
trilhar. Estarei a seu lado para o que der e vier.
— Estou certo disso — afirmou Mark, sentindo um aperto no peito.
— Posso lhe fazer uma pergunta? — E mediante a anuência do irmão. —
Como está Liza?
— Abalada, chorando muito e irredutível. Matthew meneou a cabeça.
— O que esperava? A noite de ontem foi um choque até para mim. Imagino
para vocês dois.
Mark franziu o cenho.
— Quem poderia imaginar que existisse algum parentesco entre ela e
Charlotte?
— O que fará agora?
— Tentarei convencê-la de que nada vai mudar. A expressão no rosto do
irmão era de espanto.
— O quê?
— Já lhe expliquei toda a situação. Liza terá apenas de aceitar o meu ponto
de vista.
— Ah, sim — disse Matthew com um certo sarcasmo. — Espera que ela
continue sendo sua amante, enquanto se casa e engravida a prima. Entendi direito?
— Não é bem assim. Matthew suspirou aliviado.
— Ainda bem. Já começava a duvidar de sua sanidade.
— Há minutos me disse que estaria ao meu lado para o que desse e viesse.
O que aconteceu?
— E estou — afirmou o caçula, indignado. — Por isso apelo ao seu bom
senso. Eu teria saído com você da casa dos Lawrence ontem. Mas você quis ficar.
Ótimo. Então assuma sua decisão.
— Não abrirei mão de Liza.
— Pois deve fazê-lo!
Mark se ergueu e caminhou pelo aposento.
— Essa discussão está ficando cansativa.
— Jesus Cristo, meu irmão! Você se casará com a prima dela. Ele abriu a
porta com um gesto bruto.
— Chega! — dizendo isso, saiu apressado do aposento, dirigindo-se à
escada.
Matthew o seguiu.
— Não abrirá mão de Liza porque não pode viver sem ela, não é? Pois é
muito tarde para isso! — gritou o irmão, encaminhando-se para a porta de saída. —
Acha que a convencerá a ficar a seu lado? Eu vi o olhar de Liza ontem. Ela o varrerá
para fora de sua vida!
Mark sentiu os joelhos cederem ao subir os degraus. Matthew estava errado.
Liza nunca o abandonaria. Ela lhe pertencia. Nunca a deixaria partir. Nunca!
—Não acha um pouco cedo para visitas? — perguntou Abigail, enquanto Liza
adentrava à mansão dos Lawrence.
— Sim. Perdoe-me.
— Sente-se.
Ouviu o farfalhar do cetim quando tomou o assento em frente à dona da casa.
Os olhos azuis gélidos de Abigail a avaliavam, enquanto uma criada entrava
com uma bandeja, contendo uma jarra de suco e dois copos.
Liza nunca gostara da mãe de Charlotte, mas agora a repugnava mais do que
nunca. Aquela mulher estava impingindo um terrível sofrimento a seu amado.
— Parece bastante abatida. Para ser sincera acho que deveria ter ficado em
casa ontem à noite. Tive de me explicar várias vezes para os convidados.
Liza não pôde evitar o rubor que lhe assomou à face.
— Peço que me perdoe. Foi um mal súbito. Não viria se não estivesse me
sentindo bem.
— Espero que esteja recuperada. Não suportaria o fato de você infectar
minha casa. Charlotte não pode ficar doente agora.
Aquela mulher era a rudeza personificada. Como Charlotte conseguia
suportá-la?
— Asseguro-lhe de que estou bem. Vim para desculpar-me e falar com minha
prima.
— De fato foi muito desagradável o que aconteceu. Depois de sua partida,
todos quiseram saber o que ocorrera e o noivo de minha filha fez uma infinidade de
perguntas sobre você.
Agora Mark sabia tudo sobre ela.
— Posso falar com Charlotte?
— Ela está em seu quarto, tomando café da manhã. Pode ir até lá, mas não
se demore.
Liza assentiu, apressando-se em sair da companhia desagradável de Abigail.
Sendo assim, precipitou-se pela escada. Piscou várias vezes para dispersar as
lágrimas que lhe inundavam os olhos. Que direito tinha Abigail de dispor da vida dos
outros daquela forma? Como poderia querer casar a filha com um homem que a
rejeitava?
Quando chegou ao corredor, surpreendeu uma das criadas atracada num
abraço apertado com um jovem alto de cabelos escuros. A mão do rapaz deslizava
pelas costas dela até pousar em suas nádegas.
Liza suspirou, recordando-se dos momentos em que esteve envolvida nos
braços fortes de Mark, sentindo o toque firme e sensual de suas mãos. Sentiu um
aperto no'peito, ao lembrar-se de que nunca mais desfrutaria daqueles momentos.
A criada se afastou do rapaz com uma risadinha e em seguida teve um
sobressalto ao avistar Liza. Um misto de medo e vergonha perpassou o rosto da
jovem. O homem parecia muito à vontade.
Liza forçou um sorriso compreensivo.
— Fique tranqüila. Não conterei nada a sra. Lawrence. Estou procurando o
quarto de Charlotte.
A criada fez uma profunda reverência.
— Obrigada, milady. Fica no final do corredor.
Parando em frente à porta do aposento, Liza suspirou fundo e bateu. Ao ouvir
o convite da prima, adentrou o quarto, forçando um sorriso.
Charlotte encontrava-se na cama. A bandeja do desjejum permanecia
intocada a seu lado.
— Oh, graças a Deus que é você! — exclamou a jovem. — Temia que fosse
minha mãe.
Liza franziu o cenho ao fechar a porta atrás de si. Charlotte parecia muito
pálida e escuras olheiras rodeavam os seus olhos.
— Tudo bem com você, querida?
A prima apenas esboçou um sorriso.
— Agora que está aqui, sim. Venha. Sente-se a meu lado. Liza obedeceu,
colocando a mão sobre a testa da prima.
— Não está com febre, mas parece tão pálida.
— Você também — observou Charlotte. — Fiquei preocupada. Como está se
sentindo?
Ela baixou os olhos. Quando se sentiria bem outra vez?
— Não deve se preocupar comigo. Estou recuperada. Encarou a prima que a
fitava preocupada. Doce Charlotte. Tão inocente! Não sabia das maquinações da
mãe.
Pena, remorso e inveja contristavam o coração de Liza. Não estaria passando
por aquilo, se tivesse se comportado segundo os preceitos d,a moral e dos bons
costumes pelos quais sempre se pautara. Quando as leis divinas são quebradas...
— Peço-lhe que me perdoe por tudo, querida. Quero que saiba que jamais a
magoaria.
A prima franziu a testa, confusa.
— Aposto que andou conversando com minha mãe, não foi? Não lhe deve
dar ouvidos. Você precisava ver o que ela fez ontem à noite. Aborreceu tanto o
conde e o irmão que os dois quase foram embora. — Os olhos de Charlotte
encheram-se de lágrimas. — Não sei o que seria se o fizessem. Se o conde desistir
de nosso casamento, ficarei arruinada. Não tenho nobreza nem dinheiro suficientes
para abafar um escândalo. Se um nobre rompe com uma plebéia depois de tão curto
noivado, todos vão presumir que ela tenha alguma mácula.
Liza abraçou a prima, afagando-lhe os cabelos. Charlotte tinha razão. Mark
não poderia romper o compromisso assumido em público. Mas não podia culpá-lo
por tentar. O que seria da vida dele preso a um casamento que não desejava?
— Ele não a abandonará, querida. Afinal teve a opção de sair e não quis.
— Sim — concordou a prima, afastando-se um pouco. — E ele disse que o
fazia por mim. Acho que o conde e o irmão sabem que não sou como minha mãe.
— Então, por que está tão triste? Charlotte baixou a cabeça.
— Porque meu noivo não demonstra o menor traço de afeição para comigo. A
condessa me trata com total desdém quando não estamos em público e minha mãe
está cada vez pior. Acha defeito em tudo. Maltrata os criados. Ela e a condessa se
alfinetam o tempo todo. Até o irmão mais novo do conde, um dos homens mais
gentis que conheci, quase agrediu minha mãe ontem à noite.
A prima levou as mãos ao rosto molhado.
— Oh, por instantes desejei que o fizesse. Sei que deve me achar horrível por
ter tais sentimentos, mas juro que era isso que eu queria.
— Não a acho horrível. Sei que é uma filha paciente e dedicada. Mas também
sei que existem situações nas quais não conseguimos manter os bons sentimentos.
Nesses momentos devemos pedir a Deus que nos perdoe.
Charlotte segurou-lhe as mãos.
— Mas você sempre faz a coisa certa. Tem pensamentos bons e nobres.
Gostaria de ser como você.
Liza sentiu o estômago revirar.
— Está enganada, querida. Já tive muitos pensamentos errados. E já fiz
coisas que me levaram para o caminho errado.
Sem saber ao que ela se referia, a prima continuou ensimesmada.
— Tenho tido muitos pensamentos ruins. Minha mãe sempre foi uma pessoa
difícil, mas depois da proposta do conde, tornou-se pior. Ontem à noite, demitiu uma
criada que nos servia há dez anos! É por isso que sempre que posso vou para a
casa de tia Matty. Sabe quantas vezes pensei em arrumar minhas coisas e sair de
casa? Ir para o campo morar com você? Eu seria mais uma irmã e seu pai seria meu
conselheiro. E ninguém iria gritar comigo outra vez.
— Oh, querida — Liza confortou, afagando-lhe os cabelos.
— Eu a odeio. Tem dias que eu desejo que ela suma da minha vida.
Liza abraçou a prima com ternura. O que podia dizer diante daquilo?
— Tudo vai acabar bem, querida. Você vai ver.
— Você é meu único alento. Se não fosse você não sei o que faria. Voltará
amanhã para me visitar?
Liza fechou os olhos por alguns instantes. Em seguida, afastou-se para fitar
Charlotte.
— Na verdade, vim aqui hoje para me despedir. A prima arregalou os olhos,
desesperada.
— O quê? Não! Por favor, não vá! — suplicou, apertando as mãos de Liza. —
Preciso de você. Se me deixar agora, não sei o que farei no meio desse turbilhão.
Não podia ficar. Como conseguiria continuar convivendo com Mark e
Charlotte?
— Estou com muita saudade da minha família. Além disso, sabe como é tia
Matty com aquela mania de cupido. Eu não suporto mais a presença de Alfred
Swittly.
As lágrimas rolaram pela face pálida de Charlotte.
— Não. Eu lhe suplico. Dentro de uma semana irei para a residência dos
Hawkmore. Serei apresentada ao staff da casa e ao resto da família que já estará
hospedada no castelo para a cerimônia. — Conseguiu esboçar um sorriso. —
Preciso que me acompanhe. Com um noivo que mal nota minha presença e uma
futura sogra que me trata com desprezo, não sobreviverei a tanto tormento se não
estiver lá para me dar apoio. Por favor, não me deixe agora.
Liza nunca se vira em uma situação tão constrangedora. Dez dias na casa de
Mark, tentando resistir as suas investidas. Como conseguiria sobreviver?
Teria de se proteger de alguma forma. Precisaria de suas irmãs. E seria
obrigada a ter mais uma conversa com Mark. Ele teria de aceitar que sua decisão
fora definitiva e imutável.
Mas como podia abandonar a prima tão querida? E se Mark encontrasse a
carta? Abandonaria Charlotte. Tinha de impedi-lo.
— Está bem, querida. Se isso é tão importante para você, ficarei.
Charlotte se atirou nos braços dela, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Obrigada! Muito obrigada!
— Escreverei para minhas irmãs hoje mesmo. Preciso delas a meu lado.
— Claro. Será um prazer tê-las conosco.
Charlotte a abraçou mais uma vez e Liza engoliu em seco o próprio
sofrimento.
Seria forte o suficiente para convencer o homem que amava a não abandonar
a prima tão querida?
— Onde por Deus está a maldita carta? — perguntou Mark furioso, batendo
com a mão na mesa.
Mickey Wilkes meneou a cabeça.
— Ainda não descobri, milorde. Mas creio que estou no caminho certo.
Subtrairei a informação dos empregados. Há muito falatório entre eles a respeito
dessa carta.
— Então descubra o mais rápido possível — ordenou Mark, abrindo uma das
gavetas e retirando de lá algumas moedas de ouro. — Tome. — Estendeu o braço,
oferecendo-as ao rapaz. — E volte para o trabalho imediatamente.
— Muito obrigado, senhor.
— Não me agradeça ainda. Se não encontrar a missiva, serei capaz de matá-
lo.
O rapaz sorriu.
— Certo, milorde. Da próxima vez trarei boas notícias. Depois que o ex-
gatuno partiu, Mark recostou-se na cadeira.
Precisava daquela carta. Só assim poria fim a seu martírio e estaria livre para
persuadir Liza a aceitá-lo. Ela era tudo que queria. Sua doce presença, o toque
suave. Com Liza tudo de bom que existia nele e no mundo afluía. Nunca desistiria
dela.
Mark observava Liza cruzando o salão nos braços de John Crossman,
enquanto valsavam. Detestava a visão da mão de outro homem apossando-se
daquela cintura que cabia sob medida na palma da sua. Odiava a familiaridade que
pareciam compartilhar. Mas acima de tudo, abominava ter de fingir que Liza lhe era
indiferente. Ansiava por tomá-la nos braços e gritar ao mundo que aquela mulher lhe
pertencia.
— Não devia ficar olhando para ela desse jeito — admoestou-o o irmão. —
Mamãe já notou.
Lucinda e Abigail não tinham aprovado a idéia de convidar pessoas que
consideravam ralé. Mas para sua surpresa, Charlotte mostrara-se irredutível e ele a
apoiara. As duas, embora tentassem demonstrar indiferença, faziam comentários
entre si e observavam Liza. A sra. Lawrence, em particular, com olhar invejoso.
— Dentro em pouco ela fará parte de seu círculo familiar. Terá de se
acostumar a encará-la como uma prima distante.
Um frio cortante percorreu toda a espinha de Mark.
— Como poderei fazer isso? — sussurrou para o irmão. — Como posso
ignorá-la se minha mente está tomada por ela?
Matthew o fitou por um longo instante.
— Não sei — murmurou, pensativo.
— Eu também não.
A valsa findou e Mark atravessou o salão antes que John Crossman pudesse
guiá-la para o lugar onde estavam.
— Dar-me-á o prazer da próxima dança, sra. Redington? Liza ficou em
silêncio por alguns instantes e ele sentiu o corpo tensionar ante uma possível
recusa.
— Sim, milorde.
John Crossman fez uma reverência e colocou a mão enluvada de Liza na de
Mark.
Ele suspirou fundo e enlaçou-lhe a cintura delgada. Era assim que tinha de
ser. Desde a primeira vez que a tocara sabia que aquela mulher fora feita para ele.
Quando os primeiros acordes da música entoaram, Mark a puxou para si. Lisa
mantinha os olhos baixos, mas ele se sentia em êxtase só por tê-la nos braços.
Sentiu o aroma de baunilha e flor de laranjeira que emanava de seu pele.
Guiou-a, sempre valsando, para o outro lado do salão.
— Pode olhar para mim agora. Não nos podem ver.
— Outros podem. Estamos em um lugar público — replicou ela. — Não há
mais lugar que possa nos esconder.
Mark franziu o cenho ao mesmo de tempo em que a girava em outra direção.
— O que quer dizer com isso? Liza, por fim, ergueu os olhos.
— Que não podemos fugir de quem somos.
— Não pretendo fazê-lo.
— Mas fará — disse Liza quase numa súplica. — Não percebe que nunca
mais poderemos ter o que tínhamos?
Irritado, Mark sentiu os músculos do corpo enrijecerem.
— Expliquei-lhe tudo ontem à noite.
— Sim — começou ela determinada, apesar do cataclismo que ia em seu
peito. — E sinto muito pela terrível circunstância em que se encontra. Mas saber a
verdade não muda nada.
As palavras de Matthew vieram-lhe à mente de imediato. Ela o varrerá para
fora de sua vida.
— Como pode dizer isso se sabe que a única coisa que desejo é estar a seu
lado?
— Pensa que eu também não quero? — inquiriu Liza com a voz embargada e
os olhos rasos d'água. — Acha que isso não está me destruindo?
Um lampejo de esperança brilhou nos olhos azuis.
— Então não desista de nós. Conseguirei aquela carta. E então todo esse
pesadelo acabará. Preciso de você. Não me abandone.
Liza baixou o olhar outra vez.
— Nosso desejo não tem mais relevância. A despeito de nossa vontade,
minha prima ficará arruinada se cancelar o noivado.
Mark lutava por ar. Era como se toneladas lhe comprimissem o peito.
— Contei-lhe toda a verdade na esperança de que não abriria mão de nosso
relacionamento.
— Não posso fazer isso.
— E se eu conseguir a carta? Vai continuar me recusando? Liza fitou-o nos
olhos.
— Acho que deve tentar conseguir a carta. Deve ficar com você e não de
posse de uma pessoa tão vil. Mas isso não mudará nada para mim. Nossa história
teve fim quando o anúncio de seu casamento saiu nos jornais. Se abandonar minha
prima à própria sorte, nunca mais me verá.
Ele sentia as têmporas latejarem.
— Diz isso agora. Mas como suportará as noites sem minha presença? O que
dirá a seu corpo quando ansiar pelo meu? O que fará? Procurará outro? Ninguém
pode satisfazê-la como eu.
— Eu sei — ofegou Liza. — Mas como poderei entregar-me ao prazer,
enquanto minha prima amarga a vergonha de ter sido abandonada pelo conde de
Langley?
O coração de Mark batia descompassado de fúria e medo.
— Eu direi que ela me largou.
— Chega! — as palavras de Liza saíram como um sussurro desesperado. —
Ninguém acreditará nisso. E o que dirá a Charlotte? Para ela será uma rejeição de
qualquer forma. — Seu olhar estava repleto de angústia. — Não há mais o que
fazer.
Mark a fitou por um longo instante. A dor que sentia parecia parti-lo ao meio.
— Então por que concordou em vir aqui hoje?
— Para ter a oportunidade de lhe dizer isso.
— Valsando em meio a uma multidão?
— Onde mais? — inquiriu ela, não suportando mais tanto tormento. — Minha
janela está trancada para você e assim permanecerá — decretou, não conseguindo
encará-lo. — Os últimos acordes da valsa se fizeram ouvir. — Estou certa de que
Charlotte será uma excelente esposa para você e...
— Basta! Não diga mais nada. Já me puniu o bastante. Mark a fitou por um
longo instante depois que a música findou.
Não queria deixá-la ir. Era como se estivesse abrindo mão da própria vida.
Em seguida, ofereceu-lhe o braço, levando-a até a mesa onde estavam. A cada
passo sentia como se estivesse caminhando para seu próprio funeral.
Observou os rostos de Lucinda, Abigail, Charlotte e Matthew. Todos
coadjuvantes, culpados ou inocentes, de sua morte em vida.
Liza observou o retrato inacabado da prima. A chuva fustigava as janelas da
sala da casa de Mathilda. Seria o cinza daquela manhã chuvosa que emprestava ao
rosto da prima uma expressão tão triste? Ou seria seu próprio sofrimento guiando o
pincel?
— Querida. Você tem uma visita — disse Mathilda, adentrando o aposento,
acompanhada da condensa de Langley.
Liza sentiu os músculos se contraírem. Tinha estado tempo o suficiente ao
lado de Lucinda na noite anterior para formar uma péssima opinião sobre ela.
Ergueu-se, fazendo uma reverência, enquanto a mulher atravessava a sala
com expressão impassível.
— Devo ordenar um refresco, ou um chá? — Mathilda perguntou, em tom
amável.
— Depende de quanto tempo a condessa pretende se demorar — retrucou
Liza com os olhos fitos em Lucinda.
— Não é necessário. Não ficarei por muito tempo. Obrigada — respondeu a
mãe de Mark com frieza na voz.
Depois que a tia se retirou, fechando a porta dupla atrás de si, Liza falou para
a condessa.
— Por favor, queira sentar-se.
Lucinda aceitou e Liza acomodou-se em uma cadeira a seu lado.
— A que devo uma visita tão inesperada?
Os olhos gélidos da condensa a fitaram por um instante.
— Não sou mulher de rodeios, portanto vou direto ao assunto. Vim até aqui
adverti-la.
Liza cruzou os braços sobre o peito.
— De quê?
— Ora, sra. Redington. Somos mulheres que sabemos aproveitar o prazer da
vida. Não finja que não nos entendemos. — Inclinou-se um pouco para frente. — Vi
como olhou para Mark quando foi apresentada a ele na residência dos Lawrence e
como se fitavam ontem à noite. Pensa que me engana? Estou certa de que é a atual
amante de Mark.
Liza sentiu o estômago revirar ao ouvir aquelas tão rudes, mas tentou manter-
se impassível.
— E quanto à advertência que veio me fazer?
A condessa recostou-se na cadeira com um sorriso cínico.
— Afaste-se do meu filho e de sua prima.
— Isso não será possível — retrucou Liza, lutando para controlar os nervos.
— Como assim? — questionou Lucinda, franzindo o cenho, indignada. —
Meu filho já está tendo dificuldade o suficiente para abrir mão da vida de solteiro,
não precisa de mais uma oportunista barata para atrapalhá-lo. Por outro lado, estou
lhe prestando um favor, sra. Redington. Meu filho nunca usou uma mulher por mais
de três meses. Não será diferente com a senhora. — Ergueu o queixo, desafiadora.
— O que pensa que significa para ele? Não passa de uma diversão passageira.
Não. A palavra reverberou na mente conturbada de Liza. Tinha certeza dos
sentimentos de Mark. Significava muito para ele.
— Como a senhora mesmo disse, não vamos fingir que não nos entendemos,
condessa — reagiu Liza, surpreendendo-se com a própria força. — Está aqui por
temer que Mark não perca o interesse por mim. Por não fazer idéia dos sentimentos
de seu filho para comigo.
— Vejo que dessa maneira não chegaremos a um consenso. — Retirou da
bolsa uma sacola de camurça, contendo uma grande quantia em dinheiro. —
Portanto, estou disposta a lhe pagar. Aqui estão cinco mil libras.
Liza a fitou com repentina serenidade.
— Sabe condessa, a senhora é bem parecida com Abigail Lawrence.
— O que disse? — perguntou Lucinda. A sacola tremeu em suas mãos.
— O que ouviu. As duas acham que podem dispor da vida e dos sentimentos
das pessoas a seu bel-prazer. O que acontecerá quando não tiver mais seu poder
ou beleza, condessa? Como conseguirá sobreviver?
Lucinda guardou a sacola, erguendo-se num impulso.
— Estou vendo que não é uma pessoa razoável.
— Sou. Só não posso ser comprada.
— Se não se afastar de meu filho, contarei a sua prima que é amante dele.
— Chantageando-me, condessa? É realmente bem parecida com Abigail.
Os olhos da nobre pareciam saltar das órbitas.
— O que sabe sobre isso?
Liza ergueu-se, fitando-a nos olhos sem temor.
— Preste bastante atenção ao que vou lhe dizer. Prometi a minha prima que
ficarei a seu lado na semana que antecederá seu casamento, para que possa
suportar melhor sua presença. E prometi a mim mesma que farei tudo para seu filho
se casar com ela. Portanto, se quer que essa união se realize, fique fora do meu
caminho.
Um sorriso cínico perpassou o rosto da condessa.
— Então você o deixou. É por isso que ele está tão furioso. —Isso parece lhe
dar prazer. Estranho para uma mãe, não acha? — provocou-a Liza. — Por que
parece ter prazer em castigá-lo?
— É uma forma de retribuir o sofrimento que ele me impingiu quando criança.
— Como isso é possível?
— Pelo simples fato de ele ser filho de quem era. Meu ex-marido vivia
impondo-o a mim quando eu estava cuidando de Matthew, meu amado filho. O que
eu escolhi ter.
— Quem dera Mark pudesse ter escolhido a mãe como a senhora escolheu
um filho.
— Basta! Não ficarei nem mais um minuto aqui. Recuso-me a continuar essa
conversa.
— Tem razão. Acho melhor se retirar.
Depois que Lucinda saiu, Liza deixou-se afundar na cadeira, soluçando.
— Por que o destino lhe fora tão cruel?
Mark deteve-se por instantes a observar a fonte ainda inoperante. Piscou
para afastar as gotas de chuva que lhe fustigavam os olhos, linha escolhido a
imagem de Afrodite pela sua graça, beleza e pela maneira como a cascata de
cabelos lhe caía pelos ombros, lembrando-lhe a de Liza.
O bombeiro hidráulico viera naquela manhã para pô-la em funcionamento,
mas ele o mandara embora. Não a queria mais. Nada tinha importância agora. Sua
vida nunca mais seria a mesma de antes... porque perdera a mulher que amava.

Capítulo VIII

Por baixo da aba do largo chapéu, sentada em um dos bancos da graciosa


rotunda, Liza observou o lago sereno. O lugar parecia ideal para tomar chá e ouvir
música. Era um dos recantos mais belos e calmos da residência dos.Hawkmore.
Os jardins bem tratados e florescidos eram os mais belos que Liza conhecera.
A casa era uma construção forte. Um castelo imponente que se estendia por uma
longa extensão.
Liza se ergueu, caminhando ao longo da margem do lago que era
atravessado por uma ponte em estilo romano. Tinha encontrado Mark quase todas
as noites da última semana, mas não tivera tempo de suplicar-lhe para que ficasse
com Charlotte, pois estiveram sempre em presença de terceiros.
Agiam como meros conhecidos. De fato, Mark se comportava como um
completo estranho. Sempre de mau humor, exibia um semblante sorumbático e não
perdia uma oportunidade sequer de ser rude com aqueles a quem desprezava.
Charlotte mostrava-se triste e todos os dias chorava no ombro da prima.
Gostava dos rompantes do noivo contra a mãe, mas nada do que fizesse parecia
agradá-lo.
Fora uma semana difícil. Quando não estava consolando Charlotte, tentava
confortar-se a si mesma. As noites haviam sido ainda piores sem a presença de
Mark. A pintura tornara-se seu único alento.
Sentou-se em um banco, observando um casal de gansos deslizar pela água
vítrea.
Sentia-se exausta.
Fechou os olhos, evocando as memórias dos momentos que passara com
Mark. A princípio evitara recordá-los, mas naquele momento eram tudo que lhe
restava. E pertenciam a ela.
— Liza!
— Liza!
Ela descerrou as pálpebras, erguendo-se num impulso ao ouvir as vozes
familiares.
— Patience! Prim! — gritou sem poder conter a alegria de rever as irmãs.
Começou a correr em direção às duas jovens que acenavam para ela da
ponte sobre o lago. Os cachos ruivos de Patience balançavam e o chapéu de Prim
voou, ficando preso apenas pelas fitas, enquanto elas se precipitaram em sua
direção.
De repente, os passos de Liza foram ficando mais lentos, pois a visão estava
turvada pelas lágrimas que lhe cobriam a face.
Abriu os braços e as duas irmãs atiraram-se neles.
— Graças a Deus! — Soluçou ao sentir a fragrância familiar.
Seus joelhos falharam e as duas mulheres tombaram com ela pela grama.
Patience envolveu-a num longo abraço, afagando-lhe os cabelos.
Não estava mais sozinha. Suas amadas irmãs haviam chegado.
Soluçou durante um tempo que pareceu interminável e depois, deitada no
colo de Prim, contou às irmãs toda a sua desdita.
As duas a ouviam com muita atenção, sussurrando-lhe palavras de conforto e
choraram junto com ela.
— Oh, querida irmã — manifestou-se Patience. — Você não merece isso.
Deviria ficar com o homem que ama. Ninguém tem mais direito à felicidade do que
você. Não pode abrir mão dela em detrimento de outra pessoa.
— Sim — concordou Prim, limpando-lhe as lágrimas com o polegar.
— Mas não se trata de qualquer uma e sim de Charlotte.
— E se ela soubesse — Endireitou-se a caçula. — Será que iria desejar um
casamento forçado?
— Esse segredo não pertence a mim. Não posso contá-lo a ninguém. Se
Mark não se casar com ela, Abigail publicará a carta.
— Aquela bruxa! — vociferou Patience. Prim adiantou-se, abraçando-a.
— Estamos aqui agora, querida, para lhe dar todo o apoio necessário.
— Sim. Conte conosco sempre — completou a outra.
Mark recostou-se sobre o tronco largo de um velho carvalho, observando-as.
Liza tinha a cabeça recostada ao colo de uma das irmãs. Devia ser Primrose, pois a
ruiva que lhe segurava a mão só podia ser Patience. As duas pareciam estar
confortando-a.
Sentiu um aperto no peito ao ver Liza assim tão vulnerável. Ansiava por tomá-
la nos braços e dizer que a amava. Mas ela não permitiria que o fizesse. Agora tinha
as irmãs para lhe dar apoio e proteção.
— Tem uma visita esperando-o na biblioteca — disse Matthew, surgindo atrás
dele. — Mickey Wilkes.
Mark deu de ombros. Estaria o rapaz de posse da carta? Agora aquilo não
significava mais nada para ele. Mas para o irmão seria de grande valia.
Girou nos calcanhares, deixando Matthew para trás e dirigiu-se à biblioteca.
— Bom dia, milorde! — saudou o rapaz. Mark passou por ele e sentou-se à
mesa.
— Trouxe a carta?
— Não, senhor. Mas sei quem está de posse dela. O conde franziu o cenho,
curioso.
— Então diga logo.
— Vou dizer, sim senhor. A carta que o senhor tanto procura está com sua
noiva, srta. Charlotte Lawrence.
— O quê?
— Isso mesmo. A criada com quem estive tendo um caso para colher
informações me disse que ela mesma a entregou para a senhorita num dia em que a
sra. Lawrence se ausentou. Portanto, a megera nem sabe que a carta não está mais
com ela.
Mark esfregou as têmporas com as pontas dos dedos. Então Charlotte tinha
conhecimento da carta e nada dissera.
— E por que a criada entregou a carta para a srta. Lawrence?
— Ela me explicou que todos os empregados gostam muito da srta. Charlotte
e que ela tinha o direito de saber a verdade por mais que lhe doesse. O mordomo
desconfiou das idas constantes da bruxa ao urinário da biblioteca nas últimas
semanas. Só que o que ela não sabia era que ele tinha uma cópia da chave daquele
armário. Certo dia quando a sra. Lawrence saiu, ele vasculhou o lugar e encontrou a
carta. E então foi conversar com a criada com quem me relacionei. Ela se prontificou
a entregá-la a Charlotte e o mordomo concordou. Os criados de fato odeiam a
patroa. E ainda lhe digo mais. Estão preparando mais alguma coisa.
— Sabe de que se trata?
— Não. Mas parece que nos últimos meses a megera piorou muito. Está
fazendo toda a sorte de maldades com os criados. Demitiu uma criada, só porque a
infeliz caiu da escada e quebrou a perna. Isso está criando uma revolta muito grande
entre os empregados. E pelos rumores que já ouvi, estão preparando algo grandioso
para ela.
O rapaz fez uma pausa para tomar fôlego.
— O senhor quer que eu volte para lá depois de pegar a carta para ver se
descubro alguma coisa?
— Sim, Mickey. Faça isso.
O rapaz assentiu e se retirou apressado.
Mark passou as mãos pelos cabelos vastos. Então a carta estava em sua
própria casa. O que seria que os criados dos Lawrence estavam tramando? Teria
algo a ver com ele? Naquela mesma noite estaria de posse da carta. Pensou em
Liza. Para eles de nada adiantaria, mas havia algo que teria de fazer. Que talvez
interessasse a ambos.
Esperança e desespero dividiam o coração de Mark quando saiu da
biblioteca. Ao alcançar a escada, deparou com as irmãs de Liza que vinham
descendo. Os dois pares de olhos fixos nele.
Quando as duas damas o alcançaram, Mark fez uma pequena reverência.
— Srta. Patience, srta. Primrose. Sejam bem-vindas à residência Hawkmore.
Ambas se inclinaram e agradeceram a hospitalidade. Os olhos, embora de
cores diversas dos de Liza, guardavam a mesma inteligência e força de espírito.
Mas apesar das semelhanças eram completamente diferentes de sua amada.
— Desculpem o olhar insistente — disse Mark. — Mas vejo muito da sra.
Redington em vocês.
— Eu é que lhe peço desculpas, milorde — adiantou-se Patience. —Mas
parece tão abalado quanto nossa irmã. E temo que tenha o coração tão partido
quanto o dela.
— Meu coração continua batendo apenas para bombear sangue e sustentar-
me a vida — declarou amargurado, passando a mão pelos cabelos. — Asseguro-lhe
que se sua irmã me permitisse, teria imenso prazer em juntar todos os pedaços de
seu coração e remendá-lo, assim eu poderia tornar a viver.
— Diga isso a ela, milorde — interveio Prim. — Abra seu coração. Afinal
vocês merecem ao menos isso.
As duas se apartaram para que Mark pudesse passar. Quando chegou ao
andar superior, ele se dirigiu ao próprio quarto. Lá, caminhou até a lareira, acendeu
uma lamparina e tocou no painel que abria uma porta para um corredor secreto que
o levaria ao aposento de Liza. Um de seus antepassados o construíra para ter
acesso discreto ao quarto da amante.
Quando chegou a seu destino, apertou o painel da parede, e com um suave
estalo a porta se abriu e Mark pisou no felpudo carpete.
O coração parecia querer saltar-lhe pela boca.
Liza estava deitada na cama, trajando apenas roupas íntimas. À luz do sol
que penetrava pela janela, os cabelos espalhados sobre o tecido alvo do travesseiro.
Mark suspirou fundo. A fragrância de baunilha e flor de laranjeira o inebriavam.
Juntou todas as forças que possuía para desobstruir o nó que se formara em
sua garganta e murmurou o nome da amada.
— Liza!
Ela se ergueu num pulo. Os longos cachos desabando sobre os ombros
desnudos.
— Mark!
— Eu... — Onde estava sua voz? — Preciso falar com você. Liza o fitou. Uma
miríade de emoções parecia se mesclar em seu olhar.
— Acho que esse não é o lugar adequado — objetou com um fio de voz.
— Terá de ser. Não há outro.
Ela caminhou em passos lentos até a poltrona onde jazia seu vestido.
Não! A ansiedade parecia dominá-lo.
— Tenho algo a lhe dizer e tem de ser agora.
Liza mantinha o olhar baixo e inclinou-se para pegar o vestido. Mark sentiu
todo o corpo tremer.
— Tenho de lhe dizer isso aqui e agora. Ela parecia não o escutar.
— Encontro-o no jardim dentro de quinze minutos.
— Não! — protestou ele, lutando por ar. — Por favor, não vá.
— Fez uma última tentativa quando Liza já estava com a mão no batente da
porta do toalete.
Ela estacou e o vestido lhe caiu das mãos.
— Por favor — suplicou Mark, não podendo conter as lágrimas.
— Não fuja de mim.
A mão delicada apertou a maçaneta com força.
— Está bem. Vamos conversar.
Mark cerrou as pálpebras, sentindo-se aliviado. Tinha de lhe dizer aquilo.
Poderia não haver outra oportunidade.
— Eu... a amo.
Com um soluço incontido, Liza atirou-se em seus braços. Mark sentiu os
joelhos falharem. Ajoelhou-se, segurando-a pela cintura.
— Por favor, não chore — disse ele, pressionando o queixo contra o ventre
macio de Liza. — Uma vez supliquei por amor e jurei que nunca mais o faria. Mas
agora estou lhe implorando. Por favor, me ame. — Ergueu-se, deslizando as mãos
firmes pelos cabelos ruivos e pressionando a face de encontro à dela. — Por favor,
porque a amo demais. Com todo o meu coração. Nesta vida e para sempre.
A face de Liza estava inundada de lágrimas.
— Não precisa suplicar meu amor. É todo seu desde o primeiro instante em
que o vi. Eu o amo, querido.
Mark a tomou nos braços e seus joelhos foram se dobrando até que os dois
estivessem no chão.
Só agora conhecia o significado de amar e ser amado. Notara-o no brilho do
olhar de sua amada e em sua própria face, desenhada no caderno de Liza.
Como o destino lhe fora cruel. Quando por fim encontrara o amor seria
condenado a viver sem ele.
Mark soluçava como uma criança de encontro ao peito de Liza. Ela o
segurava, afagando-lhe os cabelos e assegurando-lhe o seu amor.
— Eu o amo. Eu o amo — repetia incessantemente.
Liza não sábia por quanto tempo ficaram ali. Embora ele não mais chorasse,
continuava a segurá-lo em seu colo. Mark acabara de lhe dar o único e mais
precioso presente que podia lhe ofertar. O único que não podia recusar. O seu amor.
— Em nosso último encontro quase lhe revelei meu amor, mas depois tudo
desmoronou entre nós e achei que seria condenada a amá-lo em segredo, sem
nunca ser correspondida.
— Eu estava confuso sobre meus sentimentos. Sabia que eram fortes e
duradouros — declarou ele com voz rouca. — Mas os últimos dias sem tê-la a meu
lado me fizeram enxergar o que esteve o tempo todo debaixo do meu nariz. Só o
amor machuca dessa forma.
Liza soluçou e levou os lábios à cabeça encostada ao seu peito.
— Quero que saiba que meu coração será sempre seu. Não importa o que
acontecer, sempre o amarei.
— Então devo sonhar com seu amor.
— E eu com o seu — retrucou Liza, deslizando os dedos pelos vastos
cabelos negros.
Tinha de se afastar da vida dele para sempre. Não suportaria vê-lo casado
com a prima, embora achasse que essa era a única solução.
Venha. Quero lhe mostrar uma coisa.
Mark se afastou com dificuldade e a fitou por um longo instante. Os olhos
azuis pareciam sem brilho e avermelhados. Os lábios sensuais curvados nos cantos.
Ele a ajudou a se erguer com a mão trêmula.
Liza guiou-o até o cavalete onde deixara o desenho.
— Isto é para você.
Mark o desembrulhou, revelando o rosto meigo de Charlotte.
— Pensei que se a visse do modo como a vejo...
— Está magnífico — afirmou ele, sem tirar os olhos do quadro. — Mas
preferia que fosse um retrato seu. Então eu poderia admirá-lo, e vê-la. Fitá-lo, e
sonhar com você. Esses seriam os melhores momentos de uma vida sem amor à
qual estarei preso para sempre.
Liza mal o podia ver através dos olhos rasos d'água.
Mark pressionou os lábios quentes e macios contra a fronte delicada por um
tempo que pareceu interminável. Em seguida, dobrou o desenho, desaparecendo
pela porta por onde entrara.
Liza cobriu o rosto com as mãos. O estômago revirava e um forte enjôo a
acometia.
Mark desceu a escada de modo lento. Cada passo reverberava pela cabeça
dolorida. Tinha se isolado, durante toda a manhã, tentando amortecer a dor e
sofrimento da perda. Esforçava-se por pensar no amor de Liza, mas isso o levava ao
fato de ter de viver sem ele.
— Milorde!
Ele se voltou para encontrar Charlotte parada no vestíbulo. Não queria vê-la.
— Sim?
— Posso falar-lhe um instante?
— Agora?
— Por favor, milorde.
Resignado, guiou-a até a biblioteca. Depois de fechar a porta, caminhou até a
janela e pôs-se a observar o jardim. Charlotte se encontrava logo atrás dele.
— Pois não.
A jovem parecia nervosa.
— Parece muito cansado, milorde. Portanto, não vou tomar seu tempo —
dizendo isso, estendeu a mão que segurava um envelope de carta atado com uma
fita verde. Mark observou o endereço de Abigail Lawrence escrito com a caligrafia da
mãe.
A carta. Sentia-se aliviado, mas não feliz. Ele pegou o envelope, desatou a
fita e passou os olhos pelo conteúdo da famigerada missiva.
— Você está me dando essa carta? — perguntou, curioso.
— Tem algum significado para o senhor, milorde?
— Sim.
— Uma de minhas criadas a entregou para mim. Ela a encontrou na biblioteca
da minha casa e disse para eu a ler, pois dizia algo a seu respeito.
— E por que a está me dando?
— Porque estou tentando amá-lo, milorde. Se vou ser sua esposa, preciso
conhecer a melhor parte do senhor. Eu não a li. — Mark franziu o cenho, confuso. —
Estive me martirizando entre ler o conteúdo dessa carta ou queimá-la. E então
cheguei à conclusão que a devia entregar ao senhor. O fato de minha mãe a estar
escondendo me deu a certeza de que deve conter alguma coisa contra o senhor.
Mark fitava Charlotte, incrédulo. Nunca esperara por aquilo.
— Como sua futura esposa — continuou Charlotte. — Devo lealdade em
primeiro lugar ao meu futuro marido.
Mark não sabia o que dizer. Fitou os olhos de Charlotte como se a estivesse
vendo pela primeira vez. Viu uma menina honesta c determinada que possuía
personalidade e opinião própria apesar da influência maléfica da mãe.
Segurou-a as mãos pequenas.
— Obrigado por sua fidelidade — murmurou, depositando um beijo na ponta
dos dedos delicados. — Boa-tarde.
O esboço de um sorriso curvou os lábios de Charlotte.
— Boa tarde, milorde.
Quando a porta se fechou Mark se dirigiu à lareira. Observou o fogo crepitar
por instantes e depois jogou a carta sobre as chamas.
Agora Matthew estava salvo, pensou quando viu o papel se transformar em
cinzas.
Exceto pelos passeios matinais com as irmãs, Liza se recolhera a maior parte
de tempo em seu quarto durante os três dias que seguiram à confissão de Mark.
Não tinha força nem vontade de comparecer aos intermináveis jantares com
ele, Charlotte e os convidados que não paravam de chegar.
Fazia as refeições no quarto, mas visitava a prima todos os dias. Embora
Abigail continuasse a exasperá-la, Charlotte agora tinha nova esperança no sucesso
de seu casamento. Num desses encontros, a prima lhe explicara que ele havia se
mostrado mais simpático desde que lhe entregara uma certa carta. Liza sentira-se
orgulhosa da atitude de Charlotte e feliz por saber que o parentesco de Matthew não
seria exposto.
Em uma manhã, sentindo-se indisposta e com um estranho enjôo que insistia
em acompanhar-lhe nos últimos dias, estava recostada em sua cama e sorvia
pequenos goles da bebida quente que Prim lhe oferecera.
— Asseguro-lhes de que isso tudo vai passar. — garantiu às irmãs,
suspirando.
Patience aproximou-se, sentando-se na cadeira ao lado de Prim. As duas a
fitavam como se quisessem lhe dizer algo.
— Querida — começou Patience, fitando-a direto nos olhos. — Achamos que
está grávida.
Liza se engasgou com o líquido, quase derrubando a xícara. No momento
que ouvira aquelas palavras, soube que era verdade.
Prim tomou-lhe a xícara das mãos trêmulas, enquanto a outra colocou a mão
sobre seu abdômen, acariciando-o. O coração de Liza encheu-se de alegria. Um
bebê de Mark no seu ventre!
As lágrimas rolaram pela face pálida, ao mesmo tempo em que as irmãs se
precipitaram para os seus braços.
— Acreditei ser estéril por tanto tempo — soluçou ela no ombro de Patience.
— Que essa possibilidade nem passou por minha mente.
— Será uma mãe maravilhosa — retrucou a irmã, com os olhos rasos d'água.
— E nós seremos tias!
Prim abaixou-se, recostando a cabeça no ventre de Liza.
— Contará para o conde? — perguntou Patience.
Uma tristeza profunda abalou o coração recém revigorado de Liza.
— Como poderia? O destino dele já está traçado. Saber apenas pioraria seu
sofrimento.
As irmãs calaram-se, parecendo entender seu infortúnio.
— O que dirá ao papai? — inquiriu Prim.
— Não sei — respondeu Liza, pensativa. — Penso que ficará bastante
desapontado comigo. Acho que não poderei ficar no vicariato. — Alternou o olhar
entre as duas. — Para onde irei?
Patience tomou-lhe a mão resoluta.
— Vamos para a França. Tia Matty irá conosco. Não podemos deixar papai
completamente sozinho, portanto, eu e Prim alternaremos visitas a você.
A idéia de ter a criança fora de seu país natal, não lhe era muito atraente,
mas não via outra solução. Tinha de ficar bem longe dali. Não podia envergonhar
sua família.
— Não terá de ficar fora para sempre — atalhou Prim, parecendo adivinhar-
lhe o pensamento.
— Depois de algum tempo poderá voltar e nós inventaremos uma história
como adoção ou algo assim.
Liza meneou a cabeça, desolada. Não queria mergulhar num mar de
mentiras.
— Não sei o que farei.
— Pensaremos em algo — garantiu-lhe Patience.
— Terei de ficar fora por muito tempo e qualquer decisão sobre o meu
retorno, deverá ser de nosso pai.
— Pensemos nisso depois — disse Prim. — Uma coisa é certa, esse bebê
terá duas tias corujas.
As três se abraçaram. O coração de Liza, embora partido, revigorava-se ante
a nova descoberta. Mark não lhe dera apenas seu amor, mas também a
manifestação viva dele.
Fechou os olhos, sentindo o calor das irmãs e tomou sua primeira decisão.
— Hoje comparecerei ao baile e amanhã partirei.
Liza e as irmãs adentraram o amplo salão de baile depois que a música
começara a- tocar.
Ela inspirava profundamente enquanto se movia pelo salão ladeada pelas
duas. Teria de informar a Charlotte sobre sua partida antes do fim da festa. Mas
pretendia ficar no baile por pouco tempo.
— Aquele é o irmão de Mark? — questionou Patience. — Ali, dançando com
uma mulher de azul.
Liza avistou Matthew bailando com Rosalind.
— Sim. E aquela é a sua noiva.
A irmã observou a dama com certa reserva.
— É? Não me parece certa para ele. Prim ergueu o sobrolho.
— E como pode saber?
— Veja. A moça não olha para ele. Está mais preocupada em ser notada
pelos convidados do que pelo próprio noivo.
— Sra. Redington! — Foram interrompidas pela presença de John Crossman.
Liza apressou-se em fazer as apresentações.
O cavalheiro por sua vez apresentou-as ao um grupo de rapazes com quem
estava conversando e, em seguida, pediu que Liza dançasse com ele.
A dança fora uma espécie de despedida. Embora pesaroso com a indiferença
de Liza, o milionário não lhe guardava nenhuma mágoa. Contou-lhe de seus planos
de comandar um de seus navios, o que muito a alegrou. Crossman fora um bom
amigo e suporte naqueles momentos difíceis.
Mark encontrava-se em uma das entradas do salão principal, ladeado pelo
irmão e o lorde Fitzgerald. O homem elogiava o projeto o seu projeto para a
biblioteca, garantindo-lhe que o apresentaria ao Comitê como sua primeira escolha.
Há algum tempo atrás nada poderia agradá-lo mais do que aquela notícia.
Mas naquele momento não sentia o menor entusiasmo. Tudo que conseguiu fazer
foi lhe agradecer e arrumar uma desculpa para se retirar.
Moveu-se pelo salão em companhia do irmão, cuja atenção fora captada por
um grupo de damas.
Mark seguiu-lhe o olhar para encontrar Liza e as irmãs conversando com
Charlotte.
Sentiu o coração disparar e o ar lhe faltar. Desde o dia em que fora a seu
quarto, não a vira tão próxima. Ela trajava um vestido de cetim verde que
contrastava com perfeição com a pele alva. Parecia mais magra e, apesar das
olheiras que lhe escureciam as pálpebras, estava linda como sempre.
Liza ficaria esplêndida com as esmeraldas do Hawkmore. Afinal, fora a
esposa que ele escolhera. Mesmo que isso significasse o fim de sua linhagem.
— Aquela de cachos ruivos, quem é? — inquiriu o irmão, despertando-o de
seus devaneios.
— Seu nome é Patience Emmalina Dare. É uma das irmãs de Liza —
respondeu antes de voltar o olhar para sua amada. Lisa o molde de perfeição pelo
qual as irmãs deviam ter sido modeladas.
O protótipo da graça, beleza e sensualidade.
Ansiava por tomá-la em seus braços e detestava os olhares de cobiça que os
demais cavalheiros lhe voltavam.
— Tem um ar de dona da verdade — murmurou Matthew.
— E talvez seja — retrucou o irmão.
— Veja como Montrose de desfaz em rapapés para ela.
— Sim. Lembra-me o modo como age com Rosalind. Matthew o encarou
furioso.
— Vá para o inferno.
— Eu já estou lá, meu irmão — retrucou Mark, observando-a abraçar
Charlotte e em seguida desaparecer por uma das porias laterais.
Liza estacou próxima a uma das enormes portas de vidro e respirou o ar frio
da noite. Dissera a Charlotte que um dos paroquianos de seu pai estava gravemente
doente e que precisava de sua presença no povoado.
Patience enlaçou-lhe a cintura.
— Aceita uma taça de ponche?
— Sim. Acho que seria... — as palavras morreram-lhe na garganta ante a
visão de Mark que a fitava de dentro do salão principal.
Os olhos azuis tinham um brilho intenso e a atingiam como uma carícia, a
qual seu corpo respondeu de imediato. As irmãs seguiram o olhar de Liza.
— Oh, querida... — Prim murmurou.
— Está tudo bem — conseguiu balbuciar ao mesmo tempo em que Charlotte
se aproximava do noivo.
No mesmo instante o rosto másculo se transformou numa máscara de
sofrimento. A prima lhe disse alguma coisa com a qual ele concordou com um gesto
de cabeça e guiou-a para a pista de dança.
Enquanto seu amado rodopiava com a prima pelo salão, Liza sentia-se quase
fenecer. Ela o amava, seu corpo fora moldado para o dele, era seu ventre que
abrigava o filho de Mark. No entanto, sentia-se só e amargurada enquanto Charlotte
bailava em seus braços como a noiva que ele escolhera.
Oh, Deus! Uma cortina de fumaça pareceu embotar-lhe a mente, enquanto
sua respiração acelerava. Grossas lágrimas lhe rolaram pela face.
— Vou dar uma volta no jardim — disse para as irmãs.
— Nós a esperaremos aqui — assegurou-lhe Patience.
Liza caminhou a passos lentos pelo jardim. Alguns casais aproveitavam a
escuridão da noite para trocarem beijos furtivos.
A imagem da prima nos braços de Mark a seguia inexorável. Soltou um
gemido de desespero e correu para a ponte que atravessava o lago até alcançar a
rotunda. Ofegante, afundou sobre um dos bancos que circulavam seu interior.
Retirou as luvas e cobriu a face molhada com as mãos soluçando até que as
lágrimas secassem.
De repente sentiu-o se aproximar do banco. Ergueu o olhar para encontrar os
lindos olhos azuis fitando-a.
— Eu o amo — soluçou, não conseguindo conter a emoção. Ele lhe tomou a
mão e levou ao rosto.
— E eu a amo mais que a própria vida.
Liza virou-se para encará-lo, pousando a outra mão sobre a curva do queixo
másculo. Sentiu todo o corpo tremer quando Mark depositou um beijo suave na
palma de sua mão e em seguida no pulso acelerado.
— Diga alguma coisa — ele suplicou.
— Eu o amo. E desde que aja um sopro de vida no meu corpo eu o amarei.
Só a você. Para o resto da minha vida. Nunca me imagine nos braços de outro
homem, pois eu nunca amarei mais ninguém. Quando pensar em mim, lembre
apenas de nossos doces momentos juntos e a minha voz a repetir: eu o amo, eu o
amo.
As lágrimas rolaram pelo rosto másculo de traços perfeitos. A música que
vinha do salão anunciava uma valsa.
— Dance comigo — suplicou ela. — Pela última vez.
Em seguida, ergueu-se do banco, levando-o para o salão. Mark a tomou nos
braços e começaram a dançar lenta e progressivamente até se encontrarem
rodopiando pela rotunda. Os olhos azuis nunca se afastavam dos dela.
Liza deslizou a mão pelo pescoço largo.
— Vou partir amanhã pela manhã.
Ele permaneceu calado, recostando apenas a fronte contra a dela.
— A dor de vê-lo no altar com minha prima seria insuportável. — Eu sei —
disse ele, tocando com os lábios macios o canto dos olhos molhados de Liza.
Deus! Como o desejava. Seu corpo ansiava pelo dele. Ela impediu um soluço
e recostou a face ao peito másculo.
— Diga alguma coisa.
Mark ergueu o queixo delicado com a mão até que ela o fitasse.
— Pensarei em você todo os dias de minha vida. E sonharei com nossos
momentos todas as noites de minha existência. Vou lhe escrever todos os dias,
relembrando-lhe cada um dos nossos encontros e cada vez que fizemos amor. E
assim criarei uma vida com você.
Liza fechou os olhos.
— Espero que me escreva, pois assim saberei como está passando e tocarei
o papel que foi tocado por você.
Mark traçou a linha dos lábios atraentes com o polegar e tomou-os num beijo
apaixonado.
— Eu a amo. Nunca esqueça disso — murmurou Mark contra sua boca. Em
seguida se afastou, desaparecendo na escuridão da noite.
— Não posso acreditar que tenha comprado essa tela gigante — disse
Matthew, pasmo.
A luz forte do sol penetrava pela janela do quarto de Mark. Já trajado para o
próprio casamento, ele deteve-se em frente a grande pintura, passando a mão pela
madeira encravada da moldura. A tela que testemunha seu amor por Liza. Ergueu o
pescoço para o criado ajustar-lhe a gravata.
Fitou o amontoado de diamantes e pérolas dispostas sobre a estante. O
conjunto fora tirado do cofre onde estavam guardadas as jóias do clã Hawkmore.
Entregaria-o a Charlotte como mandava a tradição.
A tradição sempre fora as esposas Hawkmore usarem esmeraldas, mas estas
Mark havia colocado sobre a penteadeira de Liza na noite anterior, logo depois que
a deixara na rotunda.
Ela era a esposa que seu coração havia escolhido, portanto eram dela de
fato.
Sentia as têmporas latejarem. Nas primeiras horas da manhã, assistira à
partida de Liza. Em seguida, sentara-se na escrivaninha e escrevera-lhe a primeira
carta. Estava repleta de amargura e tristeza, mas não conseguiu impedir a caneta de
dar vazão ao que ia em seu coração.
— Está pronto? — perguntou Matthew, caminhando em sua direção.
Mark fechou a caixa de veludo que continha as jóias com um forte estampido.
— Não.
O irmão sorriu, tentando encorajá-lo.
— Fique tranqüilo. Estarei a seu lado para o caso de querer desistir.
Em seguida, caminhou até a porta, abriu-a e com uma reverência, dirigiu-se
ao irmão.
— Adiante, milorde.
O caçula postou-se à esquerda de Mark quando ele bateu à porta do quarto
de Charlotte.
Uma criada veio abrir a porta, mas logo Lucinda apareceu atrás dela.
Mark estendeu a caixa, entregando-a para a mãe.
— Como símbolo de minha estima por minha futura esposa. Com expressão
altiva, Lucinda pegou a caixa, abrindo-a de imediato e analisando seu interior.
— Onde estão as esmeraldas?
— As esmeraldas são minhas. Onde estão ou o que fiz com elas é de minha
exclusiva conta.
Tendo ouvido a conversa, Abigail Lawrence correu até a porta. Olhou para o
conteúdo da caixa e sua face tornou-se rubra. Encarou-o com a fúria de quem ainda
se achava no controle da situação.
— Onde estão elas? Todas as noivas Hawkmore usam as esmeraldas da
família. As pessoas esperarão ver Charlotte com elas.
Mark lançou-lhe um olhar cheio da fúria que não tinha mais necessidade de
conter. Lucinda deu um passo atrás, prevendo o que estava por vir.
Mas antes que Mark pudesse destilar todo o veneno guardado por aquela
megera, Charlotte assomou à porta.
— Usarei o que milorde me der e nada mais. Abigail Lawrence apontou para
o interior do quarto.
— Entre e termine de se arrumar. Sabe muito bem que a noiva não deve ser
vista pelo futuro marido antes do casamento.
Charlotte continuou onde estava, ignorando-a.
— Bom-dia, milorde — disse, sorrindo. — Sinto-me honrada em aceitar seu
presente.
Mark tomou a caixa das mãos de Abigail, abriu-a e pegou um colar de
diamantes.
Charlotte virou, erguendo os cabelos com as mãos e ele colocou a jóia no
pescoço delgado.
O perfume familiar que emanava das flores dos cabelos de Charlotte
adentrou-lhe as narinas, fazendo-o recuar.
— O que houve, milorde? — perguntou Charlotte confusa. O coração de Mark
disparou.
— Essas flores de laranjeira que está usando. Quero que as remova.
— Ela não o fará! — protestou Abigail.
— Concordo — aparteou Lucinda. — Os cabelos estão tão bem penteados.
— Já! Retire-as já — ordenou Mark.
Charlotte voltou-se para a criada que começou a retirar os grampos e as
flores de imediato.
— O jardim desta casa é bastante florido. Escolha outras. Temos flores
brancas em profusão. — Entregou as flores de laranjeira para a empregada. — Pode
jogá-las fora.
A criada se apressou pelo corredor e Charlotte voltou-se para o conde,
sorrindo.
— Resolvido o problema.
A prima de Liza tentava agradá-lo de todas as formas. Mark fez uma
reverência, entregando-lhe uma pequena caixa que ainda continha o anel e o
bracelete do conjunto de diamantes.
— Obrigado.
Charlotte levou à mão ao colar.
— Eu é que lhe agradeço, milorde. Nunca recebi presente tão fino.
O que mais ele poderia dizer?
— Está linda.
Charlotte sorriu e entreabriu os lábios para falar, mas foi interrompida pelo
estrondo que vinha do andar de baixo, seguido de intenso vozerio.
Franzindo o cenho, Mark dirigiu-se apressado ao topo da escada seguido de
perto pelo irmão. Ao olharem para baixo, viram flores espalhadas pelo chão e um
vaso de porcelana quebrado. Mickey Wilkes argumentava com Cranford.
As mulheres juntaram-se a eles, curiosas.
— Tudo bem, Cranford — disse Mark para o criado. — Vou recebê-lo.
Wilkes veio ao seu encontro e antes do conde descer os degraus, o rapaz
colocou um periódico aberto em sua mão.
— Saiu no jornal. A sujeira toda está estampada nessa página. O coração de
Mark começou a bater descompassado. O que poderia significar aquilo? Liberdade?
Liza?
Abigail Lawrence parecia pálida e Lucinda consternada.
Matthew aproximou-se do irmão, colocando uma das mãos em seu ombro.
— A que ele está se referindo? Está metido em alguma encrenca?
Mark colocou a mão por sobre a do irmão.
— Não. Eu não.
— Procurei vir o mais rápido que pude — afirmou Mickey, ofegante. — Eu
disse para o senhor que algo estava por vir. Estava no trem quando o cavalheiro a
meu lado lia a notícia. Arranquei o jornal da mão dele e vim correndo para cá,
milorde.
Mas Mark já não o estava ouvindo. Segurava o braço do irmão cujos olhos
estavam fixos na notícia. Toda a vil história estampada na folha. Não mencionavam
nomes, apenas referiam-se a ele como um importante conde que se casaria naquele
dia com uma plebéia. Isso dispensava comentários.
No topo da reportagem, a reprodução de uma segunda carta que Lucinda
escrevera a então amiga Abigail Lawrence, dando-lhe todas as informações sobre o
filho bastardo.
Mark olhou para a mãe furioso.
— Você me jurou que só havia escrito uma da carta, mentirosa!
— Carta? — interveio Charlotte. — É sobre aquela carta, milorde?
Abigail fitou-a surpresa.
— O que sabe sobre isso?
Charlotte contou a mãe como obtivera a carta.
— Entreguei para o conde porque sabia que a senhora a guardava por algum
motivo escuso. E ao que parece eu estava certa.
Mark voltou a atenção para Abigail. Todo o ódio contido por aquela mulher
desprezível estava estampado em seu rosto.
— A senhora foi recompensada pela maneira vil com que sempre tratou seus
criados. Eles que podiam ser leais e respeitosos, ao serem tratados com tanto
desprezo e crueldade, tornaram-se seus algozes. E lhe desferiram esse golpe fatal.
Matthew cruzou os braços sobre o peito.
— Todos parecem estar a par do assunto, exceto eu. Podem me dizer o que
significa tudo isso?
Mark dirigiu-se à noiva.
— Voltarei dentro de instantes — dizendo isso, segurou o braço do irmão,
guiando-o à biblioteca com Lucinda em seu encalço.
Enquanto o conde contava a Matthew toda a torpe história, o caçula alternava
o olhar entre ele e a mãe, incrédulo.
Quando Mark terminou seu relato, o irmão se ergueu com um impulso,
precipitando-se para a mãe. Brandia o jornal na face de Lucinda ao mesmo tempo
em que gritava sem poder conter a raiva.
— Ora, mamãe... Nunca pensei que fosse capaz de tanta vulgaridade!
Mark adiantou-se e segurou o braço do irmão, temendo a atitude que
pudesse tomar.
— Nunca pensei que essa história viesse a público — argumentou a mãe. —
Não tinha certeza de que Abigail recebera a carta. Ela nunca a respondeu. Pensei
que a missiva houvesse se extraviado. — Colocou a mão trêmula sobre o braço de
Matthew. — Eu o amo, meu filho. Sempre o amei.
Matthew se desvencilhou dos dois.
— Mentira! Eu represento seu triunfo sobre nosso pai. Um homem cujo único
erro foi ter casado com á senhora, tê-la amado e lhe dado um filho maravilhoso.
Enquanto a esposa lhe esfregava no rosto seus amantes. Desprezo o seu amor!
Lucinda tentou tocá-lo, mas ele se afastou.
— Não me toque! Nunca mais me dirija a palavra e não se atreva a transpor a
porta da minha casa. A partir de hoje não sou mais seu filho.
A mãe ergueu o queixo, resoluta, limpando as lágrimas com um lenço. Altiva,
retirou-se, fechando a porta atrás de si.
Quando ficaram a sós, Matthew voltou-se para o irmão com a fisionomia
transfigurada pela dor.
— Por que não me contou? Pensou que eu não fosse forte o suficiente para
suportar a revelação? Acha que eu iria querer que se sacrificasse por mim? Não
pensou em como me sentiria se um dia descobrisse e fosse tarde demais para
você? — Deu um passo à frente com o dedo em riste. — Pois vou lhe dizer: me
sentiria um trapo!
Mark meneou a cabeça.
— Não o considerava fraco para enfrentar a situação, mas temia por seu
amor. Não estava certo de que ele sobreviveria a essa revelação.
— Vá para o inferno! Rosalind me ama. Não pelo que represento, mas pelo
que sou. Pensa que ela me abandonará quando souber disso? — inquiriu,
apontando para o jornal. — Está muito enganado.
— Deus queira que eu esteja.
— Céus! Como deve ter odiado todas as reprimendas que lhe fiz — disse
Matthew depois de algum tempo. — E pensar que sugeri que aceitasse a
continuidade da linhagem Hawkmore através de mim. — Sorriu com os olhos rasos
d'água. — Posso continuar chamando-o de irmão?
— Você é meu irmão e sempre será. Sentir-me-ia honrado em passar meu
título aos seus herdeiros.
Matthew forçou um sorriso.
— Não perca mais tempo. Vá atrás do seu amor.
— Antes tenho de falar com Charlotte.
Os dois irmãos se fitaram por um longo tempo e depois se abraçaram com o
amor e amizade que sempre existira entre eles. Mark encontrou a porta do quarto de
Charlotte aberta.
— Sita. Lawrence — chamou.
— Estou aqui, milorde. Por favor, entre.
A jovem examinava seu reflexo no espelho, enquanto a mãe se encontrava
sentada em uma cadeira ao lado da cama.
— Minha mãe já me explicou tudo, milorde. Abigail ergueu-se indignada.
— E você não entendeu nada. Não sabe que fiz tudo isso por você? É muito
jovem, minha filha. Não tem noção de como é ruim a sensação de nunca ter o
bastante para ser aceita pela nata da sociedade.
— Não, mãe — interrompeu-a Charlotte. O rosto delicado distorcido pela
raiva. — Fez isso por você. A grande mulher que sempre quis estar acima de tudo e
de todos. A senhora não tem coração! — continuou a filha, dando vazão a toda
mágoa contida. — Fez isso por vingança contra a condessa. Por ela possuir um
nome e uma posição social que a senhora sempre almejou, mas que por nascimento
não tinha direito. Portanto, não tente me convencer que fez tudo por mim!
— Você é uma filha ingrata e mal-agradecida! — retrucou a mãe aos berros.
— Saia daqui! — gritou Charlotte.
Abigail Lawrence se retirou, pisando fundo e batendo a porta atrás de si com
um estrondo.
Mark fitou a prima de Liza, sentindo a pulsação acelerar. Aquele era o
momento crucial de sua vida. O divisor de águas entre a felicidade ou a agonia de
uma vida sem amor.
— Se você quiser — começou o conde, reunindo todas as suas forças. —
Prosseguiremos com o casamento. Talvez ainda possamos salvar seu nome. Além
disso, não sou homem de voltar atrás com minha palavra.
— O senhor não empenhou sua palavra por livre e espontânea vontade,
milorde. Foi obrigado a fazê-lo. É aí que reside toda a diferença.
— Desculpe-me por ter sido tão grosseiro com a senhorita — disse Mark. —
Você era inocente e eu estava furioso com toda a situação em que me encontrava.
— Com toda a razão. Eu também estou. — Virou-se para encará-lo. — Sabe
por que admirava meu reflexo no espelho, milorde? Porque gostei da nova pessoa
que vi. Apesar dos esforços de minha mãe para me influenciar, tenho opinião
própria. — Deu um passo à frente, fitando-o com compaixão. — Eu o dispenso de
sua promessa. Duvido que possamos fazer algo pelo meu nome e não estou me
importando com isso. Não vou forçá-lo a um casamento que não deseja. Enfrentarei
o que vier, mas a partir de agora não mais viverei ao lado de pessoas que não me
queiram bem.
Mark sentiu como seu um fardo lhe tivesse sido retirado dos ombros.
— Não terá dificuldade de encontrar quem muito a estime. É uma moça linda
e adorável e o homem que escolher terá muita sorte de tê-la como esposa.
— Obrigada, milorde.
— Por que não nos tratamos por Mark e Charlotte?
— Está bem, Mark.
Ele teve de refrear a vontade de sair correndo.
— Quando eu sair daqui vou ao encontro de sua prima.
— Minha prima? — repetiu Charlotte, confusa.
Mark contou-lhe em breves palavras tudo que acontecera entre ele e Liza.
Quando terminou, lágrimas de emoção desciam pela face delicada da jovem.
— Oh... claro... Vá ao encontro de minha querida prima. Eu também a amo e
não quero vê-la sofrer nem mais um segundo.
Liza ajustou o xale de lã estampado aos ombros, observando o perfil austero
do pai. Os cabelos vastos e ruivos de Samuel Dare caíam sobre a testa. O nariz
aquilino e a mandíbula quadrada compunham o caráter imponente de sua
fisionomia. Mas, apesar da aparência severa, era o homem mais compreensivo que
conhecia.
Liza deveria saber que apesar de estar decepcionado com ela, seu amor era
inabalável e sempre estaria a seu lado para apoiá-la.
— Poderíamos ir todos para a França! — disse o patriarca. — Não viajo há
anos.
— Porque detesta viajar, papai — retrucou Liza. — Não precisa se sacrificar.
Posso ir com tia Matty.
Ele lhe tocou o braço de leve, estacando para encará-la.
— Quero estar presente quando der à luz. A filha lhe acariciou a mão.
— Eu o amo.
Samuel a fitou com ternura.
— E eu a amo mais ainda. — Olhou para o céu e voltou-se para ela. — Está
ficando tarde, acho que vou voltar.
— Sim, papai. Vou caminhar até o lago, mas retornarei a tempo do chá.
Quando se encontrou sozinha deu vazão ao choro.
Observou as águas serenas do lago através dos olhos rasos d'água. Foi
então que uma brisa fria lhe roçou a face, mas apesar disso sentiu-se de súbito
aquecida. Um arrepio percorreu-lhe a espinha, antecipando o que estava por vir.
Virou-se com um movimento brusco para encontrar Mark.
Ele não usava chapéu e seu traje formal estava desalinhado.
Oh, Deus! O que teria acontecido?
Engoliu em seco ao vê-lo correr ao seu encontro. Teria ele fugido do
casamento? Seus nervos pareciam paralisá-la, prendendo-a ao banco. Sentiu o xale
escorregar pelos ombros.
Os olhos azuis a fitavam com um brilho radiante.
E então se viu erguida no ar pelos braços fortes de Mark. Soltou um gemido
ao mesmo tempo em que o abraçava com toda a força que possuía.
Sentiu a fragrância de verbena inundar-lhe as narinas e em seguida seus
lábios foram arrebatados num beijo longo e sensual.
Ela gemeu, colando o corpo ao dele. Depois de algum tempo, interrompeu o
beijo, fitando os jubilosos olhos azuis. Pelo brilho que eles exibiam algo de
maravilhoso devia ter ocorrido.
— O que aconteceu? — perguntou Liza com o coração transbordando de
esperança. — Por que está aqui?
Mark segurou-lhe a face com a mão em concha. Grossas lágrimas desciam
pelo rosto másculo.
— A farsa acabou, querida.
E pôs-se a relatar tudo que acontecera desde a sua partida do castelo
Hawkmore.
— E Charlotte? — Liza quis saber.
— Está bem. Foi ela quem optou por cancelarmos o casamento. Sua prima
está disposta a seguir a própria vida, sem a influência da mãe.
Liza deixou escapar um profundo suspiro. Temia explodir de tanta felicidade.
Atirou-se nos braços do homem amado, tomando-lhe os lábios num beijo possessivo
com todo o calor e desejo de uma mulher apaixonada.
— Eu o amo. Eu o amo — sussurrava contra os lábios sensuais.
— Nunca deixe de repetir essas palavras — suplicou Mark, segurando-a firme
pela cintura. — E sempre que as disser eu lhes farei eco. Eu a amo. Eu a amo —
prometeu ele, beijando-lhe o queixo.
Em seguida, ajoelhou-se aos pés de Liza.
— Elizabeth Dare. Eu a amo com todo a força do meu ser. Você é a mulher
que me abriu as portas do paraíso. Aquela que me faz ser um homem melhor. Case-
se comigo e gritemos o nosso amor para o mundo. Permita-me amá-la até a
eternidade, pois meu amor por você nunca terá fim.
Liza beijou-lhe a fronte, emocionada.
— Sim. Casarei com você. Prometo dedicar-me de corpo e alma ao nosso
amor — professou Liza, sentindo os joelhos cederem. — Você precisa de herdeiros
e...
— Não! — interrompeu-a Mark. — Preciso de você. Só você. O resto não
importa.
Liza beijou-lhe os lábios entreabertos e sentiu o coração flutuar de alegria.
— Então o que faremos com esse bebê que está crescendo em meu ventre?
Mark pareceu congelar. Ela se afastou um pouco para fitar a expressão
estarrecida do rosto másculo.
Os olhos azuis a fitavam como que hipnotizados, ao mesmo tempo em que
exibiam um brilho intenso.
— Está esperando um filho meu? Teremos um bebê? — inquiriu, incrédulo.
Ela assentiu, rindo divertida.
— Sim.
— Oh, Deus! — exclamou Mark, levando a mão ao ventre de sua amada. —
Nosso filho.
Liza sentiu o corpo tremer de desejo, enquanto ele lhe cobria os lábios num
beijo exigente.
As mãos firmes desabotoaram-lhe o corpete com extrema rapidez.
— Oh, querida. Quero viver cada momento de minha vida a seu lado. Fazer
amor com você tantas vezes até que nossos corpos se tornem um só.
Liza estremeceu de encontro ao corpo másculo, soltando um gemido longo,
elevando os olhos ao céu numa prece. Aquilo era amor. Felicidade. O paraíso na
terra.