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Direito Agrário

Professor Stanley Costa

Aula 01 – Noções Gerais de Posse e


Propriedade
Sumário: 1. Conceito de posse - 2. Teorias da posse - 3. Detenção e posse - 4.
Classificação da posse - 5. Efeitos da posse

Neste semestre estudaremos sobre o Direito Agrário, que apesar de ser uma
matéria autônoma do ponto de vista legislativo, científico e didático (para alguns
também jurisprudencial), inegavelmente se relaciona intimamente com o Direito Civil,
em especial com o Direito das Coisas.

Os institutos da posse e da propriedade se projetam no Direito Agrário com


imenso destaque, ainda que adequados à premissa da função social da terra, e por isso
não podemos iniciar nossa caminhada de outra forma, senão relembrando alguns
conceitos e regras fundamentais.

1. CONCEITO DE POSSE
CC/02, Art. 1.196. Considera-se possuidor todo aquele que tem de
fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à
propriedade
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da
coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente
a possua ou detenha.

Um dos primeiros desafios deste encontro é conceituar posse. Uma tarefa que não
é tão fácil, vez que comumente o termo é utilizado, de forma inapropriada, como
sinônimo de propriedade. Definitivamente posse não se confunde com propriedade,
embora estejam intimamente relacionadas, inclusive com relação aos conceitos. A posse
é o exercício aparente de uma das faculdades ou poderes inerentes ao direito de
propriedade (CC, art. 1.196). E quais são estes atributos? São os de usar; gozar (fruir);
dispor; e reivindicar a coisa daquele que injustamente a detenha (CC, art. 1.228).

Observe, portanto, que o conceito de posse passa naturalmente pelo conceito de


propriedade, sendo até possível afirmar que aquela é a aparência desta. Alguns
doutrinadores lecionam que a propriedade encontra-se no plano da realidade, da
certeza, pois necessita ser comprovada (por documentação, por exemplo), enquanto
que a posse está no plano da aparência. Se não tenho a certeza da propriedade, não
posso afirmá-la, mas o exercício de algum dos seus atributos me permite constatar a
posse.

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Nas palavras de Paulo Nader: “(...) A posse se substancializa no exercício de algum
dos poderes conferidos pelos direitos reais. E quais são esses poderes? São os de uso,
gozo, disposição e de reaver a coisa de quem injustamente a possua”1. Todavia, o ilustre
professor completa ensinando que o exercício em si, não é o que determina a posse,
mas sim o poder que o indivíduo tem sobre a coisa, que o possibilita exercer um dos
atributos.

POSSE Conceito → Exercício aparente de algum dos poderes inerentes à


propriedade.

ATRIBUTOS DA
GRUD → Gozar; Reaver; Usar e Dispor.
PROPRIEDADE

2. TEORIAS DA POSSE
A tarefa de conceituar a posse nunca foi simples. Ao longo da história várias
escolas de direito expuseram suas teorias, objetivando delimitar e desenvolver o
instituto, mas duas delas se destacaram e acabaram se tornando clássicas nesse estudo.
São elas:

a) Teoria Subjetiva:

Formulada por Friedrich Karl Von Savigny, ao conceituar a posse essa teoria
valoriza um elemento psicológico, ou seja, o ânimo do indivíduo ter a coisa como se
fosse sua. Nesses termos, seria considerado possuidor aquele que tivesse a possibilidade
dispor fisicamente de uma coisa, mas com vontade de tê-la como própria, e defendê-la
em face aos demais que injustamente tentarem possuí-la.

Para Savingy, infere-se desta explicação, existiam dois elementos constitutivos da


posse, quais sejam: (i) o corpus (elemento material), que é o poder físico sobre a coisa,
ou seja, a detenção do bem, e o (ii) animus domini (elemento psicológico), que é a
intenção de ser dono. Se o indivíduo tem o corpus sem animus domini, ele não é
possuidor, mas mero detentor. Do contrário, se tiver animus sem corpus, estará
configurado apenas um estado psicológico, o qual não interessa para o direito.

Ihering, não concordou com essa posição e apresentou teoria diversa, mas antes
de fazê-la, resumiu a tese de Savigny com fórmulas algébricas:

• D (DETENÇÃO) = C (corpus) + A (animus tenendi).

1
NADER, Paulo. Curso de Direito Civil - Direito das Coisas, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2008, vol. 4,
pag. 36.

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• P (POSSE) = C (corpus) + A1 (animus tenendi) + A2 (animus domini).

Embora tenha recebido adesão de muitos doutrinadores da época, essa teoria foi
se tornando obsoleta, principalmente porque nesta concepção não seriam considerados
possuidores, mas tão somente detentores da coisa (pois lhes falta o animus domini),
sujeitos como: o locatário, o comodatário, o depositário, o mandatário e etc.

Ensina-nos Maria Helena Diniz que “pela teoria subjetiva é inadmissível a posse
por outrem, porque não podemos ter, para terceiro, a coisa com o desejo de que seja
nossa, pois se não há vontade de ter a coisa como própria, haverá apenas detenção” 2 .

b) Teoria Objetiva:

Em oposição à teoria subjetiva, surgiu a teoria objetiva, elaborada por Rudolf Von
Ihering, que se tornou fundamentalmente reconhecida pelo afastamento do elemento
psicológico, o animus domini, como sustentáculo caracterizador da posse. Destarte,
para essa escola a posse é configurada por meio da simples visualização,
exteriorização, exercício de algum dos atributos/direitos inerentes à propriedade,
ainda que o sujeito não tenha a intenção de ser dono da coisa.

Em regra, o proprietário também é possuidor do bem, pois a posse é inerente ao


domínio (jus possidendi), entretanto, o poder de direito (domínio) e o poder de fato
(posse) podem ser separados, quando o proprietário transfere voluntariamente a posse
– onerosa ou gratuitamente – ou quando esta lhe é retirada. No primeiro caso teremos
a posse justa (possessio iusta), no segundo caso a posse injusta (possessio iniusta).

Leciona Flávio Tartuce:


Na verdade, mesmo sendo exteriorização da propriedade, o que
também comprova a sua função social, a posse com ela não se
confunde. É cediço que determinada pessoa pode ter a posse sem ser
proprietária do bem, uma vez que ser proprietário é ter o domínio
pleno da coisa. A posse pode significar apenas ter a disposição da
coisa, utilizar-se dela ou tirar dela os frutos com fins socioeconômicos3.

Nacionalmente, tanto o Código Beviláqua quanto o Código Reale consagraram a


teoria de Ihering, ainda que apresente algumas nuanças da teoria subjetiva.

3. DETENÇÃO E POSSE

2
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro - Direito das Coisa, 30ª ed., São Paulo: Saraiva,
2015, vol. 4, pag. 49.
3
TARTUCE, Flávio. Direito Civil – Direito das Coisas. Rio de Janeiro: Forense, 2016, vol. 4, pag. 34.
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CC, Art. 1.198. Considera-se detentor aquele que, achando-se em
relação de dependência para com outro, conserva a posse em nome
deste e em cumprimento de ordens ou instruções suas.
Parágrafo único. Aquele que começou a comportar-se do modo como
prescreve este artigo, em relação ao bem e à outra pessoa, presume-
se detentor, até que prove o contrário.
CC, Art. 1.208. Não induzem posse os atos de mera permissão ou
tolerância assim como não autorizam a sua aquisição os atos violentos,
ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a
clandestinidade.

Conforme explicado no tópico anterior, posse não se confunde com propriedade.


Ocorre que, posse também não se confunde com detenção, embora se assemelhem
quanto às suas características. Em rigor, o que os diferencia é a própria lei, que excluiu
certos relacionamentos entre homem e coisa do conceito de posse.

Objetivamente, a detenção é a disponibilidade da coisa em nome de outrem, seja


porque existe uma relação de subordinação entre detentor e possuidor, ou porque
aquele está incumbido de conservar a coisa sob as instruções deste. Em ambos os casos,
regra geral existe uma relação de trabalho entre detentor e possuidor.

Ensina-nos Paulo Nader que “o detentor não se encontra na posse, apenas


conserva a coisa em seu poder e em nome de outrem, do possuidor”4, sendo, por isso,
considerado fâmulo da posse, gestor da posse, detentor da posse, ou servidor da posse.

Em sentido semelhante, Maria Helena Diniz leciona:


O “fâmulo da posse” é aquele que, em virtude de sua situação de
dependência econômica ou de um vínculo de subordinação em relação
a uma outra pessoa (possuidor direto ou indireto), exerce sobre o bem
não uma posse própria, mas a posse desta última e em nome desta,
em obediência a uma ordem ou instrução. Aquele que assim se
comportar em relação à coisa e à outra pessoa, presumir-se-á detentor
(...)5.

O nosso Código Civil prevê algumas situações de detenção, tais como o artigo
1.198, que estipula: “Considera-se detentor aquele que, achando-se em relação de
dependência para com outro, conserva a posse em nome deste e em cumprimento de
ordens ou instruções suas”. Com base nisso, temos que motoristas, empregados

4
NADER, Paulo. Curso de Direito Civil - Direito das Coisas, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2008, vol. 4,
pag. 38.
5
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro - Direito das Coisa, 30ª ed., São Paulo: Saraiva,
2015, vol. 4, pag. 55.
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domésticos, caseiros, administradores, bibliotecários e etc., não são possuidores, mas
sim detentores de bens, cuja posse continua sendo do empregador.

A doutrina é pacífica no sentido de que a detenção pode ser convertida em posse,


notadamente quando desaparecer a relação de subordinação. De acordo com o
Enunciado 301 da IV Jornada de Direito Civil: “Art. 1.198 c/c o art. 1.204. É possível a
conversão da detenção em posse, desde que rompida a subordinação, na hipótese de
exercício em nome próprio dos atos possessórios”.

Saindo do contexto de “fâmulo da posse”, o artigo 1.208 do Código Civil prevê


outra situação configuradora de detenção, ao afirmar que “não induzem posse os atos
de mera permissão ou tolerância assim como não autorizam a sua aquisição os atos
violentos, ou clandestinos, senão depois de cessar a violência ou a clandestinidade”.

O mesmo artigo ainda menciona que não gera posse, a “detenção independente”
advinda de atos violentos ou clandestinos, que vem bastante ao encontro do artigo
1.224, o qual estabelece: “só se considera perdida a posse para quem não presenciou o
esbulho, quando, tendo notícia dele, se abstém de retornar a coisa, ou, tentando
recuperá-la, é violentamente repelido”.

Aqui temos aquelas situações de ingresso forçado em propriedade alheia,


realização de obras em terreno de outrem, invasão, ocupação e etc. Em todos esses
casos, enquanto o real possuidor desconhecer o esbulho, o terceiro será mero detentor.
A partir do momento em que, tendo ciência da ocupação, ele abstenha-se de retomar a
coisa ou seja impedido de fazê-la, o terceiro passa a ser considerado possuidor, ainda
que injusto e de má-fé, sendo autorizado ao titular do direito intentar as ações para
recuperar a posse legítima, neste caso, ação de reintegração.

Quanto aos efeitos, a principal diferença entre o possuidor e detentor se encontra


no fato de que o segundo não pode invocar a proteções possessórias. Como bem coloca
Maria Lígia Coelho Mathias, professora titular do curso de Direito da Universidade
Presbiteriana Mackenzie: “detentor não tem posse e, por via de consequência, não tem
direito de se valer das ações possessórias”6.

4. CLASSIFICAÇÃO DA POSSE
Embora seja um todo unitário, por vezes a posse poderá ser compartilhada,
simultaneamente exercida, fundamento ou não para o pleito de usucapião, passível ou
não de ser defendida contra terceiros, encontrar-se eivada de vício, possibilitar medida

6
MATHIAS, Maria Ligia Coelho. Direito Civil - Direitos Reais, 3ª ed., São Paulo: Atlas, 2008, vol. 7, pag.
12.

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liminar em ação possessória, e tudo isso dependerá da modalidade configurada no caso
concreto.

4.1. Quanto à Extensão da Garantia Possessória

CC, Art. 1.197. A posse direta, de pessoa que tem a coisa em seu poder,
temporariamente, em virtude de direito pessoal, ou real, não anula a
indireta, de quem aquela foi havida, podendo o possuidor direto
defender a sua posse contra o indireto.

Conforme exposição do artigo 1.197 do Código Civil de 2002, a posse direta é


exercida pela pessoa que tem coisa em seu poder (poder físico imediato),
temporariamente, como fruto de um direito pessoal ou real. Por sua vez, a posse
indireta é exercida por aquele que, sendo titular do direito real, em regra de
propriedade, voluntariamente transferiu a outrem a utilização da coisa.

Assim, temos que duas pessoas exercem simultaneamente a posse, mas não com
os mesmos direitos. Em verdade, como consequência da adoção da teoria objetiva de
Ihering, o intuito do legislador foi estender ao proprietário da coisa a possibilidade de
defendê-la através de garantias possessórias, mesmo não tendo o corpus. Ademais, do
ponto de vista técnico, equívoco nenhum existe nesse intento, vez que o proprietário,
mesmo após a transferência da posse, continua a exercer alguns dos atributos da
propriedade, tais como a fruição e possibilidade de alienação da coisa.

O artigo exposto acima ainda fornece outras informações que nos ajuda a melhor
compreender essa classificação. A posse direta é derivada, pois advém do direito do
cedente, e temporária, pois extinta a relação pessoal será extinto o desdobramento
possessório e a posse se materializará em benefício do possuidor indireto.

Exemplos práticos dessa modalidade possessória ocorrem na relação entre


locador e locatário, depositante e depositário, comodante e comodatário, nu-
proprietário e usufrutuário. Em todas as situações o primeiro será possuidor indireto e
o segundo possuidor direto da coisa.

Outrossim, importa-nos visualizar que essa dualidade pode ser fruto de uma
relação pessoal, em virtude de obrigação advinda de contrato, mas também pode ser
consequência de uma relação real, o que ocorre no caso do usufrutuário e do credor
pignoratício.

Por fim, o possuidor direto é legitimado a proteger a posse contra terceiro e


mesmo em face ao possuidor indireto, se imaginarmos a situação prática, por exemplo,
em que o locador queira insistente e reiteradamente, sem necessidade aparente,
vistoriar a coisa locada. Igualmente, o possuidor indireto também goza de proteção
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possessória, contra a turbação ou esbulho causados por terceiro e, apesar da omissão
legislativa, também em face ao possuidor direto caso sua posse se torne injusta e de
má-fé.

Nos termos do Enunciado 76 do CJF, publicado após a I Jornada de Direito Civil:


“Art. 1.197 – O possuidor direto tem direito de defender a sua posse contra o indireto,
e este, contra aquele (art. 1.197, in fine, do novo Código Civil)”.

4.2. Quanto ao Compartilhamento da Posse

CC, Art. 1.199. Se duas ou mais pessoas possuírem coisa indivisa,


poderá cada uma exercer sobre ela atos possessórios, contanto que
não excluam os dos outros compossuidores.

Em regra, a posse é exercida de forma exclusiva e não compartilhada, situação em


que apenas uma pessoa dispõe da coisa. Nesse caso, a posse poderá ser direta ou
indireta, pois mesmo no caso da classificação anterior, embora duas pessoas sejam
possuidoras, os seus direitos são distintos, exclusivos e limitados. Como vimos, o
objetivo do legislador foi tão somente permitir ao proprietário proteger a posse, mesmo
sem estar diretamente com a coisa.

Diferentemente, o que está tipificado no artigo supra é a possibilidade de


composse, ou seja, o partilhamento da posse por duas ou mais pessoas, o que pode
surgir no mundo jurídico em razão de ato inter vivos, no casamento ou na união estável,
e também por causa mortis, quando os herdeiros terão composse da herança até que
se dê a partilha dos bens.

Conforme entendimento de Maria Helena Diniz: “verifica-se que a composse não


se confunde com a dualidade da posse: a direta e a indireta, porque nesta última o
possuidor fica privada da utilização imediata da coisa e na composse todos podem
utilizá-la diretamente, desde que uns não excluam os outros”7.

Em suma, a composse pressupõe: a) pluralidade de sujeitos; b) iguais poderes; c)


mesmo bem. Como diz o texto legal, nessa situação cada pessoa pode exercer os atos
possessórios, desde que não embarace o uso dos demais. Se um perturbar o
desenvolvimento da composse, poderão os demais intentarem as garantias possessórias
em face dele.

Há quem visualize, ainda, duas espécies de composse: i) pro diviso, quando a coisa
em si é divisível e, embora não exista de direito, é possível a repartição fática da posse;

7
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro - Direito das Coisa, 30ª ed., São Paulo: Saraiva,
2015, vol. 4, pag. 74.
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ii) pro indiviso, quando o objeto encontra-se materialmente indivisível, de modo que
cada possuidor exerce igual poder sobre a totalidade da coisa, de fato e de direito.

4.3. Quanto à Existência de Vício

CC, Art. 1.200. É justa a posse que não for violenta, clandestina ou
precária.

O artigo acima é praticamente autoexplicativo, quanto à existência de vícios a


posse pode ser justa ou injusta. Primeiro, a posse é justa se não for violenta, ou seja, se
não for obtida mediante força física ou violência moral, como ocorre nas invasões de
terra, onde um grupo de pessoas adentra abruptamente em determinado terreno
derrubando cercas e outros implementos, expulsando pessoas que estejam utilizando a
coisa e cumprindo sua função social.

Complementarmente, é injusta a posse clandestina ou precária. Clandestina é a


posse obtida com desconhecimento do possuidor, às ocultas, sorrateiramente, sem
publicidade. Precária é a posse que se adquire com abuso de confiança, como quando a
pessoa se nega a restituir a coisa lhe fora entregue.

Segundo Flávio Tartuce:


De início, a posse, mesmo que injusta, ainda é posse e pode ser
defendida por ações do juízo possessório, não contra aquele de quem
se tirou a coisa, mas sim em face de terceiros. Isso porque a posse
somente é viciada em relação a uma determinada pessoa (efeito inter
partes), não tendo o vício efeitos contra todos, ou seja, erga omnes.8

4.4. Quanto à Subjetividade

CC, Art. 1.201. É de boa-fé a posse, se o possuidor ignora o vício, ou o


obstáculo que impede a aquisição da coisa.
Parágrafo único. O possuidor com justo título tem por si a presunção
de boa-fé, salvo prova em contrário, ou quando a lei expressamente
não admite esta presunção.

Em Direito Civil os termos boa-fé e má-fé, do ponto de vista subjetivo, estão


essencialmente relacionados ao desconhecimento ou conhecimento de determinado
vício. Isso é o que nos interessa para essa classificação, pois será considerado possuidor
de boa-fé aquele que ignorar o vício ou obstáculo que impeça a aquisição da coisa, que
tem convicção de não estar prejudicando ninguém. A contrario sensu, será de má-fé a

8
TARTUCE, Flávio. Direito Civil – Direito das Coisas. Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 41.
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posse daquele souber da existência de vício que implica na ilegitimidade de ter coisa
consigo, mas mesmo assim pretende exercer domínio fático sobre o bem.

A relevância desta classificação reside principalmente no que tange às regras


sobre benfeitorias, frutos e usucapião. Exemplificando, se o ascendente recebe um
imóvel por herança, desconhecendo a existência de um filho do de cujus, a sua posse
será classificada como de boa-fé e, por conseguinte, fará jus à indenização pelas
benfeitorias necessárias e úteis que eventualmente tiver edificado (CC, art. 1.219).

4.5. Quanto aos Efeitos

Essa classificação se dá em razão do nascimento e dos efeitos que a posse produz,


fundamentalmente, se pode redundar num pleito de usucapião ou não.

Nesses termos, a posse será ad interdicta quando decorrer de uma obrigação ou


um direito real, sendo por isso defensável através de ações possessórias caso seja
ameaçada, turbada, esbulhada ou perdida. Contudo, por se tratar de uma posse
interdicta (que se justifica em razão de obrigação ou direito real sobre coisa alheia) não
é capaz de gerar usucapião. Assim é a posse do locatário, que nasce de um contrato e
sendo justa o legitima a ajuizar ações possessórias em face a terceiros, e até mesmo em
face ao próprio locador, mas ao mesmo tempo, esse mesmo contrato é causa impeditiva
da usucapião.

Todavia, a posse pode ser classificada como ad usucapionem, quando não há um


vínculo obrigacional ou de direito real existente entre possuidor e proprietário. Desse
modo, se uma pessoa ocupa determinado terreno, sem autorização do proprietário,
poderá usucapir o bem, caso a posse também se mantenha mansa, pacífica, contínua
e cumpra o prazo da prescrição aquisitiva.

Esses conceitos são bastante simples, é verdade, mas finalmente insta destacar
que nesse caso o animus da posse pode ser alterado em razão do tempo. Por exemplo,
um contrato de comodato induz originalmente em uma posse ad interdicta, pois existe
uma relação obrigacional que impede futura usucapião, contudo, findo o prazo para a
devolução do objeto, se isso não acontecer, em razão da precariedade se tornará injusta
e, consequentemente, afastará o impeditivo da usucapião – que era o contrato –, assim
passará também a ser considerada ad usucapionem.

4.6. Quanto à Idade

A última classificação da posse é relevante por questões de natureza processual,


pois dependendo da modalidade haverá a possiblidade ou não de um pleito liminar. A
posse será “nova” até um ano do esbulho, quando, com fulcro no artigo 558 do Código
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de Processo Civil, será autorizado ao autor da ação possessória pleitear tutela liminar de
reintegração, a ser deferida em cognição sumária. Ultrapassado o prazo de ano e dia, a
posse será classificada como velha, fato que obstará a concessão da referida liminar.

Nas palavras de Maria Helena Diniz: “esse prazo é importante porque contra a
posse nova pode o titular do direito lançar mão do desforço imediato (CC, art. 1.210,
§1º) ou obter a reintegração liminar em ação própria (CPC, arts. 926 e ss.) ou, ainda, a
concessão da tutela antecipada.”9.

5. EFEITOS DA POSSE
As consequências jurídicas da posse, produzidas em virtude da lei, variam em
conformidade com as suas espécies, cumprindo-nos indagar primeiro se a posse é justa
ou injusta, de boa-fé ou má-fé, ad usucapionem ou ad interdicta, velha ou nova. Assim,
dado a importância do tema, o legislador civilista separou um capítulo só para tratar
sobre os efeitos da posse, entre os artigos 1.210 e 1.222 do Código Civil, embora
possamos encontrar mais alguns espalhados pelo Código Civil, bem como pelo Código
de Processo Civil.

De acordo com a doutrina de Clóvis Beviláqua, muito bem ajustada por Paulo
Nader e Maria Helena Diniz, os efeitos da posse são classificados em dois grupos: i)
efeitos materiais; e ii) efeitos processuais.

Portanto, são estes os efeitos da posse aqui considerados: I- Efeitos materiais da


posse – a) percepção dos frutos; b) indenização por benfeitorias e direito de retenção; c)
responsabilidade pela perda ou deterioração da coisa; d) direito à usucapião. II- Efeitos
processuais da posse – a) autotutela - legítima defesa da posse e desforço imediato; b)
heterotutela – manutenção, reintegração e interdito proibitório.

5.1. Efeitos Materiais da Posse

5.1.1. Direito aos Frutos


Art. 1.214. O possuidor de boa-fé tem direito, enquanto ela durar, aos
frutos percebidos.
Parágrafo único. Os frutos pendentes ao tempo em que cessar a boa-
fé devem ser restituídos, depois de deduzidas as despesas da

9
DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro - Direito das Coisa, 30ª ed., São Paulo: Saraiva,
2015, vol. 4, pag. 77
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produção e custeio; devem ser também restituídos os frutos colhidos
com antecipação.
Art. 1.215. Os frutos naturais e industriais reputam-se colhidos e
percebidos, logo que são separados; os civis reputam-se percebidos
dia por dia.
Art. 1.216. O possuidor de má-fé responde por todos os frutos colhidos
e percebidos, bem como pelos que, por culpa sua, deixou de perceber,
desde o momento em que se constituiu de má-fé; tem direito às
despesas da produção e custeio.

Simplificando a regra legal, o possuidor de boa-fé tem direito aos frutos


percebidos, pois equipara-se a dono quando se encontra de fato com o bem. Assim,
enquanto permanecer de boa-fé poderá usar e gozar da coisa, retirando suas vantagens.
A regra geral do Código Civil é de que, ao transferir a posse direta do bem, o proprietário
mostra-se desinteressado por aquilo que possa dele ser subtraído.

Todavia, o possuidor não tem direito aos frutos que estiverem pendentes quando
perder sua posse ou cessar a sua boa-fé, por serem eles partes integrantes da coisa
principal. Nesta situação, estando de má-fé, o possuidor deverá restituir aqueles que
foram colhidos e percebidos, os fraudulentamente foram retirados por antecipação,
bem como os que, por sua culpa, deixou de perceber. No máximo, o possuidor de má-
fé terá direito ao ressarcimento das despesas de produção e custeio, a fim de evitar o
enriquecimento indevido por parte do proprietário.

POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.214) POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.216)

➢ Não tem direito aos frutos. Responde


➢ Tem direito aos frutos colhidos. pelos frutos que colheu, bem como
pelos que deixou de colher.

➢ Não tem direito aos frutos pendentes ➢ Tem direito às despesas com a produção
ao tempo em que cessar a boa-fé. e de custeio.

5.1.2. Responsabilidade pela Perda ou Deterioração

Art. 1.217. O possuidor de boa-fé não responde pela perda ou


deterioração da coisa, a que não der causa.

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Art. 1.218. O possuidor de má-fé responde pela perda, ou
deterioração da coisa, ainda que acidentais, salvo se provar que de
igual modo se teriam dado, estando ela na posse do reivindicante.

Conforme a regra prevista nos artigos 238 e 239 do Código Civil (obrigação de
restituir coisa certa), res perit domino (a coisa perece para o dono). Assim, fácil é
compreender a regra do artigo 1.217, cuja dicção: “o possuidor de boa-fé não responde
pela perda ou deterioração da coisa, a que não der causa”.

O possuidor de boa-fé somente responderá pela perda ou deterioração do bem,


quando culpado pela ocorrência, ou seja, tiver agido com imprudência, negligência ou
imperícia na sua utilização.

Por sua vez, o possuidor de má-fé responde pela perda, ou deterioração da coisa,
ainda que acidentais, salvo se provar que de igual modo se teriam dado, estando ela na
posse do reivindicante (CC, art. 1.218).

No direito obrigacional temos regra semelhante, ao tipificar que o devedor da


restituição, quando estiver em mora responde pela impossibilidade da prestação, ainda
que resulte de caso fortuito ou de força maior, se estes ocorrerem durante o atraso;
salvo se provar isenção de culpa, ou que o dano sobreviria ainda quando a obrigação
fosse oportunamente desempenhada (CC, art. 399).

Pelo exposto, concluímos então que a responsabilidade do possuidor de boa-fé é


subjetiva, pois depende da comprovação de sua culpa (dolo, imprudência, negligência
ou imperícia); enquanto a responsabilidade do possuidor de má-fé é objetiva, pois
independe da comprovação de culpa. Sendo a responsabilidade objetiva, inverte-se o
ônus da prova, par que o possuidor de má-fé tente demonstrar que o dano à coisa
ocorreria mesmo que estivesse com o reivindicante.

POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.217) POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.218)

➢ Responsabilidade SUBJETIVA ➢ Responsabilidade OBJETIVA


(depende de culpa) (independente de culpa)

➢ Só responde pelos danos que por ➢ Responde pelos danos, ainda que
culpa deu causa. decorrentes de fato acidental.

5.1.3. Benfeitorias e Direito de Retenção

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Art. 1.219. O possuidor de boa-fé tem direito à indenização das
benfeitorias necessárias e úteis, bem como, quanto às voluptuárias, se
não lhe forem pagas, a levantá-las, quando o puder sem detrimento
da coisa, e poderá exercer o direito de retenção pelo valor das
benfeitorias necessárias e úteis.
Art. 1.220. Ao possuidor de má-fé serão ressarcidas somente as
benfeitorias necessárias; não lhe assiste o direito de retenção pela
importância destas, nem o de levantar as voluptuárias.
Art. 1.221. As benfeitorias compensam-se com os danos, e só obrigam
ao ressarcimento se ao tempo da evicção ainda existirem. (Vide
Decreto-lei nº 4.037, de 1942)
Art. 1.222. O reivindicante, obrigado a indenizar as benfeitorias ao
possuidor de má-fé, tem o direito de optar entre o seu valor atual e o
seu custo; ao possuidor de boa-fé indenizará pelo valor atual.

Entende-se por benfeitoria, toda obra realizada na estrutura da coisa com objetivo
de conservá-la, melhorá-la ou embelezá-la, podendo ser de três espécies a depender do
escopo da alteração: i) Necessária (conservação – CC art. 96, § 3°); ii) Útil (melhoramento
- CC art. 96, § 2°); iii) Voluptuária (embelezamento - CC art. 96, § 1°).

Destarte, tratando-se de possuidor de boa-fé, no momento em que restituir a


coisa ele deverá ser indenizado pelo proprietário, no valor atual das benfeitorias
necessárias e úteis (CC, art. 1.222), vez que elas valorizaram o bem. No que diz respeito
às benfeitorias voluptuárias, é facultado ao possuidor levantá-las, quando isso for
possível sem implicar em detrimento do bem. Ademais, o legislador ainda confere ao
possuidor de boa-fé o direito de retenção (jus retentionis), que é a autorização para que
retenha o bem consigo, por tempo indeterminado, até que receba a justa indenização
(CC, art. 1.219).

Diversa será a regra quando tratar-se de possuidor de má-fé. Neste caso, ele será
indenizado apenas pelas benfeitorias necessárias, ficando a cargo do reivindicante da
posse escolher entre pagar o valor atual e o valor do seu custo (CC, art. 1.222). As
eventuais benfeitorias úteis e voluptuárias serão perdidas pelo possuidor de má-fé. Em
qualquer situação, não lhe assistirá também o direito de retenção, devendo primeiro
fazer a entrega do bem e posteriormente pleitear por alguma indenização (CC, art.
1.220).

Complementarmente, importa-nos relembrar lições de direito das obrigações,


especialmente destacando que os contratos de locação, arrendamento, comodato e
outros similares, estabelecem ao possuidor direto uma obrigação de restituir coisa
certa, sendo que o próprio artigo 242 do Código Civil prevê que em casos de

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melhoramento da coisa certa, tendo o devedor empregado trabalho ou dispêndio, o
caso se regulará pelas normas do mesmo estatuto atinentes às benfeitorias.

Outrossim, nunca é demais observar que enquanto viger o contrato o possuidor


direto terá posse justa e de boa-fé, contudo, se não fizer a devolução no termo
estipulado, a posse se converterá em injusta e de má-fé, dada a precariedade (abuso de
confiança). Assim, as benfeitorias realizadas até o termo final (dies ad que) seguirão a
regra do artigo 1.219, enquanto as realizadas após esta data seguirão a regra do artigo
1.220.

Para concluir a análise deste efeito material, aprofundando o máximo possível do


ponto de vista técnico, não poderíamos ignorar as normas especiais da lei de locações.
Estabelece o artigo 35 da Lei 8.245/91 que, salvo expressa disposição contratual em
contrário, as benfeitorias necessárias introduzidas pelo locatário, ainda que não
autorizadas pelo locador, bem como as úteis, desde que autorizadas, serão indenizáveis
e permitem o exercício do direito de retenção. As benfeitorias voluptuárias não serão
indenizáveis, podendo ser levantadas pelo locatário, finda a locação, desde que sua
retirada não afete a estrutura e a substância do imóvel.

Assim, observemos a possibilidade da existência de cláusula de renúncia,


autorizada, inclusive, por súmula do STJ: “Súmula 335 - Nos contratos de locação, é
válida a cláusula de renúncia à indenização das benfeitorias e ao direito de retenção”.
Entretanto, em se tratando de contrato de adesão, não será considerada abusiva a
cláusula que abranger também as indenizações por benfeitorias necessárias, como
pacificou interpretação a V Jornada de Direito Civil: “Enunciado n. 433 do CJF – A cláusula
de renúncia antecipada ao direito de indenização e retenção por benfeitorias necessárias
é nula em contrato de locação de imóvel urbano feito nos moldes do contrato de
adesão”.

POSSUIDOR DE BOA-FÉ (1.219) POSSUIDOR DE MÁ-FÉ (1.220)

➢ Indenização pelas benfeitorias ➢ Indenização só pelas benfeitorias


NECESSÁRIAS e ÚTEIS. NECESSÁRIAS.

➢ Levantamento das benfeitorias ➢ Não tem direito de levantar as


VOLUPTUÁRIAS. VOLUPTUÁRIAS.

➢ Tem DIREITO DE RETENÇÃO. ➢ Não tem DIREITO DE RETENÇÃO.

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5.2. Efeitos Processuais da Posse

Art. 1.210. O possuidor tem direito a ser mantido na posse em caso de


turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência iminente,
se tiver justo receio de ser molestado.
§1º O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-
se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa,
ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou
restituição da posse.
§2º Não obsta à manutenção ou reintegração na posse a alegação de
propriedade, ou de outro direito sobre a coisa.
Art. 1.211. Quando mais de uma pessoa se disser possuidora, manter-
se-á provisoriamente a que tiver a coisa, se não estiver manifesto que
a obteve de alguma das outras por modo vicioso.
Art. 1.212. O possuidor pode intentar a ação de esbulho, ou a de
indenização, contra o terceiro, que recebeu a coisa esbulhada sabendo
que o era.
Art. 1.213. O disposto nos artigos antecedentes não se aplica às
servidões não aparentes, salvo quando os respectivos títulos
provierem do possuidor do prédio serviente, ou daqueles de quem
este o houve.

5.2.1. Autotutela Possessória

De acordo com as lições de introdução ao processo, regra geral, os conflitos de


interesses devem ser solucionados a partir da atividade jurisdicional, exercida pelo
Estado mediante provocação do interessado. Contudo, em face a algumas situações
emergenciais, a própria lei autoriza o não acionamento do judiciário, dando assim
legitimidade à autotutela.

Isso é o que ocorre no âmbito do direito das coisas, notadamente no que tange ao
primeiro efeito da posse, chamado de legítima defesa, desforço imediato ou autodefesa
da posse, direito que encontra previsão no parágrafo primeiro do artigo 1.210 do Código
Civil: “o possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua
própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir
além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse”.

Conforme as lições do mestre Paulo Nader:


Excepcionalmente, quando a via estatal não se revela em condições de
atender à urgência do caso concreto, é cabível a autotutela. Na
impossibilidade fática de se valer da proteção oficial, seja para conter
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injusta agressão a seu direito ou a de terceiros, seja para se opor a atos
de turbação ou de esbulho, a pessoa pode reagir manu militari,
moderadamente e com os meios necessários10.

Por autorização legal, o possuidor turbado ou esbulhado, poderá manter-se ou


restituir-se na posse, por força própria, desde que observe dois requisitos: i) reação
incontinenti, ou seja, imediata (sem demora); ii) reação moderada, limitada aos meios
estritamente necessários para a manutenção ou restituição da posse, ou seja, sem
abuso de direito. Se o ato for realizado nesses termos, com fulcro no artigo 188 do
Código Civil, não haverá configuração de ilícito, caso contrário, estará configurado o ato
ilícito decorrente do abuso de direito (CC, art. 187).

Do ponto de vista técnico, vale ainda ressaltar que existe diferença entre atos de
defesa e desforço, termos que comumente são utilizados – erroneamente – como
sinônimos. A expressão legítima defesa da posse deve ser empregada para os atos que
visam afastar a turbação, enquanto que desforço imediato é aplicável para a atitude que
visa a retomada da posse esbulhada, ou seja, situação em que já houve a perda da posse.
Conforme lições de Flávio Tartuce: “nos casos de ameaça e turbação, em que o atentado
à posse não foi definitivo, cabe legítima defesa. Em havendo esbulho, a medida cabível
é o desforço imediato, para a retomada do bem esbulhado” 11.

Ademais, vale dizer que os atos de defesa ou desforço são pessoais e indelegáveis,
de modo que tanto o possuidor direto quanto o possuidor indireto têm legitimidade
para realizá-los. Isso não significa que o possuidor não possa ser auxiliado por amigos
ou serviçais, desde que a ação esteja sob sua organização e administração. Ressaltamos,
ainda, conforme anotado alhures, que o detentor tem legitimidade para exercer a
autodefesa da posse (CJF, Enunciado 493).

5.2.2. Heterotutela Possessória

Quando a legítima defesa da posse ou desforço imediato não for possível, ou


suficiente, eis que se fará indispensável a heterotutela, postulada através de uma das
três ações a seguir: a) manutenção de posse; b) reintegração de posse; c) interdito
proibitório. Importa-nos mais uma vez lembrar que esses atos são inerentes ao sujeito
qualificado como possuidor, seja direto ou indireto, justo ou injusto, de modo que o
mero detentor não é legitimado para intentá-los.

Não podemos confundir as ações possessórias com as reivindicatórias (ou


petitórias), pois o êxito daquelas depende apenas da comprovação da posse, como
elemento autônomo, e do esbulho, turbação ou ameaça. Diferentemente, as outras

10
NADER, Paulo. Curso de Direito Civil - Direito das Coisas, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2008, vol.
4, pag. 64.
11
TARTUCE, Flávio. Direito Civil – Direito das Coisas. 8ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 91.
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ações mencionadas versam exclusivamente sobre o direito real de propriedade. Quando
se discute a posse não é relevante a questão do domínio12. Nesse contexto, especial
atenção com o fato de que a ação de imissão na posse NÃO é possessória, mas sim
petitória.

➢ TURBAÇÃO - Ato que embaraça o livre


MANUTENÇÃO DE POSSE
exercício da posse.

➢ ESBULHO - Ato pelo qual o possuidor se vê


REINTEGRAÇÃO DE POSSE
despojado da sua posse.

➢ AMEAÇA ou JUSTO RECEIO de sofrer


INTERDITO PROIBITÓRIO
turbação ou esbulho.

12
NADER, Paulo. Curso de Direito Civil, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 2008, vol. 4, pag. 66.
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