Você está na página 1de 67

DOIS ASPECTOS DA PALAVRA DE DEUS

INDISPENSÁVEIS PARA O ESTUDO DA BÍBLIA

Eu gostaria de começar o nosso estudo falando de dois aspectos da


Palavra de Deus que nos auxiliarão no nosso caminho.
O primeiro é o aspecto VITAL. A Bíblia é fundamentalmente um livro
que conta a experiência de vida de um povo. Uma vida temperada com a fé de
maneira que esta passa a ter o sabor de um Deus-Diálogo. Que não hesita em
conversar com o seu povo e de propor-lhe sua Palavra para que a vida, seja
sempre vida e o ser humano cada vez mais pessoa. Seguí-la significa viver,
transgredí-la implica em morrer.( Dt. 30, 15-20 ).
O prolongamento da vida e a valorização da pessoa, depende da
observância da orientação de Deus, da sua Palavra. Por isso,comprometer-se
com a Palavra de Deus, é viver promovendo a vida, oferecendo condições para
que ela desabroche e seja expressão da dignidade humana. Portanto, o nosso
estudo da Bíblia deve necessariamente nos lançar para o compromisso com a fé
num Deus que conversa conosco a fim de salvar-nos à partir de nossa
experiência vital. Negar a vida é negar a Palavra de Deus, pois toda a missão de
Jesus Cristo, a Palavra Viva de Deus, se resume em dar a vida em plenitude para
todos (Jo. 10,10). E é nisso que se expressa a maior prova de amor para com o
próximo: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus
amigos”. (Jo. 15,13). Compromoter-se com a Palavra de Deus significa colocá-
la em prática, sair de sí para ir, como tudo o que temos e somos, ao encontro do
outro nas suas necessidades. Vamos ler Lc. 10,25-37.
Esta é a nova lei, a nova orientação para aqueles que querem fazer a vida
florescer.
O segundo é o aspecto HISTÓRICO. A experiência vital é feita na
caminhada histórica. A vida sempre se faz história. Quantas pessoas que ao
longo de tantos anos vividos nos contam a sua história de vida feita de altos e
baixos, de alegrias e de tristezas, de derrotas e de vitórias, com um realismo tão
grande que nos encanta. Não há vida sem história, assim como não há história
sem a vida que nela se desenrola. Assim, pois, a Bíblia é a experiência contada
da vida de um povo que se fez história, e história de salvação, pois nela Deus se
revelou comunicando-se. E aqueles que a viveram tornaram-se exemplos para
todas as gerações em todas as épocas (1 Cor. 10,6 e 11). Assim a Bíblia, como
Palavra de Deus escrita, é fruto da experiência humana histórica de um povo e
que nasceu para a nossa instrução, servindo-nos de exemplo, a fim de que não
incorramos nos mesmos erros que eles cometeram, pois “Estas coisas lhes
aconteceram para servir de exemplo”. Embora, com toda a sua carga histórica, a
Bíblia não nos apresenta toda a intensidade da experiência vivida, uma vez que a
escrita é sempre limitada. A experiência que aquele povo fez de Deus, foi muito
mais forte que a experiência contada. Os autores sagrados quiseram, ao
escreverem a Bíblia, expressar toda a intensidade daquela experiência feita, no
entanto, aqueles que tiverem acesso a esta fonte escrita, não receberão com a
mesma intensidade, isto é: ler o texto bíblico escrito não nos permite viver com
a mesma intensidade aquela experiência pessoal e social que o povo da Bíblia
fez de Deus.
O sentido original da Bíblia para nós, hoje, é mostrar-nos o caminho que
aponta para Deus e como fazer a nossa experiência vital na história com Ele,
seguindo as suas orientações, a sua Palavra, de modo a realizarmos o seu projeto
de vida e de liberdade para toda a humanidade, em todas as sociedades de todos
os lugares e de todas as épocas.
Vamos ler o texto de Rm. 15,4.
Por fim, a Bíblia, quando lida em sintonia com estes dois aspéctos da vida
e da história, nos levam a criar a perseverança, a consolação e a esperança. Nos
tornamos perseverantes na esperança. O que isso significa ? Jamais saberemos o
que é o desânimo e o desespero. E nada do que nos atingir no nosso trabalho na
comunidade, poderá nos levar ao desânimo e ao desespero, mas encontraremos
sempre novos atalhos para recuperarmos novamente o caminho.
Vamos ler também 2 Tm. 3,14-17.
Paulo recorda à Timóteo, responsável pela comunidade de Éfeso, para
permanecer firme nas orientações da Palavra de Deus, pois desde criança ele a
conhece. Assegura-lhe o valor que ela tem ao comunicar-nos a sabedoria que
conduz à salvação pela fé. A Bíblia (Escritura ou Sagradas Letras, segundo
Paulo) qualifica a pessoa para toda boa obra. Tudo aquilo, portanto, que nós
encontramos na Bíblia é para a nossa qualificação, “a fim de que o homem de
Deus, seja perfeito”.O nosso estudo da Bíblia, continuará nesse processo de
qualificação para que sejamos aptos para toda boa obra.
I PARTE: A GEOGRAFIA BÍBLICA

Como uma introdução ao nosso assunto, falamos do aspecto


HISTÓRICO e do aspecto VITAL, duas dimensões de uma mesma realidade, a
HUMANA. Na nossa experiência humana não se pode viver a história sem um
lugar determinado, isto é, a TERRA, o CHÃO, onde a pessoa humana
desenvolve a sua vida e a sua história. Por isso, hoje, nós vamos falar de uma
terra. De uma faixa de terra que nós encontramos nos mapas do mundo antigo,
ou melhor, do Antigo Oriente como nos estudos de Bíblia é denominada. Nós
vamos falar a partir de agora da Geografia Bíblica. Para entender a Bíblia é
preciso compreender o chão que lhe deu origem, a sua configuração geográfica,
pois só assim poderemos entender os vários elementos geográficos que a Bíblia
se refere quando situa a História da Salvação de Israel: os rios e os mares, os
vales e as nascentes, as montanhas e as planícies, a fauna e a flora, os desertos e
os oásis, . Pois bem, UMA TERRA é a primeira parte do nosso estudo.
Será de muita utilidade para os que acompanharão este estudo terem em
mãos um atlas bíblico, onde poderão encontrar o mapa do Antigo Oriente e
localizar com facilidade os países, as cidades, as montanhas, os rios, os desertos
e os demais elementos geográficos que ao longo desta primeira parte do nosso
estudo iremos apontar.
1.1) O Crescente Fértil: Os Países da Bíblia.
Até a dominação grega os países que dominarão a terra da Palestina são:
EGITO E OS PAÍSES DA MESOPOTÂMIA, isto é, ASSÍRIA, CALDÉIA
E BABILÔNIA. Essa dominação era exercida por causa das divisões políticas.
O controle da terrra dá a um país a ascensão política, principalmente se esta terra
é dotada dos recursos que a natureza oferece para o bem de grupos, povos ou
nações. As divisões políticas entre os países do Antigo Oriente girava em torno
de uma extensa faixa de terra fértil, propícia para a agricultura e para a criação
de gado. A fertilidade desta terra era possível por causa dos rios que a cercam.
No estudo bíblico esta faixa de terra chama-se convencionalmente
CRESCENTE FÉRTIL.
A Palestina, ou terra de CANAÃ, lugar onde se desenvolve a história
bíblica, nas proximidades do Mar Mediterrâneo, entre o Egito e a Mesopotâmia,
faz parte do Crescente Fértil, onde as Planícies de Jezrael, na Galiléia, lugar de
grande vegetação, com muito verde por causa das matas que ali havia, atraem a
atenção de todos. É nesta planície que nós encontramos a localização daquele
episódio bíblico da vinha de Nabot, narrado no 1º Livro do Reis 21. Vamos ler
apenas os versículos 1 a 7.
O rei Acab ambiciona as terras de Nabot que fica na planície de Jezrael,
sua mulher Jezabel trama a morte de Nabot e dá a Acab, seu marido, as terras
que ele desejava. São terras férteis, devido a proximidade com o Mar, por isso
eram terras ambicionadas pelo poder e as possuiam e controlavam pela força. As
potências da história antiga: ASSÍRIA, BABILÔNIA E PÉRSIA, procuravam
ter acesso ao Mar e logo era preciso conquistar o Egito. Para isso tinham que
passar pelas terras de Canaã, que se tornou, por causa de sua localização
geográfica, um corredor de passagem, ponto estratégico politicamente falando.
Este corredor de passagem permitia a entrada para a Europa, Ásia e África, uma
vez que por outras rotas haviam o grande deserto arábico e Mar Mediterrâneo. A
terra de Canaã era a única via de acesso que permitia a passagem de um país
para o outro sem se confrontar com o deserto e com o Mar. Por isso, todos
queriam ter o seu controle. Aqui está, portanto, a resposta para a nossa pergunta:
Porque o povo da história bíblica vivia constantemente em conflitos? Por causa
da localização geográfica de suas terras férteis que atraia a atenção dos outros
povos. Assim, portanto, a terra de Canaã se caracterizava diante de muitos
conflitos por causa da sua fertilidade e por causa da sua posição geográfica.
Mas o que é mesmo o chamado CRESCENTE FÉRTIL?
O Crescente Fértil é uma extensão de terra com cobertura vegetal
apreciável e duradoura. Tem a forma de um enorme arco, e que inicia nas
imediações do Golfo Pérsico, passando pelas terras de Canaã e se extendendo
até às proximidades do Rio Nilo, no Egito. Nele os rios Tigre e Eufrates de um
lado propiciam uma vegetação e riqueza consideráveis na Mesopotâmia. Do
outro o Mar Mediterrâneo que cobre toda a zona costeira faz dos territórios
próximo aos planaltos e montanhas da Jordânia e de Israel uma faixa de terras
agricultáveis.
O Crescente fértil é perpassado por três grandes eixos (caminhos):
1º - Do Eufrates até o Mar (Síria ao Norte, Damasco, Palmira, Oásis).
2º - Do Norte da Síria (Sídon) e desce até o Egito ( Passando por Gaza,
que era onde as tropas se fixavam e lá comandavam a passagem, Gaza seria
como um Quartel General das expedições militares).
3º - Do Eufrates passa por dentro de Canaã ( pela região das
montanhas) até o Mar de Ácaba (passando por duas grandes cidades, Siquém e
Jerusalém).

Se agora nós sabemos o que é o Crescente Fértil, vamos então, considerar


os países que fazem parte destas terras.
• OS FENÍCIOS

Denominou-se Fenícia a região localizada ao norte da Palestina, habitada


por semitas que, durante o terceiro milênio antes de Cristo, instalaram-se ao
longo do litoral da Síria. Veja aí no seu mapa: a Fenícia fica localizada nessa
região onde estão as cidades de Sidônia, Biblos e Tiro na costa do Mar
Mediterrâneo.
É desta região que vem a mulher que faz Jesus mudar o curso de sua
missão como nós encontramos no texto bíblico de Mt. 15,21-28. Ela é uma
mulher estrangeira. Algumas Bíblias falam de mulher siro-fenícia, outras de
mulher cananéia, por causa dos limites da Fenícia, ao norte limita-se com a Síria
e ao sul com Canaã. Ao curar a filha da mulher Jesus anuncia a universalidade
de sua missão.
Os fenícios se destacaram pelo crescimento de um importante grupo de
navegadores e comerciantes, embora a atividade agrícola fenícia fosse também
bastante desenvolvida, como o cultivo de cereais, videiras e oliveiras.
Também no artesanato demonstravam habilidade, montando os navios e
confeccionando enfeites, cerâmicas, vidro e lã.
Graças às embarcações que conseguiam construir, aproveitando-se da
abundância de madeira existente em seu território, os fenícios navegavam a
pontos distantes, estabelecendo entrepostos comerciais sob seu controle.
Controlaram o Mar Mediterrâneo, penetraram o Atlântico, o mar do
Norte, o Índico, e margearam a costa européia e africana, ligando as diversas
civilizações de sua época com as suas rotas comerciais.
Dentro do crescente fértil os fenícios foram os que exoploraram o Mar,
pois os demais povos embora tomassem o caminho do Mar, nunca passam por
ele por causa de sua cosmovisão (= visão que tem das realidades do mundo).
Sobre a cosmovisão bíblica nós falaremos mais adiante.
O Mar é o lugar das potências do mal. O Império Romano fez do Mar
Mediterrâneo, “ MARE NOSTRUM”, isto é, MAR NOSSO. Por isso, o mal
veio pelo MAR. Todas as forças hostis do Imperador de Roma foi o mal que
veio pelo Mar. Por isso, o livro do Apocalipse para se referir ao fim do Império
Romano, o império do mal, e o surgimento de uma nova situação para o povo
fala de um novo céu e uma nova terra onde “o Mar já não existe”(Ap. 21,1),
isto é, onde o mal já não existe.
Para a nossa compreensão vai aqui um esclarecimento:
MEDITERRÂNEO significa “Entre Terras”, “No meio das terras”. O
Mediterrâneo é o Mar que fica entre as terras do Oriente e do Ocidente.

• O EGITO
Para considerarmos o Egito é necessário que falemos do Rio Nilo, pois é
ele quem faz a grandeza do Egito. O Egito nada seria sem o rio Nilo, pois está
situado no deserto. A vida no Egito depende das águas do Nilo. Heródoto, um
escrito da antiguidade assim se expressou: “O Egito é um Dom do Nilo”. O Nilo
é a coluna vertebral do Egito. É um grande rio, com 6.677 km de extensão com
uma largura máxima de 2 km.
As terras do Egito são férteis devido as enchentes do Nilo, ela permitia
uma boa produção, sobretudo de trigo. No Egito haviam grandes celeiros de
trigo.
Isso nos leva para a situação do povo que estava como escravo do Faraó,
no Egito. Diante das chicotadas dos feitores o povo de Israel, escravo no Egito,
construiu para o Faraó as cidades-armazéns de Piton e de Ramsés (cf. Êx. 1, 11).
A Galiléia era também outro celeiro de trigo, mas na Palestina. Era uma
região ambicionada pelas grandes potências, de modo especial pelo Império
Romano que logo estabeleceu Herodes como o Tetrarca da Galiléia. Este tornou-
se responsável para filtrar toda a economia da Galiléia para os celeiros do
Imperador. É lá, na região da Galiléia, que os discípulos de Jesus arrancam
espigas para comer, em dia de Sábado, e são criticados pelos fariseus (cf. Lc. 6,
1-5).
Toda a vida, toda a razão de ser, toda a cultura e a história do Egito se
concentra nas margens do grande rio Nilo, que transforma o deserto em terra
fértil. O país habitável se restringe às imediações do leito do Nilo ou ao amplo
Delta de sua foz.
Percebam no mapa como na foz do rio Nilo há uma configuração
geográfica como a de uma asa delta, nas imediações de Gessem.
O limo que as águas levavam suspenso, durante as enchentes e que
acabava sendo depositado sobre os campos os fertilizava, enquanto que, ao
ocorrer a retirada das águas, o sol implacável do país rachava a terra que estivera
úmida, arejando-a e penetrando com seus raios benéficos até certa profundidade.
A partir de então começam os trabalhos agrícolas, e o solo era uma fonte de
riqueza num país onde a chuva é praticamente desconhecida.
O Egito torna-se a terra do Faraó, não pertence ao governadores ou
ministros.
A civilização no Egito data de aproximadamente 4.500 a. C., onde já
aparecia uma sociedade organizada, que influenciava os demais países ao seu
redor. Era um povo que se destacava pela sua sabedoria, através dos Escribas.
Tornam-se conhecidos por causa de suas leis e também por causa de suas
construções ( Pirâmides, que datam de 2.500 a. C., Estátuas, Urnas funerárias,
etc...)
O Egito terá historicamente seus altos e baixos. Será invadido e terá que
recuar ao sul dos seus territórios.
• A MESOPOTÂMIA

A Mesopotâmia é uma área geográfica de aproximadamente 1.500.000


Km2.
Chama-se Mesopotâmia porque está situada “entre rios”, daí o nome
Mesopotâmia. Localiza-se entre os rios TIGRE ( com 2.300 km de extensão) e
EUFRATES ( com 3.300 km de extensão. O Eufrates é chamado também de
“Grande Rio”).
É uma região de terras férteis por causa dos rios e dos canais de irrigação.
Na Mesopotâmia estão os países da Assíria, Babilônia e Caldéia ( termo
que depois será usado para designar os povos desta região).
Foram os babilônios que inventaram os “Jardins suspensos”.
Todos nós já ouvimos falar dos Jardins suspensos da Babilônia que
figuram entre as sete maravilhas do mundo. Eram cultivos feitos em terraços, de
sorte que na época de dar os frutos formavam-se um grande bosque de flores
transformando-se em verdadeiros jardins.
Eram terras de conflitos por causa da fertilidade da solo.
As primeiras civilizações nascem aqui nesta região:
a) Ao Norte: Assíria, com sua capital em Nínive)
b) Ao Sul : Babilônia, com capital em Babel. Se torna símbolo
da cidade perversa devido a sua configuração político-cultural.
c) A Caldéia, com capital em Ur ( terra de onde parte Abraão ).
• OS SUMÉRIOS E ACADIANOS

Outros povos a serem considerados em nosso estudo da geografia bíblica,


são os sumérios e acadianos. Eles também são importantes, pois vão determinar
a cultura dos povos da Mesopotâmia. A cultura mesopotâmica de certo modo
influenciou a Bíblia, sobretudo no período das dominações assíria e babilônica,
que o povo de Israel experimentou entre os anos 1300-538 a.C
aproximadamente. E também porque, segundo o relato bíblico de Gn. 12,4-5,
Abraão saiu de Harã que fica a noroeste da Mesopotâmia e foi para a terra de
Canaã, que se tornou a Terra Prometida por Deus a toda a sua descendência.
( Confirme aí no seu mapa onde fica Harã. Depois da Assíria volte-se para
a esquerda, nas proximidades de Carquêmis, aí se localiza Harã ).
Os sumérios são os povos que vieram do planalto do Irã, mais
especificamente dos Montes Zagros, nas proximidades do MAR CÁSPIO,
fixando-se na Caldéia, sul da Mesopotâmia, próximo ao Golfo Pérsico, por
volta do ano 3500 a.C,. Embora sua origem seja por volta do ano 5000 a.C
aproximadamente.
A arqueologia acredita que já havia civilização desde 7000 a.C. na cidade
de Jericó.
Organizaram-se em cidades-estados, como Ur, Uruk, Nipur e Lagash.
Cada cidade-estado era governada por reis absolutos chamados PATESI, que
viviam constantemente em guerra entre si pelo controle da região. Cada uma das
cidades-estados podia manifestar uma cultura diferente.
Por volta de 2300 a.C., invasores acadianos conquistaram a região, e seu
rei, Sargão I, chamado de “soberano dos quatro cantos da Terra”, tornou-se o
primeiro governante a reinar sobre todo o sul da Mesopotâmia. Contudo, nova
onda de invasões estrangeiras ocorreu na região, desestruturando o Império
Acadiano e possibilitando a retomada da hegemonia política dos sumérios.
Essa hegemonia política dos sumérios não demorou muito, pois novos
invasores apareceram e os amoritas dominaram toda a região, fundando o
primeiro Império Babilônico, que teve uma duração de 250 anos (2000-1750
a.C.). A Mesopotâmia só conheceu a unidade no séc. XVIII a.C. .
Durante o reinado de Hamurábi, as fronteiras deste império se estendeu
desde o Golfo Pérsico até a Assíria. Hamurábi elaborou também o primeiro
código de leis de que se tem notícia.
O Código de Hamurábi era composto por centenas de leis, muitas
compiladas a partir do Direito sumeriano. Dentre elas, destacava-se a Lei do
Talião, que preconizava: as punições fossem idênticas ao delito cometido, isto é,
“olho por olho, dente por dente”.
Praticamente todas as invasões vieram do Oriente, sempre na procura de
terras melhores para garantir a sobrevivência ou sair de uma situação de
escravidão, libertando-se dos poderes totalitários. Essas incursões fizeram nascer
a cultura mesopotâmica, que apresentava as suas características.
Quase toda a cultura mesopotâmica descendia dos sumérios, incluindo a
religião. Sendo politeístas, acreditavam em vários deuses que representavam
fenômenos da natureza. Entre as principais divindades estavam Marduk, o deus
da cidade da Babilônia e do comércio; Shamash, o sol e a justiça; Anu, o céu;
Enlil, o ar; Ea, a água; Ishtar, a deusa do amor e da guerra, e Tamus, a
vegetação.
Os sumérios explicavam a origem do mundo através do mito de Marduk e
da lenda do Dilúvio, muito semelhante ao relato bíblico da arca de Noé. Aliás, a
narração do dilúvio é encontrada de forma parecida em mais de 60 civilizações.
Segundo suas crenças, o deus Marduk criara o céu e a terra, os astros e o
homem. Contudo, um dilúvio ameaçara a existência humana na terra e Marduk
ajudou Gilgamesh a sobreviver, advertindo-o do perigo e aconselhando-o a
construir uma arca na qual deveria colocar vários animais e os membros de sua
família.
Para se comunicar com os astros, seus deuses, construíam grandes torres,
chamados Zigurate, onde os sacerdotes subiam para falar com os deuses.
A Criação, no livro do Gênesis, é contada em termos de libertação. Os
astros não são deuses, mas criaturas de Deus.
Os Zigurates, eram torres construídas na Babilônia que tinham como fim
chegar mais perto das potências do céu (Lua, Sol, Estrelas, Planetas, etc...). O
Zigurte era o Templo que funcionava como o centro de toda religiosidade
mesopotâmica.
Aqui se situa a narração bíblica da Torre de Babel. Babel como já
estudamos, é a capital da Babilônia. O povo da Bíblia conheceu historicamente o
exílio, na Babilônia, por volta dos anos 587-538 a.C. Ora, a Babilônia havia se
tornado a atração do mundo por causa dos Jardins suspensos e dos Zigurates e
muitos povos para lá corriam com o fim de se encantar com as construções que
lá havia. Portanto, uma confusão de línguas devido a grande quantidade de
povos que se concentrava na cidade, sobretudo nos Zigurates. Foi à partir desse
fundo histórico do encontro com a cultura e a religião mesopotâmica no período
do exílio, que o povo de Israel forjou a estória da Torre de Babel.
Três realidades históricas que o povo bíblico experimentou na Babilônia
fez nascer o relato da Torre de Babel:
1º) Culto aos astros, com o fim de penetrar o céu.
2º) Muitos povos, muitas línguas numa cidade só, gerando uma
verdadeira confusão de línguas.
3º) O Império Babilônico querendo ser deus, senhor da vida de
todos os povos.

Assim, portanto, o relato bíblico da Torre de Babel tem um fundo


histórico. E dizer que é um mito, não significa dizer que não existe nada de
verdade ou de histórico. O mito é uma narrativa criada, com personagens
fictícios para expressar uma realidade ou um fato histórico. Quando falamos que
o relato bíblico da Torre de Babel é um mito queremos afirmar que é uma
narrativa criada para expressar o cantato que o povo de Deus do Antigo
Testamento teve, historicamente, com os povos da mesopotâmia e como eles
transformaram aquela realidade à partir de sua cultura e de sua religião: Javé-
Deus, é o Senhor de tudo o que existe e não aceita a grandeza e a prepotência
humanas. Ele destrói todos os planos que submetem povos e nações,
confundindo a linguagem humana.
1.2) A Terra de Canaã.
Agora que já nos situamos bastante no espaço geográfico destes países do
Crescente Fértil, vizinhos às terras de Canaã, vamos nos situar um pouco no
espaço físico-geográfico da Terra de Canaã.
Por que se chama assim Canaã?
Nós encontramos a resposta no livro do profeta Sofonias 1,11. Vamos ler!
Aqui Canaã designa terra de quem “pesa a prata”, isto é, terra de
mercadores. Portanto, cananeu é aquele que trabalha no mercado, no comércio.
Vamos ler também no livro do profeta Oséias o cap. 12, 8.
Canaã tem em sua mão uma balança falsa, ele gosta de extorquir.
Cananeu é um comerciante que rouba na balança do seu comércio, é um
trapaceiro.
Nos dois textos bíblicos Canaã significa a terra onde o meio de
sobrevivência é o comércio, porém um comércio injusto.
A pesquisa bíblica associa também ao termo Canaã aquilo que era o
produto comerciado, isto é, aos tecidos tingidos com tinta escarlate. O termo
Canaã teria assim a sua designação por causa do tecido púrpura tingido com
tinta escarlate própria daquela região.
É justamente nestas terras que o povo de Deus vai se instalar e esta
realidade influenciar no comportamento dos líderes do povo inclinando-os para
as injustiças, provocando o clamor dos profetas que pedem a prática da justiça e
do direito (cf. Am. 5,4-7).
Nós também conhecemos outro nome para esta terra onde se desenvolve a
história do povo de Israel, PALESTINA. Porém, não é um nome bíblico.
Originalmente designava a terra dos Filisteus (PELISTIM). Na época da
dominação romana, por volta do séc. II d.C., era o nome da província romana
que corresponde mais ou menos ao conjunto do território que estamos nos
referindo, especialmente depois da reforma de Diocleciano no ano 295 d.C.
A terra de Canaã está dividida pelo rio Jordão em duas zonas claramente
diferenciadas, das quais nós já nos confrontamos no contato com a Bíblia,
todavia pouco nos situamos, pois nos falta uma familiaridade maior com a
geografia biblica:
1ª Zona, é chamada de CISJORDÂNIA e fica entre o rio Jordão e o Mar
Mediterrâneo.
( Situe aí no seu mapa o rio Jordão e vá da direita para a esquerda até o
Mar Mediterrâneo. Pois bem, esta região é chamada de cisjordânia. Corresponde
à parte fértil das terras de Canaã).
2ª Zona, é chamada de TRANSJORDÂNIA e fica entre o rio Jordão e o
deserto.
(Situe aí no seu mapa o rio Jordão agora caminhe da esquerda para a
direita até o deserto. Pois bem, esta região é chamada de Transjordânia.
Corresponde à parte árida ou desértica das terras próximas a Canaã.)
A Cisjordânia é a zona costeira das terras de Canaã e correponde às
planícies e às montanhas. É nesta zona que se encontra a Planície de Jezrael, da
qual nós já falamos, quando citamos o episódio bíblico da vinha de Nabot,
lembram-se!
A Planície de Jezrael ou de Esdrelon, é muito importante, pois ela separa
o norte do sul. É uma região muito fértil, dela fala o profeta Oséias. À suas
proximidades está o rio Quison. Nesse rio se deu a vitória de Débora contra
Sisara (cf. Jz. 5). Vitória chave na história de Israel. Conquistando o vale faz-se
a união entre norte e sul destas terras.
Ao Norte da Cisjordânia, nós temos as Montanhas da Galiléia, que se
divide em:
• Baixa Galiléia ( que tem o Monte Tabor como referência)
• Alta Galiléia ( que tem o Monte Hermon como referência. O
Monte Hermon tem 2750m. É onde o rio Jordão tem as suas nascentes, de
onde cai muita neve. A alta Galiléia delimita o norte da Palestina.

Ao tratarmos da Cisjordânia, que compreende a zona costeira destas


terras, onde encontramos planícies e montanhas, nos referimos às montanhas da
Galiléia, que se divide em Baixa Galiléia e Alta Galiléia. A Baixa Galiléia tem o
monte Tabor como referência e a Alta Galiléia, o monte Hermon, que delimita o
norte das terras de Canaã e onde o rio Jordão tem as suas nascentes.
(As montanhas compreendem a parte central da Cisjordânia. Observe se aí
no seu mapa existe uma parte escura no centro, se você achou esta é a região das
montanhas. Se você não conseguiu encontrar fique sabendo que as montanhas se
localizam no centro das terras que ficam entre o rio Jordão e o Mar
mediterrâneo.)

• O VALE DO JORDÃO

Continuando o nosso estudo sobre a geografia bíblica, hoje nós vamos


falar do Vale do Jordão.
O Vale do Jordão é a parte que fica entre o rio Jordão e as montanhas,
você já se situou! Muito bem.
A extensão do rio Jordão é de 340 km.
São três as suas nascentes principais:
1ª) Brota em Bânias, ao pé de uma grande rocha na qual se abre uma
caverna, recolhendo as águas que provêm da fusão das neves e dos numerosos
riachos do monte Hermon. A grande parede calcária de Bânias, é provavelmente
a pedra à qual faz alusão o evangelho de Mateus, quando Jesus diz a Simão que
ele é a rocha sobre a qual edificará a sua Igreja (cf. Mt. 16,13.17-18). Naquele
vale erguia-se a cidade de Cesaréia de Filipe, capital da tetrarquia deste princípe
herodiano.
(Bânias fica nas proximidades do monte Hermon)
2ª) A segunda nascente do Jordão, mais ao oeste, é Ain Leddan, perto das
ruínas da cidade de Dã. Daqui a expressão bíblica “de Dã até Bersabéia” para
designar a totalidade do país de norte a sul (cf. Jz. 20,1; 2Sm. 3,10; 17,11; 24,2;
1Rs. 4,25).
(Veja aí no seu mapa e localize Dã, que está ao norte e localize também
Bersabéia, que está ao sul)
As águas abundantes e espumosas dão lugar a uma encantadora região
verde com abundantes árvores, hoje em dia transformada em Parque Nacional.
3ª) A terceira das principais nascentes do Jordão é o Hasbani. Um riacho
que desce do vale de Beqaa, no Líbano.
Estes três cursos d’água e todo um complexo sistema de fontes e riachos
secundários acabam unindo suas águas no que outrora foi o Lago Hule, hoje
seco, com águas canalizadas. É um amplo vale dedicado ao cultivo. A seus lados
emergem colinas verdes que iniciarão os sistemas montanhosos da Galiléia e de
Basã na Cisjordânia e na Transjordânia respectivamente.
O Jordão penetra no grande Lago de Genesaré ( em hebráico
KINNERET), que segundo alguns pesquisadores significa “CÍTARA”, devido à
forma subtriangular de seus contornos, muito parecido com aquele instrumento
musical, mas que, na realidade, seu nome provêm de uma cidade assim chamada
existente em suas margens.
O lago de Genesaré é um lago de água doce com um pouco mais de 20 km
de comprimento na direção norte-sul, numa extensão de 12 km de largura
máxima.
Ele é conhecido também como Lago de Tiberíades, devido à cidade de
Tiberíades fundada por Herodes Antipas, por volta do ano 20 d.C., a fim de
homenagear o Imperador Tibério César e que se tornou até hoje, a principal
povoação do lago.
É chamado também de MAR DA GALILÉIA, por causa de suas
dimensões consideráveis.
Em lina direta o rio Jordão tem apenas 105 km: de suas nascentes no lago
de Genesaré até a entrada do mar Morto. Ele triplica o percurso por causa das
curvas sinuosas.
O Vale do Jordão não são planícies aproveitáveis por causa que está
abaixo do nível do mar e, portanto, existe duas grandes depressões ou fossos.
• A GALILÉIA

É uma região importante e que nós precisamos considerar no nosso estudo


da geografia bíblica, pois como já nos referimos, ela possui um dos grandes
celeiros de trigo, devido a grande quantidade de trigo que lá se produzia.
Galiléia significa região dos Gentios. Lá estão os outros, as gentes, os
pagãos, os estrangeiros, pois está situada entre a Fenícia e a Samaria. Daí o seu
nome, Galiléia. É o lugar daqueles que tem, na dureza do trabalho diário, a única
forma de sobrevivência. Na Galiléia estão agricultores e pescadores. É deste
meio que Jesus vai começar a formar o grupo dos doze, que se tornarão seus
discípulos e seguidores (cf. Mc. 1,16-20). É para lá que Jesus se dirige e inicia o
seu ministério, a fim de concluí-lo em Jerusalém, lugar do Templo e centro do
Judaísmo; lugar da condenação e da morte, mas também, lugar de onde vai
brotar a vida nova com a luz esplendorosa da ressurreição.
Com sua ressurreição Jesus constrói novo Templo e faz nascer nova
religião, acolhedora de todos os que estão cansados e fatigados pelo peso do
trabalho e da condição social a que são submetidos.
Toda religião, todo seguidor de Jesus que quiser ser fiel a sua Pessoa e
ao seu Projeto tem que voltar para a Galiléia, onde Ele nos precede, lá
certamente o veremos (cf. Mc. 16,7).
A Galiléia é, segundo o evangelho de Marcos, um lugar geográfico e um
lugar teológico. Ao mesmo tempo que é o lugar determinado dos pobres e
excluídos, é o lugar do encontro com Jesus, reconhecendo-o em cada pessoa que
sofre o drama da pobreza e da exclusão social, pelo fato de alguns se acharem os
melhores, senhores da sociedade e do mundo.
Na Galiléia a cidade comercial e centro administrativo era Cafarnaum.
O Mar da Galiléia está há 212 metros abaixo do nível do mar e tem 40
metros de profundidade. Era lugar de atividade pesqueira e também lugar de
atividade econônica. Na beira deste mar estavam os pescadores, que não só
faziam a pesca como também o comércio do peixe. Estavam em contato com
todo tipo de peixe, por isso eram impuros e, portanto, pecadores. No rol das leis
figurava que os peixes de pele eram contados como impuros, e quem neles
tocasse se contaminava, contraindo a impureza.
O peixe era o alimento dos pobres. O peixe seco ao sol e salgado.

• MAR MORTO

Em nosso estudo da geografia da Bíblia não podemos esquecer também o


Mar Morto.
É onde o rio Jordão desemboca, cuja superfície está a -403 metros abaixo
do nível do mar ( na medição de 1984), sendo este o lugar mais profundo de
toda a superfície do planeta. Suas águas são de cor azul escuro. Tem um
comprimento máximo de norte a sul de 85 km e uma largura de 15 km. O fundo
alcança até 400 metros na parte norte, enquanto que no sul apenas ultrapassa os
3 ou 4 metros. Ao contrário do mar da Galiléia, que é de água doce e abundante
em peixes, o mar Morto é de água muito salobra, suja salinidade aumenta por
causa da intensa evaporação devido à alta temperatura do ambiente. Recebe em
hebráico o nome de mar do Sal (Yam Hammelah). Chama-se mar Morto porque
nele não há peixes, nem existe vestígio de vegetação em suas margens.
Nas suas proximidades outrora se ergueram as cidades de Sodoma e
Gomorra, depois destruídas por alguma catástrofe geológica, que provocou
emanações sulfurosas e de outros gases, relacionada com as falhas e
afundamentos da grande fossa.
Por toda a margem ocidental do mar Morto se estende o deserto de Judá,
que continua também no trecho final do vale do Jordão. Neste lugar vivia João
Batista e, segundo os evangelhos, é onde Jesus foi tentado.
Nestas proximidades se situa também QUMRÃ( lugar onde se situaram
os essênios, grupo religioso que buscava a perfeição fora dos ambientes sociais,
segundo Flávio Josefo, erscritor da antiguidade. Ele faz referência aos essênios
em seus escritos). Em Qumrã foram encontrados vestígios através de jarros com
textos bíblicos.
Outro lugar importante nas proximidades do mar Morto é a Fortaleza de
MASSADA. Em 73d.C. se tornou o último foco de resistência dos judeus aos
romanos e foi totalmente destruída. Lá os judeus conseguiram sobreviver em
torno de 1000 pessoas durante três anos. Para não se entregarem à dominação
romana praticaram suícidio coletivo, isto é, se entre-mataram.
Tudo o que estudamos até agora se refere à zona da Cisjordânia, pois é a
área de maior concentração já que a Transjordânia é a zona desértica das terras
de Canaã.

Vamos agora nos situar muito brevemente na zona da


TRANSJORDÂNIA, que são as terras do outro lado do rio Jordão chegando até
à grande faixa desértica, onde nós nos confrontamos com o grande Deserto
Arábico.
Encontramos aqui quatro rios que vão permitir delimitar cada uma das
regiões.
• Ao Norte: nós encontramos os rios JARMUC e JABOC.
• Ao Sul : nós encontramos os rios ARNON e ZARED.

Nas proximidades do rio Jarmuc estão as terras de Basã, que são terras
férteis, propícias à criação de gado. É contra aqueles que se aproveitavam do
suor dos agricultores e pastores destas terras que o Profeta Amós vai dirigir a
sua ação profética. Vamos ler no livro do Profeta Amós o cap. 4,1-3.
O Profeta Amós anuncia o fim da opressão dos senhores das terras e da
produção que alimentam os caprichos de suas mulheres com o suor dos fracos e
indigentes. As mulheres da Samaria são aqui chamadas de “vacas de Basã”,
símbolo do espírito gozador que se diverte com o trabalho suado dos pobres.
Basã, na Transjordânia era célebre por suas pastagens e seus rebanhos.
No Sl. 22,13 os touros de Basã são o símbolo da força violenta, que cerca
e rodeia oprimindo.
Entre os rios Jarmuc e Jaboc situam-se as Tribos de Galaad ou Galaaditas
( Jz. 12).
Entre os rios Jaboc e Arnon está a região de Amon ou dos amonitas. Foi
na beira do rio Jaboc que se deu a luta de Jacó com o Anjo (cf. Gn. 32, 23-33).
Entre os rios Arnon e Zared estão as Planícies de Moab, na região do
moabitas. Aqui nesta região se encontra o Monte Nebo, que fica de frente para
Canaã ( Dt. 34, 1-6; Rt. 1, 1-7).
Logo abaixo do rio Zared se encontra a região de Edom ou dos edomitas.
São os descendentes de Esaú, irmão de Jacó. Esaú foi apelidado de Edom, isto é,
vermelho ou ruivo, por causa de uma comida feita por seu irmão Jacó. Vamos
ler o texto do livro do Gênesis cap. 25,29-30.
Vamos ler também o cap. 36,1-9 do mesmo livro.
1.3) Como a geografia influencia a cultura de um povo.
Depois de nos termos situado tão bem no chão geográfico das terras de
Canaã onde se deu a grande parte da história bíblica. Nós podemos agora nos
perguntar: Como a geografia pode influenciar a cultura ?
Podemos começar, respondendo a esta pergunta, tomando como
referência uma expressão bíblica: “A terra onde corre leite e mel”.

Vamos ler no livro do Êxodo o cap. 3, 7-10.


Deus anuncia para Moisés a libertação do seu povo e promete fazê-los
subir do Egito para “a terra onde mana leite e mel”, lugar onde moram os
cananeus, os heteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Portanto,
promete levá-los para as terras de Canaã. Canaã, devido à sua fertilidade se
torna assim a terra da fartura e da abundância. Lugar onde se pode plantar e criar
sem precisar submeter a vida ao jugo dos outros. A terra da liberdade é a terra
da abundância e da fartura.

Vamos ler também no livro do Deuteronômio o cap. 26, 5-10.


O reconhecimento da ação libertadora de Deus precisava estar
constantemente presente na consciência do povo. Por isso, era necessário o gesto
ritual do oferecimento das primícias dos frutos que a terra produzia. Ao mesmo
tempo que se fazia esta oferta o israelita tinha a obrigação de proclamar a sua fé
no Deus que o havia feito sair do Egito com mão forte e braço estendido,
conduzindo-o “a esta terra onde mana leite e mel”. O gesto concreto da oferta
das primícias da terra era acompanhado da profissão de fé. Assim o povo
mantinha-se sempre fiel a Javé, o Deus que havia operado a libertação e
concedido a posse de uma terra abundante e próspera.
Ao gesto concreto da oferta das primeiros frutos da terra e a proclamação
de fé no Deus da libertação, Javé respondia com a fertilidade da terra e com a
riqueza de seus frutos(cf. Dt. 28, 11 e 12).
Esta frase bíblica define, portanto, toda a geografia palestinense. Indica
um território fértil, de abundância de pastos, onde rebanhos podem pastar com
fartura.
Leite e Mel são símbolos de Bem-Estar e de Prosperidade para povos
pastoris.
O Leite indica a criação de pequeno gado e o Mel um variado tapete de
flores que atrai as abelhas ou também um melado de frutas feito com uvas e
figos. Leite e mel são sinônimos de vida em abundância e com fartura. A terra
onde mana leite e mel é a terra onde o povo de Deus encontrou a segurança para
suas vidas. E tudo isso graças a ação de Deus que o escolheu para o seu povo.
Esta é a consciência religiosa do povo da Bíblia que nasceu do seu lugar
geográfico.
Pois bem, vamos continuar o nosso caminho na busca de resposta àquela
pergunta.
O clima permite dividir as terras de Canaã em três regiões:
1ª REGIÃO) Nós a situamos da Costa, isto é, do Mediterrâneo, às
Montanhas centrais. Nesta região encontramos a chamada agricultura
mediterrânea, onde é possível o cultivo de trigo (cereal), vinho, olivais, legumes
e frutas em grande quantidade, devido à proximidade com o mar.
2ª REGIÃO) Fica nas Montanhas de Judá e Neguev. Esta é uma região
semi-desértica, onde é possível apenas algumas culturas passageiras de vinhas e
olivais e a criação de gado pequeno como carneiros, ovelhas e cabras.
3ª REGIÃO) É uma Região Desértica e onde aparecem alguns Oásis,
sobretudo no percurso de Jericó a Bersabéia.
Nesta terra de Canaã há uma variedade de clima conforme as regiões e
isso vai influenciar nos MODOS DE VIDA e de ATIVIDADE. Neste sentido
vejamos a importância do orvalho e para isso vamos ler o livro do Eclesiástico
43, 22.
Aqui neste versículo do livro do Eclesiástico o orvalho faz alegria do
povo. Ele é responsável para trazer, após o calor que acabrunha e entristece -
que faz as plantas murcharem e os animais definharem -, a alegria do plantio e
das pastagens seguras.

Vamos ler também no livro do Êxodo o cap. 16, 13-16.


Para o povo de Deus que caminha no deserto com fome e com sede, a
camada de orvalho que desce do céu e toma conta do acampamento é o sinal de
um amanhecer farto para o povo de Deus: “ e pela manhã havia uma camada
de orvalho ao redor do acampamento. Quando se evaporou a camada de
orvalho que caíra, apareceu na superfície do deserto uma coisa miúda,
granulosa, fina como a geada sobre a terra... Disse-lhes Moisés: ‘Isto é o pão
que Javé vos deu para vosso alimento’”. É através da riqueza do solo e
daquilo que a natureza opera nele que Deus sacia a fome do seu povo. O orvalho
traz consigo dias de fartura e de bonança, possibilitando para povos que vivem
em regiões desérticas extrair o alimento, deste modo asseguram sua
sobrevivência. E esta presença do orvalho, que garante a fertilidade da terra e a
sobrevivência de famílias inteiras, é atribuída unicamente a intervenção de Javé.
O orvalho que cai na terra é presente da bondade de Javé para assegurar a vida
do seu povo.
Vamos ler no livro do Profeta Jeremias o cap. 5, 24.
À partir deste versículo do livro do Profeta Jeremias chegamos à
compreensão de que nestas terras as chuvas eram escassas, poucas mesmo, e
ainda irregulares quanto a quantidade. Havia apenas dois meses de chuvas por
ano que garantiam as colheitas: as chuvas de Outono e as chuvas da
Primavera. Estes eram os dois períodos de ocorrência de grandes chuvas.
Diante da escassez das chuvas, duas por ano, e da presença de grandes
desertos que tornam a terra árida, podemos imaginar o valor e a importância da
água para as pessoas que habitavam nestas terras.

Vamos ler o cap. 2, 5 do livro do Gênesis :


A água, sobretudo a da chuva é a principal responsável pela fertilidade do
solo e sem ela não é possível crescer arbustos e ervas nos campos para garantir a
sobrevivência do ser humano.
Uma vez que sem a água era impossível o cultivo do solo houve a
necessidade de se armazenar a água em reservatórios, isto é, em Poços ( BE’ER
em hebráico), que podiam ser de duas maneiras:
1ª) de água de chuva armazenada, como uma espécie de tanque cavado na
rocha ou mesmo debaixo das casas;
2ª) e Poços de água viva, cavados até certa profundidade com o fim de
atingir uma napa d’água.
Os grandes encontros dos Patriarcas e Matriarcas se fazem perto dos
poços, onde também os rebanhos são levados para beber água.

Vamos ler no livro do Gênesis o cap. 24, 15-20:


O servo de Abraão, enviado para escolher dentre as filhas de seu povo
uma esposa para o seu filho Isaac, encontra Rebeca junto de um poço no
momento em que ela está retirando água.
Vamos ler também ainda no livro do Gênesis o cap. 29, 9-10:
É também ao redor de um poço que se dá o encontro de Jacó com Raquel,
quando esta conduz o rebanho de seu pai para beber água no poço.
O encontro de Moisés com as filhas do sacerdote de Madiã, dentre as
quais sairá sua esposa, Séfora, se dá em torno de um Poço, quando fugindo das
mãos do Faraó do Egito e cansado da travessia do deserto, assenta-se junto de
um poço. Nós podemos confirmar este dado no livro do Êxodo 2, 15-16.
No Novo Testamento nós temos também um encontro nas cercanias de
um poço, Jesus e a Samaritana, no Evangelho de João cap. 4. Mas vamos ler
apenas os versículos 7-15.
Este se torna um encontro revelador, pois através dele Jesus se apresenta
para a Samaritana como o verdadeiro poço, do qual se tira água viva.
“Se conhecesses o Dom de Deus e quem é que te diz : ‘Dá-me de
beber’, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva!”. (Jo. 4, 10).
Jesus mostra à samaritana que o poço do qual ele fala não se compara com
aquele que todos os dias ela vem para tirar água, fazendo permanecer a sua sede.
Aquele que beber do poço que é Jesus, nunca mais saberá o que é a sede, pois
aquele que entra na profundidade do seu mistério e o reconhece como Senhor e
Salvador, o faz uma vez para sempre. Saciando-se no poço, que é Jesus, bebe-se
de uma fonte de água que jorra para a vida eterna.
Jesus lhe respondeu: “Aquele que bebe desta água terá sede
novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais terá
sede. Pois a água que eu lhe darei tornar-se-á nele uma fonte de água
jorrando para a vida eterna.” (Jo. 4, 13-14).
Jesus é o Deus do Antigo Testamento que os Profetas anunciavam, que
veio habitar no meio de nós. E segundo a Profecia de Jeremias cap. 2, 13: Deus
é a fonte de água viva, abandoná-lo significa “cavar para si cisternas furadas
que não podem conter água”, isto é, abandonar a Javé implica em morrer,
uma vez que sem água a terra se torna árida e a vida se vai. Cisternas furadas
não conseguem manter a água no seu interior.
A água, um dos principais elementos para a permanência da vida sobre a
terra, se tornou, desse modo, a imagem da presença de Deus na vida do povo.
E o salmista canta a necessidade que a alma humana tem de Deus como
terra seca, esgotada, sem água. Vamos ler o Salmo 63, 2-3:
O salmista compara a alma humana que vive sem Deus, como a terra que
sem água resseca e perde a seu vigor. Assim é a alma humana que vive à
procura de Deus, desejando saciar-se na profundidade do seu amor e no
esplendor do seu mistério.
Temos ainda muitos outros exemplos para indicar a influência da
geografia na cultura do povo da Bíblia:
Em Isaías 5, 1-7, nós encontramos o cântico da vinha. Vamos ler!
Para falar da infidelidade do povo ao seu Deus, sobretudo no que se refere
à prática da justiça e do direito, básicos da aliança com Javé, o profeta Isaías usa
a imagem da vinha em uma encosta fértil e do seu dono.
Quanto a esta encosta fértil nós já nos referimos quando tratamos do
crescente fértil e da Planície de Jesrael em Canaã, onde existia a vinha de Nabot,
objeto da cobiça de Acab.
A vinha é o povo de Israel e o dono é Javé. Ele esperava que o povo
produzisse a justiça e o direito, que aqui no texto é simbolizado pelas uvas boas,
mas, no entanto, o que produziram foram gritos de desespero e a transgressão da
aliança, que no texto é simbolizado pelas uvas azedas.

“Com isto, esperva que ela produzisse uvas boas, mas só produziu uvas
azedas.”
Por causa das grandes transgressões do povo, o profeta anuncia o fim da
permanência deste povo, com uma consequente destruição da vinha, isto é, da
cidade.
Esta mesma imagem da vinha para indicar o povo de Deus e as suas
injustiças e transgressões é retomada por Jesus no Novo Testamento.
E para se referir àqueles que se aproveitavam do povo e resistiam à sua
missão de enviado do Pai, Jesus contou a párabola do vinhateiros homicidas
(Mt.21,33-46), que se aproveitaram da vinha do seu senhor, sem lhe dar os
frutos no tempo certo e eliminando com a vida daqueles que eram enviados pelo
dono da vinha para recolher os frutos. E contra estes o senhor lhes tomará a
vinha e confiará a outros que entregarão os frutos no tempo certo.
Ainda outra imagem para significar a incapacidade dos líderes do povo na
observância da aliança com o Pai, Jesus é aquele que faz a figueira estéril ficar
seca (Mt. 21, 18-22). Diante de Jesus, todo aquele que não produz fruto tende a
secar e a morrer.
É neste sentido que ele se revela, dentro do mistério do reino, como a
verdadeira videira, da qual o Pai é o agricultor e nós somos os ramos. Confirme
isso em Jo. 15,1-6.
Permanecer unido à videira, que é Jesus, nos faz ramos que produzem
muito fruto. Tadavia, o ramo que não permanece unido à videira é cortado,
recolhido, lançado ao fogo e se queima. Sem a videira, o ramo nada faz e para
nada serve. Por isso, é que Jesus exclama: “...sem mim, nada podeis fazer.”
Outra imagem usada por Jesus e que lhe vem do seu ambiente geográfico
é a imagem do Pastor e do Rebanho, que nós encontramos no evangelho de João
cap. 10.
Vamos ler no livro do Profeta Jeremias o cap. 31, 10.
Vamos ler também no livro do Profeta Ezequiel o cap. 34, 7-16.
Desde o Antigo Testamento Deus é apresentado como o Pastor que cuida
de suas ovelhas e não se conforma com o descaso dos mercenários e dos maus
pastores, protegendo as ovelhas das ameaças dos vales tenebrosos e do ataque
do lobo, garantindo-lhe pastagens seguras, como nos lembra o salmista: “Javé é
meu pastor, nada me falta. Em verdes pastagens me faz repousar... Ainda
que eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois estás
junto a mim; teu bastão e teu cajado me deixam tranquilo.”(Sl. 23, 1-2.4).
Jesus é o Bom Pastor. Ele dá a vida por suas ovelhas, pois veio manifestar
o carinho de Deus para com o seu povo, como o carinho do Pastor que cuida de
suas ovelhas. Ele não se compara com os maus pastores, mas, antes, procura a
que se desgarrou, cura a que está ferida e reabilita a que está cansada, pela
sensibilidade que brota do seu coração cheio de compaixão.
“Ao ver a multidão, Jesus teve compaixão porque estava cansada e
abatida como ovelhas sem pastor.” (Mt. 9,36).
Todas as parábolas do cap. 13 do evangelho de Mateus, tem a sua fonte no
ambiente geográfico no qual Jesus está situado: o semeador e as sementes, o
trigo e o joio, o fermento, o grão de mostarda, a pérola e a rede. Isso
determina, pois, a sua compreensão cultural, e o reino de Deus é anunciado à
partir deste horizonte.
Os exemplos de Jesus são todos tirados da vida daquela época, sobretudo
da região da Galiléia e dos costumes próprios daquele povo. É neste sentido que
nós entedemos as parábolas que Jesus usa para falar do reino de Deus e as suas
palavras sobre este reino comparado com as virgens que saem ao encontro do
esposo (Mt. 25,1-13).

II PARTE: AS PESSOAS E A CULTURA BÍBLICA


Vamos iniciar uma nova etapa no nosso estudo da Bíblia.
Depois de nos termos situado no horizonte geográfico das terras onde se
desenvolveu a história que a Bíblia nos conta, vamos fazer um esforço conjunto
para compreendermos também as PESSOAS e a CULTURA BÍBLICA.
Naquelas terras, umas pessoas, à partir da sua cultura, fazem a mais rica história
humana, marcada pela presença de Deus. Desse modo sua história se
transformou em verdadeira história da salvação.

2.1) Cosmovisão Bíblica.


Cada povo ou grupo humano expressa-se na sua realidade cultural à partir
de uma cosmovisão.
Para a nossa compreensão Cosmovisão vem de uma palavra grega,
“ ς ” (Cosmos), que significa UNIVERSO. Portanto, cosmovisão,
siginifica a visão ou compreensão que se tem do universo, do mundo ou das
coisas. Por isso, ao tratarmos da cosmovisão bíblica vamos nos situar na visão
ou compreensão que o povo da Bíblia tem do universo e do mundo.
Para o povo da Bíblia o mundo era uma planície, sustentada por colunas,
porque em suas laterais o resto todo é mar ( na esquerda, em latim sinistra e na
direita, em latim dextra). Vamos imaginar uma casa sobre as águas. Pois bem,
assim era o mundo para o povo da Bíblia.
Sobre esta grande planície que é a terra, isto é, o mundo, está o
firmamento, que firmam, ou melhor, que sustentam as águas de cima. Neste
grande firmamento existem comportas que ora se abrem para fazer as águas de
cima cairem sobre a terra, acontecendo o fenômeno das chuvas, “dando
semente ao semeador e pão ao que come” (Is. 55, 10).
Enfeitando o firmamento estão os astros luminosos: planetas, sol “para
presidir ao dia”, lua e estrelas “para presidirem a noite” ( Gn. 1, 16). Colocados
no firmamento para iluminarem a terra (Gn. 1, 17). Estas são as realidades de
cima.
Na grande planície, que é a terra, estão montanhas, rios, árvores, animais e
o ser humano para governar tudo isso. Deus arrumou toda a casa e colocou no
centro desta casa o ser humano para administrá-la.
Dentre as realidades desta planície as montanhas assumem uma
importância fundamental, pois permitiam ao ser humano chegar mais perto das
forças de cima, isto é do céu e da divindade, por causa de suas altitudes. Subir à
montanha, significa elevar-se até Deus.
Em regiões onde não era comum a presença geográfica das montanhas,
surgia a necessidade da construção de grandes torres, como é o caso dos povos
da mesopotâmia que construiram os zigurates - dos quais nós já falamos -, que
permitia o contato com as forças do alto e com os seus deuses. Subir nas torres
significava subir até aos deuses.
Tudo o que é bom, o que é de Deus está em cima. Chegar ao sétimo céu é
chegar a Deus. E para chegar até Deus é preciso subir. No livro do Êxodo cap.
3, 1.12, Moisés sobe à montanha para encontrar-se com Deus e ouvir a sua voz.
No N.T., mais precisamente no evangelho de Lucas cap. 6, 12, Jesus vai à
montanha para rezar, isto é, falar e escutar a Deus, seu Pai.
Em baixo desta planície estão os lugares inferiores (daí a origem da
palavra INFERNO). Inferno significa lugar inferior, que está em baixo. Disso
resulta aquela idéia que está na nossa cabeça de que o inferno se encontra em
baixo da terra. Mas, na realidade, bíblica e teologicamente falando inferno quer
indicar um lugar inferior da alma humana.
Para indicar este lugar inferior da alma humana a Bíblia fala do Hades,
que é uma palavra grega e que significa “lugar dos mortos”. Vamos ler
Apocalipse 1, 17-18.
Jesus Cristo é o Vivente, aquele que tem as chaves do Hades, isto é, Ele
tem o poder para fazer entrar e sair do lugar dos mortos, uma vez que nele
também desceu para anunciar aos mortos a libertação.
O Hades, lugar dos mortos, em língua e cultura hebráica significa Xeol.
Vamos ler no livro dos Números o cap. 16, 33.
Vamos ler também no livro do profeta Isaías o cap. 38, 18.
O Xeol é uma palavra de origem desconhecida, que designa as
profundezas da terra, onde os mortos descem, lugar de vida vegetativa e onde
bons e maus se confundem e tem uma sobrevivência apagada, onde a alma
humana vive em estado de sonolência esperando passar pelo tribunal de Deus
até juntar-se ao seu corpo na ressurreição. E como diz o Evangelho de São João
no cap. 5, 29: “os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os
que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento”.
A alma humana desce ao Xeol para depois subir até aos céus.
Vamos ler agora no evangelho de Mateus o cap. 5, 29-30.
Jesus vai comparar o Xeol com o Geena, que era o nome de um vale em
Jerusalém, profanado no passado pelos sacrifícios de crianças, designando mais
tarde o lugar maldito reservado para o castigo dos maus, o “inferno”.
O Geena é assim um lugar geográfico que expressa uma realidade de
castigo para o ser humano.
Em Jerusalém se tornou o lugar onde era jogado e queimado todo o lixo
da cidade. No Geena havia um fogo permanente que consumia o lixo. Daí
também a nossa idéia do inferno como um lugar de fogo que não se extingue e
onde a alma humana vai sofrer muito. E para designar a enormidade deste
sofrimento Jesus usa a expressão de lugar “onde haverá choro e ranger de
dentes” (Mt. 13, 42).
Todos aqueles que não colaboram com o projeto do reino anunciado por
Jesus serão lançados no fogo, na fornalha ardente, assim como o lixo que é
queimado no vale do Geena.
Toda a experiência bíblica pode se resumir na seguinte dinâmica: o Céu é
o lugar da divindade e a Terra o lugar da humanidade. É preciso subir, elevar-se
até o céu para captar a benevolência divina para a vida do ser humano na terra.
Para confirmar isto vamos ler na carta de Tiago o cap. 1, 17.
A grande revelação da Bíblia é que Deus não está somente nas alturas,
mas caminha com seu povo, um Deus que desce e se encontra com cada um; um
Deus presente, que “está no meio de nós”. Como nós respondemos em nossas
celebrações, reconhecendo a presença de Deus naquele momento do nosso
encontro.
Desde o A.T. Deus sempre se mostrou presente na caminhada do seu
povo e preocupado com as suas dores e angústias. Confirme isso no livro do
Êxodo cap. 3, 7-8.
A vida humana é preciosa aos olhos de Deus, Ele não quer vê-la arruinada
nem sujeita ao peso da escravidão, por isso, manifesta a Moisés a sua intenção
de descer e libertar a vida do seu povo que sofre no Egito, sob o peso da tirania
do Faraó. Mas a intenção de Deus não é só livrar do jugo da escravidão, mas
conduzir para um lugar onde a vida terá o seu brilho e o seu valor e será
realmente preservada de todo mal.
Deus não está somente lá nas alturas do firmamento dos céus, mas
caminha com seu povo, dirigi-lhe sua palavra, convoca os seres humanos para
colaborarem com Ele, estabelece aliança, liberta-o, concede-lhe a abundância
dos frutos e o prolongamento dos seus dias sobre a terra. Deus é um com seu
povo.
Ele é o Deus que assume as atitudes do Pastor que cuida das ovelhas e as
procura quando estão perdidas (Ez. 34, 11).
Que trata de cada um como um Pai aos seus filhos e concede as coisas
boas a todos os que lhe pedem ( Mt 7, 11); que vem ao nosso encontro a fim de
que não fiquemos órfãos ( Jo. 14, 18-21).

2.2) A Antropologia Bíblica.

Continuando o nosso estudo, vamos falar da ANTROPOLOGIA


BÍBLICA. O que significa isto?
A origem da palavra ANTROPOLOGIA vem da língua grega. Vamos
considerar aqui dois vocábulos gregos que dão origem à palavra “antropologia”.
O primeiro é o vocábulo “Α ν δ ρ ο ς ”(Andrós), que significa o homem,
macho. É deste vocábulo grego que nasce o nome André. E a todos os que tem o
nome André saibam que este quer dizer o homem,o macho. Deste primeiro
resulta o segundo vocábulo “Α ν θ ρ ω π ο ς ” (Antropós), que traduzindo
significa tudo o que se refere ao homem, masculino e feminino, isto é, tudo o
que se refere ao ser humano.
Se antropós se refere a tudo sobre o homem, o que viria a ser então
“Logia”. Logia também é uma palavra de origem grega e vem do vocábulo
“λ ο γ ο ς ” (Logos), que significa palavra, estudo, comunicação. Assim,
Antropologia significa a palavra, o estudo sobre tudo o que se refere ao ser
humano.
Quando falamos, então, em Antropologia Bíblica queremos estudar a
compreensão que o povo da Bíblia tinha do ser humano.
A Bíblia conhece dois tipos de antropologia, isto é, duas compreensões
sobre o homem. A visão antropológica hebráica ou judáica e a visão
antropológica grega. São dois sistemas diferentes de compreensão do ser
humano, que influenciam na redação dos textos bíblicos.
• ANTROPOLOGIA HEBRÁICA:

Vamos considerar inicialmente a ANTROPOLOGIA HEBRÁICA.


Na visão antropológica hebráica o sistema é uno, mono, isto é, um. É o
chamado Monismo. A pessoa humana é uma unidade, é uma só, composta de
três elementos inseparáveis:
1- Basar : Carne, realidade material.
2- Nefesh : Princípio vital.
3- Ruah : Sopro divino.
Se faltar um desses elementos não existe vida humana. A totalidade da
unidade pessoal corresponde a atividade simultânea desses três elementos.
Vamos ler no livro do Gênesis o cap. 2, 7.
Deus formou o homem com a “argila do solo”, esta expressão “argila do
solo” corresponde à realidade material existente na totalidade da pessoa, isto é,
ao basar; depois “insuflou em suas narinas um hálito de vida”, ao insuflar nas
narinas do homem Deus lhe concedeu um sopro divino, isto é, uma Ruah, o seu
vento, o seu espírito, que capacita o ser humano para o destino último com Ele;
o ser humano torna-se tendente à comunhão final com Deus; e continua o relato
bíblico dizendo: “...então o homem se tornou um ‘ser vivente’”, possuidor de
uma alma, isto é, de uma Nefesh, que dá todo movimento e ânimo ao basar, é o
princípio vital.
Para o judeu não existe diferença entre estes três elementos constitutivos
da realidade pessoal e, por isso, o que existe é uma única atividade humana
envolvendo todos os elementos da PESSOA HUMANA.
• ANTROPOLOGIA GREGA:

Já na antropologia grega o ser humano é um sistema duplo, isto é,


formado por dois elementos bem diferentes. É o chamado dualismo. A PESSOA
é feita de:
1- Matéria: Realidade do Corpo (Σ ο µ α = Sôma), a carne.
2- Espírito: Alma (Π σ ι θ υ ε = Psiqué), o conhecimento.

As atividades da matéria são contrárias às atividades do espírito. As


atividades do espírito estão situadas na cabeça e correspondem à
INTELIGÊNCIA, À MEMÓRIA E À VONTADE. São as atividades
intelectuais ou espirituais. Para os gregos o sábio era um homem espiritual. O
corpo, a matéria, para a cultura grega era a prisão da alma. Somente a alma
humana é a realidade da pessoa que tende à imortalidade, pois o corpo é
corrupto e desaparece para sempre com a morte. O exercício da inteligência
deveria levar até o ponto de garantir para a alma a imortalidade. A alma humana
é sempre tendente à imortalidade, dependendo de sua capacidade espiritual, ou
melhor, intelectual.
No Areópago de Atenas, segundo o relato de Atos dos Apóstolos cap. 17,
22-34, Paulo sofre uma grande decepção com os atenienses, pois quando toca na
questão da ressurreição dos mortos, que prega glorificação também do corpo,
eles voltam as costas para ele dizendo que o ouvirão mais tarde, mostrando o
descaso para com a questão, pois não concebiam tal coisa. Em Atenas Paulo
confronta-se com a mentalidade e a cultura grega.

Vamos ler Atos 17, 32-33.


Os que trabalham com a inteligência são os sábios, os Escribas que
meditam nas sentenças do Senhor e dedicam-se ao estudo, considerada pelos
gregos como uma atividade nobre, reservada para aqueles que na estrutura social
grega eram contados entre os que têm valor e existem, isto é, significam.

Vamos ler no livro do Eclesiástico o cap. 39, 1-11.


Este texto que acabamos de ler expressa a cultura e a mentalidade grega.
Para os que se dedicam às atividades intelectuais está reservada nesta vida a
glória dos lugares de honra: “Presta serviço no meio dos grandes e é visto
diante dos que governam”(v. 4) e após a ruína do corpo a imortalidade do seu
conhecimento: “Muitos louvarão a sua inteligência e jamais será esquecido.
Sua lembrança não se apagará, seu nome viverá de geração em geração. As
nações proclamrão a sua sabedoria e a assembléia proclamará os seus
louvores. Se vive muito, seu nome será mais glorioso do que mil outros, e se
morre, isto lhe basta.” (vv. 9-11).
Para os gregos a morte era a libertação da alma, por isso “Se vive muito,
seu nome será mais glorioso do que mil outros, e se morre, isto lhe basta”.
Na mentalidade e cultura bíblica é reservada uma honra e uma
proclamação de bem-aventurança para os humilhados, os servos, sobretudo no
Magnificat, cantado por Maria segundo o relato do evangelho de Lucas cap. 1,
46-55: “Minha alma engrandece o Senhor, meu espírito exulta em Deus meu
Salvador, por que olhou para a humilhação de sua serva. Doravante as
gerações me chamarão de bem-aventurada...” . Para aqueles que fazem a
vontade Deus e a põe em prática está reservada a glorificação de toda a pessoa.
A dinâmica bíblica não segue o esquema grego, mas o caminho, o esquema e o
pensamento de Deus, que se encontra acima de todo caminho, esquema e
pensamento humanos.
Para confirmar o que acabamos de afirmar vamos ler no livro do Profeta
Isaías o cap. 55, 8-9.
Os que trabalham com a inteligência, os sábios, são as pessoas que têm o
tempo livre, ou melhor, são as pessoas do ÓCIO. Vamos ler o v. 24 do cap. 38
do livro do Eclesiástico.
Esse é o doutor. Esse é o líder, o rico, o que possui, pois tudo na
sociedade está a sua disposição e nada lhe é negado. Comem, bebem, divertem-
se, gozando de todos os prazeres da vida. São sábios porque a vida lhes foi
favorável; estudam e fazem as leis.
As atividades da matéria estão situadas no resto do corpo. São as
atividades manuais. Reservada para os ignorantes, para os escravos, para aqueles
que nada significam, não contam e não existem na estrutura social.

Vamos ler no livro do Eclesiástico o cap. 38, 25-34.


Este texto também expressa a visão grega do ser humano, mas entendido
na sua realidade de matéria. Os que se dedicam às atividades do corpo nunca
poderão tornar-se sábios porque os seus corações estão ocupados com os seus
afazeres e isso não lhes permite horas de lazer. Eles são importantes, mas para a
construção das cidades, para o trabalho manual. No entanto não contam entre os
grandes e aqueles que dirigem e governam, são os bestiais, os escravos, os
servos, “... não são encontrados no conselho do povo e na assembléia não
sobressaem. Não se sentam na cadeira do juiz e não meditam na lei. Não
brilham nem pela cultura nem pelo julgamento, não se encontram entre os
criadores de máximas, mas asseguram uma criação eterna, e a sua oração
tem por objeto os problemas de sua profissão” (vv. 33-34).
Entre as profissões contadas como desprezíveis estão: o agricultor, o
carpinteiro, o ferreiro, o oleiro. Enfim, todos os que trabalham manualmente.
Seus pensamentos estão voltados unicamente para as suas profissões: suas
conversas e suas orações tem por objeto os problemas de suas profissões. Vêem
sua seguranças nas obras de suas mãos, isto é, trabalham para sobreviver, por
que a vida lhes foi desfavorável.
Os que trabalham com as mãos, os ignorantes, são as pessoas que têm
todo o seu tempo ocupado com os seus afazeres, ou melhor, são as pessoas do
NEGÓCIO, isto é, negam o ócio, o tempo livre.

Vamos ler no livro do Eclesiástico o cap. 38, 31.


Esse é o artesão. Esse é o súdito, o pobre, o que nada possui, pois tudo na
sociedade lhe foi negado. Tem dificuldade em comer, beber, divertir-se, não
gozam de todos os prazeres da vida. São os ignorantes, uma vez que a vida não
lhes foi favorável. Eles não estudam e por isso são os executores das leis.

Na Bíblia o Escriba é também um profissional manual. Tomemos como


exemplo Paulo que se apresenta ao mesmo tempo como um sábio, um
intelectual, formado “aos pés de Gamaliel” segundo o relato dos Atos dos
Apóstolos 22, 33 e um profissional manual, que exercia a profissão de
“frabricante de tendas”, juntamente com Áquila e Priscila conforme o relato
dos Atos dos Apóstolos 18, 1-3.
Para a Bíblia trabalhar manualmente significa continuar a obra criadora de
Deus.

Vamos ler na 1ª Carta de S. João o cap. 2, 4-6.


Aqui S. João nos revela o sentido original da teoria e da prática. É
impossível conhecer sem viver. “Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, mas não
guarda, isto é, não vive, os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não
está nele”. Quem diz que conhece a Cristo deve também andar, como ele andou,
viver como ele viveu.

Vamos ler também no evangelho de S. João o cap. 13, 17.


Neste versículo do seu evangelho S. João nos mostra uma outra bem-
aventurança. A bem-aventurança da prática. Se compreendermos (e isso exigirá
de nós a operação intelectual, a sabedoria) tudo o que Jesus nos revelou acerca
do mistério do Reino e o praticarmos (e isso exigirá de nós o esforço humano da
ação) seremos felizes.
Esta é a verdadeira sabedoria. Sabedoria de Deus, que segundo S.Paulo na
1ª Carta ao Coríntios 2, 7, nos apresenta como “misteriosa e oculta, que Deus,
antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória” . A nossa glória, a
nossa bem-aventurança e felicidade depende do conhecimento e da vivência dos
mandamentos de Cristo.
Levando em conta tudo aquilo que nós já estudamos sobre as duas
antropologias vamos tentar ler e interpretar dois textos bíblicos, retirados dos
evangelhos, a fim de encontrar neles alguns dados sobre estas duas visões
antropológicas que a bíblia, enquanto produção literária, pode nos oferecer.

Inicialmente vamos ler no evangelho de Lucas o cap. 10, 38-42.


Nós sabemos pelos estudos feitos que Lucas é um convertido do
helenismo, isto é, do mundo grego, dos pagãos. Ele foi companheiro de Paulo
em seu trabalho missionário pelas comunidades gregas, mas que transformou
toda a sua mentalidade grega pela novidade da revelação cristã, que funda suas
raízes no pensamento judáico acerca da compreensão do ser humano. O texto
do seu evangelho que acabamos de ler foi escrito para resolver dentro da
comunidade a velha questão da teoria e da prática, da ação e da contemplação,
do pensar e do fazer. Qual é a atitude necessária? O que é mais importante?
A antropologia grega, como já estudamos, pensava o ser humano como
constituído de duas realidades: Corpo e Alma. Havia as pessoas que agiam com
o corpo, e eram aquelas que trabalhavam manualmente, todo o seu esforço
consistia em realizar com sucesso suas profissões. Eram os ignorantes.
Havia também as pessoas que agiam com a alma, e estas eram as que
exercitam o espírito, são as pessoas espirituais, reservadas à sabedoria, pois suas
inteligências estão num constante exercício, eram os discípulos que encontravam
o prazer ficando aos pés de seus mestres, a fim de ganharem a sabedoria que
elevava a alma até atingir a perfeição e a imortalidade. Eram os sábios.
No nosso texto, Marta é aquela que trabalha manualmente, está ocupada
com os trabalhos domésticos. Sua mentalidade é de que o trabalho manual da
casa foi feito para as mulheres e Maria é uma intrometida que, colocando-se aos
pés de Jesus, o Mestre, quer dá uma de discípula. Por isso a pergunta insistente
de Marta: “Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a
fazer o serviço?” (Lc. 10, 40). Marta é uma mulher que está preocupada com a
ação, com o sucesso de sua ocupação, dos seus afazeres e vê nisso a sua
realização: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, no
entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só...” (Lc. 10, 41-42).
Maria é aquela que tem o seu prazer nas atividades espirituais, está
sentada aos pés do Mestre, “escutando-lhe a palavra” . Maria também entra na
lógica da mentalidade grega só que sua posição é ficar entre os inteligentes,
entre os sábios, isto é, entre os melhores, pois os intelectuais são os melhores.
Maria é uma mulher da contemplação que exercita o seu espírito escutando as
palavras de Jesus. Para Maria conhecer é melhor que fazer.
No entanto, Jesus dá uma reviravolta na questão, e esta é a intenção de
Lucas, acentuando a perspectiva da antropologia bíblica. Afirma que a atitude de
Maria é necessária tanto quanto a atitude de Marta, pois também às mulheres é
dado o direito e a possibilidade de ser discípulas. Portanto, não só aos homens,
mas também às mulheres é permitido sentar aos pés de um Mestre para ouvir-lhe
a palavra. Ficar com Jesus significa possuir as duas atitudes do saber e do fazer,
do contemplar e do agir. “Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não
lhe será tirada”(Lc. 10, 42). Jesus é uma pessoa só onde aparecem interagindo o
conhecer e o agir, pois para a mentalidade judáica não pode haver separação
entre as atividades que uma pessoa só realiza. Maria escolheu a melhor parte
porque escolheu ficar mais perto daquele que faz operar teoria e prática
simultânemente. Tudo o que Jesus pensa é também aquilo que ele faz, e tudo o
que faz procede do seu conhecimento.
Durante muito tempo este tipo de visão dualista da pessoa esteve presente
na teologia e na espiritualidade cristã católica e influenciou certas atitudes, a
ponto de determinar na Igreja as pessoas da ação e as pessoas da contemplação.
Assim, todas as profissões na sociedade eram vistas dentro deste esquema de
pensar e assim também todos os consagrados que tinham, na Igreja, o encargo
da evangelização no mundo e na sociedade. Os consagrados dividiam-se da
seguinte maneira: aqueles que estavam ocupados com as tarefas da
evangelização na sociedade e aqueles que estavam ocupados com a oração,
chamados os de vida contemplativa.
Tudo o que é bom estava em poder dos nobres e dos sábios; o que não é
bom ficava com os ignorantes. Dessa forma, os bons são os livres e os maus são
os escravos. Nesta visão os direitos não são iguais e a distribuição da renda
também é feita de maneira desigual.
As realidades do mundo são prejudiciais ao crescimento espiritual. E,
assim, o mundo e tudo o que nele se encontra era visto como contrários ao
espírito e, por isso, a necessidade de se ausentar das realidades temporais a fim
de que o espírito humano não se corrompesse.
Hoje, tudo isso passou por uma grande transformação desde o Conc.
Vaticano II com a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” que trata da missão
da Igreja no mundo de hoje. Este documento deu um salto quantitativo e
qualitativo na atuação da Igreja dentro da sociedade e a superar este tipo de
mentalidade dentro da Igreja.
Este tipo de mentalidade acabava por provocar as divisões sociais.

Vamos ler no evangelho de Mateus o cap. 11, 25-27.


Nesta passagem do evangelho de Mateus Jesus revela o que é do agrado
de Deus e se encontra dentro do seu desígnio de salvação: não a sabedoria dos
sábios e dos doutores, mas a fragilidade dos pequeninos, isto é, dos humildes,
dos pobres, dos excluídos e marginalizados. A Sabedoria de Deus se tornou
oculta para os sábios e doutores, mas se mostrou para os pequeninos. Jesus
louva esta ação do Pai porque só ele o conhece e sabe o que é do seu agrado.
Quanto a esta sabedoria divina, que os sábios deste mundo não entendem,
S. Paulo, na sua 1ª Carta ao Coríntios, nos diz que “Nenhum dos princípes
deste mundo a conheceu, pois se a tivessem conhecido, não teriam crucificado
o Senhor da Glória...”, isto é, se tivessem entendido a atuação de Jesus no meio
dos humilhados e excluídos, não o teriam condenado por causa do lugar social
onde realizou o sua missão e da opção que fez pelos pobres.
Para aprofundarmos ainda mais estes dois tipos de antropologia que a
Bíblia conhece vamos ler, ainda no evangelho de Lucas, o cap. 20, 20-26.
Aqui aparecem bem claro as duas visões antropológicas.
A título de esclarecimento, havia no sistema de arrecadação tributária do
Império Romano um tributo exclusivo do imperador, era o tributo à César, que
ia para o cofre particular do Imperador. Pagar o tributo a César significava
também reconhecê-lo como senhor.
A mentalidade daqueles que vêm interrogar Jesus acerca do tributo devido
a César pensa a pessoa nos dois níveis da antropologia grega, ou seja, do corpo e
da alma. O corpo é de César e se refere ao cumprimento dos deveres de cidadão,
ao pagar o tributo: “...É lícito a nós pagar o tributo a César ou não?” e a alma
é de Deus e se refere ao cumprimento dos deveres para com Deus: “Mestre,
sabemos que falas e ensinas de fato o caminho de Deus...” . Uns estão para as
coisas de César, da terra e do mundo e outros estão para as coisas de Deus, do
céu. Uns se ocupam com a política e outros com a religião. Fé e Política não se
combinam, estão em caminhos opostos. E, por isso, os que assumem cargos
públicos devem se ocupar com a política e os que trabalham na Igreja devem se
ocupar com a religião e a fé e não se deve misturar as coisas. Até hoje nós nos
esbarramos com este tipo de mentalidade e que prejudica bastante o
compromisso e o testemunho dos cristãos dentro da sociedade, pois gera muitos
preconceitos e atrapalha o papel da Igreja como servidora do mundo.
A resposta de Jesus: “Devolvei, pois, o que é de César a César, e o que é
de Deus a Deus” dá uma nova configuração a este tipo de mentalidade. Numa
leitura superficial do texto, de início, o que nós entendemos é que Jesus acaba
por entrar na lógica da divisão entre o político e o religioso, entre o sagrado e o
profano, entre a fé e a política. Pelo contrário, Jesus é um judeu, e compreende a
pessoa dentro da mentalidade judáica, compreende a pessoa como uma só, que
tem diante de si César e Deus, isto é, os deveres políticos e sociais para com
César e os deveres religiosos de fé para com Deus. E esta única pessoa que
tendo diante de si duas situações, de um lado César e do outro Deus, precisa
fazer uma opção. Ou opta por César que representa o poder tributarista que gera
a corrupção, a violência, a morte e o empobrecimento de muitos: “Devolvei,
pois, o que é de César a César...”. Ou opta pelo caminho de Deus que
representa o compromisso com os direitos humanos e dos pobres, quais sejam a
justiça e a vida: “...e o que é de Deus a Deus.”
Jesus compreende a pessoa humana no nível das opções. Aliás, Deus
criou a pessoa e a dotou de liberdade para que por meio dela pudesse fazer suas
opções, e isto se faz presente na trajetória da existência humana desde o início.
Hoje também precisamos nos caracterizar pelas opções que devemos fazer
se quisermos permanecer fiéis a esta pedagogia de Deus para a salvação de todo
o gênero humano. E o lugar social dos pobres é indespensável para isso, pois “o
que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e, o que é
fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no
mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o
que é...” (1Cor. 1, 27-28).
Nós já falamos que para a compreensão antropológica judáica a pessoa é
uma unidade constituída de três elementos inseparáveis: Basar, Nefesh e Ruah .
Por isso, vamos fazer uma tentativa de esforço para entender como se expressam
na pessoa humana Nefesh e Ruah.
Elas se expressam através dos órgãos ou membros do Basar, isto é,
através dos órgãos do corpo.
• NEFESH:

A Nefesh diz respeito ao princípio vital que há na pessoa humana e esse


princípio vital se expressa através do ânimo que existe nos órgão do basar, do
corpo. Existem algumas realidades animadas na pessoa humana através das
quais a Nefesh se revela, isto é, se expressa.
Vamos ler o Salmo 107, 9.
A garganta é uma parte do corpo humano que expressa o princípio vital, a
alma, a nefesh: “... ele saciou a garganta sedenta e encheu de bens a garganta
faminta”, para a Bíblia “garganta sedenta e garganta faminta” é a mesma coisa
que “alma sedenta e alma faminta”. Porque é pela garganta que passa o ar da
respiração, o sopro que revelam a vitalidade de um corpo. Quando falta a
respiração o ânimo do corpo está ameaçado. É Deus, portanto, quem sacia a sede
da nefesh ou da alma e mata a sua fome com as maravilhas que opera em seu
favor.
Vamos ler agora o Salmo 105, 18.
A garganta está localizada no pescoço, por isso o pescoço também
expressa a nefesh: “Afligiram seus pés com grilhões e puseram-lhe ferros no
pescoço”, a Bíblia usa a expressão “puseram-lhe ferros no pescoço”, para
indicar uma alma aprisionada e amarrada e que necessita da justificação de
Deus.
Outra realidade que revela as motivações da nefesh é o desejo humano.
Vamos ler no livro do profeta Oséias o cap. 4, 8.

O profeta Oséias grita contra os desejos dos sacerdotes que tiram proveito
dos pecados do povo, sobretudo no oferecimento dos sacrifícos de reparação
pelos pecados. Aqui a expressão
“ Eles se alimentam dos pecados do meu povo e anseiam por sua falta ”, revela o
mais profundo dos desejos do ser humano e da sua alma que anseia em tirar
proveito das ruínas da vida do povo. É a nefesh ambiciosa e intolerante.

Vamos ler também no livro dos Provérbios o cap. 16, 26.


As necessidades do trabalhador, sobretudo a da fome, o impele para o
trabalho a fim supri-las, “porque sua boca o estimula”, porque a sua alma deseja.
A boca permite matar os desejos do estômago. Por isso o desejo também revela
as motivações da nefesh.
Tudo isso que falamos representam o aspecto do ser vivo.
A nefesh vai significar também o “ÍNTIMO”, o “EU” da pessoa.
Vamos ler o Salmo 103, 1.
Bendize a Javé, ó minha alma, minha nefesh, meu íntimo, e tudo o que há
dentro de mim bendiga ao seu santo nome! O salmista revela o sentimento do
interior humano no desejo de louvar a Javé. Aqui o louvor não é apenas um
gesto exterior, mas uma atitude que expressar o íntimo, o interior da pessoa.

Vamos ler também no 1º livro de Samuel o cap. 18, 1.


Para significar um íntimo que se apega pelo sentimento do amor e da
amizade a outro íntimo, a Bíblia fala de alma, ou nefesh: “... a alma de Jônatas
apegou-se à alma de Davi.”, dois íntimos unidos pelo sentimento da amizade:
“E Jônatas começou a amá-lo como a si mesmo”. A amizade e o amor é um
sentimento humano que tem sua fonte no interior, na alma da pessoa humana, e
revelam operações de um ser vivente.
O Sangue é outra realidade do corpo humano que expressa a nefesh, o
princípio vital do ser humano.

Vamos ler no livro do Gênesis o cap. 9, 5-6.


Todo sangue pertence a Deus, ele expressa aquele princípio vital
infundido por Ele no homem e manifesta a vitalidade de um corpo. Enquanto
correm sangue nas veias do ser humano há vida, quando este sangue é
derramado a vida está terminada. Por isso, Deus vai pedir contas do sangue de
cada homem; vai pedir contas da alma do homem, porque o sangue derramado
do homem é eliminação da vida humana, feita à imagem de Deus.

Vamos ler no livro do Levítico o cap. 1, 5.


O sangue era considerado a sede do princípio vital, daí o seu valor
expiatório, isto é, reparação das faltas em favor da vida, e seu papel de primeiro
plano no ritual dos sacrifícios e nas alianças.
Daí também o sentido do sacrifício de Jesus na cruz, quando o seu sangue
foi derramado como reparação de nossas faltas, realizado uma vez para sempre
(Hb. 9, 26-28). Pelo seu sacrifício Jesus nos aproximou de Deus (Ef. 2, 13) ,
reconciliou-nos com Ele justificando-nos (Rm. 5, 9), estabeleceu a paz (Col. 1,
20) e uma aliança eterna ( Hb. 13, 20).
Nas duas alianças, tanto na Antiga como na Nova, o sangue é sinal da
vida em abundância que Deus quer oferecer para o seu povo.
Esse princípio vital, a nefesh, só vai poder se expressar se tiver um basar,
uma carne, um corpo. Sem basar ela não tem expressão.
• BASAR:

O basar é a expressão das atividades da Nefesh.


Basar designa o efêmero, isto é, o passageiro, o frágil e o perecível no
homem.
Vamos o ler no livro do Gênesis o cap. 6, 3.
O ser humano é carne, é basar, por isso é perecível, passageiro e terá seus
dias determinados. E para indicar a temporalidade definida do ser humano a
Bíblia determina o número dos anos de uma vida no basar, “ não viverá mais
que cento e vinte anos”. Pela carne o espírito de Deus não se responsabilizará
indefinidamente e isso provocará o desaparecimento do corpo material, carnal.
Vamos ler também no livro do profeta Isaías o cap. 40,6-7.
Nestes versículos do livro do profeta Isaías o basar, ou melhor a carne
humana é comparada à erva, ao vegetal, pois é da mesma realidade material, e
assim como a erva do campo seca e murcha perdendo toda a sua graça, assim
também acontece como a carne, o basar humano seca, murcha perdendo toda a
sua graça e formosura.
Vamos ler no livro do profeta Jeremias o cap. 17, 5.
A confiança do ser humano não deve está no próprio ser humano, pois a
carne nenhuma força tem, mas sua confiança deve estar no Senhor. O coração, a
alma, o íntimo que não se afasta de Javé terá sua segurança garantida e a sua
confiança preservada. E assim “será como uma árvore plantada junto da água,
que lança suas raízes para a corrente: ela não teme quando chega o calor, sua
folhagem permanece verde; em um ano de seca ela não se preocupa e não
pára de produzir frutos” ( Jr. 17, 8).
O basar é próprio tanto do homem como do animal. Das 273 vezes que
aparece na Bíblia, 104 vezes se refere a animais. Vamos conferir isso lendo no
livro do profeta Isaías o cap. 22, 13.
Aqui a carne que é comida se refere a carne de animais: pois em vez de
luto e recolhimento o que houve foi “... matança de bois e degola de ovelhas...”
, isto é, uma grande festa.
Vamos ler também no livro do Gênesis o cap. 2, 21.
Neste versículo do livro do Gênesis a carne que creceu no lugar das
costelas do homem foi carne humana.
O basar, a carne, é uma parte da estrutura humana juntamente com os
ossos.

Vamos ler no livro de Jó o cap. 2, 5.


Aqui a expressão: “... fere-o na carne e nos ossos...” revela toda a
estrutura corporal da pessoa. A carne é a realidade sujeita à dor e ao sofrimento,
enquanto a nefesh está no corpo como seu princípio vital ela sofre com ele.
Vamos ler também no livro do Gênesis o cap. 2, 23.
O homem exclama: “Esta sim é osso de meus ossos e carne de minha
carne!”. Reconhece na mulher a mesma estrutura e a mesma realidade corporal.
Não há diferença, homem e mulher são formados da mesma natureza e da
mesma fonte: o amor de Deus.
Para o homem da Bíblia, no basar, o coração é o lugar central da vida. No
coração, o sangue se origina e deságua. Na Bíblia a palavra coração aparece
mais de 1000 vezes. E designa a sede da inteligência, lugar da consciência, da
decisão, da memória, daí vem a palavra RE-COR-DAR. No latim “corda”,
significa coração. Originalmente recordar significa dar ao coração a liberdade de
voltar atrás, ao passado e fazer a memória dos fatos e acontecimentos. O coração
é o lugar também da afetividade, dos sentimentos mais nobres da pessoa.
O princípio vital também se revela no coração humano.
O nosso estudo, nesse momento terá como finalidade apresentar os órgãos
do corpo humano, que para a antropologia bíblica revelam as expressões da
nefesh.
a) OS OLHOS

Para a compreensão antropológica bíblica os olhos refletem as reações do


coração. Desta compreensão nasce aquele dito popular: “O que os olhos não
vêem, o coração não sente”. Aqui coração se refere a alma, ao interior da
pessoa humana, a nefesh. A nefesh sente o que o os órgãos do basar recebem e
projetam.

Vamos no evangelho de Lucas o cap. 10, 29-37.


Na parábola do bom samaritano, Jesus se revela um grande conhecedor da
realidade humana, e ensina que os olhos, no corpo humano, é para mover a
pessoa em atitudes de serviço para com a vida de todos, independentemente de
credo, raça, língua ou categoria social a que pertença. A vida humana é a
realidade mais importante neste mundo. O samaritano, um estrangeiro, soube
usar os olhos para levar o seu interior a operar as atitudes de compaixão e
serviço para com uma vida jogada na beira da estrada, vítima dos ataques de
seus semelhantes, considerados na parábola como assaltantes: “Certo
samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de
compaixão” (Lc. 10, 33).
Mas, na mesma parábola, Jesus nos ensina que também existe o olhar da
indiferença e do descaso, que mesmo vendo as necessidades humanas se torna
incapaz de mover-se em atitudes de serviço para com a vida; assim é, que,
também, na parábola, o olhar do sacerdote e do levita é um olhar insensível e
indiferente que mesmo vendo a necessidade daquele homem, passam adiante
sem prestar-lhe ajuda. Os olhos revelam assim, as intenções do coração, da alma
humana.

Vamos ler também no evangelho de Mateus o cap. 6, 22-23.


Os olhos estão no corpo, como um farol, como uma lâmpada, que ilumina
o caminho. Assim como a luz nos permite enxergar o caminho no qual estamos
pisando, a fim de não errar a meta, assim também os olhos no corpo, permitem
levar a alma a contemplar o clarão da eterna luz. Um olho são conduz para
atitudes de benevolência, mas um olho doente só conduz para a indiferença e a
insensibilidade.
Vamos ler agora na carta aos Efésios o cap. 1, 18.
São os olhos do coração que nos permitem compreender a esperança para
a qual fomos chamados. Somente as disposições do interior da pessoa humana é
que a leva a experiementar a riqueza da glória entre os santos. Os santos são,
dessa forma, aqueles que se deixam guiar pelos olhos do coração, porque do
coração é que procedem todas as atitudes boas ou más.
Vamos ler também no evangelho de João o cap. 20, 29.
Jesus fala de uma felicidade que ultrapassa os sentidos puramente
humanos. Saber ver com os olhos físicos pode levar a felicidade, desde de que
esta visão suscite na pessoa gestos de serviço para com a vida humana. Todavia,
existe uma felicidade que nasce como resultado de um olhar da fé, que opera
gestos de bondade mesmo sem a atuação dos olhos físicos e é desta felicidade
que Jesus se refere a Tomé.
b) A LÍNGUA

A língua é outro órgão do basar que revela a expressão e a comunicação


da nefesh. Ela tem a possibilidade de revelar ou esconder. Através da operação
da língua podemos tomar conhecimento ou não das coisas. Ela comunica as
intenções da nefesh.

Vamos ler no livro dos Provérbios o cap. 18, 20-21.


O produto dos lábios são as palavras proferidas por nossa língua, o
interior da pessoa humana é nutrido, construído, edificado, ou seja, sacia-se com
este fruto da boca. Pois a boca é a casa onde mora a língua. Daqui o dito
popular: “A boca, ou melhor, a língua fala daquilo que o coração está
cheio”.
Nestes versículos do livro dos Provérbios a língua também tem a
capacidade de conduzir-nos à morte ou à vida, escolhe-la implica em comer do
seu fruto, isto é, a fazer a experiência da morte ou da vida. Por isso, é muito
importante saber como usar a língua, para que não incorramos no perigo de
estarmos buscando a eliminação da vida.
Vamos ler também no livro do profeta Isaías o cap. 29, 13.
Aqui o profeta Isaías insiste para o perigo de se criar uma grande distância
entre a língua e o coração, ou o interior humano. Não só os lábios, a língua deve
abrir-se para glorificar o Senhor, mas todo o ser, toda a pessoa é chamada ao
louvor do Senhor. A língua é expressão, comunicação das motivações do
coração humano e, por isso, quando os lábios, a língua se abre ao louvor todo o
ser pessoal deve abrir-se também glorificar ao Senhor. Quando acontece a
distância entre a língua e o coração, todos os gestos se apresentam como gestos
rotineiros e puramente exteriores que não agradam a Deus.
Na carta de S. Tiago cap. 3, 2-12, nós encontramos um texto que
apresenta o quanto é difícil para o ser humano controlar a sua língua, a fim de
usá-la para a edificação. Vamos ler o texto: Tiago 3, 2-12.
O ser humano consegue colocar freio e controlar tudo: controla o cavalo
com os freios que põe em sua boca; controla os navios pelo leme; domestica
toda espécie de feras, de aves, de répteis e de animais marinhos, no entanto, em
sua própria língua não consegue por freios e domesticá-la. “Notai como um
pequeno fogo incendeia uma floresta imensa. Ora, também a língua é um
fogo... e está posta entre os nossos membros maculando o corpo inteiro e
pondo em chamas o ciclo da criação...” . É a língua que, “embora seja um
pequeno membro do corpo, se gloria de grandes feitos”. É com a língua que
nós “...bendizemos ao Senhor, nosso Pai, e com ela maldizemos os homens
feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca provém bênção e maldição”.
Tiago continua a exortação para sua comunidade insistindo para que tal
coisa não aconteça e que, portanto, existe uma incompatibilidade entre o
bendizer e o maldizer, isto é, entre o falar bem e o falar mal, pois uma fonte não
pode jorrar, “pelo mesmo olheiro, água doce e água salobra”. Assim como não
pode uma mangueira produzir jambos, assim, da língua não pode sair bênção e
maldição.
Com efeito, toda língua expressa aquilo que o seu interior, a nefesh, está
cheia. Se está cheia de boas intenções produzirá a bondade, se está cheia de más
intenções produzirá a maldade.
c) OS OUVIDOS

Outro órgão do basar que revela as expressões da nefesh são os ouvidos,


que tornam aqueles que sabem usá-los bem-aventurados. Para confirmar isso
que acabamos de afirmar vamos ler no evangelho de Mateus o cap. 13, 16-17.

“Felizes os vossos olhos, porque vêem, e os vosso ouvidos, porque


ouvem”.
Mas infelizes daqueles que mesmo tendo ouvidos se tornam incapazes de
ouvir. E a escuta da qual Jesus se refere é a capacidade de ser solidário para com
as necessidades da pessoas. O grito e o clamor dos excluídos e marginalizados
pelo sistema social que os gera e que exige de nós a atenção, não pode ficar sem
encontrar eco nos ouvidos dos discípulos de Cristo. A felicidade a qual está
destinada os olhos e os ouvidos é aquela capaz de ver e ouvir as ações e as
palavras de um Deus profundamente solidário para com as necessidades
humanas, manifestada nas ações e palavras de Jesus Cristo.
Vamos ler no livro do profeta Isaías o cap. 51, 4.
É através dos ouvidos que se atende e se acolhe a Lei de Javé que brilhará
como uma luz entre os povos.

Vamos ler também Isaías 50, 4-5.


O verdadeiro discípulo de Javé é aquele que desperta o seu ouvido para
escutar a sua vontade e permanecer fiel até o pleno cumprimento da missão para
a qual foi enviado.
Os ouvidos são o lugar da atuação do Espírito de Cristo no seu discípulo.
Para confirmar isso vamos ler no livro do Apocalipse o cap. 2, 7. (= Mc. 4, 9).
A atitude da OBEDIÊNCIA é uma questão de escuta, de ouvir.
Obediência, vem do latim, “ob-audire” que quer dizer “estar sob escuta”.
Obedecer significar estar sob escuta de algo ou de alguém. São Paulo nos fala da
obediência da fé, que significa estar sob escuta de Jesus Cristo, a fim de levar a
todos ao seu conhecimento. Estar sob escuta de Cristo para conhecê-lo melhor e
mais profundamente. Vamos confirmar isso lendo na carta aos Romanos o cap.
1, 1-7.(= Rm. 16, 26).
d) AS MÃOS
As mãos expressam o que pensa o coração e o que diz a língua, pois elas
estão no basar responsáveis pela execução, pelo fazer. Aparece na Bíblia 2000
vezes.
Elas expressam a FORÇA e o PODER. Vamos ler no livro do Êxodo o
cap. 14, 30-31.
Javé libertou o seu povo Israel das “mãos dos egípcios”. Javé libertou o
seu povo Israel do poder e da força dos egípcios. Mas libertou por suas “mãos
fortes e seu braço estendido”( Dt. 4, 33-34).
Vamos ler também no livro do Deuteronômio o cap. 8, 17-18.
O Senhor Deus é quem tem a força e o poder, sendo Ele quem nos garante
também a força e o poder para conseguirmos tudo o que precisamos para a nossa
sobrevivência. As mãos humanas sem as mãos fortes e o braço estendido de Javé
nada tem a garantir para o sucesso e progresso humano. A abundância das
riquezas é garantida pela força e o poder das mãos de Deus.
Aos mãos estão ligadas também a atitude e ao gesto da oração. Assim
como o incenso sobe até presença de Deus, eleva-se também as mãos até a
presença de Javé. Elevar as mãos em prece significa elevar a nefesh, a alma até a
presença de Javé. Significa ofertar tudo de si a Deus.
Para confirmar o que acabamos de falar vamos ler o Salmo 141, 2.
e) OS PÉS

No basar os pés expressam a conduta e a autoridade.


Vamos ler no livro do Deuteronômio o cap. 11, 18-19.
As palavras de Javé devem acompanhar a pessoa em toda a sua existência
e deve marcar não só o seu interior, o coração e a alma, mas deve ser também a
força, pois tais palavras devem ficar atadas nas mãos e sendo como uma luz,
pois deve estar como um frontal entre os olhos, apoiando a conduta humana,
uma vez que deve ser ensinada quer sentado quer andando, quer deitado quer de
pé. Estar de pé significa estar atento àquilo que o Senhor tem a nos dizer, e
instruidos caminhar segundo as suas palavras.
Vamos ler o Salmo 119, 105.
A Palavra de Deus é uma lâmpada para os meus pés, isto é, uma lâmpada
que ilumina a nossa conduta. É luz para os nossos caminhos.
Vamos ler também no livro dos Provérbios o cap. 4, 27.
Afastar os passos do mal é a mesma coisa que afastar os nossos
pensamentos e ações de tudo o que venha a prejudicar a existência humana.
Assumir uma conduta reta e conforme a vontade de Javé.
Com sua ressurreição Jesus põe-se outra vez de pé, isto é, recebe toda
autoridade de Senhor uma vez para sempre e em nome desta sua autoridade de
ressuscitado- de posto de pé- é que ele envia os apóstolos como suas
testemunhas, com a mesma autoridade que ele recebeu. Os apóstolos se tornam
testemunhas do ressuscitado, isto é, daquele que se pôs de pé.

Vamos ler no evangelho de Mateus o cap. 28, 16-20.


Continuando o nosso estudo sobre os órgãos do corpo que expressam a
alma e que encontram sentido na antropologia bíblica, hoje queremos dedicar
uma rápida atenção ao fígado, aos rins e ao coração ou entranhas.

O FÍGADO
O Fígado revela o sentimento de dor. Vamos ler no livro das Lamentações
a 2ª Lamentação, versículo 11.
“Por terra derrama-se meu fígado”, em consequência das lágrimas que
consomem os olhos e do sofrimento que vitima as pessoas, derrama-se o fígado,
sofre a nefesh. Por causa do sofrimento e da dor o fígado espalha-se pelo chão.
Esta expressão bíblica revela a sensibilidade do interior humano diante da
situação da vida de quem sofre: “... por terra derrama-se meu fígado por causa
da ruína da filha de meu povo enquanto pelas ruas da cidade desfalecem
meninos lactentes”.
A situação da morte de tantas vidas humanas até mesmo de crianças,
vítimas da crueldade do Império Babilônico e do Exílio em 587a.C, levou o
autor do livro das Lamentações a expressar o sentimento de dor e sofrimento
daqueles que presenciavam a catástrofe da cidade de Jerusalém, no texto bíblico
denominada “filha do meu povo”. Diante de tamanha crueldade derrama-se
pelo chão o fígado, isto é, sensibiliza-se pelo sentimento de dor o interior
humano.

OS RINS
Os rins relvam a realidade humana da instrução. É a expressão do interior
humano que se abre à instrução.

Vamos ler o Salmo 16, 7-9.


Aconselhado por Javé, os rins, ou melhor o mais profundo do interior da
alma humana, estão num constante processo de instrução: “... e, mesmo à noite,
meus rins me instruem” e isso permitirá a alegria do coração, a exultação das
entranhas e o repouso seguro da carne, do basar: “Por isso meu coração se
alegra, minhas entranhas exultam e minha carne repousa em segurança”.
Toda nefesh bem instruída leva o basar, o corpo, a repousar tranquilamente.
É muito comum encontrar em lápides nos túmulos dos cemitérios esta
inscrição: “Descanse em Paz”, isto revela o desejo do ser humano de que o
corpo ali depositado esteja seguro e repousando na paz de Deus.
Para os semitas, os rins são a sede dos pensamentos e dos afetos secretos.
Vamos ler o Salmo 7, 10.
Deus é aquele que “Põe fim à maldade dos ímpios e confirma o justo”,
porque é Ele quem sonda “os corações e os rins”, isto é, penetra no mais
profundo dos pensamentos e dos desejos mais secretos da pessoa humana, a fim
de fazer prosperar a sua bondade e a sua justiça, exterminando com os projetos
dos ímpios e favorecendo a intenções dos justos.
Vamos ler ainda no livro dos Provérbios o cap. 23, 16.
“... e os meus rins festejarão quando teus lábios falarem com retidão”.
A alegria dos pensamentos e dos desejos da alma humana são os lábios
proclamando palavras de retidão, ou melhor, palavras sábias e corretas. Somente
a nefesh instruída pelas palavras de Javé poderá proferir também palavras de
retidão.
Vamos ler também no livro do Profeta Jeremias o cap. 12, 2.
Para falar da exterioridade e da superficialidade dos gestos humanos no
seu relacionamento com Deus, e da distância que há entre o falar e pensar, entre
o ser e o fazer, o profeta Jeremias assim se expressa: “ Tu estás perto de sua
boca, mas longe de seus rins ”.
Com isso podemos afirmar, nem sempre aquilo que proclamamos com a
boca corresponde com a profundidade dos nossos pensamentos e dos nossos
desejos.

O CORAÇÃO OU ENTRANHAS
Nós já falamos sobre o coração e o apresentamos como a sede de muitas
operações do interior da pessoa humana. Pois bem, o coração revela o
sentimento do íntimo de todo ser.
Vamos ler no livro do Profeta Oséias o cap. 11, 8-9.
O profeta Oséias atribui a Deus realidades humanas que revelam o íntimo
do ser para falar da sua disposição benigna para com a vida do ser humano que
Ele tanto ama, apresentando-o com os mesmos sentimentos que brotam das
entranhas do coração humano: “Meu coração se contorce dentro de mim,
minhas entranhas comovem-se”.
Toda antropologia bíblica, nascida no interior da cultura judáica, expressa
a compreensão da pessoa humana dentro do plano divino da salvação. A pessoa
humana encontra-se toda envolvida pela realidade do mistério de Deus.
Assim, quem faz a experiência do mistério divino é a pessoa na sua
realidade corporal e espiritual: basar, nefesh e ruah. Pois, a pessoa humana é
uma única realidade onde funcionam inseparavelmente estes três elementos.
Dessa forma é que São João na sua Primeira Carta escreve sobre a
experiência do mistério do Verbo da Vida, da qual ele e os outros apóstolos
foram testemunhas e entraram em comunhão com o mistério de Deus.

Vamos ler na 1ª Carta de João o cap. 1, 1-4.


Neste trecho de sua 1ª Carta S. João usa os órgãos do corpo humano:
Olhos, ouvidos e mãos, para falar da experiência feita do Verbo da Vida que se
manifestou em Jesus Cristo e da qual os apóstolos tornaram-se testemunhas.
Os olhos levam ao coração para guardar a experiência feita em memória.
Os ouvidos operam para se expressar com a língua tudo do qual se fez a
experiência, abrindo-a à proclamação.
As mãos agem para realizar com a conduta, dando a autoridade para
testemunhar.
De tudo isso que falamos até agora sobre os órgãos do corpo humano,
podemos concluir que existem os órgãos que revelam o pensamento, a palavra e
a ação.
Os órgãos do corpo que expressam o pensamento são o Coração e os
Olhos, eles estão ligados a tudo o que é visível.
Os órgãos que expressam a palavra são: a língua e os ouvidos, eles estão
ligados a tudo o que é audível.
E os órgãos que expressam a ação são: as mãos e os pés, eles estão
ligados a tudo o que é tangível, isto é, paupável.
Nós percebemos assim, que o método consagrado na América Latina:
VER – JULGAR – AGIR, tão amplamente difundido e usado nos documentos
nascidos das assembléias eclesiais, é um método profundamente bíblico e não
uma invenção da Teologia da Libertação como muita gente diz. Ele é próprio da
expressão humana. É a pessoa, que utilizando dos seus atributos procura
encontrar respostas para as suas necessidades humanas.
Após termos nos detido tão longamente na nefesh e no basar, vamos agora
fazer algumas considerações sobre a Ruah.
• A RUAH

A Ruah diz respeito ao Vento, ao Sopro, ao Fôlego, ao Espírito de Deus.


Vamos ler no livro do Gênesis o cap. 1, 1-2.
Quando tudo ainda estava informe e a terra estava vazia e vaga e nada
havia ainda sido criado pela força da Palavra de Deus, apenas “um vento de
Deus pairava sobre as águas”. O pairar do vento ou do espírito de Deus sobre
uma realidade é sempre para fazê-la germinar a vida. É o espírito de Deus quem
paira sobre Maria, fazendo seu ventre virginal conceber Jesus, o Filho eterno do
Pai (cf. Lc. 1, 35).
Vamos ler também no livro do Gênesis o cap. 2,7.
“Javé-Deus insuflou nas narinas do homem um hálito (fôlego) de vida e
o homem se tornou um ser vivente”
A Ruah de Javé é o seu Espírito que dá consistência à vida humana.
A morte do ser humano acontece quando a Ruah de Deus é retirada. Para
confirmar isso vamos ler o Salmo 51, 13.
Há uma vida humana, isto é, um princípio vital no corpo, envolvida pelo
Espírito de Deus. É muito importante compreendermos isso porque esclarece
bastante o pensamento paulino sobre a Carne e o Espírito. O pensamento
paulino não entra no esquema da mentalidade grega e sim no esquema mental
judáico. Ele pensa a carne como basar e nefesh, sendo que esta por sua vez
dinamiza as funções do basar, e o espírito é o hálito de Deus que envolve toda a
realidade da carne.
Vamos ler na Carta ao Gálatas o cap. 5, 16-26 (Rm. 8, 5-13).
Paulo diz que existem pessoas que se deixam guiar unicamente pelas
tendências humanas da carne, compreendida como basar e nefesh: ódio, rixas,
ciúmes, ira, discussões, discórdias, divisões, invejas, etc... e outras espirituais
que se deixam orientar pelo Espírito de Deus para executar obras de
misericórdia em favor da vida, pois o fruto do Espírito é amor, alegria, paz,
bondade entre outras atitudes que elevam a vida humana.
A carne, basar e nefesh, que vive pelo Espírito de Deus, deve “pelo
Espírito pautar também sua conduta”. Assim, toda a realidade humana
encontra a sua consistência vivendo assistida e amparada pela atuação do
Espírito, da Ruah de Deus.
Qual é, portanto, a finalidade da atuação do Espírito de Deus em nós?
Vamos ler no livro do profeta Ezequiel o cap. 36, 27.
A finalidade da atuação do Espírito de Deus em nosso íntimo é levar-nos a
andar conforme os seus estatutos, guardar suas normas para praticá-las.
O Espírito de Deus é espírito de sabedoria e inteligência, espírito de
conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor de Deus, que faz o servo
de Deus julgar com retidão e aplicar a justiça. Vamos confirmar isso lendo no
livro do profeta Isaías o cap. 11, 2.
Vamos ler também no mesmo livro do Profeta Isaías o cap. 42, 1.
O Espírito de Deus é coloca do sobre o servo para julgar com justiça as
nações.
Vamos ler também no livro do profeta Isaías o cap. 61, 1.
O Espírito de Deus atua no servo para conduzi-lo na missão de anunciar a
Boa-nova aos pobres e oprimidos, a fim de experimentarem o dia feliz da
libertação e da graça.
É este mesmo Espírito de Deus que ressuscitará os nossos corpos mortais,
tornando-o corpo glorificado.
E como vai se dá a ressurreição?
A ressurreição acontecerá quando Deus mandar de novo o seu Espírito, a
sua Ruah, que vai encontrar-se outra vez com a Nefesh e o Basar, tornando toda
carne glorificada, como nos atesta o apóstolo Paulo na sua 1ª Carta aos Coríntios
cap. 15, 42-44: “ ... semeado corpo corruptível, o corpo ressuscita
incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na
fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo
espiritual”. Tudo isso pela ação do Espírito de Deus que dá vida e consistência a
realidade corporal do ser humano.
Vamos ler o Salmo 139.
2.3) Os Sistemas Sociais
Ainda dentro do tema Cultura e Pessoas da Bíblia, vamos tentar esclarecer
os sistemas sociais que o povo bíblico conheceu.
Toda sociedade humana se organiza à partir de modelos ou sistemas
sociais que determinam as relações humanas em sociedade, assim como as
relações econômicas e políticas. Dentro destes modelos a religião funciona com
um aparelho importantíssimo, pois ela pode se tornar um meio muito fácil de se
escoar uma ideologia.
A Bíblia conhece três tipos de sistemas que determinam as relações na
sociedade:
1) O Sistema Tributário;
2) O Sistema Tribal;
3) O Sistema Escravagista;

2.3.1) O Sistema Tributário:

O sistema tributário é o sistema social do Egito, que durou mais ou menos


de 1800-1200 a.C.; é o sistema social da Assíria, mais ou menos por volta dos
anos 824-612 a.C.; da Babilônia, aproximadamente pelos anos 612-538 a.C. e da
Pérsia, mais ou menos por volta dos anos 538-331 a.C., quando dá-se início uma
nova forma de dominação com o império grego de Alexandre Magno.
Eu gostaria de lembrar que as datas fornecidas aqui são sempre dos
momentos áureos destes impérios e são sempre datas aproximativas.
O Egito, os Países da Mesopotâmia e a Pérsia adotaram um mesmo estilo
de dominação, através deste sistema social chamado tributário, que pregava uma
certa liberdade com o direito de possuírem bens, mas com a responsabilidade
pelo pagamento do tributo.
Pagar o tributo é reconhecer o outro como senhor. Portanto, o tributo
cobrado pelos países que dominavam era uma forma de tornar os outros povos
seus servos e vassalos. Pagar o tributo é tornar o outro dependente, submisso.
Quando se trata de sistemas sociais o problema sempre está na forma
como eles se apresentam nas relações sociais. Ao longo da história bíblica, o
povo fez a experiência de sistemas sociais nem sempre maravilhosos. A
experiência do Egito e das cidades-estados cananéias por exemplo, lá pelos anos
1800 a.C. aproximadamente, foi marcante para o povo da Bíblia. O sistema de
tributação do Egito, além de gerar a dependência dos camponeses das aldeias
das cidades-estados, tornava a mão-de-obra dos trabalhadores um meio fácil de
acumular riquezas, submetendo-os aos duros trabalhos da corvéia. Dessa forma,
os povos submetidos conseguiam algumas panelas de carne que lhes garantiam a
sobrevivência.

Vamos ler no livro do Êxodo o cap. 1, 11-14.


As cidades-estados eram unidades políticas através das quais o Egito
exercia o seu domínio.
O que acabamos de ouvir, conforme a narrativa do livro do Êxodo,
confirma tudo aquilo que falamos. O trabalho forçado além de inibir as forças
dos operários não lhes deixando tempo nem mesmo para respirar, amarga-lhes a
vida de tal forma que torna-os dependentes da estrutura política e econômica do
sistema.
Na Bíblia nós encontramos um texto que nos esclarece bastante a respeito
da forma como o sistema tributário vai gerando o empobrecimento e a miséria,
bem como a dependência dos camponeses aos reis das cidades-estados. Vamos
ler no livro do Gênesis o cap. 47, 13-26.
O forte peso da tributação acabava por tornar o povo das aldeias
dependentes do sistema até o ponto de, aos poucos, ir perdendo suas posses,
terras e rebanhos, e entregando-as aos reis das cidades-estados, como
pagamento do tributo quando a produção não correspondia. Isso gerava uma
forte onda de empobrecimento e miséria levando o povo a procurar os reis das
cidades-estados que lhes abriam seus armazéns e suas riquezas oferecendo sua
ajuda com sementes e alimentos para sobreviverem nas terras, agora de
propriedade do rei. Aquilo que antes era propriedade dos camponeses, até
mesmo suas vidas, tornou-se propriedade do rei e, administrado por ele, pode
distribuí-los ou fazer com eles o que melhor lhe convier.
O rei com a posse de tudo, vai se tornar o senhor da vida dos camponeses
de maneira que ao receberem os benefícios do rei, se sentirão gratos por que,
pela ação do rei, suas vidas foram salvas. Aqui está a relação de dependência
que o sistema tributário vai gerando.
De tudo o que se produz na terra a Quinta parte é de propriedade do rei.
Isto é o tributo. Essa Quinta parte corresponde a um pouco mais da metade de
tudo o que se produzia.
“Só o terreno dos sacerdotes não ficou sendo do Faraó”, explica o texto
no versículo 26, pois os sacerdotes, através da religião, justificavam a ideologia
de dominação do Egito. Por causa disso, eram sustentados pelo Faraó, que além
de não tomar as suas propriedades, ainda lhes dava uma renda da qual viviam.
Verifique isso no versículo 22. Toda religião que justifica um sistema de
dominação recebe deste o apadrinhamento e é favorecida com presentes.
A primeira experiência que o povo da Bíblia faz deste sistema social
tributário é exterior à sua organização social, pois é a realidade social do Egito
através das cidades-estados. O sistema tributário é uma força externa à
organização social de Israel. Somente muito tempo depois com o
enfraquecimento da organização tribal- da qual falaremos mais adiante-, por
volta do ano 1050 a.C., quando se instituiu a monarquia e Israel se tornou um
Estado, é que o povo da Bíblia vai fazer a experiência deste sistema social
tributário na sua organização interna.
Esta experiência para o povo não foi nada agradável e o desejo de voltar
àquela experiência de tribalismo, que foi um modelo alternativo de sociedade
após a libertação do Egito, será sempre a causa das lutas e resistências ao longo
da história bíblica. A voz dos profetas da Bíblia clama para o retorno a Javé, o
Deus da sociedade que assumiu o tribalismo como sistema de organização.
Vamos procurar no 1º livro de Samuel o cap. 8, 1-22, e encontraremos as
características do sistema tributário na organização interna de Israel, embora não
se distancie em nada daquele do Egito, pois o sistema tributário é próprio da
estrutura que concentra o poder em suas mãos e quer ser o senhor absoluto da
vida das pessoas. Vamos ler o texto de 1º Samuel 8, 1-22.
A monarquia é o domínio de uma pessoa só, do monarca, do rei. Por isso
MONARQUIA, onde um tem a primazia.
No seu aspecto econômico o sistema tributário acumula nas mãos do
monarca a terra, a produção e os meios de produção, que se tornam, assim, sua
propriedade. Esse é um direito do rei. Os camponeses trabalham na terra sob os
investimentos do rei, mas com a obrigação do pagamento do tributo sobre o
óleo, o trigo, o vinho e os rebanhos.
“Tomará os vossos campos, as vossas vinhas, os vossos melhores
olivais, e os dará aos seus oficiais. Das vossas culturas e das vossas vinhas ele
cobrará o dízimo, que destinará aos seus eunucos e aos seus oficiais. Os
melhores dentre os vossos servos e servas, os vossos bois e os vossos jumentos,
ele os tomará para o seu serviço. Exigirá o dízimo dos vossos rebanhos, e vós
mesmos vos tornareis seus escravos”(1º Sm. 8, 14-16).
O monarca necessita do sistema tributário para manter a estrutura do seu
Império. Todos aqueles que estão a serviço do rei são mantidos pelo sistema
econômico de arrecadação tributária.
Todo esse sistema econômico é garantido pelo exército, recrutado pelo
rei, e garantindo também pela corvéia, que é a forma de trabalho forçado na
terra:
“Ele convocará os vossos filhos e os encarregará dos seus carros de
guerra e dos seus cavalos e os fará correr à frente do seu carro; e os nomeará
chefes de mil e chefes de cinquenta, e os fará lavrar a terra dele e ceifar a sua
seara, fabricar as suas armas de guerra e as peças de seus carros”(1º Sm 8, 11
e 12).
No aspecto social ainda não se conhecia uma variada estratificação social.
Se conhecia apenas duas formas de divisão social:
1) A CLASSE URBANA: formada pelo Rei, os funcionários do rei, o
Exército e os Sacerdotes, responsáveis pela religião do Império e que funcionava
como canal por onde escoava a ideologia de dominação tributária.
2) A CLASSE DAS ALDEIAS: formada pelos lavradores camponeses
e pelos pastores, explorados pelo sistema de tributação que lhes roubava mais da
metade de sua produção, levando muitos ao endividamento e a consequente
situação de empobrecimento.

No aspecto político se dá um contrato entre o rei e as aldeias. O rei presta


um serviço à população das aldeias, oferecendo as terras e os meios de
produção, bem como a proteção do exército contra possíveis ataques de povos
vizinhos e em contra partida o povo das aldeias lhe paga o tributo como
reconhecimento da bondade do rei.
O poder está concentrado nas mãos do rei que tem todo o direito sobre
aqueles que ele governa.
E para sustentar o seu poder o rei dispõe de um exército profissional, isto
é, organizado e permanente, pois o tributo é assegurado pela força das armas.
No aspecto religioso nós encontramos uma religião legitimadora da
dominação através dos ritos e dos mitos. Aqui a imaginação e a fantasia tecem o
horizonte religioso, povoando-o de figuras, símbolos e magia.
A realidade terrena é reflexo da realidade celeste, onde o rei aparece com
filho de deus. Por isso, toda organização social é um reflexo da organização
celeste, onde o rei expressa a figura de deus. Podemos chamar a isso de
mistificação.
Na dimensão religiosa do sistema tributário o elemento mais forte é o rei,
porque é ele quem impõe o jogo.
Vamos ler agora o Salmo 99.
Vamos procurar entender outro sistema, o segundo, o sistema Tribal.
2.3.2) O Sistema Tribal:
O sistema tribal foi a experiência que nasceu por ocasião da libertação do
Egito, como forma alternativa de organização da vida em sociedade. Isso
aconteceu logo após o compromisso firmado entre as tribos na Assembléia de
Siquém, narrado no livro de Josué no capítulo 24. Texto do qual nós trataremos
mais adiante, quando formos estudar a formação do povo de Israel.
Este sistema tribal foi uma experiência que durou mais ou menos 150
anos, pois começou por volta do ano 1200 e viu a sua derrocada lá pelos anos
1050 a. C., quando se institui a monarquia em Israel. Embora este sistema social
não tenha se perdido ao longo de toda a história bíblica, uma vez que, em alguns
lugares, mesmo timidamente, esta experiência tenha permanecido viva.
Este sistema se tornou um modelo novo de organização social para acabar
com a dominação das cidades-estados e, sobretudo, do Egito. Nasce, dessa
forma, uma nova configuração social que sobreviverá como resistência aos
abusos do poder tributarista dos reis, através da distribuição equitativa da terra,
da produção e dos meios de produção.
Este período tribal da história do povo da Bíblia será conhecido também
como o período dos Juízes e Juízas. Eles se tornarão para as tribos os defensores
da aliança e do compromisso que estabeleceram entre si e com Javé, o Deus que
realizou com mão forte e braço estendido a libertação do Egito.
Vamos agora tentar caracterizar este sistema social à partir dos quatro
aspectos da vida:
Para entender o sistema social do tribalismo no seu aspecto econômico,
vamos ler no livro do Êxodo o cap. 16, 4-30. Porque é um texto longo, vamos
tentar de acompanhar, numa leitura suave e tranquila, pois é um texto muito
importante neste momento do nosso estudo.
A experiência que o povo fez ao longo do deserto, foi o momento especial
do ensaio e da gestação para viver na nova sociedade. No texto que acabamos de
ouvir, a presença do maná e das codornizes, é sinal de que tudo aquilo que serve
de alimento para a vida humana, provém da ação benéfica de Javé. É Ele quem
manda do céu o alimento que dá vida aos seres humanos: “E Moisés disse:
‘Javé vos dará esta tarde carne para comer, e pela manhã pão com fartura...’”
(Ex. 16, 8).
Na nova sociedade, se tudo que a terra produz é fruto da bondade de Javé
para o bem da vida humana, então, tudo que os meios de produção e os serviços
humanos fazem a terra produzir devem estar a serviço da vida de todos, isto é,
tudo deve ser coletivo e distribuído com igualdade.
“Eis que Javé vos ordena: Cada um colha dele quanto baste para
comer, um gomor por pessoa. Cada um tomará segundo o número de pessoas
que se acham na sua tenda. E os filhos de Israel assim fizeram; e apanharam,
uns mais e outros menos. Quando mediram um gomor, nem aquele que tinha
juntado mais tinha maior quantidade, nem aquele que tinha colhido menos
encontrou menos: cada um tinha apanhado o quanto podia comer” (Ex. 16,
16-18).
No sistema tribal a produção era distribuída em proporção de acordo com
o número de pessoas residentes nas tendas, pois não era permitido ter na sua
mesa algo a mais, pois isso revelava que em outras mesas a comida estava
faltando. Aquele que tem demais na sua mesa gera a ausência na mesa do outro.
Aqui neste sistema a regra é não acumular, pois o acúmulo ou o excedente
da produção nas mãos de uns poucos gera a submissão e a sujeição de uns em
relação a outros. Tudo aquilo que se guarda para a manhã seguinte, com o
intuito de privar o outro do necessário para a sua vida, tende a cheirar mal e a
apodrecer. O que não está para servir à vida humana e à sobrevivência de todos
se estraga, cria vermes e apodrece. Esta é a regra:
“Moisés disse-lhes: ‘Ninguém guarde para a manhã seguinte’. Mas eles
não deram ouvidos a Moisés, e alguns guardaram para a manhã seguinte;
porém deu vermes e cheirava mal. E Moisés indignou-se contra eles.
Colhiam-no pois, manhã após manhã, cada um o quanto podia comer e
quando o sol fazia sentir o seu ardor, se derretia” (Ex. 16, 19-21).
Se houvesse a necessidade de se guardar, isto é, de se acumular o que
sobrava da produção, era para o momento de necessidade das tribos. Aqui no
nosso texto o momento do Shabbat, isto é, do Sábado, que é o momento do
descanso, de cessar o trabalho, então o acúmulo, se torna necessário:
“Ora, no sexto dia colheram pão em dobro, dois gomores por pessoa; e
todos os chefes de comunidade foram comunicá-lo a Moisés. Ele lhes disse:
‘Eis o que disse Javé: Amanhã é repouso completo, um santo Sábado para
Javé. Cozei o que quiserdes cozer, fervei o que quiserdes ferver, e o que
sobrar, guardai-o de reserva para a manhã seguinte.’ Fizeram a reserva até a
manhã seguinte, como Moisés ordenara; e não cheirou mal e nem deu
vermes. Então disse Moisés: ‘Comei-o hoje, porque este dia é um Sábado para
Javé; hoje não o encontrareis nos campos. Durante seis dias o recolhereis,
mas no sétimo dia, no Sábado, não haverá.’ No sétimo dia saíram alguns do
povo para colhê-lo, porém não o acharam.” (Ex. 16, 22-27).
Toda a economia do sistema tribal estava a serviço da vida das tribos.
No aspecto social o sistema tribal se caracteriza da seguinte maneira:
• Não havia classes sociais. A organização se dava à partir dos
clãs familiares distribuídos em tribos, onde a figura do ancião, chefe da
família, ocupava papel importante. As decisões eram tomadas em
assembléia que reunia os anciãos das tribos.
• A situação da mulher é relevante, pois, ao lado do homem,
aparecia como líder carismática: era a responsável para motivar as tribos
ao louvor à Javé, pela libertação que operou.
Vamos ler agora para confirmar o que acabamos de afirmar Ex. 15, 20.

Vamos ler também no 1º livro de Samuel o cap. 18, 6.


A mulher aparece também como defensora das causas populares
assumindo a função de profetisa e administradora da justiça nas tribos em Israel.
Vamos confirmar isso lendo no livro dos Juízes o cap. 4, 4.
No aspecto político se dava uma aliança e um contrato entre as tribos, a
fim de manter a terra e a produção longe dos ataques dos povos vizinhos, que se
colocavam em constantes conflitos e incursões, por causa das terras de Canaã,
propícia a agricultura e ao pastoreio.

Vamos ler no livro dos Juízes o cap. 4, 6-10.


É diante desta necessidade de manter as terras distantes do poder dos
povos vizinhos que nasce o exército, que se caracteriza como um exército
popular e ocasional, convocado unicamente para o momento do combate contra
as forças inimigas.
O poder era participativo, pois qualquer concentração de poder nas mãos
de uma pessoa só, poderia fazer da nova sociedade uma reprodução da tirania
dos reis das cidades-estados e do Faraó do Egito.
Para confirmar isso vamos ler no livro do Êxodo o cap. 18, 12-17.
Moisés julgando sozinho as causas das tribos em Israel poderia ter se
tornado um segundo Faraó, concentrado em suas mãos a justiça, mas alertado
por seu sogro, distribui a função com outros que passam, com ele, a julgar as
causas populares.
As leis que nascem no sistema tribal são leis que promovem e garantem à
vida, pois no Egito as leis geravam a morte. Assim encontramos no Decálogo,
em Êxodo 20, 1-21, o imperativo “Não matarás”, que funciona como o eixo de
todos os demais mandamentos assegurando a todos o direito à vida. E para isso
era preciso reconhecer o Senhor como único Deus e que não existe outro além
dele no céu, na terra e abaixo da terra e o seu nome jamais deverá ser
pronunciado em vão; reconhecê-lo com um dia dedicado exclusivamente a Ele
para cultuá-lo e honrá-lo; reconhecer no pai e na mãe único princípio de vida
humana e dedicar a eles a honra devida; não cometer adultério a fim de que a
vida familiar seja assegurada; não roubar e nem cobiçar para permitir ao outro o
direito de ter também alguma coisa e não privá-lo dos bens que a vida na nova
terra oferece e possa viver em paz com sua família.
No aspecto religioso a religião que aparecia era fomentadora da vida e
que transformava a história em realidade divina: Javé-Deus está totalmente
envolvido com a saga da história humana que favorece a vida do seu povo,
libertando-o das mãos dos opressores e proporcionando à terra a sua fertilidade
que assegura a sua sobrevivência. E a resposta do ser humano a esse
compromisso de Javé com a sua história é oferecer a Ele os primeiros frutos da
terra, como gesto ritual de gratidão. E aquilo que era oferecido se traduzia em
suprimento para as tribos mais pobres e para os momentos de necessidade.

Vamos ler no livro do Deuteronômio o cap. 26, 1-11.


Agora,vamos procurar entender o sistema escravagista.
2.3.3) O Sistema Escravagista:
É o sistema de dominação dos países do Ocidente, daqueles que vêm
pelo Mar:
• da Grécia, por volta dos anos 333 - 167 a.C. aproximadamente
• de Roma, por volta dos anos 63 a.C. até Jesus Cristo e as
primeiras comunidades cristãs.

Este tipo de dominação será o mais cruel para o povo da Bíblia porque vai
mexer profundamente com a realidade cultural do povo, sobretudo os costumes.
Este sistema atravessou o mar e trouxe, portanto, toda onda de maldade que se
abateu sobre o povo.
Embora o sistema tributário também gerasse uma situação de sujeição e
dependência das pessoas a autoridade dos reis, no entanto não pode ser
considerado escravagista, pois permitia às pessoas uma certa liberdade na posse
dos bens, na expressão da sua cultura própria e na ascensão social. O sistema
escravagista isso não permitia, pois quem nascia pobre e escravo morria pobre e
escravizado. Toda a dominação deste sistema passava pelo esvaziamento
cultural.
Todo povo que perde a sua identidade cultural se torna presa fácil para as
garras de qualquer ideologia de poder.
Foi isso que aconteceu com o povo da Bíblia num determinado momento
de sua história. E esse momento é o período histórico que cobre os anos 333 a.C.
quando se deu o início da dominação grega liderada por Alexandre Magno até
Jesus Cristo e as primeiras comunidades cristãs, que viveram o terror da
dominação romana forjada por Júlio César em 63 a.C.
As dominações que brotaram do Ocidente foram muito mais violentas e
cruéis do que as que vieram do Oriente, pois tinham como objetivo implantar os
seus próprios costumes nas culturas dominadas . A força da ideologia
dominadora dos impérios Grego e Romano levaram o povo a emplementar uma
verdadeira “guerra santa” para combater os inimigos de sua cultura e de sua
nação. É assim que podemos entender a luta dos macabeus contra os gregos para
livrar o povo das garras de tal cultura que estava fazendo sucumbir as
expressões da cultura judáica.

Vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 1, 41-53.


O desafio se tornava ainda maior quando, irmãos de raça e cultura, se
deixavam influenciar pelo ardor de tais costumes estrangeiros e favoreciam a
ruína dos costumes nacionais. Foi o que aconteceu com Jasão, que comprando o
cargo de sumo-sacerdote, aproveita do cargo para introduzir na cultura judáica
os costumes helênicos, ou melhor, os costumes gregos.

Vamos ler no 2º livro dos Macabeus o cap. 4, 7-16.


Mas, vamos tentar aprofundar este sistema social à partir dos quatro
aspectos que nós já estamos acostumados a trabalhar.
No aspecto econômico a terra, os meios de produção, produção,
impostos, o trabalho que sempre era no sistema de corvéia, isto é, trabalho
forçado e também o comércio estava centralizado nas mãos do imperador. Era
ele quem detinha o controle dos territórios, dos despojos e dos povos
conquistados pela força do seu exército, além de estabelecer um pesado tributo
sobre a canga dos povos conquistas ele os mantinha na escravidão. Os reféns
eram todos submetidos à servidão: no palácio, na agricultura e no pastoreio ou
nas minas.

Para confirmar isso vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 1, 1-4.
O texto que acabamos de ler fala do contexto da dominação grega. Tudo
começa com Alexandre, filho de Filipe, que vence Dário, rei dos persas e dos
medos, ocupando assim o lugar de soberano do mundo.
As primeiras invertidas que levam um rei a ocupar o lugar de soberano do
mundo são:
• conquistar os outros reis da terra;
• tomar os seus territórios e províncias através de um poderosos
exército;
• e obrigar-lhes ao pagamento do tributo, que além de manter
toda a estrutura econômica do império aparecia como forma de reconhecer
o senhorio do imperador.
Foi o que fez Alexandre Magno para dar aos gregos a soberania política
no cenário internacional. Porém, com ele, nascia a dominação mais cruel e
traiçoeira que o povo de Israel já conheceu.

Vamos ler agora no 1º livro dos Macabeus o cap. 8, 1-11.


Depois dos gregos somente os romanos, que em tudo beberam daquela
cultura e política expansionista, conseguiram estabelecer também seu projeto de
dominação e expansão dos territórios. Desbaratando reis e impondo a eles
pesado tributo, reduziu-os à escravidão.
A dominação romana foi se aproximando dos territórios de Israel já à
partir de uma aliança feita entre os enviados de Judas Macabeu com os romanos,
pois via nesta aliança uma alternativa de se vê livre da invasão do helenismo no
interior da cultura judáica.

Vamos ler ainda no 1º livro dos Macabeus o cap. 8, 17-20.


Esta aliança aparece como uma estratégia política de libertação. A luta
dos macabeus pela libertação de suas terras e de sua cultura só pode ser
comparada à luta dos juízes e juízas para manter livre dos inimigos a terra que
Deus havia dado a eles como herança depois da libertação do Egito.
No aspecto social a estrutura da sociedade se apresentava estratificada em
classes. Em primeiro lugar figurava o Imperador, senhor absoluto da vida das
pessoas. Determinava as relações sociais.

Vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 10, 51-54.


Logo em seguida apareciam os Funcionários do imperador, responsáveis
para manter toda a estrutura imperial:
• Os governadores, que muitas vezes eram generais de guerra.
Vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 10, 69;
• Os embaixadores, eram emissários do imperador quando este
queria estabelecer relações políticas com outros países. Aliás, não é assim
até hoje a função dos embaixadores políticos nos países.

Vamos ler ainda no 1º livro dos Macabeus o cap. 11, 9;


• Os senadores, na estrutura social de Roma eram os que
comandavam a República. Eram eles quem escolhiam os dois Cônsules que
administravam os interesses do Senado. Vamos ler no 1º livro dos Macabeus
o cap. 8, 19-20;
• Os generais, oficiais do Império. Responsáveis para comandar o
Exército e as expedições militares de conquistas. Dependendo do seu
desempenho nas batalhas, a um general era concedido o cargo de
governador em algum dos territórios conquistados. (1º Mc 6, 57).

O Exército era uma necessidade para o imperador a fim de fortalecer o


seu império e empreender suas lutas de conquistas dominando pela força das
armas os outros povos. No sistema escravagista o exército também assegurava
para o imperador a vitória nas batalhas e a sujeição dos conquistados. Este
exército amedronta muito mais do que aquele do sistema tributário dado a sua
força e variedade.

Vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 1, 4 e 29


Vamos ler também no mesmo livro o cap. 6, 41-47.
E agora vamos ler no cap. 10 o versículo 73.
Os soldados e oficiais do exército real recebiam um salário especial.
Confirme isso lendo agora no 1º livro dos Macabeus o cap. 10, 36.
Os sacerdotes, amigos do rei, favoreciam o império com o culto que
filtrava a ideologia expansionista e mantinha a ordem estabelecida pelo
imperador e suas armas.

Vamos ler o texto do 1º livro dos Macabeus cap. 10, 15-20.


Havia também a classe social da nobreza, sustentada pelo imperador
formando a elite do império. Eram os amigos íntimos do Imperador com os
quais ele repartia os seus bens. Confirme isso lendo conosco no 1º livro dos
Macabeus o cap. 1, 6.
Abaixo desta configuração social estava a plebe, isto é, o povo.
Mais abaixo do povo estavam os escravos, contados entre as mercadorias
dos impérios. Entravam na lógica do comércio e na lei da compra e venda.
Geralmente eram reféns de guerra dos povos conquistados.
Vamos ler ainda no 1º livro dos Macabeus o cap. 3, 41.(= 1Mc 2, 11).
À partir de tudo isso que apresentamos nos aspectos econômico e social
podemos concluir de que forma se dava o aspecto político do sistema
escravagista. O poder estava centralizado nas mãos do Imperador que dominava
com o auxílio de um Exército profissional, poderoso e permanente.

Vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 9, 11-17.


As leis estabelecidas eram leis que promoviam a violência e a morte.

Vamos continuar lendo ainda o 1º livro dos Macabeus agora o cap. 1, 54-
61.
Havia um “decreto real que condenava à morte” qualquer pessoa que se
encontrasse observando os seus costumes culturais-pátrios, no caso do povo
judeu, a leitura do livro da aliança, onde estava a Lei de Deus, com as práticas
nascidas logo depois do Exílio, e a circuncisão, sinal do compromisso com a
raça e a eleição divina. Desse modo se operou um verdadeiro genocídio. Muita
gente, famílias inteiras tombaram ante as atrocidades deste sistema exterminador
de culturas, de raças e de vidas humanas.
No aspecto religioso a religião se torna legitimadora do culto imperial,
embora muitos se mantiveram fiéis e preferiam a morte antes que violar às leis
religiosas de fidelidade e pureza, prestando assim um verdadeiro culto ao seu
Deus. Através do martírio acreditavam estar prestando um sacrifício de louvor a
Javé. Vamos ler no 1º livro dos Macabeus o cap. 1, 62-64 para confirmar o que
acabamos de dizer.
Ao longo desta história de resistência aos abusos do sistema escravagista
grego e romano, aparece na Bíblia o gesto heróico de uma família inteira que
preferiu morrer a se contaminar com as seduções práticas de uma cultura
estrangeira. Foi a trágica, mas heróica história da família macabéia, narrado no
2º livro dos Macabeus cap. 7. Se você, querido e querida ouvinte quiser
conhecer esta história leia em casa ou nos círculos de estudo de sua comunidade,
todo este capítulo 7 do 2º livro dos Macabeus e veja qual a esperança que
animou esta família a morrer, mas nunca ser infiel à lei de Deus, que se
aproximou do seu povo pela sua cultura. Ela é canal através do qual Deus faz
escoar a sua mensagem e operar a sua salvação. A cultura revela a vitalidade de
um povo. Um povo sem cultura é um povo morto, sem vida, sem expressão.
Deus valoriza a cultura e à partir dela se comunica porque quer vê o seu povo
VIVO. Assim, podemos concluir: se uma religião quiser ser fiel a Deus e a vida
precisa valorizar as expressões culturais dos povos, pois nelas Deus e a vida se
revelam.
No sistema escravagista o mundo aparecia dentro de uma visão mítica,
onde a realidade se esquematizava numa estrutura fixa. Essa visão determinava,
portanto, o quadro da estrutura social, apresentando a ordem da sociedade como
querido pela divindade. Ela fez o Imperador, a Nobreza, o Povo e os Escravos.
Esta ordem não pode ser mexida, quem nasce escravo morre escravo. É o
mesmo pensamento de muita gente hoje que assim pensa a sociedade, quem
nasce pobre, morre pobre porque Deus quer assim. Esta visão fixa da realidade
terrena como expressão da vontade divina é absurda e violenta. Ela é própria de
um sistema que quer manter todos sob a servidão.
As dominações grega e romana atingiram a raiz da cultura bíblica: Terra,
Templo e Culto, Costumes e Raça. Por isso o Imperador grego será chamado de
“Adversário maléfico” (1º Mc 1, 36); “rebento ímpio” (1º Mc 1, 10). A cultura
grega será chamada de “geração de perversos” que se instalou no seio da cultura
judáica, eliminando-lhe a identidade (1º Mc 1, 11).

III PARTE: A HISTÓRIA DE ISRAEL E DO NOVO


TESTAMENTO.

Hoje vamos iniciar uma nova etapa no nosso estudo da Bíblia. Vamos
começar a falar da história de Israel, e inicialmente trataremos do período da
formação desse povo da história bíblica, que se tornou o povo de Deus.
Retomando um pouco a geografia bíblica na direção NORTE-SUL, a
Palestina é caracterizada por Vales no litoral (Saron) e pelo profundo Vale do
Jordão.
Entre estas duas configurações geográficas estão: as Montanhas da
Galiléia, as Montanhas da Samaria ou Efraim e as Montanhas de Judá.
A história do povo de Israel é a história do povo dessas montanhas. A
história de Israel, nos tempos tribais começa nestes bosques e nestas matas.
3.1) O Nascimento do Povo de Israel: A Assembléia de Siquém

A ciência histórica não nos apresenta o período de nascimento do povo de


Israel como está no texto bíblico.
A reconstrução fornecida pela historiografia difere do que se lê na Bíblia.
Do jeito que a Bíblia narra a história do povo de Israel nós chegamos a
conclusão de que a história se dá de forma linear tendo como único tronco
Abraão, considerado o pai da fé. É claro que jamais poderemos prescindir de
Abraão e de sua fé para a formação do povo da Bíblia. Todavia, não podemos
reduzir somente a ele e ao seu clã, a origem do povo da Bíblia. Devemos
considerar também outros grupos humanos que deram a Israel a sua constituição
enquanto povo de Deus.
É concenso na pesquisa bíblica de que Israel não é o resultado que vem de
fora. Não surge pela conquista ou por imigração. A origem de Israel parte da
própria terra de Israel. Ele é um fenômeno da Palestina.
A este Israel, produto da Palestina, agregam-se outros grupos, de diversas
origens. Assim, é que temos também, na formação do povo de Israel:
- Pastores do Sinai;
- Escravos fugitivos do Egito.

Nós conhecemos duas propostas para explicar o surgimento de Israel.


Mas, há quem fale de três propostas. Trataremos apenas de duas:
1ª) A primeira diz que Israel é resultado da imigração de pastores semi-
nômades das cercanias das terras cultiváveis.
2ª) A Segunda diz que Israel resulta da desintegração da sociedade
cananéia ao final do período do bronze e do êxodo da população dos vales
cananeus para as montanhas (Quem defende esta teoria é N. Gottwald), como
resistência à dominação e exploração das cidades-estados cananéias.
Esta é a hipótese mais aceita entre os exegetas. Os exegetas são os
estudiosos da Bíblia.
A sociedade cananéia anterior a 1200 a.C. se localiza nas planícies de
Saron e de Jezrael, pois as montanhas ainda estão em matas.
Esta sociedade cananéia está sob o controle das cidades-estados, que
funcionavam como unidades políticas através das quais o Egito exercia a sua
dominação.
As cidades-estados exerciam o controle sobre os camponeses pela
exploração de suas terras, de seus trabalhos e de seus produtos. Embora, estes
tivessem o controle de seus trabalhos e de seus produtos, vão aos poucos
entregando suas posses devido o pesado sistema de tributação que exigia mais
da metade daquilo que produziam.
A exploração se dava pelo controle das armas, através do Exército e pela
lógica da religião do El-Baal: o Deus da fertilidade do solo cultuado pelos
cananeus.
O tributo era, então, pago porque as armas o exigiam e porque a religião
explicava, sobretudo através das festas das colheitas.
As cidades-estados cananéias mais importantes, dependentes do Império
Egípcio eram:
- Gaza
- Meguido
- Bet-Seá
- Hasor.

O Egito dominava toda a Palestina, tornando-se colônia do império,


explorada pela arrecadação do tributo e pelos saques, através das guerras.
O Império Egípcio era o grande senhor que dominava toda a extensão do
território no qual irá formar-se o povo de Israel.
Em determinado momento da história o Egito sofre uma desarticulação,
quando os reis hicsos, vindos da Ásia, invadiram e dominaram o Egito entre os
anos 1700 a 1580 a.C.. A presença dos hicsos no Egito trouxe marcas de
inovações militares, como os carros de guerra, e incentivaram a formação de
cidades.
Os egípcios os expulsaram, implantando um rigoroso regime de
dominação.
A PALESTINA ( A TERRA DE CANÃA )
A Palestina esteve sob a dominação egípcia até o séc. 13 a.C.
Em sua área geográfica, encontramos quatro regiões de interesse
econômico.
1ª) a primeira é a região das Planícies (cultivadas e férteis), caminho
adequado para o comércio. Por esta região transitavam as caravanas.
2ª) a segunda é a região das Montanhas ( região das matas ), porém com
acesso difícil.
3ª) a terceira é a região das Estepes ( era um cinturão onde não havia
muita chuva, mas onde era possível a vida, com dificuldades).
4ª) a quarta é a região do Deserto, inabitável e árido.
As planícies eram regiões estratégicas. Nelas se instalavam as cidades-
estados, onde os reis e a classe dominante detinham o controle do campo, isto é,
das aldeias.
Os egípcios dominavam essas cidades, favorecendo os seus reis com o
apoio militar e com a defesa das cidades. Estes em troca pagavam o tributo. Em
troca por este favor do Faraó os reis das cidades-estados pagavam-lhe o tributo.
Para que haja nascimento é necessário o período de gestação. Esta é a
situação que gesta o povo de Israel.
Por volta do ano 1800 a.C. aproximadamente aparecem grandes
movimentos migratórios que vêm do leste para o oeste, isto é, do oriente para o
ocidente. Na Bíblia, nós encontramos um desses movimentos migratórios que
procedem do Oriente para o Ocidente. É o movimento de Abraão.

Vamos ler no livro do Gênesis o cap. 12, 4 e 5.


É nesse período histórico de 1800 a.C. que se situa a saída de Abraão de
sua terra natal. Esse período é chamado de Patriarcal, porque nele se dá a
história dos Patriarcas da Bíblia. Abraão sai levando consigo a família, os bens e
toda a sua história para a terra que Deus lhe havia indicado. Impulsionado pela
fé em seu Deus, que lhe promete uma terra melhor, onde ele e sua descendência
encontrariam a segurança para suas vidas tornando-se um grande povo
abençoado, Abraão sai, num primeiro êxodo, de Ur, na Caldéia, que fica a sul da
Mesopotâmia, e se estabelece em Harã, que fica mais ao norte. É de Harã que
Abraão parte para as terras de Canaã, caminhando contra toda esperança, na
certeza de encontrar a terra da promessa.
A situação de Canaã na época de 1800 a.C. é a seguinte:
Quando os nômades chegam, encontram uma terra socialmente
organizada na estrutura de cidades-estados.

Leia para confirmar isso no livro do Gênesis o cap. 12, 6-9.


Ao chegar na terra de Canaã, Abraão se depara com os cananeus,
organizados em cidades-estados, como habitantes dessas terras, por isso vai
habitar nas montanhas. A montanha será sempre lugar alternativo para escapar
da dominação do Egito. É das montanhas que Abraão desce e vai para a região
deserta do Negueb, que fica ao sul de Canaã.
A estrutura das cidades-estados era esta:
No centro da cidade estavam o Palácio, morada do rei e o Templo,
responsável para legitimar o poder do rei. Agregadas a eles estavam as casas dos
nobres, oficiais e soldados dos reis. Protegendo tudo isso estavam as muralhas,
significativas para designar a queda das cidades-estados. Derrubando as
muralhas de uma cidade esta perdia a sua proteção.
Fora das muralhas, ao seu redor, estavam a aldeias dos camponeses e
lavradores, que estavam numa relação de dependência dos reis, pois estes
detinham o controle do campo.
Na cidade a Porta, era o lugar da atividade pública, se caracterizava como
a praça pública, onde se fazia o comércio e onde o rei vinha fazer a repreensão
ao seu povo em relação à justiça, embora não a favorecesse.

Vamos ler no livro do Profeta Amós o cap. 5, 10-13.


O Profeta Amós critica duramente aqueles que falam em nome da justiça,
são responsáveis por ela, mas no entanto, com ela não têm compromisso, pois
oprimem o fraco, hostilizam o justo, aceitam suborno e repelem os indigentes à
porta. Por isso, eles são odiados pelo povo.
Mas a Sabedoria também usa a Porta para levantar a sua voz e convidar à
conversão. Vamos ler no livro dos Provérbios o cap. 1, 20-23.
Os camponeses das aldeias eram os donos de suas terras, mas aos poucos
foram entregando suas posses até tornarem-se dependentes do rei. Confirme isso
lendo Gênesis 47, 15-19.
Aos poucos os camponeses vão se tornando lavradores sem terra. Para
fugir dessa situação vão se refugiar nas montanhas, até então uma região de
matas. Nas montanhas formam aos poucos grupos de hapirus, que de vez em
quando descem das montanhas para atacar as cidades.
Os documentos que revelam isso são as cartas de Tell-Amarna, uma
cidade do Egito, que datam do 14º século a.C..
Conforme a pesquisa bíblica a palavra hapiru se aproxima da palavra
hebreu, por uma semelhança que há entre as letras. Por isso, o grupo dos
hapirus, considerados saqueadores e salteadores das montanhas por causa da sua
condição social, inimigos das cidades-estados, é o mesmo grupo dos hebreus do
qual a Bíblia fala. Abraão era um hebreu, logo um hapiru das montanhas. Leia aí
na sua Bíblia no livro do Gênesis o cap. 14, 13.

Vamos ler também no livro do Gênesis o cap. 12, 10-20.


Por causa da fome que assolava a terra Abraão, o hebreu, tem necessidade
de descer até o Egito, isto é, até à cidade, para não morrer de fome. Mas a cidade
será sempre para os hebreus sinônimo de perigo e de morte e os hebreus serão
sempre rejeitados pelos reis das cidades-estados, considerados ameaça para a
organização social das cidades, pois eles atraem pragas e muitos males.

Leia ainda no livro do Gênesis o cap. 49, 14 e 15.


Dentre as tribos que formam o povo de Israel encontramos a tribo de
Issacar, ela “é um jumento robusto deitado no meio dos cerrados... baixou seu
ombro à carga e sujeitou-se ao trabalho escravo.” A tribo de Issacar era uma
tribo de camponeses escravos em seu trabalho, eram assalariados como a própria
palavra Issacar, em hebráico significa. Pois é a junção de duas palavras: “Ish”,
que significa homem e “Sacar”, que significa assalariado, diarista. Portanto,
Issacar designa homem assalariado. Disso podemos concluir, dentre as tribos
que formaram o povo de Israel, estavam um grupo de pessoas da categoria social
dos assalariados.
Por volta do ano 1800 a.C., os reis controlavam as cidades com um
exército de 60 homens. (Confirme depois lendo no livro do Gênesis o cap. 14,
1).
As cidades-estados estão todas situadas nas planícies costeiras e de
Jezrael. Somente Jerusalém ficava nas montanhas.
O tamanho da cidade-estado de Jerusalém é de 100 por 40 metros. Hasor
era a cidade-estado de maior extensão com 1000 por 650 metros.
Cada cidade-estado ficava sob a guarda de uma família, com um grupo de
soldados, que formavam o Exército.
Todas as cidades-estados serão tomadas, Jerusalém será a última. Será
tomada por Davi, que se aproveita de um canal feito pelos Jebuseus para entrar
na cidade. Leia no 2º livro de Samuel o cap. 5, 6-10.
Os Jebuseus abriram um canal para fazer chegar água para o interior da
cidade. Este canal é chamado “Fonte de Gion”, através dessa fonte Davi entrou
na cidade de Jerusalém e conseguiu conquistá-la.
Ainda sobre a formação do povo de Israel podemos afirmar, com base na
pesquisa bíblica, que Israel é o resultado dos seguintes fatores:
1º) DESINTEGRAÇÃO DA SOCIEDADE DAS CIDADES-
ESTADOS CANANÉIAS.
Isso criou para os camponeses a necessidade e a possibilidade de buscar
novas soluções para sua vida. Solução encontrada no êxodo para as montanhas.
2º) ESTE ÊXODO PARA AS MONTANHAS tornou-se possível
porque havia sido criada a técnica de fazer cisternas, onde se podia armazenar a
água, até mesmo a água da chuva.
3º) O USO DO FERRO, possibilitou a colonização das montanhas,
tornou a nova terra atraente e a liberdade, um sonho.
No encontro passado apresentamos o texto bíblico de Josué 24, 14-28,
para uma leitura em casa e com as seguintes perguntas: Com quem se dá esta
aliança? Que compromisso estabelecem?
Antes de nós respondermos a estas perguntas, vamos tentar responder, à
luz do texto de Josué, a outra pergunta: Quais foram os grupos que formaram
o povo de Israel?
Para isso vamos ler os versículos 14-15 do cap. 24 do livro de Josué.
Nestes versículos nós encontraremos cinco grupos que, fugindo da dominação
egípcia e reunindo-se na cidade de Siquém fazem uma Assembléia onde vão
estabelecer um compromisso e configurar-se enquanto povo. Aqui nasce aquele
período histórico da história do povo da Bíblia que nós chamamos de período de
Israel Confederado em Tribos. À partir desse período surge a sociedade tribal ou
época do Juízes.
Nos versículos que acabamos de ler encontramos algumas expressões que
nos ajudam a descobrir o vários grupos que formam o povo de Israel:
1- a primeira expressão é “ lançai fora os deuses aos quais serviram
os vossos pais do outro lado do Rio...”. “Do outro lado do Rio”, significa o
Eufrates que fica na Mesopotâmia, nós falamos quando estudamos a geografia
bíblica que o Eufrates é conhecido também como “o Rio” ou “o Grande Rio”.
Por isso Josué, que conduz a Assembléia, se dirige primeiramente ao grupo dos
povos que vieram da Mesopotâmia por ocasião de um movimento migratório.
São os grupos chamados Abraâmicos. Quem faz parte destes grupos? Os
descendentes de Abraão, Isaac e Jacó e que se espalharam nas terras de Canaã.
Aqui temos, portanto, o primeiro grupo, o Abraâmico.
2- A Segunda expressão é “... do outro lado do Rio e no Egito”. A
expressão “ e no Egito ”, significa os grupos que vêm da situação de escravidão
do Egito e que estavam diante do peso da mão do Faraó, libertados por Javé e
sob a liderança de Moisés. É o grupo chamado de Mosáico. Josué faz parte deste
agrupamento e é por isso que Ele e sua casa aderem ao Deus-Javé, único por
causa de sua ação libertadora e porque foi mais forte do que o Faraó, fazendo
afogarem-se nas águas os cavalos e os cavaleiros do Faraó: “ Quanto a mim e à
minha casa, serviremos a Javé ”, diz Josué. A este grupo agrega-se também,
por ocasião da saída do Egito e do caminho pelo deserto, o grupo de pastores do
Sinai, onde se encontra Jetro, o sogro de Moisés. É o chamado grupo Sinaítico.
3- Outros grupos que se somam a estes são os camponeses explorados
pelas cidades-estados, ou seja, os cananeus, pois quando Javé promete conduzir
o povo para uma nova terra, onde não haverá mais o chicote do capataz, indica a
nova terra onde moram os cananeus, os heteus, os amorreus, os ferezeus, os
heveus, os jebuseus (Ex. 3, 8). Estes é o grupo dos cananeus, com a prática do
culto a vários deuses. Somam-se também como estes o grupo dos hapirus, que
eram camponeses refugiados nas montanhas, rebelados contra o sistema de
dominação das cidades-estados, dos quais nós já falamos no estudo passado.

Temos aqui, portanto, cinco grupos que na Assembléia de Siquém, se


reúnem e se comprometem com um mesmo ideal: construir na nova terra, uma
nova sociedade, onde a escravidão não existirá e onde a terra servirá para todos
e dela todos viverão.
Vamos agora estudar cada um destes diferentes grupos que foram atraídos
pela novidade da vida nas montanhas e perceber as características próprias de
cada grupo:
1- O ABRAÂMICO:

Os grupos abraâmicos viviam entre o deserto e as matas. Eram semi-


nômades.
Abraão e Isaac pertencem ao Sul, em Judá e Jacó ao Norte, em Israel ou
Efraim.
Viviam do pastoreio, da criação de ovelhas, do gado miúdo e nas estepes.
Seu horizonte social, isto é, sua forma de organização social era a Família,
onde o ancião era o patriarca e chefe do clã. Era um grupo muito pequeno. A
família não era numerosa, daí o ideal da promessa que Deus fez a Abraão de
torná-lo “um grande povo” (Gn. 12, 1-2).
Na religião o seu Deus era o “ El ” cultuado como o Deus familiar que
PROTEGE, ACOMPANHA, ABENÇOA, DÁ A TERRA E OPTA PELOS
POBRES.
Seus conflitos giravam em torno dos seus problemas internos como a terra
e o machismo, que imperava no interior dos clãs patriarcais. O perigo era
sempre a cidade, considerada símbolo do mal.
À partir dessas considerações sobre o grupo abraâmico você poderá ler
depois na sua Bíblia numa leitura atenciosa os Capítulos 12-50 do livro do
Gênesis.
2- O MOSÁICO:

Os grupos mosáicos têm uma ligação com o pastoreio, mas não é esta a
sua origem.
Eles vivem do trabalho forçado no Egito: fabricação de tijolos, construção
de cidades-armazéns para o Faraó, na lavoura dos campos, etc...
Organizam-se também à partir das famílias, porém, na resistência e na luta
as mulheres se destacam.
Neste grupo Moisés é o líder, mas é também na Assembléia de anciãos
que as decisões são tomadas.
Os conflitos para este grupo giravam em torno da servidão, opressão e
repressão às quais estavam submetidos por causa da mão do faraó que pesava
sobre eles.
Havia uma lei contra as crianças, que as sentenciava à morte, envolvendo-
os num grande dilema VIVER ou MORRER. O conflito, se dava entre a VIDA
e a MORTE.
Na religião cultuavam o Deus que VÊ, OUVE e CONHECE a situação
do seu povo, por isso Ele intervém DESCENDO para LIBERTAR.
Confira estas considerações lendo depois em sua Bíblia os capítulos 1-3;
5-6; 12-15 do livro do Êxodo e também no livro do Deuteronômio os capítulos
6, 20-24 e 26, 5-10.
3- O SINAÍTICO:

Os grupos sinaíticos vivem como nômades no sul de Madiã. São


criadores de ovelhas e que desenvolveram a tecnologia do cobre e do ferro.
Organizam-se em clãs familiares e se juntam em Cades ao grupo de
Moisés.
Os conflitos que tinham eram com as cidades-estados do sul do Sinai que
queriam o segredo do ferro e do cobre.
Na religião cultuavam o Deus da Montanha, que se caracterizava como
um Deus zeloso e ciumento, manifestando-se através dos fenômenos da natureza
como o trovão, o relâmpago, a nuvem, o vento e o fogo. É nas montanhas do
Sinai que Moisés encontra-se com Javé presente na sarça que ardia em fogo.
Você poderá conferir estas considerações sobre o terceiro grupo lendo
depois em sua Bíblia no livro do Êxodo os capítulos 4, 18 e 18, 1-5. Leia
também no livro dos Juízes o capítulo 1, 16 e Números 10, 29-32.
4- OS HAPIRUS:

O grupo dos hapirus ou hebreus não eram bem especificamente um grupo,


mas uma classe social de marginalizados pelo sistema de escravidão do Egito
através das cidades-estados: eram escravos de guerra, semi-nômades e
agricultores que se refugiavam nas montanhas e se tornavam saqueadores e
salteadores para poder sobreviverem.
Havia um Deus que os protegia e os guardava. Na Bíblia é chamado de “
o Deus dos hebreus ”.
Leia depois em sua Bíblia no livro do Gênesis os capítulos 30, 18 e 49,
14-15 e 27 e no livro do Êxodo os capítulos 1, 15-16.19; 2, 6-7.11-13; 3, 18; 5,
3; 7, 16; 9, 1.13.
5- OS CANANEUS:

O grupo dos cananeus são os camponeses das cidades-estados que por


causa da forte tributação se tornam: homens livres, meeiros empobrecidos,
servos e escravos do faraó. Aos poucos vão aderindo à classe social dos hapirus,
juntando-se a eles.
Na Assembléia de Siquém, sob a liderança de Josué, todos estes grupos,
agora reunidos, são chamados a fazer uma opção. Vamos ler no livro de Josué,
nosso texto base, o cap. 24, 15 e 17.
A opção a ser feita é a seguinte:
1ª) por JAVÉ: o Deus da libertação, que fez sair da casa da escravidão,
fazendo o bem a todos estes grupos
ou
2ª) pelos OUTROS DEUSES: legitimadores da situação de escravidão e
servidão do Egito e também dos trabalhos forçados. Os outros deuses são
justificadores da estrutura de escravidão, que fez o mal a eles.
O povo escolhe, opta por Javé, que se torna o Deus de Israel Confederado,
unido pelo mesmo ideal: manter-se distante da escravidão. Confirme isso lendo
agora ainda no livro de Josué o cap. 24, 19-24.
Aqui está, portanto, a resposta àquela pergunta que deixamos no encontro
passado: Com quem se dá esta aliança? Ao escolher Javé como o seu Deus, os
grupos estabelecem em Siquém uma aliança com Javé, prometendo servi-lo
sempre: “ Longe de nós abandonarmos a Javé para servirmos a outros
deuses!... nós também serviremos a Javé, pois ele é o nosso Deus ” ( Js. 24,
16.18).
Estabelecem uma aliança de compromisso, marcado com um estatuto e
um direito, escritos no livro da Lei de Deus. Vamos continuar nossa leitura do
texto de Josué 24 agora os versículos 25-28.
Este estatuto foi marcado com uma Pedra. Esta realidade da Pedra indica a
solidez do aliança e do compromisso estabelecido, significa integridade e
sinceridade na vivência da aliança e do compromisso.
Quebrar a pedra significa quebrar a aliança e ferir com o testemunho que
ela dá. A pedra, isto é, a integridade e a sinceridade na vivência da aliança é o
testemunho a ser dado: “ ela testemunhará contra nós ”.
Em Siquém acontece uma Assembléia onde os grupos vão criar uma
confederação de tribos, tendo como eixos:
- o compromisso com uma sociedade tribal, onde a igualdade será a
base
- o compromisso de fé, onde Javé o único Deus será o rei, pois seu
desejo é a vida e liberdade para o seu povo.
Todos os grupos têm algo em comum: anseiam por uma sociedade
diferente e cada um com sua experiência determinará os rumos da nova
organização:
1) O grupo de Moisés com sua experiência de libertação diz não à
escravidão e enfrenta o Faraó. Isso será o Imã da nova sociedade.
2) O grupo do Sinai com sua experiência de Javé, seu Deus, zeloso,
ciumento e que se manifesta nos fenômenos da natureza se torna o Deus da
sociedade tribal.
3) O grupo que descende de Abraão sugere o tipo de sociedade à partir
de sua experiência familiar. Sugere a maneira do TRIBALISMO.

Na montanha ocorre a integração entre estes grupos tão diferentes:


cananeus, semi-nômades, trabalhadores do Egito e gente do Sinai.
O que estes grupos têm em comum? Todos vêm do êxodo, fugindo da
escravidão e da opressão.
Criam uma nova sociedade: sem opressor (Rei ou Faraó), forjam um anti-
modelo que combate o Estado, o Faraó e a opressão, uma sociedade sem
cidades.
O êxodo do Egito torna-se o modelo para todos.
Na montanha nasce a experiência da organização Tribal, onde acontece a
descentralização da sociedade e onde a família era a unidade básica.
Eis aqui a resposta àquela pergunta deixada: Que compromisso
estabelecem?

Depois disso “cada um voltou para a sua herança”, a sua terra, a sua
casa ( Js. 24, 28).
3.2) O Tempo dos Juízes: O Tribalismo

À partir do compromisso estabelecido na Assembléia de Siquém, os


grupos criaram a Confederação das Tribos.
A montanha passou a ser seu novo horizonte social, onde a liberdade e a
vida ganharam novo sentido.
O período que se inicia agora é o Período Histórico chamado Tribal, onde
atuação do Juízes e Juízas se torna fundamental, sobretudo por causa da
proteção e da segurança da nova terra e da aliança estabelecida. Os juízes e
juízas se tornam guardiões da terra e da aliança que os grupos firmaram em
Siquém. Este período vai de 1200 a.C. até 1050 a.C., no qual se dá a
experiência na convivência social de modo diferente daquele vivido dentro do
sistema tributário do Egito.
“O tribalismo é igualitário, porque tudo é decidido na família. Aí todos
têm o que comer, participam da sociedade em suas possibilidades. Há lugar para
os meninos e meninas no pastoreio, para os anciãos na transmissão do saber,
para as mulheres na casa e na produção, para os estrangeiros integrados às
famílias, para os homens no trabalho do campo. Todos produziam, consumiam e
defendiam esta sociedade. Porém, havia também desigualdades que no momento
inicial ainda não aparecem muito fortes mas que podiam reaparecer em algum
momento de mudanças sociais de produção: os anciãos decidiam fortemente, os
homens dominavam as mulheres, havia inclusive escravos” (Milton Schwantes,
Mosáicos da Bíblia 7). Estas tensões aparecem como conflitos sociais internos
da nova organização social.
Mas, até certo momento da história do tribalismo, para Israel o problema
será sempre em relação ao controle e proteção da terra.
Para entendermos os conflitos deste período da história do povo da Bíblia,
vamos ler no livro dos Juízes o cap. 6, 3-6.
As invasões e incursões eram constantes naquelas terras férteis, propícias
ao cultivo, e os combates, portanto, se tornam inevitáveis: “ Cada vez que Israel
semeava, subiam os de Madiã, e os de Amalec, e com eles os filhos do oriente,
subiam contra Israel e, acampando na sua terra, devastavam os produtos do
solo até às vizinhanças de Gaza. Não deixavam a Israel nenhum meio de
sobrevivência, nem um cordeiro, nem um boi, nem um jumento, pois
chegavam... e invadiam a terra para a arrasar...” (Jz. 6, 3-6).
Os constantes saques das terras geravam dificuldades de sobrevivência
para o povo das montanhas, produzindo grande miséria para as tribos. Por isso
os juízes e juízas agiam como líderes protetores das terras contra os ataques dos
povos vizinhos, seus inimigos. Foi assim que contribuíram com a história e a
sociedade das montanhas: Débora (Jz. 4-5) contra os cananeus, Gedeão (Jz. 6-
8) contra os madianitas, amalecitas e povos do oriente, Jefté (Jz. 10, 6-12, 7)
contra amonitas, Sansão (Jz. 13, 1-16, 31) contra os filisteus.
“Os livros de Josué e Juízes, que narram a história sobre este período do
tribalismo, têm como centro o tema da terra:
• Josué apresenta a libertação da terra nos capítulos de 1-12 e
logo, sua distribuição nos capítulos 13-19.
• Em Juízes temos histórias de lutas populares organizadas à
partir de líderes carismáticos para manter livre a terra, livre dos cananeus,
por exemplo em Juízes 4-5, e de outros invasores. Houve lutas contra os
cananeus da planície e contra os reis ao redor para estabelecer o projeto
tribal e lutas heróicas para mantê-lo” (Milton Schwantes, Mosaicos da
Bíblia 7).

No livro dos Juízes, escrito por volta dos anos 600 a.C., encontramos o
conteúdo do período tribal.
Neste livro os fatos são contados dentro de uma moldura. Sabendo-se, no
entanto, que os textos não estão voltados para dentro do funcionamento do
tribalismo, isto é, sua vida diária, seu dia-a-dia, pois o enfoque principal é
aquele que mencionamos à pouco.
No livro dos Juízes a luta que se dá é de Javé contra Baal. Os Baals são os
outros deuses, rejeitados na Assembléia de Siquém, eles representam a idolatria,
a sociedade tributária. Cultuar aos Baals é ser conivente com a escravidão e a
opressão, legitimando o sistema tributário de dominação.
Javé é o Deus da fidelidade e da libertação, escolhido para ser o único
Deus na Assembléia de Siquém. Ele é o Deus que reina na sociedade tribal.
Fazer o mal é o pecado da idolatria, é servir a Baal e desviar-se da aliança
com Javé, o Deus que exige a fidelidade do seu povo ao compromisso assumido
após a libertação do Egito e que tem como eixo a liberdade da terra e da pessoa
humana.
Isso se expressa no livro dos Juízes pelos refrões quase que constantes:
“Os filhos de Israel fizeram o mal aos olhos de Javé”. Confirme depois em sua
Bíblia lendo Juízes 2, 11; 3, 7. 12; 4, 1; 6, 1; 8, 33; 10, 6; 13, 1.
No livro dos Juízes é especialmente importante o capítulo 5, pois este
texto é dos mais antigos da Bíblia, é o chamado Cântico de Débora e que de
acordo com a pesquisa bíblica possivelmente é um canto de mulheres junto aos
poços de água. Nele aparecem os seguintes elementos:
1) Javé, um Deus da teofania, “se faz” um Deus da história, sem que
seja citada a memória do êxodo.
O Deus da teofania é o Deus que se revela através dos fenômenos da
natureza. Lembram quando falamos do Deus do grupo sinaítico?
2) O tribalismo têm seu inimigo nos cananeus. Não encontra aliados
entre as cidades, mas em Jael, madianita. A luta é social e não racial e
ideológica.
3) Este Israel de Débora não consegue derrotar os cananeus, mas
conquista em relação a eles alguns direitos, em especial o de ir e vir, porque a
batalha se dá nas águas do rio Quison, particularmente decisivo para fazer a
ponte entre o norte e sul daquelas terras.
4) Veja, portanto, que a presença da mulher nas lutas populares era
significativa. O respeito desde o Decálogo era duplo, tanto ao pai como a mãe
devia-se honrar. Por isso Débora é chamada de Mãe em Israel. Confirme em
Juízes 5, 7.
5) O exército era formado com voluntários do povo e com as tribos
mais acostumadas a dureza da vida Neftali e Zabulon. Você poderá confirmar
isso lendo no livro dos Juízes o cap. 4, 6.

Esta experiência nova de organização social será sempre a referência ao


longo da história de Israel. Será corroída na sua estrutura pelo instituição da
monarquia, mas permanecerá às escondidas com experiências isoladas, sempre a
questionar aos abusos dos reis.

3.3) Monarquia e Profetismo:


O período tribal foi uma experiência singular na história do povo da
Bíblia, ele será guardado na memória como tempo do reinado de Javé, onde a
justiça mantinha o equilíbrio das forças hostis a nova organização social.
Será um tempo de paz nos relacionamentos entre as tribos, porém, logo
aparecerão os conflitos internos e externos que se transformarão nas causas que
levarão a sociedade tribal ao seu declínio. Vamos estudar, agora, estes conflitos
causadores do fim do período tribal e início de uma nova fase na história de
Israel, a monarquia, onde a figura do rei, um homem só, concentra em suas mãos
o poder, tornando-se único soberano.
À diferença da sociedade tribal onde Javé era o rei, o poder partilhado
entre os juízes e juízas, líderes populares, com exército ocasional formado por
voluntários do povo e a justiça bem administrada, a monarquia se caracteriza
pela imposição de único soberano, o rei, amparado pela força de um exército
que se tornará permanente. A justiça passa agora a ser administrada por ele, mas
logo corroída pelos abusos dos seus interesses.
A manutenção deste único soberano e de sua estrutura será pesado demais
para o povo e conduzirá as tribos a uma situação de calamidade.

Mas, o que levou o povo a pedir um rei, dando início a realeza em Israel ?

a) Causas internas:
• a introdução do boi na agricultura que permitiu a realização dos
trabalhos agrícolas em menos tempo com um aumento da produção.

Isso levou ao enriquecimento as tribos que possuíam o boi, fazendo nascer


a classe social dos “donos do boi”, estes é que terão interesse no rei, pois ele se
tornaria num protetor dos interesses das tribos mais ricas, isto é, dos donos do
boi.
Saul, era dono de boi. Ele cuidava dos bois no campo.

Vamos ler 1º Samuel 11, 1-7.


Saul foi o que fez a transição do período tribal para a monarquia. Ele foi
ungido o primeiro rei em Israel, todavia, não se pode dizer que seu reinado tenha
sido realizado nos moldes da monarquia como tal, é somente com Salomão que
a monarquia atinge as sua feições próprias.
Saul, através do boi, controla o povo e passa a dar as ordens nas tribos em
Israel. Ao fazer em pedaços uma junta de bois, manda dizer ao povo: “A todo
aquele que não seguir imediatamente a Saul, assim se fará a todos os seus
bois”, quem controla o boi é quem dá as ordens, controlando a vida das pessoas.
Saul é enviado para combater os amelecitas e reduzi-los ao anátema, isto
é, ao extermínio.

Vamos ler no 1º livro de Samuel o cap. 15, 1-9.


Ao combater os povos inimigos, sobretudo, os amalecitas, Saul começa a
acumular riquezas. E isso não agrada a Javé, pois o combate contra as forças
inimigas tinha com fim a proteção dos bens e da terra, e não reter os despojos,
mas reduzir a nada tudo o que fosse do inimigo. Saul faz exatamente o contrário,
escuta mais ao povo do que a Javé e retém para si “o melhor do gado miúdo e
graúdo, os animais gordos e as ovelhas, enfim, tudo o que havia de bom não
quiseram incluí-lo no anátema; mas tudo o que era vil e desprezível o votaram
ao anátema”.
Vamos ler agora ainda no cap. 15 do 1º livro de Samuel os versículos 10-
23.
Mas Saul será advertido pela sua atitude que contrariou as ordens de Javé.
Então Samuel disse a Saul: “Por menor que sejas aos teus próprios olhos, não és
o chefe das tribos de Israel? Javé ungiu-te rei sobre Israel. Ele te enviou em
expedição e te disse: ‘Parte! Vota ao anátema esses pecadores, os amalecitas,
fazendo-lhes guerra até que sejam exterminados’. Por que não obedeceste a
Javé? Por que te precipitastes sobre os despojos e fizeste o que é mau aos olhos
de Javé?”
Não obedecer a Javé implica em punição. Por isso Saul será destituído de
seu lugar de rei: “Porque rejeitastes a palavra de Javé, ele te rejeitou: não és
mais rei”.
• a diversidade da terra, era outra causa, pois fazia com que as
tribos andassem à procura do melhor espaço para plantar e criar, isso vai
levar a acumulação da terra nas mãos de uns poucos.
• Outra causa interna foi a corrupção dos juízes, chefes do povo. A
tentação de fazer o poder dos juízes um poder hereditário, enfim se torna
realidade.

Vamos ler no livro do Juízes o cap. 8, 22-23.


O que Gedeão se recusa a fazer: tornar uma propriedade de sua família o
poder nas tribos de Israel Samuel o fará.

Vamos ler agora no 1º livro de Samuel o cap. 8, 1-2.


Aquilo que antes era constituído por aclamação popular, os juízes, passa
agora para o poder das famílias, que nem sempre apresentarão homens honestos
e envolvidos com a história das tribos, deixando-se orientar pelos seus próprios
interesses, eliminando a justiça e estabelecendo um poder centrado na
corrupção. Foi o que aconteceu com os filhos de Samuel que não seguiram o
exemplo do pai.

Confirme isso lendo 1º Samuel 8, 3-5.


Samuel começa a avacalhar a estrutura da sociedade tribal ao constituir
aos seus filhos juízes em Bersabéia.

Vamos ler agora no 1º livro de Samuel o cap. 2, 12-17.


• outra causa também foi a corrupção nos sacrifícios do Templo
pelo abuso do poder dos sacerdotes que já não queriam mais saber do limite
dos seus direitos na oferta dos sacrifícios do Templo e enviando seus servos
com um “garfo de três dentes, metia-o no caldeirão, ou na panela, ou no tacho,
ou na travessa, e tudo quanto o garfo trazia preso, o sacerdote retinha com
seu;...”. Assim se fazia com toda carne de animal oferecida em sacrifício no
Templo.
Essa realidade de corrupção dos líderes do povo e o surgimento dos donos
do boi que vão exigir a proteção de seus bens e de suas terras, vão levar ao
declínio a sociedade tribal e a consequente instituição da monarquia.

b) Causas externas:
Dentre as causas externas nós temos as constantes invasões e incursões
dos povos vizinhos em direção aos territórios das tribos, provocando uma onda
de roubos e guerras.
Os filisteus se transformaram numa ameaça poderosa para Israel, pois
com o domínio do ferro queriam expandir os seus territórios e isso desencadeou
grandes guerras contra Israel até o ponto de roubarem a arca da aliança, mas
serão vencidos por Davi que fará o retorno da arca da aliança.
Tudo isso vai se tornando progressivo, assustador e gerando uma certa
insegurança no meio das tribos até o ponto de nascer a idéia de pedir um rei. É
o começo da monarquia em Israel que vai de 1050 até 587a.C., terá seus altos e
baixos, será dividida com a morte de Salomão em dois reinos, o do Norte e do
Sul. O reino do norte, chamado de Israel com sua capital na Samaria terá o seu
fim em 722 a.C. destruído pelos assírios e o reino do sul, chamado reino de Judá
com sua capital em Jerusalém verá o seu fim com o exílio babilônico provocado
por Nabucodonosor em 587a.C.
Sobre o pedido do rei nós vamos ler no 1º livro de Samuel o cap. 8, 1-22.
Neste texto nós encontramos os direitos do rei. Vamos ler agora este texto.
Nenhum poder se mantém sem uma estrutura que o sustenta, por isso à
monarquia também era necessário todo um aparato a fim de manter-lhe a
estrutura.
Diante de tantas corrupções e abusos contra a estrutura da sociedade tribal
o povo clama por um rei, este deveria mantê-lo livre dos abusos do poder e dos
conflitos externos. A idéia era esta: ora se os outros povos têm um rei que cuida
dos seus interesses, porque nós também não temos, ele irá colocar freio ao
abuso do poder e manter longe do domínio estrangeiro a terra e os bens (1º Sm
8, 1-9).
Na sociedade tribal Javé é o rei. Ao pedir um rei para governar, o povo
manifesta sua recusa a Javé e consequentemente um rompimento com a aliança
estabelecida em Siquém.
Isso vai trazer consequëncias sérias para a vida do povo, que logo provará
o gosto amargo do seu pedido. Todavia, antes de Samuel ungir o rei ele
esclarece acerca da estrutura a qual o rei terá direito. Seriam os direitos do rei,
que nós acabamos de ler no cap. 8 do 1º livro de Samuel.
À partir do texto o rei terá os seguintes direito:
• Convocará: filhos e os encarregará dos carros, dos cavalos para
correr à frente, é o Exército.
• Nomeará chefes para o Exército a fim de administrá-lo.
• Ainda com os filhos fará lavrar a terra, ceifar e fabricar armas,
é a mão-de-obra.
• Tomará: filhas para perfumistas- cozinheiras- padeiras.
• Tomará ainda: campos- vinhas- olivais para dar aos seus
oficiais.
• Cobrará: o dízimo das culturas – vinhas e rebanhos para dar aos
seus eunucos e oficiais.
• Tomará: os melhores servos e servas para si.

“Vós mesmos vos tornareis seus escravos, diz o texto. Então, naquele
dia, reclamareis contra o rei que vós mesmos tiverdes escolhido, mas Javé não
vos responderá, naquele dia!”.
Pedir um rei é renunciar a Javé-rei, estabelecendo-se um luta entre Javé, o
único Deus e Baal, os outros deuses. “Javé, porém, disse a Samuel: ‘Atende a
tudo o que te diz o povo, porque não é a ti que eles rejeitam, mas a mim, porque
não querem mais que eu reine sobre eles. Tudo o que têm feito comigo desde o
dia em que os fiz subir do Egito até agora – abandonaram-me e seguiram outros
deuses – assim fizeram contigo.’ ”
Na história da monarquia em Israel, encontramos três grandes expressões
para o fortalecimento do projeto monárquico: Saul, Davi e Salomão. Eles, na
verdade, representam três projetos monárquicos diferentes, pois três grupos os
apóiam. “Ou em outras palavras: Saul, Davi e Salomão são representantes de
três grupos e projetos políticos distintos” (Mosáicos da Bíblia 7, Milton
Schwantes).
• SAUL, governou o povo entre os anos 1050- 1010 a.C. Ele foi
mais um juiz guerreiro que propriamente um rei. Se caracterizou como um
chefe militar. Não formou um exército profissional. Não organizou uma
capital. Não deve ter exigido tributo. Sua família e alguns amigos eram a
sua corte, que mais se parecia com uma assembléia familiar. Tentou impor
seu sucessor, mas isso não funcionou.
Seu estado não progrediu por algumas razões:
1- Porque os filisteus logo se opuseram;
2- Porque quem sustentava essa corte, de fato, não queria o estado;
3- O suporte do estado de Saul eram os “homens”, os camponeses
livres e mais abastados, os donos do gado. Esses queriam um rei, quando um
inimigo estava próximo. Quando não havia inimigo, já não estavam interessados
no estado.
Saul ficou sozinho com o estado que era de fato ele e sua família.
O estado de Saul foi destruído pelos filisteus. Seus restos foram
aniquilados por Davi ou aprisionados em Jerusalém. Gente da casa de Saul
chama a Davi: “Homem sanguinário e malvado” porque a seu entender
derramou sangue da casa de Saul (2º Sm. 16, 7-8).
• DAVI, governou o povo entre os anos 1010-970 a.C. Seu projeto
é outro. Forma-se no processo de sua vida. A princípio está com Saul.
Parece que se apresenta como o seu melhor sucessor, porque é bom nas
lutas contra os filisteus, porque é amigo de Jônatas e porque se casa com
Mical, a filha do rei. Candidata-se à sucessão, mas fracassa. Tem que fugir
de Saul e vai para o deserto. Aí junta-se com outros sem rumo nem destino.
São quatrocentos homens “endividados e desesperados”, gente
empobrecida, hapiru.

Vamos ler no 1º livro de Samuel o cap. 22, 1-4.


Davi torna-se líder e comandante dos hapirus. Este grupo armado se
transforma numa defesa do gado dos ricos, como Nabal.
Os pobres organizados em exército tornam-se defensores do gado dos
ricos. Esta é uma das principais funções do estado de Davi. Ele vem a ser
mercenário dos filisteus. Nisso aprende o que é o estado em sua forma mais
elaborada. Toma Hebron, o centro da grande Judá e a ocupa militarmente. Os de
Judá o tornam seu rei na cidade ocupada por seu exército. Depois também Israel
o aclama seu rei para ver-se livre dos filisteus. São os pobres em armas os que
são eixos deste estado. Eles estão a serviço dos senhores, são feitos mercenários.
Davi é uma pessoa cheia de contradições: defensor do povo e opressor ao
mesmo tempo. Ele é, de verdade, o primeiro rei de Judá e Israel.

Vamos ler no 2º livro de Samuel o cap. 2, 4 e logo em seguida o cap. 5,


1-5.
E porque através de suas guerras de conquistas estabelece o primeiro
território, conquista Jerusalém e a coloca como a primeira capital, fazendo o
retorno da Arca da Aliança para Jerusalém, e não cobrando o tributo das tribos
mas só dos povos conquistados será considerado um rei.
Mas, Davi também irá abusar do poder ao provocar adultério e homicídio,
ao favorecer a morte de Urias a fim de ficar com Betsabéia, sua mulher. Você
poderá confirmar isso no 2º livro de Samuel cap. 11.
Com a intenção de cobrar o tributo de todos os seus súditos Davi,
provocará um recenseamento.
Centralizará o poder em suas mãos.
• SALOMÃO, governou o povo entre os anos 970-931 a.C. À
partir dele a monarquia se torna hereditária. Fortalece e firma o que o pai
havia começado. No final da vida de Davi existiram muitas lutas pela
sucessão. Nestas lutas se opunham grupos mais ligados ao campo, a Judá,
contra outros mais ligados à cidade. No momento da sucessão estes dois
partidos se opõem numa disputa de vida ou morte. Salomão sai vitorioso
contra Adonias. Salomão representa a cidade de Jerusalém, Adonias, o
campo, Judá. Salomão é o governo das elites da cidade, do comércio.
Salomão organiza o tributo interno, em forma de arrecadação de alimentos
e de trabalho forçado. Para essa tributação era importante:
a- O Exército. O exército de Salomão quase não faz guerra com os
vizinhos. Mas era maior e melhor que o de Davi. O inimigo desse exército era
interno, eram os camponeses.
b- A Administração. Dividiu seu reino em províncias responsáveis
pela comida na corte. Estas províncias não eram idênticas às tribos, para impedir
a rebelião. Boa parte dos governadores eram da própria corte. Para fazer
funcionar esta administração era preciso sabedoria, formação de um grupo de
burocratas.
c- O Templo. A construção do Templo está em função da tributação
em espécies, em alimentos. O Templo está dedicado a Javé que é o Deus do
camponês, como em geral os templos tributaristas estão dedicados ao deus dos
tributos porque de outra forma estes não pagariam seus tributos.
Na sociedade tributária a religião hegemônica tende a ser a religião do
campo, mas esta é falsificada, no caso de Javé presa no santo dos santos,
portanto, desvirtuada. O Deus histórico é transformado, pelo templo, em um
Deus fora da história. Não é por acaso que os profetas não aceitam a teologia do
templo que Jeremias 7, 11 chama de “caverna de salteadores”.
O projeto de Salomão, da cidade, de constituir uma ilha de luxo em meio
ao empobrecimento do campo com a força das armas, manteve-se por um
tempo, mas cai por terra, vai à sepultura com o seu fundador, por volta de
931a.C.
À partir daí acontece o cisma político-religioso que vai dividir o reino
unido em dois reinos:
• o Reino do Norte, Israel derrotado pelos Assírios em 722 a.C.
• o Reino do Sul, Judá derrotado pelos Babilônios em 587 a.C.

A monarquia vai se caracterizar pelo abuso do poder, pelo controle da


terra e dos camponeses.
Quem consolidou a monarquia mesmo foram os reis Davi e Salomão. E
consolida-se após o último assassinato. De quem? De Semei último empecilho
ao reinado de Salomão. O assassinato de Semei pelas ordens de Salomão leva a
monarquia ao seu apogeu.

Vamos ler 1º Reis 2, 42-46.


Salomão se torna MELEC, em hebraico significa REI. Daí vem também a
palavra MELER que significa ADMINISTRADOR. Salomão, portanto, é Meler,
isto é, administrador. Sua capacidade administrativa favoreceu muito o
comércio, estabeleceu um pesado tributo nas costas do povo, levando ao
empobrecimento muita gente.

Vamos ler 1º Reis 10, 14-25.


“O peso do ouro que chegava para Salomão, anualmente, era de
seiscentos e sessenta e seis talentos de ouro, sem contar o que lhe provinha dos
tributos dos mercadores, do lucro dos comerciantes e de todos os reis dos
árabes e dos governadores da terra.”
Se vocês perceberam bem, no texto que agora acabamos de ler apareceu
uma numeração já conhecida por nós, porque aparece também no livro do
Apocalipse capítulo 13 versículo 18, como o número da Besta que extermina
com a vida das pessoa. Vamos ler!?
Seiscentos e sessenta e seis (666) é o número da Besta e que é bastante
usado por outras confissões religiosas para atacar a Igreja católica e perturbar a
cabeça de muitos católicos sem instrução e ingênuos em sua fé, afirmando que é
o número do Papa. Mas que absurdo, não!
Vejam bem, para que não haja mais confusão em nossa cabeça e fiquemos
mais firmes em nossa fé, vamos procurar esclarecer este mal entendido.
O número 666 significa a quantidade de talentos de ouro que Salomão
recebia por ano no seu reino. Na verdade, a sabedoria de Salomão foi tão grande
até ao ponto de se aproveitar desta capacidade que Deus dotou o ser humano
para transformar o seu reinado num sistema de muito luxo e riqueza.
Ora, vejam bem, um talento equivale a 50 kg, 666 talentos correspondem
a 33.300 quilos de ouro. É ouro pra valer. E isso tudo para uma pessoa só, a fim
de manter a estrutura do seu reino. Assim, o número 666 significa muito mais o
número do homem que estabelece e sustenta um sistema sugador e explorador
do suor, do trabalho e do sangue do povo, do que de um homem que para nós é
sinal da comunhão, da paz e preservação da vida e da justiça social no mundo, o
nosso Papa João Paulo II.
É por isso que o livro do Apocalipse atribui à Besta a numeração 666. Ela,
a Besta, é o símbolo de um imperador romano, César Nero considerado um
Deus e que por isso podia decidir sobre a vida e a morte. Para os cristãos da
Igreja primitiva, ele é um tirano e cruel homicida, exterminador da vida dos
cristãos e de muita gente pobre e miserável.
Na Bíblia de Jerusalém nós encontramos o seguinte afirmação: “Em grego
e em hebraico cada letra tinha um valor numérico segundo o lugar no alfabeto.
O número de um nome é o total de suas letras. Aqui “666” seria César-Neron,
em letras hebraicas; “616”, que é a sua variante, César-Deus, em letras gregas”.
Para entendermos o livro do Apocalipse é preciso que tenhamos diante de
nós o contexto histórico no qual o livro nasceu, a fim de não sairmos por aí
dizendo aquilo que, na verdade, o livro não quer dizer.
A título de esclarecimento, o livro do apocalipse não trata de questões
futuras para o presente da nossa história hoje, mas de perspectivas de mudanças
futuras para animar a esperança no presente das comunidades cristãs que
sofriam os abusos do poder de Nero e Domiciano, ambos imperadores de Roma,
cujas atitudes trouxeram muitos abalos para a vida do povo.
Tudo no palácio de Salomão era feito de ouro, “nada era de prata, porque
da prata não se fazia caso nenhum no tempo de Salomão”, nos revelou o texto.
Vamos ler 1º Reis 5, 2-5.
Salomão reduziu o seu povo a um forte e pesado sistema de tributação,
que não precisa gastar com o sustento diário do seu palácio, pois “recebia trinta
coros de flor de farinha e sessenta de farinha comum, dez bois cevados, vinte
bois de pasto, cem carneiros, além de veados, gazelas, antílopes, cucos
cevados”, nos revelou o texto.
Mas por que Salomão tinha todos esses privilégios? Porque sua sabedoria
foi sem igual. Na verdade, os sábios, os homens da inteligência são os que mais
se aproveitam do povo e beneficiados com as riquezas da nação. Os sábios
dominam, os ignorantes são dominados. Este ainda permanece a lógica da vida
na sociedade.
Salomão, diz o texto, “ dominava sobre toda a região da Transeufratênia”,
isto é, desde o Rio Eufrates até a fronteira do Egito que fica na terra dos
filisteus.
No palácio, a elite tinha um gasto enorme. Todos tinham o direito de ter
do bom e do melhor, mesmo que isso levasse a miséria a outros.
Vamos ler 1º Reis 5, 7.
Salomão distribuiu as despesas do seu palácio de acordo com o número de
prefeitos existentes no reino, 12 prefeitos (confirme em 1º Reis 4, 7). Assim,
cada um assumia um mês do ano a despesas do palácio. De sorte que os
banquetes oferecidos no palácio não saíam pesados aos cofres do governo.
Abaixo desta elite glutona e esbanjadora estava uma grande quantidade de
empobrecidos.
A situação de calamidade social é tão grande que com a morte de Salomão
o seu reino se divide, pois todo império explorar e exterminar da vida do povo
tende a desabar na sua estrutura. É isso que o livro do Apocalipse proclama para
as comunidades que sofriam com o abuso do poder, do comércio e do tributo do
Império romano.
A riqueza enche os olhos e gera conflitos, provoca divisões e estabelece as
guerras.
Salomão levou a riqueza do seu reino ao seu último grau. Tanto que após
a sua morte as intrigas foram tão grandes entre o seu filho Roboão e os
ministros, conselheiros de seu pai que, aquele que se caracterizava como um
reino unido, agora para poder manter-se tem que se dividir. Uns irão apoiar
Roboão e outros Jeroboão, servidor de Salomão no trabalho da corvéia, mas
revoltou-se contra o rei e este, desejando matá-lo, refugiou-se no Egito.
Na luta entre Roboão e Jeroboão, a conclusão foi a separação em dois
reinos: o Reino do Norte ou de Israel e o Reino do Sul ou de Judá. Um com
Jeroboão, Israel e outro com Roboão, Judá.
Tudo isso a monarquia viveu e fez também o povo viver.
É diante dessas situações provocadas pela monarquia que nascem os
profetas, homens de Deus. Eles vêm como oposição aos abusos da monarquia
que se afastou do compromisso estabelecida com Javé.
Os profetas serão os guardiões da justiça e do direito, bases fundamentais
da aliança feita com Javé, após a libertação do Egito. O movimento profético
será o clamor da justiça diante de tantas injustiças provocadas pelo excesso da
riqueza e pelo abuso do poder.
O horizonte social que determinará a ação dos profetas será sempre o
lugar social dos pobres, vítimas do sistema explorar dos reis.