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Escamas

Algumas estruturas morfológicas, apesar de possuírem origem e estrutura diferentes,


são comumente conhecidas pelo mesmo nome em vários grupos animais –
provavelmente devido à semelhança entre suas formas – e caso não conheçamos a
estrutura e a origem de uma estrutura morfológica, podemos chegar a interpretações
evolutivas errôneas.

As escamas são estruturas amplamente conhecidas popularmente e quando


pensamos nelas, automaticamente podemos imaginar sua forma, textura e todos os
animais que possuem essa estrutura morfológica. Porém, se examinadas com mais
carinho, as "escamas" podem nos dar valiosas pistas sobre a evolução dos grupos
que as possuem.

Examinemos as escamas dos


"répteis". Nos indivíduos incluídos
nesse grupo, a escama é uma das
estruturas queratinizadas da pele e
são freqüentemente chamadas de
Evaginação escamas córneas. Elas são
formadas a partir do espessamento
e endurecimento da epiderme cornificada. Desenvolvem-se Lado a Lado
embriologicamente como uma evaginação da epiderme contendo
uma papila de tecido mesodérmico. Em crocodilos e tartarugas essas
"escamas" encontram-se dispostas lado a lado, apoiadas sobre o
esqueleto ósseo dérmico; enquanto nos lagartos e cobras estas
encontram-se sobrepostas. Aves e mamíferos ancestrais possuíam
escamas córneas amplamente distribuídas em seus corpos, porém os
indivíduos atuais que apresentam-nas, o fazem somente em algumas
regiões – aves nos pés e pernas e mamíferos nas pernas, pés e cauda.
Podemos, então, afirmar que essas estruturas são homólogas e Sobrepostas
reconhecê-las pelo nome de escamas córneas.

Vamos agora ao conhecido grupo dos "peixes". Nesse grupo, as "escamas" são
formadas a partir do esqueleto dérmico, sendo o principal componente o osso,
formado diretamente em membrana. Os actinopterígios mais
primitivos (datando do Paleozóico) possuíam um tipo de
escama coberto por uma substância semelhante a ganoína,
porém, ao longo da evolução do grupo, houve uma tendência a
simplificar essa estrutura. Escamas cobertas com ganoína são
Escama ganóide encontradas somente nos atuais Polypterus – essas escamas
são chamadas de escamas ganóides.

Nos atuais grupos de "peixes" encontramos "escamas" mais


delgadas e flexíveis, formadas por camadas de substância
semelhante a do osso, porém com uma camada fibrosa
subjacente. Estas podem possuir duas formas distintas e
serem chamadas de escamas ciclóides – arredondadas em
sua borda – ou escamas ctenóides – que possuem a borda
Escamas ctenóides reta.

Mas e os tubarões com sua "pele de lixa"? A conhecida "pele


de lixa" dos tubarões é assim devido ao tipo de sua "escama"
– conhecida como escama placóide. Esta última possui a

Escama placóide
mesma estrutura dos dentes, com polpa, dentina e polpa, sendo também conhecida
como dentículo dérmico.

Agora, com essas informações, é possível entender que as populares "escamas" não
são um bom caráter para utilização em sistemática, pois ao utilizar "escamas" como
um caráter sistemático, todos esses tipos estarão sendo reunidos, criando um
problema, pois a origem e a estrutura de todos os tipos de "escamas" não é comum.
Então a solução é saber que tipo de "escama" estamos falando para trabalhar com os
grupos que apresentam e que não apresentam estrutura semelhante a desejada.