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11/09/2021 SENT

Poder Judiciário
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
16ª Vara Cível do Foro Central da Comarca de Porto Alegre
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AÇÃO CIVIL PÚBLICA CÍVEL Nº 5035504-85.2021.8.21.0001/RS


AUTOR: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
RÉU: ROBERTO JEFFERSON MONTEIRO FRANCISCO

SENTENÇA

Trata-se de ação civil pública ajuizada pelo Ministério


Público do Estado do Rio Grande do Sul em face de Roberto Jefferson
Monteiro Francisco, pelos fatos abaixo descritos, praticados,
sequencialmente, em 06/03/2021 e 12/03/2021, assim narrados:

1º FATO:

Segundo a representação apresentada ao Ministério


Público, o requerido ROBERTO JEFFERSON
MONTEIRO FRANCISCO, às 07h17min do dia 06 de
março de 2021, em sua conta na rede social Twitter
(https://twitter.com/BobjeffHD), procedeu à seguinte
postagem, por meio da qual, além de ofender a dignidade e
o decoro do Representante Político do Estado do Rio
Grande do Sul, Eduardo Leite, incitou, de forma chula, o
preconceito contra homosexuais, a partir da criação de
factóide ("relação de chás proibidos"). Observe-se a
seguinte transcrição, cujo Print da Postagem consta na
Representação ofertada pelo Governador
(https://linkmix.co/3882233):

"Por quê o filhote de FHC, Eduardo Leite, RS, não


proibiu a venda de cerveja? Porque Leman é
financiador da NOM e do PSDB. Li a longa lista de
produtos de consumo proibido por Leite, COLEGA de
Dória. No item dos chás não proibiu o chá de rola, que
como Dória, ele mama até o fastio."

A publicação do requerido deu-se um dia após o


Governador do Estado do Rio Grande do Sul, no regular
exercício de sua competência para adoção de medidas
sanitárias para o enfrentamento da pandemia da COVID-
19, restringir o atendimento presencial ao público para
venda de produtos não-essenciais em estabelecimentos
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comerciais, cuja abertura encontra-se permitida diante da


essencialidade de algumas atividades realizadas nestes
locais, e teve grande alcance no Twitter e em outras redes
sociais - https://linkmix.co/3854857.

2º FATO:

Ainda, em entrevista ao jornalista Milton Cardoso, na


Rádio Bandeirantes, em 12 de março de 2021, o requerido
praticou, induziu e incitou discriminação e preconceito de
orientação sexual ao associar à suposta condição de
homossexual do Governador do Estado qualidades
negativas, pelo demandado afirmadas como "típico papel
de viado". Segundo o demandado, a suposta vocação
ditatorial, absolutamente imoral e indigna do Governador
do Estado decorreria de aspectos narcisistas, doentios,
viciados e não-varonis ou viris de sua personalidade. Por
fim, concluiu que tais características, além do ódio ao povo
e o ódio à família, não seriam "papel de homem", mas sim
"típico papel de viado". Citou, ainda, no decurso da
entrevista, mais um factóide de cunho sexual, referindo -
sem a menor correspondência com a realidade - que o
Governador teria colocado, em todos os displays de
supermercado, camisinhas Jontex.
(https://www.youtube.com/watch?v=qAVnp0wntF8 e
https://linkmix.co/3882233). Veja-se a seguinte
transcrição: 

"Entrevistador Milton Cardoso: O candidato dele à


presidência da República é o Governador do Rio
Grande do Sul, o jovem Eduardo Leite, com 35 anos. 

Entrevistado Roberto Jefferson: o que é uma absoluta


vergonha né, esse rapaz, o que tá fazendo no Rio
Grande do Sul. Tem uma vocação ditatorial
absolutamente imoral, indigna, incorreta, não é? Uma
coisa narcisista, doentia, uma coisa assim viciada, não
é? Eu diria até que não é uma coisa varonil, você pegar
uma vendedora de sorvete, espancar, prender, não é
uma coisa varonil, não é uma coisa de um homem viril,
não é? Eu diria até que é coisa de viado. Eu diria até
para você Milton que isso é coisa de viado. Não sei
como é o comportamento dele, mas eu diria que é um
típico papel de viado, não é um papel de homem, esse
ódio ao povo, ódio à família... 

Entrevistador Milton Cardoso: esse vídeo que o senhor


deve estar se referindo foi no ano de 2019, de uma
senhora, eu cobrei isso no início do programa, na
prefeitura com o prefeito Nelson Marchezan, viu? Não
têm nada a ver com o Governador Eduardo Leite.

https://eproc1g.tjrs.jus.br/eproc/controlador.php?acao=acessar_documento_publico&doc=11631296761490387744416409772&evento=82100081&key=2997c5… 2/7
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Entrevistado Roberto Jefferson: Ah não? 

Entrevistador Milton Cardoso: Não, não.

Entrevistado Roberto Jefferson: Mas o Eduardo Leite é


que afrontou a Constituição fazendo aí o lockdown
grave, toque de recolher. Mandar botar camisinha em
supermercado, em display de supermercado, o que que
o povo pode consumir, o que que o povo não pode
consumir. Que conversa é essa? Isso é uma ditadura
inconcebível. Isso é uma ditadura inconcebível. Quer
dizer, botou camisinhas Jontex em todos os displays
(...)”.

Após descrever os fatos, tece considerações sobre a fala


homofóbica do requerido, conduta reprovável e equiparável ao crime de
racismo, em sua dimensão  social, conforme entendimento do  Supremo
Tribunal Federal, quando do julgamento da Ação Direta de
Inconstitucionalidade por Omissão n. 26. Refere que a qualidade das
figuras envolvidas, de um lado o Chefe do Executivo Estadual, e,
de  outro, a de um Presidente de Agremiação Partidária de caráter
nacional (PTB), dão aos fatos dimensão que transborda um conflito
individual ou celular, a malferir, o requerido, uma gama de vulneráveis,
quais sejam, as pessoas integrantes das comunidades LGTB+. Faz
considerações sobre a dignidade da pessoa humama e sobre o princípio
jurídico da igualdade, fundantes do Estado Democrático brasileiro, além
de invocar convenções internacionais sobre o combate ao
racismo.  Requer, alfim, a  condenação do demandado a indenizar o
Fundo de Reconstituição dos Bens Lesados, em dano moral a ser fixado
pelo juízo. Requer, ainda, em sede de antecipação de tutela, que o post
inserido no tuíter seja excluído,  

Concedida a antecipação parcial dos efeitos da tutela pela


decisão constante no evento 8, determinou-se o aditamento da inicial
para o fim de incluir no pólo passivo o Partido Trabalhista Brasileiro.

Sobrevém pedido de reconsideração (evento 20), o qual


restou acolhido por este juízo, em decisão proferida no evento 27, a fim
de afastar o dever de aditamento e inclusão da agremiação partidária, ao
argumento de ser a efetividade, ou não, das decisões judiciais um juízo
de mera conveniência que refoge ao âmbito da jurisdição.

Citado, o requerido apresenta  resposta  no evento 34,


arguindo, preliminarmente, inadequação da via eleita por ausência de
interesse jurídico tutelável pelo Ministério Público, vez que a suposta
ofensa foi praticada especificamente contra o Governador do Estado,
portanto, a direito individual e disponível, não abarcada pelos deveres
constitucionais do parquet, logo emergindo, deste raciocínio, a
ilegitimidade ativa. No mérito, propriamente dito, refere que a inicial é
fruto de "perseguição vivenciada no Brasil" por "grupo extremamente
organizado", "fartamente subsidiado por capital estrangeiro" e
"associado aos partidos de esquerda". Refere que o comandante gaúcho
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também incita a população contra o atual Presidente e não vê, o


requerido, qualquer articulação ministerial em face do mesmo. Confirma
as expressões utilizadas, mas não infere delas conteúdo homofóbico, por
representarem ditos populares  e proferidas no âmbito de discussão
política. Refere que a sua fala pode, quando muito, causar injúria contra
a pessoa física do Governador, mas jamais representar discurso de ódio
ou homofóbico contra a comunidade LGBT+. Tece considerações sobre
o dano moral postulado, requerendo, alternativamente, moderação em
sua fixação. Requer a improcedência.

Sobrevém réplica (evento 42) e posterior petição do


Ministério Público (evento 45), afirmando estar a conta do requerido
suspensa no Twitter.

Concluso o feito para julgamento.

É o relatório.

Passo a decidir.

Do julgamento antecipado.

Não havendo necessidade de dilação probatória,


considerando serem os fatos articulados à inicial incontroversos, passo
ao imediato julgamento do feito, forte no art. 355, I, do Código de
Processo Civil.

Das preliminares.

Afasto as preliminares de via inadequada, por suposta


ausência de interesse jurídico tutelável pelo Ministério Público, e
consequente ilegitimidade ativa.

Com efeito, (a) a qualidade das figuras envolvidas nos


fatos, de um lado o Governador do Estado, e, de outro, o Presidente
Nacional do Partido Trabalhista Brasileiro;  (b) a difusão do dito, seja
pelo tuíter, seja por programa de rádio, portanto, em ambientes privados
mas de alcance públicos; e (c) considerando que a origem do debate foi
o inconformismo do réu com medida sanitária tomada pelo Governador
do Estado do Rio Grande do Sul, portanto, tratando-se de debate público,
por óbvio que a conjunção destes três fatores, assim resumidos,
qualidade das partes, ambiente público e causa pública, por óbvio
que as afirmações refogem ao âmbito privado e da esfera disponível do
Governador do Estado, atingindo, portanto, as falas do requerido uma
gama de pessoas, imensuráveis, que habitam esse Estado, quais sejam,
os vulneráveis LGBT+, sejam eles organizados, ou não.

Assim sendo, correta a via utilizada pelo Ministério


Público, vez que a ação civil pública serve à proteção de direitos
fundamentais de comunidades vulneráveis, sendo, por consequente,
correta a sua legitimidade ad causam.

Superadas a preliminares, adentra-se no mérito.


https://eproc1g.tjrs.jus.br/eproc/controlador.php?acao=acessar_documento_publico&doc=11631296761490387744416409772&evento=82100081&key=2997c5… 4/7
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Do mérito.

Importante afirmar, por primeiro, que a propalada


"perseguição vivenciada no Brasil" por "grupo extremamente
organizado", "fartamente subsidiado por capital estrangeiro" e
"associado aos partidos de esquerda" são alegações vãs e destituídas de
qualquer adminículo de prova, e que não podem servir de escudo para
malferimento da ordem jurídica brasileira.

Por segundo, não há no direito brasileiro liberdade de


expressão com valor absoluto, encontrando ela, a liberdade, limites
extrínsecos em outros princípios constitucionais, como a igualdade
jurídica de tratamento e o princípio da dignidade da pessoa
humana. O Supremo Tribunal Federal pronunciou-se sobre o assunto,
de forma plenária, quando do julgamento do Habeas Corpus n. 82.424,
"Caso Ellwanger", em 17/09/2003, na parte que interessa, assim
ementado:

"13. Liberdade de expressão. Garantia constitucional


que não se tem como absoluta. Limites morais e
jurídicos. O direito à livre expressão não pode abrigar,
em sua abrangência, manifestações de conteúdo imoral
que impliquem ilicitude penal.

14. As liberdades públicas não são incondicionais, por


isso devem ser exercidas de maneira harmônica,
observados os limites definidos na própria Constituição
Federal (CF, artigo 5º,  2º, primeira parte). O preceito
fundamental da liberdade de expressão não consagra o
"direito à incitação ao racismo", dado que um direito
individual  não pode constituir-se em salvaguarda de
condutas ilíctas, como sucede com os delitos contra a
honra. Prevalência da dignidade da pessoa humana e
da igualdade jurídica"

Assim, as falas do requerido não estão, em absoluto,


conforme o ordenamento brasileiro, muito menos com
a interpretação feita pelo Supremo Tribunal Federal, pois, ao realizar o
debate público sobre as restrições sanitárias impostas pelo autor, este no
exercício de suas funções públicas, em meio à  pandemia, usa o
demandado de argumento racializante, ao propor uma superioridade de
pessoas heterossexuais sobre as homossexuais, substituindo qualquer
argumento racional por um preconceito perverso e odioso, ao reduzir a
iniciativa pública a uma "coisa de viado", na  fala ao programa
radiofônico, ou a suposta exclusão de  "chá  de rola" da lista dos
produtos restringidos como essenciais.

Ora, conforme assentado no julgamento acima dito, ou na


ADO 26, informada pelo Ministério Público, quando o Supremo
Tribunal Federal criminalizou a homofobia e a transfobia, como crime
de racismo, em sua dimensão social, restou assente que o mote do
racista é a diminuição e o aviltamento do ser humano, baseado em
https://eproc1g.tjrs.jus.br/eproc/controlador.php?acao=acessar_documento_publico&doc=11631296761490387744416409772&evento=82100081&key=2997c5… 5/7
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critérios de raça, sexo, etnia e  cultura,  sob o falso pressouposto da


existência de pessoas superiores e inferiores, o que não se admite e não
se sustenta perante a Costituição Federal, que recrimina toda e qualquer
forma de discriminção, preconceito ou ódio, consequência da igualdade
jurídica e dignidade de toda e qualquer pessoa humama.

Por fim, o  fato da linguagem ser simples, popular, não


polida, e empregada no debate  público, como dito em sede de defesa,
não afasta em nada o cometimento do crime de racismo. Ao contrário, o
potencializa, pois aproveita do espaço de discussão pública para
retroalimentar o seu preconceito, a sua visão perversa de mundo,
atingindo um número maior de pessoas, em verdadeira incitação ao ódio
público às pessoas que tem orientação sexual diversa da do requerido.

Portanto, enquadradas como homofóbicas as falas do


demandado, equiparável ao crime de racismo, cumpre indenizar a
coletividade atingida, o que passo a arbitrar.

Considerando o requerido ocupar a presidência de partido


nacional e histórico,  tratar-se de ofensa repugnante, inadmissível
e  odiosa, dado, ainda, o caráter punitivo que deve guiar o dano moral
nestas hipóteses, considerando, também, o destino de tal verba, de
interesse público, a guiar ações de combate e repação de bens lesados,
tenho por arbitrar o dano moral a ser satisfeito pelo requerido à ordem de
R$ 300.000,00 (trezentos mil reais), valores esses a serem corrigidos
pelo IGP-FGV desde o presente arbitramento, mais juros de mora de 1% 
ao mês a contar da primeira ofensa.

Dispositivo.

Pelo exposto, julgo procedente a presente Ação Civil


Pública aforada pelo Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul
em face de Roberto Jefferson Monteiro Francisco, devidamente
qualificado, para o fim de condená-lo ao pagamento da importância de
R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) ao  Fundo de Reconstituição dos
Bens Lesados, valores esses a serem corrigidos pelo IGP-FGV, desde o
presente arbitramento, mais juros de mora de 1%  ao mês a contar
da primeira ofensa.

Custas pelo demandado, sem honorários.

Remeta-se cópia da presente sentença e de todo o


processso ao Ministério Público Estadual do Distrito Federal, a fim de
apurar, em seu juízo de deliberação, a responsabilidade civil do Partido
Trabalhista Brasileiro, por omissão, forte no artigo 15, § único, da Lei
9.096/95.

Documento assinado eletronicamente por RAMIRO OLIVEIRA CARDOSO, Juiz de


Direito, em 10/9/2021, às 16:27:16, conforme art. 1º, III, "b", da Lei 11.419/2006. A
autenticidade do documento pode ser conferida no site

https://eproc1g.tjrs.jus.br/eproc/controlador.php?acao=acessar_documento_publico&doc=11631296761490387744416409772&evento=82100081&key=2997c5… 6/7
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https://eproc1g.tjrs.jus.br/eproc/externo_controlador.php?
acao=consulta_autenticidade_documentos, informando o código verificador 10010852327v73
e o código CRC 263e1207.

 
5035504-85.2021.8.21.0001 10010852327
.V73

https://eproc1g.tjrs.jus.br/eproc/controlador.php?acao=acessar_documento_publico&doc=11631296761490387744416409772&evento=82100081&key=2997c5… 7/7