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O ANO LITÚRGICO COMO ITINERÁRIO DA FÉ

1. A sacramentalidade do ano litúrgico

Para construir uma espiritualidade que seja fundada na celebração do mistério de


Cristo, do qual o ano litúrgico é memória sacramental, é indispensável contemplar os
mistérios de Cristo como eventos de salvação e não apenas como episódios
‘edificantes’ destinados a suscitar a devoção e a imitação moral (...). Sem negar o
aspecto de verdade existente nesta perspectiva é necessário colocar em evidência o
dinamismo do mistério de Cristo atualizado e operante na ação litúrgica. Cristo está
sempre presente na Igreja e especialmente nas ações litúrgicas (SC 7) para realizar a
obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus em seu mistério pascal
(SC 5)1.

Tudo o que a bíblia narra, do gênesis ao apocalipse, a liturgia representa ao longo do


caminho que vai do primeiro domingo do advento à festa do Cristo Rei. Na Bíblia
são palavras e ações, intimamente relacionadas entre si, que narram o misterioso
encontro de Deus com o seu povo. A liturgia, com a linguagem que lhe é própria,
volta a narrar estas palavras e ações, sobretudo as palavras e ações de Jesus, os
mistérios nos quais Deus revelou o seu desígnio de salvação. (cf. Auge, 2002, 48-
49). “O que era visível em nosso Redentor passou para os mistérios” (Leão Magno).

Porém, não se trata de simples reprodução dramática da vida terrena de Cristo; é


anúncio e realidade do mistério pascal de Cristo que se manifesta nos mistérios ou
ações de Cristo, celebradas ao longo do ano litúrgico, pelas quais em Cristo se
revelou o desígnio da Salvação de Deus. (cf. Auge 48-49). Aquilo que aconteceu
‘uma vez por todas’ é atualizado ritualmente pela memória litúrgica, na qual os que
participam do rito afirmam sua adesão à salvação oferecida em Jesus Cristo. A
liturgia lembra de novo o que Deus propõe em Jesus e pede a nossa adesão de fé (cf.
Auge, 2002, 48-49).

Paulo VI na Introdução das Normas Universais do Ano Litúrgico e do Calendário


Romano lembra que “o ano litúrgico goza da força sacramental e especial eficácia
para nutrir a vida cristã”. Em que consiste, concretamente, o ano litúrgico, enquanto
ação ritual com força sacramental e especial eficácia? Trata-se de textos bíblicos,
orações, cores, círio pascal, coroa do advento, santa ceia, a música... sinais sensíveis
que pretendem revelar as atitudes próprias do mistério celebrado. O próprio do
tempo é sinal sensível (o dia e a noite, manha e tarde, o domingo, os tempos
litúrgicos) ao qual associamos o mistério pascal de Cristo, tornando presente, na ação
ritual.

1
Cf. AUGÉ, Matias. Espiritualidade Litúrgica: oferecei vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. São
Paulo: Ave Maria, 2002, p. 50
...“O mistério pascal não é propriedade da liturgia, mas este mistério não é possível
ser alcançado sem a mediação litúrgica”. (cf Augé, 2002, p. 53). É através dos sinais
sensíveis que temos acesso ao mistério do natal, da páscoa, de pentecostes. “A
liturgia expressa a fé de modo evocativo, poético, simbólico, existencial e assim nos
põe em contato com mo evento fundador. Sua finalidade primeira não é expressar a
fé racionalmente, mas celebrá-la existencialmente e transportar-nos
sacramentalmente ao evento-base de nossa fé”2.

A presença atual do mistério de Cristo na história não se realiza por meio de


especulação intelectual, nem mediante uma certa interiorização, e sim através dos
sinais sensíveis simbólico-sacramentais, no âmbito da comunidade (cf. SC 7). Assim,
dia após dia, ano após ano, vamos sendo atingidos pelo mistério de Cristo e pela
graça do Espírito que opera a nossa transformação. Cada tempo é vivido como sinal
sagrado, simbólico-sacramental dos novos tempos do Reino de Deus, da vida nova
em Cristo, da presença atuante no decurso de nossas vidas e no dinamismo da
história da humanidade!

2. O valor pedagógico do ano litúrgico

A espiritualidade litúrgica responde a uma busca de Deus que não é em primeiro


lugar ascese pessoal, mas acolhida do dom de Deus em Jesus Cristo, vivida n oculto
e na fidelidade ao seu projeto. De acordo com esta compreensão, a pessoa de fé
aprende a orientar sua oração de acordo com uma espiritualidade eclesial,
alimentando e aperfeiçoando a sua vida cristã, através da participação na eucaristia,
nos sacramentos, na oração da igreja, segundo o ritmo próprio do ano litúrgico 3.
“Trata-se de um itinerário existencial: a vida inteira é envolvida no caminho litúrgico
e é iluminada por ele, sem reduzir tudo à liturgia, mas inserindo como fermento a
celebração na vida4.

De fato, a dinâmica de crescimento na experiência cristã não pode prescindir do


pressuposto teológico de que fé e sacramento são dois aspectos complementares da
atividade santificadora da Igreja. Ao caminho e maturidade da fé, corresponde o
caminho e maturidade do rito. A fé se exprime no rito e o rito reforça e fortifica a fé.
A pastoral litúrgica dá pouca importância a esta conexão e se verifica muitas vezes
ruptura entre o caminho da fé e o caminho do rito litúrgico, o que leva muitas
pessoas a buscar o alimento da fé, nas devoções...5 Se esta conexão é levada a sério, a
2
TABORDA, Francisco. Lex Orandi – Lex credenti: origem, sentido e implicações de um axioma teológico.
Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, 35 (2003) p. 81-2
3
“A vida cristã apresenta três momentos que são intrínsecos: liturgia-fé-ética (esta última compreendida como a prática
da vida cristã de cada dia)”. ... Desta maneira a ética deixa de ser um ‘dever’ ou obra nossa, paa ser obra de Deus em
nós. A liturgia deixa de ser um momento estético ou uma formalidade, para ser expressão da nossa vida; e a fé não será
apenas conhecimento intelectual, mas entrega a Deus numa vida de seguimento, contemplação do mistério celebrado
na liturgia. Cf. TABORDA, Francisco. Lex Orandi – Lex credenti: origem, sentido e implicações de um axioma
teolpogico. Perspectiva Teológica, Belo Horizonte, 35 (2003) p. 81-2.
4
AUGÉ, Matias. Espiritualidade litúrgica: oferecei vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. São
Paulo: Ave Maria, 2002, p. 54
5
Ufficio litúrgico diocesano de Bari. L’ano litúrgico como itinerário de fede: proposta pastorale e comento. 1982, p.
12.
íntima união com Cristo pascal, inaugurada com o batismo-confirmação, cresce,
desenvolve-se e se consolida na assídua vida espiritual. Articulando ‘continuidade’ e
‘ciclicidade’, o ano litúrgico responde às exigências de crescimento na fé.

Os tempos e as festas que voltam a cada ano, não é um monótono repetir-se das
coisas, nem é um passar de um tempo a outro como se fossem roupas que vamos
mudando superficialmente. O ano litúrgico com os mesmos conteúdos retomados a
cada não, em circunstâncias e etapas diferentes no caminho da fé, é uma
representação sacramental do mistério de Cristo e da sua Igreja. É uma repetição de
símbolos, gestos e palavras, que repercutem em nossa vida sempre com maior
intensidade e nos permitem avançar no processo pascal de nossa identificação com
Cristo, até atingirmos “o pleno conhecimento do Filho de Deus, o estado de ser
humano perfeito, a ‘estrutura’ da plenitude de Cristo” (Ef 4,13). A representação
gráfica do ano litúrgico em forma de espiral, sugere o repetir dos mistérios como
realidade progressiva na vida das pessoas, na história, na cultura de cada povo.

3. O trabalho pastoral

Para que o ano litúrgico se torne, de fato, uma referência para o caminho da fé, é
preciso acreditar na força sacramental e pedagógica do ano litúrgico e fazer o
necessário investimento pastoral.
Concretamente significa:

a) O cuidado com a formação, não só para as equipes mas também para o povo;
não apenas uma formação intelectual, mas uma formação que, partindo da
celebração no ritmo do ano litúrgico, conduza à compreensão teológica e à
vivência espiritual.
b) Nos planejamentos comunitário, paroquial, diocesano, priorizar o ano litúrgico
em articulação com o calendário pastoral e calendário popular.
c) Qualificar as celebrações, prevendo tempo de preparação da equipe,
valorizando os elementos rituais próprios de cada tempo (cores, ações
simbólicas...) com destaque na música (repertório que contemplam todas as
celebrações do ano – hinário litúrgico da CNBB).
d) Introduzir na própria vida e na pastoral a lectio divina, lembrando que “o
itinerário celebrativo do ano litúrgico é realizado sob a direção da palavra de
Deus para chegar à palavra proclamada em sintonia com a interpretação da
igreja”. Auge p. 54. Não basta ler e meditar só quando precisa se preparar para
fazer uma leitura, ou quando vai fazer a homilia. Isso é necessário, mas não é
suficiente. É importante freqüentar a palavra a cada dia, buscando uma relação
pessoal com Deus que se revela a nós e nos conduz ao conhecimento de nós
mesmos por meio de sua Palavra. E isso vale também para toda pessoa que
deseja viver de modo mais profundo o seguimento de Jesus. A lectio divina é
método de leitura não só dos textos bíblicos, mas também dos textos litúrgicos
(orações, músicas...)
e) Passar de uma visão do ano litúrgico como colcha de retalhos, fragmentando,
para compreensão global e unitário, onde “o todo se realiza nas partes”.
f) Superar uma visão rubricista que faz do ano litúrgico mera formalidade. Entra
ano e sai ano, e tudo repete estaticamente, sem preocupação alguma com a
busca espiritual do povo de Deus, sem abertura ao que acontece na história.
g) Superar a mentalidade capitalista que reduz o tempo ao econômico, com
inversão de símbolos (encher o domingo de atividades; não permitir que o
advento seja advento, enchendo-o com símbolos e músicas próprias da festa
do natal; trocar o Menino Jesus pelo Papai Noel).

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