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Universidade Estadual de Montes Claros – UNIMONTES

Centro de Ciências Sociais Aplicadas – CCSA


Curso de Direito – 2° período noturno
Professora: Ionete de Magalhães Souza
Disciplina: Linguagem e Argumentação Jurídica
Acadêmica: Sandy Silva Brito

FICHAMENTO

CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. (Tradução de Ellen Gracie


Northfleet). Porto Alegre: Fabris, 1988. 168p.

Introdução
A ilustre obra de Mauro Cappelletti e Bryant Garth, O acesso à justiça, traduz os
empecilhos mais notórios em relação à práxis do acesso à Justiça e apresenta mecanismos
para que essas barreiras possam ser ultrapassadas.

 Evolução do conceito teórico de acesso à justiça


Com a leitura da obra é possível perceber a explanação de que o conceito de
acesso à justiça passou por frequentes alterações, conforme os estudos e acepções do processo
civil avançaram no tempo. Nesse sentido, os autores elucidam que o acesso à justiça, em
meados dos séculos XVIII e XIX, pautava-se em uma espécie de direito formal de cada
indivíduo de sugerir ou denegar alguma ação. Sob essa ótica, elenca-se que o Estado não
apresentava a devida atenção à habilidade efetiva de um indivíduo gozar plenamente a justiça
– “O Estado, portanto, permanecia passivo, com relação a problemas tais como a aptidão de
uma pessoa ara reconhecer seus direitos e defende-los adequadamente, na prática.” (p. 9) A
título de exemplo, tem-se o fato de que se fazia o uso de certos procedimentos, a fim de
resolver litígios civis que expressavam a concepção individualista dos direitos.
Paulatinamente, o conceito de Direitos Humanos elucidou-se e tomou maiores proporções,
haja vista que, com o passar dos anos e com as mudanças nos modos de relacionamento,
tornou-se necessário a maior interação social, o que intensificou o caráter coletivo,
fomentando a cessão do pensamento individualista dos direitos. Nesse contexto, documentos
como a Constituição Francesa de 1946, por exemplo, deram respaldo para o avanço na
consolidação e efetivação de direitos essenciais, como direito à saúde, à segurança, à
educação, ao trabalho entre outros. Paralelo a isso, se elevou, cada vez mais, o caráter
fundamental do direito ao acesso à justiça bem como a utilidade de se disponibilizar meios
para reivindicação de direitos.
 O significado de um direito ao acesso efetivo à justiça: os obstáculos a serem
transpostos
“[...] quantos dos obstáculos ao acesso efetivo à justiça podem e devem ser atacados? A
identificação desses obstáculos, consequentemente, é a primeira tarefa a ser cumprida.”
(p.15) A partir desse trecho, fica claro que reconhecer e ponderar quanto à superação de
certos empecilhos é importante para efetivar o acesso à justiça. Os autores destacam:
Custas Judiciais – as ações judiciais representam grandes custos financeiros e em países
como o Brasil o litigante é penalizado por mais de uma via e, além disso, as classes com
hipossuficiência financeira saem prejudicadas pelos gastos e/ ou por receber menos do
que lhe é direito. A demora em solucionar litígios também representa grande obstáculo
–; Possibilidade das partes – é grande a quantidade de pessoas que, pela carência
educacional e cultural ou pela dificuldade para se situar no âmbito jurídico, encontra
limitações para o acesso à justiça –; Problemas Especiais dos Interesses Difusos – “[...]
são interesses fragmentados ou coletivos, tais como o direito ao ambiente saudável, ou à
proteção do consumidor.” “[...]ou ninguém tem direito a corrigir a lesão a um interesse
coletivo, ou o prêmio para qualquer indivíduo [...] é pequeno demais para induzi-lo a
tentar uma ação.” Com isso, é explícito que um problema está atrelado a outro, fazendo
com que a solução de um sirva para outros.

 As soluções práticas para os problemas de acesso à justiça


Os autores dividiram os mecanismos de resolução dos impasses ao acesso à justiça no
que denominaram de “ondas”. A primeira é assistência judiciária para os pobres –
diminuir as desigualdades que inviabilizam o acesso à justiça para milhares de pessoas,
devido à baixa renda –; a segunda seria a representação dos interesses difusos – é uma
forma de adequar noções passadas às demandas que surgiam, ou seja, oferecer tutela
estatal para os direitos privados, públicos e para os que não se encaixavam em nenhuma
dessas vertentes –; e, por fim, a terceira onda que é do acesso à representação em juízo
a uma concepção mais ampla de acesso à justiça – trata-se de uma espécie de
reformulação de caráter interno, proporcionando representação para todos os subtipos
de direitos, a fim de suprir as lacunas referentes à ausência de proteção estatal, ou seja,
os chamados “vazios de tutela”.
 Tendências no uso do enfoque do acesso à justiça
Na visão dos autores, o enfoque do acesso à justiça é de grande relevância, porém
necessita evoluir. Nesse sentido, é elucidado a importância de se modernizar tribunais
e/ou conceber modificações legislativas, especialmente nos procedimentos, com o
propósito de aumentar a acessibilidade, inclusive no plano financeiro, e tornar o mais
breve possível o processo civil para que as decisões judiciais não sejam a manifestação
das discrepâncias sociais, mas sim o reflexo da verdadeira justiça. Para tanto, Mauro
Cappelletti e Bryant Garth enfatizam que se deve, cada vez mais, utilizar alternativas
como “[...] o juízo arbitral, a conciliação e os incentivos econômicos para a solução dos
litígios fora dos tribunais.” (p.81), a fim de se alcançar o objetivo primeiro que é a
justiça.

 Limitações e risco do enfoque de acesso à justiça: uma advertência final


Ainda que não seja de forma plena, muitas dessas medidas já foram incrementadas no
sistema, mas, para concretizar o acesso à justiça, precisa-se de intervenção para que as
barreiras que impedem de solucionar os problemas já mencionados. Entretanto,
conforme afirmam os autores “Ao saudar o surgimento de novas e ousadas reformas,
não podemos ignorar seus riscos e limitações.” (p.161). Sob essa ótica, considera-se que
“Nossa tarefa deve consistir, com o auxílio de pesquisa empírica e interdisciplinar, não
apenas em diagnosticar a necessidade de reformas, mas também, cuidadosamente,
monitorar sua implementação.” (p.162), pois o fito não é proporcionar uma justiça
apenas aos mais frágeis financeiramente, mas sim um acesso adequado a todos.

Montes Claros, ...de ...de 2020.

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