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ANTONIO DONIZETTI SGARBI

BIBLIOTECAS PEDAGÓGICAS CATÓLICAS:


ESTRATÉGIAS PARA CONSTRUIR UMA

“CIVILIZAÇÃO CRISTÔ
E CONFORMAR O CAMPO PEDAGÓGICO

ATRAVÉS DO IMPRESSO (1929-1938)

DOUTORADO – EDUCAÇÃO: HISTÓRIA E FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


2001
ANTONIO DONIZETTI SGARBI

BIBLIOTECAS PEDAGÓGICAS CATÓLICAS:


ESTRATÉGIAS PARA CONSTRUIR UMA

“CIVILIZAÇÃO CRISTÔ
E CONFORMAR O CAMPO PEDAGÓGICO

ATRAVÉS DO IMPRESSO (1929-1938)

Tese apresentada à Banca Examinadora


da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo como trabalho parcial para
obtenção do grau de Doutor em
Educação: História e Filosofia da
Educação, sob orientação da Profª Drª
Marta Maria Chagas de Carvalho.

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


2001
COMISSÃO JULGADORA

I
RESUMO

O objeto desta investigação — ―Bibliotecas Pedagógicas Católicas‖ — se


encontra no âmbito da História Cultural dos Saberes e Práticas Pedagógicas. São
bibliotecas ―sem muros‖, ―imateriais‖, constituídas pelo inventário dos impressos
(livros, revistas, artigos de jornal etc.) produzidos, lidos, criticados, postos em
circulação pelos membros (sujeitos de nossa pesquisa) de duas instituições católicas,
o Centro D. Vital (CDV) e da Confederação Católica Brasileira de Educação (CCBE)
editores das revistas A Ordem e Revista Brasileira de Pedagogia (RBP),
respectivamente. Estes impressos, divulgados entre 1929 e 1938, são tomados, nesta
pesquisa, em sua ―materialidade‖ de ―objetos culturais‖, ―suporte de um sentido,
transmitido pela imagem ou pelo texto‖, na perspectiva do historiador Roger
Chartier; a forma de transmissão deste sentido — concepção de vida, de mundo, de
pedagogia — são vistas como ―estratégias‖ para impor saberes e normatizar práticas,
na perspectiva de Michel de Certeau.
Colhe-se como resultado desta pesquisa: a continuidade na ampliação das
fronteiras disciplinares da História da Educação; a evidência da importância de
analisar o impresso como objeto cultural que guarda as marcas do seu uso; o maior
conhecimento das concepções pedagógicas dos educadores católicos como
determinantes das suas estratégias editoriais; a abertura do campo de pesquisa da
História Cultural dos Saberes e Práticas Pedagógicas, em termos de método
comparativo, já que a mesma está inserida num projeto mais amplo de pesquisa que
aprofunda a constituição do campo pedagógico através dos intelectuais, dos
impressos e das instituições.

II
ABSTRACT

The object of this research — Catholic Pedagogical Libraries — belongs to


the cultural history of knowledge and pedagogical practices. They are ―immaterial‖
libraries, with no walls, constituted by press material inventory (books, magazines,
newspaper material) produced, read, criticized, circulated by the members (subjects
of this research) of two Catholic institutions, Centro D. Vital and Confederação
Católica Brasileira de Educação (CCBE), respectively editors of A Ordem and
Revista Brasileira de Pedagogia (RBP). That press material, published from 1929 to
1938, is researched in its ―materiality‖ of ―cultural objects‖, ―the support of a sense,
transmitted by image or text‖, according to historian Roger Chartier. That sense’s
transmission form — life, world and pedagogy concepts — is seen as ―strategies‖ to
impose knowledge and normalize practices, according to Michel de Certeau. The
results of the research are the continuity of the widening of history of education
disciplinary boundaries; the evidence of the importance of analyzing press material
as cultural object that maintains its use marks; a better knowledge of the pedagogical
concepts of Catholic educators, as determinants of their editorial strategies; the
opening of the cultural history of knowledge and pedagogical practices research field
, in terms of comparative method, as that history is inserted in a wider research
project, that deepens the pedagogical field constitution through intellectuals, press
material and institutions.

III
À minha amada companheira

Maria de Lourdes Goronci

IV
AGRADECIMENTOS

 À Profa. Dra. Marta Maria Chagas de Carvalho, pela orientação competente,


dedicada e segura.
 À Profa. Dra. Cyntia Pereira de Souza e ao Prof. Dr. Luiz Carlos Barreira, pelas
contribuições ao texto de qualificação e que juntamente com o Prof. Dr. Jean
Hébrad e o Prof. Dr. Romualdo Dias, aos quais também agradeço, se dispuseram a
avaliar este trabalho.
 Aos Professores e Professoras da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
em especial Profa. Dra. Mirian Jorge Warde, Prof. Odair Sass, Profa. Dra. Maria
Helena B. Granjo, Prof. Dr. José Paulo Neto, Prof. Dr. Kazumi Munakata e Prof.
José Geraldo Silveira Bueno.
 Aos colegas Mauro Castilho Gonçalves, Marize Carvalho Vilela, Andréa Maria
Lopes Dantas, Eliana Asche, Silvia Aparecida Santos de Carvalho, Marcos Antonio
Cordiolli, Silvio Santos, Silvio Luis Costa, Bruno Bontempi, Maria Rita Toledo
(Maíta) e Isabel Cristina Novaes.
 A todos que, como num grande mutirão, me ajudaram de uma forma ou de outra,
cada um sabe como: os amigos e as amigas Ana Maria Peixoto, Simone Aparecida
Basso, Leila Maria Vitor Ferreira, Vilma Aparecida de Moraes, Angela e Rui
Noronha Sacramento, Clélia Helena Coelho, Mauro Aparecido Pinto, Lúcia Maria
Fonseca Corrêa, Angela e Henrique Faria da Silva, João Luis de Araújo, João Dias,
Neusa Dias Sgarbi, Braz Adelque Luchü, Marlene Lopes do Rosário e Laurentina
Gomes (Nina).
 Aos Bispos D. Antonio Afonso de Miranda e D. Carmo João Rhoden.
 Aos Padres José Adalberto Vanzella, Kelder José Brandão Figueira, José Benedito
Leite, frei Tarcísio Paulino Leite, OFMCap, frei Cláudio Marques, OFMCap, Luis
Lobato dos Santos, Márlon Múcio da Silveira, Frederico Meirelles Ribeiro e Pierre
Mukabi.
 Aos Diáconos José Carlos de Morais e João José Monteiro.

V
 À Ana Maria Rapassi e demais funcionários da biblioteca da PUC, pelo atenção
com que sempre me atenderam.
 À Rita de Cássia, secretária do Programa de Pós-Graduação, pela disposição de
servir.
 Às Irmãs de São José de Chambèry, Áurea, Selya e Otávia (Colégio do Patrocínio
de São José), as Irmãs Filhas de Maria Auxiliadora (Salesianas de D. Bosco)
Ednéia e Elza (Colégio Santa Inês) e a Ir. Rosangela Maria Altoé da Congregação
das Irmãs da Imaculada Conceição.
 Ao Robson Birchler, pela amizade e pelo entusiasmo contagiante que tem pela
História.
 Ao amigo Edebrande Cavaliere, por tantos favores em minha nova vida em Vitória
do Espírito Santo.
 Ao Frank R. C. Ferreira, pela colaboração no preparo dos originais desta
dissertação.
 Ao CNPq, pelo apoio financeiro.

VI
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO, 1

Parte I — O IMPRESSO: ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DE UMA


CIVILIZAÇÃO CRISTÃ CATÓLICA NO BRASIL, 17

Capítulo I — A CONSTRUÇÃO DE UMA ―CIVILIZAÇÃO CRISTÃ


BRASILEIRA‖ ATRAVÉS DO IMPRESSO, 18
1. A imprensa católica brasileira no início do século XX, 18
2. Um projeto para construir uma Nova Cristandade, 21
3. A leitura e a escola: estratégias para reconstruir a cristandade, 23
4. Um ―manual de estratégias‖ de ação católica, 26
4.1. Estratégias de ação pastoral relacionadas à escola e à imprensa, 29
4.2. Um olhar sobre os objetivos e as estratégias de ação, 35
5. Um projeto universal com estratégias concretas e bem localizadas, 39

Capítulo II — O IMPRESSO NA FORMAÇÃO DOS INTELECTUAIS, 42


1. O Centro Dom Vital e a revista A Ordem: o impresso em defesa da fé católica,
42
1.1. Uma ―livraria‖ como estratégia para espalhar o catolicismo, 43
1.2. Uma revista e Centro para construir uma cultura católica, 45
2. A Coligação Católica Brasileira (CCB), 52
3. A organização do professorado católico, 63
3.1. As Associações de Professores Católicos, 63
3.2. A CCBE e a Revista Brasileira de Pedagogia, 71
3.2.1. A Revista Brasileira de Pedagogia, 74
3.3. Alguns aspectos da RBP, 76

OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS I, 79

Parte II — BIBLIOTECAS PEDAGÓGICAS CATÓLICAS, 81

Capítulo III — A BIBLIOTECA PEDAGÓGICA CATÓLICA CONSTRUÍDA


PELO CDV, DIVULGADA PELA REVISTA A ORDEM, 82
1. Inventário dos impressos da ―biblioteca sem muros‖ da revista A Ordem, 82
1.1. Traços gerais do inventário, 83
1.2. As resenhas de A Ordem, 90
1.3. Impressos em língua francesa, 97
1.4. A propaganda de impressos na revista A Ordem, 102

Capítulo IV — A BIBLIOTECA PEDAGÓGICA CATÓLICA CONSTRUÍDA


PELA CCBE e DIVULGADA PELA RBP, 108
1. Inventário geral dos impressos divulgados pela RBP, 109
1.1. Traços gerais do inventário, 109
2. Alguns meios de divulgação do impresso na RBP, 114
2.1. Consultas, 114

VII
2.2. Difusão dos grandes mestres da pedagogia católica, 130
2.2.1. ―Os Mestres Estrangeiros‖, 130
2.2.2. ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖, 134
2.3. Propagandas, 136
2.4. Iniciativas isoladas, 147
2.4.1. ―Revista das revistas‖, 147
2.4.2. ―Psicologia Feminina‖, 147
2.4.3. ―Filosofia da Educação‖, 148
2.4.4. ―Filosofia Educacional‖, 149
2.4.5. ―Notícia Bibliográfica‖, 149
3. Inventário dos impressos resenhados e divulgados na RBP, 150
3.1. As seções ―Bibliografia Pedagógica‖ e ―Literatura Pedagógica‖, 150
3.2. ―Bibliografia Pedagógica‖, 152
3.3. ―Literatura Pedagógica — Pelas revistas‖, 154
3.3.1. Boletins, 155
3.3.2. Revistas, 157
3.3.3. O anuário, 163
3.4. ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖, 163
3.4.1. Classificação dos impressos resenhados na seção ―Literatura Pedagógica —
Resenha de livros‖, 169
3.4.1.1. Impressos indicados, 169
3.4.1.2. Indicações com as devidas reservas, 171
3.4.1.3. Impressos desaconselhados, 175

OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS II, 180

Parte III — A CONFORMAÇÃO DO CAMPO PEDAGÓGICO CATÓLICO


ATRAVÉS DO IMPRESSO, 183

Capítulo V — CONSTRUINDO A IDENTIDADE DA PEDAGOGIA E DO


CAMPO PEDAGÓGICO CATÓLICO, 184
1. Fontes dos critérios de escolha e julgamento dos impressos, 186
1.1. A carta encíclica Divini Illius Magistri, 186
1.2. Autores estrangeiros, 189
1.2.1. De Hôvre: Ensayo de filosofía pedagógica, 189
1.2.2. De Hôvre: Le catholicisme, ses pédagogues, sa pédagogie, 191
1.3. Os Congressos Católicos de Educação, 193
1.3.1. O Congresso Católico de Educação promovido pelo Centro D. Vital de São
Paulo, 193
1.3.2. O 1º Congresso Católico de Educação promovido pela CCBE, 195
1.4. Manuais brasileiros de pedagogia católica no início da década de 30, 198
1.4.1. Tratado de Pedagogia, de Pedro Anísio, 199
1.4.2. Compêndio de pedologia e pedagogia experimental, de Pedro Anísio, 203
1.4.3. Técnicas da pedagogia moderna, de Everardo Backheuser, 206
2. Os impressos no embate pela conquista do campo pedagógico, 215
2.1. Pedagogia e ciências correlatas, 216
2.1.1. De Hôvre, 216
2.1.2. As doutrinas ―sectárias‖, 218
2.1.3. As críticas a Monteiro Lobato, 219

VIII
2.1.4. Tristão de Athayde, 221
2.1.5. Pedro Anísio, 223
2.1.6. Everardo Backheuser, 227
2.2. Filosofia, 227
2.3. Biologia educacional, 237
2.4. Sociologia educacional, 240
2.5. Psicologia educacional, 242
2.6. Ética ou moral e educação religiosa, 247
2.7. Ciências, letras e arte, 249
2.8. Temas relacionados às questões políticas, 253
2.8.1. Os católicos e o Plano Nacional de Educação, 256
2.8.2. Internacionalismo e americanismo, 258

OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS III, 261

REFLEXÕES CONCLUSIVAS A RESPEITO DE UM PROJETO


INACABADO, 263

BIBLIOGRAFIA, 275

ANEXO 1 — A IGREJA CATÓLICA E A CULTURA IMPRESSA, 301

ANEXO 2 – BIBLIOTECA CATÓLICA (FICHA DE CADASTRO), 324

ANEXO 3 – BIBLIOTECA CATÓLICA (DESTAQUES), 326

ANEXO 4 – BIBLIOTECA CATÓLICA (BIBLIOGRAFIA RECEBIDA), 328

ANEXO 5 – BIBLIOTECA PEDAGÓGICA CATÓLICA DA RBP, 330

ANEXO 6 – BIBLIOTECA PEDAGÓGICA CATÓLICA DA REVISTA A


ORDEM, 342

ANEXO 7 – INVENTÁRIO DOS LIVROS EXISTENTES NA BIBLIOTECA


DO COLÉGIO SANTA INÊS DA CIDADE DE SÃO PAULO EM
1944, 362

ANEXO 7 – EQUIPARAÇÃO DA ESCOLA NORMAL (COLÉGIO SANTA


INÊS), 374

IX
LISTA DE QUADROS

Quadro 1: Estabelecimentos Inscritos na CCBE, por Unidades da Federação,


Dezembro de 1933 a setembro de 1934, 73
Quadro 2: Estabelecimentos Escolares Confederados à CCBE, por Unidades da
Federação, Agosto de 1934, 73
Quadro 3: Categorias de impressos inventariados, A ordem, Dezembro de 1928 a
dezembro de 1938, 84
Quadro 4: Impressos inventariados, A Ordem, Dezembro de 1928 a dezembro de
1938, 85
Quadro 5: Meios de divulgação do impresso e impressos divulgados, A Ordem,
Dezembro de 1928 a dezembro de 1938, 86
Quadro 6: Períodos de tempo ocupados pelos meios de divulgação dos impressos, A
Ordem, Dezembro de 1928 a dezembro de 1938, 87
Quadro 7: A seção ―Letras Contemporâneas‖: impressos inventariados, A Ordem,
1930 a 1932, 91
Quadro 8: A seção ―Crônicas Literárias‖, A Ordem, 1930 a 1932, 94
Quadro 9: A seção ―Bibliografia‖: resenhas assinadas por iniciais, A Ordem, 1928 a
1938, 96
Quadro 10: A seção ―Bibliografia‖: impressos resenhados, A Ordem, 1928 a 1938,
96
Quadro 11: A seção ―Bibliografia‖: países de origem dos impressos resenhados, A
Ordem, 1928 a 1938, 97
Quadro 12: A seção ―Bibliografia‖: editoras francesas e parceiras brasileiras ligadas
ao Centro D, Vital, A Ordem, 1928 a 1938, 98
Quadro 13: Livros franceses distribuídos pela Biblioteca Anchieta, A Ordem,
Novembro/dezembro de 1933, 99
Quadro 14: Propaganda: livros sobre educação, A Ordem, Abril de 1935, 103
Quadro 15: Seções e impressos divulgados, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934 a
1938, 110
Quadro 16: Categorias de impressos inventariados, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1934 a 1938, 111

X
Quadro 17: Impressos inventariados, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934 a 1938,
111
Quadro 18: Períodos de tempo ocupados pelas seções, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1934 a 1938, 113
Quadro 19: Seções selecionadas, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934 a 1938, 114
Quadro 20: Assuntos tratados na seção ―Consultas‖, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1934 a 1938, 115
Quadro 21: Lista de obras pedagógicas católicas, Revista Brasileira de Pedagogia,
Abril de 1934, 120
Quadro 22: Obras recomendadas na seção ―Consultas‖, Revista Brasileira de
Pedagogia, Maio de 1934, 125
Quadro 23: Obras recomendadas na seção ―Consultas‖, Revista Brasileira de
Pedagogia, Maio de 1935, 128
Quadro 24: Obras recomendadas na seção ―Consultas‖, Revista Brasileira de
Pedagogia, Maio de 1935, 128
Quadro 25: Obras recomendadas na seção ―Consultas‖, Revista Brasileira de
Pedagogia, Julho/agosto de 1935, 130
Quadro 26: Autores e obras da seção ―Os Mestres Estrangeiros‖, Revista Brasileira
de Pedagogia, 1934 a 1936, 131
Quadro 27: Autores e obras da seção ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖,
Revista Brasileira de Pedagogia, 1937, 134
Quadro 28: Obras indicadas com maior destaque em propagandas, Revista
Brasileira de Pedagogia, 1934-1935, 137
Quadro 29: Obras indicadas com destaque em propagandas e procedência, Revista
Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 138
Quadro 30: Obras indicadas com maior destaque em propagandas ―encomendadas‖,
Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1935, 140
Quadro 31: Obras indicadas com destaque em propagandas ―encomendadas‖ e
procedência, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 140
Quadro 32: As seções ―Literatura Pedagógica‖ e ―Bibliografia Pedagógica‖ com
resenhas, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 151
Quadro 33: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: número de
resenhas, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 163

XI
Quadro 34: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: resenhistas e sua
atividade, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 164
Quadro 35: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: países e
resenhas, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 165
Quadro 36: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: autores e obras
provenientes da França resenhados, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938,
166
Quadro 37: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: autores
estrangeiros e obras não provenientes da França resenhadas, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1934-1938, 167
Quadro 38: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: assuntos dos
impressos, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 168
Quadro 39: A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: classificação dos
impressos resenhados, Revista Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 169
Quadro 40: Artigos selecionados sobre temas de sociologia educacional, Revista
Brasileira de Pedagogia, 1934-1938, 241
Quadro 41: Artigos selecionados sobre o uso da psicologia aplicada à educação,
Revista Brasileira de Pedagogia, 1936-1938, 247
Quadro 42: Resenhas de livros sobre moral e educação religiosa, Revista Brasileira
de Pedagogia, 1935-1937, 248
Quadro 43: Artigos selecionados sobre formação moral e religiosa, Revista
Brasileira de Pedagogia, 1936-1938, 249
Quadro 44: Resenhas selecionadas de obras sobre ciências, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1934-1937, 250
Quadro 45: Resenhas selecionadas de obras de literatura, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1935-1937, 251
Quadro 46: Artigos selecionados sobre química, Revista Brasileira de Pedagogia.
1935-1938, 252
Quadro 47: Artigos selecionados sobre educação artística, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1935-1938, 252
Quadro 48: Artigos selecionados sobre educação econômica, Revista Brasileira de
Pedagogia, 1934-1937, 252

XII
Quadro 49: Artigos selecionados sobre formação social e política, Revista Brasileira
de Pedagogia, 1935-1937, 253
Quadro 50:Artigos selecionados sobre o tema escola única, leiga e neutra, Revista
Brasileira de Pedagogia, 1934-1937, 255
Quadro 51: Conferências sobre o Plano Nacional de Educação, Revista Brasileira
de Pedagogia, 1936, 257
Quadro 52: Artigos selecionados sobre o Plano Nacional de Educação, Revista
Brasileira de Pedagogia, 1936, 257
Quadro 53: Títulos na Biblioteca da Escola Normal do Colégio Santa Inês, 1944 (?),
270
Quadro 54: Títulos comuns à Biblioteca da Escola Normal do Colégio Santa Inês e
à Biblioteca da RBP, 273

XIII
INTRODUÇÃO

NO CAMPO DA HISTÓRIA CULTURAL DOS SABERES PEDAGÓGICOS, tomamos


como objeto de investigação práticas culturais no Brasil da década de 30,
desenvolvidas por duas entidades ligadas à Igreja Católica.
Os membros destas entidades, sujeitos daquelas práticas e parte do nosso
objeto de investigação, eram intelectuais membros da hierarquia eclesiástica, leigos e
leigas das mais diversas áreas do saber e sobretudo educadores católicos. Todos se
reuniam em torno de duas entidades: o Centro D. Vital (CDV), do Rio de Janeiro —
entendido como parte integrante de uma organização mais ampla, a Coligação
Católica Brasileira (CCB) —, e a Confederação Católica Brasileira de Educação
(CCBE).
Os decretos de instituição ou os estatutos destas entidades eram claros em
relação a sua identidade e seus objetivos. A CCB tinha como finalidade ―unir,
orientando-os e coordenando-os para a ação, os elementos católicos em geral e, de
modo particular, as associações da Arquidiocese‖ (―Decreto de Instituição‖,
reproduzido em Leme, 1923:156). Entre os fins mais específicos do CDV, estavam o
de ―recristianizar os intelectuais‖, promover a ―formação de uma cultura católica‖ e a
―difusão de bons livros‖ (―Estatutos do Centro D. Vital do Rio de Janeiro‖, A Ordem,
ano 11, vol. VI, Nova série, nº 11, p. 53, jan. 1931).
O Centro D. Vital era ―uma associação civil‖ que tinha por finalidade
―desenvolver, por todos os meios intelectuais legítimos, a cultura católica superior‖
(―Estatutos do Centro D. Vital do Rio de Janeiro‖, A Ordem, ano 11, vol. VI, Nova
série, nº 11, p. 53, jan. 1931). A CCBE, uma sociedade sindical ―do professorado
católico, uma agremiação de intelectuais‖ que tinha como fim, o que estava no seu
estatuto, ―congraçar todas as forças educacionais católicas do país, no intuito de
dotar nossa Pátria com uma educação integral, de acordo com as diretrizes firmadas
pela Igreja‖ (―Estatutos da Confederação Católica Brasileira de Educação‖, Revista
Brasileira de Pedagogia, v. 2, nº 10, p. 343, 1934). Leia-se aqui ―Igreja Católica‖.

1
A produção dos membros do CDV e da CCBE, que é privilegiada em nossa
investigação, encontra-se nos periódicos das duas entidades, os periódicos A Ordem
(―Revista de cultura do CDV‖), e a Revista Brasileira de Pedagogia (RBP), da
CCBE. Estas revistas e os impressos que divulgaram, parte central do nosso objeto
de investigação, são tomados na pesquisa em sua materialidade de objeto cultural.
Ou melhor: os impressos lidos, produzidos, criticados, postos em circulação, dados a
ler, etc. pelos sujeitos desta produção são abordados na investigação não só como
mercadoria destinada ao comércio e ao lucro, mas sobretudo como ―signo cultural,
suporte de um sentido transmitido‖ por sua própria materialidade (cf. Chartier e
Roche, 1976:99).
Nosso objeto de investigação recebeu o nome de ―Bibliotecas Pedagógicas
Católicas‖. Bibliotecas que foram utilizadas como estratégias para a construção da
―civilização cristã católica‖ e que tinham como objetivo, também, a conformação do
campo pedagógico, entre os anos de 1929 e 1938. Explicitemos o sentido destas
palavras em nossa pesquisa.
As ―Bibliotecas‖, nesta investigação, devem ser entendidas como ―bibliotecas
imateriais‖, ―bibliotecas sem muros‖, no sentido dado por Chartier (1994),
especialmente quando afirma: ―uma ‗biblioteca‘ não é apenas o inventário de livros
reunidos em um lugar específico; ela pode ser o inventário de todos os livros já
escritos sobre qualquer tema‖ (Chartier, 1994:74). E, completamos nós, podem ser
fruto do inventário dos impressos que foram divulgados pelas revistas A Ordem e
RBP.
―Pedagógicas‖, em nossa investigação, assume dois sentidos. São bibliotecas
―pedagógicas‖ no sentido de constituir meios pedagógicos para forjar uma cultura
cristã. Meios de conduzir, principalmente os intelectuais, a fins determinados — no
caso de nosso estudo, os fins das entidades citadas. São ―pedagógicas‖ também no
sentido de incluir impressos de destinação pedagógica para uso escolar, impressos
orientados para o professorado e as escolas, em especial as escolas normais.
O primeiro modo de entender tais ―Bibliotecas Pedagógicas‖ está relacionado
ao inventário feito da Biblioteca do CDV, destinada aos intelectuais de diversas
áreas, inclusive a educacional. O segundo modo de entendê-las, em sentido mais
específico, corresponde à CCBE.

2
Esta forma didática é usada para melhor compreender nosso objeto, mas os
inventários, nossas bibliotecas, podem ser vistos ora de uma forma, ora de outra, de
acordo com cada iniciativa e ação. Pois a pedagogia católica, como a entendiam os
intelectuais da época, abrangia um campo muito mais amplo do que o escolar.
São ―Pedagógicas Católicas‖ porque eram bibliotecas construídas por
católicos, para católicos, fossem estes atuantes no catolicismo ou estivessem dele
afastados.
As bibliotecas são ―estratégias...‖ O conceito de ―estratégia‖ deve ser
entendido no sentido dado por Certeau (1994). Para este autor, estratégia é uma
prática que pressupõe a circunscrição de um ―lugar‖ de poder que lhe é próprio. No
caso de nossa investigação, este lugar de poder é encontrado nas ―instâncias ligadas à
Igreja Católica‖: a CCB, fundada e dirigida pelo cardeal d. Leme, do Distrito
Federal; o CDV. parte integrante da CCB; e a CCBE. As duas últimas entidades,
mesmo na condição de entidades civis, são acompanhadas não só de perto, mas de
dentro, pela hierarquia eclesiástica.
Estratégias para construir a ―civilização cristã‖. Estes termos estão muito
próximos de ―cultura cristã‖. Percebe-se que os dois até se confundem nos textos
pesquisados. ―Educação‖ é outro termo que aparece muitas vezes, relacionado com
aqueles outros dois.
Assim, podemos perguntar: o que entender por ―civilização cristã‖, qual o
conceito de ―cultura‖ que tinham os sujeitos de nossa investigação, por que usar o
termo ―civilização cristã‖ entre aspas? Qual a ligação que os sujeitos de nossa
investigação faziam entre cultura e educação?
Nas palavras de De Hôvre, o sistematizador da pedagogia católica na época,
ao comentar as idéias de Foerster (―o filósofo da cultura‖, para De Hôvre), a cultura,
no fundo, não é outra coisa que a filosofia e a concepção de vida, ainda que com esta
diferença: em seu estudo se leva em conta principalmente a vida intelectual coletiva,
as criações coletivas de todos os grupos sociais e de toda a espécie humana (cf. De
Hôvre, 1945:345). Foerster fazia distinção entre cultura e civilização, mas nem todos
os ―mestres da pedagogia católica‖ da época pensavam desse modo. Para ele, os
conceitos de cultura e de civilização estariam ligados, e chegava a afirmar que
―civilização refere-se à disposição exterior, técnica da natureza, satisfação de
inúmeras necessidades‖ das pessoas neste âmbito externo. É o domínio do mundo

3
externo, o domínio sobre a natureza, que é exterior ao ser humano. Domínio que se
dá mediante ―a ciência, a técnica, a organização‖. ―Cultura, ao contrário, refere-se a
subordinação de cada uma das necessidades individuais às forças espirituais da vida:
é o domínio do homem sobre a sua própria natureza‖. Assim, fala-se de cultura
moral, de cultura pessoal, de cultura do coração, da consciência, da vontade, do
caráter da alma (cf. De Hôvre, 1945:354). De forma geral, percebe-se que a cultura,
para os católicos, era entendida como um tesouro que devia ser protegido dos perigos
do tempo, um conjunto de valores que deveria ser preservado, defendido e ensinado.
Neste sentido, a educação é o caminho para que a humanidade possa ser
elevada ao nível da cultura e da civilização. A educação é o caminho da integração
do ser humano na sociedade. Deve fazer com que o ser humano participe de todos os
bens ―cristalizados na língua, na religião, na arte, na ciência, nos costumes e
tradições que vêm até nós pela herança social‖ (Anísio, 1934:16).
Mesmo no Brasil, ―civilização que evolui na infância ainda, muito se há feito
em benefício da instrução‖, como diz D. Leme em carta pastoral de 1916 (Leme,
s/d:31). Para isso, todos buscavam o conhecimento de todas as ciências, na
civilização que estava em mudança. Esqueciam-se porém, tanto os ―cultos‖, como os
homens ―do povo‖, de buscar a religião. E era a ignorância religiosa a causa última
dos males da sociedade.
Já se vinha refletindo sobre esta idéia. Acreditava-se que a crise da cultura na
época não era de natureza econômica ou política, era uma crise profunda da vida
espiritual. A cultura era uma técnica sem alma, já dizia Foerster antes da primeira
guerra. E, continuando a refletir sobre o que considerava a ―decadência do
Ocidente‖, Foerster acreditava que ―a guerra mesma e a crise política e econômica
[...] não são outra coisa que o princípio de um estado novo do processo de
degeneração social‖ (Hôvre, 1945:346).
Diante destas discussões que percebemos na época com relação à cultura, a
civilização e a educação, assumimos. em nossa pesquisa, trabalhar com estes termos
conforme a concepção analisada por Certeau em seu livro A cultura plural (Certeau,
1995).
Ao examinar a concepção de cultura dentro do binômio ―elite e massa‖,
quando estuda o movimento de 1968 na França, Certeau (1995) atém-se a um

4
modelo cultural. É dentro deste espírito que iremos entender a concepção de cultura
entre os católicos da década de 30.
Nesta concepção social, na relação entre elite e massa, a elite fornece ao
imenso público as imagens e a informação fabricadas em laboratório. Os meios de
comunicação, os sindicatos, os partidos, os movimentos de ação católica tendem a
fazer das ―bases‖ ―o receptáculo das idéias ou dos programas elaborados nos altos
cargos, nas ‗sedes‘ do pensamento e da direção‖ (Certeau, 1995:167).
E, finalmente, por que o termo está colocado ―entre aspas‖? Porque quando
os nossos sujeitos usam — tantas vezes — os termos ―civilização cristã‖ e ―cultura
cristã‖, entendem por estes conceitos ―civilização católica‖ e ―cultura católica‖.
Conceito singular de cultura, que deixa de lado outros modos de cultura em geral e
mesmo outro modelo de cultura cristã.
―... E da conformação do campo pedagógico‖. Aqui, entendemos o campo
pedagógico ―católico‖, já que os educadores católicos estão construindo a identidade
de uma pedagogia católica, como veremos.
Tendo em vista o que já foi dito, deve-se ressaltar o valor dado pelos católicos
ao campo pedagógico que deverá ser conquistado. A escola é considerada como o
―campo de batalha em que se decide o caráter cristão da sociedade‖, a ―potência
civilizadora de primeira ordem‖ como entendia o cardeal Leme, idealizador e
propagador das estratégias de construção da cultura cristã.
―... Através do impresso‖. Entende-se por ―impresso‖ todos os livros, as
revistas, os jornais, os folhetos, etc. — enfim, todo objeto que é obra de tipografia.
Os ―impressos‖ de nossa investigação são impressos que devem defender os
interesses da religião católica, como prometia o primeiro estatuto do Centro D. Vital.
quando se comprometia a cumprir o programa:

Parágrafo 1º. Fundação de uma biblioteca dotada de um serviço de informação


bibliográfica.
Parágrafo 2º. Propagar a leitura de obras católicas, promovendo, do modo que a sua
diretoria achar mais conveniente, a edição de uma coleção de livros de todos os
gêneros, julgados úteis à Religião e ao Brasil, e de uma revista que será o órgão
oficial da associação (Ata da fundação do Centro D. Vital, 12 de maio de 1922,
Livro de atas do Centro D. Vital, p. 1).

5
Todo o esforço em editar e fazer circular impressos que defendessem ―os
interesses da religião Católica‖ tinha como objetivo último a ―recristianização da
sociedade‖ ou a construção da ―civilização cristã brasileira‖, como Luis Sucupira, na
defesa de um diário católico, escrevia:

Sem imprensa católica eficiente não haverá católicos convictos, não haverá eleitores
católicos, e, portanto, não haverá legisladores católicos, nem leis católicas, nem
Brasil católico [...] Sim. O que está em jogo é a civilização cristã brasileira, que
cada vez mais se sente ameaçada por todos os lados e que, afinal, desamparada, não
tem se não quem lhe chore o triste destino mas não encontra quem lhe dê o auxílio
da imprensa, a maior e a mais poderosa força de apoio, de defesa, e de ataque da
era que vivemos (Sucupira, 1933:118-119; grifo nosso).

Na busca desde objetivo — a construção da civilização cristã brasileira —, o


campo educacional serve como pivô neste jogo de interesses. Conquistar espaço para
a ―educação integral‖, aquela revestida de uma filosofia cristã que devia estar na raiz
de todo programa educacional, dos manuais, das aulas, enfim, da prática pedagógica
dos educadores, era o grande ideal. Constituir um campo pedagógico católico era
fundamental na construção da chamada ―civilização cristã brasileira‖, e o impresso
em geral é estratégia fundamental para alcançar tal objetivo.
―... (1929-1938)‖. Por que este período mereceu ser recortado em nossa
investigação? Respondemos a esta pergunta com algumas considerações.
O período que vai do final da década de 20 à década de 30 é básico para a
educação no Brasil e os educadores católicos participaram ativamente deste processo.
Sem esquecer os conflitos entre católicos e ―profissionais da educação‖ da
Associação Brasileira de Educação, no início dos anos 30, a publicação em 1929 da
Encíclica de Pio XI acerca da educação da juventude, a Divini illius magistri, a nova
fase da revista A Ordem, quando Alceu de Amoroso Lima assumiu a presidência do
CDV no final de 1928, optamos por fazer o primeiro corte neste último evento. Outro
fato importante que pode ser lembrado é a própria reforma educacional feita sob a
liderança de Fernando de Azevedo em 1928.
A RBP, órgão da CCBE, prestava um serviço aos educadores, fazendo
circular as idéias pedagógicas católicas e reunindo o professorado católico para um
debate permanente sobre as questões que mais preocupavam os intelectuais ligados à

6
educação na época. Tinha, sem dúvida, o objetivo de constituir um campo
pedagógico católico, passo importante na construção da ―civilização católica
brasileira‖. O fundador e primeiro presidente da CCBE, Everardo Backheuser,
defendia um programa educacional bem definido, em grande parte concentrado no
seu livro Técnicas da pedagogia moderna, editado pela primeira vez em 1934, que
foi destrinçado, discutido, divulgado e criticado na RBP (cf. Sgarbi, 1997).
Em 1938, a RBP deixou de circular. Com os novos acontecimentos políticos
— golpe de Estado em 1937 e a criação do Estado Novo —, houve certa
desarticulação dos educadores católicos no Brasil, que voltaram a se organizar com a
criação da Associação de Educação Católica do Brasil (AEC), em 24 de novembro
de 1945. O período de existência da CCBE (l933-1938) e da RBP (1934-1938) e de
sua coexistência com A Ordem em sua nova fase, mais os acontecimentos marcantes
na sociedade no final da década de 30, motivaram-nos a delimitar nossa pesquisa
entre os anos de 1929 a 1938. Para contextualizar melhor este recorte e a razão da
escolha deste tema, vamos explicitar alguns fatos históricos.
No início da década de 30, houve um debate entre militantes da Igreja
Católica e os chamados ―Pioneiros da Escola Nova‖, que disputavam a hegemonia
dentro do campo educacional brasileiro. Os dois grupos acreditavam que na
educação estava a resposta para a reconstrução da sociedade (cf. Carvalho, 1988).
Nessa época, a ―educação foi explicitamente valorizada como instrumento político de
controle social‖ (Carvalho, 1989a:50), e, nesta luta, no campo educacional, cada
grupo teve suas estratégias para alcançar seus objetivos, ou seja, a conquista do
poder, tendo em vista a reconstrução de uma cultura nacional.
A disputa acirrou-se em 1932, com a saída dos católicos da Associação
Brasileira de Educação (ABE), fundada em 1924, bem como com a criação, o
desenvolvimento e a produção da Confederação Católica Brasileira de Educação,
fundada em 1933 (cf. Sgarbi, 1997).
Entre os meios para alcançar o objetivo da CCBE, como vimos, era ―difundir
o pensamento dos grandes mestres da pedagogia católica, combatendo as doutrinas
sectárias, quer em obra para os educadores, quer em manuais para os educandos‖,
bem como publicar ―Manuais genuinamente Católicos, das diversas matérias do
ensino em todos os graus e modalidade‖ (Estatuto da Confederação Católica

7
Brasileira de Educação, Art. 8º, c, d, Revista Brasileira de Pedagogia, v. 2., nº 10, p.
343ss, 1934).
A fundação da CCBE, no entanto, é apenas um dos meios que os católicos
utilizaram para alcançar seus objetivos. Existia um projeto amplo que tinha como
finalidade última a reconstrução da cultura nos moldes da Igreja Católica no Brasil.
Antes da fundação da CCBE, havia sido criado o CDV, em 1921, cuja finalidade
também já foi lembrada.
Para atingir seus objetivos, o Centro propunha-se a atingir os intelectuais
católicos, inseridos nos mais diversos campos da sociedade, recristianizando-os. No
Centro D. Vital, como dizia Alceu de Amoroso Lima, o seu segundo presidente, o
livro e seus similares eram vistos como ―instrumento indispensável‖ na atuação dos
católicos:

O mundo moderno lê enormemente. Mas lê mal e lê, em regra, maus livros. Daí,
podermos dizer que o livro é, hoje, o grande veículo da desordem nos espíritos e na
sociedade. Pois planta em cada cabeça uma sentença e dá aos homens a ilusão de
saberem muito, apenas porque leram muito ou que ―julgam‖ ser muito. Se o livro
traz o veneno é pelo livro e seus similares que devemos levar o antídoto. De modo
que a obra de difusão da boa leitura é uma seqüência necessária de todos os nossos
propósitos. inseridos nos mais diversos campos da sociedade (Lima, 1937:346).

Mesmo acreditando que a educação era um instrumento político de controle


social muito forte, como foi dito, os católicos não restringiam sua atuação apenas ao
campo educacional. Vejamos um testemunho sobre a imprensa, publicado em A
Ordem, do Centro D. Vital, que revela bem esta mentalidade:

Católicos, porém, e altos dignitários da Igreja. Freqüentemente proclamam a


urgência de um jornalismo especificamente católico, não só orientado pela moral
cristã, mas principalmente posto ao serviço da recristianização da sociedade.
―Omnia instaurare in Chisto‖ é o lema, ponto de partida para a verificação da
necessidade de um jornalismo nitidamente católico, apostólico, romano, formando a
Ação Católica, cooperando com a hierarquia da Igreja para a realização do ideal
desse lema. Tudo medido pela medida cristã. Tudo verificado se confere com o
Evangelho. Desde a política, até a literatura. Desde a economia, até as relações
sociais. Até os divertimentos, até a moda, até os esportes, tudo, tudo digno do nome
de cristão, correspondendo a designação à realidade (Breiner, 1937:381).

8
Fica também claro que, no duelo que os católicos estavam travando, ora com
os ―Pioneiros da Educação Nova‖, ora com as igrejas protestantes, ora com a
maçonaria, ora com o governo, a arma já havia sido escolhida: o impresso. Aliás,
todos os católicos — hierarquia e leigos — estavam alertados disto havia muito
tempo e principalmente depois que a Igreja separou-se do Estado. Esta foi uma
orientação específica do papa Leão XIII aos bispos do Brasil, já em 1894, em sua
―Letra aos bispos do Brasil‖, de 2 de julho daquele ano.

A ninguém passará despercebido quanta força possuem os jornais e outras


publicações congêneres, para o bem e para o mal, principalmente em nossos tempos.
Portanto, combater com estas armas pela defesa da religião cristã, recebendo como
convém às diretivas dos Bispos e guardado o respeito devido ao poder civil, não seja
uma das menores solicitudes dos católicos (Leão XIII, 1947:11; grifo nosso).

Neste projeto amplo de construção de uma ―civilização cristã‖1 ou de uma


―cultura brasileira católica‖, o impresso é uma peça fundamental. Daí a ênfase que a
Igreja dá a esse instrumento. Acreditavam os católicos que, por meio do livro e de
seus similares, difundidos sobretudo entre os intelectuais — os formadores de
opinião —, poderia se iniciar a recristianização do Brasil. Este foi o discurso da
Igreja. Porém, nem sempre a posição dos leigos se conformava à da Igreja
hierárquica; existiam práticas divergentes.2
Foi dentro deste contexto que surgiriam as perguntas iniciais de nossa
pesquisa.
Qual a importância dada ao ―impresso‖ pelas lideranças católicas? Quais as
estratégias de ação dos católicos e qual o lugar do impresso em tais estratégias?

1
É o termo usado por muitos católicos. No entanto, buscava-se, de fato, a construção de uma
civilização católica, uma vez que o cristianismo no Brasil, na época, era muito mais do que a Igreja
Católica. Depois da Reforma, não existia mais lugar para a cristandade medieval, com a qual, ao que
tudo indica, alguns ainda sonhavam.
2
Sucupira (1933:115) reclama dessa falta de uniformidade: ―O nosso clero é pouco e insuficiente para
as mais diminutas necessidades religiosas. As nossas associações católicas, de efeitos muitas vezes
contraproducentes, compostas de homens de ortodoxia duvidosa, e que apenas exteriorizam atos
pomposos, chegando muitos a viver em conflito com os párocos e com os bispos. Os nossos
professores, de formação religiosa insignificante, quando a possuem, nem sempre se lembram de
esclarecer os alunos sobre as verdades da Fé‖ (grifo nosso).

9
Como o impresso foi utilizado para ―recristianizar‖ os intelectuais no CDV? Que
impressos os intelectuais católicos liam, criticavam, faziam circular a partir do CDV
e da CCBE? Quais impressos faziam parte desta ―biblioteca sem muros‖ do CDV e
da CCBE? Como o impresso foi utilizado pela CCBE para ―unir todas as forças
educacionais do país‖ em torno da ―educação integral‖? Qual a identidade desta
―educação integral‖ e o que entender por ―pedagogia católica‖? Quais foram os
―manuais de pedagogia dos católicos‖ e que conteúdo faziam circular? Como estes
impressos foram apropriados pelo menos em algumas instâncias?
Os meios para produzir ou incentivar a produção dos impressos, os critérios
para julgar seu valor, os argumentos para aprovação ou desaprovação, os
mecanismos para fazer circular as obras, etc., são estratégias investigadas em nossa
pesquisa. Cada uma destas estratégias trazia em si o peso de uma herança deixada
pela Igreja Católica. Experiência prática acumulada em centenas de anos, na qual a
Igreja definiu como uma de suas prioridades a pastoral em torno da censura, da
publicação e da divulgação dos impressos.
Definidos estes pontos, passemos aos procedimentos metodológicos de nossa
pesquisa.
Nossa pesquisa foi desenvolvida no âmbito da história cultural, com recurso a
uma metodologia voltada aos processos materiais de produção, circulação e
apropriação do impresso. Enfatizamos as prescrições de livros que eram
incentivados, produzidos e colocados em circulação pelas entidades citadas.
Valemo-nos, em particular, dos conceitos e das proposições dos historiadores
Roger Chartier, Michel de Certeau e Paul Veyne.
Em Certeau (1994 e 1995), fomos buscar a concepção de ―estratégia‖ e
―cultura: elites e massas‖, como já vimos.
Buscamos em Chartier a concepção de história cultural. Para ele, a história
cultural pode ser definida pela união de três elementos indissociáveis: ―uma história
dos objetos na sua materialidade, uma história das práticas nas suas diferenças e uma
história das configurações, dos dispositivos nas suas variações‖ (Carvalho & Nunes,
1993:22).
Para reforçar esta perspectiva, consideramos a caracterização que Gáuzère faz
de história cultural:

10
A ênfase na materialidade das práticas e dos objetos culturais se traduz para alguns
historiadores no primado atribuído aos ―veículos‖, às grandes ―instituições
mediadoras‖ como, por exemplo, a imprensa, a edição, os museus, a escola, as
exposições universais, etc. O que importa, segundo eles, será conduzir a análise num
percurso que vai do significante para o significado, do veículo para a mensagem e,
desta, para os grupos sociais que a produzem ou que se apropriam dela (Mireille
Gaúzère, apud Carvalho & Nunes, 1993:22).

Continuaremos a nos valer das idéias do historiador Paul Veyne, como


fizemos em nossa dissertação de mestrado, explorando o texto O inventário das
diferenças, no qual ele defende que compete ao historiador, antes de mais nada,
inventariar as diferenças, fazer vir à tona aquilo que é específico, as particularidades,
as individualidades do fenômeno, do objeto investigado (cf. Veyne, 1989:35). Para
Veyne, o historiador orienta-se por um saber teórico. Toma um conceito — o
imperialismo, por exemplo — e compara as diferenças que existem entre o
imperialismo romano e o de Atenas, para constatar que não se assemelham. Este é
um procedimento técnico de Veyne, convicto de que ―os fatos não se organizam
através de períodos e de povos, mas através de noções; isto têm de pôr-se no seu
tempo, mas sob o seu conceito‖ (Veyne, 1989:33).
Ainda nessa perspectiva, consideramos importante, dentro de nossa linha de
pesquisa, os trabalhos de dos historiadores franceses Jean Hebrard e Anne-Marie
Chartier. Em Discursos sobre a leitura, estes autores descrevem uma forma de
atuação que nos poderá ser útil. Dizem eles:

escolheu-se um procedimento determinado: trabalhar com séries discursivas


homogêneas, [...] procurando prestar atenção tanto às coerências textuais, quanto às
diferenças contextuais: cada discurso tem origem em um lugar e modula seus temas
em função de seu destinatário e adversários às gestões que privilegiam as
associações temáticas ou que visam reconstruir a ideologia de uma época num
discurso comum, preferiu-se trabalhar com fontes documentais delimitadas,
consideradas pertinentes ―sem pretensão de exauri-las‖ — tomadas em suas
discordâncias e desvios, mas também em sua dinâmica conflitual. Em uma primeira
fase, a da prescrição, vários conjuntos chamavam a atenção: os discursos da escola e
os das Igrejas, e também o discurso da crítica literária; cada um dispõe de uma
instituição de produção e controle, uma legitimação, um sistema de exclusões
Chartier & Hébrard, 1995:15).

11
Essa forma de atuação foi utilizada em nossa pesquisa: ―série discursiva
homogênea‖, as Bibliotecas Católicas; ―coerências textuais e diferenças contextuais‖,
textos que defendem, todos, a mesma doutrina, mas lidos e divulgados de forma
diferente, de acordo com os diversos contextos (Centro D. Vital e Confederação
Católica Brasileira de Educação); ―fase da prescrição‖, o discurso das instituições
que produziam, controlavam, legitimavam ou excluíam.
As ―Bibliotecas Pedagógicas Católicas‖ do CDV e da CCBE — nosso objeto
de pesquisa — podem ser colocadas no rol dos objetos da história cultural.
Incorporamos este ―novo objeto‖ ao campo da investigação histórica porque
percebemos nele uma importância cultural historiográfica. Embora a produção dos
católicos na década de 30 já tenha sido investigada, sabemos que foi trabalhada sob
outras perspectivas. Vamos agora investigá-la de forma diferente, na qual
realçaremos a materialidade dos dispositivos por meio dos quais bens culturais eram
produzidos, postos em circulação e apropriados. Os estudos das práticas de produção,
circulação e usos desses impressos nos ajudarão a discernir o que se passou e o que
não se passou do centro para a periferia ou, se quisermos, do alto (a Cúria Romana,
por exemplo) para baixo (CDV, CCBE, colégios, professores e alunos), pelos
veículos culturais, o livro, o artigo em jornal de grande circulação, as revistas de
pedagogia, etc. Poderemos ainda observar que os educadores alargavam as fronteiras
do seu campo de reflexão e ação. Os traços de um internacionalismo pedagógico
existente nas revistas, nos livros e nas práticas dos educadores católicos são
evidentes. Também estaremos atentos a este fato.
Nossa investigação foi construída dentro do âmbito de uma história que vai
do ―livro à leitura‖, embora não seja nosso objetivo aprofundarmo-nos nas práticas
de leitura dos católicos na década de 30; mas, dentro da metodologia que abraçamos,
não se pode ignorar totalmente tal perspectiva. Vamos nos explicar melhor: optando
por um referencial teórico que tem como coluna mestra as pesquisas de Chartier, não
podemos ignorar textos em que o historiador pretende

examinar as condições possíveis para uma história das práticas de leitura, dificultada
tanto pela raridade dos vestígios diretos quanto pela complexidade da interpretação
dos indício indiretos. O ponto de partida de tal exame enraizar-se-á aqui nas

12
aquisições e também nos limites do que tem sido até hoje a história do impresso
(Chartier, org., 1996:77).3

Como trabalhamos com a história do impresso católico nos anos 30,


acumulamos bom material para a história da leitura. São elementos sobre as
apropriações que os intelectuais católicos do Brasil faziam dos manuais de pedagogia
de De Hôvre (pensador flamengo tido como mestre da pedagogia católica nos anos
30), a leitura que a CCBE fazia das obras que divulgavam a Escola Nova, etc.
Na esteira de Chartier, atentar para estes pontos é importante porque ―falta às
enumerações dos livros impressos ou possuídos, uma questão central, a dos usos, dos
manuseios, das formas de apropriação e de leituras dos materiais impressos‖
(Chartier, org., 1996:77-78). Para este autor, é a resposta a esse questionário novo
que possibilitará um avanço na ―história do impresso, entendida como história de
uma prática cultural‖. É este o tipo de história que Chartier quer construir. Não
chegamos a explorar exaustivamente este veio, direcionando nossas escavações nesta
direção. Entretanto, selecionamos tudo aquilo que, aparecendo ao longo de nossa
pesquisa, apontou para a construção de uma história da leitura.
Não nos detivemos nesta perspectiva de análise, uma vez que o objetivo de
nossa investigação foi inventariar os impressos para conhecer as prescrições feitas
pelos católicos e que deram como resultado final a constituição de ―Bibliotecas
Pedagógicas Católicas‖ cuja finalidade era a construção da ―civilização cristã
brasileira‖. Mas, como a apropriação é indissociável também daquilo que
pretendemos, ficamos atentos às apropriações que íamos encontrando.
As apropriações são vistas, no caso de nossa investigação, em dois níveis. No
primeiro, as apropriações feitas pelos intelectuais que tinham como objetivo a
produção e a prescrição de livros. São os que fazem circular as ―idéias importadas‖
ou os que fazem as leituras das orientações da Sé Romana. Outro nível é a
apropriação feita pela direção, pelo professorado e pelo alunado das escolas. Neste
caso, valemo-nos de trabalhos como Catani & Vilhena (1992) e Souza (1997).

3
Ver também, sobre a tensão entre lógica discursiva e lógica da experiência, a relação entre texto e
realidade, entre discurso e práticas, a entrevista concedida por Chartier a Noemi Goldman e Leonor
Arfuch, publicada na revista de história Entrepassados (ano IV, nº 6, p. 143-145, 1994).

13
Para ler a forma de apropriação dos impressos, beneficiamo-nos
principalmente de duas fontes. A primeira é o relatório de uma pesquisa sobre leitura
feita no Colégio Jacobina (Rio de Janeiro) e publicada na Revista Brasileira de
Pedagogia de outubro de 1935.4 Nesse inquérito, percebemos que a apropriação que
as alunas faziam dos livros existentes não correspondia àquilo que era desejo dos
educadores católicos. A segunda é o inventário de uma ―biblioteca material‖, de uma
época muito próxima ao corte que fizemos em nossa pesquisa (1944), do Colégio
Santa Inês e Escola Normal Anexa, da cidade de São Paulo. Estes textos, porém,
servirão para um ensaio de análise que não pretende ser exaustiva.
Todo este caminho metodológico foi construído graças à orientação e à
leitura da produção da professora Marta Maria Chagas de Carvalho. Destacamos em
especial seus textos Pedagogia e usos escolares do impresso: uma incursão nos
domínios da história cultural, Por uma história cultural dos saberes pedagógicos e
Uso do impresso nas estratégias católicas de conformação do campo doutrinário da
pedagogia (1931-1935).
Convém ainda lembrar que, para o exame dos impressos que nos servem de
fonte primária, nos utilizamos das conclusões de nossa dissertação de mestrado
(Sgarbi, 1997), bem como dos procedimentos de análise que estiveram na sua base,
ou seja, aqueles propostos por Caspard-Kariadis et al. (1981), a saber:
• descrição bibliográfica — título(s), subtítulo(s), anos de existência, ligações
com outras revistas, direção, função dos principais redatores, periodicidade,
tiragem, condições de difusão;
• objetivos — levantamento dos objetivos, aprofundamento das orientações
gerais;

4
A RBP incentivou todas as escolas confederadas a repetir aquela pesquisa, dando instruções sobre
como realizá-la: na folha de respostas, deveria constar um cabeçalho com o nome (facultativo), a
idade, o sexo, o curso, a série, o estabelecimento de ensino, a cidade e o estado. E orientava:
―Recomendamos às pessoas que colaborem neste inquérito que, para ter esse valor real, não
intervenham absolutamente nas respostas. Será preferível não tomar parte no mesmo a influir nos
alunos. Aliás, a CCBE guardará todo sigilo sobre as respostas e em nada ficará comprometido um
colégio onde alguns alunos tenham feito más leituras. 3 – Se o colégio dispuser de pessoal para fazer a
apuração do inquérito, pedimos que nos enviem o resultado final, não omitindo nenhuma das
informações: quantos de cada sexo, idade, curso, etc.‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, Rio de
Janeiro, CCBE, v. IV, nº 19, p. 177-178, out. 1935).

14
• conteúdo — enumeração dos principais itens e dos principais temas tratados
pela revista ao longo de sua história.
Motivados por essas recomendações, elaboramos uma ficha,5 na qual foram
considerados o volume, o ano e o mês de publicação das revistas em que se
divulgavam os impressos que constituem as nossas ―bibliotecas sem muros‖. Na
mesma ficha, catalogamos os dados a respeito do impresso divulgado: nome, autor,
editora, tipo de impresso (revista, livro, jornal, folhinha, etc.), ano, mês, resenhista.
Em outro campo, registramos a classificação da obra: se indicada no todo, se
indicada com restrições, se indicada com destaque, se desaconselhada no todo. E
deixamos ainda um campo para cadastrar a seção em que a obra era divulgada e
outro campo para observações.
Criamos outra ficha para cadastrar os ―destaques‖, propagandas de livros que
ocupavam páginas inteiras, um encarte especial ou uma outra forma de destaque.
Neste caso, a materialidade nos diz muito. Uma terceira ficha inventaria as obras que
eram recebidas pelas instituições, obras que tanto A Ordem, quanto a Revista
Brasileira de Pedagogia fizeram questão de registrar e divulgar. Decidimos não
incluir o resultado desta pesquisa em nossas bibliotecas, pois notamos que, quando
um impresso, aí relacionado, era considerado importante para os editores, voltava em
forma de resenha ou sob a forma de algum outro tipo de comentário.
Todos esses dados foram tabulados, para a eficiente comparação de dados
registrados.
De posse desses elementos, delineamos finalmente o esquema que foi
trabalhado e resultou nesta tese.
O corpo do trabalho tem três partes. A Parte I, ―O impresso: estratégia de
construção de uma civilização cristã católica no Brasil‖, cujo objetivo é enfocar
nosso objeto de investigação, está dividida em dois capítulos: o primeiro para refletir
sobre os ideais da Igreja Católica; o outro para conhecer as entidades que formavam
os intelectuais pelo impresso. À parte II demos a denominação de ―Bibliotecas
Pedagógicas Católicas‖. São dois capítulos, para estudar as bibliotecas construídas
pelo Centro D. Vital e pela CCBE e divulgadas, respectivamente, pela revista A
Ordem e pela RBP. Aqui está o coração de nossa pesquisa. À Parte III, com um só

5
Ver Anexo 2. Foram elaboradas mais duas fichas complementares, para divulgação de destaque e de
obras recebidas; ver Anexos 3 e 4.

15
capítulo, chamamos ―A conformação do campo pedagógico católico através do
impresso‖. Aqui estudamos a identidade da pedagogia católica e os manuais de
pedagogia dos católicos; iniciamos também uma análise dos principais temas e
problemas que apareceram no estudo que fizemos das resenhas publicadas,
especialmente na RBP. Para demonstrar os limites e a amplitude de pesquisa,
elaboramos algumas ―reflexões conclusivas a respeito de um projeto inacabado‖,
apontando para os caminhos de investigação que a pesquisa nos abre.
Havíamos elaborado um primeiro capítulo intitulado ―A Igreja e a cultura
impressa‖, com o objetivo de rever os documentos papais relacionados ao impresso,
publicados desde o invento da imprensa até o início do século XX. Mas, depois de ler
o trabalho de Kuhlmann et al. (1989) e, especialmente, sua apresentação por Jean
Hébrard, decidimos transformar aquele capítulo em Anexo I: o fenômeno da censura
dentro das instituições pesquisadas (CDV e CCBE) pode ser entendido na
perspectiva daquelas autoras, ou seja, os livros são mais escolhidos e selecionados do
que propriamente censurados, e um capítulo que tratasse dos documentos papais
sobre a censura, distribuídos no decorrer de quatro longos séculos, na abertura de
nosso texto, poderia distorcer o exame da atuação histórica dos nossos sujeitos.
Apresentamos também nos anexos o material que elaboramos para fichar as fontes e
o inventário final das Bibliotecas Pedagógicas Católicas da RBP e de A Ordem
(Bibliotecas sem muros) e de uma biblioteca pedagógica material do Colégio Santa
Inês, da cidade de São Paulo.

16
Parte I

O IMPRESSO:
ESTRATÉGIA DE CONSTRUÇÃO DE UMA CIVILIZAÇÃO CRISTÃ

CATÓLICA NO BRASIL

Atenho-me aqui somente a um ―modelo‖


cultural: a idéia, postulada como uma evidência
do espírito e um procedimento normal da
compreensão, de que um fenômeno de massa se
explica pela ação de uma elite; de que a multidão
é por definição passiva, arregimentada ou vítima,
segundo os ―líderes‖ desejem seu benefício ou
dele se desinteressem. De onde se concluirá que
é preciso protegê-la por uma arregimentação
orientada para sua felicidade e substituir os maus
―responsáveis‖ pelos bons (Certeau, 1998:166).

17
Capítulo I

A CONSTRUÇÃO DE UMA ―CIVILIZAÇÃO CRISTÃ BRASILEIRA‖


ATRAVÉS DO IMPRESSO

1. A imprensa católica brasileira no início do século XX

Em 1899, foi realizado em Roma o Concílio Plenário Latino-Americano. Este


acontecimento marca uma nova fase no movimento pastoral nos países da América
Latina. Neste período, o impresso foi visto como grande meio de apostolado. Em
termos de imprensa católica, é a ―fase de organização e articulação‖ (1900-1945)
(Lustosa, 1983:8-9).
Antes de 1899, o episcopado do Brasil já estava se organizando segundo as
orientações de um documento que aprovara, elaborado por d. Antônio Macedo Costa
em 1890. O Concílio Plenário Latino-Americano veio dar novo impulso a esta
reorganização, necessária depois que se separaram a Igreja e o Estado.
Entre os fatos mais importantes desta fase, destacamos em primeiro lugar a
realização, em Niterói, no ano de 1910, do primeiro Congresso de Jornalistas
Católicos, que ―foi o ponto de partida concreto para a nova etapa do periodismo
ligado aos meios eclesiásticos‖ (Lustosa, 1983:19). Outro acontecimento marcante
para a história do impresso católico no Brasil neste período é a publicação, em 1915,
de um documento do episcopado nacional, Pastoral Coletiva e Constituições, que
estabeleceu as normas para a organização da Associação da Boa Imprensa.6

6
―O primeiro e mais eficaz meio de salvação é a pregação: fides ex auditu. Vêm logo depois as boas
leituras. Os revmos. Párocos difundam o catecismo e bons livros de leitura agradável e instrução
religiosa. Do púlpito e do altar, em público ou em particular, lembrem aos fiéis a necessidade de
adquirirem bons livros para lerem em família e se ofereçam para mandá-los comprar. [...] E como a
leitura mais perigosa atualmente é fornecida pelos maus jornais, instruam os fiéis sobre tão grandioso
perigo, fazendo-lhes conhecer a má imprensa, retirando-a de suas mãos e substituindo-a pela boa‖
(reproduzido em Lustosa, 1983:95-90). As normas para a fundação e o funcionamento da Associação
da Boa Imprensa estão consignadas no cânon 109, às pp. 47-48 da Nova Edição da Pastoral Coletiva
de 1915, Canoas (RS), Tipog. La Salle, 1950.

18
Já existiam no Brasil o Centro e a Liga da Boa Imprensa, fundados por frei
Pedro Sinzig, considerado o verdadeiro ―fundador da imprensa católica no Brasil‖
(Paiva, 1997:47). A Associação da Boa Imprensa veio reforçar as iniciativas do
Centro da Boa Imprensa, que se tornou a organização nacional da imprensa católica
no Brasil.
Os objetivos do Centro eram auxiliar os jornais e revistas que quisessem
aceitar o seu programa de ação, difundir a boa imprensa e a sã literatura, favorecer a
fundação e a manutenção de bons jornais e revistas e fornecer aos jornais e revistas,
pertencentes à coligação, artigos dos melhores escritores, sobre todas as questões (cf.
Lustosa, 1983:18). O suporte administrativo e financeiro do Centro era dado pela
Liga da Boa Imprensa.
Citamos rapidamente o trabalho do frei Pedro Sinzig, da Ordem dos Frades
Menores, o principal baluarte da Editora Vozes, de Petrópolis, fundada em 1901 (cf.
Hallewell, 1985:522-525). Mas também é importante acrescentar que, no início do
século passado, muitas outras congregações já investiam na imprensa. A título de
exemplo, mencionemos a FTD, dos irmãos maristas (que começou a publicar entre
1900 e 1902). Para se ter uma idéia do valor deste trabalho, observemos o que já
dizia, no início da década de 30, o educador Afrânio Peixoto:

Todos quantos passaram, nestes trinta anos, pelos cursos de humanidades do Brasil,
devem ter conhecimento travado com uma série modesta de preciosos livrinhos,
baratos, prestadios, cheios de substância e de simplicidade, assinados com as
enigmáticas iniciais FTD (Afrânio Peixoto, Arquivos da alma e da raça ou
literatura Brasileira, 1930, citado em material inédito sobre a história da FTD
obtido pelo autor junto à editora).

A sigla FTD é uma homenagem ao superior geral (1883 a 1907) dos maristas,
Frère Teophane Durand, que deu grande impulso à publicação de livros para serem
usados por professores e alunos nas escolas da congregação (cf. Ferrarini, 1989).
Até 1930, a filosofia dos livros didáticos da FTD era apenas implícita. Depois
desta data, essa filosofia já vinha explicitada da seguinte forma:

l. Respeitar sempre a moral mais vigorosa pelo culto a Deus, à Pátria e à família; 2.
Suavizar o ensino, pelo emprego dos melhores métodos pedagógicos; 3. Torná-lo
prático quando possível, pela multiplicidade dos exercícios de aplicação; 4. Adaptar-
se, no que diz respeito à extensão dos programas, a todas as exigências das Escolas

19
Superiores (em material inédito sobre a história da FTD obtido pelo autor junto à
editora).7

Todo o trabalho da FTD feito até então poderia ser resumido no primeiro
princípio dessa lista. E, dentro desta mesma linha de pensamento, outras
congregações religiosas fizeram o que chamavam de ―apostolado da boa imprensa‖.
Algumas chegaram a construir grandes gráficas, tanto para imprimir livros, como
para editar suas revistas e jornais. Entre as mais conhecidas, podemos citar, além da
Vozes e da FTD, a editora Ave Maria (dos padres claretianos), os salesianos de D.
Bosco e os jesuítas, que também começam a editar suas revistas nessa época.
Neste período, os bispos brasileiros começaram a publicar portarias e
circulares que incentivavam a imprensa católica ou a fundar seus periódicos.
Alguns bispos chegaram a escrever cartas pastorais especificamente sobre a
imprensa. Outros escreviam pastorais que tratavam de assuntos mais amplos, dentre
os quais a imprensa. Estas cartas continuam assunto de ―relevância na vida da Igreja
Regional concernente a fé e os costumes, e também problemas concretos da
comunidade‖, dirigidas aos membros de uma diocese. Tratava-se, em termos de
ministério dos bispos, do principal documento ―em nível de orientação oficial e de
ensinamento‖ (Lustosa, 1983:22).
As cartas pastorais sobre a imprensa católica eram lançadas geralmente em
ocasiões especiais, como a criação ou a entrada em circulação de um novo jornal
católico na diocese, a instalação de uma filial da Boa Imprensa (a Liga ou a
Associação), a criação do Dia da Boa Imprensa, para divulgar a importância da Boa
Imprensa e arrecadar fundos para a imprensa diocesana. Muitas destas cartas foram
reproduzidas no livro Os bispos do Brasil e a imprensa, de Oscar de Figueiredo
Lustosa, O P., de 1983.8

7
Tudo indica que foi graças às mudanças políticas de 1930, em especial depois da Constituição de
1934, que os irmãos maristas resolveram explicitar seus objetivos nos livros que eram publicados (cf.
Hallewell, 1985:336).
8
O Centro de Pesquisas e Estudos da História da Igreja no Brasil (Cephib) publicou uma coleção de
dez cartas sobre a imprensa católica, divulgadas de l898 a 1924: Carta Pastoral de d. José de Camargo
Barros, bispo de Curitiba (1898); Carta Pastoral de d. Eduardo Duarte Silva, bispo de Sant‘Ana de
Goyaz, ―Os abusos e males da imprensa‖ (1902); Carta Pastoral de d. Francisco de Campos Barreto,
bispo de Pelotas, ―Sobre a imprensa‖ (1913); Carta Pastoral de d. Adaucto Aurélio de Miranda
Henriques, arcebispo metropolitano da Paraiba do Norte, ―Do nosso dever para com a imprensa‖

20
Entre as cartas pastorais que tratam de assuntos mais amplos e reservam
considerável espaço para discorrer sobre a imprensa ou assuntos correlatos, podemos
citar a carta de d. João Becker, que, de Florianópolis (SC), escreveu em 1912 sobre
―O clero e sua missão moderna‖, com três capítulos (16, 17 e 18) sobre o tema: ―A
má imprensa‖, ―A boa imprensa‖ e ―O clero e a imprensa‖. Outros exemplos é uma
pastoral de d. Joaquim Silvério de Souza, arcebispo de Diamantina, em Minas
Gerais, de 1905 a 1933 (cf. Lustosa, 1983:5), e a famosa carta pastoral de d.
Sebastião Leme, quando foi eleito arcebispo de Olinda (PE), em 1916.
Esta carta pastoral de 1916 ganha lugar de destaque neste espaço que tem
como objetivo estabelecer o contexto nosso objeto de investigação. D. Leme
reservou vários parágrafos para refletir sobre a leitura como veículo de instrução
religiosa e já deixar anunciada outra reflexão sobre um projeto de ação católica, o
que só aconteceu em 1923. Neste último, a imprensa foi um dos temas de destaque.9

2. Um projeto para construir uma Nova Cristandade

Existe consenso entre os historiadores da Igreja Católica no Brasil de que


nenhuma carta pastoral teve tanto peso como a de julho de 1916, escrita pelo então
arcebispo de Olinda.
O futuro cardeal metropolitano do Rio de Janeiro traçou um projeto, em
consonância com os ideais da Santa Sé, para todo o Brasil. Este projeto tinha como
meta o fortalecimento do catolicismo na sociedade brasileira e buscava uma
verdadeira reconstrução do modelo de cristandade no Brasil.

O tema da carta é a ignorância religiosa e a necessidade da instrução


religiosa. Já nas primeiras palavras do então arcebispo percebemos que seu desejo é a

(1918); Carta Pastoral de d. Octávio Chagas de Miranda, bispo de Pouso Alegre, ―A imprensa católica
e sua orientação‖ (1918); Carta Pastoral de d. Santino Maria da Silva Coutinho, arcebispo do Pará, ―A
imprensa católica‖ (1921); Sexta Carta Pastoral de d. Manoel Nunes Coelho, bispo de Luz do
Aterrado (MG), ―Da boa imprensa‖ (1923); e Instrução Pastoral do mesmo d. Manoel, ―Sobre a
Imprensa‖ (1924).
9
A promessa esta registrada nestas palavras: ―Aguardando-nos para, de outra feita, discorrer sobre o
assunto magno da ação católica, desta vez falaremos, tão somente, da instrução religiosa‖ (Leme,
s/d:12).

21
construção daquela realidade à qual dava o nome de ―verdadeira civilização‖, com
bases assentadas nos princípios cristãos. Ele deixa claro que os católicos contam com
estratégias bem definidas para esta empreitada.
No início de sua reflexão, assenta as bases do projeto quando faz uma
retrospectiva para demonstrar a estratégia de apostolado dos últimos papas.
Começando por Leão XIII, vai resumindo o ideal de todos os papas até Bento XV, o
papa da época. D. Leme escreve: ―Conhecer os males do tempo, estudar as suas
causas e preparar os meios de salvação: foi sempre a tática dos homens de Igreja.‖
Na síntese da primeira encíclica de Leão XIII, destaca a argumentação
cerrada do pontífice sobre a ―verdadeira civilização‖. Lembra que ―as suas bases
assentam nos eternos princípios da verdade e a sua vida evolui ao contato do amor
sincero entre os homens.‖ E neste ritmo passa por Pio X e chega a Bento XV (cf.
Leme, s/d:9-11).
Esclarecidas as motivações e as bases da carta pastoral, a primeira
constatação que o cardeal faz é que o povo brasileiro, em sua maioria católico, não é
eficiente na vivência de sua fé. Ele pergunta: ―Que maioria católica é essa, tão
insensível, quando leis, governos, literatura, escolas, imprensa, indústria, comércio e
todas as demais funções da vida nacional se revelam contrárias aos princípios e
práticas do catolicismo?‖ (Leme, s/d:18).
Logo adiante, constata que a causa desta situação é a ignorância religiosa,
tanto no meio intelectual, como nas camadas populares. Feito o diagnóstico, indica o
remédio para este mal: a instrução religiosa, que deve realizar-se por meio da
pregação, do incentivo à leitura, da instrução religiosa no lar e nas escolas, do
catecismo da Igreja. São esses os temas que desenvolve na carta.
Para concluir, d. Leme descreve da seguinte forma o sonho que quer ver
concretizado no Brasil:

Apresse Deus Nosso Senhor o dia em que, olhando para a árvore gigante da Igreja
Católica no Brasil, possamos dizer: A semente de fé, lançada em terra de Santa
Cruz, germinou, cresceu, deitou brotos, alargou a ramagem e doirou-se de copioso
frutos. Os católicos somos hoje a grande maioria, a quase totalidade da nação, e o
somos no sentimento da fé, na prática religiosa e na ação social (Leme, s/d:126).

22
Para que a chegada desse dia fosse apressada, d. Leme convida todos os
católicos para uma grande batalha com estas palavras: ―Por Deus, pela Igreja e pela
arquidiocese, que ao nosso lado venham bater-se todos aqueles que são do Senhor. Si
quis est Domini jungatur mihi [tradução livre: ―Venha até mim quem estiver do lado
de Javé‖, Ex 32,26]‖ (Leme, s/d:127).
Pode-se sentir o zelo apostólico do arcebispo de Olinda. Duas décadas depois,
em uma das reedições dessa carta pastoral de d. Leme, o pe. Ascanio Brandão
escreveu:

A história da Igreja no Brasil ainda não registrou, depois da Pastoral Coletiva, um


documento episcopal que tivesse no país tamanha repercussão e de maior
oportunidade, como a carta pastoral do arcebispo de Olinda em 1916. Já mais de
vinte anos são passados. O arcebispo de outrora é hoje o sr. cardeal-arcebispo do Rio
de janeiro [...] E a carta pastoral do arcebispo de Olinda continua sendo a carta
pastoral do Brasil. Ainda hoje, oportuna e utilíssima. Desperta energias, é brado de
alarme, grito de pastor vigilante, programa admirável de ação (Leme, s/d:5).

Este programa, o caminho traçado por d. Leme, e os diversos acontecimentos


deste período no Brasil, mas não só, mostram que a Igreja Católica tem a firme
convicção de que sua meta é reconstruir a cristandade.

3. A leitura e a escola: estratégias para reconstruir a cristandade

Aprofundando um pouco mais o plano pastoral de d. Leme, que se tornou o


grande plano de pastoral do Brasil, podemos dizer que o objetivo é a instrução
religiosa, a qual deveria ser realizada mediante a pregação, o catecismo e a educação
no lar, veículos indispensáveis de instrução religiosa. Neste contexto, aparecem dois
destaques: a escola e a imprensa.
Para d. Leme, a pregação é o veículo indispensável para se alcançar a
instrução religiosa, pois era esta a função mais nobre do padre, e o púlpito era a única
escola pública de instrução religiosa que se tinha na época. O principal objeto da
pregação, para o bispo de Olinda, deveria ser o próprio catecismo. Embora pedindo
aos padres que pregassem sempre, d. Leme reconhecia que os que ouviam a pregação
eram geralmente aqueles que menos precisam, porque já estavam dentro da Igreja.

23
Por isso, os padres deveriam ser criativos e procurar atingir maior número de
católicos que pouco iam ao templo.
Outro veículo é o catecismo, também grande meio de instrução religiosa. O
ideal seria difundir as escolas católicas, mas, na sua falta, convinha difundir as aulas
de catecismo nas igrejas. O catecismo, para d. Leme, é o meio mais fácil e mais
seguro para alcançar o fim desejado.
A instrução religiosa por meio da educação no lar é o terceiro veículo de
cristianização. Para d. Leme, a geração da época passava por uma escola sem Deus,
uma escola que era laica. Sendo assim, a responsabilidade dos pais era ainda maior
na educação cristã dos filhos e filhas.
O bispo reserva um espaço para refletir sobre os costumes políticos do Brasil,
que atravessava, segundo ele, uma crise moral muito grande. O remédio seria formar
homens honestos, e isto só se conseguiria com uma boa educação familiar.
Preocupado em não só ficar com ações ad intra, ou seja, direcionadas aos
fiéis que estão dentro da Igreja, d. Leme destaca em seu documento outros dois
veículos de instrução religiosa: a leitura e as escolas. A leitura é um rico veículo de
instrução religiosa. Se aqueles que menos precisam são os que ouvem as pregações, o
caminho para chegar aos que não estão no templo é a ―evangelização por meio da
palavra escrita‖. D. Leme propõe para o Brasil o caminho que já era utilizado na
Europa, quando diz: ―Em quase todos os países da Europa, a doutrinação oral é
acompanhada da pregação impressa: folhetos, boletins paroquiais, folhas avulsas,
etc.‖ (Leme, s/d:81).
Em sua carta pastoral, d. Leme reflete sobre a leitura e a classifica de ―obra
defensiva urgente‖. Depois de comentar o sucesso dos livros, jornais e revistas entre
pessoas de todas as idades, o arcebispo questiona o tipo de leitura que estes leitores
fazem e convoca os católicos ao apostolado da leitura: ―Todos, por conseguinte,
todos quantos amamos a Igreja e a Pátria, nos devemos aliar em uma cruzada que,
difundindo a verdade e o bem, seja um dique à invasão da má leitura‖ (Leme,
s/d:84). Convoca as famílias a voltarem ao hábito de ler em família e indica os tipos
de leituras que devem ser feitas, ou seja, livros que ajudem os fiéis a ter fé
esclarecida, com sólida instrução religiosa, e não os livrinhos de piedade, que se
multiplicam, mas não ajudam em nada.
Outro tema de suma importância na carta pastoral de 1916 é a discussão sobre
―a escola‖. D. Leme dedica várias páginas a este assunto. Inicia com o subtema

24
―ensino religioso‖. Citando um professor da Universidade de Friburgo, o dr. Krieg, o
arcebispo escreve:

Dado seja criação dos últimos séculos, é inegável que a escola moderna constitui
uma potência civilizadora de primeira ordem. Para alcançarmos a sua importância,
basta refletirmos que nela passam longo tempo os meninos. Bem orientada,
desempenha papel nobilíssimo; quando infiltrada de mau espírito, torna-se um foco
de infecção para a vida popular. É evidente, por isso mesmo, que o Episcopado e o
clero não se podem desinteressar pelos destinos da escola. Trairíamos a nossa
missão de pastores. Oficial ou não, a escola não pode prescindir do ensino cristão
(Leme, s/d:96; grifo nosso).

Lembra ainda o arcebispo a importância da Igreja na história da educação e


ataca o ensino leigo e a escola neutra. Dentre os diversos argumentos para defender
estas idéias, afirma que o ensino leigo no Brasil está em contradição com os
sentimentos do povo. E acrescenta:

Nascido no seio da Igreja Católica, foi à sua sombra benéfica que o nosso país
cresceu, civilizou-se e desenvolveu-se. Não é depois de quatro séculos de vida
nacional que um golpe ousado, em antinomia com todas as leis da evolução
histórica, consegue estabelecer um divórcio odiento entre o coração da pátria e o seu
organismo político. Embora separado da Igreja, o Estado não tem direito a proibir o
ensino religioso nas escolas públicas. Que não professe religião alguma, que se
constitua o Estado em desarmonia com as tradições e os sentimentos do povo, é um
erro social, é um erro político, mas... passe. O que, porém, não passa é que o Estado
pretenda violar os direitos sagrados e inalteráveis dos pais católicos, impondo-lhes e
aos filhos a escola leiga (Leme, s/d:102).

Com argumentos de juristas brasileiros e dando como exemplo a própria


América do Norte, que tem ―a mais livre das repúblicas‖, reivindica pelo menos o
ensino religioso facultativo nas escolas públicas.
Em seguida, escreve sobre as aspirações e os deveres dos católicos brasileiros
no tocante à questão escolar. Conclama os ―jornalistas e publicistas católicos‖ a fazer
ampla divulgação das idéias que defende, dizendo que neste assunto está em jogo o
próprio pensamento moderno, e declara: ―O século XX não vê com bons olhos o
monopólio escolar por parte dos governos. Contra a oficialização do ensino faíscam
antenas os expoentes da contemporânea pedagogia‖ (Leme, s/d:105).

25
Afirma ainda que, enquanto não forem conquistadas as aspirações dos
católicos com relação ao ensino religioso, não haverá trégua. Chega mesmo a
convocar um amplo ―mutirão‖, com palavras enfáticas:

Em vez de coro plangente, formemos uma legião que combate: quem sabe falar, que
fale; quem sabe escrever, que escreva, quem não fala e nem escreve, que divulgue
escritos de outros. O que é necessário é que não fiquemos imóveis a chorar o
passado que se foi ou a acenar com festas um futuro que nos sorri. Se esperamos um
futuro melhor, urge que o façamos vir. Entretanto, façamos o bem, por outro lado. À
escola apliquemos essa doutrina. Nós queremos escolas francamente religiosas
(Leme, s/d:105).

Chama os cristãos para criar escolas católicas em todos os recantos do país e


quase exige que sejam subsidiadas pelos estados e municípios. Fecha o texto com a
convicção que deve, segundo ele, manter os cristãos em constante atividade: ―A
escola, escreveu Leão XIII, é o campo de batalha em que se decide o caracter cristão
da sociedade. Convictos desta verdade, não podemos ficar inativos‖ (Leme, s/d:106;
grifo nosso).
O arcebispo dedicaria ainda algumas páginas para refletir sobre a escola
secundária e o ensino superior. Lança os grandes ideais de uma Universidade
Católica no Brasil e mostra que está ciente do que pretende alcançar com o seu
apostolado. Demonstra que tem um projeto, tanto para a Igreja, como para a nação, e
convoca todos os cristãos a lutar a seu lado para implantar este projeto.

4. Um ―manual de estratégias‖ de ação católica

Uma carta sobre a ação católica, tão ampla como a pastoral de 1916, só viria
sete anos depois, em 1922, quando o arcebispo de Olinda já havia sido transferido
para o Rio de Janeiro, como arcebispo coadjutor do cardeal d. Joaquim Arcoverde.
Esta ação católica específica para a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
serviria de inspiração à ação pastoral nas dioceses do Brasil — cada uma dentro de
sua realidade, é claro.
Em meados de 1922, foi fundada a Confederação Católica do Rio de Janeiro.
No dia 8 de dezembro do mesmo ano, d. Leme, já arcebispo coadjutor do Rio,

26
promulga o documento Ação Católica: instruções para organização e funcionamento
das comissões permanentes da Confederação Católica do Rio de Janeiro. Logo no
primeiro parágrafo da introdução aparece a real importância e o sentido que d. Leme
dá a esta ação:

É tempo de iniciarmos a movimentação de todos os nossos elementos, para uma


ação intensa e coordenada na defesa dos interesses religiosos, morais e sociais do
nosso povo. Dizem os Estatutos da Confederação que ela reparte os trabalhos por
diferentes Comissões de ação católica. Órgãos permanentes da Confederação, tem
essas comissões finalidades e funções que convém definir. Mais que isso, porém,
queremos traçar-lhes um programa de ação, sugerindo idéias e iniciativas pra estudo
e realização. Eis o objetivo destas Instruções (Leme, 1923:3).

Capa de Ação Católica: instruções para organização e funcionamento das comissões


permanentes da Confederação Católica do Rio de Janeiro (1923), de d. Sebastião Leme

A seguir começam a ser descritas as instruções para as onze comissões


encarregadas do apostolado da ação católica na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Ao
relacionar o título das comissões mencionadas e o espaço material que cada uma
ocupa no documento, constatamos:

27
• 1. Fé e moral: propagação, defesa e preservação tomam da página 5 até a
página 11, sete páginas no total;
• 2. Obras de piedade e culto, da página 13 até a página 20, oito páginas;
• 3. Santificação da família, da página 21 até a página 26, seis páginas;
• 4. Descanso dominical e festivo (da página 27 até a página 31, cinco
páginas);
• 5. Vocações sacerdotais, da página 33 até a página 46, 14 páginas;
• 6. Caridade e assistência, da página 47 até a página 55, nove páginas;
• 7. Escolas, da página 57 até a página 63, sete páginas;
• 8. Igrejas e capelas, da página 65 até a página 72, oito páginas;
• 9. Arregimentação católica dos homens e da mocidade, da página 73 até a
página 97, 25 páginas;
• 10. Imprensa, da página 99 até a página 111, 13 páginas;
• 11. Obras sociais e operárias, da página 113 até a página 149, 37 páginas.
Não pretendemos fazer um estudo minucioso das 11 comissões. Vamos
apenas separá-las em duas categorias: a) ação católica ad intra, ou seja, aqueles
trabalhos realizados dentro da comunidade eclesial; b) ação católica ad extra, ou
seja, os desenvolvidos extra muros, ou fora da comunidade eclesial.
Nas propostas de d. Leme, três são os trabalhos de ação católica que
transpõem os muros da comunidade eclesial de modo mais ousado: imprensa, escola
e operariado.10 As outras comissões exerciam tarefas mais voltadas para a
organização interna de Igreja. Por serem as comissões onde se encontram os
elementos mais importantes para o nosso objeto de estudo, destacaremos a sétima,
sobre as escolas, e a décima, sobre a imprensa.

10
A décima primeira comissão é o terceiro meio de ação pastoral extramuros. É a parte mais longa do
texto do documento, em se tratando de materialidade. Está subdividida em objetivos gerais, formação
da consciência católica, preparação para o apostolado das obras sociais e organização operária.
Embora reconhecendo sua importância, não vamos nos deter nesta estratégia, pois foge do nosso
objeto de investigação — pelo menos mais diretamente, uma vez que também aqui o impresso tem seu
lugar.

28
4.1. Estratégias de ação pastoral relacionadas à escola e à imprensa

Façamos uma leitura mais detalhada dos dois objetivos e estratégias para a
ação ad extra que interessam ao nosso objeto de pesquisa.11
O trabalho pastoral nas primeiras décadas do século XX no Brasil é quase
exclusivamente restrito ao âmbito das associações religiosas. ―Era esse um sintoma
de tendência ao confinamento, característica daqueles tempos‖ (Gabaglia, 1962:63),
escreveu a biógrafa do cardeal Leme, comentando a carta pastoral de 1916; em 1921,
a situação não era diferente. A proposta do arcebispo não é só trabalhar pela
renovação e pelo fortalecimento das estruturas eclesiais, mas dar um passo para fora,
ou seja, sair, ir em busca da conquista de novos espaços.
A consciência de que não seria possível construir uma civilização cristã ou
promover a recristianização da pátria, como diziam na época, sem uma ação ousada
que ultrapassasse os muros da comunidade eclesial, é continuamente demonstrada
nas estratégias traçadas pelo arcebispo.
Na sétima comissão, que tratava das ―escolas‖, o arcebispo aponta os grande
desafios a serem enfrentados pela Igreja na área educacional e relembra a
importância da atuação neste campo. Feita esta reflexão, aponta os objetivos básicos
da ação católica quanto à educação.

Em gênero de instrução e educação, laicismo, neutralidade, irreligião e ateísmo são


termos que na prática se eqüivalem. Sob pena de suicídio moral, consciente e
deliberado, a coletividade católica brasileira não pode viver tranqüila nesse estado
de coisas. Cumpre-nos, portanto, agir com presteza e energia para conseguirmos: 1º)
introduzir nas escolas públicas a instrução religiosa; 2º) criar escolas católicas por
toda parte (Leme, 1923:57-58).

Segundo o arcebispo, a escola merece atenção especial na ação católica


porque é uma ―potência civilizadora de primeira ordem‖.
Depois de refletir sobre a situação da educação religiosa e definir os objetivos
da comissão num primeiro capítulo, o texto volta-se, em dois outros capítulos, para a
questão do ensino religioso nas escolas públicas e as escolas livres católicas.

11
Depois da reforma dos estatutos da Ação Católica em 1946 apareceu a idéia de Ação Católica
Especializada para atuar nos ambientes. Mas antes disso esta idéia não é tão clara.

29
Quanto ao ―ensino religioso nas escolas públicas‖, d. Leme interpreta as
disposições da Constituição brasileira de então e afirma que ―não obstam a que nas
escolas públicas se estabeleça o ensino religioso em caráter facultativo‖ (Leme,
1923:58). Assim sendo, o texto traça o espírito e as estratégias da comissão com as
seguintes palavras:

Por que, então havemos de ficar inativos à espera de que por si mesmas se
transformem as coisas? A comissão reflita nisso e, por Deus e pelo Brasil, inicie
imediatamente a sua ação decisiva. Na realização do primeiro intento, há de apelar a
comissão para os meios comuns, ordinários e extraordinários, de ação e propaganda,
capazes de influir na mentalidade dos poderes públicos. Como temos feito com
relação a outras comissões, também agora queremos indigitar alguns setores de
ação: a) Escrever e divulgar publicações de todo gênero, memórias, teses, artigos de
imprensa, folhas avulsas, etc. que estudem e esclareçam o assunto; b) Provocar
pareceres dos juriscunsultos e notabilidades, divulgá-los, comentá-los, etc.; c)
Procurar convencer e persuadir as pessoas que possam influir no intuito desejado
(Leme, 1923:58-59).

Ao tratar das ―escolas livres católicas‖, insiste que a comissão deve trabalhar
pela criação de escolas livres católicas com metodologia ou com estratégias bem
definidas, como a ―propaganda da idéia‖ e a ―realização da idéia, segundo um plano
bem estudado e refletido‖ (Leme, 1923:59). Quanto ao modo prático para levar a
efeito a idéia, o texto propõe a formação de uma ―Liga Patriótica dos Católicos
Brasileiros‖, inclusive com os ―traços gerais dos Estatutos‖ para servir de objeto de
estudo. Esta comissão teria como missão organizar o projeto de uma ―Escola Normal
Católica‖ (Leme, 1923:61).
A comissão também deveria se encarregar das escolas de ensino secundário:

A comissão, em união de vistas com a outra de Defesa e Propaganda da Fé, se


empenhará em: 1º) favorecer a multiplicação dos colégios católicos; 2º) fazer-lhes a
propaganda no seio das famílias; 3º) combater a influência dos colégios protestantes,
etc.; 4º) fiscalizar os colégios chamados neutros ou leigos (Leme, 1923:61).

O documento deixa aos cuidados da ―Comissão de Arregimentação de


Homens e Mocidade‖ os trabalhos referentes ao ensino superior e acadêmico. Seu
grande sonho, já expresso na carta de 1916, era a criação de uma Universidade
Católica. Isto ele verá acontecer ainda antes de sua morte, quando em 1941 é fundada

30
a Universidade Católica do Rio de Janeiro, tendo à frente, como reitor, seu ―fiel
escudeiro‖, o padre Leonel Franca.12
Na décima comissão, tratou-se do tema da ―imprensa‖. Em três pequenos
capítulos, o arcebispo escreveu sobre ―objetivos gerais‖, ―do nosso dever‖ e
―sugestões e iniciativas‖.
No primeiro capítulo, antes mesmo de tratar dos objetivos gerais, trata da
urgência do apostolado com a imprensa. Questiona os católicos com palavras como
―se de um dia para o outro nos surgir pela frente o inimigo organizado, só teremos
um baluarte seguro de defesa: a fé sincera que, por enquanto, ainda vive no coração
brasileiro‖ (Leme, 1923:100). Logo a seguir, D. Leme indica quais as ameaças à
―conservação e firmeza do sentimento religioso na consciência nacional‖, na sua
visão. São a ―heresia protestante‖, a ―mania laicista de alguns espíritos das classes
dirigentes‖, ―a falta de instrução religiosa do povo‖, ―a comercialização de muitos
órgãos formadores da opinião pública, a influência mortífera de certas publicações, a
banalidade literária, a meia ciência, a paixão de figurar e subir, o cabotismo e o
arrivismo, o despudor‖ (Leme, 1923:100).
A proposta é a realização neste campo de uma ação católica que centralize os
esforços da Igreja, seja uma ação ofensiva e ad extra, seja fora da comunidade
eclesial . É isto que percebemos nas palavras do arcebispo quando afirma: ―Ora, não
é com meias tintas de uma vida religiosa intramuros, nem com a criação de
dispersiva de mil e uma obra desordenadas, que chegaremos a vencer a penetração
ousada das seitas e o marasmo espiritual‖ (Leme, 1923:100).
Esta ação firme, coordenada, nutrida de sacrifícios, era necessária diante dos
inúmeros desafios apresentados. A imprensa, elemento essencial, não poderia ficar
relegada a plano menor:

A imprensa a serviço do inferno está descristianizando o mundo — escreveu


Schorderet. A idéia de uma imprensa a serviço do céu, no Brasil, está esgotando a

12
Escreve Laurita Raja Gabaglia, filha do prof. Raja Gabaglia, ―apaixonado propugnador da
Universidade Católica‖: ―No Rio, D. Leme foi encaminhando o projeto para a realização, por etapas
sucessivas. Primeiro tratou-se de cristianizar o meio intelectual adulto e criou o movimento apostólico
do Centro D. Vital e de A Ordem, liderado a princípio por Jackson de Figueiredo, depois por Alceu
Amoroso Lima. Passou-se em seguida à conquista da inteligência juvenil e fundou-se a A. U. C. e,
logo depois, o Instituto Católico de Estudos Superiores, esboço e erras da Pontifícia Universidade
Brasileira‖ (Gabaglia, 1962:396).

31
energia dos apóstolos — poderíamos dizer com um tanto de pessimismo. E por quê?
Dois são os motivos principais: 1º) absoluta falta de compreensão dos nossos
deveres com a imprensa; 2º) a absoluta falta de coordenação com que nos movemos
nesse campo. Já ai fica traçado o âmbito dos estudos e trabalhos desta comissão: 1º)
Formar a consciência católica relativamente aos deveres com a imprensa; 2º)
Coordenar as atividades católicas nessa esfera de ação (Leme, 1923:101).

O segundo capítulo — ―o nosso dever‖ — é uma reflexão sobre a necessidade


de ―tomar a sério a importância da imprensa‖.

Tomar a sério a importância da imprensa católica: eis o dever fundamental.


Podemos cuidar dos pobres e dos doentes, construir igrejas e capelas, abrir escolas,
pregar missões, centuplicar círculos de piedade... Enquanto não nos interessarmos
deveras pela imprensa católica, nada haveremos conseguido para a regeneração da
sociedade. [...] Deixemo-nos, pois, de ilusões. A imprensa é senhora absoluta da
opinião pública. [...] Ao ―magister dixit‖ sucedeu o ―o jornal o disse‖ (Leme,
1923:101).

Com palavras fortes, como as transcritas, continua o arcebispo a demonstrar a


urgência e a importância de uma ação neste campo. Assim, vão se sucedendo as
frases seguintes: ―Seria inépcia disfarçar a ditadura vencedora da imprensa [...]
Existe e é capaz de minar e destruir as mais sólidas construções do pensamento
humano‖. ―Nestas condições, não se compreende a inércia dos católicos em
problemas de tão alta monta. Se na tática moderna não há arma mais poderosa, como
deixá-la na mão de inimigos ou neutros?‖ (Leme, 1923:102).
As orientações do arcebispo não ficam somente em considerações e
advertências teóricas. Descem cada vez mais ao cotidiano dos católicos. D. Leme
afirma que ―é necessário irmos à prática dos princípios ensinados, concretizando-os
em normas de proceder, precisas e claras‖. E são normas concretas de atuação contra
a ―má imprensa‖: não contribuir material e moralmente; não comprar; não ler; não
assinar; não inserir anúncios; etc.
Surge outra advertência. Trata-se da proibição das leituras. O arcebispo pede
que os católicos não esperem que este ou aquele livro, ou jornal, sejam condenados
nominalmente. ―Todos eles estão condenados ipso facto que se tornaram ofensivos
ou prejudiciais à fé ou a moral‖ (Leme, 1923:103). Faz ainda um ataque à imprensa
que, de maneira sutil, prega a irreligião, taxando-a de ―assassina da alma‖.

32
Depois dos duros termos contra a chamada ―má imprensa‖, volta-se o texto
para o elogio e as estratégias para divulgar a chamada ―boa imprensa‖. São
elucidativas as palavras do documento que introduzem esta reflexão: ―Tiraram ao
povo as lições do Estado Católico, o ensino religioso da escola... Quer dizer que, para
ensinar ao povo as verdades que moralizam e salvam, devemos fazê-lo pelo bom
jornal‖ (Leme, 1923:104). Palavras como estas levam-nos a concluir que, entre as
maiores reclamações dos católicos, estava o fato de o estado ser laico e a religião não
ser mais ensinada nas escolas.
Em seguida, o documento traz uma reflexão sobre o apoio material e moral
que se deve dar à imprensa católica, às famílias católicas e às associações. E faz
apelo à comissão de imprensa para que eduque a ―consciência católica‖. Quanto ao
apoio moral, pede aos fiéis que não sejam ―intolerantes com os defeitos e omissões
dos jornais católicos‖. Ao mesmo tempo, para não enfraquecer ainda mais estas
iniciativas, mostra caminhos para que uma crítica construtiva fortaleça os jornais da
Igreja.
O arcebispo reserva algumas palavras aos ―homens de imprensa‖, aos
jornalistas católicos, convocando-os a se esforçarem para agradar ao povo em seus
trabalhos e a ―serem obedientes‖ às autoridades eclesiásticas.13
O terceiro capítulo do texto sobre esta comissão trata dos assuntos que
aparecem no seu próprio enunciado — sugestões e iniciativas. Textualmente:
―Passando à ação coordenadora da comissão, queremos desde logo acentuar que ela
deve estender-se a todos os elementos, métodos ou formas de imprensa: livro,
revista, jornal, gravuras, folhas avulsas, etc.‖ Esta comissão visaria a ações como
estudar os problemas referentes à imprensa católica, patrocinar as instituições
destinadas à imprensa católica, ―propor, divulgar idéias e meios práticos tendentes a
metodizar e unir, para harmonia de vistas e eficiência de resultados, o esforço
católico em assuntos de imprensa‖ (Leme, 1923:109).
Apresentados estes pontos ditos gerais, o arcebispo trata dos seus
desdobramentos, fazendo-o em onze itens, que deveriam ser ―objeto principal dos
estudos e realizações da comissão‖.

13
O documento cita parágrafos do papa Leão XIII, dentre os quais: ―Faltam a seus deveres não só os
que abertamente rejeitam a autoridade dos bispos, mas também os que se lhes opõem com hábeis
tergiversações e caminhos oblíquos. A virtude da obediência não se contenta com palavras, mas
requer submissão do espírito à vontade‖ (Leme, 1923:108).

33
1) O diário católico na Capital Federal, que, para evitarmos dispersão de esforços,
será objetivo desta comissão, só no que diz com os meios de eficazmente
secundarmos as iniciativas do Centro da Boa Imprensa (1), de Petrópolis, a cuja
atividade continua confiada a realização dessa ardente aspiração nacional dos
católicos brasileiros. 2) As livrarias e casas editoras católicas. 3) As bibliotecas
católicas (2) para estudiosos e eruditos. 4) As bibliotecas populares ou circulantes.
5) Agências telegráficas ou, pelo menos, um órgão permanente, capaz de suprir a má
vontade, ou indiferença das grandes agências em questões e fatos de interesse
católico. 6) Agência ou serviço de retificação das notícias e boatos caluniosos ou
tendenciosos. 7) Propaganda das obras, nomes e valores católicos que militam na
imprensa. 8) Estímulo e auxílio aos publicistas católicos. 9) Um serviço completo de
estatística de jornais, revistas, jornalistas e escritores católicos no Brasil inteiro. 10)
Ronda, vigilância, fiscalização da má imprensa e da imprensa neutra; reação
constante contra a primeira e eventual contra da segunda. 11) Formação intelectual e
aproveitamento de vocações para a boa imprensa, etc. (Leme, 1923:110).

Quanto às duas notas de rodapé, destacadas acima com os números (1) e (2),
é importante fazer alguns comentários. A primeira é um elogio ao Centro da Boa
Imprensa de Petrópolis e ao seu fundador. A segunda, uma recomendação do ―Centro
D. Vital‖. Transcrevemos as duas na íntegra, pois, em termos de materialidade do
texto, são as únicas neste estilo que encontramos nos dois documentos de d. Leme
que estão nos servindo de bibliografia primária.

(1) Merece todo o nosso apoio a ação benéfica do Centro da Boa Imprensa, de
Petrópolis, o qual, há muitos anos, vem prestando ao Brasil os mais relevantes
serviços. Quando outras benemerências não o recomendassem à gratidão dos
católicos brasileiros, bastaria o Centro da Boa Imprensa para bem alto elevar o nome
do apostolado denodado que o fundou e tem sido a alma de todos os seus
empreendimentos.

(2) Muito recomendamos aos católicos o ―Centro D. Vital‖, obra destinada à


penetração espiritual dos intelectuais, por meio de bibliotecas e publicações de livros
especiais, etc. A generosidade que dispensarmos a essa belíssima idéia frutificará em
uma nova geração de intelectuais católicos. Ora, os valores intelectuais são
imprescindíveis em todo e qualquer movimento social. É quanto nos basta para que
demos ao ―Centro D. Vital‖ toda a nossa cooperação (Leme, 1923:110).

34
Estas duas obras são objeto de outros textos de nosso trabalho. Comentamos a
primeira no item 1 deste capítulo, e a segunda será objeto de reflexão do nosso
próximo capítulo, ―O impresso na formação dos intelectuais‖.

4.2. Um olhar sobre os objetivos e as estratégias de ação

O documento Ação Católica: instruções para organização e funcionamento


das comissões permanentes da Confederação Católica do Rio de Janeiro é, sem
dúvida, uma grande coletânea de objetivos e de estratégias para a atuação dos
católicos.
Pode-se dizer que toda a experiência pastoral de d. Leme está concentrada
nessas páginas. Ele, que tinha feito seus primeiros estudos seminarísticos em São
Paulo, foi enviado para Roma e lá recebeu, durante oito anos, a formação para o
ministério sacerdotal, concluída em 1904. Atuou em São Paulo como sacerdote por
seis anos e logo foi eleito bispo auxiliar do Rio de Janeiro, aos 28 anos de idade, em
1911. Foi nomeado arcebispo de Olinda em 1916 e, em 1921, voltou para o Rio de
Janeiro, como bispo coadjutor do cardeal André Arcoverde. Foi neste período que
liderou a Ação Católica do Rio de Janeiro. Foi designado cardeal na Capital Federal
em 1930. Seria figura importantíssima na criação da Coligação Católica do Brasil,
em 1933 e, mais tarde, peça fundamental no processo que culminou com a aprovação
dos estatutos da Ação Católica Brasileira pelo papa Pio XI.
Da atividade eclesial do cardeal, fica marcada sua atuação junto às elites,
buscando influenciar os intelectuais, de um lado, e, de outro, a realização de grandes
movimentos de massa. Como político, ―temos nele um notável estrategista, criador
de formas de convivência com o novo regime e de apoio mútuo entre Igreja e
Estado‖ (Dias, 1996:54).
Conscientes desta trajetória de d. Leme e de seus ideais, lançamos um olhar
sobre o documento Ação Católica..., no intuito de destacar pontos que merecem
atenção quando fazemos uma leitura mais ampla e que nem sempre estão
explicitados. São para nós pontos relevantes os que se seguem.
O valor do impresso. Embora haja um capítulo específico sobre o assunto no
documento da Ação Católica do Rio de Janeiro, podemos notar que a preocupação
com o impresso (livros, revistas, jornais, formação de bibliotecas, etc.) está presente
diretamente nas estratégias de quase todas as outras comissões e, pode-se dizer,

35
indiretamente em todas: seja para propagação, defesa e preservação da fé e da moral,
quando a primeira idéia lançada é a ―publicação e difusão de bons escritos, boas
leituras, folhas avultas, etc.‖ (Leme, 1923:6); seja na comissão de obras de piedade e
culto, onde se pede interesse dos jornais diários para que publiquem pontualmente o
horário das funções religiosas, onde se pede atenção às publicações e à distribuição
desordenada de livrinhos de piedade, novenários, orações, etc. (cf. Leme, 1923:16);
seja ainda com relação à santificação da família, ao descanso festivo dominical, às
vocações sacerdotais, etc. A contagem das vezes em que se repete nas estratégias a
palavra ―biblioteca‖ surpreende. Em não poucas vezes, aparecem como estratégia de
conscientização, formação técnica, etc. os livros apresentados de modo organizado,
com objetivo bem definido.
As experiências européias. Podemos notar, ao longo do documento, a
citação de diversas experiências estrangeiras européias. D. Leme busca aí alguns
princípios de ação, exemplos de atuação ou mesmo esboços de estatutos, etc. São
comuns passagens como esta: ―Nas grandes cidades européias, para atender ao seu
desenvolvimento espiritual, criaram-se associações e obras destinas a construir
capelas‖ (Leme, 1923:66); o arcebispo menciona o exemplo de Londres e depois fala
da França e da Alemanha. Sobre as casas de pensão para moços e estudantes, remete-
se a Viena, Munique e Pádua. Discorrendo sobre a impressa, aponta a obra de
madame Faine, de Paris, a Presse pour tous (cf. Leme, 1923:105). Indica e aproveita
o programa de estudos da União Popular Italiana, para a formação da consciência dos
operários católicos (cf. Leme, 1923:116-117). Ao citar as missões para operários,
apresenta os casos da Alemanha, da Bélgica, da Inglaterra e da Áustria (cf. Leme,
1923:131-132). E assim se sucedem os exemplos.
O investimento no apostolado feminino. A Confederação Católica do Rio
de Janeiro funcionava em duas seções, masculina e feminina, conforme seus
estatutos. Ainda segundo seus estatutos, a Confederação Católica Feminina deveria
abranger as seguintes comissões: 1ª) fé e moral (modas, diversões, etc.); 2ª) obras de
piedade e culto; 3ª) obras de caridade e assistência popular; 4ª) santificação da
família; 5ª) escolas; 6ª) imprensa; 7ª) vocações sacerdotais; 8ª) pbras sociais e
operários; 9ª) descanso festivo. Assim, do total de 11 comissões, duas ficaram
exclusivamente com os homens: a de arregimentação católica dos homens e da
mocidade e a de igrejas e capelas pobres. Em compensação, eram exclusivas da
confederação feminina as comissões de santificação da família, de vocações

36
sacerdotais e de descanso festivo. Discorrendo sobre a primeira comissão (fé e moral:
propagação, defesa e preservação), d. Leme dedica o IV capítulo à reflexão sobre os
princípios fundamentais da ação feminina. Convida a comissão a se colocar em
contato com as comissões congêneres da Europa e da América do Norte e retoma
alguns princípios do Congresso Internacional das Ligas Católicas Femininas, que
havia acontecido recentemente em Luxemburgo. Entre os princípios destacados pelo
arcebispo está a norma adotada pelo Congresso a respeito do voto feminino:

Por meio da rigorosa formação religiosa, moral e cívica, as senhoras católicas devem
preparar suas aptidões e pesar bem a soma de responsabilidades que lhes cabe diante
do sufrágio universal, campo em que nenhuma tentativa se há de fazer, em país
algum, sem prévia autorização e orientação dos bispos (Leme, 1923:9-10).

Ação Católica e a política partidária. Anexos ao documento Ação


Católica..., encontramos três artigos que tratam basicamente da Ação Católica e a
política partidária.
No primeiro artigo, ―A Confederação e a política‖, publicado em 11 de março
de 1923, o arcebispo deixa claro que, com a função de unir os católicos, ―evitando a
desunião nos pontos de vista e na ação‖, não é possível que a Confederação se
envolva em política partidária. Isto traria ―competições políticas‖ para dentro da
entidade. Ele mesmo pergunta: então, os católicos não podem ter política? Não
poderão, um dia, reunir-se em partido político? Isto é outra coisa. ―Podem os
católicos, podem e devem ter a sua política. Lá fora, porém, individualmente, como
cidadãos, ou em honestas organizações partidárias que existam ou venham a existir‖
(Leme, 1923:168).
O segundo artigo, ―A política e os católicos na Itália‖, é um comentário da
palestra que d. Leme fez sobre a origem e a natureza do Partido Popular Italiano,
―mostrando que o mesmo não é um partido católico no sentido rigoroso da palavra, e
sim um partido de católicos‖ (Leme, 1923:171). A necessidade desta palestra surgiu
quando alguns católicos brasileiros queriam imitar os católicos italianos. O arcebispo
esclarece que um longo caminho fora percorrido pelos católicos da Itália até a
fundação daquele partido, que não era um ―partido fundado ou recomendado pela
Igreja e seus órgãos, um partido obrigatório para os católicos, de modo que eles não
possam militar em outros partidos honestos‖ (Leme, 1923:172). Com muito tato e

37
clareza, vai explicando a posição da Igreja quanto à participação do movimento na
política partidária.
O terceiro artigo, publicado em 10 de junho de 1923, ―Ação católica e espírito
de disciplina‖, traz uma fala do arcebispo sobre a obediência que os diocesanos
devem aos bispos e uma reflexão sobre religião e política, na qual reafirma as idéias
dos artigos anteriores.
A ação conjunta. O arcebispo coadjutor, que pouco mais tarde seria o
cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, era profundo conhecedor da realidade da
Arquidiocese carioca e do Brasil. Foi capaz de reunir num documento todos os
trabalhos realizados na época em torno da Confederação Católica do Rio de Janeiro.
Aliás, eram fins da Confederação: ―a) unir, orientando-os e coordenando-os para a
ação, os elementos católicos em geral e, de modo particular, as associações; b)
Despertar, promover, organizar e intensificar o devotamento ativo a todas as obras
católicas de piedade, caridade e sociais‖ (Leme, 1923:159). Pode-se dizer que este
trabalho de d. Leme é pioneiro e vai inspirar, com a sua prática, a ação católica em
outros lugares do Brasil, coordenando não só os trabalhos existentes no Rio de
Janeiro, mas apontando pistas para que, a partir da Capital Federal, todos os
trabalhos de ação católica em nível nacional tivessem um mesmo caminho.
Respeitando a autonomia das dioceses, nota-se o espírito de unificação dos trabalhos
existentes. No decreto de instituição da Ação Católica do Rio de Janeiro, o arcebispo
deixa clara as intenções de uma ação conjunta:

[...] quando existirem em todo Brasil uniões ou confederações diocesanas, fácil lhes
será unirem-se em poderosa Confederação Nacional Católica, com autoridade e
força moral para representar e fazer prevalecer as suas idéias, na defesa de todos os
interesses religiosos, morais e sociais da pátria. [...] outro não é o pensamento do
Episcopado Brasileiro, o qual nas Constituições Provinciais das Dioceses
Meridionais do Brasil, aceitas pelos respectivos Prelados para as dioceses
setentrionais, prescreve (n. 1577 e seguintes) se institua em cada diocese a
confederação das associações católicas (Leme, 1923:155-156).

É evidente o desejo de que este trabalho se espalhe por todo o Brasil. O


arcebispo coadjutor escreve um parágrafo no decreto de instituição da Confederação
do Rio, adiantando a situação da Associação no dia em que se formar a Confederação
Católica Brasileira:

38
Composta de todas as associações existentes no Brasil, dela fará parte, como todas
as outras confederações diocesanas, a Confederação Católica do Rio de Janeiro, que
em tudo aceitará a orientação do Conselho Nacional, que, para a direção da ação
católica em todo o Brasil, for criado por entendimento mútuo dos senhores
arcebispos e bispos brasileiros (Leme, 1923:156-157).

Este Ideal foi alcançado alguns anos depois, ao ser criada a Coligação
Católica Brasileira, em 1933.

5. Um projeto universal com estratégias concretas e bem localizadas

A sociedade sacra implantada no mundo ocidental, no Brasil colonial, parecia


ter dado seus últimos suspiros a partir do século XVIII, quando o liberalismo e o
positivismo fizeram sua última investida à cristandade decadente. A República
proclamou a laicidade do Estado e acreditou que poderia, para sempre, dispensar o
poder religioso. Esta é, à primeira vista, a idéia que temos.
Contudo, nova aproximação entre Igreja e Estado aparece a partir da década
de 20. Do lado da Igreja Católica, quem acena para esta aproximação é o próprio
papa Pio XI.
Na Itália, o processo de entendimento entre a Igreja e o Estado teve seu
impulso maior na resolução da ―questão romana‖. O governo italiano assumiu a
incumbência de indenizar a Santa Sé pelos seus prejuízos e perdas e o papa sentiu
que era chegado o tempo de intensificar as estratégias para ocupar espaços na
sociedade.
Desde 1870, havia um grave conflito entre o governo italiano e a Santa Sé. Os
reis do Piemonte trabalhavam pela unificação da Itália e, com isso, foram reduzindo
a extensão do Estado Pontifício. As relações ficaram cada vez mais tensas com o
Papa Pio IX, famoso por suas posturas antiliberais. O conflito resultou na ocupação
militar do Vaticano e a conseqüente violação do pacto de Kircy, que regulamentava a
existência do Estado Pontifício, assinado em 754 por Estevão II e pelo rei Pepino.
No início da década de 20, mais precisamente em 1922, no mesmo período
em que Pio XI havia sido eleito, o governo italiano prometeu resolver esta questão,
pendente havia tanto tempo. Foi o ano da agitação fascista na Itália e, embora as
relações entre o Vaticano e o governo italiano continuassem tensas, a promessa

39
agradou Pio XI, e ele percebeu que o clima era favorável a uma aproximação entre
Igreja e Estado, não só na Itália.
O compromisso e depois a assinatura do Tratado de Latrão, a concordata
entre Santa Sé e Itália, em 1929, impulsionaram a aproximação da Igreja com o
Estado. Havia, porém, todo um conjunto de fatores sociais, políticos e econômicos
que motivou esta aproximação.
A idéia de construir um Estado Cristão continuava totalmente contrária aos
ideais do mundo moderno, mas o Estado descobria a importância da religião diante
da organização de novas forças populares, inspiradas nos ideais anarquistas e
socialistas, que emergiam com a industrialização. Foi esta a brecha utilizada pela
Igreja Católica no Brasil, tendo à frente os bispos, entre os quais ocupou lugar de
destaque d. Sebastião Leme,14 para traçar e operacionalizar o grande projeto que
alcançou seu ponto mais alto nas três primeiras décadas do século XX.
Observamos neste período vários gestos de aproximação entre os dois
poderes, Igreja e Estado, no Brasil. A hierarquia vai percebendo que a influência
política é um instrumento importante na transmissão da fé católica. Começa-se a
observar uma nova postura da Igreja Católica, que vivia fechada, amargurada com o
Estado, reclamando as perdas que havia sofrido com a Constituição de 1891.
Esta postura fica mais clara na Revolução de 1930, liderada por Getúlio
Vargas, que não tinha cunho anarquista, socialista ou comunista. Neste contexto, a
hierarquia católica acreditava que era hora de implantar no país uma nova ordem
jurídica, fundada nos princípios cristãos, segundo os historiadores da Igreja. O
historiador Riolando Azzi afirma categoricamente:

Sem dúvida, um dos aspectos mais destacados desse período era a preocupação da
hierarquia católica em reafirmar a presença da Igreja na sociedade brasileira. Meta
principal da ação pastoral era a formação de um Brasil católico, de uma nação
perpassada pelo espírito cristão. Em sentido análogo, pode-se mesmo falar do
esforço para a criação de uma Neocristandade brasileira (Azzi, 1994:29).

Estava traçado o projeto da neocristandade, da construção de uma civilização


cristã. Dentre as estratégias principais para a formação do ―Brasil católico‖, mais

14
D. Leme, bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 1911, arcebispo de Olinda e Recife em 1916 e
arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro em 1921, tornou-se cardeal metropolitano do Rio em 1930,
onde atuou até a sua morte, em 1942.

40
afastadas do âmbito eclesial e mais inseridas na sociedade, duas fazem parte do
nosso objeto de investigação, duas que, segundo os textos do cardeal d. Leme,
ocupavam lugar de destaque: a leitura e a escola.
No documento Ação Católica..., são fortes as palavras do cardeal Leme sobre
este dois pontos. Quanto à escola, ―potência civilizadora de primeira ordem‖,
―cumpre-nos [...] agir com presteza e energia para conseguirmos: 1º) introduzir nas
escolas públicas a instrução religiosa; 2º) criar escolas católicas por toda parte
(Leme, 1923:57-58). Quanto à leitura, ele afirma que, ―enquanto não nos
interessarmos deveras pela imprensa católica, nada haveremos conseguido para a
regeneração da sociedade‖ (Leme, 1923:101).
O objeto de nossa pesquisa — as Bibliotecas Pedagógicas Católicas —
constituem instrumentos essenciais para operacionalizar estas estratégias. Não se
pode separar essas Bibliotecas desta chave de compreensão mais ampla aqui exposta.

41
Capítulo II

O IMPRESSO NA FORMAÇÃO DOS INTELECTUAIS

O grande pivô da formação dos intelectuais no período de nossa investigação


foi sem dúvida o Centro D. Vital.
Na primeira parte deste capítulo, vamos tecer alguns comentários sobre o
Centro D. Vital, que tem sido objeto de muitos estudos. Abordaremos apenas fatos
que nos ajudem a compreender melhor o nosso objeto. O estudo mais original que
fizemos sobre o Centro foi o inventário dos livros que divulgou de 1929 a 1938. Isto
foi feito no intuito de obter elementos para ensaiar um inventário de diferenças. Este
inventário reconstitui a ―Biblioteca Católica Sem Muros‖ construída pelos trabalhos
do Centro D. Vital e divulgada pela revista A Ordem.
Na segunda parte do capítulo, vamos apontar alguns elementos para conhecer
com mais detalhes a Coligação Católica Brasileira (CCB), que foi o grande esforço
de centralização de todos os trabalhos de Ação Pastoral de d. Leme. Focalizaremos
sempre a produção do impresso em todos as iniciativas da CCB. Esta é nossa
preocupação primeira. Deixamos os comentários e os contextos mais amplos. Vamos
procurar o significado deste trabalho para a Igreja Católica. Este é o nosso objetivo.
No terceiro momento, vamos conhecer um pouco mais a Confederação
Católica Brasileira de Educação (CCBE). Chegando a este ponto, atingimos o nosso
objetivo maior, que é focalizar esta entidade, para depois explorar o mais que
pudermos sua produção cultural, o que faremos de forma particular na Parte II deste
trabalho.

1. O Centro D. Vital e a revista A Ordem: o impresso em defesa da fé católica

A carta pastoral de 1916, do arcebispo de Olinda, impressionou Jackson de


Figueiredo, que chegou a trocar cartas com d. Leme, mesmo antes de conhecê-lo
pessoalmente. O encontro entre os dois só ocorreu em 1921, quando d. Leme voltou

42
para o Rio de Janeiro como arcebispo coadjutor. Não é difícil concluir que foram as
idéias de d. Leme que motivaram Jackson de Figueiredo a idealizar um movimento
para defender os interesses da Igreja Católica. 15 Um movimento que tinha como
grande ideal contribuir com o episcopado na obra de cristianização dos intelectuais
do Brasil. A estratégia para tal empreendimento era a criação de uma biblioteca, de
um serviço de informações bibliográficas e publicação de livros que defendessem os
interesses católicos (cf. Dias, 1996:90).

1.1. Uma ―livraria‖ como estratégia para espalhar o catolicismo

Mesmo antes de se encontrar pessoalmente com d. Leme, Jackson de


Figueiredo já lutava decididamente pelos seus ideais. Basta olhar a materialidade de
suas publicações para nos convencermos da sua convicção e de seu entusiasmo.
Em 19l9, ele comprou de Ildefonso Araújo a Livraria Católica. Segundo uma
de suas filhas, Cléa Alves Figueiredo Fernandes, o objetivo desta compra era ―ter
recursos para espalhar, através de livros bons, o catolicismo, a começar pela Capital
do País‖ (Fernandes, 1989:313).
Na Livraria Católica, reunia-se um grupo de amigos para ler as
correspondências entre Jackson de Figueiredo e Alceu de Amoroso Lima e estudar os
seus autores prediletos, aqueles que inspiravam sua doutrina: Joseph De Maistre, De
Bonald, Donoso Cortez e Veuillot. Este grupo defendia, juntamente com o
nacionalismo, o autoritarismo. Tomavam posições políticas muito próximas às do
Poder Executivo da época. Defendiam a legalidade, enquanto outros iniciavam o
movimento tenentista.
A Católica não só divulgava livros católicos como também os publicava.
Uma dessas publicações que nos chama a atenção pela sua materialidade é o livro
impresso na Tipografia do Anuário do Brasil, no Rio de Janeiro, em fevereiro de
1921 — editado, portanto, antes que Jackson de Figueiredo tivesse fundado a revista
A Ordem (agosto de 1921) e o Centro D. Vital (maio de 1922). A obra intitula-se Do

15
Encontrei na biblioteca do Centro D. Vital, entre as poucas obras que sobraram, um volume do livro
Afirmações, de Jackson de Figueiredo, que ele tinha oferecido a d. Leme em 1924. Na página de rosto
do livro, o autor escreveu: ―A D. Leme — o grande protetor, o verdadeiro criador do Centro D. Vital,
seu como filho em J. C. Jackson. 8/924.‖

43
nacionalismo na hora presente; tem como subtítulo ―Carta de um católico sobre as
razões do movimento nacionalista no Brasil‖, que, em tal movimento, é possível
determinar, era dirigida a Francisco Bustamante por Jackson de Figueiredo.
Na capa, este pequeno livro de 63 páginas exibe o título em letras grandes e o
subtítulo em letras menores. Destacam-se o nome do autor e do destinatário da
―Carta‖. A forma como está redigida a primeira frase do subtítulo também chama a
atenção: ―Carta de um católico‖. Na parte inferior da capa, em destaque, aparece o
nome do editor: Livraria Católica. Logo abaixo, o endereço da empresa. Uma capa
que deixa claras as idéias veiculadas pelo livro e, ao mesmo tempo, faz propaganda
da Católica.
Abrindo o livro, encontramos logo após a capa a fórmula que antecede o
nome do autor, o ex-libris, seu logotipo, diríamos hoje. A figura está em destaque,
com impressão em duas cores, o que não ocorre em nenhuma outra parte do livro.

Ex-libris de Jackson de Figueiredo

Trata-se de um desenho simbólico, estampado no primeiro quarto da folha:


uma cruz, símbolo do cristianismo, rodeada por uma coroa de espinhos e envolvida
por uma faixa onde se lê com facilidade, porque está impresso em vermelho, ―In hoc
signo vinces‖. Trata-se de uma frase famosa de Constantino I, o Grande, imperador
romano (306-337) que facilitou o triunfo do cristianismo no Império Romano,
concedendo privilégios judiciários fiscais aos cristãos. A tradição conta que
Constantino, antes de uma batalha, teria tido uma visão muito semelhante ao ex-libris

44
de Jackson de Figueiredo. Aos pés da cruz, completando o distintivo, há outra faixa
com o nome do autor, sendo suas iniciais também impressas em vermelho.
Na história da Igreja Católica, começaram com Constantino os primeiros
passos para a construção da cristandade, que alcançou na Idade Média seu ponto
mais alto. O ex-libris revela a consciência de Jackson de Figueiredo. Ele sabe que
está entrando em um campo de batalha e vai à frente, motivado por uma mística de
enfrentamento de idéias e pessoas que serão explicitadas e nomeadas no decorrer do
seu labor. Ele materializou, neste momento, suas idéias e revelou que tinha
consciência do caminho que tinha pela frente.
Logo depois, temos outra página apenas com o título do livro e uma terceira,
a folha de rosto, que reproduz a capa. Uma quarta página traz duas epígrafes que
convidam à reflexão sobre a defesa do nacionalismo no Brasil.
Na sexta página, Jackson de Figueiredo inicia seu texto. Escolhe a forma
epistolar, a mais conveniente, considera o autor, para dar ―liberdade ao modo de
falar‖ e um certo tom de intimidade, ―necessário por ser preciso falar algumas vezes
de mim mesmo‖ (Figueiredo, 1921:6). O livro é escrito de um só fôlego, como uma
carta, já que esta foi sua proposta. Começa com uma saudação — ―Caro amigo...— e
termina com despedida, assinatura e data: ―Sou seu amigo em J. C. Jackson de
Figueiredo. Rio, 2-1921‖.
O que o texto não diz é que Figueiredo coloca-se numa postura de ―um novo
apóstolo‖ do Brasil, se analisarmos a materialidade do impresso. Forma epistolar,
como os apóstolos; as inúmeras vezes que a palavra católico aparece no início do
texto; o ex-libris; e a saudação final, ―amigo em J. C.‖ (Jesus Cristo).
Temos aqui um exemplo claro da impossibilidade de separar o texto das
formas impressas que o fazem circular ou que o dão a ler.

1.2. Uma revista e Centro para constituir uma cultura católica

Em agosto de 1921, o jovem idealista Jackson de Figueiredo, com cerca de 30


anos, convidou ―pequeno grupo para encontrar-se com ele no Café Gaúcho‖, conta-
nos Hamilton Nogueira. Estavam presentes Perillo Gomes, Durval de Moraes, José
Vicente e o próprio Hamilton. Figueiredo expôs a razão do convite: ―Não é possível
trabalharmos para a Igreja se não dispusermos de um jornal para expormos as nossas

45
idéias‖ (Nogueira, 1976:140). No mesmo dia se cotizaram, porque não havia um
capital para o empreendimento, e fundaram a revista A Ordem. Distribuíram as
tarefas e preparam o seu primeiro número.
Quem ficou encarregado do artigo de fundo foi o próprio diretor, Jackson de
Figueiredo (Nogueira, 1976:141). O artigo, intitulado ―Nosso programa‖, traz os
ideais da revista naquela época. Figueiredo diz logo de início que o periódico não
aspirava ―a ser oficial ou oficiante da palavra da autoridade católica‖. Depois, faz
críticas à sociedade brasileira e aos católicos acomodados, críticas ao regime
republicano e a tudo que estava acontecendo nos últimos anos:

Chegamos ao pandemônio atual em que, no seio de uma nação de trinta milhões de


indivíduos, não há um só partido, uma só organização política em derredor dos
mesmos de qualquer ideal menos elevado, mas que constituísse uma finalidade aos
nossos esforços, servindo de força reguladora, harmonizadora de todos os progressos
materiais, que circunstâncias especiais de vida econômica universal têm permitido
em meio de tanta desordem. [...] E é assim que temos assistido quase
indiferentemente, nestes trinta anos de República, aos maiores atentados em matéria
de educação dos nossos filhos, e suportamos as imensas despesas de um Congresso,
que nós próprios elegemos, e em que raros são os que têm a coragem de se
proclamarem defensores do nosso credo religioso, isto é, daquilo que consideramos
a nossa mais sublime e insubstituível riqueza espiritual. [...] Esta revista terá, ou
melhor, tem, pois que já vive, caráter acentuadamente nacionalista. Dentro de seu
programa de catolicismo integral, faremos tudo quanto um católico pode e deve
fazer contra o bastardo espírito de cosmopolitismo, que é talvez o fator principal do
nosso ceticismo, até o presente (Figueiredo, 1921:1-2).

Encontramos aqui um líder bem posicionado, que vai usar todos os


instrumentos de que pode lançar mão para defender as idéias nacionalistas e lutar
contra a democracia liberal, o indiferentismo religioso. Jackson de Figueiredo fez de
sua profissão, jornalista e livreiro, a arma para divulgar seus ideais.
A própria escolha do nome do periódico — A Ordem — deixa clara a sua
posição, uma vez que Jackson de Figueiredo insistia em dizer que, naquela realidade,
existia muita desarmonia e desordem. A revista é um modo de reordenar a sociedade.
Em algumas das primeiras edições de A Ordem, ainda sob a forma de jornal,
pois não havia uma capa própria de revista, podemos ler uma epígrafe que mostra a
luta dos jovens católicos contra o materialismo e o evolucionismo naturalista. Esta

46
sentença, estampada no frontispício da publicação, é um exemplo de representação
colhida na arqueologia do objeto, ou seja, do impresso. Os jovens, contrários àquilo
que chamavam de ―espírito contemporâneo‖ e ―conjunto de falsas idéias que
dominam a nossa intelectualidade‖, afirmavam que a sociedade moderna estava fora
da Ordem natural, ou seja, da Ordem cristã. Estas idéias e muitas outras podem ser
lidas por trás das palavras desta epígrafe:

A questão de sempre é saber se o homem deve nascer, viver, unir-se. Morrer,


receber, transmitir e deixar a vida como uma criatura de Deus, a Deus destinada, ou
como uma larva aperfeiçoada, unicamente originária das fermentações do lodo da
terra. L. Veuillot (A Ordem, nº 1, p. 1, agosto de 1921).16

Para Romualdo Dias, esta epígrafe assume

uma prática de combate ao evolucionismo naturalista, fundamentada numa


concepção finalística do homem e do seu mundo. Esta concepção sugere a
impossibilidade de uma constituição laica das instituições sociais. Ao repetir a
―questão de sempre‖, estes intelectuais se engajavam num tipo de movimento
definido por um tradicionalismo filosófico e político, assumindo uma atitude de
reação contrária à ciência, que se dispõe ao trabalho de desvendar os enigmas
inerentes aos processos de ―fermentações do lodo da terra‖ (Dias, 1996:93).

Já o Centro D. Vital, fundado a 12 de maio de 1922, no Rio de Janeiro, era


uma associação civil que tinha como objetivo a ―defesa dos interesses da Religião
Católica [...] propagando e defendendo as suas doutrinas por meio do livro e da
imprensa‖ (Ata de fundação do Centro D. Vital. Livro de Atas do Centro D. Vital. p.
1).17

16
Esta epígrafe pode ser lida em uma das primeiras páginas das revistas do tempo de Jackson de
Figueiredo. Na segunda fase, sob a direção de Alceu Amoroso Lima, encontramos outra epígrafe,
―L‟ordre est la loi du monde naturel e du monde surnaturel‖, objeto do nosso estudo da segunda fase
do Centro D. Vital.
17
―Aos doze do mês de maio do ano de mil novecentos e vinte e dois, na Capital dos Estados Unidos
do Brasil, à rua S. José, n. 35, presentes os Srs. Jackson de Figueiredo, Hamilton Lacerda Nogueira,
Durval de Moraes, José Vicente de Souza Perillo Gomes, brasileiros e domiciliados nesta cidade,
resolveram fundar, sob a denominação de ‗Centro D. Vital‘, uma associação civil, com o objetivo de
pugnar pelos interesses da Religião Católica, criando uma biblioteca que sirva a esses interesses,

47
O artigo primeiro do Estatuto do Centro define claramente o seu programa:

Parágrafo 1º — Fundação de uma biblioteca dotada de um serviço de informações


bibliográficas.
Parágrafo 2o — Propagar a leitura de obras católicas, promovendo, de modo que a
sua diretoria achar mais conveniente, a edição de uma coleção de livros de todos os
gêneros, julgados úteis à religião e ao Brasil, e de uma revista que será o órgão
oficial da Associação.

A fundação deste Centro, embora iniciativa de um grupo de leigos da Igreja


Católica, tem todo o apoio e incentivo da hierarquia. Acompanhando a atuação do
Centro D. Vital, esta afirmação fica muito clara. Podemos observar explicitamente
não só o apoio da Igreja hierárquica, como também o interesse no Centro, que
reforça os objetivos do arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro, no texto que este
deixou registrado na aprovação dos estatutos da entidade. Diz d. Sebastião Leme:

A fundação do ―Centro D. Vital‖ é um acontecimento de grande alcance religioso e


social para o Brasil. Pedindo a N. Senhora que abençoe os esforços do Sr. Dr.
Jackson de Figueiredo, o iniciador dessa grande obra, aprovamos seus estatutos. A
todos os católicos, principalmente aos que se interessam pela restauração espiritual
dos nossos intelectuais, recomendamos o ―Centro D. Vital‖. Rio de Janeiro, 7 de
junho de 1922.

O Centro D. Vital veio ampliar as outras primeiras iniciativas, acompra da


Livraria Católica e a fundação de A Ordem, que se tornou o órgão oficial do Centro.
No CDV, começaram logo a organizar uma biblioteca ―a que legitimamente se possa
chamar de católica‖ (A Ordem, ano I, nº 11, p. 163, 1922), como diziam, mas que
continha toda espécie de livros.
Os estatutos do Centro e sua aprovação pelo arcebispo d. Leme foram
divulgados no nº 11 de A Ordem. Na mesma edição, publica-se uma circular que

propagando e defendendo as suas doutrinas por meio do livro e da imprensa. Nesta reunião presidida
pelo Sr. Dr. Jackson de Figueiredo, secretariado por mim, ambos aclamados pela assembléia, foram
lidos os Estatutos da associação, que são os seguintes: Art. 1º. O Centro D. Vital é uma associação
civil com sede na Capital da República, e tem por fim cooperar com os movimento social católico no
Brasil, realizando o seguinte programa [...]‖ (Ata de fundação do Centro D. Vital. Livro de Atas do
Centro D. Vital. p. 1).

48
pede ajuda para a construção da referida biblioteca. O auxílio podia ser tanto em
dinheiro, como em livros, folhetos e revistas de qualquer espécie. Além disto, o
Centro, ―que tinha como principal intuito reunir um maior número possível de livros
católicos‖, propunha-se a abrir um serviço de troca ou venda dos livros inúteis para
sua finalidade, revertendo sempre ―qualquer quantia apurada em benefício da
biblioteca‖. Tudo pensando na cultura da massa geral dos católicos. A própria
circular prometia publicar a relação de todas as quantias e livros oferecidos na A
Ordem.
O número seguinte da revista já trazia a lista dos doadores, aberta com uma
doação substancial (2.000$000) de d. Sebastião Leme. Logo em seguida, temos a
doação do grupo de ―Devoção de Sta. Hedwirges‖ (200$000) e do bispo de Taubaté,
d. Epaminondas Nunes D‘Avila (100$000). O total arrecadado naquele primeiro mês
foi de dois mil, setecentos e vinte e seis réis. Quanto aos livros, foram publicados os
nomes dos doadores e os títulos das obras oferecidas: cerca de 20 pessoas fizeram
doações de mais de cem livros, além de folhetos. Os doadores eram da própria
Capital e de cidades dos estados da Guanabara, de São Paulo e de Minas Gerais. Fica
exidente que a iniciativa foi bem acolhida e alcançou êxito em pouco tempo.
Intelectuais de diversos recantos do Brasil, entre bispos, padres e leigos,
acompanhavam e apoiavam até financeiramente as manobras daquele pequeno grupo
decidido a auxiliar na recatolização da intelectualidade.
Jackson de Figueiredo já havia iniciado o seu empreendimento através da
Livraria Católica, publicando até várias obras pelas ―Edições Livraria Católica‖. A
própria revista divulgava os livros, como é o caso da lista publicada em junho de
1922. São 14 livros que podiam ser encontrados na Católica ou pedidos pelo correio.
Em maio de 1922, mesmo mês da fundação do Centro D. Vital, A Ordem já trazia
uma lista de 10 livros da ―Coleção Eduardo Prado‖, promovida pelo Centro, o que
mostra, mais uma vez, que os objetivos do empreendimento estavam sendo
amplamente alcançados.
A lista dos livros à venda no Centro D. Vital (―Coleção Eduardo Prado‖) é a
seguinte:
Pascal e a inquietação moderna — Jackson de Figueiredo18 — broch., 4$000
Humilhados e luminosos — Jackson de Figueiredo — broch., 3$000

18
Primeiro volume da série A.

49
Do nacionalismo na hora presente — Jackson de Figueiredo — broch.,
3$000
A questão social na philosofia de Farias Brito — Jackson de Figueiredo —
broch., 3$000
Penso e creio — Perillo Gomes (2a edição) — broch., 3$000
Dentro da vida (Narrativa de um médico de aldeia) — Ranulpho Prata —
broch., 3$000
Traços de luta (Polêmica com protestantes) — Padre Antonio Carmello —
broch., 4$000
Imitação de Christo, tradução do latim pelo Padre Veleiro Cordeiro — cart.,
5$000
Lyra franciscana — Durval de Moraes — broch., 2$000
Hygiene e moral — Dr. Good, tradução de J. Aroso, 2$500
Estes livros podiam ser entregues pelo correio, e os assinantes de A Ordem
tinham o desconto de dez por cento em todos os livros da ―Coleção Eduardo Prado‖.
É difícil saber o número de volumes de cada obra e sua circulação. Mas é possível
colher pistas que demonstram serem grande estes números para a época. Como
exemplo, podemos citar um pedido que foi feito na ―primeira sessão da Diretoria
efetiva‖, realizada no dia 24 de junho de 1922. Foi submetida a apreciação da
diretoria a proposta de admitir o dr. Moysés Marcondes como sócio protetor do
Centro, uma vez que ele tinha oferecido ao Centro 250 volumes do livro Pascal e a
inquietação moderna (Ata da 1ª sessão da diretoria efetiva, 24 de junho de 1922,
Livro de Atas do Centro D. Vital, p. 6).
No entanto, não foi somente um bom início. A obra continuou num ritmo
acelerado. Eis dois fatos que o demonstram. O primeiro é o pedido de modificação
do número de sócios efetivos, registrado na da sessão do Centro D. Vital de 14 de
janeiro de 1924; a conclusão foi: ―Fez-se uma ligeira modificação nos estatutos do
Centro, de modo que, onde se lê, [...], ‗12 sócios efetivos‘ leia-se ‗40 sócios
efetivos‘‖ (Ata da sessão de 14 de janeiro de 1924, Livro de Atas do Centro D. Vital,
p. 8).19 Isto ocorreu menos de dois anos depois de fundação do Centro, certamente
porque crescera mais que o esperado.

19
No Artigo 2 dos estatutos originais do Centro lia-se: ―O Centro compreende quatro classes de
sócios: Efetivos, em número limitado de 12, únicos deliberantes e elegíveis para os cargos da

50
O segundo fato é um trecho do prefácio do livro de Hamilton Nogueira
prefaciado por Antonio Carlos Villaça, que afirma:

Pela primeira vez na história cultural do Brasil, um grupo de jovens se punha a


serviço da Igreja e da cultura católica. O pequeno grupo de moços pobres, sem
nenhum patrimônio, sem verbas do Estado, sem nenhum apoio oficial, conseguiu
editar em meia dúzia de anos vinte e seis livros, da biografia de Jônathas Serrano em
torno de Júlio Maria ao ensaio de Jackson a respeito de Pascal, em 1922 (Antonio
Carlos Villaça, Prefácio, in Nogueira, 1976:2).

A linha editorial de A Ordem continuou a mesma durante todo o tempo em


que Jackson de Figueiredo esteve à frente do Centro D. Vital. Em 1928, ele morreu
acidentalmente, com 37 anos.
Quem vai dar continuidade aos seus trabalhos é Alceu Amoroso Lima, que,
ao lado dos primeiros companheiros de Jackson de Figueiredo, fez o CDV e a revista
A Ordem alcançarem o patamar sonhado por seu fundador.
Em 1930, foram renovados os estatutos do Centro D. Vital. O artigo número
dois resumia a finalidade da instituição: ―O Centro D. Vital do Rio de Janeiro tem
por fim desenvolver, por todos os meios intelectuais legítimos, a cultura católica
superior entre nós‖ (A Ordem, vol. IV, nova série, ano XI, nº 11, p. 52, janeiro de
1931). Os parágrafos seguintes versavam sobre os meios, ou programa para atingir
tal fim:

§ 1º — Organização de cursos de teologia, filosofia, ciência, história da Igreja, etc.,


que sejam o núcleo da nossa futura Universidade Católica.
§ 2º — Fundação de uma biblioteca dotada de um serviço de informações
bibliográfica em sede social adequada, a propagação da leitura de obras católicas.
§ 3 — Publicação de livros de todos os gêneros, julgados úteis à religião e ao Brasil,
em uma ou várias coleções especiais, e de uma revista que será o órgão oficial da
associação.
§ 4 — Promoção de reuniões periódicas entre o Centro da Capital Federal e os
Estados, afim de estimular a ação social católica interestadual.

Diretoria, assim como para os que por esta forem criados segundo as necessidades do Centro,
obrigados a uma mensalidade nunca inferior a 10$000‖ (A Ordem, ano 1, nº 11, p. 1, 1922).

51
§ 5 — Entendimento constante entre o Centro e associações congêneres nos vários
países da América, com o fito de promover uma crescente aproximação católica
interamericana (A Ordem, vol. IV, nova série, ano XI, nº 11, p. 52, janeiro de 1931).

Na fundação, a finalidade principal do Centro era defender os interesses da


religião católica por meio do livro e da imprensa. Nos novos estatutos, o programa
do Centro é ampliado, mantendo-se sua finalidade inicial.

Dedicatória de Jackson de Figueiredo, em seu livro Afirmações, para d. Leme, a quem


considerava o verdadeiro ―criador‖ do CDV

2. A Coligação Católica Brasileira (CCB)

No projeto que começou a ser explicitado, com estratégias a curto, médio e


longo prazos, na carta pastoral de d. Leme de 1916, o aparecimento da Coligação
Católica Brasileira foi num marco importante, pois a CCB demonstra a solidez do
plano de construção de uma civilização cristã.
No Congresso Eucarístico da Bahia, em 1933 o cardeal Leme, o núncio
apostólico d. Aloísio Masella e mais 29 bispos assinaram um documento que
abençoava a Coligação Católica Brasileira fundada na Metrópole do Rio de Janeiro
―sob o alto patrocínio de S. Emcia, o Cardeal Sebastião Leme‖. A Coligação reunia
―em torno de sua bandeira de ação católica numerosos grupos de atividades
doutrinárias, culturais e sociais, destinados a uma profunda penetração do espírito de
Nosso Senhor Jesus Cristo em todos os órgãos da vida nacional‖. Tratava-se, como
dizia ainda o documento, de um ―grande movimento de coordenação‖ de todos os
valores católicos.

52
Em 1936, no Boletim nº 11 da Coligação, foi publicado um esquema que
revelava a importância e a abrangência da obra. No desejo de atuar em todos os
campos da sociedade, parece que havia a necessidade de um órgão que unificasse a
―ação católica‖ dos leigos, sempre vistos como ―um braço da hierarquia no mundo‖.
Os leigos organizavam-se, mas mantinham relativa autonomia. Nas palavras do
Boletim da Coligação, ―para perfeita integração no espírito da Igreja, está a CCB sob
a orientação da autoridade eclesiástica imediatamente representada pelo assistente‖
(Boletim da Coligação Católica Brasileira, nº 11, 1936, publicado em A Ordem, p.
524, maio de 1937).
Segundo Alceu Amoroso Lima, a união de todos era para a

defesa dos princípios mais sagrados da civilização que são ameaçados


modernamente por um duplo perigo: um ―interno‖ à nossa própria civilização, que é
a decadência da noção de dever, o desinteresse pelo bem público, o abuso das
posições oficiais, a ganância dos interesses materiais, a decadência dos costumes, o
esquecimento das virtudes tradicionais da ordem, da economia, da simplicidade, o
relaxamento da autoridade, ou sejam manifestações diversas do mesmo ―espírito de
facilidade‖ que leva as civilizações à ruína; o outro. ―externo‖, que se concretiza nas
ameaças do imperialismo soviético, que a despeito de todas as promessas
interesseiras da Rússia, para ganhar as boas graças dos governos capitalistas e obter
deles créditos para suas compras e fregueses para suas vendas internacionais,
continua a cozinhar a fogo lento no fundo da fogueira russa, pronto a incendiar de
novo o mundo ao primeiro sinal de uma Guerra ou de uma Revolução vitoriosa.
Como esse duplo perigo que ameaça a nossa civilização, e com ela também, o
Brasil, devemos estar todos de pé, não apenas com nossas queixas íntimas, as nossas
nostalgias de melhores tempos, as nossas recriminações contra os erros dos outros,
mas com as ―nossas próprias pessoas‖, pois nas horas decisivas como esta a
ninguém é dado se afastar do posto de luta (Lima, 1937:346).

Neste texto, podemos ler nas entrelinhas parte dos objetivos da Coligação,
que centralizava seus esforços na construção da civilização cristã. Aqui, Amoroso
Lima aponta de forma mais clara quem é o inimigo a ser enfrentado pela Igreja, no
seu entender.

53
Coligação Católica Brasileira

Agrupando em redor de si todos os sócios corporativos que o desejarem, visa a


COLIGAÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA, como finalidade última e comum, à
Ação Católica, que cada uma das confederadas encara sob o prisma de sua
finalidade particular e próxima.
Para perfeita integração no espírito da Igreja, está a C.C.B. sob a orientação da
autoridade eclesiástica, imediatamente representada pelo Assistente.
A Diretoria divide a tarefa administrativa entre os conselhos administrativo e
consultivo. O Conselho Administrativo é formado pelos presidentes das associações
coligadas. O Conselho consultivo é nomeado pela Diretoria da C.C.B. Esta é
constituída do presidente, secretário e sócios, com o conselho consultivo e

54
administrativo e com as repartições auxiliares. Secretariado Geral, com a Divisão de
Controle e Estatística, que servem de apoio, respectivamente aos aludidos conselhos
para lhes permitir o cabal desempenho de sua tarefa.
SÓCIOS CORPORATIVOS. – O Centro D. Vital visa à recristianização dos
intelectuais. A Ação Universitária Católica, a elevação moral dos universitários. O
Instituto Católico de Estudos Superiores, a formação cultural católica. A
Confederação Nacional dos Operários Católicos, a reforma social cristã. A
Confederação de Imprensa Católica, a valorização de nossa imprensa.
A Empresa Editora A B C Limitada acha-se diretamente ligada à Diretoria, por
intermédio de um de seus gerentes, que é membro da referida Diretoria. Procura,
com sua secções editorial e de livraria, a difusão mais ampla possível do bom livro.
Constitui, assim, a C.C.B. um movimento organizado, infiltrando-se em todas as
classes da sociedade, para todas levar a Cristo, que é o nosso verdadeiro centro.
Todas as nossas atividades se concentram para o fazer reinar. E, por isso,
penetramos em toda parte. Ninguém discutirá, todavia, a função saliente da Empresa
A B C, pois o livro que ela envia aos mais esquecidos rincões do Brasil faz um
apostolado incomparável.
A C.C.B procura congregar as forças dispersas dos católicos. Unindo a experiência
dos amadurecidos ao ardor dos jovens, forma um bloco sólido sob a divisa:
―A Paz de Cristo no Reino de Cristo‖ (Boletim da Coligação Católica Brasileira, nº
11, p. 522-523, dezembro de 1936).

As associações coligadas à CCB eram o Centro D. Vital, a Ação Universitária


Católica (AUC), a Confederação Nacional de Operários Católicos, a Associação de
Bibliotecas Católicas, o Instituto Católico de Estudos Superiores, as Equipes Sociais
e a Confederação da Imprensa Católica. Recebiam todo apoio do ―Secretariado‖, que
administrava permanentemente os trabalhos, de forma profissional e remunerada,
―para poder permitir um trabalho contínuo e uma direção técnica‖. O Secretariado
mantinha correspondência com todos os estados. Expedia, em 1935, 2.500
exemplares de A Ordem, mais de 500 exemplares da Revista Vida, aceitava
encomendas de livros e as enviava para a Europa. Fazia a cobrança de 500 sócios do
Centro D. Vital do Rio de Janeiro, dos 300 sócios das AUC e dos alunos do Instituto
Católico de Estudos Superiores.
Especificando um pouco mais a finalidade das associações coligadas, com
exceção do Centro D. Vital, que já mereceu destaque especial, temos o quadro a
seguir.

55
Ação Universitária Católica (AUC). Destinada a congregar os
universitários, visava, segundo seu relatório publicado no Boletim ―preservar a nossa
mocidade estudiosa do contato de idéias exóticas e extremistas, abrigando-a à
sombra da Igreja Católica‖. Era composta por três centros: de liturgia, de medicina e
jurídico. Publicavam a Revista Vida, ―revista de mocidade e de ação, de combate e
de fé‖.
Confederação Nacional de Operários Católicos. Trabalhava ―pela
arregimentação do operário nacional para, sob os ensinamentos das encíclicas
pontifícias, livrá-lo da sedução do comunismo dissolvente, sem pátria e sem Deus, e
do capitalismo materialista‖, segundo relatório do Boletim. Editava o jornal O
Clamor, lançado em junho de 1935, que ―saiu regularmente nos primeiros dias dos
meses do segundo semestre‖, chegando à tiragem de 28 mil exemplares, a qual ―batia
inegavelmente o record de tiragem em jornal do gênero‖, na imprensa católica.
Mantinha sob sua responsabilidade obras como a Casa da Empregada e a Casa do
Operário.
Instituto Católico de Estudos Superiores (e Livraria Católica). Fundado
por Tristão de Athayde, em 1932, tinha como finalidade a ―preparação para a
universidade católica brasileira e formação de uma cultura católica superior e sadia‖.
Mantinha cursos como: teologia, filosofia, sociologia, introdução à ciência do direito
e biologia. O grupo de intelectuais católicos que estavam ao lado de Alceu Amoroso
Lima na condução deste Instituto era reconhecido como ―pioneiro da educação
filosófico-religiosa‖. Almejavam, em suas próprias palavras:

Atrair aos cursos do Instituto a nossa mocidade universitária, as nossas elites


intelectuais, a fim de plasmar-lhes o espírito e a consciência nas normas rígidas
duma profunda cultura, plena de sentido cristão, fazendo que, por meio de estudos
sérios e bem orientados, chegassem pelo esforço próprio a constatar a falsidade do
tão propalado antagonismo entre Ciência e Fé (Boletim da Coligação Católica
Brasileira, nº 9, p. 28, janeiro de 1936,).

Uma estratégia adotada por Amoroso Lima e os membros do Instituto era a


publicação de livros, como fazia Jackson de Figueiredo. Mas agora com objetivos
bem mais ousados. Em 1933, aparece o primeiro fruto do Instituto. Trata-se do livro

56
Ensaios de biologia, de Tristão de Athayde e Hamilton Nogueira. Na apresentação,
os autores comentam:

Realmente, o que aqui está não é apenas o primeiro dos nossos trabalhos. É também
qualquer coisa de novo em nossos esforços intelectuais. Começamos a mostrar
concretamente, não só a íntima ligação entre os problemas especulativos e os
problemas práticos mas ainda a ausência de qualquer incompatibilidade entre
religião e ciência como ainda por vezes apregoam alguma vozes anacrônicas e
cansadas (Athayde & Nogueira, 1933:9-10).

Capa de Ensaios de biologia, de Tristão de Athayde e Hamilton Nogueira, publicado em 1933 pela
Livraria Católica, sob os auspícios do Instituto Católico de Estudos Superiores

Com o advento do mundo moderno, a ciência experimental tinha alcançado


certa hegemonia. A filosofia e a teologia, entendidas no texto acima como ―religião‖,
tinham perdido espaços. Na neocristandade, o tema volta de uma forma nova. O pano
de fundo, porém, era bem parecido com o das discussões no final da cristandade.

57
A capa do livro trás o nome do Instituto, o título do livro em vertical
(ENSAIOS) e em horizontal (de BIOLOGIA), o nome dos autores e mais abaixo, em
destaque, ―Livraria Católica‖. O livro tem ―nihil obstat‖ assinado por pe. Leonel
Franca e imprimatur pelo pe. Aloysius Rion, S. J. A página de rosto traz mais
detalhes. Pode-se ler, no alto, ―Publicações do Instituto Católico de Estudos
Superiores‖; pouco mais abaixo, ―Direção de Thrystão de Athayde e Hamilton
Nogueira. Nº 1‖. Isto demostra o projeto de prosseguir na edição de livros desta
forma, ou seja, transformando os cursos dados no Instituto em livros. No meio da
página, o título do livro e depois a lista de colaboradores: Barbosa Quental, César
Guirard Jacob, Waldir de Azevedo Franco, Antônio Chaves, Antônio Amarante,
Nelson Almeida Prado. Finalmente, o editor — Livraria Católica —, e mais
endereço, local e data. A Livraria Católica, que publicava os livros do Instituto, era a
mesma que tinha sido deixada por Jackson de Figueiredo. Segundo Amoroso Lima, a
Católica dissolveu-se em 1935, depois de ter passado por sérias dificuldades
financeiras desde a morte de Figueiredo; nos sete anos que se seguiram e até seu
fechamento, não tinha sido bem administrada, o que ocasionou o seu fim definitivo.
As Equipes Sociais. Eram grupos que se dedicavam à ―obra social de união
entre as classes por meio da Instrução e amizade‖. Publicavam um o Jornal Equipe e
um Boletim de Método. Para dar uma idéia melhor das Equipes Sociais,
transcrevemos aqui parte de um de seus relatórios:

Caracterizou-se esta primeira metade de 1936 por um intenso movimento de


propaganda, do aumento do número de estudantes, de equipes e de operários;
movimento este que nos foi trazido e impulsionado por Robert Garric, fundador e
presidente geral das Equipes. Sua intensa constância e insistência no trabalho
comunicou-nos um novo entusiasmo, o qual levou-nos a um resultado satisfatório.
Temos cerca de 50 estudantes trabalhando, 12 Equipes em funcionamento e cada
Equipe de per si com grande aumento do número de operários. Comunicamos
também o aparecimento do n. 3 de nossa utilíssima publicação — ―Boletim de
Método‖ — que orienta o estudante no método de seu trabalho de educação popular
na Equipe. Acha-se em preparo o n. 4, desta mesma publicação (Boletim da
Coligação Católica Brasileira, nº 10, junho de 1936, A Ordem, p. 292, junho de
1936).

58
Esta atividade inspirou-se em uma outra de igual natureza nascida na França.
Era, nas palavras de Amoroso Lima, uma das obras sociais que mais repercussão
tinha alcançado entre os estudantes, ávidos de servir socialmente e de ―colaborar,
efetivamente, na obra de aproximação entre classes sociais, burguesia e proletariado,
para que se exerça, pacificamente, a reforma social cristã, dentro da paz e da
harmonia social‖ (Lima, 1937:351).
Associação de Bibliotecas Católicas. Trabalhava ―para a difusão do bom
livro e da cultura católica moderna‖. A Associação tinha por finalidade ―desenvolver
a boa leitura, a divulgação de livros úteis; a impressão de livros morais e
intelectualmente sadios; traduções, venda e empréstimo de livros, etc.‖, tudo dentro
da filosofia católica.
Empresa ABC Editora Limitada. A ABC era conhecida como a mãe e a
Livraria Anchieta, como a filha. Seriam uma casa editora e uma livraria católica,
como se chegou a afirmar na revista A Ordem. Divulgada como ―a grande Livraria
dos Católicos Brasileiros‖, era uma obra mantida pela Associação de Bibliotecas
Católicas, uma das entidades da Coligação Católica Brasileira. Nas propagandas da
Empresa ABC, podia-se ler: ―Fornece qualquer livro de orientação católica, tanto aos
seus amigos desta capital, como dos Estados. Tem sempre em ‗stock‘ variado
sortimento de livros estrangeiros, sobre apologética, religião, liturgia, sociologia,
pedagogia, vida espiritual, ascética e mística. Instala bibliotecas, tanto nesta capital
como no interior. Edita livros de reconhecido valor literário e moral.‖ Estas
propagandas ocupavam toda uma folha do Boletim da Coligação Católica. Nota-se
que há um investimento grande na biblioteca, investimento este que não fica sem
retorno. A evidência desta afirmação pode ser comprovada observando os balancetes
de 1936 da coligação, nos percebemos o alto valor das movimentações financeiras no
que diz respeito ao livro e a bibliotecas (Coligação Católica Brasileira, Balancete de
Razão em 20 de junho de 1936, A Ordem, p. 296-301, setembro/outubro de 1936).
Um exemplo de lançamento da ABC pode ser encontrado em 1936, com a
publicação da ―Biblioteca da Ação Católica‖, uma série de livros que tinha como
objetivo a cooperação com a ―Ação Católica‖, movimento dos leigos que havia sido
oficializado no Brasil em 1935. Na lista de ―Biblioteca da Ação Católica‖,
encontramos os seguintes livros (cf. Como a ABC lança suas edições... A Ordem, p.
526, maio de 1937):

59
Pela ação católica — Alceu Amoroso Lima
Manual de ação católica — Mons. Luigi Civard (primeira parte)
Programa de ação católica — Padre João Castro Nery
Ação católica — Padre João Costa
Ação católica — Padre Dabin (versão autorizada)
Manual de ação católica — Mons. Luigi Civardi (parte segunda)
Apostolado leigo — Padre Dabin (versão autorizada)
Manual da ação católica — Mons. Luigi Civardi (parte terceira)
A serviço da fé — Alceu de Amoroso Lima (Thrystão de Athayde)
Biblioteca Anchieta. Era a seção de vendas da Associação de Bibliotecas
Católicas. Em 1933 já está em plena atividade, inclusive importando e distribuindo
livros europeus, sobretudo da França. Na revista A Ordem de novembro-dezembro de
1933, há duas páginas (799-800) em que se divulgam mais de 80 títulos de livros
franceses ―recentemente chegados‖. No inventário das resenhas de livros ou outras
formas de divulgação de impressos feitos a partir de A Ordem de 1929 a 1938,
somamos 692 impressos; destes, 27 são editados pela da Empresa ABC. Podemos
ainda encontrar, na divulgação de livros franceses no Brasil, parcerias de editores
franceses com os editores da Empresa ABC, como é o caso da Editora Pierre Téque,
o que veremos mais à frente.
Confederação de Imprensa Católica. Era uma forma de ―centralizar o
trabalho de publicidade, informações, publicações etc, estabelecendo contato entre
todos os jornais que, no Brasil, se inspiram nos mesmos princípios em que assentam
a paz e a prosperidade nacional‖ (Lima, 1937:353). O ideal da Confederação de
Imprensa foi logo acatado por muitos, mas essa obra não alcançou êxito dentro da
coligação, ainda segundo Amoroso Lima, por falta de recursos materiais.
Sabe-se que o grande desejo do cardeal Leme era a fundação de um diário
católico no Rio de Janeiro, obra que não se efetivou, devido a um problema
financeiro com o jornal A União, periódico fundado por Felício dos Santos, que, por
má administração, ocorrida depois da gestão de Santos, trouxe prejuízo à Mitra da
Arquidiocese. Em 1930, quando d. Leme foi a Roma para receber o chapéu
cardinalício, monsenhor Rosalvo emprestou a A União grande quantia em dinheiro
que não pode ser reembolsada pelo jornal. Segundo sua biógrafa, D. Leme

60
compreendeu que, para manter com êxito um diário, era preciso ter uma
administração de técnicos. Foi com esse intento que, por volta de 1937 eu 1938, fez
vir a congregação dos Assuncionistas, diretores de La Croix e responsáveis pela
―boa imprensa‖ em Paris. Dar-lhes-ia primeiro uma paróquia — o que fez — e, com
o tempo, fundar-se-ia um jornal católico para todo o Brasil, em que os colaboradores
seriam elementos do Clero ou laicato nacionais, e os Padres Assuncionistas
entrariam como simples administradores (Gabaglia, 1962:340).

Citemos ainda duas outras realidades que aparecem nos nossos inventários e
que não estão ligadas diretamente a este quadro da CCB: a Biblioteca Brasileira de
Cultura e a ―Pro Luce‖.
Biblioteca Brasileira de Cultura. A Biblioteca Brasileira de Cultura é uma
coleção de livros dirigida por Tristão de Athayde e que tem a clara intenção de
trabalhar pela consolidação de uma civilização brasileira com bases cristãs católicas.
Chamam-nos a atenção algumas capas dos livros desta coleção, porque têm um
mesmo desenho de fundo e a mesma cor verde-clara. O desenho de fundo, uma
frondosa árvore com raízes bem seguras, certamente dizia muito, como símbolo, para
os editores. Na parte superior das capas, lê-se ―BIBLIOTECA BRASILEIRA DE
CULTURA‖. Logo abaixo, ―Dirigida por Thrystão de Athayde‖ e o número do
impresso na biblioteca. No meio da página, o nome do livro e do autor e, na parte
inferior, as editoras. Geralmente, essas obras eram editadas pela ―Civilização
Brasileira, S. A‖ ou eram uma co-edição da ―Civilização Brasileira‖ com a
Companhia Editora Nacional. Em 1934, eram nove os livros divulgados na
Biblioteca Brasileira de Cultura:
I. Introdução à economia moderna (2ª ed.) — Alceu Amoroso Lima
II. Estudos (2ª ed.) — Alceu Amoroso Lima
III. Estudos: Quinta série — Alceu Amoroso Lima
IV. Tratado de pedagogia moderna — Mons. Pedro Anísio
V. Affonso Arinos — Alceu Amoroso Lima
VI. Psicologia da fé (2ª ed.) — Pe. Leonel Franca
VII. Anchieta — Jorge de Lima
VIII. Técnicas da pedagogia moderna — Everardo Backheuser
IX. Tendências do pensamento contemporâneo — Tasso da Silveira

61
O impresso pode ser lido como signo cultural, suporte de um sentido transmitido tanto
pelo texto como pela imagem. A materialidade desta capa não resume a doutrina e a prática de D.
Leme expressa na carta pastoral de 1916 quando escreveu textos como o que temos abaixo?
―Apresse Deus nosso Senhor o dia em que, olhando para a árvore gigante da Igreja Católica no
Brasil, possamos dizer: A semente de fé, lançada em terra de Santa Cruz, germinou, cresceu,
deitou brotos, alargou a ramagem e doirou-se de copioso frutos. Os católicos somos hoje a grande
maioria, a quase totalidade da nação, e o somos no sentimento da fé, na prática religiosa e na ação
social‖ (D. Leme, s/d:126).

62
―Pro Luce‖. Cooperativa de Amigos do Bom Livro ligada à Editora Vozes,
de Petrópolis. Fazia contínua propaganda de livros em A Ordem. Nas propagandas,
veiculadas pela própria cooperativa, podemos ler: ―Fins e vantagens: Facilitar a
aquisição de livros bons e baratos, assim como formar bibliotecas particulares,
paroquiais e populares‖ (A Ordem p. 485, dezembro de1936). Os associados podiam
comprar livros da Vozes com 20% de desconto e recebiam gratuitamente o periódico
mensal A voz de Santo Antonio.

3. A organização do professorado católico20

3.1. As Associações de Professores Católicos

No ano de 1919. foi fundada em São Paulo a Liga do Professorado Católico


(cf. Discurso do Sr. Dr. Everardo Backheuser, saudando o Congresso, Revista
Brasileira de Pedagogia, Rio de Janeiro, CCBE, nº 9-10, p. 325-332,
outubro/novembro de 1934). Só alguns anos depois os educadores começam a se
organizar com mais critério. Everardo Backheuser relaciona as iniciativas de
organização dos católicos desde a fundação dessa primeira Associação, já citada,
dizendo:

No Brasil — para a honra de nossa Igreja — já estão criadas treze dessas


associações, e a vossa, senhoras professoras paulistas, a primeira a desfraldar o
estandarte. Já deste 19.. [sic] estáveis organizados, quando em 1928 os professores
de Niterói fundaram uma associação se não análoga à vossa nos detalhes, idêntica
nos escopos principais. Depois, ininterruptamente, vieram outras: em 1929
alistaram-se Barra do Piraí e Belo Horizonte; em 1930 congrega-se a de Juiz de
Fora; em 1931 a messe é maior pois computa-se a de Campinas sob o título de
―Centro de Cultura Intelectual‖, mas com objetivos análogos às demais, a de
Campos, a de Pernambuco, a do Distrito Federal, a de Petrópolis, a do Ceará. Em
1932 funda-se a de São Gonçalo no Estado do Rio e em 1933 a de Pelotas, e já se
anunciam outras em Cuiabá e Paraíba (Backheuser, 1933e:78-79).

20
Valemo-nos, nos dois primeiros itens deste texto, de nossas pesquisas para dissertação de mestrado
(Sgarbi, 1997).

63
Além de se organizar como católicos, alguns professores procuram se reunir
em associações leigas. Esta era também uma forma de atuação no campo social.
Arlette Pinto de Oliveira e Silva, da Comissão de Biblioteca e Arquivo da
Associação Brasileira de Educação (ABE), conta que

num almoço oferecido ao Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, por iniciativa de
Backheuser, homenageando-o por sua indicação ao governo do Rio Grande do
Norte, ele e Heitor Lyra sugeriram a idéia de ―um grande movimento nacional pró-
educação‖. O assunto evoluiu e em 13 de outubro de 1924 fundava-se a ABE
(Arlette Pinto de Oliveira e Silva, apud Santos, 1989:464).

Embora leiga, a ABE era um espaço de atuação de católicos militantes desde


sua fundação. Quando não mais serviu aos interesses dos católicos, eles se retiraram
e fundaram uma Confederação. A saída dos católicos da ABE deu-se em 1932. O
ofício que formalizava a saída dos católicos dizia:

As palavras valem as idéias por elas traduzidas... fatos contraditórios exprimem,


muitas vezes, apenas interpretações e aplicações diversas. Essa dupla verdade,
universalmente aceita — quem se lembra de contestá-la? — leva-nos a deixar,
pesarosos mas coerentes com o pensamento instituidor da ABE, essa gloriosa
Associação. Diante de uma insistência de modificação estatutária, acedemos afinal a
proposta, certos entretanto de possibilidade de sempre manter os pontos essenciais
da grande obra educativa, tão bem elaborada por Heitor Lyra, e perfeitamente
conhecida por aqueles que tiveram a ventura — e que ventura preciosa! — de
apreciar o seguro alcance social por ele visado, na aspiração de um Brasil melhor,
pela educação integral do povo. Enganamo-nos, todavia, e a última assembléia
extraordinária, confirmando, aliás, o que já vinha lamentavelmente se verificando,
provou exuberantemente que a orientação primitiva desaparecera, e que a disciplina,
imposta pelos leaders atuais, substituía a liberdade imprescindível para a
conservação do belo prestígio de nossa ABE [...] Têm os seus reorganizadores uma
preocupação quantitativa, impressionados sem dúvida pela influência numérica
norte-americana, enquanto os fundadores imaginaram um prestígio qualitativo,
trazido por elementos de valor nas várias esferas da atividade, todos interessados no
maior problema nacional, o da educação em suas múltiplas modalidades. Eram
pontos primaciais para Heitor Lyra, espírito cordato mas inabalável na diretriz que
traçara, 1) a posição da ABE relativamente aos governos; 2) a sua administração
sucessiva por períodos de um trimestre por ano para cada presidente; e sobretudo 3)
a sua unidade, pelo mesmo objetivo de todos os departamentos locais que

64
constituíam, propriamente uma única associação, e de modo algum, uma
confederação de sociedades de classe. Quanto ao primeiro ponto pensava o saudoso
fundador que a ABE precisa ficar ao nível dos governos; nem abaixo, a eles
subordinado, nem acima, em papel de mentor: para tanto não deveriam buscar altos
postos de administração pública os seus diretores. Claro, essa disposição não
figurava limitá-la, mas existia na consciência de cada sócio mantenedor, principal
interessado em não deturpar o valor dessa medida altamente moralizadora, pois
asseguraria mais tarde a liberdade de aplaudir ou censurar, conforme o caso, atos
oficiais. Outra medida também não figurava explicitamente nos Estatutos, mas vivia
no coração de todos, era a do profundo respeito ao verdadeiro pensamento religioso,
ora genericamente acoimado de sectário e combatido em nome de uma irreligião
formalmente proscrita pelo criador da ABE. No tocante ao segundo ponto, o das
presidências curtas, temiam — e com razão — Heitor Lyra e o grupo que o cercava,
prestigiava e ouvia, as oligarquias, declaradas ou não, onde um só faz e um só
manda, o que acaba desgostando os outros. Essa salutar medida, com grande
trabalho, conseguimos restabelecer, mas sem eficácia primitiva como provam os
fatos ocorridos. Com referência ao terceiro ponto, o mais relevante, nada
conseguimos para evitar o erro da federação, embora lembrássemos a oposição feita
ao professor Vicente Licínio Cardoso, honestamente animado pelo mesmo
propósito. Para nós a ABE, como foi criada, não pode admitir a filiação de
sociedades de classe, muito nobres em sua finalidade, mas diversas primordialmente
do superior objetivo que deu até hoje brilho admirável e enorme êxito a nossa
associação (ABE [Associação Brasileira de Educação], Ofício ao Presidente dessa
instituição, Jornal do Comércio. Rio de Janeiro, 1º de janeiro de 1933, p. 3).21

Poucos dias depois, ainda durante a V Conferência Nacional de Educação,


Fernando de Magalhães renunciou à presidência da Conferência em carta enviada a
Celso Kelly, vice-presidente, dizendo:

21
Assinam o ofício: Décio Lyra da Silva, C. A. Barbosa de Oliveira, Alice S. Carvalho de Mendonça,
Isabel Jacobina Lacombe por Mabel Lacombe e Laura Lacombe, Isabel J. Lacombe, Alice Guimarães
Rocha por Beatriz Guimarães Rocha, Alice Guimarães Rocha, Emma Nogueira, Flávio Lyra da Silva,
Amélia Resende Martins, Elisa de Resende, Marietta de Rezende, Firmina M. de Belfort Cerqueira,
Laura Xavier da Silveira por Martin Xavier da Silveira, L. X. da Silveira, Aracy Muniz Freire, Maria
Luiza Camargo de Azevedo por Júlio da Cruz Azevedo, Maria Luiza Camargo de Azevedo, Álvaro
Lessa, Américo Lacombe, D. L. Lacombe. O grifo é nosso: a ―educação integral‖ é uma das palavras
de ordem dos católicos.

65
Sabe V. Exa. bem como relutei em aceitar a presidência da V Conferência Nacional
de Educação quando os velhos companheiros de Heitor Lyra abandonaram a ABE
divorciada dos princípios do seu criador. Não colaborei na organização dos debates
da Conferência atual e por isso não compreendo seja representada a sua opinião pelo
voto de um grupo reduzido privilegiado e não pela assembléia convocada e
―convidada‖ afinal para nada fazer. Dentro da Conferência, onde se supõe serem
todos técnicos, constituiu-se um núcleo de supertécnicos com o poder opinativo
absoluto e exclusivo, o resto da Conferência contenta-se em ouvir e aplaudir. Tal
dispositivo não é razoável. Os exmos. professores da comissão especial deveriam ter
uma pequena assembléia com designação própria. Entretanto, não dispensam o
rótulo da Conferência por dela precisarem embora ponham à margem os que a
compõem. É injusto e incoerente. Era natural a conseqüência infeliz que acaba de se
desenrolar, a comissão dos 31 resolveu pelo ensino leigo, de encontro à vontade de
quase todo o Brasil. O voto pelo ensino leigo é ato de hostilidade à crença do país,
que não aprovará impedirem na escola o ensino facultativo de sua crença aos seus
filhos nela nascidos. A comunhão brasileira em matéria de fé diverge felizmente dos
31. Sei bem que contrariando o ensino religioso facultativo, ferindo portanto a
liberdade espiritual, os 31 da Conferência fantasiam-se de legisladores. A decisão é
lamentável mas irrita [sic]. Entretanto, presidente quase a contragosto da V
Conferência, divirjo da decisão e recuso participar da reunião educativa cujos fins se
abastardam. Passo a presidência a V. Exa., a quem apresento os cumprimentos muito
atenciosos. Fernando Magalhães (O Sr. Fernando de Magalhães renunciou à
presidência da V Conferência Nacional de Educação, Folha da Manhã, São Paulo,
30 de dezembro de 1932, p. 1).

Interessa-nos aqui o fato de os católicos estarem dentro de associações laicas,


mas com objetivos de fundo religioso. Quanto às associações especificamente de
católicos, foi em 1928 que começaram a surgir, como vimos. Maria Aurélia de
Lavôr, no primeiro Boletim da Associação dos Professores Católicos (Lavôr, 1932),
fala-nos da fundação desta entidade.
A primeira reunião deu-se a 17 de setembro de 1931 no Externato Sacré
Cœur. Discutiu-se a idéia de E. Backheuser sobre uma associação de professores
católicos no Distrito Federal. Estavam presentes o pe. Leonel Franca, S. J., o dr.
Everardo Backheuser, as inspetoras escolares Zélia Braune e Alba Nascimento, a
professora catedrática Maria Leonice F. Anglada, a professora Benevenuta Monteiro
(diretora da Escola Profissional Rivadávia Corrêa), a professora Laura Lacombe

66
(diretora do curso Jacobina) e as professoras Cordelina de Alencastro, Maria Regina
da Cruz Rangel, Amélia de Araujo Cabrita e Maria Aurélia de Lavôr.
Nas explicações do pe. Leonel Franca, apareceram os motivos da reunião, ou
seja:

a fundação de uma Associação de Professores Católicos no Distrito Federal, no


gênero das de São Paulo e Niterói, Campos e Barra do Piraí, a fim de que os
professores unidos procurassem não somente o próprio aperfeiçoamento, mas ainda
difundir o ensino da religião nas escolas, desde que o decreto de 30 de abril de 1931
permitia, e vinha contribuir para que o ensino fosse feito de maneira integral
(Sgarbi, 1997:25-26).

Para dar uma idéia do crescimento numérico dessas associações no Brasil,


reproduzimos na página a seguir o quadro publicado pela Confederação Católica
Brasileira de Educação, em 1934.
Em julho de 1932, aparece o Boletim da Associação dos Professores
Católicos do Distrito Federal. Os associados recebiam-no gratuitamente, e os não
associados podiam assiná-lo. O Boletim servia de ligação entre todos os professores
que tinham um mesmo ideal. Everardo Backheuser, em 1934, fala-nos do Boletim:
―A força das circunstâncias transformou este modesto Boletim de mero órgão local
em uma espécie de pequena revista brasileira de educação católica; e assim ele viveu,
aumentando embora progressivamente‖ (Discurso do Sr. Dr. Everardo Backheuser,
saudando o Congresso, Revista Brasileira de Pedagogia, Rio de Janeiro, CCBE, nº
9-10, p. 325-332, outubro/novembro de 1934).
No nosso estender, o que marca a vida do Boletim e das APCs é a sua
constante defesa das idéias escolanovistas. Vejamos como o Boletim da Associação
de Professores Católicos trava um diálogo aberto com a Escola Nova. No seu
primeiro número, de janeiro de 1932, o pe. Leonel Franca, pensador neotomista,
mostra o valor da tradição e a importância do novo com as seguintes palavras:

Na lealdade de um esforço reconstrutor tentaremos conciliar as justas exigências da


tradição e do progresso, ampliando incessantemente os tesouros do passado com as
novas riquezas do presente. É a nobre, pacífica e fecunda missão da pedagogia
católica (Franca, 1932:3).

67
Quadro do Crescimento das Associações de Professores Católicos,
até Agosto de 1934
Data da Quantidade de Total em
Localização das novas associações
fundação novas associações cada ano
1919 1 São Paulo 1
1920 nenhuma — —
1921 ― — —
1922 ― — —
1923 ― — —
1924 ― — —
1925 ― — —
1926 ― — —
1927 ― — —
1928 1 Niterói (início do crescimento) 2
1929 1 Barra do Piraí 3
1930 1 Fortaleza 4
1931 6 Campinas, Recife, Campos, Distrito Federal, Juiz de 10
Fora, Petrópolis
1932 4 Sobral, Crato, Pelotas, S. Gonçalo 14
1933 6 Belo Horizonte, Baía [sic], Alfenas, Itajubá, Valença, 20
Ubá
1934 20 [sic] Uberaba, Natal, João Pessoa, S. Luiz do Maranhão, 40 [sic]
(até agosto) Campina Grande, Quixadá, Cataguases, Leopoldina, S.
Paulo de Mariaé, Rio Branco, Ponte Nova, Rio Casca,
Abre Campo, Miraí, Baturité, Aracati, Santos, Jundiaí,
Porto Alegre
Fonte: Revista Brasileira de Pedagogia, v. 2, nº 9-10, p. 242, 1934.

No mesmo Boletim, Maria Aurélia de Lavôr faz o histórico da APC do


Distrito Federal e afirma: ―Desde a fundação da Associação que pretende a Diretoria
abrir cursos de pedagogia que venham orientar e esclarecer os progressos quanto à
Escola Nova, mostrando até onde ela é aceitável e onde começa a ser nociva‖ (Lavôr,
1932:7). É clara a adesão das APC ao movimento escolanovista. Vejamos ainda estas
palavras de Maria Aurélia:

A associação não pode deixar de se referir com o maior entusiasmo às conferências


que tem sido feitas pelo Revmo. Padre Leonel França, começadas há cinco anos, no
Externato Sacré Cœur [...] Este trabalho de apostolado incansável tem concorrido
muito para o ardor reinante na nossa Associação de Professores Católicos e visa
agora a Escola Nova (Lavôr, 1932:7).

68
Amoroso Lima propôs às APCs a realização de um congresso sobre educação
com a participação conjunta do Centro D. Vital. Montou-se uma comissão integrada
por Amoroso Lima, Everardo Backheuser, Jônatas Serrano, José Piragibe, Francisco
Xavier Kuning, Jurema de Mattos, Alba Canizares do Nascimento e a professora
Ophélia Avellar e Barros (cf. Congresso de Pedagogia Católica, Boletim da
Associação dos Professores Católicos, Rio de Janeiro, nº 1, p. 7, julho de 1932). O
―congresso não se realizou nos termos propostos, talvez em virtude da diferença da
linha de trabalho que existia entre as duas instituições‖ (Sgarbi, 1997:34).
Amoroso Lima e Van Acker não são de todo fechados às idéias da Escola
Nova. As pistas que temos para fazer tal afirmação encontram-se nas palavras de
Van Acker:

Como acertadamente escreveu Tristão de Ataíde, a Escola Nova é o reflexo das


idéias antiliberais e antiindividualistas da sociedade moderna. Mas tanto as idéias
como a escola que as reflete podem enveredar por dois caminhos principais: o
comunismo ou o catolicismo (Acker, 1933:94).

A realidade, porém, não seguiu a prática destes discursos. A ação católica dos
educadores progrediu rapidamente mas não percorreu os mesmos caminhos.

As Associações de Professores Católicos (APCs) de Ubá, em Minas Gerais, e de


Campinas (SP) recebiam em seus quadros não apenas professores, mas também
―intelectuais de outras especialidades e carreiras liberais‖, para que os professores
pudessem desenvolver uma ação social mais intensa. Isto ocorreu graças a ligação
das APCs com o Centro D. Vital, que também se expandia pelas cidades do interior
dos estados. Como algumas cidades não conseguiam fazer funcionar o Centro D.
Vital, devido a sua estrutura, as APCs passaram a ser Associações de Professores e
Intelectuais Católicos (APICs) ou Centros de Cultura Intelectual, como eram
chamados em Campinas (Sgarbi, 1997:29).

As Associações não ligadas ao Centro D. Vital reuniram-se na Confederação


Católica Brasileira de Educação (CCBE), que, além de congregar as Associações
existentes, também filiava estabelecimentos de ensino, confessionais ou não, desde
que tivessem orientação católica. Percebe-se pelos indícios que vão aparecendo que
havia divergências entre a Confederação Católica Brasileira de Educação e as

69
Associações ligadas ao Centro D. Vital. Tudo indica que a principal divergência
reside na defesa da Escola Nova por parte da CCBE.
O CDV de São Paulo realizou em 1931 um Congresso de Educação. Neste
congresso encontramos um texto de Leonardo Van Acker, altamente significativo
(cf. Acker, 1933). Para Van Acker os católicos devem condenar tudo o que na Escola
Nova for ―contrário à doutrina do pecado original e da graça, bem como da vida
sobrenatural‖. Desenvolvendo este tema, ele recorda a situação da Escola Nova em
vários países e depois afirma:

De volta de nossa viagem pelo mundo, chegamos finamente aos católicos


brasileiros. Segundo informações convergentes parece que de S. Paulo partiu o
movimento sistemático em prol da Escola Nova. Ao passo que na Alemanha e até
nos Estados Unidos, os católicos a princípio assumiram atitudes expectativas, aqui
em S. Paulo foi a Escola Nova propagada por professores católicos. Não há negar
[sic], como diz Tristão de Athayde, que ―somos uma matéria plástica por excelência,
nacionalidade em fusão que cede ao martelo dos forjadores mais audaciosos‖ por
esquecimento das tradições próprias e falta de espírito crítico. No entanto, a
explicação mais óbvia do fato que nos ocupa está na direção eficiente do sr.
Lourenço Filho que preparou diligentemente as suas colaboradoras, na maior parte
católicas, concedendo-lhes a mais ampla autonomia didática possível nos limites
forçosamente estreitos da escola pública e laicista. Assim é que no mês passado
tivemos o prazer de visitar interessante exposição da Escola Nova, organizada na
sede do Professorado Católico. Contrariamente ao que foi propalado entre os
professores, essa exposição em nada mudou as nossas idéias acerca da filosofia e
prática das novas pedagogias, antes, por tal modo as confirmou que aproveitamos o
ensejo de sugerir certas críticas que as nossas distintas colegas julgaram
aproveitadas. Porém, o que francamente ignorávamos e nos causou surpresa
agradabilíssima é que a Escola Nova em S. Paulo está nas mãos de católicos, mas de
católicos convictos e competentes como sejam as exmas. sras. d. Zuleika Marins
Ferreira, d. Alice Meirelles Reis, d. Mary Quirino dos Santos e várias outras com
quem não tivemos ocasião de travar conhecimento (Acker, 1933:94).

Este testemunho de Van Acker é um dos maiores argumentos que temos na


reafirmação da tese que defende a existência de um escolanovismo católico. As
professoras católicas de São Paulo liam as propostas da Escola Nova, não se
afastando ao mesmo tempo da doutrina católica. Foi isto que fez surgir o novo
movimento que, embora silencioso, foi lentamente se firmando.

70
No final da argumentação de Van Acker, o monge beneditino d. Xavier
Mattos pediu que o Congresso votasse uma moção ―declarando que nenhuma
incompatibilidade existe entre Escola Nova e a Igreja‖. Van Acker rejeitou a
proposta, dizendo ser ―inútil uma moção especial sobre a compatibilidade entre
Escola Nova e o catolicismo, em vista do próprio enunciado da tese que sustentou‖
(Acker, 1933:102).

3.2. A CCBE e a Revista Brasileira de Pedagogia

Com a multiplicação das APCs, fica mais clara a necessidade da fundação da


CCBE. A idéia da Confederação foi lançada no dia 11 de maio, por d. Xavier de
Mattos, após a conferência do professor Everardo Backheuser sobre a ―sindicalização
do professorado católico‖, no Centro D. Vital de São Paulo. A proposta foi acolhida
e fundou-se nesta mesma data a CCBE.
Em sessão solene do Congresso Eucarístico realizado na Bahia, em 1933, a
CCBE recebeu as bênçãos do episcopado.

BÊNÇÃO DO EPISCOPADO À CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE


PROFESSORES CATÓLICOS
Durante as solenidades excepcionais do primeiro Congresso Eucarístico Nacional
foi fundada sob o maternal patrocínio de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do
Brasil, nesta nobre cidade do Salvador e na data gloriosa da Independência, a
Confederação Brasileira de Professores Católicos. Diante do Ostensório secular da
terra de Vera Cruz, onde a aclamação de todos os brasileiros exalta e adora o Divino
Mestre, está de joelhos, suplicando a bênção do Senhor, o magistério católico, antes
de partir para a cruzada renovadora do Ensino pela verdade de Cristo Senhor Nosso.
Pastores da cristandade brasileira abençoamos esta obra fundamental de ação
católica e pedimos ao Divino Espírito Santo que ilumina e governa a Igreja de Deus,
derrame sobre todos os abnegados apóstolos da transfiguração espiritual das escolas
brasileiras a abundância luminosa e vivificadora dos seus dons magníficos. A
Confederação Brasileira de Professores Católicos, com a bênção da hierarquia
sagrada, o apoio decidido do clero, a cooperação eficaz dos chefes da família e dos
homens de boa vontade nesta alvorada eucarística, surge para impedir a ruína
intelectual e moral do Brasil. Deus a conduza ao esplendor da vitória pelo sacrifício
e pela abnegação dos cruzados de Jesus. Per crucem ad lucem. Sebastião, Cardeal
Leme; Luiz, bispo coadjutor do Espírito Santo; Augusto, arcebispo primaz da Bahia;

71
João, bispo de Campanha; Miguel, arcebispo de Olinda – Recife; Justino, bispo de
Juiz de Fora; Duarte, arcebispo de São Paulo; Vicente, bispo de Corumbá; João
Becher, arcebispo de Porto Alegre; Francisco, bispo de Campinas; Manuel,
arcebispo de Fortaleza; José, bispo de Niterói; Octaviano, arcebispo do Maranhão;
Ranulpho, bispo de Guaxupé; Antônio, arcebispo do Pará; Adalberto, bispo de
Barra; Antônio, arcebispo de Belo Horizonte; Juvencio, bispo de Caetité; Francisco,
arcebispo de Cuiabá; frei Eduardo, bispo de Ilhéus; Helvecio, arcebispo de Mariana;
frei Innocencio, bispo coadjutor de Campanha; Emmanuel, arcebispo de Goiás;
Antônio, bispo de Assis; Francisco, bispo do Crato; Severino, bispo de Piauí; f.
Innocencio, bispo prelado do Gurguéia; Idílio, bispo de Petrolina; José Maria, bispo
de Santos; Guilherme, bispo de Barra do Piraí; frei Basílio, bispo de Manaus
(Boletim da Associação dos Professores Católicos, Rio de Janeiro, CBPC, n. 10, p.
1, nov./dez. 1933).

O crescimento da CCBE em seu primeiro ano de atividades foi estupendo.


Vejamos os Quadros 1 e 2, adiante. O primeiro é resultado do levantamento feito
mediante a contagem dos nomes das escolas inscritas publicados em cada revista.
(Sgarbi, 1997:46). O segundo é a transcrição de um dos relatórios da CCBE,
publicado no volume 2 da Revista Brasileira de Pedagogia.22

22
Uma contagem rigorosa, comparando os dois quadros, revela uma diferença de 50 escolas. São
nomes de estabelecimentos que não foram publicados na RBP.

72
Quadro 1
Estabelecimentos Inscritos na CCBE, por Unidades da Federação
Dezembro de 1933 a setembro de 1934

Mês/Ano
Unidades da até até até até até até até até
Federação dez. jan. abr. maio jun. jul. ago. set.
1933 1934 1934 1934 1934 1934 1934 1934
São Paulo 93 15 16
Minas Gerais 7 19 1 4 11 1 1
Distrito Federal 16 9 7
Paraná 1
Ceará 4 3 5
Espírito Santo 1 2 2 2
Bahia 8 2 2 2
Paraíba 2 4 1 2 1 1
Goiás 1
Rio de Janeiro 8 1
Alagoas 2
Pernambuco 1 2 1
R. G. do Norte 1 7 2
Totais 117 28 5 47 14 10 27 23
Fonte: Revista Brasileira de Pedagogia, v. 1, nº 1-5, p. 62-64, 127, 191, 255-256 e 319, 1934; v. 2, nº
6-10, p. 70, 159 e 236, 1934.

Quadro 2
Estabelecimentos Escolares Confederados à CCBE, por Unidades da Federação
Agosto de 1934

Unidades da Federação Escolas confederadas


Paraná 1
Goiás 1
Alagoas 3
Rio Grande do Sul 3
Espírito Santo 5
Paraíba 8
Rio Grande do Norte 9
Bahia 12
Ceará 12
Pernambuco 13
Distrito Federal 35
Minas Gerais 47
São Paulo 108
Total 257
Fonte: Revista Brasileira de Pedagogia, v. 2, p. 242, 1934.

73
3.2.1. A Revista Brasileira de Pedagogia (RBP)

Em 25 de outubro de 1933, na terceira reunião da CCBE, ficou resolvido que


o antigo Boletim da APC do Distrito Federal deveria ser transformado e passaria a ter
o nome de Boletim de Pedagogia, preparando-se, assim, para uma missão mais
ampla. O Boletim encerrou suas atividades fazendo a seguinte chamada:

Aviso importante
Com esta edição encerra-se a vida deste Boletim. Favorecido pela Graça de Deus,
prosperou desde o primeiro momento, melhorando sempre, quer material, quer
intelectualmente. Nunca lhe faltou matéria e os assinantes afluíram de contínuo de
todos os pontos do Brasil. Mas o Boletim não morre. Ressurgirá com outro nome,
outro proprietário e outro aspecto, mas com a mesma orientação. Em vez de
pertencer à APC do Distrito Federal, será dirigido pela ―Confederação‖, de cuja
recente fundação abaixo damos notícia. Não terá mais o aspecto de ―jornalzinho‖, e
passará a ser denominado Boletim de Pedagogia. Contará com a colaboração dos
mais eminentes professores católicos de nosso País, guardando assim inteiramente a
orientação da igreja (Boletim da Associação de Professores Católicos. Rio de
Janeiro, nº 10, p. 98, dez. 1933).

Em 18 de novembro de 1933, ficou aprovado o novo nome do Boletim:


Revista Brasileira de Pedagogia. O Boletim, fundado em julho de 1932, tinha
publicado, até então, 10 números.23
No discurso de abertura do I Congresso Católico de Educação da CCBE, o
professor Everardo Backheuser revelou fatos interessantes da Revista Brasileira de
Pedagogia.

Firmados que foram os objetivos da campanha, impôs-se a necessidade de um órgão


permanente e respeitável que lhe veiculasse os propósitos. O antigo e modesto
Boletim já não podia servir para a empresa de tão largo vulto. Foi-lhe sucessora a
Revista Brasileira de Pedagogia que, com menos de um ano de vida, é vitorioso

23
―O Boletim reapareceu em 1940, quando a APC do Distrito Federal, denominada na época de APC
‗Summo Magistro‘, recomeça a editá-lo, com menos páginas e com tamanho reduzido. O primeiro
número que conhecemos é de março-abril de 1940 e o último é de dezembro de 1942. Pode ser que
existam outros números‖ (Sgarbi, 1997:56). Cf. Boletim da Associação dos Professores Católicos do
Distrito Federal (APC “Summo Magistro”), Rio de Janeiro, anos III, IV e V, 1940-1942.

74
empreendimento, com leitores em todos os quadrantes do Brasil e edições esgotadas
apesar do aumento de tiragem. A nossa Revista correspondeu, de fato, a uma
necessidade e a um anseio. Arejada e elegante no aspecto material, ela o é também
no ponto de vista intelectual, pois que em seus sumários se acumulam não só artigos
de valor e segura orientação católica como outros ventilando assuntos de atualidade
em todos os ângulos da pedagogia, escritos por personalidades de relevo e
competência. Podemos dizer sem receio de erro que a Revista Brasileira de
Pedagogia não tem similar na iniciativa privada e mesmo emparelha e vence quase
todas as publicações do gênero editadas oficialmente pelos governos das várias
unidades políticas do país (Discurso do Sr. Dr. Everardo Backheuser, saudando o
Congresso, Revista Brasileira de Pedagogia, Rio de Janeiro, CCBE, nº 9-10, p. 329-
330, outubro/novembro de 1934).

Uma das conclusões a que chegamos em nossa dissertação de mestrado é que


a RBP, pelo menos nos seus primeiros anos (1934-1935), ―seguiu à risca as diretrizes
de Backheuser, isto se comparamos os artigos com os esquemas que Backheuser
apresenta em sua obra Técnicas de Pedagogia Moderna, de 1932‖ (Sgarbi, 1997:58).
Notamos que a RBP nunca fugiu do propósito inicial: ―a divulgação dos princípios da
Divini illius magistri e o diálogo com as idéias ―avançadas‖ e ―progressistas‖, ou
seja, com os ideais da Escola Nova‖ (Sgarbi, 1997:58).
A RBP apresenta um aspecto moderno, tanto na apresentação, como na
própria ortografia utilizada. Deixou de circular repentinamente. O único indício que
temos foi o pedido de ajuda financeira feito já em 1936 e a multiplicação de
anúncios, certamente pagos, nos seus últimos números. Mas, assim como
desapareceu a CCBE, também desapareceu a revista. Um mistério que ainda tem que
ser revelado.
De todas as seções da RBP, as que mais vão interessar em nossa pesquisa são
aquelas que apresentam os novos livros. É preocupação constante prescrever para os
educadores uma literatura conforme com a doutrina católica. Assim, vamos explorar
seções como ―Literatura pedagógica — Resenha de livros‖, ―Os mestres
estrangeiros‖, ―Galeria dos mestres contemporâneos‖, ―Bibliografia pedagógica‖,
etc. Em todas encontramos resenhas de livros. Ficaremos atentos também às
propagandas de bibliotecas e livros colocados em destaque.

75
3.3. Alguns aspectos da RBP

De 1934 a 1938, foram publicados 47 números da RBP. A forma como era


diagramada é um indício claro da sua modernização. Trazia na capa, de forma bem
distribuída, o nome. Havia um interessante logotipo: dentro de um círculo fechado,
um semicírculo com uma abertura, em forma de ―C‖; dentro deste, outro semicírculo
também em forma de ―C‖; no centro, acompanhando o traçado circular, um ―B‖ e um
―E‖. Tudo justaposto de tal forma que dava a impressão da luz de um farol,
iluminando à frente.

Capa da Revista Brasileira de Pedagogia, publicada pela Confederação Católica Brasileira de


Educação

A primeira página sempre trazia um cabeçalho onde se podia ler, na primeira


linha, o nome do periódico — REVISTA BRASILEIRA DE PEDAGOGIA. Na
segunda linha, em letras maiúsculas, mas menores, ―ORGÃO OFICIAL DA‖. E na
terceira linha, também em letra maiúsculas, ―CONFEDERAÇÃO CATÓLICA
BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO‖. Em seguida, um quadro, dividido em três partes,
com o ano de publicação da RBP, com o local, o mês e o ano e com o número da
edição, respectivamente.

76
Chama a atenção, além do aspecto algo inovador para a época, a linguagem e
a própria grafia, que revelam um esforço de adesão às técnicas do modernismo; a
ortografia é muito semelhante à de nossos dias. É o que podemos notar na primeira
página de RBP.

Primeira página da Revista Brasileira de Pedagogia

A intervalos, havia uma síntese dos artigos, num sumário que convidava o
leitor a fazer a encadernação da RBP. Os 47 números resultaram em 10 volumes.
Segundo levantamento que fizemos em nossa dissertação de mestrado, a
Revista Brasileira de Pedagogia contou com a colaboração de 164 articulistas em
seus quatro anos de existência (cf. Sgarbi, 1997:193-209). No mesmo levantamento,
relacionamos 376 artigos escritos por estes articulistas. Os autores que mais
escreveram na RBP foram Everardo Backheuser (33 artigos), Alceu da Silveira (31),

77
pe. Helder Câmara (26), Barbosa de Oliveira (11), Alfredo Baltazar da Silveira (10) e
pe. Carlos Leôncio (10).

78
OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS I

A Parte I deste trabalho buscou iluminar o contexto social e eclesial em que


se encontrava o objeto da pesquisa, as ―Bibliotecas Pedagógicas Católicas‖, cuja
abordagem começa com estes dois primeiros capítulos.
O impresso (que constitui as ―Bibliotecas‖) é estudado como estratégia para a
construção de uma civilização cristã católica no Brasil na terceira década do século
XX. Nossa abordagem revela que as estratégias utilizadas, embora se revestissem de
uma roupagem brasileira, eram uma forma local de concretizar um projeto mais
amplo da Igreja Católica Romana.
Uma pesquisa inicial, registrada no ―Anexo I‖ de nosso trabalho, analisou de
forma sucinta a vasta experiência da Igreja Católica com relação à cultura impressa
desde a invenção da imprensa. Os capítulos iniciais desta pesquisa devem ser lidos
dentro deste contexto mais amplo.
Nessa perspectiva, demos ênfase a dois documentos redigidos por d. Leme, o
segundo cardeal brasileiro, sucessor do cardeal Arcoverde. D. Leme cumpriu com
precisão sua missão cardinalícia: homem situado num ponto cardeal do mundo, tendo
como referência a figura do papa em Roma. Ele foi, no Brasil, um braço estendido do
próprio papa. Dedicou sua vida à construção da unidade da Igreja em torno das
orientações emanadas da Sé romana. Seu próprio lema revelava o ideal de ser ponto
de unidade: Cor unum et anima una — um só coração e uma só alma.
Buscamos indicar, até aqui, a função do impresso como arma de luta em prol
de uma civilização católica. Procuramos ao mesmo tempo destacar o papel dado à
escola como ―potência civilizadora de primeira ordem‖, campo de batalha onde ―se
decide o caráter cristão da sociedade‖.
O projeto amplo e universal encarna-se no Brasil em estratégias bem
localizadas, em iniciativas bem concretas, com pessoas e entidades direcionadas à
construção da ―civilização cristã‖ sonhada pelas lideranças católicas da época.
A formação dos intelectuais era, dentre as estratégias, uma que se destacava.
O Centro D. Vital do Rio de Janeiro foi o grande instrumento para operacionalizar
esta estratégia e, neste sentido, mereceu um espaço em nossa pesquisa. Sendo o

79
nosso interesse maior o campo educacional, porém, nossa pesquisa destaca neste
contexto a Confederação Católica Brasileira de Educação, entidade que reunia os
intelectuais católicos do campo educacional.
Ao abordar o Centro D. Vital e a revista A Ordem, privilegiamos mais as
fontes primárias, sem entrar nos detalhes levantados nas análises que são feitas por
inúmeros pesquisadores como Velloso (1978), Schuartzman, Bomeny & Costa
(1984), Cury (1988), Azzi (1994) e Dias (1996). Buscamos, sim, tudo aquilo que nos
ajudasse a concentrar o foco em nosso objeto de pesquisa.
As duas entidades citadas são estudas à luz da Coligação Católica Brasileira
(CCB), entidade criada para unificar toda a ação católica da época, tanto na capital
federal, como em todo Brasil. Procuramos compreender nestes dois primeiros
capítulos os esquemas que ―amarravam‖ as diversas iniciativas, todas reunidas em
torno da CCB, com exceção de uma, a Confederação Católica Brasileira de
Educação.
Nesta primeira parte da pesquisa, portanto, caminhamos em direção ao núcleo
de nosso objeto de pesquisa: a CCBE e sua revista, a Revista Brasileira de
Pedagogia. Essa entidade fugiu aos esquemas traçados pela liderança eclesiástica da
época. Como isto foi possível? Como não ceder à força unificadora que tinha o
cardeal Leme, que conseguia até ser a grande liderança entre os bispos do Brasil?
Nosso estudo levou-nos a constatar que existe ainda muita coisa a ser investigada
sobre a os educadores católicos nas três primeiras décadas do século XX.
Outra conclusão a que chegamos, nesta primeira abordagem do objeto, é que
existia verdadeira rede formada das mais diversas entidades católicas, muito além
das aqui estudadas.
Focalizado o nosso objeto de pesquisa, tendo em vista todo o contexto
histórico em que se encontrava, dedicaremos os dois próximos capítulos (Parte II) ao
levantamento quantitativo dos impressos que os católicos fizeram circular na época.
Trataremos também de relacionar os principais temas e problemas discutidos nas
páginas dessas publicações. Pretendemos assim alargar um pouco mais o campo de
investigação da história da educação neste período.

80
Parte II

BIBLIOTECAS PEDAGÓGICAS CATÓLICAS

De um inventário superficial sobre o livro


ressalta um certo número de sinais que remetem
a tantos outros usos: o título, a ilustração, a
tipografia. Cada um serve de boa avaliação para
uma história do livro que não tema aventurar-se
às fronteiras de outras disciplinas. O título,
inicialmente, é susceptível de múltiplas
interrogações. Pode ser considerado como um
indicador geralmente fiel de um conteúdo,
sobretudo na época moderna quando reina o
título longo; é a partir dele que se pode efetuar o
imenso trabalho quantitativo de discussão
temática das leituras, sendo sua função maior, no
entanto, a de venda. Reunindo dois aspectos do
livro — veículo cultural que é também uma
mercadoria — deve permitir uma história
regressiva dos estereótipos publicitários (Chartier
& Roche. 1976:109).

81
Capítulo III

A BIBLIOTECA PEDAGÓGICA CATÓLICA


CONSTRUÍDA PELO CENTRO D. VITAL

E DIVULGADA PELA REVISTA A ORDEM

1. Inventário dos impressos da ―biblioteca sem muros‖ da revista A Ordem

Muitas pesquisas já foram feitas tendo como objeto o Centro D. Vital e sua
revista. Mas não conhecemos uma que tivesse explorado este veio, ou seja, a
―biblioteca sem muros‖, sua principal estratégia na constituição da cultura católica,
buscada no dia-a-dia do CDV.
Não pretendemos neste texto ir às minúcias, embora o levantamento que
fizemos até nos dê os elementos necessários ao aprofundamento. Apenas
registraremos os dados gerais deste levantamento, pois nosso interesse maior está
voltado para a Biblioteca de Pedagogia dos educadores católicos da CCBE.
Convém lembrar que usamos a palavra ―pedagógica‖ ,primeiro, no sentido de
serem bibliotecas que tinham a finalidade de conduzir as pessoas para uma cultura
cristã católica e, segundo, no sentido de serem formadas de livros destinados à
educação. A biblioteca do Centro D. Vital, mais ampla, será vista no primeiro
sentido.
O primeiro passo que demos foi recortar um período para a nossa pesquisa.
Atentos à forma pedagógica utilizada pelos católicos para fabricar uma cultura e, ao
mesmo tempo, à utilização dos livros para constituírem o campo da pedagogia
católica, delimitamos exatamente os anos em que a luta pelo campo pedagógico é
grande no Brasil, a década de 30 do século passado. Começamos, melhor dizendo,
em 1929 (de 1928 registramos só os acontecimentos de dezembro, quando Alceu
Amoroso Lima assumiu a presidência do Centro D. Vital), ano em que o CDV
inaugura uma nova fase. Outro acontecimento que marcou o ano de 1929 foi a
promulgação do documento papal ―Acerca da educação da juventude‖. Este é o

82
tempo em que os educadores católicos começam a se organizar em associações,
processo que culmina com a fundação da Confederação Católica Brasileira de
Educação (CCBE) e o lançamento da Revista Brasileira de Pedagogia (RBP),
instrumentos para combater exclusivamente no campo educacional. Fechamos nosso
recorte em 1938, ano do desaparecimento da CCBE e da RBP.
O Centro D. Vital, que enfatizou o aspecto cultural depois de 1928, tem sido
estudado no sentido de se conhecer a atuação dos intelectuais católicos na década de
30, vendo-os como um núcleo organizador da sociedade civil, produtores de uma
ideologia própria. A revista A Ordem, por sua vez, tem sido analisada como núcleo
de irradiação dessa ideologia (cf. Velloso, 1978:117-118).
Observe-se que, diante do número de pesquisas que envolvem o Centro D.
Vital e sua revista, muitos trabalhos de história da educação católica no Brasil lêem a
atuação dos católicos pela ótica do Centro D. Vital e subestimam, às vezes, a
produção dos educadores católicos organizados na CCBE. Em nosso caso, para
confrontar pelo menos duas produções dos intelectuais católicos em nossa pesquisa,
escolhemos também o Centro e sua revista, dado o seu significado já comprovado
para a história cultural do Brasil.
Estas são algumas das razões que nos levaram a decidir por elaborar o
inventário, ainda que superficial, dos impressos divulgados pela revista A Ordem no
período de dezembro de 1928 a dezembro de 1938.

1. 1. Traços gerais do inventário

A Ordem tinha objetivos muitos mais amplos do que o campo educacional.


No desejo de atingir todos os campos, divulga impressos do campo religioso,
econômico, político, educacional, etc.
Os impressos inventariados são livros, coleções de livros, jornais, revistas,
folhetos, textos de discursos e boletins. Quatro impressos foram classificados como
sendo outros (carta; memorial), porque suas características próprias não permitiam
que fossem incluídos nas categorias anteriores.

83
Quadro 3
Categorias de impressos inventariados
A ordem
Dezembro de 1928 a dezembro de 1938

Categorias de impressos Quantidade


Livro 646
Jornal 11
Revista 20
Artigo 1
Folheto/folhinha 3
Coleção (Livros) — Cooperativa 2
Boletim 3
Discurso 2
Outros 4
Total 692

Inventariamos, assim, 692 impressos. Separando-os por ano de divulgação,


construímos o quadro a seguir. A contagem do número de impressos divulgados no
ano revela não só a produção do grupo, mas as crises e os avanços dos trabalhos
realizados no Centro D. Vital. Percebemos a crise pela qual o Centro passa com a
morte de Jackson de Figueiredo, ocorrida em 4 de novembro de 1928;24 percebemos
também a ascensão do CDV, com o trabalho do novo presidente e diretor da revista,
Alceu de Amoroso Lima.
Como nossa opção foi inventariar os impressos a partir da segunda fase dos
trabalhos do Centro D. Vital, resenhamos em primeiro lugar a edição de dezembro de
1928, a primeira que foi publicada na nova fase. Desta forma, registramos em 1928

24
Cléa Alves Figueiredo Fernandes, no livro que escreveu sobre seu pai, registra no último parágrafo
algo que nos chama a atenção. Ela testemunha, sem nem mesmo querer, que Jackson de Figueiredo, o
qual viveu pelo livro e tirou do livro o sustento para si e sua família, deixou como herança e sustento
de sua família só uma coisa: a biblioteca. ―Note-se também que Alceu, aquele que substituiu Jackson
nas suas obras de doutrinação católica, dispôs-se, conforme conta em uma de suas cartas a Afonso
Penna, velar, no plano pragmático de sobrevivência, pela família do amigo, oferecendo um aluguel
pela valiosa biblioteca de Jackson colocada no centro Dom Vital. E tudo faria para salvar a Livraria.
Prometeu e assim foi feito em relação à Biblioteca‖ (Fernandes, 1989:598).

84
só os impressos divulgados na revista de dezembro: relacionamos 10 impressos. Isso
mostra que A Ordem estava em plena atividade.

Quadro 4
Impressos inventariados
A Ordem
Dezembro de 1928 a dezembro de 1938

Ano Número de impressos Ano Número de impressos


1928 (dez.) 10 1934* 49
1929 2 1935 143
1930 18 1936 124
1931 60 1937 95
1932 97 1938 44
1933 50 Subtotal 455
Subtotal 237 Total geral 692
Nota: * A partir deste ano, também foi publicada a RBP.

Gráfico 1
Impressos inventariados, por ano
Revista A Ordem
Dezembro de 1928 a dezembro de1938

160
140
Número de impressos

120
inventariados

100
80
60
40
20
0
1928 (dez.)

1929

1930

1931

1932

1933

1934

1935

1936

1937

1938

Anos

85
Comentemos cada um dos meios utilizados pela revista para divulgar os
impressos. Algumas destas formas eram muito simples, outras bem sofisticadas e
cheias de detalhes. Observe-se o Quadro 5. Vamos estudá-lo a seguir, destacando
cada uma das formas de divulgação de impressos.

Quadro 5
Meios de divulgação do impresso e impressos divulgados
A Ordem
Dezembro de 1928 a dezembro de 1938

Meios Impressos divulgados


Artigo 2
―Bibliografia‖ 478
―Crônicas Literárias‖ 24
―Edições de 1931‖ 38
―Letras Católicas/Contemporâneas‖ 63
―Nossos Livros‖ 2
―Registro‖ 4
―Seção Universitária‖ 1
―Volumes Recebidos‖ 2
Propaganda (indicação com destaque) 78
Total 692

O Quadro 6, na página seguinte, mostra o levantamento do período de tempo


que estes meios (com exceção das propagandas) ocuparam na revista. As seções
―Bibliografia‖, ―Crônicas Literárias‖ e ―Letras Católicas/Contemporâneas‖ serão
comentadas no item 1.2 deste capítulo.
Artigo. No período em que se encontram os impressos inventariados, há dois
artigos que também discorrem sobre livros, inventariados em nossa biblioteca. O
primeiro artigo, intitulado A propósito de Macunaíma, escrito por Augusto F.
Schmidt (Schmidt, 1928), é sobre o livro de Mário de Andrade. Trata-se de um
grande elogio à obra; entre outras palavras, diz o articulista: ―Mesmo não podendo
enquadrar ‗Macunaíma‘, pois ele é a própria indeterminação, a gente tem a noção de
que este livro é alguma coisa de realmente importante, importante principalmente em

86
relação ao momento brasileiro‖ (Schmidt, 1928:25). O segundo artigo era de Olívio
Montenegro, intitulado Chesterton e o seu livro sobre S. Francisco (Montenegro,
1930). Trata-se de ―uma biografia sobre São Francisco‖ e, mais do que isto, um
estudo sobre a Idade Média.

Quadro 6
Períodos de tempo ocupados pelos meios de divulgação dos impressos
A Ordem
Dezembro de 1928 a dezembro de 1938

Anos
Meios de divulgação dos
1928

1929

1930

1931

1932

1933

1934

1935

1936

1037

1938
impressos

Artigo
―Bibliografia‖
―Crônicas Literárias‖
―Edições de 1931‖
―Letras Católicas/Contemporâneas‖
―Nossos Livros‖
―Registro‖
―Seção Universitária‖
―Volumes Recebidos‖

―Edições de 1931‖. São bibliografias com pequenos comentários que foram


divulgadas em 1931. Em número total de 38 aparecem nas edições de março (ano XI,
volume IV, nova série, número 13), às págs. 189-192, e de abril (ano XI, volume IV,
nova Série, número 14), às págs. 254-256.
―Nossos Livros‖. Trata-se de alguns textos que apareceram na edição de
junho/julho de 1929, às págs. 109-113, todos a respeito do livro Da alma cristã em
face ao sofrimento, de Moysés Marcondes. Há uma nota de agradecimento ao Centro
D. Vital pelo recebimento do livro, do Conde de Affonso Celso, e comentários de
José Piragibe (Mina de Ouro) e de Nestor Victor.
―Registro‖. Comentários sobre diversos assuntos, dentre os quais sobre
impressos. Inventariamos quatro impressos que mereceram menção especial nesta
seção da revista: Elevação sobre a Escritura Sagrada (Anônimo), Um perfil do
Santo Padre, publicação do Jornal do Comércio, O Bandeirantes, do Centro Jackson

87
de Figueiredo, e Le christianisme, de Paul Louis Couchoud (dir.). O registro sobre
esta última publicação, intitulado ―O escândalo da coleção Couchoud‖, denuncia a
farsa de toda uma coleção de livros que atacava o cristianismo.25
―Seção Universitária‖. Apareceu apenas uma vez na revista, no ano de 1932,
volume VII, às páginas 309 a 313. Traz uma resenha do livro Terra de ninguém, de
Albertino Moreira. Embora sejam feitas algumas críticas e restrições, o resenhista
afirma que ―o livro tem valor. Não há negá-lo‖.
―Volumes recebidos‖. Inventariamos dois impressos comentados sob este
título. O primeiro, um livro de Luiz A. Gurgel do Amaral, intitulado Visões do Ano
Santo e publicado pela Editora Pongetti em 1934. O comentário encontra-se à p. 296

25
―Há cerca de 20 anos apareceu um volume sobre Sages et Poêtes d‘Asie‘‘, com prefácio de Anatole
France, em que o autor, o Dr. Paul Luis Couchoud, numa linguagem muito harmoniosa e pura, em que
se sentia visivelmente a influência do prefaciador, falava sobre as velhas civilizações asiáticas [...]
Alguns anos mais tarde, sob a direção desse mesmo Dr. Couchoud, começou a aparecer uma pequena
coleção de livros (Le Christianisme) [...] em que se fazia, com grande erudição, um ataque cerrado ao
cristianismo e à sua civilização, partindo sempre do sistema que Couchoud bebeu entre alguns críticos
alemães de segunda ordem, de negar a existência histórica de Nosso Senhor [...] Esses volumes
cresceram em número e eram assinados por diferentes nomes que pela primeira vez apareciam em
público e que revelavam existir toda uma turma de especialistas em história e teologia cristã e que
sustentavam as teses racionalistas mais anticristãs. Esses nomes eram Henri Delafosse, Louis
Coulange, Edmond Perrin e muitos outros. A princípio houve apenas surpresa. Em seguida suspeição.
Finalmente pesquisa séria. E agora, em seguida a trabalhos rigorosíssimos de crítica interna e externa,
o escândalo acaba de explodir. Toda essa EQUIPE de nomes novos que Couchoud parecia ter reunido
em torno de si e que já subia a 15 pessoas diferentes, acaba de ser reduzida a UM SÓ INDIVÍDUO e o
que é mais triste, a um SACERDOTE. Trata-se do Abbé Turmel, que há vinte anos atrás, durante a
luta modernista, se viu já ligeiramente comprometido e que agora acaba de revelar-se como o mais
refinado mistificador que jamais viu a história literária. Até se conheciam mistificadores modernos,
que faziam de uma ou duas pessoas, três no máximo. Hoje esse ABBÉ Turmel acaba de levar a palma
de todos, assumindo QUINZE (15) diferentes a fim de dar a ilusão de que um novo poder, de que todo
um grupo de NOVOS se jogava conta a Igreja armado de armas teológicas, finalmente temperadas.
Quem quiser mais detalhes sobre este pitoresco escândalo teológico-literário, consulte a REVUE
APOLOGÉTIQUE (ed. Beauchesne) de maio de 1930. Nós aqui desejamos apenas pôr em guarda os
nossos incautos leitores contra essa coleção de pequeninos volumes pérfidos, que sob o título
enganoso de Le Christianisme‘, e espalhados pela grande casa editora ‗judaica Rieder (Place Saint
Sulpice, 7 — Paris), podem iludir facilmente os leitores de boa fé, quando não passam da mais triste
das mistificações, já agora formando um capítulo dos mais pitorescos na história literária‖ (O
escândalo da Colleção Couchoud. A Ordem, vol. II, p. 270-271, junho de 1930).

88
do volume XIV, de setembro de 1935. Trata-se de uma ―crônica sugestiva das
majestosas solenidades litúrgicas do Jubileu‖. O segundo, um livro do pe. dr.
Humberto Rohden, intitulado Jesus Nazareno, editado pela Cruzada da Boa
Imprensa no Rio de Janeiro. Neste comentário, à p. 370 do volume XIV, de outubro
de 1935. No comentário, que não está assinado, lemos, entre outras coisas: ―Um
grande e grosso volume de mais de 500 páginas. Porém um livro que se lê com
agrado e proveito [...] um livro indicado para toda gente, para estudo, meditação e
contemplação da vida do Salvador‖.
Outro elemento que se deve notar é que os 692 impressos desta ―biblioteca
sem muros‖ não significam 692 títulos diferentes. Uma biblioteca pode ter mais de
um volume de determinada obra; o mesmo acontece com esta biblioteca pedagógica
católica.
Um título pode ser ―reeditado‖ sobre outro aspecto: seja pelo enfoque
diferente por outro resenhista, seja por estar em outra seção, quando o impresso
também aparece sob novo aspecto. Isto demonstra certo destaque que é dado ao
impresso. Vejamos algumas amostras disto.
O livro Técnica da pedagogia moderna (Backheuser, 1934) aparece duas
vezes no inventário. É divulgado em A Ordem, volume VIII, de março de 1935, em
que recebeu indicação com destaque, tipo propaganda, na página 148 e na página
176. No mesmo ano, merece um comentário de Jônatas Serrano, na seção Letras
Contemporâneas, às págs. 488-491 da edição de junho. O livro, porém, é
inventariado apenas uma vez em 1935. Mas a obra seria novamente cadastrada em
1936, na revista de julho-agosto, volume XVI. O livro tinha sido reeditado no mesmo
ano da nova divulgação.
Ainda como amostra, temos um outro caso: Maquiavel e o Brasil, de Otávio
de Faria, Rio de Janeiro, Schmit editor, que foi resenhado por Pedro Dantas na
edição de novembro de 1931, volume V, págs. 312-317, na seção ―Crônica
Literária‖. O mesmo livro aparece em 1932, comentado por ―J. J. S.‖ na seção
―Bibliografia‖ do volume VIII, nº 28, de junho, às págs. 475-476. Ainda no mesmo
ano, em março, no volume VI, na mesma seção ―Bibliografia‖, foi examinado por
Manoel Lubambo. Na ―biblioteca católica‖, a obra aparece inventariada duas vezes:
num comentário, é visto com muitas reservas; noutro, é desaconselhada.

89
1.2. As resenhas de A Ordem

Como vimos, a revista A Ordem utiliza-se de vários meios para divulgar o


impresso. De maneira especial, temos as seções que classificamos como de resenhas,
porque são textos que contêm grande parte dos elementos necessários para serem
classificados como tal, ou seja: informações gerais sobre o impresso, como autor,
título, época, etc.; comentários sobre a idéia central do texto, como objetivos, tese,
etc.; comentários sobre o plano de assunto do texto (capítulos, seqüência lógica,
etc.); comentários pessoais e críticas do resenhista (importância do texto, sua
influência, aspectos referentes à publicação do impresso, atualização dos dados, etc.).
Dentre estas seções, destacamos duas que eram resenhas longas dos livros,
verdadeiros artigos de impressos que receberam uma atenção especial: trata-se das
seções ―Letras Contemporâneas‖ (ou ―Letras Católicas‖) e ―Crônicas Literárias‖.
Destacamos ainda uma terceira seção, ―Bibliografia‖, que trazia pequenas resenhas
amplamente divulgadas em A Ordem.
―Letras Contemporâneas‖ e ―Letras Católicas‖. Eram comentários longos
sobre impressos, todos livros. O responsável por esta seção é Jônatas Serrano, que
começou a publicar as resenhas em 1932 e esteve presente em todos os anos
escolhidos para o nosso inventário. Publicou 63 resenhas, assim distribuídas: 1932,
13 resenhas; 1933, oito; 1934, mais 13; 1935, 12; 1936, quatro; 1937, sete; e 1938,
seis.
Na leitura que fizemos de suas resenhas, classificamos dois livros como
―desaconselhados‖, ambos são do escritor Jorge Amado: Suor e Cacau.
Classificamos os demais como ―indicados‖. É claro que, uns com menos outros com
mais críticas, próprias de uma resenha, pode-se fazer mais outro corte, ―indicados
com reservas‖. Faremos breve comentário sobre as resenhas dos livros que foram
desaconselhados, para dar uma idéia do porquê desta nossa classificação.
O resenhista comenta, quanto aos romances de Jorge Amado, que os diálogos
são de fidelidade fotográfica e, com isto, faz críticas ao vocabulário realista do autor,
pois em literatura, seria um erro supor que se deve dizer tudo, contar tudo, sem
nenhum limite. Arte seria seleção. Quantitativa e ―qualitativamente‖. O realismo, ao
descer a certas minúcias e tentar fixar relações ou momentos da psicologia humana,
seria incompatível com a genuína emoção artística. Jônatas Serrano escreve:

90
O Sr. Jorge Amado, que é, sem favor, um artista, dotado de intenso poder evocativo
e de emotividade notável, parece não aceitar essa verdade elementaríssima de
estética (arte é seleção!). No diálogo inclui ―tudo‖, sem exceções. E nas cenas...
Como é difícil demonstrar sem transcrever textos! Seria, porém, contradição
intrínseca o fazer aqui citações. Não esqueço nunca o respeito à natureza destas
crônicas. Para quem não leu nem pretende ler ―Suor‖, aliás, as citações seriam
supérfluas. Para quem já conhece o volume, ou está disposto a respirar-lhe o ar
saturado de odores fortes, contento-me com aquela fórmula das citações eruditas:
―Passim‖ (Serrano, 1935:135).

Diante desse tom, classificamos os dois romances como ―desaconselhados‖


na visão do resenhista.

Quadro 7
A seção ―Letras Contemporâneas‖: impressos inventariados
A Ordem
1930 a 1932

Autor Título do impresso


Amado, Jorge Cacau
Amado, Jorge Suor
Anchieta, P. José de Arte de gramática da língua mais usada na costa
do Brasil
Araújo, Murilo As sete cores do céu
Assis, S. Francisco de I fioretti
Athayde, Tristão de Debates pedagógicos
Azeredo, Carlos Magalhães de Princípios de sociologia
Bazin, René Magnificat
Brasil, Juvenal Sinos de Ouro Preto
Castro, Eugênio de Geografia lingüística e cultura brasileira (ensaio)
Celso, Afonso Visconde de Ouro Preto (excertos biográficos)
Castro, Eugênio de Geografia lingüística e cultura brasileira (ensaio)
Celso, Afonso Visconde de Ouro Preto (excertos biográficos)
Celso, Maria Eugênia Jeunesse
Chesterton, G. K. O homem eterno
(continua)

91
Quadro 7 (continuação)
A seção ―Letras Contemporâneas‖: impressos inventariados
A Ordem
1930 a 1932

Autor Título do impresso


Costa, filho, Odylo Seleta cristã
Couto, Ribeiro Presença de Santa Terezinha
Delamare, Alcibíades A bandeira do sangue
Faria, Otávio de Tragédia burguesa — I — Mundos mortos
(romance)
Faria, Otávio de Dois poetas — Augusto Frederico Schmidt e
Vinícius de Moraes
Figueiredo, Jackson de Aevum (romance)
Franca, P. Leonel S. J. A psicologia da fé
Franca, P. Leonel, S. J. O divórcio
Franca, P. Leonel, S. J. Ensino religioso e ensino leigo
Franco, Tavares A enchente (romance)
Jolinon, Joseph Imagerie du Curé d' Ars par un paysan de son
temps
Karam, Francisco A hora espessa
Lamego Filho, Alberto A planície do solar e da senzala (prefacio de
Oliveira Viana)
Lima, Jorge de Anchieta
Linhares, Mário Poesias
Lisboa, Henriqueta Velário
Lobo, Hélio No limiar da Ásia (A URSS.): ensaio de
interpretação
Lobo, Prof. Abelardo Curso de Direito Romano
Macedo, J. Melo Arribada
Machado Filho, José A. Alvorada
Machado, Dionélio Os ratos
(continua)

92
Quadro 7 (continuação)
A seção ―Letras Contemporâneas‖: impressos inventariados
A Ordem
1930 a 1932

Autor Título do impresso


Mauriac, F., Ducatillon, R. P., Le communisme et les chrétiens
O. P., Berdiaeff, N., Marc, A.,
Rougemont D. de & Rops, D.
Mauriac, François Les anges noirs
Mauriac, François Commencements d‟une vie
Milano, Atílio Poesias escolhidas
Miranda, Veiga O voluntário de Santa Terezinha
Monlaur, M. Reynés Lumière pour lumière
Moraes, Durval de O poema de Anchieta
Moraes, E. Vilhena O Duque de Ferro: aspectos da figura de Caxias
Moraes, José Mariz Lagoa seca
Moraes, Vinicius de Forma e exegese
Moraes, Vinicius de O caminho para a distância
Munthe, Axel O livro de San Michele
Nery, P. J. Castro Evolução do pensamento antigo
Nóbrega, Manoel da Cartas jesuíticas — I
Nogueira, Hamilton Dostoiewski
Nunes, Carlos Alberto Os brasileidas
Papini, Giovanni A vida de Santo Agostinho
Papini, Giovanni Gog
Peisson, Edouard Le pilote (roman)
Peixoto, Afrânio Cartas jesuíticas — III — Cartas, informações...
Prata, Ranulfo Navios iluminados (romances)
Schmidt, Augusto Frederico Canto da noite (poesias)
Schnurer, Gustave L‟Eglise et la civilisation au moyen âge
Silveira, Tasso da Discurso ao povo infiel
Silveira, Tasso da Cântico do Cristo do Corcovado
(continua)

93
Quadro 7 (conclusão)
A seção ―Letras Contemporâneas‖: impressos inventariados
A Ordem
1930 a 1932

Autor Título do impresso


Skansen, Per A conversão de Eva Lavalliére (trad. de Ribeiro
Couto)
Veríssimo, Érico Música ao longe
Veuillot, Louis In memoriam — Felício dos Santos...
Wast, Hugo Dom Bosco e seu tempo

―Crônicas Literárias‖. Esta seção traz artigos especiais sobre alguns livros.
Inventariamos, no intervalo correspondente à nossa pesquisa, 24 ―crônicas‖
publicadas entre os anos de 1930 e 1932. São vários os autores que as assinam, a
saber: Pedro Dantas, que escreveu 14 crônicas; Otávio Faria, cinco; Jônatas Serrano,
duas; Oscar Mendes, Augusto F. Schmidt e Durval de Moraes, uma crônica cada um
(ver Quadro 8).

Quadro 8
A seção ―Crônicas Literárias‖
A Ordem
1930 a 1932

Ano Autor/obra Cronista


1930 Mateus de Albuquerque/L‟homme entre deux femmes Otávio Faria
1930 Carlos Drummond de Andrade/Alguma poesia Otávio Faria
1930 Murilo Mendes/Poemas Otávio Faria
1930 Ribeiro Couto/Cabocla Otávio Faria
1930 Mário de Andrade/Remate de males (poesia) Otávio Faria
1930 Marques Rebelo/Oscarina Durval de Moraes
1930 Otávio de Faria/Maquiavel e o Brasil Oscar Mendes
1930 E. Vilhena de Moraes/O patriotismo e o clero no Pedro Dantas
Brasil
1930 Ernest Glaeser/Classe 22 Augusto F. Schmidt
(continua)

94
Quadro 8 (conclusão)
A seção ―Crônicas Literárias‖
A Ordem
1930 a 1932

Ano Autor/obra Cronista


1931 Ludwig Renn/Guerre Pedro Dantas
1931 Ernest Johansen/Quatre de l‟infanterie Pedro Dantas
1931 Augusto Frederico Schmidt/Pássaro cego Pedro Dantas
1931 Alfonso Reys/El testimonio de Juan Peña Pedro Dantas
1931 José Geraldo Vieira/A mulher que fugiu de Sodoma Pedro Dantas
1931 D. João Becker/O laicismo e o Estado moderno (21ª Pedro Dantas
Carta Pastoral)
1931 D. João Becker/Os católicos e a futura Constituição Pedro Dantas
(22ª Carta Pastoral)
1932 René Schwob/Moi, juif (livre posthume) Pedro Dantas
1932 Emil Ludwig/Juillet 1914 Pedro Dantas
1932 Emílio Moura/Ingenuidade Pedro Dantas
1932 Mário Peixoto/Mundéu Pedro Dantas
1932 Jorge Amado/O país do carnaval Pedro Dantas
1932 Manuel Bandeira/Libertinagem Pedro Dantas
1932 Austen Amaro/Ante o mistério do amor e da morte Jônatas Serrano
1932 E. Vilhena de Moraes/A padroeira do Brasil Jônatas Serrano

―Bibliografia‖. Esta é a seção que mais divulgou impressos em A Ordem.


Aqui, inventariamos 478 impressos resenhados. São pequenas resenhas que, em
grande parte, não são assinadas ou são assinadas por iniciais (254; ver Quadro 9).
Das poucas assinadas, temos em nosso cadastro o pe. Huberto Rohden, com cinco
resenhas, e Oscar Mendes, com duas; os demais nomes aparecem uma só vez: José
Mariz de Moraes, Luiz Sucupira, Padre Leopoldo, José Ferreira de Souza, Manoel
Lubambo, Alexandre Correia, A. Felício dos Santos e Mário Marroquim (ver Quadro
9).

95
Quadro 9
A seção ―Bibliografia‖: resenhas assinadas por iniciais
A Ordem
1928 a 1938

Iniciais Resenhas Iniciais Resenhas


J. S. 61 M. S. 4
L. S. 49 S. A. 4
L. A. A. 41 W. R. 3
S. 19 C. 3
J. J. S. 18 R. C. 1
P. G. 14 C. G. 1
S. d‘ A. 11 O. L. 1
C. B. 9 W. 1
L. A. 8 J. M. M. 1
B. F. 4 F. A. R. 1

As demais resenhas, 206, aparecem sem assinatura, ou seja, estão sob


responsabilidade direta dos editores. Ao distribuir o número de impressos resenhados
pelos anos do nosso inventário, obteve-se o Quadro 10.
Mais uma vez, revelam-se os anos de maior atividade da revista. As crises,
tanto internas, como externas, certamente influenciavam as atividades dos integrantes
do Centro D. Vital.

Quadro 10
A seção ―Bibliografia‖: impressos resenhados
A Ordem
1928 a 1938

Anos Impressos resenhados Anos Impressos resenhados


1928 8 1934 36
1929 2 1935 66
1930 2 1936 117
1931 15 1937 82
1932 75 1938 33
1933 42 Total 478

96
Outro aspecto interessante é o número de impressos estrangeiros que foram
divulgados pela seção ―Bibliografia‖. Das resenhas que trazem com clareza a
procedência do texto, cadastramos 386 impressos; os demais, em número de 92,
preferimos deixar fora cadastro, mesmo conhecendo a procedência de um ou outro
texto. O Quadro 11 dá uma idéia do interesse dos intelectuais católicos brasileiros
pelos textos estrangeiros e quais os países que têm a sua preferência.

Quadro 11
A seção ―Bibliografia‖: países de origem dos impressos resenhados
A Ordem
1928 a 1938

País Impressos resenhados País Impressos resenhados


Brasil 305 Uruguai 3
França 63 Bélgica 2
Itália 4 Chile 1
Alemanha 4 Argentina 1
Portugal 3 Total 386

Vê-se que, dentre os textos estrangeiros, os franceses recebiam o favor dos


intelectuais brasileiros. O desequilíbrio face aos de outros países é visível. Existia
uma ligação direta de alguns editores católicos com editores franceses. As lista de
livros franceses divulgadas em parceria com editores brasileiros comprova isto.

1.3. Impressos em língua francesa

Na ―biblioteca sem muros‖ da revista A Ordem, temos uma lista de 71


impressos em língua francesa; destes, 63 apareceram na seção ―Bibliografia‖, como
vimos. Ao relacionar estes impressos (todos os 71 são livros) no Quadro 12,
poderemos ter uma idéia da procedência destes livros e quais já eram divulgados em
parceria com as editoras, bibliotecas ou livrarias ligadas ao CDV.

97
Quadro 12
A seção ―Bibliografia‖:
editoras francesas e parceiras brasileiras ligadas ao Centro D, Vital
A Ordem
1928 a 1938

Editora/parceira no Brasil Ocorrências


Pierre Téqui 5
Pierre Téqui/Biblioteca Anchieta 12
Pierre Téqui/Ed. A B C 15
Maison de La Bone Presse 6
Maison de La Bone Presse/Biblioteca Anchieta 10
Maison de La Bone Presse/Ed. A B C 4
Ed. Spes (União Cat. Est. Internacionais) 3
Bernard Gasset 3
Desclée de Brouwer 3
Desclée de Brouwer/Ed. A B C 1
Albert Blanchard* 2
Libraire Plon 2
Libraire Téqui & Fils 1
Imp. De Vaugirard 1
Nouvelles Editons Argo 1
Calmann Lèvy 1
Payot 1
Total 71

Sabemos, no entanto, que o número de livros franceses na lista divulgada por


A Ordem ultrapassa estes 71 que se encontram em nosso inventário. Encontramos
uma página extremamente significativa no volume X da revista. Trata-se de uma lista
de livros franceses que se encontravam na Biblioteca Anchieta para ser distribuídos
no Brasil. Esta lista, pela sua materialidade, exprime o valor do impresso francês no
empreendimento do Centro D. Vital. Vale ainda lembrar que a lista é introduzida
com o título ―Biblioteca Anchieta‖ em destaque; em destaque também estão o
endereço e a cidade (―Praça 15 de Novembro, 101 — 2º and. Rio de Janeiro‖).
Embaixo, a frase ―Lista de livros franceses recentemente chegados‖. A seguir, a lista,

98
em letra miúda, ocupando duas páginas, com autor, título da obra e preço (ver
Quadro 13).

Quadro 13
Livros franceses distribuídos pela Biblioteca Anchieta
A Ordem
Novembro/dezembro de 1933

Nº Livro Autor
1 L‟Abbé Maurice Teisserene Jean Baptiste Fredy
2 Ozanam Georges Goyau e outros
3 La vie parfaite Le Pére Bouchage
4 La théologie scolastique H. Ligeard
5 Prières d‟un croyant Marcel Legaut
6 Philosophie pédagogique Fr. De Hovre
7 Pensées et conseils Louis Schoofs
8 Un nouveau Moyen-Âge Nicolas Berdiaeff
9 L‟Art de bien mourir Le R. Hillegeer
10 Qu‟est-ce que te gallicanisme? H. X. Arquilliere
11 La vocation sacerdotale Joseph Lahitton
12 Le thomisme Etienne Gilson
13 La theólogie catholique J. Bellamy
14 Archives de philosophie J. Souilhé e outros
15 À travers la métaphysique Auguste Valesin
16 La parousie Cardinal Louis Billot
17 La sainte messe Dom Eugene Vandeur
18 La sainte eucharistie Ed Hugon
19 Corps et âme M. J. Gardair
20 Œuvres complètes de Sainte Thérese de Jesus Manuel Marie Polit
21 Luttes présentes de l‟Eglise Yves de la Briére
22 La statistique des missions catholiques H. A. Krose
23 Leçons de théologie dogmatique L. Labauche
24 Le mystère du Christ P. Ch. V. Héris
25 Vos défauts Mgr. P. Lejeune
26 Immanence M. Maurice Blondel
27 Vers la beauté Mgr. A. Chabot
28 Roma: poésies catholiques Victor Chletien
29 L‟Equipament social des jeunes Maurice Rigaux
30 Joie païenne, tristesse chrétienne Th. Henusse
(continua)

99
Quadro 13 (continuação)
Livros franceses distribuídos pela Biblioteca Anchieta
A Ordem
Novembro/dezembro de 1933

Nº Livro Autor
31 L‟Ideal dans la vie Th. Henusse
32 Les vertus du silence Th. Henusse
33 Histoire partiale e histoire vraie Jean Guiraud
34 Les méthodes du contrôle dans les entreprises Pierre Wolff
35 S. Thomas d‟Aquin (2 volumes) A. D. Sertillanges
36 Le realisme de Pascal Pierre Marie Lahorque
37 Evangile selon Saint Marc traduit et commenté par J. Huby
A. Durand
38 Evangile selon Saint Mathieu traduit et commenté par J. Huby
A. Durand
39 Le catholicisme, ses pédagogues, sa pédagogie Fr. De Hôvre
40 La vie conjugale Jean Beaurenaud
41 L‟Appel épiscopal et la vocation divine J. Beaurredon
42 Le Cantique des Cantiques P. Jouon
43 Autour du mariage Pierre Castillon
44 Retraitées fermées Le P. Antony Boissel
45 La spiritualité de Saint Ignace Alexandre Brou
46 La formation de Saint Augustin Charles Boyer
47 Les confessions de Saint Augustin Georges Legrand
48 Le plan divin de l‟univers Le Pére François Xavier Schou
49 Du champ de bataille Dom Du Bourg
50 Problème du communisme Nicolas Berdiaeff
51 Ce que les fiancés et les époux doivent savoir J. Nysten
52 La bonne volonté Joseph Schrijvers
53 Le Christ ideal du moine D. Columba Marmion
54 L‟Evangile R. P. A. Guillaune
55 Futures épouses Abbé Charles Grimaud
56 Materialisme et spiritualisme P. A. Castelein
57 Le problème religieux Fernand Crooy
58 Futurs époux Abbé Charles Grimaud
59 Saint Vicent de Paul Arthur Loth
60 Direction Charles Quadruiant
61 Discours et commandements Cardinal D. J. Mercier
(continua)

100
Quadro 13 (conclusão)
Livros franceses distribuídos pela Biblioteca Anchieta
A Ordem
Novembro/dezembro de 1933

Nº Livro Autor
62 Humanités gréco-latines R. P. A. Castelein
63 Le Père Pro Antonio Dragon
64 Le combat de la pureté G. Hoornaert
65 Centralisation et rationalisation des entreprises industrielles Henri Heyman
en Belgique
66 L‟Esprit de la psychologie d‟Aristote A. Van Weddingen
67 L‟Education de la conscience M. S. Gillet
68 La pédagogie des bolchevistes Jules Renault
69 Héliotrope Le R. P. Drexeluis
70 Quelques méthodes pratiques d‟éducation religieuse dans la Jules Renault
famille
71 Apprenez à vouloir Aux Jeunes Gens
72 Comment élever nos jeunes filles? A. Lecensier
73 La sainte messe D. Eugene Vandeur
74 Vers la vie divine P. Bernard Kuhn
75 Syndicats ouvriers chrétiens Josep Arendf
76 L‟Ame de Léon Bloy Hubert Colleye
77 Science (2 volumes) P. I. Carbonelle
78 L‟Education du cœur M. S. Gillet
79 Le Christ dans ses mystères D. Columba Marmion
80 Le mystère de la redemptíon Edouard Hugon
81 Le mystère de l‟encarnation Edouard Hugon
82 L‟Evangile selon Saint Jean Alfred Durand
83 La limitation des naissances Dr. Raoul de Guchteneere
84 Notions de sociologie H. du Passage
85 La morale Docteur Georges Surbled
Fonte: A Ordem, Rio de Janeiro, CDV, ano XII, vol. X, nº 41-42, p. 799, novembro/dezembro de
1933.

Nesta lista, encontramos livros amplamente divulgados nas bibliografias


citadas, como é o caso dos livros de Fr. De Hôvre, mas também encontramos obras
que não apareceram mais que uma vez em toda a extensão de nossa pesquisa.
Finalmente, comentemos que a estratégia usada pelo Centro D. Vital de
importar e divulgar os livros franceses é altamente significativa.

101
1.4. A propaganda de impressos na revista A Ordem

Inventariamos nesta ―biblioteca sem muros‖ todos os impressos que aparecem


em propagandas da revista. Alguns recebiam um tratamento especial. Em termos de
materialidade, as propagandas são peças importantes nesta ―indústria cultural‖.
Podemos notar que o espaço que ocupam na revista, os destaques, os caracteres
tipográficos, etc., tudo aponta para objetivos que vão além da simples divulgação.
As propagandas surgiram em 1935, continuaram até 1938 e, neste intervalo,
referiram-se a 78 impressos. Certamente foi a partir de 1935 que os editores de A
Ordem tomaram consciência do valor deste instrumento de construção da cultura.
Estes impressos apareciam das mais diferentes formas: tanto podiam estar sozinhos
em uma ou em meia página, ou ainda no rodapé, como podiam constar de uma lista
de livros específicos.
Vejamos um pouco mais detalhadamente esta afirmação quanto aos impressos
que apareciam em listas. Estas traziam sempre em destaque aquilo a que o impresso
se destinava: ensino do catecismo, educação, livros instrutivos ou sobre questões
sociais. Chama-nos a atenção a lista de livros destinados à educação (a palavra ocupa
toda a extensão da folha), publicada no volume XIII, de abril de 1935 (ver Quadro
14). Os 13 livros anunciados são quase todos estrangeiros, com duas exceções:
Tratado de pedagogia, do mons. Pedro Anísio, e O problema da família na
sociedade contemporânea, do pe. Coulet (provavelmente, uma tradução do francês).
A propaganda ocupa mais de meia página e o restante da página é uma relação de
―Livros Instrutivos‖.
Não encontramos outras com o mesmo assunto, educação. Os títulos dos
livros anunciados mostram que não se trata apenas de educação no sentido formal,
mas de educação em sentido amplo, especialmente educação para o matrimônio e a
família.

102
Quadro 14
Propaganda: livros sobre educação
A Ordem
Abril de 1935

Autores Livros Preço


Grinaud L‟Epouse attrait du foyer 14$00
Grinald Futures épouses 16$00
Vuillermet La vie au foyer 16$00
Vuillermet Vers la perfection conjugale 16$00
Viollet Morale famiale 7$00
Mme. Fraçoise Harmel Une grave question de l‟éducation des jeunes 12$00
filles. La chasteté. Iniciation chrétienne au
mariage
Pe. Coulet O problema da família na sociedade 6$00
contemporânea
Mons. Pedro Anísio Tratado de pedagogia 10$00
Gay et Cousin Comment j‟élève mon enfant 33$00
Pe. Coulet L‟Eglise et le problème de la famílle 10$00
Franceschi Los círculos de estudios 6$00
Pradel Comment former des hommes 12$00
Thibon La science du caractère 15$00
Fonte: A Ordem, Rio de Janeiro, CDV, vol. XIII, abril de 1935.

No final de lista, lemos:

Pedidos à BIBLIOTECA ANCHIETA


CAIXA POSTAL 249
RIO DE JANEIRO

A propaganda podia ainda ocupar uma página inteira e aparecer várias vezes
na revista. É o caso da propaganda do órgão oficial da Congregação Mariana do
Brasil. Em 1938, esta propaganda foi veiculada nos meses de julho (p. 4), agosto (p.
194), setembro (p. 290) e outubro (p. 405).

103
Pode ser uma propaganda com destaque num rodapé de página. É o caso do
romance de Jackson de Figueiredo, Aevon, que aparece em 1933, no volume XIII, às
págs. 79, 150, 256 e 434. E também em 1935, no volume XIV, às págs. 95 e 203.
Pode-se citar títulos que aparecem muitas vezes, não só por ser da lista dos
livros de uma biblioteca ligada ao Centro, mas sobretudo por ser uma obra de
interesse para a cultura católica em geral. É o caso de Ensaios de biologia, de Tristão
de Athayde e Hamilton Nogueira. No volume XIII de A Ordem, encontramos sua
propaganda nas págs. 79, 150, 256 e 434; no volume XIV, às págs. 95 e 203.
Foram encontrados ainda dois folhetos, tipo encarte, dentro das revistas da
década de 30. O primeiro é um folheto azul, em papel fino, que, em quase todo o
espaço (cerca de três quartos) da folha, divulga o Tratado de pedagogia do mons.
Pedro Anísio; o restante (cerca de um quarto) da folha divulga a própria A Ordem.

Propaganda avulsa: folheto encontrado entre as páginas da revista A Ordem

104
O segundo é um folheto amarelo, com o mesmo tipo de papel fino, que tem
como título ―BONS LIVROS‖, em letras maiúsculas grandes. Na segunda linha, com
letras maiúsculas menores, ―DO STOCK EXISTENTE NA BIBLIOTECA ANCHIETA‖. A
seguir, em ordem alfabética, a lista dos livros com os respectivos autores e preços.
São mais de 100 livros relacionados nas duas páginas da folha de propaganda. Na
margem direita da primeira folha, escrito na vertical, lê-se ―Acaba de aparecer
DOUTRINA CRISTÃ, de Mons. Pascucci, trad. do Ver. Pe. A Guerrazzi — 1 vol.
5$000‖. Na margem esquerda, também escrito na vertical, ―Pedidos à BIBLIOTECA
ANCHIETA — Cx. Postal 249 – Rio de Janeiro – Pelo Correio mais 10%‖. Como a
lista abre com a 2ª edição do Tratado de pedagogia, do mons. Pedro Anísio,
provavelmente foi impressa por volta de 1936.
Este tipo de propaganda possivelmente era utilizada em outras revistas,
jornais ou mesmo livros que eram vendidos.
Vale chamar a atenção para o fato de que a propaganda de livros, mesmo que
com características comerciais, teve sempre uma intenção ideológica. A arqueologia
dos objetos que fizemos evidencia que o Centro D. Vital e a revista A Ordem tinham
uma linha de atuação bem definida, não perdem de vista a meta a que se propuseram
e não se desviam do objetivo proposto.

105
Até 1931, A Ordem era editada com 62 páginas. De 1932 em diante, passou a ter 80 páginas.
Como se vê acima, em 1936 já tinha mais de 100 páginas

106
A revista A Ordem fez continuamente propaganda de outras iniciativas dos católicos com relação
ao impresso (3ª capa da edição de novembro/dezembro de 1936)

107
Capítulo IV

A BIBLIOTECA PEDAGÓGICA CATÓLICA


CONSTRUÍDA PELA

CONFEDERAÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO


E DIVULGADA PELA

REVISTA BRASILEIRA DE PEDAGOGIA

O grande objetivo da Confederação Católica Brasileira de Educação (CCBE).


definido nos seus estatutos, era o de unir ―todas as forças educacionais católicas do
país‖, de modo que em toda a Pátria fosse abraçada uma ―educação integral, de
acordo com as diretrizes firmadas pela Igreja‖. Para alcançar tal meta, uma das
estratégias era ―difundir o pensamento dos grandes mestres da pedagogia católica,
combatendo as doutrinas sectárias, quer em obra para os educadores, quer em
manuais para educandos‖ e, por outro lado, publicar ―manuais genuinamente
Católicos, das diversas matérias do ensino em todos os graus e modalidade‖ (Revista
Brasileira de Pedagogia, nº 10, p. 343, 1934).
Diante desta proposta teórica, pretendemos neste capítulo estudar, atentos à
materialidade apresentada na Revista Brasileira de Pedagogia (RBP), a prática dos
educadores católicos. Vamos nos perguntar quais as operações que os educadores
católicos desenvolveram para divulgar o impresso, para dar conta da proposta inicial.
Quais critérios adotaram para fazer as críticas? Quais os temas mais comuns? Quais
os interlocutores, as pessoas mais visadas em suas críticas?
Iniciamos este empreendimento pelo inventário dos títulos das obras
presentes na RBP, distribuídos nas diversas seções de resenha de livros ou outras
formas de difusão dos impressos, como propaganda, divulgação dos grandes mestres,
respostas às consultas feitas por leitores, artigos, etc. Em seguida, faremos a análise
do conjunto dos títulos, devidamente classificados: tipos de impresso (livro, revista,
etc.), espaço ocupado na RBP, responsáveis pelas resenhas, conteúdo do comentário
de alguns impressos (indicados ou desaconselhados), etc.

108
A Biblioteca Pedagógica Católica da CCBE divulgada pela RBP será, em
primeiro lugar, o resultado da soma de todos os impressos resenhados no ano de
existência da revista (1934-1938). Em segundo lugar, a Biblioteca será enriquecida
com os livros que, embora não tenham aparecido em uma das seções de resenha,
surgiram de outra forma no periódico, ou seja, em artigo específico para comentar
um livro, em uma propaganda, em um trecho de uma tradução, em uma indicação ao
leitor que fez uma consulta. etc.

1. Inventário geral dos impressos divulgados pela RBP

1.1. Traços gerais do inventário

A RBP tem um público-alvo bem definido: os educadores, as escolas


(católicas ou não), as associações de professores. Este periódico quer atuar no campo
educacional específico, e este incluí as paróquias e comunidades, pois a educação
religiosa nas igrejas, na escola e na família são aspectos que se misturam na
pedagogia católica.
De Hôvre, o sistematizador da pedagogia católica, o educador estrangeiro
mais citado na CCBE, ao tratar da essência da pedagogia católica, afirma: ―O
catolicismo é ao mesmo tempo uma doutrina e uma pedagogia. Para a Igreja, a
pedagogia não é uma área especial de estudos, mas um órgão do organismo católico‖
(Hôvre, 1930:418; trad. livre).
Este esclarecimento inicial nos ajudará a entender um pouco mais o
inventário que estamos comentando.
Na Biblioteca Pedagógica Católica da CCBE, fizemos 479 cadastramentos a
partir dos diversos meios utilizados para divulgar os impressos. Estes se encontram
nas seções ―Literatura Pedagógica‖, ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖,
―Literatura Pedagógica — Pelas revistas‖, ―Os Mestres Estrangeiros‖, ―Galeria dos
Mestres Contemporâneos‖, ―Notícia Bibliográfica‖, ―Revista das revistas‖,
―Filosofia Educacional‖, ―Filosofia da Educação‖, ―Psicologia da Educação‖ e
―Psicologia Feminina‖. Além destas seções, outros meios são utilizados, aos quais

109
ficamos atentos: são as propagandas de livros e os livros indicados aos leitores na
seção ―Consultas‖.
O peso de cada uma destas formas de divulgação do impresso é diferente.
Uma seção em que se resenha uma obra tem muito mais valor do que uma lista de
livros numa propaganda. A propaganda de um livro que ocupa uma página inteira
valoriza-o muito mais do que a outro que está incluído numa lista. Uma propaganda
no meio da página dá mais destaque ao impresso do que outra no rodapé da página.
Nessas condições, construímos o Quadro 15, que relaciona as seções da RBP
e a quantidade de impressos inventariados.

Quadro 15
Seções e impressos divulgados
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

Seções Impressos divulgados


―Literatura Pedagógica— Resenha de livros‖ 132
―Literatura Pedagógica — Pelas revistas‖ 52
―Bibliografia Pedagógica‖ 4
―Os Mestre Estrangeiros‖ 14
―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖ 9
―Notícia Bibliográfica‖ 8
―Revista das Revistas‖ 2
―Filosofia Educacional‖ 1
―Filosofia da Educação‖ 1
―Psicologia Feminina‖ 1
―Consultas‖ 175
Propagandas 80
Total 479

Outra classificação que fizemos foi a dos tipos de impressos que apareceram
no inventário — livros, revistas, boletins, artigos, etc. — e da quantidade de
impressos inventariada de cada tipo (ver Quadro 16).

110
Quadro 16
Categorias de impressos inventariados
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

Categorias de impressos Quantidade


Livro 406
Revista 46
Boletim 11
Artigo 5
Folheto 1
Coleção 7
Quadro 1
Conferência 1
Material pedagógico 1
Total 479

Como não podia deixar de ser, os livros são os impressos mais divulgados.
Chama-nos a atenção, porém, o grande número de revistas e boletins que fazem parte
desta biblioteca. São revistas e boletins do Brasil e de outros países; reservaremos
um espaço para comentar mais pormenorizadamente estes periódicos.
Outro aspecto que consideramos importante é o número de impressos
divulgados por ano (ver Quadro 17).

Quadro 17
Impressos inventariados
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

Ano Número de impressos


1934 195
1935 170
1936 46
1937 59
1938 9
Total 479

111
Gráfico 2
Impressos inventariados, por ano
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

200
180
Número de impressos

160
140
inventariados

120
100
80
60
40
20
0
1934 1935 1936 1937 1938
Anos

A evolução do número destes impressos divididos ao longo dos anos expõe


um quadro revelador (ver Gráfico 2). Na primeira abordagem que fizemos, não
encontramos nenhum indício de enfraquecimento da RBP no ano em que parou de
circular. A contagem, porém, dos impressos divulgados no ano de 1938 é claro
indício de enfraquecimento da Revista. É como se os editores já estivessem
preparando seu fechamento. A partir deste fato, outros nos chamaram a atenção.
Por exemplo: foram publicados dois longos comentários na seção ―Literatura
Pedagógica‖, um em abril (Schiavo, 1938a), outro na edição de maio/junho (Schiavo,
1938b), ambos assinados por José Schiavo e intitulados ―À margem de nossos livros
didáticos‖. O primeiro ocupava 11 páginas, o segundo 10. Os dois sobre o mesmo
livro: O português prático, de Marquez da Cruz. Nunca se ocuparam tantas páginas
para comentar uma só obra. Não seria este também um indício de que algo estava
para acontecer?
Elaboramos ainda um quadro dos meios de divulgação do impresso na RBP,
ressaltando os anos em que cada um apareceu na Revista. É importante alertar que,
no Quadro 18 — cujo exame também é revelador —, nem sempre os anos
correspondem aos meios de divulgação do impresso, pois estes se prestavam também

112
a outros objetivos. Somente os meios que tinham como objetivo específico a
divulgação de livros foram fichados na sua totalidade.

Quadro 18
Períodos de tempo ocupados pelas seções
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

Anos
Seções
1934 1935 1936 1937 1938
―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖
―Literatura Pedagógica — Pelas revistas‖
―Bibliografia Pedagógica‖
―Os Mestres Estrangeiros‖
―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖
―Notícia Bibliográfica‖
―Revista das Revistas‖
―Filosofia Educacional‖
―Filosofia da Educação‖
―Psicologia Feminina‖
―Consultas‖
Propagandas

Os meios mais utilizados para a divulgação do impresso, segundo o Quadro


18, são a seção ―Literatura Pedagógica‖ e as propagandas. Observemos o item
―propaganda‖ do ano de 1938. Neste ano, não temos propaganda registrada em nosso
cadastro, pois usamos como critério não repetir no cadastramento propagandas
iguais. Isto não quer dizer que não há nada de novo no ano de 1938, no quesito
propaganda. Não seria este mais um indício de que a Revista estava em crise?
A presença da seção ―Literatura Pedagógica‖ em todos os anos de publicação
da RBP demonstra a fidelidade da RBP aos seus ideais iniciais até o fim. Não
obstante, observamos uma queda considerável do número de resenhas em 1938,
embora o número de páginas ocupadas pela seção seja quase o mesmo, como
veremos mais à frente.

113
2. Alguns meios de divulgação do impresso na RBP

Privilegiamos em nosso inventário as seções que resenhavam os impressos,


indicando-os de forma objetiva, tema que estudaremos a seguir. Ao lado destas
seções, escolhemos também outras formas de divulgação de impressos utilizadas pela
RBP, segundo o Quadro 19, no qual se indicam a forma de divulgação e o total de
impressos inventariados.

Quadro 19
Seções selecionadas
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

Seções selecionadas Total


―Consultas‖ 175
Propagandas 80
―Os Mestres Estrangeiros‖ e ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖ 23
―Revista das revistas‖, ―Notícias Bibliográficas‖, ―Filosofia Educacional‖ 13
Total de impressos inventariados 291

Iremos trabalhar, no momento, com 291 impressos que representam alguns


meios selecionados de divulgação da leitura utilizados na RBP. Trabalharemos a
seguir com os 188 impressos restantes, que aparecem nas seções ―Literatura
Pedagógica — Resenha de livros‖ (132 impressos), ―Literatura Pedagógica — Pelas
revistas‖ (52) e ―Bibliografia Pedagógica‖ (quatro impressos).

2.1. ―Consultas‖

Como vimos, a seção ―Consultas‖ apareceu nos anos de 1934 e 1935. Era
uma forma de participação do leitor na RBP, por meio de perguntas sobre diversos
assuntos. Uma observação que se encontra no rodapé da primeira seção ―Consultas‖,
permite concluir que as perguntas só podiam ser feitas pelos assinantes da RBP, e
assinantes que não estivessem em débito com o periódico: os consulentes deveriam
indicar o ―número do recibo da assinatura para facilidade de verificação‖.

114
Eis um exemplo de como os assuntos eram anunciados:
Consultas
Neste número sobre:
GEOGRAFIA, PSICOLOGIA E FILOSOFIA EDUCACIONAL
Vejamos os temas que aparecem nas revistas utilizadas em nosso cadastro,
que selecionamos por trazerem consultas pertinentes à nossa pesquisa. Antes do
assunto tratado na consulta, indicamos o mês da RBP onde se encontra aquele tema.

Quadro 20
Assuntos tratados na seção ―Consultas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1938

Ano Mês Assuntos


fevereiro Geografia, psicologia e filosofia educacional
março Psicologia, história e legislação
abril Metodologia e cultura geral

1934 maio Educação física feminina


junho Documentos para registro de professores, livros didáticos e
aparelhamento de psicologia experimental
setembro Português e literatura
fevereiro Literatura

1935 maio Português, educação sexual e pedagogia


julho/agosto Ensino do catecismo

Como aparecem os impressos na seção de fevereiro de 1934, na edição nº 1


da RBP, na qual se responderam consultas sobre geografia, psicologia e filosofia
educacional?
Na primeira consulta à Revista, o consulente, pessoa ligada à CCBE, fazia a
seguinte pergunta: ―Vale a pena adquirir como obra de consulta a Géographie de
Elisée Reclus? Não haverá melhor em Geografia, que mais convenha a uma
Biblioteca de Escola Normal Católica ou está esta em condições de nos satisfazer,
sob todos os nossos pontos de vista: gerais (de instrução) e particulares (de
educação)?‖ E assinava: ―M. D. R.‖

115
Podemos notar que esta consulta não traz todo o nome do interessado, apenas
suas iniciais. Nem sempre o consulente assinava a consulta com o nome completo.
Às vezes, as consultas indicava só o título da função que o consulente exercia no
colégio ou na comunidade que representava (por exemplo: ―superiora‖).
Certamente, as questões escolhidas provocavam respostas às dúvidas não só
de quem fazia a consulta, mas de muitos dos leitores — e, principalmente, vinham ao
encontro aos interesses da RBP.
A RBP de fevereiro de 1934 trazia uma nota, no fim da seção ―Consultas‖,
referindo-se às duas últimas perguntas. Dizia a nota que ―eqüivalem a perguntas de
um questionário da Diretoria de Instrução do Estado do Rio ao magistério‖ (Revista
Brasileira de Pedagogia, v. 1, nº 1, p. 52, 1934). Que consultas são estas? ―Achais
que basta ao homem de hoje, para ingressar na luta da vida, saber ler, escrever e
contar? Por quê?‖ e ―Interessada a infância de hoje e, assim, iniciada na prática das
profissões predominantes nas regiões em que residam, teremos aumentadas e
enriquecidas essas regiões, e, portanto, será melhor e mais feliz a vida de seus
habitantes? Por quê?‖
Quem respondia às consultas também não assinava, ou o fazia com as iniciais
do nome. A nota da revista nº 1 esclarece que as respostas às questões equivalentes a
um questionário ―foram dadas por professora sócia de uma das Associações de
Professores Católicos do Estado do Rio‖. As iniciais que assinam as outras respostas
são ―E. B.‖ Possivelmente, tratava-se de Everardo Backheuser, mesmo porque as
questões estão ligadas à sua área de especialização.
Em resposta à primeira questão, temos:

A obra de Elisée Reclus é boa, mas um pouco antiquada. A Geografia é ciência que
precisa estar sempre em dia. Muitos dados sendo evidentemente permanentes não se
alteram com o tempo; com outros, porém isto não se dá. Ademais, a geografia de
Reclus está também na sua própria confecção um pouco fora das correntes
modernas. Acreditamos que, em francês, as obras da coleção Vidal La Blanche e
Gollois satisfaçam melhor. Evidentemente não podemos garantir que tudo, tudo, seja
bom no ponto de vista católico, mas não nos ocorre de memória nada de condenável.
E. B. (Revista Brasileira de Pedagogia, v. 1, nº 1, p. 50, 1934).

116
Observe-se a preocupação, nesta resposta, em indicar obras atuais, de acordo
com a corrente moderna, que não viessem a ferir o pensamento católico. Aliás, esta é
uma das marcas de toda a filosofia da Revista.
As respostas geralmente eram curtas. Umas sem grandes preocupações de
aprofundamento; outras revelam ampla pesquisa, como as listas bibliográficas.
A segunda consulta, ainda de fevereiro de 1934, refere-se às obras de Júlio
Verne.

As alunas de Metodologia da Escola, para um trabalho de informação sobre


Geografia e Ciências, têm procurado ler Júlio Verne, notando nomes de obras,
assuntos tratados, páginas, etc., para ilustração de lições vindouras. Gostam.
Querem, entretanto perguntar se há sempre em Júlio Verne exatidão nas descrições
geográficas, quer topográficas, quer de flora regionais, dos fenômenos marítimos,
polares, etc. No caso de ser a resposta negativa ou cheia de reservas, quais as obras
que, substituindo Júlio Verne, podem aproveitar e dirigir esta sua atividade?
Superiora (Revista Brasileira de Pedagogia, v. 1, nº 1, p. 50, 1934).

Em resposta, faz-se o elogio das obras de Júlio Verne e relembra-se como o


autor encantara gerações de jovens católicos. E. B., encarregado da resposta,
comenta que tanto ele como os ―colegas consultados‖ não acharam, ―sob o ponto de
vista de doutrina‖, algo que desaconselhasse as obras de Verne. Faz ressalvas porém,
quanto aos dados econômicos e políticos que devem ―ser renovados e controlados‖.
A terceira consulta, ainda de fevereiro de 1934, foi feita por A. Fonseca, que
pedia informações sobre a personalidade da criança, seu desenvolvimento físico e
mental. Aqui começa algo que será explorado em consultas futuras, ou seja, a
listagem de obras que deveriam ser utilizadas por colégios que quisessem se manter
fiéis à doutrina católica. Nestas listagens, podiam aparecer breves comentários sobre
as obras. P. F., que responde a consulta, faz a seguinte indicação:
• Autor: J. de La Vaissière. Obra: Psychologie pédagogique. Comentário:
―Versa quase todo sobre a educação da criança nos seus diferentes
aspectos‖.
• Autor: Habrich. Obra: Psychologie pédagogique.
• Autor: Hérrin. Obra: Psychologie pédagogique.
• Autor: Claparède. Obra: La psychologie de l‟enfant. Comentário: ―Com
algumas reservas filosóficas‖.

117
Note-se o cuidado em destacar as reservas que o representante da revista faz
com relação a algumas obras. Era assim, nas ―Bibliotecas Católicas‖, com as obras
―indicadas com reservas‖. Esta era uma precaução especial e constante. Diante da
leitura crítica que os editores faziam das obras a serem divulgadas, era comum
aparecerem reservas; algumas, porém, chamam particularmente a atenção, pois quase
desaconselhavam a obra. Reservaremos um lugar especial para comentar tais obras.
As duas últimas consultas feitas em fevereiro, já mencionadas, não se referem
a bibliografia ou não dão oportunidade para comentar uma lista bibliográfica. Mais
interessantes, contudo, eram as perguntas que davam a oportunidade de arrolar
referências bibliográficas: relacionar obras e, aos poucos, reforçar seu conteúdo era
uma excelente estratégia para constituir o campo pedagógico católico nas escolas.
Nas ―Consultas‖ da RBP de março de 1934, foram feitas duas perguntas em
que se pedia a indicação de bons livros de história da civilização e de história da
pedagogia, respectivamente. As respostas a essas duas questões foram objetivas e
sem comentários (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 2, p. 115-116, março
de 1934):
• Obras referentes a história da civilização
Jônatas Serrano, História da civilização, 1ª série — Texto elementar
Schneller, História da civilização, 3ª série — Texto elementar
Goddefroid Kurth, Les origines de la civilisation moderne, 6ª ed., 2 vols.
L. Willaert, Le Moyen Age, Namur, 1932
Dumoulin, Cours d‟histoire moderne, abril, 1927
Fabri, Cours d‟histoire contemporaine, abril, 1928
Guirand. Histoire partiale, histoire vraie, 4 vols.
• Obras referentes a história da pedagogia
L. Riboutet, Manuel d‟histoire de la pédagogie
Ruiz Amado, Historia de la educación y de la pedagogía
Pierre Marique, History of Christian Education, 1924, 2 vols.
Krieg-Grunwald, Lehrbuch der Pädagogik, I Teil. Geschichte der Pädogogik,
Paderbons, 1923
Messer, Historia de la pedagogía
Vários autores, Lexikon der Pädagogik der Gegenwart

118
Estas indicações eram um bom começo na divulgação de um impresso. Mais
tarde, algumas destas obras receberiam tratamento de destaque. por meio de uma
resenha ou de um comentário pormenorizado. Delineava-se o esboço da Biblioteca
Pedagógica Católica, esta ―biblioteca sem muros‖.
Na mesma seção da Revista de março de 1934, foi feita outra consulta:
―Podem os livro de psicologia de Binet ser considerados de leitura inconveniente e
anticatólica?‖ A resposta de quem escreve em nome da RBP — sem se identificar ou,
melhor, colocando apenas as iniciais, ―P. F.‖, sem nos deixar pista (talvez o padre
Franca) — é, como sempre, curta e objetiva:

Binet é dos melhores, talvez o melhor psicólogo experimental francês. Quer dizer
que às pessoas bem formadas a sua leitura é proveitosa. Não sendo, porém, católico,
haverá talvez aqui ou ali alguma expressão que deveria ser retocada ou completada.
Para religiosas não creio que a sua leitura ofereça perigos graves; fora, porém, para
desejar, em, sobretudo, sua fase de formação, lessem autores católicos,
absolutamente seguros em tudo. P. F. (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 2,
p. 116, março de 1934).

Observa-se, mais uma vez, o cuidado com a doutrina católica. Isto é o que faz
a diferença na constituição desta Biblioteca.
Em abril de 1934, respondendo a consulta sobre indicações de ―uma lista de
boas obras didáticas nas quais os professores católicos‖ pudessem confiar, a RBP
publicou uma lista de obras pedagógicas organizada pelo pe. Leonel Franca,
colocando um ou outro acréscimo (ver Quadro 21). Segundo a Revista, eram ―obras
que os professores católicos podem consultar em plena confiança‖. Ao final, não se
deixa de alertar sobre ―outros livros também recomendáveis e não incluídos nesta
lista‖. Abre-se a possibilidade de outras consultas para enriquecer a lista. Nestes
livros, certamente pode ser encontrado o essencial da pedagogia católica nos anos 30.
É curioso que, nessa lista, as obras Essai de phylosophie e Le catholicisme, sa
pédagogie, ses pedagogues, editadas em Bruxelas, são assinadas por L. Habrich (o
nome já havia aparecido numa lista anterior). Temos a impressão, às vezes, de que
este autor é o mesmo Fr. De Hôvre. Talvez ―L. Habrich‖ seja o nome do autor em
sua língua de origem, o flamengo. Outras vezes, parece que são dois autores
diferentes, embora os títulos dos livros sejam idênticos (cf. um pouco mais adiante,

119
em nosso texto, e ainda Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 14, p. 289,
maio de 1935).

Quadro 21
Lista de obras pedagógicas católicas
Revista Brasileira de Pedagogia
Abril de 1934

Autor Obra
L‟Education chrétienne en temps de persécutions
(Collection ―Enfance et Jeunesse‖)
A. Dumont, S. J. Cours d‟histoire moderne
Agazzi Il metodo Agazzi
Baudillart L‟Education en Grèce (Collection ―Enfance et
Jeunesse‖)
Baudillart L‟Enfant dans l‟antiquité (Collection ―Enfance et
Jeunesse‖)
Baunard Le collège chrétien
Collin Manuel de la philosophie thomiste, 2 vols.
D. Bosco, Fénélon, Jean Col. ―Les Idées Pédagogiques‖
Marie, Julie Billiart,
Montaigne, S. Pierre
Fourrier, Santo Inácio de
Loyola
E. Fitzpatrick The foundations of education
E. Meumann Compendio de pedagogía experimental (trad. esp. do
alemão
Eugènie Charles Le catéchisme par l‟évangile, 3 vols.
Everardo Backheuser Aritmética na Escola Nova
Eymieu Dernière série, la loi de la vie
Eymieu Ière série, les grandes lois
Eymieu IIème série, l‟obsession et le scrupule
Eymieu Le gouvernement de soi-même
(continua)

120
Quadro 21 (continuação)
Lista de obras pedagógicas católicas
Revista Brasileira de Pedagogia
Abril de 1934

Autor Obra
F. Mourret Histoire générale de l‟église, 9 vols.
Farges, Barbedette Philosophie scolastique. 2 vols.
Farques L‟Eveil du sentiment religieux
Foerster Pour bien éléver vos enfants
Foerster Pour former le caractère
Fr. Charmot L‟Ame d‟éducation, la direction spirituelle
Fr. Charmot L‟Art de se former l‟esprit
Fr. Charmot La feste bien faite “Formation de l‟intelligence” [sic]
Gillet L‟Education de la conscience
Gillet L‟Education du caractère
Gillet L‟Education du coeur
Gillet La valeur éducative de la morale catholique
Gillet Réligion et pédagogie
Gillet Virilité chrétienne
Grasset La biologie humaine
Grasset Les limites de la biologie
Hennin-Quenin La psychologie de l‟enfant
J. de La Vaissière, S. J. Psycologie expérimentale
J. de La Vaissière, S. J. Psycologie pédagogique
James O‘hara The limitations of the educational essay of John Dewey
Jônatas Serrano Compêndio de história universal
Jônatas Serrano Escola Nova
Jônatas Serrano História do Brasil
Kieffer L‟Autorité dans la famille et à l‟école
L. Habrich Essai de phylosophie
L. Habrich Le catholicisme, sa pédagogie, ses pédagogues
L. Willart, S. J. Le Moyen Age
(continua)

121
Quadro 21 (continuação)
Lista de obras pedagógicas católicas
Revista Brasileira de Pedagogia
Abril de 1934

Autor Obra
Lahr Cours de philosophie, 2 vols.
Lindworsky Psycologie expérimentale (trad. esp. do alemão)
Louis Murat Le monde végétal
Louis Murrat Le firmament
Louis Murrat Le monde animal
Mayer Philosophy of teaching of St. Thomas of Aquin
Me. Farques La redaction chez les tous petits, n. 2
Mons. Pedro Anísio Tratado de pedagogia
Moreux D‟où venons-nous?
Moreux Les confins de la science et de la foi
Moreux Origine et formation des mondes
Moreux Où allons-nous?
Moreux Où sommes-nous?
Moreux Pour comprendre la philosophie
Moreux Qui deviendrons nous aprés la mort?
Moreux Qui sommes-nous?
Moreux Traité élémentaire d‟astronomie
Mr. Gay Comment j‟éléve mon enfant
O. Lemarié Franchise et mensonge chez l‟enfant
O. Lemarié La formation de l‟intelligence
O. Lemarié La formation de la conscience
O. Lemarié La formation de la volonté
O. Lemarié L‟Education du respect
O. Lemarié Le jeu de l‟enfant
P. Laburu Manual teórico-prático general de citologia y histologia
animal
P. Rodez El firmamiento
(continua)

122
Quadro 21 (continuação)
Lista de obras pedagógicas católicas
Revista Brasileira de Pedagogia
Abril de 1934

Autor Obra
Paul Allard Histoire des persécutions
Paul Allard Le christianisme et l‟empire romain
Pe. Barnola Arbelaez et al. Tratado completo de biologia moderna
Pierre Marique History of christian education
Puig, S. J. Elementos de química (trad. portuguesa)
Pujiula Cursos teórico-prático de biologia
Pujiula Estudios críticos sobre la teoria de la evolución
Pujiula La vida e la educación filogenética
Pujiula Manual completo de biologia moderna
Quinet Carnet de préparation d‟un catéchiste, 3 vols.
Quinet Pédagogie du cathéchisme
Quinet Pour mes tous petits
Riboulet Manuel de l‟histoire de la pédagogie
Riboulet Pédagogie générale
Riboulet Psychologie appliquée á l‟éducation
Ruis Amado Didáctica general
Ruis Amado Historia de la educación y de la pedagogía
Ruis Amado La educación
Ruis Amado La educación civica
Ruis Amado La educación feminina
Ruis Amado La educación moral
Ruis Amado La educación religiosa
Ruis Amado, S. J. Compêndio de história universal
Ruis Amado, S. J. Enciclopédia manual da pedagogia
Sarran Les mensonges de l‟école (Collection ―Enfance et
Jeunesse‖)
Sertillanges et al. Questions actuelles de pédagogie, n. 1
(continua)

123
Quadro 21 (conclusão)
Lista de obras pedagógicas católicas
Revista Brasileira de Pedagogia
Abril de 1934

Autor Obra
Sinibaldi Elementos de filosofia
Sister M. Esther, O. S. F. The christian teacher
Sister M. Juta, O. S. F. School discipline and character
Sister M. Solome, O. S. F. The community school visitor
Sortais Manuel de philosophie
Tristão de Ataide Debates pedagógicos
Violler Les sanctions en éducation
Vitoria, S. J. Curso de química

Outra consulta que dá margem à indicação de obras foi feita em maio de


1934:

Desejaria saber se a REVISTA nos pode dar informações de obras sobre sistemas de
educação física feminina — principalmente Calistenia —, que tratem, não somente
de prática de organização de grupos de exercícios, movimento e jogos, mas
principalmente de teoria da Educação física, sob o ponto de vista funcional:
anatomia e fisiologia aplicadas, ao conhecimento dos ossos e músculos, suas
funções no movimento, relação entre higiene e ginástica, etc. etc. M. B. A. (Revista
Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 4, p. 242-243, maio de 1934).

A resposta: ―Talvez o consulente encontre algo do seu desejo na lista abaixo‖.


Essa lista está no Quadro 22:
Em junho de 1934, houve uma consulta sobre livros didáticos. A pergunta é
vaga: ―Procuram saber da possibilidade de algumas obras serem usadas por alunas.
— J. C.‖ Mas a resposta é bem objetiva, até direcionada, pode-se dizer:

A ―Anatomia‖ de Almeida Junior. É boa a 1ª edição, na 2ª o autor transige um pouco


com o transformismo. Ainda concedem alguma coisa aos transformistas as seguintes
obras: Histoire naturelle — A. Pizon; Histoire naturalle – Langlebert; e Biologia
elementar, de Melo Laitão. A parte da 3ª série, esta última obra tem algumas
inconveniências. São aconselhadas, além das obras indicadas na lista publicada no 4º

124
número da Revista, os seguintes: Botânica, por Barnola, S. J.; História natural,
Puig. S. J.; Anatomie e physiologie animale, Dalbis (obra elementar). Quadros
sinóticos de história natural, P. Torrend, Léon Bernard et Debré, Cours d‟hygiène.
Resposta — Podem ser usados com vantagens os seguintes livros: Verest, Manual
de literatura (está sendo feita a tradução em português); Histórias da literatura, de
Ronald de Carvalho ou de Afrânio Peixoto. Manuel illustré de la littérature
catholique — Paris, libr. Spess. Antologias, Carlos de Laet e Fausto Barreto e a mais
moderna, de Clóvis Monteiro (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 5, p. 314-
315, junho de 1934).

Quadro 22
Obras recomendadas na seção ―Consultas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
Maio de 1934

Autor Obra
Emilie André L‟Education physique et sportive des jeunes filles
Dr. Maurice Boigey L‟Education physique féminine
Paul Boucher La culture physique et les sports féminins
Escola de Joinville le Cours de pédagogie
Pont
Georges Hebert L‟Education physique féminine: muscles et beauté
plastique
J. P. Fontenelle Fundamentos fisiológicos da Educação Física
(conferência)
A. Joviano e Lucia Ginástica respiratória
Joviano
Muller Mon systéme pour les femmes
Irene Popart Culture physique de la femme: gymnastique harmonique
Reglement général Méthode française
d‘Education physique
Dr. P. Kanindy Précis d‟Education physique et respiratoire
Dr. René Ledent Education physique basée sur la physiologie musculaire
Ambrosio Torres Metodologia do ensino da Educação Física

125
A última consulta do ano de 1934 que consideramos importante para nossa
pesquisa encontra-se na edição de setembro. É sobre literatura feita de forma muito
direta e objetiva: ―Desejo saber se qualquer moça católica pode sem perigo ler os
livros de Machado de Assis, de Monteiro Lobato e ‗Do calvário ao infinito‘ de Victor
Hugo?‖

Resposta – Os livros de Machado de Assis em geral não têm cenas muito realistas,
ainda que, aqui e ali, para uma imaginação de moça alguma descrição ou insinuação
possa perturbar; distilam, porém, um veneno sutil de pessimismo e uma visão
céptica e desanimadora da vida que não se concilia bem com a formação cristã do
caráter. Parece-me mais aconselhável diferir a sua leitura para uma idade mais
amadurecida, que poderá colher as vantagens literais sem os inconvenientes
apontados. Não aconselhamos os livros de Monteiro Lobato. Há apreciações
históricas menos justas e respiram uma atmosfera inteiramente materialista. O
livro de Victor Hugo, ―Do calvário ao infinito‖, não está positivamente proibido.
Será, porém, melhor a sua leitura em idade já formada. — P. F. (―Consultas‖,
Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II, nº 8, p. 226, setembro de 1934; grifo
nosso).

A edição de fevereiro de 1935 traz uma consulta sobre literatura. O leitor


pergunta:

Quais as obras estrangeiras e brasileiras em poesia e em prosa, que podem ser lidas
com franqueza e integralmente por qualquer senhorita católica? Quais as que podem
ser lidas só em parte? Quais os autores de quem só algumas obras ou parte das
mesmas podem ser lidas? (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 11, p.
44, fevereiro de 1935).

O consulente completa a pergunta:

Ao responder a consulta, solicitamos o obséquio de não deixar de falar sobre os


grandes poemas Ilíada e Odisséia, Eneida, Tharsalia, Divina Comédia, Jerusalém
libertada, Orlando o furioso, Paraíso perdido, Lusíadas, D. João, A morte de D. João
e o grande poema em prosa — D. Quixote de la Mancha. — SAUDADES (Revista
Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 11, p. 44, fevereiro de 1935).

A resposta, na íntegra, foi:

126
Para atender a todas as faces da questão proposta, seria preciso escrever grosso
volume. Inútil, aliás, ou supérfluo, pois já existe, em francês para a literatura de
ficção, o trabalho de Bethlem, Romans á lire et romans á proscrive; e, em
português, sujeito naturalmente a uma outra reserva do ponto de vista da crítica
literária, o ―Através dos Romances‖, de Fr. Pedro Sinzig, já em 2ª edição. Quanto às
obras clássicas da Antiguidade, há edições apropriadas aos jovens, com as devidas
anotações. Para a apreciação do estilo há os trechos em antologias. Das mais
célebres há até o resumo dos enredos no ―Thesouro da Juventude‖ para os
adolescentes. Penso que uma jovem católica não precisa ler na integra autores
pagãos, antigos ou modernos (estes são talvez os piores). Para minúcias mais
concretas seria preciso delimitar o campo de própria consulta. Como está, é de
vastidão desanimadora. — J. S. (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº
11, p. 44, fevereiro de 1935).

Estas respostas revelam o pensamento dos educadores católicos com relação


aos impressos. Se a resposta foi assinada por Jônatas Serrano (J. S.), torna-se ainda
mais interessante, pois que ele é um dos pivôs desta difusão dos impressos no Brasil,
e vem ao encontro de dois trabalhos — Chartier & Hébrard (1995), sobre o abade
Bethlem e seu ―Guia geral de leituras‖ (Chartier & Hébrard, 1995:62), e Paiva
(1997), que mostra a intensa atividade do frei Pedro Sinzig. A resposta de J. S.
reafirma que Bethlem e Sinzig são como dois ―papas‖ neste campo. Cynthia Pereira
de Souza informa-nos que Sinzig traduzia e publicava, no Brasil, muita coisa de
Bethlem.
Em maio de 1935, ―um assinante‖ pergunta se existe em português alguma
edição com o título Era uma vez... e se não seria interessante publicar uma coleção
de contos infantis com este título. C. M. responde que há um livro de Guilherme de
Almeida com este título, que acha ―ótimo‖ o título e pertinente a indicação (cf.
Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 14, p. 288-289, maio de 1935).
Outras duas consultas interessantes foram feitas naquele mês. Numa, sobre
educação sexual, um assunto delicado e polêmico, um pai quer uma resposta objetiva
e direta sobre livros que tratem do assunto.

Desejava que me fosse indicada uma outra obra sobre educação sexual, quanto
possível direta. É escusado dizer que como pai de família católica só me interessam
as obras rigorosamente morais e prefiro trabalhos que me orientem sobre a maneira
como, em casos necessários, conduzir o assunto junto aos meninos e jovens.

127
Conheço apenas ―Innocence et ignorance‖, de Gillet; ―Pédagogie sexuelle‖, de
Foerster; ―A grande guerra‖, ―Lutas da mocidade‖ e ―Maman, dis-moi‖. – PAE
(Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 14, p. 288-289, maio de 1935).

A indicação de P. F. está no Quadro 23:

Quadro 23
Obras recomendadas na seção ―Consultas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
Maio de 1935

Autor Obra
Charmont Jeunesse et pureté — Paris, Ed. Spes
G. Jacquemet Tu resteras chaste — Paris, Beosed, 1931
Duhourap Aprés ta vingtième année, Marselle
J. Renault La pureté: préservation, direction, initiatives — Paris
Idem Education directe de la pureté — Paris
Ruiz Amado Educación de la castidad

Na mesma seção ano de maio de 1935 aparece outra consulta, agora em busca
de livros pedagógicos, ―além dos de Gillet, e dos de Hôvre, que já possuo, que trate
expressamente da obra educativa da Igreja‖. A resposta, ainda de P. F., ―na hipótese
de o consulente não versar os idiomas inglês e alemão‖ (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano II, v. III, nº 14, p. 288-289, maio de 1935), está no Quadro 24.

Quadro 24
Obras recomendadas na seção ―Consultas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
Maio de 1935

Autor Obra
Devaud Pour une école active dans l‟ordre chrétien
Jean Desminne L‟Education chrétienne de la personalité
Ruiz Amado Didáctica general — Barcelona
Ruiz Amado Da educação cívica — Barcelona
Ruiz Amado Da educação moral — Barcelona
(continua)

128
Quadro 24 (conclusão)
Obras recomendadas na seção ―Consultas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
Maio de 1935

Autor Obra
Ruiz Amado Da educação religiosa — Barcelona
Ruiz Amado Historia de la educación y de la pedagogía
J. de La Vaissière Psychologie pédagogique, Paris, Beauchesne
Riboulet Psychologie appliquée de l‟éducacion
Riboulet Pédagogie générale
Riboulet Manuel de l‟histoire de la pédagogie
Kipper L‟Autorité dans la famille et à l‟intelligence
Habrich Psychologie pédagogique
Backheuser Técnica da pedagogia moderna

Na edição de julho-agosto de 1935, encontramos uma consulta sobre o ensino


do catecismo. A leitora pede a indicação de livros de catecismo para escolas
primárias, secundárias e normais. Pergunta, até certo ponto, reveladora e
esclarecedora, pois o catecismo era prática habitual nas escolas católicas. Não há
separação entre educação na comunidade eclesial e na escolar. Isto corresponde ao
princípio da pedagogia católica, que considera ―o catolicismo a pedagogia por
excelência‖, como fica cada vez mais claro em nossa pesquisa. Livros de religião e
livros científicos misturam-se na educação integral dos católicos. Os editores fizeram
a lista dos livros, lembrando que poderiam ser estes entre outros, dado que o número
de livros religiosos era grande. A lista das obras indicadas foi (cf. Revista Brasileira
de Pedagogia, ano II, v. IV, nº 16-17, p. 95, julho/agosto de 1935) a do Quadro 25, a
seguir.

129
Quadro 25
Obras recomendadas na seção ―Consultas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
Julho/agosto de 1935

Autor Obra
Boulanger Doutrina católica, 1 vol. — Alves & Cia
Abbé Gellé La grâce à dix ans. Mes petits gars. L‟Essentie du catéchisme
Bruel Le catéchisme à l‟école de N. Seigneur. Les jeux du catechisme
Boussieu La préparation eucharistique de l‟enfant
Abbé Micoud Manuel du brevet d‟instruction religieuse (2 vols.)
Sertillanges Catéchisme des petits
Charles Catéchisme illustré pour les tout-petits. Les catéchisme par
l‟Evangile: Le livre des tout-petits. Le catéchisme par l‟Evangile:
Le livre de la mére et des dames catéchistes. Le catéchisme par
l‟Evangile: Le livre du pére

2.2. Difusão dos grandes mestres da pedagogia católica

Para a CCBE, era compromisso firmado em estatuto ―difundir o pensamento


dos grandes mestres da pedagogia católica, combatendo as doutrinas sectárias, quer
em obra para os educadores, quer em manuais para educandos‖. Pelo que vimos até
agora, não faltou disposição para atingir este objetivo, ano a ano. Além de todo o
esforço já demonstrado, a Revista Brasileira de Pedagogia abriu seções específicas
voltadas para os mestres da pedagogia católica, especialmente os estrangeiros.

2.2.1. ―Os Mestres Estrangeiros‖

Da seção ―Os Mestres Estrangeiros‖, fizemos 14 registros (ver Quadro 26):


quatro com impressos da Argentina; três, dos Estados Unidos da América; dois, da
Suíça; e, da Espanha, da Bélgica, da Itália, da Alemanha e da França, um registro de
cada um destes países. Cinco registros referem-se ao ano de 1934, oito a 1935 e um
registro a 1936.

130
Quadro 26
Autores e obras da seção ―Os Mestres Estrangeiros‖
Revista Brasileira de Pedagogia
1934 a 1936

Autor Obra
Amado, Ruis La educación intelectual
Archambault, Paul A família e a escola
Buyse, Raymond Tendências atuais da educação
Cassatti, Mario A escola ativa e seus princípios
Devaud, Eugène Pour une école active (um trecho do livro)
Devaud, Eugène Pour une école active selon l'ordre chrétien
Kilpatrick, W. H. Reforma da teoria educacional
Mercante, Victor Maestros y educadores (2 vols.)
Mercante, Victor Paidologia (estudio del alumno)
Mercante, Victor Charlas pedagógicas
Mercante, Victor Como se aprende a leer
O‘Hara The Limitations of the Educational Theory of John
Dewey
Raby, Sister Joseph Mary A Critical Study of the New Education
Scheufgen, H. J. Lexikon der Pädadogik der Gegenwart

A seção adotava diferentes formas. Podia ser um comentário sobre obra


estrangeira, uma resenha ou uma espécie de biografia de autor em que eram citadas
suas obras. Podia poderia haver breve comentário sobre o mestre e, em seguida, a
tradução de trechos de texto deste autor, ou a tradução de um artigo que divulgava
certo autor. O contato com os textos veiculados dará uma idéia melhor desta seção.
Em março de 1934, a seção faz a transcrição de um artigo, fruto de uma
palestra numa semana pedagógica, que havia sido publicado na revista La Femme
Belge. O autor do artigo é Raymond Buyse, professor de Didática Experimental e
Metodologia na Universidade de Louvain. O título do artigo é Tendências atuais na
educação (Buyse, 1934). São quase nove páginas sobre a prática e as principais
tendências da educação nos países onde o autor trabalha, na perspectiva da formação
intelectual, a concepção educacional cristã e a concepção que Buyse chamava de

131
revolucionária. Quanto às grandes correntes da pedagogia moderna, ele as divide em
três: a pedagogia tradicional ou clássica, a pedagogia chamada nova ou renovada e a
pedagogia experimental.
Em agosto, aparecia um artigo de Leonardo Van Acker cuja principal
chamada era ―Nos Estados Unidos: Sister Joseph Mary Raby‖. Antes de comentar o
livro da educadora norte-americana, Van Acker cita de passagem The Limitations of
the Educational Theory of John Dewey, do professor O‘Hara, um livro que já
examinara na Revista da Faculdade de Filosofia de São Bento. A propaganda desses
títulos havia sido feita pelo dr. E. Jordan (tradutor de De Hôvre), professor de
Filosofia da Educação da Universidade Católica de Washington, ao tratar da posição
dos católicos norte-americanos em face da ―escola nova‖. Sobre a monografia de
Raby, Van Acker lembra que é rara a literatura católica sobre escola nova em língua
inglesa.

O estudo de Soror J. M. Raby é a primeira obra crítica da nova educação, em língua


anglo-saxônica, do ponto de vista católico. O plano é claro e simples. 1. Definição e
extensão da atual educação progressiva; 2. Como se desenvolvem a nova educação,
graças a certos fatores sociais, psicológicos e doutrinários. 3. Excessos e defeitos
filosóficos e pedagógicos da nova educação. 4. A parte válida em educação nova. 5.
Como integrá-la na educação católica (Acker, 1934b:89).

Van Acker resume, em mais de três páginas, as idéias da autora. Em nosso


inventário, listamos as duas monografias que aparecem neste artigo, embora a
primeira fosse citada apenas de passagem.
Ainda na seção ―Os Mestres Estrangeiros‖, foi publicada ―A escola ativa e
seus princípios‖, tradução de um artigo de Mário Cassatti para o ―Suplemento
Pedagógico‖ de Moderna Scuola Italiana (Bréscia). O artigo (Cassatti, 1934) é uma
resposta à pergunta: qual o princípio fundamental em que se baseia a ―escola ativa‖ e
seu programa?
Em setembro de 1934, foi traduzido um artigo do Lexicon der Pädagogik der
Gegenwart, intitulado ―As recompensas‖ (Scheufgen, 1934).
Em fevereiro do ano seguinte, foi publicado um texto traduzido do livro do
educador suíço Eugène Devaud, Pour une école active selon l‟orde chrétien. O texto,
de três páginas, trata da ordem cristã na educação.

132
Em abril, a seção trouxe um comentário de Leonardo Van Acker. Vamos
procurar reproduzir como foi veiculada a abertura deste comentário:

Os mestres estrangeiros

REFORMA DA TEORIA EDUCACIONAL


SEGUNDO W. H. KILPATRICK

LEONARDO VAN ACKER


Prof. da Faculdade de Filosofia
de S. Bento – S. PAULO

A crise econômico-social levou os educadores norte-americanos a refletirem


criticamente sobre o individualismo liberal e o behaviorismo materialista, esteios
doutrinários de certa educação ―nova e progressiva‖. Damos aqui alguns conceitos
do célebre Kilpatrick, já emitidos em 193l na ―Reconstructed Theory of the
Educative Process‖, mas que ainda não parecem divulgados em nosso ambiente
educacional de 1935! (Acker, 1935a:169).

Depois desta introdução, o próprio Van Acker expõe alguns conceitos com
base nas idéias de Kilpatrick.
Em maio de 1935, C. A. Barbosa de Oliveira publica uma biografia de Victor
Mercante, educador argentino, da Universidad de La Plata, e cita uma vasta
bibliografia do autor: Maestros y educadores, Paidologia (estudio del alumno),
Aptitud ortográfica, Charlas pedagógicas, Como se aprende a leer, La crisis de la
pubertad y sus consecuencias pedagógicas, Metodología especial de la ensenanza
primaria, Psicología de la aptitud matemática del niño, Frenos (1918), El oro
antártico (1919), La verbecromia (1910). Não registramos em nosso inventário toda
esta lista por considerar que a forma como os livros são citados não nos autoriza a
fazê-lo. Um registo como este desequilibraria o quadro do inventário. Optamos por
registrar as últimas quatro obras de cunho pedagógico. Barbosa de Oliveira termina
seu artigo com a observação de que a Revista Brasileira de Pedagogia, com sua
posição abertamente católica, ―sente-se à vontade para não cometer a injustiça de
condenar sumária ou totalmente o trabalho realizado por Victor Mercante, como
querem alguns ‗nuevos‘ do seu país‖ (Oliveira, 1935a:251). A frase revela os

133
conflitos entre os educadores argentinos, bem no estilo do embate vivido entre os
educadores do Brasil.
Na RBP de julho-agosto de 1935, Maria Virgínia Amaury de Medeiros
traduziu e publicou o texto A família e a escola, do educador francês Paul
Archambault (cf. Archambault, 1935).
―Da Espanha: Ruis Amado, S. J.‖ Esse é o título da seção ―Os Mestres
Estrangeiros‖ da RBP de setembro de 1935. Trata-se da introdução da obra La
educación intelectual, de Amado. É feita uma breve motivação aos professores
católicos antes da tradução do texto, que recebeu como título ―A teoria do interesse
em pedagogia‖. São três páginas e meia que refletem sobre a história da educação e o
rendimento escolar.
Em 1936, encontramos longa tradução, por Maria Luiza Lage, de um trecho
do livro Pour une école ative, de Eugène Devaud. São mais de oito páginas,
intituladas ―Considerações para estabelecimento de um programa escolar segundo a
ordem cristã‖ (Devaud, 1936).

2.2.2. ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖

Em nosso inventário, registramos impressos de quatro autores desta seção,


que circulou apenas em 1937. São nove obras, assim mesmo por que os editores
divulgaram a bibliografia de Dwelshauvers (ver Quadro 27).

Quadro 27
Autores e obras da seção ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖
Revista Brasileira de Pedagogia
1937

Autor Obra
De Hôvre Les mâitres de la pédagogie contemporaine
Dwelshauvers, George Traité de psychologie
Dwelshauvers, George L‟Etude de la pensée
Dwelshauvers, George Les mécanismes subconscients
Dwelshauvers, George La psychologie française contemporaine
(continua)

134
Quadro 27 (conclusão)
Autores e obras da seção ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖
Revista Brasileira de Pedagogia
1937

Autor Obra
Dwelshauvers, George L‟Inconscient
Dwelshauvers, George La synthèse mentale
Jousse, Marcel Mimisme humain et style manuel
Willmann, Otto Didática ou teoria da formação do espírito

Esta seção trabalha com um esquema semelhante ao da seção antes


examinada. Tem porém uma lógica mais clara: breve comentário sobre o autor, sua
foto e trecho de uma de suas obras.
A ―Galeria dos Mestres Contemporâneos‖ foi inaugurada em abril de 1937
com De Hôvre. Lembra-se o sucesso de seus dois livros no Brasil e se anuncia sua
nova obra, ―cuja tradução francesa, Les mâitres de la pédagogie contemporaine,
nossas livrarias acabam de receber‖, escrevem os editores (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano IV, vol. VII, nº 33, p. 222, abril de 1937).
Em maio, o mestre em destaque é George Dwelshauvers, do qual são
apresentadas uma breve biografia do autor e uma bibliografia. Inventariamos as
cinco primeiras obras citadas do autor e o seu Traité de psychologie, ―manual que [os
editores da RBP] aconselhamos aos normalistas católicos‖ (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano IV, vol. VII, nº 34, p. 322, maio de 1937).
A edição de junho destaca, na ―Galeria dos Grandes Mestres‖, o educador
Otto Willmann. Dentro do mesmo esquema, há uma pequena biografia do autor e um
texto de sua autoria, traduzido.

Entre os mais notáveis pedagogos alemães contemporâneos, destaca-se Otto


Willmann, considerado o grande mestre da didática católica. Nasceu em Lissa em
l839. Foi professor em Praga até 1903, falecendo em Zeitmeritz em 1920. Fundador
da pedagogia social, lançada em sólidas bases científicas, deixou várias obras
filosóficas e pedagógicas: ―Geschichte des Idealismus‖, ―Psychologie‖, ―Logik‖,
―Metaphysik‖, ―Aus der Werkstatt des Phil. Perennis‖, ―Pädagog. Vortrage‖, ―Aus
Horsaal und Schulstube‖, ―Herbarts Päd. Shriften‖, entre as quais se destaca, como
clássica, a ―Didática ou teoria da formação do espírito em suas relações com a

135
sociologia e com a história da Cultura‖ em 4 volumes. Pregou a reação contra o
especialismo, o mecanicismo e o atomismo e a volta aos princípios de Platão e
Aristóteles e S. Tomás sobre a teoria orgânica da vida e da educação [...] Willmann é
o precursor das tendências mais modernas em psicologia e pedagogia, como da
psicologia estruturalista, sustentada e difundida pelos mais notáveis psicólogos da
atualidade (Revista Brasileira de Pedagogia, ano IV, vol. VII, nº 35, p. 440, junho
de 1937).

Depois desta introdução. o texto escolhido de Willmann — ―A educação é


simultaneamente uma função individual e social‖.
Em agosto daquele mesmo ano, foi a vez de Marcel Jousse. Com a foto do
autor em destaque, os editores, depois da pequena biografia, publicam o texto
intitulado ―Tendência mímica do homem‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano IV,
vol. VII, nº 37, p. 2, agosto de 1937).

2.3. Propagandas

Classificamos sob este nome todos os livros divulgados por meio de


publicidade por anúncios que recomendam um impresso. Trata-se de algo importante
para o nosso inventário, uma vez que as propagandas são veiculadas para fazer
circular o texto em grande quantidade. No exame da forma como as propagandas são
veiculadas, atentos a sua materialidade, fizemos dois tipos de classificação.
Em primeiro lugar, as propagandas que visivelmente são veiculadas pelos
editores da RBP, como as de impressos da própria biblioteca da Confederação
Católica Brasileira de Educação. Classificamos 28 impressos com estas
características. O número de vezes que cada impresso aparece é grande, mas o
impresso só é cadastrado mais de uma vez quando a propaganda tem características
diferentes. Algumas ocupam páginas inteiras, o que revela certo destaque; outras,
meia página. Às vezes, uma propaganda refere-se a um apenas livro; outras vezes, a
três livros ou mais.
Em segundo, cadastramos impressos que são objeto de propagandas com
características bem diferentes das primeiras. Trata-se, na maioria das vezes, de listas
de livros desta ou daquela biblioteca, desta ou daquela livraria, que têm finalidades
coincidentes com as da CCBE. Embora sejam impressos que reforcem os objetivos

136
da Revista, pois não encontramos nenhum impresso que fuja a esta característica, sua
propaganda nos parece ―encomendada‖, do tipo ―pago‖ para ser veiculada. Esta é
uma conclusão que tiramos da análise da materialidade dos anúncios. Foram
inventariados 52 impressos nestas condições. Também são repetidos os títulos
quando o impresso aparece neste meio de difusão do impresso, a ―propaganda‖, mas
com características diferentes.
Das propagandas veiculadas para divulgar impressos da própria CCBE,
filtramos aquelas que receberam maior destaque. O Quadro 28 apresenta a lista
desses títulos, o ano e o mês em que apareceram, a título de amostragem.

Quadro 28
Obras indicadas com maior destaque em propagandas
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1935

Obra Ano Mês


A Ordem 1934 março
Aritmética na Escola Nova 1935 março
Técnica da pedagogia moderna 1935 abril
Anais do 1º Congresso Católico de Educação 1936 julho/agosto
Os esportes na formação da mocidade 1935 maio
O papel do mestre na Escola Nova 1935 maio

A Ordem recebe um tratamento especial, seja nas seções que comentam


revistas, seja na ―seção‖ de propagandas. É um destaque que encontramos em toda a
existência da RBP.
Os Anais do 1º Congresso Católico de Educação (que se realizou em 1934),
amplamente divulgados em 1936, eram distribuídos gratuitamente aos seus
participantes. Não há resenha deste impresso, mas as edições estão repletas de
comentários sobre o Congresso, que foi um marco histórico para os educadores
católicos. Em vários espaços, encontramos propaganda destes Anais.
Apareceram com grande destaque, tanto em propagandas, como em artigos,
os livros Os esportes na formação da mocidade, de Barbosa de Oliveira, e O papel
do mestre na Escola Nova, de Everardo Backheuser. As duas obras foram

137
apresentadas pelos próprios autores na RBP. Barbosa de Oliveira escreveu sobre seu
livro em março de 1934 (cf. Oliveira, 1934c) e Backheuser assinou um artigo sobre
O papel do mestre... na Revista de maio do mesmo ano (cf. Backheuser, 1934b).
Outros dois livros de Backheuser foram incluídos nesta lista de impressos
indicados com excepcional destaque: Técnica da pedagogia moderna e Aritmética da
Escola Nova. O primeiro, mais tarde transformado no Manual da pedagogia
moderna, ganhou relevo em diversas seções da RBP; quanto ao segundo, destacou-se
principalmente nas propagandas.
Outra classificação que fizemos dentro deste aspecto — ou seja, das obras e
impressos que eram divulgadas pela própria CCBE e cujas propagandas não têm
caraterísticas de serem encomendadas ―de fora‖ —, foi com relação à procedência.
Constatamos que a maioria é da ―Biblioteca de Cultura‖ dirigida por Alceu Amoroso
Lima (ver Quadro 29). Aparecem também os livros divulgados como sendo da
própria ―Biblioteca da CCBE‖. Circulou também a propaganda com o título, que
chama a nossa atenção, de ―Livros Pedagógicos‖.

Quadro 29
Obras indicadas com destaque em propagandas e procedência
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Obra Procedência
A origem do mundo a luz da ciência e da religião Biblioteca CCBE
Aritmética na Escola Nova Livros pedagógicos
O papel do mestre na Escola Nova Livros pedagógicos
Técnica da pedagogia moderna Livros pedagógicos
Os esportes na formação da mocidade Biblioteca CCBE
O papel do mestre na Escola Nova Biblioteca CCBE
A origem do mundo á luz da ciência e da religião Biblioteca CCBE
Psicologia da fé anúncio com pequeno destaque
Introdução à economia moderna Biblioteca Brasileira de Cultura
Estudos, 2ª Série Biblioteca Brasileira de Cultura
Estudos, 5ª Série Biblioteca Brasileira de Cultura
(continua)

138
Quadro 29 (conclusão)
Obras indicadas com destaque em propagandas e procedência
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Obra Procedência
Affonso Arinos Biblioteca Brasileira de Cultura
Indicações políticas (da Revolução à Constituição) Biblioteca Brasileira de Cultura
Preparação à sociologia Biblioteca Brasileira de Cultura
Tratado de pedagogia Biblioteca Brasileira de Cultura
Psicologia da fé Biblioteca Brasileira de Cultura
Anchieta Biblioteca Brasileira de Cultura
Técnica da pedagogia moderna Biblioteca Brasileira de Cultura
Tendências do pensamento contemporâneo Biblioteca Brasileira de Cultura
Contra-revolução espiritual Biblioteca Brasileira de Cultura
Pela reforma social Biblioteca Brasileira de Cultura
Política Biblioteca Brasileira de Cultura
Economia pré-politica Biblioteca Brasileira de Cultura
Introdução ao direito moderno Biblioteca Brasileira de Cultura
Estudos, 1ª Série Biblioteca Brasileira de Cultura

Quanto às propagandas classificadas como do tipo ―encomendadas‖,


relacionamos também as obras que foram indicadas com destaque. No Quadro 30,
dispõe-se a lista destas obras, o ano e o mês em que aparecem na RBP, também a
título de amostragem (pois, como já ressalvamos, não foram consideradas quantas
vezes aparecem propagandas iguais).
Merece comentário especial aqui o Boletim da Associação de Professores
Católicos, que recebe destaque nas propagandas. É citado amiúde; afinal, a RBP
nasceu como fruto do Boletim, que deixara de circular, dando espaço à Revista. Os
editores da RBP divulgam freqüentemente a venda de coleções do Boletim.
Aparecem também constantes pesquisas entre os leitores, em busca de números que
faltam para completar coleções. Porém, temos razões para crer que quem
acompanhava estas propagandas eram os membros da A.P.C. do Distrito Federal, que
se misturam aos membros da CCBE.

139
Quadro 30
Obras indicadas com maior destaque em propagandas ―encomendadas‖
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1935

Obra Ano Mês


Boletim da Associação de Professores Católicos 1934 março
Tratado de pedagogia 1934 junho
A verdade 1935 novembro
A vida 1935 novembro
O caminho do céu 1935 novembro
Jesus e Pedrinho 1935 novembro
Psicologia da fé 1935 março
Ciência e religião 1935 março

Destaca-se também o Tratado de pedagogia, do monsenhor Pedro Anísio, um


dos únicos manuais de pedagogia católica que recebeu tratamento especial durante
toda a existência da Revista.
Um indício de que estas propagandas eram do tipo ―encomendadas‖ é a forma
como se aproveita o espaço: divulga-se grande número de livros em pouco espaço.
Note-se que, embora caibam nesta categoria de propaganda ―encomendada‖, os
impressos sempre estão dentro da linha editorial da Revista Brasileira de Pedagogia
(ver Quadro 31).

Quadro 31
Obras indicadas com destaque em propagandas ―encomendadas‖ e procedência
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Obra Procedência
Amor santo ―Pro Luce‖ *
Malês ―Pro Luce‖
Dois shillings e seis pence ―Pro Luce‖
Flores da Bíblia ―Pro Luce‖
Razões da nossa crença ―Pro Luce‖
(continua)

140
Quadro 31
Obras indicadas com destaque em propagandas ―encomendadas‖ e procedência
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Obra Procedência
Montanha acima ―Pro Luce‖
Tratado de pedagogia Biblioteca Anchieta
Debates pedagógicos Biblioteca Anchieta
Técnica da pedagogia moderna Biblioteca Anchieta
A aritmética na Escola Nova Biblioteca Anchieta
Catéchisme de perseverance Biblioteca Anchieta
Catéchisme de l‟éducation Biblioteca Anchieta
Le catéchisme par l‟Evangile Biblioteca Anchieta
Le livre des tous petits Biblioteca Anchieta
Le livre de la mère et des dames catéchistes Biblioteca Anchieta
Le livre du prête Biblioteca Anchieta
Catéchisme marial Biblioteca Anchieta
L'Evangile de maman pour nos enfants Biblioteca Anchieta
Le catholicisme, ses pédagogues, sa pédagogie Biblioteca Anchieta
Essai de philosophie pédagogique Biblioteca Anchieta
Pédagogie scolaire Biblioteca Anchieta
Penso e creio Biblioteca Anchieta
L‟Educateur apôtre Biblioteca Anchieta
Propos d‟éducation Biblioteca Anchieta
Petit catéchisme du mariage Biblioteca Anchieta
Plans de cercles d‟études Biblioteca Anchieta
Liturgia do sacramento da crisma Biblioteca Anchieta
Dois problemas de educação Biblioteca Anchieta
Cours en abrégé de réligion Biblioteca Anchieta
Cours de réligion Biblioteca Anchieta
Decadência do ensino no Brasil Biblioteca Anchieta
Tradução das obras máximas do
Os jesuítas e o segredo do seu poder
historiador Fulop Miller
(continuação)

141
Quadro 31 (conclusão)
Obras indicadas com destaque em propagandas ―encomendadas‖ e procedência
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Obra Procedência
Francês pelo método direto, 1º ano Livraria Educadora **
Francês pelo método direto, 2º ano Livraria Educadora
Inglês pelo método direto, 1º ano Livraria Educadora
Inglês pelo método direto, 2º ano Livraria Educadora
Gramática superior da língua inglesa Livraria Educadora
Gramática de verbos franceses regulares e
Livraria Educadora
irregulares
Gramática latina Livraria Educadora
Desenho geométrico e elementar Edições de livros didáticos
Diva Editora A B C — Livraria Anchieta
As pupilas do senhor Reitor Editora A B C — Livraria Anchieta
O arrependido Editora A B C — Livraria Anchieta
O silêncio do amor Editora A B C — Livraria Anchieta
Conselho aos pais Curso de Pedagogia Familiar
Notas: * ―Pro Luce‖ — Cooperativa de Amigos do Bom Livro. ** Edições de livros didáticos —
Livraria Educadora.

A Livraria Anchieta, do Centro D. Vital, era a que mais divulgava. As


―Edições de livros didáticos — Livraria Educadora‖, a ―Pro Luce‖, da Vozes, a
Editora A B C (Ligada à CCB e ao Centro D. Vital) são as outras que mais aparecem.
Todas muito próximas dos objetivos da CCBE.
Observamos que as propagandas em geral da RBP são mais ideológicas do
que comerciais. Por outro lado, notamos que mesmo aquelas que têm indícios de
comerciais são difíceis de serem assim classificadas, porque também não fogem do
objetivo da Revista, como temos assinalado desde o início deste texto.
Embora as categorias de propagandas ―encomendadas‖ e ―não
encomendadas‖ tenham sido criadas por nós, para facilitar o estudo da Revista
Brasileira de Pedagogia, não podemos esquecer que existem indícios muito mais
objetivos e claros com relação às propagandas ―comerciais‖ na RBP. Esta é uma
constatação que fizemos ao observar alguns balancetes da CCBE (cf. CCBE,

142
―Balancete da receita e despesa durante o 2º trimestre de 1934‖, Revista Brasileira de
Pedagogia, v. II, nº 8, contracapa, setembro de 1934). Outro indício é que também
ocorrem anúncios de colégios, remédios, livrarias, etc.
Nas páginas a seguir, alguns exemplos de propaganda na RBP.

143
144
145
146
É difícil saber se alguns dos livros cadastrados fazem parte do rol de
propagandas ―encomendadas‖. No entanto, a materialidade, mais uma vez, fornece
indícios, quase evidências, da diferença entre uma e outra formas de propaganda.

2.4. Iniciativas isoladas

Há seções que apareceram apenas uma vez na Revista Brasileira de


Pedagogia ou que tratam de um assunto de formas diferentes e, num certo momento,
divulgaram impressos que merecem ser inventariados em nossa Biblioteca
Pedagógica Católica da CCBE. Incluímos estas seções em nossa biblioteca não só
porque são estratégias de divulgação do impresso, mas também porque não
pretendemos ter feito algo totalmente acabado: pode haver outros impressos que até
estejam materialmente presentes na Revista e ―escaparam‖ às nossas investigações. A
seguir, faremos breves comentários sobre cada uma destas iniciativas, que
consideramos ―isoladas‖.

2.4.1. ―Revista das revistas‖

Trata-se de páginas que apareceram em 1937. Inventariamos dois apenas


impressos nestas páginas: um no mês de março, Cahiers Catéchistiques, e outro em
abril, o Boletim Catequético. O primeiro era uma revista mensal da Arquiconfraria
dos Catecismos da França, que, segundo os redatores da RBP, tinha ―um sentido de
modernidade sadia e de renovação criteriosa e equilibrada‖ (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano IV, v. VII, nº 32, p. 216, março de 1937). O Boletim Catequético era
uma ―revista brasileira de ensino religioso‖ publicada pelo padre Álvaro
Negromonte, de Belo Horizonte (Revista Brasileira de Pedagogia, ano IV, v. VII, nº
33, p. 320, abril de 1937).

2.4.2. ―Psicologia Feminina‖

Trata-se de um comentário sobre o livro Almas, de Leontina Cardoso (cf.


Lima, 1936d). A autora do artigo, da Liga do Professorado Católico de Fortaleza

147
(CE), faz a apologia da obra, que defende os direitos da mulher. Incluímos este livro
em nossa biblioteca, já que mereceu este pequeno artigo na Revista.

2.4.3. ―Filosofia da Educação‖

Era uma seção que não se preocupava em divulgar o impresso e, no entanto,


tratou de um livro que não poderia ficar fora de nosso inventário: o Emílio, de
Rousseau (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, ano III, v. V, nº 21, p. 77-80,
fevereiro de 1936). Foi um comentário assinado pelo pe. Guilherme Boing. Ao
resumir os cinco capítulos da obra, o resenhista critica o clássico da pedagogia, que
já figurava, havia muito tempo, no Index dos livros proibidos pela Igreja Católica.
Quanto ao primeiro e ao segundo capítulos, da educação até os 12 anos, Emílio seria
um robusto menino que só desenvolvera a vida animal; sobre o terceiro, da educação
dos 12 aos 15 anos: ―Emílio não deve aprender a ciência, deve inventá-la‖; sobre o
quarto, da educação dos 15 aos 20 anos e da formação moral e religiosa:

Formamos o corpo, os sentidos, o juízo de Emílio; resta a formação de seu coração,


diz o autor, e aqui começa a verdadeira educação. De fato, mas essa educação
verdadeira começa com um atraso de 15 anos. Qualquer educador prático
compreende que todo filho de Adão crescido segundo a receita de Rousseau tornou-
se, na idade de 15 anos, um terrível egoísta, um rapaz intratável, convencido, com
quem ninguém poderá viver (Revista Brasileira de Pedagogia, ano III, v. V, nº 21,
p. 78, fevereiro de 1936).

Os argumentos vêem sempre da pedagogia católica, por vezes mesclada à


teologia. Ainda comentando este capítulo, diz o pe. Guilherme: ―O que Rousseau
conserva do cristianismo é um cristianismo sem disciplina, sem pecado original,
portanto sem consciência do pecado, sem salvação [...] um cristianismo que não é
mais cristianismo‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano III, v. V, nº 21, p. 79,
fevereiro de 1936).
Quanto ao quinto capítulo, sobre Sofia e a educação feminina, o pe.
Guilherme afirma que o autor reduz a mulher a uma condição muito inferior à do
homem: ela seria subalterna e empregada e sua principal tarefa seria agradar ao
homem. Essa seria uma educação ―bastante antiquada‖, conclui ele.

148
2.4.4. ―Filosofia Educacional‖

Em 1938, no mês de março, apareceu nesta seção um artigo que anunciava o


lançamento do livro Pedagogia, do pe. Carlos Leôncio. Era prefaciado por Everardo
Backheuser e constituía mais um dos manuais de pedagogia católica. Dada a
importância do impresso, não poderíamos deixá-lo fora de nosso inventário. Se a
Revista continuasse a ser publicada, certamente este livro teria merecido resenhas e
propagandas.

2.4.5. ―Notícia Bibliográfica‖

Tem características diferentes das outras aqui comentadas. Foram


inventariados nesta página oito impressos, sendo sete livros e um folheto. A forma de
divulgação assemelha-se a uma bibliografia comentada, como podemos observar:

WALDEMIRO POTSCH – O Brasil e suas riquezas – Leitura Pátria, 12ª edição,


prêmio ―Francisco Alves‖ da Academia Brasileira de Letras. Muito bem impresso a
cores, várias páginas de tricromia, e informações modernas e seguras sobre as várias
riquezas de nosso país.
SUD MENNUCCI – Aspectos Piracicabanos do Ensino Rural – São Paulo, 1934
– Linda plaqueta de que nos ocuparemos mais tarde.
HENRY PERROY – Cinco lições de confiança – F. Briguiet & Cia., Rio de
Janeiro, 1934 – Trata-se de uma tradução de mais um trabalho do conhecido
biógrafo de Guy Fontgalland, S. J., estimado assistente eclesiástico versi- [sic] A P
C da Bahia, traça um brilhante prefácio elogiando o valioso serviço prestado pelo Sr.
Luiz Leal Ferreira, dando-nos a brilhante tradução com que acaba de dotar as letras
brasileiras (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 12, p. 143, março de
1935).

Assim se sucedem os comentários sobre As educadoras beneméritas, do pe.


Helliodoro Pires; Catolicismo e socialismo, do pe. Arthur Costa; O problema do
município no Brasil atual, de M. A. Teixeira de Freitas; Pelo Brasil, a Segunda
República, Cartas, discursos, etc., de d. José Maurício da Rocha; A Capital de S.
Paulo em 1933, de Mário de Sampaio Ferraz.

149
3. Inventário dos impressos resenhados e divulgados na RBP

3.l. As seções ―Bibliografia Pedagógica‖ e ―Literatura Pedagógica‖

Como vimos, a RBP utiliza vários meios para divulgar o impresso. Dentre
estes meios, devemos dar atenção às seções que trabalham com resenhas. Assim
como fizemos para A Ordem, reunimos em um só bloco as seções com as mesmas
características: informações gerais sobre o impresso, como autor, título, época, etc.;
comentários sobre a idéia central do texto, como objetivos, tese etc.; comentários
sobre o plano de assunto do texto (capítulos, seqüência lógica, etc.); comentários
pessoais e críticas do resenhista sobre a importância do texto, sua influência,
aspectos referentes à publicação do impresso, atualização dos dados, etc.
As seções que resenhavam livros e revistas na RBP eram especialmente duas:
―Literatura Pedagógica‖ e ―Bibliografia Pedagógica‖. Estas seções reforçavam a
finalidade do periódico, expressa em seu próprio nome: Revista Brasileira de
Pedagogia. Em ambas, está presente a expressão ―pedagógica‖. Isto reforça a idéia
de que a Biblioteca da CCBE é eminentemente pedagógica.
A seção ―Literatura Pedagógica‖, quando traz apenas resenhas de livros, sem
outro tipo de assunto, não apresenta subtítulo. O título ―Literatura Pedagógica‖,
sozinho, já significa ―resenha de livros‖. O subtítulo (que também chamo de
subseção) ―Resenha de livros‖ só aparece quando a seção vai abrir outro ou outros
subtítulos.
Dentro da seção ―Literatura Pedagógica‖, encontramos listas de impressos
recebidos pela CCBE. Assim, aparecem também os subtítulos ―Obras recebidas‖
(Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 2, p. 112, março de 1934), ―Publicações
recebidas‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 4, p. 239, maio de 1934),
―Recebemos e agradecemos‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, nº 9-10, p.
380, outubro/novembro de 1934). Não incluímos em nossa ―biblioteca pedagógica
sem muros‖ da CCBE estas listas, que aparecem na RBP sem nenhum comentário.
Quando estes impressos recebidos têm tratamento especial, com mais
detalhes quanto a sua procedência, ano e mês de edição e conteúdo, são divulgados
em outro subtítulo, ―Pelas revistas‖. Neste caso, são incluídos em nossa biblioteca e
mereceram neste texto um comentário especial.

150
As resenhas são assinadas por pessoa provavelmente designada para tal
função, pois não há grande variedade de responsáveis. Algumas vezes, o comentário
nem é assinado; isso indica que quem responde pela seção são os editores. Isto foi
observado na subseção ―Notícia bibliográfica‖, só encontrada em março de 1935.
Nota-se a simplicidade de uma seção, a ―Bibliografia Pedagógica‖, diante da
complexidade da outra, ―Literatura Pedagógica‖, com suas subdivisões (ver Quadro
32).

Quadro 32
As seções ―Literatura Pedagógica‖ e ―Bibliografia Pedagógica‖ com resenhas
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Meses
Seções com resenhas Anos maio Págs.
mar.

nov.
ago.
jun.

out.
fev.

abr.

set.
jul.
1934

1935
―Literatura Pedagógica‖ e
―Literatura Pedagógica — 1936 253
Resenha de livros‖
1937

1938

1934
―Literatura Pedagógica —
20
Pelas revistas‖
1935

―Literatura Pedagógica —
1935 1
Notícia bibliográfica‖

―Bibliografia Pedagógica‖ 1936 10

151
Neste Quadro, acrescentamos os anos em que cada seção aparece na RBP e o
número de páginas que cada uma ocupou da Revista. Somamos, em nosso inventário,
um total de 284 páginas dedicadas à resenha de livros. O resultado deste trabalho nos
dá também uma visão da localização das seções nas 47 revistas da coleção.

3.2. ―Bibliografia Pedagógica‖

A seção ―Bibliografia Pedagógica‖, como se vê no Quadro 32, só apareceu


em março de 1936. São quatro comentários em dez páginas. O primeiro, intitulado
―Técnica da pedagogia moderna ‗El Pueblo‘‖, destaca que a obra Técnica da
pedagogia moderna, de Backheuser, fora adotada ―em cursos normais de Portugal‖ e
que em breve sairia sua segunda edição. Transcreve-se também um artigo, de mais de
duas páginas, publicado em El Pueblo, de Buenos Aires, sobre o mesmo livro. O
artigo é assinado por A. Garcia Ellorio, que faz afirmações bem relevantes, tais
como:

Só a Federación de Amigos de la Enseñanza, a F. A. E. de Madrid, pode apresentar,


nos últimos anos, uma obra orgânica no campo do magistério católico, que
eqüivalha ao esforço realizado por nossos irmãos do Brasil e pelo chefe de sua
Confederação Católica de Educação [...] Técnica da pedagogia moderna [...] um
tratado de nova educação tão valioso quanto necessário para os mestres católicos, e
de singular interesse para os professores leigos que poderão beber esclarecimentos
sobre os princípios e realizações técnicas da escola nova em uma fonte tão científica
quanto doutrinariamente pura (Ellorio, 1936:115-117).

Depois deste artigo, há outros três, agora novamente no estilo de resenha. Um


intitula-se ―Teoria e prática do ensino secundário‖; é sobre obra escrita por
―inspetores de ensino‖ (Antônio Figueiredo de Almeida e Arthur Gaspar Vianna) e
comentada por Everardo Backheuser, que assina apenas E. B. A resenha (com mais
de duas páginas) faz críticas ao método histórico utilizado no livro. Para Backheuser,
os autores vêm a ciência econômica como parâmetro para a leitura do fato histórico,
ponto de vista ―demasiado materialista‖. Se os professores católicos o adotassem,
afastar-se-iam ―das salutares prescrições da Igreja‖. O resenhista acrescenta:

152
A Igreja não aceita ―o fato econômico‖ como gerador único de tudo ―inclusive da
cultura das artes, e das outras manifestações coletivas‖ porque se os católicos
pensassem assim entenderiam que a religião (que é uma das manifestações
coletivas) seria também o resultado de uma reação de caráter econômico
(Backheuser, 1936:119).

As outras duas resenhas são assinadas por Alceu da Silveira. Uma é sobre o
livro do pe. Arlindo Vieira, O problema do ensino secundário; outra, sobre a
tradução da obra De magistro, de Santo Tomás de Aquino. Elogiam-se as reflexões
do pe. Arlindo, direto e claro nos ataques que faz à concepção do ensino secundário
brasileiro. ―Julgamos que a franqueza do autor limitou-se bastante ao aludir ao
comum dos inspetores (300) e não vemos como se possa falar em ‗humanismo de
vistas largas‘ inspirado pela Universidade de Napoleão (90)‖ (Silveira, 1936b: 121).
Este tipo de afirmação vai se sucedendo nos comentários dos livros em 1936, pois os
católicos têm claras as ―doutrinas sectárias‖ e as pessoas que as defendem, que
querem combater, os ―inspetores de ensino‖. Isto fica claro nos debates que preparam
a elaboração do Plano Nacional de Educação.
O outro livro resenhado é Filosofia da educação de Santo Tomás de Aquino,
tradução de De magistro por Leonardo Van Acker, com comentários sobre a filosofia
educacional tomista por Mary Helen Mayer e introdução por Edw. A. Fitzpatrick.
Silveira faz a apologia da educação na visão do ―doutor angélico‖, a quem julga
precursor de Thorndike em suas leis de aprendizagem (cf. Silveira, 1936a:121-123).
Quais os temas que mais aparecem nestes comentários? Técnica da
pedagogia moderna, de Backheuser, aborda a escola nova e todos os grandes temas
de discussão daquele momento, sempre na perspectiva educacional católica:
educação integral, educação leiga, co-educação, escola única, escola regional. A obra
Teoria e prática do ensino secundário faz com os católicos pensem no ensino de
história, e o livro O problema do ensino secundário trata de assuntos importantes
para a preparação do Plano Nacional de Educação. O tema da filosofia e da teologia
são trazidos à baila com Filosofia da Educação em Santo Tomás de Aquino. É
importante, para os educadores católicos, manter acesos tais debates.

153
3.3. ―Literatura Pedagógica — Pelas revistas‖

No subtítulo ―Pelas revistas‖ da seção ―Literatura Pedagógica‖, comentavam-


se revistas ou boletins e, como os comentários não eram assinados, pressupõe-se que
eram de responsabilidade do editor. Esta subseção apareceu nos primeiros anos de
existência da RBP. Os editores selecionavam, dentre os impressos enviados para a
CCBE, aqueles que mereciam divulgação especial por virem ao encontro dos
objetivos da Revista. Além do conteúdo dos impressos, ficavam registrados sua
procedência, mês, ano e número da edição, etc.
Inventariamos 41 revistas, 10 boletins, e um livro (anuário) nesta subseção.
Estas revistas e boletins talvez não fossem assinados pela CCBE, mas permutados
pela RBP e outras publicações. Nas quartas capas das edições da Revista que
pudemos examinar, notamos a frase ―Pedimos troca com sua Revista‖ em seis
idiomas (inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e português). Isto pode explicar o
recebimento pela CCBE de tantas revistas e boletins vários do exterior.
Dos 52 impressos inventariados, 33 são brasileiros e 19 estrangeiros. Entre os
10 boletins do inventário, um é de Genebra (Suíça) e outro de Düsseldorf
(Alemanha); os restantes são brasileiros. Quanto às revistas, 17 são estrangeiras.
No inventário que fizemos para estabelecer a ―biblioteca sem muros‖ da
CCBE, aparecem também o Boletim da Associação de Professores e o Boletim
Catequético, do pe. Álvaro Negromonte. Como não foram divulgados na subseção
―Pelas revistas‖, não constam desta lista.
Observe-se a forma como os editores constroem esta seção. Note-se,
sobretudo nos comentários transcritos, a objetividade: de modo direto, o editor leva
ao leitor aquilo que é essencial.
Percebem-se também manifestações do movimento internacional da
pedagogia católica. Isto devia valorizar os trabalhos desenvolvidos pelos educadores
da CCBE. A estratégia de manter contato com as revistas estrangeiras do ramo
educacional não só servia para atualizar os professores, como também fazia com que
aqueles órgãos divulgassem a própria RBP.
Por outro lado, valorizar as iniciativas regionais era uma das estratégias da
CCBE, que atacava quem não era a favor da escola regional. Fazer conhecer o

154
movimento educacional nos diversos estados não deixava de ser um ponto que se
coadunava com este espírito.
Outro ponto recorrente nas discussões levantadas pelos católicos é a questão
dos artigos de tendência materialista, de pessoas consideradas inimigas do
catolicismo.

3.3.1. Boletins

Boletim Bibliográfico — Editado por Luiz Paula Freitas, no Rio de Janeiro.


Segundo os editores da RBP, a edição recebida trazia curto noticiário crítico das
obras recém-aparecidas (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 378,
outubro/novembro de 1934).
Boletim da CCB — Eis sua apresentação, na Revista Brasileira de Pedagogia
de agosto de 1934:

BOLETIM DA COLIGAÇÃO CATÓLICA BRASILEIRA — Rio de Janeiro, nº 2,


Maio. Com informações sempre oportunas a respeito do movimento e atuação das
associações confederadas, a saber: Centro D. Vital, Ação Universitária Católica,
Confederação Nacional de Operários Católicos, Instituto Católico de Estudos
Superiores, Associação das Bibliotecas Católicas e Confederação da Imprensa
Católica. O artigo de fundo trata de um problema de urgente solução: o problema
econômico das associações católicas (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II,
nº 7, p. 144, agosto de 1934).

Boletim da Diretoria de Instrução Pública de Santa Catarina — Publicado


em Florianópolis. Não há indicação de sua periodicidade. Apresentava na primeira
página uma homenagem a Luís Delfino, inclusive com foto. Trazia uma tradução de
Payot e informações geográficas do estado de Santa Catarina (cf. Revista Brasileira
de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 379, outubro/novembro de 1934).
Boletim da Diretoria de Instrução — Florianópolis, Santa Catarina —
número 7 de 1934 — Tudo indica que é um outro número do mesmo boletim
anterior. Trazia notas sobre a economia do estado de Santa Catarina e estatísticas
escolares, além de um artigo sobre ―Erros do ensino‖ (cf. Revista Brasileira de
Pedagogia, v. III, nº 14, p. 294, maio de 1935).

155
Boletim de Educação de Pernambuco — Semestral, editado em Recife pelo
Departamento de Educação do Distrito Federal. As edições de maio a junho de 1933
trouxeram alguns artigos sobre psicologia, pedagogia e metodologia (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 378, outubro/novembro de 1934).
Boletim de Educação Pública — Foram divulgados os de 1933 e 1934. Trata-
se de um periódico semestral, do qual os editores da RBP comentam que 60 páginas
são ocupadas por atos oficiais. Trazia também resumos de algumas revistas nacionais
e estrangeiras (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 377,
outubro/novembro de 1934).
Boletim do Ministério da Educação e Saúde Pública — Semestral, do Rio de
Janeiro. A RBP comunica que recebeu o volume correspondente aos números 3 e 4
do ano de 1931 (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 380,
outubro/novembro de 1934). Era uma publicação da Diretoria de Informações que a
Imprensa Nacional não deixara aparecer na época própria. O primeiro artigo era
sobre filosofia de educação. Trazia notícias administrativas, estatísticas, leis e
decretos.
Bulletin du Bureau International d‟Education — Transcrevemos a
apresentação deste periódico na Revista Brasileira de Pedagogia.

BULLETIN DU BUREAU INTERNATIONAL D‘EDUCATION — trimestral,


Genebra, Suíça. O nº 31, correspondente ao 2º trimestre de 1934, traz longa notícia
sobre a 3ª Conferência Internacional de Instrução Pública, que se deve ter reunido na
Suíça em julho p. passado. Está, outrossim, repleto de variados informes sobre o
movimento educacional em todos os países da terra (quanto ao Brasil, noticia
apenas o aparecimento da nossa Revista [grifo nosso]). Na seção ―educação para a
paz‖, dá notícia, entre outras, da correspondência interescolar em Portugal, do dia da
boa vontade na Inglaterra, da hora de escolares na Alemanha. Os ―Hirondelles de la
Paix‖, segundo informação do Bulletin, fundados em 1932, já têm feito muitos
trabalhos para desenvolver em crianças de 7 a 13 anos, o espírito de fraternidade,
tendo agora organizado ―colônias de férias‖ em Turry. O ―serviço bibliográfico‖ do
Bureau, além de publicado no Bulletin, é fornecido para fichários, a preços
reduzidos (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II. nº 7, p. 146, agosto de
1934).

Escola Primária — Boletim pedagógico editado no Rio de Janeiro, mensal,


com 29 anos de publicação regular. Os assuntos do número comentado (cf. Revista

156
Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 151, setembro de 1935) são raça e
mestiçagem, museus escolares, línguas maternas e evolução da casa brasileira. Foi
divulgado na RBP ainda em outras ocasiões: em junho de 1935, à pág. 351, e em
novembro do mesmo ano, à pág. 289, em artigo sobre ―Escola de emergência no
Amazonas‖.
Schytzengel — Boletim mensal para crianças, em policromia, editado em
Düsseldorf, na Alemanha (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 12, p. 144,
março de 1935).

3.3.2. Revistas

A Escola Primária — Editor: dr. Cesário Alvim. Mensal, do Rio de Janeiro.


O número apresentado trazia ofícios sobre ―Autonomia do sistema educacional do
Distrito Federal e dos estados‖ entre outros (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v.
III, nº 15, p. 351, junho de 1935). Também apareceu numa resenha de junho de 1935.
A Federação — Órgão da Federação do Professorado do Estado do Rio de
Janeiro. Números de julho de agosto de l935. Publicava uma introdução ao ―Curso de
Redação‖ e uma dissertação sobre ―O centenário das três cidades fluminenses:
Campos, Niterói e Angra dos Reis‖ (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº
20, p. 289, novembro de 1935).
A Ordem — Revista católica de cultura, mensal, editada no Rio de Janeiro.
Focalizada várias vezes na RBP. Podemos encontrá-la em abril de 1935, à pág. 218;
em agosto de 1934, à pág. 144; na edição de outubro/novembro de 1934, à pág. 374.
Registramos aqui o número de junho de 1935 (cf. Revista Brasileira de Pedagogia,
v. IV, nº 18, p. 150, setembro de 1935).
Academia — Órgão da Academia do Comércio de Juiz de Fora (MG) com
três anos de existência. As edições apresentadas são os números 12 e 13 de fevereiro
de 1935 (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 13, p. 218, abril de 1935).
Anales de Instrucción Primaria — Da Dirección de Enseñanza Primaria y
Normal do Uruguai. Edições de julho e dezembro de 1934. Contém um artigo do
pedagogo argentino Victor Mercante, intitulado ―As conseqüências psicodidáticas da
doutrina de Ramon y Cajal‖ (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 13, p.
217, abril de 1935).

157
Arquivos da Assistência a Psicopatas de Pernambuco — Revista semestral (a
edição comentada é a do segundo semestre de 1934). Anita Pais Barreto e Alda
Campos escrevem sobre ―Revisão pernambucana da escola Binet-Simon-Termau‖
(cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 151, setembro de 1935).
Arquivos do Instituto de Educação — Do Distrito Federal, sem periodicidade
anunciada. Há valiosas contribuições dos professores e diretores do Instituto de
Educação do Distrito Federal (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p.
380, outubro/novembro de 1934).
Bandeirantes — Órgão da Federação das Bandeirantes do Brasil (Companhia
do Coração de Jesus — Distrito Federal). Revista de informações para as atividades
dos membros da Federação (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 20, p. 290,
novembro de 1935).
Broteria — Revista de cultura contemporânea. Divulgava artigos de filosofia,
matemática, geografia, português e outros assuntos (cf. Revista Brasileira de
Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 153, setembro de 1935).
Ciencias de Educación — Suplemento de ―El Pueblo‖, de Buenos Aires.
Semanal. Diário católico como suplemento dominical, destinado ao estudo dos
problemas educacionais (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 153,
setembro de 1935).
Educación — Revista oficial de ensino primário e normal, de Montevidéu
(cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 153, setembro de 1935).
El Monitor de Educación Comum — Da Argentina. Revista de maio de l935.
Além de artigos sobre educação, trazia notícias da visita do presidente do Brasil à
Argentina (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 150, setembro de
1935).
Escola — Órgão da Diretoria de Educação, editada em Belém (Pará). No
número de maio, havia um ―inquérito ao problema da educação‖, por Amazonas de
Figueiredo. Na seção de palestras pedagógicas, livros didáticos e informações sobre
o movimento educacional no Pará (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 7, p.
145, agosto de 1934).
Estudios — Mensal, de Buenos Aires. Revista de maio de 1935. Ressalta-se o
artigo ―A fase infantil monossilábica, a inteligência e o estudo científico do milagre‖
(cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 152, setembro de 1935).

158
Farol — Órgão da ―Academia Ruy Barbosa‖, do Colégio N. S. da Vitória, na
Bahia. Uma revista pedagógica católica com quatro anos de existência (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 13, p. 217, abril de 1935).
Flor de Liz — Revista mensal da Ação Católica Feminina, com quatro anos
de existência (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 15, p. 352, junho de
1935).
Idade Nova — Órgão da Juventude Católica do Rio Grande do Sul. A revista
de julho e agosto iniciava o segundo ano de existência do periódico (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 15, p. 351, junho de 1935).
L‟Ecole — Transcrevemos na íntegra a apresentação que a Revista Brasileira
de Pedagogia faz deste periódico:

L‘ECOLE — Hebdomadário, Paris, França. Os números de junho, como todos os


anteriores, têm rica documentação. Continua tratando da história da pedagogia
cristã, ocupando-se o último fascículo com Mons. D‘Hulst. O diretor Ch. Delabar
escreve sobre ―o socialismo educador‖ (Os artigos de Delabar são sempre magistrais
e dignos de leitura). Artigos sobre ―as ciências na escola primária‖, ―os benefícios
do sol‖ (Causerie scientifique). Na parte escolar, lições variadas (Revista Brasileira
de Pedagogia, v. II, nº 7, p. 145, agosto de 1934).

L‟Educacion Familiale — Mensal, de Bruxelas. O sumário de julho apontava


um estudo de Paul Ganthier sobre ―a restauração dos valores espirituais‖ (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 377, outubro/novembro de 1934).
Paraná Judiciário — Mensal. A edição comentada é de setembro de 1935.
Fundada pelo desembargador Vieira Cavalcanti, já tinha nove anos de existência.
Contém artigos de doutrina e ―extratos de Jurisprudência‖ (cf. Revista Brasileira de
Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 151, setembro de 1935).
Pharus — Transcrevemos a apresentação que a Revista Brasileira de
Pedagogia faz desta publicação.

PHARUS — mensal — Düsseldorf, Oberkassel. Já nos temos referido com os


elogios que merece a essa revista de orientação pedagógica católica editada pelo Dr.
Henrique Kautz. O número de setembro traz entre outros um profundo estudo do Dr.
F. Scheider sobre ―o espaço geográfico e a pedagogia‖, que tencionamos resumir
para a nossa REVISTA, Johann Schuler estuda as ―correntes na mocidade francesa

159
de hoje‖ e Joseph Sellmair trata do ―anti-humanismo na América‖ (Revista
Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 376, outubro/novembro de 1934).

Raio de Luz — Órgão da Liga da Ação Católica Feminina de Portugal.,


Publicada em Lisboa. Números de maio e julho. Quatro seções: ―Página dos
dirigentes‖, ―Edificar‖, ―Restaurar‖ e ―Boa semente‖ (cf. Revista Brasileira de
Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 153, setembro de 1935).
Revista Brasileira de Música — Publicação do Instituto Nacional do Rio de
Janeiro. O número apresentado na RBP é de dezembro de 1934. Trazia assuntos
específicos, todos ligados à música: conservação dos instrumentos musicais,
―instrumentos musicais de algumas tribos do Brasil‖, música inglesa contemporânea,
carreira de musicista (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 13, p. 218, abril
de 1935).
Revista da Sociedade de Geografia — Semestral, do Rio de Janeiro. A edição
comentada é a e do segundo semestre de l933 e contém relatório da Grande
Comissão Nacional de Redivisão Territorial e Localização da Capital Federal (cf.
Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 7, p. 145, agosto de 1934).
Revista da Universidade de Minas Gerais — Tomo I do v. II, de 1932.
Valiosa publicação, com esplêndidas monografias. Várias traduções, dentre as quais
a de um artigo de Paul Vanorden Shaw sobre ―José Bonifácio, o esquecido patriarca
do Brasil‖ (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 379,
outubro/novembro de 1934).
Revista de Cultura — De setembro e outubro de l935. Diretor: pe. Fontes.
Ano novo de publicação. Artigos de Agostinho de Campos e Carlos de Laet (cf.
Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 20, p. 289, novembro de 1935).
Revista de Educação — De São Paulo. Edição nº 7, de setembro de 1934,
com 300 páginas. A tradução do artigo sobre ―Delinqüência juvenil e serviço social‖
ocupava muitas páginas (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 379,
outubro/novembro de 1934). Esta revista também fora comentada na edição do mês
de agosto do mesmo ano na RBP. Algo, porém, chama a atenção. Em geral, as
revistas eram simplesmente ―apresentadas‖, não se faziam grandes observações; o
fato de terem sido escolhidas já era sinal de aprovação. Neste caso, houve uma
exceção, pois esta Revista de Educação mereceu um comentário especial do editor:

160
―Contém artigos magníficos ao lado naturalmente de outros de orientação
declaradamente ateísta‖. Acrescenta-se que este periódico citava um inquérito do
jornal Correio da Manhã sobre ensino religioso na escola pública, de cujo resultado
reproduzira somente opiniões contrárias (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II,
nº 7, p. 114, agosto de 1934).
Revista de Educação — Mensal, de Vitória (ES). Números de outubro e
novembro de 1934. Na íntegra, conferência do dr. Alberto Sampaio, ―Contribuição
da escola regional para o melhoramento do hábitat rural‖. Outros textos ligados à
realidade do Espírito Santo (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 13, p. 217,
abril de 1935).
Revista de Educação — Mensal, de Vitória (ES). Revista oficial do
Departamento do Ensino Público do Espírito Santo. Trazia artigos sobre o estado (cf.
Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 378, outubro/novembro de 1934).
Revista de Instrucción Primaria — De La Plata, República Argentina. Com
31 anos de existência, reproduzia a conferência ―O apostolado do sorriso e da saúde‖,
do pe. Justo M. Ducco. Publicava também tipos de aula para todas as matérias do
ensino primário (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 20, p. 290, novembro
de 1935).
Revista de Instrucción Pública — De Rosário, Argentina. Ano I, números 8 e
9. Apresenta grande variedade de artigos (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV,
nº 18, p. 152, setembro de 1935).
Revista do Ensino — De Belo Horizonte (MG). Número de abril (ano VIII, nº
101). Apresentava variado sumário com artigos sobre educação no Brasil (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 7, p. 144, agosto de 1934).
Revista do Ensino — De Belo Horizonte (MG). Órgão técnico da Secretaria
da Educação. A edição de dezembro de 1934 continha longo relatório do movimento
educacional no estado de Minas Gerais durante o ano de l934 (cf. Revista Brasileira
de Pedagogia, v. III, nº 15, p. 352, junho de 1935).
Revista do Professor — Mensal. São Paulo, maio de 1935. Órgão do Centro
do Professorado. Trazia variada colaboração. Artigos: ―Educação dos anormais
escolares‖; ―O ensino rural em São Paulo‖, etc. (cf. Revista Brasileira de Pedagogia,
v. IV, nº 18, p. 151, setembro de 1935).

161
Revista Fluminense de Educação — Mensal, Niterói (RJ). O fascículo
comentado, com 32 páginas, abrange os números de abril e maio (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 377, outubro/novembro de 1934).
Revista Pedagógica — Órgão da Sociedade Venezuelana de Professores de
Instrução Primária (Caracas). Números de agosto e dezembro de 1934. Segundo ano
de publicação (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 14, p. 294, maio de
1935).
Revue Belge de Pédagogie — Mensal, de Bruxelas, junho de 1935. A RBP de
setembro de 1935 focalizava o número que trazia matérias sobre a questão das
escolas na Idade Média e a análise da Clínica Psicológica Belga de Proteção à
Infância (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 152, setembro de
1935). A RBP abril de 1935 comentara um outro número, do mesmo mês,
ressaltando o artigo sobre a Escola Normal de Carlboug, na Bélgica (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. III, nº 13, p. 218, abril de 1935).
Scuola Italiana Moderna — Suplemento pedagógico mensal, Bréscia (Itália).
No número de junho, Mário Cassatti continuava sua reflexão sobre ―A escola ativa e
seus princípios‖ (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. II, nº 9-10, p. 377,
outubro/novembro de 1934). Este periódico seria objeto de mais dois comentários
(cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 18, p. 152, setembro de 1935, e v. IV,
nº 20, p. 284, novembro de 1935).
Vozes de Petrópolis — Revista católica de cultura da Ordem do Frades
Menores, com numerosos artigos e uma variedade de autores (cf. Revista Brasileira
de Pedagogia, v. III, nº 13, p. 218, abril de 1935).
Outras revistas que aparecem no inventário da Biblioteca Pedagógica de
CCBE não fazem parte da subseção ―Pelas revistas‖. Um exemplo disto é a ―Revista
de Educação Phisica‖, órgão do Centro Militar de Educação Física da Fortaleza de
São João, no Rio de Janeiro (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, v. IV, nº 19, p.
226, outubro de 1935).

162
3.3.3. O anuário

Este impresso é procedente do Bureau International d‘Education. Trata-se de


um anuário relativo ao ano de 1934, que apresenta estatísticas do ensino em 53 países
dos cinco continentes.
Os editores da RBP chamam a atenção para dois fatos, ao comentar o anuário.
O primeiro se refere-se à crise econômica pela qual passava o mundo, que afetava em
primeiro lugar a educação, especialmente quando se reduzia o número de professores
ou cortavam-lhes os vencimentos. O segundo é o número de escolas particulares nos
Estados Unidos: 14.416 unidades de ensino privado. Os educadores da RBP usam
esta estatística para defender a posição contrária dos educadores católicos com
relação à escola única, como a entendia L. Luzuriaga (cf. Revista Brasileira de
Pedagogia, v. II, nº 13, p. 219, abril de 1935).

3.4. ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖

Foram inventariados 132 impressos nesta subseção. Como na subseção


anterior (―Literatura Pedagógica — Pelas revistas‖), são obras que têm um peso
muito grande na biblioteca da RBP. Filtramos o número de impressos resenhados
nesta seção e obtivemos o Quadro 33.

Quadro 33
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: número de resenhas
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Ano Número de resenhas


1934 20
1935 40
1936 20
1937 44
1938 8
Total 132

163
Note-se que estes números indicam, mais uma vez, que a CCBE entrou em
crise no ano de 1938. Como já dissemos, não havia, à primeira vista, um indício de
crise, mas, diante da materialidade da Revista Brasileira de Pedagogia, a inflexão
fica evidente.
O Quadro 34 mostra os autores e as autoras das 132 resenhas da seção
―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖.

Quadro 34
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: resenhistas e sua atividade
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Resenhista Resenhas Resenhista Resenhas


Alceu da Silveira 63 José Schiavo 2
Gil Seabra 10 A. Cesar 1
Pe. Helder Câmara 8 Alcina Backheuser 1
E. B. 7 Eduardo M. Lustosa 1
Ev * 1 M. P. 1
Laura Jacobina Lacombe 7 Álvaro Negromonte 1
L. J. L. ** 2 Pe. Leonel Franca 1
Leonardo Van Acker 5 José Piragibe 1
Gladstone Chaves de Melo 3 A. M. S. B. 1
Cícero Brandão 2 J. L. R. 1
Raul do Vale 3 J. Fernando Carneiro 1
Nana Letícia 3 M. L. 1
M. A. 2 Sem assinatura 1
Maria Letícia 2 Total 132
Notas: * Provavelmente, ―Everardo‖. ** Provavelmente, Laura Jacobina Lacombe.

Se nos voltarmos, de um lado, para os impressos resenhados em A Ordem na


seção ―Letras Contemporâneas‖ (ver item 1.2 do Capítulo III), constatamos que todas
as 63 resenhas são obra de Jônatas Serrano; na seção ―Crônicas Literárias‖, as 24
resenhas foram assinadas por seis pessoas, inclusive Serrano (ver Quadro 8, naquele
mesmo item). De outro lado, observamos que na seção principal da Revista
Brasileira de Pedagogia temos 18 assinaturas (sem contar quem coloca só as suas

164
iniciais), dentre as quais as das educadoras Laura Jacobina Lacombe, Alcina
Backheuser, Maria Letícia e Nana Letícia. Concluímos que há uma postura diferente
na atuação da RBP — existe mais participação, pode-se dizer, no modo como a
Revista é conduzida. Sem dúvida, a função que Jônatas Serrano ocupa em A Ordem
corresponde à de Alceu da Silveira na RBP: uma espécie de responsável pelas
resenhas dos livros.
A procedência dos impressos resenhados está no Quadro 35. Cabe ressaltar
que grande parte das resenhas não era clara quanto a este aspecto. Para contornar este
problema, classificamos os impressos de acordo com as informações gerais que
íamos colhendo ao longo da leitura da RBP e da revista A Ordem. Quando estas
informações eram ainda insuficientes, fizemos a classificação pelo idioma do título.
Resultantes deste método, reconhecemos imprecisões e até contradições, como, por
exemplo, impressos de origem belga ou suíça classificados como franceses. Como
saber até que ponto os editores franceses respondiam por tais impressos?

Quadro 35
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: países e resenhas
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

País Resenhas
Brasil 108
França 17
Alemanha 3
EUA 3
Espanha 1
Suíça 1

Como no caso de A Ordem (ver Quadro 11, no Capítulo III), percebe-se que a
fonte de inspiração da pedagogia católica é buscada na França. Se não de obras de
autores franceses, pelo menos de autores traduzidos na França.
A maioria das resenhas de obras provenientes da França (ver Quadro 36) foi
feita por Alceu da Silveira (seis) e Laura Jacobina Lacombe (quatro resenhas).
Destacamos que Les sciences et l‟art de l‟éducacion, de De Hôvre, La Vaissière e

165
outros é uma coleção de volumes — segundo a resenha, ―uma das bibliotecas
pedagógicas mais respeitadas‖ que se conhecia.

Quadro 36
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: autores e obras provenientes
da França resenhados
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Autor Obra resenhada


Boigelot, R. L‟Eglise et le monde moderne
Centro de Documentação Catequética Oú en est l‟enseignement réligieux?
Chancerel, Leon Les jeux dramatiques
Christian, Michel O espirito cristão no esporte
Cordelier, Suzane Femmes au travail
De Hôvre, La Vaissière et al. Les sciences et l‟art de l‟éducation
Derkenne, Francisca Pauline Kergonard et l‟éducation nouvelle
enfantine
Fargues, Maria Les méthodes actives dans l‟enseignement
réligieux
Gide, André Retouches à mon retour de l‟URSS
Ponsard, Philipe L‟Enfant d‟aujourd‟hui
Rops, Daniel Ce qui meurt et ce qui nait
Siegfried, Angdré Amérique Latine
Slock, L. Précis de psychologie pédagogique, Vol. VII
Slock, L. Précis de psychologie pédagogique, Vol.
VIII
Vaissière, J. de La La pudeur instinctive

Os impressos dos demais países estão no Quadro 37.


Este quadro completa a visão geral dos livros provenientes de outros países
que os educadores católicos liam. Algumas das obras de procedência nacional serão
ainda comentadas.

166
Quadro 37
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: autores estrangeiros e obras
não provenientes da França resenhadas
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Autor (País de proveniência da obra) Obra resenhada


Devaud, E. (Suiça) Escolas rurais na Suiça
Devaud, E. (Alemanha) In nova et vetera
Vários autores (Alemanha) * Lexicon der Pädagogik der Gegenwart
Strass, Alfredo (Espanha) Introducción al estudio de la pedagogía
terapéutica
Associação de Pais e Professores do O país do automóvel
Teachers College, Universidade de
Colúmbia (EUA)
Associação de Pais e Professores do Symposium
Teachers College, Universidade de
Colúmbia (EUA)
Nota: * Há dois registros da mesma obra, que é divulgada de formas diferentes na RBP (cf. Revista
Brasileira de Pedagogia, v. 1, nº 2, p. 115, março de 1934, e v. II, nº 6, p. 54, julho de 1934).

A construção do Quadro 38, com a classificação dos impressos por assunto,


não deixou de acarretar dificuldades. Em primeiro lugar, adotamos um critério para
classificar os impressos. Depois, procedemos à classificação dentro deste critério, de
acordo com as informações que obtivemos sobre os impressos. Vale aqui a mesma
advertência que fizemos com relação aos países de origem dos impressos, ainda com
mais razão neste caso: a inserção nas categorias adotadas de alguns dos impressos,
sobre os quais as informações escasseavam, é passível de revisão. De modo geral,
porém, acreditamos válida esta tentativa, pois dá uma idéia do tipo de impresso mais
divulgado pela Confederação Católica Brasileira de Educação.
Buscamos nosso critério na classificação utilizada na Biblioteca do Colégio
Santa Inês e Escola Normal Anexa, existente à época na cidade de São Paulo. No
―Relatório Correspondente ao Ano Letivo de 1937‖, no item ―Salas Especializadas‖
e no subitem ―Biblioteca‖, observamos que a bibliotecária responsável por aquele
acervo classificava os livros de acordo como no Quadro 38.

167
Quadro 38
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: assuntos dos impressos
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Assuntos Total
Educação 56
Sociologia 3
Filosofia e história da educação —
Ciências médicas e biologia educacional 2
Instrução moral e cívica 2
Matemática 1
Física e química 1
História Natural 1
Literatura 23
Geografia 2
História do Brasil e da civilização 6
Línguas: francês, inglês, italiano 2
Latim —
Religião 26
Belas artes e desenho —
Enciclopédias e dicionários 2
Revistas 2
Total 132

São classificados em ―Educação‖ todos os impressos que trazem assuntos de


psicologia, pedagogia, pedologia, etc., donde a alta participação dessas obras no
total. Em seguida, sobressai a incidência de livros sobre religião, o que não é de se
estranhar, pois teologia e ciência andam juntas na pedagogia católica. Em terceiro
lugar, vêm as obras de literatura. Importa observar, porém, que os impressos
especificamente pedagógicos são os mais divulgados.

168
3.4.1. Classificação dos impressos resenhados na seção ―Literatura Pedagógica
— Resenha de livros‖

Paralelamente ao cadastramento, os impressos resenhados nesta seção da


Revista Brasileira de Educação foram classificados em duas categorias: indicados e
desaconselhados (ver Quadro 39). Não se detalhou mais esta classificação para não
faltar à objetividade na leitura dos comentários.
Como seria de se esperar, os impressos são na maioria indicados. Algumas
pequenas restrições sempre aparecem, decorrentes da leitura crítica dos resenhistas.
Comentam-se alguns impressos — poucos — para desaconselhá-los; talvez tivessem
grande circulação nos meios educacionais e não poderiam receber um tratamento de
indiferença dos editores da RBP.

Quadro 39
A seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖: classificação dos impressos
resenhados
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Classificação dos impressos resenhados Total


Impressos indicados 128
Impressos desaconselhados 4
Total 132

3.4.1.1. Impressos indicados

A finalidade das inúmeras seções da Revista Brasileira de Pedagogia que


lidam com o impresso era indicá-los e fazer com que circulassem, não só nos meios
católicos. Assim, não é difícil de compreender que, dos 132 impressos inventariados
na seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖, 128 (97%) fossem indicados.
Os impressos indicados são aqueles que basicamente respondem às
exigências de uma pedagogia católica e contribuem para a divulgação do pensamento
dos educadores católicos.
Fazer um comentário pormenorizado de todos os impressos indicados não nos
convém neste momento. Que critério utilizar para apontar para certas obras e ignorar

169
outras? Como o objetivo, aqui, é ressaltar as indicações, optamos por escolher os
impressos indicados várias vezes, em seções ou por outros meios. Citaremos assim
alguns daqueles que a Revista ―exalta‖ em sua materialidade, extrapolando a seção
―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖, para ter um idéia da forma como os
editores da RBP o faziam.
Dentro do critério escolhido, os primeiros livros que se destacam são os de
Maria de Fargues (A verdade, A vida, Jesus e Pedrinho e O caminho do céu), que
foram divulgados não só na seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖, mas
também por outros meios, como propaganda veiculada por um determinado período,
em 1935.
Everardo Backheuser, na resenha que faz sobre alguns destes livros de Maria
Fargues, comenta que

quer o volume ―A Verdade‖, quer o volume ―A Vida‖ versam temas interessantes,


em pequenas histórias, apólogos e dramatizações, todas orientadas por segura
moralidade, mas ao mesmo tempo capazes de prender a atenção dos pequenos
leitores. Os ensinamentos sobre a natureza são ministrados de modo suave, sem
exagero científicos, mas ao mesmo tempo deles sendo tirados conceitos de elevação
moral [...] Afinam-se pelo mesmo diapasão, quer ―O Caminho do Céu‖, quer ―Jesus
e Pedrinho‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. IV, nº 20, p. 286, novembro
de 1935).

Outros que não poderíamos deixar de citar são os manuais de pedagogia de


Pedro Anísio e de Everardo Backheuser, constantemente divulgados.
Muitas vezes, a Revista divulgou o livro Ciência e religião, do cônego dr.
Emílio José Salim. A divulgação era feita em propagandas de grande destaque, com
poucas palavras sobre os livros. Porém o que chama a atenção, na lista de livros
resenhados, é que a obra mereceu ser divulgado duas vezes só na seção ―Literatura
Pedagógica‖, por Alceu da Silveira e por Gil Seabra.
Caso como o anterior só se repete uma vez nesta lista. Trata-se de Ce qui
meurt et ce qui nait, de Daniel Rops. O livro foi resenhado por Laura Jacobina
Lacombe e por Alceu da Silveira.
Cabe ainda citar A decadência do ensino no Brasil, do pe. Arlindo Vieira.
Além das propagandas, este livro mereceu uma resenha de quase três páginas
elaborada por Raul Vieira (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. IV, nº 18,

170
p. 146-148, setembro de 1935). O resenhista frisou os pontos que considerava de
maior importância no livro: a falta de um bom curso primário, os problemas de
aprendizagem da língua vernácula, a leitura de bons autores. o pedantismo dos
programas científicos. Fez ainda um comentário sobre sua discordância com o autor
quanto ao estudo das línguas vivas, do latim e do desenho. E ressaltou a finalidade
principal da obra: a campanha pela cultura clássica:

De fato, concordamos com o autor: só a cultura clássica produzirá a verdadeira


―elite‖ de que necessitamos. Mas é impossível impor para os que não se destinam,
ou melhor, não poderão acompanhar esses estudos. E não é o que estamos vendo no
Distrito Federal: transformarem-se as escolas profissionais em escolas secundárias?
Em vez de facilitarmos o preparo do profissional, assistimos ao incremento da praga
dos doutores mal letrados (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. IV, nº 18, p.
148, setembro de 1935).

3.4.1.2. Indicações com as devidas reservas

Podemos adotar outro critério para comentar a lista de livros indicados na


seção ―Literatura Pedagógica — Resenha de livros‖, critério um tanto delicado
devido ao risco de juízo subjetivo.
Era do estilo dos resenhistas criticar os livros e lhes apontar falhas, mesmo
quando faziam a apologia das obras. Ao ler algumas das resenhas, porém, existem
mais reservas do que indicações, em determinados casos. Com o cuidado de
estabelecer uma avaliação isenta, apontemos alguns destes impressos indicados, mas
com as devidas reservas.
O primeiro que classificamos nesta área é História da educação, de Afrânio
Peixoto, presidente de Associação Brasileira de Educação no ano em que o livro foi
publicado (1933). Depois de tecer elogios ao autor e de algumas considerações de
aprovação à obra, Alceu da Silveira reserva longo parágrafo para enumerar defeitos:

Endeusamento da América do Norte (11, 190, 195, 207). Ataque à filosofia (12).
Afirmação irrestrita de que todo gênio é doente (13). Combate excessivo aos
exames, que, apesar das suas falhas, prestam os seus serviços (21). Simplismos: na
China não há pistolão nem cola (21) e aceitação de história fabulosa (de Dittes)

171
sobre mestres carrascos (161) e de meninos prodígios como S. Mill (174).
Dependência de Moisés em relação ao código de Hamurabi (23), quando o problema
é muito mais complexo e não se pode falar com simplicidade assim. Hosanas à
liberdade de pensamento (99 e 133). Ataques exagerados à arte medieval (109).
Louvor infeliz à classificação baconista das ciências, em cheque com a psicologia
estrutural (131). Ao que parece, desconhecimento do método de ensinar história às
avessas (152). Esperança ingênua de que um dia seja possível impor às crianças a
moral do imperativo categórico (153). Combates ao ensino religioso nas escolas
(169 e 191). Exagero sobre autodidatismo (176). Defesa da co-educação, com
desconhecimento dos argumentos psicológicos existentes contra ela (191). Exagero
sobre o papel apagado dos colonizadores europeus (206). Louvores excessivos à
revolução francesa (262) e ainda elogios à escola de D. Amanda Alvaro (262), cujo
fracasso já foi proclamado entre nós (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. I, nº
1, p. 49, fevereiro de 1934).

Apesar de tudo, o livro é considerado bom. O mesmo pode-se dizer dos


volumes VII e VIII da obra de L. Slock, Précis de psychologie pédagogique à
l‟usage de l‟enseignement normal, primaire et moyen, resenhados por Leonardo Van
Acker: merecem indicação, mas, como diz o resenhista, ―em toda obra humana, há
falhas e gralhas‖. Acker destaca que ―o autor parece ignorar as críticas severas feitas
à mentalidade pre-lógica‖ por vários estudiosos e que, além disso, Slock teria
cometido deslizes no campo filosófico, por exemplo ao confundir o princípio de
causalidade com o postulado do determinismo. Concluindo sua resenha, Van Acker
afirma que ―apesar dos pesares, a obra em apreço fornece em muitos pontos um
roteiro valioso àqueles que procuram orientação no mar caótico da moderna
psicologia empírica‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II, nº 6, p. 49-50,
julho de 1934).
Na Revista de julho e agosto de 1935, encontramos dois impressos que
também podem fazer parte desta nossa classificação. O primeiro livro é Psicologia
do comportamento, de Henri Pieron, resenhado por Alceu da Silveira. Suas palavras,
na introdução do comentário que faz, chamam-nos a atenção:

Indiscutivelmente já se vai lendo, escrevendo, traduzindo e imprimindo Brasil afora.


As bibliotecas se sucedem desde as infantis e de adolescentes às pedagógicas e
culturais. Agitam-se todos os problemas, todas as correntes se apresentam,
desorientando, é certo, os que não têm lastro cultural, mas dando aos que pensam a

172
consolação de já se poder viver mentalmente em nosso país [...] ganham os
estudiosos de psicologia com o novo volume da Biblioteca Pedagógica Brasileira
(Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. IV, nº 16-17, p. 89, julho/agosto de
1935).

Interessante observar a consciência que se tem da riqueza que o país vive com
as bibliotecas e também da disputa que estas representam em diversos campos.
Quanto ao livro resenhado, ressaltam-se os pontos positivos, e depois são feitas as
críticas. A principal foi o sentido materialista das deduções do autor.
É curioso também o caso de Teoria e prática do ensino secundário, cujos
autores são ―Alguns Inspetores do Ensino‖. Resenhado por Alceu da Silveira na
seção que estamos examinando, o livro é quase integralmente indicado. Mas, em
março de 1936, Everardo Backheuser fez-lhe outra resenha, com duras críticas, como
já vimos neste mesmo capítulo (ver item 3.2). Backheuser atacou o caráter
materialista de algumas passagens, especialmente o materialismo histórico como
método de fazer história (cf. Revista Brasileira de Pedagogia, ano III, v. V, nº 22, p.
117-119, março de 1936). Parece que Backheuser escreveu algo para ―consertar‖ a
falha do companheiro de resenhas, que não fora suficientemente rigoroso para com o
livro em questão. É interessante que o exigente Alceu da Silveira não tenha se
apercebido dos pontos que Backheuser viria a criticar oito meses mais tarde.
Os livros de Monteiro Lobato merecem comentário especial. Eram tidos
como ―obras-primas da literatura moderna‖, mesmo pelos críticos católicos, que
viviam em constante litígio com o autor. Duas obras de Lobato podem ser
classificadas dentro do critério ―indicações com as devidas reservas‖: Geografia de
Dona Benta e Memórias da Emília. Eis as críticas que Alceu da Silveira faz à
primeira:

O separatismo se prega abertamente ―S. Paulo é um pequeno país capaz de viver por
si mesmo, bastando-se em tudo a si próprio‖ (pag. 56). E na página seguinte: ―O
verdadeiro S. Paulo compõe-se de S. Paulo, Paraná e Mato Grosso‖. O ―Acaso‖ com
―a‖ maiúsculo toma o lugar da Providência (pag 58). Afirma-se, sem arrodeios [sic],
que o homem vem do macaco (222). Diz-se de um iluminado, como Conselheiro,
que é um homem místico (75), sem a menor ressalva para os místicos de verdade. A
única imortalidade admitida (164) é a da arte. Exalta-se a Rússia de modo chocante
(141 segs.). Prevê-se, ou mesmo deseja-se, a expansão do socialismo (144). Não se

173
alude nem de leve ao fascismo, o que é absurdo num capítulo moderno sobre a
Itália. O mesmo se diga do hitlerismo alemão. Desconhecer movimentos de tão
amplas proporções é estar profundamente eivado de preconceitos. Somente Salazar
mereceu a dita que Hitler e Mussolini não conseguiram (219) — recebe a menção de
uma linha, mas linha que é um elogio. Claro que os Estados Unidos são largamente
elogiados (99). Todos os socialistas intelectuais a Monteiro Lobato são bons
burgueses práticos. Sobre a política de Roosevelt nem alusões... Pacifista ―á
outrance‖, tinha de o ser também o lírico dos sovietes (l55 e 185), que chega ao
excesso de apelidar o exército e a marinha de ―dois cancros que atormentam todos
os povos‖... (233). Entre os exageros escritos da China (154 segs.) lê-se que Jesus
bebeu na literatura chinesa os seus melhores ensinamentos (156). Ataca-se o espírito
latino, atribuindo-se-lhe desordem, ou ―lambança‖, como diz Monteiro de maneira
injusta e ultratrivial (231). Várias vezes, aliás, escapam ao notável escritor
expressões assim — encangalhar (166), uma ova (118). À página 152 se diz
―botamos ele‖ e Narizinho estira a língua à página 25 (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano III, v. V, nº 21, p. 54, fevereiro de 1936).

Com estas e outras críticas, o resenhista lamenta ainda que a literatura


católica não tenha um gênio como Lobato. Observa também a grande aceitação de
Lobato entre as crianças, ―de quem se torna um ídolo‖.
Com relação a Memórias da Emília, continuam os elogios sobre o gênio
criativo do escritor, mas sempre com os reclamos: ―Por que persiste o príncipe da
nossa literatura infantil em não respeitar os sentimentos religiosos da família
brasileira e em não evitar passagens pouco recomendáveis à educação?‖ (Revista
Brasileira de Pedagogia, ano IV, v. VII, nº 31, p. 78-79, fevereiro de 1937).
Na edição de julho agosto de 1936, Alceu da Silveira resenha Estrutura e
aprendizagem, de Lúcia Magalhães e Joaquim Ribeiro. É um livro sobre a
Gestaltpsychologie. Segundo Silveira, a obra, que tem valores, ―está confusa e
obscura, dando a impressão de que nem mesmo os autores entenderam bem os seus
escritos‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano III, v. V, nº 26-27, p. 107,
julho/agosto de 1936).
Na mesma edição e na mesma seção da RBP, é comentado um outro livro que
também cabe dentro do presente critério. Trata-se da Seleta da língua portuguesa de
Laudelino Freire. A crítica ao presidente da Academia Brasileira de Letras é
―apresentar a crianças de 11 a 12 anos páginas de quinhentista e seiscentistas, cujo

174
sentido os pequenos nem logram entender‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano
III, v. V, nº 26-27, p. 106, julho/agosto de 1936).
Em março de 1937, resenha-se Estudos objetivos de educação, de Isaias
Alves, uma coletânea de artigos sobre assuntos educacionais. Entre ataques e elogios,
Alceu da Silveira acaba concluindo que ―o corre-corre da vida de jornal, paixões
deflagradas ao calor dos acontecimentos diários, abalos doutrinários em que se
debate o autor, tudo isto transparece no seu livro de luta, ao lado de sua honradez
indiscutíveis e indiscutidas‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano IV, v. VII, nº 32,
p. 191, março de 1937).
Finalmente, na RBP de abril de 1937 encontra-se a resenha de O país do
automóvel, da Associação dos Pais e Professores das Escolas Anexas ao Teachers
College da Universidade de Colúmbia, livro que, segundo o resenhista, tem pontos
interessantes, não obstante promova americanismos que acabam invadindo os
costumes do povo brasileiro (Revista Brasileira de Pedagogia, ano IV, v. VII, nº 33,
p. 304, abril de 1937).
Em resumo, as questões trazidas à tona, nos livros simplesmente indicados e
nos indicados com reservas, são: literatura infantil, americanismo (endeusamento da
América do Norte), ciência e religião — e, dentro destes últimos temas, a biologia e
a psicologia, a importância da filosofia, os ataques à Idade Média, a questão moral
(imperativo categórico), o separatismo, a criação e o evolucionismo, os erros
teológicos e os ataques aos dogmas nos livros, o desrespeito ao sentimento religioso
das famílias —, além do Plano Nacional de Educação. Em particular, o livro de
Evarardo Backheuser aborda os grandes temas discutidos naquele momento, e o
Tratado de pedagogia do mons. Pedro Anísio volta-se para a pedagogia católica.

3.4.1.3. Impressos desaconselhados

No exame dos impressos que aparecem na seção ―Literatura Pedagógica —


Resenha de livros‖, inventariamos quatro como desaconselhados, devido ao tom
francamente desfavorável das respectivas resenhas.
Se desaconselhados, ou desaconselháveis, por que foram resenhados? Talvez
porque, graças à penetração que tinham entre os educadores, fossem obras que os
editores da Revista Brasileira de Educação não podiam ignorar, como a tantas

175
outras. São Em marcha para a democracia, de Anísio Teixeira (comentado em
agosto de 1934), História do mundo para crianças, de Monteiro Lobato
(outubro/novembro de 1934), A escola única, de L. Luzuriaga (fevereiro de 1935), e
Educação psicológica da primeira infância, de John B. Watson (julho/agosto de
1935).
Na edição número 7 da RBP, foi apresentado o livro Em marcha para a
democracia, de Anísio Teixeira. Logo no primeiro parágrafo, já aparece o tom da
crítica negativa ao livro e ao autor:

Os admiradores do Dr. Anísio Teixeira não deviam consentir que ele escrevesse. Em
poucas páginas são tantas as contradições em que ele cai, tantos os erros que ele
avança, solene, tantos os pontos falhos dados como dogmas, que, ao surgirem as
irreverências de que ele é pródigo, bem se pode sorrir do arrogante e enfatuado
inimigozinho de nossa fé (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II, nº 7, p. 141-
142, agosto de 1934).

Depois desta arrasadora introdução, Alceu da Silveira, o resenhista, enumera


as contradições entre pragmatismo e não-pragmatismo, sobre a visão do homem e
sobre a Idade Média, as ―idéias errôneas‖, os ―pontos falhos‖ e as ―irreverências‖.

Idéias errôneas: Deliciosa a ousadia com que proclama o Dr. Anísio a abolição do
mistério (163). Tudo está transparente e sem véus para o ilustre educador. Negar o
espírito é também excessivamente simples (164). Se ao menos se tratasse de
provar... O mestre disse, o mestre diz, não basta! Quando a sua autoridade não for
suficiente, uma apelo a Thorndike resolverá o problema, como nos excessos
mensuralistas que ele defende (95, 113). Para o antifinalismo (161), imanentismo
(153) e liberalismo (34) bastam os mestres de cá. Defendendo o pragmatismo, novo
apelo aos de lá. Pontos falhos: Pontos que não diremos errôneos, mas que no
mínimo são falhos: julga o Dr. Anísio que a seleção, fazendo-se pelo grau de
inteligência, todos haverão de conformar-se com as suas posições (129, 139) e
afirma, sem vacilar, a herança dos traços mentais (135). Irreverências: A nota
dominante do livro é a irreverência contra o catolicismo. Além do dogma da queda,
quase todas as grandes verdades católicas são naturalizadas, torcidas em frases
perversas de apóstata, que se esforça por renegar e esquecer princípios que o
atordoam. Deve ser este o complexo causal de tantas contradições do ilustre ex-
aluno dos Jesuítas: ele mesmo, inicialmente, é uma contradição que se procura
desfazer. Os dogmas mais visados são o batismo e a graça (147), a providência e a

176
revelação (98) (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II, nº 7, p. 142, agosto de
1934).

Um último parágrafo procura resgatar o que de bom tem o livro. Alceu da


Silveira, preocupado em não se passar por apaixonado em suas críticas, procura
ressaltar, como diz, o ―progresso nos julgamentos do Dr. Anísio‖, progresso com
relação à liberal-democracia.

Quando tantos ainda crêem nos mitos gastíssimos dos enciclopedistas, o autor de Em
marcha para a democracia descrê no cidadão, onicompetente (77) e oniinteressado
(78) que, segundo Lippmann, a liberal-democracia supõe, proclama a falência do
governo do povo pelo povo (93), ri dos democratas místicos (94) e dos seus
vaticínios líricos (59), nem mesmo perdoando a Rousseau (82), a quem adora em
pedagogia (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II, nº 7, p. 142, agosto de
1934).

Na Revista de outubro/novembro do mesmo ano, Alceu da Silveira resenha


História do mundo para crianças, de Monteiro Lobato. Silveira reconhece a
genialidade de Monteiro Lobato, mas faz críticas duríssimas, tais como:

É pena que um livro tão sugestivo e tão capaz de ilustrar esteja mais ou menos
corrompido por uma série de preconceitos ferrenhos, capazes de envenenar o
espírito infantil. Tenho a impressão de um belo móvel que, guardando muito de sua
beleza, no íntimo é gasto de cupim. [...] Ainda bem que mãos inteligentes e
piedosas, sob a inspiração da Confederação Católica de Educação, aprestam-se a
traçar, para a infância brasileira, os livros amáveis e sadios de que ela necessita e
que lhe havemos de dar. Os livros de Monteiro Lobato parecem com muitas farinhas
alimentícias: agradam mas fazem mal (Revista Brasileira de Pedagogia, ano I, v. II,
nº 8, p. 366 - 367, setembro/outubro de 1934).

Segundo o resenhista, seriam inúmeros os erros, que aparecem no livro. Erros


em termos científicos, como a teoria da geração espontânea e o evolucionismo
―rubro‖. Além do recorrente comunismo, também apresentaria erros quanto à
doutrina católica, como tratar os santos como pequenos deuses e desprezar os
milagres.

177
Em fevereiro de 1935, foi apresentado o livro A escola única, de Lourenço
Luzuriaga. A introdução da resenha já dá motivos para que o livro seja classificado
como desaconselhado.

Não foi de nenhum modo feliz a Comp. Melhoramentos de São Paulo escolhendo o
trabalho de Lourenço Luzuriaga para focalizar o problema da ―Escola Única‖, no
nosso meio. A tese sustentada pelo ilustre educador espanhol é obscura,
contraditória e má (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. III, nº 11, p. 44,
fevereiro de 1935).

Em seguida, passa-se a divulgar as idéias de Everardo Backheuser sobre a


escola única, assunto sobre o qual ―não precisamos de luzes estrangeiras — um
mestre brasileiro, Dr. Everardo Backheuser, escreveu um trabalho absolutamente
lúcido e convincente sobre o assunto‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v.
III, nº 11, p. 44, fevereiro de 1935), e transcreve-se trecho de artigo publicado em A
Ordem por Backheuser. Em conclusão, o veredicto: ―Como se vê, livro pouco
recomendável — o que proclamamos com pesar, dadas as gentilezas cativantes da
Melhoramentos de S. Paulo para com os cearenses e o Ceará. Acima de tudo, porém,
colocamos a pureza dos nossos princípios doutrinários‖ (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano II, v. III, nº 11, p. 47, fevereiro de 1935).
Quanto ao livro de John B. Watson, Alceu da Silveira faz breve comentário,
aproveita-se da resenha para comentar outra obra — Psichologia experimentale, de
Piéron, que igualmente condena — e faz comparações entre os dois trabalhos, que,
embora defendam o mesmo tipo de psicologia moderna, o behaviourismo, são,
segundo o resenhista, por vezes contraditórios. Silveira comenta:

Caso mais grave é o modo por que Watson e Piéron encaram os instintos. O
psicólogo francês não só os admite como os distingue da inteligência, encara-os
longamente e cita várias classificações modernas de instintos, humanos. O psicólogo
norte-americano nega, de maneira categórica, a existência de qualquer instinto [...]
―Behaviour‖ versus ―behaviour‖. Experiências, de lado a lado, constatações
rigorosas, dando resultados contraditórios. Livro pernicioso o do Sr. John B.
Watson! (Revista Brasileira de Pedagogia, ano II, v. IV, nº 16-17, p. 91,
julho/agosto de 1935).

178
E Silveira conclui com tom irônico. Observa que Watson desnorteava ao
defender os castigos físicos na educação, prática atacada veementemente pelos
behaviouristas e todos os educadores em geral. Se este recurso passava a ser
defendido pelo professor da Universidade Johns Hopkins, Silveira desafia os
behaviouristas em geral e pergunta: ―Deixarão de adorar o behaviourismo? Mas é
dos últimos figurinos dos U. S. A. Atacarão Watson?‖ (Revista Brasileira de
Pedagogia, ano II, v. IV, nº 16-17, p. 91, julho/agosto de 1935).
Sobre estes livros desaconselhados — repetimos, talvez já consagrados e de
grande penetração no campo pedagógico, inclusive nas escolas católicas —, as
críticas são feitas sempre à luz da pedagogia católica. Esperava-se com isto, talvez,
que os professores católicos os desaconselhassem, impedissem sua circulação ou, se
isto fosse impossível, que reproduzissem as críticas veiculadas pela Revista.

179
OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS II

Dedicamos a segunda parte de nossa pesquisa à elaboração do inventário dos


impressos que foram veiculados pela revista A Ordem e pela Revista Brasileira de
Pedagogia. Tal levantamento não tem a pretensão de ser completo, mas quer ser
suficiente para que iniciemos uma análise da ação dos intelectuais e educadores
católicos reunidos em torno do Centro D. Vital e da CCBE.
Privilegiamos em nossas investigações os impressos divulgados pela RBP,
mas não de forma exclusiva. O uso do mesmo método no estudo dos impressos
divulgados pela revista A Ordem nos dá elementos para analisar o impresso como
estratégia para construir uma ―civilização cristã‖; no caso da Revista Brasileira de
Pedagogia, para analisar o impresso como estratégia para conformar o campo
pedagógico. É uma separação didática que ajuda, por meio da comparação, a
compreensão das estratégias católicas para reconquistar a hegemonia na sociedade e
o sentido que tudo isto tem para a história da educação no Brasil.
Feito o levantamento quantitativo dos livros, chamou-nos a atenção, em
primeiro lugar, o número de livros em língua francesa divulgado pelas bibliotecas.
Como nem tudo que está em francês necessariamente vem da França e ao observar
autores belgas traduzidos e publicados nas duas revistas, fomos levados a fazer
algumas perguntas que ainda ficam em aberto: qual a influência da Universidade de
Louvain na pedagogia católica difundida no Brasil? Qual sua influência nas
estratégias utilizadas pelos intelectuais em geral e pelos educadores católicos em
particular para construir a ―civilização Cristã‖ e conformar o campo pedagógico?
Este estudo quantitativo auxiliou-nos, sobretudo, a relacionar os principais
temas e problemas que estavam na pauta de discussão dos educadores católicos na
década de 30. É com este material que vamos dar prosseguimento ao nosso estudo.
Tais assuntos, porém, não são tratados de forma aprofundada nas resenhas ou em
outras formas de divulgação do impresso estudas nas revistas.
Observamos que a CCBE conseguiu alcançar boa porcentagem da proposta
inicial de ―unir as forças educacionais, fazer com que em toda a Pátria seja abraçada
a educação integral de acordo com as diretrizes firmadas pela Igreja‖. Vimos, ainda

180
na primeira parte do nosso trabalho, que o crescimento desta entidade foi imenso.
Pelo menos no que diz respeito aos colégios católicos, ouve correspondência entre o
proposto e o conquistado.
O objetivo expresso da Revista Brasileira de Pedagogia — divulgar os
princípios da encíclica Divini illius magistri, de Pio XI — está estampado na
primeira página da sua primeira edição. A RBP buscou, durante toda a sua
existência, manter fiel à proposta inicial e deu muitos passos concretos para alcançar
este ideal. O estudo que fizemos da produção material da RBP revela isto. Para
confirmar a validade desta afirmação, podemos avaliar alguns pontos da ação dos
católicos à luz dos objetivos da CCBE concretizados na Revista.
Em primeiro lugar, difundir o pensamento dos grandes mestres. Houve
efetivamente um trabalho neste sentido. Isto foi feito especialmente nas
seções que lembram grandes mestres e mestres contemporâneos, mas
também por outros meios, como as próprias resenhas de livros cujo
autores eram considerados mestres da pedagogia católica.
―Combater as doutrinas sectárias‖: a própria seleção dos livros ou as
escolhas feitas já revelam isto. Preferimos usar esta terminologia —
seleção — no sentido de que os trabalhos realizados pela CCBE não
podem ser sistematicamente associados à censura no sentido tantas vezes
usado pela Igreja Católica. Já que a CCBE tem uma proposta
educacional, nada mais justo que escolher os ―livros que considera como
relevantes da sua missão‖ (cf. Jean Hebrard, no prefácio a Kuhlmann,
1989:13-16).
―Publicar manuais genuinamente católicos das diversas matérias do ensino
em todos os graus e modalidades‖ é outra parte dos objetivos. Não são muitos estes
manuais publicados pela CCBE. Backheuser publicou Técnicas da pedagogia
moderna, que serviu como verdadeiro manual e foi, a nosso ver, o programa de toda
a CCBE e da RBP. Ele também publicou A Aritmética da Escola Nova e O papel do
mestre na Escola Nova. Barbosa de Oliveira assinou Os esportes na formação da
mocidade. Também se divulgou muito o Tratado de pedagogia de Pedro Anísio. Mas


A ―Apresentação‖ dessa edição esclarece ainda: ―Todos os países devem conhecê-los e segui-los, a
esses princípios católicos de educação, especialmente o nosso, a caminho de uma Nova Constituição
política de uma nova organização social. Os educadores católicos mostram assim que comparecem ao
campo da formação educacional não apenas para exigir o ensino religioso nas escolas, mas para
defender idéias avançadas mas criteriosas, progressistas mas ponderadas‖ (Revista Brasileira de
Pedagogia, v. 1, nº 1, p. 1, fevereiro de 1934).

181
ainda é pouco diante da proposta inicial, no nosso entender. Por outro lado, houve
um ensaio preparatório destas publicações, tanto no I Congresso Católico de
Educação da CCBE, quanto nos artigos da RBP.
No I Congresso Católico, a quinta comissão, que tratava de metodologia e
didática, refletiu sobre temas como o ensino da história natural (em particular no 3º
ano), a metodologia da física no ensino secundário, o ensino da química de acordo
com a metodologia moderna, como ministrar educação sexual, desenho, pintura e
arte aplicada, a educação moral na escola primária, a metodologia do ensino do
catecismo e o ensino de linguagem. Algumas destas reflexões foram publicadas nos
Anais do I Congresso e na RBP. Outras iniciativas aparecem na RBP. Mas não
percebemos, no levantamento que fizemos, práticas que nos levem a afirmar que o
objetivo de publicar manuais genuinamente católicos das diversas matérias do ensino
tenha sido realmente alcançado.
Podemos dizer ainda que o levantamento feito comprova que, de fato, os
educadores da CCBE ―compareceram ao campo da formação educacional‖,
estiveram presentes nos grandes debates nacionais, e, como disseram, ―não apenas
para exigir o ensino religioso nas escolas, mas para defender idéias avançadas mas
criteriosas, progressistas mas ponderadas‖. Encaramos estas palavras como uma
proposta de conformar o campo educacional à luz da pedagogia católica e, mais do
que isto, como um pacto de construir a identidade de uma escola nova católica,
objetivo ousado de Backheuser e seus companheiros. Para saber se isto foi pelo
menos buscado, abrimos os temas da terceira parte de nossa pesquisa.

182
Parte III

A CONFORMAÇÃO DO CAMPO PEDAGÓGICO CATÓLICO


ATRAVÉS DO IMPRESSO

Primeira impressão, mal-estar constante: a


cultura é o flexível. A análise desliza em toda
parte sobre a incerteza que prolifera nos
interstícios do cálculo, visto que ela não está
ligada à enganosa estatística dos sinais objetivos
(comportamentos, imagens, etc.) (Certeau,
1995:233).

183
Capítulo V

CONSTRUINDO A IDENTIDADE DA PEDAGOGIA


E DO CAMPO PEDAGÓGICO CATÓLICO

Como vimos, o Estatuto expressava claramente os objetivos da Confederação


Católica Brasileira de Educação e, ao mesmo tempo, relacionava as estratégias para
alcançá-los (cf. Estatutos da Confederação Católica Brasileira de Educação, art. 5º,
Revista Brasileira de Pedagogia, v. 2, nº 9-10, p. 343, 1934).
A primeira estratégia era lutar para que houvesse uma legislação escolar que
possibilitasse ―a expansão plena dos direitos educacionais da família e da Igreja‖, em
harmonia com os objetivos do Estado. A segunda era promover o aprimoramento do
professorado católico e das escolas a ela filiada. Os meios concretos para realizar
esta segunda estratégia, ainda segundo o Estatuto eram defender economicamente os
professores e as escolas filiadas à CCBE; promover cursos de aperfeiçoamento, tanto
dentro, como fora do país; difundir ―o pensamento dos grandes mestres da pedagogia
católica, combatendo as doutrinas sectárias, quer em obra para os educadores, quer
em manuais para os educandos‖; fazer todos os esforços para publicar ―manuais,
genuinamente católicos, das diversas matérias do ensino em todos os graus e
modalidade‖ (Revista Brasileira de Pedagogia, v. 2, nº 9-10, p. 343, 1934).
Se este era o grande ideal da CCBE, a Revista Brasileira de Pedagogia, seu
órgão oficial, nasceu para ser um grande instrumento de trabalho para que a entidade
pudesse alcançar os seus objetivos. O alvo da Revista é resumido logo na primeira de
suas páginas: divulgar os princípios da encíclica Divini illius magistri, de Pio XI,
fonte inspiradora dos próprios objetivos da Confederação. Este era o documento que
deveria ser especialmente conhecido no Brasil, às vésperas de uma nova Constituição
e de uma nova organização social, segundo o editorial da RBP, que completava: ―Os
educadores católicos mostram assim que comparecem ao campo da formação
educacional não apenas para exigir o ensino religioso nas escolas, mas para defender
idéias avançadas mas criteriosas, progressistas mas ponderadas‖ (Apresentação,
Revista Brasileira de Pedagogia, v. 1, nº 1, fevereiro de 1934).

184
Diante destas propostas, não é difícil levantar a hipótese de que os educadores
católicos, no início da década de 30, acreditavam que poderiam constituir um campo
pedagógico próprio, católico, e que a educação cristã era a resposta aos desafios
emergentes no período, no campo educacional.
O que seria este campo pedagógico católico? Na década de 30, existia uma
idéia clara sobre uma pedagogia católica? Se existia, quais as bases desta pedagogia?
Como os educadores católicos deveriam se relacionar com as novas idéias? Os temas
que apareceram nas resenhas, nas propagandas e em outros meios de divulgação do
impresso realmente iam no sentido dos objetivos da CCBE e da RBP? Quais os
critérios para detectar e combater as doutrinas sectárias? O que entendiam os
educadores católicos por doutrinas sectárias? Estes critérios foram sistematizados?
Que doutrinas são estas? Foram publicados manuais genuinamente católicos? Se
foram, quais e que conteúdo traziam? Quais eram aquelas idéias ―avançadas, mas
criteriosas‖? Neste capítulo, vamos buscar as luzes para responder a estas questões.
Este também é o caminho para organizar os critérios que os educadores usaram, tanto
para a escolha, como para os comentários dos impressos inventariados na Revista
Brasileira de Pedagogia.
Diante do testemunho do próprio editorial de abertura da RBP, observamos
que os princípios da educação católica devem ser encontrados na carta encíclica de
Pio XI. Este documento se desdobrou em uma série de artigos, teses e manuais de
pedagogia que explicitaram a identidade da pedagogia católica que deveria ser
divulgada, discutida e vivida e dentre os quais recolhemos as fontes em que, a nosso
ver, foram buscadas as idéias que serviram como critério de escolha e julgamento
dos impressos resenhados na RBP: os autores estrangeiros sistematizados por De
Hôvre, os congressos de educação católica, em especial o 1º Congresso Católico de
Educação da CCBE, e os manuais de pedagogia católica da década de 30.

185
1. Fontes dos critérios de escolha e julgamento dos impressos

1.1. A carta encíclica Divini illius magistri

O papa Pio XI, tendo diante de si um mundo em conflito, a começar pelos que
ele próprio estava tendo com Mussolini na Itália, e muitas idéias novas no campo
educacional, decidiu sistematizar os princípios da educação cristã numa encíclica. A
maioria destes princípios já se encontravam na literatura católica, mas não de modo
sistematizado e, mais do que isto, organizados no sentido de responder às
dificuldades que a Igreja enfrentava neste campo. Nasceu assim a carta encíclica de
31 de dezembro de 1929, intitulada Divini illius magistri (DIM), que foi traduzida
para o português com o título de ―Acerca da educação cristã da juventude‖.26
O papa, ao discorrer sobre os motivos da publicação desta carta encíclica, diz:

Na verdade, nunca, como nos tempos presentes, se discutiu tanto acerca da


educação; por isso se multiplicam os mestres de novas teorias pedagógicas, se
excogitam, se propõem e discutem métodos e meios, não só para facilitar, mas
também para criar uma nova educação de infalível eficácia que possa preparar as
novas gerações para a suspirada felicidade terrena (Pio XI, 1930:4).

A grande crítica do papa aos ―mestres das novas teorias‖ é a insistência com
que derivavam toda a educação ―da própria natureza humana‖ e insistiam em ―atuá-
la só com as suas forças‖. Para Pio XI, a verdadeira educação deveria ser ordenada
para Deus, o fim último e primeiro princípio de todo o universo.
Quanto aos temas da DIM, ele deixa subentendido o objetivo de esclarecer o
que seria a educação cristã.

Para não errar nesta obra de suma importância e para a dirigir do melhor modo
possível, com o auxílio da graça divina, é preciso ter uma idéia clara e exata da
educação cristã nas suas razões essenciais, a saber: a quem compete a missão de
educar, qual o sujeito da educação, quais as circunstâncias necessárias do ambiente e
qual o fim e a forma própria da educação cristã, segundo a ordem estabelecida por
Deus na economia da Sua Providência (Pio XI, 1930:5).

26
Quanto às circunstâncias de publicação da DIM, ver Sgarbi (1997:66-70).

186
São esses, resumidamente, os temas desenvolvidos na DIM — a missão da
Igreja, da família e do Estado na educação, além das relações entre Igreja e Estado.
Sobre o sujeito da educação, o papa afirma que é o ―homem todo, espírito
unido ao corpo em unidade de natureza, com todas as suas faculdades naturais e
sobrenaturais [...] decaído do estado original, mas remido por Cristo‖ (Pio XI,
1930:21). Faz críticas ao naturalismo pedagógico, à educação sexual dada com meios
puramente naturais e à co-educação.
Quanto às circunstâncias necessárias, ele ressalta o valor do ambiente
familiar, eclesial e escolar na educação. Ataca as idéias de uma escola neutra ou
laica, mista e única e propõe uma escola que seja católica:

[...] é indispensável que todo o ensino e toda a organização da escola: mestres,


programas, livros, em todas as disciplinas, sejam regidos pelo espírito cristão, sob a
direção e vigilância maternal da Igreja católica, de modo que a Religião seja
verdadeiramente fundamento e coroa de toda a instrução, em todos os graus, não só
elementar, mas também média e superior (Pio XI, 1930:28).

Nas nações onde existem várias crenças e que por isto defendem a instrução
pública em escolas neutras (sem nenhum ensino religioso) ou mistas (com vários
tipos de educação religiosa), Pio XI sugere sejam criadas, com a ajuda do governo e
com o esforço da hierarquia, escolas católicas. ―Educação católica, para toda a
juventude católica, nas escolas católicas‖, diz ele. ―O que não se é auxiliado pelo
erário público, como por si exige a justiça distributiva, não pode ser impedido pela
autoridade civil, que tem a consciência dos direitos da família e das condições
indispensáveis da legítima liberdade‖ (Pio XI, 1930:28).
As últimas páginas da DIM trazem uma reflexão sobre o fim e a forma da
educação cristã que, segundo o pontífice, ―abraça toda a extensão da vida humana,
sensível, espiritual, intelectual e moral, individual, doméstica e social, não para
diminuí-la de qualquer maneira, mas para a elevar, regular e aperfeiçoar segundo os
exemplos e doutrina de Cristo‖ (Pio XI, 1930:32). Com isto, o autor da encíclica
mostra-se convicto de que aquele que for educado para ser um bom cristão será
certamente um bom cidadão e que, por isso, o Estado não deve dificultar a obra dos
educadores católicos.

187
Em resposta à questão sobre o relacionamento da educação cristã com as
novas teorias, comentemos três idéias de Pio XI. A primeira aparece na defesa que o
papa faz da fé, que se desenvolve em consonância com a razão e a ciência. A
segunda é uma crítica ao naturalismo, filosofia que não reconhece a lei divina. A
terceira está em sua reflexão sobre o modo de agir do mestre cristão, na qual deixa
uma orientação sobre como se relacionar com o novo.
Ao se voltar para as vantagens do acordo entre Igreja e Estado, Pio XI dedica
vários parágrafos à demonstração de que não deve existir contradição entre fé e
razão. Retoma algumas reflexões do Concílio Vaticano I:

A fé e a razão não só não podem contradizer-se nunca, mas auxiliam-se


mutuamente, visto que a reta razão demonstra os fundamentos da fé, e iluminada
pela sua luz, cultiva a ciência das coisas divinas, ao passo que a fé livra e protege
dos erros a razão e enriquece-a com vários conhecimentos (Pio XI, 1930:20).

Temos aqui uma profissão de fé na ciência e na razão em que o papa, no


entanto, procura preservar a ligação com a fé. Um pouco mais adiante, ele tece duras
críticas ao naturalismo que ignora a lei divina:

Por isso em nossos dias se dá o caso, realmente bastante estranho, de educadores e


filósofos que se afadigam à procura de um código moral e universal de educação,
como se não existisse nem o Decálogo, nem a lei evangélica, nem tampouco a lei
natural, esculpida por Deus no coração do homem, promulgada pela reta razão,
codificada com revelação positiva pelo mesmo Deus no Decálogo. E, da mesma
forma, costumam tais inovadores, como por desprezo, denominar ―heterônoma‖,
―passiva‖, ―atrasada‖, a educação cristã, porque esta se funda na autoridade divina e
na sua santa lei (Pio XI, 1930:22).

Destaquemos, ainda, uma idéia que foi amplamente explorada na década de


30. Trata-se de uma imagem que o papa usa quando reflete sobre a escola e a atuação
do professor cristão.

O professor cristão seguirá o exemplo das abelhas, que das flores colhem a parte
mais pura, deixando o resto, como ensina S. Basílio no seu discurso aos jovens
acerca da leitura dos clássicos. E esta necessária cautela, sugerida também pelo
pagão Quintiliano, não impede de modo nenhum que o mestre cristão acolha e

188
aproveite quanto de verdadeiramente bom produzem os nossos tempos na disciplina
e nos métodos, lembrado do que diz o Apóstolo: ―Examinai tudo: conservai o que é
bom‖ (Pio XI, 1930:29).

Muitos leram aqui uma orientação para estudar e se apropriar das idéias que
surgiam no campo da educação, embora o papa não tenha colocado este parágrafo
em suas reflexões sobre as novas idéias pedagógicas.
À DIM, que apresentava as linhas mestras, seguiu-se vasta bibliografia. Os
estudos posteriores revelam como os educadores cristãos leram as idéias de Pio XI.
A própria Revista Brasileira de Pedagogia não poupou espaço para divulgar a
encíclica, na qual, de certa forma, todos os debates em torno da escola e da
pedagogia divulgados pela RBP se enraizavam.

1.2. Autores estrangeiros

Se é claro, por um lado, que a Divini illius magistri foi a grande base sobre a
qual os educadores católicos construíram um campo pedagógico próprio, é claro
também que aquela encíclica não foi tudo. Houve autores que vieram em socorro dos
educadores católicos, para explicitar as idéias da DIM. São muitos os livros
estrangeiros que os educadores católicos liam na década de 30; acreditamos que é aí
que buscaram inspiração para desenvolver suas reflexões e práticas no Brasil.

1.2.1. De Hôvre: Ensayo de filosofía pedagógica

Fr. De Hôvre estava entre os autores mais citados. Este autor recolheu as
idéias sobre educação dos maiores pensadores da época e, a partir do pensamento de
vários educadores e do seu próprio, sistematizou a pedagogia católica. Entre suas
obras, duas são continuamente mencionadas: Philosophie pédagogique e Le
catholicisme, ses pédagogues, sa pédagogie.27
Vejamos, em síntese, seu conteúdo.

27
Segundo Leôncio (1938), De Hôvre teria escrito ainda, em co-autoria com L. Breckx, Les maîtres
de la pédagogie contemporaine (editado por Charles Bayert, de Bruges, em 1936). Esta obra, por ter
sido publicada mais tarde, não alcançou a mesma repercussão que os dois primeiros livros.

189
Em 1927, De Hôvre publicou Philosophie pédagogique, um trabalho cujo
objetivo era o estudo dos fundamentos filosóficos da doutrina católica da educação e
os fundamentos pedagógicos da concepção católica da vida (cf. Hôvre, 1947:13).
Graças à grande repercussão, este trabalho, escrito em língua flamenga, foi logo
traduzido para o francês, o alemão, o inglês e o polonês. A tradução espanhola,
publicada com título Ensayo de filosofía pedagógica‖, é de 1947.
Entre as idéias fundamentais desenvolvidas no trabalho, o autor se dispõe a
fazer um estudo ―crítico das teorias modernas de educação no intuito de ampliar o
horizonte pedagógico e projetar uma nova luz sobre os princípios da pedagogia
cristã‖ (Hôvre, 1947:13). Sua tese principal é que a pedagogia deve se apoiar não
somente na psicologia, mas também na filosofia.
O livro está organizado em três grandes partes. A primeira é o estudo
―Filosofia e pedagogia do naturalismo‖. O autor expõe o naturalismo, critica-o e
destaca dois grandes mestres do antinaturalismo: Emilio Boutroux (1854-1921) e
Rodolfo Eucken (1845-1926).
Na segunda parte, De Hôvre estuda ―a concepção socialista da vida e da
pedagogia radical-socialista‖. Divide esta parte em cinco capítulos: I. Exposição do
socialismo; II. Pedagogos sociais radicais (Dewey, Natorp, Bergemann,
Kerschensteiner e Durkheim); III. Crítica da concepção socialista da vida; IV. Crítica
da doutrina social-radical da educação; e V. Pedagogos sociais moderados. Neste
último capítulo, De Hôvre focaliza educadores afinados com a doutrina cristã, em
seis tópicos: 1. Tradição e pedagogia social; 2. J. H. Pestalozzi (1746-1826); 3. Otto
Willmann (1839-1920); 4. Friedrich Paulsen (1846-1908); 5. Toischer, Rein, Barth,
Foerster; 6. Benjamin Kidd (1858-1916).
A terceira parte, ―Nacionalismo e ‗politismo‘ como concepção da vida e da
educação‖, está dividida em seis capítulos: I. A alma da Alemanha; II. O espírito da
educação alemã; III. Fichte; IV. Crítica do nacionalismo e do ―politismo‖ alemães;
V. O Rembrandt alemão: J. Langhehn; e VI. Dr. Fr. W. Foerster.
O sexto capítulo da terceira parte é o mais longo, pode-se dizer o coração do
livro. Da página 337 até a página 418, ou seja, ao longo de 81 páginas, De Hôvre
estuda o educador Foerster. Depois de uma introdução sobre sua vida e sua obra, há
três tópicos sobre seu pensamento: Foerster como filósofo da cultura, Foerster como
moralista e Foerster como pedagogo do caráter. Assim, é neste capítulo que vamos

190
encontrar uma ampla reflexão sobre a concepção cristã de cultura, o conceito católico
de cultura, de cultura moderna e de cultura cristã, sempre sob a ótica de Foerster.
Nota-se que esta é uma obra na qual os educadores brasileiros obtiveram
parte da matéria-prima para edificar a construção do que chamamos pedagogia
católica.

1.2.2. De Hôvre: Le catholicisme, ses pédagogues, sa pédagogie

Foi publicado em língua francesa em 1930. Fora escrito originalmente em


flamengo, pouco tempo antes.
É uma apologia ao catolicismo: basta analisar a capa da edição francesa. As
duas primeiras linhas, em grandes letras, indicam o tema do livro, que pode ser lido
também como um subtítulo: sistemas filosóficos e pedagógicos contemporâneos.
Logo abaixo, em tipos bem maiores, o título: ―O (em tipo menor) CATOLICISMO
(em destaque). A seguir, também em destaque, mas não tanto como o título principal,
o subtítulo: ―seus pedagogos, sua pedagogia‖. Depois, o nome do autor e do tradutor
em destaque e, em letras pequenas, sua titulação. Em destaque ainda, com letras do
mesmo tamanho que as do nome do tradutor, temos: ―Com um prefácio de F. W.
Foerster‖ (com todas as letras maiúsculas). Finalmente, o local (Bruxelas), a editora
(Librarie Albert Dewit), o endereço em letras pequenas e a data (cf. Hôvre, 1930).
Antes do prefácio de Foerster, De Hôvre escreve um pequeno prólogo em que
comenta o sucesso do livro Philosofie pédagogique, que já havia sido traduzido em
várias outras línguas. Aponta o sentido desta nova obra, que era satisfazer a
exigência de estudos críticos dos sistemas pedagógicos contemporâneos, e o seu
desejo de publicar, mais tarde, outro texto, que deveria tratar das correntes modernas:
individualismo, voluntarismo e monismo.
De Hôvre divide seu trabalho em quatro partes. A primeira trata dos ―laços
orgânicos entre filosofia e pedagogia‖, onde aprofunda, em 25 páginas e sete
pequenos pontos, a relação entre filosofia e pedagogia, tema que já havia sido tratado
na obra anterior. A segunda parte trabalha, em 49 páginas e l2 pontos, o tema ―As
grandes linhas da Filosofia Católica da vida‖.

191
Uma das obras mais influentes entre os educadores católicos na década de 30

Na terceira parte, bem mais longa que as outras (320 páginas), o autor
discorre sobre os ―Representantes típicos da Pedagogia Católica contemporânea‖.
Estuda os seguintes pedagogos: Spalding, o porta-voz norte-americano da filosofia
católica; Dupanloup, representante da pedagogia católica na França; o cardeal

192
Newman, defensor inglês da pedagogia católica; o cardeal Mercier, advogado da
filosofia e da pedagogia escolástica na Bélgica; e Otto Wilmann, promotor da
pedagogia católica nos países de língua alemã. Quanto à importância dada a estes
autores, a materialidade do texto indica que Newman mereceu 129 páginas de
estudo; Willmam, 101; Dupanloup, 42; Spalding, 31; e Mercier, 10.
Na quarta e última parte, De Hôvre volta-se para ―As grandes linhas da
Pedagogia Católica‖, às quais dedica 15 pontos distribuídos por 51 páginas. Aqui, os
temas são: o fenômeno central do mundo moderno; os ídolos e a verdadeira direção
da pedagogia moderna; a característica (ou caráter) essencial da pedagogia católica; a
tríade sobre-humana — teocentrismo, cristocentrismo e eclesiocentrismo —; a
universalidade da pedagogia católica; a universalidade católica dentro dos princípios
fundamentais e da pedagogia prática; a universalidade católica e a educação física; a
universalidade católica dentro da didática; o ideal formador católico; a
universalidade católica dentro da pedagogia do caráter; a organicidade da pedagogia
católica; estrutura orgânica da educação social; organicidade católica e educação
religiosa.

1.3. Os Congressos Católicos de Educação

1.3.1. O Congresso Católico de Educação promovido pelo Centro D. Vital de


São Paulo

Os objetivos e o enunciado das teses deste Congresso, realizado em 17 de


outubro de 1931, no salão nobre da Cúria Metropolitana, é um testemunho da forma
como foi acolhida a Divini illius magistri de Pio XI entre os educadores paulistas.
Na sessão solene de instalação, o padre jesuíta José Danti afirmou que a
finalidade do Congresso era desenvolver um plano de educação baseado nos
ensinamentos de Pio XI, na encíclica sobre a educação cristã da juventude. Na
mesma sessão, o dr. José Carlos de Ataliba Nogueira advogou que o Congresso
deveria contribuir para orientar, em matéria de educação, a consciência católica e que
tinha como meta ―estudar os novos métodos à luz de uma filosofia verdadeiramente
católica da vida, para evitar a infiltração das doutrinas dissolventes de nosso

193
patrimônio moral‖ (Centro D. Vital de São Paulo, Congresso de Educação Realizado
no dia 17/10/1931, 1933, p. 6).
Os temas das nove teses eram (cf. Centro D. Vital de São Paulo, Congresso
de Educação Realizado no dia 17/10/1931, 1933):
 1ª tese, do dr. Vicente Melillo: menosprezar a capacidade educativa da
família é contrário a verdadeira moral, à sã política e a boa pedagogia; a
deficiência educativa da família em nossos tempos provém sobretudo do
naturalismo, o que deve ser remediado pela renovação do espírito católico
da vida do lar.
 2ª tese, do mons. Gastão Liberal Pinto: menosprezar a capacidade
educativa da Igreja é política e pedagogicamente absurdo, além de ser a
própria negação do catolicismo; a deficiência acidental da Igreja na
educação moderna é devida sobretudo à falta de disciplina eclesiástica da
parte dos fiéis e favorecida por outras causas, por cuja supressão se
empenha a autoridade eclesiástica.
 3ª tese, do dr. Manoel Marcondes Rezende: o absolutismo pedagógico do
Estado liberal ou comunista é prejudicial ao bom governo, além de injusto
e antipedagógico; posição dos católicos brasileiros em face da escola
oficial.
 4ª tese, do dr. J. Papaterra Limongi: o exagero da capacidade educativa
escolar é absurdo, até para os seus próprios defensores; a escola deve
colaborar com a família e a Igreja.
 5ª tese, do dr. Leonardo Van Acker: os católicos acolhem favoravelmente
qualquer método capaz de aumentar a eficiência do ensino conforme as
exigências modernas; declaram, no entanto, que tais métodos, além de não
essencialmente novos, só podem ser prejudicados pelo naturalismo
pedagógico.
 6ª tese, do dr. Paulo Sawaya: o naturalismo pedagógico torna prejudicial a
educação física e contraproducente a chamada educação sexual, que deve
ser ministrada de preferência pelos pais, observadas rigorosamente as
regras da prudência cristã.

194
 7ª tese, de d. Xavier de Mattos: o naturalismo pedagógico perturba os
benefícios da convivência racional cristã dos sexos; necessidade e normas
da ação católica feminina no Brasil.
 8ª tese, do prof. Júlio Penna: é dever dos católicos brasileiros desenvolver
uma ação estritamente organizada no intuito de conseguir a educação
católica em ótimas escolas católicas de todos os graus; esse movimento
também deve conseguir a superioridade do ensino católico sobre o não
católico.
 9ª tese, do dr. Alexandre Corrêa: o movimento católico escolar deve ser
auxiliado pelas escolas normais católicas e pelas escolas superiores,
quanto à formação dos bons mestres e à orientação pedagógica e
filosófica do ensino católico.
O inventário dos títulos das teses reforça a indicação dos argumentos
sustentados pela DIM. Aparecem também, no desenvolvimento das teses, referências
às obras de De Hôvre. Em nota de rodapé da nona tese, por exemplo, escreve
Alexandre Correia:

Cfs. Os dois magníficos livros de De Hôvre, Essai de Philosophie Pédagogique e Le


Catholisme, ses pédagogues. A primeira delas se encontra analisada na Revista da
Faculdade de Filosofia e Letras de São Paulo, números de março, 1930 e março de
1931 (Centro D. Vital de São Paulo, Congresso de Educação Realizado no dia
17/10/1931, 1933, p. 174).

Naquelas teses, que explicitam a encíclica de Pio XI sobre a educação, podem


ser encontrados os critérios para o trabalho da CCBE, que, em 1931 não havia sido
fundada. As Associações de Professores Católicos do Distrito Federal e do Rio de
Janeiro, entretanto, acompanharam todos os trabalhos do Congresso de São Paulo,
como apontam os telegramas que enviaram ao Congresso, lidos na sessão de
abertura.

1.3.2. O 1º Congresso Católico de Educação promovido pela CCBE

O grande objetivo deste Congresso, realizado no Rio de Janeiro entre os dias


20 e 27 de setembro de 1934, era fortalecer a idéia de uma pedagogia católica e

195
buscar os meios para veiculá-la. Estas finalidades não são explicitadas nos Anais do
1º Congresso, mas não é difícil vislumbrá-las, ao examinar as comissões que o
constituíram e os temas discutidos.
As teses discutidas no Congresso, bem como as conclusões dos debates,
valem como critério de escolha dos impressos da nossa Biblioteca Pedagógica
Católica construída pela Confederação Católica Brasileira de Educação. Os trabalhos
distribuíram-se entre seis comissões.
Na primeira, estudaram-se algumas experiências concretas de implantação do
ensino religioso. Discutiu-se o ensino religioso nos diversos níveis de ensino e
também a formação especial de ―catequistas‖ para o ensino religioso.
Os expositores e os temas debatidos na segunda comissão foram: pe.
Armando Guerrazzi, ―A filosofia e o professorado‖; De Vuyst, ―Aspectos
pedagógicos e sociais da educação moral‖; pe. Helder Câmara, ―Excessos da
pedagogia moderna‖; Alba Cañizar Nacimento, ―A Igreja e a civilização‖; Judith
Leão Castelo, ―A educação funcional e a moral das escolas: instituições
pedagógicas‖; Maria Letícia Ferreira Lima, ―Iniciação social na escola primária‖; pe.
Gulherme Boing, ―A posição social do professorado‖; mons. Pedro Anísio, ―A
organização social‖ e ―Filosofia e pedagogia‖; Diva Maria Sampaio, ―Colaboração
das alunas na disciplina‖; Alcina Moreira de Souza Backheuser, ―A cooperação do
pais na obra educativa da escola‖; Maria Luiza Courrège Lage, ―Necessidade da
colaboração da família e da escola‖; Laura Jacobina Lacombe, ―A colaboração da
escola e da família‖; Leonardo Van Acker, ―Relatório sobre inquérito de filosofia
educacional‖.
Os expositores e os temas da terceira comissão, sobre teses especializadas,
foram: Leonilda Linhares Benttenmüller e Maria Mercedes Lopes de Souza, ambas
com o mesmo tema, ―A educação da mulher‖; Idalina Barcelos, ―A disciplina em
face da escola nova‖; Silvia Meirelles da Silva, ―O cinematógrafo, o rádio e o teatro
como fatores educacionais‖; Ernesto da Silva Guimarães, ―O rádio como fator
educacional‖; Alfredo Balthazar da Silveira, ―O jornal, o livro e a biblioteca
escolares‖; Aprígio de Carvalho Júnior, ―O cinema como fator educativo‖.
Na quarta comissão, que tratou da universidade católica, foram expositores e
temas: Cândido Mendes de Almeida, ―Universidade católica do Brasil‖; Francisco
Assis Magalhães Gomes, ―Sobre o problema de um primeiro passo para a

196
universidade católica‖; Lúcio José dos Santos, ―Organização e extensão que deve
dar-se ao ensino universitário‖; Laura Jacobina Lacombe, ―Instituto normal
católico‖; Gastão da Cunha Bahiana, ―Organização das faculdades católicas de
Lille‖.
A quinta comissão tratou do tema metodologia e didática. Os trabalhos
realizados nesta sessão do Congresso parecem ter como finalidade a publicação de
futuros manuais direcionados a cada disciplina. Foram expositores e temas: Emma
Soffredi, ―O curso de biologia do Instituto Superior de Pedagogia de São Paulo‖;
Sonia de C. Barros, ―O ensino da história natural (em particular 3º ano)‖; Maria
Stella de Movaes, ―A criança e a natureza‖; Décio Lyra da Silva, ―Metodologia da
física no ensino secundário‖; C. A. Barbosa de Oliveira, ―O ensino da química de
acordo com a metodologia moderna‖; dr. Eneas Martins Filho, ―Educação sexual,
como e quando ministrá-la‖; irmã Raphaela Rossini, ―Como ensino desenho, pintura
e arte aplicada‖; Zulmira de Queiroz, ―Educação moral na escola primária‖;
Francisco Avellar Figueira de Mello, ―Como conceituar a liberdade de cátedra‖; pe.
Elias Tommasi, ―A escola paroquial na cidade e na zona rural‖; pe. Helder Câmara,
―Metodologia do ensino do catecismo‖; Douglas Louis Watson, ―A prática religiosa
é da essência do ensino religioso‖; Maria de Lourdes Calazans, ―O ensino de
linguagem‖; Anfrisia Santiago, ―A ação social do professor católico‖.
A sexta comissão tratou da educação junto ao proletariado. Houve apenas
uma exposição, ―A educação e o sindicato‖, feita por Maria Letícia Ferreira Lima.
Numa rápida comparação entre os dois congressos, percebe-se que o
Congresso da CCBE, além de tratar questões de fundo, como a filosofia e a
pedagogia, dedicou-se também às práticas do cotidiano escolar. Houve mais tempo
para isto. O congresso do CDV de São Paulo foi realizado em apenas um dia e só
tratou de questões mais abrangentes e princípios. Mas, tanto em um, como no outro,
discutiram-se assuntos e levantaram-se questões que serviriam como critério de
escolha dos impressos divulgados pelos educadores da CCBE e como fundamento
para os comentários que fizeram sobre tais obras.

197
1.4. Manuais brasileiros de pedagogia católica no início da década de 30

Como se vê, os educadores católicos tinham um referencial teórico, uma


filosofia pedagógica que inspirava todos os trabalhos desenvolvidos no campo
educacional. Diante das citações bibliográficas, dos artigos publicados, das teses dos
congressos, das notas de rodapé, etc., firma-se cada vez mais a hipótese de que a
fonte onde os educadores católicos brasileiros bebiam podia ser encontrada nas
orientações da Igreja Católica contidas na Divini illius magistri de Pio XI e também
em ―mestres da pedagogia católica‖ de diversos países, que chegaram aos educadores
brasileiros, especialmente, sintetizados nas obras de De Hôvre.
Todavia, apesar das muitas discussões, artigos e teses, nota-se que faltava
uma sistematização da pedagogia católica que respondesse às necessidades dos
educadores, especialmente do professorado que atuava nas escolas normais ou no
campo educacional em geral. Esta dificuldade foi sentida por muitos educadores
brasileiros católicos da época. Para responder a este anseio, alguns deles trabalharam
para dar um corpus doutrinário à pedagogia católica, corporificada em manuais para
as escolas normais e para os educadores em geral.
De todos os escritos importantes que apareceram, dois mereceram destaque
na década de 30, tanto no inventário da Biblioteca Pedagógica Católica do Centro D.
Vital, como na Biblioteca Pedagógica Católica da CCBE. Foram resenhados e
divulgados em propagandas das mais diferentes formas. São o Tratado de pedagogia,
do mons. Pedro Anísio, e Técnicas da pedagogia moderna, de Everardo Backheuser.
Para completar seu Tratado, publicado em 1934, Anísio publicou, em 1937, o
Compêndio de pedologia e pedagogia experimental, que não alcançou a mesma
repercussão que o anterior; decidimos comentá-lo porque completa tudo o que não
aparece no Tratado, mas despontou nos debates sobre educação católica entre 1934 e
1937. Quanto ao livro de Backheuser, acreditamos que o pensamento pedagógico dos
educadores católicos da CCBE ficou registrado em suas páginas. Suas conquistas e
avanços podem ser comprovados na 3ª edição, revista e melhorada, publicada em
1942, com o título de Manual da pedagogia moderna.

198
1.4.1. Tratado de pedagogia, de Pedro Anísio

No Brasil, o primeiro grande esforço de sistematização da pedagogia à luz da


doutrina católica ocorreu no início da década de 30. O executor do projeto foi o
mons. Pedro Anísio, professor da Escola Normal do Estado da Paraíba, que publicou
em 1934 o Tratado de pedagogia. Com 373 páginas, este livro — uma co-edição das
editoras Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro, e Companhia Editora Nacional, de
São Paulo — é um verdadeiro manual destinado às Escolas Normais de todo o país.
Em 1936, já circulava sua segunda edição.
Na página de rosto, os editores puseram em destaque o nome do autor e seu
título — monsenhor —, curiosamente sem abreviá-lo, o que é incomum; e como se,
com o realce do título ao lado do nome do autor, os editores quisessem deixar
registrado o caráter católico de obra.

Na década de 30, o primeiro grande esforço de sistematização da pedagogia à luz da


doutrina católica

199
Abaixo do nome e do título do autor, destaca-se que o mesmo é ―lente de
Pedagogia de Escola Normal do Estado da Paraíba do Norte‖. Esta forma material de
ressaltar este aspecto deve ter como objetivo corroborar a legitimidade de obra no
ensino público em geral.
O título, em letras garrafais que ocupam dois terços da página, indica a
importância do livro. O subtítulo, também em destaque, mostra que os editores dão
um sentido universal à obra e esperam que a obra circule em todas as escolas
normais, católicas ou não.
No prefácio, Tristão de Athayde mostra logo em suas primeiras palavras que
a intenção da obra é introduzir ―uma palavra de ordem e bom senso no setor
pedagógico‖, pois que esta é uma necessidade para a cultura moderna. E reclama,
indo direto ao assunto, dos que se julgam ―donos‖ deste setor pedagógico. Na sua
opinião, isso seria

o que fazem entre nós alguns pedagogos profissionais, propugnadores da ―escola


nova‖. Informados, de ciência própria alguns e muitos por ouvir dizer, de que há um
movimento de renovação dos métodos ou da filosofia pedagógica, um pouco por
toda a parte, assenhoram-se do terreno e não admitem que ali nenhum profano ponha
os pés. A ―escola ativa‖ é deles. A ―pedagogia nova‖ é deles. E só eles têm o direito
de falar em ―escola nova‖. Tendo-se apoderado, cuidadosamente, dos grandes postos
de administração do ensino federal, municipal ou estadual, pontificam do alto de
suas posições estratégicas e mantêm à distância os não iniciados nos mistérios do
novo credo, punindo severamente os que ousam transpor os limites do recinto
sagrado (Anísio, 1934:5).

Naquilo que o autor do prefácio chama de ―campo em que se digladiam tantas


idéias contraditórias‖, o Tratado de pedagogia seria uma palavra de ―superioridade,
de equilíbrio e de clareza‖. Tristão de Athayde reconhece a audácia de Anísio e, em
matéria de educação no Brasil, considera única a sua obra. O livro teria fundamentos
sólidos, tanto para a didática, como para a pedagogia, e seria mais do que uma
―apologética pedagógica‖, mais do que uma ―posição de combate aos erros do
naturalismo, do sentimentalismo ou do tecnicismo pedagógico‖. Não apenas
colocaria face a face o novo e o velho, o móvel e o imóvel, o progressivo e o
atrasado, como também criticaria ―de passagem os sistemas parciais‖ e responderia
―às necessidades mais urgentes do tempo moderno e satisfaz a inteligência‖.

200
Destaca ainda o autor do prefácio a posição de equilíbrio do livro entre
liberdade e autoridade, disciplina e dignidade humana, e as ―considerações exatas
sobre o que de bom‖ tem a ―escola ativa‖, que é elogiada, segundo Athayde, em
quase todas as páginas do livro.
Tristão de Athayde encerra o prefácio de modo enfático e até provocador, o
que mostra o clima belicoso que existia, na época, pela conquista do campo
pedagógico.

E apesar da conspiração do silêncio ou da incompreensão dos pedagogos unilaterais


ou sectários, a quem estão entregues os destinos de nossa educação pública, [a
publicação do Tratado] há de marcar, para os espíritos independentes, uma data feliz
na história de nossa literatura pedagógica (Anísio, 1934:9).

Quanto ao manual em si, Pedro Anísio dividiu-o em duas partes. Os capítulos


do livro estão assim distribuídos, segundo o sumário da obra:

INTRODUÇÃO, 1
A PEDAGOGIA E A EDUCAÇÃO, 35
Cap. I — A EDUCAÇÃO
Art. I — Verdadeiro conceito da educação: a educação,
herança social, 47
Art. II — Possibilidade da educação. A educabilidade do
homem, 51
Art. III — Os fatores educativos. A herança e o meio. A
herança psicofísica, 57
Cap. II — O FIM DA EDUCAÇÃO
Art. I — Os ideais educativos, 70
Art. II — O ideal cristão, 79
Cap. III — PEDEUTOLOGIA
Art. I — O educador, o mestre, 92
Art. II — Os caracteres do ofício educativo, 96
Art. III — A quem pertence a educação, 102
Art. IV — As escolas de magistério, 112
Cap. IV — DO SUJEITO DA EDUCAÇÃO

201
Art. I — Harmonia nas faculdades do educando. Educação
formal, 121
Art. II — Os trabalhos escolares e a ordem do
desenvolvimento das faculdades, 132
Cap. V — A EDUCAÇÃO FÍSICA
Art. I — Meios indiretos ou educação física negativa, 139
Art. II — Meios direto ou educação física positiva, 144
Apêndice sobre educação física, 149
Cap. VI — A EDUCAÇÃO INTELECTUAL
Art. I — A inteligência geral, 154
Art. II — A percepção externa e interna, 156
Art. III — A atenção. O interesse pedagógico, 171
Art. IV — A representação. A fantasia e a memória, 180
Art. V — Associação. Estados conscientes e subconscientes
(fantasia e memória), 184
Art. VI — A imaginação construtora, 188
Art. VII — A memória, 191
Art. VIII — O pensamento. O conceito, 202
Art. IX — O juízo e o raciocínio, 213
Cap. VII — A EDUCAÇÃO MORAL
Art. I — A educação do coração, 227
Art. II — Os sentimentos ideais, 245
Art. III — A educação da vontade, 260
Art. IV — O hábito e caráter moral, 271
Cap. VIII — MEIOS EDUCATIVOS
Art. I — O exemplo, 284
Art. II — O governo externo. A autoridade. A sugestão
pedagógica, 288
Art. III — A inspeção, 293
Art. IV — Os exercícios ativos: Os jogos e o trabalho, 295
Art. V — A emulação, 297
Art. VI — As recompensas: prêmios e castigos, 301

202
SEGUNDA PARTE
Introdução: Didática geral ou teoria do ensinamento
Cap. I — TEORIA DO MÉTODO
Art. I — Definição e divisão do método, 318
Art. II — Princípios do método didático, 327
Cap. II — TEORIA DOS MEIOS DIDÁTICOS
Art. I — Processos de ensino, 329
Art. II — Formas de ensino, 335
Art. III — Os modos de ensino, 338
Cap. III — A ORGANIZAÇÃO ESCOLAR
Art. I — A admissão e a classificação dos alunos, 344
Art. II — A distribuição do tempo e do trabalho, 346
Art. III — Os registros e as cadernetas individuais, 349
Art. IV — O sistema cíclico ou concêntrico, 352
Art. V — A concentração do ensino e a escola ativa, 355
Art. VI — A preparação do mestre, 357

Nota-se que a preocupação do autor é trabalhar dentro de uma lógica


cartesiana todos os temas que dizem respeito à educação escolar, distribuindo-os de
forma que não haja qualquer desequilíbrio material, ou seja, desenvolvimento muito
vasto ou muito diminuto.

1.4.2. Compêndio de pedologia e pedagogia experimental, de Pedro Anísio

―Ao „Tratado de Pedagogia‟, que veio a lume na sua primeira edição, em


1934, fazemos seguir hoje o „Compêndio de Pedagogia Experimental‟‖: com estas
palavras, Pedro Anísio inicia o prefácio de seu novo livro, publicado em 1937.
A apresentação material da obra é um testemunho do sucesso do livro de
1934. No dorso e nas duas margens da capa dura, traz informações que atestam o
grande caminho percorrido. Na margem superior da capa, Iª SÉRIE — ABC —
VOLUME III ‗PEDAGOGIA‘ — Direção: Alceu de Amoroso Lima. Na margem
inferior, EMPRESA EDITORA ABC LIMITADA — RIO. Este dados mostram que

203
havia uma organização nas publicações dos católicos e que estava em pleno
funcionamento a Editora da Associação das Bibliotecas Católicas, a ABC Limitada.
A capa anuncia ainda o nome e o título do autor, em destaque — Mons. Pedro
Anísio —, bem como sua atuação — Lente de Pedagogia da Escola Normal do
Estado da Paraíba. O título do livro ocupa mais da metade da página —
COMPÊNDIO DE PEDOLOGIA E PEDAGOGIA EXPERIMENTAL. O público-
alvo da obra merece letras bem menores: Destinado às escolas normais.
Os dados do autor e o título do livro aparecem também no dorso do volume.
A quarta capa é preenchida com uma propaganda muito bem acabada do Tratado de
pedagogia. A chamada da propaganda é: SUPERIORIDADE, EQUILÍBRIO E
CLAREZA! UM EMPREENDIMENTO SISTEMÁTICO DE ALTO VALOR! —
EM 3ª EDIÇÃO. Logo abaixo, em destaque, o título do livro e dos dados do autor.
Em seguida, há informações que mostram o crescimento desta empreitada. Este livro
é o quarto volume da 1ª SÉRIE — ABC — ―PEDAGOGIA‖, sob a direção de Alceu
Amoroso Lima. Seguem-se dois parágrafos do prefácio escrito por Amoroso Lima.
Fechando este texto, mais uma informação, ―Adotada na maioria das Escolas
Normais do Brasil‖, e a indicação de onde encontrar o livro: Em todas as livrarias ou
na EMPRESA EDITORA ABC LIMITADA, caixa postal, 249 — Rio de Janeiro.
O objeto e as informações que traz falam por si. O primeiro livro de Anísio
tinha alcançado êxito e estava se tornando um ―clássico‖ para os educadores
católicos.
Diferentemente da primeira edição do Tratado de pedagogia, o Compêndio
ostenta na contracapa o nihil obstat e o imprimatur.
No prefácio, o autor afirma que o Compêndio e o Tratado se completam e que
ambos têm o mesmo destinatário, os professores e alunos das escolas normais e
outros cursos de aperfeiçoamento pedagógico. Tanto um como outro, assim,
compõem-se de textos que precisam ter a sobriedade que livros desta natureza
exigem, sem detrimento da profundidade científica. Esta é uma preocupação do
autor. Para Anísio, o livro nascera da necessidade provocada pela confusão de idéias
no campo da pedagogia. O ―manual‖ que estava publicando deveria servir de
―orientação e guia no caos das doutrinas modernas‖. O Compêndio, ―da primeira à
última página, se move dentro dos quadros da filosofia tomista‖ (Anísio, 1937:8), de

204
tão grande amplitude que seria capaz de acolher todos os progressos da ciência e da
técnica pedagógica.
Feitas esta considerações, Anísio introduz o leitor em discussões comuns na
época: filosofia e pedagogia. O autor desenvolve o tema, atualizando-o segundo a
realidade educacional brasileira. Todavia, vai mais além e faz uma reflexão sobre
filosofia, teologia e pedagogia.
Vai buscar as raízes da separação entre ciência e filosofia e entre ciência e
teologia nas discussões do final da Idade Média, na ―querela dos universais‖:

Os nominalistas minam o valor ontológico dos conceitos, subjetivam a lei natural


que existe na alma humana e é o fundamento próximo do direito, da moral e da
religião, e, só com este golpe, despedaçam todos os elos que vinculam a Educação à
Filosofia e à Teologia. [...] Mas, desde que se afirma a existência da realidade
pedagógica, certo fora do esquema apriorista do Nominalismo, para logo se percebe
que a Educação se não realiza a bel talante do homem, mas, ao contrário, por
necessidade da natureza, tendo seus princípios, suas leis e regras imutáveis. Esta
grande intuição tomista é tanto mais fecunda quando dilata os horizontes
pedagógicos e nos orienta para Deus como centro de perspectiva. O homem não é
um ser insulado. Animal social, reclama o auxílio de seus semelhantes para o
completo desenvolvimento de sua personalidade. A sua educação opera-se no meio
em que vive, devendo receber a influência dos diversos grupos: a família, a escola, a
Igreja, o Estado e as associações intermediárias. É membro da comunidade: em
virtude deste título deve participar de todos os bens ideais, cristalizados na língua,
na religião, na arte, na ciência, nos costumes e tradições que vêm até nós pela
herança social. Destarte, a Educação eleva o homem ao nível da cultura e da
civilização atual; incorpora-o na sociedade; coliga o presente ao passado, fazendo de
todos os homens, na expressão de Pascal, um homem só (Anísio, 1937:15-16).

Por isso, não vê como uma ciência pode se isolar ou caminhar sem a luz da
fé. A fé deve estar unida às luzes da razão (cf. Anísio, 1937:17). Esta união pode ser
encontrada na sabedoria cristã, entendida como o catolicismo, pois é este que renova
as instituições e infunde o ―espírito de vida‖ à pedagogia. Nesta perspectiva, ―a
teologia é que nos fornece o ponto de mira supremo donde se pode apreciar, numa
viva luz, a beleza da ordem universal‖ (Anísio, 1937:17).
E é à luz destes princípios que Anísio desenvolve os capítulos do seu livro, a
saber:

205
I — A ciência do menino, 20
II — Métodos de investigação e pedagogia experimental, 33
III — Método dos testes, 53
IV — O desenvolvimento do menino, 70
V — O desenvolvimento psicológico, 92
VI — Individualidade e educação, 117
VII — A filosofia tomista e a educação, 142
VIII — A evolução tomista, 149

Ao acompanhar a circulação dos livros católicos ainda alguns poucos anos à


frente, não sentimos que este livro de Anísio tenha tido tanta penetração como o
Tratado de pedagogia. Aliás, desconhecemos a existência de alguma outra edição do
Compêndio.

1.4.3. Técnicas da pedagogia moderna, de Everardo Backheuser

A primeira edição desta obra é de 1934, com 331 páginas, e a segunda, de


1936, com o mesmo número de páginas. Este texto foi se desenvolvendo durante os
anos de existência da Confederação Católica Brasileira de Educação e, em 1942, foi
reeditado com o título de Manual de pedagogia moderna. Esta publicação
modificada e ampliada conta com 408 páginas. As ―modificações profundas‖
envolveram a atualização de dados, a reordenação dos antigos capítulos e a inserção
de alguns novos capítulos. Essa metamorfose, como esclarece o autor, teve o intuito
de transformar o livro em um ―compêndio de pedagogia para uso das escolas normais
e institutos de educação‖ (Backheuser, 1942:11). O Manual foi editado novamente
em 1945 (4ª edição) e em 1954 (5ª edição).
A obra publicada no mesmo ano em que era lançada a Revista Brasileira de
Pedagogia serviu, em nosso entender, de programa e esquema de trabalho para a
Revista e a própria CCBE, que estava sob a presidência do autor. Acreditamos ainda
que os ideais do livro foram sendo aprofundados, testados e discutidos nos anos de
circulação da Revista (1934-1938) e que, por este motivo, foi possível e necessária
uma nova sistematização. Acreditamos também que este processo colaborou para a

206
criação e a reflexão de uma nova realidade que foi surgindo nestes anos, a qual
denominamos, em nossa dissertação de mestrado, de ―escolanovismo católico‖ (cf.
Sgarbi, 1997).
O prefácio de Técnicas da pedagogia moderna foi redigido pelo padre Leonel
Franca, um dos principais auxiliares do cardeal Leme e assistente eclesiástico da
CCBE. Nas quase quatro páginas escritas por Franca, ele elogia, sobretudo, o
equilíbrio do autor, que soube aproveitar as lições do passado e aceitar ―toda a
contribuição moderna que a ciência tem posto à serviço da Pedagogia‖ (Backheuser,
1942:16).
Desde o primeiro parágrafo do preâmbulo da obra, Backheuser demonstra seu
interesse pela Escola Nova. Fala de sua curiosidade pelas literaturas alemã, norte-
americana e suíça sobre este assunto. Conta das viagens que fez para conhecer
experiências escolanovistas em diversos países, de sua experiência quando
organizou, a convite de Fernando de Azevedo, o Museu Central Pedagógico e da
participação que teve na Cruzada Pedagógica pela Escola Nova, uma associação de
professores idealizada por ele mesmo e fundada pela professora Alcina Moreira de
Souza. Backheuser relembra que muitas das práticas dos estabelecimentos de ensino
do Distrito Federal sobre Escola Nova tiveram início nas discussões da Cruzada. Ao
mesmo tempo, admira-se de que, em tão pouco tempo, fossem tantas as novidades
pedagógicas a disputar a categoria de Escola Nova, numa grande confusão que
chegara até a atingir os próprios dirigentes da instrução pública. Tudo isto o autor
enumera para demonstrar o porquê da seguinte constatação a que chegara: ―À
propaganda da Escola Nova tem faltado até agora um elemento essencial: S I S T E
M A T I Z A Ç Ã O [sic]‖. Note-se o destaque material do texto, que revela a
convicção do autor e os objetivos de sua obra. Backheuser revela que é um desejo e,
mais ainda, um sentimento de dever o que o levara a pensar em preparar um ―curso
sistemático de pedagogia nova‖. Em 1933, veio ao encontro deste desejo o convite de
Alceu de Amoroso Lima para que ministrasse tal curso no Instituto Católico de
Estudos Superiores, o que aconteceu no mesmo ano e logo se transformou nas
Técnicas da pedagogia moderna. Neste trabalho, o educador desenvolveu os temas
da Escola Nova em um duplo aspecto: ―o da escola nova, em si, como é apresentada
pelos tratadistas arreligiosos, e o da escola nova em face da doutrina dos mestres
acatados da pedagogia católica‖ (Backheuser, 1942:19).

207
Valendo-se destas idéias, de sua vasta experiência e das discussões que
aconteciam, Everardo Backheuser pode fazer a primeira sistematização da Escola
Nova à luz da doutrina católica.

Para a teoria valemo-nos de livros e revistas. Para a prática, da freqüência a escolas


no estrangeiro em países onde se pratica de fato a escola nova; no convívio diuturno
com elementos do magistério carioca e fluminense, que tentam implantar os novos
métodos; e da oportunidade que algum tempo tivemos de encaminhar no Distrito
Federal as experiências de escola nova (Backheuser, 1942:200).

A experiência só viria, como vimos, depois de oito anos de sistemáticos


debates.
Vamos nos ater aos esquemas das primeiras edições de Técnicas da
pedagogia moderna, ou seja, as de 1934 e 1936; usando, porém, já a terceira edição,
nos textos que serão citados indicaremos onde houve mudança quando for oportuno.
Às edições que aparecem em 1942, 1945 e 1954 o autor acrescenta um prefácio em
que afirma, em poucas palavras, que aquela obra ―sofre agora modificações
profundas, não só na atualização dos informes como na própria coordenação dos
antigos capítulos com a adição de outros novos que não constavam daquelas edições‖
(Backheuser, 1942:11).
Backheuser inicia com uma reflexão mais profunda sobre a Escola Nova,
levando em consideração a polêmica da época. Dedica todo o primeiro capítulo a
esta discussão. Está convicto de que se pode muito bem ser católico e escolanovista.
Percebe-se que a tônica deste livro de pedagogia católica é diferente da proposta por
Pedro Anísio.
O segundo capítulo será dedicado aos princípios sobre os quais se assentam
toda as discussões a respeito da Escola Nova, na visão de Backheuser. Este capítulo
esta subdivido da seguinte forma:

Princípios cardeais da Escola Nova, 38


Aspecto pedagógico, 38
Há variedades de Escolas Novas, 43
Aspectos filosóficos, 44
Aspecto psicológico, 46

208
Aspecto político, 50
Pontos de dúvida, 54

Na opinião de Backheuser, as ―várias escolas novas‖ teriam um ―fundo


comum, corrente e sólido‖ (expressão de Fernando de Azevedo): é este fundo
comum que ele busca em seu livro. Analisa os diversos aspectos da Escola Nova e
investiga o que é essencial nesta renovação educacional.
O primeiro aspecto essencial seria a unanimidade de todos os adeptos da
Escola Nova quanto à necessidade da educação integral. Esta se alcançaria por meio
da iniciativa, da cooperação e do preparo para a vida pela vida, segundo o esquema
abaixo, reproduzido de Backheuser (1942:225).

O conceito de educação integral é diferente do conceito de instrução e pode


ser encontrado em todos os adeptos da Escola Nova. A discordância aparece quando
os educadores discutem os aspectos acidentais, os pormenores.
Todo o terceiro capítulo será dedicado à discussão sobre a escola única, como
entendida por Backheuser. Os temas deste capítulo estão assim distribuídos:

209
A ESCOLA ÚNICA, 59
Escola única como monopólio do ensino, 60
Necessidade de ensino particular, 65
Variedades de aspecto da escola única, 68
a) Co-educação, 69
b) Escola da Democracia, 74
c) Escola neutra e leiga, 76
Escola única como escola anti-regional, 83
Escola única como escola unitária, 84

Backheuser entende por escola única não a escola unificada, no sentido de


uniformizada em todo o país, uma escola que não respeita as particularidades das
regiões. Entende por escola única não a escola que é neutra e leiga, na qual não cabe
o ensino religioso, nem a escola da co-educação, educação igual para rapazes e
moças. Não entende a escola única como a escola ―oficial e oficializante‖. Defende a
escola gratuita e aberta a todos. Para Backheuser, a escola única é a escola unitária,
unificada. Uma escola em que o aluno entra quando criança e segue até a
universidade, sem exames de admissão, seja para o ginásio, seja para o curso
superior.
O quarto capítulo será dedicado à pedagogia e às ciências correlatas. O autor
vai discutir o sentido católico de cada uma das ciências, no esforço de articular todas
as discussões contemporâneas sobre as relações entre ciência e fé. Como homem que
dedicou a vida toda à ciência e como católico convertido, Backheuser busca
demonstrar que há uma forma de ser científico sem deixar a fé. O capítulo está
distribuído da seguinte forma:

I — Biologia, 88
II — Psicologia, 92
Psicologia estruturalista, 99
Influência da educação na estrutura psicológica, 108
III — Ética ou moral, 112
IV — Filosofia, 121

210
Os unilateralismos, 128
V — Sociologia, 131
VI — Ciências, letras e artes, 139

Para educar, na visão de Backheuser, é preciso conhecer a pessoa que vai ser
o objeto da educação, e isto será possível mediante a biologia, a psicologia e a ética
ou moral. Mas é preciso também adaptar o ser humano às finalidades próprias da
vida, finalidades que encontram seus fundamentos na filosofia, na sociologia e nas
outras ―ciências, letras, artes que fazem o arcabouço cultural dos povos‖.
O quinto capítulo é dedicado ao tema da educação integral propriamente dita.
Está dividido da seguinte forma:

EDUCAÇÃO INTEGRAL, 143


a) Educação física, 152
Educação manual, 157
b) Educação científica, 158
c) Educação artística. 162
d) Educação econômica, 165
e) Educação social e política, 169
f) Educação moral e religiosa, 172

Backheuser deslocou este capítulo para a quarta parte (―Os educadores e a


educação‖) do Manual, que ficou dividida em dois capítulos, um sobre os educadores
e outro sobre a educação integral, aqui entendida como a formação do homem
completo, em todos os seus aspectos e que deveria fazer desabrochar na criança, de
maneira equilibrada, as ―forças formadoras da personalidade, tanto as do corpo como
as da alma, e [...] aquelas que colocam o educando em afinidade com o ambiente
social‖ (Backheuser, 1942:180).
Outra questão polêmica que Backheuser enfrenta é a da iniciativa na escola.
Dedica a esta discussão todo o sexto capítulo, assim distribuído:

Iniciativa do aluno, 179


Iniciativa, interesse e intenção, 179

211
Como despertar na escola o interesse da criança, 182
1 — Fazer perder a timidez à criança, 185
2 — Aproveitar as oportunidades do agrado da criança, 186
3 — Aguçar a curiosidade da criança, 186
4 — Os prêmios e o receio de castigos também despertam o interesse?, 191
Impressão e expressão, 193
Impressão e observação, 195
Associações, 201
Expressão, 202
a) oralmente, 202
b) manualmente, 203
c) moralmente, 205
Iniciativa do professor, 205

A Escola Nova valoriza o papel central que o aluno desempenha no processo


de ensino–aprendizagem. Backheuser admite o valor desta iniciativa, sempre com o
cuidado de não desprestigiar o papel do professor. O mestre, na Escola Nova, deverá
ajudar a criança a desenvolver sua capacidade criadora, mas deixará claro que isto
não é tudo. Aqui se aborda um ponto delicado, a disciplina, e, ao seu lado, a questão
de formar os cidadãos como homens e mulheres livres para pensar, exprimir e
defender suas opiniões.
Nas edições de 1942 em diante, Backheuser reorganiza de acordo com este
esquema o capítulo correspondente a estas questões, que devem ser debatidas pelos
educadores: a iniciativa; a iniciativa do aluno; impressão e observação; associação;
expressão; iniciativa do professor; a iniciativa na escola urbana e na escola rural.
O sétimo capítulo é todo dedicado à ―cooperação‖, tema que está subdividido
da seguinte forma:

Cooperação entre pais e filhos, 213


Cooperação entre professores e alunos, 223
Cooperação entre escola e lar, 224
O entendimento harmônico entre pais e professores, 225
a) Deve-se processar normalmente dentro da vida escolar, 225

212
b) Círculos de pais e professores, 226
Acordo em torno dos princípios básicos de educação, 231
Cooperação entre alunos, 233
A colaboração como técnica educativa, 237
Cooperação entre professores, 239
A cooperação dos governos, 242

Backheuser discorre sobre cada um destes pontos, entendendo a cooperação


de forma ampla e convidando todos a serem solidários com e na escola. A
cooperação também é tema do capítulo XI do Manual e é trabalhada da mesma
forma como neste capítulo das Técnicas.
No oitavo capítulo, dedicado ao tema ―educar para a vida e pela vida‖, os
temas que Backheuser desenvolve são:

Que é educar?, 245


O treino e a memória, 250
A vida total, 252

Este capítulo de Técnicas da pedagogia moderna não se reproduz desta forma


no Manual de pedagogia moderna. No entanto, o Manual começa o primeiro
capítulo com reflexões sobre a educação ―para a vida total‖, prossegue voltando-se
para a ―pedagogia como arte e como ciência‖ e termina com ―uma visão panorâmica
da pedagogia‖. Backheuser deixa clara, no primeiro capítulo do Manual, a unidade
entre pedagogia e vida. Cita De Hôvre, que resume o pensamento pedagógico
católico:

Uma pedagogia sem a filosofia de vida, não levando em conta os valores da vida, é
uma pedagogia na qual o homem e a vida são eliminados, é uma pedagogia sem a
educação e sem a criança. Será estranha a vida e portanto anticientífica (De Hôvre,
apud Backheuser, 1942:29).

O último tema discutido em Técnicas da Pedagogia Moderna, no capítulo IX,


são detalhes da técnica da escola nova. Os temas são os seguintes:

213
Excursões, 263
Em que consiste uma excursão escolar?, 263
Onde realizar a excursão?, 265
De que modo efetuar as excursões?, 267
Centros de interesse, 271
Métodos de projetos, 279
Alguns ―planos‖ americanos e europeus, 285
Platoon-plan, 286
Plano Winnetka, 287
Plano Dalton, 288
Plano Howard, 290
Plano Lietz, 290
Plano Wickersdorf e Odenwald, 292
Plano Mannheim, 293
Dramatizações, 294
Museus escolares, 295
Museu da classe e da escola, 299
Tabuleiro de areia, 301
Concluindo, 302
Autores mencionados, 303

Este capítulo corresponde ao capítulo XIII do Manual, intitulado ―Algumas


técnicas modernas‖. É o primeiro capítulo da sexta parte do livro: problemas de
pedagogia prática. Backheuser insere neste capítulo uma síntese dos planos de
educacionais norte-americanos e europeus, faz-lhes uma leitura crítica e mostra suas
vantagens e deficiências, na prática educacional no Brasil. Todos os grandes
problemas de pedagogia da época são tratados por Backheuser nesta síntese, cuja
finalidade principal é levar os católicos a aderir às renovações do movimento
educacional, mantendo sua identidade católica.
Temos razões para crer que o livro de Backheuser publicado em 1934 foi uma
espécie de programa para a CCBE, fundada por ele, e para a Revista Brasileira de
Pedagogia. A Revista discutiu continuamente toda a problemática educacional da
época e foi amadurecendo aquilo que chamamos, em nossa dissertação de mestrado,

214
de escolanovismo católico. Todos estes elementos são postos à disposição dos
educadores católicos, que vão fazer circular suas idéias educacionais no intuito de
conformar o campo pedagógico. É como se fosse a munição para uma campanha que
será levada a frente pela recém-fundada CCBE. É de posse deste arsenal que os
educadores católicos saem para a luta, com o objetivo de conquistar o campo
pedagógico. Cada nova situação vai ser enfrentada no seu tempo e com as devidas
adaptações.28

2. Os impressos no embate pela conquista do campo pedagógico

Os temas que apareceram na biblioteca pedagógica católica da CCBE


continuamente se repetem, direta ou indiretamente. E existe uma ligação muito
grande entre eles. São temas basicamente relacionados com a teologia, a fé e a
ciência, no sentido moderno de termo, e a filosofia. São temas que revelam os
maiores interesses dos católicos no campo educacional. Porém, se de um lado existe
esta revelação, do outro percebe-se, ao olhar o conjunto dos temas, um silêncio nada
revelador de tantas outras questões centrais que envolvem a questão da cultura
brasileira, tema de fundo da preocupação dos intelectuais. São, por exemplo, as
questões políticas que marcaram a história do Brasil na década de 30, como a
Revolução Constitucionalista de 1932 e o golpe do Estado Novo em 1937: questões
sérias que não são discutidas nas páginas da RBP.
Vamos desenvolver esta nossa reflexão retomando os grandes temas
levantados nas resenhas feitas dos impressos divulgados pela RBP. Didaticamente,
vamos procurar esquematizar estes temas em torno dos aspectos que Backheuser
elegeu em Técnicas da Pedagogia Moderna, em 1934, quando abriu um capítulo de
reflexão sobre pedagogia e ciências correlatas. Entre estas, segundo o esquema de
Backheuser, estão a filosofia, a biologia, a sociologia, a psicologia, a ética ou moral,
e a relação entre a sociologia e as ciências, as letras e as artes. Já em 1942, no

28
Pode-se ainda citar, com as mesmas características, o livro Pedagogia, do pe. Carlos Leôncio
(1937). Não trabalhamos com esta obra porque a Revista desapareceu logo que o livro foi publicado.
Outro livro que merece ser lembrado é Escola Nova, de Jônatas Serrano (1932). Embora com um bom
conteúdo, não recebeu tanto realce nas propagandas da RBP.

215
Manual de pedagogia moderna, Backheuser definiria as ciências basilares ou
correlatas da pedagogia como sendo a biologia, a psicologia, a estruturalística, a
biotipologia, a ética ou moral, a filosofia, a sociologia, as ciências, as letras e as
artes. Isto é testemunho de que a pedagogia católica estava se construindo.
Levantados os pontos de discussão, vamos retomar os critérios usados para
elaborar as resenhas. Vamos nos valer das não tanto das reflexões trazidas nas
resenhas, porque são quase sempre muito resumidas, mas sobretudo das teses e de
artigos que aprofundavam as questões. Sem esquecer, é claro, os elementos que já
foram comentados, a encíclica Divini illius magistri e os manuais de pedagogia,
brasileiros ou não.
Dentre as teses apresentadas nos Congressos, uma nos chama a atenção,
porque sistematiza as grandes divergências entre a pedagogia católica e a pedagogia
moderna. É a tese defendida pelo pe. Helder Câmara, intitulada ―Excessos da
pedagogia moderna‖ (cf. Câmara, 1934). O trabalho do sacerdote católico
sistematiza, à luz da DIM e dos mestres católicos da pedagogia moderna, as críticas
mais comuns entre os católicos. Ele ponta onde se encontram as falhas nas doutrinas
dos educadores modernos e, resumidamente, diz o porquê da falha que torna,
segundo a pedagogia católica, aquela doutrina uma ―doutrina sectária‖.

2.1. Pedagogia e ciências correlatas

2.1.1. De Hôvre

Falar de pedagogia católica é falar de questões teológicas. Quem sistematizou


um pouco mais as questões relacionadas à pedagogia católica foi também De Hôvre.
Sua obra Le catholicisme: ses pédagoges, sa pédagogie (1930) é uma reflexão
esclarecedora sobre o ―caráter essencial da pedagogia católica‖.
Para De Hôvre, a primeira característica essencial da pedagogia católica pode
ser encontrada na sua conexão orgânica com o catolicismo. O próprio catolicismo
seria uma pedagogia, e a ciência da educação só poderá encontrar sua condição
essencial na pedagogia católica, pois que toda pedagogia seria baseada numa
doutrina de vida, como é o catolicismo. Para De Hôvre, esta é uma lei fundamental.

216
Os educadores modernos, segundo De Hôvre, tentam negar continuamente
esta lei. Encaram-na como um freio ao progresso ou uma realidade de segundo plano.
Já no catolicismo esta é uma lei sentida instintivamente. Os católicos a sentem
consciente e sistematicamente como a base da pedagogia: ―Filosofia e pedagogia
católicas são inseparavelmente unidas: uma dentro da outra. A conexão orgânica
entre as duas é questão de ‗ser ou não ser‘‖ (Hôvre, 1930:416). O estudo desta
conexão conduz ao abismo existente entre as filosofias e pedagogias modernas, de
um lado, e o catolicismo, de outro.
As filosofias modernas são teorias de livros sem contato com a realidade, com
o homem concreto. Sua pedagogia é estéril e sem potência. Pode-se lutar, discutir e
até morrer com estas teorias, mas não se pode viver e educar com as mesmas, afirma
categoricamente De Hôvre. A concepção católica do mundo e da vida já traz em si
uma pedagogia. A existência de Deus, a criação, o Deus amor, o homem criado à
imagem e semelhança de Deus, a imortalidade da alma, os quatro últimos fins do
homem (morte, julgamento, céu ou inferno) são, para De Hôvre, não só revelações
teológicas do mundo invisível, mas um fundamento, uma luz, uma força, uma
disciplina de vida para espírito humano. Deve-se dizer o mesmo da moral, dos
exemplos dos santos, da liturgia, dos sacramentos, da eucaristia, dos retiros e do
conjunto da comunidade eclesial. É aqui que se encontram, para De Hôvre, as fontes
de sabedoria educadora. Está nesta realidade a força dinâmica que transforma o
homem e o instrui, que o disciplina e o engaja, que o faz retornar a si mesmo,
recolher-se, governar-se e se elevar a Deus (cf. Hôvre, l930:417-418).
De Hôvre cita Stanley Hall e defende a idéia de que a Bíblia é o maior dos
manuais de psicologia e a obra-prima da pedagogia (cf. Hôvre, 1930:418). O
catolicismo seria ao mesmo tempo uma doutrina e uma pedagogia. E, para a Igreja, a
pedagogia não é uma área especial de estudos, mas um órgão do organismo católico.
A própria Igreja seria um sistema pedagógico: cada paróquia, uma escola; cada
santo, um pedagogo (cf. Hôvre, 1930:418).
Diante de tudo isto, pode-se entender a luta dos educadores católicos para
sistematizar esta pedagogia que não está sistematizada, que não se encontra em livros
— uma pedagogia que se sentia ameaçada.
Em artigo no qual apresentou o mestre flamengo De Hôvre como um dos
grandes mestres da pedagogia católica, o pe. Helder Câmara fez críticas a vários

217
pedagogos da época, à luz de uma filosofia educacional católica, e afirmou
positivamente: ―A tudo e a todos contrapõe a pedagogia católica — ampla de uma
amplitude que supera todas as antinomias e que abrangendo a realidade humana toda
se alça ainda aos valores sobre-humanos e sobrenaturais‖ (Câmara, 1936a:30; grifo
nosso).

2.1.2. As doutrinas ―sectárias‖

Feito esta observação que demonstra o pensamento católico a respeito da


pedagogia, vejamos como este ponto era tratado no conflituoso campo pedagógico e
quais as doutrinas que os educadores católicos detectavam como ―sectárias‖ e
criticavam à luz das idéias expostas.
Um dos erros mais criticados, talvez o mais atacado pelos educadores
católicos, é o naturalismo, ou seja, a não admissão de mistérios — os católicos, por
sua vez, admitem mistérios em sua fé e defendem que é uma postura racional
reconhecer a existência dos mistérios. O naturalismo seria um dos excessos da
pedagogia moderna, segundo o pe. Câmara. Esta filosofia, para o educador católico,
era defendida por Ferrière em seu livro La pratique de l‟école active.
As críticas diretas ou indiretas a alguns educadores apontam a forma como
defendem no Brasil as idéias de Dewey e Kilpatrick. Trabalhando as grandes
características da sociedade moderna — o pensamento baseado na experimentação, o
industrialismo e a tendência democrática —, educadores como Anísio Teixeira
desenvolvem alguns pensamentos nesta linha, que vem de encontro aos dogmas do
catolicismo.
Aqui se encontra a base das crítica a Anísio Teixeira. Para os católicos,
Teixeira ataca a moral tradicional e advoga uma nova moral científica, como faz
Dewey. Seu pensamento busca o fundamento da moral apenas na razão e abandona
os preceitos imutáveis e eternos, prática que seria contrária aos princípios da teologia
católica. Esta a é mesma crítica que aparece na resenha do livro de Afrânio Peixoto,
quando Alceu da Silveira afirma que ele quer ―impor às crianças a moral do
imperativo categórico‖. A moral católica defende que o homem é marcado pela
queda, pelo pecado original. Para Anísio, não há culpa original; existem forças
capazes de levar o ser humano ao bem ou ao mal.

218
2.1.3. As críticas a Monteiro Lobato

Também passam por este espaço as críticas a Monteiro Lobato. Um episódio


comentado na própria Revista Brasileira de Pedagogia é o do ―inquérito sobre
leituras‖ feito no Colégio Jacobina, no Rio de Janeiro. Era fato que as crianças e os
adolescentes gostavam de ler Monteiro Lobato. Não era possível ficar indiferente às
suas obras. As críticas a Lobato podem se encaixar aqui mesmo nas questões
pedagógicas, que são também, para os católicos, questões teológicas. As teorias de
Darwin esbarram, assim pensavam na época, na doutrina católica da criação divina.
O desprezo aos milagres é uma outra afronta ao pensamento católico.
Observemos em mais detalhes uma discussão que envolveu os livros de
Monteiro Lobato. Esta polêmica ajuda-nos a demonstrar a apropriação que era feita
dos livros infantis e juvenis de Lobato criticados nas resenhas.
Num artigo da Revista Brasileira de Pedagogia (cf. ―Um inquérito sobre
leituras‖, RBP, vol. IV, ano 2, nº 19, p. 177-181, outubro de 1935), foi transcrito um
outro, do jornal Traço de União, órgão das alunas do Colégio Jacobina no Rio de
Janeiro, assinado (só com as iniciais) pela própria Laura Jacobina Lacombe, diretora
do Colégio, que comenta o resultado do inquérito. Esclarece a articulista que, a
princípio, a idéia era fazer um levantamento dos livros que tinham maior circulação
na Biblioteca Heitor Lira da Silva do Colégio Jacobina, que estava completando dez
anos de funcionamento. Concluíra-se que este tipo de levantamento não daria uma
idéia real do que se lia, pois as estudantes podiam estar lendo livros que não faziam
parte do acervo da Biblioteca. Diante disto, surgira uma nova proposta, a de fazer um
inquérito, apresentando-lhes duas perguntas: quais os três livros de que mais gostou
até hoje? Qual o seu autor predileto?
O inquérito envolvera todas as classes do Colégio. Laura Jacobina Lacombe
compara-o com outro inquérito feito em quase todas as escolas do Distrito Federal,
em 1926, nove anos antes. Neste, conduzido por Armanda Álvaro Alberto, da
Associação Brasileira de Educação, verificara-se a predileção das crianças por
Arnaldo Barreto. Agora, o curso primário tinha apresentado uma clara preferência
por Monteiro Lobato.
Laura Lacombe comenta:

219
Monteiro Lobato é o autor que sabe realmente interessar às crianças com o seu estilo
humorístico e pelas situações interessantes e empolgantes que se encontram nas
histórias que compõe. Mas... há um mas, ou aliás, alguns! Não abusará às vezes
Monteiro Lobato da fertilidade da imaginação infantil? O grande crítico Alceu da
Silveira, com razão, reprova o casamento de um porco com uma boneca. Sai por
demais do domínio da realidade! Não poderia este autor, às vezes, não descer a
termos muito pouco elevados, que não são por vezes usados na verdade pelas
crianças e que no entanto não devemos aprovar? E ―last, but not least‖, a sua
História do mundo, que poderia ser tão boa, está eivada de uns sectarismos
protestantes naturalmente fruto de sua estadia na América do Norte. Só pode ser lida
sob a orientação de uma pessoa esclarecida que vá suprindo estas lacunas (―Um
inquérito sobre leituras‖, RBP, vol. IV, ano 2, nº 19, p. 179, outubro de 1935).

Depois destas expressivas palavras, o artigo expõe o resultado final do


inquérito no curso primário. São 104 livros diferentes, dos quais os preferidos foram
os seguintes: Caçadas de Pedrinho, dez votos; Jéca Tatuzinho, nove votos; Emília
no País da Gramática, seis votos; Caçada da onça e Reinações de Narizinho, cinco
votos; Tarzan da selva e Viagem ao céu, quatro votos; Carochinha, Circo de
escavalinho, Contos do país das fadas, João Nariz, O menino lobo, O pássaro de
fogo, Princesa Rosita e Tesouro da juventude, três votos; autor predileto, Monteiro
Lobato, com 31 votos. Os demais livros tiveram de um a dois votos, e 54 votos foram
distribuídos entre 14 autores.
A diretora começa seu comentário sobre o resultado do inquérito no curso
secundário com um lamento: ―Confessamos que aqui foi o nosso desapontamento: a
biblioteca possui livros de José de Alencar, de Dickens, de Walter Scott, Colette
Yver, e outros autores nacionais e estrangeiros que procuramos fazer conhecer das
alunas‖ (―Um inquérito sobre leituras‖, RBP, vol. IV, ano 2, nº 19, p. 179, outubro de
1935). O desencontro entre aquilo que há na biblioteca e aquilo que realmente se lê é
a causa do desapontamento. Ela tenta uma explicação e afirma que, pouco tempo
antes, as alunas ―maiores e médias‖ liam os livros em francês, mas, com o
aparecimento de traduções para o português, foram se desinteressando pelos livros
no idioma original. Nota entre as estudantes a tendência pelos ―romances que são
aproveitados pelo cinema‖ e pelos romances policiais. Quanto aos autores mais lidos,
Delly recebeu o maior número de votos, 19. Confirmava-se o que já se vira, mas
agora as alunas liam os livros traduzidos não mais no original. Outros autores mais

220
votados foram Edgard Wallace, com 12 votos, e Humberto Campos, com dez votos.
Foram distribuídos 83 votos para 25 autores diferentes. Os livros mais votados no
curso secundário foram: Tarzan, o filho das selvas, 16 votos; Pimpinela Escarlate,
15 votos; Mulherzinhas, dez votos; O círculo vermelho e O sheik, oito votos; Magali
e O homem de Marrocos, sete votos; A exilada, A pequena casa de Sloper, O
guarani e Os três mosqueteiros, seis votos; A cabeçuda, Freirinha, O fim de uma
valquíria, O rosário e Vencido, cinco votos. Diante desse resultado, Laura Lacombe
considera que ―a leitura não pode ser facultativa: o colégio tem que orientá-la
obrigatoriamente‖ e comunica que os professores de Português e de Literatura já
estavam tomando as devidas providências para orientar melhor a leitura, como já
acontecia no curso primário. Lamenta ainda a falta de gosto nas leituras, os livros
impróprios para a idade e, ―até mesmo, livros que são proibidos pela Igreja‖.
Interessante é a apropriação que a professora Lacombe faz das críticas de
Alceu da Silveira, o mais prolífico resenhista da RBP e, segundo ela, ―o grande
crítico Alceu‖. Isto demonstra que os comentários de Alceu da Silveira não só eram
lidos como também reproduzidos.

2.1.4. Tristão de Athayde

Pode-se conhecer o caminho para constituir o campo pedagógico por meio


das críticas e das reprovações; também se pode conhecê-lo mediante as indicações.
Aliás, estas são a grande maioria. Já fizemos um comentário sobre o livro de De
Hôvre (1930). Comentemos alguns outros dos que são mais citados.
Uma obra muitas vezes mencionada, embora não alcance destaque em
propagandas, é Debates pedagógicos, de Tristão de Athayde (1931). Seguidas vezes
são lembrados pontos da introdução a este livro, em especial a lista dos pontos de
referência da pedagogia elaborada pelo autor, lista que mostra por que os católicos se
opõem ao ―naturalismo societista ou ao individualismo agnóstico‖, como ele diz. A
lista é a seguinte:

a) A pedagogia, ramo da sociologia, subordina como aquela a sociedade à pessoa


humana, mas o indivíduo à sociedade.

221
b) Reconhece a necessidade essencial da sociedade, para que o indivíduo possa
atingir o seu fim. Não considera a sociedade como um contrato artificial e sim como
um meio natural do homem.
c) É pela ciência especulativa que se encontra o ideal pedagógico e não pelas
ciências experimentais. A pedagogia se forma de acordo com a nossa concepção
geral de vida.
d) Essa é a concepção pelo fim último em que se integram todos os fins parciais. O
ideal moral, portanto, governa o ideal intelectual e social.
e) A ética, por sua vez, se subordina à teologia, pois não vivemos em um estado de
abstração filosófica ou moral e sim de realidade histórica. E pela teologia
conhecemos os dados revelados de nossa posição real no mundo. Não chegamos,
portanto, a um espiritualismo abstrato, fundado apenas na razão ou no coração do
próprio homem, e sim à subordinação da instrução à educação e desta à cultura, por
meio também de uma hierarquia crescente da formação física, subordinada à
intelectual e essa à moral. Tudo isso unificado pela finalidade última do homem, a
qual não é um ideal abstrato e sim um ser concreto, o Ser em Si, o Deus Vivo que se
fez homem para nos salvar. A educação religiosa, portanto, é a chave de toda a
filosofia, a ciência e a arte pedagógica.
f) E finalmente, o caráter último dessa pedagogia que opomos ao naturalismo
pedagógico, em suas inúmeras modalidades modernas, é caber simultaneamente à
família, à Igreja e ao Estado, cada qual com a sua esfera de ação e sem que este
possa negar, de qualquer modo que seja, o direito de precedência que às duas outras
instituições, natural e sobrenatural, cabe, na organização social do ensino e da
educação nacional (Athayde, 1931:XI-XII).

Este esquema de Tristão de Atayde aparece citado muitas vezes. Em um caso,


pelo menos, é totalmente reproduzido: foi em novembro de 1937, quando a Revista
Brasileira de Pedagogia publicou, na seção ―Filosofia da Educação‖, um artigo de
Teobaldo Miranda Santos intitulado ―A pedagogia moderna e a educação cristã‖ (cf.
Santos, 1937). O artigo discorre sobre quatro correntes doutrinárias, consideradas
pelo autor as fundamentais da cultura ocidental, no âmbito educacional: a
―individualista‖, a ―socialista‖, a ―culturalista‖ e a ―personalista cristã‖. O autor
trabalha o conceito de pedagogia como ―técnica da cultura‖, ciência ―descritiva‖,
ciência ―fenomenológica‖, ciência ―normativa‖ e ciência ―poyética‖. Discorre sobre

222
a pedagogia como ciência, filosofia e arte. Finalmente, discute a pedagogia cristã,
enumerando seus postulados fundamentais, segundo Tristão de Ataíde.29

2.1.5. Pedro Anísio

Outro livro recebe destaque na ―biblioteca‖ da CCBE e mais ainda na do


Centro D. Vital: é o do Tratado de pedagogia, do monsenhor Pedro Anísio (1934).
Trata-se de um exemplo clássico de como tratar das questões pedagógicas,
relacionando-as com a filosofia e com as ciências em geral.
Anísio inicia seu livro com uma longa introdução em que reflete sobre a
evolução histórica e filosófica da pedagogia. Numa primeira parte, discorre sobre o
―movimento pedagógico‖ desde a Antigüidade até Herbart, com quem surgiram

29
Quanto à corrente ―personalista cristã‖, ―educação é um processo, ao mesmo tempo natural e
sobrenatural, visando a formação da personalidade integral do homem‖ (Santos, 1937:272). Como
processo natural, esta educação visaria a fins relativos e temporais, que são o desenvolvimento físico,
intelectual e moral do homem e sua preparação para as diversas modalidades de vida. Como processo
sobrenatural, buscaria um fim espiritual e absoluto, que é a união da pessoa com Deus. ―Segundo o
conceito personalista cristão, a educação deve ter por finalidade a formação total da personalidade
humana como ser, ao mesmo tempo, individual, social e espiritual, o desenvolvimento harmonioso
dos seus atributos físicos, intelectuais e morais, a sua preparação para os dois planos ontológicos da
existência: o natural e o sobrenatural‖ (Santos, 1937:273). A pedagogia científica, outro conceito
trabalhado no artigo, não pode, como ciência experimental, estabelecer os fins da educação, problema
que, segundo o autor, só pode ser resolvido pela filosofia ou pela religião. A ciência diz o que é e não
o que deve ser. Levando em consideração que é necessário também aplicar os métodos pedagógicos, a
pedagogia é ciência quando estuda os métodos da educação, filosofia quando pesquisa os fins da
educação e arte quando aplica, com segurança, os métodos para atingir os fins (cf. Santos, 1937:278).
Os elementos naturais integrantes da pedagogia seriam: 1) o educador, causa eficiente da educação; 2)
o educando ou realidade pedagógica, causa material da educação; 3) os fins da educação ou ideais
pedagógicos, causa final da educação, problema fundamental da pedagogia; 4) o meio da educação,
ambiente pedagógico dentro do qual se realiza o processo educativo; e 5) o método pedagógico, causa
formal da educação. O que confere, porém, um caracter de harmonia, de ―integralidade‖ e de
perfeição a uma pedagogia é a subordinação desses elementos pedagógicos ―a uma hierarquia racional
de meios e de fins, onde os valores espirituais e absolutos preponderem sobre os valores materiais e
relativos‖ (Santos, 1937:282). Essa hierarquia harmoniosa de valores seria o fundamento e a diretriz
da pedagogia cristã, ―pedagogia que subordina os aspectos acidentais e efêmeros aos aspectos
essenciais e eternos da vida‖.

223
tendências ―sérias para dar base cientifica à Pedagogia‖ (Anísio, 1934:22). No
segundo momento, o autor aborda Rousseau e a pedagogia do Emílio. São quase seis
páginas de crítica ao pedagogo francês, como que responsabilizando-o por todos os
―males‖ da pedagogia da época.30 Na terceira e última parte da introdução, volta-se
para a Escola Nova e comenta a filosofia imanentista que rejeita toda transcendência.
Para o autor, todos os sistemas filosóficos depois de Kant até aqueles dias não são
mais que aspectos do monismo, ou seja, sistemas que só admitem uma realidade,
aquela onde não há lugar para um ―Deus transcendente, pessoal, distinto do mundo‖
(Anísio, 1934:29). Esta filosofia traz conseqüências para a pedagogia, e a Escola
Nova, imbuída desta filosofia ―onde quer que foi implantada, rompeu com as
tradições católicas‖ e proclamou o naturalismo pedagógico.
Anísio utiliza-se das idéias dos educadores conhecidos na época e dá
relevância às novas discussões no campo educacional. Suas reflexões são feitas à luz
da filosofia aristotélico-tomista, das encíclicas papais, em especial da ―Acerca da
educação cristã da juventude‖ (Divini illius magistri), de Pio XI, e da teologia
dogmática e moral católica em geral. Mas não menciona De Hôvre, autor
amplamente citado no período.
As citações de Aristóteles e Santo Tomás não são muitas. Quantitativamente,
observa-se uma nota de rodapé citando uma obra de Aristóteles (p. 14) e 12 notas de
rodapé citando obras de Santo Tomás de Aquino (ps. 125, 205, 207, 208 — três
vezes —, 111, 142, 151, 234, 241 e 314. Outras citações mostram de forma um
pouco menos direta a influência destes autores: um exemplo é a citação de trabalhos
do próprio Anísio sobre a filosofia tomista, como é o caso da obra mencionada à
página 127 (A filosofia tomista e o agnosticismo contemporâneo).
Quanto à encíclica de Pio XI, há seis notas de rodapé que fazem alusão ao
texto, às ps. 64, 91, 97, 108, 109 e 112.
Numa nota um pouco extensa, à p. 44, Anísio cita Claparéde, e lembra a
pedagogia dogmática (ou teologia), que busca na moral, na filosofia, na estética, na
religião, na sociologia e na política o ideal que orienta a ação educativa,

30
―Desde Rousseau, na verdade, o Estado tornou-se leigo, e a moral, de todo em todo emancipada,
perdeu a sua eficácia; o direito veio ser substituído pela força bruta e, com o tremendo eclipse dos
ideais cristãos, reinou por toda parte, a cultura moderna acompanhada de seus falsos dogmas liberais e
suas teorias absurdas e monstruosas acerca da escola‖ (Anísio, 1934:25-26).

224
considerando no entanto que a ciência não é o caminho para terminar os fins da
educação.
A filosofia católica, na época em que o livro foi escrito, estava toda a serviço
da teologia. As bases da ação católica eram tiradas da própria teologia. Os temas de
teologia dogmática (pecado original), de teologia moral (formação cristã da
consciência), de teologia espiritual (o educador e a fé, a espiritualidade) são
desenvolvidos no Tratado e servem de evidência para demonstrar que, para Pedro
Anísio, não só a filosofia, mas a própria teologia deve servir de base da pedagogia.
No capítulo II (―O fim da educação‖), no artigo II (―O ideal cristão‖), à letra b
(―A ordem sobrenatural e a psicologia da educação‖), o autor trata do dogma do
pecado original e da sua conseqüência para a educação. O autor enfatiza que Deus
criou o ser humano ―em estado de elevação‖, no qual ―reinava o mais perfeito
equilíbrio entre as faculdades espirituais e materiais‖, mas o ser humano ―pelo
pecado cai do estado de justiça e inocência em que fora criado‖. Sem a graça de
Deus, o ser humano não pode, ―com seu próprio esforço, com os recursos apenas da
ordem natural alcançar a felicidade eterna a que foi destinado‖ (Anísio, 1934:88).
Como conseqüência, são necessárias a educação integral e uma ―pedagogia
genuinamente cristã para remediar os efeitos funestíssimos do pecado‖ (Anísio,
1934:88). É com esta convicção que o autor e os educadores críticos da época vão
defender a urgência de uma educação integral, inclusive a educação religiosa.
No capítulo III (―Pedeutologia‖), artigo I (―O educador, o mestre‖), o autor
trata da fé e da espiritualidade do educador. O mestre não pode, para Anísio,
desempenhar o seu ofício, tão árduo e espinhoso, sem se apoderar da fé. Só um
mestre que tenha fé poderá gerar convicções nos educandos.

Se ele não põe Deus em seus propósitos, em toda a ação educativa, se não tem os
mesmos sentimentos, as mesmas preocupações do Divino Mestre, exemplar de todos
os preceptores, todos os seu esforços serão frustrados; a sua palavra sairá fria, sem
produzir eco na alma dos alunos, não conseguirá jamais formar mentalidades sadias,
têmperas fortes, caracteres rijos, personalidades inteiriças (Anísio, 1934:94).

Em resumo, não haveria como separar a religião da escola, pois ―prescindir


de Deus na educação é mutilar a consciência humana [...] abater a nossa cultura e
regressar à barbárie‖ (Anísio, 1934:96). Anísio não discute se a teologia deve ou não

225
ser uma das ciências auxiliares da pedagogia. Opta por um método para desenvolver
uma teoria pedagógica e passa a aplicá-lo. A pedagogia deve ser a ciência dos fins,
porque todo seu valor vem do Fim, da desigualdade do homem, remido por Cristo,
reintegrado na condição sobrenatural de Filho de Deus (Anísio, 1934:97), como
afirma a encíclica sobre a educação da juventude.
No capítulo VII, o autor discorre sobre a educação moral e afirma que ―na
pedagogia é impossível separar moral de religião‖ (Anísio, 1934:225). Não se pode
aceitar o laicismo, pois é contra a natureza do homem, essencialmente religioso (cf.
Anísio, 1934:225). No artigo II (―Os sentimentos ideais‖), número 3 (―O sentimento
ético‖), fala da formação cristã da consciência e do coração, que teriam ―mais
estreitas relações com o problema da formação da vontade e do caráter moral‖
(Anísio, 1934:251).
A crítica mais direta aos educadores modernos brasileiros se encontra no
estudo dos métodos da Escola Nova: ―A escola ativa de Ferrière, a escola
progressista de J. Dewey, a escola nova de Lourenço Filho, Fernando Azevedo e
Anízio Teixeira não saem dos estreitos quadros do materialismo‖ (Anísio, 1934:33).
Em outra passagem, não mais do corpo do texto, mas em uma citação de rodapé,
Anísio aponta mais nomes:

A Escola Nova, conforme a entendem Sampaio Doria, Lourenço Filho, Gustavo


Lessa, Fernando de Azevedo, acha-se toda imbuída dos princípios do naturalismo
pedagógico e ruma para a socialização da criança, postulado fundamental do
comunismo russo (Anísio, 1934:98).

O autor considera que os princípios essenciais da escola ativa não estão


necessariamente ligados ao naturalismo, que é contrário aos princípios cristãos.
Nas últimas páginas de seu livro, Anísio faz elogios a ―escola ativa‖, a escola
do trabalho (Arbeitschule). Separa os conceitos de ―escola ativa‖ e ―escola nova‖, e
refere-se à primeira com as seguintes palavras: ―Desta escola já fizemos o encômio
em quase todas as páginas desta obra‖ (Anísio, 1934:356). Usa ainda os conceitos da
escola ativa para defender sua posição contrária à co-educação (a escola mista),
tirando o argumento da própria reflexão sobre escola ativa e dizendo que ―umas são
as aptidões dos meninos, outras as aptidões das meninas‖ (Anísio, 1934:358).

226
De resto, o autor não entra em grandes polêmicas, a não ser aquelas que já
haviam sido levantadas por Pio XI na Divini illius magistri.

2.1.6. Everardo Backheuser

Tomemos um outro livro que foi um dos mais indicados pela RBP, Técnicas
da pedagogia moderna, de Backheuser (1934). Divulgar este impresso é destacar a
visão do autor sobre a educação integral e os ―princípios cardeais‖ da Escola Nova, a
iniciativa, a cooperação e o preparo para a vida. O conceito de educação integral dos
católicos serve, muitas vezes, de crítica aos ―pioneiros da educação nova‖,
especialmente quando eliminam do currículo laico a educação religiosa, a qual, para
os católicos, é um dos pontos da verdadeira educação integral. Para Backheuser,

para que haja educação integral cumpre que se desabrochem na criança,


contrabalançadamente, de um lado, as forças formadoras da personalidade, tanto as
do corpo como as da alma, e, de outro lado, aquelas que colocam o educando em
afinidade com o seu ambiente social (Backheuser, 1942:180).

O equilíbrio se encontra, segundo este educador, em uma ordem harmônica


entre as diversas disciplinas do ensino. Continuamos nossa reflexão dentro do
esquema de Backheuser em Técnicas da pedagogia moderna.

2.2. Filosofia

A filosofia católica é o pano de fundo de muitos dos julgamentos realizados


nas resenhas. A filosofia aristotélico-tomista aparece de forma mais direta em dois
livros apresentados na biblioteca pedagógica da RBP, que focalizam este tema. Um é
Filosofia da educação, de Sto. Tomás de Aquino (resenhado em março de 1936).
Trata-se de uma tradução comentada da obra De magistro. Muitos comentários e
artigos da Revista discutem o valor da filosofia aristótelica-tomista para a educação.
Procura-se mostrar que a idéias modernas sobre escola ativa já se encontravam nas
idéias do educador católico do século XIII. Outro livro é Filosofia, pedagogia e
religião, de Lúcio José dos Santos, resenhado em fevereiro de 1937.

227
Dentre os impressos que temos em nosso cadastro, foi de De Hôvre quem
começou a tratar de forma orgânica o tema da filosofia de educação católica. Em
Ensayo de filosofía pedagógica (1947), ele desenvolve, logo na introdução, uma
exposição para demonstrar que não existe pedagogia que não seja inspirada por uma
filosofia e que a grande força da tradição pedagógica católica, em todos os tempos,
foi uma filosofia pedagógica católica, clara, sólida e universal. Segundo o autor,

esta ―Filosofia Pedagógica‖ pode muito bem não se manifestar nos manuais e
tratados de pedagogia católica. Nem por isto serve menos de base na prática
educativa, tanto na da mais modesta religiosa educadora, como na da mais humilde
mãe de família. Em matéria de educação, o espírito é muito mais vivo que a letra, a
prática muito mais ampla que a teoria, o não escrito muito mais importante que o
escrito, o coração muito mais profundo que a cabeça. A educação é o grande campo
das imponderáveis, a força secreta da educação católica firma-se em seu instinto
para os imponderáveis. Com respeito à educação católica, a filosofia pedagógica
pode-se comparar ao cimento de um edifício: oculta-se da visão, é certo, mas seu
poder de resistência manifesta-se quando se desencadeia a tempestade das paixões
(De Hôvre, 1947:23; minha tradução).

Destas palavras, concluímos que, para De Hôvre, a educação católica é uma


prática desenvolvida sem muita reflexão, sem sistematização mais ampla. Em seu
trabalho, recolhe diversas concepções educacionais e as critica à luz da doutrina
cristã. No último capítulo do Ensayo, ele desenvolve as idéias do fr. W. Foester,31
buscando justamente neste estudioso novas luzes para a pedagogia católica que deve
ainda ser sistematizada.
Na conclusão do texto que abre seu livro, De Hôvre deixa clara sua convicção
na força da filosofia pedagógica católica, aquela que deve perpassar toda a pedagogia
moderna, e afirma que ―a Pedagogia Moderna tem necessidade de uma ‗revolução
conservadora‘, um renascimento, se vale a frase; de ser rebatizada na eterna fonte de
juventude de Juvêncio da Filosofia Pedagógica Católica‖ (De Hôvre, 1947:24; minha
tradução).
Ao rever as listas de os impressos indicados com reservas, percebe-se uma
série de questões polêmicas relacionadas à filosofia. O livro História da educação,

31
Foerster nasceu em Berlim em 1869 e dedicou-se ao estudo da filosofia da cultura, da moral e da
pedagogia. É considerado por De Hôvre como o ―filósofo da cultura‖.

228
publicado em 1933 por Afrânio Peixoto, por exemplo, recebeu críticas como ―ataque
à filosofia‖, ―ataques exagerados à arte medieval‖ e ―moral do imperativo
categórico‖. Entre os livros desaconselhados, nota-se que o critério de julgamento
foi, não poucas vezes, a filosofia. O livro de Anísio Teixeira, Em marcha para a
democracia, é acusado por Alceu da Silveira de trazer contradições sobre a Idade
Média, de veicular idéias errôneas, como o antifinalismo, o imanentismo, o
liberalismo e o pragmatismo. Em muitas resenhas, aparecem frases que, de certa
forma, repetem: ―O autor comete deslizes no campo filosófico‖.
Por que a defesa da filosofia tomista? Por que esta preocupação com a Idade
Média? Qual o problema do antifinalismo, do imanentismo do liberalismo e do
pragmatismo? Qual o problema da defesa do imperativo categórico de Kant?
É claro que as resenhas não se prestam a discutir os porquês; deixa-se isso
para os artigos, as teses dos congressos, os livros e os cursos. São vários, como já
dissemos, os textos que discutem as questões filosóficas aplicadas à pedagogia. Estes
textos são importantes porque refletem, de forma sistematizada, sobre os pontos
levantados nas resenhas.
De forma mais direta, o tema foi tratado no 1º Congresso Católico de
Educação promovido pela Confederação Católica Brasileira de Educação, em que foi
apresentada uma tese intitulada ―Relatório sobre o inquérito de filosofia
educacional‖. Este inquérito nasceu por sugestão do professor Leonardo Van Acker,
da Faculdade de Filosofia de São Bento e do Instituto Superior de Pedagogia de São
Paulo. Uma comissão executiva consultou vários professores e pediu que
respondessem ao seguinte questionário: ―1. Como distingue V. Exa. a filosofia da
educação da pedagogia propriamente dita? 2. Como concebe as relações entre
ambas? 3. Quais os principais problemas de filosofia pedagógica — os mais
interessantes no Brasil? 4. Deve a sua solução ser puramente filosófica ou
impregnada da teologia? 5. Quais as fontes literárias atuais de filosofia educacional,
em harmonia com a doutrina católica? 6. Quais as lacunas nestas fontes e na prática,
em matéria de filosofia educacional?‖ As conclusões do relatório foram aprovadas na
comissão que estudou o assunto, mas não levadas a plenário. São as seguintes:

1. Reconhecimento da autonomia relativa da ciência pedagógica, em face da


filosofia e teologia da educação. 2. Conveniência de construir uma filosofia
pedagógica, em moldes rigorosamente filosóficos, de modo a atender às

229
inteligências honestas afastadas do catolicismo. 3. Oportunidade de construir uma
teologia pedagógica, nos moldes rigorosos desta ciência. 4. Aconselhar o estudo do
inglês e alemão para fins de divulgação dos mestres católicos da pedagogia moderna
(Acker, 1935b:156).

Não entraremos aqui nas discussões que o relatório apresentado suscitou, mas
é interessante comentar, ainda que rapidamente, as duas primeiras destas conclusões.
Quanto à ―autonomia relativa da ciência pedagógica, em face da filosofia e
teologia da educação‖, os educadores católicos da época eram unânimes no
reconhecimento da necessidade de uma filosofia educacional, ou filosofia
pedagógica. De forma geral, acreditavam que a filosofia educacional era a teoria, a
especulação, o juízo de valor, e a pedagogia era a prática, a ação, o juízo de
existência. A primeira apontaria os fins e a segunda, os meios. Uma crítica recorrente
nas resenhas era a questão dos fins, e só a filosofia poderia definir estes fins, como
eram entendidos pelos educadores católicos. Sem reduzir a pedagogia a pura técnica
educativa, alguns educadores católicos afirmavam que a pedagogia não deixava de
ter uma parte teórica, que estaria ligada à história da educação e à psicologia
educacional, sempre fundamentadas na filosofia educacional. Com estas
considerações, chegava-se ao cerne da problemática, ou seja: a pedagogia é ou não
uma ciência pedagógica autônoma? Percebe-se nas discussões que havia uma nítida
divisão entre os mestres católicos sobre este assunto; todos, porém, concordavam que
era necessária, para a educação, uma clara filosofia pedagógica. E, mesmo aceitando-
se uma certa autonomia da pedagogia, esta autonomia não levaria ao positivismo, se
houvesse uma filosofia pedagógica a sustentá-la.32 As discussões levaram à
constatação de que havia uma autonomia relativa da pedagogia e que esta deixava
caminhos abertos para o ―aproveitamento das pedagogias modernas pela educação
católica, universalista, acolhedora e integralizadora de toda a verdade‖ (Acker,
1935b:149).

32
―A pedagogia tem por objeto: formas, instituições, métodos, leis e fins históricos daquela função
cultural autônoma, chamada educação. Por sua vez, a filosofia determinaria a essência e os valores
fundamentais da educação e da pedagogia científica. A filosofia seria, pois, a reflexão crítica sobre os
princípios ou pressuposições (Voraussetzungen) da pedagogia científica, valorizando a essência do
fato educacional bem como dos pressupostos epistemológicos que regem os métodos e fins da ciência
pedagógica‖ (Acker, 1935b:147).

230
A segunda conclusão dos líderes católicos refere-se à conveniência da
construção de uma ―filosofia pedagógica, em moldes rigorosamente filosóficos‖,
com o intuito de atender educadores afastados do catolicismo. Fato interessante para
aqueles que querem conquistar o campo educacional, aqueles que tinham como meta
constituir um campo pedagógico católico que perpassasse toda a educação nacional.
Buscou-se discutir as fontes de filosofia educacional em harmonia com a
doutrina católica. Foram citados alguns autores. De Hôvre, em primeiro lugar, e em
seguida Vaissière, Devaud, Tristão de Athayde e Pedro Anísio. Chegou-se mesmo a
afirmar que a discussão levantada poderia, talvez, resultar em alguma luz para os que
trabalhavam ―no campo virgem da filosofia pedagógica‖. Ficou clara a idéia de que
todos sentiam falta de uma filosofia pedagógica sistematizada, em harmonia com o
catolicismo. Lembrou-se, ainda, que esta era a opinião do filósofo católico Jacques
Maritain.
Backheuser procurou sistematizar a questão da filosofia nas Técnicas da
pedagogia moderna. Para ele, a filosofia é a pedra angular da pedagogia. Faz esta
afirmação alicerçado em De Hôvre e Foerster. Considera que as maiores
divergências entre os educadores encontram-se no campo filosófico, nos aspectos
filosóficos da pedagogia, na questão dos fins da educação. Se a finalidade da vida é
vista só de forma natural, tem-se um tipo de educação; se for vista de forma
sobrenatural, o caminho da educação é outro. No primeiro caso, aumenta-se o
potencial científico e literário, menosprezando o aspecto das virtudes morais.
Para Backheuser, a nova concepção de felicidade, centrada no trabalho pelo
trabalho, levaria à pedagogia progressivista, que os norte-americanos haviam lançado
e os sul-americanos estavam a propagar. Toda pedagogia baseia-se em uma filosofia,
e a verdadeira filosofia seria aquela apoiada numa verdadeira filosofia de vida, o que
não aconteceria com a pedagogia progressiva. A filosofia vai detectar dois
unilateralismo em pedagogia: o individualista e o socialista. O primeiro
supervalorizava a iniciativa e o segundo, a cooperação.33 A proposta do papa Pio XI

33
―O individualismo se manifesta em diversos campos. No terreno religioso toma [...] a feição da
reação protestante; é o livre exame dos textos sagrados, é a desordem da disciplina eclesiástica. No
campo político, são as tentativas de demagogia liberal que levam às correntes do anarquismo. Na
esfera econômica, é a possibilidade dos grandes milionários e o regime dos trustes. No ambiente
moral é a filosofia de Kant. O individualismo pedagógico tem, afora Rousseau, seus expoentes

231
era a ―ativa cooperação‖, ―nem apenas só iniciativa do aluno, nem apenas só
cooperação entre os alunos‖ (Backheuser, 1942:79).
Jônatas Serrano, em A Escola Nova, também reflete sobre questões filosóficas
e as coloca como uma problema fundamental da educação. Num texto intitulado ―O
pavor da metafísica‖, Serrano afirma:

É curioso observar o receio que denotam certos pedagogos ao tratarem do problema


fundamental da educação. Dir-se-ia que têm medo de parecer crentes, ou pelo menos
filósofos espiritualistas. É o pavor da metafísica de que não logram às vezes
emancipar-se robustas inteligências (Serrano, 1932:9).

Em 1935, a professora Aspásia Marques, da Cruzada de Educadores


Católicos de Pernambuco, publica na Rvista Brasileira de Pedagogia o artigo ―A
filosofia e o professorado‖. Os temas que discute são a conexão entre pedagogia e
filosofia, as correntes filosóficas modernas, o catolicismo como filosofia de vida e a
atitude que deverá tomar o professorado católico em face da filosofia (cf. Marques,
1935). A professora Marques expressa as idéias dos intelectuais católicos em geral e
declara que só a filosofia poderia dar à educação uma finalidade. A filosofia, porém,
estaria esquecida no movimento educacional. Como conseqüência, assistia-se ao
predomínio da técnica sobre os fins da educação. Contudo, quando se fala em
filosofia, fala-se em filosofia católica, pois apenas esta é considerada universalista e
integral, segundo a professora. De posse da filosofia cristã, a autora faz críticas ao
naturalismo (que, ao encarar o homem como produto da natureza, desvaloriza seu
lado espiritual), aos exageros do socialismo (que supervalorizaria o aspecto social) e
do individualismo (que supervalorizaria o aspecto individual da pessoa), ao
nacionalismo (para quem a nação é tudo) e ao pragmatismo (por reduzir o homem à
ação). Tais doutrinas seriam equivocadas, por operar com conceitos reducionistas.
Finalmente, convida o professorado católico a conhecer a filosofia que vai de Tomás
de Aquino a Jacques Maritain, ou seja, a conhecer o tomismo e o neotomismo, a
filosofia católica. Na filosofia tomista e neotomista encontrar-se-iam as bases da

representativos em Locke, Herbart e Spencer. Tudo pelo indivíduo [...] O socialismo, para se
contrapor ao individualismo, vai ao extremo de reduzir o cidadão a zero, para conferir ao Estado
direitos de predomínio absoluto‖ (Backheuser, 1942:77-78).

232
pedagogia católica, toda envolta em teologia. É à luz desta filosofia que os católicos
constróem suas críticas.
Também era interesse dos católicos fazer uma apreciação da Idade Média que
levasse em conta o valor da cristandade onde a Igreja católica era vista como aquela
que realizara a ―obra civilizadora máxima — a formação espiritual da humanidade‖
(Nascimento, 1935:73). Daí o ataque a toda visão que não apresentasse os valores
cristãos da Idade Média.
A filosofia moderna que foi se construindo depois dessas discussões
distancia-se cada vez mais da metafísica. É nesta que os católicos vão buscar os
princípios de suas teorias. Consideram que é pelo abandono da metafísica que
existem tantas falhas na educação moderna. É neste sentido que se pode compreender
Jônatas Serrano em A Escola Nova, quando, ao refletir sobre ―O pavor da
metafísica‖, afirma:

É curioso observar o receio que denotam certos pedagogos ao tratarem do problema


fundamental da educação. Dir-se-ia que têm medo de parecer crentes, ou pelo menos
filósofos espiritualistas. É o pavor da metafísica de que não logram às vezes
emancipar-se robustas inteligências (Serrano, 1932:9).

Segundo o pe. Helder Câmara, na defesa de sua tese ―Excessos da pedagogia


moderna‖ apresentada ao 1º Congresso Católico de Educação (cf. Câmara, 1935a), as
―doutrinas sectárias‖ relacionadas ao campo filosófico seriam as seguintes:
―mudança perpétua‖, pragmatismo, cientificismo, industrialismo e imanentismo. A
―mudança perpétua‖ seria a filosofia que defende o pensamento de que tudo está em
mudanças, é o ―vir a ser‖ contínuo. A pedagogia católica aceita que existam
mudanças, que são importantes, mas postula que não se podem esquecer os
princípios imutáveis da metafísica. Esquematicamente, a exposição do pe. Câmara é
a seguinte:

233
Mestre Divulgador
Doutrinas Obra Obra
estrangeiro nacional
Doutrina sectária: Kilpatrick Educação para uma Fernando de Novos caminhos e
mudança perpétua civilização em Azevedo novos fins, ps. 21 e
mudança, p. 45s. 115
Doutrina católica: Ferrière L‟école active, p. 13 Lourenço Filho Prefácio de
admite que Educação para uma
existem mudanças civilização em
mas não abrem mudança, p. 24
mão dos princípios Dewey Vida e educação, ps. Anísio Teixeira Educação
imutáveis da 9 e 33 progressiva, p. 24
metafísica

Outra doutrina sectária seria o ―pragmatismo‖, filosofia que defende o


princípio de que ―verdadeiro é o que resulta e enquanto resulta‖. Contrapondo-se a
esta filosofia, a pedagogia católica, fundada sobre os princípios de uma filosofia
aristotélico-tomista advoga que existe algo de perene no conhecimento humano e que
a filosofia que proclama a existência de princípios antes da ação é válida.
Esquematicamente, a exposição é a que segue:

Mestre Divulgador
Doutrinas Obra Obra
estrangeiro nacional
Doutrina sectária: Kilpatrick Educação para uma Fernando de Novos caminhos,
pragmatismo civilização em Azevedo novos fins, p. 21
(verdadeiro é o mudança, ps. 21 e
que resulta e 65
enquanto resulta)
Doutrina católica: Dewey L‟école et l‟enfant, Anísio Teixeira Em marcha para a
existe algo de ps. 33 e 8. German democracia, p. 35
perene no Philosophy and
conhecimento Politic, p. 126
humano; existem Claparède A educação
princípios a priori funcional, p. 212

O ―experimentalismo‖ ou ―cientificismo‖ é mais uma doutrina sectária neste


campo. Trata-se de ―uma atitude mental dos que reduzem a ciência aos dados dos
sentidos e dos aparelhos, com desprezo pelas conclusões especulativas ou racionais‖
(Câmara, 1935a:63). Para combater esta concepção, Câmara afirma a
complementaridade entre ciência especulativa e ciência experimental. Defende ainda
que, ―em geral, a ciência firma-se em dados metafísicos, envolve leis físicas e em
alguns casos morais‖ (Câmara, 1935a:65). Esquematicamente:

234
Mestre Divulgador
Doutrinas Obra Obra
estrangeiro nacional
Doutrina sectária: Claparède A escola e a Lourenço Filho Prefácio à
experimentalismo psicologia psicologia
(defesa da ciência experimental experimental de
experimental sem Piéron, p. 6
a ciência
especulativa)
Doutrina católica: Ferrière L‟école active, p. 13.
a ciência Pratique de l‟école
experimental e a active, p. 74
especulativa se Henri Piéron Psicologia
completam experimental, p. 16

Outro excesso da pedagogia moderna seria o ―industrialismo‖ ou o


―tecnicismo‖. Para explicar esta idéia, Câmara afirma: ―Sente-se que os pedagogos
formulam seus princípios lembrados de que estão no século das máquinas‖ (Câmara,
1935a:65). A crítica que faz é com a falta de cuidado, pois, ―na atual organização de
vida e de trabalho, a máquina devora o homem‖ (Câmara, 1935a:65). As idéias
criticadas foram retiradas de Ferrière (L‟école active, ps. 35, 44 e 53) e Kilpatrick
(Educação para uma civilização em mudança, p. 31).
Câmara também comenta o ―imanentismo‖ na pedagogia moderna. Esta
doutrina defenderia a idéia de que ―o que se passa no homem tem por causa
preponderante e única o próprio eu humano‖. ―Imanentismo moral é desconhecer
qualquer autoridade externa na descoberta e focalização dos preceitos morais‖ e
―imanentismo intelectual é considerar que todo ensino é feito de dentro para fora‖
(Câmara, 1935a:67). O expositor defende o princípio do equilíbrio na forma de
ensinar, pois ―os dois extremos são falhos‖, princípio que valeria tanto para o
imanentismo intelectual como para o imanentismo moral. Os autores e os livros
criticados são Claparède (Escola e a psicologia experimental, ps. 12 e 17), Ferrière
(L‟école active, p. 18), John Dewey (L‟école et l‟enfant, ps. 9 e 164) e Kilpatrick
(Educação para uma civilização em mudança, p. 38).
Um dos erros mais criticados pelos educadores católicos é o naturalismo, ou
seja, a não admissão de mistérios. Este seria o sétimo excesso, segundo o pe. Helder
Câmara. Para o expositor, esta filosofia é defendida por Ferrière em seu livro La
Pratique de l‟école active. Esta filosofia é criticada pelos católicos, que admitem
mistérios em sua fé e que é uma postura racional reconhecer a existência dos
mistérios.

235
Para o pe. Helder Câmara, mais outro dos excessos da pedagogia moderna
seria o democratismo. O educador critica a ânsia de formar os alunos nos princípios
democráticos e liberais. Acredita que o povo tomado sem organização é massa
―inconsciente e caprichosa‖. E completa:

A massa indiscutivelmente serve para formar os que sobre ela trabalham. Dela
poder-se-á conseguir com esforço continuado e tenaz uma elite relativa, capaz de
pensamento e expressão. Mas deixemo-nos de ilusões simplistas sobre a
possibilidade de governo do povo e pelo povo. O primeiro trabalho a empreender é
fazer a massa concretizar-se, personalizar-se com o ingresso de cada um para o
sindicato de sua profissão. Sem isto, todos se perderão no anonimato e
inexpressividade (Câmara, 1935a:66).

Estas idéias são retiradas de Kilpatrick (Educação para uma civilização em


mudança, p. 36) e Ferrière (L‟autonomie des écoliers, p.10).
Para concluir sua exposição, Câmara fez três propostas ao plenário.

1) Divulgação eficiente da doutrina dos mestres católicos renovados, capazes de


ombrear com os mestres renovados naturalistas. 2) Serviço eficiente de critica aos
excessos doutrinários da Escola Nova, quer distilados em livros de classe, quer
expendidos em trabalhos para mestres e estudiosos. 3) Atenção especial da CCBE
para com as províncias onde os livros rareiam ou chegam a peso de ouro —
realização para elas de bibliotecas ambulantes donde saiam, sob registro e por
determinado tempo, os livros mais dispendiosos e de maior valor (Câmara,
1935a:72).

As propostas foram todas aprovadas pelo plenário, com pequenas mudanças.


A terceira proposta foi subdividida em duas e a quarta ganhou esta redação: ―Pedir a
criação de bibliotecas ambulantes que façam circular pelos estados mais pobres em
livros as grandes obras fundamentais em pedagogia e filosofia educacionais‖
(Câmara, 1935a:72).
A tese de Câmara, no calor das discussões sobre a Escola Nova, pode parecer
um tanto marcada pelo clima belicoso do período. Acreditamos, porém, que nos dá
alguns elementos, até que de forma objetiva, para conhecer o programa teórico que
iluminava a prática dos educadores da CCBE. O próprio pe. Helder sentiu a
necessidade de destacar sua adesão à Escola Nova, apesar das críticas que fazia.

236
Em suma, quanto à questão filosófica, pode-se dizer que a grande crítica que
os educadores católicos faziam era que a filosofia moderna tinha buscado na razão a
base de todo o conhecimento, procurando se desvincular das explicações ou da busca
dos princípios baseados na teologia. Assim fizera Kant, na fundamentação puramente
racional para a moral. Nisto, segundo os católicos, está o seu grande erro.

2.3. Biologia educacional

Encontramos pouca coisa resenhada em termos de biologia educacional. Nem


mesmo o livro de Hamilton Nogueira e Tristão de Athayde, Ensaios de biologia
(1933), o primeiro a ser publicado pelo Instituto Católico de Estudos Superiores do
Centro D. Vital, encontra-se no inventário da RBP. Sabemos que esta obra foi
cuidadosamente preparado pelo Instituto. Talvez por não ser um livro muito didático
tenha ficado fora da biblioteca da CCBE.
Vejamos o resultado de um levantamento dos temas discutidos no Instituto
Católico de Estudos Superiores que foram transformados no livro Ensaios de
biologia. Diante do resultado deste levantamento, poderemos ter uma idéia das
maiores preocupações dos educadores católicos a esse respeito na década de 30.
Logo no prefácio, sobre o valor de livro, escreve Tristão de Athayde:

Realmente, o que aqui está não é apenas o primeiro fruto dos nossos trabalhos. É
também qualquer coisa de novo em nossos esforços intelectuais. Começamos a
mostrar concretamente, não só a íntima ligação entre os problemas especulativos e
os problemas práticos, mas ainda a ausência de qualquer incompatibilidade entre
religião e ciência como ainda por vezes o apregoam algumas vozes anacrônicas e
cansadas (Athayde & Nogueira, 1933:9-10).

Os Ensaios de biologia demostram uma preocupação com o conceito de vida


que, segundo os intelectuais católicos, tinha sofrido, com o naturalismo, o
positivismo e o materialismo, muitas deturpações. Os autores querem demonstrar que
a biologia não esgotava o domínio científico da vida, que a vida se desenrola em
termos de materialidade de forma decrescente e em termos de espiritualidade de
forma crescente. Acreditam que este é um conceito de vida mais rico e profundo,

237
pois se afasta dos atributos efêmeros do mundo sensível, para se aproximar do
mundo imortal das idéias divinas.
Como livro de eugenia, ciência que busca melhorar as condições físicas e
morais das gerações futuras, Ensaios tinha o mérito de demonstrar a ―perfeita
continuidade que existe, a despeito de certas aparências, entre natureza fisiológica e a
lei moral, no homem‖ (Athayde & Nogueira, 1933:13). Outro valor da obra, segundo
Athayde, era que vinha para ―esclarecer as consciências, dissipar alguns preconceitos
e guiar as vontades retas‖, num assunto de grande interesse para o homem moderno,
que eram os problemas da vida sexual.
Ensaios compõe-se de um conjunto de palestras. A primeira, ―Limites da
eugenia‖, fora proferida pelo próprio Tristão de Athayde, que questionava a posição
do eugenismo, atribuída a Darwin, que considera o homem somente como animal.
O segundo texto, ―Esterilização dos tarados‖, foi escrito por Hamilton
Nogueira. Para o autor, esta era a eugenia do nacionalismo norte-americano, que
acreditava que as taras eram transmitidas geneticamente; assim, a esterilização seria
uma medida eugênica. Nogueira, nesta questão, defendeu o princípio de Pio XI de
que os magistrados não têm direito algum sobre o corpo das pessoas e não podem,
por motivo de eugenia ou por qualquer outro motivo, ferir a integridade dos corpos
(cf. Athayde & Nogueira, 1933:63).
Barbosa de Quental, ao abordar a esterilidade voluntária e sua patologia,
questiona as idéias que defendiam os métodos anticoncepcionais, cujos estudos ainda
estavam incipientes em 1933. César Girard Jacob, em texto intitulado ―Crítica geral
do lamarckismo‖, discute as controvérsias a respeito da origem e da variabilidade dos
seres vivos, à luz da teologia da criação divina. Patrônio Rodrigues Chaves assina
―Biotipologia e suas aplicações médico-sociais‖ e discute as definições desta ciência
e seus reflexos na vida prática. Aspecto médico do birth control é o tema sobre o
qual escreveram Antônio Amarante e César Girar Jacob, também discutindo as idéias
de limitação dos nascimentos e as práticas anticoncepcionais. Waldir de Azevedo
Franco, em ―Eutanásia e biologia‖, defende a vida humana e tece críticas à eutanásia.
O último texto, de Nelson de Almeida Prado, sobre energética e biologia, define
energia, alerta contra o enunciado traiçoeiro de que na natureza nada se perde e
conclama à responsabilidade de cuidar da defesa da natureza contra a ação
destruidora do uso no decorrer dos tempos.

238
Diante destes temas, nota-se quais eram as grandes preocupações que os
educadores católicos, pelo menos os do Centro D. Vital, tinham com relação à
biologia.
Entre os livros inventariados na CCBE temos Biologia elementar, de Mello
Leitão, mas que não está resenhado. Sobre o tema classificamos apenas o livro
História do bebê, de Nardal Marsillac, resenhado na RBP de março de 1937.
Mesmo que haja uma pobreza em termos de biologia educacional entre os
livros resenhados, percebemos que o tema é polêmico e rico. Esta é mais uma
questão que envolve a polêmica entre ciência e fé, e neste aspecto as discussões são
mais presentes. Diga-se de passagem que, especificamente sobre este tema, foi
amplamente divulgado o livro do cônego Salim, Ciência e religião. No mesmo estilo
foi resenhado, na Revista de julho/agosto de 1937, o livro de Jean Fiolle, Ciência e
cienticismo.
Os livros de história natural recebem especial atenção dos católicos, porque é
nesta disciplina que se pode esbarrar no dogma da criação, pode-se passar uma
concepção do conceito de vida que vai de encontro a doutrina católica, ou passar uma
doutrina contrária à concepção católica, etc. Algumas indicações, sobretudo na seção
―Consultas‖, também alertam para certa tendência ao ―transformismo‖ (que
entendemos como sendo referência ao evolucionismo) criticado em algumas obras,
como é o caso do livro Anatomia, de Almeida Júnior.
A disciplina Educação Física é classificada dentro da biologia e das questões
de eugenia. Os livros resenhados, dentre os 188 impressos inventariados, são os de
Fernando de Azevedo, Da educação Física, em outubro de 1935, e de Sylvia Accioli,
Ginástica feminina, também em outubro de 1935. Na classificação por tema do
título, temos ainda O espírito cristão no esporte, de Michel Christian, resenhado na
Revista de julho e agosto de 1938. Além dos livros resenhados, encontramos uma
lista de livros sobre este assunto na seção ―Consultas‖ de maio de 1934 (ver Quadro
22, no Capítulo IV)).
Quanto a artigos publicados, servimo-nos das pesquisas que fizemos por
ocasião de nosso mestrado, classificando alguns artigos que a Revista publicou sobre
estes temas (cf. Sgarbi, 1997:130-134). Dentro do tema da educação física, temos,
por exemplo, uma conferência que Barbosa de Oliveira proferiu na APC do Distrito

239
Federal. A RBP nº 3, de l934, à p. l29, reproduziu-a na íntegra, com o título ―Os
esportes na formação da mocidade‖ (cf. Oliveira, 1934c).
A Divini illius magistri reservara para a educação física uma palavra especial,
retomada algumas vezes pelos educadores católicos. Dizia a encíclica: ―Nem se deve
considerar estranha ao seu magistério a mesma educação física, como hoje a
apelidam, precisamente porque é um meio que pode auxiliar ou prejudicar a
educação cristã‖ (Pio XI, 1930:8). A educação física desenvolvida pelos Estados
onde doutrinas nacionalistas se fortaleciam preocupava a Igreja. Daí a atenção que
era dada à questão.
Everardo Backheuser, ao discorrer sobre o tema da biologia em Técnicas da
pedagogia moderna (1934), fala de educação física e de higiene, mas não entra em
pormenores.

2.4. Sociologia educacional

Outra disciplina básica da formação integral, segundo Backheuser, seria a


sociologia educacional. Aqui, temos as disciplinas relacionadas com a educação
cívica se volta para a formação do cidadão. Um tema que aparece dentro desta
subdivisão é a educação doméstica para moças e rapazes. Esta ―educação manual‖,
como escreve Backheuser, deve ser trabalhada em aulas do curso secundário,
profissionais e, se possível, em escolas especializadas. Alguns destes temas foram
tratados em artigos da RBP (ver Quadro 40).
Dentre estas questões, a que gerou as maiores discussões foi a da disciplina,
ligada à questão da autonomia do aluno e à autoridade do professor. Este tema, para
o qual já nos voltamos, provocou debates entre os divulgadores laicos e católicos da
Escola Nova.
Para o pe. Helder Câmara, um dos excessos da pedagogia moderna seria o
socialismo. ―O socialismo pedagógico consiste em fazer do ideal educacional a
socialização pura e simples do educando. O homem é considerado produto da
comunidade. A sociedade é a grande realidade. A sociologia, a ciência das ciências‖
(Câmara, 1935a:70). Reconhecendo que a socialização sem excessos é excelente, o
autor critica as idéias que, por serem radicais, acabam supervalorizando o Estado,
quase sempre sem acompanhar sua finalidade, que não anula a autonomia dos grupos

240
menores. Esta teoria acaba por defender o Estado como a sociedade perfeita e
desvaloriza a atuação da Igreja. Para o pe. Helder, a defesa desta filosofia encontra-
se em Émile Durkheim, em sua obra Educação e sociologia. O divulgador nacional
desta filosofia foi, segundo ainda o expositor, Lourenço Filho, que a defendera no
prefácio do livro de Durkheim.

Quadro 40
Artigos selecionados sobre temas de sociologia educacional
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1938

Autor Título Vol. Página Ano


Mário Casassanta Ensaio sobre a disciplina 2 1 1934
M. L. Ferreira Lima O nacionalismo na escola primária 5 5 1936
Pe. Carlos Leôncio V Congresso de Educação Familiar 6 83 1936
A. B. da Silveira Educação moral e cívica 6 139 1936
E. Backheuser Inquérito sobre o Hino Nacional 7 47 1937

Destaquemos uma obra que não aparece na biblioteca da Revista Brasileira


de Pedagogia, mas mereceu o elogio de um dos maiores resenhista de livros, tanto na
biblioteca pedagógica do CDV, como na RBP. Os dois nomes são: Novelli Júnior,
professor de sociologia do Colégio Patrocínio de Itu, que publicou suas aulas no
pequeno volume Noções de sociologia (utilizado não só no Patrocínio, como em
outros colégios), e Jônatas Serrano, membro da Associação Brasileira de Educação,
uma espécie de ―resenhista oficial‖ da revista A Ordem.
A respeito do livro de Novelli escreveu Serrano um breve comentário,
divulgado no Rio de Janeiro em A União e transcrito no periódico das alunas do
Colégio Patrocínio, no ano de 1934.

É supérfluo aqui insistir no perigo e nas perniciosas conseqüências de noções


fundamentais mal apresentadas ou ministradas de acordo com preconceitos de
escolas. As próprias definições encerraram já um sentido que é difícil mais tarde
combater. O que fica estereotipado na memória ocorre naturalmente quando se
escreve ou fala. E muitos não podem ou não querem depois aprofundar o que
superficialmente decoraram, a fim de analisar criticar, joeirar. [...] É óbvia, portanto,
a vantagem de compêndios, de epítomes, de livrinhos elementares, mas exatos e bem

241
orientados, que permitam a fixação do essencial com os riscos já apontados. Tal se
nos afigura o trabalho do Prof. Novelli Júnior, de Itu, ―Noções de Sociologia‖, de
acordo com o programa do curso profissional das Escolas Normais (S. Paulo, 1934).
Claro, metódico, em 140 páginas resume o que é fundamental. E a bibliografia é
bem expressiva: nela encontramos entre outros, Henri du Passage, Lahar, Ch.
Antoine, Leonel Franca e Tristão de Athayde (O Patrocínio, Revista das alunas do
Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, Itu, ano V, nº 3, p. 23, 8/9/1934).

Se quisermos aprofundar um exemplo de apropriação dos grandes nomes da


sociologia por professores das escolas normais, Noções de sociologia, do professor
Novelli, é uma grande fonte.
Everardo Backheuser reserva um espaço considerável em seu Manual de
pedagogia moderna para criticar a sociologia norte-americana e para defender a
sociologia segundo o pensamento de Wilmann, De Hôvre e Dupanloup — enfim,
para defender a sociologia que está de acordo ou que reforça a pedagogia católica (cf.
Backheuser, 1942:79-85).

2.5. Psicologia educacional

Pedro Anísio, no Tratado de pedagogia, considera importantes todos os


métodos que ajudem a conhecer a alma da criança. Reconhece que os fatos psíquicos
são complexos e de difícil compreensão. Defende o pensamento de Claparède e
afirma que os métodos de psicologia devem se completar. Considera, porém, que os
defensores da Escola Nova põem de lado os métodos que não lhes interessam. E
―acastelam-se na observação objetiva e, de preferência, na teoria do comportamento,
o Behaviorismo dos Americanos que levam às suas últimas conclusões‖ (Anísio,
1934:33).
Para Anísio, a psicologia do comportamento pode se conciliar com a ―pura
doutrina de Aristóteles e de S. Tomás‖ (Anísio, 1934:34). Os inconvenientes nascem
é do abuso dos métodos.
Backheuser, no Manual de pedagogia moderna, reserva considerável espaço
para a psicologia. Faz ataques duros ao behaviorismo e à psicanálise. Também faz
críticas, não tão fortes, à psicologia de Jung e Adler. Por outro lado, defende a
psicologia estruturalista (Gestaltpsychologie) de Wertheimer, Kohler e Koffka. Esta

242
é a psicologia de que o próprio Backheuser se utiliza para escrever, na década de 40,
sua obra sobre biotipologia. Segundo o educador, esta psicologia permite que sejam
trabalhadas as doutrinas católicas de pedagogia, ao contrário das outras. Backheuser,
depois de fazer várias considerações sobre a psicologia estruturalística, esquematiza
suas considerações em um quadro em que mostra o valor daquela psicologia, até no
campo religioso.

Estrutura Na criança (em gérmen) No adulto (já desenvolvido)


Científica Ânsia de saber, indagação contínua Pesquisa para descoberta de leis
sobre todas as coisas e fatos. científicas. Tendência a novas
Curiosidade. descobertas. Insaciedade.
Artística Síntese fantasista. Mentira ingênua. O A arte, em qualquer de suas feições, gira
encanto para o novo, para as cantigas. em torno de um excesso de
Personalidade emprestada a tudo. personalidade e de fantasia.
Econômica Desejo de posse dos objetos. Querer ser Importância da realidade prática. O útil.
dona de tudo. Saber achar o valor (ou não valor) das
coisas.
Religiosa Confiança na palavra dos pais e A fé. O sentimento do sobrenatural. A
superiores (fé). Veneração. Imitação aos autoridade divina. O valor e finalidade
maiores. Desejo de agradar e temor de da vida.
desagradar.
Social Desejo de companhia. Os jogos em As relações sociais e de família. O
comum. espírito agremiativo.
Política Desejo de mando. O comando político; capacidade de
direção.
Fonte: Backheuser, 1942:58.

Não encontramos na RBP um texto que sistematize a questão de psicologia,


nem em artigos, nem em resenhas.
A gestalt é também citada no comentário de um livro de Lúcia Magalhães e
Joaquim Ribeiro, Estrutura e aprendizagem. Alceu da Silveira diz que o livro tem
seus valores, mas que é confuso em sua redação. Quanto ao behaviorismo, o mesmo
Silveira fala das contradições encontradas entre as obras Educação psicológica da
primeira infância, de John B Watson, e Psicologia experimentale, de Henri Pierón.
Em 1933, d. Xavier Mattos, O. S. B., ministrou a aula inaugural no Curso de
Psicologia Educacional do Instituto Católico de Estudos Superiores, no Rio de

243
Janeiro (cf. Mattos, 1933). No evento, Mattos comentou a posição dos que assinaram
o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, declarou que considerava-lhes a postura
―precipitada e entusiasta‖ com relação às ciências, onde buscavam os alicerces da
nova educação e lhes questionou o demasiado crédito na ciência experimental. Para
Mattos, este fato revelava que havia um desconhecimento da medida exata dos
progressos feitos pela ciência, que estava ainda começando a se desenvolver, ou que
poderia haver um desconhecimento da natureza do processo científico (cf. Mattos,
1933:509). Usando as palavras de Anísio Teixeira em Educação progressiva,
lembrou que o ―desenvolvimento das ciências é tão recente e tão incompleto que não
pode ainda conciliar todas as inteligências‖. E prosseguiu com a afirmação de que é
necessário moderar ―criteriosamente essas ‗expectativas exageradas... esses
entusiasmos... e essas audácias‘ de que nos adverte o Sr. Anísio Teixeira‖. Depois,
criticou Anísio Teixeira, que, embora reconhecendo a precariedade das ciências,
nestas demonstrava confiança quase irrestrita.
Destaco também um outro artigo de 1933, publicado integralmente na RBP
logo na sua segunda edição de 1934, pelo seu valor, reconhecido pela própria
Revista, na forma e na época em que apareceu. É assinado por Raymond Buyse,
professor de Didática Experimental e Metodologia na Universidade de Louvain. O
professor proferiu, em uma semana pedagógica, uma palestra que depois foi
publicada na revista La Femme Belge. Traduzido para o português, o texto foi
publicada na Revista Brasileira de Pedagogia com o título ―Tendências atuais da
educação‖ (cf. Buyse, 1934). Buyse propõe-se a responder à seguinte pergunta: quais
as bases psicológicas da educação atual? Inicia sua resposta, considerando que, em
francês, existe mais de uma ―nuança‖ nos termos ―educação‖ e ―pedagogia‖. Para
ele, o termo ―educação‖ tem um sentido amplo e o termo ―pedagogia‖ tem
―sobretudo um sentido profissional, a sua tendência é técnica‖. O processo da
educação suporia a criança como ponto de partida e o homem como fim. Existiriam,
porém, diferenças entre a concepção cristã e a concepção revolucionária de homem,
o que marcaria a compreensão de educação. A visão cristã é resumida nestas
palavras:

Notemos que a meta da vida para todo o mundo é sem contestação a felicidade.
Cada um, aqui na Terra, procura a sua felicidade, e não pode esperá-la senão
atingindo o seu fim verdadeiro. Ora, o cristão sabe que ele vem ao mundo para um

244
fim duplo: natural e sobrenatural, por conseguinte se queremos conservar na
educação todo o sentido cristão, é preciso tomar em conta os dois dogmas: o da
queda original, e o da graça. Esta noção não estaria completa se não lhe
acrescentássemos tudo o que se relaciona com o ―humanismo cristão‖. Temos então,
ao mesmo tempo, as duas concepções latinas: do homem (homo em extensão a vir
em profundeza) e uma hierarquia de valores: A primazia do espiritual. Um sentido
certo da ordem (Buyse, 1934:72-73).

Já a concepção revolucionária não levaria em conta esta antropologia cristã. E


imprimiria sua visão materialista sobre a pedagogia que ―não escapou a este
messianismo revolucionários caracterizado por um espírito de revolta, uma espécie
de dinamismo histérico, um ‗mobilismo social‘‖ (Buyse, 1934:73).
Buyse alinha dentro desta visão as seguintes psicologias: ―estrutural‖
(Titchener, Ebbinghaus); ―funcional‖ ou ―genética‖ (W. James, J. Dewey,
Claparède); ―objetiva‖ ou ―behaviorisme‖ (Watson). São escolas que buscariam as
explicações ―fisiológica ou psicoquímicas, sem recorrer a nenhuma concepção
superior de metafísica‖. Classifica como visão cristã a psicologia ―finalista‖ ou
―intencionalista‖ (Mac Dougall), ―na qual se coloca em relevo sobretudo o fim a
atingir‖, e a psicologia da ―forma‖ ou ―gestalttheorie‖, desenvolvida por
Wertheimer, Koehler, Koffka. Estas as correntes que marcavam o campo educacional
na época, segundo Buyse. Quanto às grandes correntes do campo pedagógico, ele
distinguia três: pedagogia tradicional ou clássica, existente em 98% das escolas;
pedagogia chamada nova ou renovada, inspirada na pedagogia clássica e na
experiência dos seus líderes; pedagogia experimental, que, deixando o problema dos
fins da educação e da filosofia, limitava-se ao campo da técnica.
Para concluir sua palestra, Buyse constata a complexidade e a insuficiência da
pedagogia do seu tempo e adverte os educadores católicos:

Se quiserdes, no entanto, sob o signo da fé católica, colocar a nossa prática


pedagógica no nível dos progressos realizados fora, deveis, segundo o sábio
conselho de Pio XI, tirar proveito de tudo o que é útil, no riquíssimo movimento de
pesquisas que caracteriza a pedagogia contemporânea (Buyse, 1934:79).

As idéias de Buyse são interessantes na medida em que ajudam a esclarecer a


posição dos católicos com relação à psicologia.

245
Em 1936, a RBP divulgou uma palestra do dr. Armando Câmara, da APC de
Porto Alegre, intitulada ―A filosofia espiritualista e a psicologia experimental‖ (cf.
Câmara, 1936). Ele afirma que a filosofia espiritualista não se opõe às verdadeiras
conquistas da psicologia experimental.

Eminentes psicólogos escolásticos incorporam os dados positivos da moderna


ciência da alma às grandes linhas da ―filosofia perene‖, que, na definição de Berg-
son, é a ―metafísica natural da inteligência humana‖ [...] Pelas informações
lacunosas desta singela palestra, de apressada elaboração, vedes que a filosofia
espiritualista, longe de se opor às conquistas reais da psicologia experimental delas é
a única conclusão metafísica plausível, na frase do insuspeito Wund (Câmara,
1936:50).

Sobre a questão da psicologia, foram publicados na RBP três artigos da


professora Marie Louise Peeters, doutora em ciências pedagógicas pela Universidade
de Louvain (Bélgica), onde foi discípula de Fauville e Buyse. Peeters trabalhou no
Brasil como professora de psicologia experimental no Instituto Superior de
Pedagogia, Ciências e Letras de São Paulo. Em um destes artigos, ela trata da
utilização dos testes no ensino de religião (cf. Peeters, 1937a). Para a professora, não
há dúvida de que os serviços que os testes pedagógicos prestam às outras disciplinas
podem servir para o ensino de religião. Em outro texto (cf. Peeters, 1937b), deixa
clara sua confiança na psicologia experimental: ―A psicologia científica para
constituir uma ciência não precisa ser completa; sua extensão é determinada pelos
métodos utilizados até o presente; consideramo-la completa quando dá o máximo que
pode com os métodos do momento.‖
No Quadro 41, organizamos um pequeno inventário dos artigos da RBP
voltados para o uso da psicologia aplicada à educação (cf. também Sgarbi,
1997:162).

246
Quadro 41
Artigos selecionados sobre o uso da psicologia aplicada à educação
Revista Brasileira de Pedagogia
1936-1938

Autor Título Vol. Pág. Ano

Irmã F. Importância e vantagem dos meios intuitivos de ensino 3 331 1935

Armando Câmara A filosofia espiritualista e a psicologia experimental 5 38 1936

Jônatas Serrano O direito e o avesso dos testes 6 216 1936

M. L. Peeters Será útil desenvolver o espírito crítico dos alunos? 6 221 1936

J. Roberto Moreira Psicologia da atividade infantil 6 374 1936

Pe. Helder Câmara A escolaridade e os testes de inteligência 7 20 1937

Jacyr Maia Medida do rendimento escolar 7 22 1937

Jacyr Maia ABC testes de idade? 7 135 1937

E. Backheuser Testes de inteligência 7 142 1937

Jacyr Maia Análise estatística dos testes de matemática de 1936 7 353 1937

M. L. Peeters A utilização dos testes no ensino de religião 7 458 1937

M. L. Peeters O problema dos métodos da psicologia da criança 9 220 1937

Redação Os testes de promoção de 1937 e o professorado 10 36 1938

Redação Os testes e as dificuldades da vida escolar 10 44 1938

Jacyr Maia A assimetria nas distribuições de freqüência dos 10 374 1938


resultados

2.6. Ética ou moral e educação religiosa

Quanto às outras disciplinas relacionadas com a pedagogia, reservamos


espaço para tratar da moral e educação religiosa, da educação artística e de algumas
ciências que se destacaram um pouco mais na RBP, a literatura e a química.
Consideramos desnecessário aprofundar cada um destes temas no sentido de analisar
a biblioteca católica da CCBE, pois observamos que os temas se repetem.
A lista de livros resenhados sobre moral e educação religiosa, que
apresentamos a seguir (Quadro 42), vem reforçar a idéia de que, em termos de

247
pedagogia católica, a educação deveria estar toda imbuída do espírito religioso
católico e a religião deveria ser uma disciplina específica. Para os educadores
católicos, a religião, e não a razão, deveria fundamentar a moral.

Quadro 42
Resenhas de livros sobre moral e educação religiosa
Revista Brasileira de Pedagogia
1935-1937

Obra resenhada Mês Ano


Cadernos catequéticos junho 1935
Cadernos catequéticos setembro/outubro 1936
Caminho da vida julho/agosto 1937
Caminhos do espírito maio 1937
Casamento e fecundidade fevereiro 1937
Catecismo dos meninos novembro 1937
Catecismo para o Jardim da Infância setembro/outubro 1937
Catecismo para o Jardim da Infância novembro 1937
Ciência e religião março 1935
Ciência e religião abril 1937
Deus e os nossos pequeninos novembro 1937
Introdução à Bíblia Sagrada fevereiro 1937
Jesuítas do Brasil e da Índia fevereiro 1937
Jesus, mestre dos pequeninos maio 1937
Juventude de hoje, lares de amanhã outubro 1935
L'Eglise et le monde moderne março 1937
Lições catequéticas para pequeninos pelo método ativo fevereiro 1936
Lições catequéticas para pequeninos pelo método ativo novembro 1935
Manual de religião fevereiro/março 1938
Máximas de S. Inácio e sentimentos de S. Fco. Xavier julho 1934
Meu caderno de instrução religiosa fevereiro 1936
O catecismo segundo o Evangelho novembro 1937
Os opúsculos de S. Francisco de Assis outubro 1935
Oú en est l‟enseignement réligieux? julho/agosto 1937
Palavras de conforto outubro 1935
Para entender a missa julho/agosto 1937

248
O tema da formação moral e religiosa encontra um espaço grande na Revista.
Aqui, nestes livros e artigos (ver Quadro 43), é discutida toda a questão da moral
leiga e da moral religiosa, que apareceram nas críticas especialmente a Anísio
Teixeira e a Monteiro Lobato.

Quadro 43
Artigos selecionados sobre formação moral e religiosa
Revista Brasileira de Pedagogia
1936-1938

Autor Título Vol. Pág. Ano


Soeur Gerardo A evolução do julgamento moral na criança 4 246 1935
A. de Amoroso Lima Princípios gerais de educação 6 8 1936
Pe. Guilherme Boing A necessidade duma formação especial das catequistas 6 77 1936
para as escolas públicas e particulares
Costa Silva Sobre o ensino religioso nas escolas municipais 6 102 1936
Pe. Helder Câmara Ensino religioso nas escolas 6 123 1936
Darci Moutela Educação religiosa das crianças do Jardim de Infância 9 288 1937
por intermédio da música
Pe. Carlos Leôncio Influência da religião na educação moral 10 300 1938

2.7. Ciências, letras e arte

Algumas resenhas dos impressos da biblioteca pedagógica da RBP tocam na


questão das ciências em geral. Existia na Revista certo entusiasmo para com as
ciências modernas, mas sempre com cuidado para que o eixo central da civilização,
de acordo com a visão católica da época, não mudasse do sobrenatural, do espiritual
para o experimental. A posição do primeiro presidente da CCBE neste sentido é
clara:

Sendo a pedagogia um ramo da sociologia, claro é que as mesmas áreas da


experimentação sociológica hão de aparecer no campo educacional. Na pedagogia,
portanto, pode-se empregar o processo experimental, mas com muitas ressalvas e
bastante circunspecção. Mas, tomados os devidos cuidados, há de ser usado, deve
ser usado e já está sendo usado (Backheuser, 1942:477).

249
Aparecem críticas ao experimentalismo ou cientificismo como atitude mental
que encara a ciência só como experimento, desprezando as conclusões especulativas
e racionais. Neste tema, os livros que classificamos por disciplina e que cabem ainda
na classificação que estamos utilizando estão no Quadro 44.

Quadro 44
Resenhas selecionadas de obras sobre ciências
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1937

Disciplina Título da obra Data da resenha


Matemática Nossa aritmética Junho/1937
Física e Química Elementos de Física para o 3º Abril/1935
ano seriado
Geografia Curso de Geografia Fevereiro/1935
Geografia sentimental Abril/1937
História da Civilização História de Santos Dumont Setembro-outubro/1936
e do Brasil A vida de Joaquim Nabuco Junho/1935
História da civilização Maio/1935
brasileira
Espírito e fisionomia do Setembro-outubro/1936
bolchevismo
História da Civilização para o Maio/1934
1º ginasial
História da Civilização Março/1934

Ainda podemos relacionar os 23 livros de literatura que foram resenhados.


Entre estas resenhas, encontramos as maiores polêmicas com Monteiro Lobato, com
relação aos livros de literatura infantil (ver Quadro 45).

250
Quadro 45
Resenhas selecionadas de obras de literatura
Revista Brasileira de Pedagogia
1935-1937

Obra resenhada Mês Ano


A macacada maio 1935
A verdade novembro 1935
A vida novembro 1935
Auxiliar de leitura maio 1935
Brasileirinho abril 1938
Casa grande e senzala junho 1937
Como ensinar linguagem julho 1934
Contos de Frei Ildefonso fevereiro 1937
Contos de minha irmã março 1934
Da Tribuna da Imprensa abril 1936
Exercícios de leitura manuscrita julho/agosto 1936
Geografia de Dona Benta fevereiro 1936
História da velha Totônia fevereiro 1937
História do Brasil para crianças março 1935
História do mundo para crianças setembro 1934
Jesus e Pedrinho novembro 1935
Memórias de Emília fevereiro 1937
O caminho do céu novembro 1935
O idioma nacional julho/agosto 1938
Os meus bichinhos maio 1935
Português prático abril 1938
Quando Jesus Nasceu maio 1935
Seleta da língua portuguesa julho/agosto 1936

Alguns temas não aparecem entre os livros resenhados, mas aparecem nos
artigos na RBP. Nos Quadros 46, 47, 48 e 49, estão indicados os artigos que tratam
respectivamente de química, educação artística, educação econômica e a educação
social e política.

251
Quadro 46
Artigos selecionados sobre química
Revista Brasileira de Pedagogia
1935-1938

Autor Título Vol. Pág. Ano


Barbosa de Oliveira O ensino da Química de acordo com a pedagogia 3 110 1935
moderna
O trabalho individual no estudo da Química 7 58 1937
O trabalho e a ciência na formação do engenheiro 10 188 1938
Zulmira Breiner Algumas considerações sobre o ensino da Aritmética 2 254 1934

Quadro 47
Artigos selecionados sobre educação artística
Revista Brasileira de Pedagogia
1935-1938

Autor Título Vol. Pág. Ano


Antônio de Sá Pereira Um teste de apreciação musical 10 245 1938
Irmã Rafaela Rossini Como ensinar desenho e arte aplicada 3 115 1935
Maria Souza Rolim Desenho e artes aplicadas 5 10 1936

Quadro 48
Artigos selecionados sobre educação econômica
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1937

Autor Título Vol. Pág. Ano


Alfredina P. e Souza Do conhecimento do dinheiro e sua aplicação em base 7 49 1937
econômica
Alfredo B. da Silveira Ligeiras observações sobre o ensino da História da 3 258 1934
Civilização
Barbosa de Oliveira O ensino da técnica do ponto de vista econômico e 1 15 1934
social
Guido Cavalcante A Geografia nos une, mas... 7 34 1937
L. C. Benine Alterações vantajosas na conta de dividir 5 160 1936

252
Segundo a classificação de Backheuser, na questão da formação integral,
temos, além das disciplinas que foram citadas, a formação social e política. Esta deve
abranger todas as disciplinas. Dentro desta formação, aparecem temas como a
associações dos alunos, os jornaizinhos feitos pelos alunos, os museus, as bibliotecas
escolares, etc.

Quadro 49
Artigos selecionados sobre formação social e política
Revista Brasileira de Pedagogia
1935-1937

Autor Título Vol. Pág. Ano


Luiz Galhanone Museus escolares 4 246 1936
Maria L. Ferreira Lima Jornais escolares 6 207 1936
Mário Cunha Os jornais escolares em Minas Gerais 4 182 1935
Pe. Helder Câmara A escuta na Escola Primária 6 218 1938

2.8. Temas relacionados às questões políticas

Alguns livros do nosso inventário são resenhados tendo em vista as


discussões do período em torno da política educacional. Basta lembrar alguns fatos
históricos para notar que as poucas palavras das resenhas tocam em questões bem
reais e polêmicas. O laicismo escolar, declarado em 1891, trouxe reações contínuas
dos católicos. O decreto de 1931 que facultou o ensino religioso nos
estabelecimentos oficiais de ensino primário, secundário e normal trouxe novo ânimo
aos católicos.34 A fundação da Liga Eleitoral Católica (LEC), para pressionar os
candidatos de diversos partidos a defender os princípios católicos na Constituinte de
1934, os debates sobre o ensino religioso e o papel do Estado na preparação do Plano
Nacional de Educação (PNE), a questão da ―colaboração recíproca‖ entre Igreja e

34
―O Brasil deve o ensino religioso nas escolas ao chefe do Governo Provisório e atual Presidente da
República, ao eminente brasileiro Dr. Getúlio Vargas. Com esse ato, S. Exa. libertou no Brasil a
consciência católica, outorgando-lhe nas escolas a liberdade que o liberalismo havia até então
reservado apenas às filosofias e às concepções do mundo sedizentes [sic] científicas, cujo destino era,
porém, o de iludir com sua palha seca a fome do eterno‖ (Campos, 1936:123).

253
Estado, a defesa da livre iniciativa para manter as escolas particulares são assuntos
que movimentavam o debate educacional no país e, conseqüentemente, na RBP.
Estas discussões políticas poderiam ser resumidas em torno de um tema: a
escola única. Esta poderia ser entendida como a escola oficial obrigatória, posição
que questionava o ensino particular, a co-educação, a escola confessional e até
mesmo uma escola dividida em classes sociais. Esta escola única poderia ser também
entendida como a escola anti-regional, proposta que defendia a unificação dos
princípio da escola em todo Brasil. Uma escola também unitária no sentido de
unificar os diversos graus do ensino (cf. Backheuser, 1933c).
A escola única, oficial e obrigatória, foi atacada pelos católicos, que lutavam
contra o monopólio do ensino nas mãos do Estado e questionavam o ensino privado.
Para os católicos, o governo deveria fixar os objetivos do ensino em seus graus
(primário, secundário, profissional, técnico e superior). Ou, simplesmente, ―dar em
linhas gerais, o quadro das disciplinas, indicando os limites entre os quais a instrução
será ministrada no ponto de vista da educação física, intelectual e espiritual‖
(Backheuser, 1942:301).
Aqui entra também o tema da co-educação, recusada pelos intelectuais
católicos. Posição que, nas apropriações feitas nas bases escolares da pedagogia
católica, já estaria mudando. Em nossa dissertação de mestrado, citamos um texto
que aponta para esta questão. Trata-se da palestra ―A co-educação‖, proferida pela
professora Maria José Miranda, da Escola Experimental de Recife (cf. Miranda,
1934). O texto, muito simples, revela a real situação do tema co-educação no
cotidiano da escola. A professora, a certa altura, afirma:

Lembro-me bastante de que, instintivamente levada a discordar de um professor que


enaltecia e elogiava a co-educação, facilmente fui subjugada e vencida [...] Eu não
conhecia o assunto, em seus detalhes mais sérios e delicados. Eu ignorava, antes de
tudo, a palavra do Santo Padre [...] Pouco tempo depois, aluna da Escola de
Aperfeiçoamento do Estado, abordando o assunto em uma das lições de Sociologia,
tive a tristeza de observar que, dentre 14 alunas católicas [...] somente duas
combatíamos a co-educação (Miranda, 1934:104).

254
Tudo indica que não havia muito interesse em discutir o assunto no interior
das escolas. Este tema tinha mais acolhida entre os intelectuais e os professores que
se envolviam nos grandes debates.
Outra questão era a escola da democracia: todas as crianças juntas,
independente de classes sociais ou credos. Um ponto que também gerava discussões.
Mas, dentre todos os pontos polêmicos, a questão maior era a da escola única,
leiga e neutra. Os católicos acreditavam que não era possível a neutralidade nos
aspectos político, filosófico, religioso e mesmo científico. Sua posição é a do seu
pedagogo maior, Fr. De Hôvre: ―Uma pedagogia soi-disant neutra ou não é neutra,
ou não é pedagogia‖ (Hôvre, apud Backheuser, 1942:313).
É com este espírito que se deve ler as resenhas que indicam, fazem restrições
ou que desaconselham este ou aquele livro, neste contexto político. Se o tema é
tocado nas resenhas, é discutido com mais detalhes nos artigos da RBP. No Quadro
50: o título do artigo já é, mais que um indício, uma evidência.

Quadro 50
Artigos selecionados sobre o tema escola única, leiga e neutra
Revista Brasileira de Pedagogia
1934-1937

Autor Título Vol. Pág. Ano


Costa Silva Sobre o ensino religioso nas escolas municipais 6 102 1936
D. Lourenço Reflexões sobre pedagogia religiosa 2 125 1934
Lumini, O. S. B.
Dan W. Gilbert Será o materialismo uma religião de Estado? 4 365 1936
E. Backheuser O perigo do ensino religioso (comentário) 6 356 1936
Francisco Campos Ensino religioso nas escolas 6 123 1936
Laura A. Lopes Pela aposição do Cristo crucificado nas escolas do Brasil 5 256 1936
Leontina Machado O catecismo e as demais disciplinas escolares 7 399 1937
M. Launay A religião e a ciência 6 203 1936
Maria Pereira das Deve a escola respeitar a liberdade espiritual dos alunos? 3 62 1935
Neves Como e por quê?
Pe. H. Câmara A educação intelectual e o fator religioso 8 130 1937
Pe. Leonel Franca O ensino religioso na nova Constituição 3 241 1935
Redação A nova Constituição e o ensino religioso 10 1 1938
Trajano J. de O. e O ensino religioso no bispado de Lages 4 275 1935
Souza

255
2.8.1. Os católicos e o Plano Nacional de Educação

Uma das questões que impulsionou ainda mais as discussões políticas na


RBP foi o Plano Nacional de Educação, um debate que começou a aparecer com
freqüência de setembro de 1935 em diante.
Na edição de setembro de 1935, Everardo Backheuser comenta os primeiros
passos dados em preparação ao Plano Nacional de Educação, uma exigência da
Constituição Nacional, que estava sob a responsabilidade do Conselho Nacional de
Educação. Num tom de contentamento, Backheuser fala da metodologia adotada nos
trabalhos e já faz considerações sobre o caracter que deve tomar as discussões, indo
às questões mais amplas, com ―a largueza de vistas que o momento exige‖, não se
limitando às questões técnicas (cf. Backheuser, 1935). Elogia Gustavo Capanema,
pela idéia de fazer um inquérito entre os componentes do Conselho para servir de
base aos seus trabalhos e convocar educadores dos estados do Rio de Janeiro, São
Paulo e Minas para preparar as questões desse inquérito.
A CCBE promoveu, em 1936, uma série de conferências para que os
católicos pudessem colaborar com o Plano. As conferências aconteceram no salão da
Escola de Belas Artes, cedido pelo Ministro da Educação. Os conferencistas e os
respectivos temas foram: Alceu de Amoroso Lima, princípios gerais de pedagogia;
pe. Helder Câmara, o ensino primário no Plano Nacional de Educação; dr. Isaías
Alves, o ensino normal; pe. Arlindo Vieira, S. J., o ensino secundário; dr. Barbosa de
Oliveira, o ensino especializado; dr. Almir de Andrade, o ensino de ―anormais‖; dr.
Moreira de Souza, o ensino rural; dra. Zélia Braune, o ensino religioso; Laura
Jacobina Lacombe, o ensino familiar; pe. Paulo Banwart, S. J., a liberdade de ensino.
Algumas destas conferências foram publicadas na íntegra na Revista.
A série de reflexões foi aberta com conferências de Amoroso Lima, Helder
Câmara e Isaías Alves, membro do Conselho Nacional de Educação. O Quadro 51
aponta as conferências publicadas na RBP.

256
Quadro 51
Conferências sobre o Plano Nacional de Educação
Revista Brasileira de Pedagogia
1936

Autor Título Vol. Pág. Ano


Alceu de Amoroso Lima Princípios gerais de Pedagogia 6 8-24 1936
Isaías Alves O ensino normal no Plano Nacional de Educação 6 24-42 1936
Helder Câmara O ensino primário no Plano Nacional de Educação 6 43 1936

Além disso, inventariamos doze grandes reflexões sobre o Plano, publicadas


na RBP no período das maiores discussões, entre 1936 e 1937 (Quadro 52).
Nestas discussões, intelectuais e professores buscavam um denominador
comum, para dar sugestões ao Plano Nacional de Educação. Encontramos aqui
afirmações como: ―O plano nacional não deve exorbitar da sua competência
constitucional, cingindo-se a diretivas gerais de ordem educacional, com respeito da
autonomia dos Estados, da família e da escola particular‖ (Acker, 1936:293).

Quadro 52
Artigos selecionados sobre o Plano Nacional de Educação
Revista Brasileira de Pedagogia
1936

Autor Título Vol. Pág. Ano


Almir Andrade A educação e a renovação do homem 6 157 1936
Barbosa de Oliveira O ensino especializado no Plano Nacional de 6 263 1936
Educação
Everardo Backheuser O Plano Nacional de Educação 4 13 1935
J. Moreira deSouza O ensino rural no Plano Nacional de Educação 6 296 1936
L. Van Acker O Plano Nacional da Educação no Centro Dom 6 293 1936
Vital de São Paulo
Pe. Arlindo Vieira O problema do ensino secundário 6 53 1936
Pe. Helder Câmara Os católicos e o Plano Nacional de Educação 6 369 1936
Zélia Jacy Oliveira O ensino religioso no Plano Nacional de Educação 6 289 1936
Braune

O ponto central advogado pelos católicos era a ―condenação de qualquer


monopólio oficial do ensino‖. Esta discussão levava a outras, como a necessidade da
educação cristã integral ―diante da impotência doutrinária da escola oficial‖, a

257
necessidade da iniciativa particular, a ―impossibilidade de organizar, dentro do
monopólio, o regime corporativo do ensino‖ — esta última preocupação tinha como
objetivo evitar a industrialização da escola pela empresa.
O resultado final das discussões na CCBE trabalho agradou aos católicos. A
RBP, em junho de 1937, numa espécie de editorial, fez um comentário sobre o
anteprojeto do Plano com palavras de elogio e, a partir dessa data, iniciou a
publicação do anteprojeto.

Os defensores da civilização cristã, salvas restrições acidentais, não poderíamos


desejar um documento mais sereno, mais justo e mais largo, como é fácil constatar
percorrendo os artigos do Plano que hoje começamos a publicar. O título II, relativo
aos Princípios da Educação Nacional, é de um particular equilíbrio. O homem
completo a que alude é bem uma visão total, muito distanciada dos unilateralismos
mutiladores da personalidade. A ação primordial da família é acentuada com rara
felicidade. As definições de espírito brasileiro e de consciência da solidariedade
humana estão perfeitas (Plano Nacional de Educação, Revista Brasileira de
Educação, v. VII, ano 4, nº 35, p. 439, 1937).

A RBP presta uma homenagem aos conselheiros e afirma que, mesmo que na
hora das discussões políticas, o Plano seja mudado, ficou claro que o ―Brasil possui
grandes mestres dedicados, educadores de todo dignos da homenagem que aqui lhes
presta a Revista Brasileira de Pedagogia‖ (Plano Nacional de Educação, Revista
Brasileira de Educação, v. VII, ano 4, nº 35, p. 439, 1937). Todavia, todo o trabalho
que resultou no Plano Nacional de Educação e o próprio texto do Plano, com o golpe
de 1937, ficaram para sempre engavetados nos arquivos do governo federal.

2.8.2. Internacionalismo e americanismo

Um ponto recorrente nas resenhas, especialmente nos questionamentos de


alguns textos, é o problema do internacionalismo e, mais especificamente, do
americanismo. Dentro da crítica ao americanismo, aparece também o conceito de
―industrialismo‖, ou ainda ―tecnicismo‖, como uma tendência norte-americana, em
que os educadores ―formulam seus princípios lembrados de que estão no século das
máquinas [e que] traduz desejo de progresso, de vitória sobre a rotina e, nos espíritos
mais cultos, racionalização do trabalho‖ (Câmara, 1935a:65). Na própria discussão

258
em torno do Plano Nacional de Educação, percebe-se que existem críticas sutis a
―cópias‖ de idéias ou planos de outros países, à imposição de esquemas que estão
fora da realidade brasileira. Nas resenhas, esbarra-se continuamente neste tipo de
observação.
Ao lado desta crítica aparece outra, que vem do outro extremo. Se, de um
lado, os católicos não vêem as possibilidades de uma educação sem levar em conta as
diversas realidades do país e da escola, de outro são contra o ―regionalismo
separatista‖, tema que estava fortemente em pauta nos anos 30.
No texto preparado pelo Centro D. Vital de São Paulo com sugestões para o
Plano Nacional de Educação, encontramos um típico exemplo da crítica dos católicos
neste aspecto.

O ―espírito brasileiro‖ que deve presidir à educação nacional pareceu incompatível


com qualquer regime, cujo liberalismo internacionalista e maçônico leva a tolerar as
mais perniciosas doutrinas antinacionais, quer na escola nacional, quer na
estrangeira, aqui estabelecida e hospedada. Foram também censurados os métodos
de ensino primário da história e geografia pátria, que, sob pretexto de ordem
psicológica do concreto para o abstrato, infundem na realidade o regionalismo
separatista. Protestou-se enfim contra a supressão da cadeira de História do Brasil no
curso secundário. A instrução moral e cívica não deveria basear-se em postulados
políticos ou constitucionais, senão no ideal do patriotismo (Acker, 1936:293- 294).

Um dos pontos de defesa da Escola Nova é que a educação nova é


essencialmente nacionalista, já que deve formar um cidadão que ame sua Pátria, que
tenha consciência dos seus deveres. Este era um ponto elogiado na reforma de
Fernando de Azevedo.
Mas também há críticas. Um dos reparos que Jônatas Serrano faz ao
Manifesto de 1932 é que esqueceu da realidade brasileira. Reclama, em 1932, que
―tempo é já de considerarmos os nossos problemas sem olharmos tudo através das
lentes [...] dos mestres estrangeiros, europeus ou americanos‖ (Serrano, 1932:144).
Para o autor, estes mestres não escreveram tendo em mente a realidade brasileira.
Lembra ainda que o próprio Fernando de Azevedo, que se vangloriava de não copiar
nenhum mestre em Novos caminhos e novos fins, agora tinha mudado de postura (cf.
Serrano, 1932:144).

259
Há polêmica mesmo entre os católicos. O próprio De Hôvre, ao citar Foerster,
faz cerradas críticas a nacionalismos emergentes, como é o caso da Alemanha —
nacionalismos ―perigosos‖ que não tardaram muito a se revelar. Os católicos
brasileiros, por sua vez, namoravam os regimes nacionalistas. Na época, muitos
aderiram ao integralismo.
Não havia uma posição de equilíbrio entre os católicos. Por um lado, bebe-se
em fontes estrangeiras; de outro lado, criticam-se os internacionalismos, em especial
o americanismo. Nota-se resistência, sobretudo, às idéias e aos costumes da América
do Norte. Laura Jacobina Lacombe, ao comentar o livro Pais e o automóvel, conclui
sua resenha dizendo que ―esse americanismo também nos está invadindo os
costumes, mas felizmente ainda há pais que não temem ser chamados de retrógrados‖
(Lacombe, 1937e:305).

260
OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS III

Nesta última parte de nossa pesquisa, refletimos sobre a conformação do


campo pedagógico católico através do impresso. Utilizamos algumas fontes que
haviam sistematizado aquilo que foi entendido por pedagogia católica, privilegiamos
a análise de alguns manuais de pedagogia publicados no Brasil nos anos 1930 e
articulamos a leitura desses manuais com os princípios firmados na encíclica Divini
Illius Magistri e com a obra Le catholicisme, ses pédagogues, sa pédagogie, de fr.
De Hovre, que sintetiza e sistematiza esses princípios. Valemo-nos também dos
Congressos de Educação Católica, realizados por iniciativa do Centro D. Vital de
São Paulo e da Confederação Católica Brasileira de Educação. Destacamos o 1º
Congresso da CCBE, em que se firmaram princípios de ação política claramente
direcionados para a difusão e para o controle da circulação do impresso no país.
Dentre os manuais de pedagogia católica difundidos pelas revistas, analisamos o
Tratado de pedagogia, de Pedro Anísio, e Técnicas da pedagogia moderna, de
Everardo Backheuser.
A hipótese que houve uma pedagogia católica sistematizada no Brasil, que foi
além do ―quadro integral da pedagogia, tal como a compreende uma filosofia católica
de vida‖ (Athayde, 1931:XV), apresentada por Tristão de Athayde na introdução aos
Debates pedagógicos, é comprovada, em nosso entender, quando se estuda o
trabalho de Everardo Backheuser. Vimos que houve uma sistematização da
pedagogia católica feita por Pedro Anísio, diferente porém daquela feita por
Backheuser. Este último preocupou-se em ―batizar‖ a Escola Nova nas águas da
pedagogia católica.
Cremos que toda a produção da CCBE foi ao encontro do ideal de ―defender
idéias avançadas, mas criteriosas, progressistas, mas ponderadas‖, nos moldes do
pensamento de Backheuser. Acreditamos que a reedição de Técnicas da pedagogia
moderna, em 1942, com o título de Manual de pedagogia moderna, e as suas quarta
e quinta edições indicam que a pedagogia voltada para uma Escola Nova católica
alcançou espaço entre os educadores ligados à Igreja.

261
Nossa pesquisa demonstra a apropriação de educadores estrangeiros, em
especial de De Hôvre, pelos educadores brasileiros da CCBE. Mas fica claro também
que havia formas diferentes de apropriação das idéias. Um exemplo foi a apropriação
feita pela professora Aspásia Marques no artigo que escreveu sobre a filosofia e o
professorado (cf. Marques, 1935:136), em que ataca a visão do nacionalismo, para o
qual a nação é tudo — posição idêntica à de De Hôvre, mas não à de todos os
educadores da CCBE.
Aproveitando o artigo sobre o ―inquérito sobre leituras‖ feito no Colégio
Jacobina, observamos que a infância e a juventude era resistente às propostas de
leitura da CCBE e dos colégios católicos em geral. Acreditamos que todo o esforço
da diretora do Colégio Jacobina revela o de tantos outros que nadavam contra esta
correnteza. Este tipo de discurso é muito bem apresentado pela professora Cythia
Pereira de Sousa, ao estudar a revista Auxilium do Colégio Santa Inês de São Paulo
(cf. Souza, 1997).
Em direção complementar, fizemos um levantamento e refletimos sobre os
temas discutidos pelas revistas na divulgação dos impressos, articulando o grande
tema de fundo — a pedagogia católica — a temas de filosofia, psicologia, biologia,
etc.
A análise que aqui fizemos dos temas relacionados pode ser ainda muito mais
aprofundada. Ficou claro que, para fazer um exame mais detalhado dos temas
levantados, é necessário, no mínimo, um estudo minucioso dos artigos publicados na
RBP. Relacionamos alguns artigos, mas, como não era nosso objetivo, pouco
exploramos esses artigos. Entendemos, porém, que os elementos aqui abordados
constituem rico material para futuras pesquisas e análises.
Apesar de interessada no tema da conformação do campo doutrinário da
pedagogia no Brasil, a pesquisa limitou-se ao estudo das prescrições de leitura. Não
enveredou pelo estudo das práticas de leitura das revistas analisadas e dos livros por
estas difundidos e criticados. Esta foi a proposta inicial da pesquisa, que mantivemos
até o fim.

262
REFLEXÕES CONCLUSIVAS A RESPEITO DE UM PROJETO
INACABADO

Não é necessário, para concluir esta nossa pesquisa, recapitular o que foi
realizado, uma vez que cada parte tem já a sua conclusão. Gostaríamos, no entanto de
refletir sobre os limites e as contribuições de nosso estudo, cujo objetivo principal foi
constituir e analisar o conjunto das prescrições constituintes do que chamamos de
―bibliotecas pedagógicas católicas‖, dispositivo estratégico para a Igreja na
construção de uma cultura católica no Brasil.
Lembramos mais uma vez, que, apesar de interessada no tema da
conformação do campo doutrinário da pedagogia no Brasil, nossa pesquisa limitou-se
ao estudo das prescrições de leitura. Não enveredou pelo estudo das práticas de
leitura e sim pelo caminho da análise de questões pedagógico-doutrinárias, com o
intuito exclusivo de compreender as estratégias de difusão e de controle da
circulação do impresso postas a funcionar nas revistas analisadas. As limitações
decorrentes dessas opções de trabalho podem ser compensadas por estudos futuros
sobre as apropriações destes impressos, que permitam melhor analisar o impacto das
estratégias analisadas na conformação do campo doutrinário da pedagogia.
Esperamos ter colaborado para isso, lançando alguma luz sobre as concepções
pedagógicas que conformaram as estratégias católicas de escolha e prescrição de
impressos no Brasil no período estudado. É neste sentido que, sem pretender iniciar
um outro trabalho, queremos apontar os limites de nossa pesquisa e os veios a
explorar que indica.
As apropriações: o essencial esquecido. Desde as primeiras páginas deste
texto, temos lembrado de que nosso objetivo é trabalhar com as prescrições que os
católicos faziam. Não trabalhar com as apropriações é um dos limites principais de
nosso trabalho. Mesmo assim, na perspetiva de Certeau (1982:234), é bom lembrar:


Nossa pesquisa também não teve a intenção, em nenhum momento, de trabalhar com história das
edições. Sobre este aspecto, que não está dentro dos nossos interesses no momento, embora exista
uma proximidade com o tema, pode-se ver Botel (1993) e Chartier & Martin (dirs., 1990).

263
―aquilo que uma prática faz com signos pré-fabricados, aquilo que estes se tornam
para os usuários ou os receptores, eis algo essencial que, no entanto, permanece em
grande parte ignorado‖.
Apesar desse limite que nos impusemos, queremos concluir este trabalho
enveredando por esse território das práticas de apropriação, de modo a levantar
algumas questões e trazer à cena a biblioteca de uma escola normal.
Encontramos no Escola Normal Anexa ao Colégio Santa Inês, da cidade de
São Paulo, um ―Relatório correspondente ao ano letivo de 1937‖. O relatório — com
sete páginas e assinado no dia 24 de janeiro de 1938 por Maria José Pinheiro,
professora de Organização Escolar e substituta na cadeira de Prática do Ensino —
está dividido em três partes: ―Resumo histórico do estabelecimento‖, ―Instalação‖ e
―Pessoal administrativo e docente‖.
No ―resumo histórico‖, pouco mais de meia folha datilografada, encontramos
os seguintes dados:

O Colégio Santa Inês foi fundado na cidade de São Paulo, no dia 21 de janeiro de
1907, pelas Filhas de Maria Auxiliadora, ―Salesianas de D. Bosco‖ [...] O Curso de
Formação de Professores constitui a Escola Normal Livre reconhecida pela lei nº
2.262 de 31 de dezembro de 1927. Inaugurou-se oficialmente em março de 1928. A
princípio a Escola Normal era constituída de três anos, formando-se nesse regime
uma única turma. Daí por diante até 1933 passou o curso a quatro anos, mantendo-se
também um curso complementar anexo de três anos. Hoje o Curso de Formação de
Professores está organizado de acordo com o Decreto nº 5.884 de 21 de abril de
1933. (Código de Educação do Estado de São Paulo) Seis foram as turmas de
Professoras formadas por esta Escola [...] (Pinheiro, 1938:1).

É interessante notar que a Escola Normal surgiu num contexto que deu
oportunidade à criação de muitas outras escolas. Em todo o Brasil, as primeiras
décadas do século XX foram ricas em iniciativas em prol da educação. Neste
contexto, a partir de 1926, ocorreu no Estado de São Paulo uma grande crise nos
meios educacionais — a crise de candidatos ao magistério. Embora o Estado
contasse com milhares de professores recém-formados, havia 1.500 escolas vagas. A
alta do preço do café, que vinha acontecendo havia alguns anos, as melhores
vantagens nas colocações bancárias, comerciais e de indústria reforçavam essa
situação. Diante dessa realidade, o governo tomou medidas para formar rapidamente

264
os professores necessários: baixou em um ano o nível do curso normal, buscou
equiparar escolas normais particulares e municipais e procurou tornar o magistério
financeiramente mais atraente. Em 1927, com a Lei de 31 de dezembro, escolas
normais particulares e municipais começaram a ser equiparadas às escolas oficiais.
No item ―Instalação‖ do relatório, produzido tendo como horizonte a
equiparação da escola, encontramos dados sobre a localização do colégio, terreno,
prédio, salas de aula e ―salas especializadas‖. Entre estas, encontramos o auditório, a
sala de Geografia, a de História Natural, a de Física e Química e a Biblioteca.

Biblioteca – Há uma biblioteca onde se encontram excelentes compêndios e obras


recomendáveis para consulta das alunas e professores. Uma bibliotecária a tem a seu
cargo todo o serviço da biblioteca. Os livros são fichados. Damos aqui uma relação
dos livros existentes: Educação, 250 volumes; Sociologia, 61; Filosofia e História da
Educação, 33; Ciências Médicas e Biologia Educacional, 48; Instrução Moral e
Cívica, 42; Matemáticas, 23; Física e Química, 85; História Natural, 62; Literatura,
153; Geografia, 81; História do Brasil e Civilização, 150; Línguas: Francês, Inglês,
Italiano, 180; Latim, . 64; Religião, 485; Belas Artes e desenho, 24; Enciclopédia e
Dicionário Internacional; Enciclopédia pela imagem; Tesouro da Juventude;
Enciclopédia brasileira de Educação. Possui também uma biblioteca infantil com um
bom número de volumes. Nesta se está fazendo a revisão dos livros existentes afim
de que nela não figurem livros que as crianças não devam ler. As revistas assinadas
pelo estabelecimento são: Revista brasileira de Pedagogia, Revista de Educação,
Revista do Ensino, A Ordem, Vozes de Petrópolis, Ruth (Religião, Ciências, Artes e
Letras), Revista Escolar Infantil, Revista Nacional de Educação, Infância e
Juventude, Filosofia, ciências e letras, Revista Nacional e Boletim Catequético;
estrangeiras: Vita e Pensiero, Scuola Moderna, Pró Infanzia, Catechesis (Pinheiro,
1938:3).

Analisando este relatório, podemos tirar algumas conclusões.


1. Percebe-se que é dado destaque especial à Biblioteca. Das ―salas
especializadas‖, este item é o que mais detalhes recebeu. Em outro documento do
Colégio, ―Horário organizado para 1940 — Curso Profissional‖, notamos que em
quase todos os dias da semana existe um horário para que as alunas possam
freqüentar a Biblioteca. No horário do primeiro ano, com exceção da terça-feira, em
todos os dias aparece no horário ―Educação Física ou Biblioteca‖. O horário de
Educação Física era das 4:15h às 5:00h. O horário não esclarece quantos dias por

265
semana são dedicados à Educação Física e quantos à Biblioteca. No horário do 2º
ano profissional, o item ―Educação Física ou Biblioteca‖ aparece em três dias. As
aulas eram de segunda-feira a sábado e, na terça-feira, o horário citado era reservado
para Canto Orfeônico.
2. A Biblioteca serve para consulta de alunos e professores e está sob
responsabilidade de uma bibliotecária. Trata-se de uma biblioteca especializada, que
tem uma profissional a organizá-la, destinada também aos professores.
3. Os livros são fichados segundo uma classificação que divide as obras
consideradas de ―Educação‖ — provavelmente estavam catalogado neste item
pedagogia e psicologia — e as de ―Filosofia e História da Educação‖, ―Ciências
Físicas e Biologia Educacional‖ em itens separados.
4. O número elevado dos livros de ―Religião‖ (485), ―Educação‖ (250),
―Línguas: Francês, Inglês e Italiano‖ (180), ―Literatura‖ (153) e ―História do Brasil e
da Civilização‖ (150). Diante do estudo que fizemos sobre a pedagogia católica, que
coloca a religião católica, em si, como uma pedagogia, não é de se estranhar que os
livros de religião sejam encontrados em maior quantidade. O número de obras de
―Educação‖, ―Literatura‖ e ―História do Brasil e da Civilização‖ está coerente com a
finalidade da escola. O valor dado às línguas também chama a atenção, pois tudo
indica que as alunas têm necessidade de ler em vários idiomas, a começar na própria
Biblioteca, que tem muitos títulos estrangeiros.
5. A observação em relação à biblioteca infantil chama-nos a atenção: para
que nela não figurem livros que as crianças não devam ler, a Direção fazia naquele
momento uma revisão dos livros. Isto demonstra que havia obras na biblioteca
infantil que estavam sendo usados normalmente e que agora deveriam ser revistos.
Leve-se em consideração o cuidado especial que os educadores católicos ligados à
CCBE dedicavam na época ao livro infantil, inclusive organizando um ―inquérito
sobre leituras infantis‖ em nível nacional.
6. Quanto às revistas assinadas, vale observar que a Revista Brasileira de
Pedagogia é a que abre a lista. Depois, encontramos duas revistas especializadas que
não são de cunho religioso e, logo a seguir, uma série de revistas na maioria da
mesma linha: A Ordem, Vozes de Petrópolis, Ruth. Na lista de revistas estrangeiras
(quatro), chamam a atenção as Italianas. O fato talvez possa ser explicado levando-se

266
em consideração que o Italiano é a língua ―materna‖ da Congregação das Irmãs
Salesianas, responsáveis pelo Colégio.
7. O total de volumes existentes na Biblioteca que estão inventariados é de
1.741 volumes, sem contar as revistas, os livros infantis e as enciclopédias. Um
número que consideramos bastante alto, para a época.
Equiparação da Escola Normal. O contexto histórico em que se situava a
Escola Normal Livre do Colégio Santa Inês fez com que produzisse alguns
documentos que hoje estão nos servindo. São objetos — ―cacos‖ — de um momento
histórico que incluímos em nossas investigações.
O momento histórico a que nos referimos é aquele em que as Escolas
Normais Livres têm que manter todo um relacionamento com o governo, já que
deveriam satisfazer algumas exigências.

Embora qualificadas de ―livres, as escolas normais de iniciativa privada e municipal


só o eram na denominação que lhes foi emprestada. Não apenas se subordinavam à
fiscalização do Governo através de um inspetor nomeado para cada uma delas, como
deviam satisfazer as seguintes condições para que lhes fosse concedido o privilégio
da equiparação: terem sido fundadas e serem mantidas por nacionais, com corpo
docente também de nacionais; serem seus cursos e programas organizados de acordo
com o regime adotado nas escolas normais oficiais; possuírem um patrimônio
mínimo de duzentos contos de réis; estarem situadas em municípios que não
possuíssem escola normal oficial, exceto no caso de escolas com regime de
internato; apenas uma escola normal livre no regime de externato seria equiparada
em cada município; ser o professor de Pedagogia e Didática de nomeação do
Governo, com os mesmos vencimentos de seus pares das escolas normais oficiais
(Tanuri, 1979:207-208).

As exigências eram muitas e, para as irmãs darem conta de todas, era


necessário, no mínimo, muita organização e uma documentação muito bem
preparada. Nas ―escavações‖ que fizemos, não conseguimos estes documentos
completos, mas, nesta ―arqueologia dos objetos‖, encontramos parte de um
documento que gostaríamos de explorar um pouco.
Da documentação de ―Equiparação da Escola Normal‖, foi feita uma lista de
anexos com 16 ítens, todos significativos (ver Anexo 5). Destaquemos apenas os
quatro mais elucidativos neste estudo: ―2. Declaração de que as Irmãs: Diretoria,

267
auxiliares, professores, são brasileiras e idôneas (Cúria Metropolitana)‖, ―5.
Declaração do Prof. de Educação que nos diversos cursos mantidos é observado o
mesmo regime das escolas oficiais‖, ―9. Quadro das alunas diplomadas em 40, 41,
42, 43‖e ―13. Relação dos livros da biblioteca‖.
Esta lista encontra-se num documento que tem poucas informações. Trata-se
de um texto sem data, sem timbre (o que não acontece com as folhas do relatório de
1937), sem assinatura, sem numeração. Qual a validade do documento que temos em
mãos? O fato é que foi encontrado no arquivo morto da escola; a comparação da lista
de documentos exigida pelo governo na época e a lista dos que foram apresentados,
no anexo; o quadro de alunas diplomadas, que vai de 1940 a 1943, indicando que o
ano escolar de 1943 já havia terminado e que o ano escolar de 1944 não havia sido
concluído ou até mesmo nem começado; o tipo da máquina que foi usada para
datilografar a lista de anexos, igual ao tipo da máquina utilizada no relatório de 1937
— estes são indícios da validade do documento. É mais difícil passarmos dos
indícios às evidências. Resta-nos o testemunho oral de irmãs, que ainda hoje
trabalham no Colégio, de que é um documento verdadeiro.
Devido ao grande número de congregações que tinham entrado no Brasil e de
irmãs estrangeiras, certamente era necessário este segundo documento. A forma
como é redigido também chama a atenção: ―Declaração de que as Irmãs...‖ Um
deslize que revela a centralidade das irmãs no processo educacional da escola, elas
estão acima da direção e funcionários. A declaração era uma exigência do governo,
sem dúvida. De outro lado, elas tinham também a exigência de prestar contas à
Inspetoria Salesiana em Roma, todos os anos.
Relação e comentário dos livros da Biblioteca. O que mais nos interessa no
entanto é o item 13, a relação dos livros da Biblioteca. Conseguimos 12 folhas
datilografadas, com uma classificação de 1 a 588, de títulos e autores. As folhas não
são numeradas e, depois do número 450, passam para o número 500, o que indica
que está faltando uma folha onde estariam relacionados mais 50 obras. A folha
contém até o número 588; embora se encontre no final da página, existe um traço que
indica o término da lista. São pois 538 títulos que se encontrava na Biblioteca, pelo
que tudo indica, no ano de 1944.
Como uma biblioteca dificilmente é formada de uma só vez, mas sim aos
poucos, consideramos este documento uma ―biblioteca pedagógica material‖

268
constituída em grande parte no período de nossa pesquisa. Vamos estudar algumas
características desta biblioteca, comparando-a com a biblioteca pedagógica católica
da RBP.
Comparada com o relatório de 1937, esta lista de livros é bem menor. Mas, se
somarmos os livros por disciplina, classificando os livros da ―relação existente na
biblioteca‖, vamos obter um número que se aproxima da lista de 1937.
Estudando a lista, observamos que faltam os livros de Matemática, Física e
Química, Literatura, História do Brasil e da Civilização, de línguas, de latim e belas
artes. Só estes livros somados já são 679 volumes. Se acrescentarmos os de religião,
que também estão fora, são mais 485 volumes num total de 1.164 volumes.
O primeiro relatório seria um documento interno da escola, talvez para ser
enviado à Inspetoria Salesiana na Itália, como era costume se fazer. Segundo o
testemunho de irmãs do Colégio, era importante arrolar todos os livros de religião.
Como a segunda lista, de 1944, era deveria ser apresentada aos órgãos do Estado,
foram catalogados apenas os livros relativos às disciplinas obrigatórias por lei nas
escolas de formação de professoras.
Somando os livros do relatório de 1937 de acordo com as disciplinas
observadas no relatório de 1944, teremos um número de volumes que se eqüivalem:
educação, 250 volumes; sociologia, 61; filosofia e história da educação, 33; ciências
médicas e biologia educacional, 48; instrução moral e cívica, 42; história natural, 62;
geografia, 81. Temos um total de 577 volumes. O total de volumes apresentados no
relatório de 1944 é de 588 — uma diferença de 11 volumes.
Alguns títulos aparecem várias vezes, o que indica que estas obras eram os
mais usados em sala de aula ou os mais indicados pelos professores. No Quadro 53,
organizamos os títulos de acordo com o número de volumes na biblioteca.

269
Quadro 53
Títulos na Biblioteca da Escola Normal do Colégio Santa Inês
1944 (?)

Títulos Autor Volumes


Curso elementar de história natural Mello Leitão 5
História natural Luiz Menezes 6
História natural Waldemiro Potsch 6
História natural Carlos Costa 4
História natural F. T. D. 4
Moléstias (Sem autor) 4
Ação Social Brasileira Amélia de R. Martins 3
Conbributi del laboratorio di psicologia e biologia Univ. Cat. del S. Cuore 3
Guida alle lezioni Pizzigoni 3
Noções de história natural Paulo Decourt 3
Psicologia A. Sampaio Doria 3
Didática João Toledo 2
Educação e sociologia Emílio Durkheim 2
Elementos de anatomia e fisiologia humanas Almeida Junior 2
La psicologia del fanciullo normale ed anormale E. Formiggini 2
Manual de filosofia Ludgero Jaspers 2
Noções de psicologia aplicadas à educação Iago Pimentel 2
Noções de sociologia Hanry du Passage 2
Noções de sociologia Madre Peeters 2
Palestra de higiene Sabino Gasparini 2
Suma contra gentiles S. Tomás de Aquino 2
Teoria da educação Giovanni Cesca 2
Tratado de pedagogia Pedro Anízio 2

Mello Leitão é um dos autores mais citados. Na lista original, ele aparece da
seguinte forma:
409 — Curso elementar de História Natural Mello Leitão
410 — Curso elementar de História Natural Mello Leitão
411 — Curso elementar de História Natural Mello Leitão
412 — Curso elementar de História Natural Mello Leitão
413 — Curso elementar de História Natural Mello Leitão

270
414 — A Biologia no Brasil Mello Leitão
415 — Compêndio de Zoologia Mello Leitão
Acreditávamos em nosso projeto de pesquisa que este autor necessariamente
deveria constar das ―bibliotecas pedagógicas católicas‖. Curiosamente, não o
encontramos na lista da ―Biblioteca da RBP‖, nem no inventário da ―Biblioteca d‘ A
Ordem‖. No inventário da RBP, o autor foi citado apenas uma vez na seção
―Consultas‖ de junho de 1934. Foi feita uma crítica ao livro de Leitão, Biologia
Elementar, por ser considerado um livro que apresentava ―traços de transformismo‖
(evolucionismo?). Também não encontramos o livro História natural, de Waldemiro
Potsch. O autor apareceu no inventário da Biblioteca da RBP, na seção ―Notícia
Bibliográfica‖ de março de 1935, na qual foi apresentada a 12ª edição da obra Brasil
e suas riquezas.
Outro autor que integra a ―Biblioteca da RBP‖ é Almeida Júnior, mas não
com o livro cujos volumes aparecem no Quadro 53. Numa consulta sobre história
natural e botânica, etc., de junho de 1934, encontramos sua obra Anatomia (1ª e 2ª
edição). Na seção, os livros são criticados por apresentar ―traços de transformismo‖.
É notável o número de textos sobre história natural que aparece no inventário,
e entre este livros destacados. Esta disciplina implica polêmicas, porque esbarra no
dogma da criação, que entrava naquela época em choque com a teoria da evolução,
daí a crítica a muitos livros como apresentam traços de ―transformismo‖. Estas são
questões que os católicos buscavam enfrentar com publicações sobre ciência e fé.
Não é sem propósito que o primeiro curso do Instituto Católico de Estudos
Superiores foi Ensaio de biologia. Entende-se também o valor dado a Ciência e
religião, do cônego Emílio José Salim, e mesmo a A origem do mundo à luz da
ciência e da religião, de Everardo Backheuser.
Em relação à sociologia, existe uma convergência. Na RBP de outubro de
1935, Alceu da Silveira comentou a obra Noções de sociologia, de madre Francisca
Peeters. A resenha é extremamente significativa pela força das palavras de Silveira.

No embate entre católicos e acatólicos, quase sempre a superioridade aparente dos


últimos se fundamenta na timidez excessiva dos primeiros. Tanto têm nossos
adversários de ousadia e convencimento, como os nossos co-irmãos de receio e
vacilação. Quanto valor real perdido entre as fileiras católicas, máxime entre as
ordens e congregações. Estes pensamentos me vêm a propósito do livro magnífico

271
de uma religiosa — Noções de Sociologia, de Madre Francisca Peeters [...]
Durkheim, por exemplo, tem todo o seu pensamento exposto e analisado [...] se
baseia muito em autores como De Hôvre [...] De maneira geral, livro, capaz de
honrar as letras católicas do Brasil e sobretudo a cultura da mulher patrícia, que deve
ter em Madre Peeters um modelo a imitar (Silveira, 1935:229-230).

O Tratado de pedagogia, de Pedro Anísio, aparece com dois volumes. Sinal


de que era mais usado do que Técnicas de pedagogia moderna, de Backheuser, e
Pedagogia, de Carlos Leôncio, que aparecem apenas uma vez, embora já estejamos
no ano de 1944 e numa escola salesiana, mesma congregação do Pe. Leôncio.
Há ainda livros de S. Tomás de Aquino. Sendo a pedagogia católica baseada
na teologia (teologia tomista, na maioria da vezes), entende-se que as obras deste
autor estejam na biblioteca da Escola Normal Santa Inês. Aparece também Suma
Teológica, de S. Tomás. Acreditamos que estes livros eram mais utilizados por
professores, dada a sua complexidade.
Os demais autores ou editores indicados no Quadro 53 não aparecem na
Biblioteca Pedagógica Católica da RBP, nem mesmo como autores de outras obras.
Pensando ainda em termos de livros nacionais e estrangeiros, é interessante
notar que a Biblioteca do Colégio Santa Inês conta com 134 títulos estrangeiros e
404 nacionais. Dos estrangeiros, 79 são italianos, 37 franceses e 18 são de língua
espanhola. Sendo a congregação salesiana proveniente da Itália, acredita-se que as
irmãs teriam mais facilidade em adquirir livros italianos e mesmo mais facilidade em
trabalhar com a literatura italiana.
Um breve inventário das semelhanças e diferenças. Já iniciamos este
inventário acima. Façamos uma comparação mais ampla entre as duas bibliotecas, a
da RBP e a da Escola Normal do Colégio Santa Inês (ver Quadro 54).
Se pensarmos no universo total dos quase 600 livros, esta lista é pequena. Se
considerarmos que os livros de religião, os de história da civilização, os de literatura
não se encontram no inventário, então a má impressão que se possa ter num primeiro
momento pode ser amainada. São então 27 volumes num total de 24 títulos de livros
―de educação‖, de sociologia e de história natural. São semelhanças entre as duas
bibliotecas que já estão ressaltadas no próprio Quadro 54. Pode-se dizer que este
filtro apresenta o que é essencial.

272
Quadro 54
Títulos comuns à Biblioteca da Escola Normal do Colégio Santa Inês e à Biblioteca
da RBP

Título Autor
A Escola Nova Jônatas Serrano
A escrita na escola primária Orminda Marques
Anais do 1º Congresso de Educação
Catecismo da educação René Bethelm
Como ensinar linguagem Firmino Costa
Da Educação Física Fernando de Azevedo
Debates pedagógicos Tristão de Athayde
Didática da Escola Nova Aguayo
Educacion de la pureza J. Renault
Elementos de filosofia Sinibaldi
Filosofia, pedagogia, religião Lúcio José dos Santos
História natural Inácio Puig
L‘éducation du caráctere M. S. Gillet
L‘éducation du coeur M. S. Gillet
La virilité chretienne M. S. Gillet
Le catholicisme Fr. De Hôvre
Noções de sociologia Madre F. Peeters
Noções de sociologia Madre F. Peeters
Pedagogia Carlos Leôncio
Philosophie pedágogique Fr. De Hôvre
Psicologia pedagógica Vassiére
Psychologie pédagogique Vassiére
Técnica da pedagogia moderna Everardo Backheuser
Testes A. B. C. Lourenço Filho
Traité de psychologie Georges Dwelshauvers
Tratado de pedagogia Pedro Anísio
Tratado de pedagogia Pedro Anísio

273
Como definir o que é ―essencial‖ numa escola que tem que comprar seus
livros? Saber o que é colocado dentro de uma biblioteca é tão delicado quanto
apresentar um livro em uma lista, ou mesmo fazer uma resenha. Se na Revista, às
vezes, é quase forçoso fazer o comentário de um livro que acabou de sair ou
responder a uma consulta sobre esta ou aquela obra, dentro de uma escola não há
espaço para isto. Pois na escola vai circular sobretudo o que é utilizado, e não há
espaço para muitas novidades, ainda mais na biblioteca que serve a todos.
O autor mais evidente é M. S. Gillet, que aparece três vezes, cada vez com
um livro diferente, todas as suas três obras em língua francesa. Vale ressaltar que, se
no inventário inicial da Biblioteca havia 79 títulos em língua italiana, aqui não
aparece nenhum, e se apareciam 37 títulos em língua francesa, agora há seis.
Chama a atenção ainda o fato de que nesta última lista comparecem dois
grandes nomes da reforma do ensino no Brasil, Fernando de Azevedo e Lourenço
Filho. Na Biblioteca da Escola Santa Inês, há também o livro Educação progressiva,
de Anísio Teixeira, completando a lista dos grandes ―pioneiros da Educação Nova‖.
Se no inventário da RBP havia Em marcha para a democracia como livro
desaconselhado, aqui é significativo que a obra de Teixeira esteja na lista dos livros
―escolhidos‖, pois é principalmente pensando nele que se escreve algo como há
pouco lemos, ―nossos adversários‖. Um fato como este não pode ser ignorado. Este é
um outro típico exemplo que demonstra a existência de uma distância entre as
prescrições feitas e o uso do impresso.
Finalmente, cabe lembrar que nossa pesquisa faz parte de um projeto mais
amplo, que tem como meta investigar outras séries discursivas e confrontá-las.
Reconhecemos que este é um pequeno passo para o conhecimento. Uma história
comparativa desta nossa biblioteca com a Biblioteca Pedagógica Brasileira
organizada por Fernando de Azevedo ou com a Biblioteca de Educação organizada
por Lourenço Filho poderá ser muito útil em um projeto de história dos saberes e das
práticas pedagógicas na década de 30.

274
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300
ANEXO 1

301
A IGREJA CATÓLICA
E A CULTURA IMPRESSA

Em nossa pesquisa, não se pode perder de vista a trajetória da Igreja Católica


com relação ao impresso.
Desde que a imprensa foi inventada, a Igreja Católica, experiente em copiar e
manipular livros, manteve uma política determinada com relação aos impressos.
Toda a bagagem acumulada durante séculos pesa sobre a constituição do nosso
objeto, a ―Biblioteca Católica‖, vista como uma coletânea de impressos de várias
ordens, utilizada como estratégia de manutenção, ou construção, da ―civilização
cristã ocidental‖.
Este capítulo está subdivido em três partes:
• ―Controlar o impresso: a luta para manter um monopólio ameaçado‖, em
que vamos nos ater às orientações principais dos papas, da invenção da impressora
até a Revolução Francesa
• ―O impresso como arma de defesa, ataque e resistência‖, sobre as
orientações da Igreja Católica nos séculos XVIII e XIX
• ―Organizar para reconstruir: o imprenso no Código de 1917‖, quanto às
orientações da Igreja Católica com relação ao impresso no Código de Direito
Canônico de Bento XV, a legislação que rege todas as atividades da Igreja relativas a
materiais impressos, durante o período da nossa pesquisa
Emprestamos o conceito de ―cultura impressa‖ de Elizabeth L. Eisenstein,
para quem esta expressão ―refere-se a desenvolvimentos ocorridos no Ocidente
posteriormente a Gutenberg‖ (Eisenstein, 1998:11). Com esta historiadora,
acreditamos que foi o impresso uma forma utilizada pela Igreja Católica para
conservar, defender e construir a cristandade ocidental.
Vamos nos valer, neste trabalho, da coletânea elaborada pelo frei Romeu
Dale, que, em seu livro Igreja e comunicação social (1973), teve o cuidado de
traduzir na íntegra alguns documentos sobre o impresso e organizar outros já
traduzidos.

302
Ao lado do texto de Dale, vamos colocar um outro texto, de Carlos Rizzini,
taubateano e conterrâneo de Monteiro Lobato, que traz ricas informações sobre os
impressos em seu livro O jornalismo antes da tipografia (1977).
Cruzamos estes textos com um terceiro, da citada historiadora inglesa
Elizabeth Eisenstein. A autora, em sua pesquisa A revolução da cultura impressa
(1998), busca estudar como o acesso a materiais impressos afetou o comportamento
humano nos primórdios da Europa moderna, ao se criar uma nova cultura gerada
exatamente pelo advento da imprensa. Para a historiadora, aconteceu neste período
uma revolução ainda não suficientemente percebida e explorada pelos pesquisadores.
Os encontros sempre geram o novo, e é que buscamos com este cruzamento de textos
costurado pelos nossos comentários.
No caminho que percorrido para desenvolver este texto recolhemos em
primeiro lugar os documentos eclesiais em âmbito universal, elementos que pouco a
pouco vão nos dando a idéia do valor que a Igreja Católica deu ao impresso e da
consciência que ela tem da importância de dedicar-se a esta causa para manter,
defender e construir uma cultura. Pode-se perguntar: a cultura ocidental cristã seria a
mesma sem este esforço? Se o esforço fosse maior, a civilização cristã ocidental seria
diferente?35
Nosso texto tem como objetivo iniciar um trabalho que deve ir se afunilando
até chegar ao Brasil das primeiras décadas do século XX (Capítulo I de nossa tese).
Nossa intenção é conhecer o projeto da Igreja Católica para o Brasil e clarear a
posição do nosso objeto de pesquisa dentro da vasta atividade dos católicos com
relação ao impresso.
Este texto, embora não traga grandes reflexões, pretende ainda expor a lógica
discursiva da Igreja Católica Apostólica Romana – lógica que foi implantada em solo
brasileiro. Uma vez feita esta reflexão sobre a teoria pretendemos investigar a lógica

35
O próprio arcebispo coadjutor do Rio de Janeiro inicia seu texto sobre o impresso no documento
Ação Católica com as seguintes palavras: ―Ao desencadear sobre a França a perseguição religiosa do
maçonismo judaizante, pode eminente personagem escrever: ‗Dizem as estatísticas que nos últimos
quarenta anos nós, os católicos franceses, despendemos trezentos milhões de francos em obras pias de
todo gênero. Se entre as obras pias que sustentamos, houvéssemos incluído a boa imprensa, não
estaríamos hoje sofrendo a humilhação do triunfo sectário‘‖ (Ação Católica, p. 99).

303
da experiência prática da Igreja. E assim vamos relacionando discursos e práticas da
Igreja Católica.

l. Controlar o impresso: a luta para manter um monopólio ameaçado

A invenção da imprensa (1454) foi recebida com entusiasmo tanto pela


hierarquia da Igreja Católica, como pelos luteranos.36
Não tardou muito e a nova invenção começou a ser utilizada tanto por
movimentos que esbarravam na hegemonia dos católicos, quanto pelos católicos, que
não queriam perder sua posição. É assim que, já em 17 de março de 1479, o papa
Sisto IV felicita as autoridades universitárias de Colônia pelas medidas proibitivas e
preventivas com relação à imprensa (cf. Dale, 1973:33). Na construção de uma nova
civilização, o impresso, desde sua origem, foi descoberto como uma arma
poderosíssima.
A caça aos livros considerados ―perigosos‖ pela Igreja Católica já era prática
bem conhecida. Não eram raros fatos como o acontecido em 1225, quando o marquês
de Montferrand, recém-convertido pelos dominicanos, lançou ao fogo sua livraria,
composta em 40 anos. ―A Igreja Católica e as Universidades aplicaram a censura, o
anátema e a destruição para aterem à sua bitola o pensamento escrito‖ (Rizzini,
1977:34-35).
Em 1487, apareceu o primeiro documento oficial da Igreja com relação à
imprensa. Foi a constituição do papa Inocêncio VIII, de 17 de novembro, intitulada
Inter multiplices. Trata dos seguintes assuntos: missão pastoral (promover as boas
iniciativas e arrancar o joio); ambigüidade do livro multiplicado pela descoberta da
imprensa (proibição de imprimir livros sem a censura prévia); entrega da lista dos

36
Gutemberg, em 1445, de volta a Mogúncia, compunha e imprimia com caracteres de chumbo o
primeiro livro de que há memória, o Welgericht (―Juízo Final‖), do qual só resta, entesourada na
Biblioteca Estadual de Berlim, uma folha de 28 linhas (teria ao todo 74 páginas) com sinais de haver
sido utilizada em encardenação. Sua Bíblia de 42 linhas foi iniciada em 1450 e concluída em 1456.
Durante esta desgastante tarefa, houve uma ―manobra de tirar à pressa as vendáveis‖ cartas de
indulgência de Nicolau V. Conservam-se hoje cerca de 50 exemplares das quatro edições impressas
em 1454 e 1455, fase em que Gutemberg estava ―quebrado‖ financeiramente e desfez sua sociedade
com Fust (cf. Rizzini, 1977:133-136).

304
livros e folhetos já impressos; queima dos condenados; punição dos impressores
culposos; apelo final aos responsáveis.37
Isto aconteceu pouco depois do advento da imprensa,38 ou seja, a montagem
de prelos em centros urbanos fora da Renânia. Foi uma verdadeira revolução a
disseminação da tipografia na Europa.39 Tanto do lado dos católicos, como do lado
dos protestantes, a nova arte era considerada mais como uma benção do que como
uma maldição. O aumento da produção impressionava os observadores de então, que
viam naquela inovação algo de sobrenatural. Mais ainda porque a quantidade de
novos livros não fazia com que a qualidade fosse perdida. Os que até então

37
Tradução do texto latino original publicado por frei Carlos Josaphat na Revue des Sciences
Philosophiques et Théologiques (Paris, octobre 1966, p. 628-643), apud Dale (1973:33).
38
O conceito de imprensa em nossa pesquisa é tirado de Eisentein (1998:28), onde se explica:
―Utilizaremos o termo ‗imprensa‘ como um rótulo conveniente, como se fosse uma expressão
abreviada para nos referirmos a um conglomerado de inovações (ocasionando o uso de tipos de metal
móveis, tinta à base de óleo, prensa de madeira manual, e assim por diante).‖
39
―Melhor do que Gutenberg e Fust [seu sócio] e melhor do que ninguém, ajuizaria Schoeffer da
significação para a humanidade da arte a que devotara a sua existência. Vira com os seus olhos os
ramos da modesta árvore de Mogúncia, da qual ajudara a colher a Bíblia de 42 linhas, estender-se e
frutificar por toda a Europa. Cerca de 1.200 oficinas espalhavam-se nela e a safra de edições passava
de 35.000! Consideradas as distâncias e as comunicações, é prodigiosa a disseminação da tipografia.
Em vida de Gutenberg aportara a quatro cidades alemãs e a Roma. Dentro do próprio quatrocentismo,
levada por impressores alemães, implantara-se em 247 cidades, das quais 78 italianas. Penetrara na
Itália, mosteiro de Subíaco, 1464; na Suíça, Basiléia, com Berthold Rot, 1467; na França, Paris,
introduzida pelos mestres da Sorbona, Jean Heyulin e Guilherme Fichet, com os impressores Martin
Kranstz, Ulrich Gering e Micael Friburger, 1470; na Holanda, Utrecht, com os impressores Nicolau
Ketelaer e Gerardo de Leempt, 1472; na Hungria, Buda, trazida pelo impressor André Hess, sob os
auspícios do rei Matias Corvin, 1473; na Espanha, Valência, com o impressor Lambert Palmart,
solicitado pelo livreiro alemão Filipe Vizland, 1473; na Bélgica, Lovaina, com o impressor, Jean de
Westfalia, atraído pela universidade, 1474; na Polônia, Cracóvia, com um impressor ido,
provavelmente de Augsburgo, 1475; na Inglaterra, Westminster, com William Caxton, 1476; na
Áustria, Viena, com o impressor Estevão Koblenger, 1482; na Dinamarca, Odensee, com o impressor
Johannes Snell, que instalou a primeira oficina da Escandinávia, 1482; na Suíça, Estocolmo, com o
mesmo impressor Snell, 1483; em Portugal, Faro, com o impressor Samuel Gacon, 1487; na Noruega,
Cristiana (Oslo), com o impresso Tyge Nielsson, 1644. À Turquia chegou, para a exclusiva impressão
de livros judaicos, em 1505 e para uso comum em 1727; à Rússia em 1564, importada por Ivã IV,
tendo sido queimada por populares supersticiosos a introduzida por um mercador em 1560; à Grécia
somente em 1810, montada em Quios‖ (Rizzini, 1977:138-139).

305
trabalhavam com manuscritos — encadernadores, rubricadores, desenhistas,
calígrafos — passaram a ter mais trabalho com a instalação dos prelos.

Poder-se-ia falar numa mudança básica em determinado modo de produzir livros,


numa revolução dos meios de comunicação, ou da mídia; ou talvez, de modo mais
simples e mais explícito, num salto do texto manuscrito para o impresso [...] o
número total de livros produzidos por ―todos os escribas da Europa‖ desde 330, ou
mesmo desde 1400, com toda probabilidade permanecerá indefinido. Não obstante,
é sempre possível fazer algumas comparações, que colocam a produção das
impressoras em nítido contraste com as tendências anteriores. Em 1483, a
Impressora Rivoli cobrava 3 florins por quinterno, para compor e imprimir a
tradução dos Diálogos de Platão, feita por Ficino. Um escriba poderia ter cobrado 1
florim por quinterno para copiar o mesmo trabalho. A prensa Rivoli produziu 1.025
cópias; o escritor teria completado uma (Eisentein, 1998:28-29).

Tal quantidade de cópias gerava nova forma de relação entre os homens.


Certamente, não foi fácil acompanhar tamanha fertilidade, mas a Igreja Católica
insistia em manter o controle das publicações. Em 1515, durante o V Concílio de
Latrão (l512-15l7), o papa Leão X publicou a constituição Inter sollicitudines, com
determinações para a imprensa, inclusive o exame prévio dos escritos e a permissão
eclesiástica para imprimi-los (Imprimatur), a proibição dos livros contrários à fé e
das brochuras difamatórias, além das penalidades espirituais, como a excomunhão, e
temporais, como multas, suspensão do direito de imprimir, queima dos livros e apelo
ao braço secular (cf Dale, 1973:39). Estas iniciativas atravessaram séculos.
Pouco tempo depois de terminado o Concílio de Latrão, Martinho Lutero
fixou as suas teses sobre as indulgências (1º de novembro de 1517) e multiplicou
logo em seguida os impressos e folhetos manuscritos que difundiam suas idéias, a tal
ponto que iniciou uma revolução cultural.

Lutero convidara as pessoas a um debate público, e ninguém apareceu para discutir.


E então, ―como por um passe de mágica, ele se viu de repente falando com o mundo
inteiro‖. Aqui temos um exemplo de causação revolucionária, em que é difícil
manter as distinções, normalmente úteis, que são em geral feitas entre uma
precondição e um fator precipitador. Parece com efeito haver consenso geral no
sentido de que o ato de Lutero, em 1517, foi o fator que precipitou a Revolta

306
Protestante [...] a controvérsia sobre as indulgências reuniu o homem e a ocasião: ela
assinalou o fim da igreja medieval (Eisenstein, 1998:172).

Os documentos papais, em suas entrelinhas, revelam o que acontecia no


mundo, católico ou não: estão sempre em busca de soluções, à luz da doutrina
católica, quanto aos novos desafios que a Igreja devia enfrentar. A Igreja percebia
que, diante das novas técnicas de publicidade, alteravam-se as formas de discussão
teológica e que a forma de barrar o avanço protestante seria impedir a leitura de
obras publicadas pelos partidários de Lutero, bem como de outros livros contrários à
ortodoxia dos católicos.
A resposta da Igreja Católica a essa realidade veio em 1559, quando o Ofício
da Sacra Romana e Universal Inquisição organizou uma lista dos autores e dos livros
que não podiam ser lidos.40 É a primeira lista do chamado Index, de Paulo IV. Esta
lista foi publicada durante o Concílio de Trento (1545-1563), em que se discutiram,
nas sessões de 1562 e 1563, pormenores dessa questão. Como resultado, foi
elaborada a ―Constituição Apostólica‖ de Pio IV, do dia 24 de março de 1564,
denominada Dominici gregis. São tratados aqui os temas ―Da leitura dos livros dos
hereges‖, ―Elaboração do Índice‖, ―Aprovação do Índice‖ e ―Penas para os
transgressores‖.

40
Proibir a leitura de livros, contudo, não foi uma atitude inédita, pois em 496 o papa Gelásio já havia
publicado uma lista de livros proibidos (cf. Dale, 1973:42).

307
A realidade, porém, exigia muito mais do que isto da parte dos católicos.
Assim, o Concílio tridentino mandou ainda publicar dez regras gerais sobre a
interdição dos livros, a serviço dos bispos e da Inquisição, que introduziam o Index.
Essas regras estão concentradas em questões bíblicas e teológicas e estavam em
pauta no embate com a Igreja nascente de Lutero, Igreja antipapista e com inúmeras

308
pregações de credos heterodoxos que causaram não poucas e profundas
conseqüências na civilização ocidental.
Trento não se limitou ao protesto. Aproveitou-se da própria imprensa para
unificar as comunidades católicas, sobretudo insistindo sobre a uniformidade no
culto. Textos impressos, todos com rubricas uniformes, sempre em latim, mantêm os
católicos mais centralizados em Roma. Mas a reforma litúrgica não foi tudo. As
tradições eclesiásticas já vinham sendo afetadas pelo advento da imprensa bem antes
do aparecimento de Lutero, e era preciso recuperar este espaço perdido.

Uma vez fixados num formato novo e apresentados de maneira inovadora, os pontos
de vista ortodoxos eram inevitavelmente transformados. As doutrinas de Tomás de
Aquino, por exemplo, depois de aparecerem sob forma impressa, ganham um novo
alento. O tomismo foi objeto de uma retomada deliberada e depois conquistou a
aprovação oficial no Concílio de Trento (Eisenstein, 1998:174).

Cresceu o uso da palavra escrita depois de Trento: são publicados


devocionários dirigidos aos fiéis leigos, aparecem os manuais para pregadores e
multiplicam-se os sermões escritos.
O papa Clemente VIII (1592-1605) veio depois a fazer algumas observações
sobre a quarta e a nona das regras do Concílio de Trento. Quanto à quarta, permitia-
se a ―leitura dos escritos bíblicos em língua vulgar, desde que aprovados pela Sé
Apostólica‖. A observação sobre a nona referia-se a livros de astrologia, augúrios,
sortilégios e assuntos semelhantes; davam-se poderes aos bispos e inquisidores locais
para processar pessoas envolvidas com tais leituras e esclarecimentos sobre a
proibição do Talmud e outros livros dos hebreus, permitindo apenas o livro de
cerimônias e ofícios litúrgicos, o Magazor, em língua hebraica.
Cabem aqui algumas observações, primeiro em torno da impressão da Bíblia.
Cremos que muita coisa ainda está por ser pesquisada neste caso, e esta era uma das
realidades centrais que estavam por trás das preocupações reveladas nos documentos
papais que acabamos de citar.
A imprensa fez com que a Vulgata medieval ficasse obsoleta. Independente
do protestantismo, a Igreja, mais cedo ou mais tarde, teria que tratar do assunto,
frente à expansão do mercado dos livros. No entanto, acreditamos que, apesar da
permissão da tradução de escritos bíblicos em língua vulgar pela hierarquia católica,

309
muito pouco foi feito, pois era o latim a língua que unia a Europa e a América
católicas. Por outro lado, o lar protestante era transformado em uma igreja onde o
chefe de casa deveria se tornar o rei e o sacerdote de seus familiares; os homens
católicos, por sua vez, eram continuamente lembrados dos perigos da leitura
individual da Sagrada Escritura.

A Igreja da Contra-Reforma tomou como certa a premissa de que a ―religião do lar


era uma sementeira de subversão‖. Ela desestimulou a ―leitura bíblica doméstica‖ e
se absteve de criar qualquer alternativa eficaz no sentido de manter práticas
religiosas no interior do círculo familiar (Eisenstein,1998:187).

Ao lado dos textos bíblicos, aparece aqui a preocupação com outros escritos,
muitos dos quais ligados ao surgimento da ciência moderna. Ciência muitas vezes
identificada com o materialismo, incompatível com a crença num mundo espiritual.
De fato, misturavam-se pseudocientistas e charlatões com os cientistas profissionais;
se os primeiros estavam muito mais próximos dos meios de comunicação, os outros
só se expressavam em latim e estavam mais distantes da massa. Eisenstein (1998), ao
estudar a imprensa e o surgimento da ciência moderna, mostra a importância dos
―livrinhos‖ (este termo é usado em contraposição com o termo ―grande livro da
natureza‖) nos novos avanços da ciência. ―Livrinhos‖ que permitiam a troca de
informações entre os verdadeiros cientistas e os auxiliavam nas novas descobertas. A
autora faz ainda uma reconstituição do contexto da revolução copernicana e dá ―uma
outra versão do julgamento de Galileu‖. Todos estes elementos reforçam nossa tese
de que, se a Santa Sé pronunciou-se, é porque havia uma realidade a ser lida à luz da
doutrina católica. O ―advento da imprensa devia merecer maior destaque dos
historiadores da ciência quando eles caracterizam o contexto em que ocorrem a
queda da astronomia galênica e a física aristotélica‖ (Eisenstein, 1998:207),
considera ainda a historiadora.
Mais tarde, o papa Alexandre VII (1655-1667) fez outras observações com
referência à décima regra que introduzia o Index. Tratava-se de impedir que a
impressão dos livros pudesse ser feita em outros países sem a devida licença e de
proibir, no exame dos livros, ―pessoas ligadas pelo afeto aos autores e menos ainda
os parentes — mesmo que longínquos — e de censores indicados pelos próprios
autores‖ (Index Librorum Prohibitorum Sanctíssimi Domino Nostri Leonis XIII

310
Pont., Jussu edutus, Romae, ex typographia polyglotta, l881, apud Dale, 1973:53).
Estas observações, que vão surgindo ao longo do processo, revelam a descoberta, por
parte dos inquisidores, de práticas dos autores, impressores e livreiros utilizadas para
escrever, imprimir, aprovar e fazer circular livros com maior facilidade, diante do
rigor da Igreja Católica. Aparentemente, muitas dessas práticas visavam ―driblar‖,
apesar do perigo, as leis do papa. Leve-se ainda em consideração a existência de
impressores totalmente independentes da Igreja Romana, que faziam seu trabalho por
dinheiro e não por crença religiosa. Além disso, aparecem outros fatores:

Nas regiões protestantes, por exemplo, foram dissolvidas as ordens religiosas


regulares, e o impressor foi incentivado a desincumbir-se da função apostólica de
espalhar as boas novas em diferentes línguas. Já no âmbito das fronteiras dominadas
pela Igreja da Contra-Reforma, foram tomadas medidas opostas. Foram criadas
ordens novas, como a dos Jesuítas ou a Congregação da Propaganda; as atividades
de ensino e pregação foram controladas pelo Index e pelo Imprimatur. Daí em
diante, os destinos dos impressores definharam em regiões onde as perspectivas
tinham antes parecido brilhantes e prosperaram em estados menores, menos
populosos, nos quais a religião assentou raízes (Eisenstein, 1998:190).

Bento XIV (1740-1758), considerado o fundador da moderna ciência


histórico-jurídica, publicou uma nova constituição, Sollicita ac provida, com a qual
retomou toda a legislação antiga sobre a proibição e censura dos livros e procurou, ao
mesmo tempo, responder em especial à crescente difusão da imprensa e, por
conseqüência, à opinião pública.
Inicialmente, este papa assume a preocupação permanente dos seus
predecessores com relação aos impressos. Logo a seguir, fala das duas congregações
encarregadas desse trabalho, o que parece ser um trabalho central da Igreja na época.

Solícita e cuidadosa vigilância foi sempre preocupação dos Sumos Pontífices que
nos precederam, visando afastar os cristãos da leitura daqueles livros que pudessem
ser prejudiciais aos incautos e ingênuos ou levá-los a imbuir-se de opiniões e
doutrinas que se opõem à integridade dos costumes às doutrinas da religião católica.
Basta lembrar o antiqüíssimo decreto de são Gelágio I [...] A Sé Apostólica,
permanentemente, se preocupa com este assunto, e o leva adiante, tendo para tanto
designado duas Congregações de Cardeais da Santa Igreja Romana, às quais foi
confiada a tarefa de buscar e de tomar conhecimento dos livros maus e perniciosos,

311
indicando quais deles devam ser corrigidos, quais os proibidos. Esta tarefa compete,
certamente, à Congregação Romana da Santa Inquisição, a ela confiada por Paulo
IV, função que continua a exercer, quando se trata de julgar livros de um
determinado gênero. Mas é certo que são Pio V foi o criador da Congregação do
Índice, que os subseqüentes Pontífices, Gregório XIII, Sisto V e Clemente VIII
confirmaram e a que acrescentaram vários privilégios e faculdades; praticamente,
sua função própria e única consiste em evocar a si o exame dos livros, a respeito de
cuja proscrição, correção ou permissão se tenha que deliberar (Bento XIV, Sollicita
ac provida, Introdução, apud Dale, 1973:55).

Uma vez que a opinião pública questiona o trabalho das congregações, o papa
dá testemunho pessoal em favor das mesmas e explica pormenorizadamente a
constituição da Congregação da Inquisição (o Santo Ofício) e como é o processo de
julgamento dos livros por esta analisados.

Antes de mais nada, seja o livro entregue a um dos ―qualificadores‖ ou consultores a


ser designado pela Congregação, que lerá com atenção, ponderando diligentemente;
consigne, então, a sua crítica por escrito, indicando os lugares e páginas em que
estão contidos os erros assinalados. Logo em seguida, o livros, com as observações
do revisor, seja enviado a cada um dos consultores que, na congregação que se
realiza normalmente cada segunda-feira, na sala do Santo Ofício, se pronunciarão a
respeito do livro e da crítica ao mesmo; estas observações, com o livro e os sufrágios
dos consultores, sejam transmitidos, em seguida, aos cardeais, a fim de que estes
pronunciem a sentença definitiva sobre o assunto, na congregação que se realiza às
quartas-feiras, cada semana, no convento de santa Maria ―sopra Minerva‖ dos frades
Pregadores. Depois disso, todas as atas sejam encaminhadas, pelo assessor do Santo
Ofício, ao Pontífice, cujo julgamento encerrará a questão. Sendo, porém, costume
antigo, que não se proscreva imediatamente livro de autor católico por conta da
crítica de um único relator, de acordo com o supracitado decreto, de julho de 1750,
queremos que este costume seja firmemente observado (Bento XIV, Sollicita ac
provida, Introdução, apud Dale, 1973:58).

Passa em seguida a enumerar detalhadamente as precauções que se devem ter


com relação a um texto que está sendo condenado. Se o primeiro revisor condená-lo,
deve-se passá-lo para outro revisor. Se as opiniões forem divergentes, deve-se passar
o texto e as críticas a um terceiro revisor.
Da mesma forma que explica minuciosamente o processo de trabalho do
Santo Ofício, o papa o faz com a Congregação do Índice e sua constituição. Logo

312
depois descreve o processo de julgamento dos livros, que deve ser respeitado pela
Congregação:

Como a Congregação do Índice foi criada unicamente para a censura de livros e, por
isso mesmo, não costuma ser convocada tão amiúde como a do Santo Ofício — que
por conta da grande quantidade das questões e assuntos se reúne três vezes por
semana — ordenamos e confiamos ao seu secretário o múnus e a tarefa peculiar de
receber as denúncias dos livros, como já se vinha fazendo. Este, então, informar-se-á
diligentemente, junto ao denunciador do livro, a fim de tomar conhecimento da
validade da proposta acusação; servindo-se também para tanto de dois consultores,
por ela escolhidos, com a prévia aprovação do Pontífice, do Cardeal Prefeito ou de
quem a este substituir: se, de acordo com a opinião destes últimos, o livro for
julgado digno de censura e condenação, que se escolha, pela mesma razão acima
assinalada, um relator idôneo para proferir o julgamento, isto é, alguém perito na
questão de que trata o livro. Este entregará, por escrito, as suas observações,
anotando as páginas em que se encontram cada um dos pontos passíveis de
repreensão. Antes, porém, que a crítica seja levada à Congregação dos Cardeais,
queremos que se realize uma congregação privada dos consultores, pequena como a
chamam, mas que preferimos denominar preparatória, a fim de que julguem e
sopesem as observações apresentadas pelo relator. Esta congregação será convocada
pelo secretário da Congregação, uma vez por mês, ou mais freqüentemente se
necessário, nos seus próprios locais ou no lugar que parecer mais conveniente, no
edifício em que reside. Desta congregação participarão sempre: o Mestre do Sacro
Palácio em exercício, mais seis dos consultores, de cada vez, eleitos pelo secretário,
de acordo com os assuntos a serem discutidos, como foi dito acima a respeito dos
dois primeiros consultores e do relator; além do próprio secretário, encarregado de
anotar nas atas as sentenças dos consultores, a serem enviados à Congregação dos
Cardeais, com o julgamento do relator. Na Congregação Geral observar-se-á tudo o
que acima foi estatuído para a Congregação do Santo Ofício, a respeito do exame
dos livros. E assim como pertence ao assessor do Santo Ofício informar o Sumo
Pontífice do que se passou na Congregação, assim também competirá ao secretário
da Congregação do Índice, cada vez que esta julgar necessário proibir ou corrigir
algum livro, ir buscar a aprovação do Pontífice, apresentando-lhe prévia e
diligentemente um relatório completo (Bento XIV, Sollicita ac provida, nº 8, apud
Dale, 1973:60-61).

Existe, porém, para o autor católico de renome, uma determinação especial. O


livro deve, sim, ser proibido, mas com a cláusula ―até que seja corrigido‖, ou então
―até que seja expurgado‖. Sempre que for possível, deve agir assim a Congregação

313
do Santo Ofício, levando em consideração a fama íntegra e de renome do autor, em
razão seja de outros livros já publicados, seja do próprio livro trazido a exame. Com
certeza para responder a críticas da opinião pública e dos autores, o papa trata da
inconveniência de se ouvir o autor incriminado.
Outros assuntos refletidos nesta constituição apostólica são a presença do
papa no julgamento dos casos graves, a lei de segredo dos assuntos tratados nessas
reuniões, a supressão dos nomes dos que denunciam e dos censores e a qualidade e
as virtudes dos revisores e consultores.
Encerrando o documento, o papa faz uma advertência e uma exortação aos
relatores e consultores e deixa cinco normas que devem ser seguidas com ―exatidão e
capricho‖: 1) acima de tudo, devem-se julgar os livros com eqüidade, antes de querer
condená-los; 2) ―Só se admitam para relator e consultor, na referida Congregação, os
que possuam a ciência, comprovada por estudo diuturno dos assuntos contidos nos
livros‖; 3) julgar com espírito livre de todo e qualquer preconceito (apego aos pais, à
família, à faculdade, ao próprio instituto) e levar em consideração as diversas
correntes que são rejeitadas e atacadas respectivamente, mas que, mesmo defendendo
posições opostas, não prejudicam a fé; 4) nunca ficar preso a pontos isolados, mas
ver o pensamento do autor como um todo; 5) buscar interpretar algumas afirmações
ambíguas sempre benignamente e reforçando seu bom sentido (cf. Bento XIV,
Sollicita ac provida, nº 15-19, apud Dale, 1973:64-66).
Acrescenta ainda o papa dois outros pontos que julga indispensáveis e
oportunos para que, neste assunto, possam ser atendidos o respeito ―à própria
consciência, à fama do autor, ao bem da Igreja e à utilidade dos fiéis‖ (Bento XIV,
Sollicita ac provida, nº 20, apud Dale, 1973:67).
São normas relativas aos livros que expõem doutrinas erradas, sem tomar
uma posição quanto às mesmas, e à caridade cristã que deve nortear o revisor e o
consultor.

314
2. O impresso como arma de defesa, ataque e resistência

Busquemos algumas informações sobre o impresso nos documentos eclesiais


dos séculos XVIII e XIX, fazendo rápidas reflexões sobre as mesmas.
No século XVIII, cresceu a defesa das liberdades civis e políticas, dentre as
quais a liberdade de pensamento. Estes ideais tiveram sua consagração em 1789, com
a Revolução Francesa. A resistência da Igreja a tudo o que era modernismo foi uma
constante no período. Pio VI (1775-1799), Pio VII (1800-1823), João XXII (1823-
1829) e Pio VIII (1829-1830) são exemplos claros dessa resistência.
Entre os católicos, surgiram movimentos que reivindicavam diálogo com a
cultura moderna e buscavam uma ―conciliação com a civilização e suas liberdades‖.
Mas esses movimentos, liderados por pessoas como Montalembert, Lamennais e
Lacordaire, foram sempre abafados.
Gregório XVI, em 15 de agosto de 1832, publicou a encíclica Mirari vos,
sobre os principais erros do seu tempo. Na lista de condenações radicais, ele reflete
sobre a ―monstruosidade da liberdade de imprensa‖, que, na sua opinião, nunca foi
suficientemente reprovada. Rejeita as doutrinas errôneas ― disseminadas por todas as
partes, em inumeráveis livros, folhetos e artigos que, se são insignificantes na
extensão, não são certamente pela malícia que encerram‖ (Gregório XVI, Mirari vos,
nº 12, in Acción Católica Española, Collección de Encíclicas y Cartas Pontifícias, p.
44).
Pio IX, em 8 de dezembro de 1864, publica outra encíclica, Quanta cura,
contra os modernos erros do naturalismo e do liberalismo, à qual esta anexa o
Syllabus, uma lista com os principais erros da época denunciados nas alocuções,
encíclicas e outras cartas apostólicas daquele papa.
No pontificado de Leão XIII (1878-1903), a república era fato consumado —
o que ele reconhece. Em 1896, já se publicavam cerca de 23 mil periódicos na
Europa, e era forçoso reconhecer o significado da imprensa periódica (cf. Dale,
1973:74). O papa recebe em audiência, em 1879, pela primeira vez na história, um
grupo de jornalistas e, em sua alocução a eles, enfatiza a necessidade de promover os
escritos católicos:

315
Sentimos que os tempos precisam do auxílio de tão valorosos defensores. Porque,
quando surgiu essa desenfreada liberdade de editar-se tudo quanto se queira, que
melhor chamaríamos de libertinagem, os partidários de novidades ocuparam-se em
disseminar, em seguida, uma multidão quase infinita de jornais, que se propuseram
seriamente impugnar ou pôr em dúvida os princípios do verdadeiro e do reto, atacar
e tornar odiosa com suas calúnias à Igreja de Cristo e convencer as mentes com
doutrinas perniciosíssimas. [...] Como o costume, agora já universalmente
estabelecido, considera que estes jornais se converteram numa necessidade, os
escritores católicos terão de trabalhar, com todo o ardor, para converter em remédio
da sociedade e defesa da Igreja aquilo que os inimigos usaram para prejudicar a
ambas (Leão XIII, Audiência a grupo de jornalistas, 22 de fevereiro de 1879, in
Acción Católica Española, Collección de Encíclicas y Cartas Pontifícias, p. 75-76).

Leão XIII escreveu dezenas de ―documentos‖ sobre a imprensa. Uma


coletânea desses escritos foi organizada pelos editores das ―atas de Leão XIII da
Casa da Boa Imprensa de Paris‖ e publicados no Brasil em 1947 pela Editora Vozes,
da Ordem dos Frades Menores. A coletânea foi organizada em duas partes: I) a
imprensa má (ela existe; seus estragos; deve-se combatê-la); II) a boa imprensa (sua
necessidade; seu desenvolvimento; suas normas; seu elogio; seu triunfo final).
Dentro das normas para a boa imprensa, são ressaltadas normas gerais e conselhos
particulares à Igreja localizada em diversos países: França, Bélgica, Espanha,
Lombardia, Itália e Estados Unidos (cf. Leão XIII, 1947).
Um dos documentos mais completos de Leão XIII sobre a imprensa é a
Constituição Apostólica de 8 de fevereiro de 1897, intitulada Officiorum ac
munerum. O papa recorda que, entre os deveres e os encargos (primeiras palavras da
constituição que lhe dá o nome) que todos os bispos têm,

o cuidado religioso exige de nossa dignidade apostólica, o principal, que resume


todos, é o velar, assiduamente, concentrando todos nosso esforços para que a fé e os
costumes nada venham a sofrer em sua integridade [...] nunca essa vigilância foi tão
necessária como em nossa época, onde, em meio a uma liberdade desenfreada dos
espíritos e dos corações, quase todas as doutrinas que Jesus Cristo, o Salvador dos
homens, confiou à guarda de sua Igreja para salvação do gênero humano são todos
os dias atacados e postas em perigo. Neste combate, as habilidades de nossos
inimigos e seus meios de prejudicar são realmente variados e incontestáveis; em
primeiro lugar, temos uma perigosa intemperança, que faz publicar e difundir nas
massas escritos perniciosos. Não se pode, efetivamente, nada conceber de mais

316
funesto nem mais corruptor para os espíritos que este desprezo público da religião e
esta exposição de numerosas armadilhas do vício. Por isso, temendo um tão grande
mal, a Igreja, guardiã vigilante da fé e dos costumes, rapidamente compreendeu a
necessidade de tomar medidas contra tal flagelo: eis a razão de sua constante
preocupação de desviar os homens, tanto quanto lhe foi possível fazê-lo, desse
veneno terrível que é a leitura de mais livros (Leão XIII, Officiorum ac munerum, nº
1, in Dale, 1973:77).

Em seguida, Leão XIII fala da atenção que a Igreja sempre deu, na história,
aos escritos. Chama a atenção, no entanto, para com o agravamento do problema,
com a má utilização da excelente arte da imprensa. Recorda as iniciativas dos papas,
especialmente a publicação do Index de Paulo IV e a ―readaptação das regras de
acordo com as novas circunstâncias‖ feitas por Bento XIV.
Feita esta exposição, Leão XIII discorre sobre as mudanças que foram
ocorrendo para responder à nova realidade social, como a separação da Igreja e do
Estado e a liberdade de opinião. Mudanças que estavam ainda sendo feitas, a pedido
do próprio episcopado. É assim que ele decreta a revisão do Index e um novo caráter
para as normas já existentes.
Finalmente, Leão XIII publica alguns Decretos gerais sobre a proibição e a
censura de livros que são anexados à constituição Officiorum ac munerum.
Os Decretos gerais são divididos em duas partes: da interdição dos livros e da
censura aos livros. Destaco a seguir alguns pontos do decreto.
No título I (―Da interdição dos livros‖), o capítulo I trata da interdição dos
livros dos apóstatas, dos hereges, dos cismáticos e outros escritos, o capítulo II das
edições do texto original e das versões da Sagrada Escritura em língua não vulgar e o
capítulo III das edições da Sagrada Escritura em língua vulgar. O capítulo IV trata
dos livros obscenos e dos clássicos, e o papa afirma:

Os livros clássicos, antigos ou modernos, se manchados com esse vício [a


obscenidade], são permitidos, devido à elegância e originalidade de estilo, somente
àqueles dispensados em razão da função ou do ensino que exercem mas não deverão
ser, sob pretexto algum, entregues ou lidos às crianças e aos jovens senão depois de
expurgados, mediante um cuidado minucioso (Leão XIII, Decretos gerais sobre a
proibição e a censura de livros, 1897, nº 10, in Dale, 1973:83-84).

317
O capítulo V discorre sobre os livros especiais: aqueles que atacam a Deus e à
Igreja, livros que recomendam sortilégios, adivinhações, magia, evocação de
espíritos. São condenadas as obras impressas que contenham novas aparições,
revelações, visões, profecias, novos milagres, etc., e ainda as que defendem o duelo,
o suicídio ou o divórcio, bem como as seitas maçônicas.
O capítulo VI trata da confecção de imagens dos santos sem permissão da
autoridade eclesiástica e de ―qualquer livro, sumário, opúsculo, folhetim, etc.,
contendo concessão de indulgências‖, que só seriam publicados após permissão de
autoridade competente.
O capítulo VII volta-se para a publicação dos livros de liturgia e de orações e
o VIII para a de jornais, folhetos e periódicos. O capítulo IX versa sobre a permissão
de ler e de guardar livros interditos. Aqui se determina quem é autorizado a conceder
permissão de ler e de guardar obras vetadas. Como exemplo, podemos ler no nº 24
do decreto:

Os pontífices romanos atribuam à Sagrada Congregação do Índice o poder de


conceder a permissão de ler e de guardar todo livro proibido. Gozam também dessa
faculdade: a Suprema Congregação do Santo Ofício, a Sagrada Congregação de
Propaganda para as regiões que dela dependem, e para Roma, o mestre do Sacro
Palácio Apostólico (Leão XIII, Decretos gerais sobre a proibição e a censura de
livros, 1897, nº 10, in Dale, 1973:86).

No capítulo X, o papa estende-se sobre a denúncia de novos livros, quem


deve denunciar e o que deve conter a denúncia. Dá, ainda, autoridade aos bispos
(ordinários) e aos delegados apostólicos para proibir ―os livros e outros escritos
nocivos publicados ou espalhados em sua diocese‖. Pede-lhes que passem à Santa Sé
―as obras ou escritos que exigem um exame mais aprofundado, ou aqueles para os
quais uma sentença de autoridade suprema pareça necessária para obter um feliz
resultado‖ (Leão XIII, Decretos gerais sobre a proibição e a censura de livros, 1897,
nº 29, in Dale, 1973:77).
A censura dos livros é o objeto do título II dos Decretos. O capítulo I
estabelece as normas que os encarregados dessa censura devem seguir. O capítulo II,
os deveres dos censores no exame prévio dos livros. O capítulo III aponta os livros
que devem ser submetidos à censura prévia:

318
Os fiéis devem obrigar-se a submeter previamente à censura eclesiástica os livros
que tratem das divinas escrituras, de teologia, história eclesiástica, direito canônico,
de teologia natural, de moral e outras ciências religiosas ou morais do mesmo gênero
e, em geral, todos os escritos que tratem em particular de religião e dos costumes
(Leão XIII, Decretos gerais sobre a proibição e a censura de livros, 1897, nº 29, in
Dale, 1973:89).

O capítulo IV contempla os impressores e os editores e o capítulo V define as


penalidades — que vão da repreensão feita pelo bispo local à excomunhão — a que
ficam sujeitos os transgressores dos Decretos gerais.

3. Organizar para reconstruir: o impresso no Código de 1917

Em 1917, o papa Bento XV publicou o novo Código de Direito Canônico


(CIC), dividido em cinco livros. O terceiro livro (―Das coisas‖) tem seis partes; a
quarta trata ―do magistério eclesiástico‖. É no título XXIII desta parte que
encontramos a legislação da Igreja sobre a prévia censura dos livros e de sua
proibição, em dois capítulos. Foi esta a legislação que atravessou todo o período do
nosso estudo.
Logo na introdução, o Código fala dos direitos que competem à Igreja a
respeito das publicações. A Igreja tem o direito de exigir que os fiéis não publiquem
livros que não tenha previamente examinado e de proibir, com justa causa, os que
forem publicados por qualquer pessoa (cf. CIC, 1917, nº 1.384, § 1).
Segundo os canonistas que comentam este Código, ―a palavra livro se
emprega em sentido amplo por regra geral, de sorte que compreende também
folhetos, revistas e folhas‖ (cf. Dominguez et al., 1957:526). O parágrafo segundo do
nº 1.384 prescreve que, dentro deste título, aquilo que se prescreve para o livro vale
também para as ―publicações diárias e periódicas e quaisquer outros escritos que se
editem‖ (CIC, 1917, nº 1.384, § 2).
O capítulo I legisla sobre a censura dos livros. Trata-se dos livros diretamente
ligados à comunidade católica ou de ―qualquer outro escrito onde se trate de algum
tema que tenha relação peculiar com a religião ou com a honestidade dos costumes‖
(CIC, 1917, nº 1.384, § 2, nº 2).

319
Todos os assuntos referentes às licenças, aos autores que são clérigos, livros
de indulgências, ou edições da Bíblia em língua vernácula, etc., ficam submetidos a
essa legislação.
O cânon 1.393 pede que:

§ 1. Em todas as cúrias episcopais haja censores de ofício que examinem o que será
publicado.
§ 2. Os examinadores, ao cumprir seu ofício, não fazendo acepção de pessoas, só se
fixem nos dogmas da Igreja e na doutrina comum dos católicos, contidas nos
decretos dos concílios gerais e nas constituições e prescrições da Sé Apostólica e no
consentimento dos doutores aprovados (CIC, 1917, nº 1.393, apud Dominguez et al.,
1957:530).

Alerta ainda quanto: Ao cuidado para que os censores sejam escolhidos tanto
entre o clero secular, como o regular e às virtudes necessárias para este cargo; ao
voto, que deve ser dado por escrito — se for favorável, o ordinário (bispo local ou
responsável pela diocese, na falta do bispo) concederá a licença —; à cautela de não
revelar o nome do censor ao autor até que o voto seja favorável; à licença dada pelo
ordinário, autorizando a publicação, que deve ser posta por escrito e impressa no
princípio e no fim dos livros, com o nome de quem concede, o lugar e a data da
concessão.
A constituição Officiorum ac munerum determina que, além da licença e do
imprimatur do ordinário, deviam ser postos no princípio do livro os nomes e
sobrenomes dos autores e do editor, além do lugar e do ano da impressão e da edição;
o ordinário tem a faculdade de permitir, em algum caso, por justa causa, que se omita
o nome do autor (cf. Dominguez et al., 1957:531). O Código de 1917 suprime estes
requisitos.
O capítulo II discorre sobre a proibição dos livros no que diz respeito a quem
tem o direito de proibir, quem tem a obrigação de denunciar e como fazê-lo. Neste
aspecto, não há novidade no Código canônico de 1917.
O cânon 1.398 enumera as condições de um livro proibido, ou seja: sem a
devida licença, não se pode publicar, ler, guardar, vender, traduzir em outra língua e
oferecer a outros.

320
O cânon 1.399 repete a lista de livros que estão proibidos por direito. São 12
itens reproduzidos das legislações anteriores. Ao comentar este ponto, os canonistas
distinguem três maneiras de proibir um livro.
• De maneira geral, como se faz neste cânon do Código, por exemplo:
primeiro, as edições do texto original ou das antigas versões católicas da Sagrada
Escritura, inclusive da Igreja Oriental, publicadas por qualquer autor não católico; e
igualmente suas traduções em qualquer língua, também feitas ou editadas por autor
não católico.
• Por decreto especial, os condenados pela Sé Apostólica, ou por sua inserção
no índice dos livros proibidos.
• Por lei geral ou especial sanção, como, por exemplo, os livros de apóstatas,
hereges ou cismáticos, ou os que defendem estes livros ou outros proibidos
nominalmente por carta apostólica.
O cânon 1.400 mantém a possibilidade de quem se dedica aos estudos
teológicos e bíblicos adquirir autorização para obter e usar um livro da Sagrada
Escritura proibido (cf. Dominguez et al., 1957:534).
Os cardeais e os bispos não estão sujeitos à proibição eclesiástica dos livros e,
no que diz respeito aos livros proibidos pelo ―Direito mesmo‖ ou por decreto da Sé
Apostólica, ou ordinários, podem conceder licença aos seus súditos, ―unicamente
para cada livro em particular e só em casos urgentes‖, quando não há tempo para
pedir licença à Sé Apostólica. São estes os assuntos tratados nos cânones 1.402 e
1.403.
O cânon 1.404 legisla sobre os livreiros (basicamente, resume a legislação já
existente) e o 1.405 fecha o capítulo, fazendo um apelo aos bispos que estão à frente
das dioceses para que cuidem da advertência aos fiéis quanto ao perigo e aos danos
que produz a má leitura, sobretudo dos livros proibidos (cf. Dominguez et al.,
1957:535).

321
4. O impresso na formação da civilização cristã ocidental

Os dados que trouxemos até agora têm como objetivo demonstrar


rapidamente a longa trajetória que a Igreja Católica percorreu deste a invenção da
imprensa até o início do século XX.
Dentro do empreendimento dos católicos no sentido de organizar a cultura
ocidental, o impresso é elemento de suma importância. Toda a legislação e todo o
aparato que se desenvolveram em torno do impresso são prova de que a Igreja
Católica tem consciência de que esses recursos constituíam elementos básicos de
uma estratégia no controle, na defesa e na organização da cultura. Antonio Gramsci,
em Os intelectuais e a organização da cultura (cuja primeira edição em italiano é de
1949), observa esse fato e comenta:

A mais típica destas categorias de intelectuais é a dos eclesiásticos, que


monopolizaram durante muito tempo (numa intensa fase histórica que é
caracterizada, aliás, por este monopólio) alguns serviços importantes: a ideologia
religiosa, isto é, a filosofia, a ciência da época, através da escola, da instrução moral,
da justiça, da beneficência, da assistência, etc. (Gramsci, 1986:84).

Os intertítulos que demos às partes deste capítulo procuram resumir as


conclusões que podemos tirar desta breve exposição e procuram refletir a função do
impresso em dados períodos históricos. Quando a impressora é ―inventada‖ no
mundo ocidental, a hegemonia da Igreja é grande sobre a sociedade. Ao mesmo
tempo, esta hegemonia começa a ser ameaçada por vários acontecimentos sociais,
políticos e religiosos (nascimento do Estado moderno, surgimento de outras igrejas,
etc.). Já no séculos XXVIII e XIX, com a queda da hegemonia da Igreja Católica, o
tempo é de se defender, de atacar e de resistir. Mais uma vez, a imprensa aparece
como uma arma, como o papa Leão XIII dizia, em 1894, aos bispos do Brasil:

A ninguém passará despercebido quanta força possuem os jornais e outras


publicações congêneres, para o bem e para o mal, principalmente em nossos tempos.
Portanto, combater com estas armas pela defesa da religião cristã, recebendo como
convém as diretrizes dos Bispos e guardado o respeito devido ao poder civil, não
seja uma das menores solicitudes dos católicos (Leão XIII, 1947:58).

322
Já no início do século XX a situação é outra. Sopram os ventos da
reaproximação entre Igreja e Estado. A Igreja sente que tem a oportunidade de
trabalhar por uma nova forma de presença na sociedade, mas para isto é necessário se
organizar. Em relação ao impresso, depois de ter tido tanta experiência neste campo,
o novo Código de Direito Canônico vai dar as diretrizes para o controle do mesmo
numa sociedade pluralista.
É justamente esta herança que a Igreja Católica presente no Brasil recebe do
mundo europeu. São os ideais ditados pela Santa Sé que os católicos, em especial a
hierarquia, procuram implantar no Brasil. É esta investigação que agora faremos,
sempre procurando recortar os grandes períodos para localizar, no período de nossa
pesquisa, as raízes daquilo que está sendo herdado.

323
ANEXO 2

324
BIBLIOTECA CATÓLICA (CADASTRO)

Classificação: (X) Livro (X) Indicada


( ) Jornal ( ) Desaconselhada
( ) Revista ( ) ___________________

Autor: Alguns Inspetores do Ensino


Título: Teoria e prática do ensino secundário
Local: Rio de Janeiro Est: RJ País: Brasil
Editora:______________________________________________________________
Coleção: Seção: Literatura Pedagógica – Resenha de Livros
Nº Edição:________Outras Edições. Nº e ano:_______________________________

DIVULGAÇÃO
( ) Revista ―A Ordem‖ campo___________________ ( ) Revista Brasileira de
Pedagogia
Ano: 1935 Vol.: IV Mês: Julho/agosto Nº: 16e 17
Resenhista: Alceu da Silveira
Dados da Resenha: ―... é um estudo do curso seriado à luz da pedagogia moderna e estudo
realizado sob o signo estruturalista, o que é bem antianisiano‖. P.91
Boa nova maior nos traz o livro dos inspetores secundários do Distrito – no campo oficial de
educação brasileira, enfim surgem audazes que, valentemente, abraçam o estruturalismo ,
repudiando, de vez, o unilateralismo behaviourista. Não foi de balde que andou escrevendo e
falando: à turma católica, o Dr. Backaheuser à frente‖!! p.92
―Quem estará orientando o corpo de Inspetores secundários dos domínios de Anísio Teixeira?
Nóbrega da Cunha? Parece que ele só é capaz de acompanhas a Galveston, nunca a Baden sua
Marburg...‖ p.93

OBSERVAÇÕES
Reclama que: criminosamente são cortados das oportunas bibliografias no final de cada capítulo
ou obras de Backheuser.
Em março de 1936, Revista nº 22, AnoIII, vol. V, p.117 – Everardo Backheuser faz um
comenmtário de 3 páginas desaconselhando o livro. ―Um trecho, que a meus olhos, parece franca
doutrina materialista...‖ (c. ficha)

325
ANEXO 3

326
BIBLIOTECA CATÓLICA (DESTAQUES)

( ) Livros Tamanho:
Destaques ( ) Jornal ( ) Página Inteira
(X) Revista (X) Metade da Página
( ) Biblioteca ( ) ________________
( )

DIVULGAÇÃO
(X) Revista ―A Ordem‖ ( ) Revista Brasileira de Pedagogia
Ano: 1934 Vol.: XI Mês: Fevereiro – nº48 Página:167 - Anno XIV

Título: Revista Brasileira de Pedagogia – Diretor – Everardo Backheuser. Órgão da


Cofederação Católica Brasileira de Educação. Secretário Altivo César; Tesoureiro Pedro F.
Vianna da Silva.

Aparece mensalmente, exceto em janeiro e dezembro.

Assinatura anual: 12$000; para os sócios das associações confederadas: 9$000; número a vulso:
2$000.

Redação e Administração: Rua Rodrigo Silva,3 – Tel. 2-4854


Caixa Postal 2494 – Rio de Janeiro

OBSERVAÇÕES
* Revista em destaque – O mesmo dizer, porém em formato menor (1/3 da p.) em A Ordem
(1934) – p.251 (março) e p. 329 (abril)

327
ANEXO 4

328
BIBLIOTECA CATÓLICA - BIBLIOGRAFIA RECEBIDA

DIVULGAÇÃO

( ) Revista ―A Ordem‖ ( ) Revista Brasileira de Pedagogia

Biblioteca Recebida: ( ) Livros ( ) Revistas ( ) Jornais

Relação:

OBSERVAÇÕES

329
ANEXO 5

330
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Dohourap "Aprés da vingtiême année
Backheuser, Everardo A Arithmetica na Escola Nova
Ferraz, Mario de Sampaio A Capital de São Paulo em 1933
Prada, Luiz e Egydio A cartilha de Cecília
Raby, Sister Joseph Mary A Critical Study of the New Education
Vieira, Arlindo A decadência do Ensino no Brasil
Casatti, Mario A escola ativa e seus princípios
Alvim, Dr. Cesário (Editor) A Escola Primaria
L. Luzuriaga A Escola Única
Marques, Orminda A escrita na escola Primária
Archambault, Paul A família e a escola
Federação de Prof. do Est. do RJ A Federação
Correia, Viriato A macacada
Murici, Andrade A nova literatura brasileira
Centro D. Vital A Ordem
Centro D. Vital A Ordem
Backheuser, Everardo A origem do mundo a luz da ciencia e da
religião
Backheuser, Everardo A origem do mundo á luz da sciencia e da
religião
Fargues, Marie A Verdade
Fargues, Marie A Verdade
Fargues, Marie A Vida
Fargues, Marie A Vida
Nabuco, Carolina A vida de Joaquim Nabuco
Fontes, Nardal e Ofelia A vida de Santos Dumont
Academia do Comércio de Juiz de Fora Academia
Amoroso Lima, Alceu Affonso Arinos
Basílica Nacional da N.S. Aparecida Almanaque da Basílica Nacional de N. S.
Aparecida
Lima, Maria Letícia Ferreira Almas
Siegfried, Angdré Amérique Latine
Christaller, Helena Amor Santo
CCBE Anais do 1º Congresso Católico de Educação
Dierccion de Enseñanza Prim. e Normal de Anales de Instrucion Primária
Uruguay
Junior, Almeida Anatomia - 1ª Ed.
Junior, Almeid Anatomia - 2ª Ed.
Dalbis Anatomie e Physiologia animale
Lima, Jorge Anchieta
Bureau Internacional d'Education Annuaeire Inter. De educ. de Mouvement
Monteiro, Clovis Antologias
Barreto, Fausto Antologias
Laet, Carlos Antologias
Cruz, Estevão Aprende tu mesmo
Instituto de Educação do DF Archivos do Instituto de Educação
Backheuser, Everardo Arithmetica na Escola Nova
Backheuser, Everardo Arithmetica na Escola Nova
Arquivos da Assistência a Psicopatas de
Pernambuco
(continua)

331
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Pires, Pe. Helliodoro As educadoras benemeritas da colina de
Sant'Ana
Diniz, Júlio As Pupilas do Senhor Reitor
Sud Mennucci Aspectos Piracicabanos do Ensino Rural
Sinzig, Fr. Pedro Através dos Romances - 2ª edição
Prada, Luiz Auxiliar de Leitura
Companhia do Coração de Jesus Bandeirantes
Leitão, Melo Biologia Elementar
Freitas, Luiz Paulo Boletim Bibliográfico
Negromonte, Alvaro Boletim Catequético
APC Boletim da Associação de Professores
Católicos
C.C.B. Boletim da Coligação Católica Brasileira
Diretoria de Instrução Pública de SC Boletim da D. Inst. Publ. de SC
Diretoria de Instrucção Pública Boletim da Directoria de Instrucção
Departamento de Ensino Público de Boletim de Educação de Pernambuco
Pernambuco
Departamento de Educação do DF Boletim de Educação Publica
Ministério da Educação e Saude Publica Boletim do Ministério da Educação e Saude
Publica
Barnola S J Botânica
Narbal e Ofelia Brasileirinho
Broteria
Bureau Internacional d'Education Bulletin du Bureau Internacional d'Education
Anonima Cadernos Catecheticos
Paixão, Valesca Cadernos Catequeticos
Quinet (diretor) Cahiers Cateqhistiques
Negromonte, Alvaro Caminho da Vida
Silveira, Tasso da Caminhos do Espírito
Quinet Carnet de préparation d'un catéchiste
Freire, Gilberto Casa Grande e Senzala
Lhomme Casamento e Fecundidade
Beaussart Catechisme de perseverance
Sertillanges Catéchisme des incoryants
Hemptienne, Christine Catéchisme des petits
Charles Catéchisme illustré pour les tout-petits
Bethlem, René Catecisme de l'éducation
Cousin, L. Catecisme marial
Hemptienne, Christine Catecismo dos meninos
Quinet, Abbé Catecismo para o Jardim da Infancia
Quinet, Abbé Catecismo para o Jardim da Infância
P. Arthur Costa Catholicismo e Socialismo
Rops, Daniel Ce qui meurt et ce qui nait
Rops, Daniel Ce qui meurt et ce qui nait
Mercante, Victor Charlas Pedagogicas
Fiolle, Jean Ciência e Cientismo
Salim, Conego Dr. Emilio José Ciência e Religião
El Pueblo Ciencias de Educacion
Henry Perroy Cinco Licções de confiança
Baudillart, Sarran et alii Collection "Enfance et Jeunesse"
Gay Comment j'éléve mon enfant
continua)

332
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Costa, Firmino Como ensinar linguagem
Dewey, John Como pensamos
Mercante, Victor Como se aprende a leer
Ruiz Amado, SJ Compendio de H. Universal
Serrano, Jonathas Compendio de Historia Universal
E. Meumann Compendio de pedagogia experimental
Conselho aos Pais
Contos de Frei Ildefonso
Paixão, Valesca Contos de minha irmã
Amoroso Lima, Alceu Contra Revolução Espiritual
Amarante, Iracema Contribuições para uma técnica em mudança
Bernard, Leon et Debré Cours d'Higiène
Fabri Cours d'histoire contemporaine
Dumont, A . SJ Cours d'histoire moderne
Dumoulin Cours d'histoire moderne
Schouppe Cours de abregé de réligion
Escola de Joinvillle le Pont Cours de Pedagogie
Lahr Cours de Philosophie
Verherlst Cours de réligion
Van Acker, Leonardo (Comentando Etienne) Cronica Pedagógica
Popart, Irene Culture physique de la femme. Gymnastique
harmoniq
Gabaglia, F e J. Raja Curso de geografia (1ª série)
Vitoria, SJ Curso de Quimica
Pujiula Cursos teorico-Pelas Revistasatico de biologia
Moreux D'où venons-nous?
Ruiz Amado, SJ Da educação civica
Azevedo, Fernando Da educação Física
Ruiz Amado, SJ Da educação moral
Ruiz Amado, SJ Da educação religiosa
Amoroso Lima, Alceu (Tristão de Ataide) Da Tribuna da Imprensa
Amoroso Lima, Alceu (Tristão de Ataide) Debates Pedagogicos
Athayde, Tristão de Debates Pedagogicos
Vieira, Arlindo Decadencia do ensino no Brasil
Eymieu Dernière série, la loi de la vie
Cunha, Prof. Mello e Desenho geometrico e elementar
Fargues, Maria Deus e os nossos pequeninos
VV.AA Dicionário de Pedagogia Labor
Aguayo, A Didática da Escola Nova
Ruiz Amado, SJ Didática Geral
Ruiz Amado, SJ Didática Geral
Willmann, Otto Didática ou Teoria da formação do espírito...
Alencar, José de Diva
Daring, Thomaz Documentos de nossa época
Sawaya, Prof. Paulo Dois problemas de educação
Serrano, Mario Dois Shillings e Seis Pence
Boulanger Doutrina Católica
Amoroso Lima, Alceu Economia Prepolitica
Ledent, René Educ. Physique basée sur la Physiologie
Musculaire
Watson, John B. Educação Psicológica da primeira infância
(continua)

333
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Republica Uruguaia - Montevideo Educación
Pirolley, E Educadora Cristã
Ruiz Amado, SJ Education de la castidad
J. Renault Education direte de la pureté
Rodez, P El firmamiento
El Monitor de Educación Común
Kaczynska, Maria El rendimiento escolar y la inteligencia
Sinibaldi Elementos de Filosofia
Magalhães, Alvaro Elementos de Phisica pra o 3º anno Seriado
Puig, SJ Elementos de Quimica
Teixeira, Anísio Em marcha para a democracia
Rousseau Emilio
VVAA Enciclopedia e Diocionario Internacional
Ruiz Amado, SJ Enciclopedia Manual da Pedagogia
Diretoria de Educação do Pará Escola
Serrano, Jonathas Escola Nova
Alvim, Dr. Cesário Escola Primaria
Dévaud, E Escolas Rurais na Suiça
Miller, René Fülop Espírito e Fisionomia do Bolchevismo
Habrich, L. Essai de phylosophie
De Hôvre Essai philosophie pedagogique
Magalhães, L. Ribeiro, Joaquim Estrutura e Aprendizagem
Estudios
Pujiuca Estudios criticos sobre la teoria de la evolucion
Alves, Isaias Estudos Objetivos de Educação
Amoroso Lima, Alceu Estudos, 2ª Série
Amoroso Lima, Alceu Estudos, 5ª Série
Amoroso Lima, Alceu Estudos, Primeira Série
Beleza, Othoniel Euritmia do Infinito
Gomes, Lindolfo Exercicios de Leitura Manuscrita
Academina Ruy Barbosa Farol
Cordelier, Suzane Fermes au travail
Tomás de Aquino (Santo) Filosofia da Educação de Sto. Tomás (De
Magistro)
Santos, Lucio José dos Filosofia, pedagogia, religião
Acção Social Católica Feminina - Port. Flor de Liz
Rodrigues, Amélia Flores da Bíblia
VVAA Frances pelo metodo direto 1º ano
VVAA Frances pelo metodo direto 2º ano
O Lemarié Franchise et mensonge chez l'enfant
Fontenelle, J. P. Fundamentos Fisiologicos da Educação Física
Guerra, Alvaro Galeria de Grandes Homens
Monteiro Lobato Geografia de Dona Benta
Salgado, Plínio Geografia Sentimental
Joviano, A; Joviano, Lucia Gimnastica respiratoria
Accioli, Sylvia Ginastica Feminina
Fontes Gramática Alemã
Gramatica de Verbos Franceses reg. e
irregulares
Pinto, Adriano Gramatica Latina
Vasconcelos, Prof.Nuno Smith Gramatica Superior da Lingua Inglesa
(continua)

334
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Allard, Paul Histoire des persécutions
Mourret Histoire générale de l'église
Langlebert Histoire naturelle
Pizon, A Histoire naturelle
Guirand Histoire partiale, histoire vraie
Serrano, Jonathas História da Civilização
Silva, Joaquim História da Civilização - para 1º ginasial
Calmon, Pedro História da Civilização Brasileira
Serrano, Jonathas Historia da Civilização, 1ª S, texto elementar
Schneller Historia da Civilização, 3ª S, texto elementar
Peixoto, Afranio História da Educação
Rego, José Lins História da velha Totonia
Ruiz Amado, SJ Historia de educação y de la Pedagogia
Ruiz Amado, SJ História de la education y lá pedagogia
Messer Historia de la pedagogia
Ruiz Amado, SJ Historia de laeducacion y de la Pedagogia
Marsillac, Nardal de. Fontes, Ofelia de Avelar Historia do Bebê
B.
Serrano, Jonathas Historia do Brasil
Monteiro Lobato História do Brasil para creanças
Monteiro Lobato História do Mundo para crianças
Puig S J Historia Natural
Marique, Pierre Historia of christian education
Carvalho, Ronald Historias da literatura
Peixoto, Afranio Historias da literatura
Pierre Marique History of christian education
Eymieu I ère série, les grandes lois
Juventude Católica do RGS Idade Nova
Charles idem - Le livre de la mére et des dames
catéchiste
Charles idem - Li livre du Pére
Eymieu II ème série, l'obsession et le scrupule
Agazzi Il método Agazzi
Dévaud, E In Nova et Vetera
Amoroso Lima, Alceu Indicações Politicas (da revolução a
constituição)
VVAA Ingles pelo metodo direto 1º ano
VVAA Ingles pelo metodo direto 2º ano
Nascimento, Alba Canizares do Introdução à Bílbia Sagrada
Amoroso Lima, Alceu Introdução à Economia Moderna
Amoroso Lima, Alceu Introdução do Direito Moderno
Strauss, Alfredo Introducion al estudio de la Pedagogia
Terapeutica
Caieiro, José Jesuitas do Brasil e da India
Fargues, Marie Jesus e Pedrinho
Fargues, Marie Jesus e Pedrinho
Negromonte, Alvaro Jesus Mestre dos Pequeninos
Charmont Jeunesse et Pureté
Gabaglia, Laurita P e Castro, Anita L. G. de Juventude de Hoje - Lares de amanhã
Guibert L éducateur apôtre
Dwelshauvers, George L"étude de la pensée
(continua)

335
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Fr. Charmot L'âme d'éducation, la direction spirituelle
Fr. Charmot L'art de se former l'éspirit
Kieffer L'autorité dans la famile et à l'école
L'Ecole - hebdomadario
André, Emile L'Edeucation Physique et eportive des jeunes
fille
Jean Desminne L'education chrétienne de la personalité
Gillet L'éducation de la conscience
Gillet L'éducation du coeur
O Lemarié L'éducation du respect
Gillet L'éducation ducaractère
L'Education Familiale
Boigey, Dr. Maurice L'Education physique feminine
Hebert, Georges L'Education Physique Féminine - Mescles et
Beauté
Boigelot, R. L'église et le monde moderne.
Ponsard, Philipe L'Enfant d'aujourd'hui
Charles, Abbé Eugéne L'Evangfile de maman pour nos enfants
Fargues L'éveil du sentiment religieux
Dwelshauvers, George L'inconscient
Grasset La biologie humaine
Christianus La conscience des tout-petits-aux méres
Chrétienne
Boucher, Paul La culture physique et les sports feminins
Ruiz Amado, SJ La educacion
Ruiz Amado, SJ La educacion civica
Ruiz Amado, SJ La educacion feminina
Amado, Ruis La educacion intelectual
Ruiz Amado, SJ La educacion moral
Ruiz Amado, SJ La educacion religiosa
Fr. Charmot La feste bien faite "Formation de l'intelligence"
O Lemarié La formation de l'intellignece
O Lemarié La formation de la conscience
O Lemarié La formation de lavonté
Abbé Gellé La grace á dix ans. Mês petits gars. L'
essentiel
Boussieu La préparation eucharistique de l'enfant
Hennin-Quenin La psychologie de l"enfant
Claparède La Psychologie de l'enfant
Dwelshauvers, George La psychologie française contemporaine
Vaissière, J. de La La pudeur Instinctive
J. Renault La pureté.Préservation, Direction, Initiatives
Fargues La redaction chez les tous petits n.2
Dwelshauvers, George La synthèse mentale
Charmont La teste bien faite. Formation de l'intelligence
Gillet La valeur éducative de la morale catholique
Pujiula La vida e la educacion filogenetica
Bruel Le catéchisme á l'école de N. Seigneur.
Charles, Abbé Eugéne Le catechisme par l'Evangile
Eugènie Charles Le catéchisme par l'évangile
(continua)

336
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Habrich, L. Le catholicisme, as pedagogie ses
pédagogues
De Hôvre Le catholicisme, ses pedagogues, sa
pedagogie
Allard, Paul Le christianisme et l'empire romain
Baunard Le collège chrétien
Murrat, Louis Le firmament
Eymieu Le Gouvernement de soi-même
O Lemarié Le jeu de l'enfant
Charles, Abbé Eugéne Le livre de la mère et des dames cdatechistes
Charles, Abbé Eugéne Le livre des tous petits
Charles, Abbé Eugéne Le livre du prête
Murrat, Louis Le Mond animal
Murrat, Louis Le Mond végétal
Willart, L. SJ Le Moyen âge
Willaert, L. Le Moyen âge, Namur
Krieg-Grunwarld Lehrbuc der papagogik, I Teil. Geschite der
Padago
Fonseca, Alda Pereira Ler e aprender
Charles Les catéchisme par l'Evangile - Le livre des
tout-
Moreux Les confins de la science et de la foi
Chancerel, Leon Les jeux dramatiques
Grasset Les limites de la biologie
De Hôvre Les Maitres de la Pédagogie Contemporaine
Dwelshauvers, George Les mécanismes subconscients
Fargues, Maria Les methodes actives dans l'enseignement
religieux
Fargues, Marie Les Méthodes Actives das Lénsigment
religieux
Kurth, Goddefroid Les origenes de la civilisation moderne
Viollet Les santions en éducation
De Hôvre, La Vaisseière, et alii Les Sciences et l'Art de l'Edication
Scheufgen, H. J. Lexikon der Paedadogik der Gegenwart
VV.AA Lexikon der Paedagogik der Gegenwart Helder
VVAA Lexikon der Paedagogik der Gegenwart Helder
VV.AA Lexikon der Paedagogik der Gegenwart Helder
Quinet, Abbe Lições Catequeticas para pequeninos pelo met
ativo
Quinet, Abbe Lições Catequeticas para pequeninos pelo
met.ativo
Pavesio Liturgia do Sacramento da Crisma
Brant Horta Livros escolares
Mercante, Victor Maestros y educadores (2 vol.)
Calmon, Pedro Malês
Pujiula Manual completo de biologia moderna
Negromonte, Alvaro Manual de Religião
Laburu, L. Manual tp general de Citologia e Histologia
animal
Riboulet, L. Manuel d'histoire dela pédagogie
Riboulet, L. Manuel de l'histoire de la pedagogie
(continua)

337
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Educação
Autor Título do impresso
Riboulet, L. Manuel de l'histoire de la pédagogie
Verest Manuel de literature
Collin Manuel de Philosofie Thomiste
Sortais Manuel de Philosophie
Abbé Micoud Manuel du Brevet d'instruction religieu
Manuel Illustré de la litterature catholique
Bouhoursk, S J Maximas de S. Inácio e Sentimentos de S Fco
Xavier
Monteiro Lobato Memorias de Emilia
Torres, Ambrosio Metodologia do ensino da Educação Física
Quinet, Abbe Meu caderno de instrução religiosa
Jousse, Maracel Mimisme humain et style manuel
Muller Mon sustéme pour les femmes
Desideria, Maria Montanha acima
Lacombe, Laura Jacobina Moral Cristã e Educação
Peeters, Madre Francisca Noções de Sociologia
Sousa, Alfredina Paiva e Nossa Aritmetica
Salgado, Plínio Nosso Brasil
Féli, Vitor O Arrependido
Potsch, Waldemiro O Brasil e suas Riquezas
Fargues, Marie O Caminho do Ceu
Fargues, Marie O Caminho do Ceu
Eugenio Carlos O catecismo segundo o Evangelho
Assis, Alberto O Cégo
Vieira, Arlindo O ensino das humanidades
Christian, Michel O Espirito Cristão no Esporte
Nascentes, Antenor O idioma Nacional
Backheuser, Everardo O papel do mestre na Escola Nova
Backheuser, Everardo O papel do mestre na escola nova
Vieira, Arlindo O problema do ensino secundário
Teixeira de Freitas, M. ª O Problema do Municipio no Brasil atual
Belcayre e Flory, Angél O Silêncio do Amor
Moreux Origine et formation des mondes
Oliveira, Barbosa de Os esportes na formação da mocidade
Miller, René Fülop Os Jesuitas e o Segredo do seu poder
Correia, Viriato Os meus bichinhos
Schneider, Fr. Saturnino Os opúsculos de S. Francisco de Assis
Instituto de Ed. do DF Os programas de Ensino do Distrito Federal
Moreux Où allons-nous?
Centro de Documentação Catequetica Oú em est l'enseignement réligieux?
Mercante, Victor Paidologia (estudio del alunno)
Assoc. Pais e Prof. das Esc.Teachers Pais e o automovel
College
Considine, Daniel SJ Palavras de conforto
Martins, Gerardo Para entender a Missa
Paraná Judiciário
Derkenne, Francisca PaulineKergonard et l'education nouvelle
enfantine
Leoncio, p. Carlos Pedagogia
Dévaud, E Pedagogia ecolaire
Quinet Pédagogie du catéchisme
(continua)

338
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Riboulet, L. Pédagogie generale
Riboulet, L. Pédagogie gérérale
Amoroso Lima, Alceu Pela Reforma Social
Rocha, D. José Maurício da Pelo Brasil, a Segunda
Republica,cartas,discursos.
Pascal Pensamentos
Gomes, Perillo Penso e creio
Hoppenot Petit catechisme du magiage
Kautz, Dr. Henrique (editor) Pharus
Farges, Barbedette Philosophie scolastique
Mayer Philosophy of Teheaching of St. Thomas of
Aquin
J. de La Vaissiêre Phychologie Pédagogique
Pascet Plans de cercles d'études
Amoroso Lima, Alceu Política
Cruz, Marques da Português Prático
Foerster Pour bien éleéver vos enfants
Moreux Pour comprendre la philosophie
Foerster Pour former le caractere
Quinet Pour mês tous petits
Devaud, Eugène Pour une école active (um trecho do livro)
Dévaud, E Pour une école active dans l'ordre chrétien
Devaud, Eugène Pour une école active selon l'ordre chrétien
Kanindy, Dr. P. Précis d'Education Physique et Respiratoire
Slock, L. Précis de Psychologie Pédagogique... Vol. VII
Slock, L Précis de Psychologie Pédagogique... Vol. VIII
Amoroso Lima, Alceu Preparação à sociologia
Alves, Isaias Problemas de educação
Herbe, J. Propos d'education
Franca, Leonel Psicologia da fé
Franca, Leonel Psicologia da fé
Pieron, Henri Psicologia do comportamento
Psycologia da Creança Psychologia da creança
Riboulet, L. Psychologie appliquée de l'educacion
Lindworsky Psychologie expérimentale
J. de La Vaissière SJ Psychologie expérimentale
Hérrin Psychologie pédagogique
La Vassière, J. de Psychologie pédagogique
Habrich Psychologie pédagogique
Habrich Psychologie pédagogique
Franca, Leonel Psycologia da fé
J. de La Vaissière SJ Psycologie pédagogique
Torrend Quadros de historia natural
Correia, Viriato Quando Jesus Nasceu
Sertillanges et alii Questions actuelles de pédagogie n. 1
Moreux Qui deviendrons nous aPrès la mort?
Moreux Qui sommes-nous?
Liga da Ação Católica Feminina de Port. Raio de Luz
Mendes, Juskno Razões da Nossa Crença
Kilpatrick, W. H. Reforma da Theoria Educacional
(continua)

339
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
Reglement géneral d'Education
Physique.Met.Frances
Gillet Réligion et pédagogie
Gide, André Retouches a mot Retour de l' URSS
Instituto Nacional da Música Revista Brasileira de Musica
Sociedade de Geografia Revista da Sociedade de Geografia
Universidade de MG Revista da Universidade de MG
Revista de Cultura
Diretoria de Ensino do Estado de São Paulo Revista de Educação
Departamento do Ensino Público do ES Revista de Educação - ES
Diretoria do Ensino do Estado de SP Revista de Educação - SP
Centro Militar de ed. Fís. da Fortaleza e S. Revista de Educação Física
João
Revista de Ensino
Republica Argentina Revista de Instruccion Primaria
Revista de Instruccion Publica
Scretaria de Ed. Do Estado de MG Revista do Ensino
Instituto Histórico Geográfico do ES Revista do I. H. G. do ES
Centro do Professorado - SP Revista do Professor
Revista Fluminense de Educação
Sociedad Venezuelana de Maestros de Inst Revista Pedagógica
Primária
Escola Normal de Carlsbourg Revue Belge de Pedagogie
Bethlem Romans á lire et Romans á procrive
Schutzengel
Salim, Conego Dr. Emilio José Sciencia e Regigião
Salim, Conego Dr. Emilio José Sciencia e Religião
Scuola Italiana Moderna
Scuola Italiana Moderna - Suplemento
Pedagogico
Freire, Laudelino Seleta da Lingua Portuguesa
Vieira, Arlindo Subsídios para a reforma do Ensino
Secundário
Centro D. Vital de São Paulo Sugestões do Plano Nacional de Educação
Teachers College da Univ. de Columbia Symposium
Backheuser, Everardo Tecnica da Pedagogia Moderna
Backheuser, Everardo Tecnica da Pedagogia Moderna
Backheuser, Everardo Tecnica da Pedagogia Moderna
Backheuser, Everardo Tecnica da Pedagogia Moderna
Backheuser, Everardo Tecnica da Pedagogia Moderna
Walter, Leon Tecno-psicologia do trabalho industrial
Buyse, Raymond Tendências atuais da educação
Silveira, Tasso da Tendências do Pensamento Contemporâneo
Alguns Inspetores do Ensino - Almeida, AF e Teoria e Prática do Ensino Secundario
Vianna
Alguns Inspetores do Ensino - Almeida, AF e Teoria e prática do ensino secundário
Vianna
Tesouro da Juventude
Lourenço Filho Testes A B C
Fitzpatrick, E. The fondations of education
(continua)

340
Confederação Católica Brasileira de Biblioteca Pedagógica Católica da RBP
Educação
Autor Título do impresso
O'Hara, James The limitation of the educational essay of J
Dewey
O'Hara The limitations of the educ. theory of J.Dewey
Dwelshauvers, George Traité de psuchologie
Moreux Traité élémentaire d'astronomie
Barnola, PP. Arbelaez, et alii Tratado completo de biologia moderna
Anísio, Mons. Pedro Tratado de Pedagogia
Anísio, Mons. Pedro Tratado de Pedagogia
Anísio, Mons. Pedro Tratado de Pedagogia
Anísio, Mons. Pedro Tratado de Pedagogia
Anísio, Mons. Pedro Tratado de Pedagogia
G. Jacquemet Tu resteras chaste
Gillet Virilité Chrétienne
Alves, Isaias Visão Pedagógica da América do Norte
Ordem dos Frades Menores Vozes de Petropolis
Pochtrop, Leonardo Wollen Sie Deutsch Sprechen Lernen
(conclusão)

341
ANEXO 6

342
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
CZERNY, Albert
COUCHOUD, Dr. Paul Louis (Direcção)
MENDES, Oscar “a alma dos livros”- (ensaios de critica)
Fr. Henrique G. Trindade. O. F. M. “Aos moços: A’ victoria, pelo sacrificio!”
P. Geraldo Pires de Souza, C. SS. R. “Audi filia”, paginas para moças
POTY, Sá “Bahu’ de Turco”
MORAES, E. Vilhena “O Duque de Ferro” – Aspectos da figura de
Caxias
KECHEISEN, D. Beda “Officio da Semana Santa”- Em latim e
portuguez
ANTUNES, J. Pinto “Raciocrasia” fórma scientifica do governo
MELLO, Martinho Nobre de (Da Academia “Ritmo Novo” – Palavras de um português ao
de Ciencias de Lisboa) Brasil
DELAMARE, Alcibiades ... na voz da Historia!
CARVALHO, Affonso de 1ª Bateria, Fogo! O movimento Pacificador –
Golpe de vista da Rev. de 1930
VIDAL, Adhemar 1930
MAGALDI, Pe. Dr. Felicio A Ação Catholica
NEGROMONTE, Pe. Alvaro A Ação catholica e a Vida Publica – Conf. Lida
na U.M.C.
NEGROMONTE, P. A. A Ação catholica e a Vida Publica – Conferencia
lida na União de Moços Catolicos de Belo
Horizonte
MAGALDI, Pe. Dr. Felicio A Acção Católica – segundo Pio XI, homilias
para o povo de nosso tempo
OTTONI, Dr. Pio Benedicto A Alma da Patria
TORNAGHI, Helio Bastos A arte literaria
DELAMARE, Alcebiades A Bandeira do Sangue
DELAMARE, Alcibiades A Bandeira do Sangue
P. José SCHRIJVERS. C. SS. R. A boa vontade
CHRISTIE, Agatha – versão de Pepita de A casa perdida
LEÃO
WALLACE, Edgar – versão de Erico A cobra amarela
VERISSIMO
AZEREDO, Carlos Magalhães de A Confissão
Pe. VILLARET, S. J. – trad. do Pe. A. A Congregação Mariana
MAGNE, S. J.
VILLARET A Congregação Mariana
SKANSEN, Per A Conversão de Eva Lavalliére – Trad. De
Ribeiro COUTO
RAEDERS, George A Correspondencia de D. Pedro II
OTTO, Alberto A crise mundias – O Operario do Seculo XX e o
Comunismo
VIEIRA, Pe. Arlindo A decadência do Ensino no Brasil (suas causas
e remédios)
Padre Eduardo GIERSTER, S. J. A divindade de Jesus
CLAPAREDE, Ed. A Educação Funccional
AIRES, Pe. Leopoldo A educação religiosa na escola official
Padre Leonel Franca, S. J. A Egreja a Reforma e a Civilização
FRANCO, Tavares A enchente (Romance)
(continua)

343
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
GUIMARAES, Emmanuel A engrenagem – Peça em 3 actos (Publ.
Postuma)
MARIA, Julio A Graça
KARAM, Francisco A Hora Espessa
CEREJEIRA, Dr. M. Gonçalves (Bispo A Igreja e o Pensamento Contemporaneo
portuguez)
PEREIRA, Baptista A Illusão Russa
SANTOS, Lucio José dos A Inconfidencia Mineira
Cruzada Eucharistica Infantil (Padre Delort)
A iniciação da criança na Acção Catholica
OTTONI, Pio Benedicto (dr.) A Inquisição
REGO, José Lins do A lingua do “Menino do engenho”
MARROQUIM, Mario A Lingua do Noredeste (Alagôas e Pernambuco)
GRAY, Zane – versão de Queirós LIMA A luta das caravanas
Fre Mansueto KOHNEN, o. f.m. A meditação de Cristo na Liturgia
VIEIRA, José geraldo A mulher que fugiu de Sodoma
MORAES, E. Vilhena de A padroeira do Brasil
PIRES, P. Heliodoro A paizagem espiritual do Brasil no seculo XVIII
LAMEGO FILHO, Alberto A Planicie do Solar e da Senzala (Prefacio de
Oliveira Vianna)
ROHDEN, P. Huberto A Poesia de Jesus
MONTEIRO, Adolpho Casaes A Poesia de Ribeiro Couto
CALOGERAS, Pandia’ A Politica Externa do Imperio – Vol. III – Da
regencia á quéda de Rosas
Pe. LECOURIEX A Providencia de Maria
P. Leonel FRANCA, S. J. A Psychologia da Fé
P. Leonel FRANCA S. J. A Psychologia da Fé
CASTRO, Sertorio A republica que a revolução destruiu
A santa missa dialogada
LIMA, Alceu Amoroso (Tristão de Athayde) A Serviço da Fé
P. Louis Perroy, S. J. A subida do Calvario
MIRANDA, Veiga A successão de Coelho Netto na Academia
Brasileira de Letras
SOBRINHO, Barbosa Lima A Verdade sobre a Revolução de Outubro
PITKIN, Walter B. – Versão de Erico A vida começa aos quarenta
VERISSIMO
VERISSIMO, Erico A Vida de Joanna d’Arc
ORICO, Oswaldo A vida de José de Alencar
PAPINI, Giovanni A vida de Santo Agostinho
PAPINI, G. A vida de Santo Agostinho
ALVES, Heitor A vida em movimento
MELLO LEITÃO, C. de A vida maravilhosa dos animaes
JOERGENSEN, J. A vida se S. Francisco de Assis
Frei João José Pedreira de CASTRO, A. F. A vitoria do Amor
M.
REYES, Alfonso A Vuelta de Correo
ORTIZ, P. Carlos Ação Catolica e Jocismo – Juventude Operaria
Catolica (Ensaio de Ação Catolica
Especializada)
LEME, D. Sebastião – Cardial-Arcebispo Acção Catholica
do Rio de Janeiro
PONLEVOY, Padre Armand de Actes de la captivité et de la mort
(continua)

344
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
Actos de S. S. Pio XI - texto latino e traducção
francesa
LOPES, Americo (Organisação e revisão Actos do Governo Provisório dos Estados
do advogado...) Unidos do Brasil
ACCIOLY, Hildebrando Actos Internacionais Vigentes no Brasil
GLIN, Elinor Adão e algumas Evas
BRAUER, Prof. Dr. Theodor Adolf Kolping - Von Univ.
FIGUEIREDO, Jackson de (obra posthuma Aevum (Romance)
do grande pensador catholico)
FIGUEIREDO, Jackson de AEVUM (romance)
Album do Jubileu do Cardial Leme
ANDRADE, Carlos Dummond Alguma Poesia
MAGARINOS, Domingos Alma da Nossa Terra
Almanaques
CARDOSO, Leontina Licinio Almas
MACHADO FILHO, José A. Alvorada
HURLEY, Jorge Amazonia Cyclopica
LOON, H. Van America
DELAMARE, Alcebides Amores da velha Guarda
Orgão dos Irmãos terceiros Franciscanos Anais Franciscanos
Capuchinhos
SANTOS, D. Maria Luiza de Q. Amancio Analise historica, formal e interpretativa das 6
dos peças apresentadas no programa de concurso
para provimento de uma cadeira de piano no
Instituto de Musica da Universaidade do Rio de
Janeiro
FINLAYSON, Clarence Analitica de la Contemplación
COSTA, Dr. Heitor da Silva Analogias Divinas no Monumento do Corcovado
LIMA, Jorge de Anchieta
FLEIUSS, Prof. Max (direção) Anchieta (Conferencias lidas no Instituto
Historico e Geographico Brasileiro em 1933-
1934)
A. S. Q. Anel de Noivado
CATALANY, Myriam Angelica
AMARO, sr. Austen Ante o mysterio do amor e da morte
ANTUNES, Dr. Paranhos Antonio Vicente da Fontoura
Notas Pedagogicas, pelo Abbé QUINET. 1 Apontamentos do Catechista
- Dogma, Versão autorizada de Waleska
PAIXÃO
NATUZZI, R. P. José M., S.J. Apotheose do Brasil - A Christo Rei - No
Corcovado
MACEDO, J. Melo Arribada
ANCHIETA, P. Joseph de Arte de Grammatica da Lingua mais usada na
Costa do Brasil
Amarilio Junior Arthur Bernardes e a Revolução
BARROSO, Gustavo As columnas do Templo
GUETZEVITCH, Mirkine As Novas Tendencias do Direito Constitucional
ARAUJO, Murillo As sete cores do Ceo
MARIA, Pe. Julio (Redemptorista) As Virtudes
MARQUES, Xavier (Da Academia As voltas da Estrada
Brasileira)
(continua)

345
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
ARRUDA, Padre Arnaldo de M. Ascetica, preambulo da Acção Catholica e
Fundamento da Acção Social
BARRETO, Mario Através do Dicionario e da Grammatica
HAMAYDE, L. de La Au service de la parisse
LAJOIE, Louis Au Seuil de L' Éternité
M. de BAZELAIRE, S. J. Aux Militants de l' Action Catholique - Douse
Méditations sur l' Apostolat
LIPPERT, Padre Pedro Aventuras da vida (em allemão) - 192 paginas
PAIXÃO, Walda Aventuras do Estivam
BENITEZ, Justo Pastor Bajo el Signo de Marte (Chronicas de la guerra
del Chaco)
VIANNA, Urbino Bandeiras e Sertanistas Bahianos
D'AVILA, Carmem Boas ManeirasRio
Boletim da Juventude Feminina Catholica (a
exemplo do que publica a J. F. C. do Rio)
Boletim do Instituto Catolico de Cooperação
Intelectual
NYSSENS, Paul Bom Humor
ALBANO, Ildefonso Brazil Reader (Au English Reader for Brazilian
Students)
BRANDÃO, Pe. Ascanio Breviario da Confiança
COUTO, Ribeiro Cabocla
AMADO, Jorge Cacau
Cadernos Catecheticos (Methodos e
programmas)
PAIXÃO, Waleska Cadernos Catecheticos - Formação da
consciencia
CLOTET, José Calculo mental ultra-rapido
LOPES, Paulo Corrêa Caminhos
SILVEIRA, Tasso da Cantico do Christo do Corcovado
SCHMIDT, Augusto Frederico Canto da noite (poesias)
NASCIMENTO, Alba Cañizares Capistrano de Abreu
PEILLAUBE, E. Caractere et Personalité
SEIDL, Roberto Carlos Gomes (Brasileiro e patriota - 1836-
1896)
ALPI, Dr. G. Carlos Magalhães de Azeredo
SILVEIRA, Celestino Carne Moça e Outras Banalidades
SANT'ANA, D. Fr. Luiz Maria de - Bispo de Carta Pastoral
Botucatu
SANT' ANA, D. Frei Luiz Maria de Carta Pastoral
ROCHA, Dr. José Maurício da Carta Pastoral sobre a ACÇÃO CATHOLICA
ANCHIETA, padre José de (Notas e CARTAS
Posfacio de A. Alcantara MACHADO)
PINHO, Wanderley (Ordenadas e Cartas do Imperador Pedro II ao Barão de
annotadas por...) Cotegipe
Cartas Jesuiticas - I.- MANOEL DA NOBREGA.
PEIXOTO, Afranio (?) Cartas Jesuiticas - III Cartas, Informações...
LHOMME, Pe. - Versão autorizada de Casamento e Fecundidade
Soares d' Azevedo
SANTOS, A. Felicio dos Casos Reais a registrar
SERTILLANGES Catéchisme des incroyants (2 vols)
(continua)

346
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
HEMPTINNE, Christine Catéchisme des petits
CHARLES Catéchisme illustré pour les tout-petits
ZARTMANN, Pe. Francisco Xavier, S. J. Catecismo do cidadão catolico
Ce Qui Se Passe En Allemagne
GLIN, Elinor Cegueira de Amor - Concordia Merrel (?)
COUTO, Ribeiro Chão de França
PIRES, Cornelio Chorando e rindo
DELAMARE, Alcebiades Christovão Colombo
(Administração "Christus") Christus
ALENCAR, Gilberto de Cidade do Sonho e da melancholia
SALIM, Conego Dr. Emilio José - Reitor do Ciencia e Religião - 2º Volume - Apologia do
Seminario de Campinas Catolicismo
Cincoentenario da estrada de ferro do Paraná
GLAESER, Ernest Classe 22
Codigo Social (Esboço de uma sintese social
catolica)
JOBIM, Jorge Colmeia Cristã (Para uso dos colegas catolicos)
OLIVEIRA, Ministro Artur Ribeiro de Comissão do Projéto do Codigo do Processo
Civil e Comercial da Republica dos Estados
Unidos do Brasil
MAURIAC, François Commencements d' une Vie
PRADEL Comment former des hommes
GAY ET COUSIN Comment j' éleve mon enfant
NEVES, A. de Camargo Commentarios de Politica Economica
PEDROZA, Conego Alfredo Xavier Compendio de Literatura Cristã
MAUTA, neves Conceito de Loucura Imposta - e sua exacta
significação psychologica
SILVEIRA, Alfredo Balthazar da Conceituação da liberdade de cathedra
CORRÊA, Viriato Contos do Sertão
SANTOS, Arlindo Veiga dos Contra a corrente
Con. TURCAN Cours d'instructions dominicales (par le
Chanoine Turcan - Esc. Superior do Seminario
Maior de Séez - 3º milh.) - 3 vols.
DELFINO, Major Pedro Culto á Bandeira
SPERÁNDIO, Prof. Amadeu Curso Completo de Desenho - Para o Ensino
Secundario, de accordo com os programmas
officiaes
SUCUPIRA, Luiz Curso de Ação Catolica
Pe. Candido SANTINI, S. J. Curso de Ação Catolica
LOBO, Prof. Abelardo Curso de Direito Romano
Curso para catechistas (12 lições)
MARCONDES, Moysés Da Alma Christã em face do soffrimento
CHAMBELLAND, Padre T. Da arte de estar doente
PAPIN, GiovanniI Dante Vivo
LIPPERT, Padre Pedro De alma para alma (em allemão)
DELMONT, Padre Theodore De l' enseignement libre et chrétien
ATHAYDE, Tristão de Debates Pedagógicos
Der Grosse Herder - 13 volumes
CORREA, D. Aquino Deus e Patria (Carta Pastoral sobre a atual
situação política do Brasil)
(continua)

347
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
DELCOUR, Joseph Deux Saints Anglais - John Fisher (1459-1535) -
Thomas More (1478-1535)
MALAGUETA, Irineu Diabetes Insipidus
OLIVEIRA, Osorio de Diario Romantico
Organizado sob a orientação do Prof. A. Dicionario Popular da Lingua Luso-Brasileira
Lopes VIEIRA
Vallery - Radot Dictature de la Maçonnerie
RUEDIN Die erblichen ciner eugenischen \\\\unfrucht-
barmachung und
Schwangerschaftunterbrechung (sic!)
LAGEN, Lyder Dinamarca (pais e povo)
QUADRUPANI, Padre Carlos José Direcção para socegar em suas duvidas as
almas timoratas
PEREIRA, Baptista (Prefacio) Directrizes de Ruy Barbosa
SOBREIRA, Dr. José - orador da turma de Discurso
bachareis de 1932, da Faculdade de Direito
do Ceará
SOBREIRA, Dr. José Discurso
SILVEIRA, Tasso da Discurso ao Povo Infiel
PEDROSA, Conego Alfredo Xavier Discurso de recepção na Academia
Pernambucana de Letras
TERÁN, Juan B. Discurso ed repcion de don Alvaro Melian
Lafinur en la Academia Argentina de Letras
Discursos Academicos - 6º Volume
Discursos Academicos - 7º Volume
NUNES, Feliciano Joaquim de Souza Discursos Político-Moraes
ALENCAR, José de Diva - Perfil da Mulher (em março: Diva - Para
nossas Filhas)
ALMEIDA, Josias de Do Araguaya ás Indias Inglezas - Vol. IX
LEITE, Serafim Do Homem e Da Terra - Poemas
FARIA, Octavio de Dois poetas - Augusto Frederico Schmidt e
Vinicius de Moraes
WAST, Hugo Dom Bosco e seu tempo
CARVALHO, Celso Dom Joaquim
NOGUEIRA, Hamilton Dostoiewski
PASCUCCI Dourina Cristã
PASCUCCI, Mons. Doutrina Christã
COTRIM NETO, A. B. Doutrina e formação do Corporativismo
QUÉNARD, P. Gervais E' vangile du royaume de Dieu
BURRET, J. E'ducation et forces vives
(Collegio São José) Ecos
Aurelio Espinosa POLIT, S. J. Quito Edipo Rey, de Sofocles, em verso castelhano
ROUGES, Jean Des Vignes Educação do Caracter
MACHADO FILHO, Aires da Mata Educação dos Cegos no Brasil
SETUBAL, Paulo El Dorado
NAPAL, Dionisio R. El imperio Sovietico
PINTOS, Salvador Garcia El nuevo direcho al aborto libre
GENTA, Edgardo Ubaldo El sentido del dolor
REYS, Alfonso El testimonio de Juan Peña
LORTAL, Padre R. Element's de The'ologie morale sociale (moral
social geral)
(continua)

348
Centro Dom Vital Biblioteca Pedagógica Católica da revista A
Ordem
Autor Título do impresso
CAMARA JR., J. Mattoso Elementos de Portuguez (1ª serie)
Anônimo Elevação sobre a Escriptura Sagrada
MOREIRA, Annibal Elucidario Technico do Linotypista
Em torno da officialização do ensino religioso
LOBATO, Monteiro Emilia no paiz da Grammatica
REYES, Alfonso En El Dia Americano
KELLMAN, Rudyard Enghish and Portuguese Commercial
Correspondence (Correspondencia Comercial
de inglês e português)
NOGUEIRA, Hamilton & ATHAYDE, Ensaios de Biologia
Tristão de
P. Leonel FRANCA, S.J. Ensino Religioso e Ensino Leigo
R. P. BERNARD, O. P. Entrétions sur l' essence du Christianisme
HIRSH, Lina Episodios Musicaes
BARBOSA, P. Manoel (Director) Era Nova
ATHAYDE, Tristão de Esboço de uma Instroducção á Economia
Moderna
STIEGLITZ, Henrique Esboços Catecheticos
CINTRA, Assis Escandalos de Carlota Joaquina
MONNIN, A. Esiprito (sic) do Cura d' Ars
TAVARES, Oscar Berbet Espírito Novo
CARDOSO, P. Baimaceda Estados Unidos da America do Norte
Director: R. P. Cesar DAINESE; Redatores: Estrela do Mar - Orgão Oficial das
Padres da Companhia de Jesus Congregações Marianas do Brasil
ATHAYDE, Tristão de Estudos - 4ª serie
BREINER, Sra Zulmira de Queiroz Estudos de Linguagem (Metodologia da leitura)
- Volume II
BELLEZA, Othoniel Eurhythmia do Infinito (These de Concurso)
BRANDÃO, Padre Ascanio Eva Lavalliere, terceira franciscana
NERY, P. J. Castro Evolução do Pensamento Antigo
SLATER, P. J. Explicação do Pequeno Catecismo
CEARENSE, Catulo da Paixão Fabulas e Alegorias
SANTOS, A. N. Amaral Fagulhas e Polemicas
FIGUEIREDO, Antero de Fatima
ALMEIDA, Renato Figuras e planos
HELLO, Ernesto Fisionomias de Santos
LINS, P. Emilio Flores do Agreste
Folhina de Santo Antonio para o Anno de 1936
MORAES, Vinicius de Forma e Exegese
VIANNA, Helio Formação Brasileira
GRIMAUD, Abbé Foyers brisés
TERÁN, Juan B.- de la Academia Argentina Fray Justo de Santa Maria de Ouro
de Letras