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PADRE ANTÓNIO VIEIRA

BIOGRAFIA

António Vieira (1608-1697) nasceu em Lisboa, na Rua do Cônego, próximo a Sé, no dia 6 de
fevereiro de 1608. Filho de Cristóvão Vieira Ravasco e Maria de Azevedo. O seu pai era escrivão da
Inquisição e foi nomeado para o cargo de escrivão em Salvador e só em 1614 sua família veio para o Brasil.
António Vieira tinha 6 anos na época.
Foi no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, o único na época, que António Vieira estudou. Em 1623,
descobriu a vocação para o sacerdócio e entrou para a Companhia de Jesus. Em 1626, ainda noviço,
destacou-se nos estudos, sendo indicado para redigir as atividades dos Jesuítas, em carta anual, remetida
para os superiores em Lisboa.
De noviço passou a estudante de teologia. Fez curso de lógica, física, economia e matemática. Em
1627, começou a dar aulas de retórica em Olinda. Em 1633, começou suas pregações, visitando as aldeias
indígenas, próximas da cidade. No ano seguinte, ordena-se sacerdote e, em 1638, passou a dar aulas de
teologia. Como pregador em cima de um púlpito, a sua fama espalhou-se, defende a colónia, revolta-se
contra a escravidão e clama pela expulsão dos holandeses em Pernambuco.
Em 1640, em Portugal, D João IV sobe ao trono, restaurando a monarquia, depois de sessenta anos
de subordinação ao trono espanhol. Em fevereiro de 1641, António Vieira parte para Lisboa. Em 1642, os
seus sermões já tinham conquistado o rei e a rainha D. Luísa. Torna-se o guardião da Coroa. Nos seus
sermões procura apoio para o rei diante de uma reunião com os representantes do povo, a nobreza e o
clero, onde se votariam os tributos para a continuação da guerra com a Espanha.
Inicia-se em Portugal nessa época, uma disputa entre jesuítas e dominicanos. Os jesuítas
propagavam a fé através da catequese, enquanto os dominicanos se propunham a defendê-la, organizando
os tribunais da Inquisição. António Vieira propõe amnistia para os judeus e o regresso deles a Portugal, uma
vez que a maioria era comerciante e seria de grande valor para o reino. Sugere a criação de companhias
mercantis, uma Oriental e outra Ocidental.
Foi nomeado embaixador para negociar a paz com a Holanda, que recusava todas as propostas
para se retirar de Pernambuco. Viaja para Paris e em seguida para Holanda. De volta ao Brasil, segue para
o Maranhão com o objetivo de libertar os índios injustamente presos. Em 1661, foi expulso do Maranhão,
pelos senhores de escravos que não aceitavam as suas ideias. Voltou para Lisboa onde foi preso pela
Inquisição, que o acusou de heresia. Amnistiado em 1669, viajou para Roma, onde foi absolvido pelo Papa
em 1675.
Padre António Vieira abandonou definitivamente a Corte, voltou para Baía, onde, entre os anos de
1681 e 1694, se dedicou a organizar os seus sermões para transformá-los em livros. Doente e quase cego,
fez suas últimas pregações. Deixou mais de 200 sermões e 700 cartas.
Morreu em Salvador, Baía, no dia 17 de junho de 1697.

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O BARROCO NA LITERATURA

A GÉNESE

A origem do barroco está essencialmente centrada num certo sentimento de cansaço face aos
valores formais veiculados pelo Renascimento.
Com efeito, aprisionados por uma estética pausada pela ordem, equilíbrio, simplicidade e rigidez de
modelos, muitos literatos procuram a novidade, na ânsia de serem originais, embora sem romperem de todo
com as normas do Classicismo, enveredando por um caminho estético mais dinâmico, menos submisso a
regras, com maior liberdade de imaginação.
Assim, o barroco é fruto duma atitude espiritual complexa, carregada de elementos renascentistas,
evoluídos ou alterados, atitude que leva o Homem a exprimir-se, na pintura, na arquitetura, na poesia, na
oratória e na vida, segundo um modo "sui generis". Este modo concretiza-se na literatura por uma rebusca
da perfeição formal, uma aventura de arte pela arte.
Deste modo, os escritores de então, embora continuassem a admirar a cultura greco-latina,
procuraram, numa ânsia incontida da originalidade, retorcer e exagerar as formas e apresentar aos leitores
os assuntos mais inesperados pelos processos mais imprevistos. Daí o aparecimento da rebuscada
artificiosidade do cultismo e do labiríntico discorrer do conceptismo.

O CULTISMO

O cultismo, caracterizado por uma linguagem rebuscada, culta, extravagante, descritiva, serve-se
sobretudo de três artifícios (jogo de palavras (ludismo verbal), jogo de imagens e jogo de construções) para
esconder, sob um burilado excessivo da forma, uma temática estéril e banal. Trocadilhos, aliterações,
homonímia, sinonímia, perífrases e extravagância de vocábulos são alguns dos artifícios de que se serve. É
também designado por gongorismo devido ao escritor espanhol Luís de Gôngora, que serviu de modelo aos
nossos poetas.

O CONCEPTISMO

O conceptismo é, pois, caracterizado por um jogo de ideias ou conceitos, seguindo um raciocínio


lógico, racionalista, que utiliza uma retórica aprimorada. Para tal, recorre a um conjunto de artifícios
estilísticos como comparações, metáforas e imagens de enorme ousadia, ou ainda sinédoques e hipérboles,
entre outros, que conduzem a uma tal densidade conceptual que obscurece o seu conteúdo. Um dos
principais cultores do conceptismo foi o espanhol Quevedo.

O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E O ESTILO BARROCO

Não podemos pensar em Vieira isolando-o no tempo e no espaço. Temos de pensá-lo à luz do
barroco e das ideologias que preconizava. Apesar das críticas que lançava a autores seus contemporâneos,
cujo requinte de linguagem era de tal ordem que tornavam obscura a mensagem, ele é um homem barroco.

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Alguns críticos consideram-no mais cultista, outros há que se inclinam mais para o lado conceptista. Apesar
de se perceber facilmente que as «leis» da arte barroca atravessam a sua obra, ele esforça-se para que o
seu discurso seja percetível, chegando mesmo a atacar aqueles que fazem do sermão um «jogo de
xadrez».
Ao ler um sermão de Vieira poderemos imaginar como seria in loco. Através das palavras e
recursos, podemos tentar reconstituí-lo, porém os gestos, as expressões, a voz e todo o aparato que o
rodeava perderam-se nas malhas do tempo.
Todo o trabalho que estava por detrás de um sermão, como exercícios diários de memorização,
expressões faciais, modulação da voz, entre muitos outros praticados pelos jesuítas, são irrecuperáveis e é
também por eles que os seus Sermões estão cheios de ritmo e vivacidade.
A arte de memorizar era uma estética muito cultivada nos colégios jesuítas, ao longo dos séculos
XVI e XVII. A memorização é uma das técnicas responsáveis pelo êxito ou fracasso de um sermão. Esta era
uma arte de vital funcionalidade pois, quanto mais campos abrangesse, maior prestígio concederia ao
orador. Vieira era possuidor de uma vastíssima técnica oratória, subindo, aí, em primeiro lugar, ao palco dos
pregadores barrocos.

A RETÓRICA E A ORATÓRIA

É reconhecido o domínio que Vieira possuía da retórica e da oratória e que tanto sucesso
angariaram para os seus sermões, conferindo à sua obra a grandeza que merecidamente lhe é
reconhecida. Interessa, por isso, perceber o que são uma e outra.
Assim a retórica é a técnica (ou a arte, como preferem alguns) de convencer o interlocutor através
da oratória, ou outros meios de comunicação. Classicamente, o discurso no qual se aplica a retórica é
verbal, mas há também — e com muita relevância — o discurso escrito e o discurso visual.
Quanto à oratória, trata-se de método de discurso e a arte de como falar em público,
compreendendo o conjunto de regras e técnicas que permitem apurar as qualidades pessoais de quem se
destina a falar em público. É o género literário que compreende todo o discurso oral dirigido a um auditório
com a finalidade de o convencer de uma determinada mensagem, pela razão, pela sensibilidade ou pelo
prazer que nele provoca o texto dito. Esta pode ser sacra, quando associada, por exemplo, ao discurso do
sermão; ou então profana, quando se trata do discurso forense (ou jurídico), académico, político e musical
(óperas).

O SERMÃO ENQUANTO TEXTO ARGUMENTATIVO

No séc. XVII, o sermão está na base da mais importante cerimónia social: a pregação. Pela
natureza de que se reveste e os objetivos que visa atingir (convencer a audiência a adotar uma determinada
atitude ou comportamento), este assume-se como o exemplo claro de uma argumentação.
Efetivamente, o texto argumentativo é tão antigo como o próprio Homem, uma vez que argumentar,
ou seja, construir um texto (oral ou escrito) com base em argumentos logicamente encadeados está
indissociavelmente ligado à atividade humana.

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Estrutura do texto argumentativo

Tradicionalmente alia-se ao texto argumentativo uma estrutura tripartida, a saber:


 introdução – onde se apresenta a tese a desenvolver;
 desenvolvimento – organizado em vários parágrafos e onde se exploram os argumentos e os contra-
argumentos;
 conclusão – constituída por um único parágrafo, onde se retoma a tese inicial reforçada pela
"operação" lógica do desenvolvimento.
Refira-se, ainda, que a linguagem empregue deve ser clara e objetiva, revelando coerência e rigor
semânticos e sintáticos.

Tipos de argumentos

São vários os tipos de argumentos a que o orador pode recorrer para expor a sua argumentação, os
quais podemos dividir em quatro tipos:
 dedutivos  analógicos
 indutivos  falaciosos

Argumento dedutivo (silogismo) – Compreende duas premissas e uma conclusão. Neste, a verdade das
premissas assegura a verdade da conclusão. Se as premissas forem verdadeiras, e o seu encadeamento
adequado, a conclusão será necessariamente verdadeira. O argumento dedutivo não acrescenta nada de
novo ao que sabemos.
Exemplo: Todos os homens são mortais. João é homem. Logo, João é mortal.

Argumento indutivo (generalização, previsão) – Neste caso, a conclusão ultrapassa o conteúdo das
premissas. Embora estas possam ser verdadeiras, a conclusão é apenas provável.
Exemplo: Todos banhistas observados até hoje estavam queimados pelo sol. Logo, o próximo banhista
que for observado estará queimado pelo sol.
Argumento por analogia – Neste tipo de argumentos parte-se da semelhança entre duas coisas, para se
concluir que a propriedade de uma é a mesma que podemos encontrar na outra. As diferenças específicas
são ignoradas.
Exemplo: Marte é um astro como a Terra. A Terra é habitada. Logo, Marte é também habitado.

Argumento falacioso – É constituído por raciocínios inválidos, não sendo as premissas, sob o ponto de
vista lógico, relevantes para a conclusão. O mais importante é o seu impacto psicológico. Destes,
destacamos:

Apelo à piedade – Faz-se apelo à misericórdia do auditório para que a conclusão seja aceite.
Exemplo: Sr. Dr. Juiz não me prenda, porque se o fizer os meus filhos ficam desamparados.

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Apelo à ignorância – Utiliza-se uma premissa baseada na insuficiência de evidências para sustentar
ou negar uma dada conclusão.
Exemplo: Ninguém provou que Deus existe. Logo, Deus não existe.

Apelo à força – Pressão psicológica sobre o auditório.


Exemplo: As minhas ideias são verdadeiras, quem não as seguir será castigado.

Apelo à autoridade – Faz apelo à autoridade e prestígio de alguém para sustentar uma dada
conclusão.
Exemplo: Einstein, o maior génio de todos os tempos, gostava de batatas fritas. Logo, as batatas fritas
são o melhor alimento do mundo.

Contra a pessoa – Coloca-se em causa a credibilidade do oponente, de forma a desvalorizar a


importância dos seus argumentos.

Sofisma lógico (argumento ou falso raciocínio formulado com o fim de induzir em erro):
Petição de princípio – Pretende-se provar uma conclusão, partindo de uma premissa que é a
própria conclusão.
Exemplo: Toda a gente sabe que as autarquias são corruptas. Por isso não faz sentido provar o
contrário.
Falsa causa – A conclusão é extraída de uma sucessão de acontecimentos.
Exemplo: O dinheiro desapareceu do cofre depois do João ter saído da loja. Logo...
Falso dilema – Apenas são apresentadas duas alternativas, sendo omitidas todas as outras.
Exemplo: Quem não está por mim, está contra mim.

A ESTRUTURA DO SERMÃO

O sermão religioso obedecia a algumas regras, que o próprio Vieira codificou no famoso Sermão da
Sexagésima:
1. definir a matéria;
2. reparti-la;
3. confirmá-la com a Escritura;
4. confirmá-la com a razão:
5. amplificá-la, dando exemplos e respondendo às objeções, aos "argumentos contrários";
6. tirar uma conclusão e persuadir, exortar.

AS PARTES

Vieira não se afasta muito da estrutura da retórica da época; primeiro surgia o tema ou a passagem
evangélica, a partir da qual, se iria construir todo o texto, o conceito predicável, depois as ideias que
seriam trabalhadas, referentes sempre à matéria a ser desenvolvida, logo vinha a invocação, o apelo à

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Virgem, depois seguir-se-ia a parte principal do sermão, a chamada exposição, em que desenvolveria a
matéria a ser trabalhada, apoiando-se sempre em casos bíblicos, sentenças de santos, exemplos da
Sagrada Escritura ou não; coincidia com a confirmação, em que o pregador se justificava, refutava,
argumentava quase sempre com citações bíblicas.
Finalmente, na peroração proporá as lições de moral e apela ao público a segui-las, na vida, na
prática.

Assim, analisando os sermões do Padre António Vieira, concluímos que qualquer deles obedece,
quase sempre, a uma estrutura consagrada no seu tempo, constituída pelas seguintes partes:
Exórdio – o orador expõe o plano, o assunto, a matéria que vai defender e pede a atenção e a
benevolência do público. Esse plano baseia-se num conceito predicável extraído normalmente da
Sagrada Escritura, ao qual o orador dá um sentido alegórico ou verdadeiro. Termina com a invocação,
onde o pregador invoca o auxílio divino para a exposição das suas ideias.

Exposição – nesta parte, faz-se a contextualização do assunto do sermão.

Confirmação – trata-se do desenvolvimento do tema indicado, filosofando, argumentando, de forma a


provar a matéria que se propôs trabalhar, realçado com alegorias, sentenças e exemplos.

Peroração – a conclusão do discurso, em que o orador recapitulava tudo quanto dissera, e terminava de
uma forma brilhante para impressionar e convencera o público a pôr em prática os seus ensinamentos.

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O SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

Escolhendo como auditório, e à semelhança do ocorrido outrora com Santo António, em Itália, os
peixes, já que os homens (neste caso os colonos de São Luís do Maranhão, em 1663) parecem ser maus
ouvintes e não aceitar a pregação, Vieira elabora uma ampla alegoria em que se propõe louvar, por um
lado, e criticar, por outro, os peixes (atribuindo-lhes qualidades que não encontra nos homens, no primeiro
caso, e criticando-lhes defeitos comuns aos mesmos homens, no segundo caso).
É para todos óbvio que o que preocupa Vieira são os comportamentos errados dos homens, contra
quem, afinal, este sermão constitui uma vigorosa diatribe. E foi bem entendido pelo auditório – dado que,
como consta em epígrafe, o Sermão foi pregado "três dias antes de se embarcar ocultamente para o reino”,
numa viagem que se aparenta uma fuga.
O sermão é construído de acordo com as regras habituais no sermão seiscentista e apresenta o
seguinte plano ou estrutura:
Na primeira parte – capítulo I – que constitui o Exórdio, desenvolve Vieira o conceito predicável,
partindo da frase bíblica “Vos estis sal terra” [vós sois o sal da terra], frase proferida por Cristo, dirigindo-se
aos discípulos e pregadores. Interroga-se então Vieira sobre as virtudes do sal – dizendo que o sal serve
para salgar, impedindo a corrupção – e, sobretudo, sobre porque é que o sal deixou de salgar, dado que a
terra está corrupta. Continuando o seu raciocínio lógico, conclui que “ou é porque o sal não salga, e os
pregadores dizem uma cousa e fazem outra", ou é porque “a terra se não deixa salgar, e os ouvintes
querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem”. Assim sendo, que fazer? É então que aduz o
exemplo de Santo António e se propõe pregar, como ele, aos peixes. Faz então uma invocação/prece a
Maria, “Domina maris: senhora do Mar".

ESQUEMA-SÍNTESE DO EXÓRDIO

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Entrando no Desenvolvimento ou Exposição/Confirmação – capítulo II –, estabelece o plano do
Sermão: "Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois
pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios". Inicia,
então, os louvores; com o mesmo rigor analítico, ocupa-se, neste capítulo, dos louvores dos peixes em
geral – "ouvem e não falam", sendo, pois, bons ouvintes; são obedientes e discretos, evitando o convívio
com os homens; além disso, não se deixam domesticar, perdendo, com isso, a liberdade, como sucede aos
outros animais ao se deixarem domesticar: “E entretanto vós, peixes, Longe dos homens e fora dessas
cortesanias, vivereis só convosco, sim, mas como peixe na água".
No capítulo III, Vieira vai louvar alguns peixes em particular. Começa por fazer o seu retrato
físico, a partir do qual extrai a simbologia adequada. Louva o peixe de Tobias [o seu fel curava da cegueira,
como a língua áspera de Santo António, outrora, curava da cegueira (os vícios) os homens], a rémora, peixe
pequenino, mas com muita força, capaz de derrubar uma nau (como a língua de Santo António, fraca, mas
poderosa contra as naus da Soberba, da Vingança, da Cobiça, da Sensualidade]; o torpedo, dotado de força
para fazer tremer o braço dos pescadores [como as palavras de Santo António faziam tremer os pecadores]
– é que, como no mar, se pode “pescar" também em terra – pescando até os reis “cidades e reinos inteiros”
– repare-se que Vieira “joga " com o duplo sentido, denotativo [pescar no mar] e conotativo [pescar: roubar];
louva igualmente um peixe tropical, o quatro-olhos, assim designado porque tem dois olhos virados para
cima (o que lhe permite defender-se das aves de rapina) e dois para baixo (defendendo-o dos inimigos
marinhos); assim deveriam ser os homens, para que, com os olhos virados para cima, pudessem
contemplar o Céu, e, com os olhos virados para baixo, o Inferno.
Do mesmo modo que os louvores dos peixes haviam sido distribuídos por dois capítulos, em
louvores dos peixes em geral e de alguns peixes em particular, também os defeitos vão ocupar "dois
capítulos, abordando -se primeiro os defeitos em geral e depois os defeitos dos peixes em particular.
Assim, no capítulo IV, Vieira critica os defeitos gerais dos peixes, o maior dos quais é que se
comem uns aos outros, e mais grave ainda, “são os grandes que comem os pequenos". Para mostrar aos
peixes quão terrível é este defeito, convida-os a olhar para terra e ver como também os homens se
"comem" (no sentido metafórico de "exploram") uns aos outros e o fazem da mesma maneira: "os pequenos
são o pão do quotidiano dos grandes", sendo comidos diariamente como o pão, e não apenas
ocasionalmente, como os outros alimentos. É, pois, a universal antropofagia cometida pelos grandes que
Vieira critica em páginas sublimes – e, mais grave ainda, em terra os homens comem-se em vida e na
morte, apontando como exemplos o que sucede com um moribundo [...].
Outro defeito dos peixes é o de correrem atrás de iscos, falsos chamarizes que os levam à morte –
também os homens, que vão atrás de engodas, movidos pela vaidade e por falsos valores.

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O capítulo V é consagrado aos defeitos de alguns peixes em particular: – os roncadores, que, como
S. Pedro, que depois de muito fanfarronar, negara Cristo, roncam muito e fazem pouco; os pegadores, que
têm o costume de se pegarem a outros peixes maiores, sendo deles parasitas e que não se lembram que,
se aqueles a quem se pegam forem apanhados, eles irão juntamente; os voadores, peixes que se não
contentam com nadar, querem também voar e isso faz com que sejam mais facilmente apanhados pelos
marinheiros; e finalmente o polvo1, perito na arte da dissimulação e, por isso, o "maior traidor do mar",
segundo Vieira, por se fazer da cor e forma dos sítios em que se encontra, a fim de melhor abraçar e matar
as presas.
É óbvio que todos estes defeitos dos peixes têm o seu correspondente nos comportamentos dos
homens, também "roncadores" inconsequentes, "pegadores parasitas", ambiciosos como os voadores e
traidores e dissimulados como o polvo.
O capítulo VI é de Conclusão ou Peroração: "Com esta última advertência me despido, de vós,
meus peixes” convidando-os a louvar a Deus: "louvai, peixes, a Deus, os grandes e os pequenos", porque
"vos criou em tanto número. Louvai a Deus, que vos distinguiu em tantas espécies [...]; louvai a Deus que
vos sustenta; louvai a Deus que vos conserva; louvai a Deus que vos multiplica; [...] e assim como no
princípio vos deu sua bênção, vo-la dê também agora.”
Neste sermão Vieira serve-se dos argumentos habituais: exemplos e frases, extraídos das
Escrituras e dos Doutores da igreja, minuciosamente dissecadas e analisadas, como se as palavras e o seu
aspeto fónico e semântico fossem portadoras de significação mais profunda; serve-se também da descrição
anatómica dos peixes, considerando que a sua forma externa é imagem e símbolo dos seus vícios ou
virtudes; para além destes argumentos, é visível a construção rigorosa e geométrica do sermão e do seu
discurso, o recurso a jogos de palavras e a propriedade e riqueza vocabular.

PAIS, Amélia Pinto, 2004, História da Literatura em Portugal – Uma perspetiva didática. Vol. 1.
Época Medieval e Clássica. Porto: Areal (pp. 221 -223)

1
Que, como sabemos, não é um peixe, mas um molusco cefalópode; a tanto não chegavam os conhecimentos de Vieira.

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Estrutura Estrutura
Correspondências no
Interna Externa Matéria /Conteúdo texto narrativo
Partes Capítulos

Apresentação do tema, partindo do conceito Introdução
predicável: Vos estis sal terrae, (vós sois o sal da terra)
EXÓRDIO
Mat.5,13) A partir do conceito predicável
Cap. I
Exploração do tema "vós sois o sal da terra": "Santo
(ideia sumária da Panegírio a Santo António António foi sal da terra e foi sal
matéria que vai ser Invocação à Virgem Maria do mar."
tratada)

Proposição: até " E onde há bons, e maus, há que louvar,


e que repreender".
(apresentação do sermão)
Início da alegoria: "Suposto isto, para que procedamos
com clareza”.
Divisão: desde "suposto isto" até "vossos vícios"
(o auditório fica na posse do esquema do desenvolvimento
do sermão)
Cap. II
E
M
* Louvores em geral: a partir
 
de "começando pois pelos
G
vossos louvores (...)"
E
  - Exemplificação: "Ia Jonas
R
L pregador do mesmo Deus (...)".
A
O L
U
V
E * Louvores do geral para o
O
M particular: desde "Este é,
2ª R
  peixes (...) descendo ao
E
EXPOSIÇÃO P particular" até " Santo António
S
A abria a sua contra os que se
(apresentação R não queriam lavar". Desenvolvimento
circunstanciada de "Começando, pois,
Cap. III T  Início da confirmação: "Ah
uma matéria pelos vossos "(...) para que procedamos com
I moradores do Maranhão"
didáctica) louvores, irmãos alguma clareza, dividirei, peixes,
C  Louvores em particular:
peixes, ..." o vosso sermão em dois pontos:
U - o peixe do Tobias
e L - a rémora no primeiro louvar-vos-ei as
A - o torpedo vossas atitudes, no segundo
CONFIRMAÇÃO R - o quatro-olhos repreender-vos-ei os vossos
vícios."
(desenvolvimento e
E * 1ª repreensão aos peixes em
apresentação de
M geral: a ictiofagia (os peixes
provas dos factos)
R   comem-se uns aos outros)
E G - Amplificação da repreensão (os
P E maiores comem os mais
Cap. IV
R R pequenos)
E A
E L * 2ª repreensão em geral : a
N   ignorância e a cegueira dos
S   peixes
Õ E
E M
S  
P
"Antes, porém, que A  Repreensões em particular:
vos vades, assim R - os roncadores
Cap. V como ouvistes os T - os pegadores
vossos louvores, I - os voadores-
ouvi também agora C - o polvo
as vossas U
repreensões." L
A
R
3ª Conclusão
. Apelo, incitamento, elevação:
PERORAÇÃO "Com esta última advertência
- Os peixes estão acima dos outros animais.
ou vos despido (…). E para que
Cap.VI - Os peixes estão acima do pregador.
EPÍLOGO vades consolados do sermão,
(As últimas palavras são as que a memória dos
(parte final do que não sei quando ouvireis
ouvintes mais retém)
discurso) outro..."

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ESQUEMA-SÍNTESE DO SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

O barroco estendeu-se por todo o século XVII e pelas primeiras décadas do século XVIII.
Nasceu em Roma e espalhou-se pela Europa e regiões sob sua influência. Teve
expressão particular nas artes plásticas e arquitetura e na literatura. Na literatura, tanto na
Contextualização poesia como nos géneros em prosa, cultivou os temas da efemeridade da vida humana,
histórico-literária da transitoriedade do homem e da ilusão da vida e das coisas mundanas. Estes temas
têm motivações religiosas. A literatura barroca compraz-se na representação do belo na
figura humana, nas coisas e nas paisagens através de um léxico opulento e raro onde são
frequentes as hipérboles, as alusões e as metáforas.

Os objetivos da eloquência, no sermão, exprimem-se pelas seguintes palavras latinas:


a. docere, isto é, ensinar, visto que os pregadores se servem dos púlpitos para
Objetivos da criticarem comportamentos;
eloquência b. delectare, isto é, deleitar através de uma linguagem marcado pelo excesso, pela
acumulação de detalhes e pelo virtuosismo verbal e por artifícios retóricos utilizados;
e. movere, isto é, persuadir ou convencer.

Com este sermão, o Padre António Vieira pretende não apenas persuadir os fiéis a
seguirem a palavra de Deus mas também encantá-los com o seu engenho e virtuosismo e
Intenção persuasiva
ensiná-los a seguir uma vida reta. Para tal, serve-se de múltiplas citações de exemplos
e exemplaridade
colhidos nos evangelhos, na vida de santos, particularmente em Santo António, ou nos
ensinamentos dos Doutores da Igreja.

O Padre António Vieira satiriza o poder dos colonos do Maranhão, que pretendem
continuar a escravizar os índios, utilizando um esquema alegórico que lhe permitia referir--
se-lhes simulando um discurso aos peixes e exemplificando, com as suas virtudes e os
Crítica social e
seus defeitos, a realidade que pretende criticar.
alegoria
Por exemplo, ao criticar nos peixes o defeito de se devorarem uns aos outros, o Padre
Vieira está alegoricamente a insurgir-se contra o exercício do poder dos mais fortes
perante os mais fracos.

Visão global e estrutura argumentativa: o «Sermão de Santo António» divide-se em


quatro partes – exórdio, no capítulo I; exposição e confirmação, entre os capítulos lI a V;
peroração, no capítulo VI. Na exposição, no capítulo lI, o orador apresenta o plano do
sermão, que dividirá em louvores das virtudes e repreensões dos defeitos dos peixes. Na
confirmação, ainda no capítulo lI, o orador desenvolve os seus argumentos apresentando
Linguagem, estilo,
as virtudes em geral, seguindo-se, já no capítulo IlI, as virtudes em particular. No capítulo
estrutura
IV, refere os defeitos dos peixes em geral, demorando-se posteriormente nos defeitos em
geral, no capítulo V.
O discurso figurativo: o discurso está repleto de recursos expressivos, dadas as
características alegóricas do sermão. Os mais frequentes são a alegoria, a metáfora, a
comparação, a enumeração e a gradação.

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