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A Educação para além do Capital é um texto de Istvan Mészáros, escrito para a

conferência de abertura do Fórum Mundial de Educação 2004, em Potro Alegre. O


título deixa subentendida a expansão das reflexões do autor, feitas em sua obra Para
Além do Capital, para o âmbito da educação. É importante ressaltar que a educação aqui
não é aquela que diz respeito às escolas ou sistemas de ensino, mas a que diz respeito à
formação do homem enquanto ser social, capaz de saber, conhecer e de ter consciência
do real.

A princípio, Mészáros resgata as concepções filosóficas produzidas ao longo da


história acerca do tema educação. Procura mostrar as características dessas concepções
como as suas limitações e comprometimento, com um olhar especial para as limitações
impostas pela sociedade do capital, que se justificam pela incapacidade de seus
produtores de aprender e transcender os limites do capital.

A partir daí, identifica-se a temática fundamental abordada por Mészáros: a


incontrolabilidade do sistema de capital, ou seja, a necessidade de autoexpansão e
acumulação para a qual se produz e reproduz continuamente as condições para a
conservação do mesmo.

A emancipação da humanidade, mesmo em níveis mínimos, não encontra espaço


na sociedade do capital. A história do século XX prova que as forças objetivas do
capital são capazes de reverter todas as formas de controle social sobre as formas de
acumulação.

O objetivo de Mészáros ao expandir essa temática para o âmbito da educação é


chegar a uma alternativa educacional que seja voltada para a emancipação da
humanidade. Esse olhar torna-se importante por conta das limitações impostas pelo
sistema do capital também sobre a produção de idéias.

O fato de a consciência dos homens não ser fundamentalmente determinada


pelos interesses dominantes em cada momento histórico é o que permite Mészáros
pensar em uma nova educação, ainda que o sistema do capital não seja “aberto” para
alternativas. Se isso fosse possível, a educação poderia ser sempre elaborada
favorecendo o capital. O que confere a educação um caráter difícil de se definir, pois ao
mesmo tempo que é um dos momentos fundamentais da produção das condições de
manutenção da ordem social do capital, afinal é o meio que faz com que os indivíduos
absorvam as perspectivas, os valores e a moral do sistema do capital, tornando-a
legítima é também necessária para se pensar em uma estratégia de transição para uma
nova forma de sociabilidade, que esteja Para Além do Capital.

A respeito do aspecto estratégico da educação, Mészáros retoma alguns


conceitos de Marx como o que diz que a teoria da alienação constata que a educação
nada pode contra o capital. Isto é, não é possível conceber qualquer tipo de educação
emancipadora sem pensar em uma transformação das condições objetivas nas quais o
sistema de controle sócio-metabólico do capital se impõe sobre a humanidade. Isso faz
com que o autor chegue a duas conclusões que são certamente atuais: a primeira diz que
as propostas reformistas não são mais do que meras tentativas de conservar a
manutenção do status do próprio capital; a segunda diz que a educação não pode ser a
“solução para todos os males” quando pensada na totalidade do real e da sociedade
controlada pelo capital.

Questiona-se qual o papel da educação dentro da lógica sistêmica de acumulação


do capital? Segundo o autor o papel da educação é estratégico e vital justamente porque
a educação está ligada às possibilidades de superação do capital, isto é, a educação está
ligada à construção de uma sociedade não mais determinada pelas necessidades da
produção de mercadorias, pelo lucro, pela exploração alienante do trabalho. Essa
característica a coloca como princípio fundamental de qualquer processo de mudança
social que vá em direção à emancipação humana. Como a superação da ordem do
capital não significa apenas a sua negação, mas a construção de uma nova ordem capaz
de sustentar a si própria a educação é o que proporciona os meios de produzir esta nova
concepção, antecipando assim uma nova forma de metabolismo social, norteando os
meios para a sua execução.

Esse processo de antecipação deve criar, de acordo com o autor, uma forma de
consciência social que liberte dos limites restritos do controle do capital , a própria vida
dos indivíduos de modo que sejam estes capazes de fazer do processo de aprendizagem
“a sua própria vida”.
Mészáros diz ainda que é apenas nesse sentido amplo que a educação
institucionalizada é capaz de contribuir para a superação do capital, tornando reais as
suas aspirações emancipadoras.

Temos então uma concepção de educação diretamente ligada à necessidade de


superar a alienação objetiva sem a qual não seria possível exercer o controle sócio-
metabólico do capital. Esta superação não pode ser pautada apenas da derrubada do
capitalismo, esse é apenas um passo para a efetiva superação do capital e de todas as
formas de ser compatível com o seu domínio social. Para que sejam atingidos resultados
efetivamente duradouros, esses passos iniciais precisam estar orientados pelos
princípios gerais, por uma visão holística, concreta e abrangente, de “gerir as funções
globais de decisão da sociedade”, impedindo assim que a negação da ordem atual das
coisas se mantenha condicionada por aquilo que nega. A educação tem por missão,
então, cuidar para que a superação do capital seja feita de forma completa e não mais
parcial, ou particular, como nas estratégias reformistas. É contra as determinações
sistêmicas do capital que ela deve combater e seu papel é imprescindível.

Numa nova ordem social, a maneira pela qual os indivíduos poderão tomar
decisões conscientes sobre a forma de gestão de sua própria vida é a automudança
consciente. É o estabelecimento do controle consciente dos processos sociais, o que só é
possível conceber a partir do momento em que a educação é completamente vivida
pelos indivíduos. Este controle ao se converter na forma de superação da forma alienada
de mediação dos homens entre si, torna-se uma mediação consciente. Uma efetiva
automediação permite uma vida determinada pelas necessidades humanas e não pelas
necessidades fetichizadas e artificiais criadas no âmbito do capital.

É apenas nos termos da mudança radical, caminhando no sentido de uma nova


ordem social com características qualitativamente diferentes que a universalização da
educação e a universalização do trabalho como atividades humanas autorrealizadoras
poderão se transformar em realidade. Reafirmando que não se trata de uma mudança
meramente educacional, mas de uma mudança substancial de toda forma de vida, de
todo o modo de ser da humanidade na produção/reprodução de sua existência, de forma
que a educação não seja apenas um momento específico da vida, com finalidades pré-
definidas e passe a ser propriamente a vida de todas as pessoas.
Para Mészáros, isso não é apenas uma possibilidade, algo que pode vir a se
tornar real, é uma necessidade imediata que envolve até mesmo a sobrevivência da
humanidade. Por esse motivo, a educação tem um papel de extrema importância no
combate à ordem destrutiva do capital.