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As necessidades humanas e o proibicionismo das drogas no século

XX1

Henrique Carneiro

A política internacional tem hoje como um dos seus aspectos mais importantes a

“guerra contra as drogas” capitaneada pelos Estados Unidos. A crescente intervenção

política e militar sob o pretexto da luta contra as drogas alcança com o Plano Colômbia as

características de uma guerra neo-colonial. Tal situação que acentuou-se a partir dos anos

70, quando Nixon lançou a guerra contra as drogas, atingiu graus extremos nos anos 80 e

90, na entrada ao terceiro milênio parece tornar-se ainda mais grave. Diversos aspectos da

degeneração da situação social relacionam-se direta ou indiretamente ao estatuto do

comércio de drogas na sociedade contemporânea: aumento da violência urbana, do número

de encarcerados e das forças militares envolvidas com as drogas.

O papel histórico das drogas no comércio mundial adquire importância crescente

no século XX. Na época atual de predomínio financeiro, o principal ramo do comércio

mundial é o das drogas, se incluirmos aí os cerca de 500 bilhões de dólares do tráfico ilícito,

e acrescentarmos os capitais das drogas legais, como o álcool e o tabaco, mas também o

café, o chá, etc., além das drogas da indústria farmacêutica2.

O fenômeno do consumo contemporâneo de drogas distingue-se das formas de

1
Publicado na revista Outubro, IES, São Paulo, vol. 6, 2002, pp.115-128.
2
O informe da ONU sobre drogas estimava, em 1997, que o tráfico de drogas ilícitas de cerca de 400 bilhões
de dólares eqüivalia a 8% do comércio mundial (Le Monde, 27/6/97). No Brasil, os 4 maiores mercados (FSP,
3/8/98) são, em bilhões de reais anuais: cerveja, 8,8; refrigerante 7,4; cigarro 5,3; e aguardente 2,1. A Ambev,
fusão da Brahma e Antartica, tornou-se a maior empresa privada do país. O nosso país é o quarto produtor
2

consumo e regulamentação que existiram em outras épocas. O século XX foi o momento em

que esse consumo alcançou a sua maior extensão mercantil, por um lado, e o maior

proibicionismo oficial por outro. Embora sempre tenham existido, em todas as sociedades,

mecanismos de regulamentação social do consumo das drogas, até o início do século XX

não existia o proibicionismo legal e institucional internacional.

A natureza destes produtos - drogas - é múltipla, mas ocupa um lugar conceitual na

atualidade que aparentemente os diferenciam facilmente dos alimentos. Tal certeza começa

a se abalar, entretanto, ao examinarmos a natureza precisa do álcool, do açúcar, do

chocolate, do café e de outras substâncias de presença ubíqua no cotidiano dos povos no

final do século XX.

A partir da época quinhentista, iniciou-se a formação do sistema mundial, cuja

difusão comercial e cultural realizou-se por meio do tráfico especializado de certos gêneros.

A difusão massiva de produtos que antes eram de luxo e de circulação restrita, como o

açúcar, o ópio, o tabaco, o café ou o chá, tornaram-nos, principalmente a partir do século

XIX, cada vez mais abundantes e disponíveis.

A América e o Oriente integraram-se assim no mundo moderno fornecendo suas

riquezas vegetais e sofrendo a empreitada colonizadora que buscou regulamentar o consumo

das plantas. O tabaco, traficado pelos jesuítas, após uma resistência inicial dos protestantes e

dos orientais, foi aceito e valorizado, juntando-se ao álcool, ao açúcar, ao café, ao chá e ao

chocolate para constituírem o universo das drogas oficiais da vida cotidiana moderna,

enquanto outros, como os cactos e cogumelos alucinógenos americanos foram proibidos

pela Igreja no período colonial, assim como os derivados do ópio, da coca e da maconha, a

mundial e o primeiro exportador de tabaco (FSP, 10/8/2000).


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partir do século XX, conheceram o estatuto da proscrição, nas diversas formas de

proibicionismo.

O estatuto do proibicionismo separou a indústria farmacêutica, a indústria do

tabaco, a indústria do álcool, entre outras, da indústria clandestina das drogas proibidas,

num mecanismo que resultou na hipertrofia do lucro no ramo das substâncias interditas. No

início do século a experiência da Lei Seca, de 1920 a 1934, nos Estados Unidos, fez surgir

as poderosas máfias e o imenso aparelho policial unidos na mesma exploração comum dos

lucros aumentados de um comércio proibido, que fez nascerem muitas fortunas norte-

americanas, como a da família Kennedy, por exemplo. O fenômeno da Lei Seca se repete no

final do século XX, numa escala global, com uma dimensão muito mais gigantesca de um

comércio de altos lucros gerador de uma violência crescente. O consumo de drogas ilícitas

cresce não apesar do proibicionismo também crescente, mas exatamente devido ao

mecanismo do proibicionismo que cria a alta demanda de investimentos em busca de lucros.

O objetivo deste artigo é discutir o nexo indispensável que existe entre o regime do

proibicionismo e a hipertrofia dos lucros e da violência, assim como a hipocrisia dos

argumentos que querem julgar as necessidades humanas para poder administrá-las através

das proibições e da repressão.

A primeira questão a se definir é a de que as drogas são necessidades humanas. Seu

uso milenar em quase todas as culturas humanas corresponde a necessidades médicas,

religiosas e gregárias. Não apenas o álcool, como quase todas as drogas são parte

indispensável dos ritos da sociabilidade, da cura, da devoção, do consolo e do prazer. Por

isso as drogas foram divinizadas em inúmeras sociedades.


4

As formas de usos, entretanto, são regulamentadas de formas diferenciadas, e no

século XX, encontramos o estatuto de uma proibição formal de certas substâncias e a

aceitação de outras. A discriminação das substâncias obedece a injunções culturais e

econômicas. Embora o álcool tenha sido vítima da primeira lei seca norte-americana, ele em

geral é tolerado nas sociedades ocidentais, assim como o tabaco, enquanto substâncias

reconhecidamente mais inócuas como os derivados da canábis mantém-se sob interdição. O

julgamento da legitimidade ou não destas necessidades é arbitrariamente estabelecido. O

uso de uma justificativa médica e de saúde pública para se proibir certas drogas é

contraditório com o fato de que algumas das substâncias mais perigosas são permitidas

devido ao seu uso ser tradicional no Ocidente cristão. O cigarro, por exemplo, desde a

guerra da Criméia incorporou-se à ração dos exércitos e aos hábitos populares, o chá e o

ópio à dieta da Inglaterra vitoriana, e o álcool na forma do vinho, da cerveja e dos destilados

continua sendo a bebida nacional de muitas nações3.

A conotação de necessidade presente em Marx é aquela que, além do conceito

lógico de necessidade objetiva, identifica nas necessidades subjetivas da humanidade dois

tipos: as que são básicas, de sobrevivência física, e as derivadas. Tal concepção - que

identifica nas necessidades humanas e suas formas de satisfação o fundamento das

sociedades - é compartilhada por outras vertentes teóricas. Na antropologia funcionalista,

por exemplo, as culturas são sistemas de produção e satisfação de necessidades, tanto

básicas como derivadas.

3
Nos Estados Unidos, ocorrem anualmente 430 mil mortes associadas ao tabaco, mais de cem mil decorrentes
do uso de álcool, 16 mil devido às drogas ilegais (FSP, 8/4/2001), e cerca de 106 mil pessoas morrem por uso
de remédios (intoxicação medicamentosa) (Superinterssante, maio 2001, p.49). A revista Pesquisa, da Fapesp,
no n.52, de abril de 2000, publicou o artigo “Drogas, mitos desfeitos”, sobre uma pesquisa que mostrou que as
drogas mais consumidas no estado de São Paulo e que mais são nocivas à saúde pública continuam sendo o
tabaco e o álcool.
5

A busca da satisfação das necessidades é o que leva à produção dos meios para

satisfaze-las, criando o que Marx designa como “primeiro ato histórico”. Primeiro é preciso

viver, ou seja, “comer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais”, mas logo em

seguida, acrescenta Marx, “satisfeita esta primeira necessidade, a ação de satisfaze-la e o

instrumento de satisfação já adquirido conduzem a novas necessidades - e esta produção de

novas necessidades é o primeiro ato histórico”, e “as necessidades ampliadas engendram

novas relações sociais e o acréscimo de população engendra novas necessidades”4.

Em O Capital se discute a questão dos produtos das necessidades se imporem pelo

“hábito” e não somente por uma suposta “necessidade fisiológica” e o exemplo apresentado

é exatamente o de uma droga, o tabaco: “Meios de consumo que entram no consumo da

classe trabalhadora e - à medida que são meios de subsistência necessários, embora muitas

vezes diferentes em qualidade e valor dos consumidos pelos trabalhadores - constituem

também parte do consumo da classe capitalista. Podemos colocar todo esse

subdepartamento, para nosso propósito, sob a rubrica: meios de consumo necessários, sendo

totalmente indiferente, nesse caso, que determinado produto, o fumo, por exemplo, seja ou

não, do ponto de vista fisiológico, um meio de consumo necessário; basta que habitualmente

o seja.”5.

Em outras passagens de O Capital, Marx usará propositadamente uma seleção

arbitrária de exemplos de mercadorias (como é o caso do “linho, Bíblias ou aguardente”, do

capítulo III, do Livro I), que representam a satisfação de necessidades, cuja natureza, sendo

originária do “estômago ou da fantasia” não “altera nada na coisa”, repetindo, numa nota de

rodapé, uma frase de Nicholas Barbon: “Desejo inclui necessidade, é o apetite do espírito e

4
Karl Marx, A Ideologia Alemã, 2. Ed., SP, Ciências Humanas, 1979, p.40.
6

tão natural como a fome para o corpo (...) a maioria (das coisas) tem seu valor derivado da

satisfação das necessidades do espírito”6.

Na Crítica ao Programa de Gotha, Marx definia o comunismo como a sociedade

na qual o trabalho social se praticaria “de cada um segundo suas capacidades”, e o produto

social se distribuiria “a cada um de acordo com as suas necessidades”. Antes dessa etapa

superior, haveria, no entanto, uma fase transitória, na qual de cada um se exigiria o trabalho

“segundo suas capacidades”, e a cada um se remuneraria “segundo o seu trabalho”. As

condições de uma sociedade livre, em Marx, só se vislumbram a partir do momento em que

o “reino da necessidade” é superado, ou seja, quando cessa o trabalho determinado pelas

necessidades. A partir deste momento, o trabalho não será mais a alienação compulsória

imposta pela necessidade, mas uma forma de livre exercício da criatividade humana, quando

a indústria, a arte e a ciência se unirem numa atividade livre, quando o trabalho se

converterá de “meio de vida”, em “principal necessidade da vida”.

Comentando as condições de uma planificação socialista, Alex Callinicos discute a

diferenciação estabelecida por Marx, entre necessidades objetivas e carências subjetivas,

considerando que as necessidades básicas, como alimentação, moradia, vestuário,

transporte, educação, saúde, etc., deveriam ser fornecidas como bens e serviços gratuitos

numa sociedade socialista, onde a abundância relativa permitiria tal subsídio público7. As

demais carências específicas e singulares que constituiriam os desejos de cada indivíduo,

seriam satisfeitas de forma mediada, onde as possibilidades da disponibilidade social e a

disposição de trabalho de cada indivíduo se mediariam para uma obtenção seletiva dos bens

5
Karl Marx, O Capital, Livro II, SP, Nova Cultural, 1985, p.382.
6
Karl Marx, O Capital, Livro I, SP, Nova Cultural, 1985, p.45.
7
Alex Callinicos, A Vingança da História, RJ, Zahar, 1992, p.137.
7

e serviços mais escassos, num intercâmbio social que incluiria uma esfera de troca. O

consumo como meta da produção deveria caracterizar o socialismo, onde o setor

preponderante da economia deveria ser o setor I (bens de consumo), em detrimento do setor

II (bens de produção). Os conflitos sobre a alocação dos recursos sociais na fase transitória

do socialismo ao comunismo deveriam ser equacionados por meio de consultas

democráticas na determinação do planejamento econômico.

O chamado “axioma da economia neoclássica”, de que a insaciabilidade das

necessidades recria permanentemente a escassez, e que para medir a intensidade das

carências o único meio de aferição seria o mercado e a flutuação dos preços relativos dos

produtos, é refutado pelo marxismo, que pressupõe a planificação como única via racional

para a satisfação imediata das necessidades básicas e a administração democrática das

carências subjetivas.

A determinação do que sejam as necessidades básicas, que caberia ao Estado

satisfazer de forma gratuita, e do que sejam as carências particulares que constituem os

diferentes “estilos de vida” ou “preferências pessoais”, remete-se a um debate de definição

do que seja o conceito de necessidade, e no caso do problema que quero enfocar neste texto,

da definição do lugar das chamadas drogas na pauta das necessidades humanas.

A natureza do conceito de necessidade revela uma chave essencial para a

compreensão das visões de mundo que se constituíram no bojo da modernidade, época em

que as necessidades ampliaram-se numa escala global. O que são as necessidades ? Sob esta

definição dividiram-se aqueles que viram um limite aos desejos humanos, que deveriam se

saciar austeramente apenas com o necessário, ou seja, sem desejos outros que não os que
8

permitam a vida sóbria, e aqueles que conceberam o desejo como uma espiral incessante

que impulsiona a humanidade.

A visão do materialismo histórico de Marx oscila entre a defesa da ampliação das

necessidades, potencializadoras de novas forças produtivas, através da intensificação do

comércio e da indústria, como uma realização histórica civilizadora e necessária, e a

denúncia das características estruturalmente anárquicas, antagonizantes e destrutivas do

capitalismo histórico que realizou a sua extensão como expansão das necessidades. Como

declara o Manifesto Comunista: “Em lugar das velhas necessidades, satisfeitas pelos

produtos do país, surgem necessidades novas que exigem para a sua satisfação os produtos

dos países e dos climas mais longínquos”, e um pouco mais adiante, “A burguesia arrasta

todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização”.

O mundo colonial nasce diretamente dessa sede de mercadorias, as novas

necessidades modernas do açúcar, do tabaco, do café, do chocolate, etc. Diferentes foram as

visões em torno desse fenômeno e um decisivo debate se instaurou desde o século XVI na

disputa moral sobre o significado do luxo, da definição do supérfluo e do necessário. Como

escrevem Pedro de Alcântara Figueira e Claudinei Mendes: “Nos séculos XV, XVI e XVII

tornaram-se comuns manifestações segundo as quais as relações humanas tinham sido

pervertidas pelo império da necessidade. Os homens desses séculos expressaram com

extraordinária grandeza, como é o caso de Thomas Morus, Shakespeare e Cervantes, a

tragédia imensa que os assaltava quando viram subvertidas as relações entre os homens e as

coisas. Das trocas de necessidades realizadas à margem das relações entre os indivíduos, a

época moderna passara às trocas como relação dominante entre os homens. Às trocas

subordinadas ao uso sucede uma era nova em que as mercadorias são as únicas coisas
9

realmente estimadas. No dizer de João de Barros está impresso o real sentido de toda uma

época: ‘Não há no mundo nada fora da mercadoria’. O surgimento do mundo colonial

coincide com esta reviravolta, ou melhor, nasce dela”8.

A consciência dos aspectos terríveis que o tráfico desenfreado de mercadorias

causava já estava presente desde o século XVI, por exemplo em Montaigne (1588): “Quem

jamais pôs a tal preço o serviço da mercancia e do tráfico ? Tantas cidades arrasadas, tantas

nações exterminadas, tantos milhões de homens passados a fio de espada, e a mais rica e

bela parte do mundo conturbada pelo negócio das pérolas e da pimenta: mecânicas vitórias.

Jamais a ambição, jamais as inimizades públicas empurraram os homens uns contra os

outros a tão horríveis hostilidades e calamidades tão miseráveis”9.

Não só “pérolas e pimenta”, como também seda e açúcar, chocolate e tabaco, chá e

café, ópio e sândalo, cravo e canela. São tantos os luxos modernos ! Esta expansão das

necessidades ampliou o comércio mundial e foi precursora da revolução industrial,

constituindo o mundo moderno através do tráfico, da pirataria, do saque, do extermínio

genocida e do renascimento da escravização. Foi, no entanto, a via do que se convencionou

chamar de “progresso”10.

Esta expansão das mercadorias foi característica da fase comercial do capitalismo

e, mais ainda, com produtos manufaturados, do capitalismo industrial. O predomínio

8
Na introdução ao Economia cristã dos senhores no governo dos escravos, do jesuíta Jorge Benci, (1705), SP,
Grijalbo, 1977, p.21.
9
Apud Alfredo Bosi, A Dialética da Colonização, SP, Companhia das Letras, 1992, p.22.
10
Alguns autores questionam o aspecto do progresso social que caracterizaria a época moderna. Immanuel
Walerstein, por exemplo, de quem discordo, é um dos que questionam a avaliação de Marx sobre o progresso
histórico constituído pelo capitalismo, afirmando que: “é simplesmente falso que o capitalismo como sistema
histórico tenha representado um progresso sobre os vários sistemas históricos anteriores, por ele destruídos
ou transformados (...) não creio que a vasta maioria das populações mundiais é, objetiva e subjetivamente,
menos próspera materialmente do que nos sistemas históricos anteriores, como penso que se pode argumentar
que politicamente estão em piores condições do que anteriormente”, Immanuel Walerstein, O Capitalismo
Histórico, SP, Brasiliense, pp. 82 e 34.
10

financeiro no capitalismo atual corresponde a um momento onde os índices de consumo

mundial são decrescentes e as desigualdades sociais impossibilitam a uma parte crescente da

humanidade o acesso até mesmo às necessidades alimentares, enquanto os traficantes de

dinheiro tornam-se os controladores dos circuitos principais das finanças capitalistas, cada

vez mais dissociadas da esfera da produção e do consumo.

Na fase ascendente do início do capitalismo, os produtos que podiam ser

considerados como produtos de luxo eram aqueles cuja produção decorria da ampliação da

parcela excedente do produto social que não era realocada para a reprodução das condições

de produção mas, ao invés disso, consumida socialmente, inicialmente por parcelas

aristocráticas reduzidas da população, e com o decorrer do aumento da oferta, por setores

cada vez mais ampliados. Tal foi o caso, por exemplo, do consumo do açúcar, em sua

origem droga raríssima e de elevado custo e, posteriormente, incorporada como uma

comodidade (uma commoditie) da vida cotidiana. Todas as drogas de origem remota

cumpriram esse roteiro durante a fase da acumulação primitiva do capital, ampliando sua

disponibilidade de consumo social a partir da intensificação do comércio intercontinental.

As formas mais “refinadas e variadas” de consumo do produto excedente são as formas do

luxo em cada época, que ao ampliarem os seus mercados consumidores tornam-se

necessidades básicas.

Comentando sobre o açúcar e o tabaco, o cubano Fernando Ortiz escreve que “o

açúcar, que foi um artigo de luxo, hoje é uma necessidade; o tabaco, que foi necessidade

religiosa e médica, passou a ser, se assim se pode dizer ainda que paradoxalmente, ‘um luxo

vulgar’”11. Esta “vulgarização do luxo” é uma das características da história do comércio

11
Fernando Ortiz, Contrapunteo del tabaco y el azúcar (1940), Havana, Editorial de Ciencias Sociales, 1991,
11

mundial na época moderna e a América foi uma das fontes de novos hábitos e de novos

produtos que, desde uma origem restrita e de consumo suntuário, alcançaram o estatuto de

confortos indispensáveis da vida moderna. Como escreveu Eduardo d’Oliveira França,

“fabricava-se luxo para exportar para a Europa. Mas não sem uma fase de experimentação

local. Muito do luxo que o Ocidente conheceu então, chegou das Índias (...) Os portugueses

eram intermediários para a Europa. Chapéu-de-sol. Palanquim. Leque. Bengala. Colcha de

seda. Aparelhos de chá. Vasos de porcelana. Perfumes, etc. Inclusive o hábito do banho

diário”12.

O pensamento antigo, entretanto, atacou o luxo, considerando que as necessidades

humanas seriam fixas. De Catão e Sêneca à Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino,

corre um fio de continuidade na avaliação negativa do luxo e de sua associação com a

luxúria carnal. Tudo mudou na época moderna, quando ao mesmo tempo que a

intensificação do comércio, também surgiu uma opinião filosófica, econômica e moral

defensora de que os “desejos são infinitos e que a proliferação dos desejos não são a causa

da corrupção mas, pelo contrário, o caminho ‘natural’ das coisas”13, representada, entre

outros, por Thomas Hobbes e Nicholas Barbon, e que inspirou toda a teoria econômica

clássica. Atrás do luxo vêem os conceitos do interesse pessoal e do primado do desejo

individual que se estabelecem como pressupostos morais da expansão objetiva das

mercadorias.

A necessidade maior torna-se, portanto, o próprio estado de desejar, ou como nas

palavras de Condillac: “desejar é a mais preemente de todas as nossas necessidades; por

p.57.
12
Eduardo d’Oliveira França, Portugal na época da restauração, SP, Hucitec, 1997, p.171.
13
Segundo Christopher J. Berry, American Historical Review voll.101, n.2, April 1996, p.449.
12

isso, mal um desejo é satisfeito e formamo-nos um outro (...) Assim nossas paixões se

renovam, se sucedem, se multiplicam, e nós vivemos só para desejar e na medida em que

desejamos”14. Tal teoria antecipa Freud, ao levar em conta os desejos como nosso núcleo

primal e as pulsões da realidade como imposições das necessidades culturais e, ao mesmo

tempo, inscrever no coração do desejo a sua insaciabilidade.

Uma justificativa calvinista para o comércio do luxo pode ser encontrada num

historiador holandês do século XVII, Gaspar Barléu, quando teorizava sobre o papel dos

comerciantes na condução do Estado, considerando que, ao contrário dos gauleses e

germanos que não acolhiam os mercadores, entre os holandeses, “o comerciante não só

mantêm o Estado, mas ainda participa do governo”, mas reconhecia em seguida que o que

traficavam os mercadores eram “superfluidades”, cuja abundância poderia ameaçar relaxar a

fibra moral dos povos, com a exceção dos holandeses que possuíam “doutrina e hábitos de

inteireza”: “temiam aqueles dois povos que as superfluidades quebrantassem os ânimos e

afrouxassem as virtudes. Nós, talvez por sermos mais firmes contra os vícios, pela nossa

doutrina e hábitos de inteireza, não detestamos estes sustentáculos do Estado, mas, ao

contrário, julgamo-los capazes de praticar notáveis atos de virtude”15. Essa justificativa

moral do luxo e a incorporação pioneira da burguesia à gestão do Estado através de

companhias comerciais são características dos calvinistas holandeses que se lançaram, no

século XVII, a um tráfico desenfreado de açúcar, especiarias, escravos, etc.

A querela do luxo foi o centro de uma disputa filosófica e moral onde alguns como

Fénelon, arcebispo de Cambray, numa crítica velada a Luís XIV e suas extravagâncias,

como a construção de Versalhes, atacavam o luxo e defendiam a frugalidade, contra a

14
Apud Luiz Roberto Monzani, Desejo e prazer na Idade Moderna, Campinas, Edunicamp, 1995, p.213.
13

“escravidão às falsas necessidades”. Além da Igreja, filósofos como Rousseau ecoaram esse

repúdio moral à ampliação dos gozos e dos prazeres, pois, segundo ele, somente até os 12

ou 13 anos “se pode mais do que se deseja”, e mais tarde, quando desperta a sexualidade, “a

mais violenta e a mais terrível necessidade”, o homem se torna escravo de suas necessidades

nunca saciáveis, e assim sendo, o que torna o homem essencialmente bom é ter poucas

necessidades e o que o torna essencialmente mau é ter muitas16. Pierre Bayle, Bernard de

Mandeville e Voltaire são alguns dos que despontaram, na vertente contrária, na apologia do

luxo. O último ficou célebre com o argumento de que todos os excessos são ruins, inclusive

os da abstinência.

Os produtos do comércio moderno ampliaram substâncias de luxo, como o açúcar,

para o consumo de massas. O antropólogo Sidney Mintz17 escreveu sobre as relações entre o

açúcar, a predileção pelo gosto doce, a colonização moderna, a escravidão africana e a

constituição do capitalismo comercial moderno, que teve como um de suas mercadorias

centrais o açúcar. Num artigo na revista Annales, em 1961, Fernand Braudel escrevia:

“Sabe-se que o luxo da pimenta e das especiarias dominou o Mediterrâneo e o Ocidente (e

de forma semelhante a China antiga) durante séculos. No Ocidente, este luxo explica as

fortunas e as glórias de Veneza, de Gênova e, mais tarde, as glórias portuguesas...”18. A

ânsia pela pimenta, pelo açúcar e pelo chá, para referirmo-nos apenas aos produtos mais

importantes ao longo dos séculos XVI e XVII, produziram a expansão colonial européia, a

15
Gaspar Barléu, História dos feitos..., BH/SP, Itatiaia/Edusp, 1974, p.9.
16
Rousseau, Emílio, p.171.
17
Sidney Mintz, Sweetness and Power: the place of sugar in modern history, New York, Elizabeth Sifton
Books/Penguin Books, 1986.
18
Fernand Braudel, “Alimentation et catégories de l’histoire” in Annales ESC 16 (4), 1961, p.725.
14

descoberta e a ocupação da América e a escravidão e a diáspora de milhões de africanos. O

açúcar foi, segundo Mintz, “uma das forças demográficas massivas da história mundial”19.

Uma parte dos produtos coloniais é “luxo sensorial”, que podem ser desde

perfumes e bálsamos, até alimentos exóticos, passando pelas substâncias que chamamos de

“drogas”, e que interferem quimicamente com processos fisiológicos, produzindo estados de

consciência alterada. Entre essas drogas encontramos excitantes, sedativos ou alucinógenos,

mas todas tem em comum a virtude de saciarem apetites do corpo e do espírito.

A natureza de todos estes produtos é a mesma que Marx definia no início de O

Capital como sendo o primeiro aspecto da sua análise da mercadoria: “A mercadoria é,

antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas propriedades satisfaz

necessidades humanas de qualquer espécie. A natureza dessas necessidades, se elas se

originam do estômago ou da fantasia, não altera nada na coisa”20. Apetites ou necessidades,

tais produtos são buscados pela humanidade para saciarem sedes, fomes, gostos ou vontades

específicas. A definição de Marx de necessidade humana aproxima-se do conceito de

“desejo”. Marx expressou em sua obra a idéia de uma oposição entre um “reino da

necessidade” e um “reino da liberdade”. A superação das necessidades básicas permitiria ao

homem enfim ser livre para desejar tudo o que quisesse. Nesse sentido poderíamos

diferenciar a superação das necessidades de sobrevivência de toda a população como o

patamar histórico para um gozo criativo dos desejos, ou seja, após a superação da “fome do

corpo”, se vislumbraria o horizonte para a satisfação das necessidades sempre renováveis do

espírito.

A história dos hábitos de consumo indica que a divisão do produto social é

19
Sidney Mintz, op. cit., p.71.
15

desigual. Em se falando de comidas, de bebidas ou de drogas, a história da lógica

distributiva que rouba aos produtores o seu produto impondo uma dialética inexorável de

fome para muitos e propriedade para poucos indica níveis e padrões de consumo

socialmente estratificados.

A época moderna conhece um agravamento das condições sociais da maioria da

população européia que, segundo os especialistas, alimentaram-se pior do que na Idade

Média, só conhecendo melhorias significativas no início da época contemporânea, ou seja, a

partir do século XIX, quando houve uma verdadeira revolução na dieta européia21. Ao lado

dos níveis nutricionais do consumo, que caem na Europa na época moderna, verifica-se o

fenômeno de uma inclusão na dieta popular de uma série de produtos exóticos de consumo

anteriormente restrito, como especiarias, bebidas e comidas de luxo. Um dos exemplos mais

evidentes é o do açúcar: “Uma raridade em 1650, um luxo em 1750, o açúcar transformou-

se numa virtual necessidade em 1850”22, e em qualquer composição de uma cesta básica nos

dias de hoje não se deixará de incluir o açúcar.

Há uma evolução no pensamento de Marx em relação à expansão das necessidades

de sua obra de juventude para os textos maduros. Na primeira fase há uma condenação da

alienação causada pela expansão de necessidades artificialmente estimuladas onde o homem

torna-se escravo de “desejos desumanos, refinados, contra a natureza e imaginários”, e em

sua obra mais madura, a reivindicação do “desenvolvimento universal das necessidades

humanas, que a grande indústria moderna já preparou e que o comunismo deve realizar”.

Nesta segunda fase, Marx e Engels “sublinham que um desenvolvimento de todas as

20
Karl Marx, O Capital, Vol. I, p.45.
21
Flandrin/Montanari, História da Alimentação, SP, Companhia das Letras, 1998.
22
Sidney Mintz, op. cit., p.148.
16

possibilidades humanas implica o desenvolvimento universal de suas fruições (...adquirir a

possibilidade de usufruir dessa produção universal de toda terra)’”23.

Numa outra obra, do período “de juventude”, os Manuscritos Econômicos-

Filosóficos, de 1844, Marx afirmava a vocação ascetizante da burguesia, entesourando para

si e impondo a austeridade para os trabalhadores, ao mesmo tempo que cria novas

necessidades, priva a sociedade no seu todo de satisfaze-las: “A economia política, esta

ciência da riqueza, é assim também ao mesmo tempo a ciência da renúncia, da privação, da

poupança (...) Esta ciência da maravilhosa indústria é ao mesmo tempo a ciência do

ascetismo (...) Por isso, a economia política, apesar de sua aparência mundana e prazerosa, é

uma verdadeira ciência moral, a mais moral das ciências. A auto-renúncia, a renúncia à vida

e a todo carecimento humano é o seu dogma fundamental.”24.

A definição das “necessidades” ou, no outro termo usado por Marx, dos

“carecimentos” humanos, é um tema central pois ele determina a legitimação ou não de

todas as atividades ou desejos humanos. A questão que Marx respondeu diferenciadamente

em distintos momentos de sua obra, e que ainda hoje se coloca, é a de avaliar se as novas

necessidades difundidas pelo capitalismo representam formas de aprimoramento da cultura

humana ou meramente uma promoção de “falsas necessidades”, necessidades

“imaginárias”, fetichistas, insufladas pelos recursos da publicidade e do marketing.

A inclusão de novas necessidades no cardápio das disponibilidades traz ao uso

corriqueiro e, muitas vezes, excessivo, substâncias cuja predileção no gosto moderno não é

nem “natural”, nem necessariamente positiva, do ponto de vista da dieta e da saúde pública.

Para não nos referirmos ao exemplo mais óbvio do tabaco, citemos o açúcar, que é uma

23
Ernst Mandel, A formação do pensamento econômico de Karl Marx, 2. Ed., RJ, Zahar, 1980, p.36.
17

destas banalidades, cujo uso indiscriminado tem sido responsável por graves danos e

doenças. Dentre estas novas “necessidades” propagadas neste século, encontramos a difusão

de determinadas drogas sob o manto da legalidade, como é o caso do tabaco, do álcool e dos

produtos farmacêuticos, e de outras drogas sob o manto da clandestinidade, como é o caso

de todas as substâncias de uso ilícito.

A ilicitude em torno de certas mercadorias tradicionalmente importantes no

comércio constitui-se num fenômeno singular do ponto de vista jurídico, econômico e

moral, e tem sido característica do século XX, sob a denominação de “proibicionismo”25.

Em 1912, em Haia, uma convenção internacional estabeleceu restrições ao cultivo e

comércio dos derivados da papoula. De 1919 a 1933, o proibicionismo atingiu o álcool, nos

Estados Unidos. Logo após o fim da “Lei Seca”, foi proibido o consumo da maconha nos

Estados Unidos. No segundo pós-guerra expandiu-se na forma de listas de substâncias

controladas e proibidas estabelecidas sob a égide da ONU como legislação internacional

impositiva. O proibicionismo determina todo o contexto do consumo contemporâneo de

drogas, inclusive a expansão das formas de consumo mais degradadas, adulteradas e

destrutivas.

A “guerra contra as drogas”, nascida do ventre da Lei Seca, além de servir para o

enriquecimento direto das máfias, das polícias e dos bancos, serve para o controle dos

cidadãos até mesmo no íntimo de seus corpos vigiados com testes de urina e batidas

policiais. O interior do corpo como jurisdição química do Estado, o controle “aduaneiro”

pelo Estado das fronteiras da pele, torna-se uma dimensão de intervenção e vigilância

24
Karl Marx, Manuscritos Econômicos-Filosóficos, 2. Ed., SP, Abril Cultural, 1978, p.18.
25
O melhor trabalho de análise histórica do advento do proibicionismo é o Historia de las Drogas, de Antonio
Escohotado, 3 vol., Madri, Alianza, 1989.
18

extremada sobre as populações.

O proibicionismo nos Estados Unidos foi analisado por Antonio Gramsci como

fazendo parte da política do industrialismo norte-americano de controlar a vida privada da

mão-de-obra. Em Americanismo e Fordismo, Gramsci identificou no proibicionismo e no

puritanismo em geral, pois o controle do consumo de álcool era indissociável do controle da

vida sexual, uma característica indispensável do novo modelo de organização do trabalho.

Certas manifestações do taylorismo confundiam-se, para Gramsci, com a

racionalização em geral do trabalho na época industrial, e exigiam também a

regulamentação sexual e comportamental dos trabalhadores: “Deve-se destacar o relevo

com que os industriais (especialmente Ford) se interessaram pelas relações sexuais dos seus

dependentes e pela acomodação de suas famílias; a aparência de ‘puritanismo’ assumida por

este interesse (como no caso do proibicionismo) não deve levar a avaliações erradas; a

verdade é que não é possível desenvolver o novo tipo de homem solicitado pela

racionalização da produção e do trabalho, enquanto o instinto sexual não for absolutamente

regulamentado, não for também ele racionalizado.”26.

O sexo e a droga, no caso o álcool, eram os principais prazeres a serem contidos

pela coerção industrial, interessada no aproveitamento máximo da força de trabalho. Os

novos métodos de trabalho exigiam “disciplina dos instintos sexuais”, “regulamentação e a

estabilidade das relações sexuais” e “estão indissociavelmente ligados a um determinado

modo de viver, de pensar e de sentir a vida; não é possível obter êxito num campo sem obter

resultados tangíveis no outro. Na América, a racionalização do trabalho e o proibicionismo

estão indubitavelmente ligados; os inquéritos dos industriais sobre a vida íntima dos

26
Antonio Gramsci, Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, RJ, Civilização Brasileira, 2.ed., 1976, p.392.
19

operários, os serviços de inspeção criados por algumas empresas para controlar a

‘moralidade’ dos operários são necessidades do novo método de trabalho.”27.

O proibicionismo do início do século XXI dirige-se não contra o álcool, mas contra

outras drogas (os derivados de coca, ópio e canábis e substâncias sintéticas). Seu efeito é

aumentar a voracidade da especulação financeira nesse ramo de alta rentabilidade do capital

e, ao mesmo tempo, inflar o aparato policial na tarefa da repressão moral.

As drogas são produtos da cultura, são necessidades humanas, assim como os

alimentos ou as bebidas, podendo ter um bom ou um mau uso, assim como ocorre com os

alimentos. A diferença é que um viciado em açúcar não corre o risco de ir preso mas apenas

o de perder a saúde na obesidade ou diabetes. A idéia da erradicação do consumo de certas

substâncias é uma concepção fascista que pressupõe um papel inquisitorial extirpador para o

Estado na administração das drogas, assim como de outras necessidades humanas. Tal

noção de um Estado investido do poder de polícia mental e comportamental legislando e

punindo sobre os meios botânicos e químicos que os cidadãos utilizam para interferir em

seus estados de humor e de consciência é um pressuposto necessário para a hipertrofia do

lucro obtido no tráfico. Em outras palavras, a proibição gera o superlucro. Tais razões levam

a que a reivindicação da descriminação das drogas se choque tanto com os interesses dos

grandes traficantes assim como com os do Estado policial.

As drogas são parte dos produtos coloniais que se difundiram inicialmente como

comércio de luxo e se tornaram produtos do consumo de massas e, portanto, necessidades

sociais. A regulamentação proibicionista no século XX, que sucedeu à defesa irrestrita do

livre comércio que levara à guerra do ópio da Inglaterra contra a China, aumentou o fluxo

27
Idem, p.396.
20

de capitais no ramo clandestino, expandiu a demanda e gerou instituições e aparatos

dependentes da existência da proibição e que sustentam a sua continuidade. O resultado do

proibicionismo foi provocar a hiperlucratividade, danos à saúde pública, devido à falta de

fiscalização, a militarização da produção e do comércio de certas drogas e a intromissão do

aparato de segurança em esferas da vida cotidiana. A proibição mundial das drogas foi uma

das invenções imperialistas que mais permitiu especulações financeiras e policiamento

repressivo das populações no século XX.


Drogas: um panorama no Brasil e no mundo

Alba Zaluar – autora de Integração Perversa: Pobreza e Tráfico de Drogras

Instituto de Medicina Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Nos últimos 30 anos, inúmeros esforços foram feitos para deter o crescimento das drogas como
poder econômico e fator degradante da sociedade. Uma postura radical, com a repressão severa e o
encarceramento, já demonstraram ter pouca eficácia, gerando efeitos colaterais como o aumento da
população carcerária e dos custos para mantê-la. Novas diretrizes, adotadas por países como os
Estados Unidos, indicam que campanhas de informação, o incentivo à cooperação entre a população
e a polícia e o investimento em programas de tratamento de dependentes graves podem diminuir a
criminalidade, sendo um caminho para lidar melhor com um problema que já faz parte da cultura
mundial. À frente da war on drugs (guerra às drogas) desde o final dos anos 70, os Estados Unidos
vêm adotando uma política repressiva, violenta e inútil, na tentativa de conter a produção e a
comercialização de drogas. O objetivo é diminuir o consumo interno, que em vários estados também
é reprimido por lei. Na década de 90, em apenas quatro anos foram gastos US$ 45 bilhões, pagos
pelos contribuintes norte-americanos para financiar campanhas internacionais. Apesar desses
esforços, os Estados Unidos continuam aparecendo nas estatísticas como o país com maior
diversidade de drogas em circulação. Em Baltimore, cidade norte-americana com 740 mil habitantes,
população predominantemente negra e renda média de US$ 19 mil anuais, estima-se que 60% de
todos os crimes envolvam drogas. Entre 1986 e 1991, a polícia dessa cidade prendeu 82 mil pessoas
por crimes e contravenções relativas a drogas. Em 1991, 46% dos homicídios nessa cidade tinham a
ver com os entorpecentes. Com a adoção da política de tolerância zero em várias cidades norte-
americanas, em meados dos anos 90 o número de prisões feitas por pequenos delitos, entre os quais
o uso e o comércio de drogas, ajudou a elevar drasticamente a população carcerária, aumentando
ainda mais os custos da repressão interna. Os Estados Unidos tornaram-se campeões do mundo
nesse item (um milhão e meio de pessoas presas). Os índices de criminalidade baixaram em várias
cidades, ao mesmo tempo em que novas medidas foram aplicadas. Por exemplo, projetos de
cooperação entre a população e a polícia, patrulhamento a pé, planejamento, treinamento e
recrutamento de policiais de serviços e de civis. Todas essas medidas visavam conquistar a confiança
dos moradores, ao mesmo tempo em que os policiais abandonavam a postura de caçadores dentro
de viaturas, de onde não interagiam com as pessoas e que inspiravam nelas medo e hostilidade.
Hoje a sociedade norte-americana divide-se em torno do acirrado debate sobre a legalização do uso
de drogas. Representantes do próprio governo expressam preocupação com a superpopulação
carcerária; agentes penitenciários denunciam que a maioria dos presos é de usuários de drogas e
não de perigosos criminosos. Nos organismos internacionais, o debate e a preocupação não são
menores. Segundo o Conselho Social e Econômico das Nações Unidas (dados de 1994), o crime
organizado transnacional, com capacidade de expandir suas atividades ao ponto de ameaçar a
segurança e a economia dos países, particularmente aqueles em transição e desenvolvimento,
representa atualmente o maior perigo que os governos precisam enfrentar para assegurar sua
estabilidade e segurança.
Razões do uso de drogas

Numerosos estudos abordam a dificuldade da separação entre traficante e usuário, sombreada


pelos efeitos do vício que a droga proporciona. Pesquisas do tipo survey ou levantamento, muito
caras e de difícil metodologia, foram conduzidas nos Estados Unidos com a conclusão de que os
homens, mais do que as mulheres, usam drogas ilegais. Homens mais novos (de 18 a 25 anos) usam
mais do que os mais velhos; os desempregados mais do que os empregados; os solteiros e
divorciados mais do que os casados. Existem igualmente estudos focalizados nas relações familiares,
de emprego e de vizinhança que os usuários abusivos de drogas mantêm. As conclusões contestam
as idéias de senso comum, que associam tais comportamentos à pobreza, a lares desfeitos e a más
companhias. Alguns estudos procuram mostrar que não a pobreza, mas as próprias exigências do
funcionamento do tráfico são a origem do comportamento violento associado ao uso de drogas.
Outros juntam evidências de que a falta de diálogo aberto entre pais e filhos abre caminho para o
consumo das mesmas. Seria, então, a violência doméstica e a ausência dos pais, mais do que a
separação deles, as principais razões do uso de drogas. A curiosidade, a valorização do proibido e do
risco, característicos da adolescência, assim como o desejo de se afirmar como alguém capaz de
enfrentar a morte, faz do uso de drogas proibidas uma atração constante para os jovens, só
superada pela informação, pelo diálogo e pela preocupação demonstrada pelos adultos.

Usuários e traficantes

No Brasil, o governo sempre adotou medidas repressivas no combate às drogas, e a polícia tem um
enorme poder em determinar quem será ou não processado e preso como traficante, crime
considerado hediondo. No que se refere à administração da justiça, jovens pobres, negros ou
mulatos são presos como traficantes, o que ajuda a criar uma superpopulação carcerária, além de
tornar ilegítimo e injusto o funcionamento do sistema jurídico no país. Policiais costumam prender
meros fregueses ou pequenos repassadores de drogas (aviões) para mostrar eficiência no trabalho.
A quantidade apreendida não é o critério diferenciador. Essa indefinição, que está na legislação,
favorece o abuso do poder policial que, por sua vez, inflaciona a corrupção. No Rio de Janeiro, onde
coordenei trabalho de campo realizado entre 1998 e 2000 em três bairros - Copacabana, Tijuca e
Madureira - e em que entrevistamos cerca de 120 policiais, moradores, usuários e alguns
repassadores, concluímos que os usuários eram, em sua maioria, usuários sociais. Em comum,
tinham a busca da privacidade e de um uso discreto para não dar na vista, nem assustar os demais
freqüentadores dos locais de boemia. Isso não quer dizer que não existam usuários pesados. Estes
têm dificuldades no relacionamento com os usuários sociais e mesmo com os traficantes, que não os
respeitam, nem gostam deles por chamarem a atenção da polícia e não conseguirem pagar as
dívidas. Usuários de Copacabana, Tijuca e Madureira, de modo geral, evitaram classificar-se como
dominados pela droga ou capazes de qualquer coisa para obtê-la, escapando dos estereótipos do
marginal. Só aqueles que foram entrevistados quando já estavam sob tratamento admitiram a
dependência e a associação com outras práticas criminais. Traficantes de favelas na Tijuca e em
Madureira controlam mais facilmente as ruas do bairro, seja para impedir que vendedores
independentes comercializem drogas por ali, seja para demonstrar o seu poder de fogo. Não é
incomum vê-los andando armados. Quando um vendedor não autorizado é identificado pelos donos
das bocas de fumo (por extensão, das favelas), ele é ameaçado de morte. Nesses dois bairros, é
preciso ter a permissão dos donos para vender drogas. Na Tijuca, a proximidade dos morros tira a
paz e a tranqüilidade do bairro residencial e conservador: tiros atingem as casas, matando gente que
assiste à televisão ou dorme. O estilo do tráfico na Tijuca e em Madureira, poderia ser resumido
como diretamente controlado pelos traficantes de favela, caracterizado pelo uso corriqueiro da
arma de fogo para assegurar o território, cobrar dívidas, afastar concorrentes e amedrontar
possíveis testemunhas. Isso marca uma diferença crucial em relação à Copacabana, cujo estilo
discreto dos traficantes se caracteriza pela clandestinidade e ausência de controle de territórios.

Estar ligado, estar chapado

No caso específico da maconha e da cocaína, verificou-se a importância do grupo e do ambiente na


decisão de consumi-las, assim como na continuidade do uso. Todos os entrevistados que
experimentaram drogas ilegais - permanecendo ou não como usuários - registraram que a primeira
experiência ocorreu em situações coletivas e de lazer como acampamentos, viagens e festas. Por
isso mesmo, aqueles que interromperam momentânea ou definitivamente o uso dessas substâncias,
se afastaram do grupo e do ambiente associado a essa prática. Os que voltaram a usar, mesmo após
tratamento e desintoxicação, devem a recaída a encontros com amigos e conhecidos, ligados aos
circuitos e locais em que as drogas ilegais são comercializadas e compartilhadas. Embora haja alguns
usuários múltiplos de maconha e cocaína, em geral são grupos que não se misturam. O etos e as
imagens associadas a cada uma dessas drogas divergem entre si. A maconha teria um etos bucólico,
com referências ao dia, ao campo, à natureza, à comida, à saúde, ao ócio e à paz. Já a cocaína, seria
associada a um uso mais urbano e artificial, à saída noturna para boates, ao viver agitado, à
degeneração do corpo, e à guerra. Ela também é usada para potencializar a capacidade produtiva,
especialmente no trabalho noturno, como o de jornalistas, bancários, caminhoneiros, vigias etc.
Entrevistados nos três bairros assinalaram que entre os efeitos desejados estão a euforia, a
adrenalina, a ligação e o ficar aceso, atribuídos à cocaína; assim como o estar chapado ou ficar
lesado, desligado, devido à maconha. Segundo usuários, por causa da cocaína, o cara mata, não tem
amizade, não tem nada, o que nos indica a maior associação entre o traficante e o usuário quando a
droga é a cocaína. Vários afirmaram ter visto gente se destruir e homens que deixam de querer
saber de mulher ou que viram mulher, que se prostituem para pagar o vício. Assertivas que foram
confirmadas pelas histórias de vida de prostitutas e michês ouvidos em Copacabana.

O prazer da transgressão

Não falta, no Brasil, o que o antropólogo norte-americano Howard Becker chamou de motivação de
um ato desviante. Esta deriva de uma situação na qual o sujeito não aceita o jogo social e político
vigente, e se revolta contra ele. A pobreza não explica o ato desviante mas, em conjugação com as
falhas do Estado, pode facilitar a escolha ou a adesão às subculturas marginais de uso de drogas
ilícitas. Tais subculturas se formam a partir do próprio preconceito dos agentes governamentais e da
sociedade em relação aos usuários de drogas. A imagem negativa, a discriminação, o medo, a
satanização do viciado contribuem decisivamente para a cristalização desses grupos, assim como dos
tons agressivos e anti-sociais que algumas vezes adquirem. Já o ato desviante ou sua repetição
decorrem do aprendizado do jovem junto ao grupo social de desviantes, ao qual ele vem a fazer
parte. Este pertencimento gera uma série de atitudes, valores e identidades que podem se
cristalizar, assim como gerar laços reais de amizade, domínio ou dívida, dificultando o rompimento
com o grupo e, conseqüentemente, com o próprio desvio. Porém, não se pode concluir que todos os
usuários de drogas são iguais ou que professam o mesmo credo cultural. Pesquisas feitas em todo o
mundo sugerem diferentes graus de envolvimento com a droga e com o grupo: se a tomam nas
horas de lazer, se ela define um estilo de vida alternativo compartilhado com outras pessoas e que
estilo é esse, se ela é o eixo da identidade do usuário compulsivo. Não seria exagero afirmar que,
entre os jovens pobres, existe maior pressão para o envolvimento com grupos de criminosos
comuns, por conta da facilidade de entrar em dívida com traficantes, da repressão policial e da
dificuldade em encontrar atendimento médico e psicológico quando vêm a ter problemas reais com
o uso e controle das drogas. No Brasil, o atendimento nos hospitais públicos, onde há programas de
tratamento de viciados, todos os problemas apontados se unem de forma trágica: normas internas
rígidas, atendimento precário por falta de equipamentos e de pessoal tecnicamente qualificado,
atraso nos calendários. Burocratas sem compromisso com os objetivos humanos e políticos desses
programas prejudicam a ação dos poucos médicos realmente interessados neles. Por outro lado, os
efeitos negativos dos internatos que criam outras formas de exclusão dos viciados já foram bastante
apontados na literatura.

A busca de soluções

Enquanto isso, em países como os Estados Unidos, o entendimento da questão das drogas em novos
termos provocou uma verdadeira revolução no atendimento e proteção ao usuário pesado. Nos
Estados Unidos, líder da política proibitiva, numerosos estudos encomendados pelo governo
mostraram que os custos de programas de prevenção do uso de drogas e de tratamento de
dependentes é muito mais barato (entre 20 e 10 vezes) e eficaz do que a repressão externa e interna
respectivamente. Relatório recente da ONU (1997) e pesquisa realizada em Miami demonstram, por
exemplo, que dependentes de drogas em tratamento tendem a cometer muito menos crimes (entre
4 e 10 vezes menos) contra a propriedade e contra pessoas, do que os que não estão sob
tratamento. Com base em dados de fontes variadas, é possível montar-se políticas de tratamento e
de prevenção que façam declinar a violência nas regiões metropolitanas brasileiras. Tais políticas
deveriam se desenvolver com a participação da própria população - tanto as vítimas quanto os
agentes da violência -, para a mudança de práticas e concepções em associações, comitês de
moradores ou grupos de discussão. A proposta inicialmente apresentada ao Congresso Nacional era
que a apreensão da droga e a punição aplicada ao reincidente (quando caracterizado como usuário)
deixassem de ser julgadas pelo Código penal, passando a ser problema de ordem sanitária ou
administrativa. Isto porque o consumo é próprio do direito privado (ou civil) e o direito penal não
pode ter por objeto condutas estritamente privadas. Tal proposta defendia, ainda, uma estratégia
preventiva extensa a todas as substâncias psicoativas lícitas e ilícitas. O alvo é a pessoa humana e
não a substância psicoativa em si. O projeto aprovado substitui a pena de privação de liberdade pela
pena de tratamento forçado em clínicas especializadas, o que mantém na prática a criminalização.

Sugestões para leitura

BETTANCOURT, G. & GARCIA, M. Contrabandistas, marimberos y mafiosos. Historia social de la mafia


colombiana, TM editores, Bogotá, 1994.

LABROUSSE, A. & KOUTOUSIS, M. Géopolitique et géostratégies des drogues, Paris, Economica,


1996.
REUTER, P. Disorganized crime: illegal markets and the mafia, Massachusetts, MIT Press, 1986.

ZALUAR, A. Para não dizer que não falei de samba -- os enigmas da violência no Brasil, in L. M.
Schwarcz, História da Vida Privada no Brasil vol. 4 - Contrastes da intimidade contemporânea, São
Paulo, Companhia das Letras, 1998.

Fonte: Ciência Hoje nº 181 (Abril de 2002)


Elisaldo Carlini
ENTREVISTA

Legalizar drogas não,


8 descriminalizar sim
Elisaldo Carlini é o primeiro brasileiro a integrar a Junta Interna-
cional de Controle de Narcóticos (INCB, na abreviação em inglês),
órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) e res-
ponsável pelo monitoramento da produção e do comércio de
entorpecentes no mundo. Foram duas as indicações da Organi-
zação Mundial de Saúde (OMS) até que o médico paulista
aceitasse o convite. O primeiro ocorreu em 1994. Na mesma épo-
ca, no entanto, Carlini optou por assumir a Secretaria Nacional de
Vigilância Sanitária, atual Agência Nacional de Vigilância
Sanitária. “Não poderia acumular as duas funções, pois haveria
conflito de interesses. Não seria possível defender as diretrizes
da ONU sendo membro do governo brasileiro”, explica. No ano
passado, recebeu novamente a indicação da OMS e foi eleito
para a Junta. Dessa vez, o convite foi aceito. “É motivo de orgulho para mim o fato de a OMS
reconhecer que no Brasil há alguém capaz de representá-la entre as nações”. Carlini toma
posse no próximo mês, em Viena.
Atualmente com 71 anos de idade e 45 de profissão, o também professor aposentado pela
Universidade Federal de São Paulo dirige um dos mais renomados institutos brasileiros de pes-
quisa sobre drogas – o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas –, dedicando
10 horas diárias à instituição. Nesta entrevista, defende temas polêmicos, como a des-
criminalização das drogas e o uso medicinal da maconha.

ENTREVISTA CONCEDIDA A ALESSANDRA PEREIRA (ESPECIAL PARA CIÊNCIA HOJE/SP)

I AC IHAOHJ EO J•E v•o v


8 C•I ÊCNI ÊC N l .o3l .1 3•1 •n ºn 1º81
1 81
O senhor é o primeiro brasileiro eleito publicada em 1961, estabeleceu as primeiras di-
para a Junta Internacional de Controle de retrizes de fiscalização internacional das substân-
Narcóticos. Qual será sua atuação no órgão? cias narcóticas. Entre elas, a morfina é a mais
A Junta Internacional de Controle de Narcóticos ou importante. A codeína [como a morfina, ela é ela-
International Narcotics Control Board (INCB) tem borada a partir do ópio com finalidade analgési-
o amparo da ONU, mas não está sujeita a suas ca], a heroína e o ópio também foram incluídos.
determinações. A função da Junta é estabelecer Em 1971, foi assinada a segunda convenção – a de
como devem ser feitos a produção, a colheita, o drogas psicotrópicas. Com ela, passaram a ser
monitoramento dos estoques mundiais e o trans- controlados os barbitúricos, as anfetaminas e os
porte de drogas narcóticas entre os países. É ela benzodiazepínicos. Em 1988, saiu a terceira con-
quem autoriza a emissão de licenças para impor- venção internacional, a dos precursores de rea-
tação e exportação dessas substâncias e define quais gentes químicos para produção de drogas de abu-
drogas precisam de mais ou de menos controle e so. A cocaína, por exemplo, está incluída na con-
aquelas que poderiam deixar de ser controladas. venção de 1961, mas não seus reagentes. Para
Esse órgão é composto por 13 membros, que não fabricá-la, é preciso ácido clorídrico, permanganato,
podem ter nenhuma ligação oficial com os gover- acetona. A partir do acordo de 1988, exerce-se
nos de suas nações de origem para evitar conflito controle sobre as substâncias necessárias para a
de interesses. produção dessa droga.
A minha função nos próximos cinco anos é ten-
tar melhorar o controle dos entorpecentes, o que Qual o papel da Junta com relação
implica verificar por que um país pede para im- à política interna dos países?

Controla-se de tal maneira o abuso de morfina que o uso médico acaba


sofrendo restrição. É um dos pontos básicos a serem resolvidos pela Jun-
ta Internacional de Controle de Narcóticos em 2002

portar determinada quantidade de morfina e, no Ela não pode interferir na soberania de cada na-
ano seguinte, solicita mais que o dobro, por exem- ção, mas tem uma força moral muito grande. Quan-
plo. Vou atuar na área de substâncias psicoativas. do o órgão envia um relatório [publicado anual-
Terei de ir duas vezes por ano à sede da Junta, em mente em fevereiro] sobre a situação dos diferen-
Viena, pelo prazo de cerca de um mês e deverei tes países, nele estão apontados quais não cum-
ainda estar disponível para fazer auditorias nos prem a lei ou não fornecem os dados para o rela-
diferentes países. tório. É o caso do Brasil, que no último relatório
O controle, mais ou menos eficiente, que mo- não respondeu várias questões. Essa situação ocor-
nitora a produção da papoula – planta da qual é ex- re com freqüência. Se um país desobedece às re-
traído o ópio, usado na produção de morfina –, gras, a Junta pode pedir aos demais que não expor-
consegue diminuir o tráfico, mas cria um problema tem para ele medicamentos ou drogas importan-
sério que é a pouca disponibilidade desses produtos tes. É uma espécie de ‘embargo’, porque os outros
para doentes terminais. O Brasil é um país com um países geralmente acatam a posição do órgão.
consumo de morfina 20 vezes menor que o neces-
sário para minorar a dor dos pacientes terminais. Como o Brasil aparece nos relatórios?
Controla-se de tal maneira o abuso que o uso mé- O relatório de 2000 faz críticas à capacidade
dico acaba sofrendo restrição. É um dos pontos operacional das autoridades brasileiras responsá-
básicos a serem resolvidos pela Junta em 2002. veis pelo registro, controle e inspeção de drogas
psicotrópicas. Em relação a essas substâncias, há
A Junta controla a produção e o comércio outro ponto no documento que preocupa a Junta: o
de entorpecentes e faz os países seguirem abuso do consumo de drogas para emagrecer na
três convenções internacionais. América do Sul. Os três países mais atingidos pelo
O que elas determinam? problema – Argentina, Brasil e Chile – têm, por
A Convenção Única sobre Drogas Narcóticas, recomendação do INCB, tomado medidas adminis- !

abril de 2002 • CIÊNCIA HOJE • 9


trativas e legislativas. A diminuição já foi relata- A aprovação pelo Congresso de penas
da no Chile, enquanto os outros dois países ainda alternativas para o usuário de drogas
tentam superar o problema. O Brasil é campeão é o primeiro passo para que ele deixe
mundial em consumo de medicamentos para de ser tratado como criminoso?
emagrecer. Sem dúvida. Antes disso, quem tinha problemas
com drogas não podia, em tese, sequer procurar
A revista inglesa The Economist publicou, aconselhamento. Até então, ao buscar ajuda, essa
em julho de 2001, uma reportagem pessoa se identificava como alguém que exercia
na qual afirma que a legalização das drogas uma atividade criminosa. Retirar a questão dos
traria mais benefícios que problemas. entorpecentes da esfera policial é formidável.
A matéria também menciona que o mercado Reconheço que, para muitos que consomem dro-
dessas substâncias é altamente rentável gas, elas não são problema porque esses usuários
e organizado e movimenta em torno sabem se controlar. Como acontece comigo, ago-
de U$ 400 bilhões por ano – valores próximos ra, que consigo fumar cigarros só às vezes.
aos da indústria mundial de petróleo. Não vejo maiores problemas em fumar, beber
É possível combater um problema ou consumir drogas esporadicamente, em condi-
com essa dimensão? ções controladas, se é a pessoa quem determina o
Não podemos lidar com o problema dos entorpe- momento de fazer uso. O complicado é quando
centes unicamente sob o ponto de vista econômico. ocorre o contrário, quando a droga programa a
Há dois outros aspectos fundamentais: a visão mé- vida do usuário. Conheci um senhor dependente
dica e o sofrimento do ser humano. E esses devem de álcool que, em vez de pegar o ônibus na esqui-
prevalecer. É importante abordar com cautela a na perto de casa para ir ao trabalho, caminhava
legalização e a descriminalização. Sou contra a le- três quarteirões a mais até o outro ponto porque
galização, acredito que seria imoral tornar legal o havia um bar no caminho. Esse é um exemplo
uso da heroína porque um determinado país dei- típico da vida condicionada pela droga.
xa de arrecadar milhares de dólares com a sua
venda. O governo dá o aval e é como se dissesse: O que pode ser feito no Brasil para elaborar
‘Legaliza essa droga porque a questão da saúde uma política antidrogas efetiva?
não é importante’. A diferença é grande em relação à É preciso que um centro, do governo ou não, ela-
descriminalização. Se fizermos isso, não estaremos bore programas e que exista continuidade nes-
inocentando a droga, mas afirmando que seu uso sas ações. Já fiz parte de mais de sete comissões

Sou contra a legalização das drogas. Com relação à descriminalização,


a abordagem muda. Continuamos a afirmar que droga faz mal, mas
o indivíduo não vai para a cadeia por isso. Sou a favor da descrimina-
lização de todas as drogas

não é criminoso. A abordagem muda. Continua- para estabelecer a política nacional antidrogas.
mos a afirmar que droga faz mal, mas o indivíduo Pelo menos quatro editaram um programa que
não vai para a cadeia por isso. Posso me aproximar deveria ser implementado. Nenhum deles foi colo-
de uma pessoa que está sofrendo e tem problemas cado em prática. Mudava o governo e tudo era
de dependência, sem que ela tenha medo de ser ‘enterrado’. No Brasil, o poder público tem uma
punida. Sou a favor da descriminalização de todas característica única: os chefes do momento tentam
as drogas. Estamos lidando com indivíduos doen- destruir o que foi criado pelo antecessor. Consi-
tes. Para funcionar, o governo precisa simultanea- dero importante também dizer que qualquer pro-
mente esclarecer sobre os benefícios e prejuízos grama baseado exclusivamente em repressão não
do uso dessas substâncias. Por meio de uma propa- vai funcionar. O governo norte-americano, quan-
ganda séria, honesta e insistente, devemos dar ao do criminalizava as drogas – atualmente, muitos
cidadão o direito de fazer sua própria opção. estados têm uma política menos severa –, chegou

1 0 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . 3 1 • n º 1 81
a prender em um ano 500 mil jovens por uso de ção vive e quais os problemas que agravam a saú-
maconha. de dela. A única atitude que resolveria a questão
é a menos prestigiada pelo governo brasileiro:
A taxa de prisão por porte de drogas quase nenhuma verba pública é destinada à pre-
nos Estados Unidos é maior que o número venção.
de detenções por todos os tipos de crimes
em alguns países da Europa. O senhor foi secretário da Vigilância Sanitária
Já países como a Holanda, onde a maconha de 1995 a 1997 e, ao sair, fez algumas
é vendida em quantidades controladas críticas ao órgão. Quais foram as dificuldades
nos coffee shops, adotam uma política mais liberal. enfrentadas e como define
Qual é o modelo mais adequado? sua passagem pela Vigilância?
Prefiro o da Holanda, pois a repressão não resolve Uma desgraça, devido à inutilidade do esforço de-
a situação e acaba criando o submundo das drogas. dicado. Propus reformular a classificação dos me-
Amsterdã tem algumas experiências interessan- dicamentos e instaurar o programa de farmacovi-

Não vejo maiores problemas em fumar, beber ou consumir drogas espo-


radicamente, em condições controladas, se é a pessoa quem determina o
momento de fazer uso. O complicado é quando ocorre o contrário, quando
a droga programa a vida do usuário

tes. Nos coffee shops, os próprios freqüentadores gilância. Tive total apoio do ministro [da Saúde]
condicionam o uso da droga. Ninguém injeta ou- Adib Jatene, que me convidou para o cargo. Cria-
tras mais pesadas nesses lugares. A maconha é mos nesse período um programa de inspeção da
para uso pessoal. Outro aspecto que vale a pena indústria farmacêutica brasileira. As dificuldades
ressaltar é a implantação de programa de redução foram as mais diversas. Durante os dois anos, não
de danos. Uma equipe médica vai até os locais de consegui gastar nem 20% do orçamento que di-
uso e aplica drogas, como heroína, nos dependen- ziam que a Vigilância Sanitária tinha mas não
tes, desde que eles devolvam a seringa anterior. Os estava disponível. A Vigilância não tinha sequer
casos de Aids nessas áreas não chegam a 10% um livro técnico. Em 1996, chegamos inclusive a
entre os usuários, enquanto em cidades como Bar- marcar a data de inauguração da Agência Nacio-
celona e Milão atingem até 30%. nal de Vigilância Sanitária, mas, com a saída de
Jatene, todos os programas foram abandonados. O
Qual a sua avaliação dos serviços de tratamento? ministro incompatibilizou-se com o governo por-
Acho que poderíamos ter centros de tratamento que ele quis realmente resolver os problemas de
mais eficientes. Qualquer modelo terapêutico no saúde do país. No período em que estive na secre-
mundo consegue recuperar, em um período de dois taria, muitos interesses foram contrariados. Cassa-
anos, 30% dos pacientes. Sem tratá-los, a taxa de mos a licença de funcionamento de mais de 200
recuperação é a mesma: entre 25% e 30%. Para a laboratórios. Em alguns lugares ditos laboratórios
medicina, melhorar a vida de 25 pessoas já é sig- funcionavam padarias. Nos dois anos anteriores a
nificativo, mas, do ponto de vista de saúde pública, minha entrada (1993 e 1994), haviam sido feitas
tratamento – assim como a repressão – não é a 25 inspeções. Nós fizemos mais de mil. A falsifi-
melhor solução. Acho que a única maneira eficaz cação de medicamentos em 1997 e em 1998 ocor-
de lidar com as drogas é evitar o uso através da reu em conseqüência da interrupção do programa
prevenção. Isso tem de ser feito com os jovens. A de inspeção. Agora, felizmente, esses projetos es-
vida miserável acaba, porém, levando ao abuso tão voltando. Se a Vigilância Sanitária não tiver
dessas substâncias. Para discutir prevenção, o go- certeza da continuidade de programação, é melhor
verno precisa pensar claramente como a popula- não implantar nenhuma proposta. "

abril de 2002 • CIÊNCIA HOJE • 11


Época - EDG ARTIGO IMPRIMIR - A elite e os traficantes http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR79778-6014,00.html

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A elite e os traficantes
Uma pesquisa afirma que são os jovens ricos os que mais usam drogas. Eles são
culpados pela violência do tráfico?
NELITO FERNANDES, RAFAEL PEREIRA E MARTHA MENDONÇA

Madrugada no morro. Um grupo de policiais ataca de surpresa uma boca de fumo e


mata dois traficantes. O Capitão Nascimento pega um dos consumidores pelos
cabelos e o obriga a pôr o rosto nos buracos de bala no peito do bandido morto. O
rapaz, apavorado, diz que é estudante, na tentativa de se defender.

– Quem matou ele? – pergunta o capitão, aos berros.


– Não sei – responde o rapaz.
– Não sabe? Quem matou ele?
– Vocês, foram vocês!
– Nós? Quem matou ele foi você! A gente vem aqui limpar a m* que você faz!

Não é à toa que essa cena, do filme Tropa de Elite, é uma das que mais chocam os
espectadores. Ela toca numa questão crucial do tráfico: a taxa de responsabilidade
dos consumidores. Uma pesquisa divulgada na semana passada pela Fundação
Getúlio Vargas aponta o dedo para uma parcela da elite. Maconha e cocaína no Brasil
são bens de luxo, para a população com maior poder aquisitivo. De acordo com o
levantamento, o consumidor-padrão de drogas no Brasil é homem, tem entre 20 e 29
anos, é da classe média alta e mora com os pais. Gasta, em média, R$ 45 por mês
com drogas. “Estatisticamente, a visão de Tropa de Elite é correta: quem financia o
tráfico é a classe média”, diz o economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa.

O CULTIVADOR
Usuário que planta maconha em casa mostra o que colheu. Ele diz não apoiar o tráfico

Embora ilegal, o tráfico de drogas não infringe outro tipo de lei – a do mercado. Se
não houvesse comprador, não haveria venda. O consumidor garante o comércio, mas
não é ele quem produz a violência. Drogas são vendidas no mundo todo. Nas ruas de
Berlim ou Lisboa traficantes oferecem suas mercadorias para moradores e turistas.
Mas vender a droga não implica dominar comunidades inteiras, como os chefões
fazem no Rio de Janeiro. “Chegamos a esta situação devido à ausência do Estado

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nas favelas e também à corrupção policial, que apreende as armas de um traficante e


revende para o outro”, diz a socióloga Julita Lemgruber, diretora do Centro de
Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade Cândido Mendes.

Culpar o consumidor está em desuso no Brasil. Pela legislação em vigor desde 2006,
quem for apanhado consumindo será julgado num juizado especial, não mais
criminal. A pena, que antes podia chegar a seis anos de prisão, agora é de prestação
de serviços comunitários. O Brasil segue, assim, o pensamento predominante em
vários países europeus, como Espanha, Portugal, Bélgica e Alemanha.

Isso não quer dizer que estejamos no caminho certo. Tanto a leniência quanto a linha
dura em relação aos consumidores têm resultados contraditórios no mundo. A
Holanda liberou o uso de 5 gramas de maconha, que é vendida legalmente em cafés.
O consumo de maconha dobrou, mas o de heroína e de outras drogas pesadas caiu.
A Holanda tem uma legislação confusa: os coffee shops podem vender a droga, mas
não podem comprá-la. “Isso é uma hipocrisia. Existe tráfico de drogas pesadas perto
das lojas, então o problema não foi resolvido”, diz o secretário nacional Antidrogas,
Paulo Roberto Uchôa.

Dentro da lei

Como o usuário de maconha é tratado em alguns países

[1] BRASIL [4] HOLANDA


Desde 2006, o usuário é julgado por um juizado A venda, limitada a 5 gramas, é permitida desde
especial. A pena de prisão foi substituída por 1976 em cafeterias (foto)
serviços comunitários
[5] PORTUGAL
[2] EUA O consumo é descriminalizado. Os usuários são
Oito Estados permitem o uso medicinal. Todos encaminhados para tratamento
vetam o consumo para fins “recreativos”
[6] ALEMANHA, [7] BÉLGICA, [8] ESPANHA e[9]
[3] CANADÁ FINLÂNDIA
O uso medicinal é permitido desde 2001 O uso é descriminalizado e não implica
condenação

A Suécia foi pelo caminho inverso: levou para a cadeia vendedores e consumidores,
e hoje o número de drogados do país é um terço menor que no restante da Europa.
Os Estados Unidos também optaram pela linha dura, mas tiveram resultado oposto:
11% dos americanos admitem consumir maconha e haxixe – e o número cresce 2%
ao ano. O total de presos por porte de drogas cresceu dez vezes em 30 anos. No
Brasil, segundo uma pesquisa do Cebrid, 22,8% dos entrevistados declararam já ter
usado alguma droga pelo menos uma vez na vida. Esse índice coloca o país na média
da América Latina (no Chile é de 23%).

Defendida por usuários e por uma corrente de especialistas, a liberação das drogas
no Brasil exigiria um investimento em saúde pública que o país é incapaz de fazer.
“Não existe hoje, no Rio de Janeiro, sequer cem leitos para atender dependentes
químicos menores de idade. Não temos também nenhuma clínica, nem particular,
com leitos específicos para menores dependentes de drogas”, diz Jorge Jabes,

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diretor da associação de psiquiatria do Rio de Janeiro e membro da associação


americana de psiquiatria. Nos países que descriminalizaram a maconha, o aumento
do gasto em saúde foi, pelo menos em parte, compensado pela redução na despesa
em segurança pública. No Brasil, onde existe uma guerra permanente entre policiais
s e traficantes, a economia tende a ser ainda maior. O Ministério da Justiça ainda não
sabe qual o impacto da lei aprovada no ano passado nos tribunais brasileiros. E o que
dizem os próprios consumidores?

O carioca João, de 23 anos, começou a fumar maconha na adolescência com seu


melhor amigo. Os dois entravam regularmente na favela e fizeram amizade com
traficantes. A diversão perdeu a graça no dia em que, por uma dívida não paga, seu
melhor amigo foi assassinado. “Como consumidor, eu me senti responsável pela
morte dele. Nunca mais consegui fumar um baseado”, afirma.

Além da favela

Usuários são regularmente abastecidos sem precisar subir o morro

O caminho das drogas

1. PRODUTOR 5. VAPOR
Plantadores de coca, em países como Bolívia e Quem vende a droga nas “bocas de fumo”
Colômbia, e de maconha, na Região Nordeste
do Brasil, são os principais fornecedores de 6. ESTICAS
drogas Locais de venda de drogas fora da favela, mas com

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permissão do chefe do tráfico. Faculdades, bares, boates,


2. MATUTO prédios e condomínios são os lugares onde as drogas
Quem faz a ponte entre o produtor e os pontos- circulam normalmente
de-venda
7. AMIGOS
3. BOCAS DE FUMO Quem não quer correr riscos indo a uma boca de fumo ou
Normalmente localizadas nas principais vias de até o “avião” do bairro, consegue facilmente com colegas
acesso às favelas

4. AVIÃO
Quem faz o transporte, normalmente mulheres
e estudantes

Fonte: Estudo Droga da Elite, Fundação Getúlio Vargas

Carlos, de 25 anos, comprava maconha de um traficante no prédio onde mora. Aos 18


anos, foi preso em flagrante, mas não ficou na cadeia. Por dois anos, foi obrigado a
comparecer mensalmente ao fórum. Cumprido o prazo, tornou-se novamente réu
primário. Continua fumando maconha, admite que a droga financia a violência, mas
acredita que o usuário é a maior vítima desse processo. “Dizer que quem compra um
baseadinho não financia o tráfico é acreditar que quem compra um comprimido de
aspirina não sustenta a Bayer”, diz Paulo Heise, presidente da Associação Parceria
Contra as Drogas. A entidade é responsável pela campanha publicitária que mostra o
dinheiro do viciado financiando a compra de uma arma que mata uma criança.

A engrenagem que sustenta o tráfico não se alimenta apenas do consumidor. Se os


chefões têm tanto poder, em parte é pela falta de ação do Estado. O delegado
Orlando Zaconne, autor do livro Acionista do Nada: Quem São os Traficantes de Drogas,
afirma que 92% dos presos por tráfico estavam desarmados. “Só prendem os pés-de-
chinelo. Pouco se avança nos esquemas de lavagem de dinheiro”, diz.

Entre os que condenam o consumo de drogas e os que


não se sentem culpados existe uma terceira via. Ela é
ilegal, mas evita o problema de consciência de financiar
o tráfico. São usuários que optaram por plantar a
Cannabis sativa em casa. Um publicitário carioca, de 28
anos, diz cultivar a erva num banheiro de seu
apartamento. Diz já ter tido dez pés da planta em casa.
Apesar do risco de ser denunciado por um vizinho, ele
acredita ter-se livrado da “carga negativa do tráfico”.
Entre a plantação e a colheita, diz, o processo leva
cerca de três meses. “Eu fumo pouco. Garanto
maconha para meu consumo por até oito meses”,
afirma. Financeiramente, o publicitário diz que a
operação não é tão vantajosa quanto parece. Mas a
droga obtida é mais pura, sem misturas. O cultivo é
incentivado em pelo menos 50 comunidades do Orkut,
onde é possível encomendar sementes.

No meio do caminho entre traficantes e consumidores estão os pais. Mãe de um


estudante de Desenho Industrial de 25 anos, Ana (ela prefere não ter o sobrenome
divulgado) acha que a saída é a legalização. “Assim você vai saber quem fuma e com
quem se compra a droga. No meu raciocínio, quem não apóia a legalização das

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drogas está, passivamente, dando apoio à violência urbana, aos tiroteios entre polícia
e traficantes, aos grupos armados que dominam as favelas.”

Para João Guilherme Estrella, que inspirou o livro Meu Nome não é Johnny, que conta
sua história de garoto de classe média que se transformou no maior fornecedor de
cocaína para a alta sociedade carioca, legalizar não vai resolver. “As drogas seriam
vendidas em farmácias e dariam receita ao Estado. Mas os que ficariam sem essa
renda acabariam por buscar outras formas de sobrevivência. As facções que
dominam o tráfico de drogas funcionam como empresas. Elas vão precisar encontrar
outra fonte de receita.” Provavelmente no crime.

‘‘As facções que dominam o tráfico vão buscar outra fonte


de renda caso percam o que lucram com as drogas’’
JOÃO GUILHERME ESTRELLA, que inspirou o livro Meu Nome não É
Johnny. De classe média, ele fornecia cocaína para a alta sociedade

A pesquisa da FGV mostra que 64% dos usuários declarados, apesar de serem de
classe média, são vizinhos de áreas dominadas pelo tráfico. “Esse é um dado para o
qual os pais deveriam estar atentos”, diz Marcelo Neri. Embora a visão do Capitão
Nascimento, de Tropa de Elite, seja limitada e simplista a ponto de pôr no usuário de
drogas toda a culpa pela violência, colocou o assunto em pauta. Gerou pesquisas
como a da FGV, feita depois que o presidente da entidade, Carlos Ivan Simonsen
Leal, viu o filme. O debate é uma forma de buscar saídas para o problema. Como
lembra Ana, a mãe de um consumidor, usuários de drogas sempre existirão. Quanto
devem ser reprimidos, e quanto devem ser tratados, é uma decisão de cada
sociedade.

Em que momento o consumo de uma substância passa a ser considerado ilegal


também depende da legislação de cada país. Durante a Lei Seca nos Estados Unidos,
que proibia o comércio de bebidas alcoólicas, o poder da Máfia aumentou, assim
como as mortes decorrentes das guerras de gângsteres. Para que o tráfico de drogas
se torne crime organizado, não basta que haja consumidores. É preciso acrescentar a
omissão do Estado, a corrupção policial e a impunidade. Esses fatores precisam ser
resolvidos. Mas também não se pode ignorar o papel dos consumidores.

Fotos: Felipe Varanda/ÉPOCA, Michel Porro/AP, Gabriel de Paiva/Ag. O Globo

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