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27If Zimerm an, David Epelbaum

F undam entos Básicos das G rupoterapias / David Epelbaum


Zimerm an. Porto Alegre — Artes M édicas Sul. 1993

1 .Terapia de Grupo I .Título

CDU 364.044.2

Bibliotecária responsável: Monica Ballejo Canto — CRB provisório 10/91


David Epelbaum Zimerman
Psicanalista

FUNDAMENTOS
BÁSICOS
I I I GSIF0TE1APIÄS

/ S 0 . % O 't

PORTO ALEGRE / 1993


0 de EDITORA ARTES MÉDICAS SUL LTDA.

S A B /2
Capa: Í 5 9 .9 .0 Í B / Z
Mário Rõhnelt ft l~ S o g O A ic fö

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Delmar Paulsen

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UFS clas3ificaçío1 5 9 9 018/Z 71F

TtnjL0 F undam entos b á sic o s das grupoterapias / David Epelbaum _

9806158
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0 que se espera de um prefaciador é que elogie o autor, exalte a s qualidades
de su a obra e minimize se u s defeitos. Há de p en sar-se que n ad a é m ais fácil do
que fazer isto quando o a u to r não é a p e n a s o colega que se d e sta c a por seu s
méritos profissionais, m as sobretudo o am igo e com panheiro de ta n ta s jo rn a d a s
pela vida afora. E, no entanto, quão difícil se to rn a a tarefa pela n ecessidade de
conter sentim entos e ser o m ais isento e im parcial possível n a s u a execução.
Da obra o autor já nos apresenta, com s u a hab itu al capacidade de síntese,
um a excelente sinopse no capítulo introdutório, onde com enta s u a s motivações
pessoais e razões circunstanciais p a ra escrevê-la. J á que ninguém pod erá falar
com m ais autoridade sobre su a obra do que seu criador, os leitores certam ente
me relevarão a intenção de neste prefácio falar an tes do au to r do que de seu livro.
D isse alguém que o amigo é o irm ão que se escolhe. E ntre ta n to s desses
am igos-irm ãos que a vida foi pródiga em m e proporcionar, David é hoje aquele
com quem h á m ais tempo convivo. Conheci-o ain d a estu d an te de M edicina, q u a n ­
do fui estagiar n a Clinica Pinei e lá o tive como m eu prim eiro supervisor, travando
logo contato com aquelas qualidades s u a s que depois soube reco n h ecer não só
como raras, m as tam bém preciosas. Ele era cim a de tudo o co n tin en te adequado
p ara com no ssas falhas e paciente com n o ssa s inquietações. Coerente com su a s
preferências, fundadas n a etimologia, por educar em lugar de ensinar, sa b ía dei­
x ar espaço p ara que aflorasse o conhecim ento n ascen te do supervisionado, não
impondo apripristicam ente seu s pontos de vista, e — talvez s u a característica
m ais m arcadam ente pessoal — sem pre extraindo algo de positivo do m ais caótico
e inadequado de nossos procedim entos.
Anos m ais tarde, acom panhando-o n a condução de um grupo F no Labora­
tório de Relações H um anas a que faz referência n a introdução d este livro, pude
co n statar “ao vivo” su a s qualidades p ara a tarefa de lidar com g ru p o s, os quais
conduz invariavelmente de um modo suave, tranqüilo e afável, m as ao m esmo

V

vi / David E. Zimerman

tem po firme e objetivo, sabendo como poucos fazer a síntese dos movimentos do
grupo p ara integrar se u s com ponentes no desem penho da tarefa proposta.
D esde então tenho acom panhado David em inúm eras o u tras atividades em
grupos e não cesso de com ele apreender a como exercer com discrição e sereni­
dade a coordenação dos mesmos. É ele o que se poderia cognom inar um “grupo-
«

te ra p e u ta n ato ”!
Além de seu invulgar talento como coordenador de grupos, David tem sido

um incansável batalhador pela grupoterapia em nosso meio, quer n a direção de


entidades associativas como principalm ente no treinam ento de novos profissio­


nais. E, como corolário deste seu renovado interesse em revitalizar a grupoterapia

entre n ó s e de su a profícua e continuada atividade de professor e supervisor de


g rupoterapeutas, vem a lum e agora este seu “Fundam entos Básicos das Grupo-
te ra p ias”, que não só preenche um a im portante lacuna em nossa escassa biblio­

grafia nacional sobre a m atéria como assegura desde já u m a posição ím par como
livro texto n a formação de futuros grupoterapeutas no país e como obra de refe­
rência obrigatória p ara os trabalhos que vierem a ser publicados doravante sobre
este ram o das psicoterapias.
P ara que não se diga que este prefácio limitou-se aos encómios ao autor,
façam os agora algum as breves considerações sobre su a obra.
O a u to r é psicanalista e como tal é deste ponto de vista teórico que aborda
os tem as grupais; não obstante, eclético e aberto ao diálogo, m ostra-se ele n a tu ­
ralm ente receptivo às dem ais correntes teóricas que influenciam o campo das
grupoterapias. Como seria de esperar, contudo, por su a m aior familiaridade com
o referencial analítico é ao utilizá-lo n a abordagem dos fenôm enos do campo
grupai que nos traz su a s m ais fecundas contribuições à m atéria. E sses fenôme­
nos são aqui abordados com um a riqueza conceituai e u m a sim plicidade didática
raram ente encontradas, mesmo nos textos dos m ais renom ados especialistas. O
estudo desses fenômenos são indubitavelm ente o’ponto alto do livro.
Nos capítulos que tratam m ais especificamente de aspectos técnicos pode­
mos acom panhar as transform ações por que p assaram no pensam ento do autor
certas form ulações que identificaram a grupoterapia analítica em su a s origens.
Assim, por exemplo, questiona ele a atitude outrora preconizada de dirigir inter­
pretações sistem aticam ente ao grupo como um todo no pressuposto de que só
assim se estaria conduzindo analiticam ente um grupo. Da m esm a forma rediscu­
te, à luz dos novos aportes à teoria da técnica analítica e su sten tan d o -se em su a
experiência clínica de vários lusfros com a grupoterapia analítica, o u tras questões
tidas como polêm icas e controVertidas, tais como a valorização da contratransfe-
rência como instrum ento com unicacional, o emprego d as interpretações extra-
transferenciais, a discrim inação das individualidades no contexto grupai, o uso
da m atriz interativa do grupo como agente terapêutico (através d a função inter-
pretativa dos próprios com ponentes do grupo) e assim por diante.
D estaque-se, ainda, o mérito do au to r de expor-se e revelar s u a m aneira de
trab a lh ar n a s várias ilustrações clínicas que dão sustentação às digressões teóri-
Gnipoterapias I vii

cas. E sta é u m a qualidade que só é evidenciada por quem tem s u a práxis bem
sintonizada com seu posicionam ento teórico.
Contudo, o mérito essencial da obra talvez escape aos leitores que não
conheçam ou convivam com o autor: é a extraordinária coerência e n tre os co n teú ­
dos do texto e a personalidade de quem o redigiu. Ai encontram os o David com
seu espirito conciliador e democrático, procurando valorizar em ca d a detalhe os
aspectos hum anísticos e éticos do m étier profissional a que se dedica, conduzindo
seu raciocínio com a m esm a e invejável dose de bom senso com que conduz seu s
grupos.
Como disse de inicio, é extrem am ente difícil não se deixar levar pelo apreço
que se tem ao amigo a quem se prefacia, m as ainda assim creio que os leitores
concordarão, após transitarem pelo texto,que estam os diante de u m a obra que
chega no "timing" preciso e com qualidades suficientes p ara to m á-la um "livro de
cabeceira" p ara todos nós que nos dedicam os às diversas m odalidades de grupo­
terapia em nosso meio.
De parabéns, portanto, o autor, a editora que acolheu s u a obra e nós outros,
leitores, que a usufruím os e com ela increm entam os nosso cabedal de conheci­
m entos sobre a m atéria.

Luiz Carlos Osório


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M inha gratidão e hom enagem :


À m inha esposa, Guite.
Aos m eus filhos, Leandro, Idete e Alexandre.
Aos pacientes, m eus verdadeiros m estres.

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PREFÁCIO — Luís Carlos Osório,
PRÓLOGO,1

PRIMEIRA PARTE
Princípios Gerais de Psicodinâm ica

C ap ítu lo 1 — Uma revisão sobre o desenvolvimento d a personalidade, 9


C ap ítu lo 2 — O G rupo familiar, 24
C a p í t u l o \ — Breve revisão sobre as principais síndrom es clínicas, 30

SEGUNDA PARTE
Princípios Gerais das Grupoterapias

C a p ítu lo X ^ — Uma revisão histórico-evolutiva d as grupoterapias


Principais referenciais teórico-técnicos, 45
C a p í t u l o * ^ — Im portância e conceituação de grupo, 51
C a p ítu lo N ^ — Modalidades grupais, 55 "■
C ap ítu lo 7 — Formação de um grupo terapêutico de base analítica, 64
C ap ítu lo 8 — Início de u m a grupoterapia analítica. Uma prim eira sessão,

TERCEIRA PARTE
F en ôm enos do Campo Grupai

C ap ítu lo — Campo grupai. Ansiedades. Defesas. Identificações, 79


Capítulo Yq. — Papéis. Lideranças, 86
Capítulo r t — Enquadre (setting) grupai, 93
C a p itu lo n s, — Resistência, 101
Capítulo Contra-Resistência, 106
C apítulo 14 — T ransferência, 109
C apítulo 15 — Contratransferência, 114
Capítulo 1 6 . — Com unicação, 119
Capítulo 17 — Interpretação, 125
Capítulo 18 — Actings, 133
Capítulo 19 — Insight Elaboração. Cura, 139
Capítulo 20 — Perfil e função do grupoterapeuta, 148

QUARTA PARTE
Outras Grupoterapias

0 Capítulo 21 — G rupos com crianças, púberes, adolescentes, casais, famílias,


psicossom áticos, psicóticos, depressivos, 155
Capítulo 22 — G rupos Operativos. G rupo de Reflexão aplicado ao
ensino médico, 168
Capítulo 23 — Estado atu al d as grupoterapias, 173

ÍNDICE BIBLIOGRÁFICO GERAL, 177


ÍNDICE REMISSIVO, 179
PRÓLOGO

Ä motivação p ara escrever este livro sobre os fenôm enos do cam po grupai
provém de três fontes. A prim eira decorre d a constatação de que no Brasil h á um a
inequívoca necessidade de expansão d as atividades g rupoterápicas e de formação
de técnicos especializados n a área. De fato, h á no Brasil um profundo abismo
en tre o núm ero de pessoas que necessita — e certam ente poderia beneficiar-se de
u m a psicoterapia sistem ática — e a capacidade assistencial em aten d er a essa
dem anda, sendo de lam entar que não esteja ocorrendo m elhor aproveitam ento de
u m recurso que tem um significativo potência] terapêutico, como é, sem dúvida,
o d as grupoterapias.
A segunda razão é a evidência d a necessidade de um livro de leitu ra básica,
e isso pode ser medido pelo expressivo núm ero de gru p o terap eu tas em formação,
assim como pelo reclamo de um grande volume de in teressad o s em grupoterapia
que se tem m anifestado neste sentido. Ju n to aos dem ais professores desta área,
posso te ste m u n h ar a nossa dificuldade q uanto a indicação de bibliografia relativa
aos conceitos básicos, sem cair no inconveniente de ter que pinçar textos de
au to res diversos em diferentes obras.
O m eu terceiro motivo p ara escrever este m an u al é o de que me pareceu
adequado p artilh ar com colegas m ais jovens u m a experiência intensiva e diversi­
ficada no trabalho com distintas m odalidades grupais que venho acum ulando há
m ais de 30 anos.
E sta experiência teve início n a Clínica Pinei de Porto Alegre — RS, onde
desenvolvíamos, de forma sistem ática, três tipos de atividades em grupos: as de
ordem adm inistrativo-reflexiva (intra e interequipes técnicas), as com unitárias
(com a totalidade dos técnicos de todos níveis hierárquicos, alguns funcionários,

1
2 I David E. Zimerman

pacientes e familiares) e a grupoterapia de finalidade terapêutica (com pacientes


psicóticos, internados ou em regime de hospital-dia).
Posteriormente, com o incentivo do Dr. Fernando G uedes, então diretor do
Hospital Psiquiátrico São Pedro de Porto Alegre, introduzi e desenvolvemos um
trabalho sim ilar nesse hospital.
No Centro Médico d a Vila Sâo Jo sé do Murialdo, tam bém n e sta capital, onde
a assistência m édica se processa em moldes com unitários, além d as costum eiras
reuniões com a s equipes técnicas m ultidisciplinares e os grupos de finalidade
reflexiva com os alunos dos cursos de especialização, coordenei grupos com crian ­
ças, adolescentes e de promoção de saúde, em particular com gestantes.
Por outro lado, participei do “Laboratório das Relações H um anas" program a
intensivo de reciclagem de ensino-aprendizagem , destinado aos professores da
área biomédica, promovido pela Faculdade de Medicina, em conjunto com a Fa­
culdade de Educação da Universidade Federal do Rio G rande do Sul, de Porto
Alegre — onde eu coordenava um grupo do tipo “F" (free) realizado com docentes
universitários em reuniões diárias. No mesmo program a, eram desenvolvidas a ti­
vidades baseadas em dram atizações, visando à vivência de role-playings.
Considero que a m in h a experiência enriqueceu muito com o trabalho de
grupo desenvolvido ju n to ao PEC (Programa de Educação Médica Continuada), no
qual, ju n tam en te com colegas de outras especialidades m édicas, básicas, com pú­
nham os equipes polivalentes e nos deslocávam os para cidades do interior do
Estado onde trabalhávam os com a com unidade médica de cada u m a dessas re­
giões. Faziamos um trabalho ao vivo, nos respectivos hospitais de cada regional,
sendo que a m inha função era a de, através de u m a sistem ática atividade grupai
reflexiva, desenvolver nos colegas um a m u dan ça psicológica em relação à su a
atitude médica, assim como a de consolidar o seu sentim ento de identidade p ro ­
fissional, sem pre dentro do clássico tripé: conhecim entos-habilidades-atitudes.
Participei desse gratificante program a de educação médica d u ran te exatos dez
anos, não só como psiquiatra d a equipe de ensino, mas, tam bém , n a condição de
um dos fundadores e responsável, d u ran te alguns anos, atu an d o n a su a coorde­
nação geral.
Como decorrência d essa experiência, vim a desenvolver, a convite, u m a
atividade sistem ática de "grupos de reflexão”, com duração m inim a de um ano
cada, com m édicos-residentes no Hospital Independência de Porto Alegre (espe­
cializada em traum atologia) e no Hospital Nossa Senhora d a Conceição, tam bém
desta cidade, com médicos residentes em Medicina Interna e Medicina C om unitária.
Outro fruto direto do PECÍoi o de, ju n to com os colegas Luís Carlos Osório
e G eraldina Viçosa, am bos psicanalistas e grupoterapeutas, term os criado o CE-
PEC (Centro de Program as de Educação C ontinuada). Nos diversos cursos que
são desenvolvidos pelo CEPEC, os m ódulos de ensino sem pre se desenvolvem em
três tempos: a discussão teórica do tem a program ado, a com plem entação d a
teoria através da discussão prática do m aterial clinico trazido pelos alunos e o
grupo de reflexão, o qual é baseado no livre aporte de qualquer assu n to , cuja m eta
Grupoterapias I 3

é a integração entre a reflexão da experiência afetiva grupai e o aprendizado


teórico-prático anterior.
Paralelam ente, desde 1960, a partir da m inha formação psicanalitica, de­
senvolvi, em m inha clinica privada, um a in in terru p ta atividade de psicoterapia
analítica de grupo com pacientes de organização neuró tica da personalidade. Com
o correr do tempo, a p artir do aporte de novos conhecim entos teórico-téenicos
provindos de diferentes correntes da psicanálise e d a grupoanálise, assim como
da ab e rtu ra das fronteiras d estas últim as com as o u tras áreas grupoterápicas e,
sobretudo, a partir das vivências que só a cotidiana experiência pessoal propicia,
acrescida das que são vividas n a supervisão de colegas m ais jovens, fui sofrendo
modificações na m aneira de com preender e trab a lh ar com grupos em geral e com
a grupoterapia analítica, em particular.
Este livro pretende, justam en te, condensar os conhecim entos básicos que
se encontram esparsos na Mteratura especializada e integrá-los com os proceden­
tes da m inha própria formação e experiência.
Em forma esquem ática, a s atividades grupais podem se r reduzidas a dois
grandes tipos: G rupos Operativos e Grupos Terapêuticos. É preciso fazer a ressal­
va de que o termo "operativo” refere-se mais genericam ente a um esquem a con-
ceitual-referencial, sendo que os seus princípios básicos tam bém estão sempre
presentes nos dem ais grupos terapêuticos.
Os grupos operativos propriam ente ditos são m ais utilizados em tarefas
específicas de ensino-aprendizagem e em program as organizacionais.
Os grupos de finalidade terapêutica, por su a vez, podem ser subdivididos em
dois tipos: 1) os que têm um âm bito m ais abrangente n a área d a Medicina e não
são essencialm ente psicoterápicos e 2) os grupos psicoterápicos prim ordialm ente
dirigidos ao insight e às m udanças na estruturação psíquica.
Os grupos terapêuticos não essencialm ente psicoterápicos estão sendo m ui­
to utilizados em diversos program as de saúde m ental (Medicina prim ária, preven­
tiva); em m últiplas aplicações de grupos de au to -a ju d a (Medicina secundária,
curativa) e em program as de reabilitação (Medicina terciária).
As grupoterapias propriam ente ditas, por s u a vez, podem estar fundam en­
ta d a s em postulados provindos de distintas correntes, tais como: psicanalitica,
psicodram ática, sistêm ica, cognitivo-comportamental, ou podem e s ta r b aseadas
em u m a abordagem m ista, holística, em que h á u m a certa com binação das cor­
ren tes anteriores.
E ste livro pretende fazer u m a revisão generalizada sobre todas as modalida­
d es expostas, porém objetiva d a r um maior realce à s grupoterapias, m ais p articu ­
larm ente à s de fundam entação psicanalitica. Os capítulos que o compõem partem
d a prem issa de que um grupo se constitui como um a entidade nova e singular,
sendo que isso não exclui que cada um de seu s m em bros continue sendo um
indivíduo com identidade própria e sujeito às m esm as vivências psicológicas que
caracterizam todo e qualquer vínculo terapêutico bipessoal, como é o d a interação
analista-paciente, própria de u m a psicanálise individual.
4 I David E. Zimerman

Por esta razão, a exposição que é feita dos fenômenos grupais será sem pre
precedida por u m a breve revisão atualizada desses mesmos fenômenos, vistos sob
a ótica da psicanálise clássica.
Assim, este m anual está sistem atizado em quatro partes. Na primeira parte,
são abordados os Princípios Gerais de Psicodinãmica, desdobrados em três capí­
tulos: o primeiro consta de um a breve revisão de como se processa o desenvolvi­
m ento psíquico de todo indivíduo, em um a trajetória que vai de um estado de
indiferenciação com a m ãe e em absoluta dependência desta até o de um estado
adulto e em ancipado. Nesse processo de estrutu ração da personalidade é de fu n ­
dam enta] im portância a influência exercida pelo entorno familiar original, espe­
cialm ente pela transm issão de um código de valores, assim como n a determ ina­
ção dos processos identificatórios e pela atribuição de papéis a serem desem pe­
nhad o s ao longo da vida.
Uma grupoterapia propicia, com m ais transparência, a reprodução dessas
tão im portantes vivências do grupo familiar original. Assim, o Capítulo 2 revisa a
influência da família, muito m ais particularm ente o papel da mãe.
O Capítulo 3 se propõe a fazer um a sum arização das diversas formas de
como a estru tu ração psíquica se configura em cada indivíduo separadam ente,
tanto do ponto de vista caracterológico como de síndromes psiquiátricas.
A segunda parte intitulada Princípios Gerais da Grupoterapia, objetiva traçar
um painel abrangente das condições básicas que fundam entam as grupoterapias,
tanto do ponto de vista histórico-evolutivo (Capítulo 4) e conceituai (Capítulo 5),
como o relativo às m últiplas e variadas modalidades grupoterápicas (Capítulo 6).
O C apítulo 7 aborda, m ais especificamente, o im portante aspecto da formação de
um grupo terapêutico de base analítica, em especial quanto aos aspectos de
encam inham ento, seleção e composição, assim como o das respectivas indicações
e contra-indicações. Em continuação, o Capítulo 8 descreve, n a íntegra, u m a
prim eira sessão de u m a grupoterapia, com os respectivos com entários relativos às
leis da dinâm ica grupai presentes na sessão, às ansiedades emergentes, aos m e­
canism os defensivos utilizados por cada um e todos do grupo incipiente, a ativi­
dade interpretativa do grupoterapeuta, etc.
A terceira parte deste livro estuda m ais particularm ente os Fenômenos do
Campo Grupai isto é, aqueles aspectos que surgem de forma espontânea e inevi­
tável em qualquer grupo, independentem ente d a su a natureza. O que, de fato,
varia de u m tipo de grupo p a ra outro é fundam entalm ente o objetivo precípuo
p a ra o qual cada um deles foi formado: se de ensino ou se psicoterápico e, neste
caso, se de apoio, ou p ara insigfit, etc. Conforme o objetivo de um grupo, caberá
ao seu coordenador o emprego'de táticas e de técnicas diferenciadas que propicia­
rão, ou não, a em ergência é o m anejo dos referidos fenômenos do campo grupai.
Assim, o Capítulo 9 aborda, com m aior especificidade, o surgim ento de ansieda­
des, os m ecanism os defensivos e o complexo jogo de identificações que estão
sem pre presentes em qualquer situação de dinâm ica grupai. Da mesma forma, h á
um a im perativa tendência em todo tipo de grupo p ara um a distribuição de posi­
Grupoterapias I 5

ções e de papéis, n o tadam ente o das lideranças, tal como é estudado no Capitulo
10. Mais p articularm ente, em relação aos grupos terapêuticos com vistas ao in­
sig h t seguem -se os capítulos que tratam d a im portância do setting (Capítulo 11),
d a resistência (Capítulo 12) e contra-resístência (Capítulo 13), da transferência
(Capítulo 14), da co ntratransferência (Capítulo 15), dos aspectos da linguagem e
d a com unicação (Capítulo 16), da interpretação (Capítulo 17), dos actings (Capí­
tulo 18), assim como dos fatores terapêuticos e antiterapêuticos que concorrem
p ara a aquisição do insight e dai p ara a elaboração e a cura (Capítulo 19). Nesse
contexto — e dele indissociável —, cresce de im portância a figura do grupotera-
peuta, cujo perfil e funções são estudados no Capítulo 20.
A q u a rta parte dedica um espaço particular p ara a abordagem de Outras
Grupoterapias, tal como é o Capítulo 21, no qual são feitas abreviadas considera­
ções sobre os grupos com crianças, com púberes, com adolescentes, casais, famí­
lias, psicossom áticos, psicóticos, depressivos. D entre os outros tipos de grupos
que não os analíticos, o Capítulo 22 é dedicado a u m a forma especial de grupos
operativos, que consiste n a utilização da técnica do Grupo de Reflexão, aplicada
ao ensino médico. Finalm ente, o ciclo da tem ática grupai é encerrado no Capítulo
23, onde são d iscutidas as condições atuais, assim como as perspectivas fu tu ras
d as grupoterapias.
C ada C apítulo será seguido por um a indicação de fontes bibliográficas, de
distin tas orientações, que foram por mim consultadas, e que podem servir como
um roteiro p a ra o leitor que q uiser am pliar a su a leitura sobre um determ inado
assunto.
Primeira Parte

PRINCÍPIOS GERAIS DE PSICODINÄMICA


BREVE REVISÃO SOBRE O
DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE

D esd e Freud conhecemos o principio básico de que o grupo e as individua-


lidades são indissociados e que se encontram em um perm anente jogo dialético
entre si. Este postulado justifica a necessidade de revisarm os os principais movi­
m entos que processam a norm alidade, ou a patologia, da formação d a perso n ali­
dade dos indivíduos.
As considerações que seguem não visam m ais do que a u m a tentativa de
sistem atizar os conceitos evolutivos, que são am plam ente conhecidos, m as que
com um ente vêm acom panhados de u m a ce rta im precisão conceituai e de um a
falta de ordenam ento claro, o que se deve ao fato de as contribuições dos p esq u i­
sadores procederem de m últiplas escolas do pensam ento psicanalítico, com diver­
sos vértices teóricos, os quais, sob diferentes denom inações, m u itas vezes se
superpõem, convergem, ou divergem, nu m complexo jogo combinatório.
Por esta razão, a sum arização que se a p re sen ta a seguir resu lta de u m a livre
utilização dos conhecim entos adquiridos, a p a rtir dos au to res m ais rep resen tati­
vos das diversas correntes psicanalíticas, sem privilegiar n en h u m a, m as, sim,
pelo critério de como eles estão elaborados em nós.

1. Interação b iopsicossocial. Sem pre há, de acordo com a equação etioló-


gica de Freud, um a constante interação entre os-inatos-fatores biológicos, em
nível neurofisiológico, e os estím ulos provenientes do m undo exterior. A evolução
dos primeiros caracteriza o processo de m aturação, sendo que o crescim ento do
indivíduo como u m todo, especialm ente o lado psicológico, é considerado como
sendo o desenvolvimento.
Certos autores, como Melanie Klein e seguidores, por exemplo, privilegiam.
os fatores inatos, pulsionais, enquanto outros (Winnicott, Kohut, M argareth

9
10 / David E. Zimerman

M,Ihier e Lacan , entre outros) enfatizam a im portância estru tu ra n te do meio


:1111biente. sobretudo o da màe.

2. Pulsões. O s ja tores inatos com preendem a presença de pulsões [g u jm -


)h iI‘.os) c o de um ego arcaico, Q_qual já traz em butido em si toda um a j a m a de
p o li'iidalidades-a^eiem m aturadas._£jiea£nyolvidas. Tais pulsões (o term o “pul-
híío" ó a m elhor tradução para tneb, do original alemão, em Freud, e deve ser
' crenclado de instinkt, cuja tradução literal designa os instintos irreversíveis e
i-.peciflcos para cada espécie do reino animal), são binárias, isto ê, se constituem
d.r. forças coesivas e desagregadoras (cLisrupüuas).
Conforme Freud, as pulsões têm quatro características: um a fonte, um a
H

lliiiilldade, um a força e s e dirigem a um objeto [exterior e /o u ao próprio corpo).


As denom inações que qualificam as pulsões têm variado conforme o p a ra ­
digma conceituai, em seus distintos lugares e épocas; no entanto, sem pre é con-
M i v;ida um a dualidade. Assim, Freud inicialm ente os denominou pulsões do ego
H

(d i'.nil(i[)i eservação) e sexuais (preservação da espér.iel Posteriormente, os clas-


•illlcoii cm pulsões libidinais e agressivas, sendo que, a partir de 1920, passou a
denom ina las como sendo de vida (eros) e de morte (tânatos). Em su a concepção
I H

' - II n li h alisla. cie reuniu todas as pulsões na instância “Id” (termo latino que
I iirrr.p o n d e ao d a s es alemão).
Mel.mii' Klein, por su a vez, inspirada em Freud, construiu toda a s u a teoria
I I>.iiIir do conceito de “instinto de m orte", sendo im portante registrar que essa
I ti In ill tv. I vivência interna de m orte é sem antizada pelo ego arcaico como um a
.m ir.iça di' um a total destruição interna (ansiedade de aniquilamento).
W

in cip ien te. A crença na existência ou inexistência de um ego desde


" h.im im nilo tem dividido os au to res. Aqueles que utilizam o referencial dos
V llkl»

li Ih Ini% da-, relações obietais (Fairbaim: M. Klein e seguidores) impõe-se a obri-


f'.ilin ia I niivicçào de que existe no recém -nascido um ego ru d im en tar, encarrega-
1,11 llr os indispensáveis, contatos com o m undoj£xt£DPii-CPm..a ta refa de

iilentes tanto de dentro como de fora do n ascitu ro . O conceito d a existência in a ta


d' um ego rudim entar fica m ais claro a partir d a seguinte analogia: o nascituro
|a ic .p lra bem an tes de que o seu aparelho respiratório j á esteje plenam ente
cntmllttiido.
( ):> referidos estím ulos sobre o bebê podem ser prazerosos ou desprazerosos,
V i t l l l l

'.( lido que estes últimos decorrem sobrem aneira dos estados de sede, fome, frio,
dura- desam paro.
l-orma-se um arranjo de com binação en tre as pulsões originais e os referi-
ilir. ( '.lim ulos dolorosos, sendo que am bos provêm de distintas zonas corporais e,
I ni in I d ego incipiente não tem condições neurobiológicas p ara discrim iná-las, o
In In- en tra em um estado de “confusão" generalizada. Em o u tras palavras, por
(alia de m aturação mielínica, h á um a óbvia incapacidade em fazer a discrim ina-
Grupoterapias 1 1 1

ção entre o eu e o outro, entre o que é de dentro e o que vem de fora, entre m ente
e corpo, entre a s fontes, objetos e conteúdos pulsionais, entre as partes e o todo
corporal, au sên cia da noção de espaço, de tempo, etc.
E sse primitivo estado de indiferenciacão. do. bebê com o m undo exterior,
(mãe) tem recebido distintas denom inações, Assim, em m om entos diferentes, Freud
o designou de auto-erotism o. narcisism o primário, estado de Nirvana, ego do
prazer p u ro . W innicott descreve o “estado de ilusão e onipotência". K ôïïürdîFqïïe
se tra ta do “estado n arcisista perene". Conforme Edith Jaco b so n corresponde ao
"s e lf psicofisiológico prim ário". Segundo M. M ahler, trata-se de u m estado de
“autism o norm al” (seguido de um a condição de sim biose com a m ãe). Para J .
Bleger é uln~“nucIeo aglutinado” enquanto que Pacheco Prado o denom inou “e s­
tado de e n tra n h a m ento”, ë assim por diante.
O lm p õ rta n te ac o n sid e ra r 6 q u e todas essas vivências de não-integração (ou
de “d esintegração”, se o vértice conceituai for o da existência prim ária do instinto
de morte) provocam u m estado de ansiedade, com a conseqüehte mobilização de
prim itivos recursos defensivos do ego. Mais adiante, esses dois aspectos — an sie­
d ades e defesas — serão considerados mais detalhadam ente.

4. R ep resen tações no ego. De alguma forma, as sensações indiscrim ina­


das, acim a referidas,>ão sendo r egistradas (como que “fotografadas") no ego, sob
T lõ r m ã H é representações (inicialmente o estado é o de “presentações”, ou seja, o
registro d as vivências ainda não têm um a nomeação, e elas se confundem como
se estivessem , de fato, concretam ente presentes).
A s representações se constituem da combinação de u m a série de elementos
que interagem entre s ii.P.ulsõ£S,-.seosacõ.e.s^afetQS^obietQs.Jant.asias^memóaa .e
significações.
~ E ú tifle m b ra r que todas as representações são revestidas de um a r a r ga,
afetiva, sendo que os prim eiros objetos introjetados são considerados como odia­
dos, u m a vez que eles foram os frustradores, responsáveis, portanto, pela neces­
sidade de su a s ausên cias serem substituídas por representações. Nos casos em
que houver um nítido predom ínio do ódio, estará aberto o cam inho p ara a in sta ­
lação de fu tu ra s som atizações e quadros psiçopatológicos em geral.
Não é dem ais repetir a im portância exercida pelas frustrações im postas à
onipotência da criancinha, como sendo o meio indispensável p ara a tran sição do
princípio do prazer p ara o da realidade, desde que tais fru straçõ es sejam ad e q u a­
d a s e coerentes p a ra não despertarem um ódio excessivo.

5. Evolução ^ fun ções do eg o . Em Freud, as prim eiras etan as da e s tru tu ­


ração do ego estão alicerçadas nos Princípios do Prazer e da Realidade, ejseguem
a seguinte escalada evolutiva: a) ausência de ego, b) ego do prazer puro. cTegÕ~da
realidade prim itiva e d) ego da realidade definitiva.
Ê uTiFTemBrár que, para Freud, o ego é. an tes de tudo, cornoral! D essa
forma, assim como o corpo, com as respectivas fan tasias e significações contidas
1 2 I David E. Zimerman

nas d istin tas zonas corporais, está representad o no ego, também é verdade que
in>'.. distúrbios psicossom áticos é o ego am eaçado que está representado. no corpo.
A m edida que o ego vai sofrendo um processo neurofisiológico de m aturação,
rir vai encontrando as n ecessárias condições de fazer a necessária adaptação do
|n iucipio do prazer ao da realidade, assim como a transição de um funcionam ento
ii.isrado em um processo prim ário p ara o de um processo secundário, até alcan ­
çai a possibilidade de atingir o pleno uso d as funções mais nobres.
0 egopode se r definido como um conjunto de funções, as quais, em linhas
priais, são as seguintes:

a) Mediador entre o ld, o Superego e a realidade exterior,


li) M ecanismos de defesa.
r) Funções m entais (sensoriais e m otoras, além das de atenção, memória,
Inteligência, pensam ento, juízo crítico, capacidade de antecipação e p o s­
tergação, etc.)
( I) Formação de sím bolos.
r) processa e sedia a form ação da angústia-sinal.
II F. a sede d as representações e significações.
1 ') Iïn c e s sa a formação d as identificações e do sentim ento de identidade,
li) Keeonliccc as em oções e processa o seu destino.

I ■ P.ípcl do grupo fam iliar. D esde que nasce, até o pleno am adurecim ento
I ie H11 ill-.li líógleo",' a evolução biológica segue um m esm o processo linear e imutável
■in im li im o-, indivíduos da espécie h u m an a. Assim, o bebê sente frio e calor desde
......... « liiienlo. Começa a ouvir a p a rtir d as prim eiras sem anas e a ver por volta do
|n lu h ii o m e. Do sexto ao oitavo m ês, com eça a reconhecer o corpo do outro e, só
■ui m. I.ml« i.i se reconhecer, em espelho, como u m a unidade corporal. Desenvol-
VI um,! m a l1, organizada m otricidade do prim eiro ao quarto ano, e a lateralidade
|i> 1 1 iiilie eln le n lo de direita e esquerda, etc.) em to m o do quinto ao sexto ano. Da
ne »ma Im m a, ,e, noções de espaço, tem po, discrim inação, causalidade, etc., obe-
............. a um a definida seqüência tem poral, sendo interessante assinalar, tendo
* ui %I aã o que se reedita n a relação terapêutica, que a criança apresenta condi-
MM m ile iiiili/ar■o "nâo" a n te s do “sim ".
A qualidade do desenvolvimento das funções egòicas vai depender, intrinse-
! 11,1 lllln relação à a criâ n an B irc o m o seu meio am biente, mais precisa-
im nie ile como se processa o se^f inato apego (attachmená com a m ãe. Ju stam e n -
li I•<o I .-.a Ia/ao, o proximo capitulo e stu d a m ais detalhadam ente quais são os
|i i|m Im ile-,ein|ienhados pela m ãe dentro de um contexto com as dem ais pessoas
d' «Ih I c.inpo lamlliar.

l i u p.e. ev o lu tiv a s.Jn d o além d a clássica concepção da evolução psíquica


• oi heu . liem delim itadas (oral, anal, fálica...), pode-se dizer que a progrès-
Grupoterapias 1 1 3

siva formação da personalidade é entendida, n a atualidade, como um longo pro­


cesso de separacão-individuação.
Assim, nos primórdios, o bebê não existe sem a m ãe e. du ran te alguns
m eses, am bos compõem u m a diade inseparável. E a prim eira etapa evolutiva e se
define por u m estado de indiferenciaçào, onde prevalece u m a condição de “espe^
lham ento" com a m ã e.
" ~ ÃTãse oral propriam ente dita não se restringe à s gratificações e frustrações
pela viiTexclusiva da boca, como a etimologia pode sugerir (o étimo latino os, oris
quer dizer boca). Ela abrange a todos os órgãos dos sentidos, sendo que a pele
m erece um d estaque especial porque com porta-se como um meio de contato e de
com unicação entre o m undo interior e o exterior.
Da m esm a forma, a fase anal não se lim ita à v icissitudes d a evacuaçào e da
micção. O desenvolvim ento da capacidade m uscular-m otora, especialm ente a m ar­
cha, assim como a articulação d a fala e o exercício do uso do "não", como oposição
às exigências d as pessoas do seu meio am biente, definem as principais linhas de
representações no ego d essa fase evolutiva.
Seguem -se as fases fálica (e toda a constelação edípica), a puberdade, a
adolescência e as dem ais etap as críticas da evolução do indivíduo, cada um a delas
com as su a s, bem conhecidas, características específicas. O que im porta ressal­
tar, no entanto, são as seguintes particularidades:
— Tais fases não correspondem a u m a realidade biológica ou psicológica
co n stan te e im utável, antes, elas ap en as assin alam a prevalência de
certos üpos de com unicação com o m undo, os quais guardam as pecu­
liaridades típicas das respectivas épocas de vida.
— E las não são estanques; pelo contrário, h á u m a interpenetração das
fases (e a s respectivas fantasias e ansiedades) entre si. Por exemplo: nas
crian ças de 2 a 5 anos é muito com um a ocorrência de sonhos e p esa­
delos com nítidas fan tasias orais canibalísticas im pregnadas de um
sim bolism o fálico.
— Um aspecto im portante em relação ao esquem a de "fases” é o referente
aos fenómenos de Fixação, ao de Regressão, e ao c

8. Fixação. R egressão. Compulsão à R epetição. Fixação: .devido a um a


hiperestim ulaçào que se forma a partir de um excesso de gratificações, ou de
frustrações, ou ainda, de incoerência entre am bas, o ego "fixa" certas representa:
ç o ê s rê lâ fiv ã ili aspictöT H odesenvolvim ento d a personalidade, em determ inada
iase. Se a fixação for p a r cíãTTõ^qTTê^õ^nãIs^ÕTOum)terern o s um aJnterrupcào n o,
Ï Ï ^ n v o lv im 5 ïïô ^ F c M S 7 u n ç 5 ê s ^ 'H p â c i 9 ^ e s , sem prejuízo de outros aspec-_
.tÕ ^ jê T f iH p o W ^ ^ ^ e r a um g ^ e te ncãO dacy_olu.cãQ_psíquica.
A Regressão corresponde ao fato de que, diante de estados de ansiedade,
excessiva, o indivíduo abandona algum as capacidades adquiridas e retom a às
estacões em que fez as fixações, ou seja, aos m odos de funcionam ento m ais
1 4 / David E. Zimerman

primitivos. Este fenômeno ad q u ire um a especial im portância n o s grupos h u m a ­


nos: a história está repleta de exem plos em que as m a ssas podem regredir a níveis
arcaicos, quando, fascinadas, elas estão sendo com andadas por líderes carism á­
ticos e patogênicos.
A Compulsão à Repetição é u m acontecim ento de m áxim a im p o rtân cia para
o entendim ento da conduta h u m a n a . Freud a estudou a p artir dos fenôm enos da
transferência, da elaboração repetitiva dos fatos traum áticos e, sobrem aneira, do
masoquismo. Baseado neste últim o, formulou o “instinto de m o rte” como sendo
um a com pulsão do indivíduo a reto m ar ao estado in an im ad o . Hoje em d ia, a^
com pulsão à repetição é enten d id a como decorrente de u m a neçpssidÏÏffelrrefreà-
vcl de "buscar1' algo"que laÏÏôïT no passado, m uitas vezes em um nível que iis a .a
li ui retom o ao “á p e g c ú a jM n â rc ôm a maiTmdSpenHën f i ^ n t e se esse foi bom e ,
firatificante
Q .. ..
ou se foi fru stra n te e, até ..........
mesmo, se foi.......................»
de n a tu re z a sád ica pór parte

9. JDeseii7flMmmtxijJa_S£ZuaJidad£u Sabem os todos o q u an to Freud valo­


rizou a sexualidade como o principal eixo da construção do edifício psicanalítico.
No entanto, deve ficar bem claro que ele não conceituou sexualidade como sinô­
nimo de genitalidade, como m uitos detratores ainda hoje teim am em confundir.
Freud concebeu e valorizou a s zonas corporais erógenas de onde partem as
■ 11isfaçóes das necessidades básicas, acrescendo-se. um prazer extra à gratifica-
i;m destas ú ltim as. A este plus de prazer, denom inou como sendo “sexual'’; assim ,
0 bebê m am a no seio da m ãe p a ra saciar a s u a fome é sede, porém o tem po extra
que ele, já saciado do alim ento leite, se dem ora em contato com o mamilo, foi
considerado por Freud como a expressão de u m a sexualidade, inerente ao prazer
obtido através da m ucosa de s u a boca.
Em outras palavras, par a Freud, todas as experiências de excitação corpo­
r a l Inclusive as dolorosas, podem se to m a r umãTfõhte dé um prazer “sexual”.
Portanto, o conceito de sexualidade deve ser entendido em um s entido m ais amplo
1 01110 t°d a e x p eriên cia jje-P razF F d a â ü i r p S ^ p ã í f f a o W é s m õ l e m po, o corp o.e.a.
m e u le ..
Freud comprovou que a crian ça constrói diversas “teorias sex u ais”, a fim de
encontrar explicações p ara os intrigantes m istérios relativos à concepção, nasci­
mento, diferença de sexos, doença e morte. As d istin tas etãp a s evolutivas se
Interpenetram e se interiníluenciam , porém cada um a delas g u ard a u m a certa
especificidade n a formação d a s fan tasias pertinentes às teorias sexuais de cada
criança, cujo destino, em com biftação com as angú stias form adas e os m ecanis­
mos defensivos mobilizados pelo ego irão determ inar a norm alidade ou a psicopa-
tologia.
Tendo como base a triangularidade edípica, os modelos sexuais da m ãe e do
pai exercerão um a categórica definição n a determ inação do gênero da criança.
Cabe, aqui, traçar u m a im p o rtan te diferença entre sexo e gênero. Spyo desjgna a
condicão-biológica. isto é. se a criança nasce com pênis ou com vagina. Gênero,
Grupoterapias 1 1 5

por su a vez, se refere a u m _tiPO de com portam ento se m asculino nu femininn


dentro dos padrões convencionais de um a determ in ada cu ltu ra — e depende
~3iretâmëntê dos m odeios identificatórios. D estes últim os, os m ais im portantes
consistem n a s expectativas provindas dos pais d a crianca íe, por tabela, dos pais,
intem alizàâos,"destespãísr quanto à determ inação de u m a con d u ta a ser seguida
pelo filho: se m ais ou m enos viril; se com m aior ou m enor valorização de atributos
tais como agressividade, passividade, delicadeza, triunfo, donjuanism o; se o gêne­
ro da criança vai ser o de preencher o “sexo” que não foi conseguido nos outros
filhos e assim por diante. Um outro aspecto que tam bém deve ser considerado n g
determ inação do género é o que se
e pela c u l t u a vigente-

10. A nsiedade, É de consenso entre os p sican alistas o princípio de que o


bebê soffT B êãnsiêdades desde o seu nascim ento (segundo m uitos autores, desde
a gestação). A pesar de a ciência psicanalítica ain d a não dispor de um método
cientifico de registro e de m ensuração d as aludidas ansiedades, é inegável que a
su a presença é confirm ada por fatos objetivos. Assim, a sim ples observação de
qualquer bebê m ostra-nos o quanto ele oscila entre u m a serena expressão de um
completo bem -estar e um intenso sofrimento, o qual fica traduzido, entre outros
sinais, por um indiscutível rito doloroso.
As ansiedades podem ser descritas a p artir de distintos referenciais. Assim,
ao longo de s u a obra, Freud descreveu dois tipos de ansiedade: a an g ú stia a u to ­
m ática e a angústia-sinal. A prim eira corresponde a um excesso de estim ulos que
o ego não tem condições de processar e, por isso, os reprim e: daí o surgim ento da
ansiedade por represam ento. A conhecida “an g ú stia -sinal” (descrita a p artir de
1926, em Inibição, Sintoma e'Ängustia), ao contrário d a anterior, é concebida
como um sinal que o ego em ite diante de u m a am eaça, e só então é que _se
processa a repressão.
Para M. Klein, a ansiedade se m anifesta por três m odalidades: a) persecutó­
ria (corresponde à posição esQuizoparanóidel. b) depressiva (corresponde à posi­
ção depressiva), c) confusional (entre a s d u as anteriores).
Do ponto de vista genHico^ëvoluüvo.. a p a rtir do fato de que cada etapa d a
vida cF individuo determ ina u m a certa especificidade n a configuração das an sie­
dades, pode-se tra ç a r o seguinte esquem a conceituai:

1) A nsiedade de Aniquilamento (tam bém conhecida como desintegração,


' desm antelam ento, despedaçam ento, catastrófica, etc.) — E stá nresente
desde o nascim ento e corresponde à in te n sa presença no interior do
bebê das pulsões agressivas (instinto de m orte, n a teoria kleiniana) e
dos estím ulos desprazerosos. Assim, as prim eiras frustrações são se-
m antizadas como um a am eaça de morte, como um aniquilam ento da vida.
2) A nsiedade de Enaolfamento — Corresponde a u m a fixação n a etapa
evolutiva em que h á um a indiferenciacâo entre o eu e o outro, tal como
ocorre na díade fusionai mãe-filho, de n atu re za sim biótica-narcisistica.
1 6 1 David E. Zimerman

3} A nsiedade de Separação — Form a-se du ran te a prim eira infância e é


dêvid(rã~ aiíãrco n d icõ es b ásicas: um a é o medo da perda Ho objeto
necessitado e a outra, a da perda do am or deste objeto, E claro que estes
medos tanto podem estar justificados por um a realidade exterior desfa­
vorável como ela pode se r conseqüente de fantasias inconscientes, se n ­
do o m ais comum um a com binação de am bas.
4) Ansiedade de Castração — E stá intrinsecam ente ligada às conhecidas
vicissitudes que cercam o conflito edínico. Não é dem ais ressa lta r que,
em grau moderado, esse tipo de ansiedade é muito im portan te p ara a
estruturação psíquica, porquanto é ela que in troduz a presença e a “lei”
áâ4?âi para desfazer a díade sim biótica com a mãe, assim perm itindo a

5) Á nsiedade decorrente do Superego — E sta forma de an sied ade fo n n a ^ e


a partir" dos m ããdãm êntõs. proibições, valores e expectat& as j f o s j a i s .
bem como dos naradigm as socioculturais de um a determ inada geogra­
fia e época, estendendo-se até o período de latência.

É ütil enfatizar os três aspectos seguintes relativos ao fenômeno da ansie­


d ad e : a) com umente, os diversos tipos de angústias, acim a descritas, não são
estanques entre si; antes, elas se tangenciam e interpenetram , b) os derivados
clínicos d a ansiedade costum am m anifestar-se por somatizações, por actings, ou
por sentim entos de culpa, vergonha, medo e hum ilhação, c) podem m anifestar-se
por um estado de angústia livre, traduzida por concom itantes equivalentes fisio­
lógicos, tais como um a opressão pré-cordial, dispnéia suspirosa, sudorese e se n ­
sação de cabeça inchando, entre outros.

11. M ecanism os de D efesa. Sob este título designam -se os distintos tipos
cie operações m entais que têm o o riín alid ad e a ,redução das tensões psíquicas
Internas, ou seia. das ansiedades.
Os m ecanism os de defesa se processam pelo ego e são, praticam ente sem-
pre. Inconscientes, Se adm itirm os a hipótese de que a ansiedade está presente
(Ir.sde o nascim ento, como p ostula à escola kleiniana (além do que, é útil lem brar
o "traum a do nascim ento” de Otto Rank), terem os que aceitar a crença de que o
ego, rudim entar, do recém -nascido está lutando p ara se livrar dessas an g ú stias
penosas e obscuras. É óbvio que quanto m ais im aturo e m enos desenvolvido
esl Ivcr o ego; m ais primitivas e carreffiu!ãsde m agia serão as defesas.

' |i ht forma — através d à ~ ïïtiliz ^ îô d a s m últiplas fõnm asde Negarão"— a vivência


r o conhecim ento de tais vivências ansiogênicas.
’A sTormàs mais primitivas de Negação, alicerçadas em uma onipotência
magica, são as seguintes:

a) Neaacão em n íu á m á aíccL A forma extrem a, própria dos estados psicóti­


cos. ê denom inada “Forclusâo” (ou “Repúdio”) e consiste em fazer um a
Grupoterapias 1 1 7

u m a o u tra realidade ficcional (o m elhor modelo está contido no fenôm e­


no que Freud descreveu como a "gratificação alucinatória do seio”, q u a n ­
do o bebê está desprovido do mesmo). Uma o u tra form a de negação em
nível de magia, porém de m enor gravidade do que a forclusão psicótica,
por se r m ais parcial e e sta r encapsulada no ego, é a que conhecem os
como “Denegação” (ou “Renegação”; “Recusa"; “D esm entida”). Tal defe­
sa é típica das e stru tu ra s perversas e consiste em um m ecanism o no
qual o indivíduo nega o conhecimento de um a verdade, que bem n o
'lïïnH ô'eîêsâB ê'que existe*(o melhor modelo é o que ocorre no fetichismo,
tal como Freud descreveu tal perversão: o sujeito sabe que a m u lh er não
tem pênis; no entanto, p ara negar a su a ansiedade b asea d a n a fantasia
de que esta falta se deve a um a castração que, de fato, ten h a ocorrido,
ele denega a verdade com um pensam ento tipo “não, não é verdade que
a m ulher não tem pênis”, e reforça essa falsa convicção com a criação
de um fetiche).
b) Dissociação (das pulsões, dos objetos, dos afetos e do ego).
c) Projeção (nos primórdios da vida, é um a forma de se livrar de tudo
aquilo que for desprazeroso).
d) Introjeção (é um a forma de incorporar tudo o que p uder co n tra-arrestar
o~mâü que a criança sente como estando dentro de si).
e) Idealização (de si próprio ou de outros como u m a form a de evitar sen tir
u m a sensação de im potência e de desamparo).

À m edida que o ego for evoluindo.e-ainaá u ]£ c e n iia ja m a ± á o b g ic a n im t£ ^ l£ .


com eça .a em pregar defesa s m enos arcaicas, tais como o u so de deslocam ento,
an ulação, isolam ento, regressão e transform ação ao contrário. Tais defesas são
tB T ^ s'd o s q i ^ r o r ^ s e s s iv â < ç ^ u Í s i y p .s e fóbiC.0S, o que não q uer dizer, é claro,
que não estejam presentes em o utras situações caracterológicas e psicopatológicas.
Por s u a vez, um ego m ais am adurecido, tem condições de utilizar defesas
m ais e s tru tu ra d a s, como são a repressão, a racionalização. a jo rm a ção reativa e
a sublim ação.
É preciso deixar bem claro que, em s u a ausência, todos esses m ecanism os
defensivos são e s tru tu ra n te s p ara a época de seu surgim ento. No entanto, todos
eles, se indevida ou excessivam ente utilizados pelo ego, podem funcionar de u m a
forma d esestru tu ran te. Um exemplo é a utilização da identificação projetiva: ela
tanto pode servir como um meio de se colocar no lugar de um outro (empatia),
como pode ser a responsável pelas distorções psicóticas do cam po d as percepções.
Por outro lado, a im portância dos m ecanism os de defesa pode ser m edida
pelo fato de que a modalidade e o grau de seu emprego diante d a s ansiedades é
que vai determ inar a natureza da formação — e norm alidade ou patologia — das
d istin ta s estru tu ra çõ e s psíquicas.
Ill I David E. Zitnerman

12. Funções d a Mente. A finalidade prim eira do se r hum ano é a de adaptar-


M -jeiiirfrfen S n rnqfnndirjcotp "aconiQdar:Se,’l ao m eio am biente q u e o cerca, às
iiessoas e aos grupos h u m ano_s_çpm_o_sjQuais .convive e partilha experiências. A
função de adaptação é feita através de capacidades do ego consciente, como são,
m lic (an tas outras, as de: percepção, pensam ento, juízo crítico, conhecimento,
llujjuagem, com unicação e ação.
A função de percepção diz respeito ao tipo de ótica, com que o indivídúo
percebe os dem ais, ou seja, de como pensam , sentem e intencionam. Os d istú r­
bios da percepção, desde os discretos — inerentes ao cotidiano de qualquer pes-
Mu até aos m ais graves, sob a forma de alucinações ou delírios psicóticos, são
I«'.Iillantes de um dem asiado e inapropriado uso de identificações projetivas e
lulm |etlvas. Por outro lado, os traços caracterológicos predom inantes em cada
Indivíduo é que irão se constituir como as lentes desta ótica perceptual: assim,
um a m esm a pessoa, ou acontecim ento, ê percebido de forma diferente, se o ob-
seivador for um paranoide, ou depressivo, ou narcisista, e assim por diante... A
loi ma como se processa a percepção influencia e é influenciada pelas dem ais
lim çncs do ego, a saber:
( ) i>aisamento, atributo, exclusivo do ser hum ano, apresenta em seu desen­
volvimento evolutivo um a escala crescente de complexidade e sofisticação, de
.li ui do com um a ordenação cronológica e segundo as leis da m aturação neurobio-
l' H'li ,i especificas da espécie hum ana. Assim, desde um a forma primitiva, em que
0 io h.i um a obediência aos princípios da lógica, m as, sim, aos da magia e concre-
iinlr. o pensam ento pode evoluir até o nível abstrativfr-simbólico, que possibilite
.1 Mia iillll/ação para fins dedutivos-científicos. Os estudos de Piaget, epistemólo-
f o si uri I, silo de fundam ental im portância p ara um melhor entendim ento das
mu rsslv.is clap as que caracterizam a estruturação da função do pensamento.
Hlon, a partir de referenciais psicanalíticos, foi um profundo estudioso dos
pinrcssiis iio pensam ento, tendo postulado que^a gênese dos m esm os depende
1 v.rni lalm ente de um a m aior ou m enor capacidade do ego em to le ra ra s frustra-
i,oi .. o (|iir se deve ao m ontante de ódio que pode resu ltar das situações fru stran ­
tes r (|iie pode vir a im possibilitar o aprendizado que todo indivíduo deve extrair
il.is rxpci lenclas da vida, sendo que esse aprendizado, nos casos em que o ódio
Im ext rsslvo, fica substituído pela onipotência e a onisciência. Bion vai m ais
Ioiijt ele considera que o ato de p en sar pode e s ta r composto por elementos a
I ill i) (permitem a elaboração dos sonhos, a com unicação, a abstração, etc.), ou
|n.i elem entos ß (beta), os quais não têm um a função elaborativa, m as sim eva-
1 1 imIIva, como é o caso dos actvfgs.
K ul II estabelecer u m a 'd istin ç ão entre pensam ento, juízo e raciocínio. 0
1111.*o ci illeo supõe um a capacidade do ego em articu lar e discrim inar os diversos
I" 11 i. 111 ie li tos que estão separados entre si. A função de raciocínio, por su a vez,
iniplii.i I ui um a articulação dos vários juízos.
A função de conhecimento está ganhando um a crescente im portância em
lod.r, as coi rcn tes psicanalíticas, sendo que alguns autores, como M. Klein, ehe-
Grupoterapias 1 1 9

garam a p o stu la r a existência de um im pulso epistemofilico. As evidências d a


relevância do conhecim ento podem se r encontradas desde a Bíblia, passando pela
Mitologia, Filosofia, L iteratura, Ciência e Psicanálise.
Assim, a Bíblia enfatiza os castigos que D eus im pôs a Adão e Eva por estes
terem transgredido a s u a proibição de não com erem os "frutos da árvore do
conhecim ento". No cam po da Filosofia, b a sta m encionar Sócrates, o qual pode ser
considerado um legítimo p rec u rso r d a ideologia psicanalitica, pelo fato de que
ensinava se u s discípulos a “fugirem d as verdades acab ad as”, insistia com eles
que “a verdade é difícil porque dói”, e os estim ulava ao exercício da indagação e
da reflexão p a ra um autoconhecim ento, único cam inho, segundo ele, “p ara atin ­
gir a felicidade”. Por isso m esm o, S ócrates foi considerado perigoso, julgado e
condenado... Na L iteratura, vam os nos lim itar ao clássico dram a shakespereano
de Hamlet, debatendo-se entre a cruel dúvida do “ser ou não ser” (na verdade,
“saber ou não sa b er”). D a m esm a forma, Sófocles nos d â um relato dram ático do
mitológico Édipo, penando entre as dúvidas entre conhecer ou não conhecer a
terrível verdade que, ao ser revelada, lhe custou o cruel castigo da cegueira que
ele se im pôs a si próprio. No cam po das Ciências Físicas, sabem os todos do
terrível castigo que foi im posto, pelo establishm ent da época, ao físico Copêmico
e, m ais tarde, a G iordano Bruno, pelo “crim e” de am bos terem revelado ao m undo
um conhecim ento que o narcisism o h um ano se recusava a aceitar: de que Terra
não era o centro do universo, como ensinava Ptolomeu, e que não passava de um
sim ples satélite do sistem a solar. Da m esm a forma, Freud am argou, durante
muito tempo, im piedosa hostilização e desprezo por ter ousado desvelar o conhe­
cimento, denegado, de que as p u ra s e ingênuas crian cin h as não só eram porta­
doras de u m a sexualidade, m as, ainda, a constatação de que as evidências dela
eram tra n sp a re n te s a quem tivesse a coragem de ver e conhecer.
E ntre os au to re s psicanalíticos que têm estudad o com profundidade a nor­
malidade e a patologia do conhecim ento, é ju sto d estacar a Bion, que estu d a a
função do “não-conhecim ento” (-K, sendo que K é a inicial de Knowledge: conhe­
cimento), como u m a form a que o ego utiliza quando não quer, ou não pode, tom ar
ciência da existência de verdades penosas, tanto a s externas quanto as internas.
Para esse propósito, segundo Bion, o ego chega a se autom utilar, pois lança mão
de um “ataq u e aos vínculos” que perm itiriam a percepção e a correlação de tais
verdades intoleráveis. Como referim os antes, o g rau máximo d essa negação da
tom ada de conhecim ento é denom inado “forclusão” (termo de Lacan), fenômeno
muito estudado p a ra u m a m elhor com preensão das e s tru tu ra s psicóticas.
O uso exitoso do conhecim ento implica, necessariam ente, em u m a boa ca­
pacidade de discrim inação por p arte do ego, ressaltan d o -se que a ênfase dada a
essa função se deve ao fato de que o “sa b er” é o cam inho que leva o indivíduo a “ser”.

Linguagem e Comunicação. Da boa ou m á resolução das funções do p ensa­


mento e do conhecim ento re su lta rá a qualidade da e s tru tu ra lingüística e comu-
nicacional. Nos prim eiros tem pos da vida, o bebê com unica-se com o mundo
;’ v ' í ’ '.'

20 I David E. Zimerman

através de um a linguagem corporal (choro, careta, vômito, diarréia, etc.). Se a m ãe


consegue descodificar as m ensagens em itidas por essa linguagem primitiva, vai
se form ando um clim a de entendim ento recíproco, o qual propicia a formação de
núcleos de confiança b ásica no s e lf d a criancinha. Respaldada n essa confiança
básica, a criança vai poder tolerar a frustração de vivenciar as perdas temporárias
<l;i mãe, em função d a s inevitáveis separações físicas com ela. A possibilidade da
criança em fazer a substitu ição de um objeto au sen te (inicialmente a mãe) por
um a representação deste constitui o início de u m a im portantíssim a função egói-
ca: o da formação de símbolos. É im portante d estacar que a aquisição da palavra,
cuja relevância é desnecessário ressaltar, se constitui como um símbolo, portanto
um a via de acesso ao cam po d as abstrações, das conceituações e o d a com unica­
ção verbal.
No entanto, nos indivíduos em que a capacidade de formação de símbolos
Irnlia ficado seriam ente prejudicada, a palavra pode estar sendo utilizada a ser­
viço d as "equações sim bólicas”. E sta expressão designa um a condição n a qual o
pensam ento, e daí as palavras, adquire u m a concretude mágica e se confunde
como se, de fato, fossem as coisas que ap en as deveriam representar.
1’or outro lado, não é dem ais repetir que a linguagem própria do discurso
dos pals (conteúdo, forma, significação, estilo, etc.) vai assum indo um a decisiva
iinpni liúicla na estru tu ração , não som ente n a modalidade de linguagem e de
......iniilcaçào do filho, m as tam bém na do seu próprio inconsciente.
A função de ação, do ego corresponde ao plano com portamental, ou seja, da
....... li iia <lo Indivíduo. É preciso considerar que o se r hum ano tem um a caracte-
ihllc.i única que o distingue de q ualquer outro se r d a escala animal: h á um longo
|in lodo de tempo em que ele fica inerte, sem condições motoras, e totalm ente
ru licf,ue aos cuidados de quem está à s u a volta. Desde o nascim ento h á um
I-ikii me a fluxo de sensações e inform ações, vindp do exterior e do organismo da
ci i.tnça. provocado um aum en to da tensão intern a, o qual ela não tem condições
«h ili sc.iiiegar através da m otricidade e da ação. A existência de um a enorme
ile|,r,.ij'em entre a m atu ração sensória e a m otora, assim como a que h ã entre o
desenvolvimento das gônadas e a capacidade genital para a reprodução são ex­
clusivas da espécie h u m an a.
Tudo isso prolonga e intensifica a dependência da criança e estabelece pro-
lt h HLis conexões entre as s u a s sensações e fan tasias e a su a capacidade motora,
snbietudo a da m archa. Se não houver u m a suficiente harmonia entre a conduta
e as lu nçóes do pensam ento t ß o conhecim ento, o indivíduo reproduzirá as mes-
III,is vivências de su a im potência infantil e descarregará as su as ansiedades não
ali aves de atividades sublim adas, m as, sim, em atos e condutas sintomáticos.
( ■onslltiKMii exemplos disso a co nduta inibida em dem asia (própria dos obsessi­
vo-,), a sedutora (como n as e s tru tu ra s histéricas), a psicopática e a perversa, entre
m ill,is, sendo que cada u m a delas estará expressando um a configuração especí-
llea de personalidade, assim como traduzindo u m a forma arcaica de comunicação.
_________________________________________________________________ Grupoterapias I 21

Não são todos os estu d io so s do com portam ento h u m a n o que privilegiam o


seu entendim ento como devendo p a rtir sem pre d a e s tru tu ra psíquica do m undo
interior do indivíduo. Há u m a expressiva corrente — d en o m in ad a com portam en-
ta lista (ou behaviorista) — que preconiza um cam inho inverso, ou seja, o de que
u m a m u d a n ç a psíquica deve se p ro ce ssar a p a rtir de estím u lo s — tanto os
positivos como os inibitórios — provindos d e um trein am en to d a c o n d u ta exterior.

13. A quisição do se n so de id en tid ad e. A m eta m aior do desenvolvimento


de todo indivíduo é a aquisição de u m a plena identidade. Isso significa que ele,
após a inevitável passagem pelas e ta p a s sim biótico-narcisistas, n a s quais esteve
indiferenciado da m ãe e do am biente, vai gradativam ente adquirindo condições
de m atu ração e desenvolvim ento em direção a u m a progressiva diferenciação até
atingir a s condições de u m a co n stân c ia objetai e de u m a coesão do s e lf que lhe
p erm ita te r vida própria e vir a se r alguém , autônom o e autêntico.
O sentim ento de identidade se processa em vários p lanos - sexual, social,
profissional, etc. — e se form a a p a rtir das identificações. Em relação à e s tru tu ­
ração das identificações e da form ação d as diversas form as de identidade, os
seg u intes fatores devem se r levados em conta:

a) Os valores socioculturais, com a s su a s norm as, hábitos, leis e preconceitos.


b) As pessoas que, em se u jeito de ser, são tom ados como modelos de
identificação (no início, os pais e dem ais fam iliares; m ais tarde, os
professores, colegas, etc.).
c) O discurso dos pais, que veiculam “enunciad o s identificatórios", ou
seja, im pregnam a cria n ça de rótulos (“este m enino é u m a peste, um
preguiçoso...”) e de predições (“este m enino, q u ando crescer, será um
médico famoso” ou “um vagabundo", etc.). A im p u tação destes rótulos,
e predições podem d eterm in a r qye a criança identifique-se com a iden­
tidade que lhe é im posta, sendo que a conseqüência m ais com um é a
de que a co n d u ta d a cria n ça irá confirm ar o “aviso” dos pais e, assim ,
form ando-se um círculo vicioso que pode adq u irir u m a n atu re za maligna.
d) As identificações que estão previam ente p resen tes no m undo interior
de cada um dos p ais d a criança, com os respectivos conflitos, valores,
expectativas e proibições, sendo que, como todos sabem os, tudo isso
tende a ser reproduzido nos filhos.
e) A form a como o pai e s tá representado dentro da m ãe (e vice-versa) e,
portanto, de como a s u a figura será tran sm itid a ao filho, e assim intro-
je ta d a por este. Tal rep resen tação tem especial im portância n a deter­
m inação da identidade de gênero e a profissional.
f) Os significados que os educadores conferem aos fatos, atos, sentim en­
tos e palavras que co n stitu em as experiências d a vida cotidiana d a
criança. Por exemplo: u m a m ãe fobígena em p re sta rá u m significado de
22 I David E. Zimerman

perigo-pânico, a qualquer acontecim ento n atu ral da vida de cada um


(um a tem pestade, um a doença, etc.)
g) Os papéis que devem se desem penhados no. contexto familiar e social,
sendo adjudicados pelos pais aos filhos.

O senso de identidade, como j á ressaltam os, não se constitui como um bloco


monolítico; pelo contrário, um indivíduo pode e sta r identificado, total ou parcial­
m ente, com várias figuras diferentes, sendo que, em relação a cada um a delas,
pode e sta r havendo um a identificação com aspectos contraditórios de u m a m es­
m a pessoa. Assim, por exemplo, um indivíduo pode estar identificado, ao mesmo
tempo, com o lado tirânico e com o lado bondoso de um mesmo pai e assim por
diante, em u m a complexa rede de com binações. Assim, a identidade de um indi­
víduo tan to pode ser estável como instável, harm ônica ou desarm ônica, autêntica
ou falsa, de natu reza narcisista ou social-ista, etc.
Em term os grupais, é útil registrar pelo m enos dois tipos de formação do
senso de identidade. Um se refere ao tipo de identidade que é erigida em tom o do
que conhecem os como um “falso s e lf, ou seja, o indivíduo adquire um a p ersona­
lidade cam aleônica, procurando ostentar u m a conduta e valores que lhe g ara n ­
tam a aprovação e a adm iração dos dem ais, nem que p ara tanto apele para algum
tipo de im postura. Um segundo tipo de identidade a ser destacado é o de natureza
fortem ente narcisista. Neste caso, o indivíduo se com portará em grupos sociais de
u m a forma que lhe garanta, a qualquer custo, a m anutenção de su a auto-estim a,
a qual é forte unicam ente n a aparência, porquanto ela é frágil n a essência. O
paciente portador de um a identidade n arcisística utilizará as pessoas dos grupos,
com quem convive, de um a form a a envolver aqueles que se prestam a lhe devotar
u m a adm iração e um a sujeição incondicionais. Sabem os que os indivíduos predo­
m inantem ente narcisistas, em su a desesperada lu ta para que a su a auto-estim a
não despenque, necessitam : a) Eleger aígum atributo que funcione como um
fetiche representativo de um grande valor (beleza, poder, prestígio, riqueza), b) A
este atributo, o narcisista em presta um a escala de valorização binária, ou seja, ou
ele é o m elhor ou é o pior, etc. c) Da m esm a forma, a identidade narcisística se
caracteriza pelo fato de que a parte costum a se r significada como se fosse o todo.
Assim, diante da evidência de u m a parte do corpo considerada feia (nariz, excesso
de peso, etc.), a identidade desse indivíduo pode tom ar um a configuração baseada
em u m a convicção de que ele é totalm ente horroroso. Resulta daí que, com facili­
dade, o seu sentim ento de identidade se tran sm u d a para o de u m a intensa des­
valia, possivelm ente acom panhado de um quadro clínico depressivo.
As m últiplas e variadas vicissitudes que acom panham o desenvolvimento
dos indivíduos determ inam u m a m aior ou m enor patologia da estruturação carac-
terológica, assim como a formação de detenções evolutivas, de pontos parciais de
fixação p ara fu tu ras regressões, de inibições, sintom as, estereótipos e os mais
Gnipoterapias / 23

diversos q u ad ro s clínicos que se form am a p artir do tipo e g rau de an sied ad es e


dos m ecanism os de defesa que o ego la n ça mão p ara co n tra-arrestá-las.
O C apítulo 3 objetiva, ju sta m e n te , su m a ria r como ta is e s tru tu ra s se m an i­
festam n a clínica.

Orientação Bibliográfica

1. BLEICHMAR, N. e BLEICHMAR, C. L. A Psicanálise depois de Freud — Artes Médicas. 1992.


2. BION, W. R. Volviendo a Pensar. 1985.
3. FREUD, S. Obras Completas. Ed. Standard Brasileira. 1982.
4. LAPLANCHE, J. e PONTALIS, J. B. Vocabulário da Psicanálise. 1970.
0 GRUPO FAMILIAR

A conceituação de “grupo familiar" vai muito além de um sim ples som ató­
rio de pessoas, com características próprias de cada um separadam ente. A família
se constitui em um campo dinâmico, no qual agem tanto os fatores conscientes
como os inconscientes, sendo que a criança, desde o nascim ento, náo ap en as
sofre passivam ente a influência dos outros, como, reciprocam ente, é tam bém um
poderoso agente ativo de modificação nos demais e n a estru tu ra da totalidade familiar.
Em relação aos fatores acim a referidos, que participam d a dinâm ica do
grupo fam iliar e que definem a estru tu ração psíquica da criança, os seguintes
devem ser considerados:

a) As características pessoais da m ãe, do pai, e, especialm ente, da q u ali­


dade da relação entre am bos, sendo que é muito relevante a imagem e
a valoração que cada u m deles tem em relação ao outro.
Esta família nuclear (mãe-pai-filho) se completa com a presença
participativa e interativa de avós, irmãos, tios, eventualm ente as em pre­
gadas, etc.
b) É útil fazer um a distinção conceituai entre as expressões “familia” e
“Família". A prim eira designa o clássico grupo familiar como o que foi
referido no item acim a. O conceito de Família (com F maiúsculo) tem
um a extensão m ais am pla: abrange todo um sistem a de valores que
cada um dos pais dçye cu ltu ar e p assar adiante, um sobrenome a zelar
que, m uitas vezes, carrega o peso de u m a tradição de m uitas gerações,
e u m a intem alizaçâo de objetos, relações objetais, acom panhada dos
respectivos conflitos, e que podem se constituir como a m arca reg istra­
da de um a Família, tal é a su a especificidade caracterológica. (Essa
Gnipoterapias I 25

distinção com um ente pode ser observada em brigas de determ inados


casais, em que a acusação m ais freqüente é n a b ase de "... a tu a Família
é que é louca; são todos grudados uns nos o u tro s”, etc. etc.)
c) C ada um dos genitores da criança m antém a intem alização de su a s
respectivas famílias originais, com os correspondentes valores, estereó­
tipos e conflitos. Há um a forte tendência no sentido de que os conflitos
não resolvidos pelos pais da criança, com os se u s respectivos pais origi­
nais, interiorizados (como, por exemplo, os conflitos edipicos de cada
um deles) sejam reeditados n a s pessoas dos filhos. Isso se processa
através de um a troca de papéis, que se efetiva por meio de um in co n s­
ciente jogo de reprojeções.
d) Não são som ente os conflitos neuróticos (ou psicóticos, psicopáticos,
perversos ...) das gerações precedentes da Família que se reeditam nos
próprios pais, e dentre eles, e, daí, para os filhos. Tam bém h á a tra n s ­
m issão de valores e de significados, tanto os de n atu re za pulsional (por
exemplo: o estímulo excessivo ou o bloqueio d a sexualidade ou da agres­
são), como os egóicos (identificação com certos atrib u to s e capacidades,
por exemplo); os provindos do superego (m andam entos e proibições) e
do ideal do ego (ambições e expectativas).
e) Assim, o grupo familiar vai se unindo através da interiorização recíproca
d as intem alizações prévias de cada um , de tal m an eira que a família,
além de su a condição real e concreta, tam bém se configura como sendo
u m a entidade abstrata.
E ssa abstração “família" pode con stitu ir p ara a crian ça um a e s­
tru tu ra intem a mais im portante do que, sep arad am en te, a m ãe ou o
pai, sendo que, ao mesmo tempo, ela se com porta como um continente
e como um vínculo entre os se u s membros. Creio ser válida a denom i­
nação de “objeto família”, o qual, como q u alquer outro objeto, e s tá
sujeito a sucessivas introjeções e reprojeções.
É comum que cada membro exerça u m a exigência p ara que os
outros conservem um a m esm a imagem da família, e isso d á origem ao
fato de que a Identidade de cada pessoa se apóia n a fam ília com partida
que os outros têm em si. Assim, faz m uita diferença n a evolução psíqui­
ca de um indivíduo, se a su a família com partida o orgulha ou envergo­
nha, se tem um a tradição a cum prir, ou não, e assim por diante.
f) O grupo familiar nun ca é estático, antes, ele com porta-se como um
cam po grupai dinâmico, onde circulam em todos os níveis, u m a rede de
necessidades, desejos, relações objetais, ansiedades, m ecanism os d e­
fensivos, m al-entendidos, afetos contraditórios, etc., sendo necessário
d estacar dois aspectos essenciais: a estru tu ra çã o d as identificações e a
definição de papéis a serem desem penhados dentro d a família, e fora
dela. A com binação estru tu ra n te das identificações e d a assu n ção de
-V’:

26 I David E. Zimerman

papéis concorrem p a ra a formação d a identidade, tanto a individual,


como a social.

PAPEIS DA MAE

Devido à razão de que e s tru tu ra de um grupo terapêutico lembra m uito a de


um grupo familiar, sendo que a relação do terap eu ta com os seu s pacientes,
especialm ente com os m ais regressivos, guarda m uita sem elhança com o de u m a
Interação mãe-filhos, im põe-se a necessidade de nos alongarmos em relação aos
ptinclpais atributos que caracterizam um a ad equada m atem agem fW innicott de-
nnmina como “suficientem ente boa" a quela mãe q u e n ão frustra.nem gratifica de
h li ni.i excessiva) que possibilite um sadio crescim ento do se lf da criança. '
Assim, um a m ãe suficientem ente boa, através de su as aptidões, fisicas e
m enials, deve preencher as seguintes funções:

a) Provedora d as necessidade básicas (de sobrevivência fisica e psíquica:


alimentos, agasalhos, am or, contato físico, etc).
*’) 1'ropicia um “senso de continuidade” ao filho (contra-arresta as an sie­
dades de não-integração do b eb eT ãõ m esm o 'tem p o lhe confere a certe­
za de que ele “continua a existir”).
<) Saber estar au sen te (e. com isso, promover um a necessária desilusão
progressiva)
Tolerar a — indispensável — am bivalência de seu filho em relação a ela
(e assim propiciar as tão im portantes experiências de separação).
r) Ser Continente (das an g ú stia s da criança).
I) ílm patla (um a forma de com unicação primitiva, baseada em um a sin to ­
nia afetiva entre a m ãe o bebê).
e.l lYira-excitacäo.fa exemplo de um pára-raios, a mãe não deve increm en-
í ã r a s excitações, eróticas por exemplo, de seu filho, pelo contrário, ela
.r. deve m anter em um nível compatível com o estado evolutivo do ego
da criança).
li) lv.lahilidadei (a m ãe deve sobreviver aos ataques destrutivos e às d e­
m andas vorazes do filho, sem um revide retaliador e, muito menos, sem
sucum bir a um estado de exaustão e de depressão).
I) Importância da palavra da m ãe (ela dá nom es e significados aos sen ti­
mentos, de toda o r ^ m T q ü e ainda são desconhecidos pela criança e
que, por isso mesmo, são m uito atemorizantes).
II “Em prestar" as s u a s funções de ego (a capacidade de perceber e de
pensar, por exemplo, enquanto as de seu filho ainda não estão d esen ­
volvidas).
I') O u'anizar um código de valores e de significações (éticos, morais, esté­
ticos e ideológicos).
Grupoterapias I 2 7

1) Facilitar u m a len ta e gradual dessimbiotização (e, assim , ab rir um c a ­


m inho p ara a e n tra d a em cena de~um pai, respeitado e valorizado. A
p a rtir daí, a m ãe e s ta rá promovendo a seu filho a passagem de um
estado de narcisism o p ara o de um social-ismo).
m) Servir como um im portantíssim o modelo.de identificação.
n) ^D eterm inar as inevitáveis frustrações (tão necessárias p ara um bom
desenvolvim ento do psiquism o dâ criança). Sabem os todos que são as
ad eq u ad as frustrações que promovem a vigência do princípio d a reali­
dade, com a indispensável colocação de limites e o reconhecim ento de
lim itações. Da m esm a forma, as frustrações promovem um estím ulo às
funções do ego, especialm ente a formação da capacidade de pensar.

0 bom ou o m au uso das atribuições da mãe, associado às condições in atas


da criança, como, po r exemplo, o seu lim iar de tolerância às frustrações, é que irá
determ inar se o crescim ento da criança será sadio ou patológico.
Assim, o estudo da patologia da m atem agem mereceria um capítulo à parte,
ta n tas são a s m odalidades de como pode ficar pervertido o vínculo mãe-filho. Os
casos m ais frequentes são aqueles em que a mãe toma a criança como sendo u m a
extensão su a , tanto de n atu re za sexual como narcisistica. No primeiro caso, ela
irá propiciar u m a precoce e excessiva estim ulação erótica, enqu an to que, no
segundo, a m ãe depositará no seu filho as exageradas expectativas narcisistas
dela própria, tentando realizar-se através desse filho. Outro tipo de patologia,
n ad a ínfreqüente, é quando a m ãe procura prolongar indefinidam ente um a liga­
ção in tensam ente sim biotizada com a criança, sendo que isto é m ais com um em
m ães que padecem de u m a fobia às separações.

PAPEL DO PAI

Em relação ao papel do pai, a prim eira consideração que deve se r feita é a


de que a m aioria d as atribuições da m ãe são partilhadas pelo pai m oderno desde
o nascim ento do filho, sendo igualm ente im portante a segurança e a estabilidade
que ele dá, ou não, à m ãe. No entanto, a ênfase a ser d ad a ao papel do pai incide
no fato de que a s u a p resença — física e afetiva — é de fundam ental im portância
no processo de separação-individuação referente à díade mãe-filho. Em o u tras
palavras, é o pai que, no papel de terceiro, interpondo-se como u m a cu n h a nor­
m ativa e delim itadora entre a m ãe e o bebê, irá propiciar a necessária passagem
de Narciso p ara Édipo.
Um pai excessivam ente ausente, ou déspota, ou desvalorizado (neste caso,
em grande núm ero de vezes, isso ocorre devido ao discurso denegridor da mãe)
im pedirá que a criancinha se volte para ele e o inclua no campo afetivo triangular.
Uma decorrência direta d a qualidade desta triangulação edípica é a im portância
do pai como figura de identificação sexual, tanto para o m enino, como p ara m enina.
28 I David E. Zimerman

As fan tasias inconscientes que se form am em tom o d a cena prim ária, e que
vèm a desem penhar u m a decisiva im portância n a tào im portante resolução do
complexo edípico, dependem diretam ente do com portam ento dos pais e de como
cada um desses, por su a vez, resolveu em si próprio os m esm os conflitos. Uma
vez u ltra p a ssa d a a ligação sim biótica com a m ãe (devido à necessária presença
eastrató ria do pai), e resolvido o conflito edípico, a criança, m ais asseg u rad a em
su a identidade, pode ren u n c iar à m ãe como seu interesse exclusivo, e abrir-se
para u m a socialização com o pai, irm ãos e am izades.

SRMÃOS

A literatu ra especializada nem sem pre costu m a valorizar a influência recí­


proca entre os irm ãos. No entanto, ela é de capital im portância n a estru tu ração
dos indivíduos e do grupo familiar.
Pode-se dizer que os irm ãos funcionam como objetos de um duplo investi­
mento: o primeiro é o que diz respeito às conhecidas reações afetivas do am or e
.imlzaclc, m escladas com sentim entos de inveja, ciúm es, rivalidade, etc. O seg u n ­
do Investimento consiste em um — defensivo — deslocam ento nos irmãos de
pul1,och libidinosas que prim ariam ente seriam dirigidas aos seu s pais. Assim, é
comum observar situações em que os irm ãos criam cam ufladas brincadeiras eró-
l’rii.r. en tre si; ou quando um irmão to m a -se um zeloso e encium ado guardião
ilir, nam oros de su a irmã m ais velha; ou quando ad o ta um a p o stu ra m aternal em
i i I.m .í o ,i um irm ão (ou irmã) m ais moça; ou n a situação ein que se m anifesta

iiiiM ac en tu ad a regressão a níveis d as necessidades que estão sendo gratificadas


I» l.i ui,ic para um irmãozinho caçula, ou doente, e assim por diante.
Por outro lado, não é raro observar que a um irmão é dado su b stitu ir um
oiilm , j.i falecido (ou abortado), de quem deve h erd a r tudo o que os pais espera-
v.tm daquele, como, por exemplo, nom e, gênero sexual, expectativas, etc. Da
in« .iii.i forma, pode-se observar o fato de que um , dentre os irm ãos, desem penhe
{uniu .1 um outro, o papel de um “duplo”, assim com plem entando para este irmão
I vice versa — tudo o que este não consegue fazer ou ter, como é o caso da
illli icnça dos sexos, por exemplo. Por vezes, e s sa condição de duplo adquire tal
In lm sk lad e que am bos não conseguem se separar, e se envolvem em u m a típica
fui Ir a deux, sendo que a ru p tu ra d essa ligação sim biótica, especialm ente na
oilolficcneia, pode trazer conseqüências graves p a ra um dos dois.
Uma o u tra situação bastarffe com um é a en co n trad a nos indivíduos que se
Hiljtil.mi ou se deprim em diante de se u s su cesso s n a vida adulta, nos casos em
1111r r ir ; leiiham irmãos m alsucedidos, o que se deve às culpas inconscientes por
11"i n u concretizado o triunfo de u m a velha rivalidade, n a qual provavelmente
Im lia prevalecido a inveja e o ódio.
Hftu m uitos os mitos bíblicos que se referem diretam ente aos conflitos entre
lltnflos - - como, por exemplo, entre outros, os de Caim e Abel, de E saú e Jacob,
Grupoterapias I 29

e de Jo sé e se u s irm ãos — sendo que todos eles se constituem em um rico


m anancial p a ra o entendim ento da im portância d a patologia en tre irm ãos, dentro
de um contexto de grupo familiar.

ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

1. JEAMMET, P. e outros. Manual de Psicologia Médica. 1989.


2. MAHLER, M. e outros. O nascimento psicológico da criança. 1975.
3. MELLO FILHO, J. O S e re o Viver. Uma visão da obra de Winnicott. 1989.
4. WINNICOTT, D. Da Pediatria à Psicanálise. 1978.
. jj ,• V--

UMA REVISAI SOBRE


AS PRINCIPAIS SÍNDROMES CLÍNICAS

A s estruturas caracterológicas, as inibições e os sintom as que configuram


siiidrumes clínicas resultam de um jogo dialético entre as relações objetais, as
■ur.ledadcs e. para contra-arrestá-las. o tipo de m ecanismos de defesa que sâo
ntlTl/aiins pelo ego. Pode-se dizer que fazer um diagnóstico clínico implica em
Ia/l i uma análise sintática de como se articulam entre si as diferentes partes e
uiveis das várias subestruturas psíquicas, sendo que, de inicio, é necessário
I -i it" ■!(■rer uma distinção entre sintoma, inibição e caráter.
(Jiiaiido falamosiem sintoma, estam os nos referindo a um estado de sofri-
III' Min i|ih- o paciente acusa, e do qual está querendo se ver livre, porquanto ele o
••ente I Olim mil corpo estranho a s iJ
<) lei ino(cflráterdesigna um estado, organizado, da mente e da conduta oue.
I»'i m.us '.ofrimentos que possa estar causando a‘os outros, on de prejnizn.s para
■•I iiii-auo. é vivido pelo próprio indivíduo, como sendo sinfônico com a sua pessoa:
j»>i lauto, M‘m sofrimento 1 ■
A iiiibicão é um estado que tanto pode ser a preliminar de um sintoma que
e .i.i • (iii’aiiizando como pode já estar constituído como um permanente traco
<]e eiinitcr. | • "
Uma das tarefas mais importantes de um terapeuta, quando o objetivo do
liat.mieiito visa à obtenção de m udanças caracterológicas. consiste em transfor­
mai a maneira de como o pacieptes sente o que se passa consigo, ou seja, a de
que um 11 aço caracterológico igossintônico, passe a ser sentido de um a forma
r/'oili',tunica. Exemplificando: um paciente diz que não participa de grupos sociais
.iui|ile.Miucnte porque “não gosta de estar com gente". Enquanto ele persistir com
I I i.u lonalizaçáo, trata-se de um traço de caráter, apesar de visível aos outros,
que e uma forma de inibição. Se o terapeuta conseguir fazê-lo sentir angústia
" M.\ ■
■• - • - -••• :

Gnipoterapias / 31

diante do fato de que o "não g ostar” de gente está, n a verdade, encobrindo um


“medo” de estar com gente, houve a conversão p ara a vivência de um sintom a, no
caso, fóbico, sendo que esse insight pode abrir cam inho p ara u m a verdadeira
m udança.
0 esquem a nosológico que aqui será utilizado não tem o com prom isso de
seguir o rigor cientifico do DSM e, m uito m enos, a preten são de se r completo. É
um esquem a altam ente sim plificador e visa tão-som ente estabelecer com o leitor
u m a com unicação conceituai que m a n ten h a um a uniform idade sem ântica.
Dessa forma, os distúrbios caracterológicos e as doenças m entais podem ser
classificados em quatro grandes grupos: Neuroses, Psicoses, D istúrbios de Con­
d u ta e Doenças Psicossom áticas.
As considerações que seguem , pretendem a p re sen ta r um ap an h ad o geral e
sintético de cada um a das quatro espécies acim a classificadas, com as respectivas
subclassificações, e s u a s respectivas características principais, sem pre tendo em
vista o fato de que p ara se ter um a boa com preensão do que se p assa no nível
grupal, é indispensável o conhecim ento do psiquism o dos indivíduos.

A>
I. NEUROSES
VyjSV " '
ò - Os pacientes portadores de e stru tu ra s .neuróticas se caracterizam pelo fato
de apresentarem algum grau de sofrim ento e de desadaptação em alguma (ÕiT
m ais de uma) área im portante de su a vida: a sexual, familiar,, profissional ou
social. No entanto, ap esar que o sofrimento e prejuízo, em alguns casos, possa
alcançar um nível de gravidade, os indivíduos neuróticos sem pre conservam u m a
razoável integração do self, e unia boã~cãpacidade de juízo critico e de adaptação
areaÏÏdadfi. O utra característica dos estados neuróticos é a de q u e ios m ecanis-'
ÆP-S-defensivos utilizados não sào tão primitivos como, por exemplo, aqueles ..
presentes n o se sta d o s psicóticos. ,
Pode-se discrim inar cinco tipos de e s tru tu ra s neuróticas: de Angústia, His­
teria, Obsessivo-compulsiva, Fobia e Depressão.

1 fN eurÕ sFde A n g ú stia )Trata-se de u m a síndrom e clínica que se m anifesta


através de um a angústia livre, quer sob a forma de um estado perm anente, ou
pelo surgim ento em m om entos de crise. Em o u tras palavras, a ansiedade do
paciente se expressa por equivalentes som áticos (como u m a opressão pré-cordial,
taquicardia, dispnéia, etc.l e por um a indefinida e an g u stian te sensação de medo
de que possa vir a morrer, enlouquecer, ou da im inência de algum a tragédia.
Na maioria das vezes, tais sintom as indicam que está havendo u m a falha do
mecanismo de repressão, diante de um — traum ático — excesso de estímulos,
externos e /o u internos. Nos quadros clínicos em que prevalece u m a recorrência
de episódios de crises de angústia, é necessário que se levante a hipótese que
esteja se tratando da síndrom e conhecida como “doença do pânico", a qual cos-
32 l-David E. Zimennan

Imna responder muito bem a u m a medicação específica, que pode ser utilizada
'.im ultaneam ente com a continuidade d a psicoterapia.

2.(Neurose de Histeria^ De início, é preciso consignar oue o termo “h isteria"


ID .liim a abarcar um largo espectro de conceitualização. que vai desde um pólo de
um a sim ples indicação de alguns traços caracterológicos, derivados de um a baixa
tiili ia ncia à s frustrações, (e que, portanto lem bram o com portam ento de u m a
« I i.niciiilia), até o outro pólo de u m a grave sindrom e própria de um estado psicótico.
Km term os clínicos, costum a-se dividir as n eu ro ses histéricas em dois tipos:
.r. ilissociativas (por exemplo sonam bulism o, personalidade m últipla, escrita au-
lomútlca, estados de “tran se”, crepusculares, ou de belle indiference, etc.) e as
■nmvf.sfuas (os conflitos se convertem em m anifestações corporais, através dos
ni I1.» is dos sentidos — como no caso da cegueira, ou su rd ez histérica — e através
do sistem a nervoso da vida voluntária, como ocorre nos conhecidos casos de
|M ir,t(\sias ou de paralisia histérica, etc.)
A estruturação histérica, em linhas gerais, se fu ndam enta n as seguintes
I aiiieicrísticas:
a) Um caráter histérico, devido à s u a grande plasticidade de m anifestação
c (lUicil de ser descrito: porém é fácil de se r reconhecido. Fu ndam enta-
se cm um tipo de com portam ento que, conform e foi dito, lem bra o de
I l i na criança insegura e cheia de caprichos coabitando em um corpo adult
I>) M uilas vezes ele se organiza contra um possível surgim ento de um a
temida depressão ou erupção psicótica, que esteja subjacente. Assim, a
e str u tura histérica se constitui como u m com binado de negação (de
verdades intoleráveis), de u m lim iar m uito baixo às frustrações e de
um a sensação de catástrofelm inente.
i| Cüiimmente. o m ecanism o de defesa predom inante é o da Repressão
que s e institui contra o reconhecim ento d as fan tasias edipicas. Pode-se
dizei que a sexualidade do histérico é de natureza oral (pré-genitall
enquanto a sua oralidade costum a adquirir u m a forma sexualizada.
d) ( ) fato acim a se deve à razão de que a histeria se e s tru tu ra em tom o de
lima combinação, e u m a certa confusão, entre u m a perm anente busca
"pelo seio da mãe" e a do “pênis do pai".
r) A fim de negar a verdade psíquica intolerável ou proibida, a pessoa
h istérica costum a u sa r o s.recu rso s de sedução (para conseguir esse
selo ou pênis) e o de jfersuasão .(para provar a s u a tese). Da m esm a
forma, a regra é que èla faça um a “identificação histérica", com algum
objeto do plano imaginário.
I) V irtualmente sem pre detectam os no neurótico histérico a influência
exercida por u m a mãe histerogênica. a qual, n a educação da crianca.
exacerbou os sentim entos de dependência, avidez, inconstância e um a
[Ireferência pelo m undo da ilusão. Q uando é o caso de m ulher histérica,
Gnipoterapias I $3

o h ab itu al é que ten h a havido a presença de um pai se d u to r oue valori­


zou íe hiperexcitou) a sexualidade da m enina.
g) Além do ganho prim ário (m anter a repressão dos desejos proibidos), a
n eurose histérica possibilita a obtenção de um ganho secu n d ário , isto
é, a própria doença se cons titui como um a forma de m a n ip u la r o meio
circundante no sentido de ser gratificada (e premiada) com a obtenção
de ganhos^vantagens,. além de dem onstrações de atenção e preo cu p a­
ção dos demais, i
h) No curso do tratam ento psicoterápico, o discurso do pacien te histérico
tem u m a característica tipica: ele em prega term os superlativos e é rara
a sessão em que não conte, freqüentem ente sob u m a fforma d ram á tic a.
o “dram a do dia", no qual esse paciente sem pre aparece rom o tpnrln
sido vitima da incom preensão e da injustiça por parte dos outros, t
i) No vinculo com o terapeuta, é com um que o neurótico histérico ap re­
sente os seguintes aspectos: recorre à b u sca de u m a idealização recí­
proca p ara provar a su a perfeição (logo, confirma que ele é vitima da
m aldade dos outros): ouer convencer o te ra p eu ta a a b a n d o n a r a su a
técnica de neutralidade (m uitas vezes o acu sa de se r um “covarde");
projeta no terapeuta os seu s aspectos narcisicos e histéricos e fica com
a convicção de estar vivendo u m a situação de u m “grande am or" com
aquele; m antém um a dissociacào de su a s p artes doentes, fazendo o
te ra p eu ta crer oue ele está sadio. Por todas essas razões, é evidente que
o a s pecto contratransferencial adquire u m a im portância fu n d am en tal
no tratam ento da neurose histérica.

3.[Neurose Fóbicaj D am esm a forma que n as histerias, tam bém a e s tru tu ­


ração fóbica íe. de resto, as dem ais formas de neuroses) se m an ifesta desde a
form a de discretos traços de caráter (através de diversos tipos de inibições) até os
d e u m ã d o e n ç a grave e totalm ente incapacitante. ■
As características m ais m arcantes sào as seguintes: --

a) No mínimo, um dos pais, geralm ente a m ãe, de algum a form a sào, ou


foram, fóbicos, e transm itiram um discurso de n atu re za fobígena (na
base de: “cuidado, é perigoso”).
b) Praticam ente sem pre constatam os que ocorreu um a in te n sa relação
sim biótica com a m ãe, com gxjdente prejuízo n a resolução d as etap as
da fase evolutiva da separação-individuaçào. Na prática clínica, é fácil
observar a persistência desse vínculo simbiótico com a m ã e , q uer esta
seja a real ou a que está internalizada. Correlato a isso, a figura do pai
quase sem pre foi (comumente, a p artir da mâe) desvalorizada e excluída.
c) A nsiedade que está presente é a que está ligada às separações e, su b ja­
cente a esta, h á a tensão inerente à ansiedade de aniquilam ento.
3 4 I David E. Zimerman

d) Na clinica.jos estados fóbicos geralm ente vêm acom panhados de m ani­


festações paranoides e obsessivas e sem pre estão encobrindo um a de­
pressão subiacente.i
e) T anto ou m ais do que a sexualidade, sem pre encontram os u m a m á
elaboração das pulsões agressivas.
f) Há um a acentuada tendência a manifestações de natureza psicossomática.
g) Basicam ente o que define um a condição TóBlcã é o uso, por p arte do
paciente, de um a “técnica de evitação" de todas as situações que lh e
pareçam perigosas. E ssa sensação de perigo decorre do fato de que a
situação exterior fobígena (por exemplo, um elevador, um avião, etc.)
está sendo o cenário onde estão dissociados, projetados, deslocados e
simbolizados as pulsões e os afetos internos, representados no ego co­
mo perigosos.
h) Por saber d a irracionalidade de seu s sintom as, o indivíduo fóbico d esen ­
volve um a “técnica de dissim ulação", por vezes até o nível de um falso
self, tal é o grau de su a culpa, vergonha e hum ilhação diante de seu s
temores ilógicos^Muita s o u tras vezes, a fobia não aparece m anifesta­
m ente, e ela so m en te^o ciF sêr detectada através de seu oposto, isto é .
de sujjLconduta contrafóbiea.)
i) O utra característica m arcante consiste n a "regulação da distánqia afe­
tiva" com as pessoas m uito significativas de seu convívio mais' íntimo:
^a_ssim, ele não fica nem próximo dem ais p ara não correr o risco de vir a
srr "engolfado" e nem tão longe que possa correr o risco de perder o
vinculo e o controle sobre o outro.!
)) I lá, sem pre, u m a escolha de pessoas que se prestem ao papel de acom ­
panh an tes e de continuadores da fobia. E ssa é a razão pelajjual deter­
m inadas características fóbicas, em certas famílias, se perpetuam d u ­
rante gerações. É útil assin alar que a [grande “união" oue muito casais
c famílias se vangloriam de possuir (“estam os sempre juntos, n u n ca nos
separam os para qualquer circunstância, etc") m uitas vezes pode estar
expressando um a m odalidade fóbica. na oual predomina a técnica de
controle m útuo. I
k) Na prática psicoterápica costum a ocorrer que os pacientes fóbicos, co­
mo um a forma de regular a distância com o seu terapeuta, faltem a
m uitas sessões, ou apresentem outros tipos de resistêne ia s ^ e n d o que
não é rara a possibilidade de que façam u m tratam ento “descontinua­
do", ou seja, com u m a alternância de m uitas interrupções e o u tras
ta n tas retom adas, quase sem pre com o mesmo terapeuta.

4.)Neurõse Obsessivo-Com pulsiva] Como sabemos, o termo “obsessáo”_re:


* Ici I- sc aos pensam entos oue. como corpos estranhos, atorm entam o indivíduo e.
lim su a vez, o term o “com pulsão" designa aos atos motores que n neurótico
*
■xi-ciita como u m a forma de co n tra-arrestar a pressão dos referidos pensam entos.
*
Grupoterapias 1 35

As segu in tes p articu larid ad es m erecem ser enfatizadas:

a) A m anifestação caracterológica m ais típica dos indivíduos obsessivo-


com pulsivos consiste em u m a |dem asiada preocupação com a ordem ,
lim peza, disciplina, além de o u tra s de n atu re za afim. Em sum a, o ego
d e ssa p esso a não é livre, porquanto ele está subm etido a u m superego
rígido e punitivo que, sob o peso de sérias am eaças, o obriga a cum prir
determ in ad o s m an d am en to s nn.prQihiçnesJ
b) Os m ecanism os defensivos m ais utilizados pelo effi p ara poder sobrevi­
ver à carga d a s am eaças são os de an u lação (desfazer o que foi feito,
sentido, ou pensado), de isolam ento (isolar o afeto d a idéia), de raciona­
lização e intelectualizacâo, além daqueles de formações reativas. Assim,
a p rese n ça com pulsória e recorrente de certos pensam entos obsessivos
visam ju sta m e n te a n u la r outros que estão significados como proibidos.
c) Pode-se dizer que há dois tipos de estru tu ração obsessivo-com pnlsivo:
u m a se m anifesta sob u m a form a passiva (corresponde à fase anal
retenti va) e a o u tra form a é de natureza ativa (corresponde à fase anal
expulsiva). A prim eira é própria dos indivíduos que evidenciam um a
in te n sa su b m issão p erante as pessoas que são subm etedoras'e contro­
ladoras, sendo que estas pertencem ao segundo grupo.
d) Os obsessivos do' tipo “p ass ivo-submetidos"_apresentam u m a necessi-
jia rie enorm e em ag rad ar fm elhor seria dizer: não desagradar) & todas a s
pessoas, devido à s u a in te n sa ansiedade em vir a perder o am or destas.
Por e s s a razão, u m traço patognom ônico de tais indivíduos é o de um a
am bivalência co n stan te e o de um tortu ran te estado de dúvida diante
d a tom ada de qu alq u er tipo de decisáoJ
e) Õ s indivíduos obsessivos de natureza “ativo-subm etedoras” podem ser
reconhecidos com o aqueles que fazem do uso do poder o valor m ais
im p o rtan te de s u a s vidas. P ara tanto, eles exercem sobre os dem ais um
dom inio tirânico e sádico, a tra vés de u m a absoluta intolerância às even­
tu a is falh a s, lim itações e erros dos outros, aos quais sem pre impõem as
s u a s verdades.
f) Em am bos os tipos de neuróticos obsessivo-compulsivos, h á um a per­
m an en te p resen ça de pulsões agressivas malresolvidas. de um superego
rígido e, m u itas vezes, ern ri ante a desobediência de su a s determ ina ­
ç õ e s ;_e de um ideal do ego cheio de expectativas a serem cu m p rid as. É
fácil concluir que tudo isso concorre para a vigência de u m constante e
fu s tig a n te sentim ento de cu lp a.
g) Os pontos de fixação, o curso do desenvolvimento d a personalidade,
estão predom inantem ente arraigados n a fase anal-sádica e. daí, se es­
tru tu ra m os traços, ou sintom as, de obstinação, teimosia, controle rígi­
do. escrupulosidade, am bição, m ania de colecionar, intolerância a s u ­
je ira s e a certos odores, conflito entre o d ar e o receber, etc.
3 6 1 David E. Zimerman

h) A escolha de su a s relações objetais costum a recair em pessoas que se


prestem a fazer a com plem entâçâo dos dois tipos an tes descritos, como
ê, por exemplo, o de u m a relação tipo dom inador x dominado.
i) Na situação psicoterápica, o risco é o de que o paciente obsessivo con­
siga fazer prevalecer o seu controle sobre si m esm o e sobre o te ra p eu ta.
através do uso de seu s h ab itu ais m ecanism os defensivos: o de um con­
trole onipotente, o deslocam ento (para detalhes, que se tom am enfado­
nhos), a anulação (com o em prego sistem ático do “é isto, m as tam bém
é aquilo, ou, não é n a d a disto .,.”); a formação reativa (sempre gentil,
educado e bem com portado, o paciente nâo deixa irrom per a su a agres­
são reprimida), o isolam ento (pelo uso da intelectualização, ou de um a
rum inação obsessiva, desprovida de emoções, etc.). É preciso levar em
conta que a força m ágica que o neurótico obsessivo em presta aos seus
pensam entos e áS‘s u a s palavras colabora p ara que o seu ego mobilize
as defesas acima.

5. [Neurõsê~D êprêssiva/As seguintes características necessitam ser bem


conhecidas: ^
a) As manifestações clínicas m ais com uns de um neurótico depressivo
consistem no fato de que, em um grau m aior ou menor, ele apresenta
u m estado de desvalia ,-de desâ n imo, um a sensação de vazio, um a fácil
a u to-recriminaçâo e um a form a de resignação pela obrigação de viver
ImTcíe sobreviver). Um sentim ento com um a todos os deprimidos é o de
um a baixa auto-estim a. Uma neurose depressiva pode se apresentar de
11mâlo rm a cronificada, ou sob a m odalidade de agudizações interm iteoi
tes. ITím põrtante que o te ra p e u ta ten h a bem claro o diagnóstico clínico
do quadro depressivo, especialm ente no que tange à possibilidade de
que a depressão po ssa e sta r sendo de n atu reza endógena, em cujo caso
o uso associado de um a m edicação antidepressiva é de comprovada
utilidade.
I >) M uitas vezes, o estado depressivo não se m anifesta claram ente no plano
afetivo, e nem m esm o por u m hum or de tristeza, sendo que os sintom as
típicos são substituídos e ficam m ascarados por outros equivalentes,
como, por exemplo, alguns ra sgos de fuga m aníaca, alguma forma de
adiccão. por som atizacõesT ^êm como por u m a conduta de natureza'
m asoquista, que pod#atingir u m nível de risco de~umã~ãutõdestmiçàõ.
c) Ä história genético-dinãm ica costum a evidenciar que a mãe desse p a ­
ciente deprimido tam bém foi u m a pessoa depressiva, que não conse­
guiu funcionar como um adequado continente que pudesse conter as
angústias e a agressão de seu filho. Da m esm a forma, n a história de um
paciente deprimido sem pre h á a vivência de im portantes perdas, reais,
ou fantasiadas.
_____________________________________________________ Grupoterapias / 37

d) A depressão pode se in stala r no indivíduo devido a um forte abalo n a r ­


cisista. isto é , jn a n d o ele não-preenche as expectativas H p sen egn ideal
(a im agem de perfeição que ele tem de si próprio) e as do ideal do ego (as
expectativas grandiosas que ele acred ita que os outros, rep resen tan tes
dos se u s pais, esperam dele)
e) O utro aspecto a considerar é que a p e sso a deprim ida p o ssa e sta r au fe­
rindo u m ganho secundário d essa s u a condição, a p artir de s u a crença
de que a dor, o sofrim ento e o seu infortúnio rep resen tam um passapor-,
te que lhe reassegure a atenção e o afeto dos outros.
f) No cu rso d a s psicoterapias, o paciente deprim ido rep rese n ta u m a co n s­
tan te fonte de preocupações para o te ra p eu ta , q uer pela carga ansiogê-
nica do afeto depressivo e nihilista, qu er pelos riscos m aso q u istas, e até
suicidas, que parecem sem pre im inentes. A ^ gnsaçáo co n tratran sferen -
cialj o d e se r o de u m a sensação de im potência, e daí o risco de que o
te ra p eu ta fique identificado c õ m a H é p re ssã o d e s e u paciente.

II. PSICOSES

O que define a situação psicótica de um indivídup_LúiaJxLd£.me^£m iü g u m


g rau d e Ju te n s id ade, ele está rompido com a realidade. -Este últim o aspecto tem
ü ”m tãô"largo espectro de possibilidades que ju stifica a utilização de um esquem a
simplificador, em três categorias: Condições Psicóticas; E stad o s Psicóticos e Psi­
coses propriam ente ditas.

.a) As condições psicóticas dizem respeito à p resen ça de in ten so s núcleos


psicóticos (corresponde ao que Bion denom ina de "parte psicótica da
personalidade”, a qual, em estado latente e em g rau moderado, faz parte
do m undo interno de qualquer pessoa) que estão su b jacen tes a certas
neuroses, como, por exemplo, as obsessivas, fóbicas ou h istéricas g ra ­
ves. Os indivíduos portadores d e ssa s condições psicóticas não eviden­
ciam com nitidez um a ru p tu ra com a realidade, no entanto, eles s ã o
potencialm ente vulneráveis a essa p ossibilidade, tendo em vista que
eles ap resen tam um egvado grau dejin s ie dade, que es tá contida pela
s u a organização defensivaadaptaüváT
b) Os estados psicóticos designam os pacien tes que, sem serem fran ca-
m entej xsicnticos. apresentam um relevan te nível de regressividade. E s­
te tipo de psicotism o aparece n a clínica nos estados-4>acderfíne_ em
personalidades dem asiadam ente paran o id es ou n arcisistas, e h r perver­
sões, psicopatias, drogadições, hipocondrias graves, etc. Do ponto de
vista psicanalítico, eles podem ser en q u a d rad o s como “pacientes difí­
ceis”, term o que e stá em voga.
38 / David E. Zimerman

W
c) As psicoses propriamente ditas indicam que o juizo critico e o senso de
realidade do indivíduo estão seriam ente prejudicados. E m Jin h a s m uito
gerais, estas psicoses com preendem três tipos: esquizofrenias, psicoses
afetivas (também conhecidas como “psicoses m aníaco-depressivas”) e
psicoses orgânicas.
d) As esquizofrenias, por s u a vez, tam bém apresentam um vasto elastério
de tipo, grau e n atu re za da doença. O termo "esquizofrenia" tan to pode
designar um a florida reação psicótica aguda (a qual, se bem m anejada,
pode ser de um excelente prognóstico, inclusive o de u m a plena recu p e­
ração e preservação da personalidade sadia), como pode indicar um
processo insidioso e sem sintom as ruidosos, m as que podem ser irrever­
síveis e de péssimo prognóstico.
e) As psicqsg§_afetivas, clinicam ente, podem ser unipolares (os su rto s p si­
cóticos são unicam ente de natureza depressiva ou maníaca) ou .bipola­
res (há um a alternância entre as d u as formas). A forma m aníaca (ou
hipom aníaca em que os sintom as nem sem pre são claram ente percebi­
dos pelos outros) se ap ó ian o clássico tripé: controle, triunfo e desprezo,
sendo que, além disso, h á um a in ten sa instabilidade afetiva e u m a
aceleração do pensam ento e da condutgTX Í o í ^ con-
T ra rió T m a n iIe st? i^ lentidão e um aplastam ento geral, sendo
que a auto-estim a cai a um grau zero^ o que representa um sério ris£ ú _
^de^ i a d l õ T A sljsicoses^íeH vas têm u m a nítida etiologia endógena ,d e
natu reza constitucional hereditária, e costum am responder bem a um
plano terapêutico que com bine os recursos da psicoterapia (a de grupo,
tem se mostrado ser excelente p ara estes pacientes), com os m odernos
psicofármacos, como os antidepressivos e os produtos com sais de lítio.
f) As psicoses orgânicas são aquelas que podem resu ltar de trau m atism os
cranianos, assim como de acidentes vasculares cerebrais, ou cüllõ é n -
ras_como a sífilis, ou as degenerativas do tipo arteriosclerose cereb ral,
~3oença de Alzeimer, senilidade, etc.

III. DISTÜRBIOS DE CONDUTA

Apesar da ressalva de que a denom inação “distúrbio de conduta” seja por


dem ais abrangente, podemos ^ubdividi-la em dois grandes subgrupos: as psico-
' e a s perversões.
Por psicopatias {também conhecidas como "sociopatias") designam os o dis-
. túrbTõ^êiqulctfqufrSe m anifesta no plano de u m a con d u ta anti-social. Os exem­
plos m ais com uns são os dos indivíduos que roubam e assaltam , m entem e
enganam (impostores), seduzem e corrompem , usam drogas e cometem delitos,
transgridem as leis sociais e envolvem outros, etc.
Gnipoterapias I 39

A estruturação psicopática se m anifesta através de três características b á ­


sicas: a impulsividade, a repetitividade e o u so prevalente de actings de n a tu re z a
maligna, acom panhados por um a aparente au sê n c ia de cu lp as pelo qu e fazem.
""ffigum traço de psicopatia é inerente à natu reza h u m a n a ; no en tan to , o que
define a doença psicopática é o fato de que as três características acim a enfatiza­
d as vão além de um uso eventual; antes, elas se tom am u m fim em si m esm as e,
além disso, são egossintônicas, m uitas vezès idealizadas pelo indivíduo, e são
acom panhadas por um a falta de consideração pelas pessoas que se to m a m alvos
e cúmplices do seu jogo psicopático.
j I As perversões, por s u a vez, s ão habjíualm ente-consideradas-com o o em pre-
' go de padrões de conduta sexual q ü e a s õc!edáde~vigente considera como desvios
da norm alidadelA lém dessas, que são as perversões sexuais, tam bém se con sid e­
ra como um a forma de perversão, em um sentido m ais amplo, q u alq u er “desvio”
da finalidade precípua de um a determ inada função. Em am bos os casos, a expli­
cação clássica é a de que haveria a predom inância ativa de algum a p ulsáo p arcial,
ju e lfc o u lo rte m e n te fixadãlTque não foi suficientem ente reprim ida. Hoie em dia,
não é possível conceber a e stru tu ra perversa como sendo u n icam en te a p e rsistê n ­
cia de um a pulsão parcial, m as, sim, que é necessário o entendim ento de como
está se processando nesse paciente a articulação dialética en tre as e s tru tu ra s
narcísica e a edípica.
As síndrom es clínicas m ais com uns da estru tu ração perversa referentes às
pulsões parciais erógenas são: hom ossexualism o, fetichismo, tra vestismo, voyeu-
risrno, exibicionismo, pedofilia. intensa prom iscuidade d onjuanesca ou ninfoma-
niaca, erotização sadom asoquístiça, etc.’ Péla su a alta incidência e por u m a íargá
^polemica ^ e p ro ro c a T n o ta d a m e n F e o hom ossexualism o (é doença ou é u m a
sim ples e respeitável inclinação do ercitismo?), a e stru tu ra perversa tem m erecido
um a atenção especial por parte dos estudiosos. É necessário fazer u m a distinção
entre os com ponentes parciais da sexualidade (fixações n a fase evolutiva co n h e­
cida como “disposição perverso-polimorfa”) de quando os m esm os são praticados
como recursos sadios, e prelim inares, de um a genitalidade ad u lta, ou quando
estão a serviço de um a perversão. Neste últim o caso, o uso d essa sexualidade
parcial é sem pre pré-genital, não funciona como um meio, um recurso erógeno,
m as sim como um a finalidade em si m esm a, e o indivíduo não consegue ter um
controle sobre a j sua im pulsividade.
TfcTcaso d S e s tr u tu r à s queTora da área sexual são consideradas perversas,
pode-se considerar as drogadições em geral, sendo que o com er com pulsivo da
obesidade pode ser tomado como um exemplo de um a adicção sem drogas. Da
m esm a forma, em su a atu al abrangência, o conceito de conduta de perversão
tam bém se estende ao nível das relações interpessoais, em cujo caso consiste no
fato de que houve um desvio, um a subversão da finalidade original de dita rela­
ção. Um bom exemplo disso é o da relação paciente-terapeuta, a qual pode ficar
pervertida se ela assum ir as características de um m útuo envolvimento (tipo
erotização, intimidade social, feitura de negócios, etc.). Neste exemplo, o propósito
4 0 I David E. Zimerman

inicial da b u sc a d a psicoterapia — procurar fazer modificações — fica pervertido


em: b u sc a r “tratam en to ” p ara não fazer m udanças.
É im portante deixar claro que um a parcial estru tu ração perversa de um
indivíduo, ou de um grupo, pode não te r n ad a a ver com o diagnóstico clínico de
perversão propriam ente dita (desvios da sexualidade pré-genital) e, muito menos,
com o rótulo pejorativo de “perverso”. Tam bém é necessário acentuar que a com"
d u ta perversa não deve ser tom ada como sinônimo de psicopatia, apesar de q u e,(
m u itas vezes, elas podem coexistir num mesmo indivíduo. —
Q uanto à etiologia da estruturação perversa, adm ite-se que o principal fator
genético rep o u sa n a díade sim biótica com a mãe, com binada com um a exclusão
do pai. Isso provoca um incremento d a onipotência da criança e um a recusa em
reconhecer a s diferenças de sexo, geração, capacidades, etc. que existem entre ela
e os adultos, o pai principalmente.

IV. DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS

Sabem os que h á um a íntim a interação entre o corpo e a mente: os conflitos


psicológicos m u itas vezes se expressam através do corpo, sendo que a recíproca é
verdadeira. Os distúrbios psíquicos se expressam pela via corporal por três m oda­
lidades: conversões, somatizações e hipocondria.
O fenômeno conversiuo, como o nom e diz, corresponde ao fato de que o
conflito reprim ido se converte em u m sintom a corporal, próprio dos órgãos dos
sentidos (cegueira ou surdez histérica, etc.), ou da m u scu latu ra voluntária (para­
lisias, espasm os, etc.) sem provocar u m a lesão orgânica propriam ente dita. Como
a conversão é um fenômeno próprio da estru tu ração histérica, admite-se que o
sintom a expressa sim bolicam ente o conflito que e stá sendo reprimido.
A hipocondria m anifesta-se sob a forma de u m a preocupação obsessiva com
doenças que o indivíduo imagina estarem habitando o seu corpo, juntam ente com
a s fan tasias de que a su a vida está am eaçada. São pacientes que freqüentam
m uito os consultórios médicos e se subm etem repetidam ente a baterias de exa­
m es biológicos. Os sintom as aparecem de forma errática e m últipla e costum am
m obilizar a preocupação ou irritação dos circunstantes, sendo que em certos
casos atingem o nível de um a escravização dos mesmos. Muitaè vezes, um a hipo­
condria severa indica u m sério grau de regressividade, pelo fato de que ela traduz
u m a prim itiva ansiedade de aniquilam ento, além de um estado persecutório que
tem os órgãos como cenário. /
O fenôm eno da somatizaçáo implica no fato de que se forma algum tipo de
lesão orgânica, sendo que isso pode ocorrer em praticam ente todos os órgãos. Os
exem plos são inúm eros: úlcera péptica, retocolite ulcerativa, eczemas, etc.
Ao contrário das conversões, é muito difícil reconhecer nas somatizações,
algum a especificidade de significação simbólica do conflito. Na atualidade, princi­
palm ente a p a rtir de autores da escola francesa de psicanálise admite-se a forte
Grupoterapias 1 4 1

possibilidade de que os pacientes som atizadores tenham tido u m sério prejuízo


em s u a capacidade de desenvolver e representar as fan tasias in conscientes o riu n ­
das das exigências pulsionais e am bientais. Assim, eles sofrem de “alexitim ia”, ou
seja, um a incapacidade de "1er” as su a s próprias emoções, e isso se co n stitu i em
u m a razão a m ais p ara incluí-los entre os pacientes considerados “difíceis".
Vale repisar que a inclusão deste capítulo n um livro sobre g ru p o terap ia se
deve a d u a s razões: um a, é a de que não é possível conhecer u m grupo sem
conhecer bem o que se p assa no nível das individualidades. A o u tra razão é a de
que, n a etiologia de todas as síndrom es psiquiátricas, sem pre h á a participação
interativa do am biente social, representado principalm ente pelo grupo familiar.

ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA

1. FENICHEL. O. Teoria Psicoanaiitica De Las Neurosis. 1970.


2. KUIPER. P. C. Teoria Psicoanalitica De La Neurosis. 1978.
Segunda Parte

PRINCÍPIOS GERAIS DAS GRUPOTERAPIAS


> • «
MA VISAS HISTORiCO-EVGLUTIVA
BAS GRUPOTERAPIAS
PRINCIPAIS REFERENCIAIS TEÓRICO-TÉCNICOS

Ä psicologia grupai é resu ltan te da confluência das contribuições provindas


da teoria psicanalítica e d as Ciências Sociais, através dos ram os d a Sociologia,
Antropologia Social e da Psicologia Social.
Uma com pleta revisão da história evolutiva do movimento g rupai seria por
dem ais longa, fastidiosa e até confusa, tal é a su a abrangência conceituai, a
multiplicidade de su a s raízes e a diversidade n a s concepções teóricas e aplicações
práticas.
Não nos ocuparem os dos m acrogrupos, e em relação à evolução dos grupos
pequenos vamos nos lim itar a um a visão panorâm ica, a partir/ dos principais
a utores de cada u m a de su a s m últiplas vertentes: empírica, psicodram ática, so ­
ciológica, filosófica, operativa, institucional, com unitária, com unicacional, gestál-
tica, sistêmica, com portam entalista. psicanalítica. J

1. Empírica. Por contribuição de n atureza empírica designam os aquela que


é m ais fru to H e u m a intuição e experim entação do que, propriam ente, de b ases
científicas.
D essa forma, atribui-se a inauguração do recurso grupoterápico a J . Pratt,
u m tisiologista am ericano que, a partir de 1905, em u m a enferm aria com m ais de
50 pacientes tuberculosos, criou, intuitivam ente, o método de “classes coletivas”,
as quais consistiam em um a a u la prévia m inistrada por P ratt sobre a higiene e os
problem as da tuberculose, seguida de perguntas dos pacientes e d a s u a livre
discussão com o médico. N essas reuniões criava-se um clima de em ulação, sendo
que os pacientes m ais interessados nas atividades coletivas e n a aplicação das
m edidas higienodietéticas ocupavam as prim eiras filas da aula.
JW H P '

46 I David E. Zim em an

E sse método que m ostrou excelentes resultados n a aceleracão da recu p era­


ção física dos doentes está b asea d a n a identificação desses com o médico, com ­
pondo u m a estru tu ra fam iliar-fraternal e exercendo o que hoje cham aríam os de
“funcâo continente” do grupo. Pode-se dizer que tal sistem a empírico foi o modelo
de o u tras organizações sim ilares, como por exemplo, a dos “Alcoolistas A nôni­
m os”. iniciada em 1935, e que ainda se m antém com u m a popularidade crescente.

2. Psicodramática. Este método foi criado pelo médico romeno Jarn h n Mo-
j£E Q _quèrêm T 53ü;'introduziu a expressão "terapia de grupo". O seu am or pelo
teatro , desde a infância, propiciou a utilização de u m a im portante técnica grupai,
que será um pouco m ais detalhada no Capítulo 6.
#
j f 3. Sociológica. A vertente sociológica é fortem ente in sp irad a em Kurt Lewin.
% V criador do termo "dinâmica de grupo", que su b stitu i o conceito de "classe” pelo de
“campo". Este autor, a partir de 1936, concentra todos os se u s esforços no se n ti­
y$
0.
do de integrar as experiências do cam po das ciências sociais ao dos grupos. Para
tanto, criou “laboratórios" sociais com a finalidade de descobrir as leis grupais
- 4
'-.^ g e ra is que regénTavidã dos gruposT rum anos e~a"3e~diagnosticar um a situação
grupai específica. São relevantes os se u s estu d o s sobre a estru tu ra psicológica
j/i ,,vdas m aiorias e das minorias, especialm ente as ju d aicas. Da m esm a forma são
I ' rCv'^ /uL' im portantes su as concepções sobre o “campo grunal" e a formar-ãn de papéis.
■ ’ P ara K. Lewin. qu alquer indivíduo, por m ais ignorado que seja, faz p arte 'do con­
texto do seu grupo social, o influencia e é por este fortem ente influenciado e modelado.
\J
4. Filosófico-existencial. A contribuição dos filósofos e literatos à com ­
preensão da dinâmica grupai, pode ser sintetizada n a obra de J . P. Sartre. E sse
^ au to r, em seu último escrito filosófico-existencialista, Crítica da razão dialéti-
.ca(>9), em 1960, ocupa-se basicam ente com as questões da liberdade e com a das
fesp o n sab ilidades^indiMiduaLe-Coletivar-bem como do jogo dialético entre am bas.
V
• P ara tanto, ele estudou o processo de formação dos grupos, em especial no que
A f j 1 diz respeito à formação da “totalidade g ru p ai", a.qual se com porta como um a nova
m •-.V
y , . ^ ' unidade, ainda que jam ais jõ tãlm ênte absoluta. Partem daí as su a s im portantes
concepções acerca da “serialidade", que serão abordadas no próximo capítulo.
m
1j-* qK Ademais, Sartre em Hui-Clos (na versão brasileira: Entre quatro paredes) ilustra,
m P de form a magnífica, como os três personagens interagem de acordo com a s leis ÿ
• gru p ais e com as leis do m undo interior de cada, aos quais eles estão irreversivel­
m ente presos.
+
5. Grupos operativos. O grande nom e n essa área é o do psicanalista argen
tin o Pichon Rivièref 171 que, partindo de seu “E squem a conceituai referencial ope-
£p_ú ratiyo” (ECRO) aprofundou o estudo dos fenômenos o u e surgem no_campo dos
a gru p o sjq ue se instituem p ara a finalidade não de terapia, m as, sim, a de openar
. t^ v - n jjm a determ in ad alãréía objetira^õm õT põrexem pÍo, a de ensino-aprendizagem .
Grupoterapias I 4 7

A p a rtir das postulações de Pichon Rivière, abriu-se um vasto leque de aplicações


de grupos operativos que, com algum as variações técnicas, são conhecidos por
m últiplas e diferentes denom inações.

6. In stitu cion al. O au to r que m ais estudou as organizações institucionais


j V foi Elliot J a c q u e s !12), psicanalista inglês de formação kleiniana. Ele concebe que .
^ F X ÿ as instituições, da m esm a forma que os sistemas sociais, se estruturam como
^ J jg |e sasl?õn B ] [1 5 [ in s íê ^ ^ Jacques enfatizà~ãs
# "subjacentes fantasias inconscientes, bem como o Jògõ~dãsT3intificações projeti-
vas e introjetivas entre os membros das instituições e que são as responsáveis
pela distribuição dos papéis e posições. Partindo desse enfoque, e de novos refe­
renciais teóricos de outros autores, a modema psicologia^organizacional vem
adquirindo uma sólida ideologia específica e uma crescente aceitação.

7. Grupos com unitários. Deve-se, principalm ente, a Maxwell Jo n e s o apro­


veitam ento de todo o potencial terapêutico (am bientoterapia) que em an a dos dife­
ren tes grupos que estão presentes'no am biente de u m a instituição assistencial —
um hospital psiquiátrico, por exemplo — e que totalizam o que ele denom inou de
"com unidade te ra p êu tica”.
Na década 40, Eaulkes foi o criador de um a im portante com unidade te ra ­
pêutica no Northfield Hospital. ‘Y ß f

3. C om unicacional-interacional. Esta vertente vem ganhando u m a impor- f p ~ '•


tãn
l a ncia cada vez
u a Uctua vc£ m aior centre
inaiui u u c todos os interessados
luuus us íin c jc sa a u u s em
c m ggrupos.
iu p u a . M uitos bau
iviunus são uoss ijL i
estudiosos que têm esclarecido a semiótica, a sintaxe e a sem ântica d a normali-
dade e da patologia d a com unicação, tanto a verbal como a não-verbal. É ju sto , ^
no entanto, d estacar os trabalhos de D. Liberman, psicanalista argentino, nos
quais ele estu d a os diferentes estilos lingüísticos que perm eiam as inter-relações
hu m an as.

''Ôy.. Ut-ÍIOIULQ.
G estáltica. O fundador
luiluauu! da
ua Guwestalterapia
ic u iu a ^ .a é*, iFrederik
iL u u m ^Puerls.
io , que
4 UL, se
31 . b aseia'^ _
uasLia ^
^ íS v í^ n o fato de que um _grupo se com porta como um catalizador: a em oção de
1 desencadeia em oções nos outros, e a emoção de cada um é am plificada pela -4Ö
f j y 'Sr ~prèsençiu ^ ^ u u u u j. gestalterapia ajpia em presta giauui*
grande mipui
im portância
icuiv^ia aà tom ada uc
luniaua de ^ (
^ ^ c onsciência do com portam ento não verbaLdos. elem entos de. grupo.~é~dãi~èTês
V utilizam um elevado núm ero de exercícios que possibilitam a m elhora d a percep- ^ '
T
ção e da com unicação interacional.

10. Teoria sistêm ica . Base da m odem a terapia da família, essa teoria, como
0 nome sugere, concebe a família como um sistem a em que os se u s diversos
com ponentes s e dispõem num a combinarã o e hierarquização de p apéis. t)uë visa,
sobretudo, m anter o equilíbrio do grupo. Voltarem os ao assu n to nõ Capítulo 2 Ï.

11. C ognitivo-Com portam ental. A corrente com portam entalista parte do


princípio de que o im portante não é o acesso e a abordagem d a conflitiva incons-
4 8 / David E. Zimerman

. ciente profunda dos pacientes; antes, ela preconiza a relevância de que o paciente
deva tornar um claro conhecimento da su a conduta consciente, em relação ao seu
grupoT ociaÍ A p artir dai, são utilizadas as variadas técnicas de reeducação.

12. Teoria psicanalítica. De forma direta ou indireta, inúm eros psicanalis­


tas pertencentes a diferentes correntes e gerações têm contribuído decisivamente
p ara a com preensão e utilização da técnica grupai. No entanto, é de justiça d es­
ta ca r três d e le s-F reud, ;Bion-e Fouikcs.
Freud, por quem começa qualquer vertente psicanalítica construiu o sólido
edifício teórico-técnico (descoberta do inconsciente dinâmico, ansiedades, regres­
são, complexo de Édipo, formação do superego, etc.) que, indiretam ente, se co n s­
titui como o alicerce básico d a dinâm ica grupai. Aliás, ele assinalou que a "psico­
logia individual e a psicologia social não diferem em su a essência'!8}. Apesar de
Freud n u n ca te r p ra ticado ou recom endado a grupoterapia (sua única referência
m ais direta é o elogio que fez ao psicanalista Simmel, pelo seu trabalho com
grupos de neuróticos de guerra, em 1914), e le jr q u x ^ a h o s a s c o ntribuicões esp e-
cîficas à psicologia dos grupos h um anos em cinco trabalhos: As perspectivas,
fu tu ra s da terapêutica psicanalítica (1910); Totem e Tabu (1913); Psicologia das
m a ssa s e an álise do ego (1921); O futuro de uma ilusão (1927); Mal-estar n a
civilização (1930).
J á no trabalho de 1910(6), Freud revela u m a de su as geniais previsões ao
conceber que “... o êxito que a terapia p assa a ter no indivíduo haverá d e o b tê ja
igualm ente n a coletividade’^. Em Totem e Tabuf7), ele nos m ostra que, por inter-
Tneclío do inconsciente, a hum anidade transm ite as su as leis sociais, assim como
estas produzem a cultura. No entanto, o seu trabalho de 1921(8) ê considerado
como particularm ente o m ais im portante p ara o entendim ento da psicodinâmica
de grupos. Nesse trabalho, Freud faz as seguintes abordagens: um a revisão sobre
a psicologia d as multidões, os grandes grupos artificiais (igreja e exército), os
processos identificatórios (os projetivos e. os introjetivos), as lideranças e as forças
que influem na coesão e na desagregação dos grupos.
Melanie Klein,também n u n ca fez qualquer referência direta a grupos, m as a
s u a concepção acerca do fenômeno .da identificação projetiva (1946) possibilitou
u m a com preensão bastante m ais clara acerca do inter-relacionam ento entre as
pessoas e abriu u m enorme cam po de investigações na área.
Coube a Bionß) nos anos 40, aplicar os princípios kleinianos p ara o enten­
dim ento das experiências que ele/ealizou com grupos, e das quais extraiu os seu s
im portantes e bem conhecidos conceitos. Exemplos disso: a oposição entre o que
^ h a m ^ d e J !g ru p o de trabalho” (consciente) e os “supostos básicos" (inconscien-
_tes), a "m entalidadegrupal”, a noção de “g m p o ss è m líder , a “m udança catastró­
fica que surge quando o es'!5EEshmenfsêl?ê^méiçidõ]por um a idéia nova, etc.,
etc. A pesar de que Bion costum a se r m ais conhecido pelos se u s trabalhos com
grupos, é preciso esclarecer que essa é um a p arte menor de su a obra, que ficou
. yv\ '.. J --< ■
. . - ï •

Grupoterapias I 49

re strita a tais experiências iniciais d a década 40 e n u n c a m ais ele voltou a em pre­


gar a prática grupai.
No entanto, sob a in spiração dos m ecanism os psicóticos inconscientes que
ele observou su b jacen tes n o s grupos, Bion, n a década 50, dedicou-se à análise e
ao estudo de pacientes esquizofrênicos e, a p a rtir dai, no's anos 60, floresceram,
en tre outras, as su a s geniais investigações sobre os processos do pensam ento, do
conhecim ento (ou desconhecim ento) d as verdades e o da experiência emocional-
interacional no vínculo ah alista-an alisan d o , etc. E sta s conceituações são, hoje,
consideradas de fundam ental im portância p ara os grupoterapeutas.
D urante a década de 30, P. Schilder e S. R. Slavson com eçaram a praticar
u m a forma de psicoterapia psicanalítica num enquad re grupai, no qual a ênfase
interpretativa incidia sobre o indivíduo, no grupo, ao invés de ser n a totalidade do
grupo, como anos m ais ta rd e p asso u a ser preconizado.
Considera-se, no en tan to , como se n d o F oulkesf5) quem, em Londres, ern
1948, in au gurou a p rática da psicoterapia psicanalítica de grupo, com enfoque
gestáltico. P ara ele o grupo se organiza como u m a nova totalidade, diferente d i
som a dns in d iv íd u o s. O a u to r introduziu u m a série de conceitos e postulados que
serviram de principal referencial de aprendizagem a sucessivas gerações de g ru ­
p oterapeutas, sendo que ele é considerado o líder m undial d a psicoterapia an alí­
tica de grupo.
Na década 60, com eçam a su rg ir os trab alh o s sobre a dinâm ica dos grupos,
por parte de p sican alistas d a Escola F rancesa(13), principalm ente Didier Anzieu e
Rene Kaes, os qu^is ap o rtam os im portantes conceitos de “ilusão grupai" e o de
"aparelho psíquico g ru p ai”. A ilusão grupai consiste em um a sen sação de que o
grupo, por si só, completa r á a s necessidades de cada um e de todos. Corresponde
'ao "espaço transicional”, de W innicott, que m edeia a passagem do nível do imagl •
n á n o ^ õ ^ a lrê ã lid ã d é . É u m a fase inevitável de todo grupo, e vai exigir um tra b a ­
lho de desprendim ento com respeito à necessidade de u m a desilusão das ilusões.
Por outro lado, Anzieu p arte d a idéia de que em toda situação grupai, de qualquer
n atu re za que esse seja, os processos inconscientes são os mesmos. O aparelho
psíquico grupai existe, e está dotado das m esm as in stân cias que o individual, m as
não dos m esm os princípios de funcionam ento.
A p artir desses dois au to res, o edifício que abriga as grupoterapias coméça
a adquirir alicerces referenciais teóricos específicos e a cam inhar p ara um a iden­
tidade própria. •
No Brasil, a p sicoterapia de grupo de inspiração psicanalítica teve começo
com A. B. B ahial1), cuja técnica inicial consistia em reproduzir o modelo da
psicanálise individual, separad am en te, p a ra cada um dos com ponentes do grupo,
sendo que, ao final, fazia u m a síntese ab ran g en te da totalidade grupai. O utros
nom es im portantes e pioneiros são os de W. I. Oliveira (referencial kleiniano) e W.
Kemper (freudiano ortodoxo), no Rio de Ja n eiro , de Blay Neto, L. Miller de Paiva e
o O. R. Lima, em São Paulo, e os de Cyro M artins, David Zim m erm ann e Paulo
G uedes, em Porto Alegre.
50 / David E. Zimertnan

Orientação Bibliográfica

1. BAHIA, A. B. "Experiência Psicoanalitica em Psicoterapia de Grupo". Em: Medicina, Cirurgia


e Farmácia, pp. 220, 233. 1954.
2. BAREMBLIT, G. “Notas estratégicas a respeito da orientação da dinâmica de grupos na
América Latina". Em: Grupos. Teoria e Técnicas, pp. 7-10. 1982.
3. BION, W. Experiências em Grupos. 1970.
4. CÂMARA. M. "História da Psicoterapia de Grupo”. Em: Grupo Sobre Grupo. pp. 21-36. 1987.
5. FOULKES, S. H.; ANTHONY, E. J. “Vista Panorâmica Introdutória”. Em: Psicoterapia Psica-
nalitica d e Grupo. pp. 15-46. 1964.
6. FREUD, S. “As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica”. Stand. Edit. Vol. XI.
7 . ------. Totem e Tabu. Vol. XIII.
8 . ------. Psicologia das Massas e análise do Ego. Vol. XV11I.
9 . ------. Ofuturo d e uma ilusão. Vol. XXI.
10 . ------- . Mal-estar na civilização. Vol. XXI.
11. GRIMBERG, L; Rodrigué, E.: LANGER, M. "História y Encuadre de la Psicoterapia Del
*

grupo". Em: Psicoterapia Del Grupo. pp. 19-35. 1957.


12. JACQUES. E. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra las Ansiedades Persecutória y
t

Depresiva". Em: Nuevas Direcciones en Psicoanalisis. pp. 458-477. 1965.


f

13. LEITAO. M. B. “Didier-Anzieu-Notas para uma leitura de sua teoria sobre grupos". Em:
Grupos. Teoria e Técnica, pp. 127-136. 1982.

14. LEWIN, K. Problemas de Dinâmica de Grupo. 1948.


15. MA1LHIOT, G. B. Dinâmica e Gênese dos Grupos. 1977.


16. MORENO. J. Psicodrama. 1978.

17. PICHON — RIVIÈRE. El Processo Grupai — del psicoanalisis a la psicologia social. 1977.

18. RIBEIRO, J. P. Psicoterapia Grupoanalítica. Abordagem Foulkiana. Teoria e Técnica. 1981.


19. SARTRE, J. P. "Del grupo a la historia". Em: Critica de la razón dialéctica. 1973.

20. ZIMMERMANN D. “Fatos e Teoria em Psicoterapia de Grupo". Em: Estudos Sobre Psicotera­
pia Analitica de Grupo. pp. 23-42. 1971.
«
«





»
IMPORTÂNCIA E
COriCEITUAÇÃO O i GRUPO

D a m esm a forma como há, n a Q uímica, u m a relação en tre átom o e molé­


cula ou, n a Física, entre m a ssa e energia (m atéria e campo) ou, ainda, n a Biologia,
entre célula-tecido-órgão e sistem a, tam bém no cam po d as relações h u m a n a s h á
um a interação e com unicação entre os indivíduos e a totalidade g rupai e social.
Q ser_hum ano é gregário, e ele só existe, ou su b siste, em função de se u s
in te rjelaçionam entos grupais. Sem pre, desde o nascim ento, ele p articip a de di­
ferentes grupos, num a constante dialética entre a 5 ü i cã~ dF suã id e n tid a d e h u li-
j í d ü a le a n e c é s s id a d e d è H m â lïïe n tid a d e grupai e s o r i i U ú v ^ -)y o -
Um conjunto de pessoas constitu i um grupo, um conjunto de grupos e su a
relação com os respectivos sub g ru p o s se constitui em u m a com unidade e u m
conjunto interativo das com u n id a d es configura um a sociedade^
A im portância do conhecim ento e a utilização da psicologia g rupai decorrem
ju stam en te do fato de que todo indivíduo p a s sa a m aior p arte do tem po de s u a
vida convivendo e interagindo com distintos gruposj Assim, desde o prim eiro
g n íp õ líã tü rã rq u e existe em todas as culturas, a família, onde o bebé convive com
os pais, avós, irmãos, babá, etc. e, a seguir, passan d o por creches, m a te m a is e
bancos escolares, além dos inúm eros grupinhos de form ação esp o n tân e a e os
costum eiros cursinhos paralelos, a criança estabelece vínculos g ru p ais diversifi­
cados. Tais agrupam entos vão se renovando e am pliando n a vida ad u lta, com a
constituição de novas fam ílias e de grupos associativos, profissionais, esportivos,
sociais, etc.
É muito vaga e im precisa a definição do term o “grupo", pois ele pode desig­
n a r conceituações m uito dispersas, nu m amplo leque de acepções. Assim, Grupo
tan to define, concretam ente, u m conjunto de três p esso as (para m uitos autores,
u m a relação bipessóal, j á configura um grupo), como tam bém pode conceituar
52 I D avid E. Zimerman

u m a familia, u m a turm inha ou gangue de form ação espontânea, um a composição


artificial de grupos como, por exemplo, o de u m a classe de escola ou um grupo
terapêutico; um a fila de ônibus; um auditório; u m a torcida n um estádio; u m a
m ultidão reunida num comício, etc. Da m esm a forma, a conceituação de Grupo
pode se estender até o nível de u m a abstração, como, por exemplo, o conjunto de
pesso as que, compondo um a audiência, está sintonizado n um mesmo program a
de televisão ou pode abranger um a nação, unificada no simbolismo de um hino
ou de u m a bandeira, e assim por diante.
Existem, pois, grupos de to d o sjjs tipos, e u m a prim eira subdivisão que se
f a z n ecessária ê a que diferencie os grandes_grupos (pertencem á área d a m acro-
sociologia)_dos pequenos grupos (micropsicologia). Em relação a estes últim os,
ta m bém se impõe a distinção entre grupo propriam ente dito e agrupamentoj
Por agrupamento entendem os um cõnjuntcTde pêssÕãs~qüe convive, p arti­
lhando de um mesmo espaço e que g u arda entre si u m a certa valência de inter-
relacionam ento e um a potencialidade em virem a se constituir como um grupo
propriam ente dito. Um claro exemplo disso é o ag rupam ento que Sartre(8) classi­
ficou como sendo um “coletivo", o qual se configura por u m a “serialidade" de
pessoas, como, por exemplo, as que constituem u m a fila à espera de um ônibus.
E ssa s pessoas com partem um mesmo interesse, ap e sa r de não estar havendo o
m enor vínculo emocional entre elas, até que u m determ inado incidente pode
m odificar toda a configuração grupai. Pode-se dizer que a passagem da condição
de serialidade para a de grupo implica n ^ tra jis fo ijn a ção dej'in teresses comuns"
p ara a de “interesses em c o m u n fj

REQUISITOS QUE CARACTERIZAM UM GRUPO

O que, então, caracteriza um grupo propriam ente dito? É quando o mesmo,


q uer seja de n atureza operativa ou terapêutica, vier preencher algum as condições
básicas, como as seguintes:

1. ^Im grupojião é um mero somatório de indivíduos; pelo contrário,jele se


constitui ^mo_um_a nova entidade, com leis ejnecanism os próprios,e
esp&çífifios. Podemöi^glae.r^q ü r ã j s mTcomo todoji^iví3uõ sé comporta'
como um grupo (de personagens internos), da mes ma forma todo grupo
se com portaramo se fosse um a individualidade.]
Todos os jn tegran tes éfê um grupo estão reunidos em tom o de um a
t ^ í a ^ ^ ^ ^ èü ^ ) c^ u n s 7 7 ^ ~ ^ ^
3. O tainanhcTdoffljpogião^pode exceder o j i mite que ponha em risco.a
indispensável preservacão-da comunicação, tanto a visual, como a au-
^JüvÇ T yerbal e a~ronceituaD
4. Deve haver a ipstituição d.e um ^enquad r e is ettinq) e o cum primento das
com binações nele feitas. Assim, além d ic te r os
Grupoterapias I 53

definidos, o g m p . o d ^ e J m r m c m t a j ima.e_stabilidade de espaco (local


das reuniões)._de atempo (horários, férias...), algumas regras e outras
v aáám s^uL Y ^eat£& .Q ue
proposta.
5- Q ^ P o i ^ a ^ n id jd e auej5e.mamfesjaXQimumaJ:Qtalldade. de modo
que táo importante como o fato de ele_se# organizar a serviço de_seus_
m e m b ro sM m n b & m jij^ îc ^ entendimento
cle^araractérisücãT cabe um a analogia com a relação entre as peças
separadas de um quebra-cabeças e deste com o todo a ser armado.
6. Apesar de um grupo se configurar como umajiova^enüdade, como uma
identidade grupai genuína, é também indispensável que .fiquem clara­
mente preservadas .as. idgnüdadèsIèaDecniãas. de_çada..um doa.indlvi—
dùM œ m pônèntes,
(Erinevitávèlá formação.de,,um£amp.o.gruml..dinâm ico. em que gravitam
fen^aslâ§J,.^ngie^adÊ^ÍÍÍ?ílÍiúçâÇúes*-fiapgisi _gtci_ j
8. E inerente à conceituação de grupo a existência en tre os se u s m em bros
de um a interação afetiva, a qual costum a ser de natu reza múltipla e variada.
9. Em todo grupo coexistem d u a s forcas contraditórias.perm anentem ente
.em jogo: ym a tendente à su a ^ e s ã o ;^ a outra, à s u a desintegração. A
coesão do grupo está n a proporção direta, em ca d a um e n a totalidade,
y . g p dos sentim entos de ‘pertinência" (é o “vestir a cam iseta", próprio de um
esprit de corps] e de "Bertencênçia" (o indivíduo se refere ao grupo como
sendo “o meu grupo...", e implica no fato de cada pessoa do grupo ser
reconhecida pelos outros como um membro efetivo).[Por o u tro ja d o , a
coesão grudai tam bém depende de su a capacidade de perH érindivíduos
e de absorver outros tantos, assim cõm õ de s u a continuidade. t ’
f î t ) , Ò camBCLgmpaLaue se forrnã~em Q ualauer.grupo..se~processa em dois
nlanos: um é o da intencionalidade consciente e o outro o da interferêry
^ y -^ c ia_ d e Já.to res inconscientes. O orimeiro é denom inado por Bionp) como
;rupo de tl^ a I l í o r p eÍara 2 ão de que nele todos os indivíduos integran ­
t s estão voltados para o êxito d a tarefa proposta. Subjacente a ele, está
o segundo plano, que o aludido a u to r cham a de “supostos„básicos".
regglçLpor desejos reprimidos, ansiedades e defesas, e que tanto podem
s e conïïgurar com a prevaîencia de..scntimentõsrdZ3êpend.ência,..o.u,Jde
ê e fu ^ a contra os medos emergen tes, ou de u m a expectativa m essiá-
n ic a 7 ê tc rÊ ç Í^ rg õ H ] n a jrM iS .^ te s ^ Q Ís - p la n ^ n lc L g â Q J ^ H â m e r ite
estanques, pelo contrário, entre eles costum a haver u m a certa superpo-
sição e um a flutuação.
! 11..iNeste campo g m pal sem pre se processam fenómenosuCQmo os de resis ­
tê n cia e contra-resistência. de transferência e contratransferênclaT cíe
actings: de processos identificatórios, etc. Por um lado, tais fenômenos
consistem em um a reprodução exata do que se p a s sa n a relação te ra ­
pêutica bipessoal. Por um outro lado, eles não só guardam u m a especi-
5 4 / David E. Zimerman

ficidade g rupai típica como tam bém se m anifestam exclusivamente no


cam po grupai.
12. Um exemplo dessa especificidade é o fenômeno d a “Ressonância^ ) qual_

n g n t^ jiug_ah£OK£-as angústias de c a d a jim e de todos.


iE n e c ê s s á rio fazermos um a distinção entre a sim ples emergência de

^ fenômenos grupais e um p r o c ^ ^ g r u g al^ a p ê u t ico. A primeira é de

^ iT o 1 c o n r^ c ïïî,sos~~ a ticos e estratégicos, l ú n d a n ã o h â um a sólida e


unificada escòlàlIaT eoria d a ’HTnâmica de grupos, sendo que a maioria
dos g rupoterapeutas com bina os conhecim entos sobre a dinâmica do
cam po g rupai com a de u m a determ inada escola psicoterapêutica de
tratam ento individual, usualm ente a de algum a corrente psicanalitica.

Orientação Bibliográfica

1. BION, W. R. "Una Revision de la Dinâmica de Grupo". Em: Nuevas Direcciones en Psicoanalisis.


pp. 423-457. 1965.
2. FOULKES, S. H. y ANTHONY, E. J. "Rasgos Significativos Del Grupo Analítico. En: Relación a

Otros Tipos de Grupos Humanos”. Em: Psicoterapia Psicoanalítico de Grupo. pp. 47-60. 1964.
3. GRIMBERG, L. et al. “froblemas y Aspectos Practicos de La Psicoterapia Del Grupo". Em: Psico­

terapia Del Grupo. pp. 52-74. 1957.


4. MILLER DE PAIVA, L. "Definições". Em: Psicanálise de grupo. pp. 17-30.1991.

5. NACHER, P. G. y CAMARERO, J. A. L. “Los Fenomenos Grupales. Aspectos Generales. Defînicio-


nes Y Limites. Los Grupos Psicoanaliticos". Em: Del divan al círculo, pp. 13-26.1985.

6. PUGET, J. et al. “GrupoTerapéutico:^fmiciôri'. Em: El Grupo Y Sus Conßguraciortes. pp. 17-20.1991.


7. PY L. A. "Por Que Psicanálise cje Grupo?' Em: Grupo Sobre Grupo. pp. 133-162. 1987.
8. SARTRE, J. P. “Del grupo a la história”. Em: Critica de la razón dialéctica. 1973.

9. VINAGRADOV, S. YYALOM, I. D. “What is Group Psychotherapy?". Em: Group Psychotherapy. 1989.






MODALIDADES GRUPAIS

O capítulo anterior, além de enfatizar a im portância dos grupos e a possi­


bilidade da utilização do seu potencial dinâmico, dedicou-se a responder à p er­
g u n ta “O que é grupo?”. Em continuidade a ela, o u tras perguntas s é impõem:
Quem pode praticar as técnicas grupais? Para quem se destinam ? Q uais são os
seus objetivos? Como se processam na prática? Vamos te n tar respondê-las indi­
retam ente, ao longo do texto, g a rtin d o do principio de que os fenôm enos grupais
são_sempre os m esm os em qualquer grupo, variando as respostas às p erguntas
feitas, e essa variação é que irá determ inar a finalidade e, portanto, a m odalidade
grupai.
É tão largo o leque de aplicação das atividades grupais que poderíam os
nom eá-las seguindo a trilha quase com pleta do abecedário. Vamos exemplificar,
som ente a titulo de ilustração:

A: analítico; auto-ajuda; adolescente; alcoolistas...


B: Balint; borderline; bioenergético...
C: capacitação; casais; crianças...
D: dram atização; discussão; diagnóstico...
E: ensino-aprendizagem ; egressos...
F: formação; família...
G: gestãltico; gestantes...
H: homogêneo; holístico...
I: integração; institucional; idosos...
L: livre; laboratório (de relações hum anas)...
M: m aratona...
N: num eroso (refere-se ao grande núm ero de participantes)...

55

« jb e is e
56 I D avid E. Zimerman

0: operativo; orientação; organizacional; obesos...


P: psicodraraa; psicossom ático...
Q: questionam ento...
R: reflexão; reabilitação...
S: sa ú d e m ental (comunitária); sobrevivência social (gays, etc.); sensibilização;
sa la de espera...
T: treinam ento; (com pacientes) term inais...
U: união...
V: vivências...

Por esta p álida am ostragem podem os perceber o quanto denom inações dife­
ren te s podem se e sta r referindo a u m a m esm a finalidade grupai e, da m esm a
forma, um mesmo nome pode estar designando atividades que, em su a essência,
são diferentes. Ademais, m uitas vezes, a prática grupai perm ite a criação de novas
táticas, inclusive com a com binação de algum as delas, e tudo isso aliado a um
largo espectro de aplicações pode gerar u m a confusa rede conceituai.
P ara a ten u a r este estado de coisas impõe-se a necessidade de um a classifi­
cação, sendo que qualquer intento classificatório sem pre p artirá de um determ i­
nado ponto de vista, que tanto pode s e r o de um a vertente teórica; o tipo de setting
instituído; a finalidade a se r alcançada; o tipo dos integrantes; o tipo de vínculo
com o coordenador, e assim por diante.
A ssijn._m uitas autores costu m am catalogar _os grupos desacordo com a
técnica em pregada pelo_coordenador d o grupo, e x o m oJLipoude viriculg~cjüe ele
estabeleceu com os indivíduos integrantes. Exemplo disso é o conhecido critério
IjF clãssificar os quatro tipos seguintes:

a) Pelogaip,Q„{o qual, segundo um modelo exortativo, funciona gravitando


em tom o do líder, através do recurso d a sugestão ou de u m a identifica­
ção com ele, como nos grupos “Pratt", ou no dos Alcoolistas Anônimos, etc.)
Em grupo (as interpretações são dirigidas ao indivíduo. De certa forma,
é um tratam ento individual de cada mem bro n a p resen ça dos demais).
J)o,gnipo4o»enfoque interpretativo está sem pre dirigido ao grupo como
u m a totalidade gestáltica).
De grupo (a atividade interpretativa parte d as individualidades p ara a
generalidade e desta p ara os indivíduos).

A classificação que aqui será ad o tad a b aseia-se no critério d as finalidades a


que se propõe o grupo e pariê d a divisão nos seguintes dois grandes ramos
^genéricos: Operativos e Terapêuticos.
C ada um destes ram os, por s u a vez, se subdividem em o u tras ramificações,
conforme o esquem a sim plificador que segue abaixo.
Grupoterapias I 5 7
r
<ÿ Ensino-aprendizagem (através da técnica de “Grupos de Re­
flexão")
OPERATIVOS 0 Institucionais (empresas; escolas; igreja; exército; associações;
etc.)
^0 Comunitários (programas de saúde mentalj
GRUPOS <
na área médica em geral (diabéticos-
De auto-ajuda À reumáticos; idosos, etc.)
^ * na area psiquiatrica (alcoolistas anô-
% . nimos; pacientes borderline, etc.)
TERAPEUTICOS ' • base psicanalítica-*
V • psicodrama-*;
Psicoterápicos p.d. J • teoria sistêmica ■*
cognitivo-comportamental
abordagem múltipla*

É claro que na prática essas distintas ramificações não são perfeitamente


delimitadas: antes, eîaïïTnfiuïïâsVezisT^eTrïïeîpôânrsè^ômpîëtâm e secw ífu n -
áenTrPõTèxemplo; fcs_gojpos operativos costumam propiciar um beneficio psico-
terápico_£. da mesma forma, os grupos psicoterápicos se utilizam do esq u em a
referencial operativoi É desnecessário frisar que muitas outras ressalvas equiva­
lentes podem ser reconhecidas na classificação acima.
Não é dem ais repetirm os que o fundam ental é que o terap eu ta ten h a bem
claras as respostas às seguintes questões: que espécie de m u d an ças ele pretende,
que tipos de técnicas, aplicado para qual tipo de pacientes, por qual tipo de
terapeuta e sob quais condições.

I. GRUPOS OPERATIVOS

É táo abrangente a aplicação dos postulados dos g aip o s operativos que


m uitos preferem considerá-los como sendo, genericam ente, um continente de
todos os dem ais grupos, incluídos os terapêuticos, m esm o os de n atu reza analítica.
A conceituação e a aplicação dos grupos operativos, como foi dito antes,
devem m uito a Pichon Rivièreí2! que, desde 1945, os introduziu, sistem atizou e
divulgou. Este au to r construiu o seu "esquem a conceituai referencial operativo"
(ECRO), considerando um a série de fatores, tan to conscientes como inconscien­
tes, que regem a dinâm ica de qualquer cam po grupai, e que se m anifestam em
três áreas: m ente, corpo e m undo externo.
Pichon Rivière construiu u m a extensa e sólida edificação teórica, cuja reco­
nhecida im portância justifica que nos alonguem os n a enum eração de se u s p rin ­
cipais conceitos, ainda que, aqui, nos lim itemos praticam ente a u m a titulação dos
m esmos.
58 I David E. Zimerman

Form ação de jjapéig (porta-voz; bode expiatório; sabotador; e o de líder


que, poivs.ua vez, pode s er do tipo au to ritário -d em o crático , laissez-faire
e dem agógico).
Esquem a corporal (tem m uita sim ilitude com a concepção do “estágio
doespS H o,Tr3efcacan).
Modelo do “cone invertido" (leva em co n ta os seguintes sete vetores:
g ^ ^ T p e r t o c ^ j ã ^ ^ r t m ê n c i a , com unicação, aprendizagem , coo-
p e r a ç ã õ T J ^ T s é n d õ q ú e esteu lü m õ d êsig n ão clima em ocionaldo'fl'upöir
5. Ü 5 r ^ í ó r d ^ e rtic a lid a d e _(a história de cad a individuol e de horizonta-

& y \y 6. Conceito de “pré-tarefa" (movimentos grupais que im pedem a realização


de u m a ação de real transformação).
", < F
7. A noção. dos-l‘três_D" ío d epositante^ oj j e positado_ e o d epositário.d as
ansiedades básicas que, inevitavelm ente, surgem no cam po grupalj.

A atividade do'^ootdeaadorjios grupos .operativos deve ficar centralizada


unicamente na tarefajDrogosta, sendo somente nas situ a çõ esjm qiie os fatores
JnconjB e ntesTlnfef^r d a ^ ^ à evolução
exitosa do jru p o quecabem eventuais intervenções de ordehfinterpretativaj

1. Grupos Operativos voltados ao Ensino-Aprendizagemf*). A ideologia


fundam ental deste tipo de grupo é de que o essencial é “aprender a ap ren d er”, e
que “m ais im portante do que encher a cabeca de conhecim entos é form ar cabe-
£asü."Incontáveis são as modalidades de aplicação dos grupos operativos, sendo
que m uitas vezes, sob m últiplas denom inações d istin tas, designam um funciona­
mento assem elhado. Assim, especificamente em relação à tarefa de ensino e trei­
nam ento, são conhecidos os grupos "T" (training-groups); os grupos “F" (a letra é
a inicial de fr e e e de formation, o que diz tudo d a característica de tais grupos) ;.os^
grupos “Balint" (nome de um renomado psicanalista inglês 'que realizava um a
atividade sistem ática com grupos de médicos não p siq u iatras visando dar-lhes
condições de desenvolverem um a a ü tu d e emocional em pática e p ara u m a ação
psicoterápica, clínica); e os "grupos de reflexão” (nos term os descritos por Della-
rossaf7).!**)

(*) A denominação mais adequada seria “Educação”, tendo em vista a etimologia. Assim, a palavra
“ensino” se origina de "en” (dentrj*#e) + "signo" e sugere que o mestre coloque signos, ou seja,
sinais e conhecimentos na cabeça do outro; enquanto que o termo “educação” se forma de "ex"
(para fora) + "ducare” (dirigir), ou seja, o educador permite que sejam sadiamente drenadas
para fora as capacidades preexistentes em cada um.
(**) Pessoalmente, utilizamos esta última denominação, entre muitas outras equivalentes, pelo
fato de que a palavra reflexão sugere dois aspectos básicos dessa atividade. 0 primeiro é o de
uma nova (“re”) "ílexáo" sobre si próprio, por parte de cada integrante; o outro aspecto sugerido
é a possibilidade de os indivíduos se refletirem (perceberem o jogo de identificações projetivas,
e.introjetivas, de uns nos outros).
Grupoterapias / 59

Um excelente trabalho sobre a aplicação dos princípios de Pichon Rivière é


o do, tam bém psicanalista argentin&rJL B legerP ), no qual este último j i g r ofunda
o^estudo dos p rocessos do pensam ento, no aprendizado. O exemplo de n 8 7, m ais
adiante, pode servir de ilustração prática de como os “grupos de reflexão" podem
s e r aplicados n a tarefa de ensino-aprendizagem .

2. Grupos In stitu cion ais. C ada vez m ais a atividade está sendo utilizada
n a s instituições em geral. Assim, as escolas estão Dromovendo/fãm ío es]q u e j ^ -
gregam .pais, m estres e alunos com vistas a debaterem e a. encontrarem .u m a
W fi^ g ia c o m u m jle formação jm m a n is tic a O m esm o se p a s sa n as diversas a sso ­
ciações de classe, como, por exemplo, nos sindicatos, n a igreia^no exército e n as
/• em presas. Especialm ente essas últim as estão m ontando serviços dirigidos pori
^ p sicólogos organizacionais — que se destinam a a u m en ta r o rendim ento de pro- v .
rinção-da em presa através de grupos operativos cen trad o s na tarefa de obtençãof
de jm xlim a-deJiarm Q nia-entrejD S seus diversos su b g ru p o s.

3. G rupos Comun itá rio s . O melhor exem plo deste tipo de grupo é o de sua,
crescente, aplicação not^ãm polía~saúde m ental./1
Partindo da definição que a OMS deu à sa ú d e como sendo a de “um com ple­
to bem -estar físico, psíquico e social”, é fácil entenderm os que as técnicas grupais
encontram (ou deveriam encontrar) u m a larga área de utilização, sobretudo em
comunidades.}*)
.Esses grupos com unitários são utilizados._na. p restação tanto de cuidados
prim ários de saúde (prevenção), como secu n d á rios (tratam ento) e terciârios'frea-
bilitaçàfll,__ '•■*> w / iß o Jjb
Assim, são de com provada utilidade a realização d e grupos, por exemplo,
com gestantes^aZÍQlg^ènúíF si^ o i r i í d ^ e d a com unidade, p a is, e as-
s in y x a id iante. Um bom exemplo da utilização p rática de grupos com unitários é
o excelente trabalho com adolescentes, desenvolvido em Florianópolis pelo psi­
q uiatra Francisco B atista Netof1).
Técnicos de distintas áreas de especialização (além de psiquiatras, outros
m édicos não-psiquiatras, psicólogos, assiste n te s sociais, enfermeiros, sanitaris-
tas, etc.) podem, com relativa facilidade, ser bem treinados p ara essa im portante
tarefa de integração e de incentivo às capacidades positivas desde que fiquem
unicam ente centrados n a tarefa proposta e conheçam os seu s limites.

. tf

;.( r
Pode servir de modelo o trabalho com grupos que, há muitos anos, vem sendo aplicado na Vila
São José do Murialdo, em Porto Alegre-RS, comunidade com uma população em tomo de
30.000 habitantes.(S)

60 / David E. Zimerman

II. GRUPOS TERAPEUTICOS



1. Grupos de Auto-Ajuda. Esta m odalidade grupai merece se r destacada,


tanto pela razão de u m a inequívoca comprovação de su a eficiência como pelo


largo âm bito de áreas beneficiadas e a su a incrível expansão. Som ente nos E sta­

dos Unidos, no cam po da saúde mental, estão em pleno andam ento m ais de 800

program as oficiais baseados neste tipo de aplicação grupai.


Os grupos de auto-ajuda, como o nom e designa, são com postos por pessoas
portadoras de um a m esm a categoria de necessidades,-as .q uais, em linhas gerais,
especialm en te no campo da Medicina, p odem ser enquadrados nos seguintes seis
tipos de objetivos da tarefa do grupo:
a) Adictos (obesos, fumantes, tóxicos, alcoolistas, etc.).
b) Cuidados prim ários de saúde (program as preventivos, diabéticos, hiper-
tensos>.etc.).
c) Reabilitação (infartados, espancados, colostomizados, etc.).
d) Sobrevivência soçjaj (estigmatizados, como os hom ossexuais, defeituo­
sos físicos, etc.).
e) Suporte fcronicidade física ou psíquica, pacientes term in ais, etc.).
f) ssaiais £ £aaiiiga&.
Como cada um destes seis subgrupos perm ite novas ramificações, é fácil
entender o núm ero quase infinito de m odalidades grupais possíveis e, portanto,
do extenso núm ero de pessoas que pode vir a se r atingida.
Os benefícios auferidos com os grupos de au to -aju d a decorrem de fatores
que serão m ais detalhadam ente explicitados no Capitulo 21.

d ito s. Ainda não h á u m específico


corpo teórico-técnico que dê um a sólida fundam entação às terapias gru p ais djjri.-
gidas ao insight. E nquanto isso, elas vão se utilizando de o u tras fontes, das quais
‘m ërëcem um registro à parte as quatro seguintes: a jpsicanaliticaj a psicodram á-
Uca, a da teoria, sistêm ica e a da i^ixente-cognitiyja-com portam entalista. Além
delas, deve ser incluída um a grupoteraiáajd£_ab.ordagem..múltip]a. holistica, a
qual consiste no emprego de um a certa com binação d as anteriores.
a) A corrente psicanalítica, por su a vez, abriga m uitas escolas: freudiana
ortodoxa, teóricos das relações objetais (inspiradas principalm ente em
M. Klein, Bion e Winnkott); psicologia do ego (Hartm ann, M. Mahler);
psicologia do s e lf (Kohut); estru tu ra lista (Lacan). No entanto, apesar d a
óbvia (e sadia) divergência n a conceituação d a gênese e do funciona­
m ento do psiquismo, essas diferentes escolas convergem no que há de
essencial relativam ente aos fenômenos provindos de um inconsciente
dinâmico.
Há um a longa polêmica: a grupoterapia inspirada em fundam en­
'$ê-H tos psicanalíticos pode ser considerada u m a “psicanálise verdadeira?”
Grupoterapias 1 61

E la pode se r denom inada como “grupoanálise”? Os autores se dividem


n a s respostas, sendo que, aqui, não me aprofundarei n este tópico pela
razão de que isso nos levaria a cam inhos muito complexos e controver­
tidos, algo fora de nosso propósito. Da m esm a forma como n a s psicote-
rap ia s individuais, tam bém as grupoterapias podem funcionar por um
periodo de tem po longo ou curto, podem ter u m a finalidade de insight
destinado a m u d a n ça s caracterológicas, ou podem se lim itar a benefí­
cios terapêuticos m enos pretenciosos, como a remoção de sintom as; da
m esm a form a podem objetivar à m anutenção de um estado de equilíbrio
(psicóticos egressos, por exemplo): ou podem lim itar-se à b u sc a de um a
m elhor adaptabilidade n a s inter-relações h u m a n as em geral. Tudo isso
req u e r u m a variabilidade de enquadres, como será exposto m ais ad ian ­
te, o que tam bem vai determ inar um a especificação técnica e tática no
emprego das grupoterapias de base analítica.
b) A corrente psicodram áticap) vem ganhando espaço em nosso meio.
Criado por J . Moreno, n a década 30, o psicodram a ainda conserva o
m esm o eixo fundam ental constituído pelos seguintes seis elementos:
^ en á rio ^p ro tag o n ista, diretor, ego auxiliar, público e a cena_ser_apre-
se n tad a. " “
~Ã~dramatizaçáo pode possibilitaria reconstituição do sjrim itiy o s
estágios evolutivos do indivíduo. Assim, um a prim eira etapa da d ram a­
tização (técnica d a dupla) visa ao reconhecim ento da indiferenciação
“e u ” x "outro". N um a se g u n d a etapa (técnica do espelho), o protagonista
sai do palco e, a partir do público, assiste a representação que u m a
o u tra pessoa, no papel de ego auxiliar, faz dele, o que possibilita que se
reconheça, a si próprio, assim como n a infância ele reconheceu a su a
imagem no espelho. A terceira etapa (técnica d a inversão dos papéis) vai
perm itir que possa colocar-se no lugar dõ outro, assim desenvolvendo o
se n tim ento de consideração pelos demais. É claro que, no curso do
tratam ento, essas etap a s não são estanques.
c) A Teoria Sistêm ica parte do princípio de oue os grupos funcionam como
um sistem a, ou seja, q u e h á.u m a co n stan te interação, eonuiTèYniíntação,
e supíem entacão dos distintos papéis que foram atribuídos e são_de-
sernpe"nhados"po£ca'da u m de seus com ponentes.[AssimTum sistem a se
com porta como um conjunto integrado, onde qua ilquer modificação de
>\ y y u n ? 3 o s ^ íe m e n tõ s ^ íê ^ s a ria m ^ n fe irá A fetar ojiisfem a como_um t o d o /
^ y ^ A T e r a p îa '^ lè lf a ^ îa " v e i ^ è n d 5 ^ é ^ f ^ ^ i ^ f i c a Ú v a ^ ê m ~ n o s s o

? meio, sendo que ela^tem seus referenciais específicos alicerçado sjn a


teoria sistém ica. No entanto, isso nâo impede que os seu s p ratican tes
tam bém utilizem o respaldo oferecido pelos conhecim entos psicanalíti-
cos, assim como o em prego intercalado de técnicas de dram atização,
sendo que esta não é a m esm a coisa que psicodram a propriam ente dito.
8 2 1 David E. Zimerman

d) A corrente cognitiyo-çpm portarnental fundam enta-se no postulado de


que tg.do ijadividuoj..um organism o-processad o r de infom ia c ô e s jæce-
m hendo dad os e gerando apreciações. T rata-se delim a'T eoriàllë agrendl-
m '^agenTsodaTTna 'q ú ã I 7 s õ B r é íu ^ § ó r a lo r â a d a s as expectativas que o
~ sujeito sente-se na obrigação de cum prir^a qualificação de seus valores,
» as significações qug_ele em p resta aos s eus a tos e cren ças, bem como a
s u a forma de adaptação à cu ltu ra vigente.
O tratam ento preconizado pelos seguidores da corrente comporta-
m entalista [behavioristas) parte da necessidade de u m a clara cognição
* dos aspectos acim a referidos e, a p artir daí, a técnica terapêutica visa a
três objetivos principais: j^ a j^ â u .c a .ç ^ ,e n ijT Í v e l^ n s c ie n te , dasjxm -
CÍU V \i cepf f e s errôneas, im J ie in a m e n tq de habilidades com portam entais e
njj o^ um a modificação no estilo de vivër. E u m a té cn lcãq u e é S a sendo muito
„C " u tiliz a d a no tratam ento dos drogaditos em geral, ou nos casos de adic-
ções sem drogas, como é, por exemplo, o tratam ento em grupo com
obesos. Nesses casos, é de fundam enta] im portância que haja o desgrv^
volvimento de funções do ego_consciente, ta is como as de antecipar,
p re re r^ m õ M H carT ãlém d ^ d à r 'œ m " a ^ s it u a ç ô e s ,g u e jm plicam em ~
risco de rein d d ê n c ia.
E ste capitulo ficaria muito incompleto se não fizermos u m a referência
ao fulgurante surgim ento, nos E stados Unidos, e de gradativa expansão
p ara outros centros europeus e latino-am ericanos, de u m a m ultiplicida­
de de psicoterapias grupais. São exemplo: a terapia gestáltica (de F.
Perls), a psicoterapia centrada no paciente (de Rogers), a análise tran ­
sacional (de Berne), a bioenergética (de Lowen), a terapia do grito primai
(de Janov), as terapias behavioristas (de Skinner), as terapias de reedu­
cação sexual (de Master e Johnson), a s terapias relacionadas com o
Zenbudism o, as terapias b asea d as em técnicas corporais (dança, ioga,
toques físicos, etc.) e assim por diante.


Orien tação Bibliográfica

# 1. BAPTISTA NETO, F., “Grupoterapia em comunidade terapêutica com adolescentes”. Em; Crupo-
terapiaHoje. pp. 325-337. 1986.
2. BERSTTÍIN, M. “Contribuições de Pichon-Rivière à psicoterapia de grupo". Em: Grupoterapia
Hoje. pp. 108-134. 1986. ^
3. BLEGER, J. “Grupos operativos nò ensino". Em: Temas de Psicologia, pp. 53-82. 1987.
4 . -------- . “O grupo como instituição e o grupo nas instituições”. Em: Temas de Psicologia, pp.
83-100.1987.
5. BUSNELLO, E. "Grupos Comunitários". Em: Grupoterapia Hoje. pp. 309-324. 1986.
6. COLE, S. A. "Self-Help Groups". Em: Primäre Cares, pp. 6-325, 1979.
7. DELLAROSSA. A. Grupos de reflexion. 1979.
8. EIDLER, R.y HALINA, E. ‘Terapiasde abordagem múltiplas”. Em: GrupoterapiaHoje. pp. 162-174.
1986.
Grupoterapias I 63

9. GARCIA, 0 . “Psicodrama”. Em: Grupoterapia Hoje. pp. 203-229. 1986.


10. JACQUES, E. "Los Sistemas Sociales como Defensa contra las Ansiedades Persecutórias y
Depressiva". Em: Nuevas Direcciones en Psicoanalisis. pp. 457-477. 1965.
11. MILLER de PAIVA, L. “Psicoterapia Analítica de Grupo nas Instituições Públicas e Particulares".
Em: Psicanálise de Grupo. pp. 417-427. 1991.
12. OSÓRIO, L. C. "Terapia Institucional". Em: Grupoterapia Hoje. pp. 338-348. 1986.
13. OUTEIRAL, J. O. "Grupoterapia em comunidade terapêutica com crianças". Em: Grupoterapia
Hoje: pp. 320-324. 1986..
14. NOBRE, L. E. 'Terapia Familiar: Uma Visão Sistêmica". Em: Grupo Sobre Grupo. pp. 115-126.1987.
15. PORTARRIEU, M. L. e OKLANDER. J. T. "Grupos operativos". Em: Grupoterapia Hoje. 1986.
16. SCHENEIDER, G. "Psicoterapia Individual e de Grupo em Instituições". Em: 0 Grupo Terapêu­
tico e Psicanálise, pp. 101-126. 1974.
17. ZUCKERFIELD, R. Psicoterapia de la Obesidad. 1979.
A FORMAÇÃO DE UM
GRUPO TERAPÊUTICO DE BASE ANALÍTICA

C om o foi visto no capítulo anterior, há um umiygrspjlej n o d a lidades gru-


p i s , o que demonstra uma grande confusão em su as teorias, um a^ ièvã3álnãr-
fluia em su as aplicações práticas e um sé rio risco de_que se esteja construindo
^ ú m ã lp rre ^é~B ã 5 é r ~~ " '
No presente capítulo, como de resto será a linha b ásica deste livro, tra ta re ­
m os tão-som ente do grupo terapêutico analítico, com fins de insight.
A formação de um grupo d essa natureza, quer seja em u m a instituição, quer
seja em clínica privada, p a ssa por três etapas sucessivas: 1) Encam inham ento. 2)
Seleção. 3) Composição.

1 . ENCAMINHAMENTO

A etap a da divulgação, tendo em vista o encam inham ento de pacientes para


a form ação de um grupo, é im portante, particularm ente p ara um terap eu ta que
esteja se iniciando na prática da grupoterapia e ainda não ten h a u m a expressiva
p ro cu ra por parte de pessoas interessadas em tratam ento grupai. O realce deste
aspecto justifica-se por u m a razão de ser muito comum, e muito fru stran te, que
o te ra p eu ta j á tenha um ou dois interessados com o contrato terapêutico alin h a­
vado e po ssa decorrer um largo período de tempo até que se defina u m terceiro e
um q u arto ou quinto pacientes?’o que pode gerar desistências dos primeiros, e
assim por diante. Nestes casos, reçomenda_-se a prática de m anter algum a linha
de com unicação r e g u la i com os poucos pacientes já selecionados, inclusive a
possíbilídadede m anter se ssõ e s in d iv íd u ã isp a ra o s que se sentem m a isn e c e s si-
ta d o s ã té q ïïè s ë a tinja o n ûm eroj n n ïïm ô T î^ q u itg jë ^ o a s . In id ä n n irg ru p o c o m

64
Grupoterapias / 65

um núm ero m enor do que este é m uito arriscado pela razão de que u m a eventual
fa ^ ta d e a lg u m membro com prom ete a indispensável f õ rm iç a o c íé líín ã ~ g S t a lt
g ru p à P O u t n T n s c o ' q u ê ' l j é c c ^ ^ m Ô ^ m î ^ i emai s
espaçada é que o te r a p e u ta jje jm p a ^ ^ seleção d e sastro sa .
Este im p o rta n té ^ p á s s íT ín ic i^ ain d a
dentro da hipótese de que se tra ta de um g ru poterap eu ta iniciante, im plica no
preenchim ento, no mínimo, de u m a condição básica: que^ele_tenha p a ra si u m a
definição muito clara q u an to aojtível de seu s objetivos te ra p êuticos e. p o rta n to.
de_qual_tipcKle paciente ele_agua rd a q u e j he seja encam inhado.
E sta condição é im portante n a m edida em que se sabe que u m m esm o
paciente, borderline por exemplo, pode funcionar exitosam ente e m uito se benefi­
ciar num grupo homogêneo, en q u an to pode fracassar em um g ru p o formado
exclusivamente com pacientes neuróticos, que funciona em um nível egóico m n itn
niais integrado que o dele. Som ente após ter adquirido u m a clareza de convicção
quanto ao trabalho que oj p v o g r u p oterapeuta pretende desenvolver com o grupo
(unia resposta à s_perguntas: "Para que: p ara quem: como: onde: q u a n d o?’’) é que
ele, respaldado por u m supervisor, deve_se lançar a um trab alh o de divulgação
'júnfõãõs^õTegas com quem convive g a r a fins de recrutam en to e en c am in h am ento.
' ônT pòníõ 3 n !rõ v ertid Õ reIãtiv o à política de encam inham ento diz respeito
ao fato de que alguns autores têm expressado um a preferência no sen tid o de que,
u m a vez lhe tenha sido encam inhado um paciente por alguém de experiência,
coiisiderem-no autom aticam ente incluído, evitando entrevistá-lo individualm ente
p ara impedir a "contam inaçao’'T íácâm p o grupai. Pelo contrário, em nosso meio,
dè modo geral, postulam os a necessidade de que o g ru p o terap eu ta entreviste,
um a ou m ais vezes, o paciente que lhe foi encam inhado p ara fins de cum prir a
segunda etapa da formação do grupo: a seleção.

2. SELEÇÃO

A prim eira razão que justifica a indispensabilidade do crivo d a seleção de


um determ inado paciente p ara um determ inado grupo diz respeito ao d elicado
problem a das indicações e__das contra-indicações. A se g u n d a razão é a de evitar
situações constrangedoras como é, por exemplo, a do risco de com por o grupo
com a presença de d u as p essoas que, individualm ente foram bem selecionadas,
m as que na sessão inaugural fica evidente a im possibilidade de virem a se tra ta r
conjuntam ente. Uma terceira razão é a de dim inuir o risco de su rp re sa s d esag ra­
dáveis, como, por exemplo, um perm anente desconforto co n tratran sferen cial, um a
insuperável dificuldade p a ra o pagam ento nos valores estipulados, ou p ara os
horários com binados, etc: assim como o de um a deficiente motivação p ara um
tratam ento que vai lhe exigir um trabalho sério, árduo e longo. Este últim o asp ec­
to costum a ser um dos fatores m ais responsáveis pelos aban d o n o s p rem atu ro s.
66 I David E. Zimennan

O s critérios relativos à s indicações, pelo seu alto g rau de im portância n a


determ inação do provável êxito ou fracasso d a grupoterapia, justificam um a con­
sideração m ais detalhada.

Indicações

A grupoterapia é, jato s e n su extensiva a todos os pacientes que nào_estive­


rem enquadrados nas contra-indicações abord ad as m ais adiante. Em sentido
estrito, pode-se dizer que em algum as situações a grupoterapia se constitui no
tratam en to de escolha. Assim, m uitos au tores que têm um a sólida experiên­
cia no tratam ento de pacientes adolescentes, tan to in d iv id u alm en te como em
grupo, preconizam a indicação prioritária destes últim os.
O utra indicação que pode se r prioritária é q uando o próprio consulente
d em onstra um a inequivoca preferência por um tratam en to grupai. Da m esm a
forma, sabem os que determ inados pacientes não conseguem su p o rtar o enquadre
de u m a terapia individual, devido ao increm ento de tem ores, como, por exemplo,
os de n atu re za sim biotizante com o terapeuta.
^ e x p e r iê n c ia clinica ensina que tais pacientes que fracassaram em terapias
Jndivj^M SjQ odem rnn d o n aT m^ tõ ^ é n ré m g ru p õ te ra p ia (é cíãroque, p ara outros
casos, a recíproca é_verdadeira), e esse fatordev eieT co n sId érad o n a avaliação dos

Contra-indicações

A ntes de m ais nada, é útil ratificar que a contra-indicação de um determ i­


nado paciente para u m a determ inada grupoterapia, como seria o caso, por exem­
plo, d a inclusão de u m_psicótico ou de um severo deprim ido crônico em um grupo
com posto exclusivamente por pessoas de um bom nível de adaptação neurótica,
não elim ina o fato de que, para estes m esm os pacientes, seja um a excelente
indicação um tratam ento cm um grupo homogêneo, isto é, em que os,(i>n--.;rs
integra n te s se equívaie n r ^ ^ e profrm sticas. Partindo da
hipótese de que o grupo em formação seja de pretensão analítica e que não tenha
a hom ogeneidade acim a descrita, as seguintes contra-indicações podem ser en u ­
m eradas, tendo em vista os pacientes que:

a) E stejam malmotjvadós: tanto em je la ç à o à jsu a real disposição para um


tratam ento longo e dificili_quanto_ao fato de se r especificamente em
g a r p õ T M o ^ lir õ l] u e algum as pessoas procurem um grupoterapeuta
sob a alegação de que querem te r u m a oportunidade de "observar como
funciona um grupo”, ou que vão unicam ente em busca de um grupo
social que lhes falta, e assim por diante.
Grupoterapias I 6 7

b) Sejam excessivamente deprim idos, paranoides nu n a rrisista s


^ e k o T 5 i3 u ^ ^ ™ ^ n £ ^ e ^ œ c u g ^ a ô ]^ c e n to 3 â 5 x ç llis iy a -
m ente em jãjiró p rio s ; os_segundos pela razáo_deque a exagerada d is­
torção d o sjato s, a s s in lc õ m o ã liú ir a B fu d ^
^ tm p é d lF lT ê v o íu ^ irn o rr^ ^
siya^necessjd a d e jie que o grupo gravite em tom o de si, o que os leva a
s e com portarem comcT7monopò IIstãrcfonícõ s^P I
c) A B isse n la a L u m lo rte i g a d d i d a a j t e ^ m u itas
veies envolvendo outras pessoas do m esm o grupo, como é o caso, por
exemplo, dos psicopala s^
!imrj
c ^ jm c lp a lm e n te o de-suicídio,
Apresentam um déíicit.intekçtual, ou um a.elevada dificuldade de a b s­
tração e, por essa razão, dificilmente poderão acom panhar o ritm o He
crescim ento da grupoterapia.
Êstãô~~n(Tcume de u m a séria situação critica, aguda, e oue por isso
representam o risco de um a im possibilidade em p artilh ar os interesses
em comum cqíilqs demais.
g) Pertencem aj rna certa condição profissional ou política que re p re s e n ta
. sérios riscos por um a eventual quebra de sigilo..
h) A presentam um ã historía de terapias a n teriores interrom pidas, o que
n os autoriza a pensar que se trate de 'labandõna3õrércòm pulsivos".'

Nestes casos há um sério risco de que esse tipo de paciente faça um novo
abandono prem aturo, com um a forte frustração p ara todos do grupo, m enos
talvez para ele mesmo.

3. COMPOSIÇÃO DO GRUPO

O term o composição tem o m esm o significado q u e o que está descrito por D.


Zim m erm ani](9) sob a denominação defÀgrupamento.'/. Composição designa, pois,
ürn arran jo, jjjn "encaixe" das peças i^ ic la s ^ s e n f lo que no caso de u m a grüpo-
terapia s ejrefereyajjmâ^yísirafizaç^ ^ rç õ m Ó ^ e ra ^ ã J p a rtic ip a ç ã o inFerativa de^
cada~'lm jlQ sJn d i\dd.uQSL^elecionados.iiajaova prganízacão. gestáltica. Neste con-
texto, o sentim entj^contratransferencial do grupoterap eu ta d u ran te as prévias
entrevistas_d.e seleçãoJ u n c i o n á c õ m o u ^ indicador quanto à previsão
(ítLCpmo será a com plem entaridade dos papéis a serem desem penhados.
Assim, podemos afirmar que o ^ x iité rio s de selecáo dos inijividuos estão
m üm am ente_conectados cqmoos_da_composicáo da totalidade grupai. Podemos,
mesmo, dizer que é m ais dificíTprocider à seleção de pacientes p ara u m grupj?
novo que ainda^está nos pródrom osda composição, do oue p ara o preenchim ento
É adequado incluir um adolescente em um grupo cuja totalidade é composta
por adultos? É viável a inclusão de um paciente hom ossexual n u m grupo em que
ele se rá o único n essas condições? Podem participar de um mesmo grupo tera­
pêutico, p esso as que ten h am algum grau de conhecimento ou de parentesco?
E stá indicada a inclusão de u m paciente que seja excessivam ente silencioso? Ou
que esteja atravessando u m a situação de crise aguda? E ssas são algum as das
in ú m eras questões que costu m a m ser levantadas, e cuja resposta deve ser d ad a,
em grande parte, a p artir do feeling contratransferencial relativo à composição do
g ru p o ,jffrajada_situagão_eiri p articular.
Um aspecto im portante e m uito debatido em relação aos grupos é o que se
refere à J iû mogeneidade ou heterogeneidade de su a formação. Por grupo homogê:
neo entende-se aquele_que e c omposto poT^ ^ ^ q u r a p ir e s e n ta m um sériejle.
Í á to r e s e de características que, em certo g râu T sa ô ro m u n 'râ T o c j ^ os memEros.
Pode serW r’diTëxëm pïoutiignjpiirquë'sèia'cônnT O sto^
deprim idos, ou psicóticos egressos de hospital ou de obesos; e assim por d iante.
G rupo heterogêneo designa um a composição grupai em oue h á um a maior
diyersiTicaçáo entre-as c a ra çt,eristicas -básicasjie^eus.xnem bros. E o caso de um a
grupoterapia analitica em que, por exemplo, um dos integrantes é u m a moça
Tíístérica, u n fó u tiõ IlIn rs é n H õ rc a s a d o , mïïito obsessivo; um terceiro é um jovem
e stu d an te, solteiro, com acen tu ad o s sintom as fóbicos, etc.
Ë~claïô~qüê a co’nceÏÏûâçâo de grupo homogêneo e heterogêneo é muito
relativa, porque n u n ca hav erá u m a delimitação nítida entre am bos. A ssiim jjm
grupo constituído u n icam ente com pacientes deprim idos, por exemplo, é homo­
g ê n e o q u a n to á classe diagnostica. porémTã o jn e s m õ T ém p o r^ aspectos
de^Héterogeneidade (idade^ sexo. grau, tipo da depressão, etc.l.
A recíproca — um_grupo heterogêneo com alguns aspectos de homogeneida­
de — é verdadeira. A importância desse critério — de homogeneidade ou não —
na formação de um grupo terapêutico se justifica pelo fato de que, em certos
casos, um mesmo paciente pode evoluir muito bem em um determinado tipo de
^grupo. en q ú in fõ elêp o d e dar-se muito m a le m lm r õ u E õ l? ^
distintaiTd o a n t é r ^ "confirmado o qUãnto-a inclusão de
pacientes muito regrèsiiv5sl5õr3êH ín ?ã^ sev em sp n r exemplo) pnr\p
' ?star contra-indicada para grupos heterogêneos, e estar muito bem indicada para
a~composíçao de u m ^ ig o jiomõgêneo.f
Assim, é p o ssiv eljm e j um paciente borderline esteja exercendo um papel
^significativo no_seu grupo heterggêneo pelo fato dele ter u m a aguçada sensibilida-
de_para capta r o clim a^das em oções-ainda-ocultas. No entanto, se os demais
pacientes que compõem o^seu gru co ji^ereg i u jq nível de integração egòica bem
su p e rior ao seu, pode ocorrer_que este paciente_bQ^CT?ine~fiöue se sentindo m ar­
ginalizado, e c o m o risc o jie ujiuqtfflSQ jsçiIflm entoJd^
em su a incapacidade de processax-aS-Suas-percepções e de E in sIo rrn a] 4 ã r m u m
n k g l sim b ó lic o evoluido. N esse caso, o mesmo paciente não evoluirá e provavel­
m ente ex p ressará a s s u a s sofridas emoções através de um e s ta d o de alheiam entq .
Grupoterapias I 69

ou de actings, ou ainda por meio de som atizações, sendo muito possivel que o
c o n trá rio jiisso acontecènasè~ele e s tS êsse em grupo homogêneo.
■ ^ ^ J n T õ u tr o ^ ã s p è c tõ q ^ deve considerar na composição de
seu grupo é o que se refere à j a n ta g e m d e jia v e r jjm a certa heterogeneidade de
estilos je _ c o m unicaçâo e de desem penho de papéis, p ara que se prooicie um a
m aior integração dos indivíduos através-de u m a com plem entariedade de su a s
fuiiçjães.
A ilustração clínica do capítulo que segue (exemplo n s 1) é útil p ara exem­
plificar a com posição de um grupo heterogêneo, formado para um a terapia de
fundam entação psicanalítica.

Orientação Bibliográfica

1. BACH. G. R. Psicoterapia intensiva de grupos, p. 32. 1975.


2. CASTELLAR. C. "Grupoterapia com adolescentes". Em: Grupo Sobre Grupo. pp. 87-98. 1987.
3. GRIMBERG, L. et al. "Problemas y Aspectos Prácticos De La Psicoterapia Del Grupo". Em:
Psicoterapia Del Grupo. pp. 52-74.1957.
4. GROTJAHN, M. "Preparação Para o Grupo". Em: A arte e a técnica da terapia Analítica de Grupo.
pp. 71-77. 1977.
5. NACHER, P. G. y CAMARERO, J. A. L. "La Formación Del Grupo: Indicaciones y Contraindica-
ciones". Em: Del diván al círculo. pp. 27-42. 1985.
6. OSÓRIO. L. C. “Grupoterapia com adolescentes". Em: Grupoterapia Hoje. 1986.
7. PY. L. A., CASTELLAR, C.; ROCHA, L. "Seleção de Pacientes para Grupoterapia". Em: Grupo
Sobre Grupo. pp. 37-50. 1987.
8. V1NAGRADOV. S. y YALOM, D. "Selecting Patients and Composing the Group". Em: Group
Psychotherapy. 1989.
9. ZIMMERMANN, D. “Seleção e Agrupamento". Em: Estudos Sobre Psicoterapia Analítica de Grupo.
pp. 71-85. 1971.
0 INICIO DE UMA GRUPOTERAPIA ANALÍTICA
uma prim eira sessão

E ste capítulo será exposto em duas partes. A primeira consta da transcri­


ção integral de uma sessão inicial de uma grupoterapia analítica, sendo que
alguns trechos serão assinalados por algarismos colocados entre parênteses. Na
segunda parte, esses algarismo servirão de roteiro para os comentários e conside­
rações acerca das particularidades e dos fenômenos que, sempre, se manifestam
e caracterizam o início de qualquer grupo terapêutico.

EXEM PLO CLÍNICO (N2 01)

O grupo que aqui está sendo tomado como ilustração foi formado de acordo
com os parâmetros descritos no capítulo anterior, ou seja, trata-se de um grupo
que foi formado por um terapeuta iniciante, com uma razoável formação em teoria
e técnica da psicanálise individual; é o seu primeiro grupo com finalidades tera­
pêuticas de pretensão analítica; a seleção e composição visou a pacientes adultos,
de ambos sexos e com um grau médio de neurose. O encaminhamento dos pa­
cientes, na sua quase totalidade, proveio de outros grupotérapeutas mais experi­
mentados que, por razões diversas, não puderam, ou não quiseram, tratá-los.
Foram feitas, em média, duas entrevistas para cada pretendente, sendo que, para
cada um dos sete selecionadas, separadamente, foi feita uma prévia combinação
acerca dos horários das duas sessões sem anais, assim como um referencial quan­
to ao custo de cada sessão, o período de férias, etc.
Decorrido um período de aproximadamente três m eses entre a seleção do
primeiro ao último paciente, o grupoterapeuta pessoalm ente telefonou a cada um

70
Grupoterapias / 7 1

deles confirm ando o interesse dos m esm os e an unciando o dia, h o ra e local do


inicio da grupoterapia.
A com posição do grupo foi a seguinte:

Ana 25 anos. Médica. Solteira. Problem as de d esaju stes com o nam orado.
Bia 29 anos. Psicóloga. C asada, três filhos. Dificuldades de relaciona­
m ento com todos em geral.
Cida 27 anos. Proféssora. C asada, um filho. Excessiva timidez.
Diva 26 anos. Arquiteta. Solteira. Dificuldades de estabelecer vinculos
com o sexo oposto. In ten sa sudorese n a s mãos.
Ènio 28 anos. Gerente de vendas. Solteiro. P erm anente estado de angústia.
Fábio 22 anos. E stu d an te de Medicina. Solteiro. E xagerada inibição social.
Gií 23 anos. E studante de A rquitetura. Solteiro. M anifestações fóbicas.

Na hora aprazada, o terap eu ta (T) vai à sala de esp era p ara fazê-los passar.
E stão todos presentes, nu m a conversa m uito anim ada. E ntram , sen tam , miram
a te n ta e fixamente ao terap eu ta e aos poucos vai se fazendo um silêncio progres­
sivam ente m ais tenso, até um ponto em que começou a se evidenciar u m descon­
forto físico e um a súplice troca de olhares(').

T. A situação m udou da sala de espera p ara cá. Com a m inha presença


pararam de falarp).
Bia: Na sala de espera estávam os tentando nos conhecer(3).
Ênio: Estávam os especulando como seria a ocupação dos lugares p a ra séntar.
Fábio: Aqui todos os lugares têm o m esm o cômodo, não h á diferença n en h u m a
(na verdade havia: a peça constava de um divã onde sentavam quatro
pessoas, enquanto os outros três lugares consistiam em confortáveis
cadeiras individuais. A poltrona do grupoterapeuta, m aior e melhor, se
sobressaia das demais). Alguém já tem experiência de grupo?
Acho melhor que todos nós estejam os iniciando ju n to s(4).
Bia: Então vou confessar u m a coisa que está me chateando porque eu não
contei ao doutor n a entrevista individual, com medo de que ele não me
aceitasse. J á me tratei an tes em um outro grupo e interrom pi h á pouco
tempo.
JÊnio: E u já tenho experiência de grupo, de individual, de tudo...
Diva: Eu já fiz três anos de psicoterapia individual.
Ênio: Acho que já conheço de vista alguns de vocês.
Ana: T am bém tenho essa im pressão: proponho que nos apresentem os (e a s ­
sim fazem).
Diua: Estou suando n a s m ãos. Deve se r ansiedade.
Ênio: Não sei por que ficar ansioso. Eu estou bem calmo: sou veterano em
tratam entos.
(Os dem ais participantes se dividem entre d ar razão à Diva ou a Ênio) (5).
72 I David E. Z im em a n

T. N este momento o grupo se m o stra dividido: Diva está represen tan d o


ca d a um de vocês que tam bém está sentido algum a ansiedade diante
d essa situação nova e desconhecida, enqu an to Ênio se encarrega d a
tentativ a de negar essa aflição. E fazem isso procurando to m a r fam iliar
o que é desconhecido, através d a sen sação de já se conhecerem e fazen­
do as apresentações entre si, bem como procurando se nivelar como,
por exemplo, dizendo que todas as cadeiras são iguais, quando e stá na
ca ra que não são.(6).
Ênio: O gozado é que todos os analistas são iguais. É a m esm a coisa que eu
ouvi no meu outro grupo. Sai de lá porque acho que eles não tiveram
saco p ara agüentar o m eu jeito agressivo de ser.
Biœ Pois eu estou sentido um a diferença. E stou achando o nosso doutor
m ais tranqüilo que o outro. Há algo m elhor aqui. (Todos do grupo q u e­
rem saber os nomes dos outros te ra p e u ta s e trocam im pressões, favo­
ráveis e desfavoráveis, acerca dos mesmos].
> T: Q uerem me conhecer para se certificarem a que tipo de pessoa estão
o entregando a vida íntima. Nisso, Ênio e Bia falam por todos: tanto posso
d ar um alimento bom — “tranqüilidade” — como m au — "chavões”. Até
^ precisam me te sta r para saber se eu terei saco p ara agüentar a agressão
a que Ênio aludiu, os às m entiras como Bia expressou, e que provavel­
m ente fazem parte dos recursos que todos vocês venham u san d o p ara
S se defender na vida aí fora(7).
Ênio: (pergunta diretam ente ao terapeuta): Não é verdade que em todos os
^ grupos se p assa a mesma divisão que o Sr. m ostrou agora?
(Seguem-se outras perguntas. O terapeuta não responde diretam ente a nenhum)(8).

, Ênio: (dirigindo-se ao grupo): Bem, vam os co n tin u ar nos conhecendo.


^ (Para Ana): Que bom term os u m a ihédica entre nós. (Para Bia): E n g ra­
çado term os aqui um a psicóloga com profundos conhecim entos de psi-
V cologia e precisando de tratam ento como qualquer ignorante como eu.
(Para Cida): Tu falas, pouco, m as com pensas porque és bonita. (Para
Gil): Tu tam bém falas pouquinho, m as em com pensação tu és feio.

'S (Seguem-se com entários, risos e um a troca de im pressões entre eles, sem ligar ao
^ terapeuta)(9. 10).

T. O grupo, através de perguntas d iretas procurou me dar um papel dire-


tivo. Como não feiram atendidos, se sen tiram fraudados e, por isso, me
ignoraram e elegeram um outro líder — Ênio — bem como procuraram
se garantir com substitutos — u m a m édica e um a psicóloga — p ara o
m eu vazio.
Ana: Pois eu estou me sentindo bem aqui.
Cs Diua Eu estou com saudades do meu outro terapeuta.,
jy Cida: Acho que 90% do tratam ento depende ê do paciente.
C~\
Grupoterapias I 7 3

Êriio: Pois eu acho que depende muito m ais do te ra p eu ta do que da gente.


Bia. Uma coisa que eu vou querer ver bem aqui é por que é que eu resolvi
sair do outro grupo sem avisar. O Dr. X não m erecia isso. Q uase não
dorm i essa noite, m orta de culpas.
Git Agora estou me sentindo melhor, m as eu tam bém quase não dormi essa
noite porque desde que o doutor avisou que o grupo ia com eçar me deu
um a baita diarréia. Como eu não conseguia dorm ir passei quase toda
noite desm ontando a s peças do m eu rádio-relógio de cabeceira porque
a m áquina dentro dele não estava funcionando bem , e agora não sei se
vou saber montá-lo novam ente. Acho que estraguei ele de vez, que
agora sim, não tem m ais conserto(> >■12).
A nœ Interessante é que falamos de tudo, m enos dos problem as que nos
trouxeram aqui.
T. E isso tem um a razão, é como se o grupo todo, e cad a um de vocês,
estivesse dizendo: antes de nos expormos, precisam os ter a certeza de
que não vam os en tra r num a fria, precisam os sa b er com quem estam os
nos metendo, tanto em relação aos colegas do grupo, como, principal­
m ente, com o “doutor”. Todos estão precisando sa b er se eu sei o que
estou fazendo, ou se correm o risco de que eu seja um m au consertador
de aparelhos, que eu desm onte cada um de vocês e depois não saiba
fazer a rem ontagem .f13).

(Após um a breve pausa, em que m uitos fazem com a cabeça um gesto de a sse n ­
tim ento, o terapeuta prossegue): Por outro lado, vocês tam bém querem saber se
não correm o risco de “m orrer de culpas", como Bia referiu, quando me atacarem ,
como fizeram antes, ou se eu tenho condições de su p o rta r tanto as expectativas
como a agressão que depositarem em mim.(i4).

Énio: (após o terapeuta ter encerrado a sessão): É sem pre assim , quando está
com eçando a ficar bom, term ina.

Comentários

A presente sessão não objetiva m ais do que servir como um sim ples exem­
plo, e fica bem claro que ela perm ite o u tras com preensões e outro manejo. O
m esm o vale para os com entários que seguem.

1) Nem todos os grupoterapeutas procedem assim . Muitos preferem iniciar


o grupo com um a com binação e discussão d as regras básicas, sendo
que, m uitas vezes, isso é feito através da leitura inicial de um texto
apropriado. Pessoalmente, tendo em v ista que é o caso de um a grupote­
rapia analítica, preferimos que caiba ao grupo a tom ada de iniciativa
p ara a exposição das respectivas dúvidas e angústias, sendo que procu-
7 4 I David E. Zimennan

ram os esclarecê-las dentro de um contexto de atividade interpretativa.


C ostum am os com binar as condições básicas (horários, honorários, fé­
rias, duração) n a s entrevistas individuais prelim inares, e preferimos
que as dem ais regras necessárias ao funcionam ento do grupo (sigilo,
faltas, atrasos, actings, etc.) se organizem sim ultaneam ente com a evo­
lução da grupoterapia.
2) Aqui, vale destacar dois aspectos. Um permite esclarecer o que foi visto
no Capitulo 5, ou seja, n a sala de espera tínham os um grupo do tipo
"serial”, e b astou a presença do terap eu ta e o formalismo de u m en q u a­
dre inusitado p ara d ar início à instituição de um grupo propriam ente
dito, com a formação de um campo grupai, em que o silêncio estava
expressando a emergência de expectativas e de ansiedades. O segundo
aspecto se refere à atitude do grupoterapeuta e é indicadora de que ele
pretende trabalhar com o grupo num nível médio de ansiedade. Sem
frustrações e ansiedade não se forma u m a dinâm ica grupai m ais pro­
funda e, por outro lado, um a ansiedade excessiva pode ser ca u sa de
abandonos e de um a possível dissolução do grupo.
3) É a forma mais comum de enfrentar a ansiedade frente ao desconhecido.
4) E sta intervenção também permite perceber dois aspectos do cam po g ru ­
pai. e que serão pormenorizados no capítulo seguinte. Um é o uso de
m ecanism os defensivos, tipo Negação. O segundo aspecto é o d a distri­
buição de papéis. No caso, o paciente Fábio começa a assu m ir um papel
que viria a se confirmar: o de um contem porizador que, mercê do uso de
defesas do tipo de formações reativas, se encarrega de negar os sen ti­
m entos de natureza agressiva que poderiam resu ltar da percepção de
um a rivalidade entre eles.
5) Persiste a ansiedade diante de u m a situação nova e estran h a, assim
como o controle defensivo de transform ar o desconhecido em conhecido.
Por outro lado, fica claro que assim como cada indivíduo pode u s a r o
recurso defensivo da Dissociação, tam bém o grupo, como um a totalida­
de, está dividido, ou seja, dissociado.
6) Uma afirmação distorcida por parte de um paciente, quando não é con­
testada por ninguém, pode ser tom ada como sendo de todos. Por outro
lado, percebe-se que a atividade interpretativa — objeto do Capítulo 17
—, além de procurar aliviar a tensão do grupo através do reconhecim en­
to e da com preensãa,da origem da mesm a, tam bém visa destacar, se p a ­
radam ente, m as sém pre dentro de um contexto grupai, o papel que
cada um começa a exercer. A parte final d a intervenção do terap eu ta
começa a instituir um a linha de conduta: a valorização da verdade e a
denúncia do “faz-de-conta".
7) Aqui também, como de resto é em todo início de um a grupoterapia, a
interpretação visa, prioritariamente, à necessária integração dos aspec­
tos dissociados. Por outro lado, a alusão ao “saco” deve ser decodificado
Grupoterapias I 7 5

por n ó s como sendo a necessidade que tem um grupo em início de sa b er


se o se u te ra p eu ta é possuidor da capacidade de se com portar como u m
‘‘bom continente” p ara poder conter aqueles m edos e angústias que
ca d a um não tolera em si próprio. Este atrib u to do grupoterapeuta,
ju n to com outros tam bém indispensáveis, serão estudados no Capítulo 20.
8) R esponder às p erg u n tas diretas, de cada um , n este momento inicial do
grupo, representaria um estím ulo ao suposto básico de dependência,
assim como um reforço à s individualidades e, portanto, um prejuízo no
intento de u m a integração gestáltica.
9) É fácil observar que, à m edida que o terap eu ta não assum e o papel que
o grupo espera dele, vai sendo ignorado e castigado com um a m argina-
lização, enquanto o seu vazio vai sendo preenchido pela emergência de
um líder inicial de características m aníacas.
10) A continuidade da grupoterapia confirmou que este paciente — Ênio —
foi m alselecionado p ara a com posição deste grupo (conforme o exposto
no C apítulo anterior) pela razão de ter assum ido o papel de um “m ono­
polista crônico” refratário às interpretações. À p erg u n ta do que teria
levado o novel g ru poterapeuta a selecionar este paciente com caracte­
rísticas narcisísticas e m aníacas tão exageradas e salientes, ele encon­
trou a resp o sta nu m sentim ento contratransferencial despertado n as
entrevistas de seleção. Assim, ansioso diante d a perspectiva de que
prevalecessem pacientes deprim idos n a com posição deste seu primeiro
grupo analítico, ele se n tiu a necessidade de co n tar com alguém m uito
falante e “agitado” que o protegesse contra o risco de o grupo vir a
m ergulhar em silêncios e, daí, a m orrer de inanição...
11) T anto n essa intervenção de Gil, como n a an terio r de Bia, podemos p er­
ceber o movimento d as ansiedades em ergentes (capítulo seguinte). As­
sim , neste m om ento da sessão, com a ansiedade paranoide um pouco
aten u a d a, com eça a em ergir um a, subjacente, ansiedade de tipo d e­
pressivo, sob a forma de culpas pelas perdas, e de um medo que a vida
p síquica (a "m áquina de dentro") de cada um deles esteja irreversivel­
m ente estragada. E sta ansiedade depressiva é sim ultânea e acrescida
ao m edo de que tam bém o terapeuta, devido aos m ecanism os de identi­
ficação projetiva dos pacientes, fique revestido com os aspectos desva­
lorizados deles e que, por isso, os estrag ará de vez.
12) Por outro lado, é cham ativa a coincidência de que um paciente (Gil) que
praticam ente não falou ao longo d a sessão, te n h a comunicado a s u a
ansiedade através de u m a linguagem não verbal (assunto do Capítulo
17), ta n to sob a forma d a ação sim bólica (desmontagem do rádio-reló-
gio), como através da linguagem da som atização (é como se através d a
d iarréia estivesse dizendo: "estou me cagando de medo”).
13) C ham a a atenção que as interpretações d esta sessão estejam centradas
exclusivam ente no aqui-agora transferencial. Tal con d u ta se impõe sem -
76 I David E. Zimerman

pre que as angústias estiverem muito elevadas e está sendo óbvio que a
experiência emocional está sendo vivida diretam ente com o terapeuta.
No entanto, nem sem pre as coisas se p assam assim , como será explici­
tado no capítuto que tra ta da atividade interpretativa.
14) Habitualmente é recomendável que o grupoterapeuta, ao término da
sessão, faça uma ifttervenção que sintetize os principais movimentos
que ocorreram ao longo dela com a finalidade de integrar os aspectos
dissociados.
Os com entários que foram inseridos à transcrição de alguns dos movimen­
tos da sessão têm o propósito de, a modo de um preâm bulo, preparar e rem eter o
leitor p ara alguns dos tem as já abordados, como os da seleção e da composição
do grupo, e p ara outros, que seguirão, pertinentes aos fenômenos que se passam
n a dinâm ica do cam po grupai.

Orientação Bibliográfica

1. DELLAROSSA, A. "Planteos técnicos en una primera sesión". Em: El Grupo Psicológico, pp. 11-20.
1959.
2. GRIMBERG, L. et al. "Inlciación de un grupo”. Em: Psicoterapia Del Grupo. pp. 75-100. 1957.
3. GROTJAHN, M. ”0 Grupo Iniciante". Em: A arte e a técnica da Terapia Analítica de Grupo. pp.
78-124.1977.
4. MILLER DE PATVA, L, "Inicio de um grupo". Em: Psicanálise de Grupo. pp. 80-88. 1991.
5. ZIMMERMANN, D. “Características Gerais do Grupo Terapêutico”. Em: Esfudos sobre Psicotera­
pia Analítica de Grupo. pp. 45-67. 1971.

/
Terceira Parte

OS FENÔMENOS DO CAMPO GRUPAL


CAMPO GRUPAL:
ANSIEDADES, DEFESAS, IDENTIFICAÇÕES

Ä ilustração clínica do capítulo an terio r evidenciou o fato de que a form a­


ção de um grupo vai além de um a sim ples som a de indivíduos com problem as
exclusivamente pessoais. A reunião de todos eles e m ais o terap eu ta, p a ra u m a
tarefa comum, gerou a formação de um cam po dinâmico, no q u al se entrecruzam
necessidade, desejos, ataques, medos, culpas, defesas, papéis, identificações, m o­
vimentos resistenciais, transferências e contratransferên cias, etc.
Como tudo isso se processa sim ultaneam ente, às vezes de form a m uito
rápida e confusa, exige que o gru p o terap eu ta ten h a bem discrim inado p ara si os
principais elementos que compõem a dinâm ica do cam po grupai.
Este capítulo, tom ando como base as conceituações da teoria psicanalítica,
pretende fazer um a revisão dos três aspectos oue se constituem como a c o lu n a-
m estra n a formação dos processos inconscientes que gravitam no cam po g ru p ai :
D SB BSH gB Srá Pèfôgas/3 ) rdêntificacô^.V ' '

ANSIEDADES

H abitualm ente, os term os ansiedade e angústia são tom ados como sin ô n i­
mos. Creio ser útil estabelecer um a distinção. A A ngústia (vem do latim angor,
que significa “estreitam ento") se m anifesta por u m a sintom atologia som atiform e,
do tipo de sensações de estreitam ento, como é o caso d a disp n éia su sp iro sa ,
opressão pré-cordial, etc. Ansiedade expressa u m a "ânsia", ou seja, um desejo
impossível e, por isso, ela se forma no ego com a finalidade de sinalizar que algum
perigo am eaça o equilíbrio interno. No entanto, nem sem pre o sinal de alarm e da
ansiedade se traduz por sintom as de an g ú stia livre.

79
80 I D avid E. Zimerman

O s estados de ansiedade, m ais essenciais e típicos, sâo os seguintes:


1) À nsiedade de aniquilam ento, (também conhecida com as denom ina­
ções de: « ® s!^ a ê id e td ê S filfe p a ç S o ; «catastrófica; «terrorssem m om e;
despedSçâmfeffiõf^esfflembYâfflenWetc). Na escala evolutiva, esta an ­
siedade é a m ais primitiva de todas e corresponde a u m a provável sen ­
sação da criança de que ela e o seu corpo vão se desintegrar em peda­
ços. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que o aparelho m ental do
bebê ainda não tem um a m aturação neurobiológica capaz de absorver o
formidável impacto de estím ulos provindos de fora e de dentro dele. É
imprescindível que o terapeuta saiba que esse aspecto pode se consti­
tu ir como um im portante ponto de fixação p ara fu tu ra s regressões,
como costum a ocorrer em estados psicóticos, ou doenças psicossom áti­
cas, por exemplo.
2) A nsiedade de fusão-despersonalização. (ou de “engolfam ento”). Sabe­
mos que há um a etapa evolutiva n a qual a criancinha está simbiotizada
com a mãe e, portanto, ainda não se diferenciou dela e, m uito menos,
se individualizou. No paciente adulto de fortes tendências à ©jntraçãcff
!;des9incHlosîsimbïôtiegg. essa ansiedade irá se m anifestar pelo seu a p a ­
voram ento ante a possibilidade de fundir-se (tragar ou se r tragado) com
o outro e, daí, perder a su a individualidade e identidade.
3) Ansiedade de separação. Como contraparte d a situação anterior, esta
ansiedade forma-se quando a criança ain d a não conseguiu desenvolver
um núcleo de confiança afetiva básica em relação à mãe, de quem
depende com pletamente, e, devido ao medo de vir a perdê-la, não con-
segue(m) se separar e vive(m) grudada(s).(*)
4) A nsiedade da perda do amor. A criança sente-se em condições de
d ispensar a constante presença fisica d a m ãe. No entanto, devido à ação
de su a s fantasias inconscientes, ela se m antém em perm anente estado
de sobressalto quanto a um possível abandono por parte da mãe, como
um revide desta.
5) A nsiedade de castração. Surge como decorrência dos conflitosêdípicos.
6) A nsiedade devida ao superego. Herdeiro direto do complexo de Edipo,
o superego1 ameaça p indivíduo com severas punições, caso as su as
expectativas e exigências não forem cum pridas.
Um outro vértice de classificação dos tipos de ansiedade ê o de, seguin­
do o modelo kleiniano/levar em conta os conflitos entre as inatas p ul­

i') No paciente fóbico podemos observar nitidamente a coexistência e alternância das ansiedades
de fusão, com a de separação. Este tipo de paciente costuma regular a distância que. ele deve
manter das pessoas (terapeuta, por exemplo): nem longe demais, para não se perder do outro,
e nem perto demais para não se perder no outro. Esses mesmos movimentos de aproximação
e de afastamento são observados comumente nos grupos.
» V*
Grupoterapias 1 8 1

sões agressivas — representadas pelas fan tasias inconscientes — e os


prim itivos recursos defensivos do ego. N essa abordagem , são três os
tipos básicos de ansiedades: psflan3íiâe>
d ep íesS v ò (temofcdaTdestrüicão?dos objetos) e?confusional (momentos
d e;tran sicão-entre?asaiaa5!girteriOf£gltfOs tipos de ansiedade que s u r ­
gem no cam po grupai variam de acordo com o m om ento evolutivo deste,
e tanto podem e sta r restritos a determ inados indivíduos como podem
estar expressando o que se p assa com a totalidade grupai. Assim, a
ilustração do capítulo anterior evidenciou claram ente a irrupção de a n ­
siedades paranoides (estão contidas no suposto básico de lu ta e fuga, de
Bion) e que, de resto, a experiência clínica com prova que elas estão
sem pre presentes em qualquer início de grupoterapia.

Não é dem ais repetir a im portância de quatro aspectos, relativam ente ao


surgim ento d a ansiedade no campo grupai. Um é o fato de que a prë'sëhça’de 11fflf

vezes, a ^ ^ i e d a d e som ente se m ^ i f e s t ^ i t í d ^


,s9m atizacôes^,.de^Q ctina5^0 Terceiro aspecto se refere à necessidade de qu e 0 r

todo (inclusive ele próprio) para que eie possa exercer a função 'interpretatiya
' ad e q u ad a. O últim o aspecto que merece se r desticädfö ê que m n dos fatores que
concorre m uito para a formação do senso de identidade de um indivíduo éspy
estabelecim ento e oTeconhecimento de s u a s diferenças còm os d em ais. sendo que
isso é m ais facilitado em tratam entos grupoterãpicos pela própria natu reza deles.

MECANISMOS DE DEFESA

Supõe-se que, desde o nascimento,_p ego do beb ê está, ativam ente, u tilizan-
do defesas que vis am a protegê-lo da inundação dos diferentes e fortes estím ulos
p rovindos de variad as fontes. Inicialmente, tais defesas são arcaicas e de natureza
m ágica (onipotência, negação, dissociação, projeção, introjeção, idealização, anu-
lação, deslocam ento7c5 rrdm ¥ã^oT X rffas ^ lã ^á zê m ~ p irte ês'sêncial do processo
evolutivo norm al. Com ö am adurecimento do e g o n o v a s e m ais organizadas defe­
sa s vão sendo utilizadas, como a repressaoT ã form açãoTêaüva, aTrarisformação^.
ao contrário, a racionalização, a sublimação, etc.
S ã õ lã o bênTcõnhecidos esses m ecanism os defensivos que seria fastidioso
detalhá-los aqui. B asta dizermos que todos eles, conforme a intensidade e a
finalidade de seu uso pelo ego, tanto podem estar a serviço d a sa ú d e como d a
patologia psíquica. Um claro exemplo para ilu strar essa afirmativa está no uso da
:identificaçào>proietivft — sem pre muito presente no campo grupai — a qual tanto
pode constituir-se como a base da formação d a em patia (capacidade de colocar-se
no lugar do outro), como pode ser a causa de distorções de percepção, os quais
82 I D avid E. Zimerman

podem atingir o grau máximo de falsificação d a realidade, como é o caso das


percepções alucinatórias e o d a ideação de natureza delirante.
D eterm inadas defesas que estão muito estratificadas em indivíduos podem
ser m ais facilmente m odificadas no tratam ento grupai do que no individual. As­
sim , alguns com ponentes do grupo pressionam outros p ara que se dêem conta do
emprego d as distorções de percepção e ideação, assim como costum am fazer um
aberto desafio à s negações e, desse modo, estão contribuindo p ara o levantam en­
to da repressão dos dem ais.

/
IDENTIFICAÇÕES

A aquisição ..de u m ^ en tim en to rd eád etitidade côesõr:e härnionicoaesulta-do


reconhecim ento e da elaboração d as .distintas identificações parciais^quc^desde,
os prim órdios, foram se incorporando no indivíduo através da in trojeção do código
de valores dos~pais e da s ocIedadE E sse'processo se complica n a m edida em que
cada um dos objetos m odeladores é, por su a vez, introjetado com as respectivas
identificações parciais e a s com plicações deles próprios.
É táo freqüente a reprodução de tais processos identificatórios no campo
grupai que a s u a relevância ju stifica que se faça um a breve revisão da metapsico-
logia d as identificações.
A identificação é u m processo., ativo, do ego do indivíduo e consiste em que

é Q jneanoJiue-iriçarJci& m X
Há m u itas form as de' como se processa a identificação. Inicialmente, é útil
fazer um a distinção entre proto-identificação e identificação propriam ente ,tíita,.As
proto_-identificações sào de n a tu re z a m ais arcaica, .e. se configuram por u ma das
q u atro m odalidades seg u in tes: a) A desiva (não houve o "desgrude” da mãe e,
nesse caso “te r” a m ãe (ou o terapeuta) é o mesmo que “ser” a mãe), b) Especular
(a criança com porta-se como se fosse um a m era imagem que som ente reflete os '
desejos da m ãe ou, vice-versa, en cara os outros como sendo sim ples prolonga-

falta de figuras solidam ente introjetadas, o indivíduo fica sem. identidade própria
e, por isso, fica "adicto” a certas pessoas que o com pletam e complementam), d)
Imitativa (na evolução norm al ela é um primeiro passo p ara a identificação nor­
mal, no entanto, m u itas vezes, ^aode se constituir como u m a forma perm anente
de personalidade cam aleônica).
Em grupos m aiores, como por exemplo um a gangue ou um a tu rm a de ado­
lescentes, costum am se form ar identificações m ú tu a s entre os seus membros.
Tais identificações prom ovem um sentim ento de unificação e de pertinência; por­
tanto u m a identidade grupai, que os protege contra a perda total do sentim ento
de identidade, m as que ac arreta um grave prejuízo no funcionam ento emancipado
do ego de cada um deles.
Grupoterapias / 83

As identificações propriam ente ditas resultam de um processo de introiecâo


de figuras p aren tais dentro do ego e do superego, o que pode ocorrer através Hp
u m a d a s seguintes tormas:

1) Com a figura am ada e adm irada (é a que constitui as identificações mais


sadias e harm ônicas).
2) Com a figura idealizada (costum a se r frágil e não suporta as frustrações).
3) Com a figura odiada (configura o que se conhece como “identificação
com o agressor").
4) Com a figura perdida (é a b ase dos processos depressivos).
5) Com a figura atacad a (creio que poderia ser denom inada como “identi­
ficação com a vitim a”).
6) Com alguns aspectos parciais d essas figuras acim a (por exemplo, a
presença de um m esm o sintom a, ou um m esm o maneirism o, etc.)
7) Com os valores que lhe foram im postos (na b ase do 'T u vais ser igual à
louca d a tia Maria”, etc.).

A identificação tam bém pode resu ltar das cargas de identificações projetivas
pelas q uais o indivíduo, que não consegue conter dentro de si próprio os seus
aspectos m au s (m as tam bém podem ser os bons), os projeta dentro de outros, que
então p assam a ser sentidos como idênticos a ele.
Em forma resum ida, podem os dizer que as identificações se processam em
três planos: na voz ativa (o sujeito identifica algo ou alguém); n a voz passiva (ele
foi identificado com, e por, alguém) e n a voz reflexiva (o sujeito se identifica com
um outro).
No cam po grupai, tais processos identificatórios, projetivos e introjetivos,
em conjunção com as proto-identificações an tes referidas, costum am ocorrer de
u m a forma freqüente, in te n sa e mutável, e constituem o que se costum a denomi­
n a r “identificações m últiplas e cruzadas".
Pela m esm a razão, o gam pprgrupal/já foi com parado com u m a “gälenä?d?
í.espelhosr t1), onde cada um se reflete e é refletido nos, e pelos, demais. Nesse
contexto, a pessoa do grupoterapeuta, como um novo modelo para identificações,
adquire um a im portância especial.
Um aspecto muito im portante que deve ser destacado é que a configuração
d as diversas identificações parciais de cada indivíduo irá determ inar, em grande
p arte, a formação de s u a Identidade, tanto a individual, como a grupai. Faz parte
de u m a grupoterapia exitosa que os pacientes consigam discrim inar entre a su as
identifiO Ç ôessadias.'eiâs^atôgêïlâé, promover a desidentificação com essas últi­
m as e propiciar novos modelos p ara reidentificações, de um a m aneira que possi­
bilite a definição de um a Identidadé au tên tica e estável.
8 4 1 David E. Zimerman

EXEM PLO CLÍNICO (N2 2)

A vinheta clinica que segue objetiva exemplificar como os processos identi-


ficatórios podem se processar n a situação grupoterápica.
T rata-se de u m a grupoterapia analítica, sendo que dois fatos m arcantes
antecederam a sessão que, a seguir, será utilizada como ilustração: um, é que a
grupoterapeuta, por viagem, não atendera n a sem an a anterior, o outro fato é que,
no últim o encontro, foi proposto ao grupo a en tra d a de um novo elemento.
A sessão com eça com o paciente A. fazendo um em ocionado e detalhado
desabafo contra o jeito subm etedor de s u a esposa, e se queixa que a m esm a “caga
e a n d a p ara ele".
A paciente B o interrom pe e o aconselha a sep arar-se de s u a m ulher. Em
um tom de crescente indignação e exaltação, B lem bra que a s u a mãe tam bém
tinha um jeito subm etedor e que, portanto, ela estav a autorizada a dizer que o
caso é irreversível e que a separação im ediata é a ú n ica saída.
A seguir, o paciente C diz que A deve esp erar a té m elhorar b astan te com o
tratam ento e só então decidir se convém ou não ele sep arar-se d a m ulher.
B e C com eçam a discutir acrem ente em defesa de se u s respectivos pontos
de vista, até que B, que se m ostrava m uito irad a e intolerante, "ordena” que é a
te ra p eu ta quem vai d a r a palavra final.
A grup o terap eu ta assinala as queixas contra a figura fem inina e interpreta
o fato de que as pessoas do grupo se sentiram ab an d o n ad as (pelas su a s faltas
seguidas) e traíd as (pelo anúncio da entrada de u m novo).
Alguns pacientes discordam, porém C confirm a que ele sen tiu -se traído pelo
fato de que o novo que vai en tra r é um adolescente e que, portanto, deve ser um a
pessoa m uito agressiva.
A terap eu ta aponta que C expressa, pelos dem ais, o medo que cada um
deles tem dos se u s aspectos agressivos, sendo qúe estes surgem especialm ente
quando se sentem hum ilhados por pessoas subm etedoras, tal como aconteceu em
relação às figuras parenterais no passado, e como e s tá acontecendo no aqui-agora
da sessão em relação a ela, terapeuta, investida pelo grupo no papel de um a m ãe
tirânica.
A sessão prossegue com está temática, com alguns integrantes evocando
situações do passado familiar em que se sentiram m altratados, assim como foram
assin alad as algum as sem elhanças entre o com portam ento das pessoas que eles
estavam criticando com o delespróprios.

COMENTÁRIOS

Uma ate n ta observação perm ite reconhecer três tipos de identificações que
se evidenciaram no curso d essa sessão.
Grupoterapias I 85

1} A totalidade do grupo (representado por B) identificou-se com a condi­


ção de um a criança ab an d o n ad a e subm etid a (como A estav a se a p re ­
sentando).
2) Os pacientes do grupo identificam (nas p essoas d a esp o sa de A e n a
grupoterapeuta) um a m ãe m á e subm etedora.
3) A paciente B, enquanto estava intolerante e dando ordens, m o stra o
quanto estava, ela própria, identificada com o jeito que tan to criticara
em su a m âe (trata-se de um exemplo típico do que conhecem os como
sendo um a “identificação com o agressor”).

Além desses, os seguintes aspectos podem ser observados n a dinâm ica do


campo grupai: 1) uso intensivo de m ecanism os defensivos projetivos e introjeti-
vos, responsáveis pelo jogo d as m últiplas identificações: 2) a possibilidade de que
o novo elemento venha se r recepcionado com hostilidade, em razão de que a
projeção em su a pessoa, da parte adolescente-agressivo de cada um deles, o
preconceitua como sendo um intruso e am eaçador p ara a segurança; 3) as tra n s ­
ferências m últiplas e cruzadas.
Um outro ponto que vale d estacar é o fato de a terap eu ta não ter intervido
n a “briga” entre os irmãos, apesar de ter sido acionada p ara tanto; pelo contrário,
ela m ostrou um a capacidade de “continência”, ou seja, pôde conter os aspectos
d a agressão m anifesta.

Orientação Bibliográfica

1. FOULKES, S. H. y ANTHONY, E. J. Psicoterapia Psicoanalitica de Grupos. 1964.


2. MILLER DE PATVA. L. "Mecanismos de defesa em grupoterapias". Em: Psicanálise de Grupo. pp.
199-204. 1991.
3. MORESCO, M. B. “La Identification en grupos". Em: Grupo é Psicoanalises? pp. 34-37. 1988.
4. PUGET, J. et al. "Ansiedades Básicas Grupales y sus Defensas: Configuraciones". Em: El Grupo
y Sus Conßguraciones. pp. 26-29.1991.
PAPÉIS. LIDERANÇAS

^ Da m esm a forma como ocorre num sistem a familiar, institucional, ou so-


4) ciai, tam bém um grupo terapêutico com porta-se como u m a e s tru tu ra n a qual h á
Ä u m a distribuição com plem entária de papéis e posições. Pod em os dizer que em
ca d ap a p eT se coridênsãH ã s l x p ê dãtj.va 5 J i£ c esaid a d e s ê c r e n c a s irracionais de
• cada unL£-Xiue compõem, a fantasia básica jn c a n s x x n t^ M U m a a ^ M P IL tfl.d p .
^ A ^afirm açãod e q ù ë ^ q u à lq u e rg m p o c ria , dêidè~õ~seu inconsciente grupai,
um sistem a de papéis, encontra u m a confirmação estatística: b a s ta um exercício
<0 de m em ória, por parte do leitor, para que, certam ente, lem bre-se de que em
a qualquer de su a s diversas tu rm a s de colegas de prim ário, ou ginásio, etc. sem pre
houve alunos que assu m iram e se destacaram ora no papel de "puxa-saco”, ora
Q no de alvo de “gozação”, ou no de “geniozinho”, ou de “b u rro ”, ou de “líder”, e
a assim por diante, sendo que a imagem que se g u ard a do grupo de professores
tam bém p a u ta pelo m esm o nível.
£ Assim, h á sem pre, em qualquer grupo, um perm an en te jogo de adjudicação
a e de assu n ção de papéis, sendo que um seguro indicador de que está havendo
um a boa evolução grupai é quando os papéis deixam de se r fixos e estereotipados
• e adquirem um a tÿ æ M g id ad g tatg x g ^ b jàv g l. A m edida que os papéis forem sendo
a ü c o n h e c id o s, assum idos e moditicados, os indivíduos vão adquirindo um senso
de su a própria identidade, assim como u m a diferenciação com a dos dem ais.
W A experiência clínica com prova que, ao longo d a evolução de um grupo, os
a papéis que m ais comumerjÈe costum am ser adjudicados e assum idos pelos seu s
m em bros costum am ser ós seguintes:

a 11*Boflê:feXpiâtório? Neste caso, toda a “m aldade” do grupo fica depositada


e m jin n n dividuo que, se tiver um a tendência préviaTservirá como depositárioraté

86
Grupoterapias 1 8 7

vor a ser expulso, o que, aliás, é comum. N esses casos, o grupo sairá em b u sca de
um novo bode... Decorre daí a enorm e im portância de que o g rupoterapeuta
reconheça'e sa ib à m anejar tais sitüações. O utras vezes, o grupo modela um bode
expiatório sob a forma de um "bobo d a córte" que diverte a todos e que, por isso
m esmo, ao contrário de um a expulsão, o grupo faz questão de conservá-lo.
A teoria sistêm ica;denom ina o m em bro de um a família aue assum e esse
papel de “paciente'idenTificädöY Por outro lado, no contexto da macrossociologia,
a condição de bode expiatório se m anifesta n as m inorias raciais, religiosas, polí­
ticas, etc.

21 P o rta -v õ z. Cabe ao portador deste papel m o stra r m ais m anifestam ente


.aquilo q u efl r e s t a n f ^ ò ^ r u p o pode^stãrTTãtentem ente, pensando ou sentindo'.
No entanto, e s s a ^ o m u n i c i ^ O a ^ r t a ^ r o r n a ö e T e i t a ^ som ^rüTafraves^SaTciz
(reivindicações, protestos, verbalização de emoções, etc.), m as tam bém através da
linguagem extraverbal das dram atizações, silêncios, actings, etc.
Uma forma m uito com um de porta-voz è a função do individuo contêstador.1
Nesses casos, é imprescindível que o g ru poterapeuta (d T ln ê sffia T o rm i^ ü ë 'ô s
pais, num a família) saiba discrim inar quando a contestação é, sistem aticam ente,
de ordem obstrutiva ou quando ela representa ser necessária, corajosa e construtiva.

3) R àdári‘ Este papel cabe geralm ente ao indivíduo m ais regressivo do grupo,
como ê o caso de'um ~pM ënrêpiïfïïgrtTne em um grupo de nível neurótico, por
'é x ím p la Neste caso, esse paciente, an tes "que os dem ais, capta os primeiros
sinais das ansiedades que, ainda em estado larvário, estão emergindo no grupo.
Esse papel tam bém é conhecido como “caixa de ressonân cia", em razão de que tal
p aciente-radar.jpor não ter condições de poder p rocessar sim bolicam ente o que
raptou.^podevir a expressa r essag_an sie.d3 .des. em su a própria pessoa j triv é s d ? '
som atizações, ou a b a pdono d a terapia, ou_.de cris.es_e_xplosivas, etcy

4) In s tig a d o r/ A pesar de não se encontrar n a literatu ra u m a referência


explícita a este papel, ele é m uito conujm e im portante nos grupos. Consiste na
fupcào düindividuo em provocar um a perturbação no campo grupai, através de
um io?o de intrigas, por exémpIoT assim mobilizando papéis nos outros. Assim, o
In s tig a dor consegue dram atiza r jio m undo exterior a reprodução’da m esm a con- _
figuração q u e J :e m ? s e írg n jp o interior, bem com a n d o s d em ais que aderiram a
esse jogo.

5) A tu a d o r p elo s d em ais, É u m a m odalidade de papel que consiste no fato


de a totalidade do grupo delegar a um determ inado indivíduo a função de executar
‘ àquilo que m ês é proibido, como, por exemplo, infidelidade conjugal, aventuras
ífem erárias, hábitos extravagantes, sedução ao terapeuta, etc. Em tais casos, o
restante do grupo costum a emitir du p la m ensagem : subjacente à barragem de
-criticas que eles dirigem às "loucuras” desse membro, pode-se perceber um disfar­
88 / David E. Zimerman

çado estím ulo, um gozo prazeiroso e um a adm iração pelo seu delegado, executa-
dor de seu s desejos proibidos.

6) iS abotadoi. Conforme este nome indica, o paciente que desem penha o


papel de sabotador, através de inúm eros recursos resistenciais. procura obstacu-
lizar o andam ento exitnso da tarefa gm pal_£ m geral, o papel é assum ido pelo
indivíduo que seja portador de um a excessiva ínvéja e defesas narcisísticas.

7) VeStal.7Dn m esm a forma como é regra n as instituições, tam bém nos


pequenos grupos é muito comum qu e alguém a ssu m a o_papel de zelar pela m a­
nutenção da “moral e dos bons costúm efT~(Jn iex a lê fÕ n esse papel constitui a
iT o ^ o n h e c id a líg u rã do “p/itrulheiro ideológico" què obstrui qualquer movim ento
no sentido de umaj : r i a tiyidade inovadora. Há um_s£rio risco — n ad a incom um —
d e q u e o papel venha a ser assumido pelo próprio.gru p o terap eu ta.

6) Lfder. Nas grupoterapias. o papel de líder surge em dois planos. Um é o


que, naturalm ente, foi designado ao grupoterapeuta. O outro é o que surge, e s ­
pontaneam ente, entre os m em bros do grupo. Neste caso, a liderança adquire
m atizes m uito diferenciadas, desdejosJidejes construtivos qug_exercem.o impor-
tante_ papel dejntegradorgs^e de construtores do espirít de corps.~ãte~ns lideres
negatiYfls^.c.o.sjmals prevalece um excessivo narcisism o d estru tiv o -i
À n atureza e a função da liderança exigem um estudo m ais detalhado.

LIDERANÇAS

O term o "Liderança” pertence a m uitas áreas h um anísticas, como as d a


Psicologia, Sociologia, Política, etc. e, por isso, pode ser conceituado a p artir de
vários pontos de vista, sendo que qualquer intento de classificação deve levar em •
conta o critério de abordagem em pregada. Assim, é útil que, an tes de m ais n ad a,
se estabeleça um a distinção entre as lideranças que se processam nos m acrogru-
pos (como as tu rb as e multidões, com unidades, sociedades e nações) e nos micro-
grupos (são os que conservam a comunicação visual e verbal entre todos os
integrantes).
E stritam ente sob o ponto de vista da psicologia psicanalitica, é im prescindí­
vel que o estudo das lideranças se fundam enta em três vertentes: Freud, Bion e
Pichon Rivière. /
Freud, em seu im portante trabalho de 1921, Psicologia d a s M assas e A n á li­
se do Ego(4), descreveu o processam ento de três tipos de formação de lideranças:

Na prim eira delas, alicerçado nos estudos de Le Bon, Fceud^videnotm r-aa,

Em tais situações, esse«individivffyp efd F ö s' ?'


Grupoterapias I 89

te.-aQ aelesmu£EsàOHÍltark?S'°ijela"lideranGa. aitjualpnessesseasG SFeostSffia^fer


caracterisüe-as:ÆaHsroàüca&.
Affgtëiâjfoi utilizada por Freud como um modelo de liderança que se proces­
s a através doffefiõmênff ffitfo iê W ^ ou seja, todos os fiéis incorporam a figura:de*
a in Tngsihõ lidêl- — n a Igreja cristã é a figura de J e s u s Cristo, o qual, por s u a vez,
é o rep rese n tan te de Deus. F orma-se, pois, um a identificação generalizada com
u m lider. a b s trato, e js s o m antém a unificação de todos,os fiéis (é útil lem brar que
a palavra Religião se form a a partir de re e liagre, ou sela, como u m a renovada
te n tativa de ficar lig a d a d e ljm a lo r m a unida e fundida comJDeus, por s u a vez, é
u m a representação simbólica da fusão da mãe primitiva com a do pai todo-poderosol.
Em relação aogBxércitcg Freud ensina q u e a liderança se processa através
d agprojeçáqj n a pessoa do com andante, das aspiraçfl£aJdeai&4e-eada-4}m-cbs.
cõm anaacfos
E ssa tríplice conceituaçào de Freud acerca d a formação de líderes, se for
v ertida p ara a term inologia analítica corrente, pode ser assim entendida: o líder
carism ático
irl—,—manflTmn,f «mde um~air~i m«rrrl—
n—imr-r-*— assa prim
jgnaas'fcM itivaV iiT
— mimiihh corresponde
frri"— a um a fase evolutiva
—— Wmuito
a — i m.
regressiva, de n atu re za narcisista-sim biótica, em. que ainda não se. processou.a
diferenciação entre o eu e o outro.. O modelo religioso de liderança decorre do
fenôm eno de identificação introjetiva, enquanto a identificação projetiva é o pro­
tótipo de como„siejjm£gss a a T d ^
Bion, em érito psicanalista britânico e pensador original, partindo de su as
raízes kleinianas, trouxe um a decisiva contribuição p ara a com preensão da for­
m ação e d a significação das lideranças. lU.ma prim eira observação que pode ser
extraída de_seus e_studos0 é a de que qualquer g ru po tem u m a necessidade
I m p îîr ita de que sem pre'FiiÍà1in^irgF rança.T )essT fõrm a, àsëx p ërîén cias que ele
fez com g rupos sem lideres formais, m ostrou que, em pouco tempo, inconsciente-
jTiente, j o rm avam -se as inevitáveis lideranças, l
A ssim, diferentem ente de Freud, que considerava o grupo como úm emer­
gente do lider (isto é, o líder como sendo alguém de quem o grupo depende e de
cu ja personalidade vão derivar as qualidades dos demais), Bion fundam entou a
p ostulação de que o líder é que é um em ergente do grupo (creio que esse ponto de
v ista e stá bem consubstanciado n essa afirmação do grande líder Churchill: “como
m e escolheram como líder, eu devo se r com andado por vocês"). 6> i OK)
A p a rtir d essa_concepcão .do lider como um emergente do grupo, deve-se
en ten d e r que n a patologia d a s instituições, ou de um grupo, a liderança pode ser
, a m anifestação de u m sintom a e não a su a causa.
Seguindo a este critério de abordagem , pode-se entender a formação de
l íd e re s a p a rtir da m nceituacão d e Co mo sabem os,
esse a u to r descreveu t rês tipos de inconscientes supostos básicos.
O prim eiro é o de 'Üêp&ndência. pelo qual o grupo se reúne à espera de ser
s u s lf u ía d o por um líder de quem d e p e n a T jja rã ' a sua a lim en ta çã o m a terial
" e s p iritu a íe proteção: neste caso, o ideal é um líder de natureza carism ática.
SO / David E. Zimerman

O segundo tipo de suposto básico é o de ÏLuta~eFuga"j em que o grupo está


reunido p ara lu ta r contra algo.ou dele-.fugir: o seu líder terá características p ara-
noT3e-cau3ÏÏhêscas?
O terceiro tipo é o de “A casalam ento'’ (pairing, no original) ao qual deve ser|.
;dada u m a conceituaçào m aisM n p lao o ^q ü êo sugerido pela tradução do nome, iá
que ele independe do sexo dos participantes e do núm ero destes. E ste suposto
Gasico re fe r^ se tundam entalm ente ás dem onstrações de “esperancaldO -gruRQ-
H abitualm ente, ele e "verèâlizadíô sofe" a forma* de idéias de que acontecim entos
futuros (casam ento, nascim ento de filhos, entrad a de novos pacientes, etc.) sal­
varão a todos das incapacidades neuróticas. O líder ideal d essa esperança utópica
vindoura é alguém possuidor de características m essiânicas.
Na prática clínica, as coisas nâo se passam táo esquem aticam ente assim ,
pois o que se observa é u m a m aior diversificação e arranjos combinatórios dos
supostos básicos, bem como um a freqüência de flutuações, entre estes, ao longo
do tratam ento.
-PTehon Rivièréi*), im portante psicanalista argentino e reconhecido criador
de conceitos originais acerca de G rupos O perativos, descreveu os seguintes q u a­
tro tipos de lideranças : au tocràticá, democrática,* laissez- faire.'deificjgogjca.*
A liderança_autocrática habitualm ente é exercida por pessoas de caracterís­
ticas* obsessivo-narcisísticas. sendo cpe ela é prónria de grupos compostos por
p esso as'in se g u ra s e que não sãbH n íazér. u m . pleno use de su a liberdade. A
M Ê E M ç õ e m-------o.,---------------------
c rá tic a , ----- não deve ser confundida
---------------
com o de um a liberalidade ou
-------------------- I. -------- ----------,--------------------- -~--------------- —----------

licenciosidade; pelo contráno, um a dem ocracia sadia implica em um a hierarquia,


com a definição de papéis e funcoes, e num claro reconhecimento, dos lim ites e
dás lim itações d e j ^ 4 a = a s. X iideranca BoAipo l a i s ^ a ire a i u d f ^ - u ji estado de
negligência e, por isso, o g ^ u jix a iflo isc o .c o n sisl£ j.a la lta de um continente para
asangusÏÏasT H uvidas e limites, sendo qüFBai decorre u m a alta possibilidade da
p rática de actings de natu reza maligna. ATidefahçadem ãgogica e aquela n a qual
o_líder costu m a ter u m a caracterologia do tipo “falso self', sendo nii£_ a -sua—
jfealãgia é con s truída m ais em cimã~de Irãses retóricas do que de acões reais:
essa liderança provoca decepções e. daí, um reforço no desânim o dos liderados,
devido ao increm ento do vêlK õsentim ento de desconfiança que eles devem ter tido
em relação a país. "
Creio que a classificação de P. Rivière ficaria m ais com pleta se dela constas­
se um quinto tipo de liderança que, acom panhando a evolução sociocultural dos
grupos hum anos, tem evidenciado u m a presença cad a vez m ais freqüente: trata-
se do líder narcisista. Como é./ffotório, este tipo de líder costum a utilizar os mais
diferentes m eios — desde os suaves e sedutores, por vezes melífluos, até o em pre­
go de u m a energia exuberante, por vezes carism ática e toda-poderosa — que, no
entanto visam , sem pre, m anter com os seus liderados um conluio inconsciente
que têm por base um a relação de poder. Tal conluio consiste em que o líder
a s s e o ira e rea ssegura aos seus liderados a gratificação das necesslda desT)ásicasT
como a da garantia de proteção e am or, desde oue eles, reciprocam ente, o alimen-
Grupoterapias 1 91

tarem , co n tin u am en te .„com ap lau so s e votos de u m a adm iração incondicional. No


fundo, tal processo de m ú tu a gratificação objetiva g a ra n tir a preservação da auto-
estim a e do sentim ento de identidade de cada u m e de todos. E ssa liderança
narcisista, em situações m ais extrem as, adquire n o s liderados a s características
de u m a fgscm acãore destam bram m tafpelffi'sM tliäef, sendo que é útil consignar
que a etimologia da palavra deslum bre, form ada de: d e s (privação) + lumbre (luz),
indica claram ente o q uanto estes liderados pagam u m preço elevado pela garantia
do am or desse líder: ficam cegados de su a s reais capacidades e atrofiam a su a
criatividade, enquanto hiperatrofiam a dependência.
Em ce rtas instituições é possível observar esse tipo de liderança, em que os
princípios do ideal do ego — os éticos, estéticos e ju ríd ico s — estão conluiados e
depositados n a pessoa do líder narcisista. N os casos exagerados, a subm issão ou
a rebelião (m uitas vezes, com a form ação de dissidências) se constituem como os
extrem os que os liderados utilizam p a ra enfren tar essa situação.
Creio se r im portante ch am ar a atenção p ara o fato de que com um ente a
liderança au to crática a p a re n ta ser m ais violenta do que a n arcisística (a palavra
violência se origina do étimo latino vis, que significa força, como em “vigor", e ela
alude a u m a m á utilização d essa força). Há, no entanto, um equívoco nessa
apreciação, pois, se olharm os m ais aten tam en te, vam os perceber que em um a
instituição, como de ensino-form ação, por exemplo, o*Kder^ t o r i t ^ o ^ffipfiffriá?
fornia a b e n a .a s u a , ideologia,, mas..ríà!>'lira a capacidade de pensar'dös'LseuS;
alunos, ê n q u m itO Æ lid e rÆ a riisisto p ^ è ritê m é H M â ô îm p ô ê lÇ ô îé ffia tra Y é ird â ;/
fascinação e do em prego de im perativos categóricos que m odelam e .definenTaft
su a s expectativ aifid eal do ego), ele deslum bra, isto é, eic alim enta benvò áhm ò
ao m esm o tem po em que o cega e infantiliza (é in te ressa n te re g istra r que o .termo
" a iu n o /ê derivado'de a ie m que significa “ser. alimentado").
E ssa s últim as considerações adquirem u m a especial significação n a s gru­
poterapias, pelo fato de não se r raro que o seu líder n a tu ra l - o grupoterapeuta —
ao invés de propiciar um a atm osfera de indagação, contestação, reflexão, e exer­
cício de liderança p ara todos, possa e sta r m antendo os pacientes de grupo unidos
através de u m a fascinação narcísica veiculada por u m a atitu d e sed u to ra e belas
interpretações. Daí, é possível que, em bora todos os particip an tes do grupo este­
ja m satisfeitos e gratificados, h aja o risco de que o processo analítico propriam en­
te dito esteja esterilizado.
D epreenda-se daí que o conceito de liderar não é o m esmo que o de m andar
(mas sim , de co-m andar) e, da m esm a forma, aceitar u m a liderança não deve ser
sinônim o de subm issão ou de um a dependência em que não h a ja u m a relativa
autonom ia por parte do liderado.
Um a o u tra forma de entender a com plem entaridade dos papéis em um
grupo é a p artir da concepção de que assim como todo o indivíduo se comporta
como um grupo (de personagens internos), tam bém qualquer grupo se comporta
como um a individualidade. D essa forma, se pen sarm o s em term os d a teoria es­
tru tu ra] d a m ente, verificamos que parte dos com ponentes do grupo — terapeuta
9 2 1 D avid E. Zimertnan

inclusive — em forma alternante, podem estar representando as pulsões do Id,


enquanto os outros representam a s funções e capacidades do Ego, ou as criticas
e proibições do Superego. 0 grupoterapeuta deve ficar especialm ente aten to p ara
a possibilidade de que a totalidade do grupo deposite nele as capacidades do ego,
tais como as de perceber, pensar, sentir, saber e com unicar, en q u an to os p acien­
te s fiquem esvaziados pela razão de que eles projetaram o m elhor de su a s capaci­
dades no terapeuta, em tom o do qual eles passam a gravitar.
-t>Um seguro indicador de que u m a grupoterapia está evoluindo exitosam ente
é a constatação de que esteja havendo um a alternância e modificarão nos papéis
-^desem penhados pelos membros, especialm enteabT pä^eis'q ú F se referem a s lide­
ranças.

Orientação Bibliográfica

■1. BERNARD, M. "La estructura de roles como lenguaje y el estatuto de los processos inconscientes
en la terapia grupai". Em: El Grupo y Sus Conftguracion.es. pp. 37-47. 1991.
2. BERSTEIN. M. "Os Papéis-Verticalidade e Horizontalidade”. Em: GrupoterapiaHoje. pp. 110-115.
1986.
3. BION, W. R. "Una revisón de la Dinâmica de Grupos". Em: Nuevas Direcctones en Psicoanalisis.
pp. 423-457. 1965.
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7. 0 DONNELL, P. "Rol”. Em: Teoria y Técnica de la psicoterapia grupaL pp. 55-78. 1984.
ENQUADRE (SETTING) GRUPAL

O íP ^
enquadre é.x QnceituadQ.ccüiiQ -a^om a...de..todos os procedim entos oue
o rg anizam -norm atizam e possibilitam o processo terap êu tico . Assim, resu lta de
um a conjunção de regras. atitudes_e. com binações, como, por exemplo, o local,
horários, núm ero de sessões sem anais, tem po de duração da sessão , férias, ho­
norários, núm ero de pacientes, se aberto ou fechado, etc.
Tudo isso se constitui como sendo “as regras do jogo”, m as n ão o jogo
propriam ente dito. Contudo, isso não quer dizer que o seüing se com porte como
um a situação m eram ente passiva; pelo contrário, ele e s tá sob u m a contínua
am eaça em vir a ser desvirtuado e serve como um cenário ativo d a dinâm ica do
campo grupai, que resu lta do im pacto de co n stan tes e m últiplas p ressõ es de toda
ordem.
O enquadre grupai varia m uito com o nível do ob jetivo a que se propôs a
grupoterapia e com o tipo de formação do g ru p o terap e u tär C o ^ d o r s e r a qual lor
o caso, ele deve, sem pre, preservar ao máximo a co n stân cia d as com binações feitas.
Os principais elementos que devem ser levados em conta n a configuração de
um setting grupai são:

— Se é grupo homogêneo (um a m esm a categoria diagnostica, ou de idade,


sexo, etc.) ou heterogêneo (comporta variações no tipo e g rau d a doença;
agrup a hom ens e m ulheres; um m es m o grupo pode ab arc a r pacientes
de 20. a 6.0 anos...).
— Se é grupo fechado (uma vez com posto o grupo, não e n tra m ais n in ­
guém) ou abe iliiis e m p ^ q u e houver vaga, podem ser admftIc[õi~novQs
membros).

93
*
•'?-> ... . • - -- \ • V-' ■. -
-j ‘ 1 --.

9 4 / David E. Zimermanff r* 3 0 - Í 5

Número de participantes: pode variar desde um pequeno grupo com três


p articip a n tes (ôu~dds no caso de terapia de casal) até o de um .grande
jínjpOr-aQ inJJLpessoas. ^ j. pe-> A c tv n x w a .
Número de sessões: varia de um a a três por sem ana.
Tempo de d u ra ç ã o d a -s e s s ã o i em média, costum a ser de(6C) m inutos
. \y
. quando são d u as sessões sem anais, ou de 90 a 120 m inutos quando for
y\v
é® u m a por sem ana. Nos grupos denom inados "m aratona” os encontros se
e&tendem, de fornia c o n tín u a jju ra n te 12_a 72 horas.
c\o V
Tempo de duração da grupoterapia: ta n to jx jd e haver u m a com binação
_de_um prazo p ara térm ino fcomo em grupos fechados, ou em grupos
q u e jn e s m o abertos, têm um propósito bem delimitado, m ais próprios
dejnstituições), como pode ser de duração indefinida (como nos grupos
analíticos, abertos).
Sim ultaneidade com outros tratam entos: alguns g ru ço terap eu tas p re­
conizam um a sim ultaneidade de tratam ento grupai e individual, en-
q u ^ to ^ o u tro sjã ^ ra d ic a lm e n te contra este procedim ento.
— Participação, ou não, de u m observador o u d e u m co-terapeuta. Tan jo
ú m ^ c o m o jju tra orieW ãçaõTem vãntagens~e desva n ta gens.

Vale d estacarm os m ais dois elem entos..qu£,,e&tâpJmplíeitQam a composição


de um setting grupai. Um se refere ao grau de ansiedade em que o grupo trabalha:
a grupoterapia não se desenvolve se, no campo grupai, a ansiedade for inexistente
ou se ela'for excessiva. O outro elemento inerente áo setting é o que podemos
denom inar “atm osfera grupai". E sta depende basicam ente da atitu d e afetiva in ­
terna do grupoterapeuta. do seu estilo pessoal de „trabalhar, dos parâm etros teó-
rico-técnicos.
Em relação a este último aspecto, é útil lembramos que as clássicas regras
técnicas d a psicanálise individual, legadas por Freud, e que devem se r m antidas
n a grupoterapia analítica são as da:.livre associação de idéias (conhecida como
“regra fundam ental"), abstinência, neutralidade, atenção flutuante. A estas q u a­
tro regras explícitas deve ser acrescentada um a quinta, im plícita em Freud: a
regra do a m or à verdade. Além destas, um a sexta regra é fundam ental n as g ru ­
poterapias: a do sigilo, sem o quâl o grupo perde a coesão e a confiabilidade.
dJM ovX cÁ o M u t c ■ .
f t b v & 'n 't Yc \ a REGRA DA.L1VRE ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS:
...n YXijisKXXQXiVdLdsCLC
FENOMENO DA RESSONÂNCIA
a t
/ u C-^o- :'~'L Em seu s prim eiros estudos sobre técnica psicanalítica, Freud postulou que
J \) o analisando deveria formalmente assum ir o compromisso em “dizer tudo que lhe
viesse à cabeca". e o psicanalista deveria incentivá-lo p ara tanto, mesmo que
tivesse que u s a r o recurso da pressão. Isso constituía a regra d a “livre associação
de idéias", tam bém conhecida como a “regra fundam ental". '
Grupoterapias / 95

Dois fatores contribuíram para modificar essa recom endac ào -tácnica. O


j )rimeiro_é o fatru te que a p rática clínica evidenciou o quanto alg u n s pacientes
podiam utilizar esta regra a serviço de s u a s resistên cias à an álise. O segundo
fator se refere às profundas modificações oue estão ocorrendo relativam ente à ■

tecim entos traum áticos reprimidos, até a época atu al, em que a

Na atualidade, a expressão “livre associação de idéias" deve ser entendida


como um direito em falar tudo o que quiser (ou não fa ia rT an tes do que um a
obrigação formal, sendo que, além disso,ja paciente deve sgr,estim ulado p ara que
ele próprio encontre os-elos associativos entre o que di2 e o (jue p ensa, senteeT az.
Em grupoterapias. m ais especificamente, o relato de cada paciente sofre as
inevitáveis restrições im postas pelo setting grupai, em que ocorre u m a óbvia deli­
m itação do tempo e do.espacnile- caria-n m j a E a x Qm.os dem ais.
Assim , a regra da livre associação, no caso das grupoterapias. sofre algum a
m odificação no sentido de que o fluxo de pensam entos e os sentim entos partem '
livrem ente dos indivíduos, mas as cadeia s.a ssociativas se processam n um inter­
câm bio' entre a totalidade grupal._
T la T m íTenômeno específico dos grupos, conhecido sob o nom e de “Resso-
n àn c ia” e que, como o nom e sugere, consiste em que, qual um jogo de diapasões
"acústicos, ou de bilhar, a comunicação Qne-éJtraâda~nouim i.m em bro do grupo
r essoa em um outro, o qual. por._sua.vez, v a i l r an sm itir um significadõaíetivó'
equivalente, ainda que. provavelmente.ja n h a ^ m h u tid Q .n u m a jQ a rrativa de em ­
balagem bem diferente, e assim por diante . Ajunção-do^goip o terap eu ta é a de
discernii^item ã~cõm um "H ogrupo.

REGRA DA NEUTRALIDADE

E sta regra, que implica na necessidade de o te ra p eu ta m anter-se neutro e


não ficar envolvido n a rede de emoções de seus pacientes, é a que sofre, em
grupoterapia, o m aior risco em vir a ser desvirtuada em razão da própria natureza
do en q u ad re grupai com a sua multiplicidade de estím ulos.
No entanto, é preciso deixar bem claro que o conceito atual de neutralidade
náo exige que o terapeuta se comporte (às vezes, por inibições fóbicas dele) uni­
camente como um mero espelho frio, ou como uma esfinge enigmática. Pelo con­
trário, a_nQcào.atual de uma atitude neutra poLpailuiaanalistavaloriza-qu& este
mantenha um intercâmbio afetivo com^6s_s.eus,p^LenLes,J.dfisde,..que fique bem
‘cliíô~qué1niãõl3õ3F lw ^ um comprometimento na preservação dos limites e da
hierarquia do enquadre grupai. Da mesma forma é importante o fato de que um
terapeuta sp-dabrar pnvnlver pmnaanalmp.nte em uma situação (empatia) não é a
mesma coisa que nela ficar envolvido.
96 / D avid E. Zimerman

0 cum prim ento da regra da neutralidade adquire u m a im portância especial


no enquadre grupoterápico, tendo em vista a alta possibilidade de que o terapeuta
p o ssa ter preferências por determ inados com ponentes, ou certas idiossincrasias
por o utros e, d essa forma, vir a “tom ar partido”, assim transgredindo a tão neces­
sá ria neutralidade. Aliás, u m a situação como essa é m uito com um em um a te ra­
p ia de casal, por exemplo, em que a dupla litigante costu m a acionar o terapeuta
a se definir p ara que este tom e u m a determ inada posição, de natureza dissociada,
pois requer que ele fique do lado de um , e contra o outro.
As eventualidades descritas podem ocorrer em função d a possibilidade de
que o grup o terap eu ta venha a se identificar (introjetivamente) com alguns mem­
bros do grupo e /o u , da m esm a forma, venha a identificar (projetivamente) outros-
com os personagens do seu próprio m undo interno.

Freud form ulou esta regra té cn ic a preconizando a necessidade de que o


a n alisan d o se abstivesse em tom ar atitu d e s im portantes,em s u a .vida sem antes
D assãr~Dêlõ~cnvo"d'í' análise. Da m esm a forma, o. te ra p eu ta deve se absfer.em
gratificar os pedidos provindos .dos-.pacie.ntes .n o s-caso s-g m . que..estes jjs a m ,
sobretudo, à b u sc a de gratificações externas, como u m a form a de com pensarias
carências j n te rn a s.
Em o u tras palavras, esta recom endação q u er dizer oue a melhor maneira de
um te ra p eu ta aten d e r à s necessidades dos pacientes, é a de entender o como, o

Mais especificam ente em relação às grupoterapias, é preciso da r um d e s ta -,


que especial à exigência — técnica e ética — de que os pacientes íe o grupotera­
peuta) se ab sten h am em com entar com outras pessoas o que se p assa dentro do
grupo,. É tão im portante essa recom endação que ela até merece ser considerada
como a “regra do sigilo”.
No entanto, é útil esclarecer que a regra da abstinência não deve ser levada
ao pé d a letra. À m edida que o grupo evolui, vai crescendo u m clima de confiabi­
lidade recíproca entre os pares, e o com prom isso com o sigilo vai se impondo
n atu ralm en te, ao m esm o tem po que o intercâm bio afetivo eníre eles vai se prolon­
gando p ara fora d as sessões. Assim, é muito freqüente que, no curso das grupo­
terapias, m uitos dos se u s com ponentes se reú n am "pós-grupo" e, da m esm a
form a, é igualm ente com um cffie eles confraternizem socialmente, m uitas vezes
com a participação dos respectivos cônjuges, ou nam orados, sem que isso afete a
m anutenção do en q u ad re grupai b ásico._
M uitas o u tras questões poderiam ser levantadas a respeito da preservação
do setting e que envolvem diretam ente a figura do grupoterapeuta: se ele pode ou
não participar dos aludidos encontros sociais; qual é a s u a forma de cum prim en­

ta r, ou de com binar e receber honorários; qual é a s u a m aneir^ de proceder em



<
Grupoterapias I 9 7

relação à en trad a de um novo membro; a forma de ele se relacionar com o,


eventual, co-terapeuta, e assim por diante.
A creditam os que não se justifica responder separadam ente a cada u m a das
inúm eras questões possíveis, até m esm o pela razão de que um a ad equada preser­
vação do setting pressupõe um certo grau de flexibilidade e de liberdade quanto
ao estilo de trabalhar, próprio de cada um de nós.

REGRA DO AMOR À VERDADE

O objetivo m aior de qualquer terapia analítica é o da aquisição de um pleno


sentim ento de liberdade in te rn a . O cam inho d a liberdade passa, necessariam en­
te, pelo da verdade, sendo que um não existe sem o outro.
M uitas vezes, a tom ada de conhecim ento de verdades intoleráveis, tanto as
in tern as quanto as do m undo extem o, é um processo altam ente penoso, sendo
que toda pessoa, em grau m aior ou m enor, lança m ão de recursos defensivos
baseados n a negação.
Nesse particular, u m a grupoterapia ap resen ta algum as vantagens e desvan­
tagens em relação à terapia individual. A desvantagem é que a situação grupai
pode favorecer que um indivíduo oculte o seu lado oculto, lim itando-se a ir “n a
carona" dos dem ais. A vantagem acessória que u m a grupoterapia tem em relação
a um tratam ento individual consiste no fato de que os participantes de um grupo,
em forma com plem entar, desvelam u n s aos outros, às vezes sob u m a sadia forma
de u m a pressão coletiva, certas verdades que teim am em perm anecer sonegadas.
P ara que se estabeleça o clima de franqueza, verdade e liberdade, em cada
um e em todos do grupo, é imprescindível que a p a u ta dessa atitude se alicerce
n a veracidade e na autenticidade do g rupoterapeuta, pela categórica razão de que
este se constitui como um novo e im portante modelo de identificação.

FUNCÃQ “ CONTINENTE” DO SETTING

Um últim o e im portante aspecto relativo ao campo grupai diz respeito à


função “continente" do mesm o, conforme a conceituação que Bion(i) d á a este
term o, ou de holding conforme W innicottí5). Pode-se dizer que o desenvolvimento
de um grupo segue as m esm as etapas evolutivas de todo ser hum ano. Assim, a
criança em_seus..primórdios_£volutivp^,ipor falta de m ^ u ã neurqnal. não
sente o seu-coipo com ovendo um a unidade integrada. Antes, a criancinha se
se n ty n Y a d id a p o j^ sm m g õ ^ s.p jL ^ ^ d ifu g â & £ Jn d iferen c ia d aa . qi.ie^la.nãn.sabe
de oride procedem. A. m esm a coisa costum a ocorrer nos grupos. especialm ente em
seu s inícios. É som ente através das, funcões_oue..um ajnàe .adequadam ente boa
exerce, rie organizadora dessas sensacö.es-di&persas.£^ie^.üntenf;diQirPLdasi^pgyJs-
tiás do filho, é que a criança conseguirá atingir u m a plena integração nsinuico-
98 I David E. Zimerman p vC C cvrT hC ^l ^ pU\ ~t2*<¥ v\Cl <>~_________

corporal. Da m esm a forma, qualquer grupo começa sendo um mero aglomerado


de p arte s s oltas (indivíduos! e sem coesão entre si, sendo que será unicam ente
através~da.tunçãajde-sústençàe-ejd& X Q nünência..dCLgrupoterapeu.ta..que o g ru po
poderá evoluir de um mero estado de afiliações individuais p ara u m a situ a ç ã o rie
integração, pertencência e de pertinência.
A m edida que o grupo se integra, ele próprio p a ssa a ser um im portante
constituinte do enquadre grupai e cum pre a im portante função de se com portar
como um adequado continente d as necessidades e an g ú stias de cada um e de todos.
Em o u tras palavras: as pessoas têm grande necessidade de b u sc a r su p o rtes
sociais em o u tras pessoas, grupos e instituições. E stes su p o rtes sociais, quando
coesos, vão possibilitar a formação de dois aspectos im p o rtan tes ao indivíduo: o
prim eiro é que ele sin ta que pode ser cuidado, am ado e valorizado: o segundo
aspecto é que o indivíduo é contido, delim itado em seu espaço, em s u a s resp o n ­
sabilidades e em su a participação nos processos de com unicação interpessoal.
T udo isso concorre para que ele vá se sentindo individualizado, diferenciado dos
dem ais, e socialm ente integrado, ou seja, vai estru tu ra n d o o seu sentim ento de
identidade individual, grupai e social.

EXEM PLO CLÍNICO (N2 3)

A transcrição da vinheta que segue pode servir de exemplo de como se


processa o fenômeno da R essonância grupai. A presente sessão segue-se a um
período critico do grupo, desde que o últim o reajuste de honorários foi considera­
do excessivo, sendo que, além disso (ou por ca u sa disso), houve a recente d esis­
tência de um membro.

Álvaro: Conversei com o R. (é um paciente de um outro grupo do m esm o te ra­


peuta). Fiquei m uito desesperançado’ porque ele me fez com entários
m uito negativos a respeito do nosso doutor (dá alguns detalhes).
Bertœ (ao responder, de forma im ta d a , à p erg u n ta de por que, fora de seu s
hábitos, ela está com óculos escuros): Não estou com n en h u m problem a
nos olhos. Os óculos negros são p ara me proteger da luz forte que vem
da janela, porque até agora o doutor não providenciou u m a cortina para
nós.
Célia: Pois eu estou im pressionada é com coisas m ais sérias, como é o fato que
eu fiquei sabendo ontem, do suicídio de um p siquiatra. Que horror, que
coisa m ais louca, logo um psiquiatra...
Álvaro: (após o grupo te r discutido a inform ação de Célia): Além de tudo de ruim
que está acontecendo, m inha m ulher deu agora p a ra m anifestar um a
repulsa por qualquer aproxim ação que tento fazer com ela.
Dinœ Eu tenho o m esm o problem a em relação ao Z. (seu com panheiro). Ele
parece m uito am oroso comigo, então me encho de entusiasm o, e ele
volta a desaparecer por um longo tempo (dá detalhes),
Grupoterapias I 99

Ernesto: Em tom indignado, faz um comovido discurso contra a passividade de


D ina que se deixa u s a r e ab u sar pelo am ante.

A se ssão prossegue neste diapasão até o seu final, com o g ru p o terap eu ta


sentindo-se "perdido em meio a um caos, com a s su n to s tão diferentes, sendo que
n en h u m deles tin h a relação com os outros”.
\

COMENTÁRIO

D urante a supervisão dessa sessão, foi possível c o n statar que o caos era só
aparente, e o que faltou foi u m a com preensão m ais clara por p arte do g ru p o tera­
p eu ta do que se passava n a gestalt grupai, que lhe possibilitasse exercer um a
função interpretativa, que viria a promover um im portante insight, seguido de um
movimento de integração e de unidade coerente entre a s idéias de cada um.
De fato, não é difícil perceber que h á u m a clara resso n ân cia entre o que se
p assava no nível pré-consciente de todos eles. Álvaro abre a sessão atacando
(indiretamente) o terap eu ta e se dizendo desesperançado (com o mesmo). Berta
reforça o protesto, aludindo à falta de cuidados protetores do te ra p eu ta co n tra “a
luz dem asiado forte" (os fatos precedentes a essa sessão, e que o grupo está
considerando como fortes demais). Célia, como que seguindo u m mesmo fluxo
associativo, m ostra um receio de que o g ru poterapeuta (o p siq u iatra de seu relato)
seja frágil, que nâo agüente a carga agressiva, e que se "suicide” (morra ju n to com
a m orte do grupo). Álvaro, quando associa que a s u a m u lh er rep u d ia su a s te n ta ­
tivas de aproxim ação, está reiterando a s u a m ensagem de que o grupo ten ta um a
aproxim ação com o terapeuta, porém sentem um repúdio deste (é como eles estão
significando o reajuste). A ressonância prossegue e atinge o seu clímax com o
protesto indignado de Ernesto, que com plem enta o dos dem ais, em relação à
pessoa do terapeuta, com quem estão revivendo — transferencialm ente (e contra-
transferencialm ente) — as antigas e profundas queixas de cada um deles, diante
de um pai, ou mãe. que, ao mesmo tempo que os cuidou e am ou (como no relato
de Dina), tam bém os m altratou e abandonou.

Orientação Bibliográfica

1. BION, W. R. Voluiendo a Pensar. 1985.


2. FREUD, S. “Sobre o inicio do tratamento” (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise).
Ed. Standard. Vol. XII. 1972.
3. GROTJAHN, M. "Preparação para o Grupo”. Em: A arte e a técnica em Terapia Analítica do
Grupo. pp. 71-77. 1987.
4. HELMAN, B. N. ”Un Enquadre sobre Psicoterapia Grupai con Tiempo Limitado”. Em: Reuisía da
Flapag. Vol. 1. n s 1, pp. 52-57, 1971.
5. MELLO FILHO.. J. "Contribuições da Escola de Winnicott à Psicoterapia de Grupo". Em: Grupo­
terapia Hoje. pp. 45-56. 1986.
100 I David E. Zimerman

6. NACHER. P. G. y CAMARERO, J . A. L. "El encuadre". Em: Del diuán al circulo, pp. 43-58. 1985.
7. PUGET, J. et al. “Encuadre". Em: El Grupo y Sus Conßguraciones. pp. 21. 1991.
8. RIBEIRO.J. P. “Ressonância". Em: PsicoterapiaGrupo-Analítica. AbordagemFoulkiana. p. 106.1981.
9. STEIN, G. "Algo más acerca de associación libre y conversación comúm". Em: Psicoanalisis
Compartido, pp. 39-58.
10. VINAGRADOV, S. y YALOM, D. "Building The Foundations For A Psychotherapy Group”. Em:
Group Psychotherapy, pp. 30-42. 1989.
RESISTENCIA

E m todos os textos de Freud referentes às técnicas analíticas, a resistência


foi o seu tema dominante e ele sempre postulou que o êxito de um tratamento
corresponde à resolução das diversas formas de como a mesma se manifesta. A
resistência costuma ser definida como tudo o que no decorrer do tratamento
analítico, nos atos e palavras do
inconsciente.
O fenômeno resistência, desde os primórdios da psicanálise até os dias de
hoje, tem sido estudado profundamente em sua teoria e prática, sendo que nos
primeiros tempos, de acordo com Freud, ela era entendida como sendo unicamen­
te um processo de oposição ativa fa palavra empregada por Freud foi widerstand,
no original alemão w ider quer dizer: contra), enquanto que, na atualidade, a
resistência também caracteriza uma forma de como o ego do indivíduo funciona,
D e s s ã T õ r T n ã r i! iS Í ^ ^ S Í O ! 5 2 Í ^ ^ ^ £ 2 ií§ 2 ^ ^ ^ ^ â U s I S 2 ^ S ê s s o _ te r a ,-
pêutico tanto pode ser- obstrutivo ao mesmo, como pode se constituir em sua
verdadeira essen d F p eÍã razão de que a resistência está dramatizando as forças-
vivas que cT Ingiw íu^ãH ÍQ ^^ sobreviver ante as angústias terríveis
que o assolavam. [A etimologia confirma isso: o termo resistência se compõè de
r e ^ d è novo, mais uma vez) e de sisfere (continuar a existir), ou seja, indica uma
forma, às vezes desesperada, de busca por uma sobrevivência psíquica. O contrá­
rio disso, ou seja, a de-sistência é que seria funesto].
São múltiplas as causas e as formas das resistências que surgem nas gru­
poterapias.

r
101
1 0 2 / David E. Zimerman

FORMAS DE APARECIMENTO
A experiência clínica comprova que as manifestações resistenciais mais co­
m uns, quer por parte dos indivíduos, isoladamente, ou da totalidade grupai,
costum am ser a s seguintes:
— A trasos e faltas reiteradas.
— T entativas de alterar as combinações do setting (por exemplo: co ntinua^
dos pedidos_ p p ^ m u d an ç as ^ h o r á r i o s , telefõhem asjpedidos por se s­
sões individuais, etc.).
— Prej uízo_daco m uni cação verbalatravés de silincios excessivos, de reti-
cên cias ou. B.o. cõn~trãfi57um a prolixidade inútil.
— ftnfase excessiva em relatos da realidade exterior com o rechaço siste-
mático d a atiyidade interpretatiya_dirigida ao inconsciente.
— M anutenção de segredos: isto tanto pode ser por parte de indivíduos em
relação às confidências que fizeram ao terapeuta, m as que sonegam ao
resta n te do grupo, como pode ser do grupo todo em relação ao terapeu-
_ta, daquilo õ u e eles falaram entre si, forado^enquadre grupai.
— Excessiva intelcctnalizaçãn.
— U m acordõ~lnconsciente, por parte de todos, em não abordar determi­
nados assuntos angustiantes, como os de sexo ou de morte, porHêmplo.
— C qm plicaçõesjom o pagamento.
— Surgimento de um (ou mais de um) lider no papel de “sabotador".
— 'Excesso de actings, individuais o u œ jeüvos.
— O grau máximo da manifestação resistencial é o da formação de impas-
s ê s 'õ ú .ã te m esmo o de “reações terapêuticas negativas”.

Causas do surgimento

Sào m últiplas a s razões que levam os indivíduos, ou os grupos, a resistirem


inconscientem ente à evolução de seu tratam ento, ap esar de que, conscientem en­
te, possam nele estar sinceram ente interessados e em penhados. Em linhas ge­
ra is ,jã s c ã ü s ã ^ determ inantes da fonnação de resistências são as seguintes:
— Medo do surgim ento do novo (especialmente quando h á o predomínio de
u m a ansiedade paranoide).
— Medo da depressão (a ansiedade depressiva os leva a crer que vão se
confrontar com um m undo interno destruído, sem possibilidade de re­
paração).
— Medo da regressãft (de perder o controle das defesas neuróticas, obses­
sivas, po r exemplo, e regredir a um descontrole psicótico).
— Medo da progressão (o progresso do paciente pode estar sendo proibido
pelas culpas inconscientes que o acusam de "não merecimento").
— Excessivo apego ao ilusório m undo sim biótico-narcisista.
— Evitação da hum ilhação e vergonha (de se reconhecer e ser reconhecido
como alguém que não é, e nu n ca será, aquilo que ele crÊj ou aparenta ser).
Grupoterapias 1 10 3

— Predomínio de u m a inveja excessiva (não concedem ao terap eu ta o “gos-


tinho" deste se r bem sucedido).
— M anutenção d a “ilusão grupai" (denom inação que Didier Anzieu deu a
um fenômeno específico dos grupos, e que se m anifesta sob a forma de
"nosso grupo e stá sem pre ótimo'”, "ninguém é m elhor do que nós”, etc.).
— Por último, a resistência do grupo pode estar expressando u m a — sadia
— resp o sta às possíveis inadequações do grupoterapeuta.

PACIENTES M ONOPOLIZADORES E SILENCIOSOS


Pelo m enos dois tipos de p acientes m erecem u m a consideração m ais alon­
g ad a devido aos se u s m odos peculiares de m anifestar a atitude resistencial no
tratam e n to grupoterápico: é o paciente m onopolizador e o silencioso.
O paciente m onopolizador (Ba c h t1) o denom ina o “monopolista crónico’') diz
respeito àquele indivíduo que tem u m a necessidad e com pulsória de conseguir
'co n c en trar toda a ate n ç ão do grupo sobre si próprio e, com isso, ä evolução
n o r m a r d r ü m i~ i^ p o te r à p iT p ode'vir a ficar"muito truncada.
São m uito d istin ta s as form as de comcTos pacientes podem funcionar como
m onopolizadores, sendo que, geralm ente, todos eles têm em com um u m a estru ­
t u r a fortem ente_nard s is tic a e. POr essa razão, têm u m a extrema dificuldade em
sa ir de u m a relação diádica e p a rtilh ar em igualdade com os dem ais.
Assim, é possível que elei~cõnslgãm m a n ter o monopólio da atenção sobre
si, através de algum as atitu d es, ta is como: um discurso rico e fascinante, um a
coa d u ta sedutora, um jdiscursojgrolixo e detalhista, u m a conduta^hipomaniaca.
u m excesso de actings preocupantes, u m a p o stu ra cronicam ente depressiva. Nes-
tF ík ím õ ^ cãsõ T p õ d e ocorrer que o grupo fique monopolizado devido a um a per­
m an en te preocupação com a desgraça de seu colega de tratam ento e pelos sérios
riscos (de suicídio, por exemplo) que d e d esp erta em todos.
É im portante que o g ru p o terap eu ta consiga detectar as reações contra-
tran sferenciais que esse tipo de paciente d esp erta nele e n os dem ais,, pois tais
reações_costum am ser m uito fortes e podem "seco n s ti íu ir co mo resistências õbs:
tm tivasTP orexem plo: diante de um ^'lrm âo dé'ffïïpb"'müTtôTîeprimldo e qúe. põr
isso m esm o não consegue (ou, inconscientem ente, não quer) progredir, não é
improvável que, por um a solidariedade de raizes inconscientes, o grupo resista a
fazer m u d a n ça s no sentido de c u ra e de sucesso.
Um outro exemplo de m onopolizador pode se r reconhecido no paciente do
exemplo n s 1. (Ênio), que foi, antes, utilizado p a ra ilu strar a dinâm ica de um a
prim eira sessão de grupoterapia analítica.
j_Q_patíente silencioso tem sido objeto de m u ita s discussões entre os grupo-
jC T a p e u to ^ æ n ïïo “ que inürneros trabalhos abordam essa situação, sob ângulos
diversos, i
^~Ém~ lin h as gerais, vale reiterarm os que é necessário discrim inar entre as
distin tas ca u sa s e form as de atitude silenciosa, tanto nos pacientes em que esta
é perm anente, como naqueles em que ela é transitória.
1 0 4 / David E. Zimerman

D essa forma, um paciente em grupoterapia pode-se m anifestar como silen­


cioso por u m a d as seguintes razões:

— Severas inibições de natureza fóbica ou esquizóide (o que não invalida,


no entanto, a possibilidade de que, mesmo silencioso, ele se m an ten h a
bem atento, interessado e com boa integração n a tarefa grupai).
— Ele tem necessidade de um longo período p ara ‘‘observar" o funciona­
m ento do grupo, até desenvolver u m a confiabilidade nos demais.
— A possibilidade de que, através do silêncio, ele seja, de fato, um m ono­
polizador.
— O silêncio esteja expressando um a atitude hostil, tanto de desafio como
de indiferença e desdém por todos.
— A probabilidade m ais com um é que a atitude silenciosa esteja trad u zin ­
do u m a forma de resistência que lhe sirva de proteção contra o acesso
a sentim entos que ele não quer (não pode) reconhecer, rem exer e, muito
m enos, com partir com os pares.
— A possibilidade que ele esteja sendo um porta-voz da resistência dos demais.
— A possibilidade que ele esteja assum indo um papel que o restan te do
grupo lhe deposita: o de “ficar bem quietinho em seu canto e não se
m eter a b esta” (como foi possível detectar em um grupo com relação ao
m em bro “caçula”).

O risco contratransferencial é que este tipo de paciente caia no “esqueci-


m ento” dos dem ais e, sem abandonar o grupo, nele ligue/marginalizado. I
Uma recom endação técnica nesses casos é que o grupoterapeuta, sem for­
ça r ou coagir a participação verbal do paciente silencioso, deve, no entanto, sem ­
pre incluí-lo no contexto das interpretações.

Manejo técnico

Como a n te s foi referido, é de fundam ental im portância a ad eq u ad a com­


preensão e m anejo das resistências que, inevitavelmente, surgem em qualquer
campo grupai; caso contrário, o grupo vai desem bocar em desistências ou num a
estagnação em im passes terapêuticos.
—o O prim eiro passo é a necessidade de que o g rupoterapeuta saib a fazer a
discrim inação en tre as resistências que são de obstrução sistem ática e as que
sim plesm ente são-revelador^S de u m a m aneira de se proteger e funcionar n a vida.
A segunda discrim inação que ele deve fazer é se a resistência é d a totalidade
grupai, ou se é por parte de um subgrupo, ou de um determ inado indivíduo, em
cujo caso h á d u a s possibilidades: ou o indivíduo está resistindo ao grupo, ou ele
é um rep resen tan te da resistência do grupo.
O terceiro passo do-terapeuta é o de reconhecer — e assin alar ao grupo — o
que está sendo resistido, por quem , como e p a ra que isso está se processando.
Grupoterapias 1 10 5

O quarto passo é que o coordenador do grupo procure te r claro p a ra si qual


a s u a participação n esse processam ento resistencial, e isso n o s rem ete ao c a p ítu ­
lo seguinte.

Orientação Bibliográfica

1. BACH, G. R. Psicoterapia intensiva de grupos, p. 32. 1975.


2. GROTJAHN. M. “Resistência". Em: A arte e a técnicaemTerapiaAnalittcade Grupo. pp. 39-46.1977.
3. PUGET, J. et al. 'Tipificación de casos-problema: configuraciones y sus características". Em: El
Grupo y Sus Configuraciones. pp. 99-145. 1991.
4. THOMA.H.;KACHELE.H."Resistencia".Em:TeoríayPrácticade!Psicoanalisis.pp. 121-161.1989.
SONTRA-RESISTENCIA

N a literatura especializada, a expressão contra-resistência não costuma ser


usualm ente empregada, embora o surgimento deste fenômeno seja de alta rele­
vância em qualquer processo terapêutico.
Essa afirmação parte da premissa que norteia a ideologia deste livro, ou
seja, a de que qualquer terapia não deve ser encarada como uma simples desco­
berta e resolução dos conflitos instintivos centrados unicamente na pessoa do
paciente; antes, ela repousa no vínculo interacional no qual terapeuta e pacientes
intercambiam emoções.
A partir deste ponto de vista, impõe-se a necessidade em fazermos a diferen­
ça entre o que ê contra-resistência — caso em que são as resistências do indiví­
duo, ou do grupo, que mobilizam o terapeuta a uma resposta análoga — e o que
é a resistênciaprovinHã~dõpróprio terapeuta,-e por cujo surgimento ele ê o único
responsável.
Em princípio, todas as formas de manifestações resistenciais que descreve­
m os nos pacientes em terapia podem estar presentes na pessoa do terapeuta. No
campo grupai, este fenômeno adquire uma maior complexidade, pelo fato de que
o coordenador de qualquer grupo pode estabelecer conluios com um determinado
indivíduo, com uma parte subgrupal ou com a totalidade grupai.
Um dos sinais indicadores de que o terapeuta e o seu grupo pode estar
funcionando em bases resistenciais ê quando estiver havendo sucessivas e exces­
sivas modificações do enquèdre grupai.
Outro sinalizador é o de uma estagnação no crescimento dos objetivos pro­
postos, apesar de que aparentemente tudo esteja correndo “muito bem". Esse
bloqueio resistencial é difícil de ser desfeito pela forte razão de que os pontos
cegos, de todos, mas especialmente do terapeuta, impedem que sejam percebidos

106
í
Grupoterapias / 1 0 7

e, logo, trabalhados. Vai se fortalecendo a resistência do tipo “faz-de-conta-que...”.


A inda um terceiro sinal de um conluio re^ ste n cia l às m u d an ças é q uando há
um a rígida im utabilidade no desem penho dos papéis de cad a um.
Com um ente as resistências do g rupoterapeuta se m anifestam nos seguintes
modos:

— J n te r p retações intelectualizadas, em bora b elas e fascinan te sj


— [Atitude j e procurar abafar de imediato as m anifestações — cuja verba-
lização seria muito útil — tanto as de agressividade en tre os elem entos
'd õ g ru p o (às vezes sob a forma de verd ad eiras brigas_ verbais)^ assim
como a s de n atureza erótica, i
— [O terapeuta n u nca assu m ir a su a resp o n s abilidade, m esmo nos casos
. em que há um a am otinação do grupo todo.|
— ^Intolerância aos silêncios (os q u a is^ c omo sa b e m os, por vezes podem
estar send(Tnecéssàrios e elaborativos),.bem como a o u tras m anifesta-
. £Õ£S de resistência tran sitórias
— î Náoreconhecimento,.de microssin ais de que estão se processando signi­
ficativas modifiçações^e progressos pela razfuxde quc~es:es últim os por
i l e m ^ p a ^ ^ s o b j m a X o .n n a agressiYa_pu. de a ctin g sj

No entanto, fora de dúvidas, o aspecto contra-resistencial m ais im portante


é o que diz respeito à formação de conluios inconscientes (aos conscientes, é
m elhor cham á-los de “pactos corruptos”) entre o g ru p o terap eu ta com u m a parte,
ou com a totalidade, grupai.
D esses conluios resistenciais é inconteste que o m ais com um deles é o que
se estabelece com a finalidade de impedir que su rja q u alquer m anifestação que
am eace a paz e o bem -estar aparente de todos. N estes casos, o g ru poterapeuta dá
visíveis dem onstrações de um a intolerância às ten tativ as de críticas ou de a ta ­
ques a seu suposto saber e, em troca, ele tam bém escotom iza a presença e os
sentim entos inaceitáveis dentro de cada um deles, e entre eles, e assim todos
ficam satisfeitos e gratificados... Pena é que todo esse sucesso nào p assa de um a
ilusão do ponto de vista de m udanças analíticas.
Por últim o deve ser destacado o im portante fato de que se o grupoterapeuta
tem u m a determ inada resistência, a tendência é de que o grupo todo vai se
identificar com a mesma.
Assim, se o terapeuta não estiver em condições de su p o rta r e conter a livre
m anifestação de um a forte carga ansiogênica de agressão e /o u de erotismo, ele
m anifestará u m a resistência propriam ente sua, à s vezes bem disfarçada através
do uso de “interpretações" prem aturas e apaziguadoras e que estão a serviço de
um a ação repressora,
N estes casos, nada raros, vai ocorrer que essa reação contra-resistencial do
grupoterapeuta impedirá um a im portante experiência que cada um e todos do
grupo deveriam ter tido: a de que eles pudessem com provar que não são perigosos
como sem pre se imaginaram e nem que os outros sejam tão frágeis. Da m esm a
1 0 8 I David E. Zimerman

forma, a evitação contra-resistencial do terapeuta contra a irrupção da agressão


im pedirá que os pacientes te n h am a im portante oportunidade de exercitar a tam ­
bém im portante capacidade de fazer reparações verdadeiras.

EXEM PLO CLÍNICO

A sessão que ilustrou o fenômeno de Ressonância Grupai (exemplo n 9 3, no


Capítulo 11) tam bém é adequado p a ra exemplificar a m anifestação do fenômeno
contra-resistencial n a s grupoterapias.
Assim, podem os perceber, no exemplo, que a grupoterapeuta, ao mobilizar
u m a resistência inconsciente contra um a percepção de que ela estava sendo alvo
de fortes ataques, indiretos, à s u a pessoa, impediu-a de poder conceber e form u­
la r qualquer tipo de interpretação que pudesse funcionar como integradora e
aliviadora do caos que estava instalado no grupo.
Em casos como o deste exemplo, a persistir o bloqueio contra-resistencial do
terapeuta, três alternativas podem ocorrer quanto à evolução da grupoterapia.
A prim eira é a de que as m ensagens verbais provindas dos pacientes —
indiretas e codificadas porque sofrem a camuflagem de s u a s próprias resistên ­
cias, contra a percepção de sentim entos difíceis (no caso do exemplo, são de
natureza agressiva) — persistam enquanto não houver u m a clara com preensão e
interpretação por parte do terapeuta. Nessa hipótese, haverá um a escalada cres­
cente desse tipo de m anifestações por parte dos pacientes, o que pode desem bocar
na desistência de alguns m em bros, ou até mesmo a eventualidade de u m a disso­
lução do grupo.
A segunda possibilidade é a de que alguns participantes do grupo comecem
a p rática de actings — m u itas vezes, de natureza maligna — os quais estariam
expressando, n essa m odalidade de linguagem não verbal, os m esm os sentim entos
que não foram entendidos e decodificados quando ensaiaram a linguagem verbal.
A terceira alternativa é a de que o terapeuta assum a as rédeas da situação
através de' u m a atitude im perativa, com a “aceitação" da m esm a por parte dos
pacientes, dando u m a falsa im pressão de que tudo se acalm ou e voltou aos
trilhos. E sta últim a possibilidade pode e sta r configurando um inconsciente con­
luio resistencial—contra-resistencial de tipo "submetedor x subm etidos”.

Orientação Bibliográfica /

1. RACKER, H. Estúdios sobre técnica psicoanalítíca. pp. 217-222. B. A. 1960.


2. ZIMERiMAN, D. E. “Resistencia e Contra-resistência na prática analítica". Trabalho apresentando
na S.P.P.A. 1985.
TRANSFERENCIA

E de consenso entre os psicoterapeutas que o fenômeno essencial em que


se b aseia o processo de qualquer terapia analítica é o d a transferência, termo que,
em bora em pregado no singular, deve ser entendido como um substantivo coletivo,
ou seja, como um a abreviação de m últiplas e variadas reações transferenciais.
O fenômeno transferencial foi estudado pela prim eira vez por Freud, que o
concebeu como u m a forma de resistência que atrap alh aria o bom andam ento do
processo analítico, sendo este até então concebido como de natureza em inente­
m ente investigatória. Posteriorm ente, o próprio Freud veio a reconhecer o valor
essencial do que denom inou “neurose de transferência" e a considerou como
resu ltan te de "reim pressões e novas edições" d&~antiftas^xperiências.traum áticas
js i q u ic a s .
Melanie Klein redim ensionou o conceito de transferência ao introduzir a
noção de modelos inconscientes de relações objetais primitivas. A base relacional
paciente-analista se constituiria através da repetição de protótipos de imagos
(palavra que, em grego, quer dizer: cópia, doublé), as quais se processam através
do que a au to ra conceituou como “identificações projetivas ”, e cuja matriz está n a
prim itiva união criança-m ãe.
Na atualidade acredita-se que, no processo terápico, h á transferência em
tudo, m as nem tudo deve se r entendido e trabalhado como sendo transferência.
Assim, h á controvérsias acerca da concepção de qual é o papel do terap eu ta em
tais situações. P ara alguns autores, ele não é m ais do que u m a m era figura
transferencial m odelada pelas identificações projetivas dos respectivos pacientes.
Para outros, o te ra p eu ta é tam bém um objeto real, com valores e idiossincrasias
próprias, e, como tal, ele virá a se r introjetado. Assim, cada vez m ais, expressões
como "a pessoa real do an alista” e "aliança terap êu tica” estão ganhando espaço

109
1 1 0 / David E. Zimerman

nos trabalhos sobre transferência. Da m esm a forma, vem gan h an d o força o ponto
de vista de au to res que crêem que a atitude do an alista é em grande parte respon­
sável pelo tipo de resposta transferencial do paciente.
Para u m a com preensão m ais profunda do fenômeno d a transferência é útil
que façam os u m a reflexão a partir d essa questão: a tran sferên cia é m eram ente
um a necessidade de repetição ou, antes, ela é a repetição de necessidades (não
satisfeitas no passado)?
H abitualm ente, as transferências são classificadas, em função de su a q u a­
lidade, como “positivas” ou “negativas". No en tan to , essas denom inações não são
plenam ente adequadas pelo fato de conotarem u m juízo de valores moralistico.
Ademais, sabem os que m u itas transferências consideradas “positivas” não p a s­
sam de conluios resistenciais, enquanto que o u tras m anifestações resistenciais
de aparência agressiva ro tuladas de "negativas” podem ser positivas do ponto de
vista terapêutico, desde que bem absorvidas, entendidas e m anejadas. (Aliás, a
etimologia d a palavra "agredir” — ad (para a frente) + gradior (movimento) —
m ostra o aspecto sadio d a agressividade quando ela for bem utilizada pelos indi­
víduos ou pelos grupos). Um exemplo com um deste últim o caso é o d a co n testa­
ção veem ente, m as sadia, de um adolescente.
As transferências tam bém costum am ser designadas pelo objeto intem o a
que elas aludem (transferência m aterna, patern a, fraterna...), ou à fase evolutiva
em que estão sendo reproduzidas (transferência sim biótica, oral, anal...), ou a
um a das in stân c ias da e s tru tu ra psíquica (transferência do id, do superego...), ou
ainda à categoria diagnostica que lhe deu origem (transferência neurótica, psicó­
tica, perversa...).
A tendência atu al é a de considerar o fenômeno transferencial não tanto
pelos afetos que veicula, m as muito m ais pelos efeitos que produz nos outros,
através do m ecanism o conhecido como "contra-identificação projetiva"!1) quando
ela se processa n a pessoa do terapeuta.
E ssa contra-identificação projetiva irá se co n stitu ir como a essência do fe­
nômeno contratransferencial.

TRANSFERÊNCIA NOS GRUPOS '

Em qu alq u er cam po grupai, qu er seja terapêutico ou não, è inevitável que


su ijam m anifestações transferenciais.
Nas grupoterapias, m anifestam -se em q u atro níveis: 1) de cada indivíduo em
relação à figura central do grupoterapeuta (transferência p aren tal), 2]_do g ru p o „
como um a totalidade em relação a.es sa figura cen tral (tr a n s f u n d a grupai). 3) de
cada indivíduo em relação com outro(s) determ inado(s) individuofs) (transferência
fraternal), 4) de cada indivíduo em relação a o grupo como u m a entidade ab stra ta
(transferênc i a d e pertëncëncîa)"
Grupoterapias 1 1 1 1

E sse esquem a de subdivisão da transferência em q u atro vetores é m ais de


ordem didática, porquanto, n a realidade, todas elas se processam sim u ltan ea­
m ente, em bora haja m om entos em que algum a delas prevaleça com m aior nitidez.
Além disso, é preciso considerar um quinto vetor: o d a extratransferêncía^
Neste caso, o modelo tran sferen cial de cada um , e qu e d enota como é o inter-
telaciop am en la o b je tai do se u m undo in tern o , se exp ressa, através d a s experiên­
cias exteriores do cotidiano de su a s vidas. P articularm ente, em grupoterapias,
crem os que a extratransferência deve ser m uito valorizada e diretam ente traba-
lhada. sem que seia n e c e s s á r iõ ü lm ja -siste m a ü c a m e n te ji-.fig u ra central~7in
terapeuta
Em grupos, esta m ultiplicidade de vetores transferenciais constituem o que
se costum a denom inar "transferências cruzadas". Foulkes(6) den om ina como “m a-
_triz” a esta rede de com unicacao que e estabelecida com a s várias transferências.'
Podemos dizer que as diversas formas de atividades g ru p ais se distinguem
sobrem aneira pela forma de como o coordenador do grupo com preende e m aneja
essas inevitáveis m anifestações transferenciais. Assim, elas se constituem como
o principal ponto de apoio n a grupoterapia analítica, en q u an to em um grupo
operativo náo-terapêutico, de ensino-aprendizagem , por exemplo, o coordenador
do grupò n a d a fará p ara increm entar o surgim ento d as transferências e som ente
trab a lh ará com as m esm as se elas estiverem m uito em ergentes e n um grau im­
peditivo do livre curso da tarefa grupai.
A sm anifestacões-transferenciais n as grupoterapias analíticas variam com o
m om ento evolutivo do Prupo. D essa forma, no início de q u alq u er grupo surgem as
transferências cruzadas que expressam as necessidades de am or e de dependên­
cia, ao m esmo tempo em que conservam um a natu reza paranoide. Neste caso, é
com um que o grupo fique dissociado em dois su b g ru p o s: um , oue transfere os
sen tim entos de dependência, os quais se expressam através de m ensagens de um
lu tu r o m u ito esperançoso e de propostas que visam a u m a vinculaçáo de n a tu re ­
za parasitária-sim biótica. O outro subgrupo se encarrega da transferência de
sentim entos opostos, os ouais se m anifestam através de u m a descrenca e deses­
perança, assim como pelo tem or paranoide de todoa^em virem a ser engan ad o s,
explorados, rechacados e castigados.
À m edida que o grupo progride, as transferências cruzadas vão se modifi­
cando tan to qualitativa como quantitativam ente, porquanto ficam m enos d ram á­
ticas e ruidosas e vão adquirindo um a tonalidade de ordem m ais depressiva, em
que prevalece u m a autêntica preocupação de cada um p ara todos e vice-versa.
Uma clara dem onstração disso pode ser aferida pela en trad a de um elem en­
to novo no grupo: nos prim eiros tem pos de um a grupoterapia, a reação tran sfe­
rencial do grupo pelo “nascim ento de um irm ãozinho” costum a provocar um a
forte hostilidade a este, tanto sob um a forma de ignorá-lo com pletam ente, ou de
intimidá-lo, ou, até, a de expulsá-lo. Nessa situação, os integrantes do grupo
tam bém atacam o terapeuta, p ara quem são transferidos os sentim entos de que
1 1 2 / David E. Zimeman

ele se com portou como u m a m ãe irresponsável e indiferente com eles, ou como


um pai que só quer saber de g an h a r dinheiro, e assim por diante.
E ste m esm o grupo, quando já m ais am adurecido, co stu m a recepcionar a
um elemento novo de form a confiante e procurando cercá-lo de u m a atm osfera de
aceitação e em patia pela difícil situação daquele..
Por outro lado, é útil destacarm os que a transferência grupai assu m e carac­
terísticas al.tfn d if e r e n t e s xto-flu e se processa no tratam ento iricfividual.
Isso se deve a d uas razões: u m a é a de que gt transferência no cam po grupai
procede de um a com binacão de várias fontes: é mais im p actu an te e, conforme
enfatiza Bionj1), 0sp a rtic ip a n t£ sjie „ u m .g m p .a tê m 'm ^
níveis psicoticos da personalidade.

EXEM PLO

As vinhetas clínicas que an tes foram utilizadas, nos exemplos de n 9 2 (Ca­


pítulo 9) e 3 (Capítulo 11) perm item perceber claram ente a vigência de um a
neurose transferencial, pela qual os pacientes do grupo estão revivendo, com a
pessoa da terapeuta, os m esm os sentim entos que no passado infantil, cada um
deles sentiu em relação às respectivas figuras parentais que agora estão in te rn a­
lizados.
Os referidos exemplos evidenciam que, devido a esse reviver transferencial,
a g ru poterapeuta está revestida de um papel de mãe que, ao m esm o tem po em
que é ad m irad a-^ n ec essitad a , tam bém é alvo de ataques agressivos, os quais
surgem quando os pacientes (re)sentem que não estão sendo atendidos e entendidos.
Podemos concluir da observação acim a quão im portante é a função de um
grupoterapeuta em poder reconhecer, conter e m anejar um a transferência grupai
negativa. Em caso contrário, ele sentir-se-á im potente e perdido em meio a um a
sensação de caos e, por isso, correndo 0 risco de vir a tom ar atitu d es tirânicas,
pseudofortes; ou 0 risco em vir a se m o strar depressivo, em u m a dem onstração
de que ele foi frágil e vulnerável à agressão dos seu s “filhos”.
Ambas as hipóteses acim a levantadas atestam a possibilidade de que um
grupoterapeuta ten h a u m a deficiência relativa à im portante^capacidade em servir
de continente às pulsões agressivas de se u s pacientes, sendo que daí tam bém
decorre de um sério prejuízo contratransferencial.
Devemos considerar, parjindo do princípio de que qualquer relação te ra p êu ­
tica é sem pre de ordem vincidar interacional, que a transferência é indissociável
da contratransferência, sendo que neste livro elas estão sendo ab o rd ad as em
separado unicam ente pela razão de um esquem a didático de exposição.
Grupoterapias 1 1 1 3

Orientação Bibliográfica

1. BION, W. R. Experiências em grupos, pp. 147. 1963.


2. GRIMBERG, L. et al. 'Transferencia y Contratransferencia". Em: Psicoterapia Del Grupo. pp.
151-164. 1957.
3. GROTJAHN. M. "A Transferencia". Em: A Arte e a Técnica em Terapia Analiäca de Grupo. pp.
23-38. 1977.
4. MILLER DE PAIVA, L. "A situação transferencial em grupoanálise". Em: Psicanálise de Grupo. pp.
91-105. 1991.
5. PY, L. A.; NOBRE. L. F.; CASTELLAR C.; FREITAS. L. A. “A Transferência e a Contratransferen­
cia na Grupoterapia". Em: Grupo sobre Grupo. pp. 51-70. 1987.
6. RIBEIRO, J. P. "Matriz”. Em: Psicoterapia Grupo-analítica, p. 100. 1981.
7. THOMA, H.; KACHELE, H. ‘Transferencia y relación”. Em: Teoria y Práctica del Psicanalista, pp.
65-94. 1989.
8. VINAGRADOV, S. y YALOM, I. ‘Techniques of the Group Psycotherapist”. Em: Group Psychothe­
rapy. pp. 83-108.1989.
CONTRATRAN SFER EN CIA

Ö o u b e a Freud descrever, pela prim eira vez, em 1910, a ocorrência do


fenôm eno contratransferencial n a pessoa do analista, e ele a considerou, nos
prim eiros tempos, como sendo um sério artefato prejudicial ao tratam ento, e um a
clara evidência de que o analista não estava bem analisado...
A partir dos últim os anos da década 40, P. Heimanp) e H. Racker(5), sep a­
radam ente, estudaram a contratransferência como um fenômeno de surgim ento
inevitável e que pode ser útil ao analista desde que bem com preendido e m aneja­
do. P ara estes autores, a contratransferência se origina das cargas de identifica­
ções projetivas que o paciente deposita no terap eu ta e que, por isso mesmo,
podem se constituir p ara este como um a excelente bússola p ara a em pa tia e p ara
a interpretação. Assim, o prefixo "contra” ganhou um claro significado de contra-
p arte, ou seja, aqililo que o terapeuta sente é o que o paciente o fez sentir,
porquanto con stituem os sentim entos do m undo interior deste último. Baseados
n e sta concepção, m uitos exageros e abusos têm sido cometidos, porque tudo o
que o analista sentisse seria sem pre da responsabilidade do paciente. Podemos
dizer que a contratransferência, na literatura psicanalítica, p assou d a condição
de cinderela desprezada p ara a de um a princesa no pedestal(S).
Assim, é indispensável que tenham os bem claro a distinção entre o que é
contratransferência propriam ente dita, e o que é sim plesm ente a transferência
própria d a pessoa do terapeut^. Uma vez que o terap eu ta ten h a condições de fazer
e ssa necessária discriminaçao, então, sim, ele pode utilizar os seus sentim entos
contratransferenciais como um meio de entender que esses correspondem a u m a
form a de com unicação prim itiva de sentim entos que o paciente não consegue
reconhecer e, muito menos, verbalizar.
Grupoterapias 1 1 1 5

CONTRATRANSFERÊNCIA NOS GRUPOS

Da m esm a form a como ocorre com a transferência, tam bém à co n tra tran s-
ferência se processa no campo grupai. em quatro níveis: 1) os sentim entos do
g ru p o terap eu ta em .xdacãQ -jseparadam ente...a cada um dos in teg ran tes. 2) _os
sen tim entos em relação ao gnipfl.eofflQ-uma.tQtalidade gestáitica. 3).os sen tim en ­
tos que determ inados paçientes.do. grupo desenvolvem, e agem, em relação a cada
um de se u s p ares, 4) os sen tim entos de cada.indivíduo em relação ao que..o.grupo,
como u m a totalidade ab stra ta , lhe .desperta. São as contratransferências cruza­
das, específicas âo cam po d as grupoterapias.
No processo grupai, é im portante que todos os com ponentes da grupotera­
pia desenvolvam a capacidade de reconhecimento dos próprios sentim entos con-
tratran sferen ciais que os outros lhe despertam , assim como os q u e ele despertou
n o s outros. Isso tem um a du p la finalidade: um a, a de auxiliar a im portante
função do ego de cada indivíduo em discrim inar entre o que é seu e o que é do
outro; a seg u n d a razão é a da necessidade para o crescim ento de cada pessoa, de
que ela deve reconhecer, por m ais penoso que isso seja, aquilo que ela desperta e
"p a ssa” p ara os outros.
A co ntratransferência resulta, essencialm ente, das contra-identificações pro­
jetivas, razão pela a uaLs-xj-ão é deinais repisar — ela tan to pode servir corno nm
in s tru m ento de em patia [neste_£asQ^costum a ser cham ad a de “co n tratran sferên-
cia concordante"?*), ou, ao contrário, para um reforço da..patologia„do,paciente
(“co n tratran sferên cia complementar")!. E ssa últim a situação ocorre quando o te­
rap e u ta, ao invés de rep rese n tar um novo modelo de identificação que possibilite
u m a a b e rtu ra p ara a s m udanças, se identifica com os antigos e rígidos valores
p are n tais que foram projetados dentro dele. Assim, o terap eu ta assum e, comple­
m en ta e age da m esm a forma como os pais do paciente procederam com ele.
A conseqüência m ais com um dessa com plem entação contratransferencial é
a que aparece, disfarçadam ente, sob a formação de inconscientes, conluios trans-
ferenciais-contratransferenciais, sendo que, destes, o m ais freqüente é, de longe,
o que se e s tru tu ra sob o modelo de um a relação de poder. Assim, podemos
afirm ar que um vínculo terapêutico que se e stru tu ra sob u m a forma perdurável
de idealização, m u itas vezes no nível de um a fascinação, certam ente revela a
seg ura presença de elem entos narcisísticos n a pessoa do terapeuta, ao custo de
um reforço d a sub m issão e infantilização dos pacientes.

(*) O termo “concordante" tem o inconveniente de ser ambíguo, porquanto ele pode sugerir que o
terapeuta vá concordar (reforçar) as projeções nele colocadas. No entanto, mantemos este
termo, a partir do significado que está contido em sua formação etimológica, composta do
prefixo “con" (junto de) + “cordante" que, por sua vez. é um derivado do étimo latino “cor,
cordis" (coração). Portanto, “concordante” deve ser entendido como uma con-córdia. uma em­
patia, de "coração a coraçào".
1 -f ■-■■-s.-

1 1 6 / David E. Zimerman

Sabem os o quanto é difícil desfazer certas parelhas relacionais quando as


m esm as constituem um sistem a que se alim enta a si mesmo, caso em que cada
m em bro, m antendo as s u a s dissociações, é inseparável dos outros, com os quais
form a u m a unidade granifica. O conluio de com plem entação narcisística, em que
te ra p e u ta e pacientes se gratificam reciprocam ente, m uitas vezes encobre um a
bem disfarçada relação sadom asoquista, pela qual um se apraz em ser o subm e-
tedor e os outros em serem os subm etidos,
O grave inconveniente do conluio transferencial-contratransferencial b asea­
do n a idealização é a de que ele inibe o surgim ento dos sentim entos agressivos,
contidos na, assim cham ada, transferência negativa, e sem a análise d a agressão
e d a agressi\idade(**), u m tratam ento não pode ser considerado como completado.

EXEM PLO CLÍNICO (N2 4)

Um grupoterapeuta procura um a supervisão pelo fato de estar se sentido


“m uito perdido e angustiado” diante do mom ento atual do seu grupo terapêutico.
Traz o relato das d uas ú ltim as sessões.
Na prim eira delas, a sessão é aberta por Ana (22 anos, solteira, franzina) que
d etalha o “jeito tarado” do seu pai (o qual é, de fato, um perverso grave) que
p asso u todo o fim -de-sem ana subm etendo-a a um constrangedor assédio sexual.
No começo ela achou isso “engraçado”, m as depois ficou enojada e assu stad a.
Todo o grupo acom panha o relato de Ana com m uita atenção e com alguma
ansiedade visível. A seguir, Bina lem bra das “brincadeiras sexuais” que tivera
com um seu irmão. O paciente Celso recorda que, desde guri, já n u tria um a
“tesão recolhida" por u m a tia sedutora. Dora relata que esfriou o prom issor n a­
moro que vinha m antendo com R. (o hom em que a está cortejando e a quem ela
adm ira muito) unicam ente pela razão de ele ser bem m ais velho do que ela. “É
como se eu fosse tra n sa r com o m eu pai”, exclam a Dora. O paciente Élson, que
até então estava silencioso, pede a palavra e diz, de forma ansiosa, que finalmente
resolveu contar o “segredo” que h á m uito tem po ele prom etera que um dia conta­
ria ao grupo: no dia em que a su a filha fez 15 anos, ele a achou muito bonita e,
n u m gesto de um impulso inexplicável, ele tentou acariciar os seios dela. Sofreu
um forte repúdio por parte da filha e, desde então, ele se acha um crápula e vive
deprim ido.
O tempo da sessão che^pu ao térm ino e o grupoterapeuta, conforme é su a
c o n d u ta habitual, tentava d ar ao grupo um com preensivo e integrativo "fecho

(**) É útil fazermos uma distinção entre agressão e agressividade. A primeira conota um significado
destrutivo, enquanto a segunda designa uma significação construtiva, como a própria etimo­
logia da palavra "agressividade" comprova. Assim, o verbo agredir se forma de ad (para a frente)
mais gradior(movimento).
Grupoterapias / 1 1 7

final”, m a s não conseguiu dizer n a d a porque n ad a lhe ocorria, e se sen tia algo
assu sta d o e p erturbado.
A sessão seguinte seguiu u m m esm o d iap asão acrescido de d u a s p assagens
significativas. A prim eira d e s ta s é que Élson, à m oda de u m a testagem incons­
ciente, inform ou que veio ao grupo unicam en te p ara se d espedir e que som ente
com pareceu devido à insistência do te ra p e u ta (de fato, no m esm o dia em que fez
a “confissão” de seu segredo, ele telefonou aflito ao g ru p o terap e u ta dizendo que
não voltaria m ais porque tin h a a certeza de que seria repudiado, e expulso, por
todos do grupo).
A se g u n d a situação ocorrida no grupo foi a participação de Frida. Ela diz que
se m antivera totalm ente silenciosa n a se ssão anterior, ao m esm o tem po em que
não conseguia p a ra r de p en sar em um a cena terrível acontecida em s u a adoles­
cência: ela tin h a saído com um nam orado e ao chegar em casa tard e d a noite,
encontrou a m ãe caída no chão e, em pânico, pensou que a m ãe p u d esse estar
m orta. Tão pronto a s u a m ãe se recuperou com eçou a responsabilizar a filha pelo
“ata q u e ” que tivera e que o excesso de preocupações que Frida vinha lhe ca u sa n ­
do acabariam a levando p ara o hospício ou p a ra o cemitério.

COMENTÁRIO

A le itu ra deste m aterial clínico nos perm ite fazer as seguintes observações:

1) A evidência do fenômeno de resso n ân cia grupai, ou seja, o assunto


trazido por um deles ressoou no inconsciente dos dem ais de tal sorte
que todas a s o u tras com unicações seguiram u m a n ítid a seqüência de
com plem entação.
2) A assu n çã o de distintos papéis po r p arte de alguns m em bros do grupo.
Assim, Ana representou a am eaça de u m a irrupção d a perversão, que
e s tá latente no inconsciente de cada um ; Élson é u m claro exemplo de
an g ú stia paranoide (“... vão me expulsar"); F rida é a porta-voz da a n ­
g ú stia depressiva (*'... por m inha culpa, m in h a m ãe q u ase morreu");
D ora rep resen ta o preço m aso q u ista (boicote à u m a boa ligação afetiva),
devido ao tem or e à culpa edípica.
3) Os sentim entos contratransferenciais do g ru p o terap eu ta se m anifestam
nitidam ente através de u m a m escla de sensações, ta n to as de medo,
como de ím petos de p artir para u m a ação rep resso ra (ele teve de conter
a s u a vontade para, logo de início, “ra lh a r e d a r u m a orientação de
co n d u ta p a ra Ana", e assim m u d ar de assu n to ), como a de u m a perple­
xidade e certa paralisia.
4) E ssa resp o sta contratransferencial é u m a resu ltan te d as projeções, p a­
ra dentro do terapeuta, de alguns dos p ersonagens que h ab itam o m u n ­
do intem o dos respectivos pacientes do grupo.
118 / David E. Z im em an

Assim, o grupoterapeuta ficou identificado com esses objetos internos como,


por exemplo, com a mãe de Frida (ao te r ficado aturdida como esta), ou com o
superego de Élson (quando sentiu im petos de ralh ar e acabar com o “ab u so ”), etc.
Podemos dizer que a contratransferência apresentada é do tipo “comple­
m entar" (corresponde ao que os au tores norte-am ericanos cham am de co n tra­
transferência patológica) pelo fato de que o terapeuta, por ter se identificado com
os objetos primitivos do paciente, acab a por complementar, isto é, reforçar os
m esm os padrões de conduta daqueles últim os. É im portante consignarm os que a
persistência desse tipo de contratransferência impossibilitará que os pacientes
possam encontrar saídas novas p ara os seu s velhos problemas.
Com o auxilio da supervisão, o grupoterapeuta reconheceu os se u s sen ti­
m entos contratransferenciais patogênicos, e isso propiciou que ele transform asse
a contratransferência de tipo com plem entar, em um a contratransferência de tipo
“concordante" (corresponde ao que os m esm os autores norte-am ericanos concei­
tuam como “em patia”). Em o u tras palavras, o fato de perder o medo dos sen ti­
m entos que foram projetados p ara dentro dele possibilitou que o terap eu ta p u d es­
se utilizá-lo como um instrum ento de com unicação em pática, sendo que isso foi
confirmado pelas sessões que sucederam .

Orientação Bibliográfica

1. GRIMBERG. L. “Psicopatologia de la identification y contraidentificación projetivas y de la con-


tratransferencia”. Em: Revista de Psicoanalisis. ns 20. Vol. 2. p. 113. 1963.
2. HEIMAN, N. P. “On Countertransference”. Em: Int. J. Psych. Vol. XXXVU 1956.
3. PY, L. A.; NOBRE, L. F.: CASTELLAR, C.; FREITAS. L. A. 'Transferência e a Contratransferência
na Grupoterapia”. Em: Grupo Sobre Grupo. pp. 51-70. 1987.
4. KUSNETZOFF, J. C. “La Contratransferência en Psicoterapia de Grupo. Algunos Aspectos”. Em:
Revista da Flapag. Vol. 1, n5 1. pp. 29-40. 1971. ’
5. RACKER. H. Estúdios sobre técnica psicoanalítica. 1960.
6. THOMA, H.; KACHELE. H. “Contratransferência. De como Cenicienta se transformo en prince­
sa". Em: Teoria y Práctica del Psicoanalisis. pp. 99-117. 1989.
7. ZIMMERMANN. D. “O Psicoterapeutà frente ao Grupo como Totalidade e a Contratransferência".
Em: Estudos sobre Psicoterapia Analítica de Grupos, pp. 109-125.1971.
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COMUNICAÇAO

A im portância do processo d a Comunicaçâo(*) in tra e intergrupos pode ser


medida a partir do princípio de que “o grande mal da hum an id ad e é o mal-entendido".
As grupoterapias, m ais do que o tratam en to individual, propiciam o su rg i­
mento dos problem as de com unicação e, portanto, favorecem o reconhecim ento e
o tratam ento dos seus costum eiros distúrbios.
A com unicação se processa a p artir dos seguintes q u atro elem entos: o em is­
sor, a m ensagem , o canal e o receptor. C ada um deles, em separado ou em
conjunto, podem sofrer um desvirtuam ento patológico.

1 .0 EMISSOR

A prim eira observação que deve ser feita é a de que falar não é o m esm o que
com unicar. Assim, a fala tanto pode s er utilizada como in stru m en to essencial da
com unicação, como. .pelQ j»ntrário, pode e sta r a se rviço d a in com unicação.
Nas grupoterapias isso pode se r observado em p acientes que se encarregam
da obstrução d a com unicação de sentim entos inconscientes m ais profundam ente
ocultos, através de um discurso que tanto pode s e r intelectualizado, como prolixo,
ou desviador p ara relatos m ais am enos. Um a o u tra m an eira de um paciente
incom unicar é pelo uso de m ensagens dúbias, polêm icas ou até beligerantes, e
assim por diante.
Por outro lado, é preciso considerar que o ato d a com unicação verbal é
indissociável da função de pensar, sendo que, de acordo com Bleger(2), o pensa-

(*) A etimologia de "comunicar" forma-se dos étimos: com + unicare, ou seja, tomar único (com-um).

119
1 2 0 I David E. Zimerman

m ento m uitas vezes pode se form ar como um sistem a que se organiza, sistem ati­
cam ente, “co n tra”, ao invés de ser “com" ou “para" algo ou alguém . Da m esm a
form a, pode ocorrer que o que parece ser “p en sar” não p assa de u m a m era
“evac u ação" (termo de Bion) de sensações, sob forma de palavras ou ações. Ou-
tra s vezes , .0 pensam ento,não p assa de um círculo vicioso e estereotipado. Todas
essas possibilidades se refletem n a patologia d a emissão da comunicação^
Tam bém deve ser considerado o fato de que todo. em issor tem.„um_e_s.tilo
próprio de transm itir, o_que, de modo geral, trad u z a su a personalidade. Assim,
pode-se reconhecer ( f esülõ ãjx õ lã n tè do narcisista; o detalhista e am bíguo do
obsessivo; o d ram ático do histérico; o falacioso das personalidades “como se"; o
evitativo do fóbico; o defensivo-litigante do paranoide; ò superlativo do tíipom anía-
co: o autodepreciativo do.deprim i9ó:_o frag m en tad ö lJö ^sicö tico , ë assim pôr
diante. O estilo pessoal do grupoterapeuta quanto à forma de em issão de s u á
atividade interpretativa, vai ser m ais detalhado no capítulo seguinte.
Uma interessante e costum eira ocorrência grupai é a de que, aos poucos,
cada grupo vai adquirindo um a configuração peculiar, pelo fato que a coesão
propicia o desenvolvimento de u m a caracterologia própria e um estilo peculiar de
linguagem e de com unicação entre si.

2. A MENSAGEM

Se ojcSnfeuBql daquilo que deve ser emitido não estiver bem claro para o
próprio em issor, o m ais provável é que a comunicação fique tru n cad a. Isso pode
ser observado em qualquer grupo de trabalho no qual o próprio coordenador pode
provocar um estado de com unicação caótica, nos casos em que a em issão d a
m ensagem inicial quanto aos objetivos e esquem a de trabalho tiver sido form ula­
da de form a am bígua e.põüco clara. '
U m a ^ t r a a t o ç ã p ^ i ^ p e r ^ r b a j _ c o j m i n i ç a ^ ã q ^ o n ^ q i i a n d g _ a m ensa­
gem em itida for, em si m esm a, inaceitável, tan to porque ela n ãQ -Conesjm deLàs
necessidades do m om ento do grupo, como tam bém p e la ja z à o jle q ue ela possa
e sta r acim a das capacidades das- pessoas em cum pri-las, especialm ente se elas
foram transm itidas por.um . canal inadequado. Tal aspecto é m uito im portante no
que se refere ao.Ltímrngjdaúnterprmçã&i
Um im portante aspecto relativo aos problem as da Com unicação é o que foi
estudado pela escola de Paio Alto (Califórnia), a qual destaca, entre ou tras, as
seguintes d u as m odalidades^atogênicas: a “m ensagem paradoxal” (consiste n a
em issão de duplas m ensagens, como, por exemplo, “eu te ordeno que tu não
aceites ordens..’’) e a “m ensagem desqualificatória”. E sta últim a consiste em n e ­
gar o valor informativo d a m ensagem em itida pelo outro. Um exemplo pode ser o
de u m a m ãe que, sistem aticam ente, ban h a o seu filho num a ág u a m uito quente
e o qualifica de m anhoso quando este protesta e chora. Assim, esta m ãe não só
desqualifica a vivência sensorial de seu filho, como ainda o im pregna com culpas.
Grupoterapias 1 1 2 1

0 reconhecim ento desses distúrbios de com unicação é m uito favorecido nos


tratam e n to s em grupo (ressalvada a hipótese de que o próprio g ru p o terap eu ta
tam bém po ssa e sta r utilizando m ensagens paradoxais e desqualificatórias).

3. 0 CANAL

Sabem os que a com unicação não se processa unicam en te através d a lingua­


gem verbal, a qual, quando adequadam ente em pregada, consiste em um indica­
dor de que o em issor tem um a boa capacidade de sim bolização e de conceituação,
próprias de um ego bem estruturado.
A com unicação tam bém pode ser transm itida atrav és de um canal de lin­
guagem não verbal, como um dos seguintes:

— Corporal (conversões, somatizações, modificações estéticas, tiques físi­


cos, etc.).
— Oniróide (as im agens visuais dos sonhos e devaneios).
— Pré-verbal (gestos, atitudes, olhares, m aneirism os, disposição das ca­
deiras no grupo, etc.)
— Paraverbal (quer dizer: ao lado do verbo. Isto é, a s m odulações do tom,
a ltu ra e tim bre da voz, o vocabulário usado, as entrelinhas, etc.).
— Extraverbal (actings).
— T ransverbal (as alternâncias e m udanças do discurso no correr da se s­
são e ao longo d a grupoterapia).
— Efeitos contratransferenciais (trata-se de u m a forma m uito primitiva de
com unicação, a qual consiste no fato de que os sentim entos d esp erta­
dos no terap eu ta correspondem às ang u stias provindas do inconsciente
profundo dos pacientes nas vezes em que esses não conseguem reco­
nhecer e, muito m enos, verbalizar e nom ear ta is emoções. \

É inconteste o fato de que n as grupoterapias em que o em issor (grupotera­


peuta) e o receptor (grupo) não estiverem sintonizados no m esm o canal a com u­
nicação não se fará.

4. 0 RECEPTOR

Sabem os o q uanto de distorção pode sofrer u m a m esm a m ensagem feo ser


_percebida_por várias pessoas, sim ultaneam ente, pelo fato de que elas estáo em
estados emocioniís~cBstintos e s ã o portadoras de m undos internos diferentes. |
D essa forma, por m ais apropriada que ten h a sido a em issão, a m ensagem e
o can al de um a determ inada comunicação, ainda assim essa últim a pode não
e sta r cum prindo a s u a finalidade. Isso se processa nos casos em que h ã u m a
patologia do receptor, em um a das seguintes possibilidades:
1 2 2 I David E . Zimerman

—- U m a recepção perceptiva de natu reza paranoide, que venha provocar


u m a distorção do verdadeiro propósito de quem em itiu a m ensagem ,
eivando a e sta com seg u n d as intenções, dúvidas e suspeitas.
— Uma “reversão de perspectiva”, term o cunhado por Bionf1) e que con­
siste no fato de que o individu o exageradam ente narcisista re v e rterás
s u a s próprias prem issas, tudo o que ele ouve do outro emissor, ain d a
que ap a ren te e sta r em plena concordância com este. Este aspecto ad ­
quire u m a im portância de prim eira ordem em relação ao destino que
tom am a s interpretações do terap eu ta, pelo fato de que elas ficam des-
vitalizadas diante desse tipo de recurso.
— Uma evitação do conhecim ento de verdades penosas, tanto as externas
como as in tern as. E sse “não-conhecim ento” se processa através das
diferentes form as de negação (supressão, repressão, denegação...), se n ­
do que o seu grau extrem o é a forclusão, recurso utilizado nos estados
psicóticos, que consiste n u m a negação absoluta d a realidade exterior
que co n ten h a a verdade abrum adora. Tal modalidade de incom unicação
lem bra o dito de Laing(4): "... Devo jogar o jogo de não v ero jogo". ■
— Dificuldade em escu tar os outros. E scu tar não é o mesmo que ouvir.
Este últim o não p assa de um a função fisiológica, enquanto que escu tar
implica em um a disposição do individuo para relacionar as próprias
opiniões com a s alheias, além de adm itir que os outros possam ter um
código de valores e de form a de pensam ento diversos do seu, sem que
isso signifique que sejam m elhores ou piores, mas, sim, sim plesm ente,
diferentes dele.
— O problem a m ais com um que interfere n a comunicação entre o em issor
e o receptor, e provoca o m al-entendido, é o decorrente do significado
sem ântico d a s palavras. Uma grupoterapia favorece a constatação do
quanto u m a m esm a palavra pode adquirir significações totalmente dife­
rentes de u m individuo p ara outro.

Os problem as d a com unicação tam bém podem ser encarados a partir de


o u tras perspectivas, como, por exemplo, o d a fixação em estádios evolutivos.
Assim, os indivíduos que estão fortem ente fixados nos primórdios da orali-
dade sem pre p artem de u m a posição egocêntrica, pela qual tudo (o que não sai
certo) é sem pre da responsabilidade do outro. Nas etapas precoces do desenvolvi­
m ento cognitivo, como ensina Piaget(7), a criança dem onstra um a relativa in cap a­
cidade de colocar-se no lugaj^de u m a o u tra pessoa. Devido a essa visão ptolomai-
ca do m undo, no u so de su a linguagem e com unicação, essa criança não faz
m uito esforço p ara ad a p ta r o se u discurso (e o seu ouvido) às necessidades do
ouvinte. A criança age como se as o u tras pessoas obviamente fossem entendê-la
e concordar com ela, por ter partido do princípio de que o m undo gira em tom o
dela, unicam ente p a ra servi-la. E ste distúrbio de comunicação é comum em p a ­
cientes regressivos in ten sam en te fixados em etap as narcisísticas da evolução.
Grupoterapias 1 1 2 3

De form a equivalente, nos p acientes em que a fixação anal é a prevalente, o


processo com unicativo pode ad q u irir u m a configuração em que tudo fica revertido
aos significados de expulsão, de retenção ou de controle de p ensam entos e afetos.
O ideal seria a com unicação em nivel genital, de n atu reza com ensal, em que
há u m a consideração e um prazer pelo que é dado ao outro e pelo que vem do outro.
Uma últim a palavra acerca da com unicação n a s grupoterapias deve ser
dada em relação ao freqüente surgim ento de silêncios, tan to por parte de algum
integrante, de todo o grupo ou do grupoterapeuta. Em todos esses casos, deve ser
considerado que h á silêncios in ú teis e silêncios úteis, sendo que tal qualificação
vai depender de um determ inado contexto.
Assim, m uitas vezes, os silêncios têm um a finalidade obstrutiva-resisten-
cial, ou estão expressando um protesto m udo, ou, ainda, podem estar represen­
tando um teste do individuo p ara com provar se é notado e se existe, etc. O utras
vezes, no entanto, o silêncio pode estar significando um direito em ser livre e
respeitado em seu ritmo de participação, ou pode estar designando u m a p au sa
reflexiva e até m esmo elaborativa.
O mesmo ocorre com os silêncios do grupoterapeuta: tan to pode correspon­
der ao silêncio "vazio”: de quem ignora o que está se passando, como pode ser o
silêncio "cheio” de quem está entendendo e elaborando a rede de comunicações
surgidas no campo grupai, e que por isso sabe o que faz e não se impacienta.
Por tudo o que foi dito, depreendem os que o tem a d a atividade interpretativa
está intim am ente conectado com o da com unicação, que lhe serve de alicerce.'A
atividade fundam ental do g ru poterapeuta é propiciar aos m em bros do grupo a
aprendizagem de como estabelecer u m a adequada com unicação verbal, além de
remover as respectivas barreiras.
W. J . Fernandes(3) assin ala dois aspectos que são muito im portantes no
processo comunicativo grupal: o primeiro é o de que "tanto o em issor como o
receptor fazem transform ações o tempo todo. Desse modo, com unicação completa
e verdadeira é impossivel”. O seu segundo assinalam ento aponta p ara a relevante
questão daquilo que não é dito, sendo que "grande parte das confusões que
ocorrem quando tentam os nos com unicar são devidas a omissões. Em m uitos
casos, o trabalho principal do an a lista será te n tar descobrir o que não foi dito”.

Orientação Bibliográfica

1. BION. W. R. Voluiendo a pensar. 1985.


2. BLEGER, J. “Grupos operativos no ensino". Em: Temas de Psicologia..pp. 53-198.
3. FERNANDES, J. W. "Vicissitudes do Processo Comunicacional no Grupo e do Grupo". Trabalho
apresentado no I Encontro Luso-Americano de Psicoterapia Analítica de Grupo. Sâo Paulo.
Agosto de 1991.
4. LA1NG, R Citação do trabalho de Cerveny, L. M. O; Oliveira; N. F. M."lnstituiçâo-ilusão. conhe­
cimento — O repensar" Rev. Arpag. V. 1, ns 01. p. 50, 1989.
5. UBERMAN. D. Comunicación y Psicoanatise. 1975.
1 2 4 / David E. Zimennan

6. MA1LHI0T. G. B. "Comunicação Humana e Relações Interpessoais". Em Dinâmica e gênese dos


grupos, pp. 63-88. 1977.
7. PIAGET. J. Seis Estudos de Psicologia. 1962.
8. RIBEIRO. J. P. "Processos de Comunicação". Em: PsicoterapiaGmpo-analítica. pp. 130-137.1981.
9. PUGET, J. et al. 'Teoria de la Interaction y de la Comunicación". Em: El Grupo y Sus Configura-
ciones. pp. 22-23. 1991.
INTERPRETAÇÃO

A cred itam o s que, dentre todos os capítulos deste livro, este deva se r o m ais
controvertido pela razão de abordar algum as questões que co ntinuam sendo m u i­
to polêmicas, tais como: as interpretações configuram um a psicoterapia analítica
em grupo, do grupo, ou de grupo? As interpretações devem ficar lim itadas ao
aqui-agora da transferência grupai? Elas devem privilegiar o conflito individual,
como n a psicanálise clássica, ou priorizar a com unicação e os papéis? E assim por
diante.
A inda que a interpretação n ão seja o único fator terapêutico, ela se co n sti­
tui, sem dúvida, como o instrum ento fundam ental. S empre houve, notadam ente
nos tem pos pioneiros da psicanálise, um a supervalorização, q u ase mágica, da
arte de in terp retar os significados inconscientes do conteúdo dos sonhos e da livre
associação de idéias, nu m a tenaz b usca por decifrar os enigm as escondidos n as
dobras de su a simbologia. O papel do paciente era o de trazer “m aterial”, en q u a n ­
to o da an alista era unicam ente o de interpretá-lo.
Hoje, as coisas não são vistas bem assim. O prefixo “in ter” d a palavra in ter­
pretação diz bem do caráter inter-relacional do vinculo terapêutico em que se
processa um recíproco e contínuo intercâm bio de sentim entos.
Assim, a interpretação se forma no terapeuta a p artir da elaboração in te m a
de u m a série de fatores: se u s conhecim entos teórico-técnicos (acerca d a livre
associação de idéias, o jogo d as identificações, as m últiplas transferenciais, os
actings, etc.), su a s sensações transferenciais, s u a capacidade de em patia e de
intuição e, em caso de grupos, a su a aptidão em cap tar o denom inador com um da
tensão grupai. É útil lem brar que a interpretação tam bém opera pelo en tendim en­
to daquilo que não é dito e não é feito.

125
1 2 6 / David E. Zimerman

Mas o que é mesmo '‘interp retar”? Vamos ten tar responder através de u m a
analogia: entendo que u m a m ãe está "interpretando” o seu filhinho q u an d o ela
percebe, escuta, compreende, significa e nom eia a s necessidades e an g ú stia s que
a criança está com unicando através, m uitas vezes, de u m a linguagem primitiva.
A analogia é extensiva aos grupos e, nesse caso, essa m ãe (grupoterapeuta) não
m onopoliza e nem se deixa monopolizar pelo filho, integra-o n a configuração do
grupo familiar, e preserva a s u a própria individualidade.
Assim, a interpretação analitica visa a u m a série de finalidades que neces­
sitam ser muito bem conhecidas pelo terap eu ta e que, em linhas gerais, são as
seguintes:
— Promover o insight (tom ar consciente aquilo que for pré-consciente ou
inconsciente) e a relação do sujeito consigo mesmo.
— Romper a fantasia de fusão com um objeto imaginário e introduzir a
discriminação além de, a partir dai, propiciar um acesso ao nível simbólico.
— Reconhecer e reintegrar os aspectos que estão dissociados e projetados.
— Desfazer as negações da realidade, exterior e interior.
— Dar nom es aos sentim entos m ais primitivos que ainda estão inonim ados.
— Fazer discriminações entre as diferenças.
— Propiciar ressignificações (através de um jogo dialético entre a tese in i­
cial do paciente, a antítese apresen tad a pelo terapeuta, e a síntese
resultante, seguida de novas teses...).
— Promover o desenvolvimento das funções do ego, principalm ente as de
percepção (por exemplo, as distorções resu ltan tes do uso excessivo de
identificações projetivas), de pensamento, linguagem, e ação.
— Reconhecer, e modificar, a assunção e adjudicação de papéis do campo
grupai.
É claro que essas diversas finalidades d a função interpretativa, acim a e n u ­
m eradas, obedeceram a um esquem a didático, sendo que, n a prática, de certa
forma, tudo isso se superpõe e se processa de forma evolutiva ao longo de q u al­
qu er tratam ento de propósito analítico.
Por outro lado, cremos ser útil procedermos u m a distinção entre in te rp re ta­
ção propriam ente dita e atividade interpretativa. A prim eira é classicam ente con­
siderada como sendo a que, no aqui-agora d a transferência, através d a form ula­
ção verbal do terapeuta, descodifica o conflito inconsciente que se estabelece
entre os impulsos, defesas e as relações objetais in tern as. Atividade in terp retati­
va, por su a vez, implica nq-<íso de intervenções que levem os pacientes a fazerem
indagações e reflexões. Nesse caso, as intervenções do terap eu ta incluem o uso de
perguntas, de clarificações (enfoque de detalhes significativos), confrontações (con­
frontos entre as contradições do paciente, assim como de su as dissociações) e o
eventual emprego de analogia e de metáforas.
Grupoterapias 1 1 2 7

PATOLOGIA DA INTERPRETAÇÃO

A interpretação consta de três aspectos: o conteúdo, a form a e o estilo. Cada


um deles ta n to podem ser adequados como podem incidir n u m desvirtuam ento
contraproducente.

1 . Em relação ao conteúdo

A patologia do conteúdo da interpretação diz respeito principalm ente ao fato


de que aquilo que o terapeuta interpreta não corresponde exatam ente ao que de
relevante lhe foi com unicado. O utra possibilidade ê a de que o conteúdo de in ter­
pretação não considere o aspecto positivo que m u itas vezes está oculto num a
aparência de negatividade.
Em grupoterapia, constitui um grave erro técnico o fato de u m grupotera­
p eu ta privilegiar o conteúdo das comunicações isoladas de um , ou de alguns
m em bros, sem conectá-los com as dos outros.

2. Em relação à forma

Q uanto à patologia da forma de transm itir a interpretação, os seguintes


pontos devem se r assinalados:
— A interpretação vir a servir como um instrum ento de poder do grupote­
rap eu ta, a serviço de um a doutrinação e ao preço de u m a subm issão
dos pacientes.
— Uma form a intelectualizada de conceber e de form ular a interpretação.
— Um uso de interpretações “sa tu rad as”, que red u n d am e fecham ao in ­
vés de promover aberturas.
— Uso excessivo das interpretações, às vezes se constituindo em um ver­
dadeiro fu ro r interpretandi, e que não dá espaço aos p acien tes de expe­
rim entarem , eles próprios, ensaiar a fazer interpretações do que está se
passando.
— Um reducionism o sistem ático ao transferencialism o do tipo "... é aqui,
agora, comigo". Isso não só está longe de se r sem pre verdade como
ainda tem o inconveniente de reforçar os vínculos de n atu re za sim bióti­
ca, assim como o de dificultar o desenvolvimento do senso de crítica da
realidade exterior.
— A interpretação ser transm itida em um canal que n ão pode ser sintoni­
zada pelo aparelho receptor dos pacientes. Por exemplo: se rá infrutífera
a interpretação form ulada em term os conceituais ab stra to s p ara p a ­
cientes regressivos que não tenham bem desenvolvida es sa capacidade
de formação de símbolos.
1 2 8 / David E. Zimerman

— A interpretação ser dirigida unicam ente aos indivíduos separadam ente


(a cham ada “análise em grupo”), ou, no extremo oposto, se r sistem ati­
cam ente enfocada no "todo grupai" (análise do grupo). No prim eiro caso,
a patologia consiste em que ela não só impede a formação da passagem
d a condição de serialidade para a de grupo propriam ente dito, como
ainda gera um foco de inveja e rivalidades nos outros — e de culpas no
privilegiado.

Claro que tais ansiedades poderiam ser trab alh ad as no grupo, m as como,
neste caso, a interpretação está sendo individualizada, não se consegue sair do
círculo vicioso. No caso de se in terp retar unicam ente a totalidade grupai, h á o
grave prejuízo de que cada indivíduo fique despersonalizado e com m ais dificulda­
des em consolidar a su a identidade individual.
Acreditamos ser necessário deixar bem claro que a terapia não é do grupo
em si, o qual não p assa de u m a abstração e é transitório; os indivíduos que
aceitaram um tratam ento grupai foram em b u sca de soluções p ara os problem as
de s u a vida privada. Pertenço à corrente de grupoterapeutas que preconizam a
terceira m odalidade de grupoterapia analítica: a de grupo, ou seja, tanto são
válidas as interpretações individuais ou as coletivas, desde que sem pre elas fi­
quem conectadas entre si. O fio condutor dessa interconexão é o reconhecim ento,
por parte do terapeuta, do denom inador com um da tensão grupai.

3. Em relação ao estilo(*}

O estilo de como o grupoterapeuta intervém e interpreta exerce um a inequí­


voca influência no campo grupai. Estilo e técnica costum am se confundidos, m as
não são a m esm a coisa, estando o prim eiro a serviço do segundo.
O estilo é variável de um te ra p eu ta p ara outro e diz respeito a um a forma
su i generis de ser de cada um de nós, enquanto um a determinada técnica obedece
a postulados bem definidos e invariáveis.
O estilo pessoal diz m uito de como é, n a realidade, a pessoa do g ru p o tera­
p eu ta e, por isso mesmo, essa su a autenticidade, de modo geral, deve se r respei­
ta d a e preservada. No entanto, algum as peculiaridades estilísticas com prom etem
a eficiência técnica. Seguem alguns exemplos:

— Estilo retórico. O .significado de como Aristóteles definiu Retórica diz


tudo: "É a arte de inventar ou de encontrar provas p ara o que se afir­
ma". Em resum o, é o uso da palavra como instrum ento de catequese e

(*) É interessante para nós, terapeutas que fazemos interpretações, o fato de que a palavra “estilo”
deriva de estilus que. em latim, significa buril, um estilete com duas pontas: uma afiada, para
cortar a resistência da cera que vai ser impressa, e a outra romba, para aparar e dar-lhe forma.
Grupoterapias 1 1 2 9

de poder sobre o ouvinte. E sse estilo é próprio dos terap eu tas excessi­
vam ente n arcisistas.
— Estilo — “Os pacientes nunca têm razão". Freud(2) se reportou a isso ao
co n testar a crítica de que os an a listas se com portavam n a base de “se
d er c a ra g anho eu, se der coroa, perde você”. Aliás, o inconveniente
deste estilo é o fato de que um te ra p eu ta sem pre muito certo estim ula
a dependência e bloqueia as capacidades criativas do indivíduo e do grupo.
— Estilo cauteloso. O te ra p e u ta parece e sta r pisando sobre ovos ao fazer a
s u a interpretação. O uso de um p erm an en te prelúdio do tipo “Acho que
vocês estão querendo m e dizer que ...”, além de outras expressões equi­
valentes, pode a c a rre ta r um prejuízo no trabalho de elaboração. Assim,
ele pode an e ste sia r, às vezes, um necessário im pacto útil aos pacientes,
e tam bém pode reforçar neles a fantasia de que estão sendo poupados
porque são m uito frageizinhos ou de que o seu inconsciente está tão
m inado que todos podem estar correndo o risco de um a catástrofe.
— Estilo cobrador-acusador. Consiste n u m a form a de form ular as interpre­
tações n a s q uais estas se confundem com u m a perm anente insatisfação
do te ra p e u ta com os se u s pacientes (na b ase de: “vocês não estão que­
rendo ver que E ste é um estilo nocivo e m uito m ais assíduo do que
possa parecer.
— Estilo loquaz. O te ra p eu ta se empolga com a s s u a s próprias in terp reta­
ções e ac ab a tirando o espaço dos dem ais p ara u m a necessária p a u s a
p ara a s reflexões. Isso ocorre com gru p o terap eu tas que não suportam o
silêncio e m u itas vezes incidem no estilo pingue-pongue, pelo qual, n a
base de um bate-rebate, ele vai exercendo u m a in in terru p ta atividade
interpretativa sobre qualquer colocação de cada paciente.
— Estilo reducionista. C onsiste em que o grupoterapeuta, seja qual for o
contexto do cam po grupai, reduza tu d o o que ouve dos pacientes a um
cerrado esquem atism o d a infância. O inconveniente é que ele pode e sta r
bloqueando a a b e rtu ra de novos cam inhos p ara velhos problemas. Um
reducionism o ainda m ais nefasto é o que aliena os indivíduos e se
concentra em um sistem ático “o grupo está m e dizendo que..."
— Estilo rococó. C onsiste n u m a em postação verbal do grupoterapeuta que
está m ais interessado em bien dire do qu e em dire vrai, utiliza adornos
e floreios lingüísticos que com provam q uão inteligente, criativo e eru d i­
to ele é...
— Estilo pedagógico. As interpretações se confundem com pequenas auli-
n h a s sobre determ inados tem as que surgem . A restrição a este estilo
não exclui a viabilidade ocasional do recurso pedagógico, como, por
exemplo, n u m grupo de púberes ou de adolescentes ávidos por esclare­
cim entos.
130 1 David E. Z im em an

É claro que m uitos outros estilos poderiam ser descritos, m as a finalidade


da exemplificação é a de su b lin h ar que m uitas vezes a interpretação pode estar
exata do ponto de vista do conteúdo, m as, apesar disso, devido a um problema de
form a e de estilo, ser ineficaz em relação à m eta de conseguir p lan tar um insight
afetivo que seja efetivo na promoção de m udanças.

TÉCNICA DA INTERPRETAÇÃO GRUPAL

Não pretendem os, aqui, abordar em extensão o tem a da técnica interpreta-


tiva grupai por d u as razões. A prim eira é pelo fato de que a interpretação resulta
de u m a elaboração in tern a do grupoterapeuta, a p artir de múltiplos fatores de
n atu reza complexa, o que faz com que ela m ais se aproxime de um a criação
artistica do que de u m a ciência de regras explícitas. A segunda razão é a de que
são inúm eras e variadas as táticas e técnicas, assim como os critérios interpreta-
tivos. Vamos nos lim itar, pois, a registrar a nossa experiência e posição pessoal.
Nestes trin ta anos de prática continuada como grupoterapeuta, pouca coisa
de significação fundam ental se modificou em nós em relação ao marco referencial
teórico que serviu de base aos tem as dos capítulos anteriores; no entanto, sofre­
m os profundas modificações em relação à técnica d a atividade interpretativa.
Bem no início de nosso trabalho com grupos terapêuticos analíticos nos
m antivem os obedientes aos postulados que os ensinam entos vigentes n a época
ditavam : sem pre interpretar o grupo como um todo (um a vez, pelo menos, em um
congresso latino-am ericano, ouvimos a recomendação de não declinar o nome de
n en h u m paciente em particular, d u ran te a sessão, p ara não prejudicar a gestalt
grupai ...); sem pre interp retar no aqui-agora transferencial e n u n ca n a extra-
transferência; evitar-incluir, n a interpretação ,'o s aspectos infantis do passado,
pela razão de que o grupo é um a abstração e, portanto, diferentem ente dos indi­
víduos, ele não tem u m a história evolutiva desde a infância; entender o campo
grupai sob um a óptica kleiniana; isto é, sob a égide dos im pulsos destrutivos e
d as respectivas ansiedades psicóticas.
N ossa fidelidade a tais princípios durou pouco tempos tudo nos parecia algo
artificial e nos sentíam os um tanto violentados e, ao mesmo tempo, como que
violentando aos pacientes. Aos poucos, e cada vez mais, fomos nos permitindo
fazer m ud an ças técnicas q u a rto à atividade interpretativa, nos seguintes sentidos:

1. D iscrim inar as individualidades, ainda que sem pre em conexão com o


denom inador com um do contexto grupai.
2. Valorizar m uito m ais os aspectos extratransferenciais.
3. Utilizar m enos sistem aticam ente as interpretações transferenciais no
aqui-agora-conosco (a m enos que as ansiedades em ergentes estejam
, direta ou indiretam ente ligadas a nós, é claro), e m ais a atividade inter-

!
Grupoterapias 1 131

pretativa co n stan te de claream entos, confrontos e p erg u n tas que in d u ­


zam a indagações reflexivas.
D ar im portância prioritária ao assin alam en to d as funções do ego, nota-
dam ente as de Percepção, P ensam ento, Linguagem, Com unicação e Con­
d u ta.
V alorizar os aspectos positivos da personalidade, como, por exemplo, os
que estão n a s entrelinhas de m u itas resistên cias e actings.
6. Enfatizar, sobretudo, o desem penho de papéis fixos e estereotipados no
grupo, bem como n a vida lá fora.
7. Valorização especial dos problem as d a com unicação, os quais co stu ­
m am expressar-se sob d istin ta s form as, especialm ente de falsos acor­
dos e ap a re n te s desacordos, assim com o por meio de m ensagens am bí­
g u as e pelos m al-entendidos.
8. Perm itir e, de certa forma, estim u lar que os próprios p acien tes exerçam
um a função interpretativa.
9. Maior valorização aos aspectos co ntratran sferen ciais (especialm ente co­
mo sendo um veículo de com unicação dos pacientes, em nível primitivo)
e dos possíveis conluios contra-resistenciais.
10. Fazer, ao final de cada sessão, u m a sín tese d as principais experiências
afetivas ocorridas ao longo dela, sem pre visando à integração grupai.

Um outro ponto indefinido é o de como avaliar a eficácia d as interpretações.


De um modo geral, quando elas são adequadas, costu m am promover no clim a da
sessão um sentim ento de alívio — que se deve fund am en talm en te ao fato de se
sentirem com preendidos — logo seguido do aporte de novas associações e sen ti­
m entos. Por outro lado, as interpretações devem propiciar um insight que perm ita
novas ab e rtu ra s p ara os velhos problem as.
Não b a s ta a presença real de o u tras p esso as em um grupo p a ra que se
estabeleça o reconhecim ento dos outros: a atividade interpretativa é que vai pos­
sibilitar a sa íd a do nível narcisista im aginário e o reconhecim ento d as diferenças
de cada um com os dem ais.
A tendência dos indivíduos e dos grupos é a de repetirem , com pulsiva e
estereotipadam ente, n a vida exterior, o d ram a d a s relações objetais que se d esen ­
volve n a vida interior de cada um , sendo que, em um grupo terapêutico, as
interpretaçõés podem rep resentar u m a porta de libertação.
Um bom exemplo disso pode ser extraído d a o bra de S artre, H uis Clos, em
que h á um grupo de três personagens, os q uais estão encerrados em u m a h ab i­
tação que lhes parece s e r a an tessa la do inferno e d a qual ten tam fugir de q u al­
quer m aneira. A pesar d a porta estar aberta, ninguém consegue sair, até que
descobrem que o inferno está dentro deles e que estão condenados a repetir
eternam ente o círculo vicioso maligno de crueldade, culpa e castigo. Se fosse num
grupo terapêutico é provável que teriam u m a boa chance de sa ir d essa situação,
através de u m a ação modificadora provinda d a s interpretações de u m grupotera-
1 3 2 / David E. Zimennan

p eu ta pela razão de que esse não estaria envolvido, com os demais, n a s m alhas
da rede neurótica.
Portanto, um critério de eficácia d as interpretações é quando, ao longo do
tratam ento, vão se processando m u d a n ça s nas pessoas. Também é im portante
assin alar que as interpretações d as configurações básicas nos grupos promovem
um novo código comunicacional, sendo que o mesmo pode servir como u m seguro
critério de aferição do desenvolvimento da grupoterapia.
Assim, um indicador de que as interpretações não estão sendo assim iladas
pelo grupo é quando, ao invés de verdadeiras modificações na m ente e n a co n d u ­
ta, estiver havendo apenas um a m era intelectualização, ou um a reiteração e
intensificação dos actings, sinal de que os pacientes não estão se sentindo e n te n ­
didos, conforme o exposto no Capítulo 18.

Orientação Bibliográfica

1. BLAY NETO et al. (Relatório da Sociedade Paulista de Psicoterapia Analítica de Grupo). "A Inter­
pretação”. Em: Temas do 7- Congresso Brasileiro de Psicoterapia Analítica de Grupos, pp.
2-17. 1988.
2. FREUD S. Construções em psicanálise.
3. GRIMBERG, L. et al Tnterpretación”. Em: Psicoterapia Del Grupo. pp. 148-151. 1957.
4. GROTJAHN, m. “Interpretação”. Em: A arte e a técnica em terapia analítica de grupo. pp. 47-63.1977.
5. NACHERP.G.yCAMARERO,J.A.L."LaInterpretación”.Ern:D£ldà'ánaIcircuIapp. 115-146.1985.
6. NATRIELLI, D. G. et al. (Relatório do Grupo de Psicoterapia de Juiz de Fora-Barbacena). ”0 Grupo
Analítico e Suas Vicissitudes: A Interpretação". Em: Temas do V Congresso Brasileiro de
Psicoterapia Analítica de Grupo Caxambu pp. 9-17. 1988.
7. PUGET. J. et al. “Modelo de Interpretation". Em: El Grupo y Sus Conßguraciones. pp. 65-95. 1991.
8. RIBEIRO, J. P. “A Interpretação". Em: Psicoterapia Grupo-analitica. pp. 138-145. 1981.
9. ZIMMERMANN, D. “Contribuição ao Estudo da Técnica da Interpretação em Psicoterapia Analí­
tica de Grupo”. Em: Estudos sobre Psicoterapia Analítica de Grupo. pp. 165-182. 1971.
ACTINGS

A definição de jy firta kuLXLhiacao) é m uito im precisa pelo fato de que os


autores em prestam significados distintos a este fenôm eno de surgim ento muito
comum nos processos terapêuticos.
No sentido estrito do term o, Acting out designa u m a determ in ad a con d u ta
que se processa como su b stitu ta d e sentim entos que não se m anifestam n o co n s­
ciente. Isso costum a ocorrer devido a um a das seguintes q uatro condições: q u a n ­
do os sentim entos represados correspondem à s fan tasias que estão reprim idas.e
nue não são recordadas (como ensinou Freudl. ou não são p en sad a s ísegundo
Bion), ou não sào com unicadas pela verbalização, ou não conseguem-fica_rçpoti-
das. dentro do individuo.
Conforme o seu tipo e grau, os actings podem ser classificados como n or­
mais ou patológicos ou, ainda, como benignos e m alignos.

CAUSAS

Em qualquer das possibilidades abaixo enu m erad as, o acting sem pre regre-
senta um a forma de com unicação não verbal, de n a tu re z a prinütjyâ!. cõmo xima
tentativa de p reencher vazios e acalm ar ansiedades g u e se form am a p artir d as
seguintes vertentes:

1) A nsiedade de separação: para essas pessoas, u m a “não-presença". é


representada como sendo um a "ausência", um abandono e, por essa
razão, saem ã cata de pessoas que su b stitu a m os au sen te s que os teria
abandonado em favor de outros, que é como sen tem o seu terap eu ta por

133
1 3 4 / David E. Zimerman

ocasião de feriados ou de férias, por exemplo. Este tipo de acting c o stu ­


m a adquirir características erotizadas, hetero ou hom ossexuais.
2) .Intolerância à s frustrações: é cem plem entar à condição anterior pelo
fato de tais pacientes vivenciarem um a frustração como um rechaço,
um desprezo por eles. A raiva resu ltan te faz com que abandonem , afe­
tivamente, a pessoa responsável pela frustração; daí sentirem -se m ais
sozinhas e recorrerem ao acting com pensador do vazio formado.
3) Ódio e revide: se o ódio resultante de u m a frustração, ou de um se n ti­
mento de inveja for m uito intenso, ele provoca ímpetos vingativos e
retaliadores(*), os quais podem se expressar através de actings m alignos
constantes de um a conduta sádico-destrutiva e que, pelas culpas re su l­
tantes, se organizam como masoquismo.
4) Pedido por socorro: nestes casos, o acting funciona como um sinal de
ã lim íe n Õ sé n tid o de que as pessoas de seu meio se dêem co n ta de que
algo não vai bem e que os socorram e contenham .
5. Busca de depositário: m uitas vezes o indivíduo não consegue conter
dentro de si os seu s próprios aspectos intoleráyeis, ou s u a necessidade
de m anter um m undo de ilusões, necessitando a tu a r no sentido de
envolver o u tras pessoas que se façam cargo dessas necessidades e a s
complementem. Assim é que u m a pessoa sádica tem um faro incrível
p ara encontrar um a m asoquista, e vice-versa; um dependente se envol­
ver com u m a “m am ãe”, e assim por diante .
6) Papel de ‘‘atuador pelos dem ais": ocorre nos grupos, conforme foi d e s­
crito no capítulo que tratou da formação de papéis no campo grupai, e
consiste em que um indivíduo, ou um subgrupo, expresse n a s u a co n ­
d u ta atu ad o ra um a com pensação vicariante para os desejos ocultos e
inconfessados dos outros que o acionam.

ACTINGS NAS GRUPOTERAPIAS


Todos os autores que se interessam pelos fenômenos que surgem no campo
grupai reconhecem que a tendência ao acting é particularm ente freqüente e in te n ­
sa nos grupos, e que essa intensidade crescerá, em um a proporção geom étrica
com o núm ero de indivíduos de caracterologia psicopática que, eventualm ente,
tiverem sido incluídos n a composição do grupo.
Nos grupos com adolescentes é particularm ente volumoso o surgim ento de
actings, tanto os sadios como os patológicos .
As atuações nos grupos podem advir de indivíduos, de subgrupos, ou da
totalidade grupai. Por outro lado, elas podem se processar dentro do grupo, ou

(*) A etimologia da palavra retaliação designa o sujeito que, vingativamente, se utiliza, mais uma
vez (“re") da lei de Talião.
fora dele, cujo caso pode envolver um ou m ais de seu s integrantes, ou terceiras
pessoas.
A experiência da prática clinica dem onstra que os actings m ais ocorren tes
ad q u irem as segu in tes formas:

_é um acting que pode ad quirir u m a conseqüência


deletéria, ta n to para os dem ais com ponentes do grupo, que se sentem
am eaçados e desunidos, como para a imagem do g ru p o terap eu ta e,
principalm ente, p ara a reputação que o tratam en to de grupo tem ju n to
ao público.
E ssa forma de atuação tem m aior risco de acontecer no inicio do
funcionam ento da grupoterapia em razão de que os in teg ran tes ain d a
não form aram um esp n t de corps, e o nível de an siedades d esp ertad as
é m uito elevado.
D a m esm a forma, um elemento novò que ingressa num grupo em a n d a ­
m ento pode rep resen tar um risco de inconfidência devido à necessidade
de ex travasar a s u a ansiedade p ara fora do grupo.
2. B usca de privilégios: é o m ais freqüente dos actings e se expressa a tra ­
vés de telefonem as particulares para o terapeuta, ou u m a “conversinha"
após o térm ino da sessão, ou um pedido por u m a sessão individual, ou
u m a distinção quanto ao pagam ento de honorários, ou a m anutenção
de algum segredo com ele, etc, etc.
3. Controle, consiste em envolver dem ais pessoas, fora do grupo, que co­
nheçam o terapeuta, em b usca de detalhes da su a vida íntim a, e isso
lhes confere um a sensação de maior proximidade e intim idade. Não é
raro que procurem saber de outros pacientes do mesmo terap eu ta se h á
diferença n a forma de como são tratados, etc.
4. Acasalamento, quer sob a forma de “namoros", ou de relações extracon­
jugais, m ü ííãs vezes de forma promíscua, o acting de n atu reza erótica é
m uito com um . E sta atuação adquire gravidade quando se processa en ­
tre os m em bros de um mesmo grupo e, pior ainda, quando o grupotera­
p eu ta é m antido na ignorância do que se p assa.
5. Çonvívio social: este tipo de acting necessita ser muito bem discrim inado
q uanto à s u a norm alidade ou patologia. Todos os grupoterapeutas con­
firm am que é praticam ente um a regra em todos os grupos as conversas
n a sa la de espera, an tes da sessão, e o encontro após a sessão, n a ru a
ou no bar, de alguns ou de todos. Da m esm a forma, eles costum am ter
u m convívio social e exclusivas situações festivas, m uitas vezes com a
com panhia dos respectivos cônjuges, em circu n stân cias como as de
aniversários, despedida de alguém que concluiu o tratam ento, véspera
de férias, etc.
A necessidade de discrim inar a natureza dessa forma de acting é que este
tan to pode estar sendo a expressão de um a evolução negativa, como positiva.
1 3 6 / David E. Zimerman

Assim, tais encontros fora do enquadre g rupai podem estar com unicando,
através da linguagem do acting, que o grupo não vai bem e que, por isso, trocam
confidências que são sonegadas d u ra n te a s sessões. Uma outra possibilidade
desse acting é que ele esteja preenchendo u m a necessidade de os indivíduos
com pensarem o vazio de u m a an g ú stia de separação, por exemplo, através d a
alim entação da “ilusão g rupal”(').
No entanto, esses encontros fora da sessão tam bém podem evidenciar que o
grupo vai bem , tanto que consolidou u m a confiança básica, um a solidariedade e
cam aradagem , e que sabem m a n ter a devida delim itação entre a vida social e a
terapêutica.
A prim eira d as d u a s possibilidades acim a levantadas exige um profundo
trabalho interpretativo; en q u an to a segunda, em n osso modo pessoal de proceder
atualm ente, deve se r e n c arad a com natu ralid ad e e não requer m aiores interpre­
tações de intenções inconscientes.
Um aspecto de m u ita im portância que deve se r ressaltado é o da possibili­
dade, n ad a rara, de o g ru p o terap e u ta con tra-atu ar. Nesse caso, ele vai se enredar
n a s m alhas dos actings e, a p artir da perd a dos lim ites da hierarquia, vai aceitar
algum as tentadoras pro p o stas de negócios, vai participar de todas as festinhas,
etc, etc.
Finalm ente, não é dem ais rep isar que m uitos actings, de aparência maligna
e n atu re za preocupante, devem ser cuidadosam ente avaliados porque podem e s­
ta r expressando um prim eiro — e necessário — passo n a elaboração de algum a
m u d an ça significativa.
As m esm as considerações que acim a foram referidas em relação aos acting-
outs, são tam bém válidas p ara os actings-ia Assim, o grupoterapeuta deve ter
condições de discrim inar entre a possibilidade de que esses actings-in, ou seja, os
que se m anifestam no próprio seio do grupo, estejam sendo deletérios, ou se eles
representam um a dram atização, em nível pré'-verbal, de m ensagens positivas em
relação à evolução de cada um e de todos do grupo.

EX EM P LO CLÍNICO (N- 5)

A vinheta que segue visa ju sta m e n te ilu stra r u m a'situ ação de acting-in de
n atu re za positiva.
T rata-se de u m a grupo terap ia analítica com um ano de duração, e que se
caracteriza por um e x c e s s if form alism o -e timidez p or parte dos seu s integrantes,
nos quais prevalece u m a caracterologia de predom inância obsessiva.
H abitualm ente, p a ra com eçar u m a sessão, o terap eu ta deste grupo se dirige
à sa la de espera, onde recepciona os pacientes presentes, que então se encam i­
nh am ao consultório e se n tam -se n a s cadeiras, à livre escolha de cada um.
Os retard atário s en tra m autom aticam en te n a sala onde o grupo já está
trabalhando.
Grupoterapias 1 1 3 7

Na presente sessão, diferentem ente d a ro tin a habitual, ao sair de seu WC


privativo e a d e n tra r n a sala do grupo, o te ra p eu ta é surpreendido com a visão de
que todos os com ponentes do grupo já estavam sen tad o s, quietos, e logo após a
s u a en tra d a d esata ra m em gargalhadas e tim idas frases de gozação...
A prim eira sensação contratransferencial foi um m isto de su sto e de raiva,
o grup o terap eu ta se n tiu o que ele classificou como sendo um sentim ento de que
ele estava sendo vitim a de “um a invasão".'Em seu m om ento de perplexidade, lhe
vinha à m ente um texto que lera sobre grupo terap ia analítica, no qual o au to r
relatava u m a experiência onde o grupo o “d estro n av a” (um paciente sentou na
cadeira reservada ao terapeuta) e esse au to r in te rp re tara tal situação como sendo
representação de um "assassinato do pai".
No breve tem po em que prosseguiam as brincadeiras, a m ente do terapeuta
ficou totalm ente ocupada, tanto com u m esforço em conter o seu ímpeto de
irritação, como em p ro cu rar u m a explicação p a ra o que estava se passando: seria
u m a reação m aníaca? (e, n esse caso, p a ra fugir de qual medo ou depressão?):
seria um ataq u e invejoso destrutivo?: seria um a clara dem onstração de que o
grupo estava em um estado caótico porque a s u a liderança estava falindo?; ou
poderia se r algo diferente que o grupo estava querendo lhe transm itir?
E nquanto o grupoterapeuta b u scava as resp o stas, os pacientes começaram
a falar:

Assiz: P assa d a a brincadeira, quero falar de m in h a filha (de 8 anos). Ela anda
rebelde a todas as obrigações , q uer seja p ara cum prir os horários da
escola, p ara vestir o uniform e, p a ra fazer os tem as...(se prolonga em
detalhes).
Belœ Tam bém não sei o que fazer com o m eu filho. Ele se m ete no meio do
casal e quer toda a atenção voltada p ara ele. O que o coitado está
conseguindo é só incom odar m uito e irritar cada vez m ais o M. (pai do
menino) que j á não quer m ais b rin car com ele e até j á fez am eaças de
castigá-lo e de expulsá-lo de casa.
Carlos: Diz que vai m u d a r de assu n to e d etalh a o andam ento de s u a próxima
m u d a n ça p a ra um apartam ento m aior e m ais arejado.
Daluœ Pois eu levei um enorme susto, n a m inha oficina: u m a m áquina fèz um a
enorm e fum aceira e parecia que ia pegar fogo. E u estou sem pre sobres­
saltada: se o telefone toca após o expediente, logo penso que vão me
com unicar u m a tragédia, tipo incêndio, inundação, estrago de m áqui­
nas, etc.
À m edida que se foi recuperando do im pacto contratransferencial, o te ra­
peuta foi com preendendo a “invasão" como sendo u m a tentativa do grupo em
fazer um a aproxim ação m ais descontraída com ele, com m ais direito a brincadei­
ras e u m a m enor escravidão a um estrito cum prim ento dos deveres, como foi um a
constante n a s fam ílias originais, de cada um deles.
1 3 8 I David E. Zimennan

Ao sentir que estava em condições de correlacionar o significado simbólico


do acting-in com os significados que estavam im plicitam ente expressos no en ca­
deam ento das com unicações verbais que se seguiram , o g ru p o terap eu ta em s u ­
cessivas interpretações partilhou com o grupo um im portante insight o de que
cada um individualm ente e o grupo como u m a totalidade estavam expressando
u m a b u sc a de liberdade.
No contexto da sessão, esse anseio por liberdade estav a sendo traduzido por
meio de u m a conduta de desobediência às obrigações (expresso n a filha de Assiz).
A isto se seguiu o medo de serem m al-interpretados e correrem o risco de serem
punidos e expulsos (como ocorria com o filho de Bela). E sse risco, conforme
expressou Dalva, os deixa em um estado de p erm anente sobressalto de que po ssa
vir a ocorrer u m a tragédia. Coube a Carlos se r o porta-voz de u m a m ensagem
esperançosa que estava refletindo o m om ento atu al de todos os m em bros do
grupo: a de que eles possam e s ta r próximos de fazer u m a “m u d an ça p ara um
apartam en to ” (um m undo interno m aior e m ais arejado), caso eles forem bem
entendidos e acolhidos em seu s ensaios de u m a m aior aproxim ação, especialm en­
te quando essa tiver u m a aparência de brincadeira agressiva.
E ste últim o aspecto — o da brincadeira — é p articularm ente im portante no
desenvolvimento dos indivíduos e nos faz lem brar Winnicott(8) que enfatizava a
necessidade de que a s crianças fossem estim uladas e tivessem liberdade p ara
desenvolver um a capacidade fundam ental: a de "b rin car”.

Orientação Bibliográfica

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Del diuán al circulo, pp. 139-156. 1985.
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nos Periodos de Molde”. Em: Psicanálise de Grupo. pp. 206-227.1991.
INSIGHT. ELABORAÇÃO. CURA

H aq u isiç ãafieJnsiflftf. o processo de elaboração e os resu ltad o s terap êu ti­


cos são indissociados entre si, razão pela qual serão estu d ad o s em conjunto.

INSIGHT
De acordo com a su a etimologia: in (dentro de) + sight (visão), a palavra
insight conceitua a aquisição de u m a visão interna, a qual se processa a p artir da
atividade interpretativa do te ra p e u ta .' A conceituacáo de insight, an tes do que um
simples acréscimo de conhecim entos sobre si próprio, deve se entendida como um
descobrimento, no sentido de que o contexto da palavra sugere: o de retirar(des)
o véu que cobre (coberta) as verdades preexistentes. As descobertas~pTDpfciam-
novaSuCóaeõe-s-— -
Em linhas esquem áticas, podem os dizer que o insight se processa num a
seqüência tem poral, em três modos distintos: o insight intelectivo, o cognitivo e o
afetivo.
O primeiro deles não p assa de um conhecim ento estéril, pela razão de não
colocar o indivíduo em contato consigo mesmo e, além disso, m u itas vezes, é
u tilizado a serviço dó arse n ald ë ïe n siv o aF u m paciënlFque se ja /p o r exemplo, um
n ^ ç is & tâ i! .u jm ^ o insiah t.. cognitivo conota com a nocão de que o
conhecimento adquirido ainda é insuficiente para proceder a m udanças, m as é o
suficiente p ara c a u sa r um impacto, u m a perplexidade, um meio cam inho andado
para n insight afetüm. Este último consiste em que o paciente correlaciona a
cognição que ele adquiriu das experiências afetivas recentes com as do passado e
assum e a responsabilidade pelo oüInK aõliue lh e cabe. Õ insiaht cognitivo, acim a
referido, abarca diversas áreas e niveis: pode ser o de algum desejo oculto, o

139
140 I David E. Zimennan

significado de um acting, as c u b a s ditadas oor um aupcrega .severo, um tipn dp


identificação, a estereotipia de um pa p e L a Jo rn ia como ele utiliza as funções do
ego, etc, etc.
Admite-se que um tratam ento de grupo, pela própria natu reza do campo
grupai que se forma, propicia, com vantagens superiores às de um a terap ia in d i­
vidual, a aquisição de insight pertinente a quatro aspectos muito im portantes: o
iogo de identificacõe^ rm )i£ ü v a s-£ jntroietivas, a assimcàa._e^adiudicacào de p a ­
peis, os rnal-fintendidos da com unicação e a dialética entre a identidade indivi--
dual e a social.

ELABORAÇÃO

Em lin h asjfe rais, o.pro cesso de elaboração consiste n a aquisição de um


insightVKãl e definitivo, conseguido através d a in tegração de insights parciais.
' "Ãvída psíquica é. constituída por e stru tu ra s com postas por pares antiféticos
(amor x ódio, objetos "bons” x “m aus”, realidade x fantasia, intem o x externo,
parte x todo, infantil x adulto, verdadeiro x falso, parte psicótica x parte não
psicótica, interesses dos indivíduos x interesses dos grupos, etc.) os quais, disso ­
ciados e projetados, estão fundidos e confundidos. Elaborar, em resum o, é o
processam ento de um a integração e síntese harm ónica desses elem entos decom ­
postos. A partir desse contexto, pode-se dizer que o fim último da análise é a síntese.
É im portante tam bém considerar o modo como o insight está sendo ad q u i­
rido e utilizado: se de forma intelectiva, cognitiva ou afetiva, harm ónica ou confu-
sional, plasm ando um a identidade autêntica (“se r alguém ”) ou im itativa (“ser
como alguém"); se conduz a m udanças construtivas ou a defensivas; se produz
u m a cura verdadeira ou um a cu ra cosmética (múltiplas cam adas de beleza enco­
brindo a feiúra da doença oculta).
O resultado disso tudo deve ficar traduzido em m udanças significativas e
duradouras, e não som ente em -adaptações. Caso contrário, estam os d iante de
u m a elaboração defeituosa; ou porque o seu eixo fundam ental — o in sig h t— era
falso, provavelmente de ordem intelectiva, ou devido a u m a séria resistên cia in ­
consciente a m udanças (por narcisism o, por culpas, por apego às ilusões, etc.).
No entanto, essa evitaçào de m udanças, e a preservação dos estereótipos acarreta
um custo elevado: o bloqueiq de novas experiências e a experim entação de ca p a­
cidades latentes.
A elaboração em grupoterapias deve levar em conta algum as características
específicas. Assim, pode ocorrer que os indivíduos tenham ritm os diferentes em
s u a capacidade de elaborar e de fazer m udanças. A observação clínica com prova
que tanto m ais sadio é um indivíduo num contexto grupai, quanto m ais possibi­
lidades ele tem em desem penhar um leque m ais amplo de diferentes papéis,
evolutivos, e não m eram ente repetitivos. Contudo, apesar d as diferenças indivi-
Grupoterapias 1 1 4 1

d u ais, quando o grupo é coeso o crescim ento se p ro cessa de form a uniform e, sem
d iscrepâncias m arcan tes.
Por outro lado, é preciso levar em conta que as etap as em que se processam
as ru p tu ra s de estereótipos costum am vir acom panhadas de certa confusão indi­
vidual e grupai. É im portante que o grupoterapeuta ten h a claro p ara si que essa
confusão, n esse contexto, é n atu ra l e até necessária.
U m a im portante área de elaboração, eápecificamente propiciada pela gru p o ­
terapia, diz respeito ao cortejo de fantasias e ansiedades d esp ertad as pela en tra d a
aç-elçm entos novos, assim como a saida de outros. Neste últim o caso, o conteúdo
da ela^bração varia m uito em função de que se a said a de um paciente do grupo
tiver sido por interrupção (desistência; expulsão, etc.) ou por um térm ino exitoso.
Em qu alq u er dessas possibilidades, em su a s m últiplas variantes, a elabora­
ção de perdas “ao vivo" confere u m a tipicidade singular ao tratam en to grupai.

MECANISMOS DA AÇÃO TERAPÊUTICA DO GRUPO, CRITÉRIOS DE CURA

A conceituação de “cura", n a área do psiquismo, é m uito relativa e im preci­


sa, u m a vez que é m uito abrangente. Dentro d a especificidade de nosso tem a —
tratam en to de grupo — as coisas se complicam ain d a m ais em funçáo da velha
polêmica: existe u m a “grupoanálise” ou a denom inação m ais ad equada é sem pre
a de “psicoterapia analítica de grupo"? Em o u tras palavras: h á o reconhecim ento
público de que um tratam ento de grupo possa ser considerado como u m a psica­
nálise propriam ente dita, ou n u n ca passa de um a "simples psicoterapia" de a l­
cances m uito lim itados...
Vamos definir n o ssa posição pessoal: somos dos que pensam que, mais do
que o método do tratam ento utilizado, se individual ou grupai, o que deve valer
m ais p a ra a obtenção do resultado analítico é a qualificação do terap eu ta. Caso
ele seja um psicanalista com u m a completa formação em instituto de reconhecida
idoneidade, não crem os que seja unicam ente o cum prim ento do setting da psica­
nálise clássica (núm ero mínimo de quatro sessões sem anais, uso do divã, etc.)
que vai determ inar o que é psicanálise “verdadeira" ou não. J á tivemos pacientes
que, ap esar de u m a rígida obediência ao referido setting analítico formal,' não
fizeram m ais do que um a psicoterapia, deitados; em contrapartida, tem os absolu­
ta convicção de que m uitos pacientes de grupo obtiveram inequívocos resultados
psicanaliticos, com as devidas m udanças estru tu rais e caracterológicas. E ssa
tom ada de posição, genérica, não deve significar que estejam os igualando am bas
form as de terapia, longe disso, h á m uitas sim ilitudes e m uitas claras diferenças
entre psicoterapia e psicanálise. A discussão seria extensa e não nos parece
adequado fazê-la aqui.
P ara favorecer u m entendim ento consensual acerca do conceito de cura,
vam os utilizar o seguinte esboço classificatório: os resultados terápicos põ3èm seF
cnhHivirlirir>R£m henefictos4erasêuticos e em xesuttãdos analíticos!
1 4 2 / David E. Zimeman

Os benefícios terapêuticos a b rangem três níveis distintos: a) a resolução de.


crises situacionais agudas (quando bem m anejadas costum am ser de excelente
prognóstico), bJHmõçãò~dé~sintomas (se estes não estiverem organizados em u m a
cronificação tam bém são de bom prognóstico), c) m elhoras adaptativas (o paciente
consegue m elhorar muito o seu padrão de ajuste familiar, social e profissional,
m as esta m elhora é algo instável, sujeita a recaídas, por não ter sido construída
com profundas modificações da e s tru tu ra interna).
Os resultados analíticos, sim, implicam no fato de que realmente se proces-
saram as aludidas m udanças e s tru tu ra is (relações objetais internas, identiílca-
ções, etc.) com evidentes modificações caracterológicas e n a conduta do indivíduo.
Um outrõ m arco referencial que pode ser tomado acerca da conceituação do
que é cura, é a que parte dos quatro significados sem ânticos dessa palavra.
Assim, os dicionários nos dizem que o vocábulo cura pode designar:

1) Em Medicina, a resolução com pleta de um a doença.


2) Uma prestação de cuidados (como em "cura” d a paróquia; curador; p ro ­
curador; curativo; des-curar, etc.).
3) O vocábulo cura deriva-se de curios que tam bém é a raiz de “curiosidade".
4) Uma forma de am adurecim ento (tal como é empregado p ara caracteri­
zar um queijo que está sazonando).

Se estabelecerm os um a conexão entre os dois modelos referenciais que aqui


adotam os, pode-se dizer que a c u ra no sentido médico encontra correspondência
n a c u ra psíquica, nos casos de resolução de crises e de sintom as de aparecim en­
tos recente; o segundo significado — o da prestação de cuidados adequados —
perm ite atingir o beneficio de nível adaptativo; a curiosiáade é um a prem issa
básica para a aquisição de insighí e o significado de “am adurecim ento sazonal"
equivale ao trabalho de elaboração, e daí aos resultados analíticos propriamente ditos.
Mas no que consistem esses resultados? Uma pretensão em querer esgotar
o assu n to nos levaria praticam ente a revisar toda a teoria psicanalítica, além de
ou tras... Por essa razão, vamos n os lim itar a rastrear o conceito de como operam
os m ecanism os curativos, segundo os pontos de vista dos principais autores, a
p a rtir de Freud e, nu m a escalada evolutiva, p assan d o por M. Klein, Bion, Winni-
cott, Kohut, Lacan, M. Mahler, bem como os seguidores da teoria sistêmica.
Em estilo altam ente sim plificador — com todos os riscos de cometer alguma
h eresia científica que esse tipo de com unicação implica — pode-se traçar o se ­
guinte painel evolutivo do cehceito de cura analítica:

Freud, Ele próprio, em diferentes épocas de evolução de su a extensa obra,


conceituou o processam ento dos m ecanism os curativos em seus três clássicos
aforismos: 1) "... todo neurótico sofre de rem iniscências e a cura consiste em
rem em orá-las” (teoria do trau m a psíquico). 2) ‘T o m a r consciente o que é incons­
ciente” (teoria topográfica). 3) “Onde houver id (e superego) deve estar o ego”
(teoria estrutural).
Grupoterapias 1 1 4 3

Vou u s a r o artifício de seguir o m esm o modelo do terceiro aforismo de Freud


p ara os dem ais autores.
M elanie K le in . S eria assim : "Onde houver u m a posição esquizoparanóide
(predom inância do instinto de m orte, inato — represen tad o pelo sentim ento de
inveja — com a conseqüente dissociação do ego e dos objetos, bem como a proje­
ção destas p arte s explicadas) deve ficar a posição depressiva (o indivíduo faz a
integração dos objetos parciais em totais, e assu m e a culpa pelos seu s ataques
destrutivos, e faz as devidas reparações)”.

B ion. São m últiplos os vértices de abordagem deste a u to r sobre os m ecanis­


m os curativos. Exemplos: “O nde houver onipotência, devem ficar a capacidade de
p e n sa r e o aprendizado pela experiência". “Onde houver a função” “-K” (negação
do conhecim ento d as p en o sas realidades, in tern as e externas) deve ficar a função
“K” (é a inicial de Know ledge que quer dizer: conhecim ento). "Onde houver ansie­
dade de aniquilam ento, inom inada ('terror sem nom e’) deve haver um nome para
a m esm a”. “Onde houver a p arte psicótica da personalidade, deve estar a não-
psicótica”, sendo que, em term os d a dinâm ica grupai, isso equivale ao seu outro
postulado: "Onde houver su p o sto s básicos inconscientes, d e v e jic a r.o grupo de
trabalho”.
W in n ic o tt. Só p a ra d e sta c a r um ponto, entre su a s ta n ta s contribuições
im portantes: “Onde houver um falso self, deve ficar o verdadeiro s e lf.

K o h u t. (criador da Escola d a Psicologia do Sei/). Enfatizou o conceito de


cura, em especial com p acientes m uito regressivos, no seguinte ponto: Onde
houver sérios prejuízos n a form ação do s e lf (devido a falhas dos objetos primiti­
vos, mãe principalm ente) deve haver u m a “internalização tran sm u tad o ra” (atra­
vés da figura em pática do te ra p eu ta , que se com porta como u m novo “self-objeto”).
L acan, (maior figura d a Escola E struturalista). "Onde houver significações
patológicas, devem haver novas ressignificações”. “Onde houver u m a sujeição (ser
o desejo do desejo de u m Outro) deve ficar u m a liberdade e autonom ia". E ainda:
"Onde houver Narciso (díade fusionai com a mãe) deve ficar Édipo" (entrada em
cena da "Lei do pai” p a ra desfazer o monopólio da mãe).

M. M a h ler (im portante represen tan te da Escola d a Psicologia do Ego). “On­


de houver sim biotização e indiferenciação deve hav er individuação, com constân­
cia objetai e coesão do s e lf. A ntes dela, os pioneiros d esta escola am ericana
(Hartmann) teriam postulado assim : “Onde houver u m prejuízo n a capacidade
d as funções do ego, devem se r resg atad as essas ãre as que, inicialm ente, eram
autônom as e livres de conflitos".

T eoria g e ra l d o s S is te m a s . “Onde houver u m a radicalização e estereotipia


n a distribuição de papéis de um sistem a (familiar) devem haver flexibilização,
intercâm bio e m u d a n ça s”.
1 4 4 I David E. Zimeman

E assim por diante.


Tudo isso comprova que a conceituação do que vem a ser a finalidade e o
m ecanism o da ação terapêutica analítica é realm ente complexa. Em term os m ais
estritam ente grupais, podem os afirm ar que um processo exitoso de te rap ia an alí­
tica em u m a concepção ideal, deve se r extensiva aos seguintes aspectos de m u­
d an ças psíquicas:

— Diminuição das ansiedades paranoides e depressiva. Isso implica em


que os indivíduos possam assu m ir a parcela de responsabilidade pelo
que fizeram ou deixaram de fazer p ara os outros e p ara si próprios.
— Desenvolvimento de um bom “espírito de grupo”.
— Capacidade de com unicação e interação com os demais, sem a perda
dos necessários limites.
— Uso adequado das identificações projetivas, sendo que isso tan to vai
possibilitar u m a m enor distorção de como eles percebem os dem ais,
como também o desenvolvimento da empatia, ou seja, a capacidade de
se colocar no lugar de u m outro.
— R uptura da estereotipia cronificada de certos papéis. Aceitação das di­
ferenças.
— Em pacientes m uito regressivos a passagem do plano im aginário p ara o
simbólico, o que, por s u a vez, perm itirá a passagem d a posição de nar-
cis-ismo para o de social-ismo.
— Desenvolvimento do senso de identidade individual, e da identidade
grupai, assim como o de u m a harm onia entre am bas.
— Capacidade em elaborar situações novas, perdas e ganhos.
— Capacidade em fazer discrim inações entre os aspectos dissociados (en­
tre o que ê dele e o que é do outro; entre as contradições que perm eiam
o pensar, o se n tir e o agir; entre a ilüsão e a realidade, etc., etc.).
— Capacidade em se perm itir ter u m a boa dependência (é diferente de
subm issão ou da simbiose), assim como o de um a independência rela­
tiva (é diferente de rebeldia, de m andonism o, ou de "não precisar de
ninguém ”).
— Aquisição de novos modelos de identificação e, ao mesmo tempo, um a
necessária des-identificaçâo com arcaicos modelos de identificação p a­
tológicas.
— Desenvolvimentoß a s capacidades de ser "continente” de ansiedades,
tanto para si próprio, como p ara a dos outros.
— Desenvolvimento de u m a “função psicanalítica da personalidade” (ter­
mo de Bion, que designa um a boa introjeção do terap eu ta e, portanto,
u m a identificação com a capacidade p ara fazer insight e interpretações).
Grupoterapias / 1 4 5

EXEM PLO CLÍNICO (N2 6)

T rata-se de um grupo terapêutico, analítico, ab erto que. a c o n ta r de seu


início, tem um a duração de m ais de dez anos. Na s u a a tu a l com posição p artici­
pam, entre outros pacientes, a "caçula Adélia” (ingressou h á 2 m eses) e a "vete­
rana" Cecília (participa do grupo h á 9 anos, estando atu alm en te em processo de alta).
A vinheta clínica que segue visa ilustrar, n a pesso a de Cecília, dois asp ecto s
im portantes: o desenvolvimento da "função psicanalitica d a p ersonalidade", a s ­
sim com um a clara evidência de u m a ru p tu ra com pap éis estereotipados.
A sessão com eça com Adélia dizendo que pen so u m uito no qu e B ernardo
(um outro membro do grupo) lhe d issera na sessão anterior: ele me falou que era
impossível eu ap a re n ta r estar sem pre bem e que eu não tivesse lágrim as, raivas
e medos como todos aqui têm. Algo há. E nquanto eu p en sav a nisso, fui p erceb en ­
do um a raiva contra R (o pai de s u a filha) porque ele a n d a a tra sa n d o a p en são da
m enina e nem d á bola para o d ram a de m eu orçam ento. Telefonei p a ra o pai dele
e dei um xingáo em todo m undo. Até vexam es eu tenho p assad o devido à falta de
dinheiro.
O grupo se interessa pelo relato de Adélia e faz indagações ac erca d as razões
por que ela tem aceito essa situ ação de u m a form a tão passiva, sem* lu ta r pelos
seus direitos. A isto ela responde que su a m ãe lhe d á conselhos p a ra não brigar,
e que, se não for assim , ainda vai acab ar perdendo o pouco qu e g a n h a dele. Por
isso ela nunca procurou um advogado e que não existe n e n h u m co n trato escrito
quanto à su a separação, o que a obriga a correr a trá s de R. p a ra "pedir" a pensão
da filha.
A seguir, Cecília diz que vai u s a r a s u a experiência pessoal p a ra d a r um
conselho à Adélia, e p a ssa a co n tar p ara e sta o qu anto o seu próprio desquite, nos
primeiros tem pos, tam bém teve características sem elhantes aos que rela tara a
nova colega de grupo. Cecília prossegue fazendo u m a sín tese d a s p assag e n s m ais
dolorosas de s u a via crucis e m o stra como foi possível reverter a relação doentia
que m antinha com o seu ex-marido p ara u m a situ ação a tu a l de dignidade, à
medida que ela foi perdendo o medo dele.
Os dem ais com ponentes do grupo participam ativam ente do assu n to e co n ­
firmam a visível modificação que eles têm observado n a s atitu d e s de C ecília.’E sta
retom a a palavra e, nu m tom de voz m uito emocionado, conta a briga que teve
com o pai no dia anterior: diante de um erro de Cecília, seu pai ch am o u -a de
“babaca", como, aliás, ele sem pre fizera, desde que ela e ra criancinha. Prossegue
dizendo que até h á pouco tem po a s u a reação d iante de tais situ açõ es n u n c a
passava das lágrim as, de um pedido de desculpas ou, no máximo, de u m a raiva
contida. D essa vez ela se indignou e gritou com o pai “basta! é a últim a vez que
me cham as de babaca, não vou m ais adm itir esse abuso. Foi preciso eu m e tra ta r
quase dez anos p ara descobrir que eu não sou, e n u n c a fui, a p ateta que vocês
me rotularam e me convenceram de que eu era. Pelo contrário, eu sou u m a
pessoa de m uito valor, m as tenho o direito de errar como todo o m undo, como o
1 4 6 1 David E . Zimerman

se n h o r por exemplo (lhe aponta alguns erros importantes). Eu respeito vocês,


m as, de hoje em diante, eu exijo ser respeitada". Cecília ressaltou ao grupo que
e s s a foi a prim eira vez em su a vida que ela brigou com o seu pai, até então um a
figura intocável. Não estava arrependida e, apesar de seu pai ter ficado muito
aturdido, percebeu claram ente que ele a entendeu muito bem , tanto que, após um
constrangim ento inicial, o clima entre eles ficou muito bom, e Cecília até pensou
em presenteá-lo com um disco (soubemos, n a sessão seguinte, que o disco que ela
p resenteou ao pai era o da filha de Nat King Cole, cantando jun tam en te com o pai
j á falecido, através de um m odem o recurso tecnológico).

COMENTÁRIO

M uitas observações poderiam ser extraídas do m aterial clínico acima, como,


po r exemplo, a evidência de um a resistência inicial (o "estar sempre bem", em
Adélia) e o fato de que foi um com ponente do grupo (Bernardo) que, exercendo
u m a função interpretativa, auxiliou Adélia a com eçar o descongelamento de su as
resistências. No entanto, vamos nos lim itar a realçar unicam ente o aspecto de que
o cam inho de um a verdadeira m udança psíquica deve p assar pelo rompimento de
alg u n s papéis estereotipados que foram incutidos pelos pais, e que os pacientes
podem repetir com pulsoriam ente pelos restos de su a s vidas (como foi o papel de
"bab aca” im putado à Cecília).
A ru p tu ra com o estereótipo não significa que deve haver u m a ru p tu ra
beligerante com as pessoas da mãe, pai, etc. Pelo contrário. Trata-se, antes, de
u m a modificação n a qualidade dos relacionam entos, como Cecília dem onstrou.
Aliás, o presente que ela deu ao seu pai traduz u m a reaproximação afetiva com
ele, em o u tras condições e posições.
O utro aspecto da sessão que vale a pena registrar é o que se refere ao
desenvolvimento de um a capacidade de em patia. Assim, o fato de Cecília já ter
bem elaborado as m esm as vicissitudes conílitivas vividas por Adélia perm itiu que
ela se colocasse no lugar, e ju n to desta última.

Orientação Bibliográfica ' ' >

1. BISKER, J. “Aplicações da Psicologia do Self à Psicoterapia Analítica de Grupo”. Em: Grupotera­


pia Hoje. pp. 98-107.1986^
2. GRIMBERG, L. et al. “Mecanismos de Curación en el Grupo", Em: Psicoterapia Del Grupo. pp.
140-166. 1987.
3. MARTINS, R. B. “Contribuições de Freud à psicoterapia de grupo", Em: Grupoterapia Hoje. pp.
43-56. 1986.
4. MELLO FILHO, F. "Contribuições da Escola de Winnicott à psicoterapia de grupo". Em: Grupote­
rapia Hoje. pp. 64-97. 1986.
5. NACHER, P. G. y CAMARERO, J. A. L. “El Cambio”. Em: Del diuán al circulo, pp. 157-163. 1985.
6. 0'DONNELL,P.'Transformación".Em:TeoriayTécnícadelapsicoterapiQgrupaI.pp. 190-208.1984.
Grupoterapias / 1 4 7

7. PY. L. A. "Contribuições de Bion à psicoterapia de Grupo”. Em: Grupoterapia Hoje. pp. 5 7 -6 3 .1986.
8. ROMANO. E. "Factores terapeuticos y indices curativos". Em: Ei Grupo y S u s Configuraciones.
pp. 169-193. 1991.
9. ZIMMERMANN, D. "Resultados de quinze anos de psicoterapia analítica e grupo”. Em: Estudos
Sobre Psicoterapia Analítica de Grupo. pp. 261-281. 1971.
PERFIL E FUNÇAO DO GRUPOTERAPEUTA

C om o vimos, a ação psicoterápica se baseia fundam entalm ente n a elabora­


ção dos insights obtidos através d as interpretações do terapeuta. No entanto, a
interpretação não é o único fator determ inante de m udanças psíquicas. Na verda­
de, o cam po terapêutico é com posto por duas coordenadas perpendiculares: o d a
interpretação propriam ente dita e o d a atitude in tern a d a pessoa do terapeuta,
sendo que este últim o vetor cresce de im portância n a proporção direta do grau de
regressividade do paciente ou do grupo.
Sabem os que a formação de um terapeuta, da m esm a forma que a de q u al­
quer profissional da á re a hum anística, repousa no indissociado tripé: conheci­
m entos + habilidades + atitudes.
Os conhecim entos consistem n a necessidade de um sólido respaldo teórico-
técnico e resu ltam de u m program a de ensinò-aprendizagem sistem atizado e con­
tinuado por u m a in in terru p ta curiosidade e leitura diversificada.
As habilidades resultam de um a atividade supervisionada, sendo que o ap re n ­
dizado é extraído tan to dos acertos* como — e principalm ente — dos erros, e só é
possível a p artir da experiência própria de cada um.
As atitudes do te ra p eu ta refletem como ele é como gente. Elas resultam da
conjunção de u m a série de fatores: os aludidos conhecim entos e habilidades, o
tipo básico da e s tru tu ra d a personalidade de cada um, o grau de adiantam ento de
s u a análise pessoal, a su^ideologia e código de valores, além, principalm ente, da
p resença de alguns atributos, nem sem pre manifestos, e que por isso fazem
lem brar u m a reflexão do Pequeno príncipe, de Saint-Exupèry: “O essencial é invi­
sível p ara os olhos”.
A im portância dessa atitude, que provém do interior da pessoa do terapeuta,
reside ju sta m e n te no fato de que ela se constitui em um a forma de com unicação
Grupoterapias 1 1 4 9

não verbal, que atinge um nível primitivo da organização do s e lf do paciente.


Lembra, portanto, o que se p a s sa n a interação da m ãe com o seu bebê.
Especificam ente em relação aos atrib u to s da pessoa de um grupoterapeuta,
pode-se dizer que, assim como nem todos os tipos de pacientes têm u m a indica­
ção p ara tratam ento em determ inados tipos de grupoterapias, da m esm a forma
nem todos os te ra p eu ta s têm indicação p ara serem grupoterapeutas.
Seguem, abaixo, os principais requisitos que, em term os ideais, são indis­
pensáveis na form ação e p rática de um grupoterapeuta:

1) Ele deve gostar de grupos, e acreditar nessa modalidade terapêutica.


De preferência, m as não necessariam ente, que ten h a passado pelas m esm as ex­
periências afetivas que os se u s atu ais liderados, como, por exemplo, ter sido
integrante de um grupo terapêutico, na condição de paciente ou de observador.

2) Capacidade de ser “co n tin e n te” (vem do latim “continerí', que quer
dizer: conter). E ste atrib u to ê im portante por d u as razões. Uma é a_de poder
conter os inevitáveis m om entos de su a ignorância em relação ao que estã se.
passando no cam po grupai. A o u tra razão, j á aludida, é a de poder conter as fortes,
ansiedades provindas de cada um e de todos do grupo e que são depositadas de
forma maciça e volum osa dentro da s u a pessoa.
É som ente a p artir desse modelo do terap eu ta que seu s pacientes poderão
adquirir essa função essencial de um ego bem am adurecido: a de que cada indi­
víduo possa vir a ser continente das angústias, não só das dos dem ais, m as
tam bém e principalm ente — das su a s próprias.

3) Capacidade de em patia. Como com prova a etimologia desta palavra (as


raízes gregas são: em (dentro de) + pathos (sofrimento), em patia refere-se ao.,
atributo de o gru p o terap eu ta poder se colocar no papel de cada paciente e de
e n tra r dentro do "clim a”.do grupo. Isso é muito diferente de sim patia (que se
forma a partir do prefixo sim, que quer dizer ao lado de e não dentro de). A
em patia está m uito conectada à capacidade de poder fazer um aproveitam ento
útil dos sentim entos contratransferenciais, e, p ara tanto, é indispensável que o
grupoterapeuta te n h a condições de distinguir entre os sentim entos que provêm
dos pacientes daqueles que são unicam ente próprios dele.

4) Capacidade de in tu ição. Este é um atributo que não tem n ad a de mági­


co, como m uitas vezes se pensa. A própria etimologia (intuir se forma de in (den­
tro) + tuere (olharj) esclarece que intuição se refere à capacidade de olhar com um
"terceiro olho”, aquele que, a p artir dos órgãos dos sentidos e do respaldo teórico
latente em seu pré-consciente, está captando o não-sensorial que vem do incons­
ciente dos indivíduos e d a gestal grupai. É diferente de empatia, pois e sta se refere
ao plano afetivo, en q u an to que a intuição se processa no cognitivo.
1 5 0 1 David E. Zimeman

5) Capacidade de discrim inação. No cam po grupai, costum a se processar


u m jogo m uito rápido, e cruzado, de identificações, as projetivas principalm ente,
e que adquirem um a feição caleidoscópica e, se o g ru poterapeuta não conseguir
discrim iná-las, há o risco da instalação de u m a confusão nociva e até o de um
estad o de caos.

6) Capacidade em m anter um a p erm an en te in teireza de seu sen tim en to


de id en tidad e pessoal e de grupoterapeuta. Este aspecto merece se r realçado
pelo fato de que, em grupos, é enorm e o volum e d as pressões in tern as e externas,
no sentido de perverter o setting e de tirar o te ra p eu ta de seu papel. Uma outra
razão é a de que o grupoterapeuta deve sa b er fazer cisões, sadias, do seu ego; para
poder m a n ter a ligação em pática com situ açõ es diferentes e sim ultâneas.
Neste item deve ficar incluído o sério risco de contra-atuações, caso a p re­
servação d a identidade venha ficar avariada.

7) Senso de ética. Este atrib u to im põe-se não tanto pelo seu significado
convencional, m as, muito m ais, pelo que s u a etimologia nos ensina. Ética vem de
ethos que, em grego, quer dizer território n a tu ra l o que significa que o gru p o tera­
p eu ta não tem o direito de invadir o espaço autên tico de seu s pacientes, impondo-
lhes valores e expectativas. Pelo contrário, ele deve propiciar um alargam ento do
espaço interior e exterior de cada um deles, atrav és d a aquisição do direito de ser
livre, sem que isso, por s u a vez, implique n a invasão d a liberdade dos outros do
grupo. P ara tanto, cada um dos pacientes, no curso da grupoterapia, deve p assar
da s u a eventual condição de sujeitador ou de sujeitado p ara a de se r um SUJEI­
TO, livre e autônom o. É útil lem brarm os que a palavra “autonom ia” forma-se a
partir de auto (próprio) + nomos (lei; nome).
Neste contexto, podem os afirm ar que u m a característica que um grupotera­
p eu ta não pode ter é a de ser excessivam ente’n arcisista, tipo “complexo de D eus”.
Caso contrário, ele não terá condições de evitar (e até estim ulará) a perpetuação
da idealização e da dependência, de poder aceitar os outros como sendo diferentes
dele n a s su a s m anifestações criativas e de refrear o seu gosto pela liderança,
única via que possibilita a sa d ia form ação de novos líderes.
Da m esm a forma, h á o risco de que o te ra p e u ta utilize o seu saber como um
meio prioritário de obter poder, prestígio e dinheiro, e não como um compromisso
ético com a b u sca da verdade. E sse com prom isso não deve ser entendido como
um a recom endação de quç, o te ra p e u ta deva ir à caça das verdades absolutas, até
porque elas são muito relativas e n u n c a definitivas. Antes disso, ser "verdadeiro"
significa que o grupoterapeuta deva ser u m a p esso a autêntica, veraz, não só como
um dever ético, mas tam bém como u m a im posição técnica, pela razão de que ele
está investido no papel de um novo modelo de identificação p ara os seu s pacientes.

8) Modelo de id en tificação. De acordo com o que foi destacado no capítulo


precedente, a via de ação terapêutica não é só a d a interpretação, m as tam bém a
Grupoterapias 1 151

qiífe em ana do profundo, verdadeiro, da pessoa do terap eu ta. Por e s s a razão, deve
ficar bem claro p ara o te ra p e u ta que ele se constitui como um im p o rtan te modelo
p ara as — necessárias — renovadas identificações dos pacientes. P ara que estas
se processam adequadam ente, o mínimo que se exige é que ele m a n te n h a um a
coerência entre o que diz, o que faz e o que, de verdade, é!.

9) R espeito. Mais u m a vez recorrem os à etimologia p a ra m o stra r que o


atributo de respeito tem um significado m uito m ais profundo do que o u su a lm e n ­
te empregado. Respeito vem de re (de novo) + spectore (olhar), ou seja, é a capaci­
dade de o grupoterapeuta, e, a p artir daí, ser desenvolvida em cad a um dos
pacientes do grupo, voltar a olhar p ara as pessoas com a s quais e s tá em íntim a
interação, com outros olhos, com o u tras perspectivas, sem a m iopia repetitiva dos
rótulos e papéis que, desde criancinhas, foram incutidas nelas.
Tudo isso está baseado no im portante fato de que a imagem que u m a mãe
ou pai (grupoterapeuta) tem dos potenciais dos seu s filhos (pacientes) e d a família
(grupo), se tom a parte im portante da imagem que cada indivíduo te rá de si próprio.
A principal im portância do modelo destacado no item an terio r é 0 fato de
que somente através do am or às verdades, por m ais pen o sas que esta s sejam , ê
que se torna possível que os pacientes consigam fazer v erd ad eiras-m u d an ças
internas. Ademais, tal atitu d e do terapeuta é a que vai m odelar a formação do
indispensável clim a de um a leal franqueza entre os m em bros que com partilham
um a grupoterapia.

10) Capacidade de com unicação. Além dos aspectos que já foram referidos
quando abordam os 0 “estilo” de como um grupoterapeuta in terp reta, é im portan­
te ressaltar a necessidade de que ele e os integrantes do grupo estejam falando a
m esm a linguagem conceituai e se com unicando, valoritivam ente, em um mesmo
comprimento de onda.
Autores que trabalham com grupos de adolescentes, como Castelar(>), apon­
tam que "... os adolescentes toleram mal todo e qualquer form alism o e que ... a
célebre e decantada posição de neutralidade psicanalitica é fu n esta em psicotera­
pia com adolescentes”.

11) Senso de hum or. E ste atributo implica n a capacidade de, sem nun ca
perder a seriedade da situação, poder atingir um a profundidade n a com unicação,
através de exclamações, com entários bem hum orados, eventuais m etáforas, so r­
risos e risos quando espontâneos e apropriados, etc. A significação deste atributo
tem um a conotação com 0 que W innicott define como sendo a im portante capaci­
dade de “saber brincar”.

12) Capacidade em extrair 0 denom inador com um da ten sã o do grupo.


Em meio a ta n ta s com unicações, aparentem ente totalm ente diferentes entre si, é
indispensável que 0 grup o terap eu ta saiba detectar qual é a necessidade básica,
1 5 2 / David E. Zimennan

ou fantasia inconsciente, ou ansiedade, ou m au uso de algum a im portante função


do ego, que está emergindo como sendo com um a todos, em um determ inado
momento do campo grupai. Este em ergente vai se form ando através de u m a lenta
elaboração no interior do grupoterapeuta, ao longo d a sessão até que, am ad u re­
cida, sirva como um fio condutor p ara a interpretação.

13) Capacidade de sín tese. Consideram os útil que o grupoterapeuta, q u


do se aproxima o término da sessão, faça u m a síntese não prolixa nem pedagógica
dos principais movimentos que nela ocorreram, com o sentido de in teg rar os
aspectos que apareceram dissociados e projetados, assim como o de co n stru ir
u m a uniformidade de com unicação e um a continuidade de coesão grupai.

Procuramos dar um respaldo etimológico aos term os conceituadores dos


atributos acima enum erados, pela razão de que a etimologia se constitui em u m a
im portante via de acesso aos genuínos — e profundos — sentim entos individuais
e coletivos, que, desde a su a origem estão significados e em butidos no sim bolismo
d as palavras.
Uma leitura atenta dos diversos exemplos que foram utilizados em outros
capítulos pode servir como um meio de reconhecer, tan to de um a form a positiva,
como negativa, muitos dos atributos que, aqui, foram destacados.

Orientação Bibliográfica

1. CASTELLAR, C. "Grupoterapia cora Adolescentes". Em: Grupo sobre Grupo.


2. FERNANDES. J. W. "ÒTerapeuta, o Narcisismo e o Grupo". Em: R evistada ABPAG. n? 1. Vol. 1.
pp. 59-65.1989.
3. GROTJAHN, M. “Perfil do Terapeuta de Grupo". Em: A arte e a técnica de terapia analítica de
grupo. pp. 201-233. 1977.
4. MARTINS, C. "La relation médico-patiente en la situation de grupo". Em: El Grupo Psicológico.
pp. 23-30. 1959.
5. MELLO FILHO, J. “A contribuição de Winnicott à psicoterapia de grupo". Em: Grupoterapia Hoje.
pp. 64-97. 1986. ,
6. 0'DÒNNELL,P.“Psicoterapeuta".Em:TeoriayTécnicade!aPsicoíerapiagrupai.pp. 151-189.1984.
7. RIBEIRO. J. P. “0 Psîcoterapeuta". Em: Psicoterapia Grupo-analitica. pp. 146-164. 1981.
8. Z1MERMAN, D. E. “Atributos do psicanalista em relação à evolução da psicanálise”. Em: Revista
IDE. Sáo Paulo, n3 20. pp. 18-23. 1991.
GRUPOS COM CRIANÇAS, PÚBERES,
ADOLESCENTES, CASAIS, FAMÍLIAS,
PSICOSSOMÁTICOS, PSICÓTICOS, DEPRESSIVOS

D e acordo com a proposição inicial deste livro, os capítulos precedentes que


abordaram as considerações sobre o reconhecim ento e o manejo dos fenômenos
que surgem do cam po grupai ficaram praticam ente restritos ao que acontece n a
grupoterapia analítica.
No entanto, não é dem ais repisar, os m esm os acontecim entos — a formação
do grupo, a instituição de um setting, a tipicidade do campo grupai, com todo o
cortejo de fantasias, ansiedades, defesas e identificações, o inevitável surgim ento
de resistências e d a contra-resistência, de transferências e da con tratran sferên ­
cia, a distribuição de papéis, a função de liderança, o surgim ento de actings, a
atividade interpretativa, o insight e elaboração, a im portância da pessoa do coor­
denador, etc., ocorrem em todo e qualquer grupo formado p ara a execução de um a
tarefa em com um.
O que vai d istinguir um grupo de outro é: 1) a'fiiíãlid aM p ara a qual um
determ inado grupo foi selecionado e com posto. 2) o conseqüente tipo, g rau è nível
"do;manejo, técnico; logo, da habilitação do coordenador.
Assim, tudo o que de essencial foi dito acerca da grupoterapia analítica vale,
em linha gerais, p ara todo o im enso leque de aplicações práticas, no sentido de
aproveitam ento da inequívoca potencialidade que é inerente aos grupos.
O presente capítulo, seguindo a classificação an tes proposta, não visa m ais
do que traçar u m a visão panorâm ica da existência de outros grupos terapêuticos
que estão sendo m uito utilizados n a atualidade, e que não são os psicoterápicos
analíticos propriam ente ditos.

155
156 / David E. Zimerman
GRUPOS DE AUTO-AJUDA

Pode haver alguma confiisão sem ântica entre “grupo de auto-ajuda” e “g ru ­


po homogêneo”. O ponto de partida diferencial consiste em que todo grupo de
au to -ajuda é sem pre homogêneo, m as nem todo o grupo homogêneo é de auto-
ajuda. Em outras palavras, os grupos típicos homogêneos — como, por exemplo,
um constituído som ente por psicóticos, ou borderline, psicopatas, obesos, psicos­
som áticos, crianças, adolescentes, etc. funcionam sob a perm anente coordenação
do(s) grupoterapeuta(s). Por su a vez, os grupos de au to-ajuda — como são, por
exemplo, os incontáveis grupos formados em m uitas áreas d a atividade hum ana,
especialm ente n a da Medicina (pacientes reum áticos, diabéticos, hipertensos, co-
losm otizados, cardiopatas, term inais, etc, etc) costum am operar sob a liderança
de pessoas pertencentes à m esm a categoria diagnostica dos dem ais integrantes e
que passaram , ou estão passando, pelas m esm as dificuldades e experiências afe­
tivas destes.
O m elhor protótipo de seu funcionam ento è o do modelo dos "Alcoolistas
Anônimos".
Estes grupos de auto-ajuda podem se form ar espontaneam ente ou a partir
do incentivo de algum técnico, em cujo caso su a liderança será transitória ou eventual.
Habitualm ente, um grupo de au to -aju d a funciona de fonna autônom a; .sent
<a liderança fôraiál de algum técnico especializado, sendo de considerar, no en tan ­
to, que, q uase sempre, a formação de um desses grupos teve o incentivo de algum
técnico interessado. Ademais, esse técnico incentivador (psiquiatra, médico gene-
ralista, psicólogo, assistente social, enfermeiros, estagiários, etc.) pode continuar
dando um respaldo ao grupo, tanto através de um a continuada presença e p arii-;
cipação h â o m uito diretiva;» como de u m a,fo rm a em que ele não participa dos
encontros, m as m antém um a perm anente atitude de disponibilidade.
O mecanismo de ação terapêutica dos grupos de auto-ajuda decorrem dos
seguintes fatores:

. — Há um melhor entendim ento e aceitação por parte dos integrantes do


grupo quando este for homogêneo, pela razão de se utilizarem de um a
m esm a linguagem e partilharem as m esm as vivências. Isso costum a
propiciar, a curto prazo, u m a necessária "adesão” ao tratam ento, por
parte de pessoas que habitualm ente fogem dele, como são, por exemplo,
os hipertensos.
— Possibilita que as pessoas doentes aceitem e assum am a su a deficiên­
cia, de forma m enos conflituosa e hum ilhante.
— Proporciona um m aior envolvimento com unitário, interativo.
— Possibilita novos modelos de identificação.
— Representa um estímulo à socialização.
— Comporta-se como um im portante teste de confronto com a realidade.
Grupoterapias 1 1 5 7

— Exerce u m a função de continente, isto é a de conter e absorver as


angú stias e dúvidas.
— Propicia um estim ulo à s capacidades positivas.
— R epresenta um reasseguram ento aos in teg ran tes de q ue eles não estão
sozinhos, não são seres bizarros, que são respeitados em s u a s lim ita­
ções e que as m esm as não excluem u m a bo a qualidade de vida, ap esar
de s u a s limitações.

Por todas essas razões, tal atividade g ru p ai e s tá se co n stituindo em u m a


excelente indicação p ara pacientes m uito prejudicados socialm ente.

GRUPOS COM CRIANÇAS

A instituição de um setting apropriado p ara u m a gru p o terap ia com crianças


é de fundam ental im portância. Deve haver um a estrita obediência aos critérios de
homogeneidade, q uanto -aos lim ites -da. faixa etária^ e ao tipo de patologia- d as;
ÇfTãnças 'sélecióhádàs (psicóticas ou não psicóticas, por exemplo).
Este tipo de grupo costum a exigir, sobretudo no caso de crian ças m ais
regressivas, a participação d e0 (9 S #ó^!ró'àistéqS3)% , tal é a possibilidade de que
h aja um grande desgaste do terap eu ta, o qual, não raram en te, deve exercer um a
funçào de contenção física.
O principal canal de com unicação d as crian ças em um grupo é através de
u m a linguagem m otora e lúdica. Por essa razão, o setting deve co n tar com m ate­
rial que propicie o uso de jogos, brinquedos e brincadeiras; assim como é n atu ra l
que haja contatos físicos entre eles, inclusive o decorrente do uso do recurso da
contenção física, an tes aludida.
A função do ''fcoldinçf e de rempãtiã por parte do g ru p o terap eu ta é condição
sine qua non, sendo que um a das razões de u m a possivel contra-resistência
prejudicial reside no fato de que as m anifestações d a s crian ças surgem em um
estado mais bruto que as dos adultos e, portanto, são m ais am eaçadoras p ara o
controle das repressões do inconsciente do g ru p o terap eu ta.
Por outro lado, é indispensável que haja um acom panham ento paralelo tíô$
BaiS?das crianças, de preferência em grupo. Aliás, um aspecto in teressan te é o
fato de que a e s tru tu ra do grupo dos pais, em s u a essência, não difere d a dos
filhos. É igualm ente relevante que a transferência feita pelos pais, em relação ao
grupoterapeuta, é tão im portante quanto a que é feita pelas crianças.

GRUPO COM PRÉ-ADOLESCENTES (PÚBERES)

E stes são grupos difíceis de serem m antidos, especialm ente devido à ro tati­
vidade dos pacientes ser muito grande. Uma seg u n d a dificuldade se deve ao fato
de que a inten sa atividade m otora (jogos, brincadeiras, em purrões, etc.) su b stitu i
158 / David E. Zimennan

a com unicação verbal dos problem as e conflitos, assim como determ ina u m a
precária atenção.para as:interpretaçõeá. Ademais, há, ainda, a dificuldade resu l­
ta n te do fato de que entram em tratam en to compelidos pelos pais, sem que eles
próprios tenham definido um a motivação suficiente.
Por outro lado, é muito relevante a presen ça de ansiedades relacionadas ao
corpo, as quais decorrem das próprias m u d an ças anatôm icas e fisiológicas.
O enquadre deve prover a utilização de u m a caixa com m aterial p ara dese­
nhos, um quadro negro e jogos coletivos. É viável que o terapeuta utilize, em
certos momentos, os fecürsos dâ~drãhíâtizãçãtí, assim como é perfeitamente ad e­
quado que, por vezes, a su a atividade interpretativa, que deve ser ativa, ten h a um
cunho pedagógico esclarecedor.
A co-terapia, de preferência com g rupoterapeutas de sexos opostos, é a
m elhor forma de trabalhar com grupos de pré-adolescentes.

GRUPO COM ADOLESCENTES

De um modo geral, os autores que se dedicam ao tratam ento de adolescen­


tes (4’15J recomendam o grupo como a terap ia de escolha pelas seguintes razões:
a) Os adolescentes têm um a tendência-natural pára se ágrüparem.'
b) Eles toleram melhor um enquadre grupai/ m ais diluido, do que u m a
' situação individual n a qual os inquietantes sentim entos transferenciais
estão mais concentrados e, portanto, são sentidos como mais ameaçadores.
c) H á um favorecimento n a estru tu ração do sentim ento de identidade(
individual e grupai.
d) O grupo propicia um a m elhor elaboração, em conjunto, das inevitáveis
perdas (e ganhos) físicas, psíquicas e sociais, assim como u m a transição
de valores que são com uns a todos.

Há u m a variação técnica em relação à faixa etária dos adolescentes em


grupoterapia. No caso dos adolescentes propriam ente ditos, que com preende a
idade entre 15 e 17 anos, o enquadre e o m anejo técnico se aproximam muito
m ais daquela que é utilizada com o grupo de pré-adolescentes. Q uanto aos ad o ­
lescentes “tardios”, cuja idade medeia entre os 18 e 21 ànos, a técnica é p ratica­
m ente igual à empregada em grupos com adultos. Há, portanto, nesses casos
u m a valorização da comunicação .yerbalf m as ainda persiste em grande escala a
linguagem corporal e se jifcrementa a linguagem dos actings, como, por exemplo,
um oculto nam oro entre m em bros do m esm o grupo. Outro acting freqüente é o
u so experimental de drogas, sendo este aspecto particularm ente im portante devi­
do à interferência da família.
O grupoterapeuta de adolescentes deve ter u m a n atural em patia com os
m esm os, deve ter um a boa tolerância às contestações que, m uitas vezes, a s s u ­
mem um a aparência muito agressiva, deve tolerar e descodificar a com unicação
Grupoterapias / 1 5 9

não verbal dos actings e é recomendável que ele saiba, eventualm ente, utilizar o
recurso da psicodram atização.
Da m esm a forma que ocorre com o grupo de crianças e de p ú b eres, tam bém
o trabalho clínico com o grupo de adolescentes estabelece três possibilidades.
Uma consiste em desfazer a ação ansiogênica das fan tasias inconscientes, através
d as interpretações. A o u tra consiste em propiciar u m a livre m anifestação dos
sentim entos e ações, com a ressalva, é claro, de que elas serão bem contidas pelo
terapeuta, que não sucum birá, nem revidará. A terceira possibilidade é a de que
o grupo propicie um a socialização entre os jovens pacientes, com u m a liberdade
p ara o exercício da criatividade, tanto no plano do im aginário, como o do sim bó­
lico; assim como o da transição entre estes dois planos.
E ste último aspecto é válido especialmente para as crian ças e pode-se dizer
que ele corresponde aos "fenômenos transicionais" estu d ad o s por Winnicott.

TERAPIA DE CASAL

Um ponto de controvérsia entre os grupoterapeutas é o seguinte: um casal


deve ser considerado como um grupo, de dois? A tendência atu al é a de responder
afirmativamente, por d u a s razões. A prim eira é de que os fenôm enos típicos que
instituem a dinâm ica de um cam po grupai estão presentes neste sin g u lar grupo-
casal. A segunda razão é que, além do casal, os dem ais com ponentes que com ­
põem a totalidade do grupo tam bém estão na sessão, ora como participantes
ativos, apesar de corporalm ente ausentes (como os seu s filhos, por exemplo), ora
como personagens internalizados (por exemplo: um casal pode ter-se formado
sobre modelo do ideal do ego dos respectivos pais).
Em nosso meio, é indiscutível, que é cada vez m aior o núm ero de casais que
procura ajuda através dessa modalidade específica de tratam ento, sendo que os
motivos mais m anifestos são os seguintes: os m al-entendidos n a com unicação,
desajuste genital, problem as com os filhos e, o m ais freqüente de todos, a g rad a­
tiva deterioração do casam ento. Neste último caso, a terapia d a crise visa aju d ar
o casal a se recompor, ou a se separar definitivamente, com m enores trau m as
p ara todos.
Na atualidade, pelo m enos d uas razões merecem ser citad as como desenca-
deantes do desequilíbrio do casam ento. Uma é a crescente em ancipação d a m u ­
lher, nem sempre bem entendida pelo cônjuge, e nem por ela m esm a... A ou tra
razão é a decorrente do fato de que o êxito da terapia analítica de um dos dois do
casal não é acom panhado pelo outro, e isso provoca a ru p tu ra do neurótico
equilíbrio anterior.
É preciso se levar em conta que um casal se e s tru tu ra com u m a reciproci­
dade de dependência em quatro áreas: a afetiva, a econômica, a sexual e a social.
A maior ou menor estabilidade do casal vai depender d a qualidade d essa depen­
dência: tanto ela pode ser de n atureza adulta, como ela pode se m o stra r firme-
1 60 I D a v id E. Z im e m a n

m ente fixada em etapas m uito regressivas (simbióticas, narcisísticas, por exem­


plo) de desenvolvimento.
Dessa forma, o grupoterapeuta deve conhecer muito bem quais os fatores
que unem , ou desunem , os casais, sendo que, de acordo com a lei das com bina­
ções, as su b e stru tu ra s psicológicas de cada um dos cônjuges irá determ inar se a
configuração do casal será predom inantem ente normal, ou se de natureza n euró­
tica, perversa, ou até m esm o psicótica.
A m anifestação m ais com um no campo d a terapia de casal é a clara de­
m onstração de que h á um sério prejuizo no recíproco entendim ento. O uso da
p alavra deixa de ser a de um vinculo de com unicação p ara se to m ar um in stru ­
m ento a serviço de projeções agressivas.
Por outro lado, costum a haver um a radicalização de papéis e, no rastro
disso, cada um se escuda n a su a família de origem e ataca a do outro e, assim , o
cam po grupai, invisível, fica am pliado.
Por tudo isso, o terapeuta que tra ta casais deve ter plenas condições de não
ficar envolvido n a tram a das identificações projetivas que se cruzam no a r e
ten tam arrancá-lo de posição de neutralidade. E um a regra básica a de que o
te ra p e u ta de casal não pode se identificar, isto é, tom ar partido, com um deles,
co n tra o outro.
A com preensão analítica da dinâm ica do casal ajuda muito; contudo, as
interpretações não devem ficar centrad as nos indivíduos separadam ente, m as,
sim, n a inter-relação, sobretudo nos problem as dos mal-entendidos da comunicação.
É recomendável a utilização eventual do recurso d a dramatização, principal­
m ente a que propõe a inversão n a representação dos respectivos papéis.
O utro recurso utilizado pelos terap eu tas que atendem casais(16) é o de p a s­
s a r determ inados “tem as p ara c a sa”, a serem cum pridos pelo casal e depois
trab alh ad o s n a sessão.
Varia m uito o manejo de determ inadas particularidades como, por exemplo,
se o atendim ento do casal é a curto prazo (o suficiente p ara a resolução d a crise
m ais aguda) ou se pode ser de duração longa ( com a pretensão de um aprofun­
dam ento analítico).
Um a ou tra situação muito com um é quando um dos cônjuges avisa que não
te rá condições de vir à sessão, ou sim plesm ente n a hora aprazada ele não com ­
parece: o terapeuta deve aten d er o outro ou não? Em nosso meio h á um a inclina­
ção p ara atender, desde que fique bem claro que não resultarão segredos, e tudo
o que for dito n essa sessão^será com partilhado com o outro.
É im portante considerar, ao iniciar um a terapia de casal, se os cônjuges
vêm ao tratam ento para encontrar novas formas de relacionamento e, portanto,
dispostos a fazerem algum as renúncias e assum ir o seu quinhão de responsabi­
lidade; ou se eles vêm p ara p erp etu ar um tipo de vínculo que, apesar de patológi­
co, eles, inconscientem ente, querem mantê-lo. Sabem os todos o quanto é com um
que certos casais não podem viver separados, m as também não podem viver
Grupoterapias / 1 6 1

ju n to s e, por e ssa razão, eles se equilibram em conluios inconscientes, sendo


m ais com uns os de natu reza sadom jsoquística.

TERAPIA DA FAMÍLIA
A terapia do grupo fam iliar com porta m uitas variações teórico-técnicas pro­
vindas, principalm ente, das correntes da psicanálise e d a teoria geral dos siste­
m as, sendo que a com plexidade aum enta em virtude de que h á diferentes linhas
de pensam ento dentro de cada u m a destas duas.
A técnica de terapia da família que parte das concepções psicanalíticas
kleinianast11) privilegia o ;entendim ento'da interiorização das relações inter é
irU raïfam lliares:,que;se e stru tu ra m de forma c o m p le m e n tá ria re ^ ju n ç â E íiã s í
d n tê n ?â sT'áhsiè'dâdes prim itivas.?p resentes"^rnlcáda um e todos. D essa forma vai
se estruturando um a identidade familiar.
Os seguidores d essa linha valorizam, sobretudo, a im portância do jogo das
identificações projetivas, assim como se a utilização das m esm as está servindo
como um meio de com unicação em pática, ou para u m a finalidade de controle e de
intrusão.
O terapeuta deve en carar a família como sendo ao mesmo tempo um a pro­
dução coletiva e um aspecto do m undo interno de cada membro em separado.
Em term os práticos, o m aior cuidado que o terap eu ta de família deve ter é o
de não permitir que o tratam ento se concentre em um único paciente-em ergente
e assim fique transform ado n u m a terapia individual feita sob as vistas públicas
dos dem ais familiares.
Do ponto de vista da teoria sistêm ica (12.21), a dinâmica da família consiste
essencialm ente em u m a com preensão abrangente entre as várias partes/(subsis-
temas) com ponentes de um a totalidade m aior e interdependente. Dentro do pró­
prio corpo da terapia d a família de orientação sistêm ica h á m últiplas tendências
divergentes, m as todas destacam a im portância da distribuição d o s'p ap éis e n tre /
os;fam iliares, especialm ente o do “paciente identificado’^(o.depositário), assim
como todos concordam com o fato de que ,o sistem a familiar se com porta como um
conjunto integrado, ou seja, qualquer modificação de um elemento do sistèm a,
necessariam ente, vai afetar o sistem a como um todo.
É comum que h aja n a s famílias um a com pulsão à repetição, de geração a
geração, de um m esm o código de valores estratificados e que se constituem nos
cham ados “m itos fam iliares”: difíceis de serem desfeitos.
Também os te ra p eu ta s da linha sistêm ica enfatizam o fato de que no aten ­
dimento conjunto de um paciente com a s u a família deve-se procurar o desm as­
caram ento da farsa de que h á um único paciente e um a família vitima e desespe­
rançada.
162 I D avid E. Zimerman

A tendência atual n a terapia d a farailia é a de u m a “çoffénteM htê|fâdófá"


en tre as concepções psicanaliticas, as sistêm icas e as d a teoria com unicacional,
assim como a de eventual utilização de técnicas psicodram áticas.

GRUPOTERAPIA COM PACIENTES SOMÁTICOS

Partindo do principio de que há, sem pre, em todo individuo, u m a interação


biopsicossocial, e de que os m ecanism os psicossom áticos — através dos sistem as
nervoso, endócrino e imunológico — podem exercer u m papel definitivo n a deter­
m inação de m uitas enferm idades clinicas, m uitos autores (7.9.10) preconizam p ara
esses pacientes, o emprego de u m a grupoterapia, homogênea, de base psicanali-
tica. Além disso, a m oderna Escola de Psicanálise da F rança vem dem onstrando
que tais pacientes apresentam um sério distúrbio em formar fantasias incons­
cientes e, portanto, em poder nom ear, verbalizar ou, até mesmo, em poder des­
carregar os conflitos inconscientes atrav és d a via m otora. A descarga se processa
pela via corporal.
Baseado n as prem issas acim a descritas, Jú lio de Mello Filho, em seu trab a­
lho (10) sobre grupoterapia com pacientes som áticos — no qual descreve um a
longa e rica experiência, não só com pacientes som atizadores de distúrbios fun­
cio n a is (esterilidade psicogênica, problem as hipertensivos, digestivos, etc.), comp
tam bém com pacientes hospitalizados., cirúrgicos, dermatológicos^com . doenca
p uInTón a r crônica obstrutiva, com h a n senianos, com pacientes hemofílicos, etc.
— f ^ ljfn â ^ M e m p íõ n n ÍiT õ Í n te re s s a n te e im portante. Ele diz que. ao contrário '
do que ocorre em psicoterapias individuais — em que costum a haver, por parte
dos pacientes somatizadores. freqüentes abandonos, interrupções, resistência às
m udanças, além de u m a procura de u m a c u ra ap en as sintom ática — no tra ta ­
m ento grupo terápico tais. paciente.s^exidldanhgfijn.uitCLm ajs.
* bégundo e sïF a ü to r, isto se deve ao fato de q n e o grupo se constitui como
um holdinq-suporte, o qual perm ite que se crie um espaço m uito rico de trocas dg
vivências, além de servir de estím ulo a que os pacientes psicossomáticos-possam
"perceber e falar dos conflitos até en tão in co n scien tes ou vividos como catastrófi-__
/ o s e condenados a eterna repressão ou negação. Em decorrência, podem p assar
a prestínH ir da linguagem corporal, único meio até então disponível p ara sim bo­
lizar situações ou sim plesm ente referi-las como sinal de um sofrimento nunca
com preendido” (p. 262). ■
É digno de registra o fato de que, já n a década 50, em inentes psicanalistas,
como os argentinos A. G arm a e 1. Luchina, trataram em grupos, respectivam ente,
a pacientes ulcerosos g astroduodenaisf7) e a hipertensos e anginosos(9). Luchina
preconiza — conforme o grau de patologia som ática dos pacientes com ponentes
do grupo — o emprego de d u a s d istin ta s abordagens técnicas: um a, rigorosam en­
te psicanalítica e a o u tra de n atu re za psicoterápica de apoio sem o uso de inter­
pretação n a transferência.
Grupoterapias / 1 6 3

Na atualidade, em nosso meio, através de variadas m odalidades técnicas e


táticas, está ocorrendo u m a significativa expansão na utilização de grupoterapias
p ara pacientes som atizadores. Assim, além dos grupos de estru tu ra çã o psicana-
lítica, e dos, a n te s referidos, grupos de auto-ajuda, tam bém estão se compondo
m uitos grupos p ara tratam ento de obesos, com o em prego de técnicas predom i­
nantem ente com portam entalistas. Da m esm a forma, no H ospital Presidente Var­
gas de Porto Alegre — um hospital m atem o-infantil — os p siq u iatras G eraldine
Viçosa e Luís Carlos Coronel estão desenvolvendo um bonito e exitoso trabalho,
através da utilização de m últiplos grupos, com técnicas m istas, p ara o aten d i­
m ento dos diversos problem as psicossom áticos inerentes às g estan tes de risco.

GRUPOS COM PACIENTES DE NÍVEL PSICÓTICO

A expressão “nível psicótico" é, aqui, em pregada de forma ab rangente para


designar tanto a pacientes-borderline com um razoável grau de âd áp tàcão súció- f
profissional como, em outro extremo, a pacientes desvalidos, cronicam ente psicô:
ticos,- e,.da m esm a forma, ela tam bém é extensiva a estados in te rm ediários, como,
por exemplo, pacientes, egressos com pensados de su rto s psicóticos.
A grupoterapia hom ogênea está se firm ando como tratam en to de escolha
p ara tais p acientes,, sendo que o seu êxito, ou não, depende fundam entalm ente
de uma_apim aa4a-^decãxL£;com.nosi qual deve sem pre preservar uma j
homogeneidade cm relação àó nível diagnóstico é às capacidades de ego dos inte-í
^ r ä n te s T Z
\S ào m uitas a s razões de por que a grupoterapia p ara pacientes de nível
psicótico está ganhando a condição de tratam ento preferencial, sendo que as
seguintes podem ser destacadas:

1. A .ansiedadç pode ficar diluída, e é m elhor tolerada.


2. Há p_.,d^e;cLy.oMme.ai^ os pacientes
cultivam am izades e sentem -se reciprocam ente apoiados-e respeitados.
3. O próprio ftrnpo fnneiona como um necessário “continente" que absorve
ans'Snta^^A^a.ogúsjiM£^C&nfugl.a^xí^Qciai^j^a,um..
4. O tratam ento em grupo possibilita a esses pacientes reconhecer com
m ais facilidade o intenso uso, ^ e . sem exceção, todos eles fazem de
identificações projetivas patológicas. A p artir desse reconhecim ento, cõ”
m ecam a se abrir portas^paia-um a-m élhoria qu anto às distorções de
percepçào em relação ao mundo exterior.

O fato de que a com preensão da dinâm ica desses grupos, habitualm ente,
p arta dos conhecim entos d as teorias psicanalíticas está longe de dizer que as
interpretações devam seguir de forma sistem ática o modelo da ortodoxia transfe-
rencialista. Pelo contrário, nestes grupos com pacientes muito regressivos deve
haver, por p arte f o g m p n t e r a p e n t a u n ia expressiva valorização dos fatos exterio­
res concretos que estão contidos nos relatos oue cada um traz do cotidiano de
su a s vidas. Mais do que a gênese dos profundos conflitos inconscientes, a ativi-
IfãdF ínterpretativa privilegia o reconhecim ento dos distúrbios da percepção, do
pensam ento e da com unicação, assim como o desenvolvimento de um “ego obser­
vador” que permite que cada um deles, em particular, passe a observar e a convi­
ver m elhor com o seu lado doente.
Para esses pacientes de nível psicótico-, o fator terapêutico m ais eficaz é o d a
atitude interna do grupoterapeuta. Deve ficar claro, no entanto, que essa atitude.
~nao sip;nifica^r^nzinIïïrrQ Û T n3ulf> ent.e e. muito m enos que o te ra p e u ta perca
de vista que é fundam ental que o setting instituído deva m anter-se preservado ao
máximo,.

GRUPO COM PACIENTES DEPRESSIVOS

Conforme o que foi assinalado, u m a d as recom endações clássicas, no que se


refere à formação e com posicão de um .grupo .terapêutico, co n siste n a fiáo-inclu-
^ n ;Hp paM m tp.sipnrtadnreg.de,sintom atologia' oü"caractefóÍogia m arcadam ente
m elancólica. A justificativa dos autores p ara essa restrição consiste no fato de que

rearírniacóesJ_aü.sim-CQiQD-d£-Pmvas_de,am or e de>atençáo.,- Por essa razão, o seu


desem penho no grupo costu m a adouirir u m a d as seguintes três form as nocivas,
para a evolução da grupoterapia: ou este paciente funciona como um monopolista
crónico ou sente-se .marflinalizado-e-alienado dos problem as dos dem ais ou obs.-
taculiza o progresso do grupo, através de su a s constantes queixas e tragédias.
cotidianas,.d.ejiaUjma-e.iÍD.aM ai.^çulp_igerLaa^/
Creio que esse ponto de vista co n tin u a senrin válirio snm ente para os casos
em que um paciente fortem ente depressivo for incluído em um grupo heteroge­
nen .nn_Qi]al n quadro çljnico dos.dem ais.participanteiiestiver.-hp.m .-riistante da
TTg r e s s ã o depressiva daquele. Na atualidade, m ercê de um a co n tin u ad a experiên­
cia que vimos adqúirindo, especialm ente através de exercício de supervisiona-
mento de colegas m ais jovens que estão trabalhando com grupos hom ogêneos,
modificamos substancialm ente essa posição q u anto ao critério de indicação de
pacientes depressivos p ara tratam en to em grupoterapia.
Hoje consideram os que a g m p n t-p r a p ia sft r n n ^ t i t n i e m um a fias «indicacões
,prioritáda$-P-âiaXLJ^Ll^&nlo„d&jn d iyíd.KPS depressivos, desde que o g rupoT ériT
pêutico esteja composto exclusivam ente-com -este tipo de-pacientes. Da m esm a
lorma é necessário d estacar que e ssa h omogeneidade deve ser obedecida em
relação ao grau de regressividadêUa"situação depressiva clinica, de cadã~uíri Bos
pacientes.
_ _ _ _ _ _ ______________________________________________Grupoterapias 1 165

Baseam os a afirm ativa de que a grupoterapia se constitui em um excelente


recu rso de tratam ento para pacientes deprim idos, com a utilização dos seguintes
argum entos, que têm o respaldo d a confirmação n a prática clínica:

1) Na psicodinâm ica de um indivíduo depressivo sem pre encontram os um


círculo vicioso formado pelos sentim entos de carência, agressão, „culpa,
descrença nas capacidades reparatórias e na necessidade de castigo.
Uma grupoterapia propicia o surgim ento e o m anejo deste vicioso círcu ­
lo maligno de causa-efeito.
2) O grupo terapêutico, por si só, com porta-se como sendo um novo e
indispensável continente das angústias e necessidades básicas de cada
um dos pacientes. É claro que p ara que isso aconteça o grupo deve
funcionar como um “bom continente”, ou seja, a gestalt grupai deve ter
condições de acolher as angústias de cada um e de todos, assim como
a entidade grupo e a s individualidades devem sobreviver aos recíprocos
ataques (inveja, ciúm es, rivalidades, m al-entendidos, etc.).
3) Nos primeiros tem pos da grupoterapia, essa função de continente é
virtualm ente exclusiva do grupoterapeuta, o qual deve e sta r equipado
para conter as aludidas pulsões libidinosas e agressivas, com as respec­
tivas ansiedades decorrentes. Além de conter tais aspectos que, disso­
ciados, são projetados dentro dele, o grupoterapeuta deve elaborá-los
dentro de si mesmo e, através da atividade interpretativa, devolvê-los
em doses mitigadas e devidamente nomeados e desintoxicados da angústia.
O im portante, no entanto, é que e s sa função do terap eu ta se cons­
titua em um modelo de identificação, p a ra que cada um dos pacientes
venha desenvolver essa im portantíssim a função de ser continente, para
si próprio e para os dem ais.
4) Sabem os que, no caso de um paciente depressivo, a s u a família original
costum a estar introjetada, e representada em seu ego, de u m a forma
muito dissociada, desvalorizada e am eaçada de u m a desintegração. Uma
grupoterapia, por su a própria n atu re za multipessoal, aju d a a recons­
truir a família internalizada de cada um dos pacientes.
5) A n atu ral evolução da grupoterapia propicia reiteradas experiências de
m anifestações agressivas de u n s contra os outros (o terap eu ta incluído,
é óbvio), sem que estes ataques resultem em feridos ou "mortos". Pelo
contrário, não h á experiência m ais estru tu ra n te, e comovedora, do que
a constatação de que o sentim ento de am or prevalece sobre o do ódio, e
de que os intentos reparatórios são bem sucedidos.
6) No caso em que os pacientes deprim idos selecionados p ara a com posi­
ção de um grupo terapêutico estiverem fazendo um uso sim ultâneo de
medicação antidepressiva, a g rupoterapia a ser feita com o mesmo tera­
peuta que os medica não representa um empecilho p ara o controle de
medicamentos e vice-versa. Pelo contrário, sim ultaneam ente com a aqui-
1 6 6 / David E. Zimertnan

sição de insight dos conflitos genético-dinâmicos, a grupoterapia favore­


ce um desenvolvimento cognitivo d a doença depressiva, com a conse­
qüente assunção e responsabilização, por parte de cad a um , q u anto ã
evolução de s u a doença.

O tem a deste capítulo — outros grupos terapêuticos que não os analíticos


propriam ente ditos — não se esgota aqui. O destaque que foi dado às m odalidades
grupoterápicas acima especificadas justifica-se em razão do volum e de s u a utili­
zação n a atualidade, m as está longe de significar que sejam as ú n icas im portan-
Não fora a necessidade de um a adequação aos propósitos lim itados deste
nvTO, seria justo estender considerações acerca de alguns outros tipos de grupos
jmogêneos que estão sendo crescentem ente aplicados em nosso meio.

>ntação Bibliográfica

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18. PAZ. C. "Psicoterapia dei grupo con esquizofrenicos cronicos”. Em: El Grupo Psicológico, pp.
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19. PUGET, J. "Psicoterapia psicoanalitica de la pareja". Em: El Grupo y Sus Configuraciones. pp.
203-243. 1991.
Grupoterapias / 1 8 1

Oral (fase), 13
J aques. Elliot. 47 Osório, Luiz Carlos, 2, 66, 158, 160

K L ie s , R., 49 P ai, 27
Kemper, W., 49 Pais (discurso dos). 21
Mein. M.. 4. 10. 15. 48. 80. 109. 143, 161 Papéis, 86, 117, 134, 145, 161
Kohut, H., 11. 143 Paranoides (pacientes). 33, 67, 122
Parte psicótica da personalidade, 37
Patologia (da interpretação), 127
L a c a n , J.. 58, 143 Pensamento, 18
Laing. R., 122 Perda do amor (ansiedade), 80
Laissez-faire (papel). 90 Pertencència. 53, 98
Lewin. K.. 46 Pertinência. 53, 98
Liberman. D.. 47 Perversão, 39
Lideranças. 88 Piaget, J.. 122
Linguagem. 19 Pichon-Riviere, 46. 57. 90 j
Livre associação de idéias (regra). 94 Porta-voz (papel). 58, 87, 104
Luchina, L. 162 Primeira sessão, 70
Luta x Fuga (S. B.). 90 Psicanalítica (teoria), 48, 60
Psicopatias, 38
Psicoses, 37
M àe (papéis da). 26 Psicossomáticos. 40. 162
Mahler. M.. 11. 143 Psicóticos (grupo com). 163
Mania, 38 •Púberes (grupo com). 10. 18
Maratona (grupo), 94 Pulsòes, 10. 18
Martins, Cyro, 49
Matriz. 11
Mecanismos de ação terapêutica. 141 R la c k e r, H., 114
Mello Filho. Júlio. 162 Radar (papel), 87
Meyer, Luis. 161 Reação terapêutica negativa, 102
Miller de Paiva, L.. 49 Reflexão (grupo de), 58, 168. 173
Mitos familiares, 161 Regras técnicas, 94
Modalidades (grupais). 55 Regressão, 13
Modelo de identificação, 150 Representações (no ego), 11
Monopolista (paciente), 67, 75, 103 Repressão, 32
Moreno, J., 46. 61 Requisitos (que caracterizam um grupo), 52
Motivação (para tratamento). 66 Resistência, 54, 95,99, 117
Rezende de Lima. 0., 49

INÍarcisismo, 22. 90. 103, 116. 150


Negação (formas de), 16, 122 S a b o ta d o r (papel de). 88. 102
Neuroses, 31 Sartre, J. P., 46, 52, 131
Neutralidade (regra de), 95 Schilder, P., 49
Nobre, Luiz Fernando, 161 Segredos, 102
Número (de particularidades e de sessões), 94 Seleção (de pacientes), 65, 175
Separação (ansiedade de). 8. 16. 133
Serialidade, 52
^ ) b e s o s . 67 Setting grupai (ver Enquadre)
Obsessivo-compulsiva (neurose). 31 Sexualidade, 14
Ódio. 18, 134 Sigilo (regra do), 9 6 ,135, 175
Operativo (grupo). 3. 46, 57, 168 Silêncio (do paciente), 103, 123
182/ David E. Zimerman

do grupoterapeuta, 123 Transferência, 109, 111


Sindromes clinicas. 30
Síntese (capacidade de), 131, 152
Sistêmica (teoria), 61,87.143, 161 Xi estai (papel). 88
Slavson. S. R.. 49 Viçosa, Geraldina, 2, 163
Sociológica (corrente), 46
Superego, 16. 80
Supostos básicos (S. B.). 53, 89 alderedo Ismael de Oliveira. 49
Winnicott, D„ 11,49, 138, 143, 151, 159

X écnica (de interpretação), 130


Tempo (de duração), 94 /immermann, p .. 49, 167
Terapêuticos (grupos). 56
* Jo a n . A.F.: A Psicologia das Dificuldades em Leitura e O rtografia
' Kamii. C onstance: O C onhecim ento Físico na Educação Pré-Ls-
colar
' Kamii &. Devries: A Teoria de Piaget e a Educação Pré-Escolar
’ Kaplan &. S adock: Compêndio de Psiquiatria — 1990
" K ephart. N.: O Aluno de Aprendizagem Lenta
' K em berg: Psicoterapia Pskodlnàmica de Pacientes Borderline
" Klaus Klaus: O Surpreendente Recém -Nascido
■ K lepsch &- Logic; Crianças Desenham e Com unicam
’ K ohut. Heinz: Psicologia d o Self e a Cultura Humana
■ Kohut, Heinz: C om o Cura a Psicanálise?
■ K oppitz, Elizabeth: O Teste Cestáltico Render para Crianças
’ Langer. Marie: Maternidade e Sexo
* Langs. Robert: As Bases da Psicoterapia
‘ Lapierre &. Aucouturier: A Simbologla d o M ovim en to
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* Le Boulch. J..- A Educação Psicomotora
* Lebovici Diatkine-, O Significado e a Função do Brinquedo
Infantl
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* L ebovki L M azet: A utism o e Psicose na Criança
* Lebovki. Serge-. O Bebé. a M ãe e o Psicanalista
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* Lem gruber, Vera: Psicoterapia Breve — A Técnica Focal
* Lemer. H.: Mulheres em Terapia
* Lidz. T heodore: A Pessoa
* Lovell. Kurt O Desenvolvim ento de Conceitos Matem áticos e
Científicos na Criança
* Lurla Y ixlovkh: Linguagem e D esenvolvim ento Intelectual na
Criança

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1
Este livro chega ao público no timming preciso
e com qualidades suficientes para tornar-se o
livro de cabeceira para todos aqueles que se
dedicam às diversas modalidades de grupoterapia.

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