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ideologias mundiais

Autor: Bethânia Assy


Pesquisador: Rafael Alves
Alterações: Leandro Molhano Ribeiro

6ª edição

ROTEIRO De CURSO
2010.1
Sumário
Ideologias Mundiais

APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA........................................................................................................................................................3

AULAS.............................................................................................................................................................................................5

Unidade I – Ideologia............................................................................................................... 7
Aula 1. O que é ideologia?.............................................................................................................. 7
Aula 2. Um mapa da ideologia...................................................................................................... 13
Aula 3. Aparatos ideológicos e seu funcionamento........................................................................ 15
Aula 4. Direito e ideologia no mundo contemporâneo.................................................................. 24

Unidade II – Liberalismo....................................................................................................... 25
Aula 5 e 6. Indivíduo, propriedade, liberalismo e igualdade.......................................................... 25
Aula 7 e 8. Indivíduo, propriedade, liberdade e igualdade (continuação)....................................... 31
Aula 9. Estado e democracia.......................................................................................................... 38
Aula 10. Liberalismo no Brasil...................................................................................................... 41
Aula 11. Exercícios: reflexões, paralelos e ascendências do liberalismo no Direito.......................... 44

Unidade iii – Socialismo....................................................................................................... 45


Aula 12. Origem e contextualização do socialismo........................................................................ 45
Aula 13. Socialismo, estado e natureza humana............................................................................. 49
Aula 14. Socialismo e democracia................................................................................................. 54
Aula 15. Tradição socialista e política de esquerda hoje.................................................................. 57
Aula 16. Exercícios: reflexões, paralelos e ascendências do socialismo no Direito........................... 59
Aula 17. Terminologia e espectro.................................................................................................. 60
Aula 18. As experiências das colônicas anárquicas no Brasil........................................................... 75

Unidade V – Nacionalismo..................................................................................................... 76
Aula 19. Estado, nação e nacionalismo.......................................................................................... 76
Aula 20. Mobilização do discurso nacionalista: “nações sem estado”; “estado sem nações”;
diversidade étno-cultural, tolerância e discriminação.............................................................. 84
Aula 21. Nacionalismo em um mundo globalizado....................................................................... 90
Aula 22. Seminário....................................................................................................................... 99

Unidade VI – Fascismo, nazismo e totalitarismo.................................................................. 100


Aula 23. Por dentro do movimento nazista................................................................................. 100
Aula 24. Origens e fundamentos................................................................................................. 101
Aula 25. Totalitarismo e “a vida nua”........................................................................................... 108
Aula 26. Estado total................................................................................................................... 115
Aula 27. Exercícios...................................................................................................................... 122
ideologias mundiais

APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA

1. Objetivo

Proporcionar um pensamento crítico-reflexivo das principais vertentes teóricas


que têm orientado a relação entre indivíduo e sociedade ao longo da história moder-
na: Liberalismo, Socialismo, Anarquismo, Fascismo e Nacionalismo. Especificamen-
te, abordam-se os desdobramentos históricos dessas principais matrizes ideológicas
na configuração das instituições políticas no Brasil e sua relação com as temáticas
fundamentais do direito brasileiro.

2. Metodologia

Análise crítica de casos e eventos atuais, com ênfase na relidade brasileira; Dis-
cussão de textos teóricos; Seminários críticos-reflexivos; Aulas expositivas; Exame de
documentos históricos; Análise de legislação; Oficinas; Filmes seguidos de debates.

3. Bibliografia

A bibliografia do curso foi estruturada de forma temática, e não monográfica,


contemplando o estudo crítico-reflexivo das matrizes ideológicas em seus aspectos
histórico, conceitual e político, frente às transformações teóricas e dogmáticas do
Direito. Privilegiou-se desenvolver no aluno a capacidade de, ao compreender con-
ceitualmente as ideologias, necessariamente fazê-lo de forma a contextualizá-las em
sua composição histórica e política, a partir de casos e eventos atuais.

Estrutura: O curso está estruturado em VI unidades

4. A unidade I apresenta um panorama histórico-conceitual do que é ideologia.

5. As unidades II a VI traçam um panorama histórico-político das mais signifi-


cativas ideologias: Liberalismo, Socialismo, Anarquismo, Fascismo e Nacionalismo.
Serão analisadas, simultaneamente à abordagem de cada ideologia, suas respectivas
influências às temáticas fundamentais do Direito.

6. Formas de Avaliação

Participação em aula; prova escrita; seminários críticos, trabalhos, oficinas.

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7. Atividade Complementar

Filmes e Documentários.

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AULAS

UNIDADE I: Ideologia

1. O que é ideologia?
2. Um mapa da ideologia
3. Aparatos ideológicos e seu funcionamento
4. Direito e ideologia no mundo contemporâneo – Exercícios

UNIDADE II: Liberalismo

5 e 6. Indivíduo, Liberdade, Igualdade e Propriedade


7 e 8. Indivíduo, Liberdade, Igualdade e Propriedade (continuação)
9. Estado e Democracia
10. A ideologia liberal no Brasil
11. Liberalismo – Exercícios

UNIDADE III: Socialismo

12. Origem e contextualização do socialismo


13. Socialismo, Estado e natureza humana
14. Socialismo e Democracia
15. Tradição Socialista e Política de Esquerda Hoje
16. Socialismo - Exercícios

UNIDADE IV: Anarquismo

17. Terminologia e espectro


18. A experiência das colônias anárquicas no Brasil – Exercícios

UNIDADE V: Nacionalismo

19. Estado, Nação e Nacionalismo


20. Mobilização do discurso nacionalista: “nações sem estado”; “estado sem na-
ções”; diversidade étno-cultural, tolerância e discriminação
21. Nacionalismo em um mundo globalizado
22. Nacionalismo - Exercícios

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UNIDADE VI: Fascismo e Totalitarismo

23. Por dentro do movimento nazista


24. Origens e fundamentos
25. Totalitarismo e “a vida nua”
26. Estado Total
27. Fascismo – Totalitarismo – Exercícios

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UNIDADE I – IDEOLOGIA

Aula 1. O que é ideologia?

Idéias do canário
Machado de Assis

“Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns
amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a
supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.
No princípio do mês passado – disse ele –, indo por uma rua, sucedeu que um
tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna
loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez
levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir.
Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro
esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele ne-
nhuma história, como podiam ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia
a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas.
A loja era escura, atulhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, en-
ferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem
própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem
tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de
palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado,
um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dois
cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado
Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso
e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da
porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá
para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando
os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na
escuridão.
Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para
ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava lhe estar vazia. Não estava vazia.
Dentro pulava um canário.
A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços
uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que
ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar
mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio
daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário,
senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem
sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela
vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de
azedume.

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– Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer
dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar
esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu
para ir jogar uma quiniela?
E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:
– Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono
execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de
pessoa doente; vai-te curar, amigo.
– Como – interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono
não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este
cemitério, como um raio de sol?
– Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do
primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou vendo que con-
fundes.
– Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi
sempre aquele homem que ali está sentado.
– Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos
os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com
pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade
dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo.
Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as idéias.
A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos
engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a
mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um
lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do
espaço azul e infinito.
– Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?
– Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que cousa é o mundo?
O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja
de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um
prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo
é ilusão e mentira.
Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria
comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia,
e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de
navalhas.
– As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.
– Quero só o canário.
Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e ara-
me, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde
o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul.
Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém,
até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por
alfabeto a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música,

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os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise


filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem
deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conheci-
mento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele
esperando, saltando, trilando.
Não tendo mais família que dois criados, ordenava lhes que não me interrompes-
sem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de impor-
tância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem,
e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos.
Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, pas-
seava à toa, sentia me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar,
emendar. Retifiquei mais de uma observação – ou por havê-la entendido mal, ou
porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas.
Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me re-
petisse a definição do mundo.
– O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores
e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono
do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o
mais é ilusão e mentira.
Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me
tinham parecido simples, vi que eram temerárias.
Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional,
ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas
para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não
saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo
eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr
lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse
homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário
do mundo; o criado não era amador de pássaros.
Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico orde-
nou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia sa-
ber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto
levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da
gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me,
caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o
passarinho é que fugira por astuto.
– Mas não o procuraram?
Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fu-
giu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde
ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareiros, ninguém sabe nada.
Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude
sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e
nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e
incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas

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e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi
trilar esta pergunta:
– Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?
Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que
lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam
cuidados de amigos?
Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele
nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular.
– Que jardim? que repuxo?
– O mundo, meu querido.
– Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, con-
cluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.
Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já
fora uma loja de belchior.
– De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior?”
Texto extraído do livro “O Alienista e outros contos”, Editora Moderna – São Paulo,
1995, pág. 73.

Debate sobre as idéias centrais do texto: Quais suas impressões do texto?

I. O conceito de ideologia

A história do termo “ideologia” é relativamente recente, datando de cerca de 200


anos e, portanto, coincidente com a nossa era contemporânea. Mais especificamen-
te, o termo foi cunhado pelo pensador francês Antoine Destutt Tracy por volta de
1796. Seguindo a classificação de Andrew Vicent (1995), o estudo do conceito de
ideologia pode ser dividido em quatro abordagens:

a) ideologia como uma ciência empírica das idéias;


b) como filiação a um republicanismo liberal secular; ou ainda;
c) ideologia entendida pejorativamente como esterilidade intelectual; e
d) ideologia como uma doutrina política em geral.

a) O termo “ideologia” foi criado a partir das palavras gregas eidos+logos, ou seja,
significando ciências das idéias. No bojo desse neologismo, Tracy revelava uma postu-
ra anticlerical e materialista, muito próprias da Revolução Francesa e do Iluminismo.
O termo foi pensado para designar uma nova ciência, que tentava se afastar de qual-
quer parentesco com a metafísica e com a psicologia. Em outras palavras, pretendia-se
criar uma ciência que estudasse a origem natural das idéias, suas causas de produção
a partir das sensações. Para Tracy, “ideologia” seria a rainha das ciências, isto porque
todas as outras ciências se utilizam necessariamente de idéias para a formulação do
conhecimento. Assim, conhecendo o procedimento/lei que rege a produção das idéias
seria possível compreender todas as ações humanas.

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b) Um segundo entendimento do significado de “ideologia” se explica pelo con-


texto histórico em que foi criado. Certos pensadores, associados ao ideário da Re-
volução Francesa, passaram a ser identificados como idéologues, ou seja, um grupo
político de intelectuais ricos e liberais.
c) Desta identificação pouco precisa de idéologues, os bonapartistas e restaura-
dores franceses começaram a taxá-los de intelectuais estéreis, inaptos para a prática
política e, mais, portadores de sentimentos perigosos contra o trono e o altar.
d) Por fim, “ideologia”, desde a sua criação, semeou um significado pouco preci-
so de nomear qualquer doutrina política em geral.

2. A ideologia alemã

O termo “ideologia” ganha projeção e repercussão com Marx e Engels. Em


“Ideo­logia Alemã”, Marx rotula pejorativamente como portadores de uma “ide-
ologia alemã” aqueles que interpretavam o mundo filosoficamente, mas que não
demonstravam capacidade para transformá-lo. De certa forma, Marx segue o mes-
mo sentido dado à ideologia por Bonaparte e pelos restauradores, isto é, idéologues
como metafísicos teóricos inaptos à prática política. Com Marx, o conceito ideo-
logia passa a se referir a uma ineficácia prática combinada com a ilusão ou perda
da realidade causada pela divisão social do trabalho. Na formulação marxista do
materialismo histórico, os homens têm necessidade de subsistir, trabalhar, produzir;
ao contrapasso que os intelectuais e religiosos para manterem seu status buscam
proteção das classes dominantes e em troca oferecem-lhes justificativas intelectuais
da ordem existente no sentido da permanência da dominação de uma classe sobre
as demais. Assim, para Marx o trabalho dos intelectuais resume-se a criar ilusões,
distorções da realidade; essa postura crítica está voltada à filosofia alemã de sua
época (Kant, Fichte, Hegel) que privilegiaram a consciência como estruturante do
mundo, o que contrariava o pensamento tanto dos materialistas, como Marx, como
dos sensualistas, para os quais, inclusive Tracy, as condições materiais e as sensações
é que constituem a consciência, o homem e o mundo.
A conclusão em Marx torna o termo “ideologia” sinônimo de ilusão ou distorção
da realidade, e o contrapõe à realidade prática e à ciência materialista, estas, sim,
significantes de “verdade”.
Partindo das reflexões de Marx, Gramsci, no início do século XX, aponta que a
ideologia da classe dominante vulgariza-se no senso comum do cidadão médio. Sen-
do assim, o poder não é exercido necessariamente pela força física ou violência, mas,
através da cooptação das massas pela internalização da concepção de mundo da classe
dominante. Diante desse quadro, Gramsci propõe aos intelectuais engajados com a
luta de classes a construção de uma ideologia “contra-hegemônica” à burguesia.

3. Escola do fim das ideologias

Uma terceira fase na história do termo “ideologia” é chamada de “Escola do fim


das ideologias”, fruto do pós-guerra e da guerra fria nos anos pós-1945. Esse debate

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foi produzido, de certa forma, como uma reação às recordações do uso político de
ideologia como doutrina e sistema político totalitários – tais como o nazismo, o
fascismo, o stalinismo e todas as outras formas de sofrimento dos tempos de guerra.
Assim, a “Escola do fim das ideologias” identificou as “políticas ideológicas” como
sendo a causa do sofrimento humano na primeira metade do século XX.
Uma segunda perspectiva desse debate está associada ao momento de crescimen-
to econômico e estabilidade dos regimes social-democratas, o que significou, para
alguns pensadores, como o consenso, a convergência das metas políticas; isto é,
pela primeira vez na era moderna havia sido alcançando um acordo básico sobre os
valores e ações políticas. Assim, nesse contexto de paz, dispensam-se ideologias para
justificar ou motivar a ação política.
Ainda podemos associar a essa “Escola do fim das ideologias” uma suposta “idade
heróica da sociologia”, vez que esta ciência buscava reforçar seu estatuto científico,
buscando as bases de uma ciência social empírica liberta de valores, isenta de apelos
emotivos das teorias políticas ideológicas. Observa-se, portanto, uma oposição, tal qual
em Marx, entre ciência, portadora da verdade, e ideologia, estrutura teórica distorcida
e falsa. No intuito de sepultar as ideologias, renova-se o sentido “sujo” de ideologia.

4. Ideologia e Ciência

Na última etapa deste percurso histórico do termo ideologia, a contribuição de Tho-


mas Khun acerca dos paradigmas científicos aplaina o caminho para se compreender que
a ciência não é feita somente por adição e confirmação empírica, mas antes, a ciência é
estruturada e dinamizada dentro de um paradigma científico que lhe propõe os instru-
mentos, as questões e as possíveis respostas. A concepção científica a partir de paradigmas
implica uma circularidade teórica, isto é, a própria teoria determinará o caráter de reali-
dade sobre o qual se debruçará. Entretanto, Khun indica que os paradigmas são periodi-
camente trocados ou transformados à medida que sua coerência interna e sua capacidade
de oferecer respostas às suas próprias questões tornam-se insuficientes ou incongruentes.
No mesmo esteio, a filosofia da linguagem entende que os conceitos não corres-
pondem a coisas objetivamente, mas antes são criações que nos orientam no mundo.
Dessa forma, “ideologia” aqui já não tem mais um significado “sujo”, antes, porém,
“ideologia” é concebida como uma das formas de vida, parte do mundo e da ação.

Bibliografia Básica

MARX, Karl. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Bibliografia Complementar

BOUDON, Raymond. A Ideologia: ou a origem das idéias recebidas. São Paulo:


Editora Ática, 1989, pp. 25-46.
VICENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1995, pp. 13-26

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Aula 2. um mapa da ideologia

I. Perspectiva crítica

O pensador Slavoj Zizek nos aponta a sutil diferença entre o real e o espectro
do real, bem ilustrada no texto de Machado de Assis. Se considerar que a realidade
nunca é apreensível diretamente por “ela mesma”, mas somente através de seus
símbolos incompletos, percebe-se que a realidade tem um aspecto de ficção, ou
seja, o espectro do real (ideologia) é que dá corpo (representa, projeta) àquilo que
se denomina de real, que nada mais é do que uma sobreestrutura simbolicamente
estruturada (mundo discursivamente construído).
Questão reflexiva: “Ideologias são corpos de conceitos, valores e símbolos que
incorporam concepções da natureza humana e, assim, apontam o que é possível ou
impossível aos homens realizar”. (Andrew Vicent) Nesse conceito, ideologia reivin-
dica descrever o mundo e prescrever ações?
Nessa mesma trilha, ideologia pode ser compreendida como um “mapa” que, tal
qual os mapas geográficos, tem primordialmente duas funções: representar e orien-
tar. Ou seja, a ideologia constitui uma grande metáfora que, tal qual os mapas, “são
distorções reguladas da realidade, distorções organizadas de territórios que criam
ilusões credíveis de correspondência” (Boaventura de Sousa Santos). Importante ter
presente que os mapas representam a realidade – logo, não são a própria realidade; as-
sim sendo, a ideologia, apesar de manter pontos de coincidência com o mundo, não
é o mundo em si, mas, tão somente, uma dentre várias representações possíveis.
Questão reflexiva: A segunda função de um mapa é a orientação. Nesse sentido,
a ideologia, ao construir representações do mundo, serve para orientação de nossa
ação sobre o mundo?
Contudo, nem sempre será possível abordar as ideologias como constructos coeren-
tes que de fato descrevam ou orientem a ação política, uma vez que as ideologias, como
estruturas complexas de discurso, sempre apresentam misturas e sobreposições tanto
no nível fundamental (justificativa) quanto no nível operante (funcionamento).

Bibliografia Básica

BOUDON, Raymond. A Ideologia: ou a origem das idéias recebidas. São Paulo:


Editora Ática, 1989, pp. 71-89.
MARX, Karl. A Ideologia Alemã. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Bibliografia Complementar

ARON. Raymond. O Ópio dos Intelectuais. Brasília: UNB, 1980.


BELL, Daniel. O Fim da Ideologia. Brasília: UNB, 1980.

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GEERTZ, Clifford. “A Ideologia como sistema cultural”. In A Interpretação das


Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
SARTORI, Giovanni. A Teoria da Democracia Revisitada. São Paulo: Editora Áti-
ca, 2004, pp.299-324.

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Aula 3. Aparatos ideológicos e seu funcionamento

Caso: Ensino religioso nas escolas: Estado, igreja e ideologia

Lei nº 3.459, de 14 de setembro de 2000, que dispõe sobre ensino religioso confessional
nas escolas da rede pública de ensino do Estado do Rio de Janeiro.

“O Governador do Estado do Rio de Janeiro,


Faço saber que a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro decreta e eu
sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º – O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da
formação básica do cidadão e constitui disciplina obrigatória dos horários normais
das escolas públicas, na Educação Básica, sendo disponível na forma confessional
de acordo com as preferências manifestadas pelos responsáveis ou pelos próprios
alunos a partir de 16 anos, inclusive, assegurado o respeito à diversidade cultural e
religiosa do Rio de Janeiro, vedadas quaisquer formas de proselitismo.
Parágrafo único – No ato da matrícula, os pais, ou responsáveis pelos alunos
deverão expressar, se desejarem, que seus filhos ou tutelados freqüentem as aulas de
Ensino Religioso.
Art. 2º – Só poderão ministrar aulas de Ensino Religioso nas escolas oficiais,
professores que atendam às seguintes condições:
I – Que tenham registro no MEC, e de preferência que pertençam aos quadros
do Magistério Público Estadual;
II – tenham sido credenciados pela autoridade religiosa competente, que deverá
exigir do professor, formação religiosa obtida em Instituição por ela mantida ou
reconhecida.
Art. 3º – Fica estabelecido que o conteúdo do ensino religioso é atribuição es-
pecífica das diversas autoridades religiosas, cabendo ao Estado o dever de apoiá-lo
integralmente.
Art. 4º – A carga horária mínima da disciplina de Ensino Religioso será estabelecida
pelo Conselho Estadual de Educação, dentro das 800 (oitocentas) horas-aulas anuais.
Art. 5º – Fica autorizado o Poder Executivo a abrir concurso público específico
para a disciplina de Ensino Religioso para suprir a carência de professores de Ensino
Religioso para a regência de turmas na educação básica, especial, profissional e na
reeducação, nas unidades escolares da Secretaria de Estado de Educação, de Ciência
e Tecnologia e de Justiça, e demais órgãos a critério do Poder Executivo Estadual.
Parágrafo Único – A remuneração dos professores concursados obedecerá aos
mesmos padrões remuneratórios de pessoal do quadro permanente do Magistério
Público Estadual.
Art. 6º – Esta Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as dis-
posições em contrário.”
Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2000.
Anthony Garotinho
Governador
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Diálogo fecundo: Sancionada no Rio de Janeiro em setembro a lei estadual que faculta
na rede pública de ensino o ensino religioso confessional

“Por D. Filippo Santoro (bispo auxiliar do Rio de Janeiro)


É um evento de grande importância a aprovação da Lei 3.459, “Sobre o Ensino
Religioso Confessional nas Escolas da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de
Janeiro”, concretizada em setembro passado pelo governador Anthony Garotinho, e
tornando executivo um projeto-de-lei de autoria do deputado Carlos Dias.
Os órgãos de imprensa registraram reação amplamente favorável à lei, dada a
importância da religião na formação integral do aluno e a característica pluralista
desta lei, que respeita os diferentes credos presentes na nossa sociedade.
A lei recém-aprovada no Estado do Rio de Janeiro comporta novidades significa-
tivas em relação ao ensino religioso e supera várias incongruências da lei vigente em
nível nacional (nº 9.475/77, que por sua vez, tinha mudado o artigo 33 da LDB).
Em artigo publicado em O Globo, o cardeal D. Eugênio Sales identificava três pon-
tos críticos desta lei nacional cuja solução era particularmente urgente.
Em primeiro lugar, a lei atribui ao Estado, ou seja, aos “sistemas de ensino”, de-
terminar os conteúdos do ensino religioso, ouvida uma “entidade civil constituída
pelas diferentes denominações religiosas”. Dizia D. Eugenio: “Não é o Estado que
ensina religião, ao menos em uma democracia”. Isso depende das instituições reli-
giosas, de acordo com os interesses dos pais ou do próprio aluno.
Em segundo lugar, obriga as denominações religiosas a formarem uma entidade
civil, o que fere a Constituição, a qual, no artigo 5º, inciso XX, reza: “Ninguém
poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado”.
O terceiro problema era a afirmação de que não se deve ensinar uma religião
bem definida, mas apenas elementos de antropologia que analisem o fenômeno
religioso. D. Eugênio afirmava que a religião “deve ser transmitida segundo o cor-
po doutrinário de cada confissão, por professores capacitados por essa missão e
aprovados pela autoridade religiosa”. E concluía: “Assim se ajudará a desenvolver
a personalidade do aluno segundo uma determinada visão do valor da vida e no
respeito às outras”.
A lei estadual recém-aprovada responde a essas exigências, e instaura um diálogo
fecundo entre as denominações religiosas e os poderes do Estado.
Os setores que se opõem à nova lei, aprovada na Assembléia Legislativa do Es-
tado com 32 votos favoráveis e 16 contrários, querem voltar à situação anterior,
sustentando um ensino religioso antropológico desligado de qualquer religião, com
programas e professores escolhidos pelo Estado.
Alega-se que a questão é a relação constitucional entre Igreja e Estado. Mas exa-
tamente uma correta relação entre Igreja e Estado comporta que o Estado respeite
cada entidade religiosa, e não se constitua como fonte de doutrinas religiosas e de
sua transmissão às novas gerações.
Se o ensino religioso fosse reduzido a puros elementos de antropologia, sob esse
nome poderiam ser colocadas as coisas mais diversas e contrastantes, que acabariam
confundindo ou mesmo desviando a religiosidade do aluno.

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ideologias mundiais

Com efeito, um professor que fosse desligado de qualquer credo religioso, e não
fosse autorizado por uma instituição religiosa, poderia ensinar, por exemplo, que a
religião é ópio dos povos, alienação para perpetuar a opressão econômica, neurose
coletiva, projeção infantil da libido, etc.
Acusa-se a lei recém-aprovada de submeter a aprovação dos programas e dos
professores à autoridade das respectivas confissões religiosas. Ora – citando um hi-
potético exemplo que envolve dois ilustres analistas do fenômeno religioso – Marx
e Freud com certeza ganhariam um concurso público para o ensino religioso; mas,
com pleno direito, as instituições religiosas negariam o mandato a quem tivesse o
objetivo de destruir ou alterar uma determinada religião.
Esse tipo de ensino religioso que se caracteriza com “confessional” nada tira à
importância do ecumenismo e do diálogo inter-religioso que deve realizar-se nas
formas e nas sedes próprias. No ensino religioso poderá ser apresentada toda a va-
riedade das religiões, como também a análise do problema do ateísmo, mas isso é
diferente da normativa que, por decisão do Parlamento, presume silenciar todos
aqueles aspectos de uma religião que vão além do puro senso religioso.
Os gravíssimos problemas que afetam a nossa sociedade, envolvendo menores
no crime organizado, dependem, entre outros fatores, da falta de uma visão da vida
que comporta a defesa da dignidade da nossa pessoa, dos outros e particularmente
dos mais pobres. O ensino religioso oferece um sentido pleno à vida, e educa a do-
minar qualquer forma de violência, “assegurando o respeito à diversidade cultural e
religiosa do Rio de Janeiro, vedadas quaisquer formas de proselitismo”, como afirma
a lei recém-aprovada.”
(Artigo extraído do jornal O Globo, edição de 3/11/2000)

Trechos da entrevista com o Deputado Estadual Carlos Dias (PPB/RJ), autor da Lei
3.459/2000 que instituiu o ensino religioso confessional nas escolas públicas do Estado
do Rio de Janeiro.

“Pela sua lei, o ensino religioso passa a ser obrigatório?


Dias: Não, é um direito da família. No momento da matrícula dos alunos, a
escola tem obrigação de oferecer esta disciplina. O oferecimento é obrigatório, mas
são os responsáveis pelas crianças quem decidem pela matrícula. No caso dos ado-
lescentes, os maiores de 16 podem decidir sozinhos se querem o ensino religioso e
qual o credo que desejam aprender.
Qual o papel do Estado no provimento do ensino religioso, segundo a nova Lei?
Dias: A obrigação do Estado é pagar os professores, que serão indicados pelas
instituições religiosas, o material didático, a sala de aula, enfim, as condições ne-
cessárias para a realização das aulas. O que estamos fazendo é resgatar o direito da
família de decidir sobre a educação dos seus filhos. Esse direito era garantido na
Constituição, mas o discurso do Estado laico e totalmente responsável pela educa-
ção acabou retirando esse direito das famílias. O ensino religioso confessional será
ministrado desde a alfabetização até o ensino complementar. É uma lei e quem não
a cumprir sofrerá uma ação do Ministério Público.

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Como será feita a escolha dos professores?


Dias: Os professores serão indicados pelas instituições religiosas, que deverão
indicar também o conteúdo e o material didático a ser utilizado. O Estado poderá
optar pela realização de um concurso público ou pela contratação simples.
Como as entidades religiosas habilitarão os seus professores para ministrar as aulas?
Dias: Foram credenciados três credos: Católicos, Judeus e Evangélicos. Os repre-
sentantes desses credos deverão manifestar o desejo de oferecer as aulas, apresentar
os professores e o material didático sobre a sua doutrina à Secretaria Estadual de
Educação. No caso dos evangélicos, que têm várias denominações, caberá à Secreta-
ria decidir sobre a habilitação, obedecendo aos critérios de formação dos professo-
res, conteúdo doutrinal e material didático. As religiões tradicionais como o Juda-
ísmo e o Catolicismo terão maior facilidade, uma vez que já possuem essa estrutura
montada há anos. É o caso, por exemplo, da Mater Ecclesie. Teremos professores
com liberdade de ensinar aquilo em que acreditam.
A aprovação da Lei foi uma grande vitória para nós. Qual o papel da sociedade a
partir de agora?
Dias: O nosso papel é incentivar os pais que nós conhecemos, cujos filhos estu-
dam em escolas públicas, para que matriculem os seus filhos no ensino religioso. É
importante conscientizá-los sobre a importância do relacionamento com Deus para
a realização plena da nossa humanidade. É preciso também que nos movimentemos
enquanto Igreja para disponibilizar professores e toda a estrutura necessária a essa
missão evangelizadora.”
(Disponível em < http://www.cl.org.br/>)

Trechos da entrevista como o Deputado Carlos Minc (PT/RJ), autor do projeto alternativo
de ensino religioso de caráter histórico-antropológico que fora aprovado pela Assem-
bléia Legislativa, porém vetado pelo governadora Rosinha Garotinho.

ComCiência: “Quais foram as alterações propostas em relação à lei estadual 3459/00,


de autoria do ex-deputado Carlos Dias?
Minc: Na verdade, quando foi apresentado o projeto de lei do ex-deputado Carlos
Dias, que implementava o ensino religioso confessional, isto é, por religião, fizemos
emendas contrárias. Quando tal aberração foi aprovada, fizemos um projeto de lei
alternativo para que o ensino religioso obedecesse à lei federal, sendo não confessional.
Pelo nosso projeto, ele poderia ser ministrado por professores de quaisquer disciplinas,
desde que devidamente capacitados. Certamente, professores formados em história,
filosofia, sociologia poderiam dar noções de religião sob o enfoque antropológico.
ComCiência: Na sua opinião, a instituição do ensino religioso nas escolas públicas
fere o princípio do Estado laico?
Minc: Fere. Além disso, o Estado tem que zelar pela legislação, defendendo o
princípio da liberdade religiosa. Até por isso as escolas públicas não podem ensinar
religião sob o enfoque confessional.
ComCiência: Na sua opinião, as aulas de religião no ensino público, de modo geral,
são necessárias?

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Minc: Não. Infelizmente, falta tanta coisa nas escolas públicas que não deveria
ter sido dada tal prioridade ao assunto. Acredito que haja outros interesses por trás
do ensino religioso confessional defendido pela Igreja Católica conservadora.
ComCiência: Como o senhor vê a inclusão do criacionismo no currículo escolar? O
senhor é partidário das críticas que apontam a incorporação do criacionismo na ementa
do ensino religioso como estratégia para conseguir apoio político de lideranças religio-
sas?
Minc: Trata-se de uma aberração legal e pedagógica. É claro que o oportunismo
político ultrapassa fronteiras éticas e morais e pode se utilizar do atraso para con-
quistar apoio político de lideranças religiosas.
ComCiência: O senhor acredita na teoria do evolucionismo?
Minc: Não é questão de credo pessoal. Trata-se de ciência e, mesmo acreditando
que até as “verdades” científicas são provisórias, o evolucionismo é a teoria na qual
todos acreditamos. O absurdo atual é o ensino do criacionismo em escolas públicas,
desautorizando a teoria evolucionista. É o caminho de volta à Idade Média, com o
risco de se incentivar as crianças a queimar os livros de Darwin.”
(Disponível em http://www.comciencia.br)

ISER. Ensino Religioso no Estado do Rio de Janeiro. Apresentação

“Iniciado o debate público, para além da disputa de credos e concepções sobre


educação e sobre o papel da escola pública, foi muito revelador observar como se
posicionaram as diferentes alternativas religiosas. Em outubro de 2000, participei
na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro de uma Audiência Pública sobre Ensi-
no Religioso promovida pelo ISER e pelo deputado Carlos Minc. Naquela ocasião
vimos acontecer alianças pouco usuais no campo religioso brasileiro. Por um lado,
o que não é novidade, católicos divergiram entre si: a favor do ensino religioso
confessional, falou seu au­tor, o Deputado Carlos Dias, que se apresentou como
católico convicto; contra falaram outros católicos: o deputado Padre Roque, do
Paraná, e o deputado Chico Alencar, do Rio de Janeiro, considerado católico da ala
progressista. Por ou­tro lado, a favor da interconfessionalidade, em uma curiosa e
circunstancial aliança estavam católicos de esquerda, evangélicos pentecostais, evan-
gélicos históricos, espíritas kardecistas e representantes de religiões afro-brasileiras.
Foi interessante observar que o Projeto alternati­vo apresentado pelo Deputado Car-
los Minc, ele mesmo de origem judaica, foi apoiado na tribuna não só pelo padre
católico e por um católico da ala progressista, mas também por deputados ligados à
Igreja Universal do Reino de Deus, denominação esta que, no geral, tem se mostra-
do pouco afeita ao ecumenismo ou ao diálogo inter-religioso. A este peculiar arco
de aliança, na platéia, se somaram mães de santo do Candomblé, espíritas, adeptos
do Santo Daime, budistas e, ainda, outras alternativas religiosas que participam do
MIR (Movimento Inter-Religioso).
Seriam muitos os fatores que poderiam expli­car tais posicionamentos. Para um
lado, para parte dos protagonistas o que estava em jogo era a valorização da di-
versidade e da tolerân­cia religiosa. Mas, por outro, havia ali uma também disputa

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de bens simbólicos, própria ao campo religioso. A defesa da lei alternativa passava


por uma avaliação: o modelo confes­sional proposto favoreceria, sobretudo, a Igre-
ja Católica. Isto não só porque o peso institucio­nal da Igreja Católica no Brasil é
indiscutível. Mas, também, porque a unidade e centrali­zação hierárquica católica
tornam esta Igreja mais adequada para a implantação do modelo confessional. Isto,
em comparação com a dis­persão e a grande diversidade presente entre os centros e
terreiros das religiões mediúnicas, em comparação com a segmentação das inúmeras
denominações evangélicas conhecidas como históricas, pentecostais e neo-pente-
costais e, ainda, em comparação com a variedade pulve­rizada das novas alternativas
religiosas.”

Estado laico – Entidade quer suspender lei que institui ensino religioso

A CNTE – Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – quer sus-


pender os efeitos da lei estadual do Rio de Janeiro que prevê que o ensino religioso
nas escolas públicas só pode ser ministrado por professores que tenham sido creden-
ciados pela autoridade religiosa competente.
A determinação está presente nos artigos 1º, 2º e 3º da Lei Estadual 3.450/00,
que prevê também que o conteúdo do ensino religioso é atribuição específica das
autoridades religiosas, cabendo ao estado o dever de apoiá-lo integralmente. Os dis-
positivos são questionados pela entidade em Ação Direta de Inconstitucionalidade,
com pedido de liminar, impetrada no Supremo Tribunal Federal.
Para a CNTE, esses artigos ferem a Constituição Federal na medida em que pre-
tendem estabelecer diretrizes e bases para o ensino religioso diversas das constantes
da Lei Federal 9394/96, que trata do assunto.
Segundo o STF, a entidade alegou, ainda, que a lei fere o parágrafo 1º do artigo
19 da Constituição Federal, que veda ao Estado a manutenção de relações de de-
pendência ou aliança com cultos religiosos. Cita também a afronta ao que dispõe
o inciso VII, artigo 5º, no que é pertinente à inconstitucionalidade da privação de
direitos por motivos de crença religiosa.
ADI 3.268
Revista Consultor Jurídico, 3 de agosto de 2004
(http://conjur.estadao.com.br/static/text/28313,1)

Questões

• Quais elementos ideológicos poderiam ser apontados no debate pró-contra


Ensino Religioso Confessional versus ensino religioso sob o enfoque antropo-
lógico?
• Quais reproduções ideológicas estariam implícitas nos depoimentos?
• Até que ponto a implementação da Lei 3.459 reproduz a naturalização de
um processo que de fato implica o próprio mecanismo de funcionamento da
ideologia?

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I. A reprodução da ideologia

Para a exposição dos aparatos ideológicos do Estado serão avaliadas, inicialmente,


duas teses (Louis Althusser): 1) a ideologia representa a relação imaginária dos indiví-
duos com as suas condições reais de existência, isto é, ideologia é compreendida como
uma concepção de mundo, que, aliás, não corresponde à realidade, mas efetivamente
se referencia nela – ou no dizer de Marx, se os homens criam uma representação alie-
nada de suas condições de existência é porque essas condições de existência são, em
si mesmas, alienantes; e 2) a ideologia tem uma existência material, possibilitada pela
atuação dos Aparelhos Ideológicos de Estado que mediam as idéias até às práticas e atos
concretos do cotidiano. Assim, o Estado apresentaria três dimensões, aqui abordadas:

a) Poder Estatal;
b) Aparelho de Estado; e
c) Aparelho Ideológico de Estado.

O Poder Estatal é, na teoria da revolução socialista, o objetivo da luta de classes


para dominar os aparelhos do Estado burguês e convertê-los em aparelhos de um
Estado proletário. Porém, num último estágio a revolução eliminará toda forma de
Estado (seja burguês ou proletário) e inclusive o próprio Poder Estatal.
O Aparelho de Estado – o que inclui o governo, o exército, os tribunais, os pre-
sídios, etc. – tem um caráter repressor, haja vista que sua atuação se dá, eminente-
mente, por meio do uso da violência. Apresenta uma natureza monolítica e como
um bem público. Por tudo isso, mais apropriado seria denominá-lo de Aparelho
Repressor de Estado.
Em paralelo, os Aparelhos Ideológicos de Estado apresentam-se como poderes ou
instituições privadas, sendo-lhes característicos a pluralidade de manifestações. Ao
contrário do Aparelho Repressor de Estado, os Aparelhos Ideológicos de Estado atuam,
essencialmente, por meio das práticas e da difusão ideológicas. Como exemplos dos
Aparelhos Ideológicos de Estado têm-se os sistemas: religioso, escolar, familiar, jurídi-
co, político, sindical, de informação, cultural, etc.

Questão crítico-reflexiva

Caberia, assim, ao Aparelho Repressor de Estado garantir pelo uso da força as con-
dições de reprodução das relações de produção; ao passo em que cabe aos Aparelhos
Ideológicos de Estado também garantir tal reprodução, contudo, pelo uso da ideolo-
gia? O Poder Estatal figura neste quadro teórico como o fundamento de legitimida-
de da repressão em favor do status quo dominante?

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II. O funcionamento da ideologia

O filósofo Slavoj Zizek apresenta-nos a ideologia a partir de uma classificação


tripartite:

a) A ideologia em-si é um conjunto de idéias destinadas a nos convencer acerca


de sua veracidade, mas, em verdade, serve a um interesse particular de poder
não confessado. Por isso, é importante em nossa análise discernir, através
das rupturas, lapsos, lacunas, a tendenciosidade (o projeto de poder) não
declarada no texto oficial. Como por exemplo, discernir na “igualdade e li-
berdade” a igualdade e a liberdade dos parceiros nas trocas comerciais que,
evidentemente, privilegiam o proprietário dos meios de produção e o livre
mercado. O papel, pois, da ideologia é gerar uma rede de discursividade
(constituição do mundo) em que os fatos falem por si, sejam auto-evidentes,
isto é, sejam naturalizados.
b) A ideologia para-si revela, na linha do pensamento de Althusser, a necessidade
de reprodução por meio dos aparelhos especiais de Estado voltados para a
materialização da ideologia no cotidiano que, como Foucault diria, discipli-
nam o sujeito nas microestruturas do poder.
c) A ideologia em-si-e-para-si, ou seja, a ideologia refletida em si mesma obscurece
uma rede de pressupostos e de atitudes quase-espontâneas que formam um
momento irredutível da reprodução de práticas “não-ideológicas”, como por
exemplo os atos comerciais, legais, políticos, sexuais, etc. Ou seja, a ideologia,
suas manifestações concretas, suas instituições de reprodução apresentam-se no
cotidiano como “naturais”, destituídas de história, destituídas de ideologia.

Questões:

• Um aspecto importante a ser considerado é que aquilo que se identifica


como uma mera contingência do real, carente de sentido, banal, em ver-
dade, consiste em um símbolo cujo sentido foi internalizado, naturalizado.
Talvez essa percepção da ideologia leve ao seguinte paradoxo: será que a
recusa a uma determinada posição “ideológica” leva inevitavelmente o su-
jeito à submissão ao seu duplo “não-ideológico”, o qual carrega os mesmos
pressupostos do “ideológico”? (Zizek)
• Esse alerta serve para destacar que uma ideologia não necessariamente é uma
“falsa” representação da realidade ou dos fatos, mas, antes, é um modo como
esse conteúdo (realidade, fatos) se apresenta em uma relação de dominação?
Diz-se que algo é “ideológico” quando um determinado conteúdo torna-se
funcionalmente não transparente para facilitar o exercício do poder?
• Assim, pode-se conceituar ideologia como um complexo de idéias que ad-
quirem materialidade por meio de instituições e aparatos de tal modo que
se incorporem no cotidiano e se apresentem como se fossem espontâneas,
auto-evidentes?

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Segundo Gramsci, uma classe é hegemônica não só porque detém a propriedade


dos meios de produção e o poder do Estado, mas principalmente porque suas idéias
e valores são dominantes, e são mantidos pelos dominados até mesmo quando lu-
tam contra essa dominação.
Na linha do pensamento marxista, Marilena Chauí indica três momentos fun-
damentais da ideologia que serão abordados neste tópico: i) a ideologia surge como
um conjunto sistemático de idéias de uma classe em ascensão que aparece como
representante de todos os não-dominantes, tornando-se uma universalidade legi-
timadora da luta da classe ascendente; ii) a ideologia se consolida como um senso
comum a todos aqueles que não são dominantes; e iii) quando a transição se com-
pleta, as idéias – antes universais a todos os não-dominantes – são, agora, negadas
pela nova realidade de dominação. Mas, ainda assim, as idéias permanecem “co-
muns” porque são apresentadas descoladas (emancipadas) da classe particular que
as produziu segundo seus interesses.
Por fim, vale lembrar Althusser quando explicita que toda ideologia tem uma
estrutura especular, ou seja, atua como se fosse uma caixa de espelhos que se re-
fletem reciprocamente. Isto é, em um primeiro momento do agir da ideologia os
indivíduos são interpelados como sujeitos e, em seguida, submetidos a um Sujeito
(relação de dominação). Nessa etapa, ocorre um triplo reconhecimento: i) um reco-
nhecimento mútuo (identidade) entre os sujeitos e o Sujeito; ii) um reconhecimen-
to mútuo entre dos sujeitos entre si; e, por último, iii) um reconhecimento de si
mesmo pelo sujeito. No último estágio, a ideologia apresenta uma garantia absoluta
de que tudo realmente é “de fato” assim mesmo (naturalização) e que, desde que os
sujeitos reconheçam o que “são” (a imagem proposta pelo Sujeito) e que se compor-
tem “conformemente”, tudo ficará bem, isto é, em boa ordem.

Bibliografia básica

ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado (notas para


uma investigação). In: ZIZEK, Slavoj (org). Um mapa da ideologia. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1996. (pp. 105-142)

Bibliografia complementar

ARON, Raymond. O Ópio dos Intelectuais. Brasília: UNB, 1980.


BELL, Daniel. O Fim da Ideologia. Brasília: UNB, 1980.
BOUDON, Raymond. A Ideologia: ou a origem das idéias recebidas. São Paulo:
Editora Ática, 1989, pp. 71-89.
GEERTZ, Clifford. “A Ideologia como sistema cultural”. In A Interpretação das
Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
SARTORI, Giovanni. A Teoria da Democracia Revisitada. São Paulo: Editora Áti-
ca, 2004, pp.299-324.

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Aula 4. Direito e ideologia no mundo contemporâneo

I. Ideologia no mundo contemporâneo

Considerando os subsídios teóricos de Althusser, Marilena Chauí expõe que:


“Através do Estado, a classe dominante monta um aparelho de coerção e de re-
pressão social que lhe permite exercer o poder sobre toda a sociedade, fazendo-a
submeter-se às regras políticas. O grande instrumento do Estado é o Direito, isto é,
o estabelecimento das leis que regulam as relações sociais em proveito dos dominan-
tes. Através do Direito, o Estado aparece como legal, ou seja, como ‘Estado de di-
reito’. O papel do direito ou das leis é o de fazer com que a dominação não seja tida
como uma violência, mas como legal, e por ser legal e não violenta deve ser aceita.
A lei é direito para o dominante e dever para o dominado. Ora, se o Estado e o
Direito fossem percebidos nessa sua realidade real, isto é, como instrumento para o
exercício consentido da violência, evidentemente ambos não seriam respeitados e os
dominados se revoltariam. A função da ideologia consiste em impedir essa revolta
fazendo com que o legal apareça para os homens como legítimo, isto é, como justo
e bom. Assim, a ideologia substitui a realidade do Estado pela idéia de Estado – ou
seja, a dominação de uma classe é substituída pela idéia de interesse geral encarnado
pelo Estado. E substitui a realidade do Direito pela idéia do Direito – ou seja, a do-
minação de uma classe por meio das leis é substituída pela representação ou idéias
dessas leis como legítimas, justas, boas e válidas para todos”. (Marilena Chauí. O
que é ideologia? São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 90-91)

Bibliografia Básica

BOBBIO, Norberto. Teoria geral do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007, pp.
03-24 (Capítulo I – O direito como regra de conduta).
LYRA FILHO, Roberto, “Ideologias jurídicas.” In: O que é o direito? São Paulo:
Editora Brasiliense, 1982, 17 ed., 2005, pp. 12-24.
WOLKMER, Antônio Carlos. Ideologia, Estado e Direito. 2. ed. São Paulo: Re-
vista dos Tribunais, 1995.
________. Fundamentos da História do Direito. Belo Horizonte: Del Rey, 1996.

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UNIDADE II – LIBERALISMO

Aula 5 e 6. indivíduo, Propriedade, liberalismo e igualdade

Caso: História do Sonho Real: Caso da Reintegração de Posse de uma área


ocupada por 4.000 famílias, localizada no Parque Oeste Industrial, Goiâ-
nia, em 2004

“Em maio de 2004, cerca de quatro mil famílias (14.000 pessoas) ocuparam
– construíram casas e barracos – uma área de 89 hectares localizada no Parque Oeste
Industrial, em Goiânia, abandonada há mais de 50 anos e utilizada, até então, para
desova de carros e cadáveres.
Apesar da inexistência de benfeitorias no local e do débito de cerca de dois mi-
lhões de reais em impostos à prefeitura, o judiciário local entendeu que ‘não hou-
ve desuso associado ao inadimplemento absoluto dos tributos capaz de induzir a
presunção de abandono do imóvel ou de desnaturação de sua função social’, o que
determinou em favor dos antigos proprietários a concessão de medida liminar para
a desocupação do imóvel.
Contudo, em ano eleitoral que era, os candidatos a prefeitos (Íris Resende e San-
des Junior) demonstraram publicamente apoio à ocupação e o governador (Marco-
ni Perillo) prometeu não usar violência contra os posseiros, o que, de fato, retardou
o cumprimento da ordem judicial.
Porém, sob pressão dos proprietários e do setor imobiliário temeroso frente à
organização dos sem-tetos, o governo do estado autorizou em fevereiro de 2005
a polícia militar a iniciar a operação ‘Inquietação’, que durante uma semana inti-
midou os moradores com sirenes, alertas durante a madrugada e bombas de efeito
moral, para em seguida produzir o desfecho com a operação ‘Triunfo’, que obteve
como saldo a desocupação total da área, mais 800 pessoas detidas, dezenas de feri-
dos e dois mortos.”
(http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/02/307174.shtml)

As noções e concepções de propriedade que estão em questão

A partir deste caso, podemos identificar claramente um conflito entre os sem-


tetos e os proprietários acerca do mesmo objeto – a gleba de terra localizada no Par-
que Oeste Industrial. Assim, pretendemos discutir os diferentes fundamentos que
sustentam tais posições. Como apoio, selecionamos algumas opiniões. Vejamos:

“A situação dos ocupantes é sim alarmante, porém não podemos deixar de lem-
brar que vivemos em um país regido por leis e estas devem ser respeitadas. Mesmo
que os moradores da invasão necessitem dessa área para morar, a lei assegura a pro-
priedade privada e, mesmo que nossa constituição não seja eficaz em todos os casos,
deve ser aplicada.” (Diuds 16/02/2005 03:19, www.midiaindependente.org)

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ideologias mundiais

“A vocês sensacionalistas...
(...) Primeiramente é válido lembrar que bem ou mal eles devem desocupar a
área, e se resistirem, a polícia tem o dever de agir com maior rigor, um policial foi
ferido enquanto cumpria seu dever, e aí vem uma série de indivíduos Estúpidos
(na minha opinião) apelando para os direitos humanos desses criminosos!!! Que
absurdo!!! onde estão os direitos humanos do proprietário do imóvel invadido, que
pagou pela propriedade, ou do policial ferido, que estava apenas cumprindo com o
seu dever???
Eles invadiram, agora arquem com as conseqüências.” (Rafael 15/02/2005 22:04,
www.midiaindependente.org)

Questões

• Por que o judiciário e a polícia têm o dever de proteger a defesa da propriedade?


• O que impede os posseiros da ocupação da área tal qual ela ocorreu?
• Em quais fundamentos se apóiam as opiniões? O que justifica a existência da
propriedade privada?
• Qual o fundamento para o direito pleiteado pelos proprietários? Qual o fun-
damento para a defesa da propriedade?
• Qual o contexto histórico da noção de propriedade na formação do Estado
moderno?
• Qual a relação entre indivíduo e propriedade?

I. Contextualização histórica do pensamento liberal

O primeiro sentido que se deu ao termo “liberal” foi para se referir a um tipo
específico de educação, abrangente e humanística, com largueza de espírito e tole-
rância – virtudes típicas do homem livre moderno. Mas ao lado desse, um segundo
sentido associava, de forma pejorativa, os liberais à libertinagem, à licenciosidade
sexual, ao desrespeito às normas morais e à tradição. O primeiro uso político do
termo foi feito na Espanha nos anos de 1810 a 1820 para designar os liberales, que
pregavam um reformismo radical, secular e republicano contrário aos interesses
dos monarquistas. Contudo, foram a Revolução Gloriosa Inglesa, 1680, a Revolu-
ção Americana, 1776, o Iluminismo e a Revolução Francesa, 1789, que determi-
naram as características e a difusão do liberalismo.
Um fator insigne a ser abordado é que a nova doutrina política foi construída a partir
dos pilares da consolidação dos Estados nacionais e da expansão do modo de produção
capitalista. E de modo a consolidar essa nova ordem, o movimento do constitucionalis-
mo cuidou de inserir os ideais liberais em normas positivas superiores, isto é, inscrever
direitos do homem e limites do Estado em Constituições escritas e rígidas.
Desse modo, será avaliado de que maneira o liberalismo delineou-se como uma
ideologia baseada na defesa e na promoção das liberdades e direitos individuais, na

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separação entre esfera pública e esfera privada, no contrato como expressão da von-
tade, na limitação dos governantes e, por fim, na soberania popular.

II. A influência do pensamento de John Locke

2.1 – Contraponto intelectual: Thomas Hobbes


2.2 – John Locke como o principal pensador fundador do liberalismo.

Dentre os principais aspectos destacar-se-á que, para Locke, originalmente os


homens viviam livres e harmoniosamente em um estado de natureza guiados unica-
mente pela Razão. Ou seja, todos os homens eram igualmente livres porque livres
uns dos outros, e iguais porque igualmente submetidos à superioridade de Deus e
igualmente dotados de razão própria. A razão, portanto, como essência da natureza
humana concedida por Deus era a única lei a que deviam se submeter os homens
em estado de natureza. Nesse sentido, tentar colocar outrem sob o seu domínio
constituía um ato contra a natureza humana – o mesmo que tratar um homem
racional como se fosse animal irracional. Para Locke, Deus não permitiu a superio-
ridade de uns sobre os outros, ao contrário, deu-lhes igual Razão e entregou-lhes em
comum todos os bens da natureza.
Dessa forma, “todo homem tem uma propriedade em sua pessoa”, ou seja, o in-
divíduo é soberano de si mesmo, o que faz com que “O trabalho braçal aplicado a
qualquer objeto que antes pertencia a todos torne esse objeto propriedade exclusiva”. Isto
porque “embora as coisas da natureza sejam dadas a todos em comum, o homem, senhor
de si próprio e proprietário de sua própria pessoa e de suas respectivas ações e trabalho,
tem ainda em si mesmo o fundamento da propriedade”1 (Locke). Tem-se, assim, um
outro ponto fundamental a ser trabalhando durante esta aula: a unidade conceitual
entre o individualismo e a propriedade privada.
A defesa dessa propriedade exclusiva evoca um dos pilares do liberalismo a ser
estudado nesta disciplina: cada homem detém pela lei da razão o poder executivo
de afastar qualquer tentativa de subjugação de sua pessoa ou de sua propriedade.
Contudo, em certo momento os indivíduos entram em consenso de que seria mais
cômodo entregar esse poder executivo a um ente criado unicamente para este fim,
nascendo, assim, o Estado. De fato um Estado limitado única e exclusivamente à
proteção da vida e da propriedade dos indivíduos. Isto é, os indivíduos concedem
ao Estado um poder executivo para este fim específico; caso o Estado desvirtue ou
viole os direitos naturais, deverá ser dissolvido e o poder retornar aos seus titulares
– os indivíduos. Portanto, o único fundamento legítimo para o poder do Estado é o
consenso dos indivíduos em lhe entregar o poder executivo para defender a liberdade
e a propriedade. Em outras palavras, o fundamento do Estado é uma concessão da
soberania individual em favor de uma comodidade na proteção da vida, da liberdade
e das posses individuais. 1
Locke, John, Two treatises
of civil government. London,
O pensamento de John Locke oferecerá a base para os principais fundamentos Everyman’s Library, 1966, pp.
117-241. Tradução de Cid Kni-
do liberalismo abordado durante o curso, quais sejam: o individualismo, os direitos pell Moreira.

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naturais, o Estado limitado. Nesta análise devem ser observadas simultaneamente


três dimensões:

i) Uma dimensão ético-filosófica preocupada em justificar os atributos da natu-


reza moral e racional do ser humano, tais como a liberdade, o individualismo
e a tolerância.
ii) Uma dimensão econômica, defensora da propriedade privada, da economia
de mercado, do controle estatal mínimo, da livre iniciativa, etc.
iii) Uma dimensão político-jurídica que contribui para a formação dos institutos
do individualismo político, da representação política, da divisão dos poderes,
da descentralização administrativa, da soberania popular, dos direitos indivi-
duais, da supremacia da constituição e do Estado de direito (Wolkmer).

III. Individualismo e propriedade privada

Este tópico visa abordar o individualismo como o conceito-chave do liberalismo.


A natureza humana é apreendida a partir da seguinte premissa: “o indivíduo pre-
cede a sociedade”. Assim dito, para o liberalismo clássico o indivíduo encontra-se
confinado em sua própria subjetividade, a qual, por sua própria natureza, é invio-
lável. Por isso, o primeiro direito natural do ser humano é a propriedade sobre si
mesmo e sobre seu corpo – sobre os quais o único soberano é a razão do indivíduo,
sendo ilegítimas e contra a natureza toda e qualquer coação. “Ninguém pode impor
nada ao indivíduo”.
Mais tarde, desse raciocínio deduzir-se-á que as extensões do corpo também são
extensões da subjetividade do próprio indivíduo; portanto, será necessário estender
a inviolabilidade do indivíduo também para a propriedade destes objetos.
A partir destes fundamentos, correntes no século XIX, será avaliado o enten-
dimento de que “o propósito do homem é sua própria auto-realização e seria per-
vertê-lo sacrificar-se pelos outros, muito menos por uma entidade fictícia chamada
‘sociedade’”. Nesse sentido H. Spencer, em “The man versus the state” (1884) discor-
rendo sobre os direitos naturais dos indivíduos sobre/contra o Estado enfatiza que
“Promover os que não servem para nada à custa dos que servem para alguma coisa
é uma extrema crueldade”. Em paralelo, Humboldt, em “Limits of the state action”
recomenda que “O Estado deve abster-se de toda solicitude para o bem-estar dos
cidadãos e não ir além do que é necessário para a proteção e segurança dos cidadãos
contra os inimigos estrangeiros”.
A partir de tais proposições, será discutido em que sentidos e implicações a liber-
dade da razão individual – única soberana legítima sobre o indivíduo – é a condição
fundamental para a realização do homem, ao passo em que o Estado e toda forma
de coerção sufocam-no.

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IV. EXERCÍCIO: PESQUISAR OS Princípios liberais no ordenamento jurídico


brasileiro

Pesquisar os direitos naturais e os contornos do Estado de direito liberais expos-


tos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789 e na Declaração
de Independência dos EUA de 1776 foram amplamente recepcionados, ao menos
no plano formal positivo, nas constituições brasileiras.

Exemplo da questão da propriedade para discussão em classe:

“Medidas jurídicas a serem adotadas nos casos de risco de invasão, turbação


da posse e invasão”
(Orientações da União Democrática Ruralista)
[referências aos arts. do Código Civil de 1916]

Risco de Invasão

Ocorre o risco de invasão, quando se detecta qualquer ameaça, movimentação


de pessoas, veículos, acampamento nas proximidades da propriedade, etc. Nesse
caso, o proprietário deverá ingressar com Ação de Interdito Proibitório com Pedido
de Concessão de Liminar. Esse remédio jurídico tem amparo nos artigos 501 do
Código Civil e Artigos 932 e 933 do Código de Processo Civil.

Turbação da posse

Dá-se a turbação da posse quando a propriedade é atingida por pessoas que ma-
nifestam o objetivo de causar prejuízo, etc., furtando bens, destruindo cercas, etc.
Nessa hipótese, deverá o proprietário ingressar com Ação de Manutenção de Posse
com Pedido de Concessão de Liminar.

Invasão

Havendo a invasão propriamente dita, o proprietário após proceder as comuni-


cações de praxe, poderá fazer uso do seu direito ao Desforço Privado e Imediato,
previsto no artigo 502 do Código Civil, que assim estabelece: Art.502: O possuidor
turbado, ou esbulhado, poderá manter-se, ou restituir-se por sua própria força, con-
tanto que o faça logo.
Parágrafo único: Os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indis-
pensável à manutenção ou restituição da posse.
Não havendo a possibilidade jurídica do uso de tal prerrogativa, ou não sendo
esta opção do proprietário, deverá então ingressar com Ação de Reintegração de
Posse cumulada com Ação de Indenização por Perdas e Danos, com Pedido de Con-
cessão Liminar, com respaldo no artigo 506 do Código Civil e artigos 926 a 931 do
Código de Processo Civil.

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Medidas criminais

É comum nas ações de invasões de propriedade a ocorrência de diversos crimes,


os quais devem ser denunciados à autoridade policial mais próxima da propriedade.
Dentre os crimes que mais comumente se constata, pode-se citar:

Esbulho processório

Pena: 1 a 6 meses de detenção e multa, mais a pena correspondente à violência


(Código Penal, art.161, parágrafo 1º, alínea II)

Dano

Pena: 1 a 6 meses de detenção ou multa. (Código Penal, art.163) Se o crime de


dano for cometido com violência a pessoa ou grave ameaça, a pena é de 6 meses
a 3 anos, e multa, mais a pena correspondente à violência (Código Penal, art.163,
parágrafo único)

Incitação ao crime

Pena: detenção de 3 a 6 meses, ou multa. (Art. 286 do Código Penal)

Apologia de crime ou criminoso

Pena: detenção de 3 a 6 meses, ou multa (Art. 287 do Código Penal)

Quadrilha ou bando

Pena: Reclusão de 1 a 3 anos. A pena é dobrada se a quadrilha ou bando é arma-


do. (Art. 288 do Código Penal)

Incêndio

Pena: 3 a 6 anos de reclusão (Art. 250 do Código Penal)

Bibliografia Básica

HOBBES, Thomas. O Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2004.


LOCKE, John. “O segundo tratado sobre o governo civil”. In Dois tratados sobre
o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

Bibliografia Complementar

BOBBIO, Norberto. Locke e o Direito Natural. Brasília: Editora da UNB, 1997.

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Aula 7 e 8. Indivíduo, propriedade, liberdade e igualdade


(continuação)

Caso: Operações da polícia federal – escritórios de advocacia e caso Daslu

As recentes operações da polícia federal em escritórios de advogados, a prisão da


dona da butique Daslu e a conseqüente reação dos setores hegemônicos da sociedade.
Princípios liberais: inviolabilidade, legalidade, igualdade. Análise dos seguintes
textos:

“Retrospectiva 2005 – Invasão de escritórios foi momento grave para advocacia”

“Durante o ano de 2005, a Advocacia viveu um dos momentos mais graves de


sua história, com a invasão dos escritórios de advogados, amparada em mandados
judiciais genéricos, expedidos por alguns poucos juízes federais, que consideramos
ilegais e contra os quais a classe lutou, mostrando uma união excepcional. Cerraram
fileiras todas as entidades da Advocacia, OAB-SP, Aasp, Iasp e Cesa, as Seccionais da
Ordem em todo o Brasil e o Conselho Federal da Ordem, desembargadores oriun-
dos do Quinto Constitucional e cada advogado, individualmente. Todos unidos em
torno do mesmo propósito: combater esse desrespeito à Constituição Federal e às
prerrogativas profissionais. Nem nos tempos de chumbo do período militar éramos
alvo de tamanha violência. Invadir escritórios de advocacia é mutilar o Estado De-
mocrático de Direito.
Uma diligência da PF, amparada em Mandado de Busca e Apreensão, no escri-
tório da advocacia só seria admissível se o investigado fosse o próprio advogado e
desde que existisse justa causa para essa diligência, preservando os arquivos e o sa-
grado sigilo entre advogado e cliente. Como essas premissas não foram observadas,
essas diligências nada mais eram que invasões, amparadas em decisões genéricas,
que contrariam a Constituição Federal. A OAB-SP representou contra os juízes
federais na Procuradoria Geral da União, promoveu Ato de Desagravo aos colegas e
de repúdio às invasões, esteve com o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, e
com a direção do Tribunal Regional Federal da 3ª Região no sentido de fazer cessar
tais invasões, além de ter tomado medidas judiciais e legislativas. As invasões de
escritórios pararam no Estado e essa é uma vitória integralmente creditada à classe
que, em São Paulo, soma mais de 250 mil profissionais inscritos.”
Por Luiz Flávio Borges D´Urso
(Revista Consultor Jurídico, 18 de dezembro de 2005)

Célio Jacinto dos Santos – Delegado de Polícia Federal

“É reconhecido pela comunidade jurídica o trabalho do Dr. Durso à frente da


OAB/SP, assim como pelo ótimo relacionamento com os Delegados Federais, entre-
tanto, o nobre presidente continua empregando a expressão ‘invasão de escritório’.

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O que não é sabido e divulgado pela grande mídia é que a maioria dos advogados
presos nas diligências da PF, ainda continuam presos, exatamente porque não houve
invasão de escritório, mas, devido ao profundo envolvimento desses cidadãos com
a criminalidade econômica, senão os tribunais superiores já teriam colocado em
liberdade os advogados que cometeram graves desvios.
A OAB, assim como a imprensa e alguns setores com claros interesses no ar-
refecimento da atividade de apuração criminal da PF, está empregando processo
de estigmatização, de acusação, também, é uma faceta da dominação pelo insti-
tucionalismo, onde algumas instituições (setores da OAB, do MPF, da imprensa
etc.) se julgam donas da verdades e possuidoras de auréolas da divindade, e no caso
específico, a PF seria de somenos importância ou carregada de vícios, partidária da
ilegalidade e do arbítrio, com isso, tentam empreender uma dominação cultural.
Hoje, os criminosos de colarinho branco e a criminalidade organizada, já não agem
livremente, exatamente porque em algum momento um Policial Federal baterá em
sua porta, para isso, basta oferecer meios, estrutura, liberdade de ação e certamente,
a PF fará muito mais em 2006.”
18/12/2005 – 17:45
Disponível em http://conjur.estadao.com.br/static/text/35511,1

Criminalidade de butique – alguns humanos têm mais direitos do que os outros

Em 1940, Edwin H. Sutherland publicou um ensaio na American Sociological


Review intitulado “White-Collar Criminality” no qual tratava de um tipo de crimi-
nalidade até então muito pouco discutida na criminologia: a criminalidade econô-
mica, praticada por pessoas ocupantes de posições sociais de prestígio. A expressão
“colarinho branco”, uma alusão às camisas usadas pelos empresários, tornou-se en-
tão a marca do diferencial de classe nas ciências penais.
A recente prisão da dona da butique Daslu e a conseqüente reação dos setores
hegemônicos da sociedade aos supostos excessos da polícia federal é a prova cabal
de que há algo muito especial que difere a “white-collar criminality” ou, em uma
tradução livre, a criminalidade de butique, da criminalidade genérica encontrada
nas ruas das grandes metrópoles.
Tomemos a nota oficial da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo) sobre o caso:
“A prisão antecipada, sem sentença, seja qual for sua natureza, só pode ter lugar
para os infratores perigosos que ameaçam a ordem pública, que causam prejuízos
irreparáveis à sociedade e à própria segurança dos processos judiciais.”
A criminalidade de butique não é perigosa? Os criminosos ricos não ameaçam a
ordem pública? A sonegação de impostos não causa prejuízos irreparáveis à socieda-
de? Os empresários não têm maior chance de fugir do Brasil e, com isso, ameaçar a
segurança dos processos judiciais?
Quem afinal a FIESP considera um criminoso perigoso? O ladrão de carteiras,
de carros, de bancos? Quem é mais perigoso para a sociedade o ladrão ou o sonega-
dor? Quem se apropria do dinheiro privado ou do dinheiro público?

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Segue a nota afirmando que:


“O combate à criminalidade não pode prescindir do respeito ao Estado de Direi-
to, sendo inadmissível que alguém possa ser preso, ou tenha sua residência, escritó-
rio ou empresa violados sem que a segurança de sua prévia culpa esteja evidenciada
e que, pior ainda, seja essa prisão realizada de modo extravagante, com exibição de
algemas, com publicidade afrontosa, como um espetáculo pirotécnico, expondo o
cidadão à condenação pública, para todo o sempre.”
Todos os dias favelas e barracos são invadidos pela polícia sem que “a segurança
de prévia culpa” de quem quer que seja esteja evidenciada. Alguma vez a FIESP
divulgou nota oficial sobre isso? Todos os dias ladrões e traficantes são presos, alge-
mados e levados à delegacia onde são exibidos em cadeia nacional de televisão para
alívio dos “homens de bem”. Isso nunca incomodou os empresários da FIESP?
O que incomoda à FIESP e à maioria dos que levantaram suas vozes para de-
fender os direitos da empresária não é propriamente o desrespeito aos direitos do
acusado, mas a prisão de alguém de sua classe social. O que incomoda é saber que
sonegação de impostos é crime e que, pelo desencadear dos fatos, muitos colegas
podem acabar em situação semelhante. O que incomoda é a perda da imunidade
penal de uma classe, representada simbolicamente por esta prisão.
Enquanto a mídia se limitava a cobrir as ações policiais em favelas, reafirmando
o estereótipo do pobre bandido, a FIESP nunca se indignou com a “pirotecnia” das
reportagens. Bastou os colarinhos-brancos e as roupas de butique fazerem um breve
desfile nas delegacias de polícia, para que novos paladinos dos direitos humanos
pululassem pelo empresariado.
A criminalidade de butique não incomoda aos ricos, pois não derrama sangue,
não se esconde nos morros e, principalmente, não gera medo. Mesmo quando noti-
ciada na imprensa, seus personagens não são marginais, bandidos ou muambeiros.
São empresários; quase cidadãos de bem. A criminalidade de butique quase não é
crime.
Parafraseando Orwell: “todos têm direitos humanos, mas alguns humanos têm mais
direitos do que outros.”
Revista Consultor Jurídico, 15 de julho de 2005
Por Tulio Lima Vianna.
Disponível em http://conjur.estadao.com.br/static/text/36297,1

Sonegar é preciso?

“Mercadorias importadas que não pagam impostos ao entrar no país têm um


nome: muamba. A diferença das muambas vendidas na Daslu e as comercializadas
pelos camelôs nas ruas de São Paulo é que as ‘dasluzetes’, como são chamadas as
vendedoras da loja, não são perseguidas e espancadas pela polícia. Pelo contrário,
servem à mais ‘fina’ elite do país. Daí a indignação dos políticos em Brasília ao to-
marem conhecimento da detenção da proprietária da Daslu.
O senador e presidente do PFL, Jorge Bornhausen, reagiu com extrema indig-
nação. O ‘coronel’ e também cliente Antônio Carlos Magalhães foi mais longe e

FGV DIREITO RIO 33


ideologias mundiais

chegou a chorar ao falar por telefone com a contraventora presa. Diversos telejor-
nais chegaram a criticar no ar o que chamaram de ‘abuso’ da polícia federal. A OAB
e o presidente da Fiesp, o petista Paulo Skaf, também criticaram a ação da polícia,
como se o crime fosse prender os bandidos, e não propriamente praticar o crime.
Essa tremenda intranqüilidade da mídia, políticos e empresários encontra ex-
plicação na seguinte fala do presidente do PSDB, o senador Alberto Goldman:
‘Essa prisão pode gerar uma crise econômica. O empresário vai dizer: para que
vou investir no Brasil se posso ser preso?’. Ou seja, empresário sonegar imposto é a
regra. Impedir isso levaria, segundo essa lógica, o país a uma crise econômica. Esse
escândalo explicitou de forma ainda mais aguda a institucionalização da corrupção
não só entre os políticos, mas entre a burguesia brasileira.”
Centro de Mídia Independente (http://www.midiaindependente.org/eo/
blue/2005/07/322934.shtml)

Prerrogativas da advocacia – Câmara aprova projeto sobre inviolabilidade de escritório

“A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou nesta


quarta-feira (7/12) o Projeto de Lei 5.245/05, que reforça a garantia ao advogado da
inviolabilidade de seu escritório e protege o sigilo de documentos de seus clientes.
Como tramita em caráter conclusivo, a proposta segue agora para o Senado sem que
precise passar pelo Plenário da Câmara.
De autoria do deputado Michel Temer (PMDB-SP), o projeto foi apresentado
em maio passado, no auge da polêmica das invasões de escritórios pela Polícia Fede-
ral. O relator, deputado Darci Coelho (PP-TO), emitiu parecer favorável ao texto,
que modifica o Estatuto da Advocacia – Lei 8.906/94.
A proposta limita as ordens de busca e apreensão em escritórios aos casos em que
há indícios de crime praticado pelos próprios advogados. Pelo texto, o mandado
tem de ser ‘específico e pormenorizado, a ser cumprido na presença de representan-
te da OAB, sendo, em qualquer hipótese, resguardados os documentos, as mídias
e os objetos pertencentes a clientes do advogado averiguado, bem como os demais
instrumentos de trabalho que contenham informações sobre clientes’.
O dispositivo atende a uma das principais reclamações dos advogados, de que
invasões de escritórios têm sido baseadas em mandados genéricos, que não especi-
ficam o objeto da busca.
O projeto de lei também detalha o que são os instrumentos de trabalho dos ad-
vogados: ‘todo e qualquer bem móvel ou intelectual utilizado no exercício da advo-
cacia, especialmente seus computadores, telefones, arquivos impressos ou digitais,
bancos de dados, livros e anotações de qualquer espécie, bem como documentos,
objetos e mídias de som ou imagem, recebidos de clientes ou de terceiros’. (www.
conjur.com.br).

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I. A idéia de liberdade e de igualdade para o liberalismo e suas implicações

A liberdade será analisada no curso como um dos conceitos fundamentais para o


liberalismo, seja ela negativa (abstenção de ser molestado), seja ela positiva (necessi-
dade de condições para o seu exercício). Para os liberais clássicos o homem é “livre”
quando “livre de coação” sobre sua pessoa ou sobre sua propriedade. Sendo o fim
último o pleno desenvolvimento individual, a coação surge como a imposição de
uma razão sobre outra, isto é, contraria a natureza humana que é de ser igualmente
livre e dotada de razão.
Como é sabido, o liberalismo surge para a contestação do absolutismo, o que o
leva a identificar o Estado como o principal violador dessa liberdade. Mas uma vez
definido que o Estado é um “mal necessário”, será importante distinguir entre a re-
pressão justificável e a repressão injustificável. Uma possível hipótese para discussão
pode ser enunciada nos seguintes termos: entendendo que o Estado foi criado com
a função única de proteger o exercício da liberdade individual, o exercício da liber-
dade de um indivíduo não pode se fazer às custas da liberdade dos outros. O que
implica dizer que será justificável intervir na sociedade e sobre o indivíduo quando,
para o exercício de sua liberdade, injustificadamente, coagiu/reprimiu a liberdade
de outros indivíduos (VICENT, 1995:50-51).
Um outro e fundamental aspecto da liberdade a ser abordado no curso consiste na
reflexão a cerca da livre iniciativa econômica. A economia, segundo os pressupostos
liberais, deve estar orientada para a satisfação dos interesses e para o desenvolvimento
do indivíduo. Adam Smith, cujas idéias foram apropriadas pelos liberais, acreditava
que havia um deísmo otimista controlando os eventos aleatórios do mercado – a
mão invisível do mercado. Assim, a economia de livre mercado consistiria em um
espaço regrado pelo próprio mercado no qual se sobressairiam os mais capacitados,
os mais disciplinados. Essa ordem do livre mercado seria quebrada tão somente pela
constituição de monopólios ou pela regulação estatal, os quais inviabilizariam a livre
circulação dos agentes econômicos e restringiria a autonomia da vontade.
Com base nos pressupostos da liberdade acima enunciados, contrários a qual-
quer tipo de coação sobre o indivíduo, surge a indagação, objeto de debate em sala
de aula: a economia deve ser compreendida sem qualquer ente regulador ou repres-
sor do livre desenvolvimento do indivíduo? Será abordada a premissa da “mão invi-
sível do mercado”, que reitera a harmonia original do estado de natureza. Por outro
lado, os monopólios e a regulação estatal consistem em atentados contra a natureza
individual – liberdade de iniciativa e autonomia da vontade?
Neste ponto, discutir-se-á o pressuposto operacional da liberdade econômica, a
idéia de contrato, ou seja, a conjunção entre a livre iniciativa e autonomia da vontade.
Assim, indivíduos, porque considerados iguais perante o ordenamento (igualdade
formal), podem livremente expressar sua vontade (livre iniciativa) de se vincularem
mutuamente segundo as regras formuladas pelas partes (autonomia da vontade).
Destacar-se-á que as razões históricas do liberalismo explicam os contornos de
sua teoria econômica: as revoluções burguesas lutaram basicamente contra os víncu-
los estamentais e os obstáculos de circulação comuns à época feudal.

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Será importante refletir acerca da famosa expressão absenteísta “laissez faire”, que
não foi propriamente uma criação dos liberais; mesmo os mais ortodoxos advoga-
vam que a intervenção do Estado seria necessária sempre que a liberdade de mer-
cado estivesse ameaçada. Nessa linha, Keynes se tornou um dos principais econo-
mistas ao propor, em um momento de crise cíclica, a necessidade de supervisão do
Estado na economia de mercado a fim de aumentar a eficácia do sistema capitalista
por meio de um rol de medidas, dentre elas a redução do desemprego e da pobreza
através de obras públicas, a distribuição de títulos de propriedades, o estímulo à
poupança, tributação mínima, etc. – auxiliando, dessa forma, e temporariamente, o
sistema capitalista a usar toda sua capacidade ociosa.

II. Justiça, individualidade e inviolabilidade

Abordagem do debate liberal sobre o que prevalecia: a crença na soberania indi-


vidual e na inviolabilidade de sua individualidade. Surge uma questão fundamental
a ser refletida:
Para a realização plena do homem bastava a não interferência do Estado ou de
outrem na esfera privada do indivíduo? Se for o caso, a igualdade concebida pelos
liberais foi uma igualdade abstrata e formal, ou seja, bastava a idéia da igualdade
jurídica dos indivíduos para que cada qual, segundo suas capacidades e sua própria
razão, buscasse a felicidade? Debate entre os alunos sobre a questão.
Outro aspecto crucial a ser investigado durante a aula diz respeito aos critérios
distributivistas. Tais critérios são vistos como um arbítrio do Estado contra a nature-
za das coisas na medida em que impunha uma razão de um homem sobre todos os
demais? Spencer é mais enfático ao discorrer sobre a justiça, para ele “os incapazes,
os ociosos e os fracos deveriam ser eliminados, pois poupá-los, distribuindo-lhes recursos é
um paternalismo inoportuno e uma inversão do processo evolucionista” (apud VICEN-
TE, 1995:52). Aqui será abordada a questão fundamental da influência neolibera-
lista para a conceituação de justiça distributiva.

III. EXERCÍCIO: PESQUISAR OS Princípios liberais no ordenamento jurídico


brasileiro

Bibliografia básica

LOCKE, John. “O segundo tratado sobre o governo civil”, In Dois tratados sobre
o governo. São Paulo: Martins Fontes, 1988, pp 379-405.
SARTORI, Giovanni. A Teoria da Democracia Revisitada, vol. 2. São Paulo: Edi-
tora Ática, 1994, pp 59-106.

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ideologias mundiais

Bibliografia complementar

ANDRIOLI, Antonio Inácio. A ideologia da “liberdade” liberal. Revista Espaço


Acadêmico. Disponível em <www.espacoacademico.com.br>.
VICENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1995, pp. 33-64.

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Aula 9. Estado e democracia

I. Liberalismo: uma doutrina do Estado limitado?

Um primeiro aspecto é mostrar que as raízes da concepção de Estado liberais


confundem-se com o movimento do constitucionalismo, uma vez que este elabora
os princípios e mecanismos jurídicos que irão limitar a esfera do Estado para que
suas ações estejam voltadas unicamente para a proteção da liberdade e da proprie-
dade privada, conforme foi expresso no artigo 2º da Declaração dos Direitos do
Homem e do Cidadão de 1789: “A finalidade de toda associação política é a conser-
vação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são: a liberdade, a
prosperidade, a segurança e a resistência à opressão”.
Assim posto, discutir-se-á como o Estado surge quando os indivíduos consen-
tem em ceder parcela de sua soberania a um ente que terá como único fim lhes
proteger contra os ataques à sua individualidade e à sua propriedade. Um aspecto
fundamental a ser abordado é o ápice do processo laicizante do Estado: rompe-
se, assim, com os fundamentos de soberania do Estado baseada no direito divino
dos reis, passando-se a entender que todo fundamento de legitimidade do Estado
encontra-se na sociedade. Aqui serão enfatizados os dois fundamentos do Estado
liberal: o contrato social e a soberania popular.
Comumente se diz que o liberalismo é uma doutrina do Estado limitado porque
é um Estado com poderes limitados – Estado de direito – e com funções limita-
das – Estado mínimo. No que toca à limitação de poderes, será avaliado como a
proposta liberal delineia, contraposto ao Estado absoluto anterior, um Estado de
direito submetido às leis gerais do país (como limite formal) e aos direitos naturais
fundamentais constitucionalizados (como limite material).
Para o funcionamento desse Estado de direito, avaliar-se-á como foram formula-
dos os mecanismos constitucionais de tripartição e controles recíprocos entres os poderes.
Assim sendo, o executivo é controlado pelo legislativo, cujos atos (leis) são monito-
rados por um poder jurisdicional independente dos outros dois poderes. Aqui será
promovido o debate se de fato desta forma tenta-se afastar o arbítrio estatal sobre a
liberdade individual.
Ainda neste tópico será levada em consideração a limitação das funções – Estado
mínimo –, os mecanismos de direito devem restringir a atuação do Estado às áreas
que assim foram consentidas pela soberania popular, quais sejam, a proteção da
vida, da liberdade e da propriedade – enfim, a proteção dos direitos individuais.
Será que tudo o que for para além desses objetivos será considerado ilegítimo e
causa para a dissolução do governo?
Todavia, será avaliado se o Estado de direito e Estado mínimo conformam ou não
uma unidade conceitual, conforme se pode constatar pela existência de modelos
de Estado de direito que não sejam minimalistas (como, por exemplo, o Estado
de bem-estar social) e de Estados mínimos que não sejam de direito (o Leviatã, de
Hobbes).

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ideologias mundiais

A propriedade, como visto, é compreendida como extensão do próprio corpo do


indivíduo e, portanto, sua proteção é pré-requisito do desenvolvimento da pessoa.
Por isso, discutir-se-á se é papel de uma sociedade liberal garantir a todos o acesso
à propriedade e a proteção jurídica contra possíveis turbações. Importante destacar
que garantir o acesso não quer dizer garantir o usufruto, uma vez que, para os libe-
rais, os frutos dependem exclusivamente da capacidade do indivíduo.

II. Democracia liberal

O padrão atual hegemônico da democracia liberal faz crer que haja uma interde-
pendência essencial entre esses dois termos. Será analisado se por liberalismo pode-se
compreender uma determinada concepção de Estado com poderes e funções limi-
tados – contraposto, pois, aos modelos absolutistas e de bem-estar social. Por outro
lado, por democracia há um entendimento que se trata de uma forma específica de
governo em que o poder não está monopolizado por um monarca ou aristocracia.
(Bobbio)
Há fortes argumentos de que os governos democráticos, porque mais limitados
e controlados, garantiriam mais os direitos naturais/fundamentais. Discutir-se-á se
é por essa via que os liberais tendem a aceitar a democracia como uma forma de
governo e passam a conceber os direitos políticos como uma extensão natural das
liberdades individual e civil.
Aproveitando-se do argumento que já era encontrado em Rousseau – de que a
democracia direta somente se viabilizaria em um Estado de pequenas proporções,
cujos cidadãos tivessem grande igualdade de condições e fortunas, costumes sim-
ples, sem nada de luxo –, os liberais concluem que a democracia representativa seria
a única possível nos Estados nacionais modernos. Desse modo, os liberais passam
a compreender que, não sendo possível a democracia direta, seria necessário eleger
representantes para o exercício efetivo do poder.
Com base em tais premissas, questionar-se-á se o modelo liberal converteu a
democracia – que para os antigos significava “governo do povo” – em uma forma de
governo em que o poder é delegado a um pequeno número de indivíduos de prova-
da sabedoria que estariam em condições de avaliar e gerir os interesses de todos os
cidadãos – isto é, converte democracia em oligarquia.
Dessa forma, ainda como parte deste debate, será indagado se os liberais man-
tiveram suas desconfianças quanto a um governo popular e, por isso, tornaram-se
férreos defensores do padrão representativo e do sufrágio restrito.
Segundo o sentido dado por Rousseau, a vontade geral, de fato, não seria a soma
das vontades individuais, mas, sim, um novo ente composto durante a deliberação
democrática. Porém, bem se sabe, os representantes eleitos não se vinculam aos seus
eleitores, mas, ao contrário, devem, teoricamente, expressar a vontade da nação. As-
sim, refletir-se-á se seria possível afirmar a criação de uma abstração chamada vontade
geral, que seria administrada pelo Estado e pelos representantes eleitos e serviria de
justificação dos atos da classe dirigente.

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ideologias mundiais

Dessa conjunção entre liberalismo e democracia, discutir-se-á a construção de um


novo padrão de igualdade mínimo necessário à democracia.
Ainda neste tópico será abordado o surgimento da corrente do neoliberalismo, a
doutrina política do liberalismo, compreendida apenas como um instrumental para
se realizar o liberalismo econômico – livre mercado, livre iniciativa, intervenção mí-
nima do Estado.

III. EXERCÍCIOS: PESQUISAR OS PRINCÍPIOS liberais no ordenamento jurídico


brasileiro

Bibliografia básica

BOBBIO, Norberto, Liberalismo e democracia. São Paulo: Editora Brasiliense, 7.


ed, 2000.

Bibliografia complementar

DAHL, Robert. Poliarquia. São Paulo: Edusp, 1999.


RAWLS, John, & HABERMAS, Jürgen, Debate sobre el Liberalismo Político. Bue-
nos Aires: Paidos, 1998.
SARTORI, Giovanni. A Teoria da Democracia Revisitada, vol. 2. São Paulo: Edi-
tora Ática, 1994, pp 34-58 e pp.145-184.

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ideologias mundiais

Aula 10. Liberalismo no Brasil

I. Questões para a discussão na perspectiva crítica da história

Somente depois da Revolução de 1930 e com um novo arranjo político das elites
é que foram reconhecidos os direitos sociais no Brasil. Discutir a máxima atribuída
às nossas elites: “façamos a revolução antes que o povo a faça”. O reconhecimento de
direitos sociais no período pós-1930 por governos populistas teriam a missão de
acalmar as massas?
Discutir o trecho de Florestan Fernandes que aponta como a causa da ineficiên-
cia revolucionária na América Latina o casamento de interesses das elites com os das
classes médias que portavam alguns ideais revolucionários.

“Excluindo-se Cuba, a experiência chilena e algumas manifestações verdadeira-


mente políticas da guerrilha, a América Latina foi o paraíso da contra-revolução (da
contra-revolução mais elementar e odiosa, a que impede até a implantação de uma
democracia-burguesa autêntica). (...)
Os partidos que deveriam ser revolucionários (anarquistas, socialistas ou comu-
nistas) devotaram-se à causa da consolidação da ordem, na esperança de que, dado
o primeiro passo democrático, ter-se-ia uma situação histórica distinta. Em suma,
bateram-se pela democracia-burguesa (...)
O diagnóstico correto, embora terrível para todos nós, é que nunca fizemos o
que deveríamos ter feito. Os “revolucionários” quiseram manter seus privilégios, ou
os seus meio-privilégios, sintonizando-se com as elites no poder e com as classes do-
minantes. Formaram a sua ala radical, sempre pronta a esclarecer os donos do poder
sobre o que certas reformas implicariam, para evitar uma aceleração da desagregação
da ordem e os seus efeitos imprevisíveis...
Não estou inventando. Voltamos as costas à organização da revolução e auxilia-
mos a contra-revolução, uns mais, outros menos, uns conscientemente, outros sem
ter consciência disso. E a “massa” da esquerda tem os olhos fitos no desfrute das
vantagens do status de classe média. O que ameaça esse status entra em conflito com
o socialismo democrático”.
(Florestan Fernandes. Apresentação. In: LÊNIN. Que fazer? SP: Hucitec, 1979)

II. Princípios liberais no Direito Brasileiro

Análise da adaptação das idéias liberais européias:

I. A estrutura política patrimonialista-conservadora – importada pelos filhos


da elite que se ilustravam na Europa.
II. A estrutura econômica escravista e agrária, próprias do Brasil.

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ideologias mundiais

Distinção entre o liberalismo europeu e o brasileiro:

I. Em sua origem européia, o liberalismo se apresentava como uma ideolo-


gia revolucionária, articulada por setores emergentes contra os privilégios da
nobreza e contra as relações econômicas feudais; enfim, inicialmente uma
doutrina política libertadora contra o absolutismo que, contudo, com o pas-
sar do tempo tornou-se conservadora na medida em que o proletariado lhe
ameaça os privilégios obtidos.
II. Contrariamente, o liberalismo no Brasil foi adaptado, desde sua chegada,
para servir como uma justificação racional dos interesses das oligarquias, dos
grandes proprietários, do clientelismo e do monarquismo. Isto se deve ao
fato de no Brasil não ter havido uma revolução burguesa tal qual ocorrera
na Inglaterra, nos EUA e na França que alterasse as bases sociais, políticas e
econômicas para o desenvolvimento do liberalismo.

Perspectiva Crítica: O paradoxo do projeto liberal brasileiro

Questões

a) Debate: Liberalismo X Patrimonialismo. Apesar de comportar uma proposta


de progresso e de modernização como caminho para superar o colonialismo,
aceitou a propriedade escrava e a estrutura patrimonialista de poder?
b) Liberalismo Conservador: Clientelismo? Indagação acerca de que se essa tensão
entre o liberalismo e o patrimonialismo resolveu-se pela via do liberalismo
conservador, via esta que conciliou a cultura do “favor” clientelista com a
cultura jurídico-institucional formalista, retórica e ornamental.
c) Polêmica a ser levantada na discussão: Se até 1822 os liberais no Brasil lutavam
mais propriamente contra o domínio português, e não contra as estruturas
econômicas e sociais, após a independência revestiram com argumentos ra-
cionais a fachada do absolutismo reformista vigente.

Proposta de debate

O liberalismo brasileiro pode ser identificado com os valores conservadores, eli-


tistas, antidemocráticos, antipopulares, mantendo as formas jurídicas autoritárias,
formalistas e ornamentais – enfim, o contrário do que se pretenderam os primeiros
liberais europeus?

FGV DIREITO RIO 42


ideologias mundiais

Bibliografia Básica

ALONSO, Angela. Idéias em movimento: a geração de 1870 na crise do Brasil-Im-


pério. São Paulo: Paz e Terra, 2002, pp.104-120.
Entrevista com Jacob Gorender. “Liberalismo e Escraviao” In Estudos Avança-
dos. vol.16 no.46 São Paulo Sept./Dec. 2002 (http://www.scielo.br/scielo.
php?pid=S0103-40142002000300015&script=sci_arttext)

Bibliografia Complementar

GOMES, Orlando, Raízes históricas e sociológicas do código civil brasileiro. São


Paulo: Martins Fontes, 2003.
WOLKMER. História do Direito no Brasil. Cap. 3. Rio de Janeiro: Editora Fo-
rense, 3 ed. 2005.

Links e sites

www.institutoliberal.org.br
http://www.liberal-social.org/principios
www.udr.org.br [depjurídico]
www.pl.org.br [institucional]
www.udr.org.br

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Aula 11. exercícios: reflexões, paralelos e ascendências do


liberalismo no Direito

I – Reflexões, paralelos e ascendências do liberalismo no Direito

Nas principais Ideologias Jurídicas

a. Positividade dos Direitos Naturais. Como exposto por LYRA FILHO, a bur-
guesia ao contestar o poder aristocrata feudal defendeu a existência dos di-
reitos naturais como sendo um direito legítimo acima das leis aristocráticas
que não lhe favorecia. Em outras palavras, disse que Direito é mais do que
a lei imposta pelo monarca. Contudo, uma vez conquistado o poder, a bur-
guesia passa a defender a ordem vigente que lhe é favorável, não admitindo
a existência de quaisquer outros direitos fora, além ou acima de seu próprio
“direito”. Desse modo, o que antes eram apresentados como direitos naturais
é reduzido à positividade da lei que é promulgada segundo seus interesses.
b. Duas etapas das ideais liberais: I. Num primeiro momento foram calcados
na pré-existência do indivíduo e de direitos naturais, o que levou a consi-
derar o Estado como mero mecanismo de proteção desses direitos. II. Em
um segundo momento, o liberalismo, enquanto a ideologia de uma classe
em ascendência, aproximou-se ainda mais do constitucionalismo de modo
a positivar, estatificar, os direitos naturais. Pode ser vista essa preocupação
como mais uma garantia (formal) concedida pelo Estado burguês aos direitos
naturais, ou como um estratagema de restringir a descoberta ou a leitura de
novos direitos naturais por outras classes.
c. Jusnaturalismo e juspositivismo. Neste quadro teórico se analisará de que for-
ma o liberalismo serviu-se tanto do jusnaturalismo quanto do juspositivismo.
O primeiro quando ainda era uma ideologia em ascensão, e o segundo quan-
do já hegemônico para sua manutenção. Esta dupla leitura dos direitos pode
ser exemplificada com os principais institutos jurídicos contemporâneos.

Exercício: Um exercício exegético e crítico dos direitos de personalidade e os direi-


tos individuais positivados e, em especial os referentes à liberdade e à propriedade:
a. No campo civil, observar os requisitos de validade do contrato e suas causas
de nulidade. Ainda observar as formalidades para aquisição da propriedade
imóvel, as formas de sua perda e os instrumentos processuais de proteção.
b. No campo criminal, observar a proporcionalidade entre os crimes contra o
patrimônio e os crimes contra a pessoa.

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UNIDADE III – SOCIALISMO

Aula 12. Origem e contextualização do socialismo

“Estou à espera, em dias não muito remotos, da maior mudança que já ocorreu
no âmbito material da vida, para os seres humanos no seu conjunto. Nos vemos
livres para voltar a alguns dos maiores seguros e tradicionais princípios da religião e
da virtude tradicional – de que a avareza é um vicio, a usura uma contravenção, o
amor ao dinheiro algo detestável. Valorizemos novamente os fins acima dos meios e
preferimos o bem ao útil. Honraremos os que nos ensinam a passar virtuosamente e
bem a hora e o dia, as pessoas agradáveis capazes de ter um prazer direto nas coisas,
os lírios do campo não mourejam nem fiam”. (John Maynard Keynes)

Caso: Fórum Social Mundial: a Reinvenção da Política

Exercício: pesquisar documentos do Fórum Social Mundial


Site para consulta: http://www.forumsocialmundial.org.br/

Tópicos para debate

• O Fórum Social Mundial: fim e começo das utopias


• Fim do socialismo e reinvenção da política
• Etimologia da palavra socialismo
• Socialismo revolucionário: materialismo histórico e luta de classes
• Conflito e divisão social do trabalho
• Social-democracia: Estado capitalista e objetivos socialistas

I. Origem e contextualização histórica do pensamento socialista

Etimologicamente, o termo socialismo tem sua origem em duas palavras latinas,


o que, inicialmente, já nos revelam dois sentidos. “Sociare” diz respeito ao comparti-
lhar, ao companheirismo, à comunidade. A segunda palavra latina, “societas”, refere-
se a indivíduos livres que firmam um contrato obrigando-se entre si.

Conceitos conexos abordados

Outros termos encontram-se intimamente ligados à ideologia do socialismo,


ainda que nem sempre propostos por pensadores ou em contextos socialistas. Veja-
mos alguns: a) o coletivismo consiste em uma estratégia de uso do Estado de forma
planejada e centralizada no controle da economia e da sociedade civil; b) comunis-
mo, termo que pode se referir i) a uma organização primitiva em que o consumo
era regulado de forma igualitária; ou ii) a uma etapa madura da revolução socialista,

FGV DIREITO RIO 45


ideologias mundiais

tal qual descrita por Marx, em que não haveria mais classes nem Estado; c) o termo
social-democracia está mais relacionado com a corrente do socialismo reformista que
propõe mudanças no Estado capitalista para se alcançar objetivos socialistas.

ii. a tipologia do pensamento socialista

Não se pode dizer que haja um e genuíno socialismo (nem mesmo o marxismo),
mas vários socialismos. Assim, propõe-se compreender as origens do pensamento
socialista a partir de grupos:

a) Socialismo utópico: associado a Saint-Simon, Fourier e Owen, pensadores


estes que tentaram descrever, minuciosamente, e de fato projetar comunidades alter-
nativas nas quais se superaria a exploração e imperaria a harmonia entre os homens.

b) Socialismo revolucionário – A contribuição de Marx: materialismo his-


tórico e luta de classes: aqui se apresentam as correntes de maior consistência
teórica e política, todas identificadas com o pensamento marxista. Partem de uma
análise histórica das sociedades, revelando que as condições materiais econômicas
conformam a base de todas as estruturas políticas e sociais e a própria consciência
humana. Ou seja, as relações de produção são os alicerces das superestruturas políti-
ca, jurídica e cultural. Nesse quadro, o Estado, como superestrutura, reflete a luta de
classes, conflito este que surge com a divisão social do trabalho, é reproduzido pelo
uso privatístico da propriedade privada e que encontrará seu termo final somente
com a derrocada revolucionária do capitalismo.
Como variante, temos as correntes “pluralistas” ou sindicalistas, que atribuem o
fracasso das experiências socialistas ao fato de se ter atribuído unicamente ao Estado
a missão de implementar o socialismo. Defendem que o socialismo só terá lugar a
partir de uma “pluralidade” de agentes, e não somente o Estado. Confia-se, então,
a missão implementadora às associações, grupos e sindicatos de trabalhadores. Aqui
temos Lênin (todo poder aos soviets), Gramsci (gestão sindical) e os anarquistas – to-
dos propondo uma revolução para além do Estado.

c) Socialismo reformista: surge de forma mais vigorosa no pós-1945 em uma


onda revisionista dos preceitos marxistas. Apresentando a social-democracia e o Esta-
do de bem-estar social como alternativas à revolução socialista, ou seja, pretende por
estas instituições alcançar os ideais socialistas apesar de em um contexto de econo-
mia de mercado e de Estado liberal. Nos anos 90, com o fim da era bipolar, a via re-
formista torna-se a opção hegemônica para a implementação de ideais socialistas.
O socialismo ético é uma variante do socialismo reformista que, contudo, colo-
ca ênfase na dimensão ética, melhor dito, não se é contra o capitalismo por se ele
ineficiente, mas porque é eticamente deficiente. Nessa visão, as reformas sociais via
os procedimentos democráticos não são suficientes para se alcançar os objetivos
socialistas. Para isso, defendem que a mudança moral precede qualquer forma de

FGV DIREITO RIO 46


ideologias mundiais

mudança política. Suas principais fontes teóricas estão no marxismo humanista e


no socialismo cristão.

d) Socialismo de mercado. Por fim, o socialismo de mercado, por contraditório


que possa parecer, entendeu, a partir do fracasso das experiências do socialismo re-
formista e do revolucionário no século XX, que o mercado tem um poder alocatório
melhor que o apresentado pelo Estado. Ou seja, acreditam que não sendo o capi-
talismo sinônimo de mercado, esse pode ser desacoplado dos objetivos capitalistas
e redirecionado para a distribuição mais igualitária dos bens. Têm uma profunda
desconfiança da ação do Estado e defendem que a tomada de decisão econômica
seja descentralizada. Associam a esta frente tanto as redes de solidariedade do coo-
perativismo comunitarista quanto os programas neoliberais de políticas compensa-
tórias e de responsabilidade social empresarial.

III. O ideário da igualdade

Talvez a unidade conceitual das diversas correntes socialistas esteja na busca por
igualdade. Segundo os pressupostos do materialismo histórico, a história humana
é marcada pelo conflito de classes, isto é, uma classe detém a propriedade privada
sobre os meios de produção e, com estes, explora todas as demais classes. Para o
findar essa exploração do homem pelo homem, os socialistas defendem a revolução
proletária e, pela ditadura do proletariado, a constituição de uma nova sociedade
baseada na igualdade, isto é, uma sociedade sem classes em disputa, sem a violência
do Estado ou do direito.
Contudo, é importante destacar que para os socialistas utópicos era possível a
constituição de uma nova sociedade sem exploração conciliando com a existência
de diferenças, hierarquias e classes desde que em uma ordem harmônica. Os valores
da ordem e da harmonia são, portanto, mais prioritários que a igualdade.
Marx assinala que os argumentos e reivindicações normativas por igualdade con-
sistiam em uma abstração ilusória do liberalismo burguês. Lembrava que em um
primeiro momento a luta proletária consistia na defesa dos salários. Contudo, pos-
síveis vitórias seriam sempre pontuais e efêmeras. Somente a partir de uma luta po-
lítica, organizada a partir do partido dos proletários, poderia fazer frente ao sistema
e ter suas demandas reconhecidas em uma nova estrutura econômica e política.
A igualdade comporta, ainda, outras concepções “socialistas”:
Para o socialismo de mercado, a igualdade pode ser um valor a ser defendido
porque aumentaria a eficácia do sistema alocatício dos bens: em um mercado mais
homogêneo o fluxo de trocas não tenderia a se acumular em um ponto em detri-
mento dos demais.
Para o socialismo ético a igualdade está associada à igualdade cristã das almas,
sendo todos criado em igual substancia, seríamos merecedores de igual considera-
ção. Ao lado, os socialistas com uma vertente culturalista defendem a igualdade em
outras dimensões para além da igualdade econômica material.

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ideologias mundiais

Por fim, mas fundamental, é o debate entre igualdade e liberdade. Haveria uma
relação causal entre ambas? Para alguns, a liberdade é condição (meio) para se atin-
gir a igualdade (fim); para outros, a liberdade somente se realiza quando pressupõe
a igualdade entre os homens.
Nesse quadro de idéias, qual é o papel da igualdade? Meio ou fim? Para os socia-
listas reformistas, a realização da igualdade (fim) não se pode fazer às custas da liber-
dade (meio). Contudo, para os revolucionários a liberdade é uma ilusão burguesa,
pois somente se é verdadeiramente livre (fim) se livre de exploração e dispondo de
igualdade material (meio).

IV. A propriedade para os socialistas

O segundo conceito estruturante do pensamento socialista é uma concepção


acerca da propriedade. Marx ensina que a origem do conflito de classes está na
divisão social do trabalho e, conseqüente, apropriação privada e exclusiva dos bens
de produção por uma classe, que os utiliza para a submissão e exploração de todas
as demais.
Por isso, para o fim da exploração do ser humano é preciso acabar com o funda-
mento dessa exploração, ou seja, acabar com a propriedade privada burguesa. As-
sim, o primeiro passo pós-revolução é a coletivização dos bens de produção, isto é,
orientar a reprodução material para o bem de todos e não de uma classe particular.
Ou seja, deve-se abolir a propriedade privada que é utilizada única e exclusivamente
para o proveito e acumulação individual.
Todavia, Marx lembra que “o que caracteriza o comunismo não é a abolição da
propriedade geral, mas a abolição da propriedade burguesa”. Por isso, nos estados
socialistas existem três tipos propriedades: a propriedade estatal, a propriedade co-
munal ou cooperativa e a propriedade pessoal – essa última garantida para os rendi-
mentos do trabalho, a casa e os objetos domésticos.

Bibliografia

MARX, Karl (1978). “Prefácio à contribuição para a crítica da economia políti-


ca” In Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural.
_________ (2004). O Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Boitempo.

Bibliografia Complementar

PIANCIOLA, Cesare. “Socialismo”. In: BOBBIO, Norberto et alli, Dicionário


de Política volume II. Brasília: Editora UNB, 2004
VICENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1995. pp. 93-103

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ideologias mundiais

Aula 13. SOCIALISMO, ESTADO e natureza humana

Caso: A devastação do Katrina. Desigualdade econômica, necessidade e


Estado

Depois da tragédia, a degradação da alma humana

A devastação do Katrina: crise social lembra obras como “Leviatã”, de Hobbes, e


“Ensaio sobre a cegueira”, de Saramago
Ausência de poder do Estado rompe sociedade organizada e deixa sobreviventes
à mercê da barbárie de seus semelhantes

Primeiro foram os saques a farmácias e lojas de conveniências. Remédios, água e co-


mida. Depois, começaram a aparecer caixas de cerveja abarrotando carros nas partes não
submersas de Nova Orleans. Em questão de horas, joalherias e bares do turístico Bairro
Francês passaram a ser o alvo. Começaram os casos de assaltos a casas abandonadas e a
pessoas. Relataram-se espancamentos. Nos centros que reúnem refugiados, como o estádio
Superdome, comida começou a ser roubada e, na sexta-feira, houve estupros. Helicópteros
dos bombeiros que tentavam resgatar pacientes num hospital sem energia elétrica foram
recebidos a tiros por assaltantes. No Centro de Convenções da cidade, seis esquadrões com
11 policiais cada um foram impedidos de entrar por bandidos armados.
À fúria da natureza, que varreu a costa de Louisiana, Mississipi e Alabama com
o furacão Katrina, seguiu-se um processo de degradação humana que, para muitos,
lembrou uma espécie de retorno ao estado de natureza, condição descrita pelo fi-
losofo político inglês Thomas Hobbes como a fase do ser humano anterior à orga-
nização social. Como no livro “Ensaio sobre a cegueira”, do escritor português José
Saramago, em que uma epidemia de cegueira lançou uma cidade no caos devido à
ausência de comando, cenas de vandalismo, banditismo e violência se multiplicam
e a vida em sociedade acaba, ou se transforma numa guerra.

“Necessidade do poder coercitivo do Estado”

“Durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de


mantê-los todos em temor respeitoso, eles se encontram naquela condição a que se
chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens”, es-
creveu Hobbes em seu livro “Leviatã”, publicado em 1651. “Desta guerra de todos
os homens contra todos os homens também isto é conseqüência: que nada pode ser
injusto. As noções de certo e errado, de justiça e injustiça, não podem aí ter lugar.
Onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei não há justiça. Na guerra,
a força e a fraude são as duas virtudes cardeais”.
Hobbes, no entanto, possivelmente se surpreenderia com os acontecimentos
numa das maiores cidades do país mais rico do mundo. No mesmo livro, ele afirma
que a Humanidade nunca passou pelo estado da natureza.

FGV DIREITO RIO 49


ideologias mundiais

Especialistas consultados pelo GLOBO afirmam que as interações humanas em


momentos de crise quando não existe um poder com força suficiente para se impor
podem degenerar-se.
– É a lei do mais forte. O poder coercitivo deixou de existir. A sensação de im-
punidade permite que as pessoas tentem satisfazer seus desejos mais imediatos. Por
que deixar de beber cerveja? O dono da mercearia está morto, não há policiais para
impedir – disse Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da UFF.
– Isso mostra a necessidade do poder coercitivo do Estado.

Desigualdade econômica alimenta crise da sociedade

Gonçalves ressalta que, ao contrário do que está ocorrendo nas áreas afetadas, a
população americana está demonstrando solidariedade, doando alimentos, roupas
e dinheiro.
– Onde o Estado continua organizado, a sociedade está disciplinada, há senti-
mento de solidariedade e compaixão. Agora, onde não há Estado, as paixões vêm
à tona. Essa história que vemos nos filmes, primeiro idosos e crianças, isso não
existe.
O sociólogo José Vicente Tavares dos Santos concorda com o fato de a ausência
da coação institucional tornar possível cenas como as de Nova Orleans, e cita como
exemplos as greves policiais em alguns estados brasileiros em 1997, 1999 e 2001,
ou mesmo áreas carentes do Rio.
– Isso mostra uma crise das relações sociais na sociedade contemporânea. A falta
de controle social democrático permite que apareça uma latente crise das relações
sociais. O único recurso passa a ser um Estado policial, que é contrário à democra-
cia, ao contrato social no qual o cidadão delega poder – critica ele.
Tavares dos Santos, presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia,
diz que há uma crise da sociedade contemporânea, provocada não apenas pela po-
breza, mas principalmente pela desigualdade:
– Alguns chamam de modernidade líquida, são instituições como generosidade,
solidariedade se liquefazendo. Uma perda da herança do Iluminismo.
Tom Dwyer, sociólogo neozelandês radicado no Brasil, concorda, dizendo que o
fato de as pessoas se sentirem em desvantagem social é por vezes mais significativo
que a pobreza em si. Mas alerta para o fato de a tragédia não necessariamente pro-
vocar reações como a de agora.
– Não precisa ser assim. No apagão de Nova York em 1965, nada houve. Em
1977 houve outro apagão que teve resultado contrário. Na tsunami, não houve
registro de saques. No Iraque, os saques foram generalizados.
A afirmação de Dwyer foi muito usada durante a semana por pessoas envolvidas
na operação de resgate da tsunami no sul da Ásia.
– Estou enojada. Depois da tsunami, nosso povo, mesmo quem perdeu
tudo, queria ajudar os outros que estavam sofrendo – disse Sajeewa Chinthaka,
moradora de Colombo, no Sri Lanka, o país que, proporcionalmente, foi mais
afetado pelo maremoto, à agência Reuters. – Com o que está acontecendo

FGV DIREITO RIO 50


ideologias mundiais

agora nos EUA podemos ver facilmente onde a parte civilizada da população
mundial está.
Moacir Duarte, especialista em ações emergenciais da Coppe/UFRJ, diz que a
violência e a barbárie em Nova Orleans são exceção e não regra em grandes catás-
trofes, e talvez sejam reflexo da sociedade americana.
– Desde que o homem vive em sociedade a solidariedade, e não a barbárie, é a
norma em grandes eventos catastróficos. Se não fosse isso, não sobreviveríamos. O
que vemos em Nova Orleans é uma exceção, um provável sintoma do individualis-
mo característico da sociedade americana.
O Globo. 04/09/2005, Caderno Mundo, p. 39.

Questões

• “Onde não há poder comum não há lei, e onde não há lei não há justiça. Na
guerra, a força e a fraude são as duas virtudes cardeais”. (Hobbes). A barbárie
em Nova Orleans seria mais uma comprovação da guerra de todos os homens
contra todos os homens hobbesiana e do imprescindível poder coercitivo do
Estado?
• Qual seria de fato a origem da natureza humana? O homem é um ser social
ou egoísta? Há de fato uma natureza humana ou ela é uma construção so-
cial?
• A violência em Nova Orleans pode ser avaliada como reflexo da sociedade
americana?
• O fato de as pessoas se sentirem em desvantagem social é por vezes mais sig-
nificativo que a pobreza em si?
• Existe um valor social simbólico da propriedade?
• O ideário da igualdade. Interprete: “Desde que o homem vive em sociedade
a solidariedade, e não a barbárie, é a norma em grandes eventos catastróficos.
Se não fosse isso, não sobreviveríamos. O que vemos em Nova Orleans é uma
exceção, um provável sintoma do individualismo característico da sociedade
americana.”

i. Origem social da natureza humana

Os socialistas de modo geral têm uma visão otimista dos seres humanos; acre-
ditam na perfectibilidade humana, na possibilidade de aprimoramento moral dos
homens e na inevitabilidade do comunismo. Segundo o materialismo histórico, as
raízes da natureza humana estão na vida social, nas condições materiais históricas
comuns. Em outras palavras, o sujeito não preexiste em essência, mas é determina-
do, construído, pelos processos históricos materiais.
É importante de ser dito que o socialismo apresenta-se como uma doutrina
racional modernizadora, o que faz dela parte do projeto iluminista de explicar e

FGV DIREITO RIO 51


ideologias mundiais

transformar a realidade utilizando-se os princípios da razão, livre de superstição e


de tradição. Nesse sentido Engels, quando da morte de Marx, declarou que “assim
como Darwin descobrira a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx des-
cobriu a lei do desenvolvimento da história humana”. O que demonstra a pretensão
do pensamento socialista de descobrir as leis que governam a ação e a evolução
humana.

2. A concepção socialista de Estado

Para os socialistas utópicos o Estado, enquanto ente de organização social, poderia


ser substituído por uma administração pública, privada ou comunitária que eficien-
temente mantivesse a ordem e a harmônica entre os homens. A dimensão política
não era de todo importante; os objetivos do socialismo utópico estavam em garantir
uma vida digna sem exploração e com distribuição eficiente de bens.
Nos escritos de Marx, as condições materiais são primordiais, ou seja, são a base
das estruturas políticas e sociais. Assim o Estado é construído por e reflete o conflito
de classes da base material. O Estado, assim, é o instrumento que promove a opres-
são em favor da classe dominante.
O processo histórico dialético indicava que, com a revolução proletária, haveria
um Estado de transição, fadado logo em seguida a desaparecer. Pois sendo o Estado
e o direito superestruturas e meros instrumentos de dominação da classe dominan-
te, findo o conflito entre classes, igualmente findar-se-iam aqueles.
Marx e Engels tinham uma concepção negativa da política. E, uma vez definido
o Estado como instrumento de domínio da classe dominante, acreditavam que não
bastava a substituição de uma forma “má” por outra “boa”, mas só se resolveria o
problema do poder com a eliminação de qualquer forma de governo “político”.
Enfim, a extinção do Estado significava também o fim da política. Nesse sentido,
o mundo comunista seria um mundo puramente “econômico”, de distribuição e
fruição isonômica dos bens.
Um aspecto importante a ser avaliado é que a originalidade de Marx está em
denunciar que o Estado é tão somente um instrumento e é um instrumento que
serve à realização de interesses particulares de uma classe – e não interesses gerais,
como entendia o pensamento político até então. De Hobbes a Hegel, todos viam
o estado como a mais alta forma de convivência entre os homens. Para Marx, ao
contrário, o estado, longe de superar o estado de natureza é, num certo sentido, sua
perpetuação, enquanto é, como estado natural, o lugar do antagonismo permanente
e insolúvel. Assim, para abolir definitivamente o estado natural é necessário não
aperfeiçoar o Estado, mas aboli-lo.
Contudo, com o passar do tempo, tanto os teóricos quanto os políticos tende-
ram a confiar demasiadamente a missão socialista ao Estado, reduzindo, assim, a
proposta comunista ao tão só coletivismo dos meios de produção.
Uma questão fundamental diz respeito aos atores geradores do socialismo. Para
Marx, esse papel deveria ser desempenhado pela “classe trabalhadora”. Para Lênin,

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ideologias mundiais

haveria uma elite revolucionária de vanguarda que introjetaria a consciência revolu-


cionária na classe trabalhadora. Para Gramsci, haveria ainda um papel importante
a ser exercido pelos intelectuais engajados com a causa socialista: produzir uma ide-
ologia contra-hegemônica. Para Mao Tse Tung, seria o campesinato a classe revolu-
cionária. E para os reformistas, seria a burocracia especializada, os agentes internos
ao Estado.

Bibliografia:

MARX, Karl (1978). “Prefácio à contribuição para a crítica da economia políti-


ca” In Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural.
_________ (2004). O Manifesto Comunista. São Paulo: Editora Boitempo.

Bibliografia Complementar

BOBBIO, Norberto. Qual socialismo?: debate sobre uma alternativa. São Paulo:
Paz e Terra, 3 ed., 1983.
VICENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1995. pp. 103-120.

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ideologias mundiais

Aula 14. Socialismo e Democracia

Caso: A social democracia como fenômeno histórico (Adam Przeworski).

I. Socialismo e Democracia

A democracia não parece ser um tema central para o socialismo. Ao contrário,


considerada como uma superestrutura ou mais uma ilusão burguesa, há sérias des-
confianças quanto ao padrão representativo e legitimidade das decisões.
Contudo, para o socialismo reformista os avanços socialistas devem se dar por
meio da democracia representativa – processo eleitoral e reformas constitucionais
graduais – através da qual se torna possível conquistar o Estado e utilizá-lo com o
propósito de aumentar a eficiência social e econômica.
Nessa trilha foi concebido o Estado de bem estar social, um modelo de Estado
voltado para a garantia de níveis mínimos de renda, alimentação, saúde, educação.
Garantias que são asseguradas a todos os cidadãos, não como caridade, favor ou
boa vontade do governo, mas como um direito. Esses direitos sociais foram sen-
do reconhecidos e realizados conforme a democracia se alargava e possibilitava aos
movimentos sociais expor ao Estado e inserir no processo legislativo suas demandas
sociais.
Dois princípios guiam esse modelo: a universalidade e a interdependência. O
Princípio da Universalidade obriga o Estado a garantir a todos, independentemente
de seu status social, o mínimo existencial positivado como direitos sociais. O Prin-
cípio da Interdependência de direitos reconhece que sem a efetividade dos direitos
sociais prestacionais os direitos individuais não podem se realizar plenamente.
Contudo, esse tipo de intervenção estatal na melhoria das condições de vida da
sociedade sempre foi vista como ameaças ou obstáculos à livre iniciativa liberal. O
Estado não deveria, segundo os liberais, se imiscuir nos circuitos de produção e
de distribuição de bens. Contudo, foi exatamente por essa via que os reformistas
encontraram os meios para a realização dos ideais socialistas em uma economia de
livre mercado.
Todavia, para a garantia dos direitos sociais, o Estado cresceu desmensuradamen-
te e, a partir da década de 70, começa a apresentar déficits fiscais em decorrência dos
custos dos direitos sociais. Esse desequilíbrio contábil leva diversos Estados de bem
estar a restringir sua intervenção, de modo que, nos anos 80, ressurgem as propostas
liberais de reestruturação do Estado para minimizar a crise fiscal e reduzir os direitos
sociais. Desburocratização e desregulamentação tornam-se as palavras de ordem.
De conclusão, pode-se observar uma certa incompatibilidade presente no Estado
de bem estar social em atender simultaneamente as demandas da sociedade (direitos
prestacionais) e as demandas de mercado (economia livre).
Contudo, seguindo Bobbio, deve-se refletir que a experiência histórica mostrou
que um sistema socialista surgido de modo não-democrático (ditadura do proleta-
riado) não consegue transformar-se em um sistema político democrático, e igual-
mente mostrou que um sistema capitalista não se transforma em um socialista pela

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ideologias mundiais

via democrática de eleições e reformas legislativas – no máximo organiza-se como


um welfare state com prazo de validade determinado.
Enfim, propor a discussão: se por um lado a democracia capitalista é um método
para se barrar os avanços socialistas, por outro lado, a concentração de poder no
partido único torna extremamente difícil a realização da democracia nos Estados
socialistas.
Bobbio apresenta, ainda, a seguinte questão: a União Soviética teria sido um
estado socialista? Para os defensores do socialismo, certamente não, ou pelo menos
não plenamente. Porém, para os anti-socialistas, certamente o foi, e isso ratifica a
incompatibilidade entre democracia e socialismo.

II. Surgimento e consolidação das idéias socialistas no direito: positivação dos direitos
sociais

a. Positivação das demandas sociais. O socialismo tem por base o materialismo


histórico, o que por si só já explica a não pré-existência de direitos sociais fora do
processo dialético de luta de classes. Nesse sentido, as leis trabalhistas inglesas no
século XIX foram as primeiras legislações que recepcionaram os princípios socialis-
tas. Tais leis vinham reconhecer as demandas dos trabalhadores que reivindicavam
frente ao Estado absenteísta e ao mercado garantias mínimas de trabalho e de sobre-
vivência. Os trabalhadores, organizados em sindicato, utilizaram a greve como seu
principal instrumento de pressão; produção paralisada significava perda de lucros
para o capitalista e um risco de revolta contra o Estado.
Esses temores levaram a positivação das demandas sociais. Esse processo funcio-
nou como um acordo, mediado pelo Estado, entre a classe dominante e as classes
exploradas para a manutenção do status quo. A positividade das demandas tem o
condão de aferir legitimidade a exploração até que novas demandas se desenvolvam
e requeiram novos acordos, novos direitos.
b. Direitos individuais e direitos sociais. É importante contrastar as diferenças
entre os direitos individuais e os direitos sociais. Enquanto os direitos individuais se
caracterizam como “direitos subjetivos”, ou seja, uma garantia do indivíduo de po-
der-fazer oponível contra todos, observa-se que os direitos sociais são oponíveis tão
somente contra o Estado, mais especificamente contra o poder executivo, e muito
mais sob forma de pressão social do que em formas institucionalizadas.
Quando ameaçados ou violados os direitos individuais gozam de diversos insti-
tuições e instrumentos processuais de garantia. Todavia, não existem instrumentos
processuais tão facilmente manejáveis para os direitos sociais. Excetuam-se certos
direitos trabalhistas que podem ser interpostos no judiciário contra o emprega-
dor porque, aí, são facilmente reconhecidos os pólos passivo e ativo da demanda.
Quanto aos outros direitos sociais, somente por meio de ações coletivas podem ser
efetivados judicialmente contra o Estado e, mesmo assim, quando não prevalece o
princípio de discricionariedade do poder executivo.
Essa prevalência da discricionariedade do poder executivo transforma os direitos
sociais, muito das vezes, em normas programáticas – o que implica dizer que são

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ideologias mundiais

direitos dependentes da vontade política ou liberdade de escolha do executivo. Ora,


se os direitos sociais tornam-se dependentes da vontade política do governo perdem
sua natureza de direito. Ou são direitos, ou são benesses do Estado.
Essas diferenças podem ser explicadas em parte pelo fato de os direitos sociais
terem surgido como demanda dos movimentos sociais, ou seja, como um discur-
so contra-hegemônico. Contudo, mesmo quando positivados, as demandas sociais
não deixam de contrastar com a ordem jurídica, que foi estruturada primeiramente
pelos princípios liberais e posteriormente revista sob os princípios sociais.

III. EXERCÍCIOS: ANALISAR PRINCÍPIOS SOCIALISTAS NO ORDENAMENTO JURÍDICO


BRASILEIRO

Bibliografia básica

PRZEWORSKI, Adam. “A social-democracia como um fenômeno histórico”.


In: Capitalismo e social democracia. São Paulo: Cia das Letras, 1999. Cap 1
(pp 19 a 65)

Bibliografia Complementar

ELEY, Geoff. Forjando a Democracia: a história da esquerda na Europa, 1850


– 2000. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005.
CARONE, Edgard, Socialismo e anarquismo. São Paulo: Vozes, 1996.
DAVID, René, Os Grandes sistemas do direito contemporâneo. Trad. Hermínio
Carvalho. São Paulo: Marins Fontes, 2002.
GOMES, Orlando, Raízes históricas e sociológicas do código civil brasileiro. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.

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ideologias mundiais

Aula 15. Tradição Socialista e Política de Esquerda Hoje

Casos: A “esquerdização” da América Latina

Exercício: Analisar os movimentos atuais de esquerda na América Latina

Exemplo: O programa socialista hoje

Uma segunda proposta de trabalho pretende atualizar o programa político e os prin-


cípios socialistas delineados a partir do Manifesto Comunista. Para tanto, servirão de
subsídio dois movimentos convergentes na crítica aos efeitos perversos da globalização:
O “Movimento ao Socialismo”, corrente política boliviana que surge da base dos
movimentos sociais indígenas, avulta-se com a mobilização da população para a de-
posição dos últimos presidentes bolivianos e atinge prestígio interno e externo ao ele-
ger Evo Morales primeiro presidente indígena no continente americano. Em paralelo
para a análise, apresenta-se a Declaração Final da III Cúpula dos Povos da América
que, produzida em Buenos Aires em contraponto à Cúpula das Américas [reunião dos
chefes de Estado], serve de ponto de referência à vitória dos movimentos sociais na
luta pelo fim das negociações da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e for-
talecimento das propostas de uma ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas).

Princípios do “Movimiento al socialismo”


www.mas.org.bo

Declaración final de la III Cumbre de los Pueblos de America


http://www.cumbredelospueblos.org/article.php3?id_article=124

Questões:

• O que explica a recente virada política à esquerda na América Latina?


• Após um longo período de hegemonia neoliberal, a nova tendência esquer-
dista na América Latina seria o reflexo de lutas sociais comprometidas com
soberania e a integração regional?
• A esquerda quando no poder tem demonstrado moderação e bom senso?
Uma possibilidade de redesenhar o mapa político da América Latina?
• Democracia e socialismo: crítica ao livre mercado e ao capitalismo?
• Esta tendência de esquerdização teria demonstrado que os princípios estru-
turais do neoliberalismo – estabilidade macroeconômica, abertura da eco-
nomia, redução do papel do Estado e ajuste estrutural – comporta efeitos
destrutivos e regressivos?
• Apresentada como conseqüência inevitável e indesejável do caminho da recupe-
ração dos países, a pobreza seria, na verdade, uma produção deste receituário?

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ideologias mundiais

• Interprete: “A devastação neoliberal, imposta pela ditadura financeira, resul-


tou na explosão de insatisfação e revolta na região. O desejo de mudanças, de
superação do neoliberalismo, tem levado os “excluídos” a votarem em milita-
res rebeldes, em operários sindicalistas e em líderes camponeses. A frustração
desta esperança, entretanto, pode reverter a alentadora guinada à esquerda
da América Latina em luta por soberania, integração, democracia e justiça
social.”

I. Desafios ao socialismo

Um ponto unificador das vertentes do socialismo a ser abordado nesta aula con-
siste na crítica ao livre mercado e ao capitalismo. Em alternativa, propõem uma
economia planejada e centralizada pelo Estado, isto é, coletivismo. (livre mercado,
liberalismo, expansão capitalista, exploração do proletário X economia planejada, pro-
dução orientada para o bem comum, igualdade).
Se na antiguidade, a economia era considerada um conjunto de regras para go-
vernar bem a família, estando, pois, subordinada à política, na modernidade a eco-
nomia se emancipa da esfera política e, segundo o materialismo histórico, é deter-
minante da esfera política. Dessa forma, o ideal comunista de extinção do Estado
revela uma pré-compreensão de dispensabilidade da política – o Estado como mero
instrumento de dominação. Ou outras palavras, o ideal comunista de fim do estado
é também o fim da política. (Bobbio)

Bibliografia básica

ELEY, Geoff. Forjando a Democracia: a história da esquerda na Europa, 1850


– 2000. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005, pp 535-557.

Atividade Complementar

Leitura: George Orwell. Revolução dos bichos.

Links e sites

www.mst.org.br
www.vermelho.org.br
www.cut.org.br
www.psol.org.br

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Aula 16. exercícios: Reflexões, paralelos e ascendências


do socialismo no Direito

I. Reflexões, paralelos e ascendências do socialismo no Direito

Questões para a discussão na perspectiva critica da história.

1. A hegemonia do patrimonialismo, patriarcalismo e clientelismo, sob a for-


ma de um liberalismo conservador, adiaram o máximo possível o reconhe-
cimento dos direitos sociais no Brasil. Sabidamente o Código Civil de 1916
foi uma obra do liberalismo clássico associado ao patrimonialismo colonial
brasileiro.
Segundo as palavras de Clóvis Beviláqua, a regulamentação de serviços de-
veria se traduzir em “normas gerais e amplas para que dentro delas as classes
e os indivíduos desenvolvam livremente suas energias úteis”. Ou seja, dever-
se-ia respeitar os pressupostos do liberalismo: individualismo e liberdade de
contratar.
Após 86 anos, aprovou-se um novo Código Civil (2002). Teriam, então, sido
atualizado os institutos jurídicos sob a perspectiva dos ideais socialistas? Para
responder, observar comparativamente os seguintes institutos: propriedade,
contrato, família.
2. Compreender como o processo de democratização nos anos 80 como um
processo de afirmação de demandas sociais. Observar como os movimentos
sociais orientaram suas ações para a proposição de suas demandas à Assem-
bléia Constituinte como um passo para a institucionalização dos direitos
sociais.
3. Fazer um estudo em perspectiva dos estatutos aprovados na década de 90
como regulamentação dos artigos constitucionais. Estatuto da Criança e do
Adolescente, Lei da Assistência Social, Lei do SUS, Estatuto da Cidade, Es-
tatuto do Idoso, Código de Defesa do Consumidor, Lei de Diretrizes e Bases
da Educação, Lei da Reforma Agrária, etc.
4. Como se apresentam as demandas por direitos sociais? Quais as propostas de
mudanças rumo ao socialismo? Existe um projeto socialista, hoje? O sindica-
lismo ainda se apresenta como portador da ideologia socialista? Há partidos
políticos portadores de um projeto socialista para o Brasil?

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ideologias mundiais

Aula13:
Aula 17.Terminologia
Terminologia e espectro
e espectro

“Quando o“Quando
sistema oé sistema
injusto,ése
injusto, se quisermos
quisermos ser sérios
ser sérios temostemos
que que ser marginais.”
ser marginais.”
Roberto
Roberto Lyra FilhoLyra Filho

Caso: Tutte Bianche. O corpo como arma da desobediência civil


Caso: Tutte Bianche. O corpo como arma da desobediência civil

A desobediênciaCIVIL
A DESOBEDIÊNCIA civil ativa! Uma batalha inspirada nos zapatistas
ATIVA! Uma batalha inspirada nos zapatistas

“Os Tutte Bianche (macacão branco) chegaram a Praga para participar dos pro-
“Os Tutte Bianche (macacão branco) chegaram a Praga para participar dos protestos
testos contra o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM).
contra o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM). Centenas de
Centenas de jovens ativistas italianos dos Centros Sociais, da Associação Ya Basta,
jovens ativistas eitalianos
parlamentares dos Centros
até religiosos, Sociais, da
executaram Associação
novidades Ya Basta,
táticas parlamentaresci-
de desobediência
vil frente
e até à polícia
religiosos, checa, que
executaram lhes jogou
novidades gases
táticas e espancou com
de desobediência civil seus
frentecacetetes.
à polícia A
imaginação
checa, que lhespolítica
jogouegases
o trajee espancou
– ou a faltacomdele
seus– cacetetes.
destes globalifóbicos
A imaginação chamaram
política e a
atenção
o traje – dos
ou ajornalistas
falta dele –e destes
surpreenderam aos chamaram
globalifóbicos manifestantes de outros
a atenção países queeos
dos jornalistas
acompanhavam.
surpreenderam aos manifestantes de outros países que os acompanhavam.
DuasDuas forças
forças se se encontraram
encontraram corpo
corpo a corpo
a corpo na na ponte
ponte Nusle
Nusle de de Praga,cada
Praga, cadaumauma
defendendo
defendendo uma umaidéiaidéiadedemundo
mundo diferente.
diferente. De umDelado,
um lado, um contingente
um contingente de homensde ho-
e
mens e mulheres vestidos com trajes brancos, protegidos com
mulheres vestidos com trajes brancos, protegidos com espuma, cascos, máscaras
espuma, cascos,
máscaras antigases, escudos feitos com tampas de lixo e toda uma parafernália de
antigases, escudos feitos com tampas de lixo e toda uma parafernália de instrumentos
instrumentos dos mais incríveis, desde redes de gol coloridos até barreiras com câ-
dos mais incríveis, desde redes de gol coloridos até barreiras com câmaras de pneus.
maras de pneus. Do outro, um fosso de policiais uniformizados como Robocops e
Do outro, um fosso de policiais uniformizados como Robocops e protegidos com
protegidos com tanques lança-chamas, escudos e cacetetes. Um muro inquebrável
que bloqueava a passagem.
A polícia estava para proteger aos representantes dos poderes financeiros e eco-
nômicos do planeta. Os manifestantes questionaram a globalização em nome de
milhões de pessoas que sofrem suas conseqüências: fome, miséria e morte. No meio
das duas forças, um jovem passeava nu, com seu corpo tatuado com denuncias110 con-

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ideologias mundiais

tra o capitalismo selvagem, nos entremeios de cada choque.


No meio da batalha, don Vitaliano, pároco de Avellino, ajudava aos manifestan-
tes em suas tentativas para romper o cerco que protegia os milhares de delegados do
FMI e do BM.
‘Com os nossos corpos, com o que somos, viemos defender os direitos de mi-
lhões, a dignidade e a justiça. Ainda com a vida. Frente ao domínio total do mundo
que exercem os donos do dinheiro, somente teremos nossos corpos para protestar e
rebelarmos contra a injustiça’, disse.
Luca, porta-voz dos Tutte Bianche, anunciou ante aos jornalistas que chegaram
a Praga:
‘Não estamos armados, atuamos como cidadãos que colocamos em risco nossa
gente, para demonstrar que a democracia do FMI e do BM são os tanques e os
policiais armados. Não somos criminosos, eles reprimem os cidadãos que fazem
uso de seus direitos. Queremos demonstrar que é possível rebelar-se contra a ordem
utilizando como arma nossos corpos’.
Se como escreveu Foucault, o corpo é o objeto da microfísica do poder, se todo o
controle social e político exerce seu domínio sobre o corpo, se a economia de mer-
cado tem convertido o corpo a uma mercadoria, os Tutte Bianche têm convocado
a uma ‘rebelião dos corpos’ contra o poder mundial, reflete Sergio Zulián, um dos
organizadores.
Em meio às transformações que produzem a globalização e as mudanças tecno-
lógicas, frente à crise de alternativas ao modelo imperante, ante o debilitamento dos
Estados, os partidos tradicionais e as formas de fazer política clássicas, aparecem os
Tutte Bianche, que se autodenominam como zapatistas italianos. Este movimento
integrado por velhos militantes autônomos (ligados a Toni Negri), membros da
Associação Ya Basta, jovens dos centros sociais das principais cidades da Itália, gru-
pos ecologistas, camponeses e associações civis. Todos eles promovem uma forma
criativa de protesto, a desobediência civil ativa.
‘Mas, de onde saíram estes militantes com idéias que rompem os esquemas polí-
ticos tradicionais e aparecem disfarçados como se estivessem indo a um carnaval?’

A busca de uma nova linguagem.

‘Depois de Chiapas e Seattle, a desobediência civil se converteu numa referência


internacional, uma maneira de dizer a milhões de pessoas que queremos viver em
novas condições de sociedade, mas lutando’, afirma Federico Mariani, presidente da
Associação Ya Basta, um dos principais animadores da ação de Praga.
Ainda que a desobediência civil tenha sua história com Gandhi, a luta pelos
direitos civis nos Estados Unidos nos anos sessenta ou as expressões pacíficas de
protesto em todo o mundo, Federico Mariani explica que ‘depois de 1994 foi a
mudança. Os zapatistas fizeram uma grande contribuição com suas propostas de
construir uma nova política sem lutar pelo poder. Nós tentamos metabolizar a men-
sagem e as formas que propõe’.
‘Para nós – disse Mariani, que foi um dos 140 observadores italianos expulso de

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ideologias mundiais

Chiapas em 1998 –, foi um símbolo muito forte ver um exército de indígenas com
rifles brancos. Conhecer um exército que espera o momento de deixar de ser exército.
Gente que luta pelos direitos do seu povo. As mulheres zapatistas protestando frente
aos tanques podem equipar-se, em distintas condições, aos trajes brancos, os cascos e
escudos para proteger-se dos golpes e gases da polícia. Esse é nosso referente’.
‘A princípio discutíamos das experiências anteriores da ação direta, da sabota-
gem, da violência revolucionária. Concluíamos que nas novas condições da desobe-
diência civil utilizando nossos corpos como uma arma, pode liberar forças cidadãs
que já respondem aos velhos esquemas’, sublinha.
‘É uma maneira imaginativa – disse Mariani – de colocar o outro em um proble-
ma. Com métodos pacíficos de ação direta, a linguagem da violência fica do lado da
polícia, dos governos. As manifestações clássicas já não incomodam. Em mudança,
agora nós desobedecemos como cidadãos e eles reprimem, mas nos defendemos.
Isso chama a atenção da sociedade, que faz eco do nosso protesto.’
Federico Mariani conta que faz mais de um ano que começaram a praticar as
ações de desobediência civil.
‘Nos preparamos para resistir à polícia. Construímos escudos, máscaras antigás,
câmaras de pneus para utilizar como barreira e fizemos proteções para o corpo. Uti-
lizamos o corpo como uma arma de luta política’.
‘Chegou Seattle, e com ele veio a confirmação de um movimento renovador que
resgata a participação da sociedade civil, ainda que não tenha programa. Na Itália
até poucos anos, a luta de rua era um monopólio de uns ultras que praticavam
formas excluentes, grupos que queimavam carros e quebravam vitrines. A maioria
das pessoas se assustava por chegar a esse nível, incorporamos um fator novo, uma
forma de enfrentamento radical que supera as manifestações clássicas e que nos dá
a possibilidade de participação massiva com métodos seguros’, sintetiza Federico
Mariani.
Outro dos grandes êxitos – conclui Mariani:
‘É a participação dos jovens, que são conscientes de que sua intervenção, com seu
próprio corpo, protegido da violência da polícia, tem efeitos claros. O movimento
está crescendo. Este é um grande lucro, que todo mundo reconhece, a gosto de que
podemos tomar um trem para ir a Praga. Se nos abrem grandes espaços. Não é um
grupo político, é um movimento horizontal onde cada um que contribui ao debate
e a organização de uma maneira particular. Tudo se permeia, tem gente de todas as
idades, todos estão em possibilidade de compartilhar paritariamente. Se têm caído
esquemas antigos de vanguardas e dirigências’.

“Quando o mundo está à venda, rebelar-se é natural”

A primavera de Praga dos Tutte Bianche de Roma, Nápoles, Bolonha, Gênova,


Pádua, Milão e outras cidades foi intervir, milhares de corpos e mentes contra as
estruturas ilegítimas e inaceitáveis dos poderes internacionais. Nada os controla, a
nada rendem contas.
‘Fizemos de Praga a capital das alternativas ao modelo imperante, das reivin-

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ideologias mundiais

dicações para um futuro distinto, para um mundo novo’, escreveram os jovens


cabeludos, e punks dos Centros Sociais na Carta de Milão, um manifesto difun-
dido em Praga.
‘Os Tutte Bianche inspirados pelo levantamento indígena de Chiapas têm-se
lançado a uma nova reta para emergir do subsolo e assim introduzir-se na sociedade
para promover a autogestão e a auto-organização construídas nestes anos. Para pas-
sar da resistência a uma nova ofensiva sobre o terreno dos sonhos, dos direitos, da
liberdade, pela conquista do futuro hoje negado para as novas gerações’, sustenta.
Max, um jovem do Centro Social de Pádua, informa as ações contra os Mc
Donald’s em Veneza, Pádua, Roma e Milão, que fizeram para solidarizar-se com
José Bové, líder dos camponeses franceses que se opõe à globalização.
Massimo, vocalista do grupo de rock 99 Posse, surgido no Centro Social de
Nápoles, esteve em Praga com os Tutte Bianche para levar ‘nossa música e nossa
presença’. Posse tem participado em muitas jornadas em apoio a Chiapas, pela lega-
lização das drogas, contra o fascismo e contra a repressão aos imigrantes.
Orlando, do grupo Milk Warriors (guerreiros do leite), um grupo de ecologistas
de Milão, conta como fizeram em Praga performances pacíficas em frente ao Mc
Donald’s, com espigas de milho e uma bandeira com o emblema de uma vaca, para
protestar contra os alimentos transgênicos que essa empresa transnacional vende.
‘Queremos construir uma humanidade onde todos estejamos incluídos, onde
ninguém morra de fome, onde ninguém sofra injustiças’, comenta don Vitaliano,
o mesmo que participa da desobediência ativa que organiza concertos de rock e en-
contros no convento de San Miguel em Avelino, para manifestar-se a favor dos di-
reitos dos imigrantes, pela despenalização das drogas, contra a guerra e a repressão.
Vilma Mazza, da Radio Sherwood, estação de rádio independente com sede em
Pádua e que se difunde no norte da Itália, informa que a radio transmite ao vivo de
Praga os dias dos Protestos. ‘É nossa forma de informar do que se passava a todos os
que não puderam vir, mas que nos apóiam’.
Vilma, uma ativista veterana das lutas sociais na Itália nas últimas décadas, ex-
plica que o movimento dos Tutte Bianche abrange muitos setores aos quais nos são
comuns estes temas da globalização e seus efeitos na Itália.
Depois de mais de 20 anos organizando manifestações tradicionais, incluindo
algumas muito numerosas, revela que estas ações têm-se desgastado.
‘Por isso nos lançamos com os Tutte Bianche primeiro numa marcha pelos direi-
tos dos migrantes em 1999. Todos de branco enfrentamos a polícia. Mais de 10 mil
manifestantes permaneceram atrás, apoiando sem mover-se. Cada um participava
do seu lugar. Nós enfrentamos com formas defensivas, não ofensivas. Essa deso-
bediência civil abria o espaço para que participassem as pessoas que não queriam
enfrentar a polícia, mas cada um desafiou a polícia do seu lugar’, disse Vilma.
‘A partir daí – explica –, temos realizado ações para combater os efeitos do neo-
liberalismo em nosso país, desde fechar os campos de migrantes sem documentos
em Trieste, Milão, Bolonha (ao grito de ‘todos somos clandestinos’), a protestar
contra os cultivos de transgênicos em Gênova e Veneza; opondo-se à devastação do
ambiente (‘a terra é de todos, não das transnacionais’) e à exploração das mulheres

FGV DIREITO RIO 63


ideologias mundiais

e homens com a flexibilidade trabalhista e o emprego precário”.


‘Também temos aberto centros sociais como espaços solidários dos jovens. Te-
mos ocupado fábricas e edifícios velhos para alojar ali trabalhadores migrantes que
não têm casa. Também temos apoiado os refugiados de guerra albaneses e levamos
um barco até as costas da Albânia para exigir o fim das fronteiras e o respeito aos
direitos de todos’.
Outra das lutas que têm sido desenvolvidas ultimamente é contra a privatização
do transporte público e para que seja um serviço gratuito para estudantes, deso-
cupados e aposentados. De outro, uma carta para jovens menores de 30 anos que
garantisse o acesso a determinados serviços, à cultura e à diversão.
‘Assim como os desempregados franceses têm assaltado a Bolsa de valores de Pa-
ris, fomos capazes de caucionar uma nova modalidade de luta político-social mais
tradicional, falando a toda a sociedade, aumentando o conflito, invadindo canais de
comunicação, restituindo uma garantia a todos os excluídos de todas as cores que
hoje sentem a fragilidade do seu próprio futuro’, escreveram os Tutte Bianche em
seu manifesto de apresentação no ano passado.
A locutora e animadora da Radio Sherwood explica que na Europa milhares de
pessoas vivem excluídas, sem direitos, nem vida digna, por essa razão agora estão
promovendo ‘o direito ao salário universal de cidadão’. Isto é descrito num docu-
mento como ‘arma para agredir o novo milênio, a demanda ideal para colocar-se
na batalha pela redução de horário, para eliminar o trabalho precário, intermitente,
pelos direitos aos serviços e à qualidade de vida, pela redistribuição da riqueza, para
dar vida a um grande movimento de liberação de nosso ser. Falamos de um salário
e do acesso gratuito aos serviços fundamentais e à cultura, para todos’.
‘Estamos juntos àqueles que continuam a luta começada em San Cristóbal de las
Casas, Seattle e que chegou agora a Praga. Falamos dos direitos das pessoas sobre
as leis do mercado, do rechaço dos mitos de segurança pública, e falamos de uma
sociedade real, de participação horizontal, para decidir nosso destino’, foi uma das
mensagens que deixaram na reunião do FMI.
(http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2003/01/45152.shtml)

Questões

• Interprete: “No meio das duas forças, um jovem passeava nu, com seu corpo
tatuado com denúncias contra o capitalismo selvagem, nos entremeios de
cada choque: ‘Com os nossos corpos, com o que somos, viemos defender os direitos
de milhões, a dignidade e a justiça.’”
• O anarquismo seria uma forma de romper os esquemas políticos tradicionais?
• Seria uma forma de promover na sociedade a autogestão e a auto-organização?
• É possível passar da resistência a uma nova ofensiva sobre o terreno dos so-
nhos, dos direitos, da liberdade, pela conquista do futuro hoje negado para
as novas gerações, apenas com o uso de métodos pacíficos de ação direta?
• “Queremos construir uma humanidade onde todos estejamos incluídos,

FGV DIREITO RIO 64


ideologias mundiais

onde ninguém morra de fome, onde ninguém sofra injustiças.”


• Perspectiva Crítica. Anarquismo X Estado-Nação. A constituição dos Es-
tados-nações europeus: Um empreendimento político ligado à ascensão e
consolidação do capitalismo, sendo, portanto, expressão de um processo de
dominação e exploração?
• Para os anarquistas, é inconcebível que uma luta política pela emancipação
dos trabalhadores e pela construção de uma sociedade libertária possa se res-
tringir a uma ou a algumas dessas unidades geopolíticas às quais chamamos
países. Da defesa de um internacionalismo da revolução, que só teria sentido
se fosse globalizada?

I. Terminologia e origens do pensamento anarquista

Visa apresentar uma genealogia histórica da terminologia do anarquismo. O


anarquismo é um termo aplicado às correntes de pensamento que defendem em
comum uma forma de organização horizontal e libertária em substituição do Es-
tado e de toda forma de hierarquia e autoridade. A palavra tem sua origem no
grego an (sem, ausência) + arkhê (governo). Contudo, na linguagem comum, anar-
quia denota ora um modo de vida sem Estado, ora a desordem total, o caos, um
insulto.
Um aspecto a ser realçado é o primeiro uso do conceito de anarquismo, feito por
Pierre-Joseph Proudhon, em seu livro “Que é a propriedade? Uma investigação sobre o
princípio de direito e de governo” (1840). Desta obra, serão destacadas como aspecto
crítico as célebres frases:

“Toda propriedade é um roubo”.


Anarquia: “A ausência de um mestre, de um soberano”.

Até que ponto pode se interpretar a assertiva de Proudhon de que a propriedade


privada, sendo a exploração da força de trabalho de um homem sobre o outro, não
era outra coisa senão um roubo? Contra isso, propunha que cada pessoa deveria
comandar os meios de produção sobre os quais trabalha, substituindo a autoridade
do Estado e do capitalista por uma organização federalista de comunas governadas
por autogestão, sem um governo central.
Ainda neste tópico, serão avaliadas as origens do pensamento anarquista a partir
de três eixos de interpretação:

a) O anarquismo como uma disposição moral libertária, a-histórica, difusa e


universal inerente ao ser humano;
b) O anarquismo historicamente datado como um modo de vida próprio das
comunidades primitivas acéfalas;
c) O anarquismo visto como um produto tardio do Iluminismo e da Revolução
Francesa.

FGV DIREITO RIO 65


ideologias mundiais

O pensamento anarquista também pode ser visto como uma variante entre o
liberalismo e o socialismo. Com o primeiro se aparenta por ter como objetivo fun-
damental a liberdade, e com o segundo, segundo algumas correntes anárquicas,
por pressupor que a liberdade somente se realiza plenamente em uma sociedade de
iguais livre de autoridade.
Serão abordadas ainda duas fases expoentes do anarquismo:

a) A chamada fase áurea do anarquismo, dos anos 1880 a 1930, quando ocor-
reu a difusão da ideologia e várias tentativas revolucionárias: a guerra civil
espanhola em particular;
b) Um certo retorno do anarquismo nos movimentos de contracultura dos
anos 60.

II. O espectro do pensamento anarquista

Neste tópico apresentaremos as principais dentre as diversas variantes da ideolo-


gia anárquica:
a) Anarquismo individualista: muito próximo do liberalismo, tem como objetivo
a realização total da liberdade do indivíduo e de seu projeto de vida – ambos pree-
xistentes à sociedade.
b) Anarquismo coletivista: Seu principal defensor, Bakunine, propôs a coletiviza-
ção dos meios de produção e a distribuição segundo o critério do trabalho; acredita
em uma certa espontaneidade revolucionária, mas contrário ao cânon marxista.
Criticou o comunismo de Estado por ser uma proposta autoritária de socialismo.
c) Anarquismo comunista: acredita que a propriedade, a produção e a habi-
tação deveriam ser de domínio comum, e a distribuição dos bens obedecer ao
critério da necessidade de cada qual. Kropoktin, seu principal representante,
acreditava que a cooperação e a solidariedade eram sentimentos inerentes à con-
dição humana.
d) Anarquismo mutualista: acreditam que a organização política fundada no Es-
tado seria substituída por uma organização fundada nas relações econômicas. Ou
seja, os indivíduos se relacionariam através de contratos econômicos mútuos, exceto
no seio familiar, onde permaneceria a hierarquia patriarcal. Conhecido como “ga-
rantismo” ou “anarquia contratante” baseia-se na propriedade privada e no trabalho
por conta própria, sendo atingida uma sociedade justa quando todos tiverem igual
liberdade de contratar e cujos contratos forem respeitados. Filiam-se aqui os anarco-
capitalistas.
e) Anarco-sindicalismo: baseado no sindicalismo revolucionário comprometido
com a derrubada do Estado e do capitalismo, utilizando-se como principal instru-
mento a greve geral e propunham, como alternativa, uma forma de organização
social baseada em uma federação de sindicatos de trabalhadores.

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ideologias mundiais

III. Liberdade e igualdade: realização do anarquismo

Como já dito, a liberdade consistia em uma condição concreta para a realização


vital do ser humano e qualquer dever de obediência nesse contexto implicaria a
perda da autonomia. Logo, se o Estado representava o monopólio da coerção, da
violência, deveria ser abolido em nome da liberdade.

III.1. Liberdade negativa

Os anarquistas mais ortodoxos, individualistas, compreendiam a liberdade ape-


nas como uma dimensão negativa, tal qual os liberais clássicos. Ou seja, a liberdade
era um estado de ausência de coerção e de violência. E, por isso, a abolição do Es-
tado, principal fonte de coerção, significaria por si só um incremento da liberdade.
Tal conclusão descende de outra mais básica: se o indivíduo tem o direito absoluto
de posse sobre o seu próprio corpo, então ninguém é legítimo para poder coagi-lo.

III.2. Liberdade positiva

Já os anarquistas comunistas percebiam que a liberdade deveria incorporar uma


dimensão positiva, contudo, não atribuíam, claro, ao Estado tal função substantiva.
Assim, a liberdade implicava a ausência de coerção para que o indivíduo pudesse
perseguir a meta positiva na coletividade, não em um projeto particular de vida.
Quanto ao tema da igualdade, deve ser vista como derivada da premissa de que,
sendo os anarquistas contrários a toda e qualquer forma de hierarquia, dever-se-ia
compreender os indivíduos como em iguais em natureza. Serão avaliadas duas das
principais compreensões de igualdade.

III.3. Igualdade como condição da liberdade

Para os anarquistas coletivistas comunistas, a igualdade deveria ser substantiva e


como condição para a realização da liberdade. Kropotkin destaca que a igualdade
deve se fundar na igual satisfação de suas necessidades.

III.4. Igualdade formal

Em contraponto, os anarquismos individualistas satisfazem com a igualdade for-


mal, ou seja, um igual direito à liberdade de agir (contratar) sem ser coagido.

IV. Ação direta e desobediência civil

“Na luta pelos Direitos dos trabalhadores e trabalhadoras do campo não podemos
abrir mão do que nos dá força, que são as ocupações e a desobediência civil. Essas são for-

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ideologias mundiais

mas de exercer pressão para que os direitos básicos e fundamentais sejam respeitados”.
Foi assim que Dom Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra
encerrou sua intervenção no Encontro Nacional de Direitos Humanos, promovido
pela CPT, de 27 a 29 de agosto, em Goiânia.
Outro conceito fundamental no pensamento anarquista a ser discutido nesta
aula é o de ação direta, entendido como um método para a implementação da
revolução anarquista. Isto é, os próprios interessados na mudança promovem atos
que visem a abolição da coerção e autoridade e a realização da liberdade. Enfim, a
“ação direta” é o método revolucionário contraposto às correntes do reformismo
que propõem mudanças a partir dos mecanismos de Estado – eleições, representan-
tes, governo, lei, etc.
Como exemplos de ação direta, refletiremos acerca das seguintes manifestações:
greves, lockouts, bloqueio de estradas, sabotagens, boicotes – sempre associados
à desobediência civil. Contudo, há ações diretas construtivas como os mutirões,
voluntariado, etc.
Ainda serão abordadas duas formas essenciais de ação anarquista:

a) Revolução pacífica. Algumas correntes pregam a revolução pacífica, por meio


de ações diretas de mudança cultural e formação autônoma de comunidades
alternativas.
b) Revolução violenta. Outros propõem ações diretas como uma revolução vio-
lenta, o que seria o uso legítimo da violência libertária.

Desobediência: Virtude Original do Homem (Oscar Wilde)


Pode-se até admitir que os pobres tenham virtudes, mas elas devem ser lamentadas.
Muitas vezes ouvimos que os pobres são gratos à caridade. Alguns o são, sem dúvida,
mas os melhores entre eles jamais o serão. São ingratos, descontentes, desobedientes
e rebeldes – e têm razão. Consideram que a caridade é uma forma inadequada e ridí-
cula de restituição parcial, uma esmola, geralmente acompanhada de uma tentativa
impertinente, por parte do doador, de tiranizar a vida de quem a recebe. Por que
deveriam sentir gratidão pelas migalhas que caem da mesa dos ricos? Eles deveriam
estar sentados nela e agora começam a percebê-lo. Quanto ao descontentamento,
qualquer homem que não se sentisse descontente com o péssimo ambiente e o baixo
nível de vida que lhe são reservados seria realmente muito estúpido.
Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a deso-
bediência é a virtude original do homem. O progresso é uma conseqüência da de-
sobediência e da rebelião. Muitas vezes elogiamos os pobres por serem econômicos.
Mas recomendar aos pobres que poupem é algo grotesco e insultante. Seria como
aconselhar um homem que está morrendo de fome a comer menos; um trabalhador
urbano ou rural que poupasse seria totalmente imoral. Nenhum homem deveria
estar sempre pronto a mostrar que consegue viver como um animal mal alimentado.
Deveria recusar-se a viver assim, roubar ou fazer greve – o que para muitos é uma
forma de roubo.
Quanto à mendicância, é muito mais seguro mendigar do que roubar, mas é me-

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ideologias mundiais

lhor roubar do que mendigar. Não! Um pobre que é ingrato, descontente, rebelde
e que se recusa a poupar terá, provavelmente, uma verdadeira personalidade e uma
grande riqueza interior. De qualquer forma, ele representará uma saudável forma
de protesto. Quanto aos pobres virtuosos, devemos ter pena deles, mas jamais
admirá-los. Eles entraram num acordo particular com o inimigo e venderam os
seus direitos por um preço muito baixo. Devem ser também extraordinariamente
estúpidos. Posso entender um homem que aceita as leis que protegem a proprieda-
de privada e admita que ela seja acumulada enquanto for capaz de realizar alguma
forma de atividade intelectual sob tais condições. Mas não consigo entender como
alguém que tem uma vida medonha graças a essas leis possa ainda concordar com
a sua continuidade.
Entretanto, a explicação não é difícil, pelo contrário. A miséria e a pobreza são de
tal modo degradantes e exercem um efeito tão paralisante sobre a natureza humana
que nenhuma classe consegue realmente ter consciência do seu próprio sofrimento.
É preciso que outras pessoas venham apontá-lo e mesmo assim muitas vezes não
acreditam nelas. O que os patrões dizem sobre os agitadores é totalmente verdadeiro.
Os agitadores são um bando de pessoas intrometidas que se infiltram num determi-
nado segmento da comunidade totalmente satisfeito com a situação em que vivem
e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são necessários.
Sem eles, em nosso estado imperfeito, a civilização não avançaria. A abolição da
escravatura na América não foi uma conseqüência da ação direta dos escravos nem
uma expressão do seu desejo de liberdade. A escravidão foi abolida graças à conduta
totalmente ilegal de agitadores vindos de Boston e de outros lugares, que não eram
escravos, não tinham escravos nem qualquer relação direta com o problema. Foram
eles, sem dúvida, que começaram tudo. É curioso lembrar que dos próprios escravos
eles recebiam pouquíssima ajuda material e quase nenhuma solidariedade. E quan-
do a guerra terminou e os escravos descobriram que estavam livres, tão livres que
podiam até morrer de fome livremente, muitos lamentaram amargamente a nova
situação. Para o pensador, o fato mais trágico da revolução francesa não foi o de que
Maria Antonieta tenha sido morta por ser rainha, mas que os camponeses famintos
da Vendée tivessem concordado em morrer defendendo a causa do feudalismo.
(Extraído da Obra “A Alma do Homem Sob o Socialismo”, de 1891. Disponível
em www.culturabrasil.org)

V. A natureza humana: entre individualismo e coletividade

As diferentes vertentes do anarquismo não convergem acerca da natureza huma-


na; mas em geral, apenas coincidem em aceitar a imperfectibilidade humana e seu
caráter instável. Abordaremos basicamente duas vertentes:

a) Anarco-individualista. Uma primeira corrente de análise, os anarco-individua­


listas, compreende os seres humanos como seres autônomos, com seus pró-
prios projetos de vida independentes da sociedade. Tais defensores entendem

FGV DIREITO RIO 69


ideologias mundiais

que a verdadeira felicidade estaria no desenvolvimento da individualidade.


Somente o indivíduo poderia ser juiz de si mesmo e de sua utilidade. Tudo
que é comunal, que leva o indivíduo a pensar primeiramente na sociedade é
uma invasão da individualidade. A sociedade não é primordial ao indivíduo
e, assim, concluem: o indivíduo independe da sociedade.
b) Anarquismo. Já para uma outra vertente, anarquismo comunitarista, com-
preende os homens como seres comunitários, que perfazem sua liberdade
e sua subjetividade apenas em e por meio da comunidade. Esta tendência
defendida por Kropotkin conceitua a solidariedade econômica e a ajuda mú-
tua como naturais ao humano. Observando os animais, Kropotkin conclui
que o desenvolvimento só é possível em comunidade; por isso, seu otimismo
com as sociedades primitivas. Em outras palavras, a anarquia é natural a toda
forma de vida. “As formigas e os cupins renunciaram à guerra hobbesiana e se
saíram melhor.”

VI. Crítica do Estado: autoridade e ordem econômica

A unidade formal do pensamento anarquista está em buscar a libertação do ho-


mem de toda forma de poder superior, seja sobrenatural, política, econômica, jurí-
dica ou social. E sendo o Estado o principal órgão repressor, detentor do monopólio
da violência, deve ser abolido em favor da realização plena do homem.
Bakunine compreende que o Estado produz uma ordem econômica desigual e
autoritária, ou seja, inverte o modelo teórico de Marx para apontar que a superes-
trutura político-jurídica reproduz sua autoridade na infra-estrutura material.
A principal crítica anarquista ao Estado está na centralização e monopólio da co-
erção e da violência. Surge então a questão crítica: A existência de Estado implica a
exclusão da liberdade? Para muitos anarquistas o Estado é uma forma difundida por
intelectuais e sacerdotes para a negação da liberdade dos indivíduos. Assim, o Estado
constituía uma forma abominável de coletividade, uma fase brutal do desenvolvi-
mento humano. Kropotkin assinalava que o Estado não destruía o indivíduo, mas
sim todas as formas de organização social naturais e harmoniosas. Por isso a tarefa do
anarquismo estava em encorajar a reaparição dessas formas associativas naturais.
Discussão crítica da assertiva de Proudhon:

Ser governado é...


Ser guardado à vista, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado,
parqueado, endoutrinado, predicado, controlado, calculado, apreciado, censurado,
comandado, por seres que não têm nem o título, nem a ciência, nem a virtude (...) Ser
governado é ser, a cada operação, a cada transação, a cada movimento, notado, regis-
trado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, licenciado,
autorizado, rotulado, admoestado, impedido, reformado, reenviado, corrigido.
É, sob o pretexto da utilidade pública e em nome do interesse geral, ser submeti-
do à contribuição, utilizado, resgatado, explorado, monopolizado, extorquido, pres-

FGV DIREITO RIO 70


ideologias mundiais

sionado, mistificado, roubado; e depois, à menor resistência, à primeira palavra de


queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, acossado, maltratado, espanca-
do, desarmado, garroteado, aprisionado, fuzilado, metralhado, julgado, condenado,
deportado, sacrificado, vendido, traído e, no máximo grau, jogado, ridicularizado,
ultrajado, desonrado.
Eis o governo, eis a justiça, eis a sua moral!

VII. Anarquismo: novas bases para a organização política? Autogestão,


comunas e revolução social

Bakunine é enfático: “O Estado é a negação da humanidade!”. Os anarquistas


talvez tenham sido os pensadores que mais alternativas políticas construíram, talvez
precisamente por sua postura germinal contrária ao Estado. A partir de Bakunine,
avaliaremos:

a. A questão da anomia. Importante destacar que a negação do Estado não leva


ao estado de anomia (ausência de regras); ao contrário, os anarquistas refleti-
ram, e muito, sobre as novas bases organizativas da sociedade.
b. O livre medado. O anarco-capitalismo defende que grande parte dos serviços
hoje realizados pelo Estado poderia ser feita, e com maior eficiência, pelos
indivíduos em um contexto de livre mercado. Até mesmo os tribunais de
justiça e a segurança policial poderiam ser contratados no livre mercado.
c. Comunas descentralizadas. Os anarquistas comunistas alternativamente ao
Estado propõem comunas descentralizadas de pequena escala e federaliza-
das, a partir de grupos de afinidade e não hierárquicas. Kropotkin assinala o
caráter orgânico dessas comunidades.

Em outra direção, ainda será abordada a perspectiva defendida por Proudhon,


que sugere uma federação instituída a partir de contratos entre os indivíduos e
grupos, o que substituiria o governo. Não é contra a propriedade privada em si,
mas contra a apropriação de receita a partir do trabalho de outrem (aluguel, juros,
assalariamento), isto sim, que seria um roubo.
O sindicalismo revolucionário e o anarco-sindicalismo antevêem uma sociedade
formada por uma federação de sindicatos de trabalhadores. Criticam o Estado de
bem-estar como sendo uma artimanha burguesa para melhorar a eficiência capitalista
e disciplinar a sociedade. E para a transformação anárquica o uso da violência torna-se
legítimo e os sindicatos seriam os principais atores da revolução por meio das greves.
Porém, Proudhon em uma carta dirigida a Marx (1846) contesta tal posição
afirmando que “não devemos colocar a ação revolucionária como um meio para
alcançar a reforma social, já que esse pretenso meio seria apenas um apelo à força, à
arbitrariedade, em resumo, uma contradição”.
Substituir um governo por outro, definitivamente, não é o objetivo do anar-
quismo. A anarquia pretende ser uma sociedade na qual ninguém possa impor sua

FGV DIREITO RIO 71


ideologias mundiais

vontade a outrem.
Uma diferença radical entre o anarquismo e o socialismo russo está em que o
primeiro propõe a organização dos trabalhadores de maneira horizontal, federaliza-
das, ao contrário dos soviets russos, que eram controlados pelo partido bolchevique
de maneira vertical.
Democracia. Existe ainda uma difícil relação entre o pensamento anarquista e a
democracia. Sendo a democracia representativa uma forma de governo, por si só já
seria o bastante para ser repudiada. E ainda mais porque, segundo os anarquistas, a
representação é uma ficção a serviço do despotismo, da autoridade opressora, não
superada nem mesmo com o sufrágio universal. Propõem a abstenção eleitoral.

Para Karl Marx, 1846


Lyon, 17 de maio de 1846
Meu caro Senhor Marx,
Concordei de bom grado em ser uma das pessoas incumbidas de receber suas
cartas cujos objetivos e organização são, a meu ver, extremamente úteis. Porém não
posso prometer respostas muito extensas ou freqüentes, já que minhas múltiplas ati-
vidades, combinadas a uma preguiça natural, pouco favorecem tais esforços epistola-
res. Devo também tomar a liberdade de fazer certas ressalvas que me foram sugeridas
por várias passagens da sua carta.
Em primeiro lugar, embora minhas idéias quanto à organização e realização do
movimento estejam no momento mais ou menos definidas, pelo menos no que diz
respeito aos seus princípios básicos, creio ser meu dever – como é dever de todos os
socialistas – manter ainda por algum tempo uma atitude crítica e dubitativa. Resu-
mindo: eu em público professo um anti-dogmatismo quase absoluto.
Procuremos juntos, se assim o desejar, as leis da sociedade, a forma pela qual essas
leis poderão ser executadas, o processo que utilizaremos para descobri-las. Mas, por
Deus, depois que tivermos destruído a priori todos os dogmatismos, não sonhemos
por nossa vez em doutrinar as pessoas; não nos deixemos cair na contradição de seu
compatriota Martin Lutero que, depois de ter demolido a teologia católica, lançou-
se imediatamente à tarefa de criar as bases de uma teologia protestante, utilizando-se
da excomunhão e do anátema. Nestes últimos três séculos, uma das principais preo-
cupações da Alemanha tem sido desfazer o mau trabalho de Lutero. Não deixemos,
pois, à humanidade a tarefa de desfazer uma embrulhada semelhante como resultado
de nossos esforços.
Aplaudo, de todo o coração, sua idéia de trazer todas as opiniões à luz. Iniciemos
sim uma boa e leal polêmica; tentemos dar ao mundo um exemplo de tolerância sá-
bia e perspicaz, mas não nos transformemos, pelo simples fato de que somos os líde-
res de um movimento, em líderes de uma nova forma de intolerância; não posemos
de apóstolos de uma nova religião, mesmo que seja a religião da lógica e da razão.
Vamos reunir e estimular todas as formas de protestos, vamos rechaçar toda a
aristocracia, todo o misticismo; jamais consideremos qualquer tema esgotado e,
quando tivermos lançado mão do nosso último argumento, comecemos outra vez
– se preciso for – a discussão, com eloqüência e ironia. Sob tais condições eu alegre-

FGV DIREITO RIO 72


ideologias mundiais

mente unir-me-ei a vós. De outra forma – não!


Também tenho algumas observações a fazer sobre esta frase da sua carta – o
momento da ação. Talvez o senhor ainda mantenha a opinião que no momento é
impossível haver qualquer reforma sem que haja um coup de main, sem o que era
antes chamado revolução e que na verdade não é nada mais do que um choque. Esta
segunda idéia que eu entendo, perdôo e que estaria disposto a discutir, tendo eu mes-
mo compartilhado dela durante um longo tempo, meus estudos mais recentes me
fizeram abandoná-la totalmente. Não creio que tenhamos de lançar mão dela para
triunfar e, conseqüentemente, não devemos colocar a ação revolucionária como um
meio para alcançar a reforma social, já que esse pretenso meio seria apenas um apelo
à força, à arbitrariedade, em resumo, uma contradição. Eu coloco assim o problema:
provocar o retorno à sociedade, por meio de uma combinação econômica, da riqueza
que ela perdeu graças a uma outra combinação. Em outras palavras, utilizar a Econo-
mia Política para transformar a teoria da Propriedade contra a Propriedade de forma
a criar aquilo que os socialistas alemães – vocês – chamam de comunidade e que eu
pessoalmente me limitarei, por ora, a chamar de liberdade ou igualdade. Creio pos-
suir os meios para resolver este problema dentro de muito pouco tempo: preferiria,
portanto, queimar a propriedade em fogo lento a lhe dar novo alento fazendo uma
noite de São Bartolomeu com aqueles que a têm nas mãos.
Pierre-Joseph Proudhon
(in Correspondência, 1874 – 1875) www.culturabrasileira.org.br

VIII. Justiça, propriedade e economia

Justiça e lei

Um primeiro ponto a enunciar é a não coincidência entre Justiça e Lei; esta últi-
ma é entendida como expressão do governo, do Estado, da autoridade – tudo o que
deve ser abolido. Justiça denota um termo muito mais próximo da realização do ser
humano – para os anarco-individualistas, realização do projeto de vida pessoal; para
os anarco-comunistaristas, realização da liberdade em comunidade.

Modelo processual de justiça

Há que se destacar um modelo processual de justiça para os anarco-capitalistas,


para os quais uma economia de mercado totalmente desregulamentada favoreceria
a mais “justa” distribuição dos bens e, portanto, a realização do indivíduo.

Justiça e contrato

Para Proudhon, caminhando-se em direção à anarquia, o governo seria suplantado


pelo contrato, vez que o contrato denotando mutualidade, uma relação voluntária,
livre de coação, opunha-se à autoridade. O contrato justo seria o contrato econômico

FGV DIREITO RIO 73


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realizado em iguais condições e garantia da liberdade. Entendia que qualquer justiça


distributivista implicava a necessidade de uma autoridade, governo, ou alguém que,
arbitrariamente, aplicaria seu próprio critério, projeto, sobre todos os demais.

Justiça distributiva

Para os anarquistas comunistas e coletivistas, a justiça a ter lugar na anarquia


havia de ser a distributivista, transmutando o critério atual de mérito (a cada um
segundo o seu trabalho) para o de necessidade (a cada um segundo a sua necessida-
de); isto levaria a uma redefinição tanto nos circuitos da produção quanto nos do
consumo, esferas essas conexas. Kropotkin ensinava que sendo toda a produção co-
letiva, a riqueza consistiria em uma apropriação ilegítima efetuada por uns poucos.
A propriedade privada, então, estaria em desacordo com a natureza da produção
(bem coletivo). Toda a produção deve ser dirigida à distribuição e à satisfação de
todos.

Bibliografia

VICENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


1995. pp. 121-139.

Bibliografia Complementar

BALIBAR, Etienne, & WALLERSTEIN, Immanuel, Race, Nation, Class – Am-


biguous Identities. London/New York: Verso, 1991.
CARONE, Edgard, Socialismo e anarquismo. São Paulo: Vozes, 1996.
COSTA, Caio Túlio, O que é anarquismo. Coleção Primeiros Passos, São Paulo,
Brasiliense, 1980.
MINTZ, Frank; LEVAL, Gaston; BERTHIER, Rene, Autogestão e Anarquismo.
São Paulo: Imaginário, 2002.

Links e sites:

Confederación Nacional del Trabajo (Espanha): http://www.cnt.es/home.php


Federação Anarquista do Rio de Janeiro: http://farj.entodaspartes.org/
O anarquismo hoje: uma reflexão sobre as alternativas libertárias: http://www.
agrorede.org.br/ceca/edgar/Anarhoje.html

FGV DIREITO RIO 74


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Aula 18. As EXPERIÊNCIAS DAS COLÔNICAS ANÁRQUICAS NO BRASIL

Anarquismo no Brasil

I – Colônia Anarquista de Guararema em São Paulo e Colônia Cecília no Paraná

Avaliar a influência européia nos movimentos libertários brasileiros. Os movimen-


tos libertários brasileiros andaram pelo Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina,
Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo; anarquistas adeptos de Proudhon e Baku-
nine e revolucionários da Comuna de Paris chegados clandestinamente ao Brasil
em busca de asilo político. Segundo Edgar Rodrigues, a história do anarquismo no
Brasil começou a ser escrita efetivamente em 1888 com a chegada de Artur Cam-
pagnoli. Foi este militante italiano quem teve o mérito de fincar o mais visível mar-
co anarquista no Brasil. Chegou a São Paulo em 1888, comprou uma área de terra
considerada improdutiva e fundou a Colônia Anarquista de Guararema, com ajuda
de libertários russos, franceses, espanhóis, italianos (a maioria) e nas décadas de 20
e 30 teve a colaboração de brasileiros. Dois anos mais tarde, Giovani Rossi e cerca
de 200 imigrantes da Itália, em duas levas, fundaram a Colônia Cecília no Paraná.
Esta experiência resistiu de 1890 a 1894.
A partir das experiências históricas do anarquismo no Brasil, tentar correlacioná-
las às experiências de economia solidária e de produção cooperativa hoje inseridas
nas plataformas políticas dos movimentos pela reforma agrária. E em paralelo, ob-
servar as formas utilizadas pelos movimentos de sem-teto na organização das ocu-
pações urbanas hoje presentes nas grandes cidades.

II – Exercícios – Anarquismo

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UNIDADE V – NACIONALISMO

Aula 19. ESTADO, NAÇÃO E NACIONALISMO

Caso: Raposa do Sol – demarcação das terras indígenas em Roraima

O impasse em torno da demarcação das terras indígenas da região de Raposa


Serra do Sol, em Roraima.

Análise do capítulo II: “Conflitos e Interesses em Questão” do Relatório da Comis-


são Externa Destinada a Avaliar, in loco, a situação da demarcação na área contínua da
“Reserva Indígena Raposa Serra do Sol,” no Estado de Roraima. Principais tópicos:

Trechos

“Os trabalhos da Comissão Externa demonstram que a questão da defesa na-


cional tem sido negligenciada no debate sobre a situação de reservas indígenas em
faixas de fronteira.
Órgãos de inteligência do governo, inclusive das Forças Armadas, têm apontado
que se mantida a demarcação nos moldes da Portaria nº 820, de 1998, poderá trazer
problemas à segurança do País.
Na oportuna observação do jornal O Estado de S. Paulo, publicada no edito-
rial ‘Em causa a segurança nacional’, edição de 22/01/2004, p. A3, “não são só os
setores de inteligência do governo e militares que vêem nessa questão um risco à
segurança nacional. Também setores acadêmicos revelam a mesma preocupação. O
coordenador do Núcleo de Análise Interdisciplinar de Políticas e Estratégias (Nai-
ppe) da USP, Braz Araújo, e o pesquisador Geraldo Lesbat Cavagnari, do Núcleo de
Estudos Estratégicos da Unicamp, sustentam que a demarcação da área indígena de
Roraima em terras contínuas vai pôr em risco a segurança das fronteiras brasileiras.
‘Não existe outro país que permita que alguém ou um grupo tenha soberania na
faixa de fronteira’, argumenta Cavagnari, enquanto Araújo diz que ‘o Brasil vem
fazendo demarcação de terras indígenas sem visão estratégica clara, apenas atenden-
do a demandas demagógicas’. E o cientista da USP salienta, em matéria publicada
ontem neste jornal, o que nos parece o aspecto mais grave na questão, ao lembrar
que a região amazônica não está apenas em solo brasileiro e que há ‘contenciosos
territoriais entre países da região’.
Vale ressaltar que o Conselho de Defesa Nacional não foi ouvido quanto à de-
marcação, malgrado possuir competência constitucional para propor os critérios e
condições de utilização de áreas indispensáveis à segurança nacional e opinar sobre
seu uso efetivo, especialmente em faixa de fronteira. Ao invés, a FUNAI tem prevale-
cido no processo demarcatório da área indígena Raposa Serra do Sol, sem que outras
instituições interessadas tenham tido a voz necessária. Portanto, cabe afirmar que a
FUNAI não tem condições políticas de avaliar se a criação de uma reserva indígena

FGV DIREITO RIO 76


ideologias mundiais

em uma determinada zona de fronteira atenta contra os interesses nacionais ou não.


Vários fatos investigados pela Comissão levam à conclusão de que a região com-
preendida pela Área Indígena Raposa Serra do Sol enfrenta problemas que poderão
se constituir, futuramente, em riscos à soberania nacional, à segurança das popula-
ções índias e não índias. (...}

3. Resistência à presença do Estado e das Forças Armadas


Por estar a pretendida área Raposa Serra do Sol em região de fronteira, sujeita
a atividades como garimpo ilegal, contrabando, narcotráfico e biopirataria, é fun-
damental que as Forças Armadas e a Polícia Federal tenham ampla liberdade de
atuação na região.
Autoridades ligadas à defesa nacional, entre elas alguns militares que comanda-
ram tropas na Região Amazônica, dão conta da dificuldade em transitar pelas áreas
de proteção ambiental e pelas reservas indígenas. O ponto levantado pelos setores
ligados aos órgãos de segurança do Estado é que, depois de realizado um processo
de demarcação, existe um questionamento quanto à legalidade da realização de pa-
trulhamento e ao estabelecimento de unidades no interior dessas regiões.
Acerca desse aspecto a Constituição Federal confere às Forças Armadas a seguin-
te missão:
‘Art. 142 – As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela
Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com
base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da Re-
pública, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e,
por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.’
Com a mesma clareza, a Lei Complementar nº 97, de 1999, também detalha
esse mister. Fica claro que não pode haver uma área do território nacional que seja
excluída da necessária proteção.
Quanto à Polícia Federal, a Constituição lhe assinala a competência para policiar
as fronteiras do País, reprimir infrações que tenham repercussão internacional, bem
como o contrabando e o descaminho (CF, art. 144, § 1º, III).
Chegou ao conhecimento desta Comissão que, em algumas oportunidades, os
segmentos mais radicais da proteção aos indígenas se utilizam do termo ‘nação in-
dígena’, com a finalidade de intimidar a atuação das forças de segurança no interior
de áreas demarcadas, como se fosse um território interdito ao patrulhamento ou à
realização de operações.
É oportuno esclarecer que a utilização do termo ‘nação indígena’ é inócua, pois
a Constituição Federal não deixa dúvida de que a terra tradicionalmente ocupada
pelos indígenas é bem da União, conforme o inciso XI, do art. 20 da Carta Magna.
Esse território não deixa de fazer parte do território nacional e o Estado brasileiro
não perde a sua capacidade de atuar, por meio dos seus diversos órgãos, no interior
de qualquer reserva indígena.
No entanto, é necessário garantir a tranqüilidade do trabalho e a presença dos
meios de defesa nacional por questões preventivas, pois, em grande parte, essas áreas
se encontram localizadas nos limites com outros países.

FGV DIREITO RIO 77


ideologias mundiais

Além disso, também sob o ponto de vista preventivo, demarcar as terras indíge-
nas significa garantir o respeito aos direitos dessa minoria, evitando que a opinião
pública mundial questione a capacidade do Brasil em bem gerir esse assunto de
forma adequada.
Apesar da clareza com que a Constituição Federal trata esse tema, algumas orga-
nizações não-governamentais articulam ações com o objetivo de impedir o acesso
das forças de segurança ao interior da área indígena. A Comissão Externa constatou
que a oposição sistemática do CIR à ação das Forças Armadas – a ponto de ajuizar
ação judicial para tentar, sem êxito, evitar a instalação de um pelotão do Exército no
município de Uiramutã – constitui um entrave às atividades de defesa nacional, não
obstante a liberdade de trânsito garantida às Forças Armadas e à Polícia Federal pelo
Decreto no 4.412, de 2002, para movimentação de suas tropas em áreas indígenas.
Apesar de ser manifestamente impertinente, essa articulação, realizada por al-
gumas organizações não-governamentais, pode atrasar uma determinada operação,
militar ou policial, o suficiente para torná-la ineficaz, o que não é desejável, nem
pela ótica da defesa nacional, nem pela da segurança pública.
Adicionalmente, a FUNAI tem, baseando-se numa interpretação equivocada de
suas atribuições administrativas, expedido “autorizações” para a Polícia Federal e as
Forças Armadas entrarem em terras indígenas, embaraçando o exercício das funções
constitucionais desses órgãos. Não obstante a FUNAI exercer “o poder de polícia
nas áreas indígenas e nas matérias atinentes à proteção dos índios”, tal atribuição
não alcança o exercício de polícia judiciária, de repressão ao crime e de defesa de
fronteiras. Essas atividades hão de ser executadas pela Polícia Federal e pelas Forças
Armadas, em coordenação com a FUNAI – e nunca sob sua autorização.
Na verdade, a referida Fundação vem exorbitando de suas funções tão claramen-
te que chegou ao ponto de enviar a esta Comissão Externa uma ‘autorização’ para
entrada na futura terra indígena Raposa Serra do Sol. Cabe lembrar que o Con-
gresso Nacional é um dos Poderes da República e instância representativa máxima
da Nação, possuindo competência constitucional para fiscalizar os atos do Poder
Executivo (CF, art. 49, X). O Congresso Nacional ou qualquer de suas Casas não
dependem, portanto, de autorização de órgão administrativo subordinado ao Mi-
nistério da Justiça para desenvolver suas atividades constitucionais.
Merece registro que no recente episódio do assassinato de 29 garimpeiros na
Terra Indígena Roosevelt, em Rondônia, a Polícia Federal teve de esperar por oito
dias pela autorização da FUNAI para entrar naquela reserva, prejudicando o traba-
lho daquele órgão na identificação dos culpados e o resgate dos corpos. O ocorrido
revela a fragilidade da presença das forças policiais em áreas indígenas, e enfatiza a
premente necessidade de reformulação da prática do policiamento e da atuação das
Forças Armadas naquelas terras, para que não se repitam mais massacres dessa natu-
reza e não se incremente ainda mais o conflito em reservas indígenas no Brasil.
Esta Comissão Externa entende que, apesar da clareza legislativa na garantia
do livre trânsito das forças militares e policiais para a proteção da integridade do
território nacional e o combate de ilícitos na faixa de fronteira, deve-se considerar
garantias adicionais que facilitem aos militares e aos órgãos de segurança pública

FGV DIREITO RIO 78


ideologias mundiais

previstos no art. 144 da Carta Magna o cumprimento integral de suas missões cons-
titucionais. Não deve restar dúvida de que, garantidos os direitos constitucionais
aos indígenas brasileiros, os órgãos do Estado devem ter plenas condições de inter-
vir, oportunamente, sem qualquer impedimento, no sentido de prevenir e coibir a
ocorrência de delitos transnacionais no interior da reserva Raposa Serra do Sol e de
outras regiões demarcadas. (...)”
Disponível em:
Relatório Raposa do Sol
http://www2.camara.gov.br/comissoes/temporarias/externas/encerradas/cexrapos/re-
latorio.html

Questões

• Pela leitura do relatório, quais as principais características da área sob con-


flito?
• A proximidade com outros países é o que torna a região conflituosa?
• A ocupação da região somente por índios a tornaria menos “nacional”?
• Em que sentido é utilizado o termo “nação indígena”? Qual a sua repercussão
jurídica?
• A ocupação da região por agricultores foi guiada por quais interesses?
• Poderia se dizer que os brancos levam consigo a “nação brasileira”?
• Identifique a atuação e os interesses preponderantes dos seguintes atores:
Exército brasileiro; FUNAI; Conselho Indígena de Roraima; Prefeitura de
Uiramutã; agricultores; indígenas.

i. Terminologia e conceitos fundamentais do nacionalismo

Visa apresentar uma genealogia básica do termo nacionalismo. A palavra nação


em sua origem latina – nasci, natio – denota nascer, lugar de nascimento; o que nos
leva a compreendê-la como uma forma natural de associação humana a partir do
local de nascimento. Mais comumente passou-se a entender nação como um grupo
de pessoas com ancestrais, história, língua e cultura em comum e constituintes dos
laços de lealdade e de afeição entre seus membros.
Alguns conceitos conexos auxiliarão na tarefa de compreender a genealogia do
nacionalismo:

1. Autodeterminação dos povos. O conceito de autodeterminação dos povos indi-


ca que cada nação tem um direito à soberania, ou seja, o poder de livremente
controlar um território e manter sob sua jurisdição as pessoas que aí se en-
contram.
2. Nacionalidade. O termo nacionalidade define a cidadania jurídica, isto é,
quem está ou não sob a proteção e submissão de um Estado-nação.

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ideologias mundiais

3. Caráter nacional. A categoria de caráter nacional está eivada do cientificismo


iluminista que pretendia identificar as características específicas de cada “tipo
nacional”.
4. Patriotismo. Apesar de pertencer a outra raiz etimológica, o patriotismo reve-
la a lealdade, a fidelidade, o amor e o orgulho pelo país.
5. Etnicidade e Raça. A etnicidade tenta agregar fatores biológicos que deno-
tem uma identidade ou parentesco, culminando no conceito de raça como
a identificação de uma comunidade a partir de seu patrimônio genético co-
mum.

Outra característica importante do nacionalismo ainda abordada neste tópico


refere-se a uma constante reivindicação de antiguidade, que leva a uma dimensão
natural ou imemorial do conceito de nação.

Questão reflexiva

Apesar das tentativas de caracterização geral, o nacionalismo como ideologia só


pode ser identificado na experiência singular? Ou seja, há como identificar um com-
plexo de idéias que sejam válidas e identificáveis universalmente, mas tão somente
experiências de cunho nacionalistas localizadas no tempo e no espaço?

ii. Origens históricas do pensamento nacionalista

Sociobiologia

Uma versão um tanto inverossímil da origem histórica do nacionalismo se localiza


nas tribos e grupos étnicos primitivos remotos da antiguidade. Para tanto, pensa-
dores da sociobiologia consideram que exista um instinto natural de se associar a
partir de uma identidade gênica. Anthony Smith pontua que a etnicidade, enquanto
fator congregador, é substituído na era moderna pelo nacionalismo; isto é, “as nações
modernas simplesmente estendem, aprofundam e tornam mais efetivas as maneiras de
associação e comunicação dos membros de uma etnia” (apud VICENT, 1995:241).

Estado-nacional

Outra fonte histórica do nacionalismo pode ser encontrada na Revolução Fran-


cesa com o crescimento e modernização do Estado-nacional.
Porém, a vertente que será abordada, mais precisamente, aponta para uma evo-
lução história do nacionalismo:

i) Inicia-se como um complexo de idéias das classes médias e altas.


ii) Com o passar do tempo, tais idéias se aprofundam e criam uma doutrina
política

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ideologias mundiais

iii) Os nacionalismos de massas, logo em seguida, seriam sepultados com o fim


da 2ª Guerra Mundial.
iv) Contudo, observadores apontam para um reavivamento do nacionalismo
nos anos 90, tanto como um resgate de identidades regionais frente ao Esta-
do-nação fragilizado pela globalização quanto como um movimento contra-
hegemônico de países ou culturas frente ao movimento de homogeneidade
global.

Promoção do processo de modernização

Teoricamente, o nacionalismo sustenta que Estado tem a função de promover o


processo de modernização, conservando-o e mediando os conflitos nele produzidos.
A nação tem o condão de integrar o indivíduo no seio do Estado como forma de
preservar a comunalidade ou solidariedade rumo ao desenvolvimento progressivo,
racional, moderno e contínuo.

Comunidade e sociedade

Para os nacionalistas, a nação tem o importante papel de intermediar uma co-


munalidade mais tradicional (comunidade – Gemeinschaft) e uma forma moderna
de associação (sociedade – Gesellschaft). Mais claramente, Anthony Smith conclui
que “para conservar a solidariedade e a legitimidade do regime, uma nova mitologia é
criada em torno do renascimento da nação purificada, empenhada em restaurar a época
áurea” (apud VICENT, 1995:243).

Crítica marxista

Na crítica marxista ao Estado moderno, o conceito nação é considerado uma ilu-


são burguesa com o intuito de homogeneizar o território, a jurisdição, a língua e as
leis de modo a construir o livre mercado desembaraçado de qualquer particularismo
ou obstáculo feudal. Além do mais, para os marxistas o fundamento de nossa socie-
dade está no conflito de classes, o que relega a um segundo plano as preocupações
com a nação.

iii. A natureza do nacionalismo

Neste tópico serão discutidas as principais vertentes que tentaram explicar a na-
tureza do nacionalismo:

a) Liberal-nacionalismo: essa vertente do nacionalismo, com raízes no ilu-


minismo, promove os valores liberais e o cosmopolitismo. Uma premissa bá-
sica do liberal-nacionalismo enunciava que cada nacionalidade deveria ter seu
próprio Estado, mas para tanto deveria incorporar um governo constitucional,

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ideologias mundiais

democrático e com direitos e liberdades do indivíduo garantidas. Observavam


que um dos maiores obstáculos ao nacionalismo estava na existência dos Esta-
dos multinacionais imperiais, os quais restringiam o direito natural de autode-
terminação dos povos.
Todavia, os liberais-nacionalistas não refletiram acerca das conseqüências do di-
reito à autodeterminação dos povos que, inevitavelmente, promoveriam os movi-
mentos separatistas no interior dos Estados e, por outro lado, não definiam quais
seriam as bases para se distinguir movimentos separatistas com real direito à auto-
determinação e os que deveriam ser submetidos ao Estado.

b) Nacionalismo conservador tradicionalista. Para os defensores desta corrente, a


Revolução Francesa, a razão e a revolução eram categorias que deveriam ser com-
batidas em nome da restauração das tradições comunais antigas, da continuidade
histórica. Em certo ponto, reproduzem um ideal nacionalista romântico de iden-
tidade em uma comunidade orgânica primeva. Desse modo, a pureza da língua, o
compartilhamento de uma mesma cultura e mitologia autorizava a identificação de
um espírito comum à nação.
Uma importante premissa no raciocínio nacionalista conservador a ser debatido
é que este declara a precedência da nação, enquanto um espírito orgânico, sobre o
indivíduo – idéias contrárias ao iluminismo materialista e individualista.

c) Nacionalismo integral. Um terceiro tipo de nacionalismo é denominado na-


cionalismo integral, conscientemente imperialista porque defensor do espaço vital
à nação. As idéias de volk e de vitalismo conformam esse nacionalismo, igualmente
contrário aos ideais liberais. O caráter integral desse nacionalismo está na pretensão
de constituir a nação o soberano político e o soberano moral, ignorando, assim,
todas as outras formas de associação e de fidelidade.
Nesse sentido, pode-se dizer que os indivíduos só existem se no interior da na-
ção? A existência e a liberdade são condições humanas características do organismo
nacional?

iv. Reflexões, paralelos e ascendências do nacionalismo no Direito

Nas principais ideologias Jurídicas

a. Nacionalismo e jusnaturalismo
O nacionalismo expressa uma unidade complexa no pensamento jurídico.
Quando recupera elementos de cultura, história, comportamento imemoriais como
definidores da unidade nacional, o nacionalismo justifica o direito tal qual o jusna-
turalismo, ou seja, a ascendência de uma ordem, sobrenatural ou atemporal, fun-
dante da Nação. O Estado, nesse raciocínio, tem a função de otimizar o espírito
nacional.

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ideologias mundiais

b. Vontade geral e do monismo jurídico


Todavia, a natureza jurídica do nacionalismo constitui a afirmação suprema do
Estado e de suas leis. Como exposto acima, o nacionalismo caracteriza-se pela sub-
missão dos indivíduos e das esferas sociais à centralidade estatal. Ou em outras
palavras, grupos dominantes dominam o Estado, impõem uma idéia de nação na
estrutura do direito estatal e denunciam como inimigos os grupos e idéias alter-
nativas. Para a sustentar essa idéia de nação, os dogmas da lei como expressão da
vontade geral e do monismo jurídico são os pilares da ideologia nacionalista para
destruir o espaço público e afastar opiniões diversas. Nesse sentido o nacionalismo
é uma ideologia jurídica positivista, pois reafirma a autoridade do direito posto pelo
Estado, único sujeito autorizado a dizer o que é o interesse nacional.

v. EXERCÍCIOS: ANALISAR OS Princípios do nacionalismo no ordenamento


jurídico brasileiro

Bibliografia básica

GUIBERNAU, Montserrat, Nacionalismos – O Estado nacional e o nacionalismo


no século XX. Trad. Mauro Gama e Cláudio Martinelli Gama. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1997, pp 55-74.

Bibliografia Complementar:

BALAKRICHNAN, Gopal (Org.). Um mapa da questão nacional. Rio de Janei-


ro: Contraponto, 2000.
VINCENT, Andrew, Ideologias políticas modernas. Trad. Ana Luísa Borges. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995, pp. 237-246.

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ideologias mundiais

Aula 20. Mobilização do discurso nacionalista: “nações sem


estado”; “estado sem nações”; diversidade étno-cultural,
tolerância e discriminação

Caso: Charges de Maomé na Europa

Ira muçulmana contra a Europa

Reações violentas a charges de Maomé acirram debate sobre liberdade de


expressão
“A crise provocada pela publicação de charges com a imagem de Maomé au-
mentou ontem, com protestos de vários governos de países islâmicos, manifestações
violentas de radicais e uma onda de solidariedade de jornais europeus, que estão
republicando os desenhos. ONU, Unesco, União Européia (UE) e organizações de
jornalistas entraram num debate que envolve temas como liberdade de imprensa,
denúncias de intolerância e racismo contra o Islã e a demissão de jornalistas de di-
ários de França e Jordânia.
Houve manifestações de grupos religiosos na Síria, Tunísia e Paquistão e boicotes
contra produtos da Dinamarca, Noruega e França. As ações mais violentas ocorre-
ram nos territórios palestinos. Em Gaza, 12 integrantes armados de Jihad Islâmica
e Brigadas de Mártires de al-Aqsa fecharam o escritório da UE, dizendo que só per-
mitiriam a reabertura após um pedido de perdão. As Brigadas ameaçaram seqüestrar
europeus e um alemão permaneceu por alguns minutos em poder de milicianos.
A Líbia fechou sua embaixada na Dinamarca. Arábia Saudita e Síria chamaram
seus embaixadores de volta. Ontem, chefes de governo de países islâmicos protesta-
ram, como o afegão Hamid Karzai:
– Um insulto ao santo profeta é um insulto a mais de um bilhão de muçulmanos
e um ato como este jamais deve ter a permissão de se repetir.
O presidente do Egito, Hosni Mubarak, disse que o Ocidente deve estar ciente de que
publicar as charges pode provocar terrorismo e o premier da Turquia, Tayyip Erdogan
– cujo país tenta entrar na UE –, disse que a liberdade de imprensa deve ter limites.
As críticas foram rechaçadas pelo ministro do Interior da França, Nicolas Sarkozy:
– Devemos defender a liberdade de expressão e, se tiver que escolher, prefiro o
excesso de caricatura ao excesso de censura.

Islã proíbe imagens de profeta Maomé

O premier dinamarquês, Anders Rasmussen, disse que o caso foi além de uma
disputa entre seu país e o mundo islâmico. Agora é entre “a liberdade de expressão
ocidental e os tabus do Islã”. Ele convocou para hoje uma reunião com todos os
embaixadores.
A confusão começou quando o maior jornal da Dinamarca, o “Jyllands-Posten”,
publicou, em setembro, 12 charges de Maomé. Elas ilustravam uma reportagem
sobre autocensura e liberdade de expressão, citando o caso em que um autor de

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livro infantil sobre Maomé não conseguiu encontrar desenhistas que se dispusessem
a retratar o profeta do Islã. Na tradição islâmica, imagens de Maomé são proibidas,
pois poderiam levar à idolatria.
Ontem, jornais de Suíça e Hungria republicaram as charges, repetindo o que já
tinham feito diários de França, Espanha, Alemanha, Itália e Holanda. À noite, as
TVs britânicas BBC e ITN puseram as imagens no ar.
Único jornal da França que publicara as charges originais até ontem – o “Le
Monde” fez uma charge própria –, o “France Soir” surpreendeu o país. O dono do
jornal, o franco-egípcio Raymond Lakah, demitiu o diretor Jacques Lefranc. Os
funcionários não gostaram da medida e o editor escolhido para substituir Lefranc,
Eric Fauveau, recusou-se e pediu demissão.
Único jornal árabe a divulgar as charges, o jordaniano “al-Shihan” as publicou
sob o título “muçulmanos, sejam razoáveis”. “O que provoca mais preconceito con-
tra o Islã? Caricaturas, imagens de um seqüestrador cortando a garganta de sua ví-
tima, ou um homem-bomba num casamento em Amã?”. Os donos do “al-Shihan”
demitiram seu diretor, Yihad Momani.”
O Globo, 3 de fevereiro de 2006

‘Acho que temos o direito de chocar’


Robert Ménard

PARIS. Robert Ménard, secretário-geral da organização Repórteres sem Fron-


teiras, faz um apelo à calma. Em entrevista ao GLOBO, ele defende a liberdade de
imprensa, mas diz que é preciso ponderar sobre a publicação das charges.
Deborah Berlinck . Correspondente
O senhor acha que o jornal dinamarquês que publicou as caricaturas e os que as
reproduziram incorreram numa provocação?
ROBERT MÉNARD: Não acho que seja provocação. Entendo que isso tenha
chocado os muçulmanos, mas acho que temos o direito de chocar. Isso é a liberdade
de imprensa. Essa liberdade tem dois limites, quando incita a violência, que não foi
o caso, e no caso de ataques difamadores a uma pessoa, o que também não foi. Evi-
dentemente, nos surpreendeu a violência da reação. Mas é hora de acalmar e parar
de reproduzir as charges, para evitar que a violência verbal se transforme em física.
O que aconselha, então?
MÉNARD: Continuar a publicar não vai fazer avançar o debate. Pode acabar
produzindo uma verdadeira violência.
Que lição a imprensa deve tirar deste episódio?
MÉNARD: Tiramos várias lições. Primeiro, vemos até que ponto a concepção
que temos em alguns países de liberdade de imprensa é estranha a outros países de
tradição religiosa. Há um fosso na percepção global entre o que os muçulmanos e
ocidentais acham que pode ser dito. Na Europa, e na França, em particular, brinca-
mos e fazemos gracinha com o catolicismo há anos. E ninguém se choca. As pessoas
podem dizer que não gostaram, mas a discussão não vai além disso. Mas isso é dife-
rente no mundo muçulmano. A segunda lição é que quase não ouvimos nessa crise

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ideologias mundiais

as vozes dos muçulmanos moderados. A terceira lição é que a crise mostra que pre-
cisamos debater. Não conseguimos mais debater. Hoje não há debate, há insultos.
Há cinco milhões de muçulmanos na França e o “Le Monde” publicou uma carica-
tura de Maomé em nome da liberdade de imprensa e em apoio ao jornal dinamarquês.
O que acha?
MÉNARD: Fez bem. Porque o “Le Monde” não reproduziu as caricaturas (do
jornal dinamarquês) e evitou o que poderia parecer uma provocação. Optou por
publicar o ponto de vista dos caricaturistas. É preciso reafirmar a liberdade de ex-
pressão, essencial na democracia.
Então, é preciso bom senso?
MÉNARD: Sim, é preciso um pouco de bom senso, não apontar o dedo contra
todos os muçulmanos. É preciso achar um meio de discutir com algumas pessoas
(muçulmanas). Há governos com os quais não podemos discutir. Como Arábia
Saudita ou Líbia podem nos dar lições sobre o que devemos fazer, logo eles que
calam sua própria imprensa e prendem seus jornalistas? Não aceitamos lição deles.
O Globo, 3 de fevereiro de 2006

‘Um verdadeiro abismo entre dois mundos’

Chefe de redação de diário dinamarquês teme que projeto de integração de minorias


muçulmanas seja inviável.
As manifestações contrárias aos desenhos de Maomé levaram o chefe de redação
do “Jyllands-Posten”, Carsten Juste, a pedir desculpas por sua publicação no jornal,
o maior da Dinamarca. Em entrevista ao GLOBO por telefone, ele considerou
exagerada a reação dos muçulmanos e acrescentou que é mais uma demonstração
de que há um verdadeiro abismo, intransponível, entre o mundo muçulmano e o
ocidental.
Graça Magalhães-Ruether. Correspondente Berlin
Se soubesse que causaria tantas reações, o senhor teria renunciado à publicação das
caricaturas de Maomé?
CARSTEN JUSTE: Se soubesse que haveria ameaças de bombas e que com isso
colocaria em risco a vida de dinamarqueses que vivem em países muçulmanos talvez
tivesse refletido mais antes de decidir publicar as charges. Mas um respeito absoluto
aos símbolos religiosos seria o fim da liberdade de imprensa. Nós agimos de acordo
com a nossa lei de liberdade de imprensa.
Muitos muçulmanos que vivem na Dinamarca e em outros países da Europa se dis-
seram ofendidos com as charges. Como o senhor vê essa reação?
JUSTE: Se eu ofendi sentimentos religiosos, já pedi desculpas por isso. Mas o
que será da liberdade de imprensa se só pudermos publicar o que for de agrado dos
muçulmanos? A reação não deveria ter assumido a dimensão que assumiu se os imãs
muçulmanos dinamarqueses não tivessem levado o assunto aos países árabes. Acho
que essa reação está relacionada ao fato de haver na Dinamarca, um país pequeno,
de apenas cinco milhões de habitantes, um debate polêmico sobre os muçulmanos
que imigraram há algumas décadas.

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ideologias mundiais

Como surgiu a idéia de publicar as caricaturas de Maomé?


JUSTE: Um escritor dinamarquês escreveu um livro sobre Maomé e queria en-
comendar desenhos dele para ilustrar o trabalho. Mas ele não encontrou ninguém
disposto a desenhar o profeta, com medo de reações do mundo muçulmano. Re-
solvemos abordar então o tema de forma jornalística e encomendamos a doze car-
tunistas charges de Maomé. Nós não queríamos provocar, mas apenas explorar o
tema jornalisticamente: Por que ninguém tem coragem de desenhar Maomé na
Dinamarca, um país de população cristã protestante?
A polêmica atual deverá atrapalhar a integração das minorias muçulmanas na Eu-
ropa?
JUSTE: Eu receio que o projeto de integração das minorias muçulmanas seja
inviável porque há um abismo entre o mundo muçulmano e o cristão ocidental. O
“Jyllands-Posten” tem explorado bastante o tema integração e chegou a ganhar um
prêmio da União Européia por reportagens que ajudam a integração de muçulma-
nos por um caderno especial que publicamos há seis meses. Tudo isso não é levado
em consideração no momento atual.
É verdade que o senhor chegou a receber ameaças de morte?
JUSTE: Eu recebi ameaças de morte, houve ameaças de bomba contra a redação
do “Jyllands-Posten”. Nós precisamos pedir proteção policial, mas acho que deve-
mos tentar voltar à normalidade. E não deixar o assunto aumentar.
O Globo, 3 de fevereiro de 2006

A infantilidade das civilizações

Agora são charges do profeta Maomé com um turbante com a forma de uma
bomba. Embaixadores foram retirados da Dinamarca, sauditas e sírios reclamam,
países do Golfo tiram os produtos dinamarqueses dos mercados, milicianos de Gaza
ameaçam a União Européia e jornalistas estrangeiros. Na Dinamarca, Fleming Rose,
o editor de “cultura” do jornal que publicou estas charges bobas – em setembro, pelo
amor de Deus – anunciou que estamos testemunhando um “choque de civilizações”
entre as democracias seculares do Ocidente e as sociedades islâmicas. Isto prova, eu
acho, que os jornalistas dinamarqueses seguem a tradição de Hans Christian Ander-
sen. O que estamos testemunhando é a infantilidade das civilizações.
Vamos começar com o Departamento Interno de Verdades. Este não é um caso
de secularismo contra o Islã. Para os muçulmanos, o profeta é o homem que recebeu
as palavras divinas diretamente de Deus. Vemos nossos santos e profetas como figu-
ras fracamente históricas, em contradição com nossos direitos e liberdade high-tech,
quase caricaturas deles mesmos. O fato é que os muçulmanos vivem sua religião.
Nós não. Eles mantiveram sua fé através de inumeráveis vicissitudes históricas. Nós
perdemos nossa fé desde que Matthew Arnold (poeta e intelectual inglês do século
XIX) escreveu sobre isso. É por isso que falamos de “Ocidente contra o Islã” em vez
de “cristãos contra o Islã” – porque não sobram muitos cristãos na Europa. Não há
um jeito de driblar todas as outras religiões mundiais e perguntá-las por que não
podemos fazer graça de Maomé.

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Gosto quando há pomposas declarações de estadistas europeus dizendo que não


podem controlar a liberdade de expressão ou os jornais. Isso é nonsense. Em alguns
países europeus – França, Alemanha e Áustria, por exemplo – é proibido por lei
negar atos de genocídio. Na França, por exemplo, é ilegal dizer que o Holocausto
Judeu ou o Holocausto Armênio não ocorreram.
Para muitos muçulmanos, a reação “islâmica” neste caso esquálido é motivo de
vergonha. Há um perfeito bom senso em acreditar que os muçulmanos gostariam
de ver alguns elementos de reforma na sua religião. Se estas charges tivessem pro-
movido avanços na causa daqueles que querem debater esta questão – se ela permite
um diálogo sério – ninguém teria dado importância. Mas a intenção foi claramente
ser provocativo. Foi tão ultrajante que só poderia ter provocado uma reação. E este
não é o melhor momento para esquentar o velho lixo de Samuel Huntington sobre
um “choque de civilizações”. O Irã agora tem um governo de clérigos novamente.
Da mesma forma, para todos os efeitos, o Iraque também tem – apesar de não ter
sido pensado que este país terminaria com um governo democraticamente eleito
de clérigos, é isso que acontece quando se derrubam ditadores. Colocar a charge
dinamarquesa sobre este fogo é perigoso.
Em todo caso, o problema não é se o profeta deveria ter sido retratado. O Alco-
rão não proíbe imagens do profeta mesmo que milhões de muçulmanos o façam.
O problema é que estes cartuns retrataram Maomé como uma imagem de violência
ligada a Osama bin Laden. Eles retrataram o Islã como uma religião violenta. Não
é. Ou queremos fazer com que ela seja?
04/02/2006, O Globo
Por Robert Fisk. Ele é jornalista do “The Independent”

i. A natureza humana: cada nação possui seu sistema orgânico?

Na visão clássica do nacionalismo, estruturalmente os homens são seres so-


ciais, ou seja, os homens somente se descobrem e se realizam através de sua
“comunalidade nacional”. Para alguns, os homens são produto de seu meio e
de suas circunstâncias, contudo, essa “igualdade” de constituição não leva ao
igualitismo, bem ao contrário, as diferenças são ínsitas ao sistema orgânico que
é a nação.
Para os nacionalistas liberais, do direito de autodeterminação derivava o de não
sofrer qualquer agressão ou interferência nos assuntos internos. Mas, se uma nação
ofendesse uma outra ou o seu próprio povo de maneira inadmissível, então, abrir-
se-ia caminho para que sobre ela se interviesse para se impor uma determinada con-
cepção de mundo que não mais ofendesse outras nações ou seu próprio povo. Disso
bem se nota que se toleram os traços nacionais singulares enquanto inofensivos ou
conforme ao padrão cosmopolitista universal hegemônico.

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II. Tolerância, língua e nações

Embora diversos nacionalismos tenham como princípio de unidade a língua,


há, por outro lado, casos bem mais complexos – como, por exemplo, uma língua
comum a duas nações diferentes ou uma nação que comporta diversas línguas. De
toda forma, a homogeneidade lingüística tornou-se um fator essencial na formação
e afirmação dos Estado-nacionais modernos. Será abordado de que forma, pela con-
formidade à língua imposta como oficial, o comércio e a comunicação encontraram
menos obstáculos à circulação. Pela conformidade à língua, também, é que se pode-
ria ter acesso às elites intelectuais e políticas, bem como aos seus bens e privilégios.
Há que se destacar, igualmente, o ideal romântico de que a língua representava
uma propriedade imemorial pertencente a um, e somente um, povo.
Para Herder, as impressões sensoriais de uma determinada localidade sobre o
indivíduo formavam a base da língua, o que leva o indivíduo a formular respostas
lingüísticas diferentes daquelas que um outro indivíduo sob as mesmas contingên-
cias teria formulado. Por isso que os homens ao usarem a língua (pelo diálogo,
conversa) constroem sua cultura, seus mitos, seus modos de expressão – todos eles
muito singulares. Por isso, cada povo tem um espírito nacional característico, que
não é biológico, mas um continuum cultural e histórico.

Bibliografia básica

GUIBERNAU, Montserrat, Nacionalismos – O Estado nacional e o nacionalismo


no século XX. Trad. Mauro Gama e Cláudio Martinelli Gama. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1997, pp 110-138.

Bibliografia Complementar:

VINCENT, Andrew, Ideologias políticas modernas. Trad. Ana Luísa Borges. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995, pp. 250-260.
BALIBAR, Etienne, & WALLERSTEIN, Immanuel, Race, Nation, Class – Am-
biguous Identities. London/New York: Verso, 1991.

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Aula 21. Nacionalismo em um mundo globalizado

Caso: Terrorismo e segurança nacional

O terror ocidental

“Ensaísta canadense defende que o racismo do Ocidente com os árabes facilita o


‘recrutamento’ de terroristas.
Hussain Osman, um dos homens que supostamente participaram dos atentados
frustrados em Londres em 21 de julho, disse recentemente a investigadores italianos que
eles haviam se preparado para os atentados assistindo a ‘filmes sobre a guerra no Iraque’.
‘Especialmente aqueles em que mulheres e crianças eram mortas e exterminadas por
soldados britânicos e norte-americanos... Os de viúvas, mães e filhas chorando.’
Tornou-se um artigo de fé que o Reino Unido era menos vulnerável ao terror
por causa de seu anti-racismo politicamente correto. Mas os comentários de Osman
sugerem que o que incentivou pelo menos alguns dos homens-bomba foi a raiva
contra o que eles consideraram um racismo extremado. E de que outra coisa pode-
ríamos chamar a crença – tão generalizada que mal a percebemos – de que as vidas
norte-americanas e européias valem mais que as dos árabes e mulçumanos, tão mais
que as mortes deles no Iraque sequer são contadas?
Não é a primeira vez que esse tipo de desigualdade crua engendra extremis-
mo. Sayyid Qutb, o escritor egípcio geralmente considerado o arquiteto intelectual
do radicalismo político islâmico, teve sua epifania ideológica quando estudava nos
EUA. É verdade que o acadêmico puritano ficou chocado com as mulheres licen-
ciosas do Colorado, mas mais significativo foi o contato de Qutb com o que ele
mais tarde descreveu ‘discriminação racial maligna e fanática’ dos EUA. Por coin-
cidência, Qutb chegou aos EUA em 1948, ano da criação do Estado de Israel. Ele
testemunhou os EUA cegos para os milhares de palestinos que eram transformados
em refugiados permanentes pelo projeto sionista.
Quando Qutb voltou ao Egito, entrou para a Irmandade Muçulmana, o que o
levou ao próximo evento que mudaria sua vida: ele foi preso, severamente tortu-
rado e condenado por conspiração contra o governo em um absurdo julgamento
encenado. A teoria política de Qutb foi profundamente influenciada pela tortura.
Não apenas ele considerava seus torturadores subumanos, como estendeu essa ca-
tegorização para incluir todo o Estado que ordenou essa brutalidade, incluindo os
muçulmanos praticantes que apoiavam passivamente o regime de Nasser.
A vasta categoria de subumanos de Qutb permitiu que seus discípulos justificas-
sem a matança de ‘infiéis’ em nome do Islã. O movimento por um Estado islâmico
foi transformado em uma ideologia violenta que constituiria o alicerce intelectual
da Al Qaeda. Em outras palavras, o chamado terrorismo islâmico foi ‘cultivado
em casa’ no Ocidente muito antes dos atentados de 7 de julho – foi quintessen-
cialmente uma criação moderna do racismo casual do Colorado e dos campos de
concentração do Cairo.

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ideologias mundiais

Para que vale a pena desenterrar essa história? Porque as fagulhas gêmeas que
acenderam a raiva de Qutb estão sendo atualmente embebidas em gasolina: árabes e
muçulmanos são aviltados em câmaras de tortura ao redor do mundo e suas mortes
estão sendo descontadas nas guerras coloniais simultâneas, ao mesmo tempo em
que provas visuais digitais dessas perdas e humilhações estão à disposição de quem
tenha um computador. E mais uma vez esse coquetel letal de racismo e tortura
queima nas veias de jovens irados. Como revelam o passado de Qutb e o presente de
Osman, não é nossa tolerância pelo multiculturalismo que alimenta o terrorismo; é
nossa tolerância pela barbárie cometida em nosso nome.

Inimigo oculto

Nesse ambiente explosivo entrou Tony Blair, determinado a vender duas das prin-
cipais causas do terror como se fossem sua cura. Ele pretende deportar mais muçul-
manos para países onde provavelmente enfrentam a tortura. E continuará lutando
guerras em que os soldados não sabem os nomes das cidades que estão arrasando.
Enquanto isso, no Reino Unido, não falta a “discriminação racial maligna e faná-
tica” que Qutb denunciou. “É claro que também houve atos isolados e inaceitáveis
de ódio racial ou religioso”, Blair disse antes de revelar seu plano de combate ao
terror. “Mas foram isolados”. Isolados? A Comissão Islâmica de Direitos Humanos
recebeu 320 queixas de agressões racistas depois dos atentados; o Grupo de Monito-
ramento recebeu 83 chamadas de emergência; e a Scotland Yard disse que os crimes
de ódio aumentaram 600% nos últimos 12 meses. Não que a situação anterior a 7
de julho fosse digna de orgulho: “Um em cada cinco eleitores de minorias étnicas
no Reino Unido diz que pensa em deixar o país por causa da intolerância racial”,
revelou uma pesquisa do jornal “The Guardian”, em março.
Essa última estatística mostra que o tipo de multiculturalismo praticado no Reino
Unido (e na França, Alemanha, Canadá...) tem muito pouco a ver com genuína igual-
dade. Nada expõe tanto o raso dessa alegada tolerância quanto a velocidade com que
as comunidades muçulmanas estão recebendo o aviso para “ir embora” (citando o de-
putado conservador Gerald Howarth) em nome dos valores nacionais fundamentais.
O verdadeiro problema não é o excesso de multiculturalismo, mas sua escassez.
Se a diversidade hoje guetificada nas margens das sociedades ocidentais – geográ-
fica e psicologicamente – realmente tivesse permissão para migrar para os centros,
poderia infundir na vida pública ocidental um novo e poderoso humanismo. Se ti-
véssemos sociedades profundamente multiétnicas, em vez de multiculturais e rasas,
seria mais difícil para os políticos assinar ordens de deportação, enviando argelinos
que buscavam asilo para a tortura ou para lutar em guerras nas quais somente os
invasores mortos são contados. Uma sociedade que realmente vivesse seus valores
de igualdade e direitos humanos no país e no exterior teria outra vantagem. Tiraria
dos terroristas o que sempre foi sua melhor ferramenta de recrutamento: nosso
racismo.”
Naomi Klein
Folha de São Paulo. Caderno Mais/2005. Trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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“Um único modelo sustentável para sucesso nacional: liberdade, democracia e livre
iniciativa”

A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA


“As grandes lutas do século 20 entre liberdade e totalitarismo terminaram com
uma vitória decisiva das forças da liberdade – e um único modelo sustentável para
sucesso nacional: liberdade, democracia e livre iniciativa. No século 21, somente
nações que compartilhem um comprometimento para proteger direitos humanos
básicos e garantindo liberdade política e econômica serão capazes de libertar o po-
tencial de seu povo e garantir sua prosperidade futura. Pessoas em todos os lugares
querem ser capazes de falar livremente; escolher quem as vai governar; cultuar con-
forme seu desejo; educar suas crianças – dos sexos masculino e feminino; possuir
propriedade; e aproveitar os benefícios de seu trabalho. Esses valores de liberdade
são direitos e verdadeiros para todas as pessoas, em todas as sociedades – e a tarefa de
proteger esses valores contra seus inimigos é a exigência básica de pessoas, em todo
o globo e de todas as idades, que apreciam a liberdade.
Hoje, os Estados Unidos aproveitam uma posição de poderio militar sem para-
lelos e grande influência política e econômica. Mantendo nossas heranças e prin-
cípios, nós não usamos nossa força para pressionar por vantagem unilateral. Nós
buscamos, em vez disso, criar um equilíbrio de poder que beneficie a liberdade
humana: condições de acordo com as quais todas as nações possam escolher por si
mesmas as recompensas e desafios da liberdade política e econômica. Em um mun-
do seguro, as pessoas podem fazer suas próprias vidas melhores. Nós defenderemos
a paz lutando contra terroristas e tiranos. Nós preservaremos a paz construindo boas
relações entre as grandes potências. Nós estenderemos a paz encorajando sociedades
livres e abertas em todos os continentes.
Defendendo nossa nação contra seus inimigos é o primeiro e fundamental com-
prometimento do Governo Federal. Hoje, essa tarefa mudou dramaticamente. Ini-
migos no passado precisaram de grandes exércitos e grande capacidades industriais
para ameaçar a América. Agora, redes obscuras de indivíduos podem trazer grande
caos e sofrimento para nossas terras por menos do custo de um único tanque. Ter-
roristas estão organizados para penetrar em sociedades abertas e para virar o poder
de tecnologias modernas contra nós.
Para derrotar essa ameaça, nós devemos fazer uso de toda ferramenta em nosso
arsenal – poderio militar, melhores defesas do território, garantia de obediência às leis,
inteligência e esforços vigorosos para cortar o financiamento de terroristas. A guerra
contra terroristas de alcance global é uma iniciativa global de duração incerta. A Amé-
rica vai ajudar as nações que precisem de nossa assistência para combater o terror. E a
América vai desafiar nações que estão comprometidas com o terror, incluindo aquelas
que guardam terroristas, porque os aliados do terror são os inimigos da civilização. Os
Estados Unidos e países colaborando conosco não podem permitir que terroristas de-
senvolvam novas bases. Juntos, vamos buscar negar a eles refúgio, a todo momento.
O mais grave perigo que a nossa nação encara está no cruzamento de radicalis-
mo e tecnologia. Nossos inimigos declararam abertamente que estão procurando

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armas de destruição de massas, e evidências indicam que eles estão fazendo isso com
determinação. Os Estados Unidos não permitirão que esses esforços sucedam. Nós
construiremos defesas contra mísseis e outros modos de ataques. Nós trabalharemos
em conjunto com outras nações para negar, conter e reduzir os esforços de nossos
inimigos para adquirir tecnologias perigosas. E, como um problema de senso co-
mum e autodefesa, a América vai agir contra as ameaças desses inimigos antes que
elas estejam totalmente formadas. Nós não podemos defender a América e nossos
amigos somente esperando pelo melhor. Por isso devemos estar preparados para
derrotar os planos de nossos inimigos, usando a melhor inteligência e procedendo
com deliberação. A história julgará cruelmente aqueles que viram esse perigo, mas
não agiram. No novo mundo em que entramos, o único caminho para paz e segu-
rança é o caminho de ação.
Enquanto defendemos a paz, nós também tiraremos proveito de uma oportu-
nidade histórica para preservar a paz. Hoje, a comunidade internacional tem sua
melhor chance desde a ascensão do estado-nação no século 17 para construir um
mundo em que grandes poderes compitam em paz em vez de continuamente se
preparar para a guerra. Hoje, as maiores potências do mundo se encontram do mes-
mo lado – unidas pelos perigos comuns de violência terrorista e caos. Os Estados
Unidos se basearão nesses interesses comuns para promover a segurança mundial.
Nós estamos também crescentemente unidos por valores comuns. A Rússia está no
meio de uma transição esperançosa, alcançando seu futuro democrático e de par-
ceira contra o terror. Líderes chineses estão descobrindo que liberdade econômica é
a única fonte de riqueza nacional. Em tempo, descobrirão que liberdade política e
social é a única fonte de grandiosidade nacional. A América encorajará o avanço da
democracia e abertura econômica em ambas as nações, porque essas são as funda-
ções de estabilidade doméstica e ordem internacional. Nós vamos resistir fortemen-
te à agressão de outras grandes potências – ao passo que damos as boas-vindas a suas
buscas por prosperidade, comércio e avanço cultural.
Finalmente, os Estados Unidos usarão esse momento de oportunidade para es-
tender os benefícios de liberdade por todo o globo. Nós lutaremos ativamente para
trazer a esperança de democracia, desenvolvimento mercados livres e livre comércio
para todos os cantos do mundo. Os eventos de 11 de setembro de 2001 nos ensina-
ram que Estados fracos, como o Afeganistão, podem ser uma grande ameaça aos nos-
sos interesses como Estados fortes. A pobreza não torna pessoas pobres em terroristas
e assassinos. Mas a pobreza, instituições fracas e corrupção podem tornar Estados
fracos vulneráveis para redes terroristas e cartéis de drogas em suas fronteiras.
Os Estados Unidos estarão ao lado de qualquer nação determinada para cons-
truir um futuro melhor por meio da busca de recompensas de liberdade para seu
povo. Livre comércio e livre mercado provaram sua habilidade de tirar sociedades
da pobreza – por isso os Estados Unidos trabalharão tanto com nações individual-
mente, regiões inteiras e toda a comunidade global de comércio para construir um
mundo que negocia com liberdade e, portanto, cresce em prosperidade. Os Estados
Unidos fornecerão maior assistência de desenvolvimento por meio do ‘New Mil-
lennium Challenge Account’ para nações que governem com justiça, invistam em

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seu povo e encorajam liberdade econômica. Nós também continuaremos a liderar


o mundo nos esforços para reduzir o terrível índice de HIV/Aids e outras doenças
infecciosas.
Construindo um equilíbrio de poder que favoreça a liberdade, os Estados Uni-
dos estão guiados pela convicção de que todas as nações têm responsabilidades im-
portantes. Nações que aproveitam liberdade devem ativamente lutar contra o terror.
Nações que dependem de estabilidade internacional devem ajudar a evitar a distri-
buição de armas de destruição de massas. Nações que buscam ajuda internacional
devem governar a si mesmas com inteligência, para que a ajuda seja bem gasta. Pela
liberdade de prosperar, responsabilidade deve ser esperada e exigida.
Nós também somos guiados pela convicção de que nenhuma nação sozinha pode
construir um mundo mais seguro e melhor. Alianças e instituições multilaterais po-
dem multiplicar a força de nações que apreciam a liberdade. Os Estados Unidos
estão comprometidos com instituições como as Nações Unidas, a Otan e outras
alianças duradouras. Coalizões com interessados podem aumentar as instituições
permanentes. Em todo caso, obrigações internacionais devem ser levadas a sério.
Elas não devem ser subestimadas simbolicamente para reunir apoio por um ideal
sem ampliação de esforços.
A liberdade é uma exigência não-negociável da dignidade humana. O direito
inato de todas as pessoas – em todas as civilizações. Ao longo da história, a liberdade
foi ameaçada pela guerra e pelo terror; ela foi ameaçada pelos desejos conflitantes
de Estados poderosos e ordens perniciosas de tiranos; e ela foi testada por amplas
pobreza e doença. Hoje, a humanidade tem em suas mãos a oportunidade para
ampliar o triunfo da liberdade sobre esses opositores. Os Estados Unidos dão as
boas-vindas à nossa responsabilidade de liderar essa grande missão.”
George W. Bush
Casa Branca,
(Folha on line. 29/10/2002)

Questões

• A pretensa coincidência entre um Estado e uma nação torna-se a cada dia


mais difícil de manter, seja pelas construções supranacionais, seja pelas estru-
turas federativas intranacionais?
• Os problemas enfrentados na contemporaneidade transcendem a base terri-
torial do Estado-nação.
• O que realmente significa que a economia nacionalista prime por conduzir
os processos econômicos e modernizantes segundo os objetivos da “nação”?
• O cosmopolitismo, servindo aos interesses das forças hegemônicas, apresen-
ta-se como portador de um diálogo intercultural unidirecional, ou seja, tole-
ra-se o diálogo enquanto não ofende a cultura dominante?

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I. CRISE DO ESTADO-NAÇÃO?

Será abordada a ambigüidade do termo Estado-nação, que advém da justapo-


sição de dois termos igualmente ambíguos: “Estado” podendo denotar tanto um
povo politicamente organizado quanto tão somente instituições de governo, ou ain-
da uma estrutura legal constitucional; ao lado, nação, que significa ora uma identi-
dade cultural específica ora uma entidade natural imemorial.
Assim, é difícil descobrir as raízes dessa justaposição de termos. Para alguns, há
argumentos teóricos e históricos suficientes para afirmar a precedência da nação ao
Estado, ao passo em que, para outros, há igualmente fontes que comprovam que
historicamente os Estados Absolutistas precederam a existência de nações moder-
nas. O que se pode concluir é que as estruturas sociais e legais do Estado absolutista
serviram de bases para a constituição do Estado-nação, o que, portanto, comprova
a dispensabilidade do “nacionalismo”, isto é, a nação como princípio de unidade
do Estado.
Outras posições observam que um Estado seria mais governável quando coin-
cidisse com uma nação; ao lado de outros que consideram que a nação próspera é
aquela que tem uma estrutura estatal que lhe acoberta.
Importante lembrar que o Estado europeu típico até a Era das Revoluções foi um
Estado dinástico, que adquiria território pelo casamento e o perdia pela divisão da
herança real. O nacionalismo vem inserir a idéia original de que cada povo tem um
território e cultura próprios. Hoje, os Estados que se pretendem fundados em uma
nacionalidade exclusiva tornam-se anacrônicos.
Fundamento de sua soberania. Outro ponto fundamental no debate de Es-
tado-nação refere-se ao fundamento de sua soberania. Nos primórdios da era
moderna, tal princípio estava encarnado na figura (divina ou dinástica) do go-
vernante, o que com as revoluções passou a se localizar no povo. Assim, estado-
nacional soberano foi definido como sendo aquele em que seu povo é soberano,
com o poder de elaborar suas próprias leis e dirigir seu próprio governo. Houve,
portanto, uma associação entre os conceitos de soberania popular e de autode-
terminação.
Nacionalismo e vontade geral. Um outro aspecto ainda analisado neste tópico é
que para a justificação da ação estatal, houve uma conveniente associação entre na-
cionalismo e o conceito de vontade geral. Como exposto por Rousseau, a vontade
geral é um ente moral construído democraticamente pelo diálogo entre todos os
cidadãos. Portanto, a vontade geral não é a soma das vontades individuais. E para
evitar desvios, a comunidade cívica concorda em inserir a vontade geral em normas
positivas estatais, ou seja, a vontade geral apresenta-se sob a forma de lei. Nesse sen-
tido, quando um indivíduo ou grupo contesta a validade ou legitimidade de uma
lei é compreendida pelo restante da comunidade como uma tentativa de sobrepor
a vontade individual sobre a vontade geral – um sentimento egoísta e contrário à
vida em comunidade.

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Questão para debate

A ideologia nacionalista, portanto, utiliza-se desse dogma da lei como expressão


da vontade geral para anular opiniões ideológicas contrárias denunciando-as como
destruidoras da vontade geral, da unidade nacional?
Cosmopolitismo e nacionalismo. Outra tensão apresenta-se no binômio cosmopo-
litismo e nacionalismo. O cosmopolitismo pode ser compreendido como um con-
junto de idéias voltadas para o diálogo intercultural que reforça o que há de comum
entre os povos – a humanidade. Em pólo contrário, o nacionalismo instaura sua
identidade destacando a diferença particular. Contudo, no debate contemporâneo,
o nacionalismo reforça sua diferença para manter sua identidade frente aos movi-
mentos culturais e políticos homogeneizantes.

II. A economia nacionalista – livre comércio e cosmopolitismo

Basicamente, o movimento clássico nacionalista se autojustifica como uma dou-


trina que busca tornar a nação relativamente auto-suficiente em tempos de guerra e
próspera em tempos de paz. Para esse intento, os governos promovem um tratamen-
to diferenciado às industrias nacionais, protegendo-as da competição predatória;
favorecem o consumo interno; e controlam as entradas e saídas de modo a manter
a balança comercial favorável.
Teoricamente, Fichte, em “The closed commercial State” (1800), formulou um
modelo de Estado protetor que deveria controlar a vida, o trabalho e a segurança
dos seus cidadãos a tal ponto que se dispensasse a busca desenfreada pelo lucro e
acumulação de riqueza, ações essas que, para Fichte, levariam à anarquia e à guer-
ra. Operacionalmente, caberia ao Estado impor os preços e os valores monetários,
controlar a balança comercial e fechar progressivamente as fronteiras de modo a se
tornar auto-suficiente economicamente.
Nesse esteio, será avaliado como o nacionalismo aprimorou seu discurso contra
o livre comércio que prejudicasse os seus nacionais e contra o cosmopolitismo que
operava segundo os valores individuais e liberais fragmentadores da nação e, ainda,
reforçou o apoio e subsídios às indústrias nacionais, em especial, aquelas do setor
estratégico – infra-estrutura, comunicações, bens industriais primários, etc.

III. O nacionalismo hoje: Multiculturalismo ou Xenofobismo?

Visa avaliar duas vertentes fundamentais contemporâneas: o multiculturalismo


e o crescente xenofobismo, com base no caso. Por um lado visa discutir a ideologia
nacionalista a partir de dois contextos: as reivindicações nacionalistas do oriente
médio, do Bálcãs, do Cáucaso, etc, e a doutrina do “Destino Manifesto” do EUA e
sua guerra contra o terrorismo.

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Questão para debate

Foi o multiculturalismo substituído pelo xenofobismo?

Entre todas as energias políticas, o nacionalismo aparece como a mais forte, a


mais resistente. É, sem dúvida, a força mais importante da história moderna – o
que pode ser comprovado pela resistência dos palestinos. Nem o colonialismo, nem
o imperialismo, nem os totalitarismos conseguiram acabar com ele. A corrente na-
cionalista não hesita em estabelecer as alianças mais impensáveis para atingir seus
fins. Isso é bastante evidente no Afeganistão ou no Iraque, por exemplo, onde o na-
cionalismo e o islamismo radical se unem para conduzir, por meio de novas formas
– particularmente detestáveis – de terrorismo, uma luta de libertação nacional.

(...) Incapazes de vencer a Tchetchênia pelas armas, os russos querem mostrar


que, na região do Cáucaso, nada pode ser feito sem eles. Continuam obcecados pelo
espectro de um “segundo Afeganistão”. Uma nova derrota militar diante da nebulosa
islamita na Tchetchênia seria ainda mais humilhante (a população tchetchena não
chega a um milhão); isso poderia ser um rastilho de pólvora no Cáucaso e transfor-
mar-se em nova desagregação territorial. Daí a recusa em aceitar qualquer tipo de
negociação ou o reconhecimento do direito à autodeterminação. E a brutalidade
da repressão, por sua vez, fabrica terroristas dispostos às loucuras mais criminosas.
(Ignacio Ramonet. Editorial: O labirinto caucasiano. Le Monde Diplomatique. Edição
brasileira, ano 5, número 57)

Na verdade, são os países mais fracos e mais pobres que causam as maiores histe-
rias. (...) o país mais fraco e mais pobre é mais perigoso como exemplo. Se uma nação
pequena e pobre como Granada pode ser bem-sucedida, alcançando um melhor ní-
vel de vida para seu povo, em outro lugar que tenha mais recursos as pessoas poderão
perguntar: “E nós, por que não?” (...) Eles [estrategistas dos EUA] entendem que
a verdadeira ameaça é o “bom exemplo”. Em outras palavras, o que os EUA que-
rem é “estabilidade”, quer dizer, segurança para “as classes dominantes e liberdade
para as empresas estrangeiras”. Se isso pode ser obtido com métodos democráticos
formais, OK. Se não, a ameaça à “estabilidade” causada pelo bom exemplo tem de
ser destruída, antes que o vírus infecte os outros. É por isso que, mesmo se a menor
partícula causar tal perigo, ela tem de ser esmagada. Noam Chomsky. O Que o Tio
Sam Realmente Quer. (Disponível em: http://www.cibergeo.org/agbnacional/documen-
tos/textoaberto20a.html)

“Introdução: Liberdade Cultural num Mundo Diversificado”. In: PNUD – Pro-


grama das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Relatório do desenvolvimento
humano 2004: liberdade cultural num mundo diversificado. Lisboa: PNUD, 2004.
(pp. 13-22)
Mito 1. As identidades étnicas das pessoas concorrem com a sua ligação ao Esta-
do, pelo que existe um trade-off entre reconhecer a diversidade e unificar o Estado.

FGV DIREITO RIO 97


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Mito 2: Os grupos étnicos têm inclinação para o conflito violento mútuo, num
choque de valores, pelo que existe um trade-off entre o respeito pela diversidade e a
sustentação da paz.
Mito 3. A liberdade cultural exige a defesa das práticas tradicionais, por isso,
poderá haver um trade-off entre o reconhecimento da diversidade cultural e outras
prioridades do desenvolvimento humano, tais como o progresso no desenvolvimen-
to, na democracia e nos direitos humanos.
Mito 4. Os países etnicamente diversificados são menos capazes de se desenvol-
ver, pelo que existe um trade-off entre o respeito pela diversidade e a promoção do
desenvolvimento.
Mito 5. Algumas culturas têm mais probabilidades de alcançar progressos desen-
volvimentistas do que outras e algumas culturas têm valores democráticos inerentes,
enquanto outras não, pelo que existe um trade-off entre a conciliação de certas cul-
turas e a promoção do desenvolvimento e da democracia.
Disponível em www.pnud.org.br

Bibliografia

GUIBERNAU, Montserrat, Nacionalismos – O Estado nacional e o nacionalismo


no século XX. Trad. Mauro Gama e Cláudio Martinelli Gama. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 1997, pp 139-150.
BALAKRICHNAN, Gopal (Org.). Um mapa da questão nacional. Rio de Janei-
ro: Contraponto, 2000.

Bibliografia Complementar

VINCENT, Andrew, Ideologias políticas modernas. Trad. Ana Luísa Borges. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995, pp. 260-270.

Links e sites

www.integralismo.org.br
http://www.acervoditadura.rs.gov.br/index3.htm

Atividade complementar

Leitura: “Triste fim de Policarpo Quaresma” – Lima Barreto

FGV DIREITO RIO 98


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Aula 22. Seminário

FGV DIREITO RIO 99


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UNIDADE VI – FASCISMO, NAZISMO E TOTALITARISMO

Aula 23. POR DENTRO DO MOVIMENTO NAZISTA

Documentário: O triunfo da vontade. Dirigido por Leni Riefenstahl

FGV DIREITO RIO 100


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Aula 24. Origens e Fundamentos

Caso: Siegfried Ellwanger. Considerações preliminares

Breve histórico

“Siegfried Ellwanger é um editor e autor de Porto Alegre, de assumida orientação


nazista. Dedica-se de forma sistemática a reeditar livros de estridente anti-semi-
tismo como Os protocolos dos sábios de Siao. É autor da obra intitulada Holocausto
– Judeu ou Alemão? nos bastidores da mentira do século, que denega o fato histórico do
crime de genocídio. Por sua conduta voltada para deliberadamente incitar a discri-
minação e o preconceito foi condenado em outubro de 1996 pelo crime da prática
de racismo pela 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul,
com fundamento no art. 5º, XLII, e no art. 20 da Lei nº 7.716, de 15 de janeiro de
1990. A pena foi dois anos de reclusão, com benefício de sursis e a exigência de o
réu prestar um ano de serviços à comunidade (...)
HC em seu favor foi impetrado no STJ em novembro de 2000 e denegado em
dezembro de 2001 pela decisão majoritária de sua 5ª Turma. O argumento central
do HC foi o de que o crime praticado por Ellwanger é o do incitamento contra
judeus, mas não o da prática do racismo, pois os judeus não são uma raça. Com
isso buscou o habeas corpus afastar a imprescritibilidade do delito cometido por
Ellwanger (...)
Novo pedido de HC com base na mesma argumentação deu entrada no STF
em 12 de setembro de 2002 onde teve parecer contrário da Procuradoria Geral da
República. (...) O julgamento no STF prolongou-se por cinco longas sessões. Teve
início em 12 de dezembro de 2002 e foi concluído em 17 de setembro de 2003. O
HC foi indeferido pela maioria de oito votos.”
LAFER, Celso. Análise e interpretação do art. 5, XLII, da Constituição de 1988:
sobre o alcance e o significado do crime da prática do racismo, uma discussão do
caso Ellwanger e da decisão do STF no HC nº 82.424/RS. In: ________. A inter-
nacionalização dos direitos humanos: Constituição, racismo e relações internacio-
nais. Barueri/São Paulo: Manole, 2005. (pp. 97-98)

O art. 5º, XLII, da Constituição de 1988 diz: “a prática do racismo constitui


crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão nos termos da lei.”

STF – Habeas Corpus Nº 82.424-2/RS

Relator originário: Min. Moreira Alves


Relator para o acórdão: Min. Presidente
Paciente: Siegfried Ellwanger
Impetrantes: Werner Cantalício João Becker e outra
Coator: Superior Tribunal de Justiça

FGV DIREITO RIO 101


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Ementa: Habeas corpus. Publicação de livros: anti-semitismo. Racismo. Crime


imprescritível. Conceituação. Abrangência constitucional. Liberdade de expressão.
Limites. Ordem denegada.
1. Escrever, editar, divulgar e comerciar livros “fazendo apologia de idéias pre-
conceituosas e discriminatórias” contra a comunidade judaica (Lei 7716/89, artigo
20, na redação dada pela Lei 8081/90) constitui crime de racismo sujeito às cláusu-
las de inafiançabilidade e imprescritibilidade (CF, artigo 5º, XLII).
2. Aplicação do princípio da prescritibilidade geral dos crimes, uma vez que se
os judeus não são uma raça, segue-se que contra eles não pode haver discriminação
capaz de ensejar a exceção constitucional de imprescritibilidade. Inconsistência da
premissa.
3. Raça humana. Subdivisão. Inexistência. Com a definição e mapeamento do
genoma humano, cientificamente não existem distinções entre os homens, seja pela
segmentação da pele, formato dos olhos, altura, pêlos ou por quaisquer outras ca-
racterísticas físicas, visto que todos se qualificam como espécie humana. Não há
diferenças biológicas entre os seres humanos. Na essência são todos iguais.
4. Raça e racismo. A divisão dos seres humanos em raças resulta de um proces-
so de conteúdo meramente político-social. Desse pressuposto origina-se o racismo
que, por sua vez, gera a discriminação e o preconceito segregacionista.
5. Fundamento do núcleo do pensamento do nacional-socialismo de que os ju-
deus e os arianos formam raças distintas. Os primeiros seriam raça inferior, nefasta e
infecta, características suficientes para justificar a segregação e o extermínio: incon-
ciabilidade com os padrões éticos e morais definidos na Carta Política do Brasil e do
mundo contemporâneo, sob os quais se ergue e se harmoniza o estado democrático.
Estigmas que por si sós evidenciam crime de racismo. Concepção atentatória dos
princípios nos quais se erige e se organiza a sociedade humana, baseada na respei-
tabilidade e dignidade do ser humano e de sua pacífica convivência no meio social.
Condutas e evocações aéticas e imorais que implicam em repulsiva ação estatal por
se revestirem de densa intolerabilidade, de sorte a afrontar o ordenamento infra-
constitucional e constitucional do País.
6. Adesão do Brasil a tratados e acordos multilaterais, que energicamente re-
pudiam quaisquer discriminações raciais, aí compreendidas as distinções entre os
homens por restrições ou preferências oriundas de raça, cor, credo, descendência
ou origem nacional ou étnica, inspiradas na pretensa superioridade de um povo
sobre outro, de que são exemplos a xenofobia, “negrofobia”, “islamafobia” e o anti-
semitismo.
7. A Constituição Federal de 1988 impôs aos agentes de delitos dessa natureza,
pela gravidade e repulsividade da ofensa, a cláusula de imprescritibilidade, para que
fique, ad perpetuam rei memoriam, verberado o repúdio e abjeção da sociedade
nacional à sua prática.
8. Racismo. Abrangência. Compatibilização dos conceitos etimológicos, etnoló-
gicos, sociológicos, antropológicos ou biológicos, de modo a construir a definição
jurídico-constitucional do termo. Interpretação teleológica e sistêmica da Cons-
tituição Federal, conjugando fatores e circunstâncias históricas, políticas e sociais

FGV DIREITO RIO 102


ideologias mundiais

que regeram sua formação e aplicação, a fim de obter-se o real sentido e alcance da
norma.
9. Direito comparado. A exemplo do Brasil as legislações de países organizados
sob a égide do estado moderno de direito democrático igualmente adotam em seu
ordenamento legal punições para delitos que estimulem e propaguem segregação
racial. Manifestações da Suprema Corte Norte-Americana, da Câmara dos Lordes
da Inglaterra e da Corte de Apelação da Califórnia nos Estados Unidos que consa-
graram entendimento que aplicam, igualmente, sanções àqueles que transgridem as
regras de boa convivência social com grupos humanos que simbolizem o exercício
de racismo.
10. A edição e publicação de obras escritas veiculando idéias anti-semitas, que
buscam resgatar e dar credibilidade à concepção racial definida pelo regime nazista,
negadoras e subversoras de fatos históricos incontroversos como o holocausto, con-
substanciadas na pretensa inferioridade e desqualificação do povo judeu, equivalem
à incitação ao discrímen com acentuado conteúdo racista, reforçadas pelas conseqü-
ências históricas dos atos em que se baseiam.
11. Explícita conduta do agente responsável pelo agravo revelador de manifesto
dolo, baseada na equivocada premissa de que os judeus não só são uma raça, mas,
mais do que isso, um segmento racial atávica e geneticamente menor e pernicioso.
12. Discriminação que no caso se evidencia como deliberada e dirigida especifi-
camente aos judeus, que configura ato ilícito de prática de racismo, com as conse-
qüências gravosas que o acompanham.
13. Liberdade de expressão. Garantia constitucional que não se tem como abso-
luta. Limites morais e jurídicos. O direito à livre expressão não pode abrigar, em sua
abrangência, manifestações de conteúdo imoral que implicam ilicitude penal.
14. As liberdades públicas não são incondicionais, por isso devem ser exercidas
de maneira harmônica, observados os limites definidos na própria Constituição
Federal (CF, artigo 5º, § 2º, primeira parte). O preceito fundamental de liberdade
de expressão não consagra o “direito à incitação ao racismo”, dado que um direito
individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede
com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa
humana e da igualdade jurídica.
15. “Existe um nexo estreito entre a imprescritibilidade, este tempo jurídico que
se escoa sem encontrar termo, e a memória, apelo do passado à disposição dos vi-
vos, triunfo da lembrança sobre o esquecimento”. No estado de direito democrático
devem ser intransigentemente respeitados os princípios que garantem a prevalência
dos direitos humanos. Jamais podem se apagar da memória dos povos que se pre-
tendam justos os atos repulsivos do passado que permitiram e incentivaram o ódio
entre iguais por motivos raciais de torpeza inominável.
16. A ausência de prescrição nos crimes de racismo justifica-se como alerta grave
para as gerações de hoje e de amanhã, para que impeça a reinstauração de velhos e
ultrapassados conceitos que a consciência jurídica e histórica não mais admitem.
Ordem denegada.

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ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por maioria de votos, indeferir o habeas corpus.
Brasília, 17 de setembro de 2003
Maurício Corrêa
Presidente e relator para o acórdão

VOTOS
Ministro Moreira Alves:
“Não sendo, pois, os judeus uma raça, não se pode qualificar o crime por discri-
minação pelo qual foi condenado o ora paciente como delito de racismo, e, assim,
imprescritível a pretensão punitiva do Estado”

Ministro Marco Aurélio:


“A interpretação do inc. XLII do art. 5º da Constituição deve ser a mais limitada
possível, no sentido de que a imprescritibilidade só pode incidir no caso da prática
de discriminação racista contra o negro, sob pena de se criar um tipo constitucional
aberto imprescritível, algo, portanto, impensável em um sistema democrático de
direito.”

Ministro Carlos Ayres de Brito:


“Lendo o livro do paciente, da primeira à última edição e lendo outros livros
mencionados na denúncia cheguei à conclusão de que não houve racismo, não houve
preconceito (...) Mantenho convictamente meu voto. Absolvo Siegfried Ellwanger.”

I. Terminologia e origens do pensamento fascista e nacional-socialista

Visa apresentar uma genealogia histórica do termo fascismo. Este advém do la-
tim fasces, que significa feixe de varetas, denotando unidade e força. Todavia, como
ideologia política, o fascismo se tornou conhecido após a consolidação do regime
fascista na Itália em 1922 e do nacional-socialismo na Alemanha em 1933. Embora
estejam sob o mesmo espectro político, fascismo e nazismo partem de pensamentos
nacionalistas diferentes.
O termo fascismo após a 2ª Guerra Mundial ficou marcado por uma forte
carga negativa, referindo-se genericamente a qualquer tipo de experiência política
totalitária.
Inicialmente, podemos indicar que o fascismo traz em seu bojo a crença ilu-
minista de controle racional da natureza humana ao lado do desejo romântico de
uma vida mais simples, primitiva. Apresenta como características gerais a exaltação
da raça e do Estado representados na figura do líder e o uso de propaganda de
massa e censura, tudo isso amarrado em uma concepção orgânica da sociedade e
do Estado.

FGV DIREITO RIO 104


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Podemos localizar três fontes possíveis do fascismo:

a) Um estado de espírito instintivo, a-histórico – sendo para os alemães, a cons-


ciência da raça ariana e, para os italianos, uma ligação umbilical com o Im-
pério Romano;
b) Fruto do movimento cultural da Renascença e do Iluminismo;
c) Uma reação tardia contra o ideário da Revolução Francesa (liberalismo, igua-
litismo, democracia, racionalismo, etc.).

Contudo, mais precisamente, o fascismo diz respeito a uma experiência histori-


camente localizada que surge em 1922-1923, tem seu apogeu nos anos 30 e desa-
parece com o término da 2ª Guerra. As mudanças no comércio internacional, um
novo arranjo colonialista, a instabilidade política nos Estados europeus e o desen-
cadeamento da 1ª Guerra Mundial, seguida de uma grande depressão econômica,
foram fatores que contribuíram para o surgimento do fascismo como uma proposta
de Estado forte capaz de reordenar as instituições políticas e sociais do país.
Apesar de diversos regimes adotarem práticas fascistas, o fascismo como ideo-
logia pode ser identificado com precisão na Itália e na Alemanha entre os anos 20
e 30 do século XX. Na Alemanha sua relação primordial está na submissão total e
irracional da sociedade e do Estado ao Volk para a defesa e promoção da raça ariana.
Diferentemente, na Itália ao que se assistiu foi um Estado inserido na lógica racio-
nalista ocidental para a promoção da modernização do país.
A dificuldade em precisar a natureza do fascismo está em que a maioria dos
fascistas tornou-se antiintelectuais, o que os levou a não produzirem teoricamente
sobre sua ação política. Por isso, para compreender o fascismo é útil passar pelas
críticas que outras correntes ideológicas produziram sobre este movimento.

Análise marxista

A análise marxista compreendia o fascismo como um movimento inserto na


crise do capitalismo monopolista, quando o Estado é capturado pelas elites para
neutralizar os conflitos de classe e melhorar a performance econômica.

Pseudoprojeto de industrialização e modernização

O fascismo pode ser explicado como uma forma específica de, em um determi-
nado contexto histórico, produzir industrialização e modernização.

Resposta à crise da estrutura social

Igualmente, o fascismo também é explicado como uma resposta à crise da es-


trutura social, o que levaria à tirania e à exaltação do líder redentor, e também à
crise do sistema partidário ou fracasso da democracia parlamentar, que, por sua vez,
levaria ao centralismo.

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II. Fascismo e totalitarismo

Como vermos mais adiante neste tópico, o fascismo pode ser visto como mais
uma forma totalitária ao lado do comunismo e stalinismo. No totalitarismo tem
lugar uma política de mobilização de massas, um partido único monolítico, e ne-
nhuma separação entre Estado e sociedade. O Estado tende ao domínio total da
sociedade, da economia e das comunicações para produzir o seu efeito mais devasta-
dor: o desenraizamento, físico e moral, dos indivíduos, que, isolados e atomizados,
já não se identificam ou pertencem nem ao Estado nem a sociedade ou qualquer
outro grupo. Este processo é o que se convenciona denominar ideologia do terror.
A partir do conceito de vitalismo, os regimes fascistas tendem a considerar os
homens como massas frágeis e fáceis de manipulação. Mussolini é claro ao enfatizar
que as massas são como crianças que devem ser repreendidas e presenteadas alter-
nativamente.
Outro ponto forte do fascismo, oposto ao individualismo liberal, está em com-
preender os homens como criaturas sociais, comunais por natureza. No fascismo
italiano, o Estado era o princípio unificador dos indivíduos, a verdadeira e natural
comunidade. Diferentemente, o nacional-socialismo alemão entendia que a dimen-
são racial era o que unia os indivíduos. E mais, a vida emotiva instintiva ligava os
homens ao Volk e ao impulso vital da natureza; assim, o objetivo não estava em,
como acreditavam os liberais, controlar a natureza, mas antes, integrar-se a ela.

III. Nação, raça e Volk

Neste tópico será discutida a premissa básica dos fascismos, de que os homens
são antes de tudo criaturas de uma nação, de uma raça, de um Volk. O homem não
existe per se, tal qual o liberalismo pregava. O fascismo, orientado por um pseudo-
ideal comunitário, compreendia que a nação e a raça transcendem o conflito de
classes. Lamentavam que a burguesia e o proletariado desperdiçassem sua energia
vital em anseios materialistas e na política parlamentar. Ao contrário, o “Estado-so-
ciedade” fascista estava orientado para preparar a nação para os tempos de guerra e
para o heroísmo.
Para o fascismo italiano, segundo palavras de Mussolini, “não é a nação que gera
o Estado... mais exatamente a nação é criada pelo Estado”, o que destoa do nacional-
socialismo alemão que, segundo Hitler, “o Estado em si não cria um nível específico de
cultural; pode apenas preservar a raça” (apud VICENT, 1995:163).
Para Hitler o fim do Império Austro-Húngaro foi devido a sua fragilidade racial;
a partir disso, compreendeu que a miscigenação era sinal de decadência e desor-
ganização da civilização. Logo, era necessária a busca pela pureza da raça ariana
– a genuína raça – para o fortalecimento da Alemanha – um país humilhado na
Primeira Guerra.

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Bibliografia básica

Leitura para as aulas 23, 24, 25:


ARENDT, Hannah, Origens do totalitarismo. Trad. brasileira de Roberto Raposo.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 512-531.
PAXTON, Robert, A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

Bibliografia complementar

LAFER, Celso. A internacionalização dos direitos humanos: Constituição, ra-


cismo e relações internacionais. Barueri/São Paulo: Manole, 2005, pp. 93-
120.
VICENT, Andrew. Ideologias políticas modernas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
1995, pp. 146-174.

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Aula 25. Totalitarismo e “a vida nua”

Caso: Siegfried Ellwanger. Parecer Celso Lafer

Trechos do Parecer do caso Ellwanger: o anti-semitismo como prática do racismo.

§ 12 “(...) discutir o crime da prática do racismo a partir do termo de raça


nos termos dos argumentos apresentados no HC 82424-2 em favor de Siegfried
Ellwanger é uma maneira de reduzir e, no limite, esvaziar completamente o conte-
údo jurídico do preceito constitucional consagrado pelo art. 5º, LXII.”
§ 15 “(...) não é na raça – pois só existe uma raça humana – mas nas práticas dis-
criminatórias do racismo, que são histórico-político-culturais, que reside o caminho
para a correta interpretação e aplicação do art. 5º, LXII, da Constituição de 1988 e
a sua correspondente legislação infraconstitucional.”
§ 17 “(...) Entre os grandes teóricos racistas, destacam-se Arthur de Gobineau
(1816-1882), que fez a distinção entre a raça semita e a raça ariana, atribuindo a
esta última uma superioridade física, moral e cultural. Gobineau esteve no Brasil
como representante diplomático francês e comentou, na linha de sua visão racista:
‘Trata-se de uma população totalmente mulata, viciada no sangue e no espírito e
assustadoramente feia’, e complementa: ‘Nenhum brasileiro é de sangue puro; as
combinações dos casamentos entre brancos, indígenas e negros multiplicaram-se a
tal ponto que os matizes de carnação são inúmeros, e tudo isso produziu, nas classes
baixas e nas altas, uma degenerescência do mais triste aspecto’.
(...) A prática do racismo baseia-se, assim, no pressuposto da existência de raças
humanas e no conseqüente estabelecimento de sua hierarquização. Por esse motivo,
o argumento privilegiado das teorias racistas e de suas conseqüências sociais reside,
como realça Clara Queiroz, no que entendiam ser a incontestabilidade das ciências
biológicas.
As teorias racistas fizeram parte do processo de autolegitimação da expansão
colonial européia e da ausência de freios e limites ao imperialismo. Um dos frutos
disso foi o racismo institucionalizado do ‘apartheid’ na África do Sul, em proveito
da minoria branca, que foi um dos grandes temas da agenda internacional dos di-
reitos humanos da ONU.
Outra terrível conseqüência foi o racismo biológico institucionalizado na Ale-
manha nazista, que afirmava não só a superioridade da raça germânica-ariana, mas
o imperativo da luta contra as raças inferiores, entre as quais inseriam não só os ju-
deus como também os ciganos e os eslavos. Essa luta, para recorrer a Carl Schmitt,
que disso entendia, não tinha apenas a dimensão dos privata odia, voltada contra
inimicos, mas era sobretudo uma guerra pública dirigida contra as raças inferiores,
identificada como hostes (...) Daí o alcance avassalador dos ódios públicos do racismo
nazista, que levou aos campos de concentração, ao Holocausto e ao ineditismo, na
História da Humanidade, do crime de genocídio, que estão na base da grande re-
flexão de Hannah Arendt sobre o totalitarismo no século XX e do grande tema do

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‘direito a ter direitos’ como ponto de partida da reconstrução dos direitos humanos
(...) Foram esses fatos que levaram, no pós-Segunda Guerra Mundial, à inclusão
ampla da agenda dos direitos humanos no plano internacional.”
§ 18 “(...) Se o racismo não pode ser justificado por fundamentos biológicos, ele,
no entanto, persiste como fenômeno social. É esse fenômeno social, e não a “raça”,
o destinatário jurídico da repressão prevista pelo art. 5º, LXII, da Constituição da
1988 (...) o conteúdo jurídico do crime da prática do racismo tem o seu núcleo nas
teorias e ideologias e na sua divulgação, que discriminam grupos e pessoas, a elas
atribuindo as características de uma “raça” inferior.”
§ 19 “(...) Esclarece, também, Bobbio que os postulados do racismo como visão
do mundo, que independe da fundamentação científica, como foi visto, são três:
(i) a humanidade está dividida em raças, cuja diversidade é dada por características
biológicas e psicológicas. Estas têm elementos culturais que derivam, porém, das
características biológicas, cuja natureza é invariável e se transmite hereditariamente;
(ii) não só existem raças diversas, mas existem raças superiores e inferiores; e (iii)
não só existem raças, e estas se dividem entre superiores e inferiores, como também
as superiores têm o direito de dominar as inferiores.
(...) O último grau na escala da violência do tratamento racista é a agressão física.
Esta começa de modo esporádico, contra alguns indivíduos – é o que fazem os ski-
nheads – e chega ao extermínio premeditado e de massa. O extermínio premeditado
de massa tem nas câmaras de gás dos campos de concentração da Alemanha nazista
a sua terrível exemplificação, pois foi o meio técnico por excelência do Holocausto
como crime de genocídio. O paradigma deste último grau na escala da violência é o
“Estado racial” no qual se transformou a Alemanha nazista de Hitler. A Alemanha
de Hitler, realça Bobbio, foi “um Estado racial no mais pleno sentido da palavra,
pois a pureza da raça devia ser perseguida não só eliminando indivíduos de outras
raças, mas também indivíduos inferiores física e psiquicamente da própria raça,
como os doentes terminais, os prejudicados psíquicos, os velhos não mais auto-
suficientes.”
IX – Síntese Conclusiva §§28-37
§ 34 (...)
As teorias racistas buscaram sua fundamentação nas ciências biológicas. Justi-
ficaram a prepotência da expansão colonial européia e foram a base do racismo
biológico institucionalizado da Alemanha nazista.
(...)
As teorias racistas não têm fundamentação biológica. Persistem, no entanto,
como fenômeno social. É por essa razão que é este fenômeno, e não a “raça”, o des-
tinatário jurídico da repressão prevista pelo art. 5º, LXII, da Constituição.
§ 35 As teorias e visões do mundo sobre o racismo partem do princípio de que
existem raças; que estas se dividem entre superiores e inferiores e que as superiores
têm o direito de dominar as inferiores. Uma visão racista do mundo leva a distintas
escalas de agressividade, lastreada pelo não reconhecimento aos “outros” dos mes-
mos direitos e garantias, cujo fundamento é o princípio da igualdade e o corolário
da não discriminação. A escala de agressividade se intensifica com a violência da

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segregação de que é exemplo o que foi o apartheid na África do Sul. O paroxismo


da violência é o extermínio físico, tal como tipificado pelo crime do genocídio. O
paradigma desse paroxismo foi o Holocausto levado a efeito pelo Estado Racial em
que se converteu a Alemanha nazista, que conduziu uma guerra pública contra as
raças inferiores, com destaque para o extermínio de judeus.
A Carta da ONU procurou responder ao ineditismo da escala sem precedentes
do mal, da experiência da Segunda Guerra Mundial e de seus antecedentes. Nesta
resposta, deu realce para o que representou o genocídio como afronta ao valor da
dignidade da pessoa humana. Fez, assim, da tutela dos direitos humanos no plano
internacional não um tema circunscrito, mas um tema global.
Na etapa da especificação, do processo de positivação dos Direitos Humanos
no âmbito do Direito Internacional Público, em matéria de discriminação racial, o
grande texto jurídico é a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Racial de 1965 (...) qualifica, no seu art. 1º, como discri-
minação racial qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseadas em raça,
cor, descendência ou origem nacional e estipula, no seu art. 4º, como delito, a difusão de
idéias baseadas na superioridade ou ódios raciais ou qualquer incitamento à discrimina-
ção racial, tal como definido no art. 1º. A prática do crime de racismo inclui, assim,
o anti-semitismo, que é um fenômeno social, que independe de um inexistente e
impreciso conceito de “raças”.
§ 36 As práticas do racismo, na experiência histórica do Brasil, em oposição
ao que alega o impetrante, tiveram uma amplitude de destinatários que foram vi-
timados pela discriminação. Negros, mulatos, índios, ciganos, judeus foram, em
diversos momentos da nossa História, considerados “raças inferiores” e, como tal,
discriminados.
(...) Na década de 30, teve irradiação em nosso país o racismo nazista alemão,
que tinha no anti-semitismo o seu foco preponderante. Isto contribuiu para a exis-
tência de práticas racistas no aparelho do Estado, em especial no que tange às res-
trições da imigração de judeus para o Brasil na década de 30 e durante a Segunda
Guerra Mundial, justificadas por critérios raciais.
§ 37 (...) O crime de Siegfried Ellwanger é o da prática do racismo, crime de
que nos queremos livrar, em todas as suas vertentes, para construir uma sociedade
digna. Tem a especificidade de querer preservar, por meio de publicações, viva, a
memória de um anti-semitismo racista. Foi esse anti-semitismo que levou, no Es-
tado Racial em que converteu a Alemanha nazista, à escala sem precedentes o mal
representado pelo Holocausto. O Holocausto é a recusa da condição humana da
pluralidade e da diversidade, que contesta, pela violência do extermínio, os prin-
cípios da igualdade e da não discriminação, que são a base da tutela dos direitos
humanos. O crime de Siegfried Ellwanger, por apontar nessa direção do mal, não
admite o esquecimento.
LAFER, Celso. O caso Ellwanger: o anti-semitismo como prática do racismo. [Pare-
cer] Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 41, nº 162, abr/jun 2004. (pp.53-
89)

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Tópicos do Parecer pra discussão em aula

• Discutir o crime da prática do racismo a partir do termo de que raça é esva-


ziar completamente o conteúdo jurídico do preceito constitucional consa-
grado pelo art. 5º?
• Não é na raça – pois só existe uma raça humana – mas nas práticas discrimi-
natórias do racismo, que são histórico-político-culturais.
• O uso do termo raça remete à possibilidade de atribuições e distinções à su-
perioridade física, moral e cultural.
• A prática do racismo baseia-se, assim, no pressuposto da existência de raças
humanas e no conseqüente estabelecimento de sua hierarquização.
• As teorias racistas encontram suporte nas ciências biológicas. Caso: racismo
biológico institucionalizado na Alemanha nazista, que afirmava não só a su-
perioridade da raça germânica-ariana.
• Análise do “alcance avassalador dos ódios públicos do racismo nazista, que le-
vou aos campos de concentração, ao Holocausto e ao ineditismo, na História
da Humanidade, do crime de genocídio, que estão na base da grande reflexão
de Hannah Arendt sobre o totalitarismo.”
• Se o racismo não pode ser justificado por fundamentos biológicos, ele, no
entanto, persiste como fenômeno social.
• Ideologia e lógica totalitária. O conteúdo jurídico do crime da prática do
racismo tem o seu núcleo nas teorias e ideologias?
• Estado total. “Estado racial” no qual se transformou a Alemanha nazista de Hitler.
• Perda da pluralidade, a natalidade e a individualidade. “Uma visão racista do
mundo leva a distintas escalas de agressividade, lastreada pelo não reconhe-
cimento aos ‘outros’ dos mesmos direitos e garantias, cujo fundamento é o
princípio da igualdade e o corolário da não discriminação.”
• Mal radical. A aniquilação do humano responde ao ineditismo da escala sem
precedentes do mal. “Foi esse anti-semitismo que levou, no Estado Racial em
que converteu a Alemanha nazista, à escala sem precedentes o mal represen-
tado pelo Holocausto.”
• “Holocausto é a recusa da condição humana da pluralidade e da diversidade,
que contesta, pela violência do extermínio, os princípios da igualdade e da
não discriminação, que são a base da tutela dos direitos humanos.”
• “O crime de Siegfried Ellwanger”, por apontar nessa direção do mal, não
admite o esquecimento.

I. Totalitarismo: um novo regime político



As leis de movimento

As leis positivas, que sempre garantiram o equilíbrio social, e preservaram a es-


tabilidade da tutela dos cidadãos, viram-se empalidecidas em nome de normas que,

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ideologias mundiais

segundo a ideologia totalitária, seguiam rigorosamente as Leis da Natureza e Leis


da História. Os sujeitos passaram a compor um quadro de peças secundárias no
processo de decisão, visto que tal inversão implicava a idéia de que o próprio mo-
vimento da História e da Natureza seria o agente, o sujeito da ação política. “Em
lugar das fronteiras e dos canais de comunicação entre os homens enquanto indiví-
duos, constrói um cinturão de ferro que os cinge de tal forma que é como se a sua
pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas.” (Hannah
Arendt, Origens do Totalitarismo) O poder de fazer crer que cada um cumpria o
papel de representante direto das ordens do Führer, ou mesmo que cada um poderia
alcançar ascensão social, um «triunfo individual», não implicava a simples presença
do fator ambição, embora, como afirmamos, o interesse próprio fosse uma carta
freqüentemente utilizada no jogo ideológico da Alemanha Nazista.

Perda da comunicabilidade e perda do ponto de vista dos outros

A quebra da comunicação responsável pela dimensão do real: “Nenhuma co-


municação era possível com ele, não porque ele mentisse, mas sim porque estava
cercado da mais confiável de todas as defesas contra palavras e a presença de outros,
e portanto contra a realidade como tal.” (Hannah Arendt) O ponto de vista se en-
raíza no modus operandi da qualidade própria de estar no mundo, da realidade, que
envolve cidadão, opinião e comunicação. O fio que possibilitaria a comunicabilida-
de havia sido quebrado pela “ideologia” totalitária. De certa forma, estava patente
que havia uma certa lógica em tal ideologia, que teria partido o liame condutor do
contato com a pluralidade de pensamentos próprios da vida coletiva.

A diluição do senso comum

Enquanto o senso comum pressupõe um mundo em que todos compartilham da


vida social, vivem juntos, e é dotado de um sentido capaz de ajustar as percepções
pessoais às dos outros, a lógica empregada no Totalitarismo adquiria realidade in-
dependentemente da existência das pessoas e da pluralidade do mundo. A perda do
senso comum, da pluralidade que se compartilha na vida social, encobria uma falta
de sentido mais profunda do que a perda da capacidade de ação política: “... o que
assusta no crescimento do Totalitarismo não é que seja algo novo, mas sim que te-
nha trazido à luz a ruína de nossas categorias de pensamento...” (Hannah Arendt)

II. Ideologia e lógica totalitária

O aprendizado do Totalitarismo não instigou convicções, mas, justamente, des-


truiu a capacidade de adquiri-las, retirando dos indivíduos os seus papéis de atores.
Esta destruição se fez através do campo ideológico. Hannah Arendt aponta três
elementos específicos constitutivos desta ideologia:

FGV DIREITO RIO 112


ideologias mundiais

1. a sua pretensão de explicação total, sem deixar nenhuma lacuna na elucida-


ção dos acontecimentos históricos, circunscrevendo seus três tempos, passa-
do, presente e futuro.
2. como conseqüência, a própria emancipação da realidade, visto que a lógica
do sistema nazista, que se movimenta sempre em termos de um processo de
autogerenciamento, necessita para produzir seus resultados que o indivíduo
se capacite a ler através da ilusão da realidade aparente, denominado de “sig-
nificado secreto”.
3. representa o ponto culminante da força da ideologia e, ao mesmo tempo,
corrobora com a destruição do processo do pensamento, foi a libertação do
pensamento da experiência. Na estrutura do “aparelho” ideológico, há um
processo lógico que, gerando-se a si próprio, não emana da experiência, tam-
pouco da realidade, mas da sua força dedutiva que, através da dialética ou da
lógica, se auto-argumenta e se auto-explica, uma lógica que se liberta total-
mente das argumentações da realidade e da experiência.

III. A superfluidade do humano e o mal político radical

Um tipo de sistema capaz de dominar radicalmente o homem. Um dos maiores


veículos eram os horrores dos campos de concentração, onde o ser humano perdia
a sua condição de pessoa jurídica, de pessoa moral e sua unicidade enquanto indiví-
duo. Esta redução radical do humano possuía força suficiente para diluir os limites
de inteligibilidade do homem em compreender este fenômeno.

IV. Da supressão do direito à supressão da vida

Aniquilação da dignidade humana. Os métodos dos campos de concentração


tinham o poder absoluto de matar o psíquico e ainda manter o corpo pulsando,
um fenômeno que escapava totalmente ao nosso entendimento. O radicalismo das
medidas destinava-se a tratar pessoas como se nunca houvessem existido, e a fazê-las
desaparecer no sentido literal do termo. Neste tópico acentuaremos a forma abso-
luta com que os campos de concentração conseguiram aniquilar o próprio valor
representativo da vida e da morte, fazendo minar todo o conjunto de característi-
cas que tradicionalmente configuraram o humano, destituindo-o simplesmente da
existência.

Questões

• No extremo, podemos dizer que o ápice da dominação, a sua faceta mais “ra-
dical”, foi destituir o homem do seu elemento mais intrínseco, uma das re-
presentações mais decisivas, a sua morte, pois o próprio significado da morte
foi aniquilado?

FGV DIREITO RIO 113


ideologias mundiais

• Os testes de resistência humana em suportar a dor. Os campos de concentra-


ção – destruição de elementos que eram essenciais à vida definida como vida
humana, ou seja, a pluralidade, a natalidade e a individualidade.
• O mal radical. O sucesso do totalitarismo é idêntico a uma liquidação da
liberdade como realidade política e humana muito mais radical do que qual-
quer coisa que já tenhamos testemunhado antes. A “radicalidade” dos cam-
pos de concentração desvelava o ilimitado poder do homem em diluir com-
pletamente, em todos os níveis, a própria célula do que havia caracterizado
a natureza humana, a liberdade: a radicalidade com que a liberdade humana
fora liquidada.

Bibliografia básica:

Leitura para as aulas 23, 24, 25:


ARENDT, Hannah, Origens do totalitarismo. Trad. brasileira de Roberto Raposo.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 512-531.
PAXTON, Robert, A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

Bibliografia complementar:

LACLAU, Ernesto, Política e Ideología en la Teoría Marxista – Capitalismo, Fascis-


mo, Populismo. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1978.
RÜRUP, Reinhard, Topography of Terror. Berlin: Verlag Willmuth Arenhövel, 14
edition, 2004.

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ideologias mundiais

Aula 26. Estado Total

“Nenhuma constituição do mundo havia, como a de Weimar, legalizado tão facil-


mente um golpe de Estado.” (Carl Schmitt)

i. Estado de Exceção

“O estado de exceção não é uma ditadura (constitucional ou inconstitucional,


comissária ou soberana), mas um espaço vazio de direito, uma zona de anomia em
que todas as determinações jurídicas – e, antes de tudo, a própria distinção entre pú-
blico e privado – estão desativadas. Portanto, são falsas todas aquelas doutrinas que
tentam vincular diretamente o estado de exceção ao direito, o que se dá com a teoria
da necessidade como fonte jurídica originária, e com a que vê no estado de exceção o
exercício de um direito do Estado à própria defesa ou a restauração de um originário
estado pleromático do direito (os “plenos poderes”). Mas igualmente falaciosas são as
doutrinas que, como a de Schmitt, tentam inscrever indiretamente o estado de exce-
ção num contexto jurídico, baseando-o na divisão entre norma de direito e normas
de realização do direito, entre poder constituinte e poder constituído, entre norma e
decisão. O estado de necessidade não é um “estado do direito”, mas um espaço sem
direito (mesmo não sendo um estado de natureza, mas se apresenta como a anomia
que resulta da suspensão do direito)”.
AGAMBER, Giorgio. Estado de exceção. São Paulo: Boitempo, 2004. (pp.78-
79)

Constituição de Weimar

“Art. 48 – Se, no Reich alemão, a segurança e a ordem pública estiverem seria-


mente [erheblich] conturbadas ou ameaçadas, o presidente do Reich pode tomar as
medidas necessárias para o restabelecimento da segurança e da ordem pública, even-
tualmente com a ajuda das forças armadas. Para esse fim, ele pode suspender total
ou parcialmente os direitos fundamentais [Grundrechte], estabelecidos nos artigos
114, 115, 117, 118, 123, 124 e 153.”

Constituição Brasileira 1988

Art. 136 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e


o Conselho de Defesa Nacional, decretar estado de defesa para preservar ou pron-
tamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz
social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional ou atingidas por
calamidades de grandes proporções na natureza.
§ 1º – O decreto que instituir o estado de defesa determinará o tempo de sua
duração, especificará as áreas a serem abrangidas e indicará, nos termos e limites da
lei, as medidas coercitivas a vigorarem, dentre as seguintes:

FGV DIREITO RIO 115


ideologias mundiais

I – restrições aos direitos de:


a) reunião, ainda que exercida no seio das associações;
b) sigilo de correspondência;
c) sigilo de comunicação telegráfica e telefônica;
II – ocupação e uso temporário de bens e serviços públicos, na hipótese de cala-
midade pública, respondendo a União pelos danos e custos decorrentes.
§ 2º – O tempo de duração do estado de defesa não será superior a trinta dias,
podendo ser prorrogado uma vez, por igual período, se persistirem as razões que
justificaram a sua decretação.
§ 3º – Na vigência do estado de defesa:
I – a prisão por crime contra o Estado, determinada pelo executor da medida, será
por este comunicada imediatamente ao juiz competente, que a relaxará, se não for
legal, facultado ao preso requerer exame de corpo de delito à autoridade policial;
II – a comunicação será acompanhada de declaração, pela autoridade, do estado
físico e mental do detido no momento de sua autuação;
III – a prisão ou detenção de qualquer pessoa não poderá ser superior a dez dias,
salvo quando autorizada pelo Poder Judiciário;
IV – é vedada a incomunicabilidade do preso.
§ 4º – Decretado o estado de defesa ou sua prorrogação, o Presidente da Repú-
blica, dentro de vinte e quatro horas, submeterá o ato com a respectiva justificação
ao Congresso Nacional, que decidirá por maioria absoluta.
§ 5º – Se o Congresso Nacional estiver em recesso, será convocado, extraordina-
riamente, no prazo de cinco dias.
§ 6º – O Congresso Nacional apreciará o decreto dentro de dez dias contados
de seu recebimento, devendo continuar funcionando enquanto vigorar o estado de
defesa.
§ 7º – Rejeitado o decreto, cessa imediatamente o estado de defesa.
Art. 137 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República
e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para
decretar o estado de sítio nos casos de:
I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que compro-
vem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;
II – declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira.
Parágrafo único. O Presidente da República, ao solicitar autorização para de-
cretar o estado de sítio ou sua prorrogação, relatará os motivos determinantes do
pedido, devendo o Congresso Nacional decidir por maioria absoluta.
Art. 138 – O decreto do estado de sítio indicará sua duração, as normas necessá-
rias a sua execução e as garantias constitucionais que ficarão suspensas, e, depois de
publicado, o Presidente da República designará o executor das medidas específicas
e as áreas abrangidas.
§ 1º – O estado de sítio, no caso do art. 137, I, não poderá ser decretado por
mais de trinta dias, nem prorrogado, de cada vez, por prazo superior; no do inciso
II, poderá ser decretado por todo o tempo que perdurar a guerra ou a agressão ar-
mada estrangeira.

FGV DIREITO RIO 116


ideologias mundiais

§ 2º – Solicitada autorização para decretar o estado de sítio durante o recesso


parlamentar, o Presidente do Senado Federal, de imediato, convocará extraordi-
nariamente o Congresso Nacional para se reunir dentro de cinco dias, a fim de
apreciar o ato.
§ 3º – O Congresso Nacional permanecerá em funcionamento até o término das
medidas coercitivas.
Art. 139 – Na vigência do estado de sítio decretado com fundamento no art.
137, I, só poderão ser tomadas contra as pessoas as seguintes medidas:
I – obrigação de permanência em localidade determinada;
II – detenção em edifício não destinado a acusados ou condenados por crimes
comuns;
III – restrições relativas à inviolabilidade da correspondência, ao sigilo das co-
municações, à prestação de informações e à liberdade de imprensa, radiodifusão e
televisão, na forma da lei;
IV – suspensão da liberdade de reunião;
V – busca e apreensão em domicílio;
VI – intervenção nas empresas de serviços públicos;
VII – requisição de bens.
Parágrafo único. Não se inclui nas restrições do inciso III a difusão de pronun-
ciamentos de parlamentares efetuados em suas Casas Legislativas, desde que libera-
da pela respectiva Mesa.
Art. 140 – A Mesa do Congresso Nacional, ouvidos os líderes partidários, desig-
nará Comissão composta de cinco de seus membros para acompanhar e fiscalizar a
execução das medidas referentes ao estado de defesa e ao estado de sítio.
Art. 141 – Cessado o estado de defesa ou o estado de sítio, cessarão também seus
efeitos, sem prejuízo da responsabilidade pelos ilícitos cometidos por seus executo-
res ou agentes.
Parágrafo único. Logo que cesse o estado de defesa ou o estado de sítio, as medi-
das aplicadas em sua vigência serão relatadas pelo Presidente da República, em men-
sagem ao Congresso Nacional, com especificação e justificação das providências
adotadas, com relação nominal dos atingidos e indicação das restrições aplicadas.

Questões

• Quais os fundamentos para declaração de um estado de sítio?


• Para que se declara o estado de sítio?
• Quais as diferenças entre um Estado em tempos “normais” e em “um estado
de sítio”?
• O que explicaria a existência de dispositivos constitucionais tão semelhan-
tes entre a Constituição Brasileira de 1988 e a Constituição de Weimar de
1919?
• O que serviu de fundamento fático para a declaração do estado de sítio da
Alemanha sob o comando de Hitler?

FGV DIREITO RIO 117


ideologias mundiais

• O que fundaria uma declaração de um estado de sítio no Brasil?


• Por que dispositivos constitucionais tão parecidos permitem experiências
históricas tão diversas entre Brasil e Alemanha?
• Como seria tratado o caso Ellwanger (aula anterior) sob a vigência da Cons-
tituição de Weimar? E durante o estado de sítio nazista? E por que foi tratado
como crime sob a vigência da Constituição brasileira de 1988? E como seria
tratado em um possível estado de sítio brasileiro?

II. Estado Totalitário: que indivíduo, qual Estado?

O que une os adeptos do fascismo é o desprezo pelo Estado e democracia libe-


rais, instituições “culpadas” pela crise social e econômica enfrentada nos anos 20.
Igualmente, o pluripartidarismo significava a coalização de interesses particulares, o
que chocava com a idéia de interesse (identidade) nacional. O sistema parlamentar
liberal implicava a divisão do poder entre pequenos grupos, entre meros interme-
diários.
Nas formas totalitárias não há a divisão entre indivíduo e Estado; não há nada
realmente privado, não há limite à ação do Estado, vez que este estará apenas rea-
lizando o impulso vital. Nas palavras de Mussolini, “Tudo no Estado, nada fora do
Estado, nada contra o Estado”. Retomam-se, assim, os contornos do Leviatã hobbe-
siano, contudo, como a história mostrou, sem a garantia do direito à vida.
Um aspecto a ser discutido aqui é a liberdade no totalitarismo, que corresponde
não aos interesses pessoais, mas os propósitos da nação, a vontade geral. Esta posição
contraria a concepção de liberdade liberal entendida como um direito natural e irres-
trito ao indivíduo. No fascismo, quanto mais forte o Estado, maior será a liberdade
do indivíduo. Desse modo, Mussolini enuncia que “a única liberdade que pode ser
verdadeira é a liberdade do Estado e do indivíduo dentro do Estado” (apud VICENT,
1995:167). Questão para reflexão: a liberdade existente é a liberdade para a realização
dos fins do Estado. Já para os nazistas, a liberdade existia para que se realizassem os
fins da raça e do volk; em suma, a liberdade significava estar em sintonia com o im-
pulso vital. Liberdade era um instrumento para se alcançar a pureza racial.
Nesse contexto o líder se apresenta como a consubstanciação da consciência de
uma época, de uma raça e da vontade geral da nação. Esse artifício político tem a
vantagem de criar a ilusão de coerência e unidade ao sistema. As decisões centraliza-
das do líder fascista ou nazista e unicamente dirigidas para a realização do interesse
da nação servem a toda hora para ilustrar a ineficácia do sistema parlamentar liberal
que despende grandes energias em debates e coalizões particulares.
O Estado é concebido como uma forma de organização corporativa, uma organi-
zação forte frente aos desafios do mundo, transformação e disputas bélicas. Na Alema-
nha, os discursos tendiam a retomar um certo medievalismo das corporações de ofícios,
ao lado da Itália que projetava no Estado o corporativismo sindical orgânico. O papel
do Estado, portanto, deveria ser o de dirigir as associações e grupos rumo aos objetivos
da Nação ou da Raça. O Estado é visto como a corporação das corporações.

FGV DIREITO RIO 118


ideologias mundiais

Nesse sentido, para evitar a expansão dos movimentos socialistas, os regimes


fascistas empreenderam a cooptação dos trabalhadores, tanto pela concessão de be-
nefícios quanto pela propaganda de massa.

III. A economia: satisfação dos objetivos da nação

Economia para a nação

Para as correntes fascistas, a política, e aí inseridas as preocupações do Estado-


Nação, são superiores aos interesses e preocupações da economia capitalista. Desse
modo, a economia estava determinada para a satisfação dos objetivos da nação, do
volk, da raça. Para tanto, o Estado atuava com um misto de políticas socialistas e
liberais, tendo alguns visto aí a mítica terceira via.

Contra a livre-economia de mercado

A intervenção do Estado fascista na economia contrapunha-se à economia de


livre mercado, não porque esta era concentracionista e geradora de iniqüidades, mas
sim, porque aí imperava a lógica individualista de busca pelo lucro privado, o que,
é claro, não se coadunava com os objetivos da nação.

IV. Reflexões, paralelos e ascendências do fascismo no Direito

Princípios liberais no Direito Brasileiro: perspectiva crítica histórico-conceitual

a. Análise da adaptação das idéias fascistas européias. Ação integralista


brasileira
As idéias fascistas chegam ao Brasil nos anos 20, propagam-se a partir do sul
do país e dão origem a pequenos núcleos de militantes. Em 1928 é fundado o
Partido Fascista Brasileiro. A organização mais representativa dos fascistas, porém,
é a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 pelo escritores Plínio Sal-
gado e Gustavo Barroso. O movimento é apoiado por setores direitistas das classes
médias, dos latifundiários e dos industriais. Recebe a adesão de representantes do
clero católico, da polícia e das Forças Armadas. Defende um Estado autoritário
e nacionalista que promova a “regeneração nacional”, com base no lema “Deus,
Pátria e Família”.
(http://www.conhecimentosgerais.com.br/historia-do-brasil/era-vargas.html)

b. Afinidades entre o Estado Novo e o fascismo. Constituição de


1937.
Análise do quadro legislativo comparativo abaixo. Implantação dos sindicatos
fascistas pelo Estado Novo de Vargas, em 1930.

FGV DIREITO RIO 119


ideologias mundiais

c. Perspectiva Crítica. O Regime Militar: possíveis reflexos fascistas?


Embora não se possa equiparar os regimes ditatoriais aos regimes totalitários,
é fundamental traçar paralelos e considerações a respeito da inspiração totalitária
no período ditatorial brasileiro. É instaurado o regime militar pelo golpe de estado
de 31 de março de 1964 e estende-se até a Redemocratização, em 1985. O plano
político é marcado pelo autoritarismo, supressão dos direitos constitucionais, perse-
guição policial e militar, prisão e tortura dos opositores e pela imposição de censura
prévia aos meios de comunicação. Na economia, há uma rápida diversificação e
modernização da indústria e serviços, sustentada por mecanismos de concentração
de renda, endividamento externo e abertura ao capital estrangeiro. A inflação é
institucionalizada através de mecanismos de correção monetária e passa a ser uma
das formas de financiamento do Estado. Acentuam-se as desigualdades e injustiças
sociais.
(http://www.conhecimentosgerais.com.br/historia-do-brasil/era-vargas.html)

V. Princípios fascistas no ordenamento jurídico brasileiro:


três exemplos

1. A Constituição de 1937 - “a polaca”. A Constituição outorgada acaba com o


princípio de harmonia e independência entre os três poderes. O Executivo
é considerado “órgão supremo do Estado” e o presidente é a “autoridade su-
prema” do país: controla todos os poderes, os Estados da Federação e nomeia
interventores para governá-los. Os partidos políticos são extintos e instala-se
o regime corporativista, sob autoridade direta do presidente. A “polaca” ins-
titui a pena de morte e o estado de emergência, que permite ao presidente
suspender as imunidades parlamentares, invadir domicílios, prender e exilar
opositores (http://www.conhecimentosgerais.com.br/historia-do-brasil/era-var-
gas.html)

2. A Constituição de 1967. Traduz a ordem estabelecida pelo Regime Militar e


institucionaliza a ditadura. Incorpora as decisões instituídas pelos atos ins-
titucionais, aumenta o poder do Executivo, que passa a ter a iniciativa de
projetos de emenda constitucional, reduz os poderes e prerrogativas do Con-
gresso, institui uma nova lei de imprensa e a Lei de Segurança Nacional. Por
meio de reforma constitucional, Incorpora o AI-5 e os atos institucionais
posteriores à Constituição, permite ao presidente decretar estado de sítio e
de emergência. O governo lança também uma ampla campanha publicitária
com o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O endurecimento político é respal-
dado pelo chamado “milagre econômico”: crescimento do PIB, diversificação
das atividades produtivas, concentração de renda e o surgimento de uma
nova classe média com alto poder aquisitivo.
(http://www.conhecimentosgerais.com.br/historia-do-brasil/era-vargas.html)

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3. Ato Institucional Nº 5. O governo fecha o Congresso e decreta o Ato Ins-


titucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968. Os atos institucionais são os
exemplos legislativos capitais de tais influências. Estes foram mecanismos
adotados pelos militares para legalizar ações políticas não previstas e mesmo
contrárias à Constituição. De 1964 a 1978 são decretados 16 atos institu-
cionais e complementares que transformam a Constituição de 1946 em uma
colcha de retalhos. O AI-1, de 9 de abril de 1964, transfere o poder político
aos militares, suspende por dez anos os direitos políticos de centenas de pes-
soas, entre elas os ex-presidentes João Goulart e Jânio Quadros, governado-
res, parlamentares, líderes sindicais e estudantis, intelectuais e funcionários
públicos. As cassações de mandatos alteram a composição do Congresso e
intimidam os parlamentares.
(http://www.conhecimentosgerais.com.br/historia-do-brasil/era-vargas.html)

Bibliografia BÁSICA

Leitura para as aulas 23, 24, 25:


ARENDT, Hannah, Origens do totalitarismo. Trad. brasileira de Roberto Raposo.
São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 512-531.
PAXTON, Robert, A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.

Bibliografia Complementar

AGAMBEN, Giorgio, Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004.


LACLAU, Ernesto, Política e Ideología en la Teoría Marxista – Capitalismo, Fascis-
mo, Populismo. Madrid: Siglo Veintiuno Editores, 1978.
RÜRUP, Reinhard, Topography of Terror. Berlin: Verlag Willmuth Arenhövel, 14
edition, 2004.

Links e sites

Atos Institucionais [http://www.acervoditadura.rs.gov.br/index3.htm]


PRONA www.prona.org.br
http://www.integralismo.com.br/
http://www.mv-brasil.org.br
http://www.tfp.org.br

FGV DIREITO RIO 121


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Aula 27. exercícios

Caso 1: Prisões secretas na Europa, o novo terrorismo de Estado

Depois de semanas de silêncio e acusações, em fins de novembro de 2005, pela


primeira vez, os Estados Unidos reconheceram que precisam responder aos euro-
peus sobre as atividades de sua agência de espionagem na Europa.
A acusação, inicialmente contada sob um tom de trama hollywoodiana, é de que
a CIA estaria raptando suspeitos de atividade terroristas em solo europeus sem a
devida autorização dos países e tampouco qualquer acusação formal contra os mes-
mos. Tais operações teriam como objetivo capturar terroristas e leva-los até países
aliados dos EUA em que fosse permitida a prática de tortura em interrogatórios.
Assim, servindo-se deste caso em que os EUA, bastião da democracia e dos direi-
tos humanos, reeditam um novo terrorismo de estado e a criação de novos gulags,
pretende-se reconstruir os princípios fascistas e do totalitarismo apreendidos duran-
te as últimas aulas.

EUA tentam explicar prisões secretas da CIA na Europa


http://www2.rnw.nl/rnw/pt/atualidade/americadonorte/at051130EUA_CIA_
terror?view=Standard (e outros relacionados)

Torturas (Os EUA alteraram a definição jurídica de tortura, treinaram batalhões


para maltratar prisioneiros e estariam criando, em outros países, o “gulag de nossa
época”. Além de atingir a imagem de Washington no mundo, esta tendência repre-
senta um grave ataque à democracia)
http://www.diplo.com.br/aberto/0512/indice.htm

E se o “bandido” fosse os EUA? (Os Estados Unidos acabam de eliminar de sua


linguagem diplomática a expressão “Estado-bandido”. Neste texto, Noam Chomsky ana-
lisa as maneiras como era aplicado esse conceito por Washington, que reivindicava para
si o direito de tomar medidas unilaterais Noam Chomsky)
http://www.diplo.com.br/aberto/0008/index.htm

Caso 2: Contornos do fascismo hoje

A partir da citação do sociólogo Boaventura de Sousa Santos acerca das novas


formas de fascismo hoje, propõe-se aos alunos a discussão para a identificação dos
novos contornos do fascismo institucional presentes nos aparatos de repressão e nos
aparatos ideológicos no Brasil.
Especialmente, sugere-se que se volte a atenção à questão das favelas, sua inser-
ção no seio da cidade formal e sua estigmatização. Para tanto, servirá de apoio a

FGV DIREITO RIO 122


ideologias mundiais

entrevista do coordenador geral do Observatório de Favelas e professor da UFF/RJ,


Jailson de Souza e Silva, e de reportagens sobre a atuação policial em favelas.

No Rio, o terrorismo contra a pobreza


http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/nacional/news_item.2006-01-
30.1638033048

Entrevista do coordenador geral do Observatório de Favelas e professor da


UFF/RJ, Jailson de Souza e Silva, ao jornal O Globo que teve como temática o
debate sobre a remoção de favelas, foi editada e veiculada no domingo dia 23
de outubro de 2005. Disponível em
h t t p : / / w w w. o b s e r v a t o r i o d e f a ve l a s . o r g . b r / o b s e r v a t o r i o / b a s e .
asp?pagina=destaque_midia

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ideologias mundiais

Leandro Molhano Ribeiro


Bacharel em Ciências Socais pela UFMG. Mestre e Doutor em Ciência Política
pelo Iuperj/UCAM.
Professor Assistente do curso de graduação em Ciências Sociais e do curso de
mestrado em Direito na UCAM.
Autor de diversos artigos na área de Ciências Sociais e co-autor do livros
Reforma do Estado e Agências Reguladoras: inovação e continuidade no
sistema político-institucional brasileiro (Editora Garamond, 2007 – no prelo)
e Teias de Relações Ambíguas: regulação e ensino superior (MEC/INEP 2002).
Realiza pesquisas em Ciências Humanas e Sociais, com ênfase em Instituições
Políticas e Políticas Públicas.

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IDEOLOGIAS MUNDIAIS

FICHA TÉCNICA

Fundação Getulio Vargas

Carlos Ivan Simonsen Leal


PRESIDENTE

FGV DIREITO RIO


Joaquim Falcão
DIRETOR
Fernando Penteado
VICE-DIRETOR DA GRADUAÇÃO
Sérgio Guerra
VICE-DIRETOR DE PÓS-GRADUAÇÃO
Luiz Roberto Ayoub
PROFESSOR COORDENADOR DO PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM PODER JUDICIÁRIO
Ronaldo Lemos
COORDENADOR CENTRO DE TECNOLOGIA E SOCIEDADE
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COORDENADOR DA GRADUAÇÃO
Rogério Barcelos Alves
COORDENADOR DE METODOLOGIA E MATERIAL DIDÁTICO
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COORDENADORA DE SECRETARIA DE GRADUAÇÃO
Diogo Pinheiro
COORDENADOR DE FINANÇAS
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COORDENADORA DE MARKETING ESTRATÉGICO E PLANEJAMENTO

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