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Ubiraci Espinelli Lemes de Souza

Como reduzir perdas


nos canteiros
Manual de gestão do consumo de materiais na construção civil
Ubiraci Espinelli Lemes de Souza

Formado cm Engenharia Civil, em 1983, pela


Escola Politécnica da USP, obteve
posteriormente os títulos de Mestre (1989),
Doutor (1996) e Livre Docente (2001) em
Construção Civil pela USP. Atuou como
pesquisador visitante na Pennsylvania State
University (Estados Unidos da América), de
1993 a 1995. É professor do Departamento de
Engenharia de Construção Civil, da Escola
Politécnica da USP, desde 1984, ministrando
disciplinas na área de Tecnologia e Gestão da
Produção para a graduação, pós-graduação e
especialização.

Autor de mais de uma centena de artigos


técnicos - publicados pelas principais revistas
e simpósios (nacionais e internacionais) e que
versam sobre Construção Civil -, tem sido
membro sempre presente nos Comitês
Científicos dos principais eventos sobre Cestão
da Construção.

Com atuação anterior como diretor técnico da


construtora Gescon, há vários anos está
envolvido na pesquisa e consultoria quanto à
gestão da produção de obras de construção
civil, e na coordenação de vários projetos de
relevância nacional e internacional. Podem-se
citar trabalhos nas áreas de: indicadores,
produtividade da mão-de-obra, organização do
trabalho na produção, orçamento,
planejamento, diretrizes de gestão para
empresas públicas ligadas â habitação, projeto
do canteiro de obras, interação construtor-
fornecedor-projetista, aprimoramento da
atuação de subempreiteiros, dentre outros.

No que se refere às perdas e consumos de


materiais, pode-se destacar a coordenação das
pesquisas denominadas: Alternativas para a
Redução de Desperdício de Materiais nos
Canteiros de Obras, que recebeu o apoio da
FINEP, do SENAI-Nordeste e do ITQC, teve a
participação de outras 15 Universidades e
estudou quase uma centena de obras em 13
estados brasileiros, tecendo um diagnóstico
sobre as perdas de materiais; Apoio ao Programa
de Redução do Desperdício na Construção Civil
em Santo André, a qual, com o subsídio da
Prefeitura Municipal de Santo André,vem
estudando obras em execução na região,
buscando subsidiar as decisões dos gestores
com base em um processo rápido de avaliação
das perdas; e Gestão do Consumo de Materiais
nos Canteiros de Obras (GESCONMAT), com o
apoio da FINEP e do Sinduscon-SP, conduzida
por 3 Universidades, que visa a intervenção
reativa (intervenção) e pró-ativa (sistema de
gestão) quanto ao consumo dos recursos.
Como reduzir perdas nos canteiros
Manual do gestão do consumo de materiais na construção civil

©Copyright Editora Pini Lida.


Todos os direitos de reprodução reservados pela Editora Pini Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Souza, Ubiraci Espinelli Lemes de


Como reduzir perdas nos canteiros : manual de
gestão do consumo de materiais na construção
civil / Ubiraci Espinelli Lemes de Souza. — São Paulo : Pini,
2005.

ISBN 85-7266-158-1

1. Administração de materiais 2. Canteiro de


obras 3. Construção 4. Consumo (Economia)
5. Materiais de construção 6. Perdas - Controle
1. Título.

05-1 139 CDD-691

índices para catálogo sistemático:


1. Materiais: Consumo : Construção civil
691
2. Materiais : Perdas : Construção civil
691

Coordenação Manuais Técnicos: Josiani Souza


Projeto Gráfico: May ara L. Pereira
Capa: Sérgio Colotlo o Mayara L. Pereira
Revisão: Mônica da Cosia

Editora Pini Lida.


Rua Anhaia, 964 - CEP 01130-900 • São Paulo, SP - Brasil
Fone: 11 2173-2328 - Fax: 2173-2327
Internei: www.piniweb.com - F-mail: manuais&pini.com.br

A
I tiragem: 2.000 exemplares, mar/2005 EDITORA AOLIADA

2 J tiragem: 1.000 exemplares, abr/2008


apresentação

A Construção Civil v e m se modernizando de maneira significativa nas últimas décadas, suplantando


conceitos, hábitos e modelos seculares. O avanço tecnológico inclui a evolução do conhecimento
e, também, a mudança de abordagem da aplicação desse conhecimento, que numa somatória
sinérgica resulta na grande evolução do desenvolvimento e da inovação.

Q u a n d o se apresenta o desenvolvimento da Indústria da Construção Civil nas últimas décadas,


destaca-se a mudança do cenário empírico-artesanal de antigamente para uma realidade atual
científico-industrial. Para essa mudança ocorrer, não bastaram apenas o avanço do conhecimento
técnico-científico e a alteração das diretrizes básicas da Construção, mas a gestão do setor foi
totalmente reformulada. Inclui-se nessa reformulação a introdução de modernas ferramentas de
gestão nas empresas e nos canteiros, envolvendo todas as etapas do empreendimento.

Neste livro, está presente a experiência do autor, especialista no tema, que há mais de quinze
anos vem estudando a otimização do uso dos insumos no canteiro e propondo metodologias para
reduzir o seu desperdício. D e uma forma didática, o Prof. Souza conseguiu consolidar seu vasto
conhecimento num texto muito útil para todos os profissionais que de alguma forma atuam na
gestão de materiais e componentes nas obras.

V«ihan Agopyan,

Prol. Titular de Materiais e Componentes de Construção Civil


e Diretor da Escola Politécnica da USP
apresentação

Desperdício, excesso de consumo de materiais e recursos naturais não-renováveis e entulho são


palavras que, nós construtores, temos ouvido sistematicamente nos últimos anos. Tudo isto a
despeito do grande esforço que temos empreendido, a partir da década de 1990, c o m a
implantação em nossas obras de Sistemas de Gestão da Qualidade, de Gestão de Recursos
I lumanos e, mais recentemente, de Gestão Ambiental. Para muitos, ainda hoje, a Indústria da
Construção Brasileira é sinônimo de ineficiência e desperdício.

Mito ou realidade? O n d e estamos errando?

Acredito que os conceitos discutidos pelo Prof. Ubiraci possam nos ajudar a responder estas e
outras perguntas. Ele, de forma precisa e pragmática, conceitua, diagnostica, caracteriza, quantifica
e propõe alternativas para a gestão do consumo de materiais nos canteiros de obra Simples e
objetivo, este livro se mantém eqüidistante das soluções demasiadamente teóricas e das discussões
apaixonadas que costumam caracterizar os debates sobre o tema.

Se alinharmos os conceitos aqui propostos para a Gestão do Consumo de Materiais em Canteiro de


O b r a s às metodologias hoje existentes de Gestão de Resíduos, estaremos criando condições
necessárias para mudanças na forma de c o m o nosso Setor é percebido pela sociedade brasileira.

Acadêmicos, profissionais liberais e empresários do Setor da Construção, com certeza, encontrarão


neste livro a fonte de inspiração e o apuro conceituai necessários ao seu desenvolvimento.

Boa leitura!

Francisco Antunes de V.isconcellos Neto

Diretor da DF Engenharia e Empreendimentos Ltda.


Vice-presidente de Desenvolvimento e Coordenador do Comitê de Meio Ambiente do SindusconSP
prefácio

Nestes vários anos de experiência, inicialmente c o m o engenheiro envolvido c o m a construção de


obras de edificações e, por muito tempo, como professor e pesquisador universitário e consultor de
empresas, a discussão quanto às perdas e consumos de materiais sempre foi motivo de debates
acalorados. Quanto a tal polêmica, gostaria de afirmar uma visão pessoal positiva.

A Construção Civil consome, sim, mais material do que seria necessário. As perdas existem e não
são pequenas. Porém, as perdas fazem parte de quaisquer processos de produção. Cabe, portanto,
aos construtores, como também aos responsáveis pela produção nas outras Indústrias, buscar a
sua minimização.

O que diferencia a Construção Civil de várias outras Indústrias é que ela é muito mais relevante no
que se refere ao montante de recursos utilizados. Portanto, se a tarefa de minimizar o desperdício
d e materiais d e v e ser exercida por todos, aos profissionais da Construção C i v i l c a b e uma
responsabilidade ainda maior.

Dentro de tal contexto, com este livro espero contribuir para o aperfeiçoamento das habilidades
das pessoas ligadas à Construção a fim de encararem esse desafio tão importante, que enfatiza a
busca pelo aumento da sustentabilidade na tarefa de prover infra-estrutura para toda a sociedade.
agradecimentos

A elaboração de um livro demanda, de um lado, a prévia aquisição de conhecimentos e, de outro,


a transmissão de uma mensagem. (!, portanto, resultado de um processo d e interação. Nes.e contexto,
c o m prazer reconheço que a confecção deste livro recebeu inúmeras contribuições; assim, mesmo
tentando ser abrangente, corro o risco de me esquecer de pessoas e Instituições as quais, direta ou
indiretamente, contribuíram para sua geração. Desde já me desculpo por eventuais omissões.

Começo meus agradecimentos por minha família (dos meus pais, Ubirajara e Lázara, a meus filhos,
Tainá e Cauê), que tem me proporcionado desde os conhecimentos básicos - técnicos e não- técnicos
- até o suporte necessário para que todas as minhas atividades profissionais sejam factíveis.

Cabe ressaltar a importância do apoio dos colegas acadêmicos ligados à USP, com quem partilho da
constante busca pelo aperfeiçoamento do conhecimento e pela transmissão do mesmo. Muito aprendi
com meu orientador de mestrado e doutorado (Prof. Dr. Vahan Agopyan), com meus orientandos
{destaco aqui o Prof. José Carlos Paliari, que eu poderia considerar um co-autor deste livro, na medida
em que temos aprendido muito sobre este tema em trabalhos conjuntos), com meus colegas do
Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São
Paulo (PCC-USP) e com os alunos dos cursos de pós-graduação, graduação e especialização. Cabe
citar o apoio recebido também de vários colegas pesquisadores de fora da USP.

Em termos de Instituições, além do PCC-USP, vale mencionar aquelas que participaram ativamente
das pesquisas que tivemos a oportunidade de coordenar. Destaco o apoio recebido da Financiadora
de Estudos e Projetos do Ministério da Ciência e Tecnologia - FINEP, através do Programa Habitare;
o mesmo deve ser dito quanto: ao S E N A I Nordeste, ao ITQC, à Fapesp, ao Sinduscon-SP, à Prefeitura
M u n i c i p a l d e Santo André, dentre outras. Q u a n t o às Universidades, citando apenas as que
formalmente participaram de projetos de pesquisa conjuntos, devem ser lembradas, além da sempre
presente UFSCar, as seguintes: UEFS, U E M A , U N I F O R , U F B A , U F C , UFES, U F G , U F M G , U F P B ,
U F P I , U F R G S , U F R N , UFS, U F S M , e U P E .

U m agradecimento especial deve ser dado às empresas ligadas à Construção, passando pelos fornecedores
de materiais e componentes, mas principalmente às construtoras, que, durante toda a trajetória de meu
envolvimento com o tema deste livro, foram contínuas fontes de informação e de idéias, demonstrando
que este é um setor da economia que está engajado na busca pela melhoria contínua.

Aos colegas do mercado da Construção, o reconhecimento do muito que aprendi no convívio com
os mesmos e da importância de suas atividades na geração de um país melhor.

Por fim, gostaria de dedicar este livro à Tainá e ao Cauê, razões maiores da minha vida.
sumário

1. A construção civil e as perdas de materiais 13


1.1. O uso de materiais 13
1.2. A produção de resíduos 15
1.3. A ocorrência de desperdícios 17
Resumo 19
Atividades complementares 19

2 . Conceituando as perdas de materiais 21


2.1. Visão do leigo 21
2.2. Visão do técnico 21
Resumo 26
Atividades complementares 26

3 . Classificação das perdas 29


3.1. Perdas segundo o tipo de recurso consumido 30
3.2. Perdas segundo a unidade para sua medição 33
3.3. Perdas segundo a fase do empreendimento em que ocorrem 33
3.4. Perdas segundo o momento de incidência na produção 35
3.5. Perdas segundo sua natureza 36
3.6. Perdas segundo a forma de manifestação 39
3.7. Perdas segundo sua causa 39
3.8. Perdas segundo sua origem 40
3.9. Perdas segundo seu controle 42
Resumo 43
Atividades complementares 44

4 . Diagnóstico das perdas de materiais na produção de edifícios 45


4.1. Indicadores de perdas 45
4.1.1. Indicadores mensuradores 47
4.1.2. Indicadores explicadores 50
4.2. Estudos já realizados sobre o assunto 52
4.2.1. Cenário internacional 52
4.2.2. Cenário nacional 53
4.3. Indicadores de perdas de materiais para a construção de edifícios 56
4.3.1. Indicadores mensuradores 56
4.3.2. Indicadores explicadores 58
Resumo 60
Atividades complementares 61
sumário

5 . Consumo unitário de materiais 63


5.1. O consumo unitário de materiais como indicador para subsidiar a gestão dos materiais.... 63
5.2. Valores vigentes de consumos unitários de materiais 70
Resumo 70
Atividades complementares 71

6. Calculando as perdas e os consumos unitários vigentes no canteiro de obras 73


6.1. Determinação dos indicadores relativos a um certo período de estudo 74
6.1.1. Quantificação das perdas/consumos (indicadores mensuradores) 74
6.1.1.1. Indicadores mensuradores globais 74
6.1.1.2. Indicadores mensuradores parciais 80
6.1.2. Condições de ocorrência das perdas/consumos (indicadores explicadores) 81
6.1.2.1. Indicadores de natureza percentual 81
6.1.2.2. Indicadores quantitativos 83
6.1.2.3. Fatores indutores 83
6.1.2.4. Indicadores caracterizadores 85
6.2. Definição do período de estudo 86
Resumo 89
Atividades complementares 90

7. Previsão do consumo de materiais para as obras 91


7.1. Visão analítica das perdas e consumos 91
7.2. Conceituando o modelo para previsão do consumo unitário 94
7.2.1. Apresentação geral do modelo 94
7.2.2. Contexto da previsão 102
7.3. Modelos de previsão dos consumos e perdas de materiais 106
7.3.1. Modelo de previsão tradicional 106
7.3.2. Modelo de previsão inovador 107
7.3.3. Modelo de previsão analítico 107
Resumo 114
Atividades complementares 116

8 . A melhoria contínua na produção e a inserção da discussão do consumo


de materiais na vida do empreendimento 117
8.1. A gestão do consumo de materiais como instrumento para a contínua
melhoria do processo de produção 117
8.2. O consumo de materiais e as diversas etapas de um empreendimento 122
Resumo 124
Atividades complementares 125

Referências e bibliografia complementar 127


A CONSTRUÇÃO CIVIL E AS PERDAS
DE MATERIAIS 1
A Indústria da Construção Civil ocupa uma posição de grande destaque na economia nacional, haja
vista a significante parcela do Produto Interno Bruto do país pela qual é responsável (estudos mostram
que o Construbusiness - a cadeia produtiva em que se insere a Construção - responde por valores
superiores a 15% do PIB nacional) e o contingente de pessoas que, direta ou indiretamente, emprega
(tala-se em ocupar diretamente por volta de 4 milhões de pessoas e em gerar aproximadamente 3
empregos indiretos para cada direto). Portanto, se, por um lado, a Construção influencia a vida do país,
por outro, é também bastante influenciada pelas decisões relativas à gestão do mesmo (Figura 1.1).

Figura 1.1. Construindo o país.

1.1. O U S O DE MATERIAIS

Quanto à demanda por materiais, a Construção Civil |x>ssui uma importância também expressiva quando
comparada às demais indústrias. Para fins de demonstração de tal afirmativa, a Figura 1.2 ilustra um edifício
convencional, sob uma abordagem analítica, descrevendo os principais produtos que o constituem e os
materiais necessários para a produção de cada uma destas partes. Assim é que um edifício [xxle demandar,
para sua construção, grandes quantidades de: cimento, britas, areia (para produção do concreto); aço (para
a produção das armaduras); chapas de compensado, madeira serrada, com|x>nentes metálicos (para a con-
fecção rias fôrmas); blocos p tijolos, argamassa (para a confecção das alvenarias); dentro outros

Ao se fazer um balanço a respeito da quantidade total de materiais necessária para a produção de 1


metro quadrado de edifício (Figura 1.3), não é difícil superar-se a cifra de 1.000 kg; em outras palavras,
pode-se dizer, grosseiramente, que em 1 metro quadrado de construção tem-se algo próximo a 1 tone-
lada de materiais.

Sempre me vem à mente, quando se está analisando a posição relativa da Construção Civil no cenário
nacional, a comparação com a Indústria Automobilística. Tendo cm vista que se estimou, grosseiramente,
uma demanda de 1 tonelada por metro quadrado, poderia ficar a impressão de se estar falando de quan-
tidades similares de materiais consumidos pelas 2 indústrias supracitadas (na medida em que 1 veículo
pesaria, em média, o mesmo que a unidade de área de construção). No entanto, a quantidace de metros
quadrados equivalentes produzidos pela Indústria da Construção (Figura 1.4) é bastante superior ao nú-
Estrutura cie
concreto armado

+
Concreto areia
+
+
. brita
Edifício
convencional
Armadura barras de aço
+
chapas de
compensado

fôrmas madeira serrada


+
componentes
metálicos
Alvenaria

Revestimentos
C i m e n t o ^ ^ + c a l ^ ^ p + areia^
de argamassa

Placas cerâmicas
+

Revestimentos Argamassa de
cerâmicos assentamento
+
Rejunte

Pintura Massas + Tintas I

Tubos
Sistemas hidráulicos +
Conexões g)

Eletrodutos
+
Sistemas elétricos Conexões
+
etc.
fios

Figura 1.2. Materiais o componentes usualmente


utilizados na construção de edifícios.
mero de veículos novos disponibilizados a cada ano (alguns espe-
cialistas falam em uma relação entre 100 e 200 para 1), de maneira
que apenas 1 % da Construção Civil já bastaria para eqüivaler, em
consumo de materiais, à Indústria Automobilística. Edifício com
1.000 m2 í)
1.2. A P R O D U Ç Ã O DE R E S Í D U O S CD

Além da expressividade do consumo de materiais, a Construção


é tida, também, como uma grande geradora de resíduos. A Foto
l . l ilustra uma cena bastante comum, nos centros urbanos atu- CD
ais, qual seja, a de ter-se, constantemente, caçambas para a reti-
rada de entulho estacionadas em várias quadras que compõem 1.000 kg
uma determinada parte da cidade. Observe-se que tais caçam-
bas não aparecem somente onde se tem construções novas, gran-
des, sob responsabilidade de grandes construtoras. Existe uma
fração do mercado de construção, muitas vezes denominada
mercado informal, abrangendo construções novas, mas também
as reformas (desde as significativas até aquelas de pequeno por-
te), que, embora do tipo "formiguinhas" quando se olha cada
uma das intervenções, é extremamente significativa em conjun- Figura 1.3. Estimando <i massa do edifícios.
to (maior que a construção dita formal).

a) Comparação de 1 m2 de construção com 1 veículo

b) Comparação de produção anual da Indústria


da Construção Civil e da Indústria Automobilística

Figura 1.4. Comparação das quantidades de materiais consumidos |>ela Construção Civil o |X?la Indústria Automobi íslica:
a) 1 nv' de construção e 1 automóvel; b) produção anual das indústrias.
Foto 1.1. A presença <k* caçambas de entulho em áreas já edificadas.

Embora a geração de entulho seja maior na construção informal que na formal, não se deve usar este fato
como desculpa para não se preocupar com tal aspecto. A Construção Civil formal (e, portanto, os técnicos
que nela se inserem) tem a obrigação de combater a geração de resíduos, tanto do |>onto de vista da melhoria
da eficiência dos processos sobre os quais tem poder de decisão, quanto no que se refere a, adotando tal
postura, ser capaz de influenciar a forma de atuação do próprio mercado informal (ver Depoimento 1.1).

Depoimento 1.1. Experiência no combate à geração de resíduos na cidade de Santo André-SP.

A Prefeitura Municipal de Santo André, através do Núcleo de Inovações em Políticas Públicas - NIPP,
solicitou ao Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de
São Paulo (PCC-USP) um apoio para se tentar combater a geração de resíduos pela Indústria da Constru-
ção, já que existia uma grande dificuldade, na região, de se encontrar áreas adequadas para a deposição
de tais resíduos, na medida em que a mesma é cercada por áreas de proteção ambiental e as poucas
áreas adequadas para receber entulho estariam se esgotando, demandando, cada vez mais, um transpor-
te maior do mesmo. O diagnóstico da própria Prefeitura indicava que os maiores problemas (tanto em
lermos de quantidade gerada quanto de destinação dos resíduos) diziam respeito à Construção informal;
havia vários casos de deposição ilegal, utilizando-se de áreas públicas (por vezes córregos ou vias
públicas, conforme mostrado na Foto 1.2) para jogar o material, criando grandes problemas sociais e
ônus para o Poder Público.

Foto 1.2. Deposição indevida de entulho: a) obstruindo córregos; b) ocupando indevidamente vias e passeios públicos.
No âmbito de um conjunto de ações definidas para atuar-se nesta questão, aquela que ganhou mais
destaque (e se imaginou ser, a médio e longo prazo, a mais eficaz) foi a de reunir um grupo cie constru-
toras atuantes na região e implementar, nas mesmas, um programa de aumento na eficiência c!o uso dos
materiais. A sensibilização do operário da Construção formal acaba tendo reflexos no da Construção
informal, seja porque este, numa fase de sua vida, passa pela Construção formal, ou porque, indireta-
mente, acaba sendo influenciado pelos colegas atuantes em construtoras.

1.3. A O C O R R Ê N C I A DE D E S P E R D Í C I O S

Em face do tudo o que foi dito, é fácil entender por que, toda vez que se discute desenvolvimento
sustentável, a Construção é colocada em destaque; toda vez que se fala em desperdício de materiais,
novamente nossa Indústria é citada. Enfim, a Construção Civil se reveste de uma importância tão grande
quanto ao uso de materiais que é bastante cobrada (e não deveria ser diferente) quanto à busca de
eficiências cada vez maiores no seu uso.

A importância do assunto tem atraído leigos e profissionais de várias áreas (engenheiros, arquitetos,
ecologistas, economistas etc.) para o seu debate. E, até como uma decorrência natural dos vários inte-
resses envolvidos e das diferentes linguagens usadas por este contingente distinto de pessoas, a avaliação
do consumo de materiais na Construção tem sido motivo de muitas controvérsias.

Há alguns anos surgiu uma frase, várias vezes repetida, tanto |X)r |x?ssoas leigas quanto jxjr profissionais cia área,
que atribuiria a esta Indústria um suposto elevado desperdício de materiais (Figura 1.5). Diversas explicações
têm sido dadas para se entender de onde e por que surgiu tal frase que, para este autor pessoalmente, sempre
toi motivo de preocupação: enquanto profissional da área, é meu dever buscar a melhoria da Construção; e,
enquanto |)esquisador (e pesquisador que lida com indicadores), me interessaria entender esta falta (ou não) de
eficiência, a fim de (xxler projxx ações para sua eventual melhoria. Sem
discutir, neste momento (o livro tratará de métodos mais objetivos para
isto), a veracidade ou não do número indicado, sempre me surpreendeu
o fato de, ao questionar uma pessoa que me falava do su|X)sto desperdí-
cio de 3 3 % ("jogar um prédio fora a cada 3 construídos"), eu não
conseguir resposta convincente da mesma quanto a se estar falando
em |x>rcentagem "em massa", ou "em volume", ou "em R$'
malmente vinha uma colocação do tipo: "não entendi bem sua ques-
tão, mas a |x?rda é de um terço". E o leitor há de convir com a
minha crítica a tal res|x>sta, já que é evidente que um terço do
volume de areia |xxle não significar necessariamente um terço
dos reais gastos para se fazer um revestimento de argamassa.
Mas, enfim, o importante deste comentário é concluir que os
indicadores são bons quando se sabe o que exatamente signi-
ficam (caso contrário podem induzir a conclusões errôneas).

Ainda dentro do cenário das controvérsias, ê interessante


citar uma dificuldade que sempre passo ao dar uma entre-
vista a um repórter não especializado em construção. Não é
muito fácil explicar a tal profissional o fato de que perdas
são características de qualquer processo de produção e de
que cabe aos profissionais da área entender as perdas vigen-
tes (tanto em termos quantitativos quanto de suas causas) para
subsidiar suas decisões sobre como atuar dali para a frente. A
Figura 1.5 ilustra, hipoteticamente, a confusão que se pode
criar, quanto à informação transmitida, quando, por razões FÍRura t 5 Controv ^ rsi(1s ,

de economia de tempo de apresentação de uma matéria . .


' l i . / . . na avaliaçao do
jornalística, se om.te parte dos dados fornecidos. desperdício na Construção.
Após estas colocações críticas quanto a
informações de alguma maneira deficien-
tes, cabe citar que, infelizmente, as per-
das físicas na Construção ainda são ele-
vadas (como se mostrará ao longo deste
livro) e carecem de combate. Tem-se um
panorama atual onde convivem situações
racionais com posturas inconvenientes
quanto à eficiência no uso dos materiais,
conforme se pode ver nas Fotos 1.3.
Olhando-se sob um aspecto positivo, a
melhoria da eficiência no uso dos mate-
riais pode ser um caminho extremamen-
te saudável para a melhoria da eficiência
da empresa, podendo contribui', e mui-
ENTREVISTA COMPLETA
to, para a competitividade da mesma. Mais
A perda em massa na construção deste edifício,
no que se refere aos revestimentos internos de argamassa, é de 50%. que isto, em face da importância já cita-
da da Indústria da Construção no que se
refere aos aspectos ambientais, as me-
TEXTO R E S U M I D O D I V U L G A D O lhorias conseguidas, por menores que se-
A perda em massa na construção deste edifício,
jam, geram efeitos sensíveis em termos do
no que se refere aos revestimentos internos de argamassa, e de 5 0 % .
ambiente como um todo.
Figura 1.6. Ruídos na comunicação.

Quanto aos componentes para alvenaria

Estoque muito mal resolvido de


blocos de concreto, em ladeira
contígua à obra de alvenaria
estrutural

Reflexos da falta de programação e racionalização do


Movimentação de blocos cerâmicos
corte de placas cerâmicas
por meio de páletes e fazendo-se
uso de gruas para levar os
componentes diretamente ao seu Estoque adequado <lo "pacote" <le materiais a serem
local de uso utilizados por uma frente de trabalho de assentamento
de placas cerâmicas
Fotos 1.3. Exemplos de diferentes níveis de racionalização na construção: a) blocos para alvenaria; b) placas cerâmicas para
revestimento.
RESUMO

• A Construção Civil é uma das mais importantes indústrias do país, respondendo por 15% do PIB
e gerando, direta ou indiretamente, por volta de 15 milhões de empregos no Brasil.

• A quantidade de materiais consumidos pela Construção gira em torno de 1.000 kg por metro
quadrado construído; portanto, uma casa de 100 metros quadrados de área construída deman-
da 100 toneladas de materiais.

• Comparativamente a outras indústrias, a Construção usa muito mais material ao longo de um


ano de atividades (por volta de 100 a 200 vezes mais que a Indústria Automobilística); portanto,
qualquer ação visando à maior eficiência no uso dos materiais de construção pode ter reflexos
relevantes quanto ao desenvolvimento sustentável do país.

• A Construção é uma grande geradora de resíduos. Embora a Construção informal seja a maior
produtora de entulho, a busca da melhoria numa empresa formal, alem de ser importante
quanto aos reflexos positivos para a própria empresa, pode incentivar o mercado informal a
atuar de maneira mais racional.

• As informações sobre o consumo ou perdas ou desperdício de materiais devem ser fundamen-


tadas em procedimentos conhecidos, de levantamento e processamento de dados, para serem
úteis para a tomada de decisões.

• Embora a frase indicando que "se joga fora 1 prédio a cada 3 construídos" careça de consistên-
cia, a Construção Civil precisa melhorar sua eficiência em utilizar os materiais.

ATIVIDADES C O M P L E M E N T A R E S

Na medida em que diferentes empresas, e diferentes obras de uma mesma empresa, podem apresentar
situações bastante diversas quanto à eficiência no uso dos materiais, é interessante, antes de se imaginar
tomar quaisquer decisões sobre em que ponto atuar: entender-se as razões que podem levar ou não tal
empresa a implementar alguma modificação no processo vigente; ranquear os possíveis focos de ação
segundo a urgência relativa em serem discutidos; e perceber quais são as pessoas ou áreas da empresa
que podem contribuir ou ser influenciadas pelo tema em discussão. Com isto, pode-se programar me-
lhor uma atuação em prol da redução de consumos desnecessários de materiais, ao se definirem os
objetivos pretendidos, os objetos da ação e a equipe que poderá contribuir nesta atuação. A Tabela 1.1
serve como sugestão para se responder, portanto, às questões: quais as razões que levariam sua empresa
a atuar na redução do consumo desnecessário de materiais? Em quais serviços/materiais sua empresa
deveria prioritariamente atuar? Quais as justificativas para tal definição? Qual a equipe que poderia
contribuir ou ser influenciada pelas eventuais decisões que serão tomadas?
Tabela 1.1
Organização preliminar da atuação para redução de consumos desnecessários de materiais na construção

Razões para estudar o consumo de materiais

Razão Importância

Possíveis objetos de estudo e priorização relativa

Serviço Material/ Comentário Ranqueamento

Componente

Envolvidos no estudo

Área/Depto. Justificativa do Envolvimento Pessoa/Representante


CONCEITUANDO AS PERDAS
DE MATERIAIS 2
Tendo em vista que, neste livro, se tem por objetivo contribuir para a melhoria da gestão do uso dos
materiais, uma das principais preocupações diz respeito a minimizar eventuais inefíciências quanto ao seu
consumo, normalmente citadas como perdas de materiais. Com o propósito de eliminar quaisquer con-
trovérsias de linguagem, como as citadas no capítulo 1, e na medida em que se estará buscando a redução
das perdas de materiais, cabe um cuidado quanto à clara definição do que se entenderá por perdas.

2.1. V I S Ã O D O L E I G O

Inicialmente, para se ter mais clareza quanto ao entendimento geral do termo perdas (Figura 2.1), o auxílio
de um dicionário1 nos mostra a associação do termo perdas com "privação de uma coisa que possuía",
"dano", "prejuízo", "mau êxito", "desgraça" e, até mesmo, "morte". Nota-se uma clara ligação do termo
perdas a coisas ruins, desagradáveis, que deixariam qualquer um triste. Portanto, entende-se perfeitamente a
preocupação que o uso da palavra |)erda de materiais causa aos profissionais da Construção.

Figura 2.1. A necessidade de entendimento da palavra perdas.

Da associação da palavra perda com o verbo "perder", surge a discussão relativa à necessidade dc julgamento
(e, portanto, de juiz e de critério) para definir quem perdeu (e quem ganhou), o que sugere um certo caráter
|)essoal para a definição de |x?rdas, que (xxleria ser diferente no caso de se utilizarem critérios diferentes.

2.2. V I S Ã O D O T É C N I C O

Na medida em que as decisões técnicas devem ser respaldadas por análises precisas, cabe aqui uma
definição objetiva para a palavra perdas, que seja útil ao estudo dos materiais. Assume-se que:

A PERDA DE MATERIAL O C O R R E TODA V E Z Q U E SE UTILIZA U M A Q U A N T I D A D E , D O M E S M O ,


M A I O R Q U E A NECESSÁRIA.

' Utilizou-se o Michaclis Moderno Dicionário di Língua Portuguesa.


Embora mais objetiva, e eliminando a associação com um sentimento pessoal sugerido pelas definições
de dicionário, tal definição ainda deixa dúvidas com relação à referência (Figura 2.2) a partir da qual se
teria a ocorrência de perdas: qual seria a quantidade necessária?

Você PRECISA
perder peso para chegar

Figura 2.2. Dificuldades em se definir .1 referência de perda nula.

Há, portanto, que se estabelecer uma referência formal para balizar a definição de perdas. Diferentes
referenciais são possíveis (e têm balizado diferentes discussões sobre perdas de materiais na construção).
Indicam-se, a seguir, algumas possibilidades para tais referenciais, tecendo-se alguns comentários sobre
cada um deles:

• Números médios do Setor

Caso existissem (e fossem confiáveis), poderiam compor uma referência interessante, do |x>nto de vista da
avaliação (la competência relativa, isto é, serviriam como balizadores da verificação da posição da empresa
perante os demais construtores. Infelizmente o mercado carece ainda de tais informações. Mais que isto,
trabalhar com a média do mercado pode não ser a melhor escolha cio ponto de vista de "benchmarking"-'.

• Números mínimos do Setor

Novamente depara-se com a dificuldade advinda da escassez de informações disponíveis quanto à eficiên-
cia da produção civil; caso existissem tais números, eles representariam um desafio interessante, já que a
redução da perda significaria a aproximação do líder do mercado em termos de eficiência no uso do insumo.

• Normas técnicas

As normas, de um modo geral, costumam prescrever os limites máximos e mínimos que assegurem quali-
dade e desempenho aos produtos gerados. Por exemplo, poder-se-ia definir perda como a quantidade que

O benchmarking diz respeito ã busca do melhoria de desempenho através da detecção e adoção das melhores práticas.

22 Como reduzir perdas nos canteiros


ultrapassasse aquela referente à espessura mínima de revestimento prescrita em uma norma. Embora seja
totalmente coerente a idéia de que não se deva usar menos material do que o valor mínimo normalizado
(para não se correr o risco de levar o desempenho a níveis inferiores aos mínimos aceitáveis), os valores
prescritos por norma podem ser rigorosos demais, em alguns casos, para balizar o patamar de perda zero.
Dentro do mesmo exemplo citado, podem existir casos em que o projetista assume a necessidade de uma
espessura de revestimento superior à mínima prescrita por norma, pois quer ter melhor desempenho que
aquele garantido pela simples obediência à prescrição mínima da mesma.

• Metas da empresa

Ter-se metas da empresa como referência é, a princípio, bastante razoável, pois, baixando-se a perda a
zero, ter-se-ia alcançado um objetivo pré-definido. O problema de tal postura é o risco de se definirem
metas aquém ou além de um valor razoável. Mais que isto, na medida em que as metas podem variar de
uma situação ou momento para outro, ficaria difícil comparar as perdas medidas para duas situações
diferentes. Ficaria ainda difícil comparar-se uma empresa com outra, já que o valor da perda estaria
associado à meta estabelecida, que poderia ser mais ou menos audaciosa em diferentes empresas.

• Indicadores de orçamento

O uso dos indicadores de orçamento pode trazer o mesmo problema que o uso de metas da empresa,
em termos de serem sub ou superdimensionados, fazendo com que os valores de perdas sejam questio-
nados quanto a terem nascido de um bom ou mau desempenho ou de um bom ou mau orçamento.
Mais que isto, é usual, nos orçamentos, adotarem-se indicadores de consumo de materiais embutindo
perdas esperadas, o que dificultaria o real entendimento da perda calculada tendo tal indicador como
referência.

Em face das dificuldades associadas aos referenciais citados, este autor recomenda a seguinte postura
para definição da quantidade de materiais considerada de perda nula:

PERDA É TODA Q U A N T I D A D E DE MATERIAL C O N S U M I D A A L É M DA Q U A N T I D A D E TEORICAMENTE


NECESSÁRIA, Q U E É A Q U E L A INDICADA N O PROJETO E SEUS M E M O R I A I S , O U DEMAIS PRESCRI-
Ç Õ E S D O EXECUTOR, PARA O P R O D U T O S E N D O EXECUTADO.

Tal definição delimita a discussão das perdas ao âmbito da produção, isto é, uma vez definico o projeto,
este seria a referência a ser buscada no processo de produção e, portanto, haveria perda caso as ativida-
des de produção levassem a uma necessidade de materiais superior àquela calculada com base nas
prescrições do projeto.

A quantidade de materiais teoricamente necessária pode ser descrita através da expressão:

Q M T = Q S x QM/QS x QMS/QM

onde:
Q M T = quantidade de material teoricamente necessária,
Q S = quantidade de saídas (ou serviços) executada,
Q M = quantidade de material (único ou composto) demandada,
Q M S = quantidade de material simples demandada.

Colocando a expressão citada em palavras, a quantidade teoricamente necessária seria estimada, a


partir dos projetos e demais especificações, determinando-se, inicialmente, a quantidade de produtos
que serão gerados pelo serviço em estudo (por exemplo, a quantidade de revestimento de argamassa a
ser produzida); a partir daí, se buscaria saber quanto de argamassa (no caso, por exemplo, material
composto a partir de aglomerantes e areia) seria necessário, multiplicando-se a QS, já conhecida no
passo anterior, pelo consumo de argamassa por unidade de área revestida (QM/QS). O passo final seria
o de se estimarem as quantidades dos materiais simples que entram na composição do material com-
posto; para tanto, seria necessário conhecer quanto de cada um destes insumos é necessário por unida-
de de material composto (QMS/QM).

A utilização da expressão supracitada demanda algumas definições adicionais. Quanto à QS, deve-se
atentar para o fato de que, na medida em que se busca o teoricamente necessário, tem-se de utilizar a
quantidade líquida de serviço, pois não há justificativas para a adoção de números médios ou de núme-
ros equivalentes para a mensuração do produto a ser realizado. Por exemplo (Figura 2.3), há que se
descontar os vãos das paredes quando da estimativa da quantidade de alvenaria ou de revestimento de
argamassa a executar; há de se extrair o volume de armadura e de eletrodutos, da estrutura de concreto
armado, para se saber o volume de concretagem a ser efetivado; dentre outros.

Figura 2.3. Quantidade líquida de serviço: a) descontar a área dos vãos da alvenaria; I») excluir os volumes de
armadura e eletrodutos da estrutura.

No que se refere à QM/QS, tal valor deve ser o estritamente prescrito no projeto, não devendo agregar perdas
esperadas. Por exemplo, ao prescrever-se um contrapiso de 3 centímetros de esjx*ssura, ter-se-á uma demanda
teórica de 30 litros (conforme cálculos mostrados na Figura 2.4) de argamassa compactada por metro quadrado
de contrapiso. Não se deve, aqui, considerar que, provavelmente, por erros na produção, ter-se-á uma
sobrespessura do contrapiso que levaria a um volume de argamassa |X)r metro quadrado maior; tal lato |xxle
existir, mas será quantificado na determinação das perdas e não na quantidade teoricamente necessária.

QM = Volume de contrapiso = x e ( m ) _ 1 m2 x 0,03 m = 0,03 m* _ 30 I


QS Área de contrapiso 1 m2 m2 m2

Figura 2.4. Cálculo de QM/QS para contrapiso prescrito com espessura de 3cm.

Quando se tem um material composto, pode ser necessário avaliar-se a quantidade de cada um dos
materiais simples que o constituem e, neste caso, também é fundamental ter-se a especificação de
projeto como referência para o cálculo da Q M S / Q M .

Assim é que, por exemplo, para o caso da argamassa usada no revestimento de paredes, supondo-se
ter usado argamassa industrializada ensacada (que, misturada à água, gera a argamassa demandada),
para se estimar a quantidade de kg de argamassa seca necessária dever-se-ia multiplicar o volume de
argamassa total pelo peso de argamassa seca demandado por unidade de volume de argamassa apli-
cada (QMS/QM).
Portanto, neste caso, considerando-se que o fabricante indica um valor de 1.600 kg de argamassa seca
por metro cúbico de argamassa aplicada (QMS/QM), bastaria multiplicar tal valor pela quantidade de
argamassa por metro quadrado de revestimento (QM/QS) e, finalmente, multiplicar o valor obtido pelo
número total de metros quadrados de revestimento a aplicar (QS), conforme ilustrado no Quadro 2.1,
para se chegar à quantidade de argamassa industrializada teoricamente necessária (QMT).

Quadro 2.1. Ilustração do cálculo de Q M T para revestimento de parede com argamassa industrializada.

Revestimento ^ ^ ^ argamassa
de argamassa industrializada

QS = >
A medição da área líquida a revestir levou a 1.000 m2

QM/QS = ?
A espessura do revestimento, especificada no projeto como 1,5 cm,
leva a 15 litros de argamassa por m- de revestimento

QMS/QM = ?
Sabe-se que a argamassa seca industrializada é demandada
na razão de 1,6 kg por litro de argamassa no revestimento

QMTN = >
QMTN = QS x Q M x QMS
QS QM

= 1.000 x 15 1 x 1.6 kg
m-' I

= 24.000 kg de argamassa industrializada

Assim, uma clara definição do que seja a quantidade teoricamente necessária de materiais é fundamen-
tal para a estimativa da perda, dentro do conceito de que esta seria toda a quantidade de material acima
da necessária.

Apenas para concluir as definições deste capítulo, cabe salientar que, muitas vezes, se expressa a perda
em termos percentuais. Neste caso, seria aplicável a seguinte expressão:
onde:

IP ( % ) = indicador de perdas expresso percentualmente,


Q M R = quantidade de material realmente necessária,
Q M T = quantidade de material teoricamente necessária.

Note-se que se está determinando o percentual de perdas em relação ao teoricamente necessário, no


sentido de tal valor expressar o afastamento com relação ao que foi prescrito. Cabe ainda indicar que,
muitas vezes, ao longo deste livro, embora se esteja falando da perda percentual, vai-se omitir o adjeti-
vo final e citar-se apenas o termo perda.

RESUMO

• Definiu-se perda de um certo material como sendo a quantidade deste material utilizada a mais
que a quantidade necessária.

• Diversos caminhos poderiam ser adotados para se definir a referência de perda zero: números
médios do setor; números mínimos do setor; metas da empresa; normas técnicas; incicadores
de orçamento.

• Adotou-se a quantidade de material prescrita pelo projeto, e demais especificações relativas ao


produto, como referência para a quantidade necessária. Tal quantidade foi chamada de quanti-
dade de material teoricamente necessária (QMT) e é a referência adotada para perda nula.

• A Q M T pode ser expressa, de uma maneira analítica, como Q S x QM/QS x Q M S / Q M , onde: Q S


= quantidade líquida de saída ou serviço executado; QM/QS = quantidade de material por
unidade de serviço; e Q M S / Q M = quantidade de material simples por unidade de material
composto.

• A perda de um material é, muitas vezes, expressa percentualmente, relacionando a quantidade


de material realmente necessária ( Q M R ) à quantidade de material teoricamente necessária,
através de:

ATIVIDADES C O M P L E M E N T A R E S

Com base em um projeto de obra a ser construída e para os 3 principais materiais/serviços sobre cujas
perdas se pretende atuar, pede-se:

a) descreva o produto a ser gerado, pelo serviço em estudo, de uma maneira analítica, chegando
até o nível dos materiais simples;
b) determine os indicadores QM/QS e Q M S / Q M ;
c) estime Q S ;
d) determine QMT;
e) discuta como utilizar o indicador de perdas (e suas diversas padronizações de cálculo) definido,
nas várias outras atividades relativas à gestão da empresa/empreendimento/obra/serviço (por
exemplo, para fins de: previsão de custos por correlação, análise de projetos, escolha de tecnologia,
orçamentação por composições unitárias; escolha de fornecedor de materiais, aquisição de
materiais, recebimento de materiais, contratação de subempreiteiros, medição de serviços, pa-
gamento de subempreiteiros, definição de procedimentos de execução de serviços, controle da
produção, pagamento de tarefas de funcionários etc.).
Recomenda-se o uso da Tabela 2.1 como apoio para as respostas às questões supracitadas.

Tabela 2.1. Apoio ao cálculo e utilização dos indicadores QMT, QS, QM/QS e QMS/QM.

Serviço:

Constituintes da QMT Regras para determinação Memória de cálculo

QS

QM/QS

QMS/QM

Interação com outras atividades de gestão:

Atividade Interação
CLASSIFICAÇÃO DAS PERDAS 3
Seja qual for o objeto de um programa de melhorias, é sempre interessante balizar as decisões tomadas
em um prévio entendimento dos problemas vigentes. Este raciocínio se aplica, também, ao caso das
perdas de materiais, isto é, seu entendimento facilita seu futuro combate.

O entendimento das perdas de materiais passa pelo conhecimento da classificação das mesmas. Isto se
torna mais importante ainda quando se tem verificado a presença de diferentes pessoas falando "idio-
mas" diferentes ao se referir a perdas (conforme mostra a Figura 3.1), confundindo-se causas, conseqüên-
cias, tipos de recursos etc.

Fulano da Silva Beltrano de Souza

- tinha RS 100,00; - tinha RS 100,00;

- foi à loja de materiais de - foi à loja de materiais e comprou


construção e gastou RS 50,00 cimento faturado |>ois sua carteira
em sacos de cimento; havia sido furtada no caminho;

- recebeu o material e o deixou - recebeu o material, estocou-o


sob a ação da chuva, estragando e utilizou-o corretamente.
todo o aglomerante.
Perdeu 1 0 0 %
Perdeu 100% ... do seu capital
... do material (mas 0% do material)
(mas 50% do seu capital)

Figura 3.1. Diversas interpretações para o termo perdas.

Neste livro classificam-se' as perdas segundo:

• o tipo de recurso consumido;


• a unidade para sua medição;

' Adipt.ido de Andr.uk• (1999).

Como reduzir perdas nos canteiros


• a fase do empreendimento em que ocorrem;
• o momento de incidência na produção;
• sua natureza;
• a forma de manifestação;
• sua causa;
• sua origem;
• seu controle.

3.1. PERDAS S E G U N D O O T I P O DE R E C U R S O C O N S U M I D O

A produção de uma obra de construção demanda uma série de recursos (Figura 3.2), que podem
ser classificados cm dois grandes grupos: o dos recursos físicos e o dos recursos financeiros. Embo-
ra, numa estratégia competitiva por custos, o aumento da eficiência no uso dos recursos físicos
signifique uma redução da demanda por recursos financeiros, é bastante clara a necessidade de se
separarem os 2 grupos para se melhorar a atuação sobre os mesmos (por exemplo, o operário
deveria estar preocupado em não quebrar as placas cerâmicas, enquanto o setor de Suprimentos
estaria mais envolvido com o preço de diferentes placas cerâmicas disponíveis no mercado).

Sacos de
cimento

Figura 3.2. Recursos necessários para a produção de uma obra de construção.

Quanto aos recursos físicos, cabe a citação daqueles que normalmente são os mais discutidos nos
empreendimentos de construção, quais sejam: materiais, mão-de-obra e equipamentos.

E quanto aos recursos financeiros, pode-se estar consumindo mais unidades monetárias que o teorica-
mente necessário por motivos estritamente financeiros ou como conseqüência de perdas físicas.

A Figura 3.3 ilustra a classificação proposta, quanto ao tipo de recurso consumido, enquanto os Qua-
dros 3.1 e 3.2 mostram exemplos associados a tal classificação.
Materiais

Figura 3.3. Classificação (ias perdas segundo o tifx> de recurso consumido.

Quadro 3.1. Exemplos de perdas de recursos físicos.

a) Perdas de Materiais b) Perdas de Mão-de-obra

Uma parte da argamassa, utilizada pelo O executor da marcação da alvenaria, ao não


pedreiro revestindo uma parede, caiu ao chão receber a planta correta com a precisa localização
durante a aplicação e endureceu depois de das paredes de um novo andar, tem de paralisar
um certo tempo, tornando-se entulho. suas atividades para esperar informações.

c) Perdas de Equipamentos

A grua tem de ficar pesada, deixando


de trabalhar, durante um dia de
ocorrência de fortes ventos.
Quadro 3.2. Exemplos de perdas financeiras.

a) Decorrentes das Perdas de Recursos Físicos

Uma obra onde se tem alta incidência de perdas físicas gasta muito mais recursos financeiros para comprar materiais
adicionais que uma obra sem perdas físicas.

b) Estritamente Financeiras

b.1) U m construtor, por um erro no cálculo da quantidade necessária de cimento para executar uma casa, comprou
pouco menos que o necessário de um grande fornecedor, por um preço atraente. A compra final teve de ser feita num
revendedor menor, que cobrava muito mais por saco de cimento.

2a aquisição 1d aquisição

b.2) Por falta, no mercado, da placa cerâmica especificada (de custo médio) foi necessário comprar outro tipo (superando
as especificações) mais caro.

Superando a especificação Conforme a especificação

b.3) Embora o cronograma de obra sugerisse a necessidade de 1 caminhão de blocos por semana, o construtor, dispondo
de recursos financeiros, resolveu comprar 6 viagens de uma vez só. Poderia ter aplicado tais recursos e ir utilizande-os passo
a passo, evitando uma perda estritamente financeira:

Compra total no início

Estoque
na obra
Semana 0 Sem. 1 Sem. 2 Sem. 3 Sem. 4 Som. 5 Sem. 6

Dinheiro em
outra aplicação 6$ Zero Zero Zero Zero Zero Zero

Compra parcelada

Estoque
na obra

Dinheiro em
outra aplicação 6$ 5$ 4$ 3$ 2S IS Zero
3.2. PERDAS S E G U N D O A U N I D A D E PARA SUA M E D I Ç Ã O

As perdas podem ser medidas em diferentes unidades, sendo as principais: em massa, em volume e em
unidades monetárias. É importante salientar que o valor das perdas pode mudar bastante ao se adotar uma
ou outra unidade, conforme ilustrado no Quadro 3.3. Mais que isto, as perdas podem ser expressas em
valores absolutos ou relativos/percentuais (por exemplo: ter-se perdido 2 metros cúbicos de concreto; ou
ter-se deparado com uma perda percentual, em volume, de 5 % de concreto).

Quadro 3.3. Expressão das perdas percentuais de materiais em massa e em reais para o caso de
revestimento interno de paredes com argamassa.

Na execução do serviço de revestimento de argamassa, especificado com 2 cm de espessura, o gestor percebeu


ter ocorrido um consumo de areia superior ao teoricamente necessário. Para mensurar a perda ocorrida, compôs
a tabela abaixo, relativa ao consumo teoricamente necessário e ao real, para o caso de 1 m J cie argamassa
aplicado em tal revestimento.

Recurso Quantidade R$ teoricamente Quantidade Perda ( % ) R$ gasto Perda


teoricamente necessário real em massa em RS
necessária
Areia úmida 1.270 kg 46,00 1.905 kg (1.830 1) 50% 69,00 50%
(1.220 I)

Cimento 163 kg 61,00 163 kg - 61,00 -

Cal 169 kg 38,00 169 kg • 38,00 •

Material total 1.552 kg - 2.237 kg 41 % - -

Oficiais 20 h 100,00 20 h - 100,00 -

Ajudantes 12 h 48,00 12 h - 48,00 -

RS total - 293,00 _ 316,00 8%

3.3. PERDAS S E G U N D O A FASE D O E M P R E E N D I M E N T O E M Q U E O C O R R E M

Na medida em que as perdas acontecem toda vez que se estabelece um consumo de materiais superior
ao teoricamente necessário, tal ocorrência pode se dar em diferentes momentos do empreendimento
Por falha, desconhecimento ou conservadorismo excessivo, o projetista pode estar concebendo uma obra
superdimensionada em termos do consumo de materiais. Por exemplo, vários leitores já devem ter ouvido
uma frase, do tipo indicado a seguir, de parente leigo em construção civil: "contratei um empreiteiro
muito bom para fazer minha casa; precisa ver que pilares enormes a estão sustentando!" Este pode ser um
caso, infelizmente comum, onde o mau (ou inexistente) projeto criou a demanda por materiais (o concre-
to, o aço e as fôrmas para a estrutura de concreto armado) eventualmente desnecessários (será que a tal
casa térrea, sem laje de cobertura, precisava de estrutura de concreto armado?). O quadro 3.4 traz um
exemplo da ocorrência de tal tipo de perdas: a não-previsão de um desnível, entre a superfície ca laje na
varanda e na sala contígua, obrigou o espessamento do contrapiso em tal sala (e no resto do apartamento)
para se obedecer ao desnível prescrito de 3 cm entre os dois ambientes citados.

Quadro 3.4. Exemplo de perda de argamassa, para contrapiso, ocorrida no projeto.

O projeto da própria estrutura de concreto armado pode favorecer ou não a minimização da necessidade dc
argamassa para contra pisos de um apartamento. Analisando-se as duas concepções projjostas pelo projetista esírutural
indicadas abaixo, e considerando-se, em ambas, que o arquiteto prescreveu a necessidade de um desnível de 3 cm
entre a varanda e a sala, tem-se, na alternativa "a", um consumo de argamassa de contrapiso muito superior ao induzido
pela alternativa "b".

Planta de arquitetura Alternativas estruturais (corte M-M)


a)

b)

Contrapiso previsto
em a) em b)
2,5 cm 3 cm 2,5 cml
5,5 cm r [4,5 cm

No caso da fase de Produção da obra, inúmeras perdas podem ocorrer. Em face da ênfase com que
serão tratadas neste livro, estas perdas serão mais cuidadosamente definidas no item 3.4.

Quanto à fase de Utilização, as perdas também podem estar presentes. Por exemplo, toda vez que,
inadvertidamente, um usuário lava o "hall" de elevadores e deixa água cair pela caixa do elevador,
partes do circuito elétrico podem ser molhadas, levando a defeitos que requerem sua troca antes do
tempo que seria normalmente demandado no caso de uma utilização em conformidade com os bons
procedimentos. Situação semelhante pode ocorrer por deficiência na limpeza dos revestimentos de
uma habitação, onde o uso de produtos de limpeza inadequados pode levar à degeneração precoce
dos mesmos. Esgotar e encher uma piscina, a curtos intervalos de tempo (em lugar de fazer um
tratamento da água), induz um trabalho mecânico cíclico da sua estrutura que favorece o apareci-
mento de fissuras. Além das falhas na utilização, a obsolescência funcional ou estética pode levar a se
ter de substituir uma determinada parte da construção antes de a mesma perder as características de
desempenho esperadas; por exemplo, algumas vezes troca-se a louça sanitária, mesmo que ainda
esteja funcionando bem, devido a lançar-se, no mercado, um desenho de peça diferente, tornando o
modelo anterior fora de moda. O Quadro 3.5 ilustra um outro exemplo de gasto adicional de mate-
rial ao longo da utilização da edificação.
Quadro 3.5. Exemplo de perda de material na Utilização: repintura, por motivos estéticos, antes do
prazo teoricamente previsto.

Um morador, tendo adquirido uma casa recém-construída, possuindo pintura externa feita utilizando-se um sistema
de pintura adequado sobre uma base também adequada, não gostou da cor, repintando a fachada assim que se mudou.
Houve perda na utilização, na medida em que ocorreu um gasto de tinta imediato, que só era previsto 4 anos depois,
quando se imagina ter uma necessidade de repintura para recompor o desempenho da película superficial do sistema
de pintura.

3.4. PERDAS S E G U N D O O M O M E N T O DE I N C I D Ê N C I A N A P R O D U Ç Ã O

Na medida em que a produção pode ser responsável por grandes consumos excessivos de materiais,
discutem-se, aqui, com maior profundidade, os vários momentos de incidência associados a tal fase do
empreendimento.

Conforme ilustra a Figura 3.4, as perdas podem se manifestar nas seguintes etapas da fase de Produção:
recebimento dos materiais e componentes; estocagem dos mesmos; processamento intermediário;
processamento final; e movimentações entre as etapas do íluxograma dos processos mostrado.

Processamento
Recebimento
final

Figura 3.4. As diferentes etapas da fase de Produção onde as |K'r<las |X)d<>m ocorrer.

Cabe destacar que as etapas citadas são genéricas, podendo ter-se a ocorrência de todas elas (e, mesmo,
ter-se algumas delas repetidas), como deixar-se de ter algumas das etapas em função da alternativa de
fornecimento de materiais/componentes adotada e/ou do projeto do processo concebido. As Figuras
3.5 e 3.6 exemplificam íluxogramas do processo possíveis para os casos do contrapisos feitos, respecti-
vamente, com argamassa dosada e misturada cm obra e com argamassa industrializada ensacada; note-
se que, no primeiro caso, tem-se um número maior de possíveis momentos para incidência de perdas
na Produção. A Figura 3.7 ilustra algumas das perdas que podem ocorrer.
Dosagem de cimento
Recebimento Estocagem
e areia e mistura Execução
dos sacos o dos sacos o da argamassa do contrapiso
de cimento de cimento de contrapiso

Recebimento Estocagem ít
de areia de areia

Figura 3.5. Fluxograma tios processos para o caso de contrapiso com dosagem e mistura em obra.

Recebimento Estocagem Mistura da Execução


dos sacos dos sacos argamassa
o o o do
de argamassa de argamassa seca
contrapiso
industrializada industrializada com água

Figura 3.6. Fluxograma dos [Wocessos para o caso de contrapiso com argamassa industrializada ensacada.

Menos areia no caminhão


do que o prescrito na
(recebimento)

Carregamento do miíturador
com areia úmida na quantidade
especificada para areia seca,
Sacos empedrados aumentando o consumo de
(estocagem) cimento por m 1 de argamassa
(processamento intermediário)

Contrapiso Incorporação adicional


de argamassa no contrapiso
Laje de (processamento final)
concreto
ei, ej > e m i n .

Figura 3.7. Ilustrações de perdas passíveis de ocorrência, nas diferentes etapas dos fluxogramas dos processos, no caso do
contrapiso: a) recebimento; b) estocagem; c) processamento intermediário; d) processamento final.

3.5. PERDAS S E G U N D O SUA NATUREZA

As perdas físicas de materiais podem ocorrer sob três diferentes naturezas (Figura 3.8): furto ou extravio;
entulho; e incorporação.
/

ALMOXARI FADO Este material E mesmo!


de construção vai u nem tinha
me render uma percebido
boa grana!

Furto

Ei, João! Pronto, Manuel!


Me corta um Aqui está o pedaço de tubo
E pra já, pedaço de tubo que você me peciu
Manuel! com 60 cm?

Entulho

Figura 3.8. Natureza das |»erdas tísicas de materiais: a) por furto; b) incorporada; c) entulho.

O furto ou extravio costuma ser pouco significativo no caso das obras de um certo porte. Embora mais
significativo em obras pequenas, onde se usa uma quantidade pequena de materiais (por exemplo, 1
saco de cimento roubado é percentualmente importante numa reforma que utilizará 10 sacos no total)
e se tem, normalmente, um menor controle de entrada e saída de materiais e pessoas, os furtos devem
ser dificultados cm obras maiores também, em especial quanto aos componentes de baixo peso/volume
e alto custo unitário. Além do furto do tipo mais convencional (alguém se apossando de algo, ao retirar
tal objeto de seu local de estocagem), algumas vezes se depara com reclamações, em geral pontuais,
quanto a ter-se entrega de materiais em quantidade inferior à contratada.

Por exemplo, uma deficiência no enchimento de um caminhão de areia, no local de extração, pode
gerar uma entrega com menos material que o citado na nota fiscal; a não-percepção quanto a esta
diferença resultaria numa perda no recebimento.

O entulho representa a natureza das perdas mais comumente presente na mente das pessoas, quando se
fala em perdas de materiais, mesmo não sendo, para o caso de vários serviços, a ma s relevante
quantitativamente falando. É o entulho, colocado em caçambas, que é visto na TV e nas fotos em
revistas e jornais, quando se critica a Construção como geradora de resíduos; são os restos de materiais
não ou indevidamente utilizados que geram a sensação de sujeira num canteiro de obras, causando,
mesmo, susceptibilidade maior à ocorrência de acidentes. Portanto, é bastante importante entender a
sua ocorrência para se propor eventuais ações visando combater sua geração.

O entulho é, também, denominado "o lixo que sai" da obra. Pode ser gerado em vários serviços e ser
relativo a diferentes materiais (por exemplo, geram-se, algumas vezes, quantidades não desprezíveis de
entulho de gesso, de argamassa, de madeira serrada e compensada etc.). A Foto 3.1 ilustra ê. ocorrência
de entulho num andar de uma obra em fase de acabamento.
Foto 3.1. Entulho reunido após limpeza de ambiente em execução, juntando-se gesso endurecido a sacaria e outros rejeitos.

A perda incorporada, embora muitas vezes menos perceptível visualmente que a perda por entulho,
pode representar, para alguns materiais, a natureza mais presente de perdas de materiais na construção.
Muitas atividades de moldagem "in loco" levam a incorporações de materiais superiores à teoricamente
prescrita: é isto que ocorre, por exemplo, ao se fazer uma laje um pouco mais espessa que o indicado
no projeto de fôrmas; toda vez que um revestimento interno de paredes com argamassa, previsto para
ter l centímetro, alcançar 2 centímetros de espessura média, tem-se perda incorporada; dentre outros
exemplos.

A perda incorporada é também denominada "lixo que fica" na obra, na medida em que a parcela de
materiais incorporada não estava prevista e, portanto, não seria necessária do ponto de vista do
especificador. As Fotos 3.2 ilustram dois casos de perdas incorporadas.

Fotos 3.2. a) viga com largura su|>erior à prevista em projeto;


b) revestimento de argamassa externo mais es|>esso que o especificado.
3.6. PERDAS S E G U N D O A F O R M A DE M A N I F E S T A Ç Ã O

Além das já citadas diferentes naturezas das perdas (furto, entulho ou incorporação), pode-se distinguir,
para cada uma delas, diferentes formas de manifestação.

Como exemplos de diferentes formas de manifestação das perdas, podem-se citar:

• sacos de cimento, cal, gesso, argamassa etc. com peso real inferior ao nominal;
• areia no caminhão recebida em quantidade menor que a indicada na nota fiscal;
• aço desbitolado;
• argamassa saindo por rasgos na embalagem;
• sacos de cimento empedrados;
• areia carreada do estoque pela chuva;
• consumo de cimento, na dosagem, superior ao estabelecido no traço;
• pontas de aço não aproveitáveis;
• argamassa endurecida ao pé da parede revestida;
• gesso endurecido na caixa do gesseiro;
• viga mais larga que o estabelecido no projeto;
• revestimento com espessura superior à prescrita;
• laje mais espessa que o indicado no projeto;
• etc.

A Figura 3.9 ilustra algumas das formas de manifestação das perdas.

Figura 3.9. Fxemplos do diferentes formas do manifestação do perdas: a) recebimento do sacos do gesso com poso inferior
ao indicado na embalagem; b) aço entregue com diâmetro maior que o nominal, implicando monos metros por kg recebido;
c) gesso endurecido na caixa do aplicador por se ler ultrapassado o tempo máximo de uso; d) laje "embarrigada" levando a
maior espessura que a especificada.

3.7. PERDAS S E G U N D O SUA CAUSA

Mais que identificar a forma de manifestação das perdas, o entendimento do porquê de elas ocorrerem
pode ajudar bastante na futura tarefa de tentar evitar que tais perdas aconteçam.

Portanto, a causa de uma certa |x?rda seria a razão imediata para que ela tenha acontecido. Assim é que, para
as várias manifestações possíveis, |xxlem-se elencar as prováveis causas (que não necessariamente são únicas,
isto é, a perda, ocorrida sob uma determinada forma de manifestação, pode ter sido fruto de diferentes causas).

Tem-se, por exemplo, que:

• o recebimento de material a menos que o prescrito (sob as manifestações: sacos com menor quan-
tidade que a nominal, componentes de dimensões reduzidas, quantidades de material a granel em
"a ver") podem ter, como causa, falhas na verificação quantitativa no recebimento na obra;
• a sobra de muitos pedaços de barras de aço pode ter, como causa, a não-utilização das pontas
remanescentes de cortes de barras de 12 metros;

• a presença de muito entulho de blocos pode ter como causas: o transporte inadequado (por
exemplo, fazendo-se uso de jericas em lugar de carrinhos com bases planas), o uso de ferramentas
impróprias (como, por exemplo, cortar blocos com a colher de pedreiro em lugar de usar uma
serra elétrica com o disco correto), o desmoronamento de um estoque por choque com um
equipamento de transporte etc.;

• a espessura de um revestimento, maior que a especificada, pode ter como causas: um desaprumo
das paredes revestidas, uma falta de esquadro entre paredes contíguas, ou uma não-coincidên-
cia entre a face da viga de concreto armado e a face da alvenaria (gerando necessdade de
enchimentos de argamassa).

A Figura 3.10 ilustra algumas causas de perdas: a) a escolha de equipamento de transporte inade-
quado aumentando as chances de quebras de blocos; b) a deficiência no cimbramento levando a
deformações excessivas do pilar e conseqüente incorporação de concreto adicional; c) a falta de
prumo da alvenaria obrigando a aumento da espessura do revestimento de argamassa para acertar
a geometria da superfície final.

Figura 3.10. Exemplos de causas de |x>rdas: a) equipamento <le transporte inadequado; b) deficiência no cimbramento;
c) alvenaria fora de prumo.

3.8. PERDAS S E G U N D O SUA O R I G E M

Se as causas das perdas se relacionam às razões imediatas para sua ocorrência, é importante, também
d e n t r o rio o b j e t i v o rir» d i m i n u i r o d e s p e r d í c i o , e n t e n d e r e m - s e a s r a z õ e s " m a i s d i s t a n t e s " q u e omenta-
ram as manifestações detectadas, que representariam as origens das perdas.

Assim é que, embora a causa da perda de blocos possa ter sido o uso de colher de pedreiro para
executar seu corte, poder-se-ia citar como origem da mesma, por exemplo, a não-compatibilidade das
dimensões das paredes com as dos componentes de alvenaria disponíveis, gerando a necessidade de
corte dos mesmos. Portanto, a origem estaria na fase de Projeto, apesar de a manifestação se associar à
etapa de processamento intermediário da fase de Produção. A Figura 3.11 indica a associação dos
momentos de incidência às diferentes fases do empreendimento onde as origens das perdas podem
estar; note-se que a fase da origem pode ser a da própria manifestação ou anterior a esta.

O Quadro 3.7 atrela algumas manifestações de perdas, que ocorrem na fase de Produção, às possíveis
origens e suas respectivas fases, enquanto a Figura 3.12 ilustra algumas das origens citadas.
Ml = momento de incidência
OR = origem

Figura 3.11. Indicação genérica <los possíveis momentos de incidência e origem das manifestações de perdas.

Quadro 3.7. Associação de manifestações de perdas às suas causas e origens.

Manifestações Causas Origens Fase do


de perdas empreendimento
Entulho de blocos Corte com Falta de procedimento de produção Planejamento
de concreto ferramenta formal para prescrição da ferramenta
e/ou técnica e da técnica adequadas para
inadequadas corte de blocos

Falta de treinamento dos operários Produção


quanto ao procedimento a ser seguido

Falta de compatibilização modular Concepção


entre as dimensões das paredes e a dos
componentes de alvenaria

Entulho de placas Corte com Falta de procedimento de produção Planejamento


cerâmicas ferramenta formal para prescrição da ferramenta
e/ou técnica e da técnica adequadas para corte
inadequadas de placas cerâmicas
Falta de treinamento dos operários Produção
quanto ao procedimento a ser seguido

Projeto prescrevendo placas muito Concepção


grandes para ambientes muito pequenos,
gerando percentual elevado de
placas cortadas

Espessura média Falta de Falta de treinamento do encarregado Produção


elevada do esquadro entre quanto aos procedimentos para
revestimento paredes inspeção do serviço
interno de paredes projetadas
com argamassa para serem
perpendiculares

Vigas de Falta de coordenação de projetos Concepção


concreto mais
espessas que
a alvenaria
a)
Estas placas são
muito grandes.
-Acho que terei de
cortar todas para
f inalizar a fiada? usar no lavabo!
Corto o bloco ou

Figura 3.12. Exemplos de origens das perdas: a) falta ou inadequação de procedimentos de produção; b) a especificação de
componentes que, não compatíveis com as dimensões <1o produto a ser realizado, levem a quantidade elevada <le cortps; c) falta
de coordenação <k) trabalho dos diversos projetistas.

3.9. PERDAS S E G U N D O SEU C O N T R O L E

A ocorrência de perdas, enquanto sinônimo de ineficiência de um certo processo de produção, pode


ser associada a quaisquer processos; em outras palavras, as perdas estão presentes em todas as ativida-
des. Portanto, não é vergonha alguma conviver com perdas {ver Depoimento 3.1) na Construção; o que
se deve evitar é que tais perdas alcancem níveis preocupantes ou que ocorram predominantemente por
negligência na coordenação dos processos.

Depoimento 3.1. As perdas na Construção Civil e as perdas na produção de entrevistos para a TV.

Toda vez que tive oportunidade de dar uma entrevista para algum programa ou jornal da TV, despendia
vários dos minutos iniciais, da conversa prévia à gravação propriamente dita da entrevista, procjrando
explicar ao (ou à) repórter o significado da palavra perdas, para tirar o seu lado pejorativo (que muitas
vezes era algo que o entrevistador poderia explorar).

Meu exemplo, na tentativa de ser mais claro e de sensibilizar mais o profissional da carreira de jornalis-
mo, era relativo ao seu trabalho. Minhas colocações eram: "se considerarmos que o tempo teoricâmente
necessário para se ter uma entrevista, que passará durante meio minuto num telejornal, seja de exata-
mente meio minuto, todas as horas gastas pelo jornalista e sua equipe para sua produção (incluindo o
estudo piéviu do tissunlu, //m/> ,i bubL<i de um ui>pcci<ili$l<i p,it<i se/ eutievisUidu, iiuií> o tvmpo g<is(u
tentando o contato por telefone, mais o deslocamento até o local da entrevista, mais a entrevista, mais
a volta aos estúdios e a edição da matéria), subtraídas deste meio minuto, seriam consideráveis perdas".

Portanto, ter perdas não é sinônimo de incompetência; ter perdas facilmente evitáveis (o que provavel-
mente não se aplicaria ao caso do jornalista), sim!

Como conclusão da conversa prévia, normalmente eu incluía o comentário de que, com base nas consi-
derações que havia feito, as perdas relativas à produção da entrevista seriam bem maiores que as que
citaria para a Construção, embora isto não me permitisse afirmar que o jornalista fosse mais ou menos
eficiente que eu, profissional da Construção.
As perdas são separáveis, portanto, em duas parcelas: a dita evitável; e aquela denominada inevitável. À
parcela evitável dá-se o nome de desperdício. A distinção do que seja desperdício, em relação à perda
inevitável, depende do estabelecimento de critérios, os quais não são normalmente de definição mate-
mática generalizável; é também razoável aceitar-se que o desperdício seja a parcela das pe-das técnica
e economicamente evitável. Assim é que, provavelmente, para empresas diferentes, o limite entre o
evitável e o inevitável não seja exatamente o mesmo, dependendo do nível de tecnologia vigente na
empresa, da capacitação de seu pessoal, do padrão cia obra em execução etc. No entanto, não se deve
fazer uso de tal "dica", relativa à dificuldade de se definir se há desperdício (ou se somente perda
inevitável), para justificar todas as perdas que ocorrem nas obras. Na opinião deste autor, boa parte das
perdas (em especial quando se tem altos níveis de perdas) é evitável através de ações simples, de melhoria
de gestão da produção dos serviços ou de pequenos aprimoramentos de projeto.

O Depoimento 3.2. traz a descrição sucinta de um caso real, vivido pelo autor, evidenciando claramen-
te a ocorrência de desperdício de blocos de concreto.

Depoimento 3.2. Desperdício de blocos de concreto.

Ao estudar a produção de um conjunto de edifícios de apartamentos, executados em alvenaria estrutural


de blocos de concreto, quanto às perdas dos próprios blocos utilizados, este autor ficou decepcionado ao
receber a informação sobre as perdas, calculadas na primeira semana de análise, que foi de 10,4%, um
valor bem mais elevado que o esperado, seja pela qualidade dos blocos que estavam sendo utilizados,
pela tipologia do projeto ou pela forma de movimentação dos componentes (eram levados por uma grua,
em páletes, até a laje de utilização). Imaginando ter-se uma oportunidade para melhoria da eficiência
do processo de produção, uma investigação complementar, "in loco", permitiu a percepção do seguinte
problema: os blocos eram levados para o andar com alvenaria por fazer em quantidades normalmente
superiores à necessária; uma vez abertos os páletes, os blocos iam sendo usados, havendo sobra ao final.
Os blocos que sobravam já não eram mais facilmente transportáveis, pois a grua não mais conseguia
acessar o pavimento fechado (observe-se que algumas das alvenarias eram feitas após a concretagem da
laje superior); restaria a opção de se fazer o transporte manualmente, pela escada, o que demandaria um
esforço adicional da mão-de-obra, que não estava muito motivada no canteiro em discussão. Alguns
operários, maldosamente, para não terem de fazer o transporte dos blocos para o novo andar, os lança-
vam pelas janelas, gerando pilhas de entulho nas imediações da torre.

Não há dúvida alguma, de minha parte, de que se tenha apresentado um claro exemplo de desperdício,
onde algumas poucas ações (e um pouco mais de atenção de parte da gestão) poderiam reduzir sensivel-
mente as perdas.

RESUMO

• Qualquer ação visando à redução das perdas cie materiais deve ser precedida por um entendi-
mento do problema, o que passa por se entender as várias facetas das perdas.

• As perdas podem diferir quanto: ao tipo de recurso consumido; à unidade adotada para sua
medição; à fase do empreendimento em que ocorrem; ao momento de incidência na Produ-
ção; a sua natureza; à forma de manifestação; a sua causa; a sua origem; ao seu ccntrole.

• Quanto aos recursos consumidos, estes podem ser: físicos, podendo-se estudar os materiais, a
mão-de-obra e os equipamentos; e financeiros, podendo ser ou não decorrentes dc ocorrência
de perdas físicas.

• Podem-se medir as perdas de materiais em unidades monetárias ou em unidades físicas; no que


se refere a estas últimas, as perdas podem ser avaliadas em massa ou em volume.
• Seja qual for a unidade de mensuração, as perdas podem ser expressas em valores absolutos ou
percentuais.

• O consumo de materiais a mais que o teoricamente necessário pode ocorrer nas diferentes fases
do empreendimento: Concepção, Produção ou Utilização.

• No que se refere especificamente à fase de Produção, as perdas de materiais podem ocorrer: no


seu recebimento, na estocagem, no processamento intermediário, no processamento final ou
nas movimentações dos materiais entre estas etapas.

• As perdas podem ocorrer sob as seguintes naturezas: roubo ou furto, entulho ou material incor-
porado.

• Pode-se, ainda, explicitar melhor a forma de manifestação de uma perda, por exemplo, citan-
do-se que ela ocorreu na medida em que o caminhão de areia foi aceito com quantidade de
material menor que a especificada.

• Cada manifestação pode ter razões diferentes para ter ocorrido; às mais "próximas", denomi-
nam-se causas, e às mais "distantes", origens.

• As perdas são inerentes aos processos de produção; no entanto, há que se distinguir a fração
considerada inevitável, dentro do contexto vigente, daquela viável de ser eliminada, denomi-
nada desperdício.

ATIVIDADES C O M P L E M E N T A R E S

Combater as perdas de materiais em um canteiro de obras demanda, inicialmente, o correto entendi-


mento do problema que se quer enfrentar. Dentro deste contexto, minimizar o desperdício de materiais
num certo serviço exige, inicialmente, uma abordagem analítica sobre que tipo, onde, como, quando e
por que as perdas a serem atacadas acontecem.

Com o intuito de se exercitar tal postura prévia à definição de um plano de redução das perdas, para o
caso do serviço de revestimento de paredes internas com argamassa, pede-se:

a) identifique pelo menos uma perda possível por tipo de recurso envolvido no serviço;
b) quanto às perdas físicas de materiais, indique os diferentes momentos de incidência das mesmas
no processo de produção;
c) para cada momento, exemplifique pelo menos uma forma de incidência de perda;
d) indique a natureza da perda para cada exemplo dado;
e) para cada exemplo indique, ainda, pelo menos uma causa plausível;
f) para cada causa cite, pelo menos, uma origem cabível.
DIAGNÓSTICO DAS PERDAS DE MATERIAIS
NA PRODUÇÃO DE EDIFÍCIOS

Toda vez que se tece a avaliação, de algum produto ou processo, é desejável reduzir-se o subjetivismo,
no que se refere à formação e à expressão, da opinião do avaliador. Com isto se minimizam os riscos de
falhas de entendimento da mesma.

Rara se poder discutir, portanto, o diagnóstico das perdas, passa-se, neste capítulo, por uma apresenta-
ção inicial dos indicadores que podem ser utilizados, preocupando-se, posteriormente, com a apresen-
tação de valores para tais indicadores obtidos em estudos anteriormente realizados.

4.1. I N D I C A D O R E S DE PERDAS

A padronização de linguagem e de procedimentos, para se realizar e se expressar a avaliação das perdas de


materiais, é desejável. Se este livro, até aqui, já passou por uma série de definições de linguagem, insere-se
mais fortemente, daqui para a frente, a utilização de indicadores a fim de favorecer a discussão objetiva das
|>erdas de materiais nos canteiros de obras (a Figura 4.1 ilustra o interesse |x>r tal tipo de postura).

Acho que
a perda
foi grande A perda física
global de aço
foi de 8%

Figura 4.1. O uso de indicadores evitando as divergências relativas a avaliações subjetivas.

Como reduzir |>erdas nos canteiros


Os indicadores representam informações quantitativas ou qualitativas que medem e avaliam o compor-
tamento de diferentes aspectos do objeto do estudo. Seu levantamento cria um sistema de informações
que pode ser bastante útil para ajudar na tomada de decisões.

Os indicadores vão ser usados, aqui, tanto para expressar quantitativamente a magnitude das perdas
quanto para se discutir as razões para sua manifestação. Rara tanto, embora os indicadores possam ser
quantitativos ou qualitativos, valerá sempre a idéia de ter-se padronização e significado o menos ine-
quívoco possível para quaisquer deles.

No que se refere às perdas, este autor acredita que diferentes indicadores poderão ser úteis para se
avaliar o cenário já proposto quando se tratou (no capítulo 3) das diferentes facetas das mesmas. A
Figura 4.2 procura ilustrar a idéia de ter-se dois grandes conjuntos de informações proporcionáveis
pelos indicadores: um relativo à mensuração (ou quantificação) das perdas; e outro dizendo respeito às
razões (ou à explicação) para sua ocorrência.

- tipo de recurso |>erdido


- unidade de mensuração
- fase do empreendimento
- momento de incidência
na produção

Indicadores
mensuradores

Indicadores
explicadores

- natureza
- forma de incidência
- causa
- origem
- caracterização tecnológica

Figura 4.2. Grupos <le indicadores para quantificar as pordas e discutir as razões para sua ocorrência.

Ainda na opinião do autor, e conforme a própria Figura 4.2 indica, não é exatamente matemática a
definição dos limites quanto a onde a mensuração termina e a explicação se inicia; acredita este que o
progressivo aprimoramento da mensuração acaba desembocando nas razões cias perdas. Independen-
temente desta discussão semântica, a Figura 4.3 aborda, um pouco mais detalhadamente, a interpreta-
ção dada ao conjunto de informações necessárias para a análise das perdas e os indicadores a serem
utilizados.
Perda financeira global

•St
rZ
Recursos- Produção Produto O
O
t
Perda física global 1ÍÇ
3
C
O
E
o
o
O Processamento O Processamento O
Recebimento Estocagem
intermediário final c
'rz
\ u
\ Perda no Perda pàs//
processamento,
&
\ processamento
Perda p ré-processa mento intermed ário \ intermediário intermediário
X / •
v ^ . /

n /
/
\ / rz
\ / N'
\ / = $

Parcela Parcela Parcela ,P5


incorporada por entulho |X>r furto O
S-8
3
Cr
•S,

O- KT,
n rz
O
Fatores quantitativos: FQ,; FQ2, ...;FQn £o * O
•o
c -2 3
rz ~
3 a
C S
<s> <Sl
O
.8 o
C j w
fO
u
Fatores indutores: Fl,; Fl2, ...;FI,
2 -s,
C JZ
rz ~
c

o
>fZ rz
C 5 «
Fatores caracterizadores: FC,; FC2, ...;FC( c -C 12
« 1> O
~> "ü <-
C 2 £

Figura 4.3. Integração dos diversos indicadores úteis para a análise das perdas.

4.1.1. Indicadores mensuradores

No que se refere às perdas globais, ocorrendo na fase de Produção de um empreendimento, associadas


ao suprimento de materiais, pode-se avaliá-las do ponto de vista da eficiência no uso cos recursos
físicos ou dos recursos financeiros demandados.
No que se refere às perdas físicas de materiais, as mesmas podem ser mensuradas através de ciferentes
unidades físicas, como, por exemplo, em massa. Supondo que se adote a forma percentual para expres-
são das perdas, o indicador de perda física de materiais global - I P M Glob ( % ) - seria expresso, confor-
me já mostrado no capítulo 2, por:

I P M G I O b W = ( % - Q M T ) x 1 0 0

onde:

Q M R = quantidade de materiais realmente necessária,


Q M T = quantidade de materiais teoricamente necessária.

Tal indicador diz respeito ao processo como um todo, incluindo-se todas as etapas do fluxograma dos
processos.

O indicador de perda financeira de materiais global - IPF G l o b ( % ) - seria definido, analogamente, por:

ipr Glob ( % ) = ( Q M ^MoT M ° T ) x 100

onde:

Q M o R = quantidade monetária realmente necessária,


Q M o T = quantidade monetária teoricamente necessária.

Analogamente ao que foi dito para os recursos físicos, o IPF Glob ( % ) diz respeito ao processo de
produção visto como um todo.

Embora o objetivo deste livro seja o de discorrer fundamentalmente sobre as perdas físicas, não é difícil
relacionar as perdas financeiras a estas: as perdas financeiras globais seriam a composição das perdas
estritamente financeiras com as decorrentes de perdas físicas (o Quadro 4.1 explicita tal relação, já
apresentada conceitualmente no capítulo 3, por meio de indicadores).

Quadro 4.1. Relacionamento entre as perdas financeiras e as físicas.

Conforme já ilustrado anteriormente na Figura 3.2, as perdas financeiras podem ser subdivididas em
"estritamente financeiras" e "decorrentes de perdas físicas".

Supondo-se que, num certo processo de produção, 100 unidades de um determinado componente
sejam teoricamente necessárias (recursos físicos) e que cada unidade tenha seu custo teórico de RS
10,00, os recursos financeiros teóricos demandados alcançariam a cifra de RS 1.000,00.
Na produção real podem ter ocorrido perdas físicas de 1 0 % e perdas estritamente financeiras também
de 10%; isto levaria, conforme exemplificado abaixo, a perdas financeiras globais a 2 1 % .

Situação teórica Perdas Situação real

Recursos físicos demandados 100 unidades 10% 110

Custo |>or unidade RS 10,00 10% 11


Recursos financeiros demandados R$ 1.000,00 21% R$ 1.210,00
Percebe-se, portanto, que:

1 + IPFGIob ( % ) = / 1 + I P M G I o b ( % ) \ x / 1 + IPestr.FGIob ( % ) \
100 V 100 / \ 100 /

onde IPestr.FGIob ( % ) = perda estritamente financeira expressa percentualmente.

Sob um ponto de vista analítico, um indicador de perdas de materiais global ( I P M G I o b ) pode ser que-
brado cm parcelas menores, na medida em que se tenha seu íracionamento ao longo das etapas do
íluxograma dos processos da Produção (Figura 4.4). Como regra geral, aprimora-se a caracterização das
perdas ao lidar-se com indicadores que se associem a partes menores do processo cuja eficiência se
quer melhorar.

Recursos: QMR = QMT + AQM c > PRODUÇÃO O Produtos: QS

Onde:
A Q M j = quantidade dc materiais além
da teoricamente necessária na etapa i

AQMreceb. AQMestoc. ^ A Q M p r o c . int.^ AQM|)r0C. final

AQMmovjmCntação AQMm0vjmcr>Iaçã0 AQMmovjmcntação

AQMproduçào = AQMreceb. + AQMestoc. + AQM proc . int + AQM proc . final + AQMmovjmentJçòes

I P M c i o b . = IPM r 0 ceb. + I P M c s i o c . + ' P M p r 0 c. int. + I P M p r 0 c . final. + IPM m o v imentações

Figura 4.4. Decomposição do indicador de perdas de materiais global em indicadores parciais de perdas de materiais, associados
às etapas da fase de Produção.

O s indicadores parciais de perdas podem ser bastante úteis na localização da parte do processo de
produção mais susceptível às mesmas e que, portanto, deveria receber um tratamento especial no seu
combate. É importante salientar que, embora desejável, nem sempre é possível dispor-se de todos os
indicadores parciais; na medida em que se levantar muitos indicadores pode não ser uma tarefa fácil,
muitas vezes utilizam-se o indicador global e um ou outro parcial (se possível, os associados às etapas
onde se imagina estarem os maiores problemas) para subsidiar as decisões relativas à melhoria da efici-
ência do processo global.

Há que se indicar, também, uma possibilidade, por vezes interessante, qual seja a de subdividir o
indicador global por subconjuntos de etapas da Produção. Por exemplo, pode haver interesse e m se
determinarem as perdas que ocorrem, na execução do revestimento interno de paredes com argamassa,
após a dosagem e mistura dos aglomeramos; neste caso, o indicador traria informações com relação à
movimentação final e à aplicação propriamente dita da argamassa.
Como colocação final, com respeito aos indicadores mensuradores, os mesmos podem ter diferen-
tes objetos de estudo: o mercado (ou um conjunto de obras com alguma característica comum);
uma determinada obra (e, portanto, um conjunto de serviços); parte de uma obra; um serviço
específico; um material composto; ou um material simples. A Tabela 4.1 exemplifica estes diferen-
tes focos dos indicadores.

Tabela 4.1. Indicadores com diferentes objetos de estudo

Foco Comentários
Material na A detecção do nível de perdas vigente na construção de edifícios pode subsidiar
construção decisões de gestão de recursos naturais. Note-se que falar em perdas de materiais em
geral pressupõe a adoção de algum critério para adicionarem-se perdas ocorridas
com objetos de estudo distintos (como, por exemplo, concreto, aço, tijolos etc.)
Areia na obra A areia pode estar sendo usada em diversos serviços, tais como concretagem,
assentamento de alvenaria, contrapiso etc. Indicadores globais para a obra,
embora permitam menores entendimentos do processo, podem ser úteis como
avaliação expedita do processo de produção.
Concreto em t: usual detectarem-se níveis de perdas de concreto menores para andares tipo, em
diferentes porções comparação com andares atípicos, de um edifício de múltiplos pavimentos.
do edifício Tal tipo dc informação pode ser útil para a definição de cuidados adicionais
toda vez que houver uma expectativa dc perdas superior para uma dada
porção da obra por executar.
Placas cerâmicas A distinção das perdas de um certo material/componente por serviço aprimora a
no revestimento cie informação do indicador. Por exemplo, as perdas de placas cerâmicas podem ser de
paredes internas magnitudes diferentes no que se refere a paredes, pisos e fachada.

Argamassa Ainda que se esteja produzindo a argamassa, a ser usada no contrapiso, com base em
na execução do cimento e areia, a disponibilização de um indicador para o material composto
contrapiso gerado (a argamassa) pode ajudar bastante a avaliar as perdas cm etapas específicas
do processo global. Neste caso, por exemplo, pode-se ter informações mais
elucidativas quanto à aplicação final, que denotem possíveis falhas na espessura
final da camada aplicada.

Cimento para o Ainda que o material final participante de um serviço seja composto (neste caso, a
revestimento argamassa de revestimento interno), os indicadores associados aos materiais simples
interno de paredes que o compõem podem incluir informações adicionais, tais como a relativa à
eficiência no recebimento, estocagem, dosagem e mistura dos mesmos antes de se
gerar o material composto.

4.1.2. Indicadores explicadores

Embora o íracionamento dos indicadores mensuradores já embuta uma certa dose de explicação das
perdas, outros indicadores podem auxiliar na tarefa de se entender melhor as razoes para ter-se alcan-
çado o nível de perdas constatado, facilitando um futuro combate dos maus desempenhos eventual-
mente detectados; tais indicadores são aqui denominados indicadores explicadores das perdas.

Discutem-se, neste texto, as seguintes classes de indicadores explicadores (Figura 4.5): natureza percentual;
fatores quantitativos; fatores indutores; e fatores caracterizadores.
Os indicadores de natureza percentual aumentam a explicação dos motivos que podem ter levado a um certo
nível de perdas, na medida em que indicam as parcelas de perdas encontradas sob cada natureza: furto,
entulho ou incorporação. O Depoimento 4.1 registra o indicador de natureza percentual, estimado pelo autor,
para a construção do edifícios em geral, e o tipo de subsídio à tomada de decisões que ele pode trazer.

Depoimento 4.1. Indicador de natureza percentual para as perdas de materiais na construção.

Com base em um amplo estudo coordenado pelo autor, estimaram-se as frações relativas a cada uma das
naturezas de perdas na construção dos edifícios analisados. Embora em situações específicas o furto
possa ser relevante, ao se estimar o seu valor médio para um extenso conjunto de obras, não se detectou
relevância digna de nota. Portanto, apresentam-se, a seguir, os valores para as perdas de materiais na
Construção, separados em:

• perdas por entulho = 30%,


• perdas incorporadas = 70%.

Note-se que, embora exista uma grande preocupação com as perdas por entulho (totalmente justificável
por razões já comentadas neste próprio livro), fica uma recomendação para que não se esqueça de atuar
também com relação às perdas incorporadas que, para vários serviços, pode representar uma fração bem
mais relevante que a da perda por entulho.
Os indicadores quantitativos buscam um incremento na explicação das perdas através da mensuração
de características, do produto obtido, diretamente correlacionáveis ao nível de perdas detectado. Assim
é que, por exemplo: ao se mensurar a variação percentual da espessura de revestimentos de argamassa
da fachada, chega-se a um valor que, normalmente, tem forte associação com o indicador de perdas de
argamassa de revestimento; ao se quantificar o volume percentual do concreto que restou sem ser
aplicado ao final de uma concretagem, tem-se uma forte correlação com a perda no recebimento; entre
outros. O s indicadores quantitativos, portanto, são aqueles que, além de estarem apontando <is formas
de manifestação das perdas, estão também indicando parte do seu valor.

No caso dos fatores indutores e dos caracterizadores, a quantificação das perdas normalmente não está
presente, e sim, discutem-se razões (causas, origens, contexto tecnológico) para se ter uma maior ou
menor expectativa quanto ao nível de perdas. Como exemplos de fatores indutores, podem-se citar: a
inexistência ou precariedade de procedimentos de produção; a falta de treinamento dos operários; etc.
No caso dos caracterizadores, podem-se citar, como exemplos: o tipo de ferramenta adotada para
aplicar a argamassa no assentamento de alvenaria (bisnaga, paleta ou colher de pedreiro); o tipo de
fornecimento de blocos adotado (paletizados ou soltos); o uso de aço pré-cortado/dobrado ou de barras
de 12 metros para o serviço de armação; etc. Assim, os fatores indutores e caracterizadores procuram
registrar as condições associadas ao serviço que possam representar: possíveis causas ou origens das
perdas, no caso dos indutores; ou as características tecnológicas associáveis a expectativas distintas de
ocorrência das perdas, no caso dos caracterizadores. O conhecimento da influência de tais fatores no
estabelecimento das perdas talvez seja a principal informação que o gestor pode ter para analisar o
efeito, sobre as perdas, das várias alternativas de tecnologia e gestão, associadas ao processo de concep-
ção e de produção das obras de construção.

4.2. E S T U D O S JÁ R E A L I Z A D O S SOBRE O A S S U N T O

Este item não tem a pretensão de fazer um levantamento completo sobre todos os estudos já ocorridos
a respeito das perdas de materiais, mas de, simplesmente, citar aqueles que o autor considera serem
mais ilustrativos do tema, tanto internacional quanto nacionalmente. Serão citados trabalhos que se
caracterizem por apresentar valores para os indicadores de perdas físicas, os quais serão apresentados
resumidamente, com o intuito de se mostrar os diagnósticos que vêm sendo registrados sobre o assunto.
Note-se que tais indicadores nasceram de metodologias e cobrem escopos variáveis mas, na medida do
possível, tenta-se indicar tais diferenças para facilitar o entendimento por parte do leitor (a leitura dos
trabalhos originais é recomendável para sanar eventuais dúvidas daqueles que carecerem de um domí-
nio mais aprofundado das informações citadas).

4.2.1. Cenário internacional

A literatura internacional, contemplando predominantemente trabalhos realizados em países de-


senvolvidos, acaba, atualmente, sendo dominada por trabalhos que, quando descrevem indicado-
res sobre perdas, normalmente privilegiam a análise da perda por entulho, tendo-se inclusive um
destaque especial para resíduos relacionados à própria embalagem dos materiais e componentes
entregues nos canteiros. Tal situação se deve, na opinião do autor, ao caráter dos processos de
produção vigentes nesses países, mais acentuadamente de montagem de partes pré-fabricadas que
de moldagem; com isto, a perda incorporada perde importância ante o que se verifica quando a
moldagem "in loco" é ainda relevante.

Dentro deste contexto, embora outros trabalhos venham sendo realizados, destaca-se, por sua constan-
te citação pelos pesquisadores em geral, ainda que bastante antigo, o extenso e intenso trabalho coman-
dado por Skoyles (1976, 1978, 1987).

Trabalhando com o assunto, no Reino Unido, por vários anos, pode ser considerado um dos maiores
estudiosos das perdas de materiais no mundo. A Tabela 4.2 traz um resumo dos indicadores de perdas
determinados por Skoyles. Note-se que, embora já se mostrem não desprezíveis, tais indicadores repre-
sentam essencialmente a perda por entulho (motivo maior da pesquisa de Skoyles). O autor, ac analisar
seus indicadores, chama a atenção para alguns aspectos, dos quais cabe aqui destacar: que as perdas são
mais elevadas do que se esperava, superando, muitas vezes, aquelas que são embutidas nos orçamentos,
o que pode significar um risco de insucessos em empreendimentos, na medida em que se poderia
chegar a custos superiores àqueles considerados ao se prever o preço a ser cobrado dos contratantes;
que as perdas variam bastante de canteiro para canteiro, o que faria supor que existem problemas
passíveis de serem combatidos (tendo em vista que algumas obras conseguem ter perdas bem baixas),
visando minimizar as perdas. Tais duas considerações, que serviram para os dados britânicos, podem
ser, certamente, transferidas para o cenário brasileiro, como se verá mais à frente.

Tabela 4.2. Valores das perdas de materiais por entulho, baseadas no estudo em 114 canteiros de
obras (SKOYLES, 1976)

Material N u de Faixa de variação índice de perdas ( % )


canteiros dos resultados ( % ) Real Usual'

Concreto em infra-estrutura 12 3 a 18 8 2.5

Concreto em superestrutura 3 - 2 2.5

Aço 1 - 5 2.5

Tijolos comuns 68 1 a 20 8 4.0

Tijolos à vista 62 1 a 22 12 5.0

Tijolos estruturais vazados 2 - 5 2.5

Tijolos estruturais maciços 3 9 a 11 10 2.5

Blocos leves 22 1 a 22 9 5.0

Blocos de concreto 1 - 7 5.0

Telhas (inclusive de cumeeira) 1 - 10 2.5

Madeira - tábuas 3 12 a 22 15 5.0

Madeira - compensados 2 - 15 5.0

Rev. Argamassados - paredes 4 2 a7 5 5.0

Rev. Argamassados - tetos 4 1a4 3 5.0

Rev. Cerâmicos - paredes 1 - 3 2.5

Rev. Cerâmicos - pisos 1 - 3 2.5

Tubos cobre 9 - 7 2.5

Tubos PVC 1 - 3 2.5

Conexões de cobre 7 - 3 -

Vidro - chapas 3 - 9 5

Janelas pré-envidraçadas 2 - 16 -

4.2.2. Cenário nacional

Várias pesquisas, executadas tanto pelos pesquisadores acadêmicos quanto pelo meio profissional, têm
sido desenvolvidas em torno de um assunto que, em função de algumas divulgações não precisas de
indicadores no passado, trouxe celeumas e a criação de mitos que dificultavam sua discussão.

fm ornamentação, no Reino Unido, na época th trabalho de Skoyles.

C o m o reduzir j>erdas nos canteiros


Felizmente, um conjunto de trabalhos têm, cada vez mais, tornado a discussão dos indicadores de
perdas menos uma desculpa para críticas descompromissadas ao Setor e mais um instrumento de refe-
rência para o planejamento de ações para sua melhoria contínua. Dentre tais trabalhos, este autor
gostaria de destacar três: Pinto (1989); Soibelman (1993); e Agopyan; Souza; Paliari; Andrade (1998)),
que serão discutidos resumidamente a seguir.

O trabalho de Pinto (1989) é considerado, por este autor, uma espécie de marco de referência para o
incentivo e o uso dos indicadores a fim de avaliar as perdas de materiais na construção. Embora baseando-
se no estudo de uma única obra de construção de edifícios, e trabalhando predominantemente com base
em quantitativos advindos da análise de notas fiscais e de projetos (e menos da observação contínua em
campo), o trabalho reúne um conjunto de informações ricas e pioneiras para discutir as perdas de materi-
ais nos canteiros. A Tabela 4.3 resume os indicadores determinados por Pinto, que, assim como os de
Skoyles, mostram um cenário de perdas físicas não desprezíveis (note-se que os valores são bastante mais
elevados que os da Tabela 4.2, em parte porque, agora, as perdas por incorporação foram consideradas).

Tabela 4.3. Indicadores de perdas de materiais apresentados por Pinto (1989).

Materiais Perda detectada ( % ) Expectativa usual de perda* (%)

Madeiras em geral 47,5 15

Concreto usinado 1/5 5

Aço CA 50/60 26,0 20

Componentes de vedação 13,0 5

Cimento CP 32 33,0 15

Cal Hidratada 102,0 15

Areia lavada 39,0 15

Argamassa colante 86,5 10

Placas cerâmicas - parede 9,5 10

Placas cerâmicas - piso 7,5 10


* segundo opinião de Pinto, indicada no seu trabalho referendado.

Soibelman (1993) registra trabalho realizado na U F R G S , onde se tem um conjunto de obras maior
sendo estudado (5 obras), com uma metodologia mais detalhada e com maior quantidade de verifica-
ções de campo. Os resultados da pesquisa, mostrados resumidamente na Tabela 4.4, mostram, também,
um cenário de perdas físicas elevadas e denotam a existência de grandes variações dos indicadores de
perdas ao se compararem canteiros de obras diferentes.

Tabela 4.4. Indicadores percentuais de perdas de materiais apresentados por Soibelman (1993).

Material Obras Média


A B C D E
Aço 18,8 27,3 23,0 7,9 18,3 19,0

Cimento 86,1 45,2 36,5 109,8 135,4 82,6

Concreto 5,7 17,2 - 15,9 - 12,9

Areia 24,6 29,7 - 133,3 43,8 44,4

Argamassa 103,0 87,5 40,4 152,1 85,0 93,6

Tijolo Furado - 8,2 93,3 33,6 107,3 5C,0

Tijolo Maciço 43,5 15,2 - 47,2 109,9 54,0


Mais recentemente, em um grande projeto de pesquisa coordenado pelo Departamento de Engenharia de
Construção Civil da Escola Politécnica da USP (PCC-USP), com a parceria de pesquisadores de outras 15
Universidades(UEFS, UEMA, UNIFOR, UFBA, UFC, UFES, U F M G , UFPB, UFPI, UFRGS, UFRN, UFS, UFSCar,
UFSM, UPE), e com o apoio da FINEP - Programa Habitare e do Senai, estudaram-se 19 materiais, em por
volta de 100 canteiros cie obras, espalhados por 12 estados brasileiros, buscando-se um diagnóstico cada
vez mais extenso e preciso quanto aos indicadores de perdas na construção de edifícios. A Tabela 4.5 reúne
as médias e medianas das perdas determinadas para as várias obras e para os principais serviços estudados.

Tabela 4.5. Indicadores de perdas de materiais determinados na pesquisa Finep/Senai (Agopyan et alii,
1998; Souza et alii, 1999): a) para os materiais na obra; b) para o cimento na execução de emboço
interno e externo e em contrapiso; c) para materiais simples utilizados em outros serviços.

a)
Material Valor da perda Número de casos
na obra média ( % ) mediana ( % ) mínima ( % ) máxima ( % ) estudados
Areia 76 44 7 311 28

Saibro 182 174 134 247 4

Cimento 95 56 6 638 44

Pedra 75 38 9 294 6

Cal 97 36 6 638 12

>)
Serviço Valor da perda Número de casos
Média ( % ) Mediana ( % ) Mínima ( % ) Máxima ( % ) estudados
Emboço Interno 104 102 8 234 11

Emboço Externo 67 53 -11 164 8

Contrapiso 79 42 8 288 7

c)
Material Serviço Valor da perda Número
Média Mediana Mínima Máxima de casos
(%) (%) (%) (%) estudados
Concreto usinado Estrutura 9 9 2 23 35

Aço Estrutura 10 11 4 16 12

Blocos e tijolos Alvenaria 17 13 3 48 37

Eletrodutos Elétrica 15 15 13 18 3

Condutores Elétrica 25 27 14 35 3

Tubos PVC Hidráulica 20 15 8 56 7

Placas cerâmicas Revestimento cerâmico 16 14 2 50 18

Cesso Revestimento com gesso 45 30 -14 120 3

O s resultados deste trabalho permitem tecer-se as seguintes considerações:

• confirmando os resultados de outros trabalhos, encontraram-se valores de perdas físicas bastan-


te relevantes;
• também se detectou que as perdas são bastante variáveis de obra para obra;
• os materiais básicos, que passam por um processo de dosagem e mistura, para serem posteriormente
submetidos a processo de moldagem na obra, são marcados pelos maiores valores de perdas;
• os materiais usados na estrutura apresentam valores de perdas inferiores aos relativos aos reves-
timentos (uma das razões prováveis para isto é o fato de os revestimentos eventualmente terem
de "resolver" falhas de qualidade de produto dos subsistemas anteriores);
• ocorrem grandes perdas de argamassa na execução de revestimentos;
• os sistemas prediais foram também marcados por perdas não desprezíveis;
• a detecção das perdas no nível dos serviços parece bem mais esclarecedora que no nível da obra.

4.3. I N D I C A D O R E S DE PERDAS DE M A T E R I A I S PARA A C O N S T R U Ç Ã O DE E D I F Í C I O S

Com base na estrutura de indicadores proposta no item 4.1 e num banco de dados que reúne por volta
de 150 obras estudadas (as do Projeto Finep/Senai e mais umas 50 obras estudadas no âmbito do PCC-
U S P com metodologia compatível) são, a seguir, apresentados indicadores que, se acredita, possam
servir de referência inicial para a discussão das perdas de materiais nos canteiros de obras de edifícios.

4.3.1. Indicadores mensuradores

a) Indicadores de perda geral de materiais

Supondo que existisse uma obra que tivesse perdas físicas, nos serviços que consomem significativas quantida-
des de materiais (concretagem, armação, alvenaria, revestimentos internos e de fachada com argamassa, reves-
timentos com gesso, revestimentos cerâmicos e contrapiso), no nível dos valores medianos determinados no
estudo de por volta de 150 obras de construção de edifícios, o autor estimou a massa total de perdas e compa-
rou-a com a massa teoricamente necessária para produzir tal edifício. Com isto, foi [X)ssível fazer uma estima-
tiva do indicador de perda global de materiais para o mercado de construção. Ainda com base nas perdas físicas
para tal edifício hipotético, o autor valorou tais perdas (estimando as perdas financeiras decorrentes de perdas
físicas) e também valorou os materiais teoricamente necessários para a produção de tal edifício; a comparação
destes dois valores permitiu o cálculo da perda financeira percentual decorrente da perda física.

A Figura 4.6 ilustra o raciocínio adotado, que levou aos seguintes indicadores:

Indicador de perda física de materiais para o mercado formal de construção de edifícios: = 2 5 %


(percentual em massa de materiais)

Indicador de perda financeira, decorrente da perda física de materiais para o mercado formal de
construção: = 1 0 % (custo dos materiais perdidos em relação aos teoricamente necessários)

Portanto, [>ercebe-se que, do |5onto de vista físico, as perdas de materiais são bastante elevadas, devendo-se ter
uma contínua intervenção, na Produção, visando alcançarem-se (ou manterem-se) níveis eficientes de utiliza-
ção dos materiais, o que se reveste de grande importância ante a enorme relevância da Construção Civil
enquanto consumidora de materiais (conforme já discutido anteriormente). Há que se lembrar, conforme
também já comentado, que se está falando de perdas e não de desperdício, o que pode sugerir (e trata-se de
pura verdade) que não necessariamente seja viável eliminar toda a perda. I lá também que se lembrar que
calcular perdas pressupõe a definição de referência para perda nula, que também está sujeita a divergências
entre diferentes gestores. De qualquer maneira, o indicador de perdas físicas para os materiais claramente
indica que há espaço para uma atuação pró-ativa no sentido de aumento da eficiência no uso dos materiais.

Do ponto de vista financeiro, o indicador calculado mostra, também claramente, que se está longe de ter um
desperdício que se aproxime do cenário proposto pela tal frase relativa a "jogar-se fora 1 prédio a cada 3
construídos": o indicador de perdas financeiras de 10%, supondo-se que os materiais representem 5 0 % do
custo da obra, significaria estar-se lidando com 5 % do custo da mesma. No entanto, apesar de isto significar
um alívio para todos os profissionais da construção, não se deve deixar de perceber o grande risco que tal
nível de perda financeira pode significar para os produtores de obras: em face do atual mercado competiti-
vo, 5 % do custo de uma obra representa uma fração extremamente significativa para o sucesso do construtor.
R$ (QM0R) c£> Material (QMR) O PRODUÇÃO

QMqT + AQM 0 QMT +

I J
KQMTj x IPj x _R£_) IQMTíxIPí
edifício hipotético
QMi
Onde:
QMqR = quantidade monetária realmente necessária
QMR = quantidade de material realmente necessário - Tipologia convencional habitacional
QMoT = quantidade monetária teoricamente necessária - Estrutura de concreto armado
AQM C = perda monetária - Alvenaria de blocos de vedação
QMT = quantidade de material realmente necessário - Revestimentos internos e de fachada
QM = perda de material com argamassa
QMTj = quantidade de material i teoricamente necessário - Revestimento de gesso cm áreas secas
IPi = indicador de perda global do material i - Revestimentos cerâmicos de piso e parede
R$ = custo por unidade monetária nas áreas molhadas
QMj - Contrapiso interno de argamassa

Figura 4.6. Ilustração <l<) raciocínio adotado para estimativa dos indicadores para o mercado <ie Construção.

Portanto, a redução das perdas de materiais é extremente desejável, tanto do ponto de vista da busca da
sustentabilidade da construção quanto da competitividade das empresas de construção.

b) Indicadores globais de perdas de materiais por serviço

A Tabela 4.6 reúne as perdas de materiais para alguns serviços de construção. Note-se que são apresen-
tados os valores mínimo, mediano e máximo detectados no conjunto de obras compondo o banco de
dados do autor. A idéia de se apresentarem faixas de valores é bastante útil para fins de se criarem
referências de desempenho, na medida em que se têm os valores extremos das perdas bem como o
valor mais presente no mercado.

Tabela 4.6. Indicadores de perdas de materiais por serviço.

Material/componente Valor das perdas ( % )


mínima mediana máxima
Concreto usinado 1 9 33

Aço 0 10 16
Blocos/tijolos 0 10 48
Argamassa para revestimento interno de paredes 8 102 234

Argamassa para revestimento de fachada -1F 53 164

Argamassa para contrapiso 8 42 288


Pasta de gesso 30 120

Placas cerâmicas 1 13 50

' Valor negativo de fterda significa em r/(/c> se utilizou menos material que o teoricamente necessário; como regra, uma ocorrência deste íi/x>
é indesejável, já que se estaria usando menos material rjue o prescrito no projeto.
' tdem nota de rodafH? anterior.
c) Indicadores de perdas parciais de materiais

Apresentam-se, aqui, estimativas de valores das perdas por etapa da fase de Produção (em alguns casos,
levando-se em conta a porção da obra em discussão ou uma específica forma de manifestação), que
nasceram de uma avaliação baseada em indicadores parciais disponíveis para algumas obras (mas não
para todas as estudadas) e nas opiniões de vários dos pesquisadores que atuaram na pesquisa Finep/
Senai. Como princípio para se definirem as perdas para cada fração em que foi dividido o processo
global, a perda mediana de uma material, num certo serviço, foi distribuída dentre estas várias parcelas.

As Tabelas 4.7 a 4.10 ilustram tais indicadores para os seguintes materiais: concreto, aço, blocos e
argamassa de contrapiso.

Tabela 4.7. Indicadores de perdas parciais percentuais para o concreto usinado ( % ) .

Perda global
9,0

recebimento transporte lajes vigas sobras outros

1,5 1,0 3,0 1,5 1,0 1,0

Tabela 4.8. Indicadores de perdas parciais percentuais para o aço para estruturas de concreto armado {%).

Perda global
10

recebimento desbitolamento corte Traspasse excessivo

0 0 8 2

Tabela 4.9. Indicadores de perdas parciais percentuais para os blocos para alvenaria ( % ) .

Perda global
13

recebimento estocagem transporte aplicação

1 3 4 5

Tabela 4.10. Indicadores de perdas parciais percentuais para a argamassa para contrapiso (%).

Perda global
42

dosagem transporte sobrespessura entulho

4 1 34 3

4.3.2. Indicadores explicadores

Neste item, para cada um dos quatro grupos de indicadores explicadores, indica-se um exemplo para um
material específico, com base em informações representando um conjunto extenso de obras. Com isto,
imagina-se fomentar a futura geração de indicadores, para cada caso específico para o qual o leitor tenha de
explicar as perdas ocorridas, na medida em que diferentes situações associam-se a diferentes explicações.
a) Indicador de natureza percentual

Com base no estudo de diversas obras de revestimento interno de paredes, pode-se concluir que as
perdas de argamassa, ocorrendo após seu processamento intermediário, se apresentam de acordo com
os seguintes indicadores de natureza percentual:

• incorporação: 7 9 % ,
• entulho: 2 1 % .

Este tipo de informação é útil para entender que ações visando minimizar perdas por incorporação
(como, por exemplo, ter procedimentos para garantia de esquadro entre paredes contíguas) podem ter
efeitos significativos na redução da perda total.

b) Indicadores quantitativos de perdas

A Tabela 4.11 ilustra a correlação existente entre indicadores explicadores quantitativos (no caso, a varia-
ção percentual da espessura de lajes dc concreto) com as perdas globais do material. No exemplo, perce-
be-se que as obras onde se detectaram variações percentuais de espessura (determinadas por meio da
medição amostrai das espessuras reais das lajes e comparação destas com as espessuras prescritas no
projeto estrutural de fôrmas) maiores tiveram perda global de concreto também maiores.

Tabela 4.11. Indicadores de variação percentual de espessura de lajes e perdas globais de concreto para
29 obras.

Variação percentual da espessura das lajes Perda global de concreto mediana


<= 5% 6%

> 5% 11%

c) Indicadores indutores de perdas

A Tabela 4.12 procura mostrar a indução que alguns fatores podem ter sobre a ocorrência de maiores
ou menores perdas de um certo material. N o exemplo apresentado, dois fatores indutores são propostos
para explicar as perdas de placas cerâmicas utilizadas para revestir paredes e pisos. Quanto ao primeiro
deles, qual seja, a porcentagem de placas cortadas no revestimento executado, se imagina que, quanto
maior ela for, maior será a perda global, na medida em que a operação de corte embute um risco de
perda parcial ou total da placa. Quanto ao segundo, o tamanho da placa, imagina-se que, quanto maior
ela for, maior será a perda esperada, já que cada placa perdida significa uma área maior de placas
cerâmicas perdida. A Tabela 4.12 registra o efeito conjunto dos dois fatores, coerente com as explica-
ções citadas, a partir de um conjunto de resultados reais de obras estudadas na pesquisa Finep/Senai.

Tabela 4.12. Perdas globais de placas cerâmicas, em revestimentos de pisos e paredes, em relação aos
seguintes fatores explicadores indutores: % de placas cortadas e tamanho das placas cerâmicas.

Peças cortadas Tamanho da placa Perdas globais - piso Perdas globais - paredes
(PC) (cm x cm) (%) (%}
PC<= 20% <= 20 x 20 5 8

>20 x 20 8 13

20% <PC<=40% <= 20 x 20 18 14

>20 x 20 26 21

40%<PC<=60% <= 20 x 20 18 13

>20 x 20 27 29
d) Indicadores caracterizadores

A Tabela 4.13 mostra como diferentes procedimentos para a execução de um serviço podem influenciar
o valor das perdas. Registra perdas inferiores de concreto para concretagens executadas fazendo uso de
equipamentos mais precisos na operação de nivelamento superficial dos componentes sendo moldados
(o uso de equipamento laser ou de nível alemão traz melhor resultado que o trabalho com a tradicional
mangueira de nível). Portanto, um indicador caracterizador pode balizara expectativa de perdas factíveis
para uma determinada situação.

Tabela 4.13. A variação das perdas de concreto em função do indicador caracterizador reativo ao
equipamento auxiliar da operação de nivelamento das lajes sendo moldadas.

Caracterização da operação de nivelamento Mediana da perda global


das lajes sendo moldadas de concreto
Uso de nível laser ou nível alemão 7%

Utilização de mangueira de nível 10%

RESUMO

• Os indicadores do perdas permitem uma discussão mais objetiva {o, portanto, mais eficaz) do
desempenho quanto ao uso de materiais na produção.

• Os indicadores podem ter tanto um caráter mais mensurador das perdas ocorridas quanto um
mais explicativo das mesmas.

• Dentre os indicadores mensuradores das perdas de materiais, podem-se citar: os incicadores


globais de perdas (físicos e financeiros decorrentes de perdas físicas), que avaliam as perdas
ocorridas com relação ao processo total de uso do material na obra; os indicadores parciais de
perdas, que avaliam as perdas ocorridas no âmbito de parcelas (etapas ou subgrupo de etapas)
do processo de Produção.

• O grupo dos indicadores explicadores é composto pelos: de natureza percentual, que servem
para indicar a porcentagem das perdas ocorridas sob cada uma das diferentes naturezas possí-
veis (furto, entulho e incorporação); fatores quantitativos, que, ao quantificar formas de mani-
festação, normalmente denotam quantificação das perdas; fatores indutores, que se associam,
usualmente, a causas ou origens das perdas e, portanto, a razões para se esperarem maiores ou
menores perdas do material; fatores caracterizadores, os quais, dando informações sobre aspec-
tos da tecnologia que será adotada, facilitam a definição da expectativa quanto a uma maior ou
menor perda.

• Vários estudos têm sido feitos propiciando valores para os indicadores mensuradores das per-
das. No cenário internacional destaca-se a pesquisa de Skoyles que, tendo por principal foco as
perdas por entulho, mostrou que os indicadores de perdas no Keino Unido nao eram desprezí-
veis e sobrepujavam as expectativas embutidas nos orçamentos. No Brasil, os trabalhos de Pin-
to, Soilbelman et alii e Agopyan/Souza et alii mostraram indicadores de perdas físicas globais
por serviço elevados e distribuídos em largas faixas de valores (a distância entre os valores
mínimo e máximo é significativa).

• U m conjunto de indicadores hierarquicamente dispostos (indicadores mensuradores globais e


parciais e indicadores explicadores de natureza percentual, quantitativos, indutores e
caracterizadores) pode ser útil como referência para quaisquer ações relativas à gestão dos
materiais visando à minimização das perdas na produção.
• Os indicadores de perdas podem se referir ao mercado (conjunto de obras), a uma obra especí-
fica, a uma parte da obra, a um grupo de serviços, a um serviço determinado, a um material
composto ou a um material simples.

ATIVIDADES C O M P L E M E N T A R E S

Conforme citado neste capítulo, ter-se um conjunto de indicadores hierarquicamente arranjados, e


contemplando tanto a mensuração quanto a explicação das perdas, representa um importante referencial
para se discutir a gestão dos materiais. Dentro deste contexto, para o caso dos blocos e/ou tijolos usados
no serviço de execução de alvenaria, nas condições vigentes nos canteiros de obras de uma empresa
que você conheça, pede-se:

a) indique uma faixa de valores (indicar os valores mínimo, mediano e máximo) esperada para a
perda global de componentes;
b) indique as etapas da Produção relativas ao serviço global e aponte as perdas parciais (com base
no valor mediano da perda global) que você esperaria para cada etapa;
c) com base na experiência adquirida no capítulo 3, com relação às diferentes naturezas das
perdas, expresse sua expectativa quanto à natureza percentual da perda mediana;
d) com base na experiência adquirida no capítulo 3, com relação às formas de manifestação das
perdas, aponte os indicadores quantitativos que poderiam ser estudados para subsidiar o diag-
nóstico das perdas;
e) com base na experiência adquirida no capítulo 3, com relação às causas e origens das perdas,
indique os fatores indutores que teriam influência sobre as perdas globais esperadas, procuran-
do indicar que fatores estariam associados à ocorrência dos valores mínimo, mediano e máxi-
mo da faixa de perdas globais proposta no item " a " ;
f) indique ainda uma caracterização do serviço, alternativa àquela vigente na obra, que, na sua
opinião, poderia alterar sua expectativa quanto às perdas.
CONSUMO UNITÁRIO DE MATERIAIS 5
Este capitulo apresenta o uso do conceito de consumo unitário de materiais, como alternativa à discus-
são de perdas, no balizamento da gestão dos materiais. Inicialmente se define o consumo unitário e se
explica sua associação com o conceito de produtividade; posteriormente, apresentam-se valores de
consumo unitário de materiais vigentes na Construção nacional.

5.1. O C O N S U M O U N I T Á R I O DE MATERIAIS C O M O I N D I C A D O R PARA S U B S I D I A R A G E S T Ã O


D O S MATERIAIS

Principio este item apontando uma injustiça histórica a que é submetida a gestão dos materiais em
relação à gestão de outros recursos, como, por exemplo, a mão-de-obra: fala-se em minimizar o "des-
perdício de materiais", enquanto se propõe a melhorar a "produtividade da mão-de-obra". Nota-se,
claramente, uma conotação pejorativa ao se referir aos materiais, dando-se a entender que vamos tentar
minimizar os problemas de uma situação, "a priori", ruim: tenta-se diminuir o desperdício. No caso da
mão-de-obra, a frase significa: vamos melhorar algo que já é bom, ou seja, a produtividade (que é algo
que se busca para toda Indústria em nosso país). O Depoimento 5.1 ilustra tal sensação de discrimina-
ção que sempre senti com relação a este aspecto.

Depoimento 5.1. O especialista cm desperdício.

Enquanto gestor de recursos físicos no canteiro de obras, tenho coordenado vários projetos de pesquisa
sobre materiais e mão-de-obra para a Construção, vários deles reunindo grupos bastante numerosos de
pesquisadores e profissionais. É interessante comparar uma saudação (supostamente honrosa, na medida
em que as pessoas tentavam, nesta colocação, frisar que eu era o especialista do assunto) que me
faziam, ao chegar a uma reunião com tais parceiros de trabalho. A figura abaixo hipoteticamente repre-
senta minha chegada para reuniões: no primeiro caso, por exemplo, com o pessoal da pesquisa Finep/
Senai (estudo dos materiais); no segundo, com os envolvidos na Pesquisa sobre mão-de-obra:

Chegou o
homem do
desperdício
- <

Rece/íçào na minha chegada a reuniões dos Projetos de Pesquisa: a) Finep/Senai; b) Produtividade.

É sensível a diferença de impressão que uma pessoa, não conhecedora do assunto tecnicamente, teria,
da minha pessoa, ao escutar a minha apresentação nestas duas diferentes reuniões!
Esforço c£> Resultado

Figura 5.1. Conceituando produtividade.

A questão que fica é: não é possível estudar também a "produtividade" dos materiais?

A resposta, na opinião do autor, é: SIM, é possível discutir a produtividade dos materiais também!
Para demonstrar tal posição, e entender a relação entre perdas e produtividade, é necessário, inicial-
mente, definir-se o que seja produtividade. A Figura 5.1 ilustra tal conceito: dado um processo de
produção que, a partir de uma certa quantidade de "esforço", gera "resultados", produtividade seria
a eficiência em transformar tal esforço nos citados resultados. Em outras palavras, quanto menos
esforço for necessário despender para gerar um mesmo resultado, tanto melhor a produtividade.

No caso do uso dos materiais, o esforço seria a quantidade de materiais demandada para se con-
cluir uma unidade do serviço (resultado). Por exemplo, poder-se-iam discutir os seguintes indica-
dores de produtividade de materiais: metros cúbicos de concreto gastos para concretar 1 m } de
estrutura; litros de argamassa para executar 1 m 2 de revestimento interno de paredes; número de
kg de cimento para produção de 1 m* de contrapiso interno etc. Note-se, conforme ressaltado na
Tabela 5.1, que melhores produtividades de materiais significam, como já mencionado, menores
quantidades do material por unidade de produto gerado no serviço. Portanto, dentro do> limites
da obediência ao projeto, tem-se melhor desempenho quando o indicador de produtividade de
materiais é menor.

Tabela 5.1. Comparação da produtividade do concreto usinado entre duas obras.

Obra A Obra B
}
Indicador de produtividade 1,08 m de concreto 1,04 m J de concreto
dos materiais m 3 de estrutura m } de estrutura

Comparação da produtividade pior melhor

Definida a produtividade dos materiais, resta, agora, correlacioná-la às perdas. O Quadro 5.1 mostra,
matematicamente, um raciocínio sobre o qual não seria difícil de convencer o leitor: a produtividade é
tanto melhor quanto menor for a perda.
Quadro 5.1. Correlação entre produtividade e perdas de materiais.

Parte-se da expressão, já apresentada, da perda percentual de materiais, qual seja:

,P,%) = 2^mI x 1 oo
Rearranjando os termos e multiplicando-se e dividindo-se (para não alterar o valor) o segundo mem-
bro da equação pela "quantidade de saídas" (QS) do processo, tem-se:

I P ( % ) _ QS , QMR - QMTN
100 QMTN X QS

Definindo, analogamente, ao que foi feito para perdas:

produtividade real (PR), como sendo a relação entre a Q M R e QS, e


produtividade de referência (Pref), como sendo a relação entre a Q M T e QS,

tem-se que:

Rearranjando a expressão, chega-se a:

PR = PrefX

E, portanto, demonstra-se que a produtividade melhora (o indicador PR diminui, o que significa menor
esforço) toda vez que a perda diminui.

Assim, discutir-se perda ou produtividade dos materiais significa estar-se discutindo coisas seme-
lhantes. Para evitar, porém, o uso do termo produtividade, já consagrado, na Construção, para
referir-se à mão-de-obra, vai-se utilizar a denominação consumo unitário para o caso dos mate-
riais, assim definido:

Consumo unitário de materiais ( C U M ) é a quantidade de material necessária para se produzir uma


unidade de produto resultante do serviço em que este material está sendo utilizado.

Coerentemente com o que se fez para o caso das quantidades de materiais demandadas, quando se
definiram as quantidades real e teoricamente necessária, utilizam-se os termos: consumo unitário de
material real ( C U M R ) e consumo unitário de material teoricamente necessário ( C U M j ) .

Surge, então, a questão: quando usar a abordagem de perdas ou a de consumo unitário?

Na verdade, quaisquer delas pode ser útil. Embora a questão de "marketing" tenha sido levantada para
justificar a introdução da discussão de uma alternativa à palavra perdas (ou desperdício), cabem algu-
mas discussões técnicas sobre a diferenciação dos dois caminhos.

Enquanto o consumo unitário mede o desempenho ocorrido quanto ao consumo de materiais, o indi-
cador de perdas avalia a discrepância do desempenho real com relação a um desempenho considerado
de perda nula. Está aqui, provavelmente, a maior diferença entre estes dois tipos de indicadores, ilustra-
da genericamente na Figura 5.2.
Ferrari esportiva de um Ferrari usada na Fórmula 1 Embora a Ferrari
motorista amador vendida no
mercado seja
Alcanço
359 km/h muito mais
Alcanço na reta! produtiva que o
250 km/h fusquinha do
na reta! jovem motorista,
ela perde paia
uma Ferrari usada
na Fórmula I

Fusquinha de um jovem bom Fusquinha de uma senhora idosa Embora o


motorista que não teve dinheiro que tem o carro desde 0 km, fusquinha do
para comprar um carro e é bastante cuidadosa jovem seja menos
mais possante no trânsito produtivo que a
Ferrari, ele não
Chego a 100 km/h Ando, no máximo, |>erde do
com este carro! a 40 km/h! fusquinha da
senhora idosa

Figura 5.2. Situações do cotidiano para ilustrar a diferença entre perdas e produtividade.

O fato de não representar uma comparação com relação a uma referência significa uma desvanta-
gem para o C U M em relação ao IP. A abordagem por perdas, ao fixar uma referência de perda nula,
determina uma meta. A definição de tal meta já representa, por si só, uma discussão rica no sentido
de debater-se até onde a eficiência do processo pode chegar; significa, portanto, lixarem-se objeti-
vos a cumprir. O consumo unitário é calculado sem tal preocupação, o que tornaria a discussão do
seu valor algo menos chocante e, portanto, menos pró-ativo, no sentido de preocupar as pessoas
com a gestão dos materiais.

No entanto, há também uma série de vantagens que justificam a adoção do C U M como caminho
para a discussão dos materiais. Em primeiro lugar, há que se frisar que perdas reduzidas não signi-
ficam menor consumo (observem os comentários e a tabela constantes do Quadro 5.2) e, se o
objetivo é gastar-se menos material, o interessante é ter baixo C U M e não somente perdas baixas.
Quadro 5.2. Exemplo numérico para distinguir perdas de consumo unitário.

Suponha que, para o caso de uma obra A, desejando um maior conforto interno, o projetista tenha
especificado um revestimento de paredes com 2 centímetros de espessura, quando, para a oora B, tenha
prescrito 1 centímetro para a espessura do revestimento de argamassa. Suponha ainda que, devido a
alguns problemas durante a produção da obra, o revestimento tenha alcançado uma espessura real de
3 centímetros na obra A e de 2 centímetros na obra B. A tabela abaixo indica que, apesar de ter perda
menor, a obra A possui um consumo de argamassa maior que a obra B.

Obra Espessura especificada Espessura real Perda ( % ) CUM (litros de argamassa/nv revestido)
A 2 cm 3 cm 50 30

B 1 cm 2 cm 100 20

A não-necessidade de adotar-se referência de perda nula pode ser bastante útil, também, em alguns
casos onde tal referência é de difícil definição. O Quadro 5.3 ilustra tal afirmação para o caso de
argamassas para o assentamento de alvenaria. Dificilmente se chega a um consenso, neste caso, sobre
um referencial de perda nula, até porque as eventuais proposições (tais como a de se considerar a
situação ideal de existência de filetes de argamassa, de seção quadrada de 1cm por lem) são normal-
mente bastante divergentes da situação real detectada.

Quadro 5.3. Dificuldade para definição da referência de perda nula: o caso da argamassa de assenta-
mento de alvenaria.

2 filetes
com secção ^
quadrada
de 1 x 1 cm

C U M t potencial = 2 x (0,1 dm x 0,1 dni x 10 drn) = 0,2 dm» = 0,2 litro


m m m
A figura acima indica uma possível condição a ser adotada como sendo de perda nula, quanto à argamassa
demandada para se assentar um metro linear de alvenaria. No entanto, conforme mostrado, o consumo por
metro de junta seria, neste caso, de 0,2 litros de argamassa, o que não tem nenhuma proximidade com os
números reais característicos de boas aplicações (que se aproximam de 1 litro de argamassa por metro de junta)
e com as verificações físicas reais sobre como a argamassa se aloja na região interna da alvenaria assentada.

Cabe ainda salientar que, para o caso dos indicadores de perdas, se citou que os mesmos poderiam ser calcu-
lados para as diferentes fases do empreendimento (Concepção, Produção e Utilização) e que, para o caso da
Produção, se teria o projeto/especificação como referência de perda nula. No caso do consumo unitário, o
próprio projeto está incluído no maior ou menor valor calculado para o indicador. A Figura 5.3 usa os dados
relativos à obra "A", do Quadro 5.2, para ilustrar os aspectos contemplados pelo consumo unitário.

Portanto, enquanto o projeto é apenas origem para perdas elevadas na produção, no caso do consumo
unitário ele pode ser o responsável por parcela considerável do mesmo.

Considerando-se todos os aspectos citados, conclui-se que o C U M pode ser um indicador bastante interes-
sante para subsidiar a gestão dos materiais, permitindo também uma abordagem analítica, conforme se
preconizou para os indicadores de perdas. O Quadro 5.4 ilustra tais idéias, num exemplo completo para a
alvenaria de vedação, onde, na verdade, se compõe a idéia de consumo unitário com a de perdas.
Situação real Situação do projeto

Argamassa
incorporada
(30 l/m*')

Entulho (4 l/m2)

e = 3 cm = 2 cm (teoricamente necessário) eprojeto ~2 c m


+ 1 cm (perda incorporada)
CUMt = 20 l/m2

Situação real = (projeto + ineficiência na produção)

CUMr = CUMt + CUM inef.

34 l/m2 = 20 l/m2 + (10 l/m2 + 4 l/m2)

Perda Perda
incorporada por entulho

Figura 5.3. O consumo unitário como resultante da eficiência/ineficiência no projeto/especificação e na produção.

Quadro 5.4. Abordagem analítica do consumo unitário para o serviço de alvenaria, compondo-se
com a abordagem de perdas de materiais.

A tabela a seguir indica os vários aspectos a contemplar para se discutir o C U M para o caso da alvenaria; note-
se que poderiam ser estudados tanto os blocos quanto a argamassa demandada para as juntas de assentamento.
Enquanto a alvenaria é, normalmente, mensurada em m2, fala-se no número de blocos e no volume de arga-
massa utilizados. Enquanto o C U M de blocos pode ser expresso em unidades por m2 de alvenaria, no caso da
argamassa pode-se falar em litros por m2 de alvenaria. O efeito do projeto sobre os valores do C U M é sentido
de maneira distinta para os dois recursos em estudo: no caso dos blocos, o tamanho dos mesmos e as espessuras
das juntas horizontal e vertical influenciam o número mínimo de unidades demandadas |x?r m2 de alvenaria (a
figura anexa apresenta um exemplo de cálculo do C U M j para os blocos); no caso da argamassa, o tamanho dos
blocos e a prescrição sobre quais juntas se deve preencher também têm influência sobre a quantidade de juntas
a preencher por nr de alvenaria (vide, também, a figura da página seguinte para exemplo). Em ambos os
casos, uma ineficiência maior ou menor (avaliada através da medição das perdas por entulho dos blocos, ou do
uso excessivo de argamassa para as juntas, advindo de incorporação ou geração de entulho demasiados)
favorece, respectivamente, a majoração ou minoração do CUM.
Serviço Materiais / Componentes

Descrição
Geral

Alvenaria Blocos de concreto Juntas de argamassa

UnicJacie
m* Unidade Litros de arg,-massa
de mensuração

CUM - Unidade/m2 alvenaria Litros/m2 alvenaria


111
Decomposição Litros x 1 junta
- -
do C U M m
'junta 7
ffl alvenaria

Tamanho do bloco Tamanho do bloco e política


Efeitos do define CUMJ:
projeto/especificação -
de preenchimen:o definem
sobre o CUMt
1 m2 m
'junta
Abloco + juntas m2alvena'ia

Perdas (por entulho) Muito material incorporado e/ou


Efeitos da produção entulho eleva o valor de litros
- elevadas levam a
sobre o CUMr m
aumento do CUM 'junta

Efeitos do tamanho dos blocos e juntas sobre os C U M j de blocos e argamassa de assentamento.

- Bloco + juntas (20 x 40) cm 2 - Tijolo + juntas = > (5 x 20) cm-

UOJO II 20
I2 15
40 . 20 .

12,5 blocos/m2 alvenaria 100 tijolos/m2 alvenaria

7,5 ml junta/m2 alvenaria 25 ml junta/m2 alvenaria


5.2. VALORES VIGENTES DE C O N S U M O S U N I T Á R I O S DE MATERIAIS

Com base num banco de dados que reúne por volta de 150 obras estudadas, indicam-se, a seguir, as
faixas de consumos unitários encontradas (Tabela 5.2), apontando-se os valores mínimo, mediano e
máximo, para diferentes materiais, em vários serviços. Embora o ideal seja sempre trabalhar com os
números próprios da empresa, imagina-se que os valores apresentados possam servir de referência para
a discussão do assunto.

Tabela 5.2. Valores de C U M (mínimo, mediano e máximo) encontrados em estudos abrangendo obras
de construção brasileiras.

Material/componente Unidade de mensuração Valor do CUM


mínima mediana máxima
Concreto usinado m J por m' de estrutura 1,01 1,09 1,33

Aço kg por kg de armadura 1 1,1 1,16

Argamassa de assentamento litros por metro linear


de junta 0,7 2,1 4,5

Argamassa para revestimento 7


litros por m revestido 7,3 24,3 74,1
interno de paredes

Argamassa para revestimento litros por m2 revestido 12,3 25,4 66,0


de fachada

Argamassa para contrapiso litros por nv' de contrapiso 11,8 33,5 77,5

Pasta de gesso litros por m' revestido 3,8 5,8 9,8


Placas cerâmicas nv' de placas por nv' revestido 1,01 1,13 1,50

RESUMO

• Os indicadores de perdas (IP) avaliam o afastamento da eficiência, no uso dos materiais, com
relação a uma situação de referência, à qual se associaria uma perda nula.

• O consumo unitário de materiais (CUM) é definido como a relação entre a quantidade total de
material utilizado e a quantidade de produto gerado pelo serviço em estudo. Representa a
avaliação da produtividade dos materiais.

• O IP demanda a definição de referência para a perda nula: isto tem uma conseqüência boa, na
medida em que obriga a discussão prévia da situação "ideal"; mas traz dificuldades e divergên-
cias em algumas situações. O IP pode ser calculado para as diferentes fases do empreendimento
e, no caso da fase de Produção, o Projeto pode, no máximo, ser origem da perda, mas não
momento de ocorrência.

• O C U M prescinde da definição da referência ideal, bem como elimina problemas eventual-


mente trazidos por más definições de situações de perdas nulas ou dificuldades de comparação
de perdas entre duas situações onde se adotaram referências distintas. O C U M é direta e conjun-
tamente influenciado pelas definições de projeto/especificação e pela maior ou menor eficiên-
cia no processo de produção.

• Os valores apresentados para o C U M , para diversos materiais/serviços, mostram-se dis|x>stos em


faixas largas (com valores mínimo e máximo relativamente bem afastados), denotando tanto a
possibilidade quanto a oportunidade de se trabalhar o Projeto e a Produção no sentido de se
alcançarem produtividades melhores no uso dos materiais.
ATIVIDADES C O M P L E M E N T A R E S

Conforme foi citado neste capítulo, o consumo unitário dos materiais pode representar um caminho
promissor para o balizamento da gestão dos materiais nas obras de construção. Dentro deste contexto,
para o caso do aço e concreto usados na produção de estruturas de concreto armado, nas condições
vigentes nos canteiros de obras de uma empresa que você conheça, pede-se:

a) indique uma faixa de valores (indicar os valores mínimo, mediano e máximo) esperada para o
CUM;
b) cxplicite as influências de projeto sobre o valor do C U M ;
c) com base na experiência adquirida no capítulo 3, com relação às formas de manifestação e às
causas das perdas, discuta as influências que a Produção pode ter sobre o valor do C U M .
CALCULANDO AS PERDAS E OS CONSUMOS r
UNITÁRIOS VIGENTES NO CANTEIRO DE OBRAS O

Considerando-se que qualquer processo decisório tem mais chance de ser bem-sucedido quanto me-
lhores forem as informações em que se baseia, preconiza-se, aqui, a avaliação das perdas 5 consumos
unitários de materiais, nas obras de construção, com o intuito de criar-se tal conjunto de informações
mais precisas.

Deve-se lembrar, inicialmente, que os canteiros de obras de construção abrigam um processo de produ-
ção normalmente complexo, já que se tem, diferentemente de outras indústrias, modificações quase
que diárias nas condições de trabalho, na medida em que tanto os serviços quanto os locais de execu-
ção ou as condições de contexto vão se alterando. Portanto, todo diagnóstico que se faça deve conside-
rar tal situação, tomando-se os devidos cuidados para conseguir-se a precisão necessária quanto aos
dados levantados, mas ainda mantendo a exeqüibilidade da apropriação.

Existem diversas alternativas que podem ser adotadas quando se pretende avaliar a magnitude das
perdas/consumos de materiais (Figura 6.1). Tais caminhos podem diferir quanto ao "objeto da mensuração"
e quanto ao "caráter" que os indicadores adotados assumem.

RS
Objeto da
avaliação Quantidade
de materiais
Avaliação das
perdas/consumos
de materiais
Subjetivo
Caráter dos
indicadores Quantitativo/
Objetivo

Figura 6.1. Objeto e caráter da avaliação das |H>rda</consumos.

Embora se esteja tentando avaliar as perdas/consumos físicos de materiais, pode-se adotar, como
objeto da mensuração, os gastos com materiais, isto é, avaliar-se a perda financeira decorrente da
perda física com o intuito de tentar ponderar sobre uma maior ou menor existência de perda física
dos materiais. Lmbora este seja um procedimento útil, e normalmente de fácil acoplamento ao con-
trole de custos de um empreendimento (comparação dos gastos reais com relação aos orçados), tem
ele algumas deficiências, já apontadas anteriormente, e que, principalmente, dizem respeito às difi-
culdades: em se determinar se a perda detectada nasceu de um problema físico (por exemplo, perda
de concreto usinado em relação ao montante teoricamente necessário), de uma falha do próprio
orçamento (quantidade orçada está subestimada ou superestimada; ou o custo unitário proposto não
condiz com o mercado) ou de uma ineficiência na produtividade financeira na aquisição do insumo
(por exemplo, tendo-se um preço unitário, do mesmo, muito elevado para os padrões vigentes);
relativas a estar-se misturando materiais com mão-de-obra nas informações disponíveis; dentre ou-
tras. Portanto, em função da importância já demonstrada das perdas físicas (ou consumos), recomen-
da-se (e este será o tema discutido ao longo deste capítulo) a adoção de posturas que preconizem a
avaliação específica dos materiais.
Embora avaliações subjetivas das perdas também possam ser feitas (como, por exemplo, acreditar-se ou
não, em função da presença de "sinais", tais como o menor ou maior grau de limpeza de uma obra, que
a perda possa ser "elevada"), em função da importância de tais perdas e da complexidade citada do
processo de produção, acredita-se que indicadores quantitativos (que mensurem as perdas/consumos e
os fatores que os induzem) e objetivos sejam desejáveis.

Portanto, visando ter-se um bom diagnóstico quanto às perdas/consumos de materiais nos canteiros,
descrevem-se, a seguir, posturas objetivas, e focadas na mensuração dos próprios materiais, que se
acredita serem compatíveis com o nível de perdas hoje vigente e com a complexidade dos canteiros de
obras de construção de edifícios.

6.1. DETERMINAÇÃO DOS INDICADORES RELATIVOS A UM CERTO PERÍODO DE ESTUDO


Considera-se que o diagnóstico das perdas/consumos de materiais envolve tanto a sua quantificação
quanto o conhecimento das condições em que está ocorrendo. Usando a nomenclatura já proposta no
capítulo 4, tal diagnóstico envolveria a determinação dos indicadores mensuradores (perdas/consumos
globais e/ou parciais) e a valoração (por exemplo, a área real da seção do pilar moldado) ou detecção
(por exemplo, o conhecimento da ferramenta adotada para o corte de blocos para alvenaria) dos aspec-
tos contemplados nos indicadores explicadores.

6.1.1.Quantificação das perdas/consumos (indicadores mensuradores)

6.1.1.1. Indicadores mensuradores globais

Ao se avaliar o serviço como um todo, ou uma de suas etapas, pode-se considerar que se está avaliando
um processo onde se tem, como entrada, os materiais, e, como saída, os produtos (serviço acabado)
usando tais materiais. Na medida em que se pretende analisar a eficiência quanto ao uso dos materiais,
há que se proceder a uma avaliação contábil, conforme ilustrado na Figura 6.2.

Figura 6.2. Visão contábil <l.i quantificação cl.is perdas/consumos de materiais.

Inicialmente se deve comentar a necessidade de se definir o período de estudo ao qual o indicador de


perdas/consumos se refere. Na Figura 6.2 indicou-se que tal período se inicia numa data denominada
IPE (início do período de estudo) e termina em FPE (final do período de estudo).

Para a quantificação do que realmente entra no processo, durante um certo período de tempo, há que
se considerar todo e qualquer material: a) recebido do fornecedor; b) recebido de outras fontes (por
exemplo, outras obras da mesma empresa); c) retirado do canteiro para ser entregue em outro destino
(por exemplo, cedido para outra obra da mesma empresa); d) acumulado ou retirado do estoque.
Portanto, há que se monitorar os recebimentos de fornecedores, as eventuais transferências de ou para
outras obras e o balanço das entradas e saídas de insumos do estoque para se ter o valor das entradas
líquidas de materiais, conforme mostrado na Figura 6.3.a.

No que se refere à quantificação dos resultados do processo, há que se medir os serviços executados.
Por exemplo, há que estimar quanto de alvenaria foi produzida (Figura 6.3.b) durante o mesmo período
de estudo para o qual se estimaram as entradas líquidas de materiais. Observe-se que é importante
trabalhar-se com quantificações reais do resultado, isto é, não se recomenda a adoção de critérios que
levem a quantificações equivalentes dos serviços produzidos, conforme comentado no Quadro 6.1.

a) Balanço do material que entrou no processo, entre IPE e FPE

a.1) Recebimento de fornecedores

ü +

a.2) Transferência dc ou para outras obras

I
a.3) Variação da quantidade no estoque njin
0 1 1 1
n n n
IPE FPE Saldo de material

b) Balanço quanto às saídas do processo, entre IPE e FPE

Serviço dc alvenaria

::::::::
o T T T T
FPE IPE Saldo de saída

Figura 6.3. Detalhamento tia quantificação de entradas e saídas do processo de produção, entre IPt e FPE: a) balanço do material
que entrou; b) balanço quanto aos serviços executados.
Quadro 6.1. Quantificação do serviço realmente executado: exemplo para o caso da alvenaria.

Caso se tenha produzido, ao longo de um dia de trabalho, a alvenaria mostrada na figura abaixo, quantos
m 2 teriam sido gerados: a) 13 m 2 (5 m x 2,60 m); ou b) 11,56 m 2 (5 m x 2,60 m - 1,2 m x 1,2 m)?

Embora a postura "a)" seja muitas vezes adotada para se considerar a "dificuldade" em se produzir a
alvenaria (na medida em que a existência do vão dificulta o trabalho do pedreiro), a postura 'b)" seria
aquela a ser adotada, pois representa a área real para a qual os blocos são necessários.

Com base nas quantidades levantadas citadas, poder-se-ia calcular o indicador de consumo de materiais
através da seguinte expressão:

EST (IPE) + F O R N ±TRANSF - EST (FPE)


CUM =
QS

onde:

C U M = consumo unitário do material entre IPE e FPE,


EST (t) = quantidade de material no estoque no instante t,
F O R N = quantidade recebida de fornecedores entre IPE e FPE,
TRANSF = quantidade cedida (sinal negativo) ou recebida (sinal positivo) de material, fruto de transfe-
rências de ou para a obra,
Q S = quantidade de saídas produzidas entre IPE e FPE.

Também com base nas quantidades levantadas se poderia estimar o indicador de perdas; há que se definir
previamente, no entanto, a quantidade de referência de perda nula. A Figura 6.4 ilustra o raciocínio reco-
mendado para tal definição, isto é, para a escolha do C U M j (consumo unitário de materiais teoricamente
necessários).

Definir valor
com respaldo
técnico

CUM T

Figura 6.4. Definição do valor de CUM T .


Uma vez definida a referência, o indicador de perdas seria calculado através da expressão:

EST (IPE) + F O R N ±TRANSF - EST (FPE) 1 , _


IP ( % ) = CÜMÍ - l ] x 100

O Quadro 6.2 exemplifica o cálculo dos indicadores globais, de consumo e de perdas, para o caso do
cimento utilizado na execução de revestimentos internos de parede. A Tabela 6.1 ilustra una planilha
utilizável para o cômputo das quantidades de sacos de cimento estocadas num certo momento e a
movimentação de sacos para ou do estoque durante um certo período. A Tabela 6.2 reproduz as diretri-
zes que foram utilizadas no projeto Finep/Senai para se fazer a quantificação do revestimento interno
de paredes com argamassa realizado num certo período. Cabe ressaltar que, em todos os casos, há que
se ter procedimentos bem definidos para a apropriação dos dados.

Quadro 6.2. Exemplo de cálculo dos indicadores globais, de consumo unitário e perdas, para o
cimento usado na argamassa para revestimento interno de paredes.

Tendo iniciado a execução do revestimento interno de paredes, para o qual optou pelo uso de argamas-
sa de cimento e cal dosada e misturada em obra, o gestor resolveu avaliar o consumo e a perda global
de cimento. Para tanto, durante o período de estudo compreendido entre o primeiro e o último dias de
um certo mês, levantou as quantidades indicadas na tabela a seguir:

Dia Estoque (sacos) Recebimento de fornecedores Transferências Área revestida


(sacos) (sacos) (m2)
IPE 80 800

entre IPE 50
e FPE 100 -20

50

50

FPE 40 4800

balanço 40 250 -20 4000

Considerando-se que 1 saco de cimento tenha 50 kg de material, o indicador global de consumo seria
calculado como:

(80 x 50) + (250 x 50) - (20 x 50) - (40 x 50) _ 3,38 kg de cimento
CUM - 4000 ~ " m 2 revestido

Considerando-se que as especificações do revestimento indicassem uma espessura teórica de 1cm e um


consumo de 150kg de cimento por m* de argamassa aplicada, ter-se-ia o seguinte consumo unitário
teoricamente necessário:

_ ( 0,01 m V m 2 ) x ( 150 k g / m 3 ) _ 1,5 kg de cimento


1 nr m 2 revestido

O indicador global de perdas seria, então, calculado como:

[(80 x 50) + (250 x 50) - (20 x 50) - (40 x 50) 1


IP <%) = [ 4000x 1,5 - } \ ^ 0 0 = 125,2%
Tabela 6.1. Exemplo de planilha para avaliar-se as quantidades de sacos de cimento estocadas, recebi-
das e retiradas do estoque.

Controle de estocagem / recebimento / destinaçao de sacos de cimento


Identificação da obra e do responsável pela coleta
Observador: Obra:

Recebimento de material

data Quantidade (sacos) fornecedor observações

nota fiscal recebida

Saída de material

data quantidade (sacos) destino observações

Tabela 6.2. Exemplo de diretrizes para quantificação do revestimento interno de paredes com argamassa
(Projeto Finep/Senai).

P.3.6.4 Medição dos Serviços: Revestimento interno: Emboço Data: 27/02/97


Argamassa produzida em obra Versão: 2Q

Procedimentos e critérios de medição


De posse do projeto arquitetônico ou projeto específico de alvenaria, o observador deverá calcular a
área das faces a serem emboçadas de acordo com os seguintes critérios:

a) Fazer um croqui representativo em planta, em folha A4, identificando as paredes a serem emboçadas,
inclusive o teto.

b) Em cada face a ser revestida, delimitar a área de acordo com a espessura do revestimento.

c) Em faces onde a largura da parede é diferente das larguras da viga e/ou pilares, considerar faces
diferentes desde que a espessura do revestimento também seja diferente.

d) Não havendo "dentes", considerar o comprimento da face como sendo o comprimento da alvenaria
mais a largura ou comprimento dos pilares.

e) Da mesma forma, considerar a altura da face como sendo o pe-direito, ou seja, altura da alvenaria
mais a altura aparente da viga, caso exista.

f) Descontar as aberturas existentes.


traço teórico previsto.

Código
Traço em volume
Traço em massa
Kg cim./W
Kg cal/m3
Kg areia/mJ

Total (m2)

Planilha na 3.6.4. Medição do revestimento interno:


emboço ou massa única
Argamassa produzida em obra

A. Identificação
Observador: Cód. obra:
Pavimento: Croqui n» Data IPE: Data FPE:
B. Medições efetuadas
Face Cód. Esp. Face (cm) Abertura (cm) Área % Completa Dit. Dif.
Material (cm) Comp. Altura Comp. Altura Líquida (m>) IPE FPE (%) (nV)
6.1.1.2. Indicadores mensuradores parciais

Raciocínio bastante semelhante, ao mostrado para os indicadores globais, se aplica no caso de se querer
determinar indicadores parciais de perdas/consumos. A idéia continua sendo a de se monitorar a quan-
tidade líquida de materiais (simples ou compostos) que adentra a etapa, ou subconjunto de etapas,
durante um certo período de estudo, e compará-la com a quantidade de resultados da etapa ou com a
quantidade teoricamente necessária de materiais para ter gerado tais resultados. Evidentemente, há que
se proceder às devidas adaptações, conforme ilustrado no Quadro 6.3, para a etapa de produção de
argamassa mista, de cimento, cal e areia, para revestimentos internos de paredes.

Quadro 6.3. Exemplo de avaliação do indicador de perdas para a etapa de dosagem/mistura de


argamassa.

Tendo detectado um valor alto para os indicadores globais de perda e de consumo de cimento, no
serviço de revestimento interno de paredes com argamassa, o gestor de uma obra de construção de
edifício resolveu apurar o indicador parcial relativo à etapa de "processamento intermediário", isto é,
aquele onde o cimento é dosado e misturado com os demais constituintes da argamassa a ser utilizada.
Ilustra-se, a seguir, o processo como um todo e a etapa que se estudaria com maior profundicade:

O processo global

Recebimento Estoque Dosagem e mistura Estoque de


de cal de cal de argamassa de cal argamassa de cal

Recebimento Estoque Dosagem e mistura de Aplicação do


de cimento de cimento argamassa de cimento e cal revestimento

A etapa específica

Processo:
dosagem/mistura

Sacos de cimento Transporte de argamassa


Passou-se a reunir, durante um certo período de tem|>o, dados relativos ao número de sacos de cimento gastos a cada dia
nesta etapa: o gestor solicitou ao responsável pela dosagem/mistura que guardasse, num local definido, todos os sacos de
cimento utilizados para gerar argamassa para revestimento interno de parede, conforme mostrado na figura abaixo:
Para avalliar a quantidade de resultados, isto é, de argamassa gerada no processo de dosagem/mistura, durante o mesmo
período de tempo, o gestor orientou o operador para que anotasse o número de recipientes de argamassa produzidos,
tendo-se o cuidado de medir a altura taltante para preenchê-los completamente (vide figura abaixo).

Com base no procedimento citado, foi |x>ssível reunir os dados mostrados a seguir:
Dia Sacos de cimento usados Volume diário de argamassa (1)
1 = IPE 7 1620
2 8 1892
3 8 1843
4 8 1923
5 = FPE 7 1680
Balanço 38 8958

Com isto foi possível calcular-se o indicador parcial de consumo:

, . 38 sacos x 50 kg/saco 0,212 kg 212 kg de cimento


C U M dos./mist. = „ — - ,. = — - =
8.958 litros litro m de argamassa

Considerando-se que se prescrevera um consumo de 150 kg de cimento por m 1 de argamassa, o indica-


dor parcial de perdas seria dado por:

212 - 150
IP dos./mist. ( % ) = — — — x 100 = 4 1 %

6.1.2. Condições de ocorrência das perdas/consumo (indicadores explicadores)

Conforme já comentado, além do conhecimento dos valores das perdas/consumos globais ou parciais,
pode-se avaliar os fatores presentes que os induzem. Assim é que a determinação dos indicadores,
citados anteriormente como correspondendo ao grupo de "explicadores", pode ser bastante útil para o
diagnóstico da eficiência no uso dos materiais.

6.1.2.1. Indicadores de natureza percentual

Os indicadores de natureza percentual trazem consigo, por exemplo, uma informação sobre qual po-
deria ser o foco de atuação mais promissor para combater as perdas ou consumos indesejáveis, na
medida em que explicam onde a perda está. Tanto os indicadores de consumo unitário qjanto os de
perdas podem se beneficiar desta abordagem.

No caso do C U M , sabendo a fração relativa a cada uma das naturezas das perdas, poder-se-ia subdividir o
consumo em parcelas relativas a cada natureza. A Tabela 6.3 ilustra um exemplo onde, para duas situa-
ções diferentes (A e B), de avaliação da etapa de aplicação final de gesso em revestimento interno de
paredes, se determinou, além do C U M parcial, a natureza percentual do consumo de materiais. O C U M
parcial incorporado seria dado pela multiplicação da porcentagem incorporada pelo C U M parcial; ao se
efetuar tal operação, para os casos A e B , chega-se, respectivamente, aos valores de C U M parcial incorpo-
rado de 4,42 kg/m2 (= 0,71 x 6,22) e de 4,46 kg/m2 (= 0,59 x 7,56), valores bastante próximos. Quanto ao
C U M parcial entulho, a situação é bem diferente; adotando-se o mesmo tipo de multiplicação, nsste caso
do C U M parcial pela porcentagem de entulho, chega-se a valores de C U M parcial entulho de 1,80 kg/m2
(= 0,29 x 6,22), para o caso A, e de 3,10 kg/m2 (= 0,41 x 7,56), para o caso B, mostrando-se, este último,
muito mais problemático que o primeiro. Uma constatação deste tipo provavelmente levaria a una obser-
vação mais atenta, no caso B, dos fatores que pudessem induzir a elevação do consumo devido z geração
de entulho (por exemplo, uma pega muito rápida do gesso ou uma falta de treinamento do operário para
preparar a quantidade de material coerente com o tempo de aplicação disponível).

Tabela 6.3. Dados relativos à etapa de aplicação final de pasta de gesso em revestimento interno de
paredes.

Casos estudados C U M parcial % de incorporação % de entulho


(kg de gesso por m2 revestido)
A 6,22 71 29

B 7,56 59 41

O mesmo tipo de utilidade pode ser visto, até de uma forma mais direta, para o caso de indicadores de
perdas. É interessante entender, em termos da sua natureza, onde estão as parcelas de um indicador de
perdas. Por exemplo, a Tabela 6.4 indica os resultados relativos a concretagens monitoradas em duas
obras diferentes e que tiveram indicadores globais de perdas iguais: IP global = 7 % . No caso D, ter-se
detectado que o entulho representaria 2 0 % cia perda, significaria ter IP global entulho de 1,4% (isto é,
1,4% de consumo adicional de concreto, em relação ao teoricamente necessário, devido a entulho).
Caberia, neste caso, uma atenção redobrada em aspectos do tipo: melhorar a estimativa da quantidade
a solicitar, para evitar sobras ao final; melhorar o sistema de transportes, para evitar derramamento de
material; entre outros.

Tabela 6.4. Natureza percentual e a perda global para diferentes concretagens.

Casos estudados IP global ( % ) % de incorporação % de entulho


C 7 100 0

D 7 80 20

A determinação das porcentagens, de cada natureza das perdas/consumos, passa pelo levantamento:
das perdas/consumos do processo em estudo; e das quantidades relativas a cada natureza. 3ortanto,
além das quantificações já citadas (que foram usadas para se determinar os indicadores mensuradores),
há que se acrescentar a tarefa da medição das eventuais 3 naturezas: furto, incorporação e entulho.

Destas, a parcela relativa ao entulho é aquela normalmente mais fisicamente visualizável, sendo, muitas
vezes, avaliada por medição direta. Assim é que se pode, por exemplo, solicitar que, após a execução
da alvenaria de um certo pavimento, se recolham todos os cacos de blocos e se pese o material antes de
dar um destino final a este entulho; o mesmo pode ser feito com restos de placas cerâmicas e pontas de
barras de aço; o concreto remanescente no caminhão-betoneira poderia ser estimado (já que virará
entulho a ser retornado à concreteira, o que também aconteceria se o mandássemos despejar na própria
obra); os restos de argamassa não aproveitada, que caíram no chão durante seu lançamento ou durante
o sarrafeamento do revestimento de parede, também poderiam ser reunidos e mensurados. Note-se
que, na maioria dos casos, as mensurações citadas não são normalmente de fácil execução, seja porque
não é tarefa fácil reunir o entulho de maneira separada por tipo de material, ou porque a estimação da
quantidade de material que lhe deu origem não é muitas vezes direta (por exemplo, ao se pesf.r 100 kg
de argamassa endurecida, é preciso fazer algumas ponderações para se determinar a quantdade de
cimento que foi consumido em tal entulho).
A avaliação da quantidade incorporada é, em geral, feita com base na avaliação da geometria final (e na
sua discrepância com relação à geometria prescrita) do componente produzido. Por exemplo, a avali-
ação do volume final dos pilares moldados de um pavimento, subtraído do volume de armadura embu-
tida nos mesmos, levaria à quantidade incorporada de concreto; a soma dos volumes de argamassa
(obtidos pela multiplicação da área do ambiente pela espessura média da camada), presentes no contrapiso
de cada ambiente de um pavimento, permitiria o cálculo da argamassa incorporada; etc. Cabe a citação
de que, em função da dificuldade em se mensurar completamente as frações de cada natureza das
perdas/consumos, é muito comum inferir-se o indicador de natureza percentual com base em um con-
junto de fatores quantitativos (que serão descritos ainda neste capítulo do livro).

A quantidade de material consumido por furto é, ainda, normalmente, de mais difícil estimação; os
levantamentos a este respeito geralmente se limitam à quantificação do material entregue, para checar-
se a eventual falta de uma parcela. Isto é mais fácil para alguns materiais (por exemplo, sacos de arga-
massa industrializada) e mais difícil para outros (por exemplo, concreto usinado). Note-se que o proces-
so de avaliação das quantidades entregues já é, por si só, uma ação para redução de perdas/consumos,
já que, uma vez detectada a falta, esta seria deduzida da quantidade paga e, portanto, não se configu-
raria a perda ou consumo adicional.

6.1.2.2. Indicadores quantitativos

N o que diz respeito aos indicadores quantitativos, os mesmos são determinados através de mensurações
pontuais específicas. Por exemplo, saber qual é o valor da espessura das lajes pode ser bastante útil para
entender-se onde pode estar uma parte do concreto utilizado na moldagem da estrutura de concreto
armado de um edifício, em especial se o caso em estudo fosse o de um edifício de alvenaria estrutural,
onde as lajes quase que representam a totalidade da destinação do concreto. A espessura do revestimen-
to de fachada é também um importante explicador de onde (e c o m que magnitude) os consumos
adicionais ou perdas podem estar acontecendo no caso de argamassa para revestimento externo. Note-
se que tais indicadores, além da idéia do momento de incidência, trazem consigo uma certa quantificação
das demandas por material. Cabe também ressaltar que, diferentemente das quantidades que se neces-
sita estimar para definir a natureza percentual, aqui não há a preocupação de se monitorar todas as
incorporações possíveis. Por exemplo, pode-se decidir trabalhar apenas com o levantamento dos indi-
cadores de espessura de laje (em lugar de se monitorar também as dimensões de pilares, vigas e esca-
das), na medida em que se acredite que as maiores possibilidades de afastamento, com relação ao
projetado, estejam neste tipo de componente. É usual, também, a definição de um valor para os indica-
dores que nasça de um levantamento amostrai; assim é que, por exemplo, não se trabalha, normalmen-
te, com a determinação da espessura do revestimento interno de paredes avaliando-se todas as paredes,
e sim sorteando-se algumas paredes que representarão o conjunto.

A Tabela 6.5 mostra postura adotável, quanto ao levantamento deste tipo de indicador, através do
exemplo para o caso da espessura de lajes. Note-se a preocupação, mostrada na planilha, quanto à
apresentação: do objetivo pretendido; do roteiro de cálculo (fórmula para determinação dc indicador);
do procedimento de coleta e da periodicidade de sua realização. Às vezes se indicam procedimentos
alternativos (Figura 6.5) para o levantamento do indicador. Com tudo isto se pretende: sensibilizar a
pessoa responsável pela coleta; instruí-la quanto ao indicador a ser determinado e quanto ao local da
mensuração; definir quando fazer a coleta; e sugerir procedimentos alternativos a serem usados quando
se deparar com dificuldades que inviabilizem a adoção do procedimento original.

6.1.2.3. Fatores indutores

Quanto aos indicadores explicadores do tipo fatores indutores, em lugar da ênfase em quantificar as
perdas, tem-se a grande preocupação de levantar possíveis explicações causais e de origem das perdas.
Na medida em que, a priori, se considera que não se sabe a razão que levou à ocorrência das perdas, o
caminho para levantamento destes indicadores passa pelo apontamento das condições em que o servi-
ço acontece. Portanto, indicarem-se as características de cada momento de ocorrência ou origem das
perdas, é a grande tarefa a ser cumprida.
Tabela 6.5. Indicador explicador quantitativo para concreto armado - espessuras de lajes.

Objetivo

Uma das parcelas de perdas de concreto pode estar comprendida pelas variações dimensionais dos elemen-
tos estruturais. Dentre esses elementos estruturais, pequenas variações na espessura da laje podem acarre-
tar um consumo elevado de concreto. Esse indicador objetiva conhecer a variação da espessura da laje em
relação à espessura definida em projeto.

Roteiro p a calculo

Formuleis
T 2 i
1 m
Á e (%) = x 100 t/2
r . i
Variáveis
Ae ( % ) = variação percentual da espessura real em relação à definida cm projeto
e
ri = espessura real medida no ponto
e
t = espessura teórica, que é a de projeto
n = número de medições de c ri

Procedimento de coleta

Utilizar uma furadeira de impacto com broca de vídea. Com esse equipamento, fura-se a laje em locais
estratégicos, possibilitando maior representatividade das medições. Evidentemente, continua-se medindo
as aberturas "naturais" (shafts).

Como critérios de medição para esse procedimento, têm-se:


realizar pelo menos 2 furos por espessura de laje, sendo: 1 no centro da laje e outro a 1 metro da borda de
uma viga;
aconselha-se realizar 1 0 furos por pavimento, divididos conforme item anterior;
dar preferência para aqueles pavimentos onde o recebimento do concreto foi monitorado.

Evidentemente, esse procedimento exige que a equipe de coleta tenha em mãos o equipamento e que o
construtor autorize a realização dos furos. A medição deve ser coerente com o número de pavimentos,
acontecendo no mínimo em 3.

Como roteiro genérico, para a geração de planilhas para a coleta de tais informações, o Quadro 6.4
ilustra a preocupação em se descrever cada um destes momentos que, direta ou indiretamente, se
associam à ocorrência de perdas; a preocupação é a de citar, para cada um deles, as caracterís.icas que
potencialmente poderiam originar ou causar perdas. Por exemplo, no que se refere ao projeto, ter-se
uma concepção do revestimento cerâmico com grande número do placas cortadas é um potencial
explicador de perdas; no recebimento, ter-se ou não procedimentos, para a verificação da entrega de
materiais, pode sugerir menor ou maior probabilidade de que perdas neste momento do fluxograma
dos processos venham a ocorrer; etc.

Qc'v B
e=A-B
rVò

Figura 6.5. Procedimento alternativo para detecção da espessura real de lajes.


Quadro 6.4. Roteiro para a definição de fatores indutores a serem observados.

Na medida em que se está estudando perdas/consumos na produção, as origens das perdas só poderão
estar na Concepção e na própria Produção; no que se refere à Produção, podem-se ter origens e causas
alocadas às diferentes etapas do fluxograma dos processos. Portanto, os fatores devem ser definidos com
vistas a analisar-se cada um dos seguintes momentos:

Concepção

Definidos as possíveis ocorrências e momentos das perdas na Produção, o próximo passo refere-se à
listagem das prováveis causas de cada uma destas ocorrências. A análise crítica posterior deve permitir
a percepção quanto a estas causas estarem ou não presentes no processo em estudo.

A partir das causas, pode-se partir para a definição de possíveis origens associáveis a cada causa (por
exemplo, a perda excessiva de blocos para alvenaria pode ter surgido devido a deficiências na atividade
de corte (causa), que pode ter sido originada na falta de previsão de ferramenta adequada para a mesma
(origem, no planejamento da produção) e ter sido acentuada pela inexistência de meios blocos (origem,
em suprimentos) e por um projeto que não se preocupou com a adoção de dimensões das paredes
coerentes com as dos blocos (origem, na concepção). Note-se, como já comentado, que as causas estão
nas etapas de Produção e as origens podem estar tanto nestas mesmas etapas quanto na Concepção.

Portanto, recomenda-se que a listagem de aspectos indutores siga a lógica indicada a segu r:

3-) Levantamento de possíveis origens <

Etapa "i - k" (anterior) Etapa V

22) Levantamento de possíveis causas

1-) Definir possível momento de incidência

6.1.2.4. Indicadores caracterizadores

Quanto aos indicadores explicadores caracterizadores, a Tabela 6.6 ilustra uma planilha de caracteriza-
ção de serviço, que serve como geradora cie informações sobre a tecnologia adotada no n*esmo.

Tabela 6.6. Exemplo de planilha para caracterização do serviço de alvenaria.

Característica Descrição
Tipo de contratação de mão-de-obra • própria • subempreitada
Forma de pagamento dos pedreiros • por hora • por tarefa
Meio de transporte dos blocos • grua • carrinhos especiais
• carrinhos comuns ou manual
Tipo de alvenaria • estrutural/resistente • de vedação
Dimensões dos componentes
Projeto para a produção da alvenaria • existe • não existe
Cabe ressaltar que um mesmo valor para as perdas (ou para consumos) pode ser considerado relativo a
um bom desempenho em uma obra e a um mau desempenho em outra, na medida em que a obra à
qual se associa possua características que gerem expectativas melhores ou piores quanto às perdas/
consumos. Assim é que são esperados consumos maiores de argamassa de assentamento quando se usa
colher de pedreiro na produção da alvenaria em lugar de bisnaga; perdas menores de blocos são espe-
radas numa obra de alvenaria estrutural que em outra de alvenaria de vedação; etc.

6.2. D E F I N I Ç Ã O D O P E R Í O D O DE E S T U D O

No item 6.1 descreveu-se a coleta de vários indicadores, que seriam relativos a um certo período de
estudo (vide Figura 6.2), iniciando na data IPE e terminando em FPE. Embora se tenha salientado que os
indicadores dizem respeito a um certo período de tempo, nada se falou sobre qual deveria ser a dura-
ção ou o momento de inserção deste período ao longo da vida do empreendimento. Cabe agora,
portanto, discutir-se a esse respeito.

Podem-se dividir os estudos de perdas/consumos, quanto à duração do período a que se associam os


indicadores gerados, em dois grandes grupos: os estudos de longa duração; e os estudos expeditos.
Note-se que a extensão relativa (isto é, a atribuição da adjetivação longa ou curta duração), quando se
estudam as perdas/consumos de um certo material num serviço específico, deve ser pensada compara-
tivamente à duração do serviço em análise (e não da obra ou do empreendimento como um todo).
Embora não seja clara a fronteira entre ambos, este autor considera que durações de 1 mês ou mais
estariam alocadas no grupo dos estudos de longa duração, enquanto estudos de 1 semana ou menos
pertenceriam ao grupo dos expeditos. A Tabela 6.7 ilustra as principais possibilidades quanto ao perío-
do de estudo. Observe-se que os estudos expeditos podem ser sucessivamente repetidos, abrangendo
um largo prazo de avaliação (embora cada indicador diga respeito a um pequeno período de estudo).

Tabela 6.7. Diferentes possibilidades de duração de um estudo de perdas/consumos.

Estudos Durações
De longa duração • 1 mês

• serviço como um todo

De curta duração • Período entre entregas sucessivas

• Ciclo de execução de uma porção da obra


(por exemplo, um andar-tipo ou um
apartamento)

• 1 semana

• 1 dia

• poucas horas (por exemplo, ciclo de uso de


uma porção delimitada de material)

Podem-se citar algumas características relativas aos estudos por períodos longos, como, por exemplo:

• tem-se um menor ônus relativo quanto à coleta de quantidades (de entradas e de resultados dos
processos), na medida em que o trabalho relativo às verificações em IPE e FPE (tais como a
quantificação de serviços) é diluído por um período de tempo maior;
• teoricamente os indicadores obtidos são mais precisos, já que eventuais erros de quantificação
pontuais (por exemplo, na avaliação do material estocado) são diluídos nas grandes quantida-
des envolvidas ao longo do período de estudo;
• dúvidas sobre o processo de levantamento são mais difíceis de sanar quando são discutidas
muito tempo após sua efetivação;
• os indicadores são facilmente atreláveis à gestão orçamentária e à avaliação de custos do em-
preendimento;
• as lições extraídas normalmente servem para outros serviços ou obras, na medida em que boa
parte de um serviço (em especial no caso daqueles de menor duração total) pode já ter sido
executada quando da disponibilização dos indicadores.

Quanto aos estudos expeditos, tem-se que:

• podem significar mais ônus relativo no levantamento de dados, na medida em que, repetidos
sucessivamente, demandariam maior tempo de coleta;
• a menor precisão dos indicadores, devido ao fato de pequenos erros de apropriação serem mais
significativos no âmbito de quantidades menores, pode ser compensada pelo fato de ter-se a
eventual informação a corrigir mais recente, o que gera maior probabilidade de ter-se na me-
mória a eventual falha detectada e o caminho para sua correção;
• a eventual necessidade de se desprezarem os indicadores gerados em um período expedito não
significa uma perda de esforço de coleta significativa;
• as lições extraídas normalmente servem para a contínua tomada de decisões sobre o serviço em
andamento.

Quanto à geração de indicadores mensuradores (perdas/consumos globais e parciais), a grande preocu-


pação deve ser a de ter-se a apropriação das quantidades em estoque e de serviços feita com procedi-
mentos coerentes com o período de estudo. Assim é que, para estudos de longa duração, pode-se pensar
em fazer um extenso e detalhado levantamento no IPE e no FPE (conforme mostrado, no Quadro 6.5,
com a descrição de estudo de caso de longa duração para alvenaria); porém, deve-se ter procedimentos
ágeis (mas sem perder a precisão) para os estudos expeditos (conforme exemplificado, também para o
caso de alvenaria, no Quadro 6.6).

Quadro 6.5. Exemplo de procedimentos adotados para quantificação de estoque e serviço executado
para estudo de longa duração de blocos para alvenaria.

Com o objetivo de realizar um diagnóstico minucioso quanto aos blocos para alvenaria, visando enten-
der as perdas e consumos vigentes no seu processo de produção, para subsidiar decisões relativas à
prescrição de futuras posturas tecnológicas e de gestão, uma empresa construtora monitorou as perdas/
consumos de blocos cerâmicos ao longo de boa parte da execução do serviço de alvenaria, numa das
suas obras em andamento.

Em termos do levantamento de componentes no estoque, tanto no IPE quanto no FPE:

• avaliaram-se as quantidades estocadas separadamente para cada tipo de bloco usado (o projeto
prescrevia 5 diferentes componentes);
• percorreram-se, além da região do estoque principal, todas as partes da obra para busca de
eventuais estoques secundários (por exemplo, pequenas quantidades deixadas em região de
alvenaria já concluída ou em finalização);
• pilhas de blocos mal arranjadas foram eventualmente reorgani-
zadas para evitar falhas na contagem dos componentes;
• as pilhas e suas quantidades foram apontadas em planta sucinta
de levantamento;
• o levantamento foi feito por 2 pessoas, num mesmo dia, e finalizado
com uma avaliação crítica cruzada (uma das pessoas analisava o
levantamento da outra) dos dados apropriados;
• para o dia da avaliação do estoque escolheu-se um sábado
(não haveria jornada de trabalho em alvenaria neste dia) para Levantamento
evitar que a movimentação de materiais pudesse confundir a de estoque
contagem.
No que se refere à quantificação cios serviços:

em lugar de se mensurar a área de alvenaria para, posteriormente, transformá-la em quantidade


demandada de blocos, optou-se por contar a quantidade de componentes assentes;
os mesmos 2 responsáveis pela quantificação do estoque levantaram
também o serviço realizado, no mesmo final de semana (usando,
neste caso, o domingo);
cada parede possuía um "código", definido em planta
elaborada para subsidiar a coleta, e seus componen-
tes eram apropriados separadamente (quantificou-se
separadamente cada tipo de componente);
a conciliação/verificação dos dados (bem como
os eventuais retornos para sanar problemas detec-
tados) foi feita logo após a coleta.

Quadro 6.6. Exemplo de procedimentos adotados para quantificação de estoque e serviço executado
para estudo expedito de blocos para alvenaria.

Querendo monitorar o efeito de algumas decisões tomadas no dia-a-dia da obra sobre perdas/consu-
mos de blocos, uma empresa decidiu-se por adotar a postura de realizar estudos expeditos, com perío-
dos semanais sucessivos, abrangendo toda a execução do serviço de alvenaria.

Quanto aos levantamentos realizados:

• escolheu-se, para avaliação, apenas o componente de maior uso na obra;


• no IPE do primeiro período de estudo, antes de os pedreiros começarem seu trabalhe, marca-
ram-se com um " X " 500 blocos, do tipo sendo estudado, no estoque próximo à maior frente de
trabalho;
• na sexta-feira seguinte, também antes do início da jornada de trabalho (e com um gasto de
tempo total inferior a 30 minutos), contou-se o número de blocos marcados remanescentes no
estoque (N1) e o número de blocos marcados assentes (N2) (ver foto abaixo);
• a perda semanal era calculada como:

(500-N1)-N2
I P '%»= 500 - N I X 1 0 °

• o procedimento se repetia a cada semana.


Note-se que existem situações em que as coletas são facilitadas, tais como: no caso de o IPE ser um
momento em que ainda não se tenha nenhum material em estoque e/ou serviço executado; no caso de
o FPE associar-se ao término completo do serviço; momentos de pequena quantidade estocada; etc.

Quanto à coleta dos indicadores de natureza percentual, tem-se as dificuldades já citadas, que, obvia-
mente, ficam mais facilmente solúveis para o caso de levantamentos expeditos, na medida em que é
mais factível a estimação dos consumos associados a cada uma das naturezas, principalmente para
períodos que sejam associados a ciclos de execução de serviços (como, por exemplo, estimar-se as
porcentagens incorporadas e na forma de entulho relativas ao período de tempo de produção dos
revestimentos de um apartamento).

Quanto aos fatores quantitativos, indutores e caracterizadores, são estes, como já comentado, dc mais rápida
obtenção. Pode-se, inclusive, dizer que, muitas vezes, os estudos expeditos fazem uso de fatores quantitativos
em substituição aos próprios indicadores mensuradores (perdas/consumos globais ou parciais).

RESUMO

• O levantamento de indicadores em campo, através de procedimentos objetivos e, se possível,


quantitativos, pode ser bastante útil para subsidiar a tomada de decisões na Construção Civil.

• Os indicadores mensuradores, envolvendo a quantificação, global ou parcial, de perdas/consu-


mos, são obtidos com base em uma avaliação contábil do processo de produção, sendo neces-
sário apropriarem-se: as quantidades de materiais que adentram o processo em estudo; e os
produtos gerados pelo mesmo (quantidade de serviço executada).

• Os materiais podem provir: dos fornecedores; de transferências de outras fontes (por exemplo,
outras obras da mesma empresa); da diferença entre o estoque inicial e o final.

• A quantidade de serviço é calculada comparando-se as quantidades existentes no início e no


final do período de estudo.

• Planilhas adequadas podem ser úteis para facilitar e melhorar a confiabilidade dos dados obti-
dos pelo levantamento de campo.

• Os levantamentos dos indicadores de natureza percentual demandam, além das quantidades de


material e de serviço, já necessárias para a determinação dos indicadores mensuradores, a
quantificação dc cada parcela relativa às 3 naturezas possíveis: furto, incorporação e entulho.

• Os fatores quantitativos são calculados com base em verificações pontuais específicas como,
por exemplo, a verificação da espessura do revestimento, com base em amostragem.

• Os fatores indutores nascem da análise crítica do serviço em estudo, sendo que os aspectos a
serem observados podem ser definidos através de uma seqüência de raciocínio, que começa
com a definição dos momentos de incidência e de origem das perdas, e é seguida pelo aponta-
mento das possíveis causas para cada momento de incidência e das possíveis origens para cada
causa.

• O s fatores caracterizadores representam o apontamento (Ias características tecnológicas que


sejam consideradas associáveis a uma maior ou menor expectativa quanto a perdas.

• Os indicadores de perdas (mensuradores e/ou explicadores) podem se referir a diferentes perío-


dos de estudo, que são classificáveis em: de longa duração; e expeditos.

• Como exemplos de períodos de longa duração, tem-se: 1 mês; o serviço como um todo. Quan-
to aos estudos expeditos, podem-se ter durações: relativas ao intervalo entre entregas sucessivas
de materiais; iguais ao ciclo de produção de uma porção da obra; de 1 semana; de 1 dia;
relativas ao ciclo para uso de uma certa quantidade definida de materiais.

• Devem-se adotar procedimentos para a quantificação de estoques e de serviços coerentes com


a duração do estudo, isto é, para o caso de estudos de longa duração, cabem procedimentos
mais detalhados e onerosos, enquanto os estudos expeditos carecem de apropriações ágeis, mas
que não comprometam a precisão desejada do indicador.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Você foi incumbido de diagnosticar as perdas/consumos de materiais nas obras de uma empresa de
construção. Para tanto, deve compor (conceber e instrumentalizar) uma proposta de levantamento de
indicadores e implementá-la para um serviço escolhido (imagina-se que, havendo sucesso na
implementação para o mesmo, possa-se, a seguir, envolver outros serviços na análise).

Para cumprir sua tarefa, solicita-se que você:

a) escolha o material/serviço a estudar.

b) componha um método de levantamento e processamento de dados relativos a um período de


longa duração, passando pela:

b.1) definição dos princípios gerais do método: objetivos, momento e local de utilização, pesso-
as envolvidas etc.
b.2) proposição de procedimentos (inclusive fazendo a definição das eventuais planilhas ne-
cessárias) para se monitorarem as quantidades de materiais: recebidas, transferidas, esto-
cadas.
b.3) proposição de procedimentos (inclusive fazendo a definição das eventuais planilhas ne-
cessárias) para se monitorarem as quantidades de serviço concluído.
b.4) definição (concepção inicial, fórmula de cálculo, forma de coleta etc.) dos indicadores a
serem determinados: mensuradores (perdas/consumos global e parciais), de natureza
percentual, fatores quantificadores, fatores indutores e fatores caracterizadores.
b.5) implementação do método, cálculo dos indicadores e análise dos mesmos.
b.6) promoção de uma avaliação crítica do próprio método implementado, buscando even-
tuais alterações que promovam uma melhoria no seu desempenho, visando a sua con-
tínua utilização pela empresa.

c) conceba, instrumentalize e implemente um método expedito de estudo das perdas/consumos,


aplicando-o simultaneamente ao método de longa duração, repetindo-se sucessivamente os
períodos de coleta.
d) Compare os dois métodos utilizados quanto: aos resultados fornecidos, à facilidade de utiliza-
ção, ao tipo de subsídio que podem dar para a tomada de decisões etc.
PREVISÃO DO CONSUMO DE MATERIAIS
PARA AS OBRAS 7
O entendimento de um processo passa, muitas vezes, por atividades onde, conforme mostrado na
Figura 7.1, a partir de amostras da situação real, se tenta explicar o mesmo, criando-se um modelo para
sua visualização. Depois disto, 6 também usual que se utilize tal modelo para se tentar prognosticar o
que pode acontecer num processo real semelhante ao que foi diagnosticado.

Modelo
representativo,
estimado a partir
das amostras

Modelo

Entender = diagnosticar + prognosticar

Figura 7.1. O processo envolvido no entendimento de um serviço.

Em sendo um dos objetivos deste livro entender a demanda por materiais para serviços de construção,
muito se apresentou de diagnósticos já realizados sobre perdas/consumos, permitindo-se tecer várias ex-
plicações sobre sua ocorrência. O próprio capítulo 6 foi dedicado à organização da atividade de levanta-
mento dos dados que poderiam subsidiar um diagnóstico específico para uma certa obra/em presa.

Este capítulo procura discutir os aspectos complementares para se entender a demanda por materiais,
discutindo o modelo que se imagina representar o consumo de materiais num serviço e sua utilização
para prognosticar demandas em serviços futuros.

7.1. VISÃO ANALÍTICA DAS PERDAS E CONSUMOS

O raciocínio analítico pode ser usado para melhorar o entendimento de um processo, conforme ilustra-
do genericamente no Quadro 7.1.
Quadro 7.1. A abordagem analítica aumentando o entendimento de atividades do dia-a-dia.

Ao ter de programar algumas viagens necessárias para exercer sua profissão, um vendedor dispõe da seguinte
informação de dois colegas de trabalho: o primeiro indicou que demora, em média, 6 horas, do momento
que sai da sua casa, em São Paulo, até chegar ao escritório do cliente, no Rio de Janeiro; o segundo explicou
que gasta 6 horas, da sua casa a outro cliente, localizado, neste caso, em Santiago do Chile. A informação
global pode não ser suficiente para o entendimento completo do problema, diminuindo, por exemplo, a
chance de sucesso em eventual prognóstico que o vendedor |x>ssa fazer com relação a viagens pessoais suas.

Uma abordagem de caráter mais analítico passaria pela decomposição da viagem em 3 partes: o percur-
so entre a casa da pessoa e o aeroporto; o vôo entre os aeroportos das 2 cidades; e o percurso final entre
o aeroporto da cidade-destino e o escritório do cliente. Talvez o primeiro colega informante demore
tanto, na viagem entre São Paulo e Rio, devido a morar longe do aeroporto em São Paulo e o endereço
do cliente também ser distante do aeroporto do Rio; no caso de o vendedor morar perto do aeroporto
em São Paulo e estar se dirigindo a um local bem perto do aeroporto no Rio, talvez pudesse prever um
tempo de viagem "porta a porta" bem mais curto.

No caso da estimativa da demanda por materiais num certo serviço de construção, a informação pode
ler diferentes níveis de decomposição, como, por exemplo:

• estipular-se a quantidade total de material necessária para um serviço na obra como um todo.

Por exemplo, pode-se estar falando de se construir um edifício mais ou menos do mesmo porte que outros
já edificados pela empresa e balizar-se a previsão de consumo total nos valores totais relativos a estas
experiências anteriores. Algumas técnicas de previsão de custos baseiam-se neste raciocínio; por exemplo,
suponha que sua empresa seja especializada na construção de edifícios habitacionais para classe de renda
média-baixa, de mesma tipologia, e que você tenha um banco de dados onde vem registrando, para todas
as obras deste tipo que edificou, o número de metros lineares de tubulações para ramais de água fria e o
número de banheiros existentes. Seria possível pensar-se (evidentemente num momento ainda com falta
de melhores informações) em prever a quantidade de tubulações, para ramais de água, com base na
comparação do número de banheiros da nova obra com aquele relativo às obras do seu banco de dados.

• trabalhar-se com a visão de que a quantidade total de materiais é fruto da multiplicação da


quantidade de serviço a executar pelo consumo unitário de materiais no serviço

Esta tem sido a postura mais usual na elaboração de orçamentos tidos como detalhados, podendo-se
distinguir duas operações relevantes: a quantificação do serviço (que carece de procedimentos formali-
zados e uniformizados, para que haja coerência entre levantamentos feitos por pessoas diferentes) e a
definição do consumo unitário real, que, acredita este autor, tem sido geralmente baseada no valor
médio anteriormente detectado para diversas situações já vivenciadas. Assim é que o processo de diag-
nóstico passaria pelo levantamento real da quantidade total de materiais demandada por um serviço e
pela quantificação deste serviço, para então gerar-se um valor de consumo unitário vigente; un- conjun-
to de consumos unitários, anteriormente avaliados, geraria um "modelo" de consumo que poderia ser
repassado, na forma de prognóstico, para um novo caso a ser enfrentado, conforme ilustra a Figura 7.2.

• a percepção de que o consumo unitário real pode ser decomposto em frações menores (confor-
me já comentado nos capítulos anteriores)

Esta é a postura que se irá discutir neste capítulo e que se imagina ser a melhor dentre todas, tornando-
se cada vez mais forte à medida que mais informações (advindas de diagnósticos semelhantes aos mos-
trados no capítulo 6) estiverem disponíveis. Este autor acredita que não seja uma tarefa difícil convencer
o leitor de tal opinião; para tanto bastaria relembrar-se de que as faixas de consumo vigentes são extre-
mamente variáveis (vide capítulo 5) e que os erros de orçamento e de gestão do projeto e da p o d ução,
frutos da não-percepção de tais diferenças, podem facilmente corroer toda a margem de lucrc que um
Diagnóstico obra i

Qmatcrial i
+

Qserviço i

CUM
Qmatcrial
Qserviço

Prognóstico obra j

cserviço j x CUM

Obras reais Modelo

Figura 7.2. A determinação <k> consumo unitário real (diagnóstico) e sua utilização no prognóstico para futuras obras.

construtor espera numa obra de construção de edifícios. Portanto, a melhoria do entendimento é uma
fortíssima ferramenta para se melhorar a competitividade das empresas.

No âmbito da visão analítica do consumo unitário, há que se relembrar que tal consumo pode ser
fracionado conforme mostrado a seguir:

CUMr = CUMr + C U I V W

O consumo unitário real (CUM K ) nasce da composição de uma parcela definida pelo Projeto, denomi-
nada consumo unitário teoricamente necessário (CUMr), e de outra originada em ineficiências (perdas)
durante a utilização do material na Produção (CUM i n «J.

Dentro da abordagem analítica, inicialmente cabe a discussão do CUMr. Sua estimativa pode ser mais
ou menos complexa em função do material/serviço em estudo (vide casos mostrados, anteriormente, no
Quadro 5.4); para todos eles, no entanto, há que se ressaltar a importância de uma recomendação, já
feita anteriormente, qual seja, a de se trabalhar com as quantidades de serviço reais e não as equivalen-
tes (vide exemplo mostrado, anteriormente, no Quadro 6.1).

No que se refere ao CUM incí ., há que se lembrar que tal parcela está relacionada à ocorrência de perdas
durante as etapas do processo de produção do serviços; a abordagem analítica de tais perdas (Figura
7.3) e, portanto, do CUMirtCl., leva às seguintes percepções:

• as perdas na produção podem ocorrer nas diversas etapas do fluxograma dos processos (recebi-
mento, estocagem, processamento intermediário, processamento final e movimentações entre
tais etapas);
• em cada etapa podem-se ter diferentes manifestações de perdas, em magnitudes distintas e sob
diferentes naturezas (furto, incorporação e entulho);
• cada uma das manifestações pode ter sido motivada por diferentes causas;
Explicação das perdas

Etapas Estocagem Processamento O Processa nento


Recebimento
intermediário final

Perdas
.Quantidades separadas
Diferentes manifestações •-nir,
Diterentes naturezas por forma de manifestação
Quantificação
[Mn [NT],[N2],[N3Í e natureza

Causas para a
manifestação Mi
Causas sob a na tu reza Ni
E U S ! [GTJ

Origens

Explicação Busca da associação:


(modelo) Qmíní = f ( Q ' ) P a r a cada caracterização do serviço

Figura 7.3. Atividades envolvidas na geração de uni modelo para explicação do CUMin<.t-

• cada causa pode ter tido diferentes origens;


• o entendimento da associação entre causas e origens e as quantidades de cada tipo de manifes-
tação de perdas geraria um modelo que explicaria o CUMinef.

O processo de PREVISÃO do C U M proposto seguiria o caminho inverso ao descrito para a EXPLICA-


ÇÃO. A Figura 7.4 procura ilustrar tal idéia, que será adotada como diretriz para quaisquer previsões de
consumo de materiais. Embora nem sempre se disponha de informações num nível de detalhamento
adequado para a aplicação completa do modelo de prognóstico proposto, seu uso, ainda que simplifi-
cado, é recomendável, na medida em que cria consciência quanto aos aspectos que levam à expectati-
va de um maior ou menor consumo unitário de materiais. Imagina-se, também, que o seu contínuo uso
(principalmente quando seguido do diagnóstico do consumo real na obra em execução) facilitará,
inclusive, o enriquecimento das informações que subsidiam o próprio modelo, gerando um círculo
virtuoso (Figura 7.5) de melhoria da gestão do consumo de materiais nas obras de construção.

7.2. C O N C E I T U A N D O O M O D E L O PARA PREVISÃO D O C O N S U M O U N I T Á R I O

7.2.1. Apresentação geral do modelo

Discorre-se aqui, conceitualmente, sobre o modelo para previsão do consumo unitário de materiais,
procurando-se apresentar diferentes possibilidades para seu estabelecimento, em termos: a) do nível de
decomposição adotado; b) da intensidade da visão analítica imprimida.

a) Nível de decomposição do indicador de consumo

Duas possibilidades se apresentam, quais sejam (Figura 7.6): prognosticar o C U M diretamente, sem
decompô-lo em frações menores; decompor o C U M em partes menores, sendo que a composição do
prognóstico de cada uma destas partes levaria, ao final, ao prognóstico do C U M .
e (Ia causa Ck com origem Ql)

Figura 7.4. Prognóstico <lo CUM.

Figura 7.5. Círculo virtuoso na gestão do consumo de materiais.

A primeira postura é normalmente considerada de mais fácil e rápida aplicação, na medida em que,
basicamente, se tem de estipular um único número. Imagina-se que tal previsão se baseie GTI experiên-
cias anteriores (que podem ou não ter sido registradas formalmente), pessoais ou de terceiros (outros
profissionais ou manuais disponíveis).

O segundo caminho implica uma dificuldade maior, já que se tem de prognosticar parcelas do C U M ;
no entanto, se imagina que tal processo, uma vez percorrido criteriosamente, possa levar a várias van-
tagens, tais como uma maior precisão na previsão e a indução de uma maior consciência quanto ao
serviço a ser executado, já que se terá de ponderar mais detalhadamente quanto ao projeto e à futura
produção, para se imaginar o que acontecerá com cada parcela do C U M .

A Figura 7.7 ilustra, portanto, as duas possibilidades, relembrando, conforme já demonstrado anterior-
mente, que o C U M pode ser calculado a partir do conhecimento do C U M r e das perdas esperadas.
Quanto
material
vou precisar?

Figura 7.6. Nível cie decomposição no prognóstico do C U M .

CUM Diretamente

Consumo de
materiais?

CUMr, Perdasj

0
C U M = 1 ; . , | C U M r , x (1 + Perdas,) |
100

Figura 7.7. Indicadores de C U M : sem e com decomposição.


b) Intensidade da abordagem analítica

A previsão cio consumo unitário de materiais, conforme citado, depende da direta estimativa de C U M
ou do prévio prognóstico de C U M r e do valor das perdas. Sendo assim, a Figura 7.8 ilustra, generica-
mente, o raciocínio envolvido no processo de previsão, seja ele decomposto ou não. Portanto, um
processo de previsão da demanda por materiais num serviço se basearia nas expectativas quanto às
características da obra concebida e ao processo de produção que se adotará para sua execução: en-
quanto projeto/especificações permitiriam calcular-se o C U M r , projeto/especificações e o processo de
produção a adotar balizariam a previsão de perdas, com base na maior ou menor detecção de prová-
veis causas e origens.

CUMreí.

Perdas

CUM

Figura 7.8. As características da obra (enquanto produto e processo de produção) influenciando a expectativa quanto ao CUM.

b.1) previsão direta do C U M

O Quadro 7.1 mostra um exemplo da estimativa do C U M de argamassa de assentamento de alvenaria


realizado por uma empresa construtora. Note-se que a previsão baseou-se numa expectativa quanto
às características de concepção do produto e do processo de produção a ser adotado numa nova obra
em construção, com base na comparação (neste caso até certo ponto informal) com as ca'acterísticas
de outras obras já executada;» pela empresa e cum us C U M apiopiiados (neste caso, formalmente)
para tais obras.
Quadro 7.1. Exemplo de previsão direta de C U M .

Uma empresa construtora, que trabalha freqüentemente com obras de edifícios habitacionais em alve-
naria estrutural, tem, sistematicamente, calculado o CUM,,.,,! de argamassa industrializada reativo ao
assentamento de tal alvenaria, conforme mostrado na tabela a seguir:

Banco de C U M ^ i de argamassa de assentamento de alvenaria.

Obra CUMreal
(kg de argamassa/m2 de alvenaria)
Jardim das Flores 15,4

Solário das Andorinhas 13,9

Caminho do Mar 18,7

Atenas 15,3

Florença 17,0

Central 13,5

Em tendo de prever a demanda por argamassa para uma nova obra, com características semelhantes,
tanto de projeto quanto de processo, às citadas no banco de dados mostrado, o profissional responsável
pela previsão decidiu assumir uma valor de C U M igual à média dos valores anteriores, isto é:

rnx* (15,4+ 13,9+ 18,7+ 15,3+ 17,0+ 13,5)


C.UM = = 15,6 kg de argamassa/nr alvenaria

b.2) previsão do C U M T

Na medida em que a quantidade total demandada de materiais é calculada pela multiplicação da


quantidade de serviço pelo C U M do material especificamente sendo estudado, há que se observar se
tais materiais são ou não quantificados da mesma maneira que o serviço em que se inserem, pois isto
interfere com a previsão do valor de C U M r , conforme se ilustra, a seguir, para três diferentes materiais:
aço em barras, para o serviço de armação da estrutura de concreto; concreto usinado, para o serviço de
concretagem da mesma estrutura; blocos de concreto, para o assentamento de paredes de alvenaria de
vedação de um edifício.

No caso do aço, tanto as armaduras (produto do serviço de armação) quanto as barras de aço necessá-
rias são quantificadas em kg, e, caso não exista perda, cada 1 kg de armadura demandaria 1 kg de barra
de aço. Assim é que o valor de C U M T é igual a 1.

No caso do concreto usinado, a situação só não é igual em função de, usualmente, adotar-se o volume
total da estrutura produzida, sem descontar-se eventuais embutidos na mesma, como representativo da
quantidade do serviço de concretagem a executar. Para ilustrar quão representativos tais embutimentos
podem ser, no Quadro 7.3 estima-se o volume de armadura contido dentro dos componentes estrutu-
rais a concretar. Assim, ao considerar-se que nenhuma perda exista, o volume de concreto usinado
necessário (CUM T ) para produzir 1 m 3 de estrutura seria menor que 1 m \ já que seria necessária a
subtração do volume dos embutimentos (armação, eletrodutos, passagens de tubulações etc.) do volu-
me da estrutura.
Quadro 7.3. Importância volumétrica da armadura enquanto embutimento na estrutura de concreto.

A análise de projetos de estruturas de concreto armado para edifícios habitacionais convencionais permite
detectarem-se taxas de armadura médias da ordem de 100 kg de aço por m J de estrutura. Supondo-se que
uma certa estrutura tivesse exatamente tal taxa de armadura e considerando-se uma densidade do aço de
7.865 kg por m1, poder-se-ia calcular o espaço percentual da armadura na estrutura da seguinte maneira:

• lembrando que: densidade = m |* s s a ,


1 volume

massa
• segue que: volume =, —r>
& 1 densidade

• em 1 m* de estrutura ter-se-iam 100 kg de aço, o que significaria um volume de armadura de:

v Z = a 0 1 2 7 m '

• tal valor representa o seguinte percentual volumétrico da estrutura:

0,0127 m 3 de aço in_


T m 3 de estrutura * 1 0 0 - 1,27%

Portanto, supondo-se que a estrutura de concreto tivesse apenas as armaduras como embutimentos, o
CUM r r t seria de 0,9873 m J de concreto usinado por 1 m 5 de estrutura.

Ao se discutir os blocos para alvenaria, ilustra-se a situação mais complexa de cálculo do CUM T , na
medida em que o produto do serviço (área assente de alvenaria) e o material/componente utilizado
(bloco) são mensurados em unidades diferentes: m 2 para o primeiro e unidades para o segundo. Confor-
me já citado anteriormente (vide Quadro 5.4), o C Ú M T poderia se definido, para este caso. a partir do
cálculo do número de unidades (blocos) que caberiam em uma unidade de produto (m- de alvenaria);
isto poderia se feito através do uso da expressão:

1 |(C + ev) x (H + eh)|

onde: C = comprimento do bloco; H = altura do bloco; ev = espessura da junta vertical da alvenaria; eh


= espessura da junta horizontal da alvenaria.

Situações semelhantes a esta ocorrem para outros materiais/serviços como, por exemplo, para placas cerâmi-
cas (caso os componentes sejam estimados em unidades) nos revestimentos cerâmicos e para o volume ou
massa de argamassa, ou quantidade de aglomerantes e agregados, para revestimentos de argamassa.

b.3) previsão das perdas

No que se refere às perdas, cabe inicialmente relembrar que as mesmas acontecem sempre que se
utiliza mais material que o teoricamente necessário. Tal quantidade adicional pode ser devida a
manifestações que podem surgir em diferentes etapas do processo de produção. Portanto, as maio-
res ou menores expectativas de perdas podem ser consideradas, na abordagem analítica, composi-
ções de maiores ou menores expectativas de perdas nas diferentes etapas, conforme ilustrado na
Figura 7.9, onde também se ilustra a idéia de se fazer previsões das perdas em cada etapa para,
posteriormente, determinar-se a perda total. A Figura 7.10 ilustra, ainda, diferentes possibilidades
de se agruparem etapas do processo de produção para o cálculo das perdas. Note-se que tal agru-
pamento deve ser definido em função da forma de atuar e de coletar informações pela empresa
usuária dos indicadores de perdas; por exemplo, em se considerando importante entender-se a
eficiência da equipe responsável pelo processamento final do serviço (por exemplo, a equipe que
aplica o gesso em revestimentos internos, ou aquela que assenta a alvenaria), talvez seja interessan-
te adotar-se a postura " c " da Figura 7.10.

O Quadro 7.4 ilustra o raciocínio aplicado pelo responsável pela estimativa das perdas de placas cerâ-
micas, para obras diferentes de sua empresa.

Expectativas quanto às Expectativas quanto


características do produto e do às razões para
processo que afetam a etapa i ineficiência na etapa i Exj>ectalivas quanto Perda global
ao valor das yn
Projeto/espec i ficação Causas perdas na etapa i "i= 1 Perdas na etapa i
+
Planejamento da produção Origens

Figura 7.9. A perda total como soma das |>erdas esperadas nas diferentes etapas do processo de produção.

a) Divisão completa em etapas

Estocagem Processamento Processamento


Recebimento
intermediário final

b) Processamento intermediário como marco divisório

Processamento Processamento
Recebimento + estocagem
intermediário final

c) Separação do processo final

Processamento
Recebimento + estocagem + processamento intermediário c=>
final

Figura 7.10. Diferentes decomposições da perda total gerando conjunto de etapas a terem suas perdas previstas.
Quadro 7.4. Expectativas de perdas de placas cerâmicas.

Tendo algumas obras sendo executadas simultaneamente, um técnico da empresa foi chamado a opinar
sobre a quantidade necessária de placas cerâmicas para o revestimento interno de paredes de áreas
molhadas de 3 destas obras.

Como informações prévias, tal técnico sabia que, em obras anteriores, a empresa havia computado
perdas, para este material, neste serviço, variáveis de 4 % a 8 % ; mais que isto, embora não registrado
formalmente, imagina-se que as perdas no recebimento e estocagem representam por volta de 2 0 % das
perdas totais, sendo o restante fortemente associado à etapa de processamento final. Analisando os
projetos disponíveis e o processo de produção esperado, o técnico tinha expectativas quanto às obras
que demandavam o revestimento cerâmico, conforme mostrado na tabela a seguir:

Expectativas quanto às obras.

Obra Características
Portal dos Pássaros Placas cerâmicas de 20 cm x 20 cm, com mesma cor em todos
os ambientes das 5 torres do empreendimento, com paginação da
cerâmica baseada em dimensões modulares da mesma.
Entrega do material paletizado no andar de uso pelo
fornecedor. Empreiteiro é parceiro da empresa e esta é a
terceira das 5 torres que executa no empreendimento.

Savana Placas de 30 cm x 30 cm, com cor variando nos ambientes (todos


de tamanho reduzido) dos diferentes apartamentos da única
torre da obra. Material será entregue no pequeno estoque
disponível nas imediações do portão da obra, que tem
dificuldades de espaço para estocagem, demandando a criação
de diferentes regiões de armazenamento. Empreiteiro por
contratar (sem expectativa de adotar-se empresa já conhecida).

Cidade Jardim Placas cerâmicas de 30 cm x 40 cm, com faixa decorativa


intermediária, em ambientes de grandes dimensões. Entrega,
l^elo fornecedor, em defxSsito grande nas proximidades cfo elevador
de obras. Empreiteiro por contratar (expectativa de ter-se
empreiteiro parceiro da empresa).

No processo de definição de sua previsão para o C U M de placas cerâmicas, o técnico passou pelas
seguintes etapas (indicadas em tabela adiante):

• subdivisão das etapas do processo de produção do revestimento cerâmico: "pré"-"processamento


final" = recebimento + estocagem + transporte para a frente de trabalho; e "processamento
final";
• faixas de variação de perdas vigentes e m cada etapa;
• características influenciadoras das perdas;
• definição da expectativa por etapa;
• perda global esperada.
Raciocínios pertinentes ao processo de previsão das perdas.

Etapas "Pré" "processamento "Processamento


final" final"
Perdas vigentes 0,8% a 1,6% (20% do total) 3,2% a 6,4% (80% do total)
Características Portal dos (-) entregue na frente (-) placas pequenas
induzindo maiores Pássaros de serviço (+) ambientes pequenos
perdas (+) ou menores (obra A) (-) modulação
perdas (-) (-) empreiteiro parceiro
(-) operários acostumados
ao serviço
(-) reaproveitamento
de sobras
Savana (+) expectativa de estocagem (+) placas médias
(obra B) deficiente (+) placas diferentes (menor
(+) expectativa de mais chance de reaprovei.amento
movimentação de placas de sobras)
(+) ambientes pequenos
(+) empreiteiro desconhecido
Cidade (-) estocagem adequada (+) placas cerâmicas grandes
Jardim com transporte não excessivo (-) ambientes grandes
(obra C) (-) provável empreiteiro
de confiança
Perdas previstas A 0,8% 4,5%
por etapa B 1,6% 6,4%
C 1,0% 5,5%
Perdas previstas A 5,3%
globais B 8,0%
C 6,5%

Portanto, previsões de perdas diferentes para cada grupo de etapas do processo de produção (no "pré"-
"processamento final": 0,8% para a obra A, 1,6% para B e 1 % para C; no "processamento finei": 4 , 5 %
para A, 6,4% para B e 5,5% para C) levaram a expectativas distintas quanto às perdas totais de placas
cerâmicas das obras: 5,3% para A, 8 % para B e 5,5% para C.

7.2.2. Contexto da previsão

O modelo adotado para a previsão pode ter complexidade variável em função do contexto orde ocor-
re, envolvendo, entre outros, os seguintes aspectos: o momento em que o prognóstico é feite; o nível
das informações disponíveis; a referência de valores de perdas adotada.

a) Momento do prognóstico

A previsão da quantidade de materiais necessária para um certo serviço pode ter de ser feita en- diferen-
tes momentos, e subsidiando distintas decisões dos gestores, como, por exemplo (Figura 7.11): as rela-
tivas a investir ou não numa oportunidade, para fazer um determinado serviço para um contratante,
quando da licitação do mesmo; aquelas necessárias para a definição dos preços que devem constar da
proposta comercial para tal execução; as demandadas para se elaborar um projeto para a produção
adequado; as necessárias para balizar o controle do consumo durante a execução do serviço.
q
Proposta

o
Discussões no período dc prc-cxccução

o
Discussões durante a execução do serviço

Figura 7.11. Diferentes momentos do empreendimento em que .1 previsão «Io consumo de materiais |xxlc ser necessária.

A cada uma destas fases se associam necessidades diferentes quanto à abrangência e precisão das informa-
ções necessárias. Por exemplo, ter-se a simples referência de consumos máximos pode servir para balizar
a análise de riscos no momento de se decidir por investir ou não numa licitação e para confeccionar a
proposta de preços; o conhecimento detalhado dos fatores que influenciam o consumo e uma boa previ-
são do C U M são necessários para se balizar a programação e o controle de um serviço; entre outros.

b) Informações disponíveis

Normalmente, à medida que se alcançam etapas mais adiantadas do empreendimento, tanto a necessi-
dade dc precisão quanto a disponibilidade de informações para a previsão aumentam. Ainda assim, é
importante observar que se pode trabalhar a previsão fazendo uso de fontes de informação com dife-
rentes riquezas. A Figura 7.12 ilustra as possíveis fontes de informações para subsidiar o prognóstico do
C U M ; elas dizem respeito ao conhecimento do produto que se irá elaborar e da tecnologia e gestão
envolvidos na sua produção.

Observe-se que, em função de se trabalhar com modelos de previsão simplificados, muitas vezes, ainda
que informações mais ricas estejam disponíveis, elaboram-se previsões de demanda por materiais sem
levar em conta tais fontes mais detalhadas. Mas ressalte-se que este autor acredita que, por exemplo,
trabalhar com o projeto executivo permita uma melhor previsão que ter um anteprojeto como base de
entendimento das características do serviço; assim como ter-se um projeto para produção complementa
em muito as informações advindas do conhecimento da forma usual de atuar da empresa.

c) Referência de perdas e consumos

Conforme mostrado anteriormente (vide Quadro 7.4), a previsão se baseia em, a partir do conhecimen-
to das características do serviço a executar, escolher-se um valor de perdas ou consumo dentre aqueles
(referência) detectados em avaliações anteriores do mesmo tipo de serviço. Portanto, o processo de
previsão pressupõe um acúmulo anterior de informações sobre as perdas ou consumos de materiais
(informações históricas). Tal experiência pode ser classificada cm função da sua origem (Figura 7.13) e
da forma de expressão (Figura 7.14).

Quanto às fontes das informações históricas sobre perdas e consumos, podem-se ter: opiniões de cunho
pessoal, até certo ponto informais, mas fruto da vivência profissional pessoal; informações próprias da
empresa, fruto do registro formal do desempenho verificado em obras anteriormente realizadas; infor-
mações sobre o desempenho das empresas do mercado, formalmente registradas e organizadas, nor-
malmente divulgadas sob a forma de manuais de orçamentação. Embora não se deva desprezar a expe-
Tipologia d o serviço/obra Anteprojeto

Consumo? Informações?

Projeto executivo

Escantilhào

Detalhe-padráo efe
batente envo)ven e
enchido com bisnaga

Projeto para a produção


Figura 7.12. Fontes de informação para a previsão.

riência profissional de cada um, ao basear-se em opiniões pessoais não analíticas corre-se, normalmen-
te, maior risco, pois estas são sempre sujeitas a um alto grau de subjetividade; mais que isto, não é
simples transferir tal conhecimento, o que significa dificuldades para o registro da experiência da em-
presa para dar suporte às decisões a serem tomadas por novos ingressantes na mesma. ( ) banco de
dados da empresa é sempre desejável, tanto em função da objetividade que credita às informações
quanto em função de minimizar as chances de perder-se a história da empresa; mais que isto, sempre é
interessante trabalhar-se com os dados da própria empresa. Na falta de um banco de dados próprio (e
também para poder comparar-se com os concorrentes, no caso de se dispor de dados próprios), os
manuais de orçamentação procuram registrar, organiza da mente, a experiência do mercado.

Quanto às formas de apresentação dos valores históricos, as opções vão desde a simples estimativa do
valor médio do C U M até a disponibilização de equações definidas estatisticamente e correlacionando os
fatores influenciadores do consumo aos seus valores. Os valores médios (ou medianos) são muito usados
por representarem a região central dos valores atribuídos a diversas experiências; no entanto, costumo
considerar que a "média é uma boa representante de todas as obras mas não de uma obra em particular",
isto é, pode ser que a obra cujo consumo se deseja prever tenha características que a afastem da região
central dos valores históricos em direção aos valores máximo ou mínimo, o que levaria a um n"au prog-
nóstico. As faixas de valores, localizando, além da média ou mediana (região central), os limites da varia-
ção das perdas/consumos, facilita, |>or exemplo, acrescentarem-se discussões de risco do prognóstico
feito. Adicionando-se os fatores que, positivamente ou negativamente, influenciaram os valores históricos,
- Opinião pessoal
/
NQO sei qual A perda vai
vai ser a ser de uns 8%!

Minha primeira obra Minhas obras

- Banco d c dados da empresa


Obra Características Perda
A Alto padrão; concreto usinado; etc. 12%
B Obra de escritórios pequenos individualizados; etc. 17%
C Alvenaria estrutural; laje pré-fabricada; etc. 4%
D Conjunto de casas populares com blocos cerâmicos; etc. 8%

- Dados do mercado

Figura 7.13. fontes de informações históricas sobre perdas e consumos.

-Valor médio
- Faixa de valores indicando as extremidades (mínimo e máximo) e o centro da distribuição (média ou mediana)
Média ou mediana
I 1 1
mínimo máximo

- Faixa de valores associada à indicação das características que favorecem uma expectativa mais próxima tio mínimo
e daquelas que favorecem aproximar-se do máximo
Média ou mediana
I 1 H
mínimo máximo
Fatores (características)
Redutores Maximizadores
r1 Ml
r2 M2
r3 M3

- Tabelas de obras, |)erdas/consumos ocorridos e características relevantes


Obra Perdas/consumos Característica 1 Característica 2 Característica 3 Característica n
A
B
C
D
• ••

- Procedimentos permitindo a associação das características influenciadoras aos valores das perdas/consumos
CUM = CUM T X(1 + J P J
100
onde:
CUMJ = 1
Dimensão característica
IP = f (característica 1, característica 2,..., característica n)

Figura 7.14. Diferentes formas de organizar e apresentar as informações históricas.

Como reduzir |>erdas nos canteiros


permite-se uma maior precisão no prognóstico, já que se torna possível, avaliando-se a maior ou menor
presença de tais fatores na obra em análise, prever-se em que ponto da faixa se imagina estar. A Tabela com
a indicação das obras e suas características torna mais física a comparação da obra por executar com as
anteriormente diagnosticadas. E, finalmente, a disponibilização de ferramentas de auxílio à previsão base-
adas em avaliação estatística acrescenta confiabilidade ao processo.

7.3. M O D E L O S DE P R E V I S Ã O D O S C O N S U M O S E PERDAS DE MATERIAIS

Sem a pretensão de esgotar o assunto (até porque cada empresa ou profissional pode desenvolver seus
próprios procedimentos para subsidiar a previsão do consumo de materiais), apresentam-se três mode-
los de previsão do C U M , aqui denominados: tradicional; inovador; e analítico. Imagina-se que tal
discussão permita uma avaliação crítica, por parte do leitor, no sentido de auxiliá-lo na escolha do
formato que acreditar ser o mais conveniente para cada situação que vivenciar num futuro trabalho; no
mínimo, imagina-se fomentar o debate quanto às vantagens e desvantagens do eventual modelo sendo
adotado e quanto aos caminhos alternativos que podem ser trilhados.

7.3.1. Modelo de previsão tradicional

Adotado pela maior parte dos manuais de orçamentação nacionais e estrangeiros, e também pelas
empresas que diagnosticam e registram os valores do C U M para suas obras, o Modelo Tradicional apre-
senta as seguintes características:

• trabalha com valores médios de C U M ;


• deveria ser periodicamente atualizado para refletir as eventuais alterações dos desempenhos
vigentes no mercado;
• os valores médios de C U M apresentados vem, muitas vezes, acompanhados da indicação de
algumas características do serviço a que estariam associados;
• é bastante inteligível e fácil de utilizar;
• trata-se do modelo mais difundido entre os profissionais que trabalham com previsão de consumo;
• possuem a deficiência de somente fornecer o valor médio do C U M (e, portanto, de não dar
flexibilidade ao responsável pelo prognóstico) e de não explicitar as influências que ciferentes
características do serviço possuem sobre o C U M esperado.

A Figura 7.15 ilustra, para o caso de execução de alvenaria de vedação, o tipo de informação disponível
num manual de orçamentação (TCPO 2000) seguindo o Modelo Tradicional de previsão. Note-se que o
valor mostrado para o consumo de blocos ( C U M ) é um valor médio, que procura, na visão dos
elaboradores do manual, representar a situação média vigente no mercado. A descrição do serviço
embute a citação de algumas características que influenciam o consumo (por exemplo, neste caso, a
citação da espessura da junta de assentamento de 10 mm). Note-se que o valor de C U M , de 13,13
unidades por metro quadrado assente, significa uma consideração de perda de 5 % , já que, neste caso,
seriam teoricamente necessários apenas 12,5 blocos para compor I irr de alvenaria.

Componentes unid. consumos


Dimensões (cm)
6.7 x19 x 39 9x 19 x 39
Espessura da parede sem revestimento (cm)
6.7 9
04221.005 04221.004
Argamassa 1:1:5.5 m' 0.0053 0.0069
Bloco de concreto un 13.13 13,13
Andaimes
Pedreiro h 0.66 0.66
Servente h 0.66 0.66

Figura 7.15. C U M de blocos de concreto na execução de paredes de alvenaria (TCPO 2000).


7.3.2. Modelo de previsão inovador

Visando incrementar o nível de informação contido na apresentação de dados históricos do C U M , o


Modelo Inovador caracteriza-se por:

• apresentar a faixa de valores de C U M (em lugar de somente citar o valor médio);


• indicar os fatores que favorecem um aumento ou uma diminuição dos valores previstos para o C U M ;
• exigir, do responsável pelo prognóstico, uma tomada de decisões sobre onde localizar o valor
de C U M ao longo da faixa proposta, demandando, portanto, a definição prévia de uma expec-
tativa quanto à presença ou não dos diferentes fatores influenciadores que acompanham a faixa
de valores do C U M ;
• dar flexibilidade e maior confiabilidade à previsão, na medida em que permite determinar-se
um valor de C U M coerente com as características do serviço sendo analisado.

A Figura 7.16 ilustra, para o caso da argamassa utilizada no revestimento de paredes internas, o tipo de
informação disponível num manual de orçamentação (TCPO 2003) seguindo o Modelo Inovador de previ-
são. Note-se que a faixa de valores dc C U M parte de um valor mínimo de 0,0073, chegando ao máximo de
0,0741 m 3 de argamassa por m 2 revestido, o que representa uma variação de quase 1000%; tal constatação
da variação vigente no mercado, por si só, já serviria para demonstrar a importância de se adotar um método
que permita ajustar a previsão do C U M às características de cada obra, na medida em que as discrepâncias
ixxiem ser grandes demais para se contentar em adotar, pura e simplesmente, um valor médio do mercado.
Indica-se, ainda, o valor central da faixa, através da citação da mediana dos C U M históricos. Os fatores
influenciadores citados abrangem causas, origens e caracterizações relevantes para as possíveis perdas
detectáveis neste serviço; a expectativa quanto a alguns deles demanda conhecer-se o projeto :1a obra (por
exemplo, o tipo de revestimento de piso que se vai adotar) e, quanto a outros, o processo de produção que
se imagina utilizar (por exemplo, o tipo de equipamento de transporte de argamassa que estará presente).

Min. = 0,0073 Med. = 0,0243 Máx. = 0,0741


Argamassa (mVm1)

Edifícios residenciais Edifícios comerciais


Edifícios para baixa rendi Edifícios de alto padrão
Alvenaria com com|>onentes regulares Alvenaria com componentes
geometricamente geometricamcnte irregulares
Existência de procedimentos de execução Não existem procedimentos de execução
de alvenaria de alvenaria
Revestimento de piso não-modular Revestimento dc piso modular
Paredes sem instalações embutidas Parede contendo instalações hidr. embutidas
Ambas as faces de paredes internas Faces internas dc paredes externas
Paredes |>equenas Paredes grandes
Reaproveitamento de argamassa quando Sem reaprovçitamento de argamassa quando
cai na aplicação cai na aplicação
Paredes a revestir sobre piso liso já cxccutado Parede sobre piso ainda não executado
Quantidade diária de trabalho elevada Pouca quantidade de trabalho diária
Aproveitamento total da argamassa misturada .Não é necessário usar toda a argamassa
misturada
Transixirte com equipamento-» e em Tr.inqvirlp v m of|iiip.irrw>nlf« nu r>m
vias adequados vias não adequados.

Figura 7.16. F«>ix«i dc valores do C U M de argamassa, na execução de eml>oço/massa única para paredes internas (TCPO 2003).

7.3.3. Modelo de previsão analítico

O Modelo de Previsão Analítico, conforme o nome indica, preconiza uma previsão baseada na obser-
vação cuidadosa de vários dos aspectos relacionados a uma expectativa maior ou menor de consumo
de materiais num dado serviço. Caracteriza-se por:

• decompor a tarefa de estimar o C U M em prognósticos parciais relativos a frações do indicador;


• estimar os consumos teóricos e as perdas envolvidos no uso do material em estudo;
• calcular as perdas globais como somatória das perdas ocorridas em diferentes etapas do proces-
so de produção, eventualmente (em função do tipo de material em estudo) distinguindo as
naturezas percentuais das mesmas (frações representadas pelo entulho e a incorporação, por
exemplo, no caso de argamassas);
• ter o prognóstico de cada uma das frações de perda balizado nas expectativas quanto a origens
e causas presentes nas concepções do produto e do processo de produção a ser implantado;
• exigir, em função das características citadas acima, um domínio maior, por parte do responsável
pela previsão, da percepção quanto ao produto e ao processo adotados;
• permitir que as características específicas do serviço influenciem a previsão;
• gerar maior consciência com relação aos fatores indutores de consumo, provavelmente facili-
tando a ocorrência de discussões que viabilizem futuras ações, do ponto de vista do projeto do
produto ou do processo de produção, visando à redução de consumos desnecessários;
• facilitar a utilização do prognóstico do consumo como subsídio para a organização da produ-
ção e seu controle.

Indica-se, a seguir, o raciocínio seguido pelo autor na definição cie um método para previsão analítico,
também para o caso do uso de argamassa para compor revestimentos internos de parede. Note-se que o
método pode ser mais bem entendido ao se perceber os passos que foram seguidos na sua concepção: o
consumo total foi quebrado em parcelas de consumo; tal quebra distingue as diferentes etapas do processo
de produção onde o consumo (eficiente ou ineficiente) pode ocorrer, além da natureza cias perdas existentes;
para cada parcela se definem os fatores que influenciam o consumo; define-se uma regra associando as
perdas/consumos a tais fatores; o consumo total é fruto da composição cios consumos parciais.

No que se refere a quebrar-se o consumo total em parcelas menores, a Figura 7.17 ilustra o raciocínio
adotado: a base (alvenaria) receberá uma camada cie "argamassa incorporada" (espessura efeal), relativa
tanto ao consumo teoricamente necessário (eT) quanto à perda incorporada (Ae); haverá uma parcela de
material que terá virado "entulho" nas proximidades do posto cie trabalho, tanto devido a ter-se material
que caiu ao chão e não foi aproveitado, quanto a se ter tido sobra de argamassa, no caixote cio pedreiro,
sem ser utilizada; haverá, também, perda por entulho, e eventualmente furto, ao longo das outras
etapas (recebimento, estocagem, dosagem/mistura e transporte) que precedem a aplicação final.

Etapas "pré-aplicação final"

Estocagem Dosagem
Recebi mento
mistura

- <V.ii = + Jo

Perda
incorporada

Figura 7.17. Momentos de incidência (e natureza) tias perdas/consumos de argamassa na execução <le revestimento interno de paredes.

Portanto, pode-se expressar o C U M através de:

argamassa incorporada + entulho na aplicação final + outras perdas


CUM =
nr nr' nr
A expressão «interior pode ser reescrita como:

CUM - í a r B a m a s s a incorporada + entulho na aplicação final\ ^


" \ ri m3 / X '

onde F representa um fator majorador da quantidade de argamassa necessária para abastecer a frente de
trabalho, fruto das perdas que podem ocorrer nas etapas anteriores.

Com base na reunião de um significativo conjunto de daclos históricos, sobre consumos de argamassa, foi
possível cumprir as etapas de apontamento dos fatores influenciadores e de definição de procedimentos
para se prognosticar consumos para cada uma das três parcelas citadas na expressão de cálculo do C U M .

Para o caso da argamassa incorporada por nr de revestimento, pode-se citar que:

• os valores de e r M l dos revestimentos variaram de 0,8 cm a 3,5 cm;


• os fatores considerados indutores de maiores ou menores incorporações estão indicados na
Tabela 7.1;

Tabela 7.1 Fatores que influenciam a quantidade incorporada de material na edificação.

FATORES COMENTÁRIOS
Uso previsto para a edificação A maior preocupação com cumprir prazos do que reduzir
consumos, leva a considerar que edifícios comerciais
induzem uma espessura maior de revestimento.

Padrão da edificação Edifícios de alto padrão levam a maiores espessuras de


revestimento, pois os clientes são mais exigentes quanto
a defeitos da base e, ainda, porque o custo da
sobrespessura não é tão relevante para o cliente.

Qualidade da alvenaria Alvenarias executadas com blocos ou tijolos de


qualidade inferior induzem um maior consumo de
argamassa de revestimento, a fim de corrigir a
não-conformidade dos materiais da base.

Existência de procedimentos/ Quando a vedação é mal executada, cabe ao


equipamentos auxiliares para revestimento "encobrir" as falhas desse serviço.
execução da vedação

Tipo de revestimento de Quando as faces das paredes a serem revestidas encontram-se


piso do ambiente em um ambiente com revestimento de piso modular, há uma
necessidade maior de perpendicularidade entre as faces verticais
que pode induzir o aumento de espessura desse revestimento.

Espessura da viga superior A exigência de inexistência de "dentes" na face revestida, quando


comparada com a espessura a parede se localiza sob viga de maior espessura, leva ao
da parede aumento da espessura do revestimento.

Existência de instalações na Quando o revestimento está em contato com instalações, há muitas


parede a ser revestida vezes um consumo adicional de argamassa para "escondê-las".

Parede revestida faz parte da O prumo da fachada e a posição dos contramarcos nas aberturas
vedação externa são "acertados" com base na face externa da alvenaria, o que induz,
muitas vezes, maiores espessuras de revestimento da parede interna.

Área a ser revestida Considera-se que há uma maior possibilidade de variação de


espessura quanto maior for a área a ser revestida. Áreas de 12 m 2
seriam o limite entre uma face pequena e outra considerada
grande.
• Podem-se utilizar de 2 diferentes caminhos para se estimar sua grandeza: analisando parede a
parede; ou assumindo uma expectativa baseada numa avaliação global das características do
edifício. O Quadro 7.5 ilustra os procedimentos propostos.

Quadro 7.5. Procedimentos para estimativa do volume de argamassa incorporada por n r revestido

I lá duas formas de se prever o material incorporado ou a espessura real do revestimento. A primeira


delas é através de um processo detalhado, parede a parede; a segunda diz respeito à proposição de um
número médio para o edifício como um todo.

I"1 O P Ç Ã O - Processo detalhado por parede

A espessura real do revestimento de uma parede varia de 0,8 cm a 3,5 cm, conforme faixa abaixo
indicada. Para a obtenção da espessura real prevista para uma certa parede (ou um conjunto delas),
parte-se do valor mínimo desta faixa e se faz um acréscimo, que é definido como função dos fatores
influenciadores anteriormente citados.

Faixa de variação da espessura real de revestimento interno de argamassa.

0,8 cm 3,5 c m
M •

A tabela da página seguinte associa pesos a cada fator analisado; a espessura real é obtida conforme
exposto nas equações a seguir:

e = valor mínimo da faixa supracitada + S ? x (valor máximo da faixa - valor mínimo da faixa)
real ]Q

e =0,8 + — x (3,5-0,8)
«Ml <ctn> ^q

e = 0,8 + 0,27 x I p
real (cm)

onde I P é o somatório dos pesos, conforme propostos na tabela seguinte.


Peso de cada fator que faz a espessura real do revestimento interno variar.

Fatores Pesos (P)


O edifício é comercial? Sim + 1,5
Não +0,0

O edifício é dc alto padrão? Sim + 1,5


Não +0,0
Os blocos utilizados para vedação são de qualidade inferior? Sim +1,5
Não +0,0
Existem procedimentos de execução de vedação e equipamentos auxiliares? Sim +0,0
Não + 1,0
O ambiente a revestir tem piso modular? Sim +0,5
Não +0,0
A largura da viga é maior que a espessura da parede a revestir? Sim + 1,5
Não +0,0
A parede a revestir é de vedação externa? Sim +1,0
Não +0,0
A face a revestir tem contato com instalações? Sim + 1,0

Não +0,0
A área a revestir é grande (superior a 12 m2)? Sim +0,5
Não +0,0

2"1 O P Ç Ã O - Número médio para o edifício como um todo

Definem-se 3 faixas de variação da espessura real, em função do tipo de edifício e do seu uso, con-
forme exposto a seguir:

Faixa de variação das espessuras reais esperadas para diferentes edifícios.

2,0 cm 3,0 cm
Edifício comercial •
4

2,5 cm 3,5 cm
Edifício residencial de alto padrão •
4

1,0 cm 2,0 cm
Edifício residencial de padrão popular •
4

Observe-se que, para se situar dentro de cada faixa citada, pode-se basear, como referência, na expec-
tativa quanto à predominância ou não das situações citadas na tabela que foi utilizada para o cálculo
detalhado. O cálculo do material incorporado, em litros/m2, é igual ao valor da espessura real, em
centímetros, multiplicado por 10.
Para o caso do entulho por nr revestido, gerado nas atividades relativas à aplicação final da argamassa,
pode-se citar que:

• o banco de dados atual contém valores variando de 0,01 a 4,4 litros por nr;
• os fatores considerados indutores de maiores ou menores quantidades de entulho, na aplicação
final, estão indicados na Tabela 7.2;

Tabela 7.2. Fatores que influenciam a geração de entulho.

Fatores Comentários

Existência de política de A existência de diretrizes pré-definidas, para o reaproveitamento


reaproveitamento da argamassa da argamassa que cai durante a aplicação, leva à geração de uni
que cai durante a aplicação volume menor de entulho.

Base horizontal do ambiente A possibilidade de recolhimento do material que cai é maior


onde o revestimento está sendo quando o ambiente revestido já tem contrapiso ou sua laje é do
executado tipo "acabada", o que resulta em menor quantidade de entilho.

Espessura do revestimento Considera-se que quanto menor a espessura do revestimento,


menor a quantidade de entulho gerado.

Tamanho da área diariamente Considera-se que quanto maior a área a ser revestida, menor a
revestida por oficial relevância de eventual sobra de material nos finais de jornada
de trabalho (áreas superiores a 18 m2 por oficial por dia são
consideradas grandes).

Finalização do serviço Quando existe, na empresa, uma diretriz para que o serviço só
termine quando toda a argamassa, presente nas m asse iras, for
utilizada, tem-se uma probabilidade de geração de menor
quantidade de entulho.
• o Quadro 7.6 ilustra o procedimento proposto para avaliar-se a grandeza do entulho esperada.

Quadro 7.6. Estimativa de entulho, por nr1 revestido, gerado na aplicação final da argamassa.

A faixa de variação do entulho gerado é apresentada na figura a seguir:

Faixa de variação do entulho gerado na execução de revestimento interno.

0,0 l/m2 4,4 l/m2


< •

A escolha de um valor, dentro da faixa, é baseada na avaliação dos fatores inílucnciadorcs, cita-
dos anteriormente, aos quais se atribuem pesos. O consumo de argamassa devido à geração de
entulho (E), previsto para uma obra, é função do somatório dos pesos obtidos (conforme proposto
na tabela abaixo).

Peso de cada fator, para a previsão do entulho de argamassa gerado.

Fatores Pesos (P)

Existe política expressa para reaproveitamento de argamassa? Sim +0

Não +5

A base favorece o recolhimento? Sim +0

Não +2

A espessura do revestimento é baixa (< 1 cm)? Sim +0

Não +2

O serviço só é finalizado quando a argamassa termina? Sim +0

Não +0,5

A área diária revestida por operário é grande (superior a 18 m2)? Sim +0

Não +0,5

Calcula-se o entulho gerado através da seguinte expressão:


yp
E = valor mínimo da faixa (figura acima) + — x (valor máximo da faixa - valor mínimo da faixa)
10

E (l/m2) = 0 + ^ x 4 , 4 = 0,44 x 2>


Quanto ao fator majorador F, relativo às perdas ocorridas previamente à aplicação final:

• os dados históricos indicaram diferenças associadas aos fatores dosagem e transporte, conforme
citado na Tabela 7.3;

Tabela 7.3. Fatores que influenciam a perda na dosagem e transporte do material.

Fatores Comentários
Local da dosagem A dosagem fora do canteiro elimina a possibilidade dc
perdas nessa etapa.

Cuidados no transporte Quanto menor o cuidado, maior a perda.

• sugere-se o procedimento indicado no Quadro 7.7 para balizar a expectativa quanto ao valor
do fator F.

Quadro 7.7. Atribuição de valor para F.

Para cálculo do consumo adicional de material nas etapas de recebimento, dosagem e transporte, utili-
zam-se fatores de majoração. Para o caso de argamassa ensacada ou em silo, adota-se o valor de 6 % ;
para o caso de argamassa produzida em obra, o fator de majoração é igual a 11%. Tais valores são frutos
da análise dos dados históricos reunidos em diversas pesquisas anteriormente citadas neste livro.

O C U M total estimado, conforme já citado, é obtido pelo somatório da quantidade incorporada e da


quantidade de entulho estimadas, majorado em função cia expectativa de consumo nas etapas de do-
sagem e transporte.

RESUMO

• Entender o consumo de materiais, em serviços de construção, exige dois diferentes tipos de


conhecimento: a explicação de consumos medidos, com base nos fatores influenciadores pre-
sentes, em casos reais vivenciados (DIAGNÓSTICO); e a previsão do consumo, esperado para
um novo caso ainda não acontecido ( P R O G N Ó S T I C O ) .

• O uso de posturas mais analíticas, isto é, que contemplem as diferentes partes do fenômeno
envolvido num maior ou menor consumo de materiais, como regra geral, melhora o diagnósti-
co e fortalece o prognóstico.

• A demanda por materiais, num serviço a ser realizado, pode ser estimada: prevendo-se direta-
mente a quantidade total; prognosticando o consumo unitário ( C U M ) que, multiplicado pela
quantidade de serviço, levaria à demanda total; trabalhando com expectativas relativas a frações
do C U M que, compostas, gerariam o C U M a ser multiplicado pela quantidade total de serviço.

• Uma das maneiras de perceber a possibilidade de fracionar-se o C U M é lembrar que a quantidade


de material, demandada por um serviço, é composta de uma parte teoricamente necessária, isenta
de perdas (que se associa ao consumo unitário teórico, C U M t ) , e de outra, associada à ocorrência
de perdas (constituindo o consumo unitário relativo a ineficiências, CUMmcf ).

• Enquanto o CUMt é definido com base na concepção do produto (projeto e especificações), o


CUMmeí. sofre influências do próprio projeto do produto (na medida em que este favoreça ou
não causas de manifestações de perdas), mas também das características esperadas para o pro-
cesso de produção.
• O C U M pode ser calculado como: C U M r + CUMmcí.Pode, também, ser reescrito como:
C U M T x (1 + IP/100). Portanto, a estimativa do C U M pode se basear nas expectativas de C U M ,
e das perdas na produção.

• Tais perdas podem ocorrer em diferentes etapas do processo de produção; em cada etapa po-
dem-se ter manifestações diferentes; cada manifestação pode se dar segundo diferentes nature-
zas e pode ser devida a distintas causas, que podem, também, ter origens variadas.

• Um modelo de previsão torna-se mais rico ao se aplicar um raciocínio partindo das origens e
causas esperadas para chegar até a quantificação das perdas. O valor calculado das perdas,
associado à quantificação do C U M r , leva ao C U M previsto.

• Seria desejável a ocorrência de um círculo virtuoso relativo à discussão do consumo de materiais:


o uso de um modelo de previsão subsidiaria a estimativa de demanda para um serviço por execu-
tar; o diagnóstico do consumo real, durante a execução do serviço, seria seguido de unia confron-
tação entre os valores previstos e os detectados; as discrepâncias seriam discutidas, não somente
com o intuito de ajudar na gestão, mas também para fins de eventuais melhorias no método de
previsão a ser utilizado em novo ciclo.

• Os modelos de previsão podem variar: quanto ao nível de decomposição adotado na previsão


do C U M (pode-se estimá-lo diretamente, ou estimar frações do mesmo a serem compostas); e
quanto à intensidade da abordagem analítica.

• Em termos da abordagem analítica, o C U M , é estimado diferentemente em função do tipo de


material em estudo (por exemplo, o consumo teórico é de: 1 kg de aço por kg de armação;
menos de 1 nv; de concreto usinado para cada m J de estrutura; e 12,5 blocos de 19 x 39,
assentes com juntas de 1 cm, para cada m 2 de alvenaria); as perdas podem ser estimadas levan-
do-se em conta a prévia detecção dos fatores influenciadores que, se imagina, estarão presentes.

• Os modelos de previsão podem ser usados em diferentes contextos, definidos em termos: do


momento da previsão; das informações disponíveis; e das referências de perdas/consumos adotadas.

• Quanto ao momento da previsão, pode-se referir: à fase de estudo de viabilidade; ao momento


de elaboração de uma proposta para execução do serviço; à ocasião das discussões pré-execu-
ção; ou à fase de discussões que ocorrem durante a execução do serviço.

• Quanto à riqueza das informações disponíveis sobre o serviço que deverá ser executado, pode-
se ter: somente idéia quanto à tipologia da obra; o anteprojeto elaborado; o projeto executivo
finalizado; o projeto para a produção disponível.

• Quanto às referências para a definição dos valores de perdas/consumos, há diferenças quanto: à


fonte/proveniência das mesmas; e às formas de organizar/apresentar as mesmas. Quanto à fonte/
proveniência, podem-se basear em: opiniões pessoais sobre as perdas/consumos; banco de dados da
empresa; dados representativos do mercado. Quanto às diferentes formas de organizar/apresentar as
referências de C U M , pode-se fazer uso: de valores médios; de faixa de valores (abrangendo os
valores mínimo, mediano e máximo); de faixa associada à citação de fatores majoradores e minoradores
de perdas/consumos; de tabela de registros de obras, conjugadas aos valores de C U M e aos fatores
presentes; de procedimentos associando matematicamente os fatores aos valores de CUM.

• Podem-se classificar os modelos de previsão vigentes em: tradicionais; inovadores; e analíticos.

• Quanto aos modelos tradicionais: trabalham com valores de C U M sem decomposição; adotam
valores médios; representam um caminho inteligível e fácil de aplicar; não apresertam flexibi-
lidade para adaptar o valor prescrito às características particulares de uma obra.
• Quanto aos modelos inovadores: trabalham com valores de C U M sem decomposição; apresen-
tam faixa de valores associada à indicação dos fatores majoradores e minoradores do CUM; são
flexíveis em termos de se permitir considerar as características de uma certa obra na previsão;
exigem posicionamento, do responsável pela previsão, na adoção do CUM.

• Quanto aos modelos analíticos: trabalham com o C U M decomposto; tal decomposição pode
ser feita de diferentes maneiras (em função das etapas do processo de produção, da natureza das
perdas etc.); são mais precisos e podem ser mais representativos de cada situação particular de
obra; demandam maior envolvimento e conhecimento de parte do responsável pela previsão;
criam maior compromisso da previsão com o projeto e a produção.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Você foi incumbido da composição de modelos de prognóstico de consumos unitários de materiais, na


produção de serviços de construção, numa empresa que produz obras de edifícios. Para tanto, imagina-se
que você, para o(s) mesmo(s) material(is)/serviço(s) escolhidos nas "atividades complementares" do capítu-
lo 6 (para o(s) qual(is) foi elaborado um diagnóstico das perdas/consumos), conceba e implemente cami-
nhos para previsão, para poder subsidiar decisões relativas a próximas obras onde tal serviço ocorrerá.

Para cumprir sua tarefa, solicita-se que você:

a) componha um método tradicional de previsão, com base em dados históricos e/ou opiniões
pessoais, e o compare com manuais de orçamentação disponíveis.

b) componha um método inovador, também com base em dados históricos e/ou opiniões pesso-
ais, apontando os valores mínimo, mediano e máximo esperados para a faixa de CUM, além de
associar aos valores mínimo e máximo os fatores que os induzem.

c) elabore um método analítico, principiando pela decomposição das etapas do fluxograma rela-
tivas ao material/serviço em estudo, e chegando até a sugestão de procedimentos que permitam
o cálculo do C U M a partir da suposição das causas e origens mais relevantes presentes.

d) discuta os 3 métodos produzidos quanto ao processo de elaboração do prognóstico: a quem


deveria ser atribuída a tarefa de previsão; quando tal previsão poderia/deveria ser feita; com
base em quais tipos de informação se deveria trabalhar; com quem se deveria interagr.

e) Escolha o(s) método(s) a ser(em) utilizado(s) e elabore, formalmente, os procedimentos para sua
implementação.
A MELHORIA CONTÍNUA NA PRODUÇÃO E A
INSERÇÃO DA DISCUSSÃO DO CONSUMO DE
MATERIAIS NA VIDA DO EMPREENDIMENTO

Tendo por foco o consumo de materiais nos canteiros de obras, os capítulos anteriores principiaram a
discussão do assunto pela apresentação do cenário vigente na Indústria da Construção, seguiram defi-
nindo e classificando as perdas e os consumos unitários de materiais e, finalmente, preocuparam-se
com o diagnóstico e o prognóstico da demanda por materiais nas obras de construção. C o n tudo isto,
imagina-se ter dado subsídios para a melhoria da gestão do consumo de materiais nos serviços que
tomam parte da produção de obras civis.

Para complementar esta discussão, este capítulo propõe uma postura visando à melhoria da produção,
com base na busca da melhoria contínua da eficiência no uso dos materiais, e, ao seu final, procura
inserir a preocupação quanto ao consumo de materiais nas demais fases que compõem a vida dos
empreendimentos.

8.1. A GESTÃO DO CONSUMO DE MATERIAIS COMO INSTRUMENTO PARA A CONTÍNUA


MELHORIA DO PROCESSO DE PRODUÇÃO

Embora as chances de sucesso de quaisquer atividades que se proponha a fazer dependam fortemente
de um bom projeto e de uma boa programação, este autor acredita que um bom controle da produção
seja também um ponto importante de ser ressaltado. Em particular na Construção Civil, indústria extre-
mamente complexa, onde o processo se modifica ao longo da elaboração do produto, o controle torna-
se, também na opinião do autor, ainda mais relevante.

Dentro do cenário exposto - e partindo-se da hipótese de que um bom projeto foi elaborado - preco-
niza-se aqui a implementação de um acompanhamento contínuo do consumo de materiais como ins-
trumento para auxiliar no controle da produção, visando à melhoria contínua. O caminho proposto
baseia-se num método bastante difundido, quando se busca a melhoria contínua, qual seja, o uso do
ciclo PDCA.

A sigla, em inglês, representa: P de "plan" (programar); D de "do" (executar); C de "contrai" (controlar);


e A de "action" (ação). A Figura 8.1 ilustra, genericamente, o ciclo PDCA, que representa o caminho
proposto para a gestão do consumo dc materiais nos canteiros.

Figura 8.1. Apresentação genérica do ciclo PDCA.

Como reduzir |»erdas nos canteiros


Com base em todo o conhecimento desenvolvido com relação ao consumo de materiais, e a partir do
projeto do produto a ser elaborado, a atividade de "programar" envolveria a concepção da produção
(abrangendo a discussão dos recursos necessários - materiais, mão-de-obra e equipamentos/ferramen-
tas - e da sua organização na obra) e, a partir (ias condições preconizadas pelos projetos do produto e
do processo, a elaboração de um prognóstico quanto ao consumo unitário de materiais. O processo de
produção seria, então, implementado (etapa de "execução") com base no que foi programado. O "con-
trole" diria respeito à avaliação do consumo unitário de materiais vigente e das condições reinantes
(relacionadas a causas, origens e natureza de eventuais perdas detectadas). A "avaliação" seria represen-
tada pelo confronto destas informações com aquelas previstas na etapa de "programação". Como resul-
tado desta comparação, poder-se-iam tomar decisões relativas à alteração ou não das condições vigen-
tes ("reprogramação") ou, ainda, alterarem-se as expectativas quanto ao consumo unitário.

O Quadro 8.1 descreve uma experiência, vivenciada pelo autor, na implementação de um PDCA visan-
do à minimização dos consumos desnecessários em obra, na construção de um conjunto de edifícios na
cidade de São Paulo.

Quadro 8.1. Implementação de gestão contínua do consumo de materiais.

A partir da solicitação do Diretor Técnico de uma construtora paulista, preocupado em reduzir os desper-
dícios de materiais nos canteiros de obras de sua empresa, este autor implementou (ao longo de algumas
semanas) a gestão contínua do consumo de materiais em alguns serviços, presentes na construção de um
conjunto habitacional para classe de renda média, constituído por 7 torres, com número de andares
variando de 15 a 17. Dentre os serviços contemplados, descreve-se aqui a experiência relativa aos blocos
usados na alvenaria de vedação de uma das torres (a primeira a ser executada) do empreendimento.

O processo de implementação abrangeu um encontro para sensibilização quanto ao tema e elaboração


da programação inicial, seguido de reuniões, com periodicidade semanal, onde, tendo-se disponível o
diagnóstico cia perda semanal relativa aos blocos utilizados, se discutiam ações a serem adotadas para
melhorar o desempenho.

Quanto à reunião inicial:


• esta teve a presença do Diretor Técnico e do Coordenador de Obras da empresa, do Engenheiro
Responsável pela obra, do mestre da construtora e dos responsáveis pelo serviço de alvenaria
(subempreitado);
• visando à sensibilização dos envolvidos, os conceitos relativos a perdas/consumos foram apre-
sentados, bem como a relevância (sob os pontos dc vista ambiental e econômico) de se minimizar
consumos desnecessários de materiais;
• com base na discussão da faixa de indicadores de perdas vigente para o caso dos componentes
para alvenaria de vedação (mínimo de 3 % e máximo de 4 8 % , para as obras analisadas até
aquele momento) e dos fatores (causas e origens) associados aos números apresentados, debate-
ram-se os caminhos a serem trilhados para a organização do trabalho nesta obra;
• com base nas definições anteriores, estabeleceu-se a expectativa de perdas a ser adotada (note-
se que, quanto a esta definição, buscou-se um compromisso ao mesmo tempo ousado mas
factível, para não se correr o risco de definir-se uma meta tão fácil que não motivasse, nem uma
tão difícil que se tornasse impossível de ser atingida);
• como meta, ficou estabelecido que se buscaria uma perda menor ou igual a 3 % (valor mínimo
da faixa de valores usada na época).

Quanto às tarefas a cumprir, as perdas de blocos eram avaliadas semanalmente (em geral, no início da
manhã das sextas-feiras), adotando-se um método expedito (idêntico ao descrito anteriormente no Quadro
6.6). Em seguida a tal coleta e ao imediato processamento (o trabalho de coleta de dados e cálculo da
perda demandava por volta de 1 hora), fazia-se a reunião para a avaliação e eventual reprogramação
do serviço. A tabela a seguir apresenta os indicadores de perdas calculados para as 5 semanas iniciais cio
serviço. A perda ao final da primeira semana foi bastante baixa, o que, imagina este autor, tenha sido
reflexo, além <Jo fato de se terem seguido as diretrizes iniciais traçadas para a execução, da conscientização
para a redução das perdas gerada pela reunião de sensibilização; como resultado da reunião se acordou
manterem-se as condições vigentes. No entanto, a perda aumentou muito na segunda serrana, prova-
velmente devido à intensa troca de operários que ocorreu sem o concomitante treinamento e
sensibilização dos novos ingressantes; decidiu-se por melhorar o treinamento de ingresso, tanto do
ponto de vista dos aspectos técnicos do serviço quanto da importância da redução de desperdícios de
materiais. O resultado foi sentido ao final da terceira semana, quando o indicador de perdas voltou para
patamares desejáveis. Ao final da quarta semana detectou-se novo aumento das perdas, o que foi atribu-
ído a uma falha no projeto de modulação da alvenaria (persistia uma necessidade, ainda elevada, de
cortes de blocos cm certas regiões da parede), o qual foi corrigido, logo após o encontro, pelo enge-
nheiro da obra. O valor, na semana seguinte, voltou a níveis bastante agradáveis. Como balanço destas
5 semanas, alcançou-se um valor de perdas (3,21%) bastante próximo da meta definida (3%), a qual
seria buscada ao longo do restante do empreendimento.

Indicadores de perdas semanais e comentários sobre os valores ocorridos.

Verificação Perdas ( % ) Observações


1 0,60 Efeito de sensibilização

2 6,51 Rotatividade de operários


sem treinamento adequado

3 1,65 Treinamento admissional


(técnico e de sensibilização)

4 3,80 Número de blocos cortados


elevado

5 1,71 Alterações do projeto e


modulação

Balanço geral 3,21

Além das ferramentas já apresentadas neste livro, para apoio às discussões necessárias ao longo da implementação
da gestão contínua do consumo de materiais (tanto no canteiro de obras quanto na empresa de um modo
geral), podem-se citar várias outras, das quais serão comentadas, sucintamente, as aqui denominadas: ferra-
mentas da qualidade; e critérios para tomada de decisão com relação ao processo de produção.

Quanto às ferramentas da qualidade, podem-se citar:

• o "Brainstorming" (ou "tempestade de idéias"), técnica que pretende induzir a geração de idéias
(Figura 8.2.a), por parte de um grupo, procurando incentivar seus integrantes a emitir, inicial-
mente, o maior número de opiniões (não censuradas neste momento), para, num segundo mo-
mento, contar com várias alternativas a serem analisadas na busca de uma resposta para a
questão inicial.

• as Folhas de Verificação (Figura 8.2.b), que subsidiam as discussões na medida em que, tendo-se
preparado previamente uma lista de aspectos a serem contemplados, se discutem tais itens, ao
longo do processo de tomada de decisões, para checar se algum deles deixou ou não de ser
cumprido.

• o Digrama de Causa e Efeito (Figura 8.2.c) em que, na montagem de uma figura com a forma de
espinha de peixe, os envolvidos na discussão de um problema vão apontando, organizadamente,
os eventuais motivos para um certo problema.
• o Diagrama de Pa reto (Figura 8.2.d), através do qual se pode perceber a importância relativa
dentre vários itens.

• o Gráfico de Tendências (Figura 8.2.e), que permite discutirem-se, por exemplo, tendências de
um certo fenômeno avaliado por um certo indicador.

• o 5VV1II (Figura 8.2.0 que, como meio para orientar uma discussão, sugere que se busquem
respostas às questões: "o que" (em inglês, "what"), "quem" (em inglês, "who"), "onde" (em
inglês, "where"), "quando" (em inglês, "vvhen"), "por que" (em inglês, "vvhy") e "como" (em
inglês, "how").

O projeto não Os operários Construção


estava pronto não tomaram civil é assim
no início o cuidado devido mesmo!
da obra com os materiais

X
Foi culpa do
fornecedor!

Por quê?

Folha de referência de aspectos a contemplar na discussão de perdas


Foi contemplado?
Tema
Sim Não
Tipo de manifestação
Natureza da manifestação
Causa
Origem
Quantificação
Custos
Responsabilidade
Facilidade do combate

c) Método Mão-de-obra Equipamento

Latas não completamente \ Pintor não treinado \ Uso de rolo \


utilizadas não são adequadamente muito grosso
adequadamente \ quanto ao momento \ Consumo excessivo
vedadas e guardadas V da aplicação 1 de tinta de
acabamento na
Estoque inadequado J Aquisição de pintura interna
das tintas (sob o sol tinta com baixa* de paredes
e com fácil acesso / capacidade
a estranhos) / de cobertura
Organização Material
d) Valor das perdas para diferentes materiais
( % em massa ou volume)

Argamassas Gesso
I
Componente
i
Concreto
de alvenaria usinado

e) Consumo unitário de argamassa de assentamento apropriado, semanalmente


(kg de argamassa industrializada por m 2 de alvenaria)

20

15

10
• Semana a semana
5 Acumulado

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Semana

o r
- O que gerou um consumo de argamassa tão elevaco?
- Quem executou este serviço? E conveniente pensar
em trocar a mão-de-obra?
- Qnde O consumo foi maior:
nas paredes de áreas molhadas ou de áreas secas?
- Quondo se notou o aumento do consumo:
antes ou após a mudança do fornecedor?
- Por que o projeto prescreve espessura mínima de 2 cm?
- Como é o processo de projeção:
manual ou mecânico?

Figura 8.2. A l g u m a s fcrr.inv?nla$ da q u a l i d a d e : a ) " b r a i n s t o r m i n g " ; b ) f o l h a s verificação; c) diagr d o causa o efeito; d )

diagrama d<* P a r d o ; e) gráfico <k> l e n d ê n c i a s ; 0 5 W 1 M .

Quanto aos critérios, para tomada de decisão, relativos a modificações no processo de produção
visando à redução de perdas, há que se ressaltar que, assim como acontece em vários outros tipos de
decisão, normalmente se pretende alcançar uma situação melhor (e, portanto, caracterizada por um
certo BENEFÍCIO), às custas de alguma modificação, que pode demandar algum tipo de Ô N U S . E,
portanto, diferentes alternativas de ação podem estar associadas a diferentes relações BENEFÍCIO-ÔNUS.
Mais que isto, cada uma das alternativas pode ter maior ou menor FACILIDADE DE IMPLEMENTAÇÃO
e, eventualmente, alterar a Q U A L I D A D E D O P R O D U T O obtido. Quanto aos benefícios esperados,
estes podem ser avaliados em termos da redução de consumo de materiais esperada; no que se refere
aos ônus, há que se avaliar o investimento necessário para, por exemplo, alteração dos materiais, acrés-
cimo no treinamento de mão-de-obra ou disponibilização de novos equipamentos para se alcançar a
situação melhorada. Quanto à facilidade de implantação, há que se ponderar a respeito, por exemplo:
do tempo demandado para que se implantem as modificações pretendidas e da aceitação ou não de tais
modificações pelos executores. Há que se posicionar, também, quanto à expectativa por uma eventual
alteração do padrão de qualidade alcançado. Portanto, uma vez atribuídos pesos a cada um destes
aspectos, a serem considerados numa decisão, a alternativa a ser escolhida (pode-se optar, inclusive,
por não se alterar a situação vigente) poderá ser aquela de melhor nota ponderada quanto aos vários
aspectos citados, conforme ilustrado na Tabela 8.1.

Tabela 8.1. Exemplo de avaliação e ponderação de quesitos, para balizar a tomada de decisões quanto
a alterações do processo de produção, visando à redução do consumo de materiais.

Notas (0 a 10) para cada alternativa em cada quesito


Quesito Peso Situação vigente Alternativa Alternativa Alternativa
(%) A B C
Balanço 50
Benefício X
ônus

Facilidade de 30
implementação

Padrão de 20
qualidade do
produto esperado"

I (Peso i x Nota i)

* condição obrigatória = superar os padrões mínimos estabelecidos.

8.2. O C O N S U M O DE MATERIAIS E AS DIVERSAS ETAPAS DE U M E M P R E E N D I M E N T O

Existem diversas maneiras de se representar a seqüência de fases que constituem um empreendimento;


a Figura 8.3 ilustra aquela que será usada na presente discussão.

Figura 8.3. Fases que compõem um empreendimento.


A gestão do consumo de materiais pode influir, e ser influenciada, por todas estas fases (e não somente
dizer respeito ao momento da execução do serviço, para o qual se tem um determinado material, com
seu C U M , sendo analisado).

No que se refere ao estudo de viabilidade, a melhoria dos indicadores de consumo unitário pode
favorecer a consecução de maior precisão na análise de uma oportunidade de negócios; isto ficou
particularmente evidenciado quando se detectou que os níveis de variação de perdas podem significar
acréscimos de custos, para uma obra, da ordem de 5 % (vide capítulo 4). Cabe lembrar que a tipologia
do empreendimento pode influenciar bastante as perdas e, conseqüentemente, o custo das obras.

Durante o projeto, o entendimento do consumo de materiais poderia ser usado como instrumento para o
balizamento da concepção e da definição das especificações. Isto é evidente na medida em que, conforme
discutido no capítulo 3, além de as perdas poderem ocorrer no próprio projeto, este pode ser origem de
muitas perdas que se manifestam durante a produção da obra. Relembre-se que, no capítulo 7, se enfatizou
a im|x>rtância da análise do projeto para se prever o C U M ; o raciocínio em sentido inverso poderia ser
usado, isto é, poder-se-iam ter diretrizes de projeto que conduzissem à expectativa de minimização do
consumo. Outro aspecto, além da concepção propriamente dita, que não pode ser esquecido quanto aos
projetos, diz respeito à forma e detalhamento da apresentação, tendo em vista que falhas neste aspecto
podem induzir erros na produção e, conseqüentemente, majorar o consumo de materiais.

Dentre as atividades abrigadas pela fase de Planejamento, (xxlem-se citar o planejamento geral da obra,
envolvendo, direta ou indiretamente, o consumo de materiais, definindo os momentos de sua necessidade
e a interferência existente entre diferentes serviços. Tudo isto pode influenciar (e ser influenciado) pela
análise dos consumos esperados. No âmbito ainda do Planejamento, talvez a tarefa cie mabr interação
com a gestão do consumo seja o Orçamento, que pode ser visto com uma importância que vai muito além
da simples estimativa do custo total de uma obra. O orçamento é, na verdade, uma das atividades de
planejamento relativas ao uso de recursos na obra; assim é que, enquanto baseado em incicadores de
consumo unitário de materiais, o orçamento é uma ferramenta poderosa dentro do raciocínio de progra-
mação (o C U M inserido na composição unitária representaria a previsão, majorada ou não, cio consumo)
c de controle (serviria como referência para a comparação dos indicadores apropriados durante a execu-
ção e, portanto, como balizador das tomadas de decisão relativas à gestão do consumo durante a produ-
ção). O Orçamento poderia representar o grande centralizador de discussões envolvendo o Projeto e a
Produção, tornando-se um instrumento estratégico tanto mais relevante quanto mais assumir tal espaço,
deixando de ser uma atividade às vezes relegada a segundo plano (por vezes sob a responsabilidade de
profissional com pequeno poder de decisão ou relativamente afastado da interação com projetistas e
executores), para se tornar caminho de passagem obrigatória das decisões sistêmicas da empresa.

A Contratação de Fornecedores, de materiais, mão-de-obra ou equipamentos, pode ser também benefici-


ada pelo maior entendimento do consumo de materiais. No caso do fornecimento de materiais e compo-
nentes, tal interação é bastante óbvia; apenas para ressaltar um cios aspectos envolvidos, diria que "não se
deve comprar pelo menor preço e sim escolher um fornecedor pela melhor relação custo-benefício". Para
justificar tal afirmativa basta olhar os valores máximos encontrados para as perdas de blocos para alvena-
ria (vide capítulo 4): só há uma maneira de se alcançar valores de perdas da ordem de 48%, qual seja,
adquirindo blocos de qualidade extremamente deficiente. E, ao alcançar-se um nível de perdas desta
grandeza, os ônus de produção serão enormes, sobrepujando em muito o simples cômputo do custo
adicional de blocos perdidos (haja vista os gastos adicionais com mão-de-obra de alvenaria, a provável
maior dificuldade no revestimento das paredes etc.). Quanto aos fornecedores de mão-de-obra (ou à
mão-de-obra própria), não se deve esquecer de incluir a motivação para minimização do desperdício de
materiais nas formas de pagamento adotadas. Por exemplo, as variações de consumo de argamassa no
assentamento de alvenaria podem significar ônus tão elevados quanto a premiação dos operários por
produção; portanto, estipular tarefas que motivem tanto a produtividade da mão-de-obra quanto a
minimização do desperdício de materiais pode ser algo extremamente interessante. Em relação às ferra-
mentas e equipamentos adotados, devem-se também tomar tais decisões pensando no consumo de mate-
riais; por exemplo: o uso de bisnaga, meia-cana ou paletas, para assentamento de alvenaria, eslá associado
a um consumo aproximadamente 5 0 % inferior àquele verificado para situações onde se adota a colher de
pedreiro para fazer o serviço; numa obra estudada pelo autor, as perdas de blocos cerâmicos para vedação
(que eram transportados em páletes por uma grua) triplicaram após a saída da grua.

Quanto à fase de Produção, além de todas as considerações que já foram feitas ao longo do livro, cabe
apenas citar que as mesmas deveriam ser contempladas nos procedimentos de produção. Não se pode
deixar de falar, também, da importância do treinamento e da motivação dos operários (relembre-se o
efeito da sensibilização no valor das perdas, anteriormente descrito no Quadro 8.1). A valorização do
papel, do responsável pela obra, referente à gestão do consumo de materiais é algo fundamental.

Finalmente, há que se comentar que, embora só se tenham discutido brevemente as perdas na Utiliza-
ção da obra entregue (vide capítulo 3), tal fase possui relevância bastante grande, em termos dos ônus
diretos que têm exigido das empresas construtoras, do valor comercial de uma boa imagem do empre-
endedor perante os clientes e do grande destaque que a busca do desenvolvimento sustentável tem
recebido (e, imagina o autor, cada vez mais receberá) de parte da sociedade. Tal fase pode, e deve,
receber uma abordagem semelhante à que se deu à fase de Produção da obra.

Portanto, cabe frisar a idéia de que a gestão do consumo de materiais, embora tenha efeitos muito
comentados quanto à Produção dos serviços, pode e deve ser contemplada em todas as etapas do
empreendimento, para que o máximo das vantagens possíveis possa ser alcançado.

RESUMO

• Embora o projeto, as especificações e a programação adequados sejam relevantes para se con-


seguir eficiência no uso dos materiais, o controle reveste-se de grande importância para a redu-
ção de consumos desnecessários de materiais na Construção Civil.

• A gestão do consumo de materiais, nos canteiros de obras, pode ser baseada num corjunto de
atividades compondo um ciclo repetitivo (com base no PDCA = "plan", "do", "control", "action"),
envolvendo: a Programação, a Execução, o Controle e a Avaliação.

• Na Programação concebe-se a produção e prognostica-se o CUM.

• A Execução deve implementar o serviço nos moldes como foi concebido na fase anterior.

• O Controle se responsabilizaria pela avaliação tanto do C U M vigente quanto das demais condi-
ções reinantes no processo de produção.

• A Avaliação representaria a comparação entre o programado e o verificado, analisando-se even-


tuais discrepâncias e as razões para as mesmas. Algumas decisões podem ser tomadas, na dire-
ção de se reprogramar o processo de produção, iniciando-se um novo ciclo.

• Esta abordagem, de sucessivas programações e controles, pode garantir um eficaz caminho para
se minimizar consumos desnecessários na obra.

• Para auxiliar a tomada de decisões pode-se, ainda, fazer uso de ferramentas adicionais, tais
como: ferramentas da qualidade; critérios para tomada de decisão.

• Quanto às ferramentas da qualidade, podem-se citar: "brainstorming"; folhas de verificação;


diagrama de causa e efeito; diagrama de Pareto; gráfico de tendências; 5VV1H.

• Quanto aos critérios para balizar a tomada de decisões, relativas a alterações propostas para o
processo de produção, visando à redução do consumo de materiais, pode-se fazer uso de uma
matriz de quesitos, que subsidia a decisão através de uma nota ponderada, atribuída a cada
alternativa, que contempla os quesitos considerados relevantes (por exemplo: balanço benefí-
cios x ônus; facilidade de implementação da alternativa; padrão de qualidade do produto).
• A gestão do consumo de materiais interage com as diversas fases do empreendimento: Estudo de
Viabilidade; Projetos; Planejamento; Contratação de Fornecedores; Produção da Obra; e Utilização.

• Durante o Estudo de Viabilidade pode-se fazer uso de indicadores associados «1 diferentes


tipologias. Na fase de Projetos, deve-se lembrar que se podem ter perdas na mesma, além de
esta ser origem das perdas na produção e de a qualidade da representação poder inf uenciar tais
perdas. Quanto ao Planejamento, além da definição dos momentos de necessidade de materiais
e das interferências entre serviços que ocorrerão, tem-se o Orçamento como aspecto extrema-
mente relevante, podendo este constituir-se no elo central da interligação das várias atividades
de gestão do consumo de materiais (da Concepção à Produção da Obra). Quanto â Contratação
de Fornecedores, o entendimento do consumo pode contribuir para a melhor escolha quanto
aos materiais, equipamentos e ferramentas e quanto à própria remuneração de subempreiteiros
de mão-de-obra ou dos operários da empresa. Na Produção, o balizamento dos procedimentos
e a relevância do treinamento e sensibilização dos envolvidos não devem ser esquecidos. E,
quanto à fase de Utilização, a busca pelo desenvolvimento sustentável tem valorizado o enten-
dimento das perdas de materiais.

ATIVIDADES COMPLEMENTARES

Considerando-se que uma empresa incorporadora-construtora pretende implementar um Programa de


Gestão do Consumo de Materiais envolvendo todas as fases do empreendimento, você deve levantar,
detalhadamente, os aspectos que poderiam ser contemplados (e tornarem-se motivos de discussão
sistêmica pelo gestor responsável pelo Programa) em cada uma das fases do mesmo. Para tanto, escolha
um material/serviço a ser contemplado e, para cada fase do empreendimento (estudo de viabilidade,
projetos, planejamento, contratação de fornecedores, produção da obra e utilização) discuta todos os
pontos a serem contemplados, as pessoas que deverão ser envolvidas, as fontes de informações cabíveis
e eventuais procedimentos a adotar, constituindo um documento preliminar, lançando bases para a
organização da gestão pretendida.
REFERÊNCIAS E BIBLIOGRAFIAS
COMPLEMENTARES

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Indicado para todos os profissionais da indústria construção civil,
COMO REDUZIR PERDAS NOS CANTEIROS é um manual de
gestão do consumo de materiais nas obras. Tem como objetivo
colaborar para a redução do desperdício, além de integrar-se às
discussões de outras fases do empreendimento, tais orçamento,
projeto, programação, escolha tecnológica dentre outras. Apresenta
valores de perdas e consumos de materiais vigentes nas obras de
construção e discute como preparar prognósticos de desempenho
em futuras obras, a partir do conhecimento das características dos
serviços que serão realizados

02.837 C O M A C O

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