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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA ___ VARA DA FAZENDA

PÚBLICA DE ______ - SP

XXXX, brasileira, solteira, portadora do RG nº XXXX,


residente e domiciliada na Rua XXXX, N° XXX, XXX, CEP: XXX, Santos/SP, vem, pela
Defensora Pú blica abaixo assinada, dispensada da apresentaçã o de instrumento
de mandato (art. 16, pará grafo ú nico, da Lei nº 1060/50 e artigo 128 c/c 6º, § 4º
da LC 80/94), propor

AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS sob o RITO ORDINÁRIO,

em face do MUNICÍPIO DE SANTOS - SP, pessoa


jurídica de direito pú blico interno, a ser citada na pessoa de seu Procurador-Geral
no endereço Praça Mauá , s/n, 2º andar, Centro, CEP: 11010-900, em Santos – SP,
pelos motivos de fato e de direito a seguir expostos:

ENDEREÇO DA UNIDADE 1
E-MAIL
I - DOS FATOS

Conforme demonstrar-se-á , a autora foi vítima dos


crimes de tortura, sequestro e lesã o corporal ( art.° da lei 9455/97, 148 e 129 do Có digo
Penal respectivamente) praticados por guardas municipais metropolitanos de Santos.

Em xx de xx de 2011, XXX, entã o pessoa em situaçã o de


rua, que costumava pernoitar sob a marquise da Pizzaria Crystal (situada na Av. dos
Bancá rios na cidade de Santos/SP) foi abordada por 05 GCMs, sendo um deles do sexo
feminino. Forçaram-na, juntamente com mais 04 pessoas em situaçã o de rua, a entrar
numa Kombi. Eles trafegaram pela cidade e foram determinando que um a um dos
integrantes do grupo apreendido fosse descendo em pontos diversos de Santos, com
exceçã o de XXXX.

A jovem além de ser impedida de deixar o veículo como


seus colegas, foi agredida com socos e pontapés, deram-lhe golpes de cassetete na sola
dos pés, jogaram-lhe á lcool nos olhos e teve seus cabelos cortados com canivete.

Dirigiram-se entã o ao município de Cubatã o, onde


Jéssica foi jogada em um matagal pró ximo a fá brica de papel MD, altura do quilô metro
53,5 da Rodovia Anchieta, ali a autora levou uma surra e foi abandonada.

Nesta ocasiã o apareceu o vigia de nome XXXX e a


socorreu de plano.

ENDEREÇO DA UNIDADE 2
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Em xx de xxxx de 2011, o “Parquet”, ofereceu Denuncia
contra os GCMs: XXXX, XXXX, XXXX, XXXX, XXXXX visando melhor apurar o ocorrido.

A autora procedeu ao reconhecimento dos


denunciados por fotografia (fls.67) e pessoalmente (fls. 76/78).

O Laudo do exame de delito (fls.32), constatou que XXXX:

“(...) Apresenta edema traumá tico em ambas as plantas


dos pés, havendo portanto ofensa a integridade
corporal da examinada e concluindo que a vítima
sofreu lesõ es de natureza leve(...)”

II – DO DIREITO

II.I – RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO ESTADO


DECORRENTE DA VIOLAÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA DA AUTORA

De acordo com o contido no artigo 37, § 6º da


Constituiçã o da Repú blica Federativa do Brasil de 1988, deve o Poder Pú blico
responder objetivamente pelos danos causados a terceiros. A sua responsabilidade é
baseada na teoria do risco administrativo, bastando a demonstraçã o do nexo causal
entre o evento e o dano.

As agressõ es sofridas pela autora, comprovadas pelos


documentos que instruem a presente demanda sã o suficientes para a demonstraçã o da
responsabilidade do aludido Município pelos danos daí emergentes.

ENDEREÇO DA UNIDADE 3
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A Pessoa Jurídica de Direito Pú blico (Município de
Santos), ofendeu frontalmente a dignidade humana da autora, consubstanciada nas
ofensas físicas e morais sofridas por XXX. Esta atuaçã o ao arrepio da lei perpetrada pelos
citados GCMs permitiu que uma cidadã ilegalmente sob sua custó dia viesse a ser
covardemente agredida, correndo sério risco de ser fisicamente eliminada.

À luz da teoria do risco administrativo, é desnecessá ria


a demonstraçã o de culpa do Município. Essa responsabilidade objetiva, consoante
adverte Caio Má rio da Silva Pereira, implica afirmar que:

“a pessoa jurídica de direito público responde sempre,


uma vez que se estabeleça o nexo de causalidade entre o
ato da administração e o prejuízo sofrido. Não há que
cogitar se houve ou não culpa para concluir pelo dever
de reparação”1.

Há , portanto, o concurso dos três pressupostos no caso


em apreço para que esteja configurada a responsabilidade objetiva do Estado:

i) ação ilegal dos agentes municipais: é inelutá vel a


assertiva de que os agentes do Município de Santos violaram o dever de assegurar a
integridade física da autora, acarretando conforme expresso no exame de corpo e delito
a ocorrência de lesã o corporal, cá rcere privado, entre outros, preenchido assim, tal
requisito;

ii) Evento Danoso: caracterizado pela violência em


decorrência da violaçã o da integridade física e psíquica de XXX e na sua ilegal apreensã o.

1
Cf. SILVA PEREIRA, Caio Má rio. Responsabilidade Civil, 1993, p. 133
ENDEREÇO DA UNIDADE 4
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iii) Relação de causalidade entre a ação dos GCMs e
o dano: nã o resta dú vida de que há um nexo causal entre a agressã o sofrida pela autora
e o dever do Município justamente de evitar que tais fatos repugnantes nã o ocorram.
Ressalta-se que XXX foi ilegalmente detida e sofreu toda sorte de sevícias e humilhaçõ es.

Antô nio Augusto Cançado Trindade asseverou, em


decisã o no caso Ximenes Lopes, julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos,
que o direito à vida é um pré-requisito para o gozo dos demais direitos, e é atribuído ao
Estado o dever de garanti-lo até mesmo frente aos atos de seus agentes.

“Esta Corte reiteradamente ha afirmado que el derecho a


la vida es un derecho humano fundamental, cuyo goce es
un prerrequisito para el disfrute de todos los demás
derechos humanos. En razón del carácter fundamental
del derecho a la vida, no son admisibles enfoques
restrictivos del mismo2.

En virtud de este papel fundamental que se asigna al


derecho a la vida en la Convención, la Corte ha afirmado
en su jurisprudencia constante que los Estados tienen la
obligación de garantizar la creación de las condiciones
que se requieran para que no se produzcan violaciones
de ese derecho inalienable, y en particular, el deber de
impedir que sus agentes atenten contra él 3. En esencia,

2
Cfr. Caso Baldeón García, supra nota 4, pá rrs. 82 y 83; Caso Comunidad Indígena Sawhoyamaxa,
supra nota 4, pá rrs. 150, 151 y 152; Caso de la Masacre de Pueblo Bello, supra nota 25, pá rrs. 119 y 120;
Caso de la Masacre de Mapiripán, supra nota 21, pá rr. 232; Caso Comunidad Indígena Yakye Axa, supra nota
30, pá rrs. 161 y 162; Caso Huilca Tecse. Sentencia de 3 de marzo de 2005. Serie C No. 121, pá rrs. 65 y 66;
Caso “Instituto de Reeducación del Menor”. Sentencia de 2 de septiembre de 2004. Serie C No. 112, pá rrs.
156 y 158; Caso de los Hermanos Gómez Paquiyauri. Sentencia de 8 de julio de 2004. Serie C No. 110, pá rrs.
128 y 129; Caso 19 Comerciantes. Sentencia de 5 de julio de 2004. Serie C No. 109, pá rr. 153; Caso Myrna
Mack Chang. Sentencia de 25 de noviembre de 2003. Serie C No. 101, pá rrs. 152 y 153; Caso Juan
Humberto Sánchez, supra nota 30, pá rr. 110; y Caso de los “Niños de la Calle” (Villagrán Morales y otros).
Sentencia de 19 de noviembre de 1999. Serie C No. 63, pá rr. 144.
3
Cfr. Caso Baldeón García, supra nota 4, pá rr. 83; Caso Comunidad Indígena Sawhoyamaxa, supra
nota 4, pá rr. 151; Caso de la Masacre de Pueblo Bello, supra nota 25, pá rr. 120; Caso Huilca Tecse, supra
ENDEREÇO DA UNIDADE 5
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el artículo 4 de la Convención garantiza no sólo el
derecho de todo ser humano de no ser privado de la vida
arbitrariamente, sino que además, el deber de los
Estados de adoptar las medidas necesarias para crear
un marco normativo adecuado que disuada cualquier
amenaza al derecho a la vida; establecer un sistema de
justicia efectivo capaz de investigar, castigar y reparar
toda privación de la vida por parte de agentes estatales o
particulares; y salvaguardar el derecho a que no se
impida el acceso a las condiciones que garanticen una
vida digna, lo que incluye la adopción de medidas
positivas para prevenir la violación de este derecho4.”

Nunca é demais lembrar que a dignidade da pessoa


humana é princípio constitucional e o vetor interpretativo de maior relevâ ncia,
notadamente depois de 1988. Cabe, entretanto, ao Estado brasileiro sua efetivaçã o seja
na acepçã o vertical (relaçã o entre o Estado e os indivíduos), seja na horizontal (relaçã o
entre os integrantes de uma comunidade).

Vale aqui a liçã o do existencialista alemã o Karl Jaspers


quando ele cita que “... a dignidade do homem reside no fato ser ele indefinível. O
homem é como é porque reconhece essa dignidade em si mesmo e nos outros homens”.

O ser humano é indefinível na sua integralidade. Ele


dispõ e de um arquétipo de direitos simplesmente por ser humano. Todos nó s enquanto

nota 108, pá rr. 65; Caso “Instituto de Reeducación del Menor”, supra nota 108, pá rr. 156; Caso de los
Hermanos Gómez Paquiyauri, supra nota 108, pá rr. 128; Caso 19 Comerciantes, supra nota 108, pá rr. 153;
Caso Myrna Mack Chang, supra nota 108, pá rr. 152; Caso Juan Humberto Sánchez, supra nota 30, pá rr. 110;
y Caso de los “Niños de la Calle” (Villagrán Morales y otros), supra nota 108, pá rr. 144.
4
Cfr. Caso Baldeón García, supra nota 4, pá rr. 85; Caso Comunidad Indígena Sawhoyamaxa, supra
nota 4, pá rr. 153; Caso de la Masacre de Pueblo Bello, supra nota 25, pá rr. 120; Caso de la Masacre de
Mapiripán, supra nota 21, pá rr. 232; Caso Comunidad Indígena Yakye Axa, supra nota 30, pá rr. 162; Caso
Huilca Tecse, supra nota 108, pá rr. 66; Caso “Instituto de Reeducacción del Menor”, supra nota 108,
pá rr.158; Caso de los Hermanos Gómez Paquiyauri, supra nota 108, pá rr. 129; Caso 19 Comerciantes, supra
nota 108, pá rr. 153; Caso Myrna Mack Chang, supra nota 108, pá rr. 153; Caso Juan Humberto Sánchez,
supra nota 30, pá rr. 110; y Caso de los “Niños de la Calle” (Villagrán Morales y otros), supra nota 108, pá rr.
144.
5 JASPERS, Karl. Introduçã o ao Pensamento Filosó fico. Cultrix. 1996. Sã o Paulo.
ENDEREÇO DA UNIDADE 6
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tais somos dotados de dignidade humana em igual grau, nã o há seres mais humanos que
outros. Todos temos o dever de respeitar a dignidade alheia em razã o da condiçã o
humana do ser com o qual interagimos.

Lembre-se também o sempre recorrente conceito de


dignidade humana do filó sofo de Kö nnigsberg, citado também por Jaspers: “...nenhum
homem pode ser, para outro, apenas meio; cada homem é um fim em si mesmo”.

XXXX teve sua dignidade humana simplesmente


desconsiderada pelos aludidos GCMs de Santos – SP, foi tida como meio para a
consecuçã o de qualquer outro inumano objetivo torpe. Quando sua dignidade foi
ofendida, também o foi a de toda a sociedade no conceito kantiano (“Gemeinschaft” –
literal “comunidade”, mas no sentido de que cada um de nó s integrantes de uma
coletividade temos a perfeita ciência disso e desse modo nos determinamos a fim de
garantir a dignidade humana dos demais membros deste coletivo - ). A conduta dos
GCMs nã o foi apenas a violaçã o do imperativo categó rico, consubstanciou-se na ofensa a
deveres de conduta de quem está a serviço do Poder Pú blico, desse modo, portanto,
indenizá vel. Tais atos atrozes só se tornam possíveis quando se desconsidera a condiçã o
humana, ocorre entã o uma coisificaçã o revestida de odiavel preconceito cuja roupagem
exterior é a discriminaçã o.

XXXX nã o foi considerada humana, violaram-lhe a


dignidade com marcas que restarã o no seu psicoló gico para sempre. Como ela se
adequará numa sociedade que nunca nem olhou para ela com olhos humanos? Como ela
tomará parte num contexto social brutal e excludente, nã o apenas da maneira
econô mica, mas também física?

O ato desses GCMs visou nitidamente a eliminaçã o de


um ser humano, XXXXX, que nã o tem CPF, nem lugar na sociedade. Apenas há pouco
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tempo localizou-se seu endereço, ela era uma pessoa em situaçã o de rua que dormia na
Marquise da Pizzaria Crystal, depois do ocorrido, nem ali ela foi mais encontrada. XXXX
foi discriminada por estar em situaçã o de rua, a sociedade além de nã o a inserir em
qualquer outro contexto que nã o seja o da exclusã o, ainda, através de agentes do Poder
Pú blico, tenta cruelmente eliminá -la.

Muito além de Kant, Jaspers, do conceito de JUSTIÇA de


Radbruch depois dos horrores da Segunda Guerra Mundial, tratando-a como um ideal a
ser alcançado e perseguido; retirando-se o véu da ignorâ ncia aludido por Kollberg na
transposiçã o de indivíduos (seres humanos) no lugar de outros (indivíduos, seres
humanos) na sociedade; está Jéssica, agora egressa do sistema prisional, nã o mais em
situaçã o de rua, que tenta refazer sua vida lidando com essa e muitas outras ofensas à
sua dignidade que sofreu ao longo da vida.

A caracterizaçã o da responsabilidade objetiva do


Município de Santos pela conduta de seus agentes é evidente pelo já demonstrado
preenchimento de seus requisitos.

II . DANO MORAL

É cediço que é vitorioso no direito brasileiro o


entendimento de que a moral tem natureza de bem jurídico constitucionalmente
tutelado, portanto, torna-se passível de violaçã o e conseqü entemente indenizá vel.

O dano moral decorre, ipso facto, da ausência à


observaçã o da dignidade humana, dos sofrimentos experimentados e do trauma daí
resultante. Diante dos documentos que acompanham esta exordial, a demonstraçã o do
trauma sofrido nã o carece de maior elucubraçã o.
ENDEREÇO DA UNIDADE 8
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Há de ser ressaltado o disposto na Constituiçã o da
Repú blica de 1988, em seu artigo 5º, inciso X:

X- São invioláveis a intimidade, a vida privada a honra e


a imagem das pessoas, assegurando a indenização pelo
dano material ou moral decorrente da sua violação.

Com o advento da Magna Carta de 1988, que inseriu


em seu texto a admissibilidade da reparaçã o do dano moral, inú meras legislaçõ es vêm
sendo editadas no país, ampliando-se o leque de proteçã o a este bem jurídico.

O Có digo Civil agasalha, da mesma forma, a


reparabilidade dos danos morais. O artigo 186 trata da reparaçã o do dano causado por
açã o ou omissã o do agente:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão, negligência


ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem,
ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.

Dessa forma, o artigo 186 do novo Có digo define o que


é ato ilícito. Entretanto, observa-se que nã o disciplina o dever de indenizar, ou seja, a
responsabilidade civil, matéria tratada no artigo 927 do mesmo Có digo. Sendo assim, é
previsto como ato ilícito também aquele que cause dano exclusivamente moral. Faça-se
constar o previsto no artigo 927, caput:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187),
causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

ENDEREÇO DA UNIDADE 9
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Salienta-se que a personalidade do ser humano é
formada por um conjunto de valores que compõ em o seu patrimô nio, podendo ser
objeto de lesõ es, em decorrência de atos ilícitos como os já citados.

A constataçã o da existência de um patrimô nio moral e


a necessidade de sua reparaçã o, na hipó tese de dano, constitui marco importante no
processo evolutivo das civilizaçõ es. Existem circunstâ ncias em que o ato lesivo afeta a
personalidade do indivíduo, sua honra, sua integridade psíquica, seu bem-estar íntimo,
suas virtudes, enfim, causando-lhe mal-estar ou uma indisposiçã o de natureza espiritual,
ou seja, intangível. Uma marca que o acompanhará para sempre tal foi o trauma
experimentado.

Sendo assim, a reparaçã o em tais casos reside no


pagamento de uma soma pecuniá ria, arbitrada pelo juiz, que possibilite ao Autor lesado
uma satisfaçã o compensató ria da sua dor íntima, dos dissabores sofridos em
decorrência da açã o ilícita do lesionador. Como já explicitado, nã o se trataram de
quaisquer lesõ es. Estas sofridas por Jéssica certamente marcarã o para sempre sua
existência. Salienta-se que esta ofensa à dignidade humana teve nítido propó sito
eliminató rio fundado na mais bá rbara discriminaçã o.

A personalidade do indivíduo é o repositó rio de bens


ideais que impulsionam o homem ao trabalho e a criatividade. As ofensas a esses bens
imateriais redundam em dano extrapatrimonial, suscetível de reparaçã o. Observa-se que
as ofensas a esses bens causam sempre no seu titular, afliçõ es, desgostos e má goas que
interferem sobremaneira no comportamento do indivíduo.

E, em decorrência dessas ofensas, o indivíduo em razã o


das angú stias sofridas, reduz a sua capacidade criativa e produtiva. Nesse caso, além do
dano eminentemente moral, ocorre o reflexo no seu patrimô nio material, pois afetado
psicologicamente pelo fato deixa de garantir seu pró prio sustento.

ENDEREÇO DA UNIDADE 10
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Assim, todo o mal infligido ao estado ideal das pessoas,
resultando mal-estar, desgostos, afliçõ es, interrompendo-lhes o equilíbrio psíquico,
constitui causa suficiente para a obrigaçã o de reparar o dano moral. A compensaçã o
financeira proporciona à vítima uma retribuiçã o que pode ser de ordem moral, para que
possa, de certa maneira, nã o apagar a dor, mas mitigá -la.

Os artigos 944 e seguintes, especialmente os artigos


949, 950 e 951, estabelecem os parâ metros ou preceituam o modus operandi para se
estabelecer o quantum indenizató rio, como facilmente se pode inferir:

Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o


ofensor indenizará o ofendido das despesas do
tratamento, dos lucros cessantes e até ao fim da
convalescença, além de algum outro prejuízo que o
ofendido prove haver sofrido.

Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o


ofendido não possa exercer o seu ofício ou profissão, ou
se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização,
além das despesas do tratamento e lucros cessantes até
ao fim da convalescença, incluirá pensão
correspondente à importância do trabalho para que se
inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu.

(...)

Art. 951 O disposto nos arts. 948, 949 e 950 aplicam-se


ainda no caso de indenização devida por aquele que, no
exercício de atividade profissional, por negligência,
imprudência ou imperícia, causar a morte do paciente,
agravar-lhe o mal, causar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para
o trabalho.

Assim se orienta também a jurisprudência:

"Hoje em dia, a boa doutrina inclina-se no sentido


de conferir à indenização do dano moral caráter
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dúplice, tanto punitivo do agente, quanto
compensatório, em relação à vítima (cf. Caio Mário
da Silva Pereira, Responsabilidade civil, Ed.
Forense, 1989, p. 67). Assim a vítima de lesão a
direitos de natureza não patrimonial (CR, art. 5º,
incs. V e X) deve receber uma soma que lhe
compense a dor e a humilhação sofridas ,e
arbitradas segundo as circunstâncias. Não deve ser
fonte de enriquecimento, nem ser inexpressiva"
(TJSP - 7ª C. Ap. - Rel. Campos Mello - j. 30.10.91 -
RJTJESP 137/186- 187)

"O dano simplesmente moral, sem repercussão no


patrimônio não há como ser provado. Ele existe
tão-somente pela ofensa, e dela é presumido, sendo
o bastante para justificar a indenização" (TJPR - 4ª
C. - Ap. - Rel. Wilson Reback - j. 12.12.90 - RT
681/163)

II- III DO QUANTUM INDENIZATÓRIO

Em relaçã o ao quantum da indenizaçã o pelos danos


morais sofridos pela Autora, cabe dizer que nã o representam um ressarcimento,
no sentido rigoroso do termo, e, sim, uma compensaçã o ou satisfaçã o simbó lica.

Para se estabelecer o quantum na indenizaçã o por


danos morais, deve-se considerar a situaçã o pessoal do ofendido e a situaçã o
financeira do ofensor. Portanto, deve-se estipular uma quantia que nã o resulte
em enriquecimento ilícito, nem que seja inexpressiva. Esta é a aná lise de Caio
Má rio da Silva Pereira:

"a vítima de uma lesão a algum daqueles direitos sem


cunho patrimonial efetivo, mas ofendida em um bem
jurídico que em certos casos pode ser mesmo mais
valioso do que os integrantes de seu patrimônio, deve
ENDEREÇO DA UNIDADE 12
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receber uma soma que lhe compense a dor ou o
sofrimento, a ser arbitrada pelo juiz, atendendo às
circunstâncias de cada caso, e tendo em vista as posses
do ofensor e a situação pessoal do ofendido. Nem tão
grande que se converta em fonte de enriquecimento,
nem tão pequena que se torne inexpressiva."
(Responsabilidade Civil cit. n. 49, p. 67)

Dessa forma, a indenizaçã o pecuniá ria em razã o do


dano moral é como um lenitivo que atenua, em parte, as consequências do
prejuízo sofrido, superando o déficit acarretado pelo dano.

Por todo o exposto, sã o evidentes os danos morais


sofridos pela Autora. Neste sentido, a imputaçã o da responsabilidade a quem de
direito, levando-os a indenizá -la pecuniariamente, nã o repararã o de fato o dano a
ela causado, mas lhe servirá como ajuda para que possa resgatar sua auto-estima
e dignidade, que foram frontalmente atingidas. Ajuda nã o no sentido
assistencialista do termo, mas como retribuiçã o financeira ao mal injusto
causado.

III - REQUERIMENTOS

Pelo quanto exposto, requer seja a presente julgada


procedente, condenando-se o Réu a:

Indenizaçã o por danos morais em montante NÃO


INFERIOR A 300 SALÁRIOS MÍNIMOS;

Para tanto, requer:

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- a concessã o dos benefícios da Justiça Gratuita, por
nã o dispor de meios de arcar com as custas processuais e honorá rios de advogados, sem
prejuízo do sustento pró prio e da família, nos termos da Lei 1.060/50 e da LC 80/94;

- citaçã o do réu para responder a esta açã o;

- anotaçã o na contra-capa destes autos que a Autora é


defendida pela Defensoria Pú blica do Estado de Sã o Paulo, devendo-se ser observada a
intimaçã o pessoal, bem a contagem em dobro dos prazos processuais

Provar-se-á o alegado pelos meios de prova admitidos


em direito, especialmente prova oral (consistente no pedido de depoimento pessoal da
autora), pericial e documental.

Atribuir à causa o valor de R$ 203.400,00 (duzentos e


três mil e quatrocentos reais), ou seja, 300 salá rios-mínimos.

Nesses termos,

Pede deferimento.

Sã o Paulo, data.

ENDEREÇO DA UNIDADE 14
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Defensor(a) Pú blico(a)
Unidade de XXXXXXXXXXX

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