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III.

As teorias psicanalíticas da criminalidade e da sociedade


punitiva: negação do princípio de legitimidade
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e crítica do direito penal.

Contexto

- A legitimidade do poder de punir do Estado se fundamenta na função de defesa social


atribuída à pena, autoriza o exercício de uma violência contra o indivíduo que pratica o
delito. (No site do Ministério da Justiça, a defesa social é definida como “a prestação de
serviços de segurança pública e de defesa civil, entre outras atividades”)

A partir do capítulo três, Baratta se propõe a analisar e desfazer os princípios singulares


integrantes da ideologia da Defesa Social, e o faz, neste capítulo, através de teorias
psicanalíticas que redefinem as concepções clássicas do comportamento delituoso.

Sigmund Freud Retrato 1926

1. teoria da alma ('psique') criada por Sigmund Freud (1856-1939, neurologista austríaco).
2. método terapêutico que consiste fundamentalmente na interpretação, por um
psicanalista, dos conteúdos inconscientes de palavras, ações e produções imaginárias
de um indivíduo, com base nas associações livres e na transferência.

As considerações psicanalíticas se darão a partir de dois objetos: o comportamento


criminoso e a sociedade punitiva.O foco de análise do fenômeno criminal está
tradicionalmente no sujeito criminalizado mas, a partir da criminologia crítica, passa
a considerar também o sistema penal,os processos de criminalização e todo o
sistema da reação social ao desvio.
Teorias psicanalíticas : o criminoso e a sociedade punitiva

Fundamento Teórico de Freud

● Sentimento de culpa indicado por Freud a partir de investigações psicológicas que


negam o tradicional conceito de culpabilidade (Princípio da Culpabilidade: delito é
expressão de atitude interior reprovável, escolha livre do indivíduo.)
● Totem und Tabu: Obra de Freud na qual o autor desenvolve a teoria de que, na
quebra do conceituado tabu, ocorre uma punição espontânea por parte da
sociedade, a qual é embrionária na institucionalização da punição formal performada
pelo direito penal. O fenômeno psicológico indicado pelos estudos é o de que todos
os componentes do grupo se sentem ameaçados pela violação do tabu e por isso
antecipam a punição de seu violador. A ameaça sentida, porém, é a tentação de
imitar o delinquente, visto os instintos reprimidos da sociedade,o que põe em
xeque a ideologia da defesa social.

Theodor Reik e sua teoria psicanalítica do Direito Penal

Theodor Reik funda a partir da teoria freudiana do “delito por sentimento de culpa”
uma teoria psicanalítica do direito penal, na qual é definida a dupla função da pena:
(observa-se que nenhuma delas é a defesa social):
1. Necessidade inconsciente de "autopunição" que antecede e impele a ação
proibida( no caso dos neuróticos).
2. Necessidade de punir a sociedade por uma inconsciente identificação com o
delinquente.

Esses fenômenos inconscientes da psique humana são racionalizados nas


duas concepções fundamentais da pena: a RETRIBUTIVA e a
PREVENTIVA, visando influenciar a coletividade ou o autor de delito. (o que
vai contra o tradicional foco de análise do fenômeno criminal a partir do
sujeito criminalizado).

Franz Alexander e Hugo Staub e a finalidade da pena

A finalidade da pena é definida por Franz Alexander e Hugo Staub como agente de
contrabalanço da pressão dos impulsos reprimidos, representando uma defesa e um reforço
do superego.
Os autores em questão desenvolvem a relação entre as porções inconscientes (id e
superego) e consciente (ego) da mente humana, sob influência da pena para
analisar sua finalidade e efeitos na sociedade punitiva e no sujeito criminoso,
segundo a psicanálise.

Conclui-se que a pena age ativamente ao reafirmar os valores racionais e


morais do superego, reprimindo, apesar de não anular, os impulsos
hedonistas existentes em todos os seres humanos que se resumem nas
sugestões constantes do id.

“Por isso, o ego tem necessidade de


reforçar o próprio superego, e somente pode obter este reforço das
pessoas reais que incorporam a autoridade, as quais são o modelo
do superego. Se o ego pode demonstrar aos impulsos que também
as autoridades mundanas dão razão ao superego, então ele pode se
defender do assalto dos impulsos.”
(pág 52)

Logo, também estes autores corroboram para a visão de que o objeto principal do
Direito Penal, a pena, tem por aspecto fundante, na exigência de punir, a
demonstração dirigida para dentro da própria sociedade para desencorajar seus
impulsos, afastando-se da ideia de defesa social que o legitima.
Principais contribuições de Staub e Alexander para a teoria psicanalítica da sociedade
punitiva
1. Levar o princípio freudiano da identidade dos impulsos que movem o delinquente e a
sociedade na sua reação punitiva para características psicológicas gerais. É definido
que há uma afinidade entre estes dois pólos: fortes tendências ANTI-SOCIAIS.
Estas resultam em diferentes atividades em cada um, mas têm a mesma
origem. (pág 53)
2. Transferir o foco de análise do fenômeno criminal do delinquente impactado pela
sociedade punitiva para o sujeito individual impactado pela sociedade punitiva e
pelos órgãos de reação penal. (A agressão sugerida pelo id é liberada de forma
legítima ao ser descarregada através da identificação do sujeito com os atos da
sociedade punitiva). Há como efeito a diminuição da quantidade de agressões para
inibir. (Caráter ritual e espetacular dos procedimentos judiciários e da execução da
pena capital)

Crítica da justiça penal através da análise psicológica de Reik, Alexander e Staub


Esta profunda análise psicológica da função punitiva é utilizada para realizar uma crítica de
fundo da justiça penal. Tal crítica se baseia no caráter do sedimento irracional das fontes
afetivas da função punitiva como explicitado pela análise psicanalítica.

A proposta sugerida é a de uma justiça racional que atue sem os conceitos de expiação, de
retribuição e que não sirva à satisfação dissimulada de agressão das massas. Para tal é
necessário que os homens alcancem maior controle do ego sobre a vida afetiva e que as
tendências agressivas das massas sejam mais amplamente eliminadas através de
sublimações.

Paul Reiwald, Helmut Ostermeyer e Edward Nageli

Aplicação do conceito freudiano do Mecanismo de Projeção por Ostermeyer na relação


entre sociedade punitiva e sujeito delinquente.

“... a sociedade punitiva, separando-se, como o bem do mal, do sujeito delinquente,


transfere para ele as próprias agressões.” (pág 55)

Toda esta agressão reprimida é descarregada não só na pena, mas é transferida


exteriormente para outros indivíduos, também através do mecanismo de projeção.

Reiwald relaciona o mecanismo de projeção também à função da literatura e dos filmes


sobre crimes.Tais atuam também como “alarme social” que leva os interlocutores a
projetarem as próprias tendências anti-sociais em figuras de delinquentes e personagens
temíveis.

Toda a prática da projeção de agressividade e sentimento de culpa nas interações


indivíduo-sociedade sobre o delinquente é analisada por Naegeli através da figura mítica do
bode expiatório. A figura é representada pelo delinquente, sob o qual são projetadas as
tendências mais ou menos inconscientes das nossas tendências criminosas.
A psicanálise observa no ser humano a necessidade de exteriorizar seus aspectos que lhe
trazem sentimento de culpa, refletindo-os como uma sombra sobre terceiros. Há neste
contexto o iminente perigo da projeção de sombras se dar entre comunidades inteiras e
minorias.

Contribuições da explicação psicanalítica da reação punitiva e suas


limitações

O modelo psicanalítico de explicação da reação punitiva é de grande importância por


significar um grande avanço na reflexão crítica sobre a atividade dos juristas e operadores
sociais. A inquietação gerada por suas teorias e conclusões atacam a ideologia da defesa
social precisamente no seu fundamental momento de legitimação da pena.

Tendo, contudo, grande contribuição no caráter crítico da criminologia, as teorias


psicanalíticas da criminalidade não conseguiram superar os limites fundamentais da
criminologia tradicional.

Tais trazem a etiologia de um comportamento, mas sem a análise das relações sociais que
explicam a lei e os mecanismos de criminalização de sociedades específicas.

A análise das funções punitivas não é mediada com a do conteúdo específico do


comportamento desviante, ou seu significado dentro da histórica determinabilidade das
relações sócio-econômicas.

Explicação etiológica do comportamento criminoso



Interpretação funcional da reação punitiva

A ausência de mediação entre estes momentos se dá pela visão aistórica e universalizante


com a qual a perspectiva psicanalítica trabalha.

“As relações sócio-econômicas, como necessário contexto


historicizante da análise, ficam substancialmente estranhas à
teoria psicanalítica.” (pág 58)

No geral, este empecilho revela as dimensões com que a psicanálise interpreta a questão
criminal: universalidade e aistoricidade, ao mesmo tempo que credita esta universalidade ao
antagonismo natural e ineliminável entre indivíduo e sociedade.

“as teorias psicanalíticas


reconduzem a concepção da universalidade do delito ao natural
antagonismo entre indivíduo e sociedade.” (pág 58)

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