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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DO DEPARTAMENTO

DE INQUÉRITOS POLICIAS DA CAPITAL – DIPO 4 – FORO CRIMINAL DA BARRA


FUNDA - SP

Inquérito Policial nº xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

xxxxxxxxxxxxxx, brasileira, solteira, estudante, RG nº.


xxxxxxxx/SP, residente na Rua xxxxxxxxxxxx, vem mui respeitosamente a
presença de V. Excelência, por meio do xxxxxxxxxxxxxxx da Defensoria Pú blica do
Estado de Sã o Paulo expor e requerer o que segue:

1. DOS FATOS

O xxxxxxxxxxxxx da Defensoria Pú blica do Estado de Sã o Paulo,


instaurou procedimento administrativo sob o nº. xxx/xxxx, para
acompanhamento da denúncia de lesão corporal perpetrada contra a cidadã
xxxxxxxxxxxxxx, pela açã o militar que, mediante o emprego de gá s lacrimogêneo e
disparos de balas de borracha produziram os ferimentos que ocasionaram a perda
da visão de seu olho esquerdo.

Os fatos da referida denú ncia ensejaram a lavratura do Boletim


de Ocorrência nº. xxxxxxxxx/20xx da 89ª Delegacia de Polícia e a Instauraçã o do
presente Inquérito Policial nº. xxxxxxxxxx/20xx (xxxxxxxxxxx), ora
acompanhado por esta Defensoria Pú blica.
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Fato é que, há um bom tempo que os moradores do bairro de
Paraisó polis vêm sofrendo com a arbitrariedade e os abusos de poder dos Policiais
Militares que utilizam o uso da força como forma de repressã o a fim de dissipar
qualquer concentraçã o de pessoas, ou até mesmo com o intuito de causar
constrangimento nos moradores.

Veja algumas declaraçõ es relevantes colhidas pelo Tribunal


Popular dos habitantes da regiã o (trechos), os quais optaram pelo anonimato em
razã o do medo, dando conta das atitudes arbitrarias dos policiais militares:

“A vítima alega ter fechado seu estabelecimento, pois viaturas


militares abordaram uma festa de rua com bombas e tiros. A vítima também alega
ter visto os policiais arrombarem um estabelecimento vizinho com um pé de cabra e
jogar duas bombas dentro com pessoas que se protegiam do atentado militar.”

“Os policiais abusaram da autoridade, alegando estar procurando


um suspeito de roubo de carros, a testemunha disse que não sabia onde estava o
suspeito, os policias ameaçaram e xingaram, chegaram a me dar alguns tapas na
cabeça de leve.”

“Eu estava no baile quando os policiais apareceram e todos


começaram a correr, haviam mais ou menos 7 viaturas. Quando as pessoas se
dispersaram, os policiais começaram a atirar bombas e dar tiros de balas de
borracha, fiquei sem entender o porque a multidão já tinha saído, foram 10 minutos
de pânico(...)”

“A testemunha alega que a PM estava furando os pneus dos carros.


Ela também alega que eles estavam atirando bolinhas de vidro e disparando spray de
pimenta.”

“Estava em um bar, quando vi a grande multidão correndo, fui


pegar minha moto para sair do local, quando estava subindo na moto, recebi uma

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cacetada nas costas e cai com a moto no chão. Quando tentei levantar a moto, fui
agredido com pontapés, chutes e porradas, sai correndo e deixei a moto no chão(...)”

2. DO DIREITO

2.1. DA ATUAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA NA DEFESA DAS


VÍTIMAS DE VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS

A Defensoria Pú blica de Sã o Paulo, por meio dos Nú cleos


Especializados, possui legitimidade para manifestar-se no presente inquérito,
enquanto representante da vítima.

No que concerne à atribuiçã o dos xxxxxxxxxxxxxxx; órgão


signatário desta petiçã o, a Lei Orgâ nica Estadual (Lei Complementar Estadual nº
988/06) previu sua criaçã o, bem como suas competências, havendo entre elas a
atuaçã o: “propondo medidas judiciais e extrajudiciais, para a tutela de interesses
individuais, coletivos e difusos, e acompanhá-las, agindo isolada ou
conjuntamente com os Defensores Pú blicos”.1

Considerando ainda que, incumbe ao xxxxxxxxxxxxxxxx, nos


termos do art. 2, inciso XVI, da Deliberaçã o CSDP nº. 69/2008: “receber
representaçã o que contenha denúncia de violação dos Direitos Humanos de
qualquer pessoa ou entidade pú blica ou privada, apurar sua veracidade e
procedência e notificar à s autoridades competentes sobre a coaçã o no sentido de
fazerem cessar os abusos praticados por particular ou por servidor pú blico”.

Importante registrar, que a Constituição Federal de 1988 prevê


a Defensoria Pú blica como ó rgã o competente para a “promoção de direitos
humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos
1
LCE nº 988/06: “Artigo 52 - A Defensoria Pú blica do Estado contará com Nú cleos Especializados,
de natureza permanente, que atuarã o prestando suporte e auxílio no desempenho da atividade
funcional dos membros da instituiçã o.
Artigo 53 - Compete aos Nú cleos Especializados, dentre outras atribuiçõ es:
II - propor medidas judiciais e extrajudiciais, para a tutela de interesses individuais, coletivos e
difusos, e acompanhá -las, agindo isolada ou conjuntamente com os Defensores Pú blicos, sem
prejuízo da atuaçã o do Defensor Natural;”.
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individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados.” 2 A Lei
Complementar nº 80/94 que, em razã o de exigência constitucional 3, organiza por
meio de normas gerais a Defensoria Pú blica do Estado, impõ e como objetivos
institucionais “a garantia dos princípios constitucionais da ampla defesa e do
contraditó rio”, in verbis (art. 3º-A, inciso IV), tal dispositivo atribui à Defensoria
Pública a representação dos necessitados, individual ou coletivamente, para
exercer em nome deles o contraditó rio e a ampla defesa constitucionais.

Esclarecida a competência dos signatá rios, mostra-se necessá rio


demonstrar a legitimidade da Defensoria Pú blica para atuar no presente inquérito
policial.

A este respeito, é preciso levar em consideraçã o os relatos das


testemunhas trazidos nesta petiçã o anteriormente, os quais demonstram o
evidente abuso de autoridade e a violência policial injustificada sofrida pela
cidadã Sra. Dayane de Oliveira Magalhã es no dia 12/01/2013, que se encontrava
em uma chopperia juntamente com seus amigos, quando foram surpreendidos por
policiais que fecharam a rua lançando balas de borracha, ocasionando a perda da
visão de um dos olhos em consequência da atuação da polícia militar.

No presente caso, Sra. xxxxxxxxxxxx além de ser vítima da referida


operaçã o policial, tendo seus direitos na esfera da dignidade humana violados,
também atende aos requisitos legais para fazer jus à assistência jurídica gratuita,
conforme dispõ e o art. 5º, LXXVI, CF: “o Estado prestará assistência jurídica
integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”.
2
“A Defensoria Pú blica é instituiçã o permanente, essencial à funçã o jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe, como expressã o e instrumento do regime democrá tico, fundamentalmente, a
orientaçã o jurídica, a promoçã o dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e
extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na
forma do inciso LXXIV do art. 5º desta Constituiçã o Federal.”
3
CF/88, art. 134, § 1º: “Lei complementar organizará a Defensoria Pú blica da Uniã o e do Distrito
Federal e dos Territó rios e prescreverá normas gerais para sua organizaçã o nos Estados, em cargos
de carreira, providos, na classe inicial, mediante concurso pú blico de provas e títulos, assegurada a
seus integrantes a garantia da inamovibilidade e vedado o exercício da advocacia fora das
atribuiçõ es institucionais.”.
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Assim, resta evidente a legitimidade da Defensoria Pública
para a representação e defesa dos interesses da cidadã Sra.
Dxxxxxxxxxxxxxx.

O procedimento padrã o para o controle de distú rbios civis visa à


manutençã o da ordem pú blica quando esta for violada, por meio de açõ es policiais
planejadas e coordenadas em conformidade com a lei.

Acontece que, é de suma importâ ncia a diferenciaçã o entre revide


e legítima defesa. A legítima defesa, diferente do revide, se apresenta quando
alguém, usando moderadamente dos meios necessá rios, repele injusta agressã o,
atual ou iminente, a direito seu ou de outrem.

No presente caso, os habitantes do bairro de Paraisó polis, desde


novembro de 2012, vêm sofrendo com a atuaçã o arbitrá ria e repressã o da polícia
militar, a pretexto de combate à criminalidade na regiã o.

Isto porque, é de costume que os moradores da localidade


reú nam-se na via pú blica defronte dos bares e restaurantes para divertirem-se,
constituindo o direito constitucional do lazer, direito este que vem sendo violado
face as repressõ es da Polícia Militar, que de maneira violeta, surge todas as noites e
dispersa os habitantes por meio do uso da força.

Neste contexto, a cidadã Sra. Dayane no dia 12/01/2013, em um


encontro com os amigos na choperia do bairro, foi surpreendida com a repressã o
da polícia militar que fechou o local disparando balas de borracha e bombas de gá s,
de maneira injustificada uma vez que nã o foi presenciado nenhum ato de violência
por parte dos habitantes, que se encontravam no local unicamente para
divertirem-se.

Dessa maneira, foi presenciada notó ria ilegalidade da atuaçã o


policial, que vêm, durante muito tempo, violando o direito dos moradores de
maneira extremamente violenta.
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E nã o é só , tal repressã o tem ocorrido nã o só em ambientes de
lazer, mas também em diversas situaçõ es do dia-a-dia dos moradores, como se
pode observar nos seguintes trechos tirados a partir dos relatos dos moradores da
regiã o: “A vítima alega que saiu para trabalhar às 06:30 e foi abordada na rua
com bombas de gás”, “A testemunha alega ter sido agredida por policiais
quando ia para o trabalho. Alega que estava subindo a rua quando foi
abordada por um PM(...)”, “a testemunha alega que estava trabalhando e os
policiais arrombaram o portão e a porta da casa, os policiais alegaram que
estavam procurando um suspeito (...) entraram no quarto da testemunha e
mexeram no seu guarda-roupa.”

O uso da força pela polícia, conforme dispõ e a legislaçã o


internacional sobre o tema e a doutrina, deve pautar-se pela moderaçã o,
excepcionalidade, necessidade e proporcionalidade.

Neste sentido, dispõ e o art. 3º do Có digo de Conduta para


Policiais, da ONU, que “os policiais só podem empregar a força quando tal se
apresente estritamente necessá rio, e na medida exigida para o cumprimento do
seu dever”.

O mesmo diploma dispõ e que “sempre que o uso legítimo da força


e de armas de fogo for inevitá vel, os responsá veis pela aplicaçã o da lei deverã o: (a)
Exercer moderaçã o no uso de tais recursos e agir na proporçã o da gravidade da
infraçã o e do objetivo legítimo a ser alcançado; (b) Minimizar danos e ferimentos, e
respeitar e preservar a vida humana; (c) Assegurar que qualquer indivíduo ferido
ou afetado receba assistência e cuidados médicos o mais rá pido possível; (d)
Garantir que os familiares ou amigos íntimos da pessoa ferida ou afetada sejam
notificados o mais depressa possível” (Art. 5º).

Dispõ e, ainda que nã o se usará armas de fogo, “exceto em casos de


legítima defesa pró pria ou de outrem contra ameaça iminente de morte ou

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ferimento grave; para impedir a perpetraçã o de crime particularmente grave que
envolva séria ameaça à vida; para efetuar a prisã o de alguém que represente tal
risco e resista à autoridade; ou para impedir a fuga de tal indivíduo, e isso apenas
nos casos em que outros meios menos extremados revelem-se insuficientes para
atingir tais objetivos. Em qualquer caso, o uso letal intencional de armas de fogo só
poderá ser feito quando estritamente inevitá vel à proteçã o da vida” (art. 9º).

Como se vê, diversas balizas sã o colocadas ao policial, que deve


resguardar ao má ximo a integridade física de todos.

Aliá s, a pró pria Polícia Militar de Sã o Paulo adota em suas fileiras


de formaçã o o chamado “Método Giraldi”, ou “Tiro Defensivo na Preservaçã o da
Vida”, o qual expressamente admite o princípio da subsidiariedade: “tudo aquilo
que for possível solucionar sem disparos, sem bombas, sem “invasã o” (entrada),
sem necessidade do uso da força, assim o será ”4.

A liberaçã o do aparato repressor, mormente o disparo de armas


de fogo (ainda que com muniçã o de elastô mero) só é autorizado em caso de
legítima defesa, jamais quando ocorram atos (ainda que generalizados) de
violência contra o patrimô nio, pú blico ou privado. Por fim, sendo necessá rio o uso
de força, é imprescindível que haja o prévio aviso aos manifestantes, como forma
de tentar contornar a situaçã o a partir do diá logo. Ainda assim, deve haver o uso
proporcional da força, o que afasta, por conseguinte, o lançamento de bombas de
gá s lacrimogênio e de efeito moral no centro de aglomeraçõ es, bem como o disparo
de arma de fogo, com muniçã o de elastô mero, a curta distâ ncia e em regiõ es vitais,
condutas praticadas pelos policiais nos atos em questã o.

Já os Princípios Bá sicos para Uso da Força e de Armas de Fogo,


também da ONU, dispõ e que “no cumprimento das suas funçõ es, os responsá veis
pela aplicaçã o da lei devem, na medida do possível, aplicar meios nã o-violentos
antes de recorrer ao uso da força e armas de fogo. O recurso à s mesmas só é
4
www.esmp.sp.gov.br/eventos/passados/giraldi_atuacaopolicia.doc
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aceitá vel quando os outros meios se revelarem ineficazes ou incapazes de
produzirem o resultado pretendido” (art. 4º). Este o princípio da necessidade
associado, ainda, a uma regra de subsidiariedade.

Ora, desta maneira, resta claro que os policiais militares agiram de


maneira incoerente com suas atribuiçõ es e com a preservaçã o da ordem pú blica do
dia 12/01/2013, uma vez que quando o uso da força nã o puder ser evitado nas
manifestaçõ es populares, seu uso deve observar os princípios da dignidade
humana, legalidade, necessidade e proporcionalidade, moderaçã o e conveniência.

2.3. DA RESPONSABILIDADE PENAL

Considerando que, segundo a Lei nº. 4898/65, art. 5º, o abuso de


autoridade (ou poder) será qualquer desrespeito aos direitos e garantias
individuais, seja pelo excesso numa açã o ou nos meios empregados para tal,
cometido por pessoa que exerça cargo, emprego ou funçã o pú blica, de natureza
civil ou militar, ainda que transitoriamente e sem remuneraçã o. 5

Resta evidente que os policiais têm agido de forma abusiva, ilegal


e totalmente desrespeitosa perante as normas nacionais e internacionais que
tratam da dignidade da pessoa humana, tendo em vista que desde novembro de
2012, os moradores do bairro Paraisó polis, vêm sofrendo com a atuaçã o arbitrá ria
da Polícia Militar, resultando em acidentes abusivos como o da Autora do presente
caso, que perdeu a visã o do seu olho esquerdo.

Já que disparar aleatoriamente contra uma multidã o ou


manifestaçã o nã o é legítimo e muito menos aceitá vel, como no caso em tela que,
segundo as testemunhas, houve diversos atos policiais abusivos, que foram
surpreendidos com bombas de efeito moral, disparos de arma de fogo (muniçã o de
elastô mero).

5
Disponível: http://www.jornalismodiferente.com.br/ler-coluna/180/violencia-policial-e-abuso-
de-autoridade.html
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Fato que infelizmente nã o é inédito nas operaçõ es policiais
durante as chamadas de perturbaçã o de sossego ou em situaçõ es similares como
em repressõ es de manifestaçõ es.

Em 13/06/2013 o repó rter da Futura Press, xxxxxxxxx, foi


atingido no olho por bala de borracha atirada por um policial quando fazia a
cobertura de um protesto contra o aumento das passagens em Sã o Paulo e hoje usa
uma pró tese ocular. Na época os relatos de testemunhas e da pró pria vítima
também afirmaram que a manifestaçã o era pacífica: “Estava tudo muito pacífico,
tranquilo. [...] Na hora, os policiais começaram a usar a força, com a Tropa de
Choque jogando bomba de efeito ‘imoral’, bala de borracha, gás lacrimogêneo.
Nunca tinha visto tanta truculência em um ato do tipo. Lembro perfeitamente de
quando fui atingido. Era uma situação de caos generalizado, com muito barulho de
bombas e enorme fumaceira. Naquela noite, a polícia não estava preocupada em
quem iria atingir, de qual forma usaria seu armamento. Os policiais atiravam na
direção do olhar das pessoas, no peito, na cabeça, mirando principalmente nas
regiões delicadas”. 6

O gremista, xxxxxxxxxxxxxx, foi atingido por duas balas de borracha


nos olhos, durante um confronto entre torcedores dos times Grémio e Santos contra os
Policiais Militares, 20 minutos antes da partida do jogo, ficando sob sério risco de
perder a visão. Testemunhas afirmaram que em nenhum momento a vítima se
envolveu no tumulto: “Vimos a Brigada Militar formando um cordão de isolamento em
frente a um boteco, a 50 metros de distância da gente. Era um bar onde torcedores se
reúnem antes dos jogos”. 7

6
Disponível em: https://fernandafav.jusbrasil.com.br/noticias/122357015/ainda-tenho-trauma-
de-protestos-diz-fotografo-que-perdeu-olho-um-ano-atras?ref=home
7
Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2013/08/gremista-ferido-por-
bala-de-borracha-em-frente-a-arena-pode-ficar-cego-4251802.html.pdf?sequence=1&isAllowed=y
apud Protesto em Sã o Paulo Avenida Paulista – 2013. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=TYgBuZvzB0k
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Tais açõ es policiais prejudicam a confiança da sociedade na
aplicaçã o da lei, além de ameaçar ainda mais a segurança pú blica, prevista na Carta
Magna de 1988:

Art. 144. A segurança pública, dever do


Estado, direito e responsabilidade de todos, é exercida
para a preservação da ordem pública e da incolumidade
das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes
ó rgã os:                             

§ 5º - à s polícias militares cabem a polícia


ostensiva e a preservaçã o da ordem pú blica; aos corpos de
bombeiros militares, além das atribuiçõ es definidas em lei,
incumbe a execuçã o de atividades de defesa civil.

Art. 37 § 6 As pessoas jurídicas de direito


público e as de direito privado prestadora de serviços
públicos responderão pelos danos que seus agentes,
nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o
direito de regresso contra o responsável nos casos de
dolo ou culpa. [grifo nosso]

Outrossim, o art. 3º comum à s quatro Convençõ es de Genebra


(1949), da qual o Brasil é signatá rio, proíbe atos com violência em relaçã o à vida e
os ultrajes a dignidade pessoal.

Quanto a atuaçã o dos policiais nas operaçõ es militares, o


Protocolo Internacional formulado pela Anistia Internacional dispõ e:

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- Ordens claras devem ser dadas a todos
os policiais que a assistência médica a qualquer pessoa
lesada deve ser fornecida sem demora;

- Qualquer uso da força durante uma


reunião pública deve ser objeto de análise e, se for o
caso, de investigação e sanção disciplinar ou criminal.

- As reclamações contra a polícia devem


ser investigadas de forma eficaz e imparcial, e se for o
caso, sujeitas à s sançõ es disciplinar ou criminal.

- Os policiais devem ser identificados


durante as operaçõ es de ordem pú blica (através de etiquetas
com nome ou nú mero). Ordens executó rias devem ser dadas
para assegurar o cumprimento da obrigaçã o de usar essas
etiquetas. Equipamentos de proteção devem ser usados
para a proteção dos policiais e não como um meio para
esconder a sua identidade. [grifo nosso]

Desse modo, conclui-se que as responsabilidades inerentes ao uso


da força sã o partilhadas pelos agentes respectivos e pelos seus superiores, além de
ambos serem responsabilizados tanto na esfera administrativa como na esfera
penal, como pode-se observar em alguns julgados da Exma. Justiça Castrense:

EMENTA: Policial Militar, ao reprimir manifestação


popular, exorbita de suas funções, ofendendo a
integridade física de pessoa que sequer participava do
tumulto. Imagens gravadas pela imprensa demonstrativas
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do proceder abusivo do apelante e consentâ neas com o
relato do ofendido, denotam a certeza da autoria delitiva.
Plenamente configurado o delito do art. 209 "caput" do
CPM.
(TJME-SP - APR: 0055642006, 1ª Câ mara, Relator: Fernando
Pereira, data do julgamento: 17/07/2007,)

EMENTA: Lesão na região ocular da vítima incompatível


com o uso moderado da força para contenção do civil,
que reagia à prisã o, passando-se do estrito cumprimento
do dever legal para o excesso doloso. Agressão que não
encontra justificativa legal. Condenação mantida.

(TJME-SP – APL Criminal nº. 006163/2010, 2ª Câ mara,


Relator: Avivaldi Nogueira Junior, data do julgamento:
19/05/2011).

EMENTA: Apelaçã o Criminal – Policiais Militares –


Condenaçã o pela prá tica do delito de lesã o corporal leve
(art. 209 “caput” do CPM) – Provas seguras no sentido de ter
sido o acusado o autor dos ferimentos provocados no
ofendido – Materialidade delitiva e autoria incontroversas –
Nexo causal entre conduta e resultado delituoso -
Condenação mantida – Condenação pela prática de
condescendência criminosa (art. 322 do CPM) –
Graduada que presencia agressão a civil e não toma as
providências cabíveis, deixando de responsabilizar
subordinado – conduta omissa devidamente comprovada –
Condenaçã o mantida - Recursos nã o providos.

(TJME-SP – APL Criminal nº. 006781/2013, 1ª Câ mara,


Relator: Silvio Hiroshi Oyama, data do julgamento:
29/07/2014).

EMENTA: Mandado de Segurança – Procedimento


Disciplinar. Superior acusado de “deixar de orientar”
subordinado na conduçã o de viatura – Responsabilidade
solidária – Possibilidade – Art. 11, § 2º, n. 1, do RDPM. Nã o
apresentaçã o de defesa final – Possibilidade - Legalidade –
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Rito célere estabelecimento por norma interna da
Corporaçã o – Legalidade, desde que, como no caso,
assegurada a ampla defesa e o contraditó rio – Inexistência
do vício. Impossibilitada a alegaçã o de falta de
proporcionalidade e razoabilidade em sede de impetraçã o
mandamental – Nulidades nã o verificadas. Apelo improvido.
(APL. nº. 003952/2016, 2ª Câ mara - TJM-SP, relator Cló vis
Santinon, julgamento 22/09/2016).

EMENTA: Conselho de Justificaçã o – Oficial da Polícia Militar


– 1ª Tenente PM – Apuraçã o na fase administrativa que
julgou improcedente a representaçã o formulada
pelo Comandante Geral. Guarniçã o policial que encaminhou
as partes de ocorrência de desinteligência ao Batalhã o (Cia)
e nã o ao Distrito Policial – Oficial, Comandante de Força
Patrulha, ciente da irregularidade na condução da
ocorrência, omitiu-se, deixando o desfecho da mesma a
critério das praças – Conduta não justificada – A conduta
omissiva da justificante demonstra falta
de responsabilidade, ausência de capacidade de
comando sobre seus subordinados, desrespeito às
normas gerais estabelecidas para o policiamento e
desatenção ao serviço. Oficial considerada incompatível
com o Oficialato. Decretada a perda do posto e da patente.

(Conselho de Justificaçã o nº. 000219/2011, Ó rgã o Julgador:


Pleno, relator Cló vis Santinon, julgamento: 12/12/2012).

EMENTA: Apelaçã o Criminal – Policiais Militares –


Condenaçã o pela prá tica do delito de lesã o corporal leve
(art. 209 “caput” do CPM) – Provas seguras no sentido de ter
sido o acusado o autor dos ferimentos provocados no
ofendido – Materialidade delitiva e autoria incontroversas –
Nexo causal entre conduta e resultado delituoso -
Condenaçã o mantida – Condenação pela prática de
condescendência criminosa (art. 322 do CPM) – Graduada
que presencia agressão a civil e não toma as
providências cabíveis, deixando de responsabilizar
subordinado – conduta omissa devidamente
comprovada – Condenaçã o mantida - Recursos nã o
providos.
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(APL. Criminal nº. 006781/2013, 1ª Câ mara TJM-SP, relator
Silvio Hiroshi Oyama, julgamento: 29/07/2014).

EMENTA: EMBARGOS INFRINGENTES DO JULGADO. MAUS


TRATOS. RESULTADO MORTE. PENA BASE FIXADA ALÉ M
DO MÍNIMO LEGAL.  Nã o há que se afastar a incidência do §
2º do art. 213 do CPM se há provas incontestes nos autos,
orais e técnica, no sentido de que foram os castigos
impingidos, principalmente pelo Embargante, que
determinaram a concussã o cerebral que provocou a
inconsciência na vítima, esta condiçã o sine qua non, para o
desenvolvimento de hipotermia que resultou na
morte. Apurou-se nos autos que foram os "incentivos"
desferidos pelo Embargante contra a cabeça da vítima,
durante manobra na Serra do Mendanha, que provocaram a
concussã o cerebral, que acabou por levá -lo a morte, aliada à
hipotermia. Nã o havendo como deixar de reconhecer de
causalidade entre os maus tratos e o resultado morte. Pelo
princípio da individualização da pena justifica-se
fixação de reprimenda mais severa ao oficial
subordinado que ao seu comandante, uma vez que suas
personalidades e condutas foram diversas, contribuindo
de maneira distinta para a prática do crime. Se a
omissão do Comandante foi relevante para a ocorrência
do resultado morte, os castigos impingidos pelo seu
inferior hierárquico foram determinantes para que esta
ocorresse. Prova oral firme no sentido de que o embargante
agiu com dolo intenso, demonstrou insensibilidade para
com o sofrimento alheio, sugerindo sua periculosidade,
justificando reprimenda acima do mínimo
legal. Embargos rejeitados. Por maioria.

(Embargos nº. 0000010-81.2001.7.01.0101 (2), STM – DF,


relator Marcos Martins Torres, julgado: 12/04/2012).

EMENTA: A responsabilidade administrativa é


independente da penal. Trata-se de instâ ncias distintas,
ensejando decisõ es de natureza e grau igualmente
diferentes. Reserva de competência exclusiva à Justiça
Militar Estadual (artigo 125 § 4º CF) através de seu Ó rgã o de
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Segundo Grau para, em caso de crimes, assim
compreendidos tanto os militares quanto os comuns,
decretar a perda da graduaçã o das praças, bem como,
guardadas as distinçõ es, também a perda da patente dos
oficiais.

(Perda de Graduaçã o de Praça nº. 000654/2003, Ó rgã o


Julgador: Pleno, relator Paulo Prazak, julgamento:
23/02/2005).

Os seus responsá veis, bem como os comandantes de tais


operaçõ es policiais, devem ser identificados e posteriormente responsabilizados
conforme dispõ e o Código Penal em seus artigos 13, §2, a) (relaçã o de causalidade
- considera-se causa a açã o ou omissã o sem a qual o resultado nã o teria ocorrido);
18 (dolo - o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo); 22 (em
estrita obediência a ordem, nã o manifestamente ilegal, de superior hierá rquico);
61 (agravantes – crime cometido com meios indiciosos, cruéis ou que poderiam
resultar em perigo comum); 129, §1, I , III e §2, III e IV (Ofender a integridade
corporal ou a saú de de outrem); 135 (ao deixar de prestar assistência a pessoa
ferida ou nã o pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pú blica); o Estatuto dos
Militares nos artigos 41 (responsabilidade dos executantes independe de ordem
do superior); 52 (responsabilidade funcional indivisível, responsabilidade integral
pelos atos que praticam ou omitem); 61 (violaçã o do dever militar) e 62, a)
(transgressã o da disciplina militar – as açõ es ou omissõ es à disciplina militar
especificadas nos regulamentos. E o Código Penal Militar nos artigos 29, § 2
(relaçã o de causalidade – açã o ou omissã o e o dever de agir); 33, I (dolo – quis ou
assumiu o risco do resultado); 322 (Condescendência criminosa: deixar de
responsabilizar subordinado que comete infraçã o no exercício do cargo, ou,
quando lhe falta competência, nã o levar o fato ao conhecimento da autoridade
competente); 209, §2 (lesã o corporal grave – ofender a integridade corporal ou a
saú de de outrem ocasionando perda de sentido e deformidade duradoura).

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Já que em tempos de distú rbios interiores e tensõ es internas
padrõ es humanitá rios mínimos devem ser observados pelas autoridades
competentes para a aplicaçã o da lei e pelo zelo da ordem pú blica. Pois a sociedade
espera ter seu direito à segurança, saú de, integridade física, bem como, dignidade
humana preservados e nã o violados pelos pró prios agentes pú blicos, sendo a
incapacidade de levar os responsá veis por tais atos perante a justiça uma forma de
a manutençã o de uma cultura de impunidade e desprezo pela dignidade humana.

2.3.1. DO DIREITO HUMANITÁRIO

O Direito Humanitá rio trata-se de um conjunto de normas


internacionais que visam limitar os efeitos de conflitos armados, protegendo as
pessoas que dele nã o participaram, restringindo os meios e os métodos
empregados nos conflitos.

Considerando que o ato ilícito internacional por parte de um


Estado ocasiona sua responsabilizaçã o, é tido como ato ilícito: a) a conduta
resultante de uma açã o ou omissã o é atribuível (imputá vel) ao Estado perante o
direito internacional; e (b) a conduta resulta na violaçã o de uma obrigaçã o
internacional daquele Estado.

A responsabilizaçã o do Estado ocorre nos casos onde o pró prio


Estado é o perpetrador, mas também em situaçõ es onde a conduta de uma pessoa
ou ó rgã o pode ser imputada ao Estado, como no referido caso da cidadã Dayane de
Oliveira Magalhã es onde a lesã o de natureza grave foi ocasionada por policial
mediante disparo de projéteis de elastô mero (“bala de borracha”).

Veja o entendimento dos Exmos. Tribunais de Justiça:

EMENTA: Recurso inominado. Indenizaçã o por danos


morais. Manifestaçã o dos professores estaduais no dia 29 de
abril de 2015. Lesão corporal provocada por disparo de
bomba de efeito moral efetuado por policiais militares
em serviço. Excesso na atuação da policia militar
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caracterizado. Responsabilidade objetiva do Estado por
ato comissivo. Observâ ncia do art. 37, § 6º, cf. Dano
efetivamente comprovado. Dever de indenizar. Culpa do
agente devidamente configurada. Recurso conhecido e
desprovido.

(RI nº. 003335038201681601820, 4ª Turma Recursal -


DM92, Relator Renata Ribeiro Bau, data do julgamento:
17/03/2017).

EMENTA: Recurso inominado. Indenização por danos


morais. Lesão corporal provocada por disparo de bala
de borracha efetuado por policiais militares em serviço.
Excesso na atuação da policia militar caracterizado.
Responsabilidade objetiva do Estado por ato comissivo.
Dano efetivamente comprovado. Dever de indenizar.
Culpa do agente devidamente configurada. Recurso
conhecido e provido.
(RI nº. 0017991-86.2015.8.16.0019, 4ª Turma Recursal -
DM92, Relator Renata Ribeiro Bau, data do julgamento:
17/03/2017).

EMENTA: Recurso inominado. Indenizaçã o por danos


morais. Manifestação dos professores estaduais no dia 29
de abril de 2015. Lesão corporal provocada por disparo
de bomba de efeito moral efetuado por policiais
militares em serviço. Excesso na atuação da policia
militar caracterizado. Responsabilidade objetiva do
Estado por ato comissivo. Observâ ncia do art 37, § 6º, cf.
dano efetivamente comprovado. Dever de indenizar. Culpa
do agente devidamente configurada. Recurso conhecido e
desprovido.

(RI nº. 0033350-38.2016.8.16.0182, 15º Juizado Especial da


Fazenda Pú blica de Curitiba, Relator Renata Ribeiro Bau,
data do julgamento: 17/02/2017).

EMENTA: APELAÇÃ O. Responsabilidade civil do Estado.


Demandante que durante a comemoraçã o de festividade de
ano novo (01.01.14), ao sair de banheiro pú blico, é alvejada
por balas de borracha (elastô mero), disparadas por Policiais
Militares . Arcabouço probató rio colacionado que dá conta
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do início de tumulto durante os festejos, instaurado entre
porçã o dos populares e os milicianos . Fatos apurados em
sede de Inquérito Policial Militar (IPM nº 33BPMI-
001/06/14), a apontar a conduta dos insurretos, em parte
presos em flagrante e/ou liberados mediante lavratura de
termo circunstanciado. Informaçã o, inclusive, acerca da
necessidade do emprego de força, destacando-se o uso de
bombas de efeito moral (gás) e de balas de borracha
(elastômero) como meio para controlar a turba revolta.
Tratando-se, pois, de açã o policial é indiscutível se estar
diante de ato comissivo, a impor a aná lise de eventual
responsabilidade civil do Estado pelo ângulo da teoria
objetiva, como quer o artigo 37, §6º, da Constituição
Federal Posto que as provas colhidas deem conta de
situaçã o que reclamava o uso de força, certo é que essas
medidas policiais só são eventualmente passíveis de
aceitação contra aqueles que se posicionam como
graves violadores da ordem, paz ou segurança pública.
Inexistência de prova, indício ou sequer ilação de que a
demandante estivesse envolvida na insurreição popular
ou que tenha se colocado em situação de risco
Ferimentos sofridos que dimanam, portanto, de ato ilícito
praticado pelos agentes policiais, mormente diante da
necessidade de se engrossar as cautelas para a
utilização de equipamentos letais e/ou não letais
Situaçã o vivenciada que, com folgas, desborda do mero
aborrecimento cotidiano, configurando-se como dano moral
in re ipsa, passível, pois, de indenizaçã o Valor fixado pelo
magistrado de primeiro grau, a saber, 20 (vinte) salá rios
mínimos, que se mostra razoá vel à luz das peculiaridades do
caso concreto Precedentes, em casos aná logos, desta Corte
de Justiça Sentença mantida, observado o regime jurídico
dos consectá rios legais incidentes sobre o valor da
condenaçã o Recurso nã o provido.

(APL nº. 1007386-75.2014.8.26.0066, 1ª Câ mara de Direito


Pú blico, Relator Marcos Pimentel Tamassia, data do
julgamento: 21/02/2017).

Insta salientar que, ao atuar em operaçõ es policiais durante as


chamadas de perturbaçõ es de sossego, as autoridades devem estar capacitadas nos
aspectos técnicos da manutençã o da ordem pú blica, além de compreender suas

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responsabilidades legais e os direitos humanos relativos à integridade pessoal, à
liberdade e segurança pessoal e a proteçã o judicial dos cidadã os todos eles
assegurados pela Convençã o Americana de Direitos Humanos, que, ratificada pelo
Estado brasileiro em 25 de setembro de 1992, tem eficá cia interna, no mínimo
(para nã o se entrar em nenhuma discussã o doutriná ria), equivalente à lei federal.

A Convençã o Americana dispõ e:

Artigo 5º – Direito à integridade pessoal

1. Toda pessoa tem direito a que se respeite sua


integridade física, psíquica e moral.

Artigo 7º – Direito à liberdade pessoal

1. Toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança


pessoais.

Artigo 25 – Proteçã o judicial

1. Toda pessoa tem direito a um recurso simples e rá pido


ou a qualquer outro recurso efetivo, perante os juízes
ou tribunais competentes, que a proteja contra atos que
violem seus direitos fundamentais reconhecidos pela
Constituiçã o, pela lei ou pela presente Convençã o,
mesmo quando tal violaçã o seja cometida por pessoas
que estejam atuando no exercício de suas funçõ es
oficiais.”

No mais, a dignidade humana, a vida e sua preservaçã o sã o


valores fundantes de todo Estado e de toda comunidade internacional.

Na mesma toada, a dignidade da pessoa humana foi alçada a um


dos cinco fundamentos da Repú blica Federativa do Brasil (CF, art. 1º, III).

Nesse mesmo diapasã o, nã o se olvide que é função das polícias a


preservação da incolumidade física de quaisquer indivíduos, segundo o que
dispõ e expressamente o artigo 144 da Constituiçã o Federal:
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“A segurança pública, dever do Estado, direito e
responsabilidade de todos, é exercida para a preservação
da ordem pú blica e da incolumidade das pessoas e do
patrimô nio, através dos seguintes ó rgã os: I - polícia federal;
II - polícia rodoviá ria federal; III - polícia ferroviá ria federal;
IV - polícias civis; V - polícias militares e corpos de
bombeiros militares.

Por outro lado, a mesma Convençã o Interamericana determina,


logo em seu artigo 1º, que os Estados parte têm o dever de respeitar e de garantir
todos os direitos nela previstos:

“Artigo 1º – Obrigaçã o de respeitar os direitos

1. Os Estados Partes nesta Convençã o comprometem-se a


respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a
garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja
sujeita à sua jurisdiçã o, sem discriminaçã o alguma por
motivo de raça, cor, sexo, idioma, religiã o, opiniõ es políticas
ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social,
posiçã o econô mica, nascimento ou qualquer outra condiçã o
social.”

A clá usula geral de proteçã o do indivíduo frente à privaçã o


arbitrá ria da vida, que gera uma proibiçã o absoluta de execuçõ es arbitrá rias e
desaparecimentos forçados, interpretada em concordâ ncia com a obrigaçã o de
respeito e garantia dos direitos humanos, gera aos Estados, obrigaçõ es tanto
positivas como negativas. Neste sentido, um aspecto importante do dever estatal
de prevenir violaçõ es é investigar de maneira imediata, exaustiva, séria e
imparcial os responsá veis pelas violaçõ es, impondo-lhe puniçõ es, para impedir
que novas violaçõ es ocorram.

Neste sentido já decidiu a Corte Interamericana de Direitos


Humanos, no caso Velá squez Rodríguez vs. Honduras (pará grafo 176):
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“O Estado está, por outro lado, obrigado a investigar toda
situação em que se tenha violado os direitos humanos
protegidos pela Convenção. Se o aparato do Estado atua de
modo a que uma violação permaneça impune, não
restaurando, à vítima, a plenitude de seus direitos, pode-se
afirmar que o Estado está a descumprir o dever de garantir o
livre e pleno exercício de direitos às pessoas sujeitas à sua
jurisdição. O mesmo é válido quando se tolera que
particulares ou grupos deles atuem livre ou impunemente em
menoscabo dos direitos humanos reconhecidos na
Convenção.”

É evidente que o direito humanitá rio preza pela aplicaçã o


adequada da lei, portanto, a violaçã o de tais direitos é contrá ria à s obrigaçõ es
legais impostas ao Estado, além de uma afronta aos direitos humanos.

3. DO CONTROLE DE CONVECIONALIDADE

O controle de convencionalidade é entendido como a aná lise da


compatibilidade dos atos internos em face de normas internacionais. Tal controle
pode ser classificado como: internacional, autêntico ou definitivo, quando
atribuído a ó rgã os internacionais, como os tribunais internacionais de direitos
humanos; ou nacional, provisó rio ou preliminar, quando realizado por tribunais
internos e órgãos vinculados à administração de justiça.

Os juízes de tribunais nacionais e autoridades pú blicas em geral,


por estarem sujeitos ao “império da lei”, também estã o submetidos aos tratados
internacionais ratificados por seus países, sendo obrigados, portanto, a aplicá -los.
Nesta ú ltima hipó tese, o controle de convencionalidade teria um cará ter difuso, já
que todo e qualquer magistrado deve cumprir tal tarefa, sem prejuízo de
eventual revisão por parte de organismo internacionais.

Sobre o tema do Controle de Convencionalidade, é elucidativa a


jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos (berço do conceito),

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que assinala suas bases de maneira atualizada na sentença do Caso Gelman vs.
Uruguai, de 24/02/2011 (mérito e reparaçõ es):

193. Quando um Estado é parte de um


tratado internacional como a Convençã o Americana, todos
os seus ó rgã os, inclusive seus juízes, estã o submetidos
à quele, o que os obriga a zelar para que os efeitos das
disposiçõ es da Convençã o nã o se vejam enfraquecidos pela
aplicaçã o de normas contrá rias a seu objeto e fim, razã o pela
qual os juízes e órgãos vinculados à administração de
justiça, em todos os níveis, possuem a obrigação de
exercer ex officio um “controle de convencionalidade”
entre as normas internas e a Convenção Americana,
evidentemente no marco de suas respectivas
competências e da normativa processual
correspondente. Nesta tarefa devem considerar não
apenas o tratado, mas também sua interpretação
realizada pela Corte Interamericana, intérprete última
da Convenção Americana.8

Evidentemente que tal conceito vale para todos os tratados


internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil, bem como as decisõ es
dos respectivos ó rgã os de supervisã o - como os Comitês de tratados da ONU.

Repisemos, assim, os pontos que merecem atençã o específica no


marco do controle de convencionalidade:

8
Disponível em língua portuguesa pelo CNJ, o qual, segundo seu sítio eletrô nico, “é o guardiã o da
jurisprudência em língua portuguesa da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), de
acordo com o memorando de entendimento assinado por ambos os ó rgã os”.
<http://www.cnj.jus.br/files/conteudo/arquivo/2016/04/09b4d396111fe41e886a744a9f8753e1.
pdf>.
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Conforme elucidado acima, verifica-se, dentre outras, as seguintes
violaçõ es a normas e standards do Sistema ONU de proteçã o aos Direitos
Humanos: a) art. 2º (direito à vida, integridade física) da Declaraçã o Universal dos
Direitos Humanos, art. 12, do Pacto de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
c/c Comentário Geral nº 14 do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais (proibiçã o de tratamentos médicos nã o consensuais); b) art. 5º (não
discriminação); art. 12 (igualdade perante a lei) c/c Comentá rio Geral nº 1; Artigo
14, item 1, b (Direito à liberdade), c/c Diretrizes do Comitê sobre os Direitos das
Pessoas com Deficiência quanto ao Artigo 14; art. 15 (proibiçã o de tortura) ; artigo
19 (direito à vida independente); Artigo 25 - Direito à Saú de, item “d” todos da
Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência; c) Art. 26 do Pacto
Internacional dos Direitos Civis e Políticos (proibiçã o da discriminaçã o por
situaçã o econô mica).

Verifica-se, dentre muitas outras, as seguintes e principais


violaçõ es a normas e standards do Sistema Interamericano de Proteçã o aos
Direitos Humanos: art. 5º (integridade física), art. 7º da Convenção Americana de
Direitos Humanos (Direito à liberdade pessoal); art. 24 (igual proteçã o perante
a lei); art. 2º (definiçã o de tortura) da Convenção Interamericana para Prevenir
e Punir a Tortura.

3. DOS PEDIDOS

Assim, conforme prerrogativa prevista na Lei Complementar nº


80, de 12 de janeiro de 1994 9, para o acompanhamento mais eficaz e tomada das
providências cabíveis por esta Defensoria, requer-se:

9
Art. 128. Sã o prerrogativas dos membros da Defensoria Pú blica do Estado, dentre outras que a lei
local estabelecer:
X - requisitar de autoridade pú blica ou de seus agentes exames, certidõ es, perícias, vistorias,
diligências, processos, documentos, informaçõ es, esclarecimentos e providências necessá rias ao
exercício de suas atribuiçõ es;
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a) que sejam ouvidos o comandante responsável pela
operação policial, bem como, os policiais militares participantes da
operação na chamada de perturbação de sossego do dia 12/01/2013
nos autos do Inquérito Policial nº. 224/2013, sendo intimados mediante
ofício para o Ilustríssimo Comandante da Polícia Militar do Estado de Sã o
Paulo, sito a rua Ribeiro de Lima, nº 140, bairro Luz, CEP: 01122-000, Sã o
Paulo-SP;

b) A reconstituiçã o dos fatos;

c) O nú mero de bombas lançadas e quais os responsá veis


pelo lançamento.

d) O Procedimento Operacional Padrã o (POP) de


distú rbio civil;

e) Caso nã o atendidos os pedidos retro, que seja realizada


a aná lise dos dispositivos internacionais de controle de convencionalidade
para eventual acionamento das Cortes e organismos internacionais.

Termos em que,
Pede deferimento.
Sã o Paulo, xxxxxxxxxxxxxx

Defensor(a) Pú blico(a)
Unidade de XXXXXXXXX

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