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Bioquímica Básica e

Metabolismo
Prof.ª Graziela dos Santos Barni

Indaial – 2019
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2019

Elaboração:
Prof.ª Graziela dos Santos Barni

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

B262b

Barni, Graziela dos Santos

Bioquímica básica e metabolismo. / Graziela dos Santos Barni. –


Indaial: UNIASSELVI, 2019.

212 p.; il.

ISBN 978-85-515-0340-9

1. Bioquímica. - Brasil. 2. Metabolismo. – Brasil. II. Centro Universitário


Leonardo Da Vinci.

CDD 572

Impresso por:
Apresentação
Prezado acadêmico, este livro didático reúne informações preciosas
sobre bioquímica e metabolismo. Mas questionamos: O que é a Bioquímica?
Como podemos definir Metabolismo?

A bioquímica é considerada uma ciência interdisciplinar que utiliza


princípios e métodos da química na investigação das transformações
que ocorrem nas substâncias e moléculas dos seres vivos, enquanto que o
metabolismo são as transformações e reações químicas relacionadas aos
processos de síntese, degradação e decomposição envolvendo nossas células.

Neste livro didático conheceremos os principais processos e conceitos


que envolvem essas ciências tão importantes para os seres vivos e que
vivenciamos diariamente. Para tornar este momento mais organizado e de
fácil entendimento, dividimos em três unidades.

Na Unidade 1, nosso foco inicialmente estará direcionado para as


informações relacionadas aos fundamentos da bioquímica. Esta unidade estará
dividida em dois tópicos: a lógica molecular da vida e célula eucarionte e procarionte.

Você lembra quais são as principais teorias para explicar o aparecimento


da vida no nosso planeta? O que significa ser eucarionte e procarionte?

Na Unidade 2 será abordado o tema biomoléculas. Afinal, o que


são biomoléculas? Como podemos imaginar, biomoléculas são moléculas
essenciais à vida. Esta unidade está dividida em sete tópicos, sendo eles:
características gerais das biomoléculas; água; aminoácidos; proteínas;
enzimas; carboidratos; ácidos nucleicos; e lipídios.

E, por fim, na Unidade 3 iremos direcionar nossas informações para


o metabolismo que acontece no interior de nossas células. Esta unidade está
dividida em cinco tópicos: princípios de bioenergética; ciclo do ácido cítrico;
metabolismo de ácidos graxos e triglicerídeos; metabolismo de aminoácidos;
e metabolismo de nucleotídeos.

Mas como nossas células obtêm energia para realizar todas as suas
funções? Por que acontecem erros no metabolismo de lipídios, podendo gerar
doenças como hipercolesterolemia e adrenoleucodistrofias, por exemplo?
Esses são alguns questionamentos que serão respondidos ao longo deste livro
didático. Está curioso? Vamos começar essa leitura cheia de informações que
nos leva a compreender melhor o funcionamento do nosso organismo?

Bons estudos!
Prof.ª Graziela dos Santos Barni
III
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto


para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA....................................................................... 1

TÓPICO 1 – A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA............................................................................ 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 A UNIDADE QUÍMICA DOS DIFERENTES ORGANISMOS VIVOS..................................... 4
2.1 A BIOQUÍMICA PROCURA EXPLICAR A VIDA EM TERMOS QUÍMICOS........................ 6
2.2 MACROMOLÉCULAS CONSTRUÍDAS A PARTIR DE COMPOSTOS SIMPLES................ 8
2.3 PRODUÇÃO DE ENERGIA E SEU CONSUMO NO METABOLISMO................................... 9
2.4 TRANSFERÊNCIA DA INFORMAÇÃO BIOLÓGICA............................................................... 17
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 23
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 24

TÓPICO 2 – CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE............................................................... 25


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 25
2 COMPARTIMENTOS CELULARES.................................................................................................. 25
3 DIMENSÕES CELULARES................................................................................................................. 32
4 CÉLULAS E TECIDOS USADOS EM ESTUDOS BIOQUÍMICOS............................................ 34
5 EVOLUÇÃO E ESTRUTURA DAS CÉLULAS PROCARIÓTICAS............................................ 34
5.1 O ESTUDO DA Escherichia coli........................................................................................................ 36
6 EVOLUÇÃO DAS CÉLULAS EUCARIÓTICAS............................................................................. 39
6.1 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS DAS CÉLULAS EUCARIÓTICAS....... 40
7 ESTUDO DOS COMPONENTES CELULARES............................................................................. 45
7.1 ORGANELAS ISOLADAS POR CENTRIFUGAÇÃO................................................................. 45
7.2 ESTUDOS IN VITRO........................................................................................................................ 47
8 EVOLUÇÃO DOS ORGANISMOS MULTICELULARES E A DIFERENCIAÇÃO
CELULAR................................................................................................................................................ 48
9 VÍRUS: PARASITAS DAS CÉLULAS............................................................................................... 51
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 53
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 54
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 55

UNIDADE 2 – BIOMOLÉCULAS.......................................................................................................... 59

TÓPICO 1 – CARACTERÍSTICAS GERAIS....................................................................................... 61


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 61
2 COMPOSIÇÃO E LIGAÇÃO QUÍMICA......................................................................................... 61
3 BIOMOLÉCULAS SÃO COMPOSTOS DE CARBONO............................................................... 62
4 GRUPOS FUNCIONAIS DETERMINAM AS PROPRIEDADES QUÍMICAS........................ 63
5 ESTRUTURA TRIDIMENSIONAL: CONFIGURAÇÃO E CONFORMAÇÃO....................... 64
6 REATIVIDADE QUÍMICA.................................................................................................................. 65
7 MACROMOLÉCULAS E SUAS SUBUNIDADES MONOMÉRICAS........................................ 69
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 71
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 72

VII
TÓPICO 2 – ÁGUA................................................................................................................................... 73
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 73
2 PONTES DE HIDROGÊNIO............................................................................................................... 73
3 INTERAÇÕES DE VAN DER WAALS.............................................................................................. 76
4 IONIZAÇÃO DA ÁGUA, ÁCIDOS FRACOS E BASES FRACAS.............................................. 76
5 AÇÃO TAMPONANTE CONTRA AS VARIAÇÕES DE PH NOS SISTEMAS
BIOLÓGICOS......................................................................................................................................... 78
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 82
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 84
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 85

TÓPICO 3 – AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS.......................................................... 87


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 87
2 AMINOÁCIDOS.................................................................................................................................... 88
2.1 CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS........................................................................................... 88
2.2 CLASSIFICAÇÃO PELO GRUPO R.............................................................................................. 89
2.3 PROPRIEDADES DOS AMINOÁCIDOS...................................................................................... 92
3 PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS................................................................................................................ 93
3.1 ASPECTOS GERAIS DA ESTRUTURA PROTEICA................................................................... 94
3.2 ESTRUTURA SECUNDÁRIA DAS PROTEÍNAS........................................................................ 94
3.3 ESTRUTURAS TERCIÁRIAS E QUATERNÁRIAS DAS PROTEÍNAS.................................... 95
3.4 DESNATURAÇÃO PROTEICA E ENOVELAMENTO.............................................................. 95
3.5 FUNÇÕES DAS PROTEÍNAS......................................................................................................... 97
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 99
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 101

TÓPICO 4 – ENZIMAS............................................................................................................................ 103


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 103
2 FUNÇÃO ENZIMÁTICA..................................................................................................................... 104
3 CINÉTICA ENZIMÁTICA................................................................................................................... 104
3.1 ENZIMAS REGULADORAS........................................................................................................... 105
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 107
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 108

TÓPICO 5 – CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS.............................................................. 111


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 111
2 MONOSSACARÍDEOS E DISSACARÍDEOS................................................................................ 112
3 POLISSACARÍDEOS............................................................................................................................ 114
4 GLICOCONJUGADOS: PROTEOGLICANOS, GLICOPROTEÍNAS E GLICOLIPÍDIOS..... 116
RESUMO DO TÓPICO 5........................................................................................................................ 120
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 121

TÓPICO 6 – NUCLEOTÍDEOS E ÁCIDOS NUCLEICOS................................................................ 123


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 123
2 ESTRUTURA DOS NUCLEOTÍDEOS E NUCLEOSÍDEOS........................................................ 124
3 LIGAÇÕES FOSFODIÉSTERES......................................................................................................... 125
4 ESTRUTURA DOS ÁCIDOS NUCLEICOS..................................................................................... 126
4.1 CARACTERÍSTICAS DO DNA...................................................................................................... 126
5 CARACTERÍSTICAS DOS RNAS..................................................................................................... 126
6 A QUÍMICA DO ÁCIDO NUCLEICO.............................................................................................. 127
7 OUTRAS FUNÇÕES DOS NUCLEOTÍDEOS................................................................................. 128

VIII
RESUMO DO TÓPICO 6........................................................................................................................ 129
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 130

TÓPICO 7 – LIPÍDIOS............................................................................................................................. 131


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 131
2 LIPÍDIOS DE ARMAZENAMENTO................................................................................................. 131
3 LIPÍDIOS ESTRUTURAIS DE MEMBRANA................................................................................. 133
4 LIPÍDIOS COMO SINAIS, COFATORES E PIGMENTOS.......................................................... 134
5 SEPARAÇÃO E ANÁLISE DE LIPÍDIOS......................................................................................... 135
RESUMO DO TÓPICO 7........................................................................................................................ 138
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 139

UNIDADE 3 – METABOLISMO............................................................................................................ 141

TÓPICO 1 – PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA............................................................................ 143


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 143
2 SERES AUTOTRÓFICOS, HETEROTRÓFICOS E VIAS METABÓLICAS.............................. 144
3 GLICÓLISE E VIA PENTOSE-FOSFATO......................................................................................... 148
3.1 A FASE PREPARATÓRIA DA GLICÓLISE REQUER ATP........................................................ 152
3.2 A FASE DE PAGAMENTO DA GLICÓLISE PRODUZ ATP E NADH.................................... 153
4 A CAPTAÇÃO DA GLICOSE É DEFICIENTE NO DIABETES MELITO TIPO 1................... 153
5 VIAS ALIMENTADORAS DA GLICÓLISE.................................................................................... 155
5.1 OS POLISSACARÍDEOS E OS DISSACARÍDEOS DA DIETA.................................................. 156
5.2 O GLICOGÊNIO ENDÓGENO E O AMIDO SÃO DEGRADADOS POR FOSFORÓLISE..... 157
6 GLICONEOGÊNESE............................................................................................................................ 158
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 160
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 161
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 162

TÓPICO 2 – CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO......................................................................................... 163


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 163
2 PRODUÇÃO DE ACETATO................................................................................................................ 164
3 REAÇÕES DO CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO................................................................................. 166
4 O CICLO DO GLIOXILATO............................................................................................................... 168
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 171
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 172

TÓPICO 3 – METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E TRIGLICERÍDEOS............................ 173


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 173
2 DIGESTÃO, MOBILIZAÇÃO E TRANSPORTE DE GORDURAS............................................ 174
2.1 AS GORDURAS DA DIETA SÃO ABSORVIDAS NO INTESTINO DELGADO.................... 175
2.2 HORMÔNIOS ATIVAM A MOBILIZAÇÃO DOS TRIACILGLICERÓIS ARMAZENADOS.... 176
2.2.1 Oxidação dos ácidos graxos................................................................................................... 178
2.2.2 Corpos cetônicos...................................................................................................................... 179
2.2.3 Corpos cetônicos são produzidos em excesso no diabetes e durante o jejum................ 180
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 182
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 183

TÓPICO 4 – METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS........................................................................ 185


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 185
2 DESTINOS METABÓLICOS DOS GRUPOS AMINOS............................................................... 187

IX
2.1 AS PROTEÍNAS DA DIETA SÃO ENZIMATICAMENTE DEGRADADAS ATÉ
AMINOÁCIDOS............................................................................................................................... 188
2.2 O GLUTAMATO LIBERA SEU GRUPO AMINO NA FORMA DE AMÔNIA....................... 190
2.3 A GLUTAMINA TRANSPORTA A AMÔNIA NA CORRENTE SANGUÍNEA..................... 191
2.4 A ALANINA TRANSPORTA A AMÔNIA DOS MÚSCULOS ESQUELÉTICOS PARA O
FÍGADO.............................................................................................................................................. 193
2.5 A AMÔNIA É TÓXICA PARA OS ANIMAIS.............................................................................. 194
2.6 EXCREÇÕES DE NITROGÊNIO E CICLO DA UREIA.............................................................. 195
2.7 A UREIA É PRODUZIDA A PARTIR DA AMÔNIA.................................................................. 195
2.8 DEFEITOS GENÉTICOS DO CICLO DA UREIA PODEM SER FATAIS.................................. 197
2.9 VIAS DE DEGRADAÇÃO DOS AMINOÁCIDOS...................................................................... 197
2.10 O CATABOLISMO DA FENILALANINA / FENILCETONÚRIA........................................... 198
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 200
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 201

TÓPICO 5 – METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS........................................................................ 203


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 203
2 BIOSSÍNTESE DE NUCLEOTÍDEOS............................................................................................... 203
2.1 A SÍNTESE DE NOVO DE NUCLEOTÍDEOS PÚRICOS............................................................ 204
2.2 BASES PÚRICAS E PIRIMÍDICAS SÃO RECICLADAS POR VIAS DE SALVAÇÃO.........206
RESUMO DO TÓPICO 5........................................................................................................................ 208
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 209
REFERÊNCIAS.......................................................................................................................................... 211

X
UNIDADE 1

FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender a lógica molecular da vida;

• identificar as principais evidências para o surgimento da vida;

• estabelecer as características que diferenciam os seres vivos dos inanima-


dos;

• compreender que cada organismo vivo tem uma função específica;

• estabelecer os princípios da bioquímica para explicar a vida em termos


químicos;

• identificar que as macromoléculas são construídas a partir de compostos


simples;

• compreender como ocorre a produção de energia e o seu consumo no


metabolismo;

• refletir acerca da transferência da informação biológica.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em dois tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

TÓPICO 2 – CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

1 INTRODUÇÃO
Há mais de três bilhões e meio de anos, sob condições não inteiramente
claras, elementos com carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, enxofre e
fósforo formaram compostos químicos simples. Esses compostos simples foram
chamados de coacervados e representaram a primeira forma proteica descrita. Eles
combinaram-se, dispersaram-se e recombinaram-se, formando várias moléculas
maiores, até surgir uma combinação capaz de se autorreplicar (NELSON; COX,
2002).

Essas macromoléculas consistiram de moléculas mais simples, unidas


por ligações químicas. Com a contínua evolução e a formação de
moléculas ainda mais complexas, o meio aquoso ao redor de muitas
dessas moléculas autorreplicativas foi envolto por uma membrana
lipídica. Esse desenvolvimento proporcionou a essas estruturas
primordiais a capacidade de controlar, num certo grau, seu próprio
meio. Uma forma de vida tinha se desenvolvido e a unidade básica da
vida, a célula, tinha se estabelecido. Com o passar do tempo, diversas
células se desenvolveram e tanto a química quanto a estrutura
dessas células tornaram-se mais complexas. Elas conseguiram
extrair nutrientes do meio, converter quimicamente esses nutrientes
em fonte de energia ou em moléculas mais complexas, controlar os
processos químicos que catalisavam e fazer replicação celular. Deste
modo, a vasta diversidade de vida hoje observada começou. A célula
é a unidade básica da vida em todas as formas de organismos vivos,
da menor célula bacteriana ao mais complexo animal multicelular
(NELSON; COX, 2002, p. 1).

Admite-se que o processo que originou as primeiras células começou


na Terra a aproximadamente 4,6 bilhões de anos, na então chamada Terra
Primitiva. Naquela época, a atmosfera continha muito vapor d’água, amônia,
metano, hidrogênio e gás carbônico. Existia uma atividade vulcânica intensa e as
tempestades com descargas elétricas eram frequentes.

Há 4 bilhões de anos, a superfície da Terra estaria coberta por grande


quantidade de água, disposta em grandes “oceanos” e “lagos”. Essa massa
líquida, chamada de caldo primordial, era rica em moléculas inorgânicas e
continha em solução os gases que constituíam a atmosfera (JUNQUEIRA;
CARNEIRO, 2007). Sob a ação do calor e da radiação ultravioleta, vindos do Sol,
e de descargas elétricas, oriundas das tempestades, as moléculas dissolvidas no

3
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

caldo primordial combinaram-se quimicamente para constituírem os primeiros


compostos contendo carbono. Substâncias relativamente complexas, como
proteínas e ácidos nucleicos, teriam aparecido espontaneamente ao acaso.

NOTA

Curiosidade:
A atmosfera terrestre também sofreu mudanças significativas. Contudo, não existe um
acordo sobre a constituição da atmosfera da época. Acredita-se que ela se apresentava ora
mais ou menos redutora, de acordo com os estudos realizados na composição das nuvens
de poeira estelar, meteoritos e de gases retidos em rochas antigas.

2 A UNIDADE QUÍMICA DOS DIFERENTES ORGANISMOS


VIVOS
O que distingue os organismos vivos dos objetos inanimados se as
moléculas que constituem as células são formadas pelos mesmos átomos
encontrados nesses seres (inanimados)? Primeiro, é o seu grau de complexidade
química e de organização. Eles possuem estruturas celulares internas intrincadas
(Figura 1) e contêm muitas espécies de moléculas complexas. Em contraste, a
matéria inanimada existente ao nosso meio – terra, areia, rochas, água do mar –
usualmente consiste de misturas de compostos químicos relativamente simples
(NELSON; COX, 2002).

FIGURA 1 – VISTO AO MICROSCÓPIO ELETRÔNICO, ESSE PEDAÇO DE TECIDO MUSCULAR DE


VERTEBRADO EVIDENCIA SUA COMPLEXIDADE E ORGANIZAÇÃO

FONTE: A autora

Segundo, os organismos vivos extraem, transformam e usam a energia que


encontram no meio ambiente (Figura 2), habitualmente na forma de nutrientes
químicos ou de energia radiante da luz solar. Essa energia torna os organismos
vivos capazes de construir e manter suas próprias estruturas intrincadas e de
realizar trabalhos mecânico, químico, osmótico e de vários outros tipos. Em
4
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

contraste, a matéria inanimada não usa energia de forma sistemática para


manter a sua estrutura ou para realizar trabalho. A matéria inanimada tende a se
degenerar em um estado mais desordenado, alcançando um equilíbrio com o seu
meio ambiente (NELSON; COX, 2002).

FIGURA 2 – A ÁGUIA ADQUIRE NUTRIENTES NO MEIO AMBIENTE PELA INGESTÃO


DE PRESAS MENORES

FONTE: <http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2014/01/fotografo-flagra-aguia-
capturando-peixe-em-rio-nos-eua.html>. Acesso em: 11 jul. 2019.

O terceiro, e mais característico atributo dos organismos vivos, é a


capacidade para a autorreplicação e automontagem, propriedades que podem
ser vistas como a quinta essência do estado vivo (Figura 3). Uma única célula
bacteriana de Escherichia coli, por exemplo, colocada num meio nutriente estéril
pode dar origem, a cada 20 minutos, à outra célula bacteriana idêntica à célula-
mãe, com as mesmas características genéticas. Cada uma das células contém
milhares de moléculas diferentes, algumas extremamente complexas; mesmo
assim, cada bactéria é uma cópia fiel da original, constituída inteiramente a
partir da informação contida no interior do material genético da célula original
(NELSON; COX, 2002).

FIGURA 3 – A REPRODUÇÃO BIOLÓGICA OCORRE COM FIDELIDADE


PRÓXIMA À PERFEIÇÃO

FONTE: <pt.depositphotos.com/27718179/>. Acesso em: 13 mar. 2019.

5
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Erwin Schodinger propôs, em seu ensaio O que é a vida?, que o material


genético das células deveria ter as propriedades de um cristal. Esse ensaio de
Schrodinger é de 1944 (anos antes do atual entendimento da estrutura do gene ter
sido estabelecido), mas descreve de forma acurada muitas das propriedades do
ácido desoxirribonucleico, o material dos genes.

FIGURA 4 – ERWIN SCHODINGER (1887-1961)

FONTE: <https://www.nobelprize.org/prizes/physics/1933/schrodinger/biographical/>.
Acesso em:11 jul. 2019.

Cada componente de um organismo vivo tem uma função específica. Isso


é verdade não somente para as estruturas macroscópicas, como folhas e caules ou
corações e pulmões, mas também para as estruturas intracelulares microscópicas,
como os núcleos e os cloroplastos. Até mesmo os compostos químicos individuais,
existentes nas células, têm funções específicas. O inter-relacionamento entre os
componentes químicos de um organismo vivo é dinâmico; alterações em um
componente provocam mudanças coordenadas ou compensatórias em outro,
tendo como resultado o conjunto exibindo características que vão além daquelas
exibidas pelos constituintes individuais. A coleção de moléculas executa um
programa cujo resultado é a reprodução do programa e a autoperpetuação
daquela coleção de moléculas, em suma, vida (NELSON; COX, 2002).

2.1 A BIOQUÍMICA PROCURA EXPLICAR A VIDA EM


TERMOS QUÍMICOS
Se os organismos vivos são compostos de moléculas intrinsecamente
inanimadas, como podem essas moléculas exibir a extraordinária combinação de
características que chamamos de vida? Como pode ser que um organismo vivo
pareça ser mais do que a soma de suas partes inanimadas?

Os filósofos, uma vez, responderam que os organismos vivos são dotados


de uma força vital divina e misteriosa, mas essa doutrina (vitalismo) tem sido
firmemente rejeitada pela ciência moderna. O objetivo básico da ciência bioquímica
6
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

é mostrar como as moléculas, que constituem os organismos vivos, interagem


entre si para manter e perpetuar a vida exclusivamente pelas leis químicas que
governam o universo não vivo (NELSON; COX, 2002).

Até o momento, pesquisas bioquímicas revelam que todos os organismos


são notadamente semelhantes em níveis celular e químico. A Bioquímica descreve
em termos moleculares as estruturas, os mecanismos e os processos químicos
compartilhados por todos os organismos, e fornece os princípios organizacionais
que fundamentam a vida em todas as suas diferentes formas, princípios esses
que coletivamente serão referidos como a lógica molecular da vida. Embora a
bioquímica produza importantes visões do conhecimento e das aplicações práticas
em medicina, agricultura, nutrição e indústria, ela está, em última instância,
preocupada e interessada na maravilha que a vida é em si mesma.

FIGURA 5 – ORGANISMOS VIVOS DIFERENTES COMPARTILHAM CARACTERÍSTICAS


QUÍMICAS IGUAIS

FONTE: <http://shaareishalom.net.br/curso-temas-do-chumash-no3-no-jardim-do-eden>.
Acesso em: 13 mar. 2019.

Embora a vida seja fundamentalmente unitária, é importante reconhecer que


pouquíssimas generalizações a respeito dos organismos vivos são absolutamente
corretas para todos eles e sob quaisquer condições. A variação de hábitat nos quais os
organismos vivem, desde fontes termais quentes até tundra ártica, de intestinos de
animais a dormitórios de residências estudantis, é acompanhada por uma variação
igualmente ampla de adaptações bioquímicas específicas. Essas adaptações são
integradas em um padrão químico fundamental, compartilhado por todos os
organismos. Embora as generalizações não sejam perfeitas, elas permanecem úteis.
De fato, as exceções geralmente iluminam as generalizações científicas.

7
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

2.2 MACROMOLÉCULAS CONSTRUÍDAS A PARTIR DE


COMPOSTOS SIMPLES
A maioria dos constituintes moleculares dos sistemas vivos é composta de
átomos de carbono unidos covalentemente a outros átomos de carbono e átomos
de hidrogênio, oxigênio e nitrogênio. As propriedades especiais de ligação do
carbono permitem a formação de uma grande variedade de moléculas.

Para Nelson e Cox (2014), cada célula da bactéria Escherichia coli (E. coli) contém
mais de 6.000 tipos diferentes de compostos orgânicos, incluindo perto de 3.000
proteínas diferentes e um número similar de moléculas de ácidos nucleicos e centenas
de tipos de carboidratos e lipídios. Em humanos, pode haver dezenas de milhares de
tipos diferentes de proteínas, assim como muitos tipos de polissacarídeos, uma grande
variedade de lipídios e muitos outros compostos de peso molecular menor.

Purificar e caracterizar exatamente todas essas moléculas seria um trabalho


insuperável se não fosse o fato de cada classe de macromoléculas (proteínas, ácidos
nucleicos, polissacarídeos) ser composta de um pequeno conjunto de subunidades
monoméricas comuns. Essas subunidades monoméricas podem ser unidas
covalentemente em uma variedade virtualmente ilimitada de sequências (Figura
6), exatamente como as 26 letras do alfabeto podem ser arranjadas em um número
ilimitado de palavras, sentenças ou livros.

FIGURA 6 – SUBUNIDADES MONOMÉRICAS EM SEQUÊNCIAS LINEARES PODEM


EXPRESSAR MENSAGENS COMPLEXAS

FONTE: <slideplayer.com.br/slide/384421/>. Acesso em: 15 mar. 2019.

8
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

Os ácidos desoxirribonucleicos (DNA) são formados por quatro tipos


de unidades monoméricas simples, os nucleotídeos (timina, adenina, citosina e
guanina), enquanto os ácidos ribonucleicos (RNA) são compostos por também
quatro tipos de nucleotídeos, semelhantes aos do DNA, sendo a timina substituída
pela uracila no RNA. As proteínas são constituídas por 20 tipos de aminoácidos
(essenciais e não essenciais). Os oito tipos de nucleotídeos que os ácidos nucleicos
são constituídos e os 20 tipos de aminoácidos que formam as proteínas são os
mesmos em todos os organismos vivos.

Os nucleotídeos são muito importantes como subunidades na constituição


dos ácidos nucleicos, mas também exercem um importante papel como moléculas
transportadoras de energia. Os aminoácidos, além de serem as subunidades que
formam as proteínas, também são precursores de neurotransmissores, pigmentos
e outros tipos de biomoléculas (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

2.3 PRODUÇÃO DE ENERGIA E SEU CONSUMO NO


METABOLISMO
A energia é um tema central em bioquímica: as células e os organismos
dependem de um suprimento constante de energia para poderem se opor à
tendência, inexorável da natureza, de queda para níveis de estado energético
(NELSON; COX, 2002). Todas as reações que acontecem a nível celular envolvem
o fornecimento de energia, como por exemplo, as reações de síntese, a energia
consumida no movimento de uma bactéria ou até mesmo no transporte ativo
da bomba de sódio e potássio. As células desenvolveram, durante o processo
evolutivo, mecanismos especializados para capturar a energia do sol ou também
extrai-la de alimentos e transferi-la para os processos que dela necessitam.

No curso da evolução biológica um dos primeiros desenvolvimentos


deve ter sido o aparecimento de uma membrana lipídica que envolveu
as moléculas hidrossolúveis da célula primitiva, separando-as do meio
ambiente e permitindo que elas se acumulassem em concentrações
relativamente altas. As moléculas e os íons contidos no interior dos
organismos vivos diferem em tipo e em concentrações das existentes
no meio ambiente. Por exemplo, as células de um peixe de água doce
contêm certos íons inorgânicos em concentrações muito diferentes das
da água em que vivem. Proteínas, ácidos nucleicos, açúcares e lipídios
estão presentes no peixe, mas essencialmente ausentes no meio
ambiente, o qual, por sua vez, contém átomos de carbono, hidrogênio
e oxigênio em moléculas mais simples como o dióxido de carbono e
a água. Quando o peixe morre, as substâncias que o compõe entram,
finalmente, em equilíbrio com aquelas do meio ambiente (NELSON;
COX, 2002, p. 6).

9
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

FIGURA 7 – OS ORGANISMOS VIVOS NÃO ESTÃO EM EQUILÍBRIO COM O MEIO AMBIENTE. A


MORTE E A DECOMPOSIÇÃO RESTABELECEM O EQUILÍBRIO

FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 6)

Para Nelson e Cox (2002), as células e os organismos precisam realizar


trabalho para permanecerem vivos e para se reproduzirem. A síntese contínua de
componentes celulares requer trabalho químico; o acúmulo e a retenção de sais
e de vários compostos orgânicos contra um gradiente de concentração envolvem
um trabalho osmótico; a contração de um músculo ou o movimento do flagelo de
um espermatozoide representa trabalho mecânico.

A taxa de conversão da energia química para mecânica durante a contração


muscular é considerada um dos principais eventos fisiológicos determinantes do
desempenho esportivo. Em linhas gerais, assume-se que durante os esforços de
curta duração e com alta intensidade, a molécula de adenosina trifosfato (ATP)
é ressintetizada, predominantemente, pela degradação da fosfocreatina e do
glicogênio muscular, com subsequente formação de lactato (BERTUZZI et al., 2008).

Na bioquímica, os processos pelos quais a energia é extraída, canalizada e


consumida, envolvem os estudos da bioenergética – transformações ou trocas de
energia das quais todos os organismos vivos dependem.

A transformação da energia biológica obedece às leis da Termodinâmica. Mas


quais são essas Leis? A Primeira Lei da Termodinâmica é conhecida como Princípio da
Conservação da Energia. Para qualquer mudança física ou química, a quantidade total
de energia no universo permanece constante. A energia pode até mudar de forma ou ser
transportada, mas não pode ser destruída (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Os seres vivos usam energia para realização de trabalho mecânico,


químico, osmótico ou elétrico e para a manutenção de sua organização, reprodução
10
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

e interação com o meio. As células vivas se comportam como transdutores de


energia, convertendo energia química em algo que seja necessário para a célula.

A Segunda Lei é referente à desordem do universo. Segundo essa lei,


a desordem sempre tende a aumentar, onde em todos os processos naturais a
entropia (grau de desorganização) do universo sempre tende a aumentar. Os
organismos vivos preservam sua organização interna retirando energia livre do
ambiente e retornando a sua vizinhança energia na forma de calor, aumentando
assim o número de moléculas (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015). Através
de um conjunto de reações químicas produtoras ou consumidoras de energia, os
organismos conseguem ter suas características ou funções preservadas.

Para reações que ocorrem em solução, podemos definir um sistema como


todos os reagentes e produtos, o solvente e a atmosfera próxima, ou seja, tudo
o que está dentro de uma região definida do espaço. Juntos, o sistema e seus
arredores constituem o universo. Se o sistema não trocar matéria nem energia
com seus arredores, ele é dito fechado. Se o sistema trocar energia, mas não
trocar matéria com seu meio, ele é dito sistema isolado; se trocar ambas, energia e
matéria, com o meio, ele é um sistema aberto (NELSON; COX, 2002).

Para Rodwell, Murray e Granner (2017 p. 23):

Um organismo vivo é um sistema aberto, ele troca matéria e energia com


seu meio. Organismos vivos usam duas estratégias para captar energia
do seu meio: (1) eles obtêm combustíveis químicos da vizinhança e
extraem a energia oxidando-os; ou (2) eles absorvem energia da luz
solar. Organismos vivos criam e mantêm suas estruturas complexas
e ordenadas usando energia extraída de combustíveis ou da luz solar.

Praticamente todos os seres vivos obtêm energia, direta ou indiretamente,


da energia radiante da luz solar, a qual se origina de reações de fusão termonuclear
que foram o elemento hélio e que ocorrem no interior do Sol, conforme mostra a
figura a seguir:

FIGURA 8 – A LUZ SOLAR É FONTE ÚLTIMA DE TODA ENERGIA BIOLÓGICA, ATRAVÉS DAS
REAÇÕES TERMONUCLEARES NO INTERIOR DO SOL

FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/quimica/fusao-nuclear.htm>. Acesso em: 15 mar. 2019.

11
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Para Berg (2014), as células fotossintéticas absorvem a energia radiante


do Sol e a utilizam para retirar elétrons da molécula de água e adicioná-la à
molécula de dióxido de carbono, formando produtos ricos em energia, como o
amido e a sacarose. Quando promovem essas reações, a maioria dos organismos
fotossintéticos liberam oxigênio molecular na atmosfera. Em última análise, os
organismos que não executam a fotossíntese obtêm energia para suas necessidades
pela oxidação dos produtos ricos em energia elaborados pela fotossíntese,
passando elétrons para o oxigênio atmosférico e sintetizando água, dióxido de
carbono e outros produtos, os quais são recicladas no meio ambiente.

Virtualmente todos os transdutores de energia nas células podem


ser relacionados ao fluxo de elétrons de uma molécula para outra na
oxidação de combustíveis ou na captura de energia luminosa durante
a fotossíntese. Esse fluxo de elétrons é “morro-abaixo”, quer dizer,
de um potencial eletroquímico maior para outro menor; como tal, ele
é formalmente análogo ao fluxo de elétrons em um circuito elétrico
acionado por uma bateria. Todas essas reações que envolvem fluxos
de elétrons são reações de oxirredução. Assim, emergem outros
princípios característicos do estado vivo da matéria: (1) as necessidades
energéticas de, virtualmente, todos os organismos são providos, direta
ou indiretamente, da energia solar. (2) O fluxo de elétrons nas reações
de oxirredução é a base da transdução e da conservação da energia
nas células vivas. (3) todos os organismos vivos são interdependentes,
trocando entre si energia e matéria por meio do meio ambiente
(NELSON; COX, 2002, p. 15).

O tema central em bioenergética é o modo pelo qual a energia do


metabolismo de combustíveis ou de captura de luz é acoplada a reações que
requerem energia. Considere um exemplo mecânico simples de acoplamento de
energia mostrado na Figura 9. Um objeto no alto de um plano inclinado tem certa
quantidade de energia potencial devido a sua altura. Esse objeto tende a deslizar
para baixo espontaneamente, perdendo a sua energia potencial de posição na
medida em que se aproxima do solo. Quando um instrumento apropriado,
constituído de correios e polias, é ligado ao objeto, o movimento espontâneo
para baixo pode realizar certa quantidade de trabalho, quantidade esta nunca
maior que a variação da energia potencial de posição. A quantidade de energia
realmente disponível para a realização de trabalho, chamada de energia livre, G,
será sempre um pouco menor que a variação total em energia, porque uma parte
dela é dissipada como calor de fricção (BERG, 2014).

12
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

FIGURA 9 – ACOPLAMENTO DE ENERGIA EM PROCESSOS MECÂNICOS

FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 8)

Reações químicas podem ser acopladas assim que uma reação liberadora
de energia promove uma reação que requer energia. Reações químicas em
sistemas fechados ocorrem espontaneamente até que o equilíbrio seja alcançado.
Quando um sistema está em desequilíbrio, a velocidade de formação do produto
é exatamente igual à velocidade na qual o produto é convertido para reagente.
Portanto, não existe nenhuma variação líquida nas concentrações de reagentes e
produtos, e um “estado estacionário” é alcançado.

Existem reações exergônicas e endergônicas. As reações exergônicas


ocorrem quando há uma diminuição da energia livre e os produtos são expressos
em valores negativos. As reações endergônicas requerem uma quantidade de
energia e seus valores na variação de energia livre são positivos. Nelson e Cox
(2002) relatam que, nos processos mecânicos, somente parte da energia liberada
nas reações bioquímicas exergônicas pode ser usada para executar trabalho. Nos
sistemas vivos, parte da energia dissipada como calor ou perdida são necessárias
para aumentar a entropia.

NOTA

VOCÊ SABIA?
O termo “entropia”, que literalmente significa “mudança em seu interior”, foi usado pela primeira
vez em 1851 por Rudolf Clausius, um dos formuladores da Segunda Lei da Termodinâmica.
Uma definição quantitativa rigorosa de entropia envolve considerações probabilísticas e
estatísticas. Entretanto, sua natureza pode ser ilustrada qualitativamente por três exemplos
simples, cada um demonstrando um aspecto da entropia. A chave para a descrição de
entropia é a aleatoriedade e a desordem, manifestadas em diferentes maneiras.

13
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Segundo Berg (2014), o acoplamento de reações endergônicas com aquelas


exergônicas é absolutamente central para trocas de energia nos sistemas vivos.
O mecanismo pelo qual o acoplamento de energia ocorre nas reações biológicas
é via um intermediário compartilhado. Por exemplo, a quebra de adenosina
trifosfato (ATP) é a reação exergônica, que dirige muitos processos endergônicos,
nas células. De fato, ATP (Figura 10) é o maior transportador de energia química
em todas as células, acoplando processos endergônicos àqueles exergônicos O
grupo fosfato terminal do ATP é transferido para uma variedade de moléculas
receptoras, que são ativadas para favorecer transformações químicas. Adenosina
difosfato (ADP) é reciclado (fosforilado) para ATP, à custa de energia química
(durante oxidação dos combustíveis) ou da luz solar (na fotossíntese celular).

FIGURA 10 – ADENOSINA TRIFOSFATO (ATP). A REMOÇÃO DO GRUPO FOSFATO TERMINAL


DO ATP É ALTAMENTE EXERGÔNICA E ESTA REAÇÃO É ACOPLADA A MUITAS REAÇÕES
ENDERGÔNICAS NA CÉLULA

FONTE: <https://www.infoescola.com/bioquimica/adenosina-trifosfato-atp/>. Acesso em: 16


mar. 2019.

O fato de uma reação ser exergônica não significa que ela necessariamente
se processará de forma rápida. O caminho que vai do reagente ao produto quase
invariavelmente envolve uma barreira energética, chamada barreira de ativação
(Figura 11), a qual precisa ser superada para que qualquer reação ocorra. A quebra
e síntese de ligações geralmente requerem tensionamento e a torção das ligações
existentes, criando um estado de transição de alto nível de energia livre, tanto
em relação ao reagente quanto ao produto. O ponto mais alto da coordenada da
reação, no diagrama, representa o estado de transição (NELSON; COX, 2014).

14
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

FIGURA 11 – CURSO DE UMA REAÇÃO QUÍMICA DO PONTO DE VISTA ENERGÉTICO

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 15)

No interior das células, todas as reações químicas ocorrem devido à


presença de enzimas – catalisadores biológicos que aumentam a velocidade das
reações químicas. As enzimas como catalisadores agem diminuindo a barreira de
ativação entre o reagente e o produto.

FIGURA 12 – UMA ENZIMA AUMENTA A VELOCIDADE DE UMA REAÇÃO QUÍMICA ESPECÍFICA

FONTE: <https://www.vestibulandoweb.com.br/biologia/enzimas.asp>. Acesso em: 19 mar. 2019.

As enzimas são proteínas, com exceção da ribozima, uma enzima


presente no RNA, cuja constituição não é proteica. Cada proteína enzimática é
específica para a catálise de uma determinada reação, e cada reação no interior
da célula é catalisada por uma enzima diferente. Cada célula requer, portanto,
milhares de tipos diferentes de enzimas. A multiplicidade de enzimas, a sua alta
especificidade para os reagentes e a sua suscetibilidade à regulação dão às células
a capacidade de diminuir as barreiras de ativação seletivamente (BERG, 2014).

15
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Nelson e Cox (2002, p. 10) relatam que:

Milhares reações químicas enzimaticamente catalisadas nas células


são funcionalmente organizadas em muitas sequências diferentes
de reações consecutivas chamadas vias, nas quais o produto de uma
reação se torna o reagente para a próxima. Algumas dessas sequências
de reações enzimaticamente catalisadas degradam nutrientes
orgânicos em produtos finais simples, de forma a extrair energia
química e convertê-la em uma forma utilizável pela célula. Juntos esses
processos degradativos liberadores de energia livre são designados
de catabolismo. Outras vias enzimaticamente catalisadas partem de
moléculas precursoras pequenas e as convertem, progressivamente,
em moléculas maiores e mais complexas, incluindo proteínas e
ácidos nucleicos. Essas vias sintéticas requerem invariavelmente a
adição de energia, e quando consideradas em conjunto representam
o anabolismo. Esse conjunto de vias imbricadas e enzimaticamente
catalisadas constitui o que chamamos de metabolismo. O ATP é
transportador universal de energia metabólica e une o catabolismo e
o anabolismo.

As células vivas não só podem sintetizar simultaneamente milhares


de tipos diferentes de moléculas de carboidratos, lipídios, proteínas e ácidos
nucleicos e suas subunidades mais simples, mas também podem fazê-lo nas
proporções requeridas pela célula (NELSON; COX, 2014). Por exemplo, quando
ocorre uma rápida multiplicação celular, os precursores de proteínas e ácidos
nucleicos precisam ser sintetizados em grandes quantidades, enquanto as
necessidades desses precursores para células que estão em repouso são muito
reduzidas (BAYNES, 2015).

As enzimas-chave em cada via metabólica são reguladas de tal forma


que cada tipo de molécula precursora é produzido em quantidades apropriadas
às necessidades das células (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015). Na Figura
13, observamos a síntese de isoleucina (um dos aminoácidos, as subunidades
monoméricas das proteínas). Se a célula começar a produzir mais isoleucina do
que o necessário para a síntese proteica, a isoleucina não utilizada se acumula,
dessa forma, altas concentrações de isoleucina inibem a atividade catalítica
da primeira enzima na via, diminuindo, imediatamente, a produção desse
aminoácido. Essa retroalimentação (feedback) negativa mantém em equilíbrio a
produção e a utilização de cada intermediário metabólico (NELSON; COX, 2002).

FIGURA 13 – INIBIÇÃO RETROATIVA

FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 10)

16
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

Apesar de o conceito de rota discreta ser uma ferramenta importante para


organizar o conhecimento do metabolismo, ele é muito simplificado. Existem
milhares de metabólitos intermediários na célula, muitos dos quais fazem parte
de mais de uma rota. O metabolismo seria mais bem representado por uma rede
de rotas interconectadas e interdependentes. A mudança na concentração de
qualquer metabólito dá início a um efeito de ondulação, influenciando o fluxo
de materiais pelas outras rotas (NELSON; COX, 2014). A tarefa de compreender
essas complexas interações entre intermediários e rotas em termos quantitativos
é desencorajadora, mas a nova ênfase em biologia de sistemas começou a oferecer
uma importante compreensão da regulação global do metabolismo (MARZZOCO;
TORRES, 2007).

As células regulam também a síntese de seus próprios catalisadores, as


enzimas, em resposta ao aumento ou à diminuição da necessidade de um produto
metabólito. A expressão de genes (a tradução da informação contida no DNA em
proteínas ativas na célula) e a síntese de enzimas são outros níveis de controle
metabólico na célula. Todos os níveis devem ser levados em conta na descrição do
controle global do metabolismo celular (NELSON; COX, 2014).

2.4 TRANSFERÊNCIA DA INFORMAÇÃO BIOLÓGICA


Talvez a propriedade mais marcante dos organismos e das células vivas
seja sua capacidade de se reproduzir por incontáveis gerações com fidelidade
quase perfeita. Essa continuidade de traços herdados sugere constância, ao longo
de milhões de anos, na estrutura das moléculas que contêm a informação genética.
Poucos registros históricos de civilizações sobreviveram por mil anos mesmo
quando riscados em superfícies de cobre ou talhados em pedra (Figura 14).
Contudo, existem boas evidências de que as instruções genéticas permaneceram
praticamente intactas nos organismos vivos por períodos muito maiores; muitas
bactérias têm praticamente o mesmo tamanho, forma e estrutura interna,
apresentando também o mesmo tipo de moléculas precursoras e enzimas das
bactérias que viveram há cerca de quatro bilhões de anos (NELSON; COX, 2014).
Essa continuidade da estrutura e da composição é o resultado da continuidade da
estrutura do material genético.

17
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

FIGURA 14 – DOIS REGISTROS MUITO ANTIGOS. (A) O PRISMA DE SENNACHERIB; (B) UMA
ÚNICA MOLÉCULA DE DNA DA BACTÉRIA E. COLI, EXTRAVASANDO DE UMA CÉLULA
ROMPIDA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 30)

NOTA

Sobre a Figura 14 – Dois registros muito antigos. (a) o prisma de Sennacherib,


inscrito em torno de 700 a.c., descreve em caracteres da linguagem assíria alguns eventos
históricos durante o reinado de Sennacherib. (b) uma única molécula de DNA da bactéria e.
coli, extravasando de uma célula rompida. o DNA bacteriano contém cerca de 5 milhões de
caracteres.

Entre as descobertas mais notáveis da biologia no século XX está a


natureza química e a estrutura tridimensional do material genético, ácido
desoxirribonucleico, DNA. A sequência de subunidades monoméricas, os
nucleotídeos (composto por bases nitrogenadas, pentose e um grupo fosfato),
codifica as instruções para formar todos os outros componentes celulares e fornece
o molde para a produção de moléculas de DNA idênticas a serem distribuídas aos
descendentes por ocasião da divisão celular. Segundo Marzzoco e Torres (2007),
a perpetuação de uma espécie biológica requer que sua informação genética
seja mantida de modo estável, expressa com exatidão na forma de produtos dos
genes e reproduzida com o mínimo de erros. O armazenamento, a expressão
e a reprodução efetivas da mensagem genética definem espécies individuais,
distinguem umas das outras e asseguram a sua continuidade em sucessivas
gerações.

O DNA é um polímero orgânico, fino e longo, em forma de hélice; a rara


molécula que é construída na escala atômica em uma dimensão (largura) na
escala humana em outra (comprimento: uma molécula de DNA pode ter vários
centímetros de comprimento). Um esperma ou ovócito humano, carregando a

18
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

informação hereditária acumulada em bilhões de anos de evolução, transmite


essa herança na forma de moléculas de DNA, nas quais a sequência linear de
subunidades de nucleotídeos, ligados covalentemente, codifica a mensagem
genética (NELSON; COX, 2002).

Normalmente quando são descritas as propriedades de espécies


químicas, é descrito o comportamento médio de um número
muito grande de moléculas idênticas. Embora seja difícil prever o
comportamento de uma única molécula em uma população, por
exemplo, de um picomol de compostos (cerca de 6 3 1011 moléculas), o
comportamento médio das moléculas é previsível porque muitas delas
entram no cálculo da média. O DNA celular é uma notável exceção.
O DNA que forma todo o material genético da E. coli é uma única
molécula contendo 4,64 milhões de pares de nucleotídeos. Essa única
molécula tem de ser replicada com perfeição nos mínimos detalhes
para que uma célula de E. coli possa gerar descendentes idênticos por
divisão celular; não existe espaço para tomar médias nesse processo!
O mesmo vale para todas as células. O esperma humano traz para o
óvulo que ele fertiliza somente uma molécula de DNA de cada um
dos 23 cromossomos, para se combinar com somente uma molécula de
cada cromossomo correspondente no óvulo. O resultado dessa união
é altamente previsível: um embrião com todos os seus 25.000 genes,
feitos de 3 bilhões de pares de nucleotídeos, intactos. Um feito químico
impressionante! (NELSON; COX, 2014, p. 60).

Sackheim (2001) relata em sua obra Química e bioquímica para ciências


biomédicas que uma única página deste livro contém cerca de 5.000 caracteres, de
tal forma que o livro inteiro contém 5 milhões de caracteres. O cromossomo da
E. coli também contém 5 milhões de caracteres (pares de nucleotídeos). Se você
fizer uma cópia manual deste livro e, então, passá-lo a um colega de classe para
também fazer uma cópia manual, e se essa cópia for passada para um terceiro
colega de classe para fazer a terceira cópia da cópia, e assim por diante, quanto
cada cópia vai se assemelhar com o livro original? Agora, imagine o texto que
resultaria ao se fazer cópias de cópias à mão alguns trilhões de vezes!

A capacidade dos seres vivos de preservar seu material genético e duplicá-


lo para a próxima geração resulta da complementaridade entre as duas fitas da
molécula de DNA (Figura 15). A unidade básica do DNA é um polímero linear de
quatro subunidades monoméricas diferentes, desoxirribonucleotídeos, arranjados
em uma sequência linear precisa. Essa sequência linear codifica a informação
genética. Duas dessas fitas poliméricas estão torcidas uma em torno da outra,
formando a dupla-hélice de DNA, na qual cada desoxirribonucleotídeo em uma
fita, pareia especificamente com um desoxirribonucleotídeo complementar na
fita oposta. Antes de a célula se dividir, as duas fitas de DNA se separam uma da
outra e cada uma serve de molde para a síntese de uma nova fita complementar,
gerando duas moléculas em forma de dupla-hélice idênticas, uma para cada
célula-filha. Se qualquer uma das fitas é danificada, então a continuidade da
informação é assegurada pela informação presente na fita oposta, que pode atuar
como molde para reparar o dano (GRIFFITHS, 2016).

19
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

FIGURA 15 – COMPLEMENTARIDADE ENTRE AS DUAS FITAS DE DNA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 31)

ATENCAO

Referente à Figura 15, o DNA é um polímero linear de quatro tipos de


desoxirribonucleotídeos, ligados covalentemente: desoxiadenilato (A), desoxiguanilato (G),
desoxicitidilato (C), desoxitimidilato (T).

A informação no DNA é codificada na sequência linear (unidimensional)


de subunidades de desoxirribonucleotídeos, mas a expressão dessa informação
resulta em uma célula tridimensional. Essa transformação da informação de
uma dimensão para três dimensões ocorre em duas fases (NELSON; COX, 2014).
Uma sequência linear de desoxirribonucleotídeos no DNA codifica (por meio
de um intermediário, RNA) a produção de uma proteína com a sequência linear
de aminoácidos correspondente (Figura 16). A proteína é enovelada em uma
forma tridimensional particular determinada pela sua sequência de aminoácidos

20
TÓPICO 1 | A LÓGICA MOLECULAR DA VIDA

e estabilizada principalmente por interações não covalentes. Embora a forma


final da proteína enovelada seja ditada pela sua sequência de aminoácidos, o
processo de enovelamento é assistido por “chaperonas moleculares”. A estrutura
tridimensional precisa ou conformação nativa de uma proteína é crucial para sua
função.

FIGURA 16 – DO DNA AO RNA, DO RNA À PROTEÍNA E DA PROTEÍNA À ENZIMA


(HEXOCINASE)

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 31)

As chaperonas (do francês chaperon, “dama de companhia”) são proteínas


importantes para auxiliar no enovelamento proteico, fazendo com que as proteínas
atinjam a configuração terciária correta. Se por alguma situação (disfunção,
defeito genético) essas proteínas não conseguirem atingir a configuração correta,
as chaperonas encaminham essas proteínas para a destruição (NELSON; COX,
2014).

Uma vez em sua conformação nativa, a proteína pode associar-se não


covalentemente com outras macromoléculas (outras proteínas, ácidos nucleicos,
carboidratos ou lipídios) para formar complexos supramoleculares, como

21
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

cromossomos, ribossomos e membranas. As moléculas individuais desses


complexos têm sítios de ligação para cada uma com alta afinidade específica, e
dentro das células elas se agrupam espontaneamente em complexos funcionais
(BERG, 2014).

Apesar de as sequências de aminoácidos das proteínas carregarem toda


a informação necessária para alcançar a conformação nativa da proteína, o
enovelamento preciso e a automontagem também requerem o ambiente celular
correto – pH, força iônica, concentrações de íons metálicos, e assim por diante.
Portanto, a sequência de DNA sozinha não é suficiente para formar e manter uma
célula completamente funcional (NELSON; COX, 2014).

22
RESUMO DO TÓPICO 1

Nesse tópico, você aprendeu que:

• Todas as células são delimitadas por uma membrana plasmática; têm um


citosol contendo metabólitos, coenzimas, íons inorgânicos e enzimas; e têm um
conjunto de genes contidos dentro de um nucleoide (bactérias e arqueas) ou de
um núcleo (eucariotos).

• Todos os organismos requerem uma fonte de energia para realizar o trabalho


celular.

• Os fototróficos obtêm energia da luz solar; os quimiotróficos oxidam


combustíveis químicos, transferindo elétrons para bons aceptores: compostos
inorgânicos, compostos orgânicos ou oxigênio molecular.

• As células de bactérias e de arqueas contêm citosol, nucleoide e plasmídeos,


todos contidos dentro de um envelope celular.

• As células eucarióticas possuem um núcleo delimitado por uma membrana – a


membrana nuclear.

• Todas as macromoléculas são construídas a partir de compostos simples.

• Os organismos vivos dependem da bioenergética (transformações ou trocas de


energia).

• Os organismos transformam energia e matéria do meio ambiente.

• O fluxo de elétrons fornece energia para os organismos.

• As enzimas são catalisadores biológicos que promovem reações químicas em


cadeia.

• A continuidade genética é atribuída às moléculas de DNA.

• A estrutura do DNA permite seu reparo e sua replicação com fidelidade quase
perfeita.

23
AUTOATIVIDADE

1 Faça um desenho esquemático evidenciando as características da Terra


Primitiva e o aparecimento das primeiras biomoléculas – coacervados.

2 A hidrólise de ATP é uma reação altamente:

a) ( ) Endergônica.
b) ( ) Aeróbia.
c) ( ) Volátil.
d) ( ) Exergônica.
e) ( ) Aleatória.

3 As reações metabólicas podem ser classificadas em dois processos


metabólicos. Explique esses processos e evidencie qual deles leva à síntese
de biomoléculas.

24
UNIDADE 1
TÓPICO 2
CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

1 INTRODUÇÃO
O universo se formou, de acordo com os dados geológicos mais aceitos
atualmente, há cerca de um pouco mais de 14 bilhões de anos, e a Terra há cerca
de 4,5 bilhões de anos, a partir de sedimentos provenientes de material oriundo
das estrelas. Foi necessário que a Terra sofresse mudanças que favorecessem o
surgimento da vida como conhecemos (MAYWORM, 2014).

A unidade e a diversidade dos organismos se tornam aparentes mesmo


em nível celular. Os menores organismos consistem em células isoladas e são
microscópicos. Os organismos multicelulares maiores têm muitos tipos celulares
diferentes (geralmente derivados de células mesenquimais), os quais variam em
tamanho, forma e função especializada. Apesar dessas diferenças óbvias, todas as
células dos organismos, desde o mais simples ao mais complexo, compartilham
determinadas propriedades fundamentais, que podem ser vistas em nível
bioquímico e microscópio, como por exemplo, a superfície celular (membrana
plasmática), que é essencial para todas as formas de célula.

2 COMPARTIMENTOS CELULARES
Células de todos os tipos compartilham algumas características estruturais
comuns (Figura 17). A membrana plasmática define o contorno da célula, impede
o extravasamento do citoplasma, separando seu conteúdo do ambiente. Ela é
composta por uma dupla camada de lipídios e proteínas que formam uma barreira
fina, resistente, flexível. A membrana plasmática é considerada uma estrutura
anfipática, ou seja, possui uma região hidrofílica (com afinidade pela água) e outra
região hidrofóbica (com fobia pela água). Geralmente a região hidrofílica (polar)
é a cabeça dos fosfolipídios, enquanto a região hidrofóbica é representada pela
causa dos fosfolipídios. Isso acaba conferindo à membrana plasmática das células
um aspecto de mosaico fluido, em que as cabeças dos fosfolipídios permitem a
entrada e saída de água na célula, ao passo que as caudas repelem essa água.

A membrana é uma barreira para a passagem livre de íons inorgânicos


e para a maioria de outros compostos carregados ou polares. Proteínas de
transporte na membrana plasmática permitem a passagem de determinados íons
e moléculas; proteínas receptoras transmitem sinais para o interior da célula; e
enzimas de membrana participam em algumas rotas de reações. Como os lipídios
individuais e as proteínas da membrana não estão covalentemente ligados, toda

25
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

a estrutura é extraordinariamente flexível, permitindo mudanças na forma e no


tamanho da célula. À medida que a célula cresce, novas moléculas de proteínas e
de lipídios são inseridas na membrana plasmática; a divisão celular produz duas
células, cada qual com sua própria membrana. O crescimento e a divisão celular
(fissão) ocorrem sem perda da integridade da membrana.

Ainda devemos destacar que as proteínas presentes na membrana


plasmática são classificadas em periféricas e integrais (transmembrana). As
proteínas periféricas estão relacionadas com a integração entre as outras proteínas
de membrana, não ficando realmente claras suas funções, enquanto as proteínas
integrais ou transmembrana são as responsáveis pelo reconhecimento, transporte
de substâncias através da membrana e receptores para hormônios, enzimas.

Existem especializações de Membrana Plasmática muito importantes para


o desempenho de funções específicas nas células. As especializações da superfície
livre da membrana envolvem: cílios, estereocílios, microvilosidades e flagelos.
Os cílios presentes na traqueia, por exemplo, têm como função filtrar partículas
que entram com o ar inspirado, como também expelir as secreções produzidas
pelas células caliciformes. Os estereocílios estão presentes no epidídimo e
aumentam a superfície de contato do espermatozoide com a glândula, visto
que os espermatozoides recebem nutrientes importantes no epidídimo. As
microvilosidades aumentam a superfície de contato dos nutrientes no intestino
delgado, facilitando sua absorção, enquanto os flagelos realizam movimentos
para conduzir o espermatozoide até o ovócito (ALBERTS et al., 1997).

FIGURA 17 – AS CARACTERÍSTICAS UNIVERSAIS DAS CÉLULAS VIVAS

FONTE: <www.sobiologia.com.br/conteudos/Citologia2/nucleo.php>. Acesso em: 19 mar. 2019.

26
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

ATENCAO

Referente à Figura 17: Células eucariontes possuem um núcleo delimitado por


um envoltório nuclear, enquanto nas células procariontes o material genético encontra-se
disperso no citoplasma.

NOTA

Curiosidade:
Você já ouviu falar em fibrose cística?
A fibrose cística é uma doença genética que compromete o funcionamento das glândulas
exócrinas que produzem muco, suor ou enzimas pancreáticas. O excesso de muco nos
alvéolos respiratórios dificulta a hematose (trocas gasosas) (Figura 18). Essa patologia é
resultado de uma alteração na proteína transmembrana presente na membrana plasmática
das células respiratórias e do sistema digestório. Essa patologia é diagnosticada no teste do
pezinho.

FIGURA 18 – FIBROSE CÍSTICA

FONTE: <https://www.hc.unicamp.br/node/1101>. Acesso em: 20 mar. 2019.

O volume interno envolto pela membrana plasmática, o citoplasma,


é composto por uma solução aquosa, o citosol, e uma grande variedade de
partículas em suspensão com funções específicas. Esses componentes particulados
(organelas envoltas por membrana como mitocôndria e cloroplastos; estruturas
supramoleculares como ribossomos e proteossomos, os sítios de síntese e
degradação das proteínas) sedimentam-se quando o citoplasma é centrifugado a
150.000 g (g é aceleração da gravidade na superfície terrestre).

O que sobra como fluido sobrenadante é o citosol, solução aquosa


altamente concentrada que contém enzimas e as moléculas de RNA que as
codificam; os componentes (aminoácidos e nucleotídeos) que formam essas
27
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

macromoléculas; centenas de moléculas orgânicas pequenas chamadas de


metabólitos, intermediários em rotas biossintéticas e degradativas; coenzimas,
compostos essenciais em muitas reações catalisadas por enzimas; e íons
inorgânicos (NELSON; COX, 2002).

O citoplasma também possui um citoesqueleto (Figura 19), que dá forma


para a célula e está relacionado com as funções que esta célula desempenha no
organismo. O citoesqueleto é constituído por filamentos de actina, filamentos
intermediários e microtúbulos. Os filamentos de actina, como o próprio nome
lembra, é formado pela união de várias proteínas contrácteis actina e geralmente
encontra-se revestindo a periferia das células. Ele é responsável pela movimentação
celular, fagocitose, dá forma e sustentação para as microvilosidades e na fase
de telófase, do ciclo celular, separar as células recém-formadas. Os filamentos
intermediários possuem uma constituição proteica mais variada, pois estão
presentes em células de diferentes tecidos. Se presentes no tecido epitelial,
teremos como proteínas a queratina; se presentes na lâmina nuclear, teremos
como proteína a lamina. São muito importantes para a função estrutural, ou seja,
eles fornecem resistência mecânica para as células.

Já os microtúbulos são constituídos pela proteína tubulina e criam uma


rede de trilhos sob os quais vesículas e organelas celulares podem se locomover.
Os microtúbulos também são responsáveis por organizar as organelas dentro da
célula, formar o fuso mitótico e estão presentes na composição de cílios e flagelos.

Uma importante observação, quando falamos de citoesqueleto, é a


formação do citoesqueleto das hemácias. As hemácias ou eritrócitos são células
que necessitam de muita flexibilidade, pois devem passar dos vasos mais
calibrosos e chegar até os capilares sanguíneos. Para garantir essa flexibilidade,
o citoesqueleto das hemácias apresenta três importantes proteínas: aducina,
anquirina e espectrina.

28
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

FIGURA 19 – CONSTITUIÇÃO DO CITOESQUELETO DAS CÉLULAS EUCARIONTES. OBSERVAR A


DISPOSIÇÃO DOS FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS, DOS MICROTÚBULOS E DOS FILAMENTOS
DE ACTINA

FONTE: Junqueira e Carneiro (2007, p. 96)

Segundo Nelson e Cox (2014), todas as células eucariontes têm, pelo


menos em algum momento de sua vida, um nucleoide ou núcleo, em que o
genoma – o conjunto completo de genes composto por DNA – é replicado e
armazenado com suas proteínas associadas. O núcleo tem como função comandar
e controlar todas as atividades da célula. Poderíamos fazer uma analogia entre o
núcleo das células e a CPU de um computador, em que nas células, o núcleo
define todas as atividades celulares, e no computador, a CPU é a unidade central
de processamento. Em bactérias e em arqueas, o nucleoide não é separado do
citoplasma por uma membrana; o núcleo, nos eucariotos, é confinado dentro
de uma dupla membrana, o envelope nuclear. As células com envelope nuclear
compõem o grande domínio dos Eukarya (do grego eu, “verdade”, e karyon,
“núcleo”). Os microrganismos sem membrana nuclear, antes classificados como
procariontes (do grego pro, “antes”), são agora reconhecidos como pertencentes a
dois grupos muito distintos: Bacteria e Archaea.

O núcleo é composto por estruturas muito importantes, como membrana


nuclear interna e externa, espaço perinuclear, poros nucleares, lâmina nuclear,
nucleoplasma, cromática e nucléolo. Cada uma dessas estruturas desempenha
um papel importante para o equilíbrio e bom funcionamento celular. Em geral,
o núcleo é único, arredondado, centralizado ou pode ser desviado do centro
celular, tornando-se periférico.

29
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

FIGURA 20 – A) NÚCLEOS PERIFÉRICOS EM CÉLULAS MUSCULARES ESTRIADAS


ESQUELÉTICAS. B) NÚCLEO CENTRALIZADO EM UM CORPO CELULAR DE NEURÔNIO

A B
FONTE: A autora

Como citado anteriormente, o núcleo possui vários componentes. Esses


componentes são de fundamental importância para que ele desempenhe com
eficácia sua função na célula.

O envoltório nuclear, por exemplo, é responsável pela separação do


conteúdo nuclear do citoplasma. Ele é constituído por duas membranas separadas
por um espaço de 40 a 70 nanômetros, chamadas de cisterna perinuclear.
Esse envoltório também apresenta poros cuja função é o transporte seletivo
de moléculas para fora e para dentro do núcleo. Essas membranas podem ser
chamadas de: membrana interna e membrana externa. A membrana interna
possui como função dar estruturação ao núcleo. Ela possui ligações das fibras
cromatínicas ao envoltório nuclear (ALBERTS et al., 1997).

Também verificamos na membrana ou envoltório nuclear a presença de


poros nucleares, que são interrupções do envoltório nuclear que permite a troca
citoplasma-nucleoplasma. O transporte de substâncias no complexo de poros é
dependente dos receptores de importação ou exportação nuclear. Geralmente
do núcleo das células para o citoplasma, passam através do complexo de poros
nucleares, metabólitos e RNA mensageiro e ribossômico, enquanto do citoplasma
para o interior do núcleo irão atravessar proteínas, íons e nucleotídeos pelo
complexo de poro.

Para Junqueira e Carneiro (2007), a importação de proteínas através


do Complexo do Poro Nuclear acontece de algumas maneiras. A primeira
etapa envolve a proteína com sequência de localização nuclear (NLS), que é
identificada por outra proteína presente, chamada importina, ligada ao GDP
(Guanina Difosfato). O complexo proteína-importina-RAN-GDP liga-se a uma
proteína específica dos filamentos citoplasmáticos do poro nuclear. O complexo
é translocado através do poro nuclear. No núcleo, o GDP (Guanina Difosfato)
ligado a RAN é substituído por GTP (Guanina trifosfato), gerando uma alteração

30
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

conformacional, em seguida ocorre a liberação da proteína. O complexo importina-


RAN-GTP é exportado através do poro nuclear e o GTP é hidrolisado a GDP no
citoplasma, como mostra o esquema a seguir:

FIGURA 21 – PROCESSO DE IMPORTAÇÃO ATRAVÉS DO COMPLEXO DE PORO NUCLEAR

FONTE: A autora

NOTA

Curiosidade:
O que é Talassemia?
A talassemia é uma forma de anemia crônica, de origem genética (hereditária), que faz
parte de um grupo de doenças do sangue (hemoglobinopatias) caracterizada por defeitos
genéticos que resultam em diminuição da produção de um dos tipos de cadeias que
formam a molécula de hemoglobina. Alguns desses defeitos envolvem uma disfunção na
formação dos poros nucleares, dificultando a saída do RNAm do núcleo para ser traduzido
no citoplasma das células pelos polirribossomos em hemoglobina.

Na figura a seguir podemos observar um esfregaço sanguíneo com


hemácias normais e outro esfregaço sanguíneo com hemácias alteradas
(talassemia):

31
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

FIGURA 22 – ESFREGAÇO SANGUÍNEO EVIDENCIANDO HEMÁCIAS NORMAIS E HEMÁCIAS


ALTERADAS (TALASSEMIA)

FONTE: <https://www.abrasta.org.br/tipos/>. Acesso em: 26 mar. 2019.

3 DIMENSÕES CELULARES
A maioria das células é microscópica, invisível a olho nu. As células dos
animais e das plantas têm um diâmetro geralmente de 5 a 100 mm, e muitos
microrganismos unicelulares têm comprimento de 1 a 2 mm. Então, o que limita
as dimensões de uma célula? O limite inferior provavelmente é determinado pelo
número mínimo de cada tipo de biomolécula requerido pela célula. As menores
células, certas bactérias conhecidas como micoplasmas, têm diâmetro de 300 nm
e volume de cerca de 10-14 mL. Um único ribossomo bacteriano tem 20 nm na
sua dimensão mais longa, de forma que poucos ribossomos ocupam uma fração
substancial do volume de uma célula de micoplasma (NELSON; COX, 2002).

O limite superior de tamanho celular provavelmente é determinado


pela taxa de difusão das moléculas de soluto nos sistemas aquosos. Por
exemplo, uma célula bacteriana que depende de reações de consumo
de oxigênio para extração de energia deve obter oxigênio molecular,
por difusão, a partir do ambiente através de sua membrana plasmática.
A célula é tão pequena, e a relação entre sua área de superfície e seu
volume é tão grande, que cada parte do seu citoplasma é facilmente
alcançada pelo O2 que se difunde para dentro dela. Com o aumento
do tamanho celular, no entanto, a relação área-volume diminui, até
que o metabolismo consuma O2 mais rapidamente do que o que pode
ser suprido por difusão. Assim, o metabolismo que requer O2 torna-se
impossível quando o tamanho da célula aumenta além de certo ponto,
estabelecendo um limite superior teórico para o tamanho das células.
O oxigênio é somente uma entre muitas espécies moleculares de baixo
peso que precisam difundir de fora para várias regiões do seu interior,
e o mesmo argumento da razão área-volume se aplica a cada uma
delas (NELSON; COX, 2014, p. 3).

32
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

Há exceções interessantes a essa generalização de que a célula deva ser


pequena. A alga verde Nitella possui células gigantes de vários centímetros
de comprimento. Para garantir a chegada de nutrientes, de metabólitos e de
informação genética (RNA) para todas as suas partes, cada célula é vigorosamente
“agitada” por correntes citoplasmáticas vivas. A forma da célula também pode
ajudar a compensar o seu longo tamanho. Uma esfera lisa possui a menor razão
possível superfície/volume para um dado volume (NELSON; COX, 2014).

Muitas células grandes, embora aproximadamente esféricas, possuem
superfície altamente convoluta (Figura 23), criando grandes áreas de superfície
para o mesmo volume e, portanto, facilitando a captação de combustíveis e
nutrientes. A figura mostra as vilosidades intestinais e suas microvilosidades,
especializações da superfície celular que aumentam a área de contato com os
nutrientes, facilitando sua absorção (NELSON; COX, 2002).

FIGURA 23 – CÉLULAS DA MUCOSA DE REVESTIMENTO INTESTINAL, EVIDENCIANDO SUAS


VILOSIDADES E A BORDA MAIS ESCURA, AS MICROVILOSIDADES INTESTINAIS

FONTE: <https://www.misodor.com/ANATOFISIOINTDELGADO.php>. Acesso em: 26 mar. 2019.

Células como os neurônios possuem uma elevada razão superfície/


volume pelo fato de serem longas e delgadas, em forma de estrela ou altamente
ramificadas, em vez de esféricas.

FIGURA 24 – NEURÔNIOS DO HIPOCAMPO

FONTE: <http://anatpat.unicamp.br/bineuhipocamponlmap2.html>. Acesso em: 27 mar. 2019.

33
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

4 CÉLULAS E TECIDOS USADOS EM ESTUDOS


BIOQUÍMICOS
Pelo fato de todas as células vivas terem se desenvolvido dos mesmos
progenitores, elas compartilham certas semelhanças fundamentais. Os métodos
para estudo das células são bastante diversificados e o conhecimento sobre elas
progridem com o aperfeiçoamento das técnicas de estudo. O estudo da célula
começou através do microscópio óptico e com o surgimento do microscópio
eletrônico houve um grande avanço no estudo das funções celulares.

Estudos bioquímicos cuidadosos de apenas alguns tipos de células devem


gerar princípios gerais aplicáveis a todas as células e organismos (BAYNES, 2015).

O conhecimento em bioquímica é primariamente derivado de alguns


organismos e tecidos representativos como a bactéria Escherichia
coli, a levedura Sacharomyces cerevisiae, as algas fotossintetizantes,
tais como Chlamydomonas, as folhas de espinafre, o fígado de rato
e o músculo esquelético de vários vertebrados. Alguns estudos
bioquímicos focalizam o isolamento, a purificação e a caracterização
de componentes celulares; outras pesquisas investigam as vias
metabólicas e genéticas das células vivas (NELSON; COX, 2002, p. 18).

5 EVOLUÇÃO E ESTRUTURA DAS CÉLULAS


PROCARIÓTICAS
Todos os organismos vivos se enquadram em três grandes grupos, que
definem os três ramos da árvore evolucionária da vida que se originou a partir
de um ancestral comum (Figura 25). Dois grandes grupos de microrganismos
unicelulares podem ser distinguidos em bases genéticas e bioquímicas: Bacteria
e Archaea. As bactérias habitam o solo, as águas superficiais e os tecidos de
organismos vivos ou em decomposição. Muitas das arqueas, reconhecidas na
década de 1980 por Carl Woese como um grupo distinto, habitam ambientes
extremos – lagos de sais, fontes termais, pântanos altamente ácidos e profundezas
do oceano. As evidências disponíveis sugerem que Bacteria e Archaea divergiram
cedo na evolução. Todos os organismos eucariontes, que formam o terceiro
domínio, Eukarya, evoluíram a partir do mesmo ramo que deu origem a Archaea;
por isso, os eucariontes são mais proximamente relacionados às archaeas do que
às bactérias (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).

Algumas células primitivas evoluíram gradativamente na capacidade


de fixar CO2 e utilizar a energia radiante do sol para a produção das próprias
moléculas nutritivas. Antes ou durante a evolução dos seres unicelulares para
os organismos autótrofos, um evento evolutivo possibilitou o surgimento destes
novos organismos unicelulares: os pigmentos capazes de promover a captação
da energia solar, fixação do CO2 e a produção de moléculas mais complexas.
Inicialmente, os primeiros doadores de elétrons utilizados por organismos

34
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

fotossintetizantes durante a rota fotossintética foi possivelmente o H2S. Estes


eliminavam, como resíduo, o enxofre elementar (S0) ou sulfato (SO4 -2). Este
novo tipo celular era bastante semelhante às algas azuis ou cianofíceas. Com o
surgimento da capacidade enzimática, as células começaram a utilizar a H2O como
doador de elétrons eliminando o O2 como subproduto. O oxigênio (O2) levou
aproximadamente 1,5 bilhão de anos para atingir a concentração dos 21% atuais.
O oxigênio é um agente fortemente oxidante e tóxico para as células anaeróbicas.
As células que existiam no meio ambiente primitivo, não estavam adaptadas para
sobreviver a um ambiente rico em oxigênio (MAYWORM, 2014).

FIGURA 25 – FILOGENIA DOS TRÊS GRUPOS DA VIDA

FONTE: <http://sateuece.blogspot.com/2014/05/filogenia-simplificadareino-animalia.html>.
Acesso em: 18 mar. 2019.

É possível classificar os organismos pela maneira como obtêm a energia


e o carbono de que necessitam para sintetizar o material celular (conforme
resumido na Figura 26). Existem duas categorias amplas com base nas fontes
de energia: fototróficos (do grego trophe, “nutrição”), que captam e usam a luz
solar, e quimiotróficos, que obtêm sua energia pela oxidação de um combustível
químico. Alguns quimiotróficos oxidam combustíveis inorgânicos – por exemplo,
HS – a S0 (enxofre elementar), S0 a SO4 – NO2 – a NO3 –, ou Fe21 a Fe31.

35
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

FIGURA 26 – CLASSIFICAÇÃO DOS ORGANISMOS DE ACORDO COM A FONTE


DE ENERGIA UTILIZADA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 5)

5.1 O ESTUDO DA Escherichia coli


Escherichia coli, a bactéria mais estudada, é geralmente um habitante
inofensivo do trato intestinal humano. A célula de E. coli (Figura 27) é um ovoide
com cerca de 2 mm de comprimento e um pouco menos de 1 mm de diâmetro,
mas outras bactérias podem ser esféricas ou ter forma de bastonete. Ela tem uma
membrana externa protetora e uma membrana plasmática interna que envolve o
citoplasma e o nucleoide. Entre a membrana interna e a externa existe uma fina,
mas resistente, camada de um polímero de alto peso molecular (peptidoglicano)
que confere à célula sua forma e rigidez (NELSON; COX, 20014). Essa camada
mais espessa e resistente é chamada de cápsula, uma estrutura gelatinosa, rica em
glicoproteínas e diversos polissacarídeos.

36
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

FIGURA 27 – CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS COMUNS DAS CÉLULAS DE


BACTÉRIAS E ARQUEAS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 6)

Para Nelson e Cox (2014, p. 6):

A membrana plasmática e as camadas externas a ela constituem o


envelope celular. A membrana plasmática das bactérias consiste em
uma bicamada fina de moléculas lipídicas impregnadas de proteínas.
As membranas plasmáticas arqueanas têm arquitetura similar, mas
os lipídios podem ser acentuadamente diferentes das bactérias.
Bactérias e arqueias têm especializações grupo-específicas em seus
envelopes celulares. Algumas bactérias, chamadas gram-positivas
porque se coloram com o corante de Gram (desenvolvido por Hans
Peter Gram em 1882), têm uma camada espessa de peptidoglicanos
na parte externa da sua membrana plasmática, mas não apresentam
uma membrana externa. Já as bactérias gram-negativas têm uma
membrana externa composta de uma dupla camada lipídica na qual se
encontram inseridos lipopolissacarídeos e proteínas chamadas porinas
que proveem canais transmembrana para que compostos de baixo
peso molecular e íons possam se difundir através dessa membrana
externa. As estruturas na parte externa da membrana plasmática das
arqueias diferem de organismo para organismo, mas eles também têm
uma camada de peptidoglicanos ou proteínas que conferem rigidez
aos seus envelopes celulares.

O citoplasma da E. coli contém cerca de 15.000 ribossomos, várias cópias (de


10 a milhares) de cada uma das aproximadamente 1.000 diferentes enzimas, talvez
1.000 compostos orgânicos de massa molecular menor do que 1.000 (metabólitos
e cofatores), e uma variedade de íons inorgânicos. O nucleoide contém uma única
molécula de DNA circular, e o citoplasma (como na maioria das bactérias) contém
um ou mais segmentos de DNA circular chamados de plasmídeos (Figura 28).
Na natureza, alguns plasmídeos conferem resistência a toxinas e antibióticos do

37
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

ambiente. No laboratório, esses segmentos de DNA circular são práticos para


a manipulação experimental e são ferramentas poderosas para a engenharia
genética (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).

FIGURA 28 – PLASMÍDEO DE UMA CÉLULA BACTERIANA, EVIDENCIANDO SEUS


GENES DE RESISTÊNCIA
Plasmídeo circular Cromossomo
(cada um com circular principal
vários milhares de (quatro milhões
Bactéria pares de bases) de pares de bases)

Gene de
resistência a
antibiótico

Plasmídeo móvel

Gene necessário
para transferência
de DNA

FONTE: <https://www.todoestudo.com.br/biologia/plasmideos>. Acesso em: 26 mar. 2019.

Quando falamos de bactérias, devemos lembrar que:

Outras espécies de Bacteria e também de Archaea contêm uma


coleção similar de moléculas, mas cada espécie tem especializações
físicas e metabólicas relacionadas ao nicho ambiental e fontes
nutricionais. Cianobactérias, por exemplo, têm membranas internas
especializadas em capturar energia da luz. Muitas arqueias vivem em
ambientes extremos e têm adaptações bioquímicas para sobreviver em
extremos de temperatura, pressão ou concentração de sal. Diferenças
observadas na estrutura dos ribossomos deram a primeira indicação
de que Bacteria e Archaea constituem grupos diferentes. A maioria das
bactérias (inclusive E. coli) existe na forma de células individuais, mas
muitas vezes associadas a biofilmes ou películas, nas quais inúmeras
células se aderem umas às outras e ao mesmo tempo ao substrato
sólido que fica junto ou próximo de uma superfície aquosa. Células
de algumas espécies de bactérias (p. ex., mixobactéria) mostram um
comportamento social simples, formando agregados multicelulares
em resposta a sinais entre células vizinhas (NELSON; COX, 2014, p.
36).

38
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

6 EVOLUÇÃO DAS CÉLULAS EUCARIÓTICAS


Fósseis mais antigos do que 1,5 bilhão de anos estão limitados àqueles
organismos pequenos e relativamente simples, semelhantes na forma e no
tamanho aos procariotos modernos. Iniciando-se há cerca de 1,5 bilhão de anos,
os registros fósseis começam a mostrar evidência de organismos mais complexos
e maiores, provavelmente as primeiras células eucarióticas.

Para Nelson e Cox (2002, p. 23):

Três alterações principais devem ter ocorrido quando os procariotos


deram origem aos eucariotos. Primeiro, as células adquiriram mais
DNA, surgiram mecanismos que o dobraram e o compactaram
em discretos complexos com proteínas específicas e dividiram-
no igualmente entre as células filhas durante a divisão celular.
Esses complexos DNA-proteína, os cromossomos, tornaram-se
especialmente compactados no instante da divisão celular, quando
podem ser observados ao microscópio óptico como fios de cromatina.
Segundo, à medida que as células se tornaram maiores, um sistema
de membranas intracelulares se desenvolveu, incluindo a membrana
dupla que envolve o DNA. E a terceira alteração, seria quando
as células eucarióticas primitivas, que eram incapazes de realizar
fotossíntese ou metabolismo anaeróbico, misturaram suas vantagens
com as das bactérias aeróbicas ou fotossintetizantes para formar
associações endossimbióticas que se tornaram permanentes.

Na Figura 29 podemos observar a evolução dos procariotos para os


eucariotos. Os organismos modernos podem ter surgido a partir de um ancestral
procarioto comum por uma série de associações endossimbióticas.

Acredita-se que algumas bactérias aeróbicas evoluíram para as


mitocôndrias, quando as condições do meio ambiente tornaram-se desfavoráveis
e algumas cianobactérias fotossintetizantes tornaram-se os plastídios, tais como
os cloroplastos das algas verdes, os prováveis ancestrais das modernas células
das plantas (NELSON; COX, 2014).

FIGURA 29 – EVOLUÇÃO DOS PROCARIONTES PARA OS EUCARIONTES

FONTE: <http://1.bp.blogspot.com/-sXWYAODckOM/Vq5OOwmFcNI/AAAAAAAAD3w/
ZvQygdTCrFI/s1600/1.gif>. Acesso em: 30 mar. 2019.

39
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

As células procariontes e eucariontes possuem características bem


distintas. O Quadro 1 faz uma comparação de células procarióticas com
eucarióticas:

QUADRO 1 – COMPARAÇÃO ENTRE CÉLULAS PROCARIONTES E EUCARIONTES

Características Célula Procariótica Célula Eucariótica


Tamanho Geralmente pequeno Geralmente grande (5-100 um).
(1-10 um).
Genoma DNA com proteínas DNA complexado com proteínas
não histonas, genoma histonas e não histonas em
no nucleoide, não cromossomos;
envolvido por Cromossomos no núcleo com
membrana. envelope membranoso.
Divisão Celular Fissão ou brotamento, Mitose, incluindo fuso mitótico,
não ocorre mitose. centríolos em muitas espécies.
Organelas Ausentes Mitocôndria, cloroplastos, retículo
ligadas a endoplasmático, complexos de
membranas Golgi, lisossomos.
Nutrição Absorção, alguns Absorção, ingestão, fotossíntese
fotossintetizantes. em algumas espécies
Citoesqueleto Nenhum Complexo, com Microtúbulos,
filamentos intermedipários e
filamentos de actina.
Movimento Não possui Citoplasma fluídico, endocitose,
intracelular fagocitose, mitose, vesícula de
transporte.
FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 23)

Acredita-se que as células eucariontes primitivas originaram diversos


protistas (organismos unicelulares eucarióticos). Alguns se assemelham aos
protistas fotossintetizantes modernos, como a Euglena; outros protistas não
fotossintetizantes eram mais parecidos com o Paramecium (COOPER, 2001).

6.1 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS DAS


CÉLULAS EUCARIÓTICAS
As células eucarióticas típicas (Figura 30) são muito maiores do que as
bactérias – em geral de 5 a 100 mm de diâmetro, com um volume de mil a um
milhão de vezes maior do que o das bactérias. As características que distinguem
os eucariotos são o núcleo e uma grande variedade de organelas envoltas por
membranas com funções específicas.

40
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

FIGURA 30 – CÉLULA EUCARIONTE ANIMAL E SUAS ORGANELAS ESPECIALIZADAS

FONTE: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQbGluPRVYq1A8nMGd1_
St69SgQ8ShSABrfeU8ybzdjCgyszKGk>. Acesso em: 26 mar. 2019.

A célula eucarionte possui organelas especializadas em diversas funções.


A mitocôndria é considerada a usina energética da célula, pois é onde ocorre
o sítio ativo na produção de energia (ATP). Além disso, a mitocôndria possui
uma característica bem peculiar. Ela possui material genético próprio, fazendo
com que seja autorreplicativa, ou seja, dá origem a outras mitocôndrias sempre
que houver na célula um aumento da necessidade de ATP. Geralmente as células
que possuem um número maior de mitocôndrias são justamente aquelas que
têm uma demanda maior de energia, como as células musculares, por exemplo.
As mitocôndrias possuem na sua estrutura uma membrana externa, membrana
interna, espaço intermembranas, matriz mitocondrial, ribossomos livres e DNA
mitocondrial.

FIGURA 31 – (A) ESTRUTURA DAS MITOCÔNDRIAS. (B) ELETROMICROGRAFIA DE UMA


MITOCONDRIAL

(A) (B)
FONTE: A autora

41
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Além das mitocôndrias, a célula eucarionte possui o retículo


endoplasmático, sendo este de dois tipos: granular ou rugoso e agranular ou
liso (Figura 32). Os retículos são formados a partir da invaginação da membrana
plasmática, é constituído por uma rede de túbulos e vesículas achatadas e
interconectas. Essas vesículas no retículo endoplasmático granular se comunicam
com o envoltório nuclear.

O retículo endoplasmático granular possui ribossomos aderidos as suas


cisternas, o que o deixa com esse aspecto granular. Ele tem como função síntese,
segregação de proteínas. Já o retículo endoplasmático agranular (REA) é uma
rede de membranas de formato tubular e desorganizado. Uma das características
do REA é a ausência de ribossomos aderidos as suas vesículas e possui funções
mais distintas: síntese de lipídios, glicólise, reservatório de cálcio e destoxificação
(geralmente converte substâncias insolúveis em compostos solúveis).

Uma das funções do retículo endoplasmático liso é a síntese de lipídios


de membrana (fosfolipídios, glicolipídios e colesterol). Os fosfolipídios são
sintetizados no lado citosólico da membrana do REL, enquanto que os glicolipídios
são sintetizados no Complexo de Golgi a partir da ceramida.

Outra função importante atribuída ao retículo endoplasmático liso é a


destoxificação, onde drogas insolúveis, que tendem a se acumular no organismo,
podem chegar a níveis tóxicos. No retículo endoplasmático liso, essas drogas
insolúveis são transformadas em substâncias hidrossolúveis. No fígado, em suas
células chamadas de hepatócitos, ocorre o acúmulo de glicogênio. O retículo
endoplasmático liso libera a enzima glicose 6-fosfatase, que degrada essa molécula
de glicogênio e devolve glicose para circulação sanguínea, controlando a glicemia
do organismo.

Nas células musculares, o retículo endoplasmático, recebe um nome especial


– retículo sarcoplasmático. No retículo sarcoplasmático ocorre o reservatório de
cálcio, que estará diretamente relacionado para a contração muscular.

FIGURA 32 – (A) RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO GRANULAR (NOTE A PRESENÇA DE


RIBOSSOMOS ADERIDOS EM SUAS VESÍCULAS). (B) RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO AGRANULAR
(A) (B)

FONTE: A autora

42
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

O Complexo de Golgi (Figura 33) é composto por cisternas envoltas por


membranas achatadas e empilhadas. Apresenta uma face cis (de entrada) e uma
fase trans (de saída). Ele é responsável pelo processamento e endereçamento
de proteínas, além de realizar a glicosilação de glicoproteínas e glicolipídios do
retículo endoplasmático granular. O complexo golgiense também é responsável
pela formação do acrossomo dos espermatozoides e possui dois tipos de secreção:
constitutiva e regulada.

A secreção constitutiva acontece quando as vesículas finais golgianas são


secretadas diretamente, sem armazenamento no citosol, de forma constitutiva
(sem sinalização). Ex.: células produtoras de proteínas da matriz extracelular. Já a
secreção regulada ocorre quando as vesículas finais golgianas são primeiramente
armazenadas, podem fundir-se umas com as outras, formando grânulos de
secreção que são estocados perto do ápice da célula até haver um sinal (nervoso
ou hormonal) para secreção. Ex.: glândulas.

Junqueira e Carneiro (2007) relatam que, em muitas células, o complexo


golgiense localiza-se em posição constante, quase sempre ao lado do núcleo,
podendo ser encontrado disperso pelo citoplasma em outras células.

FIGURA 33 – ELETROMICROGRAFIA EVIDENCIANDO AS CISTERNAS DO COMPLEXO DE GOLGI

FONTE: A autora

Outra organela presente nas células eucariontes são os peroxissomos, que


são estruturas caracterizadas pela presença de enzimas oxidativas que transferem
átomos de hidrogênio de diversos substratos para o oxigênio (COOPER, 2001).
Eles realizam a desintoxicação celular e possuem uma quantidade de enzimas
oxidativas, que realizam oxidação formando o peróxido de hidrogênio, abundante
nas células hepáticas (400 peroxissomos por célula).

Os peroxissomos surgem através de brotamentos do retículo


endoplasmático rugoso e contêm a maior parte da enzima catalase, que converte
peróxido de hidrogênio em água e oxigênio.

43
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

NOTA

Adrenoleucodistrofia é uma doença genética rara, autossômica recessiva, ligada


ao sexo (mulheres portadoras). Ocorre uma mutação na enzima ligase acil CoA gordurosa
(membrana dos peroxissomos), levando ao acúmulo de ácidos graxos no citoplasma de
células do tecido nervoso, gerando a degeneração das bainhas de mielina e disfunção
adrenal. O Filme: O Óleo de Lorenzo retrata o surgimento, sinais e sintomas dessa patologia
associada a essa disfunção em enzimas do peroxissomos.

Células eucariontes também possuem organelas derivadas do complexo


golgiense, chamadas de lisossomos. Os lisossomos são organelas em formato
arredondado, cheias de enzimas digestivas e envoltas por uma membrana
lipoproteica. Possui como funções a autofagia (eliminação de organelas
citoplasmáticas); digestão de partículas prejudiciais ao organismo e digestão
intracelular. Possuem enzimas digestivas que degradam substratos específicos,
como por exemplo lipases e fosfolipases, digerindo lipídios; as proteases que
realizam a digestão de proteínas; as glicosidades, digerindo polissacarídeos e as
nucleases, que realizam a digestão de ácidos nucleicos.

As enzimas lisossômicas são produzidas no retículo endoplasmático


granular, passam pelo complexo golgiense, no qual são sintetizadas e liberadas
sob a forma de vesículas:

FIGURA 34 – SÍNTESE DE ENZIMAS LISOSSÔMICAS

FONTE: A autora

Os lisossomos são classificados em primários e secundários. Os lisossomos


primários não estão em atividade de digestão. São menores e homogêneos. Já os
lisossomos secundários estão em constante atividade de digestão, são maiores e
heterogêneos.

44
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

Além dessas organelas, as células vegetais também têm vacúolos (que


acumulam grandes quantidades de ácidos orgânicos) e cloroplastos (nos quais a
luz solar realiza a síntese de ATP no processo da fotossíntese). No citoplasma de
muitas células estão presentes também grânulos ou gotículas contendo nutrientes
armazenados, como amido e gordura (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).

7 ESTUDO DOS COMPONENTES CELULARES


Algumas técnicas foram desenvolvidas ao longo dos anos, para o estudo
dos componentes celulares. A seguir, você conhecerá algumas delas, suas
características e importância clínica.

7.1 ORGANELAS ISOLADAS POR CENTRIFUGAÇÃO


Em um avanço importante na bioquímica, Albert Claude, Christian
de Duve e George Palade desenvolveram métodos para separar as organelas
do citosol e elas entre si – etapa essencial na investigação de suas estruturas e
funções (NELSON; COX, 2014). Em um processo típico de fracionamento (Figura
35), as células ou tecidos em solução são suavemente rompidos por cisalhamento
físico. Esse tratamento rompe a membrana plasmática, mas deixa intacta a
maioria das organelas. O homogeneizado é então centrifugado; organelas como
núcleo, mitocôndria e lisossomos diferem em tamanho e por isso sedimentam
em velocidades diferentes. Esses métodos foram utilizados para estabelecer,
por exemplo, que os lisossomos contêm enzimas degradativas, as mitocôndrias
contêm enzimas oxidativas e os cloroplastos contêm pigmentos fotossintéticos.
O isolamento de uma organela rica em determinada enzima é, com frequência, a
primeira etapa de purificação dessa enzima.

Nelson e Cox (2014) relatam que organelas, como os núcleos, as


mitocôndrias e os lisossomos, diferem em tamanho e, portanto, sedimentam
com velocidades diferentes durante a centrifugação. Elas também diferem
na gravidade específica e “flutuam” em diferentes níveis em um gradiente de
densidade (Figura 35). A centrifugação diferencial leva a um fracionamento
grosseiro do conteúdo citoplasmático, que deve ser purificado por centrifugação
isopícnica (mesma densidade).

45
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA
M I C H A E L M . COX

FIGURA 35 – FRACIONAMENTO SUBCELULAR DE TECIDOS


m têm vacúolos (que acumulam
ácidos orgânicos) e cloroplastos
liza a síntese de ATP no processo
1-7). No citoplasma de muitas cé- Centrifugação
diferencial
bém grânulos ou gotículas conten-
os, como amido e gordura.
ante na bioquímica, Albert Claude, Homogeneização
ge Palade desenvolveram métodos do tecido
s do citosol e elas entre si – etapa
de suas estruturas e funções. Em
Centrifugação a baixa velocidade
acionamento (Figura 1-8), as cé- (1.000 g, 10 min)
ão são suavemente rompidos por


e tratamento rompe a membrana



▲❚

acta a maioria das organelas. O ho-




Sobrenadante centrifugado a
❚ ▲

▲ ▲


▲❚

trifugado; organelas como núcleo,


❚ velocidade média
s diferem em tamanho e por isso ❚ ❚
(20.000 g, 20 min)





des diferentes.

▲ ▲ ❚▲ ❚
▲ Sobrenadante
m utilizados para estabelecer, por

❚ ❚

Tecido ▲ centrifugado a
mos contêm enzimas degradativas,
❚ ❚


homoge- ▲ ❚▲ velocidade alta
enzimas oxidativas, e os cloroplas-


neizado ❚ ❚ ❚ (80.000 g, 1 h)
ossintéticos. O isolamento de uma




▲❚

nada enzima é, com frequência, a ▲


▲ ❚

▲ ❚

ação dessa enzima. ❚
Sobrenadante

Sedimento ❚ centrifugado a

contém velocidade

do pelo citoesqueleto e é

células inteiras, ❚
muito alta

núcleos,

▲ (150.000 g, 3 h)
citoesqueleto,

▲▲

▲ ▲
membrana

scência revela vários tipos de fi-
plasmática Sedimento
vessando a célula eucariótica em contém
o uma rede tridimensional interli- mitocôndrias,
Existem três tipos gerais de fila- lisossomos, ❚ ❚
❚❚❚❚



❚❚

filamentos de actina, microtúbu- peroxissomos


Sedimento
iários (Figura 1-9) – que diferem contém Sobrenadante
), composição e função específica. microssomos contém
estrutura e organização ao cito- (fragmentos proteínas
Os filamentos de actina e os micro- de RE), solúveis
na movimentação das organelas e pequenas
vesículas

ente do citoesqueleto é compos- Sedimento


eicas simples que se associam de contém ribossomos,
a formar filamentos de espessura macromoléculas grandes
os não são estruturas permanen- FIGURA 18 FONTE: Nelson
Fracionamento e Cox
subcelular (2014, Um
de tecidos. p. 8)tecido como o
constante desmontagem em suas hepático é homogeneizado mecanicamente para romper as células e dis-
em novamente em filamentos. Sua persar seu conteúdo em um tampão aquoso. O meio com sacarose tem uma
é rigidamente fixa, podendo mu- pressão osmótica semelhante à das organelas, equilibrando assim a difusão
mitose, a citocinese, As técnicasda de
o movimento imunocitoquímica
água para permitem
dentro e para fora das organelas, o estudo
as quais intumesceriam e da localização
explodiriam em uma solução de osmolaridade mais baixa (ver Figura 2-13).
intracelular de proteínas
na forma celular. A montagem, a específicas.
As partículas grandes e pequenasEla localiza,
em suspensão podemcom precisão,
ser separadas por um determinado
ação de todos os tipos de filamen- centrifugação em diferentes velocidades. As partículas maiores sedimentam
tipo de
utras proteínas, molécula
as quais servemproteica, excluindo todas as outras proteínas existentes nas células.
com mais rapidez do que as partículas pequenas, e o material solúvel não se
lamentos ouA imunocitoquímica se baseia
para mover as orga- sedimenta. na reação
Pela escolha antígeno-anticorpo
cuidadosa das condições de centrifugação, ase fra-pode ser classificada
longo deles. (Bactérias contêm ções subcelulares podem ser separadas por caracterização bioquímica.
em Imunocitoquímica Direta e Indireta (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).
e servem a funções semelhantes

dessa breve vistoria da estrutura sionadoImunocitoquímica


por proteínas motorasDireta: suponha-se
dependentes que, de
de energia. O um determinado órgão
de uma célula com uma trama de sistemade de endomembranas
rato, segrega
se possa extrair e processos
purificar metabó-
quimicamente uma proteína,
stema complexo de compartimen- licos específicos
que será echamada
provê superfícies sobre
proteína X. as
Oquais ocorremcitoquímico consiste em
problema
anas (Figura 1-7). Os filamentos determinadas reações catalisadas por enzimas. A exocito-
ntam em outro lugar. As vesículas se e adescobrir
endocitose,emmecanismos
que célulasdeoutransporte
parte da(para
célula está localizada a proteína
fora
rotam de uma organela e se fun- e paraX,dentro
pois ela foi isolada
da célula, de um órgão
respectivamente) queinteiro.
envolvemInjetando-se a proteína X
elas se movem pelo citoplasma ao fusão (antígeno)
e fissão de em um coelho,
membranas, este formara
produzem umao gamaglobulina
vias entre ci- (anticorpo)
eicos, e seu movimento é impul- come ao propriedade
toplasma de se
meio circundante, combinar
permitindo exclusivamente
a secreção de com a proteína X,
não se combinando com qualquer outra. O anticorpo aparece porque
a proteína X pertence a um órgão de rato e, portanto, estranha para o
coelho no qual foi injetada (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007, p. 30).

02/04/14 18:41
46
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

Na técnica de Imunocitoquímica Indireta, a marcação é colocada em um


anticorpo, isto é, uma antigamaglobulina. Por sua maior sensibilidade, permitindo
a demonstração de quantidades mínimas de antígeno, a técnica indireta é a mais
usada na prática.

7.2 ESTUDOS IN VITRO


In vitro (“em vidro”) é uma expressão que designa todos os processos
biológicos que têm lugar fora dos sistemas vivos, no ambiente controlado e
fechado de um laboratório e que normalmente são utilizadas as vidrarias. Em
1904, ocorreu o primeiro cultivo in vitro de crucíferas observando a necessidade
de suplementação do meio mineral com sacarose para a germinação dos embriões,
bem como mostrando o efeito das diferentes fontes de nitrogênio sobre sua
morfologia.

Uma abordagem para o entendimento de um processo biológico é


o estudo in vitro de moléculas purificadas (“no vidro” – no tubo de
ensaio), sem a interferência de outras moléculas presentes na célula
intacta – isto é, in vivo (“no vivo”). Embora essa abordagem seja muito
esclarecedora, deve-se considerar que o interior de uma célula é
totalmente diferente do interior de um tubo de ensaio. Os componentes
“interferentes” eliminados na purificação podem ser cruciais para
a função biológica ou para a regulação da molécula purificada. Por
exemplo, estudos in vitro de enzimas puras são comumente realizados
com concentrações muito baixas da enzima em soluções aquosas sob
agitação. Na célula, uma enzima está dissolvida ou suspensa no citosol
com consistência gelatinosa junto com milhares de outras proteínas, e
algumas delas se ligam à enzima e influenciam sua atividade. Algumas
enzimas são componentes de complexos multienzimáticos nos quais
os reagentes passam de uma enzima para a outra, sem interagir com o
solvente. Quando todas as macromoléculas conhecidas de uma célula
são representadas em suas dimensões e concentrações conhecidas
(Figura 36), fica claro que o citosol é bem ocupado e que a difusão de
macromoléculas dentro do citosol deve ser mais lenta devido à colisão
com outras estruturas grandes. Em resumo, certa molécula pode ter
um comportamento muito diferente na célula e in vitro. Um desafio
central na bioquímica é entender as influências da organização celular
e das associações macromoleculares sobre a função das enzimas
individuais e outras biomoléculas – para entender a função in vivo
assim como in vitro (NELSON; COX, 2002, p. 33).

47
podem ser separadas e estudadas isoladamente. algumas delas visíveis ao
c As proteínas do citoesqueleto se organizam em longos moléculas individuais são
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA
filamentos que dão forma e rigidez às células e servem para serem estudadas in
como trilhos ao longo dos quais as organelas celulares se portantes na célula viva, p
FIGURA 36 – Adeslocam
CÉLULA por toda aESTE
LOTADA. célula.
DESENHO DE DAVID GOODSELL É UMA
REPRESENTAÇÃO PRECISA DOS TAMANHOS RELATIVOS E NÚMERO DE MACROMOLÉCULAS
EM UMA REGIÃO PEQUENA DA CÉLULA DE E. COLI 1.2 Fundamentos quími
A bioquímica tenta explicar
gicas em termos químicos. N
micos concluíram que a com
pressionantemente diferente
Envelope Flagelo
celular Antoine-Laurent Lavoisier (1
va simplicidade do “mundo m
complexidade dos “mundos a
esses últimos eram constituíd
mentos carbono, oxigênio, ni
Membrana
externa Durante a primeira metad
bioquímicas conduzidas em
Membrana glicose em leveduras e célul
interna ram semelhanças químicas
Ribossomo celulares aparentemente mu
DNA queima da glicose em levedur
(nucleoide)
ve os mesmos 10 intermediá
enzimas. Estudos subsequent
químicos em diferentes orga
ralidade dessa observação, re
Monod: “O que vale para a E
FIGURA 112 AFONTE: Nelson
célula lotada. Estee desenho
Cox (2014, p. 11)
de David Goodsell é uma re- elefante”. A atual compreen
presentação precisa dos tamanhos relativos e número de macromoléculas
em uma região pequena da célula de E. coli. Este citosol concentrado, repleto mos têm uma origem evolutiv
de proteínas e ácidos nucleicos, é muito diferente de um extrato típico de nessa observação de que tod
8 EVOLUÇÃO DOS
células em estudosORGANISMOS
bioquímicos onde o citosol é MULTICELULARES
diluído muitas vezes, alte- E Ae intermediários q
processos
rando bastante a interação entre as macromoléculas. denominado de unidade bioq
DIFERENCIAÇÃO CELULAR
Todos os organismos eucariotos unicelulares modernos – os protistas –
contêm as organelas e os mecanismos que descrevemos anteriormente. Essas
organelas e mecanismos devem ter se originado relativamente cedo.
Nelson_6ed_book.indb 11
O Reino Protista é um dos reinos dos seres vivos, caracterizado por
organismos eucariontes, autótrofos (sintetizam seu próprio alimento) ou
heterótrofos (ingerem partículas alimentares do meio externo). Podem ser
unicelulares (possuem apenas uma célula) ou pluricelulares (formados por várias
células). Os protistas compreendem os protozoários e as algas. Existem também
os mixomicetos, organismos semelhantes aos fungos, mas classificados como
Protistas (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).

Os protistas são muito versáteis. Um exemplo é o protista Paramecium


(Figura 37), que move-se rapidamente com auxílio de uma especialização de
membrana chamada cílios. Ele percebe estímulos mecânicos, químicos e térmicos
do seu ambiente e responde alterando o seu caminho. Consegue realizar a
fagocitose de diversas substâncias, como as partículas alimentares, por exemplo.
Possui a habilidade de excretar os fragmentos não digeridos; elimina o excesso de
água (NELSON; COX, 2014).

48
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

Em alguma etapa posterior da evolução, os organismos unicelulares


descobriram a vantagem de se agregar, adquirindo, portanto, maior motilidade,
eficiência ou sucesso reprodutivo do que os seus competidores unicelulares
de vida livre. A evolução posterior de tais organismos aglutinados levou
às associações permanentes entre células individuais e eventualmente à
especialização da colônia – a diferenciação celular (JUNQUEIRA; CARNEIRO,
2007).

FIGURA 37 – PARAMECIUM: PROTOZOÁRIO CILIADO

FONTE: <http://www.carloshotta.com.br/brontossauros/2009/4/16/paramecios-se-comunicam-
por-luz.html>. Acesso em: 11 jul. 2019.

Para Nelson e Cox (2002, p. 34):

As vantagens da especialização celular levaram a evolução de


organismos mais complexos e altamente diferenciados, nos quais
algumas células desempenham funções sensoriais, outras digestivas,
fotossintetizantes ou reprodutoras. Muitos organismos multicelulares
modernos contêm centenas de diferentes tipos celulares, cada um
especializado em alguma função que apoia o organismo inteiro.
Mecanismos fundamentais que surgiram anteriormente foram
refinados e completados durante a evolução. O mecanismo simples
responsável pela movimentação da miosina ao longo dos filamentos
de actina no mofo foi conservado e elaborado nas células musculares
dos vertebrados. A mesma estrutura básica e o mesmo mecanismo
que sustenta a movimentação do bater dos cílios do Paramecium e
dos flagelos na Chlamydomonas são empregados nas células altamente
diferenciadas dos vertebrados, o espermatozoide.

As células individuais de organismos multicelulares permaneceram


delimitadas por membranas plasmáticas, mas também desenvolveram estruturas
especializadas na superfície para a fixação e comunicação entre as células. As
moléculas de adesão celular permitem o contato entre células epiteliais, e este
contato é estabilizado por junções celulares especializadas (KIERSZENBAUM,
2008).

49
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Embora moléculas de adesão celular sejam responsáveis pela adesão do


tipo célula-célula, as junções celulares são importantes para fornecer estabilidade
mais intensa. As junções celulares podem ser de três tipos: junções de oclusão,
junções de ancoragem (adesão) e junções comunicantes (tipo gap).

As junções de oclusão promovem a vedação do trânsito de íons e moléculas


entre as células. Os folhetos externos da membrana plasmática das duas células
se fundem. São formadas pelas proteínas adesivas claudinas e ocludinas.

As junções de ancoragem ou adesão promovem a adesão entre as células.


É uma zônula que circunda a célula como um cinturão e possui como proteínas
adesivas as caderinas. Nas junções de adesão, devemos citar estruturas em forma
de botões chamadas de desmossomos, que também são responsáveis pela coesão
celular e dependentes das proteínas transmembranas, chamadas de caderinas.

NOTA

Você sabia?
Existe uma doença autoimune chamada de Pênfigo Bolhoso (Figura 38), em que ocorre
uma produção de anticorpos contra a proteína caderina dos desmossomos da epiderme.
As pessoas desenvolvem bolhas grandes e pruriginosas, com áreas de pele inflamada. Para
diagnosticar o pênfigo bolhoso são examinadas amostras da pele no microscópio e verificado
se existem depósitos de certos anticorpos. Ocorre com mais frequência nos homens com
mais de 60 anos, mas também podem ocorrer em crianças. É uma doença menos séria que
o pênfigo vulgar (que também provoca bolhas), geralmente não é fatal, e não resulta em
descamação generalizada da pele. No entanto, pode envolver uma grande extensão da pele
e causar muito desconforto (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).

FIGURA 38 – PÊNFIGO BOLHOSO NA EPIDERME

FONTE: <http://doencasautoimunes.com.br/noticias/penfigo-bolhoso-o-que-e-e-como-
tratar/>. Acesso: 29 mar. 2019.

50
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

Os desmossomos mecanicamente fornecem resistência às conexões físicas


entre as células, mas não impedem a passagem de material através do espaço
extracelular entre as células conectadas (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2007).

As junções comunicantes ou do tipo gap (Figura 39) promovem a
comunicação entre as células através de um canal chamado de conexon. Cada
conexon é formado por seis proteínas chamadas de conexinas. Geralmente
encontram-se abertas, provocando um aumento no cálcio intracelular.

FIGURA 39 – JUNÇÕES COMUNICANTES OU DO TIPO GAP

FONTE: <https://transformandodoremamor.wordpress.com/2018/04/03/o-papel-das-juncoes-
gap nas-sistoles-cardiacas/>. Acesso: 31 mar. 2019.

9 VÍRUS: PARASITAS DAS CÉLULAS


Devido as suas relações com as células e seus efeitos sobre estas, podendo
causar doenças de gravidade variável, abordaremos algumas informações
importantes sobre os vírus. Vírus são acelulares, ou seja, não possuem célula e,
portanto, não podem ser considerados seres vivos. Eles não são capazes de se
multiplicar, exceto quando parasita uma célula e utiliza essa célula para sintetizar
novas partículas virais. São, portanto, parasitas intracelulares obrigatórios. Na
verdade, os vírus são parasitas nível molecular, pois induzem a maquinaria
sintética das células parasitadas a trabalhar para formar novos vírus, em vez de
trabalhar para formar seus próprios componentes (JUNQUEIRA; CARNEIRO,
2007).

Os vírus constituem de uma única molécula de ácido nucleico (DNA ou


RNA). O ácido nucléico é envolvido por uma capa proteica chamada capsídeo,
onde encontramos também no capsídeo, as proteínas virais, que determinam a
célula que o vírus irá infectar.

51
UNIDADE 1 | FUNDAMENTOS DE BIOQUÍMICA

Nelson e Cox (2002, p. 34) relatam que:

Os vírus existem em dois estados. Fora das células hospedeiras que os


formam, os vírus são simplesmente partículas não vivas chamadas de
virions, os quais podem ser cristalizados. Assim que um vírus ou seu
componente ácido nucleico entra numa célula hospedeira específica,
ele se torna um parasita intracelular. O ácido nucleico viral transporta
a mensagem genética especificando a estrutura do vírion intacto.
Ele desvia os ribossomos e as enzimas das células hospedeiras das
suas funções celulares normais para a construção de muitas novas
partículas virais filhas. Em consequência, uma progênie de centenas
de vírus pode se originar de apenas um vírion que infecta a célula
hospedeira. Em alguns sistemas vírus-hospedeiro, a progênie do vírion
escapa através da membrana plasmática da célula hospedeira. Outros
vírus produzem a lise celular (quebra da membrana e morte da célula
hospedeira) quando são liberados. Muito da patologia associada com
as doenças virais resulta da lise da célula hospedeira.

Centenas de vírus diferentes são conhecidos, sendo cada um


mais ou menos específico para uma célula hospedeira. Geralmente os vírus que
infectam as células animais não infectam os vegetais, e vice-versa. Porém, existem
alguns vírus vegetais que invadem e multiplicam-se nas células de insetos
disseminadores deste vírus de uma planta para outra. Os vírus que infectam
bactérias são chamados de bacteriófagos ou, simplesmente, fagos.

A Bioquímica tem ganhado enormemente com o estudo dos vírus, que
tem fornecido informação nova sobre a estrutura do genoma, os mecanismos
enzimáticos da síntese dos ácidos nucleicos e de proteínas e a regulação do fluxo
da informação genética (NELSON; COX, 2002).

FIGURA 40 – ESTRUTURA VIRAL

FONTE: <https://horadaescola.com/biologia/433-virus-biologia>. Acesso em: 31 mar. 2019.

52
TÓPICO 2 | CÉLULA EUCARIONTE E PROCARIONTE

LEITURA COMPLEMENTAR

A COMPARAÇÃO GENÔMICA APRESENTA IMPORTÂNCIA CRESCENTE


NA BIOLOGIA E NA MEDICINA HUMANA

Os genomas de chimpanzés e humanos são 99,9% idênticos; mesmo


assim, as diferenças entre as duas espécies são enormes. As poucas diferenças
nos conteúdos genéticos devem explicar o domínio da linguagem em humanos,
a extraordinária capacidade física dos chimpanzés e uma miríade de outras
diferenças. A comparação de genomas está permitindo aos pesquisadores
identificar genes candidatos conectados a divergências no programa de
desenvolvimento de humanos e dos outros primatas e a emergência de funções
complexas como a linguagem. Tudo se tornará mais claro somente quando o
genoma de mais primatas se tornar disponível para comparação com o genoma
humano. Da mesma forma, as diferenças no conteúdo genético entre humanos
são extremamente pequenas se comparadas com as diferenças entre humanos
e chimpanzés. Mesmo assim, essas poucas diferenças são responsáveis pelas
diferenças dentro da espécie humana – incluindo diferenças na saúde e na
suscetibilidade a doenças crônicas. Há muito a aprender sobre a variabilidade
na sequência entre humanos, e a disponibilidade dessa informação genômica vai
certamente transformar o diagnóstico e o tratamento médico. Pode-se esperar que,
para algumas doenças genéticas, os tratamentos paliativos até agora utilizados
serão substituídos por curas. Pode-se esperar também que o alerta e a prevenção
serão as medidas usadas quando suscetibilidades a doenças são detectadas
por marcadores genéticos específicos. O atual “histórico médico” poderá ser
substituído pelo “prognóstico médico”.

FONTE: NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. Porto Alegre:


Artmed, 2014.

53
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:

• As células, unidade da vida, são de dimensões microscópicas.

• Todas as células compartilham algumas características: DNA contendo a


informação genética, ribossomos e uma membrana plasmática que envolve o
citoplasma.

• Certos organismos, tecidos e células oferecem vantagens para os estudos


bioquímicos.

• A E. coli pode ser muito utilizada para estudos bioquímicos, pois possui
curto tempo de geração sendo especialmente apropriada para a manutenção
genética.

• As primeiras células vivas foram os procariotos e anaeróbicos.

• Com o passar do tempo, a evolução biológica conduziu as células capazes de


produzir fotossíntese, com o oxigênio como subproduto.

• Cerca de 1,5 bilhão de anos atrás surgiram as células eucarióticas.

• As células eucarióticas foram evoluindo e cada organela se especializou em


uma função específica.

• As células eucarióticas modernas possuem um sistema complexo de membranas


intracelulares.

• O material genético nas células eucarióticas está organizado nos cromossomos


complexos altamente organizados de DNA e proteínas histonas.

• O citoesqueleto é uma rede intracelular de filamentos de actina, filamentos


intermediários e microtúbulos.

• O citoesqueleto confere a forma da célula e geralmente essa forma está associada


com a função que a célula desempenha no organismo.

• As organelas intracelulares movem-se ao longo dos filamentos do citoesqueleto,


propelidas por proteínas como a cinesina, a dineína e a miosina, usando a
energia do ATP.

• Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios.


54
AUTOATIVIDADE

1 Leia o texto a seguir e responda ao que se pede:

Relatos de uma viagem

Finalmente conseguimos visitar a célula. É um mundo pequeno,


totalmente cercado por uma fronteira bem controlada, que regula tudo o que
entra e o que sai. O acesso pode ser feito por diferentes tipos de portões. Alguns
são como as portas giratórias de lojas ou bancos, que permitem atravessar
a fronteira em um piscar de olhos; em outros, um funcionário da alfândega
de lá nos agarra e nos empurra para dentro (ou para fora), mesmo que não
queiramos.

Há um incrível trânsito de matéria-prima e de energia nas fronteiras


dessa cidadela, pois sua vida depende totalmente de produtos importados. É
verdade também que há alguns produtos internos que são exportados e muito
requisitados no exterior. O lugar é muito organizado, com túneis e canais que
levam a todas as partes, garantindo um trânsito rápido e fácil. Além disso,
esses canais estão diretamente ligados às fábricas, nas quais são produzidas
matérias-primas necessárias ao dia a dia e também produtos para exportação;
estes são levados aos centros de armazenagem e de estocagem onde ficam até
a hora de serem exportados.

Há encarregados de limpeza e de consertos, que eliminam os resíduos


e mantêm limpo e em perfeito funcionamento. Mas o que chama a atenção são
as usinas de produção de energia. Aqui se adota um modelo descentralizado:
em vez de uma única usina grande, há dezenas ou centenas de pequenas
usinas, distribuídas por toda parte. A energia da matéria-prima que chega
à usina é extraída e convertida em pacotes energéticos rotulados de ATP,
uma espécie de moeda energética local, com a qual se faz qualquer coisa.
Dizem que o mais impressionante daqui é o núcleo de controle, um prédio
em formato esférico e estilo futurista, que utiliza os mais modernos sistemas
informatizados para organizar a vida dentro da célula. Isso nós não fomos
visitar ainda, vimos apenas de longe. Mais notícias em breve.

FONTE: A autora

Essa viagem, impossível na vida real, tornou-se possível graças às


descobertas que os pesquisadores têm feito sobre a estrutura e o funcionamento
das células vivas.

a) Este texto deverá ser traduzido para a linguagem científica da Biologia


Celular, relatando quais são as estruturas celulares (sublinhadas no texto)
correspondentes a cada descrição.

55
b) Pela descrição dada no texto, trata-se de uma célula eucarionte ou
procarionte? Justifique sua resposta.

2 A microscopia eletrônica foi inicialmente criada para estudos de estrutura de


material bélico, sendo posteriormente utilizada para estudos de estruturas
e  organelas  celulares. As eletromicrografias I e II mostram organelas
citoplasmáticas  distintas. Com base na identificação das  organelas  nas
figuras I e II, sabemos que a primeira participa na síntese de lipídios,
enquanto a segunda é responsável pela produção de proteínas. Essas
organelas são, respectivamente:

FIGURA – ORGANELAS

FONTE: A autora

a) ( ) Retículo endoplasmático liso e retículo endoplasmático rugoso.


b) ( ) Retículo endoplasmático rugoso e retículo endoplasmático liso.
c) ( ) Mitocôndrias e lisossomos.
d) ( ) Complexo de Golgi e retículo endoplasmático liso.
e) ( ) Retículo endoplasmático rugoso e ribossomos.

3 Paciente branco, 47 anos, tabagista com história de tosse produtiva crônica,


expectoração purulenta abundante, cefaleia frontal e dor em região malar.
Desde a infância apresentou vários episódios de sinusite, pneumonia e
otite média. Ao exame: hipocratismo digital, sibilos difusos e estertores
crepitantes em ambas as bases pulmonares. Espirometria revelou moderada
obstrução sem resposta à terapia broncodilatadora. Radiografia de tórax
com situs inversus, hiperinsuflação pulmonar. Exame de sêmen mostrou
mobilidade reduzida e/ou ausente dos espermatozoides.

Qual o diagnóstico do caso descrito?

b) Qual estrutura celular apresenta-se comprometida neste caso?

c) Descreva a composição da estrutura descrita.

d) Qual a relação existente entre a mobilidade reduzida dos espermatozoides


e os problemas respiratórios do paciente do caso e a estrutura celular
acometida?

56
4 A membrana plasmática possui várias especializações, seja ela de um
organismo unicelular ou pluricelular, estas especializações são variadas em
relação às designações celulares. São especializações envolvidas com a união
da célula à matriz extracelular, adesão célula-célula, uniões transitórias e
especializações da superfície livre, como microvilosidades, cílios, flagelos,
estereocílios. Sobre as especializações de membrana, analise as frases a
seguir:

I- Os hemidesmossomos têm como função unir a célula à matriz extracelular,


através de proteínas chamadas de integrinas.
II- A zônula de oclusão veda a passagem de substâncias entre as células e
possui como proteínas as claudinas e ocludinas.
III- Desmossomos são junções celulares, presentes no tecido muscular e
possuem a proteína caderina.
IV- As junções tipo GAP também são chamadas de junções comunicantes.

A alternativa que contém as afirmativas CORRETAS é:


a) ( ) I e III.
b) ( ) I, II e IV.
c) ( ) III e IV.
d) ( ) I, II e III.
e) ( ) II, III e IV.

57
58
UNIDADE 2

BIOMOLÉCULAS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• compreender a função biológica em termos químicos;

• identificar as principais biomoléculas;

• estabelecer as características que diferenciam as biomoléculas;

• compreender que em cada organismo vivo as biomoléculas exercem fun-


ções que permitem a manutenção da vida;

• estabelecer os princípios da bioquímica para explicar as biomoléculas em


termos químicos;

• identificar os monômeros que formam as macromoléculas;

• compreender as funções das biomoléculas;

• estabelecer que o surgimento de algumas patologias está associado a dis-


funções nas biomoléculas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em sete tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS BIOMOLÉCULAS


TÓPICO 2 – ÁGUA
TÓPICO 3 – AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS
TÓPICO 4 – ENZIMAS
TÓPICO 5 – CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS
TÓPICO 6 – NUCLEOTÍDEOS E ÁCIDOS NUCLEICOS
TÓPICO 7 – LIPÍDIOS

59
60
UNIDADE 2
TÓPICO 1

CARACTERÍSTICAS GERAIS

1 INTRODUÇÃO
Bioquímica não é nada menos que a “química da vida”; com essa ciência
a vida pode ser investigada, analisada e compreendida. O maior objetivo da
bioquímica é explicar a forma e a função biológica em termos químicos. Uma das
formas mais produtivas de abordar o entendimento dos fenômenos biológicos
tem sido aquela de purificar os componentes químicos individuais, tais como a
proteína de um organismo, e caracterizar a sua estrutura química ou sua atividade
catalítica.

No início do estudo das biomoléculas e de suas interações, algumas


questões básicas merecem atenção. Quais espécies de moléculas estão presentes
nos organismos vivos e em quais proporções? Quais são as estruturas dessas
moléculas? Como interagem umas com as outras?

Neste tópico, faremos uma revisão dos princípios químicos que estão
relacionados com as propriedades das moléculas biológicas: ligação covalente
entre os átomos de carbono entre si e com outros elementos, grupos funcionais
que ocorrem nas biomoléculas, entre outras características.

2 COMPOSIÇÃO E LIGAÇÃO QUÍMICA


No final do século XVIII, ficou evidente para os químicos que a composição
da matéria viva era claramente diferente do mundo inanimado. Antoine Lavoisier
(1743-1794) notou a relativa simplicidade química do mundo mineral e comparou
com a complexidade do mundo dos animais e das plantas. Animais e plantas eram
compostos por substâncias ricas nos elementos carbono, oxigênio, nitrogênio e fósforo.

Dos mais de 90 elementos químicos que ocorrem naturalmente, apenas


cerca de 30 são essenciais para os organismos vivos. A maioria dos elementos
químicos da matéria viva tem números atômicos relativamente pequenos e
apenas cinco deles têm número atômico acima do selênio. Os quatro elementos
químicos mais abundantes nos organismos, em termos das porcentagens do
número total de átomos, são o hidrogênio, o oxigênio, o nitrogênio e o carbono,
os quais, juntos, perfazem mais de 99% da massa da maioria das células. Eles
são os elementos mais leves, capazes formar uma, duas, três e quatro ligações,
respectivamente. Em geral, os elementos mais leves formam as ligações químicas
mais fortes (NELSON; COX, 2002).

61
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS
12 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX
FIGURA 1 – ELEMENTOS ESSENCIAIS PARA A VIDA ANIMAL E PARA A MANUTENÇÃO DA SAÚDE
1 2 FIGURA 113 E
H He vida e a saúde
3 4 Elementos principais 5 6 7 8 9 10 principais (verme
Li Be Elementos-traço B C N O F Ne rais das células e d
11 12 13 14 15 16 17 18
dieta em uma qu
Na Mg Al Si P S Cl Ar dia. Para os elem
tidades requerida
19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 35 36
K Ca Sc Ti V Cr Mn Fe Co Ni Cu Zn Ga Ge As Se Br Kr manos, alguns m
são suficientes, e
37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54
demais elemento
Rb Sr Y Zr Nb Mo Tc Ru Rh Pd Ag Cd In Sn Sb Te I Xe
plantas e micror
55 56 72 73 74 75 76 77 78 79 80 81 82 83 84 85 86 mostradas aqui; o
Cs Ba Hf Ta W Re Os Ir Pt Au Hg Tl Pb Bi Po At Rn
quais eles adquire
87 88 Lantanídeos
Fr Ra
Actinídeos

FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 42)


Menos de 30 entre os mais de 90 elementos químicos bono também podem compartilha
de ocorrência natural são essenciais para os organismos. A elétrons, formando assim ligações d
maioria dos elementos da matéria viva tem um número atô- As quatro ligações simples que
3 BIOMOLÉCULAS
mico relativamente baixo; SÃO COMPOSTOS
somente três têm númerosDE atô- CARBONO
átomo de carbono se projetam a p
micos maiores do que o selênio, 34 (Figura 1-13). Os qua- os quatro vértices de um tetraed
A químicaquímicos
tro elementos dos organismos vivos está
mais abundantes nos organizada
organismos ao ângulo
redor do elemento
de aproximadamente 109
carbono, o qual representa mais da metade do peso seco das células.
vivos, em termos de porcentagem do total de número de quaisquer e comprimento No metano (CH4), médio d
um átomo
átomos,de carbono
são compartilha
hidrogênio, oxigênio,quatro paresede
nitrogênio elétronsque
carbono, compartilhados, formando
rotação é livre em torno de cada l
umajuntos
ligação simples. mais
constituem Bertuzzi
de 99% et al. (2008) das
da massa relatam queEles
células. o carbono podemuito
que grupos tambémgrandes ou altam
são os elementos
estabelecer mais leves
ligações simples capazes
e duplas comde osformar oxigênio eligados
átomosdedemaneira com o de aosnitrogênio.
átomos de carbono. Ne
eficiente uma, duas, três e quatro ligações; em geral, os ele- ser limitada. Já a ligação dupla é m
mentos mais leves
De maior formam ligações
importância mais fortes.
em biologia Os elemen-
é a capacidade de osnm) e rígida,
átomos permitindo somente
de carbono
tos-traço (Figura 1-13) representam uma fração minúscula torno do seu eixo.
compartilharem pares de elétrons entre si para formar ligações simples carbono-
do peso do corpo humano, mas todos são essenciais à vida, Átomos de carbono covalentem
carbono, as quais
geralmente são muito
por serem estáveis.
essenciais para aCada
funçãoátomo de carbono
de proteí- léculastambém pode cadeias linea
podem formar
formar
nas ligações
específicas,simples commuitas
incluindo um, dois, três ou
enzimas. quatro átomos
A capacidade de cíclicas.
turas carbono. Dois
Aparentemente, a ve
átomos de carbono podem também compartilhar dois (ou três) pares
de transporte de oxigênio da hemoglobina, por exemplo, é carbono com outro carbono e comde elétrons,
formando assim
totalmente ligações duplas
dependente de quatroou íons
triplas carbono-carbono
ferro, que somados (Figura principal2).fator na seleção dos com
representam somente 0,3% da massa total. a maquinaria molecular das célul
As quatro ligações simples que podem ser estabelecidas por um
evolução dos átomo
organismos vivos. N
de carbono estão dispostas tetraedricamente.
Biomoléculas são compostos de carbono com uma Os grupos químico
participantesconsegue
de formar molécul
cada
ligação simples
grande carbono-carbono
variedade podem girar livremente ao redor dela; essa e composição
de grupos funcionais
de tamanhos, formas
liberdade sofre restrições somente quando essas ligações estão A maioria
ocupadas das por
biomoléculas der
A química dos organismos vivos está organizada em torno tendo átomos de hidrogênio subs
grupos muito grandes ou quando são portadoras de cargas elétricas muito altas
do carbono, que contribui com mais da metade do peso variedade de grupos funcionais qu
(NELSON;
seco dasCOX, 2002).
células. O carbono pode formar ligações simples químicas específicas à molécula, fo
com átomos de hidrogênio, assim como ligações simples e de compostos orgânicos. Exemplo
Oscom
duplas átomos
átomos dedecarbono
oxigêniounidos entre
e nitrogênio si covalentemente
(Figura 1-14). culaspodem formarque têm um o
são os álcoois,
cadeias lineares, cadeias ramificadas e estruturas
A capacidade dos átomos de carbono de formar ligações cíclicas. Outros grupos
aminas, com grupos de amina; aldeí
átomos,
simpleschamados
estáveis com grupos funcionais,
até quatro são adicionados
outros átomos de carbono aposesses esqueletos
carbonila; e ácidos carboxílic
carbônicos,
é de grandeo que confere propriedades
importância na biologia. Dois químicas
átomos específicas
de car- la à(Figura
molécula assim
1-16). Muitas biomolé
formada. As moléculas que contêm esqueletos carbônicos são chamadas de
compostos orgânicos; eles ocorrem em uma variedade quase ilimitada. A maioria
das biomoléculas
C 1 H são Ccompostos
H orgânicos;
C H portanto,
C 1 Npodemos C inferir
N que
C aN
versatilidade de ligações do carbono foi um fator maior na seleção dos compostos

62
C 1 O C O C O C 1 C C C C C
TÓPICO 1 | CARACTERÍSTICAS GERAIS

de carbono para a maquinaria molecular das células durante a origem e a evolução


dos organismos vivos. Nenhum outro elemento químico pode formar moléculas
com tanta diversidade de formas e de tamanhos ou com tal variedade de grupos
funcionais (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

FIGURA 2 – OBSERVE A VERSATILIDADE DO ÁTOMO DE CARBONO EM FORMAR


LIGAÇÕES COVALENTES

FONTE: Bertuzzi et al. (2008, p. 36)

4 GRUPOS FUNCIONAIS DETERMINAM AS PROPRIEDADES


QUÍMICAS
A maioria das biomoléculas pode ser vista como derivada dos
hidrocarbonetos, os quais são compostos formados por um esqueleto de átomos
de carbono ligados covalentemente entre si e aos quais estão ligados apenas
átomos de hidrogênio. Os esqueletos carbônicos desses compostos são muito
estáveis. Os átomos de hidrogênio podem ser substituídos individualmente por
uma grande variedade de grupos funcionais para formar famílias diferentes dos
compostos orgânicos. Famílias típicas de compostos orgânicos são: os álcoois, os
quais possuem um ou mais grupos hidroxila; as aminas, possuidoras do grupo
funcional amino; os aldeídos e as cetonas, os quais possuem o grupo carbonila; e
os ácidos carboxílicos, que exibem os grupos carboxilas (NELSON; COX, 2002).

Na Figura 3 podemos observar todos os grupos em sua forma neutra


(não ionizada). Nesta figura, e em toda parte deste livro didático, usamos R para
representar “qualquer substituinte”. Pode ser um simples átomo de H, mas
tipicamente ele é uma porção que contém carbono. Quando dois ou mais constituintes
são mostrados em uma molécula, iremos designar R1, R2, e assim por diante.
63
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

FIGURA 3 – ALGUNS DOS GRUPOS FUNCIONAIS COMUNS DE BIOMOLÉCULAS

FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 43)

5 ESTRUTURA TRIDIMENSIONAL: CONFIGURAÇÃO E


CONFORMAÇÃO
Embora as ligações covalentes e os grupos funcionais das biomoléculas
tenham importância central para a função delas, eles não contam toda a história;
o arranjo espacial em três dimensões dos átomos de uma biomolécula – sua
estereoquímica – é também crucialmente importante. Os compostos de carbono
podem existir como estereoisômeros, moléculas nas quais a ordem das ligações é a
mesma, mas a relação espacial entre os átomos é diferente. Interações moleculares
entre biomoléculas são invariavelmente estereoespecíficas; isto é, elas requerem
estereoquímica específica nas moléculas interativas (BERG; TYMOCZKO;
STRYERT, 2015).

A Figura 4 mostra três maneiras de ilustrar a configuração estereoquímica


das moléculas simples. O diagrama ilustra perspectivas específicas de forma não
ambígua à configuração (estereoquímica) de um composto. O modelo bola e
bastão representa melhor os ângulos entre as ligações e o comprimento da ligação
centro a centro, enquanto os contornos das moléculas são mais bem representados
pelos modelos do tipo espaço-cheio (NELSON; COX, 2002).

64
TÓPICO 1 | CARACTERÍSTICAS GERAIS

FIGURA 4 – MANEIRAS DE ILUSTRAR A CONFIGURAÇÃO ESTEREOQUÍMICA

FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 44)

A configuração de uma molécula geralmente é mudada somente pela


quebra de uma ligação. Configuração é o arranjo espacial de uma molécula
orgânica, que lhe é conferido ou pela presença de duplas ligações, ao redor das
quais não existe liberdade de rotação, ou então por centros quirais, ao redor dos
quais os grupos substituintes estão arranjados em uma sequência específica. A
característica identificadora dos isômeros configuracionais é que eles podem
ser convertidos um no outro sem a quebra de uma ou mais ligações covalentes
(BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

Segundo Berg (2014), a conformação molecular é alterada pela rotação ao


redor das ligações simples. O termo conformação molecular refere-se ao arranjo
espacial dos grupos substituintes que são livres para assumir diferentes posições
no espaço, sem a quebra de qualquer ligação, devido à liberdade de rotação da
ligação. Por exemplo, no etano, um hidrocarboneto simples, existe uma liberdade
de rotação quase completa ao redor da ligação simples carbono-carbono. Muitas
conformações moleculares do etano, diferentes e interconvertíveis, são possíveis,
dependendo do grau de rotação.

6 REATIVIDADE QUÍMICA
Os mecanismos das reações bioquímicas não são diferentes dos de outras
reações químicas. Eles podem ser entendidos e previstos a partir da natureza
dos grupos funcionais dos reagentes. Os grupos funcionais alteram a distribuição
eletrônica e a geometria dos átomos vizinhos e dessa maneira afetam a reatividade
química de toda a molécula. Embora um grande número de reações químicas
diferentes ocorra em uma célula típica, essas reações são de apenas alguns tipos
gerais. Abordaremos de forma geral e breve os aspectos fundamentais sobre
ligação química e reatividade (NELSON; COX, 2002).

65
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Para Berg (2014), nas reações químicas, ligações são quebradas e novas
são formadas. A força de uma ligação química depende de eletronegatividades
relativas – as afinidades relativas por elétrons – dos elementos ligados (Tabela 1),
da distância dos elétrons que participam da ligação em relação a cada um dos
núcleos e da carga nuclear de cada átomo.

TABELA 1 – A ELETRONEGATIVIDADE DE ALGUNS ELEMENTOS QUÍMICOS

Elemento Eletronegatividade Elemento Eletronegatividade


F 4,0 Fe 1,8
O 3,5 Co 1,8
Cl 3,0 Ni 1,8
N 3,0 Mo 1,8
Br 2,8 Zn 1,6
S 2,5 Mn 1,5
C 2,5 Mg 1,2
I 2,5 Ca 1,0
Se 2,4 Li 1,0
P 2,1 Na 0,9
H 2,1 K 0,8
FONTE: Berg (2014, p. 45)

É importante ressaltar que quanto maior for o número da


eletronegatividade, tanto mais eletronegativo é o elemento. O número de
elétrons compartilhados também influencia a força da ligação; ligações duplas
são mais fortes que ligações simples, e ligações triplas são ainda mais fortes.
Na Tabela 2 podemos observar a energia de dissociação das ligações mais
frequentes nas biomoléculas. Podemos observar que quanto maior a energia
requerida para a dissociação da ligação (quebra), mais forte é essa ligação
(NELSON; COX, 2002).

TABELA 2 – ENERGIA DE DISSOCIAÇÃO (RESISTÊNCIA) NAS BIOMOLÉCULAS


Tipo de ligação Energia de dissociação da ligação
(kJ/mol)
Ligações Simples
O–H 461
H–H 435
P–O 419
C–H 414
N–H 389
C–O 352
Ligações Duplas
C=O 712
C=N 615
C=C 611
FONTE: Nelson e Cox (2002, p. 49)

66
TÓPICO 1 | CARACTERÍSTICAS GERAIS

A força de uma ligação química é expressa em joules, e conhecida


como energia de ligação (em bioquímica, as calorias têm sido as
unidades de energia mais frequentemente empregadas, como por
exemplo, para expressar a força de ligação e a energia livre; o joule
é a unidade de energia no Sistema Internacional de Unidades e será
usado para conversões, 1 cal é igual a 4,184J). A energia de ligação
pode ser imaginada como a quantidade de energia ganha pelo
ambiente, quando os dois átomos formam essa ligação. Um meio de se
introduzir energia em um sistema é aquecê-lo, o que dá às moléculas
maior energia cinética; a temperatura é uma medida da energia
cinética média de uma população de moléculas. Quando o movimento
molecular é suficientemente violento, as vibrações intramoleculares e
as colisões intermoleculares podem, em algumas ocasiões, quebrar
as ligações químicas. O aquecimento aumenta a fração de moléculas
com energia suficientemente alta para reagir. Quando o movimento
molecular é suficientemente violento, vibrações intramoleculares
e colisões intermoleculares, algumas vezes, quebram ligações e
permitem a formação de novas (NELSON; COX, 2002, p. 49).

Quando nas reações químicas as ligações são quebradas e novas ligações


são formadas, a diferença entre a energia do ambiente usada para romper as
ligações e a energia recebida pelo ambiente na formação de novas ligações é
virtualmente idêntica à variação da entalpia para a reação (NELSON; COX, 2002).

A maioria das células tem a capacidade de realizar milhares de reações


específicas e enzimaticamente catalisadas, como por exemplo, a transformação
de nutrientes simples, como a glicose em aminoácidos, nucleotídeos ou lipídios;
a extração de energia dos alimentos por oxidação ou a polimerização de
subunidades em macromoléculas (BAYNES, 2015).

As reações nas células vivas pertencem a um dos cinco tipos (ou


categorias) gerais: (1) oxidação-redução; (2) reações que formam ou quebram
ligações carbono-carbono; (3) reações que rearranjam a estrutura das ligações ao
redor de um ou mais átomos de carbono; (4) transferência de grupos funcionais;
(5) reações nas quais duas moléculas se condensam com a eliminação de uma
molécula de água. As reações em uma mesma categoria geral ocorrem por meio
de mecanismos similares (BAYNES, 2015).

Quando os dois átomos que compartilham elétrons em uma ligação


covalente têm afinidade igual para os elétrons, como no caso de dois átomos de
carbono, a ligação resultante é não polar. Quando dois elementos diferem em
afinidade por elétrons, ou eletronegatividade, formam uma ligação covalente
(por exemplo, C e O), a ligação é polarizada, ou seja, os elétrons compartilhados
estarão na região do átomo mais eletronegativo (O) e não naquela do átomo menos
eletronegativo (C). No caso extremo de dois átomos de eletronegatividade muito
diferente (Na e Cl, por exemplo), um dos átomos cede os elétrons para o outro
átomo, resultando na formação de íons e interações iônicas, como a existente no
cloreto de sódio (NaCl) sólido (NELSON; COX, 2002).

67
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Nas ligações carbono-hidrogênio, o carbono mais eletronegativo possui


os dois elétrons compartilhados com H, mas, nas ligações carbono-oxigênio,
os dois elétrons estão deslocados unicamente em favor do oxigênio. Então, na
transformação de – CH3 (um alcano) para – CH2OH (um álcool), o átomo de
carbono perde efetivamente elétrons, o que é por definição: oxidação. A Figura
5 mostra que átomos de carbono encontrados em bioquímica podem existir em
cinco estados de oxidação (alcano, álcool, aldeído, ácido carboxílico e dióxido
de carbono), dependendo dos elementos com os quais o carbono compartilha
elétrons (NELSON; COX, 2002).

FIGURA 5 – ESTADO DE OXIDAÇÃO DO CARBONO EM BIOMOLÉCULAS

FONTE: <https://image.slidesharecdn.com/biomoleculas-121110173452-phpapp02/95/
biomoleculas-23-638.jpg?cb=1352569229>. Acesso: 10 abr. 2019.

Em muitas oxidações biológicas, um composto perde dois elétrons e


dois íons de hidrogênio (isto é, dois átomos de hidrogênio); essas reações são
comumentemente chamadas de desidrogenações e as enzimas que as catalisam
são chamadas de desidrogenases. Em algumas, mas não em todas as oxidações
biológicas, um átomo de carbono torna-se covalentemente ligado a um átomo de
oxigênio. As enzimas que catalisam essas oxidações são geralmente chamadas de
oxidases (BERTUZZI et al., 2008).

De acordo com Nelson e Cox (2002, p. 50):

Toda oxidação é acompanhada de redução, na qual um grupo que


recebe elétrons adquire os elétrons removidos pela oxidação. Reações de
oxidação geralmente liberam energia (imagine um incêndio no campo,
em que vários compostos da madeira são oxidados pelas macromoléculas
de oxigênio do ar). A maioria das células vivas obtém a energia necessária
para o trabalho celular oxidando combustíveis, como carboidratos ou
gorduras; organismos fotossintéticos podem também usar a energia da
luz solar. As vias catabólicas são reações de oxidação-redução em cadeia
que resultam na transferência de elétrons das moléculas combustíveis
por meio de uma série de transportadores de elétrons até oxigênio. A
afinidade alta do O2 por elétrons torna todo processo de transferência de
elétrons altamente exergônico, fornecendo a energia que impulsiona a
síntese de ATP – o objetivo central do catabolismo.

68
TÓPICO 1 | CARACTERÍSTICAS GERAIS

FIGURA 6 – ESQUEMA DE UMA REAÇÃO DE OXIDAÇÃO E REDUÇÃO

FONTE: A autora

7 MACROMOLÉCULAS E SUAS SUBUNIDADES


MONOMÉRICAS
Muitas moléculas encontradas no interior das células são macromoléculas,
polímeros de alto peso molecular construídos com precursores relativamente
simples. Os polissacarídeos, as proteínas e os ácidos nucleicos, os quais podem
ter pesos moleculares variando de dezenas de milhares até bilhões (DNA), são
construídos pela polimerização de subunidades relativamente pequenas, de
peso molecular ao redor de 500 ou menos. A síntese de macromoléculas é uma
atividade celular que pode ser classificada como forte consumidora de energia
(RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

A Tabela 3 mostra as principais classes de biomoléculas em um organismo


unicelular típico, a Escherichia coli. A água é o composto simples mais abundante
na E. coli e em todas as outras células e organismos. Em todos os tipos de células,
quase toda a matéria sólida é substância orgânica e está presente em quatro formas
principais: proteínas, ácidos nucleicos, carboidratos e lipídios. Os sais inorgânicos
e os elementos minerais constituem apenas uma fração muito pequena do peso
seco total (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

TABELA 3 – COMPONENTES MOLECULARES DE UMA CÉLULA DA E. COLI


Porcentagem Número aproximado
do peso total da das diferentes espécies
célula moleculares
Água 70 1
Proteínas 15 3.000
Ácidos Nucleicos
DNA 1 1
RNA 6 > 3.000
Carboidratos 3 5
Lipídios 2 20
Íons inorgânicos 1 20
FONTE: Adaptado de Berg, Tymoczko e Stryert (2015)

69
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

As proteínas são polímeros de aminoácidos, constituem ao lado da água a


maior fração das células. Algumas proteínas têm atividade catalítica e funcionam
como enzimas, outras servem como elementos estruturais e ainda transportam
sinais específicos (no caso dos receptores) ou substâncias específicas (no caso
das proteínas de transporte) para o interior ou exterior das células. As proteínas
podem ser consideradas as mais versáteis das biomoléculas. Os ácidos nucleicos,
DNA e RNA, são polímeros de nucleotídeos. Eles armazenam, transmitem e
transcrevem a informação genética (NELSON; COX, 2014).

Os carboidratos, polímeros de açúcares ou hidratos de carbono, têm


duas principais funções: servem como armazenadores de energia (na forma
de glicogênio e amido) e como elementos estruturais (celulose e quitina, por
exemplo). Carboidratos (oligossacarídeos) ligados a proteínas ou lipídios na
superfície celular servem como receptores para sinalizadores específicos. Entre
seus inúmeros papéis, os lipídios, derivados oleaginosos dos hidrocarbonetos,
servem principalmente como componentes estruturais das membranas e como
forma de armazenamento de alimentos ricos em energia. Todas essas quatro
classes de grandes biomoléculas são sintetizadas em reações de condensação
(NELSON; COX, 2002).

Cada uma dessas macromoléculas tem diferentes funções nos organismos


vivos. Os aminoácidos, por exemplo, não são apenas as subunidades monoméricas
das proteínas; alguns agem como neurotransmissores e como precursores de
hormônios e toxinas. A adenina serve tanto como subunidades na estrutura dos
ácidos nucleicos e do ATP, como neurotransmissora. Os ácidos graxos servem
como componentes de membranas lipídicas complexas, como gorduras ricas em
energia e que funcionam como reserva de alimentos e também como precursores
de um grupo de moléculas sinalizadoras potentes, os eicosanoides (BERG;
TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

Nos tópicos seguintes, conheceremos as principais características


bioquímicas das biomoléculas.

70
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você aprendeu que:

• A maior parte do peso seco dos organismos vivos consiste de compostos


orgânicos, moléculas que contêm esqueletos ou estruturas de átomos de
carbono ligados covalentemente entre si.

• Átomos de carbono, nitrogênio, hidrogênio e oxigênio podem ser ligados.

• Aos esqueletos carbônicos são ligados diferentes tipos de grupos funcionais, o


que determina as propriedades químicas das moléculas orgânicas.

• As forças das ligações químicas covalentes, medidas em joules, dependem da


eletronegatividade e do tamanho dos átomos que compartilham elétrons.

• A variação da entalpia para uma reação química reflete o número e o tipo de


ligações que são quebradas ou sintetizadas.

• Para as reações endotérmicas, a variação da entalpia é positiva, para as reações


exotérmicas, negativa.

• As diferentes reações químicas que ocorrem no interior de uma célula


pertencem a cinco categorias gerais: reações de oxidação-redução, quebra
ou formação de ligações carbono-carbono, rearranjo de ligações ao redor de
átomos de carbono, transferência de grupos e condensações.

• A maior parte da matéria orgânica nas células vivas consiste em macromoléculas:


ácidos nucleicos, proteínas e carboidratos.

• Moléculas de lipídios, outro componente importante das células, são moléculas


pequenas que formam grandes agregados.

• Cada tipo de macromolécula é composto de subunidades monoméricas


pequenas unidas por ligações covalentes.

• Ácidos nucleicos e proteínas são macromoléculas informacionais; as sequências


características de suas subunidades constituem a individualidade genética da
espécie.

• Os carboidratos simples funcionam como componentes estruturais, mas os


mais complexos também são macromoléculas informacionais.

71
AUTOATIVIDADE

1 No laboratório de bioquímica, primeiramente é necessário separar a


molécula de interesse de outras biomoléculas presentes em uma amostra
– isto é, purificar proteínas, ácidos nucleicos, carboidratos ou lipídios.
Pela observação das subunidades monoméricas das quais as biomoléculas
grandes são formadas, você deve imaginar quais características dessas
biomoléculas permitem separá-las umas das outras.

a) Quais características do aminoácido e do ácido graxo permitiriam separá-


los facilmente um do outro?

b) Como os nucleotídeos devem ser separados das moléculas de glicose?

2 Alguns anos atrás, duas companhias farmacêuticas comercializaram um


remédio sob os nomes de Dexedrina e Benzedrina. A estrutura da droga é
mostrada a seguir:

FIGURA – ESTRUTURA QUÍMICA DA DEXEDRINA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 53)

As propriedades físicas e químicas (elementos constitutivos como C,


H, N, ponto de fusão, solubilidade etc.) de ambas eram idênticas. A dosagem
por via oral recomendada da Dexedrina era 5 mg por dia, mas a dosagem
recomendada da Benzedrina era significativamente mais alta. Aparentemente,
para um mesmo efeito, era necessária uma dose muito menor de Dexedrina.
Explique essa contradição.

72
UNIDADE 2 TÓPICO 2
ÁGUA

1 INTRODUÇÃO
A água é a substância mais abundante nos sistemas vivos, constituindo
mais de 70% do peso da maioria dos organismos. O primeiro organismo vivo na
Terra, sem dúvida, nasceu em ambiente aquoso, e o curso da evolução tem sido
moldado pelas propriedades do meio aquoso no qual a vida começou (NELSON;
COX, 2014).

Dentre as várias funções que a água desempenha nas células, podemos


citar algumas, como: solvente para compostos bioquímicos, recebe resíduo,
absorve calor e participa diretamente das reações químicas. Sem água, a vida como
a conhecemos, poderia não existir, pois nenhum organismo pode permanecer
biologicamente ativo sem água.

Neste tópico, conheceremos as propriedades físicas e químicas da água,


às quais são adaptados todos os aspectos da estrutura e função da célula, as forças
de atração entre as moléculas de água, ionização da água e ação do tamponamento
contra as variações de pH nos sistemas biológicos.

2 PONTES DE HIDROGÊNIO
As ligações de hidrogênio entre moléculas de água fornecem as forças
coesivas que fazem da água um líquido à temperatura ambiente e um sólido
cristalino (gelo) com arranjo altamente ordenado de moléculas em temperaturas
frias. As biomoléculas polares se dissolvem facilmente em água porque elas
podem substituir interações entre as moléculas de água (água-água) por
interações energeticamente mais favoráveis entre a água e o soluto (água-soluto).
Em contrapartida, as biomoléculas apolares são pouco solúveis em água porque
interferem nas interações do tipo água-água, mas são incapazes de formar
interações do tipo água-soluto. Em soluções aquosas, moléculas apolares tendem
a formar agregados. Ligações de hidrogênio e interações iônicas, hidrofóbicas
(do grego, “medo de água”) e de Van der Waals são individualmente fracas,
mas coletivamente têm influência significativa nas estruturas tridimensionais de
proteínas, ácidos nucleicos, polissacarídeos e lipídios de membranas (NELSON;
COX, 2014).

73
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

As ligações ou pontes de hidrogênio são responsáveis pelas propriedades


incomuns da água. A água tem ponto de fusão, ebulição e calor de vaporização
mais alto que os outros solventes comuns. Essas propriedades incomuns são uma
consequência da atração entre as moléculas de água adjacentes que oferecem à
água líquida grande coesão interna. A visualização da estrutura eletrônica da
molécula de H2O revela a origem dessas atrações intermoleculares (NELSON;
COX, 2014).

TABELA 4 – PONTO DE FUSÃO, PONTO DE EBULIÇÃO E CALOR DE VAPORIZAÇÃO DE


ALGUNS SOLVENTES COMUNS

Ponto de fusão Ponto de ebulição Calor de


(ºC) (ºC) Vaporização J/g
Água 0 100 2.260
Metanol -98 65 1.100
Etanol -117 78 854
Propanol -127 97 687
Acetona -95 56 523
Hexano -98 69 423
Benzeno 6 80 394
Butano -135 -0,5 381
Clorofórmio -63 61 24
FONTE: Adaptado de Nelson e Cox (2014)

Cada átomo de hidrogênio de uma molécula de água compartilha um par


de elétrons com o átomo central do oxigênio. A geometria da molécula é ditada
pela forma dos orbitais eletrônicos mais externos do átomo de oxigênio, que são
similares aos orbitais ligantes sp3 do carbono. Na Figura 7 observamos que esses
orbitais descrevem um formato aproximado de tetraedro, com um átomo de
hidrogênio em cada um de dois vértices e pares de elétrons não compartilhados
nos outros dois. O núcleo do átomo de oxigênio atrai elétrons mais fortemente
que o núcleo de hidrogênio (um próton); ou seja, o oxigênio é mais eletronegativo.
Isso significa que os elétrons compartilhados estão mais frequentemente nas
vizinhanças do átomo de oxigênio que os de hidrogênio. O resultado desse
compartilhamento desigual de elétrons é a formação de dois dipolos elétricos na
molécula de água (COOPER, 2001).

NOTA

Você sabia?
Que a quantidade de água é diretamente proporcional ao metabolismo da célula?
Células com uma atividade metabólica intensa, como por exemplo, os neurônios, possuem
80% de água no seu interior.

74
TÓPICO 2 | ÁGUA

Na figura a seguir podemos observar a natureza dipolar da molécula de


água em modelo de esfera e bastão, em que as linhas tracejadas representam os
orbitais não ligantes. Existe um arranjo aproximadamente tetraédrico dos pares
de elétrons mais externos da camada ao redor do átomo de oxigênio; os dois
átomos de hidrogênio têm cargas parciais positivas e o átomo de oxigênio tem
carga parcial negativa. Em (b) vê-se duas moléculas de H2O unidas por ligações
de hidrogênio, representada por três linhas azuis.

FIGURA 7 – ESTRUTURA DA MOLÉCULA DE ÁGUA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 48)

As ligações de hidrogênio não são exclusivas para a molécula de água.


Elas se formam prontamente entre um átomo eletronegativo (aceptor de
hidrogênio, geralmente oxigênio ou nitrogênio) e um átomo de hidrogênio ligado
covalentemente a outro átomo eletronegativo (doador de hidrogênio) na mesma
molécula ou em outra (Figura 8). Átomos de hidrogênio covalentemente ligados a
átomos de carbono não participam de ligações de hidrogênio, porque o átomo de
carbono é somente um pouco mais eletronegativo que o hidrogênio e, portanto, a
ligação C-H é apenas levemente polar (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

FIGURA 8 – LIGAÇÕES DE HIDROGÊNIO COMUM EM SISTEMAS BIOLÓGICOS

FONTE: <https://player.slideplayer.com.br/46/11652478/data/images/img15.jpg>.
Acesso em: 11 abr. 2019.

75
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

3 INTERAÇÕES DE VAN DER WAALS


Quando dois átomos não carregados são colocados bem próximos um do
outro, as suas nuvens eletrônicas influenciam uma à outra. Variações aleatórias
nas posições dos elétrons ao redor do núcleo podem criar um dipolo transitório
elétrico, que induz à formação de um dipolo transiente de carga oposta no
átomo mais próximo a ele. Os dois dipolos atraem-se fracamente um ao outro,
aproximando os dois núcleos. Essas atrações fracas são chamadas de interações
de Van der Waals (também conhecidas como forças de London). À medida que
os dois núcleos se aproximam, as nuvens eletrônicas começam a repelir uma
à outra. Nesse ponto, no qual a atração líquida é máxima, diz-se que o núcleo
está em contato de Van der Waals. Cada átomo tem um raio de Van der Waals
característico, uma medida do quão próximo um átomo permite que outro se
aproxime (NELSON; COX, 2014).

4 IONIZAÇÃO DA ÁGUA, ÁCIDOS FRACOS E BASES


FRACAS
Embora muitas propriedades de solvente da água possam ser explicadas
em termos da molécula de água não carregada, o pequeno grau de ionização da
água em seus íons (H1) e (OH–) deve também ser levado em consideração.

Como todas as reações reversíveis, a ionização da água pode ser descrita


por uma constante de equilíbrio. Quando ácidos fracos são dissolvidos
na água, eles contribuem com um H1 por ionização; bases fracas
consomem um H1 se tornando protonadas. Esses processos também
são governados por constantes de equilíbrio. A concentração total
dos íons hidrogênio a partir de todas as fontes é experimentalmente
mensurável, sendo expressa como o pH da solução. Para predizer
o estado de ionização de solutos na água, devem-se considerar as
constantes de equilíbrio relevantes para cada reação de ionização
(NELSON; COX, 2014, p. 58).

Para Rodwel, Murry e Granner (2017), as moléculas de água têm a leve


tendência de sofrer uma ionização reversível, produzindo um íon hidrogênio
(próton) e um íon hidróxido, gerando o equilíbrio: H2O Δ H1 1 OH (2-1).
Apesar de geralmente se mostrar o produto de dissociação da água como H1,
os prótons livres não existem em solução; os íons hidrogênio formados em água
são imediatamente hidratados para formar íons hidrônio (H3O). As ligações de
hidrogênio entre as moléculas de água fazem com que a hidratação dos prótons
dissociados seja praticamente instantânea.

A ionização da água pode ser medida pela sua condutividade elétrica; a


água pura carrega corrente elétrica enquanto o H3O1 migra para o cátodo e OH–
para o ânodo. O movimento dos íons hidrônio e hidróxido no campo elétrico
é extremamente rápido comparado com o de outros íons como Na1, K1 e Cl–.
Essa alta mobilidade iônica resulta do tipo de “salto de prótons”, mostrado na

76
TÓPICO 2 | ÁGUA

Figura 9. Os prótons individuais não se movem para muito longe na solução, mas
uma série de prótons salta entre as moléculas de água ligadas por hidrogênio e
gera um movimento líquido de prótons por uma longa distância em um tempo
extremamente curto (OH também se move rapidamente por saltos, mas na
direção oposta). Como resultado da alta mobilidade iônica do H1, reações ácido/
básicas em soluções aquosas são excepcionalmente rápidas.

FIGURA 9 – SALTO DE PRÓTONS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 58)

O produto iônico da água, Kw, é a base para a escala de pH. É um meio


conveniente de designar a concentração de H1 (e, portanto, de OH–) em qualquer
solução aquosa no intervalo de 1,0 M H1 e 1,0 M OH–. O termo pH é definido
pela expressão:

1
pH = log = − log H + 
H  +
 

O símbolo p denota “logaritmo negativo de”. Para uma solução neutra


a 25 ºC, na qual a concentração de íons hidrogênio é exatamente 1,0 3 10–7 M.
Quando temos uma solução com pH 7, uma solução neutra não é um número
escolhido arbitrariamente, sendo derivado do valor absoluto do produto iônico
da água a 25 ºC, que, por uma coincidência conveniente, é um valor inteiro.

77
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Soluções com pH maior que 7 são alcalinas ou básicas; a concentração


de OH– é maior que a de H1. Inversamente, soluções tendo pH menor que 7 são
ácidas. Lembre-se de que a escala de pH é logarítmica e não aritmética. Se duas
soluções diferem em pH por uma (1) unidade, isso significa que uma solução
tem dez vezes mais a concentração de íons H1 que a outra, mas isso não indica a
magnitude absoluta da diferença. Um refrigerante de cola (pH 3,0) ou um vinho
tinto (pH 3,7) têm uma concentração de íons H1 de aproximadamente 10.000
vezes a do sangue (pH 7,4) (NELSON; COX, 2014).

O pH de uma solução aquosa pode ser medido por aproximação, usando


vários tipos de indicadores coloridos, incluindo tornassol, fenolftaleína e vermelho
de fenol. Essas substâncias passam por uma mudança de cor quando um próton
se dissocia da molécula. Determinações precisas do pH em laboratórios químicos
ou clínicos são feitas com um eletrodo de vidro que é seletivamente sensível à
concentração dos íons H1, mas insensível à concentração de Na1, K1 e outros
cátions. Em um pH-metro, o sinal do eletrodo de vidro colocado em uma solução
de teste é amplificado e comparado com o sinal gerado por uma solução de pH
conhecido (NELSON; COX, 2014).

A medida do pH é um dos procedimentos mais importantes e usados


com mais frequência na bioquímica. O pH afeta a estrutura e a atividade de
macromoléculas biológicas; por exemplo, a atividade catalítica das enzimas é
extremamente dependente do pH. As medidas do pH do sangue e da urina são
comumentemente usadas em diagnóstico médico. O pH do plasma sanguíneo
das pessoas com diabetes grave e não controlado é comumentemente abaixo do
valor normal de 7,4; essa condição é chamada de acidose. Em outras doenças, o
pH sanguíneo é mais alto que o normal, uma condição conhecida como alcalose.
A acidose ou a alcalose extrema podem ameaçar a vida.

5 AÇÃO TAMPONANTE CONTRA AS VARIAÇÕES DE PH


NOS SISTEMAS BIOLÓGICOS
Quase todos os processos biológicos são dependentes do pH; uma pequena
mudança no pH produz uma grande mudança na velocidade do processo.
Os grupos amino e carboxila protonados de aminoácidos e os grupos fosfato
de nucleotídeos, por exemplo, agem como ácidos fracos; o seu estado iônico é
determinado pelo pH do meio circundante. As interações iônicas estão entre
as forças que estabilizam a molécula da proteína e permitem que uma enzima
reconheça e se ligue ao seu substrato (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

Células e organismos mantêm um pH citosólico específico e constante,


em geral, perto de pH 7, mantendo biomoléculas em seu estado iônico otimizado.
Em organismos multicelulares, o pH dos fluidos extracelulares também é
rigorosamente regulado. A constância do pH é atingida principalmente por
tampões biológicos: misturas de ácidos fracos e suas bases conjugadas (NELSON;
COX, 2014).
78
TÓPICO 2 | ÁGUA

Tampões são sistemas aquosos que tendem a resistir a mudanças de pH


quando pequenas quantidades de ácido (H1) ou base (OH–) são adicionadas.
Um sistema tampão consiste em um ácido fraco (o doador de prótons) e sua
base conjugada (o aceptor de prótons). Como um exemplo, uma mistura de
concentrações iguais de ácido acético e íons acetato, encontradas no ponto central
da titulação na Figura 10, é um sistema tampão. Observe que a curva de titulação
do ácido acético tem uma zona relativamente plana que se estende por cerca de
uma unidade de pH em ambos os lados do seu pH do ponto central de 4,76.
Nessa zona, uma dada quantidade de H1 ou OH– adicionada ao sistema tem
muito menos efeito no pH que a mesma quantidade adicionada fora da zona.
Essa zona relativamente plana é a região de tamponamento do par tampão ácido
acético/acetato (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

No ponto central da região de tamponamento, no qual a concentração


do doador de prótons (ácido acético) é exatamente igual à do aceptor de prótons
(acetato), a força de tamponamento do sistema é máxima; isto é, seu pH muda
menos pela adição de H1 ou OH–. O pH do sistema tampão acetato muda
levemente quando uma pequena quantidade de H1 ou OH– é adicionada, mas
essa mudança é muito pequena comparada com a mudança de pH que resultaria
se a mesma quantidade de H1 ou OH– fosse adicionado à água pura ou a uma
solução salina de um ácido forte e de uma base forte, como NaCl, que não tem
poder tamponante (NELSON; COX, 2014).

FIGURA 10 – CURVA DE TITULAÇÃO DO ÁCIDO ACÉTICO

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 62)

79
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Sackheim (2001) relata que o tamponamento resulta do equilíbrio entre


duas reações reversíveis ocorrendo em uma solução de concentrações quase
iguais de doador de prótons e de seu aceptor de prótons conjugado. A Figura 11
explica como um sistema tampão funciona. Sempre que H1 ou OH– é adicionado
em um tampão, o resultado é uma pequena mudança na razão das concentrações
relativas dos ácidos fracos e seus ânions e, portanto, uma pequena mudança no
pH. O decréscimo na concentração de um componente do sistema é equilibrado
exatamente pelo aumento do outro. A soma dos componentes do tampão não
muda somente a sua razão.

FIGURA 11 – ACÉTICO/ACETATO COMO SISTEMA TAMPÃO

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 64)

Os fluidos intracelulares ou extracelulares de organismos multicelulares


têm como característica um pH quase constante. A primeira linha de defesa
dos organismos contra mudanças internas de pH é proporcionada por sistemas
tampão. O citoplasma da maioria das células contém altas concentrações de
proteínas e, estas, contêm muitos aminoácidos com grupos funcionais que são
ácidos fracos ou bases fracas. Por exemplo, a cadeia lateral da histidina tem
um pKa de 6,0 e, por isso, pode existir tanto nas formas protonadas quanto
nas desprotonadas, próximo ao pH neutro. Proteínas contendo resíduos de
histidina, portanto, são tampões efetivos próximo ao pH neutro. Nucleotídeos
como ATP, assim como muitos metabólitos de baixa massa molecular, contêm
grupos ionizáveis que podem contribuir para o poder tamponante do citoplasma.
Algumas organelas altamente especializadas e compartimentos extracelulares
apresentam altas concentrações de compostos que contribuem para a capacidade
de tamponamento: ácidos orgânicos tamponam os vacúolos das células das
plantas; amônia tampona a urina (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Dois tampões biológicos especialmente importantes são o sistema fosfato


e o bicarbonato. O tampão fosfato, que age no citoplasma de todas as células,
consiste em H2PO4 – como doador de prótons e HPO como aceptor de prótons.
O sistema tampão fosfato é mais efetivo em um pH perto de seu pKa de 6,86 e,
portanto, tende a resistir a mudanças de pH em um intervalo de 5,9 e 7,9. Esse

80
TÓPICO 2 | ÁGUA

é, então, um tampão efetivo em fluidos biológicos; em mamíferos, por exemplo,


fluidos extracelulares e a maioria dos compartimentos citoplasmáticos têm pH no
intervalo de 6,9 a 7,4 (BERG et al., 2008).

E
IMPORTANT

Fique Ligado!

Posso substituir a ingestão de água por chá, café, sucos, vinho e cerveja?
Quanto mais destas bebidas se consome, mais desidratado o corpo se torna. Bebidas
contendo cafeína, por exemplo, disparam resposta de estresse devido ao forte efeito diurético,
aumentando as micções. Bebidas com açúcar aumentam rapidamente os níveis de açúcar
sanguíneo (> diurese).

NOTA

Curiosidades:
• Sob desidratação: as pessoas observam que realmente começam a reter água nas pernas,
pés, braços e face. Os rins começam a “economizar” água, reduzindo a produção de urina e
levando à retenção de produtos tóxicos potencialmente danosos.
• A diminuição da água no cérebro acarreta a diminuição da energia e deprime muitas
funções vitais. Com baixo nível de energia cerebral, ficamos incapazes de lidar com o medo,
a ansiedade, a raiva e muitas outras emoções.

81
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

LEITURA COMPLEMENTAR

SENDO SUA PRÓPRIA COBAIA (NÃO TENTE ISSO EM CASA!)

Este é um relato de J. B. S. Haldane dos experimentos fisiológicos sobre


o controle do pH sanguíneo, do livro Mundos Possíveis (HARPER; BROTHERS,
1928). “Eu queria descobrir o que aconteceria com um homem se ele fosse mais
ácido ou mais alcalino... Poder-se-ia, claro, fazer experimentos em um coelho
primeiro, e alguns trabalhos haviam sido feitos nesse sentido; mas é difícil, de
qualquer forma, ter certeza como um coelho se sente. Na verdade, alguns coelhos
não levavam a sério a possibilidade de cooperar comigo.

“[...] Um colega e eu então começamos a fazer experimentos em nós


mesmos [...]. Meu colega Dr. H. W. Davies e eu nos tornamos alcalinos pela
respiração e pela ingestão de tudo que contivesse mais de 85,05 g de bicarbonato
de sódio. Tornamo-nos ácidos ficando sentados em uma sala apertada contendo
entre 6 e 7% de dióxido de carbono no ar. Isso faz a respiração ficar como se recém-
tivéssemos terminado uma regata de remo, e também dá uma tremenda dor de
cabeça... Duas horas foi o máximo de tempo que alguém conseguiu permanecer
sob dióxido de carbono, mesmo se a câmara de gás à nossa disposição não tivesse
retido um odor irremovível de gás mostarda de alguns experimentos de guerra,
o qual faz lacrimejar quem quiser que entre nela. A coisa mais óbvia a fazer
foi tentar beber ácido clorídrico. Se tomássemos concentrado, isso dissolveria
os dentes e queimaria a garganta, razão pela qual eu quis deixá-lo difundir-se
suavemente em meu corpo. A concentração maior que tive a coragem de ingerir foi
aproximadamente uma parte do ácido comercial em cem partes de água, mas meio
litro foi o suficiente para mim, pois irritou minha garganta e estômago, enquanto
meus cálculos mostravam que eu precisaria de um galão e meio para obter o efeito
que eu desejava... Argumentei que se cloreto de amônio fosse ingerido, ele poderia
se dissociar parcialmente no corpo, liberando ácido clorídrico. Isso provaria estar
correto... o fígado transforma amônia em uma substância inofensiva chamada
ureia antes que alcance o coração e o cérebro depois de absorvida pelo intestino.
O ácido clorídrico que foi deixado para trás combina-se com o bicarbonato de
sódio, que existe em todos os tecidos, produzindo cloreto de sódio e dióxido de
carbono. Esse gás foi produzido em mim dessa forma na taxa de 6,6 L por hora
(embora não por uma hora inteira nessa taxa).

“Eu estava bem satisfeito de reproduzir em mim o tipo de respiração


curta que ocorre nos estágios terminais de doenças dos rins e diabetes. Sabe-se,
há muito tempo, que isso é devido ao envenenamento por ácido, mas em cada
caso o envenenamento é complicado por outras anormalidades químicas, e não
se tem certeza quais os sintomas são decorrentes do ácido em si.

“A cena agora muda para Heidelberg, onde Freudenberg e György estavam


estudando o tétano em bebês... ocorreu a eles que poderia ser bastante válido
tentar o efeito de aumentar de forma incomum a acidez do corpo. Visto que o

82
TÓPICO 2 | ÁGUA

tétano havia sido ocasionalmente observado em pacientes que foram tratados, por
outras queixas, pela administração de doses muito altas de bicarbonato de sódio,
ou perderam grande quantidade de ácido clorídrico por constantes vômitos; e se
alcalinidade dos tecidos produzisse tétano, a acidez poderia ser uma expectativa
de cura. Infelizmente, dificilmente se curaria um bebê moribundo colocando-o em
uma sala cheia de ácido carbônico, e ainda menos com a indicação de ingestão de
ácido clorídrico; então, nada poderia resultar dessa ideia, e eles estavam usando
sais de lima, não facilmente absorvidos no organismo, os quais perturbam a
digestão, mas certamente foram benéficos em muitos casos de tétano. Entretanto,
no momento em que leram o meu artigo sobre os efeitos do cloreto de amônio,
eles começaram a administrá-lo aos bebês, e ficaram encantados ao descobrir
que o tétano era eliminado em poucas horas. Desde então, tem sido usado com
sucesso na Inglaterra e na América, tanto em crianças como em adultos. Ele não
remove a causa, mas coloca o paciente em melhores condições de recuperação”.

FONTE: NELSON, D. L.; COX, M. M. Princípios de bioquímica de Lehninger. 6. ed. Porto Alegre:


Artmed, 2014. (Adaptado)

83
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:

• A diferença entre a eletronegatividade do H e a do O torna a água uma molécula


muito polar, capaz de formar ligações de hidrogênio entre suas moléculas e
com solutos.

• As ligações de hidrogênio são curtas, basicamente eletrostáticas e mais fracas


que as ligações covalentes.

• A água é um bom solvente para solutos polares (hidrofílicos), com os quais


forma ligações de hidrogênio, e para solutos carregados, com os quais forma
interações eletrostáticas.

• Compostos apolares (hidrofóbicos) se dissolvem fracamente em água; eles


não formam ligações de hidrogênio com o solvente, e a sua presença força um
ordenamento energeticamente desfavorável de moléculas de água nas suas
superfícies hidrofóbicas.

• Interações fracas e não covalentes, em grande número, influenciam decisivamente


o enovelamento de macromoléculas como proteínas e ácidos nucleicos.

• As conformações mais estáveis são aquelas nas quais as ligações de hidrogênio


são maximizadas dentro da molécula e entre a molécula e o solvente, e nas
quais as partes hidrofóbicas se agregam no interior das moléculas, longe do
solvente aquoso.

• A água é tanto o solvente no qual as reações metabólicas ocorrem quando um


reagente em muitos processos bioquímicos, incluindo hidrólise, condensação e
reações de oxidação-redução.

• A água pura se ioniza levemente, formando número igual de íons hidrogênio


(íons hidrônio, H3O1) e íons hidróxido.

• Uma mistura de um ácido fraco (ou base) e seus sais resiste a mudanças de pH
causadas pela adição de H1 ou OH–. A mistura, portanto, funciona como tampão.

• Em células e tecidos, tampões de fosfatos e bicarbonatos mantêm os fluidos


intracelulares e extracelulares em seu pH ótimo (fisiológico), que em geral é
próximo de 7. As enzimas costumam ter atividade ótima nesse pH.

• Condições de saúde que diminuem o pH sanguíneo, causando acidose, ou


aumentam, causando alcalose, podem ameaçar a vida.
84
AUTOATIVIDADE

1 O sistema de tamponamento biológico é muito importante, pois permite


que sangue mantenha seu pH em torno de 7,40/7,45 independentemente da
chegada de substâncias ácidas ou alcalinas. Para que isso aconteça de forma
correta, sabemos que existe uma ação conjunta do sistema respiratório,
urinário e o sistema químico, que envolve o mais importante componente.
O componente químico responsável em manter o pH sanguíneo constante é:

a) ( ) Cloreto de Sódio.
b) ( ) Azul de Bromotimol.
c) ( ) Bicarbonato.
d) ( ) Ninidrina.
e) ( ) Ácido Clorídrico.

2 Quimicamente, os ácidos referem-se a compostos capazes de transferir íons


H+ numa reação química, podendo gerar a queda do pH. Sendo que o pH se
refere justamente à concentração destes íons, que quanto maior, mais ácido
se torna o meio. As bases são “análogos” opostos aos “ácidos”, que têm em
sua composição OH, conhecidas como hidroxilas. As hidroxilas consomem
os íons H+ presentes no meio, diminuindo então a concentração de íons H+,
aumentando o pH. Neste caso, dizemos que o pH é mais alcalino. De acordo
com o que foi estudado, observe a seguinte equação e analise as afirmativas
que seguem:

I- A equação é um exemplo hipotético de uma solução aquosa.


II- Na equação: o A representa o ácido e o H3O representa a base.
III- A equação demonstra uma dissociação parcial.
IV- A água teve comportamento de base nesta equação, mas pode se comportar
como ácido, pois se trata de uma molécula anfótera.

A alternativa que apresenta a sequência CORRETA é:


a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) Apenas I, II e IV.
c) ( ) Apenas I, II e III.
d) ( ) Apenas II e III.
e) ( ) Apenas I, III e IV.

85
3 Analise o gráfico que segue:

FONTE: A autora

Com relação ao gráfico, analise as afirmativas e marque V para as afirmativas


que são verdadeiras e F para as falsas.

( ) A solução inicial na qual está representado o gráfico se trata de uma solução


ácida, com um pH aproximado de 7,0.
( ) À medida que se adiciona base, representada por OH, o pH sobe.
( ) No momento em que se adicionou 25 mL de base (OH), o pH sobe
bruscamente.
( ) No gráfico está representada uma solução contendo tampão.

Assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) V – V – V – V.
b) ( ) F – F – V – V.
c) ( ) V – V – F – F.
d) ( ) F – V – V – F.
e) ( ) F – V – F – F.

86
UNIDADE 2 TÓPICO 3
AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS

1 INTRODUÇÃO
Proteínas controlam praticamente todos os processos que ocorrem em
uma célula, exibindo uma quase infinita diversidade de funções. Para explorar
o mecanismo molecular de um processo biológico, um bioquímico estuda quase
que inevitavelmente uma ou mais proteínas. Proteínas são as macromoléculas
biológicas mais abundantes, ocorrendo em todas as células e em todas as partes
das células. As proteínas também ocorrem em grande variedade; milhares de
diferentes tipos podem ser encontrados em uma única célula. Como os árbitros
da função molecular, as proteínas são os resultados mais importantes e são os
instrumentos moleculares pelos quais a informação genética é expressa.

Subunidades monoméricas, relativamente simples, fornecem a chave da


estrutura de milhares de proteínas diferentes. As proteínas de cada organismo, da
mais simples das bactérias aos seres humanos, são construídas a partir do mesmo
conjunto onipresente de 20 aminoácidos. Como cada um desses aminoácidos tem
uma cadeia lateral com propriedades químicas características, esse grupo de 20
moléculas precursoras pode ser considerado o alfabeto no qual a linguagem da
estrutura proteica é lida (NELSON; COX, 2014).

Para gerar uma determinada proteína, os aminoácidos se ligam de modo


covalente em uma sequência linear característica. O mais marcante é que as células
produzem proteínas com propriedades e atividades completamente diferentes,
ligando os mesmos 20 aminoácidos em combinações e sequências muito diferentes.
A partir desses blocos de construção, diferentes organismos podem gerar
produtos tão diversos como enzimas, hormônios, anticorpos, transportadores,
fibras musculares, proteínas das lentes dos olhos, penas, teias de aranha, chifres
de rinocerontes, proteínas do leite, antibióticos, venenos de cogumelos e uma
miríade de outras substâncias com atividades biológicas distintas. Entre esses
produtos de proteínas, as enzimas são as mais variadas e especializadas. Como
catalisadoras de quase todas as reações celulares, as enzimas são uma das chaves
para compreensão da química da vida e, assim, fornecem um ponto central para
qualquer curso de bioquímica (BERTUZZI et al., 2008).

87
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

2 AMINOÁCIDOS
Proteínas são polímeros de aminoácidos, com cada resíduo de aminoácido
unido ao seu vizinho por um tipo específico de ligação covalente (o termo “resíduo”
reflete a perda de elementos de água quando um aminoácido é unido a outro). As
proteínas podem ser degradadas (hidrolisadas) em seus aminoácidos constituintes
por vários métodos, e os estudos mais iniciais de proteínas naturalmente se
concentraram nesses aminoácidos livres delas derivados. Vinte aminoácidos
diferentes são comumentemente encontrados em proteínas. O primeiro a ser
descoberto foi a asparagina, em 1806. O último dos 20 a ser descoberto (treonina)
não havia sido identificado até 1938. Todos os aminoácidos têm nomes comuns
ou triviais, em alguns casos derivados da fonte da qual foram primeiramente
isolados. A asparagina foi descoberta pela primeira vez no aspargo e o glutamato
no glúten do trigo; a tirosina foi isolada a primeira vez a partir do queijo (seu
nome é derivado do grego tyros, “queijo”); e a glicina (do grego glykos, “doce”) foi
assim denominada devido ao seu sabor adocicado (NELSON; COX, 2014).

2.1 CARACTERÍSTICAS ESTRUTURAIS


Todos os 20 tipos de aminoácidos comuns são a-aminoácidos. Eles têm um
grupo carboxila e um grupo amino ligados ao mesmo átomo de carbono (o carbono a):

FIGURA 12 – ESTRUTURA GERAL DE UM AMINOÁCIDO

FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Amino%C3%A1cido>. Acesso em: 11 jul. 2019.

Para Nelson e Cox (2014, p. 43), os aminoácidos:

Diferem uns dos outros em suas cadeias laterais ou grupos R, que variam
em estrutura, tamanho e carga elétrica, e que influenciam a solubilidade
dos aminoácidos em água. Além desses 20 aminoácidos, há muitos
outros menos comuns. Alguns são resíduos modificados após a síntese
de uma proteína; outros são aminoácidos presentes em organismos
vivos, mas não como constituintes de proteínas. Foram atribuídas aos
aminoácidos comuns das proteínas abreviações de três letras e símbolos
de uma letra, utilizados como abreviaturas para indicar a composição e
a sequência de aminoácidos polimerizados em proteínas.

88
TÓPICO 3 | AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS

O código de três letras é transparente (Figura 13); as abreviações em geral


consistem nas três primeiras letras do nome do aminoácido. O código de uma letra
foi concebido por Margaret Oakley Dayhoff, considerada por muitos a fundadora
do campo da bioinformática. O código de uma letra reflete uma tentativa de
reduzir o tamanho dos arquivos de dados (em uma época da computação de
cartões perfurados) utilizados para descrever as sequências de aminoácidos.
Foi desenvolvido para ser facilmente memorizado, e a compreensão de sua
origem pode ajudar os estudantes a fazer exatamente isso. Para seis aminoácidos
(CHIMSV), a primeira letra do nome do aminoácido é única e, portanto, utilizada
como o símbolo. Para cinco outros (AGLPT), a primeira letra não é única, mas
é atribuída ao aminoácido mais comum em proteínas (por exemplo, leucina é
mais comum do que lisina). Para todos os aminoácidos comuns, exceto a glicina,
o carbono a está ligado a quatro grupos diferentes: um grupo carboxila, um
grupo amino, um grupo R e um átomo de hidrogênio (RODWELL; MURRAY;
GRANNER, 2017).

FIGURA 13 – CÓDIGO GENÉTICO

FONTE: A autora

2.2 CLASSIFICAÇÃO PELO GRUPO R


O conhecimento das propriedades químicas dos aminoácidos comuns é
fundamental para a compreensão da bioquímica. O tópico pode ser simplificado
agrupando-se os aminoácidos em cinco classes principais com base nas
propriedades dos seus grupos R, particularmente sua polaridade ou tendência
para interagir com a água em pH biológico (próximo do pH 7,0). A polaridade
dos grupos R varia amplamente, de apolar e hidrofóbico (não hidrossolúvel) ao
altamente polar e hidrofílico (hidrossolúvel). Alguns aminoácidos são um pouco

89
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

difíceis de caracterizar ou não se encaixam perfeitamente em qualquer grupo,


particularmente glicina, histidina e cisteína. Suas atribuições a determinados
grupos são o resultado de avaliações ponderadas em vez de absolutas (NELSON;
COX, 2014).

Os aminoácidos são classificados em relação às gradações de polaridade,


tamanho e forma dos grupos R: Grupos R apolares, alifáticos (Figura 14) – Os
grupos R nesta classe de aminoácidos são apolares hidrofóbicos. As cadeias
laterais de alanina, valina, leucina e isoleucina tendem a se agrupar no interior de
proteínas, estabilizando a estrutura proteica por meio de interações hidrofóbicas.
A glicina tem a estrutura mais simples. Embora seja mais facilmente agrupada
com os aminoácidos apolares, sua cadeia lateral muito pequena não contribui
realmente para interações hidrofóbicas. A metionina, um dos dois aminoácidos
que contém enxofre, tem um grupo tioéter ligeiramente apolar em sua cadeia
lateral. A prolina tem cadeia lateral alifática com estrutura cíclica distinta.
O grupo amino secundário (imino) de resíduos de prolina é mantido em uma
configuração rígida que reduz a flexibilidade estrutural de regiões polipeptídicas
contendo prolina (NELSON; COX, 2014).

PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA D
FIGURA 14 – GRUPOS R APOLARES, ALIFÁTICOS

Grupos R apolares, alifáticos Grupos R aromáti


COO 2
COO 2
COO 2
COO 2
COO 2
COO2
1 1 H 1 1 1
H 3N C H H 3N C H 1
C H3N C H H 3N C H H 3N C H
H 2N CH 2
H CH3 CH CH2 CH2
H 2C CH 2
CH3 CH3
Glicina Alanina Prolina Valina

COO 2
COO 2
COO2
1 1 1
OH
H3N C H H3N C H H3N C H
CH2 H C CH3 CH2 Fenilalanina Tirosina

CH CH2 CH2
CH3 CH3 CH3 S
Grupos R carregados pos
CH3
COO2 COO2
Leucina Isoleucina Metionina 1 1
H3N C H H3N C H

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 79) CH2 CH2


Grupos R polares, não carregados CH2 CH2
COO2 COO2 COO2 CH2 CH2
Grupos R aromáticos 1 – Fenilalanina,
H3N C H
1
H 3N C H
tirosinaH eN
1 triptofano, com suas
C H
3 CH2 NH
cadeias laterais aromáticas, são relativamente apolares (hidrofóbicos). Todos
CH2 H C OH CH2 1
podem participar em interações hidrofóbicas. O grupo hidroxila da tirosinaNH pode C NH2
1
3
OH CH3 SH
formar ligações de hidrogênio e é um importante grupo funcional em algumas NH2
Serina Treonina Cisteína
enzimas. A tirosina e o triptofano são significativamente mais polares do Lisinaque a Arginina

fenilalanina (NELSON; COX, 2014).


COO 2 COO2 Grupos R carregados neg
1 1
H 3N C H H 3N C H COO2
1 1
CH2 CH2 H 3N C H H 3N
90
C CH2 CH2
TÓPICO 3 | AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS

PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 79


FIGURA 15 – GRUPOS R AROMÁTICOS

apolares, alifáticos Grupos R aromáticos


COO 2
COO 2
COO 2
COO2 COO2
H 1 1 1 1
1
C H3N C H H 3N C H H 3N C H H3N C H
H 2N CH 2
CH CH2 CH2 CH2 PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMI
H 2C CH 2
CH3 CH3 C CH
Prolina Valina NH
Grupos R apolares, alifáticos Grupos R ar
COO 2
COO 2
OH 2
1 1 COO 2
COO 2
COO COO 2
COO 2
C
H3N C H H3N C H H
1 1 1 1 1
H C CH3 H3N CCHH H3NFenilalanina
C H C
1 Tirosina
H 3N C H
Triptofano H 3N C H H 3N C
2
H 2N CH 2
CH2 HCH2 CH3 CH CH2 C
FONTE: H 2C
Nelson CH 2(2014, p. 79)
e Cox
3 CH3 S CH3 CH3
Grupos R carregados positivamente
Glicina
CH3 Alanina Prolina Valina
COO2 COO2 COO2
Isoleucina
Grupos R polares,
Metionina
1 COO
H3N C H
não
2
carregados
1
H3N C H
COO2 – Os 1 grupos
H3N C H
COOR 2desses aminoácidos
O
são mais solúveis em água,
1
H3N CCHou
H maisH3hidrofílicos
1
N C H doHque 1
N aqueles
C H dos aminoácidos
C H CH
3
apolares, porque eles contêm 2
grupos2 funcionais que 2
formam Fenilalanina
ligações de Tirosin
upos R polares, não carregados CCHH22 HCHC C H C NH CH2
hidrogênio com a água. Essa classe de 2
aminoácidos
3
inclui a serina, treonina,
COO2 COO2 CH
1
cisteína,1 asparagina e glutamina. Os grupos
CCHH 2 C HC2 H 2 hidroxila daCH 2 serina e treonina e
H3N C os H grupos H3N amida
C H C N
da asparagina
CH3CH CH
2 3 e glutamina
NHCH3 contribuem H S para suas polaridades
Grupos R carregado
H C (NELSON;
OH CCOX,
H2 2014). 1NH3 C NH2
1
CH 3
CH3 SH COO2 COO
Leucina NH2
Isoleucina Metionina 1 1
Treonina Cisteína Lisina Arginina Histidina H3N C H H3N C
FIGURA 16 – GRUPOS R POLARES, NÃO CARREGADOS
CH2 CH
Grupos R polares, não carregados CH2 CH
COO 2 COO2 Grupos R carregados negativamente
1 1 COO 2
COO 2
COO 2
CH2 CH
H 3N C H H 3N C H COO 2
COO 2
1 1 1
H3N C HH N1
C HH
3N CH H
1
H3N C H CH2 NH
CH2 CH2 3 3N C H

C CH2 CH2 CH2 H C OHCH2 CH2 C


1
NH3
H 2N O C OH COO 2
CH3 CH2 SH NH
H2N O Serina Treonina COO2 Cisteína Lisina Arginin
Asparagina Glutamina Aspartato Glutamato

muns de proteínas. As fórmulas es- sem carga, seu pKa (ver a Tabela 3-1) é tal que uma pequena mas significativa2
ão que predomina em pH 7,0. As por- COOem
fração desses grupos seja positivamente carregada
2
COO
pH 7,0. A forma pro-
Grupos R carregado
1 1
muns a todos os aminoácidos; aquelas tonada da histidina é mostrada acima do gráfico na Figura 3-12b. COO2
H 3N C H H 3N C H
o grupo R da histidina seja mostrado
1
CH2 CH2 H 3N C H
C CH2
ui realmente para interações terações hidrofóbicas. O grupo hidroxila H2
da tirosinaCpode
H N
um dos dois aminoácidos que formar ligações de hidrogênio e2é um importante grupoO C fun- COO2
po tioéter ligeiramente apolar cional em algumas enzimas. A tirosina e o triptofano H2N
são sig-
O
na tem cadeia lateral alifática nificativamente mais polares do que a fenilalanina, devido
a. O grupo amino secundário ao grupo hidroxila da tirosina Asparagina
e ao nitrogênio doGlutamina
anel indol Aspartato
a é mantido em uma configu- do triptofano.
bilidade estrutural de regiões O triptofano, a tirosina
FONTE: e, em emenor
Nelson extensão,
Cox (2014, a fenilala-
p. 79)
FIGURA 35 Os 20 aminoácidos
nina, absorvem a luz comuns de proteínas.
ultravioleta (FiguraAs fórmulas
3-6; veres-também sem carga, seu pKa (ver a Tabela 3-1) é tal qu
na. truturais mostram o estado de ionização que predomina em pH 7,0. As por- fração desses grupos seja positivamente ca
Quadro 3-1). Isso explica a forte absorbância de luz com
ções não sombreadas são aquelas comuns a todos os aminoácidos; aquelas
nina, tirosina e triptofano, tonada da histidina é mostrada acima do gr
comprimento de onda de 280 nm característica da maior
sombreadas são os grupos R. Embora o grupo R da histidina seja mostrado
romáticas, são relativamente parte das proteínas, propriedade explorada por pesquisa-
dos podem participar em in- dores na caracterização de proteínas.
91
res, alifáticos Grupos R aromáticos
COO 2
COO 2
COO COO2 2
COO2
HUNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS
1 1 1 1
1
C H3N C H H 3N C H H 3N C H H3N C H
H 2N CH 2
Grupos R carregados
C H CH2 positivamente
CH2 (básicos)
CH2 – Os grupos R mais
H 2C CH 2 PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 79
hidrofílicos CH3 são
CH3aqueles carregados positiva ou negativamente.
C CH Os aminoácidos
Prolina nos quais os grupos R têm uma carga positiva significativaNH
Valina em pH 7,0 são a lisina, a
COO
alifáticos arginina
2 e a histidina,
COO2 seus resíduos facilitam muitas
Grupos R aromáticos reações catalisadas por enzimas,
OH
HCOO
1
3N C H
2 funcionando1
H N C2 H
como doadores/aceptores de prótons (NELSON; COX, 2014).
3COO COO COO COO
2 2 2

H 1 Fenilalanina
1 1Tirosina 1Triptofano
CH C CH3H3N C H CH2 H 3N C H H 3N C H H3N C H
HH2
CC FIGURA
CH 17 – GRUPOS CARREGADOS POSITIVAMENTE (BÁSICOS)
2 CH 2 CH2 CH2 CH2
CH
CH2 3 S 3
CH3 CH Grupos R carregados positivamenteC CH
Prolina Valina CH3
COO2 COO2 COO2NH
Isoleucina Metionina 1 1 1
COO 2
COO 2
H3N C H H3N COHH H3N C H
1 1
N C H H3N C H CH2 CH2 CH2
RHpolares,
C C H3carregados CH2
não Fenilalanina
CH Tirosina Triptofano
C NH
2 CH2
CHCOO CCOO
2 2
2 H2 CH2 CH2 CH
1 1
H3NCHC H H3N SC H C N
3 CH2 NH positivamente H
Grupos R carregados
H C OH CH2
CH C NH
1
3
1
NH
COO32 COO2 2 COO2
CH3
Isoleucina SH
Metionina 1 1 NH2 1
Treonina Cisteína H3N C H H3N C H H3N C H
Lisina Arginina Histidina
CH2 CH2 CH2
olares, não carregados CFONTE:
H2 Nelson CHe2 Cox (2014, p.C79)NH
COO COO
2 2
COO COO
2 2 Grupos R carregados negativamente CH
1
CH2 CH2
1 1
1
COO COO 2
3 Grupos
HC3N H C H HN H3NC CH HR carregados negativamente (ácidos)
2
C –NOs dois aminoácidos que
3N CH2 NH
1 1 H
H C OH apresentam
C H2 CHgrupos
C
2
H 2 R com
1
NH3
carga
H 3 N Cnegativa
H
C NH2
1 H 3 final em pH 7,0 são o aspartato e o
N C H

CH3 glutamato,
C SHcada
C H 2 um tem um segundo
CH2 grupo carboxila CH2 (NELSON; COX, 2014).
H 2N O NH 2
Treonina CisteínaC COO 2
CH2
Lisina Arginina Histidina
H2N O COO2
FIGURA 18 – GRUPOS R CARREGADOS NEGATIVAMENTE (ÁCIDOS)
Asparagina Glutamina Aspartato Glutamato
COO 2
COO 2
Grupos R carregados negativamente
s de1proteínas. As fórmulas
1 es- sem carga, seu pKa (ver a Tabela 3-1) é2tal que uma pequena2mas significativa
H N C H
e 3predomina H 3N
em pH 7,0. COO
C Hfração desses grupos seja positivamente
As por- COO
carregada em pH 7,0. A forma pro-
a todos os aminoácidos; aquelas tonada da histidina é mostrada
1 acima do gráfico1na Figura 3-12b.
CH2 CH H 3N C H H 3N C H
po R da histidina seja mostrado 2
C CH2 CH2 CH2
H 2N O C COO2 CH
almente para interações terações hidrofóbicas. O grupo hidroxila da2 tirosina pode
H2N
os dois aminoácidos que O formar ligações de hidrogênio e é um importante COO2 grupo fun-
oéter apolar cional em algumas enzimas.
ligeiramente Glutamina
Asparagina Aspartato A tirosina e o triptofano são sig-
Glutamato
em cadeia lateral alifática nificativamente mais polares do que a fenilalanina, devido
grupo amino secundário sem ao grupo hidroxila FONTE:da tirosina
Nelson e eaoCox
nitrogênio
(2014, p.do anel indol
proteínas. As fórmulas es- carga, seu pKa (ver a Tabela 3-1) é tal que uma pequena mas79)
significativa
mantido em uma configu- do triptofano.
edomina em pH 7,0. As por- fração desses grupos seja positivamente carregada em pH 7,0. A forma pro-
adeosestrutural
dos aminoácidos; regiões tonadaOdatriptofano,
deaquelas a tirosina
histidina é mostrada e, do
acima emgráfico
menornaextensão,
Figura 3-12b.a fenilala-
R da histidina seja mostrado nina, absorvem a luz ultravioleta (Figura 3-6; ver também
2.3 PROPRIEDADES DOS AMINOÁCIDOS
Quadro 3-1). Isso explica a forte absorbância de luz com
, tirosina e triptofano, comprimento de onda de 280 nm característica da maior
ticas, são relativamente parte das proteínas, propriedade explorada por pesquisa-
ente para interações
podem participar em Asin-propriedades
terações compartilhadas
hidrofóbicas.
dores na caracterização
O de proteínas. de muitos aminoácidos permitem
grupo hidroxila da tirosina pode
dois aminoácidos que formar ligações de hidrogênio e é um importante grupo fun-
algumas generalizações simplificadas sobre seu comportamento acido-básico.
er ligeiramente apolar cional em algumas enzimas. A tirosina e o triptofano são sig-
Em primeiro
cadeia lateral alifática lugar, todos os
nificativamente maisaminoácidos
polares do que com um únicodevido
a fenilalanina, grupo a-amino, um único
upo aminogrupo a-carboxila
secundário ao grupoe um grupodaRtirosina
hidroxila não ionizável têm curvas
e ao nitrogênio do anel de indoltitulação semelhantes
ntido em uma à daconfigu-
glicina. Esses aminoácidos têm valores de pKa muito semelhantes, mas não
do triptofano.
estrutural de regiões(BERG; O triptofano, a tirosina e, em menor extensão, a fenilala-
idênticos TYMOCZKO; STRYERT, 2015).
nina, absorvem a luz ultravioleta (Figura 3-6; ver também 02/04/14 18:42
Quadro 3-1). Isso explica a forte absorbância de luz com
rosina e triptofano, comprimento de onda de 280 nm característica da maior
92
as, são relativamente
TÓPICO 3 | AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS

Os aminoácidos com um grupo R ionizável têm curvas de titulação mais


complexas, com três estágios correspondendo às três etapas possíveis de ionização;
assim, eles possuem três valores de pKa. O estágio adicional para a titulação do
grupo R ionizável se funde, em algum grau, com aquele para a titulação do grupo
a-carboxila, para a titulação do grupo a-amino, ou ambos (NELSON; COX, 2002).

3 PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS
Agora o foco passa a ser os polímeros de aminoácidos, os peptídeos e as
proteínas. Os polipeptídeos que ocorrem biologicamente variam em tamanho de
pequenos a muito grandes, consistindo em dois ou três a milhares de resíduos de
aminoácidos ligados.

Duas moléculas de aminoácidos podem ser ligadas de modo covalente


por meio de uma ligação amida substituída, denominada ligação peptídica, a fim
de produzir um dipeptídio. Tal ligação é formada pela remoção de elementos de
água (desidratação) do grupo a-carboxila de um aminoácido e do grupo a-amino
do outro (Figura 19). A formação da ligação peptídica é um exemplo de uma reação
de condensação, uma classe comum de reações nas células vivas. Em condições
bioquímicas padrão, o equilíbrio para a reação mostrada favorece os aminoácidos
em relação ao dipeptídio. Para tornar a reação mais favorável termodinamicamente,
o grupo carboxila deve ser modificado ou ativado quimicamente, de modo que o
grupo hidroxila possa ser mais rapidamente eliminado (NELSON; COX, 2014).
86 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX
FIGURA 19 – LIGAÇÃO PEPTÍDICA

R1 H R2
1
H3N CH C OH 1 H N CH COO2
O

H2O H2O CH2OH H H H


1
H 3N C C N C C N
R1 H R2 H O H O
1
H3N CH C N CH COO2 Extremidade
aminoterminal
O
FIGURA 314 O pentapetídeo
FIGURA 313 FONTE:
Formação de uma ligação peptídica por condensação.
Nelson e Cox (2014,2 p. 86) Gly–Tyr–Ala–Leu, ou SGYAL. O
O grupo a-amino de um aminoácido (com grupo R ) atua como nucleófi- duo aminoterminal, que por conv
lo para deslocar o grupo hidroxila de outro aminoácido (com grupo R1), peptídicas são sombreadas; os gru
formando uma ligação peptídica (sombreada). Os grupos amino são bons
Três aminoácidos podem ser unidos por duas ligações peptídicas
nucleófilos, mas o grupo hidroxila é um grupo de saída fraco e não pronta-
para formar
mente deslocado. um tripeptídeo;
No pH fisiológico, do mesmo
a reação mostrada modo,
aqui não ocorre em quatro aminoácidos
podem ser unidos para formar um tetrapeptídeo, cinco para formar
grau apreciável.
Embora a hidrólise de
um pentapeptídeo, e assim por diante. Quando alguns aminoácidos se
reação exergônica, ela só
ligam desse modo, a estrutura é chamada de oligopeptídeo. Quando
uma elevada energia de at
muitos
uma reação aminoácidos se
de condensação, ligam,
uma o produto
classe comum édechamado
rea- de polipeptídeo.
as ligações peptídicas em p
ções nasAs proteínas
células podem
vivas. Em ter milhares
condições de padrão,
bioquímicas resíduos de aminoácidos.
meia-vida média (t1/2) de
Embora
o equilíbrio para aosreação
termos “proteína”
mostrada e “polipeptídeo”
na Figura 3-13 favore-sejam algumas vezes
condições intracelulares.
intercambiáveis,
ce os aminoácidos as moléculas
em relação chamadas
ao dipeptídeo. Para de polipeptídeos
tornar a têm massas
moleculares
reação mais favorávelabaixo de 10.000, e as chamadas
termodinamicamente, o grupo de car-proteínas têm massas
moleculares
boxila deve mais elevadas
ser modificado (BERTUZZI
ou ativado quimicamente, de p.Peptídeos
et al., 2008, 27). podem ser difer
modo que o grupo hidroxila possa ser mais rapidamente comportamentos de ioniz
eliminado. Uma abordagem 93 química para esse problema
Peptídeos contêm apenas
será destacada posteriormente neste capítulo. A aborda-
po a-carboxila livres, em e
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

3.1 ASPECTOS GERAIS DA ESTRUTURA PROTEICA


A purificação de uma proteína é geralmente apenas um prelúdio para
uma dissecção bioquímica detalhada de sua estrutura e função. O que torna
uma proteína uma enzima, outra um hormônio, outra uma proteína estrutural
e, ainda, outra um anticorpo? Como elas diferem quimicamente? As distinções
mais óbvias são estruturais, e agora será abordada a estrutura das proteínas.

A estrutura de grandes moléculas, tais como proteínas, pode ser descrita


em vários níveis de complexidade, arranjada em um tipo de hierarquia conceitual.
Quatro níveis de estrutura proteica são comumente definidos. Uma descrição
de todas as ligações covalentes (principalmente ligações peptídicas e ligações
dissulfeto) ligando resíduos de aminoácidos em uma cadeia polipeptídica é a
sua estrutura primária. O elemento mais importante da estrutura primária é a
sequência de resíduos de aminoácidos (NELSON; COX, 2014).

As diferenças na estrutura primária podem ser especialmente informativas.


Cada proteína tem um número e uma sequência de resíduos de aminoácidos
distintos.

FIGURA 20 – NÍVEIS DE ESTRUTURA NAS PROTEÍNAS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 96)

3.2 ESTRUTURA SECUNDÁRIA DAS PROTEÍNAS


A estrutura secundária se refere a arranjos particularmente estáveis de
resíduos de aminoácidos dando origem a padrões estruturais recorrentes. O termo
estrutura secundária se refere a qualquer segmento de uma cadeia polipeptídica e
descreve o arranjo espacial de seus átomos na cadeia principal, sem considerar a
posição de suas cadeias laterais ou sua relação com outros segmentos.

94
TÓPICO 3 | AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS

3.3 ESTRUTURAS TERCIÁRIAS E QUATERNÁRIAS DAS


PROTEÍNAS
O arranjo tridimensional total de todos os átomos de uma proteína é
chamado de estrutura terciária. Enquanto o termo “estrutura secundária” se refere
ao arranjo espacial dos resíduos de aminoácidos adjacentes em um segmento
polipeptídico, a estrutura terciária inclui aspectos de alcance mais longo da
sequência de aminoácidos. Aminoácidos que estão bem distantes na sequência
polipeptídica e em diferentes tipos de estruturas secundárias podem interagir
na estrutura da proteína completamente dobrada. O arranjo das subunidades
proteicas em complexos tridimensionais constitui a estrutura quaternária.
Considerando esses níveis mais altos de estrutura, é conveniente designar dois
grandes grupos nos quais muitas proteínas podem ser classificadas: proteínas
fibrosas, com cadeias polipeptídicas arranjadas em longos filamentos ou folhas, e
proteínas globulares, com cadeias polipeptídicas dobradas em forma esférica ou
globular (BERG, 2014).

3.4 DESNATURAÇÃO PROTEICA E ENOVELAMENTO


Para Nelson e Cox (2014, p. 148):

O enovelamento dos polipeptídeos é sujeito a uma série de limitações


físicas e químicas, e várias regras foram propostas a partir de estudos
de padrões comuns de enovelamento proteico. 1. As interações
hidrofóbicas dão uma grande contribuição para a estabilidade da
estrutura de proteínas. O ocultamento dos grupos R dos aminoácidos
hidrofóbicos, de modo a excluir a água, necessita de pelo menos duas
camadas de estrutura secundária. 2. Quando ocorrem juntas em uma
proteína, as hélices a e as folhas b geralmente são encontradas em
camadas estruturais diferentes. 3. Segmentos adjacentes na sequência
de aminoácidos normalmente se posicionam de forma adjacente na
estrutura dobrada. Segmentos distantes do polipeptídeo podem se
aproximar na estrutura terciária, mas não é a regra.

As proteínas têm uma existência surpreendentemente precária. A


conformação de uma proteína nativa é apenas marginalmente estável. Além disso,
a maioria das proteínas deve manter certa flexibilidade conformacional para
funcionar. A manutenção contínua do grupo ativo de proteínas celulares, necessárias
em um dado conjunto de condições, é chamada proteostase. A proteostase celular
requer a atividade coordenada de vias para síntese e enovelamento de proteínas, o
redobramento de proteínas parcialmente desdobradas e o sequestro e degradação de
proteínas irreversivelmente desdobradas. Em todas as células, essas redes envolvem
centenas de enzimas e proteínas especializadas.

Na Figura 21 podemos observar que a vida de uma proteína engloba


muito mais do que sua síntese e degradação. A estabilidade marginal da maioria
das proteínas pode produzir um balanço tênue entre os estados dobrados e
desdobrados (NELSON; COX, 2014).
95
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

FIGURA 21 – VIAS QUE CONTRIBUEM PARA PROTEOSTASE

FONTE: Rodwell, Murray e Granner (2017, p. 108)

À medida que as proteínas são sintetizadas nos ribossomos, elas


devem dobrar-se em sua conformação nativa. Algumas vezes isso ocorre de
forma espontânea, porém, mais frequentemente com a assistência de enzimas
e complexos especializados chamados chaperonas. Muitos desses mesmos
auxiliares do enovelamento atuam para redobrar proteínas que se tornaram
transitoriamente desdobradas. As proteínas inapropriadamente dobradas
frequentemente expõem superfícies hidrofóbicas que as tornam “pegajosas”,
conduzindo à formação de agregados inativos. Esses agregados podem perder
suas funções normais, mas não são inertes; seu acúmulo nas células situa-se no
centro de doenças que vão de diabetes a doenças de Parkinson e Alzheimer.
Não surpreendentemente, todas as células elaboraram vias de reciclagem e/ou
degradação de proteínas irreversivelmente deformadas (NELSON; COX, 2014).

As estruturas proteicas evoluíram para atuar em determinados ambientes


celulares. Condições diferentes daquelas da célula podem resultar em mudanças
estruturais grandes ou pequenas na proteína. A perda de estrutura tridimensional
suficiente para causar a perda de função é chamada de desnaturação. O estado
desnaturado não necessariamente corresponde ao desdobramento completo
da proteína e à randomização da conformação. Na maioria das condições, as
proteínas desnaturadas existem como um conjunto de estados parcialmente
dobrados (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

96
TÓPICO 3 | AMINOÁCIDOS, PEPTÍDEOS E PROTEÍNAS

A maioria das proteínas pode ser desnaturada pelo calor, que tem efeitos
complexos nas muitas interações fracas da proteína (principalmente sobre as
ligações de hidrogênio).

3.5 FUNÇÕES DAS PROTEÍNAS


As proteínas são fundamentais para qualquer ser vivo, pois grande parte
dos processos orgânicos que acontecem nas células são mediados por proteínas
(enzimas). Toda manifestação genética é dada por meio de proteínas, pois os
genes são fragmentos de DNA que codificam proteínas.

As proteínas podem ter função estrutural, participando na composição


de várias estruturas do organismo, sustentando e promovendo rigidez, como
a queratina, colágeno e elastina. Existem proteínas que promovem a defesa do
organismo contra microrganismos e substâncias estranhas, como os macrófagos
e as imunoglobulinas.

Outras funções desempenhadas pelas proteínas envolvem a ação catalítica,


transportadora (hemoglobina transportando os gases respiratórios), nutritiva,
energética, promovem a contração e podem atuar como mensageiros químicos
(hormônios).

NOTA

A anemia falciforme é causada por uma mutação homozigota (aa) de um único


nucleotídeo que codifica para a cadeia B da hemoglobina fazendo com que a forma da
hemácia seja modificada, provocando um transporte ineficiente de O2.

97
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

NOTA

Morte por enovelamento errado: as doenças priônicas

Uma proteína cerebral dobrada de forma errada parece ser o agente causador de doenças
cerebrais neurodegenerativas raras em mamíferos. Talvez a mais conhecida seja a encefalopatia
espongiforme bovina (EEB, ou BSE, do inglês bovine spongiform encephalopathy; também
conhecida como doença da vaca louca). Doenças relacionadas incluem a kuru e a doença
de Creutzfeldt-Jakob em humanos, scrapie em ovinos, e doença debilitante crônica em
cervos e alces. Essas doenças também são conhecidas como encefalopatias espongiformes
porque o cérebro doente frequentemente se torna cheio de buracos. A deterioração
progressiva do cérebro leva a um espectro de sintomas neurológicos, incluindo perda de
peso, comportamento errático, problemas de postura, equilíbrio e coordenação, e perda da
capacidade cognitiva. Essas doenças são fatais. Nos anos de 1960, pesquisadores descobriram
que amostras de agentes causadores de doença pareciam não conter ácidos nucleicos.
Naquela época, Tikvah Alper sugeriu que o agente fosse uma proteína. Inicialmente, a ideia
pareceu uma heresia. Todos os agentes causadores de doenças conhecidos até aquele
momento – vírus, bactérias, fungos, e assim por diante – continham ácidos nucleicos, e sua
virulência estava relacionada à reprodução genética e propagação.

Os agentes infecciosos foram identificados como uma única proteína (Mr 28.000), que
Prusiner apelidou de proteína príon (PrP). O nome foi derivado de proteinaceous infectious
(proteína infecciosa), mas Prusiner achou que “príon” soava melhor do que “proin”. A
proteína príon é um constituinte normal do tecido cerebral em todos os mamíferos. Seu
papel não é conhecido em detalhes, mas deve ter uma função de sinalização molecular.
Várias outras condições neurodegenerativas envolvem agregação intracelular de proteínas
com enovelamento errado. Na doença de Parkinson, a forma mal dobrada da proteína
a-sinucleína se agrega em massas esféricas filamentosas, chamadas de corpos de Lewy.
A doença de Huntington envolve a proteína huntingtina, que tem uma longa repetição de
poliglutaminas. Em alguns indivíduos, essa repetição é maior do que o normal, ocorrendo
um tipo de agregação intracelular mais sutil. Notavelmente, quando proteínas mutantes
humanas envolvidas nas doenças de Parkinson e Huntington são expressas em Drosophila
melanogaster, as moscas demonstram degeneração expressa como deterioração dos olhos,
tremores e morte precoce. Todos esses sintomas são altamente suprimidos se a expressão
da chaperona Hsp70 também estiver aumentada.

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 150)

98
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico, você aprendeu que:

• Os vinte aminoácidos comumentemente encontrados como resíduos em


proteínas contêm um grupo a-carboxila, um grupo a-amino e um grupo R
característico substituído no átomo do carbono a.

• Os aminoácidos podem ser classificados em cinco tipos com base na polaridade


e carga (em pH 7) de seus grupos R.

• Aminoácidos podem ser unidos de modo covalente por meio de ligações


peptídicas para formar peptídeos e proteínas.

• As células geralmente contêm milhares de proteínas diferentes, cada uma com


uma atividade biológica diferente.

• Proteínas podem ser cadeias peptídicas muito longas, de 100 a muitos milhares
de resíduos de aminoácidos. Entretanto, alguns peptídeos que ocorrem
naturalmente possuem apenas alguns poucos resíduos de aminoácidos.

• Algumas proteínas são compostas por várias cadeias polipeptídicas associadas


de modo não covalente, chamadas de subunidades.

• Proteínas simples produzem, por hidrólise, apenas aminoácidos; proteínas


conjugadas contêm além deles, outros componentes, tais como um metal ou
um grupo prostético.

• Peptídeos e proteínas pequenas (até cerca de 100 resíduos) podem ser


sintetizados quimicamente.

• Sequências proteicas são uma fonte rica de informação sobre a estrutura e a


função da proteína, bem como sobre a evolução da vida na Terra.

• Estrutura secundária é o arranjo espacial dos átomos da cadeia principal em


um determinado segmento da cadeia polipeptídica.

• A estrutura terciária é a estrutura tridimensional da cadeia polipeptídica.


Muitas proteínas se encaixam em uma ou duas classes de proteínas em geral,
com base na estrutura terciária: fibrosa e globular.

99
• A estrutura quaternária resulta de interações entre as subunidades de proteínas
com múltiplas subunidades ou grandes associações de proteínas. A estrutura
tridimensional e a função da maioria das proteínas podem ser destruídas pela
desnaturação, demonstrando uma relação entre estrutura e função. Algumas
proteínas desnaturadas podem renaturar espontaneamente para formar
proteínas biologicamente ativa.

100
AUTOATIVIDADE

1 A proteína é a mais importante das macromoléculas biológicas, compondo


mais da metade do peso seco de uma célula. Está presente em todo ser vivo
e tem as mais variadas funções. Ela é um  polímero  de  aminoácidos  que
pode atuar como enzimas, catalisando reações químicas, podem transportar
pequenas moléculas ou íons; podem ser motoras para auxiliar no
movimento em células e tecidos; participam na regulação gênica, ativando
ou inibindo; estão no  sistema imunológico, entre outras centenas de
funções. Praticamente, todas as funções celulares necessitam de proteínas
para intermediá-las. A formação das proteínas acontece através de ligações
peptídicas. A ligação peptídica resulta da união entre o grupo:

a) ( ) Carboxila de um aminoácido e o grupo carboxila do outro.


b) ( ) Carboxila de um aminoácido e o grupo amina do outro.
c) ( ) Amina de um aminoácido e o grupo amina do outro.
d) ( ) Amina de um aminoácido e o radical (R) do outro.
e) ( ) Carboxila de um aminoácido e o radical (R) do outro.

2 As proteínas, formadas pela união de aminoácidos, são componentes


químicos fundamentais na fisiologia e na estrutura celular dos organismos.
Em relação às proteínas, assinale a alternativa correta:

a) ( ) O colágeno é a proteína menos abundante no corpo humano, sendo


classificado como uma proteína globular.
b) ( ) A ligação peptídica entre dois aminoácidos acontece pela reação
do grupo carboxila de um aminoácido com o grupo amino de outro
aminoácido.
c) ( ) A testosterona, hormônio sexual masculino, é um hormônio proteico.
d) ( ) A proteína albumina é amplamente encontrada nos vegetais.
e) ( ) A vitamina sódio é importante para regular a pressão arterial.

101
102
UNIDADE 2
TÓPICO 4

ENZIMAS

1 INTRODUÇÃO
Boa parte da história da bioquímica é a história da pesquisa sobre enzimas.
A catálise biológica foi reconhecida e descrita no final dos anos de 1700 em estudos
da digestão de carne por secreções do estômago. A pesquisa continuou no século
seguinte, examinando a conversão do amido em açúcar pela saliva e por vários
extratos de plantas. Por volta de 1850, Louis Pasteur concluiu que a fermentação
de açúcar em álcool por leveduras é catalisada por “fermentos”. Ele postulou que
esses fermentos eram inseparáveis da estrutura das células de levedura vivas.
Esse ponto de vista, chamado de vitalismo, prevaleceu por décadas. Então, em
1897, Eduard Buchner descreveu que extratos de levedura podiam fermentar
açúcar em álcool, provando que a fermentação era feita por moléculas que
continuavam ativas mesmo após removidas das células. Os experimentos de
Buchner, ao mesmo tempo, marcaram o final da visão vitalista e o alvorecer da
ciência bioquímica. Posteriormente, Frederick W. Kühne deu o nome de enzimas
para as moléculas detectadas por Buchner (NELSON; COX, 2014).

Exceto por um pequeno grupo de moléculas de RNA catalíticas


(ribozimas), todas as enzimas são proteínas. A atividade catalítica depende da
integridade das suas conformações nativas. Se uma enzima for desnaturada ou
dissociada nas suas subunidades, geralmente a atividade catalítica é perdida.

Algumas enzimas não necessitam de outros grupos químicos além dos


seus próprios resíduos de aminoácidos. Outras, necessitam de um componente
químico adicional denominado cofator, que pode ser um ou mais íons inorgânicos
como Fe21, Mg21, Mn21 ou Zn21) ou uma molécula orgânica ou metalorgânica
complexa, denominada coenzima. As coenzimas agem como carreadores
transitórios de grupos funcionais específicos. A maioria deles é derivada das
vitaminas, nutrientes orgânicos cuja presença na dieta é necessária em pequenas
quantidades. Algumas enzimas necessitam tanto de uma coenzima quanto de um
ou mais íons metálicos para terem atividade. Uma coenzima ou um íon metálico
que se ligue muito firmemente, ou mesmo covalentemente, a uma enzima é
denominado grupo prostético. Uma enzima completa, cataliticamente ativa junto
a sua coenzima e/ou íons metálicos é denominada holoenzima. A parte proteica
de uma dessas enzimas é denominada apoenzima ou apoproteína. Finalmente,
algumas enzimas são modificadas covalentemente por fosforilação, glicosilação
e outros processos. Muitas dessas modificações estão envolvidas na regulação da
atividade enzimática (BERTUZZI et al., 2008).

103
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

2 FUNÇÃO ENZIMÁTICA
A catálise enzimática das reações é essencial para os sistemas vivos. Nas
condições biológicas relevantes, as reações não catalisadas tendem a ser lentas
– a maioria das moléculas biológicas é muito estável nas condições internas
das células com pH neutro, temperaturas amenas e ambiente aquoso. Além
disso, muitos processos químicos corriqueiros, como a formação transitória de
intermediários instáveis carregados ou a colisão de duas ou mais moléculas na
orientação exata necessária para que as reações ocorram, são desfavoráveis ou
improváveis no ambiente celular (NELSON; COX, 2014).

As reações necessárias para digerir os alimentos, enviar sinais nervosos


ou contrair os músculos simplesmente não ocorrem em velocidades adequadas
sem catálise. As enzimas contornam esses problemas ao proporcionarem um
ambiente específico adequado para que uma dada reação possa ocorrer mais
rapidamente. A propriedade característica das reações catalisadas por enzimas é
que a reação ocorre confinada em um bolsão da enzima denominado sítio ativo
(Figura 22). A molécula que se liga no sítio ativo e sobre a qual a enzima age é
denominada substrato.

FIGURA 22 – ESQUEMA DE FUNCIONAMENTO DE UMA ENZIMA

FONTE: <https://www.infoescola.com/bioquimica/complexo-chave-e-fechadura/>. Acesso em:


25 abr. 2019.

3 CINÉTICA ENZIMÁTICA
Normalmente os bioquímicos utilizam várias abordagens para estudar
o mecanismo de ação de enzimas purificadas. A estrutura tridimensional das
proteínas fornece informações importantes, que são incrementadas pela química
de proteínas e por modernos métodos de mutagênese sítio dirigida (mudança
na sequência de aminoácidos de uma proteína por engenharia genética). Essas
tecnologias permitem que os enzimologistas examinem o papel de aminoácidos
individualmente na estrutura e na atividade de uma enzima. Entretanto, a
abordagem mais antiga para entender o mecanismo das enzimas, e que permanece
ainda entre as mais importantes, é determinar a velocidade da reação e como ela
se modifica em resposta às mudanças nos parâmetros experimentais, disciplina
conhecida como cinética enzimática (NELSON; COX, 2014).

104
TÓPICO 4 | ENZIMAS

Um fator-chave que afeta a velocidade das reações catalisadas por


enzimas é a concentração do substrato [S]. Entretanto, o estudo dos efeitos da
concentração do substrato é complicado pelo fato de [S] modificar-se durante o
curso de uma reação in vitro à medida que o substrato é convertido em produto
(NELSON; COX, 2014).

As enzimas têm um pH (ou uma faixa de pH) ótimo no qual a atividade


catalítica é máxima; a atividade decresce em pH maior ou menor. Isso não
surpreende. As cadeias laterais dos aminoácidos do sítio ativo podem funcionar
como ácidos ou bases fracas em funções críticas que dependem da manutenção
de certo estado de ionização, e em outras partes da proteína, as cadeias laterais
ionizáveis podem ter uma participação essencial nas interações que mantêm a
estrutura proteica (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

3.1 ENZIMAS REGULADORAS


No metabolismo celular, grupos de enzimas trabalham conjuntamente
em vias sequenciais para realizar um determinado processo metabólico, como
a degradação da glicose a lactato por uma série de reações ou as muitas reações
da síntese de aminoácidos a partir de precursores simples. Nesses sistemas
enzimáticos, o produto da reação de uma enzima é o substrato da enzima seguinte.
Para Nelson e Cox (2014, p. 190):

A maioria das enzimas das vias metabólicas segue os padrões


cinéticos que foram descritos. Cada via, entretanto, inclui uma ou
mais enzimas que influenciam em muito a velocidade de toda a
sequência de reações. Essas enzimas regulatórias têm a atividade
catalítica aumentada ou diminuída em resposta a certos sinais. Ajustes
na velocidade das reações catalisadas por enzimas regulatórias e,
portanto, ajustes na velocidade da sequência metabólica inteira
permitem que as células atendam às necessidades de energia e das
biomoléculas de que precisam para crescer e se manter. As atividades
das enzimas regulatórias são moduladas de várias maneiras. Enzimas
alostéricas agem por meio de ligações reversíveis e não covalentes
com compostos regulatórios denominados moduladores alostéricos
ou efetores alostéricos, que geralmente são metabólitos pequenos ou
cofatores. Outras enzimas são reguladas por modificações covalentes
reversíveis. As duas classes de enzimas regulatórias tendem a ser
proteínas com subunidades múltiplas e, em alguns casos, o(s) sítio(s)
regulatório(s) e o sítio ativo se encontram em subunidades separadas.
Os sistemas metabólicos têm ao menos dois outros mecanismos de
regulação enzimática. Algumas enzimas são estimuladas ou inibidas
quando estão ligadas a proteínas regulatórias distintas. Outras são
ativadas quando segmentos peptídicos são removidos por proteólise.
Diferentemente da regulação mediada por efetores, a regulação por
proteólise é irreversível.

Exemplos importantes desses mecanismos são encontrados em processos


fisiológicos como digestão, coagulação do sangue, ação hormonal e visão. O
crescimento e a sobrevivência das células dependem do uso eficiente dos recursos

105
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

disponíveis, e essa eficiência é possibilitada pelas enzimas regulatórias. Não há


uma regra única para governar os diferentes tipos de regulação dos diferentes
sistemas. Em certo grau, a regulação alostérica (não covalente) talvez possibilite
os ajustes finos das vias metabólicas que constantemente são necessários e em
níveis, variando em decorrência das mudanças da atividade e das condições
das células. A regulação por modificações covalentes pode ser do tipo “tudo ou
nada”, normalmente no caso de proteólise, ou então possibilitar mudanças sutis
na atividade. Vários tipos de regulação podem ocorrer em uma única enzima
regulatória (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

106
RESUMO DO TÓPICO 4

Neste tópico, você aprendeu que:

• A vida depende de catalisadores poderosos e específicos: as enzimas.

• Praticamente todas as reações bioquímicas são catalisadas por enzimas.

• Com a exceção de poucos RNA catalíticos, todas as enzimas conhecidas são


proteínas.

• Muitas proteínas necessitam de coenzimas ou cofatores não proteicos para


exercerem a atividade catalítica.

• As enzimas são classificadas segundo o tipo de reação que catalisam.

• As reações catalisadas por enzimas são caracterizadas pela formação de um


complexo entre o substrato e a enzima (complexo ES). A ligação ao substrato
ocorre em um bolsão da enzima denominado sítio ativo.

• A maioria das enzimas tem algumas propriedades cinéticas em comum.

• Cada enzima tem um pH ótimo (ou um intervalo de pH), no qual a atividade é


máxima.

• A atividade das vias metabólicas nas células é regulada pelo controle da


atividade de determinadas enzimas.

• Outras enzimas regulatórias são moduladas por modificações covalentes


de grupos funcionais específicos que são necessários para a atividade. A
fosforilação de resíduos de determinados aminoácidos é uma maneira muito
comum de regular a atividade de enzimas.

107
AUTOATIVIDADE

1 Nos dias atuais, sabemos que as moléculas de proteínas são formadas por
dezenas, centenas ou milhares de outras moléculas, ligadas em sequência
como os elos de uma corrente. Assinale a alternativa que menciona quais
moléculas formam as proteínas:

a) ( ) Moléculas de proteínas.
b) ( ) Moléculas de aminoácidos.
c) ( ) Moléculas de glicose.
d) ( ) Moléculas de polissacarídeos.
e) ( ) Moléculas de quitina.

2 A figura ilustra a ligação que ocorre entre dois aminoácidos. Analise e


preencha as lacunas da frase que segue:

FIGURA – LIGAÇÃO QUE OCORRE ENTRE DOIS AMINOÁCIDOS

FONTE: A autora

A formação de proteínas ocorre devido à ligação da amina de um aminoácido


com o ________________ de outro aminoácido. Esta ligação está circulada na
figura apresentada e é denominada _______________. Para que esta ligação
ocorra é necessária a saída de uma molécula de ____________.

3 Com o título Boca livre, a revista Veja, edição 1298, ano 26, nº 30, de 28 de
julho de 1993, página 55, publicou um artigo sobre uma nova droga ainda
em testes, o Orlistat, desenvolvida pelo laboratório Hoffmann-La Roche. A
reportagem diz que essa droga “[...] bloqueia (uma fatia dessas) enzimas,
impedindo que elas desdobrem as enormes moléculas de gordura em
fragmentos menores. Assim, a gordura não tem como atravessar as paredes
do intestino e não chega à corrente sanguínea”. As enzimas que o Orlistat
bloqueia correspondem às:
108
a) ( ) Proteases.
b) ( ) Lipases.
c) ( ) Amilases.
d) ( ) Lactases.
e) ( ) Peptidases.

4 Enzimas são moléculas orgânicas de natureza proteica e agem nas reações


químicas das células como catalisadoras, ou seja, aceleram a velocidade dos
processos sem alterá-los. Geralmente são os catalisadores mais eficazes, por
sua alta especificidade. Sua estrutura quaternária é quem determinará sua
função, a que substrato ela se acoplará para acelerar determinada reação.
Nosso corpo é mantido vivo por uma série de reações químicas em cadeia
que chamamos de  vias metabólicas, nas quais o produto de uma reação
serve como reagente posteriormente. Todas as fases de uma via metabólica
são mediadas por enzimas. Muitas enzimas podem ser utilizadas como
marcadores biológicos para auxiliar no diagnóstico de algumas patologias.
Pesquise a importância clínica das seguintes enzimas:

a) AMILASE:
b) LIPASE:
c) FOSFATASE ALCALINA:
d) AMINOTRANSFERASE:
e) GGT:
f) ALT:
g) AST:
h) CREATINA QUINASE:
i) TGO:
j) TGP:

109
110
UNIDADE 2 TÓPICO 5
CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS

1 INTRODUÇÃO
Os carboidratos são as biomoléculas mais abundantes na Terra. A cada ano,
a fotossíntese converte mais de 100 bilhões de toneladas métricas de CO2 e H2O
em celulose e outros produtos vegetais. Alguns carboidratos (açúcar e amido) são
os principais elementos da dieta em muitas partes do mundo, e sua oxidação é a
principal via de produção de energia na maioria das células não fotossintéticas.
Polímeros de carboidratos (também chamados de glicanos) agem como elementos
estruturais e protetores nas paredes celulares bacterianas, vegetais e nos tecidos
conectivos animais. Outros polímeros de carboidratos lubrificam as articulações
e auxiliam o reconhecimento e a adesão intercelular. Polímeros de carboidratos
complexos covalentemente ligados a proteínas ou lipídios atuam como sinais que
determinam a localização intracelular ou o destino metabólico dessas moléculas
híbridas, chamadas de glicoconjugados.

Existem três classes principais de carboidratos: monossacarídeos,


dissacarídeos e polissacarídeos (a palavra “sacarídeo” é derivada do grego
sakcharon, que significa “açúcar”). Os monossacarídeos, ou açúcares simples, são
constituídos por uma única unidade poli-hidroxicetona ou poli-hidroxialdeído.
O monossacarídeo mais abundante na natureza é o açúcar de seis carbonos
D-glicose, algumas vezes chamado de dextrose. Monossacarídeos de quatro ou
mais carbonos tendem a formar estruturas cíclicas. Os oligossacarídeos consistem
em cadeias curtas de unidades de monossacarídeos, ou resíduos, unidas por
ligações características chamadas de ligações glicosídicas (NELSON; COX, 2014).

Os mais abundantes são os dissacarídeos, com duas unidades de


monossacarídeos. Um dissacarídeo típico é a sacarose (açúcar de cana), constituído
pelos açúcares de seis carbonos D-glicose e D-frutose. Todos os monossacarídeos
e dissacarídeos comuns têm nomes terminados com o sufixo “-ose”. Em células,
a maioria dos oligossacarídeos constituídos por três ou mais unidades não ocorre
como moléculas livres, mas sim ligada a moléculas que não são açúcares (lipídios
ou proteínas), formando glicoconjugados. Os polissacarídeos são polímeros de
açúcar que contêm mais de 20 unidades de monossacarídeo; alguns têm centenas
ou milhares de unidades. Alguns polissacarídeos, como a celulose, têm cadeias
lineares; outros, como o glicogênio, são ramificados. Ambos são formados por
unidades repetidas de D-glicose, mas diferem no tipo de ligação glicosídica e,
em consequência, têm propriedades e funções biológicas notavelmente diferentes
(NELSON; COX, 2014).

111
pecificar sem ambiguidades a configuração de cada átomo (Figura 7-1c) sã
de carbono em uma forma cíclica e os meios para represen- dos nucleicos (C
tar essas estruturas no papel são, portanto, descritos com
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS
alguns detalhes; essas informações serão úteis quando for
discutido o metabolismo dos monossacarídeos na Parte II
Monossacarídeo
Neste tópico estudaremos as características
deste livro. São apresentadose também
a importância dos diferentes
alguns importantes Todos os monos
tona, contêm um
grupos de carboidratos. derivados de monossacarídeos encontrados em capítulos
posteriores. (quirais) e, por
ticamente ativa
ceraldeído, cont
As duas famílias de monossacarídeos são
2 MONOSSACARÍDEOS aldosesEe cetoses
DISSACARÍDEOS central) e assim
enantiômeros
Os monossacarídeos são sólidos cristalinos e incolores CONVENÇÃOCHAV
Os mais simples dos carboidratos,
plenamente solúveis osemmonossacarídeos,
água, mas insolúveis sãoemaldeídos
solven- ou deído é, por co
cetonas, com dois ou mais grupos hidroxila;
tes apolares. os monossacarídeos
A maioria tem sabor adocicadode seisQuadro
(ver carbonos,
é isômero L. As
glicose e frutose, têm cinco7-2,
grupos hidroxila.
p. 254). Muitos
Os esqueletos dos dos átomos de carbono
monossacarídeos comuns aos centros quirais,
quais os grupos hidroxila estão ligados são
são compostos porcentros
cadeiasquirais, o que
de carbono nãoorigina os muitos
ramificadas, são conhecidas
estereoisômeros de açúcares nasencontrados
quais todos osnaátomos de carbono
natureza. estão unidos por representar
Esse estereoisomerismo é est
ligações simples. Nessa forma de cadeia aberta, um dos
biologicamente importante, porque as enzimas que agem sobre os açúcares
átomos de carbono está ligado duplamente a um áto- de Fischer (F
são
papel, em geral
absolutamente estereoespecíficas, normalmente
mo de oxigênio, formando preferindo
um grupo um estereoisômeros
carbonil; a
os outros Fischer, as ligaç
outro por três ou mais ordens de magnitude
átomos (NELSON;
de carbono estão ligados,COX, 2014).
cada um, a um grupo plano do papel,
hidroxila. Quando o grupo carbonil está na extremidade se projetam par
Os monossacarídeosda cadeia de carbonos
são sólidos (isto é, eme um
cristalinos grupo aldeído),
incolores o do leitor. ■
plenamente
monossacarídeo é uma aldose; quando o grupo carbonil
solúveis em água, mas insolúveis em solventes apolares. Baynes (2015) relata Geralmente,
está em qualquer outra posição (em um grupo cetona), o
que os esqueletos dos monossacarídeos
monossacarídeo écomunsuma cetose.são Os
compostos por cadeias
monossacarídeos mais de ter 2n estereoisô
carbono não ramificadas, simples
nas quais todos
são as duas os átomos
trioses decarbonos:
de três carbono gliceralde-
estão unidos -hexoses, com q
por ligações simples. Nessa forma
ídos de cadeia
(aldotrioses) aberta, um dos átomos
e di-hidroxiacetonas de carbono
(cetotrioses, ver cada um dos co
Figura 7-1a). reoisômeros dos
está ligado duplamente a um átomo de oxigênio, formando um grupo carbonil;
Monossacarídeos com quatro, cinco, seis e sete átomos dois grupos, os
os outros átomos de carbono estão ligados, cada um, a um grupo hidroxila.
de carbono no esqueleto são chamados, respectivamente, centro quiral ma
Quando o grupo carbonil está na extremidade
de tetroses, da cadeia
pentoses, hexoses de carbonos
e heptoses. (isto é, em
Existem aldoses les nos quais a c
um grupo aldeído), o monossacarídeo é uma
e cetoses para cada aldose;
um desses quando o de
comprimentos grupo carbonil
cadeia: al- a mesma daquel
está em qualquer outra posição (em eum
dotetroses grupo cetona),
cetotetroses, o monossacarídeo
aldopentoses e cetopentoses,éeuma ros D, e aqueles
assim por diante. As hexoses, que incluem
cetose. Os monossacarídeos mais simples são as duas trioses de três carbonos: a aldo-hexose deído são isôme
gliceraldeídos (aldotrioses) e di-hidroxiacetonas (cetotrioses, ver Figura 23).

H O H
FIGURA 23 – MONOSSACARÍDEOS REPRESENTATIVOS C H C OH

H O H H C OH C O
C H C OH HO C H HO C H
H C OH C O H C OH H C OH
H C OH H C OH H C OH H C OH
H H CH2OH CH 2OH
D-Gliceraldeído, Di-hidroxiacetona, D-Glicose, D-Frutose,
aldotriose cetotriose aldo-hexose ceto-hexose
(a) (b)
FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 244)
FIGURA 71 Monossacarídeos representativos. (a) Duas trioses, dos nucleicos. A D-ri
uma aldose e uma cetose. O grupo carbonil em cada molécula está som- e a 2-desóxi-D-ribos
A nomenclatura dosbreado.
monossacarídeos é baseada
(b) Duas hexoses comuns. na quantidade
(c) As pentoses componentesde
de átomos
áci- (DNA).

de carbono, então onde existem monossacarídeos com quatro, cinco, seis e sete
átomos de carbono no esqueleto eles são chamados, respectivamente, de tetroses,
pentoses, hexoses e heptoses. Existem aldoses e cetoses para cada um desses
comprimentos de cadeia: aldotetroses e cetotetroses, aldopentoses e cetopentoses,
e assim por diante. As hexoses, que incluem a aldo-hexoseD-glicose e a ceto-
hexose D-frutose (Figura 24) são os monossacarídeos mais comuns na natureza
Nelson_6ed_07.indd 244
112
TÓPICO 5 | CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS

– os produtos da fotossíntese e os intermediários-chave das sequências de reações


produtoras de energia centrais da maioria dos organismos. As aldopentoses
ribose e desoxirribose são componentes dos nucleotídeos e dos ácidos nucleicos
(será discutido no próximo tópico).

Observe o esquema a seguir sobre a nomenclatura dos monossacarídeos:

FIGURA 24 – NOMENCLATURA DOS MONOSSACARÍDEOS

FONTE: A autora

Podemos perceber que a nomenclatura dos monossacarídeos envolve três


etapas:

1. Verificar se é uma aldose ou uma cetose.


2. Verificar a quantidade de átomos de carbono.
3. Acrescentar o sufixo Ose.

Por simplicidade, até este momento foram representadas as estruturas de


aldoses e cetoses como moléculas de cadeia aberta. Na verdade, em solução aquosa,
as aldotetroses e todos os monossacarídeos com cinco ou mais átomos de carbono
no esqueleto ocorrem predominantemente como estruturas cíclicas (em anel), nas
quais o grupo carbonil está formando uma ligação covalente com o oxigênio de
um grupo hidroxila presente na cadeia. A formação dessas estruturas em anel é
o resultado de uma reação geral entre álcoois e aldeídos ou cetonas para formar
derivados chamados de hemiacetais ou hemicetais (NELSON; COX, 2014).

Muito frequentemente, durante a síntese e o metabolismo de carboidratos,


os intermediários não são os próprios açúcares, mas os seus derivados fosforilados.
A condensação do ácido fosfórico com um dos grupos hidroxila de um açúcar
forma um éster de fosfato, como na glicose-6-fosfato, o primeiro metabólito da
rota por meio da qual a maioria dos organismos oxida a glicose para energia.
Os açúcares fosforilados são relativamente estáveis em pH neutro e têm carga
negativa. Um dos efeitos da fosforilação intracelular de açúcares é o confinamento
do açúcar dentro da célula; a maioria das células não tem transportadores para
açúcares fosforilados na membrana plasmática. A fosforilação também ativa
açúcares para subsequente transformação química. Alguns derivados de açúcares
fosforilados importantes são componentes dos nucleotídeos (BERG, 2008).
113
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Os monossacarídeos podem ser oxidados por agentes oxidantes


relativamente suaves, como o íon cúprico (Cu21). O carbono do
carbonil é oxidado a um grupo carboxil. A glicose e outros açúcares
capazes de reduzir o íon cúprico são chamados de açúcares redutores.
O íon cúprico oxida a glicose e certos outros açúcares a uma complexa
mistura de ácidos carboxílicos. Essa é a base da reação de Fehling, teste
semiquantitativo para a presença de açúcar redutor, que por muitos
anos foi utilizado para detectar e dosar níveis elevados de glicose
em pessoas com diabetes melito. Hoje, utilizam-se métodos mais
sensíveis, que envolvem uma enzima imobilizada em uma tira de teste
e requerem apenas uma única gota de sangue (NELSON; COX, 2014,
p. 251).

Os dissacarídeos (como maltose, lactose e sacarose) consistem em dois


monossacarídeos unidos covalentemente por uma ligação O-glicosídica, a qual é
formada quando um grupo hidroxila de uma molécula de açúcar, normalmente
cíclica, reage com o carbono anomérico de outro. Ligações glicosídicas são
prontamente hidrolisadas por ácido, mas resistem à clivagem por base. Assim,
os dissacarídeos podem ser hidrolisados para originar seus componentes
monossacarídicos livres por fervura em ácido diluído. Ligações N-glicosídicas
unem o carbono anomérico de um açúcar a um átomo de nitrogênio em
glicoproteínas e nucleotídeos (NELSON; COX, 2014).

3 POLISSACARÍDEOS
A maioria dos carboidratos encontrados na natureza ocorre como
polissacarídeos, polímeros de média a alta massa molecular. Os polissacarídeos,
também chamados de glicanos, diferem uns dos outros na identidade das
unidades de monossacarídeos repetidas, no comprimento das cadeias, nos tipos
de ligações unindo as unidades e no grau de ramificação. Os homopolissacarídeos
contêm somente uma única espécie monomérica; os heteropolissacarídeos contêm
dois ou mais tipos. Alguns homopolissacarídeos, como o amido e o glicogênio,
servem como formas de armazenamento para monossacarídeos utilizados como
combustíveis. Outros homopolissacarídeos, como a celulose e a quitina, atuam
como elementos estruturais em paredes celulares de plantas e em exoesqueletos de
animais. Os heteropolissacarídeos fornecem suporte extracelular para organismos
de todos os reinos. Por exemplo, a camada rígida do envelope celular bacteriano (o
peptidoglicano) é parcialmente composta por um heteropolissacarídeo construído
por duas unidades alternadas de monossacarídeo. Nos tecidos animais, o espaço
extracelular é preenchido por alguns tipos de heteropolissacarídeos, os quais
formam uma matriz que conecta células individuais e fornece proteção, forma e
suporte para células, tecidos e órgãos (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Os polissacarídeos de armazenamento mais importantes são o amido,


em células vegetais, e o glicogênio, em células animais. Ambos ocorrem
intracelularmente em grandes agrupamentos ou grânulos. As moléculas de
amido e glicogênio são extremamente hidratadas, pois têm muitos grupos

114
TÓPICO 5 | CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS

hidroxila expostos e disponíveis para formarem ligações de hidrogênio com a


água. A maioria das células vegetais possui a capacidade de sintetizar amido, e
o seu armazenamento é especialmente abundante em tubérculos – como a batata
– e em sementes. O amido contém dois tipos de polímero de glicose, amilose e
amilopectina (NELSON; COX, 2014).

O glicogênio é o principal polissacarídeo de armazenamento das células


animais. Como a amilopectina, o glicogênio é um polímero formado pela união de
várias moléculas de glicose. O glicogênio é especialmente abundante no fígado,
podendo constituir até 7% do peso líquido; ele também está presente no músculo
esquelético. Nos hepatócitos, o glicogênio é encontrado em grandes grânulos, os
quais são agrupamentos de grânulos menores compostos por moléculas únicas
de glicogênio, altamente ramificadas, com massa molecular média de alguns
milhões. Esses grânulos de glicogênio também apresentam, firmemente ligadas,
as enzimas responsáveis pela síntese e degradação do glicogênio (NELSON;
COX, 2014). Alguns homopolissacarídeos estão presentes como componentes
estruturais na parede celular de vegetais (celulose) e no exoesqueleto de insetos
e crustáceos (quitina).

O espaço extracelular dos tecidos dos animais multicelulares é preenchido


com um material semelhante a gel, a matriz extracelular (MEC), também
chamada de substância fundamental, que mantém as células unidas e provê um
meio poroso para a difusão de nutrientes e oxigênio para cada célula. A MEC,
que circunda fibroblastos e outras células do tecido conectivo, é composta por
uma rede entrelaçada de polissacarídeos e proteínas fibrosas, como colágenos,
elastinas e fibronectinas fibrilares. A membrana basal é uma MEC especializada
sobre a qual se assentam as células epiteliais; ela é constituída por colágenos
especializados, laminas e heteropolissacarídeos (NELSON; COX, 2014).

Os heteropolissacarídeos, os glicosaminoglicanos, formam uma família


de polímeros lineares compostos por unidades de dissacarídeo repetidas. Os
glicosaminoglicanos são exclusivos de animais e bactérias, não sendo encontrados
em plantas. O glicosaminoglicano ácido hialurônico (hialuronana) forma soluções
claras, altamente viscosas, que funcionam como lubrificantes no líquido sinovial
das articulações e geram a consistência gelatinosa do humor vítreo nos olhos dos
vertebrados (a palavra grega hyalos significa “vidro”; o ácido hialurônico pode ter
aparência vítrea ou translúcida). O ácido hialurônico também é um componente
da matriz extracelular de cartilagens e tendões, em que auxilia na resistência
à tensão e elasticidade, devido a sua forte interação não covalente com outros
componentes da matriz. A hialuronidase, enzima secretada por certas bactérias
patogênicas, hidrolisa as ligações glicosídicas do ácido hialurônico, tornando
os tecidos mais suscetíveis à infecção bacteriana. Em muitas espécies animais,
uma enzima similar presente no espermatozoide hidrolisa o revestimento
de glicosaminoglicano que envolve o ovócito, permitindo a penetração do
espermatozoide.

115
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

NOTA

Você sabia?
O condroitin-sulfato, um heteropolissacarídeo, é um dos principais componentes estruturais
da cartilagem. Colírios oftalmológicos, em sua maioria, são soluções de condroitin-sulfato
que permitem uma melhor lubrificação do globo ocular.

4 GLICOCONJUGADOS: PROTEOGLICANOS,
GLICOPROTEÍNAS E GLICOLIPÍDIOS
Além dos importantes papéis como armazenadores de combustível
(amido, glicogênio, dextrana) e como material estrutural (celulose, quitina,
peptidoglicanos), os polissacarídeos e oligossacarídeos são transportadores de
informação. Alguns fornecem comunicação entre as células e a matriz extracelular
circundante; outros sinalizam proteínas para o transporte e a localização em
organelas específicas ou para degradação, quando a proteína é malformada ou
supérflua; e outros atuam como pontos de reconhecimento para moléculas de
sinalização extracelulares (fatores de crescimento, por exemplo) ou parasitas
extracelulares (bactérias e vírus).

Em praticamente todas as células eucarióticas, cadeias de oligossacarídeos


específicos ligadas a componentes da membrana plasmática formam uma
camada de carboidratos (o glicocálice) com alguns nanômetros de espessura, que
serve como uma superfície rica em informações que a célula expõe para o meio
exterior. Esses oligossacarídeos são componentes centrais para reconhecimento
e adesão entre células, migração celular durante o desenvolvimento, coagulação
sanguínea, resposta imune, cicatrização de ferimentos e outros processos
celulares. Na maioria desses casos, o carboidrato que carrega a informação está
covalentemente ligado a uma proteína ou lipídio, formando um glicoconjugado
(Figura 25), molécula biologicamente ativa.

116
peptidoglicano em bac-
rídeo que se repete no grânulos de secreção e lisossomos. As porções oligossaca-
)Mur2Ac; no ágar, é D- rídicas das glicoproteínas são muitoTÓPICO
heterogêneas e, assim
5 | CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS
como os glicosaminoglicanos, são ricas em informação, for-
eropolissacarídeos ex- FIGURA 25 – ESTRUTURA DE ALGUNS GLICOCONJUGADOS
duas unidades de mo- Proteoglicanos
co (o queratan-sulfato +NH
3
m aminoaçúcar N-aceti- |
uns dos grupos hidro- Sulfato de condroitina
mino de certos resíduos Ser
o heparan-sulfato dão a Heparan-sulfato
Ser Fuc
dade de cargas negati-
Gal
nformações estendidas. Glc
ico, sulfato de condroi- Glicoproteínas Man
+NH
an-sulfato) garantem à 3 Xilose
|
adesão e resistência à N-glicano GlcA
Asn GalNAc
GlcNAc
Asn IdoA
licanos, Neu5Ac

pídeos Glicoesfingolipídeos
Ser/Thr
armazenadores de com- O-glicano
na) e como material es-
Ser/Thr
licanos), os polissacarí-
rtadores de informação. Fora
re as células e a matriz
alizam proteínas para o Membrana
elas específicas, ou para
alformada ou supérflua;
onhecimento para molé- Dentro | |
COO– COO–
fatores de crescimento,
lulares (bactérias e ví- FONTE: Nelson eAsCox
FIGURA 724 Glicoconjugados. (2014,de
estruturas p. alguns
263) proteoglicanos,
las eucarióticas, cadeias glicoproteínas e glicoesfingolipídeos típicos descritos no texto.

Os proteoglicanos são macromoléculas da superfície celular ou da matriz


extracelular nas quais uma ou mais cadeias de glicosaminoglicanos sulfatados
estão covalentemente unidas a uma proteína de membrana ou a uma proteína
secretada. A cadeia de glicosaminoglicano pode ligar-se a proteínas extracelulares
por meio de interações eletrostáticas entre a proteína e os açúcares negativamente
carregados do proteoglicano. Os proteoglicanos são os principais 07/04/14
componentes
14:30

de todas as matrizes extracelulares.

As glicoproteínas têm um ou alguns oligossacarídeos de complexidades


variadas, unidos covalentemente a uma proteína. Costumam ser encontradas na
superfície externa da membrana plasmática (como parte do glicocálice), na matriz
extracelular e no sangue. Nas células são encontradas em organelas específicas,
como aparelho de Golgi, grânulos de secreção e lisossomos. As porções
oligossacarídicas das glicoproteínas são muito heterogêneas e, assim como os
glicosaminoglicanos, são ricas em informação, formando locais extremamente
específicos para o reconhecimento e a ligação de alta afinidade por proteínas
ligantes de carboidratos, chamadas de lectinas. Algumas proteínas citosólicas e
nucleares também podem ser glicosiladas (NELSON; COX, 2014).

117
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Os glicoesfingolipídios são componentes da membrana plasmática nos


quais o grupo hidrofílico da cabeça é um oligossacarídeo. Como nas glicoproteínas,
os oligossacarídeos servem como pontos específicos para o reconhecimento por
lectinas. O cérebro e os neurônios são ricos em glicoesfingolipídios, os quais
auxiliam na condução nervosa e na formação da mielina. Os glicoesfingolipídios
também são importantes para a transdução de sinal celular (NELSON; COX,
2014).

NOTA

Curiosidades:
Você sabia que os glicoconjugados estão envolvidos com a sinalização descoberta em
hemácias (glóbulos vermelhos) envelhecidas?
Sim, as hemácias jovens têm, em sua superfície, glicoproteínas cuja extremidade é rica em
ácido siálico. Quando tais células envelhecem, suas glicoproteínas perdem esse ácido e
passam a expressar, em sua extremidade, a galactose. Esse monossacarídeo é reconhecido
por receptores do fígado, que então capturam e removem da circulação as hemácias ‘velhas’.

NOTA

Dosagem de glicose sanguínea no diagnóstico e no tratamento do diabetes

A glicose é o principal combustível para o cérebro. Quando a quantidade de glicose que


chega até o cérebro é muito baixa, as consequências podem ser desastrosas: letargia, coma,
dano cerebral permanente e morte. Com a evolução, os animais desenvolveram mecanismos
hormonais complexos para garantir que a concentração de glicose no sangue permaneça
alta o suficiente (aproximadamente 5 mM) para satisfazer as necessidades cerebrais, mas não
alta demais, já que níveis elevados de glicose no sangue também podem ter consequências
fisiológicas sérias.

Os indivíduos com diabetes melito dependente de insulina não produzem insulina suficiente,
o hormônio que normalmente atua para a redução da concentração de glicose no sangue,
e, se o diabetes não for tratado, os níveis de glicose sanguínea nesses indivíduos podem
elevar-se, ficando algumas vezes maiores do que o normal. Acredita-se que esses altos
níveis de glicose sejam pelo menos uma das causas das sérias consequências de longo
prazo no diabetes não tratado – insuficiência renal, doenças cardiovasculares, cegueira e
cicatrização debilitada –, de modo que um dos objetivos da terapia é prover exatamente a
quantidade de insulina suficiente (por injeção) para manter os níveis de glicose próximos do
normal. Para manter o balanço correto entre exercício, dieta e insulina para cada indivíduo,
a concentração de glicose sanguínea deve ser dosada algumas vezes ao dia, e a quantidade
de insulina injetada deve ser ajustada de modo apropriado.

As concentrações de glicose no sangue e na urina podem ser determinadas por meio de


um ensaio simples para açúcares redutores, como a reação de Fehling, que por muitos anos
foi o teste diagnóstico padrão para diabetes. Dosagens modernas precisam de apenas uma

118
TÓPICO 5 | CARBOIDRATOS E GLICOCONJUGADOS

gota de sangue, que é adicionada a uma fita de teste contendo a enzima glicose-oxidase.
Uma segunda enzima, uma peroxidase, catalisa a reação do H2O2 com um composto
incolor gerando um produto colorido, quantificado com um fotômetro simples que mostra
a concentração de glicose no sangue.

Como os níveis de glicose sanguínea variam com os períodos de refeição e exercício,


essas dosagens em momentos específicos não refletem a glicose sanguínea média ao
longo de horas ou dias, de modo que elevações perigosas podem passar despercebidas.
A concentração de média glicose pode ser estimada pelo seu efeito na hemoglobina, a
proteína carreadora de oxigênio dos eritrócitos. Transportadores na membrana dos
eritrócitos equilibram a concentração de glicose intracelular e plasmática, de modo que a
hemoglobina está constantemente exposta à concentração de glicose presente no sangue,
qualquer que seja essa concentração. Uma reação não enzimática ocorre entre a glicose e
os grupos amino primários da hemoglobina. A velocidade desse processo é proporcional à
concentração de glicose; por isso, essa reação pode ser usada como base para a estimativa
do nível médio de glicose sanguínea ao longo de semanas.

A quantidade de hemoglobina glicada (HbG) circulante em qualquer momento reflete a


concentração de glicose sanguínea média durante o “período de vida” do eritrócito (cerca
de 120 dias), embora a concentração das últimas duas semanas seja a mais importante na
determinação
do nível de HbG.

FONTE: Adaptado de Nelson e Cox (2014, p. 280-281)

119
RESUMO DO TÓPICO 5

Neste tópico, você aprendeu que:

• Os açúcares (também chamados de sacarídeos) são compostos que contêm um


grupo aldeído ou cetona e dois ou mais grupos hidroxila.

• Os monossacarídeos comumente formam hemiacetais ou hemicetais internos,


nos quais o grupo aldeído ou cetona se une a um grupo hidroxila da mesma
molécula, criando uma estrutura cíclica.

• Oligossacarídeos são polímeros curtos, com alguns monossacarídeos unidos


por ligações glicosídicas. Em uma das extremidades da cadeia, a extremidade
redutora está uma unidade de monossacarídeo com seu carbono anomérico
não envolvido em uma ligação glicosídica.

• Os polissacarídeos (glicanos) servem para o armazenamento de combustível


como componentes estruturais da parede celular e da matriz extracelular.

• Os homopolissacarídeos amido e glicogênio armazenam combustível em


células vegetais, animais e bacterianas.

• Os homopolissacarídeos celulose, quitina e dextrana têm funções estruturais.


A celulose, composta por resíduos de D-glicose em ligações (b1S4), garante
força e rigidez à parede celular de plantas. A quitina, um polímero de
N-acetilglicosamina com ligações (b1S4), fortalece o exoesqueleto de artrópodes.
A dextrana forma um revestimento aderente ao redor de certas bactérias.

• Os glicosaminoglicanos são heteropolissacarídeos extracelulares nos quais uma


das duas unidades de monossacarídeo é um ácido urônico. Esses polímeros
(ácido hialurônico, sulfato de condroitina, dermatan-sulfato e queratan-sulfato)
garantem à matriz extracelular viscosidade, adesão e resistência à compressão.

• Os proteoglicanos são glicoconjugados nos quais um ou mais glicanos grandes,


chamados de glicosaminoglicanos sulfatados (heparan-sulfato, sulfato de
condroitina, dermatan-sulfato ou queratan-sulfato) estão covalentemente ligados a
uma proteína central. Eles fornecem pontos de adesão, reconhecimento e transferência
de informação entre as células ou entre as células e a matriz extracelular.

• Muitas proteínas extracelulares ou da superfície celular são glicoproteínas, assim


como a maioria das proteínas secretadas. Os oligossacarídeos covalentemente
ligados influenciam o enovelamento e a estabilidade das proteínas, fornecem
informações cruciais sobre o destino de proteínas recentemente sintetizadas e
permitem o reconhecimento específico por outras proteínas.
120
AUTOATIVIDADE

1 Os polissacarídeos são macromoléculas  formados pela união de muitos


monossacarídeos. Estes compostos apresentam uma massa molecular muito
elevada que depende do número de unidades de monossacarídeos
que se unem. Podem ser hidrolisados em polissacarídeos menores,
assim como em  dissacarídeos  ou monossacarídeos mediante a ação de
determinadas enzimas. Nos organismos, os polissacarídeos são classificados
em dois grupos dependendo da função biológica que exercem. Um
importante polissacarídeo é a heparina. A heparina é um anticoagulante,
produzido de forma natural no nosso organismo. As células que produzem
heparina são ____________________. A heparina é um polissacarídeo
classificada como ____________________.

A alternativa que preenche corretamente as lacunas é, respectivamente:


a) ( ) Fibroblastos, Heteropolissacarídeos.
b) ( ) Mastócitos, Homopolissacarídeos.
c) ( ) Fibroblastos, Homopolissacarídeos.
d) ( ) Mastócitos, Heteropolissacarídeos.
e) ( ) Macrófagos, Heteropolissacarídeo.

2 Os monossacarídeos são os carboidratos mais simples, em que o número


de átomos de carbono pode variar de cinco, como nas pentoses, a seis
carbonos, como nas hexoses. Os dissacarídeos são associações de dois
monossacarídeos, enquanto que os polissacarídeos possuem muitos
carboidratos do tipo monossacarídeo. Levando em consideração o que foi
estudado acerca destes compostos, analise a seguinte figura:

FIGURA – EXEMPLOS DE CARBOIDRATOS

FONTE: A autora

Com relação à classificação destes carboidratos, marque com V as sentenças


verdadeiras e com F as falsas.

( ) A glicose é um monossacarídeo, se trata de uma hexose, e seu grupamento


químico é um aldeído.
121
( ) A frutose é uma pentose, também se trata de um monossacarídeo, no
entanto, difere da glicose por apresentar o grupamento do tipo cetona.
( ) Manose se trata de uma pentose do tipo aldeído, assim como a frutose.
( ) A galactose é um dissacarídeo, que forma a lactose, “açúcar do leite”, se
trata de uma hexose, pois possui seis carbonos centrais e seu grupamento
é o aldeído.

Agora, assinale a alternativa CORRETA:


a) ( ) V – F – V – F.
b) ( ) V – F – F – V.
c) ( ) V – F – F – F.
d) ( ) F – V – V – F.
e) ( ) F – F – V – V.

122
UNIDADE 2 TÓPICO 6
NUCLEOTÍDEOS E ÁCIDOS NUCLEICOS

1 INTRODUÇÃO
Nucleotídeos apresentam uma variedade de funções no metabolismo
celular. Eles são a moeda energética nas transações metabólicas; são as ligações
químicas essenciais nas respostas da célula a hormônios e a outros estímulos
extracelulares; também são os componentes estruturais de uma estrutura
ordenada de cofatores enzimáticos e intermediários metabólicos. E, por
último, mas não menos importante, são os constituintes dos ácidos nucleicos:
ácido desoxirribonucleico (DNA) e ácido ribonucleico (RNA), os repositórios
moleculares da informação genética. A estrutura de cada proteína – e, em última
análise, de cada biomolécula e componente celular – é o produto da informação
programada na sequência nucleotídica dos ácidos nucleicos da célula. A
capacidade de armazenar e transmitir a informação genética de uma geração à
outra é uma condição fundamental para a vida (NELSON; COX, 2014).

Os ácidos nucleicos são assim chamados por seu caráter ácido e por terem
sido originalmente descobertos no núcleo das células. A partir da década de 1940,
os ácidos nucleicos passaram a ser intensivamente estudados, pois foi descoberto
que eles formam os genes responsáveis pela herança biológica (RODWELL;
MURRAY; GRANNER, 2017).

A sequência de aminoácidos de cada proteína na célula e a sequência


nucleotídica de cada RNA são especificadas pela sequência nucleotídica do DNA
da célula. Um segmento de uma molécula de DNA que contém a informação
necessária para a síntese de um produto biologicamente funcional, seja proteína
ou RNA, é denominado gene. Uma célula costuma ter muitos milhares de genes,
e moléculas de DNA, não surpreendentemente, tendem a ser muito grandes. O
armazenamento e a transferência da informação biológica são as únicas funções
conhecidas do DNA. O RNA tem uma ampla variedade de funções e muitas
classes são encontradas nas células (NELSON; COX, 2014).

Este tópico fornecerá a você, acadêmico, uma visão geral da natureza


química dos nucleotídeos e ácidos nucleicos encontrados na maioria das células.

123
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

2 ESTRUTURA DOS NUCLEOTÍDEOS E NUCLEOSÍDEOS


Os nucleotídeos apresentam três componentes característicos: (1) uma
base nitrogenada (contendo nitrogênio); (2) uma pentose; e (3) um ou mais
fosfatos. A molécula sem o grupo fosfato é denominada nucleosídeo (Figura 26).

FIGURA 26 – ESTRUTURA DOS NUCLEOTÍDEOS E NUCLEOSÍDEO

FONTE: A autora

As bases nitrogenadas são derivadas de dois compostos relacionados:


a pirimidina e a purina. As bases e as pentoses dos nucleotídeos comuns são
compostos heterocíclicos.

A base de um nucleotídeo é ligada covalentemente por uma ligação N-b-


glicosídica ao carbono 19 da pentose, e o fosfato é esterificado no carbono 59.
A ligação N-b-glicosídica é formada pela remoção dos elementos de água (um
grupo hidroxila da pentose e o hidrogênio da base), como na formação da ligação
O-glicosídica. Tanto o DNA quanto o RNA contêm duas bases púricas principais:
adenina (A) e guanina (G), e duas pirimídicas. No DNA e no RNA, uma das
pirimidinas é a citosina (C), mas a segunda pirimidina não é a mesma nos dois: é
a timina (T) no DNA e a uracila (U) no RNA. As estruturas das cinco principais
bases estão mostradas na Figura 27 (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

FIGURA 27 – PRINCIPAIS BASES PÚRICAS E PIRIMÍDICAS DOS ÁCIDOS NUCLEICOS

FONTE: Rodwell, Murray e Granner (2017, p. 178)

124
TÓPICO 6 | NUCLEOTÍDEOS E ÁCIDOS NUCLEICOS

Os ácidos nucleicos são constituídos por duas pentoses. Se o açúcar em


questão é a ribose, teremos um ribonucleosídeo, característico do RNA. Se o açúcar
em questão é a desoxirribose, teremos um desoxirribonucleosídeo, característico
do DNA.

3 LIGAÇÕES FOSFODIÉSTERES
Os nucleotídeos consecutivos de ambos DNA e RNA são ligados
covalentemente por “pontes” de grupos fosfato, nas quais o grupo 59-fosfato de
uma unidade nucleotídica é ligado ao grupo 39-hidroxila do próximo nucleotídeo,
criando uma ligação fosfodiéster (Figura 28). Portanto, o esqueleto covalente dos
ácidos nucleicos consiste em fosfatos e resíduos de pentose alternados, e as bases
nitrogenadas podem ser consideradas como grupos laterais ligados ao esqueleto
em intervalos regulares. O esqueleto do DNA e do RNA são hidrofílicos. Os
grupos hidroxila dos resíduos de açúcar formam ligações de hidrogênio com a
água. Os grupos fosfato, com um pKa próximo a 0, são completamente ionizados
e carregados negativamente em pH 7, e as cargas negativas são, de um modo
geral, neutralizadas pelas interações iônicas com cargas positivas nas proteínas,
nos íons metálicos e nas poliaminas (NELSON; COX, 2014).

FIGURA 28 – LIGAÇÕES FOSFODIÉSTER NO ESQUELETO COVALENTE DO DNA E DO RNA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 285)

125
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

4 ESTRUTURA DOS ÁCIDOS NUCLEICOS


A descoberta da estrutura do DNA por Watson e Crick, em 1953, deu
origem a disciplinas completamente novas e influenciou o rumo de muitas já
estabelecidas. Agora, abordaremos algumas características particulares presentes
no DNA e no RNA.

4.1 CARACTERÍSTICAS DO DNA


O DNA foi inicialmente isolado e caracterizado por Friedrich Miescher,
em 1868. Ele chamou a substância contendo fósforo de “nucleína”. Até os anos
de 1940, com o trabalho de Oswald T. Avery, Colin MacLeod e Maclyn McCarty,
não existia uma evidência convincente de que o DNA fosse o material genético.
Avery e seus colegas descobriram que DNA extraído de uma linhagem virulenta
(patogênica) da bactéria Streptococcus pneumoniae, e injetado em uma linhagem
não virulenta da mesma bactéria, transformava a linhagem não virulenta em
virulenta. Eles concluíram que o DNA da linhagem virulenta carregava a
informação genética para virulência. Então, em 1952, experimentos de Alfred
D. Hershey e Martha Chase, que estudaram a infecção de células bacterianas
por um vírus (bacteriófago), com DNA ou proteína marcados radioativamente,
acabaram com qualquer dúvida remanescente de que o DNA, e não a proteína,
portava a informação genética. Outra pista importante para a estrutura do DNA
veio do trabalho de Erwin Chargaff e seus colegas, no final dos anos 1940. Eles
descobriram que as quatro bases nucleotídicas do DNA eram encontradas em
proporções diferentes nos DNAs de organismos diferentes e que as quantidades
de certas bases estavam relacionadas (NELSON; COX, 2014).

James Watson e Francis Crick contaram com essas informações acumuladas


sobre o DNA para deduzir sua estrutura. Em 1953, eles postularam o modelo
tridimensional da estrutura do DNA que levava em consideração todos os dados
disponíveis. O modelo consiste em duas cadeias de DNA helicoidais enroladas
em torno do mesmo eixo para formar uma dupla hélice de orientação à direita.

O DNA é uma molécula extremamente flexível, em que entre as bases


nitrogenadas adenima e timina observamos a presença de duas ligações de
hidrogênio, enquanto no pareamento de citocina e guanina, percebemos a
presença de três ligações de hidrogênio.

5 CARACTERÍSTICAS DOS RNAS


Agora o foco será a expressão da informação genética que o DNA
contém. O RNA, a segunda maior forma de ácidos nucleicos nas células, tem
muitas funções. Na expressão gênica, o RNA atua como intermediário pelo uso
da informação codificada no DNA para especificar a sequência de aminoácidos

126
TÓPICO 6 | NUCLEOTÍDEOS E ÁCIDOS NUCLEICOS

da proteína funcional. Uma vez que o DNA de eucariotos é basicamente


confinado no núcleo, enquanto a síntese proteica ocorre nos ribossomos no
citoplasma, alguma outra molécula que não o DNA deve carregar a mensagem
genética do núcleo para o citoplasma. Já por volta da década de 1950, o RNA foi
considerado o candidato lógico: o RNA é encontrado tanto no núcleo quanto no
citoplasma e um aumento na síntese proteica é acompanhado por um aumento
na quantidade de RNA citoplásmico e um aumento da sua taxa de renovação.
Essas e outras observações levaram vários pesquisadores a sugerir que o RNA
carrega a informação genética do DNA para a maquinaria biossintética proteica
do ribossomo (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Em 1961, François Jacob e Jacques Monod apresentaram uma descrição


consistente de muitos aspectos desse processo. Eles propuseram o nome “RNA
mensageiro” (mRNA) para aquela porção do RNA celular total que carrega a
informação genética do DNA para os ribossomos, em que os mensageiros
fornecem os moldes que especificam as sequências de aminoácidos nas cadeias
polipeptídicas. O processo de formação de um mRNA a partir de um molde de
DNA é conhecido como transcrição (NELSON; COX, 2014).

Além do RNA mensageiro, existem também o RNA ribossômico e RNA


transportador. O RNA ribossômico participa da constituição dos ribossomos e são
armazenados no núcleo da célula, em uma região denominada de nucléolo. Já o
RNA transportador transporta os aminoácidos até o local da síntese de proteínas
na Tradução.

6 A QUÍMICA DO ÁCIDO NUCLEICO


O papel do DNA como repositório da informação genética depende em
parte da sua estabilidade inerente. As transformações químicas que ocorrem
geralmente são muito lentas na ausência de um catalisador enzimático. Entretanto,
o armazenamento de longo prazo da informação inalterada é tão importante
para a célula que mesmo reações muito lentas, que alteram a estrutura do DNA,
podem ser fisiologicamente significativas. Processos como carcinogênese e
envelhecimento podem estar intimamente ligados ao acúmulo lento e irreversível
de alterações no DNA. Outras alterações, não destrutivas, também ocorrem e
são essenciais para a função, como a separação das cadeias que deve preceder a
replicação do DNA ou a transcrição. Além de proporcionar maior compreensão
dos processos fisiológicos, nosso conhecimento da química dos ácidos nucleicos
nos concedeu um conjunto poderoso de tecnologias que tem aplicações em
biologia molecular, na medicina e na ciência forense (NELSON; COX, 2014).

127
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

7 OUTRAS FUNÇÕES DOS NUCLEOTÍDEOS


Além das suas funções como subunidades dos ácidos nucleicos, os
nucleotídeos têm uma variedade de outras funções em cada célula: como
carreadores de energia, componentes de cofatores enzimáticos e mensageiros
químicos. Podemos citar algumas funções relacionadas ao nucleotídeo:

• os nucleotídeos carregam energia química nas células;


• nucleotídeos da adenina são componentes de muitos cofatores enzimáticos;
• alguns nucleotídeos são moléculas reguladoras.

128
RESUMO DO TÓPICO 6

Neste tópico, você aprendeu que:

• Um nucleotídeo é constituído por uma base nitrogenada (purina ou pirimidina),


um açúcar pentose e um ou mais grupos fosfato. Os ácidos nucleicos são
polímeros de nucleotídeos, unidos por ligações fosfodiéster entre o grupo
59-hidroxila de uma pentose e o grupo 39-hidroxila da próxima pentose.

• Existem dois tipos de ácidos nucleicos: RNA e DNA.

• Os nucleotídeos no RNA contêm ribose e as bases pirimídicas comuns são a


uracila e a citosina.

• No DNA, os nucleotídeos contêm 29-desoxirribose e as bases pirimídicas


comuns são a timina e a citosina. As purinas primárias são adenina e guanina
tanto no RNA quanto no DNA.

• Muitas linhas de evidência demonstram que o DNA carrega a informação


genética.

• Alguns dos primeiros indícios vieram do experimento de Avery-MacLeod-


McCarty, o qual demonstrou que o DNA isolado de uma linhagem bacteriana
pode entrar em células de outra linhagem e transformá-las, dotando-as com
algumas características hereditárias do doador.

• O RNA mensageiro transfere a informação genética do DNA para os ribossomos


para a síntese proteica.

• O RNA transportador e o RNA ribossômico também estão envolvidos na


síntese proteica.

• O ATP é o carregador central de energia química nas células. A presença de


uma porção adenosina em uma variedade de cofatores enzimáticos pode ser
relacionada às necessidades de energia de ligação.

129
AUTOATIVIDADE

Através dessa sequência de perguntas e respostas, observe a importância dos


ácidos nucleicos.

Ex.: Como a célula realiza suas funções?


R.: Através de reações químicas.
Quem catalisa essas reações?
R.: As enzimas.
Quimicamente, o que são enzimas?
R.: Proteínas.
Quem comanda a síntese das proteínas?
R.: Os A.N. Logo, sem A.N. as células não receberiam de suas antecessoras as
informações genéticas para orientar a síntese das enzimas certas capazes de
catalisar as reações responsáveis pelo tipo de atividades a ser desenvolvida
por cada tipo de célula.

Agora, responda:

1 Quais as funções dos ácidos nucleicos?

2 Diferencie DNA e RNA.

3 O que é um nucleotídeo? E um nucleosídeo?

130
UNIDADE 2 TÓPICO 7
LIPÍDIOS

1 INTRODUÇÃO
Os lipídios biológicos são um grupo de compostos quimicamente
diversos, cuja característica em comum que os define é a insolubilidade em
água. As funções biológicas dos lipídios são tão diversas quanto a sua química.
Gorduras e óleos são as principais formas de armazenamento de energia em
muitos organismos. Os fosfolipídios e os esteróis são os principais elementos
estruturais das membranas biológicas. Outros lipídios, embora presentes em
quantidades relativamente pequenas, desempenham papéis cruciais como
cofatores enzimáticos, transportadores de elétrons, pigmentos fotossensíveis,
âncoras hidrofóbicas para proteínas, chaperonas para auxiliar no enovelamento
de proteínas de membrana, agentes emulsificantes no trato digestivo, hormônios
e mensageiros intracelulares (NELSON; COX, 2014).

Este tópico apresentará os lipídios mais representativos de cada um


dos tipos de lipídios, organizados de acordo com suas funções, com ênfase na
estrutura química e nas propriedades físicas.

2 LIPÍDIOS DE ARMAZENAMENTO
As gorduras e os óleos utilizados de modo quase universal como formas de
armazenamento de energia nos organismos vivos são derivados de ácidos graxos.
Os ácidos graxos são derivados de hidrocarbonetos, com estado de oxidação
quase tão baixo (ou seja, altamente reduzido) quanto os hidrocarbonetos nos
combustíveis fósseis. A oxidação celular de ácidos graxos (a CO2 e H2O), assim
como a combustão controlada e rápida de combustíveis fósseis em motores de
combustão interna, é altamente exergônica (RODWELL; MURRAY; GRANNER,
2017).

Mas o que é uma reação exergônica? São reações que liberam energia para
o trabalho celular a partir do potencial de degradação dos nutrientes orgânicos.

Os ácidos graxos representam o grupo mais abundante de lipídios e são


derivados dos ácidos carboxílicos (COOH). Possuem de 4 a 24 átomos de carbono
e podem ser chamados de lipídios saponificáveis, porque a reação destes com
uma solução quente de hidróxido de sódio produz o correspondente sal sódico
do ácido carboxílico, isto é, o sabão.

131
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

Ácidos graxos podem ser classificados em saturados e insaturados. Os


saturados geralmente estão no estado sólido e são armazenados no interior
de células de gordura chamadas de adipócitos. Os ácidos graxos insaturados
geralmente estão no estado líquido e faltam alguns átomos de hidrogênio em sua
molécula e, por isso, ocorre uma ligação dupla entre os átomos de carbono. Nos
saturados essa ligação é simples.

NOTA

Você sabia?
Existe um tipo de gordura formada por um processo químico (hidrogenação), no qual óleos
vegetais líquidos são transformados em ácido graxo trans, uma gordura sólida. Essa gordura
é muito prejudicial, pois além de aumentar os níveis de Lipoproteína de baixa densidade
LDL, acaba diminuindo os níveis de Lipoproteína de alta densidade HDL. Similar à gordura
saturada, na gordura trans os átomos de hidrogênio estão dispostos transversalmente (na
diagonal), e não em paralelo, como ocorre nos ácidos graxos encontrados na natureza. Daí
vem o nome trans.

Os lipídios mais simples construídos a partir de ácidos graxos são os


triacilgliceróis, também chamados de triglicerídeos, gorduras ou gorduras
neutras. Os triacilgliceróis são compostos por três ácidos graxos, cada um em
ligação éster com uma molécula de glicerol (Figura 29). Aqueles que contêm
o mesmo tipo de ácido graxo em todas as três posições são chamados de
triacilgliceróis simples, e sua nomenclatura é derivada do ácido graxo que contêm.
A maioria dos triacilgliceróis de ocorrência natural é mista, pois contém dois ou
três ácidos graxos diferentes. Os lipídios têm densidades específicas mais baixas
do que a água, o que explica por que as misturas de óleo e água (por ex., tempero
de salada com azeite e vinagre) têm duas fases: o óleo, com densidade específica
mais baixa, flutua sobre a fase aquosa (NELSON; COX, 2014).

As ceras biológicas são ésteres de ácidos graxos saturados e insaturados


de cadeia longa (C14 a C36) com álcoois de cadeia longa (C16 a C30). No plâncton,
microrganismos de vida livre na base da cadeia alimentar dos animais marinhos,
as ceras são a principal forma de armazenamento de combustível metabólico. As
ceras também servem para uma diversidade de outras funções relacionadas as suas
propriedades impermeabilizantes e sua consistência firme. Certas glândulas da pele
de vertebrados secretam ceras para proteger os pelos e a pele e mantê-los flexíveis,
lubrificados e impermeáveis. As aves, particularmente as aquáticas, secretam ceras
por suas glândulas uropigiais para manter suas penas impermeáveis à água. As
folhas lustrosas do azevinho, do rododendro, da hera venenosa e de muitas outras
plantas tropicais são cobertas por uma camada grossa de ceras, que impede a
evaporação excessiva de água e as protege contra parasitas. As ceras biológicas têm
várias aplicações em indústrias como a farmacêutica, a cosmética, entre outras. A
lanolina (da lã de cordeiro), a cera de abelha, a cera de carnaúba (palmeira brasileira)

132
Como as hidroxilas polares do glicerol e os carboxila- onde são necessário
tos polares dos ácidos graxos estão em ligações éster, os Existem duas v
triacilgliceróis são moléculas apolares, hidrofóbicas, essen-TÓPICO
cilgliceróis
7 | LIPÍDIOS para o a
cialmente insolúveis em água. Os lipídeos têm densidades de polissacarídeos,
específicas mais baixas do que a água, o que explica por que os átomos de carbo
e a cera extraída do óleo do cachalote (espécie de baleia) são amplamente utilizadas
as misturas de óleo e água (p. ex., tempero de salada com
na manufaturaazeite
de loções, pomadas
e vinagre) e polidores
têm duas fases: o (NELSON; COX, 2014).
óleo, com densidade es-
pecífica mais baixa, flutua sobre a fase aquosa.
FIGURA 29 – O GLICEROL E UM TRIACILGLICEROL
1 3
CH2 CH2
HO 2 CH OH
OH
Glicerol

O 1
CH2 3 CH2 O
C O 2 CH O C
O
O
C

1-estearoil, 2-linoleoil, 3-palmitoil glicerol, FIGURA 104 Depósito


um triacilglicerol misto de tecido adiposo branc
de gordura (branco) tão
FIGURA 103 OFONTE:
glicerol eNelson e Cox (2014,O p.
um triacilglicerol. 360)
triacilglicerol misto mos- lho) contra a membrana
trado aqui tem três ácidos graxos diferentes ligados à cadeia do glicerol. cotilédone de uma sem
Quando o glicerol apresenta ácidos graxos diferentes em C-1 e C-3, o C-2 é escuras são corpos prote
um centro quiral (p. 17). mento nos corpos oleos
3 LIPÍDIOS ESTRUTURAIS DE MEMBRANA
A característica central na arquitetura das membranas biológicas é uma
dupla camada de lipídios que atua como barreira à passagem de moléculas
polares e íons. Os lipídios de membrana são anfipáticos: uma extremidade da
molécula é hidrofóbica e a outra é hidrofílica. Suas interações hidrofóbicas entre
si e suas interações hidrofílicas
Nelson_6ed_book.indb 360 com a água direcionam o seu empacotamento
em camadas, chamadas de bicamadas de membrana. Existem cinco tipos gerais
de lipídios de membrana: glicerofosfolipídios, nos quais as regiões hidrofóbicas
são compostas por dois ácidos graxos ligados ao glicerol; galactolipídios e
sulfolipídios, que também contêm dois ácidos graxos esterificados com o glicerol,
133
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS

mas não apresentam os fosfatos característicos dos fosfolipídios; lipídios tetraéter


em arquea, nos quais duas cadeias muito longas de alquilas estão unidas por
ligação éter ao glicerol em ambas as extremidades; esfingolipídios, nos quais
um único ácido graxo está ligado a uma amina graxa, a esfingosina; e esteróis,
compostos caracterizados por um sistema rígido de quatro anéis hidrocarbonados
fusionados (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Os esfingolipídios diferem dos fosfolipídios, pois nos esfingolipídios


em vez de ter o glicerol, eles são derivados de um amino álcool. Um dos
esfingolipídios mais importantes é a Esfingomielina, popularmente chamada de
bainha de mielina, que reveste o axônio dos neurônios.

4 LIPÍDIOS COMO SINAIS, COFATORES E PIGMENTOS


As duas classes funcionais de lipídios consideradas até agora são
importantes componentes celulares; os lipídios de membrana compõem de 5 a
10% da massa seca da maioria das células, e os lipídios de armazenamento, mais
de 80% da massa de um adipócito. Com algumas exceções importantes, esses
lipídios desempenham um papel passivo na célula; os combustíveis lipídicos
formam barreiras impermeáveis em volta das células e dos compartimentos
celulares (NELSON; COX, 2014).

Outro grupo de lipídios, presente em quantidades bem menores, tem


papéis ativos no tráfego metabólico como metabólitos e mensageiros. Alguns
servem como sinalizadores potentes – como hormônios, carregados no sangue
de um tecido a outro, ou como mensageiros intracelulares gerados em resposta
a uma sinalização extracelular (hormônio ou fator de crescimento). Outros
funcionam como cofatores enzimáticos em reações de transferência de elétrons
nos cloroplastos e nas mitocôndrias, ou na transferência de porções de açúcar em
várias reações de glicosilação (NELSON; COX, 2014).

Um terceiro grupo consiste em lipídios com um sistema de ligações


duplas conjugadas: moléculas de pigmento que absorvem a luz visível. Alguns
deles atuam como pigmentos fotossensíveis na visão e na fotossíntese; outros
produzem colorações naturais, como o alaranjado das abóboras e cenouras e o
amarelo das penas dos canários. Finalmente, um grupo muito grande de lipídios
voláteis produzidos nas plantas serve de sinalizador, que é transportado pelo
ar, permitindo às plantas comunicarem-se umas com as outras, atraírem animais
amigos e dissuadirem inimigos (NELSON; COX, 2014).

As prostaglandinas (PG) contêm um anel de cinco carbonos que se origina


da cadeia do ácido araquidônico. Seu nome deriva da glândula próstata, o tecido
a partir do qual elas foram isoladas pela primeira vez por Bengt Samuelsson e
Sune Bergström. As prostaglandinas apresentam diversas funções. Algumas
estimulam a contração da musculatura lisa do útero durante a menstruação e o
trabalho de parto. Outras afetam o fluxo sanguíneo a órgãos específicos, o ciclo

134
TÓPICO 7 | LIPÍDIOS

sono-vigília e a sensibilidade de certos tecidos a hormônios como a epinefrina


e o glucagon. As prostaglandinas de um terceiro grupo elevam a temperatura
corporal (produzindo a febre) e causam inflamação e dor (NELSON; COX, 2014).

Os tromboxanos têm um anel de seis membros que contém éter. São


produzidos pelas plaquetas (também chamadas de trombócitos) e atuam na
formação dos coágulos e na redução do fluxo sanguíneo no local do coágulo.

Os leucotrienos, encontrados pela primeira vez em leucócitos, contêm


três ligações duplas conjugadas e são poderosos sinalizadores biológicos. Por
exemplo, o leucotrieno D4, derivado do leucotrieno A4, induz a contração da
musculatura lisa que envolve as vias aéreas até o pulmão. A produção excessiva
de leucotrienos causa a crise de asma, e a síntese de leucotrienos é um dos
alvos dos fármacos antiasmáticos, como a prednisona. A forte contração da
musculatura lisa dos pulmões que ocorre durante o choque anafilático é parte da
reação alérgica potencialmente fatal em indivíduos hipersensíveis a ferroadas de
abelha, penicilina ou outros agentes (NELSON; COX, 2014).

Os esteroides são derivados oxidados dos esteróis; eles têm o núcleo esterol,
mas não a cadeia alquila ligada ao anel D do colesterol. Os hormônios esteroides
circulam pela corrente sanguínea (em carreadores proteicos) do local onde foram
produzidos até os tecidos-alvo, onde entram nas células, ligam-se a receptores
proteicos altamente específicos no núcleo e causam mudanças na expressão gênica
e, portanto, no metabolismo. Como os hormônios têm afinidade muito alta por
seus receptores, concentrações muito baixas (nanomolar ou menos) são suficientes
para produzir respostas nos tecidos-alvo. Os principais grupos de hormônios
esteroides são os hormônios sexuais masculinos e femininos e os hormônios
produzidos pelo córtex suprarrenal, cortisol e aldosterona. A prednisona e a
prednisolona são fármacos esteroides com atividades anti-inflamatórias potentes,
mediadas em parte pela inibição da liberação do araquidonato pela fosfolipase
A2 e pela consequente inibição da síntese de leucotrienos, prostaglandinas e
tromboxanos. Elas têm uma série de aplicações médicas, incluindo o tratamento
de asma e de artrite reumatoide (RODWELL; MURRAY; GRANNER, 2017).

5 SEPARAÇÃO E ANÁLISE DE LIPÍDIOS


Como os lipídios são insolúveis em água, sua extração e seu posterior
fracionamento requerem o uso de solventes orgânicos e de algumas técnicas
pouco utilizadas na purificação de moléculas hidrossolúveis, como as proteínas
e os carboidratos. Em geral, misturas complexas de lipídios são separadas por
diferenças na polaridade ou na solubilidade em solventes apolares. Os lipídios
que contêm ácidos graxos ligados a éster ou amida podem ser hidrolisados
pelo tratamento com ácido ou base ou com enzimas hidrolíticas específicas
(fosfolipases, glicosidases) para liberar seus componentes para análise. Alguns
métodos bastante utilizados nas análises de lipídios são mostrados a partir da
seguinte figura:

135
adores, cofatores e A extração de lipídeos requer solventes orgânicos
Os lipídeos neutros (triacilgliceróis, ceras, pigmentos, etc.)
UNIDADE 2 | BIOMOLÉCULAS
a presentes em quanti- são prontamente extraídos dos tecidos com éter etílico,
sempenham papéis cru- clorofórmio ou benzeno, solventes que não permitem a
dores. FIGURA 30agregação
– PROCEDIMENTOS COMUNS
causada pelas NA EXTRAÇÃO,
interações NA Os
hidrofóbicas. SEPARAÇÃO
lipí- E NA
IDENTIFICAÇÃO DE LIPÍDIOS CELULARES
hidrolisado para pro-
lulares, o diacilglicerol Tecido (a) Homogeneizado em Células
fosfatidilinositol-3,4,5- clorofórmio/metanol/água
eação para complexos
volvidos na sinalização

xanos e os leucotrienos
araquidonato, são hor-
. Metanol + água

omo os hormônios se- Clorofórmio + lipídeos


is. Servem como pode-
alterando a expressão
(b) Separa as principais classes primeiro (c) Usa o método rápido
ompostos lipossolúveis
preno. Todos desempe- Cromatografia de Espectrometria
bolismo ou na fisiologia Cromatografia em
adsorção, direta do
camada delgada
ursora de um hormônio cromatografia extrato total
cio. A vitamina A forne- gasosa, HPLC
olho dos vertebrados e é
ca durante o crescimen-
na E funciona na prote-
ontra o dano oxidativo,
processo de coagulação

onas, também derivadas


adores de elétrons nas
respectivamente.
s açúcares às membra-
são então utilizados na
xos, glicolipídeos e gli-

s servem como pigmen-


às penas das aves suas Espectrometria de massa com tipos, condições
FONTE: Nelson
e modos e Cox (2014,
de monitoramento p. 377)
diferentes

turais amplamente usa-


Misturas complexas de lipídios dos tecidos podem ser fracionadas por
Lipidoma
procedimentos FIGURA
cromatográficos com base
1025 Procedimentos comuns nanas diferentes polaridades de cada
extração, na separação e na
eos classe de lipídioidentificação
(NELSON; COX, celulares.
de lipídeos 2014). (a) O tecido é homogeneizado em
uma mistura de clorofórmio/metanol/água, que gera duas fases com a adi-
m água, sua extração e ção de água e a remoção dos sedimentos não extraíveis por centrifugação.
rem o uso de solventes (b) As principais classes dos lipídeos extraídos na fase clorofórmio podem ser
uco utilizadas na purifi- primeiro separados por cromatografia de camada delgada (CCD), na qual os
como as proteínas e os lipídeos são carregados para cima em uma placa de sílica coberta de gel por
uma frente ascendente de solvente, com os lipídeos menos polares migrando
mplexas de lipídeos são mais do que os lipídeos mais polares ou carregados, ou por cromatografia de
dade ou na solubilidade adsorção em uma coluna de sílica gel em que passam solventes de polaridade
que contêm ácidos gra- crescente. Por exemplo, cromatografia em coluna com solventes apropriados
m ser hidrolisados pelo pode ser usada para separar espécies lipídicas intimamente relacionadas, tal
om enzimas hidrolíticas como fosfatidilserina, fosfatidilglicerol, e fosfatidilinositol. Uma vez separados,
os ácidos graxos complementares a cada lipídeo podem ser determinados por
ases) para liberar seus
espectrometria de massa. (c) Alternativamente, no método rápido, um extrato
s métodos comumente de lipídeos não fracionado pode ser diretamente submetido à espectrometria
ão mostrados na Figura de massa de alta resolução de diferentes tipos e sob condições distintas para
determinar a composição total de todos os lipídeos: o lipidoma.

136
TÓPICO 7 | LIPÍDIOS

NOTA

Acúmulos anormais de lipídios de membrana: algumas doenças

Os lipídios polares das membranas sofrem constante renovação metabólica (turnover), e a


sua taxa de síntese normalmente é contrabalançada por sua taxa de degradação.

A degradação dos lipídios é promovida por enzimas hidrolíticas nos lisossomos, sendo cada
enzima capaz de hidrolisar uma ligação específica. Quando a degradação de esfingolipídios
é prejudicada por um defeito em uma dessas enzimas, os produtos da degradação parcial se
acumulam nos tecidos, causando doenças graves.

Por exemplo, a doença de Niemann-Pick é causada por um defeito genético raro na enzima
esfingomielinase, que cliva a fosfocolina da esfingomielina. A Esfingomielina se acumula no
encéfalo, no baço e no fígado. A doença se torna evidente em bebês e causa deficiência
intelectual e morte prematura. Mais comum é a doença de Tay-Sachs, na qual o gangliosídeo
GM2 se acumula no encéfalo e no baço devido à falta da enzima hexosaminidase A. Os
sintomas da doença de Tay-Sachs são retardo progressivo no desenvolvimento, paralisia,
cegueira e morte até os 3 ou 4 anos de idade.

O aconselhamento genético pode prever e evitar muitas doenças hereditárias. Os testes nos
futuros pais podem detectar enzimas anormais, então testes de DNA podem determinar a
natureza exata do defeito e o risco que ele representa para os descendentes. Uma vez que
ocorra a gravidez, as células fetais obtidas por amostra de parte da placenta (da vilosidade
coriônica) ou do líquido amniótico (amniocentese) podem ser testadas.

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 369)

137
RESUMO DO TÓPICO 7

Neste tópico, você aprendeu que:

• Os lipídios são componentes celulares insolúveis em água, de estruturas


diversas, que podem ser extraídos dos tecidos por solventes apolares.

• Quase todos os ácidos graxos, os componentes hidrocarbonados de muitos


lipídios, têm um número par de átomos de carbono (geralmente 12 a 24); eles são
saturados ou insaturados, com ligações duplas quase sempre na configuração
cis.

• Os triacilgliceróis contêm três moléculas de ácidos graxos esterificadas aos três


grupos hidroxila do glicerol.

• Os triacilgliceróis simples contêm somente um tipo de ácido graxo; os mistos


contêm dois ou três tipos. Eles são principalmente gorduras de reserva, estando
presentes em muitos alimentos.

• A hidrogenação parcial de óleos vegetais na indústria alimentícia converte


algumas ligações duplas cis para a configuração trans. Ácidos graxos trans na
dieta são um importante fator de risco para doenças cardíacas coronarianas.

• Os lipídios polares, com grupos polares e caudas apolares, são importantes


componentes das membranas. Os mais abundantes são os glicerofosfolipídios,
que contêm ácidos graxos esterificados a dois dos grupos hidroxila do glicerol e
um segundo álcool, o grupo cabeça, esterificado à terceira hidroxila do glicerol
via uma ligação fosfodiéster. Outros lipídios polares são os esteróis.

• Alguns tipos de lipídios, embora presentes em quantidades relativamente


baixas, desempenham papéis cruciais como cofatores ou sinalizadores.

• As prostaglandinas, os tromboxanos e os leucotrienos (os eicosanoides),


derivados do araquidonato, são hormônios extremamente potentes.

• Os hormônios esteroides, tal como os hormônios sexuais, são derivados


dos esteróis. Servem como poderosos sinalizadores biológicos, alterando a
expressão gênica nas células-alvos.

138
AUTOATIVIDADE

1 Os lipídios possuem alta solubilidade em solventes orgânicos e baixa


solubilidade em água (Hidrofóbicas). Estão distribuídos em todos os
tecidos, principalmente nas membranas celulares e nas células de gordura,
possuindo uma classificação muito ampla. A coluna I, a seguir, apresenta
quatro grupos de lipídios, e a coluna II, alguns exemplos desses lipídios.
Associe adequadamente a segunda coluna com a primeira.

COLUNA I COLUNA II
1- Lipoproteína  ( ) Glicerol
2- Glicerídeos ( ) Bainha de Mielina 
3- Esfingolipídio ( ) Colesterol
4- Esteroides ( ) Testosterona 
( ) Aldosterona
( )HDL
( ) LDL 

A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:


a) ( ) 2 – 3 – 1 – 4 – 4 – 2 – 1. 
b) ( ) 2 – 3 – 4 – 4 – 4 – 1 – 1. 
c) ( ) 3 – 1 – 3 – 4 – 2 – 1 – 4. 
d) ( ) 2 – 3 – 4 – 1 – 3 – 1 – 2. 
e) ( ) 1 – 2 – 2 – 3 – 1 – 3 – 4.

2 A  adrenoleucodistrofia, também conhecida pelo  acrônimo  ALD, é


uma  doença genética  rara, incluída no grupo das  leucodistrofias, e que
tem duas formas, sendo a mais comum a forma ligada ao  cromossomo
X, uma herança ligada ao sexo de caráter recessivo transmitida por
mulheres  portadoras e que afeta fundamentalmente  homens. O causador
é um gene mutante localizado no cromossomo X. Afeta as células brancas
do cérebro, bem como o sistema nervoso, além de alterar o metabolismo
dos peroxissomos, codificando a síntese da proteína ALDO, relacionada ao
metabolismo lipídico. O filme O óleo de Lourenço fala sobre essa patologia
genética. Essa patologia acaba trazendo danos às células nervosas –
neurônios, em que um importante componente lipídico é degenerado.
O componente lipídico é ___________________ e está presente no
__________________ de neurônios.

A alternativa que completa a sentença é, respectivamente:


a) ( ) Fosfolipídio, Corpo celular de neurônio.
b) ( ) Esfingomielina, Dendritos.
c) ( ) Cerídeos, Axônio.
d) ( ) Esteroides, Terminal Axônico.
e) ( ) Esfingomielina, Axônio.
139
140
UNIDADE 3

METABOLISMO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:

• relatar a primeira e a segunda lei da termodinâmica e compreender como


elas se aplicam aos sistemas biológicos;
• explicar o que significam os termos energia livre, entropia, entalpia, exer-
gônica e endergônica;
• observar como as reações endergônicas podem ser favorecidas por meio
do acoplamento às reações que são exergônicas nos sistemas biológicos;
• compreender o papel dos fosfatos de alta energia, do ATP e de outros nu-
cleotídeos trifosfato na transferência de energia livre dos processos exer-
gônicos para os endergônicos, possibilitando que atuem como a “moeda”
energética nas células;
• explicar os conceitos das vias metabólicas anabólicas, catabólicas e anfi-
bólicas.
• descrever, em linhas gerais, o metabolismo de carboidratos, lipídios e
aminoácidos no nível dos tecidos e órgãos e no nível subcelular e a con-
versão dos combustíveis metabólicos;
• caracterizar o modo como é regulado o fluxo de metabólitos através de
vias metabólicas;
• elucidar como uma provisão de combustíveis metabólicos é fornecida
tanto no estado alimentado quanto no jejum, assim como a formação de
reservas de combustíveis metabólicos no estado alimentado e a sua mobi-
lização durante o jejum.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer da unidade
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo
apresentado.

TÓPICO 1 – PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA


TÓPICO 2 – CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO
TÓPICO 3 – METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E TRIGLICERÍDEOS
TÓPICO 4 – METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS
TÓPICO 5 – METABOLISMO DE NUCLEOTÍDEOS

141
142
UNIDADE 3
TÓPICO 1
PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

1 INTRODUÇÃO
O metabolismo é uma atividade celular altamente coordenada, em
que muitos sistemas multienzimáticos (vias metabólicas) cooperam para: (1)
obter energia química capturando energia solar ou degradando nutrientes
energeticamente ricos obtidos do meio ambiente; (2) converter as moléculas dos
nutrientes em moléculas com características próprias de cada célula, incluindo
precursores de macromoléculas; (3) polimerizar precursores monoméricos em
macromoléculas (proteínas, ácidos nucleicos e polissacarídeos); e (4) sintetizar
e degradar as biomoléculas necessárias para as funções celulares especializadas,
como lipídios de membrana, mensageiros intracelulares e pigmentos. Embora o
metabolismo englobe centenas de diferentes reações catalisadas por enzimas, o
grande objetivo dessa unidade é o estudo das principais vias metabólicas, poucas
em número e notavelmente semelhantes em todas as formas de vida (NELSON;
COX, 2014).

Os organismos vivos podem ser divididos em dois grandes grupos de


acordo com a forma química pela qual obtêm carbono do meio ambiente.

Os autotróficos (como bactérias fotossintéticas, algas verdes e plantas


vasculares) podem usar o dióxido de carbono da atmosfera como sua única fonte
de carbono, a partir do qual formam todas as suas biomoléculas constituídas
de carbono. Alguns organismos autotróficos, como as cianobactérias, também
podem utilizar nitrogênio atmosférico para gerar todos os seus componentes
nitrogenados.

Os heterotróficos não conseguem utilizar o dióxido de carbono atmosférico


e devem obter carbono a partir do ambiente na forma de moléculas orgânicas
relativamente complexas, como a glicose. Os animais multicelulares e a maioria
dos microrganismos são heterotróficos. As células e os organismos autotróficos são
relativamente autossuficientes, enquanto as células e os organismos heterotróficos,
por necessitarem de carbono em formas mais complexas, dependem de produtos
de outros organismos (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

143
UNIDADE 3 | METABOLISMO

2 SERES AUTOTRÓFICOS, HETEROTRÓFICOS E VIAS


METABÓLICAS
Segundo Berg (2014), muitos organismos autotróficos são fotossintéticos
e obtêm sua energia da luz solar, enquanto organismos heterotróficos obtêm
sua energia a partir da degradação de nutrientes orgânicos produzidos por
autotróficos. Em nossa biosfera, os autotróficos e heterotróficos vivem juntos
em um ciclo vasto e interdependente onde os organismos autotróficos usam o
dióxido de carbono atmosférico para construir suas biomoléculas orgânicas,
alguns deles gerando oxigênio a partir da água durante o processo. Os organismos
heterotróficos, por sua vez, utilizam os produtos orgânicos dos autotróficos como
nutrientes e devolvem dióxido de carbono para a atmosfera. Algumas das reações
de oxidação que produzem dióxido de carbono também consomem oxigênio,
convertendo-o em água. Assim, carbono, oxigênio e água são constantemente
reciclados entre os mundos heterotrófico e autotrófico, com a energia solar como
a força que impulsiona esse processo global.

FIGURA 1 – CICLO DO DIÓXIDO DE CARBONO E DO OXIGÊNIO ENTRE O DOMÍNIO


AUTOTRÓFICO (FOTOSSINTÉTICO) E O HETEROTRÓFICO NA BIOSFERA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 502)

Todos os organismos vivos também exigem uma fonte de nitrogênio,


necessária para a síntese de aminoácidos, nucleotídeos e outros componentes.
As bactérias e as plantas, geralmente, podem usar amônia ou nitrato como única
fonte de nitrogênio, mas os vertebrados devem obter nitrogênio na forma de
aminoácidos ou de outros compostos orgânicos. Somente alguns organismos – as
cianobactérias e muitas espécies de bactérias do solo, que vivem simbioticamente
sobre as raízes de algumas plantas – são capazes de converter (“fixar”) nitrogênio
atmosférico (N2) em amônia. Outras bactérias (as bactérias nitrificantes) oxidam
amônia em nitritos e nitratos; e outras, ainda, convertem nitrato a N2. As bactérias
anamox convertem amônia e nitrito em N2. Portanto, além dos ciclos globais de
carbono e oxigênio, um ciclo de nitrogênio opera na biosfera, movimentando

144
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

enormes quantidades de nitrogênio (Figura 2). A reciclagem de carbono,


oxigênio e nitrogênio que, em última análise, envolve todas as espécies, depende
do equilíbrio adequado entre as atividades dos produtores (autotróficos) e
consumidores (heterotróficos) em nossa biosfera (NELSON; COX, 2014).

FIGURA 2 – CICLO DO NITROGÊNIO NA BIOSFERA

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 502)

Esses ciclos de matéria são impulsionados por um enorme fluxo de


energia na biosfera, iniciando com a captura da energia solar pelos organismos
fotossintéticos e a utilização dessa energia para gerar carboidratos ricos em energia
e outros nutrientes orgânicos; esses nutrientes são, então, usados como fontes de
energia por organismos heterotróficos. Nos processos metabólicos, e em todas as
transformações energéticas, existe uma perda de energia útil (energia livre) e um
aumento inevitável na quantidade de energia não utilizável (calor e entropia).
Ao contrário da reciclagem de matéria, portanto, a energia flui em uma direção
através da biosfera; os organismos não conseguem reciclar energia útil a partir da
energia dissipada na forma de calor e entropia. Carbono, oxigênio e nitrogênio
são reciclados continuamente, mas energia é constantemente transformada em
formas não utilizáveis, como o calor (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

O metabolismo, a soma de todas as transformações químicas que ocorrem


em uma célula ou em um organismo, ocorre por meio de uma série de reações
catalisadas por enzimas que constituem as vias metabólicas. Cada uma das etapas
consecutivas em uma via metabólica produz uma pequena alteração química
específica, em geral a remoção, a transferência ou a adição de um átomo particular
ou um grupo funcional. O precursor é convertido em um produto por meio de
uma série de intermediários metabólicos chamados de metabólitos. O termo
metabolismo intermediário frequentemente é aplicado às atividades combinadas
de todas as vias metabólicas que interconvertem precursores, metabólitos e
produtos de baixo peso molecular.
145
UNIDADE 3 | METABOLISMO

NOTA

Curiosidade:
Todo mundo vive falando nesse tal de metabolismo. Mas, o que precisamos realmente saber
sobre ele? Muitas pessoas acreditam que ele pode ser tratado como um músculo ou órgão,
que você pode flexionar ou controlar de alguma forma. Mas, na realidade, o seu metabolismo
está relacionado com uma série de processos químicos que ocorre em cada célula, que
basicamente transforma as calorias que você consome em combustível para o corpo. 

Para Nelson e Cox (2014, p. 502):

O catabolismo é a fase de degradação do metabolismo, na qual


moléculas, nutrientes orgânicos (carboidratos, gorduras e proteínas)
são convertidas em produtos finais menores e mais simples (como
ácido láctico, CO2 e NH3). As vias catabólicas liberam energia, e parte
dessa energia é conservada na forma de ATP (adenosina trifosfato) e
de transportadores de elétrons reduzidos (NADH – Dinucleótido de
nicotinamida e adenina; NADPH –  Nicotinamida adenina dinucleótido
fosfato e FADH2-Dinucleótido de flavina e adenina; o restante é
perdido como calor. No anabolismo, também chamado de biossíntese,
precursores pequenos e simples formam moléculas maiores e mais
complexas, incluindo lipídios, polissacarídeos, proteínas e ácidos
nucleicos. As reações anabólicas necessitam de fornecimento de
energia, geralmente na forma de potencial de transferência do grupo
fosforil do ATP e do poder redutor de NADH, NADPH e FADH2.

Algumas vias metabólicas são lineares e algumas são ramificadas, gerando


múltiplos produtos úteis a partir de um único precursor ou convertendo vários
precursores em um único produto. Em geral, as vias catabólicas são convergentes
e as vias anabólicas são divergentes (Figura 3). Algumas vias são cíclicas: um
composto inicial da via é regenerado em uma série de reações que converte outro
componente inicial em um produto.

A maioria das células tem as enzimas para realizar tanto a degradação


quanto a síntese das categorias importantes de biomoléculas – ácidos
graxos, por exemplo. No entanto, a síntese e a degradação simultâneas
de ácidos graxos seriam inúteis, e isso é evitado pela regulação
recíproca das sequências de reações anabólicas e catabólicas: quando
uma sequência está ativa, a outra está suprimida. Tal regulação não
poderia ocorrer se as vias anabólicas e catabólicas fossem catalisadas
por exatamente o mesmo grupo de enzimas, operando em um
sentido para o anabolismo, e no sentido oposto para o catabolismo:
a inibição de uma enzima envolvida no catabolismo também inibiria
a sequência de reações no sentido do anabolismo. As vias catabólicas
e anabólicas que conectam os mesmos produtos finais, como por
exemplo a transformação da glicose em piruvato e vice-versa,
podem empregar muitas das mesmas enzimas, mas invariavelmente
pelo menos uma das etapas é catalisada por enzimas diferentes nos
sentidos catabólico e anabólico, e essas enzimas constituem pontos de
regulação independentes. Além disso, a fim de que as vias anabólicas

146
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

e catabólicas sejam essencialmente irreversíveis, pelo menos uma das


reações específicas de cada sentido deve ser termodinamicamente
muito favorável – em outras palavras, uma reação cuja reação inversa
é muito desfavorável. Como contribuição adicional à regulação
independente das sequências de reações anabólicas e catabólicas,
elas geralmente ocorrem em compartimentos celulares distintos: por
exemplo, o catabolismo de ácidos graxos na mitocôndria, e a síntese dos
ácidos graxos no citosol. Como as vias metabólicas são cineticamente
controladas pela concentração do substrato, conjuntos separados de
intermediários anabólicos e catabólicos também contribuem para
o controle das taxas metabólicas. Esses recursos que separam os
processos anabólicos e catabólicos serão de interesse particular em
nossa discussão sobre o metabolismo (NELSON; COX; 2014, p. 503).

504 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX


FIGURA 3 – TRÊS TIPOS DE VIAS METABÓLICAS NÃO LINEARES
Borracha Pigmentos Hormônios
carotenoides esteroides

Fosfolipídeos Isopentenil- Ácidos


-pirofosfato Colesterol
biliares
Triacilgliceróis Ácidos graxos

Mevalonato Vitamina K Ésteres de


Amido Alanina colesteril
Fenilalanina
Acetato
Glicogênio Glicose Piruvato Acetoacetil-CoA Eicosanoides
(acetil-CoA)

Sacarose Serina Leucina

Isoleucina Ácidos graxos Triacilgliceróis

(a) Catabolismo convergente

Citrato Diacilglicerol-CDP Fosfolipídeos


Oxaloacetato (b) Anabolismo divergente

FIGURA 4 Três tipos de vias metabólicas não linea-


res. (a) Convergente, catabólica, (b) divergente, anabólica, e
CO2
(c) cíclica. Em (c), um dos compostos de partida (no caso, o
oxaloacetato) é regenerado e reingressa na via. O acetato, um
intermediário metabólico chave, é o produto da degradação
de uma variedade de combustíveis (a), serve de precursor de
CO2
um grande número de produtos (b) e é consumido na via ca-
(c) Via cíclica tabólica conhecida como o ciclo do ácido cítrico (c).

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 504)


membrana, produzido tanto por oxidação de substratos páginas ocorre e tem funções fundamentais em organis-
como por absorção de luz, promove a síntese de ATP. mos vivos. A cada reação e a cada via que você encontrar,
Os Capítulos 20 a 22 descrevem as principais vias ana- questione: o que essa transformação química faz pelo or-
As
bólicas pelas vias
quais metabólicas
as células sãodo ATP
utilizam a energia reguladas em vários
para ganismo? Como essaníveis, dentro
via se conecta com as e fora
outras viasdas
que
produzir carboidratos, lipídeos, aminoácidos e nucleotídeos operam simultaneamente na mesma célula para produzir a
células. A regulação mais imediata é a disponibilidade de substrato, a velocidade
a partir de precursores mais simples. O Capítulo 23 volta a energia e os produtos necessários para a manutenção e o
de reação
abordar o estudodepende muito– como
das vias metabólicas da elas
concentração do substrato.
ocorrem crescimento Um
da célula? Como segundo
os diferentes tipo
níveis de
dos me-
em todos os organismos, de Escherichia coli a humanos canismos de regulação cooperam para o balanço metabólico
controle
– e considera rápido dentro
como elas são reguladasdae integradas
célula éporame- regulação alostérica
e o fornecimento pordeum
e consumo intermediário
energia, alcançando o es-
metabólico
canismos hormonais ounospor uma coenzima – umtado
mamíferos. aminoácido ou ATP,
de equilíbrio dinâmico da vida?por exemplo
Estudando com essa –
No momento em que o foco de estudo será o metabo- perspectiva, o metabolismo proporciona dados fascinantes
que sinaliza o estado metabólico no interior da célula. Quando a célula
lismo intermediário, uma observação final. Não esqueça de e reveladores sobre a vida, com aplicações incontáveis nacontém
uma
que umaquantidade
grande quantidade dedasaspartato, pornestas
reações descritas exemplo, suficiente
medicina, agricultura e para suas necessidades
biotecnologia.

imediatas, ou quando os níveis celulares de ATP indicam não ser necessário


o consumo adicional de combustível no momento, esses sinais inibem
alostericamente a atividade de uma ou mais enzimas nas vias pertinentes. Em
organismos multicelulares, as atividades metabólicas de tecidos diferentes são
reguladas e integradas por fatores de crescimento e hormônios que atuam de fora
da célula. Em alguns casos, essa regulação ocorre quase que instantaneamente

147
UNIDADE 3 | METABOLISMO

(algumas vezes em menos de um milissegundo) por alterações nos níveis dos


mensageiros intracelulares que, por sua vez, modificam a atividade de enzimas
intracelulares por mecanismos alostéricos ou por modificações covalentes, como
a fosforilação. Em outros casos, o sinal extracelular modifica a concentração
celular de uma enzima alterando a velocidade de sua síntese ou degradação, de
tal forma que o efeito é visto apenas em minutos ou horas (RODWEL; MURRAY;
GRANNER, 2017).

3 GLICÓLISE E VIA PENTOSE-FOSFATO


A glicose ocupa posição central no metabolismo de plantas, animais
e muitos microrganismos. Ela é relativamente rica em energia potencial e, por
isso, é um bom combustível. Por meio do armazenamento da glicose na forma
de polímero de alta massa molecular, como o amido e o glicogênio, a célula
pode estocar grandes quantidades de unidades de hexose, enquanto mantém
a osmolaridade citosólica relativamente baixa. Quando a demanda de energia
aumenta, a glicose pode ser liberada desses polímeros de armazenamento
intracelulares e utilizada para produzir ATP de maneira aeróbia ou anaeróbia
(NELSON; COX, 2014).

Para Nelson e Cox (2014), a glicose, além de excelente combustível,


também é um precursor admiravelmente versátil, capaz de suprir uma enorme
variedade de intermediários metabólicos em reações biossintéticas. Uma bactéria
como a Escherichia coli pode obter, a partir da glicose, os esqueletos carbônicos
para cada aminoácido, nucleotídeo, coenzima, ácido graxo ou outro intermediário
metabólico necessário para o seu crescimento. Um estudo abrangente dos destinos
metabólicos da glicose compreenderia centenas ou milhares de transformações
químicas. Em animais e em vegetais vasculares, a glicose tem quatro destinos
principais: ela pode ser usada na síntese de polissacarídeos complexos direcionados
ao espaço extracelular; ser armazenada nas células (como polissacarídeo ou como
sacarose); ser oxidada a compostos de três átomos de carbonos (piruvato) por
meio da glicólise, para fornecer ATP e intermediários metabólicos; ou ser oxidada
pela via das pentoses-fosfato (fosfogliconato) produzindo ribose-5-fosfato para
a síntese de ácidos nucleicos e NADPH para processos biossintéticos redutores.

148
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

FIGURA 4 – AS PRINCIPAIS VIAS DE UTILIZAÇÃO DA GLICOSE

FONTE: Rodwel, Murray e Granner (2017, p. 389)

Os organismos sem acesso à glicose de outras fontes devem sintetizá-la.


Os organismos fotossintéticos sintetizam glicose inicialmente por redução do
CO2 atmosférico a trioses e, em seguida, por conversão das trioses em glicose. As
células não fotossintéticas produzem glicose a partir de precursores simples com
três ou quatro átomos de carbono pelo processo de gliconeogênese, que reverte a
glicólise em uma via que utiliza muitas enzimas glicolíticas. Iremos descrever as
reações individuais da glicólise, da gliconeogênese e da via das pentoses-fosfato
e o significado funcional de cada via, bem como os destinos metabólicos do
piruvato produzido na glicólise.

Na glicólise (do grego glykys, “doce” ou “açúcar”, e lysis, “quebra”),


uma molécula de glicose é degradada em uma série de reações catalisadas por
enzimas, gerando duas moléculas do composto de três átomos de carbono, o
piruvato. Durante as reações sequenciais da glicólise, parte da energia livre da
glicose é conservada na forma de ATP e NADH. A glicólise foi a primeira via
metabólica a ser elucidada e é provável que seja a mais bem entendida. Desde a
descoberta da fermentação, em 1897, por Eduard Buchner, em extratos de células
de levedura até a elucidação da via completa em leveduras (por Otto Warburg e
Hans von Euler-Chelpin) e em músculo (por Gustav Embden e Otto Meyerhof)
na década de 1930, as reações da glicólise em extratos de leveduras e de músculo
foram o objetivo principal da pesquisa bioquímica (BERG, 2014).

O desenvolvimento de métodos de purificação de enzimas, a descoberta e


o reconhecimento da importância de coenzimas, como o NAD, e a descoberta do
crucial papel metabólico do ATP e de outros compostos fosforilados resultaram
dos estudos da glicólise. Enzimas glicolíticas de muitas espécies foram purificadas
e minuciosamente estudadas.

149
UNIDADE 3 | METABOLISMO

A glicólise é uma via central quase universal do catabolismo da


glicose, a via com o maior fluxo de carbono na maioria das células.
A quebra glicolítica da glicose á a única fonte de energia metabólica
em alguns tecidos e células de mamíferos (p. ex., eritrócitos, medula
renal, cérebro e esperma). Alguns tecidos vegetais modificados para
o armazenamento de amido (como os tubérculos da batata) e algumas
plantas aquáticas (p. ex., agrião) derivam a maior parte de sua energia
da glicólise; muitos microrganismos anaeróbios são totalmente
dependentes da glicólise. Quando ocorre a degradação anaeróbia da
glicose, utilizamos o termo Fermentação. Como os organismos vivos
surgiram inicialmente em uma atmosfera sem oxigênio, a quebra
anaeróbia da glicose provavelmente seja o mais antigo mecanismo
biológico de obtenção de energia a partir de moléculas orgânicas
combustíveis. O sequenciamento do genoma de vários organismos
revelou que algumas arquibactérias e alguns microrganismos parasitas
são deficientes em uma ou mais enzimas da glicólise, mas possuem as
enzimas essenciais da via; provavelmente realizam formas variantes
de glicólise. No curso da evolução, a sequência dessas reações
químicas foi completamente conservada; as enzimas glicolíticas dos
vertebrados são estreitamente similares, na sequência de aminoácidos
e na estrutura tridimensional, às suas homólogas em levedura e no
espinafre. A glicólise difere entre as espécies apenas nos detalhes de sua
regulação e no destino metabólico subsequente do piruvato formado.
Os princípios termodinâmicos e os tipos de mecanismos regulatórios
que governam a glicólise são comuns a todas as vias do metabolismo
celular. A via glicolítica de importância central por si só, também pode
servir de modelo para muitos aspectos das vias discutidas ao longo
desta unidade (NELSON; COX, 2014, p. 544).

A quebra da glicose, formada por seis átomos de carbono, em duas


moléculas de piruvato, cada uma com três carbonos, ocorre em dez etapas,
sendo que as cinco primeiras constituem a fase preparatória (nessas reações a
glicose é inicialmente fosforilada no grupo hidroxil ligado ao C-6 (etapa 1). A
D-glicose-6-fosfato assim formada e convertida a D-frutose-6-fosfato (etapa 2),
a qual é novamente fosforilada, desta vez em C-1, para formar D-frutose-1,6-
bifosfato (etapa 3). Nas duas reações de fosforilação, o ATP e o doador de grupos
fosforil. Como todos os açúcares formados na glicólise são isômeros D, omite-se a
designação D, exceto quando o objetivo e enfatizar sua estereoquímica (NELSON;
COX, 2014).

NOTA

Em bioquímica, fosforilação é a adição de um grupo fosfato (PO4) a uma


proteína ou outra molécula. A fosforilação é um dos principais participantes nos mecanismos
de regulação das proteínas. É importante nos mecanismos de reações da qual participa o
trifosfato de adenosina (ATP), que funciona como uma "moeda de energia" nas células dos
organismos vivos.

150
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

A frutose-1,6-bifosfato é dividida em duas moléculas de três carbonos,


a di-hidroxiacetona-fosfato e o gliceraldeido-3-fosfato (etapa 4); essa é a etapa
de “lise” que dá nome à via. A di-hidroxiacetona-fosfato é isomerizada a uma
segunda molécula de gliceraldeido-3-fosfato (etapa 5), finalizando a primeira fase
da glicólise. Note que duas moléculas de ATP são consumidas antes da clivagem
da glicose em duas partes de três carbonos; haverá depois um bom retorno para
esse investimento (NELSON; COX, 2014).

E
IMPORTANT

Em síntese, na fase preparatória da glicólise, a energia do ATP é consumida,


aumentando o conteúdo de energia livre dos intermediários, e as cadeias de carbono de
todas as hexoses metabolizadas são convertidas a um produto comum, o gliceraldeido-3-
fosfato.

Os ganhos de energia provêm da fase de pagamento da glicólise (Figura


5). Cada molécula de gliceradeido-3- -fosfato é oxidada e fosforilada por fosfato
inorgânico (não por ATP) para formar 1,3-bifosfoglicerato (etapa 6). Ocorre
liberação de energia quando as duas moléculas de 1,3-bifosfoglicerato são
convertidas a duas moléculas de piruvato (etapas 7 a 10). Grande parte dessa
energia é conservada pela fosforilação acoplada de quatro moléculas de ADP a
ATP. O rendimento líquido são duas moléculas de ATP por molécula de glicose
utilizada, já que duas moléculas de ATP foram consumidas na fase preparatória.
A energia também é conservada na fase de pagamento com a formação de
duas moléculas do transportador de elétrons NADH por moléculas de glicose
(NELSON; COX, 2014).

151
UNIDADE 3 | METABOLISMO

FIGURA 5 – FASE DE PAGAMENTO DA GLICÓLISE

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 545)

Nas reações seguintes da glicólise, três tipos de transformações químicas


são particularmente notáveis: (1) a degradação do esqueleto carbônico da glicose
para produzir piruvato; (2) a fosforilação de ADP a ATP pelos compostos com
alto potencial de transferência de grupos fosforil, formados durante a glicólise; e
(3) a transferência de um íon hidreto para o NAD1, formando NADH.

3.1 A FASE PREPARATÓRIA DA GLICÓLISE REQUER ATP


Na fase preparatória da glicólise, duas moléculas de ATP são consumidas e
a cadeia carbônica da hexose é clivada em duas trioses-fosfato. A compreensão de
que as hexoses fosforiladas são intermediárias na glicólise foi conseguida lentamente
e por um feliz acaso. Em 1906, Arthur Harden e William Young testaram suas
hipóteses de que inibidores de enzimas proteolíticas estabilizariam as enzimas
da fermentação da glicose em extratos de leveduras. Adicionaram soro sanguíneo
(conhecido por conter inibidores de enzimas proteolíticas) a extratos de levedura
e observaram o estímulo predito do metabolismo da glicose. No entanto, em um
experimento de controle realizado com a intenção de demonstrar que ferver o
soro destrói a atividade estimulante, eles descobriram que o soro fervido foi tão
efetivo em estimular a glicólise quanto o soro não fervido. Exames cuidadosos
e testes do conteúdo do soro fervido revelaram que o fosfato inorgânico foi o
responsável pela estimulação. Harden e Young logo perceberam que a glicose

152
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

adicionada ao seu extrato de levedura era convertida a hexose-bifosfato. Esse foi


o início de uma longa série de investigações sobre o papel dos ésteres orgânicos
e anidridos de fosfato em bioquímica, que levaram ao nosso entendimento atual
do papel central da transferência de grupos fosforil em biologia (NELSON; COX,
2014).

A fosforilação da glicose é catalisada pela hexocinase. Cinases são enzimas


que catalisam a transferência do grupo fosforil terminal do ATP a um aceptor
nucleofílico. As cinases são uma subclasse das transferases. Ela geralmente,
como muitas outras cinases, requer Mg21 para sua atividade, já que o verdadeiro
substrato da enzima não é ATP4-, mas sim o complexo MgATP22. A hexocinase
está presente em praticamente todos os organismos. O genoma humano codifica
quatro hexocinases diferentes (I a IV), e todas catalisam a mesma reação
(RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

3.2 A FASE DE PAGAMENTO DA GLICÓLISE PRODUZ ATP


E NADH
A fase de pagamento da glicólise (Figura 5) inclui as etapas de fosforilação
que conservam energia, nas quais parte da energia química da molécula da
glicose é conservada na forma de ATP e NADH. Lembre-se de que uma molécula
de glicose rende duas moléculas de gliceraldeido-3-fosfato, e as duas metades da
molécula de glicose seguem a mesma via na segunda fase da glicólise. A conversão
das duas moléculas de gliceraldeido-3-fosfato a duas moléculas de piruvato é
acompanhada pela formação de quatro moléculas de ATP a partir de ADP. No
entanto, o rendimento líquido de ATP por molécula de glicose consumida é de
apenas dois, já que dois ATP foram consumidos na fase preparatória da glicólise
para fosforilar as duas extremidades da molécula da hexose (BERG; TYMOCZKO;
STRYERT, 2015).

4 A CAPTAÇÃO DA GLICOSE É DEFICIENTE NO DIABETES


MELITO TIPO 1
O metabolismo de glicose em mamíferos é limitado pela taxa de captação
da glicose pelas células e sua fosforilação pela hexocinase. A captação da glicose
do sangue é mediada pela família GLUT de transportadores de glicose. Nelson e
Cox (2014, p. 558) relatam que:

153
UNIDADE 3 | METABOLISMO

Os transportadores nos hepatócitos (GLUT1, GLUT2) e nos neurônios


cerebrais (GLUT3) estão sempre presentes nas membranas plasmáticas.
Por outro lado, o principal transportador de glicose nas células do
músculo esquelético, músculo cardíaco e tecido adiposo (GLUT4) está
armazenado em pequenas vesículas intracelulares e se desloca para
a membrana plasmática apenas em resposta a um sinal de insulina.
Portanto, em músculo esquelético, coração e tecido adiposo, a captação
e o metabolismo da glicose dependem da liberação normal de insulina
pelas células b pancreáticas em resposta à quantidade elevada de
glicose no sangue.

Os indivíduos com diabetes melito tipo 1 (também chamado de diabetes


dependente de insulina) têm pouquíssimas células b e são incapazes de liberar
insulina suficiente para desencadear a captação de glicose pelas células do músculo
esquelético, do coração ou do tecido adiposo. Assim, após uma refeição contendo
carboidratos, a glicose se acumula a níveis anormalmente altos no sangue,
condição conhecida como hiperglicemia. Incapazes de captar glicose, o músculo e
o tecido adiposo utilizam os ácidos graxos armazenados nos triacilgliceróis como
seu principal combustível. No fígado, a acetil-CoA, derivada da degradação
desses ácidos graxos, é convertida a “corpos cetônicos” – acetoacetato e
b-hidroxibutirato – que são exportados e levados a outros tecidos para serem
utilizados como combustível. Esses compostos são especialmente críticos para o
cérebro, que utiliza os corpos cetônicos como combustível alternativo quando a
glicose está indisponível (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Em pacientes com diabetes tipo 1 não tratados, a superprodução de


acetoacetato e b-hidroxibutirato leva a seu acúmulo no sangue e a consequente
redução do pH sanguíneo leva à cetoacidose, uma condição potencialmente letal.

NOTA

Você sabia?
Os ácidos graxos não conseguem atravessar a barreira hematoencefálica e, por isso, não
servem de combustível para os neurônios do encéfalo.

154
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

FIGURA 6 – EFEITO DO DIABETES TIPO 1 SOBRE O METABOLISMO


P R I N C Í P I O S D EDOS
B I O QCARBOIDRATOS
U Í M I C A D E L E H NEI N G E R 5
DAS GORDURAS EM UM ADIPÓCITO

➊ Pâncreas Principal defeito


secreta no diabetes
insulina

Glicose entra por
meio de GLUT4
Membrana
plasmática

GLUT4 Receptor de
IRS ➋ insulina
ativado

PI-3K
Glicose
PKB
Hexocinase
➎ fosforila a
Vesículas contendo
glicose
➌ GLUT4 fundem-se com
a membrana plasmática
Glicose-6-fosfato

Via das
pentoses- Gota de gordura
➏ Glicólise -fosfato Ribulose-5-fosfato
Ácido
graxo Triacilglicerol
➓ Cetoacidose
acetoacetato,
2 ATP b-hidroxibutirato ➒
A mobilização de
Piruvato ,30 ATP
triacilglicerol fornece
ácidos graxos como
Oxidação do combustível alternativo
Fosforilação
➐ piruvato
oxidativa na
pelo ciclo do
mitocôndria
ácido cítrico

CO2 A transferência de elétrons CO2


➑ nas mitocôndrias
direciona a síntese de ATP

FIGURA 1410 Efeito do diabetes tipo 1 sobre o metabolismo


FONTE: Nelson e Cox são (2014,
privadasp.
de559)
glicose, enquanto ela está elevada na corrente sanguí
dos carboidratos e das gorduras em um adipócito. Normal- Sem glicose para o suprimento de energia, os adipócitos degradam triac
mente, a insulina desencadeia a inserção de transportadores GLUT4 na ceróis estocados em gotas de gordura e fornecem os ácidos graxos resul
membrana plasmática pela fusão de vesículas contendo GLUT4 com a mem- tes para outros tecidos para a produção mitocondrial de ATP. Dois subpro
5 VIAS ALIMENTADORAS DA GLICÓLISE
brana, permitindo a captação de glicose do sangue. Quando os níveis de in-
sulina diminuem no sangue, GLUT4 é ressequestrado em vesículas por endo-
tos da oxidação dos ácidos graxos acumulam-se no fígado (acetoaceta
b-hidroxibutirato, ver p. 686) e são liberados na corrente sanguínea, fo
citose. No diabetes melito tipo 1 (dependente de insulina), a inserção de cendo combustível para o cérebro, mas também diminuindo o pH do
GLUT4 nas membranas, assim Muitos carboidratos,
como outros além da
processos normalmente glicose,
estimu- gue, encontram seusAdestinos
causando cetoacidose. catabólicos
mesma sequência de eventos ocorre no m
lados por insulina, estão inibidos como indicado por X. A deficiência de insu- culo, exceto que os miócitos não estocam triacilgliceróis, mas captam
na glicólise,
lina impede a captação após
de glicose por serem
GLUT4; transformados
como consequência, as células emácidos
umgraxos
dos que
intermediários glicolíticos.
são liberados na corrente Os adipócitos
sanguínea pelos
mais significativos são os polissacarídeos de armazenamento, glicogênio e amido,
contidos nas células (endógenos) ou obtidos da dieta; os dissacarídeos maltose,
lactose,de
continua o processo trealose e sacarose;
degradação. e ospancreá-
A a-amilase monossacarídeos frutose,
essencialmente manose
a mesma e galactose.
estrutura do amido, e sua dig
tica gera principalmente maltose e maltotriose (os di e tão segue a mesma via.
trissacarídeos de glicose) e oligossacarídeos chamados Como foi visto no Capítulo 7, a maioria dos animais n
de dextrinas-limite, fragmentos de amilopectina conten- pode digerir celulose devido à falta da enzima celulase, q
do pontos de ramificação (a1S6). A maltose e as dex- cliva as ligações glicosídicas (b1S4) da celulose. Em a
trinas são degradadas até glicose por enzimas do epité- mais ruminantes, o estômago estendido inclui uma câm
lio intestinal com borda em escova (as microvilosidades onde microrganismos simbióticos que produzem celul
das células epiteliais do intestino, que aumentam muito 155 degradam celulose em moléculas de glicose. Esses micr
a área da superfície intestinal). O glicogênio da dieta tem ganismos utilizam a glicose resultante por meio de ferm
UNIDADE 3 | METABOLISMO

560 D FIGURA
AV I D L . N7E L–SENTRADA
ON & MICHA
DEE L GLICOGÊNIO,
M . COX AMIDO, DISSACARÍDEOS E HEXOSES DA DIETA NO
ESTÁGIO PREPARATÓRIO DA GLICÓLISE
CH2OH
Trealose Lactose O
HO H
Lactase H
Trealase
OH H
H OH
H2O Glicogênio da Glicogênio
CH2OH H OH
dieta; amido endógeno
O a -amilase D-Galactose
H H
H Pi
OH H
Sacarose HO OH Fosforilase UDP-galactose

Sacarase H OH Glicose-1- UDP-glicose


D-Glicose -fosfato CH2OH
ATP
Hexocinase O
Fosfoglicomutase H H
H
HOCH2 CH2OH
O OH HO
Glicose 6-
HO OH
H HO
H OH -fosfato
H H
ATP D-Manose
OH H
D-Frutose Hexocinase ATP
Hexocinase
Frutose Manose-6-fosfato
ATP Frutocinase
6-fosfato
Fosfomanose-isomerase
Frutose-1-fosfato
Frutose-1-
-fosfato-
-aldolase
Frutose-1,6-
-bifosfato
Gliceraldeído 1 Di-hidroxiacetona
fosfato
Triose-fosfato-
ATP Triosecinase
-isomerase
Gliceraldeído-3-
-fosfato

FIGURA 1411 FONTE:


Entrada de glicogênio, amido, Rodwel,e hexoses
dissacarídeos Murraydae dieta
Granner (2017,
no estágio p. 410) da glicólise.
preparatório

tação anaeróbia, produzindo grandes quantidades de pro-


(a1S6) (ver Figura 7-13), onde cessa sua ação. Uma enzi-
pionato. Esse propionato serve como material de partida
ma de desramificação remove as ramificações. Os meca-
para a gliconeogênese, que gera a maior parte da lactose
nismos e o controle da degradação de glicogênio são descri-
do leite.5.1 OS POLISSACARÍDEOS E OS DISSACARÍDEOS DA DIETA
tos em maior detalhe no Capítulo 15.
A glicose-1-fosfato produzida pela glicogênio-fosforilase
Para eao amido
O glicogênio endógeno maioria dos seresporhumanos, o amido
são degradados é convertida é a principal
a glicose-6-fosfato pela fonte de
fosfoglicomutase,
que catalisa a reação reversível:
carboidratos na dieta. A digestão inicia na boca, onde a amilase salivar hidrolisa as
fosforólise
ligações
Os estoques glicosídicas
de glicogênio internas
em tecidos animaisdo amido, produzindo
(principal- Glicose-1-fosfato
fragmentos ∆ Glicose-6-fosfato
polissacarídeos
mente no curtos
fígado ou
e nooligossacarídeos.
músculo esquelético),No estômago,
em micror- a amilase salivar
A fosfoglicomutase é inativada
utiliza basicamente pelomecanis-
o mesmo
ganismos ou em tecidos vegetais podem ser mobilizados, mo que a fosfoglicerato-mutase (Figura 14-9): ambas en-
pH
para o uso baixo,célula,
da mesma mas porumauma segunda forma
reação fosfolítica ca-de volvem
amilase, secretada pelo pâncreas no
um intermediário bifosfato, e a enzima é transito-
talisada pela glicogênio-fosforilase (amido-fosforilase riamente fosforilada A
intestino delgado, continua o processo de degradação. em amilase pancreática
cada ciclo catalítico. O nome geral
gera principalmente maltose e maltotriose (os di e trissacarídeos de glicose)
em vegetais) (Figura 14-12). Essas enzimas catalisam o mutase é dado a enzimas que catalisam e
a transferência de
ataque por Pi sobre a ligação glicosídica (a1S4) que une um grupo funcional de uma posição para outra, na mesma
oligossacarídeos chamados de dextrinas-limite, fragmentos de amilopectina.
os dois últimos resíduos de glicose na extremidade não re- molécula. As mutases são uma subclasse das isomerases,
A maltose
dutora, gerando e as dextrinas
glicose-1-fosfato são degradadas
e um polímero com uma enzimasaté glicose por enzimas
que interconvertem do epitélio
estereoisômeros ou isômeros
unidade intestinal
de glicose a com
menos.borda em escova
A fosforólise preserva(as microvilosidades
parte das células
estruturais ou de posição epiteliais
(ver Tabela do
6-3). A glicose-6-fos-
da energia da ligaçãoque
intestino, glicosídica do éster-fosfato
aumentam muito da glico- dafato
a área superfície
formada naintestinal). O glicogênio
reação da fosfoglicomutase daentrar na
pode
se-1-fosfato. A glicogênio-fosforilase (ou amido-fosforilase) glicólise ou em outra via, como a via das pentoses-fosfato,
dieta tematéessencialmente
age repetidamente alcançar um pontoade mesma estrutura
ramificação donaamido,
descrita e sua digestão segue a
Seção 14.5.
mesma via (NELSON; COX, 2014).
156
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA

5.2 O GLICOGÊNIO ENDÓGENO E O AMIDO SÃO


DEGRADADOS POR FOSFORÓLISE
Os estoques de glicogênio em tecidos animais (principalmente no fígado
e no músculo esquelético), em microrganismos ou em tecidos vegetais podem ser
mobilizados, para o uso da mesma célula, por uma reação fosfolítica catalisada
pela glicogênio-fosforilase (amido-fosforilase em vegetais) (Figura 9). A fosforólise
preserva parte da energia da ligação glicosídica do ester-fosfato da glicose-
1-fosfato (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

FIGURA 8 – DEGRADAÇÃO DO GLICOGÊNIO INTRACELULAR PELA GLICOGÊNIO-


PRINCÍPIOS DE BIO
FOSFORILASE
Extremidade não redutora Os dissacarídeos deve
CH2OH CH2OH rídeos antes de entrar na
O O dextrinas são hidrolisado
H H H H H cie externa das células ep
H H
OH H OH H
HO Dextrina 1 nH2O
O O d

H OH H OH Maltose 1 H2O
malt
Glicogênio (amido)
n unidades de glicose Lactose 1 H2O
lact

O2 Sacarose 1 H2O
sac
O P O2 Glicogênio-(amido)-- Trealose 1 H2O
tre
fosforilase
OH
Os monossacarídeos a
CH2OH CH2OH ativamente para as célula
seguida passam para o sa
O O
H H H H H rios tecidos, onde são fo
H H
O 1 glicolítica.
OH H OH H
HO HO A intolerância à l
O P O2 O maior parte das pop
H OH O2 H OH originárias do norte da E
Glicose-1-fosfato Glicogênio (amido) devida ao desaparecimen
(n-1) unidades de glicose ou de toda atividade lact
FONTE: Berg, Tymoczko e Stryert (2015, p. 561) nais. Na ausência de lact
FIGURA 1412 Degradação do glicogênio intracelular pela glicogê-
nio-fosforilase. A enzima catalisa o ataque pelo fosfato inorgânico (em cor
ser completamente diger
salmão) sobre o resíduo glicosil terminal (em azul) na extremidade não redu- do, passando para o intes
tora de uma molécula de glicogênio, liberando glicose-1-fosfato e formando vertem em produtos tóxic
uma molécula de glicogênio com um resíduo de glicose a menos. A reação e diarreia. O problema é
A quebraé uma
de fosforólise
polissacarídeos
(não hidrólise). da dieta, como o glicogênio elactose o amido no e seu
não digerida
trato gastrintestinal, por fosforólise, em vez de hidrólise, não produziria ridade doganho
conteúdo intes
de energia: açúcares fosfatados não são transportados para dentro das
água no células
intestino. Na mai
PROBLEMA RESOLVIDO 141 Economia de energia para a quebra do intolerância à lactose é pr
que revestem o intestino, devendo primeiro ser desfosforilados a açúcar livre.
glicogênio por fosforólise alimento para adultos, em
Os dissacarídeos devem ser hidrolisados a monossacarídeos antesridos de entrar na estejam
com lactase
célula (NELSON; COX,a 2014).
Calcule economia de energia (em moléculas de ATP por alguns países. Em certas
monômeros de glicose) obtida pela quebra do glicogênio tes algumas ou todas as
por fosforólise em vez de hidrólise para iniciar o processo casos, o distúrbio digesti
Os monossacarídeos
de glicólise.
assim formados são transportados ativamente para
da dieta pode ser minimiz
as células epiteliais, em seguida passam para o sangue e são transportados para
vários tecidos, onde são
Solução: A fosforilados e entram
fosforólise produz na sequência
uma glicose fosforiladaglicolítica.
(gli-
cose-1-fosfato), que é então convertida a glicose-6-fosfato Outros monossacarídeos
– sem gasto da energia celular
157 (1 ATP) necessária para a diversos pontos
formação de glicose-6-fosfato a partir de glicose livre. Por- Na maior parte dos organ
UNIDADE 3 | METABOLISMO

E
IMPORTANT

A intolerância à lactose, comum entre adultos na maior parte das populações


humanas, exceto aquelas originárias do norte da Europa e alguns países da África, é devida ao
desaparecimento, após a infância, da maior parte ou de toda atividade lactásica das células
epiteliais intestinais. Na ausência de lactase intestinal, a lactose não pode ser completamente
digerida e absorvida no intestino delgado, passando para o intestino grosso, onde bactérias
a convertem em produtos tóxicos que causam cãibras abdominais e diarreia. O problema
é ainda mais complicado porque a lactose não digerida e seus metabólitos aumentam a
osmolaridade do conteúdo intestinal, favorecendo a retenção de água no intestino. Na
maioria dos lugares do mundo, onde a intolerância a lactose é prevalente, o leite não é
usado como alimento para adultos, embora os produtos do leite pré-digeridos com lactase
estejam comercialmente disponíveis em alguns países. Em certas patologias humanas estão
ausentes algumas ou todas as dissacaridases intestinais. Nesses casos, o distúrbio digestivo
ocasionado pelos dissacarídeos da dieta pode ser minimizado por uma dieta controlada
(NELSON; COX, 2014).

6 GLICONEOGÊNESE
O papel central da glicose no metabolismo surgiu cedo na evolução e esse
açúcar permanece sendo combustível quase universal e unidade estrutural nos
organismos atuais, desde micróbios até humanos. Em mamíferos, alguns tecidos
dependem quase completamente de glicose para sua energia metabólica. Para o
encéfalo humano e o sistema nervoso, assim como para os eritrócitos, os testículos,
a medula renal e os tecidos embrionários, a glicose do sangue é a principal ou a
única fonte de combustível. Apenas o encéfalo requer em média 120 g de glicose
por dia – mais da metade de toda a glicose estocada como glicogênio nos músculos
e no fígado. No entanto, o suprimento de glicose a partir desses estoques não é
sempre suficiente; entre as refeições e durante períodos de jejum mais longos, ou
após exercício vigoroso, o glicogênio se esgota. Para esses períodos, os organismos
precisam de um método para sintetizar glicose a partir de precursores que não
são carboidratos. Isso é realizado por uma via chamada de gliconeogênese
(“nova formação de açúcar”), que converte em glicose o piruvato e os compostos
relacionados, com três e quatro carbonos (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

A gliconeogênese ocorre em todos os animais, vegetais, fungos e


microrganismos. As reações são essencialmente as mesmas em todos os tecidos
e em todas as espécies. Os precursores importantes da glicose em animais são
compostos de três carbonos como o lactato, o piruvato e o glicerol, assim como certos
aminoácidos (Figura 10). Em mamíferos, a gliconeogênese ocorre principalmente
no fígado, e em menor extensão no córtex renal e nas células epiteliais que
revestem internamente o intestino delgado. A glicose assim produzida passa
para o sangue e vai suprir outros tecidos. Após exercícios vigorosos, o lactato
produzido pela glicólise anaeróbia no músculo esquelético retorna para o fígado
e é convertido a glicose, que volta para os músculos e é convertida a glicogênio –
circuito chamado de ciclo de Cori (NELSON; COX, 2014).
158
TÓPICO 1 | PRINCÍPIOS DA BIOENERGÉTICA
PRINCÍPIOS DE BI
FIGURA 9 – SÍNTESE DE CARBOIDRATOS A PARTIR DE PRECURSORES SIMPLES
Glicose Outros
sanguínea Glicoproteínas monossacarídeos Sacarose

Glicogênio Dissacarídeos Amido

Glicólise

Glicose-6-fosfato
ATP

Hexocinase
Animais Energia Plantas
ADP

Fosfoenol-
-piruvato ATP

Fosfofrutocinase-1

Ciclo ADP
do ácido
cítrico

Di-hidroxiacetona-
-fosfato
Piruvato Aminoácidos Glicerol 3-Fosfoglicerato
glicogênicos
(2
Lactato Triacilgliceróis Fixação do
CO2

2NA
FIGURA 1416 FONTE: Nelson
Síntese de e Cox (2014,
carboidratos a partirp.de569)
precursores sim-
ples. A via a partir de fosfoenolpiruvato até glicose-6-fosfato é comum para 2NADH 1 2
a conversão biossintética de muitos precursores diferentes de carboidratos
de animais e plantas. A via partindo de piruvato a fosfoenolpiruvato passa (2) 1
por oxaloacetato, um intermediário do ciclo do ácido cítrico, discutido no
Capítulo 16. Qualquer composto que possa ser convertido a piruvato ou 2A
oxaloacetato pode, consequentemente, servir como material inicial para
a gliconeogênese. Isso inclui alanina e aspartato, que podem ser converti- 2A
dos a piruvato e oxaloacetato, respectivamente, e outros aminoácidos que
também podem gerar fragmentos de três ou quatro carbonos, os chamados (2)
aminoácidos glicogênicos (ver Tabela 14-4; ver também Figura 18-15). Plan-
tas e bactérias fotossintetizantes são as únicas capazes de converter CO2 em
carboidratos, usando o ciclo de Calvin (ver Seção 20.1). (2

nucleotídeos, coenzimas e uma série de outros metabólitos (2) F


essenciais das plantas. Em muitos microrganismos, a glico- 2ADP
neogênese inicia a partir de compostos orgânicos simples Piruvato-
de dois ou três carbonos, como acetato, lactato e propiona- -cinase
to, presentes em seu meio de crescimento. 2ATP
Embora as reações da gliconeogênese sejam as mesmas
em todos os organismos, o contexto metabólico e a regu-
lação da via diferem de uma espécie para outra e de teci-
do para tecido. Nesta seção, analisa-se a gliconeogênese e
como ela ocorre no fígado de mamíferos. No Capítulo 20
é mostrado como organismos fotossintéticos usam essa via
para converter os produtos primários da fotossíntese em FIGURA 1417 Vias opostas
glicose, para ser estocada como sacarose ou amido. do de rato. As reações da gli
A gliconeogênese e a glicólise não são vias idênticas cor- a via oposta, a gliconeogênes
rendo em direções opostas,159 embora compartilhem várias principais pontos de regulaçã
discutidos posteriormente nes
etapas (Figura 14-17); sete das 10 reações enzimáticas
UNIDADE 3 | METABOLISMO

LEITURA COMPLEMENTAR

Alta taxa da glicólise em tumores sugere alvos para quimioterapia e facilita o


diagnóstico

José de Felippe Junior

Em muitos tipos de tumores encontrados em humanos e em outros


animais, a captação e a degradação de glicose ocorrem cerca de 10 vezes mais
rápido do que em tecidos normais, não cancerosos. A maior parte das células
tumorais cresce em condições de hipóxia (i.e., com suprimento de oxigênio
limitado) devido à falta, pelo menos inicialmente, das redes capilares que suprem
com oxigênio suficiente. Células cancerosas localizadas a mais de 100 a 200
mm dos capilares mais próximos dependem somente da glicose (sem oxidação
adicional de piruvato) para a maior parte da produção de ATP. O rendimento
de energia (2 ATP por glicose) é muito menor do que o que pode ser obtido
pela oxidação completa do piruvato a CO2 na mitocôndria (cerca de 30 ATP por
glicose). Portanto, para fazer a mesma quantidade de ATP, as células tumorais
devem captar muito mais glicose do que as células normais, convertendo-a a
piruvato e depois a lactato enquanto reciclam NADH. É provável que as duas
etapas iniciais na transformação de uma célula normal em uma célula tumoral
sejam (1) a mudança para a dependência da glicólise na produção de ATP, e (2)
o desenvolvimento de tolerância a pH baixo no fluido extracelular (causado
pela liberação do produto da glicólise, o ácido láctico). Em geral, quanto mais
agressivo é o tumor, maior é a taxa de glicólise.

Esse aumento da glicólise é alcançado ao menos em parte pelo aumento da


síntese das enzimas glicolíticas e dos transportadores da membrana plasmática
GLUT1 e GLUT3 que carregam a glicose para a célula. Com a alta velocidade de
glicólise resultante, as células tumorais podem sobreviver em condições anaeróbias
até que o suprimento de vasos sanguíneos alcance o tumor em crescimento.
Outra proteína induzida por HIF-1 e o hormônio peptídico VEGF (fator de
crescimento vascular endotelial), que estimula crescimento dos vasos sanguíneos
(angiogênese) em direção do tumor. Existe também a evidência de que a proteína
supressora de tumor p53, mutada na maior parte dos tipos de câncer, controla a
síntese e a montagem das proteínas mitocondriais essenciais para o transporte
dos elétrons ao O2. As células com p53 mutada são deficientes no transporte de
elétrons na mitocôndria e são forçadas a depender mais significativamente da
glicólise para a produção de ATP. Essa dependência maior dos tumores pela
glicólise em comparação aos tecidos normais sugere uma possibilidade de terapia
anticâncer: inibidores da glicólise poderiam atingir e matar tumores por esgotar
seu suprimento de ATP.

FONTE: Adaptado de <http://www.medicinabiomolecular.com.br/biblioteca/pdfs/Cancer/ca-


0369.pdf>. Acesso em: 12 jul. 2019.

160
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico, você aprendeu que:

• A glicólise é uma via quase universal pela qual uma molécula de glicose é
oxidada a duas moléculas de piruvato, com energia conservada na forma de
ATP e NADH.

• Na fase preparatória da glicólise, ATP é consumido para a conversão de glicose


em frutose-1,6-bifosfato.

• Na fase de pagamento, cada uma das duas moléculas de gliceraldeido-3-fosfato


derivada da glicose sofre oxidação em C-1; a energia dessa reação de oxidação
é conservada na forma de um NADH e dois ATP.

• A glicólise é rigidamente regulada de forma coordenada com outras vias


geradoras de energia para garantir um suprimento constante de ATP.

• No diabetes tipo 1, a captação deficiente de glicose pelo músculo e tecido


adiposo tem efeitos profundos sobre o metabolismo de carboidratos e gorduras.

• O glicogênio e o amido endógenos, as formas de armazenamento da glicose,


entram na glicólise em um processo de duas etapas.

• A clivagem fosforolítica de um resíduo de glicose de uma extremidade do


polímero, formando glicose-1-fosfato, é catalisada pela glicogênio-fosforilase
ou pela amido-fosforilase. A fosfoglicomutase então converte a glicose-1-
fosfato em glicose-6-fosfato, que pode entrar na glicólise.

• Os polissacarídeos e os dissacarídeos ingeridos são convertidos a


monossacarídeos por enzimas hidrolíticas intestinais, e os monossacarídeos
entram nas células intestinais e são transportados para o fígado ou para outros
tecidos.

• A gliconeogênese é um processo de múltiplas etapas em que a glicose é


produzida a partir de lactato, piruvato ou oxaloacetato, ou qualquer composto
que possa ser convertido a um desses intermediários.

161
AUTOATIVIDADE

1 Adultos engajados em exercício físico intenso requerem, para nutrição


adequada, uma ingestão de cerca de 160 g de carboidrato diariamente, mas
apenas em torno de 20 mg de niacina. Dado o papel da niacina na glicólise,
como você explica essa observação?

2 Os sintomas clínicos das duas formas de galactosemia – deficiência de


galactocinase ou de UDP-glicose: galactose-1-fosfato-uridiltransferase
– mostram severidades radicalmente diferentes. Embora os dois tipos
provoquem desconforto gástrico após a ingestão de leite, a deficiência
da transferase também leva a disfunções do fígado, dos rins, do baço, do
cérebro e, finalmente, à morte. Quais produtos se acumulam no sangue e
nos tecidos em cada tipo de deficiência enzimática?

3 Uma consequência do jejum prolongado é a redução da massa muscular. O


que acontece com as proteínas musculares?

162
UNIDADE 3
TÓPICO 2

CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO

1 INTRODUÇÃO
Como mencionamos no tópico anterior, algumas células obtêm energia
(ATP) pela fermentação, degradando a glicose na ausência de oxigênio. Para
a maioria das células eucarióticas, e muitas bactérias que vivem em condições
aeróbias e oxidam os combustíveis orgânicos a dióxido de carbono e água,
a glicólise é apenas a primeira etapa para a oxidação completa da glicose. Em
vez de ser reduzido a lactato, etanol ou algum outro produto da fermentação, o
piruvato produzido pela glicólise é posteriormente oxidado a H2O e CO2. Essa
fase aeróbia do catabolismo é chamada de respiração. No sentido fisiológico ou
macroscópico mais amplo, respiração alude à captação de O2 e eliminação de
CO2 por organismos multicelulares. Bioquímicos e biólogos celulares, entretanto,
utilizam esse termo em um sentido mais estrito para referirem-se ao processo
molecular por meio do qual as células consomem O2 e produzem CO2 – processo
mais precisamente denominado respiração celular.

A respiração celular acontece em três estágios principais (Figura 11). No


primeiro, a glicólise, ocorre quando a glicose é transformada em duas moléculas
de piruvato. Esse estágio acontece no citosol das células. No segundo estágio, o
piruvato entra na mitocôndria, se une à Coenzima A e forma a Acetil – CoA. Já no
terceiro estágio, chamado de cadeia respiratória, ocorre na membrana mitocondrial
interna e os elétrons do NADH são enviados para a cadeia transportadora de
elétrons. No curso da transferência de elétrons, a grande quantidade de energia
liberada é conservada na forma de ATP, por um processo chamado de fosforilação
oxidativa. A respiração é mais complexa do que a glicólise e acredita-se que
tenha evoluído muito mais tardiamente, após o surgimento das cianobactérias.
As atividades metabólicas das cianobactérias são responsáveis pelo aumento
dos níveis de oxigênio na atmosfera terrestre, um momento decisivo na história
evolutiva (NELSON; COX, 2014).

Neste tópico, abordaremos a conversão de piruvato a grupos acetil e,


então, a entrada destes grupos no ciclo do ácido cítrico, também chamado de
ciclo de Krebs (em homenagem ao seu descobridor, Hans Krebs). Em seguida,
serão examinadas as reações do ciclo e as enzimas que as catalisam. Já que os
intermediários do ciclo do ácido cítrico também são desviados como precursores
biossintéticos, serão consideradas algumas maneiras pelas quais esses
intermediários são repostos. O ciclo do ácido cítrico é um pivô do metabolismo,
com vias catabólicas chegando e vias anabólicas partindo, sendo cuidadosamente
regulado em coordenação com outras vias. Terminamos esse tópico com uma
descrição da via do glioxilato, uma sequência metabólica presente em certos
163
UNIDADE 3 | METABOLISMO

organismos que utiliza algumas das mesmas enzimas e reações utilizadas


pelo ciclo do ácido cítrico, causando a síntese líquida de glicose a partir dos
triacilgliceróis armazenados.
634 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX
FIGURA 10 – CATABOLISMO DE PROTEÍNAS, GORDURAS E CARBOIDRATOS
ilustra como uma combinação d
Estágio 1 Amino- Ácidos e mecanismos alostéricos result
Produção ácidos graxos Glicose
de acetil-CoA
te regulado em uma etapa meta
plexo da PDH é o protótipo par
Glicólise
complexos enzimáticos: a-cetog
ciclo do ácido cítrico, e a-cetoá
Piruvato deia ramificada, das vias de oxi
e2 dos (ver Figura 18-28). A notáve
Complexo da
piruvato- de proteínas, na exigência de co
-desidrogenase reação desses três complexos in
e2
e2 CO uma origem evolutiva comum.
2

e2 O piruvato é oxidado a acetil-Co


Acetil-CoA
A reação geral catalisada pelo c
Estágio 2 drogenase é uma descarboxil
Oxidação da cesso de oxidação irreversível n
acetil-CoA Citrato
Oxaloacetato removido do piruvato na forma
e2 os dois carbonos remanescente
Ciclo do
ácido cítrico acetil da acetil-CoA (Figura 16-
2
e2 reação doa um íon hidreto (:H )
(Figura 16-1), que transferirá o
e2 ou, em microrganismos anaeró
CO2 trons alternativo, como nitrato
CO2 e2 de elétrons do NADH ao oxigêni
las de ATP por par de elétrons.
NADH, ção do complexo da PDH foi de
FADH2
tos com marcação isotópica: o c
(transportadores de e2 reduzidos)
Estágio 3 CO2 radioativamente marcado à a
Transferência molécula de piruvato com o carb
de elétrons e e2
fosforilação 2H+ + 21 O2
oxidativa Cadeia respiratória
(transferência de
O complexo da piruvato-desidr
elétrons)
H 2O
cinco coenzimas
A combinação de desidrogenaçã
ruvato ao grupo acetil da acetil-C
ADP + Pi ATP
ação sequencial de três enzimas
mas diferentes ou grupos prosté
FIGURA 161 FONTE: Nelson
Catabolismo e Cox (2014,
de proteínas, 634)e carboidratos
gorduras na (TPP, de thiamine pyropho
durante os três estágios da respiração celular. Estágio 1: a oxidação flavina-adenina (FAD, de flavin
de ácidos graxos, glicose e alguns aminoácidos gera acetil-CoA. Estágio 2: coenzima A (CoA, algumas vezes
a oxidação dos grupos acetil no ciclo do ácido cítrico inclui quatro etapas
enfatizar a função do grupo ¬S
2 PRODUÇÃO DE ACETATO
nas quais os elétrons são removidos. Estágio 3: os elétrons carreados por
NADH e FADH2 convergem para uma cadeia de transportadores de elétrons tinamida-adenina (NAD, de nico
mitocondrial (ou, em bactérias, ligados à membrana plasmática) – a cadeia cleotide) e lipoato. Quatro vitam
respiratória – reduzindo, no final, O2 a H2O. Este fluxo de elétrons impele a à nutrição humana são compon
Em organismos
produção deaeróbios,
ATP. glicose e outros açúcares, ácidos graxos e a
tiamina (no TPP), riboflavina (n
maioria dos aminoácidos são finalmente oxidados a CO2 e H2O pelo ciclo do ácido
cítrico e pela cadeia respiratória. Antes de entrarem no ciclo do ácido cítrico, os
é oxidado a acetil-CoA e CO2 pelo complexo da piruvato-
esqueletos de carbono dos açúcares
-desidrogenase (PDH, deepyruvate
ácidos graxos são convertidos
dehydrogenase), um ao 2grupo
CoA-SH
acetil da acetil-CoA,
grupoa de
forma na –qual
enzimas a maioria
múltiplas dos
cópias de enzimas – loca-entraOno ciclo.
combustíveis
três O
Os NAD1 TPP
C
carbonos de muitos aminoácidos
lizado também
nas mitocôndrias entram
de células no ciclo
eucarióticas e nodessa
citosolmaneira, embora lipoat
FAD
de bactérias. C O
Complexo
O exame cuidadoso desse complexo enzimático é gra- piruvato-desidrogenase
CH3
tificante sob diversos aspectos.164
O complexo da PDH é um
exemplo clássico e muito estudado de um complexo mul- Piruvato
TÓPICO 2 | CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO

alguns aminoácidos sejam convertidos a outros intermediários do ciclo. Aqui,


o foco será em como o piruvato, derivado da glicose e de outros açúcares pela
glicólise, é oxidado a acetil-CoA e CO2 pelo complexo da piruvato desidrogenase
(utilizaremos a abreviação PDH), um grupo de enzimas – múltiplas cópias de
três enzimas – localizado nas mitocôndrias de células eucarióticas e no citosol de
bactérias (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

O exame cuidadoso desse complexo enzimático é gratificante sob


diversos aspectos. O complexo da PDH é um exemplo clássico e muito estudado
de um complexo multienzimático no qual uma série de intermediários químicos
permanece ligada às moléculas de enzima à medida que o substrato é transformado
no produto. Cinco cofatores, quatro derivados de vitaminas, participam do
mecanismo da reação. A regulação desse complexo enzimático também ilustra
como uma combinação de modificações covalentes e mecanismos alostéricos
resultam em um fluxo precisamente regulado em uma etapa metabólica.
Finalmente, o complexo da PDH é o protótipo para dois outros importantes
complexos enzimáticos: a-cetoglutarato-desidrogenase, do ciclo do ácido cítrico,
e a-cetoácido-desidrogenase de cadeia ramificada, das vias de oxidação de alguns
aminoácidos. A notável similaridade na estrutura de proteínas, na exigência de
cofator e nos mecanismos de reação desses três complexos inquestionavelmente
reflete uma origem evolutiva comum (NELSON; COX, 2014).

O piruvato será oxidado a acetil-CoA e CO2. Essa reação geral é catalisada


pelo complexo da piruvato-desidrogenase e é considerada uma descarboxilação
oxidativa, um processo de oxidação irreversível no qual o grupo carboxil é
removido do piruvato na forma de uma molécula de CO2, e os dois carbonos
remanescentes são convertidos ao grupo acetil da acetil-CoA (Figura 11). O
NADH formado nessa reação doa um íon hidreto (H-) para a cadeia respiratória
(Figura 10), que transferirá os dois elétrons ao oxigênio ou, em microrganismos
anaeróbios, a um aceptor de elétrons alternativo, como nitrato ou sulfato. A
transferência de elétrons do NADH ao oxigênio gera, ao final, 2,5 moléculas de
ATP por par de elétrons (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

FIGURA 11 – REAÇÃO GERAL CATALISADA PELO COMPLEXO DA PIRUVATO-DESIDROGENASE

FONTE: Rodwel, Murray e Granner (2017, p. 501)

165
UNIDADE 3 | METABOLISMO

A combinação de desidrogenação e descarboxilação do piruvato ao grupo


acetil da acetil-CoA (Figura 12) requer a ação sequencial de três enzimas diferentes
e cinco coenzimas diferentes ou grupos prostéticos – pirofosfato de tiamina
(TPP), dinucleotídeo de flavina-adenina (FAD), coenzima A (CoA), dinucleotídeo
de nicotinamida-adenina (NAD) e lipoato. Quatro vitaminas diferentes essenciais
à nutrição humana são componentes vitais desse sistema: tiamina (no TPP),
riboflavina (no FAD), niacina (no NAD) e pantotenato (na CoA). Já sabemos que
FAD e NAD têm como função serem transportadores de elétrons e verificamos
que o TPP era a coenzima da piruvato-descarboxilase (NELSON; COX, 2014).

3 REAÇÕES DO CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO


Agora serão focalizados os processos por meio dos quais a acetil-CoA é
oxidada. Essa transformação química é realizada pelo ciclo do ácido cítrico, a
primeira via cíclica descoberta (Figura 13). Para iniciar uma rodada do ciclo, a
acetil-CoA doa seu grupo acetil ao composto de quatro carbonos oxaloacetato,
formando o composto de seis carbonos citrato. O citrato é, em seguida,
transformado a isocitrato, também uma molécula com seis carbonos, o qual é
desidrogenado com a perda de CO2 para produzir o composto de cinco carbonos
a-cetoglutarato (também chamado de oxoglutarato). O a-cetoglutarato perde uma
segunda molécula de CO2, originando ao final o composto de quatro carbonos
succinato. O succinato é, então, convertido por quatro etapas enzimáticas ao
composto de quatro carbonos oxaloacetato – que está, assim, pronto para reagir
com outra molécula de acetil-CoA. Em cada rodada do ciclo entra um grupo
acetil (dois carbonos) na forma de acetil-CoA, e são removidas duas moléculas de
CO2; uma molécula de oxaloacetato é utilizada para a formação do citrato e uma
molécula de oxaloacetato é regenerada. Não ocorre nenhuma remoção líquida
de oxaloacetato; teoricamente, uma molécula de oxaloacetato pode participar da
oxidação de um número infinito de grupos acetil, e, na verdade, o oxaloacetato
está presente nas células em concentrações muito baixas. Quatro das oito etapas
deste processo são oxidações, nas quais a energia da oxidação é conservada de
maneira muito eficiente na forma das coenzimas reduzidas NADH e FADH2
(NELSON; COX, 2014).

Como mencionado antes, embora o ciclo do ácido cítrico seja fundamental


ao metabolismo gerador de energia, sua função não está limitada à conservação
energética. Intermediários do ciclo com quatro e cinco carbonos servem como
precursores para uma ampla variedade de produtos.

166
TÓPICO 2 | CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO

PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 639


FIGURA 12 – REAÇÕES DO CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO

Condensação de Claisen:
Acetil-CoA grupo metil da acetil-CoA
O convertido a metileno no
citrato.
❽ CH3 C S-CoA
H2O CoA-SH
Desidrogenação:
oxidação do —OH Citrato
completa a sequência Oxaloacetato Citrato-sintase
de oxidação; carbonil CH2 COO2 Desidratação/reidratação:
gerado posicionado HO C COO2 grupo —OH do citrato
O C COO2
para facilitar a reposicionado no isocitrato
condensação de CH2 COO2 CH2 COO2 preparando para a descar-
Claisen na próxima boxilação da próxima etapa.
etapa.
Malato-desidrogenase Ciclo do ácido cítrico Aconitase H2 O
❼ Malato
Hidratação: COO2
adição de CH2 COO2
água à ligação HO CH
dupla CH2 C COO2
cis-Aconitato
introduz
COO2 C COO2
o grupo
—OH para H
a próxima H2 O
etapa de Fumarase
(3) NADH
oxidação. Aconitase
H2 O Reidratação
COO2
CH2 COO2
Fumarato CH
H C COO2
HC Isocitrato
HO C H
COO2 FADH2
COO2 ❸
Isocitrato-
❻ Succinato-desidrogenase -desidrogenase Descarboxilação
Desidrogenação: oxidativa:
introdução da grupo —OH oxidado
ligação dupla inicia a carbonil, o que,
Complexo CH2 COO2 CO2 por sua vez, facilita a
a sequência de CH2 COO2
oxidação do a-cetoglutarato- descarboxilação por
CH2
Succinil-CoA-
-desidrogenase CH2 meio da estabilização
metileno. -sintatetase
C O do carbânion
Succinato COO2 CH2 COO2 formado no carbono
COO2 adjacente.
CH2 CoA-SH a-Cetoglutarato
CoA-SH
GTP C S-CoA CO2 ❹
(ATP) GDP O
❺ Descarboxilação oxidativa:
(ADP) Succinil-CoA
1 Pi mecanismo similar a
Fosforilação ao nível do substrato: piruvato-desidrogenase;
energia do tioéster conservada na dependente do carbonil no
ligação fosfoanidrido do GTP ou ATP. carbono adjacente.

FIGURA 167 Reações do ciclo do ácido cítrico. Os átomos de carbono etapa de reação corresponde a um tópico numerado nas p. 640-647. As setas
FONTE: Nelson e
sombreados em cor salmão são aqueles derivados do acetato da acetil-CoA
Cox (2014, p. 639)
em vermelho mostram onde a energia é conservada pela transferência de
durante a primeira rodada do ciclo; estes não são os carbonos liberados na elétrons ao FAD ou NAD1, formando FADH2 ou NADH 1 H1. As etapas ➊,
forma de CO2 durante a primeira rodada. Observe que, no succinato e no ➌ e ➍ são essencialmente irreversíveis na célula; todas as outras etapas são
fumarato, o grupo de dois carbonos derivado do acetato não pode mais ser reversíveis. O nucleosídeo trifosfatado produzido na etapa ➎ pode ser tanto
especificamente indicado; como succinato e fumarato são moléculas simé- ATP quanto GTP, dependendo da isoenzima de succinil-CoA-sintetase que
tricas, C-1 e C-2 são indistinguíveis de C-4 e C-3. O número ao lado de cada está catalisando a reação.
E
IMPORTANT
ção do citrato (etapa ➊ na Figura 16-7). O grupo metil série de oxidações que eliminam dois carbonos na forma
do acetato é convertido a metileno no ácido cítrico. Esse de CO2. Observe que todas as etapas levando à quebra ou
ácido tricarboxílico, então, prontamente passa por uma à formação de ligações carbono-carbono (etapas ➊, ➌ e

O Ciclo do Ácido Cítrico ocorre na matriz mitocondrial. O piruvato penetra


na mitocôndria, se une à Coenzima-A e forma a Acetil-CoA. Rendimento do ciclo: 2 ATP,
6NADH e 2FADH2.

Nelson_6ed_book.indb 639 03/04/14 07:44

167
UNIDADE 3 | METABOLISMO

O fluxo de átomos de carbono que entram no ciclo do ácido cítrico a partir


do piruvato, e também durante o curso do ciclo, está sob constante regulação
em dois níveis: a conversão de piruvato a acetil-CoA, o material de partida do
ciclo (a reação da piruvato-desidrogenase), e a entrada da acetil-CoA no ciclo (a
reação da citrato-sintase). A acetil-CoA também é produzida por outras vias que
não a reação do complexo da PDH – a maioria das células produz acetil-CoA
pela oxidação de ácidos graxos e certos aminoácidos – e a disponibilidade de
intermediários a partir dessas vias é importante para a regulação da oxidação
do piruvato e do ciclo do ácido cítrico. O ciclo também é regulado nas reações
da isocitrato-desidrogenase e da a-cetoglutarato-desidrogenase (RODWEL;
MURRAY; GRANNER, 2017).

NOTA

Você sabia?
Quando os mecanismos da regulação de uma via como o ciclo do ácido cítrico são afetados
por uma perturbação metabólica importante, o resultado pode ser uma doença grave.
São raríssimas as mutações nas enzimas do ciclo do ácido cítrico em humanos e outros
mamíferos, mas quando ocorrem são devastadoras. Defeitos genéticos no gene da fumarase
levam a tumores no músculo liso (leiomas) e nos rins; mutações na succinato-desidrogenase
levam a tumores da glândula suprarrenal (feocromocitomas).

4 O CICLO DO GLIOXILATO
Os vertebrados não conseguem converter ácidos graxos, ou o acetato
derivado deles, a carboidratos. As conversões de fosfoenolpiruvato a piruvato e
de piruvato a acetil--CoA de tão exergônicas são essencialmente irreversíveis. Se
uma célula não consegue converter acetato a fosfoenolpiruvato, o acetato não pode
ser o material de partida para a via gliconeogênica, que leva de fosfoenolpiruvato
a glicose. Sem essa capacidade, portanto, uma célula ou organismo é incapaz
de converter combustíveis ou metabólitos que são degradados a acetato (ácidos
graxos e certos aminoácidos) em carboidratos.

Como os átomos de carbono das moléculas de acetato que entram no


ciclo do ácido cítrico aparecem oito etapas depois no oxaloacetato, pode parecer
que esta via pode produzir oxaloacetato a partir de acetato e, assim, originar
fosfoenolpiruvato para a gliconeogênese. Contudo, como mostrado por um exame
da estequiometria do ciclo do ácido cítrico, não há conversão líquida de acetato
a oxaloacetato; nos vertebrados, para cada dois carbonos que entram no ciclo na
forma de acetil-CoA, dois são liberados na forma de CO2. Em muitos organismos
que não os vertebrados, o ciclo do glioxilato funciona como mecanismo para a
conversão de acetato a carboidratos (NELSON; COX, 2014).

168
TÓPICO 2 | CICLO DO ÁCIDO CÍTRICO

No ciclo do glioxilato, a acetil-CoA é condensada com o oxaloacetato para


formar citrato, e o citrato é convertido a isocitrato, exatamente como no ciclo do
ácido cítrico. A próxima etapa, porém, não é a quebra do isocitrato pela isocitrato-
desidrogenase, mas a clivagem do isocitrato pela isocitrato-liase, formando
succinato e glioxilato. O glioxilato, então, é condensado com uma segunda
molécula de acetil-CoA para a geração de malato, em uma reação catalisada pela
malato-sintase. O malato é posteriormente oxidado a oxaloacetato, o qual pode
ser condensado com outra molécula de acetil-CoA para iniciar outra volta do
ciclo (Figura 13). Cada volta do ciclo do glioxilato consome duas moléculas de
acetil-CoA e produz uma molécula de succinato, que está, então, disponível aos
propósitos biossintéticos (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).
PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 657
FIGURA 13 – CICLO DO GLIOXILATO
nismo é incapaz de converter O
que são degradados a acetato
CH3 C S-CoA
ácidos) em carboidratos.
Acetil-CoA
ussão sobre reações anaple-
enolpiruvato pode ser sinte-
to em uma reação reversível O C COO2
nase: Citrato-sintase
CH2 COO2
oenolpiruvato 1 CO2 1 GDP Oxaloacetato

das moléculas de acetato que CH2 COO2


co aparecem oito etapas de- NADH
HO C COO2
recer que esta via pode pro- Malato-desidrogenase
e acetato e, assim, originar CH2 COO2
oneogênese. Contudo, como NAD1 Citrato
tequiometria do ciclo do áci- Ciclo do
COO2
quida de acetato a oxaloace- glioxilato
Aconitase

da dois carbonos que entram HO CH


A, dois são liberados na forma CH2
os que não os vertebrados, o CH2 COO2
mo mecanismo para a conver- COO2
Malato CH COO2

Malato-sintase HO CH COO2
2
O
ompostos de quatro Isocitrato-liase
Isocitrato

C O
O C O
dos e alguns microrganismos
o acetato pode ser tanto um CH3 C S-CoA H
omo uma fonte de fosfoenol- Acetil-CoA Glioxilato
CH2 COO2
oidratos. Nesses organismos,
xilato catalisam a conversão CH2 COO2
ou outros intermediários de Succinato
cido cítrico:
FIGURAFONTE:
1622 CicloRodwel, Murray e AGranner
do glioxilato. (2017,ap.aconitase
citrato-sintase, 510) e a
¡ malato-desidrogenase do ciclo do glioxilato são isoenzimas das enzimas
inato 1 2CoA 1 NADH 1 H
1 do ciclo do ácido cítrico; isocitrato-liase e malato-sintase são exclusivas do
ciclo do glioxilato. Observe que dois grupos acetil (em cor salmão) entram
il-CoA é condensada com o no ciclo e quatro carbonos saem na forma de succinato (em azul). O ciclo
ato, e o citrato é convertido do glioxilato foi elucidado por Hans Kornberg e Neil Madsen no laboratório
de Hans Krebs.
o no ciclo do ácido cítrico. A
a quebra do isocitrato pela
as a clivagem do isocitrato
ndo succinato e glioxilato. madas de glioxissomos, os quais são peroxissomos espe-
sado com uma segunda mo- cializados (Figura 16-23). 169As enzimas comuns ao ciclo do
geração de malato, em uma ácido cítrico e do glioxilato têm duas isoenzimas, uma espe-
UNIDADE 3 | METABOLISMO

Em plantas, as enzimas do ciclo do glioxilato estão sequestradas em


organelas delimitadas por membrana chamadas de glioxissomos, os quais são
peroxissomos especializados (Figura 15). As enzimas comuns ao ciclo do ácido
cítrico e do glioxilato têm duas isoenzimas, uma específica das mitocôndrias,
outra específica dos glioxissomos. Os glioxissomos nem sempre estão presentes
em todos os tecidos vegetais. Eles se desenvolvem nas sementes ricas em lipídios
durante a germinação, antes de a planta adquirir a capacidade de produzir glicose
pela fotossíntese. Além das enzimas do ciclo do glioxilato, os glioxissomos contêm
todas as enzimas necessárias para a degradação dos ácidos graxos estocados nos
óleos das sementes (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

FIGURA 14 – MICROGRAFIA ELETRÔNICA DE UMA SEMENTE DE PEPINO EM GERMINAÇÃO,


MOSTRANDO GLIOXISSOMO, MITOCÔNDRIAS E CORPOS LIPÍDICOS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 658)

170
RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico, você aprendeu que:

• Piruvato, o produto da glicólise, é convertido a acetil-CoA, o material de


partida para o ciclo do ácido cítrico, pelo complexo da piruvato-desidrogenase.

• O complexo da PDH é composto por múltiplas cópias de três enzimas: piruvato-


desidrogenase; di-hidrolipoil-transacetilase e di-hidrolipoil-desidrogenase.

• O ciclo do ácido cítrico (ciclo de Krebs, ciclo do ácido tricarboxílico [TCA])


é uma via catabólica central e praticamente universal por meio da qual os
compostos derivados da degradação de carboidratos, gorduras e proteínas são
oxidados a CO2, com a maior parte da energia da oxidação temporariamente
armazenada nos transportadores de elétrons FADH2 e NADH.

• Durante o metabolismo aeróbio, esses elétrons são transferidos ao O2, e a


energia do fluxo de elétrons é capturada na forma de ATP.

• A acetil-CoA entra no ciclo do ácido cítrico (na mitocôndria de eucariotos, no


citosol em bactérias) quando a citrato-sintase catalisa sua condensação com o
oxaloacetato para a formação de citrato.

• O ciclo do glioxilato está ativo nas sementes em germinação de algumas plantas


e em certos microrganismos que conseguem viver utilizando acetato como a
única fonte de carbono.

• Nas plantas, essa via ocorre nos glioxissomos dos brotos. Ela inclui algumas
enzimas do ciclo do ácido cítrico e duas enzimas adicionais: isocitrato-liase e
malato-sintase.

• No ciclo do glioxilato, o desvio das duas etapas de descarboxilação do ciclo


do ácido cítrico torna possível a formação líquida de succinato, oxaloacetato
e outros intermediários do ciclo do ácido cítrico a partir de acetil-CoA. O
oxaloacetato formado deste modo pode ser utilizado para a síntese de glicose
via gliconeogênese.

171
AUTOATIVIDADE

1 Indivíduos com dieta deficitária em tiamina têm níveis relativamente altos


de piruvato na corrente sanguínea. Explique esse fenômeno em termos
bioquímicos.

2 Como uma deficiência de riboflavina afetaria o funcionamento do ciclo do


ácido cítrico? Explique.

3 Que fatores poderiam diminuir a quantidade de oxaloacetato disponível


para a atividade do ciclo do ácido cítrico? Como o oxaloacetato pode ser
reposto?

4 Pessoas com beribéri, doença causada pela deficiência de tiamina,


apresentam níveis sanguíneos elevados de piruvato e a-cetoglutarato,
especialmente após consumirem uma refeição rica em glicose. Como esses
resultados se relacionam à deficiência de tiamina?

5 Com relação à respiração celular é correto afirmar que:

a) ( ) A glicólise, que ocorre no espaço intermembranas devido à ação de


enzimas específicas, rende um total de 2 ATP e 2 NADH.
b) ( ) A descarboxilação oxidativa de um piruvato rende, no final da cadeia
transportadora de elétrons, um total de 2,5 ATP.
c) ( ) Os NADH produzidos durante a glicólise chegam até a matriz
mitocondrial e rendem sempre um total de 2,5 ATP cada.
d) ( ) Os complexos proteicos que participam da cadeia transportadora de
elétrons são encontrados por toda a membrana interna da mitocôndria.
e) ( ) No ciclo do ácido cítrico os NADH produzidos necessitam da ação de
lançadeiras para que possam chegar até a matriz mitocondrial.

172
UNIDADE 3
TÓPICO 3
METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E
TRIGLICERÍDEOS

1 INTRODUÇÃO
A oxidação dos ácidos graxos de cadeia longa a acetil-CoA é uma via central
de geração de energia em muitos organismos e tecidos. No coração e no fígado
de mamíferos, por exemplo, ela fornece até 80% das necessidades energéticas
em todas as circunstâncias fisiológicas. Os elétrons retirados dos ácidos graxos
durante a oxidação passam pela cadeia respiratória, levando à síntese de ATP; a
acetil-CoA produzida a partir dos ácidos graxos pode ser completamente oxidada
a CO2 no ciclo do ácido cítrico, resultando em mais conservação de energia. Em
algumas espécies e em alguns tecidos, a acetil-CoA tem destinos alternativos.
No fígado, a acetil-CoA pode ser convertida em corpos cetônicos – combustíveis
solúveis em água exportados para o cérebro e para outros tecidos quando glicose
não está disponível. Em vegetais superiores, a acetil-CoA serve principalmente de
precursor biossintético, e apenas secundariamente como combustível. Embora o
papel biológico da oxidação dos ácidos graxos varie de acordo com o organismo,
o mecanismo é essencialmente o mesmo (NELSON; COX, 2014). O processo
repetitivo de quatro etapas, chamado de b-oxidação, por meio do qual os ácidos
graxos são convertidos em acetil-CoA é o item principal deste tópico.

No Tópico 7 da Unidade 2, foram descritas as propriedades dos


triacilgliceróis (também chamados de triglicerídeos ou gorduras neutras) que
os tornam especialmente adequados como combustíveis de armazenamento.
Vimos que seus ácidos graxos constituintes são essencialmente hidrocarbonetos,
estruturas altamente reduzidas com uma energia de oxidação completa (38 kJ/g)
mais de duas vezes maior que a produzida pelo mesmo peso de carboidratos ou
proteínas. Essa vantagem é composta pela extrema insolubilidade dos lipídios
em água; os triacilgliceróis celulares se agregam em gotículas lipídicas, que não
aumentam a osmolaridade do citosol.

As propriedades que tornam os triacilgliceróis compostos de


armazenamento adequados, no entanto, apresentam problemas em seu papel como
combustível. Por serem insolúveis em água, os triacilgliceróis ingeridos devem
ser emulsificados antes que possam ser digeridos por enzimas hidrossolúveis
no intestino, e os triacilgliceróis absorvidos no intestino ou mobilizados dos
tecidos de armazenamento devem ser carregados no sangue ligados a proteínas
que neutralizam a sua insolubilidade. Para superar a relativa estabilidade das

173
UNIDADE 3 | METABOLISMO

ligações C-C em um ácido graxo, o grupo carboxil do C-1 é ativado pela ligação
à coenzima A, que permite a oxidação gradativa do grupo acil graxo na posição
C-3, ou b – daí o nome b-oxidação (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Este tópico iniciará com uma breve discussão sobre as fontes de ácidos
graxos e sobre as vias pelas quais eles se deslocam até o seu sítio de oxidação,
com ênfase especial no processo em vertebrados. Em seguida, descreve as
etapas químicas da oxidação dos ácidos graxos nas mitocôndrias. A oxidação
completa dos ácidos graxos a CO2 e H2O ocorre em três etapas: a oxidação dos
ácidos graxos de cadeia longa a fragmentos de dois carbonos, na forma de acetil-
CoA (b-oxidação); a oxidação de acetil-CoA a CO2 no ciclo do ácido cítrico; e
a transferência de elétrons dos transportadores de elétrons reduzidos à cadeia
respiratória mitocondrial. Neste tópico, também será apresentada a primeira
dessas etapas. A discussão sobre a b-oxidação inicia com o caso simples no qual um
ácido graxo completamente saturado com um número par de átomos de carbono
é degradado a acetil-CoA. Então são analisadas brevemente as transformações
extras necessárias para a degradação de ácidos graxos insaturados e ácidos graxos
com um número ímpar de carbonos. Finalmente, são discutidas as variações sobre
o tema da b-oxidação nas organelas especializadas – peroxissomos e glioxissomos.
O tópico é concluído com uma descrição de um destino alternativo para a acetil-
CoA formada pela b-oxidação em vertebrados: a produção de corpos cetônicos
no fígado.

2 DIGESTÃO, MOBILIZAÇÃO E TRANSPORTE DE


GORDURAS
As células podem obter combustíveis de ácidos graxos de três fontes:
gorduras consumidas na dieta, gorduras armazenadas nas células como gotículas
de lipídios e gorduras sintetizadas em um órgão para exportação a outro. Algumas
espécies utilizam as três fontes sob várias circunstâncias, outras utilizam uma ou
duas delas. Os vertebrados, por exemplo, obtêm gorduras na dieta, mobilizam
gorduras armazenadas em tecidos especializados (tecido adiposo, consistindo em
células chamadas adipócitos) e, no fígado, convertem o excesso dos carboidratos
da dieta em gordura para a exportação aos outros tecidos. Em média, 40% ou
mais das necessidades energéticas diárias das pessoas que vivem em países
altamente industrializados são supridos pelos triacilgliceróis da dieta (embora
a maioria das diretrizes nutricionais recomende que o consumo calórico diário
de gorduras não ultrapasse 35%). Os triacilgliceróis fornecem mais da metade
das necessidades energéticas de alguns órgãos, particularmente o fígado, o
coração e a musculatura esquelética em repouso. Os triacilgliceróis armazenados
são praticamente a única fonte de energia dos animais hibernantes e das aves
migratórias. As plantas vasculares mobilizam gorduras armazenadas nas
sementes durante a germinação, mas não dependem de gorduras para a obtenção
de energia (NELSON; COX, 2014).

174
TÓPICO 3 | METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E TRIGLICERÍDEOS

2.1 AS GORDURAS DA DIETA SÃO ABSORVIDAS NO


INTESTINO DELGADO
Nos vertebrados, antes que os triacilgliceróis possam ser absorvidos
através da parede intestinal, eles precisam ser convertidos de partículas de
gordura macroscópicas insolúveis em micelas microscópicas finamente dispersas.

Para Nelson e Cox (2014, p. 668):

Essa solubilização é realizada pelos sais biliares, como o ácido


taurocólico, um ácido que é sintetizado a partir das moléculas de
colesterol no fígado, armazenados na vesícula biliar e liberados no
intestino delgado após a ingestão de uma refeição gordurosa. Os
sais biliares são compostos anfipáticos que atuam como detergentes
biológicos, convertendo as gorduras da dieta em micelas mistas de sais
biliares e triacilgliceróis. A formação de micelas aumenta muito a fração
das moléculas de lipídeo acessíveis à ação das lipases hidrossolúveis
no intestino, e a ação das lipases converte os triacilgliceróis em
monoacilgliceróis (monoglicerídeos) e diacilgliceróis (diglicerídeos),
ácidos graxos livres e glicerol. Esses produtos da ação da lipase
se difundem para dentro das células epiteliais que revestem a
superfície intestinal (a mucosa intestinal), onde são reconvertidos em
triacilgliceróis e empacotados com o colesterol da dieta e proteínas
específicas em agregados de lipoproteínas chamados quilomícrons.

FIGURA 15 – O PROCESSAMENTO DOS LIPÍDIOS DA DIETA EM VERTEBRADOS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 668)

175
UNIDADE 3 | METABOLISMO

As apolipoproteínas são proteínas de ligação a lipídios no sangue,


responsáveis pelo transporte de triacilgliceróis, fosfolipídios, colesterol e ésteres
de colesterol entre os órgãos. As apolipoproteínas (“apo” significa “destacado “ou
“separado”, designando a proteína em sua forma livre de lipídios) se combinam
com os lipídios para formar várias classes de partículas de lipoproteína, que
são agregados esféricos com lipídios hidrofóbicos no centro e cadeias laterais
hidrofílicas de proteínas e grupos polares de lipídios na superfície. Várias
combinações de lipídios e proteínas produzem partículas de densidades diferentes,
variando de quilomícrons e lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL) a
lipoproteínas de densidade muito alta (VHDL), que podem ser separadas por
ultracentrifugação (NELSON; COX, 2014).

As porções proteicas das lipoproteínas são reconhecidas por receptores


nas superfícies celulares. Na absorção de lipídios no intestino, os quilomícrons,
que contêm a apolipoproteína C-II (apoC-II), deslocam-se da mucosa intestinal
para o sistema linfático e então entram no sangue, que os carrega para os músculos
e o tecido adiposo (Figura 15, etapa 5). Nos capilares desses tecidos, a enzima
extracelular, lipase lipoproteica, ativada pela apoC-II, hidrolisa os triacilgliceróis
em ácidos graxos e glicerol (etapa 6), absorvidos pelas células nos tecidos-alvo
(etapa 7). No músculo, os ácidos graxos são oxidados para obter energia; no tecido
adiposo, eles são reesterificados para armazenamento na forma de triacilgliceróis
(etapa 8).

Os remanescentes dos quilomícrons, desprovidos da maioria dos seus


triacilgliceróis, mas ainda contendo colesterol e apolipoproteínas, se deslocam
pelo sangue até o fígado, onde são captados por endocitose mediada pelos
receptores específicos para as suas respectivas apolipoproteínas. Os triacilgliceróis
que entram no fígado por essa via podem ser oxidados para fornecer energia
ou precursores para a síntese de corpos cetônicos (abordaremos a seguir).
Quando a dieta contém mais ácidos graxos do que o necessário imediatamente
como combustível ou como precursores, o fígado os converte em triacilgliceróis,
empacotados com apolipoproteínas específicas formando VLDL. As VLDL
são transportadas pelo sangue até o tecido adiposo, onde os triacilgliceróis
são removidos da circulação e armazenados em gotículas lipídicas dentro dos
adipócitos (NELSON; COX, 2014).

2.2 HORMÔNIOS ATIVAM A MOBILIZAÇÃO DOS


TRIACILGLICERÓIS ARMAZENADOS
Os lipídios neutros são armazenados nos adipócitos (e nas células que
sintetizam esteroides do córtex da suprarrenal, dos ovários e dos testículos) na
forma de gotículas lipídicas, com um centro de ésteres de esteróis e triacilgliceróis
envoltos por uma monocamada de fosfolipídios. A superfície dessas gotículas é
revestida por perilipinas, família de proteínas que restringem o acesso às gotículas
lipídicas, evitando a mobilização prematura dos lipídios. Berg, Tymoczko e

176
TÓPICO 3 | METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E TRIGLICERÍDEOS

Stryert (2015) relatam que, quando hormônios sinalizam a necessidade de energia


metabólica, os triacilgliceróis armazenados no tecido adiposo são mobilizados
(retirados do armazenamento) e transportados aos tecidos (musculatura
esquelética, coração e córtex renal) nos quais os ácidos graxos podem ser oxidados
para a produção de energia. Os hormônios adrenalina e glucagon, secretados em
resposta aos baixos níveis de glicose ou atividade iminente, estimulam a enzima
adenilil ciclase na membrana plasmática dos adipócitos (Figura 17), que produz
o segundo mensageiro intracelular AMP cíclico (cAMP). A proteína-cinase
dependente de cAMP (PKA) leva a mudanças que abrem a gotícula de lipídeo
para a atividade de três lipases, que atuam sobre tri-, di- e monoacilgliceróis,
liberando ácidos graxos e glicerol.
0 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX
FIGURA 16 – MOBILIZAÇÃO DOS TRIACILGLICERÓIS ARMAZENADOS NO TECIDO ADIPOSO
Glucagon Adenilil-
❶ -ciclase

Receptor
Gs

ATP cAMP

Transportador
de ácidos
❺ ❹ graxos
CGI CGI PKA
CGI ❸
ATGL
P Lipase
P sensível a
P
hormônio
❻ P b oxidação, ciclo
Perilipina P do ácido cítrico,
cadeia respiratória
Triacilglicerol P HSL
❼ P
Diacilglicerol ATP
HSL CO2
Gotícula de lipídeo ➒
Albumina
Monoacilglicerol Ácidos graxos sérica

➑ Adipócito Miócito
MGL

Corrente sanguínea

RA 173 Mobilização dos triacilgliceróis armazenados


FONTE: Berg,noTymoczko
tecido erilada
Stryert (2015,com
se associa p. 670)
a lipase sensível a hormônios fosforilada, pe
oso. Quando os baixos níveis de glicose no sangue ativam a liberação acesso à superfície da gotícula lipídica, onde ➐ ela hidrolisa os dia
ucagon, ➊ o hormônio se liga ao seu receptor na membrana do adi- em monoacilgliceróis. Uma terceira lipase, a monoacilglicerol lipas
o e assim ➋ estimula a adenilil-ciclase, via uma proteína G, a produzir monoacylglycerol lipase) ➑ hidrolisa os monoacilgliceróis. ➒ Os ác
P. Isso ativa a PKA, que fosforila ➌ a lipase sensível a hormônio (HSL, de saem do adipócito, se ligam à albumina sérica no sangue e são
mone-sensitive lipase) e ➍ as moléculas de perilipina na superfície da go- dos no sangue; eles são liberados da albumina e ➓ entram em u
a lipídica. A fosforilação da perilipina causa a ➎ dissociação da proteína por meio de um transportador específico de ácidos graxos. 11 No
da perilipina. A CGI então se associa com a enzima triacilglicerol lipase no ácidos graxos são oxidados a CO2, e a energia da oxidação é cons
ócito (ATGL, de adipose triacylglycerol lipase), ativando-a. A triacilglicerol ATP, que abastece a contração muscular e outros tipos de metab
e ativada ➏ converte triacilgliceróis em diacilgliceróis. A perilipina fosfo- necessitam de energia no miócito.

177
a glicerol-cinase (Figura 17-4), e o glicerol-3-fosfato condrial externa, as acil-CoA-sintetases, que cat
UNIDADE 3 | METABOLISMO

NOTA

Você sabia?
Os ácidos graxos liberados passam dos adipócitos para o sangue, onde eles se ligam à
albumina sérica. Ligados a essa proteína solúvel, os ácidos graxos são transportados aos
tecidos como o músculo estriado esquelético, o coração e o córtex renal. Nesses tecidos
alvos, os ácidos graxos se dissociam da albumina e são levados por transportadores da
membrana plasmática para dentro das células para servir de combustível.

Cerca de 95% da energia biologicamente disponível dos triacilgliceróis


residem nas suas três cadeias longas de ácidos graxos; apenas 5% são fornecidos
pela porção glicerol. O glicerol liberado pela ação da lipase é fosforilado pela
glicerol-cinase, e o glicerol-3-fosfato resultante é oxidado a di-hidroxiacetona
fosfato.

2.2.1 Oxidação dos ácidos graxos


A oxidação dos ácidos graxos ocorre em três etapas (Figura 17). Na
primeira etapa – b-oxidação –, os ácidos graxos sofrem remoção oxidativa de
sucessivas unidades de dois carbonos na forma de acetil-CoA, começando pela
extremidade carboxílica da cadeia acil-graxo. Por exemplo, o ácido palmítico de
16 carbonos passa sete vezes pela sequência oxidativa, perdendo dois carbonos
como acetil-CoA em cada passagem. Ao final de sete ciclos, os dois últimos
carbonos do palmitato permanecem como acetil-CoA. O resultado global é a
conversão da cadeia de 16 carbonos do palmitato em oito grupos acetil de dois
carbonos das moléculas de acetil-CoA. A formação de cada acetil-CoA requer a
remoção de quatro átomos de hidrogênio (dois pares de elétrons e quatro H1) da
porção acil-graxo pelas desidrogenases.

Na segunda etapa da oxidação de ácidos graxos, os grupos acetil da acetil-


CoA são oxidados a CO2 no ciclo do ácido cítrico, que também ocorre na matriz
mitocondrial. A acetil-CoA derivada dos ácidos graxos então entra em uma via de
oxidação final comum com a acetil-CoA derivada da glicose precedente da glicólise
e da oxidação do piruvato. As duas primeiras etapas da oxidação dos ácidos
graxos produzem os transportadores de elétrons reduzidos NADH e FADH2,
que na terceira etapa doam elétrons para a cadeia respiratória mitocondrial, por
meio da qual os elétrons passam para o oxigênio com a fosforilação concomitante
de ADP a ATP (Figura 17). A energia liberada pela oxidação dos ácidos graxos é,
portanto, conservada como ATP (NELSON; COX, 2014).

178
TÓPICO 3 | METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E TRIGLICERÍDEOS

NOTA

Curiosidade:
Muitos animais dependem da gordura armazenada para obter energia durante a hibernação,
em períodos migratórios e em outras situações envolvendo ajustes metabólicos radicais. Um
dos ajustes mais pronunciados do metabolismo de gorduras ocorre nos ursos-pardos em
hibernação. Esses animais permanecem em estado contínuo de dormência por períodos de
até sete meses. Diferente da maioria das espécies hibernantes, o urso mantém a temperatura
corporal entre 32 e 35 °C, próxima ao nível normal (não hibernando). Embora gaste
aproximadamente 25.000 kJ/dia (6.000 kcal/dia), o urso não come, bebe, urina ou defeca
por meses seguidos. Estudos experimentais mostraram que os ursos-pardos em hibernação
utilizam a gordura corporal como seu único combustível. A oxidação das gorduras produz
energia suficiente para manter a temperatura corporal, a síntese ativa de aminoácidos e
proteínas e outras atividades que requerem energia, como o transporte de membrana. A
oxidação das gorduras também libera grandes quantidades de água, que repõem a água
perdida na respiração. O glicerol liberado pela degradação dos triacilgliceróis é convertido
em glicose sanguínea pela gliconeogênese. A ureia formada durante a degradação de
aminoácidos é reabsorvida nos rins e reciclada, os grupos aminos são reutilizados para
produzir novos aminoácidos para manter as proteínas corporais. Os ursos armazenam uma
enorme quantidade de gordura corporal quando em preparação para o seu longo sono. Um
urso-pardo adulto consome cerca de 38.000 kJ/dia durante o final da primavera e o verão,
mas à medida que o inverno se aproxima ele come durante 20 horas por dia, consumindo
até 84.000 kJ por dia. Essa mudança na alimentação é uma resposta a uma mudança sazonal
na secreção de hormônios. Grandes quantidades de triacilgliceróis são formadas a partir da
grande ingestão de carboidratos durante o período de engorda. Outras espécies hibernantes,
incluindo o minúsculo arganaz (camundongo silvestre), também acumulam grandes
quantidades de gordura corporal.

2.2.2 Corpos cetônicos


Em humanos, e na maior parte de outros mamíferos, o acetil-CoA
formado no fígado durante a oxidação dos ácidos graxos pode entrar no ciclo
do ácido cítrico (etapa 2 da Figura 18) ou sofrer conversão a “corpos cetônicos”,
acetona, acetoacetato e D-b-hidroxibutirato, para exportação a outros tecidos. (O
termo “corpos” é um artefato histórico; esse termo é ocasionalmente aplicado a
partículas insolúveis, mas esses compostos são solúveis no sangue e na urina).
A acetona, produzida em menor quantidade do que os outros corpos cetônicos,
é exalada. O acetoacetato é transportado pelo sangue para outros tecidos que
não o fígado (tecidos extra-hepáticos), onde são convertidos a acetil-CoA e
oxidados no ciclo do ácido cítrico, fornecendo muita da energia necessária
para tecidos como o músculo esquelético e cardíaco e o córtex renal. O cérebro,
que usa preferencialmente glicose como combustível, pode se adaptar ao uso
de acetoacetato em condições de jejum prolongado, quando a glicose não está
disponível. A produção e exportação dos corpos cetônicos do fígado para tecidos
extra-hepáticos permite a oxidação contínua de ácidos graxos no fígado quando
acetil-CoA não está sendo oxidada no ciclo do ácido cítrico (RODWEL; MURRAY;
GRANNER, 2017).

179
UNIDADE 3 | METABOLISMO
PRINCÍPIOS DE BIOQUÍ
FIGURA 17 – ETAPAS DA OXIDAÇÃO DE ÁCIDOS GRAXOS
Etapa 1 Etapa 2 na a posição da ligação dupla
CH3 menclatura dos ácidos graxos
CH2 ligação dupla tem configuraçã
CH2 b Oxidação duplas nos ácidos graxos insa
8 Acetil-CoA mente com frequência estão
CH2
cado dessa diferença será ana
CH2
CH2
CH2
(a) b
CH2 (C16 ) R CH2 CH2
CH2
CH2 Ciclo do
CH2 ácido cítrico Acil-CoA-
-desidrogenase
CH2
CH2
CH2 64e2 H
16CO2 R CH2 C
CH2
C O
O]
28e2 Enoil-CoA-
-hidratase

NADH, FADH2
Etapa 3 OH
e2 R CH2 C C
2H+ + 21 O2 H
Cadeia respiratória
(transferência de
elétrons) b -hidroxiacil-CoA-
H2O -desidrogenase

ADP + Pi ATP R CH2 C C


O
FONTE:
FIGURA 177 Etapas daNelson
oxidaçãoede
Cox (2014,
ácidos p. 673)
graxos. Etapa 1: Um ácido
graxo de cadeia longa é oxidado para produzir resíduos de acetil na forma de Acil-CoA-
-acetiltransferase
acetil-CoA. Esse processo é chamado de b-oxidação. Etapa 2: Os grupos acetil (tiolase)
são oxidados a CO2 no ciclo do ácido cítrico. Etapa 3: Os elétrons derivados das
oxidações das etapas 1 e 2 passam ao O2 por meio da cadeia respiratória mito-
2.2.3 Corpos cetônicos são produzidos em excesso (Cno) R
condrial, fornecendo a energia para a síntese de ATP por fosforilação oxidativa. 14 CH2 C S-C

diabetes e durante o jejum O


te de ADP a ATP (Figura 17-7). A energia liberada pela oxi- Acil-CoA
dação dos ácidos graxos é, portanto, conservada como ATP. (miristoil-CoA)
Nelson e Cox (2014) relatam que jejum e diabetes melito não tratado leva
Agora será analisada com mais atenção a primeira etapa
à superprodução dade corpos
oxidação doscetônicos, comcomeçando
ácidos graxos, vários problemas
com o casomédicos
sim- associados.
Durante o jejum,ples
a gliconeogênese consomesaturada
de uma cadeia acil-graxo os intermediários do ciclo
com um número par do ácido cítrico,
(b)
C14
desviando acetil-CoA para aentão
de carbonos, produção depara
passando corpos cetônicos
os casos (Figura
um pouco mais18). No diabetes
complexos
não tratado, quando das de
o nível cadeias insaturadas
insulina ou de número
é insuficiente, ímpar. extra-hepáticos C12
os tecidos
Também será abordada a regulação da oxidação de ácidos
não podem captar a glicose do sangue de maneira eficiente, para combustível ou C10
graxos, os processos b-oxidativos que ocorrem nas outras
para conservação como que
organelas gordura.
não naNessas condições,
mitocôndria os níveis
e, finalmente, duas de
ma- malonil-CoA (o 8
C
material de início para a síntese de ácidos graxos) caem, os ácidos
neiras menos comuns de catabolismo de ácidos graxos, a graxos entram na C6
mitocôndria para ser degradado
a-oxidação a acetil-CoA que não pode passar pelo ciclo do ácido C
e a v-oxidação.
4
cítrico, já que os intermediários do ciclo foram drenados para uso como substrato na
gliconeogênese. AOb-oxidação
acúmulo resultante de acetil-CoA
de ácidos graxos acelera
saturados tem a formação de corpos Acetil -CoA
quatro
cetônicos além da capacidade
passos básicos de oxidação dos tecidos extra-hepáticos. FIGURA 178 A via da b-oxidação
Quatro reações catalisadas por enzimas constituem a pri- quência de quatro passos, um resídu
180 graxos (Figura 17-8a). removido na forma de acetil-CoA da
meira etapa da oxidação de ácidos
graxo – nesse exemplo, o palmitato (C
Primeiro, a desidrogenação da acil-CoA graxo produz uma
RESUMO 17.3 Corpos c
é insuficiente, os tecidos extra-hepáticos não podem captar
a glicose do sangue de maneira eficiente, para combustível c Os corpos cetônicos
ou para conservação como gordura. Nessas condições, os droxibutirato – são f
TÓPICO 3 | METABOLISMO DE ÁCIDOS GRAXOS E TRIGLICERÍDEOS

níveis de malonil-CoA (o material de início para a síntese de compostos servem c


O aumento
ácidosdos níveis
graxos) caem,sanguíneos de acetoacetato diminui tra-hepáticos,
a inibição da carnitina-aciltransferase o pH do por m
I é aliviada, e os ácidos graxos como
entramacidose.
na mitocôndria trada
para extrema pode no ciclo do ácid
sangue, causando a condição conhecida A acidose
ser degradado a acetil-CoA – que não pode passar pelo ciclo c A superprodução de
levar ao coma e do
emácido
alguns casos à morte. Os corpos cetônicos no sangue controlado
cítrico, já que os intermediários do ciclo foram dre-
e na urinaou na red
de indivíduos com
nadosdiabetes não tratado
para uso como substratopode alcançar níveis
na gliconeogênese. extraordinários
O acú- pode levar–à acidose
uma concentraçãomulosanguínea
resultante dede 90 mg/mL
acetil-CoA (comparado
acelera a formação de com o nível normal de
corpos
3 mg/100 ml) ecetônicos
excreção urinária
além de 5.000
da capacidade mg/24hdos
de oxidação (comparado
tecidos ex- com uma taxa
Termos-chave
normal de #125tra-hepáticos.
mg/24h). Essa O aumento
condição dos éníveis sanguíneos
chamada de acetoa-
cetose. Indivíduos em dietas
cetato e D-b-hidroxibutirato diminui o pH do sangue, cau- Os termos em negrito es
hipocalóricas, utilizando as gorduras armazenadas no tecido adiposo como sua
sando a condição conhecida como acidose. A acidose b-oxidação 667
principal fonte extrema
de energia, também
pode levar ao comatême emníveis elevados
alguns de corpos
casos à morte. cetônicos no669
Os quilomícron
sangue e na urina.
corposEsses níveis
cetônicos nodevem
sangue eser namonitorados paracom
urina de indivíduos evitarapolipoproteína
os riscos da 669
acidose e da cetose (cetoacidose) (NELSON; COX, 2014).
diabetes não tratado pode alcançar níveis extraordinários – lipoproteína 669
uma concentração sanguínea de 90 mg/mL (comparado perilipina 669
com o nível normal de , 3 mg/100 mL) e excreção urinária ácidos graxos livres 669
FIGURA 18 – FORMAÇÃO DE CORPOS CETÔNICOS E EXPORTAÇÃO A PARTIRalbumina DO FÍGADOsérica 669
ciclo da carnitina 670
carnitina-aciltransferase I
671
Gotículas de lipídeos
transportador-acil-carniti
carnitina 671
Hepatócito carnitina-aciltransferase I
671
Acetoacetato, proteína trifuncional (TF
D-b-hidroxibutirato,
Acetoacetato e D-b- 674
acetona
-hidroxibutirato, metilmalonil-CoA-mutase
formação de exportados como 678
CoA
corpos cetônicos fonte de energia
para o coração, o
músculo esquelético, Leituras adicionais
Ácidos o rim e o cérebro
graxos
Acetil-CoA Gerais
b-oxidação Boyer, P.D. (1983) The Enzy
Oxaloacetato ciclo do Academic Press, Inc., Sa
ácido
cítrico
Ferry, G. (1998) Dorothy H
Laboratory Press, Cold Sprin
gliconeogênese Glicose exportada Biografia fascinante de u
como combustível
Glicose para o cérebro e Gurr, M.I., Harwood, J.L.,
outros tecidos Biochemistry: An Introduc
UK.
Plutzky, J. (2009) The migh
618–619.
Scheffler, I.E. (1999) Mito
Excelente obra sobre a e
FIGURA 1721 FONTE:
Formação Nelson e Cox
de corpos (2014,ep.exportação
cetônicos 687) a partir
do fígado. As condições que promovem a gliconeogênese (diabetes não Wood, P.A. (2006) How Fat
tratado, redução na ingestão de alimento) desaceleram o ciclo do ácido cítri- Cambridge, MA.
co (pelo consumo do oxaloacetato) e aumentam a conversão de acetil-CoA Relato muito legível, de
Como podemos
em acetoacetato.observar
A coenzima Ana figura
liberada permite apresentada,
a b-oxidação contínua asde condições
contribuiçõesque
da genética e d
promovem a gliconeogênese
ácidos graxos. (diabetes não tratado, redução na doingestão metabolismodelipídico e ob
alimento) desaceleram o ciclo do ácido cítrico e aumentam a conversão de acetil-
CoA em acetoacetato.

Nelson_6ed_book.indb 688

181
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:

• Os ácidos graxos dos triacilgliceróis fornecem uma grande fração da energia


oxidativa nos animais.

• Os triacilgliceróis da dieta são emulsificados no intestino delgado por sais


biliares, hidrolisados pelas lipases intestinais, absorvidos pelas células
epiteliais intestinais, reconvertidos em triacilgliceróis, e então transformados
em quilomícrons pela combinação com apolipoproteínas específicas.

• Os quilomícrons distribuem os triacilgliceróis aos tecidos, onde a lipase


lipoproteica libera ácidos graxos livres para a entrada nas células.

• Os triacilgliceróis armazenados no tecido adiposo são mobilizados por uma


lipase de triacilglicerol sensível a hormônio.

• Os ácidos graxos liberados se ligam à albumina sérica e são transportados


no sangue para o coração, para musculatura esquelética e outros tecidos que
utilizam ácidos graxos como combustíveis.

• Uma vez dentro das células, os ácidos graxos são ativados na membrana
mitocondrial externa pela conversão em tioésteres de acil-CoA graxos.

• A acil-CoA graxo será oxidada entra na mitocôndria em três passos, pelo ciclo
da carnitina.

• Na primeira etapa da b-oxidação, quatro reações retiram cada unidade de


acetil-Coa da extremidade carboxila de um acil-CoA graxo saturado.

• Na segunda etapa da oxidação dos ácidos graxos, o acetil-Coa é oxidado a CO2


no ciclo do ácido cítrico.

• Defeitos genéticos na acil-CoA-desidrogenase de cadeia média resulta em


doenças humanas graves, assim como mutações em outros componentes do
sistema de b-oxidação.

• Os corpos cetônicos – acetona, acetoacetato e D-b-hidroxibutirato – são


formados no fígado. Os dois últimos compostos servem como combustíveis
nos tecidos extra-hepáticos, por meio da oxidação a acetil-CoA e entrada no
ciclo do ácido cítrico.

• A superprodução de corpos cetônicos no diabetes não controlado ou na redução


severa da ingestão de calorias pode levar à acidose ou cetose.
182
AUTOATIVIDADE

1 Um indivíduo desenvolveu uma condição caracterizada por fraqueza


muscular progressiva e dolorosas cãibras musculares. Os sintomas
foram agravados durante o jejum, exercício e dieta rica em gordura. O
homogenato de uma amostra de músculo esquelético do paciente oxida
oleato mais lentamente do que homogenatos controle, consistindo de
amostras de músculo de indivíduos sadios. Quando carnitina foi adicionada
ao homogenato de músculo do paciente, a taxa de oxidação do oleato se
igualou a dos homogenatos controle. O paciente foi diagnosticado como
portador de uma deficiência de carnitina. Nesse contexto, responda às
seguintes questões:

a) Por que a carnitina adicionada aumenta a taxa de oxidação do oleato no


homogenato de músculo do paciente?

b) Por que os sintomas do paciente se agravaram durante o jejum, o exercício


e em dieta rica em gordura?

c) Sugira duas razões possíveis para a deficiência de carnitina muscular desse


indivíduo.

2 Suponha que você tivesse que sobreviver com uma dieta de gordura de
baleia e foca, com pouco ou sem carboidrato. Nesse contexto, responda às
seguintes questões

a) Qual seria o efeito da privação de carboidrato na utilização de gordura para


energia?

b) Se a sua dieta fosse completamente ausente de carboidratos, seria melhor


consumir ácidos graxos de cadeia par ou ímpar? Explique.

3 Quando o acetil-CoA produzido durante a b-oxidação no fígado excede a


capacidade do ciclo do ácido cítrico, o excesso de acetil-CoA forma corpos
cetônicos – acetona, acetoacetato e D-b-hidroxibutirato. Isso ocorre em
diabetes grave não controlada: já que os tecidos não podem usar glicose, eles
oxidam grandes quantidades de ácidos graxos. Apesar de acetil-CoA não ser
tóxico, a mitocôndria deve desviar o acetil-CoA em corpos cetônicos. Qual
problema surgiria se acetil-CoA não fosse convertido a corpos cetônicos?
Como o desvio a corpos cetônicos soluciona esse problema?

183
184
UNIDADE 3
TÓPICO 4

METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico serão abordados os aminoácidos que, por sua degradação
oxidativa, contribuem significativamente para a produção de energia metabólica.
A fração de energia metabólica obtida a partir de aminoácidos, sejam eles
provenientes de proteínas da dieta ou de proteínas teciduais, varia muito de
acordo com o tipo de organismo e com as condições metabólicas. Carnívoros
obtêm (imediatamente após uma refeição) até 90% de suas necessidades
energéticas da oxidação de aminoácidos, enquanto herbívoros obtêm apenas uma
pequena fração de suas necessidades energéticas a partir dessa via. A maior parte
dos microrganismos obtém aminoácidos a partir do ambiente e os utiliza como
combustível quando suas condições metabólicas assim o determinarem. Plantas,
no entanto, nunca ou quase nunca oxidam aminoácidos para produzir energia;
em geral, os carboidratos produzidos a partir de CO2 e H2O na fotossíntese são
sua única fonte de energia. As concentrações de aminoácidos nos tecidos vegetais
são cuidadosamente reguladas para satisfazer às necessidades de biossíntese de
proteínas, ácidos nucleicos e outras moléculas necessárias para o crescimento.
O catabolismo dos aminoácidos não ocorre nas plantas, mas seu propósito é a
produção de metabólitos para outras vias biossintéticas.

Para Nelson e Cox (2014, p. 695), nos animais, os aminoácidos sofrem


degradação oxidativa em três circunstâncias metabólicas diferentes:

1. Durante a síntese e a degradação normais de proteínas celulares,


alguns aminoácidos liberados pela hidrólise de proteínas não são
necessários para a biossíntese de novas proteínas, sofrendo degradação
oxidativa.
2. Quando uma dieta é rica em proteínas e os aminoácidos ingeridos
excedem as necessidades do organismo para a síntese proteica, o
excesso é catabolizado; aminoácidos não podem ser armazenados.
3. Durante o jejum ou no diabetes melito não controlado, quando os
carboidratos estão indisponíveis ou são utilizados de modo inadequado,
as proteínas celulares são utilizadas como combustível.

Em todas essas condições metabólicas, os aminoácidos perdem seu grupo


amino para formar a-cetoácidos, os “esqueletos de carbono” dos aminoácidos.
Os a-cetoácidos sofrem oxidação a CO2 e H2O ou, geralmente mais importante,
fornecem unidades de três e quatro carbonos que podem ser convertidas, pela
gliconeogênese, em glicose, o combustível para o cérebro, para o músculo
esquelético e para outros tecidos (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

185
UNIDADE 3 | METABOLISMO

As vias do catabolismo dos aminoácidos são bastante semelhantes na


maioria dos organismos. O foco deste tópico concentra-se nas vias em vertebrados,
pois essas vias têm recebido maior atenção por parte dos pesquisadores. Assim
como no catabolismo dos carboidratos e dos ácidos graxos, os processos de
degradação de aminoácidos convergem para vias catabólicas centrais, com os
esqueletos de carbono da maioria dos aminoácidos encontrando uma via para
o ciclo do ácido cítrico. Em alguns casos, as reações das vias de degradação dos
aminoácidos representam etapas paralelas ao catabolismo dos ácidos graxos
(NELSON; COX, 2014).

Rodwel, Murray e Granner (2017) relatam que uma característica


importante distingue a degradação dos aminoácidos de outros processos
catabólicos descritos até aqui: todos os aminoácidos contêm um grupo amino,
e as vias para a degradação dos aminoácidos incluem, portanto, uma etapa
fundamental, na qual o grupo a-amino é separado do esqueleto de carbono
e desviado para as vias do metabolismo do grupo amino (Figura 19). Serão
discutidos inicialmente o metabolismo do grupo amino e a excreção do
nitrogênio e, a seguir, o destino dos esqueletos de carbono derivados dos
aminoácidos; ao longo deste estudo, será examinado de que modo essas vias
estão interconectadas. Está curioso? Vamos começar.

6 96 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX
FIGURA 19 – VISÃO GERAL DO CATABOLISMO DOS AMINOÁCIDOS NOS MAMÍFEROS
Proteínas
intracelulares

Proteínas Amino-
da dieta ácidos

NH 4 Esqueletos
de carbono
Biossíntese de
aminoácidos,
nucleotídeos e
aminas biológicas

Carbamoil- a-Cetoácidos
-fosfato

Circuito do
aspartato- Ciclo do
Ciclo da -arginino- ácido
ureia -succinato do cítrico
ciclo do ácido
cítrico

Ureia (produto de Oxaloacetato


excreção do nitrogênio)

Glicose
(sintetizada na
gliconeogênese)

FIGURA 181 FONTE:


Visão geral do catabolismo
Rodwel, Murray dose aminoácidos nos mamíferos.
Granner (2017, p. 589) Os grupos
amino e os esqueletos de carbono tomam vias separadas, porém interconectadas.

186
18.1 Destinos metabólicos dos grupos amino te convertidos em intermediários do ciclo do ácido cítrico:
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

2 DESTINOS METABÓLICOS DOS GRUPOS AMINOS


O nitrogênio, N2, é abundante na atmosfera, mas é inerte para a utilização
na maioria dos processos bioquímicos, pelo fato de que apenas poucos organismos
conseguem converter o N2 em formas biologicamente úteis, como NH3, os grupos
amino são cuidadosamente gerenciados nos sistemas biológicos. A Figura 21 fornece
uma visão geral das vias catabólicas da amônia e dos grupos amino nos vertebrados.

Os aminoácidos derivados das proteínas da dieta são a origem da maioria


dos grupos amino. A maior parte dos aminoácidos é metabolizada no fígado.
Parte da amônia gerada nesse processo é reciclada e utilizada em uma variedade
de vias biossintéticas. O excesso é excretado diretamente ou convertido em ureia
ou ácido úrico para excreção, dependendo do organismo.

O excesso de amônia produzido em outros tecidos (extra-hepáticos)


é enviado ao fígado (na forma de grupos amino, como descrito a seguir) para
conversão em sua forma de excreção. Quatro aminoácidos desempenham papéis
centrais no metabolismo do nitrogênio: glutamato, glutamina, alanina e aspartato.
O lugar especial desses quatro aminoácidos no metabolismo do nitrogênio não é
um acidente evolutivo (BERG; TYMOCZKO; STRYERT, 2015).

PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 697


FIGURA 20 – CATABOLISMO DOS GRUPOS AMINO
Aminoácidos de
proteínas ingeridas

Proteínas Fígado
celulares

C H C O
NH1
4
R R
a-Cetoácidos Amônia (como
Aminoácidos íon amônio)
a-Cetoglutarato
C O C H
Animais amoniotélicos: a
CH2 CH2 Alanina maior parte dos verte-
C H oriunda do brados aquáticos,
CH2 CH2 músculo como peixes ósseos e as
CH3 larvas dos anfíbios

a-Cetoglutarato Glutamato
H 2N C NH2
O
C O Ureia
CH3
Animais ureotélicos:
Piruvato
muitos vertebrados
terrestres; também os
tubarões
C H
Glutamina
CH2
oriunda do O
CH2 músculo e H
de outros C N
tecidos HN C
C C O
O NH2 C C
N N
O H
Glutamina H
Ácido úrico

ureia ou Animais uricotélicos:


ácido úrico aves e répteis

(a) (b)
FONTE: Berg, Tymoczko e Stryert (2015, p. 598)
FIGURA 182 Catabolismo dos grupos amino. (a) Visão geral do cata- ácido úrico (aves e répteis terrestres). Observe que os átomos de carbono da
bolismo dos grupos amino (sombreados) no fígado de vertebrados. (b) For- ureia e do ácido úrico estão altamente oxidados; o organismo descarta car-
187
mas de excreção do nitrogênio. O excesso de NH14 é excretado como amônia bonos apenas após extrair a maior parte da energia de oxidação disponível.
(micróbios, peixes ósseos), ureia (maior parte dos vertebrados terrestres) ou
UNIDADE 3 | METABOLISMO

Esses aminoácidos, em especial, são aqueles mais facilmente convertidos


em intermediários do ciclo do ácido cítrico: glutamato e glutamina que são
convertidos em a-cetoglutarato; alanina em piruvato; e aspartato em oxaloacetato.
Glutamato e glutamina são especialmente importantes, atuando como uma espécie
de ponto de encontro para os grupos amino. No citosol das células do fígado
(hepatócitos), os grupos amino da maior parte dos aminoácidos são transferidos
para o a-cetoglutarato, formando glutamato, que entra na mitocôndria e perde
seu grupo amino para formar NH4. O excesso de amônia produzido na maior
parte dos demais tecidos é convertido no nitrogênio amídico da glutamina,
que circula até chegar ao fígado, entrando na mitocôndria hepática. Glutamina,
glutamato ou ambos estão presentes na maior parte dos tecidos em concentrações
mais elevadas que os demais aminoácidos (NELSON; COX, 2014).

No músculo esquelético, os grupos amino que excedem as necessidades


geralmente são transferidos ao piruvato para formar alanina, outra molécula
importante para o transporte de grupos amino até o fígado. A presente discussão
começa com a degradação das proteínas da dieta e depois faz uma descrição geral
dos destinos metabólicos dos grupos amino.

2.1 AS PROTEÍNAS DA DIETA SÃO ENZIMATICAMENTE


DEGRADADAS ATÉ AMINOÁCIDOS
Em humanos, a degradação das proteínas ingeridas até seus aminoácidos
constituintes acontece no trato gastrintestinal. A chegada de proteínas da dieta ao
estômago estimula a mucosa gástrica a secretar o hormônio gastrina, que por sua
vez, estimula a secreção de ácido clorídrico pelas células parietais e de pepsinogênio
pelas células principais das glândulas gástricas (Figura 22). A acidez do suco
gástrico (pH 1,0 a 2,5) lhe permite funcionar tanto como antisséptico, matando
a maior parte das bactérias e de outras células estranhas ao organismo, quanto
como agente desnaturante, desenovelando proteínas globulares e tornando suas
ligações peptídicas internas mais suscetíveis à hidrólise enzimática.

O pepsinogênio (Mr 40.554), precursor inativo ou zimogênio, é convertido


na pepsina ativa por meio de uma clivagem autocatalisada (clivagem mediada
pelo próprio pepsinogênio) que ocorre apenas em pH baixo. No estômago, a
pepsina hidrolisa as proteínas ingeridas, atuando em ligações peptídicas em
que o resíduo de aminoácido localizado na porção aminoterminal provém dos
aminoácidos aromáticos Phe, Trp e Tyr clivando cadeias polipeptídicas longas
em uma mistura de peptídeos menores (NELSON; COX, 2014).

À medida que o conteúdo ácido do estômago passa para o intestino


delgado, o pH baixo desencadeia a secreção do hormônio secretina na corrente
sanguínea. A secretina estimula o pâncreas a secretar bicarbonato no intestino
delgado, para neutralizar o HCl (ácido clorídrico) gástrico, aumentando
abruptamente o pH, que fica próximo a 7.

188
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

E
IMPORTANT

Todas as secreções pancreáticas chegam ao intestino delgado pelo ducto


pancreático.

A digestão das proteínas prossegue agora no intestino delgado. A chegada


de aminoácidos na parte superior do intestino delgado (duodeno) determina a
liberação para o sangue do hormônio colecistocinina, que estimula a secreção de
diversas enzimas pancreáticas com atividades ótimas em pH 7 a 8. O tripsinogênio,
o quimotripsinogênio e as procarboxipeptidases A e B – os zimogênios da tripsina,
da quimotripsina e das carboxipeptidases A e B – são sintetizados e secretados pelas
células exócrinas do pâncreas (Figura 21b ). O tripsinogênio é convertido em sua
forma ativa, a tripsina, pela enteropeptidase, uma enzima proteolítica secretada pelas
células intestinais. A tripsina livre catalisa então a conversão de moléculas adicionais
de tripsinogênio em tripsina. A tripsina também ativa o quimotripsinogênio, as
procarboxipeptidases e a proelastase (NELSON; COX, 2014).
698 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX

FIGURA 21 – PARTE DO TRATO DIGESTÓRIO HUMANO


(a) Glândulas gástricas no revestimento do estômago

Células
parietais
(secretam HCl)

Células
principais
(secretam
pepsinogênio)
Mucosa gástrica
(secreta gastrina)
pH baixo
Estômago

Pepsinogênio Pepsina
(b) Células exócrinas do pâncreas
Pâncreas

RE
rugoso
pH
7
Grânulos de
Ducto coletor zimogênio
Zimogênios
(c) Vilosidades do intestino
proteases ativas
delgado
Ducto
Intestino
pancreático
delgado

Vilosidade

Mucosa intestinal
(absorve
aminoácidos)

FONTE: Nelson
FIGURA 183 Parte do trato digestório (gastrintestinal) humano. (a)e Cox (2014,
exócrina p. 698)
é estimulada, sua membrana plasmática funde-se com a membra-
As células parietais e as células principais das glândulas gástricas secretam na do grânulo de zimogênio e estes são liberados por exocitose no lúmen
seus produtos em resposta ao hormônio gastrina. A pepsina inicia o pro- do ducto coletor. Os ductos coletores, por fim, levam ao ducto pancreático e
cesso de degradação das proteínas no estômago. (b) O citoplasma das cé-189 daí ao intestino delgado. (c) Os aminoácidos são absorvidos pela camada de
lulas exócrinas é completamente preenchido pelo retículo endoplasmático células epiteliais (mucosa intestinal) das vilosidades e chegam aos capilares.
rugoso, o sítio de síntese dos zimogênios e de muitas enzimas digestivas. Lembre que os produtos da hidrólise dos lipídeos no intestino delgado, após
UNIDADE 3 | METABOLISMO

Qual a razão para esse mecanismo elaborado ativar enzimas digestivas


dentro do trato gastrintestinal? A síntese dessas enzimas como precursores
inativos protege as células exócrinas do ataque proteolítico destrutivo. O pâncreas
se protege ainda mais da autodigestão por meio da síntese de um inibidor
específico, a proteína denominada inibidor pancreático da tripsina, que previne
efetivamente a produção prematura de enzimas proteolíticas ativas dentro das
células pancreáticas.

Para Nelson e Cox (2014, p. 699):

A tripsina e a quimotripsina continuam a hidrólise dos peptídeos


produzidos pela pepsina no estômago. Esse estágio da digestão
proteica é realizado com grande eficiência, pois a pepsina, a tripsina
e a quimotripsina apresentam especificidades distintas quanto aos
aminoácidos sobre os quais atuam. A degradação de pequenos
peptídeos no intestino delgado é então completada por outras
peptidases intestinais. Estas incluem as carboxipeptidases A e B (duas
enzimas que contêm zinco), as quais removem resíduos sucessivos da
extremidade carboxiterminal dos peptídeos e uma aminopeptidase,
que hidrolisa resíduos sucessivos da extremidade aminoterminal
de peptídeos pequenos. A mistura resultante de aminoácidos livre é
transportada para dentro das células epiteliais que revestem o intestino
delgado através dos quais os aminoácidos entram nos capilares
sanguíneos nas vilosidades e são transportados até o fígado. Nos
humanos, a maior parte das proteínas globulares obtidas a partir de
animais é hidrolisada quase completamente até aminoácidos no trato
gastrintestinal, mas algumas proteínas fibrosas, como a queratina, são
digeridas apenas parcialmente. Além disso, o conteúdo proteico de
alguns alimentos obtidos a partir de vegetais está protegido contra a
degradação por envoltórios não digeríveis de celulose.

NOTA

A pancreatite aguda é uma doença causada por obstrução da via normal pela
qual as secreções pancreáticas chegam ao intestino. Os zimogênios das enzimas proteolíticas
são prematuramente convertidos em suas formas cataliticamente ativas dentro das células
pancreáticas e atacam o próprio tecido pancreático. Isso causa dores intensas e lesão ao
órgão, o que pode ser fatal.

2.2 O GLUTAMATO LIBERA SEU GRUPO AMINO NA


FORMA DE AMÔNIA
Como já vimos, os grupos amino de muitos aminoácidos são coletados
no fígado, na forma do grupo amino de moléculas de glutamato. Esses grupos
amino devem ser removidos do glutamato e preparados para excreção. Nos
hepatócitos, o glutamato é transportado do citosol para a mitocôndria, onde

190
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

sofre desaminação oxidativa, catalisada pela L-glutamato-desidrogenase. Nos


mamíferos, essa enzima está presente na matriz mitocondrial. É a única enzima
que utiliza NAD1 ou NADP1 como aceptor de equivalentes redutores (Figura 22).

A ação combinada de uma aminotransferase e da glutamato-desidrogenase


é conhecida como transdesaminação. Uns poucos aminoácidos contornam a via de
transdesaminação e sofrem diretamente desaminação oxidativa. O a-cetoglutarato
formado a partir da desaminação do glutamato pode ser utilizado no ciclo do ácido
cítrico e para a síntese de glicose (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

A glutamato-desidrogenase opera em uma importante intersecção


do metabolismo do carbono e do nitrogênio. Essa enzima alostérica, com seis
subunidades idênticas, tem sua atividade influenciada por um arranjo complicado
de moduladores alostéricos. Os mais bem estudados são o modulador positivo
ADP e o modulador negativo GTP (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

702 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX


FIGURA 22 – REAÇÃO CATALISADA PELA GLUTAMATO-DESIDROGENASE
COO2
1
H3N C H OOC CH2
CH2 NAD(P) 1

CH2 Glutam
2
NAD(P)H -sinte
COO
Glutamato
COO2
1 O O
H2N C
O P O C CH2
CH2
O
CH2
COO2 Glutam
COO2 -sinte

C O H2O
CH2 NH1
4 O
CH2
C CH
COO2 H 2N
a-Cetoglutarato

FIGURAFONTE: Rodwel,
187 Reação Murraypela
catalisada e Granner (2017, p. 604)
glutamato-desidrogenase. A
glutamato-desidrogenase do fígado de mamíferos tem a capacidade inco-
1 1
mum de utilizar tanto NAD quanto NADP como cofator. As glutamato- Glutamina
(mitocôndr
-desidrogenases de plantas e microrganismos normalmente são específicas
2.3 A GLUTAMINA TRANSPORTA A AMÔNIA NA
para um ou outro desses aceptores de elétrons. A enzima dos mamíferos é
hepátic

regulada alostericamente por GTP e ADP.


CORRENTE SANGUÍNEA
zãoémetabólica para esse padrão de regulação ainda(posteriormente
não foi O
A amônia bastante tóxica para os tecidos animais serão
esclarecida em detalhe. Mutações que alterem o sítio alos- C CH2
examinadas algumas possíveis razões para essa toxicidade) e seus níveis no
térico para a ligação do GTP ou que causem ativação per- O
sangue são regulados.
manenteEm muitos tecidos, incluindo
da glutamato-desidrogenase levamoa cérebro, alguns processos,
uma doença
como a degradação de nucleotídeos,
genética geramsíndrome
humana, denominada amôniado livre. Na maioria dos animais,
hiperinsulinis-
mo com hiperamonemia, caracterizada por níveis elevados FIGURA 188 Transporte de
so de amônia nos tecidos é adi
191
de amônia na corrente sanguínea e hipoglicemia. processo catalisado pela glut
corrente sanguínea, a glutamin
UNIDADE 3 | METABOLISMO

a maior parte dessa amônia livre é convertida em um composto não tóxico antes
de ser exportada dos tecidos extra-hepáticos para o sangue e transportada até o
fígado ou até os rins. Para essa função de transporte, o glutamato, essencial para
o metabolismo intracelular do grupo amino é substituído pela L-glutamina. A
amônia livre produzida nos tecidos combina-se com o glutamato, produzindo
glutamina, pela ação da glutamina-sintetase. Essa reação requer ATP e ocorre em
duas etapas (Figura 23). Inicialmente, o glutamato e o ATP reagem para formar
ADP e um intermediário g-glutamil-fosfato, que então reage com a amônia,
produzindo glutamina e fosfato inorgânico (NELSON; COX, 2014).
M I C H A E L M . COX
FIGURA 23 – TRANSPORTE DE AMÔNIA NA FORMA DE GLUTAMINA
NH3
OOC CH2 CH2 CH COO
L-Glutamato
AD(P)1
ATP
Glutamina-
NAD(P)H -sintetase
ADP

COO2
1 O O NH3
H2N C
O P O C CH2 CH2 CH COO
CH2 g-Glutamil-fosfato
O
CH2
NH4
COO2 Glutamina-
-sintetase
Pi
H2O
NH1 NH3
4 O
C CH2 CH2 CH COO
H 2N
L-Glutamina
ela glutamato-desidrogenase. A
e mamíferos tem a capacidade inco-
Glutaminase H2O
NADP1 como cofator. As glutamato-
(mitocôndria
nismos normalmente são específicas
hepática)
elétrons. A enzima dos mamíferos é NH4 Ureia
DP.

O NH3
ão de regulação ainda não foi
ções que alterem o sítio alos- C CH2 CH2 CH COO
ou que causem ativação per- O
ogenase levam a uma doença L-Glutamato
a síndrome do hiperinsulinis-
cterizada por níveis elevados FIGURA 188 FONTE: Nelson
Transporte e Cox
de amônia (2014,
na forma dep. 703) O exces-
glutamina.
so de amônia nos tecidos é adicionado ao glutamato para formar glutamina,
nea e hipoglicemia. processo catalisado pela glutamina-sintetase. Após ser transportada pela
corrente sanguínea, a glutamina entra no fígado e NH41 é liberado na mito-
mônia na corrente A glutamina é pela
côndria uma forma
enzima de transporte não tóxico para
glutaminase. a amônia; ela
normalmente está presente no sangue em concentrações muito maiores que os
demais
ra os tecidos animaisaminoácidos. A glutamina
(poste- A glutamina também
é uma forma servenão
de transporte como
tóxicofonte
para ade grupos amino
em várias reações
lgumas possíveis razões para amônia; ela normalmente está presente no sangue emencontrada
biossintéticas. A glutamina-sintetase é con- em todos
os organismos, sempre desempenhando um papel metabólico central. Nos
is no sangue são regulados. centrações muito maiores que os demais aminoácidos. A
o cérebro, alguns processos, glutamina também serve como fonte de grupos amino em
microrganismos, essa enzima serve como via de entrada essencial do nitrogênio
ídeos, geram amônia livre. Na várias reações biossintéticas. A glutamina-sintetase é en-
arte dessafixado em ésistemas
amônia livre biológicos.
con- contrada em todos os organismos, sempre desempenhan-
óxico antes de ser exportada do um papel metabólico central. Nos microrganismos, essa
ara o sangue e transportada 192 essencial do nitrogênio
enzima serve como via de entrada
ra essa função de transporte, fixado em sistemas biológicos. (Os papéis da glutamina e
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

Na maioria dos animais terrestres, a glutamina que excede as


necessidades de biossíntese é transportada pelo sangue para o
intestino, o fígado e os rins, para ser processada. Nesses tecidos, o
nitrogênio amídico é liberado como íon amônio na mitocôndria, onde
a enzima glutaminase converte glutamina em glutamato e NH4 1. O
NH4 do intestino e dos rins é transportado no sangue para o fígado. No
fígado, a amônia de todas essas fontes é utilizada na síntese da ureia.
Parte do glutamato produzido na reação da glutaminase pode ser
adicionalmente processado no fígado pela glutamato-desidrogenase,
liberando mais amônia e produzindo esqueletos de carbono para
utilização como combustível. Contudo, a maior parte do glutamato
entra em reações de transaminação necessárias para a biossíntese de
aminoácidos e para outros processos (NELSON; COX, 2014, p. 703).

NOTA

Você sabia?
Na acidose metabólica há um aumento do processamento da glutamina pelos rins. Nem
todo o excesso de NH4 assim produzido é liberado para a corrente sanguínea ou convertido
em ureia; parte é excretado diretamente na urina. No rim, o NH4 forma sais com ácidos
metabólicos, facilitando sua remoção na urina. O bicarbonato produzido pela descarboxilação
do a-cetoglutarato no ciclo do ácido cítrico também pode funcionar como tampão no
plasma sanguíneo. Tomados em conjunto, esses efeitos do metabolismo da glutamina no
rim tendem a contrabalançar a acidose.

2.4 A ALANINA TRANSPORTA A AMÔNIA DOS MÚSCULOS


ESQUELÉTICOS PARA O FÍGADO

A alanina também desempenha um papel especial no transporte dos
grupos amino para o fígado em uma forma não tóxica, por meio de uma via
denominada ciclo da glicose-alanina (Figura 24). No músculo e em alguns
outros tecidos que degradam aminoácidos como combustíveis, os grupos
amino são coletados na forma de glutamato, por transaminação. O glutamato
pode ser convertido em glutamina para transporte ao fígado, como descrito
anteriormente, ou pode transferir seu grupo a-amino para o piruvato, produto da
glicólise muscular facilmente disponível, pela ação da alanina-aminotransferase.
A alanina produzida passa para o sangue e segue para o fígado. No citosol dos
hepatócitos, a alanina-aminotransferase transfere o grupo amino da alanina
para o a-cetoglutarato, formando piruvato e glutamato. O glutamato entra na
mitocôndria, onde a reação da glutamato-desidrogenase libera NH4 ou sofre
transaminação com o oxaloacetato para formar aspartato, outro doador de
nitrogênio para a síntese de ureia (NELSON; COX, 2014).

193
UNIDADE 3 | METABOLISMO

A utilização de alanina para o transporte da amônia dos músculos


esqueléticos para o fígado é outro exemplo da economia intrínseca dos organismos
vivos. Os músculos esqueléticos em contração vigorosa operam anaerobiamente,
produzindo piruvato e lactato pela glicólise, assim como amônia pela degradação
proteica. De algum modo, esses produtos devem chegar ao fígado, onde o piruvato
e o lactato são incorporados na glicose, que volta aos músculos, e a amônia é
convertida em ureia para excreção. O ciclo da glicose-alanina, em conjunto com
o ciclo de Cori, realiza essa operação. O custo energético da gliconeogênese é
assim imposto ao fígado e não ao músculo, e todo o ATP disponível no músculo
é destinado à contração muscular (NELSON; COX, 2014).
PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 703
FIGURA 24 – O CICLO DA GLICOSE-ALANINA
transportado no sangue para Proteína
de todas essas fontes é utili- muscular
te do glutamato produzido na
ser adicionalmente processa- Aminoácidos
desidrogenase, liberando mais Músculo
tos de carbono para utilização NH4
1

a maior parte do glutamato


minação necessárias para a Glicose Piruvato
Glicólise Glutamato
e para outros processos (Ca-
Alanina-
-aminotransferase
(p. 688), há um aumento do
amina pelos rins. Nem todo o a-Cetoglutarato
ido é liberado para a corrente Alanina
reia; parte é excretado direta-
1
4 forma sais com ácidos meta-
Alanina
ção na urina. O bicarbonato Glicose sanguínea
ão do a-cetoglutarato no ciclo sanguínea
e funcionar como tampão no
em conjunto, esses efeitos do Fígado Alanina
rim tendem a contrabalançar a-Cetoglutarato

Alanina-
-aminotransferase

ia dos músculos Glutamato


Glicose Piruvato
Gliconeogênese
ha um papel especial no trans-
o fígado em uma forma não NH1 4

enominada ciclo da glicose-


Ciclo da ureia
músculo e em alguns outros
ácidos como combustível, os Ureia
na forma de glutamato, por
). O glutamato pode ser con- FIGURA 189 FONTE: O ciclo daNelson e Cox A(2014,
glicose-alanina. alanina p. 703)como trans-
funciona
ansporte ao fígado, como des- portadora de amônia e do esqueleto de carbono do piruvato do músculo
transferir seu grupo a-amino esquelético até o fígado. A amônia é excretada, e o piruvato é utilizado para
produzir glicose, que é devolvida ao músculo.
glicólise muscular facilmente
2.5 A AMÔNIA É TÓXICA PARA OS ANIMAIS
nina-aminotransferase (Fi-
roduzida passa para o sangue
sol dos hepatócitos, a alanina- A amônia é tóxica para os animais
A produção catabólica de amônia impõe um sério problema bioquímico,
A produção catabólica de amônia impõe um sério pro-
grupo amino da alanina para
por ser muito
piruvato e glutamato. O glu- tóxica. A base
blema molecular
bioquímico, por para essatóxica.
ser muito toxicidade não é completamente
A base mole-
ôndria, ondecompreendida.
a reação da glu- Os estágios
cular para essafinais da
toxicidade intoxicação
não é completamente por amônia
compreen- em humanos são
1
NH4 (Figura 18-7), ou sofre dida. Os estágios finais da intoxicação por amônia em
caracterizados por indução de um estado de coma, acompanhado por edema cerebral
cetato para formar aspartato, humanos são caracterizados por indução de um estado de
(aumento
ara a síntese de ureia. no conteúdo de água do por
coma, acompanhado cérebro) e aumento
edema cerebral (aumento da pressão
no con- intracraniana, de
modo que
para o transporte pesquisas
da amônia e especulações
teúdo de água do cérebro) eme torno
aumento dadaintoxicação
pressão intracra- por amônia têm sido
ara o fígado é outro exemplo niana, de modo que pesquisas e especulações em torno da
focalizadas nesse tecido (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).
rganismos vivos. Os músculos intoxicação por amônia têm sido focalizadas nesse tecido.
gorosa operam anaerobiamen- As especulações centralizam-se em uma possível depleção
ato pela glicólise, assim como do ATP nas células do cérebro.
194
teica. De algum modo, esses A amônia facilmente cruza a barreira hematoencefálica,
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

As especulações centralizam-se em uma possível depleção do ATP nas


células do cérebro. A amônia facilmente cruza a barreira hematoencefálica, de
modo que qualquer condição que aumente os níveis de amônia na circulação
sanguínea também exporá o cérebro a altas concentrações. O cérebro em
desenvolvimento é mais suscetível aos efeitos deletérios do íon amônio que o
cérebro adulto. Os danos causados pela toxicidade do amônio incluem perda de
neurônios, alteração na formação de sinapses e deficiência geral no metabolismo
energético celular (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

2.6 EXCREÇÕES DE NITROGÊNIO E CICLO DA UREIA


Se não forem reutilizados para a síntese de novos aminoácidos ou de
outros produtos nitrogenados, os grupos amino são canalizados em um único
produto de excreção. A maioria das espécies aquáticas, como os peixes ósseos,
é amoniotélica e excreta o nitrogênio amínico como amônia. A amônia tóxica é
simplesmente diluída na água do ambiente. Os animais terrestres necessitam de
vias para a excreção do nitrogênio que minimizem a toxicidade e a perda de água.
A maior parte dos animais terrestres é ureotélica e excreta o nitrogênio amínico
na forma de ureia; aves e répteis são uricotélicos, excretando o nitrogênio amínico
como ácido úrico (NELSON; COX, 2014).

As plantas reciclam praticamente todos os grupos amino, e a excreção


de nitrogênio ocorre apenas em circunstâncias muito incomuns. Nos organismos
ureotélicos, a amônia depositada na mitocôndria dos hepatócitos é convertida em
ureia no ciclo da ureia. Essa via foi descoberta em 1932, por Hans Krebs (que mais
tarde também descobriu o ciclo do ácido cítrico) e seu colaborador, Kurt Henseleit,
estudante de medicina. A produção de ureia ocorre quase exclusivamente no
fígado, sendo o destino da maior parte da amônia canalizada para esse órgão.
A ureia passa para a circulação sanguínea e chega aos rins, sendo excretada na
urina (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017). A produção de ureia será o foco
da nossa discussão.

2.7 A UREIA É PRODUZIDA A PARTIR DA AMÔNIA


O ciclo da ureia inicia dentro da mitocôndria hepática, mas três de suas
etapas seguintes ocorrem no citosol; o ciclo abrange dois compartimentos celulares.
O primeiro grupo amino que entra no ciclo da ureia é derivado da amônia na
matriz mitocondrial – a maior parte desses NH4 é fornecida pelas vias descritas
anteriormente. O fígado também recebe parte da amônia pela veia porta, sendo
essa amônia produzida no intestino pela oxidação bacteriana de aminoácidos.
Qualquer que seja sua fonte, o NH4 presente na mitocôndria hepática é utilizado
imediatamente, juntamente ao CO2 produzido pela respiração mitocondrial,
para formar carbamoil-fosfato na matriz (Figura 25). Essa reação é dependente
de ATP, sendo catalisada pela carbamoil-fosfato-sintetase I, enzima regulatória
(RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).
195
ocorre via um intermediário citrulil-AMP (Figura 18-11b). Contudo, cada ciclo opera independentemente e a comuni-
O arginino-succinato é então clivado pela arginino-succi- cação entre eles depende do transporte de intermediários-
nase (etapa ➌ na Figura 18-10), formando arginina e fuma- -chave entre a mitocôndria e o citosol. Os principais trans-
rato; este3último
UNIDADE é convertido em malato e a seguir entra na
| METABOLISMO portadores na membrana interna da mitocôndria incluem
mitocôndria para unir-se aos intermediários do ciclo do áci- o transportador malato-a-cetoglutarato, o transportador
-
do cítrico. Esse passo é a única reação reversível do ciclo da glutamato-aspartato e o transportador glutamato-OH . Jun-
FIGURA 25 – REAÇÕES QUE CAPTAM NITROGÊNIO NO CICLO DA UREIA

ADP
ADP Pi ATP ADP
O O O O O O O
– –O – –
O P O C OH O P O C OH H2N C O H2N C O P O–
– Bicarbonato
❶ –
❷ Carbamato
❸ –
O O O

:
NH3
ATP O bicarbonato A amônia O carbamato
é fosforilado Anidrido desloca o é fosforilado, Carbamoil-fosfato
pelo ATP. carbônico-ácido grupo produzindo
fosfórico fosforila, carbamoil-
gerando fosfato.
(a) carbamato.

Adenosina COO–
+ +
:

NH2 NH2 NH2 COO–

:
O H2N C H
O C AMP O C C N C H
–O P O CH2 H
PPi AMP
NH NH NH CH2
O COO–

+ (CH2)3 (CH2)3 Aspartato (CH2)3 COO–
O P O + ❶ + ❷ +
H C NH3 H C NH3 H C NH3
O Um rearranjo leva à A adição de aspartato é
– COO– adição de AMP, COO– facilitada pelo desloca- COO–
O P O
Citrulina ativando o oxigênio da Citrulil-AMP mento do AMP. Arginino-succinato

O carbonila da citrulina.
ATP
(b)

MECANISMO  FIGURA 1811 Reações FONTE: Rodwel,


que captam nitrogênioMurray
no ci- evras,
Granner (2017,
essa reação p.dois
apresenta 617)passos de ativação (➊ e ➌). Mecanismo da
clo da ureia. Os átomos de nitrogênio da ureia são obtidos por meio de carbamoil-fosfato sintetase (b) Na reação catalisada pela arginino-succina-
duas reações que necessitam de ATP. (a) Na reação catalisada pela carba- to-sintetase, o segundo nitrogênio entra no ciclo, a partir do aspartato. A
moil-fosfato-sintetase I, entra o primeiro átomo de nitrogênio, sob a forma ativação do oxigênio do grupo ureído da citrulina no passo ➊ prepara o
de amônia. Os grupos fosfato terminais de duas moléculas de ATP são uti- composto para a adição do aspartato, no passo ➋. Mecanismo da arginino-
Nelson e Cox (2014, p. 706) relatam que:
lizados para formar uma molécula de carbamoil-fosfato. Em outras pala- -succinato sintetase

O carbamoil-fosfato, que funciona como doador ativado de grupos


carbamoila, entra no ciclo da ureia. O ciclo tem apenas quatro etapas
enzimáticas. Primeiro, o carbamoil--fosfato doa seu grupo carbamoila
para a ornitina, formando citrulina, com a liberação de Pi (etapa 1).
Nelson_6ed_book.indb 706
A reação é catalisada pela ornitina-transcarbamoilase. A ornitina 03/04/14 07:45

não é um dos 20 aminoácidos encontrados nas proteínas, mas é um


intermediário-chave no metabolismo do nitrogênio. Ela é sintetizada a
partir do glutamato. A ornitina desempenha um papel que se assemelha
àquele do oxaloacetato no ciclo do ácido cítrico, aceitando material a
cada volta do ciclo da ureia. A citrulina produzida no primeiro passo
do ciclo da ureia passa da mitocôndria para o citosol. Os próximos
dois passos trazem o segundo grupo amino. A fonte é o aspartato
produzido na mitocôndria por transaminação e transportado para o
citosol. A reação de condensação entre o grupo amino do aspartato e o
grupo ureído (carbonila) da citrulina forma arginino-succinato (etapa
2). Essa reação citosólica, catalisada pela arginino-succinato-sintetase,
requer ATP e ocorre via um intermediário citrulil-AMP. O arginino-
succinato é então clivado pela arginino-succinase (etapa 3), formando
arginina e fumarato; este último é convertido em malato e a seguir
entra na mitocôndria para unir-se aos intermediários do ciclo do ácido
cítrico. Esse passo é a única reação reversível do ciclo da ureia. Na
última etapa do ciclo (etapa 4), a enzima citosólica arginase cliva a
arginina, produzindo ureia e ornitina. A ornitina é transportada para
a mitocôndria para iniciar outra volta do ciclo da ureia.

196
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

2.8 DEFEITOS GENÉTICOS DO CICLO DA UREIA PODEM


SER FATAIS
Pessoas com defeitos genéticos em qualquer das enzimas envolvidas na
formação de ureia não toleram dietas ricas em proteína. Os aminoácidos ingeridos
em excesso, além das necessidades mínimas diárias para a síntese proteica, são
desaminados no fígado, produzindo amônia livre, que não pode ser convertida
em ureia para ser exportada para a corrente sanguínea e, como já foi frisado, a
amônia é altamente tóxica. A ausência de uma enzima do ciclo da ureia pode
resultar em hiperamonemia ou no aumento de um ou mais intermediários do ciclo
da ureia, dependendo da enzima que estiver faltando. Uma vez que a maioria das
etapas do ciclo da ureia é irreversível, a ausência de uma atividade enzimática
frequentemente pode ser identificada pela determinação de qual intermediário do
ciclo está presente em concentrações especialmente altas no sangue e/ou na urina.
Embora a degradação dos aminoácidos possa apresentar sérios problemas para
a saúde das pessoas com deficiências no ciclo da ureia, uma dieta desprovida de
proteínas não é uma opção de tratamento. Humanos são incapazes de sintetizar
metade dos vinte aminoácidos proteicos, e esses aminoácidos essenciais devem
estar presentes na dieta (NELSON; COX, 2014).

Uma variedade de tratamentos é disponibilizada para pessoas com defeitos


no ciclo da ureia. A administração cuidadosa na dieta dos ácidos aromáticos
benzoato ou fenilbutirato pode ajudar a diminuir os níveis de amônia no sangue.

2.9 VIAS DE DEGRADAÇÃO DOS AMINOÁCIDOS


As vias do catabolismo dos aminoácidos, em conjunto, representam
normalmente apenas 10 a 15% da produção de energia no organismo humano;
essas vias são bem menos ativas que a glicólise e a oxidação dos ácidos graxos.
O fluxo, ao longo das vias catabólicas, também varia muito, dependendo do
equilíbrio entre as necessidades para processos biossintéticos e a disponibilidade
de determinado aminoácido. As 20 vias catabólicas convergem para formar
apenas seis produtos principais, os quais podem entrar no ciclo do ácido
cítrico (Figura 26). Desse ponto, os esqueletos de carbono tomam vias distintas,
sendo direcionados para a gliconeogênese ou para a cetogênese, ou oxidados
completamente a CO2 e H2O (BERTUZZI et al., 2008).

Sete dos aminoácidos podem ter seus esqueletos de carbono, total ou


parcialmente, degradados para produzir acetil-CoA. Cinco aminoácidos são
convertidos em a-cetoglutarato, quatro em succinil-CoA, dois em fumarato e
dois em oxaloacetato. Seis aminoácidos têm seu esqueleto carbonado, total ou
parcialmente, convertido em piruvato, o qual pode ser transformado em acetil-
CoA ou em oxaloacetato (NELSON; COX, 2014).

197
UNIDADE 3 | METABOLISMO
PRINCÍPIOS DE BIOQUÍMICA DE LEHNINGER 711
FIGURA 26 – RESUMO DO CATABOLISMO DOS AMINOÁCIDOS
Leucina Arginina
Lisina Glutamina
Glutamato
Fenilalanina Corpos Histidina
Triptofano cetônicos Prolina
Tirosina

Isocitrato a -Cetoglutarato

Acetoacetil-CoA Ciclo do Isoleucina


ácido Metionina
Citrato Succinil-CoA
cítrico Treonina
Valina
Acetil-CoA Succinato

Oxaloacetato Fumarato Fenilalanina


Tirosina
Malato
CO2

Piruvato
Glicose

Alanina
Cisteína
Isoleucina Glicina
Leucina Serina Glicogênicos
Treonina Treonina Asparagina
Triptofano Cetogênicos
Triptofano Aspartato

RA 1815 FONTE:OsNelson
Resumo do catabolismo dos aminoácidos. aminoá-e Cox (2014,
Figuras 18-19p.e 705)
18-27), e a importância de determinada via pode variar com
estão agrupados conforme seu principal produto final de degradação. o organismo e as condições metabólicas. Aminoácidos glicogênicos e ceto-
ns aminoácidos estão listados mais de uma vez, pois diferentes partes gênicos também estão delineados na figura, sombreados em cores. Observe
us esqueletos de carbono são degradadas em diferentes produtos fi- que cinco aminoácidos são tanto glicogênicos quanto cetogênicos. Os ami-
2.10 O CATABOLISMO DA FENILALANINA /
A figura mostra as vias catabólicas mais importantes em vertebrados; noácidos que produzem piruvato também são potencialmente cetogênicos.
ntudo, variações menores entre diferentes espécies de vertebrados. A Apenas dois aminoácidos, lisina e leucina, são exclusivamente cetogênicos.
FENILCETONÚRIA
na, por exemplo, é degradada por no mínimo duas vias diferentes (ver

e ser transformado Considerando


em acetil-CoA ouque muitos aminoácidos
em oxaloacetato. são neurotransmissores,
-CoA é convertida em acetoacetato e, então, ouem acetona e
precursores de neurotransmissores, ou antagonistas deles, não é de surpreender
eriormente, serão resumidas as vias individuais para os b-hidroxibutirato (ver Figura 17-19). Esses são aminoáci-
minoácidosqueemdefeitos
diagramasgenéticos
de fluxo,no metabolismo
cada um levando dos dosaminoácidos
cetogênicos possam causarSua
(Figura 18-15). prejuízo
capacidade de pro-
no desenvolvimento neural e deficiência intelectual. Em muitas dessas doenças,
m ponto específico de entrada no ciclo do ácido cítri- duzir corpos cetônicos é especialmente evidente no diabe-
Nesses diagramas, os átomos de carbono que entram tes melito não controlado, quando o fígado produz grandes
intermediários específicos se acumulam. Por exemplo, um defeito genético na
iclo do ácido cítrico são mostrados coloridos. Observe quantidades de corpos cetônicos a partir de ácidos graxos e
fenilalanina-hidroxilase,
alguns aminoácidos aparecem mais deauma primeira enzima
vez, refle- na via catabólica
de aminoácidos da fenilalanina, é
cetogênicos.
responsável
o diferentes destinos para pela doença
diferentes fenilcetonúria
partes de seus es- (PKU), a causa mais
Os aminoácidos comumem
degradados depiruvato,
níveis a-cetoglu-
elevadosEm
etos de carbono. devez
fenilalanina
de examinar nocada
sangue
etapa(hiperfenilalaninemia).
de tarato, succinil-CoA, fumarato e/ou oxaloacetato podem
via no catabolismo dos aminoácidos, serão destacadas ser convertidos em glicose e glicogênio pelas vias des-
uma discussão especial algumas reações enzimáticas critas nos Capítulos 14 e 15. Esses são aminoácidos gli-
A fenilalanina-hidroxilase é uma enzima de uma classe geral de enzimas
elevância particular, devido a seus mecanismos ou seu cogênicos. Aminoácidos glicogênicos e cetogênicos não
denominadas
ficado médico. oxidases de função mista, são que catalisam
excludentes entresimultaneamente
si; cinco aminoácidosa– triptofano,
hidroxilação de um substrato por um átomo de oxigênio do O2 e a redução
fenilalanina, tirosina, treonina do – são tanto
e isoleucina
outro átomo de oxigênio em
uns aminoácidos são convertidos em glicose, outros H 2
O. A fenilalanina-hidroxilase
cetogênicos quanto requer
glicogênicos. Oo cofator
catabolismo dos ami-
tetra-hidrobiopterina, que transfere elétrons do NADPH ao oxigênio, oxidando-se
noácidos é especialmente crítico para a sobrevivência de
corpos cetônicos animais em dietas ricas em proteína ou durante o jejum.
a di-hidrobiopterina no processo (Figura 27). Em seguida, esse cofator é reduzido
ete aminoácidos inteira ou parcialmente degradados A leucina é um aminoácido exclusivamente cetogênico,
pela enzima
acetoacetil-CoA di-hidrobiopterina-redutase,
e/ou acetil-CoA – fenilalanina, tirosina, em uma
muito comum reação que requer
em proteínas. Sua NADPH
degradação contribui
(NELSON;
eucina, leucina, COX,treonina
triptofano, 2014). e lisina – podem substancialmente para a cetose em condições de jejum
duzir corpos cetônicos no fígado, onde a acetoacetil- prolongado.
198
TÓPICO 4 | METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

720 D AV I D L . N E L S O N & M I C H A E L M . COX


FIGURA 27 – REAÇÃO DA FENILALANINA-HIDROXILASE
H H 1

1 H2N N N H NH3
NAD(P) 8
7
6
H CH2 CH COO2
HN 5
N CH CH CH3
O H H Fenilalanina
OH OH O2
Di-hidrobiopterina- 5,6,7,8-Tetra-hidrobiopterina Fenilalanina-
-redutase -hidroxilase
H2O
H H 1
HN N N H NH3
HO CH2 CH COO2
NAD(P)H HN
1 H1 N CH CH CH3
H Tirosina
O H
OH OH
7,8-di-hidrobiopterina
(forma quinonoide)

FIGURA 1824 O papel da tetra-hidrobiopterina na


FONTE: Nelson
reação da fenila- e Cox (2014, p. 719)
do diretamente do C-4 para o C-3 na reação. Essa característica, descober
lanina-hidroxilase. O átomo de H sombreado em cor-de-rosa é transferi- no National Institute of Health (NIH), é denominada “troca NIH”.

Em pessoas com PKU, uma rota secundária do metabolismo da fenilalanina,


normalmente
-hidrobiopterina no processopouco
(Figura 18-24). Em
utilizada, passa a desempenhar
seguida, terina tambémum papel mais
é necessária para aproeminente.
formação de L-3,4-di-hidr
esse cofator é reduzido pela enzima di-hidrobiopterina- xifenilalanina (L-dopa), precursor dos neurotransmissores d
Nessa rota, a fenilalanina sofre transaminação
-redutase, em uma reação que requer NADPH.
com o piruvato, produzindo
pamina e noradrenalina, e de 5-hidroxitriptofano, precurso
fenilpiruvato. A fenilalanina e o fenilpiruvato acumulam-se
Em pessoas com PKU, uma rota secundária do metabo- do neurotransmissor serotonina. no sangue e nos desse tip
Na fenilcetonúria
tecidos enormalmente
lismo da fenilalanina, são excretados poucona urina passa
utilizada, – daíao nome “fenilcetonúria”.
esses precursores devem serUma supridos quantidade
na dieta. A suplement
desempenhar considerável
um papel maisde fenilpiruvato
proeminente. Nessa não
rota, éa excretada
feni- ção dacomo
dieta tal,
com mas sofre
a própria descarboxilação
tetra-hidrobiopterina é ineficient
lalanina sofre transaminação com o piruvato, produzindo fe- pois ela é instável e não cruza a barreira hematoencefálica.
a fenilacetato ou redução a fenil-lactato. O fenilacetato confere à urina um odor
nilpiruvato (Figura 18-25). A fenilalanina e o fenilpiruvato A triagem de doenças genéticas em recém-nascidos pod
acumulam-se característico,
no sangue e nos tradicionalmente utilizado
tecidos e são excretados na por enfermeiros
apresentar uma relação para detectar PKU
custo-benefício em favoráve
bastante
urina – daí bebês
o nome(RODWEL;
“fenilcetonúria”.MURRAY; GRANNER,
Uma quantidade consi- 2017).
derável de fenilpiruvato não é excretada como tal, mas sofre
descarboxilação a fenilacetato
O acúmulo ou redução a fenil-lactato.ou
de fenilalanina O de seus metabólitos no início 1
NH3 da vida
fenilacetato confere à urina um odor característico, tradicio-
prejudica o desenvolvimento normal
nalmente utilizado por enfermeiros para detectar PKU em be- do cérebro, causando CHgrave
2 CH deficiência
COO2
intelectual.
bês. O acúmulo Issooupode
de fenilalanina de seusser causado
metabólitos pelo excesso de fenilalanina, que compete
no iní- Fenilalanina
cio da vida com outros
prejudica aminoácidos
o desenvolvimento pelodotransporte
normal cérebro, através da barreira hematoencefálica, 2
CH3 C COO
resultando
causando grave deficiênciaem déficitIsso
intelectual. depodemetabólitos
ser causado necessários. A fenilcetonúria está entre
pelo excesso de fenilalanina, que compete com outros ami- O
os primeiros defeitos metabólicos
noácidos pelo transporte através da barreira hematoencefáli-
herdados do metabolismo descobertos em
Piruvato
humanos. Quando essa condição
ca, resultando em déficit de metabólitos necessários. é identificada nos primeiros dias
Aminotransferase PLP de vida, a
deficiência
A fenilcetonúria está intelectual podedefeitos
entre os primeiros ser prevenida
meta- pelo controle rígido da dieta, a qual
deve dosuprir fenilalanina apenas suficiente para atender às necessidades de síntese
1
bólicos herdados metabolismo descobertos em humanos. NH3
Quando essa condição é identificada nos primeiros dias de
proteica. O consumo de alimentos ricos em proteínas deve ser reduzido. CH Proteínas
3 CH COO2
vida, a deficiência intelectual pode ser prevenida pelo con-
trole rígidonaturais,
da dieta, a como
qual devea caseína do leite,apenas
suprir fenilalanina devem ser primeiramente hidrolisadas eAlanina boa
parte
suficiente para da fenilalanina
atender às necessidadesdeve ser removida
de síntese proteica. para que o paciente receba O uma dieta
O consumoadequada,
de alimentospelo
ricos menos durante
em proteínas toda
deve ser a sua infância (NELSON; COX,
redu- CH2 C2014). COO2
zido. Proteínas naturais, como a caseína do leite, devem ser
primeiramente hidrolisadas e boa parte da fenilalanina deve Fenilpiruvato
ser removida para que o paciente receba uma dieta adequa- CO2
da, pelo menos durante toda a sua infância. Uma vez que o H2O
adoçante artificial aspartame é um dipeptídeo contendo as-
partato e um metil-éster da fenilalanina (ver Figura 1-24b), OH
alimentos adoçados com aspartame contêm avisos dirigidos CH2 COO 2
CH2 CH COO2
a pessoas recebendo dietas em que o conteúdo de fenilalani-
na deve ser controlado. Fenilacetato Fenil-lactato
A fenilcetonúria também pode ser causada por um defeito FIGURA 1825 Rotas alternativas para o catabolismo da fenil
na enzima que catalisa a regeneração da tetra-hidrobiopterina lanina na fenilcetonúria. Na PKU, o fenilpiruvato se acumula n
(Figura 18-24). O tratamento, nesse caso, é mais complexo 199 do tecidos, no sangue e na urina. A urina pode ainda conter fenilaceta
que a restrição da ingestão de fenilalanina. A tetra-hidrobiop- e fenil-lactato.
RESUMO DO TÓPICO 4

Neste tópico, você aprendeu que:

• Humanos obtêm uma pequena fração de sua energia oxidativa a partir do


catabolismo dos aminoácidos.

• Os aminoácidos provêm da degradação normal de proteínas celulares


(reciclagem), da degradação de proteínas da dieta e da degradação de proteínas
teciduais no lugar de outros combustíveis, durante o jejum ou no diabetes
melito não controlado.

• Proteases degradam as proteínas da dieta no estômago e no intestino delgado. A


maioria das proteases é primeiramente sintetizada como zimogênios inativos.

• A primeira etapa no catabolismo dos aminoácidos é separar o grupo amino do


esqueleto de carbono.

• O glutamato é transportado à mitocôndria hepática, onde a glutamato-


desidrogenase libera o grupo amino na forma de íon amônio (NH4).

• O piruvato produzido pela desaminação da alanina no fígado é convertido


em glicose, a qual é transportada de volta ao músculo como parte do ciclo da
glicose-alanina.

• A amônia é altamente tóxica para os tecidos animais. No ciclo da ureia, a


ornitina combina-se com a amônia, na forma de carbamoil-fosfato, para formar
citrulina.

• Um segundo grupo amino é transferido para a citrulina a partir do aspartato,


para formar arginina – o precursor imediato da ureia.

• O ciclo da ureia resulta na conversão líquida de oxaloacetato em fumarato,


ambos intermediários do ciclo do ácido cítrico.

• Após a remoção dos grupos amino, os esqueletos de carbono dos aminoácidos


sofrem oxidação a compostos capazes de entrar no ciclo do ácido cítrico para
oxidação a CO2 e H2O.

• Diversas doenças humanas graves são causadas por defeitos genéticos nas
enzimas do catabolismo dos aminoácidos.

200
AUTOATIVIDADE

1 O plasma sanguíneo humano, normal, contém todos os aminoácidos


necessários para a síntese das proteínas teciduais, mas não em iguais
concentrações. A alanina e a glutamina estão presentes em concentrações
muito mais elevadas que os demais aminoácidos. Sugira uma razão para
que isto ocorra.

2 Em estudo realizado há alguns anos, gatos foram submetidos a um jejum


durante a noite e então receberam uma única refeição, completa em relação
a todos os aminoácidos, com exceção da arginina. Dentro de duas horas, os
níveis de amônia no sangue aumentaram dos níveis normais de 18 mg/L
para 140 mg/L, e os gatos mostraram sintomas clínicos de intoxicação
por amônia. Um grupo controle recebeu uma dieta contendo todos os
aminoácidos ou uma dieta em que a arginina era substituída pela ornitina e
não mostrou qualquer sintoma clínico incomum. Nesse contexto, responda
às seguintes questões:

a) Qual a razão do jejum no experimento?

b) Qual a causa do aumento dos níveis de amônia no grupo experimental? Por


que a ausência de arginina levou à intoxicação pela amônia? A arginina é
um aminoácido essencial para os gatos? Justifique.

c) Por que a ornitina pode substituir a arginina?

3 A deficiência de vitamina B12 pode ser causada por raras doenças genéticas
que levam a níveis diminuídos de vitamina B12, apesar de uma dieta normal,
que inclui carne e laticínios, ricos em B12. Essas condições não podem ser
tratadas com suplementos de vitamina B12. Explique.

201
202
UNIDADE 3
TÓPICO 5

METABOLISMO DE AMINOÁCIDOS

1 INTRODUÇÃO
O nitrogênio perde apenas para o carbono, o hidrogênio e o oxigênio em
sua contribuição para a massa dos sistemas vivos. A maior parte desse nitrogênio
está ligada à estrutura de aminoácidos e nucleotídeos. Neste tópico serão
abordados todos os aspectos do metabolismo de nucleotídeos.

2 BIOSSÍNTESE DE NUCLEOTÍDEOS
Os nucleotídeos apresentam uma variedade de importantes funções
em todas as células. Eles são precursores do DNA e do RNA; são carreadores
essenciais de energia química – papel desempenhado basicamente pelo ATP e, em
parte, pelo GTP; são componentes dos cofatores NAD, FAD, coenzima A, assim
como de intermediários biossintéticos ativados, como UDP-glicose (precursor do
glicogênio) e CDP-diacilglicerol (enzima catalisadora); e alguns deles, como o
cAMP e o cGMP, são também segundos mensageiros celulares.

Dois tipos de vias levam aos nucleotídeos: as vias de novo e as vias


de salvação. A síntese de novo dos nucleotídeos inicia com seus precursores
metabólicos: aminoácidos, ribose-5-fosfato, CO2 e NH3. As vias de salvação
reciclam as bases livres e os nucleosídeos liberados a partir da degradação de
ácidos nucleicos. Ambos os tipos de vias são importantes no metabolismo celular
(NELSON; COX, 2014).

As vias de novo para a biossíntese de purinas e pirimidinas parecem ser


quase idênticas em todos os organismos vivos. Como já vimos, as pirimidinas
são representadas pelas bases nitrogenadas Citosina, Timina e Uracila, enquanto
as purinas são representadas pela Adenina e Guanina. Uma observação
notável é que as bases livres guanina, adenina, timina, citosina e uracila não são
intermediárias nessas vias, isto é, as bases não são sintetizadas e então ligadas à
ribose, como se poderia esperar. A estrutura do anel púrico é construída ligada
à ribose durante todo o processo, com a adição de um ou de poucos átomos por
vez. O anel pirimídico é sintetizado como orotato, ligado a ribose-fosfato e, então,
convertido nos nucleotídeos pirimídicos comuns necessários para a síntese dos
ácidos nucleicos (Figura 29). Embora as bases livres não sejam intermediárias nas
vias de novo, elas são intermediárias em algumas das vias de salvação (RODWEL;
MURRAY; GRANNER, 2017).

203
UNIDADE 3 | METABOLISMO

Diversos precursores importantes são compartilhados pelas vias de novo


para a síntese de pirimidinas e purinas. O fosforribosil-pirofosfato (PRPP) é
importante para a síntese de ambas e, nessas vias, a estrutura da ribose é mantida
no nucleotídeo produzido, ao contrário do seu destino nas vias para a biossíntese
de triptofano e histidina. Um aminoácido é um precursor importante em cada tipo
de via: a glicina para as purinas e o aspartato para as pirimidinas. A glutamina
é, novamente, a mais importante fonte de grupos amina. O aspartato também é
utilizado como fonte de um grupo amino em dois dos passos das vias das purinas
(NELSON; COX, 2014).

FIGURA 28 – CLASSIFICAÇÃO DAS BASES NITROGENADAS

FONTE: A autora

2.1 A SÍNTESE DE NOVO DE NUCLEOTÍDEOS PÚRICOS


Os dois nucleotídeos púricos precursores dos ácidos nucleicos são
59-monofosfato de adenosina (AMP; adenilato) e 59-monofosfato de guanosina
(GMP; guanilato), os quais contêm as bases púricas adenina e guanina. A Figura
29 mostra a origem dos átomos de carbono e de nitrogênio do sistema de anéis
púricos, conforme determinado por John M. Buchanan, utilizando experimentos
com marcadores isotópicos em aves. A via detalhada para a biossíntese de
purinas foi elucidada principalmente por Buchanan e por G. Robert Greenberg,
na década de 1950.

204
TÓPICO 5 | METABOLISMO DE NUCLEOTÍDEOS

FIGURA 29 – ORIGEM DOS ÁTOMOS NO ANEL DAS PURINAS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 912)

A biossíntese de nucleotídeos púricos é regulada por retroalimentação


negativa, sendo que estas cooperam na regulação da velocidade geral da síntese
de novo e das velocidades relativas de formação dos dois produtos, adenilato e
guanilato.

FIGURA 30 – MECANISMOS REGULADORES NA BIOSSÍNTESE DE NUCLEOTÍDEOS

FONTE: Nelson e Cox (2014, p. 914)

205
UNIDADE 3 | METABOLISMO

O primeiro mecanismo é exercido sobre a primeira reação que é exclusiva


da síntese de purinas: a transferência de um grupo amino para o PRPP para
formar 5-fosforribosilamina.

Essa reação é catalisada pela enzima alostérica glutamina-PRPP-


aminotransferase, que é inibida pelos produtos finais IMP, AMP e GMP.
O AMP e o GMP atuam sinergicamente nessa inibição concertada.
Assim, sempre que AMP ou GMP acumulam-se e estão presentes
em excesso, o primeiro passo de sua biossíntese a partir de PRPP é
parcialmente inibido. No segundo mecanismo de controle, exercido
sobre um estágio posterior, um excesso de GMP na célula inibe a
formação de xantilato a partir de inosinato, pela IMP-desidrogenase,
sem afetar a formação de AMP. Por sua vez, um acúmulo de adenilato
inibe a formação de adenilossuccinato pela adenilossuccinato-
sintetase, sem afetar a biossíntese de GMP. Quando os dois produtos
estão presentes em quantidades suficientes, o IMP acumula-se e
inibe um passo anterior da via; essa estratégia reguladora é chamada
inibição sequencial por retroalimentação. No terceiro mecanismo,
o GTP é necessário para a conversão de IMP em AMP, enquanto o
ATP é necessário para a conversão de IMP em GMP, arranjo recíproco
que tende a equilibrar a síntese dos dois ribonucleotídeos. O último
mecanismo de controle é a inibição da síntese de PRPP pela regulação
alostérica da ribose-fosfato-pirofosfocinase. Essa enzima é inibida por
ADP e GDP, além de metabólitos de outras vias para as quais o PRPP
é o ponto de partida (NELSON; COX, 2014, p. 914).

NOTA

Você sabia?
Cerca de 10% dos seres humanos (e até 50% das pessoas em comunidades pobres) sofrem
de deficiência de ácido fólico. Quando a deficiência é grave, os sintomas podem incluir
doença cardíaca, câncer e alguns tipos de distúrbios encefálicos. Pelo menos alguns desses
sintomas surgem da redução da síntese de timidilato, levando a uma incorporação anormal
de uracila no DNA. A uracila é reconhecida pelos sistemas de reparo do DNA e é removida do
DNA. A presença de altos níveis de uracila no DNA leva a quebras da fita, que podem afetar
muito a função e a regulação do DNA nuclear, causando por fim os efeitos observados sobre
o coração e o encéfalo, assim como aumento da mutagênese, que leva ao câncer.

2.2 BASES PÚRICAS E PIRIMÍDICAS SÃO RECICLADAS


POR VIAS DE SALVAÇÃO
As bases púricas e pirimídicas livres são constantemente liberadas nas
células durante a degradação metabólica dos nucleotídeos. As purinas livres
são, em grande parte, salvas e reutilizadas para sintetizar nucleotídeos, em uma
via muito mais simples que a síntese de novo dos nucleotídeos púricos. Uma
das principais vias de salvação consiste em uma única reação, catalisada pela

206
TÓPICO 5 | METABOLISMO DE NUCLEOTÍDEOS

adenosina-fosforribosil-transferase, na qual adenina livre reage com PRPP para


produzir o correspondente nucleotídeo da adenina. Existe uma via de salvação
semelhante para bases pirimídicas em microrganismos e, possivelmente, em
mamíferos (RODWEL; MURRAY; GRANNER, 2017).

Um defeito genético na atividade da hipoxantina-guanina-fosforribosil-


transferase, observado quase exclusivamente em crianças do sexo masculino,
resulta no conjunto de sintomas denominado síndrome de Lesch-Nyhan.
Crianças com essa doença genética, que se manifesta em torno dos dois anos,
apresentam, algumas vezes, baixa coordenação motora e deficiência intelectual.
Além disso, são extremamente agressivas e mostram tendências à compulsão
autodestrutiva: apresentam automutilação, mordendo dedos, artelhos e lábios.
Os efeitos devastadores da síndrome de Lesch-Nyhan ilustram a importância das
vias de salvação (NELSON; COX, 2014).

Hipoxantina e guanina surgem constantemente da degradação dos ácidos


nucleicos. Na ausência da hipoxantina-guanina-fosforribosil-transferase, os níveis
de PRPP aumentam e ocorre uma superprodução de purinas pela via de novo,
resultando na produção de altos níveis de ácido úrico e lesão tecidual semelhante
à da gota. O cérebro é especialmente dependente das vias de salvação e isso pode
ser a causa da lesão do sistema nervoso em crianças com síndrome de Lesch-
Nyhan. Essa síndrome é outro alvo potencial para a terapia gênica (BERTUZZI
et al., 2008).

NOTA

Curiosidade – Excesso de ácido úrico causa gota


Durante muito tempo, acreditou-se erroneamente que a gota fosse devida a um “estilo de
vida elevado”. A gota é uma doença das articulações, causada pela concentração elevada
de ácido úrico no sangue e nos tecidos. As articulações tornam-se inflamadas, doloridas
e artríticas devido à deposição anormal de cristais de urato de sódio. Os rins também
são afetados, pois ácido úrico em excesso se deposita nos túbulos renais. A gota ocorre
predominantemente em pessoas do sexo masculino. Sua causa precisa não é conhecida,
frequentemente envolve uma excreção reduzida de uratos. A deficiência genética de alguma
enzima do metabolismo das purinas também pode ser um fator em alguns casos.

207
RESUMO DO TÓPICO 5

Neste tópico, você aprendeu que:

• As vias de biossíntese de aminoácidos estão sujeitas à inibição alostérica pelo


produto; a enzima reguladora geralmente é a primeira da sequência.

• Glicina e a arginina originam a creatina e a fosfocreatina, um tampão energético.


A glutationa, formada a partir de três aminoácidos, é um importante agente
redutor na célula.

• O sistema de anéis das purinas é construído passo a passo, iniciando com


5-fosforribosilamina.

• Os aminoácidos glutamina, glicina e aspartato fornecem todos os átomos de


nitrogênio das purinas. Os passos de fechamento dos dois anéis formam o
núcleo das purinas.

• As pirimidinas são sintetizadas a partir de carbamoil-fosfato e de aspartato, e a


ribose-5-fosfato é então ligada para produzir ribonucleotídeos pirimídicos.

• O ácido úrico e a ureia são derivados da degradação de purinas e pirimidinas.

• Purinas livres podem ser usadas em vias de salvação, na reconstrução de


nucleotídeos

• Deficiências genéticas em certas enzimas das vias de salvação causam doenças


graves, como a síndrome de Lesch-Nyhan e a deficiência de ADA.

• O acúmulo de cristais de ácido úrico nas articulações, possivelmente causado


por outra deficiência genética, resulta na gota.

208
AUTOATIVIDADE

1 A deficiência de ácido fólico, que se acredita ser a deficiência vitamínica


mais comum, causa um tipo de anemia em que a síntese de hemoglobina
está prejudicada e os eritrócitos não amadurecem adequadamente. Qual a
relação metabólica entre a síntese de hemoglobina e a deficiência de ácido
fólico?

2 Na biossíntese de aminoácidos estão envolvidas as purinas e pirimidinas.


Quais as diferenças entre elas?

3 Quais os resultados da degradação de purinas e pirimidinas?

209
210
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