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EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA __ª VARA

____________DO FORO ______ DA COMARCA DE _____________

Autos do processo nº ________________________________


Autor: _____________________________________

NOME, já qualificado nos autos do processo em referência, pelo


Defensor Pú blico do Estado de Sã o Paulo que esta subscreve, vem à presença de V. Exa.
interpor recurso de APELAÇÃO da r. sentença de fls. 320 e seguintes, com fundamento
nos artigos 513 e seguintes do Có digo de Processo Civil, de acordo com as razõ es de fato
e de Direito aduzidas em anexo.

Observa o apelante que fez uso da faculdade conferida pelo artigo


128, inciso I, da Lei Complementar Federal nº 80, de 12 de janeiro de 1994, no sentido
de ter em seu favor contado em dobro o prazo recursal.

Requer, desta forma, o regular processamento do recurso e sua


remessa oportuna ao Eg. Tribunal de Justiça do Estado de Sã o Paulo para julgamento.

Termos em que,
espera deferimento.

Sã o Paulo, xxxxxxxxxxxxxxx

Defensor(a) Pú blico(a)
Unidade de XXXXXXXXX
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RAZÕES DE APELAÇÃO

Apelante:
Apelado:

EGRÉ GIO TRIBUNAL,


COLENDA CÂ MARA,
ÍNCLITOS JULGADORES.

DOS FATOS

Trata-se de açã o ordiná ria de obrigaçã o de fazer, cumulada com indenizaçã o


por danos morais, proposta pelo ora Apelado em face do Apelante, alegando ter este
publicado em seu “blog” (www.infanciaurgente.blogspot.com) e hospedado pela Google
Brasil Internet Ltda., “carta apó crifa, de conteú do calunioso e difamató rio, que fere de
morte a honra do autor e de outros diretores de unidades”.

A referida carta era intitulada “Excelencia precisamos de sua atençã o” (sic) e


foi publicada sob o título “Velha/Nova Febem/ Fundaçã o Casa 161.

Em razã o disso, pleiteou a retirada da referida carta do conteú do do “blog


infanciaurgente” e, também, a retirada do pró prio blog do ar, sob pena de multa diá ria,
tudo a ser determinado judicialmente em face da corré Google Brasil Internet Ltda.

Especificamente no que tange ao ora Apelante, formulou pedido de


condenaçã o em danos morais, em valores a serem arbitrados pelo juízo (o que foi
ulteriormente alterado para dez mil reais – fls. 82).

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Feito pedido de tutela antecipada para o fim de ver liminarmente
determinada a retirada da referida missiva do conteú do do blog, foi aquela concedida,
“inaudita altera pars”, tendo o provedor do serviço Google Brasil cumprido a ordem
judicial antes mesmo da citaçã o do Apelante.

Uma vez citado, o ora Apelante buscou a Defensoria Pú blica do Estado de Sã o


Paulo, visto tratar-se de pessoa hipossuficiente (fls. 218), para a promoçã o de sua defesa
em juízo, o que inicialmente foi refutado pelo Mm. Juiz de Direito, que insistiu na
nomeaçã o de advogado dativo da Ordem dos Advogados do Brasil (a ser pago pelo
convênio firmado com a Defensoria Pú blica), situaçã o essa que foi sanada pelo
compromisso assumido pela Defensoria Pú blica de receber intimaçõ es pessoais no Juízo
de Cerqueira César, na pessoa dos Defensores Pú blicos oficiantes na Regional de Avaré,
dada sua proximidade. (fls. 286/7)

Superado este entrave, prosseguiu o feito com a apresentaçã o de contestaçã o


e de sua resposta, apó s o que as partes foram instadas a especificar as provas que
pretendiam produzir, o que fizeram, ambas, pela afirmativa, no sentido da realizaçã o de
oitiva pessoal do autor e do réu, além de pedido, formulado por este ú ltimo, no seguinte
sentido:

“Expediçã o de ofício para a Google Brasil Internet Ltda., já qualificada nos


autos, a fim de que esta forneça có pia de todos os arquivos relativos ao “ BLOG
INFANCIAURGENTE”, notadamente aqueles em que consta a publicaçã o da carta
“Excelencia precisamos de sua atencao” e de todos os comentá rios a ela
agregados e dos eventuais links para aquela postagem, conforme as
ferramentas específicas localizadas no rodapé de cada artigo veiculado,
devendo ainda informar quantos acessos teve o referido “blog” no período
em que a carta ficou no ar.”

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Inobstante, o D. Juízo houve por bem determinar o julgamento antecipado da
causa, culminando por entender pela ocorrência de dano moral e condenar o ora
Apelante no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais), com correçã o monetá ria e juros de
mora contados da citaçã o, além de verba honorá ria arbitrada pelo má ximo.

Com a devida vênia, a r. sentença deve ser integralmente reformada, dada a


inocorrência de dano moral e da prevalência do direito à informaçã o pú blica sobre fatos
de relevâ ncia social, como adiante restará cabalmente demonstrado.

PRELIMINARMENTE: DO CERCEAMENTO DE DEFESA E DO PREJULGAMENTO DA


DEMANDA

A r. sentença de fls. retro foi produzida de forma precipitada, com evidente


menoscabo do direito de o ora Apelante esgotar suas possibilidades de se defender
adequadamente e de provar a inocorrência do dano moral pretendido pelo autor da
demanda, devendo ser revista para que tornem os autos à origem e sejam praticados os
devidos atos processuais de instruçã o da lide.

Deveras, o D. Juízo entendeu “prescindível” a produçã o da prova oral que, de


resto, era pretendida por ambas as partes (fls. 321). Asseverou que nã o havia que se
falar na possibilidade de obtençã o de confissã o.

No entanto, ao assim agir, S. Exa. deixou de fornecer ao Apelante a


oportunidade de esclarecer aspectos centrais atinentes à ocorrência, ou nã o, de dano
moral, quais sejam, a extensã o e intensidade do pretendido sofrimento e a
intencionalidade de quem publicou a carta em seu blog.

Vejamos.

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Como bem destacado pela empresa corré na presente açã o em sua
contestaçã o (fls. 124 e ss.), o dano moral nã o decorre de um mero sofrimento que a
parte alegue ter sofrido, senã o que devem concorrer três elementos, a saber, “dano,
ilicitude e nexo causal”. (Humberto Theodoro Jú nior, Comentá rios ao Novo Có digo Civil,
Volume III, Tomo II. Rio de Janeiro, Ed. Forense, 2003. p. 43)

Ainda, segundo a liçã o de Maria Helena Diniz, “nã o poderá haver açã o de
indenizaçã o sem existência de um prejuízo.”

Assim é que o mero sofrimento da parte nã o seria bastante para sustentar a


tese do autor, ora apelado, servindo a sua oitiva pessoal para que esclarecesse qual o
dano por ele sofrido e qual sua eventual extensã o, visto que, em sua petiçã o inicial nada
restou demonstrado a esse respeito.

Da mesma forma, no que tange à intençã o do Apelante ao publicar a carta em


seu blog, sendo certo que sua oitiva pessoal era curial para que ele expusesse ao
julgador os motivos que o levaram a tomar tal decisã o, a partir do que – e somente apó s
tal oitiva – poder-se-ia perquirir quanto à ocorrência de dolo ou culpa, necessá rios para
caracterizar eventual ilicitude do ato e, neste caso, culminar com a condenaçã o da parte.

Na realidade, o D. Juízo presumiu que o apelante agiu com a intençã o de


atingir a honra do apelado e de lhe causar sofrimento moral, quando, na verdade, nã o
poderia tê-lo feito em relaçã o a um dos pilares sobre os quais se baseia a ocorrência, ou
nã o, do dano moral.

Deveria, isso sim, ter ouvido o ora Apelante para o fim de aferir a eventual
ocorrência de dolo ou culpa para, somente de posse de tal prova, julgar a causa de forma
equilibrada, inclusive ponderando o valor da condenaçã o em face desse critério, se o
caso.
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Lamentavelmente, o D. Juízo “a quo” ultrapassou as etapas necessá rias de
instruçã o da demanda, acelerando o trâ mite da causa para que, desde logo, pudesse dar
seu veredicto, pela condenaçã o integral, o que, como se verá , já se sabia de antemã o.

Na realidade, a causa já estava prejulgada desde o seu início e a negativa do


Juízo em consentir na produçã o de provas apenas confirma o que já se supunha.

Basta que se veja o teor de sua decisã o quando a autora da demanda - aqui
apelada – requereu a concessã o de tutela antecipada para que a carta fosse retirada do
blog do apelante. Disse S. Exa., na ocasiã o, ultrapassando os limites do pedido e
enveredando quanto ao mérito da causa:
“Na carta publicada, é possível observar que nã o faz apenas alusõ es
a fatos concretos, mas também atribui adjetivos desqualificadores
em relaçã o ao autor, maculando sua honra objetiva e subjetiva. (g.n.)

E continuou:

“Com efeito, a liberdade de expressã o e manifestaçã o do pensamento


nã o pode sobrepor (sic) ao direito da personalidade dos indivíduos
como imagem e honra. Em que pese pessoa pú blica, nã o é permitido
aos meios de comunicaçã o atribuir adjetivos desqualificadores e,
muito menos, atribuir fatos sem qualquer embasamento fá tico, sob
pena de ferir a dignidade da pessoa humana”. (fls. 83 e 84)

Tais afirmações, Excelências, foram produzidas muito antes de o réu ter


sequer sido citado. O Mm. Juiz já o condenara antes mesmo dele ingressar
formalmente na causa!!!

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Sem dúvida, já decretara que a honra do autor estava “maculada” ao
decidir pela retirada do blog, muito antes deste poder apresentar sua versão dos
fatos e produzir provas, providências necessárias para que o processo
transcorresse de forma equilibrada e imparcial.

Importa aqui consignar que, ao decidir sobre a tutela antecipada, o D. Juízo já


se manifestou sobre o mérito da demanda, afastando quaisquer argumentos que o réu
pudesse vir a esgrimir em sua futura contestaçã o, subvertendo completamente a ló gica
do processo e, mesmo, colocando em fundada dú vida sua imparcialidade para apreciar a
demanda.

Nã o bastasse, importa notar que a parte autora, instada a se manifestar sobre


a realizaçã o de audiência de conciliaçã o, a isso se mostrou favorá vel (fls. 302), o que
demonstrava a possibilidade de composiçã o das partes, oportunidade que foi
sumariamente descartada pelo Juízo.
Segundo o D. Magistrado sequer a conciliação poderia ocorrer. O réu
havia de ser condenado!

Da mesma forma quanto ao pedido de exibiçã o de todos os arquivos relativos


ao “blog infanciaurgente”, notadamente aqueles em que consta a publicaçã o da carta
“Excelencia precisamos de sua atencao” e de todos os comentá rios a ela agregados e dos
eventuais links para aquela postagem, conforme as ferramentas específicas localizadas
no rodapé de cada artigo veiculado, devendo ainda informar quantos acessos teve o
referido “blog” no período em que a carta ficou no ar.

Tal pedido, feito já em sede de contestaçã o (fls. 244), foi reiterado pela Defesa
no item 1 da petiçã o de fls. 318, sendo indeferido pelo Juízo, em seu afã de sentenciar a
causa consoante seu prejulgamento, no que, novamente, atropelou o sagrado direito de a
parte se defender em juízo.
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No caso, a referida documentaçã o é crucial para demonstrar que o autor da
açã o, aqui apelado, jamais formulou qualquer pedido de publicaçã o de direito de
resposta e / ou que o apelante tenha lhe negado esse direito, se formulado.

Novamente, essa prova liga-se à caracterizaçã o, ou nã o, do dano moral, assim


como à pró pria intençã o do apelante de causar sofrimento à parte contrá ria.

Por tais motivos, Excelências, há de ser prontamente reformada a r. sentença


de fls. retro, para o fim de se determinar a reabertura da fase instrutó ria, com a
apresentaçã o em juízo do conteú do do blog relativo à presente causa, pelo evidente
motivo de que o apelante a ele nã o tem acesso, visto que foi o pró prio Juízo, ao acolher o
pedido de tutela antecipada, quem determinou à corré Google Brasil “a exclusã o da carta
postada no site onde está publicada como intitulada “Excelência precisamos de sua
atenção”. (fls. 84)

Diante do exposto, desde logo é a presente para requerer seja provido o


recurso, reconhecendo-se como violado o Có digo de Processo Civil, dada a inocorrência
da hipó tese do artigo 330, inciso I, haja vista que havia efetivamente necessidade de
produzir prova em audiência.

Como corolá rio, espera-se desta Eg. Corte a aplicaçã o do artigo 331 do
mesmo Có digo, para o fim de determinar a designaçã o de audiência preliminar, na qual
tentar-se-á a conciliaçã o ou, se esta nã o se produzir, seja colhida a prova requerida pelas
partes, tudo para que os aspectos fá ticos relativos ao pretendido dano material sejam
esclarecidos.

Desde logo o apelante prequestiona os artigos 330 e 331 do Có digo de


Processo Civil (lei nº 5.869, de 11 de janeiro de 1973).
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Caso assim nã o entendam Vv. Exas. o que se admite apenas em amor ao
princípio da eventualidade, passa o apelante ao mérito, em que demonstrará a
inocorrência de dano moral e a prevalência do direito à informaçã o social.

DA INOCORRÊNCIA DE DANO MORAL

A questã o já foi sobejamente cuidada no â mbito da contestaçã o da corré


Google Brasil Internet Ltda. (fls. 124 e ss.) de modo que ao apelante nada mais há que
fazer senã o se reportar à s liçõ es da doutrina e jurisprudência pá trias que deixam claro,
sem dú vidas quaisquer, que sem a comprovaçã o de dano nã o há que se falar em
indenizaçã o.

Realmente, dizem os doutrinadores que o mero sofrimento psíquico, ainda


mais em pessoa no exercício de cargo pú blico, nã o justifica a condenaçã o à indenizaçã o,
haja vista a inocorrência de dano.

Assim, nã o basta o aspecto subjetivo. Deve existir um prejuízo objetivo


gerado pela conduta supostamente ofensiva, sem o que inexiste o dano moral.

E, no presente caso, nã o houve comprovaçã o de qualquer dano sofrido pelo


apelado que justificasse a condenaçã o do apelante, tanto assim que na petiçã o inicial da
presente causa o autor sequer dimensionara um valor de condenaçã o, sendo forçado,
por ato do juiz da causa, a atribuir um valor aleató rio de R$ 10.000,00 à guisa de
supostos danos sofridos.

DO PLENO EXERCÍCIO DA LIBERDADE DE INFORMAÇÃO: INEXISTÊNCIA DE DANO


MORAL
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A r. sentença apelada, para refutar os argumentos manifestados em sede de
contestaçã o, sustentou que “a liberdade de expressã o e manifestaçã o de pensamento
nã o pode redundar na ofensa ao direito da personalidade dos indivíduos. Por isso, deve
ser exercida com equilíbrio e responsabilidade”. Suscitou, como base de sua posiçã o, o
artigo 5º, inciso V, da Constituiçã o Federal.

Contudo, é na mesma Constituição Federal de 1988 que se encontra


consagrada a liberdade de expressão do pensamento e a liberdade de crítica,
conforme os preceitos inscritos nos incisos IV, V, IX e X do art. 5º, e no art. 220, §§
1º e 2º da Carta Maior, liberdades essas que, aliadas à possibilidade de utilização
do direito de resposta, são os mecanismos que permitem o livre trânsito de idéias
em nossa sociedade, permitindo às pessoas que formem sua convicção sobre os
mais variados temas, tudo a fim de garantir o pluralismo democrático, base de
nossa República.

Dizem os preceitos constitucionais invocados:

Artigo 5º. Todos sã o iguais perante a lei, sem distinçã o de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no
País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
IV - é livre a manifestaçã o do pensamento, sendo vedado o anonimato;
V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da
indenizaçã o por dano material, moral ou à imagem;
IX - é livre a expressã o da atividade intelectual, artística, científica e de
comunicaçã o, independentemente de censura ou licença;

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X - sã o inviolá veis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das
pessoas, assegurado o direito a indenizaçã o pelo dano material ou
moral decorrente de sua violaçã o;

E ainda:

Art. 220. A manifestaçã o do pensamento, a criaçã o, a expressã o e a


informaçã o, sob qualquer forma, processo ou veículo nã o sofrerã o
qualquer restriçã o, observado o disposto nesta Constituiçã o.
§ 1º - Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à
plena liberdade de informaçã o jornalística em qualquer veículo de
comunicaçã o social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.
§ 2º - É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideoló gica
e artística.

Tais sã o as normas que regem a questã o, à s quais a doutrina e a


jurisprudência dã o interpretaçã o conforme, no sentido de que a eventual
contrariedade causada pela veiculação de informação jornalística deve ser
enfrentada, não pela via cerceadora do dano moral, mas pela via democrática do
pleno exercício do direito de resposta.

A Constituiçã o Federal de 1988, em seu artigo 5º, incisos IV e IX, inserido no


Título dos Direitos e Garantias Fundamentais, consagra os princípios da liberdade de
informaçã o, pensamento e expressã o, sendo inegá vel que a liberdade de expressã o,
informaçã o e pensamento é um dos pilares sobre o qual se assenta a democracia, sendo
de vital importâ ncia para o pleno desenvolvimento dos cidadã os, da sociedade. Nesse
sentido, pondera ALEXANDRE DE MORAES:
"A liberdade de expressão constitui um dos fundamentos essenciais de
uma sociedade democrática e compreende não somente as informações
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consideradas como inofensivas, indiferentes ou favoráveis, mas também
aquelas que podem causar transtornos, resistência, inquietar pessoas,
pois a Democracia existe a partir da consagração do pluralismo de idéias
e pensamentos, da tolerância de opiniões e do espírito aberto ao diálogo.
Proibir a livre manifestação de pensamento é pretender alcançar a
proibição do pensamento e, conseqüentemente, obter a unanimidade
autoritária, arbitrária e irreal."1 (g.n.)

A jurisprudência de nossas Altas Cortes já se posicionou sobre o tema, em


julgados histó ricos, eis que instadas por figuras pú blicas, como o presidente da
Confederaçã o Brasileira de Futebol, e políticos de renome, que pleiteavam, tal como aqui
pretendido, o cerceamento da liberdade de imprensa pela via judicial. E, ao fazê-lo,
consagraram a prevalência da liberdade de expressã o e de crítica, exatamente do que
ora se cuida.

Assim é que o C. Supremo Tribunal Federal em diversas oportunidades


ressaltou o primado da liberdade de expressão do pensamento sobre os direitos
da personalidade, notadamente no caso de pessoas que exercem funções públicas,
cuja modulação deve se dar pelo exercício do direito de resposta, não pelo
cerceamento da palavra.

Preciso exemplo advém do acó rdã o exarado no Agravo de Instrumento nº


505.595 / RJ (j. em 11.11.2009), em que o D. Relator, Ministro Celso de Mello, bem
destacou:

“Ninguém ignora que, no contexto de uma sociedade fundada em bases


democrá ticas, mostra-se intolerá vel a repressã o estatal ao pensamento,
ainda mais quando a crítica – por mais dura que seja – revele-se inspirada
1
In: Direitos Humanos Fundamentais, Ed. Atlas, 2ª ed., 1998, p. 118.
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pelo interesse coletivo e decorra da prá tica legítima, como sucede na
espécie, de uma liberdade pú blica de extraçã o eminentemente
constitucional (CF, art. 5º, IV, c/c o art. 220).
Nã o se pode desconhecer que a liberdade de imprensa, enquanto projeçã o
da liberdade de manifestaçã o de pensamento e de comunicaçã o, reveste-se
de conteú do abrangente, por compreender, dentre outras prerrogativas
relevantes que lhe sã o inerentes, (a) o direito de informar, (b) o direito de
buscar a informaçã o, (c) o direito de opinar e (d) o direito de criticar.
A crítica jornalística, desse modo, traduz direito impregnado de
qualificação constitucional, plenamente oponível aos que exercem
qualquer atividade de interesse da coletividade em geral, pois o
interesse social, que legitima o direito de criticar, sobrepõe-se a
eventuais suscetibilidades que possam revelar as pessoas públicas.
É por tal razã o que a crítica que os meios de comunicação social
dirigem às pessoas públicas, por mais acerba, dura e veemente que
possa ser, deixa de sofrer, quanto ao seu concreto exercício, as
limitações externas que ordinariamente resultam dos direitos da
personalidade.” (g.n.)

E prossegue Sua Excelência, em trecho que, em tudo, se aplica ao presente


caso:

“É importante acentuar, bem por isso, que não caracterizará hipótese de


responsabilidade civil a publicação de matéria jornalística cujo
conteúdo divulgar observações em caráter mordaz ou irônico ou,
então, veicular opiniões em tom de crítica severa, dura ou, até,
impiedosa, ainda mais se a pessoa a quem tais observações forem
dirigidas ostentar a condição de figura pública, investida, ou não, de
autoridade governamental, pois, em tal contexto, a liberdade de crítica
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qualifica-se como verdadeira excludente anímica, apta a afastar o intuito
doloso de ofender.
Com efeito, a exposiçã o de fatos e a veiculaçã o de conceitos, utilizadas
como elementos materializadores da prá tica concreta do direito de crítica,
descaracterizam o “animus injuriandi vel diffamandi”, legitimando, assim,
em plenitude, o exercício dessa particular expressã o da liberdade de
imprensa.” (g.n.)

Ora, a publicaçã o da carta anô nima recebida pelo réu, cujo conteú do
procurava expor os problemas gerados por atos administrativos indevidos praticados
pelo autor na gestã o de Unidade da Fundaçã o Casa, tinha o evidente intuito de expor à
sociedade situação do mais amplo interesse público, sobretudo porque tais fatos
estariam ocorrendo no seio de instituição fechada (estabelecimento de internação
de jovens), cujo histórico de abusos e violações da dignidade dos internos é tão
recorrente em nosso país que já foi objeto, até mesmo, de duas decisões da Corte
Interamericana de Direitos Humanos.2

A respeito, vem a calhar o seminal voto proferido pelo Ministro Celso de


Mello, ao discorrer magistralmente sobre o direito de crítica jornalística, cujo texto
tornou-se referência sobre o tema no país, o qual pede-se licença para transcrever por
aplicar-se integralmente ao presente caso:

“Entendo relevante destacar, no ponto, analisada a questã o sob a


perspectiva do direito de crítica – cuja prática se mostra apta a
descaracterizar o “animus injuriandi vel diffamandi” (CLÁ UDIO LUIZ
2
Resolução da Corte Interamericana de Direitos Humanos de 25 de fevereiro de 2011. Medidas provisórias
a respeito do Brasil. Assunto da Unidade de Internação Socioeducativa (disponível em
http://www.corteidh.or.cr/docs/medidas/socioeducativa_Se_01_portugues.pdf) e Resolução da Corte
Interamericana de Direitos Humanos de 25 de novembro de 2008. Medidas Provisórias a respeito do Brasil.
Assunto das crianças e adolescentes privados de liberdade no “Complexo do Tatuapé” da Fundação CASA
(disponível em http://www.corteidh.or.cr/docs/medidas/febem_se_06_por.pdf). Acesso em 26 de maio de 2011.
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14
BUENO DE GODOY, “A Liberdade de Imprensa e os Direitos da
Personalidade”, p. 100/101, item n. 4.2.4, 2001, Atlas; VIDAL SERRANO
NUNES JÚ NIOR, “A Proteção Constitucional da Informação e o Direito à
Crítica Jornalística”, p. 88/89, 1997, Editora FTD; RENÉ ARIEL DOTTI,
“Proteção da Vida Privada e Liberdade de Informação”, p. 207/210,
item n. 33, 1980, RT, v.g.) -, que essa prerrogativa dos profissionais de
imprensa revela-se particularmente expressiva, quando a crítica,
exercida pelos “mass media” e justificada pela prevalência do interesse
geral da coletividade, dirige-se a figuras notórias ou a pessoas
públicas, independentemente de sua condiçã o oficial.
Daí a existência de diversos julgamentos, que, proferidos por Tribunais
judiciá rios, referem-se à legitimidade da atuaçã o jornalística,
considerada, para tanto, a necessidade do permanente escrutínio
social a que se acham sujeitos aqueles que, exercentes, ou não, de cargos
oficiais, qualificam-se como figuras pú blicas:
“Responsabilidade civil - Imprensa - Declarações que não extrapolam
os limites do direito de informar e da liberdade de expressão, em
virtude do contexto a que se reportava e por relacionar-se à pessoa
pública - Inadmissibilidade de se cogitar do dever de indenizar – Não
provimento.” (Apelação nº 502.243-4/3, Rel. Des. Ê NIO SANTARELLI
ZULIANI – TJSP - grifei)
“Indenização por dano moral. Matéria publicada, apesar de
deselegante, não afrontou a dignidade da pessoa humana, tampouco
colocou a autora em situação vexatória. Apelante era vereadora,
portanto, pessoa pública sujeita a críticas mais contundentes. Termos
deseducados utilizados pelo réu são insuficientes para caracterizar o
dano moral pleiteado. Suscetibilidade exacerbada do pólo ativo não dá
supedâneo à verba reparatória pretendida. Apelo desprovido.” (Apelação

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Cível nº 355.443-4/0-00, Rel. Des. NATAN ZELINSCHI DE ARRUDA –
TJSP - grifei)
“INDENIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MORAL.
INOCORRÊNCIA. MATÉRIA QUE TRADUZ CRÍTICA JORNALÍSTICA.
AUTORA QUE, NO EXERCÍCIO DE CARGO PÚBLICO, NÃO PODE SE
FURTAR A CRÍTICAS QUE SE LHE DIRIGEM. CASO EM QUE FERIDA MERA
SUSCETIBILIDADE, QUE NÃO TRADUZ DANO. AUSÊNCIA DE ILICITUDE DO
COMPORTAMENTO DOS RÉUS. DIREITO DE CRÍTICA QUE É INERENTE À
LIBERDADE DE IMPRENSA. VERBA INDEVIDA. AÇÃO JULGADA
IMPROCEDENTE. SENTENÇA REFORMADA. RECURSO PROVIDO,
PREJUDICADO O APELO ADESIVO. (...).” (Apelação Cível nº 614.912.4/9-
00, Rel. Des. VITO GUGLIELMI – TJSP - grifei)
“INDENIZAÇÃO. RESPONSABILIDADE CIVIL. DANO MORAL.
INOCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE ILICITUDE. PUBLICAÇÃO DE ARTIGO EM
REVISTA COM REFERÊNCIAS À PESSOA DO AUTOR. INFORMAÇÕES
COLETADAS EM OUTRAS FONTES JORNALÍSTICAS DEVIDAMENTE
INDICADAS. AUSÊNCIA DE CONOTAÇÃO OFENSIVA. TEOR CRÍTICO QUE É
PRÓPRIO DA ATIVIDADE DO ARTICULISTA. AUTOR, ADEMAIS, QUE É
PESSOA PÚBLICA E QUE ATUOU EM FATOS DE INTERESSE PÚBLICO.
SENTENÇA MANTIDA. RECURSO IMPROVIDO.”
(Apelação Cível nº 638.155.4/9-00, Rel. Des. VITO GUGLIELMI – TJSP -
grifei)
“(...) 03. Sendo o envolvido pessoa de vida pública, uma autoridade, eleito
para o cargo de Senador da República após haver exercido o cargo de
Prefeito do Município de Ariquemes/RO, condição que o expõe à crítica da
sociedade quanto ao seu comportamento, e levando-se em conta que não
restou provado o ‘animus’ de ofender, tenho que o Jornal não pode ser
condenado ao pagamento de indenização por danos morais. 04. Deu-se

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provimento ao recurso. Unânime.” (Apelação Cível nº
2008.01.5.003792-6, Rel. Des. ROMEU GONZAGA NEIVA – TJDF - grifei)
“A notoriedade do artista, granjeada particularmente em telenovela de
receptividade popular acentuada, opera por forma a limitar sua
intimidade pessoal, erigindo-a em personalidade de projeção pública,
ao menos num determinado momento. Nessa linha de pensamento,
inocorreu iliceidade ou o propósito de locupletamento para,
enriquecendo o texto, incrementar a venda da revista. (...) cuida-se de um
ônus natural, que suportam quantos, em seu desempenho exposto ao
público, vêm a sofrer na área de sua privacidade, sem que se aviste, no fato,
um gravame à reserva pessoal da reclamante.” (JTJ/Lex 153/196-200,
197/198, Rel. Des. NEY ALMADA – TJSP - grifei)
Vê-se, pois – tal como tive o ensejo de assinalar (Pet 3.486/DF, Rel. Min.
CELSO DE MELLO, “in” Informativo/STF nº 398/2005) -, que a crítica
jornalística, quando inspirada pelo interesse pú blico, não importando a
acrimô nia e a contundência da opiniã o manifestada, ainda mais quando
dirigida a figuras públicas, com alto grau de responsabilidade na
conduçã o dos interesses de certos grupos da coletividade, não traduz
nem se reduz, em sua expressã o concreta, à dimensão do abuso da
liberdade de imprensa, não se revelando suscetível, por isso mesmo, em
situações de caráter ordinário, de sofrer qualquer repressã o estatal ou
de se expor a qualquer reaçã o hostil do ordenamento positivo.
É certo que o direito de crítica não assume cará ter absoluto, eis que
inexistem, em nosso sistema constitucional, como reiteradamente
proclamado por esta Suprema Corte (RTJ 173/805-810, 807-808, v.g.),
direitos e garantias revestidos de natureza absoluta.
Não é menos exato afirmar-se, no entanto, que o direito de crítica
encontra suporte legitimador no pluralismo político, que representa
um dos fundamentos em que se apó ia, constitucionalmente, o pró prio
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Estado Democrá tico de Direito (CF, art. 1º, V). É por tal razão, como
assinala VIDAL SERRANO NUNES JÚ NIOR (“A Proteção Constitucional
da Informação e o Direito à Crítica Jornalística”, p. 87/88, 1997,
Editora FTD), que o reconhecimento da legitimidade do direito de
crítica - que constitui “pressuposto do sistema democrático” – qualifica-
se, por efeito de sua natureza mesma, como verdadeira “garantia
institucional da opinião pública”:
“(...) o direito de crítica em nenhuma circunstância é ilimitável, porém
adquire um caráter preferencial, desde que a crítica veiculada se refira a
assunto de interesse geral, ou que tenha relevância pública, e guarde
pertinência com o objeto da notícia, pois tais aspectos é que fazem a
importância da crítica na formação da opinião pública.” (grifei)
Não foi por outra razão – e aqui rememoro anterior decisã o por mim
proferida nesta Suprema Corte (Pet 3.486/DF, Rel. Min. CELSO DE
MELLO) - que o Tribunal Constitucional espanhol, ao veicular as
Sentenças nº 6/1981 (Rel. Juiz FRANCISCO RUBIO LLORENTE), nº
12/1982 (Rel. Juiz LUIS DÍEZ-PICAZO), nº 104/1986 (Rel. Juiz
FRANCISCO TOMÁ S Y VALIENTE) e nº 171/1990 (Rel. Juiz BRAVO-
FERRER), pôs em destaque a necessidade essencial de preservar-se a
prá tica da liberdade de informaçã o, inclusive o direito de crítica que
dela emana, como um dos suportes axiológicos que informam e que
conferem legitimaçã o material à própria concepçã o do regime
democrá tico.
É relevante observar, ainda, que o Tribunal Europeu de Direitos
Humanos (TEDH), em mais de uma ocasiã o, também advertiu que a
limitação do direito à informaçã o e do direito (dever) de informar,
mediante (inadmissível) redução de sua prá tica “ao relato puro, objetivo
e asséptico de fatos, não se mostra constitucionalmente aceitável nem
compatível com o pluralismo, a tolerância (...), sem os quais não há
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sociedade democrática (...)” (Caso Handyside, Sentença do TEDH, de
07/12/1976).

Em suma, da vasta e respeitá vel jurisprudência colecionada pelo Voto do E.


Ministro Celso de Mello vê-se que a suscetibilidade da pessoa pú blica, ao ver-se exposta
em matéria de cunho jornalístico, notadamente quando críticas lhe sã o endereçadas,
perde importâ ncia ante a prevalência do interesse pú blico à informaçã o e ao livre
trâ nsito de idéias numa sociedade democrá tica.

Da mesma forma, em casos aná logos concluiu-se que o dissabor de ver


publicamente expostas críticas, ainda que severas, é o ô nus natural pelo qual devem
passar todos os que ocupam cargos ou funçõ es pú blicas, efeito natural do controle social
de suas atividades, o que decorre dos princípios constitucionais estampados no artigo
37 da Lei Maior.

Por fim, sendo certo que o direito à crítica e à informaçã o, embora


prevalecente, nã o é ilimitado, a construçã o doutriná ria e jurisprudencial uníssona indica
seu cará ter preferencial, sempre que o assunto for de interesse geral, tenha relevâ ncia
pú blica e o escrito com ele guarde pertinência.

E isso, Exas., é exatamente o que ocorreu no caso presente. Vejamos.

DO CONTEÚDO DA CARTA E DE SEU INTERESSE PÚBLICO

A carta publicada, longe de visar a atingir pessoalmente o apelado,


denunciava irregularidades que ele teria praticado no exercício de função pública e
em decorrência dos poderes que a sociedade lhe conferiu para bem cuidar de
instituição pública de tratamento de jovens.

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E tal intençã o era manifesta, o que se comprova pela leitura objetiva daquilo
que na carta estava contido, que se traduz em fatos de alta relevâ ncia pú blica, dando
conta de que o apelado :

 Perseguia funcioná rios da Unidade por ele dirigida e da ONG GAPA, que ali atua,
ao tempo em que protege seus “pupilos”, omitindo ou ignorando seus erros ou
faltas;
 Valeu-se da condiçã o de funcioná rio pú blico para repreender e ameaçar a mã e de
uma criança que teria lhe derrubado os ó culos, na cidade de Iaras;
 Deixou de apurar casos de violência perpetrados contra um interno da “Casa III”
da Unidade de Cerqueira César, constantemente agredido por outros internos;
 Coagiu uma funcioná ria da ONG GAPA a assinar documentos que, ante sua recusa,
foi dispensada;
 Manteve na Instituiçã o outra funcioná ria, a senhora Ana Barbin, apesar de
existirem suspeitas que ela teria depositado valor excessivo na conta corrente do
professor de educaçã o física;
 Estaria envolvido no assassinato do Juiz de Direito de Presidente Prudente, Dr.
Antonio José Machado Dias;
 Usaria gratuitamente o pasto da propriedade de um vereador para uso de seus
cavalos, em troca de favores custeados pelos recursos da Fundaçã o Casa, sob seus
cuidados;
 Contratou como agentes externos dois filhos de um amigo da cidade de Manduri
em troca do uso de pastagem para seus cavalos;
 Deixou de tomar as medidas administrativas relacionadas a um tumulto e briga
de jovens na “Casa I” de Cerqueira César (08/04/2010), deixando mesmo de
lavrar boletim de ocorrência, a fim de nã o manchar a imagem da Fundaçã o CASA;
 Ter descurado da boa administraçã o da Unidade da Fundaçã o CASA a ponto de
nã o ter havido socorro médico a um adolescente da Casa III, cujo ouvido foi
perfurado por caneta, no dia 06/04/2010, além de nã o tomar medidas para a
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proteçã o dos funcioná rios das Casas I, II e III, que se sentem ameaçados, e mesmo
para conter as brigas entre internos; e
 Ter deixado de apurar as denú ncias que a ele foram encaminhadas por relató rio,
em suas mã os desde janeiro de 2010.

Logo, cumpriu a publicaçã o o requisito da “relevâ ncia pú blica” ao dar


visibilidade a fatos havidos em estabelecimento pú blico e destinado a cuidar das novas
geraçõ es deste Estado.

Neste ponto, clara é a vinculaçã o do interesse geral da publicaçã o da carta


com os valores nutridos pela Constituiçã o da Repú blica, no já citado artigo 37, que reza:

Art. 37. A administraçã o pú blica direta e indireta de qualquer dos


Poderes da Uniã o, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios
obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência (...).

Portanto, é flagrante a vinculaçã o dos fatos narrados com a suposta


ilegalidade da conduta do apelado, em vá rios pontos, como a perseguiçã o a funcioná rios,
uso do cargo para obter vantagem pessoal, omissã o na apuraçã o de fatos relevantes,
falta de socorro a adolescente ferido por outros internos etc.
A respeito da impessoalidade, é tudo o que parece nã o ocorrer na Unidade,
dado o cará ter centralizador e mesmo autoritá rio do comportamento do apelado, dando
as denú ncias conta de que o apelado parece ter perdido a noçã o de que se tratava de
mero gestor de bens e serviços do Estado, tratando-os como se seus fossem.

O mesmo se pode dizer dos demais princípios constitucionais da boa


administraçã o, sendo prova cabal de seu ferimento a veemência com que o apelado se
insurgiu contra o apelante, pelo simples fato de ver tornada pú blica denú ncia de má
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administraçã o, a ponto de pretender sua exclusã o permanente da internet e abrindo
mã o dos meios democrá ticos de debate, como o uso do direito de resposta (do que se
tratará adiante).

Quanto ao predicado do “interesse geral”, este também é manifesto.

Isso porque o futuro de nossos jovens é do interesse de todos, o que


novamente decorre de expressa manifestaçã o constitucional, a teor do que dispõ e o
artigo 227 da Carta:

“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à


criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à
vida, à saú de, à alimentaçã o, à educaçã o, ao lazer, à profissionalizaçã o, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e
comunitá ria, além de colocá -los a salvo de toda forma de negligência,
discriminaçã o, exploraçã o, violência, crueldade e opressã o. (g.n.)”

Sendo prioritá rias as políticas estatais voltadas à criança, a publicaçã o


veiculada no blog do réu cumpriu manifesto interesse pú blico, pois a populaçã o em
geral, e o pú blico especializado, têm o direito de saber se a Constituiçã o está sendo
cumprida naquilo que tem de mais relevante, a saber, o cuidado com as crianças
brasileiras.

Por fim, a pertinência temá tica é inegá vel.


Por mais que a carta contivesse crítica acerba e utilizasse termos veementes,
seu conteú do sempre se ateve à sua essência, a denú ncia das graves irregularidades
praticadas por gestores de Unidade da Fundaçã o CASA.

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E, mesmo fatos supostamente relacionados à vida privada do apelado (ser
dono de cavalos ou propriedades, p. ex.) sempre manteve algum vínculo com fatos
supostamente irregulares por ele praticados ou por sua suposta proximidade com
grupos e facçõ es que agem em estabelecimentos fechados como unidades prisionais e de
internaçã o de jovens.

Portanto, embora duros e veementes, os fatos apresentados e a crítica


decorrente sempre guardaram estrita vinculaçã o com o â mbito geral da carta, assim
preenchendo o terceiro requisito para sua admissibilidade e o conseqü ente afastamento
do dano moral, na forma da supra citada doutrina e jurisprudência dominantes.

Aqui, Exas., nã o se pode perder de vista que o tom veemente da missiva


parece decorrer do alto grau de estresse, indignaçã o e temor dos que trabalhavam
diariamente sob tã o temerá ria gestã o, que já teriam feito outras gestõ es no sentido de
solucionar os problemas, sendo este seu ú ltimo recurso.

Portanto, certo é que inexistiu qualquer violaçã o ao Direito com a publicaçã o


da carta, cujo escopo foi, exclusivamente, o de tornar pú blicas as propaladas
irregularidades havidas na gestã o de Unidade da Fundaçã o Casa, nunca a de vilipendiar
pessoalmente a honra do autor.

Ressalte-se que, de sua parte, o apelante nada tem de pessoal contra o


apelado, que nã o conhece pessoalmente e com quem nunca travou relaçõ es.

Além disso, contrariamente ao que pretende a r. sentença apelada, nã o cabia


a ele, apelante, investigar os fatos trazidos na carta e “ se certificar da veracidade e do
conteú do de suas informaçõ es” (fls. 324).

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Isso porque, em primeiro lugar, o apelante nã o tem poderes investigativos,
visto que nã o exerce cargo ou funçã o que lhe permita tal atividade e, em segundo, nã o
lhe cabe censurar o trâ nsito de informaçõ es, mantendo um blog justamente para dar a
oportunidade para que as pessoas se exprimam livremente, certo de que será no
entrechoque de opiniõ es que a verdade aparecerá , dialética e democraticamente.

Clara, pois, a ú nica intençã o do apelante ao veicular a carta, a de trazer à luz


denú ncia atinente à suposta violaçã o dos direitos humanos dos internos e funcioná rios
de Unidade da Fundaçã o CASA, o que nã o destoa das demais publicaçõ es que veicula,
cotidianamente.

Desta forma, afastada a hipótese de ataque pessoal do apelante à pessoa


do apelado, e presente o interesse público dos fatos narrados, nada de ilegal
houve na publicação da referida carta no blog do réu.

E, neste ponto, agiu o réu dentro do espaço de liberdade que lhe confere a
Constituiçã o Federal, segundo a interpretaçã o que lhe deu o C. Superior Tribunal de
Justiça:

“RECURSO ESPECIAL - RESPONSABILIDADE CIVIL – DANO MORAL – (...) -


DIREITO DE INFORMAÇÃO – ‘ANIMUS NARRANDI’ – EXCESSO NÃO
CONFIGURADO (...).
......................................................
3. No que pertine à honra, a responsabilidade pelo dano cometido através
da imprensa tem lugar tão-somente ante a ocorrência deliberada de
injúria, difamação e calúnia, perfazendo-se imperioso demonstrar que o
ofensor agiu com o intuito específico de agredir moralmente a vítima. Se
a matéria jornalística se ateve a tecer críticas prudentes (‘animus
criticandi’) ou a narrar fatos de interesse coletivo (‘animus narrandi’),
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está sob o pálio das ‘excludentes de ilicitude’ (...), não se falando em
responsabilização civil por ofensa à honra, mas em exercício regular do
direito de informação.” (g.n.)
(REsp 719.592/AL, Rel. Min. JORGE SCARTEZZINI)

Neste passo, nã o tendo demonstrado o autor o â nimo deliberado do réu em


atingir sua honra, afasta-se completamente a possibilidade de alegaçã o de dano moral,
pois, como fartamente demonstrado, havia interesse pú blico em veicular denú ncias de
irregularidades decorrentes de suposto mal uso de cargo pú blico.

DO CARÁTER JORNALÍSTICO DA PUBLICAÇÃO EM BLOG

Apenas para afastar qualquer alegaçã o de que a publicaçã o de que cuida o


presente feito nã o tivesse cará ter jornalístico, vale discorrer, brevemente, sobre esse
novo meio de comunicaçã o, decorrente da recente explosã o das possibilidades atuais
oferecidas pela rede mundial de computadores, também denominada “internet”.

Se há até pouco tempo as informaçõ es somente podiam ser difundidas em


larga escala por quem detivesse substanciosos meios econô micos, no mundo
contemporâ neo qualquer pessoa pode contribuir para o livre trâ nsito de informaçõ es,
bastando acessar um computador conectado à internet.

Desta forma, a qualidade jornalística (informativa e opinativa) deixou de ser


prerrogativa dos veículos tradicionais, sendo tal atributo atualmente estendido aos
chamados “blogs”, na verdade uma contraçã o do termo inglês “Web log”, ou seja, diá rio
da web, havendo vá rios provedores que os hospedam gratuitamente (“wordpress”,
“blogspot” etc.).

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Segundo indica a Wikipédia (ela mesma uma enciclopédia construída
inteiramente na internet), um blog “é um site cuja estrutura permite a atualizaçã o rá pida
a partir de acréscimos dos chamados artigos, ou posts. Estes sã o, em geral, organizados
de forma cronoló gica inversa, tendo como foco a temá tica proposta do blog, podendo ser
escritos por um nú mero variá vel de pessoas, de acordo com a política do blog.”

E prossegue:
“Muitos blogs fornecem comentários ou notícias sobre um
assunto em particular; outros funcionam mais como diá rios online.
Um blog típico combina texto, imagens e links para outros blogs,
pá ginas da Web e mídias relacionadas a seu tema. A capacidade de
leitores deixarem comentá rios de forma a interagir com o autor e
outros leitores é uma parte importante de muitos blogs.” (g.n.)3

Notá vel, portanto, o caráter jornalístico dos blogs, sendo pó lo considerá vel
de difusão de informações e comentários, cuja importâ ncia chegou ao ponto de
influenciar fatos de repercussã o mundial (como a recente eleiçã o presidencial norte-
americana) ou em manifestaçõ es populares de cunho democrá tico (como as que levaram
à deposiçã o de ditadores ao redor do mundo).

Pois bem.

O “BLOG INFANCIAURGENTE” nã o foge à regra. Trata-se de veículo de difusã o de


informaçõ es e de idéias relacionadas aos direitos humanos, com foco particular na
situaçã o das crianças e adolescentes do país.

3
http://pt.wikipedia.org/wiki/Blog. Acesso em 25.05.2011.
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Para comprovar tal alegaçã o, basta acessar o referido blog e verificar as
“postagens” ali existentes, o que se fez, a título de exemplo, no dia 26 de maio de 2011,
em que se encontravam os seguintes títulos:

 “NOTA DE MORTE ANUNCIADA: A histó ria se repete!” (sobre o assassinato de


dois líderes camponeses no Pará );
 SUICÍDIO ADOLESCENTE ENTRE INDÍGENAS É TEMA DE INFORME DO UNICEF
(sobre relató rio emitido por ó rgã o da ONU);
 A CRISE ESTRUTURAL DO CAPITAL (noticiando seminá rio sobre o tema);
 “POR QUE NÃ O UMA COMISSÃ O DA VERDADE E JUSTIÇA?” (noticiando mesa de
debates com esse título, realizada no consagrado IBCCrim);
 18 DE MAIO - DIA NACIONAL DE COMBATE AO ABUSO E EXPLORAÇÃ O SEXUAL
DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES (trazendo artigo informativo e opinativo sobre
essa grave questã o nacional);
 COPA, OLIMPIADAS E MEGAPROJETOS:“QUEM VAI PAGAR A CONTA É A CLASSE
TRABALHADORA, O POVO BRASILEIRO” (entrevista ao perió dico Contraponto
sobre questã o de interesse nacional);
 QUANTO VALEM OS DIREITOS HUMANOS? (a respeito dos impactos sobre os
direitos humanos da indú stria da mineraçã o e da siderurgia em Açailâ ndia); etc.

Inegá vel, portanto, o cará ter informativo e opinativo do “BLOG


INFANCIAURGENTE”, inserindo-se no que se pode chamar, sem dú vida, de jornalismo
contemporâ neo.

Ainda, a respeito do apelante, importa destacar que possui formaçã o


profissional na á rea de educaçã o e, por isso, mostra-se cotidianamente preocupado com
o absoluto respeito aos direitos humanos. Agindo como cidadã o participativo e
consciente, procura oferecer ao pú blico informaçõ es relevantes, com especial atençã o

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aos nossos jovens, em quem depositamos as esperanças de um país mais justo, solidá rio
e desenvolvido.

Como dizia o saudoso Herbert de Souza (Betinho), referência de humanismo


no país:

“A criança é o princípio sem fim. O fim da criança é o princípio do fim.


Quando uma sociedade deixa matar as crianças é porque começou seu
suicídio como sociedade. Quando nã o as ama é porque deixou de se
reconhecer como humanidade.
Afinal, a criança é o que fui em mim e em meus filhos enquanto eu e
humanidade. Ela, como princípio, é a promessa de tudo. É minha obra
livre de mim.
Se nã o vejo na criança, uma criança, é porque alguém a violentou antes,
e o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado. Diante dela, o
mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a
criança é o princípio sem fim e seu fim é o fim de todos nó s.”

Indisputá vel, portanto, que o apelante exerce atividade jornalística nã o


profissional, ao ser proprietá rio de um blog que difunde informaçõ es e críticas sobre
fatos da atualidade, tal como o fazem os jornais e revistas de grande circulaçã o.

Aliá s, encontra-se o réu em idêntica situaçã o (guardadas as devidas


proporçõ es) à dos “jornalistas” Roberto Marinho e Octá vio Frias de Oliveira, em verdade
meros proprietá rios de meios de comunicaçã o que jamais obtiveram o título decorrente
de formaçã o universitá ria em jornalismo.

DO DIREITO DE RESPOSTA: FACULDADE DESPERDIÇADA PELO APELADO

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De tudo o que até agora se viu, resta demonstrado que no Brasil
contemporâ neo, democrá tico e republicano, a liberdade de expressã o do pensamento e
de crítica possui cará ter preferencial, nã o se justificando a demanda por dano moral
supostamente sofrido, notadamente por quem exerce cargo pú blico.

Mas isso nã o significa que inexista um mecanismo para afastar supostas


inverdades ou críticas descabidas veiculadas em meios de comunicaçã o. A liberdade de
uns enfrenta-se com a liberdade de todos, nã o com a censura. Para isso existe o “direito
de resposta”, previsto no artigo 5º, inciso V, da Constituiçã o da Repú blica e pelo artigo
13.2 da Convençã o Americana sobre os Direitos Humanos.4
Discorrendo a respeito do tema, a tratadista Ana Marina Nicolodi, apó s
fornecer um apanhado do tratamento do tema na doutrina europeia, arremata, com
maestria:

“Daí que, constitui o direito de resposta também “uma forma de


liberdade de expressã o e de acesso individual aos meios de informaçã o
(...). Compreende-se por isso que a Lei de imprensa inclua o direito de
resposta entre as garantias do direito dos cidadã os a serem informados
(art. 1–4), visto que ele proporciona a publicaçã o de versõ es
alternativas, facultando assim aos leitores uma perspectiva
suplementar sobre a mesma questã o”3.
Com efeito, por um lado, o direito de resposta constitui uma medida de
garantia dos direitos de personalidade, por outro, constitui um direito

4
Artigo 13. Liberdade de pensamento e de expressão
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de
buscar, receber e difundir informações e idéias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou
por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha.
2.O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito a censura prévia, mas a
responsabilidades ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei e ser necessárias para assegurar:
a. o respeito aos direitos ou à reputação das demais pessoas; ou
b. a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da moral públicas.
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individual de acesso aos meios de comunicaçã o social e de participaçã o
na formaçã o da opiniã o pú blica. Ou seja, reconhece-se a este direito o
duplo cará ter de garantia institucional (direito do pú blico à informaçã o
veraz), assegurando-se a sua dimensã o individual, e de direito subjetivo
(direito individual de defesa dos bens da personalidade ofendidos).
Com isto, o direito de resposta, que inclui no seu â mbito o direito de
retificaçã o, cumpriria dois objetivos: “(...) o de proporcionar a quem se
sinta afectado pela imprensa de fazer valer a sua verdade; (...) o de
permitir a difusã o de versõ es alternativas, facultando ao pú blico o
acesso a pontos de vista contraditó rios sobre o mesmo assunto, no que
constitui uma verdadeira garantia do direito à informaçã o”4.” (O Direito
de resposta. Revista Jus Vigilantibus, Sexta-feira, 12 de outubro de 2007.
http://jusvi.com/artigos/29029. Acesso em 30 de maio de 2011)5

Desta forma, tivesse o apelante se negado a publicar artigo do apelado em seu


blog, com o mesmo destaque e nas mesmas proporçõ es, aí sim, com maioria de razã o
teria ele por que protestar.

Mas, nã o.

Jamais houve solicitaçã o do apelado para que o réu veiculasse, em mesmo


espaço e com o mesmo destaque, a sua versã o sobre os fatos, de modo a privilegiar a
soluçã o constitucional para o tema, o que o réu certamente faria, como o fez ao ter dado
voz à s críticas de uma das pessoas citadas na carta (Prof. José Carlos Forte Maia – fls 54)
5
3 Vital Moreira, O direito de resposta entre a Constituição e a realidade, in Actas do Congresso Internacional
organizado pelo Instituto Jurídico da Comunicação da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra- 25 a
27 de nov./1993, Coimbra, 1996, p. 157.

4 J.M. Coutinho Ribeiro, Lei de imprensa e legislação conexa. Lisboa: Quid Iuris-Sociedade Editora, 2001, p.
59.

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e à senhora Ana Raquel (fl. 55 e 56), igualmente citada na publicaçã o, que pô de apor a
sua versã o no que dizia respeito aos fatos narrados e à s críticas veiculadas.

De se destacar que o pró prio apelado postou um comentá rio no Blog com os
seguintes dizeres:

“Publiquei a carta da Ana Raquel, como publico a de qualquer pessoa


que se sinta, ofendido, ou apresente algum erro, garantido assim o
direito de resposta, mas cabe esclarecer.” (fls. 56)

Aliá s, nã o passa despercebida a parte da r. sentença em que sã o citados


vá rios casos de irregularidades processados pelo mesmo Juízo de Cerqueira César (fls.
325), ligados a irregularidades na gestã o da Unidade da Fundaçã o Casa, como se o
apelante tivesse a obrigaçã o de conhecê-los (sendo que vá rios sã o sigilosos) e confrontá -
los com o conteú do da carta, como se o presente processo se prestasse a uma espécie de
“exceçã o da verdade”, totalmente descabida em sede de açã o indenizató ria.

A respeito, vem bem a calhar a observaçã o da doutrinadora acima referida,


que alerta:

“Antes de mais, importa sublinhar que, apesar de ser gradativa a


afirmaçã o do direito de resposta perante a doutrina e a jurisprudência,
ainda é prá tica comum dos titulares de direitos de personalidade
lesados pelos medias se absterem de exercê-lo. O que nã o podemos
deixar de lamentar, pois seu exercício pronto e eficaz, frente à s ofensas
causadas aos direitos de personalidade, tais como a honra, imagem e
vida privada, pode, em casos específicos, representar economia da

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má quina judiciá ria, apaziguando-se os â nimos e evitando, muitas vezes,
uma disputa judicial.”6

Por tais motivos, consolidada a noçã o de que a publicaçã o da carta no Blog


Infanciaurgente, de propriedade do ora apelante, deu-se dentro do padrã o
constitucional de liberdade de expressã o e manifestaçã o do pensamento e da liberdade
jornalística, resta claro que, no caso presente, a interpretaçã o que se deva dar ao artigo
186 do Có digo Civil é no sentido da inocorrência de violaçã o de direitos e de inexistência
de dano moral, dada a ausência de ilicitude do ato.

Desde logo, quer o apelante deixar prequestionada a matéria, em relaçã o à


interpretaçã o do artigo 186 do Có digo Civil (lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002), à
luz da Constituiçã o Federal, solicitando expressa manifestaçã o desta Eg. Corte sobre o
tema.

Da mesma forma, deixa prequestionada a matéria constitucional, na forma


dos artigos 5º, incisos IV, V, IX e X, e art. 220, §§ 1º e 2º, e convencional, na forma do
artigo 13 da Convençã o Americana sobre os Direitos Humanos, solicitando manifestaçã o
expressa desta Eg. Corte sobre o tema.

DO VALOR DA CONDENAÇÃO E DOS HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS

Por fim, caso mantida a r. sentença condenató ria, o que se admite apenas em
face do princípio da eventualidade, cumpre ressaltar que o valor da condenaçã o é
extremamente elevado e nã o condiz com os elementos fixados na doutrina e na
jurisprudência como base para sua aferiçã o.

6
http://jusvi.com/artigos/29029.
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32
Conforme ensina a doutrina e a jurisprudência, o valor da indenizaçã o nã o
pode gerar enriquecimento sem causa do ofendido ou a ruína do ofensor.

De plano incumbe ressaltar que o apelante é pessoa pobre, tanto que se


enquadrou no padrã o fixado pela Defensoria Pú blica do Estado de Sã o Paulo para
atendimento, que é o de nã o perceber mais do que três salá rios mínimos mensais como
renda, ou seja, R$ 1866,00 (hum mil oitocentos e sessenta e seis reais).

Deste modo, o valor de dez mil reais é, para ele, completamente além de suas
possibilidades de sobrevivência, caso tenha que pagar a indenizaçã o, pois significaria
abrir mã o de cerca de um ano de seus vencimentos, como se, neste período, nã o
precisasse comer, morar e se alimentar.

Vejam, Exas., que o valor da condenaçã o foi fixado a pedido do juízo “a quo”,
visto que na petiçã o inicial o apelado requeria que a condenaçã o fosse arbitrada
judicialmente. (fls. 20) Instada a parte a aditar a inicial (fls. 81), assim fez o autor (fls.
82) solicitando indenizaçã o no valor de dez mil reais.

Ademais, sempre é bom ressaltar que a violaçã o à ampla defesa, com a


indevida supressã o da fase instrutó ria do presente feito, acabou por fazer com que nã o
se tivesse clara a intençã o do apelante ao publicar a carta em seu blog, sendo certo que o
valor da indenizaçã o deve observar o critério subjetivo relacionado à intensidade do
animus leadere. (cf. Maria Helena Diniz. Curso de Direito Civil Brasileiro, vol. 7º. 17ª ed.
Sã o Paulo: Saraiva. p. 93);

Desta forma, caso mantida a condenaçã o, dada a condiçã o socioeconô mica do


apelante, requer a reduçã o do valor de condenaçã o para R$ 1.000,00 (hum mil reais).

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Da mesma forma em relaçã o aos honorá rios advocatícios, fixados pelo
má ximo, em causa em que sequer dilaçã o probató ria houve, resumindo-se a atuaçã o dos
D. Patronos à argumentaçã o escrita.

Desta forma, requer-se a fixaçã o da honorá ria pelo valor mínimo fixado no
artigo 20, § 3º, do Có digo de Processo Civil.

DOS PEDIDOS:

Ante o exposto, é o presente recurso para requerer seja dado integral


provimento à apelaçã o para que:

A. Seja reconhecido o cerceamento de defesa e a inocorrência de hipó tese de


julgamento antecipado da lide, anulando-se a r. sentença de fls. 320 e ss. para o
fim de determinar a realizaçã o audiência preliminar e, se o caso, de dilaçã o
probató ria, na forma do que preceitua o artigo 331 do Có digo de Processo Civil.

B. Subsidiariamente, e apenas na hipó tese de nã o atendimento do requerido no item


anterior, seja reconhecida a inocorrência de dano moral, tendo em vista que a
conduta do apelante deu-se dentro dos estritos padrõ es constitucionais que
regem a demanda, e especificamente para:

a. Declarar a inocorrência de dano moral decorrente da publicaçã o da


missiva intitulada “Excelencia precisamos de sua atençã o”, que foi
publicada no blog Infanciaurgente (www.infanciaurgente.blogspot.com)
sob o título “Velha/Nova Febem/ Fundaçã o Casa 161;

b. Afastar hipó tese de retirada do referido blog do ar, assim como do pleito
de inserçã o de informaçã o quanto à pretendida condenaçã o judicial; e
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c. Permitir seja recolocada no ar a carta intitulada “Excelencia precisamos de
sua atençã o”, postada no blog do réu, cassando-se a decisã o proferida em
sede de tutela antecipada, como decorrência ló gica do reconhecimento da
inexistência de dano moral pelos motivos expostos nesta peça processual.

C. Seja o apelado condenado em custas processuais e em honorá rios advocatícios, a


serem revertidos para o Fundo Especial de Despesa da Escola da Defensoria
Pú blica do Estado – FUNDEPE, CNPJ nº 08.036.157/0001-89 na forma do que
dispõ e a Lei Estadual nº 12.793, de 4 de janeiro de 2008;

D. Caso seja mantida a procedência da demanda, seja reduzido o valor da


condenaçã o para R$ 1.000,00 (um mil reais), reduzindo-se a honorá ria para 10%
(dez por cento) do valor da condenaçã o.

E. Esta Egrégia corte pronuncie-se expressamente sobre:


a. Os artigos 330 e 331 do Có digo de Processo Civil;
b. O artigo 186 do Có digo Civil;
c. Os artigos 5º, incisos IV, V, IX e X, e 220, § 1º e 2º da Constituiçã o da
Repú blica Federativa do Brasil; e
d. O artigo 13 da Convençã o Americana sobre os Direitos Humanos

É o que se espera, como medida de JUSTIÇA!

Sã o Paulo, xxxxxxxxxxxxxxxx

Defensor(a) Pú blico(a)
Unidade de XXXXXXXXX

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