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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR DESEMBARGADOR PRESIDENTE DO

EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO 

Recurso Extraordiná rio - Autos nº XXXXXX


XXª Câ mara de Direito Criminal

A DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO


PAULO, por intermédio dos/as Defensores/as Pú blicos/as signatá rios/as, no
exercício de suas respectivas atribuiçõ es legais, vem, respeitosamente, perante
Vossa Excelência, com fulcro no artigo 1.042 do Có digo de Processo Civil, noticiar a
interposiçã o de AGRAVO CONTRA DECISÃO DENEGATÓRIA DE RECURSO
EXTRAORDINÁRIO, nos termos das razõ es anexas, em face da decisã o dos autos
em epígrafe. Requer o regular processamento do presente recurso, visando à
devida remessa destes autos ao E. Supremo Tribunal Federal.

Termos em que pede deferimento.

Sã o Paulo, 19 de janeiro de 2020

Defensor Pú blico Coordenador


Nú cleo de Cidadania e Direitos Humanos

Rua Boa Vista, nº 150 – Mezanino – Sã o Paulo/SP – CEP: 01014-001 – Tel: (11) 3107-5080
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RAZÕES DE AGRAVO

Agravante: Defensoria Pú blica do Estado de Sã o Paulo


Agravado: Tribunal de Justiça do Estado de Sã o Paulo
Recurso Extraordinário – Processo nº XXX
Origem: XXª Câ mara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Sã o
Paulo

Egrégio Supremo Tribunal Federal,

Eméritos Julgadores,

1. DA TEMPESTIVIDADE DO RECURSO

De acordo com o inciso I do artigo 128 da Lei Complementar


80/94 c/c artigo 186 do Có digo de Processo Civil, Lei nº 13.105/2015, a
Defensoria Pú blica conta com o direito à intimaçã o pessoal de todos os atos
processuais e a contagem em dobro dos prazos legais.

Conforme disposto no art. 1003, §5º cc art. 994, VIII, do CPC,


o prazo para interposiçã o de Agravo em Recurso Extraordiná rio é de 15 (quinze)
dias ú teis. Assim, a Defensoria Pú blica dispõ e do prazo de 30 (trinta) dias, que se
conta a partir de 30 de novembro de 2020, que foi o dia em que a Defensoria
Pública retirou os autos em carga.

Dessa forma, temos que o prazo para a Defensoria Pú blica


começou a fluir em 30/11/2020 (segunda-feira). Na contagem do prazo, é
importante notar que nã o houve expediente forense nos dias 7 e 8 de dezembro. O
De acordo com o artigo 220 do CPC, “suspende-se o curso do prazo processual nos
dias compreendidos entre 20 de dezembro e 20 de janeiro, inclusive ”.

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A contagem dos prazos é retomada, assim, em 21 de janeiro
de 2021 (quinta-feira), de forma que o prazo de 30 (trinta) dias ú teis vence
somente em 01/02/2021.

Tempestivo, pois, o agravo ora interposto.

2. BREVE SÍNTESE DO PROCESSADO

Em 9 de outubro de 2008, XXX, conhecido como “XXX” ou


“XXX”, pessoa com deficiência mental, foi encontrado decapitado e com as mã os
decepadas em local pró ximo à Av. Soldado PM XXXX, XXX/SP.

XXX era conhecido por “XX” devido a atividades manuais que


realizava, tais como conserto de bicicletas e pintura de paredes. Além da
deficiência mental, também possuía deficiência cognitiva, estando, portanto, em
condiçã o de extrema vulnerabilidade. Ingênuo e infantil, repetira primeira série do
ensino fundamental quatro vezes. Embora tivesse mais de trinta anos na data dos
fatos, nã o tinha a correta percepçã o do tempo, de modo que afirmava ter 17 anos.

Suas palavras eram pronunciadas com dificuldade, de


maneira que apenas os familiares conseguiam compreendê-las. Justamente por sua
dificuldade em se comunicar, era suscetível a atos de perversidade, tendo
apanhado diversas vezes de policiais militares que achavam que ele estava sob
efeito de drogas ou zombando dos policiais.

De acordo com o Laudo nº 8878/08, referente ao local onde


o corpo fora encontrado, XXXX apresentava uma extensa lesã o na regiã o
abdominal, atingindo toda a musculatura e expondo as vísceras, de modo que sua
identificaçã o somente foi possível por meio de exame de DNA.

Junto com a vítima foram encontrados, no mesmo período,


outros três corpos decapitados, sob fortes indícios de terem sido vítimas de açã o

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encabeçada por policiais militares ligados ao grupo de extermínio do 37º Batalhã o
da Polícia Militar, conhecidos como “Highlanders”.

Restou devidamente comprovado que os policiais militares


XXXX, integrantes da equipe da Força Tá tica XXX, do XXº Batalhã o da Polícia
Militar, efetuaram abordagem a pessoa com deficiência mental na data do
desaparecimento da vítima, sendo certo que o corpo de XXX foi encontrado no dia
seguinte à açã o policial.

Apó s conduzidas todas as investigaçõ es, os policiais


militares foram submetidos a julgamento perante o Tribunal do Jú ri da 1ª Vara do
Jú ri da Comarca de XXX, tendo sido condenados por homicídio duplamente
qualificado, cometido por motivo torpe e com emprego de recurso que
impossibilitou a defesa da vítima (fls. 3.226/3.229).

Inconformados, interpuseram recurso de Apelaçã o,


arguindo, preliminarmente, nulidade do julgamento, haja vista a exibiçã o, por
parte da acusaçã o, de camiseta com fotografia da vítima com os dizeres: “doente
mental assassinado por PM’s da Força Tá tica”, objeto nã o autorizado previamente
pelo juízo.

O Tribunal acolheu a preliminar alegada pela defesa dos


réus, sem adentrar no mérito do recurso, dando provimento ao apelo (fls.
3512/3515). Designada nova sessã o plená ria, o segundo E. Conselho de Sentença
julgou a açã o penal improcedente, sob a tese de negativa de autoria, absolvendo os
réus da imputaçã o originá ria.

O Ministério Pú blico de Sã o Paulo, reiterado pela Defensoria


Pú blica do Estado de Sã o Paulo, na qualidade de assistente da acusaçã o, recorreu
ao Tribunal de Justiça de Sã o Paulo, pugnando pela realizaçã o de nova sessã o de
julgamento, visto que a decisã o do segundo Tribunal do Jú ri nã o encontra amparo
no extenso acervo probató rio produzido.

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Soma-se a isso a ocorrência de nulidade durante a sessã o
plená ria, uma vez que os advogados de defesa dos réus violaram a regra do artigo
479 do Có digo de Processo Penal, lendo aos jurados documento nã o constante dos
autos, o qual, certamente, interferiu na formaçã o da íntima convicçã o dos jurados,
uma vez que os réus foram absolvidos dos crimes que lhes foram imputados.

A apelaçã o foi desprovida pela 10ª Câ mara de Direito


Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Sã o Paulo. Foram opostos embargos
de declaraçã o contra o acó rdã o, os quais foram, também, rejeitados.

Foram entã o interpostos Recursos Especial e Extraordiná rio,


os quais foram inadmitidos, dando ensejo ao presente agravo em Recurso
Extraordiná rio (assim como será interposto também agravo em Recurso Especial).

A interposiçã o do recurso se fundamenta no art. 102, III, “a”


da Constituiçã o Federal, já que o acórdão do Tribunal de Justiça de São Paulo
contrariou dispositivo da própria Constituição, além de Tratados
Internacionais de Direitos Humanos, que gozam de status constitucional. Com
efeito, houve violação direta ao art. 5º, caput e inciso III da Carta Magna , além
de ofensa aos arts. 1º e 16 da Convençã o das Naçõ es Unidas Contra a Tortura e
Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (Decreto nº 40,
de 15 de fevereiro de 1991); art. 6º do Pacto Internacional de Direitos Civis e
Políticos (Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992); art. 4º e 5º, 8º e 25 da Convençã o
Interamericana de Direitos Humanos (Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992);
art. 3º, itens “a”, “b” e “d” da Convençã o Internacional sobre os Direitos das Pessoas
com Deficiência e seu Protocolo Facultativo (Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de
2009); e art. 3º, inciso I, item “a” da Convençã o Interamericana para a Eliminaçã o
de Todas as Formas de Discriminaçã o contra as Pessoas Portadoras de Deficiência
(Decreto nº 3.956 de 8 de outubro de 2001), ora entendidos como normas
constitucionais.

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Contudo, o Exmo. Senhor Presidente do Tribunal de Justiça
de Sã o Paulo inadmitiu ambos os recursos interpostos. Particularmente quanto ao
Recurso Extraordiná rio, entendeu pelo seu nã o cabimento nos seguintes termos
(fls. 4454/4455):

“(...) o recurso extraordiná rio foi interposto sem a fundamentaçã o


necessá ria, apta a autorizar o seu processamento, consoante determina o
artigo 1.029 do Có digo de Processo Civil1, observando que a insurgência
indicou como fundamento constitucional, também, dispositivo
inexistente (artigo 101, III, "a" – fls. 4110, 4111, 4131 e 4134). O Excelso
Pretó rio, considerando a importâ ncia desse requisito formal, já firmara
em Sú mula (verbetenº 284) que ‘é inadmissível o recurso quando a
deficiência na sua fundamentaçãonão permitir a exata compreensão da
controvérsia’. (...)

Além do mais, para se adentrar na discussã o trazidaà lume pelo recurso,


sob o enfoque da valoraçã o probató ria, considerando, em especial, a
violaçã o ao artigo 5º, caput e inciso III, da Constituiçã o Federal (direito à
vida e à integridade), seria necessá rio o exame prévio da legislaçã o
infraconstitucional, incidindo em ofensa indireta ou reflexa, razã o pela
qual se mostra impossível a admissibilidade do recurso extraordiná rio.
Nesse passo o entendimento de que ‘a suposta ofensa ao texto
constitucional, caso existente,apresentar-se-ia por via reflexa, eis que a sua
constatação reclamaria – para quese configurasse – a formulação de juízo
prévio de legalidade fundado navulneração e infringência de dispositivos
de ordem meramente legal. Não se tratando de conflito direto e frontal
com o texto da Constituição, como exigido pelajurisprudência da Corte
(RTJ 120/912 , Rel. Min. SYDNEY SANCHES – RTJ132/455, Rel. Min. CELSO
DE MELLO), torna-se inviável o trânsito do recursoextraordinário.’.

De qualquer modo, a aná lise das questõ es suscitadas, tal como aventadas
pela combativa Defensoria, demandariam o revolvimento de fatos e
provas, sendo aplicá vel à hipó tese a decisã o da Corte Suprema de que
‘não se revela cabível proceder, em sede recursal extraordinária, a
indagações de caráter eminentemente probatório, especialmente quando
se busca discutir elementos fáticos subjacentes à causa penal. No caso, a
verificação da procedência, ou não, das alegações deduzidas pela parte

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recorrente implicará necessário reexame de fatos e de provas, o que não se
admite na sede excepcional do apelo extremo. Essa pretensão sofre as
restrições inerentes ao recurso extraordinário, em cujo âmbito não se
reexaminam fatos e provas, circunstância essa que faz incidir, na espécie, a
Súmula 279 do SupremoTribunal Federal. Não custa enfatizar, consoante
adverte o magistério da doutrina (ADA PELLEGRINI GRINOVER, ANTONIO
MAGALHÃES GOMES FILHO e ANTONIO SCARANCE FERNANDES,
“Recursos no Processo Penal”, p. 269/270,item n. 176, 1996, RT), que o
reexame dos fatos e das provas constitui temaestranho ao âmbito de
atuação do recurso extraordinário (Súmula 279/STF), ainda que se cuide,
como no caso, de matéria de índole penal.’”

Referida decisã o nã o pode prosperar, pelas razõ es que serã o


demonstradas a seguir.

3. DO DIREITO

Conforme transcrito acima, constou da decisã o recorrida que


o recurso extraordiná rio foi interposto sem a fundamentaçã o necessá ria apenas
porque foi citado dispositivo equivocado da Constituiçã o Federal. Com efeito, nas
razõ es do Recurso Extraordiná rio constou mençã o ao artigo 101, III, “a”, da
Constituiçã o Federal. Ocorre que, pelo teor da peça recursal, pelos argumentos ali
expostos, fica claro que o dispositivo que embasa a interposiçã o do recurso ao STF
é o artigo 102, III, “a”, nã o sendo aceitá vel, data maxima venia, o argumento de que
a indicaçã o errada do dispositivo constitucional nã o permitiria “a exata
compreensão da controvérsia”.

Trata-se de mero erro formal, que nã o dificulta a


compreensã o da controvérsia. Até porque o dispositivo correto foi citado logo na
primeira pá gina da petiçã o do recurso extraordiná rio (fl. 4108).

Também nã o se pode admitir, com a devida vênia, o


entendimento de que a aná lise que se pretende com o recurso implicaria reexame

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fá tico-probató rio, o que a Defensoria Pú blica sabe ser vedado pela Sú mula 279 do
STF.

Em verdade, o juízo a quo optou por negar seguimento ao


recurso com mera mençã o ao fato de que nã o estariam presentes os requisitos
essenciais determinados pelo CPC, sem, no entanto, especificá -los.

Diferentemente do que assevera a decisã o agravada, as


violaçõ es diretas perpetradas contra o texto constitucional (e diplomas
supralegais) pelo v. acó rdã o atacado sã o claramente explicitadas no Recurso
Extraordiná rio denegado. O que se pretende com este recurso nã o é o reexame de
provas, mas a revaloração dos critérios jurídicos utilizados para concluir que
a decisão do Tribunal do Júri foi arbitrária ao desprezar a única versão
verossímil dos autos, devendo, portanto, ser invalidada.

Demonstrar-se-á , a seguir, as alegadas violaçõ es a


dispositivos constitucionais para, assim, evidenciar que este recurso traz à
apreciaçã o do Supremo Tribunal Federal matéria de direito, a qual independe
do revolvimento da matéria fática sub judice.

3.1. DA CONTRARIEDADE A DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS

Por disposiçã o expressa do artigo 102, III, alínea a, da


Constituiçã o Federal de 1988, caberá Recurso Extraordiná rio ao Supremo Tribunal
Federal quando a decisã o recorrida contrariar dispositivo constitucional.

A despeito de todas as evidências, a decisã o da 10ª Câ mara


de Direito Privado do Tribunal de Justiça de Sã o Paulo, ao negar provimento ao
recurso de Apelaçã o interposto, contrariou dispositivos constitucionais e
convencionais, integrados ao ordenamento jurídico pá trio pelo rito do artigo 5º,

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pará grafo 3º, do texto constitucional, tornando cabível a interposiçã o do Recurso
Extraordiná rio, nos termos do que dispõ e o artigo 102, III, alínea a, da Constituiçã o
Federal de 1988, ao nã o considerar as circunstâ ncias do crime (praticado por
agentes do Estado) e contra vítima vulnerá vel (pessoa com deficiência), nã o
garantindo a devida proteçã o judicial à vítima.

Sobre o ponto, vale trazer a liçã o da Profª Flá via Piovesan a


respeito do cará ter constitucional dos tratados internacionais de proteçã o dos
Direitos Humanos:

(...) Há de se interpretar o disposto no artigo 5º, § 2º do texto, que, de


forma inédita, tece a interação entre o Direito Brasileiro e os tratados
internacionais de direitos humanos. Ao fim da extensa Declaração de
Direitos enunciada pelo artigo 5º, a Carta de 1988 estabelece que os
direitos e garantias expressos na Constituição "não excluem outros
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados
internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte". A
Constituição de 1988 inova, assim, ao incluir, dentre os direitos
constitucionalmente protegidos, os direitos enunciados nos tratados
internacionais de que o Brasil seja signatário. Ao efetuar tal incorporação,
a Carta está a atribuir aos direitos internacionais uma natureza
especial e diferenciada, qual seja, a natureza de norma
constitucional.
Esta conclusão advém de interpretação sistemática e teleológica do texto,
especialmente em face da força expansiva dos valores da dignidade
humana e dos direitos fundamentais, como parâmetros axiológicos a
orientar a compreensão do fenômeno constitucional. A este raciocínio se
acrescentam o princípio da máxima efetividade das normas
constitucionais referentes a direitos e garantias fundamentais e a
natureza materialmente constitucional dos direitos fundamentais, o que
justifica estender aos direitos enunciados em tratados o regime
constitucional conferido aos demais direitos e garantias fundamentais.
Esta conclusão decorre ainda do processo de globalização, que propicia e
estimula a abertura da Constituição à normação internacional —
abertura que resulta na ampliação do "bloco de constitucionalidade", que
passa a incorporar preceitos asseguradores de direitos fundamentais.

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Logo, por força do artigo 5º, §§ 1º e 2º, a Carta de 1988 atribui aos direitos
enunciados em tratados internacionais natureza de norma constitucional,
incluindo-os no elenco dos direitos constitucionalmente garantidos, que
apresentam aplicabilidade imediata1.

Em síntese, o v. acó rdã o que negou provimento ao recurso


de apelaçã o do MP e da Defensoria Pú blica (assistente de acusaçã o) nega vigência
aos seguintes dispositivos com status constitucional:

- Artigo 2º da “Convenção Internacional sobre os


Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo” (Decreto nº
6.949, de 25 de agosto de 2009), o qual define a “Discriminação por motivo de
deficiência” como ato de diferenciaçã o, exclusã o ou restriçã o baseada em
deficiência. No caso em tela, a vítima era pessoa com deficiência mental e cognitiva,
além disso, era hipossuficiente, características que a colocavam em situaçã o de
dupla vulnerabilidade, notadamente face aos réus, policiais militares integrantes
de grupo de extermínio. Data venia, os nobres julgadores decidiram pela
manutençã o do veredito sem ao menos considerar quaisquer destas
circunstâ ncias, uma vez que o nã o provimento do recurso contraria o dever do
Estado de adotar medidas positivas a fim de evitar a desigualdade e a
discriminaçã o, meios eficazes de combater atos de barbá rie contra pessoa com
deficiência e garantir a devida proteçã o judicial.
 
- Artigo 3º, itens “a”, “b” e “d” da “Convenção
Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo
Facultativo” (Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009), os quais definem os
princípios a serem seguidos pelos Estados partes da Convençã o, sendo estes: a) O
respeito pela dignidade inerente; b) A nã o-discriminaçã o; e d) O respeito pela
diferença e pela aceitaçã o das pessoas com deficiência como parte da diversidade
humana e da humanidade. Data venia, a decisã o impugnada ignorou as medidas
1
PIOVESAN, Flá via. A Constituiçã o de 1988 e os Tratados Internacionais de Proteçã o dos Direitos
Humanos. Disponível http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/revistaspge/revista3/rev6.htm.

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que os Estados devem adotar para erradicar discriminaçõ es em virtude de
deficiência, punindo, inclusive, todo ato que remeta a tal discriminaçã o, forma apta
de impedir crimes como o que se configurou.

Aqui reitera-se, mais uma vez, as obrigaçõ es dos Estados


para eliminar toda forma de discriminaçã o relacionada à deficiência e propiciar a
plena integraçã o de tais pessoas na sociedade. O v. acó rdã o, data venia, ignorou
que os Estados devem adotar medidas para erradicar discriminaçõ es, inclusive
punindo todo ato que remeta a tal discriminaçã o.

Cumpre dizer que o crime aqui tratado foi perpetrado por


agentes pú blicos contra pessoa com deficiência mental e cognitiva, o que torna
mais dificultosa toda produçã o probató ria necessá ria, dado o medo das
testemunhas deporem contra integrantes de grupo de extermínio. 
 
- Artigo 4º, itens “d”, e “e” da “Convenção Internacional
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo”
(Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009), dispondo sobre o comprometimento
dos Estados Partes para assegurar e promover o pleno exercício de todos os
direitos humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência.
O item “d” impõ e a necessidade de certificar que as autoridades pú blicas e
instituiçõ es atuem em conformidade com a Convençã o. O item “e” ressalta a
tomada de todas as medidas para a eliminaçã o da discriminaçã o baseada em
deficiência, por parte de qualquer pessoa, organizaçã o ou empresa privada. 
 
- Artigo 5º, inciso II, da “Convenção Internacional sobre
os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo” (Decreto
nº 6.949, de 25 de agosto de 2009), que trata da igualdade e nã o discriminaçã o,
imputando aos Estados Partes atitudes que proíbam “qualquer discriminação
baseada na deficiência e garantirão às pessoas com deficiência igual e efetiva
proteção legal contra a discriminação por qualquer motivo.” Necessá rio ressaltar
que, conforme o Comentá rio Geral nº 6 do Comitê dos Direitos das Pessoas com

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Deficiência, que clarifica as obrigaçõ es do artigo mencionado, os Estados partes
devem abordar a “discriminaçã o mú ltipla” e interseccional contra as pessoas
deficientes, ou seja, identificar as situaçõ es em que uma pessoa pode sofrer
discriminaçã o por dois ou vá rios motivos. O caso em aná lise insere-se neste
contexto, uma vez que a vítima possuía mú ltiplas vulnerabilidades, seja por
circunstâ ncias físicas, seja por circunstâ ncias econô mico-sociais.
 
- Artigo 17º da “Convenção Internacional sobre os
Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo” (Decreto nº
6.949, de 25 de agosto de 2009), o qual assegura a proteçã o da integridade da
pessoa. Assim, toda pessoa que possui deficiência tem o direito que sua integridade
física e mental seja respeitada, em igualdade de condiçõ es com as demais pessoas.
Este dispositivo remete diretamente ao direito universal de proteçã o à saú de e à
vida, e à s obrigaçõ es que os Estados têm de garantir a criaçã o das condiçõ es
necessá rias para que nã o se produzam violaçõ es como a que aqui se verifica. 

- Artigo 6º do Pacto Internacional de Direitos Civis e


Políticos (Decreto nº 592, de 6 de julho de 1992), visto que, para além da violência
perpetrada à vítima, esta foi cometida por agentes pú blicos.  Ao negar provimento
ao recurso de Apelaçã o, o E. Tribunal de Justiça de Sã o Paulo ignorou as
circunstâ ncias de um processo instruído por 16 volumes, nã o se atentando a
provas incontestes de autoria e materialidade que estã o no sentido oposto do
resultado do julgamento pelo tribunal do jú ri.

- Artigos 1º e 16 da Convenção das Nações Unidas Contra


a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes
(Decreto nº 40, de 15 de fevereiro de 1991), os quais vedam a prá tica de
tratamentos cruéis, por parte de agentes do Estado, contra cidadã os.
Considerando, inclusive, que o réu XXXX foi condenado pelo homicídio de dois
indivíduos, em atividade típica, esperar-se-ia que o Estado brasileiro, por meio do
Judiciá rio, valorasse, adequadamente, todas provas produzidas.

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- Artigos 4º e 5º da “Convenção Interamericana de
Direitos Humanos” (Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992), os quais
reiteram o dever de proteçã o à vida e à integridade física dos cidadã os e artigos 8º
e 25 (Direito à Proteção Judicial) da Convençã o Interamericana de Direitos
Humanos, que também encontra respaldo no art. 5º, XXXV, da Constituiçã o Federal
brasileira, que consagra o direito à proteçã o judicial efetiva, visto que os familiares
da vítima têm o direito e os Estados a obrigaçã o de que os fatos sejam efetivamente
investigados pelas autoridades e, nesse sentido, familiares têm o direito de saber a
verdade do que aconteceu (Corte IDH. Caso Radilla Pacheco vs. México. Exceçõ es
preliminares, mérito, reparaçõ es e custas. Sentença de 23-11-2009). Sobre o ponto,
vale frisar que o pró prio acó rdã o “reconhece que não se ignora a existência de
elementos probatórios sugestivos da autoria delitiva dos recorridos”, mas, ainda
assim, negou provimento ao apelo e nã o determinou a realizaçã o de novo
julgamento.

- Artigo 3º, inciso I, item “a” da “Convenção


Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação
contra as Pessoas Portadoras de Deficiência” (Decreto nº 3.956 de 8 de outubro
de 2001) estabelece a tomada das medidas de cará ter legislativo, social,
educacional, trabalhista ou de qualquer outra natureza, que sejam necessá rias para
a eliminaçã o da discriminaçã o contra as pessoas com deficiência, além disso,
afirma a necessidade das autoridades governamentais de adotar medidas para
eliminar, progressivamente, a discriminaçã o.

Ademais, a pró pria Constituiçã o Federal brasileira


estabelece em seu texto a proteçã o do direito à vida e à integridade física:

- Art. 5º, caput e incs. III, da Constituição Federal: assim, a


Constituiçã o Federal ela reafirma, assim como os tratados acima citados, o direito à
vida e à integridade dos cidadã os.

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Por todo o exposto, vê-se que as discussõ es trazidas à baila
no Recurso Extraordiná rio nã o demandam o revolvimento de fatos e provas,
estando também cumpridos todos os requisitos exigidos no art. 1.029 do CPC,
quais sejam: (i) a exposiçã o do fato e do direito; (ii) a demonstraçã o do cabimento
do recurso interposto; e (iii) as razõ es do pedido de reforma ou de invalidaçã o da
decisã o recorrida.

Portanto, deve este ser conhecido e julgado pela Corte


Suprema.

4. DOS PEDIDOS

A partir de toda essa exposiçã o, fica evidente que o Recurso


Extraordiná rio teve sua admissibilidade erroneamente negada pela v. decisã o
atacada, uma vez que restaram perfeitamente demonstradas e especificadas as
violaçõ es diretas à Constituiçã o Federal perpetradas pelo acó rdã o que desproveu a
apelaçã o desta Defensoria.

Pede-se, pois, a reconsideração do juízo de


admissibilidade do Recurso Extraordinário interposto para que seja
conhecido e provido, a partir de uma devida aná lise do mérito nele alegado.

Termos em que pede deferimento.

Sã o Paulo, 19 de janeiro de 2020

Defensor Pú blico Coordenador


Nú cleo de Cidadania e Direitos Humanos

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