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ESTUDO COMPORTAMENTAL DE Phascolarctos cinereus

(Goldfuss, 1817)

Elisa Teófilo Ferreira, Rodrigo Milan Calegari

Bauru, 2021
1. INTRODUÇÃO

Coalas (Phascolarctos cinereus Goldfuss, 1817) (Figura 1) são marsupiais arbóreos

folívoros, endêmicos da Austrália, com uma alimentação específica baseada em folhas de eucalipto.

Das 600 espécies de eucaliptos presentes na Austrália, os coalas só são observados em 120 e

somente 14 são consideradas como suas fontes principais de alimento, a maioria do subgênero

Symphyomyrtus (Jackson, 2011). De acordo com William Foley no livro de Jackson (2011), “Koala:

Origins of an Icon”, as folhas de eucalipto possuem uma quantidade substancial de proteínas,

comente 4%,, sendo o restante da composição 55% água, 15% fibras, 13% taninos e outros fenóis,

componentes estes que são tóxicos para outras espécies, 7% de açúcares e 6% de lipídeos.

Figura 1: Phascolarctos cinereus

1
fonte: iNaturalist Austrália, 2020
A grande quantidade de fibras, taninos e sua composição de lipídios torna as folhas

praticamente impalatáveis, por outro lado o conteúdo de água é tão alto que os animais quase não

necessitam de outras fontes para se hidratar (Degabriele et al., 1978).

Esta dieta que dispõe de pouca energia dita grande parte da ecologia dos coalas, para

sobreviver com esta dieta pobre são necessárias adaptações específicas, tanto anatomia e

metabólicas, quanto de comportamento (Martin e Handasyde, 1999). Estas adaptações incluem

desde uma microbiota especializada (Blyton et al., 2019), até o fato de estarem dormindo ou

1
https://www.inaturalist.org/photos/106106208
descansando a maior parte do tempo, como um modo de poupar energia para as atividades

essenciais.

Esses animais ocorrem naturalmente na região leste e sudeste do continente (Figura 2),

podendo ocorrer em regiões insulares (Martin e Handasyde, 1999 apud Neaves et al., 2016), embora

registros fósseis apresentam evidências da ocorrência desses animais na região oeste do país, antes

da extinção dessa população através da caça dos nativos (Martin e Handasyde, 2016). A distribuição

desses animais vem diminuindo cada vez mais devido a perda de hábitats pela fragmentação e pela

maior suscetibilidade a doenças.

Figura 2 - Ocorrência de Coalas na Austrália (em fuccia


áreas de introdução)

Fonte: IUCN (International Union for Conservation of Nature) 2008

Apesar de estarem amplamente distribuídos no leste do continente australiano, esses animais

estão sofrendo com a fragmentação de habitats causada pela agricultura, urbanização, secas,

incêndios florestais e mudanças climáticas (Jackson pp.217-245), em decorrência disso estão

classificados atualmente em vulnerabilidade (Woinarski e Burbidge, 2020). Tendo isto em vista, a

principal forma de conservação dos coalas é a criação de santuários que conservam tanto o habitat

quanto os animais. O principal santuário para conservação dos coalas é o Lone Pine Koala

Sanctuary (Figura 3) que está localizado na Austrália em um parque de 18 hectares ao lado do Rio
Brisbane. Foi inaugurado em 1927, nesta época possuía apenas dois coalas chamados Jack e Jill,

hoje possui mais de 300 indivíduos.

Figura 3. Mapa do Lone Pine Koala Sanctuary

O santuário foi estabelecido para fornecer um refúgio seguro para coalas doentes, feridos e

órfãos, em uma época em que estavam sendo mortos por sua pele. O local conta com um centro de

pesquisa e ciência de coala de classe mundial, o Brisbane Koala Science Institute, abrigando duas

equipes de pesquisa em tempo integral, um laboratório de pesquisa e um Koala Biobank (depósito

genético).

2. OBJETIVOS

O objetivo do presente trabalho foi observar o comportamento de indivíduos da espécie

Phascolarctos cinereus em ambiente de cativeiro, e fazer comparações com os comportamentos

observados no ambiente natural que serão descritos com base na bibliografia.

3. MATERIAIS E MÉTODOS

O estudo foi realizado através de observações de streams de dois recintos de coalas do Lone

Pine Koala Sanctuary em Queensland (Lone Pine Koala Train2 e Koala Forest3). O primeiro

método de amostragem selecionado foi a técnica de amostragem Ad libitum, onde o observador

2
https://www.mangolinkcam.com/webcams/zoos/koalas-lone-pine.html
3
https://www.mangolinkcam.com/webcams/zoos/koala-forest.html
descreve todos os comportamentos dos animais observados. As observações ocorreram por 10

turnos de 2 horas, sendo 5 turnos com observações diurnas e 5 turnos com observações noturnas.

Como segundo método utilizamos a amostragem comportamental, registro de um

determinado comportamento detalhadamente, para contabilizar o tempo médio que os animais

passam em posições de descanso, como quando estão dormindo ou quando estão somente sentados

sobre o galho. Neste método observamos 10 animais em “posição neutra” ou “dormindo” , 5

observações no período noturno e 5 observações no período diurno, e contabilizamos o tempo

médio que passaram nestas posições.

O período diurno foi definido como das 6h da manhã até às 18h da noite e o período noturno

das 18h às 6h da manhã na Austrália. Os streams utilizados permanecem disponíveis por 12h e

possuem o horário local (Figura 4), portanto, mesmo com a diferença entre o fuso horário do Brasil

e da Austrália, foi possível fazer as observações nas faixas de horário especificadas.

Figura 4. Live stream Koala Train com localização, data e horário.

Em adição a estas observações online, foram realizadas pesquisas por estudos

comportamentais de coalas para comparação com os comportamentos observados. Além disso,

foram selecionados artigos que abordam o comportamento de beber água, e a vocalização dos

machos, uma forma de complementar o estudo comportamental feito neste trabalho, pois não seria

possível a observação destes comportamentos por meio das câmeras do stream.


A vocalização não pode ser citada em nossas observações pois as câmeras dos streams não

possuem som, então mesmo que observássemos movimentos que se assemelhavam a vocalização

não teríamos certeza sobre esta unidade comportamental. Deste modo, descreveremos este

comportamento de acordo com Mella et al. (2020).

Em relação ao comportamento de beber água, dois fatores limitavam nossa observação,

primeiro o simples fato de os coalas terem uma necessidade pequena de beber água diretamente,

pois absorvem a maioria do que é necessário das folhas que se alimentam (Degabriele et al., 1978;

Ellis et al., 1995), o segundo fator é que as câmeras são fixas e os locais que tivemos acesso por

meio destas câmeras não possuíam nenhuma fonte de água. Este comportamento será descrito de

acordo com o trabalho de Charlton (2011).

4. RESULTADOS

4.1. Comportamentos observados

Durante as observações foram identificadas e descritas as seguintes unidades

comportamentais: “posição neutra”, “dormir”, “andar”, “saltar”, “escalar”, “comer”, “coçar” e

“deitar”. As unidades estão descritas na Tabela 1, juntamente com figuras (prints do stream) para

ilustrar as observações.

Tabela 1. Descrição das unidades comportamentais observadas.


Comportamento Descrição Observação

Posição neutra O animal senta-se sobre um galho, Figura 5. coala em posição neutra.
entre dois galhos na vertical e se
segura em um deles, ou, o animal se
senta em um galho e se agarra em um
outro galho, enquanto se mantém
alerta.
Dormir O animal se apoia em um galho e se Figura 6. Coalas dormindo.
encolhe com a cabeça também
apoiada no galho ou encolhida junto
ao peito, com os olhos fechados.
Os coalas podem também se apoiar
uns nos outros enquanto dormem.

Andar Com as quatro patas apoiadas no Figura 7. Coala andando.


galho o coala se locomove
alternando as patas (traseira esquerda
+ dianteira direita / traseira direita +
dianteira esquerda).

Saltar O animal apoia-se sobre as duas Figura 8. Coala saltando.


patas traseiras e se impulsiona para o
local desejado utilizando as patas
dianteiras para agarrar-se a um
tronco no destino.

Escalar O coala se agarra a um tronco com as Figura 9. Coalas escalando.


quatro patas, utilizando as patas
dianteiras ele se fixa a um ponto
mais alto e movimenta as patas
traseiras logo após, repetindo o
movimento (dianteira para cima +
traseiras), alternando as patas
dianteiras.

Comer Com as patas traseiras e uma das Figura 10. Coalas comendo.
patas dianteiras o coala se segura em
um galho enquanto com a outra pata
dianteira ele leva as folhagens à
boca.
Coçar Utilizando suas garras afiadas, o Figura 11. Coalas se coçando.
animal faz movimentos rápidos para
se coçar, geralmente com um das
patas traseiras enquanto utiliza as
outras patas para se fixar a um galho.

Deitar O coala apoia todo o corpo em um Figura 12. Coala deitado.


tronco, utilizando as garras para se
fixar ao tronco.

No período diurno, “dormir” e “posição neutra” foram os comportamentos observados com

mais frequência, sendo 44,12% das observações, além disso grande parte (17,65%) das observações

neste período foram dos animais se coçando, um comportamento que ocorre enquanto estão ainda

em descanso, totalizando então 62,75% (também contabilizando o comportamento “deitar”) de

observações dos animais em descanso no período diurno (Figura 13).

No período noturno 41,38% das observações corresponderam a “dormir”, “posição neutra”

ou “coçar”, neste período ocorreram a maior quantidade de observações dos animais se

alimentando, somente 4 animais foram observados se alimentando durante o dia, enquanto durante a

noite foram observados 18 animais se alimentando, correspondendo a 20,69% das observações do

período noturno (Figura 13).

De modo geral os comportamentos de locomoção (“andar”, “saltar”, “escalar”) dos animais

não divergiram muito entre os períodos, e os comportamentos de descanso tiveram uma diferença

de 21,37%, uma diferença considerável, assim como a diferença nas observações de alimentação

entre os períodos em que ocorreu uma diferença de 16,77% (Figura 13).


Figura 13. Gráficos das frequências das observações dos comportamentos em 5 horas no período
diurno e 5 horas no período noturno (5 turnos de 2 horas em cada período).

Levando em conta o tempo total observado e considerando todas as observações sem

distinção de período (Figura 14), os comportamentos de descanso permanecem como os mais

frequentes (52,91%) sendo a locomoção o segundo comportamento mais frequente (35,45%). A

distribuição de frequências, no entanto, não reflete precisamente a quantidade de tempo que os

animais gastam em cada comportamento.

Figura 14. Gráfico das frequências das observações dos comportamentos em 10 horas (5 turnos de
2 horas em cada período).

Para podermos estipular o tempo que o animal passa em descanso, foram feitas 5

observações contínuas de animais dormindo ou em posição neutra, em cada período. No período


diurno os coalas observados dormiram em média 6,46 horas, ocorrendo observações em que o

animal permaneceu em descanso por até 10 horas. No período noturno os animais dormiram em

média 2,7 horas, sendo que a observação mais longa o animal dormiu por 4 horas. Por estas

observações podemos ver a diferença entre a atividade dos animais entre os diferentes períodos.

4.2. Comportamentos citados na literatura

Dentre os comportamentos abordados como complementação por meio da literatura

citaremos a “vocalização” (Charlton, 2011) e “beber água” (Mella et al., 2020). (Tabela 2).

Tabela 2. Descrição das unidades comportamentais citadas na literatura.

Comportamento Descrição Observação

Vocalização O animal ergue a cabeça para cima e Figura 15. coala vocalizando.
com a boca aberta emite sons. O
bellow é o tipo de vocalização mais
estudado atualmente, “começando
com uma fase introdutória staccato
que consiste em desvios abruptos de
amplitude e nenhuma estrutura
harmônica clara, isso é seguido por
uma série contínua de inalações e
exalações mais curtas do tipo
arroto", como descrito por Charlton
(2011). fonte: autor desconhecido.
Demais tipos de vocalização são descritos
após a tabela.

Beber água Coalas podem beber a água que Figura 16. Coala lambendo água de
escorre dos troncos após a chuva ou um tronco.
de outras fontes geralmente
colocadas por humanos. Sentado
sobre o galho, o animal se apoia no
tronco e utiliza a língua para lamber
a água que escorre, durante a chuva
ou imediatamente após (Mella et al.,
2020).

fonte: Echidna Walkabout and Koala


Clancy Foundation
4.2.1. Vocalização

Segundo o artigo “Behavior of the Koala, Phascolarctos cinereus (Goldfuss), in Captivity

III” de Smith, M. (1980), podem ocorrer diferentes tipos de vocalização, dentre elas: o squeak, o

squawk, o grunt, harsh grunt, snarl, wail, scream e bellow.

Squeak (Rangido): É um som de choro emitido pelos filhotes e jovens, é emitido quando o

animal está em uma situação estressante, nos filhotes, principalmente quando distantes da mãe. Os

jovens emitem esse som quando apresentam dificuldades em realizar tarefas, como por exemplo,

quando apresentam dificuldade de se manobrar nas árvores.

Squawk (Grasnado): Esse som seria um squeak mais desenvolvido, um som alto, áspero,

variável e frequentemente mais longo que o squeak, não há registro da emissão de som por machos

adultos. O som é emitido em situações agonísticas.

Grunt (Grunhido): Um som gutural muito baixo produzido de boca fechada, o som ocorre

em machos e fêmeas com exceção dos mais jovens. Emitido em respostas a estímulos fracos como

quando manuseados, ou quando escalado por outro coala para dar passagem.

Hard Grunt: São vocalizações guturais muito mais altas que os Grunt, ocorrem durantes as

brigas entre coalas machos (comumente emitido quando as mandíbulas do animal estão presas no

corpo do oponente (fêmeas raramente participam de brigas violentas, porém quando participam

também emitem esse som).

Snarl (Rosnado): Padrão de vocalização mais encontrado em fêmeas, é um som agudo,

áspero e gutural, o som estaria entre um grunhido e um grito. Som emitido pelas fêmeas, pois

durantes alguns períodos as mesmas se tornam hipersensíveis a presença ou contato de outros

coalas.

Wail (Lamento): Som típico de fêmeas agressivas, uma vocalização bem estruturada com

muitas harmonias. Emitidos em contextos similares ao snarl.

Scream (Grito): Som similar ao wail, mas mais alto e mais prolongado, tipicamente emitido

por fêmeas agressivas quando estão atacando. Podem também ser emitidos por machos quando as

brigas estão extremamente violentas.


4.2.2. Influxo de água

No estudo de Mella (2020), “An insight into natural koala drinking behaviour”, foram feitas

44 observações de coalas livres bebendo água no You Yangs Regional Park (YYRP) em Victoria. Os

coalas foram observados lambendo a água escorrendo pelo tronco das árvores durante ou

imediatamente após um evento de chuva.

Outras duas observações ocorreram entre Gunnedah e Mullaley, em Liverpool Plains e em

Mount Sumner. Na primeira observação um coala fêmea com um filhote foi observado bebendo

água durante um evento de chuva, o coala estava sentado na chuva entre dois galhos de um

Eucalyptus camaldulensis e lambia a água que escorria pela superfície lisa do tronco da árvore. O

animal bebeu ininterruptamente por 15 minutos enquanto o filhote permaneceu junto à mãe. Na

segunda observação, também um coala fêmea, foi observada bebendo água por 34 minutos, porém

não ininterruptamente.

5. DISCUSSÃO

5.1. Padrões de atividade e comportamento social

Na maioria das observações citadas na literatura, os coalas são descritos como animais

pouco ativos, passando grande parte do seu tempo dormindo. As observações feitas corroboram

com estas descrições, tanto no período diurno quanto noturno os comportamentos mais frequentes

são os relacionados ao descanso (posição neutra ou dormir).

Por meio da observação mais específica destes comportamentos de descanso contabilizamos

também o tempo passado nestas posições, com isso podemos observar que, apesar da mesma

frequência, no período diurno os animais passavam mais horas descansando que no período

noturno, sendo então relativamente mais ativos no período noturno onde se alimentam e

consequentemente se locomovem mais. De acordo com Jackson (2011) em um período de 24 horas

os coalas podem passar até 20 horas dormindo, e em média gastam entre 1 e 4 horas se alimentando

em intervalos de 20 minutos dispersos nestas 24 horas, sendo que a maioria tem preferência por se

alimentar de noite (Robbins e Russell, 1978).


No Lone Pine Koala Sanctuary em Queensland, as folhas de eucalipto ficam disponíveis

para os animais o tempo todo, nas observações sempre haviam folhas disponíveis. Estas folhas estão

em galhos que são trocados uma vez ao dia. Como mencionado por Adam et al. (2021), muitos

locais podem alimentar os coalas somente durante o dia para estimular a atividade dos animais para

exibição, e esta atividade pode ter impacto na temperatura corporal dos animais. A alimentação

noturna pode ser uma adaptação que reduz a carga de calor em épocas com temperaturas elevadas

(Adam et al., 2021).

Coalas podem exibir comportamentos sociais diversos apesar de sua pouca atividade, entre

elas as atividades de vocalização, comportamentos agressivos, atividades reprodutivas e cuidado

maternal, apesar disso a maior parte do tempo é dedicada a comportamentos solitários como

descansar ou comer (Jackson, 2011).

No ambiente observado por meio das câmeras, podemos observar que os coalas mesmo que

em um espaço limitado permaneciam na maioria das vezes separados, sem ter contato direto com

outros indivíduos. Houve poucas observações de contato entre dois animais, que ocorreram

enquanto dois coalas dormiam um se apoiando sobre o outro. Com exceção destas observações, os

animais demonstraram o mesmo padrão descrito na literatura, sem muitas atividades sociais (Martin

e Handasyde, 1999).

Na natureza os machos dominantes tendem a se movimentar mais e por áreas maiores,

chegando a ter uma área de vida de até 300 hectares (Rus et al., 2020), com isto eles têm mais

encontros com outros coalas. Mesmo com este comportamento, os machos dominantes não

apresentam uma área exclusiva que ocupam e não são animais territoriais, foi observado em estudos

que pode ocorrer a sobreposição de área de um macho com outros machos e, principalmente, com

fêmeas (Martin e Handasyde, 1999).

De acordo com Martin e Handasyde (1999), coalas apresentam adaptações comportamentais

para conservar energia. Apresentar poucas atividades e movimentos, e não possuir muitas atividades

sociais, é um reflexo da necessidade de compensar a dieta relativamente pobre.


5.2. Vocalização e falta de som nas transmissões

Segundo o artigo “Behavior of the Koala, Phascolarctos cinereus (Goldfuss), in Captivity

III” de Smith, M. (1980) os coalas apresentam mais tipos de vocalização além do Bellow, que

atualmente é o padrão mais estudado.

Os santuários que fazem a transmissão dos animais não realizam a transmissão de sons, que

por sua vez pode vir a ser um fator negativo para a observação dos coalas. Esses animais

apresentam padrões sonoros distintos entre os sexos (Smith, 1980; Charlton, 2015), além de

demonstrar uma seleção sexual, pois a vocalização do macho (Bellow) está relacionada com o seu

tamanho, sendo a principal variável das fêmeas para a seleção de um parceiro reprodutivo

(Charlton, 2012) e indicando para outros machos o tamanho do macho vocalizador (Charlton,

2013).

Além disso, vários contextos mostrados por Smith (1980) em que ocorrem a vocalização dos

coalas, foram testemunhados durante nossas observações, como quando um coala escala o outro

para deslocar para outra parte do tronco, que segundo o artigo de Smith (1980) é uma relação em

que normalmente ocorre o Grunt. As fêmeas podem apresentar períodos de hipersensibilidade a

presença de outros animais, e quando isso ocorre elas realizam a emissão de Snarl, wail e scream,

portanto com a ausência do som, nós acabamos perdendo alguns dados importantes sobre o padrão

de comportamento desses animais.

5.3. Influxo de água

No estudo de Ellis et al. (1995), ao analisar o influxo de água dos animais em vida livre, o

autor observa uma correlação positiva entre o influxo de água dos animais com a quantidade de

água presente nas folhas. Já o estudo de Mella et al. (2019) mostrou que os Coalas, podem realizar

o consumo de água de fontes artificiais (colocadas por seres humanos), além da observação do

hábito de beber água pluvial nos troncos das árvores (Mella et al., 2020), indicando que a

dependência dos coalas de fontes livres de água pode ser maior do que imaginado anteriormente. O

estudo de Mella et al. (2019) demonstra que o aumento da temperatura dos habitats, pode ser
prejudicial para esses animais, pois a quantidade disponível de água nas folhas seria menor,

aumentando cada vez mais sua dependência de outras fontes de água.

Durante as observações das câmeras, não foi possível observar a presença desse

comportamento, uma vez que não ocorreram chuvas durante os períodos observados, além disso

não há informações do santuário sobre a presença de fontes artificiais de água. Entretanto, o que

pode ser relatado é que os animais ficam por longos períodos em cima das árvores, o que pode

servir como indício de que em cativeiro, as folhas das árvores são suficientes para fornecer a

quantidade de água para o animal. Apesar disso, não é possível descartar a possibilidade de os

animais se beneficiarem de outras fontes de água.

6. CONCLUSÃO

Mesmo em ambiente de cativeiro, com sua área de vida muito limitada em relação ao

ambiente natural, os coalas apresentaram comportamentos muito semelhantes aos relatados na

literatura. Eles não possuem interações sociais frequentemente apesar de existirem. São animais que

se alimentam no período noturno e passam a maior parte do seu tempo, independente do período,

descansando e poupando energia.

Apesar das observações terem descrito muitos comportamentos, a falta de dados sonoros,

associados com a falta de bibliografia encontrada sobre vocalização em cativeiro, deixam uma

lacuna de conhecimento sobre esse padrão de comportamento, tão importante para a seleção sexual

dos animais de vida livre, em cativeiro.

Por fim, há uma pequena observação em relação às pesquisas comportamentais de coalas.

Existem poucos estudos recentes e atualizados sobre animais em seu ambiente natural, e menos

estudos ainda sobre o comportamento em cativeiro. As pesquisas que obtivemos acesso eram em

sua grande maioria em relação a doenças e genética destes animais, uma área muito importante

devido a vulnerabilidade das populações existentes, porém, seria muito relevante explorar mais a

fundo os hábitos deste animal com adaptações tão importantes para um ambiente e uma alimentação
tão diferenciados, além de ser necessário estudar como as mudanças climáticas impactam na vida

dos marsupiais símbolo da Austrália.

7. REFERÊNCIAS

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