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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA CRIMINAL DA

COMARCA DE XXX

Processo nº XXX (XXX)

O NÚCLEO ESPECIALIZADO DE CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS


DA DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO, atuando em favor dos
interesses dos familiares de XXXX, vem, respeitosamente, à presença de V. Excelência,
nos autos do processo em epígrafe, diante do arquivamento do inquérito policial
promovido pelo representante do Ministério Pú blico em 13 de março de 2020 e
homologado por V.Exa. em decisã o publicada no dia 27 de julho de 2020, requerer o
DESARQUIVAMENTO DO INQUÉRITO, conforme os fundamentos trazidos a seguir:

1. DA ATUAÇÃO DA DEFENSORIA NA DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS

A Defensoria Pú blica tem como missã o institucional e constitucional a


defesa e promoçã o dos Direitos Humanos, conforme disposto no art. 134 da Constituiçã o
Federal.

Diante da gravidade do presente caso, a Defensoria Pú blica


acompanhou alguns depoimentos dos familiares na Delegacia de Cotia e na Corregedoria

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e, ao longo dos 6 anos da investigaçã o, solicitou por algumas vezes có pias das
investigaçõ es. Esse acompanhamento era feito pois acreditá vamos que, diante de tudo
que foi demonstrado nos autos, haveria denú ncia dos indiciados, com posterior
habilitaçã o da Defensoria Pú blica como assistente de acusaçã o. O arquivamento causou
surpresa nã o só aos signatá rios, como a todos os familiares.

Vale destacar que a lei orgâ nica da Instituiçã o (Lei Complementar


80/94, com Redaçã o dada pela Lei Complementar nº 132, de 2009) determina em seu
Art. 4º que: “Sã o funçõ es institucionais da Defensoria Pú blica, dentre outras: VI –
representar aos sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos,
postulando perante seus ó rgã os”.

Todavia, a Defensoria sempre preconiza a soluçã o pacífica dos conflitos,


pautando sua atuaçã o conforme o decidido pelas Cortes Internacionais de Direitos
Humanos. Nesse sentido, a pró pria Corte Interamericana determina que a atuaçã o de
ó rgã o nacionais seja sempre feita pelo viés da compatibilidade dos atos internos em face
de tratados de proteçã o de direitos humanos, ao que se denomina de Controle de
Convencionalidade.

Como é cediço, os juízes de tribunais domésticos, por estarem sujeitos


ao “império da lei”, também estã o submetidos aos tratados internacionais ratificados
por seus países, sendo obrigados, portanto, a aplicá -los.

Desde o caso Almonacid Arellano vs. Chile, a CIDH vem precisando o


conteú do e alcance do conceito de Controle de Convencionalidade em sua
jurisprudência, chegando-se a um conceito complexo que abrange os seguintes
elementos: a) consiste em verificar a compatibilidade das normas e outras prá ticas
internas com a Convençã o Americana de Direitos Humanos (CADH), a jurisprudência da
Corte Interamericana (incluído sua competência consultiva) e os demais tratados
interamericanos de que o Estado seja parte; b) é uma obrigaçã o imposta a todas as
autoridades pú blicas no â mbito das suas competências; c) é um controle que deve ser
realizado ex officio por qualquer autoridade pú blica; d) a execuçã o pode envolver a

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remoçã o de regras contrá rias à CADH ou sua interpretaçã o conforme a CADH,
dependendo da competência da autoridade pú blica.

Assim, por existirem elementos que indicam para a existência de


autoria certa, materialidade e ausência de quaisquer causas excludentes de ilicitude,
conforme restará demonstrado, este Nú cleo Especializado entende que seria o caso de
oferecimento da denú ncia, sob pena de o arquivamento redundar em um
acionamento dos Sistemas Internacionais de Proteção de Direitos Humanos e a
condenação internacional do Brasil.

2. DA BREVE SÍNTESE DO PROCESSADO

O inquérito policial em tela foi instaurado em XX de setembro de XXX


pela Delegacia de Polícia do 2º DP de XXa para apurar os fatos registrados no Boletim de
Ocorrência nº XXX.

Os fatos foram investigados como homicídio (art. 121, caput, CP), com
a especificaçã o da imputaçã o à s vítimas do crime de resistência (art. 329, CP), uma vez
que estas estariam em um veículo supostamente envolvido em roubos e, devido a
“atitudes suspeitas”, cinco policiais deram início à perseguiçã o, em duas viaturas, até que
os encurralaram na cidade de Cotia. As vítimas teriam reagido à abordagem policial,
efetuando disparos contra os policiais que, ao seu turno, teriam revidado e, com isso,
causado a morte dos quatro jovens sob a alegaçã o de estarem em legítima defesa.

No dia 03 de março de 2020, o Ministério Pú blico, num esforço


hercú leo, promoveu o arquivamento dos autos do inquérito policial por entender ser
ausente justa causa para a propositura da açã o penal em razã o dos policiais militares
estarem amparados pela excludente de ilicitude da legítima defesa, tendo V.Exa.
homologado o arquivamento em decisã o publicada em 27/07/2020.

3. DAS RAZÕES DO PEDIDO DE DESARQUIVAMENTO

A autoria e materialidade sã o incontroversas no presente caso,


conforme se observa pelos laudos dos exames de corpo de delito e pelas declaraçõ es dos

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cinco policiais investigados XXXXX que confirmaram terem atirado nas vítimas. Nã o por
outro motivo, o pró prio Ministério Pú blico afirma que “...embora se reconheça, por um
lado, a presença da materialidade e autoria do delito, por outro, há que se considerar
que os policiais assim agiram para repelir injusta e atual agressão a seu direito” (fls. 1145,
v.5).

No entanto, os objetivos que perfazem a fase de investigaçã o sã o claros,


quais sejam, apurar a ocorrência de uma infraçã o penal e sua autoria. Assim, nã o pode
ser admitido que se pretenda neste expediente - sumá rio - o exaurimento de teses e
argumentos, como a alegaçã o de legítima defesa, a qual deve ser oportunamente
confrontada na fase processual, onde se profere tutela de segurança.

Por ora, os elementos apresentados pela investigaçã o sugerem, na


verdade, inexistência da legítima defesa ou, no mínimo, seu evidente excesso, como será
demonstrado adiante. O exercício da açã o penal pelo seu titular, portanto, é medida que
se impõ e para que, no decorrer da instruçã o processual, as contradiçõ es presentes na
versã o dos policiais sejam plenamente confrontadas.

Essa conclusã o é decorrência ló gica do princípio in dubio pro societate


que vigora nesta fase inquisitorial, conforme jurisprudência pacífica do STJ - que já
afirmou, em diversos julgados, que a propositura da açã o penal exige tã o somente a
prova da materialidade e a presença de indícios mínimos de autoria1.

De fato, o princípio “in dubio pro societate” pressupõ e que a dúvida


seja administrada em favor da sociedade, de forma que havendo qualquer dú vida a
respeito da ocorrência da legítima defesa, o que se espera é o oferecimento da denú ncia
para que, no curso da instruçã o processual, se decida se a conduta foi ou nã o justificada.

1
Neste sentido: HC 611.511/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado
em 06/10/2020, DJe 15/10/2020). HC 433299/TO,Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, Julgado
em 19/04/2018, DJE 26/04/2018. HC 426706/MG, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA,
Julgado em 17/04/2018, DJE 24/04/2018 AgRg no AREsp 535230/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI,
QUINTA TURMA, Julgado em 20/02/2018,DJE 02/03/2018 RHC 081735/PA, Rel. Ministro REYNALDO
SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, Julgado em 17/08/2017,DJE 25/08/2017 RHC 054186/SP ,Rel.
Ministro LEOPOLDO DE ARRUDA RAPOSO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/PE), QUINTA TURMA,
Julgado em 01/09/2015,DJE 11/09/2015

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Contudo, nã o foi dessa forma que procedeu o Ministério Pú blico.
Conforme se observa, para sustentar o arquivamento, representante do Parquet toma
como verdadeira a versã o de que os policiais militares agiram para repelir injusta
agressã o (fls. 1137 a 1146). Faz-se diversas suposiçõ es a fim de se conciliar os laudos
periciais com a versã o dos investigados. Admite-se que não foram encontrados
resíduos nas mãos das vítimas e que laudo pericial apontou que, surpreendentemente,
nenhum projétil atingiu as viaturas (fls. 1141), entretanto, o Promotor apenas aduz,
por sua pró pria interpretaçã o dos laudos, que “não restou comprovado que não atiraram
contra os policiais”.

Ora, tampouco restou comprovado que elas o fizeram. Segundo laudo


do Instituto de Criminalística (fls. 157/159), a respeito da cena do crime, constatou-se
que os veículos da Polícia Militar - força tá tica M16023 e M16002 - não tiveram
qualquer dano; pouco razoá vel que diante da alegada “troca de tiros” que teria
justificado o “revide” contra a “injusta agressã o” praticada pelas vítimas, as duas
viaturas da Polícia Militar tenham saído ilesas, o que corrobora a hipó tese de execuçã o
sumá ria.

Há ainda a constataçã o de que não houve disparos de dentro para


fora do veículo, apenas de fora para dentro (fl. 950), o que põ e em xeque, mais uma
vez, a dú vida se as vítimas tinham, de fato, disparado contra os policiais. Interessante
notar que o laudo pericial, mesmo diante dos fatos constatados, dedica-se a conjecturar
hipó teses para legitimar a versã o dos policiais:

“Contudo, conjecturando-se, não há impedimento de que os disparos


contra os policiais tenham sido efetuados pelos indivíduos 3 e 4,
quando buscam a evasão, e que tenham sido confundidos com
disparos vindo do interior do veículo (em vez de sua lateral
externa), devido às circunstâncias do horário dos fatos (noturno) e
precária iluminação pública. Ou ainda, que tenha ocorrido a
suposição do disparo pelo ruído, na hipótese de ter sido provocado,
no interior do veículo, pelo picotamento da espoleta, sem expulsão
do projétil".

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Assim, o promotor incita sua pró pria hipó tese, de que “apesar de não
haver nenhum indicativo de tiros de dentro do carro para fora nada impede que as vítimas
tenham saído do carro e atirado” (fl. 1143). Mais uma vez, nada impede, também, a
conclusão contrária, de que as vítimas sequer tenham saído do carro, pois ali
mesmo foram executadas, sem qualquer chance de se defenderem. Hipó tese,
inclusive, bastante plausível quando analisadas as fotos de seus corpos ensanguentados
dentro do veículo:

Observa-se, também, pelas fotos e os locais das lesõ es de XXX –


devidamente comprovadas pelos laudos periciais que apontam ferimentos no pescoço,
tó rax, clavícula (fls. 146/148) – nã o de compatibilizam com a versã o de que os tiros
foram dados à longa distâ ncia.

Apesar disso, em mais uma tentativa de justificar, em favor dos


investigados, a comprovaçã o do laudo de que não houve tiros de dentro para fora, o
promotor admite que tal comprovação se contrapõe à versão dos policiais, mas
alega que nã o se pode excluir a hipó tese de que alguns dos policiais possam ter efetuado
disparos e confundido os pró prios policiais “o que os torna acobertados, nesta hipótese
conflituosa e permeada de emoção exacerbada, pelo manto da excludente de ilicitude de
forma putativa” (Fls. 1145). O promotor conclui ainda que “nas armas encontradas no
veículo em que as vítimas estavam, foram encontrados cartuchos e munições picotadas,
indicando-se que foram efetuados disparos em face dos policiais” (Fls. 1143). Ora,
evidente que as hipó teses do promotor, para suprir as lacunas das investigaçõ es, sempre
vã o no sentido de legitimar a açã o dos policiais. Como aceitar tamanho esforço, em
fase processual na qual vige o in dubio pro societate, para afastar do juiz natural
do caso – o júri – a avaliação sobre os fatos?

O Promotor sustenta, ainda, que o inquérito deve ser arquivado por nã o


ter sido comprovada execuçã o sumá ria nem tortura (Fls. 1140), apesar de tampouco ter

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sido comprovada legítima defesa por parte dos agentes. É flagrante a tentativa de
justificar reiteradamente o que aparenta ser injustificá vel pela pró pria conclusã o da
perícia, sempre no interesse dos policiais investigados. A mera sugestã o da perícia, sem
evidências, é usada como fundamento pelo Ministério Pú blico, à revelia do conjunto de
provas que comprometem de forma absolutamente robusta a versã o dos policiais
militares.

No mais, ainda que fosse considerada vá lida a tese de legítima defesa


num caso em que uma das vítimas foi alvejada de tiros em forma de “colar”, em
que há sérios indícios da alteração do local do crime pelos Policiais e no qual os
celulares dos jovens assassinados foram usados para que seus algozes
divulgassem, para suas famílias e seus amigos, pelas redes sociais, fotos de seus
corpos completamente destroçados, certo é que houve excesso doloso por parte dos
policiais. No veículo GM Corsa, que seria conduzido pelas vítimas e que no momento dos
disparos efetuados pelos policiais militares era ocupado apenas pelos jovens XXXX,
ambos nos bancos dianteiros, foram identificados “4 orifícios de entrada no vidro
dianteiro do motor; 19 orifícios de entrada no para brisa dianteiro; 1 orifício na tampa do
motor; 1 orifício na coluna dianteira direita (fragmento de metal projétil)”, segundo laudo
à s fls. 157/159, totalizando 25 tiros. A quantidade de tiros disparados contra XXX
revelam, de forma inequívoca, que houve excesso por parte dos policiais, uma vez que
nã o agiram tã o somente para desarmar os jovens que supostamente os alvejaram.

Importante ressaltar que o representante do Parquet também


reconhece que os disparos foram excessivos, ainda que argumente, contraditoriamente,
pela sua “moderaçã o”: “é verdade que a quantidade de disparos experimentamos pelas
vítimas sugira um possível excesso na conduta dos polícias. Todavia, diante da cena de
disparos efetuados em sua direção [quais? Quantos? Foram encontrados projéteis?
Onde???] (...) é certo que os policiais reagiram, de maneira individual, dentro dos
preceitos legais de moderação” (fl. 1144 – as perguntas entre colchetes sã o nossas).

Nã o há que se conferir qualquer legitimidade e proporcionalidade à


abordagem policial que resulte na morte de quatro jovens sem quaisquer sinais

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inequívocos de injusta agressã o praticada pelas vítimas. A assimilaçã o de tais crimes
como comuns à atuaçã o policial, sem que sejam submetidos à rígida investigaçã o e
processados pela justiça, implica, infelizmente, em verdadeira autorizaçã o conferida por
todo o sistema de justiça à s prá ticas de violência policial e execuçã o sumá ria que, sem
dú vida, sã o repelidas pelo valores e garantias assegurados pelo texto constitucional e
pelos tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil.

Neste sentido, chama atençã o que dos cinco policiais envolvidos na


açã o, três possuíam antecedentes em ocorrências de morte e “resistência”: o 3º Sargento
da Polícia Militar XXX, com duas ocorrências, o Soldado da Polícia Militar XXXXX, com
cinco ocorrências e o Cabo da Polícia Militar Eugênio XXX, com três ocorrências. Entre
tais agentes, inclusive, estã o aqueles que mais disparam efetuaram: Sargento XXX
confessa 12 disparos (fls. 265 do volume 2) e o Sargento XXX assume 8 disparos (fls. 276
do volume 2).

Se nã o bastasse todo esse contexto, vale destacar que entre 7 e 8 de


setembro de 2014, algumas das fotos aqui juntadas circularam por Whatsapp e foram
publicadas no site “Admiradores da Rota”2 com a seguinte descriçã o: “O vagabundo que
aparece morto nessas fotos era um bandido, foi assaltar um policial militar mas foi
alvejado pela vítima, que reagiu aos tiros ao assalto. Essa é a realidade, se esse verme da
foto descobrisse que sua vítima era um policial, o executaria sem pena tampouco piedade.
Quem pode mais, chora menos, o PM preparado e treinado deitou no balaco esse traste que
só atrasava o lado do cidadão de bem.”

As fotos foram tiradas dos jovens logo apó s a execuçã o e em uma delas
é possível visualizar um policial ao fundo.

As primeiras informaçõ es sobre a divulgaçã o dessas fotos foram


trazidas pela Defensoria Pú blica do Estado de Sã o Paulo, que teve conhecimento da
morte dos dois adolescentes, XXXX, por meio do acompanhamento dos processos de
execuçã o de medida socioeducativa, em trâ mite no Departamento de Execuçõ es da Vara
2
http://admiradoresrotaoficial.blogspot.com.br/2014/09/o-vagabundo-que-aparece-morto-
nessas.html>. O site foi retirado do ar por decisã o do TJSP ainda em 2014.

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Especial da Infâ ncia e Juventude. Nestes autos, foram relatados pelo Serviço de Medida
Socioeducativa que, segundo foi apurado junto a familiares e amigos das vítimas, havia
fortes indícios do crime em questã o se tratar de execuçã o. Ambos os processos foram
juntados ao inquérito policial.

No Relató rio Informativo do Serviço de Medida Socioeducativa de Luan


(fls. 201/203), descreve-se que, segundo relatos dos familiares, os autores do crime
resolveram pegar os celulares das vítimas, acessar seus perfis de rede social e
mandar as fotos do ato, em tempo real, para amigos e familiares. Também no
Relató rio Informativo do Serviço de Medida Socioeducativa de XXX(fls. 195/196),
informa-se que as fotos estavam circulando na regiã o e nas redes sociais desde a morte
dos jovens.

Em ambos os relató rios, em que as fotos foram anexadas, analisa-se que


podem ser observados “sinais de tortura, com requintes de perversidade nas fotos, como:
vários cortes e tiros deferidos em diversas partes dos corpos dos jovens, retirada de dentes
(de pelo menos) um deles, amputação de parte dos dedos (de pelo menos) um dos jovens ”
(fl. 196) e, especificamente quanto a Luan ressalta-se que “teve seu corpo cravado de
balas, formando um colar abaixo do pescoço, teve os dentes do maxilar inferior
arrancados, sofreu mutilações em sua mão, vários cortes efetuados com algum objeto
cortante, além dos hematomas das agressões que lhe foram impostas” (fl. 202). Além
disso, em ambos os relató rios consta que, segundo relatado por familiares e amigos,
apó s a execuçã o dos jovens, vá rias viaturas da polícia militar passaram a rondar a regiã o
e ameaçar os familiares gritando que “quatro já morreram e vão morrer muito mais” (fl.
196 e fl. 202).

Segundo os familiares, as fotos foram compartilhadas originalmente por


um jovem em um grupo popular de “WhatsApp” entre os adolescentes do bairro, apó s
ele ceder à pressã o de um policial para divulgar as imagens como um “alerta” das
consequências em desafiar a força policial. Há relatos também de que outro adolescente
foi abordado no bairro Vila Dalva (adjacente ao bairro das vítimas) por um policial que

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lhe mostrou algumas das mesmas fotos e ordenou-lhe que contasse à s famílias que
foram mortas pela polícia.

Segundo, ainda, informaçõ es apresentadas pela Corregedoria da Polícia


Militar, familiares de XXXXX também denunciaram que fotos de seus parentes
assassinados circularam pelas redes sociais (fls. 249/256). Relata XXX, irmã o de XXX, em
denú ncia na Corregedoria da Polícia Militar de 11 de setembro de 2014, que fotos do seu
irmã o Luan estavam circulando no “WhatsApp” em um grupo de nome “Conexã o
Jamaica”, e que, apó s as execuçõ es, “começaram alguns boatos que as referidas fotos
teriam sido enviadas por um Policial envolvido na ocorrência da morte de seu irmã o
XXX, o qual teria tirado as fotos e enviado para outro policial que por sua vez passou a
mandar as fotos no “WhatsApp” do grupo ‘Conexã o Jamaica’” (fls. 249/256).

Ainda que sejam relatos bastante graves, e mesmo sendo possível a


investigaçã o, nã o só das pró prias fotos – para complementaçã o ao laudo pericial a fim de
responder possíveis incongruência entre elas e os exames de corpo de delito – como
também da origem destas fotos – a fim de se averiguar os autores das fotos e os motivos
da divulgaçã o – não há, ao longo do inquérito, qualquer consideração a respeito das
informações trazidas pelos familiares à Corregedoria da Polícia Militar (fls.
249/256), nem pelos relatórios do serviço responsável pela execução da medida
socioeducativa (fl. 199/203).

Em nenhum momento as fotos e ameaças relatadas são


consideradas na investigação – numa lacuna chamativa a respeito de informaçõ es que
em muito poderiam auxiliar a entender melhor os fatos. As ú nicas providências tomadas
pela autoridade policial quanto a esta questã o, mais de cinco anos após as execuções,
foi uma perícia em dois celulares das vítimas (fls. 1124/1135), sendo que apenas de um
deles foi possível a extraçã o dos dados como mensagens, vídeos e histó ricos de
chamadas. Tais dados, contudo, nunca foram analisadas pelo representante do Parquet
que se contentou com um laudo que nã o descrevia o conteú do dos dados extraídos para
concluir que eles nã o tinham qualquer relevâ ncia.

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Assim, verifica-se que fato gravíssimo – a possível divulgaçã o das fotos
pelos pró prios policiais como forma de intimidaçã o e ameaça – e que poderia servir para
a formaçã o da convicçã o de que os policiais agiram com intençã o deliberada de matar as
vítimas para usá -las como exemplo para a comunidade – nã o foi sequer levado em
consideraçã o em todo esse período de investigaçã o.

O arquivamento do caso em tela, feito com base em entendimento que


contraria frontalmente a jurisprudência pacífica aplicável a este momento
processual (in dubio pro societate, algo que o Ministério Pú blica usa todos os dias para
ver denú ncias recebidas, mas parece ter esquecido nesse caso específico, sabe-se lá por
qual motivo), e respaldado por leitura insustentá vel e distorcida dos laudos periciais e
demais elementos dos autos para favorecer abertamente a versã o policial, é um
escâ ndalo jurídico. Uma das vítimas – repita-se, Excelência – tem um colar de balas:

Em que mundo é possível que isso tenha sido feito num confronto?

Trata-se, portanto, de versã o pouco factível e que nã o foi respaldada


por nenhum dos laudos periciais dos autos. Ainda que tal versã o fosse, ao final da
instruçã o e julgamento, aceita pelos Jurados, nã o há razã o para que ela seja adotada,
neste momento, pelo pró prio Parquet seria responsá vel por defender o in dubio pro
societate.

4. DO PEDIDO

Em razã o de todo o exposto, o arquivamento é incabível. Trata-se, sim,


de caso em que se vislumbra o acontecimento de fato típico, ilícito e culpá vel; o qual
configura grave violaçã o de direitos humanos, sendo certo que da decisã o de
arquivamento do inquérito caberá tã o somente acesso direto aos Sistemas
Internacionais de Proteçã o de Direitos Humanos (OEA ou ONU), uma vez que inexiste
previsã o de recurso dessa decisã o no direito interno.

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Assim é que, diante do exposto, é a presente para requerer o
desarquivamento do processo e a consequente remessa dos presentes autos ao
Procurador-geral, de acordo com o que estabelece o artigo 28 do Có digo de Processo
Penal3, para designaçã o de outro/a promotor/a para oferecimento da denú ncia

Requer-se, ainda, no exercício do controle de convencionalidade, que


seja analisada a negativa de vigência aos: arts. 1º, 4º, 5º, 7º, 8º e 25 da Convençã o
Americana de Direitos Humanos; art. 6º do Pacto Internacional de Direitos Civil e
Políticos; art. 1º da Convençã o Interamericana e demais diplomas internacionais
aplicá veis à matéria, conforme jurisprudência dos casos: Caso Velasquez vs. Honduras
La Cantuta vs. Peru; Nadege Dorzema e outros vs. Repú blica Dominicana; Caso Bulacio
vs. Argentina; Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil; Caso Acosta Y Otros Vs. Nicaragua;
Caso Pollo Rivera Y Otros Vs. Perú ; Caso I.V. Vs. Bolivia, para eventual necessidade de
acionamento sistemas internacionais de proteçã o de Direitos Humanos.

Termos em que pede deferimento,

Sã o Paulo, 26 de outubro de 2020

XXXX
Defensor Pú blico Coordenador
Nú cleo de Cidadania e Direitos Humanos

XXXXXX
Defensora Pú blica Coordenadora Auxiliar
Nú cleo de Cidadania e Direitos Humanos

XXXXXX

3
      Art. 28.  Se o ó rgã o do Ministério Pú blico, ao invés de apresentar a denú ncia, requerer o arquivamento
do inquérito policial ou de quaisquer peças de informaçã o, o juiz, no caso de considerar improcedentes as
razõ es invocadas, fará remessa do inquérito ou peças de informaçã o ao procurador-geral, e este oferecerá
a denú ncia, designará outro ó rgã o do Ministério Pú blico para oferecê-la, ou insistirá no pedido de
arquivamento, ao qual só entã o estará o juiz obrigado a atender.

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Defensora Pú blica Coordenadora Auxiliar
Nú cleo de Cidadania e Direitos Humanos

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