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Evangelho segundo S. Lucas 9,1-6. – cf.par. Mt 10,1.7.9-11.

14; Mc 6,7-13

Tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para
curarem doenças. Depois, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os doentes, e
disse-lhes: «Nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro;
nem tenhais duas túnicas. Em qualquer casa em que entrardes, ficai lá até ao vosso regresso.
Quanto aos que vos não receberem, saí dessa cidade e sacudi o pó dos vossos pés, para servir
de testemunho contra eles.» Eles puseram-se a caminho e foram de aldeia em aldeia,
anunciando a Boa-Nova e realizando curas por toda a parte.

S. João Crisóstomo (c. 345-407), bispo de Antioquia depois de Constantinopla, doutor da


Igreja

4ª homilia sobre a 1ª epístola aos Coríntios

«A tua majestade suprema é proclamada pela boca das crianças, dos pequeninos» (Sl
8,3)

A cruz conquistou os espíritos no meio de pregadores ignorantes, e isso no mundo inteiro.


Não se tratava de questões banais, mas de Deus e da verdadeira fé, da vida segundo o
Evangelho, e do julgamento futuro. A cruz transformou, pois, em filósofos, pessoas simples e
iletradas. Eis como: «a loucura de Deus é mais sábia que o homem, e a sua fraqueza, mais
forte» (1 Co 1,25).

Como é que é mais forte? Porque se propaga pelo mundo inteiro, porque submeteu os homens
ao seu poder e resiste aos inumeráveis adversários que gostariam de ver desaparecer o nome
do Crucificado. Pelo contrário, esse nome desabrochou e propagou-se; os seus inimigos
pereceram, desapareceram; os vivos que combatiam um morto foram reduzidos à
impotência... Com efeito, o que publicanos e pecadores conseguiram vencer pela graça de
Deus, os filósofos, os oradores, os reis, em breve, a terra inteira, em toda a sua extensão, não
foi sequer capaz de o imaginar... Era pensando nisso que o apóstolo Paulo dizia: «A fraqueza
de Deus é mais forte que todos os homens». De outro modo, como teriam podido esses doze
pecadores pobres e ignorantes imaginar uma tal empresa?

São Francisco Xavier (1506-1552), missionário jesuíta


Cartas 4 e 5 a Santo Inácio de Loyola

“Proclamar o Reino de Deus”

Desde que aqui cheguei que não paro: percorri activamente as aldeias, baptizei todas as
crianças que ainda não tinham sido baptizadas. […] As crianças não me deixavam recitar o
ofício divino, nem comer, nem descansar, enquanto não lhes tivesse ensinado uma oração.
Comecei então a compreender que o Reino dos Céus pertence de facto àqueles que com elas
se assemelham (Mc 1, 14). E como não podia, sem ser ímpio, rejeitar pedido tão piedoso,
começando pela profissão de fé no Pai, no Filho e do Espírito Santo, ensinava-lhes o Credo
dos Apóstolos, o Pai Nosso e a Avé Maria. E observei que eram muito dotados; havendo
alguém que os formasse na fé cristã, estou certo de que se tornariam muito bons cristãos.
Há neste país muitos que não são cristãos pelo simples facto de não haver ninguém que faça
deles cristãos. Tive muitas vezes a ideia de percorrer todas as universidades da Europa, a
começar pela de Paris, clamando por toda a parte como um louco e chamando a atenção
daqueles que têm mais doutrina do que caridade, dizendo-lhes: “Oiçam, há muitas e muitas
almas que são excluídas do céu por vossa causa e se afundam no inferno!”

Prouvera a Deus que, assim como se consagram às letras, pudessem também consagrar-se a
este apostolado, a fim de poderem corresponder à doutrina e aos talentos que lhes foram
confiados! Estou certo de que muitos deles, abalados por esta ideia e ajudados pela meditação
das coisas divinas, atentariam ao que o Senhor lhes diz e, rejeitando as suas ambições e os
seus negócios humanos, se submeteriam por completo e em definitivo à vontade e aos
decretos de Deus. Sim, exclamariam do fundo do coração: “‘Que hei-de fazer, Senhor?’ (Act
22, 10). Envia-me para onde quiseres, mesmo que seja para a Índia.”

João Paulo II
Redemptoris missio, §30

"Enviou-os a proclamar o Reino de Deus"

O nosso tempo, com uma humanidade em movimento e insatisfeita, exige um


renovado impulso na actividade missionária da Igreja. Os horizontes e as
possibilidades da missão alargam-se, e é-nos pedida, a nós cristãos, a coragem
apostólica, apoiada sobre a confiança no Espírito. Ele é o protagonista da missão!

Na história da humanidade, há numerosas viragens que estimulam o dinamismo


missionário, e a Igreja, guiada pelo Espírito, sempre respondeu com generosidade e
clarividência. Também não faltaram os frutos! Pouco tempo atrás, celebrou-se o
milénio da evangelização da Rússia e dos povos eslavos, estando para se celebrar o
quincentésimo aniversário da evangelização das Américas; foram entretanto
comemorados, de forma solene, os centenários das primeiras missões em vários
Países da Ásia, da África e da Oceania. A Igreja deve hoje enfrentar outros desafios,
lançando-se para novas fronteiras, quer na primeira missão ad gentes, quer na nova
evangelização dos povos que já receberam o anúncio de Cristo: A todos os cristãos,
às Igrejas particulares e à Igreja universal, pede-se a mesma coragem que moveu os
missionários do passado, a mesma disponibilidade para escutar a voz do Espírito.

Evangelho segundo S. Lucas 9,7-9. – cf.par. Mt 14,1-2; Mc 6,14-16

O tetrarca Herodes ouviu dizer tudo o que se passava; e andava perplexo, pois alguns diziam
que João ressuscitara dos mortos; outros, que Elias aparecera, e outros, que um dos antigos
profetas ressuscitara. Herodes disse: «A João mandei-o eu decapitar, mas quem é este de
quem oiço dizer semelhantes coisas?» E procurava vê-lo.
Orígenes (cerca de 185-253), presbítero e teólogo
Homilias sobre o Génese
"Herodes procurava ver Jesus"

O sol e a lua iluminam os nossos corpos; também Cristo e a Igreja iluminam os nossos
espíritos. Isto é, iluminam-nos se nós não formos cegos espirituais. Porque, do mesmo modo
que o sol e a lua não deixam de derramar a sua claridade sobre os cegos que, contudo, não
podem acolher a luz, também Cristo envia a sua luz aos nossos espíritos. Mas esta iluminação
só tem lugar se a nossa cegueira não lhe puser obstáculos. Por isso, que os cegos comecem
por seguir a Cristo gritando: "Tem piedade de nós, Filho de David!" (Mt 9,27) e, quando
tiverem recuperado a vista graças a Ele, poderão ser irradiados pelo esplendor da luz.
Mas nem todos os que vêem são iluminados de igual forma por Cristo; cada um é-o na medida
em que pode receber a luz (cf Lc 23,8 s)… Não é da mesma maneira que todos vamos a Ele,
mas "cada um irá segundo as suas próprias possibilidades" (Mt 25,15).

Santo Ambrósio (c. 340-397), bispo de Milão e doutor da Igreja

Comentário sobre o evangelho de S. Lucas, I, 27

"Herodes procurava vê-lo"

Neste mundo, o Senhor só é visto quando quer. Não há de que nos espantarmos. Mesmo na
ressurreição, só foi dado ver Deus aos que tinham o coração puro: "Bem-aventurados os
corações puros, porque verão a Deus" (Mt 5,8). Quantos bem-aventurados não tinha Jesus
enumerado já e, contudo, não lhes tinha prometido esta possibilidade de verem Deus. Se,
portanto, aqueles que têm o coração puro hão-de ver Deus, seguramente que os outros não o
verão...; aquele que não quis ver Deus não pode ver Deus.

Porque Deus não se vê num lugar mas através de um coração puro. Não são os olhos do corpo
que procuram Deus; ele não é captado pelo olhar, nem tocado pelo tacto, nem ouvido numa
conversa, nem reconhecido numa atitude. Julgamo-lo ausente e vemo-lo; está presente e não o
vemos. Aliás, nem todos os apóstolos viam Cristo; foi por isso que ele lhes disse: "Há tanto
tempo que estou convosco e ainda não me conheceis?" (Jo 19,9) Com efeito, todo aquele que
conheceu qual é "a largura, o comprimento, a altura e a profundidade - o amor de Cristo que
ultrapassa todo o conhecimento" (Ef 3,18-19), esse viu também Cristo, viu também o Pai.
Porque, no que nos toca, não é segundo a carne que conhecemos Cristo (2Co 6,16), mas
segundo o Espírito: "O Espírito que está diante da nossa face é o Ungido do Senhor, o Cristo"
(Lm 420). Que ele se digne, na sua misericórdia, cumular-nos com toda a plenitude de Deus, a
fim de que o possamos ver!

S. Colombano (563-615), monge, fondador de mosteiros


Instrução 1,2-4

« Herodes procurava vê-lo »

Deus está em toda a parte, inteiríssimo, imenso. Em toda a parte está próximo, de acordo com
o testemunho que dá de Si mesmo: « Sou um Deus próximo, e não um Deus distante» (Jr
23.23). O Deus que buscamos não mora pois longe de nós. Habita em nós como a alma no
corpo, se pelo menos formos para Ele membros sãos que o pecado não matou... «Nele , diz o
apóstolo Paulo, temos a vida, o movimento, o ser» (Act 17,28).

Mas quem poderá seguir o Altíssimo até ao seu ser inexprimível e incompreensível? Quem
perscrutará as profundezas de Deus? Quem se arriscará a discutir a origem eterna do
Universo? Quem se glorificará de conhecer o Deus infinito que tudo enche e tudo envolve,
tudo penetra e tudo transcende, tudo abraça e de tudo se esconde, « Ele que jamais alguém
viu» tal qual é? (1 Tm 6,16). Que ninguém tenha pois a presunção de sondar a impenetrável
profundidade de Deus, o quê, o como, o porquê do Seu ser. Isso não pode ser nem exprimido,
nem perscrutado, nem penetrado. Crê simplesmente, mas com força, que Deus é como foi e
como será, pois não há nEle mudança.

São Pedro Crisólogo (c. 406-450), bispo de Ravena, doutor da Igreja

Sermão 147

Tal como Herodes, queremos ver a Jesus

O amor não admite não ver aquilo que ama. Não consideraram todos os santos ser pouca coisa
aquilo que obtinham quando não viam a Deus? … Por isso Moisés ousa dizer: “Se alcancei
graça aos teus olhos, revela-me o teu rosto” (Ex 33, 13). E diz o salmista : “Revela-nos o teu
rosto” (Sl 79,4). Não era por isso que os pagãos construíam ídolos? No seio do próprio erro,
eles viam com os olhos o que adoravam.

Deus sabia, pois, que os mortais se atormentavam no desejo de o ver. O que ele escolheu para
se revelar era grande na terra e não era o mais pequeno nos céus. Porque o que, na terra, Deus
fez semelhante a si, não podia ficar sem honra nos céus : “Façamos o ser humano à nossa
imagem e semelhança, diz» (Gn 1, 26)… Que ninguém pense, pois, que Deus fez mal em vir
aos homens através de um homem. Ele fez-se carne entre nós para ser visto por nós.

Santo Isaac, o Sírio (séc. VII), monge em Nínive, perto de Mossul no actual Iraque
Discursos espirituais

Herodes procurava ver Jesus

Como é que os seres criados podiam contemplar Deus ? A visão de Deus é tão terrível que
Moisés diz que ele próprio temeu e tremeu. Na verdade, quando a glória de Deus apareceu
sobre o Monte Sinai (Ex 20), a montanha deitava fumo e tremia de medo diante da revelação;
os animais que se aproximavam das encostas morriam. Os filhos de Israel prepararam-se;
purificaram-se durante três dias cumprindo a ordem de Moisés, a fim de serem dignos de
ouvia a voz de Deus e ver a sua revelação. No entanto, quando chegou o tempo, eles não
puderam assumir a visão da sua luz nem receber a força da sua voz de trovão
Mas agora que, com a sua vinda, ele derramou a graça sobre o mundo, não foi num tremor de
terra, nem no fogo, nem anunciando-se com uma voz terrível e forte que ele desceu, mas
como o orvalho no velo do carneiro (Jz 6,37), como uma gota que cai suavemente sobre a
terra. Foi sob outra forma que ele veio ao meio de nós: na verdade, cobriu a sua grandeza com
o véu da carne. Desta, fez ele um tesouro: viveu entre nós dessa carne que, por sua vontade,
tinha formado para si mesmo no seio da Virgem Maria, a Mãe de Deus, para que, vendo-o
como alguém da nossa raça e vivendo no meio de nós, não ficássemos perturbados pelo medo
ao contemplá-lo. Por isso, aqueles que se revestiram das vestes em que o Criador apareceu,
deste corpo de que ele se revestiu, revestiram-se do próprio Cristo (Ga 3,27). Porque eles
desejaram viver no seu homem interior (Ef 3,16) a mesma humildade com que Cristo se
revelou à sua criação e nela viveu, tal como agora se revela aos seus servos. Em vez do traje
de honra e da glória exterior, eles revestiram-se dessa humildade.

Evangelho segundo S. Lucas 9,10-17: A multiplicação dos pães: cf.par. Mt 14,13-21; Mc


6,3044; Jo 6,1-13

Evangelho segundo S. Lucas 9,18-22. – cf.par. Mt 16,13-23; Mc 8,27-32

Um dia, quando orava em particular, estando com Ele apenas os discípulos, perguntou-lhes:
«Quem dizem as multidões que Eu sou?» Responderam-lhe: «João Baptista; outros, Elias;
outros, um dos antigos profetas ressuscitado.» Disse-lhes Ele: «E vós, quem dizeis que Eu
sou?» Pedro tomou a palavra e respondeu: «O Messias de Deus.» Ele proibiu-lhes
formalmente de o dizerem fosse a quem fosse; e acrescentou: «O Filho do Homem tem de
sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, tem
de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.»

Paulo VI, papa de 1963 a 1978

Homilia em Manila, 29/11/70 (trad. DC 1576, p.1115 © copyright Libreria Editrice Vaticana)

"E vós, que dizeis? Para vós, quem sou eu?"

Cristo! Sinto a necessidade de o anunciar, não posso calá-lo: "Ai de mim, se não anunciar o
Evangelho!" (1Co 9,16) Sou enviado por ele para isso mesmo; sou apóstolo, sou testemunha.
Quanto mais longe está o objectivo e mais difícil é a missão, mais premente é o amor que me
impele (2Co 5,14). Devo proclamar o seu nome: Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt
16,16). É ele que nos revela o Deus invisível, o primogénito de toda a criatura, o fundamento
de todas as coisas (Col 1,15s). Ele é o Mestre da humanidade e o Redentor: nasceu, morreu e
ressuscitou por nós; é o centro da história e do mundo. É quem nos conhece e nos ama; é o
companheiro e o amigo da nossa vida. É o homem da dor e da esperança; é o que deve vir e
que será um dia nosso juiz e tembém, assim o esperamos, a plenitude eterna da nossa
existência, a nossa felicidade.

Nunca mais acabaria de falar dele: ele é a luz, é a verdade; muito mais, é "o Caminho, a
Verdade e a Vida" (Jo 14,6). Ele é o Pão, a Fonte de água viva que responde à nossa fome e à
nossa sede (Jo 6,35; 7,38); ele é o Pastor, o nosso guia, o nosso exemplo, o noso reconforto, o
nosso irmão. Como nós, e mais do que nós, foi pequeno, pobre, humilhado, trabalhador,
infeliz e paciente. Para nós, falou, realizou milagres, fundou um Reino novo onde os pobres
são bem-aventurados, onde a paz é o princípio da vida em comum, onde os que têm o coração
puro e os que choram são exaltados e consolados, onde os que aspiram à justiça são atendidos,
onde os pecadores podem ser perdoados, onde todos são irmãos.

Jesus Cristo: vocês já ouviram falar dele e até, para a maioria, vocès pertencem-lhe, vocês são
cristãos. Pois bem! A vocês, cristãos, eu repito o seu nome, a todos anuncio: Jesus Cristo é "o
princípio e o fim, o alfa e o ómega" (Ap 21,6). Ele é o rei do mundo novo; é o segredo da
história, a chave do nosso destino; ele é o Mediador, a ponte entre a terra e o céu...; o Filho do
homem, o Filho de Deus..., o Filho de Maria... Jesus Cristo! Lembrem-se: é o anúncio que
fazemos para a eternidade, é a voz que fazemos ressoar por toda a terra (Rm 10,18) e para os
séculos que hão-de vir.

Cardeal Joseph Ratzinger [Papa Bento XVI]


Der Gott Jesu Christi

«É preciso que o Filho do homem sofra…, seja rejeitado… e morto, e que ressuscite»

Ser homem significa : ser para a morte ; ser homem significa : ter de morrer… Viver, neste
mundo, quer dizer morrer. « Fez-se homem » (Credo) ; isso significa que também Cristo foi
para a morte. A contradição que é própria da morte do homem atinge em Cristo a sua
acuidade extrema porque, nele, que está em comunhão total com o Pai, o isolamento absoluto
da morte é um puro absurdo. Por outro lado, nele, a morte tem também a sua necessidade ; na
verdade, o fato de estar com o Pai está na raiz de incompreensão que os homens lhe
testemunham, na raiz da sua solidão no meio das multidões. A sua condenação é o ato último
da não-compreensão, da expulsão deste Incompreendido para uma zona de silêncio.
De igual forma, pode-se entrever alguma coisa da dimensão interior da sua morte. No homem,
morrer é sempre ao mesmo tempo um acontecimento biológico e espiritual. Em Jesus, a
destruição dos suportes corporais da comunicação quebra o seu diálogo com o Pai. Portanto, o
que se rompe na morte de Jesus Cristo é mais importante do que em qualquer morte humana ;
nela é destruido o diálogo que é o verdadeiro eixo do mundo inteiro.
Mas, tal como este diálogo o tinha tornado solitário e estava na raiz da monstruosidade desta
morte, assim em Cristo a ressurreição está já fundamentalmente presente. Por ela, a nossa
condição humana insere-se na partilha trinitária do amor eterno. Ela jamais pode desaparecer ;
para lá do limiar da morte, ela ergue-se de novo e recria a sua plenitude. Só a Ressurreição
revela, pois, o carácter único, decisivo deste artigo da nossa fé : « Ele fez-se homem »…
Cristo é plenamente humano ; sê-lo-á para sempre. A condição humana entrou por ele no
próprio ser de Deus ; é esse o fruto da sua morte.

Papa Bento XVI


Exortação Apostólica Sacramentum caritatis, 77 (trad. DC 2377, p. 335 © copyright Libreria
Editrice Vaticana)

"Quem sou eu para vós?"


É preciso reconhecer que um dos efeitos mais graves da secularização, há pouco mencionada,
é ter relegado a fé cristã para a margem da existência, como se fosse inútil para a realização
concreta da vida dos homens; a falência desta maneira de viver «como se Deus não existisse»
está agora patente a todos. Hoje torna-se necessário redescobrir que Jesus Cristo não é uma
simples convicção privada ou uma doutrina abstracta, mas uma pessoa real cuja inserção na
história é capaz de renovar a vida de todos.

Por isso, a Eucaristia, enquanto fonte e ápice da vida e missão da Igreja, deve traduzir-se em
espiritualidade, em vida «segundo o Espírito» (Rm 8, 4s; cf. Gal 5, 16.25). É significativo que
São Paulo, na passagem da Carta aos Romanos onde convida a viver o novo culto espiritual,
apele ao mesmo tempo para a necessidade de mudar a própria forma de viver e pensar: «Não
vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para
saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é
perfeito» (12, 2). Deste modo, o Apóstolo das Gentes põe em evidência a ligação entre o
verdadeiro culto espiritual e a necessidade duma nova maneira de compreender a existência e
orientar a vida. Constitui parte integrante da forma eucarística da vida cristã a renovação da
mentalidade, pois «assim já não seremos crianças inconstantes, levadas ao sabor de todo o
vento de doutrina» (Ef 4, 14).

Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano de Estrasburgo


Sermão 51

“Jesus começou a fazer ver aos Seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer
muito, ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar”

Nosso Senhor dizia aos Seus discípulos que eles eram felizes por verem o que viam (Lc 10,
23). E também nós devíamos ser felizes como eles, porque vemos Nosso Senhor Jesus Cristo
mais perfeitamente do que discípulos como São Pedro ou São João. Pois eles tinham diante
dos olhos um homem pobre, fraco, sofredor, mortal, enquanto que nós, graças à fé santa e
preciosa que possuímos, conhecemos um Deus grandioso, digno de ser adorado, poderoso,
Senhor dos céus e da terra, que do nada tirou toda a criação. É da consideração atenta desse
facto que os nossos olhos e as nossas almas retiram a sua felicidade eterna.

Meus queridos filhos, os grandes teólogos e os doutores da escola discutem a questão de saber
o que é mais importante e mais nobre: o conhecimento ou o amor. Mas nós preferimos falar
daquilo que dizem os mestres da vida porque, quando chegarmos ao céu, aí veremos a
verdade de todas as coisas. Não é certo que Nosso Senhor declarou: “Uma só coisa é
necessária”? Qual é então essa única coisa que é necessária? A única coisa necessária é que
reconheças a tua fraqueza e a tua miséria. Tu nada podes reivindicar; por ti mesmo, nada és.
Foi por causa dessa única coisa necessária que Nosso Senhor sofreu uma angústia tal, que
suou sangue. E foi porque nós não quisemos reconhecer essa única coisa, que o Senhor
bradou na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mt 27, 46). Sim, era
necessário que o Salvador, o nosso único necessário, fosse completamente abandonado por
todos os homens.

Querido filho, esquece tudo quanto eu próprio e todos os mestres te ensinámos, a vida activa,
a contemplação, as considerações elevadas, e estuda apenas essa única coisa, de tal maneira
que ela te seja concedida, e terás trabalhado bem. Foi por isso que Nosso Senhor disse:
“Maria escolheu a melhor parte”, sim, a melhor de todas as partes. Na verdade, se pudesses
obtê-la, terias obtido tudo: não uma parte do bem, mas todo o bem.
S. João Crisóstomo (cerca de 345-407), bispo de Antioquia e depois de Constantinopla
Homilia sobre "Pai, se for possível"
"Os sofrimentos do Messias e a glória que viria após a sua Paixão" (1 Pe 1,11)

Aproximando-se da morte, o Salvador exclamava: "Pai, chegou a hora, glorifica o teu Filho"
(Jo 17,1). Ora a sua glória é a cruz. Como poderia ele evitar aquilo que noutro momento
solicita? Que a sua glória é a cruz, ensina-o o Evangelho quando diz: "O Espírito Santo ainda
não tinha sido derramado, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado" (Jo 7,39). Eis o
sentido desta palavra: a graça não tinha ainda sido concedida, porque Cristo ainda não tinha
subido à cruz para pôr fim às hostilidades entre Deus e os homens. Na verdade, foi a cruz que
reconciliou os homens com Deus, que fez da terra o céu, que reuniu os homens aos anjos. Ela
derrubou a cidadela da morte, destruiu o poder do demónio, libertou a terra do erro,
estabeleceu os fundamentos da Igreja. A cruz é a vontade do Pai, a glória do Filho, a jubilação
do Espírito Santo. É o orgulho de S. Paulo: "Que a minha única glória seja a cruz de nosso
Senhor Jesus Cristo" (Ga 6,14).

Evangelho segundo S. Lucas 9,22-25.

Jesus acrescentou: «O Filho do Homem tem de sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos
sumos sacerdotes e pelos doutores da Lei, tem de ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitar.»
Depois, dirigindo-se a todos, disse: «Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz, dia após dia, e siga-me. Pois, quem quiser salvar a sua vida há-de perdê la;
mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la. Que aproveita ao homem ganhar
o mundo inteiro, perdendo-se ou condenando-se a si mesmo?

Teodoro de Mopsuesto (? - 428), bispo de Mopsueto em Cilícia e teólogo


Comentário ao Evangelho de S. João
Caminho da cruz, caminho da glória

"Eis que chegou a hora em que o Filho do homem deve ser glorificado" (Jo 12,23). Já o tempo
se aproxima, diz Jesus, em que serei glorificado diante de todos. E acrescenta: "Em verdade,
em verdade vos digo, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, permanecerá só; se
morrer, dará muitos frutos"... Depois destas pregações acerca de si mesmo, Jesus exorta os
seus discípulos a imitarem-no: "Quem ama a sua vida, perdê-la-á, diz Ele, e quem não se
prender a ela neste mundo conservá-la-á para a vida eterna". Portanto, não só a minha paixão
não vos deve escandalizar nem fazer-vos duvidar das minhas palavras que os acontecimentos
hão-de confirmar, mas deveis estar vós também prontos a suportar também os mesmos
sofrimentos para poder dar os mesmos frutos. Porque aquele que parecer preocupar-se com a
sua vida terrena e não quiser submetê-la às provações, perdê-la-á no mundo que há-de vir; ao
passo que aquele que dela se separar no mundo presente e a submeter aos sofrimentos que
vierem, recolherá numerosos frutos...
Em seguida, diz simplesmente: "Se alguém me quiser servir, siga-me". Se alguém quiser ser
meu servidor, mostre pelos seus atos que quer caminhar após mim.
Mas (poderíamos perguntar-lhe), que ganharão os que sofrerem contigo? E Ele responde:
"Onde eu estiver, estará também o meu servidor. Se alguém me servir, o meu Pai o honrará"
Aquele que tomar parte nos meus sofrimentos, participará igualmente da minha glória; estará
comigo eternamente no mumdo que há-de vir e partilhará a minha alegria no reino dos Céus.
Eis como o meu Pai honrará os que me tiverem servido com fidelidade.

«Sem o Dia do Senhor não podemos viver»: Homilia do Papa na catedral de Viena

VIENA, domingo, 9 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos a homilia que Bento


XVI pronunciou este domingo de manhã, na celebração eucarística que presidiu na catedral de
Santo Estevão, em Viena.

***

Queridos irmãos e irmãs

«Sine dominico non possumus!» Sem o dom do Senhor, sem o Dia do Senhor não podemos
viver: assim responderam no ano 304 alguns cristãos de Abitinia, atual Tunísia, quando,
surpreendidos na celebração eucarística dominical, que estava proibida, foram conduzidos
ante o juiz, que lhe perguntou por que, no Domingo, haviam celebrado a função religiosa
cristã, sabendo que isso implicava castigo de morte. «Sine dominico non possumus». Na
palavra dominico estão enlaçados indissoluvelmente dois significados, cuja unidade devemos
novamente aprender a perceber. Encontra-se sobretudo o dom do Senhor – este dom é Ele
mesmo: o Ressuscitado, de cujo contato e proximidade os cristãos têm necessidade para
serem eles mesmos. Este, no entanto, não é apenas um contato espiritual, interno, subjetivo: o
encontro com o Senhor inscreve-se no tempo através de um dia preciso. E desta maneira
inscreve-se em nossa existência concreta, corpórea e comunitária, que é temporalidade. Dá a
nosso tempo, e portanto a nossa vida em seu conjunto, um centro, uma ordem interior. Para
aqueles cristãos, a celebração eucarística dominical não era um preceito, mas uma
necessidade interior. Sem Aquele que sustenta nossa vida com seu amor, a própria vida é
vazia. Abandonar o trair este centro tira da vida seu fundamento, sua dignidade interior e sua
beleza.

Essa atitude dos cristãos de então tem relevância também para nós, cristãos de hoje? Sim, é
válida também para nós, que temos necessidade de uma relação que nos sustente e dê
orientação e conteúdo a nossa vida. Também nós temos necessidade de contato com o
Ressuscitado, que nos sustenta para além da morte. Temos necessidade deste encontro que
nos reúne, que nos dá um espaço de liberdade, que nos faz olhar mais além do ativismo da
vida diária o amor criador de Deus, do qual viemos e para o qual caminhamos.

Se voltamos com atenção à passagem evangélica de hoje e escutamos o Senhor que nela nos
fala, nós nos assustamos. «Quem não renuncia a toda sua propriedade e também a seus laços
familiares, não pode ser meu discípulo». Gostaríamos de objetar: mas o que estás dizendo,
Senhor? Acaso o mundo não tem necessidade justamente da família? Acaso não tem
necessidade do amor paterno e materno, do amor entre pais e filhos, entre o homem e a
mulher? Acaso não temos necessidade do amor à vida, necessidade da alegria de viver? Acaso
não são necessárias também pessoas que invistam nos bens deste mundo e construam a terra
que nos foi dada, de modo que todos possam participar de seus dons? Acaso não nos foi
confiada também a tarefa de prover o desenvolvimento da terra e de seus bens? Se escutamos
melhor o Senhor e o escutamos no conjunto de tudo aquilo que Ele nos disse, então
compreendemos que Jesus não exige de todos a mesma coisa. Cada um tem sua tarefa pessoal
e o tipo de seguimento projetado para si. No Evangelho de hoje, Jesus fala diretamente
daquilo que não é tarefa dos muitos que se haviam unido a Ele durante a peregrinação a
Jerusalém, mas é um chamado particular aos Doze (apóstolos). Eles, antes de tudo, devem
superar o escândalo da Cruz e logo devem estar preparados para deixar verdadeiramente tudo
e aceitar a missão aparentemente absurda de ir até os confins da terra e, com sua escassa
cultura, anunciar a um mundo cheio de suposta erudição e de formação fictícia ou verdadeira
– e em particular também aos pobres e aos simples – o Evangelho de Jesus Cristo. Devem
estar preparados, sobre seu caminho na vastidão do mundo, para sofrer em primeira pessoa o
martírio, e assim dar testemunho do Evangelho do Senhor crucificado e ressuscitado. Se a
palavra de Jesus está dirigida principalmente aos Doze, seu chamado naturalmente alcança,
para além do momento histórico, todos os séculos. Em todos os tempos, Ele chama as pessoas
a contar exclusivamente com Ele, a deixar todo o demais e a estar totalmente à sua disposição
e deste modo à disposição dos demais: a criar oásis de amor desinteressado em um mundo no
qual tantas vezes parecem contar somente o poder e o dinheiro. Agradeçamos ao Senhor
porque em todos os séculos nos deu homens e mulheres que por seu amor deixaram tudo,
fazendo-se sinais luminosos de seu amor! Basta pensar em pessoas como São Bento e
Escolástica, como Francisco e Clara, Isabel da Hungria e Edwiges da Polônia, como Inácio de
Loyola, Teresa de Ávila até Madre Teresa de Calcutá e Padre Pio! Essas pessoas, com toda
sua vida, converteram-se em uma interpretação da palavra de Jesus, que nelas se faz próxima
e compreensiva para nós. Oremos ao Senhor, para que também em nosso tempo dê a tantas
pessoas o valor de deixar tudo, para estar à disposição de todos.

Mas, se agora voltamos ao Evangelho, podemos perceber que o Senhor não fala somente de
alguns poucos e de sua tarefa particular; o sentido daquilo que Ele diz vale para todos. De que
coisa se trata em última instância, ele o expressa uma vez mais da seguinte maneira: «quem
quer salvar a sua vida, irá perdê-la; mas quem perder sua vida por mim, esse a salvará. Pois,
de que serve ao homem ter ganhado o mundo inteiro, se ele mesmo se perde ou se arruína?»
(Lc 9, 24s). Quem quer somente possuir a própria vida, tomá-la só para si mesmo, a perderá.
Só quem se entrega recebe sua vida. Com outras palavras: só aquele que ama encontra a vida.
E o amor requer sempre o sair de si mesmo, requer abandonar-se a si mesmo. Quem olha para
trás para buscar-se e quer ter o outro somente para si, justamente deste modo perde a si
mesmo e o outro. Sem este mais profundo perder-se a si mesmo não há vida. O inquieto
anseio de vida que hoje não dá paz aos homens acaba no vazio da vida perdida. «Quem perde
sua vida por mim...», diz o Senhor: um deixar a si mesmo, em modo mais radical, é possível
só se com isso ao final não se cai no vazio, mas nas mãos do Amor eterno. Só o amor de
Deus, que perdeu a si mesmo por nós entregando-se a nós, faz possível também para nós o ser
livres, de deixar perder e assim encontrar verdadeiramente a vida. Este é o conceito que o
Senhor quer comunicar-nos na passagem evangélica tão aparentemente dura deste Domingo.
Com sua palavra, Ele nos doa a certeza de que podemos contar com seu amor, com o amor de
Deus feito homem. Reconhecer isto é a sabedoria da qual fala a leitura de hoje. Aqui também
vale a afirmação de que de nada serve todo o saber do mundo, se não aprendemos a viver, se
não aprendemos que coisa verdadeiramente é importante na vida.

«Sine dominico non possumus!». Sem o Senhor e o dia que Lhe pertence não se realiza uma
vida bem conquistada. O Domingo, em nossas sociedades ocidentais, transformou-se em um
fim de semana, em tempo livre. O tempo livre, especialmente na pressa do mundo moderno,
certamente é uma coisa bela e necessária. Mas se o tempo livre não tem um centro interior, do
qual provém uma orientação em seu conjunto, acaba por ser tempo vazio que não nos
fortalece e descansa. O tempo livre precisa de um centro – o encontro com Aquele que é
nossa origem e nossa meta. Meu grande predecessor na sede episcopal de Munique e Freising,
o cardeal Faulhaber, expressou isso uma vez da seguinte maneira: «Dá à alma seu Domingo,
dá ao Domingo sua alma».

Precisamente porque no Domingo se trata em profundidade o encontro, na Palavra e no


Sacramento, com o Cristo ressuscitado, o alcance deste dia abraça a realidade inteira. Os
primeiros cristãos celebraram o primeiro dia da semana como Dia do Senhor, porque era o dia
da ressurreição. Contudo, muito logo a Igreja tomou consciência também do fato de que o
primeiro dia da semana é o dia da manhã da criação, o dia no qual Deus disse «Faça-se a luz»
(Gêneses 1, 3). Por isso, o Domingo é para a Igreja também a festa semanal da criação – a
festa do agradecimento e da alegria pela criação de Deus. Em uma época na qual, por causa de
nossas intervenções humanas, a criação parece exposta a múltiplos perigos, temos de acolher
conscientemente inclusive esta dimensão do Domingo. Para a Igreja primitiva, o primeiro dia,
depois, assimilou progressivamente também a herança do sétimo dia, o sabbat. Participamos
do repouso de Deus, um repouso que abraça todos os homens. Assim percebemos neste dia
um pouco de liberdade e da igualdade de todas as criaturas de Deus.

Na oração deste Domingo recordamos principalmente que Deus, mediante seu Filho, redimiu-
nos e adotou-nos como filhos amados. Logo lhe pedimos que olhe com benevolência aos
crentes em Cristo e que nos doe a verdadeira liberdade e a vida eterna. Rezemos pelo olhar de
bondade de Deus. Nós mesmos temos necessidade deste olhar de bondade, mais além do
Domingo, até a vida de cada dia. Ao orar sabemos que este olhar já nos foi doado, e mais,
sabemos que Deus nos adotou como filhos, acolheu-nos verdadeiramente na comunhão
consigo mesmo. Ser filho significa – sabia muito bem a Igreja primitiva – ser uma pessoa
livre, não um servo, mas um que pertence pessoalmente à família. E significa ser herdeiro. Se
nós pertencemos àquele Deus que é o poder sobre todo poder, então não tememos e somos
livres. E somos herdeiros. A herança que Ele nos deixou é Ele mesmo, seu Amor. Sim,
Senhor, faz que este conhecimento nos penetre profundamente na alma e que assim
aprendamos a alegria dos redimidos. Amém.

[Traduzido por Zenit]

Papa Bento XVI


Audiência geral de 21/02/07 (trad. DC 2376, p. 266 © Libreria Editrice Vaticana)

Aprender a "doar de novo" o amor que Cristo revelou na cruz

Na minha mensagem para a Quaresma quis realçar o amor imenso que Deus tem por nós para
que os cristãos de todas as comunidades possam deter-se espiritualmente, durante o tempo
quaresmal, com Maria e João, o discípulo predilecto, ao lado d'Aquele que consumiu na Cruz
pela humanidade o sacrifício da sua vida (cf. Jo 19, 25). Sim, queridos irmãos e irmãs, a Cruz
é a revelação definitiva do amor e da misericórdia divina também para nós, homens e
mulheres desta nossa época, muitas vezes distraídos por preocupações e interesses terrenos e
momentâneos.

Deus é amor, e o seu amor é o segredo da nossa felicidade. Mas para entrar neste mistério de
amor não há outro caminho a não ser o de nos perdermos, de nos doarmos, o caminho da
Cruz. "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mc
8, 34). Eis por que a liturgia quaresmal, enquanto nos convida a reflectir e a rezar, nos
estimula a valorizar em maior medida a plenitude e o sacrifício, para rejeitar o pecado e o mal
e vencer o egoísmo e a indiferença. A oração, o jejum e a penitência, as obras de caridade
para com os irmãos tornam-se assim caminhos espirituais a serem percorridos para regressar a
Deus, em resposta às repetidas chamadas à conversão contidas também na liturgia hodierna
(cf. Gl 2, 12-13; Mt 6, 16-18).

Queridos irmãos e irmãs, o período quaresmal, que hoje empreendemos... seja para todos uma
renovada experiência do amor misericordioso de Cristo, que derramou na Cruz o seu sangue
por nós. Coloquemo-nos docilmente na sua escola, para aprender a "doar de novo", por nossa
vez, o seu amor ao próximo, especialmente a quantos sofrem e se encontram em dificuldade.
É esta a missão de cada discípulo de Cristo.

„Quem quer ser meu discípulo tome a sua cruz e siga-me“ – Lu 9,23 – cf.Mt 16,24-28;
Mc 8,34-9,1
1. Tomaste nos ombros a cruz / seguindo o caminho da dor / tomamos também nossa
cruz / e vamos contigo, Senhor.
2. No dia supremo da dor / na hora e que ao Pai Te entregaste / as culpas de todos os
tempos / nos braços da cruz expiaste.
3. Senhor, tua santa paixão / as portas do céu veio abrir /queremos contigo, na cruz /
morrer e depois ressurgir.
4. É duro seguir-Te, Senhor, / porque teu caminho é a cruz / Pedimos que Tu nos
conserves / na estrada que ao céu nos conduz.
J.A.Santana - Cantemos ….. n° 183

Lucas 9,28-36. – cf.par. Mt 17,1-9; Mc 9,2-10

Uns oito dias depois destas palavras, levando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu ao
monte para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto modificou-se, e as suas vestes
tornaram-se de uma brancura fulgurante. E dois homens conversavam com Ele: Moisés e
Elias, os quais, aparecendo rodeados de glória, falavam da sua morte, que ia acontecer em
Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam a cair de sono; mas, despertando, viram a glória
de Jesus e os dois homens que estavam com Ele. Quando eles iam separar-se de Jesus, Pedro
disse-lhe: «Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e
outra para Elias.» Não sabia o que estava a dizer. Enquanto dizia isto, surgiu uma nuvem que
os cobriu e, quando entraram na nuvem, ficaram atemorizados. E da nuvem veio uma voz que
disse: «Este é o meu Filho predilecto. Escutai-o.» Quando a voz se fez ouvir, Jesus ficou só.
Os discípulos guardaram silêncio e, naqueles dias, nada contaram a ninguém do que tinham
visto.

Autor sírio anónimo


Homilia atribuida erradamente a Santo Efrém

"Entre os que estão aqui, alguns não conhecerão a morte antes de terem visto o reino de
Deus"

Nosso Senhor Jesus Cristo levou Pedro, Tiago e João à montanha para lhes mostrar a glória da
sua divindade e fazê-los conhecer que Ele era o Redentor de Israel, como os profetas tinham
anunciado. Queria prepará-los também para que não ficassem escandalizados à vista dos
sofrimentos que livremente ia suportar por nós na sua natureza humana. Com efeito, eles
conheciam-no enquanto homem, mas ignoravam que fosse Deus; conheciam-no como filho de
Maria, um homem que vivia com eles no mundo, mas na montanha Ele fê-los saber que era o
Filho de Deus, o próprio Deus.

Tinham-no visto comer e beber, trabalhar e descansar, esgotar-se e dormir, apavorar-se até às
gotas de suor, tudo coisas que não parecem estar muito em harmonia com a sua natureza
divina, não convir senão à sua humanidade. Foi por isso que os levou à montanha, a fim de
que o Pai lhe chamasse Seu Filho e lhes mostrasse que Ele era verdadeiramente Seu Filho, e
que era Deus. Levou-os à montanha e mostrou-lhes o seu Reino antes de manifestar os seus
sofrimentos, o seu poder antes da sua morte, a sua glória antes dos ultrages e a sua honra antes
da ignomínia. Assim, quando fosse preso e crucificado, os seus apóstolos saberiam que não o
tinha sido por fraqueza mas por consentimento e de livre vontade, para a salvação do mundo.

Teófanes de Cerameia (séc. XII), monge de S. Basílio


Homilia sobre a Transfiguração

“Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai” (Mt 13,43)

Aproximava-se a hora da Paixão… Nesse momento os discípulos não deviam estar com o
espírito abalado; não devia acontecer que aqueles que, um pouco antes, tinham confessado
pela voz de Pedro que ele era o filho de Deus (Mt 16,16) acreditassem, vendo-o pregado na
cruz como um culpado, que ele era um simples homem. Por isso os fortaleceu com esta visão
admirável.

Assim, quando o vissem traído, em agonia, implorando que lhe fosse afastado o cálice da
morte e arrastado ao tribunal do sumo sacerdote, lembrar-se-iam da subida ao Tabor e
compreenderiam que era por sua livre vontade que se entregava à morte… Quando vissem os
golpes e os escarros na sua face, não se escandalizariam, relembrando-se do seu brilho que
ultrapassava o do sol. Quando o vissem revestido pelo escárnio do manto escarlate, lembrar-
se-iam que esse mesmo Jesus estivera vestido de luz no monte. Quando o vissem crucificado
na cruz entre dois malfeitores, lembrar-se-iam que ele tinha aparecido entre Moisés e Elias
como o seu Senhor. Quando o vissem sepultado na terra como um morto, pensariam na
nuvem luminosa que o envolvera.

Aqui está pois um motivo para a Transfiguração. E talvez haja um outro: o Senhor exortava os
seus discípulos a não tentarem economizar a sua própria vida; ele dizia-lhes: “se alguém
quiser vir após Mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16,24). Mas
renunciar a si mesmo e ir ao encontro de uma morte vergonhosa, isso parece difícil; é por isso
que o Salvador mostra aos seus discípulos qual o tipo de glória de que serão julgados dignos
os que imitarem a sua Paixão. Com efeito a Transfiguração não é senão a manifestação por
adiantamento do último dia “onde os justos fulgirão na presença de Deus” (Mt 13,43).

Lucas 9,37-43: O menino possesso. – cf.par. Mt 17,14-18; Mc 9,14-27


Evangelho segundo S. Lucas 9,41-44. – cf.par. Mt 17,22-23; Mc 9,30-32

Jesus respondeu: «Ó geração incrédula e pervertida! Até quando estarei convosco e terei de
vos suportar? Traz cá o teu filho.» E, quando ele se aproximava, o demónio atirou-o ao chão e
sacudiu-o violentamente. Jesus, porém, ameaçou-o espírito maligno, curou o menino e
entregou-o ao pai. E todos estavam maravilhados com a grandeza de Deus. Estando todos
admirados com tudo o que Ele fazia, Jesus disse aos seus discípulos : «Prestai bem atenção ao
que vou dizer-vos: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens.»

S. Basílio (cerca de 330 - 379), monge e bispo de Cesareia na Capadócia, doutor da Igreja
Homilia sobre a humildade, 5-6

"O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens"

"Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado" (Mt 23,12)... Imitemos o
Senhor que desceu do céu até à última humilhação e que, em recompensa, foi exaltado, desde
o ínfimo lugar até à altura que lhe convinha. Descobramos tudo o que o Senhor nos ensina
para nos conduzir à humildade.
Ainda menino, ei-lo já numa gruta, deitado não num berço mas numa mangedoura. Na casa de
um operário e de uma mãe sem recursos, submeteu-se à mãe e ao seu esposo. Deixando-se
ensinar, escutando aqueles de quem não tinha precisão, ele interrogava; contudo, de tal forma
que, pelas suas interrogações, as pessoas espantavam-se com a sua sabedoria. Submete-se a
João e o Mestre recebe o baptismo das mãos do servo. Nunca resistiu aos que se erguiam
contra ele e não exibiu o seu poder invencível para se libertar das mãos que o prendiam, mas
deixou-se levar, como um impotente, e na medida em que achou bem entregou-se nas mãos de
um poder efémero. Compareceu diante do sumo-sacerdote na qualidade de acusado;
conduzido diante do governador, submeteu-se ao seu julgamento e, quando podia responder
aos caluniadores, suportou em silêncio as suas calúnias. Coberto de escarros por escravos e
vis criados, foi enfim entregue à morte, a uma morte infamante aos olhos dos homens. Eis
como se desenrolou a sua vida de homem, desde o nascimento até ao fim. Mas, depois de uma
tal humilhação, fez brilhar a sua glória... Imitemo-lo para chegarmos, também nós, à glória
eterna.

Evangelho segundo S. Lucas 9,43-45.

E todos estavam maravilhados com a grandeza de Deus. Estando todos admirados com tudo o
que Ele fazia, Jesus disse aos seus discípulos : «Prestai bem atenção ao que vou dizer-vos: O
Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens.» Eles, porém, não entendiam aquela
linguagem, porque lhes estava velada, de modo que não compreendiam e tinham receio de o
interrogar a esse respeito.
Orígines (aproximadamente 185-253), sacerdote e teólogo

"Eles, porém, não entendiam aquela linguagem"

De entre todas as maravilhas e grandes coisas que se possam dizer de Cristo, há uma que
ultrapassa, absolutamente, a admiração de que o espírito humano é capaz e a fragilidade da
nossa inteligência mortal, não sabe como compreendê-la nem imaginá-la. É que a
omnipotência da majestade divina, a própria Palavra do Pai, a própria Sabedoria de Deus, na
qual foram criadas todas as coisas “visíveis e invisíveis” (Col 1,16), deixou-se reduzir aos
limites do Homem que se manifestou na Judeia. Isto é, objecto da nossa fé. E ainda há mais:
nós acreditamos que a Sabedoria de Deus entrou no seio de uma mulher e nasceu através dos
vagidos e choros comuns a todos os bebés. E sabemos que, depois disto, Cristo conheceu a
perturbação diante da morte, a ponto de gritar: «A minha alma está numa tristeza de morte;
ficai aqui e vigiai comigo» (Mt 26,38) e, por fim, foi conduzido à morte mais vergonhosa de
todas as que um homem podia sofrer, embora saibamos que ressuscitou ao terceiro dia.
Em verdade, fazer ouvir tais coisas a ouvidos humanos, tentar exprimi-las em palavras,
ultrapassa a linguagem dos homens e, provavelmente, a dos anjos.

São Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano, doutor da Igreja


Comentário sobre a Epístola aos Gálatas, cap. 6

O Filho do Homem retira a sua glória da cruz

Há quem retire a sua glória do saber; mas o conhecimento supremo, encontra-o o Apóstolo
Paulo na cruz. “Julguei não dever saber coisa alguma entre vós a não ser Jesus Cristo, e Este
crucificado” (1 Cor 2, 2). Não é certo que a cruz é o cumprimento de toda a lei e de toda a arte
de bem viver? Àqueles que se gloriam do seu poder, Paulo pode responder que lhe vem da
cruz um poder sem igual: “A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, e poder de
Deus para os que se salvam, isto é, para nós” (1 Cor 1, 18). Retirais a vossa glória da
liberdade que adquiristes? É da cruz que Paulo retira a sua: “O velho homem foi crucificado
com Ele, […] a fim de já não sermos escravos do pecado” (Rm 6, 6).

Há também quem retire a sua glória de ter sido eleito membro de um grupo ilustre; nós,
porém, fomos pela cruz de Cristo convidados a participar na assembleia dos céus: “E por Ele
fossem reconciliadas Consigo todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as
da terra como as dos céus” (Col 1, 20). Há, finalmente, quem se glorifique com as insígnias
do triunfo concedidas aos vitoriosos; mas a cruz é o estandarte triunfal da vitória de Cristo
sobre os demónios: “Despojando os Principados e as Potestades, exibiu-os publicamente,
triunfando deles pela cruz” (Col 2, 15). […]

De que pretende o Apóstolo Paulo gloriar-se antes de mais? Daquilo que pode uni-lo a Cristo;
tudo o que ele deseja é estar com Cristo.

S. Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano, doutor da Igreja


O nosso título de glória: o Filho do Homem entregue nas mãos dos homens

”Quanto a mim, diz S. Paulo, em nada me glorifico senão na cruz de nosso Senhor Jesus
Cristo.” (Ga 6,14) Vê, nota Santo Agostinho, ali onde o sábio deste mundo julgou encontrar a
vergonha, o apóstolo Paulo encontra um tesouro; o que a qualquer outro apareceu como uma
loucura, para ele é sabedoria (1 Co 1,17 sg) e título de glória.
Com efeito, cada um encontra glória naquilo que, a seus olhos, o engrandece. Se se julga um
grande homem porque é rico, glorifica-se nos seus bens. Quem só vê a sua grandeza em
Cristo é só em Jesus que encontra a sua glória; era assim o apóstolo Paulo: “Se vivo, não sou
eu que vivo, mas Cristo que vive em mim”, dizia ele (Ga 2,20). Por isso, apenas se glorifica
em Cristo e, acima de tudo, na cruz de Cristo. Porque nela estão reunidos todos os motivos
para se glorificar.
Há pessoas que consideram uma glória a amizade dos grandes e dos poderosos; Paulo só
precisa da cruz de Cristo, para nela descobrir o sinal mais evidente da amizade de Deus. “A
prova d e que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós, enquanto éramos pecadores” (Ro
5,8). Não, nada manifesta mais o amor de Deus por nós do que a morte de Cristo. “Oh,
testemunho inestimável de amor!, exclama S. Gregório. Para resgatar o escravo, tu entregaste
o Filho.”

Cardeal Joseph Ratzinger [Papa Bento XVI]


Sermões para a Quaresma 1981, n.º 3

«O Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos homens»

Depois de O terem flagelado, coroado de espinhos e de Lhe vestirem um manto de escárnio,


os soldados romanos levaram Jesus a Pilatos. Este militar de coração duro ficou
aparentemente incomodado com a visão daquele homem destruído, alquebrado. Apresentou-O
à multidão, declarando: «Idou anthropos; Ecce homo», que traduzimos habitualmente por
«Eis o homem!» (Jo 19,5). Mas em grego isto quer dizer mais exactamente: «Vede, isto é o
homem!» Na boca de Pilatos, estas palavras eram as de um cínico que queria dizer: «Nós
gloriamo-nos de ser homens, mas agora, vede pois, ei-lo, este verme de terra é o homem!
Como é desprezível e pequeno!» Nestas palavras cínicas, o evangelista João reconheceu
igualmente palavras proféticas que transmitiu à cristandade.

Sim, Pilatos tem razão quando diz: «Vede, isto é o homem!» N'Ele, em Jesus Cristo, podemos
ler o que o homem é, o projecto de Deus, e que tratamento lhe reservamos. Em Jesus
dilacerado, podemos ver como o homem consegue ser cruel, pequeno e mesquinho. N'Ele,
podemos ler a história do ódio do homem e a história do pecado. N'Ele, no seu amor que sofre
por nós, podemos ver ainda melhor a resposta de Deus: Sim, isto é o homem, que Deus amou
até ao pó, que Deus amou a ponto de o seguir até ao derradeiro sofrimento da morte. Mesmo
na humilhação extrema, ele é o chamado de Deus, o irmão de Jesus Cristo, chamado a tomar
parte do amor eterno de Deus.

A pergunta «O que é o homem?» encontra resposta na imitação de Jesus Cristo. Fazendo


nossos os seus passos, podemos aprender, dia após dia, o que é o homem, na paciência do
amor e no sofrimento com Jesus Cristo, tornando-nos, assim, homens. Então, quereremos
erguer os olhos para Aquele que Pilatos, que a Igreja, nos apresentam. O homem é Ele.
Oremos-Lhe, pedindo que nos ensine a nos tornarmos verdadeiramente homens, a sermos
homens.

Evangelho segundo S. Lucas 9,46-50. – cf.par. Mt 18,1-5; Mc 0.445ß

Veio-lhes então ao pensamento qual deles seria o maior. Conhecendo Jesus os seus
pensamentos, tomou um menino, colocou-o junto de si e disse-lhes: «Quem acolher este
menino em meu nome, é a mim que acolhe, e quem me acolher a mim, acolhe aquele que me
enviou; pois quem for o mais pequeno entre vós, esse é que é grande.» João tomou a palavra e
disse: «Mestre, vimos alguém expulsar demónios em teu nome e impedimo-lo, porque ele não
te segue juntamente connosco.» Jesus disse-lhe: «Não o impeçais, pois quem não é contra vós
é por vós.»

Clemente de Alexandria (150-c.215), teólogo

O Pedagogo, I, 21-24

«Quem em meu nome acolher este pequenino, é a mim que acolhe»

«Os seus filhinhos serão levados aos ombros e consolados ao colo, vem nas Escrituras. Como
à criança a quem a mãe dá consolo, também eu vos consolarei» (Is 66,12-13). A mãe chega
seus filhos a si, e nós, nós procuramos nossa mãe, a Igreja. Todo o ser de pouca idade e frágil
é, nessa fragilidade desprotegida, um ser gracioso, doce, encantador; Deus não recusa o seu
auxílio a seres tão jovens assim. Todos os pais têm uma ternura peculiar para com seus filhos
pequenos… De igual modo, o Pai de toda a criação acolhe aqueles que se refugiam junto de
si, regenera-os pelo Espírito e adopta-os como filhos; conhece a sua doçura e só a eles ama,
auxilia, defende; por isso lhes chama filhos (cf. Jo 13,33).

O Santo Espírito, falando pela boca de Isaías, aplica ao próprio Senhor o termo filho: «Eis que
nos nasceu um menino, foi-nos dado um filho.» (Is 9,5). Quem é então esta pequena criança,
este recém-nascido, à imagem de quem também nós somos crianças? Pela boca do mesmo
Profeta, o Espírito descreve-nos a sua grandeza: «Conselheiro admirável, Deus poderoso, Pai
eterno, Príncipe da paz» (v. 6).

Ó Deus tão grande! Ó menino perfeito! O Filho está no Pai e o Pai está no Filho. Poderia não
ser perfeita a educação que nos dá este menino? Ela reúne-nos para nos guiar, a nós, os seus
filhos. O menino estendeu-nos as mãos, e nelas pomos toda a nossa fé. Também João Baptista
dá testemunho desta criança: «Eis o cordeiro de Deus», diz-nos (Jo 1, 29). Como as Escrituras
designam as crianças por cordeiros, chamou “cordeiro de Deus” ao Verbo Deus que por nós
se fez homem e que em tudo nos quis ser igual, ele, que é o Filho de Deus, o menino do Pai.

Lacordaire (1802-1861), dominicano

“Quem não é contra vós é por vós”


Quem ama Deus é membro vivo da Igreja, onde quer que ele esteja e seja qual for a época em
que viva... A Igreja não é pois somente o que ela nos parece. Ela não existe apenas nesta
construção visível onde tudo é história, autenticidade, hierarquia, virtudes e milagres
estrondosos; ela existe também no lusco-fusco, na penumbra, no que não tem forma nem
memória, santidades perdidas para a visão dos homens, mas não para a dos anjos...
Onde quer que esteja o amor de Deus, aí está Jesus Cristo; onde quer que Jesus Cristo esteja, a
Igreja está com ele; e se é verdade que todo o cristão se deve unir ao corpo da Igreja desde
que toma conhecimento da sua existência, é certo que a ignorância invencível o subtrai a esta
lei, para o deixar sob o comando directo de Jesus Cristo, primeiro e soberano chefe de toda a
cristandade.
A Igreja tem pois uma vastidão que nenhum olhar humano conseguirá abarcar, e
os que objectam com as fronteiras que ela parece ter a seus olhos não fazem
ideia da dupla radiação que está na sua natureza, e que lhe suscita almas a
oriente e a ocidente do mundo, sob o ocaso ou sob o sol nascente.

Evangelho segundo S. Lucas 9,51-62. – cf.par. Mt 8,19-22

Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente
para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram
numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. Mas não o receberam,
porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor,
queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-
os. E foram para outra povoação. Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-
te para onde quer que fores.» Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm
ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.» E disse a outro: «Segue-
me.» Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe:
«Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.»
Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da
minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado,
não está apto para o Reino de Deus.»

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hippone (Norte de África) e doutor da Igreja

Sermão sobre o Salmo 64

«Recusaram-se a acolhê-lo, porque se dirigia para Jerusalém»

Há duas cidades; uma chama-se Babilónia, a outra Jerusalém. O nome de Babilónia significa
«confusão»; Jerusalém significa «visão de paz». Olhem verdadeiramente a cidade de confusão
para melhor conhecerem a visão de paz; suportem a primeira, aspirem à segunda.

O que é que permite distinguir estas duas cidades? Podemos desde já separar uma da outra?
Elas estão mescladas uma na outra e, desde o aparecimento do género humano, encaminham-
se assim até ao fim dos tempos. Jerusalém nasceu com Abel, Babilónia com Caim... As duas
cidades materiais foram construídas mais tarde, mas elas representam simbolicamente as duas
cidades imateriais cujas origens remontam ao início dos tempos e que devem durar aqui em
baixo até ao fim dos séculos. O Senhor então separá-las-á, quando puser uns à sua direita e
outros à sua esquerda (Mt 25,33)...

Mas há qualquer coisa que distingue, mesmo agora, os cidadãos de Jerusalém dos cidadãos de
Babilónia: são dois amores. O amor a Deus faz Jerusalém; o amor ao mundo faz Babilónia.
Perguntem quem amam e saberão de onde são. Se acharem que são cidadãos de Babilónia,
arranquem da vossa vida a cobiça, plantai em vós a caridade; se acharem que são cidadãos de
Jerusalém, suportai pacientemente o cativeiro, tende esperança na vossa libertação. Com
efeito, muito cidadãos da nossa santa mãe Jerusalém (Ga 4,26) estavam de início cativos de
Babilónia...

Como pode despertar-se em nós o amor a Jerusalém, nossa pátria, da qual a duração do exílio
nos fez perder a lembrança? É o próprio Pai quem, a partir de lá, nos escreve e reaviva em nós
pelas suas cartas, que são as Santas Escrituras, a nostalgia do regresso.

São Bernardo (1091-1153), monge cisterciense e doutor da Igreja


Sermões “De diversis”, nº 1

“Tomou resolutamente o caminho para Jerusalém”

Irmãos, é bem certo que já vos pusestes a caminhar para a cidade onde habitareis; não
avançais por entre os bosques, mas pela estrada. Mas receio que esta via vos pareça longa e
vos traga menos consolações do que tristeza. Sim, receio que alguns, ao pensamento de que
lhes resta ainda uma longa estrada a percorrer, se sintam conquistados por uma falta de
coragem espiritual, que percam a esperança de conseguir suportar tantas dores e durante tanto
tempo. Como se as consolações de Deus não enchessem a alma dos eleitos de uma alegria
muito superior à multidão das dores contidas no seu coração.

É certo que, actualmente, estas consolações ainda não lhes dadas senão à medida das suas
penas; uma vez, porém, atingida a felicidade, não serão já consolações, mas delícias sem fim
que encontraremos à direita de Deus (Sl 15, 11). Desejemos esta direita, irmãos, que nos
alcança todo o nosso ser. Ansiemos ardentemente por esta felicidade, para que o tempo
presente nos pareça breve (como de fa cto é) em comparação com a grandeza do amor de
Deus. “Os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a glória que há-de
revelar-se em nós” (Rom 8, 18). Promessa feliz, por cujo cumprimento devemos esperar com
todo o nosso coração!

Pregador do Papa: família de Deus (Igreja), garantia e promotora da família natural


Comentário do Pe. Cantalamessa sobre a liturgia do próximo domingo
ROMA, quinta-feira, 28 de junho de 2007 (ZENIT.org).- Publicamos o comentário do Pe.
Raniero Cantalamessa, ofmcap. -- pregador da Casa Pontifícia -- sobre a liturgia do próximo
domingo.

***

XIII Domingo do Tempo Comum (C)


I Reis 19, 16b.19-21; Gálatas 4, 31 - 5, 1, 13-18; Lucas 9, 51-62

«Deixa que os mortos enterrem seus mortos»

Em abril passado, foi publicado o livro de Bento XVI «Jesus de Nazaré». Pensei em comentar
alguns dos próximos evangelhos dominicais levando em conta reflexões do Papa. Antes de
tudo, alguma menção sobre o conteúdo e o objetivo do livro. Este se ocupa de Jesus no
período que vai desde o batismo no rio Jordão até o momento da transfiguração, isto é, desde
o início de seu ministério público até seu epílogo. Um volume sucessivo, se Deus -- confia o
Papa -- lhe der forças e tempo suficiente para escrevê-lo, se ocupará dos relatos da morte e
ressurreição, assim como das narrações da infância, que ficaram fora deste primeiro volume.

O livro pressupõe a exegese histórico-crítica e se serve de seus resultados, mas quer ir além
desse método, contemplando uma interpretação propriamente teológica, isto é, global, não
setorial, que leve a sério o testemunho dos evangelhos e das Escrituras, como livros
inspirados por Deus.

O objetivo do livro é mostrar que a figura de Jesus que se alcança por tal via «é muito mais
lógica e, desde o ponto de vista histórico, também mais compreensível que as reconstruções
com que tivemos de enfrentar nas últimas décadas. Sustento -- acrescenta o Papa -- que
precisamente este Jesus -- o dos Evangelhos -- é uma figura historicamente sensata e
convincente».

É muito significativo que a opção do Papa de ater-se ao Jesus dos Evangelhos encontre uma
confirmação nas orientações mais recentes e autorizadas da própria crítica histórica, como na
obra monumental do escocês James Dunn («Christianity in the Making»), segundo o qual «os
evangelhos sinóticos testificam um modelo e uma técnica de transmissão oral que garantiram
uma estabilidade e uma continuidade na tradição de Jesus maiores que as que, desde aí, se
imaginaram geralmente».

Mas passemos à passagem evangélica do XIII domingo do Tempo Comum. Refere-se a três
encontros de Cristo ao longo curso da mesma viagem. Concentremo-nos em um destes
encontros: «A outro [Jesus] disse: ‘Segue-me’. Ele respondeu: ‘Deixa-me ir primeiro enterrar
meu pai’. Respondeu-lhe: ‘Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, vai anunciar o
Reino de Deus’».

O Papa, em seu livro, comenta o tema aqui implícito das relações de parentesco em diálogo
com o rabino americano Jacob Neusner. Neusner escreveu um livro («A Rabbi Talks with
Jesus») no qual se imagina entre os presentes quando Jesus falava à multidão, e explica por
que, apesar de sua grande admiração pelo Mestre de Nazaré, não teria podido ser seu
discípulo. Um dos motivos é precisamente a postura de Jesus com relação aos vínculos
familiares. Em várias ocasiões, afirma o rabino, Ele parece convidar a transgredir o Quarto
Mandamento -- que diz: «Honrarás teu pai e tua mãe». Pede, como ouvimos, renunciar a ir
sepultar o próprio pai e em outro lugar diz que quem ama o pai ou a mãe mais que Ele, não é
digno d’Ele.

A estas objeções se responde de costume apontando outras palavras de Jesus que afirmam
com força a permanente validez dos vínculos familiares: a indissolubilidade do matrimônio, o
dever de assistir o pai e a mãe. O Papa, no entanto, em seu livro, dá uma resposta mais
profunda e iluminadora a esta objeção que não é só do rabino Neusner, mas também de
muitos leitores cristãos do Evangelho. Ele parte de uma palavra de Jesus. A quem lhe
anunciava a visita de seus parentes, Ele respondeu um dia: «Quem é minha mãe e quem são
meus irmãos?... Todo o que cumpre a vontade de meu Pai celestial, esse é meu irmão, minha
irmã e minha mãe» (Mt 12, 49-50).

Jesus não derroga com isso a família natural, mas revela uma nova família na qual Deus é pai
e os homens e as mulheres são todos irmãos e irmãs, graças à comum fé n’Ele, o Cristo. Tinha
direito de fazer isso?, pergunta o rabino Neusner. Esta família espiritual já existia: era o povo
de Israel unido pela observância da Torá, ou seja, da Lei mosaica. Só para estudar a Torá se
permitia a um filho deixar a casa paterna. Mas Jesus não diz: «Quem ama seu pai ou sua mãe
mais que a Torá, não é digno da Torá». Diz: «Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim,
não é digno de mim». Põe a si mesmo no lugar da Torá, e isso pode ser feito só por quem é
superior à Torá e superior a Moisés, que a promulgou.

O rabino judeu tem razão, segundo Bento XVI, ao concluir: «Só Deus pode exigir de mim o
que Jesus pede». A discussão sobre Jesus e os vínculos de parentesco (como aquela sobre
Jesus e a observância do sábado) nos leva assim, observa o Papa, ao verdadeiro núcleo da
questão, que é saber quem é Jesus. Se um cristão não crê que Jesus atua com a própria
autoridade de Deus e que Ele mesmo é Deus, então há mais coerência na postura do rabino
judeu que rejeita segui-lo. Não se pode aceitar o ensinamento de Jesus se não se aceita
também sua pessoa.

Tiremos também um ensinamento prático do debate. A «Família de Deus», que é a Igreja, não
só não está contra a família natural, mas é sua garantia e promotora. Nós o vemos hoje. É uma
pena que algumas divergências de opiniões no seio da sociedade atual sobre questões ligadas
ao matrimônio e à família impeça muitos de reconhecer a obra providencial da Igreja a favor
da família, e que a deixem freqüentemente sozinha nesta batalha decisiva para o futuro da
humanidade.

[Tradução realizada por Zenit]

Santa Teresa Benedita da Cruz [Edith Stein] (1891-1942), carmelita, mártir, co-padroeira da
Europa
Meditação para a festa da Exaltação da Cruz

“Segue-me”

O Salvador precedeu-nos no caminho da pobreza. Todos os bens do céu e da terra lhe


pertenciam. Não representavam para ele nenhum perigo; podia usá-los mantendo sempre o
seu coração inteiramente livre. Mas ele sabia que era impossível a um ser humano possuir
bens sem se subordinar a eles e se tornar seu escravo. Por isso ele abandonou tudo e assim nos
mostrou pelo seu exemplo, mais do que pelas suas palavras, que só possui tudo aquele que
nada possui. O seu nascimento num estábulo e a sua fuga para o Egipto mostravam já o Filho
do homem não devia ter o direito de ter onde repousar a cabeça. Quem o quiser seguir deve
saber que não temos aqui em baixo morada permanente. Quanto mais vivamente tomarmos
consciência disso, mais ardentemente tenderemos para a nossa morada futura e exultaremos
com o pensamento de que temos direito de cidadania no céu.

Evangelho segundo S. Lucas 9,57-62.

Enquanto iam a caminho, disse-lhe alguém: «Hei-de seguir-te para onde quer que fores.»
Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do
Homem não tem onde reclinar a cabeça.» E disse a outro: «Segue-me.» Mas ele respondeu:
«Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai.» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos
sepultem os seus mortos. Quanto a ti, vai anunciar o Reino de Deus.» Disse-lhe ainda outro:
«Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus
respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não está apto para o
Reino de Deus.»

Santo Atanásio (295-373), bispo de Alexandria, doutor da Igreja


Vida de Santo Antão, 19-20

Seguir a Cristo pelo caminho certo

Um dia, os monges vieram ter com Antão e pediram-lhe que lhes dirigisse a palavra. Ele
respondeu-lhes: Eis que começámos a avançar pela estrada da virtude; continuemos agora em
frente, a fim de atingirmos a meta (Fil 3, 14). Que ninguém olhe para trás como a mulher de
Lot (Gn 19, 26), porque o Senhor disse: “Quem mete a mão ao arado e olha para trás não é
apto para o Reino dos Céus.” Olhar para trás mais não é do que alterar o próprio objectivo e
retomar o gosto pelas coisas deste mundo. Nada receeis quando ouvirdes falar da virtude, nem
vos espanteis com esta palavra. Porque a virtude não está longe de nós, nem nasce fora de
nós; é coisa que nos diz respeito, e é simples, desde que o queiramos.

Os pagãos deixam o seu país e atravessam os mares para irem estudar letras. Nós não temos
necessidade de abandonar o nosso país para ir para o Reino dos Céus, nem de atravessar o
mar para adquirir a virtude. Porque o Senhor disse: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Lc
17, 21). A virtude apenas precisa, pois, do nosso querer, dado que está em nós e nasce de nós.
Se a alma conserva a parte inteligente que é conforme à sua natureza, a virtude pode nascer. A
alma encontra-se no seu estado natural quando permanece tal como foi feita; e foi feita muito
bela e muito recta. Era por isso que Josué, filho de Nun, dizia: “Inclinai os vossos corações
para o Senhor, Deus de Israel” (Jos 24, 23). E João Baptista: “Endireitai as suas veredas” (Mt
3, 3). Para a alma, ser recta consiste em manter a sua inteligência tal como foi criada. Quando,
pelo contrário, se desvia do seu estado natural, nessa altura fala-se do vício da alma. Não se
trata, pois, de uma coisa difícil. […] Se tivéssemos de procurá-la fora de nós, seria realmente
difícil; mas, visto que está em nós, evitemos os pensamentos impuros e guardemos a alma
para o Senhor, como se tivéssemos recebido um depósito, a fim de que Ele reconheça a nossa
obra, encontrando a nossa alma tal como a fez.
São Leão Magno ( ? – c.461), papa e doutor da Igreja
Sermão 71, para a ressurreição do Senhor; PL 54, 388

«Quem olha para trás, [...] não está apto para o Reino do Senhor»

Meus caros, Paulo, o apóstolo dos pagãos, não contradiz a nossa fé quando diz: «Ainda que
tenhamos conhecido a Cristo à maneira humana, agora já não o conhecemos assim» (2 Co
5,16). A ressurreição do Senhor não pôs um termo à sua carne; transformou-a. O aumento da
sua força não destruiu a sua substância; a qualidade mudou; a natureza não foi aniquilada.
Crucificaram aquele corpo, ferrando-o a pregos: tornou-se inacessível ao sofrimento. Deram-
lhe a morte: tornou-se imortal. Assassinaram-no: tornou-se incorruptível. E bem podemos
dizer que a carne humana de Cristo não é, com efeito, a que tínhamos conhecido; porque nela
deixou de haver vestígio de sofrimento ou de fraqueza. Continua a mesma na sua essência,
mas já não é a mesma quanto à glória. Porque nos surpreendemos então que S. Paulo assim se
exprima a propósito do corpo de Jesus Cristo, quando diz, ao falar de todos os cristãos que
vivem segundo o espírito: «de agora em diante, não conhecemos ninguém à maneira
humana».
Ele quer desta maneira dizer que a nossa ressurreição começou em Jesus Cristo. N' Ele, que
morreu por nós, toda a esperança tomou corpo. Deixou de haver em nós dúvida, hesitação,
espera desiludida: as promessas começaram a cumprir-se e conseguimos já ver, com os olhos
da fé, a graça com que amanhã seremos cumulados. A nossa natureza elevou-se; então, na
alegria, já possuímos o objecto da nossa fé [...].
Que o povo de Deus tome consciência de que se «está em Cristo, é uma nova criação» (2 Co
5,17). Que compreenda bem Quem o escolheu, e a Quem ele próprio escolheu. Que o ser
renovado não volte à instabilidade do seu antigo estado. Que «depois de deitar a mão ao
arado» não pare de trabalhar, que cuide do grão que semeou, que não se volte para trás, para o
que abandonou [...] È esta a via da salvação; é esta a maneira de imitar a ressurreição que
começou com Cristo.

Fénelon (1651-1715), arcebispo de Cambrai


Discurso pronunciado na sagração do Eleitor de Colónia

Não pela violência, mas sim pela persuasão

Nenhum poder humano pode forçar a supressão impenetrável da liberdade de um


coração.
Para Jesus Cristo, o Seu reino está no interior do homem, porque ele quer o
amor. Como tal «nada fez através da violência, mas tudo pela persuasão»,
como diz Santo Agostinho. O amor não entra de modo nenhum no coração por
coacção: cada um ama apenas quanto lhe apraz amar. É mais fácil repreender
do que persuadir; é mais rápido ameaçar do que instruir. È mais cómodo à
impaciência e à altivez humana bater naqueles que resistem do que
edificá-los, do que humilhar-se, rezar, morrer por si, para os ensinar a
morrer por si próprios. Logo que se acha alguma falta nos corações, todos
são tentados a dizer a Jesus Cristo: «Quereis que digamos ao fogo que desça
do céu para consumir estes pecadores indóceis?» Mas Jesus Cristo... reprime
este zelo indiscreto.
... Toda a indignação, toda a impaciência, toda a altivez contrária a esta
doçura do Deus de paciência e de consolação é um rigor de fariseu. Não
temais cair em relaxamento ao imitardes o próprio Deus, nO qual «A
misericórdia se ergue acima do julgamento» (Ti 3,13).

S. Siluane (1886-1938), monge ortodoxo

"Não quero a morte do pecador mas que se converta e viva" (Ez 33,11)

O Senhor ordenou-nos: “Amai os vossos inimigos” (Mt 5,44) Mas como podemos amá-los,
quando eles fazem o mal? Ou como amar os que perseguem a santa Igreja?
Quando o Senhor caminhava em direcção a Jerusalém e os Samaritanos se recusaram a
acolhê-lo, João o Teólogo e Tiago estavam prontos para fazer descer o fogo do céu e aniquilá-
los com ele. Mas o Senhor disse-lhes com bondade: ” Eu não vim para arruinar os homens,
mas para os salvar” (Lc 9,54-56; texto recebido grego). Assim, também nós não devemos ter
senão um único pensamento: que todos sejam salvos. A alma tem compaixão dos inimigos e
reza por eles, porque eles se afastaram da verdade e vão para o inferno. Eis o que é o amor
para com os inimigos. Quando Judas pensou em trair o Senhor , o Senhor repreendeu-o com
bondade; também nós, devemos agir com bondade para com aquele que se perde, e então
seremos salvos pela misericórdia de Deus.

São Francisco Xavier (1506-1552), missionário jesuíta


Carta

“Seguir-Te-ei para onde quer que vás”: um grande missionário perante os perigos

Há nesta missão perigos bem maiores do que o veneno ou a morte violenta. […] Em primeiro
lugar, a perda da esperança e da confiança em Deus, quando é por Seu amor e ao Seu serviço
que vamos dar a conhecer a Sua Lei e Jesus Cristo, Seu Filho, nosso Redentor e Senhor, como
Ele bem sabe. Dado que, pela sua santa misericórdia, nos comunicou estes desejos, perder
agora a confiança na sua misericórdia e no seu poder, por causa dos perigos que podemos
correr ao Seu serviço, é um perigo incomparavelmente superior aos males que poderão
causar-nos todos os inimigos de Deus. Se isso importar para Seu maior serviço, Deus nos
protegerá de todos os perigos desta vida, pois sem a Sua autorização e permissão os demónios
e os seus ministros em nada podem prejudicar-nos. É por isso que temos como garantia a
palavra do Senhor: “Quem ama a sua vida perdê-la-á, e quem neste mundo aborrece a sua
vida conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12, 25). E também: “Aquele que mete a mão ao
arado e olha para trás não é digno do Reino de Deus.”
Bem-aventurado João XXIII (1881-1963), papa
Diário da alma, Junho de 1957 [antes da sua eleição para o papado]
Seguir-te-ei por toda a parte aonde fores

«Ao anoitecer, dá-nos a luz.» Senhor, estamos no anoitecer. Eu estou no


setuagésimo sétimo ano desta vida que é um grande dom do Pai celeste. Três
quartos dos meus contemporâneos passaram para a outra margem. Tenho pois de
estar, também eu, preparado para o grande momento. A ideia da morte não
me dá grande inquietação... A minha saúde é excelente e ainda robusta, mas
não posso fiar-me nisso; quero estar pronto a dizer « presente», a qualquer
chamada, mesmo imprevista. A velhice - que é também um grande dom do
Senhor - deve ser para mim motivo de silenciosa alegria interior e de
abandono diário ao próprio Senhor, para quem estou voltado como uma criança
para os braços que o pai lhe abre.
A minha humilde e já longa vida desenrolou-se como uma meada, sob o signo da
simplicidade e da pureza. Não me custa nada reconhecer e repetir que não sou
nem valho mais do que nada. O Senhor fez-me nascer de gente pobre e pensou
em tudo. Eu deixei-o fazer... É bem verdade que «a vontade de Deus é a minha
paz». E a minha esperança está toda na misericórdia de Jesus...
Penso que o Senhor Jesus me reserva, para minha completa mortificação e
purificação, para me admitir na Sua alegria eterna, alguma grande pena ou
aflição do corpo e do espírito antes que eu morra. Pois bem, eu aceito tudo
e de boa vontade, desde que tudo sirva para Sua glória e para bem da minha
alma e dos meus queridos filhos espirituais. Receio a fraqueza da minha
resistência e peço-Lhe que me ajude, pois tenho pouca ou nenhuma confiança
em mim, mas tenho uma confiança total no Senhor Jesus.
Há duas portas para o Paraíso: a inocência e a penitência. Quem poderá
pretender, pobre homem frágil, achar aberta a primeira? Mas a segunda está
contudo segura. Jesus passou por essa com a Sua cruz ao ombro, em expiação
dos nossos pecados, e convida-nos a segui-lo.

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