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Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos meus pais adorados por

continuarem a me apoiar todos os dias, de todas as formas.


Ao meu marido, que ficou inventando várias ideias para que eu pudesse viver
desse novo sonho. Obrigada por seu amor e por sua paciência.
Ao Allison, que sempre acreditou em mim, mesmo quando eu só contava minhas
histórias, e a Harpo, minha agente lá no céu. Amo vocês.
Para a minha editora, Kim York, obrigada por sua completa atenção, capítulo
por capítulo, e por nossas conversas inestimáveis via Facebook.
Para minhas melhores amigas: Angela, Tarah e Sonia. Amo muito vocês!
Para todos os blogueiros que me ajudaram e apoiaram: vocês são a razão do
meu sucesso. Tenho medo de listar todos aqui, pois sei que, ocasionalmente, vou
acabar esquecendo de alguém.. Vocês sabem quem são e não hesitem em entrar em
contato comigo para que eu possa retribuir o favor.
Para Penelope’s Peeps, meu grupo no Facebook: adoro vocês!
Para Donna Soluri, da Soluri Public Relations, que organizou todo o marketing
do meu livro e sempre me deu bons conselhos: obrigada!
Para Hetty Rasmussen: por seu apoio e por ser minha maravilhosa assistente
literária.
Para meus leitores: nada me deixa mais feliz do que saber que proporcionei um
escape dos estresses da vida real. Tive o mesmo escape quando comecei a escrever.
Não há alegria maior nessa profissão do que ter um feedback direto de vocês e
saber que algo que escrevi lhes tocou, de alguma forma.
Para mamães (e papais) de autistas: vocês detonam!
E, por fim, mas não menos importante, para minha filha e meu filho: mamãe
ama vocês. Vocês são minha motivação e inspiração!
SUMÁRIO
CAPA
TÍTULO
FICHA CATALOGRÁFICA
DEDICATÓRIA
PARTE UM
CAPÍTULO UM
CAPÍTULO DOIS
CAPÍTULO TRÊS
CAPÍTULO QUATRO
CAPÍTULO CINCO
CAPÍTULO SEIS
CAPÍTULO SETE
CAPÍTULO OITO
CAPÍTULO NOVE
CAPÍTULO DEZ
CAPÍTULO ONZE
PARTE DOIS
CAPÍTULO DOZE
CAPÍTULO TREZE
CAPÍTULO CATORZE
CAPÍTULO QUINZE
CAPÍTULO DEZESSEIS
CAPÍTULO DEZESSETE
CAPÍTULO DEZOITO
CAPÍTULO DEZENOVE
CAPÍTULO VINTE
CAPÍTULO VINTE E UM
EPÍLOGO
EDITORA PANDORGA
O AR FRIO EMBAÇAVA A JANELA DA SACADA DE NOSSA SALA DE ESTAR
enquanto eu, nervosamente, esperava junto a ela, tentando observar a vida lá
fora. A qualquer minuto, o Volvo de Randy estaria estacionando em frente à
casa. Ele tinha ido até o Aeroporto Logan para buscar seu filho, Elec, que iria
morar conosco enquanto sua mãe trabalhava, por um ano, em uma empresa
em outro continente.
Randy e minha mãe, Sarah, estavam casados há apenas dois anos. Eu e
meu padrasto nos dávamos muito bem, mas eu não poderia dizer que éramos
próximos. Eis, aqui, o pouco que eu sabia sobre a antiga vida de Randy: sua
ex-esposa, Pilar, era uma artista equatoriana, que vivia na baía de São
Francisco; e seu filho era um punk tatuado que, de acordo com Randy,
recebia permissão para fazer o que bem entendesse.
Eu ainda não conhecia meu meio-irmão, só tinha visto uma foto tirada
alguns anos atrás, pouco antes de Randy se casar com a minha mãe. Pela foto,
pude ver que ele tinha herdado os cabelos escuros e uma pele bronzeada,
provavelmente de sua mãe sul-americana, mas tinha os olhos claros de Randy
e suas feições desenhadas. Ele parecia muito centrado, mas Randy me dissera
que Elec tinha entrado em um estágio de rebeldia. Isso incluía tatuagens aos
quinze anos e encrencas por beber ainda menor de idade, além de fumar
maconha. Randy culpava Pilar por ser negligente e por estar focada demais
em sua carreira artística, permitindo, assim, que Elec saísse impune desse tipo
de situação.
Randy alegava que tinha encorajado Pilar a aceitar um emprego como
professora em uma galeria da arte em Londres para que Elec, agora com
dezessete anos, pudesse vir morar conosco.
Embora Randy fizesse duas viagens curtas por ano para visitá-lo, não
estava sempre presente para disciplinar Elec. Ele odiava isso, e estava ansioso
pela oportunidade de dar um jeito no filho, pelo menos durante aquele ano.
Borboletas se remexiam dentro de meu estômago enquanto eu observava a
neve que se alinhava pela minha rua. O clima frígido de Boston seria um rude
despertar para meu meio-irmão criado na Califórnia.
Eu tinha um meio-irmão.
Era estranho pensar nisso. Torcia para que nos déssemos bem. Sendo filha
única, eu sempre quis um irmão. Ri de quão estúpida eu era, fantasiando que
aquilo se tornaria algum tipo de relacionamento de contos de fadas de um dia
para o outro, como o de Donny e Marie Osmond, ou o de Jake e Maggie
Gyllenhaal. Pela manhã eu tinha ouvido uma música do Coldplay que eu nem
sabia que existia, chamada Brothers and Sisters. Não que ela fale exatamente
sobre irmãos, mas me convenci de que era um bom presságio. Tudo ia ficar
bem. Eu não precisava ficar assustada.
Minha mãe parecia tão nervosa quanto eu, enquanto corria para cima e
para baixo na casa para aprontar o quarto de Elec. Ela transformou o
escritório em um quarto. Nós duas fomos ao Walmart para comprar lençóis e
outras coisas. Era estranho comprar coisas para uma pessoa que eu não
conhecia. Decidimos comprar tudo em azul--marinho.
Comecei a murmurar coisas para mim mesma, ensaiando o que deveria
dizer a ele, sobre o que iríamos conversar, o que eu poderia mostrar para ele.
Estava, ao mesmo tempo, um pouco excitada e estressada.
Ouvir o som de uma porta de carro sendo fechada me fez pular do sofá e
ajeitar minha saia amarrotada.
Acalme-se, Greta.
Ouvi um barulho de chave girando. Randy entrou sozinho e deixou a porta
bem aberta, permitindo que um ar congelante entrasse na sala. Depois de
alguns minutos, ouvi pés esmagando o gelo que cobria a entrada da casa, mas
ainda não tinha visto Elec. Provavelmente ele tinha parado do lado de fora,
antes de entrar. Randy colocou a cabeça para fora da porta: — Porra, Elec,
entra logo.
Um caroço se formou na minha garganta quando ele apareceu na porta.
Engoli em seco e fiquei olhando para ele por alguns segundos, com meu
coração batendo com ainda mais força quando percebi que ele não parecia em
nada com o garoto da foto que mostraram para mim.
Elec era mais alto que Randy, e o cabelo curto do qual eu me lembrava do
retrato agora era uma mancha preta bagunçada e despenteada, quase cobrindo
seus olhos. Ele cheirava a cigarro, ou talvez fosse maconha, porque era um
cheiro mais doce. Uma corrente estava presa ao seu jeans. Ele nem olhou
para mim, então eu aproveitei para continuar examinando-o, enquanto ele
jogava sua mochila no chão.
Bum.
Esse barulho tinha sido da mochila ou do meu coração?
Ele olhou para Randy, e sua voz soou grave.
— Onde é o meu quarto?
— Lá em cima, mas você não vai a lugar nenhum enquanto não disser “oi”
para sua irmã.
Cada músculo do meu corpo se enrijeceu enquanto eu praticamente me
encolhia ao ouvir o termo. Eu não queria ser irmã dele de forma alguma. Em
primeiro lugar, quando ele se virou na minha direção, parecia que queria me
matar. Em segundo, desde o primeiro momento em que olhei para seu rosto
esculpido, ficou totalmente claro que, ao mesmo tempo em que minha mente
começava a desconfiar dele, meu corpo foi imediatamente enfeitiçado. Um
feitiço do qual eu faria de tudo para escapar.
Seus olhos perfuraram os meus como se possuíssem adagas, mas ele não
disse nada. Dei alguns passos à frente, engoli meu orgulho e estendi a mão
para cumprimentá-lo..
— Sou Greta. Prazer em conhecê-lo.
Ele não disse nada. Muitos segundos se passaram até que ele,
relutantemente, pegou minha mão. Seu aperto foi desconfortavelmente forte,
quase doloroso, mas ele soltou depois de pouco tempo.
Pigarreei e disse: — Você é diferente… do que eu imaginei.
Ele olhou para mim com os olhos semicerrados.
— E você é bem… comum.
Parecia que minha garganta ia se fechar. Por um breve segundo, pensei que
ele ia me elogiar, antes de combinar a palavra “bem” com “comum”. A parte
mais triste era que, se você me perguntasse como eu me sentia, parada de
frente para ele, a palavra “comum” seria o termo que eu teria usado.
Seus olhos me examinavam de cima a baixo friamente. Apesar do fato de
eu ter detestado sua personalidade, ainda estava maravilhada com sua beleza,
o que me deixava enojada. Seu nariz era perfeitamente alinhado e, seu
maxilar, definido. Seus lábios eram perfeitos – perfeitos até demais – para as
porcarias que, aparentemente, saíam deles. Fisicamente ele era meu sonho,
mas, em todos os outros sentidos, era meu pesadelo. Ainda assim, eu me
recusava a demonstrar que suas palavras tinham causado qualquer efeito em
mim.
— Você quer que eu mostre seu quarto? — Perguntei.
Ele me ignorou, erguendo sua mochila do chão e se virando na direção das
escadas.
Ótimo. Estávamos indo muito bem.
Minha mãe desceu as escadas e imediatamente puxou Elec para um abraço.
— Fico feliz em finalmente te conhecer, querido.
Seu corpo se enrijeceu antes de se afastar abruptamente dela.
— Queria poder dizer o mesmo.
Randy avançou em direção às escadas com o dedo levantado.
— Para com essa merda, Elec. Diga “olá” para Sarah de uma forma
decente.
— Olá para Sarah de uma forma decente. — Elec repetiu, em um tom de
voz monótono, enquanto subia as escadas.
Minha mãe colocou a mão no ombro de Randy.
— Tudo bem. Ele vai melhorar. Deixe-o sozinho. Uma viagem longa não é
nada fácil. Ele ainda não me conhece. Só está um pouco apreensivo.
— O idiota é bem desrespeitoso, isso sim.
Uau!
Eu fiquei bem surpresa com a forma como Randy falou do próprio filho,
por mais que Elec tivesse agido mal. Meu padrasto nunca tinha usado
palavras como aquelas comigo, mesmo porque nunca as mereci. Mas Elec
estava mesmo agindo como um idiota desrespeitoso.
Naquela noite, Elec ficou trancado no quarto. Randy foi lá uma vez, e eu
os escutei discutindo, mas mamãe e eu decidimos deixá-los extravasar, então
ficamos de fora de qualquer coisa que estivesse acontecendo entre eles.
Quando fui para a cama, não pude evitarparar e dar uma olhada na porta
fechada do quarto de Elec. Me perguntava se sua forma de me ignorar era um
indicativo de como seria aquele ano inteiro, ou se ele iria mesmo durar um
ano conosco.
Planejando escovar meus dentes, abri a porta do banheiro e dei um pulo ao
ver Elec secando seu corpo molhado depois de sair do banho. Vapor e um
cheiro de homem preenchiam o ar. Por alguma razão, ao invés de correr dali,
eu congelei. O mais pertubador foi que, ao invés de se cobrir com a toalha,
ele a deixou cair no chão, demonstrando indiferença.
Fiquei boquiaberta.
Meus olhos estavam grudados em seu pênis, antes de viajarem até dois
trevos tatuados em seu torso malhado e, depois, até a tatuagem que cobria
todo o seu braço esquerdo. Havia água pingando de seu peito, e um piercing
em seu mamilo esquerdo. No momento em que meus olhos pousaram em seu
rosto, eles encontraram um sorriso cruel. Tentei falar, mas as palavras
simplesmente não saíam.
Finalmente virei minha cabeça para outro lado e disse: — Ah… , meu
Deus… eu… eu… eu deveria sair daqui.
Enquanto me virava para sair pela porta, sua voz me fez parar: — Você
age como se nunca tivesse visto um cara nu antes.
— Na verdade… eu nunca vi.
— Que droga para você. Vai ser bem difícil para o próximo cara, com a
comparação.
— Você é muito arrogante.
— Diga você. Não deveria ser?
— Meu Deus… você está agindo como um…
— Um grande babaca?
Era como um acidente de carro horrível do qual não se podia fugir. Lá
estava eu olhando para ele novamente. O que havia de errado comigo? Ele
estava completamente nu na minha frente, e eu mal conseguia me mexer.
Puta merda, na cabeça do pênis dele também tinha um piercing. Que
ótima forma de ser apresentada pela primeira vez a um pênis ao vivo.
Ele interrompeu meu olhar.
— Não há nada aqui além disso. Então, a não ser que esteja planejando
fazer alguma coisa, é melhor que saia e me deixe terminar de me vestir.
Balancei a cabeça, descrente, e fechei a porta ao sair.
Minhas pernas estavam tremendo, quando corri para meu quarto.
O que tinha acabado de acontecer?
— COMO ESTÁ O SEU QUERIDO MEIO-IRMÃO, HOJE? — VICTORIA PERGUNTOU.
A cama rangeu conforme eu me virei de barriga para baixo, suspirando no
telefone.
— Vivendo em sua babaquice habitual.
Eu não tinha contado para minha melhor amiga, Victoria, sobre a exibição
de Elec no banheiro, na sexta-feira à noite. Foi algo que me deixou
extremamente constrangida, por isso, decidi manter em segredo. Uma
pesquisa no Google sobre pênis com piercings acabou me deixando acordada
pelo resto da noite. Deixe-me avisá-lo que, se alguém, inocentemente,
pesquisar por “Príncipe Albert”, vai ficar bastante surpreso.
Já era domingo, e, no dia seguinte, Elec iria começar a frequentar a minha
escola, onde ambos estaríamos na mesma turma. Ou seja, mais cedo ou mais
tarde, todos iriam conhecer o babaca do meu meio-irmão.
Victoria pareceu chocada.
— Ele ainda não está falando com você?
— Não. Esta manhã ele desceu para pegar cereais e os levou de volta para
o quarto.
— Por que você acha que ele age assim, tão cara de pau?
Você tinha era que ver o pau dele.
— Acho que tem alguma coisa errada entre ele e o Randy. Estou tentando
não levar para o lado pessoal, mas é difícil.
É difícil, mesmo. Meu Deus! Não consigo tirá-lo da minha cabeça!
Aquele pênis com aquele piercing.
Merda!
— Você acha que eu iria gostar dele? — Victoria perguntou.
— O que quer dizer com isso? Eu te disse, ele é um demônio. — Afirmei.
— Eu sei… Mas você acha que eu iria gostar dele?
Honestamente, eu sabia que ele fazia exatamente o tipo de Victoria. Ela
adorava garotos sombrios e taciturnos, mesmo quando eles não eram tão
atraentes quanto Elec. Este era outro motivo que me fazia manter em segredo
os detalhes do encontro no banheiro. Tudo que ela precisava ouvir era que
havia um piercing em seu pênis, o que faria com que eu nunca mais
conseguisse tirá-la da minha casa. Mas ela logo descobriria como ele era,
então achei melhor ser sincera.
— Se ele é gato? Super… hiper… gato. Na verdade, a aparência é a única
coisa que ele tem a seu favor.
— Ok, estou indo para sua casa.
— Não, não está não. — Eu ri, mas, bem lá no fundo, a ideia de ter
Victoria se jogando em cima de Elec me deixou muito desconfortável,
mesmo achando que ele não retribuiria a atenção.
— Quais são seus planos para hoje à noite, então?
— Bem, antes de conhecê-lo e descobrir que ele é um idiota, eu pensei em
fazer um jantar de domingo para todos nós. Você sabe… minha
especialidade.
— Frango Tetrazzini.
Eu ri, porque era a única coisa que eu realmente sabia preparar muito bem.
— Como adivinhou?
— Talvez você possa servir uma lata de veneno para seu querido meio-
irmão…
— Não vou entrar na dele. Vou tratá-lo com gentileza. Não me importo se
ele quiser continuar sendo um merda comigo. A pior coisa que posso fazer,
nesse momento, é mostrar que isso está me afetando.

Minha mãe me ajudou a pôr a mesa enquanto esperávamos o frango


Tetrazzini ficar pronto. Meu estômago estava roncando, mas acho que era
mais por nervosismo do que por causa do cheiro do molho cremoso de alho
que emanava do fogão. Eu não estava muito animada para me sentar à mesa
com Elec, mesmo que ele concordasse em se juntar a nós.
— Greta, por que você não vai lá em cima e tenta fazê-lo descer?
— Por que eu?
Minha mãe decidiu abrir uma garrafa de vinho. Ela era a única que iria
beber, e realmente precisava disso. Serviu uma taça para si mesma, bebeu um
gole e disse: — Olha, eu consigo entender por que ele não gosta de mim. Ele
me vê como inimiga e provavelmente me culpa de alguma forma por seus
pais não estarem mais juntos, mas não tem nenhum motivo para ele te tratar
mal. Só continue tentando se dar bem com ele, veja se ele consegue se abrir
um pouco com você.
Dei de ombros. Ela não fazia ideia de quão abertas as coisas tinham sido
no banheiro há duas noites: com direito a bolas e tudo.
Enquanto subia as escadas, a música tema de Tubarão começou a tocar na
minha cabeça. Só pensar em bater na porta do quarto dele já me deixava
assustada, e eu nem sabia o que teria que encarar se ele a abrisse.
Bati.
Para minha surpresa, ele abriu sem demora. Um cigarro de maconha estava
pendurado em sua boca. O aroma doce da fumaça viajou rapidamente até as
minhas narinas. Ele deu uma boa tragada e, então, lenta e intencionalmente,
soprou a fumaça bem na minha cara. Sua voz saiu bem baixa ao falar: — O
que foi?
Tentei não me afetar até que uma tosse incontrolável me atingiu.
Muito bom, Greta.
— O jantar está quase pronto.
Ele estava usando uma blusa branca muito apertada, e meus olhos foram
atraídos pela tatuagem que dizia “Lucky” em um de seus bíceps musculosos,
encostado na porta. Seu cabelo estava molhado, e seu jeans tinha o cós baixo,
mostrando a barra da cueca boxer branca. Seus olhos cinzentos e duros como
aço estavam olhando para os meus. Ele era de tirar o fôlego… mesmo sendo
um desgraçado.
Eu estava fora de órbita quando ele disse: — Por que está olhando para
mim desse jeito?
— De que jeito?
— Como se estivesse tentando se lembrar do que viu na outra noite…
Como se preferisse que eu fosse o jantar — ele provocou. — Por que está
piscando para mim?
Merda. Meu olho sempre estremecia quando eu ficava nervosa, fazendo
parecer que eu estava piscando.
— Ele só está tremendo. Se manca!
Sua expressão se tornou irritada.
— Sério? Devo mesmo me mancar? Minha aparência é a única coisa que
tenho ao meu favor, não é? Então eu deveria focar nisso.
Do que ele estava falando? Fiquei ali, parada, em silêncio.
Ele continuou: — Qual é o problema? Está quente demais aí para você? —
Então ele disse em um tom de zombaria: — Você não disse que eu sou
super… hiper… gato. — Ele enfatizou, com um sorriso.
Merda.
Aquelas eram as exatas palavras que usei para descrevê-lo no telefone para
Victoria, mais cedo.
Ele ficou fuxicando minha conversa.
Meu olho tremeu.
Ele continuou: — Você está piscando para mim outra vez. Estou te
deixando nervosa? Olhe só para você, está corando! O vermelho te cai bem.
Imediatamente saí do quarto dele e desci as escadas.
Ele gritou para mim: — Acho que vamos combinar, já que eu sou um
DEMÔNIO!

Elec serviu-se do jantar sem dizer palavra alguma, enquanto eu fixei meu
olhar no piercing em seu lábio. Randy estava olhando para ele com desdém.
Minha mãe encheu sua taça de vinho mais do que apenas uma vez. Sim,
aquela era nossa própria versão de A Família Dó-Ré-Mi.
Fingi estar apreciando o Tetrazzini enquanto ruminava o fato de ele ter
ouvido minha conversa, principalmente a parte de ele ser atraente, para mim.
Minha mãe foi a primeira a falar: — Elec, o que achou de Boston até
agora?
— Vendo pelo lado de que eu ainda não fui a lugar nenhum além desta
casa, por enquanto está uma merda.
Randy jogou o garfo no prato.
— Será que você pode mostrar um pouco de respeito pela sua madrasta,
pelo menos por cinco segundos?
— Isso depende. Será que ela pode parar de beber pela mesma quantidade
de tempo? Eu sabia que você tinha se casado com uma traidora, papai, mas
ela é bêbada, também?
— Seu pedaço de merda. — Randy colocou para fora.
Uau!
Mais uma vez, Randy me deixou sem chão com a escolha de palavras para
se dirigir a seu filho. Elec estava mesmo agindo como um babaca, mas ainda
me chocava ouvir aquele tipo de linguajar vindo da boca do meu padrasto.
Elec arrastou a cadeira para trás e jogou seu guardanapo na mesa,
levantando-se.
— Já terminei — ele olhou para mim. — O Frango Titica, ou seja lá qual
for o nome dessa merda, estava delicioso, irmãzinha. — A palavra
“irmãzinha” rolou em sua língua cheia de sarcasmo.
Assim que ele saiu da mesa, o silêncio tornou-se ensurdecedor. Minha mãe
colocou a mão sobre a de Randy, e eu fiquei ponderando o que poderia ter
acontecido entre Elec e seu pai para causar tamanha desavença.
Impulsivamente, eu levantei e subi as escadas. Meu coração estava batendo
forte, enquanto batia na porta do quarto de Elec. Ele não atendeu, então,
lentamente, eu virei a maçaneta e o vi sentado na beira da cama, fumando um
cigarro. Estava com fones no ouvido e não me viu entrar. Fiquei parada
pouco depois da soleira da porta, a observá-lo. Estava balançando as pernas
nervosamente, parecendo frustrado e derrotado. Pouco depois ele largou o
cigarro, mas imediatamente abriu a gaveta e pegou outro.
— Elec! — Eu gritei.
Ele deu um pulo e tirou os fones.
— Mas que merda! Você me assustou!
— Me desculpe.
Ele acendeu o novo cigarro e gesticulou em direção à porta.
— Saia daqui.
— Não.
Ele revirou os olhos e balançou a cabeça devagar, colocando os fones
novamente em seus ouvidos e dando uma longa tragada.
Sentei-me ao lado dele.
— Esse negócio vai te matar.
Saiu um pouco de fumaça de sua boca quando ele disse: — Perfeito.
— Você não está falando sério.
— Por favor, me deixe sozinho.
— Tudo bem.
Saí do quarto e voltei para o andar de baixo. Vê-lo tão deprimido naquele
momento, enquanto ele não sabia que eu o estava observando, me deixou
mais determinada do que nunca a me aproximar dele. Precisava saber se
aquilo era só uma fachada ou se ele era um babaca genuíno. Quanto mais ele
era cruel comigo, mais eu queria fazer com que gostasse de mim. Era um
desafio.
Voltei para a cozinha e pedi o número do telefone de Elec para Randy,
antes de salvá-lo nos contatos do meu telefone. Então, digitei um texto:
Já que você não quer falar comigo, vou digitar.
ELEC: Como conseguiu meu número?
GRETA: Seu pai.
ELEC: Foda-se ele.
Decidi acabar com o assunto “Randy”.

GRETA: Você gostou da janta?


ELEC: Tire a letra J de JANTA, quase temos ANTA. Você cozinhando =
anta.
GRETA: Por que você é tão cruel?
ELEC: Por que você é uma anta?

Que escroto! Aquilo não ia me levar a lugar algum. Joguei o telefone no


balcão e subi as escadas. Ele tinha finalmente me deixado com vontade de
fazer algo para irritá-lo.
Ele ainda estava sentado na cama, fumando, quando abri a porta, sem nem
sequer bater na porta. Fui direto até a gaveta, peguei sua caixa de cigarros e
saí correndo.
Fiquei gargalhando durante todo o caminho até meu quarto. Isso, é claro,
até minha porta ser aberta com violência. Rapidamente enfiei os cigarros
dentro da minha blusa. Elec parecia pronto para me assassinar, embora, eu
tivesse que admitir, seus olhos faiscantes fossem muito sexy.
— Me devolva! — Ele disse por entre os dentes.
— Não vou devolvê-los.
— Ah, você vai sim, ou eu vou colocar a mão dentro da sua blusa e pegá-
los. Você escolhe.
— Sério, por que você fuma? Isso faz muito mal.
— Você não pode roubar minhas coisas. Mas, outra vez, tal mãe, tal filha.
— Do que você está falando?
— Vá perguntar à sua mãe. — Ele murmurou, quase ofegante. Então,
estendeu o braço musculoso e tatuado. — Me dê os meus cigarros.
— Não até você me explicar por que disse isso. Ela não roubou Randy.
Seus pais já estavam divorciados antes da minha mãe e seu pai se
conhecerem.
— Isso é o que Randy quer que você acredite. Ela, provavelmente, andava
fodendo com o seu pai também, não é mesmo? Pobre desgraçado ingênuo.
— Não chame meu pai de desgraçado.
— Bem, onde ele estava enquanto Sarah trepava com o meu pai pelas
costas da minha mãe?
Meu sangue começava a ferver. Ele ia se arrepender da pergunta.
— Debaixo da terra. Meu pai morreu quando eu tinha dez anos.
Ele ficou em silêncio e, então, esfregou a cabeça, cheio de frustração. Seu
tom de voz suavizou pela primeira vez, desde que o conheci.
— Foda-se. Eu não sabia disso, tudo bem?
— Tem muita coisa que você, provavelmente, está imaginando. Se ao
menos falasse comigo…
Elec quase pareceu pronto para pedir desculpas. Quase. Então, balançou a
cabeça e se virou para a direita, quase como se fosse Mr. Hyde1.
— Só se eu estivesse muito fodido para conversar com você. Me dê os
cigarros, ou vou arrancá-los de dentro da sua blusa.
Meu corpo estremeceu ao ouvi-lo falando aquilo. O que havia de errado
comigo? Parte de mim queria ver como seria a sensação de ter suas mãos
grossas puxando o objeto da minha roupa, arrancando-a. Balancei a cabeça
para me livrar do pensamento e recuei, quando vi que ele estava se
aproximando lentamente. Ele estava a centímetros de distância de mim. Calor
irradiava de seu corpo enquanto ele se movia na minha direção, tentando,
sem sucesso, retirar a caixa de cigarros de dentro da minha blusa. Meus
mamilos, instantaneamente, se tornaram rígidos como aço. Nunca me senti
tão sem controle sobre meu próprio corpo e, silenciosamente, implorava para
parar de reagir tão intensamente por causa dele. Mas eu tinha que encarar.
Meu corpo era um imbecil em julgamento. Como ele podia desejar tanto algo
que eu odiava?
Seu hálito cheirava a mato.
— Este é o último pacote dessa marca. São importados da Indonésia. Nem
sei onde comprar outro desses. Se acha que sou difícil de lidar, você vai ver
do que sou capaz se ficar sem cigarros esta noite.
— Eles fazem muito mal para você.
— Pergunta se eu ligo. — Ele disse, desconfortavelmente próximo da
minha boca.
— Elec…
Ele recuou alguns centímetros.
— Olha, fumar é a única coisa que me trouxe um pouco de paz desde que
cheguei nesse inferno. Agora, estou pedindo com educação. Por favor.
Seus olhos suavizaram, e a cada segundo passado, minhas resistências de
enfraqueciam.
— Tudo bem. — Seu olhar seguiu minha mão enquanto eu a colocava
dentro do sutiã para pegar os cigarros. Entreguei-os a ele e, instantaneamente,
senti o ar frio substituir o calor de seu corpo quando ele se afastou.
Se eu pensei que devolver os cigarros para ele fosse iniciar uma trégua,
estava errada.
Ele se virou uma última vez para me encarar, e seus olhos não estavam
mais tão suaves. Estavam penetrantes.
— Você vai pagar por isso.
A VOLTA ÀS AULAS FOI EXATAMENTE COMO EU IMAGINEI QUE SERIA. ELEC ME
ignorou todas as vezes que estávamos na mesma sala ou na cafeteria. As
garotas se amontoavam ao redor dele onde quer que fosse, o que o tornou
popular rapidamente, por mais que mal dissesse uma palavra. Provavelmente,
a única coisa que não foi surpreendente, foi a reação de Victoria a ele.
— Quais são as minhas chances?
— Chances de quê?
— De dar uns pegas no Elec.
— Não me envolva nessa tentativa, por favor.
— Por que não? Já entendi que vocês não são melhores amigos, mas você
é minha única ligação com ele.
— Ele me odeia. Como vou conseguir te ajudar com isso?
— Você podia me convidar para ir na sua casa, fazer com que fiquemos no
mesmo cômodo e nos deixar sozinhos.
— Não sei. Você não entende como ele é.
— Bem, sei que você não se dá bem com ele, mas ficaria incomodada se
eu investisse? Talvez possa até ajudar na sua relação com ele, se eu acabar
namorando ele.
— Não acho que Elec seja do tipo que gosta de namorar.
— Não… Ele é do tipo que gosta de trepar, e por mim tudo bem. Vou
gostar disso.
Meu coração começou a bater mais rápido, o que me deixou com ódio de
mim mesma. Todas as vezes que Victoria mencionava esse assunto, me
deixava insanamente ciumenta. Era como uma batalha secreta com a qual eu
lidava constantemente. Eu nunca poderia admitir isso para ninguém. E eu
ainda nem sabia o que mais me incomodava. Será que era a ideia de ter minha
amiga transando com Elec, tocando-o e vivendo minha fantasia obscura? É
claro que isso me incomodava, mas acho que o que mais me deixava
chateada era pensar em Elec se conectando em um nível mais profundo com
alguém, enquanto continuava a me desprezar.
Me odiava por me importar com isso.
Tirei minha mochila de dentro do armário.
— Você é louca. Podemos, por favor, mudar de assunto?
— Ok. Ouvi dizer que Bentley quer te convidar para sair.
Bati a porta do armário bem forte por causa da notícia.
— Quem disse isso?
— Ele falou com meu irmão sobre isso. Quer te chamar para ir ao cinema.
Bentley era um dos caras populares do colégio. Eu nem conseguia
imaginar por que ele poderia estar interessado em mim, já que costumava sair
com meninas de seu próprio bando. Eu não pertencia ao grupo deles. Nem a
qualquer outro, na verdade. Havia pessoas como Bentley, que viviam no lado
rico da cidade. Havia, também, os artistas e os grupos de teatro. Depois, os
estudantes de intercâmbio. E, é claro, havia os populares apenas por serem
bonitos, intrigantes ou que criavam um personagem (Elec). Eu e Victoria
tínhamos um patamar só nosso. Nos dávamos bem com todo mundo,
tirávamos boas notas e ficávamos longe de problemas. Mas, diferente da
minha melhor amiga, eu era virgem.
Eu só tive um namorado, Gerald, que terminou comigo porque eu não
permitia que ele tocasse mais nadaalém dos meus seios. Ele espalhou que eu
era virgem, e algumas pessoas na escola começaram a zombar disso pelas
minhas costas. Embora eu ainda encontrasse Gerald nos corredores de vez em
quando, tentava evitá-lo.
Victoria estourou sua bola de chiclete.
— Bem, seja como for, se ele te convidar, acho que você deveria chamar
Elec. Ele pode ir comigo, e você vai com Bentley. Podemos ir ver aquele
novo filme de terror.
— Não, obrigada. Viver com Elec é terror suficiente, para mim.
Minhas palavras voltaram para me assombrar na manhã seguinte. Estava
me vestindo para a escola, mas, quando abri minha gaveta de calcinhas,
encontrei-a vazia.
Coloquei umas calças de ioga e marchei até o quarto de Elec, que estava
colocando uma camisa.
— Que merda você fez com minhas calcinhas?
— Viu como é bom quando alguém pega suas coisas?
— Eu peguei um pacote de cigarros e fiquei com ele por menos de cinco
minutos, e devolvi para você. Você pegou todas as minhas calcinhas! Tem
uma boa diferença nisso.
Eu mal posso acreditar que schei que ele não iria se vingar de mim. Nos
últimos dias, ele andava me ignorando mais do que o normal, então achei que
estava tudo esquecido.
Comecei a procurar nas gavetas dele. Minha mão se retraiu depois de tocar
um pacote de camisinhas.
— Pode ficar procurando até o sol se pôr. Não tem nada aí. Nem perca seu
tempo.
— Acho bom que não tenha jogado fora.
— Algumas delas são bem sexy. Eu não faria isso.
— Elas custaram uma fortuna.
A única coisa que me fazia gastar bastante dinheiro eram boas lingeries.
Cada um dos pares veio de uma loja online bem cara.
Enquanto me ajoelhava para olhar debaixo de sua cama, ele riu: — Sua
calça está marcando tudo.
Eu dei um pulo e rangi os dentes.
— É isso que acontece quando você não tem nenhuma porra de calcinha
para vestir.
Eu queria ter falado algo pior, mas sabia que isso tornaria tudo ainda pior.
Então, levantei para encará-lo.
Elec me olhou de cima a baixo: — Você vai tê-las de volta quando eu
estiver pronto para devolvê-las. Agora, se me dá licença… — Ele passou por
mim com pressa e desceu as escadas.
Eu nem me preocupei em pará-lo, porque não iria adiantar. Passei na loja
Target, no caminho para a escola, e comprei umas calcinhas baratas para usar
até que descobrisse como pegar as minhas de volta.
Naquele dia, voltei para casa depois da escola, extremamente ansiosa.
Depois de ter perdido minhas calcinhas e de, realmente, ser convidada para
sair por Bentley, estava precisando desesperadamente de um pouco de
sorvete – mas não qualquer sorvete, e sim aquele caseiro que eu preparava de
vez em quando na máquina que ganhei de Natal no ano passado.
Joguei cada pedacinho dos doces que sobraram do Halloween nela,
terminando com um chocolate Snickers, um Heath Bar e um Almond Joy de
coco com uma base de baunilha.
Quando ficou pronto, sentei-me no balcão com uma tigela gigante e fechei
meus olhos, saboreando cada colherada.
A porta da frente bateu e, pouco depois, Elec surgiu na cozinha. O cheiro
de seus cigarros e de sua colônia preencheram o ar. Odiava o cheiro dele.
Merda, eu adorava aquele cheiro, queria me afogar nele.
Como sempre, ele me ignorou e apenas se dirigiu à geladeira, pegou o leite
e bebeu-o direto da caixa. Deu uma olhada no meu sorvete e veio na minha
direção, arrancando a colher da minha mão. Colocou-a em sua boca,
devorando uma enorme porção. O metal de seu piercing tilintou em contato
com a colher, que ele lambeu até ficar seca. Minhas entranhas se reviraram só
de olhar. Então, ele devolveu a colher para mim e passou a língua nos dentes,
como se fosse uma cobra. Até mesmo seus dentes eram sexy.
Abri a gaveta, peguei outra colher e ofereci a ele. Nós dois começamos a
comer da mesma tigela, sem dizer nada um ao outro. Era uma coisa simples,
mas meu coração começou a bater muito mais rápido. Nunca tinha passado
tanto tempo tendo o prazer de sua presença..
Finalmente, no meio de uma colherada, ele olhou para mim: — O que
aconteceu com seu pai?
Engoli meu sorvete e tentei lutar contra as emoções que surgiam. Sua
pergunta me pegou totalmente de surpresa. Pousei minha colher na tigela.
— Ele morreu de câncer aos trinta e cinco anos. Fumava desde os doze.
Ele fechou os olhos por um breve momento e balançou a cabeça em
afirmativa, como se compreendesse algo. Obviamente, estava entendendo o
porquê de eu odiar tanto os cigarros.
Depois de vários minutos de silêncio, ele disse, enquanto olhava para a
tigela: — Me desculpe.
Continuamos a compartilhar o sorvete até que não restasse mais nada. Elec
pegou a tigela das minhas mãos, lavou-a na pia, secou-a e guardou-a. Então,
saiu e subiu as escadas sem dizer mais nada.
Fiquei lá embaixo, na cozinha, por um tempo, revivendo aquele estranho
momento. Seu interesse em meu pai realmente me surpreendera. Também
não conseguia parar de pensar na forma como ele lambeu minha colher, e
como me senti em lambê-la, depois.
Meu telefone apitou. Era uma mensagem de texto de Elec.
Obrigado pelo sorvete de bunda. Estava muito gostoso.
Quando voltei para o meu quarto, naquela tarde, uma única calcinha estava
dobrada dentro da minha gaveta. Se essa era sua representação de bandeira
branca, eu estava aceitando.

A “doçura” de Elec não durou muito tempo. Alguns dias depois de nosso
momento do sorvete, ele apareceu na cafeteria onde eu trabalhava, bem no
meio da tarde, depois da escola. O Kilt Café ficava logo na rua de baixo do
nosso colégio e servia sanduíches, saladas e café.
Se só a presença de Elec já era ruim, ele ainda estava acompanhado da
garota mais bonita da escola. Leila era uma loira platinada e alta, com seios
grandes. Sua aparência era totalmente o oposto da minha. Meu corpo parecia
mais o de uma bailarina ou ginasta. Meu cabelo loiro era liso e simples,
totalmente diferente do dela, cheio de balanço e com estilo Barbie texana.
Qualquer um poderia pensar que ela era uma vaca, por causa de sua
aparência, mas a verdade é que ela era bem legal.
Leila acenou.
— Oi, Greta.
— Oi. — Disse, enquanto colocava os cardápios sobre a mesa. Elec olhou
para mim rapidamente, como se não tivesse me reconhecido. Acho que ele
nem sabia que eu trabalhava ali, porque nunca cheguei a lhe dizer.
Senti um pouco de ciúme quando reparei que ele estava olhando para as
pernas de Leila, por debaixo da mesa.
Não tinha certeza se Leila sabia que ele era meu meio-irmão. Nunca falei
sobre ele para as pessoas do colégio e, ali, entendi que ele também nunca
tinha feito qualquer menção a mim.
— Vou dar dois minutos para vocês escolherem. — Disse, antes de voltar
para a cozinha. Vi quando Leila se debruçou sobre a mesa e deu um beijo nos
lábios dele. Me senti enjoada. Ela deu um leve puxão em seu piercing, com
os dentes. Depois, pareceu que ela ronronou. Arg! Nunca quis tanto
desaparecer, em toda minha vida.
Relutantemente, voltei para perto deles.
— Já decidiram o que vão querer?
Elec deu uma olhada no quadro-negro que listava os pratos do dia e sorriu.
— Qual a sopa de hoje?
Aquele desgraçado.
— Frango.
— Não está correto. Você a está diminuindo.
— É a mesma coisa.
Ele repetiu.
— Qual é… a sopa… de hoje?
Olhei para ele por um bom tempo, enrijecendo meu maxilar.
— Sopa de galo com alho poró.
O dono do estabelecimento era escocês e, aparentemente, aquela era a
especialidade da casa.
Ele sorriu com malícia.
— Obrigada, vou ficar com essa. Leila?
— Vou querer a salada mista. — Ela disse, alternando o olhar entre mim e
Elec, parecendo confusa.
Tive um minuto de paz antes de retornar à mesa com os pratos. Nem me
importava se a sopa tivesse esfriado.
Depois de alguns minutos, Elec levantou o dedo indicador para que eu
fosse até a mesa.
— Sim? — Bufei.
— O galo21 está aguado. E também mole e frio. Você pode, por favor,
trocá-lo e pedir ao cozinheiro que coloque algum tempero nele?
Ele parecia estar segurando uma risada. Leila estava calada.
Levei a sopa de volta à cozinha e a derramei violentamente na pia por toda
cuba de cerâmica. Ao invés de falar com o chefe, tive uma ideia e decidi
fazer tudo com minhas próprias mãos. Peguei uma concha e servi um pouco
mais de sopa em outro prato. Abri um frasco de molho picante e derramei
uma porção mais do que generosa na sopa.
Agora ela estava mais do que temperada. Voltei à mesa deles e a coloquei
cuidadosamente na frente de Elec.
— Mais alguma coisa?
— Não.
Voltei para a cozinha e me escondi em um canto para observá-lo. A
ansiedade estava me matando. Sua língua iria praticamente cair quando
provasse o gosto da minha especiaria.
Elec tomou a primeira colherada. Nenhuma reação.
Mas como?
Ele deu outra colherada, então seus olhos me procuraram. Sua boca se
curvou em um sorriso cheio de malícia, antes de pegar o prato nas mãos e
começar a beber a sopa como se fosse uma bebida. Limpou a boca com as
costas das mãos, sussurrou algo para Leila e pediu licença.
Leila estava virada de costas para mim quando Elec veio em minha direção
e me agarrou pelo braço, levando-me até o corredor escuro que levavaaos
banheiros.
Ele me encostou na parede.
— Você se acha muito espera, não é? — Meu coração estava batendo
muito forte Sem fala, balancei a cabeça, quando ele disse. — Bem, você é a
piada.
Antes que eu pudesse responder, Elec segurou meu rosto com ambas as
mãos e assaltou meus lábios com os dele. O metal em seu lábio arranhou
levemente minha boca enquanto ele a abria com sua língua faminta e
começava a me beijar intensamente. Gemi durante o beijo, tão chocada estava
quanto excitada pela armadilha que era sua língua.. Meu corpo estava
tremendo. Ele tinha um cheiro maravilhoso. E eu sentia como se fosse
desmaiar por causa da descarga sensorial.
Segundos depois, a ardência do molho picante começou a ser passada para
mim, começando a queimar. Por mais que sentisse que minha língua estava
prestes a cair, não queria nunca sair dali.
Nunca tinha sido beijada daquele jeito.
Então, da mesma forma como começou, ele arrancou sua boca da minha.
— Você já não deveria saber que não pode tentar me foder?
Ele se afastou, e eu fiquei ali no corredor, ofegante, com minha mão no
peito.
Puta merda!
Minha boca estava pegando fogo, assim como todos os outros orifícios. Eu
sentia o vão entre minhas pernas latejando. Quando, finalmente, recuperei a
compostura para caminhar, vi que eles estavam pedindo a conta.
Decidi deixar aquilo para trás, e coloquei a conta sobre a mesa deles, em
frente a Elec, sem estabelecer contato visual.
Eu o ouvi dizendo a Leila que o esperasse lá fora porque ele tinha algo a
resolver. Ele colocou a mão no bolso, então deixou algo dentro da pastinha da
conta. Depois, saiu.
Provavelmente ele não tinha me deixado uma gorjeta. Abri a pasta e
ofeguei quando vi que, junto da nota de vinte, estava minha calcinha preta
favorita. Além disso, ele ainda tinha escrito na conta, a caneta:
ELEC E EU NUNCA MENCIONAMOS O BEIJO, EMBORA A CENA ESTIVESSE
passando na minha cabeça constantemente, como um filme. Eu tinha quase
certeza de que não significava nada, para ele e que ele só estava tentando se
gabar. Mesmo assim, a sensação que experimentei foi a mesma como se o
beijo tivesse sido baseado em uma paixão real. Eu ansiava por sentir aquilo
de novo, o que tornou a batalha entre minha mente e meu coração ainda mais
difícil.
Era uma maldição estar interessada em uma pessoa com quem você era
obrigada a morar, principalmente quando ele levava garotas da escola para
casa.
Em uma tarde, enquanto nossos pais não estavam em casa, ele levou Leila,
e os dois ficaram em seu quarto. Na tarde seguinte, foi Amy. Na semana
seguinte, outra Amy.
E eu ficava em meu quarto, cobrindo meus ouvidos para não ouvir o som
de sua cama balançando ou a risada daquelas garotas estúpidas.
Especificamente no dia em que a segunda Amy deixou seu quarto para ir para
casa, eu enviei uma mensagem de texto para ele logo depois.

Greta: Sério? Duas Amys? Será que a Amy número três virá amanhã? No
que está pensando?
Elec: Acho que você queria que seu nome fosse Amy… irmãzinha.
Greta: Meia! Meia-irmã.
Elec: Acho que você é uma irmã-peste.
Greta: Você é um retardado.
Elec: E você é uma peste.

Levantei da cama bufando e fui direto ao quarto dele, entrando sem bater
na porta. Ele estava jogando videogame e nem sequer olhou para mim.
— Eu realmente tenho que começar a trancar a porta.
Meu coração estava batendo muito rápido.
— Por que você tem que ser uma porra de um babaca?
— Que bom te ver também, irmãzinha.
Ele deu alguns tapinhas no colchão da cama, bem perto de onde estava
sentado, com seus olhos ainda fixos no jogo.
— Já que você não vai sair mesmo, senta aqui.
— Não tenho vontade de me sentar na sua cama imunda.
— Só porque você preferiria sentar no meu pau imundo?
Meu coração quase parou.
Sua boca se curvou em um sorriso diabólico, enquanto continuava a jogar.
Ele tinha me deixado rendida, sem palavras. Na verdade, eu me sentia
rendida e sem palavras porque, assim que as palavras “sentar no meu pau
imundo” saíram de sua boca, senti a necessidade de cruzar minhas pernas e
conter minha excitação. Minha vagina era um caso perdido. Quanto mais
cruel ele era, mais atraída por ele eu me sentia.
Ao invés de dignificá-lo com uma resposta, olhei ao redor do quarto e fui
em direção às suas gavetas, começando a remexer suas coisas.
— Onde estão minhas calcinhas?
— Já disse que elas não estão aí.
— Não acredito em você.
Continuei procurando, até que algo chamou minha atenção. Era um
fichário com uma grande quantidade de papéis dentro. Impressas na frente
dele estavam as palavras “Lucky e o Menino”, por Elec O’Rourke.
— O que é isso?
Pela primeira vez, Elec parou de jogar e, praticamente, voou da cama.
— Não toque nisso.
Desviei o mais rápido que pude, mas ele arrancou o fichário das minhas
mãos. Havia alguns diálogos, e algumas linhas estavam riscadas e corrigidas
com caneta vermelha. Meus olhos se arregalaram.
— Você escreveu um livro?
Ele engoliu em seco e, pela primeira vez desde que o conheci, Elec parecia
verdadeiramente desconfortável.
— Não é da sua conta.
— Talvez você tenha mais coisas a seu favor além da aparência. —
Brinquei.
Meus olhos vagaram pela tatuagem com a palavra “Lucky” em seu bíceps
direito, e as engrenagens da minha cabeça começaram a funcionar. A
tatuagem tinha ligação com a história que ele aparentemente escrevera.
Elec me lançou um último olhar mortal antes de caminhar em direção ao
closet e colocar o fichário na prateleira mais alta. Ele se sentou na cama e
continuou seu jogo.
Desesperada para me conectar com ele de qualquer jeito, sentei-me ao seu
lado e observei enquanto ele destruía seu inimigo virtual no combate.
— Dá para jogar com duas pessoas?
Ele parou por um momento e congelou, suspirando em exasperação, até
que me entregou o controle. Depois, mudou as configurações para duas
pessoas e começamos a batalha.
Levei algum tempo para aprender a jogar. Depois de ele ganhar inúmeras
vezes, meu personagem finalmente matou o dele, o que fez com que ele se
virasse para mim com um olhar, se me permite dizer, de… admiração. Ele
abriu um sorriso relutante, mas genuíno, e eu senti como se meu coração
fosse se desintegrar. Só era preciso um pequeno gesto para que eu me
tornasse uma causa perdida. O que eu iria fazer se ele realmente fosse legal
comigo? Perder minha cabeça completamente e começar a me esfregar nele?
Por causa daquele pensamento, decidi que era hora de voltar para o meu
quarto.
Passei o resto da noite tentando entendê-lo e concluí que havia muito mais
coisas a respeito do meu querido meio-irmão do que meus olhos podiam
enxergar.

Muitas semanas se passaram antes que eu aceitasse sair com Bentley. Eu


finalmente tinha chegado às seguintes conclusões a) não havia melhores
alternativas no momento; b) uma pequena distração, que me livrasse
temporariamente da minha obsessão nada saudável por meu meio-irmão,
seria de grande ajuda.
Meu interesse por Elec estava em seu ponto máximo. Quase toda noite
depois do jantar eu ia para o quarto dele para jogarmos videogame. Era uma
maneira indolor de liberarmos nossas frustrações um com o outro, sem que
nos machucássemos de verdade. A coisa mais surpreendente era que ele
parecia mais empolgado com as partidas, agora. Em uma certa noite, quando
decidi ficar no meu quarto para ler, ele me enviou uma mensagem:
Você vem jogar ou não?
Greta: Não estava pretendendo.
Elec: Traga um pouco de sorvete e coloque mais Snickers nele.

A mensagem poderia ter soado um pouco autoritária para qualquer um que


visse de fora. Para mim, foi confusa.
Naquela noite, compartilhamos outra tigela de sorvete e jogamos até que
eu não conseguisse mais ficar de olhos abertos. Até cheguei a matar Elec
duas vezes, das dezessete que jogamos. Embora ele ainda não se abrisse
comigo, as sessões de jogos pareciam ser uma forma de ele me dizer que não
achava minha companhia tão deplorável assim e que, talvez, até gostasse
dela.
Mas, exatamente como Elec sempre fazia, quando senti que estávamos
finalmente nos conectando, ele tinha que estragar tudo.

Aconteceu dois dias antes da sexta-feira, quando seria meu encontro com
Bentley. Eu e Victoria estávamos na cozinha, quando Elec entrou para, como
sempre, beber leite direto da embalagem.
Os olhos de Victoria se fixaram na camiseta de Elec, que subia um pouco
conforme ele erguia o leite. As tatuagens em seu abdômen ficaram expostas.
Ela estava praticamente babando.
— Oi, Elec.
Elec resmungou em resposta, ainda com a boca na caixa, antes de colocá-la
de volta na geladeira. Então, começou a procurar por algum lanche no
armário.
Victoria mergulhou um pretzel em um pote de Nutella e falou, com a boca
cheia: — Então, já decidiu que filme vai ver com Bentley na sexta à noite?
— Não, ainda não conversamos sobre isso.
Do outro lado da cozinha, não pude deixar de reparar, Elec parou de
vasculhar o armário e congelou. Parecia que estava tentando ouvir o que
estávamos falando. Olhou para mim por um momento, com uma expressão
perturbada.
— Bem, acho que deveriam assistir àquela nova comédia romântica com a
Drew Barrymore. Faça-o sofrer com um filminho de mulher. O que você
acha, Elec?
— O que eu acho do quê?
— Qual filme Greta deveria assistir em seu encontro com Bentley?
Ele ignorou a pergunta dela e olhou para mim.
— Aquele cara é um babaca.
Ele começou a se afastar, mas Victoria o chamou.
— Ei, Elec…
Ele se virou.
— Quer ir também? Quer dizer… podemos ir com eles. Seria divertido.
Como um encontro duplo.
Ele riu e olhou para ela por um bom tempo, com um olhar que gritava: sem
chance.
Balancei a cabeça.
— Não acho que seja uma boa ideia.
Ele se virou para mim com um sorriso malicioso.
— Por que não?
Por que não?
— Porque é o meu encontro. Não quero ninguém por perto.
— Você ficaria muito chateada, se eu fosse?
— Sim, ficaria.
Ele olhou para Victoria.
— Nesse caso, eu adoraria ir.
O olhar de satisfação no rosto dela me deixou enjoada. Ela achava que era
sua grande chance de tentar alguma coisa com ele. Contudo, ele estava
basicamente admitindo que só estava fazendo aquilo para me torturar.
— Te vejo sexta à noite. — Ele disse, antes de desaparecer.
Victoria abriu a boca em um gritinho silencioso e sapateou cheia de
empolgação, o que me fez querer vomitar. Eu teria que vivenciar o que seria
o pior encontro da minha vida. Mas nada poderia me preparar para o que
estava realmente por vir, na noite do encontro.
ELEC IRIA NOS ENCONTRAR NO CINEMA. TINHA CONSEGUIDO UM EMPREGO DE
meio expediente em uma loja de bicicletas, então queria ir para casa tomar
um banho depois do trabalho.
Eu, Victoria e Bentley compramos seu ingresso antes que esgotasse.
— Victoria, tem certeza de que seu acompanhante vai chegar? — Bentley
riu.
— Ele vem. — Ela olhou para mim, cheia de incerteza. Honestamente, eu
não fazia ideia se Elec estava mesmo planejando aparecer, mas rezava para
que não. Quando Victoria mandou uma mensagem para ele dizendo que
estávamos planejando entrar para guardar os lugares, ele não respondeu.
Enquanto esperávamos na fila para entrar na sala, Bentley colocou o braço
em volta dos meus ombros, fazendo meu corpo enrijecer. Me parecia um
pouco apressado, já que estávamos apenas nos conhecendo. Ele estava
cheiroso e muito bonito, vestindo um jeans e uma camiseta preta. Seu cabelo
castanho claro estava espetado, penteado com gel. Lembro que eu costumava
achar Bentley muito gatinho. Hoje em dia, todos os caras pareciam pálidos
demais em comparação com Elec no termômetro de atração física. E eu
queria esmagar aquele termômetro com uma marreta.
Victoria tinha recebido instruções para não contar a Bentley que Elec era
meu meio-irmão. Uma vez que Elec nunca falava comigo no colégio, a
maioria das pessoas ainda não fazia ideia de que morávamos juntos. E eu
preferia dessa forma.
Senti um alívio quando as luzes do cinema se apagaram e os trailers
começaram a passar. Coloquei meu telefone para vibrar. Talvez ele realmente
não fosse aparecer. Meu corpo começou a relaxar conforme Victoria checava
seu telefone a cada dois minutos e procurava com os olhos por ele.
Os créditos de abertura do filme começaram. Afundei na minha cadeira e
coloquei meus pés no assento em frente ao meu. Bentley gesticulou para
mim, para que eu pegasse um pouco de sua pipoca. Eu já estava comendo há
algum tempo e começando a gostar do filme quando senti um cheiro
característico de cigarro misturado com colônia.
Bem, lá estava ele.
Meus joelhos tremeram enquanto ele passava por nós no escuro, indo em
direção ao assento vazio do lado de Victoria.
Eu queria dar um soco nela, que parecia tão feliz.
Quando Elec se inclinou e a beijou no rosto, meu apetite por aquela pipoca
se tornou náusea. Entreguei o pacote para Bentley e fingi estar interessada no
filme. Com toda honestidade, eu estava olhando diretamente para a tela, mas
Drew Barrymore poderia estar falando mandarim, que não faria a menor
diferença.
Tudo o que eu estava fazendo era resmungar internamente e sentir o cheiro
de Elec. Sua presença me deixou mais irritada do que achei que deixaria.
Naquele momento, Bentley pegou minha mão e a envolveu com a sua.
Congelei.
Victoria, que tinha bebido uma Coca Diet gigante antes de Elec chegar,
sussurrou para mim que estava indo ao banheiro.
Meu coração começou a bater mais forte, porque, sem ela ali, não havia
nada bloqueando minha visão dele. Eu podia ver, com o canto do olho, que
ele estava olhando para mim. Embora o público estivesse rindo ao meu redor,
o peso de seu olhar parecia abafar todo o resto. Eu não ousaria olhar para ele,
nem me mover.
Só continue olhando para o telão, Greta.
Meu telefone vibrou sobre minha perna.

Está ensaiando para trabalhar como modelo de vitrine?

Eu não podia responder à mensagem, porque Bentley veria. Porém, olhei


para Elec, o que me fez me arrepender. Seu cabelo, normalmente
desarrumado, estava com gel e cheio de estilo. Ele também estava mais bem
vestido do que o normal, com uma calça jeans escura e jaqueta de couro.
Sua boca se abriu em um sorriso genuíno, me fazendo rir de mim mesma
também. Ele estava certo. Eu estava parada ali, rígida como uma tábua.
Estava agindo de forma ridícula.
Victoria interrompeu meu momento com Elec quando passou por minhas
pernas e se sentou, mais uma vez obstruindo minha visão. Ela se inclinou na
direção dele, e essa foi minha deixa para voltar a olhar para a tela.
Deveria ser eu a estar com ele.
Isso não fazia nenhum sentido, mas era prova de que o desejo e a lógica
eram coisas muito distintas.
E se Victoria tentasse beijá-lo? Será que ele iria corresponder? Eu mal
conseguia lidar com o ciúme, mesmo que nada tivesse acontecido. As garotas
da escola com quem ele ficava tinham se tornado algo que me forcei a
aceitar. Quer dizer, ele era meu meio-irmão, que, supostamente, me odiava e
que voltaria para a Califórnia assim que se formasse. A realidade era que
nada poderia acontecer entre nós. Apesar disso, vê-lo saindo com minha
melhor amiga não era legal. Ela me contaria cada detalhe e não desistiria.
Em algum momento, enquanto eu estava perdida em meus pensamentos, o
filme terminou. Drew Barrymore estava sorrindo, então era, provavelmente,
um final feliz.
A mão de Bentley pousou na parte inferior das minhas costas enquanto
saíamos da sala de cinema. Sob a luz fluorescente do lobby lotado, Elec
parecia ainda mais lindo. Victoria agarrou seu braço possessivamente. Eu
queria odiá-la por isso, mas ela não fazia ideia de meus sentimentos por ele.
Aquela situação estava acabando comigo. Precisava ficar sozinha por
alguns minutos.
— Pessoal, vou no banheiro, preciso me refrescar. Vocês podem decidir
onde vamos comer.
Assim que eu me vi na segurança do banheiro, respirei bem fundo. Depois
de fazer xixi e lavar minhas mãos, ainda estava relutante sobre voltar para
fora, então fiquei olhando para o meu reflexo no espelho.
Sentia raiva e frustração dentro de mim enquanto pensava naquele
encontro de merda. Peguei meu telefone e enviei uma mensagem a Elec:
Por que está aqui? Você gosta da Victoria, pelo menos?

Imediatamente me arrependi daquela ideia impulsiva. Meu telefone vibrou.

Elec: E se eu gostar?

Desejando nunca ter dito nada, eu não tinha resposta. Por isso, fiquei
olhando para o meu telefone. Então ele mandou outra mensagem:
Elec: Não gosto.

Eu nem tinha percebido que vinha segurando tanto minha respiração até
que um suspiro de alívio escapou de mim.

Greta: Então, por que está aqui?


Elec: Porque eu queria te irritar.
Greta: Por quê?
Elec: Porque eu gosto de fazer isso.
Greta: Por quê?
Elec: Não posso responder essa pergunta, assim como você não pode me
dizer por que me olha do jeito que me olha, mesmo eu te tratando mal.

Ah, meu Deus! Até agora eu não tinha percebido o quão óbvios eram meus
sentimentos por ele, o quão estúpida e desesperada eu deveria parecer esse
tempo todo.

Elec: Você deveria ter um pouco mais de respeito por si mesma.

Puta. Que. Pariu. Agora ele tinha realmente me irritado. Uau.


Greta: Não se preocupe. Não vou mais olhar para você.

Eu mal conseguia acreditar que ele tinha escrito aquilo para mim. Meus
olhos começaram a se encher de água, mas eu estava determinada a não
deixá-lo me ver chateada. Demorei alguns minutos para me recompor, antes
de voltar ao lobby. Por mais difícil que fosse, me recusei a olhar para ele. Me
Recusei.
— Por que demorou tanto? — Bentley perguntou.
— Tive um probleminha, mas já resolvi.
Victoria colocou a mão no meu ombro.
— Está tudo bem?
— Sim. Podemos ir.
Victoria e Elec começaram a andar na nossa frente. Ela ainda estava
pendurada em seu braço, enquanto ele mantinha as mãos nos bolsos.
Nós quatro entramos no carro de Bentley e fomos para um restaurante 24h.
Evitar meu meio-irmão tornou-se um desafio muito maior dentro do espaço
pequeno do restaurante, especialmente porque ele estava sentado na minha
diagonal. Porém, mantive minha palavra. Foquei em sua tatuagem no braço e
brinquei com os saleiros, mas não olhei para seu rosto. Fingi estar muito
interessada na conversa com Bentley, que estava sentado à minha esquerda.
Pedimos nossa comida e, até aí, eu estava tendo sucesso na tentativa de não
olhar em seus olhos.
— Então, Greta, vai ter uma festa na sexta que vem, na casa do Alex
Franco. Queria que você fosse comigo. — Bentley disse.
— Claro. Parece divertido.
— Ótimo. — Ele encostou na cadeira e deu um beijo no meu rosto.
Elec estava despretensiosamente brincando com uns pacotinhos de açúcar.
Se eu fosse Victoria, iria achar um pouco estranho que meu acompanhante
nem sequer conversasse comigo. Mas como eu poderia saber o que ela pensa?
Ela tentou estabelecer uma conversa.
— Elec, quais são seus planos para quando se formar?
— Dar o fora de Boston.
E foi tudo que ela conseguiu.
Alguns minutos depois, ele parecia estar digitando no celular por debaixo
da mesa.
Então, meu telefone vibrou.

Aposto que consigo fazer você olhar para mim.

Eu o ignorei e não respondi.


Minutos depois, nossa comida chegou e todos nós caímos dentro. Eu
estava me deliciando, toda feliz, com minhas panquecas, quando ouvi Elec
dizer para Victoria: — Você tem um pouco de milkshake bem aqui.
— Onde?
— Aqui. — Ele disse, antes de puxá-la em sua direção e lhe dar um beijo
de língua bem na minha frente. Observei horrorizada o que ele fazia com sua
boca, ou seja, as mesmas coisas que fizera com a minha naquele dia, na
cafeteria. Meu rosto ficou vermelho de raiva enquanto ele, sensualmente,
movia sua boca com a dela.
— Que merda vocês dois, hein, vão para um motel! — Bentley disse.
Quando Elec finalmente se afastou, Victoria cobriu a boca e disse: —
Uau… E eu estava aqui achando que você não estava interessado em mim. —
Ela riu.
Meus olhos estavam fixos em Elec enquanto ele murmurava: — Eu te
disse.
— Com licença. — Eu disse a Bentley enquanto saía da mesa e perguntava
à garçonete onde ficava o banheiro. Antes que pudesse perceber, Victoria
veio atrás de mim.
— O que foi isso? — Ela perguntou.
Encostei-me na pia.
— Isso, o quê?
— Isso tudo… Elec me beijando e você fugindo. Você ficou chateada
porque ele me beijou?
Tentei desviar o assunto.
— Ele pode fazer o que quiser. Só que ele me irrita.
— Você não respondeu à minha pergunta.
É claro, por que eu não admito que estou obcecada por meu meio-irmão,
tanto que cheguei a ficar excitada só por vê-lo te beijar, porque meu corpo
reage a qualquer coisa que ele faça?
— Você sabe que as coisas entre nós são meio estremecidas, Vic. Não
quero que saia machucada.
— Não se preocupe. Sou grandinha, e só estou me divertindo. Sei que ele
vai embora mais cedo ou mais tarde.
Era exatamente isso que me amedrontava.
— Não se preocupe comigo, tá? Elec só quer me irritar. Nada demais. Só
preciso respirar um pouco.
— Tudo bem, se você está dizendo — ela cruzou os braços. — Está se
sentindo bem com o Bentley?
— Vamos ver. Ele é… legal. Acho que posso lhe dar uma chance.
— Ótimo.
Quando Victoria me abraçou, eu pude sentir o cheiro de Elec nela, o que
me enlouqueceu. Minha reação àquele cheiro almiscarado serviu para me
lembrar que ele me enlouquecia e que isso precisava acabar. Prometi, naquele
momento, que faria qualquer coisa para espantar aquele sentimento que eu
tinha por ele.
— Está pronta para voltar? — Ela perguntou.
— Sim — assenti e respirei fundo. — Sim, estou pronta.
Os eventos que sucederam esta cena pareceram ocorrer com rapidez.
Enquanto caminhávamos de volta para a mesa, ouvi o barulho de louça
caindo no chão e de coisas quebrando. Uma multidão começou a se reunir
antes que eu visse Bentley no chão e Elec enfiando a porrada nele. O rosto de
Bentley estava sangrando, e a boca de Elec também estava machucada.
— Elec, o que você está fazendo? ― Gritei.
Ele continuou chutando Bentley com toda vontade.
O gerente do restaurante correu na nossa direção, em companhia de um
garçom, que o ajudou a tirar Elec de perto de Bentley, que estava no chão, se
contorcendo de dor.
Inclinei-me.
— Bentley, o que houve?
— Aquele lunático começou a me bater sem nenhum motivo, então eu
revidei. Aí ele começou a me enfiar a porrada. Eu tropecei, e ele começou a
me chutar enquanto eu estava no chão.
— Você está bem?
— Vou ficar.
— Você não parece bem.
Eu o ajudei a se levantar, e ele se apoiou em mim. Os dois homens ainda
estavam segurando Elec, enquanto sirenes de polícia se aproximavam à
distância.
O que estava acontecendo?
Victoria caminhou em direção a Elec.
— Mas que merda está acontecendo?
Ele cuspiu um pouco de sangue no chão.
— Não a deixe sozinha com ele.
Eu olhei para Bentley.
— Quem começou isso? Não estou entendendo.
— Ninguém. Esse louco me atacou.
— Seu mentiroso filho da puta. — Elec cuspiu as palavras enquanto se
esticava para alcançar Bentley outra vez, mas os homens que seguravam seus
braços o impediram.
Os dois policiais entraram e começaram a fazer perguntas para os dois
rapazes, em locais separados. Eu e Victoria ficamos na calçada, sem
compreender o que poderiater acontecido naquele pequeno espaço de tempo
em que estivemos no banheiro.. Gostaria de ouvir o que eles estavam dizendo
aos policiais, mas estavam muito longe de nós.
Depois de serem liberados, Elec passou por Victoria, vindo na minha
direção.
— Vamos. Você não vai no carro dele.
— Quem você pensa que é tentando levar minha garota para sua casa? —
Bentley gritou.
— Ela mora comigo, babaca.

1 Personagem do livro O médico e o monstro, de Robert Louis Stevenson, de 1886, no qual um homem
tem um lado demoníaco revelado, chamado de “Mr. Hyde”.
211 Galo em inglês é “cock”, o que também significa “pinto”. Por isso o trocadilho de Elec.
A IDA PARA CASA DE TÁXI, COM ELEC E VICTORIA, FOI EXTREMAMENTE
desconfortável. Bentley enlouqueceu e saiu de carro logo depois de descobrir
que Elec era, na verdade, meu meio-irmão. O motivo para tudo que aconteceu
no restaurante continuava sendo um mistério, para mim. Durante todo o
caminho de volta, Elec não disse nada para nenhuma de nós duas. Sentou-se
no banco da frente, enquanto nós ficamos no de trás.
Quando chegamos em casa e ele foi para seu quarto, bateu a porta com
tanta força que me fez pular. Até pensei em tentar falar com ele, mas meus
instintos me disseram que era melhor deixá-lo sozinho.
Assim que acordei, no dia seguinte, que era sábado, Elec já tinha saído
para trabalhar o dia inteiro na loja de bicicletas.
Minha mãe se sentou no balcão de granito de nossa cozinha, no banco de
frente para mim.
— Quer me contar o que aconteceu na noite passada? Randy recebeu uma
ligação de um policial amigo dele, dizendo que Elec estava envolvido em
uma briga em um restaurante, e que você estava com ele.
Coloquei meu café sobre o balcão e esfreguei minhas têmporas.
— Estávamos jantando… Elec, Victoria, eu e um garoto, Bentley, da
escola. Elec e ele começaram a brigar. Não sabemos o que iniciou a briga,
porque aconteceu quando Vic e eu estávamos no banheiro. Então, eu
realmente não sei muito mais do que você..
— Bem, seu padrasto está muito irritado, e eu não sei o que fazer.
— Ele precisa esquecer isso. Garotos brigam, às vezes, e pode não ter sido
culpa do Elec. Você precisa explicar isso a ele.
— Não tem como conversar com Randy quando se trata de Elec. Não
entendo isso.
— Nem eu.

Decidi que iria falar com Elec naquela mesma noite, por isso fiquei
esperando por ele o dia inteiro. A loja de bicicletas fechava às seis, então
pensei que ele chegaria às sete, mas ele não voltou para casa.
Sem conseguir dormir, um sentimento terrível se apoderava de mim. Mas,
finalmente, por volta da meia-noite, ouvi passos e o barulho da maçaneta da
porta do quarto de Elec sendo girada devagar.
Ao menos ele estava em casa.
Depois de um minuto, ouvi o som de sua porta sendo aberta com violência.
— Mas que merda, Elec! Você está bêbado. — Ouvi Randy gritar.
Dei um pulo e encostei meu ouvido à parede.
— Ei, pai-pai. — Elec parecia estar embolando as palavras.
— Garoto, você continua a me orgulhar. Primeiro começa uma briga só
para me humilhar na frente de toda comunidade e, agora, tem a coragem de
colocar os pés na minha casa completamente bêbado? Você vai desejar nunca
ter voltado para casa.
— Sério? O que vai fazer? Me bater? Essa é a única coisa que você ainda
não fez. Estou pronto.
— Você adoraria isso, não é? Não. Não vou bater em você.
— Certo… Você não vai bater em mim. Você só vai me odiar… como
sempre fez. Às vezes, eu preferiria que você me batesse de uma vez por todas
e me deixasse em paz.
— Você é um perdedor, Elec.
— Me diga algo que nunca tenha dito antes.
— Ok, então. Tenho novidades para você. Não vou te ajudar a pagar a
faculdade. Está por sua conta. Tomei essa decisão esta noite. Vou pegar o
dinheiro que guardei para você e dar a Greta.
O quê? Não!
Randy continuou: — Não vou gastar meu dinheiro suado com um
merdinha que quer ser escritor. Se decidir ter uma carreira de verdade algum
dia, venha conversar comigo. Até lá, não vou gastar nem mais um centavo
com você.
— Você nunca planejou pagar minha faculdade mesmo, e sabe disso.
— Por que eu iria querer fazer isso… por alguém que não faz nada além de
me desapontar, desde o dia em que nasceu?
— Foi aí que começou, não é? No dia em que eu nasci? Você nunca me
deu uma porra de chance, não é? Porque minha mãe nunca abortou como
você queria que ela fizesse.
— Isso é uma porra de uma mentira. Ela te disse isso?
— Mesmo que não tivesse dito, eu teria adivinhado. É por isso que vem
tentando me matar com suas palavras só para compensar o que ela não fez.
Meu coração estava destruído.
— Estou mesmo? Então por que você ainda não está morto, Elec?
Perdi a respiração, aterrorizada. Não podia ficar ali, ouvindo tudo aquilo.
Corri para o quarto ao lado e fiquei ainda mais horrorizada quando vi Elec
sentado na beira da cama, com a cabeça nas mãos. O cheiro de álcool nele era
pungente. Suas costas estavam subindo e descendo com cada respiração que
escapava de seus pulmões.
— Randy… pare! Por favor, pare! — Meu padrasto estava ali, parado, com
os braços cruzados e olhando para mim sem nenhuma expressão. Naquele
momento, o homem parado à minha frente parecia um total estranho. — Ele é
seu filho. Seu filho! Não importa o que te fez acreditar que ele merecia isso,
mas não há nada que justifique a forma como está falando com ele.
— Greta, você não entende nossa história… — disse Randy.
— Não preciso saber de nada para entender que as palavras que saíram de
sua boca esta noite ferem mais do que qualquer arma poderia ferir. E eu não
vou ficar aqui deixando que abuse dele dessa forma.
Nenhum dos dois disse nada. O quarto estava em silêncio. A respiração de
Elec parecia ter se acalmado e, com isso, a minha também.
Então, me virei na direção de Randy.
— É melhor que você saia.
— Greta…
— Saia! — Gritei com toda minha força.
Randy balançou a cabeça e saiu do quarto, me deixando sozinha com Elec,
que ainda estava na mesma posição.
Corri até meu quarto e voltei com uma garrafa de água, encostando-a em
sua boca.
— Beba isso.
Ele engoliu todo o líquido rapidamente, então amassou a garrafa e jogou-a
fora. Ajoelhei-me para tirar os seus sapatos.
Ele estava embolando as palavras e murmurando coisas que eu não
conseguia entender.
Levantei-me e puxei os lençóis.
— Deite-se.
Ele tirou a jaqueta, jogando-a de qualquer jeito no chão, e engatinhou em
direção ao travesseiro. Deitou-se de barriga para cima e fechou os olhos.
Sentei-me ao lado da cama ainda me sentindo um pouco afetada pelo que
tinha acontecido. Me senti muito mal por Elec e completamente
envergonhada por Randy. Sabia que precisava conversar com minha mãe, no
dia seguinte. Como ela poderia não ter ouvido aquilo e interferido?
A respiração de Elec tinha abrandado, o que significava que tinha
adormecido. Passei a mão por seu cabelo negro aveludado, saboreando a
oportunidade de poder tocá-lo livremente, sem que ele soubesse. Meu dedo
indicador tocou o corte em seu lábio, que sobrara da briga com Bentley.
Ficava bem próximo do piercing, então estremeci quando percebi que aquilo
poderia ter rasgado sua boca.
O motivo da raiva constante que ele exibia estava mais clara do que nunca,
mas, mesmo assim, eu sentia como se não soubesse nada da vida de Elec.
Ele parecia muito inocente, enquanto dormia. Sem sorrir e sem aquele
brilho em seus olhos, era mais fácil ver além de sua beleza exterior e
vislumbrar o menino que se escondia dentro dele – o mesmo menino que,
agora, eu compreendia ter sido prejudicado pelo homem casado com a minha
mãe.
Uma lágrima desceu pelo meu rosto enquanto eu ajeitava o lençol, antes de
sair do quarto.
De volta à minha própria cama, pensei o quão irônico era o fato de que o
único cara que tinha feito tudo para me afastar e me intimidar fosse a única
pessoa no mundo que eu queria proteger.

No momento em que eu acordei, na manhã seguinte, Randy e minha mãe já


tinham saído para passar a noite fora, na parte Leste do estado.
Minha mãe deixou um bilhete no balcão da cozinha.

Que conveniente. Eu tive certeza que meu padrasto tinha arranjado aquela
viagem para evitar ter que lidar com o que aconteceu na noite passada.
Imediatamente peguei meu celular e enviei uma mensagem:
Aproveite sua viagem, mas quando você voltar precisamos conversar
sobre o que está acontecendo com Randy e Elec.

Elec não desceu até as duas da tarde. Ele parecia um morto-vivo enquanto
arrastava os pés até a cafeteira, com os cabelos desarrumados e os olhos
vermelhos como sangue.
— Bom dia, flor do dia. — Eu disse.
Sua voz estava embolada quando ele sussurrou: — Olá. — Colocou um
pouco de café em uma caneca e bebeu.
— Então, aparentemente, nossos pais vão passar a noite fora. Vão voltar na
segunda à noite.
— Que pena. — Ele disse.
— Que eles viajaram?
Ele deu um gole no café e disse: — Não, que eles vão voltar.
— Sinto muito por…
— Não posso fazer isso — ele fechou os olhos e estendeu a palma da mão
na minha direção. — Não posso falar com você. Cada vez que fala comigo,
soa como uma serra elétrica.
— Me desculpa. Entendi, você está de ressaca.
— Bem, tem isso também.
Revirei os olhos e pisquei, fazendo meu coração palpitar.
Sentei com as pernas cruzadas no sofá adjacente à cozinha.
— Quais são os planos para hoje?
— Bem, primeiro tenho que achar a porcaria da minha cabeça.
Eu ri.
— E depois?
— Não sei. — Ele disse, dando de ombros.
— Quer sair mais tarde? — Perguntei, tentando parecer casual.
Ele parecia apreensivo, esfregando o queixo.
— Humm…
— O que foi?
Ele checou o celular.
— Não, na verdade… eu tenho um encontro.
— Com quem?
— Com… humm…
— Você não sabe? — Eu ri.
Ele coçou a cabeça.
— Me dê um minuto…
Balancei a cabeça.
— Que triste.
— Ah! Com Kylie… Sim… Kylie.
Se Kylie soubesse o quão permutável ela era…
Eu estava aliviada por ele não ter falado que iria sair com Victoria, porque
eu sabia que ela ainda tentava entrar em contato com ele, mesmo depois da
cena que ele causou no nosso “encontro duplo”. Ela mandou, pelo menos,
uma mensagem para ele, no dia anterior, e seu desespero realmente me
incomodava.
Mais cedo, naquela mesma noite, eu me enrolei no sofá com um livro
quando Elec veio para o andar de baixo. Instintivamente, eu me sentei e
ajeitei minha roupa. O cheiro de sua colônia flutuando por todo o cômodo já
era afrodisíaco suficiente antes que eu me virasse para olhar para ele. Estava
vestindo uma calça preta e uma camiseta marrom com as mangas
arregaçadas. Seu cabelo estava penteado de forma desarrumada, e, apesar
daquele machucado em seu lábio, ele estava mais bonito do que nunca. Na
verdade, até mesmo aquele corte era sexy. A energia do ambiente parecia
mudar cada vez que ele chegava. Todos os meus sentidos estavam
completamente cientes de sua presença.
Precisava me lembrar de sua mensagem na outra noite: Você deveria ter
um pouco mais de respeito por si mesma. Eca. Forcei-me a voltar ao livro
que, aparentemente, conseguia esconder meu interesse toda vez que eu
olhava para ele. Só pensar naquela mensagem já me deixava de mau humor.
Eu meio que tinha esquecido da minha promessa de nunca mais olhar para
ele, depois de tudo que aconteceu com Bentley e com Randy.
Ele pegou as chaves.
— Vou sair.
— Ok. — Disse, mantendo meus olhos fixos no livro.
Ele bateu a porta, e eu suspirei aliviada. Já fazia um bom tempo que não
tinha a casa inteira para mim e, por mais que o meu lado mais patético
quisesse que Elec ficasse, privacidade era sempre muito importante.
Acabei pedindo comida chinesa. Pouco depois de abrir a caixinha da
comida, ouvi o barulho de mensagem no meu telefone.

Elec: Lembrei de algumas coisas que aconteceram na noite passada.


Greta: E?
Elec: Você estava de joelhos ao pé da minha cama. Tirou proveito de
mim?
Greta: Você deve estar brincando. Não! Eu estava tirando seus sapatos,
seu babaca!
Elec: Que bizarro! Tem algum fetiche por pés?
Greta: Você não está falando sério…
Elec: ;-)
Greta: Você não deveria estar em um encontro?
Elec: Eu estou.
Greta: Então, por que não presta atenção nela?
Elec: Porque prefiro te atazanar.

O toque do telefone interrompeu meus pensamentos antes que eu pudesse


responder. Era Bentley. Merda. Eu não sabia se deveria atender.
— Alô?
— Oi, Greta.
— Oi. O que foi?
— Elec não está, não é?
— Não. Por quê?
— Você deixou sua jaqueta no meu carro na noite passada. Posso passar aí
para te entregar?
— Hum… claro. Acho que não tem problema.
— Ótimo. Vou chegar aí em vinte minutos.
Desliguei e reparei que Elec tinha enviado várias mensagens enquanto eu
estava no telefone com Bentley.
Elec: Na verdade, é um cara.
Elec: Ela é cara! O que eu quis dizer é que ela gosta de coisas muito caras.
Elec: Risos.
Elec: #nãoeraumcara #Elecadoraumavagina Elec: Onde diabos você se
meteu?

Rindo histericamente, digitei:


Greta: Me desculpe, era o Bentley. Ele ligou. Deixei minha jaqueta no
carro dele na outra noite e ele vai passar aqui para trazer.

Alguns segundos depois, meu telefone tocou.


— Vai porra nenhuma! Você não vai deixar esse cara entrar na casa.
— Ele só vai entregar a jaqueta.
— Ligue para ele e diga que pode deixá-la do lado de fora.
— Não vou fazer isso. Não tenho motivos. Seja lá o que foi que aconteceu,
foi entre vocês dois.
A ligação caiu. Não, ele tinha desligado!
Ele não iria me dizer o que fazer sem uma boa explicação.
Dez minutos depois, meus pés voaram do sofá quando a porta da frente
abriu.
Elec estava ofegante.
— Ele apareceu?
Mas que merda!
— Ainda não. Por que está aqui?
— Parece que você não está prestando atenção em mim. Então, eu não tive
escolha a não ser voltar para casa.
— Se você não me explicar por que quer que eu fique longe de Bentley,
como quer que eu te ouça?
Ele passou as mãos pelo cabelo, cheio de frustração.
A campainha tocou, e Elec chegou até a porta antes de mim.
O rosto de Bentley ficou lívido.
— O que está fazendo em casa? Ela disse que você não estaria aqui.
Elec arrancou minha jaqueta das mãos de Bentley e bateu a porta na sua
cara. Então, trancou-a.
— Vou atrás dele. Saia do meu caminho. — Eu disse.
Ele cruzou os braços na frente da porta.
— Vai ter que passar por mim. E você não está ouvindo o motor do carro
dele? Ele é um maricas de merda.
Respirei fundo e desisti, decidindo não tentar passar por ele. Eu não queria
ver Bentley, mas estava chateada por conta do comportamento controlador de
Elec. Ele não tinha o direito de interferir na minha vida quando só se fechava
mais e mais para mim.
A tensão no ar se acentuava enquanto eu voltava ao meu prato de comida,
que tinha deixado na mesinha de centro. Não falamos nada por alguns
minutos, antes de eu quebrar o gelo.
— Tem comida chinesa na bancada da cozinha, se quiser um pouco.
Elec ainda parecia irado, e não respondeu. Foi até a bancada, pegou a
embalagem e começou a cheirá-la.
— Está com fome? Não comeu no seu encontro?
Ele colocou um macarrão na boca.
— Não.
— Ela ficou chateada porque você a abandonou?
— Não. — Ele falou, de boca cheia.
Apoiando meu cotovelo no balcão, perguntei: — Se você não comeu, o
que fez? Ou é algo que eu não devo saber?
— Humm… Riley queria ir ao boliche.
— Eu pensei que tinha dito que o nome dela era Kylie.
Ele sorriu, culpado, enquanto dava uma mordida em um rolinho primavera.
— Ops…
Insegura sobre o que fazer a respeito daquilo, revirei os olhos para ele e
peguei o último rolinho primavera, antes que ele o cheirasse também. Dei
uma mordida.
— Vou assistir a um filme no Netflix. Você pode ver, também.
Ele parou de comer por um momento e olhou para mim.
— Qual é o seu problema?
— O quê?
— Não importa o quanto eu te trate mal… você ainda quer ficar perto de
mim.
Parecia que meus ouvidos iam explodir.
— Ninguém pediu que viesse aqui esta noite! Eu estava me divertindo
sozinha. .
— Sério? Você ia se deitar no sofá com seu vibrador ou algo assim?
Meu coração parou. Meu vibrador.
Merda!
Estava na minha gaveta de calcinhas também. Eu tinha esquecido que o
tinha colocado ali, quando limpei meu criado-mudo. Já não o usava há muito
tempo, e tinha esquecido dele completamente.
Ele o pegou também.
Elec continou: — Olhe só para seu rosto. Você acabou de perceber que ele
desapareceu? Como você tem se aliviado? Ou seus dedos estão cansados, ou
você deve estar muito interessada em aliviar toda essa tensão.
Meu rosto deve ter adquirido mais de cem tons de vermelho.
— Seu desgraçado.
Meu olho tremeu.
— Você está piscando para mim outra vez. Me desculpe, não posso te
ajudar. Talvez você precise assistir a… um tipo diferente de filme. Isso vai
resolver seu problema. Tenho alguns, se quiser um emprestado para, você
sabe, te deixar molhadinha.
Suas palavras da outra noite começaram a se repetir na minha cabeça: Você
deveria ter um pouco mais de respeito por si mesma.
Decidi que já tinha tido o suficiente dele por aquela noite. Eu peguei o
caminho até o meu quarto sem dizer nada, mas não antes de pegar a
embalagem de macarrão e derrubar tudo em seu colo.
— Você é que vai ficar molhado, babaca.
Sua risada rouca me perseguiu enquanto eu subia as escadas.
Naquela noite, ainda me sentia irritada enquanto me revirava nos lençóis.
Quem ele pensava que era, com aquele comportamento passivo e agressivo?
Ele estava tentando me fazer acreditar que era eu que sempre buscava sua
atenção, mas fora ele quem enviara mensagens de texto durante o próprio
encontro, antes de voltar para casa só para interromper meu encontro com
Bentley.
Meus pensamentos obsessivos continuaram até as duas da manhã, quando
fui interrompida, pelo que parecia uma gritaria vinda do quarto de Elec.
ELEC ESTAVA SE VIRANDO DE UM LADO PARA O OUTRO ENQUANTO
choramingava: — Mamãe, por favor. Não! Acorde! Acorde! — Sua
respiração estava incerta, e toda a roupa de cama tinha caído no chão.
— Por favoooooor! — Ele gritou.
Meu coração estava acelerado quando comecei a sacudi-lo.
— Elec! Elec. É só um sonho.
Ainda semiconsciente, ele sorriu e apertou meu braço com tanta força que
chegou a machucar. Quando seus olhos se abriram, ele ainda parecia
atordoado. Gotas de suor brilhavam em sua testa. Ele se sentou e olhou para
mim, em choque, como se não soubesse onde estava.
— É a Greta. Você teve um pesadelo. Te ouvi gritando e pensei que havia
algo de errado. Está tudo bem. Você está bem.
Sua respiração ainda estava intensa, mas começou a regularizar devagar.
Quando suavizou o aperto em meu braço, uma certa lucidez voltou a seus
olhos.
Ele me soltou.
— Esta é a segunda vez que pego você no meu quarto quando estou em um
estado de semiconsciência. Como vou saber que não está vindo aqui fazer
coisas comigo quando estou dormindo?
Ele só podia estar brincando!
Eu já estava cansada daquela merda toda.
Talvez fosse o fato de eu estar cansada por não ter dormido, ou talvez
porque tinha atingido meu limite com todos aqueles insultos, mas, ao invés
de responder, empurrei-o com toda força. Pode ter sido uma atitude infantil,
mas eu estava desesperada para fazer isso, e aquele momento me pareceu
extremamente propício.
Ele riu com vontade, o que me deixou ainda mais irritada.
— Bem, já estava na hora.
— O quê?
— Eu estava esperando que perdesse a calma comigo.
— Você acha engraçado que eu tenha chegado a esse ponto?
— Não, eu acho você engraçada… Verdadeiramente engraçada. Nada
nunca me divertiu tanto quanto te encher o saco.
— Ah, que ótimo. Fico feliz por te proporcionar isso.
Merda. Começavam a aparecer lágrimas em meus olhos.
Isso não podia estar acontecendo.
Eu estava quase naquele período do mês, onde não havia nada que eu
pudesse fazer para controlar minhas emoções. Tentei cobrir meu rosto, mas
sabia que ele já tinha visto a primeira lágrimar cair.
O sorriso de Elec desapareceu.
— Mas que merda é essa?
Eu só queria sair dali. Não havia como explicar minha reação estúpida a
ele se nem eu mesma me compreendia.
Virei-me de costas e saí, batendo a porta do meu quarto ao entrar. Subi na
cama, puxei o cobertor por cima da cabeça e fechei os olhos, mesmo sabendo
que seria impossível dormir.
Minha porta abriu devagar, e a luz foi acesa.
— Oferta de paz? — Ouvi Elec dizer.
Quando me virei, fiquei mortificada. Ele estava de pé com um pênis na
mão. Não era qualquer pênis. Era o meu pênis. Meu vibrador. Meu pênis lilás
de tamanho natural.
Elec acenou com ele.
— Nada é tão bom para pedir desculpas como um pênis e um sorriso.
Me virei e me escondi debaixo do cobertor.
— Vamos lá. Você está mesmo chorando?
O quarto estava silencioso, e eu fiquei debaixo do lençol. Achei que ele iria
sair, se eu apenas o ignorasse. Mas soube que estava errada quando ouvi um
clique e um som de zumbido; e, depois, senti o peso dele na minha cama.
— Se você não sorrir, vou ter que fazer cócegas em você com o seu
namorado aqui. — Ele o encostou em meu quadril, e eu estremeci, tirando o
cobertor de cima de mim. Tentei pegar o vibrador, mas ele não o soltou.
Continuou a me fazer cócegas com movimentos mais rápidos, atrás das
minhas pernas e no meu pé.
Eu estava controlando a necessidade de rir.
— Pare.
— Nem pensar.
Todo o meu controle foi perdido quando ele colocou o aparelho debaixo do
meu braço, o que me fez rir histericamente. Sua própria risada vibrou em
minha orelha.
Como eu fui terminar rolando na cama, no meio da noite, com Elec
encostando um vibrador em mim?
Eu estava rindo tanto que pensei que iria morrer.
Morta por um vibrador.
Ele, finalmente, apertou o botão de desligar, mas eu demorei muito tempo
para recuperar o fôlego e me acalmar.
— Por que decidiu parar?
— A ideia era te fazer rir. Missão cumprida — ele o entregou para mim. —
Aqui está.
— Obrigada.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Vamos fazer uma festa nas suas calças amanhã? Devo trazer uns
petiscos?
— Engraçadinho. — Eu disse, colocando o aparelho na mesinha ao lado da
cama e fazendo uma nota mental para escondê-lo melhor, no dia seguinte.
Ele continuou ao meu lado,e, por mais que não estivéssemos nos tocando,
eu podia sentir o calor de seu corpo enquanto estávamos deitados lado a lado,
em silêncio.
Enquanto meus olhos passeavam por seu peito bronzeado e seu abdômen
tanquinho, um desejo começou a crescer dentro de mim. A barra da sua cueca
estava visível fora da calça de moletom cinza. Seus pés grandes estavam
descalços, e, pela primeira vez, compreendi o quanto ele era sexy. Forcei-me
a não olhar para ele, então encarei o teto.
Sua voz soou baixa: — Eu não queria mesmo vir para cá, Greta.
Era a primeira vez que ele dizia meu nome.
Soou muito bonito, vindo de sua boca. Virei-me em sua direção, mas ele
continuava a olhar para o outro lado enquanto falava.
— Eu quase fugi daquele voo para ir para qualquer outro lugar.
— O que te fez mudar de ideia?
— Eu não podia fazer isso com a minha mãe. Não queria que ela tivesse
que se preocupar comigo, enquanto estivesse longe.
— Agora eu sei por que você não queria estar aqui. Não entendi, no início,
mas, depois de ouvir a forma como Randy falou com você, consigo
compreender por que sente tanta raiva dele. Só não consigo entender o
porquê de ter batido em Bentley, naquela noite.
— Por que acha que a briga foi minha culpa?
— Porque você não explicou nada para mim, e era você quem o estava
chutando enquanto ele estava caído no chão.
Ele deixou escapar uma risada contrariada.
— E, além disso, eu pareço com um cara mau, né? Então, todas as pessoas
naquele restaurante acharam que eu saí do controle sem nenhum motivo, e
bati no bonitão para me divertir. Eu posso ter um histórico… de beber e
fumar maconha algumas vezes. Mas nunca, em toda a minha vida, eu ataquei
ou dei um soco em alguém, até aquela noite.
Uau.
— Por que não me conta o que aconteceu?
— Porque, diferente do que você pensa, e por mais que eu adore te encher
a paciência, não quero mesmo que se magoe.
— Não estou entendendo.
Ele finalmente virou seu corpo na minha direção e olhou para mim pela
primeira vez.
— Naquele primeiro dia, quando esbarrou comigo no banheiro, eu quis te
chocar. Você disse que nunca tinha visto um cara nu. Mas eu pensei que
estava brincando. Agora, eu me sinto culpado por ter feito aquilo com você.
Remexi-me na cama, sentindo-me um pouco nervosa com o rumo que
aquela conversa estava tomando.
— Ok… O que isso tem a ver com o que estávamos falando?
— O babaca não sabia que eu sou seu meio-irmão; então, quando você saiu
da mesa, ele começou a se gabar de como iria te levar à festa na semana
seguinte, te deixar bêbada e te foder. Seu ex-namorado apostou que ele não
conseguiria te levar para a cama, porque você é virgem. Se você acabasse se
entregando a Bentley, seu ex iria pagar quinhentos dólares a ele.
Cobri minha boca.
— Ah, meu Deus!
Elec assentiu com um olhar compreensivo.
— Foi por isso que eu acabei com ele.
— Você deixou que todos pensassem que a culpa era sua. Ouviu todas
aquelas merdas que o Randy falou, por causa disso. Mas só estava me
protegendo?
— Eu não sabia como te dar a notícia do que eles estavam planejando.
Mas, claramente, meu aviso para que ele se mantivesse longe de você não foi
suficiente. Então, precisei te falar.
— Obrigada.
— Gosto de te atazanar. Comecei a fazer isso para me vingar do meu pai…
Para torturar a filha de Sarah. Mas, com o passar do tempo, isso começou a se
tornar uma diversão. Hoje, quando você chorou, eu vi que tinha ido longe
demais e que, para você, não era só um joguinho. Por mais estranho que
possa parecer, eu nunca quis te magoar, e pode apostar que eu não vou deixar
que ninguém te machuque, também.
Olhei para o teto novamente, e seus lábios se curvaram em uma carranca,
enquanto ele ponderava o que tinha acabado de dizer.
Com meu dedo indicador toquei o ponto em seu lábio que tinha sido ferido
na briga. Ele fechou os olhos, e meu coração começou a bater furiosamente
enquanto a respiração dele acelerava com cada movimento do meu dedo em
sua boca.
— Lamento que tenha se machucado.
— Valeu a pena. — Ele disse, sem hesitar.
Parei de tocá-lo, e ele olhou para mim. O olhar sarcástico que costumava
reservar para mim fora substituido por um de sinceridade.
Já que tinha sua atenção, aproveitei a oportunidade para mudar de assunto.
— Você quer ser escritor?
Ele voltou a olhar para o teto.
— Eu sou escritor. Escrevo desde pequeno.
— Sobre o que é Lucky e o menino? Por que ficou com tanta vergonha de
mostrá-lo para mim?
Parecendo desconfortável, ele se remexeu na cama.
— Eu não estava pronto para falar sobre isso — ele sorriu e, hesitante,
disse: — Na verdade, Lucky era meu cachorro.
Não pude conter um sorriso.
— Você escreveu uma história sobre ele?
— Mais ou menos. É uma versão sobrenatural da minha vida com ele.
Lucky não era só o meu melhor amigo, mas a única coisa que me acalmava
quando eu era mais novo. Eu sofria de déficit de atenção e hiperatividade
grave, por isso precisei tomar remédios por um tempo. Quando minha mãe
trouxe Lucky para casa, meu comportamento melhorou significativamente .
Então, a história é um pouco baseada em mim e em Lucky, mas é sobre um
garoto com superpoderes que os usa para combater o crime. Ele só consegue
controlar todo o barulho em sua cabeça quando o cachorro está com ele. O
cachorro é sequestrado como chantagem em um dado momento, e o resto da
história foca em como conseguir Lucky de volta. É passada na Irlanda.
— Uau! Por que Irlanda?
— Sempre tive essa estranha obsessão por qualquer coisa que fosse
irlandesa — ele apontou para os trevos em seu abdômen. — Isso é um
exemplo. Acho que é uma forma de me conectar com essa parte de mim, a
parte de Randy, uma vez que não tenho nenhuma ligação real com ele. Isso
parece um pouco ridículo, mas é a única explicação que tenho.
— O que aconteceu com Lucky?
— Lucky morreu pouco depois de Randy deixar a minha mãe. Foi muita
coisa acontecendo de uma vez só.
Coloquei a mão no braço dele.
— Sinto muito, Elec.
— Tudo bem.
Olhei para minha mão, que estava pousada em sua tatuagem do braço,
pensando se deveria fazer a próxima pergunta.
— Por que ele te trata assim?
Ele olhou para mim.
— Obrigado por ficar contra ele, na noite passada. Eu não estava bêbado.
Ouvi tudo o que você disse, e nunca vou esquecer — ele fechou os olhos. —
Mas não quero falar sobre ele, Greta. É uma longa história, complicada
demais para ser contada às duas e meia da manhã.
Eu não iria pressioná-lo. Aquilo era mais do que qualquer coisa que eu já
tinha conseguido, dele.
— Ok. Não precisamos falar sobre isso — depois de um longo momento
de silêncio, perguntei: — Posso ler o seu livro?
Ele riu e balançou a cabeça.
— Uau! Você está fazendo um milhão de perguntas hoje.
— Acho que estou feliz por finalmente poder conhecer meu meio-irmão.
Ele assentiu, demonstrando compreensão.
— Não sei se quero que leia o livro. Ninguém nunca o leu. Fico sempre
dizendo a mim mesmo que tenho que encontrar uma maneira de publicá-lo,
mas nunca faço isso. Não está perfeito, mas é a história com a qual estou
mais satisfeito. Tenho certeza de que tem muitos erros que não encontrei.
— Eu adoraria lê-lo. E, se eu encontrar algum erro, posso te avisar. Eu
meio que sou boa em ortografia.
Ele sorriu e revirou os olhos.
— Vou pensar no seu caso.
— Tudo bem. É justo.
Quando ele se virou para mim outra vez, o cinza de seus olhos iluminou-se
com a luz do abajur. Ele se colocou mais confortável e relaxou no travesseiro.
— Me fale sobre o seu pai.
Elec estava olhando para mim com atenção, e me comoveu o fato de ele
querer saber mais sobre meu pai.
Suspirei e olhei para o nada.
— Seu nome era Keith. Era um bom homem, bombeiro aqui em Boston.
Minha mãe tinha dezessete anos quando o conheceu, mas ele era mais velho.
Tinha uns vinte anos, então foi um verdadeiro tabu. Ele foi o amor da vida
dela. Vivíamos uma vida simples, mas uma vida boa. Eu era sua princesinha.
Um dia, ele começou a reclamar de uma tosse e, depois de um mês, foi
diagnosticado com câncer de pulmão. Só viveu mais seis meses.
Elec colocou a palma da mão sobre a minha, que ainda estava segurando
seu braço. Então, percorreu meus dedos com os dele. Seu toque parecia
elétrico. Nunca imaginei que segurar a mão de alguém pudesse me fazer
sentir mais do quetudo o que já tinha sentido até então.
— Sinto muito que tenha passado por isso. — Ele disse.
— Eu também. Ele me deixou algumas cartas, uma para cada ano até que
eu complete trinta. Então, no meu aniversário, eu sempre as leio.
— Ele deve estar orgulhoso de você. É uma boa pessoa.
Não sei exatamente o que fiz para merecer aquele olhar vindo de Elec, mas
eu estava adorando. Ao mesmo tempo, estava quase esperando que não
durasse muito mais tempo.
— Obrigada. — Peguei meus olhos passeando pelos dele, mas me virei
abruptamente. Ele tirou sua mão de cima da minha, e eu a senti em meu
queixo, fazendo-me olhar para ele de novo.
— Não faça isso.
— O quê?
— Você virou o rosto. É culpa minha. Fiz com que sentisse que eu não
queria que olhasse para mim, quando falei aquela porcaria sobre ter respeito
por si mesma. De tudo que falei para você, aquela foi a maior mentira de
todas, e me arrependo. Comecei a baixar a guarda, e isso me assustou. Nunca
tive problemas com a forma como olha para mim. Meu problema é como me
faz sentir quando olha para mim: coisas que não devo sentir, coisas que não
posso me permitir sentir por você. Ao mesmo tempo… nada me fez me sentir
pior do que quando parou de olhar para mim, Greta.
Ele sentia algo por mim?
— O que parece que eu estou pensando, quando olho para você? —
Perguntei.
— Acho que você gosta de mim, por mais que saiba que não deveria — eu
sorri, concordando em silêncio, enquanto ele continuava: — Sinto como se
estivesse constantemente tentando me entender.
— Você não facilita as coisas, Elec.
— Às vezes, você também me olha como se quisesse me beijar de novo,
mas não sabe direito o que faria, se eu realmente a beijasse. Aquele beijo…
foi por causa dele que saí do restaurante tão rápido. Começou como uma
brincadeira, mas juro que foi real, para mim.
Meu coração deu um pulo por saber que ele se sentia daquela forma.
— Você sente atração por mim? — Imediatamente me senti estúpida por
deixar a pergunta escapar. — Quer dizer… não pareço nem um pouco com as
garotas com quem você sai. Não tenho seios grandes e não pinto meu cabelo.
Sou o completo oposto daquelas que você traz para casa.
Ele riu.
— Nisso você está certa — ele se inclinou. — O que te faz pensar que eu
as prefiro só porque as trago para casa? Aquelas garotas são… fáceis, na falta
de uma palavra melhor, mas não significam nada, para mim, na verdade.
Nem tentam me conhecer. Só querem me foder — ergueu as sobrancelhas. —
Porque eu sou bom nisso.
Ri nervosa.
— Já percebi isso.
A tensão no ar tornava-se mais pesada a cada segundo. Nada nunca me
deixou mais excitada do que a confiança sexual que ele exibia naquele
momento.
Estava mais do que intrigada… e curiosa.
Seus olhos percorream toda a extensão do meu corpo, dos pés à cabeça.
— Respondendo à sua pergunta, eu prefiro o seu corpo ao delas.
Sobrecarregada de emoções, afundei meus dedos no travesseiro, enquanto
o ouvia falar aquilo.
— Por quê? — A pergunta saiu mais como um suspiro do que como uma
palavra.
Sua voz ficou mais baixa.
— Você quer detalhes, hein? — Seus lábios se curvaram em um sorriso.
Ele se aproximou mais de mim, como se quisesse contar um segredo. —
Ok… Você é pequena, firme, flexível e seus seios… têm um tamanho
perfeito e são naturais — ele olhou para baixo, na direção do meu peito. —
Posso ver seus lindos mamilos porque eles estão me saudando agora mesmo.
Não é a primeira vez que isso acontece.
Coloquei as mãos sob minha bochecha e relaxei no travesseiro como se ele
estivesse recitando um conto erótico. Ele sussurrou mais baixo ainda: — Eu
adoraria chupá-los, Greta.
Incrivelmente excitada com as palavras que saíam de sua boca, senti uma
umidade e uma pontada entre minhas pernas. Desejando que ele continuasse,
respirei fundo.
— O que mais?
— Você tem um traseiro lindo. Naquela noite, quando fomos ao cinema,
você estava usando aquela saia vermelha curtinha. Todas as vezes que aquele
porco colocava a mão perto do seu bumbum, quando estavam caminhando,
eu ficava louco. Queria ser eu a estar te tocando.
Não pude evitar. Me aproximei ainda mais dele e coloquei a mão em sua
nuca.
— Sério?
— Você é muito linda.
Desesperada para sentir o gosto de sua boca, corri a ponta dos meus dedos
por seu piercing.
— Pensei que eu era bem comum.
Ele balançou a cabeça bem devagar, acariciando meu rosto. Então,
inclinou-se na minha direção, sussurrando bem próximo de meus lábios: —
Não… Você é linda.
A necessidade de beijá-lo estava me matando.
— Beije-me. — Suspirei.
Ele continou a falar bem perto de meus lábios, com a respiração ofegante.
— Não é que eu não queira te beijar. Eu quero muito isso, agora. Mas…
Não quis esperar que ele terminasse a frase. Só peguei o que eu queria, o
que eu precisava.
Ele gemeu dentro da minha boca quando meus lábios cobriram os dele.
Colocou suas mãos em cada uma das minhas faces. Sem o gosto de pimenta
do nosso beijo anterior, eu consegui, finalmente, provar o sabor dele, e soube,
imediatamente, que não havia volta, para mim. Não sabia se eram meus
hormônios ou se as semanas passadas tinham sido apenas preliminares, mas
eu me sentia completamente fora de controle. Os sons que saíam do fundo de
sua garganta me deixavam ainda mais faminta por ele, enquanto eu também
ficava sem fôlego.
Em um certo momento, esfreguei minha língua gentilmente em volta do
corte em seu lábio, enquanto ele fechava os olhos. Então, ele se rendeu e
começou a me beijar com mais voracidade, com mais urgência. Encostei mais
o meu corpo no dele e senti sua ereção contra mim. Não me importava com
nenhuma das consequências daquele momento. Só sabia que não queria que
aquilo terminasse, e fiquei chocada com o que saiu da minha boca em
seguida: — Quero que me mostre como você fode, Elec.
Ele se afastou de mim subitamente, parecendo atônito.
— O que você acabou de dizer?
Foi o momento mais humilhante da minha vida.
Seus olhos se arregalaram, como se tivesse acabado de acordar de um
sonho.
— Porra! Não… não. Você tem que entender uma coisa, Greta. Isso nunca
vai acontecer.
Ok. Agora sim, esse era o momento mais humilhante da minha vida.
— Então por que disse todas aquelas coisas?
Deus, eu me sentia uma idiota!
Ele inclinou a cabeça em direção ao encosto da cama, parecendo quase
torturado.
— Era importante para mim que soubesse o quanto eu te desejo e o quanto
te acho linda, tanto por fora quanto por dentro, porque sinto que feri sua
autoestima, ainda que não fosse minha intenção. Tudo que disse é verdade,
mas o beijo não deveria ter acontecido. Eu não deveria estar nessa maldita
cama, mas me senti tão bem aqui, deitado com você…
— Por que sou diferente das garotas com quem fica?
Ele passou ambas as mãos no cabelo, bagunçando-o e me olhando com
olhos sombrios.
— Na verdade, tem uma grande diferença. Você é a única garota no mundo
inteiro que é proibida, e foda-se, mas isso me faz te querer mais ainda.
QUASE UM MÊS SE PASSOU, DEPOIS DAQUELE ENCONTRO NO MEU QUARTO.

Elec saiu da minha cama naquela noite pouco depois de repetir que eu
tinha passado muito dos limites e que nada poderia acontecer entre nós. Não
fazia sentido para mim que suas convicções fossem tão fortes, considerando
que nem éramos realmente parentes. Então, eu senti que havia muito mais
coisas, naquela história.
A pior parte do que aconteceu no meu quarto foi que Elec começou a se
distanciar. Não havia mais mensagens rudes, nem convites para jogar
videogame. Quando estávamos em casa ao mesmo tempo, ele ficava no
quarto dele e, eu, no meu. Ele também passava mais tempo na loja de
bicicletas, ou fora de casa.
Nunca pensei que sentiria falta de seus insultos e das palavras cruéis, mas
daria qualquer coisa para que tudo voltasse a ser como era, antes de eu beijá-
lo – e dizer que queria foder com ele.
Eca!
Eu estremecia só de pensar nisso. Mas, naquele momento, eu estava
embriagada por ele e queria saber como era, mais do que já quis qualquer
outra coisa. Eu estava pronta.
Eu e Elec fizemos dezoito anos nas semanas seguintes àquela noite.
Nossos aniversários aconteciam com apenas cinco dias de diferença. Então,
eu me sentia madura o suficiente para dar aquele passo com alguém. Não era
como se eu estivesse intencionalmente me guardando para o casamento ou
algo assim. Eu era virgem simplesmente porque nunca quis fazer nada com
ninguém antes… até chegar Elec. Mas ele passou as semanas seguintes
deixando bem claro que isso nunca iria acontecer entre nós.
Mas eu sentia falta dele.
Então, numa noite depois do jantar, tudo mudou e eu tive um pedacinho
dele de volta. Normalmente Elec não comia em casa, mas, naquela quarta-
feira em particular, por alguma razão, ele decidiu se juntar a nós. Desde a
noite em que eu vi Randy tratá-lo tão mal, fiz de tudo para evitar meu
padrasto, exceto me sentar à mesa para jantar. Eu e minha mãe não estávamos
nos dando muito bem, porque ela continuava a insistir que não estava em
suas mãos interferir nos problemas de Randy com Elec.
Elec não estava nem olhando para mim, à mesa. Ele só olhava para baixo e
enrolava a massa no garfo. Em um dado momento, olhei pela janela e fiquei
olhando para as roupas do vizinho, estendidas e secando com a brisa. Foi
então que senti os olhos dele em mim. Era como se estivesse esperando que
eu me virasse para que pudesse me olhar, sem que eu notasse. Mas é claro
que, quando me virei na direção dele, sua cabeça se moveu para baixo outra
vez, e ele voltou a brincar com a comida.
Randy estava reclamando que um jantar de macarrão com molho
bolonhesa não era suficiente para matar sua fome. Abruptamente, ele se
levantou e se dirigiu ao armário da cozinha.
— Greta, o que você está fazendo, colocando todas essas calcinhas dentro
de uma latinha de Pringles? — Ele gritou.
Fiquei boquiaberta e olhei direto para Elec. Olhamos um para o outro por
alguns segundos, antes que Elec não pudesse controlar mais. Ambos
começamos a rir simultaneamente. Nenhum dos dois conseguia parar.
Eu adorava o som de sua risada genuína.
Olhar para a expressão confusa no rosto de Randy me fez rir ainda mais.
Quando paramos de rir, Elec ainda estava sorrindo e disse, bem baixinho,
deixando que só nós dois ouvíssemos: — Eu te disse que elas não estavam no
meu quarto.
Randy jogou a lata na mesa, na minha frente. Eu a abri e as chequei.
— Não estão todas aqui.
Elec deu uma piscadinha.
— Guardei algumas para mim. — Ele disse, de forma sedutora.
Revirei os olhos e joguei uma em seu rosto. Prontamente ele a colocou em
sua cabeça, como se fosse uma bandana. Só mesmo meu meio-irmão para
ficar extremamente sexy usando uma calcinha na cabeça. Ele continuou
olhando para mim, com aquele sorriso maldoso que eu tanto esperara. Era
bom ter sua atenção de novo, mesmo que fosse por pouco tempo.
Naquela noite, eu já estava vestindo meu pijama quando o telefone vibrou:
Você pode vir aqui um minuto?
Meu coração acelerou enquanto eu percorria o corredor. Quando ele abriu
a porta, estava incrivelmente sexy.
Ele cheirava a pasta de dente.
— Oi. — Ele disse, sorrindo e mostrando seus lindos dentes brancos, que
contrastavam com sua pele bronzeada e o cabelo preto.
— Oi. — Entrei no quarto e respirei fundo. Seu peito estava nu e seu
cabelo ainda estava molhado do banho. Olhei para seus lábios, no ponto onde
havia o corte, que já havia se curado há tempos. O piercing brilhou, e eu
nunca desejei algo como desejava lambê-lo ali, sentir sua boca e sua língua
contra as minhas, outra vez.
Me beijando.
Me lambendo.
Me mordendo.
Melhor mudar de assunto.
— Por que este lugar está cheirando tanto a limpeza?
Ele se deitou na cama, com as mãos atrás da cabeça. Não consegui evitar
olhar para o “V” bem debaixo de seu abdômen, nem sentir vontade de me
deitar sobre sua pele.
— Você está querendo dizer que, normalmente, meu quarto cheira a
merda?
— Você parou de fumar?
— Estou tentando.
— Sério?
— Sim… Tem uma garota que fica por aí dando ordens, e ela me disse
uma vez que isso era ruim para mim. Então… pensei sobre isso e, finalmente,
dei ouvidos.
— Estou orgulhosa de você.
Ele se sentou ereto e olhou para mim.
— Bem, a verdade é que… você estava certa. Aquela porcaria vai me
matar, algum dia. Muitos aspectos da minha vida podem ser uma droga, mas
outras coisas fazem viver valer a pena.
Alguma coisa no ar pareceu mudar quando ele disse isso, e um silêncio
desagradável se formou.
Pigarreei.
— Por que queria que eu viesse aqui?
Ele foi até o armário e pegou alguma coisa. Então, percebi que era seu
livro. Ele me entregou o fichário.
— Queria te dar isso. Quero que você o leia.
— Sério?
— Não diga a ninguém que leu minhas porcarias, Greta. Isso é um grande
passo para mim. Não importa o que você faça, não mostre isso a Randy. Não
quero que ele chegue perto disso.
— Ok. Eu prometo. Obrigada por confiar em mim.
— Seja honesta na sua opinião. Posso suportar.
— Serei. Vou ler no meu tempo livre.

Fui direto para o meu quarto, naquela noite, e comecei a ler. Minutos se
tornaram horas. Disse a Elec que iria lê-lo no meu tempo livre, mas a verdade
era que eu não conseguia largá-lo. Acabei ficando a noite inteira acordada
para terminá-lo.
Por mais que a história fosse contada em terceira pessoa, e o menino, cujo
nome era Liam, fosse apenas levemente baseado em Elec, eu sentia como se
tivesse encontrado uma janela para sua mente e sua alma, através do
protagonista.
Havia muitas similaridades que eu sabia serem derivadas de sua vida,
especialmente o fato do pai de Liam ser abusivo verbalmente. O início da
história, antes de Lucky entrar em cena, era um pouco triste. Ao mesmo
tempo que me fez chorar em uma certa parte, também me fez rir em outras.
Havia muitas cenas engraçadas separadas do enredo principal.
Em uma cena, Liam ficou a fim de uma garota de uma casa vizinha, então,
ele pediu a Lucky que fosse até lá. Ele esperava que a menina pensasse que
Lucky estava perdido e que o cachorro iria guiá-la até a casa de Liam. Ao
invés disso, Lucky, que era um cachorro grande, acabou encoxando o
filhotinho de Lulu da Pomerânia da garota. Liam os observou pela janela,
enquanto ela pegava o cachorrinho e o levava para dentro, batendo a porta.
Lucky ainda fez suas necessidades no gramado da casa dela, antes de correr
de volta para Liam, de mãos vazias.
Mas o enredo principal se baseava na habilidade de Liam em sentir o mal
através de sua audição hipersensível. As informações que ele recebia não
eram sempre claras, muitas vezes eram desordenadas, a não ser que Lucky
estivesse por perto. Em certo ponto, Liam leva informações sobre o
assassinato de uma garota da cidade para a polícia. O problema foi que um
policial corrupto estava por trás do crime. Ele sequestrou Lucky para que
Liam não conseguisse ajudar as autoridades a desvendar o mistério. Lucky
acabou escapando, e a cena do reencontro entre Liam e o cachorro foi tão
emocionante que me deixou chorando copiosamente.
Tudo fora escrito de forma muito realista, desde as vívidas descrições das
paisagens da Irlanda até as emoções que Liam experimentou. Havia um
capítulo extra muito divertido, escrito pelo ponto de vista do cachorro, no
final do livro. Eu só encontrei alguns erros gramaticais e os reuni em um
caderno, para Elec.
No final da história, estava apaixonada pelos personagens, o que era um
elogio à sua escrita. Ao mesmo tempo, me senti mais próxima dele e honrada
por ele ter me permitido ter um vislumbre de sua mente incrivelmente
criativa. Eu precisava encontrar as palavras certas para explicar com
propriedade o quão maravilhoso era seu trabalho… o quão maravilhoso ele
era.
Então, no dia seguinte, eu decidi que iria me sentar debaixo de uma árvore
depois da escola e colocar em uma carta todos os meus sentimentos, e eu a
entregaria a ele, junto do livro. Derramei todo meu coração nela e expliquei
por que sentia que ele tinha nascido para escrever, e não importava se seu pai
não sentia orgulho dele, porque eu estava extremamente orgulhosa dele.
Naquela tarde, eu planejei deixar a carta em seu quarto. Quando cheguei no
topo das escadas, meu estômago se revirou quando ouvi uma voz feminina do
outro lado da porta.
Risadas.
Som de beijos.
Elec não tinha levado ninguém para casa desde aquela noite em que
tínhamos nos beijado na minha cama. Pensei que, talvez, pudesse estar
tentando respeitar meus sentimentos, ou que ele tivesse mudado.
Eu estava errada.
Saber que ele estava com outra garota sempre me deixava irritada e com
ciúmes, mas daquela vez era diferente. Aquilo me deixou extremamente
triste. Eu não pude nem suportar ficar na casa, então deixei o livro e o bilhete
em frente à sua porta e corri pelas escadas, arrependida por não ter me
apaixonado apenas por sua escrita.
FIQUEI TRISTE POR SABER QUE ELE NEM SEQUER SOUBE DA MINHA CARTA POR
vários dias.
Victoria não me deu outra escolha a não ser finalmente contar para ela
sobre meus sentimentos por Elec. Ela não parava de falar que não entendia o
porquê de ele não tê-la convidado para sair novamente, depois do beijo no
restaurante. Eu já não tinha mais paciência para isso e contei a ela tudo o que
tinha acontecido entre nós. Ela ficou chocada, mas, ao menos, consegui que
parasse de falar sobre ele.
Elec continuou a me ignorar durante toda a semana. Passava mais horas na
loja de bicicletas e, durante outros momentos, ficava em seu quarto, com a
porta fechada. Ele, obviamente, sabia que eu tinha ouvido aquela garota em
seu quarto, uma vez que eu tinha deixado o livro no chão, do lado de fora.
Ele, com certeza, sequer se importara em pedir desculpas ou perceber o
impacto que aquilo poderia ter causado nos meus sentimentos.
Então, quando Corey Jameson me convidou para sair naquela semana, eu
disse sim. Corey era, provavelmente, um dos garotos mais doces do colégio.
Na verdade, eu não me sentia fisicamente atraída por ele, mas precisava de
uma distração e sabia que, ao menos, nos divertiríamos juntos. Ele era um
dos únicos rapazes que eu considerava um amigo, embora fosse óbvio que ele
quisesse ser algo mais.
A sexta-feira chegou. Penteei meu cabelo cheio de ondas e vesti um
vestido azul royal que comprei em liquidação no shopping, mas meu nível de
entusiasmo seria o mesmo se eu estivesse indo ao cinema com Victoria.
Quando Corey chegou na minha casa, minha mãe abriu a porta e gritou em
direção ao segundo andar: — Greta, o rapaz com quem você vai sair chegou.
Havia uma música tocando baixinho no quarto de Elec, e a porta estava
fechada. Parte de mim queria que ele me visse saindo com Corey, mas outra
não queria ter que lidar com ele.
Corey estava esperando na base das escadas com flores, e me deixou
extremamente constrangida. Eu nunca poderia imaginar Elec indo buscar uma
garota com gérberas nas mãos. E, vamos admitir, ele nem precisava disso.
— Oi, Corey.
— Oi, Greta. Você está linda.
— Obrigada.
— Tudo bem se eu usar o seu banheiro rapidinho, antes de irmos?
Hesitei em deixá-lo subir as escadas, já que Elec poderia sair de seu quarto.
— Claro, fica lá em cima. Vire à esquerda no final do corredor.
Esperei sentada em um banquinho, na cozinha.
— Ele parece ótimo. — Minha mãe disse.
— Ele é. — Eu disse, colocando as flores em um vaso.
Aquele era o problema. Eu tinha aprendido a amar coisas um pouco mais
cruéis.
Depois de cinco minutos de espera, Corey voltou com uma expressão
estranha no rosto.
— Você está pronto? — Perguntei.
— É claro. — Ele disse, sem olhar para mim. Ele caminhou na minha
frente e me guiou até seu carro, um Focus estacionado na frente da casa.
Ele ainda estava agindo com estranheza quando entramos no carro e, antes
que pudéssemos dar a partida, ele se virou para mim.
— Encontrei seu meio-irmão, lá em cima.
Engoli em seco.
— Ah, sim?
— Ele me pediu para te entregar isso aqui, que você tinha deixado em seu
quarto. — Corey me entregou um par de calcinhas cor-de-rosa, uma das duas
que Elec ainda não tinha me devolvido.
Eu peguei a peça de sua mão e olhei para a rua sem acreditar, sem saber se
estava irritada ou extremamente divertida.
Quando me recompus, virei-me para ele: — Ele só está tentando criar
problemas entre você… e eu. É isso que ele gosta de fazer. Eu sei que parece
bobeira, mas ele pegou todas as minhas calcinhas como uma brincadeira e
não as devolveu. Nada está acontecendo.
Ele suspirou, mas ainda parecia um pouco desconfortável.
— Ok. Mas foi muito estranho.
— Eu sei disso, pode acreditar. Me desculpe.
Corey estava olhando direto para a estrada, então, peguei meu telefone e,
discretamente, enviei uma mensagem para Elec.

Greta: Por que você fez isso?


Elec: Você não pegou todas as suas calcinhas. Foi engraçado, e você sabe
disso.
Greta: Não foi engraçado, para mim.
Elec: Você nem gosta dele.
Greta: Como sabe disso?
Elec: Porque você gosta de mim.
Greta: Você é muito cheio de si.
Elec: Você queria ficar cheia de mim um dia, lembra?

Fiquei boquiaberta.

Greta: Por que você sempre faz isso?


Elec: Isso o quê?
Greta: Fazer com que tudo tenha a ver com você.
Elec: E não tem?
Greta: Não fode!
Elec: Ah, eu fodo… muito bem. Eu te mostraria, se pudesse.
Greta: Por que está fazendo isso?
Elec: Porque não consigo parar.

Eu não pretendia responder. Mas ele enviou outra mensagem.


Elec: Volte para casa.
Greta: O quê?
Elec: Volte para casa. Saia comigo.
Greta: Não!

Desliguei o telefone e olhei para Corey, que seguia olhando para frente,
ainda em silêncio.
Elec estava louco. Quem ele pensava que era, tentando me impedir de ter
um encontro casual, uma vez que ele continuava a me afastar?
Elec criou uma sombra que durou pelo resto da noite, e, enquanto
tentávamos estabelecer uma conversa no restaurante mexicano, eu reparava
que Corey estava totalmente desanimado, depois do que Elec fez. A pior
coisa era que eu não estava nem irritada. Se eu fosse realmente honesta
comigo mesma, perceberia que estava satisfeita por Elec se importar o
bastante para querer sabotar o meu encontro.
Tentei focar minha atenção somente em Corey e estava fazendo um
péssimo trabalho, enquanto comia meu pudim de sobremesa. Só conseguia
pensar em Elec. Ele não tinha apenas me atazanado naquela noite, tinha
sequestrado minha mente inteira.
Meu telefone apitou no exato momento em que nos aprontávamos para
pagar a conta.

Preciso que venha para casa.


Greta: Não.
Elec: Não estou de sacanagem desta vez. Aconteceu uma coisa.

Meu estômago se revirou.

Greta: Está tudo bem?


Elec: Ninguém se machucou. Só precisamos conversar.
Greta: Ok.
Elec: Onde você está? Vai ser mais rápido se eu for te buscar?
Greta: Não, Corey vai me levar para casa.
Elec: Ok. Não demore.

Meu coração estava acelerado.


O que tinha acontecido?
Inventei uma história sobre grave dor de barriga e perguntei a Corey se ele
se importaria em me levar direto para casa. Ele não ficou muito animado, até
porque a noite inteira fora um desastre depois do que Elec fez.
Parecia que eu não ia chegar nunca em casa.
Corey nem esperou eu entrar, antes de ir embora. Corri pelos degraus e bati
na porta do quarto de Elec, antes de simplesmente abri-la e entrar.
Ele estava sentado na cama, esperando por mim com um olhar preocupado.
Na verdade, eu nunca o tinha visto tão chateado. Ele se levantou e me
surpreendeu quando, imediatamente, me puxou para um abraço.
— Obrigado por voltar.
Seu coração estava batendo forte em seu peito enquanto ele me segurava
com firmeza. Meu corpo gritava para que ele me abraçasse com ainda mais
força.
— O que foi, Elec?
Ele me soltou e, então, pegou minha mão, me levando até a cama, onde
nós dois nos sentamos.
— Tenho que voltar para a Califórnia.
Tudo que eu tinha comido pareceu prestes a voltar à minha boca de uma
vez só.
— O quê? — Coloquei minha mão em seu joelho, porque eu sentia como
se estivesse perdendo o equilíbrio. — Por quê?
— Minha mãe está doente.
— Não entendo. Ela não ia ficar na Inglaterra até o verão?
Ele olhou para o chão e hesitou, antes de olhar para mim, cheio de
melancolia.
— O que eu vou te contar não pode sair deste quarto. Não pode falar para
sua mãe, muito menos para o Randy. Promete?
— Prometo.
— Minha mãe não estava na Inglaterra. Pouco antes de eu vir para cá, ela
se internou em uma clínica no Arizona por causa de uma grave depressão e
por abuso de substâncias. Deveria ser um programa com duração de seis
meses, e então ela iria ficar na casa de uma amiga até que terminasse o ano
escolar.
— Por que ela não contou a verdade a Randy?
— Minha mãe é uma pintora muito talentosa. Eu sei disso. Ela realmente
recebeu uma proposta para lecionar em Londres por um ano e usou isso como
desculpa para Randy, por mais que tenha recusado. Teve vergonha de falar
para ele sobre como as coisas tinham piorado. Antes de decidir se inserir no
programa, ela teve uma overdose de calmantes, e eu a encontrei caída no
chão. Achei que estivesse morta.
— Era esse o pesadelo que estava tendo.
— O quê?
— Na noite em que te ouvi gritando enquanto dormia, você estava
dizendo: “Mãe, acorde!”.
— Sim. Faz sentido. Sonho muito com isso, na verdade. Minha mãe é uma
pessoa fraca. Desde que Randy a deixou, ela nunca mais foi a mesma. Tenho
medo de perdê-la. Ela é tudo que eu tenho.
Apertei seu joelho com carinho.
— Você acha mesmo que nossos pais tiveram um caso e que ele deixou
sua mãe pela minha.
— Sei que ele traía minha mãe, porque hackeei seu computador. Ele
conheceu sua mãe online enquanto ainda estava casado com a minha. Ele
dizia que viajava a negócios, mas, na verdade, estava vindo para Boston para
visitar Sarah. Eu não mentiria a respeito disso.
— Acredito em você.
— Em defesa da Sarah, não sei qual foi a história que ele contou para ela.
Talvez ele tenha inventado que já estava separado. Lembra quando disse que
seu pai foi o amor da vida de sua mãe?
— Sim…
— Bem, era isso que Randy era para minha mãe, por mais que nunca tenha
sido recíproco. Ele é um pai horrível, mas isso não parecia importar. Ela é
obcecada por ele e sempre baseou sua autoestima em suas ações com relação
a ela. E ela está obcecada por Sarah também, agora. É uma doença. Há muito
mais a contar, nessa história. Só estou te contando o que você precisa saber e
o que tem ligação com eu e você.
— Quando você disse que era proibido, entre nós… é porque sou filha de
Sarah?
Ele sorriu e acariciou minha bochecha com as costas de sua mão.
— Você se parece muito com ela. Minha mãe acha que o casamento dela
terminou por causa da Sarah. Ela odeia sua mãe mais do que qualquer outra
pessoa. Dentro de mim, eu sei que Randy acabaria encontrando uma forma de
abandoná-la, mais cedo ou mais tarde, mas ela está muito mal. Ela não
suportaria se descobrisse que tem alguma coisa acontecendo entre mim e a
filha de Sarah.
— Por que ela voltou para casa mais cedo?
— Ela acha que está melhor. Mas não é verdade, Greta. Posso ouvir na voz
dela, mas eles deixaram que ela saísse, de qualquer forma. A amiga que
deveria cuidar dela deu para trás e nem está na cidade. Estou com medo de
deixá-la sozinha. É por isso que vou embora amanhã de manhã. Meu voo já
está marcado. Randy está pensando que ela foi demitida e nem se importa
com o fato de que estou indo embora.
Uma lágrima caiu pelo meu rosto.
— Eu não estava contando com isso — inclinei-me novamente, me
encostando em seu peito, enquanto ele passava o braço ao meu redor.
Ficamos em silêncio até que eu olhei para ele: — Não estou preparada para
que vá embora.
— Engolir o meu orgulho e vir morar com Randy para que minha mãe
pudesse ficar melhor e não tivesse que se preocupar comigo foi uma das
coisas mais difíceis que tive de fazer. Foi o inferno, no início, mas você foi
como um pedacinho de céu no meio de tudo isso. Nunca pensei que
começaria odiando estar aqui e acabaria odiando ter que ir embora, mas é
assim que me sinto, agora. Quero ficar, mas só por causa de você. Quero
poder ter proteger, não como um irmão faria, e isso me deixa na merda.
Agarrei sua mão.
— Eu entendo.
Ele entrelaçou seus dedos nos meus e se inclinou, pressionando
gentilmente seus lábios na minha testa.
— Sinto como se você conseguisse me ver de formas que nem eu consigo.
Foi impossível fazer com que me odiasse, porque eu sabia que não era
verdade. Obrigado por ser inteligente o suficiente para enxergar o meu
interior.
Não pude evitar. Coloquei meus braços ao redor dele e senti seu cheiro,
desejando gravá-lo em minha memória.
Ele iria embora no dia seguinte.
Talvez eu nunca mais o visse.
Sua respiração ficou mais rápida, assim que ele me soltou.
Olhei para suas malas e vi que ele ainda tinha muitas coisas para guardar.
— Quer que eu te ajude?
— Por favor, não entenda o que vou dizer da forma errada.
Mordi meu lábio inferior.
— Ok.
— O que eu preciso que faça agora é que vá para seu quarto. Não é porque
eu não quero ficar com você. É porque não confio em mim mesmo.
— Mas eu quero ficar aqui com você.
— Da forma como me sinto agora, não consigo ficar no mesmo quarto que
você. Me senti um merda quando te vi saindo com aquele cara das flores. E
isso foi antes de eu saber que teria de ir embora. Então, você entra aqui
assim, tão linda nesse vestido. Eu estou me controlando muito.
— Não me importo se algo acontecer. Eu também quero.
Ele olhou para o chão e balançou a cabeça.
— Não podemos deixar que aconteça — Elec estava calado quando me
olhou nos olhos. — No outro dia, você viu que eu estava aqui com uma
garota. Nada aconteceu. Ela tentou, mas eu não consegui. Não parecia certo,
e já tem sido assim há algum tempo, desde aquela noite no seu quarto. Você
acha que eu não fantasiei sobre fazer o que me pediu, sabendo que eu seria o
primeiro com quem teria essa experiência? Tem ideia do quanto ouvir as
palavras “quero que me mostre como você fode” vindas da sua boca tão doce
me afetou? Isso me arruinou.
— Eu preferia ter uma noite com você do que nenhuma.
— Você não sabe o que está dizendo. Se eu achasse que você era esse tipo
de garota, não estaríamos conversando aqui, agora — ele colocou as mãos
nos meus ombros, fazendo com que eu sentisse um arrepio. — E, só para que
você saiba, eu gosto que não seja esse tipo de garota — ele deixou um
suspiro profundo escapar, e eu o senti em meu peito. — Mesmo com você
dizendo que saberia lidar com isso… não sei se eu conseguiria.
Ficamos em silêncio por vários segundos, com nossos olhos presos entre
si.
— Ok. Vou sair daqui. — Meus olhos começaram a se encher de lágrimas
porque eu sentia que aquilo era o fim.
Ele viu que eu estava começando a chorar.
— Por favor, não chore.
— Me desculpa. Não posso evitar. Vou sentir sua falta.
Ele me abraçou mais uma vez e encostou o nariz no meu cabelo. Então,
falou ao meu ouvido: — Vou sentir sua falta, também — nossos corações
estavam batendo muito rápido, um contra o outro, antes de nos separarmos.
— Meu voo só sai às dez. Podemos tomar café da manhã juntos.
Voltei para o meu quarto sem acreditar no quanto as coisas mudaram
rápido na minha vida. Eu mal sabia que as coisas com Elec mudariam
novamente, num piscar de olhos, durante aquela noite.
“DESTRUÍDA” NEM COMEÇA A DESCREVER COMO ME SENTI QUANDO TIVE DE
voltar ao meu quarto, sabendo que ele me queria tanto quanto eu o queria,
mas que nunca teríamos uma chance. Eu já me sentia vazia e ele nem tinha
partido, ainda.
Me incomodava o fato de ele ter de voltar para casa para resolver a
situação da mãe. Não que sua comunicação com Randy fosse agradável, mas
aqui, pelo menos, eu poderia estar por perto para ajudá-lo. Ele realmente não
tinha muita sorte no quesito “pais”.
Ele tinha começado a se abrir para mim. Eu sabia que, se ele ficasse,
acabaríamos nos aproximando. Tentei convencer a mim mesma que seria
melhor assim, porque ele acabaria indo embora no verão, de qualquer forma.
Mas, por mais que conversasse comigo mesma, a dor no meu peito parecia
não querer ir embora.
Não conseguia evitar invejar todas aquelas garotas da escola que tiveram a
chance de estar com ele em um nível mais físico. Por mais que eu estivesse
conectada a ele de uma forma diferente e ainda melhor, ainda havia uma parte
da qual eu sentia falta.
Minha mãe deu uma passada rápida no meu quarto para checar como eu
estava e saber se eu tinha recebido a notícia de que Elec estava indo embora.
— Vocês pareciam estar começando a se dar bem. É uma pena que ele
queira voltar para a casa da mãe. Ele poderia ficar até o final do ano.
Já que minha mãe não sabia os reais motivos da volta de Pilar para casa, eu
somente assenti com a cabeça enquanto ela falava. Tentei ao máximo
mascarar as lágrimas até que elas começaram a cair de forma consistente. Ela
me deu um beijo de boa noite, e eu fiquei segurando uma boneca que tinha
desde os três anos de idade.
E era assim que minha noite parecia que ia terminar.

Ouvi uma suave batida na porta do meu quarto. Pensando bem, “suave”
não parecia uma palavra muito apropriada para o que aconteceu depois de eu
abri-la.
O peito dele estava subindo e descendo com uma respiração muito pesada.
— Você está bem?
Por alguns segundos, Elec estava olhando para mim como se não soubesse
como tinha chegado à minha porta.
— Não.
— O que houve?
Seus olhos demonstravam uma fome frenética.
— Foda-se o amanhã.
Antes que eu pudesse processar o que ele queria dizer, suas mãos cálidas
seguraram meu rosto, aproximando minha boca da dele. Um gemido baixo,
do fundo de sua garganta, fez a minha vibrar, e eu o respondi com um
suspiro. Seu peito pressionava meus seios, enquanto ele me empurrava para
dentro do quarto. A porta se fechou atrás dele.
O que estava acontecendo?
Sua boca estava quente e molhada ao devorar a minha, sua língua girava
em círculos, quase desesperadamente. Havia mais intensidade do que nas
outra duas vezes em que nos beijamos, e eu compreendi que Elec não estava
mais se controlando. Aquilo era diferente, e o prelúdio para algo maior.
Ele parou de me beijar por um momento, e suas mãos deslizaram do meu
rosto para minha nuca. Puxou meu cabelo, fazendo minha cabeça se inclinar
para trás. Ele lambeu a base do meu pescoço antes de trilhar um caminho de
beijos até minha boca.
Minha língua foi passando por seu piercing, e ele mordeu meu lábio
inferior em resposta, enquanto gemia por entre os dentes.
Eu queria mais.
Eu estava pronta.
Não havia nenhuma dúvida em minha mente; eu ia deixá-lo ir até o fim.
Quando ele parou para olhar para mim, aproveitei para perguntar o que eu
realmente precisava saber.
— O que aconteceu?
Ele pegou minha mão e me guiou até a cama, onde ele se sentou e me
ergueu, colocando-me sentada em seu colo, de frente para ele. O calor de sua
ereção pressionava meu clitóris, que parecia pulsar. Ele colocou a cabeça
bem no meio do meu peito e falou, grudado à minha camiseta, fazendo meus
mamilos ficarem eriçados.
— Quer saber o que aconteceu comigo? — Ele sussurrou, com a voz
rouca. — Eu finalmente abri a carta que escreveu para mim depois de ler o
meu livro. Foi isso que aconteceu. Ninguém nunca falou nada assim para
mim, Greta. Eu não mereço.
Corri meus dedos por seu cabelo, que mais pareciam seda.
— Você merece, sim. Reafirmo cada palavra.
Ele me olhou profundamente.
— As coisas que li naquela carta… vou carregá-las comigo para sempre.
Nunca vou poder retribuir o que acabou de me dar. Então, eu pensei em como
não pude te dar a única coisa que me pediu. Fiquei irritado assim que
comecei a guardar minhas coisas. Decidi que também prefiro ter uma noite
com você do que nenhuma. É uma merda de um ato egoísta, mas eu quero ser
o seu primeiro. Quero ser o primeiro a te ensinar tudo e quero ser aquele de
quem você vai se lembrar por toda vida. Mas só vou fazer isso se você tiver
certeza do que quer.
— Quero, mais do que tudo. — Abracei-o com mais força contra meu
peito.
Ele resistiu, olhando para mim novamente. Sua expressão estava séria.
— Olhe para mim, Greta. Porque eu preciso ter certeza que você está
mesmo decidida sobre o fato de que isso aqui vai acabar amanhã. Você nunca
vai poder contar para ninguém. Vou te dar tudo o que quiser esta noite,
contanto que entenda isso. Você precisa me prometer que pode lidar com
isso.
— Posso lidar com isso. Já te disse que eu quero que minha primeira vez
seja com você, mesmo que seja a única. Não quero que hesite. Quero que me
mostre tudo. Quero experimentar as mesmas coisas que aquelas garotas
experimentaram. Não quero que me trate diferente delas.
— Não vou te dar exatamente a mesma coisa… mas posso te dar mais.
Ok? Posso fazer melhor com você. Pode durar só por uma noite, mas vou
fazer com que cada segundo valha a pena.
Estava mesmo acontecendo.
Quando meus nervos me venceram, Elec percebeu e colocou as mãos nos
meus ombros.
— Você está tremendo. Talvez não seja uma boa ideia.
Eu ainda estava sentada em seu colo quando ele olhou para mim, em um
último momento de hesitação. Segurei seu rosto em minhas mãos e o beijei
de forma ainda mais profunda, na intenção de provar que eu estava mais
pronta do que nunca. Olhei bem dentro de seus olhos uma última vez, e disse:
— Eu quero.
Ele estudou meus olhos por muitos segundos antes de me tirar de cima dele
e levantar-se. Esfregando a ponta de seus dedos pelo meu pescoço, ele os
moveu devagar, até colocar as mãos ao redor dele como… se fosse me
enforcar. Mas não era nada disso. Só ficou segurando meu pescoço,
massageando-o gentilmente com seus polegares. Senti que começava a ficar
molhada só pela forma como ele estava me olhando, como se não houvesse
nada que ele quisesse mais no mundo do que me ter.
— Adoro seu pescoço. Foi a primeira coisa que eu quis beijar em você. É
tão longo e delicado.
Fechei meus olhos e inclinei minha cabeça para trás. Ele ainda não estava
me beijando, apenas acariciando meu pescoço gentilmente.
Finalmente, ele moveu suas mãos e levantou minha blusa. Seus olhos
pareciam de vidro ao olhar para meus seios.
Em um estúpido momento de insegurança, eu disse: — Eles são pequenos.
Elec beijou minha bochecha e falou bem perto do meu ouvido: — Que
bom. Eles cabem perfeitamente na minha boca.
Então, suas mãos apertaram a lateral do meu corpo e abaixaram meu short.
— Merda! — Ele murmurou e olhou para mim com um sorriso endiabrado
quando compreendeu que eu não estava usando nenhuma calcinha. Chutei
meu short para longe e fiquei de pé, de frente para ele, me sentindo
vulnerável.
Ele apenas continuou a olhar para mim por algum tempo, e o fato de ele
estar mantendo certa distância estava me enlouquecendo.
Enquanto seu olhar viajava pelo meu corpo, dos pés à cabeça, cada
movimento de seus olhos fazia com que eu sentisse que eles estavam me
tocando.
Ele deu um passo à frente e falou de forma suave, bem perto do lóbulo da
minha orelha.
— Tem alguma coisa que você queira que eu te ensine, primeiro?
Meu corpo estava tremendo por antecipação.
Eu queria tudo.
— Quais são minhas opções?
Ele coçou o queixo.
— Cordas, correntes, algemas… um cinto.
— Hummm…
Imediatamente ele tocou meu rosto com suas mãos.
— Ah, meu Deus. Você é tão fofa — ele me beijou com firmeza nos
lábios. — Uma pequena parte de você achou que eu estava falando sério. Foi
uma piada.
— Eu entendi. Só não tinha cem por cento de certeza.
— Então… nada em particular?
— Você podia começar me tocando, ou talvez possa tirar suas roupas
também.
— Você quer que eu tire minhas roupas, hein?
— Não é assim que funciona, normalmente?
Ele balançou a cabeça e apertou meu nariz.
— Não.
— Não?
— Você vai tirar minhas roupas. Mas não antes de brincarmos um
pouquinho.
— Brincar?
— Você não tem experiência. Não posso só ficar pelado e começar a te
foder. Você precisa estar pronta para mim. Vai doer na primeira vez de
qualquer forma, então precisamos ter certeza de que você está o mais
molhada possível. Às vezes, menos é mais, na primeira vez, porque quanto
mais eu demorar, mais você vai querê-lo, então, estará cada vez mais pronta.
Guiando-me até a cama, ele se deitou com as costas na cabeceira da cama e
me puxou para que eu ficasse sentada sobre ele. Ele estava completamente
duro, embaixo de mim.
— Você já está pronto. — Brinquei.
— Eu estou pronto desde o dia em que entrei por aquela porta, dei uma
olhada em você e compreendi que estava ferrado.
— Você sempre me quis assim?
Ele assentiu.
— Fiz um bom trabalho em esconder por um tempo, não fiz?
— Parece que sim.
Ele me puxou ainda mais de encontro à ereção que parecia explodir para
fora de seu short de estampa militar.
— Agora está bem óbvio, não está?
O vão entre minhas pernas estava latejando enquanto eu esfregava minhas
mãos na camiseta preta colada em seu peito.
— Sim.
Como a escuridão de um cinema antes do início de um filme, o brilho da
expressão em seus olhos desapareceu, indicando que as coisas estavam
prestes a começar. Ele colocou as mãos no meu pescoço outra vez. Depois as
deslizou para baixo, cobrindo meus seios, massageando-os devagar e com
firmeza. Esfreguei-me em seu pênis para satisfazer a excitação que crescia
em mim a cada movimento de suas mãos.
Ele manteve uma das mãos em meu seio e ergueu a outra até meu rosto,
esfregando o polegar na minha boca, colocando dois dedos dentro dela.
— Chupe.
Sua pele tinha um gosto salgado. Eu apertei os músculos entre minhas
pernas, sentindo-me muito estimulada por seu olhar, enquanto ele observava
seus dedos se movendo para dentro e para fora da minha boca.
Quando ele os tirou de lá, esfregou a umidez da minha saliva no meu
mamilo direito e lambi sua outra mão antes que ele esfregasse os dedos no
meu lado esquerdo.
— Eles são perfeitos — Elec deslizou ambas as mãos para baixo do meu
corpo e as colocou ao meu redor, apertando minha bunda. — E, ela, também
— ele me deu um selinho e sorriu. — Eu quero fazer coisas com ela. — Ele
disse, enquanto a apertava com mais força.
Eu queria tanto que ele me beijasse ou que colocasse a boca em mim de
alguma forma enquanto me tocava, mas ele só continuou a olhar para mim,
massageando minha bunda. Deslizando minhas mãos por sob sua blusa,
continuei a me esfregar em seu pênis.
— Posso tirar suas roupas?
— Ok… mas só a camisa.
Eu a tirei por sobre sua cabeça, fazendo com que seu cabelo desgrenhado
ficasse mais bagunçado ainda. Maravilhei-me com o contorno de seu peito
sarado e bronzeado. Ele tinha um pequeno piercing no mamilo esquerdo. Já o
tinha visto sem camisa várias vezes antes, mas nunca estivera tão perto ou
com liberdade para tocá-lo.
Passei minhas mãos pelas tatuagens em seus braços, pela palavra “Lucky”
no direito e a maior, que parecia uma manga de camisa, no esquerdo, depois
pelos trevos em sua barriga. Corri meus dedos pelo caminho de pelos que
guiava até o seu short. Ele enrijeceu o abdômen por causa do meu toque, e eu
senti seu pênis se contorcer.
— Ponto sensível?
— Foi… quando você tocou minha barriga.
Em me inclinei e beijei seu peito gentilmente, e aquele gesto íntimo
pareceu ter algum efeito sobre ele. Quando recuei, ele me pegou de surpresa,
me puxando para baixo dele e me segurando ali por um tempo. Meu peito nu
estava espalhado contra seu coração, que batia desconfortavelmente rápido.
— Por que seu coração está acelerado? — Perguntei.
— Porque você não é a única que está tentando algo novo.
— Do que você está falando?
— Nunca fui o primeiro de ninguém.
— Sério?
— Sim… sério.
— Está nervoso?
— Só não quero te machucar. — Pela forma como olhou para mim ao
dizer isso, fez com que eu entendesse que ele não estava falando sobre dor
física. Não queria que eu me apegasse.
Meu coração se apertou, e tive quase certeza que era mentira quando eu
disse: — Você não vai.
Vai sim, mas eu te quero da mesma forma.
— Eu te quero tanto agora, mas estou me segurando porque estou com
medo do que isso vai fazer com você.
— Elec, você me perguntou o que eu queria. O que eu quero é que você
não se segure. Só temos esta noite. Por favor… não se segure.
Pela primeira vez desde que ele entrara naquele quarto, ele me beijou com
a mesma fome fervorosa que eu desejava, me prendendo com sua língua e
gemendo dentro da minha boca. Virou-me de costas e se ajoelhou sobre mim,
me fazendo prisioneira em seus braços. Seu cabelo bagunçado caiu por sobre
seus lindos olhos cinzentos enquanto ele olhava para baixo e mais uma vez
enfiava dois dedos dentro da minha boca. Compreendi que, se quisesse deixá-
lo mais confortável, fazê-lo desapegar-se de sua apreensão, eu precisava dar o
primeiro passo.
Segurei sua mão e chupei seus dedos com força, fazendo-os chegarem
quase até minha garganta. Seus olhos estavam semicerrados, enquanto lambia
seus lábios, ao intencionalmente me observar fazer isso. Então, ele tateou
minhas pernas e as abriu.
— Linda — ele sussurrou enquanto deslizava um dedo para dentro de
mim. — Deus, você está tão molhada. — Ele o retirou e trocou-o por dois
dedos, afundando-os o máximo que pôde. Perdi o fôlego.
— Está bom?
— Sim.
Ele começou a mover os dedos para dentro e para fora com mais força e
mais rapidez. Eu chegava a ouvir o quão molhada eu estava. Unindo meus
seios e apertando-os, inclinei a cabeça para trás, e meu corpo estremeceu.
Comecei a perder o controle, movendo meus quadris para que encontrassem
sua mão. Ele sentiu isso quando tirou de repente os dedos de dentro de mim.
— Não goze ainda. — Ele disse.
Ele me girou até que eu estivesse por cima dele novamente, e me moveu
para frente e para trás em cima de seu pênis. Seu short ficou encharcado de
mim. Em um dado momento, eu teria gozado, se deixasse.
Parecia que ele tinha a habilidade de perceber quando eu estava prestes a
chegar ao ponto máximo. Sendo assim, parou e recuou.
— Está pronta, agora?
— Sim, já estou pronta.
— Quero que se toque.
Eu estava ajoelhada sobre ele enquanto meus dedos esfregavam meu
clitóris. Meus joelhos começaram a tremer.
— O que você quer, Greta?
— Quero te ver nu.
— Então, pegue o que você quer.
Abri seu short com minha mão livre, e ele me ajudou a abaixá-los. Quando
seu pênis saltou para fora de sua cueca, me senti tão chocada quanto na
primeira vez em que o vi.
Ele sorriu, sabendo muito bem o motivo da minha reação.
— Algo errado?
— Eu só…
Ele estava abafando uma risada.
— Parece que você quer me fazer algumas perguntas.
— Não mesmo… Eu…
— Pode fazê-las, agora.
Dei uma olhada no piercing redondo.
— Ele pode rasgar a camisinha?
— Nunca aconteceu. Eu uso uma extra-grande por causa disso… e por
outra razão, também. — Ele deu uma piscadinha.
Ri de nervoso, realmente não entendendo como ele iria caber dentro de
mim.
— Machuca?
— Levou algum tempo para parar de doer, mas não mais.
— Vai me machucar?
— Já me disseram que ele aumenta o prazer.
— Uau.
— Mais alguma coisa?
— Não. Estou satisfeita.
— Tem certeza? É sua chance de fugir.
Inclinei-me e pressionei meus lábios contra os dele, e nós dois rimos
através do beijo.
Senti o metal do piercing enquanto seu pênis deslizava por meu estômago.
Encolhi os músculos entre minhas pernas com uma nova necessidade de me
satisfazer.
Ele me tirou de cima dele e colocou minha mão em seu pênis.
— Toque em mim enquanto toca a si mesma, e pare quando eu pedir para
parar.
Com uma mão em meu clitóris e a outra nele, fiz o que Elec pediu. Nada
nunca me deixou tão excitada quanto sentir a umidade na ponta de meus
dedos, senti-lo quente e escorregadio, ficando ainda maior do que antes.
Adorei observá-lo enquanto ele me observava.
Ele estava respirando fora de controle.
— Pare.
— Quero te sentir dentro de mim. Agora. — Eu disse.
— Vai sentir. Tem uma coisa que eu preciso fazer antes… só para saber se
está pronta.
— O quê?
Ao invés de responder, ele deslizou o corpo para debaixo de mim e me fez
subir na cama. Eu ainda não tinha certeza do que ele estava fazendo, mas
ficou claro que ele estava posicionando seu rosto bem debaixo da minha
virilha. Ofeguei quando senti a melhor sensação da minha vida. Eu não podia
imaginar o quanto seria bom ter sua boca pressionada contra mim. Ele
esfregava sua língua de forma lenta, mas firme. Quando ele gemeu, vibrou
bem no centro do meu corpo, e eu deixei escapar um som ininteligível.
— Shhh — ele disse, contra mim. — Temos que ficar quietos.
Era impossível.
— Você precisa parar.
— Não quero. Você tem um gosto muito bom. — Ele disse, enquanto sua
língua continuava a me lamber. Então, ele deslizou pela minha abertura
enquanto pressionava sua boca com ainda mais força no meu clitóris.
Ah, meu Deus!
— Vou gozar se não parar, Elec.
Ele chupou meu clitóris pela última vez e, bem devagar, libertou-me da
pressão de sua boca. Sentia uma pulsação entre minhas pernas, me fazendo
tremer enquanto lágrimas saíam dos meus olhos.
Elec deslizou por debaixo de mim, pegou meu rosto em suas mãos e sorriu
para mim.
— Agora… você está pronta.
Ele colocou a mão no bolso de seu short, que estava no chão, e pegou uma
camisinha. Rasgou o pacote com seus dentes, e a expressão em seus olhos me
encheu de antecipação. Elec desenrolou a borracha por seu pênis e apertou a
ponta.
Posicionei-me debaixo dele, ele me beijava profundamente enquanto
esfregava seu pênis contra meu sexo. Eu não pude mais aguentar e o peguei
em minhas mãos, guiando-o até minha fenda.
— Vá com calma — ele avisou. — Vai doer.
— Não me importo.
— Vai se importar — ele abriu meus joelhos o máximo que pôde. —
Segure-se em minhas costas e me aperte, me bata, me morda… faça o que
tiver que fazer se sentir dor, mas, por favor, não grite. Eles não podem saber
que estamos aqui.
Por mais molhada que eu estivesse, senti queimar como o inferno na
primeira vez que ele tentou entrar em mim. Afundei as unhas em suas costas
para conter o desconforto. Respirei fundo. Não demorou muito para a dor se
tornar tolerável. Nunca vou me esquecer da forma como me senti quando ele
já estava completamente dentro de mim pela primeira vez, nem o som que ele
emitiu. Elec mantivera o controle até aquele momento, quando fechou os
olhos e gemeu: — Greta… Isso aqui… Você… Ah, merda!
Com cada movimento subsequente, a penetração antes dolorosamente
desconfortável começou a se tornar dolorosamente incrível. Ele ainda estava
pegando leve, mas, honestamente, pela expressão em seu rosto, não sei se ele
conseguiria aguentar por muito mais tempo.
Ele o retirou bem devagar e, então, o colocou de volta ainda mais devagar.
— Está mais difícil me controlar do que eu pensei que seria. Você é tão
apertada. Está tão bom, indescritível. Preciso gozar, mas o prazer precisa ser
seu.
Como se ele tivesse ordenado, meus músculos começaram a contrair.
— Eu vou. Agora. Ah, Deus, Elec! — Gritei seu nome alto demais.
Ele colocou a mão sobre minha boca.
— Shhh… Ah, meu Deus, Greta! Merda… Greta. — Ele sussurrou
enquanto gozava, com seu pênis pulsando dentro de mim. Eu podia sentir o
calor de seu gozo pela camisinha enquanto seu coração pulsava de encontro
ao meu.
— Essa foi a coisa mais incrível que já senti na vida. — Eu disse.
— É… — Ele beijou meu nariz. — E eu ainda nem te fodi de verdade.
O FATO DE ME SENTIR VAZIA SÓ PORQUE ELE SE LEVANTOU PARA IR AO
banheiro não era um bom sinal de como eu me sentiria amanhã. Faltavam
poucas horas para sua partida, e eu já estava desejando sentir de novo seu
cheiro e seu toque naqueles dois minutos de separação.
Era conveniente ter uma pequena suíte em meu quarto, uma vez que ele
acabaria acordando Randy e minha mãe se tivesse de ir até o final do
corredor. Elec logo voltou com uma pequena toalhinha e se deitou ao meu
lado.
— Abra suas pernas — ele colocou a toalha no meio delas e a segurou ali.
— Melhorou?
— Sim, melhorou. Obrigada.
Eu não estava sentindo assim tanta dor, mas o calor do tecido era
confortante.
— Está doendo?
— Não. Não está tão mal assim. Em breve já estarei bem para tentarmos de
novo.
— Vamos tentar. Só quero que descanse um pouco.
O quarto estava escuro, com exceção de uma luz que vinha do banheiro.
Durante a hora seguinte, nos levantamos algumas vezes para trocar o tecido
por um mais quente. Ele só se deitava ao meu lado, segurando-o entre minhas
pernas. Nós dois estávamos completamente nus, e me surpreendeu o fato de
que eu me sentia completamente confortável dessa forma. Eu quase desejei
que ele não estivesse sendo tão carinhoso e doce comigo.
Conversamos muito durante aquela hora: sobre sua escrita, sobre minhas
dúvidas em me tornar professora, sobre nossos planos para o próximo ano.
Ele iria para uma faculdade comunitária próximo à sua casa, em Sunnyvale.
Estaria sempre em casa, de olho em Pilar, e planejava arrumar um emprego
próximo, também.
Elec falava de tudo abertamente, menos sobre sua história com Randy.
Aquilo ainda estava fora dos limites, quando tentei trazer o assunto à tona.
Os números vermelhos do relógio digital zombavam de mim. Já eram três
da manhã. Meu coração começou a palpitar, e eu comecei a entrar em pânico.
Não havia muito mais tempo. Ele deve ter lido minha mente porque, de
repente, me virou de costas, me fazendo ficar encostada nele.
— Não vá para este lugar. — Ele disse, perto dos meus lábios.
— Para onde?
— Para onde quer que sua mente esteja te levando.
— É difícil.
— Eu sei. O que posso fazer para que se sinta melhor?
— Me faça esquecer.
Ele ficou olhando para mim por um bom tempo antes de colocar sua mão
ao redor do meu pescoço gentilmente.
Era isso que ele fazia. E eu adorava.
— Sei que já disse isso antes, mas você realmente quer que te mostre como
eu faço isso?
— Sim.
— Você não quer que eu guarde algo?
— Não pegue leve desta vez, Elec. Por favor.
Ele olhou para mim pelo que pareceu um minuto inteiro e disse: — Vire-
se.
Só esse comando já me deixou molhada entre as pernas.
Senti um arrepio quando sua mão forte deslizou por toda extensão das
minhas costas. Então, com ambas as mãos, ele apertou com firmeza minha
bunda, antes de abaixar sua boca e mordê-la gentilmente… várias vezes.
Ele sussurrou contra minha pele.
— Adoro sua bunda. — Suas palavras fizeram meus músculos enrijecerem
de antecipação.
Suspirei quando sua boca quente pousou entre minhas pernas, com ele
ainda atrás de mim. A sensação de tê-lo daquele ângulo era demais para
suportar. Eu estava pulsando inteira enquanto ele me lambia e chupava como
se eu fosse sua última refeição. Os sons que ele fazia estavam me
enlouquecendo.
— Deus, você tem um gosto tão bom. Podia ficar fazendo isso a noite
inteira. — Ele gemeu para mim.
Quase gritei bem alto em um certo ponto, mas ele puxou meu cabelo para
aproximar meu rosto do dele.
— Shhh. Você vai nos criar problemas. — Ele disse, antes de deslizar a
língua por minha boca e me beijar com o gosto do meu próprio gozo.
Seu beijo percorreu a extensão das minhas costas, e ele, de repente, parou.
— Merda, não posso mais suportar. Precisamos ir para o chão, porque essa
cama vai fazer muito barulho.
Joguei alguns travesseiros no chão sem demora e desci, me apoiando nos
cotovelos e nos joelhos.
Estava quieto. Quando virei minha cabeça para vê-lo, seus olhos estavam
fixos em mim, enquanto ele acariciava o próprio pênis.
— Você assim, de quatro… Nada nunca me excitou tanto em toda minha
vida.
Observá-lo dando prazer a si mesmo enquanto olhava para mim foi a coisa
que mais me excitou na vida.
Quando me virei, eu o ouvi rasgar a embalagem da camisinha, enquanto eu
olhava para trás pela última vez para vê-lo se masturbar.
— Relaxe. — Ele disse, enquanto deslizava uma das mãos pelas minhas
costas e a colocava na base do meu pescoço. Passei a amar a erótica sensação
daquele jeito como ele me segurava. Depois de sentir uma ardência inicial,
seu pênis afundou em mim com facilidade, e eu soube que aquela experiência
seria diferente do que da primeira vez.
— Diga se começar a ficar intenso demais.
Eu sabia que eu nunca diria isso.
A cada momento tornava-se mais intenso. Ele deixava escapar um suspiro
a cada estocada que eu sentia em minhas costas enquanto ele continuava a
segurar meu pescoço. Ele estava em uma zona só dele, finalmente deixando
de lado toda apreensão.
E lá estava Elec me fodendo.
Eu queria que ele continuasse, ver até onde poderia ir.
— Me foda com mais força.
Aquilo fez com que ele agarrasse meus quadris enquanto fazia com mais
força. Era impossível não gritar, porque estava muito bom. De uma forma
estranha, ter que refrear qualquer barulho engarrafava o prazer dentro de mim
e o intensificava. Comecei a combinar o ritmo de seus movimentos com o
meu corpo, e isso pareceu levá-lo ao limite.
— Comece a se tocar, Greta.
Massageei meu clitóris inchado enquanto ele começava a ir mais devagar
para encorajar o meu clímax. Eu podia senti-lo cada vez mais fundo dentro de
mim, agora. Ele gentilmente empurrou meu torso para baixo, para que minha
bunda se empinasse mais. A penetração naquele ângulo tornava-se mais
intensa, tão profunda que eu podia sentir-me à beira do orgasmo.
— Está sentindo isso? — Ele sussurrou.
— Sim. Sim. Está incrível.
— Eu nunca fui tão fundo em ninguém, dessa maneira. Nunca foi assim,
para mim — ele ofegou. — Nunca.
— Ah, Deus… Elec…
— Quero que goze primeiro, e, então, quero gozar nas suas costas.
Ouvi-lo dizer aquilo me fez desmoronar. Minha mão estava pressionada no
carpete para mascarar o som do orgasmo que pulsava dentro de mim.
Quando ele sentiu que eu estava prestes a gozar, começou a ir com mais
força. Ele o tirou de mim e arrancou a camisinha. Então eu senti o líquido
quente se espalhar pelas minhas costas. Não era algo que eu pensei que fosse
gostar… mas eu amei.
— Já volto. — Ele disse, correndo até o banheiro para pegar uma toalha.
Depois de me limpar, ele me levantou do chão e me levou para a cama.
Os números vermelhos do relógio digital continuavam a me deixar
extremamente nervosa. Já eram quatro da manhã. Deitamos, um de frente
para o outro, com nossos lábios muito próximos.
Ele acariciou meu rosto com o polegar.
— Você está bem?
— Sim — eu sorri. — Isso foi louco.
— Esperava por aquele grand finale?
— Não… hum… foi uma surpresa. — Ri.
— Nunca fiz isso antes. Queria tentar algo novo, também.
— Sério?
— Queria que tivéssemos mais tempo. Queria fazer tudo com você.
— Eu também.
Queria que tivéssemos o para sempre.

A exaustão por causa de nossas atividades deve ter me vencido, porque eu


não me lembro de ter adormecido.
Eram cinco da manhã, e o Sol estava começando a nascer quando acordei
com Elec deitado em cima de mim, beijando meu pescoço gentilmente. Ele
estava rígido e usava camisinha. Sua respiração estava inconstante enquanto
ele continuava a beijar meu pescoço e a chupar meus seios.
Sentindo-me molhada e pronta para ele, eu acordei ainda mais excitada do
que estivera durante toda a noite.
Ele beijou minha barriga e foi subindo até que eu o senti me penetrando.
Suas estocadas eram lentas, mas intensas. Seus olhos estavam fechados, e ele
tinha uma expressão de dor, nos olhos. Um fluxo de emoções me inundou de
repente enquanto a realidade do que acontecera na noite anterior e o que
estava prestes a acontecer me atingiu.
O relógio zombou de mim outra vez. Estávamos correndo contra o tempo.
Meu coração parecia estar se partindo cada vez que ele penetrava em mim.
Ele começou a me beijar, e sua boca não largou a minha enquanto empurrava
mais fundo dentro de mim, com movimentos lentos e controlados. Aquela
vez era diferente do que as outras duas. Parecia que ele estava tentando me
dizer, com seu corpo, o que não conseguia dizer com palavras.
Era como se ele estivesse fazendo amor comigo.
Se houvesse alguma dúvida quanto a isso, foi eliminada no momento em
que ele parou de me beijar e aproximou seu rosto do meu com os olhos
abertos enquanto me fodia bem devagar. Não deixou de olhar em meus olhos,
depois disso. Era como se ele não quisesse perder nenhum momento, porque
sabia que podia ser o último. Ele não estava querendo me mostrar mais nada.
Parecia querer guardar algo para si mesmo.
O reflexo da minha própria expressão em seus olhos cinzentos me contava
o meu lado da história. Definitivamente, eu tinha mentido. Menti para ele e
para mim mesma ao dizer que podia suportar tudo. Foram só algumas horas,
mas parecia uma vida inteira que tinha sido criada dentro daquele quarto,
naquela noite, e que estava prestes a ser destruída.
Seu corpo encolheu no momento em que seu orgasmo, de repente, veio à
tona. Seus olhos ficaram fixos nos meus enquanto ele abria a boca em um
grito silencioso. Meus músculos enrijeceram durante o clímax, quando eu o
observei. Ele continuou a se movimentar dentro de mim, bem devagar, até
não sobrar nada de seu orgasmo.
Sua voz estava rouca.
— Me desculpe. — Ele sussurrou.
— Tudo bem. — Eu disse, não sabendo exatamente a o que ele estava se
referindo. Será que tinha sido por gozar antes de mim? Ou porque iria me
abandonar em poucas horas? Ou por ter visto a expressão em meus olhos e
saber exatamente o que eu estava sentindo? De qualquer forma, não mudava
o fato de que ele estava indo embora.
Elec ficou com a cabeça encostada em meu peito até que sua respiração se
acalmou.
Quando voltou, depois de jogar a camisinha fora, coloquei o relógio para
despertar às sete. Elec encostou seu rosto em meu coração, fechou os olhos e
me abraçou por uma última vez, até adormecermos.

No momento em que o alarme soou, eu dei um pulo e descobri que a cama


estava vazia. Meu coração começou a acelerar.
Ele foi embora sem dizer adeus.
O Sol já estava se derramando pela minha janela, em um rude despertar.
Enterrei a cabeça nas minhas mãos e chorei. Era minha culpa. Eu sabia que
isso iria acontecer e tinha que deixar acontecer. Meus ombros começaram a
tremer enquanto lágrimas atravessavam os sulcos que separavam meus dedos.
A dor entre minhas pernas, que eu nem sequer tinha notado na noite anterior,
no auge da loucura do sexo, começava a se manifestar.
Meu corpo se encolheu quando senti uma mão nas minhas costas.
Virei-me só para ver Elec de pé na minha frente, com olhos sombrios e
vazios.
— Você me prometeu que conseguiria lidar com isso, Greta — e ele
repetiu, de forma quase inaudível: — Você prometeu, merda!
Minha boca tremeu.
— Pensei que tinha ido embora sem dizer adeus.
— Voltei para o meu quarto para que Randy e Sarah não me pegassem
aqui quando acordassem. Eles já saíram. Acabei de fazer minhas malas.
Funguei e me levantei: — Ah…
— Eu não faria isso com você… Ir embora sem dizer adeus…
Principalmente depois do que aconteceu entre a gente.
Sequei meus olhos.
— Qual é a diferença? Não muda o que está por vir.
— Não, não muda. Não sei o que dizer a não ser que a noite passada…
significou muito para mim. Quero que saiba disso. Nunca vou esquecer o que
você me deu. Nunca vou esquecer nada disso. Mas você sabia que ia ter fim.
— Não sabia que ia me sentir assim.
Suas mãos estavam dentro dos bolsos, e ele olhou para o chão, depois
ergueram-se na minha direção.
— Foda-se. Eu também não sabia. — Quando ele se inclinou para me
abraçar, eu recuei.
— Não… por favor. Não quero que me toque. Isso só vai ficar pior.
Eu nem conseguia falar enquanto mais lágrimas desciam por meu rosto.
Balancei a cabeça em descrença por ver o quanto estava perdendo a
compostura.
Pigarreei.
— A que horas você tem de ir?
— Um táxi vai chegar a qualquer minuto. Vou levar pelo menos uma hora
para chegar ao aeroporto, com o trânsito.
Uma nova lágrima caiu.
— Droga! — Eu disse, limpando-a.
— Já volto. — Ele disse.
Ele saiu para levar a bagagem para o andar de baixo. No momento em que
ele retornou para o quarto onde eu estava, uma buzina tocou do lado de fora.
— Merda. Espere. — Ele disse, saindo do quarto.
Olhei pela janela e vi Elec carregando o porta-malas do táxi. Quando ele
fechou a porta, quase pude sentir a batida em meu coração.
Elec disse algo ao motorista e voltou para o andar de cima. Eu ainda estava
olhando pela janela quando ouvi seus passos, atrás de mim.
— Pedi que esperasse. Não vou embora até que olhe para mim.
Virei-me. Ele deve ter visto o desespero espelhado no meu rosto.
Seus olhos se encheram de água.
— Merda. Não quero te deixar assim.
— Tudo bem. Não vai ficar mais fácil daqui a pouco. Você vai perder o
voo. Vá.
Ignorando meu aviso anterior de que não queria ser tocada, ele segurou
meu rosto e olhou bem fundo nos meus olhos.
— Eu sei que é difícil para você entender. Ainda não me abri com você em
relação ao meu relacionamento com Randy. Sem que você saiba tudo ou sem
que entenda o real problema da minha mãe, não vai fazer sentido. Só tenha
certeza de que, se eu pudesse ficar com você, eu ficaria — ele me beijou de
maneira casta nos lábios e continuou: — Sei que, por mais que eu tenha
avisado, você me entregou um pedaço do seu coração na noite passada. E,
por mais que eu tenha tentado impedir, te dei um pedaço do meu. Sei que
você percebeu isso hoje de manhã. Quero que o mantenha com você. E
quando decidir entregar o resto do seu para outro cara, um dia, por favor,
tenha certeza de que ele te merece.
Elec me deu um último beijo desesperado. Meus olhos estavam ardendo.
Quando ele se afastou, agarrei sua jaqueta, tentada a nunca deixá-lo partir.
Ele esperou até que minhas mãos o soltassem para que se virasse e fosse
embora.
Sendo assim, ele saiu da minha vida tão rápido quanto entrou.
Eu fiquei parada em frente à janela; mas me arrependi no momento em que
ele olhou para mim pela última vez, antes de entrar no táxi com um pedaço
do meu coração, que ele sabia que tinha tirado de mim. Quanto ao resto do
coração, que foi deixado para trás: estava partido.

Mais tarde, naquela noite, meu telefone apitou. Era uma mensagem de
texto de Elec, com um link.

No avião, eu compreendi que seu nome tem a ver com você. Você é
GRANDE. Greta = Great. Você é maravilhosa, na verdade. Não se
esqueça disso. E essa música sempre vai me fazer me lembrar de você.

Demorei algumas horas antes de sentir coragem de clicar no link. O nome


da músida era All I Wanted, do grupo Paramore. Era sobre desejar alguém
que não se pode ter e querer reviver o pouco tempo que passaram juntos,
desde o começo.
Eu repeti a música várias vezes em um ciclo tortuoso que incluía inalar seu
cheiro, que permanecia em sua blusa, que eu ainda estava usando, e nos meus
lençóis.
Elec só entrou em contato comigo mais uma única vez em sete anos.
E isso foi em uma noite qualquer, quase um ano depois de ir embora de
Boston, eu estava com Victoria. Eu estava exatamente pensando nele quando
uma mensagem de texto chegou e foi como um choque para meu coração.

Ainda sonho com seu pescoço. Ainda penso em você todos os dias. Por
alguma razão, só precisava que você soubesse disso, esta noite. Por favor,
não responda.

Não respondi.
Apesar de sentir as lágrimas caindo facilmente enquanto lia a mensagem,
não respondi. Ele não fazia contato há muito tempo, então, entendi que ele
deveria estar bêbado. Mesmo que não estivesse, não teria mudado nada.
Entendo isso, agora. Na verdade, tornei-me expert em enterrar meus
sentimentos por Elec. A distância tornou isso possível. Nas poucas vezes que
desapontei a mim mesma, me deixando levar pela curiosidade de checar
online, vi que ele não estava nas redes sociais.
Randy também tinha parado de ir à Califórnia, agora que Elec tinha se
tornado um adulto.
Mesmo depois de muitos anos, meu coração ainda doía, sempre que me
permitia pensar naquela única noite que passamos juntos. Então, controlei-me
o máximo que pude para não ir até lá – O que os olhos não veem o coração
não sente, certo? Este lema é só uma solução temporária – até que você seja
forçado a ficar cara a cara com aquilo do que fugia. Mas foi assim que as
paredes mentais que construí para me esconder vieram abaixo, com apenas
um golpe.
— O RANDY ESTÁ MORTO.
Em um primeiro momento, pareceu ser um sonho. Foi no meio da noite, e
eu tinha bebido muito em uma saída com meus amigos, em Greenwich
Village, na noite anterior. Quando o telefone tocou, às três da manhã, meu
coração começou a bater mais forte, e só ouvir aquelas palavras, logo de cara,
o fez parar de uma só vez.
— Mãe?
Ela perdeu o fôlego com tantos soluços.
— Randy morreu, Greta. Teve um ataque cardíaco. Estou no Mass
General. Não conseguiram salvá-lo.
— Mamãe, respire. Por favor.
Minha mãe estava chorando incontrolavelmente, me fazendo me sentir
impotente, porque não havia nada que eu pudesse fazer do meu apartamento
em Nova York.
O casamento dela com Randy permaneceu intacto por anos, embora, nos
últimos meses, estivessem passando por tempos difíceis. Randy nunca
demonstrou, com minha mãe, o mesmo desrespeito que tinha para com Elec,
mas sempre tivera um temperamento cheio de altos e baixos, com o qual era
difícil conviver.
A verdade era que minha mãe tinha perdido sua alma gêmea quando meu
pai morrera, muitos anos atrás. Seu casamento com Randy tinha muito mais a
ver com conveniência e estabilidade. Mesmo com seu salário modesto de
vendedor de carros, ele provinha nosso sustento muito bem. Minha mãe
nunca trabalhou, e não era do tipo que se virava bem sozinha. Randy foi a
primeira pessoa com quem ela se envolveu após a morte de papai. Eu sempre
tive a impressão de que Randy era muito mais apaixonado por ela do que ela
por ele. Mesmo assim, perdê-lo iria colocar seu mundo de cabeça para baixo.
Comigo vivendo longe dela, ele se tornou seu mundo inteiro, sem mencionar
que era o segundo marido que perdia prematuramente. Eu não sabia como ela
iria lidar com isso.
Comecei a tremer.
— Ah, meu Deus! — Respirei fundo na tentativa de me recompor. —
Sinto muito. Sinto muito, mãe.
— Ele morreu antes que eu conseguisse chegar ao hospital.
Levantei-me e, imediatamente, tirei uma mala pequena do armário.
— Olha, eu vou ver onde consigo alugar um carro a essa hora. Vou tentar
chegar aí pela manhã. Fique em contato comigo por telefone e me avise
quando chegar em casa. Tem alguém com você?
Ela fungou.
— Greg e Clara.
Isso me fez me sentir melhor. Greg era um dos amigos mais antigos de
Randy, que se mudou com sua esposa para os subúrbios de Boston alguns
anos depois de conseguir uma transferência do emprego.
Quando eu, finalmente, consegui encontrar uma locadora de carros aberta,
peguei a estrada, e já era por volta das cinco da manhã.
Durante as quatro horas de viagem até Boston, minha mente encheu-se de
pensamentos sobre o que significaria a morte de Randy. Será que eu teria de
deixar meu emprego na cidade e voltar para Boston por causa da minha mãe?
Será que ela teria que trabalhar pela primeira vez na vida para se sustentar?
Quanto tempo eu demoraria para encontrar um trabalho? E foi então que me
lembrei.
Elec.
Elec.
Ah, meu Deus, Elec.
Será que ele sabia sobre Randy? Será que ele viria para Boston, para o
enterro?
Será que eu teria que encará-lo?
Minha mão agarrava o volante ansiosamente, enquanto a outra trocava a
música no rádio, sem conseguir encontrar nada que pudesse abafar o barulho
na minha cabeça.
Mesmo depois de sete anos, e de um noivado frustrado com outro homem,
minha única desilusão amorosa continava nas mãos de meu meio-irmão.
Agora, meu coração se partia por causa dele de uma forma diferente; não só
porque minha mãe estava perdendo seu marido, mas porque Elec tinha
acabado de perder o pai.
Randy era muito jovem para morrer. Além disso, por mais que sua relação
com Elec fosse horrível, o fato de eles nunca terem feito as pazes me
entristecia. Nada mexia tanto com minhas emoções quanto pensar no meu
meio-irmão. Mesmo me separando de mamãe e Randy, nada nunca mudou.
Dois anos depois de me formar na faculdade comunitária de Boston, me
transferi para uma universidade pequena fora de Manhattan, onde me formei
em Artes. Assim que saí da escola, consegui um emprego administrativo na
cidade. Já estava vivendo em Nova York há três anos, quando conheci Tim.
Ficamos juntos por dois anos. Tim trabalhava com venda de softwares e
viajava muito. Moramos juntos por um ano, até que seu chefe solicitou que
fosse transferido para um cargo na Europa. Ele o aceitou sem nem discutir
comigo, e, quando me recusei a me mudar com ele, acabamos terminando.
Sua mudança me obrigou a tomar uma decisão que acabaria tomando mais
cedo ou mais tarde. Ele era um homem bom, mas não tinhamos a paixão que
eu tanto desejava. Mesmo no início do nosso relacionamento, nunca houve a
adrenalina ou o frio na barriga que experimentei durante o breve tempo que
passei com Elec. Quando aceitei o pedido de Tim, esperava que as coisas
mudassem e que eu passasse a amá-lo como ele merecia. Isso nunca
aconteceu.
Eu tive dois namorados antes de Tim, e aconteceu a mesma coisa. Sempre
comparava meus sentimentos por ele à minha louca atração por Elec. Por
mais que eu soubesse que Elec já tinha saído da minha vida, eu não podia
evitar comparações com ele, tanto sexual quanto intelectualmente. Por mais
que não demonstrasse na superfície, Elec era profundo. Possuía muitas
camadas, e sua escrita mostrava isso. E devia haver muito mais que eu nunca
chegara a conhecer ou desvendar. Eu queria encontrar alguém com as
mesmas qualidades que ele. Uma coisa que meu tempo com Elec demonstrou
foi que, desejo sexual e um sentimento pleno, eram tão importantes para mim
quanto conexão emocional.
Meus outros namorados eram caras legais, mas simples demais. Era triste,
mas eu preferia ficar sozinha do que me entregar a alguém que não me
provocava nenhuma faísca. Eu esperava que, algum dia, ainda chegasse a
sentir uma química real com alguém.
Ver a placa Bem-vindo a Massachusetts me deixou ansiosa. Havia muitas
coisas que eu ainda não sabia a respeito do que iria acontecer nos próximos
dias. Eu tinha de ajudar minha mãe com o funeral, e isso com certeza iria
acionar flashbacks daquele período horrível, quando tivemos que fazer a
mesma coisa pelo meu pai.
Quando estacionei na frente da casa, o Nissan de Randy estava parado à
esquerda, e eu me encolhi só de vê-lo. Usei minha chave para entrar e
encontrei minha mãe olhando fixamente para uma xícara de chá, na cozinha,
com as luzes apagadas. Ela nem percebeu, quando entrei no cômodo.
— Mãe?
Minha mãe olhou para mim, com olhos vermelhos e inchados. Corri na
direção dela e a abracei.
As louças sujas do jantar de mamãe e Randy da noite passada ainda
estavam na pia, me fazendo pensar em como a vida podia mudar em um
instante.
— Estou aqui, agora. Estou aqui. Só precisa me dizer o que tenho de fazer.
Vai ficar tudo bem. Vou te ajudar a passar por isso. Você vai ficar bem.
Ela falou, ainda olhando para a xícara: — Ele acordou no meio da noite
reclamando de dores e desmaiou antes que os paramédicos chegassem aqui.
Acariciei suas costas.
— Sinto muito.
— Obrigada por estar aqui, Greta.
— Onde… Você sabe… Onde ele está agora?
— Eles o levaram para a casa onde vai acontecer o velório. Clara está
arranjando tudo para mim. Ela e Greg têm sido maravilhosos. Eu não iria
suportar fazer isso… outra vez.
Abracei-a com mais força.
— Eu sei.
Naquela noite, dormi perto da minha mãe para não deixá-la sozinha.
Parecia surreal dormir onde Randy tinha dormido há apenas uma noite, mas,
agora, ele tinha partido.

O dia seguinte foi como um borrão na minha mente: as pessoas começavam a deixar
caçarolas e flores na nossa casa, enquanto minha mãe ficava dentro do quarto, só
chorando. Victoria passou para demonstrar seu respeito. Acabamos nos separando
desde que me mudei, mas sempre marcávamos de nos encontrar, quando eu vinha
para casa, mesmo que fosse só para tomarmos um café juntas.
Então, quando minha mãe tirou uma soneca, naquela tarde, eu e Victoria
fomos até o Dunkin’ Donuts da esquina. Era só um pequeno pedaço de
normalidade, naquela época surreal.
— Quanto tempo de folga do trabalho você pode tirar? — Ela perguntou.
— Eu só liguei para eles nesta manhã. Eles me deram um dia, e eu tirei o
resto da semana de férias. Posso levar minha mãe comigo para a cidade, até
decidir como as coisas vão ficar.
— Alguém já falou com Elec?
Só a menção de seu nome me fez sentir um nó no estômago.
— Greg e Clara estão entrando em contato com as pessoas. Tenho certeza
de que já ligaram para ele. Mas ele e Randy já não estavam se dando bem há
algum tempo, então não tenho certeza se ele virá.
— E o que você vai fazer, se ele vier?
Dei uma mordida nervosa no meu donut de baunilha.
— O que eu posso fazer?
Victoria sabia sobre minha noite com Elec. Contei para ela por alto, mas
mantive alguns detalhes em segredo. Alguns eram íntimos demais para serem
compartilhados, e eu não queria demonstrar o quanto a experiência tinha
significado para mim. Por mais que tivesse durado apenas uma noite, mexera
comigo de várias formas, e acabou com futuras expectativas.
Ela deu um gole no café.
— Então, eu acho que você só tem de esperar para ver…
— Minha mãe é minha prioridade. Não posso perder o sono pensando se
Elec vem ou não.
Mas só conseguia pensar nisso.
Naquela noite, Greg e Clara levaram minha mãe e eu para jantar. Eles
insistiram em tirá-la de casa quando lhes contei que ela passou a maior parte
do dia chorando em seu quarto, enquanto pessoas aleatórias passavam para
deixar comida.
Durante o jantar, minha mãe ficou quieta e mal tocou em seu frango, ou
nos bolinhos. Mas bebeu muito vinho.
O funeral estava marcado para depois do dia seguinte. O aperto em meu
estômago crescia a cada segundo.
Eu só precisava saber.
Eu finalmente perguntei.
— Entrou em contato com Elec? — Engoli em seco por antecipação pela
resposta de Clara.
— Sim, falei com ele hoje. Ele ficou triste quando lhe contei, mas não sei
se vem.
Só saber que ela tinha falado com ele fez com que meu coração batesse
mais rápido.
— Onde ele está?
— Ainda está morando na Califórnia, com Pilar.
— Você tem o telefone dele?
Ela olhou para o marido e respondeu, hesitante: — Humm… Greg
manteve contato com ele. Sabemos que ele e Randy tinham um péssimo
relacionamento. Greg tentou interferir, anos atrás. Ele e Elec meio que
ficaram próximos, depois disso. Randy nunca soube.
Olhei para Greg, como se ele estivesse guardando para si as informações
que mais me importavam no mundo.
— O que ele tem feito? — Minha voz soou insegura.
— Ele se formou na faculdade, conseguiu sua licença para trabalhar. Está
trabalhando com crianças carentes. Faz seis meses que falei com ele pela
última vez.
— Sério..?
Uau.
Aquilo era mais informação do que eu tinha recebido em anos. Fiquei feliz
e triste ao mesmo tempo, por saber que ele estava indo bem, mas que não o
conhecia mais, nem o homem que tinha se tornado.
Pigarreei.
— Então você não sabe se ele vem?
— Não. Ele não disse — falou Clara. — Acho que ele estava em choque.
Passei para ele todos os detalhes.
Meu coração se apertou em agonia ao pensar o que poderia estar
acontecendo na mente de Elec, onde quer que ele estivesse, naquele
momento.

O cheiro dos lírios me deixava enjoada. Todo mundo parecia estar


enviando aquele tipo de flor, que era a que mais exalava cheiro. Ofereci-me
para levar um punhado delas para o Cemitério Thomas.
O funeral estava previsto para começar às quatro, mas, antes disso,
precisaríamos passar na casa de Greg e Clara para um lanchinho rápido.
Minha mãe me acompanhou enquanto colocávamos flores nos cantos dos
cômodos, envolvendo o ponto onde o caixão ficaria. Também colocamos
fotografias de Randy conosco durante os anos. Entristeceu-me o fato de não
haver nenhuma foto de Randy com Elec.
A casa cheirava a um misto de madeira mofada e purificadores de ar. Eu
não estava ansiosa para ver o corpo de Randy, muito menos a reação da
minha mãe.
Na volta da casa de Greg e Clara, fiquei segurando a mão da minha mãe.
Ela estava melhor do que eu esperava, embora eu estivesse quase certa de que
tinha tomado um Xanax para suportar tudo.
Quando chegamos à casa, fiquei aliviada de ver que não havia carros que
eu não reconhecesse. Isso significava que seríamos apenas nós quatro.
Meu alívio imediatamente tornou-se pânico quando entrei na capela e vi
uma mala preta do lado de fora, no hall de entrada.
Clara abraçava minha mãe enquanto eu observava, ansiosa.
Nervosa demais para fazer as perguntas que eu queria fazer, fiquei em
silêncio enquanto meu peito se apertava. Então, finalmente, respirei fundo e
perguntei: — De quem é essa mala?
— Elec está aqui, Greta. Está lá em cima.
Meu coração começou a bater furiosamente, e eu senti como se não
conseguisse respirar. De repente, senti necessidade de mais ar.
— Com licença. — Eu disse, saindo pela porta dos fundos, direto para o
quintal.
Eu não estava preparada para vê-lo, por isso comecei a olhar para as tulipas
vermelhas do jardim. Parte de mim pensava que ele não viria, por causa de
sua instável relação com Randy. Mas o medo que vinha carregando nos
últimos dois dias era a prova de que outra parte de mim estava se preparando
para isso.
Não sabia o que deveria dizer a ele.
A brisa fria da primavera bagunçou meu cabelo, e eu olhei para o céu,
como que para me esquivar de uma bomba que ele estava enviando para
mim. Talvez eu estivesse recebendo uma resposta, já que um trovão ressoou,
à distância.
Chame de intuição ou instinto, mas algo me fez virar e olhar para as portas
francesas da sacada do segundo andar, que dava para o jardim, onde eu
estava.
Por trás do vidro, eu o vi.
Elec.
Ele estava olhando para mim, com uma toalha enrolada na cintura. Sempre
imaginei como estaria sua aparência depois daqueles sete anos, mas nem
mesmo em meus sonhos mais selvagens eu poderia imaginar como seria,
quando o encontrasse.
Seu cabelo negro bagunçado agora possuia longas ondas sexy, na altura das
orelhas. E ele usava óculos.
Parecia ainda mais sexy com eles.
Mesmo de onde eu estava, conseguia ver o penetrante cinza de seus olhos
por detrás das lentes.
Seu corpo tatuado estava maior, ainda mais definido do que antes.
Ele levou um cigarro à boca e, mesmo chocada por vê-lo, sentime
desapontada por perceber que tinha voltado a fumar.
Elec soltou a fumaça com os olhos fixos nos meus. Não sorria. Apenas
olhava para mim com intensidade. Somente seu olhar poderoso já seria capaz
de colocar meus sentidos em alerta, de deixar meu corpo fora de sintonia.
Minha cabeça estava doendo, meu olhos estavam molhados de lágrimas,
meus ouvidos zumbiam e minha boca estava cheia de água. Meus mamilos
estavam rígidos, minhas mãos tremiam, meus joelhos bambeavam e meu
coração… eu nem conseguia descrever o que acontecia dentro do meu peito.
Antes que eu pudesse processar tudo isso, uma mulher loira chegou por
trás dele e colocou seus braços ao redor de sua cintura.
ASSIM QUE, FINALMENTE, ENCONTREI CORAGEM PARA ENTRAR, SENTEI-ME À
mesa de jantar e me servi de um pouco de água. Minha boca ainda estava
seca. Era como se o lugar estivesse girando.
— Você está bem? — Minha mãe perguntou.
Eu deveria estar perguntando isso a ela. Assenti, pegando a água dela
também e bebendo-a toda. Eu precisava ser forte para ela. Não podia me
permitir perder a cabeça, não naquele dia.
Eles ainda não tinham descido.
Depois de a mulher misteriosa aparecer por trás de Elec, pela janela, ele
imediatamente se virou e desapareceu de vista. Levei alguns minutos para
sair do lugar, no jardim.
Ele tinha uma namorada… ou uma esposa.
Por mais que isso tivesse surgido em minha mente como uma
possibilidade, depois de sete anos, não era algo que entrava na equação,
quando eu imaginava nosso reencontro.
O som de dois conjuntos de passos descendo a escada em uníssono me fez
encolher, mas sentar mais ereta na cadeira.
Thump.
Thump.
Thump.
Quando eles entraram na sala de jantar, meu corpo entrou em guerra e em
modo avião, enquanto a adrenalina pulsava dentro de mim.
Talvez eu devesse ter me levantado e dito alguma coisa, mas só fiquei
grudada na cadeira.
Minha mãe caminhou em direção a Elec e o puxou para um abraço.
— Elec, é tão bom te ver. Sinto muito por seu pai. Sei que vocês tinham
problemas, mas ele te amava. Amava, sim.
O corpo de Elec estava rígido, mas ele não recuou. Só disse: — Sinto
muito por você, também.
Enquanto ele relutantemente deixava minha mãe abraçá-lo, seus olhos
penetraram os meus e ficaram ali. Eu não conseguia interpretar o que ele
estava pensando, mas tinha certeza de que tinha muito a ver com as linhas
que estavam correndo por minha própria mente.
Esse encontro nunca deveria acontecer.
Depois que mamãe o liberou, a acompanhante de Elec aproximou-se dela
para abraçá-la.
— Senhora O’Rourke, sou Chelsea, namorada de Elec. Sinto muito por sua
perda.
— Pode me chamar de Sarah. Obrigada, querida. É um prazer conhecê-la.
— É uma pena que tenha sido nessas circunstâncias. — Ela disse,
enquanto acariciava as costas da minha mãe.
Meus olhos pousaram em suas unhas pintadas no estilo francesinha. Ela
era pequena, e as formas de seu corpo eram similares às minhas. Seu cabelo
loiro e longo caía em cascata por suas costas, em ondas praianas. Era uma
mulher linda.
Claro, tinha de ser.
Minhas entranhas estavam se revirando.
Elec caminhou na minha direção bem devagar.
— Greta…
O som do meu nome rolando em sua língua momentaneamente me fez
retroceder sete anos em apenas um instante.
— Elec — levantei-me da cadeira. — Eu… eu sinto muito por Randy. —
Gaguejei, e meus lábios começaram a tremer. Senti como se o fôlego tivesse
abandonado o meu corpo assim que ele se colocou na minha frente e eu senti
o cheiro familiar de cigarros e colônia. Muito tempo tinha se passado, mas,
emocionalmente, parecia como se fosse ontem.
Como se fosse ontem.
A única diferença era que a pessoa que esteve no meu quarto, naquela
noite, ainda era essencialmente um menino, e a pessoa à minha frente,
naquele momento, era um homem.
Olhei para ele e fiquei maravilhada com o fato de ele ter se tornado ainda
mais bonito. Minhas características favoritas ainda estavam ali, mas com
algumas mudanças. Seus olhos cinzentos ainda brilhavam, mas, agora, eles
estavam por trás de óculos com armação preta. Ele ainda tinha aquele
piercing no lábio, mas também usava uma barba. Vestia uma camisa de
listras pretas, com as mangas arregaçadas, colada no peito, que estava bem
maior, bem mais definido.
Ele ficou ali, olhando para mim. Finalmente eu avancei para abraçá-lo, e
senti sua mão cálida em minhas costas. Meu coração estava batendo rápido
demais, parecia que ia parar a qualquer momento. Uma coisa que,
aparentemente, não tinha mudado era a forma como meu corpo
instantaneamente reagia a seu toque. Assim que fechei meus olhos, ouvi uma
voz por detrás dele.
— Você deve ser a filha de Sarah. Vocês parecem gêmeas.
Afastei-me dele de repente, e estendi minha mão suada.
— Sim… Oi, eu sou a Greta.
Ela não segurou minha mão. Ao invés disso, ela sorriu com simpatia e me
abraçou.
— Sou Chelsea. Prazer em te conhecer. Sinto muito por seu padrasto. —
Seu cabelo cheirava exatamente como eu imaginava que cheiraria, um
perfume delicado de limpeza que combinava com sua personalidade,
aparentemente doce.
— Obrigada. — Eu disse.
A tensão no ar era palpável enquanto nós três ficávamos ali, de pé, em um
desconfortável silêncio.
Clara entrou carregando um prato oval com carne assada com aspargos que
tinha preparado. Aproveitei a oportunidade para escapar da situação e lhe
oferecer ajuda para carregar o resto dos itens, deixando Elec e Chelsea
sozinhos.
Minhas mãos nervosas se atrapalharam com a louça que Clara pediu que
eu fosse buscar na cozinha. Fechei meus olhos e respirei fundo antes de
entrar na sala de jantar.
Greg estava falando enquanto eu caminhava ao redor da mesa, distribuindo
os pratos. Garfos e facas escorregavam das minhas mãos trêmulas.
Sem poder fazer qualquer outra coisa, sentei-me do lado oposto de onde
Elec e Chelsea estavam. Meus olhos ficaram grudados em meu reflexo no
prato.
— Então, como vocês se conheceram? — Greg perguntou.
Olhei para ele.
Chelsea sorriu e lançou um olhar adorável para Elec.
— Nós dois trabalhamos no mesmo centro de menores. Eu coordeno o
programa pós-escola, e Elec é conselheiro. Começamos como amigos. Eu
realmente admirava o quanto ele era bom com crianças. Todas o amam — ela
colocou a mão sobre a dele. — E, agora, eu também.
Pude ver, com o canto do olho, que ela se inclinou e o beijou. O vestido
preto que eu estava usando começou a me sufocar, de repente.
— Que adorável. — Clara disse.
— Elec, como a Pilar está lidando com isso? — Greg perguntou.
— Não muito bem. — Ele disse, abruptamente.
Olhei para ele enquanto falava. Não tinha dito uma palavra desde o
momento em que dissera meu nome.
Chelsea apertou sua mão.
— Tentamos fazê-la vir, mas ela achou que não conseguiria lidar com isso.
Tentamos.
Ela era íntima da mãe dele.
Era um relacionamento sério.
— Bem, então foi melhor que ela tenha ficado. — Clara disse.
Provavelmente desconfortável com a menção de Pilar, minha mãe tomou
um bom gole de vinho. Ela sabia que era a principal razão pela qual Pilar não
tinha aparecido.
Chelsea se virou para mim.
— Onde você mora, Greta?
— Em Nova York. Só cheguei na cidade dois dias atrás.
— Deve ser excitante. Sempre quis ir lá, para visitar — virou-se para Elec.
— Será que podemos ir visitá-la algum dia? Temos um lugar para ficar.
Ele balançou a cabeça em afirmativa apenas uma vez, parecendo
extremamente desconfortável, enquanto brincava com a comida. Em um certo
momento, senti seus olhos em mim. Quando me virei para olhar para ele,
confirmei as suspeitas. Nossos olhos se encontraram por um breve segundo,
mas ele logo voltou os dele para o prato.
— Elec nunca me contou que tinha uma meio-irmã. — Chelsea disse.
Ele nunca falou de mim para ela.
Minha mãe decidiu falar pela primeira vez: — Elec morou conosco por
muito pouco tempo, quando eles eram adolescentes — ela olhou para mim.
— Os dois não se deram muito bem, naquela época.
Minha mãe não sabia o que tinha acontecido entre mim e Elec. Então, em
sua opinião, aquela afirmativa era correta.
A voz rouca e profunda de Elec dirigiu-se a mim: — É verdade, Greta?
Deixei meu garfo cair no prato.
— O que é verdade?
— Que não nos demos bem.
Com certeza o significado secreto daquela pergunta era para que só eu
compreendesse. Eu não tinha certeza do porquê de ele estar me provocando
no meio de uma situação desconfortável.
— Tivemos nossos momentos.
Seus olhos pareciam queimar ao se dirigirem aos meus, e sua voz baixou
um tom.
— Sim, tivemos.
De repente, eu estava em chamas.
Sua boca se espalhou em um sorriso.
— Como é que você costumava me chamar?
— Não entendi.
— “Meu querido meio-irmão”, não era? Por causa da minha personalidade
brilhante? — Ele se virou para Chelsea. — Eu era um fodido miserável
naquela época.
Um “fodido” miserável. Ele não queria que significasse nada sexual, mas
não pude impedir minha cabeça de chegar onde chegou.
— Como sabe sobre esse apelido? — Perguntei.
Ele sorriu.
Eu sorri.
— Ah, sim! Você costumava ficar me espionando.
— Parece que vocês se divertiram. — Chelsea disse, enquanto olhava
inocentemente para Elec e para mim.
— Isso é verdade. — Ele disse, olhando para mim com um olhar
completamente inocente.

Eu e Chelsea ajudamos Clara a levar a louça para a cozinha. Em quarenta


minutos precisaríamos ir para o funeral.
Sua voz me surpreendeu.
— O que você faz, Greta?
Não me senti confortável em entrar em detalhes sobre meu trabalho
naquele momento, então dei uma resposta genérica.
— Eu trabalho em um cargo administrativo na cidade, nada muito
excepcional, na verdade.
Ela sorriu, e eu me senti idiota por gostar do fato de ela ter linhas de
expressão e pés de galinha ao redor dos olhos.
Eu estava exagerando.
— Às vezes, não ser excepcional também é bom. Trabalhar com crianças
preenche qualquer vazio, mas pode ser cansativo. Nunca se tem um momento
de tédio.
Nós duas olhamos na direção da porta de vidro deslizante. Elec estava
sozinho no jardim, cheio de pensamentos profundos e com as mãos nos
bolsos.
— Estou muito preocupada com ele — ela disse, enquanto olhava em sua
direção. — Posso te perguntar uma coisa?
A conversa estava me deixando desconfortável.
— É claro.
— Ele não fala sobre o pai. Aconteceu alguma coisa entre eles?
A pergunta me pegou de surpresa. Eu não deveria falar para ela sobre o
relacionamento de Randy e Elec. Eu mesma não sabia muita coisa.
— Eles costumavam brigar muito, e Randy era muito desrespeitoso com
Elec, mas, honestamente, eu não sei o que causou isso.
Era tudo que ela iria conseguir de mim.
— Só estou preocupada, porque ele está guardando tudo para si. O pai
acabou de morrer, mas ele não demonstra nenhuma emoção. Quer dizer, se
meu pai morresse, eu ficaria destruída.
Eu a entendia muito bem.
Ela continuou: — Tenho medo que ele acabe sendo atingido de uma vez
só. Ele não está bem. Não está dormindo. Sei que tem algo o incomodando,
mas ele não fala e não se permite chorar.
Meu coração doía ao ouvi-la dizendo aquilo, porque também estava
preocupada com ele.
— Tentou conversar com ele? — Perguntei.
— Sim. Ele só responde que não quer falar sobre isso. Ele quase não veio
para o enterro. Sei que iria se arrepender, por isso que eu insisti tanto.
Finalmente, ele cedeu.
Uau. Ele não estava pensando em aparecer.
— Que bom que você fez isso.
— Eu o amo, Greta.
Eu não tinha dúvidas, mas ouvi-la dizer aquilo fez meu estômago doer.
Ainda assim, o meu lado mais lógico estava feliz por Elec ter encontrado
alguém que se importava com ele daquela forma. Apesar disso, não sabia o
que dizer. Eu não podia dizer a ela que me sentia da mesma maneira.
Eu também me importava com ele.
Talvez não fizesse mais sentido, depois de tanto tempo, mas meus
sentimentos por ele estavam ainda mais fortes agora do que há alguns anos.
E, assim como antes, eu teria de escondê-los.
Ela colocou a mão em meu braço.
— Pode me fazer um favor?
— Ok.
— Você iria lá fora… ver se consegue conversar com ele?
— Hummm…
— Por favor? Eu não sei a quem mais pedir. Não acho que ele esteja
preparado para tudo o que vai viver nesta noite.
Olhei para trás, para Elec, parado no jardim, parecendo muito forte. Aquela
poderia ser minha única oportunidade de conversar com ele sozinha, então
concordei.
— Ok.
Ela me abraçou.
— Obrigada. Fico te devendo uma.
Neste caso, você pode me dar Elec. Eu não podia evitar meus
pensamentos, que estavam um pouco fora de controle.
Aquele abraço me fez compreender que era absolutamente possível gostar
de alguém de quem se sente um ciúme insano.
Respirei fundo e caminhei em direção à porta de vidro. O céu estava
começando a ficar cinza, com se uma tempestade estivesse prestes a chegar.
Não era uma hora apropriada para reparar no quão incrível sua bunda
estava naquelas calças pretas que ele estava usando. Mas, apesar disso, eu
acabei reparando. Uma brisa soprou as ondas negras sexy de seu cabelo.
Pigarreei e me fiz ser notada.
Ele não se virou, mas logo soube que era eu.
— O que está fazendo aqui, Greta?
— Chelsea me pediu para conversar com você.
Ele encolheu os ombros, com uma risada de sarcasmo.
— Ah, é mesmo?
— Sim.
— Estão trocando figurinhas agora?
— Não é engraçado.
Ele finalmente se virou e olhou para mim, expelindo a última baforada de
seu cigarro, antes de jogá-lo no chão e esmagá-lo com o pé.
— Você acha que ela teria te mandado aqui fora para conversar comigo se
soubesse que, na última vez em que nos vimos, nós fodemos como coelhos?
Embora o comentário tenha me chocado, ouvi-lo falando aquilo enviou um
calafrio para todo o meu corpo.
— Você tem de colocar dessa forma?
— Mas é a verdade, não é? Ela iria surtar se soubesse.
— Bem, eu não pretendo contar a ela, então você não tem que se
preocupar. Eu nunca faria isso.
Meu olho começou a tremer.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Por que está piscando para mim?
— Não estou… Meu olho está piscando porque…
— Porque você está nervosa, eu sei. Você costumava fazer isso, quando eu
te conheci. Fico feliz em ver que você não mudou.
— Acho que algumas coisas nunca mudam, não é mesmo? Já faz sete anos,
mas é como se…
— Tivesse sido ontem — ele completou. — Parece que foi ontem, e isso é
uma merda. A situação inteira é.
— Isso nunca deveria ter acontecido.
Seu olhar passou direto por meu pescoço e foi parar em meus olhos.
— Onde ele está?
— Quem?
— Seu noivo.
— Não estou noiva. Eu estava… mas não estou mais. Como você sabia
que eu estava comprometida?
Ele ficou estupefato e, então, olhou para o chão por muito tempo, antes de
se esquivar da minha pergunta.
— O que aconteceu?
— É uma longa história, mas fui eu quem terminou. Ele aceitou um
emprego na Europa. Não era para ser.
— Você está com alguém, agora?
— Não — mudei de assunto. — Chelsea é bem legal.
— Ela é ótima. Uma das melhores coisas que aconteceu para mim, na
verdade.
Um soco no estômago.
— Ela está mesmo preocupada com você, porque você não demonstrou
nenhuma emoção, ainda. Ela me perguntou se eu sabia alguma coisa da
história entre você e Randy. Eu não soube o que dizer, porque ainda tem
muita coisa que eu não sei.
— Você sabe mais do que ela, e não foi uma escolha minha. O problema é
que ele era uma merda de um pai, mas agora está morto. É sério, isso é tudo
que minha mente consegue processar, agora. Ainda nem senti o golpe.
— Foi um choque e tanto.
— Minha mãe está péssima. — Ele disse.
— Como ela estava, antes disso?
— Melhor do que antes, mas não cem por cento. Ainda não sei o que a
morte de Randy vai fazer com seu estado mental.
O vento, subitamente, se intensificou, e pequenos pingos de chuva
começaram a cair. Olhei para o céu e, depois, para meu relógio.
— Temos que sair em poucos minutos.
— Volte lá para dentro. Diga a ela que estarei lá em um minuto. — Ele
disse.
Ignorei-o e fiquei ali. Era como se eu tivesse falhado. Não tinha
conseguido nada com ele.
Merda! Meus olhos estavam começando a ficar cheios de água.
— O que está fazendo? — Ele perguntou.
— Chelsea não é a única que se preocupa com você.
— Ela é a única que tem o direito de se preocupar. Você não precisa. Não é
seu dever.
Aquilo tinha me atingido mais forte do que qualquer coisa que ele já tinha
me dito.
Naquele momento, ele violentamente jogou fora e pisou no pedaço do meu
coração que eu dera a ele, anos atrás. Desapontava-me o fato de que o tinha
idealizado todo esse tempo, comparado meus namorados com ele, colocado-o
em um pedestal, quando ele claramente não se importava com meus
sentimentos.
— Quer saber? Se eu não estivesse me sentindo tão mal por tudo que você
está passando, eu mandaria você à merda. ― Eu disse.
— E se eu quisesse ser um babaca, eu diria que você só está dizendo isso
porque se lembrou de como adorou quando eu a fodi ― ele passou por mim.
— Cuide de sua mãe hoje à noite.
As próximas duas horas foram uma montanha-russa emocional de choque,
tristeza, ciúme e, agora… raiva. Pura raiva. As lágrimas começaram a cair do
meu rosto em uma corrente que combinava com a intensidade dos pingos de
chuva que caíam constantemente, depois de ele me deixar sem fala no jardim.
Eu não sabia que Randy tinha um filho.
Eu nem pude contar quantas pessoas que vieram falar conosco disseram
isso. Fazia com que eu me sentisse muito mal por Elec, por mais que ele
tivesse me destruído, minutos atrás.
O cheiro de flores misturado com o perfume de dúzias de mulheres estava
me sufocando.
A maioria das pessoas que apareciam eram amigos de Randy do trabalho,
da concessionária, ou vizinhos. O cortejo seguia, e era um pouco estranho ver
que as pessoas estavam conversando normalmente, às vezes até rindo,
enquanto esperavam para se aproximar do caixão. Era como uma festa sem
álcool, e isso estava me irritando.
Fiquei perto da minha mãe, que tinha desmoronado completamente depois
de ver o corpo sem vida de seu marido pela primeira vez, desde o infarto.
Acariciei suas costas, troquei seu lenços e fiz tudo que podia para ajudá-la a
se manter firme pelo máximo de tempo, até que tudo terminasse.
Chelsea tinha convencido Elec a ficar próximo da família, por mais que
tivesse resistido, a princípio. Acho que ele estava cansado demais para
discutir.
A maquiagem feita no rosto de Randy o fez ficar parecendo duro e quase
irreconhecível. Era devastador vê-lo deitado ali e reviver flashbacks de
quando meu pai morreu.
Elec não se aproximou do caixão, nem o olhou. Só ficou ali, estático e
roboticamente apertando mãos enquanto Chelsea respondia em seu lugar. As
pessoas repetindo a mesma frase: — Lamento por sua perda.
— Lamento por sua perda.
— Lamento por sua perda.
Elec parecia prestes a despencar, e eu senti que era a única que estava
percebendo isso.
Precisei ir ao banheiro em um dado momento, então avisei à minha mãe
que logo estaria de volta. Eu ainda não tinha conseguido encontrá-lo, e acabei
descendo para uma área vazia. Cheirava a mofo, mas era um alívio poder
escapar do barulho da multidão.
Entrando no nível mais baixo, eu finalmente vi a placa do banheiro, na
outra extremidade do cômodo.
Quando saí de lá, os pelos do meu corpo se eriçaram ao ver Elec sozinho
em um dos sofás. Ele estava inclinado e apoiado nos joelhos com os
cotovelos, suas mãos estavam em volta da cabeça. Quando as baixou, ele
ainda estava olhando para baixo. Suas orelhas estavam vermelhas, e suas
costas subiam e desciam com o peso de sua respiração.
Era um momento íntimo, e eu estava, inadvertidamente, me intrometendo.
Talvez ele estivesse desmoronando, como eu já sabia que iria acontecer
quando o vira, mais cedo. Mesmo assim, eu não queria que ele me visse. O
problema era que eu tinha de passar por ele para chegar às escadas.
Por mais que tivesse me irritado mais cedo, a necessidade de confortá-lo
estava me corroendo, mas eu sabia, depois do que ele dissera a mim, que não
era minha função fazer isso.
Então, eu passei por ele bem devagar.
Quando cheguei ao corredor, onde ficavam as escadas, o som de sua voz
me surpreendeu: — Espere.
Parei no mesmo lugar e me virei: — Preciso ir lá para cima para ficar com
a minha mãe.
— Me dê só alguns minutos.
Tirei um fiapo branco do meu vestido preto e caminhei na direção dele,
sentando-me a seu lado, no sofá. O calor de seu corpo com a perna
pressionada na minha não me passou despercebido.
— Tudo bem com você? — Perguntei.
Ele olhou para mim e balançou a cabeça em negativa.
Controlando a urgência em abraçá-lo, coloquei minhas mãos firmemente
em meu colo.
Não é sua função fazer isso.
Então, cada parte de mim sentiu quando ele colocou a mão em meu joelho.
Aquele único toque retrocedeu qualquer progresso que tinha feito durante
aquelas horas, depois de nossa briga no jardim.
— Aquilo que eu disse antes… me desculpe. — Ele falou.
— Que parte?
— Tudo. Eu não sei como lidar com isso… Randy… Você… Nada. Tudo
parece surreal. Enquanto estava no avião, rezei para que, por algum milagre,
você não aparecesse.
— Por quê?
— Porque essa situação é difícil demais.
— Eu não pensei que fosse te ver de novo. Com certeza, eu não esperava
que seria tão difícil, mesmo depois de sete anos, Elec.
— Difícil, como?
— Como se o tempo não tivesse passado. Eu guardei tudo para mim. Na
minha mente, eu nunca te esqueci, e isso afetou meus relacionamentos e
minha vida. Dava para controlar, mas… antes disso. De qualquer forma, eu
não deveria estar me apegando a isso. Não importa mais. Você ama Chelsea.
— Amo. — Ele disse, abruptamente.
Ouvi-lo confirmar de forma tão veemente fez com que meus olhos se
erguessem inesperadamente.
— Ela é uma boa pessoa. Mas te ver com alguém depois da forma como as
coisas acabaram entre nós é muito difícil, para mim. Ver que está magoado é
mais difícil ainda.
Eu tinha colocado para fora aquelas palavras e dito exatamente o que
passava pela minha cabeça porque, mais uma vez, eu não tinha certeza se
seria a última vez que nos veríamos. Era importante que ele soubesse como
eu me sentia. Balancei a cabeça repetidamente.
— Me desculpe. Eu não devia ter dito isso.
As pessoas no andar de cima pareciam estar a milhares de quilômetros de
distância. Podíamos ouvir pingos caindo por estarmos completamente
sozinhos.
Eu estava olhando para baixo, quando sua mão me surpreendeu ao pousar
em meu rosto. Lentamente, ele a deslizou e a colocou ao redor do meu
pescoço.
— Greta… — Ele suspirou com um nível de emoção que eu só tinha visto
em seu rosto uma única vez: sete anos atrás.
Fechei meus olhos e compreendi que, por um momento, estávamos de
volta àquele mesmo lugar e época. Eu estava com o antigo Elec, meu Elec.
Isso era algo que eu nunca pensava que sentiria novamente. Ele manteve a
mão em meu pescoço e o apertou gentilmente. Foi inocente, mas havia uma
linha muito tênue sendo desenhada a cada momento que passava. Seu polegar
acariciou minha pele lentamente. Sentir a aspereza de seus dedos cheios de
calos fez com que meu corpo inteiro se aquecesse. Eu não entendia o que
estava acontecendo, e também não tinha certeza se ele compreendia. Torci
para que ninguém surgisse, porque no instante em que isso acontecesse, meu
Elec desapareceria.
— Eu te magooei. — Ele disse, com os dedos ainda presos em minha pele.
— Tudo bem. — Sussurrei. Meus olhos ainda estavam fechados.
Elec rapidamente tirou a mão de mim quando ouviu passos.
— Aí está você — Chelsea disse, enquanto caminhava até onde estávamos,
sentados no sofá. — Não te culpo por querer respirar um pouco. Esta noite
está sendo exaustiva.
Imediatemente eu levantei e ofereci a ela o mais falso sorriso que já
conjurei em toda a minha vida. Meu coração ainda estava acelerado por causa
do que eu tinha acabado de vivenciar.
— O padre já está se aprontando para conduzir a oração. Não quero que
você perca — ela disse a ele. — Está se sentindo bem para ir lá para cima?
— Sim… É… Eu estou bem — ele disse. — Vamos.
Ele olhou para mim rapidamente, de uma forma que foi difícil de
interpretar, antes de se virar e seguir Chelsea para o andar de cima. Eu os
segui, e observei enquanto ele colocava a mão em suas costas, a mesma mão
que tinha envolvido meu pescoço, um minuto atrás.

Depois da cerimônia, Greg e Clara convidaram algumas pessoas para sua


casa, para um chá e alguns docinhos. Minha mãe sentiu-se na obrigação de ir,
o que significava que eu teria de acompanhá-la para levá-la de volta para
casa, depois.
Eu e minha mãe fomos as últimas a deixar a capela, então, quando
chegamos à casa, a mesa de jantar estava cheia de pessoas. O lugar cheirava a
café fresco e biscoitinhos de mirtilo, que Clara tinha acabado de tirar do
forno.
Tudo o que eu queria era ir para a cama e dormir. O dia seguinte seria
igualmente longo, por causa do sepultamento. Eu nem sabia quando Elec iria
voltar para a Califórnia, mas imaginei que ele não iria ficar por muito mais
tempo do que o dia seguinte.
Não conseguíamos encontrar Elec e Chelsea. Por mais que não fosse da
minha conta, eu não conseguia não imaginar onde estavam e o que estavam
fazendo.
Assim que eu pensei neles, Chelsea apareceu na sala de estar, carregando
um biscoitinho em um prato de plástico. Ela tinha trocado o vestido preto por
um short casual e uma camiseta. Seu cabelo estava preso em um rabo de
cavalo frouxo, que a deixava parecendo ainda mais jovem, sem qualquer
maquiagem.
— Ei, Greta. Posso ficar com você? — Ela se sentou ao meu lado antes
mesmo que eu pudesse responder.
— Claro. — Abri espaço no sofá de dois lugares.
— Estou feliz que tenha vindo — ela disse. — A casa de Greg e Clara é
mesmo muito linda, não é? Fico feliz que tenhamos ficado aqui, ao invés de
em um hotel.
— Ela é, sim.
— Espero ter minha própria casa, um dia, mas com nossos salários no
centro de menores, vai demorar um pouco para que isso aconteça. Nosso
apartamento é bem pequeno.
Nosso apartamento.
— Há quanto tempo vocês moram juntos?
— Há alguns meses. Já estamos namorando há quase um ano. Elec estava
um pouco hesitante em seguir em frente, por causa da mãe, mas acabou
cedendo. Já faz muito tempo que Pilar não está bem. Você sabe disso, não
sabe?
— Sim. Sei que ela tem problemas.
— Bem, o último ano foi bem melhor. Ela tem um namorado agora… mas
quando ela descobriu sobre a morte de Randy, foi bem difícil. Por isso,
estamos preocupados que possa ter uma recaída.
— Onde está Elec, agora?
— Lá em cima.
— O que está fazendo?
— Na verdade… ele está bem estranho esta noite.
— Como assim?
Ela olhou ao redor para se certificar que ninguém estava ouvindo nossa
conversa.
— Ok… Bem, nós saímos do funeral um pouco mais cedo e voltamos para
cá. Ele…
— Ele o quê?
Ela se inclinou e sussurrou: — Ele quis transar.
Eu quase me engasguei com o chá.
Por que, em nome de Deus, ela estava me contando aquilo?
Tossi.
— Isso é incomum?
— Não, quer dizer… ele tem um enorme apetite sexual, mas, dessa vez, foi
diferente.
Enorme apetite sexual…
Fiz o meu melhor para me mostrar casual e fingir que meu estômago não
havia ficado enjoado com aquela conversa, que eu tinha quase certeza que
iria me traumatizar.
— Diferente?
— Voltamos para cá, e ele, imediatamente, me arrastou para o segundo
andar e começou a arrancar minhas roupas. Era como se estivesse fazendo
isso para enterrar seus sentimentos, para esquecer a noite. E eu compreendi.
Mas, quando começamos, não conseguimos terminar. A forma como ele me
olhou… era como se sua mente estivesse em outro lugar. Então, ele correu
para o banheiro, trancou a porta, e eu ouvi o chuveiro sendo ligado.
— Ele disse mais alguma coisa?
— Não. Nada.
— Deve ter algo a ver com tudo que aconteceu hoje à noite. — Eu disse.
E, com isso, eu não quis dizer que pode ter algo a ver com a forma como
ele me tocou, Chelsea.
— Não queria ter de deixá-lo assim. — Ela disse.
— O que você quer dizer com deixá-lo?
— Ele não te contou? Não posso ficar para o enterro.
— Por quê?
— Meu voo sai amanhã, às nove horas da manhã. Minha irmã vai se casar
amanhã à noite. Eu sei… Um casamento sexta-feira à noite, certo? Pelo que
eu soube, fazer a festa durante a semana cortava os custos pela metade. Mas,
mesmo assim, é uma droga para todos nós, que precisamos trabalhar e temos
vidas. Sou a madrinha dela. O momento não podia ser pior.
Ela ia embora.
— Quando Elec vai embora?
— O voo dele é sábado à noite.
— Ah.
Ela cruzou as pernas e deu uma mordida no biscoito.
— Ele sempre foi assim, complexo? Quer dizer, quando era mais novo?
— Pelo que eu sei, pelos breves momentos que passamos juntos, pode-se
dizer que… sim. A forma como ele escreve seus livros é um bom exemplo
disso.
Ela inclinou a cabeça.
— Ele escreve… livros?
Ela não sabia?
— Ah… Bem… era uma coisa com a qual ele costumava brincar. Eu não
deveria ter mencionado o assunto. É irrelevante.
— Uau! Preciso perguntar para ele sobre isso. Não posso acreditar que ele
não me contou que gostava de escrever. Livros sobre o quê?
Como ele pode não ter contado a ela?
Comecei a entrar em pânico.
— Ficção. Não diga a ele que te contei — balancei a cabeça, esperando
que ela mudasse de ideia. — Eu não deveria ter contado nada.
A voz dele surgiu, fria: — Não. Não deveria.
Nós duas nos viramos ao mesmo tempo e vimos Elec parado à nossa
frente.
Merda.
O olhar gelado que ele me dirigiu era um bom indicador de que eu tinha
cometido um grande erro. Mas era tarde demais. Agora era ele quem tinha de
manter o controle.
Chelsea deu alguns tapinhas no assento vago ao seu lado.
— Venha aqui, amor. Por que nunca me contou que costumava escrever?
Isso é muito legal.
— Não era nada demais. Era só um hobby que eu tinha, na adolescência.
Não era um hobby; era uma paixão.
Por que ele não estava mais escrevendo?
— Não consigo acreditar que nunca tenha me contado. — Ela disse.
Ele deu de ombros.
— Bem, agora você sabe.
Eu estava esperando que ele olhasse para mim, para que eu pudesse, ao
menos, expressar um pedido de desculpas silencioso, mas não tive a
oportunidade.
Clara entrou no cômodo.
— Elec, posso te servir uma bebida? — Ela perguntou.
— Algo forte.
— Pode deixar.
Ela voltou com três copos com alguma bebida cor de âmbar. Elec agarrou
o primeiro imediatamente.
Chelsea sussurrou para mim: — Você viu? Prometa que vai ficar de olho
nele para mim, ok?
Elec entornou o último copo assim que ela terminou o comentário: — Ela
não precisa ficar de olho em mim. — Ele cuspiu as palavras.
— Você sabe o quanto me sinto mal por ter que te deixar sozinho.
— Não deveria. Vou ficar bem. Estarei em casa no domingo de manhã,
antes de você acordar.
Ele já teria ido embora antes que eu percebesse.
Ela encostou a cabeça em seu ombro. Elec tinha vestido um jeans, e seus
pés estavam descalços. Aquilo me trouxe um flashback da noite em que ele
se abriu para mim pela primeira vez em meu quarto, que foi quando eu
reparei que seus pés eram lindos. Espantei aquele pensamento, porque
Chelsea tinha me pedido para ficar de olho nele, e eu duvidava que isso
tivesse qualquer coisa a ver com cobiçá-lo.
Minha mãe entrou na sala de estar.
— Querida, acho que preciso ir para casa, descansar para amanhã.
— Ok. Já vamos. — Era como se eu não conseguisse levantar daquele sofá
rápido demais.
Chelsea se levantou: — Greta, não vou mais te ver. Nem consigo expressar
o quanto fiquei feliz em te conhecer. Espero que possamos nos encontrar de
novo.
— Igualmente. — Menti.
Enquanto a abraçava, olhei por cima de seu ombro para Elec, e murmurei:
Me desculpe, esperando que ele pudesse me perdoar por ter mencionado sua
escrita. Ele apenas olhou para mim, com uma expressão impossível de ser
lida. Por mais que eu não conseguisse compreender o porquê de ele nunca ter
mencionado para ela, já que seu relacionamento era tão sério, isso não
importava. Mais uma vez, eu ultrapassei as barreiras. Apesar do que tinha
acontecido entre nós na capela, eu não tinha mais um verdadeiro espaço em
sua vida. Fiz uma promessa para mim mesma de manter distância dele no dia
seguinte, a não ser que ele precisasse de mim.
Mas para que ele iria precisar de mim? Ele tem a ela. Esse deveria ser o
meu mantra.
Ela abraçou minha mãe.
— Sarah, por favor, aceite minhas sinceras condolências novamente. Me
desculpe por precisar voltar para a Califórnia para o casamento da minha
irmã, amanhã.
— Obrigada. — Minha mãe disse. Eu via que ela estava exausta.
Chelsea sussurrou em meu ouvido: — Obrigada por me deixar desabafar
sobre aquele outro assunto, também.
— Sempre que precisar.
Obrigada por me traumatizar.
Em outra vida, aquela garota poderia se tornar minha melhor amiga. Eu
podia afirmar que ela era o tipo de pessoa para a qual eu poderia ligar a
qualquer hora da noite para desabafar sobre meus problemas. Ela era legal
assim, e eu era cruel demais por me sentir aliviada por ela estar indo embora
na manhã seguinte.
Agora, eu só teria um problema pelas próximas vinte e quatro horas. E
então, Elec também pegaria um avião e sairia da minha vida novamente.
Certo?
Mas não foi assim tão simples.
ESTAVA UM LINDO DIA, APESAR DOS HUMORES SOMBRIOS. OS PÁSSAROS
estavam chilreando, o sol brilhava, e eu finalmente tinha conseguido dormir.
Mas isso não tinha nada a ver com uma típica manhã de primavera em
Boston. Naquele dia, minha mãe teria de enterrar um marido pela segunda
vez em sua vida, e Elec teria de enterrar o pai.
Eu não tinha reparado, até Chelsea me dizer que estava partindo, na noite
passada, o quanto de ansiedade sua presença estava me causando. Por mais
que eu tivesse de encarar Elec outra vez, já não me sentia tão horrível quanto
antes.
Quando entrei no quarto da minha mãe, ela estava sentada na cama,
segurando uma foto dela com Randy no dia do casamento deles. Ela usara um
vestido simples para a cerimônia, no Boston City Hall. Eles pareciam muito
felizes.
— Ele podia carregar seus demônios, mas me amava — ela disse. — Acho
que era a única certeza que eu tinha, com relação a ele.
Segurei seu braço e peguei o porta-retrato da mão dela.
— Lembro desse dia como se fosse ontem.
— Nosso casamento… foi como um recomeço, para Randy, mas ele nunca
conseguiu dar um jeito no passado ou em sua raiva, com relação a isso. Ele
nunca se abriu para mim, e eu nunca pressionei.
Parecia familiar.
Ela continuou: — Eu não queria saber de nada, na verdade. Depois da dor
de perder seu pai, eu só queria algo fácil. Foi um pouco egoísta, da minha
parte — ela começou a chorar. — Eu andava bisbilhotando muito, nos
últimos dias, e isso nos causou muita tensão. Me senti envergonhada por
nunca ter me envolvido na situação dele com Elec. Eu vivia em uma bolha.
— Bem, nenhum dos dois se deixava ser ajudado. — Eu disse.
Ela secou as lágrimas e olhou para mim.
— Sinto muito que você tenha tido de passar por isso.
— Eu? Passar pelo quê?
— Ter de ver Elec com ela… com Chelsea.
— O que quer dizer com isso?
— Eu sei, Greta.
— O que você acha que sabe?
— Sei o que aconteceu, entre vocês dois, antes de ele voltar para a
Califórnia.
Coloquei a foto que estava segurando sobre a cama para não acabar
deixando-a cair no chão, de tão chocada que eu estava.
— O quê?
— Acordei cedo, naquele dia. Elec não sabe que eu o vi saindo do seu
quarto e voltando para o dele. Então, naquela mesma tarde, quando eu
cheguei em casa, fui dar uma olhada em você, mas você tinha saído. Achei
uma embalagem de camisinha no seu quarto e havia um pouquinho de
sangue, no seu lençol. Uma semana depois de ele ir embora você estava tão
deprimida… Queria poder ter dito que sabia de tudo. Queria te apoiar, mas
fiquei com medo de te deixar constrangida ou de causar algum problema com
Randy. Ele teria ficado furioso. Disse a mim mesma que você já tinha dezoito
anos e, se quisesse que eu soubesse, teria me contado.
— Uau! Não acredito que você sabia, esse tempo todo.
— Ele foi o seu primeiro…
— Sim.
Ela segurou minha mão.
— Me desculpe por não ter te dado apoio.
— Tudo bem. Como você disse, foi melhor ter mantido em segredo.
— Foi só… sexo… ou algo mais?
— Foi muito mais, para mim. Acho que ele se sentiu da mesma forma na
época. Mas não importa mais, agora.
— O namoro com aquela garota parece firme.
— Sim. Eles moram juntos.
— Mas ele ainda não está casado.
Apertei os olhos.
— O que isso quer dizer?
— Só que, se tem alguma coisa inacabada entre vocês, esta pode ser a
última oportunidade para ser resolvida. Já que Randy se foi, podemos nunca
mais ver Elec, depois de hoje.
Por mais que eu já soubesse disso, me senti magoada ao ouvi-la dizer em
voz alta.
— Obrigada pelo aviso, mas tenho certeza de que esse navio já zarpou.
Uma lágrima caiu pelo meu rosto, apesar da minha tentativa de parecer
indiferente.
— Está bem claro que, para você, não é bem assim.

Eu podia sentir seu cheiro e logo soube que ele estava atrás de mim.
Mesmo antes disso, meu corpo o sentira ali. As janelas da igreja estavam
abertas, e um vento soprou na minha direção o cheiro de colônia e cigarro.
Era estranhamente confortador. O único outro aroma que eu sentia era o de
velas queimando em volta do altar e a ocasional baforada de lírios que tinham
sido levados para lá.
Minha mãe e eu estávamos sentadas na fileira da frente. Virei-me para ver
Elec, sentado ao lado de Greg e Clara. Eles tinham chegado alguns minutos
depois de nós. Vestindo uma camisa de botão de cetim, preta, sem gravata,
ele olhava para o chão. Ou ele nem chegou a me ver olhando para ele,
naqueles breves segundos, ou fingiu não reparar.
Não havia nem metade das pessoas que haviam estado no funeral, ali.
Estava silencioso, com exceção de alguns sons do trânsito à distância e o eco
dos sapatos enquanto as pessoas caminhavam em direção a seus lugares.
Um órgão começou a entoar a música On Eagle’s Wings, e a música fez
com que as lágrimas da minha mãe caíssem de forma mais pesada.
O padre começou o louvor, um pouco genérico e impessoal. Quando ele se
referiu a Randy como um “pai amoroso”, cada músculo do meu corpo se
enrijeceu. Tecnicamente, se Randy e Elec tivessem um relacionamento
normal, seu filho teria se levantado para falar. Eu não podia imaginar o que
Elec diria, se tivesse a oportunidade. Ao invés disso, ele se manteve quieto
durante toda a cerimônia. Não estava chorando. Não estava olhando para
cima. Estava apenas… ali, o que eu acho que era melhor do que não estar. Eu
tinha de lhe dar crédito por isso.
A cerimônia foi breve, e, ao final, o padre nos deu o endereço do cemitério
e anunciou que a família gostaria de convidar a todos para uma refeição em
um restaurante local, logo após o enterro.
Observei enquanto Elec, Greg e alguns outros homens, que eram amigos
de Randy, faziam seu papel e carregavam o caixão para fora da igreja. Elec
continuou a não demonstrar nenhuma emoção.
Minha mãe optara por não usar uma limusine, então fomos até lá em meu
carro alugado, seguindo o carro fúnebre. Greg, Clara e Elec estavam no carro
logo atrás.
Quando chegamos ao cemitério, nos reunimos ao redor da cova que tinha
sido cavada no chão bem em frente a uma lápide com a inscrição O’Rourke
gravada. A pergunta sobre onde minha mãe seria enterrada – se ao lado dele
ou ao lado do meu pai – passou pela minha cabeça.
Elec saiu do carro e caminhou até onde eu estava, olhando em direção ao
buraco, da mesma forma como eu estava fazendo. Quando ele se virou em
minha direção, seus olhos sustentavam um olhar apavorado.
É engraçado o quão rápido você pode colocar seu orgulho de lado quando
percebe que alguém de quem gosta precisa de ajuda. Estendi a mão na
direção dele, que não resistiu.
— Não posso fazer isso. — Ele disse.
— O quê?
— E se eles me pedirem para ajudar a descer o caixão até o chão? Não
posso fazer isso.
— Tudo bem, Elec. Você não precisa fazer nada que não queira. Não
pense que eles esperam que você faça, de qualquer forma.
Ele estava apenas assentindo e piscando, mas sem dizer nada. Ele engoliu
em seco, cheio de ansiedade. Então, soltou a minha mão, virou-se e passou
por entre as pessoas que começavam a chegar. Ele continuou a caminhar para
mais e mais longe do local onde Randy seria enterrado.
Sem pensar no que fazia, me apressei para alcançá-lo.
— Elec… espere!
Quando ele parou, sua respiração estava mais pesada do que a minha, por
mais que eu tivesse corrido. Se eu achava que ele tinha desmoronado na noite
passada, eu estava errada. Eu tinha certeza de que aquele era o momento no
qual ele estava, literalmente, se desfazendo.
— Tem alguma coisa nisso tudo que parece definitivo demais, para mim.
Não posso assisti-los baixando o caixão para o chão, muito menos participar
disso.
— Tudo bem. Você não precisa fazer isso.
— Eu acho que ele nem ia me querer aqui, Greta. Mesmo assim, não posso
testemunhar isso.
— Elec, é uma reação perfeitamente normal. Não precisamos voltar para
lá. Vou ficar aqui, com você.
Ele continuou balançando a cabeça, olhando para mim. Parecia ter
pensamentos profundos.
Um corvo negro pousou perto de nós, e eu comecei a me perguntar o que
aquilo poderia significar.
Depois de muitos segundos de silêncio, começamos a falar: — Foi em uma
de nossas piores brigas, provavelmente um ano antes de eu te conhecer.
Randy disse que preferia estar morto e enterrado do que ter que viver para ver
o fodido que eu me tornaria — ele olhou para os próprios sapatos e balançou
a cabeça repetidamente. — Eu disse algo em resposta, algo como: “Bem,
então, eu vou estar sorrindo o tempo todo, enquanto eles estiverem baixando
seu caixão até o chão”. – Elec deixou escapar um suspiro, como se o tivesse
segurado durante todo o tempo em que estivéramos conversando.
Eu estava começando a chorar.
— Elec…
Ele falou em um sussurro, olhando para o céu: — Não era isso que eu
queria dizer. — Era difícil ouvi-lo, e eu compreendi que ele estava falando
com Randy, naquele momento.
Elec olhou para mim com sua mão no peito.
— Preciso sair daqui. Não posso ficar. Estou desmoronando. Não consigo
respirar.
Começou, então, a caminhar rápido, e eu o segui.
— Ok. Para onde? Para onde você quer ir? Para o aeroporto?
— Não… não. Você está de carro, não está?
— Sim.
— Só me tire daqui.
Assenti com a cabeça, enquanto ele me seguia em direção à área de
estacionamento. Uma multidão estava reunida ao redor da sepultura de Randy
a alguns metros de distância. Atrapalhei-me com minhas chaves, destranquei
o carro e Elec entrou, fechando a porta.
Imediatamente dei a partida e saí do terreno, seguindo em direção à saída.
— Para onde você quer ir?
— Para qualquer lugar longe desse pesadelo. Só dirija por um tempo.
Elec inclinou a cabeça para trás, encostando-a no banco com os olhos
fechados. Seu peito estava subindo e descendo enquanto ele abria os três
primeiros botões de sua camisa. Quando chegamos a um sinal vermelho,
mandei uma mensagem de texto para minha mãe:
Está tudo bem. Elec teve algo parecido com um ataque de pânico, e
estamos dando uma volta. Certifique-se de que Greg vai te dar uma carona
até o restaurante e avise a ele que Elec está comigo. Não tenho certeza se
iremos comer com vocês.
Eu não esperava que ela fosse responder, uma vez que o enterro ainda
estava acontecendo, mas esperava que ela checasse seu telefone assim que
percebesse termos saído dali.
Ele grunhiu.
— Merda!
— O que foi?
— Meus cigarros ficaram no carro de Greg. Eu preciso muito de um.
— Podemos parar para comprar alguns.
Ele estendeu a mão.
— Não. Não pare. Só dirija.
Então foi isso que eu fiz. Por duas horas, eu dirigi na estrada. Estávamos
no meio do dia, então o trânsito estava tranquilo. Elec ficou quieto quase o
tempo todo, só olhando pela janela.
Eu tive que parar em um dado momento, ou acabaríamos saindo do estado.
Tinha quase certeza de que, quinze minutos antes, tínhamos passado pela
placa de Bem-vindo a Connecticut. Ele me pedira para ir para bem longe do
cemitério, para fazê-lo esquecer. De repente, tive uma ideia brilhante, e sabia
exatamente aonde deveríamos ir.
— Daqui a vinte minutos teremos de parar em algum lugar, ok?
Ele se virou para mim e falou, pela primeira vez em horas: — Obrigado.
Eu queria pegar sua mão, mas resisti. Alguns minutos depois, ele pareceu
ter caído no sono. Lembrei-me de Chelsea dizendo que ele não tinha
conseguido dormir desde que descobriu sobre a morte de Randy.
Meu telefone tocou, e eu o atendi.
— Oi, mãe.
— Greta, estamos preocupados. O almoço já terminou. Está tudo bem?
— Tudo bem. Ainda estamos dirigindo. Vamos parar em breve. Não se
preocupe, ok? Me desculpe por te deixar sozinha.
— Estou bem. O pior já passou. Estou com Greg e Clara. Cuide de Elec.
Ele não pode ficar sozinho.
— Ok. Obrigada por entender, mãe. Eu te amo.
— Também te amo.
Estávamos nos aproximando de nosso destino, então eu cutuquei Elec.
— Acorde. Já chegamos.
Ele esfregou os olhos e olhou por cima de mim, enquanto continuávamos
seguindo pela estrada.
— Você vai me levar para visitar o Mágico de Oz?
Ele estava certo. O prédio meio que me lembrava a estrada de tijolos
amarelos com o enorme castelo no final.
— Não, seu bobo. É um cassino.
— Escapamos de um funeral para que você me trouxesse para jogar? Mas
que merda foi essa?
Quando me virei para olhar para ele, esperava encontrar uma expressão
confusa, mas, ao invés disso, ele sorria de forma genuína. Era o mesmo
sorriso que eu tinha visto algumas poucas vezes, aquele que dizia que ele
estava zombando de mim. Era o mesmo olhar que sempre fizera meu coração
se agitar.
Então ele começou a rir histericamente, escondendo o rosto com as mãos.
Talvez ele estivesse delirando.
— Acha que foi de mau gosto?
Ele secou os olhos.
— Não, acho que foi brilhante!
Quando parei no estacionamento, ele ainda estava rindo.
— Bem, você me pediu para te levar a algum lugar diferente de um
cemitério, Elec.
— Sim, eu estava pensando em um restaurante japonês zen ou… sei lá…
uma praia?
— Você quer ir embora?
— Porra, não! Eu nunca teria pensado nisso, mas, que merda! Se tem um
lugar onde você pode afogar suas mágoas, é aqui — ele olhou pela janela e,
então, virou-se para mim, com um olhar que me provocou calafrios. — Me
ajude a afogar minhas mágoas, Greta.

Uma névoa de fumaça de cigarro quase me sufocou quando entramos no


prédio.
Eu disse:
— Você não vai ter nenhum problema para encontrar barrinhas
cancerígenas neste lugar. Na verdade, todo mundo parece estar fumando,
aqui. Mesmo os mais fracos são perigosos, nessa quantidade.
— Tente se divertir, irmãzinha. — Ele me sacudiu de brincadeira. A reação
do meu corpo a suas mãos fortes em meus ombros não me surpreendeu. Se
ele continuasse a me tocar, seria um dia muito longo.
— Por favor, não me chame assim.
— Como prefere que eu te chame? Ninguém nos conhece. Podemos
inventar nomes para nós. Estamos ambos vestidos de preto. Parecemos altos
apostadores da máfia.
— Qualquer coisa, menos irmãzinha. — Gritei, para sobressair aos sons
tilintantes de centenas de máquinas caça-níqueis enquanto entrávamos em um
dos cassinos.
— O que quer jogar? — Perguntei.
— Quero ir para uma das mesas — ele disse. — E você?
— Eu só vou nas máquinas.
— Nas máquinas? Vai aloprar hoje, hein?
— Não ria.
— Não se vai a um cassino como este para brincar nas máquinas caça-
níqueis, especialmente nas de moedas baixas.
— Não sei jogar mais nada.
— Posso te ensinar, mas primeiro precisamos de umas bebidas —ele
piscou. — Sempre dê aquela lubrificada, antes de jogar o jogo.
Levei um segundo para entender o duplo sentido.
Revirei os olhos.
— Meu Deus, algumas coisas nunca mudam. Pelo menos você voltou a
fazer piadinhas sujas. Isso significa que eu fiz alguma coisa certa, hoje.
— É sério, essa ideia, — ele olhou ao redor — de vir para cá… foi
perfeita.
Depois de comprarmos algumas fichas, segui Elec até uma sala de luzes
baixas, onde as pessoas estavam jogando nas mesas. Havia um bar, no canto.
— O que eles estão jogando? — Perguntei.
— Craps. É um jogo de dados. O que você quer beber?
— Uma cuba-libre.
— Ok. Já volto. Não comece a ganhar sem mim. — Ele disse, se afastando
de mim com um sorriso.
O sorriso em seu rosto me deixou verdadeiramente feliz, por mais que eu
soubesse que era apenas uma distração temporária da dor que ele
experimentara mais cedo.
Enquanto eu esperava que Elec voltasse com nossas bebidas, adiantei-me
até uma das mesas e fiquei bem atrás dos jogadores que estavam ali em pé.
Um homem de rosto vermelho, com um sotaque sulista, usando um chapéu
de cowboy, sorriu para mim, voltando seus olhos para o jogo.
Eu não estava entendendo as regras. Fiquei divagando e olhando para a
mesa, até que todo mundo começou a bater palmas. Quando o cara bêbado
percebeu que tinha ganhado, virou-se e me agarrou pela cintura.
— Você, moça bonita, é meu amuleto de sorte. Ainda não tinha ganhado
até você aparecer aqui, do nada. Não vou mais te perder de vista.
Seu hálito cheirava a cerveja, e seu suor ensopara sua camisa.
Sorri para ele, porque tudo parecia muito inocente. Isso, é claro, até que ele
apertasse minha bunda… Bem forte.
Quando me virei para sair dali, Elec estava se aproximando com dois
drinques nas mãos. Não estava mais sorrindo.
— Me diz se eu vi direito e aquele babaca de merda estava apertando sua
bunda? — ele nem esperou pela resposta. — Segure as bebidas. — Disse.
Ele agarrou o cara pelo colarinho.
— Quem você pensa que é para colocar as mãos nela assim?
O homem estendeu as mãos.
— Eu não sabia que ela estava com alguém. Ela só estava me ajudando.
— Parece que você estava ajudando a si mesmo — Elec o arrastou pela
gola da camisa até mim. — Peça desculpas agora mesmo.
— Olha, cara…
Elec o segurou com mais força.
— Peça desculpas.
— Me desculpe. — O homem estava quase sufocando.
Elec ainda estava irado e não conseguia tirar os olhos do homem.
Gesticulei, ainda segurando as bebidas nas minhas mãos.
— Vamos, Elec. Deixe isso para lá.
Emiti um suspiro de alívio quando ele pegou os drinques das minhas mãos
e começou a se afastar.
O homem falou atrás de nós: — Você tem sorte de ter chegado a tempo.
Eu estava prestes a pedir que ela soprasse o dado.
Elec virou-se e caminhou na direção do homem, mas corri até ele,
bloqueando-o. No processo, esbarramos um no outro e ambos os drinques
espirraram no meu vestido inteiro.
— Não, Elec! Não quero que expulsem a gente daqui. Por favor. Estou te
implorando.
Apesar do olhar maníaco em seus olhos, por algum milagre Elec recuou.
Acho que ele sabia que, se desse mais um passo a frente, significaria o fim da
noite. E eu fiquei agradecida por ver que ele percebeu que o cara não valia a
pena.
— Agradeça a ela por ainda ter um rosto. — Elec disse, antes de me seguir
pelo salão.
Caminhamos, em silêncio, em direção à saída, até que ele deu uma olhada
no meu vestido, quando nos aproximamos das luzes mais fortes.
— Que merda, Greta. Você está toda bagunçada.
— Uma bagunçada sexy. – Ri.
— Vamos. Vou te comprar uma roupa nova.
— Não precisa. Só estou um pouco molhada.
Meu bom Deus, Greta. Sábia escolha de palavras.
— Não, é claro que precisa. Foi minha culpa.
— Vai secar. Mas te digo uma coisa, se você ganhar alguma coisa hoje à
noite, pode gastar tudo em uma roupa nova para mim em uma dessas lojas
caras. Só assim vou te deixar gastar dinheiro comigo.
— Então, acho melhor começar a trabalhar, porque você está cheirando
que nem lata de lixo de bar.
— Ah, muito obrigada.
— Primeiro vou pegar outra bebida de adulto para você. Venha.
Fiquei com Elec enquanto ele pedia nossos drinques em um bar diferente.
— Você pode vir me ver jogar pôquer, ou prefere brincar nas máquinas de
velho?
— Adoraria te ver jogar.
Ele olhou para as mesas de pôquer para analisar a cena.
— Pensando bem, eu não vou conseguir me concentrar. Só tem homens
por aqui, agora. Esses caras vão ficar em cima de você, e eu não estou no
clima para entrar em outra briga hoje à noite. Por que não nos separamos um
pouco? Você pode jogar nas suas máquinas, e eu vou te encontrar assim que
você jogar duas vezes.
Apontei para as máquinas, na diagonal do salão.
— Estarei bem ali, então.
Enquanto me afastava dele, pensei que deveria ter perguntado por que se
importaria tanto, se os caras dessem em cima de mim. Eu estava solteira,
afinal de contas. Não tinha sido ele mesmo a dizer que não era minha função
me preocupar? Então, por que ele se importaria, já que estava com Chelsea?
Eu tinha de suportar vê-lo com a namorada bem na minha frente, então, por
que ele não podia aguentar ver alguns caras flertando comigo?
Pensei em mandar uma mensagem sobre isso, mas não sabia se ele ainda
estava com o mesmo número de telefone de sete anos atrás. Decidi tentar o
número antigo, só para tirar a dúvida. Se aquele não fosse mais o seu número,
então, que fosse assim.

Por que você se importa se algum dos outros caras der em cima de mim?
Você não deveria se importar.

Depois de alguns minutos, não recebi resposta. Aquele não era mais o seu
número. Bem, de qualquer forma foi bom digitar aquelas palavras.
Escolhi uma máquina Lucky Sevens e me coloquei ao lado de uma senhora
idosa, cujo cabelo parecia azul, de tanto creme rinse que havia nele.
Ela sorriu para mim. Seu batom era de um tom de rosa fluorescente, e tinha
uma mancha dele em seu dente da frente.
Puxei a alavanca repetidas vezes, sem nem prestar atenção se estava
ganhando alguma coisa.
Sua voz me surpreendeu: — Parece que você tem alguma coisa em mente.
— Parece?
— Quem é ele, e o que ele fez?
Nunca mais veria aquela mulher, depois daquele dia. Talvez eu devesse
colocar para fora.
— Você quer a versão longa ou a versão curta dos fatos?
— Tenho noventa anos, e o jantar começa em cinco minutos. Me dê a
versão curta.
— Ok. Estou aqui com meu meio-irmão. Sete anos atrás dormimos juntos,
antes de ele se mudar para outro estado.
— Tabu… gosto disso. Continue.
Eu ri.
— Ok… Bem, ele foi o primeiro e último homem de quem eu realmente
gostei. Achei que nunca mais o veria de novo. O pai dele morreu esta
semana, e ele veio para o funeral. E não veio sozinho. Trouxe uma garota que
ele supostamente parece amar. Sei que ela o ama. E é uma boa pessoa. Ela
teve de voltar para a Califórnia mais cedo. De alguma forma, entramos nesse
cassino. Mas ele vai embora amanhã.
Uma lágrima caiu do meu olho.
— Parece que você ainda gosta dele.
— Gosto.
— Bem, então, você tem vinte e quatro horas.
— Não. Não estou planejando causar problemas para ele.
— Ele está casado?
— Não.
— Então, você tem vinte e quatro horas. — Ela olhou para o relógio e se
apoiou na bengala para se levantar. Estendeu a mão para mim.
— Meu nome é Evelyn.
— Oi, Evelyn! O meu é Greta.
— Greta, o destino te deu uma oportunidade. Não desperdice. — Ela disse,
antes de se afastar com sua bengala.
Durante os minutos seguintes, fiquei pensando no que ela tinha dito,
enquanto puxava a alavanca da máquina caça-níqueis despretensiosamente.
Mesmo que Elec não estivesse com Chelsea, nós nunca poderíamos ficar
juntos, por causa de Pilar. Não sei se as coisas tinham mudado em relação
àquilo.
Meu telefone vibrou. Era Elec.

Sei que não deveria me preocupar com isso. Mas quando tem a ver com
você, o que eu deveria realmente sentir nunca importa.

Naquele momento, tomei uma decisão. Não iria ser eu a dar o primeiro
passo com Elec, mas me manteria de mente aberta. Não imporia regras. Teria
esperança. Porque, antes que eu percebesse, já teria noventa anos e estaria
esperando o jantar em um lugar como aquele. Quando chegasse esse dia, não
queria ter nenhum arrependimento.
AS LUZES COMEÇARAM A PISCAR NA MINHA MÁQUINA, QUE APITAVA COMO
louca. Um grupo de números sete estavam alinhados de forma correta. O
número de créditos na tela continuava a aumentar e aumentar.
Olhei ao meu redor e vi que todos os olhos estavam em cima de mim.
As pessoas começaram a bater palmas.
Meu coração estava acelerado.
Puta merda. Eu tinha ganhado.
Eu tinha ganhado!
Mas o que eu tinha ganhado?
Eu ainda não sabia. Não entendia muito bem aquela máquina. Ela mostrava
o número de créditos, mas nada da quantidade de dinheiro. Quando tudo
parou finalmente, peguei meu ticket e levei à cabine do caixa.
— Acho que eu ganhei, mas não sei quanto.
— Quer pegar o dinheiro?
— Bem… Sim!
A pessoa não parecia nada entusiasmada em me atender.
— Quanto eu ganhei?
— Mil.
— Mil moedas?
— Não, mil dólares.
Cobri minha boca e falei: — Ah, meu Deus!
— Você quer em notas de cinquenta ou de cem?
— Humm… de cem.
Ela me entregou um maço de dinheiro, e eu o cheirei antes de ir em direção
a Elec.
Enquanto caminhava em direção às luzes e ao caos, com o dinheiro quase
queimando e abrindo um buraco na minha bolsa, finalmente o localizei em
uma das mesas de pôquer. Ele estava pensativo, coçando o queixo, sem saber
que eu o estava observando. Tinha aberto ainda mais a camisa, e as mangas
estavam arregaçadas. O cabelo estava bagunçado, como se tivesse passado a
mão por ele várias vezes, por pura frustração. Passava a língua pelo piercing,
enquanto se concentrava. Havia algo dolorosamente sexy no contraste entre
seu novo visual intelectual com as tatuagens em seus braços.
Finalmente ele colocou as cartas na mesa e disse: — Merda — com isso,
ele checou o telefone e levantou-se da mesa. Caminhou na minha direção e,
finalmente, me viu sorrindo para ele. ― Perdi minha camisa de duzentos
dólares. Eu me dei bem por um tempo, mas o último jogo me ferrou. Como
você se saiu?
Coloquei a mão dentro da bolsa e tirei o dinheiro de lá.
— Ah, você sabe… Naquelas maquininhas bobas…
— Está brincando comigo?
— Mil dólares! — Eu disse, balançando o dinheiro na frente do rosto dele,
pulando para cima e para baixo.
— Porra, Greta! Parabéns!
Quando me puxou para um abraço rápido, mas apertado, eu rapidamente
fechei meus olhos, porque a sensação de estar em seus braços novamente era
boa demais. Todos os nervos do meu corpo renasceram naquele breve
momento.
Continuei ouvindo a voz de Evelyn em minha cabeça.
Você tem vinte e quatro horas.
Tinha menos que isso, agora. Uma imagem engraçada de Evelyn
apontando uma arma para minha cabeça surgiu na minha mente.
Coloquei o dinheiro de volta na minha bolsa.
— Vamos jantar para comemorar.
Enquanto caminhávamos pelos corredores, procurando um restaurante, o
telefone dele tocou. Paramos de repente.
— Oi, amor. — Ele rapidamente olhou para mim ao falar isso, e eu,
instintivamente, me virei.
Com meu coração na boca, caminhei alguns passos, ainda ouvindo cada
palavra.
— Que bom que você chegou bem. Eu meio que dei uma surtada no
enterro, na verdade. Greta me levou para passear um pouco até que eu me
acalmasse. Acabamos parando em um cassino em Connecticut. Estamos aqui
— pausa. — Tudo bem — pausa. — Eu também. Divirta-se. Diga a todos
que mandei um oi — pausa. — Também te amo.
Também te amo.
Bem, aquilo era um choque de realidade. E por que eu estava tão triste por
ele ter contado a verdade a ela sobre esta viagem, que deveria ser um
encontro secreto? Naquele momento, entendi que estava um pouco iludida. É
claro que os sentimentos dele depois de me ver poderiam estar confusos, mas
ele a amava, não a mim. Pura e simplesmente era essa a verdade. Seu coração
estava em um lugar diferente do meu, e eu precisava aceitar isso.
Ele caminhou na minha direção.
— Ei!
— Ei!
— Era Chelsea. Ela te mandou um oi e agradeceu por você estar me
ajudando hoje.
Ensaiei um sorriso falso.
— Mande olá e um não há de quê.
— E aí, já sabe o que vai querer?
Admito que a verdadeira resposta para aquela pergunta me colocaria em
uma situação difícil.
Vendo que o cuba-libre começava a fazer efeito em mim, disse: — Vou ao
banheiro. Pode decidir o que preferir.
Aproveitei para me refrescar, embora eu ainda estivesse cheirando ao
álcool que espirrara no meu vestido mais cedo. Acho que eu mesma deveria
ter comprado um vestido para mim, com o dinheiro que ganhei.
Quando saí do banheiro, Elec estava olhando para seu telefone. Quando
voltou os olhos para mim, parecia pálido.
— Você está bem?
Suas mãos tremiam, e ele não conseguia me responder.
— Elec?
— Recebi esta mensagem agora. Veio de um número desconhecido.
Ele me entregou o telefone.
Fiquei confusa.
— “22”?
— Olha só que horas a mensagem chegou.
— Duas e vinte e dois da tarde. Que estranho! Mas por que está te
incomodando?
— 22 de Fevereiro é o aniversário de Randy.
Senti um arrepio.
— Você acha que a mensagem é de Randy?
Seus olhos estavam fixos no telefone.
— Não sei o que pensar.
— Deve ser só uma coincidência. Por que ele te enviaria o número 22?
— Eu, normalmente, não acredito nesse tipo de merda. Não faço ideia. Só
achei muito estranho.
— Consigo entender o porquê.
Elec ficou preocupado durante todo nosso jantar na churrascaria que
escolhemos. Eu sabia que ele tinha ficado obcecado com a mensagem. Para
ser honesta, também me fez surtar um pouco.
Voltar para o cassino depois do almoço não animou Elec em nada. Em um
dado momento, me afastei para pegar bebidas para nós.
Quando voltei para onde estávamos sentados, meu coração quase saiu pela
boca. Ele estava limpando lágrimas dos olhos. Fiquei chocada em ver meu
meio-irmão, tão frio, chorando de forma tão intensa.
Era uma prova de que não podemos escolher quando a realidade de uma
perda irá nos atingir. Às vezes é previsível, mas pode acontecer quando você
menos espera. Ele não tinha chorado na cerimônia, nem no enterro, mas
escolheu aquele momento, naquele cassino lotado, para desabafar.
— Não olhe para mim, Greta.
Ignorando seu pedido por privacidade, coloquei as bebidas sobre a mesa e
empurrei minha cadeira mais para perto dele. Puxei-o de encontro a mim e
segurei-o bem próximo do meu peito. Ele não resistiu. Uma mancha de suas
lágrimas se formou em meu vestido. Suas unhas afundaram em minhas
costas, como se ele precisasse me segurar para sobreviver. Quanto mais ele
chorava, mais eu queria confortá-lo e mais forte eu o abraçava.
Ninguém parecia prestar atenção em nós, no canto daquele salão, embora
isso não importasse nem um pouco, para mim.
Seus tremores pareceram diminuir, e, eventualmente, começou a respirar
de encontro ao meu peito.
— Odeio isso — ele disse. — Eu não deveria estar chorando por causa
dele. Por que estou chorando por causa dele?
— Porque você o amava.
Sua voz estava tremendo novamente.
— Ele me odiava.
— Ele odiava alguma coisa que via em você e que fazia com que
lembrasse de si mesmo. Mas não te odiava. Não poderia. Só não sabia como
ser um pai.
— Tem muita coisa que eu não te contei. E a maior merda de todas era
que, apesar de tudo que passamos, eu ainda queria que ele se orgulhasse de
mim, algum dia. Queria que ele me amasse.
— Eu sei que amava.
Ele continuou a se apoiar em mim. Em um dado momento, olhou para
cima, e eu vi que seus olhos cinzentos estavam vermelhos.
— O que seria de mim sem você, esta noite?
— Fico feliz por estar com você.
— Eu nunca tinha chorado na frente de ninguém. Nenhuma vez.
— Sempre há uma primeira vez.
— Eu podia fazer uma piada com essa frase. Sabe disso, não sabe?
Nós dois rimos. Imaginei como ele se sentia ao rir, daquela forma. Para
mim, uma risada era sempre mais gostosa depois de chorar.
— Você me faz sentir coisas, Greta. Sempre fez. Quando estou perto de
você, seja bom ou ruim… eu sinto tudo. Às vezes, não lido muito bem com
isso, e acabo agindo como um babaca. Não sei o que há em você, mas, seja o
que for, faz com que eu veja quem sou de verdade. No instante em que eu te
vi novamente, na casa de Greg, de pé naquele jardim… foi como se eu não
conseguisse mais me esconder ― ele acariciou meu rosto com seu polegar.
— Sei que foi difícil para você me ver com Chelsea. Sei que ainda gosta de
mim. Posso sentir isso, por mais que tente fingir o contrário.
— Foi difícil, mas valeu a pena só por te ver de novo.
— Não quero chorar mais, esta noite.
— Também não quero mais que você chore. Mas, se achar que precisa, não
tenha medo. É bom desabafar.
Ele estava olhando para meus lábios. E eu olhava para os dele. Os últimos
minutos tinham me enfraquecido. Eu queria beijá-lo. Sabia que não era certo,
mas a necessidade era tão intensa que precisei me levantar.
Eu estava prestes a explodir – tanto física quanto emocionalmente.
Estávamos sentados na diagonal, de frente para a roleta. Era um dos únicos
jogos que eu sabia como jogar. Precisava focar minha impulsividade em
alguma coisa, e tive uma ideia.
Quando você está apostando o próprio coração, tentar a chance com
dinheiro parece algo muito pequeno. Caminhei em direção à roleta e joguei
algumas fichas, apostando em um número.
— Aposto tudo neste número. – Eu disse.
O cara que trabalhava no cassino olhou para mim como se eu fosse louca.
Elec apareceu bem atrás de mim.
— O que está fazendo?
Ele não tinha visto qual era a minha aposta. Meu coração batia mais rápido
a cada girada da roleta, e tudo pareceu acontecer em câmera lenta.
As mãos de Elec estavam em meus ombros, enquanto nossos olhos
permaneciam presos à roleta.
Até que ela parou.
Os olhos do funcionário do cassino quase pularam das órbitas.
Alguém me entregava uma bebida que não era minha.
Mais álcool espirrava no meu vestido.
As pessoas batiam palmas, gritavam, assobiavam.
— 22 é o vencedor!
— Sou eu! Eu ganhei!
Elec me ergueu no ar, me fazendo girar.
Quando me colocou no chão, olhou para mim em choque.
— Você apostou no 22? Apostou tudo no 22? Tem ideia de quanto
dinheiro acabou de ganhar?
Virei-me para o homem atrás da mesa.
— Quanto eu acabei de ganhar?
— Dezenove mil dólares.
— Puta merda, Greta! — Elec pegou meu rosto em suas mãos, bem nas
minhas bochechas, e repetiu: — Puta merda! — Estava prestes a me dar um
beijo em comemoração, mas parou a tempo.
Eu tinha acabado de ganhar um monte de dinheiro, mas não parecia tão
importante quanto o fato de estar compartilhando aquele momento com ele.
Nada se comparava à sensação de ter suas mãos em meu rosto, de ver seus
olhos sorrindo para os meus, de transformar a agonia do número 22 em algo
positivo. Se aquele dinheiro fosse capaz de me comprar mais tempo com ele,
eu daria cada centavo.
Elec e eu caminhamos em direção ao caixa quase em transe. Enquanto eu
pegava o dinheiro, ele estava logo atrás conversando com algumas pessoas
que estavam na mesa no momento em que eu ganhei.
Optei por receber a maior parte da quantia em cheque, mas pedi mil
dólares em dinheiro. Ainda me deram a chave para passar a noite em um dos
quartos do hotel do cassino. Aquilo me pegou de surpresa, e não tinha certeza
se deveria mencionar o fato para Elec.
No momento em que eu me virei para ele, o vi sozinho com um enorme
sorriso no rosto.
Entreguei a ele o maço de notas de cem.
— Quero que fique com isso.
O sorriso dele desapareceu, enquanto ele tentava devolver o dinheiro para
mim.
— Não vou ficar com o seu dinheiro.
— Se não fosse por você, eu não teria jogado no 22. Escolhi esse número
por você.
— Nem pensar — ele colocou o dinheiro na minha frente. — Fique com
ele.
Eu não ia ceder.
— Isso é só uma parte dos ganhos. Peguei um cheque pelo resto. Vou
depositar no banco para ajudar minha mãe. Se você não pegar o dinheiro, vou
apostar tudo.
— Não faça isso. Não tem nenhuma chance de você ter sorte uma terceira
vez nesta noite.
Cruzei os braços.
— Não vou pegar de volta. Ou você pega, ou vou apostar tudo.
Ele suspirou.
— Escute bem. Vou pegar o dinheiro, mas vamos gastá-los juntos esta
noite. Vamos passar os melhores momentos das nossas vidas.
— Ok — minha boca se abriu em um sorriso. — Posso aceitar isso.
Ele olhou para o cartão que eu estava segurando.
— O que é isso?
— Ah, bem… Eles me deram uma chave de brinde. Acho que querem que
eu fique por aqui para devolver todos os meus ganhos para o cassino. Não
vou usá-la. Vamos voltar para Boston mais tarde, não é?
— Nenhum de nós está em condições de dirigir.
— Quer passar a noite aqui? Não podemos dormir no mesmo quarto.
— Eu não estava sugerindo isso, Greta. Vou pegar um quarto para mim.
É claro. Agora eu me sentia estúpida por perceber que era isso que ele
tinha sugerido.
— Certo. Tudo bem. Se você acha uma boa ideia, podemos ficar.
— A verdade é que não estou pronto para deixar que a noite acabe. Não
quero encarar a realidade até que não possa mais fugir dela. Meu voo só sai
amanhã à noite. Se temos que sair daqui só de manhã, então temos tempo
suficiente.
Acariciei o braço dele.
— Ok — decidi segui-lo para fora da sala de jogos. — Aonde vamos
primeiro?
— Comprar uma nova roupa. Você precisa tirar esta. Vamos para a boate
mais tarde. Não pode ir com isso aí.
— Boate?
— Sim. Tem uma no andar de baixo.
— Devo me preocupar? O que você imagina como uma roupa para se usar
em uma boate?
Ele olhou para o que eu estava vestindo.
— Algo que não te faça parecer com uma mulher grega de oitenta e cinco
anos em um velório.
Ajeitei meu vestido.
— O que está tentando dizer?
— Ou melhor, uma bêbada grega de oitenta e cinco anos, já que você está
cheirando a um balde de bebida.
— Obrigada.
— Vamos gastar dinheiro.
— QUE TAL ESTE AQUI? — MOSTREI UM MINI-VESTIDO DE CHIFFON, AMARELO
canário.
— Você vai parecer uma banana.
Escolhi outro.
— Este?
Elec balançou a cabeça.
— Não.
Ele pegou um de cetim, lantejoulas e paetês, fazendo com que deslizasse
pelas tatuagens em seu braço, e o mostrou para mim.
— Este é sexy. Vai ser este aqui.
Em um primeiro momento achei-o muito exagerado, mas concordei em
experimentá-lo.
Dos três vestidos que experimentei, o que ele escolheu foi o que caiu
melhor no meu corpo. Fez com que parecesse que eu tinha seios, e o
comprimento acentuava minhas pernas. Tinha de dar algum crédito a ele. As
lantejoulas eram um pouco chamativas, mas, afinal, estávamos nos
preparando para ir a uma boate.
O vestido caiu tão bem, na verdade, que não queria nem sair de mim. O
zíper ficou preso, e eu não conseguia puxar o vestido pela minha cabeça. Eu
estava começando a suar, porque não conseguia alcançar a base do problema.
— Está tudo bem aí? — Elec perguntou.
— Eh… Você pode ver se a vendedora pode me ajudar?
— O que aconteceu?
— Não consigo tirar o vestido.
— Bem, você não deveria ter comido o meu bife além do seu, no jantar.
— O zíper está preso.
Ele riu.
— Eu posso te ajudar.
— Não. Vou ficar mais à vontade se…
A cortina foi aberta de repente, e ele entrou na cabine.
— Vem aqui.
O calor de seu corpo era tangível no pequeno espaço onde estávamos. Ele
jogou meu cabelo para frente e puxou o tecido que estava preso. Minha
respiração acelerava a cada segundo, enquanto suas mãos trabalhavam no
zíper, nas minhas costas.
A imagem em minha cabeça, dele arrancando o vestido e entrelaçando
minhas pernas em sua cintura, não estava ajudando.
— Você não estava brincando — ele disse, enquanto continuava tentando.
Depois de um minuto, o ouvi dizer: — Consegui.
— Obrigada.
Ele abaixou alguns centímetros e então parou: — Tudo resolvido. — Mas
suas mãos continuavam em meus ombros. Permaneci olhando para baixo, e
quando ergui os olhos, ele estava olhando para mim através do espelho.
Virei-me abruptamente. Nossos rostos estavam muito próximos, e seus
olhos se fixaram em minha boca, permanecendo ali por um tempo. Daquela
vez não tentou esconder que parecia hipnotizado por meus lábios.
Ele fechou os olhos brevemente como se refreasse a urgência em me
beijar. Perturbava-me o fato de ele estar tentando, pois eu sabia, sem a menor
dúvida, que não seria capaz de resistir. Eu o teria beijado e dado tudo de
mim. Aquela falta de controle me assustava.
Era impossível pensar em qualquer coisa que não fosse nele, naquele
momento. Nem em Chelsea, nem nas consequências. A lembrança de sua
boca por todo meu corpo, de tê-lo dentro de mim, estava me consumindo.
Minha mente poderia estar gritando, mas meu corpo sabia o que queria.
Sabia que tinha a seu alcance exatamente o que vinha desejando todos os dias
nos últimos sete anos.
Ninguém fora capaz de se comparar a ele ou substituí-lo.
Elec tinha me destruído.
Ele podia estar com Chelsea agora, mas meu corpo ainda acreditava que
lhe pertencia, não importando que ele não soubesse disso, não importando se
era certo ou errado.
Ele pertencia a ela.
Eu pertencia a ele.
Isso. Era. Uma. Merda.
A vendedora da loja apareceu.
— Está tudo bem aí?
— Sim! — Gritei.
Não. Não está.

Nada aconteceu.
Elec saiu da cabine assim que a atendente interrompeu nosso momento.
Acabamos pegando algumas roupas na seção masculina para que ele
usasse naquela noite.
Fomos ao saguão do hotel para reservar um quarto para ele. Ele insistiu em
pagar no cartão de crédito, para não usar o dinheiro.
Fomos para nossos quartos separados para tomar banho, e planejamos nos
encontrar em meia hora para irmos à boate Roxy.
Enquanto a água caía sobre mim, sentia-me bem ao me livrar do álcool e
do suor que estavam no meu corpo. Por mais que aquele parecesse o dia mais
longo da minha vida, saber que ele iria chegar ao fim me aterrorizava.
Nem precisava dizer que estava tomando banho de água fria. Apesar da
temperatura, a necessidade de aliviar a tensão que vinha surgindo no meio
das minhas pernas era desesperadora. Deslizei até o chão da banheira,
deixando a água cair enquanto massageava meu clitóris, pensando em Elec.
Pensando no rosto dele entre minhas pernas, seu piercing labial fazendo
cócegas no meu clitóris enquanto ele me lambia desesperadamente…
O piercing de seu pênis entrando na minha boca…
A sensação de tê-lo dentro de mim…
Seus olhos fixos nos meus durante o orgasmo…
Eu gozei quase que violentamente.
Minhas costas ainda estavam pressionadas no chão de cerâmica da
banheira, quando ouvi uma batida na porta.
Merda! Ou eu tinha perdido a noção do tempo ou ele estava adiantado.
— Só um minuto!
Sequei-me o mais rápido que pude. Coloquei o vestido novo e escovei
rapidamente meu cabelo molhado, abrindo a porta em seguida.
— Uau! — Depois de uma longa pausa, ele acrescentou: — Você,
definitivamente, não parece mais uma senhora de luto.
— Com o que eu me pareço, então?
— Você parece corada, na verdade. Está se sentindo bem?
Ter que encarar a pessoa em quem você estava pensando durante uma
masturbação que acontecera segundos antes não era algo que tivesse
acontecido comigo antes.
— Estou bem.
— Tem certeza?
Mordi meus lábios, tentando não parecer culpada.
— Sim.
Ele estava vestido para matar, com um jeans escuro e uma blusa azul
marinho que comprou na loja do primeiro andar, na seção masculina. O look
mais casual o transformara no Elec de quem eu me lembrava. Seu cabelo
ainda estava molhado, e a forma como estava penteado acentuava seus olhos.
E estava usando aqueles malditos óculos.
— Foi bom tomar um banho. — Ele disse.
— Concordo com você.
O meu banho foi particularmente muito bom.
— Você precisa secar o cabelo?
— Sim. Me dê um minuto.
Fui ao banheiro e passei o secador o mais rápido que pude, e prendi os
cabelos em um rabo de cavalo.
Quando voltei ao quarto, Elec tinha ligado a TV na ESPN, e estava deitado
na cama com as mãos descansando atrás da cabeça. Sua camisa estava
levantada, me provocando com um vislumbre de uma de suas tatuagens de
trevo na barriga. Ficou bem claro, para mim, que me masturbar no banho não
resolvera meus “problemas”. Quanto mais rápido conseguíssemos sair
daquele quarto, melhor.
— Estou pronta.
Ele se levantou e desligou a televisão. Eu o segui em direção à porta.
— Você está bonita — ele disse, quando entramos no elevador. —Gosto
de seu cabelo assim.
— Gosta?
— Sim. Era assim que ele estava na noite em que te conheci.
— Estou surpresa por se lembrar disso.
Um sentimento de nostalgia me preencheu quando me lembrei daquela
primeira noite, quando fiquei esperando por ele, na janela. Não tinha ideia do
tipo de aventura em que me meteria com Elec.
— Você era tão inocente. Estava tentando ser gentil, e eu agi como um
babaca.
— Agiu mesmo. Mas eu passei a gostar disso em você.
— Isso quando eu não te fazia chorar, né?
— De vez em quando eu te levava a sério, mas, apesar disso, suas
cutucadas eram engraçadas. Eu não me lembro de nenhuma delas de forma
negativa.
— Você era um pouco masoquista. Isso meio que arruinou meu plano
maligno, naquela época.
— Bem, você não era tão mau quanto queria que eu acreditasse que era.
— E você não era assim tão inocente.
A tensão sexual desta lembrança terminou assim que chegamos ao andar
da Roxy. Entramos nos confins do breu da boate, e Elec desapareceu sob as
luzes estroboscópicas para pegar alguns driques para nós.
O grave da música vibrou dentro de mim enquanto eu me balançava para
frente e para trás, tentando entrar no clima.
Quando ele voltou com sua cerveja e o meu drinque, eu dei um bom gole.
Minha garganta congelou por causa do gelo picado do daiquiri. Ficamos no
segundo andar, olhando para baixo, observando o enxame de pessoas na pista
de dança, enquanto tomávamos nossas bebidas. O álcool se tornaria meu
melhor amigo, naquela noite. Eu não queria ficar completamente bêbada, mas
esperava que isso me ajudasse a esquecer do amanhã.
Uma tontura gostosa começava a se desenvolver em mim quando senti o
aperto firme de Elec em minha cintura.
— Venha. — A ponta de seus dedos tocou a parte de baixo das minhas
costas enquanto ele me guiava pelas escadas.
Eu sabia que ele estava me levando para a pista de dança. O que eu não
fazia ideia era de que ele era um dançarino excepcional.
Os olhos de várias mulheres na boate seguiam vários de seus movimentos,
enquanto eu descobria, pela primeira vez, que meu meio-irmão dançava
muito bem.
Quem poderia adivinhar?
Apesar disso, será que eu deveria mesmo ficar tão surpresa com o fato de
alguém que trepava tão bem quanto Elec ser capaz de mover seu corpo
daquele jeito?
Eu tinha pena daquelas mulheres. Tínhamos algo em comum. Todas nós
queríamos um pedaço dele, e nenhuma de nós teria nenhum.
É sério. Seus movimentos eram iguais aos de um stripper, mas ainda mais
provocadores, porque sabíamos que ele não iria tirar a roupa.
Era como um show erótico: a forma como ele movia os quadris, como seu
traseiro balançava no ritmo da música e a maneira como sua língua brincava
com seu piercing enquanto ele se perdia no ritmo.
Imagine você, assistindo Magic Mike, e o DVD para bem antes da
primeira cena de strip começar? Era assim que me sentia vendo Elec dançar.
Eu movia meu corpo no ritmo da música, acompanhando-o, mas ele não
encostava as mãos em mim, enquanto dançávamos juntos.
Em um dado momento, senti seu hálito quente em meu ouvido, quando ele
se inclinou na minha direção: — Vou procurar o banheiro. Fique aqui para
que eu possa te encontrar.
Depois que Elec me deixou sozinha, um homem usando uma camisa rosa
começou a dançar comigo. Ele começou a falar bem alto, tentando sobressair-
se à música, me fazendo perguntas que eu respondi de forma monossilábica.
Alguns minutos depois, senti um braço envolvendo minha cintura por trás.
O cheiro viciante da pele de Elec fez com que eu o identificasse, então eu não
resisti, quando ele me puxou para si. Depois de me virar para ficar frente a
frente com ele, seus olhos se fixaram nos meus com um olhar ameaçador.
Não podia falar nada a respeito da minha dança com o outro rapaz, porque
seria inapropriado devido à sua própria situação. Ele não tinha o direito de
me fazer parar de dançar com alguém. Ainda assim, sabia que poderia me
controlar pelo efeito que tinha sobre mim.
Um flashback das mensagens de Elec para mim, na noite em que saí com
Corey, muito tempo atrás, surgiu na minha mente.

Você nem gosta dele.


Como sabe disso?
Porque você gosta de mim.

Assim que Elec me levou para longe do rapaz, me soltou. Começamos


novamente a dançar a música rápida que tocava e, depois de mais um round
de bebidas, começou a ficar mais fácil entrar no clima. Durante o período de
uma hora, não paramos de dançar. Por mais que não estivéssemos nos
tocando, os olhos de Elec ficaram fixos em mim por um bom tempo. O salão
estava começando a girar um pouco, o que era um indicador de que era hora
de parar de beber.
De repente, começou a tocar a primeira música lenta da noite. Um alarme
soou na minha cabeça. Isso não podia acontecer. Acenei com a cabeça para
fazê-lo me seguir, saindo da pista de dança. Comecei a caminhar, mas senti
sua mão na minha. Parei e me virei na direção dele.
Ainda segurando minha mão, ele murmurou: — Dança comigo.
Por mais que eu soubesse que aquele seria o momento que me destruiria,
assenti com a cabeça e, relutantemente, permiti que me puxasse para mais
perto. Ele deixou escapar um suspiro, no momento em que me encaixei no
calor de seus braços.
Fechando meus olhos, descansei a cabeça em seu peito e aceitei a dor que
vinha crescendo dentro de mim desde o momento em que o vira pela primeira
vez com Chelsea. Cada batida de seu coração abria outra de minhas velhas
feridas,, destruindo os mecanismos de autoproteção que eu tinha tentado
implementar nos últimos dias.
Se eu não tivesse me movimentado, eu poderia ter suportado terminar de
dançar a música. Mas eu deveria mesmo ter um gosto por masoquismo, e
precisei descobrir se a expressão em seu rosto combinava com a intensidade
das batidas de seu coração.
Meu rosto, lentamente, se afastou de seu peito. Enquanto eu levantava
minha cabeça para observá-lo, ele abaixava a dele lentamente, mais ou menos
ao mesmo tempo, como se estivesse esperando que eu o olhasse.
O desejo em seus olhos chegava a fazer barulho. Respirei fundo para
conseguir acompanhar cada forte suspiro que saía de seus lábios. Se eu não
podia beijá-lo, ao menos sentiria seu hálito em mim.
Então, ele encostou sua testa na minha.
Era um gesto simples e inocente, mas combinava com a parte mais
culminante da música, ao menos para mim.
Para me impedir de ir mais longe do que aquilo, eu intecionalmente repeti
as palavras dele para Chelsea em minha mente: Também te amo.
Aquele. Foi. O. Momento. Em. Que. Desabei.
Afastei-me dele e saí correndo da pista de dança.
Eu podia ouvi-lo me chamando: — Greta, espere!
Lágrimas caíam de meus olhos enquanto eu passava por entre a multidão
na boate, esbarrando em pessoas suadas e bêbadas, tentando encontrar a
saída. A bebida de alguém espirrou em mim no caminho. Eu não me
importava. Só precisava sair dali.
Elec me perdeu no meio da multidão.
Assim que escapei da escuridão da boate, as luzes do salão do cassino
foram de um contraste imenso.
Corri até o elevador e apertei os botões, esperando chegar no meu quarto o
mais rápido possível. As portas começaram a se fechar, mas um braço
tatuado deslizou por entre elas, fazendo com que abrissem.
Sua respiração estava incerta. As portas se fecharam.
— Mas que merda foi essa, Greta? Por que saiu correndo de mim, assim?
— Eu precisava voltar para o meu quarto.
— Não dessa forma.
Ele pressionou o botão de parar, fazendo com que o elevador desse um
solavanco.
— O que está fazendo?
— Não era assim que eu queria que nossa noite terminasse. Eu ultrapassei
os limites. Sei disso. Me perdi no momento com você, e, merda, peço
desculpas. Mas não pretendia ir mais longe, porque não quero trair Chelsea.
Eu não poderia fazer isso com ela.
— Não sou tão forte quanto você, então. Não pode dançar comigo daquela
forma, olhar para mim daquela forma, me tocar daquela forma, se não vamos
fazer nada a respeito. E, só para que você saiba, eu não iria querer que você a
traísse.
— O que você quer?
— Não quero que diga uma coisa e aja de uma forma contraditória. Não
temos muito mais tempo juntos. Quero que fale comigo. Naquela noite, no
funeral, você colocou a mão ao redor do meu pescoço. Pareceu, por um
momento, que você estava de volta ao momento em que paramos, anos atrás.
É assim que eu me sinto com você o tempo todo. Então, depois daquilo,
Chelsea me contou o que aconteceu entre vocês, quando foram para casa.
Ele franziu o cenho.
— O que ela te falou, exatamente?
— Você estava pensando em mim? Foi por isso que não conseguiu fazer
nada, naquela noite?
Compreendendo tudo, ele pareceu chocado por eu ter aquela informação.
Eu ainda não compreendia o porquê de Chelsea ter compartilhado aquilo
comigo.
Porque ela confiou em mim, o que não deveria ter acontecido.
Arrependi-me de ter começado o assunto, mas era tarde demais.
Ele ficou em silêncio, olhando para mim, como se quisesse me dizer
alguma coisa.
— Quero que me diga a verdade. — Eu disse.
A expressão em seu rosto mostrou-se irritada, como se ele tivesse perdido
uma batalha para o autocontrole.
— Você quer a verdade? Eu estava fodendo minha namorada, mas não
conseguia ver nada, além de você. Essa é a verdade — ele deu alguns passos
na minha direção. Eu recuei, enquanto ele continuava: — Entrei no chuveiro,
naquela noite, e o único jeito que encontrei de terminar o trabalho foi me
imaginar beijando seu lindo pescoço. Essa é a verdade.
Encostei-me na parede do elevador, enquanto ele posicionava um braço em
cada lado de mim e continuava: — Quer mais? Eu ia pedi-la em casamento
hoje à noite, no casamento da irmã dela. Eu deveria estar noivo nesse exato
momento, mas, ao invés disso, estou em um elevador lutando contra a
vontade de te encurralar nesta parede e te foder com tanta força a ponto de ter
que te carregar de volta para o seu quarto.
Meu coração estava batendo fora de controle, e eu não tinha certeza de
qual parte do que ele tinha acabado de me falar tinha me chocado mais.
Ele deixou os braços caírem e baixou o tom de voz.
— Tudo que pensei que soubesse ficou de cabeça para baixo nas últimas
quarenta e oito horas. Estou questionando tudo, e não sei o que fazer. Essa. É.
A. Verdade.
Ele soltou o botão de parar, e o elevador continuou a subir para o nosso
andar, o vigésimo segundo.
Ele ia pedi-la em casamento.
Isso ainda martelava na minha cabeça. Era um sinal bem cruel do quão
longe do meu alcance ele estivera, todo aquele tempo.
As portas do elevador se abriram, e, conforme caminhamos pelo corredor,
eu disse simplesmente: — Não quero mais conversar. Preciso ficar sozinha.
Ele não protestou quando eu voltei para o meu quarto sem dizer mais nada.
Entristecia-me o fato de que nossa noite tivesse terminado mais cedo, mas eu,
finalmente, compreendera que, qualquer tempo a mais que passássemos
juntos, poderia ser perigoso. Ele partiria no dia seguinte, e não havia tempo
suficiente para dar um jeito em nossos sentimentos.
Uma vez que eu não tinha levado nenhum pijama, enrolei-me em um
lençol e me deitei. Sentia-me devastada pela bomba da proposta de
casamento que ele jogou sobre mim, e ainda me feria o que ele dissera logo
em seguida. Eu sabia que não conseguiria dormir, naquela noite.
Meia hora se passou. Parecia um déjà vu ficar olhando para os números
vermelhos do relógio digital, que ficavam me assombrando.
Uma mensagem de texto chegou para mim às duas da manhã.

Se eu bater na sua porta hoje à noite, não me deixe entrar.


ELE ESTAVA TENTANDO FAZER A COISA CERTA, E EU O RESPEITAVA MUITO POR
isso. Por mais poderosa que a tentação pudesse ser, eu tinha falado sério
quando disse que não queria que ele a traísse. Ao mesmo tempo, se ele
tivesse vindo ao meu quarto, não sei se conseguiria evitar que algo
acontecesse entre nós. Aquela noite provou que qualquer conexão existente
entre nós no passado ainda estava viva e cheia de poder. Por isso, a melhor
escolha era passarmos a noite separados.
Eu me virava na cama sem parar, ainda confusa sobre deixá-lo sozinho.
Por mais que o que acontecera no elevador tivesse arruinado o resto da noite,
eu precisava me lembrar de como o dia tinha começado. Sem mencionar que
estávamos perdendo um tempo precioso, porque, assim que ele voltasse para
a Califórnia, era bem provável que nunca mais nos víssemos.
Ele ia se casar com ela.
Livrando-me dos lençóis, decidi que não podia mais suportar a insônia. O
fato de o quarto estar congelando não ajudava em nada. Precisei desligar o ar
condicionado antes de pegar meu telefone e voltar para a cama.

Está acordado?
Elec: Eu estava prestes a comprar um espremedor de frutas maravilhoso.
Se eu comprá-lo agora, eles me enviam um mini-helicóptero de brinquedo
por apenas 19,90.
Greta: Podemos nos falar? Por telefone?

Não esperei nem três segundos antes de meu telefone tocar.


— Oi.
Ele sussurrou: — Oi.
— Me desculpe. — Nós dois falamos em uníssono.
— Falamos juntos. — Ele disse.
— Pode falar primeiro. — Eu disse.
— Me desculpe pelo que eu disse no elevador. Perdi o controle.
— Você estava sendo honesto.
— Mas nem por isso foi certo. Me desculpe pela forma como soou. Você
desperta o pior em mim.
— Estou emocionada.
— Merda! Soou completamente errado de novo.
Eu ri.
— Acho que sei o que está tentando dizer.
— Graças a Deus você consegue ler nas entrelinhas da minha alma.
Eu podia ouvi-lo se movendo na cama. Ele parecia estar se preparando
para a conversa que estávamos prestes a ter. Fosse ela qual fosse.
Ele deixou escapar um suspiro alto no telefone.
— Ok. O que você quer falar?
— Tenho algumas perguntas a fazer. Talvez esta seja minha última
oportunidade de fazê-las.
— Tudo bem.
— Você parou de escrever?
— Não… não parei.
— Por que não contou a Chelsea que você escreve?
— Porque, desde que a conheci, eu estou trabalhando em um mesmo
projeto, e não acho que seja uma coisa que eu possa compartilhar com ela.
— E o que é?
— É autobiográfico.
— Você está escrevendo a história da sua vida?
— Sim — ele suspirou. — Sim, estou.
— Alguém sabe disso?
— Não. Só você.
— É terapêutico?
— Às vezes. Em outras, é difícil reviver algumas coisas que aconteceram,
mas é algo que eu preciso fazer.
— Se ela não sabe sobre o livro, quando é que você escreve?
— Tarde da noite, quando ela está dormindo.
— Você vai contar para ela?
— Não sei. Algumas coisas no livro iriam deixá-la triste.
— Como o quê?
— Minha vez de fazer uma pergunta. — Ele me interrompeu.
— Ok.
— O que aconteceu com o cara de quem você estava noiva?
— Como você sabe que eu fiquei noiva, aliás?
— Me responda primeiro.
— O nome dele era Tim. Moramos juntos por um tempo, em Nova York.
Era uma boa pessoa, e eu queria amá-lo, mas não consegui. O fato de eu nem
sequer cogitar a hipótese de me mudar para a Europa, quando o trabalho dele
pediu uma transferência, me provou isso. É sério, não tem muito mais coisas
a contar, sobre isso. Agora, vai me dizer como soube?
— Randy me contou.
— Pensei que vocês não estavam se vendo.
— Ainda nos falávamos, às vezes. Perguntei para ele sobre você uma vez,
e ele me deu a notícia. Acreditei que você estava feliz.
— Não estava.
— Sinto muito por ouvir isso.
— Você teve outras namoradas além de Chelsea?
— Chelsea é o meu primeiro relacionamento sério. Vagabundeei bastante,
antes disso.
— Entendo.
— Eu não incluí você nessa frase. Você não fez parte da vagabundagem. O
que aconteceu entre a gente foi diferente.
— Entendo o que quer dizer — depois de um período de silêncio, eu disse:
– Quero que seja feliz, Elec. Se ela te faz feliz, vou me sentir assim, também.
Você me disse que ela foi a melhor coisa que te aconteceu. Isso é ótimo.
— Eu não disse isso. — Ele afirmou secamente.
— Sim, você disse.
— Eu disse que ela era uma das melhores coisas. Assim como você. Só
que em um outro período.
Em um outro período, um tempo passado.
Entendeu agora, Greta?
— Obrigada. — Eu disse.
— Não me agradeça. Eu tirei a porra da sua virgindade e fui embora. Não
mereço sua gratidão.
— Você fez o que achava que deveria ter feito.
— Ainda assim é errado. Foi egoísta.
— Eu não mudaria nada a respeito daquela noite, se isso te faz sentir
melhor.
Ele respirou fundo.
— Você tem certeza disso?
— Sim.
— Não me arrependo de nada que aconteceu naquela noite, só do que
aconteceu depois.
Fechei meus olhos. Nós dois ficamos em silêncio por um bom tempo.
Acho que aquele dia tinha, finalmente, nos atingido fisicamente.
— Você ainda está aí? — Perguntei.
— Ainda estou aqui.
Deixei que aquelas palavras penetrassem em mim, sabendo que amanhã ele
não estaria mais ali. Eu precisava dormir por pelo menos duas horas antes de
dirigir de volta para Boston, pela manhã.
Eu precisava deixá-lo ir.
Deixá-lo ir.
— Vou tentar dormir um pouco. — Eu disse.
— Fique no telefone comigo, Greta. Feche os olhos. Tente dormir. Só
fique no telefone.
Puxei o edredom por cima de mim.
— Elec?
— Sim…
— Você foi a melhor coisa que aconteceu para mim. Espero um dia poder
dizer que foi uma das melhores, mas, por enquanto, é só você.
Fechei meus olhos.

Elec me encontrou no balcão da recepção do hotel, onde ambos fizemos o


check-out.
Tínhamos tomado banho, mas usávamos as mesmas roupas que da boate
da noite anterior. Os pelos em seu queixo tinham crescido durante a noite e,
por mais que seus olhos estivessem cansados, ele ainda parecia
dolorosamente sexy naquela roupa, mesmo às dez da manhã.
As palavras que ele disse na noite anterior ainda apitavam na minha mente:
Estou lutando contra a vontade de te encurralar nesta parede e te foder com
tanta força a ponto de ter que te carregar de volta para o seu quarto.
Paramos na Starbucks do cassino e, enquanto esperávamos por nossos
cafés, pude senti-lo olhando para mim. Eu estava, intencionalmente, tentando
não olhar de volta, porque tinha certeza que ele seria capaz de ver a tristeza
em meus olhos.
Acabamos tomando nosso café da manhã na estrada. A viagem de volta
para casa foi muito calma. Era como uma calmaria depois da tempestade. O
redemoinho do dia anterior deu lugar a um sentimento de impotência
entorpecente, naquela manhã.
Uma balada de rock tocava na estação de rádio, enquanto eu mantinha
meus olhos na estrada. Parecia que o peso de um milhão de palavras não ditas
nos rondava, mas permanecíamos em silêncio.
Ele disse apenas uma única coisa durante toda a viagem: — Você vai me
levar ao aeroporto?
— É claro. — Disse, sem olhar para ele.
A ideia original era Clara levá-lo, mas eu não tinha certeza de como me
sentiria com a mudança de planos, o que iria prolongar a agonia.
Estacionamos em frente à casa de Greg e Clara. Elec correu para reunir
seus pertences enquanto eu o esperava no carro. Já que teríamos um tempo
extra, o plano era passar na casa da minha mãe e dar uma olhada nela, antes
de partirmos para o aeroporto.
Ele deixou o celular sobre o assento do carro e uma mensagem de texto
chegou. A tela estava iluminada, e eu não resisti e o peguei. Era de Chelsea.
Vou te esperar acordada. Mal posso esperar para que chegue em casa.
Tenha uma boa viagem. Te amo.
Arrependi-me de lê-la porque ela solidificava que tudo estava mesmo
chegando ao fim.
Antes que eu pudesse me permitir um minuto de autopiedade, Elec chegou
carregando uma grande mala de viagem. Entrou no carro, olhou para seu
telefone e enviou uma mensagem rápida, enquanto eu dava ré e saía da
garagem.
Minha mãe não estava, quando passamos na casa dela. Quando lhe enviei
uma mensagem de texto, ela respondeu que tinha saído para caminhar.
Com certeza, eu não tinha a intenção de ficar sozinha com Elec na casa que
guardava todas as nossas lembranças juntos.
Ele encostou no balcão.
— Ei, você tem um pouco daquele seu sorvete por aí? Estou desejando ele
há sete anos.
Eu venho desejando você há sete anos.
— Acho que você está com sorte. — Eu disse, abrindo o freezer.
Ironicamente, pensando que eu iria precisar, fizera um pouco do meu velho
sorvete na noite anterior ao funeral e o colocara no freezer. É claro, não havia
voltado para casa, para tomá-lo.
Coloquei-o em uma tigela e peguei duas colheres no armário. Sempre
compartilhamos a mesma tigela e, pelos velhos tempos, mantive a tradição.
— Você colocou Snickers extra, nele.
Sorri.
— Coloquei, sim.
Ele fechou os olhos e gemeu, depois da primeira colheirada.
— Nada é melhor do que seu sorvete de bunda. Senti falta dele.
Eu senti falta disso.
Estar naquela cozinha, compartilhando o sorvete com ele, me fez me sentir
como no passado, mais do que nunca. Gostaria de voltar para aquele tempo
só por mais um dia. Ele estaria apenas no segundo andar e não indo para casa,
para Chelsea. Estaríamos jogando nosso videogame. Era muito mais simples,
antigamente.
Então, lembranças daquela noite, quando fizemos amor, começaram a
surgir na minha mente em um ritmo acelerado. Não é mais tão simples. Sua
partida começava a realmente me atingir. O silêncio não estava mais
funcionando para mim, então eu tentei conversar despretensiosamente só para
mascarar minha melancolia.
— O que Greg e Clara disseram?
— Perguntaram onde nós fomos. Contei a eles.
— Eles acharam bizarro?
— Acho que Greg ficou um pouco preocupado.
— Por que ele ficaria preocupado?
Ele tirou a colher da boca bem devagar, e olhou para baixo, com hesitação.
— Ele sabe.
— Sabe o quê?
— Sobre nós.
Coloquei minha colher na tigela e limpei os cantos da minha boca.
— Como?
— Contei para ele, alguns anos atrás. Eu não confiava em mais ninguém.
— Eu só… Você me disse para não contar para ninguém, e eu não contei, a
não ser para Victoria, muitos anos depois.
— Greg foi a única pessoa para quem contei.
— Eu não sabia…
Ele alterou o tom de voz.
— Você não sabia que o que aconteceu entre nós me afetou do mesmo
jeito que afetou a você. Eu sei disso. Porque fiz com que acreditasse nisso.
— Acho que não importa mais. — Eu disse, sem fôlego, tão baixinho que
acho que ele nem me ouviu.
Elec levantou-se para levar a tigela para a pia, lavou-a e colocou no
escorredor.
Depois, olhou novamente para mim.
— Você sempre foi importante para mim, Greta. Sempre.
Eu só assenti, me recusando a chorar, mas me sentindo completamente
destruída, por dentro. Era diferente da última vez em que nos despedimos.
Naquela época, por mais que eu estivesse um desastre emocional, era jovem e
achava que meus sentimentos eram apenas paixão, e que eu me livraria deles.
Infelizmente, dessa vez, tendo a vantagem da experiência e da
retrospectiva, eu sabia, sem sombra de dúvidas, que estava desesperadamente
apaixonada por ele.

O caminho até o Aeroporto Logan pareceu levar só alguns minutos. Um


tom de rosa iluminava o céu, o que era apropriado, já que eu tinha de me
despedir de Elec ao pôr-do-sol. Não preparada para dizer adeus, optei por não
dizer nada durante toda a viagem, e ele fez o mesmo.
Enquanto saíamos do carro logo em frente à entrada para o seu terminal, o
vento estava poderoso em meio ao som ensurdecedor dos aviões decolando.
Cruzando meus braços de forma protetora, fiquei parada em frente a ele.
Eu não sabia o que dizer ou fazer. Não conseguia nem olhar nos olhos dele.
Agora não era o momento certo para congelar completamente, mas era
exatamente o que estava acontecendo comigo.
Olhei para céu, para o chão, para os carrinhos… para qualquer lugar,
menos para Elec. Eu sabia que, assim que olhasse em seus olhos, eu me
perderia.
O tom de voz dele foi rude: — Olhe para mim.
Balancei a cabeça e me recusei a deixar as primeira lágrimas caírem.
Limpei meus olhos e continuei a olhar para qualquer coisa que não fosse ele.
Não podia acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.
Quando, finalmente, olhei em seus olhos, fiquei chocada por ver que eles
também estavam molhados.
— Está tudo bem — eu disse. — Vá. Por favor. Mande mensagens, se
quiser. É só que… eu não vou conseguir dizer adeus… Não para você.
— Ok. — Ele só disse isso.
Inclinei-me e beijei-o rapidamente no rosto, antes de correr para o carro e
fechar a porta.
Relutantemente, ele pegou a mala e caminhou em direção à entrada.
Quando as portas automáticas finalmente se fecharam atrás dele, inclinei
minha cabeça contra o volante. Meus ombros começaram a tremer assim que
deixei as lágrimas, que vinha lutando para esconder, caírem livremente. Era
só uma questão de tempo antes que alguém me pedisse para sair dali, afinal,
era uma área para estacionamento rápido. Mas eu não conseguia nem me
mover.
Mas é claro que alguém começou a bater na minha janela.
— Já vou, já vou. — Eu disse, sem nem olhar para cima. Quando eu estava
prestes a dar a partida no motor, a pessoa bateu novamente.
Olhei para minha direita e vi Elec parado ali.
Sequei minhas lágrimas, desesperadamente, e saí do carro, dando a volta
para ficar perto dele.
— Esqueceu alguma coisa?
Ele deixou a mala cair e assentiu. Surpreendeu-me quando pegou meu
rosto em suas mãos e beijou meus lábios com ternura. Era como se eu
estivesse derretendo em seus braços. Minha língua instintivamente tentou
entrar em sua boca, mas ele não a abriu para mim. Só manteve os lábios
pressionados contra os meus com força, respirando de forma incerta. Era um
tipo diferente de beijo, não um daqueles que leva a algo mais, mas um
doloroso e difícil.
Era um beijo de adeus.
Afastei-me.
— Saia daqui. Você vai perder o seu voo.
Ele simplesmente não tirava as mãos do meu rosto.
— Eu nunca superei ter te magoado na primeira vez, mas fazer isso duas
vezes… Pode acreditar em mim quando eu digo que era a última coisa que eu
gostaria de fazer em toda minha vida.
— Por que voltou logo agora?
— Eu me virei e te vi chorando. Que tipo de babaca sem coração seria
capaz de te deixar assim?
— Bem, não era para você ter visto. Você deveria ter continuado a andar,
porque agora está tornando tudo muito pior.
— Eu não queria que aquela fosse minha última visão de você.
— Se você realmente a ama, não deveria ter me beijado.
Eu não tinha a intenção de dizer isso.
— Eu a amo — ele olhou para o céu, mas logo voltou a olhar para mim,
com olhos angustiados. — Você quer saber a verdade? Merda, eu amo você,
também. Acho que não tinha ideia do quanto, até te ver novamente.
Ele me amava?
Eu ri de nervoso.
— Você ama as duas? Isso é uma baita confusão, Elec.
— Você sempre me disse que prefere a sinceridade. Estou te dando isso.
Me desculpe se a verdade é uma maldita confusão.
— Bem, ela tem a vantagem de morar com você. Você vai me esquecer
logo, logo. Isso vai simplificar as coisas. — Comecei a caminhar de volta
para o lado do motorista.
— Greta… Não vá embora assim.
— Não sou eu que estou indo embora.
Fechei a porta, liguei o motor e comecei a dirigir. Só olhei pelo retrovisor
uma vez, e vi Elec parado no mesmo lugar. Talvez minha reação tivesse sido
injusta, mas, se ele tinha sido honesto com seus sentimentos, eu também tinha
sido.
Tudo que eu conseguia pensar durante o caminho para casa era no quanto a
vida podia ser cruel. Aquele que “vai embora” deveria simplesmente ficar
longe, não voltar só para te abandonar mais uma vez.
Quando estacionei na garagem, reparei que havia um envelope no banco
do passageiro. Eram os mil dólares em dinheiro que eu tinha dado a ele. O
que significava que todo o dinheiro que gastamos na noite passada fora dele.
Havia um bilhete, também.

Dois meses depois de Elec voltar para a Califórnia, eu comecei a retomar


minha rotina regular em Nova York.
Minha mãe veio ficar comigo no primeiro mês depois da morte de Randy,
mas decidiu que não era feliz vivendo longe de Boston. Com Greg e Clara
tomando conta dela e minhas visitas a cada final de semana, ela parecia estar
voltando ao normal, o máximo que conseguia.
Eu e Elec não entramos mais em contato. Era um pouco decepcionante não
receber nem mesmo uma mensagem de texto, especialmente pela forma como
as coisas ficaram entre nós, mas eu não ia ser a primeira a fazer contato. Até
onde eu sabia, nunca mais iria receber notícias dele.
Pensar nele ainda me consumia todos os dias. Eu me perguntava se ele
tinha pedido Chelsea em casamento. Me perguntava, também, se ele ainda
pensava em mim. E o que teria acontecido, se eu não tivesse voltado para o
meu quarto na noite em que ficamos juntos na boate. Então, por mais que eu
estivesse em casa, minha mente viajava constantemente.
Minha vida em Manhattan era bastante previsível. Eu passava longos dias
no escritório e ia para casa por volta das oito da noite. Se eu não saísse para
tomar alguns drinques com meus colegas de trabalho, passava meus finais de
semana lendo até cair no sono, com meu Kindle em cima do meu rosto.
Nas noites de sexta, minha vizinha, Sully, e eu costumávamos jantar e
beber alguns drinques no pub debaixo do meu prédio, o Charlie’s. A maioria
das mulheres de vinte e poucos anos passava as noites de sexta-feira com
seus namorados ou com um grupo de mulheres da sua idade. Ao invés disso,
eu escolhia passá-las com um travesti de setenta anos.
Sully era um asiático pequeno que se vestia como uma mulher, e, na
verdade, eu jurava que era uma mulher até uma noite em que um par de
cuecas de lycra me revelou um volume grande e desproporcional. Às vezes
eu pensava em Sully como ele, em outras, como ela. Mas não fazia a menor
diferença, porque, quando descobri sobre esse fato, eu já tinha me
apaixonado por ela como pessoa, então não me importava com seu sexo.
Sully nunca se casou, não tinha filhos e era muito protetora com relação a
mim. Todas as vezes que um cara entrava no Charlie’s, eu virava para Sully e
perguntava, em tom de brincadeira: “E aquele ali?”.
A resposta era sempre a mesma: “Não é bom o suficiente para minha
Greta… mas eu pegaria.”. Então, caíamos na gargalhada.
Sempre me sentia hesitante em contar para Sully sobre Elec, porque eu
tinha muito medo que ela quisesse caçá-lo e lhe dar um chute na bunda. Em
uma sexta-feira à noite em particular, depois de muitas margaritas, eu
finalmente contei toda a história, do começo ao fim.
— Agora eu entendo. — Disse Sully.
— Entende o quê?
— Porque você fica aqui comigo toda sexta à noite ao invés de aceitar um
encontro com um homem. Entendi o porquê de você não abrir seu coração
para ninguém. Ele pertence a outra pessoa.
— Pertencia. Agora ele só está partido. Como faço para consertá-lo?
— Às vezes, não dá para consertar.
Sully olhou para o nada, e eu suspeitei que ela estava falando por
experiência própria.
— O truque é forçar a si mesma a abri-lo, por mais que esteja partido. Um
coração partido ainda bate. E eu tenho certeza de que há muitos homens que
gostariam de uma oportunidade de tentar consertá-lo, se você permitisse —
ela continuou: — Vou te dizer uma coisa.
— O quê?
— Esse tal de… Alec?
— Elec. Com “E”.
— Elec. Ele tem sorte de eu não pegar aviões. Eu incendiaria as bolas dele.
— Eu sabia que você ia se sentir assim. Era por isso que eu tinha medo de
te contar.
— E eu não sei quem essa Kelsey é…
— Chelsea.
— Que seja. Mas não tem chance de ela ser melhor que a minha Greta,
mais bonita ou com um coração melhor. Ele é um idiota.
— Obrigada.
— Algum dia ele vai entender que cometeu um grande erro. Então vai
aparecer aqui, mas você já terá partido, e a única pessoa que vai estar
esperando por ele serei eu.

Naquele final de semana, me senti melhor pela primeira vez, desde o que
acontecera com Elec. Por mais que nada tivesse mudado, as palavras de
encorajamento de Sully me ajudaram a tirar um pouco da minha depressão.
No domingo, eu finalmente decidi trocar minhas roupas de inverno pelas
de verão. Normalmente, eu adiava essa troca até o limite, quase já no meio do
verão. Passei o dia inteiro lavando roupas, separando itens para doação e
organizando meus armários com cuidado. O clima estava seco e agradável, e
as janelas do meu apartamento ficaram abertas.
Decidi que eu merecia uma taça de vinho Moscato depois do meu longo
dia de trabalho doméstico. Sentei-me na varanda e fiquei olhando para a rua.
Uma brisa gostosa de verão se manifestava, enquanto o sol começava a se
pôr; estava um final de tarde perfeito.
Fechei meus olhos e fiquei ouvindo os sons da vizinhança: o trânsito, as
pessoas gritando, as crianças brincando num quintal próximo. Um cheiro de
churrasco veio em minha direção, de alguma varanda adjacente. Isso me fez
lembrar que eu não tinha comido nada o dia inteiro, o que explicava por que
o vinho tinha me afetado tão rápido.
Disse a mim mesma que eu adorava minha independência: poder fazer o
que eu quisesse, ir aonde eu quisesse, comer o que e onde eu quisesse… Mas,
bem lá no fundo, eu desejava compartilhar minha vida com alguém.
Meus pensamentos sempre pareciam voltar a ele, não importando o quanto
eu lutasse contra. O que eu não esperava, naquela noite silenciosa de verão,
era reciprocidade.
Quando meu celular alertou que havia uma mensagem de texto, eu não o
chequei imediatamente. Eu tinha certeza de que deveria ser Sully me
convidando para assistir algo na televisão, ou minha mãe, para ver se eu
estava bem.
Meu coração começou a bater fora de controle quando vi o nome dele. Eu
não tive coragem de ler a mensagem imediatamente, porque eu sabia que ela
iria destruir a tranquilidade daquela noite. Eu não sabia por que estava tão
assustada. Não era como se as coisas com Elec pudessem piorar, a não ser
que ele estivesse entrando em contato comigo para anunciar formalmente o
seu noivado, o que iria me deixar devastada.
Respirei fundo, terminei o meu vinho, em um rápido e longo gole, e contei
até dez, antes de dar uma olhada na mensagem:
Quero que você leia.
UMA ÚNICA FRASE, E TODO O PEQUENO PROGRESSO QUE EU FIZERA NAQUELE
final de semana, em tentar esquecê-lo caiu por terra. Minha mão estava
tremendo enquanto eu pensava em uma resposta.
Ele queria que eu lesse a autobiografia na qual ele estava trabalhando. Por
que agora? De todas as coisas que ele poderia dizer, aquela era a última coisa
que eu esperava.
Saber que eu iria descobrir todas as coisas que sempre me intrigaram era
absolutamente excitante e assustador ao mesmo tempo – mais assustador, na
verdade. Por mais que eu tivesse certeza que algumas partes iriam me deixar
triste, eu já sabia qual seria minha resposta para ele. Como poderia dizer não?

Vou adorar.
Elec: Sei que é um pouco estranho, ainda mais depois de como as coisas
ficaram entre nós.

Ele respondeu imediatamente, como se estivesse esperando por uma


resposta.

Greta: Eu, com certeza, não estava esperando por isso.


Elec: Eu não confio em mais ninguém para lê-lo. Preciso que seja você.
Greta: Como vai enviá-lo?
Elec: Posso te mandar por e-mail hoje à noite.

Hoje à noite? Eu tinha de trabalhar no dia seguinte. Mas sabia, também,


que não iria conseguir parar de ler depois que começasse. No que eu estava
me metendo?
Greta: Ok.
Elec: Não está terminado ainda, mas é um pouco longo.
Greta: Daqui a pouco eu abro meu e-mail e pego.
Elec: Obrigado.
Greta: Não há de quê.

Coloquei o resto do vinho na taça e senti que não conseguia respirar rápido
o bastante. O cheiro do churrasco do vizinho, que antes parecia tão apetitoso,
agora estava me deixando enjoada.
Saí da varanda e entrei no meu quarto pela janela. Abri meu notebook e
digitei a senha do meu e-mail rápido demais, tendo que tentar várias vezes
antes de conseguir escrevê-la corretamente.
Em negrito, no topo, estava o e-mail de Elec O’Rourke. O assunto dizia
apenas: Meu livro. Não havia mensagem no corpo de e-mail, apenas um
documento de Word em anexo. Imediatamente o converti para outro formato,
para que pudesse lê-lo no meu Kindle.
Eu sabia que aquela história iria me deixar devastada. Com certeza,
encontraria revelações que explicariam o comportamento de Randy e Elec um
com o outro.
O que eu não esperava era que já me sentiria destruída logo na primeira
frase.

Prólogo: A maçã nunca cai longe do pé


Eu sou o filho bastardo do meu irmão.
Confuso?
Imagine como eu me senti quando a bomba foi jogada em cima de mim.
Quando eu tinha quartorze anos, foi essa revelação que
me definiu.
Minha infância miserável teria feito muito mais sentido se tivessem me contado esse
pequeno detalhe antes.
O segredo nunca deveria ter sido revelado. O plano era me fazer acreditar que o homem
que me degradou, desde que me entendo por gente, era meu pai.
Quando ele deixou minha mãe por outra mulher, Mami acabou sofrendo um colapso
nervoso e, em uma certa noite, cuspiu a verdade sobre como eu nasci. Assim que ela contou
os detalhes sórdidos, eu não consegui compreender quem era pior: o homem que eu sempre
acreditei ser meu pai, ou o doador de esperma que eu nunca tive a chance de conhecer.
A história fodida da minha vida começou há vinte e cinco anos, no Equador. Foi quando
um imigrante Irlandês, Patrick O’Rourke, que trabalhava com negócios nos EUA, avistou
uma linda adolescente que vendia seus trabalhos de arte na rua.
Seu nome era Pilar Solis. Patrick sempre teve uma queda por arte e lindas mulheres,
então ficou imediatamente hipnotizado. Com sua beleza exótica e seu talento extremo, ela
era diferente de todas as outras que ele tinha conhecido.
Mas era muito jovem, e ele não demoraria a partir. Mas isso não o impediu de ir atrás do
que queria.
Patrick era um executivo em uma empresa de café americana. Pediram a ele que
supervisionasse a compra de algumas safras, em Quito.
Mas a única coisa que Patrick decidiu supervisionar foi Pilar.
Ele passou a visitar a rua onde ela ficava todas as manhãs. Todos os diascomprava uma
de suas pinturas até, finalmente, comprar todas elas. As pinturas de Pilar eram a principal
fonte de renda de sua família grande e pobre. Todas as imagens eram vitrais pintados a partir
de sua memória.
Patrick ficou obcecado, mais pela garota do que pela arte. Sua viagem deveria ter durado
apenas três dias, mas ele acabou ficando seis.
Sem que Pilar soubesse, Patrick decidiu que não iria para casa a não ser que conseguisse
levá-la com ele.
Por mais que ela tivesse menos de dezoito anos, ele localizou seus pais e começou a
cortejá-la com a aprovação deles. Ele lhes deu dinheiro e comprou alguns presentes para
cada membro da família Solis.
Ele conversou com seu pai sobre a possibilidade de levá-la para os Estados Unidos, onde
ele poderia protegê-la, colocá-la para estudar e ajudá-la a construir uma verdadeira carreira
artística. A família estava desesperada para que um dos seus tivesse uma oportunidade, então
eles acabaram concordando em deixá-la ir com Patrick.
Pilar ficou fascinada e assustada com aquele homem mais velho. Sentiu-se na obrigação
de ir com ele, apesar de qualquer hesitação. Ele era bonito, carismático e controlador.
Quando Pilar já estava morando nos Estados Unidos, Patrick manteve sua palavra. Ele se
casou com ela assim que ela fez dezoito anos, para que fosse mais fácil sua aceitação em
uma escola de arte e para que tivesse aulas de inglês. Também usou seus contatos para que
ela conseguisse expor seu trabalho em uma galeria. Só havia uma coisa implícita em tudo
aquilo: Pilar era dele. Ele tinha posse sobre ela.
O que ela não sabia era que Patrick tinha uma família ― uma ex-esposa, que tinha
acabado de chegar na cidade com o filho deles.
Em uma tarde, Pilar estava pintando no quarto que Patrick criou para aquele propósito.
Um homem jovem e musculoso, vestindo nada mais que uma calça jeans, com mais ou
menos sua idade, surgiu à soleira da porta. Pilar não fazia ideia de quem ele era, mas seu
corpo reagiu a ele imediatamente. Era uma versão mais jovem e mais bonita de seu marido.
Ela, então, ficou chocada por descobrir que Patrick tinha um filho e que ele ficaria na casa
deles durante o verão.
Todas as tardes, quando Patrick estava no trabalho, seu filho, Randy, sentava-se e
observava Pilar pintar. Começou como algo inocente. Ela contou-lhe histórias sobre o
Equador, ele apresentou-lhe as mais novas músicas da cultura pop americana – coisas que
Patrick não conhecia, por ser vinte anos mais velho.
Logo, Pilar se viu completamente desesperada, e apaixonada pela primeira vez na vida.
Randy, que sempre se sentiu abandonado por Patrick, não tinha qualquer lealdade ao pai.
Quando Pilar admitiu que seus sentimentos pelo marido eram platônicos, Randy não hesitou
em tirar vantagem.
Em um dia, ele ultrapassou os limites e beijou-a. A partir daquele momento, não havia
mais volta. Seus encontros à tarde deixaram de ser conversas inocentes e passaram a ser
encontros sórdidos. Não demorou muito para que eles começassem a falar sobre um futuro
secreto. O plano era continuar com o romance em segredo até que Randy terminasse a
faculdade e não fosse mais financeiramente dependente de Patrick. Então, eles poderiam
fugir juntos.
Durante esse período, Randy mudou-se permanentemente para a casa de Patrick, para
ficar mais perto dela, e fingiu ter algumas namoradas para despistar. Randy e Pilar sempre
eram muito cuidadosos, até que, um dia, calcularam errado a volta de Patrick de uma viagem
de negócios para a Costa Rica.
Foi nesse dia que Patrick pegou sua jovem esposa trepando com seu filho na cama deles.
Foi esse exato momento, também, que desencadeou a série de eventos que culminaria em
minha existência.
Patrick, irado, trancou Pilar em um closet enquanto espancava Randy, antes de expulsá-lo
de sua casa. Ele também estuprou minha mãe na mesma cama onde a encontrou com seu
filho. No momento em que Randy invadiu a casa pela janela, já era tarde demais.
O que aconteceu logo depois não é algo muito claro para mim, porque os detalhes não me
foram passados. A única coisa que eu sei com absoluta certeza é que Patrick nunca saiu
daquele quarto vivo.
Mami disse que ele caiu e acidentalmente bateu com a cabeça, bem no meio da briga com
Randy. Suspeito que Randy possa tê-lo matado, mas ela nunca admitiria, se isso fosse
mesmo verdade. Sei que ela seria capaz de proteger Randy até o dia de sua morte, mesmo
depois de ele tê-la traído.
A polícia nunca suspeitou de nada e acreditou na história de Patrick ter caído e batido
com a cabeça.
Por ter vivido uma vida extravagante e por pagar os estudos de Randy e Pilar, Patrick não
lhes deixou nenhuma herança. Randy teve de trancar a faculdade, enterrar seus sonhos e
aceitar trabalhos medíocres.
Foi uma época muito difícil para Pilar, especialmente quando ela descobriu que estava
grávida. Ela sabia que não podia ser de Randy, já que eles sempre tinham sido muito
cuidadosos..
O bebê era de Patrick.
Randy a amava e se culpava pela situação na qual os dois estavam.
Implorou por um aborto, mas ela se recusou.
Ele sabia que nunca seria capaz de amar o produto da noite em que seu pai estuprou Pilar.
E ele estava certo. Nunca conseguiria, mas poderia me criar como seu próprio filho,
passando o resto de sua vida jogando toda a culpa em cima de mim.
E foi assim que Randy tornou-se meu pai, e como eu me tornei o filho bastardo do meu
irmão.

Isso era apenas o prólogo, mas eu já sentia como se um terremoto tivesse


feito tudo desmoronar na minha cabeça. Eu não podia acreditar no que tinha
acabado de ler.
Minha mente e meu corpo estavam no meio de uma guerra, porque,
enquanto meu coração precisava de um descanso antes de continuar, meu
cérebro sentia uma necessidade urgente de virar a página. Assim que
começasse a ler, sei que não iria conseguir parar durante a noite inteira.
Li metade do livro antes do amanhecer. Ler a respeito do abuso verbal que
Elec sofreu pelas mãos de Randy era extremamente doloroso. Enquanto
criança, Elec se escondia no quarto e se perdia em seus livros para escapar da
realidade. Randy, às vezes, o punia sem nenhum motivo, e tirava os livros
dele. Em uma dessas vezes, Elec começou a escrever uma história em um
papel e descobriu que escrever era uma fuga muito mais satisfatória. Ele
podia controlar os destinos de seus personagens, uma vez que não podia
mudar o seu, pois ainda era forçado a morar na casa de Randy.
Enquanto criança, ele nunca soube o verdadeiro motivo por trás do ódio de
Randy. A forma como Pilar protegia Randy era inaceitável, e eu sentia
vontade de estrangulá-la através daquelas páginas. A única coisa que ela fez
contra a vontade de Randy foi comprar um cachorro para Elec. Lucky se
tornou seu único e melhor amigo.
Elec ainda contou o momento em que descobriu a infidelidade de Randy.
Ele hackeou o computador do pai e descobriu seu romance online com minha
mãe. Elec se sentiu culpado por ser o portador da notícia para Pilar. Randy se
mudou logo depois.
O colapso subsequente de Pilar deu início a um novo grupo de
acontecimentos. Ela se tornou dependente de Elec, da mesma forma como
sempre dependeu de Randy. Aquilo fez com que Elec descobrisse a verdade
sobre Patrick, e a morte de Lucky causou um declínio total.
Ele começou a fumar e a beber para diminuir o estresse, desenvolveu um
vício em tatuagens, como uma forma de se expressar, e se tornou
sexualmente promíscuo. Perdeu a virgindade aos quinze anos com uma
tatuadora, depois de convencê-la que tinha dezoito.
Foi muito difícil ler algumas partes do livro, mas sua honestidade brutal
era admirável.
Li direto até chegar em um ponto onde eu precisei dar uma pausa..
Era o capítulo sobre mim.

Capítulo 15: Greta Vingança.


Era a única coisa que me fazia aceitar ter de passar parte do ano seguinte vivendo com
Randy e sua nova família, enquanto Mami “viajava”.
Meu único consolo era pensar na satisfação que eu teria em tornar suas vidas miseráveis.
Ele iria pagar por deixar minha mãe despedaçada e por me tornar o responsável por catar
os pedaços.
Eu já tinha decidido que a odiava, a filha. Não a conhecia, mas imaginei o pior,
baseando-me só no seu nome, que ironicamente rimava com “vendetta”.
Greta.
Achei o nome feio.
Podia apostar que o rosto combinava com ele.
No instante em que pus os pés para fora daquele avião, a poluição e o cheiro de Boston
pareciam um belo “foda-se” para mim. Tinha ouvido uma música que dizia que a água ali era
suja, por isso não fiquei surpreso quando olhei ao meu redor.
Quando finalmente cheguei na casa, recusei-me a sair do carro de Randy, mas estava frio,
e minhas bolas começavam a congelar. Então, finalmente desisti e arrastei meus pés para
dentro.
Minha meio-irmã estava na sala de estar esperando por mim, com um sorriso no rosto.
Meus olhos imediatamente pousaram em seu pescoço.
Puta. Merda.
Lembram quando eu quase apostei que o rosto devia ser feio como o nome? Bem,
aparentemente eu perdi a aposta. Greta não era feia… Nem um pouco.
Esse detalhe era apenas um pequeno obstáculo em meu plano, e eu estava determinado a
não desistir.
Lembrei, naquele instante, de que precisava me manter sério.
Seu cabelo loiro avermelhado estava preso em um rabo-de-cavalo, e balançava de um
lado para o outro, enquanto ela se movia na minha direção.
— Sou Greta. Prazer em conhecê-lo.
Ela cheirava tão bem que dava vontade de comê-la.
Corrigi os pensamentos em minha cabeça: dava vontade de comê-la e COSPI-LA FORA.
Não podia perder o foco.
Sua mão ainda estava estendida enquanto ela esperava que eu a cumprimentasse. Eu não
queria tocá-la. Isso me faria perder o controle. Mas acabei pegando sua mão, apertando-a
com força demais. Eu não esperava que ela fosse tão macia e delicada, como uma patinha de
pássaro ou algo assim. Tremi um pouco. Eu a estava deixando nervosa. Bom. Aquilo era um
bom começo.
— Você é diferente… do que eu imaginei.
O que isso significava?
— E você é bem… comum.
Você deveria ver a cara dela. Por uma fração de segundos, pensou que eu ia dizer algo
legal. Cortei o mal pela raiz quando adicionei a palavra “comum”. Então, seu lindo sorriso
desapareceu e se tornou uma carranca. Aquilo deveria ter me deixado feliz, mas não foi
assim que me senti.
Na verdade, ela não era nada comum. Seu corpo fazia exatamente o meu tipo: pequeno,
com curvas delicadas. Seu bumbum, perfeitamente redondo, estava enfiado em uma calça de
ioga cinza. Não me surpreendia que ela fizesse ioga, tendo um corpo firme como aquele.
E o pescoço dela… Eu nem conseguiria falar sobre ele, mas foi a primeira coisa que eu
reparei. Senti uma urgência em beijá-lo, mordê-lo, colocar minha mão ao redor dele… Era
uma coisa muito estranha.
— Você quer que eu te mostre o seu quarto?
Ela ainda estava tentando ser gentil. Eu precisava sair dali antes que arruinasse tudo,
então, a ignorei e fui em direção às escadas. Depois de um breve encontro com Sarah, a
quem eu sempre me referi como madrasta, finalmente cheguei ao meu quarto.
Depois de Randy me passar um sermão de merda por meia-hora, fumei e ouvi uma
música, só para abafar os sons na minha cabeça.
Então, fui ao banheiro para tomar um banho quente.
Derramei um pouco de sabonete feminino na minha mão. Havia uma esponja rosa
pendurada em uma ventosa na parede de azulejo. Aposto que era aquilo que ela usava para
limpar sua bundinha linda. Peguei-a e esfreguei meu corpo com ela, antes de colocá-la de
volta no lugar. O sabonete feminino não foi suficiente para o serviço, então usei um pouco
do meu, masculino, para finalizar.
O banheiro estava completamente enevoado. Saí do chuveiro, e estava me secando,
quando a porta abriu.
Greta.
Agora era minha chance de provar que não era do tipo que ladra, mas não morde.
Deixei a toalha cair no chão só para chocá-la. A ideia era fazê-la correr tão rápido que
nem chegaria a ver nada.
Ao invés disso, ela ficou parada, seus olhos grudados no piercing do meu pênis.
Mas que merda!
Ela nem estava tentando se virar, e seu olhar viajava bem devagar por todo meu peito.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, foi como se ela tivesse acordado e
percebido o que estava fazendo. Ela se virou e pediu desculpas.
Àquela altura, eu já estava começando a me divertir, então impedi que ela saísse dali.
— Você age como se nunca tivesse visto um cara nu antes.
— Na verdade… eu nunca vi.
Ela só podia estar brincando, não é?
— Que droga para você. Vai ser bem difícil para o próximo cara, com a comparação.
— Você é muito arrogante.
— Diga você. Não deveria ser?
— Meu Deus… Você está agindo como um…
— Um grande babaca?
Pois é. Isso fez com que ela calasse a boca.
Então, ficou me olhando de novo.
Estava começando a ficar desconfortável.
— Não há nada aqui além disso. Então, a não ser que esteja planejando fazer alguma
coisa, é melhor que saia e me deixe terminar de me vestir.
Ela, finalmente, foi embora.
Torci para que ela estivesse brincando. Se nunca tinha visto um homem nu antes, o que
eu tinha acabado de fazer tinha sido uma grande merda.

Alguns dias depois, eu a ouvi dizer a uma amiga que me achava gato – super… hiper…
gato – para ser exato. Honestamente, por mais que eu soubesse que causava algum efeito
nela, eu não tinha muita certeza se era uma atração física. Então, ouvir isso foi como uma
mudança no jogo. O lado bom: eu sabia que podia usar isso em meu benefício. O lado ruim:
Eu me sentia completamente atraído por ela também, e precisava me certificar de que ela não
descobriria isso.
Morar naquela casa se tornava mais fácil a cada dia. Embora eu nunca fosse admitir isso,
já não me sentia mais tão miserável. Longe disso.
Comecei a gostar de fazer pequenas coisas para deixá-la irritada, como roubar todas as
suas calcinhas e o seu vibrador. Ok, talvez não fosse uma coisa tão pequena assim. No final
das contas, comecei a perceber que a motivação por trás das minhas ações era diferente da
que planejara a princípio.
Vingar-me de Randy não era mais uma prioridade. Agora, eu estava atazanando a vida de
Greta só para chamar a sua atenção.
Em uma questão de dias, eu já tinha esquecido meu “plano malígno”.
Em uma tarde, a merda toda se tornou real quando eu, intencionalmente, levei uma garota
da escola para o Kilt Café, onde Greta trabalhava. Vou admitir: eu não tinha problema para
ficar com garotas, e já tinha ficado com algumas das mais gatas do colégio, só no primeiro
mês. Mas todas elas me entediavam. Tudo me entediava, exceto torrar a paciência da minha
meio-irmã.
Greta nunca me entediava.
A primeira coisa que pensei, quando acordei naquela manhã, foi em como eu iria mexer
com ela daquela vez.
Aquele dia, no café, não foi uma exceção, mas um ponto inicial — um que não me
permitiu voltar atrás.
Greta estava esperando em nossa mesa, e eu estava dificultando as coisas,
intencionalmente. No final das contas, ela tentou se vingar jogando molho picante na minha
sopa. Quando percebi, engoli a coisa toda só para irritá-la. Por mais que estivesse ardendo
pra caramba, eu não demonstraria. Estava tão impressionado com ela que poderia tê-la
beijado.
E foi o que eu fiz.
Sob o disfarce de uma retaliação, usei a sopa como desculpa para encurralá-la em um
corredor escuro, e fazer o que eu vinha querendo há semanas. Eu nunca vou esquecer o som
que ela fez quando eu a agarrei pela primeira vez e tomei posse de sua boca com a minha.
Era como se ela estivesse faminta por um beijo. Eu poderia tê-la beijado o dia inteiro, mas
precisava fazer com que parecesse que tinha a ver com o molho apimentado, e não com um
beijo de verdade. Então, eu, relutantemente, me afastei e voltei para a mesa.
Era difícil para diabo e nada bom. Pedi à minha acompanhante para me esperar lá fora
para que ela não reparasse.
Eu tinha que fazer com que parecesse que não tinha me afetado em nada, e precisava,
rapidamente, reforçar a ideia de que se tratava de uma piada. Eu carreguei uma das calcinhas
de Greta comigo por vários dias só esperando a oportunidade perfeita para provocá-la. Então,
deixei a calcinha como parte de sua gorjeta, com um bilhete que sugeria que ela deveria
trocar a que estava usando porque a dela deveria estar um pouco molhada.
Eu queria muito ter visto sua reação.

Começamos a passar mais tempo juntos. Ela vinha até o meu quarto para jogar
videogame, e eu ficava olhando furtivamente para seu pescoço, quando ela não estava vendo.
Eu ficava lembrando do beijo constantemente, às vezes até mesmo quando estava com
outras garotas.
Eu e Greta ficávamos tomando sorvete juntos, e a vontade de lamber as gotinhas no canto
de sua boca era enorme.
Eu sentia que estava me apaixonando por ela de várias maneiras, e não estava gostando
disso.
Não estava apenas atraído, mas ela era a primeira garota cuja companhia me agradava.
Precisava me manter no controle, pois não era uma opção ir mais longe, com ela. Então
eu continuei levando garotas para casa, fingindo que não me importava com Greta.
Isso vinha funcionando muito bem, até que descobri que ela ia sair com um cara da
escola: Bentley. O que era uma má notícia. A amiga dela acabou me convidando para ir com
eles em um encontro duplo, e eu aproveitei para ficar de olho
nos dois.
O encontro foi uma tortura. Tinha de esconder meu ciúme. Fui forçado a ficar sentado e
observar enquanto aquele babaca colocava as mãos nela. Ao mesmo tempo, a amiga de
Greta, Victoria, ficava em cima de mim, mas eu tinha zero interesse nela. Eu só queria levar
Greta para casa, em segurança, mas a noite acabou se tornando muito mais intensa do que eu
esperava. Antes que terminasse, eu quase mandei Bentley para o hospital, depois de ele
confessar que fizera uma aposta com o ex-namorado de Greta de que seria capaz de
desvirginá-la. Fiquei irado. Nunca na minha vida senti a necessidade de proteger alguém
como eu queria protegê-la, naquele momento.
No dia seguinte, Greta retribuiu o favor de uma forma impressionante.
Randy entrou no meu quarto e começou uma de suas investidas abusivas. Ela ouviu tudo
e ficou do meu lado de uma forma como nunca ninguém tinha feito. Por mais que eu tivesse
fingido estar bêbado demais para lembrar, agarrei-me em cada palavra, até que ela o
expulsou do quarto.
Pensando bem, tenho certeza de que foi naquele momento que eu me apaixonei por ela.

Naquele mesmo final de semana, nossos pais viajaram. Foi em um péssimo momento,
porque meus sentimentos por ela estavam em seu nível máximo. Inventei uma história sobre
um encontro só porque não queria ficar sozinho com ela.
Naquela noite, ela me acordou no meio de um sonho. Eu estava tendo um dos meus
pesadelos sobre a noite em que Mami quase se matou.
Tentei melhorar o clima, porque eu devia estar parecendo uma pessoa louca. Disse algo
para ela como: — Como vou saber que não está vindo aqui fazer coisas comigo quando
estou dormindo?
Era uma piada.
Mas ela começou a chorar.
Merda.
Eu tinha atingido um novo patamar.
Todas as palhaçadas que vinha fazendo para mascarar meus verdadeiros sentimentos a
tinham, finalmente, atingido. Eu tinha de parar, mas, sem os insultos e sem as piadas para me
esconder, aqueles sentimentos se tornariam óbvios.
Quando ela fugiu para seu quarto, eu sabia que não conseguiria dormir até que a fizesse
sorrir novamente. Tive uma ideia. Por isso, peguei seu vibrador, que vinha escondendo até
então, e o levei para o quarto dela. Comecei a lhe fazer cócegas com ele.
Não demorou para que ela começasse a gargalhar. Passamos o resto da noite deitados em
sua cama conversando. Foi a primeira vez que eu realmente me abri e cometi o erro de
admitir minha atração por ela.
Ela tentou me beijar, e eu cedi. Era bom sentir o gosto de sua boca novamente e não ter
de fingir que não era real. Segurei seu rosto e tomei o controle da situação. Disse a mim
mesmo que nada de mau poderia acontecer, contanto que fosse apenas um beijo. Eu estava
quase convencido, quando ela me surpreendeu com palavras que seriam capazes de me
arruinar.
— Quero que me mostre como você fode, Elec.
Surtei e a afastei de mim. Foi a coisa mais difícil que tive que fazer, mas foi necessário.
Expliquei a ela que nunca poderíamos ter deixado as coisas chegarem tão longe.
Eu, realmente, tentei manter distância entre nós. Ainda assim, aquelas palavras
perseguiram minha mente à noite, no chuveiro, durante o dia inteiro. Perdi o interesse em
outras garotas, e preferi me masturbar para colocar para fora a tensão que os pensamentos
sobre atender ao pedido de Greta, de formas que ela nem imaginava, me causaram.

Semanas se passaram, e eu fiquei desesperado para voltar a me comunicar com ela de


alguma forma. Então, decidi deixá-la ler meu livro. Assim que ela o terminou, escreveu-me
um bilhete que guardou em um envelope. Tive medo de ler o que ela tinha escrito, por isso
adiei abri-lo.
Então, veio a noite em que tudo mudou.
Greta saiu para um encontro. Eu sabia que aquele cara era inofensivo, então, não estava
preocupado com ela, daquela vez. Estava preocupado comigo. Por mais que soubesse que
não podia ter Greta, eu queria que ninguém a tivesse.
Observei-o pela janela, enquanto ele entrava segurando flores. Mas que pentelho! Eu
tinha de fazer alguma coisa. Quando ele foi até o segundo andar para usar o banheiro,
encurralei-o no corredor. Entreguei a ele uma calcinha e disse que Greta a tinha deixado em
meu quarto. Foi uma atitude de babaca, mas eu estava desesperado.
Irritei-me ainda mais quando ela saiu com ele. Quando me mandou uma mensagem de
dentro do carro, pedi a ela que voltasse para casa. Ela pensou que eu estava brincando. Eu
não estava. Perdi toda minha força de vontade por um segundo.
Logo depois, o telefone tocou, e eu tinha certeza de que era Greta.
Fiquei apavorado quando vi que era minha mãe.
Ela me ligou para dizer que estava de volta à Califórnia, que tinha sido liberada da
reabilitação. Entrei em pânico, porque ela não podia ficar sozinha no estado em que se
encontrava. Eu não sabia o que fazer, porque logo soube que teria de voltar imediatamente.
Eu não queria deixar Greta.
Mas tinha de ir.
Enviei uma mensagem de texto pedindo que ela voltasse para casa, que algo tinha
acontecido. Ainda bem que ela acreditou em mim.
Sabia que tinha de contar a ela a verdade sobre o porquê de eu ter de ir embora. Quando
ela entrou no meu quarto, estava tão linda, usando um vestido azul, que a segurei pela sua
cinturinha fina. Tudo o que eu queria era tomá-la em meus braços e nunca deixá-la partir.
Contei a ela tudo o que podia sobre Mami, naquela noite, porque ela precisava saber que
não era uma escolha minha ir embora.
Tudo estava acontecendo rápido demais. Disse a ela que deveria voltar para seu quarto,
porque não podia confiar em mim mesmo. Depois de muito reclamar, ela finalmente me
ouviu. Eu realmente tinha a intenção de fazer a coisa certa e ficar longe dela naquela noite.
Eu estava sozinho e sentindo a falta dela, embora ela estivesse no quarto ao lado. Decidi
abrir sua carta, esperando encontrar algumas correções gramaticais e pequenas críticas sobre
meu livro.
Mas ela disse coisas, naquela carta, que ninguém nunca tinha me falado. Coisas que eu
precisava ouvir: que eu era talentoso, que eu a tinha inspirado a seguir seus próprios sonhos,
que ela me respeitava, que se importava comigo, que não conseguira parar de ler, que se
apaixonara por minha escrita, que tinha orgulho de e acreditava em mim.
Greta me fez sentir coisas que nunca tinha sentido. Ela me fez me sentir amado.
Eu amava aquela garota, e não podia fazer nada a respeito.
Sem pensar direito, bati na porta do quarto dela e decidi lhe dar o que ela tinha me
pedido.
Não quero entrar em detalhes sobre as coisas que eu e Greta fizemos naquela noite. Para
ser honesto, não é algo que me deixe confortável para escrever, já que significou tanto, para
mim. Ela confiou em mim a ponto de me dar algo que nunca ninguém tivera. Aquela noite
foi sagrada, para mim, e eu espero que ela saiba disso.
A única coisa que vou dizer é que nunca vou esquecer uma certa expressão de seu rosto.
Seus olhos estavam fechados, e foi a forma como ela os abriu e a forma como olhou para
mim na primeira vez em que me coloquei dentro dela.
Até hoje eu ainda não me perdoei por tê-la deixado na manhã seguinte. Nunca me senti
tão ligado a alguém. Ela se entregou por inteiro a mim. Era minha, e eu a joguei fora. Deixei
que a culpa e aquela necessidade de proteger minha mãe, para justificar minha existência,
vencessem minha própria felicidade.
Acho que Greta nunca compreendeu o quando eu já a amava bem antes daquela noite.
Enquanto escrevo isso, penso que, o que ela definitivamente não sabe, é que mesmo anos
depois, eu ia voltar para ela, mas já seria tarde demais.
ELE IA VOLTAR PARA MIM?
Coloquei a mão no peito, como se tentando impedir meu coração de sair
dele.
A manhã já estava na metade, e a agitação da rotina diária podia ser ouvida
da minha janela. O Sol já se derramava por todo o apartamento. Eu já tinha
ligado para o trabalho mais cedo, avisando que não compareceria,
simplesmente porque precisava terminar de ler o livro naquele dia.
Naquela noite seria a comemoração do aniversário de trinta anos de um
dos meus colegas de trabalho, em uma discoteca no centro da cidade, e eu
não sabia se conseguiria largar o livro para ir.
Caminhei até a cozinha para pegar um pouco de água e me forcei a comer
uma barra de granola. Eu precisaria de muita energia para passar para a outra
parte.
Ele ia voltar para mim?
Deitei, toda encolhida, no sofá. Respirei fundo e virei a página.

Você tem de tratar um vício por um pessoa, assim como trata a dependência de drogas.
Se eu não podia ficar com Greta, então não podia manter contato com ela, porque isso me
faria sair do controle.
Nem mesmo telefonar ou mandar mensagens de texto seria possível. Parecia severo
demais, mas eu não seria capaz de suportar nem mesmo o som de sua voz, se não podíamos
ficar juntos.
Mas isso não queria dizer que eu não pensava nela todos os dias. Aquele primeiro ano foi
um inferno.
Mami não estava melhor do que quando fui para Boston. Ela ficava me interrogando,
pedindo informações sobre Randy e Sarah. Fuçava a página do Facebook de Sarah, e me
acusava de ser um traidor, depois que admiti que minha madrasta não era tão ruim, uma vez
que a conhecíamos melhor. Eu não podia sequer mencionar o nome de Greta, porque minha
mãe podia suspeitar de alguma coisa. Mami tinha voltado a tomar pílulas para dormir, e eu
tinha de ficar de olho nela como um falcão.
Eu estava certo, quando assumi que ela não poderia sequer cogitar meu envolvimento
com Greta. Era uma triste ironia: Mami estava obcecada por Sarah, e, sem que ela soubesse,
eu fiquei obcecado pela filha de Sarah. Formávamos uma dupla muito fodida.
Não havia nenhum dia em que eu não pensasse em Greta com outro cara. Isso me
enlouquecia. Eu estava tão longe e impotente. Ironicamente, uma parte de mim queria estar
perto dela, mesmo que fosse para protegê-la como minha irmã, mesmo que nunca ficássemos
juntos. Nojento, não é? Mas, e se alguém a magoasse? Eu não iria nem saber e não ia poder
dar uma lição nele. Não podia nem pensar nela trepando com outro cara. Eu acabaria fazendo
um buraco na parede do meu quarto, com apenas um soco, só de pensar nisso.
Então, em uma noite, perdi o controle e enviei uma mensagem, dizendo que sentia falta
dela. Pedi que não respondesse. Ela não respondeu, e isso me fez me sentir pior. Prometi que
nunca mais iria repetir aquele erro.
Minha vida voltou para o ponto exato no qual me encontrava antes de me mudar para
Boston: fumar, beber e trepar com garotas com quem eu não me importava. Eu estava vazio.
A única diferença de antes era que, em algum lugar, no meio daquela lama toda, eu desejava
mais… Eu a desejava. Ela me fez provar o gosto do tipo de relacionamento que eu vinha
perdendo durante todo aquele tempo.
Esperava que aquele sentimento que corroía o meu peito finalmente desaparecesse com o
tempo. Mas nunca desapareceu, apenas se intensificou. Acho que, bem dentro de mim, eu
sempre senti que, onde quer que estivesse, Greta estava pensando em mim, sentindo-se da
mesma forma. Eu sentia, e isso me consumiu por anos.

Dois anos depois, o estado mental de Mami finalmente melhorou, depois que ela
encontrou alguém. Foi seu primeiro namorado desde que Randy a abandonara. George era
libanês e dono de uma loja de conveniência no final da nossa rua. Ele sempre estava na nossa
casa, e sempre nos levava pão, massa e azeitonas. Pela primeira vez, a obsessão de Mami
para com Randy parecia ter amenizado.
George era um cara muito legal, mas quanto mais feliz ela ficava com ele, mais amargo
eu me tornava. Tinha desistido da única garota de quem gostava, porque pensara que isso
deixaria minha mãe destruída, sem qualquer chance de cura. Agora, ela estava feliz, e, eu,
me sentindo miserável. E tinha perdido Greta.
Eu sentia como se tivesse cometido o maior erro da minha vida.
Precisava falar com alguém sobre isso, porque minha raiva vinha me devorando dia após
dia. Eu não mencionei o que aconteceu com Greta para uma viva alma sequer. A única
pessoa em quem eu podia confiar era Greg, o amigo de Randy, que se tornara um segundo
pai, para mim.
Durante uma ligação, ele me passou algumas informações: aparentemente, Greta tinha se
mudado para Nova York. Ele até tinha o endereço dela por causa da lista para envio de
cartões de Natal. Greg tentou me convencer a ir até lá e dizer a ela como eu me sentia. Eu
achava que ela não ia querer me ver, mesmo se ainda gostasse de mim. Eu a tinha magoado
tanto, que não compreendia como ela poderia me perdoar. Greg achava que, se eu fosse falar
com ela pessoalmente, causaria uma boa impressão. Apesar dos meus medos, comprei uma
passagem para o dia seguinte, que seria noite de Réveillon.
Eu disse a Mami que eu ia visitar um amigo que conheci anos atrás, e comemorar o ano
novo na cidade. Eu não falaria nada a ela sobre Greta, a não ser que desse certo.
As seis horas de voo tornaram-se a experiência mais assustadora da minha vida. Eu só
queria chegar lá. Só queria abraçá-la outra vez. Eu não sabia o que dizer ou o que faria
quando colocasse meus olhos nela. Eu nem sabia se ela estava com alguém. Estava indo às
cegas.
Seria a primeira vez, na minha vida, que colocaria minha vontade em primeiro lugar e
seguiria meu coração.
Esperava que não fosse tarde demais, porque eu queria muito ter a oportunidade de dizer
a ela todas as coisas que deveria ter dito três anos antes. Ela nunca soube que eu a amava, na
noite em que me entregou sua virgindade.
Se a viagem de avião levou uma eternidade, o trajeto de metrô até o apartamento dela
pareceu ainda mais frustrantemente longo. Enquanto o trem balançava, cada lembrança que
eu tinha dela surgia na minha mente como um filme. Não conseguia não sorrir enquanto
pensava nas merdas que tinha falado para ela e o quão divertido era provocá-la. Ela me fazia
feliz. Na maioria das vezes, minha mente vaiajava até aquela noite em que ela me deu total
posse de seu corpo. E foi quando o trem parou, então houve um ligeiro atraso. Encontrá-la
parecia ainda mais urgente.
Eu precisava chegar até ela.
Quando eu, finalmente, cheguei em seu prédio, chequei duas vezes o endereço que havia
anotado em um pedaço de papel. Seu sobrenome, Hansen, estava gravado em uma caixa de
correio, ao lado do apartamento 7B, na lista ao lado da entrada principal.
Ninguém atendeu. Deixei de lado a ideia de ligar ou enviar uma mensagem de texto,
porque eu fiquei com medo de ela dizer que não queria me ver antes que eu tivesse a chance
de vê-la. Já tinha ido até ali. Precisava, ao menos, ver o rosto dela.
O restaurante embaixo do prédio dela serviu como ponto de espera perfeito, antes que eu
tentasse bater em sua porta novamente.
Bati naquela porta hora após hora, de quatro da tarde às nove da noite. Cada vez que
ninguém atendia, eu voltava para o pub Charlie’s e esperava.
Foi às nove e quinze da noite. Eu nunca vou esquecer do momento em que meu desejo foi
atendido.
Eu consegui vê-la.
Mas não da forma como eu queria que acontecesse.
Greta.
Ela vestia uma parca marfim quando entrou no Charlie’s. Mas não estava sozinha. Um
cara, que parecia muito mais apropriado do que eu para ela, estava com os braços ao redor
dela.
A comida gordurosa que eu tinha comido começou a se remexer em meu estômago.
Ela estava rindo, enquanto os dois se sentavam numa mesa no meio do restaurante.
Parecia feliz. Sequer reparou em mim, porque estava de costas, uma vez que eu estava
sentado em um canto.
Seu cabelo estava preso em um coque. Fiquei olhando enquanto ela tirava a echarpe cor
de lavanda que ela estava usando, revelando a parte de trás de seu lindo pescoço – o pescoço
que eu deveria estar beijando naquela noite, depois de dizer o quanto eu a amava.
O cara se inclinou e beijou-a gentilmente no rosto.
Uma voz dentro de mim gritou: Não toque nela!.
Os lábios dele murmuraram as palavras: Te amo.
O que eu poderia fazer? Ir lá e dizer: Ah, oi! Eu sou o meio-irmão de Greta. Eu a fodi
uma vez e a abandonei no dia seguinte. Ela parece feliz, e você, provavelmente, a merece,
mas eu queria que você saísse e me deixasse assumir daqui.
Meia hora se passou. Vi o garçom lhes trazer a comida. Observei enquanto eles comiam.
Vi o cara se inclinar umas doze vezes para beijá-la. Fechei meus olhos e ouvi o som da
risada doce de Greta. Nem sei por que fiquei. Só não conseguia deixá-la. Eu sabia que aquela
seria a última vez em que a veria.
Dez e quinze da noite. Greta levantou-se de sua cadeira e deixou que ele colocasse o
casaco em seus ombros. Ela nunca olhou na minha direção. Nem sei dizer o que faria, se ela
tivesse me visto. Eu estava entorpecido demais para pensar com clareza.
Observei-a cada segundo até que a porta se fechasse, atrás deles.
Naquela noite, eu vaguei pela cidade e acabei no meio da multidão, na Times Square,
observando a bola que marca a virada de ano cair. No meio dos confetes, barulhos e da
alegria, eu me perguntava como tinha chegado ali, porque ainda estava um pouco tonto,
depois de deixar o restaurante.
Uma mulher desconhecida, de meia-idade, me agarrou e me abraçou quando o relógio
anunciou a meia-noite. Ela provavelmente não sabia, mas eu realmente precisava de um
abraço mais do que em qualquer outro momento.
Peguei um avião de volta para a Califórnia na manhã seguinte.
Depois de alguns meses, Randy ligou para minha casa, pela primeira vez em um ano.
Casualmente, eu perguntei sobre Greta, e ele me contou que ela estava noiva. Aquela foi a
última vez em que mencionei seu nome.
Levou, pelo menos, três anos até que eu realmente conseguisse partir para outra.

Eu tive de parar. Joguei meu Kindle longe. Meus olhos estavam tão cheios
de lágrimas que as palavras começaram a ficar borradas perto do final.
Fechei meus olhos bem apertado, para ver se eu conseguia me lembrar de
alguma coisa daquela noite que pudesse ter me dado qualquer ideia de que
Elec estava lá. Ele estava lá. Como eu não percebi que ele estava bem atrás
de mim?
Ele tinha ido me procurar.
Eu ainda não tinha absorvido essa ideia muito bem.
Eu me lembrava daquela noite.
Lembrava-me de que eu e Tim ainda estávamos no estágio “lua-de-mel” do
namoro. As coisas estavam indo bem.
Lembrava-me de que, embora fosse véspera de Ano Novo, passamos o dia
inteiro comprando um computador novo para mim.
Lembro-me de que paramos no meu apartamento para deixá-lo lá, e fomos
ao Charlie’s para jantar, antes de partirmos para a Times Square para assistir
a bola cair.
Lembro-me de que, quando o relógio marcou meia-noite, Tim me aqueceu
com seus beijos.
Lembro-me de ter me perguntado por que, mesmo no meio daquela noite
mágica, com um homem que parecia perfeito e que realmente gostava de
mim, tudo que eu queria era Elec. Eu só conseguia pensar em Elec: onde ele
estaria naquele momento, se estava assistindo às festividades na TV, se
estava pensando em mim, também.
E durante todo aquele tempo, Elec estava bem ali.
O destino zombou de nós.

Nos dois capítulos seguintes, ele escreveu sobre encontrar um caminho


dentro da carreira, e como ele acabou se estabelecendo no trabalho social. Ele
sentia a responsabilidade de ajudar os outros, especialmente crianças que
vinham de lares destruídos, assim como ele.
Apressei-me nos capítulos seguintes, nos quais ele detalhava como
conheceu Chelsea. Foi a única parte do livro em que eu senti necessidade de
avançar com rapidez. O ponto principal era que ele a tinha conhecido no
centro de menores, e que saíam bastante depois do trabalho como amigos. Ele
se sentira apreensivo sobre se envolver com ela, porque sabia que era o tipo
de garota que queria um relacionamento sério. E ele não sabia se estava
pronto para isso. Com o tempo, ela fez com que ele esquecesse de mim, o fez
rir, e ele começou a amá-la e a se importar com ela. Foi o primeiro
relacionamento sério que teve, e ele planejava pedi-la em casamento… Até
que…

Era como se o meu mundo tivesse entrado em colapso, naquele dia.


As coisas andavam melhores do que nunca, em minha vida. Meu trabalho era estável e
me preenchia. Eu e Chelsea estávamos morando juntos, e eu estava planejando pedir sua
mão no dia do casamento de sua irmã, que aconteceria em alguns dias. Eu já havia comprado
um anel de noivado há semanas.
Mami estava muito melhor. Andava empenhada em novos projetos de arte. Embora
tivesse terminado com George um ano antes, o que lhe causara uma recaída, já estava
namorando um cara chamado Steve, que mais uma vez tirou seu foco de Randy. Então, a
vida estava tão boa quanto possível, até que uma ligação de Clara mudou tudo.
— Me desculpe por ter que te contar isso, Elec. Randy sofreu um infarto e morreu. ―
Aquelas foram as primeiras palavras que saíram de sua boca. Inicialmente, reagi como se ela
tivesse me contado que dia da semana era.
Randy estava morto.
Não importava quantas vezes eu tivesse repetido aquilo na minha mente naquele dia, eu
não caía na real.
Chelsea me convenceu a comparecer ao velório, apesar de eu não concordar. Randy não
ia me querer lá. Eu ainda estava chocado e insensível demais para lutar contra a insistência
dela. Ela não sabia que tipo de relacionamento eu e Randy tínhamos. De sua perspectiva, não
havia desculpa para minha ausência. Era mais fácil ceder do que contar toda a verdade. Eu
também sabia que Mami não iria suportar ir. Ela queria que eu fosse no lugar dela para
representar nós dois. Então, antes que eu percebesse, já estava em um avião com Chelsea, a
caminho de Boston.
O ar estático dentro do avião estava me sufocando. Chelsea continuou segurando minha
mão, enquanto eu aumentava o volume da música que ouvia. Quase consegui me acalmar,
quando um vislumbre do rosto de Greta induziu um ataque de pânico. Eu não ia ter de lidar
apenas com a morte de Randy, mas, provavelmente, ela também estaria lá, com o marido.
Merda.
Eu sabia que aqueles seriam os piores dois dias da minha vida.
Quando chegamos à casa de Greg e Clara, eu estava no meu limite. Eu e Chelsea
tomamos um banho juntos, no banheiro de hóspedes, mas ainda não tinha conseguido
acalmar meus nervos. Antes de sairmos da Califórnia, eu peguei um maço dos mesmos
cigarros que eu costumava fumar no passado. Peguei um e o acendi, sentando-me na cama,
enquanto Chelsea ainda estava se vestindo, no banheiro. Sentia-me desapontado comigo
mesmo por estar fumando novamente, mas era a única coisa capaz de me manter tranquilo,
àquela altura.
Eu não sentia qualquer motivação para me vestir e descer. Acendi outro cigarro, traguei
rapidamente e caminhei até as portas francesas que levavam a uma varanda que dava para o
quintal. O céu estava escuro.
Olhar para baixo foi um erro colossal.
Meus punhos se fecharam em resposta ao fato de que meu coração estava batendo muito
rápido.
Eu não deveria vê-la novamente, principalmente assim. Parte de mim, que havia morrido,
estava voltando à vida, exatamente quando não deveria. Não sabia como lidar com isso.
Greta estava de costas para mim. Estava olhando em direção ao jardim, e já deveria ter
visto que eu estava ali. Estava, provavelmente, arquitetando algum plano para fugir só para
não ter de me encarar, ou talvez só estivesse chateada com a situação, assim como eu. O fato
de ela estar ali sozinha me dizia que eu estar ali a afetava.
— Greta. — Sussurrei para mim mesmo.
Foi como se ela tivesse me ouvido, porque acabou se virando. De repente, uma maré de
emoções que eu vinha tentando enterrar desde aquela noite em Nova York, começou a me
inundar. Eu não estava preparado para vê-la olhando para mim.
Dei outra longa tragada.
Também não estava preparado para o quão irritado aquele momento me deixara. Só olhar
em seus olhos já fez com que eu começasse a sentir alguma coisa: a concretização da morte
de Randy, a dolorosa lembrança de meus sentimentos não resolvidos por ela, o ciúme e a
esmagadora decepção daquela noite em Nova York, a contração do meu pau traidor.
O nível de ira que crescia dentro de mim era uma supresa nada bem-vinda.
Eu me sentia tão confuso.
Eu não queria te ver novamente, Greta.
Mas era bom demais te ver de novo, Greta.
Senti como se ela pudesse ver dentro de mim, naquele momento, e não gostei disso.
Ficamos olhando um para o outro por, provavelmente, um minuto inteiro. Sua expressão,
aturdida segundos antes, tornou-se sombria assim que senti os braços de Chelsea me
envolverem.
Instintivamente, virei-me e recuei, puxando Chelsea para longe da janela. Acho que eu
estava tentando proteger os sentimentos de Greta naquele momento, mas nem sei por que
estava preocupado com isso. O que ela esperava que eu fizesse? Que sentasse e esperasse por
ela, sem ninguém, enquanto ela se casava com o Sr. Maravilha? Ainda assim, eu sabia que
ver Chelsea aparecer do nada deve ter sido um choque.
— Você está bem? — Chelsea perguntou. Ela não tinha visto Greta.
— Sim. — Eu disse, com desdém.
Precisando ficar sozinho, fui até o banheiro, fechei a porta e me preparei para encarar a
música.

Ela estava sentada no canto mais distante da mesa da sala de jantar, quando chegamos ao
primeiro andar. Nem olhava para mim.
Odiava quando você fazia isso, Greta.
Sarah levantou-se e me abraçou. Cumprimentei-a brevemente, disse a ela que sentia
muito por Randy, mas, durante todo o tempo, fiquei pensando em que merda iria dizer para
Greta. Olhei para ela, e ela estava olhando para mim. Dei um passo atrás, enquanto Chelsea
abraçava Sarah e lhe dava os pêsames.
Eu ia ter de morder a isca.
Caminhei na direção dela, e quase não consegui pronunciar o seu nome.
— Greta…
Ela deu um pulinho nervoso, como se proferir o seu nome tivesse acendido uma fogueira
embaixo de sua bunda. Ela gaguejou um pouco.
— Eu… eu sinto muito por Randy.
Os lábios dela estavam tremendo. Estava desconsertada – perdida, disse a mim mesmo.
Eu não queria admitir que ela estava ainda mais linda do que eu me lembrava, agora que
havia novas mechas em seu cabelo, destacando o tom dourado de seus olhos castanhos.
Aquelas três pequenas sardas em seu nariz, e a forma como seu vestido preto se ajustava em
seus seios, fazia com que me lembrasse de coisas que precisavam ser esquecidas
imediatamente.
Não conseguia me mover, só fiquei ali, analisando-a. O cheiro familiar de seu cabelo era
intoxicante.
Meu corpo se encolheu, quando ela se aproximou para me abraçar. Eu estava mesmo
tentando não sentir nada, mas seus braços eram o epicentro de tudo. Seu coração estava
batendo de encontro ao meu peito, e o meu, imediatamente, respondeu acompanhando o
ritmo. Nossos corações estavam se comunicando de uma maneira que não nos permitia falar.
As batidas do coração eram a mais pura forma de honestidade.
Coloquei minha mão em suas costas e toquei na alça de seu sutiã. Antes que eu pudesse
processar o que aquilo me fez sentir, a voz de Chelsea me atingiu, enquanto Greta se
afastava de mim. O espaço que se formou entre nós parecia infinitamente vasto.
Eu não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo: meu passado colidindo com o
meu presente. Aquela que eu tinha deixado para trás estava cara a cara com a que tinha me
feito a superar.
A mão esquerda de Greta estava nua. Não havia nenhum diamante nela. Onde estava seu
noivo ou marido? Onde aquele maldito estava?
Perdido em meus pensamentos, nem sequer ouvi o que elas estavam falando uma para a
outra.
Clara salvou a situação, quando entrou com a comida e Greta decidiu ajudá-la.
Greta voltou para a sala de jantar e começou a posicionar a louça na mesa. Ela estava tão
tensa que algumas peças começaram a escorregar e tilintar, enquanto ela se atrapalhava com
elas. Eu queria fazer uma piada com isso e perguntar quando ela tinha começado a praticar
percurssão com colheres. Mas não fiz.
Quando ela finalmente se sentou, Greg perguntou: — Então, como vocês se conheceram?
Greta levantou os olhos de seu prato pela primeira vez, enquanto Chelsea explicava como
nos conhecemos no centro de menores. Quando Chelsea se inclinou para me beijar, senti que
Greta nos observava, e o clima ficou muito desconfortável.
Começamos a falar sobre minha mãe, e Greta voltou a fingir que estava focada em seu
prato.
Meu corpo se encolheu outra vez, quando Chelsea lhe fez uma pergunta.
— Onde você mora, Greta?
— Em Nova York. Só cheguei na cidade dois dias atrás.
“Cheguei” na cidade, não “chegamos”.
Eu queria ter uma câmera para capturar a expressão no rosto de Greta quando Chelsea
sugeriu que fôssemos visitá-la em Nova York.
O clima ficou tranquilo novamente, e eu a olhei de soslaio algumas vezes, quando ela não
estava olhando. Quando ela me pegou fazendo isso, voltei minha atenção para o prato.
— Elec nunca me contou que tinha uma meio-irmã. — Chelsea disse.
Não sei para quem ela estava dirigindo aquela afirmativa, mas eu não mencionaria esse
assunto, nem se me pagassem. Greta ainda não estava olhando para mim.
Sarah falou:
— Elec morou conosco por muito pouco tempo, quando eles eram adolescentes — ela
olhou para Greta. — Os dois não se deram muito bem naquela época.
Por alguma razão, o olhar desconfortável no rosto de Greta quase entrou por debaixo da
minha pele. Ela ainda estava olhando para baixo, sem prestar atenção na afirmação da mãe,
sem prestar atenção em mim. Senti uma necessidade inexplicável de fazê-la prestar atenção
em mim, de falar sobre nós, de conseguir um melhor julgamento. Fiz meu velho
comportamento reviver por alguns minutos, e comecei a provocá-la para conseguir sua
atenção.
— É verdade, Greta?
Ela pareceu confusa.
— O que é verdade?
Ergui minha sobrancelha.
— Que não nos demos bem.
Seu maxilar se contraiu, e seus olhos não pararam de olhar para os meus, enquanto
parecia, silenciosamente, me alertar para não pressioná-la.
Ela, finalmente, respondeu: — Tivemos nossos momentos.
Minha voz tornou-se mais gentil.
— Sim, tivemos.
Seu rosto ficou vermelho. Eu continuaria a provocá-la. Tentei controlar os danos
melhorando o clima.
— Como é que você costumava me chamar?
— Não entendi.
— “Meu querido meio-irmão”, não era? Por causa da minha personalidade brilhante? ―
E me virei para Chelsea. ― Eu era um fodido miserável, naquela época.
Eu fui mesmo… Até que Greta me fez querer ser uma pessoa melhor.
— Como sabe sobre esse apelido? — Greta perguntou.
Ri por dentro, lembrando como costumava bisbilhotar as conversas dela com a amiga
pelo telefone.
Era bom poder vê-la sorrir, enquanto dizia: — Ah, sim! Você costumava ficar me
espionando.
Chelsea olhava para nós.
— Parece que vocês se divertiram.
Eu não conseguia tirar meus olhos de Greta. Eu queria que ela soubesse que aqueles dias
foram os melhores da minha vida.
— Isso é verdade. — Eu disse.

A única coisa boa em focar em meus sentimentos não resolvidos por Greta era esquecer
um pouco de Randy.
Porém, quando consegui escapar para ficar sozinho no quintal depois do jantar, a situação
começou a me atingir.
Nunca tivemos a chance de fazer as pazes. Era interessante perceber que nunca fez muita
diferença quando ele estava vivo, mas, depois de sua morte, começou a me assombrar. Eu,
pelo menos, queria ter provado que ele estava errado, que eu tinha feito algo de bom com a
minha vida. Agora, ele estava em outra dimensão, possivelmente frente a frente com Patrick.
Pensar nisso, por um tempo, sem qualquer distração, fodeu com a minha mente. Peguei
um cigarro e tentei apenas meditar. Não estava funcionando, porque minhas emoções
mudaram da tristeza para a raiva.
Ouvi a porta de vidro deslizando, e alguém se aproximando por trás de mim. Não me
pergunte como, mas eu sabia que era ela.
— O que está fazendo aqui, Greta?
— Chelsea me pediu para conversar com você.
Mas que merda elas tinham conversado? Interpretei da maneira errada. Chelsea não podia
descobrir o que tinha acontecido entre nós. Deixei escapar uma risada sarcástica.
— Ah, é mesmo?
— Sim.
— Estão trocando figurinhas agora?
— Não é engraçado.
Não, não era, mas o meu clássico mecanismo de proteção, de agir como um babaca em
momentos de estresse, surgiu com força total. Era tarde demais. E, porra, eu queria que ela
pensasse em nós.
Joguei meu cigarro fora.
— Você acha que ela teria te mandado aqui fora para conversar comigo se soubesse que
na última vez que nos vimos nós fodemos como coelhos?
A cor sumiu de seu rosto.
— Você tem de colocar dessa forma?
— Mas é a verdade, não é? Ela iria surtar, se soubesse.
— Bem, eu não pretendo contar a ela, então você não tem que se preocupar. Eu nunca
faria isso.
O olho de Greta começou a tremer, o que me provava que eu estava fazendo algum efeito
sobre ela. Velhos hábitos nunca morrem. E eu já estava viciado agora.
— Por que está piscando para mim?
— Não estou… Meu olho está piscando porque…
— Porque você está nervosa, eu sei. Você costumava fazer isso, quando eu te conheci.
Fico feliz em ver que você não mudou.
— Acho que algumas coisas nunca mudam, não é mesmo? Já faz sete anos, mas é como
se…
— Tivesse sido ontem — interrompi. — Parece que foi ontem, e isso é uma merda. A
situação inteira é.
— Isso nunca deveria ter acontecido.
Meus olhos, subitamente, pousaram em seu pescoço, e eu não consegui tirá-los de lá. Eu
sabia que ela estava percebendo isso. Sentime um pouco possessivo, de repente, algo que eu
não podia sentir, mas, mesmo assim, precisava saber o que estava acontecendo.
— Onde ele está?
— Quem?
— Seu noivo.
— Não estou noiva. Eu estava… mas não estou mais. Como você sabia que eu estava
comprometida?
Eu tive de olhar para baixo. Não podia deixar que ela visse o efeito que surtira em mim
ao dizer aquilo.
— O que aconteceu?
— É uma longa história, mas fui eu que terminei. Ele aceitou um emprego na Europa.
Não era para ser.
— Você está com alguém, agora?
— Não.
Merda.
Ela continuou.
— Chelsea é bem legal.
— Ela é ótima; uma das melhores coisas que aconteceu para mim, na verdade.
E ela era mesmo. Eu amava Chelsea, amava mesmo. Eu não poderia magoá-la. Precisei
convencer tanto Greta quanto eu mesmo de que Chelsea era tudo para mim. Mas ainda me
sentia abalado por ouvir que Greta não estava com nenhum outro homem. Isso me irritou.
Greta, rapidamente, mudou o assunto, voltando para Randy e minha mãe.
Começou a chover, então, eu usei isso como desculpa para pedir que ela entrasse.
Mas ela não queria ir embora.
Seus olhos começaram a ficar molhados.
De repente, meu coração parecia estar se partindo. Precisava lutar contra essas emoções,
e eu não conhecia nenhuma outra forma de lidar com Greta a não ser agir como um babaca.
Perguntei a ela: — O que está fazendo?
— Chelsea não é a única que se preocupa com você.
— Ela é a única que tem o direito de se preocupar. Você não precisa. Não é seu dever.
Meu coração estava batendo muito rápido, protestando contra o que tinha acabado de sair
da minha boca. Porque, bem lá no fundo, eu queria que ela se preocupasse.
Eu a tinha magoado. E magoaria novamente, porque precisava lutar contra aqueles
sentimentos.
— Quer saber? Se eu não estivesse me sentindo tão mal por tudo que você está passando,
eu mandaria você à merda. ― Ela disse.
Suas palavras atingiram direto o meu pênis. Minha vontade era agarrá-la ali mesmo e
beijá-la até deixá-la inconsciente. Eu tinha de cortar esse mal pela raiz.
― E se eu quisesse ser um babaca, eu diria que você só está dizendo isso porque se
lembrou de como adorou quando eu a fodi.
Mas que merda eu tinha acabado de dizer? Eu precisava sair dali antes que fizesse algo
ainda mais estúpido, embora fosse difícil superar aquilo. Enquanto me afastava dela, disse:
― Cuide de sua mãe hoje à noite.
Deixei-a sozinha no jardim. Quando abri a porta, beijei Chelsea de forma mais violenta
do que nunca, em uma tentativa de expulsar Greta da minha cabeça
Caí na real de forma mais intensa do que esperava. Recusei-me a olhar para o caixão. Eu
não conhecia ninguém. Não deveria estar ali.
Vozes se misturavam. Eu não ouvia nada. Não via nada. Estava contando os minutos para
entrar outra vez naquele avião e voltar para a Califórnia.
Chelsea estava me mantendo de pé.
Eu só senti dor quando acabei esbarrando com Greta. No único instante em que saí dali
para escapar de tudo, acabei parando em uma espécie de porão da capela. Ela tentou fingir
que não me viu, depois de sair do banheiro, mas eu sabia que era minha chance de pedir
desculpas pelo meu comportamento de mais cedo.
Eu não esperava que ela iria aproveitar a oportunidade para dizer que ainda sentia alguma
coisa por mim.
Isso acabou com toda a minha decisão. Tudo a respeito daquele dia me enfraqueceu. Seu
cabelo estava preso e, em um dado momento, segurei seu pescoço com a minha mão. O
trauma de toda aquela experiência nublou totalmente o meu julgamento. Parecia irreal, quase
como se eu estivesse sonhando. Mas não havia nada de que eu precisasse mais naquele
momento.
Os passos de Chelsea interromperam meu transe. Ela tinha vindo me procurar, mas não
viu nada. Sentime envergonhado quando olhei para os olhos apaixonados da minha
namorada. Estava preocupada comigo, mas, enquanto isso, eu me via no meio de um sonho
molhado.
Odiava a mim mesmo.
Logo depois de voltarmos lá para cima, insisti que deveríamos sair mais cedo para voltar
para a casa de Greg e Clara. Desesperado para tirar qualquer resquício de Greta das minhas
mãos e da minha mente, praticamente ataquei Chelsea quando chegamos ao quarto.
Disse a ela que precisava de sexo naquele momento, naquele local. Ela nem questionou,
só começou a se despir. Esse era o tipo de namorada que ela era, que me amava
incondicionalmente, mesmo no meu estado mais maníaco.
O problema era que… o que meu corpo realmente desejava naquele momento não estava
naquele quarto.
Enquanto me movia para dentro e para fora de Chelsea, fechei meus olhos e não vi nada
além de Greta: o rosto de Greta, o pescoço de Greta, a bunda de Greta.
Aquela foi a coisa mais baixa que já fiz. A culpa me consumiu, e eu parei abruptamente.
Sem qualquer explicação, corri para o banheiro e abri o chuveiro. A necessidade de me
aliviar era enorme. Então, comecei a me masturbar, imaginando Greta de joelhos olhando
para mim, enquanto envolvia seu pescoço com meu esperma. Só levou um minuto.
Eu estava doente.
Depois de chegar ao orgasmo, me senti pior do que antes.
Naquela noite, meus pensamentos pareciam alternar entre Greta e Randy. Eu não dormi
nem por um minuto. Randy venceu quase a noite inteira, enquanto eu tinha flashbacks dele
me atormentando.
Chelsea ia pegar um avião para a Califórnia na manhã seguinte, para ir ao casamento da
irmã. Eu nem conseguia imaginar como poderia suportar o enterro sem Chelsea para me
apoiar… Ou como conseguiria me manter longe de Greta.

Embaralhando as letras da palavra funeral, temos “real fun”1. Mas, é claro, não tinha
nada a ver com isso.
Eu só tinha de não olhar. Foi isso que disse a mim mesmo. Não olhe para o caixão no
altar. Não olhe para as costas de Greta. Só continue olhando para o relógio, e cada minuto
que passar estará mais perto do fim.
Aquela regra funcionou para mim, até que chegamos no ponto onde ele seria enterrado,
que foi quando eu surtei e acabei parando no Honda de Greta, na estrada para lugar nenhum.
Eu precisava fumar, mas a necessidade não era tão grande a ponto de parar o carro por
tempo suficiente para comprar cigarros.
Tudo era um borrão na minha frente: o funeral, meu ataque de pânico.Por mais que as
árvores estivessem alinhadas, formando um caminho na interestadual, Greta dirigia tão
rápido que elas pareciam se misturar formando uma única linha verde embaçada.
Tudo era uma porcaria de borrão.
Continuei olhando pela janela pelo que pareceram horas, até que ela falou pela primeira
vez.
— Daqui a vinte minutos teremos de parar em algum lugar, ok?
Observei-a. Ela estava cantarolando baixinho.
Doce Greta.
Merda!
Meu peito se apertou. Eu tinha agido como um babaca com ela até hoje, e, então, eu a
tinha praticamente sequestrado. Ela me salvou de mim mesmo, naquela tarde, e eu não fizera
nada para merecer que ela usasse seu tempo para me levar para passear, daquele jeito. Eu
não tinha energia para dizer a ela o quanto aquilo significava para mim. Eu só disse: —
Obrigado.
Um fio de seu cabelo loiro caiu e foi parar em cima da minha calça preta. Comecei a
brincar com ele e acabei relaxando o suficiente para cair no sono. Foi a primeira vez que
dormi em dias.
Acordei delirante. Quando percebi para onde ela tinha me levado, comecei a rir.
Um cassino.
Era uma ideia brilhante.
Quando entramos no prédio, Greta começou a tossir incessantemente e começou a
reclamar da fumaça. Podia ser ridículo, mas meu próprio desejo por um cigarro tinha
desaparecido. A adrenalina de estar naquele ambiente desviou meu foco dos meus
problemas. Eu estava empolgado.
— Tente se divertir, irmãzinha. — Brincando, sacudi seus ombros e, imediatamente, me
arrependi de colocar as mãos nela, porque, aparentemente, não podia confiar no meu próprio
corpo sem reagir como um animal.
— Por favor, não me chame assim.
— Como prefere que eu te chame? Ninguém nos conhece. Podemos inventar nomes para
nós. Estamos, ambos, vestidos de preto. Parecemos altos apostadores da máfia.
— Qualquer coisa, menos irmãzinha.
Nos olhamos por alguns instantes.
— O que quer jogar? — Ela me perguntou.
— Quero ir para uma das mesas. E você?
— Eu só vou nas máquinas.
As máquinas caça-níqueis. Deus, ela era uma gracinha.
— Nas máquinas? Vai aloprar hoje, hein?
— Não ria.
— Não se vai a um cassino como este para brincar nas máquinas caça-níqueis,
especialmente nas de moedas baixas.
— Não sei jogar mais nada.
— Posso te ensinar, mas primeiro precisamos de umas bebidas — pisquei para ela. —
Sempre dê aquela lubrificada antes de jogar o jogo.
Ela enrubesceu. Quase tinha me esquecido o quanto era viciante fazê-la corar.
Greta revirou os olhos.
— Meu Deus, algumas coisas nunca mudam. Pelo menos você voltou a fazer piadinhas
sujas. Isso significa que eu fiz alguma coisa certa, hoje.
— É sério, essa ideia — olhei ao redor, para o caos à nossa volta, e depois, voltei-me para
ela. — De vir para cá… foi perfeita.
O que eu queria era dizer a ela que o fato de passarmos algum tempo juntos era a melhor
parte.
Compramos algumas fichas, e eu fui pegar algumas bebidas para nós. Estava me sentindo
mesmo muito bem, até que voltei para perto de onde Greta estava me esperando. Um cara
gordo, usando um chapéu de cowboy, apertava sua bunda, enquanto ela ficava imóvel, em
frente à mesa de craps.
Sem pensar duas vezes, meu corpo entrou em modo de briga.
— Me diz se eu vi direito e aquele babaca de merda estava apertando sua bunda? —
Entreguei as bebidas para ela. — Segure as bebidas.
Comecei a estrangulá-lo. As duas mãos foram parar ao redor do pescoço dele.
— Quem você pensa que é para colocar as mãos nela, assim?
Ele estendeu as mãos.
— Eu não sabia que ela estava com alguém. Ela só estava me ajudando.
— Parece que você estava ajudando a si mesmo ― acidentalmente cuspi nele quando as
palavras saíram da minha boca. Então, arrastei-o para perto de Greta. ― Peça desculpas
agora mesmo.
— Olha, cara…
— Peça desculpas. — Gritei, enquanto apertava seu pescoço ainda mais.
— Me desculpe.
Minhas orelhas estavam queimando. Eu queria matá-lo.
Greta estava implorando.
— Vamos, Elec. Deixe isso para lá.
Seu rosto assustado fez com que eu compreendesse que espancar aquele cara não valia a
pena, ainda mais colocando-a naquela situação. Peguei o drinque da mão dela e comecei a
me afastar.
Então eu o ouvi, bem atrás de nós: — Você tem sorte de ter chegado a tempo. Eu estava
prestes a pedir que ela soprasse os dados.
Virei-me na direção dele, aproximando-me, e quase machuquei Greta, que tentou usar seu
corpo pequeno para bloquear minha passagem.
— Não, Elec! Não quero que expulsem a gente daqui. Por favor. Estou te implorando.
Percebi, naquele momento, que, se eu o tocasse, acabaria matando-o ou machucando-o
seriamente. Eu precisava me afastar.
— Agradeça a ela por ainda ter um rosto. — Eu ainda estava enfurecido, enquanto
saíamos do salão. A última vez que eu coloquei as mãos em alguém daquela forma também
tinha sido em defesa de Greta. Será que eu a estava protegendo como um irmão ou como um
ex-amante? Essa era a questão.
Seu cabelo estava selvagemente despenteado, e, seu vestido, ensopado de bebida.
— Que merda, Greta. Você está toda bagunçada.
Na verdade, ela nunca parecera tão bonita.
Ela riu:
— Uma bagunçada sexy.
— Vamos. Vou te comprar uma roupa nova.
— Não precisa. Só estou um pouco molhada.
Um pouco molhada. Merda. Mantenha sua mente em outra coisa, Elec.
— Não, é claro que precisa. Foi minha culpa.
— Vai secar. Mas te digo uma coisa, se você ganhar alguma coisa hoje à noite, pode
gastar tudo em uma roupa nova para mim em uma dessas lojas caras. Só assim vou te deixar
gastar dinheiro comigo.
Me senti como um idiota, e sabia que não iria embora sem comprar o vestido mais bonito
para ela, só para compensar o que eu tinha feito.
Depois de pegar mais algumas bebidas, disse a ela que era melhor que nos separássemos
enquanto eu jogava pôquer. Havia um bando de caras perambulando pela sala de pôquer, e
eu não queria ter de bater em ninguém, naquela noite. Greta não tinha noção do quanto era
bonita.
Fiquei surpreso quando ela me ouviu e concordou em jogar nas máquinas caça-níqueis
por um tempo.
Quando sentei-me à mesa, meu telefone vibrou.
Por que você se importa se algum dos outros caras der em cima de mim?
Você não deveria se importar.

Merda. Não deveria ser uma surpresa que ela tivesse percebido meu comportamento.
Ela estava certa.
E eu estava sendo egoísta. Eu não tinha medo de algum cara dar em cima dela. O que me
assustava era a possibilidade de ter que assisti-la retribuindo o interesse ou se divertindo com
isso. Ela era solteira, e, eu, não. O que poderia impedi-la? Eu estava enciumado como nunca,
mas não tinha direito de estar. Era algo irracional e errado. Então, eu não respondi à
mensagem, porque não conseguia pensar em uma boa resposta.
Eu não conseguia me concentrar no jogo, e continuei perdendo. Minha mente estava
focada demais na mensagem e em meu comportamento inaceitável. Peguei meu telefone e
fiquei olhando para as fotos de Chelsea: nossa viagem até San Diego, ela e minha mãe
preparando um prato equatoriano, nós dois nos beijando, nosso gato chamado Dublin… o
anel que ela ainda não tinha visto. Tentei voltar minha atenção para o jogo, mas a pergunta
de Greta ainda me consumia. Então, eu enviei uma mensagem de texto, que não era bem uma
resposta, mas apenas a verdade.

Sei que não deveria me preocupar com isso. Mas quando tem a ver com
você, o que eu deveria realmente sentir nunca importa.

Por volta de vinte minutos depois, eu já tinha perdido duzentos dólares, quando ela me
encontrou e esfregou mil dólares em dinheiro na minha cara. Eu nem consegui acreditar que
ela tinha ganhado todo aquele dinheiro em máquinas caça-níqueis.
— Porra, Greta! Parabéns!
Quando abracei-a para parabenizá-la, senti o quão rápido meu coração estava batendo.
Disse a mim mesmo que meu coração estava explodindo por ela ter ganhado, e não por
qualquer outra razão.
Decidimos procurar por algum lugar para comer e optamos por uma churrascaria.
Durante toda a refeição, eu fiquei obcecado por uma estranha mensagem que recebi um
pouco mais cedo, de um número desconhecido. Era o número vinte e dois, e tinha chegado
exatamente às duas e vinte e dois da tarde. O aniversário de Randy era em vinte e dois de
Fevereiro. Eu estava convencido de que ele tinha enviado a mensagem, que tinha encontrado
um jeito de me foder lá do além. Então, eu mal toquei na comida.
Greta, por sua vez, não teve problema em comer o meu bife e o dela. Ela afogou a carne
em molho.
Provoquei-a:
— Que tal esse bife cheio de molho?
— Adoro. Faz com que eu me lembre do meu pai. Ele sempre colocava molho em tudo.
Observá-la comer me fez sorrir. Ela não sabia o quanto seu apoio significava, para mim.
Eu já tinha surtado de inúmeras formas diferentes, mas ela ainda estava ali por mim… cheia
de molho espalhado pelo rosto.
Ela viu que eu estava rindo dela.
— O que foi? — Perguntou, com a boca cheia.
Peguei meu guardanapo e o estendi para limpar o canto de sua boca.
— Nada, sua desleixada.
Foi então que me dei conta de que o dia seguinte poderia ser a última vez em que veria
Greta.
Meu corpo inteiro ficou tenso. Aquele dia colocou em voga todos os tipos imagináveis de
sentimentos. Percebi, então, outra coisa: a resposta para a pergunta que ela me enviou por
mensagem mais cedo, a razão para eu me importar que os outros caras dessem em cima dela.
Antes eu conseguira esquecê-la só porque pensei que ela estava feliz e com alguém que a
amava. Tudo em que eu acreditara para superá-la era uma mentira. Perceber isso trouxe
meus sentimentos de volta à superfície, por mais que eu não estivesse pronto para lidar com
eles.

Joguei minha cabeça para trás no sofá e suspirei longamente. Ter aquele
vislumbre de seus pensamentos estava me matando. Eu precisava parar de ler
por mais um tempo, porque uma forte ansiedade começava a surgir para saber
onde aquela história ia parar.
Eu já estava atrasada para a festa de aniversário de trinta anos do meu
amigo, no Club Underground. E eu não podia faltar, porque tinha sido uma
das organizadoras, junto com outros dois colegas.
Decidi tomar um banho, me vestir e levar meu Kindle comigo para ler
sempre que possível enquanto estava fora de casa. O aplicativo mostrava que
só faltava 15% do livro. Supus que não haveria qualquer problema em
terminá-lo em público.
Mas você sabe o que dizem sobre ficar supondo coisas.
A NOITE ESTAVA INESPERADAMENTE QUENTE, ENQUANTO EU ESPERAVA POR UM
táxi na esquina. O vestido vermelho justo que eu estava usando combinava
perfeitamente com o Club Underground, mas eu, provavelmente, deveria ter
pegado uma jaqueta.
Sully me enviou uma mensagem:
Divirta-se!

Tentei convencê-la a ir comigo, mas ela disse que tinha um encontro com
um barbeador elétrico para depilar suas partes femininas. Eu não precisava de
tantos detalhes, especialmente quando, na realidade, não havia nenhuma parte
feminina ali.
Alugamos uma sala privada, com um bar, para a festa. Poderia ser uma
noite épica, se eu não estivesse tão preocupada em finalizar o livro.
Finalmente consegui pegar um táxi.
— Rua West, número 16.
Fechei a porta e não perdi tempo antes de pegar meu Kindle.

Depois que deixamos a churrascaria, meu medo estava em seu extremo. Greta se afastou
para pegar alguns drinques, enquanto eu comprava mais fichas.
Sentei-me à mesa para esperar por ela, quando lágrimas começaram a descer do nada pelo
meu rosto. Não fazia sentido, porque eu não tinha pensado em nada. Parecia, apenas, uma
forma de liberar tudo o que eu vinha guardando para mim. Aquele era o último lugar onde eu
poderia desmoronar. Assim que as lágrimas começaram, não pareciam querer parar.
Como uma forma de me punir, adicionei combustível ao fogo e comecei a focar em
coisas que me faziam me sentir pior. Às vezes, culpava a mim mesmo por ter vindo ao
mundo e tornar a vida de Randy miserável. Eu me perguntava se o casamento dele com
Mami teria durado, se não fosse por mim. Bem lá no fundo, sempre tive esperança de que as
coisas ainda iriam mudar, que nós poderíamos olhar nos olhos um do outro e veríamos algo
além de ódio, e que ele me diria que me amava, mesmo que não soubesse demonstrar.
Isso nunca mais aconteceria.
Levantei meus olhos e vi Greta parada, ali, me observando, enquanto segurava um
drinque em cada mão.
Passei a língua em uma lágrima que tinha caído em meus lábios.
— Não olhe para mim, Greta.
Ela colocou os drinques em cima da mesa, e, imediatamente, me puxou para ela.
Nos braços de Greta, as lágrimas se multiplicaram. Minhas mãos foram parar em suas
costas em uma súplica silenciosa para que ela não se afastasse. Assim, fui me acalmando.
— Odeio isso. Eu não deveria estar chorando por causa dele. Por que estou chorando por
causa dele?
— Porque você o amava.
— Ele me odiava.
― Ele odiava alguma coisa que via em você, e que fazia com que lembrasse de si mesmo.
Mas não te odiava. Não poderia. Só não sabia como ser um pai.
Fiquei surpreso por ela ter chegado tão perto, embora não soubesse meu segredo. Randy
odiava olhar para mim e lembrar-se de Patrick.
— Tem muita coisa que eu não te contei. E a maior merda de todas era que, apesar de
tudo que passamos, eu ainda queria que ele se orgulhasse de mim, algum dia. Queria que ele
me amasse.
Deixei escapar um suspiro, porque nunca tinha admitido aquilo para ninguém.
— Eu sei que sim. — Ela falou, gentilmente.
Olhar em seus olhos fez com que eu me lembrasse que estava olhando para a alma da
primeira pessoa que me fez me sentir amado. Por isso, eu seria eternamente grato a ela.
— O que seria de mim sem você, esta noite?
— Fico feliz por estar com você.
— Eu nunca tinha chorado na frente de ninguém. Nenhuma vez.
— Sempre há uma primeira vez.
— Eu podia fazer uma piada com essa frase. Sabe disso, não sabe?
Rimos juntos. Adorava sua risada.
— Você me faz sentir coisas, Greta. Sempre fez. Quando estou perto de você, seja bom
ou ruim… eu sinto tudo. Às vezes, não lido muito bem com isso, e acabo agindo como um
babaca. Não sei o que há em você, mas, seja o que for, faz com que eu veja quem eu sou de
verdade. No instante em que eu te vi novamente, na casa de Greg, de pé naquele jardim… foi
como se eu não conseguisse mais me esconder ― toquei seu rosto. ― Sei que foi difícil para
você me ver com Chelsea. Sei que ainda gosta de mim. Posso sentir isso, por mais que tente
fingir o contrário.
Foi a coisa mais sincera que eu disse a ela naquela noite. Greta sempre agiu com o
coração, e, por mais que ela estivesse tentando não tornar isso óbvio, seu desconforto a
respeito de Chelsea era evidente, ainda que Chelsea parecesse completamente alheia a isso.
Eu não podia imaginar como iria lidar, se a situação fosse inversa.
Minhas lágrimas finalmente secaram. Enquanto continuávamos presos naquele abraço,
seus lábios estavam implorando para serem beijados. Queria que houvesse uma borracha
mágica, que me permitisse experimentá-los apenas uma vez, e deletar as consequências,
depois. É claro que isso nunca seria possível. Mas eu achava que ninguém mais era
merecedor daqueles lábios, além de mim. Então, olhei para sua boca, querendo beijá-la, mas
sabendo não poder.
Talvez ela conseguisse ler minha mente, e eu acabei assustando-a, pois ela acabou se
afastando, rapidamente, como o diabo foge da cruz.
A única coisa que eu vi, depois disso, foi ela correr em direção à mesa de roleta, jogar
uma quantidade de dinheiro no número vinte e dois, e o resto foi história. Aquela garota
tinha uma sorte danada.

Dezenove mil dólares. Eu não sabia o que tinha me chocado mais: ela ter ganho uma
segunda vez em tão pouco tempo, ou ela ter dado uma guinada na minha noite com aquela
jogada maravilhosa no número vinte e dois. A mensagem misteriosa não me preocupava
mais. Ao invés disso, eu estava novamente feliz por estar ali, e prometi que, pelo resto da
noite, naquelas últimas horas juntos, viveríamos os melhores momentos de nossas vidas.
Ela me fez pegar mil dólares em dinheiro. Eu não tinha intenção de gastá-los. Fiquei
usando meu dinheiro o tempo todo. Não me importaria em gastar cada centavo que tinha
com ela; afinal, nunca poderia lhe pagar o suficiente por ela estar ali, comigo, naquela noite.
Não fiz nada para merecer aquilo.
Acabamos em uma loja de roupas do cassino, e foi ali que o clima da noite mudou,
definitivamente, até o final da viagem.
Escolhi um vestido que eu achei que ficaria perfeito nela, e, então, ela entrou no provador
para experimentá-lo. Fiquei brincando com meu telefone para me distrair das imagens dela
se despindo a alguns metros de distância.
Ela estava demorando muito, então perguntei: — Está tudo bem aí?
Ela disse que o zíper estava preso. Sem pensar duas vezes, abri a cortina e entrei no
provador.
— Vem aqui.
No instante em que olhei para suas costas maravilhosas, naquele lindo vestido, percebi
que ter me colocado naquela posição tinha sido um erro terrível. Meus dedos coçavam ao
segurar seu cabelo gentilmente, movendo-o por sua pele sedosa para a frente de seus ombros.
Enquanto eu puxava o tecido, sua respiração começou a acelerar. Saber que era o meu
toque que estava provocando isso fez com que eu respirasse mais rápido, também. Eu estava
perdendo o controle. Pensamentos libertinos invadiram meu cérebro. Um, em particular,
tinha a ver com rasgar o vestido violentamente e pegá-la por trás, enquanto observava seu
rosto refletido no espelho.
Eram apenas pensamentos, eu disse a mim mesmo. Eu precisava focar na tarefa que tinha
em mãos.
— Você não estava brincando ― eu disse, tentando consertar o fecho para que
pudéssemos sair logo dali. Eu, finalmente, terminei: — Consegui.
— Obrigada.
Eu não precisava me abaixar alguns centímetros, mas não podia resistir a um vislumbre
da pele sedosa de suas costas.
— Tudo resolvido.
Isso fez com que eu me lembrasse de outra parte de seu corpo que ela me entregou por
inteiro uma vez, em uma noite. Pode ter sido apenas uma vez, mas, dentro de mim, eu sabia
que uma parte dela ainda me pertencia. Sua linguagem corporal provava isso, e me fazia
imaginar se eu tinha sido a primeira e última pessoa a lhe proporcionar verdadeiro prazer.
Minhas mãos ainda não tinham soltado seus ombros. Ela estava olhando para baixo, e eu
sabia que seus sentimentos também estavam em guerra. Era a primeira vez, desde nosso
reencontro, que eu realmente compreendia o quanto Greta me desejava sexualmente. Nosso
desejo de um pelo outro era tão poderoso, dentro daquele pequeno espaço, que eu quase
podia senti-lo no ar.
Continuei olhando para ela através do espelho, até que ela olhasse para cima e seus olhos
encontrassem os meus. Quando ela se virou de repente, eu não me sentia preparado. Nossos
rostos estavam a centímetros de distância, e eu nunca desejei beijá-la tanto quanto naquele
momento. Meus olhos foram parar em sua boca, e eu contei até dez, mentalmente, para me
manter sob controle. A contagem não estava funcionando, então fechei meus olhos.
Quando eu os abri, já não sentia mais a urgência em beijá-la. Estava muito pior. Graças a
Deus ela não podia ler minha mente, porque a imagem daquela maldita boca linda estava tão
clara na minha cabeça que eu senti que estava tendo uma ereção, e torcia para que ela não
olhasse para baixo.
Eu precisava sair dali, mas não conseguia me mover.
Chelsea.
Chelsea.
Chelsea.
Você ama Chelsea.
Não havia qualquer problema em sentir aquelas coisas, contanto que não fizesse nada a
respeito, disse a mim mesmo. Era natural. Não há como impedir os desejos do corpo, a não
ser que você os coloque em prática. E eu merecia um troféu bem grande e brilhante pela
resistência.
A vendedora da loja surgiu: — Está tudo bem aí?
— Sim! — Greta berrou.
Mas eu sabia, só de ouvir sua voz, que não estava. Aquilo estava confundindo sua mente,
e eu amaldiçoaria a mim mesmo se ela terminasse a noite magoada.
Por mais que não verbalizássemos o que estava acontecendo conosco, instintivamente, eu
disse: — Me desculpe.
Então, fechei a cortina e saí.

Decidimos passar a noite no hotel, já que tínhamos bebido. Depois que nós dois nos
separamos para tomar banho, antes de seguirmos para a boate do cassino, fui encontrar Greta
em seu quarto. Quando ela abriu a porta, vê-la naquele vestido quase me derrubou
novamente. Seu cabelo ainda estava encharcado, mas ela estava linda.
— Uau! — Respirei fundo, sem intenção de dizer isso em voz alta. A palavra saiu da
minha boca antes que meu cérebro pudesse me avisar de que eu não deveria soar tão óbvio:
― Você, definitivamente, não parece mais uma senhora de luto.
— Com o que eu me pareço, então?
— Você parece corada, na verdade. Está se sentindo bem?
Com toda sinceridade, parecia que ela tinha sido fodida com vontade, e isso fez com que
meu pau doesse.
— Estou bem.
— Tem certeza?
— Sim.
— Foi bom tomar um banho. — Eu disse.
Isso incluía o orgasmo que tive, pensando em um final alternativo para nosso encontro no
provador.
— Concordo com você. — Ela disse.
— Você precisa secar o cabelo?
— Sim. Me dê um minuto.
Liguei a TV na ESPN e deitei-me na cama.
— Estou pronta.
Seu cabelo estava preso, seu pescoço estava exposto em toda sua glória, e eu sabia que
estava encrencado pelo resto da noite.
Dei um pulo e desliguei a televisão.
Caminhamos pelo corredor, e o cheiro de sabonete de sua pele estava invadindo meus
sentidos. Olhei para ela, querendo demonstrar o quanto ela estava linda ao dizer: — Você
está bonita — quando entramos no elevador, acrescentei: — Gosto de seu cabelo assim.
— Gosta?
— Sim. Era assim que ele estava na noite em que te conheci.
— Estou surpresa por se lembrar disso.
Eu não tinha esquecido de nada.
Nem. Um. Detalhe.
Começamos a nos lembrar de como eu costumava torturá-la e, em um dado momento, ela
disse: — Bem, você não era tão mau quanto queria que eu acreditasse ser.
Respondi: — E você não era assim tão inocente.
O tom em minha voz não escondia ao que estava me referindo. Olhamos um para o outro
com uma silenciosa compreensão de que aquela conversa deveria terminar ali.
Se eu pensava que aquela noite iria ficar mais fácil quando nos distraíssemos na boate, eu
estava errado.

Dançamos muito. Eu estava me divertindo muito. O grave da música estava estridente, e


eu podia senti-lo pulsando dentro de mim. Corpos dançantes se embolavam ao nosso redor,
mas Greta e eu mantínhamos um espaço entre nós.
Era necessário.
Em um certo momento, fui ao banheiro e, enquanto caminhava por entre luzes
multicoloridas, avistei um cara dançando muito próximo dela, falando em seu ouvido.
Quando me virei na direção de onde ela estava dançando com ele, minha consciência deu
lugar a uma reação primitiva e impulsiva. Coloquei meu braço ao redor de sua cintura fina e
a puxei firmemente em minha direção. Ela não ofereceu resistência. Meu braço ainda estava,
dominantemente, preso ao seu redor, quando ela se virou para mim. Olhei para ela com um
olhar de aviso. Naquele momento, nós éramos o Elec e Greta de sete anos atrás. Eu era
ciumento, e estava deixando isso óbvio. Sem nem mencionar o detalhe de eu estar em um
relacionamento sério, era injusto esperar que ela aceitasse aquela situação, especialmente
porque gostava de mim o suficiente para isso.
Não falamos sobre isso e, eventualmente, meu momento homem das cavernas passou.
Soltei-a, e lá estávamos nós, de novo, perdidos na música.
Tudo mudou quando uma música lenta começou. As pessoas começaram a se espalhar
para encontrarem parceiros, saindo da pista de dança. De alguma forma, era como se
fôssemos os únicos que sobraram.
Greta entrou em pânico e começou a se afastar.
Eu não podia culpá-la, mas e se só tivéssemos aquela noite? Eu queria aquela dança.
Peguei sua mão: — Dance comigo.
Ela parecia assustada, mas me deixou puxá-la para mim, de qualquer forma. Deixei
escapar um suspiro quando seu corpo inteiro se derreteu em meus braços. Ela fechou os
olhos e encostou a cabeça no meu peito. Meu coração estava batendo forte, como se dissesse
que eu tinha sido um idiota por não compreender que aquilo era, precisamente, o que eu
queria.
Pela primeira vez, desde que chegamos ao cassino, os pensamentos a respeito de Chelsea
foram completamente abafados pela intensidade de meus sentimentos por Greta. Eu
precisava saber se ela sentia a mesma coisa. Então, olhei para baixo e, naquele exato
momento, ela olhou para mim. Senti que perdia minha habilidade de respirar. Encostei
minha testa na dela, e simplesmente soube. Aquele foi o momento em que parei de mentir
para mim mesmo. Ainda estava apaixonado por ela. Não sabia o que fazer a respeito disso,
porque amava Chelsea, também.
Antes que pudesse pensar nisso, Greta se afastou e começou a correr através da escuridão
e da multidão.
— Greta, espere.
Depois de alguns segundos, eu a perdi. Corri para a saída, em direção aos elevadores. As
portas estavam se fechando, e eu enfiei meu braço através da abertura para pará-las.
Ela estava chorando. Deus, o que eu tinha feito com ela?
— Mas que merda foi essa, Greta? Por que saiu correndo de mim, assim?
— Eu precisava voltar para o meu quarto.
— Não dessa forma.
Sem nem pensar, apertei o botão de parar o elevador.
— O que está fazendo?
— Não era assim que eu queria que nossa noite terminasse. Eu ultrapassei os limites. Sei
disso. Me perdi no momento com você, e, merda, peço desculpas. Mas não pretendia ir mais
longe, porque não quero trair Chelsea. Eu não poderia fazer isso com ela.
— Não sou tão forte quanto você, então. Não pode dançar comigo daquela forma, olhar
para mim daquela forma, me tocar daquela forma, se não vamos fazer nada a respeito. E, só
para que você saiba, eu não iria querer que você a traísse.
— O que você quer?
— Não quero que diga uma coisa e aja de uma forma contraditória. Não temos muito
mais tempo juntos. Quero que fale comigo. Naquela noite, no funeral, você colocou a mão ao
redor do meu pescoço. Pareceu, por um momento, que estávamos de volta ao momento em
que paramos, anos atrás. É assim que eu me sinto com você, o tempo todo. Então, depois
daquilo, Chelsea me contou o que aconteceu entre vocês quando foram para casa.
Do quê ela estava falando?
— O que ela te falou, exatamente?
— Você estava pensando em mim? Foi por isso que não conseguiu fazer nada, naquela
noite?
O quê?
Eu não tinha palavras. O fato de Chelsea ter contado a Greta sobre nosso momento
privado me deixou irritado. Fiquei sem fala.
— Quero que me diga a verdade. — Ela disse.
Ela não ia aguentar a verdade, e eu não ia aguentar meus sentimentos por ela. Mas eu
estava chateado porque elas tinham conversado pelas minhas costas. Além disso, parecia que
minha vida tinha virado de ponta cabeça em uma única noite.
Então, eu perdi a batalha.
— Você quer a verdade? Eu estava fodendo minha namorada, mas não conseguia ver
nada, além de você. Essa é a verdade — eu dei alguns passos na direção dela. Ela recuou,
enquanto eu continuava: — Entrei no chuveiro naquela noite, e o único jeito que encontrei
de terminar o serviço foi me imaginar beijando seu lindo pescoço. Essa é a verdade.
Eu deveria ter parado ali.
Ao invés disso, coloquei os braços ao redor dela, enquanto ela encostava a cabeça na
parede. Continuei, então: — Quer mais? Eu ia pedi-la em casamento hoje à noite, no
casamento da irmã dela. Eu deveria estar noivo nesse exato momento, mas, ao invés disso,
estou em um elevador lutando contra a vontade de te encurralar nesta parede e te foder com
tanta força que teria de te carregar de volta para o seu quarto.
Meu peito doeu. Deixei meus braços caírem ao lado do corpo.
— Tudo que pensei que soubesse ficou de ponta cabeça nas últimas quarenta e oito horas.
Estou questionando tudo, e não sei o que fazer. Essa. É. A. Verdade.
Apertei novamente o botão de parar, porque qualquer minuto a mais seria prejudicial.
Apesar disso, ser brutalmente honesto, de uma vez só, tirou um enorme peso de meu peito.
Quando chegamos ao andar, fomos para nossos quartos separados.
Sozinho na cama, a culpa começou a se estabelecer, me impedindo de dormir.
Torturava a mim mesmo, olhando para as fotos de Chelsea mais uma vez.
Ela não merecia isso.
Rolei na cama, alternando pensamentos a respeito de Randy, culpa por causa de Chelsea
e, meu favorito, desejos carnais por Greta. Se eu não me preocupasse em magoar Chelsea, eu
teria ido ao quarto de Greta naquela noite. Eu sabia que, com toda aquela frustração, teria
sido o melhor sexo da minha vida. Mas eu não era um traidor, e não fui até lá. Então, deixei
minha imaginação viajar.
Em um dado momento, as fantasias sexuais já tinham ficado vívidas demais, então tentei
me redimir de meus pecados enviando uma mensagem a Chelsea às duas da manhã.

Amo você.

Imediatamente depois, mandei uma mensagem de texto para Greta.

Se eu bater na sua porta hoje à noite, não me deixe entrar.

O táxi estava se aproximando do meu destino, então pensei que aquele


seria um ponto bom da história para parar, já que eu teria de cumprimentar
meus amigos em breve. Chegava a ser doloroso parar de ler.
Paguei o motorista e coloquei o Kindle dentro da bolsa. Enquanto eu
entrava no Club Underground, o contraste da escuridão com as luzes fortes
causaram um sentimento de irrealidade. Minha cabeça ficou presa na história
de Elec o dia inteiro, e chegava a ser estranho voltar para o mundo real.
Comecei a me sentir um pouco em pânico, com um pouco de vertigem de
tempos em tempos.
Meu nervosismo foi aumentando, assim que vi meus dois colegas de
trabalho, Bobbie e Jennifer, me cumprimentando, enquanto entramos em uma
sala privada. Um pequeno bar estava iluminado com uma luz roxa. Eu,
imediatamente, pedi uma vodka com soda.
Dei um longo gole.
— O convidado de honra já chegou?
— Nenhum sinal de Hetty ainda. — Jennifer disse.
Já que Hetty não tinha chegado ainda, pedi desculpas e fui ao banheiro,
onde, rapidamente, peguei meu Kindle. Não me julgue.

Eu considerava um milagre que aquela noite tivesse terminado sem que qualquer merda
acontecesse. Greta acabou me enviando uma mensagem por estar com insônia.
Imediatamente, liguei para ela, e conversamos até que ela adormecesse, depois das quatro da
manhã. Fiquei no telefone ouvindo os sons de sua respiração.
A ida para casa na manhã seguinte foi ainda mais dolorosa. Uma serra elétrica não seria
suficiente para cortar a tensão que havia no ar.
Greta ia me levar ao aeroporto. Acabamos parando na casa da mãe dela, primeiro. Estar
de volta àquele lugar, one tudo começou, foi mais difícil do que eu pensei que seria.
Greta me serviu um pouco de seu sorvete feito em casa. Era nostálgico compartilhar a
mesma tigela. Por alguma razão, de tudo o que vivemos durante nossa pequena aventura,
aquele momento significou muito para mim, e funcionou como um adeus definitivo.

Tive que colocar meu Kindle de lado quando Hetty entrou no banheiro. Ela
devia pensar que eu era patética.
— Aí está você. Estávamos te procurando.
— Ah, perdi a noção do tempo. Você ainda não tinha chegado, então vim
aqui para relaxar um pouco antes de a festa começar — abracei-a. – Feliz
aniversário, querida.
— Obrigada. Você estava lendo?
— Sim — ri e acenei com a mão, despretensiosamente. — Você sabe
como é começar um livro e não conseguir largá-lo.
— É erótico?
Tive de pensar a respeito.
— Não exatamente.
— Tudo bem. Ok, bem, vamos lá! Já está quase todo mundo aqui.
Eu a segui até a sala e, imediatamente, corri para o bar para pegar outra
vodka com soda. Prometi não pegar o livro por, pelo menos, uma hora.
Então, dei uma caminhada pelo salão e me vi olhando para as pessoas sem
ouvir o que elas estavam dizendo. Suas bocas se moviam, mas meu cérebro
não processava; minha mente ainda estava com Elec.
Assim que a hora que impus a mim mesma terminou, corri para o banheiro.
Meus amigos estavam, provavelmente, pensando que eu estava usando
cocaína, mas eu precisava terminar o livro, já que só faltava uma pequena
porcentagem. Daquela forma, eu conseguiria continuar a noite sem qualquer
preocupação.
Respirei fundo.

Greta não fez contato visual comigo durante a ida ao aeroporto. Compartilhamos tantos
momentos especiais, mas ela não conseguia nem olhar para mim. Foi assim que tudo ficou,
mas eu sequer podia culpá-la.
Eu estava desmoronando e não sabia o que dizer a ela. Nós, praticamente, fomos do céu
ao inferno juntos naquelas últimas vinte e quatro horas, e, então, eu a estava abandonando…
novamente.
Quando saímos do carro, o vento estava selvagem. Quase parecia a cena de um filme.
Aquela poderia ter sido a parte triste, na qual toca uma música dramática.
O som trovejante de aviões decolando tornava ainda mais difícil articular o que eu queria
dizer. O que falar para alguém a quem você está abandonando pela segunda vez?
Ela se segurou, mas estava olhando para qualquer lugar, menos para meu rosto.
Finalmente, eu disse: — Olhe para mim.
Greta negou com a cabeça repetidamente, e uma lágrima caiu por seu rosto.
Era oficial, agora. Eu era a escória do universo.
Meus próprios olhos começaram a se encher de água, porque eu não conseguia suportar a
dor que ela estava sentindo. Até porque eu não podia fazer a única coisa que queria: ficar.
Ela estava acenando para mim: — Está tudo bem. Vá. Por favor. Mande mensagens, se
quiser. É só que… eu não vou conseguir dizer adeus… Não para você.
Ela estava certa. Já que aquilo não ia terminar bem, por que prolongar?
— Ok.
Ela me surpreendeu ao se inclinar e me dar um beijo rápido no rosto. Então, correu de
volta para o carro e fechou a porta antes que eu pudesse processar isso.
Ainda sentia resquícios de sua saliva em minha bochecha enquanto caminhava para a
entrada do aeroporto, me sentindo quase tonto.
Queria olhar para ela uma última vez, então, virei-me em sua direção. Grande erro.
Através do vidro, vi que sua cabeça estava encostada no volante. Imediatamente, corri para
fora do local, até o carro, e bati na janela. Ela se recusou a olhar para mim e deu a partida,
então, eu bati com mais força. Ela, então, se virou e começou a secar as lágrimas, saindo do
carro.
— Esqueceu alguma coisa?
Antes que eu percebesse, minha boca estava sobre a dela. Meu coração estava tomando as
rédeas, àquela altura. Não abri os lábios, porque estava convencido de que seria inocente, já
que eu não sentiria seu gosto. Foi um beijo firme e desesperado, e eu nem sabia dizer o que
significava.
Eu me sentia vazio e confuso.
Ela finalizou.
— Saia daqui. Você vai perder o seu voo.
Minhas mãos ainda estavam em seu rosto.
— Eu nunca superei ter te magoado na primeira vez, mas, fazer isso duas vezes… Pode
acreditar em mim quando eu digo que era a última coisa que eu gostaria de fazer em toda
minha vida.
— Por que voltou logo agora?
— Eu me virei e te vi chorando. Que tipo de babaca sem coração seria capaz de te deixar
assim?
— Bem, não era para você ter visto isso. Você deveria ter continuado a andar, porque,
agora, está tornando tudo muito pior.
— Eu não queria que aquela fosse minha última visão de você.
— Se você realmente a ama, não deveria ter me beijado. — Ela gritou.
— Eu a amo. — Soou extremamente defensivo. Olhei para o céu, porque precisava
pensar por um segundo.
Como explicar a descoberta que fiz na pista de dança?
— Você quer saber a verdade? Merda, eu amo você também. Acho que não tinha ideia do
quanto, até te ver novamente.
— Você ama as duas? Isso é uma baita confusão, Elec.
— Você sempre me disse que prefere a sinceridade. Estou te dando isso. Me desculpe se
a verdade é uma maldita confusão.
— Bem, ela tem a vantagem de morar com você. Você vai me esquecer, logo, logo. Isso
vai simplificar as coisas.
Ela estava entrando de novo no carro.
— Greta… Não vá embora assim.
— Não sou eu que estou indo embora.
Ai!
Ela saiu dali e me deixou sozinho, o que eu merecia, porque, sem nenhuma intenção, eu
tinha feito a mesma coisa com ela… Duas vezes, na verdade.
Eu estava, mesmo, tentado a me jogar em um táxi e segui-la. Mas entrei no avião, de
volta para a Califórnia, porque, pela primeira vez na minha vida, eu precisava fazer a coisa
certa.

Meus dedos continuaram pressionando o botão para passar para a próxima


página, esperando que houvesse mais daquela história. Ele não poderia me
fazer ler aquilo tudo só para terminar exatamente da forma como deixamos as
coisas.
Quando ele me enviou o manuscrito, disse que ainda não estava terminado.
Era provável que ele quisesse que eu não soubesse mais nada além da parte
que me envolvia. Já que o resto da vida dele envolvia ela, não havia
necessidade de me torturar com mais. Eu entendia isso, agora, e agradecia.
Ele queria que eu entendesse o que tinha sentido durante todo aquele tempo.
Só assim poderia encerrar o assunto e seguir em frente.
Bom para ele.
Peguei meu telefone e enviei uma mensagem de texto que pareceu cordial,
apesar da minha raiva.
Terminei. Obrigada. Foi uma jornada maravilhosa. Estou honrada por ter
pedido que eu lesse. A história da sua família me surpreendeu e explicou
muitas coisas. Sinto muito por você ter passado por tudo isso. Entendo
muito mais coisas, agora, e o porquê de você ter terminado no ponto em
que finalizou.

Merda.
Eu estava chorando, e tinha de voltar para perto dos meus amigos.
Devastada, estava determinada a fazer com que o resto daquela noite me
fizesse esquecê-lo de uma vez por todas.
Me ajude a afogar minhas mágoas, foi o que ele me disse, no cassino.
Bem, era isso o que eu precisava, naquele momento.
Meus amigos estavam na pista de dança e comemoraram, quando me
viram. Eles me puxaram, e dançamos juntos por pelo menos uma hora.
Quanto mais eu pensava em Elec, mais rápido e mais forte eu balançava meus
quadris e minha cabeça, até um ponto em que meu cabelo deveria estar com
aspecto de ter sido eletrocutado. Perdendo-me na música, não queria parar
para sentir todas as emoções dolorosas causadas por sua história. Eu,
certamente, não queria aceitar que a personagem Greta Hansen tinha sido
apagada de sua vida.
Meia hora depois, o telefone vibrou.

Qual é a sua teoria para eu ter terminado no ponto em que finalizei?

Sua resposta me surpreendeu. Para impedir que eu desmoronasse na pista


de dança, continuei dançando como se nada tivesse acontecido. Não queria
que meus amigos pensassem que havia algo de errado.
Balancei meu traseiro e digitei.

Greta: Porque não queria me magoar. O resto não tem nada a ver comigo.
Elec: Tem certeza disso?
Greta: O que está querendo dizer?
Elec: Pare de balançar a bunda por cinco minutos, e talvez eu te conte.
O quê?
Antes que eu pudesse me virar, senti mãos fortes segurando as laterais do
meu corpo por trás, e parei de me mover, subitamente. Ele começou a descer
devagar por minha cintura e parou no meu traseiro com muita segurança.
Aquela pressão. Aquele cheiro. A forma como meu corpo respondeu
imediatamente.
Não. Não podia ser.
VIREI-ME E VI SEUS OLHOS ENEVOADOS, INCANDESCENTES, MESMO NA
escuridão da boate. As batidas do meu coração estavam intensas. Era como se
estivesse duelando com o grave da música. Tudo ao meu redor pareceu
desaparecer, quando compreendi que Elec estava bem na minha frente,
segurando-me, como se soubesse que sua presença seria capaz de me fazer
cambalear, e que eu precisaria de equilíbrio.
Eu estava tão nervosa que minha primeira pergunta foi muito idiota, e
minha voz tremeu quando eu a fiz.
— O que aconteceu com seus óculos?
— Lentes de contato.
— Ah.
Finalmente, o choque começou a desaparecer por tempo suficiente para
que eu pudesse pensar em perguntar alguma coisa que fizesse sentido.
— Eu tenho um milhão de perguntas. Como chegou aqui? Como me
encontrou? Como…
— Cale a boca, Greta.
Sua boca quente envelopou meus lábios, e, abruptamente, interrompeu
qualquer questionamento. Ele me devorou com um abandono imprudente. Se
ainda houvesse qualquer dúvida a respeito de como as coisas estavam entre
nós, o sentimento possessivo de seu beijo, a forma como ele pressionava seu
corpo inteiro contra o meu, a teriam aniquilado.
Sem ter de usar palavras, seu beijo falou muito mais. Sua língua se
enroscava na minha, os sons guturais que saíam de sua garganta enquanto ele
fazia isso provavam, pela primeira vez, desde que o conheci, que ele era meu.
Todas as reservas do passado, cada resquício do que vinha nos impedindo de
ficar juntos, tinham desaparecido.
Eu não conhecia toda a história até o ponto em que ele chegou naquele
lugar, mas eu não tinha certeza de se importava.
Meus dedos percorreram seu cabelo desesperadamente, enquanto eu o
puxava mais para mim.
Nunca mais me abandone, Elec.
Ainda estávamos em nosso pequeno mundinho, apesar das pessoas ao
nosso redor, esbarrando na gente. Ele suspirou de encontro a meus lábios, sua
testa colada à minha.
— Eu fiquei esperando você terminar de ler o livro para me aproximar.
Esse era o plano.
— Você estava em Nova York durante todo esse tempo?
— Eu já estava esperando em Nova York quando o enviei.
— Ah, meu Deus! — Enterrei meu rosto em seu peito, e saboreei o cheiro
de seus cigarros. Ergui meus olhos em sua direção e tive de fazer a pergunta,
mesmo que parecesse óbvio: – Você terminou com ela?
Ele assentiu, com seu rosto muito próximo do meu.
Continuei: — Mas, no final do livro… Você escreveu que estava fazendo a
coisa certa. Eu pensei…
Ele me interrompeu com outro beijo, e disse: — Imaginei que você ia
acreditar nisso. Mas a coisa certa… era admitir que eu não poderia amá-la
completamente, se meu coração batia mais rápido por outra pessoa – suas
mãos tocaram meu rosto. – Meu coração não calou a boca desde que te vi. em
pé, naquele jardim. Eu, finalmente, o ouvi. Precisei de um tempo para clarear
minhas ideias, o suficiente para entender o que ele queria.
Eu tinha certeza de que deveria ser uma longa história, de que terminar as
coisas com Chelsea não deveria ter sido fácil para ele. Sabia que ele a amava
de verdade, e que me contaria tudo em seu devido tempo, mas aquele não era
o momento para isso.
Como se lesse minha mente, ele disse: — Prometo que vou te contar tudo o
que aconteceu, mas não agora, ok? Só quero ficar com você.
— Ok.
Coloquei meus braços ao redor dele, e deixei escapar um suspiro, tão
intenso que qualquer um poderia pensar que eu o vinha segurando há sete
anos. E, talvez, fosse verdade. Nos beijamos como se nossa vida dependesse
disso, não parando para respirar pelo tempo de três músicas consecutivas. Eu
tinha certeza de que meus amigos estavam nos vendo, mas não conseguia
tirar meus olhos dele para checar suas reações. Eles, provavelmente, estavam
pensando que era uma ficada casual, e eu teria de dar muitas explicações no
trabalho. Pressionei meu corpo contra o dele, e pude sentir sua ereção de
encontro ao seu jeans. Estávamos praticamente fazendo amor na pista de
dança.
Isso era surreal.
Ele falou ao meu ouvido, me causando arrepios: — Você me quer, Greta?
— Sim.
— Confia em mim?
— Confio.
— Preciso que me deixe tê-la agora.
— Na boate?
Ele sorriu bem perto da minha boca.
— Queria que você terminasse de ler, para que soubesse de tudo, antes de
transar comigo. Tenho vagado por essa cidade há três dias, só pensando em
ficar com você. Seu apartamento é muito longe daqui. Não posso mais
esperar.
— Aonde podemos ir? — Perguntei.
— Não me importa, mas preciso resolver isso antes que te agarre, aqui
mesmo, na pista de dança — ele segurou minha mão. — Venha.
Ele entrelaçou seus dedos nos meus e me guiou através do ar pesado e
úmido da boate. Todos os pelos do meu corpo se eriçaram. O que estávamos
fazendo parecia perigoso. Elec era um homem feito, agora. Quando fizemos
sexo pela última vez, ele era apenas um menino. Eu tenho certeza de que ele
tinha ficado ainda melhor, com o passar dos anos, e eu não tinha certeza de se
estava preparada para isso. Já fazia algum tempo desde a última vez que
havia ficado com alguém. Ele ia perceber isso.
Havia uma porta que dava para um salão dos fundos, mas, quando Elec
tentou abrir, estava trancada. Ele olhou para mim, com um sorriso que me
deu calafrios.
— Você disse que confiava em mim, não disse?
— Sim.
— Espere aqui.
Ele abriu a porta dos fundos, que mais parecia uma saída de emergência, e
saiu, depois voltou até o ponto onde eu estava esperando.
— Quero te dar uma escolha, dependendo de seu desejo.
— Ok.
— Podemos procurar um motel, para fazer amor em uma cama, ou…
— Ok. Ou?
— Podemos ir lá fora agora e foder naquele beco.
Eu nunca tinha sentido os músculos do meu corpo tão contraídos, ansiosos
por algo. Meu corpo tinha, claramente, escolhido por mim, desejando se
render a ele completamente. Eu precisava daquilo tanto quanto ele. Queria
muito, e queria naquele momento.
— Quero a segunda opção.
— Boa escolha.
Ele abriu a porta e me levou para fora. O beco estava deserto. Uma fina
camada de névoa cobria o ar. Caminhamos um pouquinho, até que chegamos
a uma espécie de muro escondido.
— Ninguém vai nos ver, aqui — ele disse, enquanto, gentilmente, me
encostava na parede de tijolos. — Estou desesperado para te tirar da zona de
conforto.
Minha respiração estava pesada de excitação, sem saber exatamente o que
ele iria fazer comigo. Eu só sabia que não ia pará-lo. Estava completamente
cega. E tremendo, um pouco.
— Está nervosa? Não tenha medo.
— Só estou excitada. Já faz algum tempo.
— Seu corpo vai se lembrar de mim.
Elec puxou as alças do meu vestido para baixo, para que meus seios
ficassem expostos. Gentilmente, ele puxou todo meu cabelo para trás antes
de, não tão gentilmente, segurar meu pescoço. Era bom. Depois, abaixou sua
boca até ele, me mordendo.
— Esse maldito pescoço… foi quase a morte para mim… É a coisa que
mais gosto, no mundo inteiro — disse, enquanto o sugava e gemia de
encontro a ele, vibrando em minha pele. — Quase posso sentir o cheiro do
quanto você me quer, Greta — ele manteve uma mão em meu pescoço, e,
suavemente, beliscou meu mamilo com a outra. — Veja como eles estão
duros. Acho que sempre vi seus mamilos enrijecidos como aço, perto de
mim. E eu queria que você pudesse ver seu próprio rosto. Mesmo no escuro,
consigo ver o quanto está corada. Fico excitado em saber que causo esse tipo
de efeito em você. Quero que saiba que eu nunca quis tanto algo quanto
reivindicar cada centímetro de você. E vou fazer isso agora. Ok?
Assenti, tão excitada que mal conseguia respirar. Enfiei meus dedos dentro
das ondas negras e revoltas de seus cabelos, enquanto ele trilhava um
caminho de beijos até chegar na minha boca. Saboreei o doce gosto de sua
respiração, e o arranhar de sua barba em meu rosto. Não havia nada de
delicado em estar com Elec, mesmo quando ele agia de forma gentil. Passei
minha língua por seu piercing labial, e ele gemeu quando eu o puxei devagar.
Nunca me cansaria de sua boca. Eu a queria em todo meu corpo.
Senti umidade se acumulando entre minhas pernas, enquanto ele se
ajoelhava no concreto para erguer meu vestido e puxar minha calcinha para
baixo, bem devagar. Ele olhou para mim, mostrando seus lindos dentes.
— Você não vai precisar disso aqui – ele sorriu, e acrescentou: — por pelo
menos uma semana. — Com isso, colocou minha calcinha em seu bolso.
Minhas pernas estavam trêmulas.
Ele se levantou devagar, e a sequência de eventos seguintes foi nada mais
do que uma perfeita coreografia de provocações eróticas. Cada som, cada
movimento era mais sexy do que o anterior: ele tirando o cinto, abrindo o
zíper, seus dentes rasgando a embalagem da camisinha, enquanto olhava para
mim, o som da borracha se espalhando por seu belo pênis, que já começava a
umedecer seu piercing. Eu pulsava de desejo.
Seus olhos se tornaram um pouco sombrios, atingindo uma tonalidade de
carvão. Mantendo seu jeans, ele me ergueu do chão e entrelaçou minhas
pernas em sua cintura, me encostando na parede de tijolos.
— Me avise, se for intenso demais. — Ele disse, com aspereza.
— Não vai…
Ah!
Ele me penetrou em uma investida como uma punhalada. Colocou a mão
atrás da minha cabeça como um escudo, porque percebeu que quase me
causou uma concussão.
Sua boca permaneceu em meu pescoço, me mordendo gentilmente
enquanto me fodia. O calor de seu pênis era enlouquecedor. Cada movimento
era ainda mais forte do que o anterior, com apenas um segundo de diferença.
Ele gemia alto com cada investida. Alguém ia nos pegar em flagrante.
Aquele era o sexo mais selvagem da minha vida, perdendo, apenas, para
aquela vez em que ele me pegou no chão do meu quarto, sete anos atrás. Eu
já não fazia sexo há quase dois anos, e não poderia imaginar com que
facilidade meu corpo se acostumaria com ele, apesar de ele ser tão grande.
Acho que já fiquei molhada e pronta para ele desde quando o vi naquele
jardim.
Elec continuou a me foder, com raiva e de forma desenfreada.
— Ninguém nunca deveria ter usufruído disso aqui, além de mim — ele
disse, beijando a pele do meu pescoço. Mais uma investida. — Eu te
abandonei – investiu com mais força. — Te joguei fora.
Comecei a mover meus lábios, me aproximando ainda mais.
— Então me pegue de volta. Me foda com mais força.
Minhas palavras quase o desestabilizaram, mas ele aceitou o desafio. Ele
me virou, deixando suas próprias costas coladas na parede, para que não
tivesse mais que proteger minha cabeça com sua mão. Ele reposicionou
minhas pernas ao redor dele e colocou a mão ao redor do meu pescoço,
usando a outra para me segurar. Olhou em meus olhos enquanto entrava e
saía de mim, enquanto me asfixiava levemente, só ao ponto de ser prazeroso.
Sabendo o quanto isso o excitava me enlouquecia.
Foi uma sorte ninguém ter aparecido. Ainda estávamos sozinhos na névoa
da noite. Os únicos sons ao redor eram os do encontro de nossas peles, o
tilintar da fivela de seu cinto e nossas respirações.
Estendi a mão para levantar sua camisa, o suficiente para que eu pudesse
ver seu abdômen. Estava ainda mais rijo do que eu me lembrava, e parecia
esculpido. Gostaria de podermos estar despidos, pele com pele, mas ficar
completamente nus, ali, poderia ser um risco.
— Não se preocupe. Mais tarde tiraremos tudo – ele disse. — Vamos fazer
tudo, hoje à noite.
Um orgasmo começou a rodopiar dentro de mim, de repente. Eu não
precisei dizer nada. Era incrível como ele conhecia meu corpo.
— Você vai gozar — ele disse. — Me lembro muito bem. Olhe para mim.
Ele segurou meu pescoço e olhou em meus olhos, enquanto movimentava
os quadris, me fodendo com o máximo de força que conseguia, até
estremecer.
Levei alguns minutos para acalmar minha respiração. Ele continuou a
segurar meu corpo, enquanto beijava meu pescoço.
— Eu te amo, Greta.
Eu o amava tanto que não conseguia nem formar as palavras. Tantos
sentimentos tinham vindo à tona, mas o medo sobressaía a todos.
— Não me deixe, Elec. Não volte para ela. – Eu disse.
Ele me abraçou com mais força.
— Não vou, amor — ele disse, erguendo meu rosto para que olhasse em
seus olhos. – Olhe para mim. Você nunca mais vai precisar se preocupar com
isso. Não vou a lugar nenhum. Sei que vou ter de provar a você, mas vou
fazer isso.
Ele me colocou no chão e abotoou as calças, antes de me erguer no colo
outra vez. Seus pés rangiam contra o cascalho, enquanto ele me carregava
nos braços até a calçada mais próxima, onde pegamos um táxi.
Parecia um sonho.
No banco de trás, encostei a cabeça em seu peito. Seu coração estava
batendo acelerado de encontro à minha orelha, enquanto ele, gentilmente,
acariciava meu cabelo durante todo o caminho até o meu apartamento.
Quando entramos no meu prédio, suas mão estavam em meus ombros,
enquanto ele beijava minha nuca até chegarmos ao andar de cima.
Atrapalhei-me com as chaves e, uma vez lá dentro, senti a súbita urgência
de fazer algo que nunca tinha feito antes.
Encurralei-o contra a porta, que tinha acabado de ser fechada, e levantei
sua camisa. A expressão em seus olhos era um misto de fome, choque e
divertimento por conta de minha ousadia.
Minha língua desenhou círculos ao redor do seu piercing no mamilo, e
lambeu cada músculo de seu peito, bem abaixo dos trevos tatuados. Ajoelhei-
me, e, quando ele percebeu o que eu estava prestes a fazer, sua respiração
começou a ficar mais pesada.
— Puta merda! — Ele disse, com a voz rouca. — Isso está mesmo
acontecendo?
Ele não perdeu tempo e arrancou o cinto, jogando-o no chão. Abaixei sua
cueca e ergui seu pênis, perdendo um segundo para maravilhar-me com seu
diâmetro, seu comprimento e o calor que emanava dele, além da pequena
argola em sua ponta. Fantasiei sobre chupá-lo mais do que qualquer outra
coisa, porque nunca tinha feito isso, antes.
Elec pegou um punhado do meu cabelo e enrolou em seus dedos.
— Não sei quantas vezes sonhei em foder essa sua boca linda. Tem certeza
de que quer fazer isso?
Ao invés de responder, passei a língua pela argola de metal e saboreei o
gosto salgado de sua umidade, enquando acariciava seu pênis. A cada
movimento, a cada lambida, ele ficava mais molhado.
Seu abdômen se contraiu e sua respiração estava incerta.
— Merda. Você está me provocando.
Parei e lambi meus lábios enquanto olhava para ele, que fechou os olhos
em resposta. Elec não conseguia mais se controlar, mas, agora, estava sob
meu controle, o que me excitava.
Seus olhos ainda estavam fechados quando o enfiei na minha boca pela
primeira vez. Os sons de prazer que emanavam dele eram tão sexy que só me
encorajavam a ir mais fundo e mais rápido. Adorava senti-lo preenchendo
minha boca. Não conseguia me cansar daquilo, e chupava cada vez mais
forte. Eu estava tão molhada que poderia ter gozado facilmente, se começasse
a me tocar.
Ele enfiou os dedos no meu cabelo e puxou minha cabeça para trás.
— Pare. Você vai me fazer perder a cabeça, e eu quero gozar dentro de
você.
Chupei-o com mais força.
— Não. — Eu disse, querendo que ele gozasse dentro da minha boca.
Sua respiração estava incerta.
— Por acaso você está tomando pílula?
Assenti.
— Tomo há anos. Regula meu ciclo.
Ele saiu de dentro da minha boca.
— Fique de pé e vire-se.
Meu coração estava batendo forte, quando ele levantou meu vestido por
cima da minha cabeça. Agarrou meus quadris e mergulhou dentro de mim.
Sem camisinha, a sensação quente e molhada de sua pele dentro de mim,
além do toque de seu piercing de metal, era muito para suportar. Cada
sentimento foi aprimorado.
Suas mãos agarravam minha bunda enquanto ele me fodia. Eu podia ouvir
o quão molhada eu estava, enquanto ele entrava e saía. Estava pronta para
gozar a qualquer momento, completamente excitada depois de chupá-lo e de
ele, finalmente, estar me pegando nua.
— Nunca mais vou usar camisinha com você — ele suspirou. — Isso aqui
é tão bom.
Eu estava prestes a gozar.
— Goze dentro de mim, agora.
Ele começou a investir com tanta força, que eu tinha certeza que haveria
hematomas no meu traseiro no dia seguinte.
— Porra… Greta… Ah! — Ele continuou se movendo, entrando e saindo,
até que não houvesse mais nada. E, mesmo depois, ele continuou a me foder
mais devagar, por um tempo.
Elec, finalmente, saiu de mim e me virou para beijá-lo. Estava rindo.
— Nem conseguimos passar da porta da frente. Percebeu isso?
— Acho que eu faria de novo.
— Bom, porque não estou nem perto de terminar. — Ele disse, me
arrastando até o quarto, enquanto suas calças caíam da cintura.

Quatro velas acesas tremulavam ao nosso redor, enquanto estávamos


sentados na minha cama, às quatro da manhã, tomando sorvete.
— Então, como me encontrou?
— Bem, você me enviou aquela mensagem, falando que tinha terminado
de ler. Eu estava sentado em uma Starbucks na esquina do seu apartamento.
Vim direto para cá, porque supus que seria onde estaria lendo. Queria te
surpreender. Fiquei esperando na escada. Mas, uma pessoa, que disse que era
sua fada madrinha, veio até mim e disse: “Alec… certo? Eu te reconheceria
em qualquer lugar pela descrição que Greta me deu. Eu sabia que você
voltaria para ela, seu babaca idiota.”
— Está falando sério? — Caí na gargalhada. — É Sully. Ela é minha fada
madrinha.
— Bem, você já percebeu que sua fada madrinha tem um pacote maior que
o meu, né?
— Sim, estou ciente. Só não falamos sobre isso.
— Você deve ter falado muito mal de mim para ela. Bem, que seja. Eu só
precisava ir até onde você estava. Então, perguntei a ela se sabia onde te
encontrar.
— Então, ela te deu o nome da boate?
— Não de primeira. Acho que ela queria me fazer sofrer.
— O que ela fez?
— Ela me fez tirar a camisa.
— Você está brincando!
— Estou falando sério.
— E foi só isso?
— Quem me dera.
— O que mais?
— Ela me fez segurar uma placa que dizia “cara de babaca” e tirou uma
foto minha com isso.
Cobri minha boca e abafei minha fala: — O quê?!
— Pois é. Ela disse que era efeito colateral.
— Sully é louca.
— Bem, ele, ou ela, obviamente, se importa com você. Eu compreendi
isso. De qualquer forma, só depois de ter tirado a foto, que ela me deu o
endereço da boate e disse: “Esta é sua última chance”.
— Uau. — Eu disse.
— Sim.
Elec se virou para mim.
— Quero que saiba de uma coisa.
— Ok.
— Hoje, mais cedo, depois de transarmos no beco, quando me pediu para
não voltar para Chelsea… Foi difícil ouvir isso. Uma parte de você não
acredita que é real e ainda está traumatizada por eu tê-la abandonado no
passado. Isso fez com que eu compreendesse o quanto te magoei, e eu nem
percebi.
— Eu estava muito emotiva naquele momento, especialmente depois de ler
o seu livro durante o dia todo. Cada sentimento, incluindo meu maior medo,
veio com força total.
Elec pegou o sorvete das minhas mãos e colocou-o de lado. Colocou as
mãos no meu rosto.
— Nunca houve briga. Eu amava Chelsea, mas foi errado. Eu te amava
muito mais. Cada segundo que passei com você, na última vez, me fez ter de
reafirmar o tempo todo que eu amava Chelsea, algo que eu não deveria ter de
fazer. Meus sentimentos por você eram muito mais poderosos, chegavam a
me assustar. No momento em que entrei naquele avião, eu sabia que estava
voltando para Califórnia para terminar com Chelsea. Que era a coisa certa a
fazer.
— Você a magoou muito, não?
— Sim. Ela não merecia.
— Sinto muito.
— Teria sido muito pior, se eu a tivesse pedido em noivado ou me casado,
porque acho que o resultado não seria muito diferente. Não seria justo ficar
com ela te amando, dessa forma, em segredo.
— Acho que sei exatamente como ela está se sentindo agora.
— Sim, você deve saber. Parte de mim sempre vai se sentir horrível por
magoá-la, mas não tinha como evitar isso. Levei vários dias, depois de chegar
em casa, para encontrar uma forma de explicar tudo a ela, porque eu queria
ser honesto a respeito de você. Não fiz isso imediatamente, mas não transei
mais com ela, e você precisa saber disso. Procurei desculpas. A verdade é que
eu não queria voltar para você antes de ter deixado tudo para trás. Até que
você soubesse tudo sobre o meu passado. Então, depois de me mudar da casa
de Chelsea, passei um bom tempo trabalhando no livro, até que chegasse em
um ponto onde seria confortável para você ler.
— Obrigada por compartilhar isso comigo.
Ele me beijou.
— Eu te amo tanto, Greta.
— Também te amo.
— Não vou voltar para a Califórnia.
— O quê? Nem para pegar suas coisas?
— Não. Coloquei todas em um depósito. Mami está bem, por enquanto. Só
vamos ter de ir até lá para visitá-la.
— Nós?
Eu queria conhecer Pilar tanto quanto Dorothy queria conhecer a Bruxa
Má do Oeste.
— Sim. Eu já contei a ela sobre você. Ela não aceitou muito bem, no
início, mas expliquei o quanto te amo e que ela precisava aceitar. Ela vai
aceitar, Greta. E, se não aceitar, não vai mais importar.
— Espero aceite.
— Precisava encontrar outro emprego, porque saí do centro de menores
depois que terminei com Chelsea. Então, uma das coisas que fiz foi ir a uma
entrevista em uma escola, aqui na cidade, na sexta-feira. Eles me ofereceram
um cargo de orientador.
— Está brincando?
— Não.
— Elec, são notícias muito boas!
Ele pegou o sorvete e começou a comê-lo outra vez.
— Preciso de um lugar para ficar. Conhece alguma garota que precise de
um colega de quarto?
— Na verdade, Sully estava procurando Ele colocou uma colherada na
minha boca.
— Eu estava, na verdade, pensando em outra garota. Pensei em morar com
uma linda ninfa, que sei que gosta de ser chupada.
— Ah… Talvez ela esteja interessada.
— Que bom, porque eu não estava planejando aceitar não como resposta
— ele me beijou, com a boca cheia de sorvete de cereja. — Ei… Você nunca
me explicou muito bem o que faz da vida. Disse que é um cargo
administrativo, mas o que sua empresa faz, exatamente? Você é uma agente
do FBI ou algo assim?
Oh, Deus! Eu estava surpresa que tivesse demorado tanto para que eu
contasse. Não cheguei a ter a oportunidade de mencionar.
— Não é, exatamente, administrativo, mas você acertou a parte do agente.
Tem um motivo por eu ter ficado tão hesitante em te contar. Me senti
culpada, enquanto estávamos separados, porque eu queria poder ter te
ajudado, na verdade.
— Não entendo.
— Sou agente literária, Elec.
Ele colocou o pote de sorvete sobre a mesinha de cabeceira.
— O quê?
— Eu represento autores, e acho que poderia te ajudar a publicar seus
trabalhos, especialmente Lucky e o menino. Trabalho com uma das maiores
editoras de literatura jovem-adulta, e acho que posso enviá-lo a eles.
— Você está brincando comigo?
— Estou falando muito sério.
— Como entrou nesse ramo?
— Na verdade, caí de paraquedas. Estava procurando por um emprego,
assim que saí da faculdade, e comecei como estagiária, tentando conquistar
uma posição de agente. Sou nova nisso, então minha clientela ainda está
aumentando.
— Por favor, me diz que vou ter que transar com você para avançar na
minha carreira literária.
— Com certeza, isso é parte do negócio.
— Uau! Com toda sinceridade, estou muito orgulhoso de você.
— Você não tem noção do quanto me senti culpada ao ver escritores com
metade do seu talento fechando contratos e fazendo sucesso. Eu não sabia
como entrar em contato com você, ou se você ia querer tentar, porque sei o
quanto gostava de manter seu trabalho em segredo.
— Sabe que eu nunca iria querer tratamento especial. Você não me deve
nada.
— Sua escrita me surpreendeu muito, antes de entrar nessa carreira.
Acredito em você. Vamos trabalhar juntos. Se não conseguirmos nada, pelo
menos tentamos.
— Se não conseguirmos nada, ainda vou ser o homem mais sortudo do
mundo — ele sussurrou para si mesmo, ainda pensando no que eu tinha
acabado de contar. — Isso é muito louco.
Sentei-me sobre ele e comecei a passar o dedo por seu corpo.
— Falando sobre sorte, reparei nessa nova tatuagem aqui.
Ele começou a me fazer cócegas.
— Ah, reparou?
Era uma caixa de cereal da Lucky Charms com as palavras Get cereal2 em
cima.
Que fofo! Mas era bizarro.
Por mais que eu já tivesse entendido o tema irlandês em todas as outras
tatuagens, aquela fez com que eu risse.
— Qual o significado dela?
— Sinceramente? Eu a fiz recentemente. Faz com que eu me lembre de
você. Além disso, você é meu amuleto da sorte3 . Mais de uma vez na minha
vida, você pegou algo terrível e o transformou em mágica, para mim — ele
me puxou para um beijo muito profundo e, então, disse: — E, se você
embaralhar as letras de Get cereal, vai encontrar nossos nomes.
Get cereal = ElecGreta Ah, meu Deus! Eu o amava!
— Esse foi meu anagrama favorito de todos os que você já fez.
— Era isso ou Rectal gee4 , o que não faz muito sentido. Então, eu teria
que tatuar uma bunda. E isso não ia ser legal.

Alguns meses depois, era Natal em Nova York. Era minha época favorita
do ano, porque muitas luzes e decorações especiais adornavam a cidade.
Aquele Natal não tinha comparação com nenhum outro, porque eu e Elec o
estávamos passando juntos e apaixonados, pela primeira vez.
Fomos para São Francisco para passar o feriado com Pilar. Elec sugeriu
que eu falasse com ela ao telefone para tirar a primeira má impressão. Ela foi
surpreendentemente cordial comigo, e me fez me sentir muito melhor a
respeito da viagem. As coisas nunca estiveram mais perfeitas entre nós, mas
eu tinha certeza que ela preferiria que ele estivesse com Chelsea. Pelo menos,
com a morte de Randy e com o passar do tempo, ela aprenderia a me aceitar.
Alguns dias antes de acertarmos nosso voo, Elec e eu fomos convidados
para uma festa de Natal na casa de Sully.
O apartamento de Sully era classicamente nova-iorquino: muitos móveis
em madeira escura e uma estante de livros embutida, com títulos que iam do
erótico à história militar. Ela tinha pendurado viscos artificiais por todo o
apartamento. Havia, até, um banner que dizia: “Beba, coma e seja feliz”. Ela,
ainda, tinha arrumado uma mesa com ovos de codorna e aperitivos variados.
Eu e Elec estávamos nos sentindo muito satisfeitos, depois de algumas
canecas de gemada.
Ele estava muito sexy, com um gorro de Papai Noel, quando me levou para
um canto da sala.
Puxei a bolinha de seu gorro.
— Você sabia que é o Papai Noel mais sexy que eu já vi?
Ele passou as mãos pela minha cintura.
— Sorte a sua que vou aparecer mais de uma vez ao ano.
Coloquei meus braços ao redor de seu pescoço e me inclinei em sua
direção.
— Vou deixar mais do que meias na janela, para quando você chegar.
— Eu não me importaria em me trancar com você naquele banheiro agora.
— Ele disse.
Então, foi o que fizemos.
Quando saímos de lá, era hora de abrir os presentes. Sully entregou o de
Elec primeiro. Eles tinham se tornado muito próximos e, constantemente,
zombavam um do outro.
— Ah, Sully, não precisava. — A casa inteira caiu na gargalhada quando
Elec mostrou uma camiseta com a foto na qual ele estava sem camisa,
segurando a plaquinha “cara de babaca”. Tinha, também, uma caneca e um
mouse pad com a mesma imagem.
Sully riu.
— Com esse negócio do livro, não quero que esqueça suas raízes.
Elec aceitou seu presente verdadeiro, que era um vale da Starbucks, onde
ele passava a maior parte do tempo escrevendo, depois do trabalho.
Recentemente, tínhamos conseguido um contrato para a publicação de Lucky
e o menino e, também, para uma sequência na qual ele vinha trabalhando. Ele
ainda trabalhava na escola, durante o dia.
O presente de Elec para mim foi o último a ser entregue. Eu estava
surpresa por ele ter comprado algo para mim, já que tínhamos combinado de
trocar presentes na Califórnia. Vamos dizer que, quando eu abri a caixa, fez
todo sentido. Não era um presente de verdade, era a última calcinha que ele
tinha roubado de mim todos aqueles anos atrás. Era uma azul turquesa. Eu me
lembrava dela muito bem, então balancei a cabeça.
— Não acredito que guardou isso todos esses anos.
— Foi a lembrança que guardei de você..
Sussurrei em seu ouvido.
— Você tem sorte que minha bunda ainda cabe nela.
Ele também sussurrou: — Acho que sou ainda mais sortudo por eu caber
dentro da sua bunda.
Dei um leve soquinho em seu braço.
— Você é muito levado. Mas eu adoro isso.
— Você ainda não leu o cartão. — Ele disse.
Então eu o abri. Tinha uma foto de um casal de velhinhos se beijando sob
uma árvore de Natal. Era um daqueles cartões em branco, onde você podia
escrever sua própria mensagem lá dentro.
Am merry.5

Eu não tinha entendido, até que o vi ajoelhando-se e pegando alguma coisa


no bolso.

Am merry = Marry me.6

— Eu não sabia o que era amor até conhecer você, Greta. Não só como
dar, mas, também, como receber. Eu te amo muito. Por favor, diga que vai se
casar comigo.
Cobri meu rosto em choque.
— Eu vou. Sim. Sim!
Todos na sala bateram palmas. Sully já devia saber de tudo, pois uma rolha
de champanhe pulou no ar.
Quando Elec colocou o anel no meu dedo, cheguei a ofegar.
— Elec, este é o anel mais lindo que eu já vi, mas deve ter sido muito caro.
O anel tinha, pelo menos, dois quilates, e havia um conjunto de pequenas
pedrinhas, ornadas com ouro e platina.
Ele se levantou e encostou o nariz no meu.
— Foi esse anel que Patrick deu a Pilar, muitos anos atrás. Ele não tinha
problemas com gastar dinheiro. Mami parou de usá-lo, depois da morte de
Patrick, mas não quis se desfazer dele. Ela o guardou por todos esses anos.
Eu nunca o tinha visto, mas ela me mostrou, antes de eu me mudar para cá.
Ela o deu para mim, mas eu insisti em pagar. Este anel já representou muita
dor para minha família, mas eu não vejo mais dessa forma. Se não fosse tudo
isso, não haveria nós, e eu não posso nem imaginar como seria. Esse anel foi
uma peça indestrutível de luz no meio de toda a escuridão do meu passado.
Faz com que eu me lembre de seu amor por mim. Esse é o anel certo para
você.

Um ano depois, no Réveillon, eu e Elec realizamos uma cerimônia privada


para oficializar a nossa união na justiça. Usei meu cabelo em um rabo de
cavalo. Ele gostou muito disso.
Um casamento grande não era necessário. Só queríamos tornar tudo
oficial. Escolhemos a noite de Réveillon como uma forma de brincar com o
destino.
Depois de um ótimo jantar no Charlie’s, logo após o casamento, nos
juntamos à multidão, na Times Square.
Quando a bola caiu, Elec me ergueu do chão em um beijo apaixonado, que
compensava a oportunidade perdida quatro anos antes.
Quando me colocou no chão, sussurrei em seu ouvido, dando-lhe a maior
surpresa de sua vida.
Mais tarde, naquela noite, ele colocou a cabeça na minha barriga, e
brincou, daquele jeito que só Elec tinha, sobre como deveríamos estar em um
reality show da TV. Ele, agora, tinha, oficialmente, se tornado o filho
bastardo de seu irmão, que engravidou a meio-irmã.
O capítulo final: Romance Real — Você é o pai do bebê O’Rourke?
Senti um beliscão completamente novo no coração quando a enfermeira usou aquele
termo.
— Sim, sou eu. Eu sou o pai.
O pai.
Minha vida inteira pareceu ter sido definida pela antítese de pai. Eu era o filho: filho
bastardo, o mau filho, o filho não reconhecido. Mas, agora, eu era o pai. Era a minha vez de
ser… o pai.
— Posso checar sua identificação?
Ergui meu braço e mostrei a ela a pulseira de plástico ao redor do meu punho. Eu queria
usar aquilo para sempre. Nem mesmo gangrena seria um motivo bom o suficiente para me
fazer tirar aquilo.
— Siga-me. — Ela disse.
Eu tinha perdido o parto. Estava visitando Mami na Califórnia, quando Greta me ligou
avisando que sua bolsa tinha rompido. Ela estava com apenas trinta e quatro semanas. Pensei
que seria seguro fazer uma viagem rápida, antes que meu tempo ficasse mais limitado do que
nunca.
Imediatamente, arrumei as malas e comecei a dirigir até o aeroporto, quando me soube
que ela estava em trabalho de parto.
A única coisa da qual me lembro foi de Sully ligando para mim para dizer que Greta tinha
sido levada à emergência. Entrei em pânico, porque não estava nem no avião, ainda. Eu sabia
que não ia chegar a tempo. Um sentimento de impotência me atingiu. Rezei, provavelmente
pela primeira vez na vida. É irônico pensar que você pode passar a vida inteira se
perguntando se existe mesmo um Deus, até que chega em um momento de crise e começa a
implorar a Ele por ajuda, como se nunca tivesse duvidado de Sua existência.
Sully me enviou uma mensagem, pouco antes de eu embarcar. Era uma foto do meu filho.
Meu filho.
Lembro que estava saindo do banheiro e só congelei, olhando para o avião em reverência.
Olhei ao redor, como se todo mundo devesse saber que aquele era o momento mais
monumental da história do universo. A mensagem dizia que o bebê tinha sido levado para a
UTI, mas que estava bem. Greta estava bem. Todos estavam bem.
Agradeci a Deus e jurei que nunca mais ia duvidar d’Ele novamente.
Lágrimas preencheram meus olhos quando olhei para a foto, enquanto caminhava em
direção ao portão e, consequemente, até o avião. Devo ter ficado olhando para a foto por seis
horas inteiras.
Quando, finalmente, cheguei ao hospital, Greta estava dormindo, e eu não queria acordá-
la, mas não podia esperar mais nem um minuto para ver meu filho.
— Ele já está respirando sozinho, e todos os sinais vitais estão bons. Só vai ter que ficar
aqui por cinco ou seis dias.
— Posso segurá-lo?
— Sim. Só pedimos que lave suas mãos com o sabonete antibacteriano e coloque uma de
nossas máscaras.
Não perdi tempo e fui até a pia para lavar as mãos, e coloquei a máscara de papel por
cima da minha boca.
Ela o pegou e o entregou a mim. Seu corpinho quente estava enrolado em um lençol, e ele
parecia leve como uma pena. De repente, me senti apavorado, não apenas com a
responsabilidade de mantê-lo seguro pelo resto de sua vida, mas, também, com a ida para
casa. Ele era tão frágil, mas, ainda sim, aquele serzinho tão pequeno significava tudo o que
mais importava para mim no mundo. Era como segurar o mundo inteiro na palma da mão.
Queria poder levá-lo para casa em uma bolha respirável indestrutível. Queria protegê-lo de
tudo de louco que aquele mundo tinha a oferecer.
Olhar para aquele rostinho me fez, realmente, compreender que tudo que acontecera em
minha vida tinha mesmo de ter acontecido. Eu não poderia sequer respirar, se aquela
pessoinha não existisse.
Ele tinha o nariz de Randy, que era igual ao de Patrick. Era quase sobrenatural. Com seu
cabelo claro, ele parecia mais com eles do que comigo. Era irônico que, mesmo apesar de
todo aquele ódio, o amor estivesse intrínseco naquela semelhança.
Arrepios percorreram meu corpo quando compreendi que era dia vinte e dois, mas não
deixei que aquilo me perturbasse.
— Ei, amiguinho. É o papai aqui. Sou seu papai.
Suas pálpebras tremeram, e ele começou a se remexer em meus braços.
— Você não precisa acordar. Ainda estarei aqui. Você não vai se livrar de mim por um
bom tempo.
Ele abriu sua mãozinha, e eu vi seus dedinhos se fecharem ao redor do meu mindinho. Eu
me perguntei como tinha tido qualquer inspiração para escrever, antes dele. Sabia que,
daquele momento em diante, cada parte do meu trabalho seria inspirado em meu filho.
Deixar de lado toda a raiva do passado ia ser mais necessário do que nunca. Não haveria
mais espaço em meu coração para nada disso.. Eu precisava de todo o espaço para ele.
Naquele momento, segurando meu filho, foi que eu soube que tinha perdoado Patrick e
Randy. Eles me ensinaram o que não fazer como pai. Eu compensaria seus erros dando, ao
meu próprio filho, tanto amor que ele nem saberia o que fazer com isso.
Pode parecer estranho, mas eu agradeci a Randy em silêncio pelo que ele me deu. Em
vida, ele me guiou ao meu único e verdadeiro amor. Na morte, fez com que eu a encontrasse
novamente.
Havia vida na morte. Havia amor no ódio. Olhei novamente para meu filho: — No final
das contas, lá estava você. E fez tudo valer a pena.
Da mesma forma como você pode embaralhar as letras de uma palavra para que ela tenha
outro significado, assim é a vida. Uma vida pode ser definida por suas dificuldades e
bênçãos. Tudo depende da forma como você olha para ela. Então, enquanto esse livro estava
se encaminhando para ser uma tragédia, acabou virando uma história de amor. Um romance
imperfeito, mas não-convencionalmente épico.
Embaralhe as letras de “romance” e você tem Cameron. Foi Greta quem deu essa ideia.
Foi seu primeiro anagrama.
Romance = Cameron.
Eu te amo, Cameron.
1 “REAL FUN”: “DIVERSÃO PARA VALER”, EM INGLÊS.
2 “Get cereal”: “coma cereal”, em inglês.
3 “Lucky Charms”: “amuleto da sorte”, em inglês.
4 “Rectal gee”: algo como “‘surpresa’ renal”, em inglês.
5 “Am merry”: “estou feliz”, em inglês.
6 “Marry me”: “casa comigo”, em inglês.
Table of Contents
1. CAPA
2. TÍTULO
3. FICHA CATALOGRÁFICA
4. DEDICATÓRIA
5. PARTE UM
6. CAPÍTULO UM
7. CAPÍTULO DOIS
8. CAPÍTULO TRÊS
9. CAPÍTULO QUATRO
10. CAPÍTULO CINCO
11. CAPÍTULO SEIS
12. CAPÍTULO SETE
13. CAPÍTULO OITO
14. CAPÍTULO NOVE
15. CAPÍTULO DEZ
16. CAPÍTULO ONZE
17. PARTE DOIS
18. CAPÍTULO DOZE
19. CAPÍTULO TREZE
20. CAPÍTULO CATORZE
21. CAPÍTULO QUINZE
22. CAPÍTULO DEZESSEIS
23. CAPÍTULO DEZESSETE
24. CAPÍTULO DEZOITO
25. CAPÍTULO DEZENOVE
26. CAPÍTULO VINTE
27. CAPÍTULO VINTE E UM
28. EPÍLOGO
29. EDITORA PANDORGA

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