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Copyright © 2021 by EDUFMA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO


Prof. Dr. Natalino Salgado Filho
Reitor
Prof. Dr. Marcos Fábio Belo Matos
Vice-Reitor
EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO
Prof. Dr. Sanatiel de Jesus Pereira
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CONSELHO EDITORIAL
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Prof. Dr. Elídio Armando Exposto Guarçoni
Prof. Dr. André da Silva Freires
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Profª. Dra. Gisélia Brito dos Santos
Prof. Dr. Marcus Túlio Borowiski Lavarda
Prof. Dr. Marcos Nicolau Santos da Silva
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Prof. Dr. João Batista Garcia
Prof. Dr. Flávio Luiz de Castro Freitas
Bibliotecária Suênia Oliveira Mendes
Prof. Dr. José Ribamar Ferreira Junior
Revisão
Os autores
(Os conteúdos são de inteira responsabilidade dos autores)
Capa
Mizael Melo
Diagramação
Sansão Hortegal Neto
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Práticas discursivas em espaço digital [recurso eletrônico]: múltiplos recursos / Organizadoras:
Ilza Galvão Cutrim, Mônica da Silva Cruz, Maria da Graça dos Santos Faria. — São Luís:
EDUFMA, 2021.

213 p.

Modo de acesso: World Wide Web

ISBN 978-65-89823-03-2

1..Discursos – Espaço digital. 2. Análise do discurso. 3. Negacionismo - Discurso. I. Cutrim, Ilza


Galvão. II. Cruz, Mônica da Silva. III. Faria, Maria da Graça dos Santos.

CDD 808.500 467 8


CDU 808.5:004.738.5

Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Márcia Cristina da Cruz Pereira - CRB 13/418
Sumário
Apresentação.................................................................... 4
MEMES SOBRE A LEITURA: UMA ANÁLISE DISCURSIVA
DO PRINCÍPIO DA DESTACABILIDADE DE SEUS
ENUNCIADOS VERBAIS E IMAGÉTICOS........................ 7
Jeniffer Aparecida Pereira da Silva; Luzmara Curcino

A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE


DOS DISCURSOS: NOS ENTORNOS DOS SENTIDOS DE
UMA HASHTAG ............................................................. 32
Maria Luiza Girão Ferreira; Mônica da Silva Cruz

O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO


NO SITE SUPERELA.COM............................................. 54
Mylena Frazão da Cruz; Ilza Galvão Cutrim

ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO


HORÓSCOPO DIGITAL.................................................. 79
Leudson da Silva Coêlho; Maria da Graça dos Santos Faria

O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO


MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA......................................... 104
Kélia Lima dos Santos Araújo; Nilsa Brito Ribeiro

ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS


SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: ACIDENTE OU VIOLÊNCIA SÓCIO-
HISTÓRICA?................................................................ 127
Tatiara Ferranti Nery; Marcos André Dantas da Cunha

FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: DO


OLAVISMO AO BOLSONARISMO................................. 156
Alison Sullivan de Sousa Alves; Francisco Vieira da Silva

NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE


A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES SOCIAIS ........185
Alex Sandra da Silva Moura; Francisco Paulo da Silva

Sobre os Autores e Autoras.......................................... 207


Apresentação

A pandemia, causada pelo Covid19, que ainda permanece no


mundo, não impediu que a humanidade se adaptasse às circunstâncias
impostas pelo confinamento e distanciamento social. E a tecnologia,
principal protagonista, com todos os recursos disponíveis da rede,
tornou possível a continuidade dos trabalhos acadêmico/científicos
em diversas áreas.
Na área da Educação, o ensino remoto possibilitou ainda mais a
produção e divulgação de pesquisas sobre o discurso, em particular os
discursos produzidos no ambiente digital. Assim, esta obra, iniciativa
do Programa de Pós-graduação em Letras (Mestrado Acadêmico), da
UFMA, tem como objetivo principal reunir trabalhos sobre diferentes
perspectivas teóricas discursivas produzidas por professores/
pesquisadores vinculados a diversas universidades brasileiras.
O capítulo 1, intitulado “Memes sobre a leitura: uma análise
discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados verbais
e imagéticos”, tem como objetivo principal investigar o gênero meme
em seus usos, características, circulação social e aos estudos relativos
ao fenômeno da destacabilidade dos seus enunciados.
O capítulo 2, “A ferramenta trending topics e o controle dos
discursos: nos entornos dos sentidos de uma hashtag”, com base na
arqueogenealogia foucaultiana, investiga essa ferramenta do Twitter
como mecanismo de controle do discurso, tomando como centro de
suas análises publicações que envolvem o Presidente do Brasil.
O capítulo 3, “O sujeito homem feministo discursivizado
no site superela.com” analisa práticas discursivas que produzem o
“homem feministo” em um artigo publicado no dispositivo internet (o
site superela.com), tendo como aporte teórico as noções foucaltianas
de práticas discursivas, dispositivo e processo de subjetivação.
O capítulo 4, “Análise linguística e argumentação no gênero
horóscopo digital” discute as modalidades argumentativas (AMOSSY,
2018) em textos de incitação à ação postulados por Adam (2019),
particularmente no gênero horóscopo digital da página astroloucamente
do instagram em uma análise que une elementos linguageiros e
argumentativos.
O capítulo 5, intitulado “O jogo discursivo de reatualização do
arquivo mediático na Amazônia” discute o funcionamento discursivo
de dois blogs de notícias da região sul e sudeste do Pará que orienta
os regimes de constituição do arquivo midiático e que constituem um
espaço de sustentação de posição ideológica da mídia corporativa mais
do que mídia alternativa.
O capítulo 6, “Análise do discurso de multimídias digitais
sobre meninas escalpeladas da Amazônia Paraense: acidente ou
violência sócio-histórica?”, analisa um tipo de violência sócio-histórica
presente na Amazônia Paraense em uma propaganda oficial e em
um documentário que apontam traços identitários e discursivos
pertinentes a um contexto social em uma prática que legitima a
opressão a mulheres.
O capítulo 7, “Faces do negacionismo científico na web: do
olavismo ao bolsonarismo”, investiga configurações do negacionismo
científico na web por meio de postagens no Instagram que evidenciam
as formações discursivas do Governo Federal pautado em uma dialética
simbólica combatente do “marxismo cultural”.
O capítulo 8, “Negacionismo e resistência em discursos
sobre a ditadura brasileira nas redes sociais” aborda os discursos
negacionistas sobre a Ditadura Militar brasileira e seus efeitos
de sentido no movimento de resistência e luta contra a Ditadura
na atual conjuntura política brasileira, utilizando os discursos
do atual Presidente da República divulgados em seu Twitter
como enunciados geradores e as respostas em oposição a este
discurso, evidenciando marcas de resistência nos discursos que
constituem estes sujeitos.
Ao encerrar esta apresentação, queremos agradecer às autoras
e autores que contribuíram para esta obra. Esperamos que os leitores
encontrem aqui material importante não só para a sala de aula, mas
também que traga reflexões sobre questões levantadas em cada
capítulo.

As organizadoras
MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

MEMES SOBRE A LEITURA: UMA ANÁLISE DISCURSIVA


DO PRINCÍPIO DA DESTACABILIDADE DE SEUS
ENUNCIADOS VERBAIS E IMAGÉTICOS

Jeniffer Aparecida Pereira da Silva (UFSCar)

Luzmara Curcino (UFSCar)

Introdução

Uma série de novas tecnologias digitais de produção, de re-


produção e de circulação de textos, assim como o fenômeno de
adesão em massa às mídias sociais digitais com a popularização da
internet, possibilitaram mudanças significativas em nossas práticas
de escrita, de leitura, de interlocução e de estabelecimento de rela-
ções sociais na atualidade. Um dos resultados mais sensíveis dessas
mudanças é a proliferação de novos gêneros discursivos, possibilita-
dos por essas tecnologias e pelas formas de interrelação mediadas
pelas redes sociais virtuais.
Entre eles encontra-se o meme1. Trata-se de um gênero
discursivo2 de ampla utilização e reconhecimento por parte dos
usuários da internet hoje. E tal como outros oriundos desse cenário,

1 Para a caracterização desse gênero, a apresentação de aspectos de sua história e


exemplos de seu uso e efeitos em campos como o da política, consultar, entre outros,
Chagas; Freire; Rios; Magalhães (2015); Gambarato & Komesu (2018); Marino
(2018).
2 Os gêneros discursivos dispõem de uma identidade formal e de um funcionamento
específico, relativamente estável, e que incidem sobre o sentido do que é enunciado,
tal como descreve Mikhail Bakhtin (1982), ao elencar três características gerais
e constitutivas de todo e qualquer gênero: seu estilo verbal, sua construção
composicional, seu conteúdo temático. Assim, em sua análise, a observação das
especificidades de cada um desses aspectos contribui para a descrição e interpretação
dos textos.

7
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

sua produção responde tanto a uma escala institucional e profissional,


quanto a uma adesão espontânea, por parte de internautas, em sua
maioria amadores em relação à linguagem da programação que, no
entanto, graças aos próprios recursos fornecidos hoje na internet,
atuam tanto como consumidores, quanto como produtores de
memes.
Por meio de sua forma material específica, diversos temas
são explorados. Tendo em vista nosso interesse de pesquisa relativo
à análise de discursos sobre a leitura3, neste artigo, nos dedicamos
a analisar um conjunto de memes cuja especificidade é abordarem
essa temática e fornecerem representações tanto dessa prática
como também daqueles que a exercem, os leitores.
Produzidos e reproduzidos nas redes sociais por membros de
comunidades específicas de internautas, os memes que exploram
essa temática o fazem sob formas variadas, em cujos enunciados,
verbais e não-verbais, se pode observar a força dos discursos con-
sensuais sobre a leitura. Esses discursos são frequentemente reite-
rados, em textos de diferentes origens, gêneros e objetivos, demons-
trando com isso a força de conservação de certos dizeres e saberes
sobre essa prática, contribuindo para a manutenção de uma espécie
de sua mitificação4, e com ela de certas hierarquias culturais entre
essa prática e outras, bem como entre sujeitos representados como

3 A análise aqui apresentada resulta da pesquisa de mestrado realizada junto ao LIRE


– Laboratório de Estudos da Leitura, cujas pesquisas têm como objetivo comum
analisar discursos sobre a leitura a partir de fontes e gêneros variados. Ademais, este
trabalho se inscreve no projeto atual, coordenado por Luzmara Curcino, intitulado
“Das emoções nos discursos sobre a leitura: uma análise dos modos de expressão da
‘nostalgia’, do ‘orgulho’ e da ‘vergonha’ na voz de leitores” (2019-2022).
4 Cf. termo empregado por Britto e Barzotto (1998).

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MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

leitores e aqueles considerados não-leitores5.


Resultando das possibilidades técnicas e das novas tecnolo-
gias e meios de produção, e norteados pelo princípio da imitação e
da reprodutibilidade, com vistas a sua ‘viralização’, os memes, em
sua condição de texto, se inscrevem em uma ‘ordem discursiva’6,
histórica e cultural dada. Como artefato de uma ‘ordem’ específica,
o que ele enuncia, com sua forma, e o que por meio dele é enun-
ciado, ecoam crenças, valores, verdades de um tempo e espaço.
Como tal, é fonte para depreendermos discursos sobre a política, a
religião, e as práticas mais diversas, tais como a leitura, e como dis-
semos, não apenas em função do que dizem sobre um tema, como
também graças a sua especificidade enquanto gênero.
Partindo desse pressuposto, neste artigo nos detivemos na
descrição de um traço característico desse gênero, valendo-nos
para isso de um corpus de memes cujo tema comum é a leitura.
Esse traço de que aqui nos ocupamos de forma mais central diz res-
peito a sua composição com enunciados, verbais e não-verbais, des-
tacados de outros textos. Esses enunciados são recortados, tomados
de empréstimo, repetidos a esmo, mas não de qualquer forma. Para
esse empréstimo e repetição de outros enunciados retirados de di-
ferentes textos, contribuem tanto as inovações técnicas atuais, o
ambiente virtual das produções e interlocuções de que ele emerge,
quanto uma longa tradição na cultura escrita ocidental que autori-
za e fomenta a apropriação de frases, de fragmentos, de citações7.
As ferramentas e aplicativos hoje disponibilizados virtual-

5 Sobre essa reflexão concernente às hierarquias culturais estabelecidas em discursos


sobre a leitura, cf. Curcino (2016; 2020).
6 Tal como descrita por Foucault (2012).
7 Sobre essa longa tradição de apelo ao destacamento de frases, cf. Moss (1993);
Maingueneau (2014a, 2014b); e Curcino & Rosin (2020).

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

mente, permitem a todo e qualquer usuário da internet recorrer a


um rol de enunciados já destacados de outros textos, disponibiliza-
dos em repositórios de frases na internet, organizados sob rubricas
temáticas, facilmente localizáveis em buscadores internos desses
repositórios. Além dessa facilidade, essas ferramentas permitem aos
internautas, mesmo aos mais inexperientes, realizar operações de
seleção dessas frases e de junção das mesmas com certas imagens,
estas também de diferentes tipos e origens, e também recortadas e
destacadas de outros textos e contextos. Assim, a possibilidade de
criação e de difusão de um meme da internet torna-se uma realida-
de para leigos e amadores, que dispõem de repositórios de frases e
de imagens, de tutoriais que orientam o processo de produção desse
gênero, de aplicativos geradores de memes e de meios eficazes para
sua divulgação e circulação.
Dadas a emergência relativamente recente dos memes, as
especificidades técnicas de sua produção, os efeitos de sua formu-
lação e circulação, visamos, portanto, depreender discursos sobre a
leitura que são atualizados por meio desse gênero. Para isso, neste
artigo, desenvolvemos uma análise específica, relativa a um pro-
cedimento de escrita comum na formulação dos memes, a saber,
o de sua composição a partir da seleção e destacamento de certos
enunciados, retirados de outros textos e utilizados em memes, e de
um meme a outro. Assim, atentas à propriedade multissemiótica
desse gênero, ao uso comum de enunciados destacados de outros
em sua composição, a proliferação de alguns desses enunciados em
diversos memes, buscamos melhor depreender e descrever esse gê-
nero específico e contemporâneo, assim como sua participação na
produção e circulação de discursos sobre a leitura.
Recorremos, para tanto, aos estudos discursivos que se

10
MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

dedicaram à análise do gênero meme, de seus usos, características,


formas de apropriação e circulação social na atualidade, bem como
aos estudos relativos a esse fenômeno discursivo da destacabilidade
de enunciados e de seu uso para produção de novos textos8.
Apoiamo-nos, ainda, em princípios da história cultural da escrita e
da leitura, e nos estudos realizados sobre discursos e representações
dessa prática no contexto brasileiro9.

Os memes e a leitura

O meme caracteriza-se, entre outras qualidades, pelo caráter


conciso de sua forma, pelo traço econômico do que diz e pelo modo
como enuncia o que é enunciado, apelando ao engajamento e visando
raptar o olhar e a atenção dos que navegam pelas redes. Tal como em
outros gêneros, o “timing” do meme exige essa concisão, tanto pela
adequação ao estilo de escrita mais pontual, breve e econômico do
meio em que circula, quanto para os efeitos de crítica e humor que
caracterizam esse tipo de produção enunciativa. Essa dimensão ‘en-
xuta’ de sua enunciação em grande medida reproduz a tendência à
contenção da extensão dos textos que circulam virtualmente (frases
breves, vídeos curtos, recortes de fotografias ou de pinturas, ou seg-
mentos curtos de sons de músicas etc.), como também à necessidade

8 Entre os estudos dedicados aos memes, a partir de diferentes perspectivas


discursivas, destacamos Gambarato & Komesu (2018); Zoppi-Fontana (2018); Marino
(2018); Barros (2019). Entre os estudos dedicados ao princípio de destacabilidade,
cf. Maingueneau (2015; 2014a; 2014b; 2012).
9 Entre os estudos sobre a leitura no âmbito da História Cultural, cf. Chartier
(1990;1998); e em relação ao contexto brasileiro, cf. Abreu (2001; 2006; 2019);
Britto e Barzotto (1998); Curcino (2016; 2019; 2020); Manfrim & Curcino
(2020) Curcino & Dourado (2019); Curcino, Varella & Oliveira (2019); Varella
(2014) entre outros.

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

de impactar, de produzir o efeito de “happening”, dada sua verve inci-


siva, direta, pontual na crítica que expressa, muitas vezes por meio do
humor10. Sua concisão, portanto, responde a essas duas ordens: de um
lado, à influência dos formatos que mais se adaptaram ao meio virtual
de produção e de circulação de textos; de outro à injunção a certo rit-
mo, a certa velocidade adequadas ao humor.
Para isso, os produtores de memes têm se valido de um proce-
dimento discursivo que, embora não lhe seja exclusivo, assumiu uma
importância singular em sua produção: a prática da apropriação de
enunciados retirados de outros textos, já existentes e relativamente co-
nhecidos, de circulação mais ou menos ampla, e cuja origem participa
dos efeitos, críticos ou humorísticos, visados com essa retirada de um
enunciado de seu texto de origem, com seu deslocamento para outro
contexto, no qual muitas vezes se avizinha de um outro enunciado,
quase sempre de linguagem distinta, sob a forma de imagens.
Em um único meme podemos encontrar, por exemplo, um
enunciado verbal e outro não-verbal, ambos retirados de textos distin-
tos e de contextos diversos, que são apropriados em diferentes memes
com distintas finalidades e para contribuírem com sentidos, por vezes
até avessos àqueles que contaram em seus textos de origem.
A comunicação midiática, tanto a tradicional impressa como a
virtual, frequentemente destaca enunciados (verbais ou não-verbais)
dos mais diversos gêneros discursivos com a finalidade de empregá-los
em outros textos ou sob a forma de outro texto, valendo-se da memória
de sua enunciação primeira, como uma das fontes do efeito de senti-
do visado em seu novo uso, em sua atualização sob outra forma. Essa

10 Sobre os estudos discursivos do humor, cf. Possenti (2018; 2020).

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MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

memória discursiva11 pode ser explorada tanto na reiteração do que


foi dito, quanto na sua total subversão. A proximidade ou distância se-
mântica que um enunciado adquire em relação a uma dada memória
sustenta o efeito de sentido possível que se estabelece no processo de
sua memetização.
O efeito de sentido do meme resulta, entre outros aspectos de
sua produção e circulação, desse jogo entre o sentido do enunciado
visado em sua primeira circulação e o sentido visado com esse seu res-
gate, deslocado de forma estratégica para um novo contexto, com uma
outra finalidade, sob uma norma forma, um outro gênero. Esse des-
locamento responde a um traço característico do gênero meme: sua
tendência ao humor. A aposta para a obtenção do efeito humorístico
do meme reside, portanto, no estabelecimento de uma distância entre
o sentido visado no uso inicial de um dado enunciado em um texto e
aquele de seu emprego atualizado em um novo texto, no meme. Quan-
to maior for essa distância, maior será o efeito de estranhamento, logo,
maior poderá ser o potencial crítico ou humorístico desse deslocamen-
to de um enunciado originalmente “sério” para a forma que assume
no meme, “leve” desinstitucionalizada e dessacralizante.
Grande parte dos discursos consensuais e dominantes que cir-
culam entre nós sobre a leitura, que determinam o que devemos e
podemos dizer acerca dessa prática, assim como determinam o modo
como nos avaliamos, e aos outros, como leitores ou não, são atualiza-

11 Para Jean-Jacques Courtine (2009, p.105) “a noção de memória discursiva


diz respeito à existência histórica do enunciado no interior de práticas discursivas
regradas por aparelhos ideológicos; ela visa o que Foucault (1971, p. 24) levanta a
propósito dos textos religiosos, jurídicos, literários, científicos, ‘discursos que originam
um certo número de novos atos, de palavras que os retomam, os transformam ou
falam deles, enfim, os discursos que indefinidamente, para além de sua formulação,
são ditos, permanecem ditos e estão ainda a dizer’.”.

13
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

dos em enunciados que impõem uma certa seriedade, solenidade, ins-


titucionalidade quanto ao que dizer e quanto ao modo de dizer sobre
a leitura12.
O nosso interesse em analisar memes que tematizam a leitura é
o de melhor compreender como se dá esse deslocamento de enuncia-
dos originalmente produzidos com base em discursos mais institucio-
nalizados, formais, solenes – como o são em geral aqueles provenientes
de discursos sobre a leitura – atualizados em um gênero caracterizado
por seu apelo crítico, humorístico, informal, derrisório. Para tanto, nos-
sa análise, neste artigo, priorizou abordar o funcionamento do princí-
pio da destacabilidade na construção dos memes, de modo geral, e sua
incidência nos efeitos de sentido peculiares visados quando o tema dos
memes é a leitura e os leitores.

Do ‘copia e cola’ nos memes: o princípio discursivo da


destacabilidade

Em seus trabalhos mais recentes Dominique Maingueneau


(2012; 2015), dedica-se ao estudo das frases sem texto, frases que
se tornam elas próprias textos. Isso ocorre seja por terem sido assim,
desde sua origem, concebidas para circularem autonomamente (afo-
rizações primárias), seja por resultarem de textos a que pertenciam e
dos quais, uma vez destacadas, elas então deles se autonomizam. Essa
autonomização pode, por vezes, dado o funcionamento de sua circu-
lação, fazer com que algumas dessas frases retiradas de seus textos
de origem nem mais os ecoem (aforizações secundárias) e os reatu-
alizem, e não mais dependam da remissão a esse seu pertencimento
original para que signifiquem.
Filiando-se a um princípio e a uma tradição assumida por vá-
12 Cf. entre outros estudos a esse respeito, Curcino (2020; 2019).

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MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

rias correntes de estudos linguísticos transfrásticos, segundo as quais


o sentido de uma frase se estabelece em função de sua relação com o
texto a que pertence, Maingueneau (2015) afirma ser preciso conside-
rar também o funcionamento bem peculiar de certas frases que exis-
tem como texto e que circulam, como tal, sem seus textos de origem,
o que hoje em dia se tornou abundante.
O funcionamento discursivo dessas frases pode, conforme o au-
tor, ser observado segundo duas modalidades: tanto por meio da aná-
lise de textos quanto por meio de frases sem texto, quer sejam estas
autônomas por natureza, “primárias”, como o slogan ou o provérbio,
quer sejam “secundárias”, isto é, extraídas de textos como citações
célebres e manchetes entre aspas (2015, p. 131).
Figura 1 - Esquema de Frases Destacáveis

Fonte: Maingueneau (2015, p.133)

A enunciação aforizante, como ele a designa, tanto em uma


quanto em outra modalidade, não é um fenômeno atual. Sua história
remonta às sociedades de cultura tradição oral. Com a inserção da es-
crita, esse princípio de uso da linguagem se consolida, em especial sob
a forma da citação – ainda que não atribuída explicitamente – cons-

15
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

tituindo, portanto, parte fundamental da tradição escrita na Antigui-


dade Clássica, tendo sido redescoberta na Idade Média e reconhecida
como arte no Renascimento, a arte dos cadernos de lugar-comum,
como técnica intelectual humanística por excelência13.
Essa história perdura. O que testemunhamos atualmente, sob
a forma da multiplicação de frases em circulação nas redes sociais, na
publicidade, no jornalismo, liga-se a essa tradição de longa data reatu-
alizada sob as formas de produção, formulação, circulação e recepção
de textos contemporâneos, em especial em contexto digital. Os memes
são disso um exemplo.
Esse gênero apresenta uma natureza aforizante peculiar: ele
em geral, em sua forma sincrética, é composto de enunciados ver-
bais, em sua maioria destacados de outros textos, como também de
enunciados imagéticos14, eles também fragmentados e retirados de
seus contextos. De origem tanto primária, quanto secundária, esses
enunciados verbais e não-verbais significam em sua relação semântica
de dependência, de complementaridade. Originalmente, a maioria de-
les não foi concebida para figurarem juntos. Boa parte é convocada na
formulação dos memes como citação, e provêm de textos mais atuais,
da cultura pop e do universo midiático, cujo potencial de polêmica ou
comicidade, assim como seu relativo sucesso, garantem seu retorno
sob a forma de meme.
Se considerarmos os termos de Maingueneau (2015), os me-

13 Sobre essa história das frases destacadas ao longo da história, e especialmente


acerca da técnica dos lugares-comuns, cf. Chartier (1999); Moss (1993);
Maingueneau (2015); Curcino & Rosin (2020).
14 A respeito dos modos de recorte, seleção e uso de imagens, em textos e contextos
distintos daqueles de sua origem, por meio de diversos procedimentos de ‘trucagens’
nas palavras de Roland Barthes, cf. Curcino (2006); e de “destacabilidade”, nos
termos de Dominique Maingueneau, cf. Baronas & Ponsoni (2013).

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MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

mes corresponderiam a enunciados de aforização secundária, uma vez


que são mobilizados em sua produção, na maioria das vezes, fragmen-
tos verbais e imagéticos de outros textos. No processo de seu destaca-
mento e transposição para outro texto, em alguns casos de gêneros e
origens muito distintas e com vistas a interlocutores também variados,
podem se alterar os efeitos de sentido, uma vez que estes “resultam
de operações que lhes dão um novo estatuto, fazendo-as retornar em
outra cena” (2015, p.138).

O que um diz o outro confirma: verbo e imagem nos memes

É do diálogo, da construção conjunta entre fragmentos de


textos, fragmentos de imagens, fragmentos de sons, que provêm os
sentidos de cada meme. Faz parte determinante de sua construção os
jogos, as misturas criativas que se estabelecem entre duas ou mais
linguagens. Para a análise desse diálogo, é fundamental depreender o
funcionamento do princípio de ‘homologia discursiva’15, essencial na
produção dos memes, em sua configuração como gênero, e responsável
pelos efeitos de sentido que dele que derivam.
Esse princípio diz respeito à relação discursiva entre as lingua-
gens mobilizadas em um único texto, e entre as quais se busca uma
convergência semântica do que é enunciado, visando a um dado efeito.
Assim, a articulação entre imagem e verbo
na formulação de textos sincréticos regula-se

15 “Já a relação de homologia semântica ou discursiva implica uma confluência comum


das linguagens (verbal e não-verbal, por exemplo), uma confluência concordante
quanto ao que é enunciado por ambas e que constitui o texto em sua totalidade.
Parece-nos não se tratar de uma correspondência de forma ou de conteúdo, mas
de uma correspondência discursiva, segundo a qual enunciados de materialidades
distintas se combinam na construção do texto para a manifestação do(s) discurso(s),
acionando uma memória e significando a partir dela”. (CURCINO, 2011, p.1400).

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

basicamente por dois princípios: um primeiro


referente à relação entre a imagem e o verbo, cujo
sentido resulta da conjunção e da coincidência
da significação desses elementos; um segundo
princípio regulador dessa relação intersemiótica
é aquele segundo o qual a significação do texto se
constrói com base na divergência do que enuncia
uma linguagem em relação à outra e por vezes no
predomínio de uma das linguagens em detrimento
da outra. (CURCINO, 2011, p. 1400, 1401)

Dessa forma, a autora esclarece que a homologia discursiva se


estabelece tanto com o objetivo de se produzir uma relação de concor-
dância semântica entre as linguagens, visando um efeito de sentido
comum, quanto com o objetivo de produzir uma divergência do ponto
de vista semântico, para acentuar o efeito de sentido irônico/inusitado
de uma das linguagens postas nessa relação de desacordo.

Figura 2 – Youtubers e Literatura Figura 3 – Analfabeto e Literatura

Fonte: Memes Hu3BR

Esses dois memes, das figuras 2 e 3, retomam uma mesma


imagem e adotam uma mesma estrutura verbal, composta da opinião
do enunciador responsável pela enunciação principal do meme, e que
equivaleria ao que Maingueneau (2011) define como ‘hiperenuncia-
dor’, “cuja autoridade garante menos a verdade do enunciado [...] do
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MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

que sua “validade”, sua adequação aos valores, aos fundamentos de


uma coletividade” (p. 44).
Essa imagem, de um fotograma retirado de um filme infan-
til “Meu malvado favorito”, é amplamente usada na confecção de
memes. Seu papel semântico parece ser neste caso um tanto se-
cundário, a não ser se considerarmos que o personagem é, além de
mal-humorado e pouco sociável, excessivamente franco e, por isso,
rude. Ele assim encarnaria e representaria o ethos assumido pelo
‘hiperenunciador’.
Nesses memes, a articulação principal para a sua construção
se dá entre dois enunciados verbais cada: aquele do meme de base
“Vocês chamam isso de literatura?”; e aquele acrescentado pelos
produtores dos memes atuais, “Daí tu vai ver os livros dos youtu-
bers” / Quando você é analfabeto, e em ambos os casos articulados
com essa mesma imagem de base, com algumas modificações no
segundo exemplo.
No primeiro meme, a crítica derrisória se dirige a um certo
grupo de leitores, os youtubers, que em função dos livros que cons-
tam em suas estantes que atuam como cenários de seus vídeos, ou
em função do que dizem eventualmente sobre os livros que alu-
dem, não seriam considerados pelo ‘hiperenunciador’ deste primei-
ro meme como leitores, ao menos não como leitores ideais, segundo
os discursos consensuais a esse respeito. A crítica expressa é a de
que embora leiam, não o fazem com propriedade, e o que atesta isso
é a simulação de suas escolhas inadequadas manifestas pela quan-
tidade e qualidade dos títulos presentes em suas estantes, que não
coincidiriam com o que em geral se considera e se valoriza como li-
teratura. A crítica derrisória fica por conta da confluência entre esse
fragmento de uma imagem, em que a personagem adulta é convo-

19
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

cada a ler para a personagem infantil, e o faz de maneira irônica ao


se ver diante de um livro que não considera digno de respeito, nem
se considera como fazendo parte da literatura consagrada. Trata-se
da representação de um livro infantil, cuja estrutura física comporta
inclusive dedoches para uma contação de histórias animada. Para
criticar os youtubers, em sua condição de leitores, o enunciador do
meme recorre, para fins humorísticos, à representação infantilizada
desses leitores. Mobiliza-se a produção destinada ao público infantil
como exemplo de um deficitário repertório de leitura.
No segundo meme, a crítica se dirige a um indivíduo, e não
mais a um grupo específico. Nele se explora uma intervenção se-
mântica na imagem original. Ela é usada para precisar a represen-
tação daquele de que se fala. Para isso, a imagem sofre uma alte-
ração. A personagem Gru, da série Meu Malvado Favorito, ganha
uma barba branca, o que lhe confere uma semelhança com outras
representações em charges de um indivíduo específico bastante co-
nhecido no Brasil, a saber, Luiz Inácio Lula da Silva. Esse endere-
çamento específico da representação imagética se confirma, ao ser
aliada à reiteração de um epíteto constantemente atribuído ao ex-
-presidente, o de analfabeto. O acréscimo dos sinais de interrogação
em torno da personagem à qual foi acrescida a barba, enfatiza a sua
representação como aquele que, por ser analfabeto, não saberia o
que é literatura, não saberia ler.
No enunciado “Vocês chamam isso de literatura?”, atuali-
zado no primeiro meme a pergunta é retórica e irônica, como uma
crítica diante do que certos youtubers leem, cuja qualidade se ques-
tiona e com ela a capacidade intelectual desses leitores; no segundo
meme ela é de fato representada como uma pergunta, como a ex-
pressão de uma dúvida de alguém que desconhece algo, de alguém

20
MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

que diante de um livro aberto não sabe ou não sabia até então ler, e
tamanha é sua alienação em relação a essa prática, que ele tem por
interlocutora, uma outra personagem dessa mesma animação, Ag-
nes, uma criança, a quem ele faria a pergunta para obter a resposta
que desconhece.
No primeiro meme, a crítica de viés humorístico recai sobre
a diferença de concepção entre o enunciador e os youtubers de que
ele fala do que seria a ‘literatura’ e de quais seriam os livros que
efetivamente contribuem para a constituição da imagem de um lei-
tor. Para o enunciador, literatura equivale ao conjunto de textos e
autores consagrados e de circulação institucionalizada. Os leitores
de tudo aquilo que seria não-literatura, no modo como são repre-
sentados neste meme, são também os não-leitores, de que falam
Pierre Bayard (2007) e Márcia Abreu (2001). Eles não leem aquilo
que em geral se reconhece como bons textos, autores seletos. Sua
incapacidade de escolha cultural seria o índice explorado na crítica
emitida pelo ‘hiperenunciador’: há práticas legítimas de leitura e
outras nem tanto. Embora sejam detratados e diminuídos em seu
perfil leitor, ainda assim os youtubers a quem se dirige a crítica no
meme não são os excluídos da leitura, não fazem parte do grupo das
pessoas que desde cedo são alijadas desse direito. Eles leem, eles
podem ler, eles têm acesso a livros e se sentem suficientemente
empoderados para comentá-los publicamente, ainda que segundo
a imagem idealizada e compartilhada socioculturalmente sobre a
leitura eles não sejam considerados bons leitores.
O mesmo não se pode dizer em relação ao efeito sobre
o sujeito referido no segundo meme, e todos aqueles que ele
representa. Conforme constatou Curcino (2018; 2019), o uso
ofensivo da designação “analfabeto”, como equivalente semântico

21
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

a “não-leitor” tanto para o ex-presidente, quanto para aqueles que


ele representa, reside na tradição hierárquica de nossa sociedade e
no seu funcionamento da reprodução das lógicas de classe16, para a
qual os atributos culturais (ser ou não alfabetizado, ser ou não leitor)
são um mecanismo insuspeito para justificar essas hierarquias.
Tal como expresso em diversos outros gêneros, a crítica derrisó-
ria neste meme dirigida ao ex-presidente Lula como não-leitor atualiza
uma série de estigmas de classe, duradouros em nossa sociedade. E
não se sai impune desses julgamentos culturais. Eles se reiteram, se
cristalizam, tornando-se assim a verdade sobre o sujeito que é aqui des-
qualificado, assim como a todo outro sujeito que com ele se assemelhe.
Há neste segundo meme, a exploração do exagero, da intensificação
dos traços que representariam a incapacidade leitora do ex-presidente.
Segundo essa sua representação, ele não apenas não conhece o que é
literatura, como dirige sua dúvida a esse respeito a uma personagem
infantil. Assim ele é desqualificado incisivamente, ele é representado
por meio de um senso-comum bastante consolidado entre nós, por um
estereótipo bastante antigo: o de que não-leitores são analfabetos, e
sendo analfabetos são incapazes.
Em ambos os memes estamos diante de uma relação de homo-
logia semântica por complementaridade, por consonância. Neles as
imagens atuam como um contexto plausível para a simulação do que
é enunciado verbalmente. No segundo, aliás, a imagem sofre interven-
ções justamente para ir ao encontro dessa consonância. O verbal e o
imagético confluem para a crítica derrisória visada por esses memes.
Por vezes, essa confluência não é tão bem sucedida, quando a
formulação do meme gera ruído no efeito de sentido visado. Esse não é

16 Sobre esse conceito de ‘reprodução’ social e cultural, cf. Bourdieu &


Passeron (2014).

22
MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

o caso do segundo exemplo do nosso corpus de memes sobre a leitura.


Figura 4 - Bird Box e a Leitura.

Fonte: https://www.instagram.com/oficialoanoe

Bird Box é um livro, originalmente britânico, publicado em


2014. Estreou como filme em 2018, o que contribuiu com sua am-
pla divulgação. Trata-se de uma narrativa distópica, pós-apocalíptica.
Como é comum na cultura memética, essa imagem tem sido frequen-
temente utilizada para a confecção de diversos memes na web. E com
frequência essa sequência de quadrinhos, usada para exprimir a se-
quência actancial e temporal, é reproduzida com enunciados verbais
que se assemelham à lógica retórica deste da figura 4: mantém-se o
mesmo enunciado verbal no primeiro quadro; altera-se o produto e o
valor anunciados no segundo quadro (em um desses memes faz-se a
oferta de iphone XS a 30 dólares, em outro açaí a 3 reais); no terceiro
quadro, em geral, não se apresenta um enunciado verbal como neste
exemplo em que se afirma “Ler é bom demais”. Na maioria desses
memes construídos com esta mesma imagem, a imagem do terceiro

23
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

quadro é responsável pelo sentido subentendido, relativo à impossibili-


dade de não ceder à tentação.
Neste meme, há tanto um destacamento frástico, ou seja, de
linguagem verbal, quanto um destacamento imagético. Tanto a pri-
meira frase quanto a simulação da imagem resultam da narrativa em
livro e em filme. A imagem foi elaborada e replicada na confecção des-
te meme17 sob a forma de um desenho animado (HQ) digital, que re-
constrói cenas do filme.
Frase e imagem são assim selecionadas do livro/filme e são con-
textualizadas sob um outro formato, em um outro gênero para circular
em conjunção com uma nova frase, que lhes reorienta parcialmente
o sentido, produzindo um efeito cômico. Ao acrescentar outras duas
frases, também bastante conhecidas, relativas ao contexto de promo-
ção de vendas de livros, “Livros R$ 9,90 cada”, e ao de promoção da
prática de leitura, “Ler é bom demais”, se evoca um outro discurso,
bastante consensual entre nós, relativo ao enunciável sobre essa práti-
ca. É muito comum, na representação de si como leitor, especialmente
entre os jovens no ambiente virtual, a adoção de um estilo hiperbólico
de enunciar, intenso, sem modalizações, de modo que se explora na
composição de seu ethos leitor uma série de atributos que os discur-
sos dominantes sobre a leitura outorgam a essa condição de leitor: ler
significa ler sempre, ler muito, ler por prazer e falar apropriadamente
do que se leu18.
É a enunciação conjunta desses enunciados provenientes de
dois contextos distintos – de um lado, de uma obra de ficção literária,

17 A dúvida em relação a isso se constitui pela impossibilidade, em muitos casos de


memes, de se estabelecer sua origem, sua produção primeira.
18 Sobre o ethos leitor, cf. Abreu (2001, 2006), cf. Bayard (2007), e Curcino (2020,
2019c, 2018, 2016b).

24
MEMES SOBRE A LEITURA: uma análise discursiva do princípio da destacabilidade de seus enunciados
verbais e imagéticos

de outro, de um tipo de publicidade comercial relativa à venda de livros


e de um enunciado prototípico de campanhas de promoção da leitura
– que reitera o caráter hiperbólico, exagerado da cultura e da comu-
nidade de fãs19, também característico de certas formas peculiares de
enunciar nas redes digitais, em especial aquelas do público juvenil.
Esse exagero é também um traço dos modos de produzir humor20.

Algumas Considerações

Como dissemos, a reconfiguração nas formas de construção


dos textos foi uma das mudanças recentes mais sensíveis e observáveis
com o advento e expansão das novas tecnologias digitais de produção
e de recepção dos textos em nossa sociedade. Uma série de recursos
técnicos e aplicativos disponíveis para quem tem acesso a um compu-
tador, à internet e a certos programas possibilitam aos usuários dessas
tecnologias e participantes de redes sociais construir memes e os tor-
narem públicos e acessíveis aos demais membros dessas redes de que
fazem parte. Uma série desses dispositivos técnicos auxilia justamente
no processo de seleção destacamento e reemprego de enunciados ver-
bais e imagéticos na produção ininterrupta, viralizante e pontual de
memes sobre todos os temas.
No caso da leitura, vimos serem reproduzidos discursos con-
sensuais, que contribuem para a consolidação de uma imagem ideali-
zada do que é ser leitor, e que nestes exemplos equivaleria a quem lê e
conhece literatura e a quem, sendo leitor, lendo sempre e por prazer,

19 Sobre esse tema cf. Jenkins (2009); e para análises que consideraram essa
especificidade em relação a declarações de leitura entre os jovens cf. e Andretta &
Curcino (2012); Conti (2016).
20 Sobre as características da ‘surpresa’ e do ‘exagero’ como próprias do humor, cf.
Possenti (2020).

25
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

não resiste à aquisição de novos livros.


Esse tipo de análise que aqui realizamos visa poder contribuir
com os estudos contemporâneos sobre a leitura, ao levantar e descrever
quais discursos sobre a leitura são mais frequentemente mobilizados
em nossa sociedade na atualidade, e isso sob as formas mais variadas
e inusitadas de textos. Esse tipo de análise também permite observar
em que medida esses discursos são determinantes para a manutenção
de representações idealizadas do que é ser leitor. Uma vez descritas as
especificidades de seu funcionamento discursivo, podemos contribuir
para desmistificar algumas dessas representações idealizadas, genéri-
cas e coletivas que fomentam hierarquias culturais que definem quem
pode ou não se considerar leitor em nossa sociedade.
Por mais simples e banais que gêneros como os memes possam
parecer, eles são vetores, como toda produção simbólica, de discursos
que atuam no controle do que se deve e se pode dizer. Em função de
sua simplicidade e banalidade podem ser inclusive mais eficazes na
veiculação de consensos e na consolidação de seu valor de verdade.

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31
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE


DOS DISCURSOS: NOS ENTORNOS DOS SENTIDOS DE
UMA HASHTAG

Maria Luiza Girão Ferreira (UFMA)

Mônica da Silva Cruz (UFMA)

Introdução

Afetada pela crise sanitária gerada pela COVID-1921, a popu-


lação brasileira iniciou o ano de 2021 levantando diversas discussões
acerca da doença, eficácia das vacinas em produção e medidas pro-
tetivas governamentais para o controle da disseminação do novo co-
ronavírus. Como as práticas sociais estão cada vez mais associadas ao
uso de tecnologias, consequência da chamada “sociedade em rede”22,
esses debates foram realizados também através da Internet, que “por
ser um poderoso meio de comunicação, se constituiu como uma mídia
eletrônica.” (MAZZOLA, 2010, p. 13).
As tecnologias de informação têm desenvolvido cada vez mais
possibilidades de interação e estabelecimento de conexões sociais que
impactam as relações fora do ambiente digital. Essas conexões ocor-
rem por meio do ciberespaço, “o espaço que se abre quando o usuário
conecta-se na rede” (SANTAELLA, 2005, p. 8), e geram um novo fa-
zer cultural, alcunhado como cibercultura. Torna-se difícil, portanto,
abordar práticas discursivas sem considerar a dinâmica do ciberespaço,
que tem sido meio expressivo de circulação e produção de discursos,
produtos dessas relações intermediadas por telas, como computador,

21 Doença causada pelo SARS-CoV-2, da família coronavírus, que teve início em


2019 na China e gerou uma pandemia, afetando diversos países do mundo, em
questões de saúde, economia e política.

32
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

celular e outros dispositivos de base eletrônica.


Além de ser um poderoso meio de comunicação, a Internet pro-
picia, através da web23, o estabelecimento de redes caracterizadas por
padrões de funcionamento de um grupo social, a partir das ligações
estabelecidas entre os diversos atores que nele atuam (RECUERO,
2009). Desse movimento, surgem canais que facilitam a interação en-
tre esses grupos, mantendo também uma função informativa, através
de diferentes ferramentas de organização das informações dentro da
plataforma. Devido à sua função na internet, esses canais são conhe-
cidos popularmente como redes sociais.
Entre as redes sociais de maior popularidade está o Twitter, que
disponibiliza a ferramenta trending topics24 aos usuários, cuja função
é evidenciar os assuntos mais citados na plataforma. No mês de ja-
neiro de 2021, uma hashtag25 destacou-se entre os trending topics do
Twitter: #BolsonaroBroxa. Referindo-se ao atual presidente do Brasil,
Jair Messias Bolsonaro, mensagens sinalizadas com a hashtag citaram
trecho de uma entrevista concedida por sua esposa, Michelle Bolsona-
ro, exibida em 21 de novembro de 2018 pela Rede Super de Televisão.
Apesar do trecho e mesmo da entrevista na íntegra não apresentarem
associação direta a aspectos da relação íntima entre a primeira-dama
e o presidente, os comentários no Twitter assumiram cunho sexual,

23 Apesar dos termos internet e web serem muitas vezes confundidos e tratados como
sinônimos, a internet (formada por inter + net) é uma rede que conecta milhões de
computadores pelo mundo, enquanto a web é uma das várias ferramentas de acesso
a essa rede (MUNDO DIGITAL, 2014).
24 Tópicos tendência, em tradução livre. É uma ferramenta do Twitter através do
qual são mapeados e listados os tópicos mais citados em publicações, a partir de
níveis de localidade (sendo esses regionais, nacionais e internacionais).
25 Representada pelo símbolo “#”, a hashtag é um recurso utilizado nas redes sociais
para sinalizar palavras-chave que demarcam o contexto das publicações, como uma
“etiqueta de contexto”. (RECUERO, 2014).

33
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

emitindo opiniões sobre Jair Bolsonaro relacionadas, por outro lado, a


seu desempenho como governante do país.
Como é possível observar, o campo político tem sido amplamen-
te afetado pela cibercultura e o aspecto de convergência das mídias
que a envolve, gerando um conteúdo próprio ao ambiente digital, com
suas particularidades e possibilidades. No caso da referida hashtag,
por exemplo, o conteúdo produzido para o Youtube, majoritariamente
audiovisual, converge com o Twitter, que tem como base produções
escritas. Por isso, além da produção jornalística sobre temas deste
campo em portais noticiosos, as redes sociais também têm sido muito
presentes e influentes nas discussões que o cercam, sobretudo políti-
co-partidárias. Uma pesquisa de opinião do instituto DataSenado, por
exemplo, apontou que 45% dos entrevistados (2,4 mil pessoas ao total)
afirmaram ter decidido o voto nas eleições de 2018 levando em con-
sideração informações vistas em alguma rede social. Entre as redes
com mais impacto neste processo eleitoral estão o Facebook (31%),
o WhatsApp (29%), o Youtube (26%), o Instagram (19%) e o Twitter
(10%) (BAPTISTA, 2019).
Diante desse cenário, levantam-se alguns questionamentos:
por que um recorte específico de uma entrevista é divulgado cerca de
dois anos após sua exibição e alcança um lugar de destaque entre os
assuntos mais comentados pelo Twitter, em meio a um panorama de
diversas discussões sobre política e saúde no Brasil? Por que se esta-
beleceu relação entre as palavras de Michelle e a relação íntima com
seu marido, ainda que ela não se referisse diretamente a isso? Existe
algum interesse na circulação destas informações neste contexto só-
cio-político? Em caso positivo, a quem pertence o interesse?
Para além da compreensão do uso da língua nas redes sociais
enquanto materialidade em constante atualização, percebe-se que

34
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

o acontecimento que envolve a aparição desta hashtag nos trending


topics está diretamente relacionado a fatores históricos que propiciam
seu aparecimento entre os assuntos mais comentados no Brasil, no
primeiro mês de 2021, e produzem sentidos próprios a esse espaço
e tempo. Por isso, considera-se pertinente realizar uma análise deste
caso através do campo discursivo, tomando como base a reflexão pro-
posta por Michel Foucault (2009, p. 30), ao afirmar que, para descre-
ver os acontecimentos do discurso, é necessário analisá-los de acordo
com a seguinte questão: “como apareceu um determinado enunciado,
e não outro em seu lugar?”. O autor aponta, por esse viés, a relação
intrínseca que os discursos firmam com os poderes e os sujeitos, em
uma dada conjuntura.
Vale observar que os poderes, para Foucault (2010), funcio-
nam capilarmente e não se centralizam exclusivamente no âmbito das
ações estatais. Os poderes são relações instauradas por meio de práti-
cas que atravessam as realizações mais cotidianas de uma sociedade.
Eles estão em toda parte e se espalham capilarmente, constituindo
micropoderes.
Com base nessa perspectiva de poder e sua relação com os dis-
cursos, este artigo tem como objetivo investigar o funcionamento da
ferramenta trending topics como micropoder que influi no controle
de discursos, visto que pode delimitar e priorizar determinados assun-
tos a serem acompanhados, na rede, em detrimento de outros. Para
isso, será analisada a hashtag #BolsonaroBroxa, a partir da descrição e
avaliação das condições que tornam possível a irrupção de formações
discursivas como o uso da hashtag, de modo a produzir sentidos que se
articulam com o campo político brasileiro e analisar o que caracteriza
a circulação destes discursos como singulares, o que faz com que eles,
e não outros, apareçam.

35
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Para embasamento teórico, serão utilizados estudos foucaultia-


nos do discurso, principalmente as concepções de acontecimento e
ordem discursiva, seguindo o dispositivo teórico-metodológico arqueo-
genealógico, desenvolvido pelo filósofo francês.
As discussões aqui desenvolvidas dividem-se em três momen-
tos: o primeiro, de apresentação do método arqueogenealógico e con-
ceitos-chave que serão aplicados nas análises; o segundo, de compre-
ensão das características do Twitter e o funcionamento dos trending
topics; e o terceiro, de análise discursiva da hashtag #BolsonaroBroxa.

O discurso como acontecimento

Os discursos, na perspectiva foucaultiana, são singulares e pos-


suem uma espessura histórica. Por isso, analisar a produção de senti-
dos que resulta na e da articulação entre discursos, considerando suas
rupturas e deslizamentos, implica na realização de uma tarefa que
“consiste em não mais tratar os discursos como conjuntos de signos
(elementos significantes que remetem a conteúdos ou a representa-
ções), mas como práticas que formam sistematicamente os objetos de
que falam” (FOUCAULT, 2009, p. 55).
Dessa forma, não se trata apenas da relação de atribuição de pa-
lavras às coisas, mas de compreender fatores envolvidos neste proces-
so, considerando que os discursos enquanto práticas não são estáticos
e fixos: estão condicionados às transformações sócio-históricas e por
isso submetidos a condições de possibilidades, regras de aparecimento.
Dessa direção, Foucault propõe uma arqueologia dos saberes, isto é, a
escavação de uma rede de acontecimentos que culminam na irrupção
de um determinado discurso, tomando como sua unidade elementar o
enunciado e admitindo que enunciados que se agrupam em um mes-
mo sistema de dispersão constituem uma formação discursiva.

36
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

O autor utiliza-se da metáfora da arqueologia também no sen-


tido de realizar um exercício de análise e investigação de arquivos.
Contudo, ele abandona a concepção de arquivos como registros docu-
mentais físicos e parte toma essa noção como uma lei do que pode ser
dito, visto que não se pode falar de qualquer coisa em qualquer época.
Por isso, os enunciados estão sempre submetidos ao arquivo, isto é, a
um sistema que rege o aparecimento dos enunciados como aconteci-
mentos singulares (FOUCAULT, 2009). Dessa forma, a arqueologia
foucaultiana busca a compreensão nas condições de possiblidade de
sentidos a partir da descrição e análise de “toda uma rede de discursos,
de poderes, de estratégias e de práticas” (REVEL, 2005, p. 13).
Para essa empreitada, Foucault funda a noção de acontecimen-
talização, colocando no centro de suas análises as relações entre os
acontecimentos discursivos e os acontecimentos pertencentes a outros
campos (econômico e político, por exemplo), visto que
as condições para que apareça um objeto do discurso
e as condições para que dele se possa “dizer alguma
coisa” e para que dele várias pessoas possam dizer
coisas diferentes [...] são numerosas e importantes.
[...] Essas relações são estabelecidas entre
instituições, processos econômicos e sociais, formas
de comportamentos, sistemas de normas, técnicas,
tipos de classificação, modos de caracterização [...].
(FOUCAULT, 2009, p. 50).

Partindo dessas relações, ele passa então a direcionar seu olhar


não apenas para as condições de formação dos discursos, mas para as
relações de poder que entremeiam estas relações institucionais, de-
terminantes no controle e delimitação do discurso. Foucault (2010)
aponta que o problema é ao mesmo tempo distinguir os acontecimen-
tos, diferenciar as redes e os níveis a que pertencem e reconstituir os

37
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

fios que os ligam e que fazem com que se engendrem, uns a partir dos
outros. Ressalta que, diante disso, o que se deve tomar por referência
não é o grande modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da
batalha, evidenciando que é necessário compreender as relações de
poder que entremeiam as produções de sentido, assim como investigar
os procedimentos que tomam para validar este exercício de poder.
Logo, ele propõe a abordagem de uma “ordem do discurso”, a
partir da qual há embates de poder que promovem sistemas de exclu-
são que atingem o discurso, sendo três tipos deles: a palavra proibida, a
segregação da loucura e a vontade de verdade. A primeira modalidade
parte de um procedimento de interdição de determinados discursos,
a segunda trata-se de uma rejeição ao louco e ao seu discurso, e a ter-
ceira refere-se à uma separação entre o que é considerado verdadeiro
e falso.
Na visada foucaultiana, esses poderes operam em rede, redi-
mensionando a ideia de um poder único e centralizado, propondo a
percepção de uma cadeia de micropoderes.
A análise de Foucault visava distinguir grandes
transformações do sistema estatal, mudanças de
regime político ao nível dos mecanismos gerais e
dos efeitos de conjunto e a mecânica de poder que
se expande por toda sociedade, com formas mais
regionais e concretas, investindo em instituições,
investindo em técnicas de dominação. Foucault
buscava a atuação concreta do poder, que operava
na realidade mais sólida dos indivíduos - seu corpo
- e este poder funcionava no próprio corpo social,
não acima dele. Por isso foi pensado como um
micropoder. (MACHADO, 2010, p. XII).

Os micropoderes, segundo Foucault, não são sempre repressi-


vos, pois produzem saberes que se materializam de diferentes formas.

38
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

A web, por exemplo, apresenta poderes que materializam saberes por


meio de um espaço multimídia, que abrange representações digitais
das experiências empíricas, e incentiva seus usuários a se posiciona-
rem como sujeitos ativos, produtores de conteúdo levando-os a esta-
belecer cada vez mais interações com outros usuários e com as infor-
mações ali armazenadas e compartilhadas. Cada uma das plataformas
da web possui suas particularidades e funcionalidades. Contudo, para
este estudo, cabe direcionar o foco para o Twitter.

Twitter e a ferramenta trending topics

Criado em 2006, o Twitter é usualmente citado em pesquisas


relacionadas ao ciberespaço como um microblog, contudo passou a ser
considerado como um site de rede social, visto que as trocas comuni-
cativas realizadas entre os usuários fizeram com que a ferramenta se
aproximasse mais de um mensageiro instantâneo do que propriamen-
te da configuração de um blog26 (RECUERO; ZAGO; 2010). Isso acon-
tece porque sua interface propicia um espaço de compartilhamento de
experiências, através da caixa para publicação, que possui a seguinte
pergunta: “O que está acontecendo?”, questionamento que incentiva
o usuário a dividir histórias e pensamentos por meio da rede, em um
espaço limitado a 280 caracteres. Contudo, as conexões estabelecidas
através deste recurso foram base para intensos diálogos e trocas so-
ciais, mais do que apenas o compartilhamento de narrativas, o que
caracteriza a plataforma como uma rede social. A partir disso, é pos-
sível inferir que a rede é também um meio de intensa circulação de
discursos.

26 Blogs caracterizam-se por apresentar o formato de diário on-line, reunindo uma


coleção de textos, cujo conteúdo é um conjunto de mensagens curtas e organizadas
cronologicamente, que são publicados na web. (PAZ, 2003).

39
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Visando facilitar essas interações, a plataforma permite o com-


partilhamento de conteúdos em texto e vídeo, e possui algumas fun-
cionalidades que proporcionam o engajamento entre usuários que não
se seguem, ou seja, não possuem uma conexão direta pela rede, a qual
permite que acompanhem o conteúdo produzido um do outro. Uma
delas é a hashtag, que é composta por uma palavra ou expressão-cha-
ve antecedida pelo símbolo da libra (#).
A primeira vez em que foi utilizada uma hashtag foi agosto de
2007, período no qual o Twitter estava à procura de uma funcionali-
dade de agrupamento. Um estudo da Buffer, plataforma de conteúdo
relacionado a habilidades em marketing e social media, aponta que
tweets27 com hashtags recebem o dobro da quantidade de engajamento
daqueles que não possuem, e tweets com uma ou mais hashtags têm
55% mais chances de serem retweetados28. Também revela que tweets
com apenas um ou dois hashtags recebem 21% mais engajamento do
que aqueles com mais de duas hashtags (OSMAN, 2021). Por isso, a
hashtag tem se tornado uma convenção única de etiquetagem para
colaborar na associação entre tweets e certos eventos ou contextos
(CHANG, 2010)29, sendo utilizada por profissionais das redes sociais
para alavancar determinados temas de acordo com interesses estraté-
gicos, assim como por usuários comuns, que interagem com os temas.
Outro recurso oferecido pelo Twitter são os trending topics, lista
que reúne os tópicos dos tweets determinados por um algoritmo do
Twitter como sendo os mais populares ou com maior repercussão na
rede em determinado momento (TWITTER, s.d.). Essa ferramenta

27 Publicações oriundas do Twitter.


28 Tweets que são compartilhados de uma rede (perfil de usuário) para outra.
29 Trecho traduzido livremente do original: “Hashtag use has become a unique
tagging convention to help associate Twitter messages with certain events or contexts”

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A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

fica localizada em uma caixa de textos à direita da tela inicial, sob o


título “O que está acontecendo”.

Figura 1: Página inicial do Twitter

Fonte: Twitter30

A lista de trending topics é atualizada constantemente, de acor-


do com a localidade no qual o perfil do usuário está registrado. Dessa
forma, são destacados em sua maioria os tweets de maior repercussão
regional e nacional. A organização das informações neste formato pri-
vilegia o aparecimento de determinados tópicos (os mais comentados)
em detrimento de outros, o que demonstra o exercício de um poder
pelos usuários, que podem atuar em conjunto de forma a eleger as
tendências da rede de acordo com sua vontade de verdade. Com esse
mecanismo, a ferramenta pode dinamizar a circulação de formações
discursivas e facilitar sua visibilidade a todos os usuários, assim como

30 Disponível em: <https://twitter.com/home>. Acesso em: 18 de janeiro de 2021

41
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

promover apagamentos de temas, promovendo tendências mais recen-


tes, que venham a ultrapassar o assunto que se deseja “apagar” na lista
dos mais comentados. Outrossim, cada usuário realiza uma “leitura”
do tópico, mobilizando arquivos e recorrendo a diferentes campos de
memória de forma a produzir sentidos em uma publicação conectada
ao assunto que está sendo discutido.
Este recurso é de interesse político, na medida em que permite
o crescimento de comentários com viés político-partidário ou de ou-
tros aspectos deste campo por intermédio de hashtags ou expressões
que venham a se tornar um trending topic. Pode determinar também
a formação de opiniões públicas acerca de homens políticos, criando
“verdades” atreladas à sua competência em gestão ou à sua personali-
dade, como é possível observar no caso da hashtag #BolsonaroBroxa.

Uma análise da hashtag #bolsonarobroxa

A hashtag #BolsonaroBroxa entrou para os trending topics do


Brasil em 17 de janeiro de 2021. Neste mesmo dia, aconteceu também
a primeira etapa de provas da edição 2020 do Exame Nacional do En-
sino Médio (ENEM), que acontece anualmente, além de outras dis-
cussões que repercutiram nas redes sociais, como a aprovação do uso
emergencial de vacinas contra a COVID-19, e a aplicação da primeira
dose da imunização no país.

42
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

Figura 2 - 10º, 11º e 12º assuntos mais comentados no Twitter em 17


de janeiro de 2021

Fonte: Twitter31

Esses fatos tornaram-se motivo para o descontentamento de


uma parcela da população com o governo federal, visto que foram
mantidas as provas presenciais para o Enem, decisão que vai contra
a orientação das autoridades mundiais de saúde de evitar aglomera-
ções e incentivar o distanciamento social; e pelo posicionamento do
presidente Jair Messias Bolsonaro em desencorajar a população a ser
imunizada, sob a alegação de que as vacinas são experimentais. Sobre
uma das vacinas, a da Pfizer/BioNtec, ele afirmou: “Lá no contrato
da Pfizer, está bem claro nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por
qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu”
(ISTOÉ, 2020).
Já os comentários que acompanharam as publicações marca-
das com a hashtag que se refere ao presidente, em sua maioria eram
associados a um trecho de um vídeo, com nove segundos, retirado de

31 Disponível em: <https://twitter.com/explore/tabs/trending>. Acesso em:


17 jan. 2021

43
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

uma entrevista concedida à Rede Super de Televisão pela primeira-da-


ma, Michelle Bolsonaro, em novembro de 2018, no qual ela enuncia:
“Eu falo para ele: você é um personagem fora de casa. Porque às vezes
eu até gostaria que você fosse um pouquinho assim dentro de casa,
tivesse um pouquinho mais de energia” (BOLSONARO, 2018).
Nesse momento da entrevista, fragmentado e replicado no
Twitter, a primeira-dama Michelle Bolsonaro está respondendo a uma
pergunta relacionada às pessoas que não aprovam o marido e sua per-
sonalidade impulsiva. Ela afirma que “ele é um príncipe em casa”.
Sem explicar em qual sentido usa a palavra “energia” e quais são as ca-
racterísticas do personagem que ele constrói em público, não é possí-
vel afirmar que esteja se referindo ao âmbito íntimo do casal. Contudo,
foi a interpretação que irrompeu e circulou no Twitter e deu origem à
hashtag #BolsonaroBroxa. Segundo as publicações, a “energia” citada
pela primeira-dama se trata da vitalidade sexual do marido.
A palavra broxa é utilizada popularmente quando há a intenção
de desqualificar um homem por apresentar disfunção erétil. Segundo
estudo realizado em 2010, um levantamento de dados revelou também
que se trata de uma das palavras mais usadas para realizar xingamen-
tos de caráter sexual passivo, junto aos termos “veado” e “corno”, sen-
do esta categoria a predominante na opinião dos entrevistados como
o pior tipo de xingamento atribuído a homens (ZANELLO; GOMES,
2010). Cabe esclarecer que

xingar é o ato de agredir por meio de palavras


insultuosas tendo a intenção de ofender o ouvinte.
No entanto, o que é considerado como palavra
insultuosa depende dos valores da cultura e do que
se espera dos sujeitos que dela fazem parte. Neste
sentido, os xingamentos são sintomas culturais,

44
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

constituindo-se como ponte para a pesquisa dos


valores que neles se repetem e se colocam em ato.
Isto é, o xingamento aponta para o lugar social que
não deve ser ocupado pelo sujeito. Exerce, desta
forma, um importante papel de microfísica do poder.
(ZANELLO; GOMES; 2010, p. 263)

Ainda que não exista comprovação fisiológica do fato, os usuá-


rios do Twitter passaram a compartilhar a hashtag em tom de escárnio.
A primeira publicação32 a ser analisada aqui é composta por
uma foto de Michelle e Jair, na qual ela é flagrada sorrindo e ele é
retratado com os dedos indicadores em riste, ao lado da cabeça, gesto
que sugere um par de chifres, popularmente atribuído em diálogos
relacionados à infidelidade em um relacionamento, conotação seme-
lhante ao uso do termo “corno”. A imagem é antecedida pela seguinte
mensagem: “Alô CEB – Companhia Energética de Brasília, Michelle
diz que falta energia em casa”. Apesar de a mensagem escrita apontar
a leitura do termo “energia”, citado por Michelle, nessa entrevista, no
sentido relativo ao campo da eletricidade, a imagem atua de forma
complementar, produzindo outra significação discursiva através do sa-
ber instituído culturalmente no Brasil que justifica a infidelidade de
um cônjuge como consequência de problemas de cunho sexual com
seu (ua) parceiro (a). Este saber é comum também em diálogos inter-
pessoais, por meio de expressões como: “pessoas têm necessidades, se
não encontram dentro de casa, vão buscar fora”.
Já em outro caso, constata-se um retweet33 da fala de Michelle,
que acompanha a seguinte mensagem: “Gemada de ovo de codorna

32 Disponível em: https://twitter.com/bozotraidor/status/1350778771750739969.


Acesso em: 17 de janeiro de 2021
33 Disponível em:https://twitter.com/JulianoLimaSC/status/1350776425931026437.
Acesso em: 17 de janeiro de 2021

45
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Micheque! Os antigos já recomendavam!”. Nesse texto é flagrante


uma formação discursiva referente a receitas e opiniões também insti-
tuídas na cultura popular como soluções para problemas de disfunção
erétil. Nesse comentário, vale observar, também, o emprego do termo
“Micheque” para referir-se à primeira-dama, o qual retoma um acon-
tecimento, e seus arquivos, que também circulou no Twitter. O acon-
tecimento que a palavra Micheque resgata ao ser enunciado trata-se
da notícia divulgada por veículos midiáticos nacionais que indicaram o
depósito de um valor de R$ 89 mil em cheques na conta bancária da
esposa de Jair Bolsonaro, em nome do ex-assessor Fabrício Queiroz e
sua esposa, fato que foi objeto de investigações policiais (G1, 2020). As-
sim, mais do que uma nova palavra da língua portuguesa, Micheque,
nesse contexto, é um enunciado que atualiza memórias de diferentes
momentos políticos do país.
Além das publicações que atualizam memórias que constroem
saberes sobre o Presidente Jair Bolsonaro, por meio de piadas relacio-
nadas a relacionamento e infidelidade, observa-se que a hashtag foi
usada em publicações com um propósito em comum: criticar o desem-
penho de Jair Bolsonaro na posição de governante do Brasil, sobretudo
os acontecimentos recentes que decorreram no descontentamento da
população, citados anteriormente.
A seguir, é avaliado um tweet34 por meio do qual é construída
uma crítica à realização de provas presenciais para o Enem e afirma:
“Estudantes, lembrem-se que hoje a vida de vocês, familiares e cola-
boradores está sendo colocada em risco por um governo que não lhes
ouve, para que amanhã, quando forem usar de seu poder (o voto),
façam diferente da geração anterior”. O alerta é acompanhado tam-

34 Disponível em: https://twitter.com/JooLucasDourad4/status/1350776368259334146.


Acesso em: 17 de janeiro de 2021

46
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

bém da hashtag #Enem2020, que assim como #BolsonaroBroxa, foi


um dos trending topics da data da publicação no Brasil. Percebe-se,
nesse enunciado, que há uma tentativa de chamar a atenção para a
mensagem, que incentiva a não manutenção do atual governo federal
e, por isso, busca combater uma possível reeleição do atual presidente.
O emprego das duas hashtags significa que há uma possibilidade dupla
de usuários que não sigam o autor dessa publicação possam alcançá-
-la, visto que ela estará listada nas duas relações de publicações com o
uso das hashtags. Ou seja, é possível inferir que há uma estratégia de
maior alcance e visibilidade para a publicação.
Por fim, o último tweet35 que compõe essa análise apresenta
uma publicação com o intuito de criticar outro assunto relacionado ao
contexto sócio-político do momento o qual se fala. Neste caso, trata-
-se do posicionamento de Bolsonaro em relação às vacinas produzidas
contra a COVID-19, que foram aprovadas emergencialmente no dia
17 de janeiro, para aplicação inicial nas pessoas que integram os gru-
pos de risco da doença. O texto da publicação aponta: “Único presi-
dente do mundo que ignorou o início da vacinação do próprio povo. É
tão burro que nem sabe fazer política em cima disso.”
Nesse tweet, observa-se o uso de três hashtags: #piorpresiden-
tedahistoria, #ImpeachmentBolsonaroUrgente, além da #Bolsonaro-
Broxa. Percebe-se outro tópico nos temas abordados na rede relaciona-
dos ao presidente, que é o pedido de Impeachment, isto é, destituição
de Jair Bolsonaro de sua função presidencial. Além da ofensa inserida
na hashtag, também há a ofensa à sua inteligência, pela adjetivação
através da palavra “burro”, que é convencionada socialmente como
um símbolo de ignorância, falta de conhecimento.

35 Disponível em: <https://twitter.com/flavespanha/status/1351172671044780037>.


Acesso em: 18 jan. 2021

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Nota-se, portanto, que todas essas publicações foram seleciona-


das por apresentarem, assim como foi perceptível na maioria dos Twe-
ets sinalizados com a hashtag, um intuito comum: desqualificar e des-
credibilizar Jair Bolsonaro. Para isso, utilizaram-se diferentes aspectos
que podem ser criticados em um homem que ocupa um cargo público:
atingir sua competência de gestão; atingir seu caráter enquanto indi-
víduo; atingir sua capacidade intelectual. Assim como ocorre com os
xingamentos, sentenças que são consideradas ofensas, também o são
por atenderem a convenções estabelecidas culturalmente sobre o que
é ofensivo ou não. Desta forma, os insultos mobilizam discursos para
produzirem sentidos. E, neste caso, os sentidos ofensivos são mobiliza-
dos a fim de atacar o presidente e o governo federal.
Observa-se que é construída uma nova formação discursiva a
partir do texto original: enquanto na entrevista, Michelle aborda ques-
tões de personalidade do marido, a narrativa do Twitter “cria” uma
outra verdade: a de que existem problemas de cunho sexual na relação
entre os dois. É possível supor, a partir disso, que o recorte e uso do
trecho da entrevista, datada de dois anos atrás, pode ter sido estrate-
gicamente retomado e lançado no Twitter, que tem uma natureza de
circulação rápida e dinâmica de informações, para “viralizar” e engajar
os usuários nas piadas e ofensas direcionadas ao presidente, ainda que
a publicação original com o vídeo não tenha sido identificada.
A plataforma, por sua vez, facilita a circulação destes enuncia-
dos de acordo com a mobilização dos próprios usuários, que agem cole-
tivamente para tornar a expressão tendência, neste caso uma hashtag,
cada vez mais relevante para a rede. E, como consequência, alcança
cada vez mais visibilidade e engajamento, visto que à medida que a
tendência cresce na rede social, os usuários sentem-se incentivados
a interagir cada vez mais com o tópico, compartilhando publicações

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A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

sobre ele ou produzindo seu próprio conteúdo dentro do tema. Essa


constatação leva a observar-se que há um (micro)poder sendo exerci-
do neste caso, pelo grupo opositor ao presidente, em prol da imposição
de verdades que vão em confronto ao seu governo, entre elas: Bolso-
naro não deve ser reeleito; ele não é competente para realizar uma
boa política; ele é insuficiente, mesmo como homem; sua família está
envolvida em investigações policiais.

Conclusões

A partir das reflexões realizadas, considera-se que a produção


e controle de discursos pode ser acelerada a partir de ferramentas da
materialidade na qual circulam. No Twitter, por exemplo, os recursos
das hashtags e trending topics privilegiam tanto o uso de palavras e
expressões, como formações discursivas compartilhadas coletivamen-
te, que são alavancadas na plataforma através dessas ferramentas e
determinam socialmente quais os assuntos de mais destaque no mo-
mento, impondo, assim, uma verdade e um poder através do desejo
de uma maioria. No espaço digital esses recursos também produzem
silenciamentos, na medida em que a natureza dinâmica da rede e sua
frequente atualização sobrepõem os assuntos de interesse e excluem
outros, que venham a ser ultrapassados e caiam na lista de relevância.
Percebe-se também que, a partir da mobilização de arquivos
e recorrendo ao campo da memória, esses mecanismos permitem a
aglutinação de diversos acontecimentos discursivos na produção de
um novo, visto que o “novo não está no que é dito, mas no aconteci-
mento de sua volta” (FOUCAULT, 2008, p. 26). Desta forma, é pos-
sível que “textos” oriundos de outros formatos midiáticos (entrevista
audiovisual, neste caso), sejam retomados e transformados, adaptando
enunciados para novas materialidades.

49
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Em relação aos questionamentos centrais deste artigo conclui-


-se, pelas análises, que a relação estabelecida entre o comentário de
Michelle sobre a baixa energia de seu marido em casa e a intimidade
do casal foi estabelecida com a finalidade de criticar o desempenho
político do atual presidente da República.

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redes-sociais-influenciam-voto-de-45-da-populacao-indica-pesquisa-
-do-datasenado. Acesso em: 21 jan. 2021

BOLSONARO, Michelle. In: Entrevista com Michelle Bolsonaro - PARTE


2 | SEMPRE FELIZ. Rede Super de Televisão [Youtube]. 2018. (38m9s).
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DdTdq6UApf8.
Acesso em: 17 jan. 2021

Bolsonaro sobre vacina da Pfizer: ‘Se você virar um jacaré, é problema seu’.
ISTOÉ, 12 dez. 2020. Disponível em: https://istoe.com.br/bolsonaro-so-
bre-vacina-de-pfizer-se-voce-virar-um-jacare-e-problema-de-voce/.
Acesso em: 17 jan. 2021

Existe diferença entre web e internet? MUNDO DIGITAL, 12 mar. 2014.


Disponível em: http://www.mundodigital.net.br/index.php/noticias/in-
ternet-midia/6349-existe-diferenca-entre-web-e-internet. Acesso em:
22 jan. 2021.

Queiroz e a mulher depositaram R$ 89 mil em cheques na conta de Mi-


chelle Bolsonaro. G1, 7 ago. 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/
jornal-nacional/noticia/2020/08/07/queiroz-e-a-mulher-depositaram-
-r-89-mil-em-cheques-na-conta-de-michelle-bolsonaro.ghtml. Acesso
em: 17 jan. 2021

52
A FERRAMENTA TRENDING TOPICS E O CONTROLE DOS DISCURSOS: nos entornos dos sentidos de
uma hashtag

OSMAN, Maddy. Estatísticas e Fatos do Twitter Sobre a Nossa Rede


Favorita (2021). KINSTA, 3 jan. de 2021. Disponível em: https://kins-
ta.com/pt/blog/estatisticas-e-fatos-do-twitter/. Acesso em: 17 jan. 2021

TWITTER. Glossário. Central de ajuda do Twitter, [s.d.]. Dispo-


nível em: https://help.twitter.com/pt/glossary. Acesso em: 17 jan. 2021

53
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO


NO SITE SUPERELA.COM

Mylena Frazão da Cruz (UFMA)

Ilza Galvão Cutrim (UFMA)

Introdução

O feminismo é um movimento cuja articulação ocorre na Eu-


ropa, no século XIX, e cujo propósito é conquistar a equiparação dos
direitos sociais e políticos entre os sexos, por considerar que as mulhe-
res são iguais aos homens e, portanto, devem ter as mesmas oportu-
nidades.
Sobre o feminismo, Monteiro (2018) destaca a evidência que o
movimento ganhou nos últimos anos, apesar de não ser uma novidade.
No ano de 2017, feminismo foi eleita a palavra do ano pelo dicionário
norte-americano Merriam-Webster. Entre o final de 2015 e outubro de
2017, houve um aumento de 200% por feminismo na ferramenta de
buscas do Google (TANCREDI, 2018[2019]). Esse interesse pelo tema
pode ser explicado pelo fato de que nunca os direitos das mulheres
estiveram tão em pauta como agora. O movimento e suas temáticas
vêm sendo constantemente abordados em livros, músicas e na mídia
em geral.
A internet, mídia digital que surge nos anos 1960 e abrigo das
redes sociais, tornou-se o lugar de um agrupamento de práticas, que
contribuem para a constituição da subjetividade. Tais práticas estão
enredadas em uma trama de saberes e em um feixe de forças as quais
lhes são imanentes. Como lugar de um agrupamento de práticas e de
grande alcance de usuários, a internet possibilitou a emergência e pro-

54
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

pagação de um novo termo: “homem feministo”.


A fim de entender como o “homem feministo” é discursivizado,
nosso objetivo é analisar um artigo publicado no site superela.com, in-
titulado “Como identificar um homem feminista”, da jornalista Carina
Caldas, publicado em 4 de maio de 2017. Para tanto, tomamos como
aporte teórico os estudos discursivos foucaultianos, e deste campo mo-
bilizamos as noções de discurso, práticas discursivas, enunciado, dis-
positivo e (processo de) subjetivação.

Michel Foucault: sujeito e discurso

A obra de Michel Foucault “não se inscreve em um campo dis-


ciplinar específico e não se apresenta como um conjunto acabado. É,
antes, um conjunto de problematizações históricas que envolvem, en-
tre inúmeros aspectos, o sujeito e o discurso.” (FERNANDES (2011,
p. 1). As reflexões do filósofo francês perpassam diversos campos do
conhecimento, como a História, a Linguística e o Direito, causando
pequenas explosões. Segundo o próprio Foucault:
[...] Eu sou um pirotécnico. Fabrico alguma coisa
que serve, finalmente, para um cerco, uma guerra,
uma destruição. Não sou a favor da destruição, mas
sou a favor de que se possa passar, de que se possa
avançar, de que se possa fazer caírem os muros.
(FOUCAULT, 2006, p. 69)

O trabalho desenvolvido por Foucault influencia a reelaboração


dos conceitos da Análise do Discurso (AD) francesa, disciplina pensada
por Michel Pêcheux em meados da década de 60. Na segunda época da
AD, momento em que Pêcheux faz uma autocrítica ao seu modelo adota-
do na “análise automática do discurso”, ele traz a noção foucaultiana de
formação discursiva; mas é na denominada “terceira época” que

55
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

[...] Temporalmente se marca como o período


de 1980 a 1983 [...] aquela da “desconstrução
dirigida” […]. É o momento do encontro com a
“nova História”, de aproximação com as teses
foucaultianas, em que Pêcheux critica duramente
a política e as posições derivadas da luta na teoria e,
assim, abre várias problemáticas sobre o discurso,
a interpretação, a estrutura e o acontecimento.
(GREGOLIN, 2008, p. 64)

É desse momento de encontro entre Pêcheux e as teses


foucaultianas, momento de desconstrução e reelaboração, que
recolhemos alguns elementos que compõem a caixa de ferramentas,
tanto teóricas quanto metodológicas, deste trabalho.
Diversas das noções que os estudos discursivos foucaultianos
utilizam para fazer suas análises estão descritos em A Arqueologia do
Saber (2008), obra concebida, segundo Marques (2018), como livro-
-resposta, em que o filósofo elucida seus métodos, explica seus ter-
mos e seu pensamento. Nessa obra, aparecem algumas noções com as
quais Foucault opera sua análise – que em uma fase inicial buscavam
traçar um esboço da constituição dos saberes, como: enunciado, dis-
curso, arquivo e formação discursiva. Tal momento, em que o objeto
arquivo é o centro de investigação, Foucault denominou arqueologia.
Sobre esse método, o filósofo afirma:
[...] o que se tenta revelar, na história arqueológica,
são as práticas discursivas na medida em que dão
lugar a um saber, e em que esse saber assume o
status e o papel de ciência. Empreender nesse
nível uma história das ciências não é descrever
formações discursivas sem considerar estruturas
epistemológicas; é mostrar como a instauração
de uma ciência, e eventualmente sua passagem à
formalização, pode ter encontrado sua possibilidade

56
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

e sua incidência em uma formação discursiva e nas


modificações de sua positividade. Trata-se, pois, para
tal análise, de traçar o perfil da história das ciências
a partir de uma descrição das práticas discursivas;
de definir como, segundo que regularidade e
graças a que modificações ela pôde dar lugar aos
processos de epistemologização, atingir as normas
da cientificidade e, talvez, chegar ao limiar da
formalização. (FOUCAULT, 2008, p. 213)

Segundo Gregolin (2006), o método arqueológico permite ana-


lisar as redes de relações entre o discurso e outros domínios, como
instituições, acontecimentos políticos, práticas e processos econômi-
cos. A autora também afirma que esse método “envolve a escavação,
a restauração e a exposição de discursos, a fim de enxergar a positivi-
dade do saber em um determinado momento histórico” (GREGOLIN,
2006, p. 71).
Uma das noções presentes em A Arqueologia do Saber é a de
enunciado. Considerado o átomo do discurso, molécula menor de uma
formação discursiva, elemento atômico passível de ser isolado, unida-
de elementar de uma análise, Foucault pontua:
[...] um enunciado é sempre um acontecimento
que nem a língua nem o sentido podem esgotar
inteiramente. Trata-se de um acontecimento estranho,
por certo: inicialmente porque está ligado, de um
lado, a um gesto de escrita ou à articulação de uma
palavra, mas, por outro lado, abre para si mesmo uma
existência remanescente no campo de uma memória,
ou no registro; em seguida, porque é único como
todo acontecimento, mas está aberto à repetição, à
transformação, à reativação; finalmente, porque está
ligado não apenas a situações que o provocam, e a
consequências por ele ocasionadas, mas, ao mesmo
tempo, e segundo uma modalidade inteiramente

57
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

diferente, a enunciados que o precedem e o seguem


(FOUCAULT, 2008, p. 31-32).

Foucault diferencia a noção de enunciado e enunciação; en-


quanto o primeiro sempre possui uma materialidade, e por ser cons-
tituído de signos, tem substância que o torna repetível, o segundo “é
um acontecimento que não se repete; tem uma singularidade situada
e datada que não se pode reduzir” (FOUCAULT, 2008, p. 114).
O enunciado é compreendido como uma função do sujeito, o
que significa dizer que uma sentença só ganha estatuto de enunciado
quando proferida por um sujeito que ocupa uma determinada posição
em um lugar institucional, determinado por regras sócio-históricas que
definem e possibilitam que ele seja enunciado (FOUCAULT, 2008).
Outro conceito tratado em A Arqueologia do Saber é o de
discurso, concebido como um conjunto de enunciados apoiados em
uma mesma formação discursiva (FOUCAULT, 2008). O discurso é
constituído por um número limitado de enunciados, para os quais po-
demos definir um conjunto de condições de existência, por isso, ele “é,
de parte a parte, histórico – fragmento de história, unidade e descon-
tinuidade na própria história, que coloca o problema de seus próprios
limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos específicos
de sua temporalidade, e não de seu surgimento abrupto em meio às
cumplicidades do tempo.” (FOUCAULT, 2008, p. 133). Vinculadas à
noção de discurso, estão as noções de formação discursiva e prática
discursiva.
O método arqueológico centra-se nos sistemas de formação dos
enunciados e define-se pela dispersão. Todavia, é possível encontrar
uma regularidade em relação aos sentidos que os discursos promovem
a partir da noção de enunciado, regularidade e dispersão e que Fou-
cault (2008) concebe como formação discursiva.

58
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

Sobre essa noção, o filósofo afirma:


[...] No caso em que se puder descrever, entre um
certo número de enunciados, semelhante sistema
de dispersão, e no caso em que entre os objetos,
os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas
temáticas, se puder definir uma regularidade (uma
ordem, correlações, posições e funcionamentos,
transformações), diremos, por convenção, que se
trata de uma formação discursiva. (FOUCAULT,
2008, p. 43, grifo do autor)

Uma formação discursiva não é homogênea, mas constante-


mente atravessada de elementos que advêm de outras formações dis-
cursivas. Destarte, não é possível conceber uma formação discursiva
como um bloco fechado de sentidos, mas num espaço discursivo, rela-
cionando umas às outras nas suas relações de proximidade.
Relacionada a noção de discurso está também a noção de práti-
ca discursiva, sobre a qual Foucault afirma:
[...] Não podemos confundi-la com a operação
expressiva pela qual um indivíduo formula uma
ideia, um desejo, uma imagem; nem com a atividade
racional que pode ser acionada em um sistema de
inferência; nem com a “competência” de um sujeito
falante, quando constrói frases gramaticais; é um
conjunto de regras anônimas, históricas, sempre
determinadas no tempo e no espaço, que definiram,
em uma dada época e para uma determinada
área social, econômica, geográfica ou linguística,
as condições de exercício da função enunciativa.
(FOUCAULT, 2008, p. 133)

Esse conceito ordena como os discursos são fabricados em


meio a dispersão dos acontecimentos. Segundo Gregolin (2006), as
práticas discursivas não são apenas os lugares de onde os discursos

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

podem brotar, elas submetem-se aos lugares institucionais que deter-


minam a produção do que vai ser dito e como o produto dessa prática
vai circular. O que significa dizer que
[…] a instituição responsável pela formulação do
enunciado também é responsável pela produção de
sentidos, pois há nela uma vontade de naturalizar
um discurso. Para isso, as instituições são capazes de
excluir ou incluir sentidos nos discursos que veiculam.
Isso significa que as vontades de verdade que veiculam
também não estão alheias aos regimes de poder em
voga em dada época. (MARQUES, 2018, p. 43)

Sob esse prisma, “não há saber sem uma prática discursiva


definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela
forma” (FOUCAULT, 2008, p. 205). Como pontua Marques (2018, p.
43), “as práticas discursivas definem-se pelas regras específicas que
permitiram a elas enunciar sobre determinados objetos e formatá-los
ao sabor da História, organizando-se no interior de um arquivo, que as
permitem passar para o anonimato”.
Ademais dessas noções, apoiamo-nos também na noção de
(processo de) subjetivação. Tal termo, designa para Foucault
[…] um processo pelo qual se obtém a constituição de
um sujeito, ou, mais exatamente, de uma subjetividade.
Os “modos de subjetivação” ou “processos de
subjetivação” do ser humano correspondem, na
realidade, a dois tipos de análise: de um lado, os modos
de objetivação que transformam os seres humanos
em sujeitos – o que significa que há somente sujeitos
objetivados e que os modos de subjetivação são, nesse
sentido, práticas de objetivação; de outro lado, a
maneira pela qual a relação consigo, por meio de um
certo número de técnicas, permite constituir-se como
sujeito de sua própria existência. (REVEL, 2005, p. 82)

60
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

Os processos de subjetivação, através das relações de poder/


saber, atuam sobre o corpo do indivíduo por meio de técnicas discipli-
nares, ou seja, por meio da disciplina e governo do corpo, o que nos
leva a acreditar que as “novas formas de subjetivação cada vez mais se
relacionam com os modelos idealizados de corporeidade”. (MONTEI-
RO, 2014, p. 18)
Para melhor esclarecer estes processos de subjetivação, é ne-
cessário voltar à concepção de sujeito proposta por Foucault na sua
fase genealógica: um objeto historicamente constituído sobre a base de
determinações que lhe são exteriores. Distanciando-se da concepção
filosófica de sujeito, como aquele de autoconsciência livre e autocons-
truída, Foucault propõe uma construção de sujeito que se dá por meio
de práticas discursivas, assim como de técnicas que agem diretamente
sobre ele. O “sujeito se constitui sobre um fundo de uma identidade
psicológica, porém por meios de práticas que podem ser de poder ou
de conhecimento” (PRADO, 2009, p. 17). Essas práticas também são
denominadas de tecnologias de saber, de poder e de si.
Nesse sentido, o sujeito é histórico, produzido em sua própria
história segundo uma “história da verdade”, que tem suas tramas cons-
truídas no interior de práticas discursivas que determinam suas condi-
ções e possibilidades de existência em um processo de assujeitamento
fruto de relações de poder. Assim, a constituição do sujeito na trama
histórica é baseada em determinações que lhe são exteriores mas ja-
mais transcendentais, pois o sujeito universal idealizado é abstrato. O
sujeito concreto é formado por procedimentos diversos construídos
nas e pelas instâncias sociais, as universidades, as escolas, as igrejas.
Ao tomarmos esse sujeito como efeito de constituição e não
como instância fundadora, e ao pensarmos nessas instâncias de cons-
tituição ou contingências históricas como “não idênticas entre si no

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

tempo e no espaço, temos que considerar, pois, a existência de diferen-


tes formas de constituição do sujeito” (SILVA, 2014, p. 62). A essas for-
mas que constituem o sujeito se dá o nome de modos de subjetivação.
Essas práticas ou modos de subjetivação aparecem nos traba-
lhos de Foucault no modo como o sujeito é objetivado em relações de
saber-poder e no modo como ele, uma vez objetivado segundo essas re-
lações, se relaciona consigo mesmo, subjetivando-se. O homem consti-
tui sua identidade socialmente na relação dialética entre a objetividade
e a subjetividade.
Resultado de uma construção, de uma fabricação realizada por
práticas discursivas, esse olhar sobre o sujeito promove mudanças nos
saberes e sua consequente articulação com os poderes, o que ocorre
no entrecruzamento entre discurso, sociedade e história, fundamental
para os estudos discursivos foucaultianos.
Para Foucault, são os dispositivos e suas técnicas de fabricação
que instituem o sujeito. A internet, por exemplo, por meio de suas tec-
nologias discursivas, produz, pelo discurso, um saber sobre o que é ser
um “homem feministo”.
Pautando-nos nessas considerações, analisamos discursos pro-
duzidos pelo site superela.com sobre o que é ser um “homem feminis-
to”. O objetivo de nossa análise é avaliar de que forma esse sujeito é
construído/objetivado por práticas discursivas.

O “homem feministo” discursivizado na Internet

Criada em 1969, durante a Guerra Fria, para ser utilizada como


ferramenta militar de transmissão de informações entre instituições
governamentais norte-americanas, a Internet – primeiramente cha-
mada de Arpanet –, foi além de sua função inicial e tornou-se um
conjunto bastante diversificado de estratégias, discursos, instituições,

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O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

leis, regras e normas morais, enfim, um dispositivo que reúne sujeitos,


objetivando-os e subjetivando-os.
O dispositivo, conforme destaca Deleuze (1996), é a noção
central que atravessa toda a obra foucaultiana. Para Foucault, o que
importa não é o que somos, mas o que estamos em vias de nos tornar,
sendo sob essa perspectiva que deve ser compreendida a análise dos
dispositivos, não com o intuito de traçar nosso rosto, mas para fazer
escapar as linhas que o esboçam. Essa ideia de traços e linhas ressalta
a atividade de cartógrafo que Foucault empreendia em suas análises,
e é ela que norteia a análise de Deleuze dos dispositivos foucaultianos.
Deleuze (1996, p. 29) refere-se ao dispositivo como “um con-
junto complexo entrecortado por linhas de natureza diversas”. Todas
as variáveis possíveis que se apresentam nessas diversas linhas – di-
mensões, curvas, regimes – do dispositivo conferem-lhe um caráter
móvel no qual suas instâncias não possuem contornos definidos. É
nesse sentido que o dispositivo é concebido: em termos de linhas mó-
veis, linhas que não apenas o compõe (linhas de sedimentação), mas
que o atravessam diagonalmente (de fissura, de fratura). As linhas são
submetidas a variações de direção, a derivações.
Deleuze (1996) enumera quatro dimensões para o dispositivo:
curvas de visibilidade (também chamadas de linhas de luz); curvas
de enunciabilidade; linhas de força e linhas de subjetivação. As duas
primeiras dimensões correspondem ao que pode ser visto e o que deve
ser oculto, e o que pode ser dito e o que precisa ser omitido; são as li-
nhas do visível e do enunciável. A terceira dimensão, as linhas de força,
corresponde aos poderes que controlam as duas primeiras dimensões,
atravessando-as constantemente. As linhas de força
[…] vão de um ponto singular a outro, nas linhas
de luz e nas linhas de enunciação; de algum

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

modo, elas retificam as curvas dessas linhas, tiram


tangentes, cobrem os trajetos de uma linha a outra
linha, estabelecem o vaivém entre o ver e o dizer,
agem como flechas que não cessam de entrecruzar
as coisas e as palavras, sem que por isso deixem
de conduzir a batalha. A linha de forças produz-
se em toda a relação de um ponto a outro e passa
por todos os lugares de um dispositivo. Invisível e
indizível, ela está estreitamente enredada nas outras
e é totalmente desenredável. […] É a dimensão do
poder, e o poder é a terceira dimensão do espaço,
interior ao dispositivo, variável com os dispositivos. É
uma linha composta com o saber, tal como o poder.
(DELEUZE, 1996, p. 1-2, grifos do autor)

A quarta e última dimensão são as linhas de subjetivação. Essa


quarta dimensão surge de uma crise no pensamento de Foucault. Era
“como se lhe fosse necessário alterar o mapa dos dispositivos, encon-
trar-lhes uma nova orientação possível, para não os deixar encerrar-se
simplesmente nas linhas de força intransponíveis que impõem contor-
nos definitivos” (DELEUZE, 1996, p. 2). Essa necessidade que Fou-
cault sente culmina no pensar nas linhas que não cessam de escapar
do dispositivo, provocando uma ruptura, uma dobra, um escape:
[...] Foucault pressente que os dispositivos que
analisa não podem ser circunscritos por uma linha
que os envolve sem que outros vetores não deixem
de passar por baixo e por cima: transpor a linha,
como ele diz; será isso passar para outro lado? Este
superar da linha de força, em vez de entrar em
relação linear com uma outra força, se volta para a
mesma, atua sobre si mesma e afeta-se a si mesma.
(DELEUZE, 1996, p. 2, grifos do autor)

Essa dimensão do “Si Próprio” que ele encontra não é de ma-


neira alguma preexistente, algo que se possa encontrar já terminado.
64
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

“Não diz respeito a um sujeito soberano que determina sua própria


existência” (SALES, 2016, p. 9). As linhas de subjetivação são um pro-
cesso, uma produção de subjetividades em um dispositivo; estão para
se fazer, são as linhas de fuga, pois escapam às outras linhas. E ainda,
“O Si Próprio não é nem um saber nem um poder. É um processo de
individuação que diz respeito a grupos ou pessoas, que escapa tanto
às forças estabelecidas como aos saberes constituídos: uma espécie de
mais-valia” (DELEUZE, 1996, p. 2)36.
Consideramos, ainda, dispositivo como “[…] qualquer coisa que
tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar,
interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as
opiniões e os discursos dos seres viventes” (AGANBEM, 2009, p. 40).
Nessa perspectiva, entendemos a Internet como um dispositivo de
produção e circulação de discursos, dentre eles aqueles que promo-
vem saberes sobre o que é ser um “homem feministo”.
Nesse sentido, ao referirmo-nos ao “homem feministo” como
sujeito, distanciamo-nos da ideia de um indivíduo autônomo, centra-
do, cuja subjetividade seria produto de seu devir. Ele é por nós enten-
dido como uma produção que ocorre na esteira do discurso.
Ao fazermos uma busca na ferramenta de buscas Google37 sobre
“homem feministo”, encontramos mais de 10 páginas de resultados,
não somente em língua portuguesa, o que nos levou a limitar a nossa
busca a páginas em português e a períodos específicos, até que chega-
mos a 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2010.

36 Em sua tradução, Sales (2016) cita: “O Si não é nem um saber nem um poder.
É um processo de individuação que se põe sobre grupos ou pessoas e se subtrai das
relações de força estabelecidas, bem como dos saberes constituídos” (DELEUZE,
1996, p. 318 e 319).
37 Pesquisa realizada em 21 de janeiro de 2021, às 15h36, utilizando as configurações
de pesquisa oferecidas pelo próprio site.

65
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

O termo “homem feministo” começa a aparecer com frequên-


cia a partir do ano de 2012, com variações como “omi feministo”, in-
clusive em redes sociais como o Twitter e até em trabalhos acadêmicos,
como o artigo “O humor como estratégia de resistência na série ‘Mar-
cha dos Vadios’”, de Alice Porto dos Santos, publicado em 2017.
Disponível no site superela.com, site direcionado ao público fe-
minino, desde 2017, está também o artigo que escolhemos analisar. O
conteúdo desse site é produzido por mais de 200 colunistas. Dentre
elas Carina Caldas, uma jornalista, feminista, que escreve sobre moda,
beleza e empoderamento38.
O artigo de Caldas (2017), intitulado “Como identificar um ho-
mem feminista”, apesar de não trazer o termo “feministo” no título,
o menciona no corpo do texto, composto por oito parágrafos: os três
primeiros precedem o tópico “O feministo na mídia”, e os outros cinco
parágrafos contam com três imagens, sendo a última delas uma captu-
ra de tela da rede social Facebook. Segue o artigo:

Como identificar um “homem feminista”

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O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

O feministo na mídia

67
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

No texto de Sasha Borissenko, na Vice, ela classifica dois tipos


de esquerdomachos: (basicamente um feministo de esquerda):
“O tipo um usa seus valores progressistas exteriores para atrair mu-
lheres, principalmente no reino público das redes sociais, enquanto
mantém secretamente valores não tão igualitários assim. O tipo dois
vê as mulheres como objetos dispensáveis e as tratam mal para es-
conderem suas inseguranças. Fingindo para o mundo, e até para eles
mesmos, que querem libertar os oprimidos do mundo, eles ganham

68
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

uma reputação angelical enquanto continuam confortáveis nas estru-


turas dominantes do patriarcado. Nos dois casos, é uma combinação
de arrogância por tudo e todos – em seus próprios termos – que define
o esquerdomacho.”

Nos três primeiros parágrafos, é possível identificar uma produ-


ção de saberes sobre o que é ser um “homem feministo”. Na sequência
do artigo, alguns artistas famosos servem como exemplo ilustrativo do
que seria um “homem feministo”.
No primeiro parágrafo, o discurso de construção desse homem
está inserido em uma ordem que não representa as mulheres, pois
esse homem é “politicamente correto, luta por justiça social, não se
assume machista, apoia as mulheres, mas nunca enxerga o silencia-
mento que produz, não entende sobre lugar de fala, é especialista em
querer ensinar o que é feminismo”. Resumindo: ele quer caber em
um lugar que não é seu. Vale lembrar que ser “politicamente correto”
é visto sob uma perspectiva positiva (sinônimo de educação, por exem-
plo) e também sob uma perspectiva negativa, “uma espécie de censura
que impede que as pessoas falem livremente sobre todos os assuntos”,
segundo a pesquisadora Moira Weigel, em entrevista a Elisa Martins39.
Importante ressaltar, também, o tom irônico utilizado pela autora ao
dizer que esse homem luta por justiça social.

39 MARTINS, E. ESTUDIOSA DO POLITICAMENTE CORRETO AFIRMA QUE


ELE NÃO EXISTE. É UM “INIMIGO IMAGINÁRIO”. DISPONÍVEL EM: HTTPS://
EPOCA.GLOBO.COM/ESTUDIOSA-DO-POLITICAMENTE-CORRETO-AFIRMA-QUE-ELE-
NAO-EXISTE-UM-INIMIGO-IMAGINARIO-23374222

69
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

No segundo parágrafo, o texto segue falando do lugar do homem


no feminismo: o “homem cis”40 tem permissão para apoiar as campa-
nhas em prol dos direitos das mulheres, mas não tem permissão para
ser chamado de “feminista” já que não é vítima de machismo, como
as mulheres. Se um homem quiser manifestar apoio ao movimento
feminista, ele deverá ser chamado de “pró-feminista”. Sobre o uso de
“feministo”, essa escolha é assim justificada no texto: “A escolha pela
palavra ‘feministo’ tem o propósito de demarcar que ‘feminista’ não
é neutra como as palavras masculinas se pretendem e demarca, sim,
a presença definida pela mulher”. Nesse sentido, a palavra feminista
não se adequaria ao homem. O que nos leva a uma pergunta: o que
esse discurso põe em funcionamento? A palavra feminista é uma marca
da presença “da mulher”, na medida em que as palavras são também
construções, são práticas que formam sistematicamente os objetos de
que falam. Somente à mulher cabe esse lugar de fala. Para o homem
falar do lugar de pró-feminista, ele precisaria, ainda, reconhecer o lu-
gar privilegiado que ocupa, que é de “ter nascido homem, cis, e em
alguns casos, branco”, um lugar que se adequa a uma normatividade
e revela práticas muito concretas presentes no discurso, resultado de
uma produção histórica, política.
O homem pró-feminista não deve fazer uso do “poder
patriarcal”41 para roubar o “lugar de fala”42 da mulher e praticar

40 Condição de uma pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao gênero que


lhe foi atribuído no nascimento.
41 “O patriarcalismo é uma forma de construção social baseada no patriarcado.
O patriarcado é o domínio social ou uma estrutura de poder social centralizada
no homem ou no masculino. É baseada na própria ideia de paters, figura do pai”.
(FERREIRA NETTO, L. R. Patriarcalismo. InfoEscola. Disponível em: <https://
www.infoescola.com/sociedade/patriarcalismo/>. Acesso em: 05 jan. 2021.)
42 Sobre “lugar de fala” ver RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte
(MG): Letramento: Justificando, 2017.

70
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

mansplaining43. Um homem com esses comportamentos não seria


um homem pró-feminista, mas sim um homem feministo.
As coisas ditas sobre o que é ser homem feministo estão
amarradas às dinâmicas de poder e saber de uma época e ganham
maior visibilidade no dispositivo internet pelo alcance que essa rede
permite. Elas se inscrevem em formações discursivas que atuam
na construção de um saber e se formam segundo um certo regime
de verdade – ser “’homem feministo” significa não pertencer a um
determinado lugar de fala, significa fazer uso de um poder patriarcal
para se apresentar como alguém que defende a causa das mulheres,
significa alguém que está sempre querendo se explicar como apoiador
das causas das mulheres.
O comediante e ator britânico Russell Brand, o ator norte-ame-
ricano Leonardo DiCaprio e o ator e cantor brasileiro Dado Dolabella
são personalidades que ilustram as discussões do artigo e estão inse-
ridas em um dispositivo cujo regime de luz tem um longo alcance e é
formado por linhas do saber que comportam curvas de visibilidade e
de enunciação.
A maneira como o regime de luz do dispositivo se propaga faz
com que nasça ou desapareça um objeto de discurso. Ao projetar luz
sobre o objeto “homem feministo”, o site superela.com o faz segundo
condições históricas específicas: o movimento feminista tem visibilida-
de na internet e dá às mulheres condições de lutarem por um lugar
de fala. O sujeito homem parece querer disputar com as mulheres e
faz isso “reivindicando” um lugar que sempre foi seu: o da visibilidade.
Isso é evidente em manifestações de mulheres que têm a presença de
homens, como ilustra a imagem a seguir:

43 A tradução literal de mansplaining seria “homem explicando”.

71
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Figura 1 – Marcha das Vadias

Fonte: feministo inseguro on Twitter: “http://t.co/qoWMn4ylcQ”

Considerando que um dispositivo é uma máquina enun-


ciativa que produz o regime de dispersão dos enunciados em um
conjunto de práticas discursivas, como também indica as diversas
posições do sujeito e do objeto no discurso, as práticas discursivas
desse sujeito enunciador, feminista, produzem, discursivamente, o
que esse objeto do discurso – o homem – deve/não deve ser. Tudo
isso é engendrado por linhas de força que articulam o ver e o dizer
e definem as condições de possibilidade do saber. Nesse sentido,
o saber sobre esse homem é resultado de dizeres provenientes do
olhar de um enunciador (sujeito mulher), que fala de um lugar
(de feminista, de mulher vítima do machismo) institucional que
vai contribuir na determinação desse sujeito. As linhas atuam de
um ponto a outro dessas curvas de visibilidade e enunciabilidade
e dobram-se umas sobre as outras, tecendo a urdidura do saber.
(WEINMANN, 2006)

72
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

Sobre Russell Brand, que usa o humor para “educar as pes-


soas sobre causas sociais” e manifesta-se a favor dessas causas,
apoiando inclusive políticas de gênero, é dito que ele é um “homem
feministo” porque objetifica as mulheres e não tem maturidade
para terminar, pessoalmente, seus relacionamentos, como fez com
Katy Perry, de quem se divorciou por mensagem de texto.
Um outro exemplo de “homem feministo” seria o ator Leo-
nardo DiCaprio, que ao receber a estatueta do Oscar se manifestou
em favor de elevar as vozes sufocadas, o que “incluiria as mulhe-
res”, mas se relaciona afetivamente com mulheres que estão dentro
de um padrão de beleza (brancas, magras, altas e loiras), conforme
demonstra a foto em que ele está cercado por algumas de suas ex-
-namoradas.
O último exemplo é de um brasileiro: Dado Dolabella. Di-
ferentemente dos dois primeiros, não há foto de Dado, mas uma
captura de tela de seu perfil na rede social Facebook com alguns
comentários do ator.
Esses comentários são respostas a uma postagem feita em
2016 por Renata Penna que questionava o patrocínio da marca
Nestlé a um evento de pediatria, porque, segundo Penna, não faz
sentido “a Coca-Cola organizar evento de vida saudável”, da mes-
ma forma que não faz sentido “Dado Dolabella falar sobre violência
contra a mulher” já que ele foi acusado de agressão por ex-namo-
radas.
O ator e cantor questiona o porquê de ninguém falar sobre a
agressão contra homens e animais e se diz feminista e humanista.
É válido ressaltar que a frase “Mais feminista q eu?”, dita por Dado,

73
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

deu origem a memes44, ao Tumblr45 “Coisas mais feministas que o


Dado Dolabella”46.
Na dispersão dos dizeres sobre esse “homem feministo” (politi-
camente correto, que luta por justiça social, que nunca se reconhece
machista, que se diz apoiador das mulheres), aquele que mais alcan-
çou visibilidade na mídia foi o homem branco, hetero e da classe artís-
tica, que age na contramão do que prega.
No penúltimo parágrafo, Caldas (2017) reproduz parte de um
artigo de Sasha Borissenko, publicado no site vice.com, em 11 de abril
de 2016, intitulado “Como identificar um esquerdomacho: os caras
que acreditam em justiça social mas são sacanas com as minas”. A
colunista caracteriza esse “esquerdomacho” como um “feminista de
esquerda”. Não iremos analisar esse parágrafo já que boa parte dele é
citação de outro artigo que não integra nosso corpus e que necessitaria
de um artigo à parte.
O texto finaliza com uma dica para as mulheres leitoras para
que não se iludam com a aparência – barba grande, camisa de flanela
e botas de lenhador – características “positivas” de um homem, que
ainda faz uso do Tinder (aplicativo de relacionamento) com referên-
cias a filmes cults, bem conceituados pela crítica. Esse homem, ainda
que bem intencionado, não vai ser cem por cento desconstruído. Um
homem feministo seria

44 Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller O Gene
Egoísta. Na Internet, o termo é usado para descrever uma imagem, um vídeo e/
ou um gifs (do inglês Graphics Interchange Format, em tradução livre Formato de
Intercâmbio de Gráficos) geralmente humorísticos que se espalha rapidamente.
45 Tumblr é uma plataforma de blogging que permite aos usuários publicarem
textos, imagens, vídeo, links, citações, áudio e “diálogos”.
46 Link para o Tumblr “Coisas mais feministas que o Dado Dolabella”: https://
coisasmaisfeministasqueodado.tumblr.com/

74
O SUJEITO “HOMEM FEMINISTO” DISCURSIVIZADO NO SITE SUPERELA.COM

Talvez uma camuflagem contemporânea de príncipe


encantado. O homem despido do machismo, sensível
e de barba florida. Mais do que isso, irá conduzir a
donzela na maneira correta de ser feminista, ou seja,
sem fazer nada que possa deixá-lo desconfortável e
inseguro de si. (SANTOS, 2017, p. 3)

Em outras palavras, o “homem feministo” parece ser aquele


que sempre tem razão e quer chamar atenção para sua “sabedoria”.

Considerações Finais

Com base na arqueogenealogia, este artigo fez uma análise de


como algumas práticas discursivas, produzidas no dispositivo internet,
produzem saberes sobre o “homem feministo”.
As análises nos permitiram observar que esse sujeito “homem
feministo” é subjetivado no interior de práticas discursivas formadas
por um conjunto de regras anônimas e históricas, em meio a dispersão
de enunciados. Essas práticas que constroem esse sujeito articulam
sua visibilidade e dizibilidade. O “homem feministo” seria aquele que,
apesar de apresentar boas intenções, “não vai ser cem por cento des-
construído”, e “nunca se reconhece machista”.

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78
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO


HORÓSCOPO DIGITAL

Leudson da Silva Coêlho (UFMA)

Maria da Graça dos Santos Faria (UFMA)

Introdução

O estudo da argumentação no discurso permite investigar o


modo pela qual a palavra oral ou escrita age sobre o interlocutor, ora
levando-o a uma tomada de posição, ora direcionando sua visão do
real. É compreender a tese de que toda fala busca, intencionalmen-
te ou não, ter influência sobre o outro, argumentação, em outras
palavras, não é um tipo de discurso entre tantos outros, ou seja, é
parte integrante do discurso.
Naturalmente, há gêneros cuja intenção de persuadir é bas-
tante clara ou mesmo evidente que têm, segundo Amossy (2018),
uma visada argumentativa. Há, contudo, discursos que não são
concebidos como ações de persuasão e nos quais a argumentação
não surge como consequência de uma finalidade declarada, nem
explícita e, às vezes, é até negada pelo locutor: estes têm uma di-
mensão argumentativa.
Desse modo, é preciso considerar que a argumentação no
discurso pode observar os funcionamentos discursivos estudados
em si mesmo ou oferecer instrumentos para análise de textos con-
cretos, permitindo, assim, abarcar corpora mais amplos e deles ex-
trair particularidades (AMOSSY, 2018).
Entre esses textos concretos, adotamos, como base teórica,
os textos de incitação à ação que, conforme Adam (2019), oscilam

79
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

entre um domínio procedural e um domínio de conselho, mas que


é bastante comum a mistura de conselhos/recomendações e das
instruções procedimentais.
Os textos de incitação à ação são heterogêneos composicio-
nalmente, apresentam inúmeras regularidades microlinguísticas, e
“são destinados a facilitar e a guiar a realização de uma tarefa ou
macroação do sujeito que a deseja ou que é responsável por fazê-la”
(ADAM, 2019, p.255).
Investigamos, assim, como o gênero horóscopo digital da pá-
gina “astroloucamente” da rede social Instagram, como um texto de
incitação à ação, pode também apresentar diferentes modalidades
argumentativas (AMOSSY, 2018). Essas modalidades são catego-
rias de paradigmas nas realizações verbais no que se refere à argu-
mentação, ou seja, são modos de persuadir. Nessas modalidades, há
em comum alguns parâmetros como: a delimitação dos papéis na
enunciação, o tom dos interlocutores (racional, agressivo, emotivo
etc.); e a proximidade ou distância social na enunciação.
Então, com isso, buscamos destacar que o gênero horóscopo
possui características das modalidades patêmica e pedagógica
(AMOSSY, 2018). Além disso, descrevemos, ainda, as características
linguísticas comuns que definem esse gênero como um texto de
incitação à ação.

Texto de incitação à ação

Nos primeiros trabalhos teóricos sobre sequências textuais,


Adam (2019), com base nos trabalhos de Werlich, admitia a
possibilidade de uma sequência descritiva agrupar gêneros como
a receita culinária, a instrução de montagem, as ordens, os
regulamentos, as regras de jogo, os guias de viagem, o horóscopo,

80
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

profecia e até o boletim meteorológico.


O argumento de Werlich (1975) era diferenciar cuidadosa-
mente o arranjo temporal das ações e dos eventos reais ou imaginá-
rios próprios da narrativa do arranjo das instruções-prescrições, que
visam ao comportamento esperado do destinatário, e até mesmo do
próprio locutor. “Enquanto a narrativa relata as ações, as instruções-
-prescrições incitam diretamente à ação” (ADAM, 2019, p. 254).
Não obstante, outros autores também já indicavam a existên-
cia de um discurso procedural, como Greimas (1983), que compre-
ende, nesse discurso, um sujeito “programador competente” que
transfere um conhecimento para um sujeito “realizador” a quem
se recomenda seguir as indicações dadas nas fases ou etapas su-
cessivas de um processo a ser executado. “As receitas de cozinha,
as partituras musicais e as plantas dos arquitetos” (ADAM, 2019, p.
254). Admitia, ainda, que o texto de incitação à ação do tipo recei-
ta como uma espécie de narrativa pela presença de predicados de
ação e de uma temporalidade. Adam, por sua vez, discorda dessa
compreensão, pois:
O protótipo de sequência narrativa leva a considerar
todas as transformações de um estado inicial a um
estado de chegada como um movimento narrativo.
Esquece-se uma diferença fundamental: os textos
procedurais ou programadores não envolvem
nenhuma reflexão sobre o agir humano e sobre
a inscrição do homem no tempo (ADAM, 2019,
p. 257).

Garavelli (1988), também, apresentava a existência de uma


categoria de “textos reguladores”, ou seja, que visam regular um
comportamento de um destinatário, indivíduo ou grupo, presente
ou ausente, determinado ou não. “Nessa categoria estão as instru-

81
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

ções de uso, as receitas e todas as formas de manuais em geral,


os textos jurídicos, os manuais de etiqueta, memorandos” (ADAM,
2019, p. 254).
Heinz-Helmut Luger (1995), em um estudo da imprensa
alemã, sistematiza as instruções de uso e os conselhos, que cor-
respondia à categoria de textos de conselho que “invadem cada vez
mais a imprensa contemporânea” (ADAM, 2019, p. 254).
Adam (2019) afirma que os textos de incitação à ação não
possuem um mesmo protótipo de sequência textual, pois “as regu-
laridades microlinguísticas são numerosas demais para constituir
um tipo de texto, malgrado as diferenças das práticas discursivas
em jogo” (ADAM, 2019, p. 254). Além disso, não existe macropro-
posições composicionais que sejam abrangentes a todos os gêneros
de incitação à ação. Para o teórico, as regularidades percebidas são
impostas por um nível superior – gêneros discursivos, formação so-
cial e ações linguageiras realizadas.
Por essa razão, haveria mais diferenças do que semelhanças
entre os gêneros com discurso procedural, como as receitas, os ma-
nuais de instrução, os gêneros com injunção, como os conselhos de
beleza, o horóscopo, os regulamentos, as regras de jogo, os manuais
de etiqueta. Em função disso, toda essa complexidade dos gêneros,
das práticas discursivas e das regularidades microlinguísticas, deve
ser observada como um quadro epistemológico mais complexo.
Adam (2019) usa, portanto, a nomenclatura de “discurso de
incitação à ação”, ao invés de “discurso procedural”, pois a catego-
ria desses textos factuais que visam a um propósito prático (guiam
a realização de uma tarefa) é extensa demais, e o termo procedural

82
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

não compreenderia todas as possibilidades47, já está mais relaciona-


do a injunções, aconselhamentos para praticar certos procedimen-
tos. Como salienta o autor:
A grande característica desses textos é a presença
massiva de predicados de ação: da proibição da
ação (proibido fumar) à injunção para agir de
maneira procedural (toque a campainha e entre),
passando pela representação de ações sucessivas
e de protocolos de ação. Essas ações estão no
infinitivo, no imperativo, no futuro ou presente.
Devido à densidade dos predicados de ação, esses

47 Adam (2019, p. 256-257) enumera as seguintes possibilidades:


• Enunciados injuntivos, textos de lei, instruções e regulamentos (laicos e
religiosos) [T1 a T4, T8]
• Instruções de montagem
• Regras de jogo
• Título das mídias (revistas, jornais, rádios e televisão) [T9, T11, T12, T14] e
obras de ensinamento moral, de educação, de saúde etc. [T10]
• Receitas de cozinha (desde o livro de um grande chef até a simples indicação
de embalagem de um produto [T25], passando pelas receitas culinárias das
revistas) [T20, T21, T23, T24].
• Guias de itinerários (de trilha, de alpinismo, de visita turística a um lugar
cultural ou natural) sob forma de formulário [T22, T26] ou de livro [T27].
• Receitas médicas e farmacêuticas [T18]
• Didascálias teatrais dando instruções de montagem e de encenação de
atores
• Manuais ou fichas de bricolagem, jardinagem, adestramento etc [T5, T6,
T7, T15].
• Modos de funcionamento e manuais de utilização (instruções explicativas)
de produtos, máquinas, aparelhos, softwares etc. [T16, T17].
• Manuais de precaução de uso e manutenção
• Manuais de regra de conduta e de etiqueta
• Manuais de procedimento (farmácia e química)
• Promessas eleitorais (promessas de fazer) e publicitárias [T13]
• Horóscopos [T19]

83
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

textos incluem muitos organizadores e advérbios


temporais (especificando a sucessão e/ou duração
das operações ou suboperações) bem como
organizadores e advérbios locativos (principalmente
os guias de viagem, de passeio, de excursão, mas
também manuais para indicar a parte precisa de
um objeto sobre o qual uma operação deve ser
realizada). Encontramos, por outro lado, poucos
conectores argumentativos e muito menos ainda
concessivos. (ADAM, 2019, p. 255)

O caráter obrigatório e o grau de restrição de atos de discursos


imperativos sofrem variação de um gênero para o outro: a liberdade de
não seguir a injunção-recomendação é muito baixa para todos os gêne-
ros reguladores (instruções e regulamentos), muito alta para os conse-
lhos e outros horóscopos, média para os gêneros procedurais (receitas,
guias, instruções de montagem).
Parte dos textos de incitação estão voltados para a injunção,
isto é, para o aconselhamento ou para possibilidade de conduzir, de
regular a ação do outro. Outros são mais procedimentais, como receita
de cozinha e manual de instrução. Dessa forma, Adam (2019, p. 262)
defende que se ganha “ao falar mais amplamente de discurso de inci-
tação à ação”. Esse discurso é permeado de atos ilocutórios diretivos e
de expressões do campo de conselhos. “Aconselhar é indicar a alguém
o que deve ou não fazer, e essa orientação vai sugerir, recomendar e
propor até pressionar, incitar, levar, passando por advertir, avisar, guiar,
persuadir, convencer, dirigir” (ADAM, 2019, p.262).
Adam (2019) afirma ainda que os textos de natureza mais pro-
cedimental, como os manuais de instrução, guia de trilhas, os aconse-
lhamentos ou recomendações, trazem uma abundância de imperati-
vos e são colocados em destaque pela tipografia (negrito, sublinhado,
maiúsculas, itálico). Nesse sentido:
84
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

Com o propósito de levar o interlocutor a executar


passos precisos, os instrucionais e os guias não
podem oscilar entre a recomendação e influência
coercitiva, por isso, quando esses textos trazem
conselhos, eles não mera consequência das “ordens
expressas. (CAVALCANTE; BRITO, 2020, p. 128)

Em contrapartida, os textos da categoria de conselhos, como,


por exemplo, o horóscopo também traz atos imperativos, porém a for-
ça ilocutória desses atos estão mais para a recomendação do que da
injunção (ordem de ações). É pela natureza de gêneros como o horós-
copo que Adam observa que: “os textos de incitação à ação oscilam en-
tre um domínio procedural e um domínio de conselho. A mistura dos
conselhos-recomendações e das instruções procedurais, no entanto, é
a forma mais frequente”. (ADAM, 2019, p. 274-275).
Assim sendo, os textos que entram nessa vasta e confusa cate-
goria são factuais e todos visam a uma finalidade prática (mesmo o ho-
róscopo, que se aproxima mais do conselho do que da programação).
Como destaca o autor:
Esses textos são destinados a facilitar e a guiar a
realização de uma tarefa ou macroação do sujeito
que a deseja ou que é responsável por fazê-la. A
presença de um léxico relevante de um domínio
especializado se explica pela precisão pretendida
e pelo fato de que o universo de referência é
comum ao produtor e ao leitor-destinatário. Os
conhecimentos de mundo, os scripts, um léxico e
uma série de unidades fraseológicas são, portanto,
compartilhados (ADAM, 2019, p. 255).

As práticas sociodiscursivas dos textos que incitam à ação são


bem distintas, porém apresentam muitas regularidades linguísticas,
“por isso brota daí um ar de família” (ADAM, 2019, p. 275). Essas re-

85
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

gularidades linguísticas são compostas por: características enunciati-


vas (C1); contrato de verdade e premissa de sucesso (C2); léxico espe-
cializado (C3); representação de ações e força ilocutória (C4); marcas
de conexão (C5) e macrossegmentação tipográfica (C6).
Em relação às características enunciativas (C1) há um para-
doxo aparente que regula enunciativamente os textos de incitação
à ação. A voz do enunciador é apagada com o propósito de conferir
maior credibilidade as informações apresentadas. Por outro lado, o lu-
gar do sujeito-agente (destinatário) é deixado pronominalmente aberto
(você). Ele pode, assim, ser ocupado por cada leitor-usuário.
Sobre o contrato de verdade e promessa de sucesso (C2) existe
um acordo relativo às informações fornecidas. Esse acordo implícito
permite ao destinatário que, se ele seguir todas as recomendações e os
procedimentos indicados, alcançará o objetivo visado. “Sob esse aspec-
to, o horóscopo não difere das diversas formas de instrução e de outros
guias” (ADAM, 2019, p. 276).
Além disso, em cada gênero, existe um léxico próprio de um
domínio especializado (C3). O léxico é imposto pela precisão informa-
cional buscada e pelo fato de o conhecimento do universo de referên-
cia (esporte, jardinagem, bricolagem especializada, medicina, cozinha
etc.) ser supostamente comum aos coenunciadores.
Outra característica importante dos textos de incitação à ação é
a representação de ações e força ilocutória (C4). Aqui há a abundância
de predicados representando ações temporais sucessivas e atualizadas
verbalmente no infinitivo, no imperativo, no futuro ou no presente. In-
dicações complementares modalizam certas ações informando muito
precisamente sobre o modo de fazer e/ou acrescentando a isso verbos
modais do tipo poder e dever.
Há ainda a caraterística (C5) que ressalta a importância

86
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

dos conectores nos textos. “Os organizadores temporais permi-


tem precisar a sucessão e/ou a duração das operações e das su-
boperações” (ADAM, 2019, p. 278). A presença de organizadores
locativos caracteriza, principalmente, “os guias de viagem, de
caminhada, de excursão, mas também para indicar a parte pre-
cisa de um objeto sobre a qual se dá uma operação conforme
instrução de uso, manuais, etc.” (ADAM, 2019, p. 278).
Por último, como característica de macrossegmentação tipográ-
fica (C6), marca a forma como visualmente os textos de incitação à
ação são apresentados, isto é, com a presença de elementos alfanu-
méricos, fotografias, desenhos, infográficos, mapas, esquemas, com o
propósito não só de dizer, mas de mostrar como fazer.

O gênero horóscopo digital

A busca por previsões e prognósticos é tão antigo quanto à pró-


pria existência humana. Desde a Antiguidade, o homem tem interesse
pela astrologia na busca por respostas na relação que se estabelece
entre o movimento dos corpos celestes e os acontecimentos terrestres.
Assim, o principal meio de divulgação da astrologia foi por meio
do horóscopo que, por sua vez, foi ocupando cada vez mais espaço
nos meios de comunicação de massa. No Brasil, essa atividade não foi
diferente; a maioria dos jornais e revistas têm espaço destinado para
textos astrológicos com pequenas informações sobre previsões diárias
para os signos do zodíaco.
Um dos principais nomes de divulgação foi o astrólogo Omar
Cardoso, que nos anos de 1950 começa uma atividade de comunica-
ção social, atuando em São Paulo e Rio de Janeiro, com várias publi-
cações em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão (SUZUKI,
2007, p. 34).

87
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Posteriormente, o horóscopo aparece na internet com o sur-


gimento dos primeiros portais no Brasil. Esses portais realizavam a
publicação de horóscopos diários, semanais e mensais, com previsões
astrológicas para os doze signos. Além disso, aparece com a descrição
de cada signo e sua personalidade. A internet foi o novo suporte para a
expansão do horóscopo, pois já era bem conhecido em jornais e revis-
tas e repetiram o mesmo formato de algo que já existia.
Há, contudo, uma mudança quando os astrólogos começam a
se valer de estratégias publicitárias/mercadológicas com a divulgação
de serviços na mídia, a exemplo de previsões astrais, dos horóscopos,
mapas astrais, astrologia vocacional, consultas pessoais, entre outros.
Conforme Castells (2003, p. 157), “o mundo da mídia está ao
mesmo tempo se tornando global e individualizado”. Dessa forma, a
astrologia, por meio do horóscopo, acaba se promovendo disso, pois
permite que haja uma globalização, isto é, uma difusão para o mundo
de forma mais ampla por meio de novos formatos e com a produção de
conteúdos diversificados, mas também permite uma individualidade
que possui seu nicho específico e pode ser difundida de modo mais
personalizado e profundo.
O horóscopo adapta-se aos propósitos das mídias digitais, isto
é, possibilitando uma interação mais engajada entre os internautas e
a produção de diferentes narrativas com a presença de vários elemen-
tos lúdicos, sonoros, imagéticos, textuais, humorísticos, comentários e
memes. Vejamos os exemplos abaixo da página “astroloucamente” do
Instagram:

88
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

Figura 02 – Comentários no ho-


Figura 01 – Lápide de aquário
róscopo digital

Figura 03 – Memes de câncer Figura 04 – Horóscopo digital

Fonte: https://www.instagram.com/astroloucamente/?hl=pt-br. Acesso em: 05 jan. 2021

89
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Como se vê, o horóscopo digital não realiza uma análise profunda


dos indivíduos de cada signo, mas generalizações com o propósito de
alcançar um público maior interessado em conteúdos preditivos e con-
selhos, além da mercantilização de produtos astrológicos por meio de
divulgação publicitária.
O horóscopo on-line, como um texto de incitação à ação, oscila
entre um domínio procedural e um domínio de conselho, porém é
recorrente a mistura dos conselhos-recomendações e das instruções
procedimentais. Vejamos abaixo (figura 05) as regularidades linguísti-
cas do horóscopo como um texto de incitação à ação:
Figura 05 – Um bilhete para aquário

Fonte: https://www.instagram.com/astroloucamente/?hl=pt-br. Acesso em: 05 jan. 2021

O exemplo (figura 05) confirma que uma das características


do texto de incitação à ação é o apagamento do sujeito da enunciação
(C1). Embora os textos de horóscopos venham com a assinatura de
astrólogo responsável pelas previsões e conselhos, existe, na verdade,

90
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

a criação de um personagem cujo nome é Maria Talismã. Esse apaga-


mento garante o caráter não subjetivo das informações dadas e exime
o enunciador de responsabilidades quantos aos conselhos indicados.
Em contrapartida, o lugar do destinatário é deixado pronominalmente
aberto (você).
Outra característica linguística presente é o contrato de ver-
dade e premissa de sucesso (C2). Trata-se de um contrato de verda-
de implícito entre o locutor e o interlocutor. Esse contrato permite ao
destinatário que se, ele seguir todos os conselhos indicados, alcançará
o objetivo visado. Esse objetivo é prometido ao leitor sob condições de
seguir os conselhos dados: “Dando um passo todos os dias, você estará
certo de sua evolução como sonhador e como pessoa”.
Há também a presença de um léxico especializado (C3) comum
aos coenunciadores imposto pela precisão informacional. Percebemos
um léxico do campo do amor e das características pessoais: “coração”,
“forte”, “racional”, “evolução”, “sonhador”, “sentimentos”, etc.
Outra principal característica do texto de incitação à ação é C4
(representação de ações e força ilocutória) que compreende a abun-
dância de predicados representando ações temporais sucessivas e atu-
alizadas no infinitivo, no imperativo, no futuro ou no presente. Obser-
vamos a abundância de verbos no presente: “Deixado para trás quem
não merece seus sentimentos” ou “você mudou”.
É possível ainda chamar atenção para a forma como visualmente
o horóscopo, como um texto de incitação à ação, apresenta a caracte-
rística de macrossegmentação tipográfica (C6) por meio de imagem
que pode ir de uma simples ilustração à informação principal.
Por fim, compreendendo que textos de incitação à ação visam
a uma finalidade prática, seja para aconselhar, recomendar, vender
serviços ou padrões de comportamento, e que todo texto é dialogica-

91
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

mente dirigido ao interlocutor com propósito explícito ou não de agir


sobre os valores e crenças dos interlocutores, buscamos demonstrar
que o gênero horóscopo digital se estrutura em bases linguageiras e ar-
gumentativas, especialmente nas modalidades patêmica e pedagógica.

As modalidades argumentativas

Falar sobre a enunciação e o conjunto de influências que há en-


tre os interlocutores implica também a necessidade de reflexão sobre
as formas de realização dessas atividades discursivas. Nesse sentido,
Amossy (2008, 2018) assevera que a argumentação está em toda e
qualquer situação enunciativa, uma vez que, diretamente ou indireta-
mente, influências são compartilhadas nas trocas linguageiras.
Sabemos que há diferenças entres os discursos, isto é, nem
todo discurso almeja levar seu auditório à adesão de uma tese, o que
implica numa posição evidente e determinada por parte do enuncia-
dor, porém todo discurso busca influenciar os modos de ver, de pensar
e de sentir dos interlocutores. Essa asserção, de natureza enunciativa
e pragmática, resultou na diferença entre visada argumentativa e di-
mensão argumentativa, que constituem as modalidades da argumen-
tatividade no discurso.
Na visada argumentativa, há um modo planejado de persuasão,
uma vez que o propósito do locutor ao produzir um texto que permita
essa visada é orientar o interlocutor a concordar com sua opinião ou
tese acerca do tema em questão. “Em termos de gêneros, podem-se
mencionar (entre outros) como discursos com visada argumentativa
a pregação de igreja, o discurso eleitoral, a publicidade, o editorial”
(AMOSSY, 2018, p. 44).
Por outro lado, a dimensão argumentativa é muito mais ampla,
pois reside na “tendência de todo discurso a orientar os modos de ver

92
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

do(s) dos parceiros(s)” (AMOSSY, 2011, p. 131). Dessa forma, a di-


mensão argumentativa necessita somente que um ponto de vista se
revele sob a perspectiva de ideias divergentes, que não precisam ser
explicitamente elaboradas, posto que toda ato de enunciar presume a
um já dito ao qual ela responde. “Entre os discursos que portam uma
dimensão [...] estão o artigo científico, a reportagem, as informações
televisivas, algumas formas de testemunho ou de autobiografia, a nar-
rativa de ficção, a carta ao amigo, etc.” (AMOSSY, 2018, p. 44).
Habitualmente, os discursos compreendidos como visada ar-
gumentativa são aqueles ditos como sendo “argumentativos” em con-
traposição aos “não argumentativos”. Todavia, Amossy (2018) defen-
de que a diferença entre “argumentativo” e “não argumentativo” seja
deslocado para a concepção de modalidades argumentativas diversas,
pois existe uma orientação argumentativa em todo texto:
A oposição problemática do argumentativo e do não
argumentativo é substituída, então, pela concepção
de um continuum que apresenta modalidades
argumentativas diversas, de tal modo que a
argumentação pode revestir-se de aspectos variados.
Num dos polos, encontra-se o choque entre teses
antagônicas; no polo inverso, os discursos, cujo
caráter informativo ou narrativo parece subtrair-
lhes toda e qualquer veleidade persuasiva. Entre o
confronto extremo que arrisca exceder os limites
da troca persuasiva e os textos em que a tentativa
de influenciar o outro se oculta ou dilui, situam-se
os discursos monogerenciados, que propõem levar
o auditório a aderir uma tese, as interações face a
face em que os parceiros negociam um acordo, as
situações de diálogo em que os participantes se
esforçam pata construir uma resposta para uma
questão dada (AMOSSY, 2018, p. 43)

93
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

A argumentação, na perspectiva da autora, está inserida na cor-


relação que se estabelece entre o ethos, o logos e o pathos construídos
no discurso, sob a influência das questões sociais e linguísticas. Isso
posto, significa que, sendo de modo direto ou indireto, a argumentação
é vinculada ao ethos do locutor, realizado nas trocas verbais; do pathos,
isto é, da imagem que o orador constrói do público e, por consequên-
cia, os efeitos provocados no auditório; por fim, do logos, como raciocí-
nio em que repousa a razão. Esse conjunto é formado pela orientação
da cena genérica, que é responsável pela organização dos papéis na
enunciação, conforme assevera Maingueneau (2004).
A condução da argumentação é, então, perpassada por três fa-
tores: “Pode-se, assim, considerar a argumentação na materialidade
linguageira e no espaço social, cultural e institucional, que lhe con-
ferem sua densidade e sua complexidade.” (AMOSSY, 2007, p. 133).
Esse grupo de influências está presente no que a autora chama de mo-
dalidades argumentativas – tipos responsáveis por modelar o discurso,
independentemente do gênero de que ele faça arte, o que corrobora
para a persuasão do interlocutor.
Desse modo, Amossy (2008, p. 233 – 237) elenca algumas mo-
dalidades argumentativas possíveis, indicando gêneros discursivos que
as privilegiam. São elas:
a) Modalidade demonstrativa: o locutor busca adesão
do interlocutor por meio de uma tese/opinião, seja num
discurso monogerido ou dialogal, com base em raciocínio
apoiado em provas. Exemplos de gêneros: artigo de opi-
nião, debate eleitoral, redação de vestibular, etc.
b) Modalidade patêmica: consiste no apelo aos sentimen-
tos do auditório para alcançar sua adesão à tese ou ponto
de vista defendido. Exemplos de gêneros: poema lírico,

94
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

declaração de amor, apelo à ajuda humanitária, etc.


c) Modalidade pedagógica: consiste na transferência de
um saber por um locutor autorizado a fazê-lo a um audi-
tório que se encontra na condição de aprendiz. A forma
de manifestação dessa troca pode ser, como nas modali-
dades anteriores, monogerido ou poligerido. Exemplos de
gênero: manuais, aula, palestra etc.
d) Modalidade de construção: os participantes levantam
juntamente um tema e, do mesmo modo, almejam re-
solvê-lo, por meio de uma interação dialogal. Exemplos
de gêneros: reunião de trabalho, de coligação, diálogos
familiares etc.
e) Modalidade negociada: ocorre por meio de troca em
que os participantes discutem sobre uma problemática
que os separa, porém para o qual estão determinados a
buscar e propor um acordo, por meio de uma negociação
das diferenças. Exemplos de gêneros: audiências de con-
ciliação, sessão legislativa, negócios comerciais, diploma-
cia etc.
f) Modalidade polêmica: confronto de teses divergentes
em que se tenta deslegitimar o opositor. Permite a exis-
tência do dissenso sem que se recorra à violência física.
Exemplos de gênero: debate sobre legalização do aborto,
casamento gay e descriminalização da maconha.

Embora essas modalidades argumentativas sejam mais recorren-


tes em determinados gêneros do discurso do que em outros, há nelas uma
grande maleabilidade para permearem qualquer discurso a depender da
cena enunciativa. A argumentação no discurso pode observar os funcio-
namentos discursivos estudados em si mesmo, ou oferecer instrumentos
95
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

para análise de textos concretos. “Permite abarcar corpora mais amplos e


deles extrair as particularidades” (AMOSSY, 2018, p. 276).
Por fim, a argumentação não participa somente de textos que
almejam fazer aceitar uma tese bem definida, mas também daqueles
que permitem compartilhar um ponto de vista sobre o real, reforçando
valores, orientando a reflexão.

As modalidades patêmica e pedagógica no gênero horóscopo


digital

Com o objetivo de tecer algumas considerações sobre as moda-


lidades argumentativas patêmica e pedagógica no gênero horóscopo
digital, destacaremos como essas modalidades constroem a persuasão
sobre seus leitores.
Figura 06 – Mensagem de 2021 para touro

Fonte: https://www.instagram.com/astroloucamente/?hl=pt-br. Acesso em: 05 jan. 2021

Comumente o indivíduo busca por previsões e prognósticos so-


bre o futuro em diferentes segmentos da sociedade (religião, autoaju-
da, práticas esotéricas). Assim, pensar nessas práticas e na linguagem,

96
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

que se expressam para cumprirem seu propósito, é perceber a função


sociocomunicativa do horóscopo no bojo social, cuja função é acon-
selhar e direcionar a vida das pessoas. Dessa forma, compreende-se
que aconselhar é indicar a alguém o que pode ou não ser feito. “Um
leque muito amplo de atos de linguagem – do conselho-recomendação
à ordem – pode ser agrupado nessa categoria” (ADAM, 2019, p. 262).
Os textos de incitação à ação são tão heterogêneos que permi-
tem a hibridização de diferentes modos argumentativos. O texto acima
(figura 06), sobretudo, trata sobre direcionar a vida dos taurinos para
que tenha êxito para o ano que se inicia. Neste mesmo exemplo (06),
percebe-se uma proximidade entre as modalidades pedagógica e patê-
mica para a função persuasiva dos textos de incitação à ação.
De um lado, o texto chama atenção do interlocutor sobre fazer
escolhas e o que se deve fazer ou não para o ano que se inicia: “Es-
colha priorizar os seus sonhos...”; “Não abaixe a cabeça por nada...”;
“Hora de aproveitar tudo que você tem direito...”. O modo de acon-
selhamento perpassa todo o texto e preconiza um saber-fazer, como
acontece nas modalidades pedagógicas. Do outro, percebemos tam-
bém que o texto apresenta nuances emocionais, como em: [...] “fique
onde tenha paz e amor”; “Siga adiante com fé e humildade, pois os
seus dias estarão sendo abençoados”; “Valoriza a sua liberdade” suge-
rindo a presença da modalidade patêmica.
Percebemos, ainda, que o lugar do sujeito-agente (interlocutor)
é deixado pronominalmente aberto (você), pois além de permitir uma
reação emocional, isto é, possibilita que ele seja incitado a seguir os
conselhos-recomendações. Outras questões que contribuem para essa
mobilização persuasiva é a utilização de imagens, característica do tex-
to de incitação à ação, e palavras de cunho religioso (fé, paz, abençoa-
do), pois, de certo modo, envolve também aconselhamento, típico nos

97
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

discursos religiosos.
Frequentemente, os responsáveis por produzirem esse tipo de
prognósticos utilizam de dizeres e de imagens comoventes, com a in-
tenção de chamar atenção do interlocutor e, certamente, provocar re-
flexão sobre os conselhos-recomendações que ali se encontram.

Figura 07 - Passo a passo [...] Figura 08 – Comentários

Fonte: https://www.instagram.com/astroloucamente/?hl=pt-br. Acesso em: 05 jan. 2021

A figura (07) apresenta uma sequência de ações e


características que o interlocutor deve seguir para conquistar o
coração do sagitariano que acaba funcionado como um roteiro a ser
obedecido para que se tenha êxito neste determinado propósito. Há,
pois, aqui uma série de comportamentos adequados e inadequados
que devem ser realizados e evitados. Entre os exemplos de
adequados estão “use e abuse da criatividade para manter a
conquista”; os inadequados estão “não tire sua liberdade e respeite
a sua individualidade”.
O texto se orienta por uma modalidade argumentativa

98
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

pedagógica (AMOSSY, 2008), pois orienta como localizar, por meio


das descrições das características dos sagitarianos, o comportamento
que o interlocutor deve adotar na conquista amorosa. A descrição
“é um recurso a mais para jogar luz sobre seus verdadeiros pontos,
é evidente que ela deve se desenvolver em vista do objetivo a atingir,
sem ultrapassá-lo” (ADAM, 2019, p. 71-72).
Assim sendo, também permite que o interlocutor faça uma
autoavaliação sobre às suas ações, comportamentos e avalie se
o sagitariano é alguém que se possa ter qualquer tipo de relação
(amizade, amorosa, etc.). Temos, portanto, a predominância
da descrição das características que o interlocutor deve adotar,
demostrando, assim, que o texto se orienta argumentativamente por
uma incitação à ação, ou seja, conduzindo o olhar do interlocutor
para reconhecer as características apontadas.
A figura (08) apresenta os comentários que a publicação
produziu. A internauta escreve sobre o seu êxito na conquista do
sagitariano afirmando que “não só conquistou como casou” e “me
divirto com suas brincadeiras e amo sua alegria de viver”. Ainda
que haja diferenças entre eles, afinal ela “é de peixes”, isto é, obteve
sucesso em sua conquista amorosa. Os comentários corroboram a
ideia de como o texto age sobre as crenças e valores porque gera
uma identificação do interlocutor com o conteúdo dito.

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PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Figura 09 – Como reconhecer um canceriano

Fonte: https://www.instagram.com/astroloucamente/?hl=pt-br. Acesso em: 05 jan. 2021

O texto, como nos mostra a figura acima (09), chama o inter-


locutor para reconhecer um canceriano por meio de suas emoções.
O canceriano é descrito como alguém que “Tem as emoções à flor da
pele e se emociona com facilidade”. Foi produzido com o objetivo de re-
forçar uma característica atribuída aos indivíduos nascidos sob o signo
de câncer: carentes, sensíveis e dramáticos.
A publicação, ao fazer humor sobre a característica emocional
excessiva do canceriano, traz a personagem a personagem “Maria do
Bairro” de uma telenovela mexicana que, por sua vez, são conhecidas
pelo excesso de emoções e dramas que afligem as protagonistas dos
folhetins. Sendo assim, o texto se orienta por uma modalidade argu-
mentativa patêmica porque existe um apelo emocional como base de
“modo a ‘tocar’ o auditório para obter sua adesão” (AMOSSY, 2008, p.
233).
Essa retomada da personagem mexicana, por meio de uma es-
tratégia de humor que produz uma situação jocosa, permite inferir que
o gênero horóscopo não corresponde a um texto de visada argumen-

100
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

tativa, mas apresenta uma dimensão argumentativa, pois aponta um


modo de pensar, sem persuasão programada.
Percebemos que, neste gênero do discurso, há uma construção
emocional que frequentemente é observado pelos interlocutores da
situação comunicativa como traço característico. É frequente a uti-
lização de uma linguagem mais emotiva para que seja alcançado um
determinado propósito comunicativo. “Vê-se que o pathos, como uma
tentativa de despertar emoção no alocutário, é bastante recorrente,
mesmo que não seja obrigado a fazer menções verbais dos sentimen-
tos” (AMOSSY, 2018, p. 213).

Considerações Finais

Alinhamo-nos à concepção de Ruth Amossy que considera a ar-


gumentação num continuum em que se situam as modalidades argu-
mentativas, visto que nenhum texto é neutro do ponto de vista discur-
sivo e argumentativo, pois é dialogicamente direcionado e, portanto,
visa agir sobre crenças e valores dos interlocutores.
Sabemos que os textos de incitação à ação, por demais variados,
atendem a um modo diferente de conduzir o interlocutor a um fazer.
Assim, investigamos como o gênero horóscopo digital, como um tex-
to de incitação à ação, contempla marcas da modalidade pedagógica,
quando um locutor autorizado sugere um saber-fazer ao interlocutor;
e da modalidade patêmica, quando uma tese ou ponto de vista são
apresentados com o objetivo de despertar emoção no auditório para
obter sua adesão, além de apontarmos as características linguísticas
comuns que compõem esse gênero.

101
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Referências

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Paulo: Contexto, 2019.

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abordagens e desafios contemporâneos. Trad. Adriana Zavaglia. Filologia
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AMOSSY, Ruth. Argumentação e Análise do Discurso: perspectivas teóri-


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Ferreira. EID&A – Revista Eletrônica de Estudos Integrados em
Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 1, p. 129- 144, jun./nov. 2011.

AMOSSY, Ruth. A argumentação no discurso. Trad: Eduardo Piris et


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CASTELLS, Manuel. A galáxia da Internet: reflexões sobre a Internet,


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GREIMAS, A. J. Semântica estrutural. São Paulo: Editora Cultrix,


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102
ANÁLISE LINGUÍSTICA E ARGUMENTAÇÃO NO GÊNERO HORÓSCOPO DIGITAL

MAINGUENEAU, Dominique. Análises de Textos de Comunicação.


3. edição. Tradução de Cecília P. de Souza-e-Silva e Décio Rocha. São
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MORTARA-GARAVELLI, B. Tipologia dei testi. In: HOLTUS et al. Lex-


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SUZUKI, Marilha Maneschy. Astrologia no Brasil: os caminhos da his-


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WERLICH, E. Typologie de texte. Heidelberg: Quelle et Meyer, 1975.

103
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO


MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

Kélia Lima dos Santos Araújo (UNIFESSPA)

Nilsa Brito Ribeiro (UNIFESSPA)

Introdução

É em um cenário cada vez mais digital, mas, também, cada vez


mais desigual, que passamos a perceber a forte circulação de links de
notícias de blogs jornalísticos na região sul e sudeste paraense, o que
nos levou a investigar como o arquivo midiático local ou regional se
constitui por meio de blogs na relação com outras mídias estaduais ou
nacionais. Em pesquisa mais ampla, num recorte temporal de 2011 a
2018, identificamos 79 blogs em circulação, além de 52 blogs, também
criados dentro desse recorte temporal, mas sem manutenção. É nesse
contexto de forte presença de uma mídia local ao lado da mídia corpo-
rativa que passamos a investigar as ciberpráticas de blogs produzidos
na região Sul e Sudeste do Pará, procurando apreender em seu fun-
cionamento a circulação, manutenção e/ ou deslocamento de sentidos
que convergem para a constituição do arquivo midiático mais amplo.
Lembra Sargentini (2014) que ao serem reativados, os discur-
sos organizados em arquivos são redistribuídos e um dos locais dessa
redistribuição é o ciberespaço, local de práticas comunicacionais que
se constituem como espaço de práticas de leitura do arquivo, garan-
tindo a visibilização e formulação de arquivos dispostos a serem lidos,
interpretados, silenciados, retomados.
A web tornou-se uma ferramenta
democrática e eficaz na redistribuição dos arquivos.
Tanto institucionais como pessoais, arquivos

104
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

contendo documentos (escritos e imagéticos) de


uma dada época, ao serem reativados produzem
na sociedade efeitos diversos. [...] Muitas vezes de
uma forma narcisista ou como um instrumento
de resistência (quanto ao direito de redistribuir,
reproduzir, manifestar-se), a sociedade define os
limites e as formas da apropriação dos discursos.
(SARGENTINI, 2014, p. 27. Grifo da autora).

Tanto a redistribuição quanto a apropriação dos discursos or-


ganizados em arquivos são regidas pelo “princípio de articulação en-
tre uma série de acontecimentos discursivos e outras séries de acon-
tecimentos, transformações, mutações e processos” (FOUCAULT,
([1969] 2008, p. 83), determinando o que pode ser dito e as regras
de emergência dos enunciados em um campo específico, com suas
formas específicas, temas, conceitos, trajetos, jogos polêmicos etc. Em
nossas análises, destacamos esse movimento de emergência de temas
e conceitos a partir dos quais os blogs mantêm jogos de relações de
sentido com a mídia estadual ou nacional, mobilizando sentidos de
alinhamento ideológico com a mídia de maior referência.
Gregolin (2007), argumentando sobre a importância da aproxi-
mação entre a Análise de Discurso e os estudos sobre a mídia, defen-
de que tal articulação “enriquece dois campos que são absolutamente
complementares, pois ambos têm como objeto as produções sociais de
sentidos”. (GREGOLIN, 2007, p. 13). É, também, dessa perspectiva
que desenvolvemos a nossa reflexão e análise do funcionamento dis-
cursivo de blogs criados em cidades da Amazônia paraense. Tomando
o conceito de arquivo, tal como mobilizado pelos estudos de discurso,
sobretudo por meio das contribuições de Foucault (2008; 201348) e
Pêcheux (1997), interessa-nos apreender como as práticas discursivas

48 Edição traduzida de FOUCAULT, M, . Dits et écrits, 1994.

105
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

dos blogs tomam parte na constituição do arquivo midiático em sua


relação com a mídia corporativa.

Enunciado e tema na constituição do arquivo

Elaborando a crítica ao tema da continuidade histórica, dos


agrupamentos considerados unidades naturais e universais, Foucault
(2008) procura fugir dessa tradição, identificando como interesse de
investigação os fatos de discurso a partir da relação entre enunciados
ou grupos de enunciados não fechados em si mesmos, mas consti-
tuídos a partir de jogos de relações. É no bojo dessa investigação que
o autor, a partir de um conjunto de hipóteses, formula o conceito de
Formação Discursiva. Em decorrência das hipóteses formuladas, pos-
tula Foucault (2008) que os princípios de individuação de um dado
discurso se materializam por seus objetos, pelos modos de encadea-
mento dos enunciados, pelos conceitos e pelos temas próprios de uma
dada Formação Discursiva. Nesse sentido, seria muito mais produtivo,
do ponto de vista da análise, apreender no jogo do discurso sistemas de
dispersão do que voltar-se para as unidades conformadoras de identi-
dades discursivas supostamente unas e de continuidades históricas.
Estaríamos errados, sem dúvida, em procurar
na existência desses temas os princípios de
individualização de um discurso. Não seria mais
indicado buscá-los na dispersão dos pontos de
escolha que ele deixa livres? Não seriam as
diferentes possibilidades que ele abre no sentido de
reanimar temas já existentes, de suscitar estratégias
opostas, de dar lugar a interesses inconciliáveis, de
permitir, com um jogo de conceitos determinados,
desempenhar papéis diferentes? Mais do que
buscar a permanência dos temas, das imagens e
das opiniões através do tempo, mais do que retraçar

106
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

a dialética de seus conflitos para individualizar


conjuntos enunciativos, não poderíamos demarcar
a dispersão dos pontos de escolha e definir, antes
de qualquer opção, de qualquer preferência
temática, um campo de possibilidades estratégicas?
(FOUCAULT, 2008, p. 42-43).

Por essa percepção, segundo Foucault, a construção de qual-


quer arquivo se opera a partir de um sistema geral de formação, trans-
formação e dispersão dos enunciados, mas, também, a partir de uma
certa regularidade. Ou seja, se por um lado, o arquivo se define por
um sistema de regras que delimita o que deve ser enunciado sobre um
dado objeto em uma dada época, por outro lado, todo dizível está sujei-
to a contínuas transformações. As regras de formação, transformação
e dispersão do arquivo são, segundo Foucault (1971), orientadas por
procedimentos externos (exclusão, interdição, separação etc.) e inter-
nos (comentário, autoria, disciplina), procedimentos que controlam,
classificam, organizam e distribuem os discursos numa dada conjun-
tura e ordem histórica.
As problematizações levantas por Foucault acerca do arquivo
são fundamentais para o nosso estudo, na medida em que nos inte-
ressa compreender as conexões que uma mídia local estabelece com
outras mídias que, em certa medida, exercitam dispositivos de controle
do dizível e do visível. Ou seja, as formulações teóricas de Foucault
acerca do arquivo nos permitem compreender que a constituição dos
blogs regionais não pode ser apreendida sem que se leve em conside-
ração o sistema mais amplo de formação geral do arquivo midiático
brasileiro, uma vez que as mídias locais não são indiferentes a ele, pelo
contrário, de alguma forma com ele estabelece correlações, ensaia
deslocamentos na reconfiguração do arquivo.
Nesse sentido, a noção de arquivo requer que se considere, an-

107
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

tes de tudo, o enunciado na sua condição de emergência histórica.


[...] trata-se de compreender o enunciado na estreiteza
e singularidade de sua situação; de determinar as
condições de sua existência, de fixar seus limites da
forma mais justa, de estabelecer suas correlações
com os outros enunciados a que pode estar ligado,
de mostrar que outras formas de enunciação exclui.
Não se busca, sob o que está manifesto, a conversa
semi-silenciosa de um outro discurso: deve-se mostrar
por que não poderia ser outro, como exclui qualquer
outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionado
a eles, um lugar que nenhum outro poderia ocupar.
A questão pertinente a uma tal análise poderia ser
assim formulada: que singular existência é esta que
vem à tona no que se diz e em nenhuma outra parte?
(FOUCAULT, 2008, p. 31)

Para Foucault, enunciado e arquivo se constituem, na medida


em que todo arquivo sofre em sua materialidade as constrições históri-
cas que determinam os encadeamentos enunciativos próprios de cada
domínio discursivo, assim como as modalidades enunciativas, os feixes
de relações que cada enunciado no interior do arquivo estabelece com
enunciados de outros arquivos.
Nesse sentido, o enunciado não corresponde a uma sequência
de palavras ou de frases, ou seja, não se reduz ao sistema linguístico,
pois, como discute Foucault, se a língua é um sistema que permite a
construção de enunciados possíveis, a partir de um conjunto finito de
regras aberto a um conjunto infinito de produções, o campo discursivo,
por sua vez, é sempre finito e limitado pelo sistema de regras que con-
trolam a produção, a conservação e transformação de enunciados, em
dadas condições históricas. Por isso mesmo, em uma análise no campo
discursivo, a pergunta que se deve fazer não é sobre o enunciado em

108
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

si, mas sobre as regras históricas segundo as quais um dado enun-


ciado foi produzido, assim como segundo as quis outros enunciados
semelhantes poderiam ser produzidos. O enunciado deve ser apreen-
dido, portanto, como uma função do discurso em seu exercício, em
suas condições de emergência, de desaparecimento, de correlação, de
proximidade ou de distanciamento de outros discursos (FOUCAULT,
2008). Assim, para Foucault (2008), o regime de materialidade dos
enunciados é da ordem institucional e não individual, é o que oferece
esquemas de utilização, regras de emprego, campo de estabilização e
de transformação dos enunciados. Para Foucault (2008), é a partir da
multiplicidade de práticas discursivas que os enunciados, enquanto
“acontecimentos singulares” e “coisas”, tornam-se possíveis de serem
instaurados como extensão de um sistema chamado de arquivo. Esse
sistema permite que discursos sejam ditos e agrupados diferentemen-
te, sem serem acumulados, esquecidos em uma espécie de limbo, evi-
tando que desapareçam acidentalmente (FOUCAULT, 2008).
Consequentemente, o arquivo não pode ser entendido como
um amontoado de textos ou documentos mantidos por uma dada cul-
tura e instituições, nem como um conjunto de textos recolhidos ou
conservados em determinadas épocas. O arquivo deve ser compreen-
dido como um dos responsáveis para que os discursos, regidos como
acontecimentos singulares, simplesmente desapareçam, permitindo
que os enunciados passem por modificações e assim permaneçam
existindo.
[...] o arquivo define um nível particular: o de
uma prática que faz surgir uma multiplicidade
de enunciados como tantos acontecimentos
regulares, como tantas coisas oferecidas
ao tratamento e à manipulação. [...] ele faz
aparecerem as regras de uma prática que permite

109
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

aos enunciados subsistirem e, ao mesmo tempo,


se modificarem regularmente. É o sistema geral
da formação e da transformação dos enunciados
(FOUCAULT, 2008, p. 147-148. Grifos do autor).

Retomando de Foucault o princípio de formação e transforma-


ção dos enunciados no retorno ao arquivo, Guilhaumou e Maldidier
(1997) apresentam o conceito de tema e trajeto temático como a pos-
sibilidade de analisar o arquivo em sua dispersão, na emergência do
discurso em circunstâncias específicas.
[...] interessamo-nos pela emergência dos discursos
em circunstãncias determinadas, o que implica uma
preocupação com os usos sociais da língua. Ao invés de
falarmos da questão da subsistência, recorremos à nção
de tema falando, portanto, do tema da subsitência. A
noção de tema não remete, aqui, nem à análise temática,
tal como é praticada pelos críticos literários, nem aos
empregos que dela se faz na linguística. Essa noção supõe
a distinção entre “o horizonte de expectativas”- o conjunto
de possibilidades atestadas em uma situação hstórica
dada- e o aocntecimento discursivo que realiza uma
das possibilidades, inscrito o tema em posiçã referencial.
(GUILHAUMOU e MALDIDIER, 1997, p. 166).

Decorre dessa noção de tema apresntada pelos autores a com-


preensão de que o trajeto temático remete às configurações textual-
-discursivas associadas a um dado tema em das condições históricas.
Ou seja, “A análise de um trajeto temático remete ao reconhecimento
das tradições retóricas, de formas de escrita, de usos de linguagem,
mas, sobretudo, interessas-se pelo novo no interior da repetição” (GUI-
LHAUMOU e MALDIDIER, 1997, p. 166).
Essa percepção teórica e metodológica acerca de arquivo, enun-
ciado e tema remete à compreensão de que os arquivos de cada época,

110
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

com seus temas específicos, são regidos por regras de formação e re-
formulação que devem ser apreendidas no entrecruzamento, repeti-
ção e dispersão de enunciados em um momento dado. Assim sendo,
as regras de constituição de temas são regidas por controles internos e
externos, tal como postula Foucault.

Controles externos e internos na constituição do arquivo

Em todas as sociedades “a produção do discurso é ao mesmo


tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo
número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes
e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada
e temível materialidade” (FOUCAULT, 1971, p. 8-9). Nesse sentido, o
autor chama a atenção para o fato de que discurso não é pouca coisa
em nossa sociedade, justamente porque limita os acasos, seja pela pro-
liferação seja pela rarefação através da seleção, ordenação, hierarqui-
zação, distribuição e exclusão de dizível.
Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer
tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer
circunstância, que qualquer um, enfim, não
pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto,
ritual da circunstância, direito privilegiado ou
exclusivo do sujeito que fala: temos aí o jogo
de três tipos de interdições que se cruzam, se
reforçam ou se compensam, formando uma
grade complexa que não cessa de se modificar.
(FOUCAULT, 1971, p. 9-10).

Os mecanismos de exclusão externos aos discursos são defini-


dos por Foucault (1971) como sistemas de exclusão que atingem os
discursos por meio: i) da proibição em relação a quem dizer, o que di-
zer e em que condições dizer; ii) da separação (rejeição) que se exerce

111
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

por meio de diferentes mecanismos institucionais; iii) e da vontade de


verdade apoiada na oposição falso e verdadeiro (FOUCAULT, 1971).
Em nossos estudos, a consideração dos procedimentos de con-
troles externos, tal como expostos e problematizados por Foucault, são
de fundamental importância porque nos permite apreender no fun-
cionamento dos discursos que analisamos como os dispositivos midiá-
ticos, em seu sistema de regras, se exercem por meio do que se diz e
do que se deixa de dizer. Os discursos da mídia, organizados em arqui-
vos midiáticos, participam de diferentes formas de circulação e exclu-
são, na medida em que não é qualquer tema que pode ser enunciado
como notícia, seja devido às circunstâncias, seja pelo direito ou não de
fala ou pelas restrições vinculadas ao próprio tema. É nesse sentido
que, pelo princípio da exterioridade, segundo Foucault, não se deve
compreender o discurso com algo que tem origem no âmago do pen-
samento, mas, deve-se, “a partir do próprio discurso, de sua aparição e
de sua regularidade, passar às suas condições externas de possibilida-
de, àquilo que dá lugar à série aleatória desses acontecimentos e fixa
suas fronteiras”. (FOUCAULT, 1971, p. 53). Isso porque todo discurso
sofre, em cada época, coerções históricas cujos efeitos se manifestam
na seleção de seus objetos, temas e modos de enunciação.
Na postulação de Foucault (1971), os discursos são também
delimitados por princípios internos que controlam o acontecimento e
o acaso. São os princípios do comentário, da função-autor (autoria), e
da disciplina. Para nossos estudos, interessam-nos, de forma mais di-
reta, o princípio do comentário, justamente porque é através deste que
apreendemos a relação interdiscursiva dos blogs de notícias analisados
com a mídia de circulação no Estado e no país, sobretudo por meio do
retorno regular dos blogs a temas e objetos privilegiados, distribuídos e
controlados pela mídia de referências estadual ou nacional.

112
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

Pelo princípio do comentário, segundo Foucault, os discursos


exercem uma espécie de pressão e coerções sobre outros. Alguns dis-
cursos são mais reatualizáveis do que outros porque exercem maior
poder de coerção sobre outros discursos por meio de constantes reto-
madas das grandes narrativas, como ocorre com os textos científicos,
jurídicos, religiosos, literários, por exemplo, submetidos a reapareci-
mentos ritualizados, ainda que não seja de forma estável, constante ou
absoluta (FOUCAULT, 1971). Assim, é por meio do comentário que se
exercitam as retomada e repetições na formação e transformação do
arquivo, garantindo o permanente retorno a seus temas ou à transfor-
mação deles.
Lembra Foucault que, ainda que pelo princípio do comentário
alguns textos sejam profundamente modificados, chegando até mes-
mo a desaparecer para dar origem a textos novos, tudo não passa de
um jogo específico de cada arquivo, determinado por seus critérios
i) de formação (dos objetos, das operações, dos conceitos etc.); ii) de
transformação ou de limites (as condições históricas que permitem
a formação de objetos, conceitos,, operações, opções teóricas de um
dado arquivo, assim como o surgimento de novas regras) e iii) de cor-
relação (o conjunto de correlações que definem um discurso e o situa
em correlação com outros discursos, assim como com certos domínios
institucionais, relações sociais, conjuntura econômica e política (FOU-
CAULT, 2013). Portanto, os deslocamentos operados pelo princípio do
comentário são complexos e não podem ser analisados sem que sejam
considerados os critérios de constituição de discursos específicos de
um dado arquivo, em um momento específico, assim como a função
ocupadas por cada discurso.
Em nossas análises, no âmbito da produção discursiva da mí-
dia, o comentário constitui um dos principais modos de funcionamen-

113
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

to dessa instância discursiva, ou seja, embora o discurso midiático se


constitua como o que há de mais atualizado, esse é apenas um efeito
da ideologia, pois o retorno constante ao arquivo é o que garante a
permanente produção de discursos novos. Por vezes, as narrativas re-
tomadas funcionam como forma de legitimar o discurso supostamente
novo, ou seja, assegurando estratégias de legitimação, manutenção e
circulação do dizível, a mídia, por meio do comentário, situa-se entre a
tradição e a atualização.

Modos de reaparição daquilo que comenta

Como postula Foucault (2008), a constituição de um arquivo


de uma dada época, dentro de dadas condições históricas, não ocorre
pela inteira substituição de uma formação discursiva por outra. Para
o autor, os objetos de um discurso, os enunciados, os conceitos, os te-
mas, as escolhas teóricas etc. não surgem de forma unificada e dispos-
tos linearmente de um momento histórico a outro.
Ao contrário, a partir dessas novas regras, podem ser
descritos e analisados fenômenos de continuidade,
de retorno e de repetição: não se deve esquecer, na
verdade, que uma regra de formação não é nem a
determinação de um objeto, nem a caracterização de
um tipo de enunciação; nem a forma ou o conteúdo de
um conceito, mas o princípio de sua multiplicidade e
de sua dispersão (FOUCAULT, 2008, p.195).

É dessa perspectiva anunciada por Foucault que fazemos a


nossa incursão analítica no funcionamento discursivo dos blogs, con-
siderando que os procedimentos discursivos exercitados por meio de
retomadas, repetições ou adaptações a textos já publicadas por portais
de notícias de maior circulação não significam sempre nem a continui-
dade nem o gesto inaugural de uma nova formação discursiva, mas o
114
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

princípio de dispersão de um arquivo em sua constituição heterogênea.


Nesse sentido, como advertem Guilhaumou e Maldidier (1997,
p. 166), “o acontecimento discursivo não se confunde nem com a no-
tícia, nem com o fato designado pelo poder”, mas, remete à emergên-
cia de enunciados em um momento dado. É por isso mesmo que os
autores recorrem à definição de trajeto temático como o lugar em que
os enunciados adquirem configurações textuais específicas no interior
de temas específicos.
É com base nessa percepção que destacamos, a seguir, dois
temas privilegiados por portais de notícias e retomados por dois blogs
da região. Os temas veiculados por portais de notícias - degradação
florestal e conflitos agrários na Amazônia – e retomados pelos blogs dão
lugar a regularidades de circulação de temas, mas, nesse movimento
abrem-se novos sentidos sobre representações do que se diz e o que se
pode dizer sobre a região, em um dado momento histórico
Figura 1: Blog Hiroshi Bogea

Fonte: http://www.hiroshibogea.com.br/1-463-quilometros-quadrados-de-floresta-fo-
ram-desmatadas-em-2018-no-para/ Acesso: 08/04/2020.

115
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

A figura 1 traz uma notícia sobre degradação florestal publicada


pelo blog de Hirosi Bogea, situado em Marabá, PA. Em nossa pesquisa,
identificamos que este mesmo tema e objeto foram tratados por duas
outras notícias, uma publicada no dia 02/01/2019, pelo portal G1-PA-
-Belém, e outra pelo portal Correio de Carajás, no dia 03/01/2019, con-
forme seguem, nas figs. 2 e 3, respectivamente.
Figura 2: Portal G1 PA-Belém

Fonte: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2019/01/02/desmatamento-no-para-qua-
druplica-em-2018-diz-imazon.ghtml; Acesso: 08/04/2020

116
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

Figura 3: Portal Correio de Carajás

Fonte: https://correiodecarajas.com.br/desmatamento-no-para-quadruplica-em-
-2018-diz-imazon/ Acesso: 08/04/2020

Chamamos a atenção para o arranjo discursivo por meio do


qual o blog regional (Fig.1) vai assumindo regras gerais da discursivi-
dade do arquivo (PÊCHEUX, 1997 p. 63) midiático.
As datas de publicação das reportagens sugerem que o texto
do G1 PA foi o primeiro a circular (02/01/2019), além da menção que
117
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

o Correio de Carajás faz ao G1 PA como fonte das informações circu-


ladas. No entanto, vale observar que, ainda que o portal Correio de
Carajás faça referência ao G1 Pará como o texto-fonte da reportagem,
o título da reportagem (Desmatamento no Pará quadruplica em 2018,
diz Imazon), textualizado por meio do discurso relatado, refere como
fonte lgítima do seu discurso o Instituto do Homem e Meio Ambiente da
Amazônia Imazon), instituição que detém resultados de pesquisas sobre
degradação ambiental na Amazônia Legal. Por esse jogo, o efeito produzi-
do pelo título da reportagem é que o portal Correio de Carajás reconhece
e refere como fonte legítima de seu discurso o instituto de pesquisa e não
do G1-PA. Dessa forma, a relação mantida com o G1 PA, enquanto fonte
da notícia circulada se desestabiliza, sob o efeito de um desnivelamento
do texto a que teve acesso primeiro em relação ao relatório de pesquisa
do Imazon. Por esse funcionamento discursivo, o portal Correio de Cara-
jás e G1 passam a se equivaler, na medida em que, discursivamente, am-
bos citam o instituto como a fonte primeira, ainda que ao final da notícia
o Correio de Carajás dê créditos ao G1 PA. Como refere Pêcheux, “É esta
relação entre língua como sistema sintático intrinsicamente passível de
jogo, e a discursividade como inscrição de efeitos linguísticos materiais
na história, que constitui o nó central de um trabalho de leitura de arqui-
vo. (PÊCHEUX, 1997, p. 63). No processo de citação do outro no título
da reportagem, o Correio de Carajás se constitui no deslize produzido
na relação interdiscursiva estabelecida pela hierarquia de dois discursos
detentores de verdades.
A reportagem do Blog de Hiroshi Bogea (fig. 1), por sua vez,
também circulada em 03/01/2019, não faz remissão a qualquer texto-
-fonte. No entanto, o texto é a transposição da matéria produzida pelo
portal Correio de Carajás, produzindo, como efeito, o de grau máximo
do comentário que dispensa qualquer referência a um texto-fonte.

118
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

Se, por um lado, por meio da constante retomada, a mídia regu-


la saberes que devem ser circulados na sociedade, por outro, ela opera
um jogo de representações que interfere nos modos de interpretação
do leitor. Nesse sentido é que vimos defendendo a hipótese de que os
blogs regionais, antes de travarem a luta para alcançarem a posição
social das mídias corporativas, assumem sub-repticiamente o papel
de vulgarizadores de discursos produzidos pela mídia de referência.
Nesse sentido, as mídias locais se constituem enquanto dispositivos de
manutenção do arquivo, de conservação das coisas ditas enquanto te-
mas que devem entrar para a ordem dos discursos sobre as dinâmicas
da sociedade.
A retomada ou a simples transposição textual de notícias de um
meio de comunicação para outro não deve ser compreendida como a
simples reprodução do já-dito. Nesse gesto mesmo de repetição e reto-
mada, ao garantirem o funcionamento do arquivo midiático, os blogs
fazem usos de estratégias que lhes permitem tomar parte das coisas
ditas pela mídia de referência, mediando poderes, saberes e subjeti-
vidades (TAVARES e LOUREIRO, 2017) por meio da manutenção e
controle na circulação de temas sociais.
É nesse jogo de sentidos que se pode falar em “dialética do arquivo”,
fazendo intervir nas análises o domínio da atualidade e o domínio da
antecipação, ao lado do domínio da memória (AMARAL, 2014).

119
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Figura 4: Blog do Branco

120
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

A figura 4 traz um excerto extraído de uma reportagem publi-


cada no dia 17 de abril de 2016, dez anos após o massacre de Eldorado
dos Carajás, PA. O excerto é uma espécie de introdução à reportagem
adaptada da revista Caros Amigos (” Sobreviventes relembram dia do
massacre no Pará”), que, por sua vez, reproduz notícia original publi-
cada pelo jornal Brasil de Fato, intitulada “Feridas abertas: 20 anos de
Massacre de Eldorado dos Carajás”, conforme fig. 5, a seguir.

Figura 5: Jornal Brasil de Fato

Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2016/04/13/sobreviventes-relembram-dia-do-
-massacre-de-eldorado-dos-carajas

Nessa publicação especial, o jornal Brasil de Fato traz passagens


de entrevistas de sobreviventes ao massacre de Eldorado dos Carajás-
-Pa, assim como de profissionais de justiça que se ocupam do caso,
como advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), promotor de
justiça etc.
No excerto da figura 4, o blog faz referência à data do massa-
cre como “importante”, justamente porque remete a “um dos maiores
confrontos já registrados no campo, em que 19 trabalhadores sem-ter-
ra foram assassinados e dezenas de outros ficaram feridos, no con-

121
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

fronto entre a Polícia Militar e esses trabalhadores, na curva do “S”


em Eldorado dos Carajás”. Além deste, outro argumento apresentado
pelo blog para sustentar a adesão ao tema em circulação pela Revista
Caros Amigos e jornal Brasil de Fato é o rompimento, por parte do au-
tor do blog, de um acordo estabelecido com a família de não escrever
no blog aos domingos, dia, segundo ele, reservado ao convívio familiar,
mas que pela importância da data fora rompido. Esses arranjos argu-
mentativo-discursivos sugerem a posição de um sujeito cuja imagem
produzida de si é de alinhamento ideológico ao tema da notícia veicu-
lada e, consequentemente à posição política da revista Caros Amigos e
jornal Brasil de Fato. Nesse sentido, vale destacar como o autor do blog
faz referência aos meios de comunicação em cujo espaço a matéria
foi veiculada: “ reproduzo matéria que foi publicada na competente
revista ‘Caros Amigos’, mas que foi produzida, pela não menos compe-
tente ‘Brasil de Fato’, periódicos necessários ao processo dialético e ao
contraponto dos fatos”. A remissão à revista Caros Amigos e ao jornal
Brasil de Fato se faz pela predicação destas mídias: “competente revis-
ta” e “não menos competente Brasil de Fato”. Esse movimento discur-
sivo, além de colocar em funcionamento o princípio do comentário,
evidencia como tal princípio, antes de se configurar como simples reto-
mada de um tema já em circulação na sociedade, oferece a chave para
apreendermos como todo arquivo sofre mexidas e reconfigurações por
meio de diferentes formas de operações e tipos de transformação.
Antes de se considerar a reprodução de uma matéria já cir-
culada por dois meios de comunicação como expressão de uma sub-
jetividade individual do sujeito que escreve e fala, para a AD é mais
produtivo considerar que o sujeito do discurso tem um lugar nesse
campo discursivo a partir do qual escreve/fala, com suas possiblidades
de deslocamento (FOUCAULT, 2013). O processo linguístico-discur-

122
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

sivo de predicação das mídias às quais o sujeito recorre sob o


princípio do comentário e manutenção de um tema, além de
produzir o efeito de uma dada posição política supostamente fi-
liada à posição ideológica da mídia referida (revista Caros Amigos e jor-
nal Brasil de Fato), produz, ainda, uma validação para o próprio blog,
uma vez que a retomada de uma notícia veiculada pela Caros amigos
que por sua vez, foi retomada do jornal Brasil de Fato, credenciaria o
blog do Branco a uma posição política de esquerda tal como os dois
meios de comunicação, também referidos como “periódicos necessá-
rios ao processo dialético e ao contraponto dos fatos”.
Com isso podemos observar como a continuidade de um tema
se dá por certos deslocamentos, justamente porque, segundo Foucault
(2008), a configuração e reconfiguração do arquivo não ocorre num
contínuo de causa e efeito, nem tampouco resultante de uma vontade
individual, mas regulado por um conjunto de regras: as formas de di-
zibilidade; as formas da memória; as formas da reativação; as formas
da apropriação (FOUCAULT, 2013). Considerando a matéria produzi-
da pelo Brasil de Fato, retomada pela Caros Amigos e, desta, pelo blog
do Branco, é possível dizer que na retomada de um discurso por outro,
ocorreram mudanças que afetam o objeto e o tema do discurso. Se to-
marmos o trajeto temático configurado para as três reportagens publi-
cadas, há de se considerar que o texto-fonte (jornal Brasil de Fato) fo-
caliza a luta de trabalhadores rurais pelo direito à posse da terra como
objeto privilegiado do discurso, ao passo que o discurso veiculado pelo
blog do Branco produz deslizamentos de sentido ao deslocar o foco do
tema da luta pela terra para a posição política do blog, supostamente
alinhada aos dois meios de comunicação referidos e predicados.
É nesse sentido que uma entrada do analista no espaço polêmi-
co da leitura do arquivo permite-lhe apreender posições ideológicas

123
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

inscritas na materialidade da língua, na opacidade e na abrangência


social do próprio arquivo (GUILHAUMOU e MALDIDIER, 1997).
Como lembra Foucault, ao tratar do comentário, em toda sociedade
há discursos que se repetem e se fazem variar, mas, sempre de acor-
do com circunstâncias bem determinadas, sugerindo, portanto, que
na retomada de alguns discursos por outros há sempre deslocamen-
tos que não são estáveis nem constantes nem absolutos (FOUCAULT,
1971). Justamente por isso é que a manutenção de um tema operado
na retomada de discurso de uma mídia por outra não deve ser olhada
como um movimento menor, mas como um modo de funcionamento
do dispositivo midiático que limita os acasos: os temas midiáticos são
controlados por esse mecanismo e a repetição de um texto em sua
totalidade ou em parte é também um efeito do arquivo que define o
dizível e formas de dizibilidade.
Assim, é que se pode observar como o tema do desmatamento da
Amazônia Legal, por exemplo, entra na agenda da imprensa pela retoma-
da e repetição, como forma de tornar algo possível de ser dito dentro de
certas grades de funcionamento, particularmente num momento em que
o discurso da degradação florestal está em plena circulação no arquivo
midiático. Por outro lado, o tema dos conflitos agrários e luta pela terra é
retomado como forma de um discurso se beneficiar da posição política do
outro, desenhando-se para o leitor como mídia alternativa.

Considerações provisórias

Tratando das práticas discursivas de blogs locais e regionais, em


nossa pesquisa constatamos que muitos temas, apesar de se constitu-
írem por meios de diferentes e importantes dinâmicas (sociais, eco-
nômicas, políticas, educacionais etc.), nem todos gozam do mesmo
privilégio de se configurarem na mídia como coisas a serem ditas. Nes-

124
O JOGO DISCURSIVO DE REATUALIZAÇÃO DO ARQUIVO MIDIÁTICO NA AMAZÔNIA

sa rede de manutenção do dizível, a mídia convencional pauta alguns


temas regionais por ela privilegiados, e os blogs, em seu sonho lírico
de entrar na atualidade da agenda das notícias validadas pela grande
mídia, assume o comentário como a possiblidade de tomar parte do
arquivo midiático. Nesse movimento, o comentário cumpre um impor-
tante papel enquanto mecanismo por meio do qual o arquivo discursi-
vo se faz e se refaz entre a manutenção e o deslocamento de discursos,
mobilizando certos temas e excluindo outros, de acordo com a ordem
desta prática discursiva.
Como vimos nas análises, o processo de reativação se dá tanto
pela valorização de certos temas como pelo alinhamento ao arquivo
constituído pelas mídias de referência, mesmo quando a relação de
interdependência do blog não é com a grande mídia, mas com uma
mídia que se representa alternativa, como vimos na retomada do dis-
curso da Caros Amigos e Brasil de Fato.
São, portanto, as formas do dizível apreendidas nos blogs regio-
nais que nos permitem dizer que apesar de deslocamentos operados
na relação com outras mídias, os blogs locais se constituem discursiva-
mente como o espaço de mediação entre temas conservados ou trans-
formados pela mídia convencional e os leitores, funcionando como o
lugar de reativação e manutenção do arquivo midiático.

Referências

AMARAL, M. V. B. A dialética do arquivo: ‘pensar para trás’, entender


o presente e mudar o Futuro Conexão Letras: A noção de arquivo
em Análise de Discurso: relações e desdobramentos. Volume 9, nº 11,
2014, p. 11-22.

125
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

SARGENTINI, M. V. O. O arquivo e a circulação de sentidos . Conexão


Letras: A noção de arquivo em Análise de Discurso: relações e desdobra-
mentos, Volume 9, nº 11, 2014, p. 23-30.

FOUCAULT, M. A ordem do discurso. 3ª edição. São Paulo:


Edições Loyola, 1971.

FOUCAULT, M. Arqueologia do Saber. 7ª edição. Rio de Janeiro:


Forense Universitária, 2008. p. 143-149.

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e Escritos VI. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 01-24.

GREGOLIN, M. R. V. Análise do discurso e mídia: a (re)produção de


identidades. Comunicação, mídia e consumo. São Paulo, vol. 4,
n.11, p.11-25, nov. 2007.

GUILHAUMOU, J.; MALDIDIER. Efeitos do arquivo. A Análise do


Discurso no lado da história. In.: ORLANDI, Eni (org.). Gestos de
leitura: da história no discurso. 2 Ed., Campinas, São Paulo: Editora
da Unicamp, 1997, p. 163-187.

PÊCHEUX, M. Ler o arquivo hoje. In.: ORLANDI, E. (org.). Gestos


de leitura: da história no discurso. 2. edição. Campinas, São Paulo:
Editora da Unicamp, 1997, p. 55-66.

TAVARES, D. W. S. LOUREIRO, J. M. Dispositivos de informação:


arquivos, memórias e informação. TransInformação, Campinas,
29(1) :73-80, jan./abr., 2017).

126
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS


SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: ACIDENTE OU VIOLÊNCIA SÓCIO-
HISTÓRICA?

Tatiara Ferranti Nery (UFPA)

Marcos André Dantas da Cunha (UFPA)

Narrando uma singularidade que se repete

Ainda é comum o escalpelamento de muitas mulheres na Ama-


zônia Paraense, meninas que atravessam os rios da Amazônia, famílias
compostas por mulheres-garotas que são transportadas sobre as águas
dos caudalosos rios e das baias do Pará. Nesse sentido, acredita-se que
tais meninas não podem ser consideradas seres individuais, pois são
sujeitos compreendidos pela ótica da representação das relações so-
ciais e históricas. Essas mulheres, meninas, sobretudo, são inscritas si-
multaneamente em uma continuidade repetida e dispersa de sentidos
que se espreitam e espalham numa atemporalidade em localizações e
espalhamento pelos espaços. Quem são essas pessoas que se mostram
vulneráveis ao escalpelamento? E o próprio escalpelamento poderia
ser considerado um fato em si, mas enquanto ocorrência que se repete
e se dispersa em dizeres e mesmo sutis e marcantes variações, poderia
ser delimitado como um acontecimento?
Então, nessas possibilidades, teríamos singulares fatos que,
por várias vezes, se desenhariam, se eclodiriam acontecimentos. Um
acontecimento constituindo-se em determinadas condições sociais e
históricas. Nessa perspectiva, tais condições poderiam apontar para
uma tensão entre um fato que é noticiado repetidas vezes, enunciado
como fato (nos rios da Amazônia, talvez mesmo das Amazônias) e o

127
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

que se constitui enquanto acontecimento; suas redes de memória, o


alcance de suas práticas efetivadas de sentido.
Entre o fato isolado e o acontecimento se atravessaria outra
indagação: os fatos/acontecimentos que envolvem os escalpelamen-
tos na Amazônia Paraense seriam acidentes ou seriam replicações de
violência que se disseminam em sujeitos marcados, identificados por
certas condições sócio-históricas? Essas questões serão respondidas
neste estudo a partir da análise das enunciações de uma propaganda
oficial e de um vídeo-documentário, já que teríamos como temática
nos discursos em circulação nessas mediações, o escalpelamento das
mulheres-garotas da Amazônia paraense. Em tais processos de me-
diação discursiva, o tema do escalpelamento aparece como um aci-
dente. Mas, analisando tais enunciações problematizamos: teríamos
no escalpelamento definidamente um acidente ou um acontecimento
sócio-histórico violento?
A partir dessas questões, serão analisadas essas replicações, ou
seja, verificar-se-ão as redes de sentidos que se atravessam por entre os
enunciados – neste caso uma propaganda oficial sobre o escalpelamen-
to e um curta-metragem produzido pelo Governo do Pará – os quais se
constituem em discursos instituídos por essa ordem de acontecimentos.
Tratam-se de discursos oficiais retirados do espaço virtual que, embora
digam e incentivem combater o escalpelamento, são dizeres de uma or-
dem que, historicamente, também parecem constituir o escalpelamento.
Sobre o papel das mídias enquanto meios que produzirão certos sentidos
em controle de poder, Martín-Barbero (1997, p. 283) afirma:
A questão transnacional designa mais que a mera
sofisticação do antigo imperialismo: uma nova fase do
desenvolvimento do capitalismo, em que justamente o
campo da comunicação passa a ter um papel decisivo.
O que está em jogo agora é a internacionalização de

128
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

um modelo político (...) é bem diferente lutar para


se tornar independente de um país colonialista, em
combate frontal, com um poder geograficamente
definido, de lutar por uma identidade própria, de
um sistema transnacional, difuso, interrelacionado e
interpenetrado de modo complexo.

Então, tratando de tais espaços que vem caracterizar de modo


bastante potencializado as mediações na era digital, sobretudo, no
contexto produzido pela nova ordem sanitária que se instala no Brasil
e no mundo (decorrente da pandemia do novo corona vírus), recor-
remos a Martín-Barbero (1997). Nesse prisma, optou-se em analisar
os conteúdos digitais ressaltados acima, que se mostram como meios
materializando outras ordens discursivas, produzindo conexões entre
distantes lugares, ressignificando os espaços na atualidade. Segundo
Lévy (1999, p. 113), “o ciberespaço tende à universalidade e à siste-
maticidade (interoperabilidade, ‘transparência’, irreversibilidade das
escolhas estratégicas) em um sentido ainda mais forte que os outros
grandes sistemas técnicos”.
Dessa maneira, inicialmente serão discutidos alguns conceitos
que apontam para o estudo da temática a ser abordada, como os con-
ceitos de discurso, enunciado, enunciação, acontecimento, sujeito e
identidade.

Discurso, sujeito, acontecimento e identidade

Conforme Fernandes (2008), o discurso implicaria, necessaria-


mente, o acontecimento, por exceder-se à estrutura linguística, ain-
da que por ela se efetive sua materialidade. De acordo com Foucault
(1979), o discurso é fruto de uma prática oriunda da formação dos
saberes e, por veicular saber, é gerador de poder: “o discurso é o espa-

129
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

ço em que saber e poder se articulam, pois quem fala, o faz de algum


lugar, a partir de um direito reconhecido institucionalmente. Esse dis-
curso, que passa por verdadeiro, veiculador de saber (o saber institu-
cional), é gerador de poder” (FOUCAULT, 1979, p. 247).
Assim, os enunciados não se manifestam a partir da intenção do
emissor, mas daquilo que foi dito por um sujeito social e histórico, por
uma materialidade linguística que está inserida no plano do discurso,
ou seja, “do que se produziu pelo próprio fato de ter sido enunciado” e
“em circunstâncias bem determinadas” (FOUCAULT, 2016, p. 100).
E a existência do enunciado se dá mediante a função enunciativa. O
enunciado é um dito que se realiza pela enunciação, pelo dizer de um
sujeito, sendo unidade que se efetiva em conexão com uma rede de
sentidos de dada formação discursiva.
Mediante isso, a enunciação não se repete e tem uma singulari-
dade situada em tempo e espaço certamente definidos, diferentemen-
te do enunciado, que não apresenta tempo e espaço demarcados e que
se efetiva pela repetição. Para Cunha (2011, p. 54), “a cada articulação
de um conjunto de signos se terá uma enunciação, tanto quando duas
pessoas dizem ao mesmo tempo o mesmo enunciado, quando a mes-
ma pessoa diz o mesmo enunciado várias vezes”.
A heterogeneidade é, então, constitutiva do discurso. “Há, em todo
discurso, um jogo entre a historicidade e a materialidade, entre a des-
continuidade do histórico e a regularidade da linguagem” (GREGOLIN,
2004, p. 47). A produção dos sentidos discursivos se desenha, então, na
tensão entre a dispersão do acontecimento e a regularidade da materiali-
dade estrutural da língua. Desse modo, deve-se pensar sempre no outro
como horizonte analítico para a Análise do Discurso. Assim, o sentido se
constitui e se altera na relação entre uma materialidade de linguagem e
um cenário social e histórico, entre um sujeito e o outro.

130
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

Não separadamente, mas simultaneamente, o discurso se faz


materialidade e historicidade, estrutura e acontecimento. Mas até
onde estaria o discurso em relação à estrutura e ao acontecimento?
Sobre a tendência em se assombrear o acontecimento pela estrutura,
destaca Pêcheux (2002, p. 56): “O gesto que consiste em inscrever tal
discurso dado em tal série, a incorporá-lo a um ‘corpus’, corre sempre
o risco de absorver o acontecimento desse discurso na estrutura da
série [...] desembocaria em um apagamento do acontecimento”. Nesse
caso, o acontecimento seria neutralizado pelo fato de se destacar a
preocupação de inseri-lo numa estrutura discursiva, fazê-lo parte de
uma série, demarcá-lo a uma forma.
Então, não é exatamente dos fatos referentes ao escalpelamen-
to, da narrativa de um fato que se repete nos rios, nos furos e bacias
amazônicas, que falaremos. Essa paisagem não deixará de ser visitada
pelos trânsitos moventes e banhados de saberes dos espaços navegá-
veis das águas amazônicas. Nesse lugar visualizamos as embarcações
que circulam por entre nossos rios, as quais são chamadas de rabe-
tas, popopôs e rabudos49. São esses transportes necessários para quem
mora entre os rios, indispensáveis à realidade amazônica. As rabetas ou
mesmo os rabudos são meios de transportes caraterísticos dos grandes
rios ‘mares amazônicos’, parecem materializar o encontro ou mesmo
o desencontro de saberes dos povos tradicionais da floresta, homens
e mulheres das margens ribeiras. São embarcações feitas de toras de
madeiras; em que se agregam a tecnologia do colonizador: os motores
são colocados de modo precário nas canoas, não tendo quaisquer tipos
de proteção. O saber dos sujeitos de fora (o outro) se agrega às tradicio-
nais embarcações de modo desajustado, provocando toda uma série de

49 As rabetas, os propôs e os rabudos são pequenas embarcações comuns nos rios da Amazônia
cujo motor é acoplado na traseira do transporte marítimo.

131
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

acidentes. Considerando esses fatores, será analisada uma propaganda


oficial vinculada a políticas estatais de combate ao escalpelamento, as-
sim como um vídeo-documentário produzido pelo Governo do Estado
do Pará. Ambos os materiais de divulgação oficial foram retirados do
ambiente virtual.
Sendo os sujeitos localizados, mas ainda invibilizados, viventes
da Amazônia, já se fazem convergências entre uma ancestralidade que
marca os povos tradicionais da terra e as técnicas de navegação im-
portadas da Europa. Nesse prisma, analisam-se outros discursos que,
numa relação incessante de sentidos, se replicam, se transformam,
convergem e divergem. O discurso se materializa em palavras e ima-
gens, em descontínuas possibilidades de discursividades. Assim, nesse
outro discurso que por ora se tece, no caso, as propagandas estatais e
o documentário em que se instaura a cena do escalpelamento, consti-
tuem-se os objetos dos sentidos da análise.
Como não falaremos delimitadamente, ou melhor, isoladamen-
te de fatos, mas de acontecimentos, redes de práticas discursivas que
se constituem nas relações de produções de sentido; também não fa-
laremos em indivíduos, em seres que se pautam na conformidade da
imobilidade individualizante e cristalizada de um eu formado por si
próprio. Desse modo, no escopo dos acontecimentos nos defrontare-
mos com os sujeitos que são constituídos pelos discursos. Mediante as
relações de poder vigentes no âmbito social, há de se considerar que,
de acordo com Foucault, o sujeito deve ser entendido em um sentido
político, já que “os enunciados são marcados como espaço de efeito de
poder”, conforme esclarece Sargentini (2004, p. 93).
De acordo com Fernandes (2008, p. 14), ao tratar de discurso é
preciso considerar os “elementos que têm existência no social, as ide-
ologias, a História”, haja vista que os discursos não são fixos e são pro-

132
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

duzidos mediante os lugares ocupados pelo sujeito enunciador a partir


dos processos históricos e sociais. O discurso se realiza em unidades
discursivas que podem ser delimitadas como enunciados, unidades
constitutivas do discurso. Seria um dizer que se circunscreveria a um
conjunto de dizeres, a uma série que se formaria ou por uma ordem
de repetição ou mesmo de dispersão. Em outras palavras, a análise do
discurso permite a leitura não da universalidade de um sentido, mas
a descoberta de jogos de sentidos construídos nas práticas discursivas.
Ao tratarmos da concepção do sujeito investida pela noção do
discurso enquanto uma constitutividade, encontramos o sujeito frag-
mentado, atravessado pelo outro e fazendo-se outro em si. O sujeito
que se faz nas relações e nos vieses de tensionados lugares de posicio-
namento. Seriam marcas ideológicas em constantes movimentações e
sobreposições. Essas posições ideológicas irão trazer um jogo de distin-
tas identidades para o discurso.
Nesse sentido, a análise do discurso privilegia entender não ne-
cessariamente “o que” o texto revela, ou seja, um certo sentido dado do
texto, mas sim “como” o discurso foi produzido e quais seus efeitos de
sentido. Isso, a partir da não-transparência da linguagem, da historici-
dade dos fatos e da noção não de um homem, mas de um sujeito que
é afetado pela história e constituído pela ideologia e pelo inconsciente.
Superando o entendimento de um sujeito centrado na unici-
dade de uma individualidade, iremos encontrar o sujeito disperso de
uma pós-modernidade. Esse sujeito se dimensiona em distintas identi-
dades. As identidades passam, então, a ser múltiplas e continuamente
transformadas nos sistemas culturais em que estamos inseridos.
Devemos ter consciência, portanto, de que, ao sermos inter-
pelados pelos vários sistemas sociais, apresentamos identidades mui-
tas vezes contraditórias ou não resolvidas e multiformes, identidades

133
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

cambiantes e fragmentadas. Por isso, vale indagar: entre os sujeitos


do escalpelamento que outras identidades encontraríamos? Também
quais são os enunciadores que replicam as vozes que constituem a
enunciação presente na propaganda e no vídeo-documentário sobre
escalpelamento?
Dentro dessa concepção de identidade, Hall (2002) defende
que a identidade do sujeito na pós-modernidade impulsiona o surgi-
mento de novas identidades no ser humano. Assim, não se pode mais
falar de uma identidade unificada e coerente, como se pensava antes.
Então “O sujeito assume identidades diferentes em diferentes mo-
mentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ co-
erente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em
diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo
continuamente deslocadas (HALL, 2002, p. 13)”.
As múltiplas identidades que impulsionam a chamada “crise
de identidade” resultam das mudanças estruturais nas sociedades
modernas, as quais geram fragmentações nas identidades de classe,
gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade. Perdemos, pois, a
sensação de nossas identidades pessoais e não nos vemos mais como
sujeitos que reuniriam um conjunto não tensionado, apontado como
harmônico de identidades. Dessa forma, Bauman (2005, p. 22) afirma
que “a fragilidade e a condição eternamente provisórias da identidade
não podem mais ser ocultadas”.
Na análise do discurso empreendida nesta pesquisa, temos di-
ferentes identidades que se fazem colocadas. Nenhuma delas se libe-
ra de um fluxo de sentidos que se interconectam. Neste caso, iremos
analisar os discursos enunciados, considerando a rede entre o acon-
tecimento do escalpelamento e os discursos oficiais que posicionam
saberes, enunciando a visão do Estado enquanto organização. Isso em

134
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

uma certa ordem de relação de poder na propaganda e no curta-me-


tragem acerca do escalpelamento.
Dessa maneira, nesses jogos de sentidos, opera-se a inquieta
indagação realçando-se um discurso que se balanceia (tal como o ba-
lanço do banzeiro amazônico, ou seja, das ondas que se fazem nos
grandes rios da floresta): por um lado, sobre um lugar estabelecido do
que se faz acidente ou violência? Ou mesmo um espaço móvel entre
uma desculpante fatalidade ou em uma escamoteada e consubstancial
violência? Encontram-se duas formas de violência, a física que se ma-
terializa e recebe a justificativa de acidente, quase uma fatalidade pa-
recendo silenciar uma violência muito mais poderosa, construída his-
toricamente por uma ordem de poder do saber do outro que se adentra
na floresta, se adensa silenciosamente em profundidade, sequelando
corpos e almas de mulheres meninas.

Escalpelamento: ferindo uma identidade-mulher

Abordar a respeito da violência às mulheres requer não somen-


te pensar o que a legislação vigente compreende por violências como
também demandar situações cotidianas reais de discriminação en-
frentadas pelos sujeitos femininos ao longo da história e em diferentes
tempos e espaços. Nessa perspectiva, aponta-se para a necessidade de
se falar em violências no plural.
Quanto às formas de violência, o Art. 7º do capítulo II da lei
brasileira esclarece com detalhes o conceito de cada tipo de violência
(física, psicológica, sexual, patrimonial e moral). No que concerne à
temática abordada neste artigo, há o destaque para os dois primeiros
tipos de violência mencionados:
I- a violência física, entendida como qualquer
conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

135
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

II- a violência psicológica, entendida como


qualquer conduta que lhe cause dano emocional e
diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e
perturbe o pleno desenvolvimento (...) ou qualquer
outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica
e à autodeterminação (Redação dada pela Lei nº
13.772, de 2018).

Inicialmente, a violência era compreendida, legalmente, ape-


nas como homicídios de mulheres praticados por homens (geralmente
maridos, companheiros ou amantes). “Só nos anos 90 que a problemá-
tica passa a abranger outras violências como o assédio sexual, o abuso
sexual infantil e as violências étnicas” (GROSSI, 1994, p. 483).
São, portanto, violências no plural que perpassam desde o plano
físico quanto o simbólico/regional, como o escalpelamento, uma práti-
ca recorrente na Amazônia paraense que atinge, sobretudo, meninas
ribeirinhas e, em menor porcentagem, adolescentes, adultos e idosos.
As mulheres escalpeladas sofrem violência física e psicológica ao per-
derem o cabelo, o couro cabeludo e até sobrancelhas e orelhas no eixo
do motor das embarcações, o sofrido e mutilador escalpelamento. A
imagem abaixo faz referência ao episódio de violência que acomete as
mulheres nos rios da Amazônia.
Figura 1 – Cabelos enroscados durante acidente no motor

Fonte: www.ciseco.org.br/anaisdocoloquio/images/csm4/C4LazaroLucianaEdwa-naSalomao.pdf

136
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

De acordo com Foucault (1983, p. 220 apud Azerêdo, 2011, p.


79), “a relação de violência age sobre um corpo ou sobre as coisas; ela
força, ela dobra, ela quebra, ela destrói, ou ela fecha a porta a todas as
possibilidades. Seu oposto só pode ser a passividade, e, se ela encontra
alguma resistência, ela não tem outra opção que não seja minimizá-
-la”. A violência aparece como uma ação ofensiva ao outro, de certo
modo diferente do poder, que é exercido diretamente sobre as ações
do sujeito, e não sobre ele. No entanto, uma linha se define entre o
exercício do poder e as repercussões desse gerador de violências.
Conforme dados da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), so-
mente no Pará, de 2000 a 2015 foram registrados 281 acidentes por
escalpelamento. Esse tipo de violência ocorre em decorrência da falta
de responsabilidade dos donos das embarcações, pois estes não pos-
suem o cuidado e a preocupação de proteger o eixo do motor e as áreas
móveis com instalações de proteção adequadas. Porém, é importante
observar que o motor das embarcações não é um objeto criado pelos
índios e habitantes de regiões ribeirinhas, mas sim um dispositivo ad-
vindo do processo colonial de modernização das cidades.
Ao Estado cabe também a tarefa de garantir mobilidade rural
adequada aos ribeirinhos, fiscalizando, nesse caso, as condições de segu-
rança de embarcações de pequeno, médio e grande porte, ou seja, ado-
tando e monitorando medidas eficientes de proteção à vida e de combate
à violência na Amazônia Paraense. Para reduzir os casos de escalpela-
mento, desde 2009, proteções do motor são distribuídas, gratuitamente,
pela Marinha do Brasil, entretanto mesmo com essa ação governamen-
tal muitas embarcações ainda trafegam sem a segurança necessária. Es-
sas medidas que apontam certo teor histórico de ações paliativas acabam
por manter/sustentar certas condições referentes à mobilidade e modos
de vida dessas populações e por refletir a respeito de causas estruturais.

137
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Bourdieu (2017), ao criar o conceito de violência simbólica, ex-


plica que não se trata de ignorar ou minimizar o papel da violência físi-
ca, mas de enfatizar a existência de uma forma de violência complexa
e suave, causadora de dominação simbólica que resulta em sérios da-
nos morais e psicológicos à vítima.
Porém, aparentemente tal forma de violência acaba por impli-
car em resultados mais prolongados e não menos graves que outros
modos de violência. Além disso, muitas vezes é mais difícil de ser com-
batida, porque é dissimulada e oriunda das relações de poder que se
formam entre sujeitos, instituições e estruturas sociais diversas. Esse
tipo de violência faz-se exercida por uma classe em detrimento de ou-
tra, de uma etnia em lugar de outra, de um gênero ou de uma cultura
em sobreposição a outra.
Ao considerar o sujeito do feminino é necessário entendê-lo de
forma contextualizada, sem deixar de observar outros importantes ei-
xos de relação de poder, como a classe social, a raça e a etnia. Confor-
me Butler (2018, p. 22),
a “especificidade” do feminino é mais uma
vez totalmente descontextualizada, analítica e
politicamente separada da constituição de classe,
raça, etnia e outros eixos de relações de poder, os
quais tanto constituem a “identidade” como tornam
equívoca a noção singular de identidade.

Daí, pode-se compreender a mulher a partir de um caráter


heterogêneo, que faz alusão às múltiplas representações identitárias
existentes, ou seja, às diferenças. “Ao classificar os sujeitos, toda so-
ciedade estabelece divisões e atribui rótulos que pretendem fixar as
identidades. Ela define, separa e, de formas sutis ou violentas, também
distingue e discrimina” (LOURO, 2000, p. 9).

138
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

Nesse contexto, ao se associar a mulher à sensibilidade, emoti-


vidade, fraqueza e ternura, em contraste à racionalidade, à força e ao
vigor, opera-se uma dimensão de poder que reduz as possibilidades de
protagonismo e autonomia feminina, tal como parece difundir-se pelo
pensamento ocidental. Assim, a violência simbólica é caracterizada por
Bourdieu (2017) como uma forma de coação que induz o sujeito a se
posicionar no espaço social conforme os critérios e padrões do discurso
dominante, que se tornam legítimos pelas próprias vítimas, pois estas não
se percebem como tais e, por isso, não resistem às formas de opressão.

Cidade sedutora ou o caminho da mutilação?

Aponta-se a linguagem publicitária50 como sendo econômica,


valendo-se de certas estratégias para deixar o discurso mais dinâmico e
conciso, de modo a conquistar a atenção do leitor e a eficácia na comu-
nicação. Conforme Carvalho (2014, p. 103), “o discurso publicitário,
devido ao estilo rápido e breve de comunicação, exige uma linguagem
econômica e que estabeleça proximidade com o interlocutor”.
Assim, o enunciado, sendo suporte material do discurso, é o
objeto a partir do qual é possível analisar o contexto de enunciação,
os recursos utilizados no anúncio. Em síntese, o texto publicitário é
marcado pela simbiose expressa nas linguagens verbal e a não-verbal,
ao manifestar um apelo visual por meio da escolha de cores, imagens,
enquadramento, tipos e tamanhos de letras, textos criativos, entre ou-
tras possibilidades.
A seguir, consta uma campanha publicitária selecionada para
análise. Essa propaganda foi retirada de um material de divulgação
disponibilizado na internet pela empresa Fazer Segurança, responsá-
vel por realizar treinamentos técnicos e prestar consultoria nas áreas
50 Propaganda, publicidade, neste caso espécie de campanha publicitária.

139
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

de saúde, segurança do trabalho e elétrica em alta e baixa tensão. Isso


sugere que a publicidade digital foi produzida por alguma instituição
governamental local, como o Governo do Pará, e serviu como suporte
para embasar a divulgação da empresa mencionada.
Figura 2 – Propaganda selecionada para análise

Fonte: www.fazersegurança.com/documentos/acidentesrecorrentes/Escalpelamento.pdf

Em primeira instância, o anúncio disponibilizado no ciberespaço apre-


senta um cenário típico da região ribeirinha e propício para a ocorrência do
escalpelamento: a cena se passa em uma embarcação pequena em movimento
pelo rio e cujo eixo do motor está desprotegido. Próximo a ele há uma menina
abaixada para pegar um pequeno objeto que cai no chão, talvez uma “xuxa”51
de cabelo.
A garota é parda, está usando um vestido amarelo (traje bem caracte-
rístico do conceito estereotipado de feminilidade) e tem os cabelos compridos

51 Xuxa é uma espécie de elástico utilizado para prender os cabelos.

140
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

e bem lisos, com características próprias das mulheres com descendência in-
dígena, mas apesar disso pela colonização europeia aderiram ao cristianismo
usando cabelo longo. A vertente do cristianismo difusa, atualmente, nesta re-
gião, é, no caso, o protestantismo, apresentando os cabelos longos como sinal
de honra e glória, conforme orientam os trechos bíblicos:
Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher
ore a Deus descoberta? Ou não vos ensina a mesma
natureza que é desonra para o homem ter cabelo
crescido? Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é
honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de
véu (1 Coríntios 11:13-15);

A própria natureza das coisas não lhes ensina que é


uma desonra para o homem ter cabelo comprido, e
que o cabelo comprido é uma glória para a mulher?
Pois o cabelo comprido foi lhe dado como manto (1
Coríntios 11:14-15).

Vemos a criança sendo ilustrada em situação de risco por ter


que se abaixar ficando próxima ao motor tendo que pegar a “xuxa”. As-
sim, diante dos cabelos constituídos pela sua etnia e formação religiosa
do colonizador faz-se potencial vítima do escalpelamento. A campanha
aponta, portanto, uma mulher como futura vítima da violência, o que
condiz com o perfil de vítimas geralmente notificado pela SESPA.
Seguindo a análise da campanha, atrás da imagem da meni-
na há um homem adulto sentado de forma estática. Esse parece não
evitar que a menina se aproxime do eixo sugerindo, por exemplo, que
prenda seus cabelos devidamente ou use chapéu ou ainda se sente
no banco da frente da embarcação, longe do perigo. O sujeito, então,
parece não agir para evitar o escalpelamento, mesmo havendo a possi-
bilidade tão anunciada do acidente.
Na parte superior direita da propaganda, a considerada de
141
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

maior destaque, há um círculo em cor chamativa, o vermelho, com


o seguinte dizer: “TODOS juntos para EVITAR o escalpelamento”. A
opção por colocar em caixa alta e em tamanho maior o pronome inde-
finido “todos” e o verbo no infinitivo “evitar” serviu, além de sintetizar
o conteúdo principal da campanha, para enfatizar o público-alvo do
anúncio (todos).
Abaixo da roda alaranjada há um dedo apontando para o texto
supracitado como estratégia discursiva para reforçar um dos discursos
de grande importância do anúncio: que atribui a todos (donos de em-
barcações, passageiros-adultos, órgãos competentes e sociedade civil)
a responsabilidade pela ação verbal, que é prevenir o escalpelamento.
Veja-se o destaque para o pronome “TODOS” e o verbo “EVITAR” em
letra maiúscula. O fato de a imagem do barco não mostrar um ambien-
te delimitado apenas à embarcação também sugere que o público-alvo
do anúncio sejam todos.
Porém, compreende-se que o dedo apontado para o dizer está
direcionado não apenas ao enunciado verbal em destaque, como pare-
ce mais evidente. Também parece referir-se ao homem sentado, pro-
vavelmente o piloto da embarcação. Este que deveria ter responsabi-
lidade sobre a garantia da dignidade da criança, sugerindo-se, então,
nesse caso, uma acusação. Também nesse “TODOS” pode estar inclu-
sa a sociedade e mesmo os órgãos de fiscalização e controle, e ainda o
próprio poder do Estado que muitas vezes determina historicamente
essas condições precárias de mobilidade da população.
Portanto, as mãos direcionadas ao enunciado verbal não só re-
forçam o discurso da campanha publicitária, mas também acusam e
denunciam a atitude presente, por meio da relação de correspondên-
cia, ou seja, de homologia entre enunciado verbal e enunciado não-ver-
bal. Nesse sentido, Curcino (2011, p. 1400) explica que “a relação de

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ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

homologia semântica ou discursiva implica uma confluência comum


de linguagens (verbal e não-verbal, por exemplo), uma confluência
concordante quanto ao que é enunciado por ambas e que constitui o
texto em sua totalidade”. No caso da propaganda em questão, nota-se
uma relação de homologia por analogia, porque há uma tentativa de
conexão entre imagem e texto.
Encontramos ainda destacado em tom amarelo, mas com le-
tras menores, o seguinte discurso: “Estamos todos no mesmo barco
na hora de proteger a vida”. Mais uma vez observa-se a repetição no
uso do pronome “todos” como estratégia argumentativa para enfatizar
o papel dos vários segmentos da sociedade em proteger as possíveis
vítimas de escalpelamento. Nesse caso, o verbo em primeira pessoa
“estamos” estabelece certa cumplicidade, apontando para um com-
prometimento entre quem enuncia e os enunciatários. Também se
complementam o verbal e o não verbal: uma menina, um homem, um
barco e o rio.
A expressão coloquial “no mesmo barco” pode produzir por am-
biguidade criativos efeitos de sentido: alusão ao ditado popular “esta-
mos todos no mesmo barco”, responsabilizando a todos pelo problema,
o escalpelamento. Aponta-se ainda um efeito de sentido de resolutivi-
dade da violência: de que todos “remem contra a maré”.
O sentido do enunciado, então, se constrói nos hiatos de suas
diferenças, na negação daquilo que parece dizer, mesmo na descon-
tinuidade dos acontecimentos, para além do que se diz. Desse modo,
um possível enunciador, sendo o Estado ou a ele representando dire-
tamente, estaria realmente no “mesmo barco” daquelas populações,
das mulheres-meninas expostas àquelas históricas condições de nave-
gabilidade?
A maré pode ser compreendida como a própria condição social

143
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

dos donos de embarcações. Esses não têm condições financeiras de ar-


car com meios de transportes marítimos salubres. Também “a maré”,
ou mesmo a onda pode se referir a negligência/falta de consciência dos
donos de embarcações quanto a segurança do transporte. Questiona-
-se ainda sobre o descuido dos adultos com as crianças em não deixar
o cabelo solto no barco e não sentar próximo ao eixo descoberto. Mas
a razão atravessada por todas essas atitudes pode se dever a fatores
históricos, ou seja, às formações e ao acesso ao transporte salubre, bem
como ao estabelecimento de uma suposta ordem civilizatória imposta
aos povos tradicionais da floresta.
Nesse viés, observa-se uma preocupação do anunciante em
usar um provérbio popular de fácil entendimento (“Estamos todos
juntos no mesmo barco”) e que condiz com a realidade dos povos das
águas justamente para estabelecer uma relação de analogia entre o
provérbio tão conhecido e o enunciado, localizado na parte inferior da
campanha. Logo, se indaga se o objetivo principal da campanha não foi
persuadir principalmente os ribeirinhos.
Já o significado denotativo de “no mesmo barco” indica o lugar
de ocorrência da violência, que navega pelo rio (daí a exploração no
anúncio da cor azul das águas, do cabelo e adereço da criança e do
eixo do motor). Esse espaço tão utilizado pelo povo ribeirinho do Pará,
o barco, representa o meio de transporte mais comum usado por todos
para a locomoção da população das margens ribeiras do rio à urbana e
mesmo para a navegação entre os rios.
Então, o cenário da propaganda representa, ao mesmo tempo,
um lugar característico da realidade amazônica – com rios carregados
por simbologias (mitológicas, imaginárias, lendárias) pelo desaguar das
marés. Essas águas do rio que trazem o sustento do povo ribeirinho,
e garantem o ir e vir dos navegantes, pertencem a um cenário carac-

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ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

terístico da história de vida do povo ribeirinho, o qual se desloca pelas


águas para pescar e pegar camarão e outras especiarias, enfim, para
sobreviver52. Simultaneamente, a paisagem parece alertar para um lo-
cal carregado de perigo e sofrimento: o barco, o rio. Espaços onde o
escalpelamento rouba a dignidade da mulher paraense com marcas,
cicatrizes e memórias em mutilações de dor.
Em volta ao sugestivo rio da Amazônia paraense, sugere-
-se que, em decorrência dos traços culturais desse misto do índio
com o colonizador, a garota do anúncio tenha sido caracterizada tal
como uma índia: cabelos longos (mulher cabocla cristã e evangé-
lica), adereço nos cabelos, mas vestida conforme os resquícios da
colonização: mulheres que se fazem provocadas, interpeladas53 pelo
poder de saberes e lugares de uma ordem eurocêntrica. Embora
não seja identificada necessariamente com toda criança das mar-
gens das águas da floresta.
Há modos de vida “tradicionais” de populações que vivem
em localidades numa espécie de tempo lento, mas não linear, e uma
disposição espacial característica e marcada por inúmeros rios, fu-
ros e igarapés, em que “temporalidade e espacialidade continuam
marcadamente simbolizadas pelo rio, com uma vida dinamizada
pelas interações materiais, simbólicas e imaginárias diferenciadas
com ele” (DIAS, 2005). Espaços de uma heterotopia de uma “nau”
em crise de identidades, já anunciada por Foucault (2015): “o na-

52 Segundo dados da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA/Pará), a região


Norte do país conta com 68,5% dos recursos hídricos da superfície.

53 A partir da concepção foucaultiana, os sentidos são oriundos do processo de subjetivação


do sujeito, o qual é histórico e está inserido nas relações de poder, que produzem efeitos
de saber e de verdade. Desse modo, a interpelação do sujeito do discurso efetiva-se
mediante sua identificação com a formação discursiva que o domina.

145
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

vio é a hetorotopia por excelência. Nas civilizações sem barcos os


sonhos se esgotam, a espionagem ali substitui a aventura e a polícia,
os corsários”. (FOUCAULT, 2015, p. 438).
Logo, é no mesmo rio que serve como fonte de vida e meio
de transporte, comunicação e subsistência em que acontecem os
drásticos acidentes hidrográficos, como o escalpelamento. O rio é,
portanto, marca viva de múltiplas histórias de vidas (des)sincroni-
zadas entre alegrias e tristezas, conquistas e tristes lembranças ja-
mais esquecidas. Trata-se, pois, de populações margeadas por uma
hegemonia, contra-hegemonias em dissoluções reinventadas.
São moradores das margens não urbanas das águas, que
não podem ser considerados “selvagens” ou “atrasados”. Sujeitos
de populações não-hegemônicas, acabam por ser – nesse caso,
frisamos as mulheres – inseridos de forma desigual no processo de
globalização, lidando diferentemente com as marcas da colonização,
atravessando o espaço urbano e/ou rural. São sujeitos em contraste
de poder aquisitivo, escolaridade, acesso a serviços públicos...
sujeitos múltiplos e heterogêneos, que vivenciam de forma peculiar
as violências.

Acontecimentos reais ou apropriados pela voz institucional?

Ao analisarmos o vídeo-documentário Escalpelamento,


uma realidade amazônica, de duração de 14 minutos e produzido,
em 2011, pela Rádio Margarida para o Governo do Estado do
Pará, foi possível identificar de modo mais preciso, por meio da
linguagem audiovisual, os fatores históricos e sociais da violência
regional sofrida por mulheres da Amazônia. No vídeo, é descrita
uma realidade marcada por rios, tradições culturais e outras

146
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

características peculiares dos heterogêneos povos amazônidas54.


Figura 3 – Traços culturais evidenciados no Documentário

Fonte: Documentário Escalpelamento, uma realidade amazônica, produzido em 2011


pela Rádio Margarida para o governo do Pará.

Com enfoque para os depoimentos de mulheres vítimas de es-


calpelamento e destaque para a rede de apoio governamental disponi-
bilizada às famílias das vítimas, o curta-metragem55 possui mais de 8
mil visualizações e apresenta narrativas reais marcadas por episódios
de dor e mutilação: violência física, violência psicológica imbricada em
violência simbólico-regional56.

54 Povos amazônidas referem-se aos sujeitos que habitam ao menos os seis estados da
região Norte do Brasil, como também de outros países que constituem a Amazônia.
Ao tratar desses sujeitos, é preciso considerar os fatores históricos, sociais, culturais
e políticos que contribuíram para a formação das heterogêneas identidades culturais.
Então, “Na atualidade, os mapas desfazendo-se dos percursos, apagam os itinerários
espaciais, bem como a reflexão mais aguçada acerca desses movimentos: “O mapa
fica só” (CERTEAU, 2008, p. 207).” (CUNHA, 2011, p.57)
55 Disponível no YouTube, mais precisamente no endereço eletrônico www.youtube.
com/watch?v=w ZPUknw7tXM.
56 Por violência simbólico-regional compreende-se um determinado tipo de violência
complexa, isto é, uma forma de dominação simbólica característica de uma região,
ou seja, que destaca a identidade regional amazônica.

147
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

A partir da análise do curta-metragem, observou-se que o es-


calpelamento caracteriza-se como um tipo de violência simbólica na
medida em que o simbólico realiza-se não diretamente a partir de um
agente humano agressor: esse que se mostra agir de forma proposital
ou de certo modo voluntário; mas a partir de uma forma de violência
peculiar e complexa que compromete a integridade física da mulher57
e, além disso, ocasiona sérios danos morais e psicológicos à vítima, que
muda consideravelmente sua rotina de vida.
Figura 4 – Mulher vítima de escalpelamento

Fonte: Documentário Escalpelamento, uma realidade amazônica,produzido em 2011


pela Rádio Margarida para o governo do Pará.

Mediante esse cenário de violência, as vítimas de escalpelamen-


to, ao perderem os cabelos enrolados no motor, sofrem hemorragias e

57 Segundo dados de 2017 da Capitania dos Portos, as mulheres são a maioria das vítimas de
escalpelamento no Pará, já que representam 93% do total. Os homens somam 7%, totalizando
100%. Desse universo, os dados mostram que as crianças são as mais atingidas com a moléstia
e o trauma, pois fazem parte dos 65% das vítimas, seguidas dos adultos em faixa produtiva
(30%) e dos idosos (5%).

148
ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

passam por várias cirurgias. Após um intenso e complexo período de


tratamento, isto é, mesmo depois de curadas, sofrem várias sequelas,
tais como, fortes dores de cabeça, inflamação no ouvido, deformações
na face, estigma social, transtornos pós-traumáticos (pesadelos, irrita-
bilidade), dentre outros entraves. Depois de perderem os cabelos, as
vítimas tentam reconstruir suas identidades culturais a partir do uso
de perucas e de chapéus de crochê.
Figura 5 – Chapéu usado por vítimas de escalpelamento

Fonte: Documentário Escalpelamento, uma realidade amazônica, produzido em 2011


pela Rádio Margarida para o governo do Pará.

Ao destacar momentos peculiares de violência, por meio das


narrativas orais das mulheres ribeirinhas, o vídeo-documentário reú-
ne discursos voltados a um novo conceito de feminidade, ao conside-
rar que os danos do escalpelamento também interferem na aceitação
de uma nova femininidade do eu, expressa pela perda do cabelo da
mulher. Certamente, os males desse tipo de violência acabam por se
configurar como fatores de estigma social que colocam a mulher escal-
pelada em condição de opressão.

149
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Além disso, o documentário deixa explícita a voz institucional do


Governo e dos órgãos públicos de proteção às vítimas de escalpelamen-
to na Amazônia. No início do vídeo, no meio e, principalmente, no final
do curta-metragem, os porta-vozes do governo aparecem para assumir
publicamente a função de sujeitos responsáveis pela proteção à vida
de todos. Isso, sem dúvida, contribui para construir uma boa imagem
institucional ao Governo do Pará.
Nesse caso, a estratégia utilizada no vídeo pelo Governo do Es-
tado é mostrar a disponibilização de profissionais qualificados no setor
público de saúde da capital do Pará. Assim, o médico-cirurgião plástico,
a assistente social e a psicóloga aparecem no documentário para escla-
recer à sociedade via ferramenta muito acessada – a internet – a efi-
cácia do governo estadual58 na proteção às vítimas de escalpelamento.
A Marinha do Brasil também ganha visibilidade no documen-
tário por meio de narrativas apropriadas para a difusão da auto-pro-
moção governamental, ao enfatizar a realização de Operações Locais
Periódicas de distribuição gratuita de equipamentos de segurança a
barqueiros, a fim de evitar futuros escalpelamentos. Dessa maneira, o

58 Em 2002, a Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMPA), em


Belém, tornou-se referência no atendimento hospitalar especializado às vítimas de
escalpelamento. Em 2006, a instituição criou o Programa de Atenção Integral às Vítimas
de Escalpelamento (PAIVES), o qual conta com uma equipe de diferentes profissionais
(serviço social, psicologia, medicina, enfermagem, terapia educacional, educação,
entre outros) para prestar assistência hospitalar completa e humanizada às vítimas
de escalpelamento. O Espaço Acolher, criado em 2006, também é um importante
serviço, pois oferece, além de cursos de artesanato e oficinas para geração de renda,
hospedagem, alimentação e atendimento integrado às vítimas de escalpelamento e a
seus familiares acompanhantes, a maioria do interior Pará. Devido ao longo período
de tratamento das vítimas e para assegurar o direito à educação, a partir de 2011, o
Espaço Acolher passou a garantir a escolarização das meninas via classe hospitalar
por meio da atuação de professores da Secretaria Estadual de Educação (Seduc) e da
Universidade do Estado do Pará (UEPA) (ALMEIDA, 2016, pp. 72-73).

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ANÁLISE DO DISCURSO DE MULTIMÍDIAS DIGITAIS SOBRE MENINAS ESCALPELADAS DA AMAZÔNIA
PARAENSE: acidente ou violência sóciohistórica?

curta-metragem disponibilizado em um dos canais mais acessados da


internet, o YouTube, conduz o internauta a pensar que a responsabili-
dade pela ocorrência da violência não é da esfera governamental, pois
essa já assumiria seu papel público e social; mas sim dos donos das
embarcações e até mesmo das próprias vítimas e de seus familiares,
que foram descuidados.
Ao tratar sobre os “dispositivos de sedução” das narrativas escri-
tas, como os romances, Martín-Barbero (1997, p. 181) observa a orga-
nização por episódios e a estrutura aberta das narrativas. Para o autor,
isso causa suspense e duração (disponibilização de tempo do leitor para
se identificar com os personagens e as narrativas). Do mesmo modo, a
narrativa audiovisual institucional, o documentário analisado, também
é compreendido como um tipo de dispositivo de sedução na medida em
que dá, de modo estratégico, visibilidade às ações governamentais de
combate ao escalpelamento nos rios da Amazônia paraense. Ademais,
os relatos das vítimas são chocantes e emocionam, o enredo é bem cos-
turado e as imagens seduzem, assim como a atuação do Estado.

Considerações Finais

A partir da concepção de violência simbólica descrita por Bour-


dieu (2017) e dos efeitos de sentido oriundos da análise de uma propa-
ganda oficial e de um curta-metragem disponibilizados na internet, o
presente estudo possibilitou a compreensão do escalpelamento como
uma realidade social construída historicamente no presente das práti-
cas culturais da região amazônica paraense do Baixo Tocantins.
Teríamos no escalpelamento “a ferida aberta pela nau de fora
com incrementos de crueldade da morte ou mesmo a sequela de um
corpo kunumin abusado em punição”. Teríamos um acontecimento
oriundo de uma prática de violência sócio-histórica que acomete mais

151
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

diretamente as mulheres, embora atinja todo um modus vivendi de


uma ancestralidade “maldita na pena escrita de uma ocidentalidade”
colonizadora. O acontecimento de uma palavra que colocou inadver-
tidamente o motor no casco da mata, derrubou as copas ancestrais
produzindo toras de exportação e ainda, hoje, poderosamente pode he-
teropicamente fazer as kiçáua das kudantaí59 serem atropeladas pelos
dígitos das REDES capitais.

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59 Termo usado para se referir às meninas em Tupi-Guarani.

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155
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: DO


OLAVISMO AO BOLSONARISMO

Alison Sullivan de Sousa Alves (UFERSA)

Francisco Vieira da Silva (UFERSA)

Introdução

Esta pesquisa pretende, por meio da análise do discurso, pro-


blematizar o atual negacionismo científico, utilizado como ferramenta
retórica de narrativas do Governo Federal, amparado pelo ideário de
Olavo de Carvalho, um dos principais agentes ideológicos do bolsona-
rismo. O objetivo é analisar, através da apreensão das regularidades,
o discurso negacionista bolsonarista e suas implicações no âmbito da
ciência, da educação e da cultura nacional. Nesse ínterim, diversos
enunciados são produzidos com o intuito de mostrar que a grande luta
da sociedade brasileira deve ser o combate ao comunismo que, por
meio do “marxismo cultural”, tenta se impor na vida social, política
e econômica do país, infiltrando suas ideias através do ensino, dou-
trinando mentes, em vista de um suposto esquema de conspiração
esquerdista que se levantaria para derrubar Bolsonaro e instituir um
regime comunista no Brasil.
Neste sentido, o objeto de estudo mostra-se relevante, tendo
em vista que o discurso político reflete visões de mundo de seus enun-
ciadores que, dada a relevância de seus lugares de fala, no caso a Ins-
tituição da Presidência da República, incidem posicionamentos acerca
de temas relevantes para a vida em sociedade, muitas vezes transfor-
mados em projetos de governo. Ao longo do texto, veremos que essa
prática discursiva negacionista ser transformada em atos concretos do

156
FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: do olavismo ao bolsonarismo

Executivo Federal, com algumas de suas consequências para o país,


fazendo da pesquisa mais um dispositivo de análise da atualidade bra-
sileira para os leitores e/ou pesquisadores que se interessem pela histo-
riografia do tempo presente em relação à conjuntura política nacional.
A princípio, discutiremos as noções de Cunha (2019) e Oliveira
(2020), cujas análises acerca da “dialética simbólica” alinham-se ao
engendramento do discurso olavista em torno do “marxismo cultu-
ral”, por meio do qual nasce o ideário de uma sociedade corrompida
pela referida ideologia, trazendo a discussão para o universo da ciên-
cia, que seria o ambiente por excelência da propagação dessa cultura
marxista que teria, ao longo do tempo, doutrinado mentes e influen-
ciado projetos de governos de cunho comunista no Ocidente. Busca-
remos sustentar nossa problematização, sob a análise desses enuncia-
dos reverberados pelas mídias online, através da arqueologia do saber
de Foucault (2008), conceituando o termo “regularidade discursiva”,
aplicando-o ao bolsonarismo, naquilo que se refere ao negacionismo
científico, para apreender as regras que fazem desse discurso uma
prática singular no atual universo político brasileiro.

Sobre a arqueologia foucaultiana

O método arqueológico constitui uma proposta de análise que


visa a determinar a regularidade que o rege, confere unidade e o status
de uma formação discursiva. Nisto, o filósofo visa a problematizar as
questões teóricas que “o emprego dos conceitos de descontinuidade,
de ruptura, de limiar, de série, de transformação, coloca, a qualquer
análise histórica” (FOUCAULT, 2008, p. 23). Dessa maneira, distan-
ciando-se de um modelo das continuidades, da história tradicional que
buscava determinar a origem, encontramo-nos inquietos “diante de
certos recortes ou agrupamentos que já nos são familiares. É possível

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admitir, tais como são, a distinção dos grandes tipos de discurso, ou a


das formas ou dos gêneros que opõem, umas às outras, ciência, litera-
tura, filosofia, religião, história, ficção” (Ibidem., p. 24).
Tratam-se de recortes – “categorias reflexivas, princípios de
classificação, regras normativas, tipos institucionalizados – que consti-
tuem [...] fatos de discurso” (Ibidem., p. 25, grifo nosso), os quais se re-
lacionam de modo complexo, mas, “que não constituem seus caracte-
res intrínsecos, autóctones e universalmente reconhecíveis” (Ibidem.,
p. 25), ou seja, lhes faltam indicar aquilo que de fato os identifiquem
enquanto unidade do discurso. O livro e a obra, por sua vez, serão as
unidades deixadas em suspenso, por se tratarem de materializações
de ideias atribuídas a um determinado autor que, no entanto, reúne
diversos discursos, logo, pondo em questão essas duas concretizações
discursivas enquanto categorias de unidades do discurso. Faltam-lhes
unicidade, e seu discurso não passa de uma “coletânea” de diversos
discursos reunidos em um único espaço. Por mais que “o livro se apre-
sente como um objeto que se tem na mão [...], sua unidade é variável
e relativa [...], não se indica a si mesma, só se constrói a partir de um
campo complexo de discursos” (Ibidem., p. 26). Assim também a obra
não pode ser considerada uma unidade discursiva, visto que sua es-
trutura remete o leitor a uma interpretação acerca do pensamento
do próprio autor, do que ele imaginava, das determinações históricas,
enfim, de toda rede de inter-relações que determinaram a concretude
da obra. Esse exercício interpretativo do leitor em relação à obra evi-
dencia que sua unidade é relativa, interpretável e não observável como
algo que lá está presente, fazendo com que ela não seja “considerada
como unidade imediata, nem como unidade certa, nem como unidade
homogênea” (Ibidem., p. 27).
Foucault (2008) critica esse modelo de análise que remete o

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discurso a um passado distante em busca de uma origem. Pelo contrá-


rio, o discurso deve ser tratado nele mesmo, isto é, em seu jogo de ins-
tância e, o que significa recusar a eterna continuidade do discurso que
só existiria em prol de outro anterior a ele, que guardaria um meio-
-silêncio, no qual o discurso tomaria forma. Portanto, “[...] é preciso
renunciar a todos esses temas que têm por função garantir a infinita
continuidade do discurso e sua secreta presença no jogo de uma
ausência sempre reconduzida” (Ibidem., p. 28). Nesse movimento de
ruptura com as formas de continuidade, abre-se um outro domínio a
ser explorado, que tem como material os acontecimentos inseridos no
espaço do discurso em geral. Esse campo dos acontecimentos discur-
sivos é um conjunto “finito e efetivamente limitado das únicas sequên-
cias linguísticas que tenham sido formuladas” (Ibidem., p. 30).
Foucault (2008), sob esse modelo, trabalha o discurso de modo
diferente da história do pensamento que, em sua relação alegórica
com o discurso, tem como questão principal buscar o que se dizia no
que estava dito, enquanto que na análise do campo discursivo “trata-se
de compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua si-
tuação; de determinar as condições de sua existência [...] cuja questão
pertinente seria: que singular existência é esta que vem à tona no que
se diz e em nenhuma outra parte?” (Ibidem., p. 31, grifo nosso).
Em outras palavras, Foucault propõe um tipo de análise que se
volta exclusivamente para a materialidade do discurso, na estreiteza
singular em que foi produzido e – sem a preocupação de se buscar a
sua origem, através da continuidade dos pensamentos dos homens, re-
verberados em seus enunciados – rompe com um modelo tradicional
da história das ideias, na medida em que se estuda o campo discursi-
vo, onde se encontra os acontecimentos, descritos arqueologicamente,
cujas regras delimitadas pela Arqueologia do saber, nos conduzem a

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quatro noções que regem o princípio regulador do método arqueológi-


co: “o acontecimento (em oposição à criação), a série (em oposição à
unidade), a regularidade (em oposição à originalidade) e as condições
de possibilidade (em oposição à soberania do significante)” (Ibidem., p.
43). Em resumo, o método arqueológico propõe a busca e a análise das
regularidades, pelas quais se delineiam as unidades que constituem
uma formação do discurso, na medida em que se formam os objetos,
as modalidades enunciativas, os conceitos e as estratégias que deter-
minam a singularidade do saber trazido por uma prática discursiva.
A prática discursiva consiste nas regras que garantem a uni-
cidade do discurso em torno de um desses conjuntos citados acima,
mas, também define outras regularidades, tendo em vista que aquilo
que se busca na arqueologia é a constituição de uma positividade (um
saber), que delineia qualquer unidade enunciativa em dada sociedade,
seja ela do campo da ciência ou do universo da política como no caso
do objeto de conhecimento deste artigo. Na busca da singularidade, o
método arqueológico objetiva descrever as dispersões, pesquisando a
regularidade que possa existir entre seus elementos: “uma ordem em
seu aparecimento sucessivo, correlações em sua simultaneidade, po-
sições assinaláveis em um espaço comum, funcionamento recíproco,
transformações ligadas e hierarquizadas” (Ibidem., p. 42).
Em nosso estudo, o método arqueológico será empregado para
a apreensão e análise das regras de formação que nos indiquem a
“emergência, funcionamento e transformações de enunciados que
atuam inevitavelmente em uma prática política que se articula a ou-
tras práticas” (SARGENTINI, 2019, p. 44) no seio da sociedade. Tra-
ta-se de uma metodologia que visa ao estudo de como os sistemas, as
práticas políticas e as descontinuidades articulam-se entre si e com
os limiares e formas do discurso, na medida em que se apreende os

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enunciados em sua dizibilidade, conservação, memória, reativação e


apropriação, ou seja, as regularidades ou leis que regem o “processo
enunciativo” naquilo que se pode falar; manter ou esquecer; validar
ou abandonar; reter, transformar ou retornar; e quais sujeitos devem
ter acesso ao discurso (Ibidem., p. 44).

Análise da lógica olavista: a “dialética simbólica” e o


“marxismo cultural”

A princípio, faz-se necessária uma melhor compreensão das


noções filosóficas de Olavo de Carvalho, que será escrutinada a partir
de duas perspectivas de análise: a problematização reverberada por
Cunha (2019) acerca do conceito filosófico olavista, o qual constitui
uma “dialética simbólica” que visa à purificação da alma e a salvação
por meio da filosofia, a convergir com as noções de Oliveira (2020),
quando propõe o estudo do olavismo em relação à negação da ciên-
cia, como um processo de libertação do “ser” daquilo que seria uma
dominação cultural marxista na sociedade contemporânea. Na disper-
são dessas duas ideias, prevalece a radicalização do sujeito corpóreo,
o qual sem a mediação metodológica, de fato, é capaz de conhecer a
“verdade” sobre o objeto e, dessa forma, adquirir o verdadeiro conhe-
cimento, ou seja, aquele que não se deixou corromper pelo “marxismo
cultural”, que estaria a dominar e a influenciar todos os procedimentos
epistemológicos do saber científico humano.
Conhecido como o “guru” ideológico do bolsonarismo, Olavo de
Carvalho faz-se presente na atual conjuntura política e social brasilei-
ra, principalmente pelo seu curso online de Filosofia, o qual, segundo
Cunha (2019), constitui uma teia hierárquica que a visa influenciar
na cena política nacional, através de uma missão mística de purifica-
ção e salvação humana pela filosofia. O líder influenciador e motivador

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é o próprio Olavo, que se coloca como detentor, por excelência, do


verdadeiro conhecimento que fora por muitos anos negado, ocultado e
manipulado pela dominação cultural (marxista) que teria se instalado
no Brasil e no mundo.
Em combate a essa “dominação hegemônica cultural”, Olavo
de Carvalho busca a destruição da realidade tal como a conhecemos,
marcada por uma suposta ideologia dominante que oprime a popula-
ção global. É preciso que tudo seja iniciado e nasça uma nova cultura
intelectual da sociedade. Assim, “o que era para ser uma comunidade
de estudos tornou-se depois uma ‘teia hierárquica’, cuja meta é in-
fluenciar espiritualmente os eventos políticos de uma nação, igual a
uma casta” (CUNHA, 2019, s.p.). Trata-se de uma filosofia espiritu-
alista, cuja ginástica, com base em uma “dialética simbólica”, leva o
grupo ao “senso de missão de que é uma espécie de corpus mysticum,
no qual cada participante será análogo a um fiel que pode finalmente
perceber a realidade em toda a sua nudez” (Ibidem., s.p.), liderado e
intermediado por Olavo de Carvalho, o qual, logo no início do curso,
inspira-se em Sócrates para atestar que, mesmo “quando o aluno su-
pera o mestre, ele sabe de onde veio e a quem ‘tudo deve’, e, ao tentar
‘cortar o cordão umbilical’, na hora de ‘confrontá-lo’, é igual ao ‘adoles-
cente’ que não superou os desafios desta idade e ‘depois tenta lançá-los
no ‘lugar’ ‘errado’” (Ibidem., s.p.).
Essa proposição permite entrever uma contradição no discurso
olavista, tendo em vista que a plena liberdade do ser na busca pelo
conhecimento verdadeiro nos indica que esse sujeito, apesar de livre,
também é suscetível e induzível ao erro, em um mundo dominado pela
ideologia marxista e, por este motivo, necessita da tutela de um mes-
tre, o próprio Olavo de Carvalho, que tenha a capacidade de pensar
fora da cultura dominante; que é capaz de ver além do olhar aprisio-

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nado do indivíduo contemporâneo, que em sua “míopes intelectual”


não consegue perceber as influências ideológicas que induzem o seu
pensamento ao engano e, consequentemente, conclusões equivoca-
das acerca dos objetos e da realidade que o rodeia.
Segundo Oliveira (2020), por meio da valorização do testemu-
nho e da experiência, a coerência interna das ideias negacionistas
do olavismo é dada por um “sistema epistemológico que fundamen-
ta o pensamento olavista, sustentando o seu negacionismo científico
e apresentando uma agenda epistemológica alternativa ao programa
metodológico cartesiano” (Ibidem., p. 83). Partindo desse procedi-
mento, o “regime epistemológico prioriza a vivência em detrimento do
método, afirmando que o conhecimento produzido na, e pela experi-
mentação direta do sujeito cognoscente é superior ao conhecimento
produzido através do distanciamento metodológico” (Ibidem., p. 83).
De acordo com Oliveira (2020), a crítica de Olavo de Carvalho
pauta-se na ideia de que toda a produção científica ocidental está re-
grada e contaminada pelo “marxismo cultural”, enquanto projeto de
dominação da esquerda em escala global. Assim, o método deixa de
ser verdadeiro, pois já estaria corrompido a priori por essa corrente
ideológica que citamos.
Portanto, a emancipação se daria pela ação
voluntariosa de pensadores livres que fossem capazes
de se libertar da influência do marxismo cultural (...).
Em resumo, como todos os procedimentos científicos
já estão corrompidos a priori, a observação direta,
através da qual o pensador livre experimenta com
o próprio corpo a realidade, sem ser condicionado
por nenhum tipo de mediação metodológica, é a
única forma possível de produção do conhecimento
verdadeiro (Ibidem., p. 84, grifo nosso).

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O argumento de Oliveira (2020) é de que o olavismo está pau-


tado numa radicalização cartesiana de um “regime epistemológico que
possui raízes profundas na história da epistemologia ocidental” (Ibi-
dem., p. 84). Para o autor, de Heródoto a Tucídides, houve transforma-
ções nos modos de apreensão do saber histórico: enquanto o primeiro
fazia uma análise subjetiva das narrativas daqueles que vivenciaram os
fatos, o segundo valorizava o testemunho presencial do próprio escritor
da história no fato narrado.
Essa radicalização se evidencia na plena superioridade do su-
jeito observador no modo de se fazer ciência. Ao trazê-lo para a pes-
quisa científica como um ser superior, livre e totalmente independen-
te, pautado somente pela presença do corpo e sua observação direta
e imediata sobre o objeto, o olavismo busca romper com os modelos
tradicionais e consolidados de pesquisas, embasados em observações
científicas que, por sua vez, são sustentadas por métodos e conceitos
comprovados. Para tanto, ele evoca a própria noção de que os proce-
dimentos científicos são pautados em fundamentos que objetivam “o
reconhecimento dos fenômenos físicos, químicos ou biológicos, mas
também humanos” (SENA JUNIOR, 2019, p. 27), porém, invertendo
seu sentido e sua hierarquia, ou seja, o verdadeiro conhecimento só
pode emergir a partir de procedimentos livres de métodos que estejam
sob influências ideológicas, a tal ponto que a atenção do observador
independente se volte “para além daquilo que é visível, para que sur-
ja a ciência (ou cons-ciência) para separar a verdade, ou o que tem
potencial de verdade, da ideologia ou da mera falsidade” (Ibidem., p.
27). Assim, o olavismo inverte premissas que sustentam e justificam
a própria ciência, reunindo em torno de suas ideias, uma legião de
seguidores emponderados com a possibilidade real de que, livres do
“marxismo cultural”, possam praticar a verdadeira ciência, visto que

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“o conhecimento, como a verdade, tem um imenso potencial liberta-


dor, pois a verdade é sempre revolucionária” (Ibidem., p. 27).
Neste aspecto, o olavismo se une ao bolsonarismo, já que ambos
as práticas representam uma militância que visa ao combate à ideolo-
gia comunista, enquanto grande mal que tenta subverter a sociedade
brasileira e seus valores. Cunha (2019) traz essa detalha o que vem a
ser essa “homogeneização e dominação ideológica do pensamento, da
cultura e da intelectualidade em escala global”, que o olavismo pre-
tende combater através de sua “dialética simbólica” da purificação da
alma e da salvação humana por meio da filosofia. Em linhas gerais,
essa libertação plena do ser dar-se-ia por meio de uma luta interior
que o homem deve travar com a ajuda de Deus, transferida para os
grandes eventos e dilemas da história que, por meio desse movimento
dialético, deve buscar a junção do conhecimento à sua consciência ou
tomada de ciência de si e do mundo ao seu redor.
Contudo, essa tomada de consciência do “ser” pauta-se na pre-
missa de que se deve romper com uma noção de inteligência relegada
ao equívoco, na medida em que o ato de conhecer é transformado em
ação cognoscente, que visa apenas à aquisição de um saber já pré-dis-
posto a ser alcançado pelo sujeito cognitivo, em detrimento à faculdade
mental, através da qual o objeto pode ser estudado e conhecido em
sua plenitude, através do livre exercício do pensamento, ou seja, sem
nenhuma força (ideologizante) a induzir a investigação e contaminar
os seus resultados. No pensamento olavista, “essa definição de uma
inteligência que vai além dos ‘meros atos mentais’ é um contraponto
ao ‘equívoco’ o qual ‘acabou por ser oficializado e legitimado pela edu-
cação’ oficial” (CUNHA, 2019, s.p.). Assim, a própria elite intelectual
atual estaria presa a essa lógica e, sem perceber o seu “desvio episte-
mológico”, apenas reproduz a ideologia que domina a esfera científica

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e não consegue realizar a “ginástica” do seu intelecto em relação ao


saber, isto é, não é capaz de ter uma “experiência” com a “verdade”.
Postagens de Olavo de Carvalho, em sua conta no Instagram,
corroboram com este cenário quando diz: “Eu bem que avisei que ele-
ger um presidente antes de lutar pelo domínio da mídia e do sistema
de ensino era apenas soltar fraudulência na água, não avisei?” (CAR-
VALHO, 2020a, s.p., grifo nosso). Em outra publicação, ele afirma:
“Se você acha que não tem ideologia, os comunistas lhe darão uma e
matarão você por causa dela” (CARVALHO, 2020c, s.p.). Em ambas,
observa-se essa militância combatente da ideologia comunista que se-
gue uma regularidade com base no alerta de que é preciso dominar
os meios de comunicação e de ensino do país, sugerindo, justamente,
essa purificação e libertação da “alma” da sociedade, da doutrinação
marxista propagada por meio dessas instituições.
Vê-se, pois, a defesa desse controle ser ainda mais importante
que eleger um Presidente alinhado a esse pensamento de combate ao
comunismo, pois, sem a completa gerência das vias de disseminação
da informação e do saber, o Executivo Federal nada pode fazer para
“libertar” a população da influência das forças obscuras que estariam a
reger a sociedade, isto é, do “marxismo cultural”. Na sequência, outro
enunciado denuncia esse perigo ideológico comunista, ao sugerir uma
ação de doutrinação e destruição do “ser” enquanto pessoa, levada à
completa alienação e ausência de senso crítico de si e do mundo à sua
volta. No pensamento olavista, nem mesmo as Forças Armadas teriam
combatido o comunismo em 1964 ou durante todo o período do Regi-
me Militar. Em seu discurso, afirma o seguinte:
Os militares se gabam de haver, em 1964, livrado o
Brasil do comunismo. Mentira. Livraram o Brasil,
isto sim, da direita civil que havia derrotado os

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comunistas. Durante todo o período militar os


comunistas continuaram dominado o meio cultural
e jornalístico (com a ajuda do próprio governo
militar), enquanto a direita civil era banida até
chegar, no fim dos anos 80, à completa inexistência”
(CARVALHO, 2020b, s.p.).

Este enunciado converge com os outros dois apresentados an-


teriormente, na medida em que corrobora o apelo do discurso olavista
em relação à necessidade do domínio de dois vetores do saber e da cul-
tura, que são a grande mídia e o sistema de ensino, os quais alcançam
milhões de pessoas em todo o país. Na visão do olavismo, tornaram-se
meios de propagação ideológica comunista, inclusive, para aqueles que
acreditam não terem ideologias
O embate contra o comunismo, além de ser o elo principal que
liga o bolsonarismo ao olavismo é também um dos principais pilares do
discurso bolsonarista, pois forja um cenário que permite a narrativa da
“segurança nacional” contra um “inimigo comum” da nação, respon-
sável por perverter a sociedade e seus valores conservadores cristãos.
Em outras palavras, o negacionismo científico/olavista, ao colocar em
suspeição a produção do conhecimento, promove uma narrativa irre-
alista da história humana e do Brasil, que gera um clima de instabili-
dade social, por meio da acentuação da polarização, principalmente,
porque o fruto dessa retórica é a fabricação de um adversário da popu-
lação brasileira: a ideologia comunista, corrente dominante da nossa
cultura, com amplo alcance social, por meio da mídia e do ensino,
como vimos anteriormente. Assumido como uma “verdade” irrefutá-
vel, o ideário olavista ganha força na militância bolsonarista, tendo em
vista seu discurso combatente, que fomenta um cenário de guerra,
levando certos indivíduos a assumirem uma luta contra um opositor
abstrato, para não dizer inexistente.

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Na regularidade da formação discursiva bolsonarista, é recor-


rente, na base eleitoral do Presidente da República, a defesa de que
Bolsonaro é o ungido de Deus, que veio para salvar a Pátria do colapso
e do caos institucional, causado pela ideologia comunista de esquer-
da que, por muitos anos, dominou a cena política nacional, por meio
do Executivo Federal. É esta a ideia sugerida em uma postagem do
grupo digital no Instagram “Bolsonaro Tem Razão”, quando mostra a
imagem do Cristo, segurando a mão de Bolsonaro que está com um
olhar piedoso e quase afogando em um mar turbulento, deferindo-lhe
palavras de conforto: “Minha mão capitão. Ainda temos que salvar um
país inteiro” (RAZÃO, 2019, s.p.). Em outra publicação, o enuncia-
do diz que “a esquerda não entendeu ainda que Bolsonaro não veio
para agradar, Bolsonaro veio para pôr ordem e progresso” (DIREITA,
2020a, s.p.). Ora, se a primeiro enunciado mostra a missão divina do
Presidente, o segundo indica o trabalho que ele tem pela frente, ou
seja, reestabelecer a ordem no caos social e encaminhar o progresso
da nação, interrompido por forças subversivas, que ainda não entende-
ram a missão do atual Governo Federal.
Nesses dois enunciados, temos o cenário de um país mergulha-
do no colapso que, sob a liderança de um “ungido de Deus”, luta para
se erguer do caos, a convergir com a noção olavista de uma sociedade
dominada pelo “marxismo cultural”, visto que o verbo “salvar”, utiliza-
do para pontuar o trabalho da Presidência da República, é um termo
mais apropriado ao discurso religioso, que, muitas vezes, apela para
a salvação das almas, como missão escatológica da cristandade que,
em tese, justifica, por exemplo, “um jejum nacional pelo Presidente
Jair Bolsonaro” (CONSERVADOR R., 2020, s.p.), enquanto medida de
ação para enfrentar os problemas da nação.
Em sua missão messiânica, que estaria acima de seu cargo de

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Presidente da República, Bolsonaro, na visão dos seus apoiadores, veio


não apenas para governar, mas, para exercer a presidência de modo
desalinhado do “sistema”, corrompido pela dominação cultural co-
munista e, por este motivo, sofre todo tipo de perseguição política, de
modo impedi-lo de levar adiante seu projeto de libertação nacional.
Trata-se de uma leitura que fizemos de um enunciado postado no gru-
po “Mamãe de Direita”, no qual identificamos um discurso apegado
a uma retórica conspiracionista que ativa um clima de guerra na so-
ciedade, na medida em que afirma haver um plano macabro contra o
Presidente: “Eles vão pedir o impeachment de Bolsonaro em novembro
porque o processo demora 120 dias. Na constituição diz que se houver
impeachment nos 2 últimos anos de mandato deve-se fazer uma nova
eleição, só que indireta!” (DIREITA, M., 2020, s.p., grifo nosso). Ora,
esta narrativa não leva em consideração a figura e função institucio-
nal do Vice-Presidente da República, Hamilton Mourão, já que ele é
o sucessor legítimo em caso de deposição presidencial via processo de
impeachment, mas cumpre um papel importante na prática discursiva
bolsonarista, ou seja, força uma reação beligerante, na medida em que
o apelo soa como um alerta para a base radical do bolsonarismo, geran-
do um embate nas mídias digitais e, até mesmo, em manifestações pú-
blicas de apoio a Bolsonaro e contra as instituições democráticas como
o Congresso, pois o enunciado alerta, “ou seja, quem votará serão os
deputados. E quem é o candidato deles? Rodrigo Maia” (Ibidem., s.p.).
Em resumo, trata-se de um inimigo, não apenas do Presidente,
mas da própria democracia, pois, ao pretender derrubar Bolsonaro do
poder, sugere-se uma trama obscura que visa a interferir na decisão
soberana das urnas, que na eleição de 2018 o elegeu para o Executivo
Federal e o desfecho desse ideário ocorre na denúncia de que “Bol-
sonaro quer governar sem conchavos e negociatas. O sistema trava

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Bolsonaro, por querer manter conchavos e negociatas” (CONSERVA-


DOR, M., 2020, s.p.), já estaria corrompido por uma corrente ideoló-
gica que conspira contra o Presidente. Afinal, segue o discurso, “olha
como funciona a tal ‘democracia brasileira’: se ataca o Legislativo, nota
de repúdio; se ataca o jurídico (Judiciário), nota de repúdio; se ata-
ca o Executivo, liberdade de expressão” (O DESESQUERDIZADOR,
2020, s.p., grifo nosso). Percebamos que “atacar” é o verbo usado para
reivindicar o direito de se expressar e criticar os Poderes da República,
pelo qual se iguala as críticas que são feitas ao Governo Federal – o
que é absolutamente normal em uma democracia, desde que sejam
expressas respeitosamente – com os ataques dispensados pela base ra-
dical bolsonarista contra as instituições democráticas, quando se pede,
por exemplo, uma intervenção militar com Bolsonaro no poder.

O negacionismo científico bolsonarista sob o prisma


arqueológico

Com o intuito de delinear a regularidade do discurso bolsona-


rista em relação ao negacionismo científico, seguimos a orientação ar-
queológica de Foucault (2008) e analisamos o discurso em torno do
tema a partir do estudo da irrupção dos seus enunciados. Em outras
palavras, não buscamos uma origem e uma continuidade enunciativa
que pudesse nos dizer aquilo que ainda não fora pronunciado e, por
isso, permanecia oculto no pensamento dos indivíduos.
A princípio, isolamos o discurso olavista do bolsonarismo, cuja
intenção foi apreender a sua regularidade, que nos permitiu conceituar
o negacionismo científico olavista e os seus pontos de convergência e
ligação à prática discursiva bolsonarista, naquilo que se refere o nosso
objeto de estudo. Assim, o percurso arqueológico nos permitiu delinear
o ideário filosófico olavista de combate ao comunismo, o qual converge

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com o bolsonarismo, permitindo-nos um segundo momento de análise


através dos enunciados de ambas formações discursivas, pelas quais
regras específicas delimitam a singularidade do presente discurso
político que nega a ciência e os seus resultados epistemológicos.
Em resumo, a análise arqueológica fez-se compreender que a
prática discursiva bolsonarista, em relação ao negacionismo científico,
primeiro, prepara o terreno de suas enunciações ao romper com a nor-
malidade da vida em sociedade por meio de uma retórica negacionista
que, por sua vez, abre espaço para um teor conspiratório que, aceito
por parte significativa da sociedade, consegue forjar um inimigo peri-
goso a ser combatido pela nação. Assim, o discurso de enfrentamento
e aniquilamento contra esse inimigo ganha uma inteligibilidade e acei-
tabilidade plausível, visto que, alinhado a essa ideia, gera-se um clima
beligerante constante, concretizado em atos radicalizados pró-Bol-
sonaro, em embates polarizados contra grupos opositores, inclusive,
saindo do espaço digital, para ganhar as ruas das cidades brasileiras,
como mostrou uma recente pesquisa realizada pelo DataPoder360, se-
gundo a qual, para quase “metade (49%) dos brasileiros que já foram
ou pretendem ir a manifestações, a principal causa para ir às ruas é
protestar contra o presidente Jair Bolsonaro. Outros 31% dizem que os
atos públicos devem ser realizados em defesa do governo” (BARBOSA,
2020, s.p.).
Aliás, dentre a parcela daqueles que defendem o governo Bolsonaro,
uma das mais recorrentes justificativas diz respeito a um embate contra forças
institucionais no Congresso e no Supremo Tribunal Federal que dificultam
a ação do Presidente e até estariam conspirando para derrubá-lo do poder,
demonstrando a fidelização da base eleitoral bolsonarista em torno da “teoria
da conspiração” criada por Bolsonaro, de que existe uma trama para tirá-lo
da Presidência da República, inclusive, com o apoio de parte da cúpula mili-

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tar (PEREIRA; MATTOS; BORGES, 2020, s.p.). Trata-se de uma narrativa


que converge com a certeza de sua base radicalizada, de que Bolsonaro é o
“mito” que emergiu na política brasileira, o “messias” que irá salvar o Brasil
das mãos do inimigo “vermelho”60, justificando o apelo por uma “intervenção
militar com Bolsonaro no poder. Elaboração de uma nova constituição. A cri-
minalização do comunismo” (CARVALHO I., 2020, s.p.), enquanto medidas
para resolver o “problema do Brasil”, ou seja, o “marxismo cultural” subverte
a sociedade e trava o governo “libertário” do bolsonarismo, inclusive, com o
apoio do Deputado Federal, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que “apresentou
um projeto de lei em que propõe a proibição de ‘apologia ao nazismo e ao
comunismo’, cujo texto do PL4425/2020 foi protocolado na Câmara dos De-
putados na terça-feira, isto é, no dia 01 de setembro de 2020” (OHANA, 2020,
s.p., grifo nosso).
Ao unir essas duas correntes supracitadas, como parte de um mesmo
conjunto de ação opressora da sociedade, o referido parlamentar não parece
pretender o combate daquilo que seria um levante golpista, que atenta contra
a liberdade da nação e a favor de crimes contra a humanidade, como aqueles
cometidos no holocausto da Alemanha Nazista, nem pelo Regime Soviético Co-
munista em seu projeto de dominação cultural da Europa Oriental, visto que, em
ambas as situações, trata-se de iniciativas de governos autoritários e totalitários,
o que não é o caso do Brasil. Também não existe no país uma força paramilitar
capaz de derrubar o governo e instalar um regime de exceção que ponha em
risco a soberania nacional e o estado democrático de direito vigente em nossa
Constituição Federal. Logo, tal Projeto de Lei atende mais aos interesses ideo-
lógicos de um discurso anticomunista, do que às medidas de prevenção e defesa
da nação de forças subversivas que estariam conspirando contra o país.
60 Apoiadores de Bolsonaro o costumam chamar de “mito” ou de “messias”. Acreditam
que o Presidente tem a missão de combater o comunismo no Brasil que, neste trecho,
é referenciado como “inimigo vermelho”, em referência a bandeira comunista da
União Soviética, no contexto da Guerra Fria, pós Segunda Guerra Mundial.

172
FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: do olavismo ao bolsonarismo

Assim, percebemos que há uma regularidade a delinear os enuncia-


dos do bolsonarismo, através de um sistema regido por leis específicas, que
delimitam suas narrativas por meio das suas funções enunciativas ao longo
da formação discursiva bolsonarista, permitindo que se revista, a “abordagem
das formas de sucessão dos enunciados, as quais envolvem a disposição das
séries enunciativas – a partir dos esquemas, generalizações e das especifica-
ções que caracterizam a função enunciativa – e os diversos tipos de correlação
dos enunciados” (SILVA F., 2018, p. 240).
São esses esquemas, generalizações e especificações que vemos se
formar a partir dos conceitos do discurso aqui analisado, pois, em cada um
deles, formas de sucessão dos enunciados tornam-se possíveis, caracterizando
a função enunciativa e a correlação entre os enunciado. Na medida em que
se interligam e se justapõem um após o outro em uma correlação específica,
tornam-se interdependentes entre eles e, ainda, permitem que existam apenas
nesta unidade discursiva (o bolsonarismo), ou seja, delimitam a singularidade
do discurso.
Parafraseando Foucault (2008) – e para uma leitura arqueológica da
“comunicação” entre o olavismo e o bolsonarismo, enquanto duas formações
discursivas com domínios diferentes, mas que se aglutinam em uma unidade
enunciativa – podemos dizer que, entre os “conceitos”61 bolsonaristas, vemos
essas formas de coexistência dos enunciados transitarem entre si quando, por
exemplo, o negacionismo é retomado entre eles, marcando esse campo de pre-

61 A palavra conceito está entre aspas porque nossa intenção é apenas fazer uma
conexão entre as noções foucaultianas acerca do referido termo e a formação
discursiva bolsonarista, tendo em vista que os quatro “blocos” enunciativos – o
negacionismo; a produção de um inimigo comum da nação; o clima beligerante
forjado, pelo qual se sugere os meios de se combater e aniquilar esse adversário; e,
Bolsonaro como o salvador da pátria, que lidera e orienta seu exército digital contra
o comunismo – não são tratados, em nossa pesquisa, no método arqueológico, como
conceitos, mas, enquanto unidades básicas por onde, regidos por regras de formação,
os enunciados se dispersam e se comunicam entre si.

173
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

sença e determinando, no discurso, a verdade que deve ser admitida, a descri-


ção exata e necessária para a narrativa, o raciocínio que se pretende fundar e o
pressuposto que se pretende aplicar. O negacionismo não apenas permite que
os diversos enunciados transitem entre os “conceitos”, mas, também, tecem
críticas, discussões e julgamentos, permitindo que outros enunciados sejam
aceitos ou excluídos, pois entrariam em convergência ou contradição com a re-
gularidade que os regem na prática discursiva aqui estudada, o bolsonarismo.
É, neste sentido, que se nega o golpe civil-militar e se exalta a
“revolução de março de 1964”; que se recusa a ciência marcada pelo
viés ideológico do “marxismo cultural” em vista da verdadeira ciência
livre e independente, praticada por indivíduos verdadeiramente
autônomos; que se torna possível romper com a normalidade instituída
no estrato social para que um governo totalmente novo e sem amarras
ideológicas seja possível; que enxerga na democracia um perigo, visto
que ela permite a existência de um inimigo da nação que, um Regime
Militar, enfrentaria e aniquilaria com veemência e sem maiores proble-
mas éticos ou morais; e que, por fim, prefere sustentar a necessidade
de um salvador da pátria na Presidência da República, no lugar de as-
sumir um posicionamento pautado na união entre os Poderes em prol
da governança do Estado.
Quanto a esta questão, sintetizamos a narrativa por meio da
qual Bolsonaro celebra e defende o golpe de 1964, cujos discursos
mostram versões revolucionárias de libertação nacional da ideologia
de esquerda, que se levantava para tornar a nação em uma ditadura
comunista. Em seu discurso, diz que o dia 31 de março de 1964 é a
data da segunda independência do Brasil, referindo-se, na sua versão,
a esse feito heroico das instituições democráticas e do povo brasileiro,
com grande apoio das Forças Armadas, para tirar do poder o comu-
nista João Goulart. Neste sentido, se colocou contra, em novembro de

174
FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: do olavismo ao bolsonarismo

2013, a um projeto de resolução, cujo objetivo era anular a declaração


de vacância presidencial, dada pelo Congresso em abril de 1964, tendo
em vista que, para Bolsonaro, os militares não deixaram que o Brasil
se tornasse uma “Cuba”, pois, não vivíamos uma ditadura, durante o
governo dos Generais-Presidentes, mas, uma série de medidas mais
enérgicas, com amplo apoio popular, exaltado pela mídia, para se evitar
a subversão e combater os grupos armados de esquerda, resguardando
a liberdade e o crescimento econômico do país (CASTRO, 2019, s.p.).
Outros exemplos seriam possíveis para expressar esse campo
de presença no discurso bolsonarista, contudo, percebemos que a re-
corrência da negação científica e revisão histórica entre os enuncia-
dos do bolsonarismo permitem essa percepção na medida em que, por
meio do negacionismo, se compreende como o discurso delimita os
enunciados que podem ou não fazerem parte dessa unidade discursi-
va ou, como diria Foucault (2008), constitui a “verdade” que pode ser
admitida no discurso.
Em relação ao campo de concomitância, citamos como exemplo
a contradição entre o discurso autoritário bolsonarista e a sua adesão
à agenda neoliberal para a economia, tendo em vista os contornos que
o liberalismo econômico e o autoritarismo político dão ao governo Bol-
sonaro (ALMEIDA, R., 2019, s.p.). Parafraseando Silva F. (2018), esse
campo forma-se a partir de enunciados de domínios totalmente dife-
rentes e mesmo se chocando entre si, neste caso, com o autoritarismo
próprio do bolsonarismo, visa fazer uma analogia, pela qual se possa
acenar a outros setores da sociedade, digamos, um tanto distintos da
base radical de Bolsonaro. Trata-se, por exemplo, de um determinado
grupo de empresários, enquanto importante aliado do atual Presidente
durante a sua campanha eleitoral em 2018 e desta primeira metade
de seu governo. Aliás, o campo de concomitância é importante para

175
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

a existência e o fortalecimento do próprio bolsonarismo, pois permite


que diferentes enunciados coexistam no interior do seu discurso, as-
sim como representações das mais variadas áreas da sociedade.
Desse modo, na prática discursiva bolsonarista, coexiste o an-
tagonismo da radicalização negacionista-científica-olavista, com sua
prerrogativa de uma ruptura institucional proposta ao Presidente Bol-
sonaro e o discurso moderador e pragmático das Forças Armadas, ins-
tituição que poderia levar adiante o projeto autoritário do olavismo; a
ambivalência entre o extremismo da militância política e a pacificação
“natural” do viés religioso messiânico; ou, ainda, as incoerências entre
um discurso que exalta a democracia e uma postura que indica apoio
à instalação de um regime antidemocrático no Brasil, quando se faz
presente em manifestações que pedem o fechamento do Congresso
e do STF, bem como uma intervenção militar com Bolsonaro no po-
der, enquanto apelo radical de sua militância. Nisto, define-se o campo
de concomitância do bolsonarismo, porque reúne “enunciados que se
referem a domínios de objetos inteiramente diferentes e que perten-
cem a tipos de discurso totalmente diversos, mas que atuam entre
os enunciados estudados” (FOUCAULT, 2008, p. 64), nesta formação
discursiva.
Ainda relacionado a essas formas de coexistência dos enun-
ciados na formação dos conceitos, o domínio de memória se mostra
profícuo ao bolsonarismo, tendo em vista a possibilidade de fazer o
uso de imagens que remetem a um passado que, de certa forma, per-
mite uma coerência e uma legitimação discursiva. Apesar de se tratar
de enunciados que, digamos, caíram em desuso ou não pertencem
ao contexto em que a prática discursiva se efetiva, eles “estabelecem
laços de filiação, gênese, transformação, continuidade e descontinui-
dade histórica” (Ibidem., p. 64). Portanto, pelo domínio de memória,

176
FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: do olavismo ao bolsonarismo

os enunciados bolsonaristas permitem uma retórica que faz as ligações


necessárias entre o discurso atual e determinados símbolos, valores e
noções que pertenceram a outros momentos da história.
O maior exemplo que o próprio bolsonarismo nos apresenta é
a exaltação ao Regime Militar e seu apelo ao combate do comunismo,
tendo em vista não vivermos mais na conjuntura da Guerra Fria, na
qual essa narrativa foi usada como justificativa para o golpe civil-militar
de 1964. Trata-se de uma retórica descontextualizada quando aplicada
ao atual momento político internacional e nacional, pois se questiona
menos a ameaça comunista para o mundo e mais a lógica capitalista
em torno do consumo e exploração exacerbados dos recursos natu-
rais e se defende um modelo de industrialização pautado em um de-
senvolvimento sustentável, que coexista com a preservação do meio
ambiente. Portanto, não vemos sinais de uma conspiração nacional de
esquerda para derrubar o Presidente e instalar uma ditadura comunis-
ta no Brasil, nem mesmo quando o país foi governado pelo Partido dos
Trabalhadores (PT), entre os anos de 2003 a 2016, enquanto legenda
historicamente adversária da política de direita.
Por outro lado, temos visto posturas do governo que, por exem-
plo, negam a existência do aumento da destruição das florestas nacio-
nais, inclusive, de reservas ambientais, provavelmente, consequências
de um governo que tem trabalhado para esvaziar os órgãos de controle
e fiscalização do Ministério do Meio Ambiente (SILVA, R., 2020, s.p.)
duramente criticada por ambientalistas, investidores e políticos nacio-
nais e internacionais, que pressionam o governo brasileiro por medidas
contra o desmatamento e as queimadas ilegais na Amazônia e no Pan-
tanal (PINTO; CAGLIARI, 2020, s.p.). Contradizendo o discurso nega-
cionista de Bolsonaro – que, recentemente, chegou a afirmar, em seu
discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU (2020), que o país

177
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

é alvo de uma campanha global de desinformação (ANDRADE, 2020,


s.p.) – investigações da Polícia Federal em torno das recentes queima-
das na região pantaneira, indicam que “os incêndios que devastaram
25 mil hectares do Pantanal começaram em quatro fazendas de gran-
de porte em Corumbá (MS), [...]. A suspeita é que produtores rurais
tenham colocado fogo na vegetação para transformação em área de
pastagem” (FOGO..., 2020, s.p.). Essas primeiras conclusões desmen-
tem a fala do Presidente na ONU, quando afirmou que os incêndios
nas florestas brasileiras eram consequências de queimadas provocadas
por indígenas e quilombolas para obter o seu sustento.
Neste sentido, não soa estranha a narrativa negacionista, por
exemplo, que determina que a Terra é plana, mesmo sabendo que
esse tema pertencia ao período em que a escola ocidental era regi-
da pelos ideais da escolástica e que, tal versão já fora contestada na
Grécia antiga e confirmada na histórica viagem de Fernão de Maga-
lhães no início do século XVI. Como se percebe, o uso desse domínio
de memória é constante no discurso bolsonarista, por meio do qual se
busca uma suposta origem e a filiação discursiva com uma continui-
dade histórica que foi interrompida a partir do retorno desse inimigo
esquerdista – os governos petistas – que alcançou o poder, corrompeu
as instituições e desmoralizou a sociedade e os costumes do povo bra-
sileiro. Assim, voltando-se para o funcionamento da prática discursiva
bolsonarista, por meio do método arqueológico, foi possível delinear
e apreender, a regularidade discursiva que constitui o negacionismo
científico sob a égide olavista.

Considerações Finais

Este estudo buscou contribuir com o debate atual acerca do


negacionismo científico, a partir da análise do discurso do Governo

178
FACES DO NEGACIONISMO CIENTÍFICO NA WEB: do olavismo ao bolsonarismo

Federal acerca da problemática em questão, a qual está alinhado ao


ideário olavista e tem propagado narrativas que contradizem a ciên-
cia, bem como orientado uma prática política negacionista, que, por
exemplo, tem colocado em risco a própria sociedade brasileira, na me-
dida em que tais enunciações estimulam a população a se expor a
um vírus, contra o qual não se tem, até o momento, nem medicação
e nem vacina integralmente eficaz para combatê-lo, cuja pandemia já
levou a óbito milhares de pessoas em todo o mundo. Agregado a essa
questão, outros exemplos da negação da ciência podem ser arrolados,
para expressar o alcance dessa prática, em ações do Governo Federal
que seguem na contramão científica, que envolvem leis de trânsito,
armamento da população civil, aparelhamento do Ministério do Meio
Ambiente em prol de uma agenda econômica não sustentável e, ainda,
acenos para uma revisão historiográfica de livros didáticos de história
para a educação básica, alinhado a um discurso que exalta o Regime
Militar e celebra o golpe civil-militar de 1964.
São recortes temáticos que nos ajudaram a compreender o al-
cance e os impactos do discurso negacionista do bolsonarismo, pautado
na ideia olavista de que existe uma cultura marxista, enraizada na so-
ciedade ocidental, na qual está inserido o contexto brasileiro, que tam-
bém, segundo esse ideário, vem sofrendo fortes influências nos seus
universos científicos, políticos, sociais e econômicos, especialmente,
engendrado pelas universidades, mais precisamente, através dos cur-
sos acadêmicos das Humanidades. O “marxismo cultural”, neste sen-
tido, deveria ser combatido tanto pelo governo, com medidas antico-
munistas, quanto pela população, com a substituição dos métodos de
pesquisa, pela verificação direta do sujeito cognoscente, sem intermé-
dio de metodologias impregnadas de um viés ideológico e, por isso, teria
a função de doutrinar os sujeitos e não em produzir conhecimento.

179
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Foi nesta linha de pensamento que pudemos identificar o fun-


cionamento de um discurso que, através da negação científica e do
revisionismo histórico, forja um cenário beligerante na sociedade, ten-
do em vista a fabricação de um inimigo comum da nação – o comu-
nismo – contra o qual não se deve ter nenhum tipo de diálogo, mas,
ao contrário, é preciso combater e banir da sociedade, pela figura do
Presidente da República, considerado por seus apoiadores, como um
“mito”, que emergiu na política nacional como um “messias”, disposto
a salvar a pátria da subversão dos valores cristãos e conservadores.

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184
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS


SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES SOCIAIS

Alex Sandra da Silva Moura (UERN)

Francisco Paulo da Silva (UERN)

Introdução

Observa-se que na atual conjuntura política é cada vez mais


crescente um movimento de retorno à Ditadura Militar brasileira, o
que desperta um confronto discursivo entre grupos e pessoas que ne-
gam sua existência e aqueles cujas vidas representam uma forma de
resistência aos desmandos do regime militar que governou o país entre
os anos de 1964 a 1985. Nesse confronto discursivo político, vê-se no-
tadamente a propensão do atual governo em defesa ao modelo político
do regime militar, utilizando-se da negação de sua existência, ou ain-
da, abrandando suas consequências. Tais discursos políticos levaram à
produção de outros discursos e movimentos discursivos nas redes so-
ciais, que são divulgados principalmente no formato hashtags que as-
sociam informações ou discussões sobre um tema, como por exemplo,
o movimento #DitaduraNuncaMais em oposição ao discurso político
propagado em favor da Ditadura Militar. Neste sentido, entendemos o
espaço público das redes sociais como arena de debates discursivos,
onde se discutem os mais diversos temas e os usuários têm abertura
para falar, emitir opiniões e julgamentos a respeito de um tema em
voga, o que nos faz considerar as redes sociais como espaço público-
-político discursivo.
Falar em Ditadura Militar e o que este período representou para
a juventude das décadas de 60 e 70 é rememorar um período de pouca

185
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

liberdade e muita luta, um tempo em que “pensar diferente” era crime


punido com prisões e que as torturas impostas aos suspeitos eram de
extrema crueldade. É falar de perdas de entes queridos em acidentes
mal explicados; é também falar de fuzilamentos em confronto com
a polícia; é falar de desaparecimentos e falar do choro por familiares
nunca enterrados. Os assassinatos e desaparecimentos de opositores
ao regime militar no Brasil foram investigados pela Comissão Nacional
da Verdade (CNV), por comissões estaduais da verdade, por entidades
de direitos humanos e pelos próprios familiares das vítimas. Embora
não se tenha um número exato, conforme o relatório final da CNV,
estima-se que houve 434 mortes e desaparecimentos políticos entre
1946 e 1988, dos quais a maioria ocorreu no período da Ditadura62.
Todavia este discurso sobre o que foi a Ditadura e o que ela re-
presentou para a sociedade brasileira não é unânime. Há discursos em
defesa do regime militar que se propagam no cenário político brasileiro.
Estes discursos ganham maior visibilidade no espaço virtual, onde tem-
-se liberdade para falar, expressar opiniões e julgamentos, responder às
eventuais críticas ou simplesmente escolher bloquear quem as fez. No
espaço virtual, através das redes sociais, a democracia permite o con-
fronto discursivo entre aqueles que defendem e os que se opõem às di-
versas ideologias: religiosas, de gênero, cultural ou política, entre outras.
Nesse sentido, é cada vez mais comum que candidatos políti-
cos usem esse espaço para divulgar suas ideias e propagar seus feitos
políticos, com o intuito de conquistarem não somente seguidores em
suas redes sociais, mas também eleitores e defensores de suas ideolo-
gias. Assim tem sido no Brasil: temos visto debates políticos travados
nas redes sociais, candidatos que utilizam suas páginas para divulgar

62 Disponível em http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/index.php?option=com_
content&view=article&id=571. Acesso em: 18 jan. 2021.

186
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

promessas de campanhas e atacar seus opositores; e ainda, o uso do


espaço virtual para propagar informações falsas.
A maior autoridade política brasileira, o Presidente, tem utiliza-
do suas redes sociais para divulgar sua imagem, propagar suas ideias
e apresentar suas propostas políticas na sua conta do Twitter que tem
sido uma dos mais acessadas, tanto por aqueles que seguem sua ide-
ologia política conservadora, quanto por seus opositores, que veem as
redes sociais como espaço para responder às postagens do presidente
e fazer comentários que talvez não pudessem ser ditos em outros es-
paços públicos.
Nessa democrática arena de confronto discursivo, o público se
divide entre seguidores e opositores, tomam partido e se engajam nos
discursos políticos, emitem opiniões em defesa de uma ou outra ideia,
reconhecem os discursos que consideram legítimos e desaprovam aos
demais. Assim, a presente pesquisa busca evidenciar a utilização do
Twitter e Instagram no discurso político do atual presidente do Brasil,
Jair Messias Bolsonaro, dando enfoque a postagens em que defende o
regime militar. Intenta ainda, analisar os efeitos de sentidos produzidos
a partir do seu discurso, tomado como gerador de outros discursos.
Para compor o corpus desta análise, foram usados textos postados nas
redes sociais, Twitter e Instagram, sendo o discurso gerador atribuído
ao presidente, quando o político enuncia sua defesa ao regime mili-
tar, bem como, os textos postados por pessoas públicas ou anônimas
em resposta ao discurso do presidente. Desta forma, busca-se analisar
como o discurso político de retorno da Ditadura Militar se constitui
nessas redes sociais e que efeitos de sentido produzem.
Na perspectiva teórico-metodológica da arqueogenealogia pro-
posta por Foucault e que se assume nesta pesquisa, tomar a memó-
ria da Ditadura Militar como produtora de sentidos exige a adoção da

187
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

noção de enunciado como acontecimento discursivo. Para Foucault


(2000), o fato de ter sido dito coloca o enunciado na condição de acon-
tecimento e, nessa condição, ele se relaciona com “outra coisa”. Essa
“outra coisa” seria, para Foucault, o regime de uma prática discursiva.
Assim se pode depreender que a produção do discurso é condicionada
a regras históricas ou, no dizer de Foucault, sua produção liga-se às
práticas discursivas. Para Foucault (2000), o discurso como prática é
essa instância da linguagem em que a língua está relacionada com
“outra coisa” a qual não é linguística. Essa relação instaura o discur-
so. Assim, dar conta dessa “outra coisa” é olhar para a complexidade
das práticas que o institui. É nesse sentido que a análise discursiva
de Foucault se volta para o enunciado como acontecimento. Tratá-lo
assim é descrever as condições de sua emergência, como aquilo que
uma época pode dizer devido a certos arranjos entre o discursivo e o
não discursivo.
Para além do que é dito, analisaremos os efeitos de sentido dos
enunciados discursivos na constituição dos sujeitos, considerando a
existência de traços de resistência na formação destes sujeitos que
respondem ao enunciado gerador do confronto discursivo. Para com-
preender a resistência, precisamos contextualizá-la no campo do po-
der. Conforme Foucault (2011), o poder é uma relação e, como tal, as
lutas contra o seu exercício ocorrem no interior dessa relação (e não
fora), visto que nada escapa ao poder. Sendo assim, as lutas surgem
enquanto resistência, por que são uma das relações de força dentro da
própria relação de poder. Dessa forma, onde há poder, há resistência,
e se existe resistência e poder, há confronto.
E o confronto que ora analisaremos dar-se-á no espaço digital,
mais especificamente, por meio das redes sociais digitais (Twitter e
Instagram). Assim, apresentaremos o contexto de retorno e reconfi-

188
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

gurações da Ditadura Militar no cenário político atual do Brasil; em


seguida, trataremos de algumas questões relativas às redes sociais para
compreendê-las enquanto um espaço público-político; logo após, apre-
sentaremos os confrontos discursivos objetos da análise e cujas mani-
festações ocorreram nas redes sociais, para, então, demonstrarmos os
efeitos de resistência produzidos nos sujeitos discursivos que intera-
gem em tais redes sociais.

Retorno e reconfigurações das Memórias da Ditadura na


Política Brasileira – a onda bolsonarista

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o


pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Ar-
madas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu
voto é sim”. Com este trecho final de discurso, proferido durante a
votação no processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff,
ocorrida no dia 19 de abril de 2016, na Câmara dos Deputados, Jair
Messias Bolsonaro ganha maior visibilidade e atenção dos brasilei-
ros que se preparavam para uma nova disputa eleitoral à Presidên-
cia da República.
Até então pouco conhecido, o deputado Bolsonaro passa a
ser um dos políticos com maior número de seguidores nas suas
redes sociais, apontando assim o rumo da conquista de votos das
novas eleições: as redes sociais digitais seriam palco para campanha
eleitoral que se fortalecia a cada dia com as postagens - nada con-
vencionais - do candidato à presidência.
Se tal discurso no processo de impeachment de uma mulher
sobrevivente das torturas ocorridas durante o regime militar, sob
o comando do General Ustra (chefe do DOI-CODI do Exército de
São Paulo) foi ovacionado em meio a vaias e também aplausos dos

189
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

deputados que compunham a Câmara, certamente um discurso


como este produziria muitos outros discursos de grande repercus-
são midiática.
Através do espaço aberto das mídias digitais, mais
especificamente através das mídias sociais digitais, é que iremos
identificar e analisar algumas ações e reações no viés discursivo da
internet. Os discursos políticos de Bolsonaro foram escolhidos para
análises neste trabalho graças a sua forte presença e engajamento
no uso do aplicativo Twitter. Para isso, devemos considerar que um
discurso polêmico proferido num ambiente virtual de uma rede
social está imbuído de poder e autoridade daquele que fala, naquele
determinado momento e utilizando-se daquele lugar de fala.
Quer como Deputado, quer como Presidente, ao proferir
seus discursos, Bolsonaro ganha poder na mídia para agir, divulgar
suas propostas políticas e formar ideologias nos seus seguidores,
dada a ênfase e o poder que têm seus discursos. Compreendemos
a ideologia enquanto “conjunto de ideias fundamentais que
caracteriza o pensamento de uma pessoa, de um grupo ou de um
período histórico delimitado. Dessa forma, capaz de gerar doutrina
e visão de mundo específicas, visando àquilo que seria ou é ideal”
(RISSO; SILVA; MOURA, 2019, p. 66)
A palavra é de grande importância na expressão do poder
político, conceito bem definido por Charaudeau (2017), quando
ele associa a linguagem à ação, trazendo a reflexão pela análise
da intenção da palavra seguido do efeito que ela causa. “Isso se
caracteriza em uma autoridade ou poder de ação, onde o sujeito-
alvo é colocado em uma posição de dominado e o sujeito com
autoridade, em uma posição de dominante, e tudo isso se resume
em uma relação de poder” (RISSO; SILVA; MOURA, 2019, p. 68).

190
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

Foucault (2011) estabelece que o poder não é propriedade


exclusiva do Estado; no seu entendimento, o poder não seria essen-
cialmente repressão ou censura, mas um poder criador, que produz
a realidade e seus conceitos. Por fim, Foucault também enfatiza a
diferença entre poder e violência: onde a violência impera, o poder
deixou de existir. Por outro lado, vê-se a resistência como compo-
nente necessário para que o poder possa acontecer.
Desta feita, consideramos que o espaço virtual caracteriza-se
pela liberdade de expressão, compartilhamento de ideias, crenças,
valores ou dúvidas; e ainda por permitir ao usuário mostrar-se ou
não, analisar e responder comentários, ou simplesmente ignorar e
até bloquear outros usuários de suas postagens. Por tudo isso, en-
tendemos que os usuários das redes sociais têm a autonomia para
opinar, discutir, criticar, apoiar ou opor-se ao que é dito.
Assim, podemos considerar que as redes sociais são espaços
públicos de poder e, sendo assim, seguindo a leitura de Foucault
sobre o poder como algo positivo, um poder criador que se propa-
ga multilateralmente; isso propicia aos usuários discutir e propagar
ideias políticas, produzir verdades.
No atual contexto político brasileiro, presenciamos a circu-
lação de discursos que inserem na cena política um movimento
de retorno de discursos sobre o período da Ditadura Militar que
assinalam a divisão de posicionamentos sobre o que significou este
período na vida do povo brasileiro e para o destino do país. Nesse
movimento, inscreve-se no fio dos discursos uma valoração posi-
tiva da ditadura ou uma contestação às práticas de autoritarismo,
repressão e ataque à soberania nacional que ele colocou em cena.
Com essa discursivização sobre o período da Ditadura Mili-
tar, somos levados a crer que essa experiência política parece mes-

191
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

mo ser um passado que não passa. Ele está aí, dividindo posiciona-
mentos, como captura do presente e projetando-se como futuro.
Lembrar o passado, trazê-lo de volta é um exercício de inscrição
do acontecimento, com suas singularidades e possibilidades de ins-
crições de novas realidades no fio do discurso. Nesse exercício, não
lembramos apenas como recordação, para restituir um passado,
mas para marcar uma diferença. No campo político o passado ga-
nha força, uma vez que o discurso político se constitui como espaço
estratégico e polêmico e como espaço em que a volta ao passado,
pode ser para projetar um futuro, evitar os erros, preservar as boas
lições que o passado inscreveu como memória, recusar os maus
resultados.
Assim, o discurso político é um lugar de memória. Isso por-
que na política, a memória é um poder que funda a possibilidade de
se exprimir, de abrir um direito à fala, de marcar um valor perfor-
mativo de proposição eficaz, de recobrir qualquer enunciado com o
peso da tradição (COURTINE, 2006).
Retomando o discurso inicial do ainda Deputado Bolsonaro
no momento de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, salien-
tando-se que ao General Ustra é associada a imagem de torturador
cruel que foi aclamado publicamente pelo deputado em desrespeito
à memória de todos que foram torturados, assim como Dilma Rou-
sseff, e ainda, acrescente-se que hoje, seu lugar de fala é como Pre-
sidente da República. Bolsonaro tem protagonizado discursos políti-
cos sobre o Regime Militar em suas redes sociais, os quais circulam
e criam outros discursos em resposta que merecem ser analisados
quanto aos sentidos e efeitos que produzem nos sujeitos usuários
do Twitter e Instagram.

192
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

Redes sociais como espaço público-político

Em nenhum outro tempo da história política brasileira, as re-


des sociais tiveram tanta imporância quanto na última década. Esse
espaço tem sido utilizado amplamente por partidos políticos, candi-
datos, imprensa e empresas para divulgarem suas ideias e produtos.
Assim, elas têm desempenhado um papel relevante na construção
da democracia política no país, uma vez que se constituem como
um espaço público acessível a um grande número de usuários.
Embora seja um fenômeno relativamente novo, o uso de re-
des sociais expressam a face dos relacionamentos humanos no meio
virtual, proporcionando a conexão entre as pessoas por comparti-
lhamentos de ideias afins; aproximando-as por meio de pensamen-
tos políticos e correntes ideológicas. Conforme Recuero (2009), as
redes sociais digitais são o conjunto de atores e suas conexões, um
sistema de comunicação pela internet que conecta uma rede de
pessoas, em uma proposta de compartilhamento, troca de informa-
ções e agregação de afinidades.
Assim, as redes sociais ganham destaque pelo grande nú-
mero de usuários que compartilham informações e notícias. Isto
chamou a atenção dos políticos em todo o mundo, que criaram suas
páginas e se apropriaram do espaço virtual para divulgar “inverda-
des”, ou o famoso fenômeno das fake news que teve grande reper-
cussão nas redes sociais europeias, mas também no Brasil, onde foi
amplamente utilizado durante as eleições de 2018.
Apenas para exemplificar o fenômeno do uso das redes so-
ciais, uma pesquisa do Datafolha63 ouviu 2086 pessoas em todas as
regiões sobre o uso de redes sociais e o comportamento dos usuá-
63 Disponível em: https://vermelho.org.br/2019/07/19/a-importancia-das-redes-
sociais-na-luta-politica-atual/. Acesso em: 18 jan. 2021.

193
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

rios no aplicativo de mensagens. E apontou que 72% dos brasileiros


adultos têm conta em pelo menos uma rede social, sendo o What-
sApp o mais popular (69%), seguido de Facebook (59%), Instagram
(41%) e Twitter (16%).
Ainda na referida pesquisa, perguntou-se, dentro do univer-
so do aplicativo mais usado, o que se debate? Os assuntos citados
por eles como os mais discutidos nos grupos são família (39%), tra-
balho (31%), política (30%), amigos (15%), futebol (14%), escola
(13%) e religião (12%). Porém, o dado mais impactante é que entre
aqueles que dizem ter conta em alguma rede social, 19% afirmam
seguir o presidente Jair Bolsonaro (PSL) em ao menos uma rede.
Isto explica a grande popularidade deste político nas redes sociais.
É fato que as redes sociais são um fenômeno político. Neste
espaço se constroem mitos na mesma proporção que se destroem
ícones. Ancorados num suposto anonimato, os usuários criam falsos
perfis para contestarem ideias, protestarem contra atitudes ou
apoiarem discursos. Enfim, este é um espaço de múltiplos sujeitos,
com múltiplas visões de mundo, ao mesmo tempo que, através des-
te espaço virtual, abrem-se múltiplas possibilidades de usos e cria-
ções de conteúdos. Pode-se afirmar, inclusive, que o espaço virtual
viabiliza até mesmo a produção de sujeitos de múltiplas faces, des-
de alienados a resistentes.
Para entender o poder que tem as redes sociais nas ativida-
des políticas, consideremos o uso e compartilhamento das hash-
tags. Agregando conteúdos de diversos interesses, as hashtags têm
mudado o comportamento das pessoas, tentando sensibilizá-las e
engajá-las na luta por uma determinada causa (social, política, reli-
giosa, valorativa). Conforme Recuero (2009, p. 5)

194
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

As informações que circulam nas redes sociais


assim tornam-se persistentes, capazes de ser
buscadas e organizadas, direcionadas a audiências
invisíveis e facilmente replicáveis. A essas
características soma-se o fato de que a circulação
de informações é também uma circulação de valor
social, que gera impactos na rede.

Pode-se atribuir às hashtags estas características: persisten-


tes, organizadas e replicáveis. Além disso, elas se anunciam nas re-
des como uma convocação a fazer parte de um chamamento que se
inicia nas redes sociais virtuais e pode chegar ao mundo real. Como
pudemos assistir aos movimentos impulsionados nas redes sociais
em 2015, sob as hashtags de correntes políticas contrárias, #Fora-
Dilma e #FicaDilma que atraíram pessoas às ruas para protestarem
ou demonstrarem apoio ao governo petista.
Dadas as publicações recentes que analisaremos nesta pes-
quisa, é relevante ressaltar a hashtag de grande repercussão nas
redes sociais recentemente. A #DitaduraNuncaMais foi uma das
mais compartilhadas e difundidas no espaço virtual, revelando a
intenção de oposição aos discursos negacionistas do regime militar
que circularam nas redes sociais. Discursos estes atribuídos, inclu-
sive ao atual governo, que como foi dito, demonstra empatia pelas
práticas difundidas durante o regime militar. Tais discursos políti-
cos e suas respectivas respostas são objetos de nossas análises, con-
forme veremos a seguir.

Manifestações discursivas em rede – o confronto discursivo

Um espaço para ação e reação, assim podemos resumir as


manifestações discursivas que ocorrem nas redes sociais. Um Twit-
ter não é apenas a junção de um número limitado de caracteres;

195
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

por trás de tão poucas palavras há na verdade um discurso que se


projeta em ideologias que provocarão a reação de outros, que têm o
mesmo discurso ou não.
Por ser um meio de comunicação global, prático e acessível
à população em geral, o Twitter é muito utilizado na atualidade por
pessoas comuns, bem como por presidentes, desembargadores, di-
tadores, ministros; enfim, figuras públicas e principalmente, figuras
políticas que podem usar de seus discursos para expor, em tempo
real, suas ideologias, valores, convicções, bem como, em alguns ca-
sos, tem-se visto a divulgação de valores preconceituosos, machis-
tas e homofóbicos que podem até mesmo incitar a violência.
Considerando as redes sociais como este novo espaço políti-
co com abertura para discutir os mais variados temas, destacamos
o Twitter e o Instagram por serem duas mídias digitais de destaque
para publicações contendo mensagens, imagens ou vídeos. Hoje,
estas ferramentas digitais se tornaram palanques para debates po-
líticos, uma vez que a maioria dos candidatos e partidos políticos
possuem contas nestas redes sociais, já que entenderam que seus
discursos e projetos têm maior visibilidade nestes espaços digitais.
A partir desta perspectiva, tomemos como enunciado
discursivo uma postagem do ainda Deputado Jair Bolsonaro em seu
Twitter, no dia 04 de dezembro de 2016, conforme se vê logo abaixo:

196
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

Figura 01 - Jair Bolsonaro

Fonte: Disponível em https://twitter.com/jairbolsonaro/sta-


tus/805399501401886721, Acesso em: 20/01/2021.

Lê-se na postagem uma declaração negacionista ao período da


Ditadura Militar brasileira. A postagem é dirigida aos seus seguidores e
ao público em geral, porém o Deputado chama para o diálogo um pú-
blico ao qual sua postagem seria especificamente dirigida: aos jovens,
para quem “mentiram”. Nas entrelinhas deste discurso, cabem algu-
mas observações: A palavra “nunca”, além de seu valor negacionista,
tem uma carga de temporalidade, estabelecendo uma força maior ao
discurso negacionista. E os jovens (de hoje), acreditam que são mais
bem informados que em outros tempos, acreditam que têm todas as
respostas corretas a apenas um clique; por isso, o verbo “mentiram”
traz a conotação de que os jovens foram enganados, o que soa como
uma afronta à juventude tecnológica moderna.
Refletindo à luz do pensamento foucaultiano, relembremos uma
passgem que sintetiza a sua visão sobre poder: “Temos em suma que
admitir que esse poder se exerce mais do que se possui”.(FOUCAULT,
2004, p. 26) Para Foucault, uma das formas do poder se exercer é
determinada pela posição-sujeito do enunciador. Assim, não podemos
desprezar o lugar de fala de quem enuncia, neste caso, não se trata

197
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

de uma pessoa qualquer, mas de um homem que estava ganhando


influência política e com pretenções presidenciáveis que logo se con-
cretizariam. Desse ligar de enunciação, suas ideias são facilmente dis-
seminadas, compartilhadas e comentadas no espaço público da web.
Consideremos também as recomendações do, agora, Presiden-
te Jair Bolsonaro, sobre a decisão de instruir as Forças Armadas Brasi-
leiras a lembrarem a data de 31 de março de 1964 , em comemoração
festiva ao aniversário do regime militar. Tal recomendação, aliada à
postagem quando ainda era deputado, e mesmo sua postura perante
o discurso do impeachment de Dilma Roussef, só reforçam o seu posi-
cionamento de negação à ditadura ocorrida no Brasil e uma tendência
a valorizar as práticas adotadas no regime militar
A partir de então, iniciou-se nas redes sociais um movimento
em oposição ao discurso gerador negacionista da ditadura. Sob o cha-
mado da hashtag #DitaduraNuncaMais, pessoas políticas e/ou anô-
nimas travaram um confronto discursivo nas redes. Para fins desta
pesquisa, usaremos discursos de pessoas públicas que responderam à
#DitaduraNuncaMais em suas postagens no Twitter.
Figura 02 - Luciana Genro

Fonte: Disponível em https://www.sul21.com.br/ta-na-rede/2019/03/ditadura-


nuncamais-tag-no-twitter-repudia-decisao-de-bolsonaro-de-comemorar-golpe-
-de-64/. Acesso em: 20/01/2021.

A deputada Luciana Genro publicou em seu Twitter um dis-

198
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

curso em repúdio à posição do Presidente, no que tange à Ditadura


Militar. Em seu discurso, observa-se que, além de opor-se à comemo-
ração proposta pelo Presidente, que considera “um absurdo”, rebate
também o discurso gerador deste confronto: emprega o verbo “haver”
no passado, denotando sua existência enquanto acontecimento e ain-
da exemplifica os atos cometidos naquele período (estupro, tortura fí-
sica e psicológica e desaparecimentos). Inscreve-se ainda no discurso
da deputada que os miliatres foram treinados para diversos tipos de
torturas, uma vez que seguiam um “manual”.
Outra pessoa pública que usou seu Twitter para contestar o dis-
curso negacionista da Ditadura Militar, foi o escritor, jornalista e com-
positor Paulo Coelho. Em sua rede social, disse:
Figura 03 - Paulo Coelho

Fonte: Disponível em: https://www.sul21.com.br/ta-na-rede/2019/03/ditaduranunca-


mais-tag-no-twitter-repudia-decisao-de-bolsonaro-de-comemorar-golpe-de-64/. Acesso
em: 20/01/2021.

Para aqueles que negam a existência da Ditadura, o discurso


de um sobrevivente bastaria para crer que ela existiu. Paulo Co-
elho é um exemplo vivo do que o regime fez: prisões arbitrárias,
liberdade de expressão surrupiada e a censura imposta aos artistas
brasileiros.
A deputada Maria do Rosário, professora conhecida como
ativista dos Direitos Humanos, também respondeu à convocação
da hashtag #DitaduraNuncaMais e publicou no seu Twitter:
199
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Figura 04 - Maria do Rosário

Fonte: Disponível em: https://www.sul21.com.br/ta-na-rede/2019/03/ditaduranunca-


mais-tag-no-twitter-repudia-decisao-de-bolsonaro-de-comemorar-golpe-de-64/.Acesso
em: 20/01/2021.

O discurso da deputada segue a linha de oposição à ideologia


negacionista da Ditadura e enfatiza que “não há o que se comemorar”
em referência à recomendação relativa ao 31 de Março. Sua respos-
ta acrescenta um elemento essencial ao confronto discursivo que se
travava nas redes sociais: traz ao público a questão da Memória, não
aquela memória que se leva a comemorar um fato histórico, mas a
Memória que se faz pelo direito à Verdade, sem a qual não há Justiça.
Assim, depreende-se do seu discurso, que ao rememorar o período da
Ditadura Militar, que se faça em busca da verdade e da justiça a todos
que foram vítimas do regime que se instaurou no país por mais de duas
décadas. Nesse caso, a lembrança deve servir para que esse passado
não mais se repita.
Em A Ordem do Discurso (1996), entendemos que, para Fou-
cault, o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os
sistemas de dominação, mas é aquilo pelo que se luta, discurso é o poder
do qual queremos nos apoderar. Cada discurso é composto de razões pe-
las quais se diz o que é dito, bem como, intenções de quem fala, do seu
lugar de fala. O discurso enunciativo gerador deste confronto discursivo
pode não ser novo, mas fez emergir outros acontecimentos discursivos à
sua volta e mostrou uma face manipuladora da História: a tentativa de
200
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

apagar da memória a verdadeira história da Ditadura Militar, negando


sua existência, impede-se que se faça justiça às vítimas do regime.

Não ao negacionismo: resistências à Ditadura nas redes


sociais

Entendemos o período da Ditadura Brasileira como um acon-


tecimento de irrupção de uma singularidade histórica com traços de
“ruptura acontecimental”. De acordo com Judith Revel (2005, p. 14),
para Foucault: “A revolução [...] corre o risco de banalizar-se, mas
como acontecimento cujo próprio conteúdo é importante, sua exis-
tência atesta uma virtualidade permanente e que não pode ser esque-
cida”. Assim, a Ditadura Militar brasileira é um acontecimento que,
mesmo que a atual conjuntura política tente minimizar seus efeitos
ou que esta venha a ser assunto banal dos livros de História, enquanto
“Acontecimento” é dotada de singularidade e importância incontestá-
veis e jamais será esquecida, enquanto houver análise de toda a rede
de discursos, poderes, de estratégias e de práticas que existem por trás
do fato em si.
Ao trazer à tona a memória da Ditadura em forma de discursos
compartilhados em redes sociais, provoca-se toda esta rede discursos
que esse tema evoca, acionamos os poderes e as práticas discursivas
sobre a Ditadura. Um acontecimento discursivo pode ter a mesma re-
levância de um acontecimento histórico, afinal, nossas postagens em
redes sociais ecoam pelo mundo. De fato, as redes sociais podem dá
visibilidade a ideologias, valores e contra valores a partir dos discursos
que partilhamos. Sabemos o que dissemos; porém, ignoramos o alcan-
ce de nossos discursos e o efeito produzido por eles.
Considerando que nas redes sociais os textos se entrelaçam e
estabelecem ligações, concordamos com Bakhtin (1997), ao afirmar

201
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

que o autor nunca está sozinho, o texto nunca é o primeiro, original,


pois traz consigo referências a textos anteriores ou servirá de referên-
cia a posteriores, ou, ainda, o simples fato de enunciar alguma coisa
pressupõe a existência do outro: “O fato de ser ouvido, por si só, esta-
belece uma relação dialógica. A palavra quer ser ouvida, compreendi-
da, respondida e quer, por sua vez, responder à resposta, e assim ad
infinitum” (BAKHTIN, 1997, p. 357).
Desta feita, aos discursos compartilhados no Twitter, somam-
-se discursos publicados no Instagram. Artistas, políticos e anônimos
fazem esta relação dialógica com o discurso enunciativo de negação
à Ditadura para reafirmar a sua existência e convocar os sujeitos a se
autoafirmarem na resistência e luta pela verdade e justiça em memó-
ria a todas as vítimas da Ditadura Militar brasileira. Para esta análise,
selecionamos 02 publicações de artistas brasileiros, cujos discursos
conduzirão as próximas reflexões.
Figura 05 - Mariaflor

Fonte: Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/ditaduranuncamais-artistas-


-usam-as-redes-sociais-para-criticar-golpe. Acesso em: 20/01/2021.

O discurso que se lê na imagem 5 é de afirmação da existên-


cia da Ditadura e a enunciadora constrói seu discurso pela repetição
do termo “Sim”, possivelmente em oposição ao discurso negacionista.
Além disso, segue o discurso trazendo a negação de forma reinterada
e repetitiva, para nagar-se a comemorar os 55 anos do golpe, conforme
recomendação da presidência. Por fim, mensiona, nas entrelinhas, a
202
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

importância em se manter viva a memória dos fatos relativos à Ditadu-


ra: “lembrar, para não repetir”. A referência feita à morte, mostra que
matando, a Ditadura calou muitos homens e mulheres, sendo dever
dos vivos fazer justiça em memória àqueles que foram silenciados.
A marca dos governos ditatoriais é a obediência cega; numa de-
mocracia, propor que se comemore uma data que marcou o início de
um período de violência e crueldade no país, exige que os sujeitos ajam
em desobediência. De acordo com Frédéric Gros (2018), ao explicar
por que devemos desobedecer, o autor considera que para desobedecer
“Basta abrir os olhos. A desobediência é mesmo a tal ponto justificada,
normal, natural, que o que choca é a ausência de reação, a passivida-
de” (p. 09). É necessário reagir, é preciso desobedecer, e embora não
seja fácil, as redes sociais têm-se mostrado como um espaço democrá-
tico onde é possível lutar discursivamente pelo que se acredita.
Figura 06 - Brunogagliasco

Fonte: Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/ditaduranuncamais-artistas-


-usam-as-redes-sociais-para-criticar-golpe. Acesso em: 20/01/2021.

Nesta última postagem, o ator utiliza, na escrita de seu discur-


so, um recurso convocatório e inclusivo: o emprego do pronome “nós”
estabelece uma relação entre autor e seguidores ou usuários das redes
sociais. Colocando-se numa relação de igualdade, infere-se que em
algum momento, todos nós sentimos medo e que precisamos evitar
a repetição da história. Por isso, devemos lutar para que nunca mais
tenhamos ditadura.
De modo discursivo, os sujeitos que se utilizam das redes so-

203
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

ciais, demonstram resistência em seus enunciados. No ambiente vir-


tual, os sujeitos respondem a convocações, se engajam e constroem
movimentos discursivos em oposição ao discurso que nega a existência
da Ditadura. Se afirmam enquanto sujeitos e se fortalecem enquanto
grupos que compartilham das mesmas ideias e valores.

Considerações Finais

Neste trabalho objetivou-se analisar os discursos negacionistas


sobre da Ditadura Militar brasileira, bem como seus efeitos de senti-
do no movimento de resistência e luta na atual conjuntura política
brasileira. Para tanto, utilizamos os discursos do atual Presidente da
República divulgados em seu Twitter como enunciados geradores e as
respostas em oposição a este discurso, evidenciando marcas de resis-
tência na constituição destes sujeitos que enunciam através das redes
sociais.
Compreendemos que as redes digitais são de grande importância
para o compartilhamento de ideologias, valores e contra valores, sendo
bastante usada por todos aqueles que desejam vender um produto ou
ideia, adquirir seguidores que compartilhem das mesmas ideologias,
haja vista que é onde o público está, podendo ser encontrado, informa-
do, perguntado, consultado, respondido ou até ignorado.
Os políticos já perceberam toda essa dinâmica que ocorre nas re-
des sociais e se apropriaram deste espaço para divulgarem suas campa-
nhas e conquistarem eleitores/seguidores. Observamos que, pelo caráter
democrático, as redes sociais se tornaram um espaço público, no qual se
discutem os mais variados temas, inclusive questões de ordem política.
Nos confrontos discursivos que se travam nas redes sociais, ob-
servamos que os usuários expressam-se com total liberdade e que, em-
bora possam usar recursos de anonimato, é comum opinarem, contes-

204
NEGACIONISMO E RESISTÊNCIA EM DISCURSOS SOBRE A DITADURA BRASILEIRA NAS REDES
SOCIAIS

tarem ou apoiarem os discursos de seus interesses de forma nominal.


Ao discutirem um tema como a Ditadura Militar, esta característica de
liberdade para pensar e dizer mostra a importância das redes sociais,
enquanto este espaço público/político de engajamento social.
Os discursos analisados mostraram como os sujeitos fazem este
movimento de retorno da memória da Ditadura em oposição ao discur-
so político atual, que nega sua existência e minimiza seus efeitos. Por
fim, percebemos que a resistência se constrói em atitudes discursivas
pelas liberdade de opinar e compartilhar posicionamentos políticos;
bem como pela desobediência discursiva, quando os sujeitos se negam
a aceitar verdades que tentam se impor como verdades absolutas.
Sabemos que ainda há muitas questões pertinentes sobre o as-
sunto aqui abordado, questões estas que carecem de muitas investiga-
ções e pesquisas. Até por que acreditamos que a resistência se dá na
luta diária para que a memória seja respeitada e a história não se repita
jamais. Então, nunca será o bastante falar sobre a Ditadura Militar bra-
sileira, principalmente quando há uma tentativa de apagá-la.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 2. ed. São Pau-


lo: Martins Fontes, 1997.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso Político. 2. ed. São Paulo: Contexto,


2017.

COURTINE, Jean-Jacques. Metamorfose do discurso político: derivas


da fala pública. Tradução de Nilton Milanez e Carlos Piovezani Filho. São
Paulo: Claraluz, 2006.

205
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura


Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, 1996.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Tradução de Luiz


Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Tradução de Raquel Ramalhete. 29.


ed. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 29.

FOUCAULT, Michel. O olho do poder. In: Microfísica do poder.


Rio de Janeiro: Edições Graal, 2011, p. 209-227.

GROS, Frédéric. Desobedecer. Tradução de Célia Euvaldo. São


Paulo: Ubu Editora, 2018 (Coleção Exit).

RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet, difusão de informa-


ção e jornalismo: elementos para discussão. In: SOSTER, Demétrio
de Azeredo; FIRMINO, Fernando (org.). Metamorfoses jorna-
lísticas 2: a reconfiguração da forma. Santa Cruz do Sul: UNISC,
2009.

REVEL, Judith. Michel Foucault: conceitos essenciais. Tradução


de Carlos Piovezani e Nilton Milanez. São Carlos: Claraluz, 2005.

RISSO, Andrik Barbosa; SILVA, Gabriel Pereira da; MOURA, Sérgio Ar-
ruda de. O discurso e as mídias sociais: o uso do Twitter como ferramenta
de expressão de discurso político. Revista Transformar, Itaperuna, v. 13,
n. 2, p. 64-75, ago./dez. 2019.

206
Sobre os autores

Sobre os Autores e Autoras

Alex Sandra da Silva Moura - Graduada em Letras pela


Faculdade de Formação de Professores de Serra Talhada. Com
Especialização em Planejamento Educacional pela Universidade
Salgado Oliveira - UNIVERSO. Mestra Profissional pelo programa
PROFLETRAS - UPE campus Garanhuns. Doutoranda em Letras
pelo DINTER-PPGL/UERN-IF-Sertão/PE. Atualmente é professora do
Ensino Fundamental e Médio na escola Professor Manoel de Queiroz
e exerce a função de Chefe de Secretaria da Escola de Referência em
Ensino Médio-EREM Dr. Walmy Campos Bezerra. Tem experiência
na área de Letras, atuando principalmente no seguinte tema: apoio
- didático - docentes - discentes. E-mail: alexmssandra@gmail.com.
Alison Sullivan de Sousa Alves - Graduado em História pela
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Mestrando
do Programa de Pós-Graduação em Ensino (POSENSINO) da
associação entre a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte
(UERN), a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e
o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande
do Norte (IFRN). Professor da rede municipal de Parazinho/RN.
E-mail: alisonsullivanrn@gmail.com.
Francisco Paulo da Silva – Pós-Doutor em Ciências Sociais
pela Universidade de Coimbra, Portugal-PT. Doutor em Letras pela
Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, Campus de Araraquara.
Docente da Faculdade de Letras e Artes (FALA) da Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Atua como coordenador do
Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem (PPCL) e
como colaborador no Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL).

207
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

Líder do Grupo de Estudos em Análise do Discurso (GEDUERN).


Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Análise do
Discurso. Interessa-se por investigações que envolvam a relação
discurso, memória e produção de sentidos, funcionamento do discurso
político e midiático, bem como os processos discursivos de produção
de subjetividades na contemporaneidade.
Francisco Vieira da Silva – Doutor em linguística pela
Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Docente da Universidade
Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) e do Programa de Pós-
Graduação em Letras (PPGL) da Universidade do Estado do Rio
Grande do Norte (UERN) e do Programa de Pós-Graduação em
Ensino (POSENSINO) da associação entre a Universidade do Estado
do Rio Grande do Norte (UERN), a Universidade Federal Rural do
Semi-Árido (UFERSA) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN). E-mail: francisco.vieiras@
ufersa.edu.br.
Ilza Galvão Cutrim – Doutora em Linguística e
Língua Portuguesa UNESP – FCLAr. É graduada em Letras
pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É professora
associado IV do Departamento de Letras, da Universidade Federal
do Maranhão e professora do quadro permanente do Programa de
Pós-graduação em Letras-PGLetras (Mestrado Acadêmico-UFMA).
Atualmente, é Vice-Coordenadora do Programa de Pós-graduação
em Letras-PGLetras-UFMA. Vice líder do Grupo de Pesquisa e
Estudos em Linguagem e Discurso do Maranhão – GPELD/CNPq/
UFMA. Coordenadora do Projeto de Extensão ENTRETEXTOS.
É pesquisadora do Projeto de Cooperação Acadêmica PROCAD-
Amazônia-UFT/UFMA/UFSC - PGLetras/UFMA. É organizadora
de livros como Discursos, Espaços e Subjetividades (EDUFMA,

208
Sobre os autores

2020), Mídia, Linguagem e Sociedade: espaços, corpos e vozes na


atualização da resistência (Editora Pontes, 2020), Entre discursos:
memória, produção e circulação de sentidos (UFMA, 2016), Visadas
Discursivas: identidades, memórias e culturas artísticas (UFMA,
2016), Discursos, Sujeitos e sentidos: perspectivas identitárias (CRV,
2014). E-mail: ilzagal@uol.com.br
Jeniffer Aparecida Pereira da Silva - Graduada em Letras
– Língua Portuguesa e Língua Inglesa pela Universidade Federal de
Lavras, com bolsa FAPEMIG. Mestranda em Linguística na Universidade
Federal de São Carlos desde 2019, com bolsa CAPES. É participante
do grupo LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura (UFSCAR/CNPq).
Sua dissertação em andamento intitula-se Representações discursivas
da leitura em memes: o humor e as expressões da “vergonha” e do
“orgulho” em relação a essa prática.  E-mail: jeniffermaps@gmail.com 
Kélia Lima dos Santos Araújo - é graduada em Comunicação
Social Habilitação Jornalismo pela Universidade Federal do Pará
(UFPA). É mestranda do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas
Territoriais e Sociedade na Amazônia da Universidade Federal do Sul
e Sudeste do Pará (UNIFESSPA).
Leudson da Silva Coêlho - Mestrando do Programa de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Maranhão
(UFMA). Licenciado em Letras – Língua Portuguesa e Literaturas
de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual do Maranhão
(UEMA). E-mail: leudsoncoelho@gmail.com
Luzmara Curcino - É professora no Departamento de Letras
e no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade
Federal de São Carlos – UFSCar. É graduada em Letras (2001) pela
UFU, Mestre (2003) e Doutora (2006) em Linguística e Língua
Portuguesa pela UNESP - FCLAr, com estágio de doutorado na

209
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

EHESS-Paris (2005). Mais recentemente, realizou estágio de pós-


doutoramento na UNICAMP (2016) e na UVSQY-Versalhes-França
(2017-2018). Coordena o LIRE - Laboratório de Estudos da Leitura
(LIRE-CNPq). Dedica-se, em suas pesquisas, à análise de discursos
sobre a leitura na atualidade. É organizadora, entre outros, dos
livros, ‘Discurso, Semiologia e História’ (Editora Claraluz, 2011);
‘Presenças de Foucault na Análise do discurso’ (EdUFSCar, 2014);
‘(In)Subordinações Contemporâneas: Consensos e resistências nos
discursos’ (EdUFSCar, 2016). Traduziu, entre outras obras, ‘Inscrever
e apagar: Cultura escrita e Literatura (séculos XI-XVIII)’ (Editora
UNESP, 2006) e ‘O que é um autor? Revisão de uma Genealogia’
(EdUFSCar, 2012), ambas obras de Roger Chartier. 
Marcos André Dantas da Cunha - Graduado em
Licenciatura em Letras pela Universidade Federal do Pará
(UFPA). Mestre em Letras: Linguística e Teoria Literária pela
mesma instituição. Doutor em Lingüística e Língua Portuguesa
pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente é vice-
diretor de Faculdade da Universidade Federal do Pará – campus
Castanhal (PA). É professor adjunto da Universidade Federal do
Pará e coordena o Grupo de Estudos do Discurso das Identidades e
Subjetividades Paraense (GEDISPA). É colaborador do Programa de
Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (Mestrado)
e professor credenciado do Programa de Mestrado Profissional em
Rede PROFLETRAS-UFPA.
Maria da Graça dos Santos Faria - Doutora em Linguística
pela Universidade Federal do Ceará (UFC). É docente associado IV da
Universidade Federal do Maranhão, Membro do Grupo de Pesquisa
Protexto (UFC). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Estratégias e
Procedimentos de Organização Textual. Professora do Programa de

210
Sobre os autores

Pós-Graduação do Departamento de Letras da UFMA (PGLetras).


E-mail: gracafaria@hotmail.com
Maria Luiza Girão - Jornalista graduada em Comunicação
Social – Jornalismo - pela Universidade Federal do Maranhão,
mestranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade
Federal do Maranhão (PGLetras/UFMA) e membro do Grupo de
Pesquisa em Linguagem e Discurso do Maranhão (GPELD/CNPq-
UFMA).
Mônica da Silva Cruz - Doutora e mestra em Linguística
e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho (UNESP - Araraquara). Possui graduação em Letras
pela Universidade Federal do Maranhão. Atualmente é professora
associada II do Departamento de Letras e Professora do Programa de
Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Maranhão. É
líder do Grupo de Pesquisa em Linguagem e Discurso do Maranhão
(GPELD/CNPq), vice-coordenadora do Projeto de Extensão Entretextos
(Deler/UFMA) e coordenadora do PROCAD (UFT/UFMA/UFSC), no
PGLetras/UFMA.
Mylena Frazão da Cruz – Licenciada em Letras com habilitação
em língua portuguesa e em língua espanhola, e suas respectivas
literaturas, pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Foi bolsista
do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC),
com pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq). Atualmente, é mestranda da Linha
2 - Estudos de Linguagem e Práticas Discursivas, do Programa de Pós-
Graduação em Letras, da Universidade Federal do Maranhão (PGLetras
- UFMA). É membro do Grupo de Pesquisa em Linguagem e Discurso
do Maranhão (GPELD/CNPq-UFMA).
Nilsa Brito Ribeiro – doutora em Linguística (UNICAMP),

211
PRÁTICAS DISCURSIVAS EM ESPAÇO DIGITAL MÚLTIPLOS PERCURSOS

é professora Associado IV da Universidade Federal do Sul e Sudeste


do Pará (UNIFESSPA), vinculada ao Instituto de Linguística, Letras
e Artes desta universidade (ILLA). É docente do Programa de Pós-
Graduação em Letras e do Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas
Territoriais e Sociedade na Amazônia, ambos da UNIFESSPA. Lidera
Grupo de Pesquisa registrado no CNPq: Práticas discursivas, saber,
poder e resistência cultural. Coordena o Projeto de pesquisa: Arquivo
e subjetividades do professor na mídia: trajetos e deslizamentos
de sentidos. É pesquisadora do Projeto de Cooperação Acadêmica
“Linguagens, Formação Docente e (Con)figurações nas Amazônias”
- PROCAD-Amazônia- UNIFESSPA/URGS/UFT.
Tatiara Ferranti Nery - Professora de Língua Portuguesa
da rede municipal de Moju (PA). Possui mestrado em Letras pela
Universidade Federal do Pará (UFPA), especialização em Estudos
Linguísticos e Análise Literária pela Universidade do Estado do Pará
(UEPA) e em Comunicação Coorporativa pela Escola Superior da
Amazônia (Esamaz). É graduada em Letras – habilitação em Língua
Portuguesa – pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e em
Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – pela Universidade
da Amazônia (UNAMA).

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