Você está na página 1de 20

Esta versão em português é fruto de uma parceria entre a Representação da UNESCO no Brasil, a

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação do


Brasil (Secad/MEC) e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Título original: General History of Africa, VII: Africa under colonial domination, 1880-1935. Paris:
UNESCO; Berkley, CA: University of California Press; London: Heinemann Educational
Publishers Ltd., 1985. (Primeira edição publicada em inglês).

© UNESCO 2010 (versão em português com revisão ortográfica e revisão técnica)

Coordenação geral da edição e atualização: Valter Roberto Silvério


Revisão técnica: Kabengele Munanga
Preparação de texto: Eduardo Roque dos Reis Falcão
Revisão e atualização ortográfica: M. Corina Rocha
Projeto gráfico e diagramação: Marcia Marques / Casa de Ideias; Edson Fogaça e Paulo Selveira /
UNESCO no Brasil

História geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880-1935 / editado por
Albert Adu Boahen. – 2.ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010.
1040 p.

ISBN: 978-85-7652-129-7

1. História 2. História contemporânea 3. História africana 4. Culturas africanas


5. Colonialismo 6. Resistência à opressão 7. Nacionalismo 8. África I. Adu Boahen, Albert
II. UNESCO III. Brasil. Ministério da Educação IV. Universidade Federal de São Carlos

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO)


Representação no Brasil
SAUS, Quadra 5, Bloco H, Lote 6, Ed. CNPq/IBICT/UNESCO, 9º andar
70070-912 – Brasília – DF – Brasil
Tel.: (55 61) 2106-3500
Fax: (55 61) 3322-4261
Site: www.unesco.org/brasilia
E-mail: grupoeditorial@unesco.org.br

Ministério da Educação (MEC)


Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC)
Esplanada dos Ministérios, Bl. L, 2º andar
70047-900 – Brasília – DF – Brasil
Tel.: (55 61) 2022-9217
Fax: (55 61) 2022-9020
Site: http://portal.mec.gov.br/index.html

Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)


Rodovia Washington Luis, Km 233 – SP 310
Bairro Monjolinho
13565-905 – São Carlos – SP – Brasil
Tel.: (55 16) 3351-8111 (PABX)
Fax: (55 16) 3361-2081
Site: http://www2.ufscar.br/home/index.php

Impresso no Brasil
A África diante do desafio colonial 1

CAPÍTULO 1

A África diante do desafio colonial


Albert Adu Boahen

Na história da África jamais se sucederam tantas e tão rápidas mudanças


como durante o período entre 1880 e 1935. Na verdade, as mudanças mais
importantes, mais espetaculares – e também mais trágicas –, ocorreram num lapso
de tempo bem mais curto, de 1880 a 1910, marcado pela conquista e ocupação de
quase todo o continente africano pelas potências imperialistas e, depois, pela instau-
ração do sistema colonial. A fase posterior a 1910 caracterizou­‑se essencialmente
pela consolidação e exploração do sistema.
O desenvolvimento desse drama foi verdadeiramente espantoso, pois até
1880 apenas algumas áreas bastante restritas da África estavam sob a dominação
direta de europeus. Em toda a África ocidental, essa dominação limitava­‑se às
zonas costeiras e ilhas do Senegal, à cidade de Freetown e seus arredores (que
hoje fazem parte de Serra Leoa), às regiões meridionais da Costa do Ouro (atual
Gana), ao litoral de Abidjan, na Costa do Marfim, e de Porto Novo, no Daomé
(atual Benin), e à ilha de Lagos (no que consiste atualmente a Nigéria). Na
África setentrional, em 1880, os franceses tinham colonizado apenas a Argélia.
Da África oriental, nem um só palmo de terra havia tombado em mãos de
qualquer potência europeia, enquanto, na África central, o poder exercido pelos
portugueses restringia­‑se a algumas faixas costeiras de Moçambique e Angola.
Só na África meridional é que a dominação estrangeira se achava firmemente
implantada, estendendo­‑se largamente pelo interior da região (ver figura 1.1).
2 África sob dominação colonial, 1880-1935

figura 1.1  A África em 1880, em vésperas da partilha e da conquista.


A África diante do desafio colonial 3

Até 1880, em cerca de 80% do seu território, a África era governada por
seus próprios reis, rainhas, chefes de clãs e de linhagens, em impérios, reinos,
comunidades e unidades políticas de porte e natureza variados.
No entanto, nos trinta anos seguintes, assiste­‑se a uma transmutação extra-
ordinária, para não dizer radical, dessa situação. Em 1914, com a única exce-
ção da Etiópia e da Libéria, a África inteira vê­‑se submetida à dominação de
potências europeias e dividida em colônias de dimensões diversas, mas de modo
geral, muito mais extensas do que as formações políticas preexistentes e, muitas
vezes, com pouca ou nenhuma relação com elas. Nessa época, aliás, a África não
é assaltada apenas na sua soberania e na sua independência, mas também em
seus valores culturais.
Como Ferhat ‘Abbas salientava em 1930, a propósito da colonização da
Argélia pelos franceses, para a França
a colonização constitui apenas uma empreitada militar e econômica, posteriormente
defendida por um regime administrativo apropriado; para os argelinos, contudo, é
uma verdadeira revolução, que vem transtornar todo um antigo mundo de crenças
e ideias, um modo secular de existência. Coloca todo um povo diante de súbita
mudança. Uma nação inteira, sem estar preparada para isso, vê­‑se obrigada a se
adaptar ou, se não, sucumbir. Tal situação conduz necessariamente a um desequilí-
brio moral e material, cuja esterilidade não está longe da desintegração completa1.
Essas observações sobre a natureza do colonialismo valem não só para a
colonização francesa da Argélia mas para toda a colonização europeia da África,
sendo as diferenças de grau e não de gênero, de forma e não de fundo. Em outras
palavras, durante o período entre 1880 e 1935, a África teve de enfrentar um
desafio particularmente ameaçador: o desafio do colonialismo.

Grau de preparação dos africanos


Qual foi a atitude dos africanos perante a irrupção do colonialismo, que traz
consigo tão fundamental mutação na natureza das relações existentes entre eles
e os europeus nos três últimos séculos? Eis uma questão ainda não estudada
em profundidade pelos historiadores, tanto africanos como europeus, que, no
entanto, precisa ser respondida. E a resposta é clara e inequívoca: na sua esma-
gadora maioria, autoridades e dirigentes africanos foram profundamente hostis

1 ABBAS, 1931, p. 9, apud BERQUE, capítulo 24 deste volume.


4 África sob dominação colonial, 1880-1935

a essa mudança e declararam­‑se decididos a manter o status quo e, sobretudo, a


assegurar sua soberania e independência, pelas quais praticamente nenhum deles
estava disposto a transigir, por menos que fosse. Tal resposta pode ser encontrada
nas declarações dos dirigentes africanos da época.
Em 1891, quando os britânicos ofereceram proteção a Prempeh I, rei dos
Ashanti, na Costa do Ouro (atual Gana), ele replicou:
A proposta para o país Ashanti, na presente situação, colocar­‑se sob a proteção de
Sua Majestade, a Rainha e Imperatriz da Índia, foi objeto de exame aprofundado,
mas me permitam dizer que chegamos à seguinte conclusão: meu reino, o Ashanti,
jamais aderirá a uma tal política. O país Ashanti deve continuar a manter, como até
agora, laços de amizade com todos os brancos. Não é por ufanismo que escrevo isto,
mas tendo clareza do significado das palavras [...]. A causa dos Ashanti progride, e
nenhum Ashanti tem a menor razão para se preocupar com o futuro ou para acreditar,
por um só instante, que as hostilidades passadas tenham prejudicado a nossa causa2.
Em 1895, Wogobo, o Moro Naba, ou rei dos Mossi (na atual República do
Alto Volta), declarou ao oficial francês, capitão Destenave:
Sei que os brancos querem me matar para tomar o meu país, e, ainda assim, você
insiste em que eles me ajudarão a organizá­‑lo. Por mim, acho que meu país está
muito bem como está. Não preciso deles. Sei o que me falta e o que desejo: tenho
meus próprios mercadores; considere­‑se feliz por não mandar cortar­‑lhe a cabeça.
Parta agora mesmo e, principalmente, não volte nunca mais3.
Em 1883, Lat­‑Dior, o damel de Cayor (no atual Senegal), de quem se voltará a
falar no capítulo 6, em 1890, Machemba, chefe dos Yao de Tanganica (atual Tan-
zânia), citado mais adiante, no capítulo 3, e Hendrik Wittboi, um dos soberanos
da região que hoje constitui a Namíbia, também referido no capítulo 3, tiveram
a mesma atitude em face do colonizador. Mas um dos últimos e mais fascinantes
testemunhos que gostaríamos de citar aqui é o emocionante apelo lançado em
abril de 1891 por Menelik, imperador da Etiópia, à rainha Victoria, da Inglaterra.
A mesma mensagem foi enviada aos dirigentes da França, Alemanha, Itália e
Rússia. Neste apelo Menelik definia primeiramente as fronteiras que eram então
as da Etiópia e – expressando ambições expansionistas pessoais – declarava a
intenção de restabelecer as antigas fronteiras da Etiópia até Khartum e o lago
Niza, aí incluídos todos os territórios de Galla, acrescentando:

2 Apud FYNN, 1971, p. 43­‑4.


3 Apud CROWDER, 1968, p. 97.
A África diante do desafio colonial 5

Não tenho a menor intenção de ser um espectador indiferente, caso ocorra a potên-
cias distantes dividir a África, pois a Etiópia há quatorze séculos tem sido uma ilha
cristã num mar de pagãos. Dado que o Todo­‑Poderoso até agora tem protegido a
Etiópia, tenho a esperança de que continuará a protegê­‑la e a engrandecê­‑la e não
penso sequer um instante que Ele permita que a Etiópia seja dividida entre outros
Estados. Antigamente, as fronteiras da Etiópia eram o mar. Não tendo recorrido à
força nem recebido ajuda dos cristãos, nossas fronteiras marítimas caíram em mãos
dos muçulmanos. Não abrigamos hoje a pretensão de recuperá­‑las pela força, mas
esperamos que as potências cristãs, inspiradas por nosso Salvador, Jesus Cristo, as
devolvam a nós ou nos concedam pelo menos alguns pontos de acesso ao mar4.
Quando, apesar deste apelo, os italianos lançaram sua campanha contra a
Etiópia, com a conivência do Reino Unido e da França, Menelik proclamou de
novo, em 17 de setembro de 1895, uma ordem de mobilização na qual declarava:
Os inimigos vêm agora se apoderar de nosso país e mudar nossa religião [...]. Nossos
inimigos começaram a avançar abrindo caminho na terra como toupeiras. Com a
ajuda de Deus, não lhes entregarei meu país [...]. Hoje, que os fortes me emprestem
sua força e os fracos me ajudem com suas orações5.
Essas são as respostas textuais dos homens que tiveram de fazer frente ao colonia-
lismo: elas mostram, incontestavelmente, sua determinação em opor­‑se aos europeus
e em defender sua soberania, sua religião e seu modo de vida tradicional.
Também deixam claro que esses dirigentes tinham a certeza de estar prepa-
rados para enfrentar os invasores europeus, aliás, com razão. Não tinham eles
plena confiança em sua magia, nos antepassados e, certamente, em seus deuses
(ou deus), que não deixariam de vir em sua ajuda? Muitos deles, em vésperas
dos confrontos físicos reais, recorreram às orações, aos sacrifícios ou às poções
e feitiços. Como registrou Elliot P. Skinner:
Os Mossi de modo geral acreditam que, quando os franceses atacaram Uagadugu, o
Moro Naba Wogobo, deposto, ofereceu sacrifícios às divindades da terra. Conforme
a tradição, sacrificou um galo preto, um carneiro preto, um burro preto e um escravo
negro numa elevada colina, perto do Volta Branco, implorando à deusa da terra que

4 ASMAI, Arquivos do Ministerio degli Affari Esteri (Roma), Ethiopia Poso 36/13­‑109 Menelik to
Queen Victoria, Adis Abeba, 14 Miazia, 1883, documento acrescentado a Tarnielli to MAE, Londres, 6
de agosto de 1891.
5 Apud MARCUS, 1975, p. 160.
6 África sob dominação colonial, 1880-1935

repelisse os franceses e aniquilasse o traidor Mazi, que eles tinham colocado no


trono6.
Como se verá em muitos dos capítulos seguintes, a religião foi efetivamente
uma das armas empregadas contra o colonialismo. Além disso, vários dirigentes
africanos só tinham conseguido edificar seus impérios, de proporções variáveis,
poucos decênios antes, e alguns estavam ainda em vias de alargar ou de restaurar
seu reino. Muitos poderiam ter defendido sua soberania, apoiados pelos súditos,
utilizando as armas e as táticas tradicionais. Alguns, como Samori Touré, chefe
do império Manden, da África ocidental, ou Menelik, da Etiópia, tinham até
mesmo conseguido modernizar seus exércitos. Nessas condições, não viam por
que não estariam aptos a preservar sua soberania e pensavam poder desfazer
os planos dos invasores usando a diplomacia. Conforme veremos, em 1889, no
momento em que Cecil Rhodes se aprestava para ocupar o país dos Ndebele,
o rei destes, Lobengula, enviou uma delegação a Londres para se avistar com a
rainha Victoria; em 1896, quando o exército dos invasores britânicos avançava
em direção a Kumasi para prender Prempeh, que, cinco anos antes, rejeitara a
oferta de proteção do Reino Unido, este manda uma missão diplomática dotada
de amplos poderes junto à rainha Victoria; como vimos, Menelik tinha feito
apelo análogo a esta mesma soberana, assim como a outros chefes de Estado
europeus.
Fica também evidente, com a leitura de algumas citações aqui feitas, que nume-
rosos dirigentes africanos, de fato, acolheram muito favoravelmente as inovações que
com regularidade foram sendo introduzidas depois do primeiro terço do século XIX,
pois até então elas não tinham feito pesar nenhuma ameaça sobre sua soberania e
independência. Na África ocidental, por exemplo, os missionários fundaram, em
Serra Leoa, já em 1826, o Fourah Bay College, assim como escolas primárias e
duas escolas secundárias, uma na Costa do Ouro e a outra na Nigéria, nos anos
de 1870. O pan­‑africanista antilhano Edward Wilmot Blyden chegara mesmo
a lançar um apelo a favor da criação de uma universidade na África ocidental.
Africanos ricos, em 1887, começavam a enviar os filhos para a Europa para
prosseguir os estudos e receber uma formação profissional. Podemos citar, a
propósito, o caso de John Mensah Sarbah, que voltou para a Costa do Ouro
com todos os seus diplomas de jurista.
Mais ainda, após a abolição do hediondo tráfico de escravos, os africanos
tinham se mostrado capazes de se adaptar a um sistema econômico baseado

6 SKINNER, E. P., 1964, p. 133. Ver tb. ISICHEI, 1977, p. 181.


A África diante do desafio colonial 7

na exportação de produtos agrícolas: óleo de palma na Nigéria, amendoim no


Senegal e na Gâmbia, antes de 1880; na Costa do Ouro, o cacau foi reintrodu-
zido em 1879 por Tetteh Quashie, vindo de Fernando Pó. Todas essas trans-
formações se produziram sem controle europeu direto, salvo em alguns bolsões
costeiros. Quanto aos africanos ocidentais que, em número bem reduzido, se
tinham beneficiado de uma educação à europeia, gozavam de situação bastante
invejável no início dos anos de 1880. Dominavam a administração, onde ocu-
pavam os raros postos existentes oferecidos pelas administrações europeias; na
costa, alguns deles dirigiam as próprias empresas de importação e exportação e
exerciam o monopólio sobre a distribuição dos produtos importados. Na África
oriental é que a influência europeia era ainda mínima, embora, após as viagens
memoráveis de Livingstone e de Stanley, bem como a subsequente propaganda
das sociedades missionárias, a chegada das igrejas, das escolas e, depois, das
estradas e das ferrovias fosse simples questão de tempo.
Os africanos não viam, portanto, nenhuma necessidade de modificar radical-
mente suas relações seculares com a Europa, certos de que, se os europeus qui-
sessem lhes impor mudanças pela força e avançar em suas terras, conseguiriam
barrar­‑lhes o caminho, tal como vinham fazendo há dois ou três séculos. Daí
esse tom de confiança, se não de desafio, perceptível nas palavras já citadas.
No entanto um fato escapava aos africanos: em 1880, graças ao desenvol-
vimento da revolução industrial na Europa e ao progresso tecnológico que
ela acarretara – invenção do navio a vapor, das estradas de ferro, do telégrafo
e sobretudo da primeira metralhadora, a Maxim –, os europeus que eles iam
enfrentar tinham novas ambições políticas, novas necessidades econômicas e
tecnologia relativamente avançada. Por outras palavras, os africanos não sabiam
que o tempo do livre­‑cambismo e do controle político oficioso cedera lugar,
conforme diz Basil Davidson, à “era do novo imperialismo e dos monopólios
capitalistas rivais” 7.
Os europeus já não queriam apenas trocar bens, mas exercer controle político
direto sobre a África. Além disso, os dirigentes africanos não sabiam que as
espingardas que eles usavam e armazenavam até então, de carregar pela boca (os
franceses tomaram 21365 espingardas dos Baule da Costa do Marfim, depois
de esmagada a sua última revolta, em 1911)8, estavam inteiramente fora de
moda, não podendo ser comparadas aos novos fuzis dos europeus, de carregar
pela culatra, com cadência de tiro quase dez vezes superior e carga seis vezes

7 DAVIDSON, B., 1978a, p. 19.


8 WEISKEL, 1980, p. 203.
8 África sob dominação colonial, 1880-1935

mais forte, nem às novas metralhadoras Maxim, ultra­rrápidas (ver figura 1.2).
O poeta inglês Hilaire Belloc resume bem a situação:
Aconteça o que acontecer, nós temos a metralhadora, e eles não9.
Foi aí que os dirigentes africanos cometeram um erro de cálculo, que, em
numerosos casos, teve consequências trágicas. Como veremos, todos os chefes
citados, com exceção de apenas um, foram vencidos e perderam a soberania.
Além disso, Lat­‑Dior foi morto; Prempeh, Behanzin e Cetshwayo, rei dos
Zulus, foram exilados; Lobengula, chefe dos Ndebele, morreu em fuga. Apenas
Menelik, como veremos em capítulo posterior, conseguiu vencer os invasores
italianos, preservando assim sua soberania e independência.

Estrutura do volume VII


É evidente, portanto, que as relações entre africanos e europeus se modi-
ficaram radicalmente e que a África teve de enfrentar, entre 1880 e 1935, o
grande desafio do colonialismo. Quais foram as origens desse fantástico desafio,
o colonialismo? Em outras palavras, por que e como as relações existentes havia
três séculos entre a África e a Europa sofreram uma reviravolta tão drástica e
tão fundamental durante esse período? Como é que se instalou o sistema colonial
na África e que medidas – políticas e econômicas, psicológicas e ideológicas – foram
adotadas para sustentar esse sistema? Até que ponto a África estava preparada
para enfrentar tal desafio, como é que o enfrentou e com que resultado? Entre as
inovações, quais as que foram aceitas e quais as rejeitadas? Que é que subsistiu do
antigo sistema e que elementos foram destruídos? Que adaptações, que arranjos
foram feitos? Quantas instituições foram abaladas e quantas se desintegraram?
Quais os efeitos de todos esses fenômenos sobre a África, seus povos, suas estru-
turas e instituições políticas, sociais e econômicas? Enfim, qual foi o significado
do colonialismo para a África e sua história? É a tais questões que este volume
procurará responder.
Com esse fim em vista, bem como com o propósito de explicar as iniciativas
e reações africanas em face do desafio colonial, dividimos este volume, à parte
os dois primeiros capítulos, em três grandes seções. Cada uma é precedida por
um capítulo (3, 13, 22), onde apresentamos um apanhado geral do tema da
seção, visto de uma perspectiva africana global; depois, nos capítulos seguintes,

9 Apud PERHAN, 1961, p. 32.


10 África sob dominação colonial, 1880-1935

abordamos o mesmo tema do ponto de vista regional. A seção introdutória, que


compreende o presente capítulo e o que se segue, estuda as atitudes dos africanos
e seu grau de preparação em vésperas da transmutação fundamental que se dá
nas relações entre a África e os europeus, bem como os motivos da partilha,
da conquista e da ocupação da África pelas potências imperialistas europeias.
Convém realçar, pois frequentemente se ignora, que a fase da conquista efetiva
foi precedida por anos de negociações entre essas potências e os dirigentes
africanos e por colóquios que redundaram em tratados. Cumpre insistir nessa
fase de negociações, pois ela mostra que as potências europeias originalmente
aceitavam a contraparte africana como igual e reconheciam a soberania e a
independência das sociedades e dos Estados africanos.
A segunda seção trata das iniciativas e reações africanas diante da conquista
e da ocupação do continente, tema grosseiramente deturpado ou inteiramente
ignorado, até os anos de 1960, pela escola colonial da historiografia africana.
Para os membros dessa escola, tais como H. H. Johnston, sir Alan Burns e, mais
recentemente, Margery Perham, Lewis H. Gann e Peter Duignan10, os africanos
teriam de fato acolhido favoravelmente a dominação colonial, já que ela não só
os preservava da anarquia e das guerras civis mas também lhes trazia algumas
vantagens concretas. Citemos, a esse respeito, Margery Perham:
A maioria das tribos aceitou rapidamente a dominação europeia, considerando que
ela fazia parte de uma ordem irresistível, da qual podiam extrair numerosas vanta-
gens, essencialmente a paz, e inovações apaixonantes: ferrovias e estradas, lâmpadas,
bicicletas, arados, culturas e alimentos novos e tudo o que podia ser adquirido ou
provado nas cidades. Essa dominação trouxe às classes dirigentes – tradicionais ou
recém­‑criadas – maior autoridade e segurança, bem como novas formas de riqueza
e de poder. Por muito tempo, apesar da extrema perplexidade que estas provocaram,
as revoltas foram bastante raras, e não parece que a dominação tenha sido sentida
como uma indignidade11.
Semelhantes ideias também se refletem no uso de termos eurocêntricos, tais
como “pacificação”, Pax Britannica e Pax Gallica, que descrevem a conquista e
a ocupação da África entre 1880 e 1914. Os historiadores que dedicaram certo
interesse ao assunto só o mencionaram, por assim dizer, de passagem. Na obra A
short history of Africa, publicada em 1962, uma das primeiras análises modernas
realmente sérias da história da África, os historiadores ingleses Roland Oliver e

10 JOHNSTON, H. H., 1899, 1913; BURNS, 1957; PERHAM, 1960a; GANN & DUIGNAN, 1967.
11 PERHAM, 1960a, p. 28.
A África diante do desafio colonial 11

J. D. Fage consagram apenas um parágrafo ao que eles chamam de “resistência


tenaz” dos africanos, num capítulo de quatorze páginas dedicado ao que depois
se conheceu como “corrida” europeia às colônias africanas. É para corrigir essa
falsa interpretação da escola colonial, para restabelecer os fatos e dar relevo à
perspectiva africana que resolvemos destinar sete capítulos ao tema das inicia-
tivas e reações africanas.
Ver­‑se­‑á neles que não há nenhuma evidência em apoio à tese segundo a qual
os africanos teriam acolhido com entusiasmo os soldados invasores e rapida-
mente aceitado a dominação colonial. Na realidade, as reações africanas foram
exatamente o inverso. Está bem claro que os africanos só tinham duas opções:
ou renunciar sem resistência à soberania e à independência, ou defendê­‑las a
qualquer custo. É muito significativo que a maioria dos dirigentes africanos,
como será amplamente demonstrado neste volume, tenha optado sem hesitar
pela defesa da sua soberania e independência, a despeito das estruturas políticas
e socioeconômicas de seus Estados e das múltiplas desvantagens que sofriam.
De um lado, a superioridade do adversário, de outro, a bravia determinação de
resistir a todo preço estão traduzidas no baixo­‑relevo reproduzido na sobrecapa
desta obra. Esse baixo­‑relevo, pintado numa das paredes do palácio dos reis do
Daomé, em Abomey, mostra um africano armado de arco e flecha, barrando
desafiadoramente o caminho a um europeu armado com uma pistola.
John D. Hargreaves coloca esta interessante questão em artigo recente:
Dadas as diversas atitudes possíveis da parte dos invasores europeus, os dirigentes
africanos podiam escolher entre várias opções. No número das vantagens de curto
prazo que lhes ofereciam os tratados ou a colaboração com os europeus, estava não
só o acesso às armas de fogo e aos bens de consumo, mas ainda a possibilidade de
conquistar para a sua causa aliados poderosos, que os ajudariam em suas disputas
externas ou internas. Então, por que motivo tantos Estados africanos rejeitaram essas
oportunidades, preferindo resistir aos europeus nos campos de batalha?12.
A resposta pode parecer enigmática, mas somente para os que encaram o
problema do ponto de vista eurocêntrico. Para o africano, o que estava em jogo,
na verdade, não era esta ou aquela vantagem a curto ou a longo prazo, mas
sua terra e sua soberania. É precisamente por essa razão que quase todas as
sociedades africanas – centralizadas ou não – optaram mais cedo ou mais tarde
por manter, defender ou recuperar sua soberania; não podiam aceitar nenhum
compromisso que a pusesse em risco, e, de fato, foram numerosos os chefes que

12 HARGREAVES, 1969, p. 205­‑6.


12 África sob dominação colonial, 1880-1935

preferiram morrer no campo de batalha, exilar­‑se voluntariamente ou ser des-


terrados pela força a renunciar sem combate à soberania de seu país.
Assim, os dirigentes africanos, na sua maioria, optaram pela defesa de sua
soberania e independência, diferindo nas estratégias e nas táticas adotadas para
alcançar esse objetivo comum. A maior parte deles escolheu a estratégia do
confronto, recorrendo às armas diplomáticas ou às militares, quando não empre-
gando as duas, como foi o caso de Samori Touré e Kabarega (de Bunyoro),
que veremos mais adiante; já Prempeh e Mwanga (de Buganda) recorreram
exclusivamente à diplomacia. Outros, como Tofa, de Porto Novo (no atual
Benin), adotaram a estratégia da aliança ou da cooperação, mas não a colabo-
ração. Cumpre insistir nesta questão da estratégia, pois ela foi grosseiramente
desfigurada até o presente, de forma que já se classificaram alguns soberanos
africanos como “colaboradores”, qualificando sua atividade como “colaboração”.
Somos contrários ao emprego do termo “colaboração”, pois, além de inexato, é
pejorativo e eurocêntrico. Conforme já vimos, a soberania era o problema fun-
damental em jogo entre os anos de 1880 e 1900 para os dirigentes africanos e,
quanto a isso, está bem claro que nenhum deles se prestava a fazer acordos. Os
dirigentes africanos qualificados erroneamente como colaboradores eram aque-
les que estimavam que a melhor maneira de preservar sua soberania ou mesmo
de recuperar a soberania acaso perdida em proveito de alguma potência africana,
antes da chegada dos europeus, não consistia em colaborar, mas antes em se aliar
aos invasores europeus. Por colaborador entende­‑se seguramente aquele que trai
a causa nacional unindo­‑se ao inimigo para defender os alvos e objetivos deste
último ao invés dos interesses de seu próprio país. Ora, como já vimos, todos
os africanos se viam confrontados com o problema de abandonar, conservar ou
recuperar sua soberania. Tal era o objetivo daqueles que ligaram sua sorte à dos
europeus, sendo inteiramente falso qualificá­‑los de colaboradores.
Seja como for, depois da Segunda Guerra Mundial, o termo “colaborador”
ganhou sentido pejorativo, e é interessante notar que certos historiadores que o
empregam têm consciência disso. R. Robinson, por exemplo, declara: “Convém
sublinhar que o termo [colaborador] não é utilizado em sentido pejorativo” 13.
Se há o risco de o termo assumir tal sentido, por que empregá­‑lo então, em
especial no caso da África, em que é particularmente inexato? Por que não usar
a palavra “aliado”, bem mais conveniente? Assim, Tofa, rei dos Gun de Porto
Novo, é sempre citado como um exemplo típico de colaborador. Mas sê-lo­‑ia

13 ROBINSON, R., 1972, p. 120.


A África diante do desafio colonial 13

na verdade? Como Hargreaves claramente mostrou14, Tofa tinha de enfrentar


três diferentes inimigos no momento da chegada dos franceses: os Yoruba, a
nordeste, os reis Fon do Daomé, ao norte, e os britânicos, na costa, de modo
que, com certeza, considerou a chegada dos franceses um presente dos céus, uma
oportunidade não só para preservar sua soberania, mas até para obter algumas
vantagens à custa de seus inimigos. Era, pois, natural que Tofa quisesse aliar­‑se
aos franceses, e não colaborar com eles. Só historiadores sem consciência dos
problemas que Tofa tinha de enfrentar naquela época ou que negam ao afri-
cano toda iniciativa ou o conhecimento de seus próprios interesses, ou ainda
aqueles que encaram a matéria de uma perspectiva eurocêntrica, é que o classi-
ficam como colaborador. Além do mais, o fato de esses pretensos colaboradores,
amiúde prontos a se aliar aos europeus, muitas vezes, mais tarde, oporem­‑lhes
resistência lutando contra eles é outra prova da inexatidão do termo: Wogobo,
rei dos Mossi, Lat­‑Dior, o damel de Cayor, e o próprio grande Samori Touré
são exemplos do absurdo total do qualificativo.
Afinal de contas, só historiadores realmente ignorantes da situação política
e etnocultural da África em vésperas da conquista e da partilha europeias ou
que tenham a respeito opiniões simplistas usam esse termo. Partem da hipótese
de que, a exemplo de muitos países europeus, os países africanos são habitados
pelo mesmo grupo etnocultural ou pela mesma nação e, portanto, todo segmento
da população que se alie a um invasor justifica a denominação de colaborador;
mas, na África, nenhum país, nenhuma colônia, nenhum império era povoado
por um só grupo étnico. Todos os países e impérios contavam numerosas nações
ou grupos etnoculturais tão diferentes uns dos outros como os italianos o são,
por exemplo, dos alemães ou dos franceses. Além disso, antes da chegada dos
invasores europeus, as relações entre esses diferentes grupos eram muito fre-
quentemente hostis, sendo, aliás, possível que alguns estivessem sob o domínio
de outros. Chamar de colaboradores esses grupos subjugados ou hostis porque
optaram por se juntar aos invasores europeus para lutar contra seus inimigos ou
senhores estranhos é não compreender nada da questão. Na verdade, como se
poderá constatar em certos capítulos deste volume, a natureza das reações afri-
canas à colonização foi determinada não só pela situação política e etnocultural
com que se defrontavam os povos africanos, mas também pela própria natureza
das forças socioeconômicas presentes em cada sociedade à época do confronto,
bem como da sua organização política.

14 HARGREAVES, 1969, p. 214­‑6.


14 África sob dominação colonial, 1880-1935

Muitos historiadores europeus têm condenado os opositores por roman-


tismo e falta de perspicácia, louvando, ao contrário, o progressismo e a cla-
rividência dos colaboradores. Segundo os termos empregados por Oliver e
Fage em 1962:
Se [os dirigentes africanos] fossem perspicazes e bem­‑informados, mais particular-
mente, se tivessem acesso a conselheiros estrangeiros, como missionários ou comer-
ciantes, poderiam compreender muito bem que nada teriam a ganhar resistindo,
mas, pelo contrário, muito ganhariam negociando. Se fossem menos clarividentes,
tivessem menos sorte ou fossem menos bem aconselhados, perceberiam que seus
inimigos tradicionais estavam do lado do invasor e adotariam então uma atitude
de resistência que facilmente podia terminar numa derrota militar, na deposição do
chefe, na perda de territórios em proveito dos aliados autóctones da potência ocu-
pante, talvez pela fragmentação política da sociedade ou do Estado [...] Tal como
no tempo do tráfico de escravos, havia ganhadores e perdedores e encontravam­‑se
representantes de ambos nos confins de cada território colonial15.
Ronald E. Robinson e John Gallagher também descreveram a oposição ou
a resistência como “lutas românticas de reação contra a realidade, protestos
apaixonados de sociedades traumatizadas pela nova era de mudanças e que não
se aquietavam” 16.
Mas essas opiniões são muito discutíveis. A dicotomia entre resistência e o
que se pretende por colaboração não é apenas mecânica, mas pouco convincente.
Certamente que houve ganhadores e perdedores durante o tráfico de escravos,
mas, desta vez, não havia ganhadores. Os assim chamados colaboradores, tal
qual os que resistiram, acabaram por perder, e é interessante notar que são os
dirigentes classificados como românticos e intratáveis que ainda são lembrados,
tendo se tornado fonte de inspiração para os nacionalistas de hoje17. Concordo
inteiramente com a conclusão de Robert I. Rotberg e Ali A. Mazrui, segundo
a qual
não se pode dizer que a introdução das normas e do poder dos ocidentais, bem como
dos controles e coerções de que vinham acompanhados, foi questionada em todas as
partes da África pelos povos afetados18.

15 OLIVER & FAGE, 1962, 1970, p. 203.


16 ROBINSON, R. E. & GALLAGHER, J., 1962, p. 639­‑40.
17 Para um estudo mais detalhado do problema, ver BOAHEN, Towards a new cathegorization and perio-
dization of Africa responses and reactions to colonialism, em que se baseiam partes deste capítulo.
18 ROTBERG & MAZRUI, eds., 1970, p. xviii.
A África diante do desafio colonial 15

No entanto, qualquer que tenha sido a estratégia dos países africanos, nenhum
deles, com exceção da Libéria e da Etiópia, conseguiu preservar sua soberania,
por motivos que examinaremos em seguida: no início da Primeira Guerra Mun-
dial, que marca o fim da primeira seção deste volume, a África havia tombado
sob o jugo colonial. No capítulo 11, veremos como e por que os liberianos e os
etíopes fizeram frente ao colonialismo.
Qual foi a ação política, social e econômica das potências coloniais em suas
novas possessões, após o interlúdio da Primeira Guerra Mundial? Essa questão
será respondida na segunda seção do volume. Os diversos mecanismos políticos
criados para administrar as colônias e as ideologias que os embasam foram satis-
fatoriamente estudados em numerosas obras sobre o colonialismo na África19,
de modo que consagramos a esse tema apenas um capítulo. Em compensação,
estudaremos com bastante atenção – para contrabalançar as teorias da escola
colonial – os aspectos socioeconômicos do sistema colonial e sua incidência sobre
a África. Ver­‑se­‑á, nesses capítulos, que o período que vai do fim da Primeira
Guerra Mundial a 1935 – qualificado por certos historiadores contemporâneos
como de apogeu do colonialismo – foi marcado pela instalação de uma infraes-
trutura rodoviária e ferroviária, assim como pelo engodo de uma certa evolução
social, por causa da abertura de escolas primárias e secundárias. No entanto, o
objetivo essencial das autoridades coloniais continuava a ser a exploração dos
recursos africanos, fossem animais, vegetais ou minerais, em benefício exclu-
sivo das potências metropolitanas, principalmente de suas empresas comerciais,
mineiras e financeiras. Um capítulo dessa seção para o qual gostaríamos de pedir
atenção especial é o que trata dos aspectos demográficos da dominação colonial,
tema em geral ausente das pesquisas consagradas ao colonialismo na África.
Quais foram as iniciativas e as reações dos africanos em face da consoli-
dação do colonialismo e da exploração do seu continente? Essa questão será
respondida na terceira seção deste volume, aliás objeto de reflexão cuidadosa,
em consonância com o princípio que norteia esta obra: considerar a história
da África de um ponto de vista africano e dar ênfase às iniciativas e reações
africanas. Durante esse período, os africanos não tiveram absolutamente uma
atitude de indiferença, de passividade ou de resignação. Se é apontado como a
era clássica do colonialismo, nem por isso deixa de ser, igualmente, a era clássica
da estratégia da resistência ou do protesto dos africanos. Conforme mostraremos
tanto no estudo geral como nos estudos regionais subsequentes, os africanos

19 Ver ROBERTS, S. H., 1929; HAILEY, 1938, 1957; EASTON, 1964; GANN & DUIGNAN, eds.,
1969, 1970; GIFFORD & LOUIS, eds., 1967, 1971; SURET­‑CANALE, 1971.
16 África sob dominação colonial, 1880-1935

recorreram a certos métodos e procedimentos – sua multiplicidade comprova


amplamente a fecundidade dos povos do continente nesse domínio – para resis-
tir ao colonialismo.
Cumpre sublinhar que nessa época os africanos – com exceção dos dirigentes
do norte do continente – não tinham como objetivo a derrubada do sistema
colonial, mas antes conseguir melhorias e ajustes no interior do sistema. Seu
grande propósito era torná­‑lo menos opressivo, menos desumano, de modo
a beneficiar tanto os africanos quanto os europeus. Os dirigentes africanos
esforçaram­‑se para corrigir medidas e abusos específicos, como o trabalho for-
çado, a tributação elevada, as culturas agrícolas obrigatórias, a alienação de
terras, as leis relativas à circulação, os baixos preços dos produtos agrícolas e
o alto custo dos bens importados, a discriminação racial e a segregação, e para
desenvolver melhoramentos como hospitais, água encanada e escolas. Deve­‑se
frisar que membros de todas as classes sociais – tanto intelectuais como analfa-
betos, citadinos como rurais – partilhavam esses ressentimentos contra o sistema
colonial, o que fez nascer uma consciência comum de sua condição de africanos
e negros, em oposição a seus opressores, dirigentes coloniais e brancos. Foi
durante esse período que assistimos ao revigoramento do nacionalismo político
africano, cujas primeiras manifestações remontam aos anos de 1910, logo após
a instauração do sistema colonial.
Cabia agora às novas elites intelectuais ou à nova burguesia articular tal
sentimento à direção do movimento, papel até então exercido, no quadro das
estruturas políticas pré­‑coloniais, pelas autoridades tradicionais. Esses novos
dirigentes, paradoxalmente, eram produto do próprio sistema colonial, saídos de
estruturas escolares, administrativas, industriais, financeiras e comerciais criadas
por ele próprio.
Estando a direção das atividades nacionalistas e anticolonialistas concentrada
nas mãos dos intelectuais africanos, que na sua maior parte viviam nos novos
centros urbanos, passou­‑se a identificar, incorretamente, o nacionalismo africano
do entreguerras exclusivamente com esta camada social, caracterizando­‑o como
um fenômeno inicialmente urbano.
Como se mostrará nos capítulos desta seção, as associações e agrupamen-
tos formados pela articulação das aspirações nacionalistas foram efetivamente
numerosos, e bastante variadas as estratégias e táticas elaboradas no decurso do
período para concretizá­‑las. B. O. Oloruntimehin e E. S. Atieno­‑Odhiambo,
nos capítulos 22 e 26, adiante, apontam entre esses grupos clubes de jovens,
associações étnicas, sociedades de antigos alunos, partidos políticos, movimen-
tos políticos abrangendo um ou vários territórios com atividades tanto internas
A África diante do desafio colonial 17

quanto externas ao continente, sindicatos, clubes literários, clubes de funcio-


nários, associações de socorros mútuos, e ainda várias seitas ou movimentos
religiosos. Alguns desses grupos tinham se constituído nos anos precedentes à
Primeira Guerra Mundial, mas não há dúvida de que proliferaram durante o
período considerado, como se verá nos capítulos consagrados a esse tema.
O envio de petições e delegações às autoridades metropolitanas e locais, as
greves, os boicotes, sobretudo a imprensa e os congressos internacionais, foram as
armas ou táticas então adotadas, ao contrário do que ocorrera no período anterior à
Primeira Guerra Mundial, em que as rebeliões e os tumultos predominaram como
formas de resistência. O período do entreguerras foi, incontestavelmente, a idade
de ouro do jornalismo na África, de modo geral, e, em particular, na África ociden-
tal, enquanto a organização de congressos pan­‑africanos tornava­‑se igualmente
arma característica do movimento anticolonial. O objetivo de tais congressos
era conferir caráter internacional aos movimentos nacionalistas e anticoloniais
africanos, mas também importava chamar a atenção das potências metropoli-
tanas para o que se passava em suas colônias. Foi essa a razão de os congressos
pan­‑africanos organizados pelo dr. W. E. B. Du Bois, negro norte­‑americano, terem
se realizado em Paris, Londres, Bruxelas e até Lisboa. Este tema é retomado com
mais pormenores no capítulo 29 do presente volume, consagrado às interações, ao
longo de todo o período estudado, entre os negros da África e os negros da diáspora
nas Américas.
Não obstante a diversidade das associações e a complexidade das táticas
desenvolvidas, não houve um verdadeiro impacto sobre o sistema colonial em
começos da década de 1930, a não ser no caso único do Egito. Mesmo em 1935,
quando as forças imperialistas do regime fascista italiano de Mussolini invadi-
ram e ocuparam a Etiópia, um dos dois últimos bastiões da esperança da África,
o grande símbolo do seu desabrochar, do seu despertar, o continente parecia
condenado a ficar para sempre sob o jugo do colonialismo. Mas isso não ocorreu.
A capacidade de resistência do povo africano, a própria ocupação da Etiópia, a
intensificação do movimento nacionalista africano e dos sentimentos antico-
lonialistas após a Segunda Guerra Mundial, ligadas ao aparecimento de novos
partidos políticos de massa e de dirigentes mais engajados, que não procuravam
melhorar o sistema colonial, mas, pelo contrário, suprimi­‑lo em bloco, foram
outros tantos fatores que se conjugaram, como será visto no volume VIII desta
obra, e levaram à liquidação do domínio colonial sobre o continente africano
tão rapidamente quanto sua instalação, ou seja, num período de cerca de duas
décadas. No entanto o sistema colonial, entre 1880 e 1935, parecia firmemente
18 África sob dominação colonial, 1880-1935

implantado na África. Que marcas deixou ele, de fato, no continente? O último


capítulo deste volume procurará responder a essa questão.

Fontes do volume VII


Falta abordar dois pontos neste capítulo introdutório: as fontes da história
do colonialismo na África e a sua periodização.
No que respeita às fontes, os autores que trabalharam na redação do presente
volume tiveram ao mesmo tempo vantagens e desvantagens em relação aos dos outros
volumes. Isso também vale para todos os que vierem a trabalhar com esse período.
Falando primeiro das desvantagens, tanto este volume como o seguinte tra-
tam de épocas em que, ao contrário do que ocorreu com os outros volumes, parte
dos documentos de arquivos continua inacessível aos especialistas. Realmente,
em várias metrópoles, como a França para o período que vai até 1930, certos
documentos arquivados não foram postos à disposição dos pesquisadores senão
depois de terminados alguns capítulos. Além disso, com a partilha da África e
a penetração de tantas potências europeias no continente, os pesquisadores se
veem diante de difíceis problemas linguísticos.
Em contrapartida, no decurso do mesmo período, aumentou de modo geral
o número de revistas e periódicos publicados, bem como de documentos parla-
mentares, debates, relatórios de comissões, exposições anuais, atas de sociedades
e de associações particulares, textos que podem ser todos consultados. Mais
importante ainda, alguns protagonistas do drama colonial ainda estão vivos,
de modo que já se recolheram os depoimentos de muitos deles. Outros, tanto
africanos como europeus, também deram início à publicação de memórias e
autobiografias, ou evocaram sua vivência em romances, peças e ensaios. Neste
particular, os autores do presente volume se beneficiaram de certas vantagens
em relação à maior parte dos autores dos outros volumes.
Finalmente, parece que o colonialismo foi e continua a ser objeto de pesqui-
sas e de publicações bem mais numerosas que qualquer outro tema da história
africana. Nesses dez últimos anos, a Universidade de Cambridge, por exemplo,
publicou uma história do colonialismo na África, em cinco volumes, sob a dire-
ção de L. H. Gann e Peter Duignan. Também nos países da Europa do Leste
o tema suscita, provavelmente, bem mais interesse do que qualquer outro. Estas
vantagens tornam naturalmente mais fácil o trabalho de síntese dos autores no
que diz respeito ao problema das fontes, mas a massa de documentos que são
obrigados a assimilar tende a dar um caráter mais árduo à sua tarefa.
A África diante do desafio colonial 19

Periodização do colonialismo na África


Convém examinar aqui brevemente o problema da periodização da história
do colonialismo na África, ignorado por numerosos historiadores, mas levantado
por A. B. Davidson e Michael Crowder na década de 1960.
Certos autores propuseram 1870 como data do início da “corrida” euro-
peia para a África e da imposição do domínio colonial. Essa data, no entanto,
parece um pouco recuada. No capítulo 2, G. N. Uzoigwe mostra que foram as
atividades dos franceses na região da Senegâmbia, do rei Leopoldo da Bélgica,
representado por H. M. Stanley, dos franceses, por Pierre Savorgnan de Brazza
na região do Congo, e dos portugueses na África central que desencadearam a
corrida. Ora, está claro que nenhuma dessas atividades começou antes do final
da década de 1870 e do início da de 1880. Parece, portanto, que 1880 é um ponto
de partida mais apropriado do que 187020. De 1880 até a derrocada do colonia-
lismo, nas décadas de 1960 e 1970, o estudo da dominação colonial, das reações
e das iniciativas africanas deveria ser dividido em três períodos. O primeiro iria
de 1880 a 1919 (com duas subdivisões: 1880­‑1900 e 1900­‑1919, correspondendo
respectivamente à conquista e à ocupação). É aquilo que chamaríamos de período
da defesa da soberania e da independência africanas mediante o recurso à estraté-
gia do confronto, da aliança ou da submissão temporária. O segundo iria de 1919
a 1935: é o período da adaptação, sendo a estratégia empregada a do protesto ou
a da resistência. O terceiro, com início em 1935, é o período dos movimentos
de independência, sendo de ação concreta a estratégia21.
Nossa tese é a seguinte: o período que vai de 1880 até cerca de 1919 – dito
de pacificação, segundo certos historiadores – assistiu, sob a perspectiva europeia,
à realização da partilha em cima de mapas, da distribuição das tropas destinadas
a concretizá­‑la em campo, depois à ocupação efetiva das regiões conquistadas,
representada pela introdução de diversas medidas administrativas e de uma
infra­‑estrutura rodoviária, ferroviária e telegráfica, voltada para a exploração dos
recursos coloniais. Da perspectiva africana, como já vimos, durante esse perí-
odo, os reis, rainhas, chefes de linhagens e de clãs acham­‑se todos dominados
por uma única e imperiosa consideração: manter ou recuperar a soberania, seu
patrimônio e sua cultura, qualquer que seja a estratégia adotada – confronto,
aliança ou submissão. Em 1919, em quase toda a África, com a exceção notória
da Líbia, de algumas regiões do Saara, da Libéria e da Etiópia, os confrontos

20 Ver CROWDER, 1968, p. 17­‑9.


21 Para diferentes periodizações, ver DAVIDSON, A. B., 1968, p. 177­‑88, e CROWDER, 1968, p. 17­‑9.
20 África sob dominação colonial, 1880-1935

terminaram a favor dos europeus, e todos os africanos perderam a soberania,


tanto aqueles que na consideração de certos historiados resistiram como aqueles
que no seu entender colaboraram.
Na segunda fase, entre 1919 e 1935, é correto incluir as reações dos africanos
na categoria das manifestações de resistência ou, como preferimos, de protestos.
Escolhemos 1919 não só porque essa data sucede a acontecimentos marcantes,
como o fim da Primeira Guerra Mundial, a revolução de outubro na Rússia
tzarista e a reunião do primeiro congresso pan­‑africano por Du Bois – que
tiveram um impacto revolucionário no curso da história mundial –, mas tam-
bém porque naquele momento a oposição à ocupação europeia da África havia
cessado praticamente em todo o continente.
Como data de encerramento do período estudado neste volume também
preferimos 1935 a 1945, pois 1935 é o ano da invasão e da ocupação da Etiópia
pelas forças fascistas de Mussolini. Essa situação crítica transtorna e indigna
profundamente os africanos, particularmente os intelectuais e, de modo geral,
os negros do mundo inteiro. Ela lhes faz tomar consciência, igualmente – de
modo ainda mais dramático e bem mais que a Segunda Guerra Mundial –, da
natureza desumana, racista e opressiva do colonialismo. Kwame Nkrumah, que
mais tarde viria a ser presidente de Gana, assim descreve como reagiu ao saber
da invasão: “Tive quase a impressão, naquele momento, de que Londres inteira
me havia declarado pessoalmente guerra”22. E confessa que a crise lhe aumentou
o ódio ao colonialismo. Na verdade, a luta pela libertação da África do jugo
colonialista sobreviria muito provavelmente no final dos anos 1930, não fosse a
irrupção da Segunda Guerra Mundial.
O último período, que vai de 1935 ao desencadeamento das lutas revolucio-
nárias pela independência, diz respeito mais propriamente ao último volume
da série, motivo por que nos abstivemos de estudá­‑lo aqui.

22 NKRUMAH, 1957, p. 27.