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Análise Psicológica (2002), 3 (XX): 505-516

O bem estar da pessoa idosa em meio


rural

ARMÉNIO SEQUEIRA (*)


MARLENE NUNES SILVA (**)

1. INTRODUÇÃO uma orientação mais realista e construtiva. O en-


velhecimento não ocorre de forma estanque em
A velhice constitui um período de grandes todos os indivíduos: Enquanto uns tendem a
mudanças nos planos biológico, psicológico e apresentar padrões habituais de envelhecimento
social, bem como no plano das relações pessoa- que reflectem alterações típicas da idade, outros
mundo. Estas mudanças exigem ao idoso um es- tendem a alcançar um elevado nível de funciona-
forço de adaptação às novas condições de vida. mento nos domínios físico, psicológico e social,
Pela profunda alteração a diferentes níveis, e pe- em que apenas alguns sinais típicos da mudança
lo esforço que a personalidade terá de fazer para ocorrem. Segundo Paúl (1991) estas diferenças
se adaptar, trata-se de um momento de risco para podem explicar-se à luz da combinação de facto-
o equilíbrio e Bem Estar psicológicos da pessoa res genéticos, pessoais e ambientais.
idosa (Pinheiro & Lebres, 1998). Apesar de errada, há uma tendência para pen-
O genérico dos trabalhos que têm vindo a ser sar a velhice como universal, devendo-se tal
realizados acerca da pessoa idosa tem focado es- talvez ao facto de esta se inscrever no ciclo bio-
sencialmente questões inerentes a perdas e défi- lógico natural de todo o ser humano: nascimento,
ces neste grupo etário. De facto, segundo Barreto crescimento e morte. No entanto, é complicado
(1998) até há alguns anos os vários autores que se falar da velhice dentro de um quadro geral, uma
debruçavam sobre a psicologia da idade avançada vez que ninguém envelhece de uma maneira ou
mostravam tendência para: (a) Privilegiar os as- ao mesmo ritmo.
pectos cognitivos em relação aos demais; (b) A velhice é um processo inelutável caracteri-
Focar essencialmente perdas e défices; (c) For- zado por um complexo conjunto de factores fi-
mular normas genéricas mais do que descrever siológicos, psicológicos e sociais específicos de
tipos e variações; (d) Esquecer a continuidade en- cada indivíduo. Assim, se o processo de envelhe-
tre a época da senescência e as que a precedem. cimento é normal e universal as alterações cau-
Actualmente, tal visão pessimista dá lugar a sadas pelo envelhecimento desenvolvem-se a
um ritmo diferente de pessoa para pessoa depen-
dendo de uma multiplicidade de factores internos
(*) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lis-
e externos (Schroets & Birren, 1980).
boa. Evidencia-se, assim, quão difícil é sustentar
(**) Psicóloga Clínica. uma uniformidade no processo de envelhecimen-

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to, como se se chegasse a um estádio do ciclo vi- co/ambiental da velhice, que defende uma psico-
tal em que se esbatem as diferenças individuais. logia das pessoas nos seus cenários de vida
É falso pensar nos idosos como num grupo ho- reais, dotada de validade ecológica por possibi-
mogéneo de indivíduos caracterizado por uma litar a compreensão das transacções entre os
diminuição das capacidades vitais, bem como processos psicológicos e as acções humanas, e os
dos recursos sociais e económicos. contextos e cenários quotidianos em que elas se
Muitas são as formas de se ser velho, impor- desenrolam (Soczka, 1993).
tando perceber que existem idosos e idosos e que, A este propósito Paúl (1991) afirma que o con-
qualquer um deles carrega consigo a sua história ceito de velhice bem sucedida só faz sentido nu-
de vida, determinada tanto pelo seu património ma perspectiva ecológica, considerando o indiví-
genético como pelo seu património psicossocial. duo no seu contexto actual e passado, no quadro
De facto, e tal como afirmam Lima e Viegas de uma relação dialéctica entre as pressões am-
(1988, p. 149) «Se a velhice é o destino biológico bientais e as suas capacidades adaptativas.
do homem, ela é vivida de forma muito variável Carp (1987) afirma que a problemática ambi-
consoante o contexto em que se inscreve». ental é reconhecida como muito importante em
É de sublinhar que, apesar de o envelhecimen- gerontologia. Uma das mais relevantes aborda-
to ser acompanhado por alterações a diferentes gens da relação pessoa idosa/ambiente vem da
níveis, qualquer dos défices físicos, psicológicos equipa de Lawton do Centro Geriátrico de Phila-
e sociais podem ser atenuados ou incrementados delphia. Conduzindo inúmeras pesquisas neste
pelo contexto em que o idoso se inscreve. campo, sistematizam toda a informação no Mo-
Então, muito embora se observe a existência delo Ambiental de Lawton e Nahemow (1973).
de factores limitantes relacionados com a idade, Para Lawton a Satisfação de Vida resulta da
eles não afectam senão modestamente a capaci- eficaz interacção do indivíduo com o meio em
dade de reestruturação e manutenção da saúde que se insere. O modelo ecológico considera o
intelectual e mental da pessoa idosa que se so- comportamento num dado contexto, implicando
corre de estratégias apropriadas. Tais capacida- que o desempenho do indivíduo seja visto como
des não dependem tanto da idade que o indiví- o resultado de uma transacção com o meio, em
duo tem, quanto do contexto sócio cultural em que a força relativa do indivíduo e do meio se
que se insere. concertam.
Assim sendo, as diferentes formas de estar e Para este autor todo o comportamento é tran-
sentir só são compreensíveis na perspectiva do saccional, isto é, não pode ser entendido com
curso de vida e da consequente relação do idoso base em apenas uma variável, mas em função
com o seu cenário actual. das variáveis presentes, só sendo compreensível
Defendendo que à medida que a pessoa enve- na dinâmica das relações pessoa/ambiente. Sen-
lhece as suas capacidades de adaptação vão di- do que:
minuindo, Lawton (1983), refere que o idoso se
- O aspecto mais importante dos traços com-
torna mais sensível ao meio ambiente, meio que
portamentais está resumido no termo «Com-
se torna um agente relevante na promoção do seu
petência» manifesta em áreas como a saúde
Bem Estar.
biológica, a capacidade sensório perceptiva,
Parece então de fundamental interesse estudar
as capacidades motoras e cognitivas.
a influência do contexto na Satisfação de Vida
- O ambiente é definido tendo em conta o
do idoso, na medida em que só a partir da análise
conceito de «Pressão» visto como um de-
transaccional da unidade ecológica pessoa/ambi-
terminado potencial de exigência para qual-
ente podemos compreender o Bem Estar subjec-
quer indivíduo (define-se individualmente
tivo de idosos que vivem em diferentes cenários,
esta pressão através das exigências que faz
sendo que cada cenário ambiental dita de forma
às capacidades físicas, psíquicas e sociais
única a experiência do envelhecimento.
dos indivíduos quer do ponto de vista real,
Há que pensar na pessoa idosa com programas
quer subjectivo).
de vida e acções intencionais, vivendo e agindo
em cenários ambientais concretos e temporais. Para qualquer nível de competência existem
Tal visão enquadra-se na perspectiva ecológi- níveis de pressão que podem tornar o comporta-

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mento e o afecto mal adaptados, do mesmo mo- de Vida independentemente de critérios externos
do que, para um nível de competência muito bai- considerarem o meio pouco favorável.
xo existem valores de pressão ambiental capazes A maioria dos trabalhos que tem vindo a ser
de promoverem um comportamento adaptado e desenvolvidos em torno das temáticas afectas ao
um afecto positivo. idoso, têm focado essencialmente as perdas e dé-
De nada vale tentar caracterizar um ambiente fices neste grupo etário. No presente trabalho
se não for tida em conta a pessoa que nele se ins- procurou-se uma outra visão: Ao invés dos fac-
creve. As características ambientais podem fun- tores inerentes ao declínio, a nossa atenção re-
cionar tanto como barreiras, como facilitadores caiu sobre os factores inerentes à Satisfação
de determinado comportamento, dependendo num grupo de residentes em meio rural.
das características de cada sujeito específico. A opção pelo meio rural pareceu-nos relevan-
É, pois, importante encontrar e proporcionar te, uma vez que, atendendo ao aumento da urba-
ao indivíduo idoso um ambiente que, no respei- nização, quando se coloca a questão da influên-
tante às exigências pessoais não peque por ex- cia da experiência territorial e ambiental a nível
cesso nem por defeito, pois a adaptação tem a pessoal e social todos os esforços se dirigem à
ver com princípios homeostáticos: A pressão avaliação das consequências de tal fenómeno a
ambiental não pode ser nem maior (o que exigi- partir da vivência da cidade.
ria demais) nem menor (o que levaria ao subesti- Poucos são os estudos por nós encontrados em
mar de competências) do que aquela que o indi- relação aos contextos rurais. Seria importante
víduo está habituado. Tal conduziria a um senti- modificar esta situação, não só devido ao signi-
mento de desconforto e à desadaptação. ficativo número de idosos que envelhece em am-
Não obstante, a pressão ambiental percebida bientes rurais, mas também porque estamos
varia de indivíduo para indivíduo, consoante as perante cenários com características específicas
suas próprias competências para lidar com ela. A que ditam de forma única a experiência de neles
«hipótese da docilidade ambiental» veiculada envelhecer.
por estes autores, defende que à medida que di-
minuem as competências o comportamento e os
afectos vão sendo cada vez mais determinados 2. MÉTODO
por factores externos ao indivíduo.
Os idosos, quando há declínio em algumas
competências, tendem a ser mais vulneráveis ao 2.1. Participantes
ambiente do que os mais novos. O lado positivo
desta maior vulnerabilidade prende-se com a Participaram neste estudo 40 sujeitos, dos
possibilidade de promover melhorias a nível dois sexos, com idades compreendidas entre os
pessoal, realizando maior adaptação ambiental. 65 e os 75 anos, inclusive. Para a sua selecção
Neste sentido, Paúl (1991) defende que a me- tivemos em atenção:
ta do trabalho desenvolvido na procura de inter-
- Idade compreendida entre os 65-75 anos;
venções ambientais adequadas, encontra o seu
- Ambos os sexos;
sentido na conceptualização de modelos teóricos
- Residência em meio rural: A escolha do
das transacções entre o meio e o indivíduo idoso,
local teve em conta alguns critérios básicos
que assim permitam o desenvolvimento de pro-
de definição do espaço rural, tais como o
gramas que sejam abrangentes das privações e
número de habitantes a densidade popula-
dificuldades às quais a população idosa está se-
cional, a concentração de edifícios e o sec-
lectivamente mais vulnerável. Segundo esta au-
tor de actividade predominante.
tora, no extenso conjunto das variáveis que in-
- Residência em comunidade, para não dei-
fluenciam o Bem Estar psicológico dos idosos
xar intervir os efeitos da institucionalização
destacam-se as vertentes subjectivas que incluem
ao nível da Satisfação de vida.
a percepção que o idoso tem do seu ambiente e a
congruência com o mesmo, afirmando a impor- Para que os participantes seleccionados res-
tância da adequação pessoa/meio. Quando esta peitassem estes critérios seguiu-se o método da
se verifica, o idoso pode manter a sua Satisfação amostragem acidental por conveniência, incluin-

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do todos os sujeitos que, preenchendo os crité- das águas das ribeiras. A este propósito, os ido-
rios de inclusão, se disponibilizaram a participar sos inquiridos referem frequentemente um antigo
no estudo. Com o objectivo de melhor os carac- ditado popular que afirma Mação como a terra
terizar, considera-se pertinente descrever de for- dos 3 «ás»: «Bons ares, boas águas e bons azei-
ma mais específica o contexto residencial em tes.»
que estão inseridos, uma vez que cada contexto
residencial revela particularidades importantes. Em termos geográficos o concelho de Mação
pertence ao distrito de Santarém e á diocese de
2.1.1. A especificidade do contexto... Portalegre. Fundamentalmente Beirão, este con-
celho integra-se, para fins estatísticos na unidade
Para a concretização do presente estudo esco- territorial do Pinhal Interior e, no que respeita ao
lhemos o Concelho de Mação, o qual cumpre ordenamento turístico, é parte da região de tu-
critérios básicos de definição de espaço rural: rismo dos Templários, Floresta Central e Albu-
feiras. Mação encontra-se no vértice de 3 re-
- Aglomerados populacionais de fraca den- giões: Beira Baixa, Ribatejo e Alentejo, a 77 Km
sidade populacional: de Santarém e a 170 Km de Lisboa.
Com uma área de 400 km2, e um total de 9 As características do concelho são marcadas
811 habitantes, o concelho de Mação tem uma pela influência das zonas que o rodeiam. As ser-
densidade populacional de 24.7 hab/Km2, valor ras e os vales são característicos das Beiras, do
que está bastante aquém da média registada para Ribatejo herdou os pratos típicos, a arquitectura
o distrito de Santarém (67,7 hab/km2). e as festas populares e, do Alentejo adoptou a
O número total de habitantes está distribuído cultura de oliveiras, sobreiros e castanheiros.
pelas 8 freguesias que constituem o concelho: A influência de diferentes culturas e tradições
Abobreira (680 hab.), Amendoa (8841 hab.), deu aos habitantes uma personalidade especial:
Cardigos (1471 hab.), Carvoeiro (947 hab.), En- tranquilos como os alentejanos, alegres como os
vendos (1571 hab.), Mação (2 467 hab.), Ortiga ribatejanos e identificados com a terra como os
(706 hab.) e Penhascoso (1 128 hab.) (Censos beirões.
1991).
De acordo com o Instituto Nacional de estatís- Em termos de habitabilidade a maioria das
tica, a população residente no concelho tem vin- freguesias deste concelho dispõe de electricida-
do a diminuir progressivamente nos últimos de, água, esgotos e saneamento básico.
anos: de 12 234 habitantes em 1981 baixou para Como principais equipamentos verifica-se
os referidos 9 811 em 1991. a esta constatação que a maior parte das aldeias destas freguesias
junta-se outra porventura mais grave, a actual dispõem de escola primária (ainda que muitas
população encontra-se bastante envelhecida: das vezes desactivada por falta de crianças que a
Cerca de 34% tem mais de 65 anos (dos quais frequentem), igreja ou capela e clube recreativo
metade acima dos 75 anos), enquanto que os jo- ou café, sendo estes os principais pontos de en-
vens até aos 24 anos não vão alem dos 21.7%. contro e convívio da população residente.
Mação apresenta um dos índices de envelheci- As principais faltas denotam-se em termos de
mento mais elevados do país. cuidados de saúde, já que o Centro de Saúde só
conta com 5 extensões que funcionam apenas em
- Predomínio de actividades do sector pri- dias e horas específicas, e também a nível de
mário: transportes públicos, já que há apenas um circui-
Economicamente o concelho assenta na agri- to de camioneta que percorre o concelho, passan-
cultura e na pecuária (em regime de minifúndio), do apenas nas aldeias que rodeiam a estrada
encontrando-se ainda em desenvolvimento as principal.
indústrias alimentar e de madeira.
Em termos recreativos e culturais as activida-
- Ténue humanização da paisagem: des mais praticadas são as de carácter tradicio-
A paisagem envolvente é a de serras cobertas nal: os bailes, os jogos de salão e os convívios.
de olivais e pinhais, aldeias de xisto e a quietude Estes últimos dão-se muitas vezes nos bares das

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colectividades onde as pessoas se juntam. Deno- vantados através de um questionário adaptado
ta-se ainda, em toda a população, uma forte para o meio rural com o objectivo de se conse-
componente religiosa, sendo a missa semanal e o guir uma linguagem mais simples e acessível à
terço também eles oportunidades não só de rezar população em questão. Procurando-se a recolha
como de convívio e encontro. de informações acerca das características demo-
gráficas (sexo, idade, estado civil...), factores ob-
Por todas as características apresentadas, no- jectivos (número de filhos, pessoas com quem
meadamente o elevado índice de envelhecimento vive, tempo de residência no meio...) e caracte-
e o consequente peso da população idosa em re- rísticas subjectivas (percepção da situação eco-
lação à população geral, Mação apresentou-se nómica, estado de saúde, contacto com a família,
como um local pertinente para a recolha dos 40 nível de convívio e actividade percepcionados,
sujeitos participantes neste estudo. Sendo que gosto de residir na casa e no meio, aspectos ne-
destes: gativos e positivos percepcionados no meio e
motivos de preocupação e satisfação na velhice).
- 60% pertenciam ao sexo feminino, 40% ao
Tudo num total de 22 questões, 16 fechadas e 6
sexo masculino. O que vem de encontro às
abertas.
actuais tendências demográficas (maior pro-
porção feminina com a idade);
- 60% pertenciam à faixa etária 71-75 anos, 2.2.2. A Escala de Ânimo: «Philadelphia Ge-
40% à faixa etária 65-70 anos, o que parece riatric Centre Morale Scale»
corroborar a tendência para o próprio enve-
Esta Escala, construída por Lawton especifi-
lhecimento da população idosa;
camente para a população idosa, encontra-se
- 74% eram casados, 22.5% viúvos e apenas
traduzida e aferida para a população portuguesa
2.5% solteiros, não se verificando nenhum
por Paúl. Avalia 3 aspectos do Bem Estar psico-
caso de divórcio;
lógico dos idosos:
- 47.5% não tinham qualquer escolaridade,
47.5% frequentaram o ensino básico, 2.5% - Solidão/Insatisfação: Informação acerca da
frequentaram o ensino secundário e 2.5% o avaliação subjectiva do ambiente e do apoio
superior. Trata-se portanto de um nível de das redes sociais.
escolaridade predominantemente baixo, es- - Atitudes face ao próprio envelhecimento:
pelho de uma cultura que ainda se mantém Assumindo-se como o resultado de um ba-
predominantemente oral. lanço entre a vida passada e a presente.
- Agitação: Corresponde a manifestações
2.2. Instrumentos comportamentais de ansiedade, à sua au-
sência ou a um gradiente dessa componen-
Foi com base num questionário, já construído te.
e por nós adaptado aos nossos participantes, e na
Escala de Ânimo de Lawton, indicador de Satis- 2.3. Procedimento
fação de Vida, especificamente construída para a
população idosa, que se desenvolveu o presente A passagem dos dois instrumentos utilizados,
estudo, através do qual se apuraram as caracte- Questionário e Escala de Ânimo, foi realizada
rísticas de um total de 40 sujeitos residentes num num só momento e em contexto individual. O
meio rural, a sua Satisfação de Vida e factores Questionário antecedeu sempre a passagem da
que a influenciam. escala.
Dado o grande volume de população analfa-
2.2.1. O Questionário beta neste meio, optámos por ler nós próprios,
explicando previamente a cada idoso que seria o
Seguindo uma orientação ecológica, a organi- investigador a registar por escrito as respostas
zação do estudo teve em conta factores físicos do dadas.
ambiente, pretendendo-se um entendimento des- Seguindo esta forma de procedimento, numa
tes na relação com factores sociais e pessoais, le- primeira fase foi efectuado um pré-teste a 7 su-

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jeitos, na faixa etária dos 65-75 anos, todos re- - Níveis médios na subescala de Agitação
sidentes na área rural pretendida, no sentido de (2.20 em 4);
se averiguar a aplicabilidade e compreensibilida- - Níveis médio/baixos na subescala de Atitu-
de dos instrumentos. Este pré-teste evidenciou des Face ao Próprio Envelhecimento.
algumas dificuldades de compreensão ao nível
Estes resultados vão ao encontro da pers-
do questionário que determinaram a sua refor-
pectiva defendida por Rowles (1984) ao indicar
mulação.
os meios rurais como contextos privilegiados de
Após a pré-testagem dos instrumentos, pas-
envelhecimento, defendendo neles diversas van-
sou-se à fase de aplicação. Esta decorreu nos lo-
tagens, entre as quais: (a) o facto do contexto fí-
cais descritos, durante os meses de Março, Abril
sico dos meios rurais permanecer estável durante
e Maio de 2000, nomeadamente aos fins de se-
longos períodos de tempo, sendo as mudanças
mana.
implementadas gradualmente, o que possibilita
No sentido de se garantir que a escolha dos
às pessoas maior familiaridade com o meio; (b)
participantes fosse o mais homogénea e aleatória
ritmo de vida mais lento, mais favorável aos ido-
possível no que diz respeito às variáveis em estu-
sos cujos tempos de reacção possam estar lenti-
do, a recolha ocorreu em diversas aldeias do
ficados, proporcionando maior inclinação para a
concelho.
calma do que para as trocas sociais rápidas e
Os sujeitos foram contactados durante os seus
fragmentadas; (c) maior estabilidade populacio-
tempos livres, quando se encontravam calma-
nal proporcionando a manutenção dos laços
mente sentados à soleira das suas portas, costu-
afectivos, maior contacto, maior rede de vizi-
me muito apreciado nesta região. Este pareceu-
nhança que dita maior apoio prático, emocional e
-nos ser o contexto privilegiado, quer do ponto
psicológico.
de vista da receptividade à interacção, quer no
A este propósito, o mesmo autor afirma que o
que se refere à possibilidade da aplicação decor-
mais importante benefício da residência em meio
rer em privacidade.
rural é o sentido de identidade, o sentimento de
A passagem dos instrumentos teve uma dura-
ser-se conhecido que tal contexto promove. De
ção aproximada de 30 a 40 minutos, não se tendo
facto, apesar de alguma separação espacial, os
verificado nenhum caso em que o sujeito, sendo
domínios rurais podem constituir-se como am-
abordado, se tenha recusado a participar. Muito
bientes privilegiados pela promoção de redes de
pelo contrário, superada uma certa dificuldade
relação em que cada indivíduo conhece os no-
inicial, todos os sujeitos apresentaram grande
mes, vida, saúde dos outros membros da comu-
disponibilidade e afabilidade.
nidade, reduzindo o potencial perigo de anoni-
mato e alienação.
Vão neste sentido os resultados encontrados
3. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS
em termos das subescalas de solidão/insatisfação
RESULTADOS
e agitação. Na verdade, e segundo Hespanha
(1993) podem estar presentes, nos ambientes
Para a discussão dos resultados encontrados
rurais, verdadeiras redes de suporte social cons-
parece-nos fundamental partir da questão inicial,
tituídas por vizinhos, familiares e amigos, refor-
seguindo-se, para cada variável estudada, a aná-
çando a integração social. Estes laços sociais
lise da sua influência no Bem Estar dos idosos
exercem uma função protectora difusa de impor-
inquiridos.
tantes efeitos sobre a estabilidade emocional e o
Quanto à questão inicial, segundo a qual se
Bem Estar dos mais idosos. Também Rowles
procuram analisar «Quais os níveis de Bem Estar
(1984) defende a mesma posição ao afirmar a
de idosos residentes em meio rural», os resulta-
presença em meios rurais, de uma matriz rela-
dos encontrados na Escala de Lawton revelam:
cional que dita uma estrutura de apoio, um sen-
- Níveis médios de Bem Estar em termos do tido de obrigação para outros membros da comu-
total da escala (7.07 num total de 14); nidade. Tratando-se de um meio social estável
- Níveis médio/altos na subescala de Soli- em termos de regras e normas sociais, que forne-
dão/Insatisfação (2.90 em 5); ce modelos de comportamento específicos e es-

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táveis, sendo a mudança lenta. Haveria, portanto, dos parecem sofrer influência de certas atitudes
normas de conduta definidas e aceites por todos, sociais mais discriminatórias. A este propósito
servindo de suporte às relações entre os indiví- Berger (1995) afirma que as atitudes negativas
duos. da sociedade face à velhice e aos idosos são, em
Os resultados obtidos na Escala de Lawton parte, responsáveis pela imagem negativa que
parecem estar em concordância com a defesa eles possam ter de si próprios. A velhice é mui-
fundamental de Rowles (1984) quando afirma tas vezes tida como uma doença incurável, como
que as características intrínsecas aos meios rurais um declínio inevitável.
oferecem um ambiente mais contentor e de su- Ainda segundo a mesma autora, é bom ter em
porte quando as competências pessoais começam conta que os idosos são extremamente sensíveis
a declinar. e vulneráveis à opinião dos outros e à atenção
Tal constatação é particularmente importante que estes dão aos seus feitos e gestos.
se se tiver em conta, de acordo com Lawton Desta forma, um grande número de idosos en-
(1973), que à medida que diminuem as compe- dossa, sem questionar, as etiquetas que lhe são
tências o comportamento e os afectos vão sendo atribuídas. Acreditam nisso de tal forma que aca-
cada vez mais determinados por factores exter- bam por se conformar identificando-se com a
nos ao indivíduo. imagem que a sociedade lhes confere. Este últi-
Em termos do Modelo Ambiental de Lawton e mo aspecto é particularmente visível nas últimas
Nahemow (1973), os resultados encontrados pa- duas questões do questionário. Quando interro-
recem apontar para um adequado nível de adap- gados acerca dos aspectos positivos e negativos
tação entre os idosos inquiridos e o seu meio, da velhice, os idosos interrogados refugiaram-se
meio este que parece permitir um adequado nível muito em ideias partilhadas socialmente (ex:
de desempenho. «Isto para velho é sempre a piorar, não tem nada
No entanto, a questão do ajuste ambiental tem de bom»).
que ser relativizada, uma vez que, e no parecer Em relação à nossa segunda questão de inves-
do próprio Lawton, ela envolve um complexo tigação, «Que elementos se constituem como
multidimensional de atributos e variáveis, quer mais importantes para importantes para o Bem
no que respeita ao ambiente, quer no que respei- Estar destes idosos?», a análise estatística reve-
ta ao indivíduo. A questão da adaptação tem a lou, para um nível de significância de 5%, os se-
ver com princípios homeostáticos. guintes elementos:
A pressão ambiental não pode ser nem muito
alta, nem muito baixa em relação aquela que o 3.1. Estado Civil
indivíduo está habituado, tal conduziria a um
sentimento de desconforto e à desadaptação. Em termos do estado civil a grande maioria
Não obstante, a pressão ambiental que é percebi- dos idosos inquiridos são casados (75%), ou
da varia de indivíduo para indivíduo, consoante viúvos (22.5%), não se registando qualquer caso
as suas próprias competências para lidar com ela. de divórcio, pouco usual neste meio, dominado
Assim, tudo o que é possível afirmar é que os in- por uma forte religiosidade e um sentido de que
divíduos inquiridos denotaram uma adaptação o matrimónio é indissolúvel.
satisfatória ao meio onde estão inseridos, propor- Mesmo o número de idosos solteiros é muito
cionada não só pelas características já enuncia- baixo, apenas um, o que nos levou a considerar,
das desse meio, mas também por factores ineren- em termos de análise estatística, apenas dois gru-
tes aos próprios indivíduos inquiridos, que se re- pos: Casados e viúvos.
flecte em níveis médios de Satisfação de Vida, Verificaram-se diferenças significativas entre
para os totais da escala de Animo, sendo pouco casados e viúvos, apresentando o grupo de ido-
frequentes os sentimentos de Solidão/Insatisfa- sos casados menos sentimentos de Solidão/Insa-
ção e de Agitação. tisfação, avaliando subjectivamente mais positi-
Algo de diferente é sugerido pelos resultados vamente o ambiente e o apoio das redes sociais,
da subescala de Atitudes face ao Próprio Enve- bem como um ânimo significativamente mais
lhecimento, na qual os indivíduos inquiridos re- elevado, apresentando níveis mais elevados de
velam níveis baixos de satisfação. Tais resulta- Bem Estar do que os viúvos. Estes resultados es-

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tão de acordo com os encontrados noutras inves- desânimo, que, no nosso estudo se exprimiu sob
tigações, nomeadamente a de Paúl (1991) quan- a forma de um balanço mais negativo relativa-
do aferiu para a população Portuguesa a Escala mente à vida presente.
utilizada neste trabalho. Também Chatters (1988, Também Horley (1984) afirma que a partici-
cit. Paúl, 1996) chegou a conclusões semelhan- pação familiar é um preditor importante de Bem
tes, afirmando que a situação de casado é um Estar subjectivo do idoso.
preditor de Bem Estar.
A este propósito, Neto (1999) afirma a impor- 3.3. Pessoas com quem vive
tância das relações conjugais para os mais ido-
sos, defendendo que estas têm tendência para se Apesar das várias categorias de resposta pos-
tornarem mais igualitárias, o que dita uma relati- síveis, a baixa frequência de respostas em algu-
va igualdade que pode proporcionar apoio mútuo mas delas, levou ao agrupamento dos idosos in-
e partilha flexível. A morte do cônjuge constitui quiridos: idosos a viverem sozinhos (20%) e ido-
um dos maiores traumas com que se deparam as sos a viverem acompanhados (60%), tendo-se
pessoas idosas, suscitando vários tipos de per- verificado diferenças estatisticamente significa-
das: corte nos laços emocionais profundos, desa- tivas entre estes dois grupos, nomeadamente ao
parece a principal companhia nas actividades nível da subescala de Solidão/Insatisfação e dos
quotidianas, emerge uma perda económica. totais da Escala de Animo.
São assim de realçar os resultados encontra- Assim, os sujeitos que vivem acompanhados
dos, apontando para maiores níveis de Bem Es- diferem muito significativamente (p=0.005) dos
tar, menos sentimentos de Solidão/Insatisfação e que vivem sozinhos, revelando menos senti-
até uma tendência, não significativa estatistica- mentos de solidão/Insatisfação, apresentando ní-
mente, para uma atitude mais positiva face ao veis de satisfação superiores neste domínio. Di-
envelhecimento por parte do grupo de idosos ca- ferenças estas que também estão presentes ao ní-
sados face aos viúvos. vel dos totais da Escala de Ânimo (p=0.02),
apresentando o grupo que vive acompanhado, ní-
3.2. Contacto com a família veis mais elevados de Bem Estar.
De facto, vários são os idosos a referir a im-
Na sequência do que foi referido anteriormen- portância do cônjuge e dos filhos na sua vida,
te, é possível afirmar que a maioria dos sujeitos afirmando sentirem-se acompanhados e seguros
inquiridos percepciona o contacto com a família por saberem que eles existem. Situação inversa
como frequente (45%), ou até muito frequente ocorre ao nível de muitos viúvos/viúvas que re-
(40%), sendo uma minoria os idosos que referi- ferem a tristeza sentida pelas casas vazias, pelas
ram um contacto pouco frequente com a família refeições passadas a sós, falando de saudade e de
(15%). temor face à possível situação de doença ou de
O contacto com a família revela-se importante dependência.
em termos da Satisfação de Vida destes idosos.
O grupo que percepciona um contacto muito fre- 3.4. Situação Económica
quente com a família revela uma atitude mais
positiva face ao próprio envelhecimento do que Quanto à situação económica percepcionada,
o grupo que afirma ter pouco contacto com a fa- a maioria dos idosos afirma-a como média
mília, revelando um balanço mais positivo entre (67.5%) ou boa (25%), sendo que apenas 7.7% a
a vida passada e a presente. referem como má. Esta variável demonstrou ser
Tais resultados vão ao encontro do estudo de de grande importância para os idosos inquiridos,
Neto (1999) o qual revela que é particularmente exercendo influência ao nível da sua Satisfação
importante para o idoso continuar a manter for- de Vida. Influência esta que é encontrada tanto
tes laços emocionais e a comunicar regularmente ao nível dos resultados totais da Escala de Âni-
com a família. mo, como das 3 subescalas. O grupo que percep-
Percepcionar um baixo nível de contacto com ciona a sua situação económica como má revela
familiares próximos, nomeadamente filhos, po- maiores níveis de Solidão/Insatisfação e de Agi-
de, nesta perspectiva, contribuir para um certo tação do que os grupos que indicam uma situa-

512
ção económica média ou boa, revelando ainda ção, ainda que esta não tenha assumido significa-
uma atitude mais negativa face ao envelhecimen- do estatístico (p=0.08).
to e um ânimo inferior, bem como níveis mais Verifica-se ainda que o grupo que percepcio-
baixos de Bem Estar. nou a sua saúde como boa tem valores médios de
Estes resultados vão no sentido dos encontra- Bem Estar superiores aos do grupo que se per-
dos pelo projecto AGE (1990, cit. Neto, 1999) cepcionou com saúde média, o mesmo aconte-
que sublinham a importância da segurança finan- cendo entre este e o de má saúde.
ceira para os idosos. Por outro lado, interessa ter Nos participantes do nosso estudo, as preocu-
em consideração que os idosos por nós inquiri- pações de saúde vêm-se acrescidas com a falta e
dos revelaram ter tido vidas extremamente difí- a fraca acessibilidade aos serviços de saúde. De
ceis, relatando grandes dificuldades e situações facto, apontam, como principais aspectos nega-
de pobreza extrema que ultrapassaram com mui- tivos do meio, a grande dificuldade na acessibi-
to trabalho e sofrimento. A reforma tem, aqui, lidade a serviços e recursos de cuidados médi-
uma valência muito positiva, e é um dos aspec- cos, afirmando não existirem por perto Centros
tos positivos da velhice mais referidos pelos de Saúde, o que os obriga a grandes deslocações,
idosos, é «o dinheirinho certo ao final do mês» dificultadas pela incipiente rede de transportes
(sic), que lhes permite continuar a viver ao seu públicos.
ritmo, cultivando o seu quinhão de terra e tratan-
do dos seus animais. Neste contexto, não pare- 3.6. Actividade Diária
cem verificar-se os efeitos negativos commu-
mente atribuídos à reforma: perda de status, O nível de actividade é a questão central de
destruturação psicológica pela ausência de roti- vários modelos teóricos, que fazem desta dimen-
nas, diminuição dos rendimentos. Os nossos re- são uma das mais investigadas quando a questão
sultados parecem estar de acordo com as teorias é a Satisfação de Vida dos mais idosos.
que defendem que o meio rural proporciona No presente estudo sobressai a importância
uma transição mais gradual para o estatuto de deste factor. Os idosos inquiridos consideram-se
idoso, permitindo-lhe viver ao seu ritmo. essencialmente moderadamente activos (50%)
ou até muito activos (32.5%). Apenas uma mino-
3.5. Estado de Saúde ria referiu ser pouco activo (17.5%), justificando
para tal, essencialmente, razões que se prendem
O termo Saúde foi interpretado, na maioria com a falta de saúde e incapacidade. Quando
dos casos como um estado de bem estar físico, analisada a influência desta variável no Bem
tendo dado origem a descrições relativamente Estar, verificam-se diferenças significativas entre
demoradas durante as entrevistas. A ideia que as os grupos, quer ao nível das atitudes face ao pró-
questões de saúde são muito importantes para os prio envelhecimento, quer ao nível dos totais da
idosos inquiridos, começou, desde aí a ganhar Escala de Ânimo.
contornos. O grupo que afirma ter pouca actividade reve-
No entanto, a maioria dos idosos inquiridos la uma atitude face ao envelhecimento mais ne-
procuram posições centrais para caracterizarem a gativa do que os grupos moderadamente e muito
sua saúde, afirmando que há quem esteja melhor, activos, revelando estes últimos um balanço en-
mas também há quem esteja pior. Assim, 55% tre a vida passada e a presente mais positivo, o
afirmam a sua saúde como média, 22.5% como que decorre, provavelmente, do facto de ainda se
boa e 22.5% como má, observando-se diferenças sentirem activos, úteis e capazes, com todos os
significativas entre estes grupos, nomeadamente benefícios que tal pode ter ao nível da auto-es-
ao nível das atitudes face ao próprio envelheci- tima. Em termos totais, verifica-se ainda que os
mento. O grupo que percepciona a sua saúde co- sujeitos pouco activos revelam um animo mais
mo má revela uma atitude face ao envelhecimen- baixo do que os sujeitos muito activos.
to mais negativa do que o grupo que afirma ter Constata-se assim que, para os idosos inqui-
boa saúde, revelando mais insatisfação. Este ridos, o nível de actividade tem influência na Sa-
grupo revela ainda maior tendência para a agita- tisfação de Vida, sendo os sujeitos com mais

513
actividade que apresentam níveis mais elevados nais (ex: agricultura e pecuária) e as actividades
de Bem Estar. de manutenção doméstica, as mais referidas,
Estes resultados vêm de encontro aos de aparecendo também outro tipo de actividades
McClelland (1989), quando afirma que, nos ido- mais viradas para o lazer e para o convívio, bem
sos que parecem interagir com o grupo de pares como questões religiosas.
da mesma idade, a actividade parece estar direc- Os elevados níveis de actividade verificados,
tamente envolvida na manutenção da Satisfação mesmo em situação de reforma, vêm de encontro
de Vida. De facto, estar envolvido numa activi- às teses de Hespanha (1993) quando refere que
dade é muito mais que preencher tempo. Tam- só na sociedade urbano-industrial foi estabeleci-
bém no presente estudo, o factor actividade pa- do o limite da idade activa. No meio rural, o su-
rece ser importante a vários níveis. jeito apesar de receber a sua reforma, costuma
Para Harris e Boden (cit. Fisher & Shaffer, manter um nível de actividade semelhante ao
1993) a actividade é um factor de integração so- que desempenhou toda a vida. A maior disponi-
cial. A sua diminuição ou extinção pode levar a bilidade de tempo permite-lhe a dedicação a
um afastamento crescente da sociedade envol- uma actividade produtiva exercida por conta
vente. Herzog, Markers, Frances e Holmberg própria, nomeadamente na agricultura e pecuá-
(1988), por seu lado, defendem que o mecanis- ria, muito referidas pelos idosos inquiridos.
mo pelo qual as actividades influenciam a Satis- A actividade, essencialmente agrícola ou pe-
fação de Vida se relacionam com o facto de po- cuária no meio rural, é mantida até que seja pos-
tenciarem e manterem certas dimensões do self sível a autonomia motora, pois a maioria dos
que são benéficas. Assim, o envolvimento em idosos possui um talhão de terra que cultiva, ao
actividades pode, de acordo com os referidos au- seu próprio ritmo, mantendo o nível de activi-
tores, por exemplo, promover o sentimento de dade de acordo com as suas competências e
capacidade, de controlo, de utilidade, asseguran- possibilidades (há idosos com grandes explora-
do a manutenção da auto-estima, o que foi parti- ções agrícolas e há idosos que afirmam já só se-
cularmente visível no nosso estudo. rem capazes de cuidar do próprio quintal). Esta
Os resultados por nós encontrados, adequam- manutenção da actividade permite aos sujeitos
-se às teorias que postulam que para o idoso es- não só participarem activamente na vida da co-
tar bem adaptado, deve sentir-se e manter-se munidade, partilhando interesses e motivações,
activo, deve ser estimulado pelo meio e fazer como também manterem o seu sentimento de
parte do que se passa à sua volta. O ambiente ru- competência, de utilidade, de capacidade, facto-
ral no qual os idosos estão inseridos parece pre- res essenciais à promoção da satisfação de Vida.
encher esta importante função, proporcionando-
-lhes um nível de actividade minimamente ade-
quado às suas competências e necessidades, per- Viver na sua própria casa é outro aspecto que
mitindo-lhes continuar activos, de acordo com o parece fundamental para os idosos em questão,
seu ritmo. na medida em que referem valorizar muito a sua
Este último aspecto é particularmente visível independência, preferindo manter-se em sua casa
no Tipo de Actividades desempenhadas por estes do que em casa de familiares ou num lar, o mes-
idosos. mo ocorrendo em relação ao meio onde residem,
do qual todos os idosos referiram não querer sair.
3.7. Tipos de actividades Paúl (1991) sublinha a importância desta ques-
tão, afirmando que todos os processos de ligação
Como fonte de informação complementar, o à casa e ao meio permitem aos idosos manter o
presente estudo procurou identificar quais os ti- seu eu para além de todas as mudanças por que
pos de actividades exercidas pelos idosos inqui- estão a passar. De facto, a permanência no meio
ridos. Apesar de não ser possível avaliar estatis- e local de residência habitual parece reduzir o
ticamente qual a influência de cada uma delas na risco de possíveis desarmonias ecológicas, em
Satisfação de Vida, a leitura qualitativa não dei- que, por mudança profunda do ambiente que o
xa de ter a sua pertinência. rodeia, a interacção se pode desequilibrar.
Verifica-se que são as actividades ocupacio- Afigura-se importante referir a possível liga-

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ção das variáveis mencionadas em termos da si- Fisher, L., & Shaffer, K. (1993). Older volunteers. A
tuação de relativa independência e auto-sufici- guide to research and pratice. Newbury Park: Sage
Publications, Inc.
ência que promovem, aspectos estes de impor-
Herzog, A., Markers, H., & Holmberg, D. (1998).
tância fundamental para os idosos inquiridos. Activities and well-being in older age: Effects of
Quando questionados acerca dos aspectos positi- self-concept and educational attainment. Psycholo-
vos da velhice referem a importância da estabili- gy and Aging, 13 (2), 179-189.
dade financeira e de se manterem independentes, Hespanha, M. (1993). Para além do estado: A saúde e a
velhice na sociedade providência. Porto: Afronta-
referindo o medo que têm face à situação de per-
mento.
da de capacidades e de dependência. Horley, J. (1984). Life satisfaction, hapiness and mo-
Parece assim surgir, tal como o indiciado pela rale: Two problems with the use of subjective
literatura revista, uma certa atitude de funciona- well-being indicators. The Gerontologist, 24 (2),
lidade da existência por manutenção da autono- 203-209.
mia. Apesar de reconhecerem no meio a existên- Lawton, M., & Nahemow, L. (1973). Toward an ecolo-
gical theory of adaptation and aging. Environmen-
cia de redes de suporte social, estes idosos recor- tal Design Research, 1, 24-32.
dam um passado marcado por situações de po- Lawton, M. (1983). The varieties of well-being. Experi-
breza, fome, injustiças e confrontos políticos. mental Aging Research, 9 (2), 159-170.
Memórias muito presentes que contribuem para Lawton, M. (1984). Human behavior and environment,
a tal sensação, criada ao longo das suas vidas, de advances in theory and research, vol 7. Eldery
People and the Environment. New York: Plenum
só contarem com as suas mãos e o seu trabalho Press.
para fazer face às necessidades com que se depa- Lawton, M. (1985) Housing ando living environments
ram. O envelhecimento pode tornar-se assusta- of older people. In R. Binstock & E. Shenes (Eds.),
dor, antecipadamente a qualquer défice, por pôr Handbook of aging and social science, 2nd ed.
em causa a manutenção do estatuto autónomo, New York: Van Noshrand Company.
Lima, A., & Viegas, S. (1988). A diversidade cultural
económica e fisicamente, que permite realizar as do envelhecimento: A construção social da catego-
actividades necessárias e a permanência na pró- ria de velhice. Psicologia, 6 (1), 149-158.
pria casa. McClelland, K. A. (1982). Self conception and life sa-
Face a este perigo, o conjunto de variáveis in- tisfaction: Integating aged subculture and activity
fluentes no Bem Estar deste grupo de idosos re- theory. Journal of Gerontology, 37, 723-732.
sidentes em meio rural, indica claramente a im-
portância da manutenção do seu estatuto social
funcional e autónomo. A preocupação em não RESUMO
constituírem um peso familiar, associado à cons-
O presente trabalho que tem por quadro de referên-
tatação da distância que, por vezes, os separa dos cia o Paradigma Ecológico-Ambiental da velhice, sus-
familiares; o facto de mesmo os amigos já terem tentado no Modelo ambiental de Lawton, procura
uma idade avançada, uma vez que o conjunto da averiguar «Quais os níveis de Bem Estar de um grupo
população residente neste meio é bastante enve- de idosos residentes em meio rural», tentando ainda
lhecido; aliados à preocupação pela não existên- identificar «Que variáveis se constituem como mais
importantes para o Bem Estar destes idosos». Consti-
cia de recursos apropriados, pelo menos em ter- tuiu-se para tal uma amostra de 40 pessoas residentes
mos de saúde e transportes, para que possam em meio rural (concelho de Mação), às quais foi soli-
permanecer independentes e auto suficientes na citada resposta a um questionário adaptado para o efei-
iminência de dificuldades futuras, determina que to e à Escala de Ânimo de Lawton. Os resultados evi-
a situação de doença, de quebra da estabilidade denciaram a existência de níveis médios de Bem Estar,
apontando para uma adequada relação idoso/meio.
económica e viuvez se tornem extremamente Palavras-chave: Bem estar, pessoa idosa, meio ru-
preocupantes. ral.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABSTRACT

Barreto, J. (1988). Aspectos psicológicos do envelheci- The Ecological Paradigm of old age and particular-
mento. Psicologia, 6 (2), 159-170. ly Lawton’s Ecological Model are these study frame-

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works. We intended to know the levels of Psychologi- ter Morale Scale and a questionnaire designed by us.
cal Well-Being of rural elderly and to identify which Our results show medium levels of Psychological
are the most important variables of Psychological
Well-Being, pointing to a suitable relation between the
Well-Being in these elderly. Our sample consisted of
40 rural people (living in Mação) who completed the elderly and the environment.
Portuguese version of the Philadelphia Geriatric Cen- Key words: Well-Being, elderly, rural.

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