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Tratamento nutricional de adultos com sobrepeso e obesidade pela terapia


cognitiva. Nutritional treatment for overweighted and obese adults, with
emphasis in cognitive therapy

Article · May 2012

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6 authors, including:

Lorene Yassin
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164 Nutrição Brasil - maio/junho 2012;11(3)

ARTIGO ORIGINAL

Tratamento nutricional de adultos com


sobrepeso e obesidade pela terapia cognitiva
Nutritional treatment for overweighted and obese adults, with
emphasis in cognitive therapy

Miúcha Breinack Einecke*, Pedro Roberto Santiago Costa**, Antonio Carlos Frasson, D.Sc.***,
Eliane Segunda****, Lorene Yassin Anzuategui*****

*Acadêmica do curso de Nutrição do Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais – CESCAGE, Ponta Grossa/ PR,
**Psicólogo, formado em psicologia na Universidade Tuiuti do Paraná, Curitiba/PR,
***Professor Doutor UTFPR/PG – CESCAGE, ****Educadora Física, Coordenadora do Programa de Saúde Atitude Total.
Especialista em Ortopedia e Traumatologia – CESCAGE, *****Professora Mestre em Ciência dos Alimentos.
Coordenadora e docente do curso de Nutrição do CESCAGE. Ponta Grossa

Resumo
O presente estudo buscou analisar o efeito do uso da terapia comportamental cognitiva como técnica de intervenção
nutricional em 22 indivíduos adultos do sexo feminino, que participaram de um programa de tratamento para a obesidade
ou sobrepeso desenvolvido pela equipe interdisciplinar de uma academia da cidade de Ponta Grossa/PR. Através de questio-
nários específicos de comportamento alimentar e imagem corporal, foi identificada a presença de comportamentos alimen-
tares mal adaptados de intensidades variadas no grupo. Por meio de 5 dinâmicas originais em grupo, foram trabalhados esses
comportamentos, a fim de contribuir no entendimento das influências externas, restritas, emocionais e de imagem corporal
envolvidas no processo de emagrecimento bem como, aliviar os sintomas psicológicos presentes, discutindo os efeitos bené-
ficos da mudança de comportamento alimentar para o efetivo emagrecimento. Os resultados demonstram uma forte relação
entre as questões psicológicas e nutricionais, visto que 77,3 % (n = 17) das participantes apresentaram alguma tendência a
comportamentos mal adaptados, necessitando de um tratamento nutricional que enfoque o treinamento assertivo (TA) como
método chave, para manutenção de peso e entendimento nutricional. Através da análise de opinião final, o grupo manifestou
grande interesse no enfoque do trabalho realizado, onde 95,3 % (n = 21) relataram que as dinâmicas realizadas ajudaram a
entender melhor o seu comportamento alimentar e 100 % (n = 22), foram de opinião que a nutrição pode transformar as
pessoas não apenas fisicamente, mas também emocionalmente melhores.

Palavras-chave: obesidade, nutrição, psicologia, terapia cognitiva.

Abstract
The present study analyzed the effect of using behavioral cognitive therapy as a technique of nutritional intervention in
22 female adult PATIENTS, that participated in a obese or overweight treatment program developed by an interdisciplinary
team of Ponta Grossa/PR fitness club. Through eating behavior and body image specific questionnaires, was found the pre-
sence of inadequate eating behaviors of varied intensities in the group. Through 5 original group dynamics, these behaviors
were analyzed, to contribute in the understanding of external, restrict, emotional influences and of current psychological
symptoms, discussing the beneficial effects of the eating behavior change to the effective weight loss. The results show a strong
relation between psychological and nutritional matters, seen that 77.3% (n = 17) of the participants showed some tendency
Recebido 2 de agosto de 2011; aceito 15 de abril de 2012.
Endereço para correspondência: Miúcha Breinack Einecke, Tenente Agripino FS Câmara, 7 vila Dal Col, bairro Uvaranas,
3226-2943 Ponta Grossa PR, E-mail: mibreinack22@hotmail.com
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to maladaptive behaviors, requiring a nutritional treatment that focuses the assertive training (AT) as a key method, to weight
maintenance and nutritional understanding. Through the final opinion analysis, the group showed great interest in the focus
of the work done, where 95.3% (n = 21) reported that the dynamics done helped to better understand their eating behavior
and 100% (n = 22) of the group reported that nutrition can change people not only physically, but also emotionally.

Key-words: obesity, nutrition, psychology, cognitive therapy.

Introdução externos envolvidos, contribuirão para o processo


de conhecimento do comportamento alimentar e
Há repetidas tentativas de tratamentos para a habilidades sociais, através de métodos psicológicos
obesidade lançados com a proposta de soluções defi- que permitam um entendimento comportamental
nitivas. Porém, percebe-se que o índice de “sucesso” e nutricional, mais lógico e elaborado, tanto por
nessa área ainda é pequeno, em relação ao número de parte dos pacientes obesos quanto por parte dos
alternativas existentes até o momento. Nesse sentido, o profissionais nutricionistas.
manejo nutricional é consenso entre os pesquisadores Considerando o papel transformador da psico-
e a necessidade dessa prática tornar-se interdisciplinar logia comportamental e a necessidade de um “sucesso
é iminente. definitivo” no tratamento nutricional, o presente es-
O tratamento da obesidade engloba aspectos tudo buscou avaliar se o desenvolvimento de terapia
clínicos, físicos, nutricionais e psicológicos. Nesse comportamental cognitiva pode ser um parâmetro
contexto, a psicologia exerce um papel fundamental para o tratamento do sobrepeso e da obesidade.
na tentativa do entendimento e modificações de com- Através da identificação da presença de compor-
portamentos mal-adaptados na alimentação. tamentos alimentares mal adaptados e trabalhando-os
A dietoterapia quando associada à psicoterapia, através de dinâmicas de grupo em conjunto com
sendo estas consideradas modalidades não-invasivas, discussões sobre os efeitos benéficos das mudanças
merecem lugar de destaque no tratamento de pacientes comportamentais frente ao alimento, pode ser possível
obesos e com sobrepeso. Em função de que os pensa- uma efetiva manutenção do peso a longo prazo.
mentos dos seres humanos é que movem suas ações,
logo, pensamentos mal adaptados darão origem a Terapia comportamental
comportamentos inadequados.
Pensamentos sabotadores de permissão ou No presente estudo, a orientação comportamen-
negação podem surgir antes ou após a ingestão de tal cognitiva, segue o modelo de Joseph Wolpe, que
determinado “alimento proibido”, levando, muitas iníciou um amplo movimento, do qual participaram
vezes, o indivíduo a desistir de suas metas devido a pesquisadores e clínicos de diversas formações teóricas
um grande sentimento de culpa ou fraqueza. Frases [1].
como: - “Não resisto a esses bolos deliciosos da padaria Mais tarde, Wolpe denominou de Treinamento
da esquina”, “Nunca conseguirei fazer dieta alguma, Assertivo (TA) o seu método para tratar da ansie-
pois não tenho força de vontade” ou “Vou desistir de dade e facilitar a expressão de sentimentos, já que
tentar emagrecer e vou comer o que me der vontade”, para ele, os comportamentos bem ou mal-adaptados
estão constantemente presentes no inconsciente desses são adquiridos pelo aprendizado, esses podem então
indivíduos. serem “desaprendidos” e reaprendidos através da
Quando um comportamento conduz a um estilo TCC [2].
de vida sedentário, hábitos alimentares inadequados, A terapia comportamental compreende qualquer
dentre outras situações prejudiciais, este precisará ser uma das várias técnicas específicas que se utilizam de
corrigido ou remeterá a uma série de complicações do princípios psicológicos, como os de aprendizado, para
ponto de vista físico, psicológico e social, valendo-se mudar construtivamente o comportamento humano
ressaltar que a obesidade se enquadra em ambos os [2].
casos. Para Wolpe, tratar a causa interna e individual,
Diante do exposto acima, faz-se necessário ou seja, estresse, raiva, euforia, e ansiedade, decor-
desvincular a ansiedade, depressão e outros fatores rente de estímulos ambientais, físicos ou sociais são
emocionais do ato de comer. Trabalhar a impor- a base nesse processo. As causas internas e estímulos
tância da auto-imagem corporal e entender os externos levam o indivíduo a um determinado pen-
perigos da restrição alimentar, associados a fatores samento, influenciando-o a uma dada situação ou
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comportamento, e vice versa, desencadeando assim mento para a obesidade/sobrepeso, desenvolvido pela
uma série de reações comportamentais emocionais, e equipe interdisciplinar de uma academia de esportes da
consequentemente fisiológicas. cidade de Ponta Grossa/PR. Tal equipe era composta
Nesse contexto, para Cordás et al. [3] a TCC por educadores físicos, nutricionista e acadêmicos de
trabalha com conceitos retirados da experiência clí- ambas as áreas.
nica e pesquisas experimentais com seres humanos e Os critérios de inclusão no estudo foram para
animais de laboratório. alunos de ambos os sexos, maiores de 15 anos e
A TCC é a psicoterapia mais eficaz e ampla- que assinaram o Termo de Consentimento Livre e
mente estudada no mundo. Essa forma de abordagem Esclarecido (TCLE). Foram excluídos da amostra
psicológica objetiva o conhecimento, a assimilação alunos com idade igual ou maior a 15 anos que não
e a reprodução de comportamentos assertivos em manifestaram seu consentimento em participar da
situações onde os obesos se deparem com tentações pesquisa.
alimentares [4]. Inicialmente os participantes do programa
passaram por uma avaliação física e nutricional, na
Um estudo do comportamento alimentar qual foram estabelecidos seus objetivos e metas, em
conjunto com a equipe interdisciplinar.
Depressão, ansiedade, falta de tempo, confli- Para análise “psicocomportamental” prévia do
tos emocionais, entre outros fatores, cada vez mais grupo trabalhado, foram utilizados 4 questionários:
presentes na atualidade humana, afetam diretamente 1 - Questionário sobre Imagem Corporal; 2 - Ques-
o comportamento das pessoas. A presença de tais tionário sobre Alimentação Externa; 3 - Questionário
fatores contribui para uma patológica necessidade de sobre Alimentação Emocional; e 4 - Questionário
compensação/ fuga, através de alguma alternativa, a sobre Alimentação Restrita [5].
qual, frequentemente vem a ser alimentar. O acompanhamento psicológico foi realizado
A estreita relação dos obesos para com os ali- através de aplicações voltadas para dinâmicas em
mentos dá origem a pensamentos mal adaptados, grupo criadas originalmente com base nos resul-
decorrente da habitual resistência humana às tados dos questionários, a fim de desenvolver ha-
mudanças de comportamento. Frente a esse processo bilidades sociais e entendimento comportamental.
aumentam os níveis de estresse e ansiedade, podendo O processo se deu em 6 encontros semanais,
ocasionar a compulsão alimentar e diminuição a com duração de 30 a 40 minutos cada um. Em cada
auto-estima dos obesos, que não raramente sabotam encontro eram abordados no máximo 2 assuntos
a própria dieta, muitas vezes com a “cooperação” da (conforme o Quadro 1). O tema das dinâmicas em
própria família e amigos. grupo foi explicado e discutido, de forma oral pela
Desta forma, uma vez que os métodos Wolpianos pesquisadora responsável, ao inicio ou término de
enfatizam o alívio da ansiedade mal adaptada, então cada etapa.
eles podem vir a contribuir para uma conduta nutri- A coleta de resultados, opiniões e informações
cional eficaz. Pois pode-se utilizar esses métodos não pertinentes foram obtidas através de interação direta
para tratar a causa, ou seja, alterar a alimentação, mas e observação imediata durante as dinâmicas.
sim, os sintomas da exposição a ele, como ansiedade,
compulsão, medo, culpa, entre outros, proporcionan- Resultados e Discussão
do um efetivo entendimento voluntário e autônomo
por parte dos pacientes obesos quanto ao comporta- Perfil do grupo participante
mento frente a “alimentos perigosos” [4].
Seguindo aos critérios apresentados, o estudo
Material e Métodos contou com 22 participantes, do sexo feminino
que apresentavam sobrepeso ou obesidade. A idade
A presente pesquisa foi aprovada pelo Comitê média encontrada foi de 50 anos ± 10,2 e média de
de Ética do Centro de Ensino Superior dos Campos 2 ± 1,4 filhos. A Figura 1 apresenta a prevalência
Gerais - CESCAGE sob o número 415/08 no dia do grau de escolaridade do grupo estudado, onde
28/04/2010. É um estudo aplicado, descritivo, original 41% (n = 9) cursaram o Ensino fundamental, 45 %
quali-quantitativo, baseado em lógicas de investigação o Ensino médio (n = 10) e 14 % (n = 3) o Ensino
que compreendem a técnica do método indutivo- superior. Na Tabela I, estão descritos a prevalência
-dedutivo associado à observação e aplicações práticas. do estado civil das participantes com suas respectivas
A população alvo do estudo foi representada por porcentagens.
22 indivíduos participantes de um programa de trata-
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Figura 1 - Gráfico do grau de escolaridade das par- Tabela II - Alguns benefícios do exercício físico.
ticipantes do grupo de estudo. Fisiológicos Psicológicos Sociais
41% 45% ↑ força muscular ↑ auto-estima ↓ isolamento
social
↑ densidade ↓ depressão ↑ autonomia
óssea
14% ↓ gordura corporal ↓ ansiedade ↑ convívio
Ensino médio social
Ensino superior
↓ controle da ↓ estresse
Ensino fundamental
pressão arterial
O nível de escolaridade do grupo foi suficiente ↓ níveis de coles- Melhora da ima-
para compreender informações e orientações quanto ao terol gem corporal
objetivo do estudo, bem como as dinâmicas, que foram Fonte: Adaptado de Cordás et al. [3].
realizadas para proporcionar um fácil entendimento
por parte das participantes. O estado civil da maioria das participantes bem
como o nível de escolaridade (ensino médio), e o
Tabela I - Estado civil das participantes do estudo. número das atividades físicas semanais (2 x semana)
Estado civil Prevalência demonstram ser fatores intimamente envolvidos com
Casadas 86,36 % (n = 19) a situação nutricional, física e psicológica do grupo.
Separada 4,5 % (n = 1)
Viúva 4,5 % (n = 1) Encontros semanais
Divorciada 4,5% (n = 1)
• 1º Encontro: Questionários de análise comporta-
Devido à alta porcentagem do estado civil: mentais
casadas, e levando-se em conta a média de filhos no •
grupo, compreende-se que são pessoas com uma vida Objetivando uma análise clara e efetiva dos
conjugal ativa. Fato este extremamente relevante no fatores atuais presentes que influenciam o comporta-
processo de tratamento nutricional, levando-se em mento alimentar das participantes do estudo, foram
conta o papel influenciador dos familiares no processo aplicados questionários específicos para esse tipo de
de emagrecimento. identificação.
A idade das participantes, também é um fator Um deles foi O Questionário Holandês de
que deve ser levado em conta no processo de tentativa Comportamento Alimentar (Duch Eating Behaviour
de mudanças de comportamento alimentar, visto que Questionnaire – DEBQ) de Kakeshita, 2004, o qual
doenças associadas ao envelhecimento como artrose, divide-se em 3 subcategorias:
osteoporose, entre outras exercem grande papel moti- A primeira categoria é chamada Alimentação Res-
vacional no desejo de mudança de hábitos que visem a trita, a qual analisa o estilo alimentar relativo a hábitos
qualidade de vida. Em contrapartida, há a conhecida alimentares adequados [5]. Quanto a essa variável os
resistência que pessoas de idade mais avançada podem resultados obtidos demonstraram que 54,55 % (n =
apresentar em relação a mudar hábitos alimentares, 12) assinalaram o maior número de alternativas com a
cultivados por longos anos. opção “não”; e 45,45 % (n = 10) assinalaram um maior
A prevalência da pratica de atividade física número de alternativas com a opção “sim”.
entre a população de estudo foi de 100%, onde Esse resultado remete há ausência de um conhe-
todas relataram a prática do hábito em média 2 cimento puramente restritivo quanto aos hábitos ali-
vezes na semana. Quanto ao hábito de realização de mentares, mostrando a presença de um entendimento
atividades físicas semanais, a prática regular de ati- nutricional por parte do grupo.
vidade física, quando orientada por um profissional Essa afirmação é confirmada por 50 % (n = 6) dos
capacitado, promove benefícios tanto físicos quanto que assinalaram “não”, pois marcaram 7 ou mais dessas
sociais, e psicológicos, como pode ser observado na alternativas em um total de 10 questões. E 80 % (n = 8)
Tabela II [3]. das que assinalaram “sim” marcaram 7 ou mais dessas
alternativas em um total de 10 questões. Demonstrando
assim, equilíbrio entre as opções de “sim” e de “não”.
Na categoria intitulada Alimentação Emocional
que procurava avaliar o estilo alimentar relativo ao
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estado emocional da pessoa [5], onde 77,27 % (n = Em resumo geral, no grupo de estudo 22,7 %
17) das participantes assinalaram o maior número (n = 5) das participantes não apresentavam nenhuma
de alternativas com a opção “não” e 22,73 % (n = 5) tendência aos comportamentos analisados, contra 77,3
assinalaram mais alternativas com a opção “sim”. % (n = 17) que apresentaram 1 ou mais tendências
Onde 47 % das que assinalaram a opção “não” que podem influenciar de forma negativa o processo
(n = 8), marcaram 1 ou nenhuma alternativa com a de redução de peso, ver no gráfico da Figura 2.
opção “sim” de um total de 13 questões. E 80 % (n A partir desses resultados obtidos pelos ques-
= 4) das que assinalaram a opção “sim”, marcaram 8 tionários anteriormente explicados, desenvolveu-se
ou mais alternativas com a opção “sim” de um total dinâmicas originais para tratar os sintomas observados
de 13 questões. Isso demonstra a pouca prevalência no grupo, seguindo os princípios do Treinamento
desse comportamento que geralmente é presente em Assertivo (TA) de Wolpe [2].
indivíduos obesos e com sobrepeso.
Na categoria sobre a Alimentação Externa, a Dinâmicas originais aplicadas
qual avalia o estilo alimentar e a influência de fatores
externos como o aroma, sabor, situações sociais, entre • 2º Encontro: motivação – a simples técnica do
outros [5]; os resultados obtidos foram que 68,19 % auto-elogio
(n = 15) assinalaram um maior número de alternativas
com a opção “não” e, 31,82 % (n = 7) assinalaram Assim, apesar de não ter sido aplicado ao grupo,
mais alternativas com a opção “sim”. Compreendendo nenhum questionário específico sobre motivação, a
assim, que a maioria das participantes não se encon- primeira dinâmica procurou trabalhar essa questão,
tra sob influências do meio externo para caírem em utilizando-se do auto-elogio como técnica para acen-
“tentações alimentares”. tuar a motivação. Das 18 participantes da dinâmica,
Das participantes que assinalaram a opção “não”, 44% (n = 8), conseguiram se auto-elogiar de 5 a 10
60 % (n = 9), marcaram 7 ou mais dessas alternativas vezes. Esse resultado demonstra que as participantes
em um total de 10 questões. E 42 % das que assinala- estavam razoavelmente motivadas a elogiarem-se,
ram a opção “sim” (n = 3), marcaram 8 ou mais dessas enxergando em si mesmas não somente os defeitos,
alternativas em um total de 10 questões. mas também as qualidades presentes,
Ao aplicar o questionário sobre A Imagem Cor-
poral (BSQ – Body Shape Questionnaire), o qual • 3º Encontro: auto-controle e o desapego emocional
mede o grau de auto-depreciação e preocupações dos ao alimento
indivíduos quanto à aparência de sua imagem corpo-
ral “gorda”, considerando o nível de intensidade de 1 Tendo-se como base os resultados obtidos com
a 6 [5] , chegou-se ao resultado de que 77,27 % (n o 1º questionário sobre alimentação emocional, onde
= 17) não apresentaram tendência para esse tipo de é evidente uma reduzida manifestação desse sintoma
comportamento, ou seja, marcaram intensidades de nos indivíduos, aplicou-se a 2º dinâmica.
1 a 3 (média razoável). Contra 22,73 % (n = 5) que A maioria das participantes 36,8 % (n = 7) de
marcaram intensidade acima de 3. um total de 19 marcaram 5 bolinhas no coração de um
Onde 82 % (n = 14) que não apresentavam o total de 10 questões orais sobre situações inusitadas
comportamento mal adaptado em questão, marcaram do cotidiano relacionadas à alimentação emocional,
a maioria das respostas com intensidade 1. E 60 % encontrando-se no limite da adequação.
das participantes apresentaram grande depreciação O resultado indica uma acentuada manifestação
com sua forma física atual marcando a maioria das desse comportamento mal adaptado nesses indivíduos,
respostas com intensidade 6 (máxima). que apesar de serem minoria no grupo em questão,
requerem auxílio para que esses sintomas emocionais
Figura 2 - Gráfico de análise do perfil comportamental presentes e acentuados não venham a atrapalhar o
do grupo através de questionários. processo de emagrecimento.
41% 45%
• 4º Encontro: Atividade 1 - A auto-imagem corporal.
A técnica das imagens de duplo sentido

A insatisfação com o corpo e a desvalorização


14%
Ensino médio da auto-imagem é comum em indivíduos obesos e
Ensino superior com sobrepeso, esse sentimento pode se refletir dire-
Ensino fundamental tamente no comportamento, que, em geral, torna-se
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preconceituoso e auto-destrutivo, chegando muitas diariamente, como o sedentarismo, fast-foods, e carac-


vezes às raízes da paranóia e agravando os quadros de terísticas sensoriais dos alimentos, que de uma forma
ansiedade e depressão, comuns na obesidade e que geral, estimulam as frequentes “tentações humanas”.
vêm a influenciar na escolha alimentar.
A dinâmica em questão objetivou a demonstra- • 6º Encontro: encerramento - Questionário para
ção da possibilidade de ângulos diversos sobre questões análise de opinião final
semelhantes, no caso, a imagem corporal, também bus-
cou promover percepções mais tolerantes e positivas A fim de conhecer a opinião do grupo quanto ao
de si mesma através de imagens visuais. Assim sendo, trabalho psicológico realizado, aplicou-se um questio-
esse método cognitivo permite confrontar os obstácu- nário original para análise de opinião, obtendo-se os
los mentais que levam ao auto-preconceito do corpo, resultados expostos na Tabela III.
trabalhando assim não a mudança da imagem corporal,
mas sim a mudança de análise sobre o próprio corpo. Tabela III - Análise de opinião final.
Questões Opiniões
• 4º Encontro: atividade 2 - Alimentação restrita. A 1) A nutrição pode trans- Não = 0 % (n = 0);
técnica da “multiplicação da alface” formar as pessoas não Um pouco = 27 % (n = 6);
apenas fisicamente, mas Muito = 73 % (n =16).
Como a restrição alimentar foi à característica também emocionalmen-
mais prevalente dentre os comportamentos mal- te melhores?
-adaptados do grupo de estudo, esse método teve 2) Quem a motivou a Eu mesma = 54 % (n =12);
por objetivo, discutir a diferença entre a restrição e iniciar o tratamento Família = 22 % (n = 5);
o equilíbrio alimentar bem como orientar o grupo nutricional? Amigos = 9 % (n = 2);
quanto ao mito de que uma alimentação altamente Outros = 13 % (n = 3).
restritiva é o caminho ideal para um efetivo e rápido Quem: professora da acade-
emagrecimento. mia, médico, nutricionista.
O comportamento restritivo se torna prejudicial 3) A concentração e Não = 13 % (n = 3);
no processo de reeducação alimentar, pois de acordo o equilíbrio emocional Um pouco = 36 % (n = 8);
com a Teoria da Restrição de Herman e Polivy, pessoas exercem influência na Muito = 50 % (n = 11).
que restringem excessivamente o consumo alimentar sua alimentação?
tendem a exageros posteriores, principalmente em 4) As dinâmicas rea- Não, nada mudou = 4,7 %
lanches altamente calóricos [6]. lizadas te ajudaram a (n = 1);
O resultado demonstra a tendência do grupo a entender melhor o seu Um pouco, senti diferença =
relacionarem alimentos calóricos a “prêmios e recom- comportamento alimen- 50,3 % (n = 11);
pensas”, e outros alimentos menos saborosos, porém tar? Muito, grande diferença =
mais saudáveis (no caso a alface) a “castigo e sacrifí- 45 % (n = 10).
cio”, isso se deve ao pensamento de que é necessário 5) Há necessidade de Não é importante = 4 % (n
abrir mão total e incondicionalmente das guloseimas, um acompanhamento = 1);
carnes e massas e aderir a alimentação de prevalência psicológico juntamente Pouco importante = 9 % (n
vegetariana, o que não é uma sentença verdadeira. com o acompanhamento = 2);
nutricional: Importante = 36 % (n = 8);
• 5º Encontro: alimentação externa - A técnica Harry Muito importante = 50 % (n
Potter = 11).

A dinâmica buscou explicar a inexistência de Através do questionário de opinião final desen-


“mágicas” no processo de emagrecimento (fórmulas volvido, percebeu-se uma grande satisfação do grupo
para emagrecer sem exercícios, emagrecer 10 quilos para com o trabalho realizado. Essa “satisfação” pôde
em 1 semana, emagrecer comendo, etc), bem como a ser melhor analisada através da última questão, sobre-
importância da nutrição verdadeira e segura maneira de tudo pelas palavras em destaque.
emagrecer e tornar-se saudável através de uma alimen- A questão acima citada compreendia a descrição
tação correta e completa juntamente com atividades da opinião pessoal dos participantes quanto às críticas,
físicas, ambas planejadas por profissionais qualificados. elogios, sentimentos, o que esperavam do futuro, e o
O outro objetivo da presente dinâmica foi que aprenderam com trabalho realizado em grupo.
trabalhar a questão psicológica envolvida por trás A seguir a transcrição de três respostas que mais
das influências externas as quais estamos expostos chamaram a atenção.
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• Indivíduo 1: “No futuro espero que outras pessoas conforme citado na Tabela IV, representados pelas
façam as mesmas atividades, pois mudou o meu peso, letras N = Não e S = Sim.
o meu ânimo, e a minha estima. Mudei o meu habito Já as participantes que apresentaram aumento
de alimentar sem passar fome. A hidroginástica ajudou de peso, apresentaram de nenhuma a 3 tendências
na minha saúde e contra as dores musculares”. comportamentais associadas, necessitando de maior
• Indivíduo 2: “Eu gostei muito das atividades reali- atenção no acompanhamento psicológico e nutricional
zadas em grupo, das dinâmicas, a gente se sente mais para uma efetiva redução e manutenção do peso.
motivada, faz novas amizades é muito bom”. Entretanto, deve-se ressaltar que há outros fatores
• Indivíduo 3: “Gostei muito do trabalho em grupo, pois envolvidos que exercem uma significativa influência
eu sei que sozinha não conseguiria. Aprendi muito. em programas de redução de peso, tais como frequ-
Tenho me sentido muito melhor”. ência das participantes no programa, individualidade
genética, nível de interesse e esforço individual entre
Comparação dos pesos iniciais e finais das outros fatores.
participantes e a relação com as tendências
psicológicas Conclusão

Do total de participantes (22 pessoas), 9 % (n A terapia comportamental retira parcialmente


= 2) mantiveram o mesmo peso do inicio ao final do a responsabilidade do tratamento nutricional que
programa; 45 % (n = 10) apresentaram redução de é colocada por parte do paciente no profissional,
peso; contra 45 % (n = 10) que apresentaram aumento através da percepção que gera no indivíduo de que
de até 5,6 kg no peso final em comparação com o peso seu comportamento é um dos principais determi-
inicial conforme a Tabela IV. nantes do sucesso do tratamento da obesidade e
Os resultados demonstram uma forte relação sobrepeso.
entre as questões psicológicas e nutricionais, em razão Quando essa responsabilidade é assumida pelo
de que as participantes que reduziram ou mantiveram indivíduo, o faz entender que não existem milagres no
seu peso, apresentavam de nenhuma a 2 tendências tratamento da obesidade e sim um conjunto de fatores
a comportamentos mal adaptados de acordo com os determinantes para o alcance dos seus objetivos, dentre
questionários preenchidos no início do programa, eles a mudança do modo dele comportar-se.

Tabela IV - Peso corporal das participantes e sua relação com os questionários psicocomportamentais.
Amostra Peso Peso final Imagem Alimentação Alimentação Alimentação
inicial corporal restrita externa emocional
1 78,8 79,1 N N N N
2 69,3 68,8 N N N N
3 82,8 80 N S N N
4 89 94,6 S N S S
5 73,8 73,3 N S N N
6 80,7 81,7 S N S S
7 62,9 62,8 N N S N
8 77,7 79 S S N N
9 66,7 64,2 N S N N
10 79,4 79 N S N S
11 83,3 82,8 N N N N
12 73,7 74,6 N N N N
13 71,4 54,7 N S N S
14 88,5 89,9 N N S N
15 83,2 83,2 N N S N
16 87,8 90,4 N N S N
17 86,5 87,5 S S N S
18 67,7 64,9 N N N N
19 74,5 74,5 N S N N
20 82,5 83,5 N S N N
21 71 55,6 S N S N
22 88 89,6 N S N N
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Os questionários comportamentais tornam-se específica do tratamento nutricional, conforme as ten-


instrumentos extremamente úteis na identificação de dências comportamentais presentes naquele momento.
hábitos errôneos por parte dos pacientes que buscam
tratamento nutricional, podendo ser adaptados e Referências
utilizados como apoio em diversas áreas de atuação,
como academias, hospitais, clínicas de atendimento 1. Neto AA, Santoro CF. Obesidade e expressividade
nutricional individual entre outras. emocional: padrões de resposta em pessoas obesas e não
As dinâmicas em grupo, por sua vez, remeteram obesas. Boletim de Iniciação Científica em Psicologia
2006;41-63.
ao conhecimento e assimilação para a reprodução 2. Wolpe J. Prática da terapia comportamental. 2ª ed.
de comportamentos bem adaptados em situações Brasiliense; 1978. 326 p.
distintas por parte dos indivíduos, no caso obesos e 3. Cordás TT, Kachani AT et al. Nutição em psiquiatria.
com sobrepeso, que frequentemente se deparam com Porto Alegre: Artmed; 2010. 416 p.
“obstáculos psicológicos” mesmo que, muitas vezes 4. Beck JS. Pense magro: a dieta definitiva de Beck. Porto
inconscientemente, frente a alimentação. Alegre: Artmed; 2009. 317 p.
Outro fator a ser levado em conta é que a TCC 5. Kakeshita IS. Estudo das relações entre o estado nutri-
cional, a percepção da imagem corporal e o compor-
proporcionou uma auto-análise, através de métodos tamento alimentar em adultos [Dissertação]. Ribeirão
adaptados às dificuldades atuais das participantes. Preto: Universidade de São Paulo; 2004.
Assim, a análise das causas do comportamento errôneo 6. Rebelo A, Leal I. Factores de personalidade e com-
junto às mesmas, possibilita oferecer soluções, sempre portamento alimentar em mulheres portuguesas com
focando o que se faz mais necessário em cada fase obesidade mórbida: Estudo exploratório. Instituto Su-
perior de Psicologia Aplicada. Lisboa 2007;3:467-477.

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