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Na série televisiva “Sex Education”, Eric é um adolescente gay do colégio Moordale que,

além de sofrer agressões verbais diariamente, vive uma violência física e traumática,
fazendo com que ele mude sua atitude quanto às suas roupas e jeito de agir, escondendo
sua identidade por medo. Em analogia à ficção, a prática da LGBTfobia é muito recorrente
no Brasil, onde o patriarcado legou uma aversão a toda prática sexual distinta da
heterossexualidade. Nesse sentido, há vilipendiosos entraves para combater a homofobia
no país, haja vista a construção sociocultural preconceituosa e conservadora em relação à
orientação sexual e à identidade de gênero, bem como a negligência estatal na efetivação
da lei que criminaliza a homofobia. Dessa forma, perscruta-se uma problemática de raízes
socioculturais e sociopolíticas.
Tal questão, em primeira instância, refere-se ao preconceito e a discriminação como
fomentadores dessa aversão à população homoafetiva. Isso se dá, sobretudo, devido à
ideologia cristã ortodoxa calcada na supremacia da heteronormatividade que gera um
problema de estigmatização social desses indivíduos. De acordo com o sociólogo Erving
Goffman, o estigma social cria uma rotulação das relações homoafetivas na qual
caracterizam esse tipo de orientação como uma conduta inadequada e até mesmo como
um transtorno mental, situação que colabora para a veiculação e perpetuação de valores
dominantes de intolerância. Consequentemente, observa-se o aumento da exclusão desse
grupo frente à sociedade, nomeada de “apartheid social”. À vista disso, segundo o
levantamento feito pelo Center for Talent Information, em 2019, mais de 33% das empresas
brasileiras não contratariam para cargos de chefia pessoas LGBT, ressaltando a dificuldade
de combater a homofobia no país.
Outrossim, nota-se a indolência estatal na efetivação da lei que criminaliza a homofobia.
Nessa perspectiva, o Estado, ao invés de atuar democraticamente em prol de todos, ignora
a comunidade LGBT, além de retirar direitos já adquiridos por ela, essa tamanha repulsão
política a homossexualidade faz parte dos interesses políticos e econômicos da bancada
religiosa. Conforme o filósofo libertário Barnett, o Estado é incapaz de obedecer às suas
próprias leis, ou seja, por mais que ele tente atenuar o impasse impondo medidas, ainda
não é suficiente para o combate à repulsa aos homossexuais. Assim, ao não equiparar a
LGBTfobia aos demais tipos de discriminação, faz-se uma “hierarquização de opressões” e
como resultado desse sistema excludente, as minorias sexuais encontram-se em situação
de vulnerabilidade social, sendo constantemente alvos de violência física e simbólica que,
segundo Bordieu, difunde a cultura dominante, desvalorizando os dominados e causando
danos pessoais e sociais a suas vítimas. A título de exemplo, de acordo com a pesquisa
feita pela ONG, a cada 20 horas um LGBT morre no Brasil por ser LGBT, o que demonstra o
desafio de se reconhecer, finalmente, a homofobia como um crime grave.
Evidencia-se, portanto, que o discurso preconceituoso, jungido a negligência estatal, torna a
LGBTfobia um imbróglio a ser combatido. Isso posto, urge ao Governo Federal propor
estratégias para fortalecer o Brasil sem homofobia, por meio da criação de programas de
combate à violência e à discriminação contra os LGBT e de promoção da cidadania
homossexual em similitude ao Canadá, no qual o plano ampliaria os espaços onde as
populações homossexuais encontriam informações e apoio em casos de violência e
desrespeito. Além disso, é necessário criar um canal em que não apenas mostre a
ocorrência de casos de homofobia, mas também recorra às autoridades com o fito de
pressioná-las a punir os acusados, diminuindo a taxa de subnotificação das agressões
homofóbicas no país. Assim, essa minoria será respeitada e protegida pela lei, tendo a
chance de usufruir de seus direitos.

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