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Métodos de Preparo de Amostras

Fundamentos sobre preparo de amostras


orgânicas e inorgânicas para análise elementar

6a Edição Revisada e Ampliada

Editor: Francisco José Krug

Abril 2006
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Seção Técnica de Biblioteca - CENA/USP

Workshop sobre Preparo de Amostras (6 : 2006 : Santa Maria)


Métodos de preparo de amostras; fundamentos sobre preparo
de amostras orgânicas e inorgânicas para análise elementar /
editado por Francisco José Krug. – Santa Maria : UFSM, 2006.
282 p.

1. Preparo de amostras - Workshop I. Francisco José Krug, ed.


II. Título

CDU 543.05
APRESENTAÇÃO

Este texto foi inspirado no roteiro recomendado por Richard Anderson em


monografia especialmente dedicada ao pré-tratamento de amostras e separações, mas
contém capítulos inéditos, baseados na experiência dos autores. Nas edições antigas, os
atuais capítulos 5, 6 e 7 correspondiam, em boa parte, à tradução dos capítulos
correspondentes ao livro de Anderson, complementada com informações contidas na versão
em inglês da excelente monografia de Rudolf Bock sobre decomposição de amostras e do
histórico texto de M. Würfels sobre decomposições em sistemas fechados. Na 4a edição
(2003) foram incorporadas aplicações e abordagem de outros métodos de decomposição
não mencionados nas versões anteriores, as quais foram feitas pelo
MSc Juliano Smanioto Barin e Prof. Dr. Érico Marlon de Moraes Flores. Nesta 6a edição
foram incorporados capítulos sobre erros sistemáticos, extrações assistidas por ultra-som,
análise direta de sólidos e suspensões. Os capítulos 6 e 7 foram reestruturados e re-
editados pelo grupo liderado pelo professor Érico Flores; o capítulo 8 foi atualizado e
revisado pelos professores Joaquim de Araújo Nóbrega (DQ-UFSCar), Ana Rita Nogueira
(EMBRAPA Sudeste) e pelo grupo de Santa Maria, contendo várias aplicações selecionadas
com experiência dos autores. Quero também destacar, que este texto foi inspirado a partir
de materiais didáticos preparados pelo Prof. Dr. Ramon Barnes (University of
Massachussets, Amherst, USA), pelo Prof. Dr. Günter Knapp (Tecnhical University Graz,
Austria), e pelo Professor Dr. Antônio Celso Spínola Costa (Instituto de Química-UFBA) para
o I e II Workshops sobre Métodos de Decomposição de Amostras realizados no CENA-USP,
Piracicaba-SP, em 1996 e 1998, e para o III Workshop realizado em São Carlos-SP no
CCDM, DQ-UFSCar e EMBRAPA Sudeste. Aproveito para expressar meus mais sinceros
agradecimentos a todos os autores, à Comissão Organizadora deste VI Workshop, e a todos
aqueles que estarão trabalhando para o sucesso deste evento: conferencistas convidados,
coordenadores e supervisores de aulas práticas, expositores, técnicos especializados e
pessoal de apoio operacional e administrativo do Departamento de Química da Universidade
Federal de Santa Maria.

Francisco José Krug 23/04/2006


INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

Dra. Ana Rita de Araujo Nogueira, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste e


professora credenciada no Programa de Pós-Graduação em Química da UFSCar, São
Carlos-SP.
Prof. Dr. Antonio Celso Spínola Costa, professor do Departamento de Química da
Universidade Federal da Bahia, Salvador-BA
Prof. Dr. Carlos Emanuel de Carvalho Magalhães, professor do Centro de Ciências e
Tecnologia, Departamento de Física e Química, Univ. Estadual do Ceará, Fortaleza-CE.
Dra. Cassiana Seimi Nomura, pesquisadora (FAPESP) junto ao Laboratório de Química
Analítica “Henrique Bergamin Filho”, CENA-USP, Piracicaba-SP.
Dr. Dário Santos Junior, pesquisador (FAPESP) junto ao Centro de Lasers e Aplicações,
Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares-IPEN, São Paulo-SP e colaborador no
Laboratório de Química Analítica “Henrique Bergamin Filho”, CENA-USP, Piracicaba-SP.
Químico Diogo Pompeu de Moraes, estudante de mestrado do Programa de Pós-
Graduação em Química do Departamento de Química da Universidade Federal de Santa
Maria, Santa Maria-RS.
MSc. Éder Lisandro de Morares Flores, professor do Departamento de Química da
Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Santana do Livramento-RS.

Químico Fábio Andrei Duarte, estudante de mestrado do Programa de Pós-Graduação em


Química do Departamento de Química da Universidade Federal de Santa Maria, Santa
Maria-RS.
Prof. Dr. Francisco José Krug, professor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura-
USP, Laboratório de Química Analítica “Henrique Bergamin Filho”, Piracicaba-SP
Prof. Dr. Érico Marlon de Moraes Flores, professor do Departamento de Química da
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS.

Prof. Dr. Günter Knapp, professor do Institut für Analytische Chemie und Radiochemie,
Graz University of Technology, Graz-Áustria
Prof. Dr. Joaquim de Araújo Nóbrega, professor do Departamento de Química,
Universidade Federal de São Carlos, São Carlos-SP.
Prof. Dr. Juliano Smanioto Barin, professor da Universidade Regional Integrada do Alto
Uruguai e das Missões, Departamento de Ciências da Saúde, Curso de Farmácia, Frederico
Westphalen-RS.
Prof. Dr. Mauro Korn, professor do Departamento de Ciências Exatas e da Terra da
Universidade do Estado da Bahia, Salvador-BA.
MSc. Márcia Foster Mesko, professora do Departamento de Química da Universidade
Estadual do Rio Grande do Sul, Sananduva-RS.
Prof. Dr. Marco Aurélio Zezzi Arruda, professor do Instituto de Química da Universidade
Estadual de Campinas, Campinas-SP.
Prof. Dr. Pedro Vitoriano de Oliveira, professor do Instituto de Química da Universidade
de São Paulo, São Paulo-SP.
Prof. Dr. Valderi Luiz Dressler, professor do Departamento de Química da Universidade
Federal de Santa Maria, Santa Maria-RS.
1. INTRODUÇÃO

1.1. A SEQUÊNCIA ANALÍTICA: PRINCIPAIS REQUISITOS PARA A


REALIZAÇÃO DE UMA ANÁLISE QUÍMICA

A primeira etapa de uma análise consiste em submeter a amostra a um


tratamento adequado visando sua preparação para os passos subseqüentes da análise. A
maneira de se decompor a amostra para a análise depende da sua natureza, do elemento a
ser determinado e sua concentração, do método de análise, e da precisão e exatidão
desejadas. O tratamento da amostra pode envolver uma transformação substancial da
espécie química de interesse, para uma forma apropriada para a aplicação do método de
determinação escolhido.
Antes de se proceder ao estudo detalhado sobre pré-tratamento de amostras,
é conveniente recordar quais são as etapas que um analista deverá levar em consideração
sempre que uma amostra tiver que ser analisada:
a) Definição do problema. Este é o primeiro passo no planejamento de uma análise: “qual
é a informação analítica desejada?”
b) Escolha do método. A partir do momento em que se souber exatamente qual é a
informação desejada, pode-se decidir com detalhes como ela será obtida:
i. o método deve ser eficiente e, sempre que possível, simples e rápido;
ii. não deve causar danos ao recipiente no qual a amostra será tratada;
iii. não deve causar qualquer perda do constituinte de interesse;
iv. não deve permitir ou promover contaminação dos constituintes a serem determinados,
bem como de quaisquer substâncias interferentes, a menos que estas possam ser
facilmente removidas;
v. mínima manipulação experimental;
vi. máxima segurança operacional.

c) Amostragem. É o processo de se selecionar e remover uma pequena, representativa e


suficiente parte de um todo, a partir da qual será feita a análise. O termo “amostragem
representativa” é muito subjetivo, mas pode ser melhor compreendido como
“amostragem apropriada”.
d) Pré-tratamento da amostra e separação. Em geral, a amostra deve ser convertida em
uma forma adequada para que a análise proceda. Somente na mais simples das

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2 Introdução

situações a amostra poderá ser analisada sem qualquer tipo de pré-tratamento, que
pode incluir ou não alguma forma de separação.
e) Medida. Obtenção de dados analíticos a partir de medidas na amostra pré-tratada.
f) Calibração. Obtenção de dados analíticos a partir de padrões preparados
adequadamente. Em espectrometria atômica as soluções-padrão são também
denominadas de soluções de referência, a partir das quais se constrói uma curva
analítica de calibração ou curva de calibração. Também podem ser usados materiais de
referência e materiais de referência certificados para as calibrações.
g) Avaliação. Interpretação dos resultados obtidos a partir das operações feitas em (e) e
(f), incluindo o controle de qualidade analítica através de um procedimento adequado.
h) Ação. O resultado analítico será usado para se tomar uma decisão com respeito ao
problema original

Assim, antes de se analisar qualquer amostra, recomenda-se que todos os passos da


seqüência analítica sejam informados através de uma planilha:

a) Definição do problema.
b) Escolha do método.
c) Amostragem.
d) Pré-tratamento da amostra.
e) Testes qualitativos na amostra pré-tratada.
f) Testes com materiais de referência para comparação.
g) Interpretação dos resultados.
h) Ação.

Notas:
(i) Em análises de rotina o problema e a escolha do método devem ser previamente
conhecidos, lembrando que o método deve estar muito bem estabelecido.
(ii) Em muitos casos a amostragem não é feita pelo analista, mas por outra pessoa
habilitada. Idealmente, o analista deve sempre participar do processo de amostragem;
quando isto não for possível deverá tomar ciência da planilha de amostragem, com
descrição detalhada dos materiais utilizados.
(iii) O analista terá sempre que fornecer o resultado analítico, mas nem sempre é requisitado
e/ou instruído para tomar uma decisão com respeito à definição do problema analítico. Em
alguns casos, as incertezas inerentes ao método escolhido podem impedir e/ou prejudicar
tomadas de decisão.

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Introdução 3

(iv) Em muitos casos as operações de pré-tratamento de amostras, separação dos


constituintes de interesse, controle de qualidade com materiais de referência e interpretação
dos resultados, e mesmo amostragem podem ser automatizados. Uma ação também pode
ser automatizada em um instrumento de controle de processo automático.
(v) Alguns métodos analíticos são absolutos, podendo dispensar a etapa de calibração
envolvendo soluções-padrão, como os gravimétricos, por exemplo.

É oportuno observar que, dentre todas as operações analíticas, a etapa de


pré-tratamento das amostras é a mais crítica. Em geral, é nesta etapa que se
cometem mais erros e que se gasta mais tempo. É também a etapa de maior
custo. Por isso, os passos de um procedimento de pré-tratamento de amostra
deverão ser sempre considerados cuidadosamente.

1.2. EFICIÊNCIA ANALÍTICA

Virtualmente, cada método analítico inclui algum tipo de pré-tratamento de


amostra. Freqüentemente, esta etapa consome a maior parte do trabalho analítico. Assim,
quando um método estiver sendo avaliado, seja quanto ao seu desempenho ser adequado
ou não para o propósito analítico, seja na comparação de dois métodos, as etapas de pré-
tratamento deverão ser sempre consideradas com muito cuidado. Em resumo, a operação
de pré-tratamento das amostras pode governar:
- a precisão (repetibilidade e reprodutibilidade) e a exatidão dos resultados obtidos
- o tempo total e esforço envolvidos na análise

• Em geral, o método selecionado deverá ser executado com o menor número possível
de operações de pré-tratamento, desde que seja capaz de fornecer resultados
analíticos com a devida confiabilidade metrológica.
• Muitos métodos instrumentais modernos (fluorescência de raios-X, análise por
ativação neutrônica instrumental, ablação com laser em espectrometria de massas
com plasma, espectrometria de emissão ótica com excitação por arco ou faísca,
eletrodissolução anódica em fluxo contínuo) requerem pouco ou nenhum pré-
tratamento de amostras comparativamente aos métodos clássicos.

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2. ERROS SISTEMÁTICOS NO PREPARO DE AMOSTRAS

Francisco José Krug


Dário Santos Junior

2.1. INTRODUÇÃO

A evolução das técnicas de espectrometria atômica permitiu que a determinação de


elementos químicos em baixas concentrações, ao nível de µg/kg a pg/kg fosse possível.
Esses avanços contribuíram fortemente para a caracterização e desenvolvimento de novos
materiais, assim como aplicações nas áreas de toxicologia, agricultura, medicina, biologia,
química forense, entre outras. Contudo, essas técnicas geralmente envolvem a introdução
das amostras em soluções aquosas e essa característica originou uma das ironias da
espectrometria analítica moderna, pois, embora seja possível a determinação simultânea
com excelente sensibilidade em tempos inferiores a 1 min, a conversão da amostra sólida
em uma solução representativa pode levar de 5 min a 48 h ou mais, dependendo da
complexidade da matriz. Os tratamentos podem envolver uma transformação substancial da
espécie química de interesse para uma forma apropriada à aplicação do método de
determinação escolhido, assim como dependem fortemente da natureza da amostra, do
elemento a ser determinado e sua concentração, da precisão e da exatidão desejada. Após
duas décadas de pesquisas e avanços na instrumentação comercial, existe um consenso
que o tratamento da amostra previamente a análise é a etapa de maior custo e de maior
fonte de erros na espectrometria atômica.
Segundo Tölg e Tschöpel (1994), os erros, denominados sistemáticos, são devidos,
principalmente, à insuficiente qualificação dos analistas e/ou à inadequada infra-estrutura
laboratorial, tornando impossível o estabelecimento de qualquer estratégia para o ótimo
desempenho de um método analítico.
A primeira afirmação já fora colocada de forma mais contundente por Abbey (1981),
em trabalho destacando a importância da formação da pessoa mais do que o método e a
instrumentação, quando afirmou que “A confiabilidade de um resultado depende mais de
quem o produz do que como é obtido. Não existem maus métodos, mas apenas maus
analistas que não atentam para suas próprias limitações”. (S. Abbey. Anal. Chem, v.53, n.4,
p.529A, 1981). Esta frase foi oportunamente lembrada pelo Professor Paschoal Ernesto
Américo Senise, no histórico artigo intitulado “A química analítica na formação do químico”
publicado na revista Química Nova, v.5, n.4, p.137-143, 1982.
Erros sistemáticos no preparo de amostras 5

Com referência à infra-estrutura laboratorial, ela poderá ser particularmente crítica


para a determinação de baixas concentrações de elementos, dependendo do analito. A
preocupação sempre se torna evidente para teores da ordem de µg/g e aumenta,
consideravelmente, com a quantidade absoluta a ser determinada. No Brasil, no fim da
década de 70, um dos principais motivos que contribuíram para o insucesso da
implementação da espectrometria de absorção atômica com forno de grafite (GFAAS) eram
os altos valores dos brancos analíticos, face à inadequação das condições de trabalho
laboratorial. Em GFAAS, é comum a determinação de massas da ordem de picogramas (10-
12
g).
De qualquer forma, este assunto vem sempre à tona quando os resultados analíticos
apresentam erros não toleráveis e/ou quando são acompanhados de incertezas que
impeçam tomadas de decisão. Supõe-se, aqui, que o analista possua as ferramentas
metrológicas necessárias para impedir que falsos resultados (positivos ou negativos) sejam
emitidos. A importância da qualidade do resultado analítico pode ser colocada de outra
forma: o custo poderá ser muito maior que os investimentos feitos na instrumentação para
determiná-lo.
Este aspecto fica evidente quando se analisam os resultados obtidos pelo IMEP
(International Measurement Evaluation Program) em uma série de artigos liderados por Paul
De Bièvre, renomado cientista do IRMM (Institute for Reference Materials and
Measurements) na União Européia.
O IMEP é um projeto do IRMM em cooperação com o NIST (National Institute of
Standards and Technology) com o objetivo de aumentar a confiança das medidas em
química sob os auspícios da IUPAC (international Union of Pure and Applied Chemistry),
EURACHEM (Foco em Química Analítica na Europa), EUROMET (Association of European
Institutes for Metrology) e CITAC (Cooperation for International Traceability in Analytical
Chemistry).
No artigo de Lamberty et al (1996), referente ao IMEP 3, os resultados de 10
elementos em águas foram fruto da contribuição de 155 participantes. Ao agrupar os
resultados em função das técnicas/métodos utilizados (ICP OES, ICP-MS, FAAS, GFAAS,
por exemplo), observaram-se resultados imprecisos e inexatos, independentemente dos
métodos utilizados. Os resultados mais contraditórios foram observados na determinação de
ferro.
No artigo de Van Nevel et al (1998) merece menção o fato de que resultados
inexatos e imprecisos também foram obtidos por laboratórios denominados acreditados ou
certificados ou autorizados quando se determinou chumbo em amostra de água.
Os resultados discutidos nos trabalhos do IMEP não surpreendem, quando se
recorre aos trabalhos de Tölg e Tschöpel. Segundo estes autores, as dificuldades são
6 Erros sistemáticos no preparo de amostras

maiores para a determinação de elementos-traço que ocorrem em altas concentrações na


crosta terrestre, como Si, Al, Fe, Ca, Mg, Na, K, Mn e Ti, porque estes elementos estão
sempre presentes no ambiente de trabalho, principalmente na forma de poeira. Dificuldades
também são comuns na determinação de elementos que contaminam o ambiente de
trabalho como resultado da poluição antropogênica (Zn, Pb, Cd, Hg, Cu, As, Ni, por
exemplo).
As mais importantes fontes de erros sistemáticos podem ser agrupadas nas diferentes
etapas da seqüência analítica, partindo da sugestão de Tschöpel e Tölg (1982):

a) Amostragem inapropriada, manuseio da amostra e armazenamento, homogeneidade


inadequada;
b) Contaminação da amostra e/ou solução da amostra por ferramentas, aparelhos,
frascos, reagentes e poeira durante o procedimento analítico;
c) Efeitos de adsorção e dessorção nas paredes internas dos frascos e fases sólidas de
diferentes materiais (filtros, colunas, precipitados);
d) Perdas de elementos (Hg, As, Se, Cd, Zn) e compostos (óxidos, haletos, hidretos de
elementos) por volatilização;
e) Reações químicas incompletas ou indesejáveis, como mudança do estado de
oxidação, precipitação, troca iônica, formação de complexos;
f) Influências da matriz na geração do(s) sinal(is) analítico(s), como atomização
incompleta, interferências espectrais de fundo (“background”);
g) Calibração e avaliação incorretas, como resultado do uso de padrões inapropriados,
soluções-padrão instáveis, funções matemáticas falsas, por exemplo.

O diagrama de blocos da Figura 2.1 mostra as principais fontes de erros nesta


seqüência analítica. Cabe esclarecer que este capítulo não tratará das incertezas
devidas à amostragem no campo e no laboratório, por se tratar de tópico muito
especializado, que deve ser tratado separadamente. Também não serão tratados os
erros e incertezas devidos à calibração de instrumentos, como balanças e sensores de
temperatura, por exemplo.
Erros sistemáticos no preparo de amostras 7

Eficiência, Eficiência,
perdas, perdas,
Perdas, Calibração
contaminação ? contaminação ?
contaminação ? da balança ?
Apropriada ?

Amostragem Preparo da Pesagem da Separação de


amostra amostra teste Decomposição interferentes

Estabilidade
do analito ?

Estabilidade
do analito ?
Ajuste químico Medida instrumental
do analito da concentração do analito Resultados

Eficiência da Calibração
Conversão ? com soluções-padrão, CRM’s

Figura 2.1. Incertezas na seqüência analítica (adaptado de Peter Bode, Interfaculty Reactor Institute, Delft University of Technology,
apontamentos de aula da Disciplina CEN5761 Metrologia 2005).

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8 Erros sistemáticos no preparo de amostras

2.2. O BRANCO ANALÍTICO

O branco analítico é, reconhecidamente, o “calcanhar de Aquiles” da química


analítica de baixas concentrações.
Quando uma amostra é analisada, ela deverá ser feita com um número apropriado
de repetições (n medidas), de tal forma que o resultado encontrado (mam) venha
acompanhado de uma incerteza, que é geralmente equivalente à estimativa de 1 desvio-
padrão (sam). A média dos resultados das n medidas é representada por
mam ± sam
Na química analítica, com particular atenção para a determinação de elementos-
traço, o resultado final da análise deverá levar em consideração o valor do branco.
Quando se manipulam soluções, o branco analítico é a solução resultante de todas as
etapas do procedimento analítico na ausência da amostra. Em geral o branco é mais
afetado na etapa de preparação da amostra, por causa dos riscos de perdas do analito
e/ou contaminação.
Seguindo o mesmo raciocínio, o branco deverá ser feito com n repetições e o
resultado será uma média (mbr) acompanhada do respectivo desvio-padrão das n
medidas do branco (sbr):
mbr ± sbr
O resultado final será a diferença destas médias acompanhada de um desvio-
padrão que é a raiz quadrada da soma dos quadrados dos desvios-padrão das medidas
da amostra e do branco:

mam - mbr ± (sam2 + sbr2)1/2

Tabela 2.1 . Exemplos da propagação da incerteza das medidas do branco no resultado


final da determinação de um analito.

Amostra Branco Resultado final

mam ± sam mbr ± sbr mam - mbr ± (sam2 + sbr2)1/2

Caso 1 15 ± 1 5±5 10 ± 5

Caso 2 15 ± 1 2±1 13 ± 1,4

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 9

Os exemplos mostrados na Tabela 2.1 mostram como o valor do branco pode


comprometer a qualidade de um resultado. No Caso 1, a incerteza das medidas do
branco é refletida totalmente no resultado final, ao passo que no Caso 2, a incerteza do
resultado final reflete as incertezas das medidas da amostra e do branco.
Na prática, o branco analítico pode ser eficientemente diminuído, controlando-se
três fontes principais:
a) Qualidade do ar do laboratório;
b) Pureza dos reagentes (nos quais a água está incluída);
c) Qualidade dos materiais, equipamentos e/ou assessórios

Uma das experiências mais interessantes sobre a importância do controle das fontes
de contaminação foi reportada por Murphy (1974), em publicação especial do antigo
National Bureau of Standards (NBS, atual NIST), apud Kingston (1996). A intenção era
certificar algumas propriedades de um vidro, entre elas o teor de Pb. A mesma massa de
amostra foi analisada sob diferentes condições, e os resultados são mostrados na
Tabela 2.2.

Tabela 2.2. Influência de “brancos analíticos” na determinação de baixas concentrações


de chumbo. Adaptado de Skip Kingston, 1996. “The Role of Analytical Blank in Accurate
Trace Analysis”. Thomas Murphy, NBS Special Publication 4222, Accuracy in Trace
Analysis: Sampling, Sample Handling and Analysis. Proc. 7th IMR Symposium, 1974,
Gaithersburg-MD.

Condição Média ± desvio-padrão

(µg Pb)

Primeira análise de vidro NIST 330 ± 250

Análise com ácidos selecionados 260 ± 200

Análise em capela de fluxo laminar Classe 100 20 ± 8

Análise com ácidos de alta pureza em sala branca 2±1

É muito raro os brancos serem preparados nas mesmas condições da amostra. A


maior dificuldade está na etapa de amostragem e no preparo da sub-amostra, pois,
idealmente, se a amostra for um sólido orgânico ou inorgânico, o branco deveria ser
obtido a partir de uma amostra sólida com características similares, mas que não

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10 Erros sistemáticos no preparo de amostras

contivesse o analito, e processada de acordo com o procedimento de todas as etapas


correspondentes na seqüência analítica.
No caso de sólidos orgânicos a amostra pode, por exemplo, ser substituída por
celulose de altíssima pureza, coletada e moída nas mesmas condições das amostras.
Com sólidos inorgânicos, pode-se utilizar quartzo de altíssima pureza para a análise de
silicatos, mantendo-se as mesmas condições de moagem e homogeneização.
Posteriormente, supondo-se que a amostra foi tratada com 10 ml de HNO3 concentrado,
que esta solução foi evaporada até quase a secura, e que o resíduo foi retomado com
1 ml de HClO4, seguido da adição de H2O e de uma filtração para balão volumétrico de
100 ml, o branco passará por todas as etapas deste procedimento, e a solução resultante
armazenada nas mesmas condições da amostra.
Em casos mais simples, p.ex. uma amostra de água filtrada através de filtro de
membrana de acetato de celulose de 0,45 µm para um frasco de polietileno, seguida da
acidificação com 1,0 ml HNO3 concentrado por litro de amostra, o branco deverá ser
obtido com água da mais alta pureza, seguindo-se o mesmo procedimento de filtração,
acidificação e armazenamento.
Determinar o valor do branco é imprescindível para a obtenção de resultados com
confiabilidade metrológica, incluindo-se o limite de detecção, e deverá ser feito sempre
que as amostras forem analisadas. As condições recomendadas pela IUPAC para
determinações espectrométricas, referem-se a, pelo menos, 20 medidas instrumentais de
uma solução do branco para o cálculo do limite de detecção. Neste caso, o desvio-padrão
das medidas não representa as incertezas nas diversas etapas da seqüência analítica. A
incerteza total do método poderá ser estimada, processando-se a amostra do branco
com, pelo menos, 4 repetições.
Com referência aos erros sistemáticos, eles serão aqui tratados obedecendo-se a
seguinte seqüência, conforme sugestão de Knapp (1996):
• Erros devidos à contaminação
– pelo ar
– por impurezas em reagentes
– por impurezas em materiais
• Erros devidos às perdas de elementos
– por volatilização
– por adsorção
• Erros devidos à decomposição/dissolução incompleta das amostras

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 11

2.3. ERROS POR CONTAMINAÇÃO

2.3.1. Contaminação pelo ar


A contaminação pelo ar será a principal responsável por altos valores de branco,
quando a qualidade da limpeza do laboratório não for adequada. Os principais
contaminantes presentes nas poeiras de origem geológica, predominantemente solos,
são Si, Al, Fe, Ca, Mg, Na, K, Ti; poeiras metalúrgicas apresentam elevados teores de
Fe. Segundo Tölg e Tcshöpel (1994), a atmosfera de áreas densamente povoadas
também apresenta elementos que não são comumente encontrados, como V, Zn, Ni, Co,
Mn Pb, Cr, Cu, F em concentrações maiores que 0,1 µg m-3 , além S e Cl. A Figura 2.2
mostra os principais contaminantes que podem estar presentes no ar.

Cinzas

Bactérias

Fumaça de cigarro Pólen

Pó de cimento

Farinha moída

Fumos

Vírus Poeiras de carvão

Fumaça de
óleo

Poeiras e fumaças metalúrgicas

Visível
Visível ao
ao olho
olho
humano
humano

Poeira de
inseticidas
0,001 0,01 0,1 0,3
0,3 1 10 100

Diâmetro médio das partículas / µm

Figura 2.2. Tamanho dos principais contaminantes do ar. Observar a escala logarítmica e
a indicação para filtros de alta eficiência para partículas ≥ 0,3 µm. Adaptado de T.J.
Murphy. In: P.D. La Fleur. National Bureau of Standards Special Publication 422, p.509-
541, 1976.

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12 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Além disso, a atmosfera do laboratório poderá apresentar partículas provenientes


das paredes, da pintura, do piso, do mobiliário, dos equipamentos, das vestimentas e do
próprio analista. Assim, se material particulado entrar em contato com as amostras, a
contaminação poderá ser muito severa. Em alguns casos, a proteção contra a
contaminação poderá ser bastante efetiva com um pequeno investimento, ou utilizando
sistemas fechados para o preparo das amostras e das soluções. Segundo Tschöpel
(1989), o mínimo que se deve ter a disposição é uma capela de fluxo laminar; mesmo
num corredor, a atmosfera no interior desta capela é muito melhor do que dentro de um
laboratório sem nenhum tratamento do ar. Entretanto, o melhor para evitar e/ou controlar
a contaminação pelo ar é trabalhar em áreas limpas. A classe de limpeza destas áreas é
projetada em função do número máximo de partículas de 0,5 µm/pé3. Um ambiente com
Classe de Limpeza 100, ou simplesmente Classe 100, apresenta, no máximo, 100
partículas de 0,5 µm por pé3. Esta classificação se baseava no US Federal Standard 209
(Tabela 2.3) que foi, posteriormente, substituída pela FS 209E, a qual incorpora o
sistema métrico, onde a Classe 100 corresponde a, no máximo, 3520 partículas de 0,5
µm por m3.

Tabela 2.3. Número máximo de partículas por pé cúbico de ar, segundo a antiga
norma americana FS209 "Airborne Particulate Cleanliness Classes in Cleanrooms and
Clean Zones"

Tamanho da partícula
Classe
0.1 µm 0.2 µm 0.3 µm 0.5 µm 5.0 µm

1 35 7.5 3 1

10 350 75 30 10

100 750 300 100

1,000 1,000 7

10,000 10,000 70

100,000 100,000 700

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 13

Atualmente, os padrões de limpeza das salas limpas baseiam-se na ISO 14644-1


"Classification of Air Cleanliness" (Tabela 2.4), que utiliza o sistema métrico, e as classes
se baseiam na seguinte fórmula:

Cn = 10N (0.1 / D)2.08 (1)

Onde

Cn = número máximo permitido de partículas por metro cúbico igual ou maior que o
tamanho especificado da partícula, arredondado para um número inteiro;

N = é número da Classe ISO, que deve ser um múltiplo de 0.1 e ser ≤ 9;

D = é o diâmetro da particular em µm.

Tabela 2.4. Classes ISO de limpeza de acordo com a ISSO 14644-1 "Classification of Air
Cleanliness"

Número máximo de partículas no ar


(partículas por m3 iguais ou maiores que o tamanho especificado)
Classe ISO
Tamanho das partículas

> 0.1 µm > 0.2 µm > 0.3 µm > 0.5 µm > 1 µm > 5 µm

ISO Classe 1 10 2

ISO Classe 2 100 24 10 4

ISO Classe 3 1000 237 102 35 8

ISO Classe 4a 10,000 2,370 1,020 352 83

ISO Classe 5b 100,000 23,700 10,200 3,520 832 29

ISO Classe 6c 1,000,000 237,000 102,000 35,200 8,320 293

ISO Classe 7d 352,000 83,200 2930

ISO Classe 8 3,520,000 832,000 29,300

ISO Classe 9 35,200,000 8,320,000 293,000


a
Classe 10 (USFS 209)
b
Classe 100 (USFS 209)
c
Classe 1000 (USFS 209)
d
Classe 10000 (USFS 209)

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14 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Apesar da ISO 14644-1, ainda hoje se utiliza o antigo padrão americano para
designar as classes de limpeza. Assim, é ainda comum ouvir as expressões Classe 10,
Classe 100, Classe 1000, Classe 10000. Cabe chamar atenção para o trabalho de Benett
(1999), que trata do impacto da norma ISO sobre a classificação antiga.
Como já foi afirmado, a maneira mais eficiente e conveniente de se controlar
contaminações pelo ar é realizar o preparo da amostra e das soluções em uma sala
limpa. A sala-limpa é, por definição, uma área hermeticamente isolada da atmosfera
externa, onde ar refrigerado e convenientemente desumidificado é introduzido por um
sistema de insuflamento, sendo previamente filtrado em um filtro ou conjunto de filtros
primários. O insuflamento é feito de tal forma que a pressão no interior da sala seja
positiva com referência à pressão externa e que o ar pré-tratado seja introduzido na sala
limpa através de filtros especiais, denominados filtros HEPA (acrônimo do inglês High
Efficiency Particulate Air filters). A Figura 2.3 mostra um esquema de sala limpa
desenvolvida para o Laboratório de Análise de Materiais de Alta Pureza do Max-Planck-
Institut für Metallfforschung, Dortmund-Alemanha. Apesar de este laboratório ter sido
desativado há alguns anos, ele foi uma referência para muitos laboratórios de vários
centros de pesquisa.
Pré-filtros

HEPA
Entrada de ar
HEPA

FAN-COIL Saída de ar

HEPA
HEPA

Dreno
Saída de ar

Figura 2.3. Corte esquemático de uma sala com limpa com capela de exaustão
(adaptado de Tölg e Tschöpel, 1994)

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 15

Deve-se notar, neste esquema, que é possível trabalhar com capela de exaustão,
através da qual também passa ar de alta pureza, com insuflamento através de filtro
HEPA. O ar que passa através desta capela não pode ser recirculado por causa dos
gases tóxicos e corrosivos provenientes das decomposições e/ou dissoluções das
amostras com ácidos concentrados.
Na sala limpa proposta por Tölg e Tschöpel (1994) é possivel se obter um
ambiente Classe 10000 (ISO Classe 7) na área de circulação interna e Classe 100 (ISO
Classe 5) no interior da capela de exaustão. Para se ter uma idéia do significado destas
salas, em um laboratório normal o número de partículas maiores que 0,5 µm pode chegar
a 2 x 107 por m3 (Tschöpel e Tölg, 1982)
Os filtros HEPA apresentam uma eficiência de 99,97% para retenção de
partículas ≥ 0,3 µm. Estes filtros impedem a entrada de partículas de poeira geológica,
pólen, bactéria, pó de carvão, mas não filtram, eficientemente, partículas menores
presentes na fumaça de cigarro e em poeiras metalúrgicas (Figura 2.2). Filtros HEPA
especiais, HEPA Tipo D, denominados filtros ULPA (Ultra Low Penetration Air) deverão
reter, por definição, 99,9995% de partículas ≥ 0,12 µm. São recomendados em ambientes
projetados para atender ISO Classe 3 e ISO Classe 4.
O esquema da Figura 2.4 mostra uma sala limpa com bancada central e bancadas
laterais, onde podem ser instaladas capelas de exaustão, desde que o ar não retorne
para o sistema de tratamento, e capelas de fluxo laminar.

Módulos de insuflamento
Pré-Filtro Pré-Filtro Retorno do ar
Filtros HEPA
Forro falso

Parede
falsa

Capela de Bancada Bancada


exaustão auxiliar
Classe 100

Figura 2.4. Corte de uma sala limpa com bancada central, bancada auxiliar, e capela
com exaustão (opcional). Adaptado de NBS (1989).

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16 Erros sistemáticos no preparo de amostras

FAN COIL Filtros HEPA

Retorno
Classe 1000 Área de serviço Classe 1000
do ar
Classe 1000

Retorno
do ar Unidade de Utilidades
controle de
remoto distribuição

Figura 2.5. Corte de uma instalação para salas limpas com sistemas de insuflamento centrífugo
no piso superior, piso com salas limpas Classe 1000 com filtros HEPA no teto (a separação física
entre estes pisos facilita a manutenção), e um piso inferior onde é feita a tomada de ar das salas
limpas, recirculando-o (adaptado de apresentação de R.B. Darling, EE 527-Microfabrication.
http://www.ee.washington.edu/research/microtech/cam/PROCESSES/PDF%20FILES/CleanRooms.pdf

Apesar de aparentemente simples, a construção de salas limpas é muito


complexa, pois em alguns casos é permitido que o fluxo na área de circulação seja
turbulento, sendo laminar apenas no interior das capelas ou sobre as bancadas. Em
outros casos, a admissão do ar na sala limpa é através de fluxo laminar. A Figura 2.5
mostra um dos 3 projetos de salas limpas da apresentação de R. B. Darling. No Brasil
existem várias empresas especializadas em projetos de salas limpas, inclusive empresas
especializadas na manutenção e contagem de partículas. Há, também, a Sociedade
Brasileira de Controle de Contaminação (SBCC), www.sbcc.com.br, que também edita a
Revista da SBCC. Nesta revista é possível identificar as empresas nacionais, e consultar
artigos bastante esclarecedores sobre salas limpas, como, por exemplo, o artigo de Fei
Peng e Guangbei Tu (1999).

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 17

Para a manutenção dos ambientes nas classes de limpeza desejadas, existe uma
série de pré-requisitos mínimos, além de treinamento de todos os profissionais
envolvidos, para se ter acesso às salas limpas. A lista de pré-requisitos, apresentada a
seguir, é relativamente simples, e é aqui apresentada apenas para se ter uma idéia da
disciplina mínima exigida nestes ambientes:

1. Todos os ítens pessoais, como chaves, relógios, anéis, brincos, cigarros,


isqueiros, devem ser guardados fora da sala limpa. Itens pessoais, como
documentos, talões de cheque, dinheiro podem ser guardados nos bolsos ou em
“capangas” sob as vestimentas especiais, sem nunca removê-los.
2. Não se deve fumar próximo ao local onde é feita a tomada de ar para o
tratamento primário.
3. A entrada de qualquer pessoa no interior de salas limpas só deve ser permitida
com uso de roupas especiais, que inclui, no mínimo, capas para calçados, calças,
jalecos e gorros. Os projetos de salas limpas sempre incluem ante-salas e, em
alguns casos, pré-câmaras para limpeza de partículas dos usuários.
4. O uso de cosméticos é vedado às pessoas que ingressarem nas salas limpas,
incluindo rouge, baton, sombra para olhos, lápis para olhos, máscaras,
delineadores, cílios postiços, esmalte de unhas, fixadores de cabelos, mousse,
shampoo anti-caspa a base de sulfeto de selênio, tintas de cabelo (algumas são
feitas com acetato de chumbo), e uso em quantidade excessiva de loções e
perfumes. A Tabela 2.5 mostra os principais contaminantes presentes em
cosméticos. A composição varia muito e raramente é informada pelos fabricantes.
Vide também a composição média de alguns contaminantes em cosméticos na
Tabela 2.6.
5. Usar somente papéis absorventes e outros tipos de papeis aprovados para salas
limpas.
6. Usar somente canetas aprovadas para salas limpas.
7. O uso de papel-toalha é proibido. Deve-se usar, se possível, secador de mãos
equipado com filtro HEPA.
8. Não se deve tocar na superfície de qualquer material sem luvas apropriadas,
principalmente quando não houver certeza absoluta de que a superfície está bem
limpa.
9. Usar somente luvas sem talco ou outro tipo de pó. Em alguns casos, usam-se
pinças adequadas para manipular as amostras. As impressões digitais são fontes
severas de contaminação, particularmente para determinação de baixas
concentrações de Na e de Cl.

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18 Erros sistemáticos no preparo de amostras

10. Deve-se evitar o contato de solvente com a pele, pois pode haver remoção de
gorduras e tecido morto na forma de escamas. A Tabela 2.6 mostra alguns
contaminantes presentes na pele.
11. O uso de loções ou sabonetes com lanolina pode, às vezes, ser tolerado por
diminuir a emissão de flocos de pele.
12. Todas as ferramentas de trabalho, os reservatórios de água, e outros materiais
devem ser limpos com o mesmo critério usado para limpar as superfícies das
bancadas das salas limpas.
13. Nenhum utensílio pode ser colocado diretamente sobre a bancada. Normalmente,
usa-se uma bandeja apropriadamente forrada com papel especial para esta
finalidade.
14. Somente panos de limpeza, apropriados para a Classe de uso da sala limpa,
poderão ser usados.
15. Todos os equipamentos e materiais introduzidos em ambiente estéril deverão ser
passíveis de esterilização.
16. Não é permitida a entrada de qualquer pessoa fisicamente doente em ambientes
estéreis, especialmente aquelas com desordens estomacais ou respiratórias. Esta
é uma boa prática em qualquer sala limpa.

Tabela 2.5. Contaminantes comumente encontrados em alguns cosméticos (adaptado


de Richter, 2003)

Cosmético Elementos presentes na composição

Baton Bi, Fe, Mg, Mn, Ti e Zn

Sombra para olhos Al, Bi, Cr, Fe, Mg, Mn, Si e Ti

Rouge (“Blush”) Ca, Fe, Mg, Si e Ti

Máscara Al, Cr, Fe, Mg, Na e Ti

Pós faciais Bi, Ca, Fe, Mg, Si, Ti e Zn

Base Al, Fe, Mg, Na, Si, Ti e Zn

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 19

Tabela 2.6. Potenciais contaminantes em ambientes de trabalho (adaptado de Iyengar e


Sansoni, 1980)

Al Ca Fe K Pb Zn

Poeira geológica (µg g-1) 3000 2700 3200 8000 2150 1600

Fumaça de cigarro (µg g-1) 7 10

Cosméticos (µg g-1) 60000 1100 250 35000

Suor (µg ml-1) 4 - 10 1 350 0,1 - 3 1

Pele (µg g-1) 1-2 250 10 3000 6 - 20

Cabelo (µg g-1) 4 - 30 3200 5 - 70 900 3 - 70 450

Além destas precauções, deve-se ter um controle rígido de parâmetros


operacionais, tais como a direção e o fluxo de ar, a pressão interna, a umidade relativa e
temperatura, e avaliar, periodicamente, o número de partículas por m3.
A Tabela 2.7 mostra como a qualidade do ar do laboratório melhora, utilizando-se
salas limpas ou capelas de fluxo laminar, com considerável diminuição da contaminação
por Fe, Cu, Pb e Cd.

Tabela 2.7. Concentração ( µg/m3 ) de alguns elementos no ar de laboratórios.


E.J. Maienthal, In: J.K. Taylor ed. National Bureau of Standards. Technical Note 545,
p.53-54, 1970

Fe Cu Pb Cd

Laboratório comum 0,2 0,02 0,4 0,002

Sala limpa 0,001 0,002 0,0002 nd

Capela de fluxo laminar 0,0009 0,007 0,0003 0,0002

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20 Erros sistemáticos no preparo de amostras

2.3.2. Contaminação por reagentes e soluções

Os brancos devidos aos reagentes podem ser diminuídos consideravelmente


utilizando-se quantidades mínimas de reagentes de alta pureza, os quais podem ser
encontrados no comércio ou purificados no próprio laboratório. A água é
reconhecidamente o reagente ou o solvente que pode contribuir para a ocorrência de
altos valores de brancos. Idealmente, o branco do solvente não deve prejudicar o limite
de detecção instrumental.

Água
Água ultra-pura é um pré-requisito indispensável para a diminuição dos brancos,
podendo ser obtida em volumes razoáveis com a combinação de sistemas de purificação,
sendo um para o tratamento primário da água bruta (destilação, osmose reversa ou troca-
iônica) e outro para o tratamento desta água pré-tratada (sistema fechado com
recirculação através de colunas de troca-iônica, ou destilação abaixo do ponto de
ebulição em destiladores de quartzo). A Tabela 2.8. mostra como varia a composição de
uma água não tratada, utilizando-se tratamento convencional (desionização com colunas
contendo resinas de troca iônica) e destiladores de quartzo.
Uma das combinações comerciais mais utilizadas tem sido a osmose reversa com
resinas de troca-iônica em sistema fechado. A unidade de tratamento primário pode ser
feita somente com osmose reversa ou combinada com processo de eletrodeionização.
Segundo Darbouret e Kano (1998), a eletroionização é fundamental para a obtenção de
água isenta de íons. O processo baseia-se na utilização de um campo elétrico com fonte
de baixa potência e de resinas de troca-iônica e membranas íon-seletivas para a
desionização contínua da água. Segundo os autores o módulo de eletrodeionização
facilita a ultra-purificação da água na etapa seguinte, uma vez que este processo permite
a contínua regeneração das colunas de troca-iônica com a aplicação do campo elétrico, e
a qualidade da água nesta etapa é mantida independentemente da vazão de entrada e
da concentração iônica na água bruta. A unidade de produção de água ultra-pura
geralmente emprega uma mistura de resinas de alta qualidade empacotada em
polipropileno de alta pureza. Alguns fabricantes incorporam processo de foto-oxidação
com radiação UV (185 e 254nm) na entrada do sistema para garantir a produção de água
com maior pureza, visando à decomposição de compostos orgânicos e organo-metálicos.
Os íons são então retidos nas resinas de troca iônica e a qualidade da água pode ser, em
princípio, pré-avaliada com a medida da resistividade ou da condutividade. Em alguns
casos, utiliza-se, ainda, uma membrana com 0,1 µm de porosidade para retenção de
colóides antes da medida.

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Tabela 2.8. Impurezas em águas . Dados em µg.l-1 ( Iyengar e Sansoni, 1978)

Elemento torneira desionizada destilada em quartzo


Al 57 0,10 <0,002
Br 95 0,10 -
Ca 55 000 1 <0,0003
Cd 0,70 <0,10 <0,007
Cl 14 100 1 <0,0004
Co - <0,10 0,02
Cr - <0,10 0,0002
Cs 0,02 - <0,00001
Cu - 0,20 <0,002
F 1,40 - <0,0002
Fé - 0,20 <0,0005
Hg - <1 -
I 9,40 - <0,001
K 28 000 0,04 <0,0001
Mg 10 400 0,30 <0,0002
Mn 2,20 0,05 <0,0005
Mo - 0,02 -
Na 8100 0,03 <0,0002
Ni 30 <0,1 <0,0002
P 43 0,004 <0,0003
Pb 8,50 0,10 <0,003
Rb 10 - <0,001
S 14100 4 <0,0003
Sb 0,60 <0,50 <0,002
Se 3,30 - -
Si 4900 0,50 -
Sn 0,60 0,10 <0,004
Sr 11000 0,06 <0,007
Th - - <0,0002
Ti - <0,1 -
Tl - - <0,0001
V 18,50 <0,1 0,40
Zn 5,60 <0,1 <0,002

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22 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Naturalmente, a produção da água deverá ser conduzida em ambiente com


Classe de limpeza apropriada (ISO Classe 5 é recomendável) e a armazenagem em
recipientes isentos de contaminantes.
A qualidade da água como reagente é definida pela ASTM (American Society of
Testing and Materials), NCCLS (National Committee for Clinical Laboratory Standards),
CAP (College of American Pathologists) e ISO® 3696/BS 3997 como Tipo I, Tipo II, Tipo
III ou Tipo IV, em função da condutância específica (µmhos cm-1), da resistividade (Mohm
cm), do teor de silicato (mg/l), contagem de bactérias e pH (Tipos III e IV). Para fins de
tratamento, um sistema que produz água de altíssima pureza deverá atender aos critérios
para o Tipo I, com resistividade ≥ 18 MΩ. cm. Água Tipo II deverá apresentar
resistividade ≥ 1-2 MΩ. cm.
A resistividade maior que 18,2MΩ.cm é uma indicação da qualidade, mas não é,
necessariamente, um atestado de água de altíssima-pureza. Para tanto é recomendável
determinar os elementos de interesse, utilizando técnicas com limites de detecção da
ordem de ng/l ou µg/l como ICP-MS e GFAAS, por exemplo. A Tabela 2.9. mostra um
exemplo da qualidade de água tratada em sistemas comerciais produzidos pela
Millipore® (Darbouret e Kano, 1998). O sistema denominado Millipore Elix® é
recomendado para o tratamento primário da água bruta e o Milli-Q® para a obtenção de
água de altíssima pureza.

Tabela 2.9. Teores de elementos determinados por ICP-MS em águas tratadas com
sistemas comerciais (adaptada de Darbouret e Kano, 1998). Dados em ng/l.

Analito Millipore Elix® (Tipo II) Milli-Q®


7
Li 0,34 0,034
23
Na 545,5 0,32
24
Mg 0,99 < 0,34
27
Al 9,9 < 0,18
39
K 36,2 5,2
40
Ca 12,14 6,8
52
Cr 0,29 <0,082
55
Mn 0,51 <0,4
56
Fe 1,10 0,46
63
Cu 1,38 0,067
64
Zn 34,6 4,4
208
Pb 1,15 0,94
Millipore Elix® e Milli-Q® são marcas registradas da Millipore

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 23

Ácidos

Os ácidos inorgânicos podem ser fontes de contaminação severas, dependendo


do elemento a ser determinado e da qualidade e do volume do ácido utilizado. Mesmo
ácidos de alta pureza comerciais podem apresentar concentrações relativamente
elevadas de alguns contaminantes (Tabelas 2.10 e 2.11), inviabilizando a determinação
de elementos-traço em baixíssimas concentrações, concorrendo para altos valores dos
brancos. Naturalmente, os valores dos brancos dependem do volume utilizado, que pode
ser significativamente diminuído, utilizando-se sistemas fechados ou estratégias que
concorrem para a diminuição do consumo, particularmente na decomposição de
amostras.
Mesmo assim, o consumo de ácidos de alta pureza pode ser relativamente alto,
implicando em custos elevados quando ácidos comerciais são utilizados. A melhor
alternativa para a utilização de ácidos de altíssima pureza, a um custo relativamente
baixo, é a purificação por destilação abaixo do ponto de ebulição do ácido. Este método,
denominado em inglês “sub-boiling distillation”, baseia-se no aquecimento de um líquido
com radiação infravermelha, utilizando-se uma resistência elétrica aquecida por efeito
Joule, devidamente protegida por um invólucro de vidro ou de quartzo. A superfície
líquida é, então, vaporizada sem entrar em ebulição, que é a chave para a purificação.
Quando a destilação é feita abaixo do ponto de ebulição, não há formação de aerossol
devido à dispersão de gotículas do líquido na fase gasosa, que naturalmente ocorreria se
o líquido entrasse em ebulição. O líquido vaporizado é condensado em um dedo frio, em
geral feito de quartzo de alta pureza, obtendo-se um produto final de pureza equivalente
ou até maior que um produto comercial, quando é devidamente coletado e armazenado
em frascos de alta pureza (Figura 2.6). Os ácidos nítrico e clorídrico concentrados são
facilmente purificados, coletando-se os destilados em frascos de quartzo de alta pureza.
Água de altíssima pureza também pode ser obtida desta forma. Ácido fluorídrico pode ser
destilado utilizando-se polímeros de alta pureza. A Tabela 2.12 mostra a composição de
água purificada por destilação abaixo do ponto de ebulição, e permite a comparação de
ácidos purificados neste sistema com ácidos comerciais.
Solução de acido clorídrico ca 2-4 mol l-1 de alta pureza pode ser obtida por
destilação isotérmica de 12 mol l-1 HCl. Coloca-se um volume do ácido diretamente na
base inferior do interior de um dessecador de vidro, e um béquer com 200 ml de água de
alta pureza sobre uma placa de porcelana perfurada que possa ser apoiada no interior do
dessecador. O conjunto fica fechado por cerca de 10-15 dias sob temperatura ambiente.
A concentração do ácido no béquer é determinada por volumetria de neutralização.

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24 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Tabela 2.10. Impurezas em ácidos clorídrico, fluorídrico e nítrico. Dados em µg.l-1


( adaptada de Iyengar e Sansoni, 1978)

Elemento HCl HF HNO3


p.a. Ultra- p.a. Ultra- p.a. Ultra-
puro puro puro
Al 8 0,80 4 0,5 7 1
As - - - - - 0,005
Br - 2,60 - - - 7
Ca 72 0,30 0,4 52 0,2 0,4
Cd 0,03 0,003 8 0,005 0,1 0,03
Cl - - - - - -
Co 0,09 0,001 <1 1 0,018 0,01
Cr 1,10 0,008 5 0,6 72 0,10
Cs 0,002 <0,002 - - <0,01 <0,1
Cu 0,20 0,03 0,50 0,30 1,30 0,2
Fé 1 - 60 0,60 1 300 0,80
Hg - - <10 <10 - -
K 200 0,10 0,40 1 <10 9
Mg 7 0,30 2 0,1 3 0,40
Mn <2 0,001 0,60 0,03 9 2
Na 500 0,20 100 0,60 80 0,01
Ni 0,20 0,005 0,50 0,05 0,70 0,03
P - 0,20 - 7 0,80 0,50
Pb 0,20 0,0015 2,20 0,002 0,20 0,01
Rb - - - - - -
S - 3 - - 0,60 15
Sb 0,20 0,38 - 3,0 0,03 0,04
Se - - - - 0,20 0,09
Si 20 1 - 4 30 8
Sn 0,07 0,002 11 0,05 0,10 0,002
Sr 2 0,06 0,50 0,10 0,20 0,01
Ti - 0,006 - 0,50 0,50 0,80
Tl 0,10 0,10 0,20 0,10 0,20 -
V - 0,08 - - 0,05 -
Zn 1 0,03 6 0,10 4 0,08

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 25

Tabela 2.11. Impurezas em ácidos sulfúrico e perclórico. Dados em µg.l-1


(adaptada de Iyengar e Sansoni, 1978)

Elemento H2SO4 HClO4


p.a. Ultra-puro p.a. Ultra-puro
Al 8 - - -
As - - - -
Br - - - -
Ca 10 2 760 0,2
Cd <1 <1 0,1 0,05
Cl - - - -
Co <1 <1 - -
Cr 25 2 10 9
Cs - - - -
Cu 3 3 11 0,10
F - - - -
Fe 8 - 330 2
Hg <10 - - -
I - - - -
K <10 4 200 0,6
Mg 3.30 2 500 0,2
Mn 8 0,8 - -
Na 20 9 20 9
Ni <1 0,20 <1 0,20
Pb 1,2 1 1,2 1
Rb - - - -
Sb - - - -
Se - 200 - 200
Si 18 - 18 -
Sn 0,60 0,20 0,60 0,20
Sr 0,40 0,30 0,40 0,30
Th - - - -
Ti - - - -
Tl 0,10 0,10 0,10 0,10
U - - - -
V <2,40 - <2,40 -
Zn <1 <1 <1 <1

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26 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Saída
Invólucro Irradiador IR de água
de quartzo
Condensador Entrada
Funil de água

Sifão

Líquido a ser
destilado
Frasco
de quartzo

Figura 2.6. Corte esquemático de um destilador “sub-boiling” (Kuerner et al, 1972)

Tabela 2.12. Impurezas residuais em água purificada por destilação abaixo do ponto de
ebulição e em diferentes ácidos com diferentes graus de pureza. Dados em ng/ml (adaptada
de Tschöpel et al, 1980)

Cd Cu Fe Al Pb Mg Zn

H2O subboiling 0,01 0,04 0,32 <0,05 0,02 <0,02 <0,04

HCl 10 mol l-1 subboiling 0,01 0,07 0,6 0,07 0,05 0,20 0,2

HCl 10 mol l-1 ultrapuroa 0,03 0,2 11 0,8 0,13 0,5 0,3

HCl 12 mol l-1 pró análise. 0,1 1,0 100 10 0,5 14 8,0

HNO3 15 mol l-1 subboiling 0,001 0,25 0,2 <0,005 <0,002 0,15 0,04

HNO3 15 mol l-1 Suprapur 0,06 3,0 14 18 0,7 1,5 5,0

HNO3 15 mol l-1 pró análise 0,1 2,0 25 10 0,5 22 3,0

HF 54% subboiling 0,01 0,5 1,2 2,0 0,5 1,5 1,0

HF 40% ultrapuroa 0,01 0,1 3,0 1,0 3,0 2,0 1,3

HF 54% pró análise 0,06 2,0 100 5,0 4,0 3,0 5,0
a
Produto comercial

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 27

2.3.3. Impurezas em frascos de reação e recipientes

Em princípio, nenhum material é absolutamente resistente a uma solução, mesmo


que somente água entre em contato com o mesmo. Conseqüentemente, cada elemento
presente no material será encontrado na solução em maior ou menor quantidade, e esta
quantidade dependerá do material, do tempo de contato e da temperatura. O vidro de
borosilicato, por exemplo, que contem vários elementos maiores e menores, além de um
grande número de elementos-traço em concentrações relativamente elevadas (Tabela
2.13), é muito impuro quando comparado com o quartzo, polietileno, polipropileno e
polímeros fluorinados (PTFE, PFA, FEP). Além disso, as perdas por adsorção em vidros,
conforme já comentado, são muito grandes. Assim, como regra geral, soluções de
amostras e soluções-padrão não devem ser armazenadas em vidro para determinação
de elementos-traço em baixíssimas concentrações.

Quartzo
Dentre os materiais mencionados, o quartzo pode ser considerado um dos
materiais mais puros encontrados no mercado, e é disponível em diferentes graus de
pureza. O quartzo é composto quase que totalmente de SiO2 e a concentração de
elementos-traço dependerá do tipo de quartzo e do método de produção (Richter, 2003).
O quartzo encontrado nos laboratórios pode ser do Tipo I (fusão eletrotérmica) ou do Tipo
II (fusão com chama H2 – O2). O quartzo Tipo II apresenta maior pureza porque os
elementos contaminantes são volatilizados na chama. Componentes de quartzo sintético
são obtidos por hidrólise de SiCl4 na fase vapor (Tipo III) ou por oxidação e fusão elétrica
de SiCl4 (Tipo IV). Heralux® e Suprasil®, marcas registradas da Heraeus, correspodem
aos quartzos Tipo II e Tipo III, respectivamente. A Tabela 2.14 mostra as principais
impurezas que podem ser encontradas nos vários tipos de quartzo. Vide, também, a
Tabela 2.13 que permite a comparação com outros materiais.

Polímeros sintéticos
Infelizmente, o custo extremamente elevado do quartzo restringe
consideravelmente seu uso. Alternativamente, materiais poliméricos sintéticos de alta
pureza podem ser usados em muitas aplicações. O custo depende do tipo de polímero,
das propriedades físicas e do grau de pureza de cada material.

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28 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Tabela 2.13. Impurezas em diferentes materiais (ng/g). Adaptado de Tölg e Tschöpel, Anal.
Sci. 3(1987) 199-208.

Elemento Carbono PTFE Quartzo Quartzo Vidro

vítreo Teflon® Heralux® Suprasil® Borossilicato

B 100 - 100 10 principal

Na 350 25000 1000 10 principal

Mg 100 - 100 100 6x105

Al 6000 - 30000 100 principal

Si 85000 - principal principal principal

K 80000 - 800-3000 100 106

Ti 12000 - 800 100 3000

Cr 80 30 5 3 3000

Mn 100 - 10 10 6000

Fe 2000 10 800 200 2x105

Co 2 2 1 1 100

Ni 500 - - - 2000

Cu 200 20 70 10 1000

Zn 300 10 50 100 3000

As 50 - 80 0,1 500-22000

Cd 10 - 10 - 1000

Sb 10 0,4 2 1 8000

Hg 1 10** 1 1 -

Teflon® é marca registrada da DuPont


Heralux® e Suprasil® são marcas registradas da Heraeus

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 29

Tabela 2.14. Impurezas de alguns elementos em vidro borosilicato e diferentes tipos de


quartzo. Dados em µg. g-1. LOD = limite de detecção. (adaptado de Richter, 2003)

Elemento Vidro Quartzo Quartzo Quartzo


borossilicato
(Tipo I) (Tipo II) (Tipo III)

Al principal 74 68 < 0,25

B principal 4 0,3 0,1

Ca 1000 16 0,4 < 0,1

Cr 0,1 < LOD 0,03

Cu 1 1 <1

Fé 3000 7 1,5 < 0,2

K 3000 6 <1 0,1

Li 7 1 < LOD

Mg 600 4 < LOD < LOD

Mn 1000 1 0,2 < 0,02

Na principal 9 5 < 0,1

Sb 2,9 0,3 0,1 0,1

Polietileno, polipropileno e polímeros fluorinados

Tanto o LDPE (polietileno de baixa densidade) como o HDPE (polietileno de alta


densidade) pode ser usado para a determinação de elementos-traço. O LDPE é
produzido por polimerização do etileno sob alta pressão. O HDPE é produzido sob baixa
pressão, e a polimerização é catalizada por metais de transição (Al, Ti, Zr, V e Cr). A
temperatura máxima de serviço do LDPE é de 80°C, ao passo que o de alta densidade
pode ser usado até 110°C. Não obstante, considerando-se os potenciais contaminantes,
o polietileno de baixa densidade é preferível ao de alta densidade.
O PP (polipropileno) é produzido cataliticamente com Al e Ti a partir do propileno,
e também pode conter teores elevados de alguns contaminantes. Este polímero é estável
até 135°C. Pode ser usado para armazenar soluções, mas não é recomendado para
aquelas com baixas concentrações de analitos.
Polímeros fluorinados são mais caros que polietileno e polipropileno, e podem ser
obtidos com elevado grau de pureza (Tabela 2.15). Apresentam como vantagens

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30 Erros sistemáticos no preparo de amostras

adicionais maior resitência aos ácidos e maiores temperaturas de serviço. O PTFE


(politetrafruoroetileno) convencional torna-se poroso quando submetido a temperaturas
maiores que 150°C. Atualmente os fluoropolímeros mais utilizados são o PFA
(perfluoroalcoxi), com temperatura máxima de serviço de 260°C, o FEP
®
(fluoroetilenopropileno) com temperatura máxima de serviço de 200°C e o TFM (PTFE
modificado pela Hoescht) com temperatura de trabalho de até 300 °C. Além disso, os
polímeros PFA, FEP e TFM® são mais puros que o PTFE convencional e, assim, mais
recomendados nos procedimentos para a determinação de elementos-traço. Destes, o
TFM® é preferido para a decomposição de materiais sob altas temperaturas por sua
maior resistência física e química e por apresentar menores brancos quando comparado
ao PFA. As contaminações devidas às impurezas presentes em materiais também
ocorrem nos copinhos ou tubos de amostradores, ponteiras de micropipetas, entre outros
materiais. A Tabela 2.16. mostra os principais contaminantes presentes em frascos de
polietileno usados em análise por ativação neutrônica instrumental.

Tabela 2.15. Contaminantes presentes em alguns polímeros (adaptado de Moody e


Lindstrom, 1977). Valores em µg g-1
Elemento LDPE HDPE PP PFA FEP PTFE
Al 0,5 30 55 0,2 0,23
Ca 800
K >5 > 0,6 90
Na 1,3 15 4,8 0,1 0,4 0,16
Sb 0,005 0,2 0,6
Ti 5 60
Mn 0,01 0,02 0,02 0,06
Zn 520

Tabela 2.16. Elementos presentes em frascos plásticos para irradiação de amostras


(adaptado de Heydorn e Damsgaard, 1982)
Elementos em ordem de concentração Massa total (µg) em frascos de 1,1 g

Fe 1 - 10

Cl, Na, K, Al, Zn 0,1 – 1,0

Cu, Cd, Cr, Br, Mn 0,01 – 0,1

Sb, W, Co, As, Au 0,001 – 0,01

Se, V, La, Ag, Sc < 0,001

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 31

Outros materiais

Especialmente durante a amostragem, deve-se evitar que a amostra entre em


contato com outros materiais que causam contaminação. A borracha, muitas vezes usada
como tampa em alguns frascos, pode contaminar as amostras por causa dos elevados
teores de As, Sb, Cr, Co, Zn e Sc. O nylon contem altos teores de Co e o PVC (cloreto de
polivinila) contem Zn, Fe, Sb, Cu em quantidades relativamente altas.
Ferramentas usadas para moer, peneirar, cortar, furar, macerar oferecem
altíssimo risco de contaminação para muitos analitos.
A moagem, particularmente, deveria ser evitada sempre que possível, mas a
homogeneização poderá ficar comprometida. Em muitos casos, as contaminações
ocorrem durante a homogeneização. Tradicionalmente, os materiais que oferecem menor
risco de contaminação durante a moagem são aqueles feitos de ágata, monocristais de
óxido de alumínio ou nitreto de boro. Os principais contaminantes presentes em materiais
usados para moagem são apresentados na Tabela 2.17 e 2.18.
Em geral, uma regra bastante simples que deve ser observada para evitar ou
minimizar a contaminação por componentes do sistema de moagem é que estes
componentes sejam mais duros (mais resistentes) que a amostra. Por exemplo, se
carbeto de tungstênio for moído num moinho com componentes de aço, a contaminação
por Fe deverá ser muito alta, pois o carbeto de tunstênio é muito mais duro que o aço.
Neste ponto, cabe a observação (Nóbrega, 2004) de que ao invés de moermos a
amostra, estaremos moendo o moinho. Por outro lado, se um moinho de carbeto de
tungstênio for utilizado para moer materiais relativamente frágeis, como Al2O3 ou dureza
similar, partículas de carbeto de tunstênio poderão ser incorporadas na amostra moída.
Durante a moagem criogênica, por exemplo, quando feita em tubo de
policarbonato por impacto de uma barra de aço contra extremidades fixas de aço, pode-
se constatar a contaminação por Fe e Cr, particularmente na moagem de celulose de
alta pureza. Muitas vezes, não se percebe a contaminação, porque ela poderá ser
desprezível em comparação com o alto teor do analito na amostra.
O nível de contaminação poderá variar com as condições de moagem e é
dependente do tipo de moinho, da intensidade da moagem, da duração da moagem, do
desgaste das peças, da natureza do pó, da natureza dos materiais de moagem, da
atmosfera ambiente, entre outros fatores. Segundo Suryanarayana (2001), apesar de
muitos fabricantes preconizarem a qualidade de seus moinhos com relação a outros,
não existe ainda um trabalho sistemático sob contaminação, comparando-se moagens
sob condições idênticas.

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32 Erros sistemáticos no preparo de amostras

A contaminação por Cr, Fe, Ni, Co, Mn, Cu e outros elementos também poderá
ser constatada durante o corte de tecidos biológicos com escalpelos e durante a
amostragem de sangue por agulhas hipodérmicas. Neste aspecto, o uso de espátulas,
facas, pinças e agulhas feitas de plástico, titânio de alta pureza ou quartzo é
recomendado.
Não se deve perder de vista as perdas por volatilização que podem ocorrer
durante a moagem. Neste particular, a moagem criogênica é a melhor estratégia.
Detalhes sobre este tipo de moagem são apresentados no capítulo 3.2.
Cuidados adicionais também devem ser tomados para evitar mudanças nas
amostras causadas por microrganismos e/ou reações fotoquímicas, que podem alterar as
ligações dos analitos. Nestes casos, o uso de embalagens que impedem a entrada de
radiação UV-visível e a refrigeração é recomendável.
Além destas, precauções também devem ser tomadas com respeito aos
equipamentos e acessórios usados no preparo das sub-amostras nos laboratórios.
Suportes metálicos dos mais variados, como aqueles para buretas, placas aquecedoras
(frequentemente com sinais de oxidação), estufas, fornos tipo muflas, entre outros
materiais são fontes de contaminação.

Tabela 2.17. Composição aproximada de materiais usados em equipamentos de


moagem (adaptado de Market, 1995).

Ágata Porcelana Alumina Óxido de


% % % zircônio %
SiO2 99,91 61,0 16,5 0,1

Al2O3 0,02 34,0 83,0

Na2O 0,02

K2O 0,01 3,0

Fe2O3 0,01 0,03

MnO 0,01

CaO 0,01 1,5

MgO 0,01 1,5

ZrO 97,0

Outros óxidos 2,0 0,5

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 33

Tabela 2.18. Composição aproximada de materiais usados em equipamentos de


moagem (adaptado de Market, 1995)

Carbeto de Carbeto de Titânio Aço cromo Aço


boro tungstênio % % carbono
% % %

Fe 0,1 0,1 84,0 99,1

Cr 0,08 12,0

C 21-23 0,08 1,65 0,15

Si 0,1 0,3 0,25

Mn 0,3 0,40

Co 6,0

Mo 0,3

V 0,3

W 94,0 0,5

2.4. PERDAS POR VOLATILIZAÇÃO

As perdas de elementos por volatilização ocorrem, principalmente, em altas


temperaturas (> 500°C), mas observam-se perdas significativas de alguns elementos sob
temperatura ambiente. Os analitos podem ser perdidos na forma elementar, raramente
como óxidos, e predominantemente como haletos. A Tabela 2.19 mostra exemplos de
diferentes formas como os elementos podem ser perdidos. A extensão das perdas
depende do tipo de amostra, e das variáveis temperatura e tempo. No capítulo 6.1,
especialmente dedicado à decomposição por combustão, os riscos de perdas por
volatilização de vários analitos em diferentes amostras nos vários métodos são discutidos
em detalhes. De um modo geral, o mercúrio é volátil em grande parte de suas formas
químicas, o mesmo ocorrendo com As, Sb, Sn, Ge, Se, porém, em menor proporção.
Além disso, Cd, Pb, Zn são voláteis como cloretos ou brometos a temperaturas elevadas

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34 Erros sistemáticos no preparo de amostras

(i.e. > 700 °C). Neste sentido, o conhecimento prévio da composição química das
amostras permite prever os riscos de perdas por volatilização. Em alguns casos, por
exemplo, elementos presentes nas amostras atuam como modificadores de matriz,
impedindo perdas em temperaturas relativamente elevadas.
O Hg é, reconhecidamente, o melhor exemplo de elemento extremamente volátil,
podendo ser perdido durante a amostragem, armazenamento e preparo da amostra,
quando soluções aquosas são armazenadas em frascos abertos ou frascos feitos de
polímeros orgânicos. As perdas de Hg podem ocorrer em poucas horas e, além disso, o
Hg atravessa rapidamente paredes de frascos plásticos de polietileno ou de polipropileno.
Assim, amostras para determinação de Hg não devem ser armazenadas em frascos
plásticos, para evitar as perdas por volatilização e/ou evitar contaminação por Hg
presente na atmosfera ambiente.
Durante a dissolução de metais e ligas metálicas com ácidos não oxidantes, os
elementos S, P, As, Sb, Bi, Se ou Te podem ser separados e/ou perdidos na forma de
hidretos. Além disso, hidretos também podem ser perdidos durante a amostragem de
ligas metálicas. O odor característico de H2S e PH3 é uma indicação da perda de P e S
por volatilização, quando se utilizam ferramentas de corte ou furadeiras, por exemplo.

Tabela 2.19. Elementos e compostos que podem ser perdidos por volatilização

Forma Elementos

Elementar As, Te, Sb, Se, Sn, Cd, Pb, Tl, Zn, Hg, S, P, Br, I,

Óxidos As, S, Se, Te, Re, Ru, Os, Cd, Hg, Zn

Fluoretos B, Si, Ge, Sn, P, As, Sb, Bi, S, Se, Ti, Zr, Hf, V, Nb, Ta, Mo, W,
Re, Ru, Os, Ir, Hg

Cloretos Al, Ga, In, Tl, Ge, Sn, P, As, Sb, Bi, S, Se, Te, Ti, Zr, Hf, Ce, V,
Nb, Ta, Mo, W, Mn, Fe, Ru, Os, Au, Zn, Cd, Pb, Hg

Hidretos Si, Ge, Sn, Pb, P, As, Sb, Bi, S, Se, Te

Haletos voláteis de As3+, Sb3+, Sn4+, Ge4+, Se4+, Pb4+ também podem ser perdidos
durante a evaporação de soluções ácidas ou durante a combustão de materiais
orgânicos. Durante a calcinação de sedimentos para eliminar a matéria orgânica, que
normalmente é feita em temperaturas acima de 400 °C, a perda destes elementos pode
ser significativa. A Tabela 20 mostra os pontos de ebulição de alguns haletos.
A determinação de elementos-traço requer, muitas vezes, uma etapa de pré-
tratamento da amostra para concentrar o analito. Um dos métodos mais simples baseia-

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 35

se na evaporação do solvente, que pode ser feita em frascos abertos com aquecimento
por convecção (placas aquecedoras, blocos de aquecimento, mantas), assistida por
microondas ou em sistemas de destilação controlada (roto-evaporadores). A temperatura
para a evaporação do solvente depende do sistema escolhido e do meio reacional que
pode levar à formação de misturas azeotrópicas, podendo chegar a 150°C.
A separação, por volatilização, da matriz ou de elementos e compostos
indesejáveis presentes na matriz que possam interferir na determinação do elemento de
interesse, também é prática utilizada em muitos procedimentos. É comum evaporar um
ácido até quase a secura, ou eliminá-lo para evitar a formação de precipitados ou
complexos insolúveis. Neste caso, a temperatura pode chegar a 220°C.
Alternativamente, o analito pode ser separado da matriz por destilação e coletado
em uma solução absorvedora ou em uma superfície sólida quimicamente modificada.
Neste caso, além da separação do analito, promove-se a concentração do mesmo.
Idealmente, este procedimento deve ser feito sem que ocorram perdas do analito durante
a separação/concentração.
Certamente, os erros sistemáticos causados pela volatilização durante a
decomposição das amostras podem ser evitados com a utilização de sistemas fechados
e uso de materiais apropriados. Decomposições em sistemas abertos com ácidos podem
ser feitas sem riscos de perdas por volatilização de vários elementos, mas requerem
várias precauções, entre as quais o rigoroso controle da temperatura. Decomposições
por fusão implicam em perdas de inúmeros elementos por volatilização (Tabela 21)

Tabela 2.20. Sais voláteis de alguns elementos (adaptado de Lide, 2004 – valores
arredondados)
Elemento Sais voláteis Ponto de ebulição (°C)
Chumbo PbCl4 50
Arsênio AsCl3 130
AsF3 58
Antimônio SbF5 150
SbCl5 79
Germânio GeBr4 26
GeCl4 87
Selênio SeCl4 191 (sublima)
SeF4 106
Estanho SnCl4 115
Vanádio VCl4 152
Crômio CrF5 117

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Tabela 2.21. Perdas por volatilização durante a fusão de alguns materiais (adaptado de
A. C. Spínola Costa, 1996)

Fundente Temperatura Cadinho Amostras Elementos


voláteis
°C

silicatos, solos, óxidos, Ag, As, Bi, Br,


LiBO2 Pt carbonatos, sulfatos, Cd, Cl, F, Ga,
ou 900 - 950 Pt-Au fosfatos , fluoretos Hg, In, I, Os, Pb,
Li2B4O7 Grafite Re, Ru, S, Sb,
Se, Te, Tl, Zn

KH2SO4 sulfetos, óxidos de Be, Cr, Bi, Cd, Hg, Pb,


ou 420 - 700 Pt Fe, Nb, Ta, Ti, Zr, óxidos S, Sb, Se, Tl, Zn
K2S2O7 de lantanídeos

Ni, Fe, Ag, Concentrados de metais


preciosos,refratários,
Na2O2 450 – 1000 Zr, Pt
solos, silicatos, óxidos de
Carbono
(máx. 450°C) Cd, Hg
Al,Ti, Fe, Mn, Cr, Sn, Zn,
vítreo
Nb, Ta, ligas metálicas a
base de zinco, minérios

2.5. ERROS DEVIDOS À ADSORÇÃO E DESSORÇÃO

2.5.1. Aspectos gerais


Os teores de elementos-traço presentes em soluções muito diluídas podem mudar
rapidamente em função da adsorção ou dessorção. Por meio destes processos, íons ou
compostos de elementos-traço podem ficar ligados à superfície interna dos frascos de
reação ou de armazenagem e, posteriormente, ser lixiviados com a mudança da
composição da solução. As perdas de elementos por adsorção tornam-se apreciáveis em
concentrações menores que 10-6 mol l-1 e são da ordem de 10-9 a 10-12 mol cm-2 (Tölg e
Tschöpel, 1994). Em geral, a quantidade de elementos adsorvidos depende de um
grande número de fatores que dificilmente podem ser especificados conjuntamente. É
difícil estimar as perdas ou ganhos de elementos-traço como resultado de processos de
adsorção ou dessorção, mas os fatores mais importantes são:

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 37

• o analito, sua concentração e seu estado de oxidação;


• os elementos e os compostos orgânicos e inorgânicos concomitantes na solução
do analito (especialmente os componentes que ocorrem em altas concentrações,
mas também, elementos menores e traços), as concentrações destes
concomitantes, o estado de oxidação dos concomitantes e o pH do meio;
• a duração do contato e a temperatura.
Perdas significativas de elementos poderão ocorrer, como resultado da adsorção,
especialmente quando a solução da amostra entrar em contato com uma grande área
superficial. Este é o caso que ocorre durante filtrações, emprego de colunas de troca-
iônica, e mudanças de recipientes. De acordo com Tölg e Tschöpel (1994), as seguintes
precauções devem ser tomadas para minimizar as perdas de elementos por adsorção:
a) Usar frascos de quartzo, PTFE ou carbono vítreo. O vidro não é um material
adequado na análise de traços porque é responsável pelas maiores perdas por
adsorção:
VidroSiOH + M+ → VidroSiOM + H+
b) A superfície e o volume do frasco, assim como o volume da solução da amostra
devem ser os menores possíveis;
c) A duração do contato entre a solução da amostra e a superfície do frasco deve
ser a menor possível;
d) As soluções das amostras devem ser acidificadas, se possível, porque as perdas
são muito menores quando comparadas com soluções neutras ou alcalinas;
e) A limpeza e pré-condicionamento dos frascos utilizados devem ser feitos,
idealmente, com vapores ácidos. Este procedimento reduz consideravelmente os
brancos, assim como as perdas por adsorção.

Elementos-traço também podem ser perdidos por cimentação eletroquímica, durante


a amostragem e preparo da amostra (Tölg e Tschöpel, 1994). Este processo ocorre
quando elementos-traço dissolvidos em um eletrólito entram em contato com a superfície
de um metal mais eletronegativo que o elemento-traço. Neste caso, o elemento traço
(p.ex. Pt, Pd, Au, Hg, Cu) é precipitado sobre a superfície metálica, da qual será
removido com dificuldade. Perdas de elementos por cimentação podem ocorrer durante a
amostragem, moagem, corte, homogeneização etc, particularmente quando amostras
aquosas e tecidos ou fluidos biológicos, como peixes, carnes, sangue, frutas, entram em
contato com ferramentas metálicas. Segundo os autores, a cimentação pode ser evitada
ou reduzida congelando-se a amostra em nitrogênio líquido e manipulando-a enquanto
estiver congelada.

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38 Erros sistemáticos no preparo de amostras

2.5.2. Limpeza e descontaminação de materiais

A descontaminação de materiais é um pré-requisito indispensável para evitar


erros devidos à dessorção de contaminantes e/ou adsorção dos analitos. Existem vários
métodos de descontaminação na literatura, mas aqui serão apresentados somente os
mais clássicos:

Método 1. Descontaminação de frascos LDPE, PP, PTFE, FEP, PFA (recomendado por
Moody e Lindstron, 1977).
Este procedimento é um dos mais clássicos da literatura. Segundo os autores o HCl é
o melhor ácido para a descontaminação, mas, como a eficiência da limpeza varia com o
elemento e com o material, recomenda-se que a descontaminação adicional seja feita
com HNO3. Os autores também chamaram a atenção de que não é necessário o uso de
ácidos de alta pureza:
a) Encher o recipiente com solução aquosa 1 + 1 (v/v) HCl p.a..
b) Deixar em repouso por uma semana em temperatura ambiente. Para PTFE a
solução ácida deverá ser aquecida a 80°C.
c) Esvasiar o recipiente e lavar com água desionizada ou destilada.
d) Encher o recipiente com solução aquosa 1 + 1 (v/v) HNO3 p.a.
e) Deixar em repouso por uma semana em temperatura ambiente. Para PTFE a
solução ácida deverá ser aquecida a 80°C.
f) Esvasiar o recipiente e lavar com água desionizada ou destilada
g) Encher com água da mais alta pureza (água Tipo I)
h) Deixar em repouso por várias semanas. Trocar a água periodicamente para
garantir a limpeza.
i) Lavar com água Tipo I e secar capela de fluxo laminar em ambiente ISO Classe 5.

Método 2. Procedimento para limpeza de frascos de polietileno (LDPE) para coleta e


armazenamento de águas de alta pureza (adaptado Barbante et al, 1997).
a) Lavar com água de torneira para remover material particulado;
b) Remover gordura com clorofórmio e lavar com água de alta pureza Tipo I;
c) Deixar em imersão no primeiro banho ácido contendo 1 + 3 v/v HNO3/água ultra-
pura a 50°C durante 2 semanas.
d) Lavar com água Tipo I e transferir para segundo banho ácido contendo 1:1000
(v/v) HNO3/água ultra-pura a 50°C, durante 2 semanas.

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 39

e) Finalmente, lavar várias vezes com água Tipo I, encher os frascos com HNO3 de
alta pureza e guardá-los em bolsas de polietileno de duas camadas
descontaminadas em banho ácido.

Método 3. Descontaminação com vapor ácido


Considerado o método mais rápido e mais efetivo na descontaminação de
recipientes plásticos ou de quartzo, este método se baseia na limpeza com vapores de
ácidos nítrico ou clorídrico. O método pode ser implementado nos laboratórios, utilizando-
se um sistema fechado, de tal forma que os vapores do ácido se condensem,
principalmente, nas paredes internas dos recipientes, lavando-os continuamente.
A Figura 2.7 mostra um aparelho desenvolvido para limpeza/descontaminação de
materiais (quartzo, PTFE, FEP, TFM) como balões volumétricos, frascos para
armazenamento de soluções, tubos de digestão, copos, entre outros visando à
determinação de ultra-traços. Em geral, os materiais são limpos com vapor de HNO3
durante a noite, sendo posteriormente lavados com água de alta pureza (Tipo I), secos e
armazenados em ambiente Classe 100.

Copo invertido

Figura 2.7. Aparelho para limpeza e purificação de frascos com vapor ácido (adaptado de
Tschöpel et al, 1980)

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40 Erros sistemáticos no preparo de amostras

Segundo Tölg e Tschöpel (1993) a lavagem contínua durante 4-6 h com vapor de
HNO3 e subseqüente lavagem com vapor de água durante 1-2 h são suficientes para
efetiva descontaminação de vários elementos presentes em diferentes materiais, com
exceção de Fe em PTFE.
A limpeza com vapor de HNO3 tem sido muito recomendada para a
descontaminação de frascos de TFM® e outros materiais de alta pureza utilizados na
decomposição de amostras em fornos de microondas. Existem sistemas alternativos no
mercado (Richter, 2003) em que o volume interno útil permite que se descontamine um
grande número de frascos, que podem ser mantidos no interior do aparelho até sua
utilização. Outros argumentos a favor deste método de limpeza, comparativamente aos
métodos que se baseiam na lixiviação dos contaminantes (frascos cheios com ácidos de
alta pureza), é que, além de ser mais rápido, utiliza-se vapor de alta pureza a partir de
HNO3 p.a. Segundo Tölg e Tschöpel (1994), Além disso, após este processo de limpeza
as perdas por adsorção são consideravelmente diminuídas. Copinhos de amostradores
automáticos (2-3 ml) podem ser eficientemente descontaminados em frascos de reação
utilizados em sistemas de decomposição assistidos por microondas utilizando o mesmo
método (Barnes et al, 1998). A Figura 2.8 mostra um esquema que permite
descontaminar até 6 copinhos em cada frasco, dependendo do volume do frasco de
reação e dos copinhos

Copinhos

Suporte de TFM

HNO3

Figura 2.8. Descontaminação de copinhos de amostradores com vapor ácido em sistema


fechado assistido por radiação microondas (adaptado de Barnes et al, 1998)

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 41

2.6. ERROS DEVIDOS À DECOMPOSIÇÃO OU DISSOLUÇÃO


INCOMPLETA DAS AMOSTRAS

2.6.1. Erros devidos à decomposição

Quando se decompõe uma amostra, é possível a obtenção de soluções


verdadeiras (observa-se por inspeção visual somente uma fase), que podem ser ou não
compatíveis com os métodos de determinação escolhidos. Em alguns casos, o analito
pode estar na forma de um complexo solúvel que não interage com um reagente
colorimétrico, ou que interfere na sua determinação. Em outros, se o teor de carbono
residual for alto, interferências nos métodos de determinação poderão prejudicar a
exatidão dos resultados analíticos. As interferências podem ser previstas, e devidamente
evitadas, dependendo da amostra orgânica e do método de decomposição escolhido.
As matrizes orgânicas ou seus produtos, quando reagem com ácido nítrico sob
alta pressão (> 25 bar), por exemplo, são dissolvidas completamente para uma grande
variedade de amostras. As substâncias que contém proteínas e gorduras, entretanto,
produzem resíduos orgânicos (Würfels et al, 1987, 1988), os quais não são atacados pelo
ácido nítrico se a temperatura for de apenas 180 °C. Carboidratos puros (açúcar,
celulose, etc) são completamente mineralizados pelo ácido nítrico a 180 °C, e, nestes
casos, baixas concentrações de metais que permanecem nas cinzas podem ser
determinadas sem problemas por voltametria de redissolução anódica, por exemplo, ou
por outras técnicas analíticas.
As soluções livres de carbono são também obtidas quando gorduras que não
contém ácidos graxos insaturados são decompostas. Se, entretanto, as gorduras a serem
determinadas possuirem ácido linolêico ou ácido linolênico-ésteres, o ácido 1,2-
ciclopropanodicarboxílico é formado pela reação com ácido nítrico, sendo estável neste
ácido e permanecendo como resíduo ou carbono residual.
A decomposição de substâncias contendo proteínas (e de todas as substâncias
contendo aminoácidos) produz ácidos benzóicos nitrificados, fomados a partir da
fenilalanina pela digestão com ácido nítrico, os quais são eletroquimicamente ativos.
Como outros produtos da decomposição de aminoácidos permanecem nos digeridos,
além dos ácidos nitrobenzóicos, interferências são igualmente esperadas, à semelhança
do que ocorre na decomposição de amostras contendo ácidos linolêico e
linolênico.(Würfels et al, 1987, 1988)
É importante lembrar que, mesmo aumentando-se o tempo de reação e o volume
de ácido nítrico, não ocorrerá a mineralização desses resíduos orgânicos se a

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42 Erros sistemáticos no preparo de amostras

decomposição for feita a 180-200°C. Entretanto, Würfels et al (1987, 1988) observaram


que, quando as decomposições eram feitas com HNO3 a 300 °C, os teores de carbono
residual diminuiam consideravelmente e deixavam de interferir em medidas por técnicas
eletroanalíticas. Sinais de onda quadrada para Zn, Cd, Pb e Cu obtidos por voltametria de
redissolução anódica, empregando-se uma amostra de alga digerida (NIES - Material
certificado de referência de Sargassum fulvellum Nr. 9) e uma amostra de mexilhão
(NIES - Material certificado de referência de Mytilus edulis Nr. 6), indicaram que não
permaneciam resíduos orgânicos indesejáveis na solução resultante (Figura 2.9). De fato,
quando as digestões eram feitas a 180°C os teores de carbono residual variavam entre 2
e 4 %; após a digestão a 300 °C, o teor de carbono residual foi menor que 0,2%. Antes
das determinações, as soluções foram evaporadas até a secagem para remover o NO2
dissolvido, o qual interferia nas determinações por voltametria inversa (Würfels et al,
1987, 1988).

HNO3 – 180 oC
Corrente líquida (µA)

2,0 2,0 2,0

1,0 1,0 Pb 1,0 Cu


Cd
Zn

0,0 0,0 0,0

HNO3 – 300 oC
Corrente líquida (µA)

4,0 Zn 2,0 4,0

2,0 1,0 2,0


Cu
Cd
Pb
0,0 0,0 0,0

tempo

Figura 2.9. Sinais de zinco, cádmio, chumbo e cobre obtidos por voltametria de
redissolução anódica em amostras digeridas com HNO3 em sistema fechado a 180 e 300
°C (adaptado de Würfels et al., 1988)

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 43

Normalmente, os compostos orgânicos não digeridos não afetam as técnicas de


espectrometria atômica, mesmo quando os teores de carbono residual forem
relativamente elevados (10-30%). Entretanto, o carbono residual elevado pode contribuir
para aumentar a absorção de fundo em espectrometria de absorção atômica com forno
de grafite, quando a etapa de pirólise do forno de grafite não completar a decomposição.
Uma outra fonte de erro, que pode afetar todos os métodos espectrométricos que
empregam nebulização de amostras, é a interferência causada por substâncias orgânicas
com mudanças na viscosidade e na tensão superficial da solução a ser analisada.
Diferenças apreciáveis na nebulização de soluções de referência e das amostras são
fontes de erros sistemáticos. Mais importante, entretanto, são as interferências isobáricas
causadas por íons moleculares contendo carbono em ICP-MS (espectrometria de massa
com plasma acoplado indutivamente). Estas interferências são facilmente constatadas
em espectrômetros de média resolução sem dispositivos ou acessórios para minimizá-las
(Tabela 22).
De qualquer forma, para se oxidar completamente amostras biológicas,
independentemente de sua composição química, recomenda-se a decomposição com
ácido nítrico a 300°C (Würfels, 1988). Nesta temperatura com 2 h de decomposição, as
soluções resultantes praticamente não contém carbono, ou acima de 99,9% do conteúdo
original em carbono da amostra são oxidados. Considerando-se que a vida útil dos
frascos de polímeros diminui consideravelmente nesta temperatura, recomenda-se a
utilização de frascos de quartzo.

Tabela 22. Interferências espectrais que podem ser causadas pela presença de
carbono residual (compilado de Tan e Horlick, 1986 por J.A. Nóbrega)

Massa Íon interferente Analito

(% abundância)

12
24 C12C+ 24
Mg (78,6)
12
26 C14N+ 26
Mg (11,3)
12
28 C16O+ 28
Si (92,2)
12
48 C36Ar+ 48
Ca (0,18) e 48Ti (73,5)
12
52 C40Ar+ 52
Cr (83,8)
13
53 C40Ar+ 53
Cr (9,6)

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44 Erros sistemáticos no preparo de amostras

É oportuno observar, que erros também são esperados, se o teor de ácido


residual for muito variável nas soluções das amostras obtidas por diferentes métodos de
decomposição por via úmida. As situações mais críticas são observadas em ICP-MS,
dependendo do ácido e sua concentração na solução da amostra. Dos ácidos
mencionados na Tabela 23, observa-se que interferências causadas pelo ácido nítrico
não são críticas, formando-se somente o íon ArN+, que irá interferir nos isótopos de
massa 54 dos íons Fe+ e Cr+. Neste caso, elegem-se outros isótopos de Fe e Cr, mais
abundantes e que não são interferidos. Teores residuais de ácidos perclórico ou clorídrico
podem comprometer totalmente as determinações de vanádio e de arsênio.

Tabela 23. Interferências isobáricas em diferentes meios ácidos (compilado de Tan e


Horlick, 1986 por J.A. Nóbrega)

Ácido Ions* m/q Analito(%)

HNO3 N+ 14

ArN+ 54 54
Fe+ (5,8)
54
Cr+ (2,3)

HCl, HClO4 Cl+ 35 e 37


+ 51
ClO 51 V+ (99,7)
53
53 Cr+ (9,6)
ArCl+ 75 75
As+ (100)
77
77 Se+ (7,6)

H2SO4 S+ 32, 33 e 34 -----

SO+ 48 48
Ti+ (74,0)
49
49 Ti+ (5,5)
50
50 Ti+ (5,2)

SO2+ 64 64
Zn+ (48,9)
64
Ni+ (1,2)
65
65 Cu+ (30,9)
66
66 Zn+ (27,8)

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Erros sistemáticos no preparo de amostras 45

2.6.2. Dissolução incompleta do analito


Um dos erros mais sérios durante a dissolução de algumas amostras é aquele
que ocorre com amostras inorgânicas polifásicas, particularmente aquelas com
composição química desconhecida, quando uma ou mais fases individuais resiste aos
agentes escolhidos para a decomposição. No caso de sólidos inorgânicos, a resistência à
dissolução do sólido depende do tipo de solvente utilizado, mas algumas substâncias não
são dissolvidas mesmo em sistemas fechados com ácidos concentrados sob altas
pressões e temperaturas, como nitreto de boro, carbeto de silício, topázio, entre outros.
Um aumento na solubilidade dos materiais está, geralmente, ligada à mudanças na
estrutura cristalina da substância a ser analisada, além de sua área superficial e
porosidade (Sulcek e Povondra, 1989). Neste sentido, é imprescindível que se conheçam
previamente os métodos de decomposição a serem empregados e suas limitações. Em
alguns casos, a dissolução é completa, mas as perdas por volatilização são
consideráveis, como as que ocorrem nas decomposições por fusão.

2.7. OUTROS ERROS

2.7.1. Perdas de analitos por interações com frascos de reação


Outra fonte de erro é que componentes da amostra podem reagir com os
materiais empregados em alguns métodos de decomposição, particularmente as quando
decomposições são feitas em cadinhos. A dimensão das perdas depende da
temperatura, do material do cadinho e da composição da amostra. Se o cadinho for de
porcelana ou sílica, por exemplo, o elemento pode reagir e ficar aderido nas paredes do
cadinho, sendo perdido neste tipo de pré-tratamento. Silicatos, fosfatos e óxidos
combinam-se facilmente com o esmalte dos cadinhos de porcelana, e por esta razão é
preferível trabalhar com cadinhos de platina. Por outro lado, cadinhos de platina podem
formar ligas com metais nobres.

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46 Erros sistemáticos no preparo de amostras

2.7.2. Perdas de analitos e contaminação durante lavagem de amostras

Aplica-se, particularmente, à lavagem de vegetais, como folhas, raízes e frutos,


para remover contaminantes. As lavagens devem ser feitas conforme recomendado no
capítulo 3, mas deve-se tomar o cuidado com possíveis perdas por lixiviação e
contaminações. Neste sentido, recomenda-se ler o artigo de Markert (1995) que faz uma
boa revisão sobre este tema. Quando a lavagem é imprescindível, as perdas por
lixiviação podem ser minimizadas, quanto mais rápida for a lavagem. Em geral, a
lavagem ultra-sônica não é recomendável por potencializar as perdas por lixiviação (vide
capítulo 3.3). Para evitar a contaminação durante a lavagem, deve-se usar água de alta
pureza Tipo I.

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3. TRATAMENTOS PRELIMINARES

3.1. ASPECTOS GERAIS

Em geral, a maioria das amostras requer etapas de pré-tratamento


preliminares. Estas etapas preliminares são procedimentos aplicados às amostras a partir
do estado em que são coletadas e, em alguns casos, antes de serem entregues ao
laboratório analítico. A maioria destas operações envolve procedimentos
predominantemente físicos, como lavagem, secagem, moagem, peneiramento, refrigeração,
agitação mecânica, ou simples polimento, dependo do tipo de amostra.

Lavagem
Em geral a lavagem é restrita a alguns tipos de materiais, particularmente,
partes de vegetais como raízes, folhas e frutos.
Amostras de vegetais destinadas a determinações de macro e
micronutrientes podem necessitar descontaminação, devido à poeira ou resíduos de
pulverização no local da coleta, dependendo dos elementos a serem determinados e das
possibilidades de contaminação. Caso necessário, as amostras devem ser lavadas com
solução detergente neutra (entre 0,1 e 0,3% v/v) e em seguida com água desionizada. Este
procedimento deve ser rápido, para se evitar perda de nutrientes durante a lavagem. Se as
amostras estiverem secas ou murchas, é aconselhável não lavar com água (Nogueira et al.,
1998). Atenção deve ser observada para o risco de perdas de elementos por lixiviação,
recomendando-se a leitura de artigo de Markert (1995).

Secagem
A operação de secagem até massa constante é comum para amostras
sólidas que apresentem água em quantidade variável e em forma não determinada. Em
muitos casos (solos, rochas, minérios, sedimentos) a secagem poderá ser feita a 105° C,
desde que não haja riscos de perdas de elementos por volatilização e, excepcionalmente,
degradação (decomposição) térmica da amostra. Materiais biológicos são, em geral, secos
em estufa com circulação forçada de ar a 60 – 65° C. Alguns minerais, como vários
aluminatos e silicatos, podem necessitar de temperaturas maiores que 1000° C.
Alternativamente, a secagem pode ser feita em dessecador, ou por liofilização, processo no

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50 Tratamentos preliminares

qual a amostra é congelada entre -80 e -60 °C, e depois seca sob vácuo em temperaturas
entre -20 e + 40° C.
No caso particular de vegetais, a secagem é feita em sacos de papel ou de
algodão limpos, em estufa com circulação de ar a 65ºC, por um período de 48 h ou até peso
constante. Para o caso de silagem, a pré-secagem deve ser feita a 45ºC por 72 h. A carga
de cada estufa deve estabelecida de tal modo que a circulação interna de ar não seja
prejudicada. Amostras de fezes que serão analisadas após secagem e moagem devem ser
colocadas em bandejas limpas e secadas a 65ºC durante 48 h ou até peso constante.
Amostras que serão analisadas frescas devem ser colocadas em sacos plásticos, sendo
então retirado o ar e congeladas até a sua manipulação. Em alguns casos, a pré-secagem é
necessária quando a amostra possui alto teor de umidade. Após secagem, a bandeja ou o
saco de papel é retirado da estufa e posto sob condições ambientais do laboratório por pelo
menos 1 h. Esse tempo é necessário para que a umidade da amostra entre em equilíbrio
com a umidade do ambiente e atinja peso constante e para evitar erros de pesagem
(movimentação de ar ascendente sobre a balança). No caso de grãos, o seguinte
procedimento para controle de qualidade da matéria prima é adotado nas indústrias: pré-
secagem a 45ºC por 24 h; em seguida, o grão é triturado ou quebrado e colocado em estufa
por 1 h a 130ºC para determinação da matéria seca. Recomenda-se consultar monografia
especializada editada por Nogueira e Souza, 2005.
É importante recordar que, dependendo dos elementos a serem
determinados, a secagem deverá ser feita em ambientes limpos (ISO Classe 5, Classe 6 ou
Classe 7), conforme comentado no Capítulo 2.

Moagem

A moagem é necessária, porque amostras finamente moídas são mais


homogêneas, podendo ser subdivididas, mantendo a representatividade se cuidadosamente
misturadas. A homogeneidade pode ser avaliada estatisticamente e é feita elemento por
elemento numa determinada massa de amostra. A relação entre homogeneidade e massa
da amostra é abordada no item 4.1, assim como outros métodos de moagem, por tratar da
análise direta de sólidos na forma de material finamente moído.
Por outro lado, a diminuição no tamanho das partículas aumenta a relação
entre área superficial e o volume da solução, facilitando processos de dissolução,
decomposição e de extração.

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Tratamentos preliminares 51

Existem diferentes tipos de moinho que diferem na capacidade (massa de


amostra), rendimento operacional (amostras moídas por unidade de tempo), temperatura, e
contaminação. A escolha do moinho de muitos fatores, como o tamanho desejado das
partículas (distribuição do tamanho das partículas), como o tipo e quantidade de amostra
disponível, capacidade do moinho (que massas podem ser moídas), da velocidade de
moagem, da constituição final do produto moído e do elemento a ser determinado.
A moagem das amostras ocorre basicamente pelo choque entre a amostra e
o material que compõe o moinho, sendo por isso, uma grande fonte de contaminação
[KURFÜRST, 1998]. Desse modo, a moagem pode ser considerada como uma das etapas
mais críticas da seqüência analítica, principalmente quando os analitos se encontrarem em
baixas concentrações, conforme mencionado no capítulo 2. Para excluir a possibilidade de
abrasão ou reduzí-la ao mínimo, a dureza ou resistência abrasiva do material que compõe o
moinho deve ser superior à da amostra. Na Tabela 1 está apresentada uma escala,
proposta por Mohs, que determina a dureza do material.

Tabela 1 – Escala de Mohs

Dureza Mineral

1 Talco

2 Gesso

3 Calcita

4 Fluorita

5 Apatita

6 Feldspato

7 Quartzo

8 Topázio

9 Corindon (rubi, safira, esmeralda oriental)

10 Diamante

Nota: Esta escala foi criada pelo austríaco da cidade de Graz, Friedrich Mohs. O valor de
dureza 1 foi dado ao material menos duro que é o talco, e o valor 10 dado ao diamante que
é a substância mais dura existente na natureza. Esta escala não corresponde à dureza
aboluta de um material. O diamante, por exemplo, tem dureza absoluta 1500 vezes superior
ao talco.

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52 Tratamentos preliminares

De um modo geral, a moagem pode ser classificada como moagem grosseira


e moagem fina que resulta em partículas de aproximadamente 5 mm e 63 µm,
respectivamente, e a moagem extra-fina com partículas < 63 µm [MARKERT, 1995]. Com
relação à caracterização do tamanho das partículas, pode-se usar a seguinte classificação:
gigante (> 300 mm), macro (30-300 mm), grande (10-30 mm), médio (1-3 mm), pequeno
(0,1-3 mm), fino (0.1-0.3 mm), denso (0,03-0,1 mm), microcristalino (1-30 µm),
criptocristalino (0,1-1 µm), cristalino raio-X (< 0,1 µm).
A moagem das amostras pode ser promovida de diversas maneiras, como o
esmagamento entre duas superfícies, fricção contra uma superfície, alteração e fragilização
da estrutura. O tipo de moagem a ser empregado e o equipamento que será utilizado
depende, além do tipo de amostra, do objetivo do analista.
A moagem grosseira (partículas com ca. 5 mm) é comumente empregada
como uma pré-moagem para a maioria das amostras. Dentre os moinhos para essa
finalidade, destacam-se o liquidificador, os processadores e o moinho de facas. No caso da
moagem fina pode-se empregar o moinho de disco e o almofariz, enquanto que para a
moagem extra-fina pode-se utilizar o moinho de bolas, o moinho vibracional, o moinho de
jato de ar e o moinho criogênico.
A moagem em moinhos mecânicos, como o liquidificador e o processador, o
almofariz e pistilo, os moinhos de facas, disco e bolas, ocorre devido ao atrito entre o
moinho e a amostra, deve ser evitado se houver risco de perdas de elemenos voláteis ou de
degradação de componentes da amostra, uma vez que estes tipos de moagem promovem
aquecimento do sistema.
O grande diferencial do moinho de jato de ar é que a moagem é promovida
pelo choque entre as partículas da própria amostra, diferentemente de outros moinhos, nos
quais a moagem ocorre pelo choque entre amostra e moinho. Como resultado observa-se
uma diminuição da contaminação. Fajgelj e Zeisler (1998) observaram que esse moinho é o
mais apropriado para moer amostras biológicas e ambientais. Eles chegaram a essa
conclusão depois de avaliarem a distribuição do tamanho de partículas de diversos materiais
certificados pela IAEA (International Atomic Energy Agency, Viena- Áustria) e NIST. Os
materiais moídos com esse tipo de moinho foram os que apresentaram as menores
distribuições de partículas, sendo os mais adequados para microanálises.
Em artigo de revisão sobre síntese de ligas por processos de moagem,
Suryanarayana (2001) apresentou os tipos de moinho mais freqüentemente usados e as
principais variáveis experimentais que afetam a moagem, tais como configuração do moinho
e recipiente de moagem, velocidade e tempo de moagem, massa de amostra, atmosfera e
temperatura de moagem. A discussão envolve a síntese de ligas metálicas na área de

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Tratamentos preliminares 53

engenharia de materiais, porém muitos aspectos abordados são gerais e válidos para
aplicações analíticas.

Neste capítulo, será feita uma abordagem mais dealhada somente a moagem
criogênica, por se tratar de um método de cominuição moderno, de custo razoavelmente
acessível, com aplicação para diferentes materiais, mas pouco conhecido, e,
conseqüentemente, pouco utilizado nos laboratórios.

Separação de componentes de amostras sólidas.


A maior parte deste texto é dedicada aos métodos de pré-tratamento que
transformam amostras sólidas em soluções verdadeiras. Entretanto, existem situações em
que não é necessário dissolver ou decompor a amostra completamente. Em alguns casos, é
possível dissolver quantitativamente alguns analitos de interesse, ou extrair somente um ou
alguns componentes de interesse, deixando o resto da amostra (fração insolúvel) no estado
sólido, como será abordado no Capítulo 3.2, dedicado às extrações assistidas por ultra-som.
Outros exemplos são apresentados a seguir:
• Extração de espécies inorgânicas de amostras sólidas inorgânicas.
Em geral tem larga aplicação em análises de solos para fins de fertilidade. As
amostras podem ser tratadas com solução de ácido diluido (0,05 mol l-1 HNO3) ou de
mistura de ácidos diluídos (Mehlich 1- 0,0125 mol l-1H2SO4 + 0,025 mol l-1HCl ),
solução-tampão (1,0 mol l-1 acetato de amônio, pH 7), solução de um agente
complexante (0,005 mol l-1 DTPA + CaCl2 + 0,1 mol l-1 Trietanolamina em pH 7,3),
solução 1,0 mol l-1 KCl, dependendo da espécie química ou grupo de elementos a
serem extraídos. Este tópico é muito especializado e recomenda-se o livro editado
por B. van Raij, J. C. de Andrade, H. Cantarella, J.A. Quaggio, Análise química para
avaliação da fertilidade de solos tropicais, Campinas, Instituto Agronômico, 285p.,
2001.

• Lixiviação de compostos de elementos metálicos solúveis presentes em sólidos


inorgânicos. É muito recomendada para ensaios de lixiviação em resíduos sólidos.
Utiliza-se água ou solução de ácido diluido. A ABNT (Associação Brasileira de
Normas Técnicas) possui normas específicas (NBR 10004, 10005 e 10006) para
ensaios de lixiviação e solubilização. A ABNT-NBR 10005, por exemplo, refere-se a
ensaio de lixiviação com solução de 0,5 mol l-1 acido acético. O ensaio de
solubilização descrito na ABNT-NBR10006 é feito com H2O.

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54 Tratamentos preliminares

• Extração com solventes de compostos orgânicos de amostras sólidas. Muito utilizada


em separações de compostos poliaromáticos em amostras de solos e sedimentos.
Recomenda-se consultar literatura especializada editada por SOMENATH MITRA,
Sample Preparation Techniques in Analytical Chemistry, Hoboken, Wiley-
Interscience, 458 p, 2003.

• Vaporização, sublimação, destilação. Em alguns casos, é possível separar o analito


de uma fase sólida, aquecendo-se a amostra e analisando-se diretamente a espécie
volátil ou coletando-se a fase volátil em um suporte sólido ou em uma fase líquida.

Filtração.
Muitas técnicas analíticas requerem a necessária separação de partículas em
suspensão como tratamento preliminar. Em análise de águas, por exemplo, recomenda-se
uma filtração através de filtro de membrana de acetato ou de nitrato de celulose com
porosidade de 0,45 µm ou de 0,20 µm. A fração que passa pelo filtro é denominada solúvel.
A utilização de um pré-filtro de fibra de vidro com porosidade de 1 a 5 µm é recomendada
em amostras com elevado teor de sólidos em suspensão. O resíduo que permanece no filtro
pode ser lixiviado ou decomposto, e subsequentemente analisado. É importante lembrar que
materiais em suspensão podem entupir irreversivelmente nebulizadores pneumáticos
utilizados em espectrometria de emissão atômica com plasma, e interferir em medidas feitas
por espectrometria de absorção molecular e turbidimetria, por exemplo, o que pode ser
evitado com filtração apropriada.

Referências bibliográficas
FAJGELJ, A.; ZEISLER, R. Particle size determination of some IAEA and NIST
environmental and biological reference materials, Fresenius J. Anal. Chem., v.360, p.442-
445, 1998.
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NOGUEIRA, A. R. ; SOUZA, G.B. (ed.). Manual de Laboratórios: Solo, Água, Nutrição
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SURYANARAYANA, C. Mechanical alloying and milling. Progress in Materials Science,
v.46, p.1-184, 2001.

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Moagem criogênica 55

3.2. MOAGEM CRIOGÊNICA PARA O PREPARO DE AMOSTRAS EM


TÉCNICAS ANALÍTICAS

Dário Santos Júnior


Andréa Cristina Tomazelli
Francisco José Krug
Joaquim A. Nóbrega

Na determinação de metais em baixas concentrações a maioria das técnicas


analíticas utilizadas requer que a amostra esteja na forma de uma solução 1. Entre as
vantagens da dissolução da amostra estão a facilidade do uso de soluções aquosas para
calibração, facilidade para diluições e possibilidade de separações de constituintes com ou
sem pré-concentração. Alternativamente, algumas técnicas, como a espectrometria de
absorção atômica com atomização eletrotérmica em forno de grafite (GFAAS) ou com
chama (FAAS), a espectrometria de emissão ótica com plasma induzido (ICP-OES) e a
espectrometria de massas com plasma induzido (ICP-MS) permitem a determinação de
metais por meio da análise direta de sólidos e/ou da amostragem de suspensões. Os
benefícios da análise de sólidos incluem: diminuição do tempo de preparo das amostras,
menor possibilidade de contaminação, menor possibilidade de perda do analito devido à
retenção por resíduos insolúveis ou volatilização prematura, menor uso de reagentes, menor
produção de resíduos e diminuição dos custos analíticos.
Neste contexto, exceto nos casos de equipamentos com amostradores de
ablação por laser, a introdução da amostra na forma sólida ainda requer um mínimo
tratamento. Na amostragem direta de sólidos em atomizadores ou vaporizadores
eletrotérmicos, assim como na amostragem de suspensões, esse tratamento pode consistir
apenas em uma etapa de moagem. Contudo, devido à pequena massa de amostra utilizada
nesses métodos, geralmente entre 10 e 500 µg, é fundamental que o material moído
apresente distribuição homogênea de tamanho de partículas. Essa condição pode ser
crítica, principalmente, na análise de suspensões em ICP-OES 2, na qual o tamanho de
partículas requerido é, freqüentemente, menor que 10 µm. Por outro lado, a análise de
suspensões usando-se atomizadores ou vaporizadores eletrotérmicos é mais tolerante ao
tamanho de partículas. Nesse caso, usualmente recomendam-se partículas menores que
3-7
100 µm , mas o uso de partículas de até 500 µm, em algumas situações, pode ser
aceitável 8-9.

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56 Moagem criogênica

Infelizmente, a maioria dos moinhos convencionais não produz, em poucos


minutos, distribuições homogêneas de partículas menores que 100 µm, principalmente para
amostras de alta dureza ou com altos teores de fibras e gorduras 10.
Visando diminuir os problemas associados à homogeneização e ao tamanho das
11
partículas, Iyengar e Kasperek desenvolveram a técnica de moagem criogênica para
homogeneização de amostras biológicas. O princípio da técnica consiste em promover o
congelamento da amostra para aumentar a dureza dos materiais provocando falhas na
estrutura. Dessa forma, o material se torna quebradiço, sendo necessária uma menor
energia para sua cominuição. No procedimento investigado, a amostra foi colocada em um
moinho de bolas, no qual o recipiente da amostra era constituído de PTFE e as bolas
constituídas de metal e revestidas com PTFE. O recipiente da amostra foi resfriado em
nitrogênio líquido (N2) por alguns minutos e agitado por 1 min a 3000 ciclos por minuto. O
procedimento foi aplicado para moagem de fígado bovino visando à determinação de Ag, Cl,
Co, Fe, K, Mn, Na, P, Rb e Zn empregando-se análise por ativação neutrônica instrumental.
Após o trabalho de Iyengar e Kasperek, vários autores demonstraram a eficiência da
moagem criogênica para homogeneização de diversos materiais.

Aplicações da moagem criogênica no preparo de amostras

De Boer e Maessen 12 aplicaram a moagem criogênica para homogeneização de


placenta humana. Os autores compararam a eficiência na redução do tamanho das
partículas utilizando-se nitrogênio líquido (-196ºC) ou gelo seco em acetona (-78ºC) para
congelamento das amostras. Demonstrou-se que a maior percentagem de partículas
menores que 100 µm foi obtida quando o conjunto de moagem foi refrigerado sob menor
temperatura com nitrogênio líquido. Através de experimentos com traçadores radiativos os
autores observaram melhores homogeneizações utilizando nitrogênio líquido e, além disso,
concluíram que alíquotas de 10 mg poderiam ser utilizadas representativamente a partir de
10 g da amostra.
Zeisler et al. 13
investigaram essa técnica utilizando nitrogênio líquido para
homogeneizar amostras de fígado bovino, gordura de porco e tecido muscular fibroso. No
procedimento investigado foram avaliados um moinho criogênico de bolas e um moinho
criogênico de disco. Observou-se que o moinho de disco foi mais eficiente para produzir
partículas menores. Após 4 min de moagem, as amostras congeladas foram peneiradas em
meio de nitrogênio líquido para prevenir a aglomeração das partículas. As amostras de
gordura de porco apresentaram maior dificuldade de homogeneização, sendo que de 10 a
15% do material moído apresentou partículas maiores que 460 µm. Para as amostras de
tecido muscular fibroso, após 8 min de homogeneização, observou-se que a maioria das

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Moagem criogênica 57

partículas foram inferiores a 460 µm. Os autores atestaram a homogeneidade para 26


elementos em alíquotas de 250 mg utilizando-se a técnica de análise por ativação
neutrônica instrumental para os dois tipos de moinhos utilizados.
14
May e Kaiser avaliaram o procedimento de moagem criogênica para
homogeneização de amostras de peixes, utilizando um moinho criogênico modelo 6700
Freezer Mill (Spex, Metuchen, NJ, EUA). Nesse moinho as amostras são moídas por
impacto em um conjunto de moagem, constituído de um tubo de policarbonato e de peças
magnéticas de aço inoxidável (440C), o qual é imerso em nitrogênio líquido. Uma vez que as
amostras entram em contato com as peças de aço inoxidável, investigou-se a possibilidade
de contaminação de 30 elementos em amostras de alta dureza (quartzo) e amostras de
tecido de peixe. Após 3 min de moagem os autores observaram contaminações de 1,5 µg/g
Cr, 15 µg/g Fe, 0,1 µg/g Mo e 1,0 µg/g Ni. Os autores concluíram que, comparativamente
aos procedimentos freqüentemente utilizados para homogeneização de materiais biológicos,
a moagem criogênica produziu menores tamanhos de partículas (< 100 µm) com melhor
homogeneidade.
Mierzwa et al. 5 aplicaram a moagem criogênica no preparo de amostras visando
à determinação de Ba, Cu, Fe, Pb e Zn em folhas de chá por GFAAS e ICP-OES. As
amostras foram moídas durante 20 min em um moinho com um acessório para resfriamento
com nitrogênio líquido. Os autores verificaram que a refrigeração melhorou a eficiência da
moagem e que o tamanho médio das partículas, examinado por microscopia eletrônica de
varredura (SEM), foi inferior a 60 µm.
7
Engelsen e Wibetoe determinaram Al, Cu, Li e Mn em sementes de pinheiro e
materiais de referência certificados (CRMs) de plantas por GFAAS com amostragem de
suspensões. A moagem criogênica foi utilizada para evitar problemas de aglomeração das
partículas que ocorria durante a moagem das sementes em temperatura ambiente. Os
autores observaram que, para moagem em temperatura ambiente, a distribuição do
tamanho das partículas foi dispersa até 170 µm, tendo sua maior fração situada até 100 µm.
Para moagem criogênica a distribuição do tamanho das partículas foi mais uniforme, com a
maioria das partículas menor que 50 µm.
15
Gouveia et al. utilizaram a moagem criogênica para homogeneização de
cereais matinais visando à determinação de Fe, Mn e Zn por FAAS após digestão assistida
por microondas. A moagem consistiu apenas de 1 etapa de pré-congelamento da amostra
por 2 min e uma etapa de moagem por 2 min. As medidas dos tamanhos das partículas
foram feitas por SEM e apresentaram valores médios de aproximadamente 30 µm. Os
autores também observaram menores coeficientes de variação na determinação dos
analitos em amostras moídas criogenicamente em comparação com amostras moídas em
moinhos de facas.

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58 Moagem criogênica

16
Kamogawa et al. determinaram Cd, Cu e Pb em amostras de cabelo por
GFAAS empregando análises de suspensões. As amostras foram moídas criogenicamente
durante 13 min, obtendo-se distribuições homogêneas, sendo 90% das partículas menores
que 95 µm.
Santos Jr et al. 10 avaliaram a aplicação da moagem criogênica para amostras de
alimentos com diferentes teores de fibras e gordura visando ao preparo de suspensões para
a determinação de Cd e Pb por GFAAS. As medidas dos tamanhos das partículas foram
feitas por difração de laser e apresentaram distribuições homogêneas com partículas
geralmente menores que 60 µm após 5 min de pré-congelamento e 2 min de moagem. No
equipamento utilizado (Spex, Metuchen, NJ, EUA, modelo 6800) é possível a moagem de
até 4 amostras simultaneamente. Os autores demonstraram que a homogeneidade das
amostras após a moagem criogênica possibilitou a determinação de Cd e Pb em massas de
5 a 20 mg, preparando-se as suspensões diretamente nos copos de 1,5 mL do amostrador
automático. Um aspecto relevante observado foi a possibilidade de moagem de amostras
com alto teor de óleos. Para amostras de castanha do Pará, aplicando-se um período de
pré-congelamento de 15 min e 3 ciclos de moagem de 2 min, observou-se a dispersão de
partículas no óleo e a separação entre as partículas e o óleo após um período de
decantação. Nesse ponto, é importante ressaltar que essa característica da moagem
criogênica poderia ser implementada como uma alternativa para os procedimentos
convencionais de trituração e/ou maceração empregados na extração de pequenas massas
de óleos vegetais para análise química, uma vez que após a moagem ocorre a liberação
direta do óleo (e.g. castanha do Pará e azeitona) ou facilitam-se os procedimentos de
extração por solvente, sem que ocorra a degradação de compostos termolábeis.
Outras aplicações da moagem criogênica têm sido relatadas na literatura
17-22
visando à homogeneização de amostras biológicas , à diminuição de perdas de
componentes com alta volatilidade ou de fácil oxidação quando moídas em temperaturas
23-29 30-34
ambiente (i.e. condimentos, fármacos, óleo e gorduras) , à produção de CRMs e ao
35 36,37
preparo de amostras para extração de DNA em ossos e dentes humanos .
Particularmente para a produção de CRM´s, a moagem criogênica é atrativa pois possibilita
a obtenção de materiais mais finos e, consequentemente, que viabilizarão uma
representatividade adequada mesmo para massas reduzidas do material.
Para a maioria dos constituintes de interesse a moagem à temperatura do
nitrogênio líquido é pouco afetada por contaminação, principalmente se as peças do
equipamento forem feitas de PTFE ou titânio. Além de a moagem criogênica ser rápida, uma
das vantagens dessa técnica, dependendo do material processado, está na geração de
partículas com tamanhos inferiores a 150 µm (Tabela 3.1).

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Moagem criogênica 59

Tabela 3.1 – Amostras moídas por moagem criogênica.

Material Massa (g) Tempo* (min) Tamanho (µm) Ref.

Sementes de pinheiro - 10 < 50 7


Vegetais e tecido animal 2 2 < 60 10
Placenta humana 10 40 < 250 12
Tecido de peixe 1-2 3 < 100 14
Cereais matinais 1 2 30 15
Cabelo 1-2 8 < 95 16
Termoplásticos (pellets) 3 3 74 – 149 38
Escama de peixe 1,5 4 < 74 38
Pelo animal 0,5 2 < 74 38
Vértebra humana (7 mm) 2 4 < 74 38
Pele de rato (natural) 2 3 < 74 38
Nylon (3 mm) 2 4 74 – 149 38
Polietileno 1 2 < 74 38
Polipropileno 1,5 6 < 74 – 149 38
Borracha 0,5 4 149 – 297 38
Madeira 1,3 4 < 149 38
Dente humano 2 2 < 74 38
Dente humano - 6 < 150 39
Fígado bovino e tecido 150 4 < 460 13
muscular fibroso

* Os valores apresentados referem-se apenas à etapa de moagem criogênica.

Embora as vantagens apresentadas acima, um problema associado à


mecanização da moagem criogênica visando aplicações analíticas é o estresse mecânico
sofrido pelas peças móveis do moinho sob baixas temperaturas. Esse estresse pode levar
ao desgaste e, até mesmo, ao cisalhamento do material empregado na construção do
moinho. Uma alternativa atraente para esse problema foi implementada nos moinhos que
utilizam a moagem por impacto com barras magnéticas (Figura 3.1). Nesses moinhos o
conjunto de moagem é constituído de um tubo de policarbonato, uma barra magnética e
duas tampas de aço inoxidável. A amostra é introduzida junto com a barra magnética no
tubo de policarbonato, o qual é vedado nas extremidades com as tampas de aço. O conjunto
de moagem é imerso em nitrogênio líquido durante todo o programa de moagem, o que
diminui a possibilidade de perda de componentes voláteis e/ou oxidáveis da amostra. Após
o período de pré-congelamento selecionado, um campo magnético alternado é aplicado

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60 Moagem criogênica

fazendo com que a barra magnética atinja as tampas do tubo em alta velocidade. A
cominuição é promovida pelo impacto da barra magnética com as amostras e com as
tampas do conjunto de moagem. Assim, apenas as barras magnéticas estão em movimento
no moinho, sem o auxílio de braços ou pistões mecânicos, evitando-se o desgaste ou
cisalhamento do material empregado, principalmente em juntas ou conexões. Para amostras
de maior dureza, o tubo de policarbonato pode ser substituído por um tubo de aço
inoxidável.

Figura 3.1 - Conjunto de moagem utilizado nos moinhos de moagem por impacto com
barras magnéticas.

Entre as vantagens desses equipamentos está a possibilidade de moer


rapidamente amostras de maior dureza (i.e. ossos, quartzo, dentes, polímeros etc.), assim
como de materiais de difícil homogeneização (fibras, borrachas, tecidos animais com alto
teor de umidade e gordura etc.), e a diminuição dos riscos de contaminação entre as
amostras, uma vez que cada amostra é moída em um conjunto individual de moagem.
Uma alternativa ao procedimento descrito acima é o pré-congelamento da
amostra em nitrogênio líquido antes da moagem. Neste caso, alguns fabricantes
recomendam a utilização de frascos de moagem com bolas constituídas de PTFE, aço
inoxidável ou carbeto de tungstênio. A principal desvantagem dessa estratégia é o gradual
aquecimento da amostra durante a etapa de moagem, uma vez que a mesma não é mantida
sob nitrogênio líquido.
As Figuras 3.2, 3.3 e 3.4 mostram a distribuição do tamanho de partículas para
amostras de siri, mexilhão e dentes humanos, respectivamente, congeladas por
5 min e moídas por apenas 2 min em moinhos criogênicos que utilizam a moagem por
impacto com barras magnéticas. As medidas do tamanho das partículas foram feitas em
medidores de tamanho de partículas por difração de laser. Observa-se que 90 % das

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Moagem criogênica 61

partículas possuem diâmetro inferior a 64 µm para siri, 76 µm para mexilhão e 137 µm para
dentes. A moagem destes materiais por períodos mais extensos não reduziu
significativamente o tamanho das partículas.

4 100

Volume acumulado (%)


80
3
Volume (%)

60
2
40

1
20

0 0
0,0 0,1 0,2 0,6 1,5 3,9 9,8 25,0 63,4 161,2
Diâmetro das partículas (µm)

Figura 3.2 - Distribuição do tamanho das partículas de carne de siri liofilizada, pré-
congelada por 5 min e moída em moinho criogênico de impacto por 2 min.

4 100

Volume acumulado (%)


80
3
Volume (%)

60
2
40

1
20

0 0
0 2 3 5 8 13 21 34 56 92 151 247 404
Diâmetro das partículas (µm)

Figura 3.3 - Distribuição do tamanho das partículas de mexilhão liofilizado, pré-congelado


por 5 min e moído em moinho criogênico de impacto por 2 min.

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62 Moagem criogênica

4 100

Volume acumulado (%)


80
3
Volume (%)

60
2
40

1
20

0 0
0 2 3 5 8 13 21 34 56 92 151 247 404
Diâmetro das partículas (µm)

Figura 3.4 - Distribuição do tamanho das partículas de dente humano pré-congelado por 5
min e moído em moinho criogênico de impacto por 2 min.

14
Assim como observado por May e Kaiser , deve-se ressaltar que como as
amostras ficam em contato com as peças metálicas do conjunto de moagem, há o risco de
contaminação por Cr, Fe, Mo e Ni. Assim, no preparo de amostras visando à determinação
desses metais, esses equipamentos somente devem ser usados se a concentração
endógena dos elementos for substancialmente maior que a contribuição da contaminação.
Em trabalhos recentes, Araújo et al. , Gouveia et al.
22 15
e Carrilho et al. 40
demonstraram a
possibilidade de utilizar moinhos de impacto com barras magnéticas para moagem de
diferentes amostras sem contaminação perceptível de ferro.

Conclusões

De acordo com a complexidade das amostras já investigadas e com os


resultados já obtidos, a moagem criogênica pode ser recomendada para diminuir o tempo
gasto no preparo de amostras em procedimentos analíticos. Além disso, o tamanho reduzido
de partículas aumenta a área de ataque dos reagentes, facilitando fortemente os
procedimentos de digestão de amostras ou os procedimentos de extração. A
homogeneidade do material moído permite o uso de técnicas micro-analíticas como a
análise por ativação neutrônica ou a espectrometria de absorção atômica com amostragem
direta de sólidos em forno de grafite. Além disso, com partículas diminutas a análise direta
de suspensões por espectrometria de absorção atômica com chama (FAAS) pode ser
implementada em alguns casos.

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Moagem criogênica 63

Até o presente momento, na maioria dos procedimentos de moagem criogênica


descritos na literatura, não se alcançaram distribuições homogêneas com tamanhos de
partículas menores que 10 µm. Esse pré-requisito, como já mencionado, é fundamental para
introdução e o transporte de suspensões, assim como para atomização do analito em ICP-
OES. Dessa forma, apesar das vantagens aqui descritas, a investigação de novos
equipamentos com diferentes mecanismos de moagem criogênica ainda é necessária para
uma melhor cominuição.

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Extrações assistidas por ultra-som 67

3.3. EXTRAÇÕES ASSISTIDAS POR ULTRA-SOM

Dário Santos Júnior


Francisco José Krug
Mauro Korn

Nos procedimentos de amostragem de suspensões com agitação ultra-sônica é


comum que uma fração significativa do analito seja extraída para a fase líquida, melhorando,
em alguns casos, a precisão das medidas. Com base nessas observações muitos autores
propuseram estudos mais detalhados sobre os efeitos do ultra-som no preparo de
suspensões e, neste sentido, vários trabalhos foram propostos utilizando a extração dos
analitos assistida por ultra-som e a amostragem apenas do sobrenadante 1. Comparando-se
com a amostragem de suspensões, a extração do analito para a fase líquida tem sido
ressaltada na literatura com as seguintes vantagens:

(i) o uso de agentes surfactantes pode ser dispensado, uma vez que não é
necessário manter uma suspensão homogênea. Neste aspecto, os erros devidos
às diferentes taxas de sedimentação são eliminados;
(ii) a massa representativa é proporcional à massa utilizada para o preparo das
suspensões (e.g. 50 – 500 mg). Conseqüentemente, melhor exatidão dos
resultados é esperada quando comparada à análise de suspensões ou
amostragem direta de sólidos de materiais pouco homogêneos;
(iii) os erros volumétricos devido à falta de homogeneidade no tamanho das
partículas são evitados;
(iv) as diluições podem ser implementadas pelo uso do próprio autoamostrador;
(v) menor efeito de matriz, melhor ação dos modificadores químicos e maior
possibilidade de calibração utilizando-se padrões aquosos em GFAAS;
(vi) baixo consumo de ácidos (e.g. soluções de ácido nítrico e/ou clorídrico diluídas
< 3 mol/l);
(vii) maior tolerância ao tamanho de partículas, comparando-se com a amostragem
de suspensões e a introdução da amostra por nebulização (e.g. ICP-OES, ICP-
MS). Partículas menores que 300 µm já foram utilizadas, combinando-se
diferentes soluções extratoras e tempo de extração;
(viii) o princípio do frasco único, onde a amostra é preparada diretamente nos frascos
68 Extrações assistidas por ultra-som

do autoamostrador ou em tubos de centrífuga volumétricos, pode ser


implementado minimizando os riscos de contaminação;
(ix) maior segurança quando comparada aos procedimentos de decomposição da
amostra via úmida a quente (> 100 ºC), uma vez que, em geral, os métodos de
extração ultra-sônica são conduzidos à temperatura ambiente.

Entretanto, a literatura também ressalta algumas características dos


procedimentos de extração assistidos por ultra-som como limitações, entre elas:

(i) a massa de amostra é geralmente menor que aquela utilizada nos


procedimentos de digestão em sistemas abertos. Neste aspecto, deve-se
destacar que não existe uma limitação bem definida e que, para a maioria dos
casos, existe um compromisso entre tamanho do frasco utilizado para extração,
composição de reagentes e tempo de sonicação;
(ii) o tamanho de partículas pode ser crítico e deve ser bem avaliado. Novamente,
deve-se ressaltar que não existe na literatura uma definição do melhor tamanho
das partículas. O melhor tamanho deve ser obtido estatisticamente, assumindo-
se, também, um compromisso com outros parâmetros, como o tempo de
sonicação, composição e concentração da solução extratora;
(iii) a robustez dos procedimentos de extração utilizando-se banhos ultra-sônicos é
questionável, uma vez que a distribuição da intensidade ultra-sônica no interior
da cavidade do banho não é homogênea e pode variar de acordo com o volume
de água na cavidade do banho, com o número de frascos utilizados dentro do
banho e posição do transdutor ultra-sônico;
(iv) embora o tempo de extração seja baixo (i.e. geralmente menor que
20 min), a freqüência analítica é drasticamente limitada ao número de frascos
que podem ser utilizados dentro da cavidade do banho sem que haja prejuízo
para a distribuição da energia ultra-sônica.

Frente às vantagens e limitações inerentes a qualquer procedimento analítico, é


possível inicialmente inferir que a extração ultra-sônica apresenta potencialidades como
uma alternativa aos procedimentos convencionais utilizados no preparo de amostras em
espectrometria atômica.
Extrações assistidas por ultra-som 69

Fundamentos e aplicações da extração ultra-sônica

Nos últimos anos observou-se um crescente desenvolvimento de métodos de


preparo de amostras assistidos por ultra-som. Em pesquisa realizada no (Institute for
Scientific Information, Webofscience.com), combinando-se as palavras “do inglês:
ultrasound, ultrasonic, sonication, extraction e leaching”, foi possível observar o crescimento
do número de trabalhos que utilizaram a extração sólido-líquido assistida por ultra-som
como uma alternativa ao preparo de amostras em espectrometria atômica. Nesta pesquisa,
não foram considerados os trabalhos envolvendo a extração de metais em óleos vegetais e
óleos lubrificantes, a extração de analitos adsorvidos em colunas de pré-concentração em
análises de águas, e trabalhos que reportaram a extração parcial do analito para fase líquida
durante a agitação ultra-sônica, mas cujo objetivo principal foi a amostragem de
suspensões. A Figura 3.4 apresenta o perfil do desenvolvimento da extração assistida por
ultra-som em espectrometria atômica entre os anos de 1996 e 2005. Ressalte-se que o
número de trabalhos apresentados para cada técnica não é acumulativo em relação ao total
de trabalhos, uma vez que, em alguns casos, foram utilizadas duas ou mais técnicas de
espectrometria atômica no mesmo trabalho. Neste caso, apenas a linha sobre as colunas
representa o total de trabalhos em cada ano. Observa-se que o número de trabalhos
envolvendo a extração ultra-sônica ainda é incipiente, principalmente, se for comparado ao
número de métodos de preparo de amostras assistidos por microondas propostos na
literatura 2.
A Figura 3.5 apresenta o perfil da participação de cada analito em relação ao
total de métodos apresentados na literatura. O número de trabalhos apresentado para os
analitos não é acumulativo em relação ao total de trabalhos, uma vez que alguns métodos
foram avaliados para extração multielementar. Como pode ser observado a extração
assistida por ultra-som de alguns elementos como cádmio, chumbo, cobre e manganês foi
avaliada em um número significativo de trabalhos. No entanto, as informações sobre a
extração de elementos como antimônio, bário, bismuto, molibdênio, entre outros, ainda é
incipiente.
Embora a aplicação do ultra-som visando à indução de reações químicas
(i.e. sonoquímica) pareça uma tarefa simples, são necessários conhecimentos básicos de
alguns fundamentos da aplicação dessa forma de energia, bem como dos principais fatores
físicos que podem influenciar no sucesso de um método sonoquímico. Aspectos relevantes
sobre a teoria da aplicação do ultra-som com ênfase extensiva nos efeitos químicos e
físicos, assim como nos cálculos matemáticos pertinentes aos fenômenos de cavitação
acústica são abordados em diferentes publicações 3-8.
70 Extrações assistidas por ultra-som

35
FAES BIFF-AAS AFS FAAS CVAAS
HGAAS GFAAS ICP-OES ICP-MS TXRF
30
Número de publicações

25

20

15

10

0
1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005

Ano

Figura 3.4 - Desenvolvimento da extração assistida por ultra-som em espectrometria atômica entre 1995 e 2005
© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Extrações assistidas por ultra-som 71

60
Cu
Pb

Cd Zn
50

Fe
Número de citações

40 Cr
Mn
Ni
30 As
Mg
Ca
20
Al Se
Co Hg K V
10 Ba Na Sn Sr Ti
Sb
Ag Mo
B Bi Cs Ge In Li P Rb Sc TbTe Zr
0

Analito

Figura 3.5 – Número de citações de cada analito nos trabalhos apresentados na literatura entre 1995 e 2005.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
72 Extrações assistidas por ultra-som

O fundamento da aplicação do ultra-som em procedimentos de extração é


baseado no conceito de se empregar uma energia externa que aumente a ação química de
um solvente sobre o soluto. Assim, a aplicação de ondas mecânicas, como as ultra-sônicas,
que se propagam em meios materiais, deve favorecer a interação do solvente sobre uma
amostra sólida pela renovação das moléculas do solvente na interface líquido/sólido. Para o
tratamento de amostras, a faixa de freqüência ordinária das ondas ultra-sônicas está entre
20 e 100 kHz. Esta região, denominada de faixa de baixa freqüência e alta potência,
proporciona a formação de pequenas bolhas de cavitação quando a onda atravessa um
meio líquido. De fato, a faixa de freqüência disponível para sonoquímica foi estendida até
2 MHz com o desenvolvimento de equipamentos de alta potência capazes de gerar
cavitações nessas freqüências 9. As bolhas de cavitação se desenvolvem durante as fases
de compressão e rarefação da onda ultra-sônica. Durante a fase de rarefação, uma fração
dos gases presentes no líquido é absorvida pela bolha de cavitação, e nos ciclos
consecutivos de compressão e rarefação, a bolha tem seu diâmetro modificado até atingir
um diâmetro crítico, acima do qual ocorre sua implosão. Este tamanho crítico é determinado
pela freqüência do ultra-som (e.g. ≈ 170 µm a 20 kHz) 10, 11. Esse fenômeno leva à formação
de uma variedade de espécies no meio exposto, pela combinação dos radicais livres
formados pela energia oriunda da implosão 12, 13, 14. De acordo com Suslick et al.15, o colapso
das microbolhas formadas pelo efeito do ultra-som resulta na produção de temperaturas
instantâneas de aproximadamente 5200 K na fase gasosa e 1900 K na interface com o meio
líquido, com taxa de aquecimento e resfriamento de aproximadamente 10 10 K s -1 e pressões
instantâneas localizadas na interface entre a bolha e o solvente no momento do colapso de
até 1000 atm.
Os fenômenos de cavitação acústica em sistemas sob sonicação proporcionam
condições de temperatura e pressão normalmente inusitadas na química. Entretanto, deve-
se ressaltar que alguns fatores podem afetar diretamente a formação, crescimento e colapso
das bolhas de cavitação, entre eles a freqüência e intensidade do ultra-som, características
do solvente, pressão e temperatura do meio, viscosidade, pressão de vapor do líquido,
presença de gases e presença de material sólido no meio. Deve-se destacar, também, que
não existe uma relação simples que correlacione esses fatores de maneira generalizada. A
influência de cada um deles sobre a eficiência de um processo sonoquímico depende do
tipo de aplicação. Entre as características mais importantes para a escolha do processador
ultra-sônico a ser usado na sonoquímica destaca-se a intensidade de energia acústica (W
cm -2), a qual é proporcional ao quadrado da amplitude de vibração. Assim, especial atenção
deve ser dada à potência do processador ultra-sônico 9.
Entre os processadores ultra-sônicos comercialmente disponíveis, os mais
utilizados são o banho ultra-sônico e a sonda ultra-sônica. De acordo com Mason e

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Extrações assistidas por ultra-som 73

9
Lorimer nem todos os banhos ultra-sônicos têm intensidade suficiente para serem usados
em processos sonoquímico. Os banhos ultra-sônicos de baixa intensidade com modernos
transdutores piezelétricos usam, em geral, intensidades entre 1 e 2 W cm -2. De acordo com
os autores, a determinação da intensidade ultra-sônica em um determinado ponto da
solução não é uma tarefa fácil e, geralmente, é apenas realizada por métodos
calorimétricos. Os autores sugerem que um teste simples pode ser realizado, utilizando-se
uma folha de alumínio no interior do banho ultra-sônico com água e detergente durante 30 s.
Em um banho apropriado para o uso em sonoquímica a folha de alumínio deve ser
perfurada extensivamente pela implosão das bolhas de cavitação durante a sonicação. A
região de maior perfuração também serve como um indicativo da região de maior
intensidade ultra-sônica, na qual devem ser posicionados os frascos de reação.
De acordo com Capelo et al.1, os resultados mais contraditórios reportados na
literatura acerca do uso de ultra-som no preparo de amostras são relacionados ao uso de
banhos ultra-sônicos. Geralmente, a potência desses equipamentos e a dissipação da
energia ultra-sônica dependem estritamente da freqüência, da configuração e posição dos
transdutores piezelétricos, assim como do volume da cuba do banho, sendo que essas
características variam de acordo com o fabricante. Isso significa que é difícil fazer
comparações diretas quanto a resultados obtidos utilizando-se diferentes banhos ultra-
sônicos. Nesses equipamentos, a energia ultra-sônica é transmitida de forma indireta para
os frascos de reação. Assim, a potência e o perfil de distribuição da energia ultra-sônica
podem levar a resultados contraditórios quanto à reprodutibilidade de resultados analíticos
obtidos em diferentes laboratórios. Como exemplo, Santos et al.16 encontraram diferentes
percentuais de extração de arsênio em alimentos marinho, até mesmo utilizando-se um
único banho ultra-sônico.
O aspecto da transmissão indireta da energia em banhos ultra-sônicos também
ressalta características importantes. Como a energia ultra-sônica tem que atravessar as
paredes do frasco de reação, e parte dessa energia é absorvida e/ou refletida neste
processo, a energia resultante para indução de cavitação no interior do frasco é
significativamente menor que aquela no interior da cuba logo acima do transdutor. Assim,
especial atenção deve ser dada às características dos frascos de reação como geometria,
espessura da parede, velocidade do som no material e coeficiente de atenuação do
material. Por outro lado, a transmissão indireta de energia para os frascos proporciona
menor possibilidade de contaminação, visto que não há contato direto das amostras com o
meio líquido do banho, assim como com peças metálicas. Ressalta-se também, neste
aspecto, a possibilidade de sonicação de mais de uma amostra simultaneamente, mas o
perfil de distribuição da energia ultra-sônica no interior do banho com diferentes quantidades
de frascos de reação deve ser avaliado previamente. Neste sentido, especial atenção deve

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74 Extrações assistidas por ultra-som

ser dada às características técnicas do equipamento, assim como aos frascos de reação
antes do desenvolvimento de métodos analíticos utilizando-se banhos ultra-sônicos.
Outro processador comumente utilizado para extração sólido-líquido é a sonda
ultra-sônica. Nestes processadores o transdutor é acoplado a uma sonda de titânio ou liga
de titânio (e.g. Ti-6AL-4V), a qual é inserida diretamente no meio contendo as partículas. A
sonda ultra-sônica geralmente proporciona ao meio de extração intensidades ultra-sônicas
muito maiores que àquelas observadas em banhos ultra-sônicos (e.g. 1 – 5 W/cm2 com
banhos versus 50 – 500 W/cm2 com sondas). As sondas ultra-sônicas utilizadas para
extração sólido-líquido em química analítica são operadas tipicamente a 20 kHz e com
intensidades geralmente entre 50 e 200 W/cm2. Como essas intensidades de potência são
dissipadas diretamente na suspensão, alguns autores tem destacado sua eficiência também
17
para redução do tamanho das partículas , redução do tempo de extração e melhor
eficiência de extração 1. Entretanto, a inserção da sonda diretamente na suspensão pode
representar uma fonte de contaminação da amostra por metais presentes na composição da
sonda 1. A Tabela 3.2 apresenta as principais características entre banhos e sondas e os
valores médios freqüentemente reportados para equipamentos designados para uso em
laboratório. Ressalte-se que banhos ou sondas de maior potência designados para
diferentes aplicações estão disponíveis comercialmente.

Tabela 3.2 - Características dos processadores ultra-sônicos (banho e sonda) disponíveis


para uso em laboratório e dos procedimentos analíticos freqüentemente reportados para o
uso em extração assistida por ultra-som.

Banho Sonda

Intensidade (W/cm2) 1-5 50 - 200


Intensidade variável * Sim Sim
Aplicação direta na amostra Não Sim
Custo < US$ 1000 US$ 2000 - 4500
Solução extratora HNO3 / HCl (< 3 mol/l) HNO3 (< 1,4 mol/l)
Freqüência analítica Baixa (1-6 amostras / 20 min) ‡ Baixa (1 amostra / 5 min) †

* a intensidade depende da amplitude do deslocamento imposto pelo transdutor, o qual depende da


freqüência e da potência nominal aplicada.

banhos ultra-sônicos de maior volume podem ser usados para aumentar a freqüência de
amostragem, mas a distribuição das ondas ultra-sônicas dentro da cuba deve ser observada.

Multi-sondas podem ser utilizadas para aumentar a freqüência de amostragem.

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Extrações assistidas por ultra-som 75

A Tabela 3.3 apresenta as características de alguns métodos os quais


destacaram as potencialidades e limitações da extração assistida por ultra-som como
alternativa para o preparo de amostras em espectrometria atômica. O percentual de
extração foi determinado a partir da concentração certificada do analito em materiais de
referência certificados ou pela comparação com os valores obtidos após a decomposição
ácida das amostras. Em alguns casos o percentual de extração foi comparado à fração
correspondente de cada analito em métodos de extração seqüencial. Nos trabalhos
apresentados na Tabela 3.3 observa-se que a utilização de sondas ultra-sônicas proporciona
tempos de extração significativamente mais baixos e, principalmente para materiais
biológicos, observou-se a potencialidade do uso de ambos processadores ultra-sônicos para
extração quantitativa e multielementar dos analitos. Entretanto, alguns resultados
contraditórios a respeito da extração ultra-sônica também foram relatados na literatura
recente, principalmente, em relação ao uso de banhos ultra-sônicos nos procedimentos de
extração para diferentes tipos de amostras. Entre alguns exemplos, Mierzwa et al.18 não
obtiveram recuperações quantitativas para selênio em amostras de fígado bovino utilizando
um banho ultra-sônico operando a 70 ºC por 18 min, enquanto Bermejo-Barrera et al.19
obtiveram recuperações quantitativas de selênio em amostras de cabelo operando um
banho ultra-sônico a 90 ºC por apenas 10 min.
El Azouzi et al.20 utilizaram uma mistura HNO3 (1,6 mol/l) / HCl (1,2 mol/l)/ H2O2
(0,1 mol/l) para extração ultra-sônica de metais em tecido de mexilhão. Apenas após 120
min de sonicação os autores obtiveram recuperações quantitativas de cádmio (95%) e cobre
(100%), e extração parcial de crômio (54%). Por outro lado, Minami et al.21, também usando
banhos ultra-sônicos, reportaram extrações quantitativas de Cd, Cu, Mn e Pb em diferentes
materiais biológicos de origem animal e vegetal utilizando apenas HNO3 (1 mol/l) com
apenas 5 min de sonicação.
Bermejo-Barrera et al.22 propuseram a extração de As, Ca, Cd, Co, Cr, Mn, Pb,
Se, Zn, Ca, Fe, Hg e Mg em tecidos de animais marinhos utilizando-se banhos ultra-sônicos.
De acordo com os autores, o tempo de sonicação entre 10 e 120 min não promoveu efeito
significativo na extração, com exceção ao selênio, no qual foi necessária sonicação durante
30 min a 90 ºC. A concentração de ácidos na mistura extratora foi otimizada para cada
analito, variando as soluções extratoras entre 0,5 e 4,5 mol/l HNO3 e entre 2,0 e 4,0 mol/l
HCl.
Lima et al.23 obtiveram recuperações quantitativas de cádmio em CRMs de
materiais biológicos e sedimentos com uma sonda ultra-sônica de 50 W por
24
2 min, enquanto Capelo et al. alcançaram extrações quantitativas apenas para cádmio em
materiais biológicos com tamanho de partículas < 50 µm, operando uma sonda de 100 W
por 1 min. Os autores não alcançaram recuperações quantitativas de cádmio para o mesmo

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76 Extrações assistidas por ultra-som

tipo de CRM de sedimento utilizado por Lima et al.23 (i.e. CRM 320 River Sediment) mesmo
com o aumento do tempo de sonicação.
Recentemente, Canepari et al.25 avaliaram a extração seqüencial (BCR)
assistida por microondas ou ultra-som para determinação de Cd, Cr, Ni, Pb, Zn, Cu, Al, As,
Co, Fe, Mg e Mn em sedimentos. O método assistido por ultra-som apresentou
recuperações significativamente menores que 100 % para todos os elementos quando
comparado ao método assistido por microondas (e.g. Fe < 24%, Mg < 78 %, Zn < 62 %,
Cu < 62 %). Os autores ressaltaram que o método assistido por ultra-som também foi menos
reprodutível, até mesmo quando comparado com agitação mecânica.
26
Davidson e Delevoye reportaram valores concordantes entre a extração
seqüencial (BCR) convencional e com auxílio do ultra-som para determinação de Fe, Mg e
Zn (84 - 98 %) em solos e sedimentos. Nesse trabalho, também foram reportados baixos
níveis de extração de Cu (74 %) e a performance do método assistido por ultra-som foi
deficiente para extração de alguns dos analitos em sedimento marinho, variando entre
58 - 104 %. De acordo com os autores, os níveis de variação observados para essas
amostras evidenciam as dificuldades do desenvolvimento de métodos de extração
seqüencial BCR assistidos por ultra-som para aplicação em diferentes amostras.
27
Domínguez-González et al. avaliaram a extração de Al, As, Ba, Fe, V, Ca, K,
Na, Mg, Cd, Cr, Cu, Mn, Ni, Pb e Zn em algas marinhas. Os autores enfatizaram que uma
etapa de 10 min de sonicação em meio 6,0 mol/l HCl a 65 ºC foi necessária para destruir a
parede celular e permitir melhores percentuais de extração de alguns elementos, como Al,
As, Fe, Ba e V. Após essa etapa, foram necessários mais 35 min de sonicação a 65 ºC em
meio 3,7 mol/l HNO3 + 3,0 mol/l HCl + 3,0 mol/l H2O2 para extração dos analitos. Nesse
trabalho, foram obtidas extrações quantitativas de Fe (e.g. 93 - 97% em CRMs), o qual é um
elemento reconhecido como de difícil extração em muitos tecidos vegetais, mas os autores
também destacaram a falta de exatidão obtida na determinação de Al, Cr, Pb e V em CRMs.
28
Por outro lado, Nascentes et al. demonstraram que 10 min de sonicação em meio
0,14 mol/l HNO3 foi eficiente na extração quantitativa de Ca, Mg, Mn e Zn em diferentes
amostras de tecido vegetal.

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Extrações assistidas por ultra-som 77

Tabela 3.3 - Alguns trabalhos que destacam o efeito da extração assistida por ultra-som em espectrometria atômica. (continua)

Amostra Analitos / (extração, %) Processador / Solução extratora / Ref.


(tempo) (técnica analítica)
Fígado bovino e crustáceo Se (85 – 88%) Banho (18 min) 4% v/v HNO3 / (GFAAS) 18
Cabelo Cd, Cr, Pb, Se / (> 90%), Banho (10 min) 4,8 mol/l HNO3, 4,8 mol/l HCl e 0,5 19
mol/l H2O2 / (GFAAS)

Me-Hg (> 90%) 0,5 mol/l HNO3, 4.8 mol/l HCl e 0,5
mol/l H2O2 / (CVAAS)
Mexilhão Ca, Cd, Cu, K, Mg, Mn, Na, V, Zn / Banho (120 min) 1,6 mol/l HNO3, 1,2 mol/l HCl e 20
(> 90%) 0,1 mol/l H2O2 / (FAAS e GFAAS)

Tecido animal e vegetal Cd (≈ 100), Cu (≈ 100%), Banho (5 min) 0,5 mol/l HNO3 / 21
Mn (≈ 100), Pb (≈ 100%) (GFAAS e MIP-MS)
Tecido animal marinho As, Ca, Cd, Co, Cr, Cu, Fe, Hg, Mg, Mn, Pb, Banho (0,5 - 4,5) mol/l HNO3 22
Se, Zn / (85 – 105%) (10 - 30 min) (2,0 - 4,0) mol/l HCl
(1,5 mol/l) H2O2 /
(GFAAS, FAAS e CVAAS)
Tecido animal e vegetal Cd (97%), Cu (98%), Pb (96%) Sonda 0,5 a 5,0 % v/v HNO3 / 23
Sedimento Cd (97%), Cu (60%), Pb (54%) (2 - 5 min) (GFAAS)
Material biológico e Cd (> 96%) Sonda (1 min) 3% v/v HNO3 / (GFAAS) 24
sedimentos Cd (> 75%)

Tabela 3.3 - Alguns trabalhos que destacam o efeito da extração assistida por ultra-som em espectrometria atômica. (continuação)
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78 Extrações assistidas por ultra-som

Amostra Analitos / (extração, %) Processador / Solução extratora / Ref.


(tempo) (técnica analítica)

Sedimento Cd (< 74%), Cr (< 38%), Ni (< 67%), Banho Extração seqüencial BCR / 25
Pb(< 58%), Zn (< 62%), Cu (< 62%), (20 - 30 min) (ICP-OES)
Al (< 53%), As (< 65%), Co (< 60%),
Fe(< 24%), Mg (< 78%), Mn (< 79%)
Solos e sedimentos Fe, Mn, Zn (84 – 98%) Sonda (10 min) Extração seqüencial BCR / 26
Cu (74%) Banho (180 min) (FAAS e ICP-OES)
Alga marinha As, Ca, Cd, Cu, Fe, K, Mn, Mg, Na, Banho 6,0 mol/l HCl (etapa 1) e 27
Ni, Zn (≈ 100%), (10 + 35 min) 3,7 mol/l HNO3, 3,0 mol/l HCl,
Al (<48%), Ba (<70%), Pb (<93%) 3,0 mol/l H2O2 (etapa 2) / (ICP-OES)
V (< 80%), Cr (34 - 100%)
Vegetais Ca, Mg, Mn, Zn / (96 – 102%) Banho (10 min) 0,14 mol/l HNO3 / (FAAS) 28
Fe (98%, repolho) 1,4 mol/l HNO3 / (FAAS)
Carne Zn (≈ 100%) Banho (0,5 min) 0,75 mol/l HNO3 - 0,75 mol/l HCL 29
(FAAS)
Tecido animal, Hg e Me-Hg (≈ 100%) Sonda (10 min) 5% v/v HNO3 - 0,02% v/v tiouréia, 30
tecido vegetal, 10% v/v HNO3 – 0,02% tiouréia,
partículas de carvão 20% v/v HNO3 - 0.2% v/v tiouréia
/ (CVAAS)
Sedimento As(III), As(V), MMA, DMA (≈ 100%) Sonda (1 min) Especiação em tampão fosfato (pH 31
5,5 – 5,6) / (HPLC-AFS)

Tabela 3.3 - Alguns trabalhos que destacam o efeito da extração assistida por ultra-som em espectrometria atômica. (conclusão)

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Extrações assistidas por ultra-som 79

Amostra (φ, µm) Analitos / (extração, %) Processador / Solução extratora / Ref.


(tempo) (técnica analítica)
Mexilhão Cd, Pb (≈ 100%) Banho (2 - 3 min) 3 mol/l HNO3 / (FAAS) 32
Músculo de peixe Ca, Cu, Fe, Mg, Zn (≈ 100%) Banho (25 min) 30 % v/v H2O2 – 5% v/v CFA-C 33
/ (ICP-OES)
Solos Ge (≈ 100%) Sonda (10 min) 12 mol/l HCl / (GFAAS) 34
Tecido animal Se (93 - 102%) Sonda (2 min) Especiação / (ICP-MS) 35
Mexilhão, peixe e plantas Cu (93 – 103%) Sonda (3 min) 3% v/v HNO3 (GFAAS) 36
Cabelo Ca, Cu, Fe, Mg, Mn, Zn Banho (10 min) 4 mol/l HNO3, 3,5 mol/l HCl (FAAS e 37
(> 93%) GFAAS)

Lama, Cinza e crustáceo Cd (89 – 102%) Banho (20 min) 6 mol/l HCl (FI-CV-AAS) 38
Cabelo Cd (29%)
Alimentos marinhos As (> 94%) Sonda (3 min) 3% v/v HNO3 (GFAAS) 39
Banho (30 min)
Mexilhão Me-Hg, Hg / (> 92%) Sonda (5 min) 2 mol/l HCl para Me-Hg e 40
5 mol/l HCl para Hg (CVAAS)
Vegetais Mg (98%), Mn (99%), Zn (102%) Sonda (3 min) 0,3 % v/v HNO3 (FAAS) 41
Lama de esgoto Cr, Cu, Ni, Pb, Zn / (> 96%) Sonda (22 min) Extração seqüencial BCR (FAAS) 42
Material biológico e sedimento As (8 – 111%) Sonda (20 min) 15 % v/v HCl (FI-HGAAS) 43

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80 Extrações assistidas por ultra-som

Os resultados descritos na literatura permitem inferir que as ondas ultra-sônicas


geradas por processadores ultra-sônicos promovem a extração de analitos importantes na
análise de matérias biológicos, solos e sedimentos. Neste sentido, o uso da extração
assistida por ultra-som pode ser recomendado como um método de screening,
configurando-se como uma alternativa rápida e de baixo custo para o preparo de amostras
visando, principalmente, à determinação de Ca, Cd, Cu, Fe, Mg, Mn, Mo, Pb e Zn em
vegetais, de As, Ca, Cd, Cu, Fe, Mg, Mn, Pb, Se e Zn em tecidos animais, e de As, Cd, Cu,
Mn, Pb e Zn em solos e sedimentos.
Em geral, observa-se que a agitação ultra-sônica diminui o tempo de extração e
a concentração de ácidos, quando comparada aos métodos de agitação manual ou agitação
por efeito vortex frequentemente utilizados em laboratório. Entretanto, a extração
quantitativa depende fortemente da interação dos analitos com a matriz. Assim, embora os
métodos assistidos por ultra-som sejam promissores, é recomendável que as variáveis que
influenciam na extração dos analitos sejam avaliadas em diferentes tipos de amostras antes
da utilização deste método. As Tabelas 3.4, 3.5, 3.6 apresentam as condições observadas
44
por Santos Jr. para máxima extração de diferentes analitos em amostras de tecido
vegetal, tecido animal e solos e sedimentos, respectivamente. Os resultados apresentados
nessas Tabelas devem ser considerados apenas como condições recomendadas por esse
autor, uma vez que, em geral, as características dos métodos de extração como tempo de
sonicação e concentração de ácidos podem variar fortemente de acordo com a amostra e
com o processador ultra-sônico utilizado.

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Extrações assistidas por ultra-som 81

Tabela 3.4 - Condições obtidas para máxima extração de Al, Ca, Cd, Cr, Cu, Fe, Mg, Mn, Mo, Pb e Zn em tecidos vegetais com sonda de
50 W (Vibracell VC50, Sonics and Materials) e banho de 90 W (Aquasonic 75D, VWR Scientific).

Variável Elementos

Sonda Al Ca Cd Cr Cu Fe Mg Mn Mo Pb Zn

HNO3 (mol/l) 2,8 1,4 0,7 2,8 1,4 2,8 1,4 1,4 1,4 1,4 1,4
HCl (mol/l) 2,4 - - 2,4 - 2,4 - - 1,2 - -
Tempo (min) 20 10 5 20 10 10 10 5 10 5 5
Partícula (µm) < 62 < 62 < 212 < 62 < 212 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62
Extração (%) * 18 - 85 80 - 95 93 - 105 41 - 91 96 - 102 75 - 102 83 - 98 89 - 105 90 - 102 93 - 101 94 - 102
CV (%) ** 6-9 6 - 11 3-8 5 - 12 4-7 5 - 12 3 - 11 2-8 3-7 2-9 2-6

Banho Al Ca Cd Cr Cu Fe Mg Mn Mo Pb Zn

HNO3 (mol/l) 2,8 1,4 1,4 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 1,4
HCl (mol/l) 2,4 - - 2,4 - 2,4 - - 2,4 - -
Tempo (min) 20 10 10 20 10 20 10 10 20 10 10
Partícula (µm) < 62 < 62 < 212 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62
Extração (%) * 11 - 65 75 - 97 90 - 98 46 - 71 91 - 99 48 - 85 72 - 99 78 - 101 75 - 105 91 - 105 87 - 96

CV (%) ** 4-9 3-7 4 - 10 7 - 19 2-9 6 - 15 4-7 2 - 11 5 - 14 5-7 1-4

* faixa de extração e ** faixa de coeficientes de variação obtidos utilizando-se diferentes amostras.

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82 Extrações assistidas por ultra-som

Tabela 3.5 - Condições obtidas para máxima extração de Al, As, Ca, Cd, Cr, Cu, Fe, Mg, Mn, Pb, Se e Zn em tecidos animais com sonda de
50 W (Vibracell VC50, Sonics and Materials) e banho de 90 W (Aquasonic 75D, VWR Scientific).

Variável Elementos

Sonda Al As Ca Cd Cr Cu Fe Mg Mn Pb Se Zn

HNO3 (mol/l) 2,8 1,4 2,8 0,7 2,8 1,4 2,8 2,8 1,4 0,7 10 0,7
HCl (mol/l) 2,4 - - - - - 2,4 - - - - -
Tempo (min) 20 10 10 5 20 10 10 10 5 10 10 5
Partícula (µm) < 62 < 62 < 212 < 212 < 62 < 212 < 62 < 62 < 212 < 212 < 62 < 212
Extração (%) * 35 - 73 87 - 96 90 - 95 95 - 103 76 - 98 95 - 105 85 - 97 91 - 102 96 - 107 92 -102 86 - 95 96 - 105
RSD (%) ** 6 - 12 3-6 4–9 1-5 3-8 4 - 10 2 - 12 3-8 2-7 3-8 5-8 2-6

Banho Al As Ca Cd Cr Cu Fe Mg Mn Pb Se Zn

HNO3 (mol/l) 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 2,8 1,4 2,8 1,4 1,4
HCl (mol/l) 2,4 - 2,4 - 2,4 - 2,4 - - - 1,2 -

Tempo (min) 20 20 20 10 20 10 20 10 20 10 20 10
Partícula (µm) < 62 < 62 < 212 < 212 < 62 < 62 < 62 < 62 < 212 < 62 < 62 < 62
Extração (%) * 23 - 31 87 - 98 86 - 101 90 - 105 70 - 91 86 - 102 77 - 94 82 - 97 92 - 103 89 - 98 86 - 93 93 - 98
RSD (%) ** 9 - 17 4-8 3-7 1-6 6 - 11 5-9 3 - 10 4-7 2-6 2-7 3 - 11 2-4

* Faixa de extração e ** faixa de coeficientes de variação obtidos utilizando-se diferentes amostras.

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Extrações assistidas por ultra-som 83

Tabela 3.6 - Condições obtidas para máxima extração de Al, As, Ca, Cd, Cr, Cu, Fe, Hg, Mg, Mn, Pb e Zn em solos e sedimentos com sonda
de 50 W (Vibracell VC50, Sonics and Materials) e banho de 90 W (Aquasonic 75D, VWR Scientific).

Variável Elementos

Sonda Al As Ca Cd Cr Cu Fe Hg Mg Mn Pb Zn

HNO3 (mol/l) 2,8 1,4 2,8 1,4 2,8 1,4 2,8 - 2,8 2,8 2,8 2,8
HCl (mol/l) 2,4 1,2 2,4 - 2,4 1,2 2,4 2,4 2,4 2,4 - 2,4
Tempo (min) 20 20 20 10 20 10 20 5 20 10 10 20
Partícula (µm) < 62 < 62 < 62 < 212 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62
Extração (%) * 13 - 47 92 - 103 28 - 82 93 - 102 8 - 48 85 - 103 38 - 66 80 - 105 41 - 65 86 - 95 85 - 105 82 - 96
CV (%) ** 2 - 12 3-6 3-9 1-5 4 - 11 3-9 3 - 13 6 -15 4-8 2-8 3-8 4 - 11

Banho Al As Ca Cd Cr Cu Fe Hg Mg Mn Pb Zn

HNO3 (mol/l) 14,0 2,8 14,0 1,4 14,0 2,8 14,0 - 14,0 2,8 2,8 2,8
HCl (mol/l) 12,0 2,4 12,0 1,2 12,0 2,4 12,0 2,4 12,0 2,4 2,4 2,4

Tempo (min) 20 20 20 20 20 20 20 10 20 20 20 20
Partícula (µm) < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62 < 62
Extração (%) * 3 - 38 73 - 95 21 - 92 91 - 105 4 - 37 88 - 95 25 - 70 70 - 102 37 - 72 78 - 98 91 - 98 72 - 97
CV (%) ** 6 - 19 2-8 7 - 13 4-8 2-9 5 - 18 7 - 11 12 - 25 3-9 4 - 11 7 - 11 3-8

* Faixa de extração e ** faixa de coeficientes de variação obtidos utilizando-se diferentes amostras.

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84 Extrações assistidas por ultra-som

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88 Extrações assistidas por ultra-som

44. SANTOS JR, D. Avaliação da extração ultra-sônica para determinação de


elementos em materiais de interesse agronômico e ambiental por espectrometria
de emissão óptica com plasma indutivamente acoplado e espectrometria de
absorção atômica com forno de grafite. 2005. 121 f. Tese (Doutorado – Programa
de Pós-Graduação em Ciências. Área de Concentração: Química na Agricultura e no
Ambiente) - Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo.
2005.

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4. ANÁLISE DIRETA DE SÓLIDOS E SUSPENSÕES

Dentre os diversos tipos de amostras submetidas à análise elementar, uma grande


parte se encontra na forma sólida. A forma mais usual de realizar esse tipo de análise tem
sido a conversão da amostra sólida em uma solução por meio de procedimentos de
decomposição por via seca ou via úmida para compostos orgânicos, dissolução ácida para
sólidos inorgânicos ou por fusão para matrizes inorgânicas refratárias [SULCEK e
POVONDRA]. No entanto, de um modo geral, esses métodos de tratamento de amostra
consomem muito tempo, podendo variar de 5 min a 48 h ou mais, dependendo da
complexidade da matriz. Além disso, sempre há um maior risco de ocorrência de erros
sistemáticos como contaminações ou perdas por volatilização com prejuízo para a exatidão
e a precisão dos resultados analíticos.
Nesse contexto, a possibilidade para se analisar diretamente as amostras sólidas
sem nenhum ou com o mínimo tratamento prévio deve ser vista como uma boa alternativa
[JACKSON, 1999]. De um modo geral, a análise direta de sólidos apresenta importantes
vantagens quando comparada aos procedimentos convencionais: (1) simplificação no pré-
tratamento da amostra diminuindo-se o tempo gasto nessa etapa, aumentando-se, assim, a
freqüência analítica, (2) minimização dos riscos de contaminação devido ao uso de
quantidades reduzidas de reagentes, pouca manipulação ou baixa exposição ao ambiente,
(3) minimização das perdas do analito de interesse, (4) menor periculosidade devido à não
necessidade de utilizar reagentes tóxicos ou corrosivos, (5) minimização da geração de
resíduos, (6) maior poder de detecção, uma vez que as amostras não são diluídas, e (7)
possibilidade de se analisar pequena quantidade de amostra [KURFÜRST, 1998].
Apesar das diversas vantagens associadas à análise direta de sólidos, existem
algumas dificuldades que ainda precisam ser vencidas. A análise de diminutas massas de
amostras reflete em resultados com baixa precisão devido, principalmente, à falta de
homogeneidade do material. Nessa situação, é importante considerar que a massa mínima
para análise represente a amostra como um todo sem prejuízos para a precisão e exatidão
dos resultados.
A calibração é um outro desafio da análise direta de sólidos que merece destaque.
Embora soluções de referência possam ser empregadas nas calibrações, em muitos casos,
materiais de referência certificados (CRM) são necessários. No entanto, os CRM disponíveis
comercialmente apresentam homogeneidade garantida para massas que variam entre 100 e
500 mg [ZEISLER, 1998], muito superiores àquelas comumente empregadas em análise
direta de sólidos. Nesse contexto, é importante produzir novos materiais e avaliar a

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90 Análise direta de sólidos

aplicabilidade dos materiais existentes nas calibrações ou validações de métodos em


procedimentos de microanálise, ou seja, análises que envolvem massas inferiores a 10 mg
de amostra. Cabe ressaltar que o NIST (National Institute of Standard and Technology,
Gaithersburg, MD, USA) está direcionando esforços para produzir esses novos materiais.
Atualmente, existe disponível no mercado um material certificado para microanálise, o
sedimento marinho (NIST SRM 2703), cuja homogeneidade é garantida para massa igual ou
superior a 0,7 mg [MAY e WATTERS, 2004].

4.1. ANÁLISE DIRETA DE SÓLIDOS: ASPECTOS GERAIS

Cassiana Seimi Nomura


Pedro Vitoriano de Oliveira

4.1.1. Homogeneidade e massa de amostra


Considerando a quantidade de amostra, a SS-ETAAS pode ser classificada como a
técnica que pratica desde a semimicroanálise, para massas de até 25 mg, até a
ultramicroanálise, para massas de até 20 µg. Esses termos estão inseridos dentro do
contexto de microquímica que pode ser definida como uma parte da química analítica que
extrai informações analíticas a partir de quantidades de amostra muito pequenas (< 10 mg)
[STOEPPLER et al, 2001]. Algumas dessas classificações estão apresentadas na Tabela
4.1 [GRANT e GRANT, 1987].

Tabela 4.1 - Magnitude da análise expressa com relação à massa de amostra empregada

Nome Massa de amostra (g)

Macroanálise > 0,1

Mesoanálise (semimicroanálise) 0,1 – 0,01

Microanálise 10-2 – 10-3

Submicroanálise 10-3 – 10-4

Ultramicroanálise < 10-4

Apesar da possibilidade de analisar massas de amostras tão pequenas ser uma das
grandes vantagens associadas à SS-ETAAS, essa mesma característica se torna um
grande desafio, pois obter resultados precisos e exatos nessas condições não é uma tarefa

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Análise direta de sólidos 91

trivial. Em geral, massas muito pequenas (< 100 mg) tendem a comprometer a
representatividade e a homogeneidade, uma vez que os elementos traços podem não estar
homogeneamente distribuídos nos materiais [PAUWELS et al, 1994]. Quando a amostra é
subdividida em porções cada vez menores, ela tende a se tornar cada vez mais não
homogênea, pois a probabilidade de se encontrar a mesma concentração média de uma
determinada espécie na porção é menor (Figura 4.1).

a) b)

Figura 4.1 - Diagrama representativo da homogeneidade de um analito (•) para diferentes


sub-amostragens: (a) grande massa de amostra e (b) pequena massa de amostra

Quando um material homogêneo se torna heterogêneo para pequenas massas de


amostra, deve-se estabelecer uma massa mínima que seja representativa do todo para
garantir a precisão e a exatidão dos resultados analíticos [PAUWELS et al, 1994].
A influência da massa de amostra sobre a precisão dos resultados analíticos foi
avaliada por Rossbach e colaboradores [ROSSBACH et al, 1998], quando verificaram que o
desvio padrão relativo (RSD) das medidas diminuiu de 50% para 0,5% quando massas de
amostras analisadas foram aumentadas de 0,01 mg para 100 mg.
Considerando a homogeneidade de materiais, pode-se dizer que a maioria dos
sólidos, com raras exceções, como algumas ligas metálicas e vidros, é uma mistura
heterogênea. Materiais biológicos, geológicos e ambientais são caracteristicamente não
homogêneos sendo as rochas, os solos e os sedimentos, os materiais que apresentam
composições mais heterogêneas [JACKSON, 1999].
A boa homogeneidade é pré-requisito para análise direta de amostras sólidas
[ZEISLER, 1998]. Esse parâmetro depende de fatores como o tipo de material, a massa de
amostra a ser utilizada e a concentração do elemento de interesse. Experiências têm
mostrado que a heterogeneidade encontrada em pequenas massas de amostras é
geralmente conseqüência da presença de partículas grandes chamadas “nuggets”, nas
quais podem estar contidas concentrações de elementos traços muito maiores do que

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92 Análise direta de sólidos

aquelas encontradas em toda a amostra [KURFÜRST, 1993]. Uma maneira de contornar


esse tipo de problema é reduzir o tamanho das partículas das amostras, utilizando eficientes
procedimentos de moagem.
A homogeneização é uma das etapas mais importantes e críticas do processo de
produção de CRMs. Esses materiais são muito importantes na Química Analítica e atuam
como a principal fonte de avaliação da exatidão dos métodos propostos. Desse modo, é
importante que as características desses materiais, entre elas, a homogeneidade sejam bem
definidas. A maioria dos CRMs atualmente disponíveis comercialmente apresenta
homogeneidade garantida somente para massas elevadas de amostra, variando entre 100 e
500 mg [ZEISLER, 1998]. Isso é um problema, pois técnicas que praticam a microanálise
utilizam massas de amostra, geralmente, inferiores a 10 mg. Considerando a escassez de
CRMs para microanálise, é necessário que esforços sejam direcionados nesse sentido.

Avaliação da microhomogeneidade
De acordo com o Guia ISO 35 [ISO GUIA, 1989], um material é perfeitamente
homogêneo com relação a uma determinada característica, se ao comparar duas partes
distintas do mesmo material, não houver diferença nos valores dessa característica. Na
prática, um material pode ser considerado homogêneo com relação a uma característica se
a diferença entre o valor de uma parte com relação à outra parte não puder ser identificada
experimentalmente. O conceito básico de homogeneidade, portanto, engloba tanto a
característica como o parâmetro da medida (geralmente o desvio padrão), incluindo a massa
de amostra da porção testada.
Na prática, o grau de homogeneidade pode ser determinado fazendo-se medidas de
uma propriedade (por exemplo, concentração de um elemento) em uma pequena unidade
(por exemplo, massa de amostra), utilizando uma técnica de precisão relativamente elevada.
Segundo Pauwels e colaboradores [PAUWELS et al, 1994] a escolha da técnica é um fator
importante e deve ser realizada considerando-se alguns requisitos:
• Não deve requerer pré-tratamento da amostra para evitar perda de analitos e
riscos de contaminações. Desse modo, incertezas provenientes de processos
de digestão não influenciarão na variação das medidas.
• Deve possibilitar uma análise suficientemente precisa de pequenas massas
de amostras, preferencialmente menor que 1 mg.
• Deve apresentar, preferencialmente, uma elevada freqüência analítica, para
que um grande número de análises possa ser efetuado em um curto espaço
de tempo.

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Análise direta de sólidos 93

Considerando essas características, a SS-ETAAS é uma técnica que se mostra


bastante conveniente para essa tarefa. Por isso vem sendo utilizada na avaliação da
homogeneidade de diversos tipos de materiais.
Informações a respeito da homogeneidade de amostras foram inicialmente propostas
por Igamells e Switzer [INGAMELLS e SWITZER, 1973], quando apresentaram a constante
de amostragem (KS) para estimar a imprecisão de resultados devido a erros de amostragem
(Equação 4.1):

RSD = (KS/m)1/2 (Equação 4.1)

De acordo com essa equação, KS pode ser estimada pelo RSD das medidas das
sub-amostragens de massa m. Porém, um grande problema dessa aproximação é que erros
aleatórios provenientes dos procedimentos analíticos não são considerados. Nesse caso,
dever-se-ia considerar essas outras incertezas (SH) de acordo com a Equação 4.2.

SH2 = RSD2 - ∑(outras incertezas)2 (Equação 4.2)

Enquanto KS foi originalmente proposta para estimar a homogeneidade de massas


relativamente altas de amostras geológicas, Kurfürst [KURFÜRST et al, 1993] introduziu o
conceito de constante de homogeneidade, He (Equação 4.3) visando pequenas massas de
amostras:

He = SH * m1/2 (Equação 4.3)

O erro de amostragem SH de uma determinada massa de amostra m (em mg) pode


ser estimado diretamente a partir dos valores de RSD das medidas, considerando os erros
randômicos do procedimento analítico. Como a massa de amostra m empregada nessa
avaliação é tipicamente 1 mg, He representa a imprecisão devido ao erro de amostragem
para uma unidade de massa (1 mg). Quando o fator de homogeneidade é menor do que 10
(He < 10), o material pode ser considerado suficientemente homogêneo.
Aplicando essa equação, Rossbach e colaboradores [ROSSBACK et al, 1998]
investigaram a homogeneidade de materiais de referência de algas. Nesse estudo, os
autores observaram que os materiais apresentavam boa homogeneidade (He < 10) para As,
Cd, Co, K e Zn e eram não homogêneos para Na, Cr, Fe e Br. Ainda nesse estudo, os
autores observaram que enquanto He assegura a incerteza somente devido à
heterogeneidade do material, o coeficiente de variação estaria relacionado à incerteza

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94 Análise direta de sólidos

devido à massa de amostra utilizada. Nesse caso, os valores certificados poderiam ser
escritos como:

média ± He m-1/2 %, m= massa de amostra (mg) (Equação 4)

Por exemplo, estabelecendo He = 5 e concentração de Cd igual a 200 ng g-1, o


coeficiente de variação poderia ser calculado substituindo-se o valor da massa de amostra
empregada na equação 2. Desse modo, nas determinações de Cd em algas, os autores
verificaram que o coeficiente de variação quando 0,01 mg de amostra eram analisadas, era
de 50%, enquanto que, para massas de 10 e 100 mg, os desvios não ultrapassam de 1,58%
e 0,5 %, respectivamente.
Do mesmo modo, na avaliação da microhomogeneidade de Cd em amostras de
plásticos certificados proposta por Pauwels [PAUWELS et al, 1993], foi verificado que
massas de 13 a 27 mg de amostra poderiam ser utilizadas sem comprometer a
representatividade da mesma. Em revisão sobre a técnica de amostragem direta de sólido
por espectrometria de absorção atômica escrita por Langmyhr [LANGMYHR, 1985], também
consta que amostragens de massas de amostra entre 0,1 e 10 mg podem ser feitas para
diversos tipos de materiais sem comprometer a representatividade e os resultados
analíticos.
Por outro lado, Belarra e colaboradores [BELARRA et al, 1997] demonstraram que
massas muito elevadas também podem gerar resultados inexatos em SS-ETAAS. O estudo
que visava a determinação de cobre em complexo vitamínico mostrou que o uso de
elevadas massas de amostra gerava resultados superestimados, provavelmente devido à
influência do resíduo da matriz presente no atomizador. Para Nakamura e colaboradores
[NAKAMURA et al, 1992], 0,2 a 1 mg (dependendo do analito) de amostra de rochas
silicosas eram suficientes para serem analisadas. Segundo os autores, elevadas massas de
amostra introduzida no atomizador podem inibir a difusão do vapor atômico. Por outro lado,
Hinds e Kogan [HINDS e KOGAN, 1994] atribuíam a obtenção de baixo sinal analítico para o
silício na sua determinação em ouro, ao fato das partículas agirem como superfícies
absorvedoras dos átomos dos analitos na fase gasosa.

Influência do tamanho de partícula na homogeneidade


Muitos autores têm observado que há melhora da precisão, entre replicatas da
mesma amostra, quando o tamanho das partículas é reduzido. Em geral, a homogeneidade
desejada é assegurada pela estreita distribuição do tamanho de partículas,
preferencialmente inferiores a 10 µm [KURFÜRST, 1998 e ZEISLER, 1998].

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Análise direta de sólidos 95

Fuller e colaboradores [FULLER et al, 1981] mostraram que as partículas das


amostras de dióxido de titânio deveriam apresentar diâmetros médios inferiores a 25 µm,
enquanto Nakamura e colaboradores [NAKAMURA et al, 1992] observaram melhora na
precisão quando as amostras de rochas foram moídas até um tamanho de partícula que
variavam de 0,3 a 25 µm.
A diminuição do tamanho de partícula é uma forma de homogeneizar o material e
pode ser feita por meio de procedimentos de moagem. Existem diversos tipos de moinhos
que podem ser utilizados para essa finalidade entre eles, os moinhos de jato de ar,
criogênicos e mecânicos. A escolha do moinho depende de diversas propriedades da matriz
como a dureza e a quantidade de fibras e gorduras presentes na mesma (algumas
informações sobre moagem são apresentadas no Capítulo 3).

Influência do tamanho de partícula na atomização eletrotérmica


Sinais transientes de absorbância provenientes de elementos que se encontram em
solução e daqueles que estão associados à matriz podem apresentar diferenças no tempo
de aparecimento e na duração. O sinal de absorbância para o Pb, proveniente da
suspensão de sedimento, por exemplo, possui um maior tempo de duração em relação ao
sinal obtido com solução aquosa. Essas diferenças se devem principalmente às condições
do forno, aos efeitos de transferência de calor, à cinética de evaporação do analito e às
forças físicas e químicas existentes entre o analito e a matriz sólida [JACKSON, 1998].
Muitas vezes, quando a amostra é introduzida na forma de solução, a etapa de secagem do
programa de aquecimento resulta em uma deposição uniforme dos microcristais dos sais. A
maioria dessas partículas entra em contato direto com a superfície da plataforma de grafite e
como os tamanhos das partículas são muito menores, quando comparado a grande massa
de grafite, o efeito de transferência de calor se torna desprezível. No entanto, quando uma
amostra sólida é introduzida, a distribuição das partículas sobre a plataforma já não é mais
tão uniforme. Nesse caso, a transferência de calor para partículas maiores, em relação aos
microcristais obtidos das soluções, é menor, resultando, assim, no alargamento do sinal de
absorbância.
Um outro aspecto que dificulta o processo de atomização é a velocidade de difusão
do analito através da amostra. Nesse contexto, o tamanho da partícula se torna um
parâmetro crucial, uma vez que o tempo de migração do analito dependerá do diâmetro
médio da partícula, ou seja, quanto maior a partícula, maior será a dificuldade para o analito
se libertar da mesma, alterando, assim, a cinética de atomização. Em soluções aquosas,
essas variações cinéticas são desprezíveis quando a medida do sinal analítico de
absorbância for feita em área de pico. No entanto, para a análise direta de sólidos, o

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96 Análise direta de sólidos

alargamento do pico pode estar relacionado não somente a parâmetros cinéticos, como
difusionais e de oclusão.
A baixa eficiência de atomização, provocada pela dificuldade de difusão do analito,
foi verificada por Bendicho e Loos-Vollebregt [BENDICHO e DE LOOS-VOLLEBREGT,
1990] na determinação de Cu, Co Cr, Mn, Fe e Ni em vidro. O tempo de aparecimento do
sinal de absorbância de Mn e Fe, em amostras de pó de vidro introduzidas na forma de
suspensão, era maior em relação àqueles obtidos com soluções aquosas. Estudos de
microscopia revelaram que as partículas de vidros se fundiam durante a etapa de secagem
e se aglomeravam formando gotas grandes. Essas, por sua vez, atuavam como uma
barreira aos analitos, dificultando sua libertação.
Takada e Hirokawa [TAKADA e HIROKAWA, 1982] observaram que a área
superficial das partículas exerce importante influência sobre o processo de atomização do
Cu em amostras de aço. Segundo os autores, quando sucessivos procedimentos de
atomização são aplicados a uma amostra com partículas de forma esférica, somente após n
atomizações, o sinal de absorção desaparece. Isso ocorre, pois cada esfera é subdividida
em várias camadas com uma determinada espessura (d), como apresentado na Figura 4.2.

3 2 1

d d
d

Figura 4.2 - Modelo das repetidas atomizações para amostras com partículas esféricas.
FONTE: Takada, K.; Hirokawa, K; Fresenius Z. Anal. Chem., v.312, p.109-113,1982.

Durante a primeira atomização, o Cu presente na camada mais externa é vaporizado


(camada 1) enquanto o Cu da segunda camada se difunde para a primeira e da terceira,
para a segunda e assim sucessivamente. Na segunda atomização, o Cu da camada mais
externa é atomizado e todo o processo de difusão se repete. Sendo assim, de acordo com o
modelo proposto é possível entender que, quanto maior o tamanho da partícula, maior
tempo ou temperatura de atomização serão necessários para atomizar todo o analito.

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Análise direta de sólidos 97

4.1.2. Análise direta aplicada em técnicas espectroscópicas


A análise direta de sólidos pode ser feita seguindo dois procedimentos distintos: via
suspensão ou amostragem direta [CAL-PRIETRO et al, 2002]. Os dois procedimentos
apresentam todas as vantagens da análise direta de sólidos, como já foi mencionado
anteriormente. A grande vantagem do procedimento que emprega o preparo das
suspensões é que o mesmo combina a amostragem sólida com a líquida, ou seja, as
amostras podem ser introduzidas no equipamento utilizando o sistema de amostragem de
soluções, por exemplo, com um nebulizador pneumático [ALVES et al, 2001]. No caso da
amostragem direta, é necessário um sistema especial para a introdução da amostra.
Apesar de reunir diversas vantagens, o procedimento de suspensão não está isento
de algumas dificuldades. Entre eles, pode-se destacar como fator crítico, a estabilidade da
suspensão que pode comprometer a reprodutibilidade na amostragem e conseqüentemente,
a precisão dos resultados. Um outro fator que deve ser rigorosamente controlado é o
tamanho de partículas, pois esse pode prejudicar a eficiência no transporte ou causar
entupimento dos nebulizadores.
A análise direta de sólido seja na forma de suspensão ou amostragem direta pode
ser efetuada utilizando-se diversas técnicas analíticas. Algumas mais tradicionais como a
espectrometria de emissão óptica com fonte de arco e centelha (SS OES) possui baixa
precisão, a espectrometria de fluorescência de raio-X (XRFS) apresenta baixa sensibilidade
e a análise por ativação de nêutron (NAA), requer instrumentação complexa e de alto custo.
Nos últimos anos, muitos esforços foram centralizados na tentativa de adaptar a análise
direta de sólidos a outras técnicas espectroanalíticas, como a espectrometria de emissão
óptica com plasma de argônio induzido (ICP OES), a espectrometria de massas acoplada a
fonte de plasma (ICP-MS),ou a espectrometria de absorção atômica com chama (FAAS) e
com atomização eletrotérmica (ETAAS) [JACKSON, 1999] .
Apesar dos inúmeros esforços que tem sido realizados para adaptar essas técnicas
espectroscópicas à análise direta de sólidos, pode-se dizer que nenhuma delas se mostra
inteiramente satisfatória. Idealmente, um método de análise direta de sólidos deve
apresentar alguns atributos listado a seguir [KURFÜRST, 1998]:
(i) Deve ser aplicável a uma grande variedade de amostras
(ii) Deve ser relativamente rápido
(iii) A padronização deve ser simples
(iv) Deve possibilitar a análise de elevadas massas de amostra para evitar problemas
de homogeneidade
(v) É desejável que seja multielementar
(vi) O custo por análise deve ser o mais baixo possível
(vii) Deve apresentar boa precisão e exatidão

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98 Análise direta de sólidos

A ICP OES e ICP-MS são excelentes fontes de vaporização, atomização, ionização e


excitação de espécies químicas. Na maioria das aplicações analíticas, a amostra é
convertida em solução antes de ser introduzida no equipamento. Esse requerimento deriva
da vasta experiência da nebulização dos líquidos que facilitou o desenvolvimento incial dos
plasmas analíticos. No entanto, não há nenhuma limitação que impeça o uso dos ICPs para
análise direta de sólidos. Pelo contrário, as características dessas fontes como a elevada
energia do plasma, que melhora a eficiência de atomização, torna os ICPs potencialmente
atrativos para essa função. Em análise direta de sólidos por ICPs, é importante adaptar os
espectromêtros com sistemas de introdução de amostra específicos [BOUMANS, 1987].
Os nebulizadores com ranhura em V e fluxo cruzado são comumente empregados
para introdução de soluções ou suspensões [MONTASSER e GOLIGHTLY, 1992], enquanto
a ablação a laser [RUSSO et al, 2002] e vaporização eletrotérmica [BELARRA et al, 2002]
possibilitam a amostragem direta de sólidos. Segundo Silva e colaboradores [SILVA et al,
2002], a principal dificuldade encontrada na utilização de nebulizadores para a introdução de
suspensões está relacionada ao tamanho de partículas que deve ser rigorosamente
controlado para que a eficiência no transporte e a sensibilidade não sejam prejudicadas.
No sistema de ablação a laser, a introdução da amostra ocorre após a volatilização
de uma pequena fração de amostra a partir da ação de um laser de baixa freqüência.
Embora esse sistema apresente como as principais vantagens a possibilidade de utilizar
pequenas massas de amostras (∼ microgramas), e permitir a caracterização espacial de
homogeneidade da amostra, ela apresenta algumas limitações que impedem a sua larga
utilização em laboratórios de rotina. O alto custo, a baixa eficiência no transporte, a
necessidade de um rigoroso controle sobre o tamanho de partículas e a dificuldade
encontrada na calibração são alguns exemplos.
A atomização eletrotérmica, por sua vez, apresenta algumas vantagens quando
comparada aos nebulizadores pneumáticos ou sistemas de ablação a laser. Sua elevada
eficiência no transporte (100%) possibilita analisar pequenas massas de amostras e fornece
limites de detecção superiores àqueles obtidos por técnicas que empregam nebulizadores
pneumáticos. Adicionalmente, o programa de aquecimento possibilita a remoção da matriz,
o qual minimiza os problemas de interferências.
Assim como os ICPs, a FAAS que também é conhecida por analisar, comumente,
amostras na forma de solução, possibilita a análise na forma de suspensão ou sólido direto.
No entanto, a nebulização de suspensões apresenta baixa eficiência de transporte e baixa
eficiência de atomização, pois as partículas sólidas são mais difíceis de serem dissociadas
quando comparadas às soluções. Adaptando um sistema especial para introdução de
amostra sólida na chama, Flores e colaboradores [FLORES et al, 2002; FLORES et al, 2001

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Análise direta de sólidos 99

e FLORES et al, 2004] tornaram possível a determinação direta de Cd, Cu e Mn em


sedimentos, fígado bovino e carvão, respectivamente. Os resultados obtidos foram
satisfatórios, mas a necessidade de um controle rigoroso no tamanho das partículas visando
à eficiência do transporte foi uma das dificuldades que teve que ser superada. Outro
problema relacionado ao procedimento proposto é a necessidade de construir a curva
analítica de calibração com materiais de referência que possuíssem composição semelhante
às das amostras, pois a composição da matriz afetava os processos de transporte e
atomização. Desse modo, o uso de materiais de referência certificados foi praticamente
obrigatório.
A ETAAS apresenta algumas características que favorecem a amostragem direta de
sólidos, seja na forma de suspensão ou na forma de introdução direta de sólidos
[JACKSON, 1999]: (1) o programa de aquecimento que permite o pré-tratamento térmico da
amostra, sobretudo durante a etapa de pirólise, facilita a remoção de parte dos
concomitantes que podem provocar interferências durante a atomização; (2) pequenas
quantidades de amostras podem ser analisadas; e (3) apresenta boa seletividade e
sensibilidade. Além disso, os problemas relacionados ao sistema de transporte são
praticamente inexistentes, uma vez que o transporte das suspensões é feito por
amostragem discreta (não depende de nebulizadores), enquanto os sólidos são pesados
diretamente nas plataformas de grafite que são, posteriormente, introduzidas no atomizador
eletrotérmico. A adequada otimização dos programas de aquecimento, aliada ao uso de
modificadores químicos tem possibilitado a calibração do equipamento com soluções de
referência. Devido à todas essas características, SS-ETAAS tem se mostrado muito atrativa
e promissora para a determinação de elementos em níveis de traços e ultra-traços em
diversos tipos de amostras sólidas e vem se concretizando como uma alternativa rápida e
simples [JACKSON, 1999 e KURFÜRST, 1998].

4.1.3. Análise direta de sólidos por ETAAS: Características e aplicações


Devido à todas as características da ETAAS e à sua versatilidade para ser aplicada
em análise direta de sólidos, nesse tópico será feita uma breve apresentação da técnica
visando aspectos históricos assim como as suas principais aplicações que são [BELARRA
et al, 2002]:
(i) Análise de materiais refratários de difícil decomposição
(ii) Análise de materiais de alta pureza
(iii) Análise de pequenas quantidades de amostra
(iv) Avaliação da microhomogeneidade

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100 Análise direta de sólidos

Espectrometria de absorção atômica com amostragem direta de sólidos -


Abordagem histórica

A SS-ETAAS é quase tão antiga quanto à própria técnica de AAS. Boris L’ Vov foi um
dos pioneiros, quando testou o desempenho do seu modelo de forno de grafite após a
amostragem direta de NaCl, visando à determinação elementar de Cu [LVOV, 1984 e
L’VOV, 1976]. O primeiro forno de grafite idealizado por L’Vov apresentava uma
configuração que era bastante adequada para amostragem direta de sólidos [L’VOV, 1984].
Na simplificação do modelo, posteriormente proposta por Massmann, e que foi aquela
adotada pela maioria dos fabricantes, a amostragem direta de sólidos não era tão trivial
[MASSMANN, 1968]. Acredita-se que por esse motivo, a técnica de ETAAS é utilizada até
hoje predominantemente para a análise de amostras na forma de solução aquosa
[JACKSON, 1999].
Ao longo do desenvolvimento instrumental da ETAAS, diversos acessórios e
modificações nos fornos surgiram na tentativa de facilitar e permitir a análise direta de
sólidos [KURFÜRST, 1998 e WELZ e SPERLING, 1999]. É conveniente salientar que
nesses trabalhos iniciais as adaptações eram feitas no sentido de viabilizar a introdução de
amostra sólida em um atomizador convencional utilizado para amostragem de soluções
aquosas.
Apesar do interesse na análise direta de sólidos por ETAAS, as pesquisas que
culminaram em um modelo de forno de grafite designado para essa finalidade se
intensificaram a partir da década de 80 [JACKSON, 1999]. Dois fatores podem ser atribuídos
a esse crescente interesse: o surgimento dos tubos de grafite com aquecimento transversal,
que conferem maior isotermicidade durante a atomização, e o uso de corretores de radiação
de fundo baseados no efeito Zeeman, que apresentam melhor eficiência do que os
corretores com lâmpada de deutério.
Atualmente, encontra-se comercialmente disponível um modelo de espectrômetro de
absorção atômica com atomização eletrotérmica que opera no modo convencional, com
solução aquosa, ou com amostragem direta de sólidos. Nesse equipamento, a amostra
sólida é pesada diretamente sobre uma plataforma de grafite pirolítico (Figura 4.3), que é
inserida no interior do tubo de grafite por uma janela lateral com auxílio de uma pinça
[FRIESE e KRIVAN, 1998]. Esses sistemas de amostragem podem ser muito simples, com
operação manual (Figura 4.4a), ou mais sofisticados, com as operações totalmente
automatizadas (Figura 4.4b).

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Análise direta de sólidos 101

Figura 4.3 - Plataforma de grafite pirolítico utilizada em SS-ETAAS


FONTE: AnalytikJenaAG (www.analytik-jena.de)

a) b)

Figura 4.4 - Fotografias de amostradores de sólidos: (a) manual e (b) automático.


FONTE: AnalytikJenaAG (www.analytik-jena.de)

Análise de materiais refratários de difícil solubilização


A possibilidade de analisar materiais sólidos diretamente sem a necessidade de
digestão é um atrativo da SS-ETAAS, principalmente nos casos em que as amostras são de
difícil decomposição. Em geral, esse tipo de amostra requer condições drásticas para que a
solubilização completa seja alcançada. A elevada temperatura e/ou pressão, e a
necessidade de utilizar misturas de diferentes reagentes são alguns exemplos. Existem
ainda situações nas quais a solubilização da amostra é alcançada somente mediante
procedimentos de fusão. É importante salientar que, nesses casos, a introdução de
contaminação é bastante provável e o elevado teor salino da solução final pode
comprometer a posterior detecção.
Schäffer e Krivan [SCHÄFER e KRIVAN, 2001] verificaram que a determinação direta
de alguns elementos em amostra de carbeto de silício por SS-ETAAS era muito mais
atrativa, simples e rápida do que aquela obtida após submetê-la a digestão ácida. No
procedimento desenvolvido, a determinação era efetuada em alguns minutos, enquanto o
processo de digestão demorava cerca de 12 h e deveria ser feito em sistema fechado (alta

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102 Análise direta de sólidos

pressão) utilizando misturas de ácidos concentrados (HF, HNO3 e H2SO4). A digestão de


amostras de óxidos de tungstênio também é bastante demorada (6 horas) e requer
condições drásticas para ocorrer (sistema de alta pressão, alta temperatura e uso de mistura
de reagentes). No entanto, Hornung e Krivan [HORNUNG e KRIVAN, 1999] desenvolveram
um procedimento rápido (3 a 6 minutos) para determinação direta de algumas impurezas
nesse tipo de amostra. Da mesma maneira, Krivan e Janickova [KRIVAN e JANICKOVA,
2005] determinaram 9 impurezas em óxido de zircônio de alta pureza. Segundo os autores,
a técnica SS-ETAAS apresenta limites de detecção muito melhores que os procedimentos
convencionais. Além disso, por possibilitar a separação analito/matriz in situ, o tempo de
análise pode ser reduzido de algumas horas para somente alguns minutos.

Análise de materiais de alta pureza


Ao contrário do que ocorre em procedimentos de digestão, o risco de contaminação
em SS-ETAAS é muito menor, uma vez que a manipulação e o uso de reagentes são
mínimos. Com isso, a técnica pode ser caracterizada por apresentar baixo valor do branco
analítico e de limite de detecção. Além disso, como a SS-ETAAS apresenta a elevada
sensibilidade como uma de suas principais características, ela tem sido intensamente
empregada nas determinações de alguns elementos em materiais tecnológicos de alta
pureza. O carbeto de silício [SCHÄFER e KRIVAN, 2001] e óxido de tungstênio [HORNUNG
e KRIVAN, 1999], anteriormente mencionados são alguns exemplos.
Huang e Krivan [HUANG e KRIVA, 2000] também desenvolveram um procedimento
que possibilitou a determinação de algumas impurezas como Al, Co, Cr, Cu, Fe, K, Mg, Mn,
Na, Ni, e Zn em amostras de pentóxido de nióbio de alta pureza. Muitos desses metais
devem estar presentes na amostra em concentrações inferiores a 0,2 µg g-1, pois
dependendo da sua aplicação, a pureza exigida desse material varia de 99,9 a 99,999%.
Para cada determinação, massa de aproximadamente 15 mg de amostra foi necessária. Os
limites de detecção obtidos variaram de 0,5 a 2 ng g-1, ou seja, 330 vezes melhores do que
os obtidos após digestão e análise por ETAAS.
Resultados semelhantes foram obtidos por Lucic e Krivan [LUCIC e KRIVAN, 1998],
na determinação de alguns elementos em óxido de alumínio de alta pureza. Enquanto os
limites de detecção obtidos na análise de suspensões por ETAAS e por ICP OES foram de 5
e 130 ng g-1 e 2,1 e 900 ng g-1, respectivamente, para SS-ETAAS, o menor e o maior valor
encontrado foi de 0,5 (Zn) e 25 (Co) ng g-1.
Dong e Krivan [DONG e KRIVAN, 2001] também fizeram uso da SS-ETAAS para
determinar Si em amostras de óxido de nióbio, titânio e zircônio. Como esses materiais têm
importantes aplicações no campo da alta tecnologia, suas purezas devem ser superiores a
99,997%, especificamente para Si, a concentração deve ser inferior a 1 µg g-1. Dentre várias

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Análise direta de sólidos 103

técnicas testadas como a análise de suspensão por ETAAS e ICP OES, ou a análise direta
de sólidos por XRFS e SSMS, a SS-ETAAS foi a que apresentou menores valores de limite
de detecção e a única que possibilitou a quantificação de Si em amostra de óxido de nióbio
(1,1 µg g-1).

Análise de pequenas quantidades de amostra


Em certos casos, a determinação de baixa concentração é acompanhada de um
complicador, a quantidade de material disponível para análise. Como exemplo, pode-se citar
as investigações de intoxicação por exposição a metais tóxicos por meio de análises de
cabelo, pele, unha, dente, osso, fluidos biológicos, tecidos biológicos e saliva. Devido ao fato
de muitos desses materiais serem obtidos por meio de procedimentos como a necrópsia ou
biópsia, nas quais a quantidade retirada é muito pequena, o uso da SS-ETAAS para a
determinação elementar se torna uma opção conveniente.
Na tentativa de simular uma situação real de biópsia, Herber e colaboradores
[HERBER et al, 1985] fizeram a determinação de Cd em placenta de rato utilizando dois
procedimentos diferentes: análise direta e determinação após decomposição da amostra por
ETAAS. Como resultado, o autor concluiu que a análise direta era mais rápida e menos
susceptível à contaminação, sendo por isso a mais conveniente nessas situações. Nordahl e
colaboradores [NORDAHL et al, 1990] também fizeram uso da SS-ETAAS e obteve sucesso
na determinação de Al em cérebro proveniente de necrópsia e em mucosas retiradas por
procedimentos de biópsia.
A análise química aplicada às investigações forenses é uma outra situação na qual a
disponibilidade de amostra, geralmente, é baixa. A análise de resíduos de armas de fogo
(GSR, do inglês, gunshot residues) é um exemplo que contribui significantemente na
investigação de casos criminais envolvendo a utilização de armas de fogo. GSR são
substâncias liberadas das armas durante o disparo e que podem, posteriormente, ser
analisadas por diferentes métodos analíticos. Os elementos comumente analisados são o
Pb, Ba e Sb, seguido pelos Sn, Ti, Mn, Hg, Al, Cu, Fe, Si, K e S, pois os mesmos fazem
parte da composição das armas e projéteis. De um modo geral, a análise de GSR permite
desvendar alguns fatos como a reconstrução do evento, encontrar alguma informação sobre
o autor do disparo e obter informações sobre o tipo de arma e munição utilizadas.
Nesse contexto, muitas técnicas analíticas tem sido utilizadas na determinação de
GSR. Lichtenberg [LICHTENBERG, 1987] avaliou a distribuição de Pb e Sb por SS-ETAAS
na mão de um suspeito que fez disparos com armas de fogo. Nesse estudo, foi possível
fazer a determinação da concentração desses elementos ao longo do dedo indicador até
parte da mão onde a arma é apoiada. Os resultados mostraram que a concentração do
elemento de interesse é maior na ponta do dedo e na mão, sendo que os menores valores

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104 Análise direta de sólidos

encontravam-se ao longo do dedo. Estudo parecido foi proposto por Lücker [LÜCKER, 1999]
quando verificou a distribuição de Pb nos tecidos musculares de patos, após disparos com
arma de fogo.
A avaliação de penas de aves como biomonitores de contaminação é um outro
exemplo de aplicação da SS-ETAAS na forense ambiental. No estudo conduzido por Hahn e
colaboradores [HAHN et al, 1990], amostragens de pequenas massas ao longo das penas
de aves foram feitas e os resultados mostraram que o Cd e Pb estavam presentes em
maiores concentrações na parte externa da pena (região mais distante da raiz), indicando
que a contaminação dos animais era exógena (por exemplo, pelo meio ambiente). Ao
contrário, a concentração de Hg era praticamente a mesmas ao longo de toda a pena,
indicando contaminação endógena, proveniente de alimentos, por exemplo.
A análise de cabelo para fins forenses é um outro importante exemplo que merece
destaque. O primeiro caso de investigação de envenenamento através da análise de cabelo
foi publicado em 1858, por Hoppe, na Inglaterra, quando determinou As no cabelo de um
cadáver exumado 11 anos após o sepultamento [CASPER, 1997]. Aproximadamente 100
anos depois, em 1954, Goldblum determinou anfetamina em pelos de cobaia. No entanto, a
publicação que realmente garantiu a relevância do uso de cabelo para determinação de
drogas ocorreu em 1979, quando Baumgartner e colaboradores analisaram opiáceos em
cabelo por radioimunoensaio (RIA) após extração com metanol [BAUMGARTNER et al,
1997].
Um fato que merece destaque é a investigação sobre a morte de Napoleão
Bonaparte na qual, sua sucessiva exposição a As pôde ser verificada através da análise de
seu cabelo por NAA. Segmentos do cabelo foram analisados de modo que foi possível
verificar as diferentes exposições de Napoleão ao As. Isso foi possível, pois o As ligou-se
irreversivelmente às proteínas do cabelo, cujo crescimento diário do folículo é de
aproximadamente 0,35 mm, fazendo com que a distribuição do elemento ocorresse de
forma segmentada [POZEBOM et al, 1999]. Partindo dessa mesma idéia, cabelos de uma
população de um vilarejo no Iraque também foram analisados para comprovar a
contaminação por Hg proveniente do trigo (utilizado na fabricação de pães) tratado com
fungicida à base de compostos de mercúrio [CHAT e KATZ, 1999]. São muitas as
aplicações voltadas à análise de cabelo. Dentre elas pode-se destacar a determinação de
elementos traços como uma ferramenta para avaliar o estado nutricional ou toxicológico
[PEREIRA et al, 2004 e CARNEIRO et al, 2002], o impacto ambiental sobre a saúde
humana [SENOFONTE et al, 2001 e MORRISSETE et al, 2004], e para desvendar crimes e
investigar casos de morte por envenenamento [BERMEJO-BARRERA et al, 2002 e DANIEL
III et al, 2004].

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Análise direta de sólidos 105

Dentre todas essas aplicações, a possibilidade em desvendar crimes ou reconstruir


episódios nutricionais ou toxicológicos do passado torna essa amostra bastante atraente
para ser aplicada na química forense. Em geral, nessas situações, pequenas quantidades
de amostras de cabelo são analisadas, requerendo, portanto uma técnica como a SS-
ETAAS, que apresenta de elevada sensibilidade e possibilita analisar com precisão e
exatidão, diminutas massas de amostras.

Avaliação da microhomogeneidade de materiais


Os CRMs têm papel fundamental no controle de qualidade analítico e têm sido
intensamente utilizados na Química Analítica. A necessidade em comparar resultados entre
laboratórios e entre países cresceu a partir de 1906, período no qual a NBS (US National
Bureau of Standards) começou o programa de fornecimento desse tipo de material. Desde
então, a confiança em todos os resultados analíticos é fortemente dependente da
disponibilidade desse tipo de material [ZSCHUNKE, 2000], uma vez que, eles apresentam
características e concentrações de analitos bem definidas, podendo ser utilizado como
parâmetro para verificar a confiabilidade de um método analítico.
Os CRMs são produtos relativamente caros [VENELIOV e QUEVAUVILLER, 2003].
Isso se deve ao fato da sua produção ser bastante complexa e exigir muitos cuidados para
que a qualidade analítica do mesmo seja mantida. Evitar perdas de compostos ou
contaminações durante a transformação do material ou manter a composição química da
mesma são alguns dos cuidados requeridos [PAUWELS et al, 1990]. Além disso, muitos
desses materiais, principalmente os biológicos, requerem condições de estocagem
especiais como temperaturas e umidade controladas [VENELIOV e QUEVAUVILLER,
2003].
Como os CRMs são materiais ou substâncias cuja propriedade e homogeneidade
são bem definidas e estabelecidas e por esse motivo, utilizado para certificações de
métodos75, o controle sobre o processo de sua produção é de extrema importância e ele
deve ser feito de forma a avaliar a composição do material antes, durante e depois da
produção. A detecção de eventual contaminação ou perda do analito de interesse durante a
produção do material e a avaliação das mudanças na microdistribuição dos elementos nas
amostras são alguns dos controles mais comumente realizados [LÜCKER et al, 1991 e
PAUWELS et al, 1991].
A SS-ETAAS vem sendo intensamente utilizada para realizar tais controles na
produção e padronização de diversos tecidos animais utilizados como materiais de
referência certificados (CRMs). Segundo Pauwells e colaboradores [PAUWELS et al, 1991],
essa técnica apresenta 3 características importantes que são exigidas nessa situação: (1) o
método não deve requerer pré-tratamento de amostra para que contaminações ou perdas

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106 Análise direta de sólidos

de analitos por volatilização sejam evitadas; (2) análises precisas devem ser realizadas
utilizando massas de amostras muito pequenas (<1 mg); e (3) o procedimento deve ser
rápido e permitir que grande número de análises seja feito em curto espaço de tempo.
A aplicação da SS-ETAAS na avaliação da microhomogeneidade de materiais é um
dos estudos mais explorados na literatura. Nomura e colaboradores avaliaram a
homogeneidade de Cu e Zn [NOMURA et al, 2005] e de Cd e Pb [NOMURA e OLIVEIRA,
2006] em fígado bovino certificador e alguns materiais preparados no laboratório. Nesse
estudo, os autores observaram que apesar de o material de referência certificado (NIST
SRM 1577b) garantir homogeneidade para massa superior a 250 mg, massas inferiores a
0,100 mg puderam ser utilizadas sem perda na precisão e exatidão dos resultados
analíticos. No estudo visando avaliar a homogeneidade na distribuição de Cd e Pb em
materiais certificados de farinha de trigo e de arroz, fígado e músculo bovino, leite em pó,
rim suíno, pão e peixe, proposto por Mohl e colaboradores [MOHL et al, 1987], as massas
de amostras variaram de 0,04 a 5 mg. Dentre os materiais avaliados, os autores observaram
que a distribuição de Cd em farinha de milho e arroz era homogênea, enquanto em fígado
bovino, a heterogeneidade era predominante. Com relação ao Pb, o rim suíno mostrou-se o
mais homogêneo e o fígado bovino, o menos. Da mesma maneira, Pauwels e colaboradores
[PAUWELS et al, 1993] verificaram que Cd e Pb não estão homogeneamente distribuídos
em amostras de músculo de bacalhau certificado. Por outro lado, a distribuição de Hg, Fe e
Zn é homogênea. Bagschick e colaboradores [BAGSCHIK et al, 1990], por sua vez,
demonstraram que a homogeneidade de Cd, Cu, Ni e Pb em diversos vegetais era bastante
satisfatória, mesmo quando massas de amostra inferiores a 2 mg foram utilizadas.

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112 Amostragem de suspensões

4.2. AMOSTRAGEM DE SUSPENSÕES

Dário Santos Junior


Francisco José Krug

4.2.1. Introdução

A análise de suspensões tem sido proposta como alternativa para os


procedimentos de decomposição de amostras e determinação de elementos inorgânicos por
1-5
diferentes técnicas . Os benefícios freqüentemente ressaltados para análise direta de
suspensões incluem:

(i) diminuição do tempo de preparo das amostras;


(ii) menor consumo de ácidos concentrados;
(iii) menor possibilidade de perdas do analito pela formação de resíduos
insolúveis ou por volatilização prematura;
(iv) menor possibilidade de contaminação;
(v) facilidade para mecanização do procedimento de introdução da amostra,
utilizando-se o próprio auto-amostrador do equipamento.

Entretanto, a amostragem de suspensões também possui características restritivas:

(i) a falta de homogeneidade na distribuição do analito na amostra representa


uma limitação para o uso de alíquotas menores que 1 mg nos atomizadores
eletrotérmicos ou nos vaporizadores eletrotérmicos;
(ii) dificuldade para encontrar materiais de referência adequados para a
calibração, quando não é possível calibrar com padrões aquosos;
(iii) altos sinais de fundo podem ser observados, dependendo do comprimento
de onda a ser medido e das características da matriz;
(iv) dificuldade para obtenção de diminutos tamanhos de partículas (geralmente
< 5 µm) para introdução em ICPs;
(v) é necessário o uso de suspensões concentradas para a determinação de
baixas concentrações do analito, o que diminui a precisão das medidas,
potencializa os efeitos de matriz, aumenta a formação de resíduos carbonáceos
para amostras orgânicas e diminui a interação do analito com o modificador
permanente em GFAAS 5,

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Amostragem de suspensões 113

(vi) as suspensões provocam uma diminuição da vida útil do atomizador em até


50% quando comparada com a amostragem de soluções da amostra
decomposta 6.

Entre as restrições expostas, a objeção mais comumente encontrada para


amostragem de suspensões é a necessidade de partículas com tamanho diminuto. É
importante observar que o tamanho das partículas do material sólido tem papel decisivo na
estabilidade das suspensões durante a aspiração, transporte ou introdução da amostra,
assim como na eficiência da atomização 1. A introdução de suspensões em plasmas, por
exemplo, requer que a eficiência no transporte do analito (i.e. ocluso na partícula) através do
sistema de introdução da amostra, bem como a eficiência de atomização, sejam idênticas
àquelas obtidas para o analito em solução 7. Se esse critério for alcançado, possivelmente a
curva analítica de calibração poderá ser feita com soluções aquosas 2. Em geral, o melhor
tamanho de partícula para introdução de suspensões em plasmas está abaixo de 5 µm 2.
Para alcançar uma fração da amostra com esse tamanho de partícula são utilizados
procedimentos de moagem, os quais, dependendo da amostra, podem se estender de
minutos a muitas horas, aumentando a possibilidade de contaminação 2.
Para a introdução de suspensões em GFAAS, alguns autores sugerem que o
8,9 10
tamanho de partículas não deve exceder 30 µm . Para materiais biológicos, Miller-Ihli
sugere que tamanhos de partículas da ordem de 30 µm não são críticos. O melhor tamanho
de partículas depende essencialmente da composição da amostra. Esse efeito é mais
acentuado nos sistemas de atomização com chamas e com plasmas em comparação aos
sistemas eletrotérmicos e, provavelmente por essa razão, tem-se dado maior preferência
10
aos sistemas eletrotérmicos na análise direta de suspensões. De acordo com Miller-Ihli ,a
análise direta de suspensões em espectrometria de absorção atômica com forno de grafite
(GFAAS) pode tolerar partículas de materiais biológicos com tamanhos até 500 µm.
Geralmente, a análise de suspensões de alimentos por GFAAS não sofre tão severamente a
influência da distribuição do tamanho das partículas como as técnicas com nebulização
pneumática. Embora as partículas possam ter tamanhos variados, o que poderia provocar
possíveis problemas com a eficiência de atomização, o uso de absorbância integrada com
tempos de residência longos proporciona determinações precisas na análise de
suspensões 11.
Contudo, um dos problemas pertinentes na amostragem direta de sólidos e na
amostragem de suspensões refere-se à falta de homogeneidade na distribuição dos
elementos químicos nas amostras para massas menores que 1,0 mg. Por exemplo, a
maioria dos materiais de referência certificados (CRMs) apresenta homogeneidade atestada
12
apenas para massas maiores que 100 mg . Dessa forma, as etapas de cominuição das

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
114 Amostragem de suspensões

amostras visando uma distribuição granulométrica mais homogênea das partículas, assim
como a representatividade de pequenas massas de amostra necessitam de investigações
bem detalhadas.
No aspecto da falta de homogeneidade das amostras para massas menores que
1,0 mg, seria difícil compreender, por exemplo, o emprego com sucesso da amostragem de
suspensões na espectrometria atômica com atomização eletrotérmica, uma vez que massas
menores que 500 µg são introduzidas nos atomizadores. No entanto, uma fração
significativa dos elementos determinados é parcialmente extraída para fase líquida das
suspensões durante os procedimentos de agitação, aumentando consideravelmente a
massa representativa da análise.
13
De acordo com Miller-Ihli , a amostragem de suspensões em GFAAS é um
procedimento apropriado para a caracterização da homogeneidade de materiais sólidos.
Contudo, uma questão interessante, principalmente quando são feitos testes de micro-
homogeneidade, é o quanto a alíquota introduzida no atomizador representa a massa
utilizada para o preparo da suspensão. Como exemplo, em digestões ácidas completas todo
analito presente na amostra está em solução e a homogeneidade é atestada para toda
massa de amostra digerida. Em suspensões a homogeneidade da amostra pode ser
atestada para massas de microgramas ou miligramas, dependendo da percentagem de
extração do analito para a fase líquida da suspensão. No caso de 0% de extração, a
amostragem de suspensões oferece um meio reprodutível e preciso para testar a
homogeneidade na ordem de microgramas, visto que a determinação do analito refere-se
apenas à massa de amostra introduzida no atomizador (e.g. 200 µg são introduzidos quando
uma alíquota de 20 µl de uma suspensão 1% m/v é utilizada). Porém, 0% de extração
representa uma situação pouco realista, uma vez que até mesmo uma pequena fração do
analito adsorvido na superfície da partícula pode ser extraída. Para 100% de extração a
homogeneidade do material é atestada para a massa utilizada no preparo da suspensão. As
massas usadas freqüentemente para o preparo das suspensões estão entre 10 e 30 mg,
quando preparadas diretamente no copo do auto-amostrador ou entre 100 mg e 1,0 g,
quando preparadas em balões volumétricos.
Considerando-se que a percentagem extraída para fase líquida represente uma
percentagem equivalente da amostra, a massa representada pela alíquota da suspensão
pode ser calculada de acordo com a seguinte equação proposta por Miller-Ihli 14:

Ma = Vs . (Ms / V0) . (1 - fx) + (fx . Ms)

Onde Vs é o volume da suspensão (µL) depositado no atomizador, Ms é a massa utilizada


para preparar a suspensão (mg), V0 é o volume de diluente utilizado para preparar a

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Amostragem de suspensões 115

suspensão (µL), fx é a fração do analito extraído para fase líquida e Ma seria a massa
representada pela alíquota da suspensão (mg). Nesse caso, para amostragem de 20 µl de
uma suspensão 1 % m/v preparada com 500 mg da amostra e 50 mL do diluente, a
homogeneidade na ausência de extração seria atestada para os 200 µg depositados sobre a
plataforma. Para extrações de apenas 20%, a homogeneidade seria atestada para 100,16
mg da amostra utilizada no preparo da suspensão. Vale ressaltar que, na maioria dos
métodos propostos na literatura para amostragens de suspensões, o percentual de extração
do analito para a fase líquida não é informado. Esses dados seriam interessantes para uma
avaliação prévia da homogeneidade das amostras e caracterização do método analítico.
15
Bendicho e Loos-Vollebregt concluíram que a amostragem de suspensões
proporciona melhor desempenho analítico quando comparada à amostragem direta de
sólidos. Entre as vantagens da amostragem de suspensões destacam-se, principalmente, à
facilidade para efetuar mudanças de concentrações, e à facilidade para mecanização do
procedimento de introdução da amostra, utilizando-se o próprio auto-amostrador do
aparelho, e combinando os benefícios da amostragem simultânea de sólidos e líquidos.

4.2.2. Preparo das suspensões

Para garantir que uma alíquota representativa da amostra seja introduzida no


tubo de grafite, a suspensão deve ser homogeneizada imediatamente antes da análise.
Entretanto, para soluções aquosas, o material sólido é facilmente sedimentado devido à sua
natureza hidrofóbica. A velocidade de sedimentação depende da viscosidade e densidade
do meio diluente, e do tamanho e densidade das partículas 1, 15.
Alguns experimentos para estabilizar as suspensões previamente às
determinações foram feitos com o uso de agentes tixotrópicos, como Viscalex 9 e Glicerol 10.
Em todos os experimentos foram descritos problemas com a repetibilidade proporcionada
pelo auto-amostrador, devido à aderência da amostra nas paredes do tubo de amostragem.
Outros experimentos indicaram que a homogeneização das suspensões deve ser feita por
11
agitação . Dentre as técnicas de homogeneização de suspensões a agitação ultra-sônica
parece ser a mais eficiente, pois proporciona a extração total ou parcial do elemento de
1,16
interesse da fase sólida para a fase líquida . Em 1989 foi proposto um acessório
17
mecanizado de homogeneização ultra-sônica de suspensões para GFAAS . Usando a
agitação ultra-sônica, vários trabalhos com amostragem de suspensões em GFAAS foram
realizados com sucesso 3. Nos últimos anos o preparo de suspensões tem sido bastante
empregado na análise de materiais biológicos e inorgânicos.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
116 Amostragem de suspensões

Embora as pesquisas indiquem a eficácia da amostragem de suspensões em


GFAAS e em outras técnicas analíticas, ainda se faz necessário o estudo para otimização
do preparo de amostras para diferentes matrizes. Nesse sentido, alguns trabalhos foram
publicados, e os fatores de maior interesse na otimização da amostragem têm sido a
homogeneidade, densidade do material sólido, tempo de homogeneização da suspensão,
concentração da suspensão, distribuição do tamanho das partículas e distribuição do analito
nas partículas 11,12,13,18.
A densidade e o tamanho da partícula têm sido utilizados para determinar o
14
número de partículas inseridas no tubo de grafite. Segundo Miller-Ihli , para materiais com
-3
densidade de 1 g cm e tamanhos de partícula até 250 µm, 20 mg da amostra são
suficientes para preparar 1 mL de suspensão e assegurar um mínimo de 50 partículas em
20 µL, enquanto que, para partículas com tamanhos de 500 µm, são necessários 163 mg de
amostra. A densidade também deve ser considerada quando for estabelecida a máxima
concentração da suspensão que pode ser preparada, desde que a razão entre o volume de
sólido por unidade de volume do líquido não seja suficiente para prejudicar a eficiência do
auto-amostrador, assim como o observado para suspensões viscosas. Razões menores do
que 0,25 foram determinadas experimentalmente e consideradas aceitáveis 11,14.

Preparo de suspensões após calcinação

O procedimento de calcinação baseia-se na queima da fração orgânica da


amostra com o oxigênio do ar, obtendo-se um resíduo inorgânico na forma de cinza solúvel
em ácido diluído. Hoenig e Kersabiec 19 em revisão sobre preparo de amostras descreveram
algumas limitações dos procedimentos de calcinação, como a volatilização de alguns
analitos e a insolubilidade do material calcinado.
Devido a problemas de perdas por volatilização, o procedimento de calcinação
em cadinho é aplicável apenas para elementos metálicos, visto que a maioria dos não
metais é oxidada a produtos voláteis. Às vezes um elemento é mais propenso à perda por
volatilização se determinadas espécies estiverem presentes na matriz. O íon cloreto, por
exemplo, pode reagir com metais produzindo cloretos voláteis. O chumbo e o cádmio são
facilmente perdidos dessa maneira como PbCl2 e CdCl2 voláteis. Outra fonte de erro é que a
amostra pode reagir com o material do cadinho. A extensão dessa perda depende da
temperatura, do material do cadinho e da composição da amostra. Se o cadinho for de
porcelana ou sílica, o elemento pode reagir e ficar aderido nas paredes do cadinho, sendo
perdido nesse tipo de pré-tratamento.
A preparação de suspensões carbonáceas é um procedimento químico, no qual
a suspensão é obtida aquecendo-se a amostra em ácido sulfúrico concentrado e diluindo-se

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Amostragem de suspensões 117

20
a solução resultante em água. Fagioli e Landi foram os precursores da utilização da
oxidação parcial por via úmida para materiais biológicos e subseqüente análise da
suspensão carbonácea formada. Embora esses procedimentos proporcionem apenas a
decomposição parcial da matriz, os autores concluíram que o procedimento proposto
poderia ser aplicado para todos os tipos de materiais biológicos.

Preparo de suspensões via processamento de materiais in natura

Os procedimentos de homogeneização da amostra para o preparo de


suspensões de alimentos, contendo água e com alto teor de fibras, parecem ser rápidos e
apropriados para amostras com elementos de fácil extração. Contudo, esses procedimentos
não são apropriados para alimentos com alto teor de gorduras, as quais dificultam ou
impossibilitam uma efetiva redução do tamanho das partículas.
Fry e colaboradores investigaram o procedimento de homogeneização para o
21-23
preparo de suspensões de alimentos com diferentes homogeneizadores . Segundo os
autores, os resultados obtidos para determinação de Cu, Mn, e Zn por espectrometria de
absorção atômica com chama (FAAS) foram concordantes com os valores certificados para
fígado bovino. Os autores também determinaram Na e K por espectrometria de emissão
atômica com chama (FAES) em suspensões preparadas a partir de amostras de
sanduíches. Nesse trabalho, os autores observaram que os metais alcalinos foram
dissolvidos quantitativamente, quando homogeneizados em água, e os resultados não foram
afetados quando as partículas sólidas foram centrifugadas e os analitos determinados
23
apenas no sobrenadante resultante . Embora os resultados obtidos por esses autores
sejam interessantes, esse procedimento poderia ser melhor caracterizado como um
procedimento de extração e não como preparo de suspensões, uma vez que as partículas
sólidas foram removidas por centrifugação e apenas o sobrenadante foi utilizado para
analise.

Preparo de suspensões após moagem de material seco

Vários procedimentos de moagem mecânica têm sido utilizados para o preparo


de suspensões. A escolha do equipamento adequado depende das características da
24
matriz, principalmente da sua dureza. Segundo Kurfürst , materiais biológicos devem ser
moídos usando-se esferas de PTFE em frascos de polietileno. Como alternativas podem ser
25-26
usados almofarizes e moinho de bolas de ágata 9. Geralmente, as técnicas de moagem
podem ser aplicadas a uma grande variedade de materiais, principalmente se a amostra for
previamente submetida a uma etapa de secagem. Porém, o contato da amostra com peças

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
118 Amostragem de suspensões

confeccionadas em aço inoxidável deve ser evitado, principalmente, para determinação de


Cr, Fe, e Ni. Para amostras nas quais esses metais sejam de interesse analítico, os
materiais mais recomendáveis seriam nitreto de silício e carbeto de boro, os quais oferecem
24-25
uma boa resistência abrasiva e reduzida contaminação . Alternativamente, esferas de
27 25
zircônio podem ser utilizadas , porém pode causar contaminação por Al, Cr, e Fe , não
sendo recomendável para determinação desses elementos 24.
Viñas et al. 28 propuseram um procedimento para preparo de suspensões para
determinação de Ca, Fe, Mg, e Zn em farinhas. Os autores observaram que após um
período de 30 min de moagem em um moinho de bolas, apenas 52 % das partículas tinham
tamanhos menores que 30 µm. Os valores de concentração determinados estavam de
acordo com os valores obtidos para a preparação convencional em dissolução ácida. Os
autores enfatizaram que o procedimento proposto não tinha aplicação geral e que o sucesso
obtido foi devido às características físicas do material em suspensão.
29-30
Krug e colaboradores determinaram Se e Cd em amostras de peixes . Para
determinação de Se 29, as amostras foram congeladas por 3 dias, liofilizadas por mais 2 dias
antes de serem moídas em um almofariz e em seguida peneiradas para obtenção de
30
partículas com diâmetros em torno de 53 µm. Para determinação de Cd , as amostras
foram previamente liofilizadas por 2 dias antes de serem moídas em um moinho de bolas,
obtendo-se partículas com diâmetros inferiores a 30 µm. Nesses trabalhos observa-se que o
procedimento para o preparo das suspensões é moroso devido ao alto teor de água nas
amostras.
Em geral, os procedimentos de moagem convencional são apropriados para o
preparo de suspensões de amostras de alimentos que estejam na forma de pó ou que
tenham sido secas antes da moagem, mas não são eficazes para redução do tamanho de
partículas de alimentos com elevados teores de água, fibras e gorduras. Para essas
matrizes o procedimento de moagem mais indicado é a moagem criogênica.

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5. DECOMPOSIÇÃO E SOLUBILIZAÇÃO DE SÓLIDOS
INORGÂNICOS

Antonio Celso Spínola Costa


Francisco José Krug

5.1. INTRODUÇÃO

A grande maioria das técnicas analíticas utilizadas para determinações de


elementos em amostras inorgânicas requer que a amostra esteja na forma de uma
solução aquosa. De um certo modo, é correto afirmar que a maioria das técnicas analíticas
trabalha melhor com soluções aquosas. Além disso, as amostras na forma de soluções são
mais versáteis do que na forma de sólidos :
- as curvas analíticas de calibração podem ser feitas com soluções-padrão de fácil
preparação,
- diluições são simples,
- separações de constituintes com ou sem pré-concentração são possíveis.
Por outro lado existem vários inconvenientes: a maioria dos materiais inorgânicos
são inerentemente pouco solúveis em água ou outros solventes, e só podem ser dissolvidos
através de drásticas decomposições químicas. Além disso, frequentemente nos deparamos
com materiais de difícil dissolução. Não obstante, é conveniente recordar que:
• existem técnicas que requerem as amostras na forma de soluções, como as clássicas
(volumetria, gravimetria), espectroanalíticas (espectrometria de absorção atômica,
espectrometria de absorção molecular, espectrometria de emissão atômica,
espectrometria de fluorescência atômica, etc), eletroanalíticas (voltametria, amperometria,
potenciometria), cromatográficas. Deve-se também lembrar que pequenas alterações na
distribuição dos elementos nas amostras originais são mascaradas quando as amostras
estiverem na forma de solução aquosa, o que necessariamente não constitui uma
desvantagem.
• existem técnicas que são aplicáveis a amostras sólidas ou líquidas, como análise por
ativação neutrônica instrumental, fluorescência de raios X, espectrometria de absorção
atômica, ICP OES, ICP-MS).
• existem técnicas que requerem as amostras na forma sólida, como espectrometria de
emissão atômica com arco, faísca, ablação com laser, e aquelas baseadas em reações
de combustão, por exemplo.

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 123

5.1.1. DEFINIÇÕES
Aqui é chamada a atenção do leitor para o significado dos termos
"dissolução" e "abertura" de amostras, conforme sugerem Bock (1979) e Anderson (1991).
Cumpre observar que nos laboratórios de análises químicas brasileiros, não se costuma
fazer uma distinção muito rígida entre estes termos. Os termos solubilização e
decomposição, também muito empregados, corresponderiam aos termos dissolução e
abertura, respectivamente. Não obstante, o termo digestão de amostras, muito empregado
para materiais orgânicos, também é muito usado, indiscriminadamente, para decomposição
de outros materiais.
Dissolução significa que a amostra sólida, líquida ou gasosa é dissolvida em líquidos
adequados a baixas temperaturas (Bock). No presente capítulo, dedicado ao pré-tratamento
de materiais sólidos inorgânicos, dissolução corresponde à transformação direta da amostra
em uma solução, envolvendo ou não uma reação química (Anderson) (e.g., uma amostra de
ferro-silício é tratada com uma mistura de HNO3 e HF; a solução é levada à secura e o
resíduo é dissolvido com HNO3 e H2O2 ,dando origem a uma solução límpida).

Abertura significa converter a amostra em uma outra forma sólida com transformação
química (Anderson). A nova forma sólida é facilmente solúvel em solução aquosa (Ex.: uma
amostra de silicato insolúvel é superaquecida com um excesso de Na2CO3 até a fusão da
mistura em um produto claro, o qual se solidifica após esfriar, sendo prontamente dissolvido
com solução de ácido clorídrico diluído). Segundo Bock, entende-se por abertura a
decomposição de amostras em altas temperaturas: quando se faz a decomposição por
fusão, utiliza-se a expressão "abertura".

5.1.2. UM PROCEDIMENTO IDEAL PARA A DISSOLUÇÃO DE SÓLIDOS INORGÂNICOS.


Antes de se proceder a uma descrição dos diferentes métodos para a
dissolução de materiais, é interessante ter-se uma idéia sobre quais seriam as
características mais desejadas nestes métodos, ou, qual seria o método ideal.
(i) Capaz de dissolver a amostra completamente, sem deixar nenhum resíduo.
(ii) Razoavelmente rápido para ser executado, ou apresentar uma taxa de amostragem
compatível com o método de determinação.
(iii) Os reagentes utilizados não deverão interferir na determinação do analito e/ou na
separação dos constituintes de interesse. Caso contrário deverão ser facilmente
removíveis da solução da amostra.
(iv) Os reagentes deverão estar disponíveis em alto grau de pureza para não contaminar
as amostras.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
124 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

(v) As perdas dos analitos por volatilização, por formação de aerossóis, por adsorção
e/ou absorção nas paredes dos frascos de reação, ou por quaisquer outras razões,
deverão ser desprezíveis.
(vi) Tanto os reagentes como a amostra não deverão atacar o recipiente onde será feita a
reação.
(vii) As contaminações devidas ao ambiente deverão ser desprezíveis.
(viii) O procedimento deverá apresentar o mínimo de insalubridade e de periculosidade.
(ix) A solução final deverá conter todos os analitos de interesse.

CRITÉRIOS PARA A ESCOLHA DO PROCEDIMENTO DE DISSOLUÇÃO MAIS


ADEQUADO

Antes de tomar alguma decisão sobre o emprego do método de


decomposição a ser utilizado, é conveniente verificar se ele atende todos ou alguns destes
critérios:

(a) Amplitude do método: número de materiais e de elementos a serem determinados por


material; relação massa/volume adequada.

(b) Duração da dissolução: muitos procedimentos são muito lentos, porque as reações
químicas envolvidas são freqüentemente lentas; o uso de amostras finamente moídas
facilita a dissolução.

(c) Natureza da solução final e remoção de excesso de reagentes.

(d) Materiais usados para a dissolução.

(e) Pureza dos reagentes.

(f) Perdas por volatilização.

(g) Aspectos associados à segurança


-queimaduras com HF
-explosões com HClO4
-vapores tóxicos de ácidos voláteis e de produtos gasosos (H2S, SO2, Cl2)
-fusões a temperaturas elevadas
-explosões em sistemas fechados sob pressões elevadas (transdutores de pressão e
temperatura, por exemplo)

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 125

5.2. MÉTODOS DE DISSOLUÇÃO

De um modo geral, a maioria dos procedimentos de dissolução de amostras,


como será visto adiante, pode ser agrupada em métodos baseados na:
• dissolução direta em água ou solução aquosa sem mudança química;
• dissolução em ácido, ou mistura de ácidos, com mudança química (mudança no
estado de oxidação do elemento a ser determinado);
• dissolução após fusão da amostra com fundente apropriado (naturalmente
envolvendo mudanças químicas);
• outras técnicas.

5.2.1. DISSOLUÇÃO SIMPLES SEM REAÇÃO QUÍMICA

São raras as aplicações, mas muitos produtos acabados em processos, como


sais inorgânicos, podem ser analisados após dissolução direta em água ou em solução
aquosa diluída, sem que haja mudança química. Este caso pode ser exemplificado pela
análise de fertilizantes solúveis em água.

5.2.2. DISSOLUÇÃO EM ÁCIDO

Em muitos casos o tratamento com ácido(s) não leva à dissolução quantitativa das
amostras. Os minerais que não contêm silicatos podem ser exceções (carbonatos e sulfetos
solúveis em ácido, por exemplo).

Assim, de certa forma, o tratamento ácido pode significar uma dissolução seletiva; a
escolha é decidida pela composição da amostra, propriedades químicas e concentração do
elemento a ser determinado, bem como a forma na qual está ligado. Recomenda-se
fortemente que o leitor complemente estas informações com excelente material disponível
na página http://www.sampleprep.duq.edu/sampleprep/

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
126 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

Ácidos diluídos

Quando uma amostra for insolúvel em água, a alternativa mais simples é


tentar uma solução aquosa de um ácido mineral diluído.
A maioria dos metais mais eletropositivos que o hidrogênio, muitos óxidos
simples de metais, carbonatos e sulfatos dissolvem em ácidos diluídos. O mecanismo de
dissolução é uma reação simples entre a amostra e o ácido, formando um sal do metal
solúvel em água ou algum outro produto, dependendo principalmente da natureza química
da amostra.
Alguns metais, como Al, Cr, Mo e W, podem ser passivados durante a
dissolução pela formação de uma película insolúvel dos seus óxidos, impedindo o ataque
ácido.
A dissolução de muitas amostras pode ser feita a frio, mas leve aquecimento
pode ser aplicado, quando necessário. Em alguns casos, o uso de ácidos diluídos é
recomendado para um ataque preliminar da amostra.
É importante lembrar nestas reações que, normalmente, o interesse está na
determinação do íon metálico. A conversão do ânion em uma forma volátil, como CO2 e
H2S, por exemplo, não deixa de ser conveniente na maioria das aplicações.
Cumpre observar que, para os metais serem dissolvidos, eles teriam que ser
pelo menos mais eletropositivos que o H2. A Tabela 5.1 mostra alguns dos potenciais
padrão de eletrodo para os íons metálicos mais comuns e importantes: um potencial padrão
positivo significa que o metal é mais eletronegativo que o hidrogênio (convencionalmente
mostram-se as reações-padrão de eletrodo como reduções).
Além disso, deve-se considerar que o uso de ácidos diluídos pode dar origem
a um sal insolúvel (precipitações de prata como cloreto e de bário como sulfato). No caso da
prata pode-se usar solução de HNO2. Carbonato de bário dissolve-se em ácidos clorídrico
ou nítrico diluídos.
Deve-se lembrar que o simples fato de o metal ser mais eletropositivo que o
hidrogênio não implica, necessariamente, que a dissolução ocorrerá. É o caso dos metais
que podem ser passivados.
Existem exceções para esta regra, como na reação de dissolução de cobre (e
de outros metais) em 1+1(v/v) HNO3. Neste caso, o cobre metálico é oxidado a cobre(II)
pelo HNO3, que se reduz dando a mistura H2O, NO e NO2.
O ouro é o mais eletronegativo dos metais e mesmo o uso de um ácido
oxidante concentrado, como o HNO3, não é suficiente para levá-lo a um estado iônico.
Neste caso, um agente oxidante mais poderoso é necessário, o que será visto mais adiante.

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 127

Algumas reações típicas

(a) Zn + 2HCl  ZnCl2 + H2 ↑

(b) MgO + 2HCl  MgCl2 + H2O

(c) CaCO3 + 2HCl  CaCl2 + H2O + CO2↑

(d) FeS + 2HCl  FeCl2 + H2S

(e) BaCO3 + H2SO4  BaSO4 ↓ + H2O + CO2↑

(f) 2 Cu + 2 HNO3  2CuO + NO↑


↑ + NO2↑ + H2O

(g) Au + HNO3  não reagem

Ácidos minerais concentrados


O uso de ácidos diluídos mostrou que um bom número de amostras
inorgânicas pode ser dissolvido sem maiores inconveniências. No entanto, uma infinidade
de materiais resistentes, incluindo os metais mais eletronegativos, muitas ligas metálicas,
muitos minerais comuns, solos, rochas, argilas, especialmente os aluminatos e silicatos,
deve ser dissolvida com ácidos minerais concentrados a quente.
Na prática, um dos seguintes procedimentos de pré-tratamento com ácidos
minerais concentrados a quente poderá ser adotado para a dissolução de amostras
inorgânicas:
• Simplesmente levar a mistura à ebulição em um copo coberto com vidro de relógio;
• levar a mistura à ebulição com refluxo;
• levar a mistura à ebulição e deixar o ácido evaporar até quase à secura;
• dissolver a amostra em sistema fechado.

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128 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

Tabela. 5.1. Potenciais padrão de redução para alguns íons (a 25°C)

Semi-reação Potencial-padrão (volts)


3+
Au + 3e
-
→ Au (s) +1,50
2+
Pt + 2e
-
→ Pt (s) +1,12
+ -
Ag + e → Ag (s) +0,80

Hg2+ + e- → Hg (l) +0,80


2+
Cu + 2e
-
→ Cu (s) +0,34
+
H + e- → ½ H2 (g) 0,00
2+
Pb + 2e- → Pb (s) -0,13
2+
Sn + 2e- → Sn (s) -0,14
2+
Ni + 2e- → Ni (s) -0,26
2+
Co + 2e- → Co (s) -0,28

Tl+ + e- → Tl (s) -0,34


2+
Cd + 2e- → Cd (s) -0,40
2+
Fe + 2e- → Fe (s) -0,45
3+
Cr + 3e- → Cr (s) -0,74
2+
Zn + 2e
-
→ Zn (s) -0,76
2+
Mn + 2e- → Mn (s) -1,18
3+
Al + 3e- → Al (s) -1,66
2+
Mg + 2e- → Mg (s) -2,37

Na+ + 1e- → Na (s) -2,71


2+
Ca + 2e- → Ca (s) -2,87

K+ + e- → K (s) -2,93

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 129

No pré-tratamento de amostras com ácidos minerais, as seguintes


propriedades dos ácidos devem ser levadas em consideração:

(i) A força do ácido.


(ii) O ponto de ebulição (governa a máxima temperatura que pode ser usada sem a
necessidade de se recorrer a sistemas fechados de dissolução).
(iii) Poder oxidante do ácido e/ou de um de seus produtos de decomposição.
(iv) Poder complexante com respeito aos íons de interesse (propriedade do ânion).
(v) A solubilidade dos sais correspondentes.
(vi) Grau de pureza e /ou facilidade de purificação
(vii) Aspectos relacionados à segurança durante a manipulação.

Propriedades dos ácidos minerais mais comuns (HCl, HNO3, H2SO4 , HClO4 e HF)

(a) Ácido Clorídrico


O ácido clorídrico concentrado é aproximadamente 12 mol l-1. Quando
aquecido à ebulição HCl gasoso é liberado e o ponto de ebulição da mistura aumenta até a
formação de uma mistura azeotrópica1 (HCl 6 mol l-1, ebulição a 109 °C). O ácido clorídrico
é um ácido forte, mas não apresenta propriedades oxidantes além daquelas associadas ao
íon H+. Possui propriedades redutoras relativamente fracas durante a dissolução. O íon
cloreto, no entanto, forma complexos bastante fortes com muitos íons metálicos,
especialmente Au3+, Tl3+ e Hg2+, e menos fortes com Fe3+, Ga3+, In3+ e Sn4+, por exemplo.
A solubilidade da prata pode aumentar muito pela complexação de cloreto de
prata com excesso de íons cloreto:

Ag+ + Cl- ↔ AgCl; log K1 = 3,04


AgCl + Cl- ↔ AgCl2- ; log K2 = 5,04

A concentração de prata dissolvida em uma solução 1 mol l-1 HCl é de apenas 8 mg.l-1, mas
aumenta para 130 mg. l-1 em 3 mol l-1 HCl

1
Uma mistura azeotrópica é uma mistura de líquidos que, no seu ponto de ebulição , produz um vapor de
composição química idêntica à do líquido. Nesta situação, durante a ebulição não ocorre mudança na
composição da mistura. O ponto de ebulição de uma mistura azeotrópica, a uma pressão fixa, permanece
constante. Consequentemente, os componentes individuais de uma mistura azeotrópica não podem ser
separados por destilação.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
130 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

A maioria dos cloretos metálicos é solúvel em água, exceto Hg2Cl2, AgCl e


TlCl, enquanto PbCl2 é pouco solúvel a frio, mas solúvel em água quente.
O HCl é usado para dissolver a maioria dos metais mais eletropositivos que o
hidrogênio, alem dos seus óxidos e hidróxidos. É também usado para dissolver boratos,
carbonatos, sulfetos e fosfatos, assim como alguns silicatos, embora o componente
contendo Si não permaneça estável em solução. Para muitos metais e óxidos, o ácido
clorídrico é um solvente muito mais eficiente que outros ácidos minerais oxidantes.

(b) Ácido nítrico

O ácido nítrico, conhecido como "ácido concentrado", varia de 65 a 69%


HNO3 e, aquele com teor maior que 69% é denominado "ácido nítrico fumegante". Uma
mistura azeotrópica com água é formada a 67% com ponto de ebulição de
aproximadamente 121°C, embora seja possível obter HNO3 a 100% cujo ponto de ebulição
é de 83°C. O ácido muito concentrado é instável, decompondo-se pela ação da luz e
produzindo O2, H2O e NO2, este último sendo responsável pela cor marrom das soluções
ácidas.
O ácido nítrico é um ácido forte e um agente oxidante bastante poderoso.
Com exceção dos metais nobres ele poderia oxidar todos os metais, mas poucos são
dissolvidos porque muitos elementos, como Al, B, Cr, Ga, In, Nb, Ti, Ta, Th, Zr e Hf, tornam-
se passivos2 na presença do ácido. Ca, Mg e Fe são passivados pelo ácido altamente
concentrado, mas são dissolvidos em soluções mais diluídas. Outros elementos que são
dissolvidos incluem Se, Te, As, e os semicondutores GaSe e CdTe.
Quase todos os nitratos de metais são solúveis em água. O íon nitrato é um

íon complexante muito fraco3. Isto faz com que alguns íons metálicos sejam hidrolisados
em meio de ácido nítrico, precipitando como óxidos hidratados, como Sn, W a Sb. Isto pode
ser explorado beneficamente para separar estes metais pela filtração dos precipitados
correspondentes, após reação dos metais com o ácido nítrico.

2 Um metal "torna-se passivo" na presença de um ácido, quando o ácido reage com o metal formando um óxido
insolúvel, ao invés de se dissolver na solução na forma de íon metálico. Este óxido pode formar uma película
protetora na superfície do metal, evitando o ataque subsequente do ácido. Por isso, o metal não será dissolvido.

3 A adição de espécies complexantes às soluções de ácido nítrico pode ajudar na dissolução de alguns metais
listados como insolúveis em ácido nítrico. Os ácidos clorídrico e fluorídrico são os mais utilizados para este
propósito, mas ácidos orgânicos, como tartárico e cítrico, tambem são empregados.

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 131

(c) ácido sulfúrico


O ácido sulfúrico concentrado comercial contém aproximadamente 98%
H2SO4. O ponto máximo de ebulição de 339°C é alcançado no sistema água-ácido sulfúrico
a 98,3% H2SO4. Este é o ponto de ebulição mais alto dentre os ácidos minerais
concentrados mais comuns. Uma das suas principais vantagens é justamente o fato de
permitir a execução de processos de dissolução sob elevadas temperaturas.
O ácido sulfúrico é um ácido forte e, quando aquecido, é capaz de oxidar um
grande número de metais, reduzindo-se a SO2, enxofre elementar ou H2S. Ele também
possui propriedade desidratante. Quase todos os compostos orgânicos são parcialmente,
ou mesmo totalmente, destruídos pelo ácido concentrado a quente.
Os sulfatos de metais são, em sua maioria, solúveis em água, exceto CaSO4
(levemente solúvel), BaSO4, SrSO4 e PbSO4. Vários metais em estados de oxidação
elevados (Cr3+, Al3+, terras raras) podem formar sulfatos duplos com sulfato de potássio, os
quais são difíceis de serem solubilizados.
Uma outra vantagem dos sulfatos de metais é que, de uma maneira geral,
eles apresentam baixa volatilidade. Assim pode-se levar a mistura à secura, desde que o
ácido sulfúrico esteja presente em quantidade adequada.
O ácido sulfúrico é utilizado para dissolver óxidos, hidróxidos, carbonatos,
vários minérios (sulfetos e arsenitos) e muitos outros compostos. Não é recomendado em
amostras com teores de cálcio muito elevados, face à baixa solubilidade do CaSO4 (2 g/L).
Alguns óxidos, podem ser convertidos em sulfatos solúveis por aquecimento com ácido
pouco concentrado. TiO2 requer aquecimento com H2 SO4 85%, e minérios de tório, nióbio e
tantálio (samarsquita) requerem H2SO4 concentrado.
O ácido sulfúrico também é usado para a remoção de HF e/ou solubilização
de fluorocomplexos, quando é comum a expressão "aquecendo até fumos do ácido
sulfúrico". Os fluoretos de metais reagem com H2SO4, promovendo a liberação do HF e a
formação dos sulfatos metálicos correspondentes. Esta remoção é recomendada tanto após
a decomposição de amostras com HF, como na análise de minérios contendo flúor.

(d) ácido perclórico

O ácido perclórico e a água formam um azeótropo com 72% HClO4, ponto de


ebulição de 203°C, conhecido como ácido perclórico concentrado. A mistura azeotrópica
pode ser armazenada sem perigo e pode ser purificada por destilação. O ácido contendo
100% HClO4 é um oxidante perigosíssimo: ele se decompõe em repouso, no início
lentamente, mas pode explodir violentamente depois de certo tempo.

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132 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

Quando soluções contendo acima de 72% do ácido são aquecidas, o ácido


perclórico se decompõe em cloro, oxigênio e água:

4HClO4 → 2Cl2 + 7O2 + 2H2O

O ácido perclórico é empregado a 60-72% m/v. Quando aquecido, torna-se


um agente oxidante muito poderoso, capaz de dissolver ligas metálicas e todos os metais
(exceto os metais nobres), convertendo-os em íons nos seus estados de oxidação mais
2+ 2+
altos, exceto chumbo e manganês que são oxidados a Pb e Mn , respectivamente.
Todos os percloratos de metais são prontamente solúveis em água, exceto
KClO4, RbClO4 e CsClO4. Uma de suas virtudes é o fato de o íon perclorato ser o agente
complexante mais fraco dentre os ânions dos ácidos minerais mais comuns.
Não metais também reagem com o ácido perclórico. Uma das melhores
aplicações é a oxidação do fósforo, e muitos de seus compostos, a fosfato.
Na dissolução de aços e outras ligas ferrosas o ácido silícico formado é
rapidamente desidratado, e facilmente filtrado.
Mas, talvez o mais importante destaque do ácido perclórico deva ser dado ao
fato de que, em muitas aplicações, existe o perigo imprevisível de explosão 4 face ao seu
elevado poder oxidante quando empregado na forma concentrada e a quente. Este risco é
particularmente grande quando a concentração do ácido exceder 72%, ou quando o ácido a
quente for colocado em contato com material orgânico ou inorgânico facilmente oxidável.

ALGUMAS REGRAS NA MANIPULAÇÃO DO HClO4


(i) nunca use um ácido mais concentrado que 72%.
(ii) nunca deixe que o ácido concentrado a quente entre em contato direto com
materiais facilmente oxidáveis (por exemplo - tenha cuidado com amostras de
metais com óleo ou graxa).
(iii) não utilize capelas de exaustão com superfícies expostas construídas com
material orgânico não recomendado (com batentes de madeira, por exemplo).
(iv) não armazene o ácido em frascos com tampa de borracha.
(v) lave o papel de filtro com bastante água após seu uso com soluções contendo
ácido perclórico. Caso contrário, há o risco de explosão quando estiver seco.
(vi) lave com água os locais onde o ácido possa ter entrado em contato, como o
piso da capela (preferivelmente de cerâmica), por exemplo.

4 Ler, por exemplo, descrição de mais de 30 casos de explosões violentas no "Handbook of Laboratory Safety".
nd
Boca Raton, CRC Press, 2 ed., 1971, 854p

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 133

(e) ácido fluorídrico


O ácido fluorídrico forma uma mistura azeotrópica com água contendo 36%
HF, com ponto de ebulição de 111°C. É um ácido fraco, não oxidante, cuja reatividade se
baseia na sua natureza complexante. Soluções aquosas a 38-40% e aproximadamente 48%
são encontradas comercialmente.
O íon fluoreto é o mais poderoso ânion complexante dentre todos aqueles
aqui mencionados, formando fluoretos estáveis e fluorocomplexos com muitos elementos.
Reage especialmente com aqueles elementos que formam óxidos refratários, os quais são
justamente difíceis de serem dissolvidos por se tratarem de óxidos estáveis insolúveis. O HF
aumenta a solubilidade e a establidade de alguns elementos como Si, Sn, Ti, Zr, Hf, Nb eTa
O HF é utilizado principalmente para a dissolução de materiais contendo
silicatos:
SiO2 + 6HF → H2SiF6 + 2H2O

O ácido fluorosilícico pode ser separado da matriz na forma de SiF4 gasoso,


promovendo sua dissociação a quente em sistema aberto com ácido sulfúrico, nítrico ou
perclórico:
H2SiF6 (g) → SiF4 + 2HF (g)

O resto da matriz permanece em solução, com algumas exceções como mostra a Tabela
5.2. Nos casos em que se deseja evitar perdas de As, B, Se, Sb, Ge, Cr, Re, Os e Ru, por
exemplo, sistemas de destilação apropriados devem ser utilizados. Quando se usa ácido
fluorídrico, algumas precauções devem ser tomadas:
(i) vidraria não pode ser utilizada, porque o HF reage com o óxido de silício que faz parte
da composição dos vidros. Podem-se utilizar materiais de:
• platina (mesmo muito aquecida)
• PTFE (até 220 °C), polipropileno (até 135°C), policarbonato (até 110°C), polietileno
de baixa densidade (até 80°C), e outros polímeros.

(ii) Freqüentemente, faz-se necessária a separação de todo o fluoreto que estiver na


3+
forma de complexos (AlF6 por exemplo, é muito estável e não se comporta em
solução como o íon Al3+) e/ou para ressolulilizar os fluoretos insolúveis (CaF, MgF,
NaAlF4, MgAlF5, por exemplo), além do próprio HF que está em excesso. Na prática
esta etapa pode ser relativamente simples, ou muito trabalhosa, podendo ser feita
uma separação por destilação com auxílio de ácidos perclórico ou sulfúrico. Quando
isto é feito, o silício é separado por volatilização, sendo perdido em sistema aberto,

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134 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

conforme já foi mencionado. Mascaramento de íons fluoreto com ácido bórico


também é muito recomendado, quando há compatibilidade com o método de
determinação do analito de interesse. A reação do ácido bórico com ácido fluorídrico
ocorre em um processo com duas etapas:

H3BO3 + 3HF ↔ HBF3(OH) + H2O


HBF3(OH) + HF ↔ HBF4 + H2O

Se a solução for resfriada em banho de gelo após a adição do ácido bórico, a velocidade da
reação aumenta. Entretanto, a maioria dos analistas prefere adicionar ácido bórico em
excesso (10 a 50 vezes) para aumentar a velocidade da reação.

(iii) o ácido fluorídrico, quando em contato com a pele, pode causar seríssimas
queimaduras. A manipulação deste, assim como dos outros ácidos mencionados deve
ser feita atendendo todas as normas de segurança, incluindo máscaras faciais, luvas,
etc. Nos primeiros socorros para queimadura de pele com ácido fluorídrico,
recomenda-se o uso de gel de gluconato de cálcio.

Tabela 5.2. Pontos de ebulição de fluoretos voláteis

Espécie Temperatura (°C)

AsF3 + 63
AsF5 - 53
BF3 -100

GeF4 - 37 (sublima)
NbF5 +236
SbF3 +376
SbF5 +150
SeF4 + 93
SiF4 - 95 (sublima)
TaF5 +229
TeF4 +375
TiF4 +284 (sublima)

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 135

Misturas de ácidos minerais


Na prática, a grande maioria dos métodos de dissolução de amostras inorgânicas
baseia-se no uso de uma mistura de dois ou três ácidos. A dissolução da amostra pode ser
feita inicialmente com uma mistura de dois ácidos seguida pela adição de um terceiro ácido
ou vice-versa, pode também envolver um ácido numa etapa até a secura e posterior
retomada da amostra com um outro ácido, etc.
As misturas de ácidos são muito usadas, porque
• diferentes propriedades úteis podem ser combinadas ( um ácido oxidante com um
ácido com poder complexante).
• dois ácidos podem reagir formando produtos com maior reatividade do que qualquer
um deles empregado isoladamente.
• uma propriedade indesejável de um ácido pode ser moderada pela presença de um
segundo ácido.
• a amostra pode ser dissolvida com um ácido, o qual é separado da mistura por um
outro ácido que o substitui.

Alguns exemplos
(i) Um ácido complexante e um ácido oxidante
• HF + HNO3
• HF + HClO4

• HF + H2SO4
• HF + HNO3 + HCl

Muitos metais e ligas metálicas podem ser solubilizados com estas combinações de
ácidos. Misturas de HF com HNO3 são usadas para dissolver silício metálico, titânio, nióbio,
tantálio, zircônio, háfnio, tungstênio e suas ligas, vários carbetos e nitretos, minérios de
tungstênio, minérios de urânio, minérios de sulfetos e muitos silicatos.

(ii) Dois ácidos formando produtos reativos


A mistura de 1 parte de HNO3 concentrado (69%) com 3 partes de HCl concentrado,
em volume, é conhecida como água régia. O ácido nítrico oxida o acido clorídrico dando
origem a vários produtos de oxidação, como cloro molecular e cloreto de nitrosila (NOCl) .
Estes produtos tem altíssimo poder oxidante e são muito reativos. Esta propriedade
associada à presença do íon cloreto (complexante), faz desta uma mistura de dissolução
altamente eficiente para os metais nobres. Diz-se que a água régia é mais eficiente se a
mistura for mantida em repouso por 10 a 20 minutos antes de seu uso.

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136 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

A água régia é usada para atacar muitos metais e ligas metálicas, incluindo aços,
ligas de alta temperatura, ligas de molibdênio, face à rapidez da dissolução.
Os ácidos nítrico e clorídrico também são usados em outras proporções. A água
régia de Lefort, ou água régia invertida, é uma mistura de 3 partes de ácido nítrico para
uma de ácido clorídrico.

(iii) Moderação da ação poderosa de um ácido

• HNO3 + HClO4
O ácido nítrico modera a ação oxidante do ácido perclórico, reagindo com materiais
facilmente oxidáveis, que poderiam reagir com o ácido perclórico perigosamente.

(iv) substituição de um ácido por outro


• HF + HClO4

• HF + H2SO4
A amostra é dissolvida em HF ou mistura contendo HF, e a mistura levada à secura
uma ou mais vezes com ácido perclórico ou sulfúrico.

Misturas de ácidos com outros reagentes


Alguns reagentes são utilizados para melhorar a eficiência da dissolução com um ou
mais ácidos minerais:

(i) agentes oxidantes


O poder oxidante de um ácido pode ser aumentado pela utilização de um agente
oxidante auxiliar, assim como um ácido não oxidante também pode ser usado com um
agente oxidante. Três destes agentes oxidantes podem ser:
• H2O2 para a dissolução de aços
• Br2 para minérios contendo telúrio
• KClO3 com HCl para a dissolução de minérios contendo arsênio e /ou enxofre
A utilização de pequenas quantidades de H2O2 é bastante comum como tratamento
final para a remoção de produtos coloridos que permanecem em solução em alguns
procedimentos para a oxidação de materiais orgânicos com misturas ácidas ( ácidos nítrico
e sulfúrico, por exemplo). H2O2 é também usado em combinação com ácidos sulfúrico e
nítrico isoladamente. O uso do H2O2 apresenta as seguintes vantagens:
• é um agente oxidante poderoso.
• a água é o único produto de decomposição presente.
• é encontrado com alto grau de pureza.

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 137

(ii) Eletrólitos inertes


São adicionados para aumentar o ponto de ebulição do ácido, resultando
maior temperatura final para a dissolução (adição de Na2SO4, K2SO4 ou (NH4) 2SO4 aumenta
o ponto de ebulição do H2SO4).

(iii) Agentes complexantes


São usados em muitos procedimentos para manter os analitos em solução,
na forma de complexos, evitando que os íons metálicos correspondentes sejam precipitados
(como óxido ou hidróxido, p. ex.). Os ácidos tartárico, cítrico e láctico podem ser usados em
combinação com o ácido nítrico para dissolver antimônio elementar, ligas e minérios de
antimônio, evitando a hidrólise do íon metálico. Ligas de Pb-Sn são dissolvidas com ácidos
nítrico e tartárico ou nítrico+tartárico+cítrico, e os semicondutores PbTe e GeTe com ácido
nítrico concentrado e solução de oxalato de sódio.

(iv) catalisadores
A velocidade de dissolução de alguns metais com ácidos pode ser
aumentada significativamente com catalisadores adequados (Cu2+, Hg2+). A Tabela 5.3.
mostra alguns reagentes empregados na dissolução ácida de vários minérios.

Tabela 5.3. Reagentes usados para decomposição ácida de vários minérios

Amostras Analitos Reagentes

Silicatos Elementos-traço HF + H2SO4


Minério de cromo Elementos-traço H2SO4 + HCl + NaCl*
Magnetita Ge H3PO4 + KMnO4
Esfalerita Tl, Co, Ni HCl + HNO3
Tetraedrita Fe H2SO4 + (NH4) 2SO4
Pirita Traços em geral HCl + HNO3
Monasita Lantanídeos H2SO4 + H2O2
Minérios de magnésio Elementos-traço HCl (o resíduo deve possivelmente
(pirolusita, etc.) ser tratado separadamente)
Fluorita Elementos-traço H2SO4; HCl (possível digestão do
resíduo)
Minérios de mercúrio Elementos-traço HCl + HNO3 +H2SO4**
Bauxita Elementos-traço H2SO4 + HCl + HNO3
Minérios de sulfeto Cu H3PO4 + HCl
* O NaCl serve para formar e remover o CrOCl2 volátil
** O HgCl2 evapora

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138 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

5.3. DECOMPOSIÇÃO POR FUSÃO

5.3.1. PRINCÍPIOS

Muitos materiais não são dissolvidos com ácidos minerais concentrados a


quente. Outros são atacados lentamente e/ou dissolvidos parcialmente. Existem também
aqueles materiais que dão origem a soluções ácidas instáveis apresentando componentes
com tendência para precipitar, como a sílica. Os seguintes materiais constituem uma
seleção representativa de materiais de difícil dissolução em ácidos:

• Cimento

• Aluminatos

• Silicatos

• Minérios de Ti e Zr

• Minerais mistos de Be, Si, Al

• Resíduos insolúveis de minérios de ferro

• Óxidos de cromo, silício e ferro

• Óxidos mistos de tungstênio, silício e alumínio.

Deve-se lembrar que, apesar de muitos silicatos serem dissolvidos com HF,
existem situações particulares onde o silício deve ser determinado. O silício é perdido da
solução como SiF4. O boro é similarmente perdido como BF3.
Os métodos de decomposição por fusão baseiam-se no seguinte
procedimento geral:

1º) Amostra finamente moída é misturada intimamente com um eletrólito ácido ou básico.
Eventualmente um agente oxidante pode ser adicionado.

2º) A proporção entre as massas de amostra e de eletrólito (conhecido como fundente) é


muito importante, podendo variar de 1:2 a 1:50.

3º) A mistura é, em geral, colocada em um cadinho de níquel ou de platina.

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 139

4º) O cadinho é aquecido por um período de tempo suficientemente adequado para que a
amostra fique totalmente dissolvida na solução fundida, resultando em um líquido bem
claro (toma-se o cuidado de se fundir toda a amostra com movimentos do cadinho).

5º) O líquido se solidifica quando resfriado à temperatura ambiente e o material sólido


resultante é quebrado em pequenos pedaços ou transferido diretamente para um copo.

6º) Se a fusão for bem sucedida, o material será facilmente solúvel em água ou ácido
diluído.

As razões que explicam o sucesso dos métodos de decomposição por fusão


são as seguintes:

i) os eletrólitos inorgânicos fundidos são solventes muito poderosos;

ii) como as temperaturas de fusão são muito mais elevadas que nas decomposições
com ácidos, chegando a 1200 °C dependendo do fundente utilizado, as reatividades e
a solubilidade dos materiais são também muito maiores;

iii) o eletrólito fundido age como um ácido ou uma base de Lewis5.


• O Na2CO3 é um exemplo de fundente muito utilizado na abertura de materiais

contendo sílica. Quando aquecido o carbonato de sódio é uma excelente fonte de

íons O2- :
CO32- → CO2 + O2-

Os íons O2- (base de Lewis) reagem com a sílica (ácido de Lewis):

SiO2 + O2- → SiO3


2-

O íon SiO32-é formado pelo preenchimento dos orbitais vazios do Si atômico


com elétrons do íon O2-.

2-
• O sal sódico do SiO3 é solúvel em água, e assim a sílica é solubilizada.

5Um ácido de Lewis é qualquer espécie (atômica, iônica ou molecular) capaz de aceitar elétrons de
uma outra espécie, e uma base de Lewis qualquer espécie capaz de doar elétrons.

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140 Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos

5.3.2. CARACTERÍSTICAS DE ALGUNS FUNDENTES

(a) Carbonato de sódio (p.f. 851°°C): é um fundente básico muito utilizado para a abertura
de silicatos e outros compostos refratários. Sua utilidade pode aumentar quando em
combinação com oxidantes como KNO3, KClO3, ou Na2O2 para amostras que requerem um
ambiente oxidante (materiais contendo S, As, Sb ou Cr, p.ex.). O K2CO3 (p.f. 891°°C) e
NaKCO3 (mistura 1:1 de Na2CO3 e K2CO3, p.f. 712°°C) também são usados em algumas
aplicações.

(b) Hidróxido de sódio (p.f. 318°°C) ou hidróxido de potássio (p.f. 360°°C): são fundentes
básicos poderosos para silicatos, aluminosilicatos, carbeto de silício e outros compostos.

(c) Peróxido de sódio (Na2O2): decompõe-se quando aquecido, e age como um poderoso
fundente básico oxidante para sulfetos e ligas metálicas insolúveis em ácidos.

(d) Sulfato ácido de potássio (KHSO4) e pirossulfato de potássio (K2S2O7): estes dois
compostos são na realidade um mesmo fundente. Sob aquecimento ocorrem as seguintes
mudanças:

2 KHSO4 → K2S2O7 + H2O ↑

K2S2O7 → K2SO4 + SO3

O SO3 age como um ácido de Lewis, e assim estes fundentes são ácidos. Eles são usados

a 500 °C e muito úteis para a abertura de muitos óxidos metálicos como Al2O3, BeO, Fe2O3,
Cr2O3, MoO3, TeO2, TiO2, ZrO2, Nb2O5 e Ta2O5. Todos estes óxidos são convertidos em
sulfatos solúveis.

(e) Ácido bórico (p.f. 450°°C): é um fundente ácido muito útil para silicatos, podendo ser
usado como alternativa aos fundentes básicos, quando se pretende determinar metais
alcalinos. Uma vantagem adicional deste fundente é que qualquer excesso de B2O3 pode
ser separado da matriz, como o éster inorgânico volátil trimetilborato, destilando-se o
resíduo com metanol:

B2O3 + 6 CH3OH → [2 B(CH3O) 3]3 + 3 H2O

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Decomposição e solubilização de sólidos inorgânicos 141

(f) CaCO3 + NH4Cl: quando aquecida esta mistura produz CaO e CaCl2. Este fundente é
recomendado para a extração de metais alcalinos em silicatos.

(g) Fluoreto de potássio e NaF.HF: são fundentes de baixas temperaturas, característica


particularmente útil para a determinação de alguns metais que formam fluoretos metálicos
voláteis. São usados para a abertura de silicatos e óxidos de elementos formadores de
fluorocomplexos estáveis, como Be, Nb, Ta e Zr. O produto da fusão pode ser levado a
fumos com H2SO4 para a remoção de F-. Deve-se recordar que, neste caso, o Si e o B são
perdidos nas formas de SiF4 e BF3, respectivamente.

(h) Bórax, Na2B4O7.10H2O: as fusões com tetraborato de sódio são muito usadas para a
abertura de Al2O3, ZrO2, minérios de Zr, minerais contendo terras raras, Ti, Nb ou Ta, assim
como materiais contendo Al, minérios de Fe, etc. O tetraborato de sódio pode ser utilizado
diretamente, ou em combinação com Na2CO3. As temperaturas de fusão variam de 1000 a
1200°C.

Literatura de uso geral dos itens 5.1 a 5.3

ANDERSON, R. Sample Pretreatment and Separation. Analytical Chemistry by Open


Learning. Chichester, John Wiley, 1991, 632pp.

BOCK, R. A Handbook of Decomposition Methods in Analytical Chemistry. Glasgow,


International Textbook, 1979, 444pp.

SULCEK, Z.; POVONDRA, P. Methods of decomposition in inorganic analysis. Boca


Raton, CRC, 325p, 1989.

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142 Piroidrólise

5.4. PIROIDRÓLISE

Éder L. M. Flores - DQ/UFSM


Érico M. M. Flores - DQ/UFSM
Fábio A. Duarte - DQ/UFSM
Juliano S. Barin - DQ/UFSM
Valderi L. Dressler - DQ/UFSM

A piroidrólise consiste, essencialmente, na decomposição da amostra em um reator


aquecido (~1000 °C) e na presença de vapor d’água misturado com oxigênio, ar ou um gás
inerte. Esta técnica tem sido aplicada para decomposição de amostras sólidas, geralmente
materiais inorgânicos. Neste sistema, durante a decomposição, muitos óxidos ou hidróxidos
de metais são formados e permanecem no reator. Quando presentes, alguns elementos
como os halogênios, o boro e alguns complexos, são convertidos em seus ácidos voláteis
correspondentes, os quais são quantitativamente volatilizados e carreados pelo vapor d’água
para um condensador, onde a solução contendo os analitos é coletada.1 Desta forma,
durante a piroidrólise ocorre uma separação dos analitos da matriz, a qual permanece no
reator o que, em alguns casos, ajuda a minimizar problemas de interferência na etapa de
determinação.
O conceito de piroidrólise não é novo, pois este procedimento foi proposto por
2
Fremy, em 1856. Porém, a primeira aplicação da piroidrólise com fins analíticos ocorreu
somente em 1890 para a análise de nitreto de boro.3 Mais tarde, em 1926, foram feitas as
primeiras investigações para análise de fluoreto de zircônio.4 Na mesma época, Domange5
fez estudos sobre as constantes de equilíbrio da decomposição de vários fluoretos de metais
pesados e alcalino-terrosos em várias temperaturas. Utilizou uma plataforma de platina para
suportar a amostra e passou sobre ela um fluxo de vapor d’água. O vapor, depois de
condensado, foi analisado para determinar as respectivas constantes de equilíbrio. Este
estudo foi posteriormente ampliado por Domange e Wohlhuter6 para determinar a constante
de equilíbrio do fluoreto de urânio IV (UF4), na faixa de 200 a 500 °C. Neste trabalho foi
proposto que a reação de piroidrólise procede de acordo com a equação (1) e que com o
aumento da temperatura a reação de hidrólise é favorecida.

UF4 + 2H2O → UO2 + 4HF (1)

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Piroidrólise 143

5 6
A partir destas investigações, Domange e Domange e Wohlhuter estabeleceram
que a reação de hidrólise a altas temperaturas ocorre de acordo com a equação (2).

MF2n + nH2O → MOn + 2nHF (2)

Neste caso, M é um elemento metálico.

Posteriormente, Warf7 revisou os princípios destas reações, estabelecendo mais


dados termodinâmicos da reação, demonstrando claramente as potencialidades analíticas
da piroidrólise. Neste período o campo de aplicações da piroidrólise teve maior expansão e
importância, pois com a implantação do Projeto Manhattan (1942 - 1945) houve a
necessidade do desenvolvimento de procedimentos rápidos de preparo de amostras e que
permitissem a determinação de halogênios em diversos materiais, principalmente em
fluoretos de urânio e tório. Neste caso, o aparato consistia de um tubo de platina (150 x 20
mm) no qual era inserida uma “barqueta” (50 x 18 mm) contendo a amostra. O vapor d´água,
após passagem pelo tubo aquecido, era condensado e o ácido fluorídrico contido na solução
era quantificado por volumetria de neutralização com solução de NaOH. O tempo para a
piroidrólise de uma amostra durava cerca de 10 a 20 minutos. Em vista da crescente
necessidade de se determinar flúor e outros halogênios nos mais variados materiais, muitos
estudos foram feitos para implementar métodos de decomposição de amostras que
levassem a obtenção de resultados com boa precisão e, principalmente, exatidão.8
Nas investigações de Warf et al.8 sobre o mecanismo de liberação do flúor a partir de
diversos compostos fluorados, concluiu-se que estes compostos podem ser classificados em
dois grupos.
(i) O primeiro grupo inclui compostos naturais e sintéticos de elementos que formam
hidróxidos pouco solúveis como o AlF3, BiF3, MgF2, ThF4, UF4, UO2F2, VF3, ZnF2, ZrF4,
ZrOF2 e outros fluoretos de elementos do grupo das terras raras. Estes compostos são
facilmente piroidrolisáveis e liberam quantidades equivalentes dos haletos de hidrogênio
correspondentes, os quais podem ser quantificados na solução condensada.
(ii) O segundo grupo inclui os fluoretos dos metais alcalinos e alcalino-terrosos. Para
este grupo, observou-se que os óxidos formados na decomposição reagem
imediatamente com o fluoreto de hidrogênio liberado. Consequentemente, a
decomposição é lenta e, em alguns casos, não-quantitativa. Neste caso, é necessária a
adição de uma substância que facilite a liberação do fluoreto. Estas substâncias foram
denominadas de aceleradores ou catalisadores.

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144 Piroidrólise

O óxido de urânio (U3O8) foi um dos aceleradores da reação de hidrólise testados,


sendo proposto que a reação procede de acordo com a equação (3).

6NaF + 2U3O8 + 3H2O + O2 → 6HF + 3Na2U2O7 (3)

De acordo com os dados promissores obtidos nestes estudos, diversos sistemas


foram propostos para fazer a reação de piroidrólise, porém mantendo a configuração básica
originalmente proposta. Estes sistemas têm sido aplicados para a decomposição de diversos
tipos de amostras para posterior determinação, além do fluoreto, de outros elementos não-
metálicos, entre eles o cloro, bromo, iodo, boro e enxofre. Na Fig. 5.1 está representado um
esquema do sistema convencional para piroidrólise.

Figura 5.1 Esquema de um sistema para piroidrólise. 1. Entrada de gás; 2. fluxômetro; 3.


unidade de geração de vapor d’água; 4. sistema para remoção de gotas de água;
5. unidade de aquecimento; 6. reator; 7. recipiente da amostra; 8. condensador;
9. frasco receptor da amostra.

No sistema mostrado na Figura 5.1, a amostra é colocada em um pequeno recipiente


(barqueta) (7) e introduzida no reator (6). O gás ao passar pela unidade de geração de vapor
d'água (3) arrasta o vapor até o reator aquecido onde esta mistura reage com a amostra,
com ou sem a adição de acelerador, liberando os analitos presentes na amostra. Por fim, o
vapor com os analitos passa por um sistema de condensação (8) e é recolhido em um
recipiente adequado (9). Dependendo do elemento, o vapor d´água pode ser somente
condensado ou condensado e absorvido numa solução com pH na faixa de 8 a 11
(geralmente uma solução tampão).

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Piroidrólise 145

No processo da piroidrólise, a liberação do analito da amostra é dependente,


basicamente, da temperatura, da forma química em que o analito está na amostra e da
constituição da matriz da amostra. A liberação do analito ocorre na faixa de 700 a 1400 °C,
mas temperaturas em torno de 1000 °C geralmente são adequadas. Para o aquecimento do
reator podem ser empregados fornos elétricos ou uma chama, como a obtida com o
queimador de Meker. Em alguns casos, também são usadas combinações entre
queimadores e fornos. Entretanto, atualmente, os fornos com aquecimento elétrico são
amplamente empregados, por permitir alcançar temperaturas mais elevadas e facilitar o
controle da temperatura, porém o arrefecimento do reator é mais lento. Uma vez que a
introdução da amostra no reator é feita geralmente à temperatura ambiente, o tempo de
processamento é maior quando são empregados fornos elétricos como unidade de
9
aquecimento, comparativamente aos sistemas aquecidos com chama.
Para suportar as altas temperaturas necessárias na piroidrólise, os reatores
normalmente utilizados são constituídos de tubos de quartzo, sílica fundida, platina, níquel
ou cerâmica.1 Da mesma forma, os recipientes empregados para suportar a amostra
geralmente são construídos com materiais similares. Porém, alguns materiais podem reagir
com o analito, possivelmente após ser volatilizado da amostra na forma de vapor ácido,
resultando em recuperações não quantitativas. Entre os materiais que são mais adequados
para a confecção do reator e do recipiente de suporte da amostra estão o quartzo e a sílica
fundida. O níquel é um dos materiais que reage facilmente com o analito.10 A unidade de
geração de vapor d’água consiste, normalmente, de um recipiente aquecido contendo água
deionizada. Alternativamente, a água pode ser nebulizada e o aerossol introduzido
diretamente no reator aquecido,11 ou, ainda, através da sua volatilização a partir de um
recipiente colocado na entrada do reator.12 O vapor d’água gerado é transportado para o
reator através da passagem de um fluxo de gás (onde podem ser usadas vazões de até 2,0
L min-1, dependendo do reator empregado) pela unidade de geração de vapor. Como gás de
arraste pode ser usado ar, oxigênio ou mesmo um gás inerte, uma vez que este tem
somente a função de transportar o vapor contendo o analito até o condensador.13 Uma vez
que a temperatura para piroidrólise é relativamente elevada (cerca de 1000 a 1200 oC), é
conveniente que o vapor d’água contendo os analitos seja condensado logo após a saída do
reator, o que geralmente é feito com o auxílio de condensadores refrigerados com água.
Porém, dependendo da característica do elemento a ser determinado, podem ocorrer perdas
do analito por volatilização, quando o vapor d’água é somente condensado. Entre os
halogênios, o cloro, bromo e iodo são mais facilmente perdidos, devido às características do
próprio ácido formado na reação de piroidrólise ou por formação de compostos voláteis na
solução ácida condensada, tais como o Br2 e o I2. Assim, além do uso de um condensador, é
necessário que o vapor d’água condensado seja absorvido numa solução alcalina. Como

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146 Piroidrólise

soluções absorvedoras, soluções diluídas de hidróxido de sódio, bicarbonato de sódio ou


soluções tampão são, geralmente, empregadas. É importante salientar que a concentração
da solução absorvedora vai depender da quantidade do analito, ou dos elementos passíveis
de formarem ácidos voláteis na reação de piroidrólise, presentes na amostra, uma vez que
são formadas quantidades equivalentes do respectivo ácido. Ou seja, para os elementos
facilmente perdidos por volatilização, a concentração da solução absorvedora deve ser tal
que a mesma se mantenha alcalina até o final da reação de piroidrólise. Outra possibilidade,
quando a determinação dos analitos é feita por cromatografia iônica, é a utilização da própria
14
fase móvel como solução absorvedora.
O mecanismo envolvido na volatilização dos diferentes elementos não é o mesmo.
No caso dos halogênios, a reação geral da piroidrólise pode ser expressa como mostrado na
equação (4).
MX2n + nH2O → MOn + 2nHX (4)
8
onde X representa o halogênio e M o elemento metálico.

Para boro, é proposto que a reação ocorra através da formação de ácido bórico,
conforme representado na equação (5).15

MB2 + 8H2O → MO2 + 2H3BO3 + 5H2 (5)

Para o caso de enxofre é proposto que ocorre a formação de anidrido sulfuroso (SO2)
e anidrido sulfúrico (SO3). Neste caso, é necessário o uso de solução absorvedora contendo
um oxidante (como o peróxido de hidrogênio - H2O2) em meio alcalino (pH entre 9 e 10) para
absorver os gases de enxofre e oxidá-los a sulfato (SO42-).16
Além do uso de temperaturas elevadas para amostras consideradas refratárias, a
liberação do analito pode ser facilitada na presença de um acelerador que atua, também,
como fundente, permitindo que a decomposição da amostra e conseqüente liberação dos
analitos ocorram a temperaturas menores. Diversos compostos podem ser empregados na
reação de piroidrólise, mas os óxidos ácidos são os mais adequados para a liberação
quantitativa dos analitos.17 Entre estes, o SiO2, TiO2, WO3, Bi2O3, Al2O3, MnO2, MoO3, Cr2O3
e V2O5, ou misturas destes, são os mais indicados. Estes compostos normalmente são
empregados na forma sólida e são previamente misturados com a amostra. O uso de um
determinado acelerador dependerá da composição da matriz da amostra, bem como da
forma como o analito se encontra na mesma.18 Entretanto, para garantir a recuperação
quantitativa dos analitos é importante uma boa mistura entre a amostra e o acelerador e a
condensação do vapor deve ocorrer sem a formação de névoa.19
Dentre os aceleradores citados, o pentóxido de vanádio (V2O5) tem sido o mais

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Piroidrólise 147

utilizado. Muitas aplicações da piroidrólise usando V2O5 como acelerador para a


determinação de halogênios em amostras refratárias (tais como, materiais geológicos, ligas,
vidro, entre outros) têm sido reportados, principalmente devido ao relativo baixo ponto de
fusão (em torno de 690 °C) e ação efetiva na liberação dos analitos.9 Entretanto, alguns
autores relataram a volatilização parcial do V2O5 em temperaturas acima de 850 °C e
conseqüente arraste para a solução condensada, o que pode causar interferências na
determinação dos analitos por volumetria de neutralização, devido ao aumento da acidez da
solução condensada, causado pela presença do V2O5.18 Porém, a presença de V2O5 na
solução final não causa o mesmo problema quando são usadas técnicas instrumentais,
como a espectrofotometria, potenciometria e cromatografia.
De maneira geral, o tempo necessário para se efetuar a piroidrólise varia de alguns
minutos até cerca de uma hora e a composição amostra + acelerador usada na maioria dos
trabalhos varia na ordem de 1 + 3 a 1 + 5. Em algumas situações, no lugar do uso de vapor
d’água carregado por ar, é mais adequado o uso de oxigênio, nitrogênio ou argônio
previamente “umedecido” com vapor d’água.
É importante salientar que as técnicas tradicionalmente empregadas para a
decomposição de materiais sólidos contendo uma fração mineral elevada, para posterior
determinação de elementos não-metálicos, como os halogênios, enxofre e boro, têm sido a
fusão e a destilação baseada no método de Willard e Winter. Essas técnicas, apesar de seu
uso disseminado e levar a resultados com boa precisão e exatidão na maioria dos casos,
possuem como principal inconveniência o elevado número de etapas e o tempo prolongado
de processamento da amostra. Além disso, as técnicas de fusão não permitem a separação
do analito da matriz, estando sujeitas a perdas e contaminação. Também, a solução
resultante geralmente possui elevado teor salino, o que pode resultar em sérios problemas
de interferência na etapa da medição do analito. A destilação de Willard e Winter, além de
ser uma técnica morosa, cuidado deve ser tomado em relação à temperatura de destilação,
pois a solução ácida usada no processo pode projetar quando próximo da temperatura de
ebulição. Neste caso, além de problemas de segurança com o operador, poderão ocorrer
perdas do analito.
Desta forma, a piroidrólise pode representar uma alternativa viável frente às
limitações dessas técnicas, permitindo a liberação quantitativa do analito da amostra e a
separação dos interferentes de uma maneira rápida e relativamente livre de perdas e/ou
contaminações. A piroidrólise, além das diversas aplicações reportadas na literatura, é
empregada por laboratórios de certificação de materiais, o que, de certa forma, demonstra a
confiabilidade da técnica.

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148 Piroidrólise

Resumidamente, a piroidrólise é uma técnica de decomposição de amostra


relativamente simples de ser implementada e, na maioria dos casos, leva a resultados com
boa exatidão e precisão. Assim, esta técnica pode ser uma alternativa de baixo custo para
laboratórios que necessitam determinar halogênios, boro e enxofre, principalmente em
amostras de difícil decomposição por outras técnicas comumente empregadas. Além disso,
é importante salientar que a piroidrólise é bastante versátil em relação à quantidade de
amostra a ser processada, sendo empregadas quantidades que vão de alguns miligramas
até cerca de 500 mg. A quantidade de amostra utilizada dependerá da concentração do
analito e das dimensões do reator. Também, é uma técnica bastante segura para ser
manipulada, uma vez que só é usado um gerador de vapor d’água, cujo volume pode ser
pequeno, e um forno ou chama para aquecimento do reator. Portanto, não riscos quanto à
exposição a reagentes tóxicos ou corrosivos, radiações ou frascos com pressões elevadas.
Portanto, o principal cuidado que deve ser tomado é com relação à temperatura do reator e
do gerador de vapor.
Na Tabela 5.4 são mostrados alguns dos principais trabalhos envolvendo a
piroidrólise como método de decomposição de materiais diversos para a determinação de
fluoreto, cloro, bromo, iodo, boro e enxofre.

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Piroidrólise 149

Tabela 5.4. Trabalhos envolvendo a piroidrólise para a decomposição de amostras e


determinação de não-metais.

Analito Acelerador Amostra Ref.


- - -
F , Cl , Br U3O8, Al2O3 Diversos sais inorgânicos 8
- -
F , Cl V2O5 Aluminosilicatos 11
S V2O5 Amostras diversas 16
F-, Cl- V2O5 Silicatos 19
F- - Compostos orgânicos voláteis 20, 21
F- - Materiais radioativos 22
F- - UO2F2, UF4 23
F- WO3, U3O8 ThF4, AlF3, ZrF4, UO2F2, UF4, NpF4 24
F- Cr2O3, U3O8 Terras raras 25
F- Al2O3 Criolita e materiais similares 26
F- WO3 Materiais diversos 27
F- WO3, SiO2, V2O5 Carvão e minerais diversos 28
F-, Cl-, Br-, I- V2O5 Amostras geológicas 29
F- SiO2 Carvão 30, 31
F- SiO2 Solo 32
-
F V2O5 Amostras geológicas e biológicas 33
F-, Cl- WO3/SiO2/KH2PO4 Amostras geológicas 34
Cl- U3O8 Vidro 35
F- - Carvão 36
I- V2O5 Amostras geológicas 37
B V2O5/CuO Aço e outras ligas 38
B - Aço e outras ligas 39
B U3O8 Vidro 40
B Al2O3 Aço 41
F-, Cl-, S V2O5 Amostras geológicas 42
F-, Cl-, Br-, I-, S V2O5 Amostras geológicas 43
Cl- V2O5 Ligas 44

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150 Piroidrólise

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6. DECOMPOSIÇÃO DE MATERIAIS ORGÂNICOS POR
COMBUSTÃO

Carlos Emanuel de Carvalho Magalhães – DQ/UFCE


Érico Marlon de Moraes Flores – DQ/UFSM
Francisco José Krug – CENA/USP
Juliano Smanioto Barin – URI-UFSM
Márcia Foster Mesko – DQ/UFSM

INTRODUÇÃO
A determinação de elementos individuais em amostras de natureza orgânica
constitui um grande problema analítico, pois normalmente é necessária a transformação dos
elementos de interesse da matriz orgânica em uma forma inorgânica simples. Na maioria
dos casos, após a decomposição, os elementos de interesse ficam dissolvidos em uma
solução aquosa. Em geral, a amostra original não é adequada para análise direta sem pré-
tratamento, pelas seguintes razões:

a) o elemento a ser determinado é mantido na forma complexa por ácidos orgânicos ou


outros ligantes presentes na amostra;
b) a cor da amostra (soro sanguíneo, ácido húmico em águas naturais, sucos de frutas,
vinhos tintos, efluentes industriais, por exemplo) interfere em determinações por
espectrometria de absorção molecular e turbidimetria;
c) pode ocorrer a formação de emulsão, espuma ou precipitado durante a análise;
d) o elemento a ser determinado não se encontra no estado dissolvido, o que é um
requisito para a maioria das técnicas de determinação (espectrométricas,
eletroanalíticas, entre outras);
e) em tecidos biológicos, determinados elementostraço estão presentes em formas
químicas diversas; algumas não mostram qualquer sinal durante as medidas, enquanto
outras fornecem sinais com diferentes intensidades; a decomposição transforma o
analito em uma forma química simples, com uma resposta uniforme;
f) a heterogeneidade é uma propriedade típica de muitos materiais biológicos; a
possibilidade de se empregar uma quantidade maior de amostra a qual, após a
decomposição, resulta em uma solução homogênea, ajuda a superar este problema.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 155

Pode-se ilustrar isso com um exemplo: considere que se disponha de uma amostra
de um plástico contendo certa proporção de poli(cloreto de vinila) (PVC). O problema é
determinar o teor de PVC na amostra e, para tal, a determinação de cloreto no plástico seria
uma medida indireta de avaliar a concentração de PVC, considerando-se que o PVC seja a
única fonte de Cl. A técnica quantitativa mais simples para a determinação de Cl é a
-
gravimetria, onde os íons Cl na solução aquosa são precipitados como AgCl.

O PVC apresenta a seguinte estrutura:

 CH2  CH  CH2  CH  CH2  CH  CH2 


  
Cl Cl Cl

Percebe-se que os átomos de cloro estão ligados covalentemente à estrutura do


polímero. Estes átomos não estão na forma iônica. Mesmo se fosse possível homogeneizar
o PVC em uma solução aquosa sem destruí-lo, não haveria a precipitação dos átomos de
cloro na presença de íons Ag+. Assim, é preciso liberar os átomos de cloro do PVC em íons
Cl- em solução aquosa. Isto pode ser feito através de um tratamento adequado da amostra,
onde as determinações podem ser feitas sem maiores problemas. Analogamente, essa idéia
é válida para qualquer elemento presente em matrizes de natureza orgânica. A maioria dos
elementos, principalmente em solução aquosa, pode ser determinada por várias técnicas. A
Tabela 6.1. mostra exemplos típicos de alguns elementos que são liberados da matriz
orgânica acompanhados de suas respectivas formas inorgânicas.

Tabela 6.1. Exemplos de formas e estados apropriados de alguns elementos com os


possíveis métodos para as suas determinações.

Elemento Forma Estado Técnica ou Método de


Inorgânica Determinação
C CO2 Gás Absorção e pesagem
H H2O Vapor Absorção e pesagem
N N2 Gás Medida do volume
-
Br Br Solução aquosa Gravimetria
2-
S SO4 Solução aquosa Gravimetria
3-
P PO4 Solução aquosa Espectrometria de Absorção
molecular
2+
Pb Pb Solução aquosa Espectrometria de absorção atômica
2+
Cu Cu Solução aquosa Espectrometria de absorção atômica
2+ 3+
Fe Fe e Fe Solução aquosa Espectrometria de absorção
molecular

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156 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Compreendendo-se a necessidade de converter os elementos da matriz orgânica


em uma forma inorgânica, a etapa seguinte é avaliar como isso pode ser feito. De alguma
forma, as técnicas com destruição completa da matriz orgânica mantêm certo
relacionamento com as técnicas convencionais de dissolução, onde decomposições
químicas drásticas são comuns, levando à destruição completa da matriz. Freqüentemente
ocorre a oxidação da matriz, convertendo-se carbono em CO2, hidrogênio em H2O,
nitrogênio ou óxidos de nitrogênio em N2. Os outros elementos permanecem em formas
inorgânicas convenientes para análise. A maioria dos métodos de decomposição que serão
aqui considerados envolve reações de oxidação. Entretanto, para a determinação de não
metais existem apenas algumas técnicas envolvendo reações de redução; ocasionalmente,
alguns metais, que podem ser associados com espécies orgânicas em um estado iônico,
como sais ou complexos, podem ser separados por um tratamento com ácido.
Deve-se notar que existem técnicas disponíveis para a determinação de elementos
individuais em uma matriz orgânica sem a necessidade de conversão preliminar em uma
forma inorgânica, tais como análise por ativação neutrônica, análise direta de sólidos por
espectrometria de absorção atômica e espectrometria de fluorescência de raios-X. Estas
técnicas são altamente especializadas, mas não são encontradas na maioria dos
laboratórios analíticos.

Neste capítulo, serão consideradas as seguintes técnicas de decomposição, as


quais são de natureza oxidativa e que foram subdivididas em dois itens principais:

a) tubo de combustão (principalmente para determinações de C, H e N);


b) via seca em fornos tipo mufla (de aplicação geral);
c) frasco de combustão de Schöniger (de aplicação geral);
d) bomba de combustão (de aplicação geral);
e) via seca em baixas temperaturas com plasma de oxigênio (especialmente para
espécies voláteis);
f) combustão em sistema dinâmico (especialmente para amostras orgânicas não
voláteis);
g) sistema de combustão de Wickbold (de aplicação geral, mas especialmente
desenvolvida para halogênios)

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 157

6.1. TUBO DE COMBUSTÃO

A técnica do tubo de combustão tem sido usada nos últimos cem anos para
determinações de rotina de carbono, hidrogênio, oxigênio, enxofre e halogênios em
compostos orgânicos. A análise elementar (em especial para C, H e N) é uma técnica que
tem sido muito usada por químicos orgânicos para a caracterização de compostos obtidos
em sínteses. Atualmente, a grande maioria dos laboratórios, que utilizam esta técnica em
análises de rotina, empregam analisadores automatizados.
A técnica do tubo de combustão baseia-se na oxidação completa de cerca de 500
mg de amostra, convertendo-se os elementos a serem determinados em uma forma gasosa
ou volátil. Isso é realizado dentro de um tubo através do qual passa um gás, de tal maneira
que os produtos voláteis da oxidação sejam levados até dispositivos para coleta e posterior
análise.
A Figura 6.1 mostra um aparelho simples para a determinação de carbono e
hidrogênio em compostos orgânicos.

Forno

1 22 33 44 5 6

7
O2

Figura 6.1. Aparelho com tubo de combustão para determinação de carbono e hidrogênio
(adaptado de Anderson, 1991).1

 Recipiente de porcelana para amostra.


 Tubo contendo catalisador de platina.
 Tubo preenchido com CuO.
 Tubo contendo mistura de PbO2 e PbCrO4 + Ag.
 Tubo contendo um material dessecante.
 Tubo contendo ascarita.
 Tubo de proteção contendo dessecante e ascarita.

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158 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

A seguir estão descritos os processos que ocorrem no aparelho mostrado na Figura


6.1:

a) A amostra, previamente pesada, é colocada em um recipiente de porcelana, que é


aquecida a temperaturas elevadas por meio de um forno.
b) Uma corrente de oxigênio (ou ar purificado, livre de CO2 e vapor de H2O) flui sobre a
amostra.
c) A amostra é queimada (ou pirolisada) e os produtos da oxidação (ou da pirólise) são
carreados pelo oxigênio para o catalisador de platina cuja função é facilitar a oxidação
da amostra. Considera-se que a amostra seja completamente vaporizada por este
processo.
d) Em seguida, os produtos da oxidação passam sobre uma fina camada de CuO
aquecido para completar a oxidação. Considera-se que, após essa etapa, a oxidação
seja completa e que todo o carbono e hidrogênio da amostra tenham sido convertidos a
CO2 e H2O, respectivamente.
e) Os gases passam, então, sobre uma mistura quente de PbO2 (para reter os óxidos de
nitrogênio) mais PbCrO4 e Ag (para reter os compostos sulfurosos e halogenados).
Estas espécies voláteis, caso não sejam removidas, podem interferir nas determinações
de carbono e hidrogênio.
f) Nessa etapa, os gases (O2, CO2 do carbono e H2O do hidrogênio na amostra) deixam o
tubo de combustão e passam através de dois tubos absorvedores previamente
pesados. O primeiro tubo contém dessecante que absorve quantitativamente H2O. O
segundo tubo contém ascarita (uma mistura apropriada de KOH e asbesto) mais um
dessecante extra para absorver o CO2 (a presença do dessecante faz-se necessária
porque H2O é desprendida quando ascarita absorve o CO2).
g) Finalmente, o oxigênio passa através de um tubo de proteção contendo dessecante e
ascarita para impedir a interferência de H2O e CO2 da atmosfera na análise.

Esta técnica clássica do tubo de combustão pode ser modificada para determinar
outros elementos, como nitrogênio, oxigênio, enxofre e halogênios.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 159

Nitrogênio
A amostra, previamente pesada, é misturada com CuO em pó e colocada no
recipiente de porcelana. Uma corrente de CO2 flui sobre o recipiente e a amostra é
aquecida. O carbono é oxidado a CO2, hidrogênio a H2O e o nitrogênio a N2 (mais alguns
óxidos de nitrogênio). O oxidante é o CuO.
Os gases são arrastados de encontro a cobre metálico em limalhas, o qual reduz
todos os óxidos de nitrogênio a N2. Os gases são, então, borbulhados em uma solução
concentrada que absorve o excesso de CO2, vapor de H2O e quaisquer outros produtos
gasosos, exceto o N2, o qual é coletado em uma bureta de gás, que é um dispositivo que
mede o volume do gás produzido nas condições padrão de temperatura e pressão. No caso,
a medida analítica é justamente o volume de N2 produzido. É interessante observar que o
CO2 é usado somente como gás de arraste sendo, posteriormente, absorvido na solução de
KOH juntamente com outros gases. O N2 deve ser o único gás saindo do tubo de combustão
e, por isso, o O2 que não é retido na solução de KOH não é usado como oxidante.

Oxigênio
Quando for necessário determinar oxigênio pela técnica do tubo de combustão, a
amostra deve ser submetida a uma reação de redução, e não de oxidação, pois é o oxigênio
que se deseja determinar. A idéia é misturar a amostra com carbono em pó (agente redutor)
e aquecer a mistura em um recipiente de porcelana sob um fluxo de H2. O oxigênio é
convertido a CO, o qual passa sobre I2O5 sólido, ocorrendo a seguinte reação:

5 CO(g) + I2 O5 (s)  5 CO2 (g) + I2 (g)

O I2 gasoso é absorvido em uma solução adequada e titulado. Pode-se utilizar


solução de KI, onde o íon triiodeto é formado e, posteriormente, titulado com solução de
Na2S2O3 (tiossulfato de sódio).

Enxofre
A amostra é oxidada em uma corrente de oxigênio sobre um catalisador de platina
aquecido ao rubro.

SO3 + H2O  H2SO4

SO2 + H2O2  H2SO4

Assim, todo o enxofre é convertido em H2SO4 o qual pode ser titulado com álcali
padrão ou determinado gravimetricamente como BaSO4.

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160 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Halogênios (exceto flúor)

Do mesmo modo que para a determinação de enxofre, a amostra também é


oxidada em uma corrente de oxigênio sobre um catalisador de platina aquecido ao rubro. Os
halogênios são convertidos em uma mistura dos elementos livres e dos haletos de
hidrogênio correspondentes (pode ocorrer, também, pequena formação de oxihaletos). Os
gases são borbulhados em uma solução de Na2SO3 para absorver os produtos de
combustão e reduzir todos os halogênios e oxihaletos em haletos, os quais podem ser
determinados por técnicas apropriadas (p. ex., gravimetricamente como haleto de prata).
Finalmente, convém comentar que, atualmente, existem analisadores
automatizados para a determinação de C, H e N, nos quais as análises podem ser
concluídas em cerca de 15 minutos, sem a necessidade de intervenção do operador.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 161

6.2. DECOMPOSIÇÃO EM FORNO TIPO MUFLA

6.2.1. INTRODUÇÃO

Esta é, provavelmente, a técnica mais simples empregada para a decomposição de


amostras biológicas e orgânicas. Baseia-se na queima da fração orgânica da amostra com o
oxigênio do ar, obtendo-se um resíduo inorgânico na forma de cinza solúvel em ácido
diluído. A amostra é colocada em um cadinho (quartzo, porcelana, etc.) e aquecida em
atmosfera ambiente (o uso da tampa do cadinho impede que a amostra ou parte da mesma
seja perdida) até que todo o material orgânico seja queimado, resultando apenas em um
resíduo inorgânico não volátil. O oxigênio na atmosfera atua como agente oxidante e o
resíduo proveniente da queima consiste de óxidos de metais, assim como sulfatos não
voláteis, fosfatos, silicatos e outros mais.
Apesar desta técnica ser relativamente simples, há sérias limitações uma vez que
alguns elementos podem ser convertidos em uma forma volátil e perdidos parcial ou
completamente. Essas perdas por volatilização tornam-se mais severas quanto mais alta for
a temperatura usada para a decomposição (Tabela 6.2). Entretanto, se não for usada uma
temperatura suficientemente alta, a amostra não será decomposta por completo, dando
origem a resultados não exatos. A Tabela 6.3 resume as perdas por volatilização na via seca
aberta em diferentes temperaturas.
O procedimento de decomposição deve ser conduzido em um forno tipo mufla
ajustando-se a temperatura a um valor suficientemente alto para decompor a amostra em
um tempo razoável, sem que ocorra perda do analito na forma de espécies inorgânicas
voláteis. A temperatura conveniente para a pirólise da matéria orgânica encontra-se,
freqüentemente, entre 450 e 550 °C.

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162 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Tabela 6.2. Perdas de elementos durante a decomposição de materiais orgânicos por via
2
seca à pressão atmosférica (Iyengar e Sansoni,1982).

Elemento Matriz Temperatura (ºC) Tempo (h) % perdas


Ag fígado de animal 450 ? <5
rim de animal 450 ? <20
Al fígado de animal 450 ? 16
rim de animal 450 ? 12
As sangue de boi (seco) 850 16 35
sangue de boi (seco) 550 16 29
sangue de boi (seco) 450 16 28
Ba rim de animal 450 ? 4
Ca tecido nervoso humano 420 16 <1
tecido nervoso humano 600 16 <1
tecido nervoso humano 710 16 <1
Cd fígado de animal 450 ? <0,7
fígado de rato 600 16 1,6
fígado de rato 500 16 2
rim de rato 500 16 4,4
Co molusco 450 ? 26
molusco 800 ? 22
Cr açúcar refinado 450 ? 0
açúcar não refinado 450 ? 47
melaço 450 ? 52
açúcar refinado 450 ? 63
açúcar-demerara 450 ? 62
Cr açúcar não refinado 450 ? 86
melaço 450 ? 89
fígado de rato 700 16 2,2
fígado de rato 500 16 6,1
sangue de rato 700 16 51,3
sangue de rato 500 16 4
Cu rim de animal 450 ? 0,4
fígado de animal 450 ? 0,2
Fe rim de animal 450 ? 0,1
fígado de rato 500 16 0

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 163

Tabela 6.2. (cont.)

Elemento Matriz Temperatura (ºC) Tempo (h) % perdas

Fe sangue de rato 500 16 0,4


Hg peixe (inteiro) 110 24 81,4
K tecido nervoso humano 420 16 <1
tecido nervoso humano 600 16 55
tecido nervoso humano 710 16 90
Mn Molusco metabolizado 450 ? 15
molusco metabolizado 800 ? 21
Mo rim de animal 450 ? <1,5
fígado de animal 450 ? <0,4
Na tecido nervoso humano 420 16 <3
tecido nervoso humano 600 16 10
tecido nervoso humano 710 16 20
Ni Rim de animal 450 ? <15
fígado de animal 450 ? 3
Pb tecido nervoso humano 600 16 <5
tecido nervoso humano 710 16 40
Sn rim de animal 450 ? <0,3
fígado de animal 450 ? <11
Sr rim de animal 450 ? <0,5
fígado de animal 450 ? <2,5
sangue de boi 450 16 9
ossos de rato 450 16 <0,5
sangue de rato 450 16 16
rim de rato 450 16 5
Zn molusco 450 ? 33
molusco 800 ? 44
alga marinha 1000 16 0
mexilhão 500 16 0
mexilhão 1000 16 0
sangue de boi 850 16 0
sangue de rato 700 16 1
rim de animal 450 ? <1
fígado de rato 700 16 1,1

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164 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Em vista dos problemas de perdas por volatilização, a decomposição por via seca
em cadinho é aplicável somente para elementos metálicos, visto que a maioria dos não
metais é oxidada a produtos voláteis. É conveniente recordar que o método do tubo de
combustão foi usado para não metais sendo necessária a completa volatilização dos
elementos. Logo, sob esta ótica, as duas técnicas são complementares: o método do tubo
de combustão para não metais com derivados voláteis e a decomposição por via seca em
sistema aberto para a maioria dos metais resultando na formação de constituintes não
voláteis. Entre os elementos que são propensos às perdas por volatilização estão os F, Cl,
Br, I, S, Se, P, As, Sb, Ge, Tl e Hg.

Tabela 6.3. Perdas por volatilização por via seca em diferentes temperaturas (Bock,1979).3

Elemento 400 oC 450 oC 500 oC 550 oC 600 oC 700 oC


Al 0 0; +
As +++ +++ 0; +++ +++ +++
B +++
Ca ++ 0 0 0 0 0
Cd 0 0 ++
Co +; +++ 0; +++ 0; +++ 0 0; +++ 0; +++
Cr 0 0 0 0 +++ ++
Cu 0 0; +++ 0; ++ 0; +++ 0; + 0; ++
Fe ++; +++ 0; + 0; +++ 0; +++ 0; +++
Hg +++ +++ +++ +++
K +++ +; +++ 0; + + ++; +++
Mg 0 0 0; +
Mn 0 0 0; + 0 0 0; ++
Mo 0 0; +++ 0; +++ 0 ++
Na ++ 0; ++ 0 ++ ++
Ni 0 0; + 0 0
Pb 0 0; + 0; +++ 0; + 0; + 0; +++
Sb +++ ++ + +++
Zn 0 0; ++ 0; +++ 0; +++ 0; + 0; +++

0 nenhuma perda ++ 6 a 20 % de perda

+ 2 a 5 % de perda +++ > 20%

Às vezes um elemento é mais propenso à perda por volatilização se determinadas


espécies estiverem presentes na matriz da amostra. O íon cloreto (do sal adicionado às
amostras de alimentos, p.ex.) pode reagir com metais produzindo cloretos voláteis. O
chumbo e o cádmio são facilmente perdidos desta maneira como PbCl2 e CdCl2 voláteis.
Outra fonte de erro é que a amostra pode reagir com o material do cadinho. A
extensão desta perda depende da temperatura, do material do cadinho e da composição da

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 165

amostra. Se o cadinho for de porcelana ou sílica, o elemento pode reagir e ficar aderido nas
paredes do recipiente, sendo perdido neste tipo de pré-tratamento. Silicatos, fosfatos e
óxidos combinam-se facilmente com o esmalte dos cadinhos de porcelana, e por esta razão
é preferível trabalhar com cadinhos de quartzo ou de platina. Entretanto, apesar destes
problemas potenciais, a decomposição por via seca é usada em muitas análises devido a
sua simplicidade. Em muitos procedimentos, nenhum reagente é utilizado, exceto o O2 do ar,
minimizando os riscos de contaminação se o ar for de boa qualidade.

6.2.2 DECOMPOSIÇÃO ASSISTIDA COM ADITIVOS.

Em muitos casos os procedimentos de decomposição são mais eficientes quando


alguns aditivos são misturados à amostra antes de ser decomposta. Decomposições por via
seca quando acompanhadas por outros reagentes, além do oxigênio do ar, servem para
vários propósitos:

a) acelerar a oxidação;
b) prevenir a volatilização de certos componentes das cinzas;
c) prevenir reações entre os componentes da cinza e o material do cadinho.

Os aditivos mais comuns são oxidantes, tais como ácido nítrico ou um nitrato, este
último sendo adicionado como solução concentrada em água (ou em metanol ou etanol,
quando nitrato de magnésio for adicionado para assistir a oxidação de substâncias
gordurosas). A amostra é, então, seca antes de ser transferida ao forno para decomposição.
Além de assistir a oxidação, a adição de nitrato ajuda a desprender as cinzas durante o
processo de combustão.
O ácido nítrico também pode ser adicionado no início do procedimento de
decomposição, mas é mais habitual fazer a combustão da amostra que já foi decomposta
parcialmente com ácido, tornando a pirólise da matéria orgânica mais rápida. O ácido nítrico
não deve ser empregado quando traços de estanho forem determinados em materiais
biológicos, pois o ácido estânico resultante tende a reagir com os cadinhos de sílica.
A perda por volatilização também pode ser evitada, em alguns casos, pela adição
de ácido sulfúrico: os cloretos relativamente voláteis, tais como PbCl2, CdCl2 e NaCl, são
convertidos em sulfatos não voláteis, e alguns complexos organometálicos voláteis são
destruídos, como os compostos de vanádio-porfirina.
As perdas de ânions, por outro lado, tais como as de cloretos, e ânions contendo
arsênio, fósforo e boro, podem ser evitadas pela adição de várias bases, geralmente óxidos

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166 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

e hidróxidos de metais alcalinos ou alcalino-terrosos, carbonatos de metais alcalinos, nitrato


de metais alcalino-terrosos e acetato de magnésio. Nas técnicas espectrométricas, que
empregam atomização e vaporização eletrotérmica, é comum a adição de uma espécie
química para aumentar a estabilidade térmica do analito durante a etapa de pirólise. Neste
caso, o aditivo é denominado modificador químico, sendo muito comum o uso de uma
solução contendo paládio e magnésio.
A Tabela 6.4 resume, de um modo geral, as principais vantagens e desvantagens
dos métodos de decomposição por via seca em sistemas abertos.

Tabela 6.4. Vantagens e desvantagens da via seca em sistemas abertos

Vantagens Desvantagens

• relação entre massa de amostra e volume


final muito flexível • perdas de elementos por volatilização

• requer pouca atenção do operador • perdas de amostra como aerosol sólido

• não requer ácidos concentrados • perdas de amostra como espuma

• não requer capelas especiais • alto risco de contaminação

• digerido em meio compatível com método • algumas cinzas são de difícil dissolução
de determinação

Em síntese, a decomposição por via seca em mufla é um dos procedimentos mais


simples para o preparo de amostras, onde a decomposição das amostras orgânicas ocorre
através da combustão e/ou pirólise em uma mufla, normalmente com temperaturas entre
450 °C e 550 °C.4 O equipamento empregado é simples e barato, empregando-se materiais
como béqueres, cadinhos de porcelana, quartzo, platina e zircônio. Grandes quantidades
(>10 g) de amostra podem ser decompostas, necessitando pouca atenção do analista
durante o processo, particularmente em muflas com rampas de aquecimento. Existem
muflas com capacidade de grande número de cadinhos, propiciando uma grande freqüência
analítica. A diluição da amostra pode ser pequena, uma vez que o resíduo pode ser
reconstituído em um pequeno volume de um ácido mineral (HCl ou HNO3), normalmente
diluídos. Os teores de matéria orgânica residual normalmente encontrados são
extremamente baixos (<0,1%, m/m).

Apesar de existirem resultados contraditórios na literatura, a perda de elementos


por volatilização pode ser significativa. Mercúrio é volátil em grande parte de suas formas

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 167

químicas, o mesmo ocorrendo com As, Sb, Sn, Ge, Se, porém, em menor proporção. Além
5
disso, Cd, Pb, Zn e Co são voláteis como cloretos ou brometos em temperaturas elevadas.
Para solucionar o problema, podem ser utilizados modificadores químicos, tais como nitratos
e sulfatos, produzindo sulfatos e/ou nitratos dos elementos de interesse menos voláteis ou,
ainda, eliminando os cloretos como NOCl ou HCl. Porém, se ácido nítrico e/ou ácido
sulfúrico ou alguns nitratos e sulfatos forem introduzidos no sistema, a possibilidade de
contaminação aumenta se os ácidos não forem de alta pureza. Perdas também podem
ocorrer através da retenção dos elementos no recipiente de decomposição. Além disso,
muitas vezes pode ocorrer a formação de fosfatos e silicatos. Os silicatos podem ser
formados por reação de óxidos de alguns elementos com vidro ou quartzo. Cadinhos de
platina podem formar ligas com metais nobres. Outro problema que pode ser encontrado é
que se o aumento da temperatura for feito muito rapidamente (>50 °C h-1), pode haver
perdas da amostra por projeção ou ignição.6 Por se tratar de um sistema de decomposição
aberto, existe a possibilidade de contaminação pelo ar atmosférico.
Apesar de boas recuperações serem encontradas na literatura para vários
elementos, os procedimentos envolvendo decomposição por via seca em mufla não são
facilmente aplicáveis para a determinação posterior de elementos voláteis, tais como Hg, As
e Se. Além do mais, como resultado dos possíveis erros sistemáticos relacionados ao
procedimento, tem sido recomendado por programas de qualidade minimizar a utilização de
procedimentos de decomposição baseados na decomposição por via seca em mufla em
certificações dos materiais de referência, tendo em vista que este procedimento ainda
permanece entre os métodos oficiais nos países nórdicos. Conseqüentemente, o uso de
procedimentos de decomposição por via úmida aparece ainda, como determinantes em
processos de certificação.4
Alguns problemas como contaminação e dificuldades associadas ao lento
aquecimento de sistemas tradicionais de decomposição por via seca, como as muflas,
podem ser resolvidos. Atualmente estão disponíveis no mercado muflas com sistema de
aquecimento realizado através da irradiação de microondas, onde carbeto de silício ou
grafite são empregados, por apresentarem altíssima capacidade de absorção de microondas
com uma elevada taxa de aquecimento. Além disso, neste sistema evita-se o ambiente
inadequado de certos sistemas tradicionais, minimizando a contaminação.7

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168 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ITEM 6.2

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Learning. Chichester: John Wiley, 1991. 632p.

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Element Analysis. Vienna: International Atomic Energy Agency, 1980, 255p.

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International Textbook, 1979, 444p.

4. HOENIG, M., BAETEN, H., VANHENTENRIJK, S., VASSILEVA, E., QUEVAUVILLER, PH.
Critical discussion on the need for an efficient mineralization procedure for the analysis of
plant material by atomic spectrometric methods. Analytica Chimica Acta, Amsterdam,
v.358, n.1, p. 85-94, 1998.

5. IYENGAR, G.V., SUBRAMANIAN, K.S., WOITTIEZ, J.R.W. Element Analysis of


Biological Samples – Principles and Pratice. New York: CRC Press, Boca Raton,
1997.

6. JORHEM, L. Dry ashing, sources of error, and performance evaluation in AAS.


Mikrochimica Acta, Vienna, v.119, n.3-4, p. 211-218, 1995.

7. CEM Corporation, Innovators in microwave technology,


http://www.cem.com/pages/arwv.htm, acessada em 20/03/2006.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 169

6.3 DECOMPOSIÇÃO EM BAIXAS TEMPERATURAS

Conforme já foi comentado, as duas principais causas de erros sistemáticos na


decomposição de amostras orgânicas por via seca em sistemas abertos são as perdas por
volatilização e as perdas do analito pela reação com o cadinho. Ambas as causas de erro
tornar-se-iam muito menos severas se as decomposições por via seca pudessem ser feitas
em temperaturas inferiores a 500 °C, ou somente na temperatura necessária para oxidar
completamente a matriz orgânica1.
É possível decompor amostras em baixas temperaturas, utilizando-se o poder
oxidante de um plasma contendo radicais oxigênio e oxigênio excitado. O plasma é
produzido em um sistema à baixa pressão de oxigênio aplicando-se um campo elétrico de
alta freqüência (usualmente indutivamente acoplado) ou radiação microondas. A amostra
fica situada no interior de um sistema, onde as espécies não reativas de oxigênio e ozônio
são retiradas através da sucção realizada por uma bomba de vácuo. Para evitar a perda de
elementos voláteis utiliza-se um sistema de resfriamento com circulação de água. O calor
produzido é proveniente das reações de oxidação exotérmicas sendo que, normalmente, não
ultrapassa 150 °C, sendo a técnica, portanto, chamada de decomposição à baixa
temperatura. Uma característica importante é que, como a reação ocorre entre um sólido e
um gás, a decomposição depende do contato da amostra com o plasma e, portanto, a área
superficial da amostra é um parâmetro relevante.
Assim, por exemplo, quando uma corrente de oxigênio puro a uma baixa pressão,
na faixa de 1 a 5 torr, passa através de um campo elétrico de alta freqüência, o oxigênio
converte-se em “oxigênio excitado”, ou um plasma de oxigênio. Este plasma consiste de
uma mistura de átomos, íons e de moléculas de oxigênio nos estados fundamental e
excitado, com um tempo de vida de aproximadamente 1 s, e apresenta altíssima reatividade.
Após esse tempo, o “oxigênio excitado” é reconvertido ao seu estado molecular normal (O2).
Existem dois sistemas de decomposição à baixa temperatura com oxigênio excitado
disponíveis no mercado. O sistema da Figura 6.3 é conhecido como LTA (do inglês “Low
Temperature Asher”), e emprega freqüência de 13,5 MHz e potência de até 300 W. Algumas
versões mais recentes utilizam microondas com freqüência de 2450 MHz e potência de até
200 W para criar o plasma.

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170 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Figura. 6.2. Sistema de decomposição a baixa temperatura com oxigênio excitado

Neste equipamento, um fluxo de O2 é admitido em um tubo de sílica a baixa


pressão (1 a 5 torr). Ao redor do tubo fixa-se uma bobina feita com um fio de metal, através
do qual passa uma corrente elétrica alternada No campo eletromagnético de radiofreqüência
gerado, o oxigênio molecular é convertido em um plasma muito reativo contendo átomos de
oxigênio excitado, radicais livres, íons e elétrons livres. O plasma envolve então as partículas
da amostra moída permitindo a sua decomposição sem nenhuma fonte externa de calor. A
amostra é oxidada em temperaturas que raramente excedem 200 ºC e que geralmente são
menores que 150 ºC. A amostra é posicionada bem próxima ao campo de alta freqüência
face ao tempo de existência do oxigênio excitado ser de apenas 1 s. Os produtos voláteis da
combustão e o excesso de oxigênio são purgados em direção a um módulo de exaustão.
Um outro sistema de decomposição de amostras à baixa temperatura com oxigênio
excitado, desenvolvido por Knapp et al.2 e denominado CPA (do inglês “Cool Plasma
Asher”), é mostrado nas Figuras 6.3 e 6.4, sendo construído de quartzo e contendo uma
barra magnética (quando necessário) para agitação da amostra, para constante renovação
da camada de sólido em contato com o plasma.
O plasma é gerado por indução usando-se um gerador de 27,12 MHz e potência de
20 a 40 W. Até 1 g de amostra pode ser decomposta empregando-se uma vazão de
oxigênio de 4 l h-1, sendo que a amostra, não contendo mais que 10% de teor de água, deve
ser previamente pulverizada. Após a decomposição, coloca-se um condensador na parte
superior do sistema e põe-se em refluxo com cerca de 2 ml de um ácido apropriado. Desta
maneira, alguns elementos que fiquem adsorvidos nas paredes podem ser solubilizados no
meio ácido.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 171

Figura. 6.3. Sistema de decomposição com plasma de oxigênio (CPA). 2

3
Figura. 6.4. Seqüência de operações com o CPA (conforme Knapp, 1998.)

Os constituintes não voláteis permanecem no resíduo e podem ser, então, determinados. A


temperatura durante a decomposição depende amplamente da potência elétrica, da pressão
do oxigênio e da natureza da amostra. Alguns exemplos são mostrados na Tabela 6.5.

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172 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Tabela 6.5. Temperaturas durante a decomposição com plasma de oxigênio a 1 torr.

Material Temperatura (ºC)


Papel de filtro 120
Resina sintética, polímero de espuma 150
Tecido animal 160
Plantas 150
Grafite 130
PTFE 190

Em virtude das baixas temperaturas, as perdas por volatilização e as interações com


os frascos de reação são sensivelmente diminuídas. Alguns elementos como As, Cd, Sb, Pb,
B e Ge são apenas alguns exemplos de elementos que podem ser submetidos a este
método de decomposição sem perdas significantes. Entretanto, halogênios, mercúrio e
enxofre são perdidos durante a queima da amostra. O motivo das perdas de outros
elementos como Ag, Au, P, Si e Re ainda não é bem compreendido, mas é possível que
estes elementos sejam conduzidos para fora do frasco de decomposição como material
particulado.
Outra importante vantagem, em comum com os métodos de combustão simples, é
que nenhuma contaminação por elementos metálicos é esperada. Devido às temperaturas
não serem muito altas, as chances de reação entre o resíduo e o recipiente são bastante
atenuadas, e as recuperações obtidas são bem melhores em comparação aos métodos que
empregam temperaturas elevadas. Uma séria desvantagem é que a baixa pressão do
oxigênio implica em uma velocidade de combustão muito lenta, levando-se horas ou até dias
para a decomposição de um grama de amostra. O tempo depende do tamanho das
partículas, das condições e da natureza da substância. Além disso, é difícil decompor
materiais com altos teores de cinzas. O oxigênio excitado não consegue atingir o centro da
amostra, a não ser que se agite mecanicamente a mesma ou se interrompa periodicamente
o processo para quebrar as cinzas com um bastão de platina. Deve-se também ter um
cuidado especial com mudanças súbitas na pressão, pois quando isso ocorre parte da
amostra é perdida como material particulado.
De qualquer forma, deve-se ressaltar que a técnica de decomposição em baixa
temperatura com oxigênio excitado apresenta destaques, tais como a utilização de
pequenas quantidades de reagentes e, conseqüentemente, menor contaminação, pequena
diluição da amostra (uma vez que 2 g da amostra podem ser reconstituídos em 1 ou 2 ml de
ácido) e a decomposição de materiais de difícil preparo tais como grafite e PTFE.
Finalmente, o sistema é bastante seguro, já que opera à baixa temperatura e aberto,
evitando-se, assim, o risco de explosões.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 173

Revisão de algumas aplicações


O tempo necessário para a decomposição de 250 mg de tecidos biológicos seguida
da determinação de bismuto por espectrometria de absorção atômica com atomização
4
eletrotérmica (ET AAS) foi realizada por Djudzman, Eeckhout e Moerloose . Os autores
encontraram 15 horas com sendo o tempo ideal para a destruição da matéria orgânica e a
obtenção de boas recuperações.
Carter e Yeoman5 utilizaram uma mistura de oxigênio e tetrafluoreto de carbono para
aumentar a velocidade da decomposição de amostras de sangue. Os autores colocaram 10
µl de sangue juntamente com 50 µl de água em um copo de níquel (clássico copo de
Delves), secaram em chapa de aquecimento por 2 minutos a 110 °C e, finalmente,
introduziam o copo no sistema. O tempo necessário para destruição da matéria orgânica
depende da mistura utilizada na geração do plasma, sendo necessários cerca de 12 min
para uma mistura 1+1 de oxigênio e tetrafluoreto de carbono. Em 1982, Williams6 substituiu
o tetrafluoreto de carbono por politetrafluoretileno (PTFE) como fonte de flúor e como
recipiente para a amostra, obtendo menor interação da amostra com o recipiente. O autor
comenta que apesar dos bons resultados obtidos para a determinação de Sn, Fe, Pb e Cr
em alimentos, pode ocorrer a formação de fluoretos voláteis, por exemplo, com B, P, S, Si,
Ti, U e W.
A especiação de constituintes inorgânicos em carvão por vários métodos analíticos
foi realizada por Vogt7 em 1994, utilizando a LTA para o preparo de algumas amostras. Sob
as condições do sistema, alguns minerais como fosfatos, sulfatos e caolinitas podem sofrer
desidratação e que elementos como Hg, Se, As e Sb podem ser perdidos por volatilização.
Entretanto, silicatos, carbonatos, óxidos e muitos sulfatos permanecem inalterados.
Gillain8 verificou que perdas por volatilização de antimônio são difíceis de prevenir,
obtendo-se boas recuperações para Sb (III) apenas quando uma baixa potência foi usada
por um curto período de tempo. Para elementos como Zn, Cd, Pb, Cu e Bi boas
recuperações foram encontradas. Também verificou que brancos mais baixos são
encontrados em relação à decomposição em sistema pressurizado com aquecimento
convencional. Porém, esta última leva menos tempo para decomposição.
Uma perda substancial de arsênio no preparo de amostras de material particulado
atmosférico e de várias matrizes sintéticas de sais marinhos foi observada por Walsh e
Fasching.9 As perdas não foram relacionadas com relação a alguma forma química
específica de arsênio mas, provavelmente, são dependentes da constituição da amostra, da
potência empregada na geração do plasma e da duração da exposição da amostra.

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174 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

10
Mulford avaliou a influência da potência aplicada para gerar o plasma na
decomposição de pó de celulose e ágar contendo óxido de cobre. Verificou que mercúrio
era perdido em todas as potências e que selênio apresentava recuperação que variava de 5
a 70% para as potências de 295 W e 32 W, respectivamente. Para arsênio, as perdas eram
proporcionais à potência aplicada (no intervalo de 70 a 275 W). A perda de mercúrio em
11
amostras de peixe foi avaliada por Pillay et al. Os autores verificaram que após o intervalo
2+
de 3,5 a 7 horas de preparo, as perdas de mercúrio (na forma de Hg ) em seis amostras
diferentes variaram de 81% a 98%.
12
White e Lawrence investigaram a influência de determinados parâmetros no
processo de decomposição. Para tanto, utilizaram amostras com tamanho de partícula
menor que 75 µm, como por exemplo, de materiais botânicos. Materiais biológicos eram
liofilizados, moídos e peneirados, enquanto materiais como papel e cabelo eram apenas
cortados em pedaços de 5 cm e introduzidos no sistema. Para 1 g do material de referência
(Citrus Leaves), a adição de uma barra magnética recoberta com quartzo para agitação
diminuiu o tempo de decomposição de 80 h para 56 h. Para as mesmas condições, os
autores adicionaram uma vazão de 2 a 5% de argônio, baixando o tempo de decomposição
para 15 h, e posteriormente, introduziram esferas de PTFE diminuindo, assim, o tempo para
6 horas. Também, estudaram a influência do condensador com circulação de água no
momento do refluxo com ácidos, verificando que perdas de B, Hg e S eram significantes
sem a passagem e com a passagem de água pelo condensador.
A técnica também foi empregada para o preparo de amostras para a determinação
de Cd em sangue13 e arroz,14 B em tecidos animais15 e materiais biológicos,16 Na em fibras
17 18 19
acrílicas, Cd e Pb em sangue e vinte e oito elementos em carvão.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 175

1
Tabela 6.6. Alguns exemplos de decomposição com plasma de oxigênio (Anderson ).

Amostra Elemento Determinado Perdas


Sangue As, Cd, Co, Cr, Cs Cu, Fe, Mn, Mo, Ag, Au, Hg
Na, Pb, Sb, Ta, Zn
Cabelo Ag, As, Au, Cd, Co, Cu, Fe, Ga, In, La, Br, Hg
Mn, Ni, Sb, Se, Zn
Material biológico As, Cr, Cu, Fe, Mn, No, Pb, Sb, Se, Zn Ag, Au, Hg, I

Sangue  Ag, Au, Hg, (Re, 2%)

Soro sanguíneo Ag, Co, Cr, Cs, Fe, Rb, Sb, Sc, Se Zn

Material biológico Ca, Cu, Fe, K, Mg, Na, Zn 

Vários materiais Mg, Na, Ni, Sn, Sr, Ti P, Si

Poeira Cd, Cu, Pb, Zn 

Leite em pó As, Cu, Zn 

Soro, plasma, sangue Be, Cr 

Material biológico As, Cu Hg, Se

Carvão, grafite As, Ga, cinza total Cl, S

Material biológico B B (3%)

Tabaco Cd 

Material biológico Ge 

Plantas Co, Cu, Mn 

Polímeros orgânicos Cinza total 

Fibras Na 

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176 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ITEM 6.3

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Learning. Chichester: John Wiley, 1991, 632p.

2. RAPTIS, S.E., KNAPP, G., SCHALK, A.P. Novel method for the decomposition of organic
and biological materials in an oxygen plasma excited at high frequency for elemental
analysis. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York,v. 316, p. 482-487,
1983.

3. G. KNAPP. Decomposition of organic materials: fundamentals. Piracicaba: II


Workshop on Sample Decomposition, 1998, 30 p.

4. DJUDZMAN, R., EECKHOUT, E.V.den., MOERLOOSE, P. Determination of bismuth by


atomic-absorption spectrophotometry with electrothermal atomization after low-
temperature ashing. Analyst, Cambridge, v. 102, n. 1218, p. 688-691, 1977.

5. CARTER, G.F., YEOMAN, W.B. Determination of cadmium in blood after destruction of


organic material by low-temperature ashing. Analyst, Cambridge, n. 105, v. 1248, p. 295-
297, 1980.

6. WILLIAMS, E.V. Low-temperature oxygen-fluorine radiofrequency ashing of biological-


materials in poly(tetrafluoroethylene) dishes prior to the determination of tin, iron, lead and
chromium by atomic-absorption spectroscopy. Analyst, Cambridge, n. 107, v. 1278, p.
1006-1013, 1982.

7. VOGT, C. Speciation of the inorganic components in brown coal. Fresenius Journal


Analytical Chemistry, New York, v. 350, p. 89-92, 1994.

8. GILLAIN, G. Studies of pretreatments in the determination of zn, cd, pb, cu, sb and bi in
suspended particulate matter and plankton by differential-pulse anodic-stripping
voltammetry with a hanging mercury drop electrode. Talanta, London, v. 29, n. 8, p. 651-
654, 1982.

9. WALSH, P.R, FASCHING, J.L. Losses of arsenic during low-temperature ashing of


atmospheric particulate samples. Analytical Chemistry, Washington, v. 48, n. 7, p. 1012-
1014, 1976.

10. MULFORD, C.E. Low-Temperature Ashing for the Determination of Volatile Metals by
Atomic Absorption Spectroscopy. Atomic Absorption Newsletter, Canada, v.5 (1966) p.
135-139

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Decomposição de materiais orgânicos por combustão 177

11. PILLAY, K.K.S., THOMAS, C.C., SONDEL, J.A., HYCHE, C.M. Determination of mercury
in biological and environmental samples by neutron activation analysis. Analytical
Chemistry, Washington, v. 43, n. 11, p. 1419-1425, 1971.

12. WHITE J.R., R.T., LAWRENCE, C.W., Journal of Association of Official Anaytical
Chemists, v. 78, p. 99-109, 1995.

13. VALENTA, P., RÜTZEL, H., NÜRNBERG, H.W., STOEPPLER, M. Trace chemistry of
toxic metals in biomatrices. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v.
285, p. 25-34, 1977.

14. NARASAKI, H. Determination of cadmium in polished rice by low-temperature ashing and


atomic-absorption spectrometry. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 104, n. 2, p.
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15. MAIR, J.W., DAY, H.G. Curcumin method for spectrophotometric determination of boron
extracted from radiofrequency ashed animal tissues using 2-ethyl-1,3-hexanediol.
Analytical Chemistry, Washington, v. 44, n. 12, p. 2015-2017, 1972.

16. DAUGHTREY, E.H., HARRISON, W.W. Analysis for trace levels of boron by ion
exchange hollow cathode emission. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, n. 72, v. 2,
p. 225-230, 1974.

17. COOMBER, R., WEBB, J.R. Comparison of low temperature radiofrequency ashing with
other methods of organic sample oxidation for determination of sodium in an acrylic fibre.
Analyst, CAMBRIDGE, v. 95, n. 1132, p. 668-669, 1970.

18. HAUSER, T.R., HINNERS, T.A., KENT, J.L. Atomic-absorption determination of cadmium
and lead in whole-blood by a reagent-free method. Analytical Chemistry, Washington, v.
44, n. 11, p. 1819-1821, 1972.

19. NADKARNI, R.A. Multi-technique multi-elemental analysis of coal and fly-ash. Analytical
Chemistry, Washington, v. 52, n. 6, p. 929-935, 1980.

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178 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

6.4 FRASCO DE COMBUSTÃO COM OXIGÊNIO

6.4.1. INTRODUÇÃO

As principais dificuldades associadas com a decomposição por via seca e até


mesmo com a decomposição em baixas temperaturas centralizam-se na perda de elementos
como espécies voláteis. Na técnica do tubo de combustão o problema é contornado ao se
promover a volatilização quantitativa dos elementos de interesse e recuperá-los como
produtos voláteis da fase gasosa. Contudo, a técnica do tubo de combustão é relativamente
complicada e a aparelhagem envolvida é complexa. Idealmente, a técnica deveria ser
relativamente fácil de conduzir, sem envolver aparelhagem complexa e que pudesse oxidar
completamente as amostras orgânicas e biológicas de modo que, tanto a cinza não volátil
como os produtos voláteis, fossem recuperados quantitativamente sem perdas.
Chegou-se bem perto de alcançar esses parâmetros com o advento do método do
frasco de combustão com oxigênio, também conhecido como frasco de combustão de
Schöniger (originalmente o método foi introduzido em 1892 por Hempel para macroanálise),
mas em 1955, Schöniger adaptou e desenvolveu o método para a decomposição de
amostras orgânicas e biológicas1. Essencialmente, o método consiste em confinar a amostra
em um envoltório, normalmente papel, o qual fica suspenso em um frasco fechado com
atmosfera de O2 e uma solução absorvedora de íons, adequada para o elemento que se
deseja determinar. Um tipo de frasco de combustão de oxigênio comercial consiste em um
frasco cônico de paredes resistentes com macho de vidro esmerilhado, no qual é selado um
fio grosso e rígido de platina, com uma cesta, também de platina, fixada na extremidade,
atuando como uma dobradiça para prender a amostra.
A seguir está descrito o procedimento com o frasco de oxigênio de combustão da
Figura 6.5:

a) A amostra, previamente pesada, é envolvida em um tipo de papel de filtro que não deixa
cinzas. Cabe salientar que o peso da amostra depende do volume e do tipo de frasco
utilizado.

b) A amostra, envolta no papel filtro, é fixada na tela de platina de forma que seja deixada
uma saliência do papel.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 179

c) No frasco de combustão adiciona-se um volume adequado de solução absorvedora.


Normalmente, esta é uma solução de ácido diluído quando se pretende determinar um
metal, ou uma solução de álcali diluído quando se determina um não metal.

d) Em seguida, aplica-se um jato rápido de oxigênio no interior do frasco, expulsando o ar


do seu interior, a fim de que a atmosfera no frasco seja de oxigênio puro.

e) Imediatamente após o jato de oxigênio no frasco, acende-se a saliência do papel que


envolve a amostra, segurando-a e colocando firmemente o macho no frasco (melhor
ainda seria acendê-la por ignição elétrica, ou por meio de uma lâmpada infravermelha
com auxílio de uma lente). O frasco (Figura 6.5e) é invertido para que a própria solução
absorvedora promova a vedação do macho. A amostra e o papel de filtro queimam
brilhantemente na presença da atmosfera de oxigênio puro (a combustão é rápida e se
completa entre 5 e 15 segundos). Como a pressão no interior do frasco aumenta
consideravelmente durante a combustão, faz-se necessário segurar fortemente a rolha,
pois, caso contrário, ela será atirada para fora.

f) Após a amostra ter sido completamente queimada, deixa-se o frasco esfriar (se ocorrer
a formação de fuligem ou depósitos de carbono, significa que a amostra não foi bem
decomposta e que algumas determinações podem ser prejudicadas). A solução
absorvedora deve ser agitada para garantir a completa absorção de todos os produtos
voláteis de oxidação assim como, a dissolução das cinzas.

g) O frasco deve ser aberto após a completa absorção de todos os produtos de oxidação
(este processo pode ser observado, após alguns minutos após o término da
combustão). Finalmente, a solução absorvedora é transferida para um balão
volumétrico.

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180 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

(a) Frasco de oxigênio com macho e cesta ; (b) papel de filtro

(c) Introdução de oxigênio no frasco e colocação da amostra na cesta

(d) Ignição da amostra e inserção do macho

(e) Processo de oxidação no frasco de oxigênio

(f) Absorção dos produtos de oxidação na solução

Figura 6.5. Seqüência operacional em um frasco de combustão comercial (Anderson25)

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 181

6.4.2. TIPOS DE FRASCOS DE COMBUSTÃO DE SCHÖNIGER

Os frascos de combustão são feitos, geralmente, de vidro borossilicato,


preferencialmente com paredes reforçadas. Usualmente, emprega-se como frasco um
erlenmeyer de borossilicato de 500 ml (suficiente para queimar 50 a 60 mg de amostra).
Porém, alguns autores utilizaram frascos de polietileno para a determinação de silício, bem
2 3
como quartzo e policarbonato para a determinação de fluoreto, visando minimizar a
interação do analito com o frasco.
O suporte da amostra, geralmente, é composto por um fio de platina de 0,5 a 1,0 mm
de espessura que forma uma espécie de “cesta” na extremidade, de cerca de 15 x 30 mm.4
É possível ocorrer a formação de ligas de alguns elementos com a platina, tais como
bismuto.5 Para contornar este problema pode-se empregar um espiral de sílica como
suporte.
Burfield e Ng6 desenvolveram um sistema semelhante ao frasco de combustão de
Schöniger, porém, sem utilizar o suporte de platina para a determinação de cloreto em PVC.
Ure e Shand,7 empregando um suporte de platina, encontraram baixas recuperações para
mercúrio por espectrometria de absorção atômica com vapor frio. Os autores atribuíram a
baixa recuperação à platina volatilizada do suporte, encontrando 5 a 10 µg desta na solução
absorvedora. Para contornar este problema, os autores empregaram, com sucesso,
suportes feitos de tântalo e tungstênio.
O material mais utilizado para envolver a amostra é o papel filtro com baixo teor de
cinzas, porém, alguns autores empregaram papel de cigarro, filmes de polietileno,8 cápsulas
de metilcelulose,9,10 cápsulas de gelatina para líquidos11,12 e sólidos voláteis,13 e em capilares
de vidro no caso de líquidos de alto ponto de ebulição, além de envelopes de fita adesiva,14
celofane15,16 e cones de acetato de celulose17 para evaporação de líquidos antes da ignição,
celofane para amostras sólidas.18 Para a determinação de iodo e mercúrio em ungüentos
Johnson19 e Vickers20 empregaram um papel especial para envolver a amostra. Cápsulas de
acetato de celulose para utilização no frasco de combustão de Schöniger foram empregadas
como invólucro da amostra. Cápsulas de policarbonato com capacidade de 0,2 ml (0,085%
Cl, 0,01% P, 0,036% N), foram empregadas para a combustão de amostras de líquidos
voláteis e amostras higroscópicas. Também são comercializados papéis pretos para ignição
com radiação infravermelha. Osborne e Willis21 encontraram contaminação de cloro em
vários papéis filtro, celofane, polietileno e polipropileno variando de 175 a 5500 mg kg-1.
Também observaram que o papel filtro Whatman Nº 42 foi o que apresentou menor
contaminação, e que esta pode ser reduzida a concentrações mais baixas que 20 mg kg-1
deixando o papel de molho por pelo menos uma semana em etanol 95%. McGary22

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182 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

encontrou contaminação de iodo em papéis utilizados com ignição por radiação


23
infravermelha, associando esta ao pigmento preto adicionado ao papel. Barney et al.
comentam que, para a combustão de óleos, as cápsulas de gelatina perdem o formato
rapidamente após a ignição, e partículas que não foram queimadas podem cair na solução
absorvedora. Também relatam que papéis filtro são difíceis de manusear sem perdas da
amostra e, para superar tais problemas, elaboraram um microbéquer para suspender a
amostra. Fukasawa e Yamane24 mostram que o sucesso na combustão de um óleo depende
do tamanho da amostra, da geometria do papel filtro e do espalhamento da amostra no
papel filtro, obtendo bons resultados quando a amostra está bem distribuída no papel.
Com relação à ignição, esta pode ser elétrica, com lâmpada focada ou, também,
manual, sendo as primeiras vantajosas com relação aos aspectos de segurança, uma vez
que é efetuada atrás de um anteparo. A última (manual), apesar de apresentar menor
segurança, é extremamente simples de realizar e não necessita de acessórios para a
ignição. Em alguns frascos verifica-se que, após a combustão, um pequeno vácuo é criado
no interior do frasco devido ao consumo de oxigênio e carbono e à formação e absorção de
CO2.

Tabela 6.7. Tamanhos de frasco com relação ao peso de amostra.

Massa de amostra Volume do frasco

1 − 10 g 2000 − 10000 ml

500 – 1000 mg 2000 ml

100 − 150 mg 1000 ml

50 − 60 mg 500 ml

20 − 30 mg 300 ml

2 − 10 mg 300 ml

30 µg − 5 mg 25 ml

2 − 30 µg 10 ml

O tamanho do frasco depende da quantidade de amostra a ser queimada,


lembrando que tanto a amostra quanto o papel consomem oxigênio durante a combustão.
Em muitos casos, o frasco é muito maior do que o tamanho mínimo requerido (p.ex., cerca

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 183

de 30 miligramas de amostra para um frasco de 300 ml). Os tamanhos de frascos e sua


relação com a massa de amostra a ser decomposta são fornecidos na Tabela 6.7.
Um frasco de combustão para amostras de até 1 g pode ser facilmente construído
em laboratório, sendo bastante simples e seguro, permitindo o preparo de amostra em
apenas 10 min. Para tanto, utiliza-se um balão de fundo chato de borossilicato de 2 l
adaptado com uma saída lateral na qual é adaptada um balão de borracha (tipo bexiga). A
amostra, envolvida em papel, é colocada em uma cesta metálica (Ni-Cr) suspensa na tampa
do frasco. Uma barra magnética, recoberta com PTFE, é colocada no interior do frasco para
-1
a agitação. Após adição de 50 ml de solução absorvedora (p.ex., solução 0,1 mol l HCl
para mercúrio), coloca-se a amostra envolta em papel na cesta e preenche-se o frasco com
O2. É feita a ignição do papel contendo a amostra manualmente e coloca-se a tampa
contendo a cesta metálica com a amostra fechando-se o balão. A tampa é fixada por meio
de uma presilha durante a combustão da amostra, que dura cerca de 8 min para 1 g de
amostra. Durante a combustão a bexiga infla um pouco, retornando à sua forma original
quando a combustão termina. A solução interna é agitada por meio da barra magnética para
que a solução absorvedora lave a parte interna do frasco sem molhar a cesta e, após 5 min,
o procedimento está concluído. Este procedimento é muito útil para a determinação de
mercúrio em tecido muscular de peixes (idealmente seca-se a amostra por liofilização).

6.4.3. COMBUSTÃO ASSISTIDA POR ADITIVOS

Quando se deseja a decomposição de constituintes da amostra muito resistentes à


oxidação, a combustão pode ser assistida por aditivos. Estes aditivos (do inglês “combustion
aids”) são misturados intimamente com a amostra ou usados como solução para embeber o
papel de filtro no qual a amostra será envolvida. A Tabela 6.8. mostra alguns exemplos de
aditivos.

Tabela 6.8. Auxiliares de combustão para compostos de difícil oxidação.

Amostra Aditivos
compostos halogenados tolueno, parafina, decalina, sulfato de hidrazina,
açúcar, nitrato de sódio, nitrato de potássio

compostos organofluorados açúcar, clorato de potássio, peróxido de sódio

compostos organofosforados parafina, persulfato de amônio

compostos organoarsênicos nitrato de potássio

compostos organoborados açúcar

material biológico açúcar

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184 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

6.4.4. SOLUÇÕES ABSORVEDORAS

A escolha da solução absorvedora deve ser compatível com o elemento a ser


determinado. Muitos produtos de combustão podem levar horas para serem absorvidos, mas
se o processo for realizado com agitação, este tempo se reduz para 5 a 10 minutos. Às
vezes, uma pequena diferença entre duas soluções pode ser significativa. Por exemplo,
cloreto de hidrogênio é absorvido muito mais rapidamente por uma solução de cloreto de
amônio do que por uma de hidróxido de sódio. Se os elementos a serem determinados
formam produtos de combustão não voláteis, deve-se dispensar uma atenção especial na
lavagem das conexões após o frasco ter sido aberto.
Para o caso particular em que se pretende determinar mercúrio, utilizando-se
separação prévia por extração com solvente (ditizona em CCl4, p.exemplo), recomenda-se
utilizar 50 ml de solução 0,1 mol l-1 HCl e 4 ml de solução 0,02 mol l-1 KMnO4. A presença de
permanganato é necessária para a oxidação de iodeto e/ou sulfeto, eventualmente
presentes na solução da amostra, e que podem interferir na separação.

6.4.5. APLICAÇÕES DO FRASCO DE OXIGÊNIO

O frasco de combustão com oxigênio tem sido empregado na determinação de


muitos metais (mercúrio, zinco, manganês, níquel e cobalto), halogênios, enxofre e fósforo
em amostras orgânicas e biológicas. Os seguintes elementos já foram determinados em
amostras decompostas por esta técnica:

F S Ge Co Cd Ca

Cl Se B Ni Mg Ba

Br P Hg Mn Zn Fe

I As Cu Ti Al U

Deve-se notar que a lista contém uma alta proporção de elementos metalóides e
não metais, mostrando o grande alcance da técnica.
A aplicação para alguns elementos, tais como arsênio, bismuto e chumbo, requer
maior cuidado porque formam ligas com a platina da cesta. Neste caso, a cesta deve ser de
sílica. Outros metais, como níquel e gálio, formam óxidos insolúveis e, portanto, necessitam

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 185

de tratamento especial antes de serem determinados. Mas muitos elementos, tais como os
alcalino-terrosos, zinco, cádmio e mercúrio, são determinados sem problemas. O método é,
em especial, muito bom para mercúrio, um elemento que causa mais problemas do que
qualquer outro em muitos métodos de decomposição.

Tabela 6.9. Condições para a separação de alguns elementos com a técnica do frasco de
combustão com oxigênio (adaptado de Bock, 1979).

Peso da Elemento Tamanho do Aditivo Solução absorvedora


amostra determinado frasco (ml)

30-80 µg F 250 1 mg KClO3 30 ml de H2O


0,4-20 mg F 250-500 - 5-10 ml de H2O
2-4 mg Cl 250 - 10 ml de H2O
10-20 mg Cl 300 - 15 ml de sol. 0,7 mol l-1
NaOH
2-4 mg Br 250 - 10 ml de sol 0,05% H2O2
500 mg Br 6000 - 30 ml de sol 5% HCOOH
150 mg S 2000 - 15 ml de H2O2
20-40 mg S 350 15-20 mg CHI3 10 ml de sol. 0,1 mol l-1
NaOH
4-6 mg Se 500 4 mg sacarose 10 ml de sol 0,01 mol l-1
100 mg Se 1000 - 5 ml de sol. 0,1 mol l-1
NaOH
50 mg P 500 1 espátula 10 ml de sol. 1:10 H2SO4
Na2CO3
100 mg P 1000 - 20 ml de sol 1:5 HNO3
4-20 mg B 100 4-20 mg KOH 2 a 5 ml de H2O
5-10 mg B 250 - 10 ml de H2O
1g Hg 2000 - 50 ml de sol. 0,01 mol l-1
HCl
1g Hg 5000 0,4 g celulose 200 ml de sol. 0,1 mol l-1
HCl
4-5 mg Cu 500 - 20 ml de sol 0,25 mol l-1
H2SO4
2-7 mg Co, Mn 500 15-20 mg 5 ml de sol. 6 mol l-1 HCl
Na2CO3
5-10 mg Cd, Mg, Zn 250 - 5 ml de sol. 1 mol l-1 HCl

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186 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

6.4.6. VANTAGENS E LIMITAÇÕES

As vantagens do método do frasco de oxigênio incluem a velocidade com que as


amostras são decompostas, o baixo risco de perdas e contaminação (por se tratar de um
sistema fechado) e a simplicidade do processo. Como o custo do equipamento é pequeno, é
comum trabalhar com um conjunto de frascos, tornando a análise mais rápida.
A principal limitação do método é a oxidação incompleta da amostra: às vezes um
pouco de fuligem é produzida, a qual pode interferir na determinação de alguns elementos
(p.ex. fósforo), embora a adição de um aditivo para melhorar a combustão contorne este
problema. Também, é bastante comum a formação de CO, o que torna o método inviável
para a determinação de carbono. Outra fonte de problema é a evaporação de compostos
voláteis antes de serem queimados. Esta fonte de erro pode ser minimizada envolvendo a
amostra com várias camadas de papel de filtro. Dependendo da massa de amostra utilizada,
o teor de umidade na amostra não deve ser maior que 3%.

ANEXO I

Devido ao caráter histórico, neste anexo é feita uma tradução parcial do artigo
original descrito por Hempel em 1892, realizada gentilmente pelo Prof. Dr. Ayrton Figueiredo
Martins. Cabe ressaltar que o artigo impulsionou várias outras idéias de procedimentos de
combustão de amostras orgânicas, mas foi somente em 1955 que o sistema apresentou
uma evolução significativa, através das modificações realizadas por Schöniger. Portanto,
este texto é colocado aqui buscando prestigiar esta importante contribuição.

------------------------------------------------------------------------------
SOBRE UM MÉTODO DE DETERMINAÇÃO DE ENXOFRE EM CARVÃO E CORPOS
ORGÂNICOS - por Walther Hempel (Ang. Chem. 13 (1892) p. 393-394)

Estimulado pela experiência de Berthelot, que realiza a determinação de enxofre em


corpos orgânicos de uma maneira simples pela combustão dos mesmos em bomba
recoberta internamente com platina – eu pensei se não seria possível realizar isto sem a
aplicação deste aparelho tão caro, apenas através da combustão direta e determinação do
enxofre em corpos orgânicos. Uma série de tentativas demonstraram que, de fato, é
possível fazer a combustão em um grande recipiente de vidro, quantitativamente, sem
problemas e, com isso, obter-se um método muito exato e muito rápido. As substâncias a

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 187

serem queimadas são comprimidas em um pequeno cilindro no qual um fio de platina é


colocado da mesma maneira como se faz para determinar o poder calorífico. Como
recipiente de combustão, pode ser usado um frasco comum de vidro de 10 l, o qual é
provido com uma rolha de borracha com três furos. Um tubo de vidro com torneira é inserida
na rolha, com extremidade externa em forma de tubo de 50 ml e dois tubos de vidro nos
quais são inseridos dois fios de platina de 0,6 mm de espessura. Um deles possui, no seu
final, uma cesta de platina (feita de uma tela de platina), que fica cerca de 25 mm acima do
fundo do recipiente.

Para fins de ignição elétrica, enchem-se os dois tubos com mercúrio e faz-se um
contato através de fios com uma bateria de 6 elementos. Quando não utilizado, tampam-se
os tubos com pequenas rolhas de cortiça. Quando necessário realizar uma experiência,
então se retira a rolha de borracha do frasco de gás, coloca-se o cilindro (no qual a
substância a ser analisada está comprimida) na cesta de platina e enrola-se o seu fio de
ignição em torno dos fios de platina de tal maneira que, na ignição posterior, a eletricidade
passe através deles. Então, enche-se o frasco com água destilada, fecha-se com uma rolha
comum e coloca-se esta invertida sobre uma grande cápsula de porcelana, posicionada
sobre um tripé. Aqui, água é colocada na cápsula de porcelana de tal maneira que o
pescoço do frasco ainda emerge. Após retirar as rolhas, enche-se o frasco com oxigênio.
Muito cômodo para este objetivo, são os recipientes do Dr. Elkkan, disponível no mercado,
com oxigênio comprimido a 100 atmosferas. O frasco cheio com oxigênio é, novamente,
fechado com rolha e recolocado de pé. Agora, retira-se a rolha e mergulha-se o carvão que
sofrerá combustão na cesta com o reticulado de fios. Como o oxigênio é mais pesado que o
ar, não escapa significativamente do frasco. Como, durante a combustão, ocorre uma
pequena sobrepressão no frasco, é recomendável atar a rolha para que não venha a saltar.
O aparelho assim preparado é ligado então aos pólos da bateria de 6 elementos e o carvão
entra em combustão quando os fios de platina ficam incandescentes. Se o carvão for
posicionado bem embaixo do frasco, a combustão ocorre sem dificuldades, pois os produtos
quentes da combustão sobem para a parte superior do frasco, de tal maneira que sobra
oxigênio embaixo.
Após a combustão, produz-se um pequeno vácuo pela adição de um pouco de água
fria no frasco e, através do funil com torneira, adiciona-se 100 ml de solução de HCl 5% (v/v)
contendo uma pequena gota de bromo.
Como grande parte da água formada na reação fica na forma de uma fina névoa no
frasco, deixa-se em repouso por uma hora, até que a névoa desapareça. As paredes
internas do frasco são lavadas com a água, que é posteriormente transferida para um
béquer. Na determinação de enxofre em carvão, após a separação necessária do resíduo

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188 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

mineral por filtração, lava-se a cesta de platina, os fios e o interior do frasco com 75 ml de
água, começando a filtração imediatamente, de tal maneira que, com as porções de
lavagens posteriores, o béquer e o filtro sejam lavados também. É possível lavar todo o
ácido sulfúrico formado sem exceder 500 ml de solução final resultante. A solução resultante
é levada à ebulição e, de maneira convencional, submetida à precipitação com cloreto de
bário; a barita formada é filtrada, seca, purificada e pesada. No seguinte exemplo, pode-se
verificar o grau de exatidão obtido neste procedimento:

(Segue a descrição da análise de caseína bovina.....)

Os resultados demonstram que as diferenças situam-se dentro do erro experimental


do procedimento, de tal maneira que, no sentido de simplicidade, rapidez e exatidão, este
nada deixa a desejar.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 191

6.5 DECOMPOSIÇÃO EM BOMBA DE COMBUSTÃO

Este sistema, similar à clássica bomba calorimétrica (Figura 6.6), consiste,


basicamente, de uma bomba de aço inoxidável, em geral com um volume interno de 300 ml,
inserida em um banho de água. Para a determinação de elementos traço, o interior da
bomba pode ser revestido com quartzo, vidro ou platina. A amostra, normalmente, é inserida
na forma de uma pastilha no copo de ignição (de platina ou quartzo), que está fixado em
dois eletrodos. Uma pequena quantia de solução absorvedora, normalmente 10 ml, é
colocada no fundo do frasco e logo após, a bomba é fechada e preenchida com oxigênio até
atingir uma pressão, geralmente, da ordem de 25 atm. Durante a combustão, a bomba é
resfriada em um banho de água e terminada esta e a etapa de arrefecimento, a solução ou o
resíduo obtido são utilizados para a determinação do elemento de interesse.

válvula de
válvula de escape entrada de O2
dos gases

eletrodos

fio de Pt
ou Ni/Cr
copo de ignição
solução
absorvedora

Figura 6.6. Bomba de combustão

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192 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Para comparação dos procedimentos de decomposição para a determinação de Se


em tecido de peixe por voltametria de redissolução catódica ("stripping"), Lambert e
1
Turoczy, 2000, avaliaram a decomposição por via úmida em sistema fechado com
aquecimento por microondas, decomposição em mufla, bomba de combustão e
decomposição em sistema aberto empregando HNO3 + H2O2 e radiação UV. Todos os
procedimentos resultaram em uma solução clara e incolor, porém, selênio foi detectado
apenas quando utilizaram a decomposição em mufla e a bomba de combustão, atribuindo a
falha nos sistemas de decomposição devido a incompleta destruição da matéria orgânica ou
a algum produto da decomposição.
A determinação da variabilidade da concentração de vários elementos em cinzas de
termoelétricas foi efetuada por Holcombe et al.2 em 1985. Uma bomba de combustão Paar
foi utilizada para preparo da amostra para posterior determinação de Hg, empregando uma
mistura de H2SO4 e KMnO4 como solução absorvedora. Para a determinação, empregaram
CV AAS.
3
Fung e Dao, 1995 e 1996 4, utilizaram a bomba de combustão para decompor
combustíveis e efluentes orgânicos industriais visando a determinação de F, Cl, Br, I, S, N e
P por cromatografia iônica com detector espectrofotométrico. Os autores justificam o
emprego da bomba de combustão, afirmando que o frasco de combustão de Schöniger
apresenta incompleta oxidação de efluentes refratários, e que o procedimento de
decomposição com microondas é perigoso para a oxidação de combustíveis orgânicos.
Encontraram recuperações muito próximas a 100%, com a exceção de nitrogênio, atribuindo
eventuais perdas devido à formação de N2 ou outras espécies menos solúveis de NO ao
invés da completa oxidação à NO2. Problemas também podem ocorrer com fósforo, devido à
formação de óxidos de fósforo que tenham baixa solubilidade em água.
Vários elementos foram determinados em polietileno por Fujiwara e Narasaki,5 1968.
Estes autores observaram que Cl e Hg apresentam boas recuperações quando
determinados imediatamente após a combustão, e que Cu, Fe, Pb, V e Zn apresentam boas
recuperações somente se a solução absorvedora da bomba de combustão após a
combustão for tratada com ácidos concentrados.
Hicks et al.,6 1974, determinaram enxofre em carvão por titulação potenciométrica.
Logo após em combustão, determinou-se enxofre na solução na solução absorvedora,
constatando-se que o ponto crítico na manipulação do sistema era a lavagem dos eletrodos
e da válvula de escape dos gases.
A decomposição empregando bomba de combustão foi empregada para o preparo de
amostras biológicas e posterior determinação de Ca, Cu, K, Mg, Na, P, S, Zn e I por ICP
OES.7 Os autores demonstraram que ambos, solução a 0,1% (v/v) HNO3 e 10% (v/v) CFA-C

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 193

podem ser empregados como solução absorvedora para os elementos estudados, com
exceção de iodo, que deve ser absorvido na solução de CFA-C. Além disso, para amostras
de leite em pó, é necessária a adição de um auxiliar de combustão (etanol e parafina) para
aumentar a eficiência da combustão. Também observam que uma etapa de resfriamento
após a combustão é imprescindível para a obtenção de bons resultados.
A decomposição com bomba de combustão foi utilizada para a determinação de Hg
8,9 10 11 12
em alfafa e arroz, C em plantas, As e Se em manteiga, Ti em polietileno, S em carvão,
13
S, N e Cl em carvão,14 F em carvão,15 Cl e S em efluentes,16, 17 P, Cl e S em materiais
18
biológicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ITEM 6.5.

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11. NARASAKI, H. Determination of arsenic and selenium in fat materials and petroleum
products by oxygen bomb combustion and automated atomic-absorption spectrometry
with hydride generation. Analytical Chemistry, Washington, v. 57, n. 13, p. 2481-2486,
1985.

12. ANDUZE, R.A. Colorimetric determination of titanium in polyethylene. Analytical


Chemistry, Washington, v. 29, n. 1, p. 90-91, 1957.

13. CHIMPALEE, N., CHIMPALEE, D., UPARUKNARI,S., BOONYANITCHAYAKUL, B.,


BURNS, D.T. Flow-injection spectrofluorometric determination of sulfate using calcein and
zirconium. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 298, n. 3, p. 401-404, 1994.

14. NADKARNI, R.A., POND, D.M. Applications of ion chromatography for determination of
selected elements in coal and oil-shale. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 146, p.
261-266, 1983.

15. THOMAS, J., GLUSKOTER, H.J., Determination of fluoride in coal with fluoride ion-
selective electrode. Analytical Chemistry, Washington, v. 46, n. 9, p. 1321-1322, 1974.

16. POTTER, T.L. Determination of total organic chloride in solid-waste. Analytical


Chemistry, Washington, v. 56, n. 14, p. 2988-2990, 1984.

17. WATANABE, N., ITO, H. Analysis of waste for combustion: the case of Osaka City,
Japan. Resources, Conservation and Recycling, v. 20, p. 57-69, 1997.

18. NOVIC, M., DOVZAN, A., PIHLAR, B., HUDNIK, V. Determination of chlorine, sulphur
and phosphorus in organic materials by ion chromatography using electrodialysis sample
pretreatment. Journal Chromatography A, v. 704, p. 530-534, 1995.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Decomposição de materiais orgânicos por combustão 195

6.6. DECOMPOSIÇÃO EM SISTEMA DE COMBUSTÃO DINÂMICO

1
Desenvolvido por Knapp et al. em 1981 este sistema (Figura 6.7) permite a
combustão com mínima contaminação, sendo todo construído em quartzo. Até 1 g de
amostras sólidas orgânicas ou de material biológico podem ser queimadas. A amostra é
“peletizada” (7 mm de diâmetro e 18 mm de espessura) com uma prensa manual, sendo
inserida no suporte de quartzo (1) com uma pequena tira de papel (2 cm de comprimento, 4
mm de largura) em uma câmara de combustão (II) de 75 ml. A câmara de combustão está
conectada ao tubo de ensaio (I) e a unidade de resfriamento (III), que está preenchida com
nitrogênio líquido (continuamente renovado durante a combustão). Uma vazão contínua de
O2, normalmente de 80 a 100 l h-1, é introduzida tangencialmente ao suporte da amostra na
câmara de combustão. A amostra, com o auxílio de uma tira de papel, entra em ignição
através da irradiação com duas lâmpadas de infravermelho (2). A amostra queima durante
cerca de 10 a 20 s, sendo que os produtos voláteis da combustão são retidos no
condensador contendo nitrogênio líquido, enquanto que elementos não voláteis
permanecem no suporte. Após a combustão, retira-se o N2 (líq), e faz-se um refluxo com ácido
apropriado, onde a evaporação deste é prevenida através de condensadores com fluxo de
água. Normalmente, 2 ml de ácido são adicionados, dissolvendo os resíduos da combustão
presentes no suporte e demais partes do sistema. O processo de refluxo dura em torno de
meia hora.
Uma característica importante deste sistema, é que apenas amostras orgânicas não
voláteis podem ser utilizadas. Isto se deve ao fato de que amostras orgânicas voláteis (como
p.ex. gasolina), podem evaporar antes e durante o processo de aquecimento com as
lâmpadas, podendo gerar uma explosão quando é dada a ignição.
Elementos liberados durante a combustão podem difundir para a superfície do
suporte da amostra, podendo não redissolver no refluxo com ácido. Knapp et al.1 estudaram
diferentes suportes para amostra, feitos de quartzo, Pt, Ti e Ta. Verificaram que entre 5% e
30% dos elementos permanecem irreversivelmente ligados nestes materiais, e que as
perdas podem ser reduzidas a menos que 3% utilizando um suporte de quartzo resfriado
com água. Porém, o uso deste suporte não é prático, e para tanto, desenvolveram um
suporte que evitava o calor da zona de combustão através de um formato adequado. Porém,
devido à superfície relativamente fria do suporte, em alguns casos ocorria a formação de
resíduos carbonáceos, os quais eram eliminados após o refluxo com ácido. Para a remoção
completa dos elementos da superfície do suporte, este deve ser virado de cabeça para
baixo, imergindo no ácido durante o refluxo. Também observaram que a recuperação é

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196 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

dependente do tempo de refluxo, sendo de 90-95% com 15 minutos e de 95 a 100% após 30


minutos. Obviamente, o tipo de ácido a ser adicionado depende do elemento de interesse.
Normalmente, ácido nítrico é utilizado.

1. suporte da amostra

2. lâmpada
unidade de resfriamento
3. câmara de resfriamento

4. condensador

5. O2

6. H2O
câmara de combustão
7. N2 (líq)

tubo de ensaio

Figura 6.7. Sistema de decomposição por combustão em sistema dinâmico (Trace-O-


Mat).1

Selênio foi determinado por HG AAS em materiais biológicos, rochas e solos após
decomposição empregando o sistema dinâmico de decomposição.2 Uma mistura com
quantidade ≤ 0,5 g de amostra e ácido silícico (15 a 30% da mistura, em peso) foi utilizada.
Posteriormente, cerca de 50 µl de uma solução 1% de acetato de celulose em acetona
(agente ligante) foram adicionados. A amostra foi novamente misturada, peletizada e seca à
temperatura ambiente em dessecador. Amostras geológicas (≤ 0,3 g) foram tratadas de
forma similar, porém, a proporção amostra/celulose variava de 1:1 a 1:2, dependendo da
amostra. Após a combustão, o suporte com o resíduo da combustão foi retirado, e então um

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 197

refluxo com 2 ml de ácido nítrico ou clorídrico concentrado foi efetuado. Durante a


combustão, Se volatiliza como SeO2, condensando no condensador. A volatilização ocorre
através da liberação de calor fornecida pela combustão da celulose, e os óxidos de vários
metais (p. ex. Mn, Fe, Cu, Pb) ficam quase que totalmente retidos no resíduo da combustão,
sendo retirados anteriormente ao refluxo (45 minutos), separando desta forma, grande parte
da matriz. Alguns outros elementos são liberados como compostos voláteis (por exemplo,
Cd, Sb, Tl, Bi). Os autores comentam que uma vaão inferior a 400 ml h-1 de oxigênio durante
a combustão pode causar a formação de fuligem, enquanto que a utilização de um fluxo de
oxigênio muito elevado pode gerar uma combustão muito violenta. Também relataram, que a
adição de ácido silícico além de ajudar na retenção de elementos que formam óxidos pouco
voláteis, promove uma combustão mais lenta e uniforme.
Os mesmos autores, em um trabalho posterior, utilizaram o mesmo sistema para a
volatilização de Tl, Cd, Pb e Bi em amostras biológicas, rochas e solos.3 Neste estudo, para
o preparo de amostras biológicas foi empregado ácido silícico e, em certos casos, cloreto de
magnésio. Rochas e solos foram misturados com ácido silícico e celulose, sendo que cloreto
de magnésio foi adicionado quando havia a presença de Tl e Pb. No caso da volatilização de
cádmio de solos a adição de nitrato de lantânio foi necessária.
Renterghem e Cornelis4 utilizaram o sistema para a decomposição de amostras de
soro sangüíneo humano e posterior determinação de As, Au, Cd, Cs, Cu, Fe, Hg, Mo, Rb,
Sb, Se e Zn por ativação neutrônica, obtendo bons resultados.
Selênio foi determinado em amostras biológicas e orgânicas por fluorescência de
raios-X na faixa de ng g-1 a µg g-1, empregando sistemas de decomposição por via úmida e
5 6
combustão em sistema dinâmico. Outros autores determinaram iodo em amostras
biológicas e de interesse nutricional por ICP-MS, empregando uma solução de aminas
terciárias para a absorção dos produtos da combustão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ITEM 6.6.

1. KNAPP, G., RAPTIS, S.E., KAISER, G., TÖLG, G., SCHRAMEL, P., SCHREIBER, B. A
partially mechanized for the combustion of organic samples in a stream of oxygen with
quantitative recovery of the trace elements Fresenius Zeitschrift für Analytische
Chemie, New York, v.308, p. 97-103, 1981.

2. HAN, H.B., KAISER, G., TÖLG, G., Decomposition of biological materials, rocks, and soils
in pure oxygen under dynamic conditions for the determination of selenium at trace levels.
Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 128, n. 1, p. 9-21, 1981.

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198 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

3. HAN, H.B., KAISER, G., TÖLG, G. Decomposition of biological materials, rocks and soils
with simultaneous volatilization of trace elements in pure oxygen under dynamic
conditions. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 134, n. 1, p. 3-11, 1982.

4. RENTERGHEM, D.V., CORNELIS, R. Radiochemical determination of twelve trace


elements in human blood serum. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 257, n. 1, p. 1-
5, 1992.

5. RAPTIS, S.E., WEGSCHEIDER, W., KNAPP, G., TÖLG, G. X-ray-fluorescence


determination of trace selenium in organic and biological matrices. Analytical Chemistry,
Washington, v. 52, n. 8, p. 1292-1296, 1980.

6. GÉLINAS, Y., KRUSHEVSKA, A., BARNES, R. Determination of total iodine in nutritional


and biological samples by ICP-MS following their combustion within an oxygen stream.
Analytical Chemistry, Washington, v. 70, n. 5, p. 1021-1025, 1998.

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 199

6.7 COMBUSTÃO DE WICKBOLD COM CHAMA HIDROGÊNIO-OXIGÊNIO

O método de decomposição de Wickbold foi criado em 1952 como um “novo


1
método rápido para a determinação de halogênios em materiais orgânicos”. A idéia da
2
pirólise e combustão em uma chama foi desenvolvida em 1922 por Voigt , mas Wickbold foi
o primeiro que obteve uma decomposição completa com recuperações reprodutíveis. A
amostra é queimada em uma chama luminosa, composta por uma mistura de
aproximadamente 50% (v/v) de oxigênio e hidrogênio, atingindo uma temperatura maior que
2000 °C. Líquidos e gases são introduzidos diretamente na chama. No caso de amostras
sólidas, uma etapa de pirólise pode ser necessária. Atualmente, dois tipos de queimadores
estão disponíveis (Heraeus Quarzglas GmbH). O queimador com sucção é utilizado para
amostras líquidas e o queimador do tipo BITC (Bureau International du Technique Chlorine)
para amostras sólidas e líquidos que contenham sólidos.
O sistema de combustão de Wickbold pode ser dividido em três partes principais (Figura
6.8):
- Queimador com uma unidade de pré-combustão opcional (especialmente para
amostras sólidas). Amostras líquidas e gasosas são introduzidas diretamente no
queimador. Amostras sólidas são primeiramente pirolisadas em uma unidade de pré-
combustão e então transportadas para a chama.
- Câmara de combustão com sistema de resfriamento com água, onde os
produtos da combustão são condensados em uma superfície de quartzo.
- Tubo de absorção dos produtos gasosos e condensados da combustão.

Os produtos gasosos que ficam retidos no sistema e, após a decomposição de uma


amostra, são retirados com a aplicação de vácuo através do tubo de absorção.
O queimador BITC para amostras sólidas emprega um recipiente de quartzo para
acondicionamento da amostra. A amostra é volatilizada do recipiente e introduzida na chama
através de aquecimento (de até 1100 °C) na unidade de pré-combustão. O sistema opera
em batelada, onde a chama tem de ser extinta e o queimador removido para introdução de
nova amostra. Já o queimador com sucção, empregado para líquidos opera de forma
contínua e a taxa de aspiração pode ser regulada.
Líquidos inflamáveis podem ser introduzidos no sistema diretamente, mas para
líquidos viscosos, não-inflamáveis e aquosos podem ser necessárias diluições com volumes
iguais de acetona e metanol.3

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200 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

Figura 6.8. Sistema de combustão de Wickbold com chama hidrogênio-oxigênio: queimador


com sucção para amostras líquidas (A) e queimador para amostras sólidas Bureau
International du Technique Chlorine (BITC) (B), câmara de combustão com sistema de
resfriamento com água (C) e tubo de absorção (D). A) 1. porção final do queimador; 2.
capilar; 3. regulador de PTFE; 4. válvula do tipo “agulha”; 5. introdução da amostra. B) 1.
porção final do queimador; 2. capilar interno; 3. câmara de pré-combustão; 4. recipiente de
quartzo; 5. aquecimento; 6. câmara de pirólise; 7. tampa

4
Erber et al. investigaram a decomposição de amostras orgânicas e inorgânicas
sólidas através do sistema de combustão de Wickbold para posterior determinação de As,
Sb e Se por espectrometria de absorção atômica com geração de hidretos (HG AAS).
Segundo os autores, dependendo da natureza da amostra, cerca de 0,1 a 10 g podem ser
pesadas em um recipiente de quartzo. Em alguns casos (certas amostras orgânicas), o
recipiente de quartzo necessitava ser coberto com lã de vidro para evitar a projeção da
amostra, impedindo o bloqueio dos capilares do queimador durante a etapa de pirólise. A
câmara de combustão, geralmente, necessitava de uma vazão de nitrogênio ou oxigênio
contendo tetracloreto de carbono que, após a decomposição, pode converter os elementos
em seus respectivos haletos. Esta é a razão pela qual apenas metais que formam haletos

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Decomposição de materiais orgânicos por combustão 201

com ponto de ebulição menor que 1100 °C podem ser determinados após a decomposição
no sistema. Os autores também investigaram diferentes soluções absorvedoras, mostrando
que a água pode atuar como solvente universal para a absorção dos elementos em questão.
Outro aspecto interessante relatado é a possibilidade da separação de compostos de alta
volatilidade de compostos com baixa volatilidade através do controle da temperatura da
câmara de pré-combustão. Através da avaliação do resíduo da combustão de um material
de referência (resíduo da incineração de lixo urbano, BCR 176), pode-se verificar que Al, Cr,
Fe, Ti, Cu, Ni e os metais alcalinos e alcalino-terrosos permanecem no resíduo. As
concentrações de Pb, Cd e Zn diminuem significativamente quando altas temperaturas são
empregadas, sendo que menos que 5% destes elementos são volatilizados a 600 °C.
A determinação voltamétrica de Pt em gasolina após a decomposição empregando
o sistema de decomposição de Wickbold foi realizada por Hoppstock e Michulitz.5 Apesar
das condições extremas, os autores verificaram que muitas das soluções aquosas obtidas
após a decomposição continham alguns compostos orgânicos que interferiam na
determinação de platina por voltametria. Porém, nenhum problema foi encontrado quando
estes empregaram a espectrometria de massa com plasma indutivamente acoplado (ICP-
MS) para a determinação do analito.

A maior aplicação do sistema de combustão de Wickbold encontra-se no preparo de


amostras de petróleo para a determinação de S e Cl.7, 8, 9, 10 Porém, na internet, encontra-se
uma breve descrição do equipamento, onde constam Cl, Br, F, B, S, Hg, I, P, Pb, As, Se, V,
Cd e Zn como elementos que podem ser, também, determinados empregando a técnica no
preparo da amostra.11
O sistema de combustão de Wickbold com chama hidrogênio-oxigênio tem sido
aplicado, também, para a decomposição e posterior determinação de fluoreto em compostos
orgânicos contendo flúor,13 cloreto em polímeros de polibuteno,14 nitrogênio em óleos
15
minerais e mercúrio em petróleo.16 Erber et al.17 verificaram que o sistema é adequado
para o preparo de amostras seguido da determinação de mercúrio por espectrometria de
absorção atômica com vapor a frio (FI-CV AAS) através de testes estatísticos. Segundo os
autores, a faixa de trabalho, definida experimentalmente, foi de até 1000 µg de Hg
(absoluto), mostrando que é possível decompor amostras orgânicas e inorgânicas com o
sistema e determinar mercúrio por FI-CV AAS de maneira simples.

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202 Decomposição de materiais orgânicos por combustão

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ITEM 6.7

1. WICKBOLD, R. Neue schnellmethode zur halogenbestimmung in organischen


substanzen. Angewandte Chemie, v. 64, n. 5, p. 133-135, 1952.

2. VOIGT, J., Angewandte Chemie, v. 35, p. 654-655, 1922.

3. Mercury Analysis Working Party of BITC. Standardization of methods for the determination
of traces of mercury. Part II. Determination of total mercury in materials containing organic
matter. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 84, n. 2, p. 231-257, 1976.

4. ERBER, D., QUICK, L., ROTH, J., CAMMANN, K. Investigation of sample decomposition
for the trace determination of arsenic, antimony and selenium in organic and inorganic
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Chemistry, New York, v. 346, p. 420-425, 1993.

5. HOPPSTOCK, K., MICHULITZ, M. Voltammetric determination of trace platinum in


gasoline after Wickbold combustion. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 350, n. 1-2,
p. 135-140, 1997.

7. KULKE, M., UMLAND, F. Improvement of Wickbold combustion apparatus for


decomposition of petroleum-products and used lubricanting oils for trace analysis of
inorganic components. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v. 288,
p. 273-276, 1977.

8. EHRENBERGER, F., GORBACH, S., HUMMEL, K. Schnellbestimmung von halogen und


schwefel in organischen substanzen mit einer modifizierten wickbold-apparatur.
Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v. 210, p. 349-354, 1965.

9. LIEDERMA D., GLASS, J.R. A modified Wickbold combustion apparatus for determination
of sulfur in liquid hydrocarbons. Microchemical Journal, New York, v. 10, n. 1-4 p. 211-
211, 1966.

10. EHRENBERGER, F. Determination of oxygen in organic fluorine compound and


phosphorous compound or metal organic compound. Mikrochimica Acta, v. 2, p. 192-
201, 1959.

11. Laborgerätebörse, Laboratory Equipment Exchange,


http://www.labexchange.com/english/index.html, acessada em 15/03/2006.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Decomposição de materiais orgânicos por combustão 203

13. SWEETSER, P.B. Decomposition of organic fluorine compounds by Wickbold


oxyhydrogen flame combustion method. Analytical Chemistry, Washington, v. 28, n. 11,
p. 1766-1768, 1956.

14. ROWE, R.D. Wickbold combustion and spectrophotometric analysis procedure for trace
amounts of orgaganic chlorine in viscous polybutene polymers. Analytical Chemistry,
Washington, v. 37, n. 3, p. 368-370, 1965.

15. GOUVERNEUR, P., SNOEK, O.I., HEERINGA-KOMMER, M. Nitrogen determination in


mineral oils by means of Wickbold oxyhydrogen combustion. Analytica Chimica Acta,
Amsterdam, v. 39, n. 4, p. 413-422, 1967.

16. KNAUER, H.E., MILLIMAN, G.E. Analysis of petroleum for trace-metals - determination
of mercury in petroleum and petroleum-products. Analytica Chimica Acta, Amsterdam,v.
47, n. 8, p. 1263-1268, 1975.

17. ERBER, D., QUICK, L., WINTER, F., ROTH, J., CAMMANN, K. The Wickbold
combustion method for the determination of mercury under statistical aspects. Fresenius
Journal Analytical Chemistry, New York, v. 349, p. 502-509, 1994.

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7. DECOMPOSIÇÃO DE MATERIAIS ORGÂNICOS POR
VIA ÚMIDA

Érico Marlon de Moraes Flores


Francisco José Krug
Juliano Smanioto Barin
Marco Aurélio Zezzi Arruda

7.1 INTRODUÇÃO

Todos os métodos de decomposição de amostras orgânicas e biológicas vistos no


Capítulo 6 envolveram, de uma forma ou de outra, oxidação em atmosfera contendo ar ou
oxigênio puro. Entretanto, semelhante à solubilização de sólidos inorgânicos, muitas
amostras podem ser decompostas com excesso de um ácido mineral oxidante concentrado.
Para a oxidação de compostos orgânicos pode-se proceder de maneira semelhante.
Em geral, a decomposição de materiais orgânicos ou biológicos por via úmida
implica em aquecimento da amostra na presença de um ácido mineral oxidante concentrado,
de misturas de ácidos oxidantes, ou mistura de um ácido oxidante com peróxido de
hidrogênio. Torna-se possível oxidar completamente a maioria das amostras, deixando os
elementos a serem determinados na solução ácida em formas inorgânicas simples e
apropriadas para análise, se os ácidos forem suficientemente oxidantes, e se o aquecimento
for feito a temperaturas elevadas durante um período de tempo adequado.
Os ácidos com propriedades oxidantes usados na decomposição por via úmida de
amostras orgânicas ou biológicas são o nítrico, o sulfúrico e o perclórico. Estes ácidos
podem ser usados individualmente (exceto o perclórico) ou combinados uns com os outros.
São também comuns as combinações de HNO3 ou H2SO4 com H2O2.
A decomposição por via úmida é particularmente útil para a determinação de baixas
concentrações de metais em vários tipos de amostra, porque muitos elementos de interesse
são convertidos em cátions inorgânicos simples não voláteis, que permanecem no meio
ácido. Esta técnica também pode ser usada para a determinação de nitrogênio, fósforo e
enxofre, entre os não-metais. Entretanto, alguns elementos podem ser perdidos completa ou
parcialmente por volatilização. Incluem-se, neste caso, os halogênios, além de antimônio,
arsênio, boro, mercúrio e selênio, dependendo do procedimento utilizado.
Convencionalmente, quando se obtém uma solução clara e descolorida ou uma
total recuperação de alguns elementos, tem sido tacitamente assumido que a oxidação da

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 205

matéria orgânica foi completa, para fins práticos. Entretanto, tais suposições não são
necessariamente verdadeiras para todos os casos. Informações mais conclusivas e diretas,
como a detecção e identificação de algum material orgânico residual retido na solução ácida
são, certamente, desejáveis, especialmente se estes materiais podem interferir na etapa de
medida. As fontes de erro mais freqüentemente encontradas em procedimentos analíticos,
ao lado dos erros sistemáticos (inerentes em análise de traços, vide capítulo 2), podem ser
devidas a efeitos da matriz: substâncias orgânicas não decompostas, interferindo na etapa
de determinação, ou a incompleta recuperação de elementos-traço em etapas de pré-
concentração e extração da solução de amostra decomposta. No entanto, dependendo da
técnica analítica empregada, como p. ex., atomização eletrotérmica em forno de grafite, isto
pode não ser de fundamental importância.
A principal vantagem de decomposições por via úmida, com relação às por via
seca, são as menores temperaturas empregadas, o que minimiza as perdas de elementos-
traço. A decomposição por via úmida, em frascos abertos, é uma das mais antigas e mais
usadas técnicas para a dissolução de amostras orgânicas e inorgânicas. Normalmente,
necessita de mais atenção do operador do que no caso de decomposições por via seca.
Ácidos inorgânicos fortes, como HCl, HNO3, HClO4 e H2SO4, são os mais empregados.
Ácido fluorídrico, também o é, porém com menor freqüência. Algumas substâncias são
difíceis de serem decompostas com um único ácido e uma combinação de dois, ou mais
ácidos, é empregada freqüentemente; interações mútuas em misturas ácidas produzem
compostos intermediários instáveis que aceleram substancialmente a decomposição. Um
determinado ácido é indispensável para a decomposição de uma amostra em particular e
precisa estar presente na mistura. Este ácido, normalmente em maior proporção, não
somente determina a taxa e a extensão da decomposição mas, também, pode afetar a
escolha do método analítico final.
Em sistemas abertos, as seguintes observações devem ser lembradas para a
decomposição de materiais orgânicos e biológicos, quanto à escolha do ácido ou mistura
ácida:
a) É muito difícil oxidar amostras completamente utilizando somente HNO3 (este ácido tem
o menor ponto de ebulição e é o mais moderado dos três ácidos oxidantes). Se por um
lado o baixo ponto de ebulição do azeótropo (120 ºC) facilita a remoção do ácido nítrico
após a oxidação, por outro a baixa temperatura limita a sua eficiência oxidativa. Altas
temperaturas são necessárias para possibilitar maior eficiência nas quebras das
ligações cabono-carbono das moléculas orgânicas.
b) HClO4 apresenta alto poder de oxidação, mas quando utilizado isoladamente, torna-se
muito perigoso, devido ao risco iminente de explosão, pela formação de percloratos

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206 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

instáveis. Na prática, recomenda-se usar sempre o ácido perclórico em combinação


com outro ácido (em geral utiliza-se após a adição de ácido nítrico).
c) H2SO4 seria o mais útil dos três ácidos para ser usado sozinho, face ao seu elevado
ponto de ebulição, mas o processo de oxidação é bastante lento. Na maioria dos casos
H2SO4 é utilizado em combinação com HNO3, HClO4 ou H2O2, mas o uso com perclórico
é muito perigoso. Apresenta especial destaque na determinação de nitrogênio pelo
método de Kjeldahl combinado com H2O2 e um catalisador, e será tratado no item 7.2. A
mistura utilizada para a decomposição de materiais orgânicos apresenta uma série de
variações, as quais visam principalmente ao aumento da velocidade de decomposição
da matéria orgânica. Assim, muitos sais de sulfato (K2SO4, Na2SO4, CuSO4, Li2SO4)
podem ser usados para aumentar a temperatura de decomposição, uma vez que adição
de um destes sais promove o aumento no ponto de ebulição do H2SO4.
d) Muitos catalisadores tem sido sugeridos, como o óxido de mercúrio (II) e selênio, com
preferência por este último face à altíssima toxicidade do mercúrio. Apesar de a
digestão sulfúrica ser utilizada quase que exclusivamente para a determinação de
nitrogênio pelo método de Kjeldhal, pode-se determinar P, K, Ca, Mg, Fe, Cu, Mn, Zn, Al
e Na no digerido. No Laboratório do CENA, utiliza-se um procedimento em blocos
digestores, com a seguinte solução digestora: misturam-se 350 ml de H2O2 30%, 14 g
de Li2SO4.H2O e 0,42 g de Se (pó) em um recipiente de 1000 ml, resfriando-se em
banho de gelo; acrescentam-se, cuidadosamente, 420 ml de H2SO4 conc. à mistura,
agitando-se sempre e resfriando no banho de gelo. Esta mistura é conservada em
refrigerador. O procedimento consiste em se pesar 200,0 mg de amostra em tubo de
digestão de 50 a 100 ml seco, acrescentam-se 6 ml da solução digestora fria em cada
amostra, coloca-se o suporte com os tubos em bloco digestor frio e inicia-se o
aquecimento ajustando-se a temperatura para 100°C, com um aumento gradativo em
incrementos de 50 °C até 350 °C. Observam-se as amostras cuidadosamente e
remove-se todo o suporte se alguma amostra reagir violentamente, recolocando-o no
bloco quando a reação cessar. Normalmente, as amostras tornam-se escuras em 15 a
20 min, tornando-se completamente pretas. Com o decorrer da digestão as amostras
tornam-se marrons, amarelas até ficarem incolores (caso sobre algum resíduo na
parede do tudo, deve-se remover o tubo do bloco e, cuidadosamente, incliná-lo para
que a solução entre em contato com o resíduo, e retornar ao bloco). Quando a
temperatura atingir 350 °C, e as amostras estiverem claras e incolores, continua-se a
digestão por mais 30 min. Desliga-se então o aquecimento, remove-se o suporte com
as amostras do bloco, deixa-se esfriar por 15 min, pelo menos, adiciona-se um pouco
de água, agita-se cuidadosamente, espera-se um pouco, e completa-se o volume no
próprio tubo. Utilizam-se tubos aferidos a 50, 75 ou 100 ml.

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 207

e) para propósitos gerais, no entanto, prefere-se uma mistura de ácidos, ou ácidos


usados sequencialmente. Dois exemplos importantes destes procedimentos são os
seguintes:
• H2SO4 e HNO3: Aquecer inicialmente a amostra com H2SO4 até o aparecimento de
fumos do ácido. Então, adiciona-se HNO3 gota a gota e depois em maiores proporções
para completar a oxidação.
• HNO3 e HClO4: Oxidar inicialmente o material somente com ácido nítrico (restará
apenas o material mais difícil de se oxidar); resfriar a mistura e adicionar
cuidadosamente HClO4, reaquecer para completar a oxidação. Dessa forma, o uso do
HClO4 é relativamente seguro. Um procedimento utilizado no CENA desde 1975 é
descrito a seguir. Pesam-se 500 mg de amostra em tubo de digestão aferido a 50-100
ml, acrescentam-se 5 ml de HNO3 65% e deixa-se a mistura em repouso por 1 a 2
horas, ou, preferivelmente, por uma noite para iniciar a digestão dos compostos mais
facilmente oxidados. Após este período (ve-se uma suspensão amarelo-alaranjada), os
tubos são colocados no bloco de digestão e o bloco é aquecido até 160 °C. Observam-
se as amostras cuidadosamente, e retira-se o suporte com os tubos do bloco se a
mistura começar a subir pelas paredes de algum tubo. Quando a maior parte do ácido
nítrico tiver evaporado e a solução estiver clara (levemente amarelada), observa-se
também que a evolução de fumos marrons de NO2 é muito pequena,
comparativamente ao início da digestão a quente. Esta é uma indicação de que boa
parte da matéria orgânica foi oxidada. Se a evolução de fumos marrons for muito
perceptível, recomenda-se adicionar mais 5 ml de HNO3 e continuar a digestão até
cessar a evolução dos fumos (em geral 5 ml são suficientes para oxidar quase toda
matéria orgânica contida em 500 mg de amostra). Retiram-se, então, os tubos do
bloco, e adicionam-se 1,3 ml de HClO4 70% em cada tubo. Recoloca-se o suporte com
os tubos no bloco, eleva-se a temperatura para 210 °C, e após 10-30 min observar-se-
á a evolução de fumos brancos de HClO4-H2O. A digestão se completa neste estágio
com a obtenção de uma solução incolor ou ligeiramente amarela. Depois de resfriados
à temperatura ambiente, completa-se o volume em cada tubo de digestão. No digerido
podem ser determinados P, K, Ca, Mg, S, Fe, Cu, Mn, Zn, B, Al e Na.

ATENÇÃO: Sempre conduzir a reação em uma capela com exaustão e usar jaleco ou
avental de plástico, óculos de proteção ou máscara facial, bem como luvas
resistentes a ácidos. Se HClO4 for usado rotineiramente, a capela deve ser construída
ou revestida de material inorgânico. Uma tela protetora também é uma boa
precaução quando se trabalha com HClO4.

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208 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

7.2. DECOMPOSIÇÃO PELO MÉTODO DE KJELDAHL

O uso de H2SO4 é a base do método de Kjeldahl para a decomposição de matéria


orgânica visando a determinação de nitrogênio. Este método baseia-se na oxidação do
carbono a CO2 e redução do ácido sulfúrico a SO2; ao mesmo tempo o nitrogênio orgânico
da amostra é convertido em amônio. À solução resultante, adiciona-se solução de hidróxido
de sódio, e a amônia é destilada em um frasco contendo um volume conhecido de um ácido
padronizado. Esta decomposição pode ser conduzida em um frasco de Kjeldahl (Figura 7.1),
ou em tubos de digestão.

Figura 7.1. Decomposição de amostra orgânica ou biológica em um frasco de Kjeldahl.

O frasco de Kjeldahl é um frasco resistente feito de vidro Pyrex, com base


arredondada e gargalo longo e estreito. O formato desse gargalo visa à condensação de
vapores, permitindo a fervura do ácido sob refluxo, minimizando as perdas por volatilização.
A capacidade do frasco depende da quantidade de amostra empregada (Tabela 7.1)

Tabela 7.1. Algumas condições para a determinação de nitrogênio em materiais orgânicos


pelo método de Kjeldahl.

Capacidade Amostra H2SO4 K2SO4 / CuSO4 K2SO4 / H2SO4


do frasco (mg) (ml)
catalisador catalisador
(ml)
(mg) (mg)

100−250 100−2000 10−20 500−1000 500−1000

50 10−100 2−4 200 200

12−20 2−10 2 100 100

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 209

Atualmente, muitos laboratórios utilizam tubos de digestão com capacidade


variando de 50 a 250 ml, ao invés do frasco de Kjeldahl mostrado na Figura 7.1. É
importante lembrar que o método de Kjeldahl funciona somente para nitrogênio amina e
amida. O método é muito usado para a determinação indireta de proteínas em várias
amostras biológicas, assim como de nitrogênio em plantas para avaliação do estado
nutricional. Um procedimento do método é o seguinte:

a) A amostra seca e pesada é colocada no frasco de Kjeldahl (ou tubo de digestão) e


decomposta com H2SO4 na presença de K2SO4 (para elevar o ponto de ebulição do
ácido) e de um catalisador (CuSO4, HgSO4 ou Se). Como o potássio é comumente
determinado em materiais biológicos, é preferível utilizar Li2SO4 ao invés de K2SO4.
Com referência ao catalisador, o uso de selênio é mais recomendável porque a digestão
é mais rápida do que com CuSO4; além disso, a conversão de nitrogênio em sulfato de
amônio também é mais rápida.

b) O nitrogênio constituinte de aminas e amidas é convertido exclusivamente no íon NH4+


sob estas condições. Como esta é uma espécie iônica, não há problemas de perdas por
volatilização.

c) Logo que a reação se completa (solução límpida), a mistura é resfriada e, muito


cuidadosamente, alcalinizada com solução de NaOH. O íon NH4+ é convertido em NH3.

d) A solução é destilada imediatamente em um sistema fechado de destilação e o NH3 é


coletado em um volume medido de solução ácida padrão, a qual pode ser então titulada
com um álcali padrão. Nessa etapa é preciso alguma habilidade prática para se
certificar de que não há perda alguma de NH3 para a atmosfera. Existem versões
automatizadas do método de Kjeldhal, que dispensam esta habilidade.

O método de Kjeldahl também pode ser aplicado para o nitrogênio em outra forma
diferente de amina e amida. O nitrogênio, em um grupo nitro ou nitroso, deve,
primeiramente, ser reduzido a um grupo amino por tratamento com agente redutor (e.g., Sn
e HCl). Pode-se também incluir o agente redutor no próprio procedimento de decomposição,
mas, neste caso, obtém-se uma estranha mistura de oxidações e reduções ocorrendo
simultaneamente. Contudo, sob condições favoráveis, bons resultados podem ser obtidos. A
redução de nitratos a amônio pode ser feita, também, com ácido salicílico combinado com o
ácido sulfúrico.

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210 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

7.3. DECOMPOSIÇÃO PELO MÉTODO DE CARIUS

Alguns elementos não podem ser determinados por procedimentos de


decomposição por via úmida porque são perdidos na forma de derivados voláteis. Os
exemplos mais sérios de perdas por volatilização são os halogênios (exceto flúor), As, B, Hg,
P, S, Sn e Te. Estes elementos podem ser determinados pelo uso do tubo de Carius. A idéia
é colocar a amostra em um tubo de vidro de parede grossa, junto com HNO3 (67−97%,

dependendo da amostra) e selar o tubo. O tubo é então aquecido a 250−300 °C por algumas
horas. A amostra é completamente decomposta (o HNO3 é muito eficiente nestas condições
porque tanto a pressão como a temperatura são mais altas). O tubo deve ser recoberto por
um tubo protetor de aço porque sempre há risco de explosão com essa técnica.
O tempo de reação e a quantidade de ácido nítrico dependem da natureza da
amostra: para substâncias que se decompõem facilmente é suficiente 1 h de aquecimento e
2 a 3 ml de HNO3 65 % por grama de amostra, ao passo que tecidos de peixe, gorduras e
corantes devem ser aquecidos com 5−7 ml g-1 de amostra durante 3 a 5 horas.
A reação típica de materiais orgânicos com o ácido nítrico a quente é a seguinte:

(CH2)n + HNO3 + calor → CO2 (g) + NO(g) + 2H2O

Após a decomposição ter sido completada, o tubo é resfriado e então, muito


cuidadosamente, é aberto (ainda pode estar sob pressão) e o conteúdo recuperado. Deve-
se ter bastante cuidado nesse ponto, não só pelo perigo de acidentes quando o tubo for
aberto, mas também pela perda das espécies voláteis no curto período de tempo em que o
conteúdo for transferido. Por exemplo, os halogênios podem ser perdidos desta forma como
elemento ou haleto de hidrogênio. Para contornar este problema recorre-se ao uso de um
aditivo que possa ser selado no tubo junto com a amostra e o HNO3. Neste caso, utiliza-se o
nitrato de prata ou prata metálica (dissolve-se no HNO3). O íon prata retém os halogênios
como sais insolúveis de haletos de prata. No caso do enxofre, a adição de um pouco de
cloreto de bário ao ácido, antes de selar o tubo, evita as perdas desse elemento. O flúor não
pode ser determinado pelo método de Carius, porque o fluoreto de hidrogênio produzido
pode reagir com o vidro do tubo. Uma desvantagem do método de Carius é que alguns
compostos orgânicos não são completamente oxidados, mesmo após aquecimento
prolongado. Nessa categoria incluem-se: fluorcloropropano, bifenilas cloradas,
hexaclorobenzeno, tetrametilsilano e organoboranos.

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 211

7.4. DECOMPOSIÇÃO POR VIA ÚMIDA EM SISTEMAS FECHADOS DE


ALTA PRESSÃO

Este item foi adaptado quase que integralmente da versão em inglês do


texto de M. Würfels (Köln, Alemanha) sob o título "Decomposition of
biological samples with acids for the determination of trace elements"
(LABO, 3/89, 7-15).

Decomposições de diversos materiais podem ser feitas a pressão atmosférica;


entretanto, as temperaturas atingidas são, freqüentemente, limitadas pela pressão ambiente
(1 atm). Isto restringe a temperatura de decomposição para a temperatura de ebulição do
solvente ou ácido empregado. Já que a taxa de reação é, fundamentalmente, relacionada
com a temperatura, esta condição impõe um limite sobre o tempo necessário para a
decomposição da amostra. Uma reação mais rápida pode ser obtida, fechando-se
hermeticamente a amostra e o ácido em um sistema resistente à pressão e ao aquecimento.
Ao mesmo tempo em que este sistema proporciona uma decomposição mais rápida,
introduz um elemento de risco em seu manuseio, devido ao potencial de explosão,
particularmente com reagentes fortemente oxidantes. Frascos abertos apresentam,
naturalmente, os mesmos problemas referentes aos gases tóxicos, mas não sendo
pressurizados, reduz-se a probabilidade de explosão. Apesar destes fatores, o emprego de
sistemas fechados é, hoje, amplamente empregado para a decomposição de grande
diversidade de amostras e posterior determinação elementar por diversas técnicas.
O ácido nítrico não é um agente oxidante suficientemente forte para mineralizar
completamente o material orgânico em sistemas abertos. Dependendo da natureza da
amostra (Tabela 7.2), de 2 a 50% do carbono original permanece como material não
decomposto.1 Se a oxidação do carbono for parcial, e dependendo do grau de oxidação, a
determinação do elemento será interferida em menor ou maior grau pelos produtos de
decomposição orgânica. Na voltametria de redissolução anódica, observam-se algumas
interferências na determinação de baixas concentrações de metais. Em alguns casos, o
potencial de oxidação do ácido nítrico não é suficiente para a solubilização de biomoléculas.
Grandes quantidades de produtos orgânicos de decomposição permanecem não
dissolvidos, especialmente se as amostras contiverem gorduras.
Não obstante, uma vantagem do ácido nítrico é seu manuseio, pois o risco de
explosão pelo contato com substâncias orgânicas é muito pequeno. Além disso, pode-se
obter facilmente um ácido de alta pureza por destilação abaixo de seu ponto de ebulição.2
Como a reatividade do ácido nítrico é menor quando comparada com à do ácido perclórico,
o ácido nítrico pode ser usado em sistemas fechados de decomposição e as perdas de
elementos por volatização podem ser evitadas.

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212 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

Tabela 7.2. Teor de carbono residual em soluções de amostras decompostas com ácido
nítrico em frascos abertos.1

Material % Carbono residual Resíduos orgânicos


não dissolvidos

Amido 2 - 11 Não
Celulose 2 - 12 Não
Cana de açúcar 2 - 10 Não
Farinha de trigo 4-6 Não
Alga marrom 14 - 16 Não
Espinafre 16 - 17 Não
Acículas de pinus 10 - 21 Não
Folhas de plátano 17 - 23 Não
Leite em pó desnatado 10 - 12 Não
Leite em pó 26 - 29 Sim
Alimento de peixe 26 - 39 Sim
Carne magra 25 - 30 Sim
Fígado bovino 24 - 32 Sim
Sangue de porco 9 - 22 Não
Sangue humano 25 - 29 Não
Óleo de semente de girassol 43 - 46 Sim

O aspecto mais interessante do ácido nítrico é que seu potencial de oxidação é


diretamente proporcional ao aumento da temperatura, e assim a eficiência de decomposição
com o ácido nítrico depende da temperatura. Em sistemas abertos, a temperatura máxima é
a do seu azeótropo com a água (120 °C), mas em sistemas fechados exploram-se
temperaturas acima de 300 °C.
Como já foi comentado, a reação típica de materiais orgânicos com o ácido nítrico a
quente é a seguinte:

(CH2)n + HNO3 + calor → CO2 (g) + 2NO(g) + 2H2O

De forma a explorar ao máximo o potencial de oxidação do ácido nítrico, sistemas


de decomposição sob pressão tem sido desenvolvidos, permitindo aplicações com
temperaturas acima de 120 °C. Dependendo do projeto do sistema de aquecimento, e
tomando-se as necessárias precauções, existem procedimentos em que os riscos de
explosão são desprezíveis.

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 213

7.4.1. DECOMPOSIÇÃO COM ÁCIDO NÍTRICO SOB PRESSÃO ATÉ 200 ºC

Para mineralizar amostras em um sistema fechado, utilizam-se frascos de reação


apropriados, adiciona-se ácido nítrico concentrado (65-69%) e a mistura é aquecida
utilizando-se um programa especial de temperatura no frasco sob pressão. As principais
vantagens do emprego de um sistema fechado quando comparado com um sistema aberto
são as seguintes:

a. Não há perdas por volatilização dos elementos;


b. Reações com duração relativamente curta podem ser realizadas, trabalhando-se em
temperaturas acima do ponto de ebulição do reagente;
c. Reduzem-se as quantidades dos reagentes, diminuindo-se os valores dos brancos;
d. Não há risco de contaminação por fontes externas.

As temperaturas utilizadas para a decomposição estão associadas ao material do


frasco de reação: o PTFE, dependendo da sua qualidade, permite empregar temperaturas
entre 160 - 200 ºC.3-5 Para temperaturas mais altas este polímero perde resistência física,
amolecendo. Diferentes sistemas de decomposição por pressão foram descritos na
literatura, muitos quais propostos para a decomposição de amostras geológicas com ácido
fluorídrico.6-12
Até 1985, a maioria dos sistemas utilizados, baseava-se nos modelos descritos por
Bernas10 e Tolg et al.3 O sistema de decomposição fechado foi denominado de "bomba de
decomposição", e consistia em um recipiente de PTFE, contido em um cilindro de aço. O
recipiente é fechado com uma tampa de PTFE que é pressionada por uma mola, e então,
fechada. Quando a pressão atinge um valor máximo de segurança, a tampa se abre pela
pressão exercida dentro do frasco deixando que os gases gerados escapem, prevenindo
com isso, uma pressão excessiva e eliminando o risco de explosão. A bomba é aquecida em
um bloco de metal ou em uma estufa termostatizada.13 Alguns frascos de pressão usam
discos ou membranas de ruptura, ao invés do dispositivo de segurança do tipo mola; a
tampa do frasco de pressão pode servir para a mesma função.14 A Figura 7.2 mostra as
principais partes de um sistema de um sistema comercial para decomposição sob pressão.

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214 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

sistema de segurança para


alívio de pressão
mola
tampa de aço com
rosca

tampa de PTFE

revestimento de aço

copo de PTFE amostra + ácido

Figura 7.2. Sistema de decomposição pressurizado com aquecimento convencional Berghof.

Entretanto, a desvantagem do PTFE como material para frasco de digestão é que


ele não pode ser empregado para alguns casos de determinações de baixas concentrações
de elementos.4 Um outro problema reside no fato de que para altas pressões e
temperaturas, alguns elementos difundem-se no PTFE, resultando em efeito de memória e
produzindo erros sistemáticos.15 Esses efeitos, entretanto, dependem sobremaneira da
qualidade do PTFE utilizado. Entretanto, para decompor amostras que contém uma grande
quantidade de minerais (p.ex., silicatos), faz-se necessário o uso de ácido fluorídrico, para
permitir a dissolução de resíduos de silica que não são decompostos pela ação do ácido
16
nítrico, e frascos de PTFE devem ser empregados.
Conforme já foi salientado, o ácido perclórico não deve ser usado em sistemas
fechados por razões de segurança: reações violentas podem causar a explosão dos frascos
de pressão, porque os sistemas de segurança dos mesmos podem não responder
rapidamente ao aumento súbito de pressão. A mesma recomendação deve ser feita para
misturas de ácidos sulfúrico e nítrico, os quais não podem ser usados para mineralizar
gorduras em sistemas fechados.17
Jackwerth & Gomiscek18 apresentam uma visão geral a respeito das técnicas
empregadas na decomposição por pressão com ácidos para a determinação de baixas
concentrações de elementos.
Quando o ácido nítrico é usado sozinho, a massa da amostra, o tipo de amostra, o
volume de ácido, o volume do recipiente e a temperatura reacional e a duração do

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 215

aquecimento, estão relacionados com a qualidade da oxidação da matéria orgânica e com a


segurança do procedimento.

Temperatura de decomposição

Em frascos de PTFE as temperaturas entre 170 e 180 ºC fornecem as melhores


condições de oxidação dos constituintes da matriz em amostras biológicas. Se a
temperatura for aumentada para 200 ºC isso não significa, necessariamente uma melhoria
dos resultados de decomposição. O PTFE não é indicado para usos onde são empregadas
altas temperaturas, de tal forma que a temperatura ao redor de 180 ºC é a mais
recomendada para processos em frascos de PTFE.

Tempo de reação

O melhor tempo de reação, independentemente da amostra biológica utilizada, é de


aproximadamente 3 h.1 Para tempos mais longos, não se encontrou nenhuma diminuição na
quantidade de compostos orgânicos contidos nas cinzas. Além deste tempo de reação,
deve-se incluir o tempo necessário para o aquecimento da mistura até a temperatura
desejada.

Volume de ácido nítrico

O volume de HNO3 65-69% indicado para a decomposição de amostras orgânicas,


encontra-se na faixa entre 0,4 e 2,0 ml/200 mg de amostra,3,4,19 dependendo da matriz da
amostra. Entretanto, é possível afirmar que um volume de 2 ml de ácido nítrico será
suficiente para mineralizar uma quantidade de amostra biológica que corresponda a 100 mg
de carbono puro, independentemente do tipo de substância orgânica a ser analisada,
quando a decomposição for realizada entre 170-180 ºC durante pelo menos 3 h.1,20 Volumes
menores do ácido podem ser usados para substâncias que apresentem menores teores de
gordura.1 Como o ácido nítrico é encontrado com alto grau de pureza ou, alternativamente, é
de fácil purificação,2 2 ml de HNO3/massa de amostra que corresponda a 100 mg de C, pode
ser considerado como um volume razoavelmente pequeno.

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216 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

Massa da amostra

A massa da amostra é determinada pela pressão máxima permitida dentro do


frasco de decomposição empregado. O exemplo seguinte se refere ao sistema de
decomposição que emprega uma pressão de 20 bar e utiliza um frasco de PTFE de 35 ml.
Nestas condições, as amostras que correspondam a 100 mg de carbono puro, podem ser
decompostas. Independentemente do tipo de material biológico usada, a pressão atingida
durante a fase final do processo de decomposição estará ao redor de 20 bar. Esta pressão é
gerada por gases que se formam durante o processo de decomposição (CO2 proveniente do
carbono contido na amostra e NO/NO2 devido a reação com ácido nítrico), e pelas pressões
de vapor de água e do ácido nítrico.21 Assim, uma massa apropriada de amostra orgânica é
facilmente calculada com base em seu teor de carbono. Os conteúdos de carbono de
algumas substâncias liofilizadas são apresentados na Tabela 7.3. Se forem empregadas
substâncias frescas, o alto conteúdo de água permite, correspondentemente, aumentar as
massas das amostras. Assim, podem ser utilizados aproximadamente 200 mg de tecido
liofilizado (ca. 50 % de carbono), 200 a 300 mg de uma substância vegetal liofilizada (ca. 30-
50 % de carbono) e somente 120 mg de gordura (ca. 78% de carbono). Além da
temperatura, do tempo de reação e do volume do ácido, um fator importante para que ocorra
uma completa oxidação das substâncias orgânicas da amostra, é a relação entre a massa
de amostra e o volume do recipiente. Se, por exemplo, em um recipiente de 35 ml a massa
de amostra e o volume de ácido nítrico forem diminuídos proporcionalmente, a oxidação do
carbono será menos eficiente, para o caso de amostras contendo menos que 50 mg de
carbono. Isto resulta em um aumento dos produtos de decomposição orgânica em solução,20
mesmo que a proporção massa de amostra/volume de ácido permaneça inalterada.
Segundo os autores, os piores resultados são obtidos quando a concentração de NO2
diminui na fase líquida, o que corresponde a uma diminuição de pressão no interior dos
frascos, face às baixas quantidades usadas de amostra e de ácido. Assim, o NO2 que é
produzido quando o ácido nítrico é reduzido, está diretamente associado com a destruição
das amostras orgânicas.20 Para uma aplicação prática de decomposição sobre pressão, isto
significa dizer que massas de amostras menores que 1,4 mg (em C)/ml do volume do
recipiente não são recomendadas. Não há um limite superior, desde que o sistema de
decomposição usado responda às pressões geradas durante o processo. Entretanto,
pressões mais altas no frasco não dão melhores resultados de oxidação: para relações ao
redor de 1,4 mg de C/ml do volume do frasco, a taxa de decomposição, i.e. a proporção da
substância orgânica oxidada durante o processo, não é afetada pela pressão e, portanto, é
independente da massa da amostra. Caso os sistemas de decomposição não estejam

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 217

apropriadamente fechados, haverá perdas de NO2 e a oxidação do carbono será


prejudicada.

Tabela 7.3. Teor de carbono em amostras biológicas liofilizadas

Matriz Amostra % Carbono

Tecido Vegetal Alga marrom 35


Farinha de trigo 45
Espinafre 38
Folha de álamo 44
Folha de faia 48
Folha de plátano 48
Grama 39
Trevo 36
Acículas de pinus 51
Acículas de abeto 48
Raíz de abeto 49
Casca de abeto 36
Polpa de pêssego 40

Lipídeos Manteiga, óleos vegetais, 74...78


gorduras vegetais, sebo

Tecido Animal Leite em pó desnatado 42


Leite em pó 52
carne magra 50
Fígado bovino 51
Peixe 52
Sangue humano 52
Sangue de porco 52
Tecido de ostra 46
Rim de porco 49
Músculo (tecido) 41
Ovo de galinha 50

Glicídeos Glicose 37
Açucar de cana (sacarose) 42
Lactose 42
Celulose 43
Amido 41

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218 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

Materiais não decompostos


Nessas condições (180 °C, 3 h, 2 ml de HNO3 65%/ 100 mg C, razão massa de
amostra/volume do frasco de 1,4 mg C/ml), todas as substâncias orgânicas podem ser
dissolvidas. As amostras contendo silicato (p.ex. gramíneas e mexilhões) somente podem
20
ser dissolvidas com uma mistura de ácidos nítrico e fluorídrico. Os resíduos insolúveis que
frequentemente permanecem após o processo de decomposição (CaF2, fluorosilicatos),
podem ser solubilizados, se a mistura for levada à secura após o processo de decomposição
sob pressão. Se necessário, pequenas quantidades de HNO3 podem ser adicionadas. Os
20
fluoretos e fluorossilicatos insolúveis são então convertidos em nitratos solúveis.
Dependendo do problema analítico, em muitos casos os silicatos que permanecem
em solução podem ser tolerados dispensando a adição de ácido fluorídrico, desde que os
elementos a serem determinados não estejam ligados a estes silicatos. Isto é de particular
importância para decomposições com ácido nítrico em frascos de quartzo, face à
intolerância destes materiais ao ácido fluorídrico.
As matrizes orgânicas ou seus produtos, quando reagem com ácido nítrico sob alta
pressão, são dissolvidas completamente na maioria dos casos. As substâncias que contém
proteínas e gorduras, entretanto, produzem resíduos orgânicos,20,22 os quais não são
atacados pelo ácido nítrico se a temperatura for de apenas 180 °C. Carboidratos puros
(açúcar, celulose, etc) são completamente mineralizados pelo ácido nítrico a 180 °C,1,20 e
nestes casos baixas concentrações de metais que permanecem nas cinzas podem ser
determinadas sem problemas por voltametria de redissolução anódica ou por outras técnicas
analíticas. Porém, cabe ressaltar que, no caso de decomposições feitas a 300 °C,
praticamente todos os compostos orgânicos são completamente oxidados.

Resumo das condições de decomposição em frascos de PTFE (<180 ºC)

Apesar de algumas amostras não serem completamente decompostas e de que


alguns produtos de decomposição permanecem em solução existem várias situações em
que decomposições a 180 ºC em sistemas fechados fornecem bons resultados. A Tabela 7.4
resume as melhores condições para a decomposição com ácido nítrico em bombas de
PTFE. As condições mostradas nesta tabela asseguram que os resíduos orgânicos que
permanecem em solução, quando amostras biológicas são decompostas, podem ser quase
que totalmente eliminados e que a decomposição de carboidratos e gorduras que não
contém ácidos linolêicos ou linolênicos não deixará resíduos de compostos orgânicos.

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 219

Tabela 7.4. Melhores condições para a decomposição de amostras biológicas com ácido
nítrico e bombas de PTFE.

Temperatura 170 - 180 °C

Massa da amostra em frasco de 35 ml Correspondente a 100 mg C,

Pressão final 20 bar

Tempo de decomposição 3 h (mais o tempo de aquecimento)

Ácido 2 mL de ácido nítrico (65-69%)

7.4.2. DECOMPOSIÇÃO COM HNO3 SOB PRESSÃO A 300 °C

Como muitas amostras biológicas possuem proteínas e os aminoácidos são


digeridos com ácido nítrico, frequentemente faz-se necessário mineralizar completamente os
produtos de decomposição resultantes. Para se oxidar completamente amostras biológicas,
independentemente de sua composição química, recomenda-se a decomposição com ácido
nítrico a 300 °C.20,23 Nesta temperatura com 2 h de decomposição, as soluções resultantes
praticamente não contém carbono, acima de 99,9% do conteúdo original em carbono da
amostra é oxidado.23 Como os frascos de PTFE estão sujeitos a se deteriorar quando são
empregadas temperaturas acima de 200 °C, utilizam-se frascos de quartzo. Existe um
equipamento especial para decomposição a altas temperaturas, desenvolvido para a prática
analítica,15 denominado High Pressure Asher ou HPA produzido comercialmente por uma
empresa austríaca, com estas características.
As pressões de vapor do ácido e dos gases resultantes da reação com a matéria
orgânica, a 300 °C, dentro do frasco de quartzo é equilibrada por uma pressão externa maior
que 100 bar com N2. O frasco de digestão de quartzo é fechado por uma tampa de quartzo
sobre um anel de vedação de silicone (7.3). Este pode ser aquecido a temperaturas de até
320 °C em uma autoclave sob uma pressão externa de 100 bar. É possível com esse
aparelho, obter soluções livres de carbono dispensando tratamentos adicionais com ácido
perclórico, independentemente do tipo de material orgânico a ser decomposto. Nestas
soluções os analitos estarão na forma iônica inorgânica, e várias técnicas analíticas podem
ser empregadas para as determinações.

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220 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

Pressãoexterna
Pressão externa
(110-140 bar)
110 – 140 bar

tampa de quartzo

fita de PTFE

Pressão Pressão externa


interna 110 – 140 bar
<100 bar

frasco de quartzo

amostra + ácido

Figura 7.3. Frasco de reação do HPA (conforme Knapp, 1998)

Algumas aplicações de métodos analíticos que eram limitadas pela presença do


resíduo orgânico que permanecia em solução quando as decomposições eram feitas com
ácido nítrico a 180 °C, como a voltametria de redissolução anódica e todas as técnicas
empregando geração de hidretos, deixaram de ser problemáticas. Sinais de onda quadrada
para Zn, Cd, Pb e Cu obtidos por voltametria de redissolução anódica, empregando-se uma
amostra de alga digerida (NIES - Material certificado de referência de Sargassum fulvellum
Nr. 9) e uma amostra de mexilhão (NIES - Material certificado de referência de Mytilus edulis
Nr. 6), indicaram que não permaneciam resíduos orgânicos indesejáveis na solução
resultante. Antes da determinação dos metais, as soluções foram evaporadas até a
secagem para remover o NO2 dissolvido, o qual interfere nas determinações por voltametria
inversa.20,23 A corrente de fundo registrada foi quase a mesma obtida com soluções-padrão
aquosas dos analitos.

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 221

Tabela 7.5. Pressão de vapor desenvolvida por 10 ml de alguns ácidos em frasco de


23 ml, e pressão de saturação da água (dados compilados por Barnes, 1994)

HNO3 91% HCl 36 % HCl 22,9 % Água régia H2O

Temp Pres. Temp Pres. Temp Pres. Temp Pres. Temp Pres.
(ºC) (bar) (ºC) (bar) (ºC) (bar) (ºC) (bar) (ºC) (bar)

106 21 125 2,3

133 12 132 4,8 155 48 150 4,7

165 25 178 48 159 6,5 162 52 175 8,8

192 43 191 18 202 94 200 15,3

219 77 223 97 220 35 221 114 225 25

256 107 250 63 236 133 250 39

285 163 255 146 285 112 258 170 275 59

315 153 300 85

325 119

Este procedimento de decomposição foi testado em uma grande variedade de


materias biológicos e, em todas as situações, os voltamogramas obtidos foram livres de
interferências. Os resultados para Ni e Co obtidos por voltametria também se apresentaram
livres de interferências. Após a decomposição por pressão a temperatura de 300 °C,
também foi possível determinar arsênio por espectrometria de absorção atômica e por
espectrometria de emissão atômica com plasma com geração de hidreto em praticamente
todos os materiais biológicos. Este método de decomposição possui a vantagem de não ser
muito caro, além de ser rápida e dispensar o tratamento dos resíduos com ácidos
perclórico/sulfúrico. Estudos preliminares demonstraram que este método de decomposição
é também adequado para a determinação de Se e Hg. Além destes elementos, os enxofre e
fósforo presentes nas amostras de material biológico são convertidos quantitativamente a
sulfatos e fosfatos.
Os seguintes pontos resumem as vantagens que este método de decomposição
oferece, empregando ácido nítrico sob pressão a 300 ºC:
• Todos os materiais biológicos e produtos alimentícios podem ser completamente
decompostos sem o uso de ácido perclórico, eliminando riscos inerentes ao se trabalhar
com este ácido.

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222 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

• Todas as técnicas de análise que requerem soluções podem ser empregadas.


• As interferências provocadas pelos resíduos orgânicos são eliminadas, de tal forma que o
carbono contido no material biológico é completamente oxidado à CO2. Devido a
eliminação desta fonte de interferência e dos sinais de fundo, a exatidão e a precisão das
medidas para a determinação dos elementos podem ser significativamente melhoradas,
quando comparadas com aquelas dos procedimentos de decomposição convencionais.
• Empregando um sistema fechado significa que podem ser evitadas as perdas dos
elementos e os problemas de contaminações, o que novamente melhora a exatidão dos
resultados. As perdas dos elementos, muitas vezes observadas quando são utilizados
frascos de PTFE, devido a difusão destes elementos para dentro das paredes dos
frascos, não ocorrem.
• A decomposição a 300 °C com ácido nítrico permite uma completa mineralização de
materiais que são de significância em tecnologia: carbono, grafite, fibra de carbono,
material sintético não contendo fluoreto, óleos minerais, etc.

Massa das amostras


Quando se emprega o High Pressure Asher a massa das amostras é totalmente
determinada pela temperatura do procedimento de decomposição. Com 2 ml de ácido nítrico
(65 %) em um frasco de quartzo de 30 ml e uma temperatura na autoclave de 320 °C, que
corresponde a 300 °C no interior do frasco, obtém-se completa decomposição de amostras
com massa equivalente a 100 mg de carbono puro, livre de resíduos de carbono.
Em princípio, a massa da amostra é limitada pela pressão de vapor do ácido (≈ 70
20
bar). Se o frasco de decomposição está sujeito a uma pressão interna de 100 bar, a
pressão resultante devida aos gases CO2 e N2O não deverá exceder 30 bar para que não
ocorra explosão. Não ocorrerá nenhuma explosão, se a massa da amostra for limitada pela
quantidade correspondente a 100 mg C, independentemente do tipo de material biológico
utilizado.
Lembrando que a pressão de vapor de um ácido decresce exponencialmente com a
diminuição da temperatura (a Tabela 7.5 mostra alguns dados compilados por Barnes,1994),
torna-se evidente que quando se utiliza o HPA a 180 ºC (Tabela 7.6) podem ser utilizadas
massas maiores de amostra do que a 300 ºC. Assim, se a qualidade dos resultados
analíticos não for prejudicada quando as digestões forem feitas a 180ºC, esta situação de
menor temperatura tornar-se-á de particular importância quando as amostras analisadas não
forem homogêneas ou quando as amostras não puderem ser divididas. Isto é somente
recomendável, se o método de determinação não for interferido pelos compostos orgânicos
que eventualmente possam permanecer em solução.

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Decomposição de materiais orgânicos por via úmida 223

Assim, uma massa de amostra equivalente a 350 mg de carbono pode ser digerida
a 180 °C em um frasco de quartzo de 30 ml. Se o frasco for de 70 ml, a massa de amostra
correspondente ao teor de carbono, pode chegar a 800 mg (Tabela 7.6). Isto corresponde a
1,6 g de tecido animal liofilizado ou 4 g de tecido fresco. Por razões de segurança, os
frascos de PTFE não devem ser empregados para a decomposição de grandes quantidades
de amostras. Por outro lado, se a amostra for digerida a 300 °C mesmo em um frasco de 30
mL, o limite máximo de massa de amostra recomendado em termos de carbono será de
apenas 230 mg (Tabela 7.7). Somente para fins comparativos, é apresentada a Tabela 7.8,
que resume as melhores condições para a decomposição de amostras a 300 ºC sob pressão
com aquecimento em forno de microondas.

Tabela 7.6. Melhores condições para a decomposição de materiais biológicos no High


Pressure Asher a 180 °C

Temperatura no painel de controle 180 °C


Temperatura de decomposição 180 °C
Massa da amostra em frasco de 30 ml correspondente a 350 mg C
Massa da amostra em frasco de 70 ml correspondente a 800 mg C
Tempo de decomposição 3 h (mais 30 min de aquecimento)
Ácido 2 ml de HNO3 65-68%/100 mg C

Tabela 7.7. Condições para a decomposição completa de amostras biológicas com ácido
nítrico no High Pressure Asher a 300 °C

Temperatura no painel de controle 320 °C


Temperatura de decomposição 300 °C
Massa da amostra em frasco de 30 ml correspondente a 100 mg C
Massa da amostra em frasco de 70 ml correspondente a 230 mg C
Tempo de decomposição 1-2 h (mais 30 min de aquecimento)
Ácido 2 ml de HNO3 65-68%/100 mg C

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224 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

Tabela 7.8. Condições-padrão para a decomposição de amostras biológicas com ácido


nítrico em bomba de decomposição PMD Anton Paar

Frasco de quartzo 30 ml
Massa da amostra correspondente a 100 mg C
Potência Step 5
Tempo de decomposição 10 min
Tempo de refrigeração 10 min
Ácido 2 ml de HNO3 65-68% (e de 0,1 a 0,5 ml de
HCl 36% se necessário como ligante)

7.3. REFERÊNCIAS

1. WÜRFELS, M.; JACKWERTH, E. Investigations on the carbon balance in decomposition


of biological materials with nitric acid. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie,
New York, v. 322, n. 3, p. 354-358, 1985.

2. TSCHÖPEL, P.; KOTZ, L.; SCHULTZ, W.; VEBER, M.; TÖLG, G. Causes and elimination
of systematic errors in the determination of elements in aqueous solutions in the ng/ml
and pg/ml range. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v. 302, n. 1,
p. 1-14, 1980.

3. KOLTZ, L.; KAISER, G.; TSCHÖPEL, P.; TÖLG, G. Decomposition of biological materials
for determination of extremely low contents of trace elements in limited amounts with nitric
acid under pressure in a teflon tube. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New
York, v. 260, n. 3, p. 207-&, 1972.

4. KOLTZ, L.; HENZE, G.; KAISER, G.; PAHLKE, S.; VEBER, M.; TÖLG, G. Wet
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trace-element analysis. Talanta, Amsterdam, v. 26, n. 8, p. 681-691, 1979.

5. KNAPP, G. Methoden zum Aufschluβ organischer Materialien für die


Elementspurenanalyse, in. B. Welz, Atomspektrometrische Spurenanalytik, Verlag
Chemie, Weinhein/Bergstraβe 1982.

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6. MAY, I.; ROWE, J. J. Solution of rocks and refractory minerals by acids at high
temperatures and pressures-determination of silica after decomposition with hydrofluoric
acid. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 33, n. 6, p. 648-654, 1965.

7. LOUNAMAA, K. Die anreicherung des arsens aus silicatgesteinen fur eine colorimetrische
oder spektrographische bestimmung-aufschluss mit flusssaure unter druck. Fresenius
Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v. 146, n. 6, p. 422-429, 1955.

8. W. WAHLER. NEUES JAHRB. Mineral. Abhandl., v. 101, p. 109, 1964.

9. LANGMYHR, F. J.; SEVEEN, S. Decomposability in hydrofluoric acid of the main and


some minor and trace minerals of silicate rocks. Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v.
32, p. 1-7, 1965.

10. BERNAS, B. New method for decomposition and comprehensive analysis of silicates by
atomic absorption spectrometry. Analalytical Chemistry, Washington, v. 40, n. 11, p.
1982 -1986, 1968.

11. DOLEZAL, J.; LENZ, J.; SULZEK, Z. Decomposition by pressure in inorganic analysis.
Analytica Chimica Acta, Amsterdam, v. 47, n. 3, p. 517-527, 1969.

12. MITCHELL, J. W. Ultrapurity in trace analysis. Analytical Chemistry, Washington, v. 45,


n. 6, p. A 492-&, 1973.

13. SCHRAMEL, P.; WOLF, A.; SEIF, R.; KLOSE, B. J. New device for ashing of biological-
material under pressure. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v.
302, n. 1, p. 62-64, 1980.

14. STOEPPLER, M.; BACKHAUS, F. Pretreatment studies with biological and environmental
materials. 1. Systems for pressurized multisample decomposition, Fresenius Zeitschrift
für Analytische Chemie, New York, v. 291, p.116-120, 1978.

15. KNAPP, G. Routes to powerful methods of elemental trace analysis in environmental-


samples. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v. 317, n. 3-4, p.
213-219, 1984.

16. RÖHL, R.; HOFFMANN, H. J.; BESLER, W. Fresenius Zeitschrift für Analytische
Chemie, v. 317, p. 872, 1984.

17. TYLER, L. J. Chemical and Engineering News, v. 32, p. 20, 1973.

18. JACKWERTH, E.; GOMISCEK, S. General - aspects of trace analytical methods. 6. Acid
pressure decomposition in trace-element analysis. Pure and Applied Chemistry, Oxford,
v. 56, n. 4. p. 479-489, 1984.

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226 Decomposição de materiais orgânicos por via úmida

19. STOEPPLER, M.; MÜLLER, K. P.; BACKHAUS, F. Pretreatment studies with biological
and environmental materials. III Pressure evaluation and carbon balance in pressurized
decomposition with nitric acid. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York,
v. 297, p. 107-112, 1979.

20. WÜRFELS, M. Dissertation, Ruhr-Universität, Bochum, 1988.

21. WÜRFELS, M.; JACKWERTH, E.; STOEPPLER, M. (resultados não publicados)

22. WÜRFELS, M.; STOEPPLER, M. Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New
York, v. 330, p.159, 1988.

23. WÜRFELS, M.; JACKWERTH, E.; STOEPPLER, M. About the problem of disturbances of
inverse voltammetric trace analysis after pressure decomposition of biological samples.
Fresenius Zeitschrift für Analytische Chemie, New York, v. 329, p. 459-461, 1987.

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8. DECOMPOSIÇÕES ASSISTIDAS POR RADIAÇÃO
MICROONDAS
Ana Rita de Araujo Nogueira – Embrapa Pecuária Sudeste
Diogo Pompéu de Moraes – DQ/UFSM
Érico Marlon de Moraes Flores – DQ/UFSM
Francisco José Krug – CENA/USP
Guenter Knapp – Graz University of Technology
Joaquim de Araújo Nóbrega – DQ/UFSCar
Juliano Smanioto Barin –DQ/UFSM
Márcia Foster Mesko – DQ/UFSM

8.1. INTRODUÇÃO

Os primeiros experimentos com fornos de microondas para decomposição de


amostras foram realizados em 1975 utilizando-se frascos fechados em fornos domésticos
com resultados muito promissores. Embora os fornos domésticos não fossem apropriados
para se trabalhar em ambientes agressivos, particularmente quando os frascos de reação
deixavam escapar vapores ácidos corrosivos, era notória a diminuição do tempo de
decomposição das amostras, comparativamente aos procedimentos convencionais
utilizando-se placas aquecedoras ou blocos digestores. Aqueles pesquisadores que já
trabalhavam com sistemas fechados viam as vantagens dos aquecimentos por microondas
com certa reserva, pois os sistemas fechados aquecidos de maneira convencional já tinham
desempenho superior aos abertos. Ressaltando-se pequenas exceções, o uso do forno de
microondas para o preparo de amostras permaneceu praticamente ignorado até 1985,
quando o interesse na digestão por microondas tornou-se bastante popular. A partir de
então, as publicações inicialmente se voltaram quase que exclusivamente à decomposição
(em sistemas abertos) de amostras ambientais, alimentos, ligas, óleos, metais, minerais,
etc.
Deve ser enfatizado que, últimos anos, o número de aplicações envolvendo o uso
de radiação microondas cresceu rapidamente, em especial nas primeiras duas décadas a
partir da primeira publicação, por Abu Samra et al. em 1975. Desde então, as aplicações da
radiação microondas nos diferentes ramos da química têm crescido exponencialmente, para
as mais diferentes aplicações, tais como síntese orgânica, síntese de compostos

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228 Decomposições assistidas por radiação microondas

organometálicos, compostos inorgânicos, catálise etc. No tocante ao preparo de amostras,


a esfera de aplicação tem se expandido cada vez mais em áreas que envolvem
decomposições por vias seca e úmida, fusão, extrações, ou aceleração de reações
químicas, por exemplo. Pesquisas recentes vêm avaliando o efeito da radiação de
microondas na formação de complexos, formação de compostos coloridos e processos
cromatográficos, dentre outros. Os efeitos não térmicos das interações das microondas com
as substâncias ainda são um desafio que necessita ser investigado. Hoje se reconhece que
os fornos de microondas para fins analíticos possuem tecnologia que possibilita excelentes
desempenhos para amostras orgânicas e muitas amostras inorgânicas. Destaque também
deve ser dado aos sistemas que exploram microondas com radiação focalizada em frascos
fechados mas com pressão atmosférica, e aos sistemas em fluxo contínuo. Neste capítulo,
ênfase será dada aos fornos de microondas com frascos fechados de média a alta pressão
e aos sistemas com radiação focalizada. Avanços recentes na literatura também são
mencionados no final deste capítulo. De uma maneira geral, pode-se afirmar que o
aquecimento por microondas proporcionam digestões mais rápidas e seguras do que
aqueles baseados em aquecimento “convencional”, quando realizados em equipamentos
adequados para este fim.

8.2. CONCEITOS TEÓRICOS

As primeiras tentativas para compreender os aspectos químicos e físico-químicos


do processo de dissolução mediante o aquecimento com microondas revelaram a
necessidade de se conhecer e, preferivelmente monitorar, as condições de temperatura e
pressão durante o processo de digestão.
Os sistemas analíticos modernos, desenvolvidos especificamente para digestões
assistidas por microondas, apresentam facilidades para medir a temperatura e a pressão do
sistema amostra-ácido(s) durante o período reacional por meio da aplicação da tecnologia
baseada em termometria com sensores de fibras óticas e outros transdutores. É possível
medir tanto a temperatura no meio reacional in situ ou externamente. Além disso, o
desenvolvimento de materiais de alta resistência mecânica, como Teflon,™ PFA e TFM
permite que se trabalhe com recipientes fechados a pressões elevadas e,
conseqüentemente, temperaturas mais elevadas, que podem ser monitoradas
continuamente. Dependendo do sistema de digestão (do projeto do frasco de digestão), a
pressão pode ser controlada e ajustada ao valor programado pelo operador em qualquer
momento do processo. O conhecimento da pressão e da temperatura permite que se

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Decomposições assistidas por radiação microondas 229

interfira automaticamente nas etapas do processo de digestão. Desta forma, é possível


determinar experimentalmente a duração e a potência mais adequadas de cada etapa para
a completa digestão da amostra.

RELAÇÕES BÁSICAS FUNDAMENTAIS

As relações teóricas, que regem a interação da radiação das microondas com a


amostra e com os reagentes utilizados para a digestão são, basicamente, aquelas que, de
uma forma geral, regulam a interação entre matéria e energia. Obviamente, o tipo
específico de radiação restringe as considerações e os efeitos da mesma energia sobre a
amostra e sobre os reagentes presentes durante a ação das microondas no sistema.
As microondas são ondas eletromagnéticas (Figuras 8.1 e 8.2) e, como tal, são
portadoras de energia. Cobrem uma faixa de freqüências do espectro eletromagnético que
varia de 300 a 300.000 MHz (Figura 8.2). De acordo com o regulamento da Comissão
Federal de Comunicações e das Leis Internacionais de Rádio, somente quatro freqüências
são permitidas para uso industrial, científico e doméstico: 915 ± 25, 2450 ± 13, 5800 ± 74 e
22125 ± 125, em MHz. Os fornos de microondas comerciais fabricados para uso doméstico
ou para laboratórios empregam microondas com freqüência de 2450 MHz. A potência que é
gerada em um forno de microondas do tipo doméstico ou analítico normalmente é superior a
600 W. Alguns equipamentos modernos operam com uma potência de 1100 W que, em
outras palavras, significa um fornecimento de até 15.774 cal min-1(1 kW = 239 cal s-1).

λ
H
campo elétrico

campo
magnético
Direção de
propagação

Figura 8.1. Ilustração de uma onda eletromagnética planopolarizada:


E = campo elétrico; H = campo magnético; λ = comprimento de onda.

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230 Decomposições assistidas por radiação microondas

Comprimento
de onda (m)

maiores menores
Dimensão
aproximada molécula de água
Bola de tênis célula bactéria vírus proteína

Nome comum
da radiação
INFRAVERMELHO ULTRAVIOLETA Raios-X DUROS
ONDAS DE RÁDIO

VISÍVEL
Raios-X MOLES Raios GAMA
MICROONDAS

Fontes de
radiação
Rádio Forno de Radar
Rádio FM microondas Lâmpada com LNL Síncroton Máquinas radioisótopos
FM filamento de W de raios-X
Freqüência
(ondas/s)

menores maiores
Energia de
Um Fóton (eV)

Figura 8.2. Representação de uma parte do espectro eletromagnético

Quando um material não transparente às microondas absorve este tipo de radiação,


o material pode sofrer um aumento considerável na sua temperatura devido, principalmente,
à interação da radiação eletromagnética com os íons dissolvidos e com o solvente,
provocando migração iônica e rotação de dipolos.
A ocorrência destes dois processos resulta em um movimento molecular no
material, que também contribui para o aquecimento do mesmo. Estes dois processos
ocorrem quando microondas interagem com a solução de um ácido (ou mistura de ácidos)
usado para a digestão da amostra de interesse.

Aquecimento condutivo Aquecimento por microondas

Corrente de
convecção Super aquecimento
localizado

Figura 8.3. Visões pontuais sobre as formas de aquecimento condutivo e por microondas.

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Decomposições assistidas por radiação microondas 231

Somente a energia das microondas não é suficiente para a quebra das ligações
químicas, devendo ser ressaltada a importância destes mecanismos de conversão de
energia (Tabela 8.1). A conversão de energia in situ apresenta-se muito atrativa do ponto de
vista químico, pois sua magnitude irá depender das propriedades das moléculas, o que
permite algum controle das propriedades dos materiais e na seletividade das reações. O
aquecimento por microondas, ao contrário dos sistemas baseados nos sistemas com
aquecimento condutivo (p.ex. chapas aquecedoras, chamas, etc.), envolve adsorção direta
de energia pelo material que está sendo aquecido (Figura 8.3). Assim, novos métodos são
necessários para uma correta aplicação das microondas em diferentes campos da química.
As microondas apresentam radiação não ionizante, sendo muito menor que a
energia necessária para quebrar as ligações das moléculas orgânicas comuns (Tabela 8.1).
Isto não significa que não ocorram outros efeitos ou significativas interações da radiação
eletromagnética com a matéria.

Tabela 8.1. Comparação entre radiações do espectro eletromagnético e energias de ligação


de algumas substâncias (adaptado de Knapp, 1998)
Tipo de radiação Frequência (MHz) Energia Quântica (eV)
Raios-X 3,0 × 1013 1,24 × 105
Ultravioleta 1,0 × 1013 4,1
9
Visível 6,0 × 10 2,5
6
Infravermelho 3,0 × 10 0,012
Microondas 2450 0,0016

Tipo de ligação química Energia de ligação química (eV)


H-OH 5,2
H-CH3 4,5
H-NHCH3 4,3
H3C-CH3 3,8
PhCH2-COOH 2,4

Migração Iônica
A migração iônica consiste no movimento eletroforético dos íons dissolvidos interior
da solução da amostra. O movimento dos íons é causado pela interação entre as espécies
iônicas e o campo magnético oscilante das microondas. Os íons se deslocam, produzindo
um fluxo de corrente (Figura 8.4) cujo movimento sofre resistência causada por outras
espécies com fluxo oposto ao deslocamento. Como resultado dessa resistência, são
produzidas perdas do tipo I2R (produção de calor), provocando um aumento na temperatura

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232 Decomposições assistidas por radiação microondas

do meio, imediatamente ao redor de cada íon que migra. O movimento dos íons aumenta a
medida que a temperatura também aumenta, provocando, assim, um efeito do tipo
“avalanche”.
Toda solução iônica tem pelo menos duas espécies iônicas (íons Na+ e íons Cl-, por
exemplo) e todos os íons contribuem para o processo de aquecimento. A contribuição de
cada íon depende de sua concentração e sua mobilidade no meio (Tabela 8.2). A
mobilidade depende do tamanho, da carga, da condutividade, e também da temperatura do
íon.

- +
- + -
+ + +
- - - +
E
Figura 8.4. Representação esquemática da migração iônica

Tabela 8.2. Efeito do aumento da concentração de NaCl no fator de dissipação [adaptado


de Knapp, 1998]

Concentração (mol l-1) Tangente δ

0,0 0,157
0,1 0,240
0,3 0,435
0,5 0,625

Como as ondas eletromagnéticas geram campos elétricos positivos e negativos


alternados, provoca-se uma desordem e agitação das moléculas dipolares, transformando-
se em calor a energia absorvida para o realinhamento das moléculas. A Figura 8.6 está
exagerada para efeito de ilustração. No entanto, o que ocorre é uma rápida mudança de
posição das moléculas, que passam um pouco mais de tempo em uma direção que em
outra. Quando o campo elétrico é removido, ocorre o retorno das moléculas à desordem,
em um tempo de relaxação t e energia térmica é gerada.

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Decomposições assistidas por radiação microondas 233

Rotação de Dipolo
Refere-se ao efeito que o campo elétrico oscilante das microondas causa às
moléculas da amostra que possuem momento dipolar induzido ou permanente. Quando se
estabelece um campo elétrico, as moléculas dipolares se alinham com os polos deste
campo elétrico (Figuras 8.5).
+
Campo elétrico

t=0ns
δ−
O
-
H H
δ+ δ+

+
Campo elétrico

t=0,1ns
δ−

H O
-
δ+
H
δ+

+
Campo elétrico

t=0,3ns
δ−
O
- H
δ+
H
δ+

Figura 8.5. Rotação de uma molécula de água com o campo elétrico gerado pela radiação
de uma microonda de 2450 MHz(cortesia Milestone).

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234 Decomposições assistidas por radiação microondas

Figura 8.6. Representação da resposta molecular a um campo eletromagnético. (a)


moléculas polarizadas alinhadas com os pólos do campo eletromagnético; (b) desordem
termicamente induzida quando o campo eletromagnético é alterado.

Quando se utiliza a freqüência de 2450 MHz, o alinhamento das moléculas e seu


retorno ao estado de desordem ocorrem 4,9 × 109 vezes por segundo, resultando
aquecimento rápido e eficiente. O aquecimento devido a esse processo depende do tempo
de relaxação da amostra, o qual é definido como o tempo necessário para ordenar
totalmente e desordenar 63% da amostra que, por sua vez, depende da temperatura e da
viscosidade da amostra.

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Decomposições assistidas por radiação microondas 235

Capacidade de Penetração das Microondas

Quando se irradia um material qualquer com microondas, existem três


possibilidades quanto à penetração da onda eletromagnética:
a) Reflexão: o material reflete as microondas sem ser afetado pelas mesmas.
b) Transparência: as microondas atravessam o material sem provocar nenhum efeito no
material.
c) Absorção: o material absorve total ou parcialmente a radiação.

Nas digestões assistidas por microondas explora-se a absorção. Nessa situação, a


energia eletromagnética das microondas que é absorvida é convertida em energia térmica
(calor), com o conseqüente aquecimento do meio reacional. Como os materiais diferem na
sua habilidade de conversão da energia eletromagnética das microondas em calor, é
importante conhecer o fator de dissipação de energia da amostra. Esse fator representa a
capacidade que cada material possui em absorver energia de microondas, sendo que a
absorção está diretamente relacionada com o grau de penetração da radiação no material.
A penetração é nula nos materiais que refletem microondas, como os metais, e infinita nos
meios transparentes (quartzo e Teflon são praticamente transparentes).
Na Figura 8.7 estão representadas as propriedades dielétricas da água destilada
em função da freqüência, a 25°C. Observa-se que apreciáveis valores de perdas dielétricas
ocorrem acima de 10000 Hz, enquanto que os fornos microondas domésticos operam a
freqüências muito inferiores, 2450 Hz. Existe uma razão prática para se utilizar essa baixa
freqüência: é necessário que os alimentos sejam eficientemente aquecidos em seu interior.
Se a freqüência for ótima para uma máxima velocidade de aquecimento, as microondas
serão absorvidas nas regiões externas do alimento, e penetrarão muito pouco. Portanto, a
profundidade de penetração, que é a profundidade dentro de um material onde a potência
atinge a metade de seu valor na superfície, é um outro importante parâmetro experimental.
Quando a amostra é aquecida, o tempo de relaxação dielétrica irá mudar com o fator
de dissipação e conseqüentemente com a profundidade de penetração. A Tabela 8.3 ilustra
esta observação. O fator de dissipação decresce com a elevação da temperatura da água.
Este decréscimo ocorre porque 1/τ aumenta com o aumento da temperatura da água e
então a freqüência rotacional da água não será coincidente com a freqüência angular
incidente das microondas, e a absorção decresce.

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236 Decomposições assistidas por radiação microondas

80 ε´
Propriedades
dielétricas
40

ε”
0
10-1 1 10
Freqüência (GHz)
Figura 8.7. Propriedades dielétricas da água em função da freqüência. [adaptado de
Kingston & Haswell, 1997].

Tabela 8.3. Efeito da temperatura no fator de dissipação da água

Temperatura °C × 104)
Tangente δ (× a

1,5 3100
5,0 2750
15,0 2050
25,0 1570
35,0 1270
45,0 1060
55,0 890
65,0 765
75,0 660
85,0 547
95,0 470
a
Medidas feitas a 3000 MHz. Dados extraídos de Von Hippel, A.R. Dieletric Materials and
Applications, John Wiley: New York, 1954, p. 301.

Quando ocorre absorção, a penetração vai depender fundamentalmente da


relação entre o fator de perda (εε”) e a constante dielétrica (εε’) da amostra em particular.
Esta relação é conhecida como fator de dissipação e é representada por tan δ, sendo
expressa pela razão entre o fator de perda e a constante dielétrica:

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Decomposições assistidas por radiação microondas 237

tan δ = ε”/ ε’
A constante dielétrica ε’ pode ser vista como uma medida da habilidade da
amostra em se opor ao caminho das microondas, e o fator de perda ε” como a capacidade
da amostra para dissipar a quantidade de energia absorvida. Quanto maior for a capacidade
de dissipação de uma amostra, menor será a capacidade de penetração das microondas na
mesma. A magnitude da razão ε”/ ε’ fornece uma idéia da transformação da energia das
microondas em calor em cada material. Valores do fator de dissipação de alguns materiais
são apresentados na Tabela 8.4. Maiores valores de tan δ representam maior absorção de
microondas.

Tabela 8.4. Fatores de dissipação(tan δ). Medidas efetuadas a 3000 MHz [adaptado de
Kingston & Haswell, 1997]

Material Temperatura (°°C) Fator de Dissipação


(tan δ ×104)
Água 25 1570,0
Quartzo fundido 25 0,6
Cerâmica F-66 25 5,5
Vidro borossilicato 25 10,6
Vidro fosfatado 25 46,0
Sílica 25 0,6
Porcelana n° 4462 25 11,0
Plexiglass 27 57,0
Nylon 66 25 128,0
Cloreto de polivinila 20 55,0
Polietileno 25 3,1
Polipropileno 25 2,0
Poliestireno 25 3,3
Teflon PTFE 25 1,5
Teflon PFA 25 1,5

A maioria dos dados de perda e constante dielétrica foram obtidos à temperatura


ambiente para um grande número de materiais. Alguns trabalhos mais atuais, no entanto,
apresentam dados relacionados às temperaturas que os sólidos atingem após o
aquecimento em fornos de microondas durante um determinado período de tempo (Tabela
8.5).

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238 Decomposições assistidas por radiação microondas

Água como solvente

Como na grande maioria dos casos, o analista utiliza soluções aquosas para a
realização de uma análise, é conveniente conhecer o efeito das microondas sobre a água.
Para moléculas pequenas, tais como a molécula da água, à medida que a
temperatura aumenta, a migração iônica também aumenta, mas a contribuição da rotação
de dipolo diminui. Portanto, quando a água é aquecida mediante irradiação com
microondas, em princípio a absorção de radiação é dominada pela contribuição da rotação
dipolar. Entretanto, à medida que a temperatura aumenta, a contribuição da migração iônica
torna-se mais importante. A contribuição relativa de cada um destes fatores depende
essencialmente da mobilidade e do tempo de relaxação. Em uma solução aquosa contendo
um ácido ou uma mistura de ácidos, a concentração iônica da solução também
desempenha um papel importante na capacidade da solução em absorver radiação. Se a
mobilidade e a concentração iônica forem baixas, o aquecimento da amostra dependerá
essencialmente da rotação dipolar. Por outro lado, à medida que a mobilidade e a
concentração aumentam, o aquecimento por microondas será dominado pela migração
iônica e o tempo de aquecimento dependerá cada vez menos do tempo de relaxação da
solução.
É importante observar que a energia não é absorvida apenas por solventes polares
(ácidos minerais, solventes orgânicos, reagentes, misturas aquosas), produzindo calor e
acelerando as reações químicas, mas também por algumas moléculas da amostra, pelos
materiais onde a amostra está contida e por superfícies que, idealmente, não se desejaria
aquecer durante a reação. As microondas podem também ser absorvidas por tecidos. Na
maioria dos países já estão estabelecidas as faixas de tolerância e os limites para a
freqüência da energia eletromagnética, tempo de exposição, massa do corpo, tempo,
periodicidade de exposição, etc. A exposição à energia de fornos domésticos ou de
laboratório é limitada a 5 mW/cm2 a uma distância de 5 cm de qualquer superfície do
sistema. Os fabricantes devem informar o projeto e controle de qualidade, incluindo
medidas de segurança quanto à radiação e acidentes, além de informar qualquer defeito no
produto (i.e., que represente risco de radiação a qualquer pessoa). Os efeitos biológicos já
estão detalhados em mais de 1000 publicações, sendo que os principais se referem aos
efeitos térmicos, muitas vezes provocando superaquecimento do tecido exposto.
Comparando-se com a luz do sol, que provoca aquecimentos e fenômenos de superfície, a
energia das microondas penetra na pele nos tecidos subcutâneos, elevando as
temperaturas do tecido e do sangue. Diferentes freqüências promovem diferente energia de
penetração no tecido humano (Tabela 8.7).

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Decomposições assistidas por radiação microondas 239

Tabela 8.5. Efeito do aquecimento por microondas na temperatura dos sólidos [Kingston &
Haswell, 1997]
Substância T(°C) Tempo (min)
Al 577 6
C 1283 1
Co2O3 1290 3
CuCl 619 13
FeCl3 41 4
MnCl2 53 1,75
NaCl 83 7
Ni 384 1
NiO 1305 6,25
SbCl3 224 1,75
SnCl2 476 2
SnCl4 49 8
ZnCl2 609 7
CaO 83 30
CeO2 99 30
CuO 701 0,5
Fe2O3 88 30
Fe3O4 510 2
La2O3 107 30
MnO2 321 30
PbO2 182 7
Pb3O4 122 30
SnO 102 30
TiO2 122 30
V2O5 701 9
WO3 532 0,5

Nota: Todos os experimentos iniciaram à temperatura ambiente. Amostras (25 g) aquecidas


em um forno de 1 kW (2.450 MHz) com um frasco contendo 1000 ml de água.

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240 Decomposições assistidas por radiação microondas

Tabela 8.6. Capacidade calorífica de ácidos minerais [adaptado de Kingston & Jassie, 1988]
-1
Solução ácida Concentração (mol l ) Capacidade calorífica
(cal g-1 °C-1)

Acético (100 %) 17,4 0,4947

Clorídrico (37,2 %) 12 0,5863


6 0,7168
1 0,9378

Fluorídrico (49 %) 28,9 0,6960

Nítrico (70,4 %) 15,9 0,5728


8 0,7162
1 0,9497

Fosfórico (85,5 %) 14,8 0,4470

Sulfúrico (96,06 %) 18 0,3499


6,7 0,6142
1,1 0,9142
1 0,9339
Água 55 0,9997

Tabela 8.7. Profundidade de penetração das microondas em função da freqüência.


[Kingston & Jassie, 1997].
Frequência (GHz) Profundidade de Energia (µ
µJ/cm)
penetração (cm)

0,915 3,03 17,3

2,450 2,05 20,6

3,0 1,97 20,9

30,0 0,097 143,3

100,0 0,032 376,4

300,0 0,023 579,1

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Decomposições assistidas por radiação microondas 241

8.3. INSTRUMENTAÇÃO

8.3.1. Sistema com cavidade (forno de microondas)

Um forno de microondas com cavidade para propósitos analíticos (Figura 8.8)


consta fundamentalmente de seis componentes:
i. Magnetron
ii. Guia para as microondas
iii. Distribuidor de ondas (na realidade um refletor rotatório)
iv. Cavidade
v. Frasco de reação
vi. Bandeja rotatória ou rotor (usado para fixar os frascos de reação)

Figura 8.8. Desenho esquemático de um forno de microondas, mostrando bombas de


digestão fixadas em um rotor, sob ação de microondas homogeneamente espalhadas por
um refletor rotatório

A radiação produzida pelo magnetron é transportada através do guia de


ondas para a cavidade, onde é distribuída pelo distribuidor e circulador em direções
específicas, que permitem uma maior irradiação da zona próxima ao centro da cavidade. A
bandeja rotatória permite expor a amostra a uma radiação homogênea e reprodutível,
dependendo do projeto do forno. Existem fornos que operam com 2 magnetrons e que

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242 Decomposições assistidas por radiação microondas

garantem uma maior e mais homogênea transferência de energia para cada frasco de
reação. O número de frascos de digestão varia de 1 a 48, dependendo do fabricante. Existe
um fabricante que oferece um modelo de forno de microondas que emprega sistema de
digestão com refrigeração dos vasos de reação (Figura 8.12), permitindo que os frascos
sejam abertos decorridos cerca de 10 min após a digestão ter se completado. Existem
frascos de digestão que também permitem acomodar minifrascos de digestão em seu
interior.
De todos os componentes mencionados, o magnetron mereceu uma atenção
especial no passado, porque ele é considerado o “coração” do forno de microondas. Hoje é
considerado um componente simples e de custo relativamente baixo. Consiste da
combinação de um anodo, um catodo e uma série de cavidades de ressonância, todos
arrumados em uma geometria cilíndrica. Rente ao catodo deste tubo existe um campo
magnético. Quando se aplica uma alta voltagem através dos eletrodos, geram-se elétrons
que entram em ressonância sob a influência do campo magnético. Isso produz oscilação do
magnetron. Nestas condições, os elétrons cedem energia com frequência variável ou fixa, a
qual é irradiada. Todos os instrumentos para decomposição de amostras possuem
magnetron que gera microondas com uma frequência fixa de 2450 MHz. Em alguns
instrumentos, a potência da energia elétrica que o magnetron recebe é de
aproximadamente 1200 W, sendo que aproximadamente metade (600-700 W) é convertida
em energia eletromagnética. Atualmente existem equipamentos comerciais que fornecem
até 1600 W na forma de microondas.
A potência de radiação emitida pelo magnetron é controlada mediante a fixação de
ciclos de operação de forma descontínua. Esses “ciclos de trabalho” definem a relação de
tempo na qual o magnetron permanece ativo ou inativo. A eficiência na produção de
microondas de um magnetron é afetada principalmente pelo superaquecimento do mesmo.
Dentre as principais causas do superaquecimento estão as ondas que retornam por reflexão
ao seu ponto de origem. Em equipamentos modernos esse inconveniente não se constitui
em uma limitação séria.

8.3.2. Recipientes para digestão

A primeira condição a cumprir é que os materiais dos frascos de digestão sejam


transparentes às microondas, de tal forma que as microondas sejam absorvidas pela
solução do meio reacional. Os materiais mais empregados para fabricação dos frascos ou
copos de reação são o PTFE (Teflon™ é marca registrada da DuPont), PFA
(perfluoroalcoxi) e TFM™ (marca registrada da Hoechst para PTFE quimicamente

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Decomposições assistidas por radiação microondas 243

modificado). Os materiais preferidos são o PFA e TFM por apresentarem melhor


desempenho que o Teflon™. A deformação dos frascos de digestão de Teflon™ é
o
considerada desprezível quando são utilizadas temperaturas menores que 150 C. Para
temperaturas maiores a deformação aumenta com a temperatura, tornando-se mais difícil
manter os frascos vedados. Além disso a vida útil dos frascos também diminui. Um outro
aspecto que concorreu para o desenvolvimento do PFA e do TFM é que o Teflon é um
material poroso mesmo quando de ótima qualidade. Dependendo da fabricação a
porosidade pode ser mínima, mas espera-se migração de vapores através do mesmo. Além
disso, também existem riscos de perdas por adsorção e contaminação. O ponto de fusão do
PFA situa-se entre 300 e 310 °C. A estabilidade térmica do PFA limita o seu uso para
condições em que a temperatura não ultrapasse 260 °C. O ponto de fusão do TFM situa-se
o °
entre 320 e 340 C e a máxima temperatura operacional é de 300 C. O TFM é
recomendado pelos fabricantes dos fornos mais modernos, quando se pretende trabalhar
com temperaturas mais altas, mas não recomendam digestões muito longas nesta
temperatura (<20 min). Mesmo assim, convém salientar que, como a vida útil do
revestimento interno ("liner") diminui muito com temperaturas muito elevadas, recomenda-se
não ultrapassar 260 oC. Existem vários tipos de frascos de digestão para fornos de
microondas. Os frascos de digestão para fins analíticos possuem volumes internos que
variam de 25 a 120 ml, podendo ser equipados com sensores de pressão e temperatura
individuais ou coletivos, e podem ser de vários tipos:

• com membrana de ruptura (Figura 8.9)


• pistão (Figura 8.10),
• pistão com refrigeração (Figuras 8.11 e 8.12), e
• com válvula de alívio (Figuras 8.13 e 8.14).

Uma maneira geral de classificar os frascos de digestão se baseia na possibilidade


ou não de continuar a digestão após um aumento súbito de pressão. Um frasco com
membrana de ruptura seria denominado do tipo "sem fechamento" (non-reclosing), pois
permanece aberto após a ruptura da membrana. Analogamente, um frasco com abertura
momentânea da válvula seria do tipo “com fechamento” (reclosing type). Esses modelos de
frascos representam três gerações de sucessivos desenvolvimentos na área. Os frascos e
demais dispositivos de segurança são as principais diferenças entre um forno de
microondas para laboratório e um outro para uso doméstico.

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244 Decomposições assistidas por radiação microondas

Figura 8.9. Frasco de digestão com membrana de ruptura

Figura 8.10. Frasco de digestão tipo pistão

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Decomposições assistidas por radiação microondas 245

Ar de
refrigeração
Refletor

Sensor ótico

Tampa de rosquear

Mola

Tampa com
disco de Segurança

Vaso de reação

Corpo externo

Camisa de proteção
Dutos para
passagem do ar

Figura 8.11. Corte transversal de um frasco de digestão com vaso de reação refrigerado a
ar modelo PMD (cortesia Anton Paar)

Figura 8.12. Corte transversal de rotor de forno de microndas com duas bombas de
digestão tipo pistão com refrigeração: 1=rotor; 2=vaso de reação; 3=copo externo de
proteção; 4=macho de PTFE; 5=pistão; 6=óleo de silicone; 7=transdutor de pressão; 8= ar
frio; 9=transmissor de infravermelho para dados de pressão e temperatura (Multiwave,
cortesia Anton Paar)

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246 Decomposições assistidas por radiação microondas

Figura 8.13. Frasco de digestão com válvula de alívio (adaptado de Pirola,1999)

(a) (b)
Figura 8.14. Ilustração da abertura da válvula de alívio quando a pressão interna for
superior a 60 bar: (a) fechada, (b) aberta [adaptado de Pirola, 1999]

O uso de recipientes fechados para digestões com microondas tem sido


inevitavelmente recomendado nos casos em que é preciso aproveitar o efeito de altas
temperaturas para dissolver amostras de “difícil” decomposição, nas quais se pretende
determinar componentes voláteis. Em geral, as vantagens preconizadas para digestões
assistidas por radiação das microondas em frascos de digestão fechados são semelhantes

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Decomposições assistidas por radiação microondas 247

àquelas já mencionadas para os sistemas fechados de alta pressão com aquecimento


convencional (bombas de digestão), quando comparados com sistemas abertos:

a) Maior eficiência na dissolução em altas temperaturas


b) Risco reduzido de perdas de analitos por volatilização
c) Risco reduzido de contaminações devidas ao ambiente de trabalho.
d) Menor consumo de reagentes de alta pureza

Entre as desvantagens inerentes aos sistemas fechados que empregam os


materiais mencionados é que, geralmente, não se pode digerir massas de amostra muito
elevadas, porque a pressão interna que se desenvolve dentro da bomba depende da
pressão de vapor do ácido empregado e da pressão resultante causada pelos produtos
gasosos gerados nas reações de decomposição. No caso de materiais orgânicos, sabe-se
que o CO2 é o principal produto gasoso gerado, com pressão parcial proporcional à massa
de carbono na amostra. Por exemplo, se as digestões forem feitas com 10 ml HNO3 em
vaso de 100 ml e realizadas a 250 °C, recomenda-se no máximo 250 mg de fígado bovino.
Se a temperatura desejada para a digestão for de 200°C pode-se digerir até 1 g da mesma
amostra no mesmo frasco. Em ambos os casos, a pressão interna no frasco será de 60 bar.
Deve-se lembrar que altíssimas pressões poderão ser observadas, utilizando-se somente
um ácido ou somente água dentro do frasco fechado, porque as pressões de vapor do ácido
ou da água aumentam consideravelmente com a temperatura. Por exemplo, a pressão
desenvolvida por 10 ml de HCl 36% v/v em frasco fechado de 23 ml a 223 oC é de
aproximadamente 97 bar ou 1430 psi (psi = libras por polegada ao quadrado). Temperaturas
mais altas poderão ser empregadas, diluindo-se ou diminuindo-se a quantidade de ácido.
Outra limitação seria a necessidade de se digerir amostras com teor de carbono
semelhante, porque muitos equipamentos permitem o monitoramento indireto das digestões
de todos os frascos, utilizando-se apenas um dos frascos de digestão com sensores de
pressão e de temperatura. Nesse caso, a opção seria colocar a amostra com o maior teor
de carbono na bomba contendo os sensores. Existe equipamento de um fabricante que
possui um único transdutor de pressão para todos os frascos (Figura 8.12), dispensando o
controle quanto à semelhança entre as amostras, e outros com controle independente.
Historicamente, uma das maiores preocupações quanto aos recipientes fechados
residia na qualidade dos materiais utilizados na fabricação dos frascos de digestão, de tal
forma que pudessem suportar altas pressões. Para se ter uma idéia, os primeiros frascos
comerciais eram feitos inteiramente de Teflon™ suportando no máximo 7 bar de pressão, e
alguns fabricantes consideravam 20 bar como alta pressão. Gradativamente, os frascos de
digestão foram redesenhados, e atualmente todos possuem um corpo externo feito com

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248 Decomposições assistidas por radiação microondas

material também transparente às microondas e de altíssima resistência, podendo suportar


pressões maiores que 150 bar. Do ponto de vista operacional, utilizam-se pressões
menores. Os frascos de reação de PFA ou TFM possuem paredes relativamente finas e se
ajustam no interior deste corpo externo. Os fornos de microondas que empregam frascos de
digestão com válvula de alívio abrem momentaneamente a válvula, quando a pressão
interna exceder 60 ou 100 bar, dependendo do fabricante. Os fornos com bomba tipo pistão
com ou sem refrigeração limitam-se a pressões operacionais de 72 a 82 bar.
Outrossim, deve-se lembrar que, como existem inúmeras aplicações onde são
comuns situações nas quais as digestões geram pressões de trabalho menores que 20 bar,
há fabricantes que oferecem mais de um tipo de frasco de digestão, em geral denominados
frascos para “média pressão” e “alta pressão”.
Para fins analíticos, a escolha do melhor forno de microondas deve levar em
consideração os frascos de digestão oferecidos (desenho, capacidade, durabilidade e
custo), os sensores de temperatura e de pressão (custo, durabilidade e tempo de resposta),
os programas para o controle e aquisição de dados, e a opção para secagem dos digeridos,
além dos dispositivos de segurança.

8.3.3. Sistemas microondas com radiação focalizada

Sistemas de digestão com frascos pressurizados são usados com muito sucesso
utilizando-se somente ácido nítrico, principalmente para as amostras orgânicas e inclusive
amostras inorgânicas, com a possibilidade de se usar até 50 frascos de digestão
simultaneamente. Não obstante, uma das maiores desvantagens dos sistemas fechados é
a limitação associada ao tamanho das amostras. Uma outra desvantagem dos frascos de
digestão, é a geração de H2 quando ligas metálicas e metais são dissolvidos com ácidos.
Nesse caso, além de provocar um aumento na pressão interna do frasco, o hidrogênio é um
excelente combustível, aumentando ainda mais o risco de explosão. Além disso,existe a
necessidade de resfriamento e despressurização dos frascos para adição de reagentes
durante o ciclo de aquecimento.
Sistemas de digestão de amostras que empregam as chamadas microondas com
radiação focalizada (Figura 8.15), possibilitam um grande número de aplicações
interessantes. As digestões são feitas em frascos adequadamente “fechados” à pressão
atmosférica. Esses frascos têm a forma de um tubo com 30 a 40 cm de altura e 2 a 4 cm de
diâmetro, e serão denominados "frascos de digestão" neste texto. Os frascos são
fabricados em quartzo, vidro borossilicato ou PTFE, com capacidade para 50, 100 ou 250
ml. Normalmente, esses frascos recebem a denominação de "abertos". Na realidade, este
tipo de frasco, utilizado nos sistemas microondas com radiação focalizada, possui um

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Decomposições assistidas por radiação microondas 249

dispositivo que é adaptado na sua extremidade superior, que é construído de forma a


restringir contaminação pelo ar externo e possui entrada para adição contínua ou
intermitente de reagentes, proporcionando o refluxo do(s) vapor(es) do(s) solvente e do(s)
ácido(s), de modo a aproveitar ao máximo a capacidade de digestão e minimizar as perdas
de reagentes. As operações são realizadas com segurança nos equipamentos modernos,
tomadas as precauções recomendadas pelos fabricantes.
No primeiro equipamento usando microondas com radiação focalizada, projetado
em 1986, um único frasco de digestão era colocado diretamente no guia de ondas, logo
após o magnetron, de tal forma que somente a região do frasco onde a amostra era
colocada ficasse exposta ao feixe de radiação. Como o restante do frasco permanece mais
frio, cria-se uma região para condensação e refluxo. Segundo diversos autores, essa seria a
razão de não ocorrer perdas por volatilização, apesar deste aspecto ainda ser controverso
na literatura. No entanto, foram relatados estudos que demonstram a recuperação total de
Hg, [Tseng et al., 1998], As [Vilano & Rubio, 2001] e Pb, Cd, Cu e Zn [Garcia-Rey et al.,
2003]. Nos equipamentos modernos um condensador é situado na porção superior do
frasco, como forma de forçar a condensação e evitar a perda de elementos potencialmente
voláteis (Figura 8.15). Oferecem a possibilidade de se trabalhar simultaneamente com até 6
amostras diferentes com um único guia de ondas; simultaneamente com 4 frascos de
digestão, utilizando 1 magnetron independente por tubo; e seqüencialmente, com frascos
posicionados em um carrossel contendo as amostras de diferentes composições químicas,
passando um tubo de cada vez pelo guia de ondas. Como os tubos são abertos, com
entrada para diferentes reagentes, é possível fazer um programa de digestão diferente e
totalmente independente para cada amostra.
A potência do forno microondas com radiação focalizada varia de 200 a 300 W
para cada frasco de digestão. Cumpre lembrar que as microondas estão confinadas em um
guia com dimensões reduzidas (cerca de 109 x 54 mm ou 86 x 43 mm) de acordo com a
IEC (International Electrotechnical Commission). Assim, nesse caso, potências de 200 W
direcionam maior densidade de energia às amostras, gerando maior eficiência de
aquecimento, em comparação aos sistemas de digestão por cavidade, com dimensões
aproximadas de 30 x 30 x 30 (em cm) [Nóbrega et al., 2001]. De acordo com o fabricante,
aumento de eficiência de até 10 vezes na interação amostra radiação microondas pode ser
obtido com o uso de sistema com radiação focalizada quando comparado com o sistema
por cavidade.
Digestões realizadas nos fornos com radiação focalizada podem ser feitas com o
emprego de H2SO4, cujo uso é limitado nos frascos de digestão fechados, face ao elevado
ponto de ebulição deste ácido.

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250 Decomposições assistidas por radiação microondas

Figura 8.15. Sistema de digestão microondas com radiação focalizada.

Os sistemas de decomposição assistidos por microondas com radiação focalizada


operam em pressão atmosférica, não apresentando problemas associados com o aumento
de pressão, como nos sistemas fechados. Neste sistema, além da possibilidade de
utilização de até 10 g de amostra, a adição de reagentes em qualquer estágio do processo
de decomposição é feita sem dificuldades. Essa adição de reagentes em qualquer momento
do procedimento pode ser benéfica em relação à eficiência da digestão, constituindo-se em
uma grande vantagem frente aos sistemas fechados, onde a adição de reagentes não pode
ser realizada facilmente nos equipamentos comerciais disponíveis, havendo a necessidade
de resfriamento antes da abertura dos recipientes. Outra alternativa deste tipo de sistema é
a possibilidade de se vaporar uma mistura reagente até a secura rapidamente e
eficientemente, particularmente interessante para a remoção de HF após a decomposição
de amostras geológicas. Medidas de temperatura são possíveis, bem como o controle
desta, podendo-se estabelecer programas pré-definidos após a calibração do equipamento.
Um aspecto interessante dos sistemas focalizados refere-se à capacidade de
aplicar métodos variados para diferentes amostras simultaneamente, devido à possibilidade
de operar cada frasco independentemente. Além disso, a incidência da radiação microondas
em baixas potências possibilita a aceleração da lixiviação de compostos organometálicos,
sem afetar a ligação metal-carbono ou ainda, a extração de compostos orgânicos [Nóbrega
et al., 2001].

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Decomposições assistidas por radiação microondas 251

A
B
magnetron

amostra
amostra

guia de ondas

sensor infravermelho
Sensor infravermelho

Figura 8.16. Sistema de decomposição por via úmida “aberto” com aquecimento por
microondas com radiação focalizada (A); e frasco normalmente utilizado com condensador
(B).

A principal dificuldade da decomposição empregando microondas com radiação


focalizada é a distribuição uniforme da radiação entre todas as cavidades quando estas são
operadas simultaneamente e a elevada concentração ácida das amostras após a
decomposição [Costa et al, 2001]. O primeiro aspecto não é tão crítico, pois o controle da
liberação da radiação de microondas para cada cavidade está baseada na temperatura do
frasco de reação, que é controlada com sensor de infra-vermelho. Por outro lado, a
concentração ácida é alta, devido à utilização de grandes volumes de ácido sulfúrico para
aumentar a temperatura da mistura reagente, como comentado anteriormente.
Esse problema pode ser contornado por mudanças realizadas durante a operação
do sistema. Visando aumentar a aplicabilidade, diferentes estratégias foram propostas, tais
como a digestão ácida em fase vapor [Araújo et al. 2000; Trevizan et al., 2003; Araújo et al.,
2003], o emprego de digestão em linha, com o uso de sistemas em fluxo [Filli et al., 2003] e
a adição de amostras ao ácido pré aquecido [Nóbrega et al., 2002a; Nóbrega et al., 2002b;
Santos et al., 2005]. Essas estratégias serão discutidas em mais detalhes no próximo item
deste capítulo.

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252 Decomposições assistidas por radiação microondas

A decomposição em sistema aberto, assistida por microondas com radiação


focalizada foi também proposta para a extração de alguns elementos e compostos
organometálicos para posterior especiação de Se em urina [Gonzalez et al., 1998], Sn em
sedimentos [Chao & Jiang, 1998], Hg em peixes [Gerbersmann et al., 1997] e As em
cogumelos comestíveis [Larsen et al., 1997]. Outras aplicações encontradas na literatura
referem-se ao emprego na decomposição de amostras orgânicas e inorgânicas, para
posterior determinação de Hg em cosméticos [Gámiz-Gracia & Luque de Castro, 1999a], Se
em suplementos nutricionais e xampus [Gámiz-Gracia & Luque de Castro, 1999b] e Cd, Co,
Cr, Cu, Fe, Mg, Mn, Ni, Pb e Zn em cinzas de incineração [Fournier et al., 1997]. Além
disso, equipamentos como o “Discover System” (CEM Corporation, USA), originalmente
desenvolvidos para sínteses orgânicas, podem também ser empregados para o preparo de
amostras. O sistema de operação deste equipamento também é baseado na radiação
focalizada diretamente nas amostras, em um sistema circular inserido em uma cavidade
projetado de tal maneira que direciona a energia microondas a uma área definida. As
condições de reação são reprodutíveis e controladas e pressões da ordem de 25 atm
podem ser obtidas. Uma desvantagem deste sistema é que o equipamento é operado com
apenas um frasco de amostra por vez.

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Decomposições assistidas por radiação microondas 253

8.4. APLICAÇÕES E TENDÊNCIAS

O tratamento de amostras para a dissolução mediante o aquecimento com radiação


microondas tem demonstrado ser um processo mais rápido, eficiente e seguro em
comparação ao aquecimento convencional. Além disso, o uso de recipientes fechados
durante o tratamento com microondas minimiza as possibilidades de contaminação das
amostras e diminui o número de reagentes necessários para converter a amostra em uma
solução, tornando-a adequada para a determinação dos analitos de interesse.
Uma grande variedade de amostras, desde fluidos biológicos até materiais para
catalisadores, passando por amostras de interesse geológico, metalúrgico, águas residuais,
efluentes industriais, alimentos e polímeros, já foram testadas em sistemas assistidos por
microondas. Coletânea de métodos é oferecida pela maioria dos fabricantes desses
sistemas. Não obstante, convém lembrar que os conhecimentos sobre os fundamentos
clássicos dos métodos de digestão são decisivos para o sucesso das reações químicas
assistidas por microondas. Boa parte destes fundamentos são apresentados nos ítens
iniciais desta monografia, mas recomenda-se visitar o SamplePrep Web da Duquesne
University sob a direção do Professor "Skip" Kingston:
http://www.sampleprep.duq.edu/sampleprep/
A existência no mercado de um grande número de fabricantes de fornos de
microondas projetados especificamente para uso em laboratório, é uma indicação do
sucesso deste tipo de aplicação. Os equipamentos foram e vêm sendo constantemente
aperfeiçoados, permitindo que se realizem as digestões com eficiência, rapidez e
segurança. Em futuro próximo, sistemas de análise em fluxo contínuo deverão estar
disponíveis comercialmente. Além dos equipamentos com 6 a 12 frascos, dependendo do
fabricante, que trabalham sob altas pressões, também existem alternativas disponíveis que
trabalham simultaneamente com 24, 42, 48 e até 50 frascos, normalmente trabalhando a
pressão média e que apresentam diferentes configurações e alternativas de segurança.
Enquanto que os rotores que trabalham com 6 frascos são resistentes a pressões de até
100 atm, os rotores que operam com números intermediários, tais como 12, 24, 42 operam
com pressões tipicamente por volta de 30 atm. Os rotores que operam com até 50 amostras
o fazem as pressões atmosféricas, sendo indicados para laboratórios que trabalham com
amostras facilmente digeridas. Outra opção são mini-frascos comercializados em Teflon™
(6 ml) e quartzo (3 ml) e que são inseridos nos frascos de digestão de 100 ml, aumentando
o número de amostras simultaneamente processadas. Esses mini-frascos operam em
temperaturas de até 240 °C, podendo atingir 30 atm de pressão. Além da vantagem do

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254 Decomposições assistidas por radiação microondas

maior número de amostras, esses frascos são ideais quando se trata de amostras
pequenas (pequena massa ou volume), pois perdas são evitadas, além de se utilizar
reduzido volume de reagentes, sendo que o fator de diluição também é otimizado.
Esses novos acessórios apresentam-se atraentes para serem empregados em
laboratórios de rotina, onde um grande número de amostras é processado diariamente,
normalmente com o emprego de blocos digestores com aquecimento convencional.

8.4.1. Uso combinado de radiações microondas e ultravioleta

A decomposição em sistema fechado assistida por microondas em altas


temperaturas empregando radiação ultravioleta foi proposta por Florian & Knapp [ 2001]
(Figura 8.17). Tal sistema foi desenvolvido visando uma completa decomposição, com a
geração de menor teor de carbono orgânico dissolvido. Esse carbono dissolvido
normalmente é encontrado após a grande maioria dos procedimentos de decomposição,
que posteriormente pode agir como interferente na determinação de elementos por ICP-MS
[Krachler et al., 1996; Begerov et al., 1996] e FAAS [Golimowski & Golimowski , 1996]. Na
proposta os autores introduziram uma lâmpada de descarga sem eletrodos, que é colocada
no interior do frasco de digestão e é ativada pela irradiação de microondas. A lâmpada é
construída em quartzo, sendo preenchida com vapor de cádmio (linha de emissão
predominante em 228 nm) e apresentando uma antena na parte superior da lâmpada feita
de molibdênio (Figura 8.17). Cerca de 75 mg de leite desnatado eram transferidos para um
frasco de decomposição de quartzo, seguidos de 7 ml de água e 50 µl HNO3 mais 50 µl
HCl, ambos concentrados. Imediatamente antes de fechar o frasco, 1 ml de H2O2 era
adicionado. O sistema era então irradiado com microondas por 30 min, sendo mantido na
pressão de 72 bar durante a decomposição. Após resfriamento do sistema, era feita a
aferição à 10 ml com água. Segundo os autores, o tempo de decomposição da amostra no
sistema comparado aos sistemas tradicionais de decomposição por radiação ultravioleta foi
reduzido por um fator de 5 vezes, enquanto que a concentração inicial de carbono orgânico
dissolvida é reduzida por um fator de 50 vezes. Boa concordância foi encontrada na
determinação de Cd, Cu, Fe e Pb em material de referência certificado de leite desnatado
(IRMM, CRM 151).

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Decomposições assistidas por radiação microondas 255

B
2
3

Figura 8.17. Sistema fechado de decomposição assistida por microondas em altas


temperaturas e radiação ultravioleta. 1- desenho esquemático do sistema de decomposição
com lâmpada UV; a- plug; b- disco de ruptura; c- tampa de vedação; d- tampa com rosca; e-
radiação de microondas; f- revestimento de PEEK; g- frasco de decomposição de quartzo;
h- lâmpada de descarga sem eletrodos; i- radiação ultravioleta; j- base do copo; k- fluxo de
ar; 2- frasco de quartzo com a lâmpada UV; 3- rotor e o sistema de decomposição [Florian &
Knapp, 2001].

8.4.2. Uso de radiação microondas em frascos fechados com sistema de


pressurização externa
Sistema de decomposição fechado foi desenvolvido, empregando-se microondas
focalizadas para decompor amostras com maior eficiência [ Matusiewicz, 1994]. O sistema é
capaz de suportar temperaturas e pressões de até 300 °C e 100 bar, respectivamente, o
que é necessário para a completa destruição de todos os tipos de materiais orgânicos,
utilizando-se apenas HNO3, conforme previamente enfatizado por Würfels et al. [1989]. O
sistema apresenta algumas vantagens em relação à decomposição assistida por
microondas, pois os frascos de PTFE normalmente empregados neste procedimento não
podem suportar tal temperatura. Levine et al. [1999] fizeram uma avaliação do desempenho
desse sistema na decomposição de amostras botânicas, biológicas e geológicas. O tempo

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256 Decomposições assistidas por radiação microondas

necessário de decomposição para amostras botânicas foi de cerca de 10 min, enquanto que
para amostras geológicas e biológicas foi de aproximadamente 15 min. Produtos orgânicos
de decomposição não-voláteis, normalmente presentes nas soluções decompostas por
procedimentos convencionais, estão ausentes ou significativamente reduzidos quando o
sistema é empregado para decomposição.
A versão do sistema proposto por Matusiewicz [1999] permite atingir temperaturas e
pressões de até 320°C e 120 bar, além de possibilitar a decomposição de até 6 amostras
simultaneamente (Figura 8.18).

A B

Figura 8.18. Sistema de decomposição com HNO3 sob pressão a 320°C com aquecimento
por microondas focalizado (HPA-FM). A) 1- sistema de antena; 2- frasco de decomposição
de quartzo com tampa; 3- suporte; 4- câmara de alta pressão; 5- entrada de gás; 6- saída
de gás; 7- anel de ajuste; 8- tampa de proteção; 9- disco de ruptura de metal; 10- câmara
de expansão; 11- tubo e disco de segurança. B) 1- frasco de digestão de quartzo; 2-
vedante de PTFE; 3- tampa de quartzo; 4- mola de tungstênio; 5- tampa de PTFE.[
Matusiewicz, 1994]

Em trabalho realizado em 1995, Légère & Salin [1995] discutiram diversos


procedimentos para a decomposição de amostras. Os autores propuseram um sistema de
decomposição baseado no encapsulamento de amostras e decomposição em microondas
sob pressão. A cápsula, feita de poliacrilamida, com 70 mg de peso e 2 ml de capacidade
contendo a amostra, era colocada em um tubo de PTFE-PFA em forma de "U" (9,5 mm d.i.),

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Decomposições assistidas por radiação microondas 257

que suportava temperaturas de até 200 oC, com válvulas para fechamento nas
extremidades. A remoção da amostra decomposta era feita com uma haste flexível de PTFE
(a mesma empregada para a colocação da cápsula). O sistema é facilmente mecanizável.
Outra vantagem é que o diâmetro interno do tubo era relativamente grande, não
ocasionando problemas de seccionamento da amostra, pois as bolhas saem da solução
com facilidade (até os gases são aquecidos).

8.4.3. Uso de mini-frascos

As condições ótimas para a decomposição de amostras em análise de traços foram


estabelecidas, há mais de vinte anos, através de um extenso trabalho publicado por Tölg,
em 1972. Entre estas podem ser citadas: uma relação favorável entre a quantidade de
amostra e a superfície do recipiente, emprego de um mínimo excesso de reagentes que
possam ser facilmente purificados e trabalho em uma atmosfera limpa. Em trabalhos mais
recentes, estas assunções tem sido confirmadas e, atualmente, os métodos analíticos
requerem: (i) o emprego de pequenas quantidades de reagentes (de alto grau de pureza);
(ii) que a relação entre a superfície do frasco e a da amostra seja a menor possível; (iii) que
materiais inertes sejam empregados como recipientes; (iv) a facilidade de processamento
de grande número de amostras; e (v) a miniaturização. Normalmente, técnicas morosas não
são apropriadas para o manuseio de um número elevado de amostras. Em adição, o uso de
sistemas fechados é preferido e, em alguns casos, a matriz orgânica deve ser
completamente decomposta.
Se todas as etapas do procedimento analítico, desde a tomada da amostra,
pudessem ser feitas sempre no mesmo recipiente, os riscos de perdas e de contaminação
seriam reduzidos ao mínimo. A coleta, a pesagem e a preservação da amostra poderiam ser
feitas in loco e, do transporte ao laboratório até a medida final, os procedimentos poderiam
ser feitos com facilidade, simplicidade e segurança. De acordo com estes conceitos,
Sperling [1984] desenvolveu um procedimento para a decomposição de amostras
ambientais e posterior determinação de Cd por espectrometria de absorção atômica com
forno de grafite (GFAAS). A decomposição era feita em frascos fechados de polipropileno
(1,5 e 4 ml de capacidade), aquecidos a 70 °C por uma noite. O procedimento consistia na
decomposição da amostra com mistura ácida (H2SO4 + HNO3 : 1 + 4 v/v) e aferição de
volume no próprio frasco usado para a decomposição; a proporção de ácido era de 50 µl
para cada 5 mg de amostra. Segundo o autor, com esse procedimento era possível o
processamento de um grande número de amostras de cada vez e elevada sensibilidade, já
que a amostra não era excessivamente diluída durante o procedimento. Campos [1988]

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258 Decomposições assistidas por radiação microondas

adaptou este procedimento para a decomposição de amostras de vegetais e determinação


de Cd, Cu e Pb por GFAAS: até 5 mg de amostra + 50 µl de mistura sulfonítrica (H2SO4 +
o
HNO3 : 1 : 3 v/v) e aquecimento em estufa, à 80 C, por 12 horas. O autor observou boa
concordância entre os valores encontrados e valores para material de referência certificado,
Spinach leaves: 91,7% (Cd), 95,1% (Pb) e 108% (Cu), atribuindo a variação à pequena
massa de amostra utilizada.
Com base nestes trabalhos, Flores [1997] propôs a decomposição de amostras de
erva-cidreira e fígado bovino empregando recipientes fechados de polipropileno para as
etapas de decomposição, diluição e, mesmo, de determinação de Cr e Cu por GF AAS e Se
por HG AAS. A decomposição foi realizada em meio 80 µl de ácido sulfúrico e 150 µl de
ácido nítrico concentrados, com aquecimento em estufa ou em forno de microondas
doméstico, com prévia calibração de potência. A concordância entre os resultados
encontrados pelo autor com os referidos para amostras certificadas foi de 86 a 98% para
todos os elementos empregando-se a decomposição em estufa. Com aquecimento com
microondas, a concordância foi de 95 a 98 % para Cr e Cu. Para Se, com aquecimento com
microondas, a concordância foi de 57% para fígado bovino e 82% para farinha de arroz.
Neste caso, o princípio do “frasco único” foi empregado em quase sua totalidade.
Posteriormente, Flores et al. [2001] desenvolveram um procedimento para a
determinação de As em amostras de cabelo, também empregando uma estufa convencional
e um forno de microondas doméstico para o aquecimento. A determinação de As em
amostras biológicas por espectrofotometria de absorção atômica com geração de hidretos
(HGAAS) é sujeita a problemas devido à dificuldade de decomposição de espécies
orgânicas contendo As, que não são detectadas pelos sistemas convencionais. Para isto,
agentes oxidantes fortes, aliados a sistemas pressurizados, precisam ser empregados.
Entretanto, no sistema proposto, apesar das condições relativamente brandas e da
decomposição não ser completa (25 a 40% de carbono residual), não houve interferências
na recuperação do analito.
O emprego de frascos de polipropileno fechados é adequado para a decomposição
por via úmida de amostras biológicas (Figura 8.19). O procedimento mostra-se apropriado
para a decomposição de um grande número de amostras, de maneira simples e com menor
consumo de reagentes (da ordem de µl), mínima diluição, além de ser comparável a outros
procedimentos descritos na literatura. Além disso, a facilidade de manuseio e pelo fato de
serem descartáveis, torna seu emprego atraente para análises de rotina. As possibilidades
de contaminação são minimizadas, pois após a adição dos reagentes o frasco só é aberto
para a etapa de diluição e de determinação.

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
Decomposições assistidas por radiação microondas 259

4,7 cm

Figura 8.19. Minifrasco de polipropileno empregado para decomposição de amostras


biológicas [Flores et al., 2001].

8.4.4. Decomposição de amostras empregando ácidos diluídos

Na decomposição de amostras empregando radiação microondas, o tipo de ácido,


assim como sua quantidade são importantes parâmetros a serem considerados, seja por
razões de segurança (por exemplo, uso de ácido sulfúrico em frascos poliméricos em
sistemas fechados, devido a seu alto ponto de ebulição, ou ácido perclórico, que apresenta
perigo de explosão quando os vapores do ácido reagem com vapores orgânicos), ou
mesmo de eficiência de digestão. Ácido nítrico é o mais utilizado, sendo normalmente
adicionado na forma concentrada, sendo indicado para a decomposição de amostras
orgânicas, dependendo dos teores da matriz da amostra, entre 0,4 a 2,0 ml por 200 mg de
amostra [Kingston & Haswall, 1997].

A possibilidade de se diminuir a quantidade de reagentes adicionados durante a


reação é atrativa por diversos fatores, entre eles a segurança, a geração de resíduos, os
custos e a redução dos valores do branco. Além disso, a geração de soluções com menor
acidez é interessante quando se trata de determinação empregando sistemas de
nebulização da amostra. Soluções ácidas diluídas também previnem a ocorrência de danos
aos equipamentos. A adição de moléculas de água ao sistema microondas é interessante,
em função da alta capacidade calorífica da água, o que facilita o aquecimento. Além disso,
pode prevenir a formação de sais insolúveis que poderiam ser formados com o emprego de
HNO3 concentrado e elevações bruscas de pressão e temperatura em sistemas com
cavidade, agindo como um amortecedor.

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260 Decomposições assistidas por radiação microondas

Apesar de serem inicialmente propostos para extrações de elementos inorgânicos,


os ácidos diluídos são também empregados para digestões por via úmida ou via seca. Na
literatura podem ser encontrados trabalhos que utilizam os ácidos nítrico e clorídrico, sendo
que o HNO3 diluído é o mais freqüentemente utilizado [Wietska et al., 1996; Chow et al.,
1995; Zhou et al., 1996]. Além do ácido nítrico, peróxido de hidrogênio, H2O2 30%, m/v é
normalmente utilizado como agente oxidante auxiliar durante a decomposição assistida por
radiação microondas [Kingston & Haswall, 1997], sendo que a combinação de H2O2 e HNO3
-1
diluído também foi avaliada, e concentrações tão diluídas quanto 2 mol l de HNO3
apresentou-se eficiente para a decomposição de amostras de plantas. Resíduos orgânicos
resultantes dessas decomposições, analisados por espectroscopia de ressonância
magnética nuclear (RMN), confirmaram que em função das altas temperaturas obtidas nos
sistemas fechados, um ambiente oxidante é obtido, mesmo com soluções de ácido nítrico
diluído. Quando comparados, o espectro após digestão com HNO3 2 mol l-1 é mais simples
-1
que o obtido com HNO314 mol l , indicando que o emprego de ácidos concentrados resulta
na ocorrência de reações de oxidação mais aleatórias, o que provavelmente seja a causa
para a formação de produtos de decomposição mais complexos. [Araújo et al., 2002].
A possibilidade de redução dos volumes de reagentes é atrativa devido à
possibilidade de minimização da quantidade de resíduos gerados, redução nos custos,
obtenção de menores valores de branco e digeridos mais apropriados para introdução por
nebulizadores em equipamentos de análise. Está claro que o aumento de pressão dentro do
frasco de reação promove a elevação do ponto de ebulição da mistura de digestão ácida e a
elevação de seu potencial oxidante. Conseqüentemente, as reações de oxidação são
favorecidas e mais rápidas nessas condições. No entanto, também é necessário que os
processos químicos envolvidos sejam considerados quando se considera uma explicação
sobre a eficiência das decomposições quando ácidos diluídos são empregados. Durante a
oxidação dos compostos orgânicos da amostra pela ação do HNO3 ocorre a formação de
NO gasoso. O NO é removido do meio reacional aquecido e reage com o O2 presente na
fase gasosa do frasco de reação. A seguir, o NO2 é gerado e reabsorvido na solução,
-
resultando na formação de NO3 e NO, sendo que o ciclo de reação se repete, até que não
haja a presença de O2 na fase gasosa do sistema [Nekrásov, 1981, Lee, 1996].

2 NO(g) + O2 ⇒ 2 NO2(g)

2 NO2(g) + H2O(l) ⇒ HNO3 + HNO2

HNO2 ⇒ H2O + NO2 + NO

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Decomposições assistidas por radiação microondas 261

8.4.5. Combustão iniciada por microondas em sistema fechado para a


decomposição de amostras biológicas

O processo de combustão origina-se da interação de fenômenos físicos e


químicos. Dentre os fenômenos químicos, estão a ocorrência de reações exotérmicas, as
ondas de detonação e a emissão de luz. Já os fenômenos físicos envolvem, principalmente,
o transporte de matéria e energia, como a condução de calor e a difusão das espécies
químicas. Normalmente estão envolvidos dois componentes principais, o combustível e o
oxidante. Um sistema simples de combustão pode ser aquele que ocorre com materiais pré-
misturados em forma gasosa, sendo aquecido lentamente em um sistema fechado. Se A
temperatura fornecida não ultrapassar um determinado valor, o calor produzido pela reação
será dissipado através das paredes do recipiente [Barnard & Bradley, 1985]. Entretanto,
quando este valor é ultrapassado, dependendo das propriedades físicas dos reagentes e do
recipiente, a taxa de liberação de energia oriunda da reação pode exercer a taxa de perda
através das paredes do recipiente. Se isso acontecer, a temperatura irá aumentar,
consequentemente, aumentando a velocidade da reação e a taxa de liberação de energia
da reação. Sendo assim, a reação será acelerada indefinidamente (de acordo com o
sumprimento adequado de reagentes), levando a uma explosão [Mesko, 2004].
Os procedimentos de combustão, normalmente, envolvem a ação direta do
oxigênio como oxidante da matéria orgânica, diferentemente dos procedimentos por via
úmida, que utilizam ácidos inorgânicos. Isso pode ser visto como uma vantagem,
principalmente no caso do oxigênio, que apresenta mínimos teores de elementos traço. A
combustão para o preparo de amostras pode ser feita em sistemas abertos [Hoening et al.,
1998] ou fechados [Souza et al., 2001], que utilizam altas temperaturas, mas também pode
ser realizada a baixas temperaturas [Anderson, 1987].
Recentemente foi proposto procedimento de digestão de amostras orgânicas
baseado na combustão da amostra cuja ignição é iniciada por radiação microondas [Flores
et al., 2004; Mesko, 2004]. O sistema foi avaliado para a decomposição de fígado bovino e
leite em pó, apresentando eficiência para a recuperação de analitos e resultando baixos
teores de carbono residual, rapidez e baixo consumo de reagentes. Além disso, o suporte
da amostra pode ser inserido em frascos comerciais de quartzo (Figura 8.20) e a seguir
adaptado a equipamentos comerciais, com poucas modificações (Figura 8.21).

© Francisco José Krug, fjkrug@cena.usp.br. VI Workshop sobre Preparo de Amostras, Santa Maria, 2006.
262 Decomposições assistidas por radiação microondas

Entrada/escape
de gases

Válvula para
escape de gases

20 mm

13 mm
Suporte de quartzo
para a amostra
13 mm

50 mm
Solução
absorvedora

Figura 8.20. Sistema de decomposição por combustão iniciada por microondas e detalhe do
suporte de quartzo [Flores et al., 2004].

Mesko [2004] avaliou diferentes modelos de suporte de quartzo para a amostra,


optando por um modelo suspenso na parte superior do frasco de decomposição,
possibilitando uma etapa de refluxo e a proteção da tampa do frasco da chama gerada
durante o processo de combustão. A amostra é prensada na forma de pellet e colocada
sobre um disco de papel na base do suporte, ao qual foi adicionada solução de nitrato de
amônio, utilizado como iniciador do processo de combustão. Ao frasco de digestão de
quartzo era adicionada uma solução absorvedora de analitos, água ou ácido nítrico. O
sistema, fechado e pressurizado com oxigênio, era colocado no interior de um forno de
microondas comercial (Figura 8.21). Uma vez iniciada a irradiação, o tempo necessário para
o início da combustão foi de cerca de 3 s. O tempo de irradiação com microondas foi de 30
s e o tempo de combustão para 100 mg da amostra de aproximadamente 10 s. O sistema
foi aplicado para a determinação de Cu e Zn em amostras certificadas de fígado bovino e
leite em pó, tendo-se obtido resultados superiores a 96 % de recuperação. O teor de
carbono residual foi inferior a 1,3% após a combustão das amostras e inferior a 0,4 %
quando foi feita a etapa de refluxo.

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Decomposições assistidas por radiação microondas 263

a b

Figura 8.21. (a) Proteção do frasco de quartzo com corte frontal para visualização do
processo de combustão da amostra e (b) ilustração da visualização do processo de
combustão [Mesko, 2004]

A técnica de combustão iniciada por radiação microondas, além das vantagens


sobre outras técnicas convencionais de combustão apresenta algumas particularidades
específicas que podem ser assim relacionadas: i) permite a combustão de até 500 mg de
amostra em um frasco de volume relativamente pequeno; ii) o frasco usado para
decomposição por via úmida convencional é o mesmo usado nesta técnica e nenhuma
alteração no modelo do frasco, partes do rotor e sistemas de controle de pressão são
necessários; iii) até oito amostras podem ser simultaneamente queimadas no forno de
microondas comercial (Multiwave 3000), aumentando a freqüência analítica; iv) para a
ignição da amostra, a técnica usa a radiação microondas convencionalmente aplicada na
decomposição por via úmida, não havendo a necessidade da utilização de aparatos como
eletrodos metálicos ou lâmpadas de radiação infravermelha; v) a etapa de descontaminação
é executada de forma rápida, utilizando a etapa de aquecimento da decomposição
convencional; vi) os valores obtidos para os brancos são, relativamente, baixos; vii) a
temperatura atingida durante a combustão é da ordem de 1300 °C, assegurando a completa
destruição da matriz orgânica, mesmo de compostos relativamente estáveis (p.ex.,
arsenobataína); viii) ao contrário dos sistemas envolvendo a bomba de combustão e frasco
de Schöniger, a técnica de combustão assistida por microondas permite que uma etapa de
refluxo seja feita após a combustão, o que assegura uma eficiente remoção de partículas
que possam ter ficado aderidas às paredes internas do frasco, além de, dependendo da
solução de refluxo, auxiliar na decomposição de material não decomposto (ácido nítrico
concentrado pode ser usado sem danos ao sistema).

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264 Decomposições assistidas por radiação microondas

Entre aos inconvenientes que podem ser esperados, estes são similares aos
sistemas convencionais (p.ex., Trace-O-Mat), tais como a possível adsorção de analitos no
suporte de quartzo e a necessidade de que as amostras sejam prensadas previamente à
queima.

8.4.6. Decomposição com radiação focalizada - métodos alternativos

Com já anteriormente discutido, a digestão empregando microondas com radiação


focalizada apresenta-se como uma alternativa bastante interessante quando se trabalha
com grandes massas de amostras orgânicas. No entanto, a elevada acidez do digerido
pode resultar em dificuldades analíticas quando técnicas espectroscópicas de determinação
são empregadas [Nóbrega et al., 2001]. A seguir são apresentadas estratégias que podem
ser aplicadas para diminuir a concentração ácida dos digeridos, com concomitantes redução
do branco analítico e no consumo de reagentes, e obtenção de baixos teores de carbono
residual.

Decomposição em fase vapor

A decomposição em fase vapor é uma alternativa para se evitar a contaminação


por reagentes e do ambiente do laboratório. Consiste basicamente no contato da amostra
com atmosfera enriquecida por vapores ácidos obtidos a partir do aquecimento do ácido ou
da mistura ácida. As condições de decomposição previnem a volatilização de contaminantes
presentes nos ácidos e a amostra é decomposta sem contato direto com o ácido na forma
líquida [Povondra, 1992], ocorrendo simultaneamente a decomposição da amostra e a
purificação do ácido, resultando em diminuição nos valores de brancos e no consumo de
ácido [Matusiewcz, 1991].
Matusiewicz et al. [1989] foram os primeiros a utilizar a decomposição em fase
vapor para a decomposição assistida por microondas por cavidade, reduzindo o tempo de
preparo das amostras. Outros sistemas foram propostos a seguir [Amarasiriwardena et al.,
1998; Eiola & Peramaki, 2001], sendo que adição de uma pequena alíquota de água às
amostras, facilitando a absorção da radiação microondas, possibilitou uma eficiente
decomposição de amostras biológicas em aproximadamente 18 min [Amarasiriwardena et
al., 1998].
Outro emprego dos sistemas em fase vapor é na limpeza de materiais para se
evitar contaminação [Barnes et al., 1998], existindo um sistema comercial automático de
refluxo com controle programável de temperatura e tempo de aquecimento (TraceClean
System, Milestone), que emprega esta alternativa [Richter, 2003].

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Decomposições assistidas por radiação microondas 265

A decomposição em fase vapor também foi adaptada a sistemas de decomposição


microondas com radiação focalizada. Para isso, um suporte confeccionado em PTFE,
equipado com 3 ou 4 mini-frascos para a colocação das amostras foi desenvolvido e
adaptado ao frasco de vidro do forno. Na Figura 8.22 é apresentado o suporte contendo 4
mini-frascos. Solução contendo somente ácido nítrico [Araújo et al., 2000; Araújo et al.,
2003], ou uma mistura contendo ácido nítrico e ácido sulfúrico [Trevizan et al., 2003], foi
aquecida para a geração dos vapores ácidos.

Figura 8.22. Suporte e mini-frascos confeccionados em PTFE desenvolvido para a


decomposição em fase vapor em sistema microondas com radiação focalizada [Araújo et
al., 2000].

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266 Decomposições assistidas por radiação microondas

Amostras biológicas foram pesadas diretamente nos mini-frascos e receberam


agente oxidante (peróxido de hidrogênio ou hipoclorito de sódio). A seguir os mini-frascos
eram adaptados à haste do suporte, que era inserida no frasco de vidro do equipamento
contendo a solução ácida no fundo, sendo então iniciada a digestão em fase vapor. Após as
decomposições, os mini-frascos foram diretamente transferidos para o auto-amostrador de
espetrômetro de absorção atômica com forno de grafite (GFAAS), sendo determinados ferro
e cobalto. Visando maior aplicabilidade, frascos com maior volume interno possibilitaram a
determinação de diferentes analitos por espectrometria de emissão óptica com plasma
acoplado (ICP OES) [Trevizan et al., 2003]. Para se evitar que diferentes resultados fossem
obtidos em função das diferenças de temperatura resultante ao longo do frasco de digestão
(os experimentos demonstraram que apenas o frasco inferior recebia a radiação
microondas), foi adicionado hipoclorito de sódio que, em meio ácido, forma o gás cloro, um
agente oxidante bastante efetivo, conforme pode ser observado na equação descrita a
seguir:

OCl- + H+ ⇒ HOCl

HOCl + H+ + Cl- ⇒ Cl2 + H2O

Comparando-se o potencial de redução entre os 2 agentes oxidantes, H2O2 e HOCl


[Weast, 1984], conclui-se que as duas reações são favoráveis em meio ácido, porém a
decomposição de H2O2 forma somente moléculas de água como produto, enquanto que a
decomposição de HOCl forma também Cl2, aumentando o poder oxidante da reação:

H2O2 + 2 H+ + 2 e- ⇔ 2 H2O E0 = 1.78 V

2 HOCl + 2 H+ + 2 e- ⇔ Cl2 + H2O E0 = 1.61 V

Cl2 + 2 e- ⇔ 2 Cl- E0 = 1.36 V

No entanto, a escolha do melhor agente oxidante irá depender das características


das amostras, tais como teor de gordura ou proteína.

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Decomposições assistidas por radiação microondas 267

Utilização de mini-frascos pra decomposição de amostras líquidas

Baseando-se no princípio do frasco único para execução de todo procedimento


analítico, foi proposto um suporte de PTFE ao qual são adaptados 4 mini-frascos de
polipropileno de 5 ml. Esse suporte era fixado em uma haste para permitir a introdução dos
mini-frascos no interior do frasco de vidro do equipamento [Tan et al., 2001; Oliveira, 2003].
Esses frascos tiveram sua parte superior especialmente adaptada para a introdução da
haste com as amostras (Figura 8.23)

guia de ondas

mini-frascos – amostras

Figura 8.23. Posicionamento dos mini-frascos de PTFE para digestão de amostras em


forno microondas com radiação focalizada [Tan et al., 2001; Oliveira, 2003].

Com o sistema proposto, foi possível a determinação de Cu, Fe e Zn em amostras


de fígado bovino e folhas de vegetais, e de Cu, Fe, Zn, Mn e Se em amostras de cabelo
[Oliveira, 2003].

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268 Decomposições assistidas por radiação microondas

Adição gradual da amostra ao reagente pré-aquecido

O procedimento convencional de decomposição assistida por microondas com


radiação focalizada consiste na adição de reagentes concentrados sobre a amostra e então
a mistura é aquecida. Todavia, é possível a obtenção de um meio reacional mais drástico se
a amostra for adicionada ao ácido ou mistura de ácidos já previamente aquecidos,
ocasionando a decomposição em meio ácido mais concentrado, pois o ácido estará sempre
em excesso em comparação à amostra, ou seja, o ácido está menos diluído pela amostra
do que no procedimento convencional [Nóbrega et al., 2002a; Nóbrega et al., 2002b; Santos
et al., 2005].
Nesta proposta, o reagente é aquecido até seu ponto de ebulição e então são
adicionadas gradualmente alíquotas da amostra, sendo que cada porção adicionada é
digerida antes da adição da próxima alíquota. Essa estratégia permite a redução do tempo
envolvido e a decomposição de uma grande quantidade de amostra, mesmo com menores
volumes de ácido, permitindo a obtenção de menores valores de branco e melhor
sensibilidade.
O bom desempenho deste tipo de decomposição provavelmente esteja relacionado
à reatividade dos radicais gerados durante o aquecimento dos ácidos concentrados e à
reação exotérmica durante a decomposição, que irá aumentar ainda mais a velocidade de
aquecimento do meio reacional.

Deve-se tomar cuidado com esse tipo de reação para se evitar acidentes. Não
é recomendado que se execute esse procedimento em sistemas abertos, como
chapas aquecedoras, blocos digestores ou banhos de areia, nos quais o analista é
quem realiza o processo de adição da amostra.

No caso da proposta desenvolvida, foi utilizado sistema comercial, que conta com
acessório que realiza a adição automática de reagentes de forma gradual e controlada,
nesse caso empregado para a adição das amostras. Para se evitar contaminação entre as
amostras, deve ser estabelecida uma etapa de limpeza. Amostras de leite bovino e de óleo
foram eficientemente decompostas empregando esse procedimento. Como exemplo, 5 ml
de leite foram gradualmente adicionados (10 alíquotas de 0,5 ml) sobre uma mistura ácida
pré-aquecida contendo 3 ml de HNO3 + 1 ml H2SO4, sendo que H2O2 foi adicionado nas
etapas finais do procedimento. O procedimento proposto permite a decomposição de uma
maior massa de amostra e utiliza um menor volume de reagentes, em comparação ao
procedimento convencional empregando forno microondas com radiação focalizada. No

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Decomposições assistidas por radiação microondas 269

exemplo anterior, normalmente é recomendada a utilização de 2,5 ml de leite. No entanto,


foram empregados com sucesso 5 ml, sendo que maior eficiência é obtida quando a adição
é realizada em 10 aliquotas de 0,5 ml do que em 2 aliquotas de 2,5 ml, sendo o volume de
ácido utilizado reduzido de 10 para 3 ml (HNO3) e de 3 para 1 ml (H2SO4). Com essa
estratégia, a acidez final foi cerca de 2,4 vezes inferior ao método convencional e o carbono
orgânico residual foi reduzido de 20% para aproximadamente 2% [Santos et al., 2005].
O mesmo procedimento foi empregado para a decomposição de óleo diesel. Nesse
caso, para um volume de 2 ml de óleo diesel decomposto nas mesmas condições houve a
redução de 19 ml HNO3 + 10 ml H2SO4, ambos concentrados, para 5 ml HNO3 + 1 ml
H2SO4. Isso indica que a solução final apresenta-se menos ácida e poderá ser menos
diluída antes da determinação, melhorando a sensibilidade.
Como alternativa para se contornar problemas relacionados a amostras viscosas
ou mesmo a contaminação entre amostras, foi proposta a adição das amostras previamente
inseridas em cápsulas gelatinosas, vendidas em farmácias de manipulação [Bressani,
2005]. A decomposição microondas empregando cápsula foi primeiramente proposta para
introdução de amostras sólidas em sistemas mecanizados [Légére & Salin, 1995]. Massa
equivalente a 300 mg de óleo lubrificante foi pesada diretamente nas cápsulas de gelatina,
sendo que 2 cápsulas foram adicionadas a uma mistura pré-aquecida contendo 4 ml HNO3
+ 3 ml H2SO4 através do condensador do equipamento, durante a pausa do programa de
aquecimento. As cápsulas eram introduzidas em intervalos de 1 min, com o objetivo de se
permitir uma decomposição parcial antes da adição da próxima alíquota. Quando
comparado ao sistema convencional empregando microondas com radiação focalizada para
a decomposição de óleo lubrificante, significativa redução no volume de ácidos utilizado foi
observada. Ácido nítrico concentrado foi reduzido de 19 para 7 ml e H2SO4 de 10 para 3 ml,
além de também ser obtida redução no carbono residual.

Decomposição em linha
A primeira proposta para utilização de sistemas por injeção em fluxo acoplados a
radiação microondas foi feita por Burguera et al. [1988]. Desde então, diferentes autores
fizeram propostas para aplicação de sistemas, procurando acoplar o tratamento da amostra
(normalmente digestão), com o sistema de detecção para a determinação de analitos. Para
isso foi empregado tanto o forno tipo caseiro [Pereira-Filho & Arruda, 1999], quanto os
sistemas comerciais, com radiação focalizada [Arruda et al., 1997; Luque-Gárcia & Luque
de Castro, 2003]. Esses sistemas visam a automação analítica, com redução do tempo
entre a chegada da amostra ao laboratório e os resultados finais, além da menor

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270 Decomposições assistidas por radiação microondas

manipulação da amostra, com redução dos riscos de contaminação e maior segurança ao


operados.
Como exemplo da aplicação aos sistemas microondas com radiação focalizada, um
sistema de fluxo foi utilizado para digestão em linha de amostras de suco de laranja para a
determinação de Ca, Cu, Fe, K, Mg, Mn, Na, P e Zn por espectrometria de emissão óptica
com plasma indutivamente acoplado. Uma bobina de reação de PTFE (4 m de comprimento
e 1,6 mm de diâmetro interno) foi posicionada no interior da cavidade de vidro do forno de
microondas com radiação focalizada (Figura 8.24). Alíquotas de 500 µl de amostra e de
1000 µl de reagente (80% v/v HNO3) foram misturadas em uma confluência e conduzidas
para a bobina de reação utilizando ar como carregador. O desvio padrão relativo para cinco
determinações da mesma amostra usando o método proposto foi inferior a 5%.

Figura 8.24. (A): diagrama do injetor-comutator; S: amostra; R: reagente; C: fluxo


transportador (3,0 ml min-1); W: descarte; LS: alça de amostragem; LR: alça de reagente.
(B): diagrama do sistema de digestão em linha: a: magnetron; b: guia de ondas; c: frasco de
vidro; d: bobina de PTFE; e: sistema para resfriamento em PVC; f: tampa de borracha; g:
bobinas de PTFE (5cm); h: balão volumétrico (10 mL) [Filli et al., 2003].

O sistema apresentou boas recuperações de 91 a 111% para adições de


quantidades conhecidas dos elementos de interesse. Os resultados obtidos foram
concordantes a um nível de confiança de 95% com aqueles obtidos por digestão total. Com
este método de digestão foi possível processar 12 amostras h-1, minimizando
contaminações, consumo de amostra e reagentes e gerando pequena quantidade de
resíduos [Filli et al., 2003].

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Decomposições assistidas por radiação microondas 271

8.5. CONCLUSÕES

Como pode ser observado, existe uma grande variedade de propostas e


alternativas que podem ser exploradas. Não foram discutidos os métodos de preparo de
amostras que empregam sistemas de extração e hidrólise, outro ramo da química onde a
interação da radiação microondas para a quebra das ligações entre o analito e a matriz
apresenta-se bastante promissora. Outro fato que deve ser enfatizado são os novos
equipamentos que possibilitam a digestão simultânea de um maior número de amostras. O
desenvolvimento de procedimentos analíticos de rotina demanda um grande número de
amostras a serem processados, os que já foi parcialmente resolvido pelas modernas
técnicas analíticas de detecção. No entanto o tempo envolvido nos procedimentos de
preparo das amostras ainda necessita redução.
Algumas das propostas discutidas, que se reportam ao uso de frasco único e
empregam pequenos volumes de amostras, mostram-se adequadas, pois permitem a
decomposição simultânea de um maior número de amostras e evitam o uso de um grande
volume de ácidos, o que se mostra ambientalmente adequado, pela menor geração de
resíduos e melhores limites de detecção pela menor necessidade de diluição antes da
determinação. Além disso, a comercialização de equipamentos com rotores com um maior
número de amostras a serem tratadas simultaneamente também deverão ser cada vez mais
utilizados. As pressões relativamente baixas (até 30 atm) deste tipo de sistema não se
apresentam como problema, pois estudos já demonstraram a obtenção de eficientes
decomposições empregando esse tipo de equipamento (Bocca et al, 2003). Por outro lado,
digestões drásticas serão ser cada vez menos necessárias, considerando que as espécies
químicas deverão ser analisadas conforme sua atuação na matriz, sendo que a extração
será o procedimento de preparo mais empregado, aqui se considerando a especiação
química. Seguindo essa tendência, os procedimentos de preparo de amostras deverão ficar
cada vez mais brandos e gradualmente procedimentos drásticos de preparo, que empregam
grandes quantidades de energia, fortes reagentes oxidantes e altas temperaturas e
pressões serão substituídos por métodos menos agressivos, nos quais o analito é separado
da matriz sem a necessidade de decomposição total da amostra. Os métodos assistidos
por radiação microondas se mostram adequados devido à possibilidade de se controlar as
condições da reação, sendo que o estabelecimento de procedimentos voltados para essa
aplicação é um desafio a ser enfrentado pelos pesquisadores.

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272 Decomposições assistidas por radiação microondas

8.6. MEDIDAS DE SEGURANÇA NO USO DE MICROONDAS

Uma das primeiras considerações a se ter quando se usam radiações é certificar-


se de que as mesmas se encontram contidas em um espaço fechado. Em relação ao forno,
seu desenho é pensado de tal forma a garantir que não haja vazamento de radiação. Cada
sistema possui sistemas de segurança que não permitem o funcionamento do magnetron
quando não existem condições mínimas de segurança neste aspecto. Assim, é importante
que se reflita sobre a adequação de fornos domésticos para uso em laboratório,
certificando-se de que as modificações feitas não constituem possíveis causas de
vazamento de radiação. Qualquer indício de corrosão pode significar um alto nível de
vazamento de radiação.
Com respeito ao uso de recipientes fechados para a digestão de amostras, deve-se
ter a precaução de evitar superaquecimento e pressões elevadas que possam causar
rupturas do recipiente com as conseqüentes possibilidades de danos ao equipamento e
riscos físicos ao analista. Quando ocorrer explosão do recipiente e/ou derrame de líquidos
corrosivos no interior do forno, deve-se fazer uma investigação nos sistemas de segurança.
Em caso de acidentes, o mais importante, obviamente, é a integridade física do analista.

8.7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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