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Modulo de ………………

Antropolologia Cultural

Universidade Pedagógica
Centro de Educação Aberta e a Distância - CEAD
Direitos de autor (copyright)
Este módulo não pode ser reproduzido para fins comerciais. No caso de reprodução deve ser mantida
a referência à Universidade Pedagógica e aos Autores do módulo.

Rua Comandante Augusto Cardoso nº 135


Telefone: 21-320860/2
Fax:21-322113
Agradecimentos
Universidade Pedagógica, Centro de Educação Aberta e à Distância gostaria de agradecer a
colaboração dos seguintes indivíduos e instituições na elaboração deste módulo:

À COL pela disponoblização do Template usado na produção dos Módulos.

À CIINED pela orientação e apoio prestados.

Ao Magnífico Reitor, Directores de Faculdade e Chefes de Departamento pelo apoio prestado em


todo o processo.
Ficha Técnica

Autor: - Martinho Pedro

- Alipio Siquisse

Desenho Instrucional: Suzete Buque

Revisão Linguística: Casimiro Chachuaio

Maquetização: Fátima Alberto Nhantumbo

Edição: Anilda Ibrahimo Khan


Antropolologia Cultural i

Índice
Visão geral 1
Benvindo ao Módulo de Antropologia Cultural ............................................................... 1
Objectivos do curso .......................................................................................................... 1
Quem deveria estudar este módulo................................................................................... 2
Como está estruturado este módulo .................................................................................. 2
Ícones de actividade.......................................................................................................... 3
Acerca dos ícones .......................................................................................... 3
Habilidades de estudo ....................................................................................................... 3
Precisa de apoio? .............................................................................................................. 4
Tarefas (avaliação e auto-avaliação)................................................................................. 4
Avaliação .......................................................................................................................... 4

Unidade 1 5
Antropologia Cultural no Contexto das Ciências ............................................................. 5
Introdução................................................................................................................ 5
Tópicos da Unidade................................................................................................. 5

Lição 1 7
Os Conceitos de Etnografia e Etnologia na Construção de uma Antropologia. Objecto e
Objectivo da Antropologia................................................................................................ 7
Introdução................................................................................................................ 7
Conteúdo........................................................................................................................... 7
Sumário ........................................................................................................................ 8
Exercícios .................................................................................................................... 9
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 10

Lição 2 11
Os Ramos da Antropologia (Física, Cultural, Social, Económica, Política, Aplicada,
Psicanalítica)................................................................................................................... 11
Introdução.............................................................................................................. 11
Conteúdo......................................................................................................................... 11
Sumário ...................................................................................................................... 12
Exercícios .................................................................................................................. 13
Respostas ............................................................................................. 13
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 14

Lição 3 15
As Relações da Antropologia Cultural com outras Ciências Sociais e Humanas .......... 15
Introdução.............................................................................................................. 15
ii Índice

Conteúdo......................................................................................................................... 15
Sumário ...................................................................................................................... 17
Exercícios .................................................................................................................. 17
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 17

Lição 4 18
O Método de Trabalho em Antropologia........................................................................ 18
Introdução.............................................................................................................. 18
Conteúdo......................................................................................................................... 18
Sumário ...................................................................................................................... 19
Exercícios .................................................................................................................. 20
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 21
Actividade Final da Unidade ........................................................................... 21

Unidade 2 22
Pensamento Antropológico: (Teorias/Correntes) ........................................................... 22
Introdução.............................................................................................................. 22
Tópicos da Unidade............................................................................................... 22

Lição 1 24
O Debate Teórico à Volta da Formação e Construção da Ciência Antropológica ......... 24
Introdução.............................................................................................................. 24
Conteúdo......................................................................................................................... 25
Sumário ...................................................................................................................... 26
Exercícios .................................................................................................................. 27
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 28

Lição 2 29
O Período de Convergência e de Construção da Antropologia Cultural ........................ 29
Introdução.............................................................................................................. 29
Conteúdo......................................................................................................................... 29
Sumário ...................................................................................................................... 30
Exercícios .................................................................................................................. 31
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 32

Lição 3 33
As Correntes/Escolas de Pensamento Antropológico..................................................... 33
Introdução.............................................................................................................. 33
Antropolologia Cultural iii

Conteúdo......................................................................................................................... 33
Sumário ...................................................................................................................... 38
Exercícios .................................................................................................................. 38
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 39

Lição 4 40
Críticas à Antropologia em Geral, em África e em Moçambique .................................. 40
Introdução.............................................................................................................. 40
Conteúdo......................................................................................................................... 40
Sumário ...................................................................................................................... 42
Exercícios .................................................................................................................. 42
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 43
Actividade Final da Unidade ........................................................................... 43

Unidade 3 44
A Cultura......................................................................................................................... 44
Introdução.............................................................................................................. 44
Tópicos da Unidade............................................................................................... 44

Lição 1 46
O Conceito de Cultura .................................................................................................... 46
Introdução.............................................................................................................. 46
Conteúdo......................................................................................................................... 46
Sumário ...................................................................................................................... 48
Exercícios .................................................................................................................. 48
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 49

Lição 2 50
As Características da Cultura.......................................................................................... 50
Introdução.............................................................................................................. 50
Conteúdo......................................................................................................................... 50
Sumário ...................................................................................................................... 52
Exercícios........................................................................................................................ 52
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 53

Lição 3 54
A Totalidade da Cultura: Unicidade, Diversidade e Etnicidade..................................... 54
Introdução.............................................................................................................. 54
iv Índice

Conteúdo......................................................................................................................... 54
Sumário ...................................................................................................................... 56
Exercícios .................................................................................................................. 57
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 57

Lição 4 58
Da Diversidade à Relatividade Cultural ......................................................................... 58
Introdução.............................................................................................................. 58
Conteúdo......................................................................................................................... 58
Sumário ...................................................................................................................... 59
Exercícios .................................................................................................................. 60
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 60

Lição 5 61
A Aplicação do Etnocentrismo ....................................................................................... 61
Introdução.............................................................................................................. 61
Conteúdo......................................................................................................................... 61
Sumário ...................................................................................................................... 63
Exercícios .................................................................................................................. 63
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 64

Lição 6 65
O Dinamismo Cultural.................................................................................................... 65
Introdução.............................................................................................................. 65
Conteúdo......................................................................................................................... 65
Sumário ...................................................................................................................... 68
Exercícios .................................................................................................................. 68
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 69

Lição 7 70
Os Factores da Cultura.................................................................................................... 70
Introdução.............................................................................................................. 70
Conteúdo......................................................................................................................... 70
Sumário ...................................................................................................................... 72
Exercícios .................................................................................................................. 73
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 74

Lição 8 75
A Interacção dos Factores............................................................................................... 75
Introdução.............................................................................................................. 75
Antropolologia Cultural v

Conteúdo......................................................................................................................... 75
Sumário ...................................................................................................................... 77
Exercícios .................................................................................................................. 77
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 78

Lição 9 79
A Interacção entre a Cultura e a Natureza, a Sociedade e a Civilização ........................ 79
Introdução.............................................................................................................. 79
Conteúdo......................................................................................................................... 79
Sumário ...................................................................................................................... 81
Exercícios .................................................................................................................. 81
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 82

Lição 10 83
A Identidade Cultural..................................................................................................... 83
Introdução.............................................................................................................. 83
Conteúdo......................................................................................................................... 83
Sumário ...................................................................................................................... 85
Exercícios .................................................................................................................. 85
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 86
Actividade Final da Unidade ........................................................................... 86

Unidade 4 87
A Cultura Material .......................................................................................................... 87
Introdução.............................................................................................................. 87
Tópicos da Unidade............................................................................................... 87

Lição 1 89
A Cultura Material e a Evolução do Homem ................................................................. 89
Introdução.............................................................................................................. 89
Conteúdo......................................................................................................................... 89
Sumário ...................................................................................................................... 90
Exercícios .................................................................................................................. 91
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 92

Lição 2 93
A Ecologia na Relação Homem-Meio Ambiente ........................................................... 93
Introdução.............................................................................................................. 93
vi Índice

Conteúdo......................................................................................................................... 93
Sumário ...................................................................................................................... 94
Exercícios .................................................................................................................. 94
Leituras aconselhadas ......................................................................................... 95

Lição 3 96
Noção de Sociedade de Caça- Colecta e Sociedade de Agricultura de Savana. Processos
de Transição na História de Moçambique ...................................................................... 96
Introdução.............................................................................................................. 96
Conteúdo......................................................................................................................... 96
Sumário ...................................................................................................................... 99
Exercícios ................................................................................................................ 100
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 101

Lição 4 102
Noção dos Modos de Produção .................................................................................... 102
Introdução............................................................................................................ 102
Conteúdo....................................................................................................................... 102
Sumário .................................................................................................................... 104
Exercícios ................................................................................................................ 104
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 105
Actividade Final da Unidade ......................................................................... 105

Unidade 5 106
O Parentesco ................................................................................................................. 106
Introdução............................................................................................................ 106
Tópicos da Unidade............................................................................................. 106

Lição 1 108
O Parentesco ................................................................................................................. 108
Introdução............................................................................................................ 108
Conteúdo....................................................................................................................... 108
Sumário .................................................................................................................... 110
Exercícios ................................................................................................................ 110
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 111

Lição 2 112
As Unidades Funcionais do Parentesco e a Sua Importância ....................................... 112
Introdução............................................................................................................ 112
Antropolologia Cultural vii

Conteúdo....................................................................................................................... 112
Sumário .................................................................................................................... 113
Exercícios ................................................................................................................ 114
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 115

Lição 3 116
As Formas do Parentesco.............................................................................................. 116
Introdução............................................................................................................ 116
Conteúdo....................................................................................................................... 116
Sumário .................................................................................................................... 118
Exercícios ................................................................................................................ 118
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 119

Lição 4 120
Os Esquemas do Parentesco ......................................................................................... 120
Introdução............................................................................................................ 120
Conteúdo....................................................................................................................... 120
Sumário .................................................................................................................... 122
Exercícios ................................................................................................................ 122
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 123

Lição 5 124
A Filiação...................................................................................................................... 124
Introdução............................................................................................................ 124
Conteúdo....................................................................................................................... 124
Sumário .................................................................................................................... 127
Exercícios ................................................................................................................ 127
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 128

Lição 6 129
Grupos de Parentesco.................................................................................................... 129
Introdução............................................................................................................ 129
Conteúdo....................................................................................................................... 129
Sumário .................................................................................................................... 131
Exercícios ................................................................................................................ 132
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 132

Lição 7 133
Aliança Matrimonial ..................................................................................................... 133
Introdução............................................................................................................ 133
viii Índice

Conteúdos................................................................................................................ 133
Sumário .................................................................................................................... 135
Exercícios ................................................................................................................ 135
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 136

Lição n° 8 137
Residência e Circulação Matrimonial e Seu Impacto na Organização Social e Política137
Introdução............................................................................................................ 137
Conteúdos................................................................................................................ 137
Sumário .................................................................................................................... 139
Exercícios ............................................................................................................. 139
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 140
Actividade Final da Unidade ......................................................................... 140

Unidade n° 6 141
A Cultura do Simbólico, Ideologias e O Papel da Religião Tradicional em África e em
Moçambique ................................................................................................................. 141
Introdução............................................................................................................ 141
Estrutura .............................................................................................................. 141
Tópicos da Unidade............................................................................................. 141

Lição n° 1 143
A Cultura do Simbólico ................................................................................................ 143
Introdução............................................................................................................ 143
Conteúdos................................................................................................................ 143
Sumário .................................................................................................................... 145
Exercícios ................................................................................................................ 145
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 146

Lição n° 2 147
Os Veículos da Transmissão Ideológica: Rituais e Mitos ............................................ 147
Introdução............................................................................................................ 147
Conteúdos................................................................................................................ 147
Sumário .................................................................................................................... 148
Exercícios ................................................................................................................ 149
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 149

Lição n° 3 150
A Religião Tradicional em África: o Culto aos Antepassados, a Crença na Magia e na
Feitiçaria ....................................................................................................................... 150
Introdução............................................................................................................ 150
Antropolologia Cultural ix

Conteúdos................................................................................................................ 150
Sumário .................................................................................................................... 151
Exercícios ................................................................................................................ 151
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 151

Lição n° 4 151
A Introdução de Novas Ideologias Religiosas e o seu Impacto nas Sociedades Agrícolas
em África ...................................................................................................................... 151
A Penetração e o Impacto do Islão e do Cristianismo em Moçambique............. 151
Introdução............................................................................................................ 151
Conteúdos................................................................................................................ 151
Sumário .................................................................................................................... 151
Exercícios ................................................................................................................ 151
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 151

Lição n° 5 151
Os Movimentos Político-Religiosos em África ............................................................ 151
Introdução............................................................................................................ 151
Conteúdos................................................................................................................ 151
Sumário .................................................................................................................... 151
Exercícios ................................................................................................................ 151
Exercícios ................................................................................................................ 151
Leituras aconselhadas ....................................................................................... 151
Actividade Final da Unidade ......................................................................... 151
Respostas das Actividades Finais ............................................................... 151
Notas Finais .................................................................................................................. 151
Antropolologia Cultural 1

Visão geral

Benvindo ao Módulo de
Antropologia Cultural

Com este modulo você vai aprender que, apesar da grande diversidade da
sociedade humana, isto é, existirem diferentes formas de vida, variáveis
de uma região para a outra, de um tempo histórico para o outro, o ser
humano vive segundo regras culturalmente instituídas, seja em que
domínio social fôr. Assim, você vai aprender que qualquer um dos
aspectos adiante estudados pode ser observado em qualquer sociedade
humana, revelando-se o carácter universal da cultura.

Objectivos do curso
Quando terminar o estudo deste modulo, você será capaz de:

 Saber o que é Antropologia Cultural;

 Conhecer os pressupostos da emergência da Antropologia Cultural;

 Conhecer as especificidades da Antropologia Cultural em relação às


Objectivos outras ciências;

 Diferenciar as características da Cultura Humana;

 Identificar a produção material, como marco fundamental da


diferenciação entre Homem e os outros animais;

 Reconhecer o parentesco como um dos fundamentos da organização


social entre os Homens e

 Conhecer a natureza simbólica da cultura humana.


2 Visão geral

Quem deveria estudar este


módulo
Este Módulo destina-se à formação de professores em exercício que
possuem a 12a classe ou equivalente e inscritos no Curso à Distância,
fornecido pela Universidade Pedagógica.

Como está estruturado este


módulo
Recomendamos que leia esta secção com atenção antes de começar o seu
estudo.

O módulo da Antropologia Cultural encontra-se estruturado da seguinte


maneira:

 É constituído por 6 Unidades Temáticas.

 Cada unidade apresenta:

− Uma introdução, que dá uma orientação geral sobre o aspecto


central de estudo;

− Os tópicos, isto é, os temas de cada lição;

− Os objectivos gerais e específicos;

− As motivações, isto é, aquilo que se pode constituir como um dos


fundamentos para o estudo de cada unidade;

− Os meios, onde são indicados os materiais e todas as bases de


apoio, para tornar o seu estudo mais aprofundado e concreto.

 Um conjunto de lições, variáveis de unidade para unidade. Cada


lição possui por sua vez:

− Uma introdução;

− As horas necessárias para o estudo de cada lição;

− Os objectivos;

− Os contúdos, onde é apresentada a matéria essencial da


lição;
Antropolologia Cultural 3

− Um sumário, onde você pode encontrar os eixos centrais


de cada lição;

− Uma actividade, onde você pode testar a compreensão da


lição;

− As referências complementares, identificadas como


leituras complementares, onde se encontram indicados os
livros a que você pode recorrer para aprofundar os seus
conhecimentos. Em cada referência está identificada a
parte onde você pode encontrar a matéria respectiva.

Ícones de actividade
Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas margens das
folhas. Estes ícones servem para identificar diferentes partes do processo
de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica de texto, uma
nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc.

Acerca dos ícones


Os ícones usados neste manual são símbolos africanos, conhecidos por
adrinka. Estes símbolos têm origem no povo Ashante de África
Ocidental, datam do século 17 e ainda se usam hoje em dia.

Os ícones incluídos neste manual são... (ícones a ser enviados - para


efeitos de testagem deste modelo, reproduziram-se os ícones adrinka, mas
foi-lhes dada uma sombra amarela para os distinguir dos originais).

Pode ver o conjunto completo de ícones deste manual já a seguir, cada


um com uma descrição do seu significado e da forma como nós
interpretámos esse significado para representar as várias actividades ao
longo deste curso / módulo.

Clique aqui e seleccione Inserir elementos (imagem/tabela/nova unidade)


da janela do Modelo para Ensino à Distância. Escolha ou Todos os ícones
abstractos ou Todos os ícones adrinka da lista dada.

Habilidades de estudo
Este módulo foi concebido tendo-se em mente que você vai estudar
sozinho. Por isso, os conteúdos estão expostos de forma a facilitar o seu
estudo. Você tem que procurar estudar em função do tempo indicado ou
reservado para cada uma das lições. Não procure avançar muito
rapidamente .

O sumário não só serve como resumo, mas também constitui a


oportunidade para você reflectir sobre o conteúdo geral anteriormente
4 Visão geral

exposto. É por isso que, no fim de cada unidade, você tem uma actividade
que procura espelhar tudo o que nela aprendeu e leu nas obras
recomendadas.

Procure também resolver os exercícios que se encontram no fim de cada


lição, pois eles sãao preciosos para você conhecer o nível da sua
aprendizagem. Atenção: não consulte as respostas que aparecem depois
das questões antes de as responder. Bom proveito!

Precisa de apoio?
Se você tiver dificuldades, tem um Centro de Recurso à sua espera, perto
do local da sua residência. Não hesite em recorrer a este Centro, pois ele
foi criado para si.

Tarefas (avaliação e auto-


avaliação)
Apresente aqui pormenores sobre as tarefas que o aluno terá de realizar.
Por ex.: Como devem ser entregues as tarefas, a quem. Inclua também
questões relacionadas com: utilização de materiais de pesquisa, regras de
direitos de autor, plagiarismo, etc.

Avaliação
Apresente aqui os pormenores sobre as regras e procedimentos para a
avaliação. Por exemplo: em que condições se irá processar a avaliação.
Antropolologia Cultural 5

Unidade 1

Antropologia Cultural no Contexto


das Ciências

Introdução
Benvindo a esta unidade de estudo, onde terá as noções fundamentais da
Antropologia Cultural. Estas vão ajudá-lo a compreender a natureza da
referida disciplina, em relação às outras Ciências, isto é, a peculiaridade
do seu objecto de estudo, os seus métodos fundamentais e a relação com
as outras Ciências.

Estrutura

O estudo que você inicia agora tem 4 lições. Devem ser dispensadas duas
(2) horas de tempo para cada lição. Eis as matérias a serem estudadas
nesta unidade:

Tópicos da Unidade

Lição 1. Os Conceitos de Etnografia, Etnologia e Antropologia.

Lição 2. Os Ramos da Antropologia.

Lição 3. As Relações da Antropologia Cultural com Outras Ciências


Sociais e Humanas.

Lição 4. O Método de Trabalho em Antropologia

Ao completer esta unidade / lição, você será capaz de:

Geral

 Conhecer as origens e os propósitos da Antropologia Cultural.


Objectivos Específicos
6 Unidade 1

 Explicar os conceitos de Etnografia, Etnologia e Antropologia.

 Distinguir os métodos de pesquisa antropológica dos ou métodos das


outrs ciências sociais e humanas.

 Explicar a relação entre a Antropologia e as outras Ciências Sociais e


Humanas.

 Reflectir sobre a importância e utilidade da Antropologia no contexto


das outras ciências sociais e humanas.

Motivações

Esta unidade vai permitir-lhe a aquisição de conhecimentos sobre as


origens e propósitos da Antropologia.

Sabia que a Antropologia é “filha” do colonialismo?

Com esta unidade, vai poder descobrir os encantos de uma das Ciências
Sociais mais generalizantes sobre o Homem, mas também mais específica
e profunda no conhecimento da natureza humana – a Antropologia.

Meios

Para além das referências bibliográficas presentes no fim de cada lição de


todas as unidades, poderá usar textos de apoio, efctuar visitas a museus
etnográficos, sempre que eles existirem, mas também a sua própria
comunidade. Com esta última prática, estará a iniciar o “metier” do
Antropólogo, cuja especificidade na sua intervenção é sempre estar em
contacto com o seu objecto alvo.
Antropolologia Cultural 7

Lição 1

Os Conceitos de Etnografia e
Etnologia na Construção de uma
Antropologia. Objecto e Objectivo
da Antropologia

Introdução

Nesta lição, você terá a ocasião de conhecer conceitos básicos iniciais do


estudo da Antropologia como: Etnografia, Etnologia e Antropologia
Geral. São conceitos básicos para perceber esta ciência. Para este estudo,
você deve dispensar duas (2) horas.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Conhecer os conceitos de Etnografia, Etnologia e Antropologia.


 Analisar o objectivo e objecto da AC)x Antropologia Cultural;
 Reflectir sobre as diferentes posições em relação à definição do
Objectivos objecto da Antropologia;
 Distinguir os conceitos Etnografia, Etnologia e Antropologia Cultural
e Social.

Conteúdo
A Etnologia é a descrição de usos costumes, crenças, hábitos, tradições,
etc., duma determinada unidade social, como, por exemplo, a sua própria
comunidade. Já procurou algumas destas descrições da comunidade? Se
nada existe terá, a partir deste estudo, conhecimentos para o fazer.
O termo Etnografia foi criado em 1826 pelo italiano Balbi para
classificar os grupos humanos segundo as suas características linguísticas.
Modernamente, o conceito aplica-se à observação no "terreno", descrição
e análise de grupos humanos que aí vivam. A reconstrução deve ser tão
fiel quanto possível.
8 Lição 1

Por sua vez, Etnologia corresponde à segunda etapa do estudo


antropológico. Sem excluir a observação directa, a Etnologia orienta-se
para a síntese e produção de monografia.
A Antropologia representa uma nova e última etapa da síntese e
comparação. Ela apoia-se nas investigações da Etnologia e da Etnografia.
A Antropologia, oriunda de um reconhecimento da diversidade das
sociedades, dos grupos e das culturas, aspira, com a Antropologia ao
nível da generalização.?
Objectivo da Antropologia Cultural e Social: A disciplina visa atingir
um conhecimento global do homem.
Quanto ao seu objecto, ela abarca toda a extensão biológica, social,
histórica e geográfia do Homem, aspirando a um conhecimento aplicável
ao conjunto do desenvolvimento humano. Sobre o Objecto da
Antropologia cultural ainda há varias opiniões, o que é típico duma
ciência social nova. Só para exemplificar, nesta lição vamos considerar
apenas três definições:
Para P. Armando Ribeiros (1998, p. 8) - "É a ciência do homem como
ser cultural, entendendo por CULTURA o conjunto das tradições”.
Para Bernardo Bernardi (1978, p. 19)- "A Antropologia indaga o
significado e as estruturas da vida do homem como expressão da sua
actividade mental".
Trazemos ainda uma contribuição tirada no site
http://pt.wikipedia.org/wiki/Antropologia_cultural, uma das fontes de
informação, que a Antropologia Cultural “Tem por objecto o estudo do
homem e das sociedades humanas na sua vertente cultural. A
representação, pela palavra ou pela imagem, é uma das suas questões
centrais”.

Sumário
A Antropologia constrói-se considerando três etapas hierárquicas,
começando pela observação, descrição, síntese e generalização. Na
essência, tudo deve ser depois interpretado no âmbito do plano geral
da humanidade.
Tome Nota!
Antropolologia Cultural 9

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:

Auto-avaliação
1. Se alguém lhe solicitar a caracterização da última etapa da Antropologia
que conceitos usaria?
2. Com base em outros autores, apresente um outro ponto de vista sobre o
objecto de Antropologia Cultural e Social.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

1. Usaria os seguintes conceitos:


Síntese global, totalidade generalização integral…(outros que
tiver encontrado na bibliografia recomendada).
2. Por exemplo para Martinez a Antropologia trata do homem e do
seu comportamento como um todo. A Antropologia tem em conta
todos os aspectos da existência humana: biológica e cultural,
passado e presente, integrando esses diversos valores culturais e
materiais, numa abordagem integrada do problema da existência
humana.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte o seu tutor.
10 Lição 1

Leituras aconselhadas

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas?


Lisboa, Edições 70, 1971, p. 15-56.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação,


Teorias e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 33-40.
Leitura
RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70,
2000, p. 11-32.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto.


Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 14-16.
Antropolologia Cultural 11

Lição 2

Os Ramos da Antropologia
(Física, Cultural, Social,
Económica, Política, Aplicada,
Psicanalítica)

Introdução
O estudo que começa agora vai proporcionar-lhe conhecimentos sobre os
ramos da Antropologia. É fundamental esse conhecimento, para situar-se
na complexidade que esta disciplina encerra e perceber as razões do
estudo da Antropologia Cultural. Esta lição tem a duração de duas (2)
horas de estudo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Conhecer os principais ramos da Antropologia Geral;

 Distinguir o conteúdo de cada um dos ramos da Antropologia;


Objectivos  Reflectir sobre a sua importância e utilidade na comunidade onde
vive.

Conteúdo

Sabia que a Ciência é recente? De facto, ela vem de um período muito


recente da evolução do conhecimento humano, remontando ao período
Moderno Europeu. Ademais, como vai observar na segunda unidade, a
Antropologia só viria a emergir no século XIX. Até princípios do século
XX, o termo Antropologia servia para designar a ciência que actualmente
se chama Antropologia Física, cuja definição vem mais adiante. Mais
recentemente, ela tende a significar o conhecimento das propriedades
gerais da vida social e das diversas sociedades humanas. Para isso, cobre
um grande número de ciências que estudam o Homem, tais como:
Antropologia Política, a Antropologia Psicanalítica, a Antropologia
Económica, Antropologia Aplicada, a Etnografia, a Etnologia, certos
aspectos da Linguística, a Arqueologia, Pré-história, etc.
12 Lição 2

Cada um destes ramos tem tarefas específicas, mas que concorrem para
explicar o Homem na sua complexidade. Vamos conhecer as tarefas de
alguns desses ramos.
Antropologia Física: tem por objecto o estudo de certas características
biológicas do homem, as questões da raça, da hereditariedade, da
nutrição, da diferenciação de sexos, etc. Compreende, entre outras, a
Anatomia Comparada, Fisiologia Comparada e a Patologia Comparada.

Antropologia Social: ocupa-se mais particularmente em estabelecer leis


gerais de vida em sociedade que sejam válidas tanto nas sociedades
tradicionais como nas sociedades industrializadas modernas. Procura
aprender mais sobre a sociedade quanto ao seu funcionamento e aos seus
actos.

Antropologia Cultural: dedica-se mais a problemas de relativismo


cultural (investigação da originalidade de cada cultura); do estudo das
relações que se estabelecem entre os diferentes níveis numa dada
sociedade e do fenómeno da transmissão da cultura. A Antropologia
cultural apenas apreenderia a sociedade nas suas obras e não nos seus
actos e no seu funcionamento.

Antropologia Política: aborda em particular os problemas do poder da


autoridade, da chefia do governo, etc., assuntos que deram lugar a
numerosas especulações filosóficas (sobre a origem e a natureza do
Estado, o aparecimento do Direito, etc).

Antropologia Aplicada: faz a utilização prática das teorias e dos


resultados do inquérito etnográfico, tendo em vista manipular as
sociedades, com o objectivo, quer de as administrar (como é o caso da
política colonial, da assimilação, aculturação "forçada"), quer de as ajudar
a adaptarem-se à sociedade etnológica moderna (como é o caso da
aculturação "planificada", política de integração) ou o desenvolvimento
de uma originalidade cultural (procura de um sincretismo).

Antropologia Psicanalítica: baseia-se essencialmente no estudo dos


sonhos, dos mitos, dos contos, na análise de jogos, das cerimónias, das
práticas mágicas, de certos aspectos da vida quotidiana, das técnicas de
educação.

Antropologia Económica interessa-se pelas condições da produção


material, as trocas, os direitos sobre os objectos, as formas de utilização
dos produtos, englobando os aspectos de ecologia e tecnologia.

Sumário
A Antropologia Geral é obviamente complexa. Ela envolve um
conjunto de especializações que englobam aspectos de natureza
física, eminentemente social, mas também aos aspectos que abarcam
as diferentes facetas da vida humana, como a sua intervenção na
natureza, as suas relações com o mundo oculto, etc.
Tome Nota!
Antropolologia Cultural 13

Exercícios

Depois desta leitura procure as respostas aconselháveis para as


actividades seguintes:

1. Por que houve a necessidade da emergência de muitos ramos da


Auto-avaliação Antropologia?
2. Qual das subdisciplinas antropológicas devia ser catalizada para
estudar:

a) Necessidade de integração das minorias étnicas


estrangeiras em Moçambique?

b) Os novos fenómenos religiosos em Moçambique?

c) O fenómeno de “chupa-sangue” frequente no Norte de


Moçambique?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Pelo facto de a Antropologia estudar o Homem na sua totalidade


e porque seria difícil abordar este aspecto numa única disciplina.
Assim emergiram as diferentes especializações que se
complementam entre si.

2. a) Antropologia Aplicada

b) Antropologia Religiosa

c) Antropologia Psicanalítica

 Óptimo é isso mesmo. Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o


texto. Se a dificuldade persistir consulte o seu tutor.
14 Lição 2

Leituras aconselhadas

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 15-56.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 33-40.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 14-16.
Antropolologia Cultural 15

Lição 3

As Relações da Antropologia
Cultural com outras Ciências
Sociais e Humanas

Introdução

Hoje não se pode falar duma disciplina ou ciência independente ou


isolada do interesse das outras, numa determinada área. Ao abordarmos a
Antropologia Cultural no contexto das ciências sociais e humanas
pretendemos fazer a interdisciplinaridade. Você vive num bairro ou numa
comunidade. Por este facto, você precisa de viver em colaboração com os
seus vizinhos, porque precisa deles e eles precisam de si, para as formas
de cooperação e ajuda-mútua. Não é verdade? É o mesmo o que se passa
entre as ciências.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Identificar a Antropologia Cultural no contexto das ciências sociais e


humanas;

 Relacionar o papel social e cultural com os papeis desempenhados por


Objectivos outras ciências sociais e humanas .

Conteúdo

A Antropologia já definiu o seu objectivo ao procurar atingir um


conhecimento global do homem, abarcando as dimensões físicas,
culturais, históricas e geográficas. Aspira ainda a um conhecimento
aplicável ao conjunto do desenvolvimento humano, desde a grande
cidade moderna à mais pequena tribo.

para desenvolver o seu objecto de estudo, precisa de um apoio de outras


ciências. De facto, nenhuma ciência é capaz de se prover sozinha. É daí
que surgem as relações entre a Antropologia e as outras ciências do
homem. Assim, a Antropologia tem uma relação privilegiada com a
16 Lição 3

Sociologia, a História, a Economia, a Geografia, a Psicanálise, entre


outras. Vamos procurar encontrar a relação existente entre os seguintes
pares:

Antropologia e Sociologia

Antropologia = Discurso sobre o (ciência do) homem.

Sociologia = Discurso sobre a (ciência da) sociedade.

Antropologia procura a explicação dos fenómenos sociais e culturais na


lógica do observador ( Ciência do Observado); a Sociologia, procura a
análise do ponto de vista da própria sociedade à qual pertence o cientista
(Ciência do Observador).

O Antropólogo distancia-se da realidade institucional para construir


progressivamente a sua problemática analítica à medida que vai
descobrindo os princípios de organização da sociedade estudada. O
Sociólogo parte de hipóteses já elaboradas e fundadas, geralmente sobre
pré-construções analíticas ou institucionais, procurando, em seguida,
aferi-las por inquéritos no terreno. Contudo, elas cruzam-se, quer no uso
de métodos, como nos próprios objectos. Por acaso há homem que viva
sem sociedade e há sociedade sem os Homens entanto que indivíduos?

Antropologia e História

O Historiador distancia-se do seu objecto de estudo pelo tempo.


Distancia-se assim dos valores e categorias da sua própria sociedade para
melhor compreender e interpretar o “passado”. Pelo seu lado, o
Antropólogo “acantona” o discurso de uma comunidade sobre ela mesma
para melhor a compreender.

O olhar da História e da Antropologia leva a ver o OUTRO como ele se


vê, e, através deste olhar, procurar, ver e compreender essa sociedade
global. Como pode observar, aqui há também uma convergência, na
medida em que as duas disciplinas ocupam-se da alteridade, isto é, do
outro. Para que a Antropologia consiga obter a dimensão temporal dos
acontecimentos, logicamente a História prestar-se-à na primeira linha.

Antropologia e Psicanálise

Quer a Antropologia quer a Psicanálise insistem entre o conteúdo


manifesto e o conteúdo latente; entre o implícito e o explícito; e na
necessidade de ultrapassar o “sintoma”, descodificando-o e dando-lhe
forma. Quer a Antropologia quer a Psicanálise são marcadas pela
alteridade. O Antropólogo tenta reconhecer e analisar o “pensamento” do
Outro, para se situar o seu próprio pensamento. O Psicanalista tenta
descodificar o discurso do Outro” em si mesmo (Super Ego); o Outro na
sua origem e em relação ao qual se determina.
Antropolologia Cultural 17

Sumário

A interdisciplinaridade resume a relação que a Antropologia tem com


outras ciências Sociais e Humanas, dado que ela não pode explicar
isoladamente o Homem. Essas relações são recíprocas, em virtude de
todas as Ciências Sociais serem marcadas pelo estudo de outras
realidades.
Tome Nota!

Exercícios

1. Todas as Ciências Sociais são Antropológicas. Concorda com a


afirmação? Fundamente.

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos


Auto-avaliação
Resposta

De facto, todas as Ciências Sociais são antropológicas, pelo facto de


todas elas estudarem outras realidades, outros espaços, outros tempos ou
que estejam fora do próprio Ego.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte o seu tutor.

Leituras aconselhadas

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 15-38.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


18-24.
Leitura
SILVA, Augusto Santos e PINTO, José Madureira: Metodologia das Ciências
Sociais, 7ª edição. Lisboa, Edições Afrontamento, 1986, p. 9 – 27.
18 Lição 4

Lição 4

O Método de Trabalho em
Antropologia

Introdução
Você para resolver alguma tarefa serve-se de um conjunto de
procedimentos, não é verdade? Da mesma maneira, cada ciência possui
os seus caminhos próprios para desvendar o seu objecto de estudo.
Algumas ciências servem-se das fontes, outras, de um trabalho
laboratorial usando tecnologias muito sofisticadas. Nesta lição, você vai
inteirar-se do método que a Antropologia usa para desenvolver o seu
estudo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer processos do método de pesquisa antropológica.
 Distinguir através do seu método a antropologia das outras ciências.
 Compreender as vissicitudes do trabalho antropológico como desafios
de saberes sociais, culturais e históricos.
Objectivos

Conteúdo
Um método, em ciências, pode ser entendido como o caminho ou
estratégias usados para atingir um determinado objectivo. Todas as
ciências, quer se trate de ciências sociais, humanas ou naturais, possuem
um método que as caracteriza e as distingue das outras.

A Antropologia tem também o seu método privilegiado, que é a


observação participante.

A Observação Participante

Tal como você viu na definição do objecto de estudo, a Antropologia visa


conhecer pequenas realidades. A observação participante é feita a partir
dessas pequenas unidades sociais, pelas quais se tenta elaborar uma
síntese mais geral, apreendendo, a partir de um certo ponto de vista, a
totalidade da sociedade. De facto, nas unidades sociais mais pequenas ou
comunidades, em geral, as relações sociais, que têm uma certa coerência
Antropolologia Cultural 19

interna nos aspectos cultural, económico, social, religioso, etc., são


directamente observáveis pelo investigador.

Você já imaginou, entre procurar uma resposta numa multidão e numa


pessoa, onde você teria um interlocutor válido, mais objectivo? É o
mesmo que ocorre na pesquisa antropológica. Dado que é impraticável
estudar grandes superfícies para apreender o essencial, o Antropólogo
para observar a sociedade global parte desses grupos restritos.

Com a observação participante ele apreende as unidades sociais restritas


simultaneamente de dentro e de fora nas suas especificidades e nos seus
elementos comuns em relação à sociedade global. Assim, a observação
participante permite extrapolar o global a partir do local. As relações
internas postas em evidência são feitas no quadro do sócio-cultural e
económico global.

Contudo, no método antropológico há especificidades a tomar em


consideração, pois ele tem um carácter: (1) interdisciplinar (na medida
em que para a Antropologia explicar o seu objecto de estudo procura o
apoio de outras ciências sociais e das técnicas das mesmas); (2)
comparativo (só se estabelecem regularidades, depois de comparada a
realidade estudada com outras realidades conhecidas); (3) histórico (que
provém do facto de na apreensão da realidade social ser necessário cruzar
os acontecimentos transversais ou sincrônicos e os acontecimentos
longitudinais ou diacrônicos) e (4) holístico (já que a compreensão do
facto social só é possível estudando-o nas suas variadas dimensões , isto
é, de forma integral).

Sumário
A Antropologia, tendo como objectivo apreender as especificidades
de uma cultura, tem como o método fundamental a observação
participante. Na elaboração do seu objecto deve considerar a
integralidade dos factos sociais (aplicando o holismo); de que
nenhuma ciência é autónoma (a interdisciplinaridade), que toda a
Tome Nota!
manifestação de um facto social tem correspondentes em outros
grupos sociais (a comparação) e que é necessário atender à
temporalidade dos factos sociais (aplicando-se o método histórico).
20 Lição 4

Exercícios

1. Por que o método antropológico toma como objecto de


investigação unidades sociais mais pequenas?

2. Em que reside a peculiaridade do método antropológico (a


Auto-avaliação observação participante) em relação à observação conduzida nas
outras ciências (por exemplo com a observação das paisagens?

3. Enumere as características do método antropológico.

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Tratando de sociedade (pessoas) humana convém que assim seja


para poder-se encontrar a coerência interna (cultural, económica,
social, religiosa, etc., sem muitas dificuldades.

2. Este método caracteriza a especificidade da antropologia,


extrapola assunto de unidades sociais sob pontos de vista de
variáveis complexas da sociedade, o que obviamente é diferente
de estar a observar as paisagens que são aspectos físicos, com
mudanças relativamente pouco complexas que as das sociedades
humanas.

3. O método antropológico é interdisciplinar, histórico, holístico e


comparativo.

4. Óptimo. É isso mesmo. Se teve dificuldades, não desista, volte a


ler o texto. Se a dificuldade persistir consulte o seu tutor.
Antropolologia Cultural 21

Leituras aconselhadas

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 38-56.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 65-77.
Leitura
RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.
17-32.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho


da Matola: S/Ed, 2004, p. 16-20.

Actividade Final da Unidade

Depois de fazer uma reflexão à volta das disciplinas Antropológicas,


procure esboçar a utilidade da Antropologia para a sua área residencial.

Actividade
22 Unidade 2

Unidade 2

Pensamento Antropológico:
(Teorias/Correntes)

Introdução
Benvindo a esta unidade de estudo, onde terá as noções fundamentais
Benvindo a esta unidade de estudo, onde terá a ocasião de estudar a
história da Antropologia sócio-cultural e as teorias da Antropologia, bem
como as críticas da Antropologia em África e, em particular, em
Moçambique. Terá ainda a ocasião de conhecer conceitos básicos das
teorias/correntes da Antropologia, nomeadamente os conceitos de
evolução, difusão, função e estrutura.

Estrutura

O estudo que você inicia tem 4 lições, com 2 horas de estudo para cada
uma.

Tópicos da Unidade

Lição 1. O debate teórico à volta da Formação e Construção da


ciência antropológica.

Lição 2. O período de convergência e de construção da Antropologia


Cultural.

Lição 3. As correntes/escolas de pensamento antropológico.

Lição 4. Críticas à Antropologia em Geral, em África e em


Moçambique.
Antropolologia Cultural 23

Ao completer esta unidade, você será capaz de:

Geral

 Conhecer as teorias/correntes da Antropologia cultural.


Objectivos Específicos

 Conhecer a história da Antropologia, que começa com a própria


cultura da humanidade;

 Conhecer os conceitos: Evolucionismo, Difusionismo, Funcionalismo


e Estruturalismo;

 Distinguir as teses de cada uma das teorias/correntes;

 Explicar as verdadeiras razões históricas do surgimento da


Antropologia Cultural;

 Reflectir sobre os pressupostos da Antropologia expressas no período


de Formação;

 Analisar a situação da Antropologia em África e, em particular, de


Moçambique, durante o domínio colonial..

Motivações

Bem como o que ocorre com um ser humano, a Antropologia teve a sua
história. Essa história foi marcada pela emergência de contradições
quanto àquilo a que a Antropologia se devia debruçar. Assim, esta
unidade vai permitir-lhe conhecer os pressupostos das origens e
propósitos da Antropologia.

Sabia que Antropologia pretendia, no início, estudar as sociedades


chamadas primitivas?

Meios

No estudo desta unidade você terá como material de apoio as referências


bibliográficas nela presentes e textos de apoio.
24 Lição 1

Lição 1

O Debate Teórico à Volta da


Formação e Construção da
Ciência Antropológica

Introdução
Trazemos nesta lição a História da Antropologia. A discussão vai centrar-
se nas diferentes contribuições dos cientistas sociais de vários países e
escolas, o que convencionou-se chamar-se por correntes, para a
emergência da Antropologia.

Segundo Martinez1 (2004,) o conhecimento dos rumos seguidos nos


estudos da antropologia têm como determinantes, por um lado o Critério
objectivo, pelo qual se avalia “... a consistência das orientações teóricas e
a legitimidade metodológica das mesmas”; por outro lado o critério
subjectivo, que permite “avaliar os motivos que levaram determinados
autores a enveredar por um determinado caminho e as razões do seu
sucesso ou rejeição”( p 55) e, finalmente, o critério de utilidade, que
procura “discutir a orientação teórica em razão da sua possível aplicação”
(Id.).

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Conhecer a história da Antropologia que começa com a própria


cultura da humanidade;

Objectivos  Distinguir as teses de cada uma das teorias/correntes

 Explicar as verdadeiras razões históricas do surgimento da


Antropologia Cultural.

 Reflectir sobre os pressupostos da Antropologia expressas no período


de Formação

1
Trata-se da 5ª edição de “Antropologia Cultural, Guia para o estudo”, de
Francisco Lerma Martinez, entretanto ainda não editado, mas que é uma revisão
e ampliação da 4ª edição (2003), já publicada.
Antropolologia Cultural 25

Conteúdo
Tal como ficou mencionado na primeira unidade, a Antropologia é uma
ciência recente. Ela forma-se como tal só no Século XIX e desde aí, a
disciplina passou a conhecer várias orientações, conhecendo avanços e
recuos. Contudo, por uma questão metodológica e para a identificação
das abordagens teóricas, vamos avançar com uma sistematização dos
diferentes pensamentos que, enquadrados no tempo, esboçam um
itinerário, isto é, a História da Antropologia. Entretanto, será difícil dar
um levantamento completo de todas as contribuições, porque elas vieram
de todos os cantos e de todos os períodos.

A emergência da Antropologia coincide com as primeiras reflexões do


Homem sobre si e sobre a natureza, o cosmos ou o universo. Uma parte
desse conjunto de reflexões chegou aos nossos dias por via de lendas e
mitos. É o período que Paul MERCIER indica como sendo de
“Antropologia Espontânea” ou o período da Pré-História da
Antropologia.

As contribuições deste período são de diversa natureza e origens : ícones,


arte parietal (pinturas rupestres), arte móvel (esculturas), manuscritos dos
primeiros povos com escrita (Babilônios, Egícios, Hindus, Fenícios, entre
outros).

Segundo Mello (2005, p. 180-185), a contribuição greco-romana na


formação da Antropologia foi enorme, com os trabalhos de Heródoto, um
dos notáveis viajantes e narradores das terras visitadas; Platão, (a cidade
ideal); Aristóteles, (concepções teóricas acerca do Estado); Sócrates (com
a crítica à sociedade) (Grécia) e Lucrécio (que fala do Homem Primitivo,
César, Tácito, Galeno, Marco Aurélio (Roma). Apesar de, como você
aprendeu na História, ser considerado um período de retrocesso, tais
contribuições continuaram na Idade Média com St. Agostinho (a Cidade
de Deus), Avicena (defende a invariabilidade das formas), Averrois (com
o evolucionismo) e Bacon (uso do método experimental). As
contribuições circunscreveram-se mais na conservação dos escritos,
tradução dos sistemas de pensamento de outros povos e na preparação da
universidade. Viagens e descrições foram também feitas pelo árabe Ibn
Khaldun (séc XIV).

No conjunto dessas contribuições, Martinez (2004, p. 56), aponta que,


com o Renascimento Europeu e com as viagens de exploração, houve
grandes contactos, que deram origem a Tratados. Surgiram Tratados
acerca das afinidades e diferenças entre os homens e seus mundos sociais
e culturais. Por exemplo, MONTAIGNE, um francês publica os seus
Ensaios (1580), que nos transmitem contactos entre os povos, onde
questiona o etnocentrismo e faz a análise comparativa das sociedades.
Ainda segundo Martinez (Id.), o Tempo Moderno, dominado pelo
ilumisnismo ou o culto à razão, empresta um antropocentrismo, base para
o estudo dos factos tipicamente humanos. As maiores contribuições
ocorrem no Século XVIII, com Emmanuel Kant (1724-1804), que, com o
seu pensamento, “(...) influenciou os vários ramos da ciência do tempo.
Ele ensina que o entendimento constrói o seu objecto, pelo que os
fenómenos giram em torno da razão”.
26 Lição 1

Você lembra-se das ditas viagens de “descobrimentos”, europeias,


aprendidadas na História, iniciadas no fim do Século XV e que
continuaram a se multiplicar a partir do século XVI? As viagens e os
contactos que se multiplicaram para todos os cantos da terra foram
acompanhadas pela produção de relatórios que, mais tarde, serviram de
documentos essenciais para a produção Antropológica. De facto, os
estudiosos começam a dispor de maior material antropológico para as
suas pesquisas. Ocorrem ainda estudos do corpo humano com Leonardo
da Vinci (1452-1518), no seu aspecto morfológico; Dürer (1514 – 1564),
nas medidas cranianas; Vessalius, com as lições de anatomia e Lineu com
a classificação das raças.

No Século XIX dá-se a primeira descoberta do homem fóssil. No seu


conjunto, todos esses aspectos deram subsídios para a emergência da
Antropologia Física, que conhecera a sua fundação no mesmo século por
Johann Blumembach (Mello, 2005, p. 189-190). Antes ou depois vieram
ainda contribuições das missões científicas mais organizadas e
sistematizadas, de naturalistas, geógrafos, humanistas, que tinham como
objectivo principal colher informações e fazer observações. Contam-se os
exemplos de A. Bering (Nordeste da Ásia); Cook (Oceania) e as viagens
posteriores à organização da African Association, pela Grã-Bretanha,
(1788), para o interior da África. Um contributo significativo resultou
ainda da Sociedade Etnológica de Paris (França), que lançou
“L’Instruction génerale aux Vovageurs”, espécie de orientação para a
recolha de dados.

O maior repertório documental existente, o avanço de técnicas induziu a


especialização, possibilitando a emergência da Antropologia Cultural, da
Pré-História e da Arqueologia. Lançava-se uma nova disciplina no
conhecimento humano.

Sumário
Para a emergência da Antropologia jogaram papel importante as
contribuições de vários povos, períodos e individualidades. Contudo,
apesar de existirem subsídios importantes para o seu estabelecimento
como ciência, a disciplina veio conhecer a cientificidade só no século
XIX, mercê dos grandes contactos à escala planetária dos três séculos
Tome Nota!
imediatamente precedentes e da insaciável busca dos conhecimentos
das outras realidades geográficas, históricas, culturais então
imprimida durante o período moderno europeu.
Antropolologia Cultural 27

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:

1. A formação da Antropologia resultou de vários contributos em


Auto-avaliação diferentes períodos históricos. Identifique os diferentes períodos e
os representantes de cada um deles.

2. Que pressupostos existiam já no Século XIX para a emergência da


Antropologia?
3. Por que foi a Antropologia Física aquela que se notabilizou em
primeiro?

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Foi a Antiguidade de Heródoto, a Idade Média de Sto. Agostinho, o


Renascimento do francês Montaigne e o árabe Ibn Khaldun, filósofo
social do século XIV, o Iluminismo de Emmauel Kant entre outros
como Montesquieu.

2. O século XIX “herdara” um espólio de informações sobre os


diferentes povos, mercê das viagens de exploração, das expedições
científicas e que mereciam um tratamento adequado, num plano
eminentemente antropológico.

3. A Antropologia Física foi a primeira a notabilizar-se em virtude de


ter havido a preocupação de se fazer uma diferenciação racial dos
povos ou da sua compleição física, por sua vez, como resultado de
muitos trabalhos anatômicos e morfológicos até aí existentes.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.
28

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 165-176.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 21-32.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 55-58.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 177-194.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


33-34.
Antropolologia Cultural 29

Lição 2

O Período de Convergência e de
Construção da Antropologia
Cultural

Introdução
Depois da emergência da Antropologia como ciência, várias discussões
apareceram quanto à sua natureza, no âmbito das demais Ciências
Sociais. Contudo, um primeiro momento foi caracterizado por um
pensamento marcadamente evolucionista, que então dominava no
segundo quartel do século XIX. É esse período que vai conhecer na
presente lição. Como sempre, no fim desta lição você tem um exercício
que vai aferir o grau de compreensão desta matéria.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Conhecer a história do período da convergência e construção da


Antropologia.

Objectivos

Conteúdo
PERÍODO DE CONVERGÊNCIA E DE CONSTRUÇÃO

Mesmo existindo um grande fervor científico durante o século XIX e a


Antropologia tender para várias interpretações, ela parece ter procurado
definir-se à volta do paradigma característico da época, o da evolução,
cujos nomes sonantes do período foram: Charles DARWIN (1809-1882),
Edward TYLOR (1871), Herbet SPENCER, Augusto COMTE, Matthew
ARNOLD (1869). De facto, a Antropologia não fugiu esse pensamento
30 Lição 2

que dominava entre o segundo quartel e fim do século XIX, o qual veio,
de certa forma, definir a unidade da Antropologia. Por isso, mesmo que
alguns autores se tenham recusado no evolucionismo, este constituíu o
pensamento dominante da época. Por isso diz-se que foi o período da
CONVERGÊNCIA.

Segundo Martinez, (2004, p. 57) as várias formulações sobre a sociedade


e a cultura convergiram para três objectivos comuns: origens, idade e
mudança. Apareceram no mesmo período revistas de algumas
associações científicas, como a revista americana Current Anthropolgy, a
britânica Man e a francesa L’Home, bem como sociedades de
Antropologia em Gottingen, Cracóvia, Madrid, Nova Iorque, Berlim,
Viena e Estocolmo. Segundo Mello (2005, p. 191-192), tais sociedades
eram científico-humanitárias e os Antropólogos eram considerados
“amigos dos povos primitivos”.

A teoria evolucionista alcança as suas feições definitivas com o


aparecimento da obra de Charles DARWIN sobre a evolução, “A Origem
das Espécies”. Edward TYLOR veio aplicar essa teoria na Antropologia,
dando o arranque da Antropologia Moderna, isto é, o arranque da fase de
construção da Antropologia. De facto, foi este que lançou a Antropologia
Cultural, cujo marco foi a publicação por TYLOR da “Cultura Primitiva”
em 1871. Lewis MORGAN publica na mesma altura (1877) “A
Sociedade Primitiva”, procurando discutir a organização da família pelos
diversos estágios de desenvolvimento, isto é, num contexto de evolução
(Ibid., p. 193).

Apesar de terem existido diversas contribuições como as de: Adolf


BASTIAN (1826-1905), médico viajante e antropólogo, que rejeitando os
particularismos do corpo e alma do romantismo defendeu a unicidade do
pensamento humano; Jacob BACHOFEN (1815-1887), jurista e
antropólogo alemão, com trabalhos comparativos sobre a mitologia e o
parentesco; Summer MAINE, que via na família patriarcal a base da
unidade da organização social; McLennan, que lançou a ideia da noção
do paralelismo e tentou interpretar vários costumes primitivos, TYLOR
foi o expoente dessas contribuições ao definir o conceito de Cultura e a
colocá-la como objecto da Antropologia. Por outro, Lewis MORGAN
introduz o esquema da evolução: selvageria, barbárie e civilização e
FRAZER preocupa-se com o estudo do fenómeno religioso (Id).

Sumário
Com a formação da Antropologia, apesar de terem existido várias
tendências nos estudos antropológicos, o pensamento mais comum
regia-se pelo evolucionismo que então era dominante na época.
Contudo, foi no interior dessa tendência que se afirmou (construiu-se)
a Antropologia Cultural, com Edward TYLOR.
Tome Nota!
Antropolologia Cultural 31

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:

1. Por que o século XIX é chamado Período de Convergência?


Auto-avaliação
2. Qual é a natureza dos estudos Antropológicos dominantes a partir
do segundo quartel do Século XIX?
3. Em que consistiu o Período de Construção da Antropologia
Cultural?

Confronte a sua resposta com a chave que lhe apresentamos

Resposta

1. O século XIX é chamado Período de Convergência por ter sido


aquele que, apesar da ter registado uma explosão do pensamento de
caráacter antropológico, teve o evolucionismo como o pressuposto
fundamental do pensamento.

2. A partir do segundo quartel do século XIX dominaram estudos de


carácter social e cultural do Homem, diferentemente do período
anterior em que eles eram orientados para os aspectos físicos.

3. O Período da Construção da Antropologia consistiu na definição


da Cultura como objecto de um novo ramo da Antropologia, a
Antropologia Cultural.

 Se teve dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade


persistir consulte as obras indicadas abaixo.
32 Lição 2

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos,


Lisboa, Edições 70, 1978, p. 165-194.

Leitura COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 21-32.

MARTINEZ. Francisco Lerma. Antropologia Cultural, Guia para o estudo.


p. 56-58.

MELLO, L.G. de. Antropologia Cultural. Iniciação, Teoria e Temas, 12a


edição. Editora Vozes, 2005, 190-194.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


33-34.
Antropolologia Cultural 33

Lição 3

As Correntes/Escolas de
Pensamento Antropológico

Introdução
Você sabia que depois da emergência da Antropologia como Ciência,
surgiram várias posições quanto à sua natureza? Essas diferentes posições
encerram o que hoje se designa por correntes ou escolas antropológicas.
Nesta lição, você vai conhecer as diferentes escolas que se formaram e os
conceitos que estiveram associados a cada uma delas. No fim da aula,
você vai dispor, como sempre, de um momento para reflectir sobre aquilo
que aprendeu, respondendo ao questionário respectivo. Para isso, você
dispõe de quatro horas para este estudo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer os principais períodos da Antropologia
 Distinguir os vários autores que elaboraram as teorias antropológicas.
 Reflectir sobre as diferentes posições teóricas dessas correntes
 Conhecer os conceitos evolução, difusão, função e estrutura e os
Objectivos conceitos de Evolucionismo, Difusionismo, Funcionalismo e
Estruturalismo;
 Explicar a história da Antropologia Cultural com base nas suas
correntes/escolas;
 Concluir que são correntes/escolas sempre questionáveis num
constante processo de retomada.
 Distinguir as teses de cada uma das teorias/correntes
 Explicar as verdadeiras razões históricas do surgimento da
Antropologia Cultural.

Conteúdo
EVOLUCIONISMO CULTURAL

Como você pode depreender, o Evolucionismo deriva do termo


“Evolução”. O evolucionismo Cultural surgiu com a emergência da
própria Antropologia Cultural no século XIX. Contudo, a ideia da
evolução surgiu já na antiguidade clássica, quando os pensadores se
34 Lição 3

preocuparam com o problema da origem do Homem e do Universo, como


no Génesis, nos textos das cilivizações mesopotâmicas, nos poemas
épicos da Ìndia, entre outras narrações. Certamente que você pode
confirmar isso a partir, por exemplo, da leitura da Bíblia.

O Evolucionismo estabeleceu-se como corrente na segunda metade do


século XIX, apesar de ter as suas bases fundadas nos dois séculos
precedentes, concretamente na ideia do progresso das civilizações,
expressa por Condorcet e no Iluminismo. Se se recorda, o Século XIX
conheceu largas transformações sociais, mas também o progresso ficou
demonstrado pela Revolução Industrial, pela explosão do modo de vida
urbano, que indicavam a capacidade evolutiva do homem. Como defende
Martinez (2004, p. 60), o gérmen das teorias evolucionistas alcançou o
seu auge neste século em virtude de haver manifestação de confiança dos
estudiosos na capacidade do homem de fazer uma história cada vez mais
grandiosa,

A teoria evolucionista apoiar-se-ia no transformismo de Lamarck,


identificado como fundador da teoria da evolução e nas ideias de Charles
DARWIN sistematizadas na “A Origem das Espécies”. Edward TYLOR
ao sistematizar o estudo da cultura seria considerado o pai da
Antropologia. Em 1871 publica o seu livro Primitive Culture, (Cultura
Primitiva), onde propôs outra sequência para o desenvolvimento religioso
no Homem: Animismo, que segundo ele teria sido o primeiro estágio; o
Feiticismo, a Idolatria, o Politeísmo e o Monoteísmo, como a última fase
e a mais evoluida da manifestação religiosa. TYLOR define a cultura e
segundo Bernardi (1978, p. 177), com ela estão impregnados aspectos
que constituiriam centrais nos estudos antropológicos, como a integração
etnémica, estrutura e função, relativismo cultural, o indivíduo e a
comunidade.

Várias foram as contribuições para o evolucionismo, de entre as quais as


de Lewis MORGAN que, em 1878, publicou o livro Ancient Society.
Este estudioso ocupou-se do estudo da organização social. Segundo
Bernardi (Ibid., p. 179) MORGAN fez um “(...) estudo científico e
sistemático do parentesco como fundamento necessário da organização
social e política”. James FRAZER é outro clássico deste período.
Defendia que todas as sociedades passavam por três estádios: mágico,
religioso e científico. Ele usou largamente o método comparativo nos
seus estudos, que se declinavam sobre a magia, o totemismo e a
exogamia.

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO EVOLUCIONISMO

Um dos aspectos dominantes entre os evolucionistas, apesar de não


explicarem os seus motivos, foi conceber a sucessão dos estágios de
desenvolvimento como característico nos Humanos e verem a cultura
como aspecto tipicamente de todos os grupos humanos. Segundo eles, as
mudanças culturais resultavam da dinâmica natural e não dependiam nem
do ambiente nem da história. De modo geral, os evolucionistas
debruçaram-se sobre temas religiosos, familiares, jurídicos e aspectos da
cultura material, isto é, o objecto de estudo era diversificado. Tais temas
eram vistos segundo uma evolução universal e unilinear. O “exótico”e os
povos “primitivos” constituíam o centro dos estudos, cuja razão era
encontrada nesse processo evolutivo.
Antropolologia Cultural 35

Na interpretação das instituições sociais, os evolucionistas “(...)


acreditavam que, voltando os olhos ao passado, teriam subsídios para
determinar como a história da cultura humana se comportaria” (Mello,
2005, p. 204). Os evolucionistas introduziram um tempo cultural como
uma nova dimensão cronológica. Esta foi a outra característica do
evolucionismo.

Finalmente, o uso alargado do método comparativo constituíu uma das


características dos evolucionistas. Contudo, o facto de não haver um
grande rigor na aplicação desse método, a falta de crítica das fontes e a
ausência do trabalho de campo pesaram muito no enfraquecimento desta
corrente. Por outro, as dúvidas repousam sobre os factores da evolução
cultural, ao indicar aspectos subjectivos de carácter psicobiológico.

O D1FUSIONISMO

O Difusionismo centra-se na difusão e nos contactos entre os povos como


factores da dinâmica cultural, que é reconhecida como um fenómeno
universal e humano. O difusionismo fundamenta-se no pressuposto
histórico para explicar as semelhanças existentes entre as diferentes
culturas particulares. É por causa disso que também se chama
historicismo (Mello (2005, p. 222-223). O Difusionismo congrega várias
escolas ou tendências da Antropologia Cultural: Difusionismo Inglês,
Difusionismo Alemão, ou Escola de Viena e Escola ou Difusionismo
Americano. O Difusionismo, difundido entre 1900 e 1930 está dentro do
período da crítica, de que falaremos na lição seguinte.

Diferentemente do Evolucionismo, preocupa-se pelo rigor na pesquisa,


tendo, por isso, desenvolvido um trabalho de campo, com a recolha de
dados e posterior elaboração teórica. A observação participante foi
privilegiada como uma das técnicas de pesquisa, e, ao mesmo tempo, foi
incrementada a Linguística. Por isso, a Etnografia conheceu uma
afirmação com o Difusionismo.

Foram também privilegiados estudos das culturas particulares, dando


maior segurança nas informações e um maior conhecimento de
fenómenos antes relegados a um segundo plano (Ibid., p. 224).

Características das Escolas Difusionistas.

A Escola Inglesa

Surgida na segunda década do século XX, a Escola Inglesa teve como


estudiosos Grafton Elliot SMITH e o seu discípulo W.J. PERRY, que
veio a implantar definitivamente a Escola. SMITH introduziu o fenómeno
do paralelismo cultural, daí que o fundamento desta escola foi o de
defender a difusão como principal motor da dinâmica cultural. Foi levada
a isso talvez ao verificar quão difícil é a inovação ou a criação de novos
valores culturais. Para esta escola, a cultura de todo o mundo moderno
era basicamente a mesma por conta da difusão (teoria pan-egípcia), e
ficou conhecida por seu método pouco científico e por sua especulação
fantasiosa.
36 Lição 3

Os pontos fracos desta escola foram: a manipulação de informações


inseguras e duvidosas; falta de rigor cronológico dos acontecimentos e o
grande radicalismo ao considerar o Difusionismo como única base da
explicação das semelhanças culturais existentes entre diferentes grupos.

A Escola de Viena (o Difusionismo Alemão)

Esta escola teve como percursores GRAEBNER, um dos seus principais


fundadores, RATZEL, FROBENIUS, W FOY, F. e SCHMIDT. É a
escola também designada como histórico-cultural. Quanto à metodologia,
privilegia o uso de informações seguras, tendo sido, por isso uma das
contribuições desta escola para a Antropologia. Grabener defendia que na
análise da difusão cultural era necessário ter em conta o número e a
complexidade, onde “(...) quanto maior for o número de semelhanças,
maiores são as probabilidades de ter havido empréstimos” (Mello, 2005,
p. 228). Tanto estes, como os ingleses, o seu trabalho é basicamente o de
gabinete e neste contexto aproximavam-se dos evolucionistas.

A Escola ou o Difusionismo Americano.

O principal defensor desta Escola foi Franz BOAS. Seguiram-se-lhe,


segundo Martinez, (2004, p. 63), Alfred KROEBER, Clark WISSLER, P.
RADIN, E. SAPIR, Ruth BENEDICT, Margareth MEAD. Tendo como
objecto a cultura universal, a principal característica foi de terem optado
pelo estudo de áreas culturais muito pequenas, por considerarem a cultura
complexa e ser, segundo eles, difícil conhecê-la completamente.

O trabalho de campo foi pouco privilegiado, alias tal como ocorria com
as outras escolas.

O FUNCIONALISMO

O funcionalismo é uma corrente fundada por Bronislaw MALINOWSKI,


a partir de 1914. Esta corrente teve a sua maior influência entre 1930-
1940. Querendo ultrapassar as tendências dominantes na época
(preocupações pela origem e pelos problemas das transformações sócio-
culturais), o funcionalismo tenta explicar o funcionamento de uma cultura
num determinado momento. As noções de utilidade (para que serve?), de
causalidade (qual é a razão?) e de sistema (conhecimento da
interdependência dos elementos num conjunto coerente) determinaram a
emergência desta corrente.

Vários foram os representantes da corrente funcionalista: H. SPENCER,


via a função como a finalidade procurada intencionalmente; E.
DURKHEIM, defendia a função “como a causa eficiente dos processos
sociais de adaptação, de organização e de integração” (Rivière, 2000, p.
52). Segundo DURKHEIM, os factos sociais são regras de
comportamento, normas, padrões de valores, expectativas que a socie-
dade tem dos seus membros. A pessoa se encontra num mundo onde
existem certas regras e onde ela sofre se as viola. E essa realidade ocorre
no seu meio de residência, não é verdade? A.R. RADCLIFFE-BROWN
era de opinião de que a função pode contribuir na organização e na acção
de um conjunto, mas não predetermina a instituição que a realiza.
Interessa-se pelos sistemas de relações entre homens e grupos. Uma das
principais críticas desta corrente reside no facto de não explicar a génese
e as transformações de uma cultura ou organização.
Antropolologia Cultural 37

Contudo, foi MALINOWISKI quem revolucionou a investigação, com o


privilegiamento do inquérito de campo e a elaboração do método de
observação-participante. Ele definiu a cultura como “aparelho
instrumental que permite ao homem resolver da melhor maneira os
problemas concretos e específicos que deve enfrentar no seu meio,
quando tem de satisfazer às suas necessidades”(Id.). Segundo ele, se a
cultura é um mundo artificial criado pelo homem, é também uma
extensão do mundo natural, dado que a satisfação das necessidades
orgânicas ou básicas do homem resulta das condições impostas a cada
cultura. A solução desses problemas cria como um novo ambiente que
permanentemente reproduzido, mantido e administrado cria um novo
padrão de vida (Martinez, 2004, p. 65).

Como modelo de análise para o trabalho de campo, MALINOWSKI


elegeu a instituição. MA, que para ele era constituída pelos seguintes
elementos: estatuto pessoal, normas, aparelhagem material, actividades,
função. Os tipos institucionais, segundo Malinowski, eram classificados
segundo o princípio de integração, como a família, a aldeia, grupos por
sexos, por idades, Sociedades secretas, etc.
ESTRUTURALISMO

Embora possa ser integrado na Escola Funcionalista, Alfred R.


RADCLIFFE-BROWN, é um dos mentores do Estruturalismo. Ele define
estrutura como a disposição ordenada das partes ou elementos que
compõem um todo. Num sentido lato, a estrutura associa sistemas, como
o parentesco, a religião, a politica, mas num sentido restrito, põe em
relevo a rede de relações entre as posições sociais. É o sistema simbólico
das relações constantes entre os factos. A análise utilizada pelo
Estruturalismo apresenta-se como uma análise sincrónica, sem considerar
a dialéctica que existe no desenrolar da história.

Claude LÉVI-STRAUSS acentua o valor de signo e de símbolo dos


elementos singulares e a constância das suas relações mútuas. Por
exemplo, sobre o parentesco, analisa-o como um sistema de comunicação
e de trocas entre estatutos e papéis sociais, de acordo com um princípio
de reciprocidade, que consiste em se interditar o parente próximo para o
trocar por um cônjuge proveniente de outro grupo.

Uma estrutura oferece um carácter de sistema. Ela consiste em elementos


tais que uma modificação qualquer de um deles acarreta uma modificação
de todos os outros.

Em segundo lugar, todo modelo pertence a um grupo de transformações,


cada uma das quais corresponde a um modelo da mesma família, de
modo que o conjunto destas transformações constitui um grupo de
modelos.

Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima permitem prever de


que modo reagirá o modelo, em caso de modificação de um de seus
elementos. Enfim, o modelo deve ser construído de tal modo que seu
funcionamento possa explicar todos os factos observados. Assim,
segundo C. Lévi-Strauss, a estrutura é um tipo de formalização que se
adapta a um conteúdo variado.
38 Lição 3

Sumário
Após a emergência da Antropologia como ciência desenvolveram-se

Tome Nota!
Antropolologia Cultural 39

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 165-223.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 21-32.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 60-68.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 199-298.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


35-60.
40 Lição 4

Lição 4

Críticas à Antropologia em Geral,


em África e em Moçambique

Introdução

Nesta lição terá a ocasião de conhecer as críticas que se impuseram para o


desenvolvimento da Antropologia sobretudo para ela se libertar do
servilismo colonial, em África e em Moçambique.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer os propósitos da Antropologia Moderna;
 Perceber que a partir da crítica se abrem novos campos para a
Antropologia e estudos sobre a cultura popular.
 Analisar a situação da Antropologia em África, em geral e em
Objectivos Moçambique, em particular, durante o domínio colonial.

Conteúdo
Depois da emergência da Antropologia como ciência, ela viu-se
envolvida, quase em simultâneo, em críticas, em torno da sua essência.
Por isso, pode dizer-se que a Antropologia conhece a primeira crítica
internamente.

As diferentes correntes que se sucederam podem ser postas nesse nível de


crítica da Antropologia, já que nos primórdios do século XX os estudos
passaram a apresentar novas direcções, relativamente distantes da teoria
evolucionista. De facto, a partir dessa altura passaram a ser criticados os
princípios iniciais da Antropologia, foram propostas novas abordagens,
condicionando a reformulação da Antropologia Cultural. Em
consequência, o objecto inicial seria reformulado e haveria o
enriquecimento da Antropologia, por exemplo com a integração de
estudos psicológicos, linguísticos, com a pesquisa do campo. James
FRAZER (1854-1941), avançou com estudos comparativos das
Antropolologia Cultural 41

sociedades; Alfred RADCLIFFEE-BROWN (1881-1955) e Bronislaw


MALINOWSKI (1884-1942) desenvolveram intensos “trabalhos de
campo”. Este último veio a ser o mais metódico pesquisador de campo,
mais privilegiado na Antropologia Moderna. Edward EVANS-
PRITCHARD (1902-1973), importante sociólogo, se interessou pelo
estudo das dinâmicas sociais, conflitos e mudanças culturais.

O sociólogo francês Émile DURKHEIM (1858-1917), mesmo servindo-


se da sociologia, procurou encontrar explicação científica da acção social
e política, apresentando a religião como factor integrador fundamental da
sociedade. Os seus estudos tiveram um cariz etnológico. Esse contributo
foi acrescido por Marcel MAUSS (1872-1952), seu discípulo, que apesar
de ser também sociólogo, formou a primeira geração de antropólogos
franceses. Este promoveu o surgimento da Antropologia Contemporânea
francesa ao dar maior ênfase a um “trabalho de campo” directo,
prolongado e sistemático. Publicou um Manual de Etnografia, em 1947.

Franz BOAS (1858-1942), fundou a tradição antropológica americana, no


fim do século XIX, defendendo, contrariamente aos evolucionistas, o
recurso rigoroso à história. A geração posterior de Antropólogos,
formada, entre outros, por Abrahan KARDINER, Margareth MEAD e
Ralph LINTON, seguiu a corrente culturalista, que explorou as
dimensões inconscientes da civilização (a personalidade individual em
relação às práticas do corpo, a noção cultural de feminidade e
masculinidade e seus papeis sociais, a relação entre culturas) (Martinez,
2004, p. 59).

A partir dos anos 50 do século XX, a Antropologia segue uma trajectória


complexa sob a influência de Edward EVANS-PRITCHARD (1902-
1973), Claude LÉVI-STRAUSS (1908…), e de autores contemporâneos
como Mary DOUGLAS, manifestando um interesse pela história e a
mudança, conflitos das dinâmicas sociais. Nas gerações dos anos 70 – 80,
do século XX dá-se também um interesse pelas representações e crenças,
pela ideologia e as relações de produção, pela organização social e o
parentesco, pelos mitos e os sistemas de pensamento e pelo simbolismo
(Id.).

A Antropologia passou a estudar não só o exótico, o primitivo, mas


também aspectos culturais do mundo ocidental. Assim, a área de estudo
passou a constituir não o “outro” geográfico ou histórico, para ser o
“outro” em relação ao pesquisador.

Mas essa crítica terá surgido de fora da Antropologia, quando, como


aponta Mello, (2005, p. 195) os povos que antes eram apenas objecto de
estudo dos europeus e norte-americanos, como os africanos, os asiáticos e
os latino-americanos, começaram a cultivar também estudos
antropológicos. Actualmente ocorre a reinterpretação ou a reavaliação da
Antropologia Cultural, segundo perspectivas elaboradas internamente e
não pela alteridade do europeu. Esperam-se ainda estudos sistemáticos
tipicamente novos, como o estudo da cultura popular, o folclore, da
globalização, da vida urbana, etc,. Dessa forma, a Antropologia libertou-
se do servilismo colonial.
42 Lição 4

Sumário
Desde a emergência da Antropologia que ela passou a confrontar-se
com várias críticas quanto à sua orientação. Tais críticas ajudaram na
reformulação da Antropologia Cultural, a qual passou a ser uma
disciplina não só de povos exóticos, mas também de todos os grupos
populacionais. Face a essa crítica, a Antropologia estabeleceu-se
Tome Nota!
como uma ciência objectiva de facto.

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:

1. Em que contribuiram as críticas feitas à Antropologia?


Auto-avaliação
2. Depois deste estudo é capaz de indicar alguns estudos
antropológicos em Moçambique em particular do período
colonial?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Contribuíram imenso para a cientificação da Antropologia


enriquecendo-a na orientação psicológica, no estudo linguístico,
no incremento notável do estudo e pesquisa de campo, para além
de se libertar do servilismo colonial.

2. Sobre esta questão é necessário que você procure alguns exemplos


de estudos antropológicos feitos durante o período colonial.
Podem-se apontar estudos como os de Jorge Dias (Os Macondes
de Moçambique), de Henri Junod (Usos e Costumes dos Bantu),
de Frei João dos Santos (Ethiópia Oriental), ou as monografias
etnográficas dos Administradores coloniais.

 Se teve dificuldades, não desista, volte a realizar a actividade. Se a


dificuldade persistir consulte as obras indicadas abaixo ou o seu tutor.
Antropolologia Cultural 43

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 165-223.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Leitura Edições 70, 1971, p. 21-32.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho


da Matola: S/Ed, 2004, p. 60-68.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas.


Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 194-197.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


35-60.

Actividade Final da Unidade


Depois de você reavaliar as noções preliminares da Antropologia, como o
outro, a Etnografia, a Etnologia, o objecto inicial da Antropologia
Cultural, procure reflectir os passos que foram tomados entre a aplicação
inicial daquelas noções e a Antropologia Contemporânea.
Actividade
44 Unidade 3

Unidade 3

A Cultura

Introdução
Bem vindo à III unidade de estudo, na disciplina da Antropologia
Cultural. Nesta unidade você vai aprender aspectos relacionados com a
Cultura Humana, tocando um dos conceitos largamente usados e,
frequentemente, de forma distorcida. Aliás, esta unidade é de capital
importância em virtude de ser aqui onde pode ser entendida toda a
natureza do ser Humano, a ser estudada nos capítulos subsequentes.

Estrutura

Esta unidade temática comporta 10 lições. Para cada uma delas, você vai
disponibilizar o tempo recomendado para o estudo.

Tópicos da Unidade

Lição 1. O Conceito de Cultura

Lição 2. As Características da Cultura

Lição 3. A Totalidade Cultural : unicidade, diversidade e etnicidade

Lição 4. Da Diversidade Cultural à Relatividade Cultural

Lição 5. A Aplicação do Etnocentrismo

Lição 6. Dinamismo Cultural

Lição 7. Os Factores da Cultura

Lição 8. A Interacção dos Factores

Lição 9. A Interacção entre a Cultura e a Natureza; a Sociedade e a


Civilização

Lição 10: A Identidade Cultural


Antropolologia Cultural 45

Ao completer esta unidade / lição, você será capaz de:

Geral

• Conhecer a natureza da cultura.


Objectivos Específicos

• Conhecer o conceito antropológico de Cultura;

• Distinguir as diferentes características da Cultura;

• Explicar a unidade e a diversidade da cultura ;

• Conhecer os factores sincrônicos e diacrônicos da cultura;

• Saber identificar os aspectos que derivam do uso inadequado


dos conceitos ligados à diversidade cultural.

Motivações

Saber que a Cultura é o elemento fundamental da diferenciação do


Homem em relação aos outros seres animais. A partir desta unidade, você
vai saber que não existe nenhuma cultura superior à outra. Que todas elas
são relativamente iguais.

Meios

Para além das referências bibliográficas presentes no fim de cada lição,


poderá usar textos de apoio, visitas a museus etnográficos, sempre que
eles existirem, mas também a sua própria comunidade. No contacto com
a realidade local a sua compreensão sobre a cultura será mais eficaz.
Tenha um bom proveito.
46 Lição 1

Lição 1

O Conceito de Cultura

Introdução
Na sua vida quotidiana, você tem ouvido expressões como: você não tem
cultura; os jovens não têm a cultura de leitura; nós é que temos cultura
em relação àqueles, etc. Na verdade, o que expressa o termo cultura?
Nesta lição vai ter o contacto com o conceito antropológico da cultura.
Para isso, terá duas horas de estudo para concretizar os objectivos que se
seguem. No fim, você tem umas actividades e a auto-avaliação, que
servem para testar o grau de aprendizagem. Procure primeiro resolver,
antes de consultar as respostas que constam no fim.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Conhecer o conceito de cultura

 Identificar os elementos de cultura


Objectivos  Reconhecer um nível de cultura

Conteúdo
O termo Cultura tem múltiplas aplicações e foi usado em
diferentes épocas e sentidos, tal como ocorre na fase actual. Ele é
usado em várias ciências, desde as físicas às sociais. Mesmo na
Antropologia, o seu uso conheceu várias significações nas
diferentes escolas ou correntes. Contudo, o termo tem a sua
origem do Grego, para significar cultivar. O termo Cultura teve a
sua definição antropológica clássica com Edward Tylor. Segundo
este, a Cultura é “Complexo unitário que inclui o conhecimento,
a crença, a arte, a moral, as leis e todas as outras capacidades e
hábitos adquiridos pelo homem como membro da
sociedade”(Bernardi, 1978, p. 24). Há ainda quem entende a
cultura como “uma estrutura de significados, transmitidos
historicamente, encarnados simbolicamente, para comunicar e
desenvolver o conhecimento humano e as atitudes para com a
vida, uma lógica informal da vida real e do sentido comum de
Antropolologia Cultural 47

uma sociedade, que funciona também como controlo” (Martinez,


2004, p. 23). Várias definições existem que não seriam esgotadas
neste módulo. Traremos ainda mais do que uma definição, uma
caracterização da própria cultura, dada pela UNESCO. Segundo
esta organização, a cultura é“um conjunto de traços distintivos,
espirituais e materiais, intelectuais e afectivos, que caracterizam uma
sociedade ou um grupo social. Ela abrange, além das artes e as letras,
os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas
de valores, as tradições e as crenças. A cultura dá ao homem a
capacidade de reflexão sobre si mesmo. A cultura faz de nós seres
especificamente humanos, racionais, críticos e eticamente
comprometidos. Através da cultura discernimos os valores e fazemos
opções. Por meio dela a pessoa se expressa, toma consciência de si, se
reconhece como projecto inacabado, põe em questão as suas
realizações, procura incansavelmente novos significados e cria obras
que o transcendem”(Ibid., p. 24).

Como pode ver, os três conceitos põem em relevo: o carácter humano da


Cultura; o facto de ela ser transmitida e adquirida historicamente pelo
Homem entanto que membro de um grupo social; ter um carácter
simbólico, característico de cada grupo humano; ser um sistema
complexo; que evolui; etc. Como pode depreeender, no seu sentido
antropológico, a cultura encerra vários aspectos.

Importa saber que a Cultura é um produto da actividade mental do


Homem, diferente da actividade animal, pela sua codificação dentro de
um grupo social. A sua transmissão é feita segundo regras pré-
estabelecidas de geração em geração, isto é, por um processo de
socialização, com agentes bem identificados.

Componentes e Níveis de Cultura

Tal como depreendeu da definição da própria cultura, esta envolve vários


elementos tais como atitudes, valores, conhecimentos, costumes.
Contudo, é necessário frisar que a Cultura é uma totalidade e não um
aspecto particular ou parcial da actividade mental ou de uma
manifestação humana. Você não pode identificar, por exemplo, a simples
forma de comer, como um padrão cultural, dado que esta é uma
expressão cultural, integrada num vasto complexo. Por detrás da forma de
comer há outros significados. Ou a maneira como você e a sua comunidade
pensam sobre a terceira idade ou em relação ao papel e ao lugar da
mulher, não é a mesma que as outras sociedades. O mesmo acontece com
as crenças e todos os outros componentes culturais, tais como: símbolos;
ideologias; atitudes; usos de um determinado complexo cultural.

Todos estes elementos da Cultura são aprendidos normativamente. A


Cultura tem valores-chave ou essenciais, organizados num sistema. A
conduta humana governa-se por padrões culturais, isto é, é a Cultura que
orienta a vida das pessoas. Quando na sua comunidade diz-se que não
faça isto e aquilo, é prova dessa orientação das pessoas pela cultura.

Contudo, é necessário enfatizar que o comportamento individual apesar


de estar sujeito a regras culturais, nem sempre segue o ditado ou as
regras. Aí surge o que podemos chamar de: nível ideal da cultura (o que
os indivíduos deveriam fazer ou o que dizem estar a fazer) e nível real da
cultura (o que fazem realmente no seu comportamento observável). Mas,
nem por isso o nível ideal deixa de pertencer à realidade. Com esta
48 Lição 1

realidade, a cultura mesmo na condição de normalizadora, pode ser a base


da emergência de um conflito. De facto, sempre que as pessoas se sentem
insatisfeitas sobre uma determinada conduta, elas violam-na. (Ex: quando
alguém ultrapassa a limitação de velocidade num determinado local). E
esses atropelos existem na sua comunidade, não é verdade?

Ainda a cultura pode ser subjectiva, ao expressar o conjunto de valores,


conhecimentos e experiências presentes nos indivíduos como membros
de uma sociedade, isto é, quando ela é interpretada de forma individual e
objectiva, quando o conjunto dos valores e significados é exteriorizado,
formando o património cultural de um povo.

Sumário
A cultura é um sistema complexo de práticas características da
sociedade humana. A cultura compreende vários elementos, desde
atitudes, valores, conhecimentos, costumes, símbolos, ideologias,
usos. Existem vários níveis de cultura, desde o ideal ao real. A cultura
pode ser também objectiva e subjectiva.
Tome Nota!

Exercícios

1. Indique o conceito de cultura

2. Identifique os elementos da Cultura


Auto-avaliação
3. Diferencie Cultura objectiva da subjectiva

4. Procure identificar as expressões do nível ideal e real da Cultura da


sua comunidade.
5. Entre a forma de vestir de um indivíduo e a forma de comer da sua
comunidade, identifique o que expressa a Cultura objectiva e a
Cultura subjectiva.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos


Antropolologia Cultural 49

Respostas

1. Você deve procurar apresentar o carácter humano, unitário,


social da Cultura.

2. Os elementos da Cultura são: atitudes, valores, conhecimentos,


costumes, símbolos, ideologias, atitudes, usos.

3. Cultura Objectiva é aquela que expressa a forma de viver de um


grupo social, enquanto a Cultura Subjectiva são as interpretações
particulares da cultura.

4. Aqui o você deve procurar os desvios e as normas de uma


determinada expressão cultural, para identificar os níveis ideais e
reais da Cultura.

5. O vestir é a forma subjectiva e o comer é a objectiva.

 Se teve dificuldades, não desista, volte a realizar a actividade. Se a


dificuldade persistir consulte as obras indicadas abaixo, caso a
dificuldade persisitir consulte o seu tutor.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 19-119.

MARCONI, A. & LAKATOS, E. Mª. Sociologia Geral, 7ª edição. SP, Edição


Atlas, 130-148.
Leitura
MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e
Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.

OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-


128.
50 Lição 2

Lição 2

As Características da Cultura

Introdução
Nesta lição vai poder conhecer as diferentes características da Cultura
Humana. De facto, a Cultura Humana apresenta peculiaridades por
expressar, por um lado, o visível e, por outro, o invisível; ao expressar o
particular, mas também o geral e outros contornos, como poderá
constatar. Você constatará que nestas características, a cultura coloca em
oposição duas realidades. No fim, você tem umas actividades de auto-
avaliação, que servem para testar o grau de aprendizagem. Procure
resolver, antes de consultar as possíveis respostas.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Identificar as características da Cultura Humana.

Objectivos

Conteúdo

A Cultura apresenta várias características. Se por um lado há um mundo


visível, por outro existe o invinsível, mas expresso de forma simbólica.
Assim, uma das características é o seu carácter simbólico. De facto, a
acção humana está geralmente carregada de símbolos que reflectem
acções, objectos, espaços, instituições, isto é, tudo o que está ligado ao
homem. Um simples gesto pode significar algo, mas um mesmo gesto
pode variar de um complexo cultural para o outro, daí a necessidade de
nem sempre ser tangível este mundo, precisando, por isso, de uma
aprendizagem. O próprio símbolo, uma vez integrado num padrão
cultural acaba desempenhando a função comunicativa entre os membros
de um determinado grupo.
Antropolologia Cultural 51

Você já fez algo que não seja praticado por um outro ser humano? Ao
reflectir há-de notar que não há nada que você faça e não seja praticado
por um ser humano ou pelo grupo social onde você se integra. É por
causa disso que se diz que a Cultura é social, na medida em que ela se
forma, se partilha e se transmite no interior de um grupo social e nunca
em indivíduos separados. Uma norma de comportamento só pode ser
concebida como tal se envolver um grupo social determinado e
localizável num espaço. É por causa disso que os processos de
transmissão são também sociais, seja qual for a sociedade.

Se olhar atentamente vai notar ainda que as práticas sociais e culturais


são algo que duram no tempo. Nada é passageiro, mesmo que varie a
forma da sua manifestação. É por causa disso que se diz que a Cultura é
estável. Mas também ela é dinâmica. À primeira vista parece haver uma
contradição entre a estabilidade e o dinamismo. Mas eles estão
intrinsecamente ligados.

Normalmente, cada grupo social procura preservar os valores que o torna


autêntico e diferente dos outros. Essa procura da demarcação do espaço
cultural leva, de certa maneira, a uma estabilidade das normas que regem
um determinado grupo. Hoje tem-se em conta que este pressuposto, não
pode ser visto como um bloqueio aos comportamentos de outras culturas,
dado que isso só podia significar, de certa maneira, a exclusão cultural
dos outros grupos e falta de uma comunicação intercultural.

A Cultura é dinâmica, na medida em que está em constante


transformação, sempre que existir uma causa para o efeito. Essa dinâmica
pode ser encontrada no interior de um grupo de pessoas ou no seu
conjunto. Por exemplo, uma classe de idades ou uma faixa etária,
segundo as sociedades, tem um certo conjunto de normas, que vão sendo
complementados à medida em que esse grupo passa para estágios
superiores. Mas com a própria dinâmica temporal, fruto da evolução
material de uma sociedade ou da acção directa dos membros, de
contactos com outros grupos, certos elementos que antes eram
considerados integrantes podem ser excluidos. Ela transforma-se
consciente ou inconscientemente.

A cultura é também selectiva, na medida em que integra os valores,


códigos, sistemas que um determinado grupo acha pertinentes. Assim, há
uma avaliação inicial dos novos elementos, que culmina com a aceitação
ou rejeição dos mesmos numa cultura determinada. Essa selecção pode
ocorrer ainda na sucessão das gerações. Muitas vezes, as novas gerações
têm considerado algumas normas das gerações precedentes como “fora da
moda”. Contudo, quando os factores exógenos são fortes, persistentes ou
põem em causa a sobrevivência de um grupo, pode ocorrer que haja uma
integração de certos elementos novos sem a respectiva selecção. É isso
que ocorre entre os países do “Terceiro Mundo” em relação aos de
técnicas muito avançadas.

A Cultura é universal, regional e local. É universal na medida em que


todo o ser humano é um ser cultural. Não há um homem que não tenha
cultura. Os Universais Culturais, que você verá mais adiante, são o
sinónimo dessa universalidade da Cultura, mesmo que se saiba que a
maneira de expressá-los é muitas vezes diferente. Essa diferença surge na
resposta que cada grupo dá localmente a um certo impulso. Mas por
outro, pode ser que haja certas práticas específicas de determinados
52 Lição 2

locais, circunscritas em função das condições existentes ou criadas


localmente. Nesse âmbito estar-se-ia na presença de manifestações
particulares da Cultura. Estamos a falar da manifestação regional ou local
da Cultura.

A Cultura é determinante e determinada: Se por um lado a Cultura é


fruto da actividade mental do Homem, este acaba sendo o produto da
Cultura. O Homem depois de nascer é circunscrito a um ambiente
cultural, regendo-se por comportamentos e normas pré-estabelecidas.
Mas isso não significa que este não possa modificar esse mesmo
ambiente, na medida em que ele é um agente activo no interior do seu
meio cultural através de vários processos: económicos, políticos, sociais,
etc.

Sumário
A cultura tem várias caracteísticas. Ela é simbólica, selectiva,
determinante e determinada, local e universal, estável e dinâmica.

Tome Nota!

Exercícios

1. Em que consiste cada característica da Cultura?

2. Apresente as formas da transmissão da cultura na sua comunidade.


3. Como é que o Homem é capaz de influenciar a dinâmica da sua cultura?
Auto-avaliação

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. A partir das características da Cultura, (carácter simbólico, universal


e local, dinâmico e estável, determinada e determinante, social,
selectivo, etc.), você deve ser capaz de identificar o que especifica
cada caraterística.

2. As formas de transmissão da Cultura variam de um local para o outro:


pode ser formal (educação dada por instituições especializadas) ou
informal (jogos, canções). O importante é o estudante identificar, para
além da escola oficial, as formas de transmissão da Cultura,
Antropolologia Cultural 53

específicas da sua comunidade, como por exemplo os ritos de


passagem, onde eles existem.

3. O Homem pode ser capaz de influenciar a dinâmica cultural da sua


comunidade a partir de contribuições individuais relevantes para a
comunidade. Como veremos, mais adiante, os génios, os inventores,
podem alterar o comportamento cultural, quando as suas
contribuições são socializadas.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 19-119.

MARCONI, A. & LAKATOS, E. Mª. Sociologia Geral, 7ª edição. SP, Edição


Atlas, 130-148.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 21-54.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.

OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-


128.
54 Lição 3

Lição 3

A Totalidade da Cultura:
Unicidade, Diversidade e
Etnicidade

Introdução
Nesta lição vamos ainda aprofundar a natureza da Cultura Humana. Não
é novidade que os diferentes ambientes bioclimáticos condicionam
diferentes reacções do ser humano a essas adversidades. Surgem
diferentes formas de vestir, de construir as casas, de se alimentar. À
primeira vista, parece existirem diversidades inconciliáveis. Contudo, se
pegarmos nas acções veremos que todos os homens se vestem, constrõem
casas e alimentam-se. Assim, vamos ver como a Cultura pode ser, ao
mesmo tempo total e diversa e como, às vezes, essa diversidade é usada
por certos grupos humanos. Para tal, vai precisar de duas horas de estudo.
Como sempre, no fim desta lição, você tem umas actividades de a auto-
avaliação, que servem para testar o grau de aprendizagem. Procure
resolver, antes de consultar as respostas que constam no fim.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Identificar os universais culturais;

 Conhecer como a Cultura Humana pode ser total, mas diversa;


Objectivos  Conhecer as bases da emergência da diversidade cultural;

 Identificar os aspectos negativos que advêm da diversidade cultural.

Conteúdo
Se concebermos o Homem como uma espécie distinta das demais
espécies do reino animal, a sua particularidade será: o facto de ter se
desligado de forma considerável da natureza, conseguir padronizar as
aquisições materiais e transmití-las num determinado contexto. Este
Antropolologia Cultural 55

aspecto é comum a todo o ser humano. Você pode observar ainda que, em
todas as sociedades humanas, há estruturas mentais comuns a todos os
indivíduos, estruturas organizacionais fundamentais comuns a todas as
sociedades e a todas as culturas, mas ao mesmo tempo existe uma
variedade de culturas e de sociedades. Assim, essa realidade leva-nos a
dizer que todos os grupos humanos têm cultura, do mais pequeno ao mais
complexo grupo que se conheça. Você já viu que por onde anda todo o
grupo humano tem alguns pontos tais como:
− Uma linguagem padronizada, usada como veículo de
transmissão do que é legado pelos grupos predecessores;
− Viver em grupos sociais definidos segundo determinadas
regras como, por exemplo, a família, mesmo que não
implique que a organização familiar seja igual em todos os
grupos sociais;
− A prática da exogamia e o tabu do incesto, ou melhor a
proibição de casamento e da prática de relações sexuais entre
parentes próximos;
− O matrimónio, entendido como relação social estável e
duradoura, entre pessoas e
− A divisão social do trabalho.

Neste caso, poderíamos dizer que a Cultura é universal, porque seja para
que sociedade fossem aplicados estes termos, iriamos encontrar a sua
aplicabilidade. Estes traços culturais que existem em todas ou em quase
todas as sociedades denominam-se universais culturais. Os universais
culturais têm a particularidade de distinguirem os seres humanos das
outras espécies animais.

Contudo, se num sentido geral a Cultura é universal ao Homem, no seu


sentido mais restrito ela descreve um conjunto de diferenças de um grupo
humano específico em relação aos outros. De facto, a Cultura ao ser
partilhada pelas pessoas, é feita em função dos membros de um grupo que
vive num determinado meio. A Cultura converte-se, assim, num sinal de
identidade grupal. Por exemplo, as mesmas práticas anteriormente
indicadas como universais culturais ao serem analisadas em função das
diferentes áreas culturais têm manifestações díspares. Nesse caso
falaríamos de diversidade cultural.

A diversidade cultural apareceu a partir do momento em que cada grupo


social se adequou a um ambiente específico, teve uma história particular
ou conheceu um certo desenvolvimento diferenciado em relação aos
outros grupos, aparentados ou não. Você imagine, por exemplo, os
grupos Bantu que migraram para a África Austral. Se nos primórdios
todos os Bantu eram caracterizados pela prática da actividade agrícola, as
diversas migrações posteriores para os diferentes meios ecológicos
levaram a uma certa diferenciação entre eles. Hoje individualizaram-se ao
ponto de identificarem-se como diferentes uns dos outros. É nessa
identificação de um grupo, em relação aos outros, que emergem certos
fenómenos ligados à diversidade cultural, como, por exemplo, o
Etnocentrismo Cultural.

O Etnocentrismo Cultural é a tendência para aplicar os próprios valores


culturais no julgamento do comportamento e das crenças de pessoas de
outras culturas. Quando um grupo cultural X diz que os membros da etnia
56 Lição 3

Y alimentam-se mal, só pelo facto destes últimos comerem um alimento


que não é característico na zona do primeiro grupo, está-se em presença
de um etnocentrismo cultural.

Etnocentricamente, os indivíduos pensam que os seus costumes são os


únicos que são correctos, apropriados e morais. As pessoas pensam que
as suas normas representam a forma “natural” de comportamento, daí que
os outros são julgados como negativos. As visões etnocênctricas
entendem o comportamento diferente como estranho e “selvagem”, mas
também como inferior. O etnocentrismo é uma visão de acordo com a
qual o próprio grupo é o centro de tudo: todos os outros se medem por
referência a ele. Cada grupo alimenta o seu próprio orgulho e a sua
vaidade, proclama a sua superioridade, exalta as suas próprias divindades
e olha com desprezo para os outros. O Etnocentrismo pode manifestar-se
em diferentes níveis: aldeia, tribo, minoria étnica, área cultural.

Com o Etnocentrismo surgiu o termo de alteridade, isto é, o outro,


considerado como estranho a um determinado grupo de referência. Os
sistemas coloniais usaram esta alteridade em função de dois pressupostos:
geográfico e histórico. Desta forma, a noção de Cultura foi usada politica
e etnocentricamente, para separar grupos humanos. De facto, foi com a
colonização que surgiram os termos Grupos Étnicos ou a etnicidade.

Um Grupo Étnico é definido por semelhanças entre os seus membros


(crenças, valores, hábitos, normas, substrato histórico comum, etc.) e por
diferenças em relação aos outros (língua, religião, história, geografia,
território, etc.). Todos estes aspectos são referentes simbólicos que estão
mais na mente das pessoas que na realidade objectiva. Pode existir sem
ter um nível de consciência de identidade étnica.

Sumário

Os universais culturais são aqueles que apenas constituem o


manifesto das práticas humanas. Por exemplo, o acasalamento não é
universal cultural porque ele ocorre também entre os animais. Apesar
de a Cultura Humana ser universal ela é diversificada. Essa
Tome Nota! diversidade dá origem à alteridade, isto é, à formação do outro.
Antropolologia Cultural 57

Exercícios

1. Identifique três universais culturais para além dos que estão apontados
no texto.

2. Mostre que a Cultura Humana é total mas também diversificada.


Auto-avaliação
Certamente que na sua zona existirão práticas etnocêtricas. Identifique-as.

Respostas

1. Você deve identificar as práticas eminentemente humanas, não


praticadas também pelos animais.

2. De facto, se todos os grupos humanos têm os mesmos traços culturais,


a sua manifestação tem sido bem diferente de um grupo para o outro, o
que torna diversas as práticas culturais.

3. Geralmente, a atribuição de nomes pejorativos a outros grupos


populacionais, ou de práticas achadas não aconselhadas, ou outras
manifestação, fazem parte das manifestações etnocêntricas.

4. De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas
BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,
Edições 70, 1974, p. 19-119.

MARCONI, A. & LAKATOS, E. Mª. Sociologia Geral, 7ª edição. SP, Edição


Atlas, 130-148.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 8-13.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.

OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-128.


58 Lição 4

Lição 4

Da Diversidade à Relatividade
Cultural

Introdução
Na lição anterior vimos que o facto de os diferentes grupos sociais
expressarem de forma específica os mesmos aspectos culturais leva a
sugerir a existência de diversas culturas. Nesta lição vai aprender, por um
lado, os aspectos que emergem dessa diferenciação cultural e, por outro
lado, que essas diversas formas não são em si absolutas ou umas
melhores que as outras.

No fim, você tem umas actividades de auto-avaliação, que servem para


testar o grau de aprendizagem. Procure resolver, antes de consultar as
respostas que constam no fim.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

• Identificar as diferentes manifestações da criação do alter ou do


outro, nas diferentes fases da evolução da humanidade.

• Saber como se formam os estereótipos.


Objectivos
• Identificar a função dos estereótipos.

Conteúdo

Desde a origem do Homem, as diferenças foram sempre demarcadas. Na


fase primitiva podiam ser identificados os grupos humanos das savanas e
das florestas densas. A história deixou exemplos concretos de delimitação
de grupos sociais. Por exemplo, na Grécia antiga o “éthnos” era um
conceito que definia um grupo de pessoas diferentes do povo grego.
Nesse caso o “éthnos” representava o “outro”, o “estrangeiro” ou o
“étnico”. Face ao “éthnos”, existia o génos, que queria dizer nós.
Antropolologia Cultural 59

Quando estes elementos identitários são frequentemente usados, formam-


se como estereótipos. Os estereótios surgem para apreender a realidade
organizando-a em categorias: negros, brancos, os macuas, os mulatos, os
Machel. Surgem da categorização social, como um processo de
simplificação e sistematização da informação. Por acaso, nunca lhe
ocorreu simplificar algo para uma fácil memorização?

Os estereótipos também surgem por comparação social. Os estereótipos


exageram as diferenças entre categorias, comparam e organizam a
informação. Inventam-se diferenças para criar processos de identificação.
Os estereótipos podem surgir ainda por atribuição de características a
determinadas categorias, gerando expectativas e condutas. Estes
esterótipos são estruturas cognitivas partilhadas, debaixo das quais estão
sistemas de valores transmitidos pelos agentes de socialização (família,
escola, órgãos de comunicação social : por exemplo, é notícia nos canais
televisivos extra-africanos, a fome, a seca, a nudez, as guerras em
África).

Estes estereótipos funcionam por meio de um favoritismo endogrupal.


Geralmente valorizamos mais positivamente o nosso grupo e
desfavorecemos os outros. Acentuam-se as diferenças intergrupais e
reforçam-se as diferenças face aos pensados como “outros”, por meio da
homogeneidade interna exagerada, na procura de uma coesão interna.
Com os estereótipos homogeneiza-se o outro grupo, desindividualizando
os seus membros. Ex.: Já ouviu falar, por exemplo, que “Todos os negros
são iguais”! Que o grupo X é avarento. Mas quantas vezes essa
informação não reflecte a verdade! Neste caso, pode permitir rivalidades
ou concorrências.

Sumário
A identificação do outro é tão antiga como a origem da própria
humanidade. Tal diferenciação é acompanhada pela introdução de
estereótipos que, de certa forma, servem para fragilizar o “outro” e
favorecer o grupo de pertença.
Tome Nota!
60 Lição 4

Exercícios

1. Como surgem os estereótipos nos seres humanos?


2. Qual é a finalidade dos estereótipos?

Auto-avaliação Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas .

1. Os estereótipos surgem para repertoriar, sistematizar ou organizar


informações.

2. Geralmente, os estereótipos servem para acentuar as diferenças


intergrupais, através da procura de uma homogeneidade interna.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista, volte


a ler o texto. Se a dificuldade persistir consulte as obras indicadas
abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 19-119.
MARCONI, A. & LAKATOS, E. Mª. Sociologia Geral, 7ª edição. SP, Edição
Atlas, 130-148.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 8-13.
MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e
Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.
OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-128.
Antropolologia Cultural 61

Lição 5

A Aplicação do Etnocentrismo

Introdução
Se certos grupos sociais ocupando espaços sociais diferentes comungam a
fraternidade, geralmente, quando os homens se consideram importantes
em relação aos outros grupos, têm o impulso de aplicar os seus interesses
para esses outros. Às vezes, tal impulso é manifesto de forma violenta,
pondo em questão a sobrevivência do outro. Você vai apreender essa
realidade na presente lição. Para isso, dispõe de duas horas, seguidas pela
resolução de um exercício de auto-avaliação.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Identificar as formas mais exacerbadas da aplicação das diferenças
culturais.
 Conhecer as bases do privilégio da relatividade cultural na fase actual
.
Objectivos

Conteúdo
Na lição anterior você viu como surgem os estereótipos, na relação
entre grupos diferentes, cuja finalidade é de rotular os outros com
aspectos pejorativos. Quando tal processo ocorre ao nível de um
grupo étnico, estamos em presença de um etnocentrismo. O
etnocentrismo é concebido como sendo o uso da própria cultura
como base de explicação ou de descrição da cultura de outros
grupos étnicos ou povos. Há termos relacionados com o
etnocentrismo e que são estudados pela Antropologia, tais como:
Etnicidade, Etnogénese e Tolerância Étnica.

A Etnicidade tem como base um sentimento colectivo de


identidade. Implica identificar-se, afirmar-se como grupo étnico,
sentir-se parte dele. Serve como elemento de inclusão e de
exclusão.

A Etnogénese é o processo de afirmação, revitalização e


autoconsciência da identidade étnica de um grupo humano, numa
situação de confronto das diferenças socio-culturais para com
62 Lição 5

outros grupos. A África oferece exemplos concretos de práticas


etnocêntricas extremas, como o genocídio que resultou no
confronto entre os Hutu e os Tutsi.

Contudo, a mesma África oferece múltiplos exemplos de


convivência entre diferentes grupos étnicos, já que, geralmente,
muitos países têm mais do que uma etnia, resultante da formação
histórica desses países. Nesse caso tem se a Tolerância Étnica, um
processo que se manifesta no reconhecimento das diferenças
culturais mas convivendo num mesmo espaço. Contudo, a
Antropologia, do ponto de vista humanístico, deve servir para
melhorar a convivência e construir uma sociedade
democraticamente justa. Neste uso positivo das diferenças culturais
estaríamos a falar do relativismo cultural.

O Relativismo Cultural afirma que uma cultura deve ser estudada e


compreendida em termos dos seus próprios significados e valores, e
que nenhuma crença ou prática cultural pode ser entendida
separada do seu sistema ou contexto cultural. O comportamento,
numa cultura particular, não pode ser julgado com os padrões de
outra cultura. O Relativismo Cultural é tanto uma teoria
antropológica como uma atitude e uma prática antropológica, uma
forma de lidar com os outros, respeitando a diversidade. Assim,
nenhuma cultura, ou grupo social é mais importante que o outro.

A linguagem antropológica é baseada no multicultural, isto é, no


reconhecimento da existência de diversas culturas, cada uma é
importante dentro no seu território. É o Relativismo Cultural.
Entretanto, nessa perspectiva do Relativismo Cultural ético, há e
deve haver limites válidos para toda a humanidade. Que não se
tolerem aspectos imundos. (Ex. mutilação de clítoris nas mulheres,
frequente na África Sahariana). Existe, por isso, uma referência
moral e valores internacionais e humanos de justiça e moralidade
que nos fazem mais humanos.

Mas também o Relativismo Cultural mais extremo equivale à


eliminação de toda a regulamentação do comportamento humano e
pode cair no risco de justificar e/ou permitir a violência. É por
causa disso que existem por exemplo documentos normativos
como, “A Carta dos Direitos Humanos”. Neste caso, poderíamos
afirmar como fundamentos antropológicos da cultura:

O carácter local de toda a cultura, isto é, aplicada a uma certa


realidade social;

A equivalência de todas as culturas, sendo que nenhum ser humano


é mais cultural que o outro. Assim, tudo o que é etnocentrista,
elitista, o ocidentalismo, acaba sendo banal.

A cultura diz respeito a todas as manifestações humanas.


Antropolologia Cultural 63

Sumário
A história humana foi marcada pela criação do outro, em parte como
forma de marcar a identidade própria ou de identificar o próximo.
Essa alteridade, nem sempre, é introduzida de forma positiva, levando
à emergência, por exemplo, de etnocentrismos. Contudo, é necessário
saber que as diferenças culturais enquadram-se no contexto da
Tome Nota!
multiculturalidade, não havendo, por isso, alguma cultura mais
importante que a outra.

Exercícios

1. Qual é a etimologia da palavra etnocentrismo?

2. Em que se fundamenta a Tolerância Étnica?


3. Que elementos e acções devem ser postos em consideração no país para
Auto-avaliação
dissipar processos etnocêntricos?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Etimologicamente, etnocentrismo vem de etno (Ethnos = povo),


centrismo (no centro), isto é, a colocação de um grupo social como
centro de análise de um determinado aspecto.

2. A Tolerância Étnica baseia-se no Relativismo Cultural, isto é, no


princípio de que todas as culturas são equivalentes.

3. É preciso, por um lado, guiar todos os processos sociais em função da


lei mãe, a Constituição da República; É preciso promover vários
contactos inter-étnicos, em eventos de carácter nacional, para que a
diversidade seja vista como uma potencialidade que o país oferece.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista, volte


a ler o texto. Se a dificuldade persistir, consulte as obras indicadas
abaixo ou ao seu tutor.
64 Lição 5

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1974, p. 19-119.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho


da Matola: S/Ed, 2004, p. 9-10 e 29.
Leitura
MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e
Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.

OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-


128.

TITIEV, Mischa. Introdução à Antropologia Cultural 9ª edição. Lisboa,


Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.
Antropolologia Cultural 65

Lição 6

O Dinamismo Cultural

Introdução
Tal como se afirmou nas características da Cultura, apesar de ela ser
estável, é também dinâmica. O dinamismo surge como resultado do seu
carácter eminentemente humano e social, caracterizado por constantes
mudanças, quer como resultado da evolução bio-cultural do próprio
Homem, quer pelas mudanças que podem ocorrer no interior de um grupo
social. Vários são os factores que condicionam o Dinamismo Cultural,
tais como: a descoberta, a invenção, a difusão, a aculturação, a
desculturação e a globalização. Você tem duas horas para poder
reconhecer os factores que condicionam o dinamismo cultural.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

 Identificar os factores do Dinamismo Cultural.

 Diferenciar os factores internos e extenos do Dinamismo Cultural.


Objectivos  Definir os conceitos de enculturação, aculturação, desculturação, e
globalização.

Conteúdo
A DESCOBERTA E INVENÇÃO

Você já se inteirou de que a Humanidade vive de descobertas e


invenções. É verdade. Essas descobertas e invenções acumuladas vão
fazendo parte de um repertório cultural de determinados grupos sociais,
senão de toda a humanidade, em função da sua absorção nos diversos
quadrantes do Mundo. Todos os novos elementos descobertos ou
inventados podem condicionar o início de um processo que pode
culminar numa mudança cultural. Ao se constituirem como novidade no
grupo em que tais processos ocorrem, eles podem, por um lado, ser
incorporados num procedimento já existente, melhorando o anterior
66 Lição 6

estágio ou então condicionar o abandono de anteriores práticas. Quer seja


num ou no outro sentido, há uma mudança de uma prática. Esse processo
surge a partir do momento em que as práticas individuais são socializadas
pela comunidade onde os inventos ocorreram.

Ao lado da descoberta e da invenção, considerados factores locais, existe


a difusão, que também participa no processo da dinâmica cultural. A
difusão de uma técnica participa sobremaneira na dinâmica cultural.
Certamente você sabe que não há cultura que não tome por empréstimo
elementos de outras culturas. Pode mesmo afirmar-se que não existe
alguma cultura que seja constituída só por elementos originários. Por
outro, a difusão contribui para o diálogo inter-cultural, estimulando o
alargamento dos universais culturais e, também, enriquecendo as culturas
locais. A transmissão de um elemento cultural de um ponto para o outro
pode condicionar, ao mesmo tempo, reformulações, na medida em que
esse processo nem sempre é pacífico. Jogam nesta influência os contactos
entre as sociedades. Mas nem todos os processos culturais, como por
exemplo os elementos religiosos, são de fácil difusão.

A ENCULTURACÃO

Define-se como Enculturação, o processo educativo pelo qual os


membros duma cultura se tornam conscientes e comparticipantes da
própria cultura (Bernardi, 1978, p. 92). Ela pressupõe a transmissão da
cultura já estabelecida. Ela ocorre de maneira formal, quando transmitida
em instituições e modos rigidamente estabelecidos e, de maneira
informal, na vida quotidiana, com a familia, grupo de amigos, clubes, etc.
Entretanto, esses dois processos não estão dissociados, dado que a família
está enquadrada num complexo sócio-cultural e os pais foram educados
nas instituições formais de um determinado grupo social. Você pode
aperceber-se de que ninguém ensina nada em casa que não seja prática
social local. A iniciação instrutiva, como por exemplo os ritos de
puberdade, faz parte da Enculturação. A adesão implica um certo
conformismo às regras existentes, mas, às vezes, o processo de
transmissão pode ser seguido por uma recusa dessas práticas por parte do
membro que a recebe. De facto, nesse processo enculturacional, a
recepção dos valores não é aceite de forma passiva, dado que a
individualidade ou a capacidade de interpretação autónoma do que é
recebido tem o seu lugar.

A Enculturação tem fins normativos: as normas sociais (leis, tradições,


usos e costumes); função de controlo social e carácter institucional numa
determinada área cultural.

ACULTURAÇÃO

A Aculturação é um processo que resulta das relações existentes entre


várias culturas e aos efeitos que derivam dessas relações. Contudo,
quando tais contactos ocorrem entre povos que partilham a mesma
fronteira resulta uma osmose cultural, com o entrelaçamento de certos
etnemas das duas áreas culturais marginais. Quando essa compenetração
for maior tem-se o caso de fusão cultural, isto é, quando duas ou mais
culturas estão inseridas e são comungadas numa área cultural de forma
harmoniosa. O sincretismo religioso, prático em Moçambique, é um
exemplo prático. Por exemplo, você tem notado que certas pessoas,
apesar de praticarem uma religião introduzida por povos exógenos,
Antropolologia Cultural 67

continuam a venerar os seus defuntos? A introdução de rituais locais na


religião importada é, também, uma forma de sincretismo.

A Aculturação é uma transformação cultural em curso, dos etnemas de


um determinado grupo sob a influência de um outro. Certos sistemas
coloniais imprimiram uma Aculturação forçada aos grupos dos espaços
coloniais, como a que ocorreu em Moçambique. Para a ocorrência da
Aculturação participam vários factores, desde a natureza dos grupos em
contacto, os objectivos de um dos grupos, o tipo e o tempo de contacto, o
grau de receptividade dos aspectos externos por parte do grupo nativo,
etc. Como resultado, elementos novos são integrados numa outra cultura,
dando origem a novos padrões culturais no complexo cultural do grupo
receptor.

A DESCULTURAÇÃO

A Desculturação é o processo da subtracção e da destruição do


património cultural. Ela pode ocorrer sob várias maneiras. O genocídio
pode ser enquadrado na política de destruição da cultura. Já ouviu falar-se
por exemplo de “Limpeza étnica”? É um processo de Desculturação. O
processo colonial pode ser também responsável pela Desculturação,
mesmo que esta seja parcial, isto é, incidindo sobre um determinado
aspecto cultural. Mas o processo pode também resultar no interior do
grupo, quando certos padrões caem em desuso, por não terem um
significado para o grupo a partir de um determinado momento. Contudo,
esse processo ocorre de forma lenta e imperceptível.

GLOBALIZAÇÃO

A Globalização, que na verdade começa no século XVI, com a primeira


expansão europeia, possibilitando a ligação de todo o Mundo num mesmo
sistema, tem algum impacto sobre a cultura, condicionando a sua
dinamicidade. A grande mobilidade dos homens, as rápidas
comunicações ligando espaços distantes em tempo curto e, em certas
circunstâncias, de forma instantânea, contribui para um rápido fluxo de
traços culturais das diferentes regiões do globo. Nesse processo, o mundo
é abordado hoje como um todo, onde são encorajados contactos
interculturais.

Os elementos de consumo de massa são rapidamente absorvidos,


principalmente por certos grupos sociais, com um impacto local.
Aspectos que, a priori, são de difícil inserção num complexo cultural,
como é o caso do aspecto político, hoje encontram uma fácil
implementação, com a introdução dos processos democráticos ou
multipartidários em todo o mundo. Com a Globalização surgem, às vezes,
processos de hegemonia cultural, que consiste na adopção ou na
dominação, por motivos históricos, dinâmicos ou posicionais, de traços
de uma outra cultura. Contudo, emergem processos de estratificação
cultural, que indicam não necessariamente uma condição de inferioridade
cultural, mas uma falta de autonomia completa (Bernardi, 1974, p. 46),
identificados como subculturais. A subcultura participa na cultura
dominante. Você nota, por exemplo, que nas grandes cidades, existem
grupos sociais oriundos de várias zonas do país e que, comungando os
mesmos traços culturais, manifestam-nos em determinadas ocasiões, mas
sem entrar em choque com a cultura dominante, da área em que se
encontra a urbe. Este pode ser um exemplo de uma subcultura.
68 Lição 6

Sumário
Como pode notar, a cultura nunca é estável. Ela está em constante
movimento, quer por factores internos, como por factores externos. O
tipo de mudança depende do tipo do agente, do tempo, a
aceitabilidade do grupo que é pressionado, etc. Contudo, nas relações
que se estabelecem entre os diferentes grupos sociais surgem as
Tome Nota!
culturas dominantes e as subculturas.

Exercícios

1. Identifique os factores do dinamismo cultural na sua área de residência.

2. Diferencie Enculturação da Aculturação.

Auto-avaliação 3. Como foi conduzido o processo de aculturação em Moçambique no


período colonial?
4. Procure alguns exemplos de regiões ou épocas em que houve a tentativa
de se conduzir um processo de desculturação na Humanidade.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Você deve encontrar os factores que localmente condicionam, de


certa forma, o dinamismo cultural, desde práticas locais, como por
exemplo a introdução de um ensino oficial em comunidades
tradicionais; às influências externas.

2. Enquanto a Enculturação é um processo interno de transmissão e


aquisição da cultura, a Aculturação é o processo da transformação da
cultura por factores externos.

3. No período colonial, o processo de aculturação em Moçambique foi


conduzido através do desprezo da cultura local pelos colonizadores e
da introdução de um sistema educativo com valores baseados no
espaço metropolitano ou na zona de origem do colonizador.
Antropolologia Cultural 69

4. A humanidade testemunhou diversas práticas ou tendências visando


acabar com a cultura de um povo, como o que ocorreu com o
processo de colonização nas Américas, os genocídios nos Balcãs, na
região dos Grandes Lagos em África.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista,


volte a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir, consulte as
obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 19-119.
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da
Matola: S/Ed, 2004, p. 9-10 e 29.
Leitura
MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas.
Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.
OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-128.
TITIEV, Mischa. Introdução à Antropologia Cultural 9ª edição. Lisboa, Fundação
Calouste Gulbenkian, 2002.
70 Lição 7

Lição 7

Os Factores da Cultura

Introdução
Até aqui, você apercebeu-se de que a cultura não só é o resultado da
mente humana. Viu também que ela evolui e mesmo sendo universal,
manifesta-se de diferentes maneiras nos diferentes ambientes sociais e
naturais. Na verdade, é na relação que se estabelece entre o Homem
(Anthropos), a Sociedade (Ethnos), o Ambiente (Oikos) e o Tempo
(Chronos), que se manifesta a própria cultura. Estes constituem os
factores da cultura. Nesta lição, com uma duração de duas horas, você vai
aprender como é que cada um dos factores acima indicados influencia na
emergência da cultura. Como sempre, no fim da lição, você tem
actividades que servem para testar a sua compreensão.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer o lugar de cada um dos factores na emergência da cultura
 Identificar a forma como os factores se correlacionam.

Objectivos

Conteúdo

Tal como viu na introdução, existem quatro factores de cultura,


nomeadamente, o próprio Homem (Anthropos), a Sociedade (Ethnos), o
Ambiente (Oikos) e o Tempo (Chronos). Tais factores participam, de
formas diferentes, na emergência da cultura. Veja como cada um
participa.

O Anthropos

O Anthropos, ou o Homem, na sua realidade individual contribui no


aspecto cultural, como ser biológico e social. No aspecto biológico, você
Antropolologia Cultural 71

nota que em muitos grupos sociais ou culturais ordenam-se em função do


carácter sexual e etário dos seus membros. Observe na sua comunidade e
vai notar este aspecto. De facto, este carácter natural produz efeitos
estruturais na ordenação social e tem um impacto sobre a personalidade e
o comportamento adequados a cada um daqueles parâmetros. Mas
também, no processo de enculturação, o Homem não é um simples ser
passivo, podendo introduzir certas inovações na própria cultura. Um
génio, num determinado meio cultural, é um exemplo da função do
simples indivíduo como factor de cultura e às vezes torna-se herói
cultural. E pode ser que figuras carismáticas, como por exemplo um
presidente, consigam introduzir algumas mudanças culturais, fruto do seu
empenho pessoal. É aí onde podemos identificar o lugar do Anthropos
como factor da cultura.

O Ethnos

A Cultura resulta, como se afirmou nas lições anteriores, num contexto


grupal. As acções dos indivíduos só têm significado se elas estiverem
circunscritas numa colectividade. Você tem notado que as normas de uma
comunidade são emanadas em referência a ela. É a socialização e a
padronização de certas aquisições individuais que torna a cultura como
resultado de uma colectividade. É da interacção dos vários princípios de
homens vivendo num determinado meio que resulta um sistema cultural.
Por um processo normativo, o Ethnos (a sociedade), passa a constituir-se
como um dos factores da cultura, por ser através dele que esta é
veiculada.

O Oikos

Oikos vem do grego “casa”. Expressa o ambiente onde se insere o


Homem. O ambiente, como factor de cultura, condiciona a actividade
exterior e material do homem. É inegável que o ambiente condiciona, por
exemplo, a maneira de vestir, mas ele não pode ser visto numa vertente
determinista. Se você puder ler literaturas, como por exemplo as de
carácter histórico, vai perceber que para os primórdios da humanidade as
culturas foram definidas em função da natureza, como por exemplo, a
cultura paleolítica, neolítica, etc.

Essa denominação era feita em referência ao uso alargado da pedra. Ou,


se em certos momentos foram empregues termos como culturas ou povos
primitivos, em referência a sistemas culturais com uma dependência
acentuada à natureza, hoje ouvimos, por exemplo, falar-se de sociedades
urbanas, da era da cibernética, etc. Este facto remete-nos a considerar que
se, numa primeira fase, o modelo da intervenção do Homem e a sua
sobrevivência estiveram muito ligados às condições naturais, hoje ele
depende mais de factores que resultaram basicamente da natureza
humana ou cultural.

Não só é um facto assente nas teorias antropológicas, mas também é uma


realidade que o grau civilizacional ou material define a forma de estar dos
diferentes grupos sociais na face da Terra. Assim, se essa dependência do
Homem sobre a natureza foi mais notória nos primórdios da humanidade,
o Homem vem dependendo mais de factores fundamentalmente culturais.
Contudo, apesar disso, o Homem nunca pode dissociar-se completamente
da natureza e viver completamente da cultura. Representando
graficamente teríamos a seguinte situação:
72 Lição 7

100%

Fonte: M. Titiev, (2002, p. 167)


P
R

PRESENTE
P E
A S
(Adaptado)
S E
S N
A T
D E
O
0%

Se o Homem não se pode dissociar completamente do que a natureza


oferece, é lógico que o gráfico só pode espelhar uma evolução ideal, mas
nunca totalmente possível. Seja qual for o nível cultural, a vida do
homem vai estar sempre ligada ao ambiente que o rodeia.

O chronos

Você pode constatar que nada se escapa ao tempo. A cultura é um


processo e, de forma intrínseca, está ligada ao tempo. Ela desenvolve-se e
manifesta-se no tempo. O tempo é assumido nas suas três dimensões:
passado, presente e futuro, mas com mais ênfase para as primeiras duas.
Mas é necessário saber que para além do tempo cronológico, que acaba
de ser mencionado, existe um tempo ecológico e outro social. O primeiro
é organizado em função dos ciclos anuais e o segundo em função dos
ritmos de factos sociais, como por exemplo, a passagem de um grupo
etário de uma categoria social para outra. Assim, seja o tempo
cronológico, o ecológico ou o social, eles interferem na cultura de um
grupo social.

Sumário
A cultura resulta como um processo em que participam, de forma
específica, o Homem, como indivíduo biológico e cultural, a
Sociedade, entanto que reguladora das acções individuais e
colectivas, o Ambiente, pelo facto de ser neste onde se assentam os
grupos sociais, influenciando de certa forma o comportamento dos
Tome Nota!
Homens e o Tempo, necessário para o desenvolvimento de toda a
matriz cultural.
Antropolologia Cultural 73

Exercícios

Identifique o tipo de factor da cultura presente nas seguintes situações:

1. Construção de casas de caniço junto dos ribeiros cuja formação


vegetal é dominantemente herbácea.
Auto-avaliação
2. Construção de casas de blocos num local onde habitualmente se
construiam casas de caniço.

3. Invenção do voleibol
4. O processo de transmissão de normas de comportamento.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Oikos
2. Chronos
3. Anthropos
4. Ethnos.

 Óptimo! Está no caminho certo.


74 Lição 7

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 19-119.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da


Leitura Matola: S/Ed, 2004, p. 30-54.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas.


Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 79-168.

OLIVEIRA, Mª da Luz et al. Sociologia. Lisboa, Textos Editora, 1989, p. 111-128.

TITIEV, Mischa. Introdução à Antropologia Cultural 9ª edição. Lisboa, Fundação


Calouste Gulbenkian, 2002.
Antropolologia Cultural 75

Lição 8

A Interacção dos Factores

Introdução

Como viu na lição anterior, a natureza da cultura depende da influência


de quatro factores: Anthropos, Ethnos, Chronos e Oikos. Nesta lição,
você vai perceber que estes quatro factores não agem de forma isolada. É
da sua acção combinada que há uma dinâmica cultural. Veja como o
processo ocorre e, como sempre, no fim da lição você tem actividades
para testar o nível de compreensão.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer as discussões formuladas à volta da interferência de cada
um dos factores na dinâmica cultural;
 Saber como ocorre a interacção dos quatro factores;
 Identificar um Antropema e um Etnema.
Objectivos

Conteúdo
A dinâmica cultural resulta da interacção dos quatro factores. Contudo,
às vezes e em função de diferentes escolas ou correntes, há uma
acentuação de um ou de outro factor no processo da dinâmica cultural.
Neste contexto, na explicação da dinâmica cultural, uns privilegiam a
personalidade humana, outros realçam o aspecto social, enquanto um
terceiro grupo é pelos aspectos ambientais e o último pelas ligações
causais entre os seus acontecimentos (no aspecto temporal). Não
obstante, o carácter global da própria cultura força que, em última
instância, haja a consideração dos quatro factores num processo
interactivo. Nessa interactividade privilegiam-se, entretanto, as relações
entre anthropos e ethnos, por um lado e entre o oikos e o chronos, por
outro lado.

A relação entre o anthropos e o ethnos na cultura resulta pelo facto da


convergência de indivíduos em sociedade condicionar a vitalidade do
ethnos e este gerar o anthropos. Essa interacção constante conduz à uma
76 Lição 8

dinâmica cultural. Mas por outro, toda a cultura desenvolve-se no espaço


e num determinado tempo, daí que estes estão também intimamente
ligados. Fora dessas relações bipolares, é necessário ter em conta que o
homem e a sociedade, como seres culturais vivem num determinado
ambiente e tempo, daí que não se pode falar da primeira interacção fora
destes últimos dois factores. E quantas vezes, a própria dinâmica cultural
não conduz a aceleração de processos que em princípio podiam ocorrer,
num determinado local, depois de longos períodos, a ponto de mudar a
natureza do ambiente? De facto, essa interacção recíproca dos quatro
factores constitui o motor da dinâmica da própria cultura.

Para todos os efeitos, é necessário ter em consideração que a cultura tem


a especificidade humana, por ter dois daqueles factores o próprio Homem
e a comunidade. É com o Homem, entanto que indivíduo e com a
comunidade, entanto que grupo de homens vivendo num determinado
ambiente e tempo onde emergem as formas particulares da cultura. O
Homem, através da sua acção individual, pode dar origem a formas
culturais. A estes aspectos individuais da cultura chamam-se Antropemas.
Define-se Antropemas como, “(...) as expressões capilares da cultura,
originadas pela intuição inventiva dum indivíduo, e que, portanto, se
especificam como raízes da etrutura cultural e social”(Bernardi, 1978, p.
83). Aqui incluem-se os aspectos simples, isto é, aspectos particulares da
cultura humana, vistos de forma isolada, como por exemplo a invenção
do fogo, do motor, etc. Mas estes elementos isolados só são culturalmente
válidos quando não normalizados ou socializados pela própria
comunidade onde o indivíduo vive.

Essa normalização ocorre quando os feitos individuais são enquadrados


em outros fenómenos culturais mais extensos. Por exemplo, a invenção
do motor pode ser enquadrada nas inovações tecnológicas que ocorreram
na mesma altura ou que foram sendo acumuladas desde épocas anteriores.
Assim, quando fenómenos individuais são incorporados num conjunto
mais vasto, isto é, quando eles são regulados no interior de uma
determinada comunidade, tornam-se colectivos. São os Etnemas. Os
Etnemas constituem a articulação dos diferentes Antropemas ou a
normalização e socialização de Antropemas, formando um corpo. Como
aponta Bernardi, “Os Etnemas são o resultado dos Antropemas
constituídos em estruturas, isto é, articulados entre si, sistematicamente”
(Id.).

Em função de um objecto em análise, um Etnema pode ser simples ou


complexo. O complexo é aquele que envolve vários Etnemas, como por
exemplo o parentesco, que resulta da articulação de várias famílias, estas
consideradas como Etnemas simples. De facto, a família é um Etnema
pelo facto de resultar da aglutinação de vários membros que, para este
caso, desempenham a função de Antropemas.
Antropolologia Cultural 77

Sumário
A dinâmica cultural resulta da interacção dos quatro factores:
Anthropos, Ethnos, Chronos e Oikos. Assim, nenhum factor actua de
forma isolada, não obstante, os primeiros dois serem fundamentais,
para dar esta natureza tipicamente humana à cultura. É por causa
desse domínio do Anthropos e do Ethnos na dinâmica cultural que
Tome Nota!
emergem os Antropemas, estes definidos como aspectos particulares
da cultura e os Etnemas, que constituem o conjunto de Antropemas,
constituídos em sistemas.

Exercícios

1. Por que razão na dinâmica cultural é necessário considerar a


combinação dos quatro factores?

2. Apresente as relações bipolares privilegiadas entre os diferentes


Auto-avaliação factores da dinâmica cultural.
3. Dê exemplos de Etnemas e de Antropemas que conhece.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Porque nenhum dos factores pode agir de forma isolada para


condicionar a dinamicidade da cultura.
2. As relações bipolares privilegiadas dos diferentes factores são entre
o Anthropos e o Ethnos e entre o Oikos e o Chronos.
3. Aqui você pode enumerar tantos exemplos quantos forem
possíveis. Pode depois solicitar um membro do Centro de Apoio
para ajudá-lo a conferir a veracidade das suas respostas.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista, volte


a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir, consulte as obras
indicadas abaixo ou ao seu tutor.
78 Lição 8

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 19-119.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da


Leitura Matola: S/Ed, 2004, p. 30-54.
Antropolologia Cultural 79

Lição 9

A Interacção entre a Cultura e a


Natureza, a Sociedade e a
Civilização

Introdução
Nem sempre é fácil identificar o limite entre o que é natural e cultural.
Uma das preocupações da Antropologia é encontrar as bases de contacto
entre aqueles dois universos. Assim, nesta lição você vai perceber a
complexidade que se forma na relação entre a natureza e a cultura. Mas
também vai saber da discussão que existe à volta de dois conceitos, que, à
primeira vista, parecem expressar a cultura: Sociedade e Civilização. Para
tal, você tem duas horas, que terminam com algumas actividades.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Identificar as bases de interacção entre a cultura e a natureza;
 Diferenciar Cultura de Sociedade e Civilização

Objectivos

Conteúdo

Numa primeira apreensão, entende-se a natureza como a totalidade do


universo, dentro do qual o Homem se encontra, incluindo todas as forças,
conhecidas e desconhecidas. Num sentido restrito, entende-se como
ambiente ecológico. Contudo, o Homem procura dar um novo
significado. De facto, até aqui você já se apercebeu de que o Homem está
ligado à natureza de forma multifacetada: pela procura de subsistência, de
matérias-primas, pelos condicionalismos que esta proporciona àquele. Por
causa desta realidade, o Homem procura dar uma outra significação da
Natureza, ele é impelido a pensar à volta desta. Assim, apesar de se
80 Lição 9

regerem por leis totalmente diferentes, com a natureza a reger-se por leis
físicas, constantes, universais e a actividade cultural a reger-se por
padrões complexos, muitas vezes indefinidos, há pontos de contacto entre
os dois universos.

O Homem socializa ou torna culturais alguns aspectos naturais, como a


actividade sexual humana, com a introdução de certas prescrições à volta
dela, como por exemplo o incesto. De outra forma, a actividade sexual
humana torna-se diferente da dos outros animais, em virtude de ser
regrada, saíndo do instinto natural que reina nas espécies animais. A
linguagem, que na essência é natural, a sua culturalização ocorre com a
criação das línguas, apesar de se saber que estas envolvem, por sua vez,
aspectos tipicamente naturais. Por exemplo, aos sons e gestos, que são
naturais, mas que caracterizam a linguagem, é atribuído um valor
simbólico. Assim, mesmo que seja difícil determinar os pontos de
contacto entre a natureza e a cultura, esta última assenta sobre a primeira,
daí que é sempre necessário considerá-la nas análises culturais.

Uma outra vertente de correlacção encontra-se entre a cultura e


civilização. Em certas ocasiões, estes termos foram usados de forma
indiscriminada. Mas em certas escolas, como a Alemã acentuou-se o uso
do termo Cultura no lugar de Civilização.

Alguns autores usam o termo Civilização para indicar uma manifestação


territorialmente importante da cultura, quando esta última é identificada
como a forma mais simples e localmente circunscrita daquela. Contudo,
como afirma Bernardi, (1978, p. 31) é importante especificar que não
existe uma escala de classificação da cultura. Para alguns ultrapassarem
este problema, procuraram situar a cultura no aspecto ideológico e a
civilização no aspecto concreto, isto é, a expressão material de uma
comunidade concreta.

Outros estudos, procuraram correlacionar os termos a partir do seu


sentido etimológico, mesmo que, também para esta vertente, o uso de um
dos termos tenha carregado consigo aspectos pejorativos, na medida em
que foi usado para opôr os povos colonizadores aos outros. Neste
contexto, Bernardi (1978, p. 33) aponta que o termo Civilização pode ser
usado entanto que parte de uma cultura, não no seu sentido de
superioridade, mas em relação à forma de estar característica da vida
urbana.

Finalmente, uma outra interacção existe entre a cultura e a sociedade.


Toda a concepção cultural emerge do interior de um grupo social
determinado, com um modo de organização e comportamento. Mas ao
mesmo tempo, a sociedade é uma manifestação tipicamente cultural.
Antropolologia Cultural 81

Sumário
A cultura humana está intrinsecamente ligada à natureza. Ela pode
expressar até a continuidade de factos naturais, mas num contexto
tipicamente humano. Há ainda o contacto entre a cultura e a
civilização, na medida em que esta última expressa uma área cultural
mais restrita, tipicamente urbana, de um complexo cultural mais
Tome Nota!
vasto, existente num grupo social.

Exercícios

1. Dê exemplos de contacto entre a natureza e a cultura.


2. Em que difere a cultura da civilização?
3. Indique os pontos de contacto entre a cultura e a sociedade.

Auto-avaliação

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Você deve procurar exemplos que de certa forma indiquem a


interacção entre a natureza e a cultura. Deve procurar depois o Tutor
no centro de apoio para o ajudar a corrigir o exercício. Por exemplo, a
regulação do sistema alimentar humano; a humanização da paisagem;
entre outros exemplos.

2. A sugestão é de que o termo Civilização pode ser usado entanto


que parte de uma cultura, mas não no seu sentido de superioridade,
mas em relação à forma de estar característica da vida urbana,
enquanto que a cultura deve ser vista no aspecto global, mais total.

3. Se a concepção cultural emerge do interior de um grupo social


determinado, isto é, de dentro de uma sociedade, a organização social
humana é resultado de uma manifestação tipicamente cultural.
82 Lição 9

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte a obra indicada abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa,


Perspectivas do Homem, 1978, p. 19-35.

Leitura
Antropolologia Cultural 83

Lição 10
A Identidade Cultural

Introdução
Certamente já ouviu falar de identidade, como por exemplo, a identidade
moçambicana. Nesta lição, você vai aprender como surge a identidade e
os vários tipos de identidades. Vai também aprender como é que ela pode
ser objectiva e subjectivamente expressa. Para tal, você dispõe de duas
horas. Como sempre, no fim da lição, você deve reservar um tempo para
resolver o exercício que lhe é apresentado.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Definir a Identidade;
 Saber como surge a Identidade;
 Distinguir os diversos tipos de Identidades;
 Diferenciar a Identidade Objectiva da Subjectiva.
Objectivos

Conteúdo
Já notou que as pessoas gostam de se identificar com algo que acham
que as inclui ou está mais perto delas? Quando alguém diz que é Docente
ou Estudante; Jornalista; Shangana, Português ou Chinês; é Cristão, é
Feminista ou Machista, a que se está a referir? Estas expressões
antecipam-se a um conjunto de diferentes níveis de Identidade:
Identidade Colectiva, Identidade Étnica, Identidade de Género,
Identidade Profissional, Identidade Nacional, Identidade Pessoal,
Identidade Comportamental, Identidade Religiosa, etc.

Como pode ver, existem vários tipos de identidade. Todos eles expressam
a pertença a um grupo ou categoria de pessoas. Contudo, nem sempre
essa identidade é formada em função do comportamento dominante num
determinado território. De facto, em função do âmbito de análise, é
possível ter-se um tipo de identidade que não seja, à priori, aliada a uma
só área cultural, apesar de, por questões operacionais, a primeira poder
estar inscrita nesta última. Se dissemos que somos do espaço lusófono,
este espaço é descontínuo e constituído por várias outras identidades
84 Lição 10

espaciais: moçambicanos, cabo-verdeanos, são-tomenses, brasileiros,


portugueses, timorenses, angolanos. Contudo, apesar de ser inclusiva,
nem todos os membros do grupo se comportam da mesma maneira: os
portugueses, pertencentes ao espaço cultural europeu, são diferentes dos
povos africanos falantes do Português. Por sua vez, estes diferem entre si.
Mas todos eles podem identificar-se, num certo momento, como sendo
homogéneos, isto é, reclamarem a mesma identidade, ao identificarem-se
como lusófonos, ou seja, falantes do Português, neste caso, diferentes dos
falantes de uma outra língua, como o Inglês.

Se analisarmos os diferentes tipos de identidade, veremos que eles


respondem a certos padrões. Há um espírito que define essa identidade
como: disposições psíquicas comuns, por exemplo, certas normas de
comportamento de base pelas quais os grupos se identificam ou são
identificados. Por exemplo, os estudantes têm uma predisposção idêntica:
todos frequentam a escola.

A identidade é a alma colectiva, é a sobrevivência de uma referência


gloriosa do passado. Geralmente a identidade procura a permanência ou a
afirmação de um grupo ou de uma pessoa. Muitas vezes, os traços
ressaltados são escolhidos de entre os que são considerados positivos ou
vantajosos para a afirmação dos grupos. Nenhum grupo quer projectar
aspectos negativos ou que lhe proporcionem uma posição subalterna.

A identidade é também negociada, porque pode ser firmada na


diversidade. Por exemplo, a Comunidade Lusófona, a Comunidade
Europeia). Por exemplo, esta última procura projectar-se através de uma
concórdia, uma democracia, uma moeda e um mercado comum, mesmo
que isso não signifique que todos os europeus se comportem da mesma
maneira. A identidade é uma definição de “nós” em função dos conteúdos
das relações para com os “outros”. A identidade constrói-se
historicamente, portanto, está em constante mudança, apesar da sua
aparente permanência no tempo. Ex: os Zulus de ontem não são os
mesmos de hoje.

A identidade constrói socioculturalmente a semelhança interna de um


grupo pensado como homogéneo (mesmo que não o seja, como ficou
vincado com o exemplo da Comunidade Europeia), e a diferença
(heterogeneidade e diversidade) face a outros grupos. A identidade
alimenta-se da alteridade, isto é, a identidade é sempre firmada pela
presença de um grupo diferente, mas com referenciais idênticos. O
médico o é, em relação ao enfermeiro.

A identidade pode ser objectivada, isto é, pensada como continuidade da


base ecológica (território, meio natural), da base social (população), da
base temporal (história) e da base cultural (traços culturais). Mas também
pode ser subjectivada, através da construção da diferença, na auto
definição da imagem endógena ou interna, na definição da imagem
exógena e no sentimento de identificação e pertença. Neste segundo
processo podem ser utilizados instrumentos de autoreconhecimento (ex.:
bandeira, escudos, mitos, ícones, folclore, leis, etc.). Como você pode
notar, muitos destes elementos têm uma grande força comunicativa e
condensam ideias, imagens e significados interiorizados por um dado
grupo. Assim, enquanto a cultura é modo de vida de um grupo humano, a
identidade é a representação da cultura de um grupo humano.
Antropolologia Cultural 85

Sumário
A identidade expressa o sentimento de pertença de uma pessoa a algo.
Por isso, existem diferentes tipos de identidade, definidos pelo tipo de
pertença: profissional, territorial, étnica, linguística, religiosa, etc. A
identidade é construída e procura formar as bases de sobrevivência de
um grupo em relação aos outros, daí que sejam escolhidos os aspectos
Tome Nota!
positivos. Ela é objectiva quando os traços até aí existentes são
objectivamente imutáveis, como o território de origem ou a história
de um povo e subjectiva, quando os elementos postos em
consideração são permutáveis.

Exercícios

1. O que é uma identidade?

2. O que está subjacente à formação de uma identidade?

Auto-avaliação 3. Poderá a identidade carregar consigo aspectos negativos?


4. Por que se afirma que a identidade é negociada?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. A identidade expressa a pertença a um grupo, a inclusão de alguém


numa norma de comportamento ou numa categoria de pessoas.

2. Para a formação de uma identidade está subjacente a existência de


uma predisposição (psíquica, histórica, cultural, comportamental)
comum de certas pessoas.

3. A identidade pode carregar aspectos negativos, a partir do momento


em que um grupo pretender julgar os outros como inferiores ou julgar
os valores dos outros em função dos do grupo de referência.

4. A identidade é negociada em virtude de serem escolhidos os aspectos


que, em princípio, devem ser projectados para o mundo exterior.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicada abaixo ou ao seu tutor.
86 Lição 10

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 19-119.
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da
Leitura Matola: S/Ed, 2004, p. 28-54.

Actividade Final da Unidade


Partindo de uma das expressões culturais da sua zona de residência,
procure identificar marcas da dinamicidade, apresentando os factores da
mesma.

Discuta a resposta com os seus colegas no centro de recursos. Se não


Actividade
optar por ir ao centro de recursos discuta com os seus colegas que vivem
perto da sua residência oudo local de trabalho.
Antropolologia Cultural 87

Unidade 4

A Cultura Material

Introdução
Benvindo a esta unidade de estudo. A relação entre o Homem e o
Ambiente e a exteriorização do pensamento humano leva à emergeência
da tecnologia, dos artefactos. Estes elementos fazem parte da Cultura
material, objecto de estudo da presente unidade. Para uma óptima
concretização, você não precisa de ir longe. A sua comunidade dá
exemplos concretos de tudo o que vai estudar nesta unidade. Tenha
óptimas lições.

Estrutura

O estudo que você inicia hoje tem 4 lições. Para cada lição devem ser
dispensadas 2 horas de tempo.

Tópicos da Unidade

Lição 1. O Conceito de Cultura Material, Origens e Evolução;

Lição 2. Ecologia- Relação Homem/Meio Ambiente

Lição 3. Noção de Sociedade de Caça- Colecta e Sociedade de


Agricultura de Savana. Processos de Transição
(características), na História de Moçambique

Lição 4. Noção de Modos de Produção

Ao completer esta unidade / lição, você será capaz de:

Geral

 Conhecer a outra parte da cultura para além da simbólica.


Objectivos Específicos
 Definir os conceitos de Cultura Material e Modo de Produção.
 Distinguir o Modo de Produção das sociedades de caça-colecta, do da
sociedade agrícola.
88 Unidade 4

 Explicar as características de um Modo de Produção.




Motivações

Esta unidade vai permitir-lhe a aquisição de conhecimentos sobre a


cultura material a partir da sua comunidade. Você sabia que tudo o que é
objecto e em alguns casos não material, resultante da mente humana, faz
parte da cultura material? Por exemplo um anel é um objecto, mas as
tatuagens macondes não o são. Contudo, tanto o anel como as tatuagens
fazem parte do conjunto da cultura material. Como pode ver, vai aprender
e descobrir muita coisa da vida material do Homem, para melhor
aperfeiçoar os seus conhecimentos.

Meios

Para além das referências bibliográficas presentes nesta unidade, você


poderá usar textos de apoio, visitas a museus etnográficos, se eles
existirem na sua área de residência ou, se tiver possibilidade para o efeito,
outro "meio" importante que faz parte do “arsenal” material da sua
própria comunidade.
Antropolologia Cultural 89

Lição 1

A Cultura Material e a Evolução do


Homem

Introdução
Nesta lição terá a ocasião de conhecer o conceito de Cultura Material,
bem como o de evolução do Homem, que aparecerá ao longo desta lição.
O estudo que começa terá a duração de 2 horas.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer os conceitos de “Cultura Material” e “Evolução Humana”;
 Analisar a Evolução Humana nas diferentes etapas;
 Reflectir sobre as diferentes etapas da volução da cultura material,
como criação humana.
Objectivos

Conteúdo

Então, que se entende por Cultura Material?

Cultura poderá ser entendida como “conjunto das tradições sociais”,


como que uma “herança social”, ou como tudo aquilo que recebemos do
ambiente social em que nós criamos e desenvolvemos.

Os elementos culturais, isto é, todos os elementos que constituem uma


determinada cultura, são: os usos e costumes, as crenças, a linguagem, as
tradições orais, a sabedoria, a língua, a música e a dança, os padrões de
comportamento, os ideais de vida, as técnicas, etc.

No estudo da cultura material, a Etnologia (lembre-se deste conceito da


primeira unidade lição nº1) abrange todos os aspectos de qualquer cultura
que procura analisar e descrever.
90 Lição 1

O Homem ao ser “Produtor” e “Portador” de cultura arrasta consigo todo


um processo de transmissão e difusão, desempenhando um papel mais
importante, do que a invenção propriamente dita.

A cultura material centra-se no estudo das relações humanas com o


ambiente, o que vulgarmente se chama “artes industriais” ou
“tecnologia”. Contudo, ela abrange não só o que os seres humanos tiram
do seu ambiente físico, mas o que também dão à área que os rodeia.
Assim, a Cultura material é entendida como o conjunto de objectos,
valores, significados simbólicos e formas de comportamento repetitivas
que guiam a conduta dos membros individuais de uma sociedade,
transformando-a ou explorando-a materialmente.

Nenhum aspecto de cultura pode ser biogenéticamente transmitido.


Expande-se sim, depois do nascimento, segundo as facetas da cultura que
a cada um diz respeito. No caso das tatuagenss de que falamos no
princípio, elas não são herdadas ao nascimento. Nem os objectos feitos
pelos nossos antecedentes são transmitidos geneticamente.

No estado evolutivo do homem, que hoje já somos (homo sapiens-


sapiens), dá-se conta de terem existido outras etapas anteriores como :
Homo Australopithecus e Homo Habilis, ambos pertencentes ao
Paleolítico Inferior. Estes eram caracterizados pelo uso de instrumentos
de pedra (seixos) e pelo surgimento da primeira linguagem; na fase
posterior seguiu-se o Homo Erectus, do período do Paleolítico Médio ou
seja Mesolítico, que passa a usar as raspadeiras, vida em cavernas e início
do uso do fogo; depois foi a vez do Homo Sapiens, seguido pelo Homo
Sapiens-Sapiens, do Paleolítico Superior e do Neolítico, isto a 10 000
anos a. C. As suas características fundamentais, são o uso de
instrumentos sofisticados, práticas de cerimónias e pinturas rupestres.

Se bem que nós não vamos estudar esta classificação evolutiva do


Homem, porque isso não é matéria de Antropologia, importa-nos, do
ponto de vista das sociedades, apenas a última fase, a do Homo Sapiens-
Sapiens, para diferenciarmos as comunidades de caça-colecta, das de
agricultores e pastorícia

Sumário
Com esta lição aprendeste que a cultura material tem a sua origem na
relação entre o Homem e o seu ambiente e a mesma guia o Homem
na transformação e produção material, não sendo, contudo, herdade
geneticamente.
Tome Nota!
Antropolologia Cultural 91

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responde às


questões seguintes:

1. Se alguém lhe solicitasse a definição de Cultura Material qual seria


Auto-avaliação usando palavras suas?
2. Olhando para a classificação evolutiva do Homem, quando lhe
parece ter iniciado a actividade da Cultura Material?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos

Respostas

1. Você deve procurar, através de palavras próprias, dar uma


definição do conceito não fugindo muito daquela que está
claramente no texto.

2. Tudo indica que a questão da Cultura Material vem com o


Homem. Quando inicia a actividade da sua sobrevivência
buscando instrumentos, ainda que de pedra, já manifestava a
necessidade de uso de objectos para facilitar o seu “trabalho” o
qual se foi tornando efectivamente trabalho, ao longo dos tempos
de evolução.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo e tente reolver de novo.
92 Lição 1

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 357-383.

GODELIER, Maurice; Sobre as Sociedades Pré-capitalistas. Lisboa: Seara Nova,


Leitura 1976 (ler páginas 89-137);

GODELIER, Maurice; Antropologia Económica, in: Antropologia, Ciência das


Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, S/d, pp.141-190 (Perspectivas do
Homem, nº13)

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da


Matola: S/Ed, 2004, p. 86-92.

MEILASSOUX, Claude; Mulheres, Celeiros e Capitais; Porto, Afrontamento, 1977


(Teoria da Comunidade Doméstica Pré-colonial e da sua Exploração pelo
Capitalismo, através do Trabalho Migratório)

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 89-


111.

TITIEV, Mischa. Introdução a Antropologia Cultural. Lisboa: FCG, 1989, 213-


231.
Antropolologia Cultural 93

Lição 2

A Ecologia na Relação Homem-


Meio Ambiente

Introdução
Nesta lição terá a ocasião de conhecer o papel da ecologia na interacção
Homem/Meio Ambiente. O estudo que começa terá a duração de 2 horas.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer o papel da ecologia na formatação da Cultura Material;
 Analisar a importância que liga o Homem ao Meio Ambiente
 Reflectir sobre a necessidade de se preservar o Meio Ambiente sob
pena de alteração catastrófica da Cultura Material.
Objectivos

Conteúdo
Tal como você viu na lição sobre na terceira unidade, a cultura é
condicionada pela natureza, pelo local geográfico ou particularmente pelo
clima. Daí a importância que tem a ecologia para a sua compreensão.

O mundo cultural do Homem tem uma abrangência muito grande,


envolvendo também o mundo natural. Tanto é assim que se pode dizer
que a natureza conhecida pelo Homem não é aquela pura, que não foi
tocada por ele. Toda a natureza que o Homem conhece, conhece-a
culturalmente, isto é, toda a natureza tem para ele um significado, uma
relação de valores e de significados.

Um objecto natural pode receber significados por parte do Homem, mas


esses significados variam segundo as culturas. Por exemplo, o sol, a
chuva e outros elementos da natureza podem significar coisas diferentes
segundo a cultura em questão, principalmente na relação que se tem com
aqueles elementos.
94 Lição 2

Sumário
Na relação entre o Homem e o Meio Ambiente que o envolve
produzem-se significados sobre este, que variam de um local para o
outro. O Homem conhece a natureza de forma cultural.

Tome Nota!

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda a esta
única questão:
1. Até que ponto o Meio Ambiente (a ecologia) pode influir na Cultura
Material?
Auto-avaliação

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Resposta

1. Em certo sentido pode-se afirmar que o ambiente pode influir na


Cultura Material, porque é do ambiente que brotam todas as coisas,
isto é, em cada ambiente estão lá as condições que vão ditar o tipo
de matérias- primas; que vão permitir a descoberta e invenção que,
por sua vez, constituem os pontos de partida para todo crescimento e
modificações culturais.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista,


volte a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir, consulte as
obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.
Antropolologia Cultural 95

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 357-383.

GODELIER, Maurice; Sobre as Sociedades Pré-capitalistas. Lisboa: Seara Nova,


Leitura 1976 (ler páginas 89-137);

GODELIER, Maurice; Antropologia Económica, in: Antropologia, Ciência das


Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, S/d, pp.141-190 (Perspectivas do
Homem, nº13)

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da


Matola: S/Ed, 2004, p. 86-92.

MEILASSOUX, Claude; Mulheres, Celeiros e Capitais; Porto, Afrontamento, 1977


(Teoria da comunidade doméstica pré-colonial e da sua exploração pelo
capitalismo, através do trabalho migratório)

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 89-


111.
TITIEV, Mischa. Introdução a Antropologia Cultural. Lisboa: FCG, 1989, 213-
231.
96 Lição 3

Lição 3

Noção de Sociedade de Caça-


Colecta e Sociedade de
Agricultura de Savana. Processos
de Transição na História de
Moçambique

Introdução
Nesta lição terá a ocasião de conhecer as sociedade de caça- colecta e
sociedade de agricultura de savana. Nas lições de geografia, você falou
que Moçambique apresenta diversos tipos de vegetação. Na verdade,
você vai aprender que, para cada um desses ambientes florísticos há uma
fauna especificada e que, em contrapartida imprimiu um certo modo de
estar no Homem. Para este estudo, você vai precisar de duas horas. No
fim tem uma actividade individual, que deve ser resolvida, para testar o
que você percebeu desta lição.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer a sociedade de caça- colecta e a sociedade de agricultura de
savana;
 Analisar os processos de transição, na História de Moçambique.

Objectivos

Conteúdo

Na economia de caçadores-recolectores, os homens vão buscar a sua


subsistência à natureza “sem trabalhar nem a restaurar”. O esgotamento
dos recursos impõe uma migração temporária ou definitiva, a fim de se
conseguir a reconstrução natural do meio. Nestas deslocações, o grupo
delimita, quando muito, um território, cuja necessidade só se torna
Antropolologia Cultural 97

patente pela presença de grupos homólogos rivais. Ao contrário, com a


agricultura, este território é transformado em terreno de cultivo; aí se
investe trabalho para lhe conferir uma forma perdurável e organizar a
reconstituição das suas capacidades produtivas.

Há pois uma diferença fundamental na organização do processo de


trabalho: o rendimento das operações de caça é instantâneo, quotidiano e
o produto presta-se mal a ser armazenado; exige uma cooperação para as
operações de elevado rendimento ou para a caça de grandes predadores,
com os quais estes grupos entram em concorrência. Mas estes grupos
dissolvem-se depois da partilha do resultado da colecta ou caçada. Assim,
há instabilidade dos grupos activos, dos bandos, das hordas. O efectivo é
variável, pois a composição modifica-se constantemente, pela circulação
dos indivíduos que intervêm na produção. O ciclo é anual e começa por
um período improdutivo em que a alimentação do grupo tem que ser
assegurada: quer através de uma produção de rendimentos imediatos
(caça), quer por um armazenamento dos produtos do ciclo anterior, ou a
distribuição é diferida – em todos os casos indispensável para se dispor
de sementes que permitam iniciar um novo ciclo. Os ciclos anuais têm
portanto tendência para encaixarem numa relação constante de
adiantamentos e de redistribuição entre indivíduos cujas relações anuais
pelo que toca à produção tendem a transformar-se em relações vitalícias,
segundo uma ordem de anterioridade/posterioridade.

Destas características da produção pode-se deduzir nas economias de


caçadores, relações sociais fracas e descontínuas, um débil controlo da
circulação dos homens e das mulheres; nas economias agrícolas, pelo
contrário, as relações são vitalícias, baseadas na anterioridade, aos mais
velhos cabe a função de controlo e de repartição de stocks, de controle da
circulação dos subordinados que são inseridos em linhagens, cujas
genealogias se estendem, e de controlo da afectação das mulheres, a qual
se encontra severamente regulamentada; a nível do político há uma
gerontocracia, reguladora destas repartições; a nível da ideologia: as
genealogias e o culto dos antepassados, assunto da nossa próxima
unidade.

Olha, antes de irmos para as actividades vamos observar algumas


características típicas destas sociedades:

1. Caçadores-colectores.

a) Produção:
− A economia é de punção;
− A terra como objecto de trabalho;
− Os instrumentos de trabalho (rudimentares) são propriedade
individual;
− As unidades de produção confundem-se com os bandos ou
hordas. O grupo primitivo é constituído por um número
restrito de indivíduos dos dois sexos;
− Há cooperação nos processos de trabalho.

b) Reprodução:

As unidades de reprodução compõem-se de uniões de células vizinhas,


estabelecidas através de uma rede coerente de trocas.
98 Lição 3

− A reunião de grupos constitutivos e as suas alianças são


comandadas não apenas pelas exigências da produção ou
toca, mas pelos imperativos da reprodução
− O parentesco e em particular o problema de filiação na
comunidade de caçadores ainda não é relevante.

c) A colecta:

A colecta exige frequentemente o percurso de longa distância. Ela faz-se


em grupo para se proteger face aos animais selvagens.

Requer portanto não só uma preparação física como um conhecimento


preciso das plantas, dos lugares dos animais perigosos, dos meios de
protecção relativamente a estes, etc.

d) A caça:

A caça e a armadilhagem de pequenos animais são correntemente


praticadas na proximidade imediata dos campos. Estas actividades
requerem:

1) conhecimentos técnicos;

2) conhecimentos das práticas mágicas.

As formas de cooperação fundam-se na reciprocidade e cooperação por


compensação.

e) divisão técnica e social do trabalho é feita por sexo e idade.

2. A comunidade doméstica de Agricultores:

O que a invenção da agricultura realizou foi uma transformação da


natureza pelo homem. Pela domesticação das plantas e dos animais
estabeleceram-se os modos de produzir. A passagem à agricultura foi
acompanhada pelo(a) :

a) Alongamento do dia de trabalho;

b) Domesticação das plantas e dos animais;

c) Sedentarização e a definição do território;

d) Elevação do nível das forças produtivas;

e) Passagem da terra passou a constituir-se em meio de trabalho;

f) Pelo desenvolvimento de actividades paralelas: a caça e a colecta;

g) Estabelecimento de relações sociais de produção por via do


parentesco;

h) Emergência do poder como função dos anciãos sobre os grupos


de produção;
Antropolologia Cultural 99

i) Surgimento dos excedentes leva à criação de celeiros. A


existência de um excedente potencial ou real não acarreta
automaticamente um desenvolvimento económico; a produção é
orientada nestas formações sociais para a satisfação das
necessidades e não para o lucro).

j) Envolvimento dos resultados da produção nas trocas, através de


formas não mercantis, como a oferta recíproca, o tributo e a
redistribuição.

1. Nova organização social (o parentesco) e a nova concepção do


Mundo. É possível que a domesticação das plantas e dos animais se
tenha acompanhado de um imenso desenvolvimento de magia e da
religião. Os indivíduos ou os grupos sociais senhores das magias, da
fertilidade das plantas e dos animais puderam talvez nessas
condições, conquistar um imenso poder social baseado no seu
controlo (imaginário) das forças sobrenaturais. Parece ter sido nessas
condições que se operou o aparecimento dos sacerdotes como grupo
social separado dos produtores (da produção), e, que transformou de
pouco a pouco o seu poder de exploração económica.

Sumário
A formas de produção material determinam, sobremaneira, o tipo de
relações que se estabelecem entre o Homem e o seu Meio Ambiente,
bem como as relações que se estabelecem no interior dos grupos
sociais, reflectindo-se sobre o nível de organização social, política e
religiosa.
Tome Nota!
100 Lição 3

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda a esta
única questão:
1. Apresente dois aspectos fundamentais (social e económico) que
distinguem as duas sociedades (caça-colecta e de agricultores).
Auto-avaliação

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Resposta

1. Afinal a resposta é muita simples. A nível social, nas sociedades de


agricultores, o parentesco (a família) aparece com o processo da
sedentarização e com maior relevância o que não acontece na sociedade
de caça-colecta; a nível económico, os agricultores estabeleceram o
tributo como forma de exploração e de reconhecimento do poder político
instalado.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista, volte


a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir, consulte as obras
indicadas abaixo ou ao seu tutor.
Antropolologia Cultural 101

Leituras aconselhadas
BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições
70, 1974, p. 357-383.

GODELIER, Maurice; Sobre as Sociedades Pré-capitalistas. Lisboa: Seara Nova,


Leitura 1976 (ler páginas 89-137);

GODELIER, Maurice; Antropologia Económica, in: Antropologia, Ciência das


Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, S/d, pp.141-190 (Perspectivas do
Homem, nº13)

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da


Matola: S/Ed, 2004, p. 86-92.

MEILASSOUX, Claude; Mulheres, Celeiros e Capitais; Porto, Afrontamento, 1977


(Teoria da comunidade doméstica pré-colonial e da sua exploração pelo
capitalismo, através do trabalho migratório)

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 89-


111.

TITIEV, Mischa. Introdução a Antropologia Cultural. Lisboa: FCG, 1989, 213-


231.
102 Lição 4

Lição 4

Noção dos Modos de Produção

Introdução
Nesta lição que encerra a nossa unidade (quatro) terá a ocasião de
conhecer o que são Modos de Produção. Isto é muito importante para
perceber o funcionamento das várias sociedades, porque cada uma
escolhe ou submete-se a um determinado modo de produção. Para esta
lição, vai precisar de duas horas de estudo. Como é habitual, no fim você
tem uma actividade a resolver, por isso precisa de entender muito bem a
lição que lhe é proposta.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer os Modos de Produção
 Analisar cada Modo de Produção em termos de funcionalidade
 Distinguir um Modo de Produção do outro (a partir das
características).
Objectivos

Conteúdo
O princípio de organização da economia não é, segundo os marxistas, a
repartição mas sim a produção. Todo o Modo de Produção é definido por
uma relação específica entre, por um lado, o conjunto dos meios materiais
e dos factores e, por outro lado, as condições sociais da produção. Os
meios materiais concorrem para a produção numa determinada sociedade:
matérias-primas, equipamento e técnicas, o saber–fazer, força de
trabalho, capital -, denominados força de produção e, por outro lado, as
condições sociais da produção, ou seja, as formas de organização
económica de divisão do trabalho segundo a idade ou sexo, as
especializações profissionais, as estratificações ou classes sociais
(senhores e escravos, proprietários capitalistas e trabalhadores), e
segundo as formas culturais da cooperação ou da competição. Todos
esses pressupostos são variáveis em função das tarefas, o número de
participantes, das remunerações reais ou simbólicas, aquilo a que se
chama relações de produção ou condições sociais da produção, que se
realizam no quadro das unidades de produção e que dizem respeito à
Antropolologia Cultural 103

apropriação ou ao controlo dos meios de produção, tais como a terra, os


homens, o gado, as técnicas, os recursos financeiros.

C. Meillassoux é dos primeiros a impulsionar as pesquisas de


Antropologia Económica Marxista. Na sua opinião, a comunidade
agrícola nas sociedades de auto-subsistência polariza-se em redor do filho
mais velho, que recebe os produtos do trabalho e os reparte. No quadro
agrário, a terra é meio. Entre os caçadores-recolectores, ela é objecto de
trabalho. Se Meillassoux fez apenas um uso fugido da noção do Modo de
Produção, Emanuel Terray situa essa noção no centro de toda a
problemática, fazendo a sua análise a partir das formas de cooperação.
Reconhece a exploração dos mais velhos pelos mais novos, mas observa
que estes, pela idade e pelo casamento, são chamados a tornarem-se eles
próprios mais velhos, emancipando-se. Assim, não existe uma classe
estável de mais velhos. Mais radicalmente, P Rey vê a relação de classe
como dominante no modo de produção da linhagem. Acha determinante
nas relações de produção o processo de apropriação e de reagrupamento
dos homens com vista a esta produção.

M. Godelier, ao debater os modos de produção asiática ou de linhagem,


não deixa de sublinhar a parte ideal em todo o que é real e o jogo dos
simbolismos sociais. Demonstra a ligação da economia com as outras
instâncias: política, parental, religiosa e nota que o parentesco, por
exemplo, pode funcionar como infraestrutura e como supra-estrutura. A
roptura de um sistema ou a passagem, por exemplo, da economia de
predação (Caça-colecta) à economia de produção (agrícola/industrial),
não atribui necessariamente a contradições mas a modificações externas
ou internas.

Em todos os Modos de Produção, há um fenómeno universal: a divisão


do trabalho, apesar de variar de cultura para cultura. Contudo, mesmo
tendo uma importância no ciclo da produção, a divisão social de trabalho
não tem um valor absoluto, dado que se trata, frequentemente, de uma
escolha cultural, isto é, que depende de cada sociedade. Se no princípio a
divisão social do trabalho era feita em função do sexo e idade, ela passou
a circunscrever-se no status social (tarefas atribuídas conforme o estatuto
social na sociedade), aptidão (para mulheres/homens,
crianças/adultos/velhos), ou na especialização técnica e cultural, dado que
certas tarefas são reservadas a determinadas categorias de pessoas.
Contudo, é necessário ter em conta que os vários tipos de divisão vão
desaparecendo, por exigências do desenvolvimento tecnológico
(Martinez, 2004, p. 90).
104 Lição 4

Sumário
A noção de Modo de Produção é complexa, em virtude de envolver
vários aspectos e poder variar de um grupo social para outro, bem
como de um momento para o outro. Contudo, é no interior dele que
gravitam as relações sociais e são moldados padrões culturais de cada
grupo social.
Tome Nota!

Exercícios

1. Especifique os processos que tornam cultural a produção material


entre os Homens.

Auto-avaliação

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Resposta

O significado simbólico da produção material;


A relação intrínseca entre a produção material com os outros aspectos da
vida social;
O carácter evolutivo da produção material;
A divisão cultural do trabalho.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista,


volte a realizar a actividade. Se a dificuldade persistir, consulte as
obras indicadas abaixo ou ao seu tutor.
Antropolologia Cultural 105

Leituras aconselhadas

BERNARDI, B. Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos. Lisboa, Edições


70, 1974, p. 357-383.

GODELIER, Maurice; Sobre as Sociedades Pré-capitalistas. Lisboa: Seara Nova,


Leitura 1976 (ler páginas 89-137);

GODELIER, Maurice; Antropologia Económica, in: Antropologia, Ciência das


Sociedades Primitivas? Lisboa, Edições 70, S/d, pp.141-190 (Perspectivas do
Homem, nº13)

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho da


Matola: S/Ed, 2004, p. 30-54.

MEILASSOUX, Claude; Mulheres, Celeiros e Capitais; Porto, Afrontamento, 1977


(Teoria da comunidade doméstica pré-colonial e da sua exploração pelo
capitalismo, através do trabalho migratório)

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 89-


111.
TITIEV, Mischa. Introdução a Antropologia Cultural. Lisboa: FCG, 1989, 213-
231.

Actividade Final da Unidade


Para terminar a unidade faça um trabalho de pesquisa com o máximo de
três paginas de conteúdo sobre um tema relacionado com a cultura
material. Os temas podem circunscrever-se em Células de produção, ritos
e tempos agrícolas duma certa área cultural = região; cereais mais
cultivados na sociedade tradicional (mapira, mexoeira, milho) e a sua
Actividade
utilidade cultural; queimadas e o impacto na agricultura tradicional;
formas de ajuda mútua e cooperação na agricultura tradicional, etc. Para
cada um destes temas ou outros considere (uma determinada área cultural
ou seja região e a caracterização geográfica dessa área cultural. Terá um
fundo de tempo de 08 horas. Este trabalho deve ser apresentado a tutoria
no Centro de recursos.
106 Unidade 5

Unidade 5

O Parentesco

Introdução
Bem vindo à penúltima unidade. Como está observando, estamos a
camninhar para o fim dos nossos estudos, esperando que os mesmos
estejam a ser gratificantes. Nesta unidade, você vai ter os fundamentos da
organização social, presentes praticamente em todos os grupos sociais,
tais como: o parentesco, o casamento, a família. Como os outros temas
que você teve nas outras unidades, a partir desta unidade você vai
aprofundar o carácter eminementemente social e cultural dos aspectos
anteriormente identificados.

Estrutura

A presente unidade tem 4 lições. Cada lição deve ser estudada durante
duas (2) horas. Eis as matérias contempladas em cada uma delas.

Tópicos da Unidade

Lição 1. O Parentesco

Lição 2. As Unidades Funcionais do Parentesco e a sua Importância

Lição 3. As Formas do Parentesco

Lição 4. Os Esquemas do Parentesco

Lição 5. A Filiação

Lição 6. Grupos de Parentesco

Lição 7. Aliança Matrimonial

Lição 8. Residência e Circulação Matrimonial e seu Impacto na


Organização Social e Política.
Antropolologia Cultural 107

Ao completer esta unidade / lição, você será capaz de:




Geral

 Conhecer os fundamentos da formação do Parentesco.


Objectivos  Saber como o parentesco se constitui como um dos fundamentos da
organização social.

Específicos
 Saber definir: parentesco, parente, filiação, aliança e residência
matrimonial;
 Conhecer as formas da emergência de um parentesco;
 Saber distinguir diferentes tipos de parentes;
 Ser capaz de esquematizar uma árvore genealógica e de parentesco;
 Ser capaz de distinguir um parente do Ego, a partir de um esquema de
parentesco;
 Discriminar os diferentes fundamentos das alianças matrimoniais;
 Relacionar o parentesco com a circulação do poder político.

Motivações

Você sabia que é pelas relações de parentesco que muitas relações


humanas são estabelecidas?

Meios

A concretização daquilo que você vai aprender nesta unidade, para além
das referências bibliográficas presentes no fim de cada lição, outros
textos de apoio, vai encontrar o objecto de estudo junto da sua área de
residência, aliás, a partir de si mesmo, que pode constituir-se como ego,
quer na referenciação dos outros membros, como de certos
procedimentos sociais de carácter parental.
108 Lição 1

Lição 1

O Parentesco

Introdução
Os indivíduos, em vida, formam teias ou relações sociais diversificadas.
Essas relações emergem desde a nascença a grupos de brincadeiras,
passando pela escola, local de trabalho, etc. Elas permitem que nos
identifiquemos em relação a outros indivíduos, membros do mesmo
grupo ou num determinado meio. É no âmbito dessas relações, que se
formam com a vida, que vamos falar de parentesco. Nesta primeira lição,
vai poder familiarizar-se com a complexidade que este termo carrega.
Para o efeito tem duas horas, no fim das quais tem actividades para testar
o grau da apreensão da matéria.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Saber definir o Parentesco;
 Identificar o elemento de referência num Parentesco;
 Conhecer a complexidade da definição do Parentesco.

Objectivos

Conteúdo
O termo Parentesco não é de fácil definição. Uma definição simples
considera que o Parentesco seja “um vínculo que liga os indivíduos entre
si em vista da geração e da descendência” (Bernardi, 1978, p. 259).
Pode-se definir-lo como um sistema simbólico de denominação das
posições relativas aos laços de descendência e de afinidade.

Você sabia que um dos primeiros elementos de identificação do estatuto


social de um indivíduo em cada sociedade humana surge do parentesco?
De facto, quando um indivíduo nasce, a primeira base de identificação é
um grupo social restrito, a família. É na família onde existem os parentes
mais próximos. O Parentesco é definido em referência a um indivíduo,
isto é, a um EGO, em relação a uma ou outras pessoas que fazem parte de
um grupo social. Na essência, o EGO identifica-se com a pessoa pela
Antropolologia Cultural 109

qual começamos a estabelecer as relações com todos os outros membros


de um grupo social, venham tais relações da consanguinidade ou da
afinidade.

O Parentesco institucionaliza as relações sociais. É nele que são


prescritos ou definidos comportamentos entre os membros de um grupo
social, como por exemplo os tipos de casamento, as formas de tratamento
entre os membros, as formas de filiação, isto é, a maneira como é
definida a pertença dos filhos, etc.

Contudo, a definição de quem é parente é em si complexa, dado que ela


pode variar de uma sociedade para outra e pode mesmo evoluir com o
tempo. Tem se notado, por exemplo, uma redução progressiva dos
núcleos familiares em muitos complexos culturais. Assim, se no passado
o Parentesco envolvia muitos membros, muitas famílias alargadas, ele
tende a tornar-se cada vez mais restrito, fruto do impacto da própria
evolução material das sociedades humanas (urbanismo e revolução
industrial) ou das migrações. Estes factores condicionaram períodos de
grandes transformações familiares, com as consequentes perturbações e
reajustamentos dos núcleos familiares.

Na definição de quem é parente interferem ainda as concepções


científicas sobre as relações genéticas, que não são partilhadas por todas
as sociedades. Você observa na sua comunidade, uma das duas situações:
um filho é obra do pai, ou então diz-se descendente da mãe. Finalmente,
se numa primeira fase o Parentesco incluia apenas os aspectos de
consanguinidade, sendo por isso o genuino e autêntico, por baseiar-se no
pressuposto biológico, actualmente ele integra outros parâmetros, como a
adopção. De facto, o Parentesco não se resume apenas à consanguinidade.
Se assim fosse, todos os membros de um grupo social acabariam por ser
parentes ou então não haveria a possibilidade de integração de outros
membros que não fossem de “sangue”. Por isso, o Parentesco não só
define os membros que fazem parte de um grupo social, como também os
distingue dos que a ele não pertencem, isto é, define unidades sociais
precisas. Quando você diz, por exemplo, que não é parente de alguém,
exclui-se de um certo grupo social. Neste contexto, o Parentesco pode
integrar ou excluir um membro de um determinado grupo em referência.
110 Lição 1

Sumário
O Parentesco é um sistema simbólico de denominação das posições
relativas aos laços de descendência e de afinidade. O Parentesco é
definido em referência a um indivíduo (Ego). Mesmo variando de
uma sociedade para outra e com o tempo, o Parentesco continua a
definir as relações sociais e as normas de comportamento. Se nos
Tome Nota!
primórdios envolvia apenas aspectos de consanguinidade, hoje ele
alarga-se também à adopção e a outros critérios.

Exercícios

1. Identifique a primeira base de referência de um indivíduo.

2. Como se designa o indivíduo de referência num sistema de


Parentesco?
Auto-avaliação
3. Porquê é difícil definir um parente?

4. Qual é a importância social do Parentesco?

5. Na sua organização familiar, que pessoas você considera como seus


parentes?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Respostas

1. A primeira base de referência de um indivíduo forma-se à volta do


parentesco, fundamentalmente da família, dado que mesmo antes de
se conhecer o seu nome, ele já tem uma base de identificação.

2. O elemento de referência num sistema de Parentesco é o Ego.

3. A dificuldade da definição de um parente vem do facto de: não existir


um único critério para a sua identificação em todas as sociedades, isto
é, variar o critério de definição de um grupo social para o outro; ele
não se estabelecer apenas pelo critério de consanguinidade; variar
com o tempo.
Antropolologia Cultural 111

4. Você deve identificar, a partir dos pressupostos acima indicados, os


parentes em função da consanguinidade, da afinidade ou por
adopção. Aqui, você vai precisar do tutor para verificar a resposta.

5. O Parentesco permite o ordenamento social e a demarcação das


regras de comportamento dentro de um grupo social.

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista,


volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir, consulte as obras
indicadas abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas
112 Lição 2

Lição 2

As Unidades Funcionais do
Parentesco e a Sua Importância

Introdução
O Parentesco tem uma base operatória, pela qual se identificam as
relações sociais entre os membros em referência. Trata-se aqui da
Parentela e da Família. Nesta lição você vai familiarizar-se com esses
dois conceitos e a importância que os mesmos têm no sistema de
Parentesco. Ainda vai ter as noções de Parentesco Alargado e Restrito.
Você tem duas horas para se dedicar a esta matéria. É lhe reservada uma
actividade no fim da lição para testar os seus conhecimentos.

Ao completer esta lição, você será capaz de:

Objectivos
Antropolologia Cultural 113

pessoas com aqueles atributos, pois eles não são, no mesmo momento,
cunhado, tio, avô, sobrinho e cunhada dos seus pais. Essas relações de
parentesco que dizem respeito a você é que constituem a sua Parentela.
Com a Parentela, as sociedades definem os seus parentes próximos
(aqueles com os quais as regras de comportamento são mais fortes), os
parentes afastados (os que, apesar de serem parentes têm relações menos
fortes) e aqueles que não são parentes.

Segundo a amplitude de membros, há sociedades que comportam um


Parentesco Alargado, o que envolve uma grande teia de relações,
enquanto outras têm um Parentesco Restrito, constituído por pequenas
unidades sociais funcionais.

A outra unidade funcional que está intrinsicamente ligada ao indivíduo é


a Família. A definição de família é, por vezes, muito imprecisa, podendo
designar, segundo Mello (2005, p.326-327), o grupo composto de pais e
filhos; uma linhagem (patrilinear ou matrilinear), um grupo que descende
do mesmo antepassado, um grupo de parentes e descendentes que vivem
juntos. A Família pode ser Nuclear, Simples ou Elementar, sendo, neste
caso, a menor unidade social ligada por laços de consanguinidade, de
afinidade e de adopção. A Família Nuclear contrapõe-se à Família
Extensa, que congrega várias Famílias Nucleares, isto é, comporta vários
casais.

É na Família que inegavelmente estão presentes as relações universais


mais significativamente humanas como: a relação entre homem e a
mulher; a relação criada entre os pais e os recém-nascidos; as relações
entre gerações diferentes.

Quando se fala da importância social da Família reconhece-se geralmente


o alto grau de relevância desta no ordenamento social. A Familia
desempenha várias funções: de reprodução; de socialização dos filhos;
produtiva ou económica, necessária para a perpetuação da vida e
114 Lição 2

Exercícios

Respostas

1. Se o Parentesco expresa um vínculo que liga os indivíduos entre si em


vista da geração e da descendência, a Parentela expressa os vínculos
que se formam à volta de um indivíduo determinado.

Nas perguntas 2 e 3, as respostas devem ser dadas em função da


organização social do seu local de residência. Discuta as respostas
primeiro com os seus colegas do curso e depois apresente ao seu
tutor.
116 Lição
Antropolologia Cultural 117

São os Parentes Consanguíneos que dão a descendência. Contudo,


mesmo que se reconheça que o critério dessa relação de descendência é o
biológico ou natural, esta relação é também cultural, na medida em que é
determinada em função das regras de um grupo social determinado.
Enquanto a natureza estabelece a consanguinidade, a cultura determina os
parentes. Assim, o Parentesco Consanguíneo proporciona a prole ou os
filhos, enquanto o Parentesco por Afinidade alarga-se pelo casamento.

Na descendência ou linhagem, os membros do grupo sentem-se unidos


pela referência a um antepassado comum real e recente, situado entre
quatro a cinco gerações. O conjunto dessas pessoas que têm o mesmo
antepassado comum dá origem à linhagem. Define-se por linhagem, “um
grupo de pesssoas descendentes de um mesmo antepassado cujo vínculo
de descendência é genealogicamente demonstrável e não pressuposto
miticamente” (Bernardi, 1978, p. 293). Difere do clã, por consistir num
“(...) grupo de pessoas descendentes de um mesmo antepassado mítico ou
fictício (...) [sendo] uma realidade pressuposta e não demonstrável
historicamente”(Ibid., p. 292).

Os Parentes Aliados são os indivíduos ligados a um determinado grupo


de Parentesco por via de casamento. São os membros com que se têm as
relações de afinidade. Estas relações surgem partindo-se do pressuposto
segundo o qual na família, marido e mulher não são parentes
consanguíneos. Estes laços de afinidade têm uma grande importância no
conjunto da organização social de qualquer agrupamento humano. Este
tipo de relação, mesmo em sociedades industrializadas, é, de certa forma,
responsável pela distribuição de benefícios ou aproximação de grupos
sociais.

Os Parentes Adoptivos ou Fictícios são os que resultam de um processo


de adopção de um indivíduo por membros que não têm nenhuma relação
de consanguinidade.

Por causa destas diferentes formas de Parentesco, nem sempre é possível


ou fácil diferenciar a origem da Parentela a partir da designação dos
parentes. Por exemplo, o termo “pai”, pode relegar a um pai genitor,
adoptivo, ou posicional, isto é, a atribuição ao irmão do pai à mesma
referência. Mas também pode ser pai, aquele que lhe é reconhecida a
paternidade socialmente, isto é, ao pai social. Na verdade, o Parentesco é
um sistema simbólico de denominação das posições relativas aos laços de
descendência e de afinidade. Por isso, existem dois sistemas de
Parentesco: Descritivo e Classificatório.

No Descritivo são usados termos diferentes para designar cada parente.


Por exemplo, o pai tem uma designação e o irmão do pai tem outra
designação, por exemplo, a de tio. Enquanto isso, no classificatório é
usado um termo para designar um conjunto de pessoas segundo o seu
posicionamento no esquema de parentesco, isto é, quando pessoas que
não ocupam a mesma posição em relação ao Ego são classificadas sob o
mesmo nome. O Ego, ou você, chamará de irmão, ao seu primo paralelo;
de mãe, as irmãs e primas da mãe; de pai, aos irmãos e primos do pai, etc.
118 Lição 3

Sumário
O Parentesco pode ser formado por via da consanguinidade, da
adopção e por aliança. Por isso, nem sempre é fácil distinguir a
origem da Parentela a partir da designação do parente. Na essência
existem dois sistemas de parentesco: Descritivo e Classificatório.
Tome Nota!

Exercícios

1. Partindo do seu grupo familiar, identifique os parentes de Linha


Recta e os de Linha Colateral:

2. Identifique, na sua área de residência, as bases de emergência de


Auto-avaliação parentes por adopção. (Antes do estudante responder a esta questão,
precisa de fazer uma pesquisa no meio em que vive).
3. Qual é o sistema de Parentesco dominante na sua área de
residência? Porquê?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Respostas .

1. Os de Linha Recta: os bisavôs, os pais, os netos, os trinetos.

Os de Linha Colateral: irmão da mãe ou do pai; os primos.

2. Os parentes por adopção ou fictícios, sendo resultantes da


conversão de indivíduos estranhos a um grupo social sem ser por via
de casamento podem vir, quer da reciprocidade necessária que existiu
entre dois grupos familiares ou por integração de crianças por razões
de esterilidade de um dos cônjuges ou por integração, num grupo
familair, de um indivíduo necessitado.

3. A resposta a esta questão depende da área em que você reside.


De forma geral, em Moçambique o sistema dominante é
classificatório, mas influências externas podem ter condicionado a
introdução de certas modificações.
Antropolologia Cultural 119

 Óptimo! Está no caminho certo. Se teve dificuldades, não desista,


volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir, consulte as obras
indicadas abaixo ou ao seu tutor.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. 338. nðù8-4(o)-19.48 13.•Q q 60 0

Leitura
120 Lição 4

Lição 4

Os Esquemas do Parentesco

Introdução
Na vida quotidiana, você nota que o Homem se guia por um conjunto de
sinais que substituem os objectos, coisas ou seres a que se referem, desde
palavras, imagens, sons, objectos, etc, etc. Da mesma maneira, você vai
aprender um conjunto de símbolos e de abreviaturas usados pela
Antropologia no sistema do Parentesco, capazes de o levarem a
identificar o sexo de um indivíduo, o tipo de relação existente entre um
indivíduo determinado no esquema de parentesco e um EGO. No fim,
você tem as habituais questões de auto-avaliação. Para isso, dispõe de
uma hora para conhecer os símbolos e as abreviaturas fundamentalmente
usadas para representar o parentesco ou um indivíduo.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer os símbolos usados na Antropologia para identificar um
aspecto do Parentesco;
 Saber, a partir do símbolo, diferenciar um homem de uma mulher;
 Identificar, num esquema de Parentesco, as relações de
Objectivos consanguinidade, de germanidade e de afinidade.

Conteúdo
Por uma questão operatória, a Antropologia usa diferentes símbolos e
esquemas de Parentesco, os quais permitem, a qualquer leitor, identificar
as relações entre os diferentes membros do grupo social em referência ou
122 Lição 4

Fonte: Christian Ghasariam, 1999, p. 35-36.

Sumário
Antropolologia Cultural 123

Respostas

1. 2.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo e tente reolver de novo.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1978, p. 257-306.
COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? 2ª ediçãv % e"`R " P à f iA° ‰(
Leitura
124 Lição 5

Lição 5

A Filiação

Introdução
Você já notou que a partir do momento em que nascemos, identificamo-
nos com alguém que é nosso genitor ou, pelo menos, com alguém que
desempenha o papel de nosso pai ou nossa mãe? De facto, todo o
indivíduo que existe está ligado a um laço de Parentesco que o liga às
gerações anteriores ou posteriores. É à volta dessas ligações que vamos
falar da Filiação. Para tal, você precisa de duas horas para fixar os
aspectos que estão à volta deste assunto, seguido, como tem sido até
agora, por uma actividade de auto-avaliação.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer os tipos de Filiação;
 Saber distinguir o tipo de Filiação a partir do tipo de Descendência
 Conhecer a complexidade que existe à volta do Parentesco.

Objectivos

Conteúdo

A Filiação constitui um dos fundamentos da transmissão do Parentesco.


A filiação pode ser legítima, natural ou adoptiva. No sentido
antropológico, a Filiação é geralmente traçada apenas por um único
progenitor: ou se é filho de um determinado pai ou mãe, pertencendo ao
grupo de Parentesco daquele ou desta. A Filiação “(...) entende-se como o
conjunto das regras que definem a identidade social da criança em
relação aos seus ascendentes e que determinam a hierarquia dos
membros da família, a forma de herança dos bens, a transmissão dos
cargos e funções, até a distribuição da autoridade nas sociedades
(...)”(Rivière, 1995, p. 64-65).Quando você observa pessoas na sua área
de residência que indicam que pertencem ou são da família da mãe ou do
pai; quando você nota que certos bens são geralmente herdados de um
Antropolologia Cultural 125

lado e não do outro, está diante de um conjunto de procedimentos que se


definem na Filiação. De forma geral, a Filiação pode ser Unilinear
(patrilinear ou matrilinear); Bilinear e Indiferenciada.

Na Filiação Unilinear, o indivíduo não escolhe o seu grupo de pertença.


Ele recebe-o. A pertença ao grupo é determinada pelo facto de se ser filho
do pai ou de se ser filho de determinada mãe, já que em certas sociedades
aponta-se que uma criança é gerada por um único dos seus progenitores.
Umas consideram que a mãe é a única responsável pelo nascimento da
criança, negando-se a paternidade fisiológica.

Na Filiação Patrilinear, designada também por Agnática, a pertença ao


grupo obtém-se pelo pai e a relação com os outros membros deste grupo
passa-se exclusivamente pelos indivíduos do sexo masculino (os
agnatos). Por exemplo, os filhos da irmã do pai não são membros do
grupo de Filiação, contrariamente aos do irmão do pai. A Filiação
transmite-se do pai para o filho. Geralmente, nestas sociedades a
circulação dos membros é feita através de um sistema de compensação.
Normalmente, depois do casamento não se espera que a filha volte para a
aldeia. Numa primeira fase, estas comunidades eram nómadas ou
inicialmente a sua sobrevivência dependia de recursos frágeis.

Filiação Patrilinear

Via de descendência

Na Filiação Matrilinear ou Uterina, o laço do Parentesco é transmitido


pela mãe. O Ego masculino, apesar de ser membro do grupo de Filiação
da sua mãe, ao contrário do que acontece com a irmã, não transmite a sua
pertença aos filhos. Estas sociedades são geralmente sedentárias e
geralmente vivem da agricultura. Veja o esquema a seguir.

Filiação matrilinear

A filiação bilinear, ou dupla Filiação, combina as duas filiações


unilineares. A Filiação é reconhecida de ambos lados (paterno e
materno), mas com finalidades diferentes. Num dos lados pode receber o
apelido e no outro receber, por exemplo, poderes espirituais. Veja o
esquema.
126 Lição 5

Espírito Sangue

Ego

A Filiação Indiferenciada, também designada Cognática ou Bilateral


ignora o sexo para a definição dos laços do Parentesco. No sistema de
Filiação Cognática, o Ego é membro de dois grupos de Parentesco: o do
seu pai e o da sua mãe. Geralmente este sistema cria uma teia complexa
de relações que a Filiação Unilinear e Bilinear. É característica dos países
ocidentais.

O Ego recebe a Filiação dos quatro avôs, oito bisavôs, dezasseis trisavos,
etc.

Ego

Para todos os efeitos, todos os anteriores tipos de Filiação são de carácter


natural, porque apesar de ela ser determinada culturalmente, envolve a
consanguinidade. Fora desta, existe a Filiação Adoptiva, aquela em que
os filhos têm uma origem exterior à Família Nuclear ou não têm uma
relação genética. Entretanto, esse tipo de Filiação não é menos importante
que a outra, na medida em que os adoptados gozam dos direitos dos
legítimos.
Antropolologia Cultural 127

Sumário
A Filiação é uma das bases de transmissão do Parentesco. A Filiação
pode ser Unilinear (patrilinear ou agnática e matrilinear), Bilinear e
Indiferenciada.

Tome Nota!

Exercícios

1. Qual é o tipo de Filiação da sua zona de residência?


2. Apresente o esquema de Parentesco dessa área cultural.

Auto-avaliação

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos


Respostas.
As respostas a estas questões estão dependentes do seu tipo de Filiação
(patrilinear ou matrilinear do estudante). Apresente as suas respostas ao tutor.
Atenção! Antes de ir ao CR procure discutir primeiro com os seus colegas.
128 Lição 5

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1978, p. 257-306.
COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? 2ª edição.
Lisboa, Edições 70, p. 56-140.
GHASARIAN, Christian. Introdução ao Estudo do Parentesco. Lisboa, Terramar,
Leitura 1999, 231 p.
MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas.
Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 313-339.
RADCLIFFE-BROWN, A. R. E FORDE, Daryll. Sistemas Políticos Africanos de
Parentesco e Casamento. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1950, 223 p.
RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. p. 61-
88.
Antropolologia Cultural 129

Lição 6

Grupos de Parentesco

Introdução
Se na última lição você aprendeu que na Filiação se definem regras de
descendência de um indivíduo, nesta vai observar que, sendo cada
indivíduo uma base para a formação de novas ligações, surgem grupos
com laços cada vez mais abrangentes. É sobre essas ligações, que na
essência se formam os grupos de parentesco, que vamos falar nesta lição.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer as normas que guiam os grupos de parentesco;
 Identificar os vários tipos de grupos de parentesco;
 Elaborar um esquema de parentesco mais complexo.

Objectivos

Conteúdo

Quando você diz que alguém é um parente seu está adjacente que ambos
têm a mesma origem. E como pode notar na sua área de residência, dado
que, à priori, a filiação é unilinear, há formação de grupos selectivos, isto
é, um membro é seu familiar ou não, se ele se identifica ou não com o
mesmo antepassado seu. Assim, todos os que se identificam com um
antepassado comum formam, a diferentes escalas, vários grupos de
parentesco, como o Clã e a Linhagem.

O Clã é um grupo de filiação unilinear (patriarcal ou matriarcal) que


descende de um mesmo antepassado lendário ou mítico. Às vezes, os
membros invocam um Totem, isto é, representação sacralizada do Clã,
ligado ficticiamente ao antepassado. As pessoas com o mesmo Totem
respeitam os mesmos tabus ou as mesmas proibições matrimoniais ou
alimentares e possuem o mesmo patronímico ou nome genérico. A
130 Lição 6

pertença ao clã constitui a base da transmissão da herança e funções de


rituais, económicas, políticas, etc.

O Clã compreende um certo número de linhagens exógamas (isto é, cujos


membros devem se casar fora da sua linhagem), ligadas a um antepassado
histórico, cuja recordação se conserva. Por acréscimo demográfico, os
Clãs e Linhagens podem fragmentar-se, surgindo clãs, subclãs, linhagem
principal e linhagens secundárias.

Na filiação unilinear o homem (patrilinearidade) e a mulher


(matrilinearidade) transmitem a pertença ao Clã. Os germanos pertencem
ao Clã do progenitor transmissor da pertença.

Em cada uma das filiações distinguem-se ainda os primos cruzados, que


são os germanos que nascem de irmão da mãe e irmã do pai e os primos
paralelos, que são os germanos que nascem do irmão do pai e da irmã da
mãe. Geralmente, segundo as regras de exogamia, os primos paralelos
estão proibidos como parceiros, enquanto os cruzados são potenciais
cônjuges. Veja o esquema seguinte:

Consanguinidade

Primos Primos Ego Primos Primos


Numa filiação patrilinear, o esquema é representado da seguinte maneira
Paralelos de Ego Cruzados de Ego Cruzados de Ego Paralelos de Ego
Antropolologia Cultural 131

Primos cruzados EGO Primos paralelos

Membros da linhagem de Ego

Membros de outras linhagens

Numa filiação matrilinear, o esquema é representado da seguinte maneira

= ==

Primos cruzados EGO Primos paralelos

Membros da linhagem do Ego, isto é, os que


normalmente são designados familiares.

Membros de outras linhagens

Sumário
O Ego é o elemento chave na identificação de parentes. Entre os
parentes existem os directos, (consanguíneos), os paralelos e os
cruzados. Entretanto, por uma questão operatória, só a mãe ou o pai é
que dão a pertença ao clã.
Tome Nota!
132 Lição 6

Exercícios

1. Identifique os grupos de parentesco.

2. Elabore a sua árvore genealógica.


Auto-avaliação

Quanto aos grupos de parentesco, você pode indicar desde as


sublinhagens, linhagens, subclãs, clãs

A árvore genealógica a ser elaborada por si pode variar em função da


informação que você tiver dos ascendentes.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1978, p. 257-306.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? 2ª edição.


Lisboa, Edições 70, p. 56-140.
Leitura
GHASARIAN, Christian. Introdução ao Estudo do Parentesco. Lisboa, Terramar,
1999, 231 p.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e Temas.


Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 313-339.

RADCLIFFE-BROWN, A. R. E FORDE, Daryll. Sistemas Políticos Africanos de


Parentesco e Casamento. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1950, 223 p.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. p. 61-


88.
Antropolologia Cultural 133

Lição 7

Aliança Matrimonial

Introdução
Vimos nas lições anteriores que o parentesco resulta de várias formas, de
entre as quais o casamento. Nesta lição vamos conhecer todos os aspectos
que envolvem a Aliança Matrimonial nas diferentes sociedades e os
condicionalismos que emergem desse processo. Você vai encerrar a lição
com uma auto-avaliação, onde pode testar o nível de compreensão da
matéria.

Ao completer esta lição, você será capaz de:


 Conhecer a utilidade social do casamento;
 Identificar os aspectos que condicionam a escolha do cônjuge;
 Conhecer os vários tipos de casamentos.

Objectivos

Conteúdos

Na sua vida quotidiana você tem ouvido falar de Aliança Matrimonial ou


simplesmente do casamento. Este constitu uma união estabelecida entre
dois grupos exógamos, pelo cruzamento de um dos seus membros com
alguém pertencente a outro grupo. O casamento é uma Instituição Social
que visa o estabelecimento de vínculos de união estáveis entre o homem e
a mulher, baseados no reconhecimento do direito de prestações recíprocas
de comunhão de vida e de interesses, segundo as normas das respectivas
sociedades. De facto, os casamentos são prescritos geralmente pelas
normas do local onde se realizam, desde que um dos membros seja
nativo. Excluem-se os casamentos exóticos.

A Aliança Matrimonial condiciona processos de filiação, de residência,


de apelido, de herança, de atitudes e é a base da procriação legítima no
134 Lição 7

grupo conjugal. A liança Matrimonial condiciona a mudança do estatuto


dos novos esposos e a criação de laços jurídicos, sociais e económicos.

A escolha do cônjuge não é aleatória. Participam alguns princípios como


a origem, as qualidades, a identidade social, para além de que esperam se
negociações e assentimentos nas famílias dos dois parceiros. Tais
princípios são tomados em consideração porque um laço matrimonial
envolve questões como a idade; o sexo; grau de parentesco dos esposos;
prazo de viuvez ou o respeito de certos interditos. Por exemplo, apesar de
actualmente ocorrerem casamentos homossexuais em alguns países,
geralmente são privilegiados os de natureza heterosexual, isto é, que
resultam da relação entre o homem e a mulher. Assim, os tipos e sistemas
matrimoniais guiam-se na base da endogamia, (matrimónio dentro), que
prescreve a escolha do cônjuge no interior de um determinado grupo e da
exogamia (matrimónio fora), que proíbe o casamento dentro de
determinados grupos, ou seja o casamento entre parentes do primeiro
grau. Este difere contudo do incesto, que diz respeito às relações sexuais
entre parentes do primeiro grau, uma prática que normalmente é proibida
praticamente em todas as sociedades.

A escolha de um cônjuge opera-se por ordem decrescente segundo os


critérios seguintes: no interior da etnia (etnocentrismo); exogamia (fora
do grupo do parentesco, que na verdade tem sido um dos grandes
critérios), a afinidade e a harmonia das idades. Por isso, existem várias
formas de casamentos, sendo impossível considerar uma única forma, de
valor universal. Contudo, entre as variadíssimas formas e normas
existentes, permanece sempre o facto de a comunhão ser socialmente
reconhecida e regulada.

Atendendo à escolha dos nubentes, o casamento pode ser a) livre, quando


os nubentes têm plena liberdade na escolha do seu parceiro; b)
preferencial, quando apenas se considera aconselhável que o indivíduo
despose uma determinada pessoa ou entre as pessoas de uma determinada
categoria social e c) prescrito ou compulsório, quando a pessoa ao
nascer fica comprometida a um futuro marido ou esposa. Assim, pode ser
a hipergamia, que é a preferência matrimonial concedida por uma mulher
a um cônjuge de estatuto e de condição económica superior; a hipogamia,
casamento em que mulheres de sangue real são coagidas a casar com um
cônjuge de estatuto inferior e a homogamia ou isogamia, a escolha do
cônjuge em meio social, geográfico e cultural idêntico ao seu próprio
meio.

Nas práticas de casamento existem formas de trocas de mulheres entre


grupos sociais ou no interior de um grupo social. Ocorre, por exemplo,
que pode haver um casamento preferencial, especialmente entre os
primos cruzados. Nas vezes em que de grupo para grupo uma mulher é
dada por troca com outra mulher fala-se de troca directa. É um casamento
prescrito, como o é, entre os primos cruzados. Mas quando uma mulher é
compensada por um símbolo reconhecido ou dote (p. ex. vaca, soma de
dinheiro), a troca é indirecta. O dote simboliza a aliança dos clãs; a troca
dos valores; mas também uma indemnização pela privação dos serviços
agrícolas e caseiros que a filha desempenharia caso ficasse com eles ou
um direito pela apropriação de uma filha; o preço de cedência de um
poder legal sobre esta.

Há casos particulares de casamento, por herança, como o levirato, uma


prática segundo a qual a viúva se casa com um irmão do marido falecido
Antropolologia Cultural 135

e o sororato, em que o viúvo se obriga a casar com uma irmã solteira da


esposa falecida.

Os casamentos, segundo o número de parceiros, podem ser monogâmicos


e poligâmicos. Nos casamentos monogâmicos ocorre a união matrimonial
de um só homem com uma só mulher, representada pela fórmula
estrutural diádica = . Destes casamentos resultam famílias
monogâmicas. Nos casamentos poligâmicos, os cônjuges podem ter mais
parceiros. Neste caso há a poliginia, quando são envolvidas mais
mulheres, isto é, quando um homem se casa com muitas mulheres e a
poliandria, quando uma mulher se casa com mais de um homem.
Contudo, a poliginia é um dos casos mais frequentes.

De um modo geral, o casamento tem uma função social, quer como base
de manutenção do grupo social, a partir da procriação, quer pela
manutenção de alianças entre grupos familiares, tendo por isso uma
função comunitária. Geralmente o casamento dissovlve-se por duas vias:
por morte de um dos membros ou pelo divórcio que, por sua vez, pode
resultar de vários factores: infertilidade de um dos membros, infidelidade,
contradições entre os membros, maus tratos, concubinato, etc.

Sumário
À excepção do exotismo e desde que um dos membros seja nativo, os
casamentos são prescritos geralmente pelas normas do local onde este
se realiza. A escolha do cônjuge depende da identidade social, questões
do sexo; grau de parentesco dos esposos; prazo de viuvez ou o respeito
de certos interditos. Eles guiam-se ainda pela endogamia e exogamia.
Tome Nota!
De acordo com a forma, ele pode ser livre, preferencial, (hipergamia),
hipogamia, homogamia ou isogamia), prescrito ou compulsório. Há
também os casamentos por herança, (levirato e o sororato).
Finalmente, segundo o número de pessoas envolvidas, pode ser
monogâmico e poligâmico (poliginia e a poliandria).

Exercícios

1. Depois de se informar, caracterize o casamento da sua área de


residência, assinalando o(s) fundamento(s) do(s) mesmo(s)

2. Livre, prescrito ou compulsório, hipergâmico, hipogâmico,


homogâmico ou isogâmico, preferencial, por compensação nupcial; por
Auto-avaliação
Levirato e Sororato; monogâmico; poligâmico.

3. Quais os motivos que determinam a existência do tipo de casamento que


identificou em 1?

4. Na sua área de residência, ocorre o último tipo do casamento


identificado na questão 1? Qual é o tipo?
136 Lição 7

Respostas (feedback) – soluções das questões dadas nesta lição.

1. O Centro de Apoio vai identificar, com o Discente, as bases dos


casamentos da zona.

2. O Estudante deve encontrar os motivos locais que condicionam a


dominância de certas características do casamento.

 Na condição de existir, esse tipo de casamento só pode ser poligínico,


porque em nenhuma parte de Moçambique existe o poliândrico.

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1978, p. 257-306.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? 2ª


Leitura edição. Lisboa, Edições 70, p. 56-140.

GHASARIAN, Christian. Introdução ao Estudo do Parentesco. Lisboa,


Terramar, 1999, 231 p.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 313-339.

RADCLIFFE-BROWN, A. R. E FORDE, Daryll. Sistemas Políticos Africanos


de Parentesco e Casamento. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1950,
223 p.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. p.


61-88.
Antropolologia Cultural 137

Lição n° 8

Residência e Circulação
Matrimonial e Seu Impacto na
Organização Social e Política

Introdução
Seja em que meio for, nenhuma organização social é feita aleatoriamente.
Essa característica estende-se à residência e à circulação de membros
num determinado território. De facto, a residência é feita em função de
certas regras e ela tem um certo impacto sobre a organização social.
Nesta lição, vamos conhecer essas regras e o respectivo impacto. Para
isso, você tem duas horas para estudar a presente lição, acompanhada por
um exercício de auto-avaliação, que deve ser resolvido.

No fim desta lição, você deve ser capaz de:


 Conhecer os diferentes tipos de residências que existem;
 Conhecer a importância da existência do sistema de atitudes em
Objectivos certos meios sociais.

Conteúdos
Os agrupamentos locais e residenciais são unidades funcionais que
definem a circulação de membros, quer masculinos quer femininos, no
interior de uma comunidade. O estabelecimento de um casal é objecto de
regra. Existem vários tipos de residência. Por exemplo, a residência
unilocal pode ser definida pelas residências: patrilocal, virilocal,
matrilocal e uxorilocal.

É residência patrilocal, quando o casal vive nas terras ou na proximidade


do grupo do marido. Em Moçambique é característica nas comunidades
de filiação patrilinear. É virilocal, quando o casal se estabelece nas terras
não do grupo do marido, mas nas terras próprias do marido e pode ser
num sistema matrilinear ou patrilinear. De um modo geral, os filhos
estando sob o controle do pai, a transmissão da herança e a sucessão, na
presença de um pressuposto de transmissão de um poder político, é feita
138 Lição n 8

de pai para o filho. O pai é o responsável pela transmissão dos


rudimentos sociais do grupo ou da educação aos filhos, controlando, por
isso, a circulação destes. Este tipo de residência pode ser encontrado nas
famílias migradas por largos tempos ou definitivamente.

É residência matrilocal quando o casal se instala junto dos pais da esposa.


Geralmente é a avó materna que controla o grupo doméstico. É
uxorilocal, quando o casal se estabelece em casa da esposa. Quando a
residência é do mesmo tipo de filiação, por exemplo, filiação matrilinear
e residência matrilocal, o regime é dito harmónico. Os homens, apesar de
sairem dos seus grupos domésticos, deslocam-se frequentemente para a
povoação da sua mãe. Geralmente, apesar de não ser posto de lado o
papel da mulher, já que ela detem o poder espiritual, a execução deste
cabe aos irmãos da mãe de um determinado Ego. É por causa disso que
há um papel muito forte dos tios maternos, os quais controlam a
circulação dos sobrinhos uterinos. O poder passa, dessa forma, do tio
materno ao sobrinho. Entretanto, quer no sistema de parentesco e de
residência matrilocal ou patrilocal, essa herança tem recaído,
preferencialmente, nos primogénitos, não obstante existirem certas
especificidades locais, familiares ou ocasionais.

Se uma residência unilocal admite o estabelecimento do domicílio ou do


lado do marido ou da mulher, isto é, deixa a escolha dos cônjuges,
chama-se bilocal ou ambilocal. Mas ela pode ser alternada, se primeiro é
patrilocal e depois matrilocal, ou o inverso. Mas também pode ser
duolocal ou natolocal, quando os cônjuges podem, em certas ocasiões,
residir separadamente, com a sua família. Ela tem geralmente um carácter
temporário, quando, por exemplo, o novo casal se encontra a criar
condições para o seu estabelecimento, ou quando, por exemplo, a mulher
recebe assistência na casa da mãe, durante um parto, período durante o
qual, o homem visita amiudadas vezes a sua esposa.

Há vezes em que o par conjugal vai viver em casa do irmão da mãe do


marido. Neste caso chama-se residência avunculocal. Mas pode ser que a
escolha do local onde o local se irá estabelecer seja feita fora da decisão
dos pais do cônjuge, como nas zonas industrializadas. Neste caso, temos
o caso da residência neolocal.

Sistemas de Atitudes

Entre os membros de um dado grupo social são determinados certos


comportamentos que regem a relação entre os seus componetes. Existem,
por exemplo, normas de comportamento entre o tio materno e o sobrinho.
O sobrinho deve obediência e profundo respeito ao tio e às vezes, este
importuna o sobrinho. Mas é necessário situar estas relações não só ao
nível destes dois membros, pois envolve o irmão da mãe, a própria mãe, o
cunhado e o sobrinho.

Um outro sistema de comportamento situa-se ao nível dos sogros e


genros, ou entre parentes aliados, como por exemplo o gracejo. Muitas
destas normas circunscrevem-se num respeito ou para inibir tensões
potenciais entre os membros envolvidos. Existem outras normas de
comportamento ou sistema de atitudes, como é o caso do gracejo em que
os comportamentos se transpõem ao nível da entreajuda ou assistêcia
recíproca entre os membros em todas as ocasiões.
Antropolologia Cultural 139

Sumário
Os agrupamentos residenciais são unidades funcionais que definem a
circulação de membros. O estabelecimento de um casal é objecto de
regra, podendo ser patrilocal, virilocal, matrilocal e uxorilocal. A
residência pode ser ainda bilocal ou ambilocal, duolocal ou natolocal,
avunculocal. Geralmente nesses grupos residenciais estabelecem-se
Tome Nota!
comportamentos que regem a relação entre os seus membros, são os
sistemas de atitudes, como as que existem entre o tio materno e o
sobrinho, sogros e genros, ou entre parentes aliados, como por exemplo
o gracejo

Exercícios

1. Identifique as características residenciais da área cultural em que se


encontra a viver.
2. Partindo da realidade de Moçambique, identifique e demarque as
Auto-avaliação características residenciais mais dominantes no país.
3. Que importância tem o sistema de atitudes num grupo social dado?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Resposta

1. A resposta a esta questão depende do seu local de residência.

2. Você de certeza que serviu-se de um mapa de Moçambique para


demarcar as características residências mais dominantes.

3. O sistema de atitudes pode regular, por exemplo, os conflitos


potenciais, como os que existem entre a “velha” e a “nova” geração ou
entre indivíduos que, à priori, poderiam entrar em choque.

De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo e tente reolver de novo.
140 Lição n 8

Leituras aconselhadas

BERNARDI, Bernardo. Introdução aos Estudos Etno-antropológicos. Lisboa,


Edições 70, 1978, p. 257-306.

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? 2ª


Leitura edição. Lisboa, Edições 70, p. 56-140.

GHASARIAN, Christian. Introdução ao Estudo do Parentesco. Lisboa,


Terramar, 1999, 231 p.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 313-339.

RADCLIFFE-BROWN, A. R. E FORDE, Daryll. Sistemas Políticos Africanos


de Parentesco e Casamento. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1950,
223 p.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. p.


61-88.

Actividade Final da Unidade


Partindo da organização parental, trace as relações sociais possíveis que
podem existir com o mundo religioso, económico, político, etc.,
existentes na sua “área cultural”.
Antropolologia Cultural 141

Unidade n° 6

A Cultura do Simbólico,
Ideologias e O Papel da Religião
Tradicional em África e em
Moçambique

Introdução
Benvindo à última unidade do presente módulo de Antropologia Cultural.
Depois de ter tido o contacto com aspectos relacionados com os
pressupostos da emergência da Antropologia e das teorias subsequentes,
com as características da Cultura, com a cultura material e finalmente
com o parentesco, é chegada a vez de ver o simbolismo que existe no
interior de toda a acção humana, quer na produção material ou, por
exemplo, mesmo no parentesco. Nesta unidade, você vai apreender o que
existe do lado imaterial dos homens, desde o conjunto de ideias,
símbolos, crenças, religiões, etc.

Estrutura

O estudo que você inicia agora tem 5 lições. Devem ser dispensadas duas
(2) horas de tempo para cada lição.

Tópicos da Unidade

Lição 1. A cultura do Simbólico

Lição 2. Os Vínculos de Transmissão Ideológica : Rituais e


Mitos

Lição 3. A Religião Tradicional em África : (o culto aos


antepassados, as crenças na magia e na feitiçaria, os
ritos de possessão)

Lição 4. A Introdução de Novas Ideologias Religiosas e o seu


Impacto nas Sociedades Agrícolas em África

Lição 5. Os Movimentos Político-religiosos em África.


142 Unidade n 6

Ao completar esta unidade, você será capaz de:

Geral

 Conhecer a natureza simbólica da Cultura Humana.

Objectivos
Específicos
 Identificar os aspectos que compõem a Cultura Imaterial.
 Distinguir a Religião da Magia.
 Saber como a ideologia é veiculada dentro de uma comunidade
 Caracterizar a prática religiosa tradicional em África e em
Moçambique
 Reconhecer o impacto das Religiões Exógenas sobre as Religiões
Africanas
 Explicar os motivos e os mecanismos da Capitalização das religiões
tradicionais face às religiões impostas.

Motivações

Quando você trata de aspectos religiosos, tem visto um tratamento


marginalizado das práticas religiosas africanas. Com esta unidade, você
vai conhecer o que, às vezes, está por detrás dessa situação.

Meios

Para além das referências bibliográficas presentes no fim de cada lição,


você poderá usar textos de apoio, visita a museus etnográficos, sempre
que eles existirem, mas também à sua própria comunidade. Os aspectos
relacionados com o sagrado e o profano, os tipos de cultos, as religiões
dominantes na “área-cultural”, só podem ser cedidos pelo meio
envolvente.
Antropolologia Cultural 143

Lição n° 1

A Cultura do Simbólico

Introdução
Todos os grupos humanos tiveram e têm uma crença num ser
sobrenatural ou têm um conjunto de ideias que não são, necessariamente,
objectos tangíveis, que fazem parte do mundo de ideias. Será sobre este
mundo que se vai centrar a presente lição. Você dispõe de duas horas
para apreender o conteúdo desta lição. No fim tem algumas actividades
para cujas respostas pode ser necessário recorrer às unidades anteriores,
já que o percurso o justifica.

No fim desta lição, você deve ser capaz de:


 Identificar os aspectos que fazem parte do imaginário ou do
simbólico
Objectivos  Explicar por que o ser humano é um “ser simbólico”
 Especificar o lugar da Religião nesse simbolismo

Conteúdos
Se você fôr a fazer uma leitura sobre todos os povos vai notar que eles
têm um conjunto de ideias que se relacionam com a cosmovisão ou então
existe uma certa crença sobre um mundo sobrenatural, ou ainda, que os
homens estabelecem um relacionamento com o mundo invisível. Esse é o
lado do imaginário do homem, da cultura imaterial ou do aspecto
ideológico. De facto, toda a sociedade humana tem, de certa forma, uma
ligação com o sobrenatural ou com o imaginário que pode não se situar
necessariamente ao nível do aspecto religioso.

Por outro, quando falamos das características da cultura, vimos que uma
delas é o seu carácter simbólico, isto é, que para além de ser material,
envolvendo artefactos ou objectos, ela comporta também uma parte
mental, resultante da actividade psíquica, quer nos seus aspectos
cognitivos, quer nos afectivos, significados, valores e normas. Contudo,
estes dois lados da cultura agem de forma recíproca, dado que,como
defende Maurice Godelier, o material da cultura pode se simbolizar e o
simbólico da cultura se pode materializar.

Esse mundo simbólico precisa de ser descodificado pelo facto de os


símbolos formarem um sistema específico, porque transmite mensagens
difíceis de captar à primeira vista. Assim, a compreensão da cultura dos
homens depende da percepção dos símbolos, dado que estes tocam a
cultura e a sociedade na sua globalidade. Por isso, alguns estudiosos
144 Lição n 1

consideram o homem como “animal simbólico” e, outros autores,


indicam ser difícil separar as duas partes. Neste sentido, integram o
simbolismo: a linguagem verbal, os ritos, as instituições culturais, as
relações, os costumes, etc. Um exemplo prático ao nível do simbólico
existente em África é o totemismo. Este expressa um conjunto de seres,
animais ou vegetais, usados para atribuir nome a um clã, passando, a
partir desse momento, a ser o nome pelo qual um determinado clã se
identifica. Na sequência dessa prática, um clã X passa a evitar o contacto,
principalmente por via de alimentação, com o animal ou a planta.

Contudo, um dos elementos que congrega a maior parte dos aspectos


simbólicos é a Religião. O discurso religioso procura abarcar a totalidade
da experiência humana, ligando o material e o sobrenatural, o imanente
do transcedental, com o fim de classificar, ordenar, hierarquizar, construir
uma moral e dar um sentido à vida. A Religião tende para a Metafísica,
tendo como característica o sacrifício, supondo um intermediário de
poderes sobrenaturais.

Todas as religiões dividem o mundo em duas partes: uma sagrada, que


envolve objectos de culto, as pessoas do culto e os próprios seres
cultuados e outra profana, respeitante ao comum, ao secular.

Segundo Martinez, (2004, p. 115) todas as religiões, das diferentes


sociedades, têm funções semelhantes, como a essencialista, cujo
objectivo é manter a identidade e a consistência da sociedade e a
funcionalista nos aspectos a) transcendental, na vinculação do Homem
ao mundo transcendental, ao Ser Supremo; b) integrador, para manter o
grupo social unido através da sua identidade cultural; c) ético, cuja
finalidade é a de manter normas morais uniformes na sociedade e d)
função psicológica, com o objectivo de manter o equilíbrio e a harmonia.
E como acrescenta Rivière, “a pluralidade das religiões não autoriza, de
forma nenhuma, que se considere uma delas como a única verdadeira,
não passando as outras de esboços ou simulacros, apesar da nossa
tendência para tratarmos como mitos e superstições as crenças a que nós
não aderimos” (Rivière, 2000, p. 143).

O discurso religioso faz, de certa maneira, parte da ideologia de um grupo


social, esta definida como o conjunto das representações colectivas
(morais, filosóficas, religiosas ...), através das quais os homens traduzem
as suas condições reaisi de existência adoptadas por exprimirem os
interesses, reais ou imaginários, de uma classe ou grupo social (Clément
et al. 1998, p. 190).

Geralmente a ideologia permite e garante a manutenção das


relações sociais, dado que é, através dela que estão prescritas, de
forma subtil, as relações, baseadas numa força exterior, reguladora
das mesmas.
Antropolologia Cultural 145

Sumário
Todas as sociedades humanas apresentam um lado simbólico na sua
cultura. Um dos aspectos mais característicos da Cultura Imaterial é a
Religião, a qual procura abarcar a totalidade da experiência humana,
ligando o material e o sobrenatural, com o fim de classificar, ordenar,
hierarquizar, construir uma moral e dar um sentido à vida. Esta cultura
Tome Nota!
simbólica ou imaterial veicula elementos agregadores num
determinado grupo social.

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:
1. Onde se encontra, na essência, a diferença entre a cultura material e
Auto-avaliação imaterial?
2. Por que se diz que o ser humano é por natureza “simbólico”?
3. Apresente o carácter universal da Religião.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Resposta

1. A cultura material é a expressão em artefactos ou


tecnológica da actividade mental humana, enquanto a
cultura imaterial representa o lado do imaginário, do
simbólico dessa mesma actividade.

2. Porque toda a sua acção procura dar algum significado


simbólico ou porque antropologicamente a actividade
humana é mais interpretada neste lado simbólico
3. Todos os grupos humanos têm ou procuram estabelecer
uma relação com o mundo transcendental ou sobrenatural,
criando um ser, ao qual estão ligadas muitas explicações
que, à priori, estão fora do alcance da construção mental
objectivamente provável do intelecto humano.
 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve
dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo e tente reolver de novo.
146 Lição n 1

Leituras aconselhadas
COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas?
Lisboa, Edições 70, 1971, p. 307-340.

DELUMEAU, Jean (Dir.). As Grandes Religiões do Mundo. Lisboa,


Editorial Presença, 2002.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto.
Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 93-114.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 386-420.
RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000,
p. 139-164.
Antropolologia Cultural 147

Lição n° 2

Os Veículos da Transmissão
Ideológica: Rituais e Mitos

Introdução
Certamente que você já presenciou ou ouviu falar sobre alguma
cerimónia religiosa ou comunitária da sua zona de residência. Terá
também presenciado contos acerca da origem do Homem ou do Universo,
que começa: era uma vez... Tais aspectos fazem parte de um universo
imaginário dos ritos e dos mitos, objecto da presente lição. Para isso,
você dispõe de duas horas, seguidas por uma actividade de auto-
avaliação.

No fim desta lição, você deve ser capaz de:


 Definir um rito e um mito
 Distinguir um rito de um mito
Objectivos  Especificar a finalidade dos ritos e dos mitos.

Conteúdos
O Rito designa “um conjunto de actos repititivos e codificados, por
vezes solenes, de ordem verbal, gestual ou de postura, com forte
carga simbólica, fundado sobre a crença na força actuante de
seres ou de poderes sagrados, com os quais o homem tenta
comunicar, visando obter um determinado efeito” (Rivière, 2000,
p. 154).

O Rito é endereçado a um Ser Sobrenatural, diferente dos demais e


tem: uma sequência de acções; representações; meios de
comunicação, feitos por um pessoal especializado e meios reais e
simbólicos. Assim, envolve objectos, divindades, como as orações
e oferendas, sacrifícios, pessoal, como Oficiantes/Médiums/Padres.
Eles são feitos em locais próprios ou habituais, como numa árvore,
junto de nascentes de rios, nas bases das montanhas, numa Igreja,
em função da sociedade. O Rito Religioso é público, colectivo e
social.

Por sua vez, o Mito, que se situa ao nível da linguagem, é formado


por unidades constitutivas (mitemas ou elementos míticos). Sobre o
Mito, Lévi-Strauss desenvolveu um amplo estudo. O Mito permite
148 Lição n 2

interpretar, assim como estruturar os aspectos culturais e mesmo


alguns procuram regular a vida de um grupo social. Os Mitos
inserem aspectos cuja explicação é vaga, imprecisa e não põe
directamente em causa a funcionalidade de um grupo, mesmo que
possa exercer influência sobre a mesma.

O Mito refere-se a um tempo primordial, relatando acontecimentos


das origens. As personagens que aparecem nos Mitos são Seres
Sobrenaturais, protagonistas de uma actividade criadora, revelando-
se no Mito a sacralidade das suas obras. Segundo Lévi-Strauss, o
mito pode expressar uma contradição impossível de resolver. No
mesmo diapasão, para Copans e outros (1971, p. 319), embora o
Mito encontre as suas causas nas estruturas sociais, ele pertence à
superstrutura, com a finalidade de atenuar contradições. Aponta
ainda que toda a mitologia submete, domina as forças da natureza
no campo da imaginação e dá-lhes forma, mas desaparece quando
tais forças são dominadas realmente (Ibid., p. 320). Assim, ao
narrar realidades sobrenaturais, o Mito traduz-se numa história
sacra.

O Mito é uma história exemplar, dado que fornece modelos para a


conduta humana, orientando o Homem no seu comportamento com
respeito a Deus e aos outros seres. Contudo, mesmo situando-se
nesse nível, o Mito não é de todo falso, dado que se refere a
acontecimentos, como a criação do mundo, as origens da espécie
humana, das coisas, como verdadeiros, como factos objectivos. Por
isso, os Mitos têm as seguintes características: tratam das origens;
os seus protagonistas são os Seres Sobrenaturais; através deles
entra-se em contacto com o sagrado; são transmitidos nos Ritos por
especialistas indicados pelo grupo social.

A Religião Tradicional em África : (o culto aos antepassados, as


crenças na magia e na feitiçaria, os ritos de possessão).

Sumário
Os Ritos e os Mitos constituem as formas de transmissão e de
exteriorização dos aspectos simbólicos da cultura humana. Enquanto os
primeiros encerram o conjunto de regras pelas quais o Homem procura
comunicar-se com o além, os segundos procuram explicar os
primórdios da humanidade ou mesmo do universo, desse além.
Tome Nota!
Antropolologia Cultural 149

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:

1. A partir da sua área de residência, identifique os Ritos Religiosos


Auto-avaliação praticados pela respectiva comunidade e os grupos praticantes.

2. Procura encontrar a(s) versão(ões) da origem do Homem ou do


Universo nesses Ritos e compare-as, se fôr o caso.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Respostas

1. A partir da sua zona de residência, você deve procurar os


vários Ritos praticados. Deve procurar descrevê-los em
função dos aspectos que constam no texto.

2. Seria interessante que você tenha recolhido essa origem


em função do tipo do Rito.

Leituras aconselhadas
COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas?
Lisboa, Edições 70, 1971, p. 307-340.

DELUMEAU, Jean (Dir.). As Grandes Religiões do Mundo. Lisboa,


Leitura Editorial Presença, 2002.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto.


Agostinho da Matola: S/Ed, 2004, p. 93-114.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias


e Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 386-420.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70,


2000, p. 139-164.
150 Lição n 3

Lição n° 3

A Religião Tradicional em África:


o Culto aos Antepassados, a
Crença na Magia e na Feitiçaria

Introdução
A formação dos grupos populacionais e do respectivo universo cultural
em África, e não só, foi acompanhado pela formação de um sistema
religioso específico, baseado no culto aos antepassados. Nesta lição
vamos procurar identificar os traços gerais dessa religião em relação a
outras religiões. Você dispõe de duas horas para o efeito e no fim da lição
dispõe de uma actividade a ser resolvida.

No fim desta lição, você deve ser capaz de:


 Distinguir a Religião Tradicional em África das outras;
 Identificar os procedimentos que estão a ela associados
Objectivos  Estabelecer a relação entre o poder e o sagrado.

Conteúdos
A Religião Tradicional em África envolve um conjunto de
procedimentos, muitos deles diferentes das religiões mais massificadas do
Mundo: o Cristianismo e o Islamismo ou outras que, mesmo ocupando
um país ou uma região geográfica, são expressivas, como o Hinduísmo, o
Budismo. É uma religião que crê no culto aos antepassados, pelos quais
os vivos se endereçam ao Deus e esperam receber, deste, as boas graças,
que podem passar pelos antepassados ou podem ser “endereçadas”
directamente. Veja o esquema.

Deus

Antepassado

Vivos
Antropolologia Cultural 151

Este culto resulta da crença numa segunda vida e da transformação dos


mortos (antepassados, um carácter entretanto atribuído a uma certa
categoria de homens) em personalidades místicas de ordem superior,
contudo inferiores a Deus. De facto, há uma crença de que os
antepassados que tiveram uma óptima conduta em vida têm a
possibilidade de ter uma relação directa com Deus, podendo, para isso se
constituir como um bom intermediário entre os vivos e Aquele. O culto é
realizado por meio de oferendas, preces, que varia de um grupo social
para o outro.

É uma religião que não tem um calendário especificamente delimitado,


podendo variar segundo o momento em que se manifesta o factor de
referência para o culto. Por exemplo, a invocação da chuva só pode
ocorrer quando houver a escassez da mesma. Nos anos em que há
abundância, esse processo não ocorre. Contudo, há períodos propícios
para a sua ocorrência. Assim, é uma religião mais prática, que procura
resolver os problemas que aparecem quotidianamente.

O comportamento religioso é, às vezes, associado às forças malignas,


influenciáveis por práticas específicas, como a magia. A magia, segundo
Rivière, “... é uma operação visando agir sobre a Natureza por meios
ocultos, que pressupõem a existência quer de espíritos, quer de forças
imanentes e extraordinárias” (p. 144-145). A magia é um ritual prático,
com finalidades maléficas ou benéficas. Embora assente em realidades
sociais, a magia, diferentemente da Religião, é, nos seus ritos, individual.
Contudo, há situações em que a magia é comunitária e aceite pelo grupo.
Às vezes é considerada anti-social. A magia põe em acção poderes
externos, manipulados pelos símbolos (objectos, fórmulas, gestos),
visando modificar o curso dos acontecimentos em favor de alguém e
prejuízo do outro. A magia não se faz num templo ou no altar doméstico,
mas às escondidas ou isolado, longe do grande público. O acto e o actor
envolvem-se em mistério.

Uma outra acção que se situa ao nível do espiritual é a feitiçaria, que é


concebida como tendo em vista prejudicar alguém. O acto é ofensivo,
maléfico para um grupo social ou para indivíduos. Contudo, ela pode
influenciar para a manutenção da ordem social, na medida em que
alimenta o receio de desvios e de tendências nocivas à sociedade.

Essas práticas são concretizadas por actos repetitivos e codificados, de


ordem verbal, gestual ou de postura, com forte carga simbólica – os ritos.
Com os ritos espera-se que uma força actuante de um poder sagrado,
sobrenatural para a obtenção do efeito desejado. Um rito comporta uma
sequência de acções, meios reais e sombólicos, representações, meios de
comunicação. Em determinadas ocasiões, tais ritos são concretizados sob
um estado de possessão, na qual “... um indivíduo se considera estar sob
o domínio de uma força sobrenatural, que o transforma num instrumento
da sua vontade, quer com uma finalidade terapêutica pessoal, quer como
mediação pelo possuído de uma mensagem divinatória para a sociedade”
(Rivière, 2000, p. 160). Nessa situação, diz-se que a pessoa entrou em
transe.

As práticas religiosas tradicionais envolvem ainda a adivinhação, que


serve para reduzir incertezas quanto ao futuro de um indivíduo, projecto
colectivo ou para revelar desajustes existentes numa comunidade, visando
moldar um novo comportamento.
152 Lição n 3

A um outro nível situa-se o tabu, que é um interdito sacralizado, ou


porque foi consagrado ou resulta do impuro. Acredita-se que a
transgressão pode dar origem a uma desordem natural ou social. O tabu é
definido por membros séniores de uma comunidade, fruto de
interpretações de experiências desagradáveis, de sonhos, de visões ou de
mitos.

O Poder e o Sagrado nas Formações Sociais, Tradicionais em


Moçambique

O sagrado é a concepção de uma força misteriosa, fascinante e temível,


cujos atributos variam de um grupo social para o outro: Deus,
antepassados, forças superiores, etc. Ele pode situar-se ao nível religioso
e fora do religioso. No primeiro contexto, é a força que garante a
segurança e é uma totalidade que se responsabiliza por tudo que não
somos responsáveis. Geralmente posiciona-se ao nível da impotência de
explicar certos aspectos. Quanto ao segundo contexto, fora da
religiosidade, o sagrado pode situar-se ao nível do amor à Pátria, laços
sagrados do casamento, respeitos sagrados, prescritos no interior de um
grupo social, como entre pai-filho, genro-sogra, etc. Contudo, nos dois
contextos, o sagrado é um dos fundamentos da circulação do poder no
interior de grupos sociais tradicionais. Aliás, este processo não é só
atinente àquelas sociedades, pois toca também as sociedades urbanas, ou
as ditas desenvolvidas. Por exemplo, o amor a uma bandeira, cujo
simbolismo pode situar-se ao nível do sagrado, pode constituir uma das
bases da execução de uma tarefa governamental em situações delicadas,
só pelo simples facto de termos jurado defender a bandeira nacional até
às últimas consequências.

Sumário
A Religião Tradicional Africana é fundamentalmente baseada no culto
aos antepassados, que são os elos de ligação entre os vivos e os mortos.
É uma Religião sem um caledário rígido, acompanhada pela prática da
magia e adivinhação. Geralmente o sagrado está associado à
transmissão do poder ou ao estabelecimento de regras ou prescrições
Tome Nota!
que regulam a sociedade.

Exercícios
Antropolologia Cultural 153

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às questões
seguintes:
1. As práticas religiosas africanas conhecem, em função do
comportamento dos fenómenos naturais, descontinuidades. Justifique.
Auto-avaliação
2. 2. Procure fazer o levantamento dos aspectos sagrados na sua área de
residência.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Respostas

1. De facto, em função da existência ou não de certas condições que


obriguem a realização de um certo culto, pode haver ou não um
determinado culto.

2. Para esta questão, você deve conferir a sua resposta no Centro de


Recursos, dado que eles podem variar de um lugar para o outro,
atendendo ao carácter multicultural de Moçambique.

 De certeza que conseguiu responder as perguntas colocadas. Se teve


dificuldades, não desista, volte a ler o texto. Se a dificuldade persistir
consulte as obras indicadas abaixo e tente reolver de novo.

Leituras aconselhadas

COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,


Edições 70, 1971, p. 307-340.

DELUMEAU, Jean (Dir.). As Grandes Religiões do Mundo. Lisboa, Editorial


Presença, 2002.
Leitura
MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho
da Matola: S/Ed, 2004, p. 93-114.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 386-420.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p. 139-164.


154 Lição n 4

Lição n° 4

A Introdução de Novas Ideologias


Religiosas e o seu Impacto nas
Sociedades Agrícolas em África
A Penetração e o Impacto do Islão e do Cristianismo em Moçambique

Introdução
Depois da sistematização das práticas religiosas internas, elas foram
confrontadas por outros sistemas culturais exógenos, que tiveram um
impacto significativo sobre aquelas. Tais aspectos constituem objecto da
presente lição. Como nas outras lições, você dispõe de duas horas de
trabalho para absorver o que a seguir lhe é proposto.

No fim desta lição, você deve ser capaz de:

 Conhecer o impacto das Religiões Exógenas sobre as Religiões


Tradicionais ou Locais
Objectivos
 Identificar alguns aspectos resultantes do Sincretismo Religioso em
África e em Moçambique.

Conteúdos
Após a afirmação, no território que mais tarde seria conhecido por
Moçambique, do substracto social bantu e de outros grupos populacionais
no resto da África, e a formação do respectivo universo religioso,
caracterizado na lição 4 desta unidade, houve, durante o primeiro milénio
e no período subsequente, a penetração de outros povos. Lembra-se da
penetração mercantil que estudou em História? Com ela, você aprendeu
que o território recebeu, primeiro, os asiáticos e depois os europeus.

Cada um destes novos grupos sociais trazia consigo o seu universo


religioso. Entre os asiáticos, apesar de terem penetrado muitos povos em
África, como os indianos, os chineses, ficou vincada a presença dos
árabes. De facto, este foi o grupo que dominou as relações comerciais
durante largos tempos, influenciando o modo de vida local, desde a
língua, a forma de traje, mas, fundamentalmente a Religião. Com os
árabes e os povos da Costa Oriental Africana por eles influenciados foi
introduzida a Religião Islâmica, cujos traços evidentes você deve
conhecer perfeitamente. Entre os europeus, cuja penetração sistemática
ocorreu, como você se deve lembrar, a partir do século XVI, houve a
introdução do Cristianismo.
Antropolologia Cultural 155

A introdução do Islamismo e do Criatianismo em Moçambique nem


sempre foi negociada. De facto, o que geralmente ocorreu foi a imposição
dos dois credos religiosos, já que reclamavam um carácter universal,
profético e hegemónico. Na verdade, como deve recordar-se ainda das
aulas de História, as duas religiões foram consideradas pelos respectivos
povos como o factor ideológico.

O primeiro impacto que ocorreu sobre as comunidades agrícolas foi,


logicamente, a secundarização ou a marginalização das práticas religiosas
locais, senão a tentativa para a sua supressão, num projecto de uma
aculturação programada directa ou subtil. Dos conhecimentos que você
teve sobre o período colonial, lembra-se perfeitamente que o Cristianismo
foi imposto até nas escolas, com as famosas catequeses, não é verdade?

Contudo, não foi possível apagar tudo nas tradições religiosas locais. Os
africanos resistiram sob diversas formas, sendo uma delas, a integração
parcial de alguns caracteres das religiões impostas. Nessa fusão surgiu
um certo sincretismo religioso que, segundo Rivière (2000, p. 158), é “...
um processo contra-aculturativo, que implica assimilação de mitos,
empréstimo de ritos, associação de símbolos, por vezes inversão
semântica e reinterpretação de mensagens supostamente divinas”. As
evidências indicam que com a emergência dessas práticas sincréticas, os
africanos quiseram preservar esta relação com o sobrenatural, segundo os
seus fundamentos de vida.

Sumário

A introdução de novas religiões em África, onde anteriormente


existiam religiões tradicionais trouxe um impacto sobre estas, através
da sua marginalização ou até supressão. Contudo, algumas resistiram e
adaptaram-se à nova realidade, tendo até absorvido algumas práticas
Tome Nota! das religiões impostas. Surgiram daí os diversos sincretismos
religiosos.
156 Lição n 4

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responde às


questões seguintes:

1. Que fundamentos foram capitalizados pelos povos estrangeiros na


Auto-avaliação difusão dos seus credos religiosos?

2. Defina, por palavras suas, Sincretismo Religioso.

3. Na sua área de residência haverá indícios de integração de aspectos


religiosos de um grupo exôgeno?

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos.

Respostas
1. Geralmente, os árabes e os europeus ao entrarem em África
procuraram identificar as suas religiões como as universais,
monoteístas, isto é, mandatadas por uma única divindade, anti-
obscurantistas, com o fim de subalternizar todas as outras práticas.

2. Você pode usar termos como fusão, absorção ou outro termo, de


práticas religiosas de dois grupos sociais diferentes.

3. Resposta a ser confirmada no Centro de Recursos.


Antropolologia Cultural 157

Leituras aconselhadas

BOAHEM, A. Adu (Dir.). Histoire Générale de l’Afrique. VII. L’Afrique


sous Domination Coloniale 1880-1935. Chapitre 20 La Religion en Afrique
pendant l’époque Coloniale. p. 351- 361 (Versão de bolso em língua francesa.
Existem também a versão integral, como de bolso em Português e em Inglês)
Leitura COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,
Edições 70, 1971, p. 307-340.

DELUMEAU, Jean (Dir.). As Grandes Religiões do Mundo. Lisboa, Editorial


Presença, 2002.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho


da Matola: S/Ed, 2004, p. 93-114.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 386-420.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


139-164.
158 Lição n 5

Lição n° 5

Os Movimentos Político-
Religiosos em África

Introdução
Apôs um certo período de expressão das Religiões Exógenas em África e
vendo o factor aglutinador que tais religiões proporcionavam, alguns
grupos populacionais procuraram usá-las em seu proveito, contra o
sistema montado. Nesta lição, você vai aprender os motivos da
emergência de movimentos religiosos de carácter político dinamizados
pelos próprios africanos. Para isso, você dispõe de duas horas. No fim,
tem uma actividade que servirá para testar o nível de compreensão do
texto e de outros materiais de que porventura você dispõe.

No fim desta lição, você deve ser capaz de:


 Especificar as razões da emergência dos movimentos político-
religiosos em África
Objectivos  Identificar os vários tipos de movimentos formados

Conteúdos

Quando ao africano foram impostas novas religiões, procurou, sempre


que possível, interpretá-las à sua maneira. Essa foi a razão da emergência
dos sincretismos que vimos na última lição. Na verdade, o africano
parece ter percebido que a sua sobrevivência passava pela criação de um
imaginário comandado de dentro, que mesmo tendo influências externas,
tivesse referenciais locais ou internos de um grupo social. Foi nesse
processo que emergiram os movimentos político-religiosos em África. É
o que se designa por Cristianismo “indígena”, como o Apostolowa Fe
Dedefia Habobo (Sociedade de Revolução Apostólica) no Ghana, o Dini
ya Nsambwa (Igreja dos Antepassados) no Quénia; Pássaro Branco no
Zimbabwe, Igreja dos Negros no Congo, entre outras (Adu, p. 363-365).
Todas essas igrejas têm uma base local e mesmo usando certas teorias
então defendidas pelo Cristianismo, visavam trazer benefícios ao povo
local no interior de uma ordem já imposta ou estabelecida.

A história africana testemunhou, desde muito cedo nessa relação com as


religiões externas, alguns movimentos religiosos, que com um impacto
político, visavam preservar a estabilidade dos grupos sociais locais, Cita-
se, por exemplo, que já no século XVII, houve um movimento de “(...)
Kimpa Vita (dona Beatriz) que, africanizando o cristianismo anunciava a
Antropolologia Cultural 159

restauração do antigo reino do Congo e uma era de riquezas materiais e


espirituais” (Delumeau, 2002, p. 730).

Já no século XX, desenvolveu-se o Kimbanguismo, também no Congo,


que usando preceitos fundamentalmente cristãos e a Bíblia, Simon
Kimbangu, designou a sua aldeia como a “Nova Jerusalém”, processo
que transformou a sua aldeia em local de peregrinação; transformou o seu
povo em “povo eleito” e paralelamente apontava a restauração da ordem
local, que devia ser concretizada pela destruição do sistema colonial
europeu. A sua expressão política entre as populações levou a sua
transformação em movimento político, de que se apoiou Mobutu Sesse
Sekou (Id), um dos ex-presidentes do Zaire, actual República
Democrática do Congo.

Nesse contexto, fala-se de igrejas separatistas ou independentes, “(...) que


procuravam integrar uma parte importante das crenças e das práticas
africanas na vida cristã (...), [ou era a] expressão do desejo dos africanos
de encontrar um lugar ondese pudessem sentir em casa e incluir noções
regiosas africanas nas liturgias cristãs”(Boahen, p. 360). Na África do
Sul existiram igrejas etiópicas, que defendiam direitos políticos dos
africanos e o progresso autónomo da África. Assim, em África, os
profetismos e os messianismos apresentam uma linguagem contestatária.

Sumário
Para contrapor a ordem institucionalizada, alguns grupos sociais
conheceram no seu interior a formação de movimentos políticos com
uma base religiosa, como o cristianismo indígena, as igrejas
separatistas ou independentes, que procuravam encontrar um espaço de
manobra para a sua expressão cultural e mesmo política.
Tome Nota!

Exercícios

Exercícios

Chegado ao fim desta lição pense naquilo que já aprendeu e responda às


questões seguintes:

1. O que terá motivado a introdução das diferentes igrejas separatistas


Auto-avaliação entre os nativos de várias regiões africanas?

2. 2. A partir da sua zona de origem, procure evidências de


movimentos contestatários de origem religiosa, explicando como se
circunscreveu esse processo.

Confronte as suas respostas com a chave que lhe apresentamos


160 Lição n 5

Respostas

1. A sua sobrevivência passava pela criação de um imaginário


comandado de dentro, que mesmo tendo influências externas,
tivesse referenciais locais ou internos do respectivo grupo social.

2. A resposta deve ser verificada no Centro de Recursos.

Leituras aconselhadas

BOAHEM, A. Adu (Dir.). Histoire Générale de l’Afrique. VII. L’Afrique


sous Domination Coloniale 1880-1935. Chapitre 20 La Rreligion en Afrique
pendant l’époque Coloniale. p. 351- 361 (Versão de bolso em língua francesa.
Existem também a versão integral, como de bolso em Português e em Inglês).
Leitura
COPANS, J. et al. Antropologia. Ciência das Sociedades Primitivas? Lisboa,
Edições 70, 1971, p. 307-340.

DELUMEAU, Jean (Dir.). As Grandes Religiões do Mundo. Lisboa, Editorial


Presença, 2002.

MARTÍNEZ. Pe. Francisco Lerma. Antropologia Cultural. SMSto. Agostinho


da Matola: S/Ed, 2004, p. 93-114.

MELLO, Luis Gonzaga de., Antropologia Cultural. Iniciação, Teorias e


Temas. Petrópolis, Editora Vozes, 2005, p. 386-420.

RIVIÈRE, Claude. Introdução à Antropologia. Lisboa, Edições 70, 2000, p.


139-164.

Actividade Final da Unidade


Na fase actual, tem se observado a explosão de seitas religiosas. Procure
fazer uma abordagem deste assunto, identificando as diferentes religiões
ou seitas existentes na sua “área cultural”, momentos da sua integração,
os motivos da integração de novos membros e o lugar das práticas
religiosas locais. Os resultados devem ser discutidos nos Centro de
Recursos.
Antropolologia Cultural 161

Respostas das Actividades Finais


Unidade 1:

Depois de fazer uma reflexão à volta das disciplinas Antropológicas,


procure esboçar a utilidade da Antropologia para a sua área residencial.

Na essência, a Antropologia pode permitir a compreensão do universo


cultural, a interpretação do porquê as pessoas vivem de uma certa
maneira numa comunidade, na sua relação com o ambiente, com o tempo,
com outros homens e com outros grupos humanos, vizinhos ou distantes.

Unidade 2:

Depois de você reavaliar as noções preliminares da Antropologia, como o


outro, a Etnografia, a Etnologia, o objecto inicial da Antropologia
Cultural, procure reflectir os passos que foram tomados entre a aplicação
inicial daquelas noções e a Antropologia Contemporânea.

Para esta questão, você deve ser capaz de estabelecer a correlação entre o
período da Introdução da Antropologia como uma disciplina, que se
destinava a estudar o primitivo, o exótico, o outro geográfico e histórico,
num contexto de hierarquização da cultura humana, em função dos
diferentes grupos sociais e a fase actual que o outro é construído na
relação entre o pesquisador e o seu objecto; onde o “primitivo”, que antes
era o objecto, é hoje sujeito de estudos, fazendo uma reinterpreção da sua
cultura, num contexto de relatividade cultural e sendo uma disciplina que
invade até o meio urbano, o mundo ocidental, etc., etc.

Unidade 3:

Partindo de uma das expressões culturais da sua zona de residência,


procure identificar marcas da dinamicidade, apresentando os factores da
mesma.

Você deve procurar usar fundamentalmente o método histórico, para


poder captar aspectos da cultura material ou do simbólico, que de certa
maneira conhecem hoje alguma marginalização ou foram totalmente
excluídos como padrões. Para tal, o estudante deve fazer um trabalho na
comunidade, para conseguir captar alguma manifestação que sirva de
estudo, como por exemplo, um ritual, uma dança, novos hábitos, etc. etc.
Contudo, o estudante deve trazer os subsídios (causas, factores,
processos, etc).

Unidade 4:

Para a actividade desta unidade foram dadas as recomendações aquando


do lançamento da questão. Vide p. 87.

Unidade 5:

Partindo da organização parental, trace as relações sociais possíveis que


podem existir com o mundo religioso, económico, político, etc.,
existentes na sua “área cultural”.
162 Lição n 5

Partindo da natureza funcional do parentesco, você deve procurar saber,


que incidência a organização parental tem sobre a religião (por exemplo,
para quem são as preces, quem as dirige e porquê); económica (quem é o
detentor da base económica: como e porquê?); político (como gravita o
poder, a herança, a sucessão); como ocorre a circulação de membros:
crianças, mulheres, homens, etc.

Notas Finais
Após esta longa caminhada, você acaba de ter alguns subsídios da
Cultura Material e Imaterial, estudados no âmbito da Antropologia
Cultural.

Você está de parabéns por ter chegado até aqui e esperamos que as lições
tenham sido do seu agrado. Contudo, o estudo antropológico acaba de
começar, em virtude de existir uma multiplicidade de aspectos a
aprofundar e a aprender.

Esse trabalho continua, através de livros, da sua comunidade e discussões


com outros colegas, tarefas que achamos ter vindo a desenvolver. Para
nós, falta agradecer-lhe por todo o esforço empreendido ao longo de todo
este processo. Bem haja você.

Os autores

Alípio E. P. Siquisse e Martinho Pedro.