Você está na página 1de 2

Bourdieu e Marx. Antagônicos?

Na obra “A Produção da Crença”, Pierre Bourdieu busca a construção de uma economia para
os bens simbólicos. Assim, poderia se dizer que o autor estaria buscando explicações imateriais,
dando atenção apenas à subjetividade. No entanto, a leitura que faço da obra é de um debate
direto com o materialismo e uma grande referência em Marx, tendo em vista que a leitura do
texto nos remete a uma série de conceitos elaborados por este último.

O livro já inicia nos situando neste debate. Para entender a formação da mercadoria nos
domínios (ou campos, utilizando o conceito do autor) da arte, Bourdieu começa por questionar a
teoria do valor de Marx, em especial o valor de troca. Para ele, o valor de uma obra de arte não
está ligar a quantidade de trabalho despendida na produção. Assim sendo, o valor de uma
pintura não se resume ao tempo despendido pelo pintor na conclusão de sua obra, mas sim
revela-se na “autoridade” acumulada por aquele pintor, marca, marchand, etc.

A autoridade se faz , na própria referência de valores acumulados naquele coletivo. Assim, uma
obra de arte deve responder a anseios anteriores a ela, deve ter referência naquele imaginário
previamente construído e, através disso, ganhar espaço na luta pela concorrência. Ou seja,
dentro de um campo, os diversos valores se contrapõem e disputam espaço, referenciando-o ou
não.

Assim, o poder se coloca através da imposição dos valores de uma estrutura dominante. Ou seja,
pode-se exercer domínio sobre o outro através da dominação cultural, valorativa, através do
conhecimento, uma vez que é necessário assimilar determinados valores de uma estrutura
dominante para ascender na luta constante daquele campo. Desta forma, Bourdieu não vê a
questão do poder stritu sensu, mas nas suas mais diversas formas de manifestação. Ele trata de
três frações da classe dominante, que seriam o campo do poder cultural, campo do poder
político e o campo do poder econômico. A articulação destes três campos é a chave de
sustentação de uma estrutura social.

Sobre a crença, Bourdieu a trata como o desconhecimento de um campo sobre ele próprio.
Entendendo-o como uma síntese de valores agregados, o campo está em constante
transformação e, a crença nada mais é que a negação deste processo histórico, é uma visão
estagnada do campo instituída pelas estruturas dominantes deste.

Concluo dizendo que a utilização de Bourdieu como uma arma contra o marxismo é um
falseamento do debate ou uma ignorância do debate filosófico de Marx, haja vista que há em
Bourdieu a constante utilização da História como elemento de análise e a noção de síntese entre
os fatores em questão. Ao mesmo tempo, entendendo o materialismo de Marx como a síntese de
múltiplas determinações e a relação dialética entre infraestrutura e superestrutura, não há o que
temer na contribuição do ponto de vista simbólico que nos traz Bourdieu.