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SOBERANIA ALIMENTAR EM FAMÍLIAS CAM-

PONESAS NO MUNICÍPIO DO DIVINO, MG:


Revista do Programa de
Pós-Graduação em Geografia e
UMA GEOGRAFIA DOS ALIMENTOS?
do Departamento de Geografia
da UFES
Janeiro-Junho, 2018 Food Sovereignty of peasents at Divino, MG: a Geography of
ISSN 2175-3709 Food?

Soberanía Alimentária de Agricultores del municipio de Divino,


MG: una Geografia de los Alimentos?

Leonardo de Oliveira Carneiro RESUMO


Professor Adjunto da Universidade
Federal de Juiz de Fora (Departa-
mento de Geociências e Programa
O objetivo deste artigo é debater sobre a soberania alimentar
de Pós-graduação em Geografia), de agricultores do município do Divino (MG), articulados
Pesquisador do NUGEA (Núcleo ao movimento agroecológico. Para tal, utilizamos métodos
de Geografia, Espaço e Ação) e Co- participativos de pesquisa, além de entrevistas e caminhadas
ordenador do NEA (Núcleo de Es- guiadas pelos agricultores em suas propriedades. Os resultados
tudos em Agroecologia) da UFJF.
Doutor em Geografia pela Univer-
demonstram um alto grau de soberania alimentar nesse grupo: a
sidade Federal Fluminense (UFF, maior parte da alimentação destes provém de seus plantios. Essa
2009). Ênfase em pesquisas e em diversidade produtiva está “geografada” nas paisagens rurais e nos
programas de extensão universitária oferece caminhos para pensar na soberania alimentar em outras
sobre Geografia Agrária, Comuni- escalas.
dades Tradicionais e Agroecologia.
leo.ufjf@gmail.com
Palavras-chave: Soberania Alimentar; Território; Agroecologia

ABSTRACT

This article aims to debate about the food sovereignty of peasents


at Divino, MG, articulated in the agroecological movement. The
methodological approach of this research utilized is the observant
participation. Interviews and guided walks in the peasant’s
Artigo recebido em: properties are also part of the methodology. The results demonstrate
04/10/2017 a high level of food sovereignty in this specific group: most of
Artigo publicado em: their feeding comes from their lands. This productive diversity is
26/06/2018 geographically pinpointed in the rural landscape and, above all, it
may suggest the possibility of food sovereignty at different scales.
Key words: Food Sovereignty, Territory; Agroecology

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Leonardo de Oliveira Carneiro Soberania Alimentar em famílias camponesas no município do Divino, MG: Uma Geografia dos Alimentos?
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RESUMEN

El objetivo de este artigo es debater sobre la soberanía alimentaria Revista do Programa de


de agricultores del municipio del Divino (MG), articulados Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
al movimiento agroecológico. Para ello, utilizamos métodos da UFES
participacipativos de investigación, además de entrevistas y Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709
caminatas guiadas por los agricultores en sus propiedades. Los
resultados demuestran un alto grado de soberanía alimentaria en
este grupo: la mayor parte de la alimentación de estos proviene de
sus plantíos. Esta diversidad productiva está “geografiada” en los
paisajes rurales y nos ofrece caminos para pensar en la soberanía
alimentaria en otras escalas.
Palabras clave: Soberanía alimentaria; Territorio; Agroecologia

INTRODUÇÃO: A PESQUI- de políticas de cooptação de


SA E O CONTEXTO pequenos agricultores às formas
mais capitalizadas de produção,
Este artigo tem como incentivadas pelo PRONAF,
objetivo apresentar algumas política instituída pelo Governo
tendências da agricultura Federal nos anos 1990. Segun-
camponesa no município do do o autor, a utilização do ter-
Divino (MG) e sua relação mo “agricultura camponesa” se
com a temática soberania reafirma a partir das dimensões
alimentar. Para atingir tais ambientais, culturais, políticas
intuitos, este estudo partiu da e econômicas que são pertinen-
reflexão sobre os processos tes a grande parte dos pequenos
territoriais e os indissociáveis agricultores no Brasil.
(neste caso específico) Para o caso da “agri-
processos da formação das cultura de subsistência” re-
redes agroecológicas, além da chaçamos o termo devido ao
análise da (trans) formação julgamento pejorativo que
das paisagens de produção pressupomos existir, ao inci-
agrícola-camponesa, temas tar a ideia de sub-existência
anteriormente abordados por ou sub-vida presentes em uma
Carneiro e Cardoso (2017), na agricultura supostamente pre-
escala da Zona da Mata mineira. cária e ineficiente, conforme
Optamos pela utilização reafirmado por Regina Bruno
do termo “agricultura campone- na discussão sobre agricultura
sa” em contraponto aos termos familiar “vocacionada” e agri-
que julgamos pejorativos ou re- cultura familiar “sem condição”
ducionistas como “agricultura ou de subsistência (BRUNO,
de subsistência” ou “agricultura 2016).
familiar”, dentre outros. Repor- Não obstante, utiliza-
tamo-nos, por exemplo, às con- remos ainda a diferenciação
siderações de Mazzetto (2007) entre “agricultura de merca-
sobre “agricultura camponesa” do”, calcada na monocultura
em contraponto à “agricultura e alinhada ao agronegócio, e
familiar”. Para ele, a utilização “agricultura de excedentes”,
do termo “agricultura familiar” voltada para a produção diver-
se firmou no Brasil a partir sificada e articulada a estraté-

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gias diferenciadas de comer- pesquisa etnográfica, ou seja,
cialização. Sugerimos, pois, ao invés de termos uma questão
Revista do Programa de que esses diferentes sistemas de pesquisa que ruma para uma
Pós-Graduação em Geografia e agroalimentares conformam metodologia de observação
do Departamento de Geografia
da UFES diferentes traçados geográficos, participante, temos uma
Janeiro-Junho, 2018 diferentes paisagens, e instituem participação que faz emergir
ISSN 2175-3709
a territorialidade de diferentes uma questão de pesquisa. Neste
sujeitos do campo. sentido, é uma participação
Os resultados revelados a priori que é o ponto de
neste texto são produtos de um partida para uma observação
projeto de iniciação científica de pesquisa em particular: é a
da UFJF (2016-2017), mas que partir da participação que se
se iniciaram muito antes deste. chega à pesquisa e seu método
As vivências e as interações de observação. Embora não
que possibilitaram as reflexões estejamos aqui elaborando uma
ora presentes surgiram desde a etnografia, a questão de pesquisa
formação do NEA-Ewè (Núcleo que abordamos surgiu em um
de Estudos Agroecológicos da contexto de longo convívio com
UFJF) e da sua integração ao os sujeitos objetificados nesta
NEA da UFV (Universidade pesquisa. Os longos períodos
Federal de Viçosa) e com o CTA- que vivenciamos nas ações de
ZM (Centro de Tecnologias extensão universitária junto a
Alternativas da Zona da estes sujeitos nos apontaram
Mata mineira), sobretudo na a concepção dessa pesquisa. É
execução do projeto de extensão nesse sentido que nos afirmamos
“Da diversidade cultural enquanto postulantes de uma
à diversidade produtiva: a “participação observante”.
construção dos saberes para Ainda, como técnicas
a transição agroecológica” de levantamento de dados
(2011-2016), fomentado pelo sobre a produção e o consumo
MDA/CNPq, no município do de alimentos das famílias
Divino, junto ao Sindicato dos da “agricultura-camponesa-
Trabalhadores e Trabalhadoras agroecológica”, utilizamos
da Agricultura Familiar do entrevistas, normalmente
Divino e à Associação Dom regadas a café e mandioca ou
Divino. broa, e caminhadas guiadas
Portanto, e em pelas propriedades.
consonância a Albert (2002) e Nessas caminhadas
Wacquant (2002), sugerimos guiadas, as entrevistas eram
que esta pesquisa advém antes de potencializadas, na medida em
uma “participação observante” que íamos descobrindo diversos
do que de uma “observação produtos não relacionados na
participante”. Para ambos entrevista, ao mesmo tempo
os etnógrafos a convivência em que observávamos as
prolongada em determinados particularidades das formas de
contextos - que pode ser por plantio e de criação de animais
pertencimento, longo tempo de cada um deles.
de convívio devido a trabalho Aproximando-nos do
ou a outros tipos de interação contexto de nossa pesquisa,
- pode inverter o sentido da dados do Instituto Nacional de

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Leonardo de Oliveira Carneiro Soberania Alimentar em famílias camponesas no município do Divino, MG: Uma Geografia dos Alimentos?
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TABELA 1: estrutura fundiária do município do Divino, MG.

Revista do Programa de
Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
da UFES
Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709

Fonte: INCRA, 2017.

Colonização e Reforma Agrária território que vão dos pequenos


(INCRA), nos mostram que produtores ligados à agricultura
há 2.030 propriedades rurais familiar/camponesa aos
no município de Divino fazendeiros, considerando ainda
(MG) que ocupam uma área que existam meeiros, parceiros
total cadastrada de 33.817,13 diversos, trabalhadores rurais
hectares. A maior concentração sem terra, quilombolas e
do número de propriedades tem uma variedade de pequenos
áreas que variam entre 2 hectares e médios proprietários que se
e 5 hectares, correspondendo a dedicam ora ao plantio do café,
29,8% do total de propriedades ora à criação de gado leiteiro
(605 estabelecimentos rurais), (sobretudo) e ora ao plantio de
com ocupação equivalente a eucaliptos, conforme veremos
5% da área total dos imóveis adiante.
rurais município (1.976,64 O domínio morfo-
ha). Ainda, 24% da área total climático da Zona da Mata
do município pertencem a mineira é de “mares de mor-
234 propriedades rurais de ro florestados”, com cober-
25 a 50 hectares (11% do total tura vegetal original de Mata
do número estabelecimentos Atlântica, hoje, majoritaria-
rurais) e também aparecem 132 mente descobertos devido ao
(ou 11%) propriedades entre 50 desmatamento e à sobreposição
e 500 hectares, que abrangem de cultivos e pastagens. O mu-
uma área de 12.038,08ha nicípio do Divino encontra-se
(INCRA, 2017). (Tabela 1). em uma área de elevações ser-
Essa tabela revela a ranas de relevo acidentado in-
existência de diferenciadas tercalado com mares de morro
formas de ocupação do e vales encaixados do rio Ca-

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rangola, e situa-se entre as ser- preciso, contudo, ressaltar que
ras do Caparaó e do Brigadeiro esta pesquisa se encontra em sua
Revista do Programa de em altitudes que variam de 500 primeira fase, na qual previmos
Pós-Graduação em Geografia e a 1.500 metros. investigações específicas sobre
do Departamento de Geografia
da UFES A composição desse os pequenos proprietários
Janeiro-Junho, 2018 relevo sugere dificuldades ligados à rede agroecológica.
ISSN 2175-3709
à expansão da agricultura Em desdobramentos futuros,
mecanizada e ao agronegócio, pretendemos investigar os
sobretudo, se relacionado outros sujeitos do meio rural
aos crescentes movimentos do município do Divino
dos trabalhadores rurais pela (fazendeiros) e suas relações
garantia dos direitos trabalhistas com a soberania alimentar para
junto à agricultura patronal; termos, enfim, uma mirada
nos encontros realizados mais totalizante sobre a questão.
com fazendeiros, percebemos
que estes se queixam do A SOBERANIA ALIMENTAR:
encarecimento da mão-de-obra O FIO DE ARIADNE DE
e da consequente diminuição NOSSOS ESTUDOS
da sua lucratividade. Ou seja,
a manutenção das médias e Desde a década de
grandes propriedades parece 1920 até a década de 1990, as
enfrentar dificuldades; já discussões sobre a questão da
a agricultura camponesa – fome centravam-se, sobretudo,
que utiliza trabalho familiar na abordagem sobre a Segurança
e solidário (mutirões e Alimentar. Esses debates
troca-dias¹) em pequenas eram atrelados à questão do
propriedades – tem se afirmado abastecimento permanente
como uma forma possível e do consumo assegurado
para a produção agrícola de alimentos pela população
local, desarticulando-se dos mundial e estiveram presentes,
monocultivos e rumando por exemplo, nas políticas
à produção diversificada, colocadas em prática pela FAO
ao beneficiamento e à desde a sua criação; apostava-se
comercialização de gêneros que o problema da fome poderia
alimentícios. Não obstante, esse ser resolvido com o aumento da
contexto também tem levado produção agrícola global via
médios e grandes proprietários modernização da agricultura
de terra a investirem na (VILAS BOAS, 2015). De
substituição das lavouras de café maneira geral, acreditou-
1 - Troca-dias é um sistema de troca ou da criação de gado leiteiro se nos avanços tecnológicos
de dias de trabalho entre camponeses pelo plantio de eucaliptos, advindos a partir da “revolução
da região, normalmente utilizado
que requer menor emprego verde” como estratégia única
para atividades que requerem uso
intensivo de mão-de-obras, como, de mão-de-obra e que tem de incremento da produção
por exemplo, no caso da “panha” boa lucratividade e adaptação de alimentos e despolitizou-se
do café. Estes grupos estabelecem às condições edafoclimáticas o debate sobre a fome como
espécies de clãs e administram um locais (CARNEIRO E questão social, ligada à (in)
“banco de dias de dias de trabalho”
CARDOSO, 2017). justa distribuição de renda e
em que uns trabalham para os outros
sem pagamento em dinheiro; com É sobre esse variado de recursos (Porto-Gonçalves,
trabalho se paga trabalho. contexto que objetivamos 2006). Conforme afirmamos,
pensar a soberania alimentar. É tal perspectiva influenciou

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organizações internacionais dade (STÉDILE e CARVALHO,


intergovernamentais como 2012). A própria compreensão
FAO, ONU, Banco Mundial e sobre a fome também se trans- Revista do Programa de
FMI, que passaram a propagar e forma: hoje, grande parte das Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
a financiar pacotes tecnológicos preocupações sobre o tema da UFES
de produção agrícola pelo recai sobre o debate da “fome Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709
mundo, difundindo políticas e oculta”, consequência, na maio-
ações em centenas de países. ria das vezes, do consumo de
Em consonância, em- alimentos superprocessados, de
presas globais produtoras de origem industrial, com altos te-
sementes, adubos, venenos ores de carboidratos, gorduras,
agrícolas, equipamentos e sais e conservantes. Esse siste-
maquinários expandiram-se ma de alimentação produzido,
em estratégias de dominação distribuído e divulgado pelos
capitalista global e houve a meios técnicos-científicos-in-
consequente submissão dos formacionais da economia ur-
conhecimentos e práticas da bano-industrial, e exacerbado
agricultura ao modo urbano-in- em tempos de globalização neo-
dustrial de produção de alimen- liberal, faz surgir, na contem-
tos. “Paisagens globais²” de pro- poraneidade, graves problemas
dução agrícola difundiram-se alimentares na população de
pelo planeta com baixa diver- todo o planeta. Não bastasse
sidade das espécies cultivadas isso, a produção dos sistemas
(destaque para o milho, a soja e agrícolas monocultores que
o trigo), o que causou uma ver- abastecem as indústrias de ali-
dadeira corrosão de agroecos- mentos superprocessados uti-
sistemas, de socio-biodiversi- liza enormes quantidades de
dade, de conhecimentos e de venenos agrícolas e adubos
práticas das agriculturas tradi- químicos que, além de produ-
cionais e camponesas, além da zirem alimentos contaminados,
forte contaminação ambiental, causam fortes impactos sobre
da desterritorialização de diver- as sociedades camponesas e
sas populações e da produção tradicionais e sobre os ambi-
de alimentos com qualidade entes locais/regionais/globais,
questionável. Naturalmente, conforme afirmamos anterior-
o desenho dessas paisagens mente.
globais atende também à lógi- Nessa perspectiva, surge
ca da divisão internacional do o debate sobre a soberania
trabalho, onde alguns países, alimentar levantado por
como o Brasil, se especializam diversos movimentos sociais,
na produção de commodities para os quais as condições
agrícolas. de reprodução da agricultura
Atualmente, entretanto, devem pertencer aos grupos
as discussões sobre a questão de agricultores munidos da
da fome rumam na perspec- diversidade de suas sementes 2 - Retornamos aqui as considerações
tiva da Soberania Alimentar crioulas e de suas técnicas de sobre os “espaços agrários luminosos”
que salienta a necessidade de plantio, de forma autônoma e e do “meio técnico-científico-
informacional” presentes em diversos
um povo tornar-se soberano soberana, e com a utilização autores, dentre os quais destacamos o
e protagonista no cultivo e no de práticas não agressivas ao conjunto da obra de Denise Elias.
consumo de alimentos de quali- ambiente. Essa pauta tem sido
uma das tônicas centrais do
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TABELA 2

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Fonte: Laboratório Kizomba Namata, DGEO, UFJF.

movimento agroecológico. Na melhorar a segurança alimentar


perspectiva de Altieri (2010, p. conservando os recursos
naturais, a agrobiodiversidade
23): e a conservação do solo e água
em centenas de comunidades
Globalmente, a Revolução rurais de várias regiões.
Verde, ainda que tenha
melhorado a produção de
certos cultivos, mostrou não É justamente essa per-
ser sustentável ao causar danos spectiva que queremos perse-
ao ambiente, provocou perdas guir nesta pesquisa: pensar
dramáticas de biodiversidade como os grupamentos cam-
e do conhecimento tradicional
poneses do município do Divi-
associado, favoreceu aos
agricultores mais ricos e deixou no, ligados às redes agroecológi-
muitos agricultores pobres mais cas, enfrentam e resistem aos
endividados. (...) Diante dessas processos de modernização,
tendências globais, os conceitos absorvendo e repulsando os
de soberania alimentar e
pacotes financeiros, agrícolas
sistemas de produção baseados
na agroecologia ganharam e tecnológicos do agronegócio.
muita atenção nas duas Ademais, pretendemos saber
últimas décadas. Iniciativas qual é a relação que esses gru-
que implicam na aplicação da pos possuem sobre o controle
ciência agroecológica moderna
da diversidade de suas uni-
alimentada por sistemas
de conhecimento indígena, dades produtivas, mantendo
lideradas por milhares de suas agriculturas de excedentes,
agricultores, organizações não sem abrir mão de sua soberania
governamentais e algumas alimentar. Ou seja, intentamos
instituições governamentais
saber da relação entre o plantar
e acadêmicas, estão
demonstrando que podem e o se alimentar, o de produzir

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grande parte do que se come e há uma total autonomia na


da consequente diminuição da produção/consumo de frutas,
dependência do abastecimen- verduras, rizomas, raízes, Revista do Programa de
to de alimentos processados e tubérculos, leguminosas, chás Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
super-processados ou dos in- e café. O consumo de carne é da UFES
sumos agroindustriais que são praticamente auto-suficiente, Janeiro-Junho, 2018
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adquiridos no mercado. apesar de apenas uma das
Na Tabela 2, apresen- propriedades possuir gado
tamos uma sistematização bovino; isso deve-se ao fato
dos quatro levantamentos que de que o consumo de carne de
elaboramos para esta pesquisa. porco e de frango são os mais
Para isso, partimos de entrevis- comuns dentre esses grupos.
tas realizadas, em um primeiro Esta pesquisa ainda
momento, nas casas da família nos permitiu adensar algumas
dos agricultores Gilberto Hen- considerações sobre os
rique, Eliete, Dona Denira e produtos consumidos que
Gilberto Corrêa; em seguida, eram adquiridos no mercado,
passávamos a percorrer suas conforme demonstramos na
propriedades acompanhados Tabela 3.
por eles, a fim de detectarmos Percebemos, pois, que
mais informações. Uma das além de existir um baixo número
questões que permeavam essas de itens que são adquiridos
entrevistas era a relação entre no mercado, há também um
produção e consumo de ali- uso restrito de alguns desses
mentos; desse modo, fazíamos itens, como é o caso do tomate,
um levantamento sobre a co- do pão, do óleo de soja e do
mida cotidiana desses grupos e macarrão. O caso do macarrão
construíamos uma tabela divi- é expressivo, pois apareceu
da em duas partes: numa delas como um item presente mais
anotávamos os alimentos con- ligado ao passado do que ao
sumidos que eram produzidos consumo efetivo cotidiano do
na propriedade, e na outra par- grupo, o que nos leva a crer que
te da tabela, os alimentos que esse é um item em desuso, face
eram adquiridos no mercado. aos debates sobre alimentação
Os resultados obtidos e saúde que fazem parte dos
são expressivos e demonstram o intercâmbios agroecológicos e
alto grau de soberania alimentar da auto-afirmada “decisão” de
que essas famílias possuem. alcançar a soberania alimentar
Diga-se de passagem, há uma e não depender da comida
grande variedade de espécies industrializada da cidade.
de feijão e fava, por exemplo, Os estudos desses
que não foram quantificados dados revelam, por sua vez,
para a sistematização desses uma intensa mobilização e
dados – foram classificados conflitualidade territorial, a
genericamente como “feijão” ou partir do momento em que 3 - Programa Nacional de
“fava”. Ainda assim, deparamo- disputas são acirradas em torno Fortalecimento da Agricultura
nos com diversos itens das formas produtivas, do uso Familiar.
alimentares dos quais jamais do espaço, da integração, ou
4 - Programa Nacional de Alimentação
havíamos ouvido falar. Também não, às formas hegemônicas Escolar
nos chama a atenção de que da agricultura convencional,
enfim, de certames entre
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TABELA 3

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Fonte: Laboratório Kizomba Namata, DGEO, UFJF.

diferentes lógicas de ocupação e de relação sociedade-


territorial. Ao fundo, paira uma natureza, quanto um território
questão: usar o território para de crescente resistência da
produzir alimentos ou para agricultura camponesa, que se
produzir commodities? explica, em parte, pela formação
das redes agroecológicas no
DISPUTAS TERRITORIASIS local. Assim, esta pesquisa
E A SOBERANIA ALIMEN- nos possibilitou enxergar os
TAR contraditórios e conflituosos
processos no território,
Para a reflexão sobre bem como as estratégias de
os processos territoriais, resistência camponesa.
levamos em consideração o Para Mazzetto
plantio do café, sobretudo, e (2007), a diferenciação entre
suas consequências sobre o camponês e fazendeiro
campo. Ainda, consideramos continua sendo relevante e
o conjunto de políticas públicas fundamental para o debate
(federais e estaduais) como sobre o mundo rural brasileiro,
o PRONAF3 o PNAE4 como porque incorpora aspectos
estratégias de cooptação (por históricos, sociais, culturais e
parte do Estado) e de resistência de racionalidade econômica, o
dos camponeses aos modos que gera implicações políticas e
de produção via agronegócio. ecológicas.
Tais políticas têm atuado Essa divisão entre
para transformar a vida dos camponeses e fazendeiros leva
sujeitos agricultores e de suas a uma ampla reflexão sobre
associações, enfraquecendo ou diferentes espacialidades que
fortalecendo suas articulações, integram o campo brasileiro.
dependendo da forma como A atuação dos diversificados
3 - Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura são implantadas, absorvidas sujeitos no rural, no contexto
Familiar. ou rejeitadas. Nesse sentido, de uma agricultura camponesa,
o município do Divino revela difere-se não só através das
4 - Programa Nacional de Alimentação tanto um território em conflito práticas tradicionais utilizadas
Escolar que demonstra embates entre pelos mesmos, mas também
modos de vida, de produção pela transferência desses

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demasiados conhecimentos de camponesa ocorre não somente


forma particular. em consequência da perda
de território para as formas Revista do Programa de
O modo de vida camponês de produção alinhadas ao Pós-Graduação em Geografia e
como um conjunto de práticas do Departamento de Geografia
e valores que remetem a uma
agronegócio, mas também da UFES
ordem moral que tem como por meio da imposição de Janeiro-Junho, 2018
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valores nucleantes a família, o uma competitividade desleal
trabalho e a terra. Trata-se de no acesso ao mercado em
um modo de vida tradicional, relação à produção camponesa
constituído a partir de
relações pessoais e imediatas,
– diversificada, sazonal e não
estruturadas em torno da massificada.
família e de vínculos de Agricultores que
solidariedade, informados pela antes utilizavam práticas
linguagem de parentesco, tendo “tradicionais” para obter a
como unidade social básica
a comunidade (MARQUES,
manutenção e sobrevivência de
2004, p. 151). suas famílias no campo, hoje,
passam a utilizar técnicas do
Ao considerarmos os agronegócio para conseguirem
conflitos sociais, em linhas manter relações de venda com
gerais, observáveis de maneira o mercado. Dentre essas ações,
histórica podemos caracterizar destacamos: uso de sementes
esse confronto entre agricultura (transgênicas, inclusive), de
camponesa (agricultura de fertilizantes químicos, de adubos
excedentes) e fazendeiros químicos e de agrotóxicos que
(agricultura de mercado) são observados não somente
ocorrentes na Zona da Mata em propriedades rurais dos
mineira como conflitos de fazendeiros, mas também no
caráter territoriais, sobretudo campo da agricultura familiar
sobre a dimensão econômica e camponesa, do pequeno
do território. proprietário rural, como
consequência da expansão do
O perfil da agricultura agronegócio e das políticas
predominante na região passou de financiamento para a
da monocultura do café à modernização da produção
criação de pecuária leiteira
extensiva e desta, para o plantio
agrícola dos pequenos
de eucaliptos; ressalta-se que produtores, como no caso do
ambas monoculturas coexistem PRONAF.
na Zona da Mata e induzem Na entrevista realizada
dinâmicas à paisagem, ao com o Antônio e Gilberto
sistema ambiental, além
de comprometerem a
Corrêa (pai e filho) ressaltamos
soberania alimentar da região a seguinte passagem, quando
(CARNEIRO E CARDOSO, conversamos sobre o início
2017, p. 84). do plantio de lavouras de café
com financiamento de créditos
Acreditamos que agrícolas, que nos fala de um
uma comunidade, povo ou movimento de aproximações e
assentamento perde a soberania formas de resistências criativas:
alimentar, quando se extingue as
formas de produção camponesa. Antônio: É que no início,
Atualmente, percebemos que quando a gente fez o projeto
essa “dissipação” da agricultura de proposta com o banco, eles

319
exigiam que a gente fizesse são aparentemente difusas,
um trabalho mais intenso mas que também podem
na lavoura e eles passavam a
Revista do Programa de ser observadas na totalidade
receita de uns produtos pra
Pós-Graduação em Geografia e
jogar. Eu já joguei um pouco, como formas coletivas e
do Departamento de Geografia
da UFES eu sabia que era veneno, né? articuladas de resistência. A
Janeiro-Junho, 2018 Mas eles mandavam jogar um conflitualidade das práticas
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copinho assim e eu jogava só agrícolas nas diferentes
um pouquinho, na época era o
propostas de agricultura é
roundup que usava. Eu colocava
menos de 1 cm no copo só pra evidente, sobretudo para os
não dizer que não pus, mas pra produtores que convivem (e nos
adubar no chão não, porque aí relatam) com as consequências
eu fazia normal, eu só vaporiza, ambientais, no campo da saúde
e aí foi o período da formação
e do convívio social quando
da lavoura, e depois acabou.
Eu nem senti diferença, que era entram em transição para
pouquinho mesmo sabe, eu só agricultura convencional.
jogava porque vinham os fiscais Não obstante, é
do Banco do Brasil, e da Caixa interessante observar que este
acho que tinha os ficais dela
estudo de caso no município
também, talvez era os mesmo
fiscal, no início eles vinham com do Divino nos leva a perceber
uniforme laranja sabe? que algumas vezes o acesso
Gilberto: deve ser mais pra fazer a esse tipo de crédito pode
uma pressão psicológica, né? E levar a uma submissão das
falavam que eles até cortavam
pequenas propriedades ao
as coisas da lavoura, se vissem
uma abobora, por exemplo. modo hegemônico de produção
Dá um impacto psicológico de agrícola. Contudo, contraditória
autoridade, né? e complementarmente, ele
Antônio: Eles diziam que se a também pode fortalecer a
gente não fizesse a lavoura do
produção diversificada, caso
jeito que o IBC queria, a gente
teria que pagar o financiamento essa esteja articulada aos
antes da hora, se sentisse que a interesses e às ações políticas,
lavoura não estivesse sendo econômicas, culturais e
tratada, e a gente ficava com ambientais da resistência
medo daquilo e fazia mais ou
camponesa ou do movimento
menos, pelo menos imitando o
que eles pediam, né? agroecológico no local.
Isso foi o que
Essas “formas cotidianas observamos, por exemplo, na
de resistência camponesa” propriedade do Sr. Gilberto
(SCOTT, 2002) – pequenas Henrique (proprietário do Sítio
barganhas, leitura particular e Santiago, 9 hectares de terra)
conveniente de determinadas que adquiriu equipamentos
normas, mediação entre o que para torrar, moer e empacotar
se faz, o que diz e o que se o café que produz de
mostra, dentre outras táticas forma agroecológica. Esta
- têm aparecido em diversos modernização de seu sistema
relatos na região amiúde e produtivo tem permitido a
sorrateiramente. A nosso ver, comercialização de seu café
essas ações compõem “amplo direto ao consumidor final em
leque de formas cotidianas, feiras, lojas ou na sua própria
fragmentadas e difusas de propriedade. A venda do café
resistência” (idem, p. 1) que em pó embalado permite

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IMAGEM 1: Feira Agroecológica no Divino (detalhe)

Revista do Programa de
Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
da UFES
Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709

Fonte: autores

uma maior lucratividade. e como comercializar isso,


Concomitantemente, ela tanto pela questão financeira
como pelo desejo de levar um
reforça os laços de trabalho produto de qualidade para as
familiar e retira parte da pessoas. Então, junto com a
produção de seu café das associação, decidimos fazer
mãos dos atravessadores. Esse a feira. Reunimos as famílias
processo, segundo o que nos que tinham interesse de
participar (famílias próximas
informou Gilberto, levou com à associação, da cooperativa...)
que a família apostasse em e resolvemos criar a feira, e
outras lógicas de produção e todos que estão lá estão a par
de comercialização, e isso os da questão agroecológica. Essa
têm conduzido a diversificar feira das quartas à tarde é
exclusivamente agroecológica e
cada vez mais a produção. Hoje, já tem um ano de existência.
Gilberto comercializa diversos
produtos para o PNAE e na Formas de resistência
feira agroecológica, organizada organizadas do campesinato
pela Associação em parceria perante o agronegócio na
com a prefeitura municipal, região são dadas de modos
além de ter a maior parte dos variados, por meio de políticas
alimentos que consome vinda públicas que atingem boa
de sua propriedade. Esse é parte dos pequenos produtores
um caso em que percebemos rurais, por meio de associações
que determinadas formas de dentro das comunidades (ou
modernização podem permitir até mesmo entre comunidades)
o fortalecimento da produção de agricultores criadas com
camponesa. o propósito de atuar como
Sobre a feira, uma cooperativa para que os
especificamente, a agricultora agentes agricultores possam
5 - Intercâmbios agroecológicos é
Maria Eliete Rufino nos narra: uma metodologia de extensão rural
se beneficiar de forma mútua, criado pelo Centro de Tecnologias
por meio de EFA’s (Escolas da Alternativas da Zona da Mata mineira
Sim, e ela também surgiu
Família Agrícola). e por profissionais da Universidade
dos intercâmbios5. Neles,
No município do Federal de Viçosa.
trabalhamos muito com a ideia
de diversidade na propriedade Divino, a criação da associação

321
de pequenos agricultores deu- à agricultura convencional
se a partir do movimento e sua atual denominação –
Revista do Programa de agroecológico, como uma agronegócio”. Não obstante, e
Pós-Graduação em Geografia e maneira de fortalecer a em consonância com Miguel
do Departamento de Geografia
da UFES agricultura camponesa na Altieri (2012), consideram
Janeiro-Junho, 2018 região. Esse processo de a agroecologia um encontro
ISSN 2175-3709
resistência tem fortalecido entre ciência, movimento e
a produção diversificada de prática. A observação sobre a
alimentos, seja para consumo articulação entre os sujeitos
próprio, seja para fornecimento dessas diferentes dimensões
ao PNAE, à loja ou à feira nos sugere falar na formação
organizadas pela Associação das redes agroecológicas.
Dom Divino. Esse conjunto de A formação das redes
ações perpassa, pois, a formação agroecológicas na Zona da
das redes agroecológicas, Mata mineira ocorreu a partir
conforme examinaremos de ações de articulação entre as
adiante. famílias agricultoras, através de
suas associações e sindicatos, as
AS REDES AGROECOLÓGI- Instituições de Ensino Superior
CAS (IES), as EFAs6 e as agências de
ATER7 atuantes no local. Essa
Em um viés contrário “ação em rede” tem fortalecido
ao modo convencional e as estratégias de resistência das
hegemônico de produção rural, famílias camponesas em suas
surge a Agroecologia que, propriedades ou comunidades
por meio de suas buscas de de produção diversificada,
sustentabilidade e autonomia de comercialização em feiras
no meio rural, vêm buscando ou via compras institucionais
soluções para a melhoria da (sobretudo PNAE) mediante os
produção agrícola, sem que sujeitos coletivos (associações) e
6 - Na Zona da Mata existem sete EFAs
cause tamanha exploração o fortalecimento de uma cultura
a saber: i) EFA Puris em Araponga; de recursos naturais como a do campo local. A participação
ii) EFA Paulo Freire em Acaiaca; iii) água e o solo (CAPORAL E observante realizada durante os
EFA Dom Luciano em Catas Altas da COSTABEBER, 2004). seis anos de articulação junto
Noruega; iv) EFA Jequeri em Jequeri; Em uma compreensão ao movimento agroecológico,
v) EFA de Camões em Sem Peixe; vi)
EFA Serra do Brigadeiro em Ervália,
ampliada, a Agroecologia aliada a entrevistas realizadas
e; vii) EFA Margarida Alves em abarca não apenas as práticas durante o ano de 2017 e uma
Simonésia. de produção agrícola revisão bibliográfica, permitiu-
propriamente ditas, ela abrange nos compreender (parte) (d)
7 - Assistência Técnica e Extensão dimensões mais amplas, que o processo de formação dessa
Rural.
alcançam toda e qualquer esfera rede.
8 - Comunidades Eclesiais de Base. social, cultural, econômica O contexto da
e ambiental dentro das resistência camponesa na região
9 - CARDOSO, Irene, MENDES, propriedades agroecológicas. deve-se, parcialmente, à ação
Fábio. People managing landscapes: Favero e Pacheco (2013, de uma rede do movimento
agroecology and social processes.
In: Agroecology for Food Security
p. 235) chamam a atenção agroecológico composta por:
and Nutrition Proceedings of the para o fato de que “no Brasil, i) organizações de agricultores
FAO International Symposium 18-19 a Agroecologia, desde o início criadas a partir dos anos
September 2014, Rome, Italy. do uso do termo, é identificada de 1980 como sindicatos,
como um movimento social associações e cooperativas,
que se contrapõe fortemente sendo que muitas derivaram
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da formação das CEB8 s; ii) há uma rede de IES integradas


ONGs, tais como o CTA-ZM, por meio dos NEAs (Núcleo
criada em 1987 para a difusão de Estudos em Agroecologia) Revista do Programa de
da “agricultura alternativa”; que surgiram a partir de uma Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
iii) projetos de pesquisa e política desenvolvida pelo da UFES
de extensão envolvendo extinto MDA (Ministério do Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709
professores e estudantes da UFV Desenvolvimento Agrário)
e, posteriormente, da UFJF, desde o ano de 2011. Existem
IF Sudeste e UEMG; iv) uma NEAs na UFV (Viçosa), na
rede educacional composta UFJF (Juiz de Fora), no IF
por seis EFAs, e; v) de algumas SUDESTE (campi Rio Pomba
EMATERs presentes. Cardoso e Muriaé), além da UEMG
e Mendes9 2014, p.73) afirmam (Campus Carangola) que está
que: integrado aos NEAs da UFV e
Desde 1988, o Centro de da UFJF. Os NEAs por sua vez,
Tecnologias Alternativas da integram-se às associações de
Zona da Mata (CTA-ZM),
uma ONG, e um grupo de
agricultores, de quilombolas,
professores e estudantes da de movimentos sociais ligados
Universidade Federal de Viçosa à reforma agrária na região, à
tem trabalhado nesta região EMATER, dentre outros.
em parceria com famílias Desse modo, podemos
de agricultores, seguindo
princípios agroecológicos.
falar em uma ampla rede de
Compreende-se na Zona da agroecologia que incide sobre
Mata, que a agroecologia é uma o município do Divino e que
ciência, mas o conhecimento trabalha pela afirmação dos
científico é uma co-produção princípios agroecológicos
entre agricultores e cientistas.
Os agricultores não somente
aplicados, por exemplo, ao
uma fonte de conhecimentos, manejo dos agroecossistemas,
mas também autônomos aos processos educativos,
e criativos agentes de ao processamento e à
transformação. Agroecologia comercialização dos produtos.
é também movimento e
prática. Durante os anos
A principal ferramenta
1980, um forte movimento de metodológica de diálogo
agricultores se fortaleceu que e difusão da agroecologia
os levou a criar coletividades e nesses grupos dá-se por meio
organizações para representar dos chamados Intercâmbios
os seus interesses.
Agroecológicos – calcados
A parceria UFV/CTA- na pedagogia paulofreireana
ZM atuou como produtora de e inspirados na metodologia
Campesino a Campesino 10 - Nas palavras de Carvalho e Costa
conhecimentos e propagadora (2012): “agricultura camponesa é o
de questões sobre agroecologia desenvolvida na Nicarágua e modo de fazer agricultura e de viver
em escala nacional e regional. em Cuba. das famílias que, tendo acesso à
Possíveis desdobramentos dessa Esse “enredo” da terra e aos recursos naturais que ela
parceira foram, por exemplo, resistência nos permite afirmar suporta, resolvem seus problemas
a existência de uma agricultura reprodutivos por meio da produção
a formação e a qualificação de rural, desenvolvida de tal maneira
profissionais pela UFV que camponesa na região, na que não diferencia o universo dos que
levaram o ensino, a pesquisa e a medida em que se observam: decidem sobre a alocação do trabalho
extensão em agroecologia para i) famílias de agricultores que dos que se apropriam do resultado
outras IES na região, como UFJF, possuem a terra e os recursos dessa alocação.”

IF-Sudeste, UEMG, etc. Hoje, naturais que ela suporta10;


ii) plantio diversificado
323
integrado à criação de animais tem “roundup” que o corpo
com técnicas tradicionais e dela cria calombo, já acusa
rápido, a mãe é um indicador
Revista do Programa de ancestrais; iii) territorialidades natural de “roundup”. (risos)
Pós-Graduação em Geografia e e temporalidades vinculadas Meu pai teve intoxicação com
do Departamento de Geografia
da UFES às condições e aos ritmos da bomba (pulverizador costal),
Janeiro-Junho, 2018 natureza; iv) etnobotânica e que derramava agrotóxico
ISSN 2175-3709
etnofarmacológia em evidência; nas costas dele, que depois foi
causa de um problema sério
v) trabalho solidário e coletivo com bexiga. Mas eu mesma
(não capitalista) como em não me lembro de ver vidro de
mutirões e “troca-dias”; vi) agrotóxico aqui em casa, foi na
integração das atividades ligadas casa dos outros que eu vi pela
à administração e ao manejo primeira vez.
da propriedade; vii) relativa
autonomia no mecanismo Sobre agricultores que
de tomada de decisões; viii) não se encontram integrados na
manifestações culturais rede, ela destaca:
particulares e locais; ix)
Têm muitas pessoas nas
organizações sociais e políticas comunidades rurais que,
entre os sujeitos envolvidos; embora não saibam sobre
x) formas alternativas de agroecologia, têm experiências
comercialização como “trocas” incríveis, boa diversidade
entre as famílias, feiras de de sementes, variedade de
animais... Quero dizer que tem
produtores e associações entre muita gente com experiências
produtores e consumidores, boas que poderíamos trazer
como no caso da distribuição para a agroecologia, mas não
das “cestas agroecológicas”; estamos dando conta disso.
dentre outros. Essas comunidades, mesmo
não aderindo ao movimento
A fala de Gilvânia (filha agroecológico, já produzem de
de Dona Denira) nos traz uma forma consciente e resistem
interessante perspectiva que ao agronegócio. Só não estão
entrelaça história de vida de com a gente ainda, ainda
uma família de agricultores, não nos descobriram. (risos).
Mas o Divino tem tudo para
que trabalhou como meeira ser uma região notável pela
por mais de trinta anos, aos agroecologia.
problemas com a modernização
das práticas agrícolas e ao A rede agroecológica
“envolvimento” com a questão no município sugere, pois,
agreocológica: um movimento que integra
instituições e sujeitos em
Na época, não usávamos a
processos de resistências e em
palavra “agroecologia”, mas
já existia essa luta contra os busca da afirmação de modos de
agrotóxicos, ou seja, olhar pela vida que podem ser observados
consciência ecológica já veio nas composições das paisagens
de casa. Nossa vida sempre do município. Conforme
foi muito simples e com muita
afirmamos anteriormente,
dificuldade, mas quando você é
criança não faz muita diferença. o debate sobre produção
Meu pai sempre trabalhou com diversificada, alimentação e
café lá no Periquito. (...) Meus saúde é uma das temáticas
pais tiveram alguns problemas importantes da atuação da rede
com intoxicação, minha mãe
agroecológica no local. Esse
não pode passar em local que

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Leonardo de Oliveira Carneiro Soberania Alimentar em famílias camponesas no município do Divino, MG: Uma Geografia dos Alimentos?
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IMAGEM 2: Paisagem de cafezais (Cafezal agroecológico na parte


frontal e cafezal convencional nos fundos)
Revista do Programa de
Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
da UFES
Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709

Fonte: autores

conjunto de fatores fortalece frontal, coberta por uma área


a formação das “paisagens da de cafezais agroecológica, e o
agricultura camponesa” que fundo da paisagem, coberta
promovem, por sua vez, além da por cafezais convencionais. De
soberania alimentar, melhores início, destaca-se a presença
condições socioambientais de de bananeiras intercaladas
reprodução do campesinato aos “arruamentos” da lavoura
local. de café agroecológico, mas
as observações não param
PAISAGENS DA AGRICUL- aí: há consorciamentos com
TURA CAMPONESA E A feijão, fava, outras espécies
SOBERANIA ALIMENTAR: de frutíferas e leguminosas,
UMA GEOGRAFIA DOS abóbora, batata, milho, dentre
ALIMENTOS? muitos outros produtos.
Seguramente, esse tipo de
O processo de resistência plantio promove a variedade
da agricultura camponesa pode dos alimentos, além do café
ser observado na composição propriamente dito. Mas não
(e na contraposição) das se trata somente de produzir
paisagens locais, ao passo que os mais e diversificados alimentos:
diferentes modos de produção, esse agroecossistema, como
pastagens e monoculturas de um todo, induz mais vida, a
café e de eucalipto de um lado, partir do momento que retém
e do outro, plantio diversificado mais água, maior proliferação
da agricultura camponesa, de micro e macro fauna,
produzem diferentes paisagens. maior sombreamento, maior
A relação entre essas paisagens ciclagem de nutrientes, melhor
e a questão soberania alimentar aproveitamento do solo, enfim,
dos sujeitos do campo são maior graduação de equilíbrio
notáveis e dignas de atenção. socioambiental e melhores
A observação da condições de sustentabilidade
Imagem 2 nos permite perceber e de reprodução da agricultura
diferenças entre a parte de excedentes aí praticada. Os

325
insumos necessários ao plantio convencional de lavouras de
e desenvolvimento das espécies café é potencialmente limitado
Revista do Programa de são, grosso modo, produzidos quando se trata da promoção
Pós-Graduação em Geografia e pelo próprio agroecossistema. de emancipação, de soberania
do Departamento de Geografia
da UFES Seguramente, o modo e de saúde. Primeiramente,
Janeiro-Junho, 2018 de vida das famílias que aí porque colocam os sujeitos
ISSN 2175-3709
vivem é afetado por este aí envolvidos em situação
ambiente, ao mesmo tempo em de dependência do mercado
que eles constroem ativamente para suprir a necessidade dos
este mesmo ambiente. As alimentos; em segundo lugar
atividades em rede, promovidas porque os insere de forma cabal
pelo movimento agroecológico, na “cadeia do agronegócio” e os
e o acesso a algumas políticas tornam também dependentes
públicas têm permitido que esse das redes de produção e de
grupo de agricultores reafirme comercialização de adubos e
um modo de produção agrícola, venenos agrícolas. As vantagens
explícito em suas paisagens- comerciais desse modo de
habitats, que extrapola a produção devem ser, contudo,
dimensão econômica de suas melhor estudadas para
vidas e que os leva a consolidar podermos ter mais elementos
conquistas para a sua saúde, para refletir sobre esses sujeitos
o seu bem-estar, as suas e suas relações de saúde e de
coletividades e festividades, grau de soberania alimentar.
os seus arranjos familiares e Não devemos nos esquecer de
comunitários, assim como que esse modo de produção
conquistas na participação os coloca em posicionamentos
política e na discussão sobre o políticos e econômicos
território que ocupam. particulares (e hegemônicos),
Percebemos isso nos o que lhes confere maior poder
levantamentos que fizemos e prestígio na municipalidade,
sobre a relação entre produção como um todo: a produção de
e consumo de alimentos, café ou de eucaliptos é percebida
mas também constatamos a enquanto fundamental para
partir de narrativas como a de a economia local, enquanto
Dona Denira em resposta ao que o plantio de alimentos
questionamento sobre o árduo diversos, nem tanto. Mais uma
trabalho na terra: “oh menino, vez, as considerações entre o
eu faço porque eu gosto, eu poder material e simbólico dos
amo a terra, eu tenho um amor agricultores “vocacionados” e
incrível por ela, não acho muito dos “sem condição” entra em
trabalho não, não acho.O que eu cena.
quero é ter saúde”. Temos, pois, uma
Queremos crer que questão para tentar responder:
essa situação vivenciada nessas estes estudos rumam para uma
paisagens-habitats promove Geografia dos Alimentos?
graus de emancipação, Luis Câmara Cascudo
de soberania (alimentar, e Josué de Castro preconizam
inclusive) e de saúde. Por o debate sobre a alimentação
outro lado, retornando às no Brasil sob diferentes
imagens observadas no óticas. Cascudo (2004) em
fundo da Imagem 2, o plantio
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“História da Alimentação do encruzilhadas apenas enquanto


Brasil”, se debruça sobre a pontos de dispersão, mas
formação da dieta alimentar também enquanto pontos de Revista do Programa de
brasileira, abordando as concentração e convergência. Pós-Graduação em Geografia e
do Departamento de Geografia
diferentes influências recebidas. Essa convergência dá-se, da UFES
Castro (1984), por sua vez, inclusive, mediante processos Janeiro-Junho, 2018
ISSN 2175-3709
em “Geografia da Fome” globais de formações sócio-
apresenta-nos uma análise espaciais.
sobre a alimentação, mas, Em outras palavras,
sobretudo sobre a fome no penso que o estudo das formas
Brasil da década de 1940. locais/regionais de produção
Assim, enquanto Cascudo de soberania alimentar pode
centraliza suas atenções na revelar uma interessante
culinária, Castro enfatiza o Geografia dos Alimentos, cuja
debate sobre a fome. Contudo, abordagem multiescalar –
e curiosamente, é interessante estadual, nacional ou global – e
notar que nessas obras ambos os interdisciplinar poderá abordar
autores apontam para as formas a diversidade das formas
locais/regionais de superação de obtenção de alimentos,
de problemas relacionados desde a produção agrícola ao
à oferta, à obtenção ou à abastecimento no mercado –
produção de alimentos. Essas globalizado, regionalizado ou
formas de superação aparecem local - passando pelas formas
quase sempre relacionadas de consumo existentes.
às possibilidades de plantio, Seguindo nessa reflexão,
extrativismo, pesca ou caça a Geografia dos Alimentos pode
existentes, decorrentes do abordar “o lugar e a consciência
contexto de formação histórico- baseada no lugar”, sugeridas
cultural e ambiental de cada por Escobar (2005, p. 77):
local/região.
Eis, a meu ver, a Construir o lugar como
encruzilhada em que pode um projeto, transformar o
imaginário baseado no lugar
se encontrar a formação de numa crítica radical do poder,
uma Geografia dos Alimentos: e alinhar a teoria social com
no centro de caminhos que uma crítica do poder pelo
convergem debates de cunho lugar, exige aventurar-se por
cultural integrado à questão outros terrenos. Esta proposta
ressoa com e se move um
da soberania alimentar, à passo além da idéia de que
sobrevivência e ao direito “ao atender o local, ao levar
ao alimento de qualidade. em sério o local, é possível
Importante afirmar que ver como as grandiosas idéias
quando nos referimos a uma de império se convertem em
tecnologias de poder instáveis,
encruzilhada, fazemos menção com alcances através do tempo
às múltiplas possibilidades e do espaço”. Certamente, o
que se encontram em “lugar” e “o conhecimento
determinado tempo-espaço: local” não são panacéias que
os muitos caminhos que resolverão os problemas do
mundo. O conhecimento
conduzem a um determinado local não é “puro”, nem livre
ponto, a um determinado de dominação; os lugares
debate. Não pensamos as podem ter suas próprias
formas de opressão e até de

327
terror; são históricos e estão terminado paradigma de uma
conectados com o mundo Geografia dos Alimentos.
através de relações de poder,
Revista do Programa de e de muitas maneiras, estão
De volta ao campo
Pós-Graduação em Geografia e
determinados por elas. A evidenciado em nossa pesquisa,
do Departamento de Geografia
da UFES defesa do conhecimento local percebemos que o município
Janeiro-Junho, 2018 que se propõe aqui é política do Divino pode revelar
ISSN 2175-3709
e epistemológica, surge um potencial da produção
do compromisso com um
discurso anti-essencialista do
camponesa e agroecológica
diferente. (grifos nossos)
na região da Zona da Mata
mineira. Ainda que nem todas
Nessa defesa política e as condicionantes históricas,
epistemológica do lugar, po- geomorfológicas, sociais e
deremos reforçar, quem sabe, econômicas ocorram da mesma
geografias subversivas, resis- forma em toda a região, este
tentes e resilientes, dialéticas estudo de caso nos permite
e dialógicas, e que trazem os enxergar formas de ocupação,
sujeitos (subalternizados) para de vida, de produção, de
o centro das atenções geográfi- relação sociedade-natureza e
cas em suas diferentes formas de formação de paisagens que
de marcar o mundo e de pen- podem ser projetadas para o
sar, de produzir, de adquirir, de contexto regional.
preparar e de consumir os ali- Desse modo, e inspira-
mentos. Não obstante, esses são dos na abordagem de Augus-
sujeitos que estão submetidos a tin Berque (2004), pensamos
toda ordem de intervenção na que essas paisagens possam ser
constante relação com os “pro- marcas, mas podem também
cessos de oligopolização dos serem matrizes de novas cultur-
mercados no âmbito da alimen- as, de novas racionalidades e de
tação” (PEREZ-CASSARINO, novas (velhas) formas de inter-
2013), como bem ilustram as venção no território, que, por fi-
considerações comparativas nal, podem perfilar e fortalecer
entre as paisagens agrícolas an- uma sociedade silenciosamente
teriormente abordadas. Neste revolucionária e uma Geografia
sentido, pensamos que sim, os dos Alimentos que seja reve-
estudos realizados neste artigo ladora dessas “formas cotidi-
podem apontar para um de- anas de resistência camponesa”.

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