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"Quando o mundo estiver


unido na busca do
conhecimento, e não mais
lutando por dinheiro e poder,
então nossa sociedade
poderá enfim evoluir a um
novo nível."
 
 
 
 
 
 
Poemas
para ler
antes das
notícias
Editorial
ALBERTO PUCHEU

“Em um momento de horror como o que vivemos, a poesia é mais do que


necessária. A ideia seria que o leitor tivesse acesso a algo como um poema
por dia, para que o lesse antes das notícias cotidianas, antes de sair de casa
para estudar ou trabalhar”. Foi algo assim que Daysi Bregantini me disse
ao, generosamente, me convidar para a curadoria desta antologia. Por mais
difícil que seja a tarefa, como negar um convite tão corajoso e relevante,
vindo como um chamado da poesia, como uma chance de fazer com que
poemas cheguem a um número maior de pessoas, afetando-as?
Já se disse que os telejornais e a grande mídia nos querem indignados,
mas impotentes. O projeto que me foi proposto coloca-se como um antídoto
a tal situação. Se a grande mídia e a política que hoje nos governam nos
querem destituídos de qualquer capacidade de transformação, a poesia nos
abre outras possibilidades. Trata-se de dar visibilidade a uma poesia que
não relega à filosofia, à história, à sociologia, à antropologia, à pedagogia
etc. o pensamento de nosso tempo. Muito menos ao jornalismo imperante.
Uma poesia, poderia dizer, filosófica, histórica, sociológica, antropológica,
pedagógica etc., que assume seu fazer como uma tentativa de desarmar os
poderes constituídos de nosso tempo.
Esta reunião de poemas tem um pressuposto nítido a dar consistência ao
corte realizado: o de optar por poemas que, dialogando de maneira explícita
com nosso tempo, desejam, declaradamente, intervir nele, como uma
contrapolítica ao imperante ou como uma política que todos deveriam
escutar, pois há muito o que a política tem a aprender com a poesia.
Assume-se aqui um posicionamento que se quer claro. Parafraseando uma
das poetas, trata-se de poemas-denúncias; parafraseando outra, trata-se,
certamente, de assumir um posicionamento do lado dos matáveis, para que
sejam amáveis e não matáveis. Há uma denúncia contra a epidemia das
exclusões violentas de que sofre nosso país. Há uma inclusão incisiva dos
excluídos, que, em muitos casos, ocupam o lugar de enunciação, no
repertório do que me parece ser o mais intenso da poesia contemporânea.
Nestas páginas, há uma história do Brasil a contrapelo lida poeticamente
desde hoje.
Para ampliar os horizontes do meu modo de divulgar a poesia dando
visibilidade a uma diversidade maior de poetas, evitei escolher poetas que
compareceram como estudados no blog “O cuidado da poesia – poemas do
e para o nosso tempo”, que mantive no site da Revista Cult. Evitei
igualmente poetas que participaram da antologia contida no dossiê “Poemas
para o nosso tempo”, que organizei para a Revista Cult. Evitei ainda poetas
com obras consolidadas, que têm recebido prêmios significativos, ocupado
instituições de renome e outros lugares de visibilidade. Talvez haja uma ou
outra exceção a esse capítulo das negativas.
Dos critérios afirmativos para a escolha, além do mencionado dois
parágrafos acima, houve um seguido à risca: que fossem poetas vivos. Reli,
li e ouvi muita poesia que conhecia e outro tanto que passei a conhecer, em
busca de, pensando esse coletivo de poemas com alguma unidade que dê a
ver uma força do nosso tempo, abrir-me a demandas hoje necessárias sem
perder um critério seletivo. Sei, entretanto, que, sendo as demandas muitas
e justas, é impossível atendê-las todas de uma vez, uma só pessoa. Há
quantidades de poetas que, não estando aqui, poderiam estar. E, mesmo,
deveriam estar. Assumir um projeto como este é assumir riscos. Que o
riscado a que se arrisca nestas páginas possa tocar seus leitores.
 

 
Alberto Pucheu
É poeta e professor de Teoria Literária da UFRJ. Publicou, entre outros, apoesia contemporânea, Que
porra é essa – poesia?, A fronteira desguarnecida, Poesia Reunida 1993-2007, mais cotidiano que o
cotidiano e Para que poetas em tempos de terrorismo?, todos pela Azougue Editorial. Fez os
documentários Leonardo Fróes: um animal na montanha, Vicente Franz Cecim: um animal na
floresta. Realizou o projeto Autobiografias poético-políticas. No momento, se ocupa em fazer o
documentário Carlos de Assumpção: Protesto.
Sumário
André Luiz Pinto
Tatiana Pequeno
Danielle Magalhães
Bruna Mitrano
Luiz Guilherme Barbosa
Heitor Ferraz
Diego Vinhas
Tarso de Melo
Antônio Moura
Piero Eyben
Jarid Arraes
Heleine Fernandes
Paulo Ferraz
Carlos de Assumpção
Cuti
Lubi Prates
Conceição Evaristo
Nina Rizzi
Eliane Potiguara
Márcia Wayna Kambeba
Josoaldo Lima Rêgo
Reuben
Horácio Costa
Cláudio Oliveira
Natasha Félix
Helena Zelic
Tertuliana Lustosa
Catia Cernov
Bruno Domingues Machado
Pieta Poeta
Letícia Brito
Marcelo Diniz
Sobre os artistas
ANDRÉ LUIZ PINTO

Prazer, esse sou eu


filho de doméstica
numa época em que
patrões cismavam
em chamar de filhas
as mucamas. Eu
criado numa mansão
da Barra, obrigado a amar
patrões como avós
sem direito de herança.
Uma coisa aprendi:
a ler livros e a me irritar
com facilidade – lá, onde
o sinal está vermelho
e sempre acabo errando
a baliza – onde ninguém
divide nada, quando 
até quem te chamou de sobrinho
diz um dia: a casa é nossa
deves partir. Tá bom, disse.
Só me dá duas semanas.
 

 
André Luiz Pinto da Rocha
Nasceu em 19 de março de 1975, no Rio de Janeiro. Doutor em Filosofia pela UERJ. Docente
alocado na SEEDUC-RJ e da FAETEC, ensina Filosofia há dez anos. Publica, desde a década de
1990, poemas e textos relacionados a Literatura e Filosofia. Foi editor, com Eduardo Guerreiro Brito
Losso, da revista .doc. Livros publicados: Flor à margem (edição particular,1999), Primeiro de abril,
(Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno novo (7Letras,
2012), Nós, os dinossauros (Patuá, 2015), Mas valia (7Letras, 2016) e o mais recente, Migalha
(7Letras, 2019). Casado com Cristina Melo, é pai de Tales Melo da Rocha.
PV Dias
Força de trabalho, 2019
l´air du temps
TATIANA PEQUENO

eu nunca viajei para a europa


meus colegas de profissão riem
assim constrangidos quando
digo séria não, eu nunca viajei
para A europa
fui somente ao paraguai em 
90 e 91 (de ônibus)
comprar relógios casio de plástico 
& rayito de sol para vender na
escola para as mães de todos
os meus não-amigos de olaria
 
minha mãe muambeira às vezes
nos levava com a promessa de 
um vídeo cassete para vermos
o brinquedo assassino chucky
 
no retorno da viagem a nossa
vida tinha muita expectativa
esparramávamos as compras
sobre a cama e no entardecer
de bonsucesso contávamos
os enormes investimentos
das galerias de falsificados
 
(não, eu nunca viajei para a europa
fiquei sempre aqui nos verões e nos
domingos cintilantes de calor
nunca também tivemos ar condicionado
porque o calor foi sempre a melhor
das metáforas contra e a favor da vida tropical
e da vida na europa)
 
assim foi ficando a europa para lá
e eu lembro mesmo é da bolsa de viagens
da minha mãe que ela tinha comprado
na loja corpoloco da praça das nações
ela chegava e espalhava tudo na cama
grande minha mãe espalhava o trabalho
ela dizia que vender aquilo tudo faria
todo esforço da gente valer a pena
 
o rio corria embaixo as torres de tensão
pareciam cenário futurista &
quando as pessoas estavam distraídas
na sala eu entrava no quarto para abrir
a bolsa de viagens e experimentar
perfumes de mulheres mais velhas
meia-calça preta de gente adulta
e descobrir o que era na minha pele
a cor de nome estranho fumê
porque rapidamente os relógios casio
me entediaram e eu queria mesmo era
que houvesse ali escondido, de presente,
todas as fitas k7 com a trilha sonora
das novelas que assistia com o objetivo
de me tornar uma moça educada, bonita,
inteligente e esforçada
sabida dos truques sobre vendas de
muambas e doces e bolos
 
anotávamos no caderno dela de vendas
os preços das mercadorias e durante
a hesitação da formulação do preço
eu imaginava algo que nos desse uma
casa distante daquele cheiro mal de rio
imaginava a casa com a piscina da embalagem do rayito de sol
 
o que minha mãe não sabe é que deve-se
a minha poesia à muamba daquela infância
porque verdadeiramente era
aquilo que passava por mim
e que eu queria
mas jamais poderia ser meu
 

 
Tatiana Pequeno
Nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Tem dois livros de poesia publicados: Réplica das urtigas
(Oficina Raquel, 2009) e Aceno (Oficina Raquel, 2014). Seu terceiro livro, Onde estão as bombas,
foi publicado em 2019 pelas Edições Macondo. Trabalha como professora de Literatura na UFF, onde
coordena grupo de pesquisa sobre a relação entre corpo, gênero, sexualidades e as literaturas de
língua portuguesa.
PV Dias
O vendedor de flores, 2019
amáveis
DANIELLE MAGALHÃES

somos matáveis
apenas mais ou menos
matáveis
mais rapidamente ou mais vagarosamente
matáveis
isso sempre foi grave
mas a gravidade hoje talvez
recaia
no assombro de ver
que isso está explícito
desvelado sem véus descarado
às caras e às claras somos
matáveis
o pobre preto favelado
é mais matável que eu
em relação a um homem
eu enquanto mulher
sou mais matável mas
em relação a uma mulher lésbica
sou menos matável
em relação a
uma mulher
como a minha mãe
pensionista do estado do rio de janeiro
mas ela é
menos matável
que o pobre
preto favelado
mas ela é mais
matável
que eu
porque como ela uma multidão
de servidores está sendo morta aos poucos
carecendo do mínimo necessário
para a sobrevivência
nesta escala
eu me considero privilegiadamente salva
não porque tenho vida
mas porque sou menos matável
quando vou às manifestações
sou mais matável
que as minhas cachorras
que ficam em casa
em qualquer lugar
somos matáveis
enquanto deveríamos ser apenas
amáveis
nessa relação
a palavra amável
está na palavra matável
está aí
o vínculo
entre amor e morte
nessa relação
em que uns podem ser mortos
rapidamente
e outros podem ser mortos
aos poucos
os poderosos não são matáveis
porque se fossem já estariam
mortos
há muito tempo os poderosos
não são matáveis
nem amáveis
eles não
eles não apontam
para o fim
eles não são
o outro
só o outro
aponta para o fim
eles são
o poder
que quer se preservar
enquanto o mesmo
o poder
que quer se preservar
exterminando
toda possibilidade
de alteridade
eles não são
nem amáveis nem matáveis
eles são
os que matam
além dos mortos
e dos poderosos
há apenas nós
sobreviventes
nós
matáveis somos
sobreviventes
porque fitamos a morte
a todo o momento
quem sobrevive é sempre outro
porque só existe em relação
com a morte tudo que é
outro
aponta para o fim
em toda alteridade
resta um pouco de fim
diz um verso
de uma poeta pobre e favelada
que escreveu um livro
chamado Não
quem sobrevive
é sempre
outro
em qualquer lugar
a sobrevivência está presa
à alteridade
e à morte
nós
somos matáveis
enquanto deveríamos ser
apenas
amáveis
 

 
Danielle Magalhães
Acha muito difícil essa coisa de dizer quem é. Fincou a alegria no corpo, tatuando a palavra ao
contrário, porque alegria não tem sido fácil de enxergar. Tenta se lembrar de dormir e acordar com
uma granada e uma alegria penduradas no pescoço. Substituindo seu pavio curto por nervos de aço,
publica poemas e ensaios em revistas e periódicos. Arriscando-se pelos caminhos esburacados da
poesia, publicou Quando o céu cair (7Letras, 2018). Acredita haver um grande incêndio na poesia
contemporânea. E são as mulheres que estão queimando. Em seu doutorado, pensa o verso como o
que se volta para o amor e o terror. Vai afirmando que os matáveis são tão somente amáveis. Finca,
do jeito que consegue, um mantra, uma prece, ou uma ordem: #elenão, #mariellepresente, #lulalivre.
PV Dias
Da série: recontando a arte colonial através da virtualidade dos jogos.
Ak 47 sobre fotografia, 2019
BRUNA MITRANO

quando eu era criança


o meu pai esfregava o pau
na minha bunda
e depois chorava
ele sempre chorava
pedindo desculpas
quando eu era criança
o meu pai cuidava de mim
me ensinava a ler
a andar de bicicleta
porque a minha mãe
estava muito ocupada
sendo deprimida
o meu pai nunca deprimia
mesmo cansado do bife
trabalhar dezoito horas
como motorista de ônibus
chamava bife
o meu pai toda noite
ia no meu quarto
e dizia te amo filha
lambendo a minha orelha
uma vez mordeu
tão forte que sangrou
ele chorou e pediu desculpas
eu disse não dói pai não fica triste
e meu pai chorou mais
depois que eu disse não chora
eu não entendi
eu não entendo
por que estou quebrando
linhas se isso não é um poema
é uma denúncia inútil
agora que meu pai é velho
e não cuida mais de mim.
 

 
Bruna Mitrano
Nasceu em 1985 e vive no Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em
Literatura pela UERJ, professora, escritora, desenhista e articuladora cultural. Publicou contos,
poemas e desenhos em diversos jornais, revistas e antologias no Brasil e no exterior. Integrou a
exposição Poesia Agora, na Caixa Cultural; participou dos Encontros Literários, do Sesc/RJ; foi
autora convidada do projeto Paixão de Ler, do Ministério da Cultura; e participou de vários eventos
de poesia. Faz parte do movimento Respeita! – coalizão de poetas e artistas mulheres. É autora do
livro Não (Patuá, 2016).
Jean Matos
Sem título, 2010
25 versos que você tem que ler antes de
comentar a próxima notícia
LUIZ GUILHERME BARBOSA

Sempre que você


vir
um texto em que as palavras
do nada vão
para a esquerda
da página
 
não se assuste, é
um poema comunista
 
Eu sei você vai
argumentar
pela liberdade de expressão
mas entenda
 
por mais à direita que você continue
a página acaba e força
uma guinada
à esquerda
 
Você não conseguirá se expressar
num poema
em versos se você estiver
alinhado
à direita
 
mesmo defendendo a propriedade privada
cada verso novo
faz
uma apologia do comunismo
 

 
Luiz Guilherme Barbosa
Poesia é um trabalho público. Hoje, quando o espaço público sofre variadas tentativas de destruição,
a poesia nomeia uma prática das praças, dos rolês, dos vínculos. É um modo de fazer, perguntando-se
sobre a circulação do poema (no cotidiano, no espaço, marginalmente), quando e onde a leitura de
poesia funciona como a política de cotas na educação, o reconhecimento da identidade de gênero nas
escolas, a gratuidade no ensino público: produz democracia nos corpos. Poesia é um direito social
estratégico. Ensino literatura em estado de oficina, língua em contexto de uso, produção textual como
produção de leitores. Sou professor do Colégio Pedro II, pensando literatura e ensino, poesia
contemporânea e autorias minoritárias. Assino o que não sei se se lê como poema.
Jean Matos
Sem título, 2017
Palavras da tribo
HEITOR FERRAZ

É preciso ouvir
O vocabulário dos dias
Não para renová-lo
Essa seria uma tarefa ingrata
para a poesia:
o vocabulário da violência
nossa verdadeira
e única identidade
desde o princípio
daquele azul cabralino
Esse vocabulário
da morte
do eu existo
porque te mato
Temos já uma sólida
e sórdida
tradição de tortura
 

 
Heitor Ferraz
Escrevi os poemas de Meu semelhante (7 Letras, 2016) em pleno processo do golpe contra o governo
Dilma Rousseff, quando o futuro começou a se esfarelar. O Brasil escancarava sua identidade: a
pervertida, de um país com muito traquejo em tortura física e psicológica. Dos livros publicados:
Resumo do dia (Ateliê Editorial, 1996), Hoje como ontem ao meio-dia (7 Letras, 2002), Coisas
imediatas (7 Letras, 2004) e Um a menos (7 Letras, 2009), esse tem uma conotação claramente
política, fixando, pela experiência do cotidiano, mais esse capítulo de uma história da República dos
Golpes fascistas. Duas datas martelam na cabeça: 1964, quando nasci, e 2016, quando minha filha
mais nova nasceu, aumentando minha angústia. Elas carregam a frequência de golpes. Aqui, toda
autobiografia passa por essa morte a prazo, e parece “adiar para outro século a felicidade coletiva”.
Presente
DIEGO VINHAS

de um tempo
esticado
como braços e pernas no cavalete de tortura
esperando o romper das articulações
 
na rua
alguma latência bruta
que se tenta ocupar à força
 
a repetir os nomes
 
P.S.A.N. , 47, líder comunitário – presente
F.G.P. dos S., 36, quilombola – presente
C. dos S. M.,40, sindicalista – presente
A. D. de S., 43, pedreiro – presente
M.F., 38, vereadora e feminista – presente
 
as mortes
únicas e iguais
 
presente
desse tempo esticado
 
ontem
amanhã
 
hoje
 
não sei
 

 
Diego Vinhas
Nasceu em Fortaleza, em 1980. Tem poemas publicados em revistas como Inimigo rumor, Sibila,
Modo de usar & co., Escamandro, Gueto, dentre outras. Participou de algumas antologias, tais como
Antologia de poesia brasileira do início do terceiro milénio (Exodus, Portugal, 2008), Roteiro da
poesia brasileira: anos 2000 (Global, 2009), Poesia do dia (Ática, 2008) e Tigertail, A South Florida
Poetry Annual, Volume VI, Brazil Edition (Tigertail, EUA, 2008). Foi um dos editores da revista
Gazua e publicou os livros de poemas Primeiro as coisas morrem (2004) e Nenhum nome onde
morar (2014), ambos pela editora 7Letras (RJ). Seu terceiro livro, Corvos contra a noite, ainda é
inédito.
PV Dias
A Conversão, 2019
(fragmento de)
Toda sentença é um antipoema
TARSO DE MELO

“Parece que foi preso 60 pessoas. Todo mundo era claro.


De preto só tinha o Rafael. Todo mundo foi solto.
Só o Rafael foi condenado.”
Adriana de Oliveira Braga
 
 
 
“o ministério público ofereceu denúncia
contra rafael braga vieira
pelos seguintes comportamentos ilícitos
descritos na denúncia, a saber:
 
no dia 12 de janeiro de 2016
por volta das 09 horas, na rua 29
em localidade conhecida como ‘sem terra’
situado no interior da comunidade vila cruzeiro
no complexo de favelas do alemão
bairro da penha, nesta cidade
 
o denunciado, com consciência e vontade,
trazia consigo, com finalidade de tráfico,
seis decigramas da substância entorpecente
cannabis sativa acondicionados
em uma embalagem plástica fechada por nó
bem como nove gramas e três decigramas de cocaína (pó)
distribuídos em 06 cápsulas plásticas incolores
e 02 embalagens plásticas fechadas por grampo
contendo a inscrição ‘cv-rl/pó 3/complexo da penha’
tudo sem autorização e em desacordo
com determinação legal e regulamentar.
 
nas mesmas condições de tempo e lugar acima descritas,
o denunciado, com consciência e vontade,
estava associado a outros indivíduos não identificados,
todos subordinados à facção criminosa
que domina o tráfico de drogas na comunidade,
para o fim de praticar, reiteradamente,
o crime previsto no art. 33 da lei nº 11.343/06.
 
policiais militares estavam em operação
no interior da comunidade,
quando foram informados por um morador
acerca da presença de um homem portando entorpecente
com a intenção de comercializá-lo.
destarte, ao chegarem ao logradouro indicado,
os agentes visualizaram o denunciado rafael braga vieira
em poder de uma sacola de conteúdo suspeito.
de imediato, ao perceber a presença dos agentes da lei,
o denunciado tentou se desfazer do material,
arremessando a referida sacola ao solo.
 
ato contínuo, após a abordagem do denunciado,
os agentes lograram arrecadar os objetos abandonados,
oportunidade em que verificaram tratar-se de
vasta quantidade de material entorpecente,
bem como um morteiro.
 
é o relatório, passo a decidir.
 
[...]
 
culpável, por fim, é o acusado,
eis que imputável e estava ciente do seu ilícito agir,
devendo e podendo dele ser exigida
conduta de acordo com a norma proibitiva
implicitamente contida nos tipos por ele praticado,
inexistindo qualquer causa de exclusão de antijuridicidade
ou culpabilidade aplicável ao caso presente.
 
diante do exposto,
não é possível acolher as teses expostas
pela douta defesa do acusado em suas derradeiras alegações,
considerando, como exposto acima,
ser o conjunto probatório robusto em desfavor do réu.
 
impossível, data venia,
a desclassificação da conduta delitiva,
não só pelo fato do conjunto probatório ser desfavorável ao réu,
como exposto acima, mas, também,
em razão do acusado, em momento algum,
ter afirmado que os entorpecentes consigo apreendidos
destinavam-se ao seu próprio uso,
muito pelo contrário,
negou a posse do material apreendido.
 
verifica-se que o acusado ostenta maus antecedentes,
constando três condenações, já transitadas em julgado,
em datas anteriores aos crimes tratados nestes autos.
 
a sua personalidade é voltada para a criminalidade,
não se podendo olvidar que o acusado
no ocasião de sua prisão
encontrava-se em gozo de benefício extramuros,
inclusive fazendo uso de tornozeleira eletrônica.
 
ex positis,
julgo procedente a denúncia
para condenar como ora condeno
o réu rafael braga vieira
às penas de 11 anos e 03 meses de reclusão
e ao pagamento de 1.687 dias-multa,
à razão unitária mínima.
 
condeno, ainda, o réu
ao pagamento das custas e da taxa judiciária.
 
o regime inicial para o cumprimento da reprimenda é o fechado.
o que se justifica não só pelo quantum da pena aplicada,
mas pelo fato de que esse regime se afigura o mais adequado
para atender a finalidade da pena,
cujos aspectos repressivos e preventivos
ficariam sem efeitos na hipótese de um regime mais brando,
ante a possibilidade do réu não ser suficientemente intimidado
a não mais delinquir.
 
quanto às substâncias entorpecentes apreendidas,
determino que sejam destruídas por incineração.
determino, ainda, a destruição do rojão apreendido e já periciado.
 
após o trânsito em julgado,
lance-se o nome do réu no rol dos culpados.”
 

 
Tarso de Melo
É poeta e ensaísta, nascido em Santo André (SP), em 1976. Lançou, entre outros, Íntimo desabrigo
(Alpharrabio/Dobradura, 2017), Dois mil e quatrocentos quilômetros, aqui (com Carlos Augusto
Lima; Luna Parque, 2018) e Alguns rastros (martelo, 2018). Advogado, doutor em Filosofia do
Direito pela USP. Colabora em revistas e é curador de eventos de poesia, como o “Vozes Versos”
(com Heitor Ferraz Mello). “Toda sentença é um antipoema” integra o volume Íntimo desabrigo,
tendo sido desentranhado como poema da leitura da sentença que condenou Rafael Braga, sem inserir
qualquer palavra, apenas impondo ao texto os recursos da versificação para marcar o estranhamento
entre a linguagem (da sentença) e o mundo, bem como o complexo de violências que se arma por trás
dessas palavras.
PV Dias
Balaclava de Madeira, 2018
Poema para ler ao andar com cuidado
ANTÔNIO MOURA

Você que agora caminha por este poema,


não está ouvindo, além do som das sílabas,
 
o som de sinistros passos ecoando secos
em seu encalço, como que para encarcerá-lo,
 
como que para amordaçá-lo? Não está agora
pressentindo atrás de sua própria sombra
 
uma outra sombra, que, aos poucos, se agiganta
querendo, de forma réptil, cobrir tudo, todos,
 
com sua escura manta? Não está sentindo,
agora, fazer ninho eu seus ouvidos a gralha
 
a rasga-mortalha da histérica pregação,
que busca ensurdecê-lo com seu grasnado
 
para que ouça, unicamente, a voz intolerante,
a voz fanática e prepotente do Deus demente?
 
Não está vendo uma venda que, lentamente,
cai sombria sobre seus olhos, sobre sua mente?
 
Você que agora caminha por este poema,
cuidado, aqui perto, no fim da Rua Extrema
 
a oficina do fascismo fabrica frias algemas
 
 
Antônio Moura
Nasceu em Belém, em 1963. Tem cinco livros de poesia e três de tradução publicados. Três de seus
livros foram publicados no exterior. Poesia: dez (edição do autor, 1996), Hong Kong & outros
poemas (Ateliê Editorial, 1999), Rio Silêncio (Lumme Editor, 2004), A sombra da ausência (Lumme
Editor, 2009), A outra voz (Patuá, 2018). Rio Silêncio foi premiado e publicado tanto no Reino Unido
(Silence River) como em Valéncia, Edicions 96, em tradução para o catalão por Joan Navarro, sob o
título de Després del diluvi i altres poemes. No México, Río Silencio foi editado em tradução para o
espanhol por Victor Sosa, Editora Calligrammes, 2014. Tem sido publicado em diversas revistas e
antologias no Brasil, Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos e França.
PV Dias
Cidade: imaginário I, 2019
(fragmento de)
A galope
PIERO EYBEN

[...]
dilma alertava que tinham parasitado a democracia
como ela mesma como a democracia mesma tinha
se tornado um bando a exercer a exceção escancarada
como regra e é da exceção querer a morte da regra
ficaremos esperando o último xamã morrer e com ele
o céu numa queda aleijar um novo suspiro sem criança
aquele choro dos novos pedintes que já não querem
o dinheiro da cachaça pedem antes um lanche qualquer
uma comida qualquer para ter do que levar pra casa
se toco sua mão enquanto toco a minha o que pode querer
dizer isso a que chamamos de tato ter tato é por certo
delicadeza demais num mundo bruto nada que as bestas
já não soubessem mas espero uma pele de palavras
algo como o pronome possessivo do xamã que queria
saber dizer em yanomami para saber se de fato se trata
disso mesmo um pronome que diz que é minha
ela não é minha a minha carne a minha pele a minha voz
as tomo emprestadas todas pois nem um poema longo
pode dizer o raso dessas ruas aterradas de um betume
moroso já sem céu no voo do precário e da ruína
qu yuan antes de sucumbir ao miluo pedia desenredar
as tristezas e aliar a dor pois o dia é escuro e gira em torno
da noite ou se volta para a noite o dia a dia antes
do rio negro não muito longe de uma china antiga
e ainda agora foi a morte da baleia uma vez mais
aquela da fome como estética um traço de seco
entre os fotogramas que se aceleravam
por contar o silêncio nelson deixa a vida ali
onde se elidem foice e martelo no concreto
branco da capital federal no esterco fosco de onde
estender ainda um punho e a bandeira dos trabalhadores
sem terra que ainda jorram sangue mas erguem
o punho de uma viúva chamando presente o corpo
despojado de marielle o corpo negro e feminino alvejado
agora não só de balas antes do que estala no porão
da milícia militar ergueria um rifle sem a violência
de um filósofo ou cataria as latas que se desfazem
sob meus olhos que gostariam de parar um minuto
diante do toque parar pode querer dizer cegar
e no entanto há muita luz antes que a neblina erga
seu arame farpado seus fuzis ela age antes com fome e bala
perdida achando meus traços os traços que nem estão
porque já cinzas meu rosto que teima chorar
enquanto precisava não declinar ou olhar para baixo
sinto que meu amor está desfalecendo minha pele
1090 trocando o abril por uma forma que não compreende
ainda estar em pleno outono e precisa não sentir frio
queria apenas te beijar essa noite fazer do tempo
a demora entre esses lábios que aguardam o sono
num dia a mais não há consolo nesses feixes
da memória não há sol the heart weighs 300 grams
quando se começa a pesar um coração ou
essa bomba infla e deixa de inflar não há nada mais
o que fazer penso ou ouço dizer como se já um
sobrevoo cruzasse o centro-oeste de várzeas deixadas
pra trás dentro disso que invento para fora do disponível
um risco ao acaso para ter de traduzir numa língua
outra de esses não tão puxados da língua a mesma
que se solta ainda meio sonolento falava hoje
dizia que era necessário compor algo que fosse uma
sobrevivência mínima pequenos urros do bugio
 
[...]
o corpo de homem cedendo à inflação dum desejo concentrado
sem possibilidade de carimbar as cédulas para cortar mais zeros
ou de riscar com um x os muitos nomes para presidente
enquanto a revista noticia que a vítima da aids agoniza em público
nunca me recuperei daquela imagem enquanto o ouvia gritar seu
rouco sussurro ele some num lugar que é inteiro em mim mais abaixo
um tronco que nasceu torto anos atrás no meu silêncio é impossível
amar homens precisava de uma noite batida pra cair em mim
1990 porque o desejo como um voo que se vai fazer mais cedo
enquanto o toque elimina outro toque e suas mãos já não podem
senão pintar as caras e partir ante aquilo que renuncia durante
a plenária e os muitos que dali gozam preparam um plano
que recolha césar e qualquer unidade de valor para estancar a moeda
num quarto de hospital o filósofo salta já sem não poder se sentir
um trapo como é hoje todo trapo a impedir certa saúde que diz
a escrita e está aí o tribunal que antecipa as culpas como uma outra
máquina a tingir a fronte do condenado die inschrift im körper
vollzieht nesses corpos magros de fome e barriga d’água é o que se
passa às vezes entre o amor e a cidade não se pode afastar dum
grito dado ao calendário que espera a queda dos tempos
na desordem do dia em que o operário sorriu com uma faixa
e o lá supôs que não haveria mais pelo que lutar entre as brechas
que correm no sol avulso da cidade nenhuma grama sem seca
sei ainda que não vivi todo o tempo que deveria dizer ao que segue
o perdão do gesto brando entre suas mãos ou na minha angústia
calada que corta o ar e suspende um registro invalidado pelas horas
atravessando o dia na fome sem dedos ou no assassinato como prova
de que se vive a si mesmo apesar do outro esse seu corte acima
da boca me constrange enquanto ela subia a rampa prevendo
o golpe que tomamos a cada dia dado ao acaso e os aquartelados
erguiam uma espada através do dorso caído meu corpo caindo
como a vontade de beijar aquela boca como quem dá o salto último
percorro cada rua na minha cabeça e os passos não me são suficientes
para cruzar o atlântico perco tudo por aqui aquela história que não
havia dentro de 367 golpes meu pai agonizante meu filho por nascer
há 100 anos se erguia uma revolução dada à derrocada ele respira
o último verso enquanto sonhamos o que insiste em não se escrever
 

 
Piero Eyben
Nasceu em Brasília. É poeta, militante, tradutor e professor de Teoria Literária da UnB. É editor do
jornal O Tranca Rua. Publicou 7 livros de poesia, incluindo A galope (C14, 2019), Filete de sangue
(C14, 2019), Cada vez tuas mãos (Horizonte, 2017), Algum olhar apesar (Horizonte, 2017), Um
móbile no peito (Horizonte, 2017), voo de rapina (Horizonte, 2014) e ocos (Lumme, 2011), além de
diversos outros de teoria literária e filosofia, incluindo Escritura do retorno (Horizonte, 2012),
Abismo por paixão (Horizonte, 2017) e Dizer (Horizonte, 2015).
goro
JARID ARRAES

não é de merecimento que falo


quando a repulsa salta da minha saliva
e meus braços abanam tentando
atenção
tentando um instante de escuta
diante da mesa de juízes e seus papéis
cortados a mão
não
 
jamais falaria de merecimento
ao ver o homem dormindo na esquina
o garoto descalço ao meio-dia
a criança dentro de mim gritando
esgoelada
não é sobre merecimento
todos os desfeitos do mundo
os tapetes que escondem a terra
 
não
sobre merecimento eu falaria
caso fosse noite e depois dia
e eu visse que tudo era bom
mas merecer é sentença
e o peso das letras enverga a coluna
andamos prostrados
muitas vezes
de joelhos
 
não
nunca será sobre recompensas
castigos resultados consequências
punições respostas reações
sobre dignidade sobre plantar
e colher
 
as sementes estão podres
e a barriga do solo não verte vida
não importa a paciência
ou quantas vezes se rega
a água está podre
não
 
e você ainda diz que há quem mereça
que o sacríficio o esforço o trabalho
árduo as tentativas a insistência
a não desistência a repetição o mantra
e que esses joelhos aí dobrados
eles ajudam eles têm significado
mas nada é de auxílio
estamos todos sós
 
não
eu nunca plantei flores ou espinhos
nunca mexi na areia com as mãos
porque não é de merecimento que falo
e eu saberia dizer
que eu não mereceria
 
porque é premiado quem tem o rosto
com as sobrancelhas no lugar
os dentes corroídos pelas bajulações
as manchas solares e de marte
masculinas
não
 
jamais direi qualquer coisa
que me faça merecer
porque tudo não passa de correnteza
e logo é parado na barragem
 
 

 
Jarid Arraes
Nasceu em Juazeiro do Norte (CE), na região do Cariri, em 1991. É escritora, cordelista, poeta e
autora dos livros Redemoinho em dia quente (Alfaguara, 2019), Um buraco com meu nome (Pólen,
2018), As Lendas de Dandara (De Cultura, 2016) e Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis
(Pólen, 2017). Curadora do selo literário Ferina, atualmente vive em São Paulo (SP) e tem mais de 70
títulos publicados em Literatura de Cordel.
PV Dias
Identidade Cabocla, 2019
máscaras brancas
HELEINE FERNANDES

em homenagem a Evaldo Rosa dos Santos e sua família


 
1.
os dez soldados de Guadalupe.
a família que ia ao chá de bebê.
era um domingo de sol
e todos já tinham almoçado.
o caveirão camuflado
e os uniformes
vestiam peles negras
que não eram panteras,
mas cães treinados
para o holocausto.
os soldados olharam a família
através do vidro
e não se reconheceram.
o carro não era insulfilmado.
ao vivo
e a cores
o pelotão de fuzilamento
(menos 1
que por um instante duvidou do comando)
atirou contra si mesmo
na frente do conjunto habitacional.
 
2.
quem conta a história de soldados negros
que fuzilam uma família negra
em um dia de sol?
a quem interessa colocar os negros
na linha de frente
de mais um enredo de tragédia?
de que cor é a mão que escreve
a narrativa na qual os protagonistas
são exterminados no final?
 

 
Heleine Fernandes
É uma mulher negra que escreve poemas, canta, dá aulas e sobrevive no Rio de Janeiro em meio a
gatos, amigos e muitas plantas. Atualmente finaliza um doutorado na UFRJ sobre a poesia
contemporânea produzida por mulheres negras.
PV Dias
A que mais mata e mais morre, 2018
Para não esquecer nº 8
PAULO FERRAZ

para Pato N’Água


 
No breu do subúrbio o sol
revela toda manhã o zinco,
os tijolos e cadáveres.

cada preto, cada mulato, cada caboclo
morto cometeu um crime
para os jornais e as estatísticas.
Os hematomas e fraturas,
a água nos pulmões ou
o tiro na nuca
atestam que os corpos
são culpados por
insistir em não morrer.
Não carece de sumir com seus restos,
quem há de reivindicá-los?
Levarão consigo
para o terreno baldio, para
o fundo do lago, para
a cova rasa a honra das mães,
viúvas e órfãos, seus herdeiros
da humilhação e da vergonha,
seus pensionistas do silêncio,
até que na vizinhança,
no canteiro de obra,
na quadra de samba,
na missa e no terreiro, seus nomes
sejam apagados.
Quem viveu na miséria não
merece morrer para sempre.
 

 
Paulo Ferraz
Nasceu em Rondonópolis (MT). Autor dos livros Constatação do óbvio (1999), Evidências pedestres
(2007) e De novo nada (2007), indicado para o Prêmio Bravo! de melhor livro no ano e editado no
Equador e no México. Às vésperas das eleições de 2018, publicou Vícios de imanência, premiado
pelo 1º Edital de Livros da Cidade de São Paulo. Organizou a antologia Roteiro da poesia brasileira:
anos 90 (Global, 2011) e traduziu livros de poetas mexicanos contemporâneos como Abigael
Bohórquez, Jorge Granados, José Javier Villarreal, Luis Aguilar, Luis Armenta Malpica, entre outros.
Participou de eventos literários em Cuba, Equador, Estados Unidos, Espanha, México e Ucrânia. É
graduado em Direito e História e mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada
pela USP.
Marcelo D’Salete
Capa da HQ Encruzilhada, 2016
Protesto
CARLOS DE ASSUMPÇÃO

Mesmo que voltem as costas


às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar
 
Senhores
Eu fui enviado ao mundo
Para protestar
Mentiras ouropéis nada
Nada me fará calar
 
Senhores
Atrás do muro da noite
Sem que ninguém o perceba
Muitos dos meus ancestrais
Já mortos há muito tempo
Reúnem-se em minha casa
E nos pomos a conversar
Sobre coisas amargas
Sobre grilhões e correntes
Que no passado eram visíveis
Sobre grilhões e correntes
Que no presente são invisíveis
Invisíveis mas existentes
Nos braços no pensamento
Nos passos nos sonhos na vida
De cada um dos que vivem
Juntos comigo enjeitados da Pátria
 
Senhores
O sangue dos meus avós
Que corre nas minhas veias
São gritos de rebeldia
Um dia talvez alguém perguntará
Comovido ante meu sofrimento
Quem é que está gritando
Quem é que lamenta assim
Quem é?
E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão, tu me desconheces?
Sou eu aquele que se tornara
Vítima dos homens
Sou eu aquele que sendo homem
Foi vendido pelos homens
Em leilões em praça pública
Que foi vendido ou trocado
Como instrumento qualquer
Sou eu aquele que plantara
Os canaviais e cafezais
E os regou com suor e sangue
Aquele que sustentou ‘
Sobre os ombros negros e fortes
O progresso do país
O que sofrera mil torturas
O que chorara inutilmente
O que dera tudo o que tinha
E hoje em dia não tem nada
Mas se hoje grito não é
Pelo que já se passou
O que se passou é passado
Meu coração já perdoou
Hoje grito, meu irmão,
É porque depois de tudo
A justiça não chegou
 
Sou eu quem grita sou eu
O enganado no passado
Preterido no presente
Sou eu quem grita sou eu
Sou eu, meu irmão, aquele
Que viveu na prisão
Que trabalhou na prisão
Que sofreu na prisão
Para que fosse construído
O alicerce da nação
 
O alicerce da nação
Tem as pedras dos meus braços
Tem a cal das minhas lágrimas
Por isso a nação é triste
É muito grande mas triste
E entre tanta gente triste
Irmão, sou eu o mais triste
 
A minha história é contada
Com tintas de amargura
 
Um dia sob ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de repente
Da prisão em que me achava
Para uma prisão mais ampla.
Foi um cavalo de Troia
A liberdade que me deram
Havia serpentes futuras
Sob o manto do entusiasmo.
Um dia jogaram-me de repente
Como bagaços de cana
Como palhas de café
Como coisa imprestável
Que não servia mais pra nada.
Um dia jogaram-me de repente
Nas sarjetas da rua do desamparo
Sob ovações e rosas de alegria.
Sempre sonhara com a liberdade
Mas a liberdade que me deram
Foi mais ilusão que liberdade
 
Irmão, sou eu quem grita
Eu tenho fortes razões
Irmão, sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar.
 
Mas, irmão, fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minha alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Eu quero a vida que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar! 
 

 
Carlos de Assumpção
Nasceu em 1927. Graduou-se em Letras e Direito. Em 1956, falou seu poema “Protesto” na I
Convenção Paulista do Negro, na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de SP, patrocinada pela
Associação Cultural do Negro, promotora de encontros com leitura de poemas; aí, encontrava-se com
amigos poetas como Solano Trindade e Oswaldo de Camargo. Sua leitura impactou os presentes,
tornando-se um marco no então nascente movimento negro. Publicado no número 1 da série Cultura
Negra, da mesma associação, o poema teve de esperar mais de 20 anos para chegar a livro. Autor dos
livros Protesto (edição do autor, 1982) e Quilombo (edição do autor, 2000), co-autor do CD
Quilombo de Palavras (1998) em parceria com Cuti. Em 2015, publicou Protesto e outros poemas.
Marcelo D’Salete
Página da HQ Cumbe, 2017
Torpedo
CUTI

irmão, quantos minutos por dia


a tua identidade negra toma sol
nesta prisão de segurança máxima?
 
e o racismo em lata
quantas vezes por dia é servido a ela
como hóstia?
 
irmão, tua identidade negra tem direito
na solitária
a alguma assistência médica?
 
ouvi rumores de que ela teve febre alta
na última semana
e espasmos
– uma quase overdose de brancura –
e fiquei preocupado.
 
irmão, diz à tua identidade negra
que eu lhe mando um celular
para comunicar seus gemidos
e seguem também
os melhores votos de pleno restabelecimento
e de muita paciência
para suportar tão prolongada pena
de reclusão.
diz ainda que continuamos lutando
contra os projetos de lei
que instauram a pena de morte racial
e que ela não tema
ser a primeira no corredor
da injeção letal.
 
irmão, sem querer te forçar a nada
quando puderes
permite à tua identidade negra
respirar, por entre as mínimas grades
dessa porta de aço
um pouco de ar fresco.
 
sei que a cela é monitorada
24 horas por dia.
contudo, diz a ela
que alguns exercícios devem ser feitos
para que não perca completamente
a ginga
depois de cada nova sessão de tortura.
 
irmão, espero que esta mensagem
alcance as tuas mãos.
o carcereiro que eu subornei para te levar o presente
me pareceu honesto
e com algumas sardas de solidariedade.
 
irmão, sei que é difícil sobreviver
neste silencioso inferno
por isso toma cuidado
com a técnica de se fingir de morto
porque muitos abusaram
e entraram em coma
 
fica esperto!
e não esquece o dia da rebelião
quando a ilusão deve ir pelos ares.
 
um grande abraço
deste teu irmão de presídio
 
assinado:
zumbi dos palmares
 

 
Cuti
É pseudônimo de Luiz Silva. Formou-se em Letras na USP. Mestre e doutor em Literatura Brasileira
pela Unicamp. Foi um dos fundadores do Quilombhoje (1980) e um dos criadores dos Cadernos
Negros (1978). Seus títulos de livros de poemas são: Poemas da carapinha (1978), Batuque de tocaia
(1982), Flash crioulo sobre o sangue e o sonho (1987), Sanga (2002), Negroesia (2007), Contos
crespos (2008), Poemaryprosa (2009), Kizomba de vento e nuvem (2013), Negrhúmus líricos (2016).
Como ensaísta, publicou: Moreninho, Neguinho, Pretinho (2009), A consciência do impacto nas
obras de Cruz e Sousa e de Lima Barreto (2009), Literatura negro-brasileira (2010), Lima Barreto
(2011), Quem tem medo da palavra negro (2012). Publicou dramaturgia, contos, novelas e outros
gêneros.
Marcelo D’Salete
Arte da HQ Cumbe, 2017
Para este país
LUBI PRATES

para este país


eu traria
 
os documentos que me tornam gente
os documentos que comprovam: eu existo
parece bobagem, mas aqui
eu ainda não tenho esta certeza: existo.
 
para este país
eu traria
 
meu diploma os livros que eu li
minha caixa de fotografias
meus aparelhos eletrônicos
minhas melhores calcinhas
 
para este país
eu traria
meu corpo
 
para este país
eu traria todas essas coisas
& mais, mas
 
não me permitiram malas
 
: o espaço era pequeno demais
 
aquele navio poderia afundar
aquele avião poderia partir-se
 
com o peso que tem uma vida.
 
para este país
eu trouxe
 
a cor da minha pele
meu cabelo crespo
meu idioma materno
minhas comidas preferidas
na memória da minha língua
 
para este país
eu trouxe
 
meus orixás
sobre a minha cabeça
toda minha árvore genealógica
antepassados, as raízes
 
para este país
eu trouxe todas essas coisas
& mais
 
: ninguém notou,
mas minha bagagem pesa tanto.
 

 
Lubi Prates
Nasceu em São Paulo, em 1986. É poeta, tradutora, editora e curadora. Tem quatro livros publicados:
coração na boca (Multifoco, 2012), triz (Patuá, 2016), um corpo negro (nosotros, 2018), sin país
(Uruguai, 2018). um corpo negro foi contemplado pelo Proac com bolsa de criação e publicação de
poesia. Tem diversas participações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os
festivais literários para visibilidade de poetas [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser
(Barcelona, 2018) e participou de festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina.
É sócia-fundadora e editora da nosotros e editora da revista literária Parênteses. Dedica-se a ações
que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. É mestranda em Psicologia do
Desenvolvimento Humano, na USP.
@beacorradi
Mulher que traz força, 2017
Vozes-mulheres
CONCEIÇÃO EVARISTO

A voz de minha bisavó


ecoou criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
 

 
Conceição Evaristo
É uma escritora mineira, doutora em Literatura Comparada pela UFF, possui poemas e contos
publicados nos Cadernos Negros e em inúmeras antologias brasileiras e estrangeiras. Em 2017,
participou da coletânea Olhos de azeviche: de mulheres que estão renovando a literatura brasileira
(Malê, 2017). Publicou os romances Ponciá Vicêncio (Pallas, 2003, 2006, 2017) e Becos da memória
(Pallas, 2006, 2017); em 2008, publicou a tradução para língua inglesa de Ponciá Vicêncio, pela Host
Publications, Texas, Estados Unidos. Publicou Poemas da recordação e outros movimentos (Malê,
2008, 2017) e os livros de contos Insubmissas lágrimas de mulheres (Malê, 2011, 2016) e Histórias
de leves enganos e parecenças (Malê, 2016). Em 2017, comemoraram-se seus 70 anos de vida com a
reedição de toda a sua obra.
Marília Marz
Arte da HQ Indivisível, 2018
Das vezes que me tornei branca
NINA RIZZI

da primeira vez
não dei por isto ou aquilo
uma pá de cal
tão branquinha
atirada pelas criancinhas
como flecha
cabelo de repolho bozo
esquisita suja fedida
 
e a vez de querer muito muito forte
esfregar o tijolo na cara até a carne se saber a sangue
sangue azul sangue branco
 
cresce cresce cresce
 
nove aninhos
ai ai ai
que peitinhos mais lindinhos
ai ai ai
que bunda tão grande como pode sem celulite
ai ai ai
já pode aprender usar a boca
ai ai ai
que virgindade mais apertada
ai ai ai
que mulatinha tão gostosa
ai ai ai
você é tão inteligente pra sua idade
ai ai ai
 
pode pode pode
você quer leitinho?
olha que branquinho
 
cresce cresce cresce
 
as vielas na periferia
o campinho de futebol
a goela seca
 
não cotas não
sim samba sim
sim chapinha sim
não raiva não
 
cresce cresce cresce
 
oi amiga
não hoje não
oi joana
sim hoje sim
 
uma luta maior que a outra
uma lata mais vã que a outra
bares caçambas papel picado absorvente
 
cresce cresce cresce
 
NOTÍCIA DE JORNAL
hoje na jornada de arte negra
a poeta x
a novíssima literatura negra
pra ser lida nas escolas
 
SOU NEGRA
SOU NEGRA?
SOU NEGRA!
 
cresce cresce cresce
 
os beiços imensos roxos
os bicos dos peitos pretos
o pixaim armado
a vulva roxa
os bisavós escravos
o avô fugido da servidão
uma avó tão branca
 
neta de quem?
 
se me querem por fêmea
NEGRA
se me querem por intelectual
MULHER?
se me querem por profissional
HETEROCISGÊNERA
se me querem por escritora
BRANCA
se me querem
COSPEM OS LÁBIOS LIVRES
 
cresce cresce cresce
 
o homenzinho violenta a mulher
digo porque sim ela é mulher
ele diz ninguém estava dentro do quarto
sou negro sou negro você é racista
poetisazinha de versos de merda
 
e ainda uma índia a voar
paloma negra
 
PELOS ARES COM SEUS SANGUE PODRE
 
cresce cresce cresce
 
da múltipla vez
não dei por mim
estava a gaguejar um verso que me martela
TERESA TERESA TERESA
uma avó esquecida de tão negra
um poema tão macho um poema tão arraigadinho
que qualquer poema só sabe dar bandeira
 
a filhinha chora
meus beiços meus pelos meus cabelos meus peitinhos minha história
e essa maldita pele tão branca
 
a poeta x negra é invisível pra todos os machos
a poeta lésbica branca é alvejada por todos os machos
as mulheres são odiadas por todas as instâncias
ó por todas as feministas
 
da última vez
disse sim
 
mulher
mulher negra coberta das poemas mais ternas das poemas mais raivosas das
poemas mais poemas porque sim eu quis assim
a poeta negra
A IMENSA POETA NEGRÍSSIMA
 

 
Nina Rizzi
quer des tudo
desmilitarizar
desescolarizar
descivilizar
na arte na tradução na poesia
na vida na vida na vida
arrisca desastres
nunca teve um nome ernesto
mas foi e é
ellena em chamas
 
autora de:
Tambores pra n’zinga (Multifoco, 2012), A duração do deserto (Patuá, 2014), Geografia dos ossos
(Douda Correria, Portugal, 2016), Quando vieres ver um banzo cor de fogo (Patuá, 2017), Sereia no
copo d’água (Jabuticaba, 2019)
@beacorradi
Floresce, 2018
Em memória ao índio Chico Sólon
ELIANE POTIGUARA

O texto é o testemunho das lágrimas de uma indígena vendedora de


bananas, sua avó, a refugiada Maria de Lourdes de Souza, filha do índio
Chico Sólon, desaparecido das terras indígenas paraibanas por volta de
1920, quando se instalava ali, a neocolonização da agricultura algodoeira
causando a fuga de famílias indígenas, oprimidas pela escravidão
 
 
Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!
Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra nós.
Mas enquanto eu tiver o coração aceso
Não morre a indígena em mim
E nem tão pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em direção ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da família espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama.
Mas não sou eu só
Não somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da História.
Seremos milhões unidos como cardume
E não precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas lágrimas
Por quem não nos tem respeito.
A migração nos bate à porta
As contradições nos envolvem
As carências nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consciência se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas não perdemos o amor
Porque temos o coração pulsando
Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh!!! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabeça
Como quem procura a fonte da tua força
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que já passou
Mas que vamos recuperar.
E tomaremos de assalto moral
As casas, os templos, os palácios
E os transformaremos em aldeias do amor
Em olhares de ternura
Como são os teus, brilhantes, acalentante identidade
E transformaremos os sexos indígenas
Em órgãos produtores de lindos bebês guerreiros do futuro
E não passaremos mais fome
Fome de alma, fome de terra, fome de mata
Fome de História
E não nos suicidaremos
A cada século, a cada era, a cada minuto
E nós, indígenas de todo o planeta
Só sentiremos a fome natural
E o sumo de nossa ancestralidade
Nos alimentará para sempre
E não existirão mais úlceras, anemias, tuberculoses
Desnutrição
Que irão nos arrebatar
Porque seremos mais fortes que todas as células cancerígenas juntas
De toda a existência humana.
E os nossos corações?
Nós não precisaremos catá-los aos pedaços mais ao chão!
E pisaremos a cada cerimônia nossa
Mais firmes
E os nossos neurônios serão tão poderosos
Quanto nossas lendas indígenas
Que nunca mais tremeremos diante das armas
E das palavras e olhares dos que “chegaram e não foram”.
Seremos nós, doces, puros, amantes, gente e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer
A sofrer a cada gesto, a cada dor física, moral e espiritual.
Nós somos o primeiro mundo!
Aí queremos viver pra lutar
E encontro força em ti, amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel…
E enquanto somos dóceis, meigos
Somos petulantes e prepotentes
Diante do poder mundial
Diante do aparato bélico
Diante das bombas nucleares
Nós, povos indígenas
Queremos brilhar no cenário da História
Resgatar nossa memória
E ver os frutos de nosso país, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e “desplazados”
Como nós.
 

 
Eliane Potiguara
Nasceu em 1950. É escritora, poeta, ativista, professora, empreendedora social de origem étnica
potiguara, formada em Letras e Educação pela UFRJ com extensão em Educação e Meio Ambiente
pela UFOP. É contadora de histórias. É Cavaleiro da Ordem do Mérito Cultural do Brasil, pelo MinC.
Fellow da organização internacional Ashoka, fundadora do GRUMIN/Grupo Mulher-Educação
Indígena e do Enlace Continental de Mujeres Indígenas e Embaixadora da Paz pelo Círculo de
Escritores da França. Participou da elaboração da Declaração Universal dos Povos Indígenas/ONU/
por 6 anos nas sessões em Genebra. Possui 7 livros publicados. Premiada pelo Pen Club da Inglaterra
e pelo Fundo Livre de Expressão (EUA). Autora de Metade Cara, Metade Máscara (Uk’a, 2018).
Thiago TeGui
Série Donos do Brasil – Apinajé, 2019
Índio, eu não sou
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA

Não me chame de “índio” porque


Esse nome nunca me pertenceu.
Nem como apelido quero levar,
Um erro que Colombo cometeu.
 
Por um erro de rota,
Cabral em meu solo desembarcou
E no desejo de nas Índias chegar
Com nome de “Índio” me apelidou.
 
Esse nome me traz muita dor
Uma bala em meu peito transpassou
Meu grito na mata ecoou
Meu sangue na terra jorrou
 
Chegou tarde, eu já estava aqui
Caravela aportou bem ali
Eu vi “homem branco” subir,
Na minha Uka* me escondi.
 
Ele veio sem permissão
Com a cruz e espada na mão
Nos seus olhos, uma missão
Dizimar em nome da civilização.
 
Ouve agora o que tenho a te falar,
Não sou “índio” e venho mostrar,
A palavra certa a pronunciar,
Povo, etnia, é como deves chamar.
 
“Índio”, eu não sou!
Sou Kambeba, sou Tembé,
Sou Kokama, sou Sateré,
Sou Pataxó, sou Baré,
Sou Guarani, sou Araweté,
Sou Tikuna, sou Suruí,
Sou Tupinambá, sou Pataxó,
Sou Terena, sou Tukano.
Resisto com raça e na fé.
 
*Uka: casa
 

 
Márcia Wayna Kambeba
É mestra em Geografia, escritora, poeta, compositora, fotógrafa, palestrante, cantora e artista
indígena. Publicou em 2013 seu primeiro livro Ay kakyri Tama: eu moro na cidade e relançou o
mesmo livro em 2018 pela editora Pólen. É autora do livro O lugar do saber (Casa Leiria, 2018).
Participou de antologias e livros com temáticas que abordam religião e política, educação, mulher
etc. Seus poemas tematizam o modo de vida dos povos. Nasceu na aldeia Belém do Solimões do
povo Tikuna, mas seus pais são do povo Kambeba e Kokama, de onde vem sua identidade de nação.
Sua atuação no Brasil se dá nas universidades, escolas e na Rede Sesc, com trabalho militante unido
aos direitos humanos. Tem dado palestras e publicado livros em vários lugares do mundo.
Thiago TeGui
Série Donos do Brasil – Guarani, 2019
Eusébio
JOSOALDO LIMA RÊGO

eusébio cai morto, tomba da moto no alto turiaçu.


dois tiros trespassam o peito e arrebentam a
pulseira de jaguar. susto – a perspectiva do salto,
um sentido amplo e feroz de morte estoura na
cara do índio. a camisa suja de terra suja de
sangue e gasolina. o barulho dentro do clarão
noturno. a moto segue por alguns metros,
sozinha, depois arrola o metal na mata. um rio
morre assim, eusébio, com pólvora e razão nas
entranhas.
 

 
Josoaldo Lima Rêgo
Nasceu no Maranhão. Publicou Paisagens possíveis (2010), Variações do Mar (2012), Máquina de
filmar (2014) e Carcaça (2016), todos pela editora 7Letras. Tem doutorado em Geografia pela USP e
é professor da UFMA. Mora em São Luís.
REUBEN

/ temporada de caça / ao índio ka’apor /


drones tele guiam / kanoés / caiapós /
 
varis vivos / encobrem a cova rasa
urubus farejam / temporada de caça /
 
/ a navalha / some / na mão do mendigo /
noite revirada / corpos decaídos
 
estrelas brilham / mastigam lixo /
incorporo a navalha da prosódia dos
 
mendigos / cada narciso / come da /
própria sede / a cabeça do justo /
 
/ esmagada contra a parede/
sentenças / vendidas por / juízes /
 
/ fazendas maiores que países /
 

 
Reuben
Nasceu em São Luís, em 1984. É poeta, artista sonoro e visual. Publicou quase dez livros, entre os
quais Escaldante (Livros Fantasma, 2018), Siga os sinais na brasa longa do haxixe (Pitomba, 2015),
O sequestro fulminante do embaixador Elbrik (treme~terra, 2018) e Um pensamento estranho
atravessa o meu crânio e desce até as entranhas (Luna Parque, 2018). Organizou diversas mostras de
poesia intermídia e coordenou trabalhos cênicos coletivos de natureza multimídia e interdisciplinar.
Atualmente trabalha em seu segundo disco de poesia sonora, intitulado REUBEN!?.
Thiago TeGui
Série Donos do Brasil – Índias Karajas e Cândido Rondon, 2019
Nênia para o menino Alex André Moraes
Soeiro
HORÁCIO COSTA

o assunto me repugna tanto q eu ñ


consigo como sempre escrever o poema
de forma manuscrita naquele caderno bonito
de papel ingres ou fabriano q dá bom toque
no momento da escrita dita literária
 
sai sobre a sílica sai direto & indignado
hoj’em dia é cada x + raro ficar indignado
virei c o Brasil 1 casca grossa 1 banal
da violência dita tropical & então:
na Vila Kennedy no Oeste do Rio de Janeiro
 
1 pai migrante recebeu há alguns meses
1 filho de 8 anos como 1 pacote q
tivesse vindo estudar no Sul Maravilha
mandado pela mãe só q chegou
+ delicadinho q a encomenda
 
ñ queria q lhe cortassem o cabelo &
gostava d lavar louça assim como as irmãs
o pai tratou de endireitá-lo machamente
mas nada pôde contra o comando dito natural
q reza desde pequenino o pepino etc.
 
o menino Alex Soeiro já nem + se queixava
das surras q o pai Alex Soeiro lhe dava
& ontem já sem gritar d dor se entregou à porrada
o menino se entregou & seu fígado explodiu
o menino delicado se entregou ñ disse nada
 
na cadeia o pai justificou 1 filho veado
ñ dá para aguentar melhor matar de x
melhor do outro lado q ter q conviver c
1 veado o machismo é uma doença social
Eminente Cardeal, Excelente General
 
estamos no ano da graça d 2014 & o país
tem leis & calendários q se dizem ocidentais
& confirmam esse dado palavrórios & ñ só:
afinal algo se passou entre a época em q Saturno
comia os seus filhos & Gaia dele os escondia
 
e hoje qdo perto dos trilhos da Central
1 pai dispõe da vida do seu filho como se
vivesse ainda em eras mitológicas como se
1 Abrão q estripasse Isaac mesmo depois
do perdão de Jeová –o q o motivaria?
 
introjetada homofobia o país está morrendo
d ódio & haverá quem diga q esse sacrifício
foi 1 fato isolado? porque ñ aprova então
d 1 x o parlamento q se arvora democrático
as leis contra a violência contra veados?
 
& os deputados evangélicos, o q oferecerão
como consolo a Alex Soeiro pai & Saturno
& agonista d subúrbio? 1 filho a – e uns anos a +
lá em Bangu é melhor q ver teu sangue dando o cu?
homens com h assim é o q a todos nos faz falta?
 
constituirão advogado q lhe garanta um habeas
por bons antecedentes & a pizza tá no forno
tá assando no Planalto li a notícia no Estadão
& os prédios de repente sumiram na bruma da manhã
voltei p a cama abracei o Francisco c força & lutei
 
contra este poema agora ñ posso + no portal
a notícia já saiu do ar o menino delicado
da Vila Kennedy já não está + lá morreu d x
esta nênia é p dar-lhe algo + do q os seus 15 minutos &
dizer q seu pai tem a cara de milhões d brasileiros
 
homofóbicos
 
 
Osasco 6/17 III 2014
 

 
Horácio Costa
Nasceu em 1954, em São Paulo. Professor de Literatura Portuguesa da USP, poeta e tradutor. Seus
livros de poemas são: 28 poemas 6 contos (edição do autor, 1981), Satori (Iluminuras, 1989), O livro
dos fracta (Iluminuras, 1990), The very short stories (Iluminuras, 1991), O menino e o travesseiro
(Geração,1993), Quadragésimo (Ateliê Editorial, 1999), Fracta: antologia poética. Seleção de
Haroldo de Campos (Perspectiva, 2004), Ravenalas: poemas 2004-2008 (Annablume, Selo Demônio
Negro, 2008), Ciclópico olho (Annablume, Selo Demônio Negro, 2011), 11/12 onze duodécimos
(Lumme, 2014), A hora e a vez de Candy Darling (Martelo, 2016). Tem livros de ensaios publicados
no Brasil e no exterior.
Jean Matos
Sem título, 2015
Quello che tu vuoi
CLÁUDIO OLIVEIRA

É minha última noite na Itália. Minha última noite em Cefalù, na Sicília.


Estamos todos reunidos numa casa noturna que fica, como tantas outras, à
beira do mar, construída sobre a areia da praia. Convidei muitos amigos da
escola, professoras e vieram também alguns amigos das professoras para
esta minha última noite em Cefalù. Mas para mim há apenas duas pessoas
ali: Liliana e Keneth. Desde o primeiro momento que vi Liliana, desde o
primeiro momento que vi Keneth, não consigo mais me interessar por
ninguém na Sicília. Liliana é a mulher com quem eu gostaria de me casar:
linda, inteligente, de humor veloz e demolidor. Pequena, belas formas,
lindos cabelos, que escorrem como uma seda sobre seus ombros. Belos e
grandes seios, um rabo maravilhoso. Uma donna siciliana, que nas formas
assemelha-se tanto a uma garota carioca. É impossível não ficar olhando
para ela durante a aula. Keneth é um príncipe irlandês, cabelos e pelos
muito louros, pele clara, agora bronzeada pelo sol da Sicília, tornando-se
ora rosada ora dourada, e olhos ultra-azuis. Silencioso, lacônico,
enigmático. E muito, muito tímido. Tento falar mais longamente com
Liliana durante a noite. Ela ainda está muito desconfiada. É minha
professora na escola. Veio à minha despedida, o que, certamente, não é
comum, no seu caso. Volto-me para Keneth, conversamos ao pé do ouvido.
Conto a ele o que estava falando com Liliana. Ele também está, como eu,
apaixonado por ela. E o que ele sente por mim, talvez nem mesmo ele saiba.
De algum modo somos um threesome. Liliane e Keneth ocuparam os meus
dias e as minhas noites, desde que cheguei a Cefalù. Agora, devo partir,
deixá-los, sem saber se um dia os reencontrarei. Liliana finalmente parece
começar a acreditar em mim. Talvez não acredite mais que eu seja apenas
mais um turista estrangeiro querendo me dar bem. Pergunto a ela, no nosso
momento mais intenso na noite, por que ela está na Itália e não no Brasil.
Ela me responde: “porque nasci aqui!” Eu insisto, perguntando por que ela
nasceu ali. Pergunta para a qual não há resposta. Ela simplesmente sorri,
porque sorrir é a única resposta possível. Eu digo: “não é justo!” Ela olha
para o chão. Chega a hora de ela partir. Já devem ser umas duas horas da
manhã e ela trabalha no dia seguinte. Depois de um beijo e de um longo
abraço, ela se vai. Resta Keneth, que, nesta noite, deixou seu habitual grupo
de amigos austríacos e eslovenos e veio para a minha despedida. Eu lhe
agradeço por ter vindo, ao que ele me responde: “my pleasure”. Eu estou
embriagado, depois de ter bebido três cervejas e três drinks de vodca
(incentivado por Keneth a acompanhá-lo). Creio que ele também esteja
embriagado, mesmo que o negue, quando pergunto. Eu tinha dito a ele,
mais cedo, que ele e Liliana tinham sido as pessoas mais especiais que eu
tinha conhecido ali e ele quis saber por quê. Eu consigo explicar, com
rapidez, por que Liliana era tão especial para mim: porque ela é o tipo de
garota que poderia ser a mulher da minha vida. Quanto a ele, digo
simplesmente: “te direi mais tarde, quem sabe”. Na festa, na casa noturna,
nesses meus últimos momentos na Sicília, ele volta ao assunto. Quer saber.
Eu digo que talvez seja melhor eu não falar. Ele insiste. Eu pergunto: “do
you really want to know?” Ele responde: “yes”. Eu insisto: “Are you sure?”
Ele diz: “yes”. Eu então tento começar, sabendo que o que direi poderá
mudar tudo entre nós, que é de certo modo desmedido insistir. Mas não sou
um amante das medidas e os abismos me atraem como um canto de sereia.
Começo: “I like you as...”. Alguém do grupo de amigos chega e interrompe
nossa conversa. É claro que Keneth entende que não podemos continuar.
Daqui a vinte minutos, terei que partir para casa, onde um carro alugado
pela escola chegará, às quatro da manhã, para me levar ao aeroporto.
Ficamos ali esperando que o nosso interlocutor parta, que vá embora, que
nos deixe terminar nossa conversa. Mas, ao contrário, outros chegam depois
dele. E Keneth nunca saberá o que tenho a dizer a ele. E eu mesmo nunca
saberei o que teria dito. Num pequeno instante em que os outros começam a
conversar entre si, digo a ele que, talvez, a chegada dessas pessoas tenha
sido um sinal. Talvez eu não devesse dizer o que tinha a dizer. Ele me
pergunta se eu acho que as coisas mudariam entre nós, caso eu o dissesse.
Digo que sim. Para melhor ou pior, me pergunta ele. Eu digo apenas: “I
don’t know”. Os minutos passam e chega a hora de partir. Depois de sete
semanas na Itália, devo retornar. Estou muito triste. Despeço-me de todos,
dou um grande abraço em Keneth que me diz, consolando-me: “nos
veremos de novo, você vai ver!” Saio sozinho da casa noturna onde todos
continuam e caminho pelo calçadão à beira-mar de Cefalù. Tenho uma
enorme vontade de chorar. Saudades antecipadas da Itália, de Liliana, de
Keneth. Deixando pra trás as melhores coisas que me aconteceram nos
últimos tempos, no espaço concentrado de algumas semanas. São três da
manhã, e não há mais quase ninguém pelas ruas de Cefalù. Vou andando
sozinho, com o coração apertado. Do meu lado esquerdo, andando sobre o
calçadão, passa um rapaz numa motoneta, uma skooter. Olha-me fixamente.
Não há nada mais italiano do que um rapaz passando numa motoneta. O
rapaz segue um pouco mais à frente, do outro lado do canteiro de plantas do
calçadão, sempre me encarando. Pára num ponto mais à frente, desce da
moto e se senta num banco. Eu entendo imediatamente a situação. É uma
situação típica de encontro entre homens. Sigo caminhando, olhando
também para ele, que continua com o olhar fixo em mim. Passo por ele a
uma distância de alguns metros. Não há ninguém na praia, que, a esta hora,
está escura e o calçadão está deserto. Faço um movimento de retorno até ele
mas recuo. Penso que isso seria uma loucura. Tenho apenas uns quarenta
minutos para retornar até a casa e esperar o motorista que irá me pegar. Sigo
em frente. Mas olho de novo para trás. O rapaz caminha na minha direção
com um olhar fixo sobre mim. Então, num momento de puro impulso,
embriagado, digo a ele: “can you drive me home?”. Ele diz: “yes”. Vou até
a ele que me pergunta se sou americano. Digo que não, que sou brasileiro.
Subimos na moto e partimos. Sigo pelas ruas de Cefalù completamente
embriagado, pensando na loucura que estou fazendo. O vento quente do
verão da Sicília bate em meu rosto. Sinto o corpo daquele menino junto ao
meu. Vou partir daqui a alguns minutos e estou ali indo em direção a não sei
o quê. O que eu diria a esse garoto quando chegasse em casa? Que temos
apenas meia hora, que precisamos ser rápidos? Seguimos pelas ruas de
Cefalù e em menos de cinco minutos estamos em casa. Descemos da moto e
eu pergunto, apontando para a porta de entrada: “Do you want to come in?”.
Misturamos um pouco de inglês e de italiano na conversação que é quase
nenhuma. É um encontro feito de silêncio. Ele entra na sala, vê as malas
feitas no chão e vem comigo para o quarto. Assim que entramos ele me
agarra e começa a me abraçar, sem dizer nada. Deitamos na cama e ele
segura no meu pau imediatamente. Antes, pergunto como ele se chama:
“Salvo”, ele diz. Eu pergunto: “Salmo?”. Ele responde: “não, Salvo”. Horas
depois irei me perguntar: “Salvo de quê, salvo de quem?”. Ele levanta da
cama e começa a tirar a roupa. Parece muito excitado. Talvez estivesse
rodando a noite toda em sua motoneta procurando alguém. Pergunto a ele
onde se encontram em Cefalù rapazes como ele e ele me responde: “in
giro”, o que quer dizer “por aí, rodando por aí”. Eu tiro a minha roupa e
embora esteja excitado com a situação não tenho propriamente uma ereção.
Sinto-me confuso, pensando que a qualquer momento o homem do carro
pode chegar e sem saber direito o que estou fazendo ali com aquele garoto
italiano, depois de minha despedida com Liliana e Keneth. Por outro lado,
parece-me que agora estou num fim de filme de Pasolini enquanto até então
alternava entre um filme de Antonioni e um de Visconti, entre um filme
com Liliana e um filme com Keneth. O paradoxo que toda a situação
envolve me deixa confuso, mas, ao mesmo tempo, a experiência na Itália
me convida a jogarme no abismo. O garoto (ele me dissera antes, quando
entramos na casa, que tinha 22 anos), enquanto me abraça com sofreguidão,
me diz uma frase em italiano que eu nunca mais esquecerei: “fa’ quello che
tu vuoi com me” (“faz o que você quiser comigo”). É um apelo que ele
repete, com uma excitação crescente: “quello che tu vuoi, quello che tu
voi!”. Eu começo a acariciá-lo, a tocá-lo e ele geme como uma comporta
que se abre. Abraça-me intensamente enquanto eu afago os seus cabelos
com todo o carinho de que sou capaz. Há um misto de ternura e
promiscuidade em toda a situação, uma decadência pia, que resume o
paganismo cristão que vi por toda a Itália. O garoto começa a chupar o meu
pau, muito, sedento. Enquanto me chupa, dá em si mesmo um pequeno tapa
no rosto. Eu entendo que é um pedido e começo a esbofeteá-lo enquanto ele
me chupa. Ele adora. Eu pergunto: “ti piace, ti piace?” Ele diz: “sì, sì”. Viro
o garoto e dou muitas palmadas na sua bunda, uma bunda grande,
musculosa. Ele fica ainda mais excitado e começa a gemer. Digo a ele que
vou fodê-lo e ele me pergunta se tenho preservativo. Digo que está dentro
da mala, na sala. Vamos até lá, abro a mala, abro a necessaire, pego o
preservativo e voltamos. Mas nas duas tentativas que fazemos, não consigo
manter a ereção. Estou bêbado, muito bêbado. E cansado. Ele parece
entender e começamos a nos masturbar. Enquanto o masturbo ele chega
muito rápido a um ponto de excitação em que me diz: “sto quasi a venire”,
o que quer dizer que está quase gozando. Em meus últimos instantes em
Cefalù esse garoto italiano me ensina o vocabulário do sexo e do amor. Ele
goza e pouco depois se levanta buscando papel para se limpar. Eu digo que
tem papel higiênico sobre a mesa de cabeceira. Ele se limpa enquanto eu
continuo a me masturbar. Ele me pergunta se eu vou gozar. Percebo que ele
está doido para ir embora. Peço para ele voltar para a cama. E logo depois
gozo. Enquanto me limpo com o papel, ele se veste, apressado. E após
terminar, me pergunta: “Você está partindo?” Eu digo: “sim”. Ele então
sorri um sorriso de pura gentileza e diz: “Buon viaggio”. Sai do quarto me
deixando ainda nu. Levanto, visto-me também. O motorista chega. É um
senhor de Cefalù. Colocamos as malas no carro e partimos. Ele me diz que
devemos parar antes num lugar para tomar um café. Descemos alguns
minutos depois num bar que fica aberto a noite toda. Tomo meu último café
em Cefalù. Entramos no carro e pegamos a estrada. O senhor é calado,
quase não fala. Fumamos juntos no carro enquanto a paisagem de Cefalù à
noite se torna cada vez mais distante. Em minha cabeça, a lembrança de
Liliana e Keneth se embaralham às palavras do garoto italiano: “quello che
tu vuoi, quello che tu vuoi”.
 

 
Cláudio Oliveira
Nasceu em Duque de Caxias (RJ), em 1968. É um filósofo e tradutor suburbano, no sentido que essa
palavra tem em Nelson Rodrigues. Doutor em Filosofia pela UFRJ, é professor de Filosofia da UFF.
Como ensaísta, publicou Do tudo e do todo, ou De uma nota de rodapé do parágrafo 48 de Ser e
Tempo (uma discussão com Heidegger e os gregos) (Circuito, 2014). Realizou traduções do Íon de
Platão e do Se Parmênides de Barbara Cassin para a editora Autêntica, onde dirige a série
Filoagamben. No final de 2018, publicou, pela editora Circuito, um título inédito de Agamben no
mundo: Experimentum linguae. No início de 2019, publicou, também pela editora Circuito, o livro A
cena lenta, que reúne poemas escritos desde os anos 1990.
Jean Matos
Sem título, 2019
Jean Matos
Sem título, 2018
NATASHA FÉLIX

a cabeceira agora pertence à gisele.


era da bisavó
enterrada no cemitério areia branca em 97.
gisele, a herdeira
manda reformar o móvel e que façam pintura em pátina.
enquanto
a cabeceira inteira esconde
os cupins trabalhando
com outros cupins
democráticos
enquanto
a família inteira esconde
o nome de uma mulher
que amou outra mulher
até o verão de 97.
que deixou uma cabeceira,
(essa mulher,
jamais a outra)
alguns boletos vencidos
um corpo com tamanho exato
1,65 a serem depositados
no caixão
hermeticamente fechado
gaveta e lacre
punho e frio.
gisele tem um nome.
sua bisavó tinha a cabeceira
unhas curtas e em carne viva
ainda agora.
três tumores no estômago
iguaizinhos a mexericas
diz o médico
iguaizinhos a mexericas!
repete a família.
 
+
 
a cabeceira agora pertence à gisele.
era da bisavó
enterrada no cemitério areia branca em 96.
gisele, a herdeira
manda reformar o móvel
que façam pintura em pátina.
enquanto
a cabeceira inteira esconde
os cupins trabalhando
com outros cupins
quase democráticos
enquanto
a família inteira esconde
o nome de uma mulher que amou outra mulher
no silêncio
até o verão de 97.
deixou uma cabeceira
— essa mulher,
jamais a outra —
muitos boletos
um corpo com tamanho exato
1,62 de ossos e pele ruim
a serem depositados no caixão
perfeitamente
gisele tem nome
sua bisavó tinha a cabeceira.
unhas curtas e em carne viva
ainda agora
três tumores no estômago
iguaizinhos a mexericas
diz o médico
iguaizinhos a mexericas!
repete a família.
 

 
Natasha Félix
Nasceu em Santos (SP), em 1996. Vive em São Paulo e cursa Letras pela USP. É escritora e
educadora. Seu livro de estreia, Use o alicate agora (Macondo, 2018) está em sua quarta tiragem.
Desenvolve performances e participou de projetos como Trovadores do Miocárdio, Black Poetry e
Instrumental Poesia. Tem poemas publicados em diversas revistas digitais e físicas.
@beacorradi
Mulher sensível/sente, 2018
conjecturas
HELENA ZELIC

sabe, mariana,
existe uma investigação em curso.
acordo na hora exata em que o sol
a fugir das nuvens de carvão
produz linhas amarelas
paralelas entre si
nas paredes do meu quarto
e te encostam.
eu te encosto
como quem não quer nada.
aí na beira do oceano você
me diz para seguir em linha reta
do fim do brasil ao começo da áfrica
me lembra como é bonito pisar
no final de um país
essa torpe imaginação.
eu te lembro que a terra é redonda
que não existem linhas retas
e mesmo as paralelas, em algum ponto das galáxias
devem se encontrar.
você mensura o universo em anos luz
eu te conto a teoria das metáforas
os domínios do espaço e do tempo
você é a minha metáfora.
você me diz do seu dente torto
eu te mostro meu dente quebrado;
os ossos que vivem em nós
as raízes que fincam em nós.
você me chama de meu bem
e se assusta com as palavras,
engole seco e entorta os lábios
à uma da manhã
o dia passou rápido demais
eu te digo boa noite
deito a luz do abajur
beira aquele silêncio sepulcral
e te pergunto se acha certo colocar filhos neste mundo
você diz que sim e eu também
porque este mundo não é de deus
mas há o que brotar ainda assim
como o herbário da rosa luxemburgo
e os milhos coloridos que nascem nos andes.
você canta o apito da fábrica de tecidos
o amor ao proletariado
você canta porque sabe
que eu vou chorar de leve.
você sempre sabe,
há vinte e nove dias você sabe.
de fato,
há uma investigação em curso, mariana.
e apontamos para o céu
tardio, do horário de verão,
conjecturando
se aquilo ali que brilha
é estrela, se é planeta
ou alguma outra coisa
que a gente ainda não
descobriu o nome.
talvez um helicóptero, bem
bem parado
pra fazer troça da gente.
é só que agora acho
não devia ser direito das palavras
nos destrancar tanto assim
na exatidão das chaves
encontradas pela rua,
bruta sorte
o encaixe no espaço
entre pescoço e ombro
onde você se demora.
talvez tamanho nome,
inconstitucionalissimamente,
na verdade nem possa,
jamais, existir.
investiguemos.
 

 
Helena Capriglione Zelic
Nasceu em São Paulo, em 1995. Poeta, publicou os livros Durante um terremoto (Patuá, 2018) e
Constelações (Patuá, 2016), as plaquetes 3.255km (nosotros, 2019) e Caixa preta (Primata, 2019),
além de participar de antologias, revistas e sites. Formou-se em Letras na USP e é comunicadora. É
militante da Marcha Mundial das Mulheres, um movimento internacional feminista e anticapitalista.
@beacorradi
Compreensão, 2019
A sertransneja na cidade maravilhosa
TERTULIANA LUSTOSA

(A Marcia Mascarenhas)
 
Na cidade maravilha
A carta de mainha me chegou
O meu boi morreu
que será de mim?
manda buscar outro, mainha
lá no Piauí
Eu respondi a carta e nela disse pra mainha
Que eu era travesti
Ela chorou noite e dia
Lá na roça do Piauí
Foi então que me acalentou
“Filha, eu sempre estarei com você aqui”
Já que somos nordestinas
Já que sou mulher cabeça de cuia
Te respeito trans e correntina
Do meu povo do mato tapuia
Mas toca tua vida com cordel e poesia
Seu talento verdadeiro… me jura!
Eu jurei e fiz valer
Hoje não caço preá
nem cato mais pequi
não parto de carona pro Ceará
Mas resisto aqui fazendo poesia
Sobre ser coletivamente e sempre lutar
E sigo cantando
Na Feira de São Cristóvão
“O meu boi morreu
que será de mim?
manda buscar outro, mainha
lá no Piauí”
 

 
Tertuliana Lustosa
Nascida em Corrente (PI), e crescida em Salvador e Teresina, é pesquisadora, DJ e produtora de funk
150 BPM, professora de literatura, artista visual, cordelista e escritora. Ministra a oficina Escritos
Trans no Coart/UERJ, tendo iniciado como professora em 2015 no PreparaNemRJ, pré-vestibular
para pessoas LGBT com foco na população T. Publicou o ensaio “Manifesto traveco-terrorista” na
revista Concinnitas e o ensaio “A lenda da trava leiteira” na revista Periodicus. E também o conto “O
narrador de Xangô”, no livro Tertúlia, e organizou o livro Y (Outra Literatura, 2018). Participou das
exposições coletivas Os corpos são as obras (2017), na Despina, e A retomada da imagem será a
presença (2018), na Galeria Oriente. Sua arte e pesquisa articulam palavra escrita e oralidade, arte
contemporânea e arte popular. É graduanda no curso de História da Arte na UERJ. É redatora do site
www.outraliteratura.com.br
Guilhermina Augusti
Sem título, 2018
helenikas
CATIA CERNOV

Páris
Qe tanto amava minha buceta
Glorificava minhas tetas tatuadas
Me pedia pra empinar a bunda
Fabricou um arco
E me fez cativa
 
Como se isso provasse amor
 
A gente trepava a tardetoda
Desavergonhados
No centro de Ágora
Lá fora o exército ouvia nossos gemidos&súplicas
E parecia explodir
Como nosso-gozo
 
Rastejavamos entre suor&lama&sêmen
Me ensinou a ejacular como umamulher
Logo eu,
Tão fina dama predestinada ao rei
Tão delicada flor clássica
Urrava e jorrava na cara dele
 
Depois
Com seu pênis flácido&cansado
Ele passava horas alisando o arco
Como qem alisa minhas coxas
Como se tudo fosse amor
Aqele amor secreto à minha buceta
 
Mas havia uma promessa dguerra pros homens
Qe lá fora escutava mas não gozava
E queria tbm explodir
 
Por isso me fez cativa
Traiu nossa intimidade absurda
Nosso jogo d amantes
Nossas pernas trançadas&cúmplices
Nossos brilhantes olhos ddiamantes
 
Eu ainda dei pra ele
Por mais duas luas
Páris me amava
Me possuía
Me fazia implorar
Ele mesmo implorava
Nos olhavamos e kopulavamos
Com toda permissão ds deuses
E a testemunha ds exércitos
Qe lá fora esperava e não gozava
 
Até qe as moscas passaram a sentar
Sobre seu pênis grudento e caído
Enqanto ele fabricava uma flecha
 
Qando ele fez a flecha
Pra dar vingança aos exércitos qe ouviam e não gozavam
Minha buceta sofreu d solidão
Sabe o qe é se arrastar e pedir o qe deveria ser sincero?
Vcs sabem o qe significa pruma mulher ser carne dguerra?
Alguem faz ideia do qe sente um corpo qe goza intenso
D repente ter d se tornar apenas troféu?
 
Dói dói dói
Dói meus joelhos sem toque
Eu me agarro a eles e desespero
Como qem revive o toqe e chora pra apagar lembranças
 
Páris conduzindo exércitos
Lá fora
Aqi dentro
Eu
Qe aprendi a ser puta
Bem safada
Trepar só se for um monte
D repente cinza
Mito
Helenika
É cruel
 
Então eu fugi
E dei pro primeiro soldado faminto qe encontrei
 

 
Catia Cernov
Poeta e escritora, edita e imprime seus livros pelo seu selo Cernov Produção Independente. Também
escreve ficção científica. Publica nas revistas Caros Amigos, Alagunas e Mallarmargens. Escreve nas
estradas, viaja com seus livros entre Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pampas.
PV Dias
Sem título, 2018
da série
“Judite was online 2 minutes ago”
BRUNO DOMINGUES MACHADO

Deixa eu explicar melhor, disse o professor de física da UFRJ, logo após


acabar o almoço. Deixa eu explicar melhor. Imagine uma mulher. Uma
mulher habitante dos arredores de Nice no século XIV. Uma moradora de
um casebre modesto que ela divide com o marido, a mãe, o pai, a sogra,
dois irmãos, dois filhos e três sobrinhos. Imagina ela saindo de casa num
domingo de manhãzinha e indo à plantação onde ela ara a terra junto com o
marido, os dois irmãos e o pai, todo dia, exceto domingo. Indo a uma parte
da plantação onde existe muita terra exposta pelo arado, essa terra às vezes
úmida às vezes seca, em que tocávamos, com mais frequência, quando
crianças; imagine essa mulher do século XIV num lugar assim. Imagine ela
catando um pouco de terra com a mão. Imagine essa mulher arrancando
uma espiga de trigo do solo. Depois pegando no chão um pedaço de pano
rasgado. Por fim, desenterrando um caco de vidro da terra. Imagine essa
mulher fazendo o caminho de volta até sua casa, silenciosa. Imagine depois
ela se isolando num canto da casa, enquanto seus filhos sobrinhos sogra e
pais estão em casa fazendo cada um dezenas de atos e assumindo dezenas
de posturas habituais. Imagine ela olhando atentamente para cada uma das
coisas que ela trouxe consigo da plantação. Imagine isso por dezenas de
minutos. Depois, imagine ela olhando para as marcas do seu joelho de
camponesa. Comparando as marcas do seu joelho de camponesa com cada
uma das coisas que trouxe consigo até a sua casa. A penugem do joelho
com os fios soltos do pano rasgado, a pele grossa e enrugada do joelho com
o punhado de terra mais seco, a parte avessa do joelho com as partes mais
ocultas da trama do trigo. Imagine ela comparando tudo isso enquanto a sua
mãe fala com seu pai a sua sogra ralha com seu sobrinho o seu sobrinho
bate no seu filho a sua filha dorme, imagine ela registrando mentalmente
cada um desses acontecimentos com frases quaisquer enquanto faz as
comparações, joelho-coisas, e depois põe a mão nos seus seios. Imagine ela
apertando os seus seios, levando a mão até o ombro, deslizando através dos
pelos do antebraço, levando a mão até as costas da sua outra mão. Imagine
ela retornando a mão pelo mesmo caminho, apertando de novo os seios,
descendo a mão até as costelas, sentindo as costelas, apertando as costelas
contra o parapeito da janela, observando as marcas fugidias de sangue
pisado que o aperto das costelas contra o parapeito provocou. “Desconfie do
sangue, aquilo de que você raramente escapa”, ela pensa em voz alta.
Ninguém ouve.
 

 
Bruno Domingues Machado
Nasceu em 1983, no Rio de Janeiro. Tem graduação, mestrado e doutorado pela UFRJ. Como
ensaísta, publicou no livro Annita Costa Malufe, por nós (Azougue, 2017). Como poeta, publicou em
revistas como Mallarmargens e Garupa, e lançou em 2017 uma plaquete intitulada Breve história da
ciência, pela coleção Megamini, da editora 7letras. O fragmento publicado nesta antologia faz parte
de seu livro de poesia, lançado em junho de 2019, intitulado Passo os meses na biblioteca do ccbb
lendo livros de história natural, pela editora Patuá.
PV Dias
Vovó, 2019
eu não uso chapéu
PIETA POETA

eu tinha 10 anos de idade


quando eu tive medo da polícia pela primeira vez.
minha mãe disse: “se comporta, senão eles te pegam”.
era uma piada, claro, mas, igual a algumas pessoas autistas,
pessoas que tem disfunções cerebrais
não entendem piadas de vez em quando.
naquela noite eu dormi.
as piadas das mães negras
sempre escondem um fundinho de verdade.
meu priminho não soube se comportar. pegaram ele.
a mãe dele, uma mãe negra,
costumava contar uma piada
sobre a cabeça dele ser grande demais
pra usar chapéu. no velório dele,
a piada morreu, porque ele levou
5 tiros na cara e disseram que a cabeça dele
estava da metade do tamanho.
vocês já viram o tamanho do buraco
que a polícia deixa
quando uma pessoa preta
se recusa abaixar a cabeça?
eu vi.
tem histórias que não se conta na tv.
e, naquela época, eu tinha o peito vazio,
tinha sede. eu bebi da água
que a rua dava para encher o vazio
da minha casa. eu não vi a enxurrada
chegando. quando eu vi,
estava fundo, fundo, afundando,
eu queria me esconder, eu queria
um disfarce e deus sabe
o quanto eu quis usar a porra de um chapéu.
mas minha cabeça era grande demais
e quem tem cabeça grande nem entra
no céu. eu nunca coube nos lugares.
nós éramos um monte de cabeção, né?,
cabeça grande, fecha as portas,
portas fechadas para você ter vontade de abrir
a sua mente, um lugar bom para se estar
onde respirar não doesse. mas o racismo
é uma algema. quanto maior a cabeça,
mais fácil a mira da polícia.
era a cela ou a rua ou a rua
ou a cela ou a cela ou a rua
ou a cadeia ou a cela ou a rua
ou a morte e eu escolhi o que eu pude.
aceitei o que me ofereceram, peguei
a arma, eu falei em voz alta
que eu ia na caça, eu tinha que ver
para crer. mas as mães negras
contam piadas para ensinar
as crianças negras a sobreviverem.
me perdoa, mãe, não foi dessa vez.
eu ouvia explosões, eu sentia o gosto do ferro
do meu próprio sangue. dentro,
fazia frio, fora, tinha fumaça demais
para respirar. eu que nem fumava
estava a ponto de enfartar, minhas veias
eram as vielas, cocaína
era igualzinha meu primo andando à noite
por elas. meu coração
era minha favela, dava para ouvir os tiros.
eu vim de uma família de cabeça grande.
desculpa, eu não sei me comportar:
eu não uso chapéu.
 

 
Pieta Poeta
É artista mineira, professora, arte educadora e campeã brasileira de poesia falada (2018). Tem
diversos trabalhos na arte, das artes plásticas à performance. Como escritora publicou uma antologia
poética com o Coletivoz, do qual faz parte, e um livro autoral em 2018, além de 14 zines por conta
própria. Na música, é atualmente estudante de percussão e cantautora, mas também conta com mais
de 10 anos de história como pianista somados na força de seu trabalho autoral. Faz parte da Coletiva
Manas e do Sarau Comum em BH, movimentos que promovem a cultura Slam.
PV Dias
Escravizados armados que se rebelaram contra o Antonio de Medeiros em 1774, 2019
O último poema
LETÍCIA BRITO

A cada 3 minutos, um palhaço comete suicídio


A cada 30 segundos de rotina, 47 poetas são mortos
Cerca de 30% da população operária já foi, um dia, poeta
O genocídio de artistas pelo capital tem dados alarmantes
E confirmando as estatísticas aqui – aqui jaz um poeta
 
O poeta morreu
Foi sufocado por contas a pagar
horários a cumprir
e metas a bater
 
A rotina matou o poeta
 
Toda a sensibilidade foi congelada
e colocada em tubos de ensaio
para ser entendida por gerações futuras
 
O poeta agora pensa dentro da caixa
 
Pude ver seu corpo quase sem esperança
na porta do CCBB
rondando nas estações de metrô
esperando que algum amigo lhe oferecesse um livreto
 
mas ninguém lhe ofereceu
 
E ninguém ofereceu lugar para a poesia, já cansada, se assentar
 
O poeta a carregou por um tempo em suas costas
Teve sonhos de por ela viver
mas não suportou viver com ela
 
Ali está o corpo do poeta
estendido no chão
 
Golfadas rubras de espírito líquido
escorrem de sua boca
 
A morte do poeta é também poesia
E seu último manifesto
 
mas ninguém viu
ninguém percebeu
 
pois o corpo do antigo poeta
seguiu para o seu trabalho
 
um pouco atrasado
constrangido
sem ter como explicar
 
não há desculpas
 
o poeta se burocratizou
 
e já não se diz mais poeta
tem orgulho de ser operário
(com foco, força e fé)
cumpridor de horário
tem emprego fixo
e vai juntar seu décimo terceiro salário
pra comprar livros de autoajuda
e esquecer onde guardou seus escritos
 
talvez visite algum sarau, mas escondido
 
mas se alguém perguntar
vai dizer que poesia é chato
 
vai dizer que precisou amadurecer
vai argumentar algo sobre realidade
sobre sucesso, dinheiro e estabilidade
 
vai fingir que conhece a felicidade
 
e citar SunTsu pros desafios da vida
 
é, não é fácil se assumir suicida.
 

 
Letícia Brito
É poeta. Dedica-se à poesia falada (spoken word/poetry slam) e às microrrevoluções político-sociais
onde a poesia incinera, afaga, afeta e transforma. Em 2017, fundou o Slam das Minas RJ e
representou o Brasil no campeonato internacional Rio Poetry Slam que acontece na Festa Literária
das Periferias (Flup). Em 2018 integrou a banca avaliadora da Flup Poesia Preta, realizou oficinas
para a Rede Sesc nacional de ensino e participou do circuito Sesc Arte da Palavra. Em 2019 lançará
seu primeiro livro e segue lutando contra o fascismo com sua poesia.
PV Dias
Oficina prática de pintura de modelo morto, 2019
MARCELO DINIZ

 
Marcelo Diniz
Nasci em 1967. Meu primeiro livro de poemas, Trecho (Aeroplano e Biblioteca Nacional), é de 2002.
O meu segundo, Cosmologia (7Letras), é de 2004. Em 2019, lancei uma pequena coletânea de título
Rimas, na coleção Megamini da editora 7 Letras. O mais são traduções e canções, estas em parceria
com Fred Martins. Quanto às interrogações que perfazem os desenhos, surgiram no calor dos
questionamentos e protestos contra as medidas recentes no que tange à educação e à ameaça de
exclusão dos cursos de Filosofia e Sociologia do currículo escolar brasileiro. Como professor do
ensino médio e do ensino superior, um dos maiores ganhos que pude testemunhar foi o da qualidade
na formação dos alunos decorrente dessas disciplinas presentes nos currículos escolares na última
década.
Sobre os artistas
FERNANDO SARAIVA

Quando tive o primeiro contato com os 32 poemas que compõem esta


antologia, senti que colocar nas bancas um material tão potente é uma
verdadeira afronta a este tempo bruto em que vivemos, em que nosso
governo (com grande apoio da sociedade) parece ter virado as costas para
tudo que não seja branco, heterossexual, cisgênero, cristão e de classe
média. É como se durante o ano de 2019 uma porção enorme da sociedade
brasileira tivesse se tornado invisível e perdido o pouco da representação
alcançada nas últimas décadas. Percebi que o meu desafio como diretor de
arte era dar à forma a mesma intensidade das vozes aventadas pela poesia, e
com isso em mente fui atrás de artistas cujo trabalho tivesse forte
identificação com os temas abordados nas estrofes.
Procurei pesquisar imagens que retratassem a realidade desse pedaço do
Brasil que o novo obscurantismo se esmera em ignorar, e que tivessem
alguma identificação com o tema abordado pelo poema. Agradeço a todos
que aceitaram o convite; aqui nesta dupla você pode saber um pouco sobre
cada um deles. O resultado está em suas mãos, espero que você tenha
gostado, e que de algum jeito esta antologia tenha trazido um pouco de
poesia e arte para o seu cotidiano.
 

 
PV Dias
@palovitu
É  artista paraense. Vive atualmente no Rio de Janeiro. É comunicólogo, mestrando em ciências
sociais pela UFRRJ e em 2019 foi selecionado para ser artista-bolsista na EAV Parque Lage.
Recentemente organizou seu trabalho artístico e fez de sua pesquisa base para sua produção. Seu
trabalho atual trata da intervenção temporal dentro de narrativas coloniais e implode o colonialismo
artístico através de novos traços, cores, lugares e corpos. Interliga a estética do passado com um
presente violento, de violências raciais urbanas e desigualdades até hoje vigentes em nossos meios.
Este ano participou da exposição-manifesto Arte Naïf - Nenhum Museu a Menos, no Parque Lage, no
Rio de Janeiro.
 

 
Jean Matos
@matosjean
É graduado em design pela UnB. Seu trabalho transita entre arte contemporânea, moda, design
gráfico e de produto. Como artista visual, participou de diversas exposições em Brasília, e seus
trabalhos aparecem em publicações brasileiras e internacionais. As inquietações existenciais estão
entre as principais reflexões de suas criações.
 

 
Marcelo D’Salete
@marcelo.dsalete
É professor, ilustrador e autor de histórias em quadrinhos. Estudou Design Gráfico, é graduado em
Artes Plásticas e mestre em História da Arte. Publicou as HQs Noite Luz (Via Lettera, 2008), com
histórias urbanas envolvendo uma casa noturna; Encruzilhada (relançado em 2016 pela Veneta), que
trata de violência, jovens negros e discriminação em grandes cidades; Cumbe (Veneta, 2014,
vencedor do Eisner Awards), que aborda o período colonial e a resistência negra contra a escravidão
no Brasil; e Angola Janga: uma história de Palmares (Veneta, 2017, vencedor dos prêmios Jabuti
2018, Grampo Ouro 2018 e HQMIX 2018).
 

 
Bea Corradi
@beacorradi
Nascida em São Paulo, é uma artista autoditada. Graduou-se em Desenho Industrial pela Faculdade
Presbiteriana Mackenzie e encontrou na pintura sua forma de manifestação artística.
Sua arte aborda temas que envolvem questões femininas. Busca revelar o olhar das mulheres,
provocando a reflexão sob a dominação e repressão vivida por elas, dando abertura ao diálogo sobre
a situação em que a mulher se encontra nos dias de hoje. Em 2017 produziu murais em diversos
locais da cidade, realizou pinturas dentro das salas de aula de escolas públicas e foi convidada a fazer
um mural dentro da Fundação Casa.
 

 
Marília Marz
@mariliamarz
Nasceu em São Paulo, é arquiteta e trabalha com museografia e design gráfico. É ilustradora e
quadrinista independente, com um particular interesse por narrativas que tratem da relação entre
indivíduo, cidade e arquitetura. Sua HQ Indivisível, realizada como trabalho de conclusão de curso da
faculdade em 2017, traz uma narrativa sobre a cultura negra e oriental presentes no bairro da
Liberdade, em São Paulo. Em 2018, Indivisível ganhou o concurso de publicações des.gráfica do
MIS e, como prêmio, foram relançados 50 exemplares. Uma nova edição do trabalho foi financiada
por meio da plataforma Catarse, com lançamento marcado para setembro de 2019.
 

 
Thiago TeGui
@thiagotegui
Atua no grafite desde 2002. Inspirado pela arte de rua que via em São Mateus, periferia de São Paulo,
não demorou para explorar outros suportes e técnicas, como acrílica, aquarela e colagem. Bacharel
em Turismo e graduado em Artes Visuais, hoje atua como arte - educador e professor da rede básica
de ensino. Em 2018, começou um estudo sobre os povos indígenas do Brasil e seu processo de
extermínio desde o começo da colonização do país, refletindo sobre suas culturas e desenvolvendo
obras em técnicas variadas.
 

 
Guilhermina Augusti
@margemvisual
Paulistana, morando no Rio de Janeiro, é futura filósofa, atual pesquisadora, escritora e artista visual.
Participa do Laborátório Geru Maã: estudos de Africologia e Filosofia Ameríndia na UFRJ. Publica
suas artes no projeto Margem Visual, que tem como foco uma contraposição da lógica do natural em
relação ao gênero, utilizando a nudez como arma de reflexão. Participou do livro Antologia Trans,
São Paulo: invisíveis produções (2017), idealizado pelo Cursinho Popular Transformação, para
capacitação ao ENEM da população T, do qual foi aluna. Sua arte e pesquisa discorrem sobre a ideia
do não-natural, que contrapõe uma hegemonia de discursos sobre gênero e racialidade. É graduanda
no curso de Filosofia na UFRJ.
Curadoria e edição Alberto Pucheu
Projeto gráfico e direção de arte Fernando Saraiva
Capa PV Dias
Revisão Bárbara Prince
E-book Marcelo Boujikian
 
Participaram desta edição: André Luiz Pinto, Tatiana Pequeno, Danielle
Magalhães, Bruna Mitrano, Luiz Guilherme Barbosa, Heitor Ferraz, Diego
Vinhas, Tarso de Melo, Antônio Moura, Piero Eyben, Jarid Arraes, Heleine
Fernandes, Paulo Ferraz, Carlos de Assumpção, Cuti, Lubi Prates,
Conceição Evaristo, Nina Rizzi, Eliane Potiguara, Márcia Wayna Kambeba,
Josoaldo Lima Rêgo, Reuben, Horácio Costa, Cláudio Oliveira, Natasha
Félix, Helena Zelic, Tertuliana Lustosa, Catia Cernov, Bruno Domingues
Machado, Pieta Poeta, Letícia Brito e Marcelo Diniz (Poemas); PV Dias,
Jean Matos, Marcelo D’Salete, Marília Marz, Thiago TeGui, Bea Corradi e
Guilhermina Augusti (Arte)
 
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