MARX: FILOSOFIA E REVOLUÇÃO A filosofia de Marx é, à primeira vista, a última e a mais conseguida expressão do movimento da esquerda hegeliana que

foi a primeira reacção ao idealismo romântico e que a este mesmo idealismo contrapõe uma reabilitação do homem e do seu mundo. Mas nos próprios confrontos da esquerda hegeliana a filosofia de Marx distingue-se pelo seu carácter antiteórico e comprometido, empenhado como está em promover e dirigir o esforço de libertação da classe operária nos confrontos dessa sociedade burguesa que se havia formado após a revolução industrial do século XVIII. Ao idealismo de Hegel que, partindo da ideia, entendia justificar toda a realidade post factum, Marx contrapõe uma filosofia que, partindo do homem, se disponha transformar, activamente, a própria realidade. A acção, a "praxis" revolucionária faz parte integrante desta filosofia, que não se esgota com a elaboração de conceitos, ainda que (obviamente) não possa prescindir deles. A polêmica de Marx contra a esquerda hegeliana é ditada por esta exigência, que Marx exprimiu uma vez de forma paradoxal ao afirmar: "A filosofia e o estudo do mundo real estão entre si em relação como estão o onanismo e o amor sexual" (Ideologia tedesca, 111, trad. ital., p. 229). O "estudo do mundo real" não tem nada a ver como o "mundo das ideias puras": deve tomar em consideração a realidade efectiva ou, como afirma Marx, "empírica e material" do homem e do mundo em que ele vive. Marx prevê (ou pressente) o tempo em que a "ciência natural compreenderá a ciência do homem como a ciência do homem compreenderá a ciência natural", e em que "não haverá senão uma única ciência" (Manoscritti economico-filosofici del 1844, 111, trad. ital., p. 266). Mas aquilo que poderemos chamar a sua "filosofia" é constituído substancialmente por uma antropologia, por uma teoria da história e por uma teoria da sociedade; esta última partindo da redução da própria sociedade à sua estrutura econômica não é senão uma teoria econômica. Depois da publicação das obras de juventude (o que se verificou à volta de 1930) e que tornou possível um melhor conhecimento das primeiras duas partes da sua filosofia, a influência desta filosofia começou a ser cada vez mais extensa e profunda mesmo fora dos movimentos políticos que nela tiveram origem e que a consideraram frequentemente mais como um instrumento definitivo de luta do que uma via aberta para ulteriores desenvolvimentos. MARX: VIDA E OBRAS Karl Marx nasceu em Treviri a 15 de Maio de 1818. Estudou na Universidade de Bona e depois em Berlim, onde se torna um hegeliano entusiasta; formou-se em filosofia em 1841 com uma tese sobre a Diferença entre a filosofia da natureza de Demócrito e a de Epicuro. Renunciando à carreira universitária, Marx dedicou-se à política e ao jornalismo. Colaborou na "Gazeta renana" que foi o órgão do movimento liberal alemão. Uma vez suprimido o jornal, Marx, cujas ideias haviam entretanto evoluído do liberalismo para o socialismo, colaborou numa revista, os "Anais francoalemães", que foi também proibida. Em 1843 dirige-se a Paris onde permanece até 1845, colaborando no órgão dos refugiados alemães o "Avante". Obrigado a ausentar-se de Paris, passa a viver em Bruxelas (de 1845 a 1848) e em 1848 publicava com Engels, a quem se tinha ligado de grande amizade em Paris, o Manifesto do partido comunista que assinalou o início do despertar político da classe operária e levou o socialismo do domínio utópico à realização histórica, dando à classe operária o instrumento que deve promover e solicitar a evolução da sociedade capitalista no Sentido da própria negação. Os acontecimentos de 1848 levaram Marx a Colónia e a Paris; mas em 1849 estabelecia-se com a família em Londres, onde continuou a inspirar e a dirigir o movimento operário internacional e onde faleceu a 14 de Março de 1883. Os trabalhos filosoficamente mais significativos de Marx são os seguintes: Crítica da filosofia do direito de Hegel, escrito em 1843 e cuja introdução foi publicada em

actividade revolucionária. Aquilo que Marx pretendeu realizar. "Quem foi que descobriu o mistério do "sistema"? Feuerbach. Quem negou a dialéctica do conceito. I?) até agora limitaram-se a interpretar o mundo. Produzindo os seus meios de subsistência. essa guerra dos deuses que só os filósofos conheciam? . dirigida contra Feuerbach. contra a obra de Proudhon.Paris em 1844 nos "Anais franco-alemães". trad. essência que surge das suas relações privadas consigo próprio. brevíssimo. abrem a via àquilo que Marx chama o novo materialismo. I. da sensibilidade. como também não se agarra ao aspecto positivo. pois só se descobre o ser do homem nas suas relações exteriores com os outros homens e com a natureza que lhe fornece os meios de subsistência. mas importante trabalho. vols. que se opõe ao velho materialismo especulativo ou contemplativo. p. Economia e filosofia. pelo contrário. os homens produzem indirectamente a sua própria vida material" (Ideologia alemã. 17). Quem foi que apresentou não "o significado dos homens" . Crítica da economia política (1859). escrita em 1845-46. Mas Marx não se agarra a este aspecto negativo da filosofia de Feuerbach. que é a valorização das necessidades. vol. 1895). a personalidade real e praticamente activa do homem é apenas aquela que se resolve nas relações de trabalho em que o homem se encontra. não através da especulação da acção criticamente iluminada e dirigida. II e III. O Capital. por tudo aquilo que se quiser. na totalidade dos seus aspectos. ital. de certo modo. pela consciência. 1867. é através do trabalho. como relação activa com a natureza.como se o homem pudesse ter outro significado além de ser homem mas "os homens" no lugar do velho xaile com que se embrulhava a autoconsciência infinita? Feuerbach e só Feuerbach" (Sagrada família. A miséria da filosofia (1847). O ponto de vista do novo materialismo é o de uma praxis revolucionária (Ib. como em muitos dos jovens hegelianos alemães. publicados postumamente por Engels (1885. mantido inédito e só publicado postumamente. neste sentido. Teses sobre Féuerbach. mantido inédito e publicado postumamente. não apenas na sua obra de filosofia e de economista. afirma Marx. "Podemos distinguir os homens dos animais. um progresso que foi condicionado pela sua organização física. o homem alcança a solução dos seus problemas. escrita em colaboração com Engels. feita já por Feuerbach. pela religião. Bruno Bauer e Stirner. do homem existente. escrito em 1845 e publicado postumamente por Engels. "Este modo de produção não se deve julgar apenas enquanto reprodução da existência física dos indivíduos.. em abstracto. MARX: ANTROPOLOGIA O ponto de partida de Marx é a reivindicação do homem. Ora estas relações não são determináveis de uma vez para sempre porque são historicamente determinadas pelas formas de trabalho e de produção. Ora esta interpretação só é possível se no homem deixar de se reconhecer uma essência determinável de uma vez por todas. escrito em 1844.Feuerbach. Gesamtausgabe. . na sua interioridade ou consciência. mas os homens começaram a distinguir-se dos animais quando começaram a produzir os seus meios de subsistência. afirma Marx (Teses sobre Feuerbach. 3?). Por conseguinte. Feuerbach fechou-se numa posição teórica ou contemplativa: ignorou o aspecto activo e prático da natureza humana que se constitui e realiza apenas nas relações sociais. já não contempladas. Por outras palavras. Ideologia alemã. traduz-se numa interpretação do homem e do seu mundo que fosse simultaneamente compromisso de transformação e. p. criador de si próprio. 265). e dirigida contra Bruno Bauer e os seus amigos hegelianos de esquerda que tinham erigido a guia da história o "poder critico da razão". da materialidade do homem. transformá-lo". ele é também um modo determinado da actividade de certo indivíduo. Só estas relações. A sagrada família ou crítica da crítica crítica (1845). como capacidade de expressão ou de realização de si. A filosofia da miséria. que o homem é. de agora em diante é preciso. 111. "Os filósofos. mas realizadas e compreendidas na sua realização histórica. Engels partilha do entusiasmo que a obra de Feuerbach tinha suscitado nele e em Marx. como também na própria actividade política. e criador não apenas da sua "existência material" mas também do seu modo de ser ou da sua existência específica..

que se presta melhor ao condicionamento dessas manifestações mas que. de uma liberdade infinita porque a produção está sempre relacionada com as condições materiais e com as necessidades já criadas. ital. com os seus interesses e a sua ciência. Nas relações de produção. insere-se o homem na sua totalidade. que elas determinam. ou então. o homem pode referir-se a si como natureza universal ou genética e assumir a consciência de si.um modo determinado de tornar extrínseca a sua vida. Acontece que estas formas continuam por vezes a sobreviver mesmo quando se esboçaram novas forças produtivas que tendem a destruí-las e a suplantá-las com novas formas.. pp. têm relações entre si. autocondicionante. O desenvolvimento das forças produtivas desenrola-se de modo diverso. "Como em todos os estádios. o homem sabe produzir segundo a medida de todas as espécies e sobretudo sabe conferir ao objecto a medida inerente e criar também segundo as leis da beleza" (Manuscritos económico-políticos de 1844. mas como "espécie ou natureza universal". não tanto como indivíduo. podem produzir a sua vida material e aquilo que com ela está ligado. forma que até certo ponto condicionou as manifestações pessoais dos indivíduos. não na sua interioridade ou consciência. 230-3 1). a actividade humana é simultaneamente condicionada e condicionante e. uma manifestação. uma condenação que recai sobre o homem: são o próprio homem. Deste modo a natureza passa a ser "o corpo inorgânico do homem". quando a forma assumida pelas relações de produção. enquanto o animal produz apenas imediatamente e sob o domínio da necessidade "o homem produz mesmo quando é livre da necessidade física e só produz verdadeiramente quando se encontra livre de tal necessidade". enquanto o animal "produz apenas segundo a medida e a necessidade da espécie a que pertence. surge como um obstáculo a tais manifestações. segundo Marx. Como os indivíduos exteriorizam a sua vida. por conseguinte. essas são. trad. Com efeito. 70-71). existentes em situações determinadas. são condições que pertencem à sua individualidade e não a qualquer coisa de exterior a eles próprios: são condições sob as quais apenas esses indivíduos determinados. ou a produção de bens materiais. a sua história é portanto a história das forças produtivas que se desenvolvem e que são retomadas por uma nova geração. 70). das relações sociais e da consciência que as reflecte. poderá tornar-se um obstáculo e ser igualmente substituída. da capacidade humana de criar a própria forma de existência específica. O ser humano é o que é na sua exterioridade. na determinação da existência historicamente condicionada. religioso. Não se trata. Com efeito. um modo de vida determinado. a iniciativa respeitante a tais relações é. certamente. a única manifestação da liberdade humana. em última análise. determina o desenvolvimento das formas institucionais correspondentes. até ao momento em que não surge ainda a contradição. A produção e o trabalho não são. no próprio interior do grupo. a relação entre as forças produtivas dos indivíduos e as formas. "As condições sob as quais os indivíduos. com as suas necessidades e com a sua razão. que são relações dos homens entre si e com a natureza. não rígida.). Nas relações produtivas. "haver indivíduos com um desenvolvimento . segundo Marx. filosófico. alemã. por conseguinte. Marx entendeu de forma articulada. por sua vez. p. o seu modo especifico de ser ou de se fazer homem. e de modo bastante desigual. O trabalho é portanto. mas insere-se na sua situação prática e activa. de acordo com a diversidade dos povos ou grupos humanos. por conseguinte. como "consciência": uma vez que a consciência (como veremos em breve) é o reflexo da sua actividade produtiva. estas condições correspondem ao desenvolvimento contemporâneo das forças produtivas. acaba por ser substituída por uma outra forma. assim são" (Ib. segundo Marx. e só lentamente. e estas condições actuam como factores limitativos em qualquer fase da história. as condições das suas manifestações pessoais e por estas são produzidas" (Ideol. Mas trata-se de um condicionamento que não é exterior mas interior aos próprios indivíduos humanos. enquanto se manifesta ou actua no trabalho – na sua posição de contemplativo teórico como homem moral. deste modo também. pp. é portanto a história do desenvolvimento das forças dos próprios indivíduos" (Ib.. e. na relação activa com a natureza e com a sociedade que é o trabalho.

mas os indivíduos por sua vez condicionam-se promovendo a sua transformação ou o seu desenvolvimento.. os pontos principais da antropologia de Marx: 1) Não existe uma essência ou natureza humana em geral.. A sua manifestação de vida . como na América do Norte. Isto quer dizer que a redução. chegou à conclusão de que "tanto as relações jurídicas como as formas do estado não podem ser compreendidas nem por si próprias nem pela chamada evolução geral do espírito humano. como autoridade. Este pressuposto é o reconhecimento de que a história é feita por "seres humanos vivos" que se acham sempre em certas "condições materiais de vida" que já encontraram existentes ou produziram com a sua própria acção (Ideologia alemã. do materialismo histórico. seguindo o exemplo dos ingleses e dos franceses do século XVIII. p. "A morte. 111. pref. Ele próprio afirma que. e a realização do humanismo da natureza" (Ib. p. e que a anatomia da sociedade civil deve ser procurada na economia política" (Para uma crítica da economia política. trad. que são produtos sociais.. como ser vivo. "0 indivíduo é um ser social. afirma Marx. é a própria sociedade. mesmo antes dessas formas de relações se haverem imposto aos outros países" (Ib. Tudo isto não serve senão para demonstrar. é a total consubstanciação do homem com a natureza. p. nem o determinismo rigoroso de tais formas sobre a estrutura dos indivíduos singulares. a verdadeira ressurreição da natureza. de modo a que nas lutas de um período posterior possa haver apoio. afirma Marx. do ser do homem) às relações sociais. o carácter social do homem. Na base deste pressuposto Marx avança a tese fundamental da sua doutrina da história: o único sujeito da história é a sociedade na sua estrutura econômica. está em relação. Marx insiste no carácter "empírico" do pressuposto em que se baseia. 260). só se humaniza na sociabilidade tornando-se um elo entre cada homem e o fundamento da existência comum. do indivíduo (ou seja. ital. a consciência ou espírito absoluto. sob a designação de "sociedade civil". o seu objectivo. a Ideia. 260). p. na revisão crítica da filosofia do direito de Hegel. p. "A sociedade. 10). p. . p. 259). segundo Marx. a actividade científica) não são menos sociais que as actividades colectivas públicas: não só porque adoptam instrumentos.. As mesmas actividades individuais (por exemplo. 261). com a qual todo o homem. realizada em conjunto com as outras é uma manifestação e uma afirmação de vida social" (Ib. Aquilo que distingue o indivíduo é simplesmente o seu modo mais especifico ou mais particular de viver a vida do gênero humano. 17). a pessoa humana existente. 2) O ser do homem é sempre historicamente condicionado pelas relações em que o homem entra com os outros homens e com a natureza. pelo contrário. 4) O indivíduo humano é um ser social. afirma Marx. Marx formulou esta tese em oposição polêmica com a doutrina hegeliana segundo a qual o sujeito da história é. correspondentes a estes indivíduos. a consciência surgir mais avançada no que respeita à situação empírica contemporânea. Noutros casos. cuja complexidade Hegel assume. A própria natureza. 71). "Tal como a sociedade produz o homem enquanto homem.ainda que não surja como forma de uma manifestação de vida comum. o processo do desenvolvimento inicia-se "com os indivíduos mais evoluídos dos velhos países e portanto como forças de relações mais desenvolvidas. I. trad. também ela é produzida por ele" (Manuscritos económico-políticos de 1844.diverso do todo".. operada por Marx. da forma seguinte. Talvez possamos agora recapitular. em teóricos anteriores" (Ib. p. mas também porque o seu fim. MARX: O MATERIALISMO HISTÓRICO A terceira tese é o fundamento da concepção marxista da história. não implica de forma alguma a dissolução do próprio indivíduo em formas já realizadas de tais relações. surge como uma dura vitória do gênero sobre o indivíduo e uma contradição da sua unidade. a realização do naturalismo do homem. ital.. pelas exigências do trabalho produtivo. mas o individuo determinado é apenas um ser determinado e como tal mortal" (Ib. 7 1). ou seja. 3) Estas relações condicionam o indivíduo. ou. mas têm as suas raízes nas relações materiais da existência.. por exemplo a linguagem. em geral.

A dependência das ideias dominantes da classe dominante surge obliterada ou oculta. trad. e por isso também o único elemento que se autodetermina. mors immortalis" (Miséria da filosofia. Existe um movimento continuo de acréscimo nas forças produtivas. resolvendo-se na autoconsciência ou transformando-os em espíritos. da religião. 11. Marx insiste continuamente no facto de que "os próprios homens que estabelecem as relações sociais de acordo com a sua produtividade material. Segundo este ponto de vista. 44). Segundo este ponto de vista. as categorias. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser mas é.. as ideias. e também da história. os homens entram em relações determinadas.. 10.. 34). deve assim "dar às próprias ideias a forma da universalidade e representá-las como as únicas racionais e universalmente válidas" (Ib. explica a formação das ideias partindo da praxis material e assim consegue chegar à conclusão de que "todas as formas e produtos da consciência podem ser eliminados. Uma verdadeira teoria da história não explica a praxis partindo das ideias. da filosofia e de qualquer outra teoria" (Ideologia alemã. não mediante a crítica intelectual. tais ideias não são mais que "a expressão ideal das relações materiais dominantes. p. o seu ser social que determina a sua consciência" (Ib. ital.Mais precisamente. a religião. afirma. trad. São produtos históricos e transitórios. Com efeito. O conjunto destas relações constitui a estrutura econômica da sociedade. a moral. as relações materiais dominantes tomadas como ideias".. não têm desenvolvimento. I. em relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das suas forças positivas materiais. independentes da sua vontade. da vontade em si e por si". 23). de imutável não existe senão a abstracção do movimento. e que. o seu pensamento e os produtos do seu pensamento. transformam. ideias ou "fantasmas" semelhantes da mente para explicar a história significa inverter o seu processo efectivo. a base real sobre a qual se ergue uma superstrutura jurídica e política e à qual correspondem formas determinadas da consciência social. trad. o processo social. com tudo o que a constitui. Todas estas coisas. p.11). e em segundo lugar ao facto de que toda a classe que assume o poder deve representar o seu interesse como interesse comum de todos os membros da sociedade. ital. etc.. não fez mais que transformar "os interesses materiais e a vontade condicionada e determinada por relações materiais de produção" da burguesia contemporânea em "autodeterminações puras da livre vontade. político e espiritual da vida. "Não é a critica mas a revolução a força motriz da história. p. Utilizar categorias. mas só através da transformação prática das relações sociais existentes. portanto. fazer da sombra a explicação das coisas. p. de acordo com as suas relações sociais. 1. O modo de produção da vida material condiciona. pp. de que derivam essas mesmas fantasias idealistas". a tese surge apresentada da seguinte forma: "Na produção social da sua existência.. necessárias. Por "superstrutura" Marx entende. a metafísica.. de formação das ideias. no interior da classe. as ideias que dominam numa época histórica são as ideias da classe dominante: " A classe que tem o poder material dominante da sociedade é ao mesmo tempo a que tem o poder espiritual dominante" (Ib. é a estrutura econômica da sociedade. 43). isto é: em . quando são as coisas a explicação da sombra. devido ao facto de essas próprias ideias serem elaboradas. juntamente com esta sua realidade. mas a vida que determina a consciência" (Ideologia alemã. o único elemento determinante da história. por exemplo. 1. ital. com base na antropologia. mas. pelo contrário. Kant. estas categorias. Assim estas ideias. fantasmas ou espectros. Não é a consciência que determina a vida. pelos "ideólogos activos" cujo objectivo é o de promoverem a ilusão da classe sobre si própria. são tão eternas como as relações que exprimem. e todas as formas ideológicas e as formas de consciência correspondentes. pelo contrário. de destruição nas relações sociais. produzem também os princípios. enquanto que a superstrutura. além das formas do direito e do estado. "não têm história. em primeiro lugar. mas os homens que desenvolvem a sua produção material e as suas relações materiais. é uma espécie de sombra ou reflexo da estrutura e só de forma indirecta participa da sua historicidade. 89). ou seja. p. em geral.

Um indivíduo cujas circunstâncias apenas permitem desenvolver uma qualidade à custa de outras terá um desenvolvimento unilateral e mutilado. através da moral. trad. Com efeito. Com esta formação social encerra-se portanto a pré-história da sociedade humana" (Ib. e portanto da história geral. resolúvel apenas através da transformação da estrutura econômica da sociedade. trad... se tornaram indivíduos abstractos.. é constituída pela relação entre as forças produtivas e as relações de produção (as relações de propriedade). ital. A moda desta história. trad. No entanto. produz uma dilaceração interna na personalidade humana. 111. Como se disse..caso sinta a necessidade de pensar . afirma Marx. unificada e livre. Um indivíduo que tenha com o mundo relações múltiplas e activas será.. Quando as forças produtivas alcançam um certo grau de desenvolvimento entram em contradição com as relações de produção existentes. antigo. A sociedade capitalista. podem ser designados como épocas que marcam o progresso da formação econômica da sociedade" (Para a crítica da economia política. O trabalho. Mas as forças produtivas que se desenvolvem no seio da sociedade burguesa criam ao mesmo tempo as condições materiais para a solução deste antagonismo. no seio da velha sociedade. Entra-se então numa época de revolução social. o progresso da natureza humana não é um problema puramente individual ou privado. p. mas é um problema social.. MARX: O COMUNISMO Se o homem. Em qualquer caso. O comunismo apresenta-se então como a única solução para o problema do homem porque é a única solução que faz depender a realização de uma personalidade humana. ital. É evidente que.. Mas na verdade. deixou de lhes permitir a ilusão de poderem manifestar-se pessoalmente e limita-se a dar-lhes o sustento a troco de uma vida . as novas relações de produção entram em acção quando se encontram amadurecidas. Marx admite no entanto que este progresso se encontra dirigido para uma forma final e conclusiva: "As relações de produção burguesas são a última forma antagónica do processo de produção social. que deixam por isso de ser condições de desenvolvimento para se transformarem em condições de estagnação. resolúvel por via de um aperfeiçoamento espiritual. só a estrutura econômica da sociedade tem. que dividiu distintamente capital e trabalho. p. as "prédicas moralizantes" não servem para nada (Ideologia alemã. ital."determinações ideológicas puramente conceptuais e em postulados morais" (Ib. 11-12). ainda que colocados na situação de se aliarem entre si.). as condições materiais da sua existência. Um indivíduo que vive num ambiente restrito e imóvel apenas será capaz . originada pela divisão do trabalho. segundo este ponto de vista. da religião ou da filosofia. capaz de um pensamento universal e vivo. nesta sociedade as forças produtivas são completamente separadas dos indivíduos e constituem um mundo independente. feudal e burguês moderno. Marx acentuou com frequência as características daquilo que é hoje um dos teoremas mais estruturados no campo da psicologia social: a intima conexão da personalidade humana com o ambiente social. III. segundo este ponto de vista. Marx admite a este propósito o progresso incessante da história: "Os modos de produção asiático. propriamente. de uma transformação da estrutura social que condiciona a própria personalidade.de um pensamento abstracto que lhe servirá de evasão ao seu desolado quotidiano. privados de qualquer conteúdo de vida. pelo contrário. pp. como ser social. pp. 11). Pref. 189-190).. a sua natureza e o seu desenvolvimento dependem das formas assumidas por tais relações. 255 e segs. que é o único modo em que os indivíduos podem ainda querer entrar em relação com as forças produtivas. uma formação social só se extingue quando se tiverem desenvolvido todas as forças produtivas a que pode dar lugar. o da propriedade privada. história. é constituído por relações de produção. A estas forças se contrapõe a maioria dos indivíduos que. depois da "pré-história" não será a "história" o progresso futuro: uma vez que deixa de existir a única mola para tal: a contradição entre as forças produtivas e as relações econômicas.

257). após um longo trabalho de parto. resolvendo a favor desta toda a complexidade das forças naturais. 47). p. trad. sendo por um lado incapaz de assegurar a existência dos trabalhadores assalariados. O trabalho passa então a ser actividade autónoma. a afirmação e a vitória do comunismo estão condicionados pelo desenvolvimento económico. p. uma utopia que se contraponha à realidade histórica e pretenda dirigi-Ia no sentido que pretende. 260). Roma. Por um lado. como homem social. como homem humano" (Manuscritos económicofilosóficos de 1844. a sociedade. elimina a frustração que este veio trazer à estrutura social e à personalidade dos indivíduos. o autêntico. e a cada um segundo as próprias necessidades" (Para a crítica do programa de Gotha. será inevitável uma certa desigualdade entre os homens. de um movimento histórico que se vai desenvolvendo sob os nossos olhos". Afirma Marx: "Este comunismo na medida em que nega a personalidade do homem.. Faz parte deste comunismo a substituição do matrimónio pela comunhão de mulheres. este submeter a realização da exigência humana do comunismo apenas ao desenvolvimento da estrutura econômica da . instituindo a solidariedade no trabalho comum.. chamamos ressentimento. da sociedade capitalista.. Esta realização será possível de forma gradual. 65). Assim realiza a naturalização do homem e a humanização da natureza (Ib. Marx afirmou energicamente que a classe operária "não tem que realizar qualquer ideal" (A guerra civil em França. que se torna uma força. uma vez que a mulher passa a ser propriedade comum. O comunismo não pode ser um dever ser. ital. por outro reúne esses mesmos trabalhadores na grande indústria e com isso cria uma força que está destinada a destruí-Ia. Marx distingue o comunismo grosseiro que não consiste na abolição da propriedade privada mas na atribuição da propriedade privada à comunidade e na redução de todos os homens a proletários. do capital. a qual. Eles não são mais que expressões gerais das relações efectivas de uma luta de classes já existentes. E no Manifesto do partido comunista escreveu: "Os enunciados teóricos dos comunistas não se baseiam em ideias ou princípios que tenham sido inventados ou descobertos por este ou por aquele reformador do mundo. suprime a oposição entre os homens. 111. 1907.. É a própria burguesia que produz os seus coveiros. em inveja e desejo ardente de nivelamento" (Ib. 258). Mas deste comunismo. em particular uma desigual retribuição com base no trabalho prestado. é apenas a expressão consequente da propriedade privada que é a sua negação. um ideal. ital. p. p. trad. a este aspecto ilustra o carácter degradante desta forma de comunismo porque é precisamente na relação entre o homem e a mulher que melhor se manifesta o grau em que o homem realizou a sua própria humanidade (Ib. Por isso o comunismo surge como "o integral e consciente regresso do homem a si próprio. Numa primeira fase da sociedade comunista salda. Trata-se de uma expressão daquilo que hoje. "poderá escrever na sua própria bandeira: A cada um segundo a sua capacidade. pelo menos em relação à propriedade mais rica. O fim da sociedade capitalista e o advento do comunismo deverse-ão ao desenvolvimento inevitável da própria economia capitalista. com o desaparecimento da divisão do trabalho e por conseguinte do contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual e quando o trabalho se tornar não apenas um meio de vida. mas uma necessidade da vida e as forças produtivas tiverem alcançado o seu desenvolvimento. "uma manifestação de inferioridade da propriedade privada que pretende colocar-se como comunidade positiva" (Manuscritos económico-filosóficos de 1844. O comunismo. afirma Marx. como se disse. 256). segundo Marx.. o instrumento da solidariedade humana. pessoal do homem. 1. A inveja geral. trad. 111. o aparecimento.sem a menor alegria (Ib. p. p. Este comunismo é.. Esta eliminação total do elemento ético. suprime a oposição entre a natureza e o homem. depois de Nietzsche e Scheler. p. ital. Mas. Só numa fase elevada da sociedade comunista. 257). 1875).. é apenas a forma oculta onde a cupidez se instala e se satisfaz duma outra forma: o pensamento de toda a propriedade privada como tal transforma-se. por outro. conseguindo a supressão da propriedade privada.

afirma Marx. 1. pagando-a. O que acontece é que ele compra ao assalariado a força de trabalho. A sociedade capitalista será destruída pela sua própria contradição interna: pela contradição das forças produtivas que. 24. que foram contrariadas pelo ulterior desenvolvimento da economia política. em certa altura. que é o fenômeno fundamental da sociedade burguesa (0 Capital. a que dedicou a sua obra principal. O Capital. que seria totalmente negado quando se admitisse que uma qualquer ideologia (entre elas. com a fatalidade que preside aos fenômenos da natureza". que é aquela parte do valor produzido pelo trabalho assalariado de que o capitalista se apropria. 1. sem todavia ser dela dependente quanto à sua estrutura e aos seus pontos principais. com base naquilo que é necessário para o sustento do operário e da sua família (que representa a força de trabalho futura). as quais.sociedade capitalista. levando à expropriação dos expropriadores. a certa altura terá de produzir a sua própria negação. pressupõe a filosofia da história de Marx. estariam prontas e preparadas para a expropriação da exígua minoria capitalista e para assumir todas as funções e poderes sociais. Como é evidente. na qual Marx reuniu e levou a cabo todas as suas investigações no campo da economia. (Cap. Deste modo se torna possível o fenômeno da mais-valia. e a lei da miséria progressiva do proletariado. não pode ser compreendida isoladamente. sendo negação daquela propriedade privada que é corolário do trabalho independente. 3). § 7) gera a sua própria negação. a produção do dinheiro através do dinheiro. relação que é fundamental para a compreensão da personalidade histórica de Marx. Esta obra. com base na quantidade de trabalho que chega para produzi-la. Mas. se o capitalista correspondesse ao assalariado com o produto total do seu trabalho. depois de haverem procurado desenvolver as suas máximas possibilidades e alcançar o máximo incremento do capital. como alienação. como se paga outra qualquer mercadoria. "A produção capitalista. O materialismo histórico afirma que nenhuma mutação social se verifica por acção de uma ideologia ou de um ideal utópico porque a ideologia não faz mais que exprimir relações sociais historicamente determinadas. o comunismo) pudesse nascer e realizar-se independentemente da estrutura econômica da sociedade ou contra ela. toda a validade do comunismo como ideologia política depende da demonstração da tese de que tal será o desembocar inevitável do desenvolvimento da sociedade capitalista. se verificaria o nivelamento na miséria de todas as classes produtivas. Marx defende esta tese apresentando uma rica e minuciosa análise do nascimento da moderna sociedade capitalista. correspondentemente à acumulação do capital. especialmente nas suas obras de juventude. Marx fora buscar este . A discussão destas teses econômicas. pela qual. E a mais valia torna possível a acumulação capitalista. Marx parte do principio de Adam Smith e de Ricardo de que o valor de um bem qualquer é determinado pela quantidade de trabalho necessário à sua produção. não teria para si qualquer margem de lucro. Basta ter assinalado essa característica para ficar esclarecida a relação entre a filosofia e a doutrina econômica marxista. O Capital pretende demonstrar que o comunismo exprime as relações sociais que se vão formando na sociedade capitalista e que portanto ele será o desembocar inevitável do desenvolvimento dessa sociedade. MARX: A ALIENAÇÃO A condição do homem na sociedade capitalista foi caracterizada por Marx. entram em conflito com esse objectivo e rompem com o invólucro capitalista. e compreende-se porque é que Marx se sentia permanentemente empenhado na demonstração desta tese. pela qual a riqueza tenderia a concentrar-se em poucas mãos. ou seja. excede os limites da presente obra. Por essa razão. E dirige esta análise no sentido de demonstrar as duas teses fundamentais que deveriam justificar o comunismo do ponto de vista do materialismo histórico: a lei da acumulação capitalista. é a consequência inevitável do materialismo histórico. em razão dessa exigência. Deste modo a produção capitalista.

afirma Hegel. o homem real ou existente. existe também o outro momento pelo qual ela se limitou e chamou em si mesma essa alienação e objectividade. entre o indivíduo e o gênero" (Ib. permanecendo portanto dominada por si no seu ser-outro como tal. 242).. "Não é o operário que utiliza os meios de produção. com efeito. a coisidade: dai que essa alienação tenha um significado não apenas negativo mas também positivo e isto não só para nós ou em si mas também para a Autoconsciência. a totalidade dos seus momentos" (Fenomenologia do espírito. aquela em que Marx mais insistiu. a propriedade privada aliena o homem de si porque o transforma de fim em meio. o homem com o carácter de mercadoria. lX... ital. Em primeiro lugar. pp. portanto uma realidade estranha" (Ib. p. A propriedade privada. em fins a que fica subordinado o próprio homem. E por outro lado. sendo a sua manifestação de vida a sua expropriação de vida e a sua realização a sua privação. e o processo vital do capital consiste no seu movimento de valor que se valoriza a si próprio" (Capital. com efeito. um objecto estranho e desumano. 339). ou. Para esta. afirma Marx. a mercadoria humana. ed. segundo Marx. ital.. é a cisão ou a dilaceração que ela produz no próprio ser humano. a verdadeira solução do conflito entre a existência e a essência. entre liberdade e necessidade. e a alienação não é figura especulativa mas a condição histórica em que o homem acaba por se descobrir nos confrontos da propriedade privada e dos meios de produção. p. o sujeito da alienação não é a autoconsciência que. em razão da incindível unidade do ser-por-si coloca o objecto como se fosse ela própria. determina a noção de uma "essência humana" universal e abstracta. por um lado. é apenas a expressão sensível do facto de o homem se tornar objectivo em relação a si próprio. p. É este o erro. a afastá-lo das suas relações com eles e. transforma os meios de produção de simples instrumentos e materiais da actividade produtiva humana. são eles que o consomem como fermento do seu processo vital. porque sabe qual a nulidade do objecto uma vez que. "A propriedade privada. trad. A característica mais grave desta alienação. por isso. o homem é constituído por relações de produção que são relações com a natureza e com os outros homens. entre objectivação e afirmação objectiva. "A produção produz o homem não só como mercadoria. se aliena a si próprio. ital. 261). especialmente nas obras de juventude. 1. Por outras palavras. é um conceito abstracto e fictício. VIII. em lugar de surgirem consumidos por ele como elementos materiais da sua actividade produtiva. deste modo. enfraquecendo e obliterando o sentido concreto da relação do homem com o objecto (natureza e sociedade). p. 602-03). de acordo com este carácter. privada de qualquer relação com o próprio objecto: . trad. coloca. cap. Ao contrário. na forma que assumem por efeito da propriedade privada. segundo Marx. p. "A alienação da Autoconsciência. trad. Nas mãos de Marx esta noção transforma-se completamente. estas relações. ou seja. 258). nesta alienação coloca-se a si própria como objecto. Como vimos. ital. de pessoa em instrumento de um processo impessoal que o domina sem olhar às suas exigências e às suas necessidades. e não assumindo o conteúdo do homem como sua verdadeira realidade" (Crítica da filosofia hegeliana do direito. afirma Marx. 111. tendem a cindir-se e deste modo a cindirem o homem da natureza e dos outros homens. são os meios de produção que utilizam o operário. 114). é "a real apropriação da essência humana por parte do homem e pelo homem" e portanto "a verdadeira solução do contraste entre o homem e a natureza e os outros homens.conceito a Hegel que o tinha utilizado nas últimas páginas da Fenomenologia para ilustrar o processo pelo qual a Autoconsciência coloca o objecto.. Este é o momento da consciência que é. mas o homem. mas produ-lo. se coloca a si própria como objecto e assim se aliena de si para em seguida regressar a si própria. Assim entendida a alienação. como condição histórica do homem na sociedade capitalista. trad.. Glockner. o negativo do objecto ou o auto-limitar-se deste último tem um significado positivo. consigo próprio. como um ser desumano quer espiritual quer fisicamente" (Manuscritos económico-filosóficos de 1844. o comunismo na medida em que é "a efectiva supressão da propriedade privada como auto-alienação do homem". por conseguinte. de toda a civilização moderna: que "separa do homem o seu ser objectivo como se fosse um ser meramente exterior ou material.

a alienação de que fala Hegel é. a sua lógica na expressão popular. degradando-se a si próprio até transformar. que um ser vivo. afirma Marx. 151). faz-se do "mundo empírico um mundo simplesmente pensado ou representado. Mas é igualmente claro que uma autoconsciência.. se desaposse dos objectos naturais e reais do seu ser. uma vida no céu outra na terra. trad. 303). 301). juntamente com a de alienação.... também a supressão da alienação é o regresso do ser homem à sua objectividade natural. portanto. segundo Marx. Não existe nisto nada de inconcebível ou misterioso. espirito ou consciência. o seu entusiasmo. considerando os outros homens como meios. ou seja. ou melhor. o seu completamento solene. Deste modo o homem "é subtraído à vida real e individual e surge transformado numa universalidade irreal": consequência da própria alienação (A questão judaica. sob este aspecto.. portanto. e na Introdução à Crítica da filosofia do direito de Hegel. segundo Marx. uma coisa de abstracção e nenhuma coisa real" (Ib. "Parece de todo óbvio. 1). a uma objectividade que é ao mesmo tempo natural e humana (Ib. munido e dotado de forças essenciais objectivas. materiais. "A religião. Em qualquer caso. Segundo este ponto de vista. 299-300). uma coisa abstracta. de natureza dialéctica: é a própria dialéctica. a sua sanção moral.é a noção de autoconsciência. Esta não é mais que uma fórmula mistificada para exprimir a alienação: mistificada a ponto de ela própria pressupor a alienação que pressupõe o afastamento do homem da sua natureza objectiva. a alienação do homem como alienação da autoconsciência e a recuperação do ser alienado como uma incorporação na autoconsciência (Ib. como na religião. a sua alienação. segundo Marx. a vida da comunidade política onde ele se considera natureza social e a vida na sociedade civil onde ele actua como homem privado. própria de todas as filosofias idealistas porque nestas. p. a alienação consiste para o homem na obliteração das suas relações objectivas e no seu automistificar-se como uma essência universal e espiritual. É também própria do chamado "estado politico" no qual a essência do homem como cidadão é contraposta à sua vida material. ital. isto é. trad. ou seja. e predominantemente o objectivo. No estado político o homem.. não pertencente ao seu ser. p. a religião como imagem de um'"mundo invertido": ou seja. Mas Hegel concebeu também o homem como autoconsciência. Esta consequência da alienação é por sua vez designada por Marx como "alienação religiosa" (Ib. Mas num e noutro caso o sentido das noções hegelianas foi por Marx modificado. No que se refere à dialéctica. o seu compêndio enciclopédico.se num instrumento e num joguete de forças que lhe são estranhas". se se pode dizer. sim. Marx reconhece a Hegel o mérito de haver apreendido a essência do trabalho como processo de objectivação e de ter concebido o homem como "resultado do próprio trabalho" (Manuscritos económicopolíticos de 1844. que Hegel colocou como único sujeito da história e que a crítica anti-hegeliana. p. p. afirma Marx. "leva uma dupla vida. manteve intacta continuando a falar da essência do homem e recusando-se a reconhecer o ser do homem nas relações objectivas que o constituem.. Marx considera. um mistério. é a teoria geral deste mundo às avessas. afirma Marx. o contrário seria. 289). Como a alienação autêntica não é uma figura de pensamento mas uma situação histórica. pp. p.o seu point-dhonneur espiritualista. 259). ital. Mas a alienação religiosa é. MARX: A DIALÉCTICA A necessidade da passagem da sociedade capitalista à sociedade comunista é. o fundamento universal da consolação e da justificação do mesmo". como também que a sua autoalienação seja o colocar-se em um mundo real mas tendo a forma de exterioridade. natural. o prefácio à segunda edição (1873) de O Capital . Sob este último aspecto a religião é "o ópio do povo". possa apenas colocar a coisidade. que se contrapõe aos homens como coisa estranha" (Ideologia alemã. uma alienação na alienação. "a felicidade ilusória do povo".. A noção de dialéctica é. 111. de um mundo em que no lugar do homem real se colocou a essência abstracta do homem. 111. a maior herança que Marx aceitou de Hegel.

ed.contém o reconhecimento explícito daquilo que Marx devia a Hegel e daquilo que não devia. que ele transforma em sujeito independente com o nome de Ideia. obviamente. com a mesma necessidade. na inevitabilidade do seu fim que nega a sociedade capitalista e se mostra desalienante. Noutros textos. não as abstracções intelectuais. Na doutrina de Marx. É preciso colocá-la ao contrário para se descobrir a substância racional entre o que é juízo místico". p. por conseguinte. o seu resultado. em toda a sua longa história. Dizia Hegel: "0 verdadeiro é o devir de si próprio. isto é. p. ou seja. pref. A mistificação a que está submetida a dialéctica nas mãos de Hegel não impede de forma alguma que seja ele o primeiro a expor de forma ampla e racional as formas gerais do movimento da própria dialéctica. pelo contrário.. 3) a conclusão a que este método chega. Nele. Glockner. Esta herança foi aceite voluntariamente pelos . é que não só se "superam" como também se conservam os momentos precedentes: que constituem "o todo" a mesmo título. A sua "superação" não é. por conseguinte. que constitui apenas o fenômeno externo da Ideia ou processo do pensamento.. não sendo realidades empíricas ou históricas. a inevitabilidade. o círculo que pressupõe e tem desde o início o seu fim como fim próprio e que só mediante a actuação é efectivo" (Fenomenologia. e não a exigência genérica de compreender todas as fases ou determinações na sua correlação com fases ou determinações diversas e eventualmente negativas em relação a elas. Marx sustenta que o método dialéctico constitui a lei do desenvolvimento da realidade histórica. e neste sentido afirmava que "o verdadeiro é o todo" e que "do Absoluto se deve afirmar que ele é essencialmente resultado e que só no fim é o que é em verdade" (Ib. Daqui resulta que para Marx: 1) a dialéctica é um método para compreender o movimento real das coisas. da sociedade na sua estrutura econômica. pp. o processo do pensamento. é a "necessidade". trad. No fim. nada existe de semelhante: como nada existe que se assemelhe à "unidade" ou "síntese" dos opostos em que Hegel distingue o terceiro e conclusivo momento da dialéctica.. no resultado.. Trata-se de uma herança bastante forte e cujo peso não foi diminuído pelas "alterações" que Marx inseriu na dialéctica hegeliana. o elemento ideal não é mais que o elemento material transferido e traduzido no cérebro dos homens. da negação. é o demiurgo do real. e que esta lei exprime a inevitabilidade da passagem da sociedade capitalista à sociedade comunista. apesar de reivindicar para O Capital o mérito de ser a "primeira tentativa de aplicação do método dialéctico à economia política" e caracterizar este método como o que mostra a "Intima correlação das relações sociais" (Id. ou seja. "Para Hegel. porque concebe todas as formas que possam surgir no fluir do movimento e por conseguinte também o seu lado em transição. a dialéctica inclui "dentro da compreensão positiva do estado de coisas existente. de muitas outras determinações. mas antes a sua manutenção na unidade conciliada do conjunto. mas momentos de um processo externo que é o da Autoconsciência. 2) este modo consiste em compreender não apenas o estado das coisas "existentes" mas também a sua "negação". Mas a Marx mantém-se estranho um dos pontos principais da dialéctica hegeliana: aquele que nos diz que as suas fases. ou seja. também a compreensão do mesmo. a compreensão do seu necessário ocaso.. 24). 77).. encontra-se invertida. Na sua forma racional. Esta última é uma exigência metodológica válida à qual dificilmente poderá ser aplicado o termo "dialéctica" que é rico. da alienação humana que é inerente à primeira à supressão da alienação que se há-de verificar na segunda. a destruição do estado de coisas existente. são eternas como essa mesma Autoconsciência. ital. para Hegel. que os fins. porque nada a pode deter e ela é crítica e revolucionária por excelência". Marx reconhece a Hegel o mérito de "dar início à oposição das determinações" (Crítica da filosofia hegeliana do direito. Aquilo que verdadeiramente permanece da dialéctica hegeliana na interpretação de Marx é apenas a necessidade da passagem de uma certa fase à sua negação. a sua destruição empírica e histórica ou especulativa. 45-46). 23). A herança mais específica que Marx recebeu de Hegel pode reconhecer-se no conceito de necessidade da história. p. Para mim.

No que se refere à interpretação dos opostos. sempre sustentou que o homem e a história são produto da liberdade com que o homem se constrói a si próprio. p. A obra principal de Engels é o Anti-Dühring (1878) dirigida contra o filósofo positivista Dühring. Mas ele é também autor. noutro tempo e noutro lugar.. para Engels é. Engels nasceu a 28 de Novembro de 1820 em Barmen na Alemanha e morreu em Londres a 5 de Agosto de 1895. A preocupação dominante de Engels é a de enquadrar o marxismo nas concepções da ciência positivista do seu tempo. No entanto as leis da dialéctica devem ser extraídas "por abstracção" quer da história. quer da natureza ou da sociedade humana. Durante quarenta anos foi amigo e colaborador de Marx. a semente nega-se transformando-se em planta que por sua vez produz a semente. 56). a terceira. todavia. publicada postumamente em 1925. 2) a lei da compenetração dos opostos. na teoria do ser. E assim por diante. Estas leis são ilustradas por Engels com exemplos tirados das ciências elementares.uma certeza consoladora na verdade: mas mais "mística" que "materialista" . trad. as passagens de um campo de investigação a outro" (Dialéctica da natureza. afirma Engels.'"o seu mais alto fruto. um exemplo será a relação entre atracção e repulsa pelas quais a dialéctica científica poderá demonstrar "que todas as oposições polares são condicionadas pelo jogo alternado dos dois pólos opostos um sobre o outro. em virtude dessa mesma necessidade férrea que levará ao seu desaparecimento da terra" (Ib. São fundamentalmente três: 1) a lei da conversão da quantidade em qualidade e vice-versa.movimentos políticos que se inspiraram no marxismo porque se revelou dotada de notável força pragmática como mito da inevitabilidade do comunismo. que nenhum dos seus atributos alguma vez poderá perderse. mas declara a sua certeza de que "a matéria **o!m todas as suas mutações" permanece eternamente a mesma. p. que para Marx eram o produto da .. como se viu. também o materialismo histórico muda de fisionomia. p. foram desenvolvidas por Hegel nas suas formas idealistas. Segundo o ponto de vista do materialismo de Engels. a sua relação na oposição" (Ib. finalmente. que a separação e a oposição dos pólos subsiste apenas pelo recíproco pertencer-se. 3) a lei da negação da negação. uma vez que terá sempre que criar. ENGELS Marx tinha chamado à sua filosofia "materialismo" para opor ao idealismo de Hegel. em primeiro lugar. negação da negação). "A dialéctica é para a ciência natural moderna a forma de pensamento mais importante. p. e de longe a mais importante parte da sua lógica. a teoria da essência. de um livro sobre Féuerbach e o fim da filosofia clássica alemã (1888) e de uma Dialéctica da natureza. um método para interpretar a natureza.. que é de certo modo estranha à proposição fundamental de Marx: que. 66). A formação das relações de produção. e que vice-versa a sua união pode existir apenas na sua separação. "Todas estas três leis. Foi Engels quem procurou relacionar o marxismo com o positivismo. exemplos baseados em analogias ou imagens superficiais (por exemplo. 39). porque só ela oferece as analogias e com isso os métodos para compreender os processos do desenvolvimento que se verificam na natureza. mas o termo não tinha qualquer referência às correntes positivistas que começavam a prevalecer na filosofia contemporânea. figura como lei fundamental para a construção de todo o sistema" (Ib.. das estruturas sociais e das superstruturas ideológicas. Segundo o ponto de vista conceptual. 35) . e que no desaguar da história viu a afirmação definitiva da liberdade humana. Engels partilha das previsões de alguns cientistas quanto ao fim do universo. além de numerosos escritos histórico-políticos. pode dizer-se. o espírito pensante. Para Marx a dialéctica é um método para interpretar a sociedade e a história. como puras leis do pensamento: a primeira na primeira parte da lógica. os nexos gerais. ital. na sua união. a segunda ocupa toda a segunda.

. determinados por uma dialéctica materialista. É evidente que este transbordar da praxis se torna necessário para conceber as relações econômicas como naturalisticamente determinadas e por conseguinte independentes do homem: a actividade do homem seria a correcção ou a transformação de tais relações. uma reacção da consciência humana às condições materiais. a sua personalidade concreta. E a inserção do homem em tais relações e a sua capacidade de transformá-los activamente tornam-se um transbordar da "praxis" histórica. e exprimem assim (como se viu) a actividade autocondicionante do próprio homem. Texto extraído de História da Filosofia de Nicola Abbagnano. A sua transformação e o seu desenvolvimento não dependem desse transbordar da pracis mas da própria praxis: é inerente ao seu intrínseco autocondicionamento. inversa da acção desta sobre aquela. para Engels passam a ser produtos naturais. pelo escasso conhecimento dos escritos filosóficos de Marx (que permanecem em parte inéditos) foi apresentada habitualmente como obra colectiva de Marx e Engels. A doutrina do materialismo histórico que. Mas para Marx as relações de produção constituem o homem. surge distinta na formulação que Marx lhe deu e na interpretação positivista que Engels procurou dar-lhe o que limita o seu significado originário e a sua força.actividade humana autocondicionando-se.