Você está na página 1de 470

~GilbertoBªr~ante Kerbauy

•.•
;;-11;

"lê~/,~ .. '. ~
r••. fK~: I
"(A;~(%;,~2,J:;

.•


Fisiologia Vegetal
l

No interesse de difusão da cultura e do conhecimento, o autor e os editores envidaram o


máximo esforço para localizar os detentores dos direitos autorais de qualquer material
utilizado, dispondo-se a possíveis acertos posteriores caso, inadvertidamente, a identificação
de algum deles tenha sido omitida.

Capa: Aquarela de Gilberto Muylaert Tinoco inspirada na Mata Atlântica da região do Rio
de Janeiro, identificando-se plantas de Brassavola perrinii Lindl, Cattleya harrisoniae Paxt
e Vriesea sp. Tinoco, desde muito jovem, ainda morando em Campos (RI), tem pelas orquí-
deas uma de suas paixões maiores. Soube como poucos juntá-la a outra paixão, a pintura de
aquarelas. Artista virtuoso, ele as tem pintado ao longo de sua vida. Sua coleção ultrapassa
de longe uma centena de aquarelas, todas tendo como motivo central as orquídeas brasilei-
ras, até as microorquídeas, estas de beleza quase oculta aos olhos menos treinados. Toda-
via, inexplicavelmente, Tinoco não disponibilizou até hoje esse seu rico acervo artístico à
apreciação pública.

Direitos exclusivos para a língua portuguesa


Copyright © 2004 by
EDITORA GUANABARA KOOGAN S.A.
Travessa do Ouvidor, 11
Rio de Janeiro, RI - CEP 20040-040
Tel.: 21-2221-9621
Fax: 21-2221-3202
gbk@editoraguanabara.com.br
www.editoraguanabara.com.br

Reservados todos os direitos. É proibida a duplicação


ou reprodução deste volume, no todo ou em parte,
sob quaisquer formas ou por quaisquer meios
(eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia,
distribuição na Web, ou outros),
sem permissão expressa da Editora .


Fisiologia
Vegetal

Gilberto Barbante Kerbauy


Professor Titular do Departamento de
Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de
São Paulo, São Paulo, SP

GUANABARA~KOOGAN


Dedicatória

À Edna,
esposa e companheira de jornadas,
ao Daniel, Larissa, Victor e Karen, dedico.
Agradecimentos

Às gerações de pesquisadores, que, ao longo de suas vidas,


no silêncio inquieto dos laboratórios,
labutaram para desvendar os segredos recônditos das plantas.
Colaboradores

Alfredo Gui Ferreira Henrique Pessoa dos Santos


Professor Titular aposentado do Departamento de Botâ- Pesquisador Doutor da Embrapa Uva e Vinho, EMBRAP A,
nica do Instituto de Biociências da Universidade Federal Bento Gonçalves, RS
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
José Antonio Pimenta
Ana Paula Artimonte Vaz Professor Adjunto do Departamento de Biologia Animal
Pesquisadora Doutora da Embrapa Transferência de T ecno- e Vegetal do Centro de Ciências Biológicas da Universi-
logia - Escritório de Negócios de Campinas, EMBRAPA, dade Estadual de Londrina, Londrina, PR
Campinas, SP
Ladaslav Sodek
Ângela Maria Cangiani Furlani Professor Titular do Departamento de Fisiologia Vegetal
Pesquisadora PhD aposentada do Centro de Pesquisa e do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Cam-
Departamento de Solos e Recursos Ambientais do Insti- pinas, Campinas, SP
tuto Agronômico de Campinas, Campinas, SP
Lázara Cordeiro
Arthur Germano Fett-Neto Professora Doutora do Departamento de Botânica do Ins-
Professor Titular do Departamento de Botânica do Insti- tituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista
tuto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande Júlio de Mesquita Filho, Rio Claro, SP
do Sul, Porto Alegre, RS
Lázaro Eustáquio Pereira Peres
Denis Ubeda de Lima Professor Doutor do Departamento de Ciências Biológi-
Pesquisador Doutor da Bayer Seeds Brasil, São Paulo, SP cas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da
Universidade de São Paulo, I)racicaba, SP
Edison Paulo Chu
Pesquisador Científico Doutor da Seção de Fisiologia e Lilian Beatriz Penteado Zaidan
Bioquímica de Plantas do Instituto de Botânica da Se- Pesquisadora Científica Doutora da Seção de Fisiologia e
cretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, São Bioquímica do Instituto de Botânica da Secretaria de Meio
Paulo, SP Ambiente do Estado de São Paulo, São Paulo, SP

Eliane Stacciarini-Seraphin Manlio Silvestre Femandes


Professora Adjunta aposentada do Departamento de Biolo- Professor Adjunto do Departamento de Solos da Univer-
gia Geral da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO sidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ

Gilberto B. Kerbauy Marco Aurélio S. Tiné


Professor Titular do Departamento de Botânica do Instituto Pós-Doutorando da Seção de Fisiologia e Bioquímica de
de Biociências da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP Plantas do Instituto de Botânica da Secretaria do Meio
Ambiente do Estado de São Paulo, São Paulo, SP
Helenice Mercier
Professora Doutora do Departamento de Botânica do Marcos Silveira Buckeridge
Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, Pesquisador Científico PhD da Seção de Fisiologia e
São Paulo, SP Bioquímica de Plantas do Instituto de Botânica da Se-

I
x Colaboradores

cretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, cretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, São
São Paulo, SP Paulo, SP

Miguel José Minhoto Sandra CoIli


Professor Mestre da Universidade do ABC, São Caetano, SP Professora Associada B do Departamento de Biologia
Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina,
Miguel Pedro Guerra Londrina, PR
Professor Titular do Departamento de Fitotecnia, Centro
de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Sonia Regina de Souza
Catarina, Florianópolis, SC Professora Adjunta do Departamento de Química da Uni-
versidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica, RJ
Nidia Majerowicz
Professora Adjunta do Departamento de Ciências Fisioló- Victor José Mendes Cardoso
gicas do Instituto de Biologia, Área de Fisiologia Vegetal, Professor Adjunto do Departamento de Botânica da Universi-
da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, dade Estadual Paulista Julio de Mesquita Fillio, Rio Claro, SP
Seropédica, RJ
Vilma Palazetti de Almeida
Rita de Cássia Leone Figueiredo,Ribeiro Professora Doutora do Departamento de Morfologia e Pa-
Pesquisadora Científica Doutora da Seção de Fisiologia tologia da Pontifícia Universidade Católica, Campus
e Bioquímica de Plantas do Instituto de Botânica da Se- Sorocaba, SP

I
Prefácio

No presente ano, completa um quarto de século do lan- são do conhecimento da Fisiologia Vegetal, num processo
çamento da última obra de Fisiologia Vegetal escrita por de interação sinérgica e recorrente. Em larga extensão, as
autores brasileiros. Pena que não tenha sido atualizada. interfaces dessas áreas apresentam-se, nos dias atuais, tão
Todos saímos perdendo. íntimas que chegam a embaçar os limites identificatórios
Ao longo desse prolongado interregno, a Fisiologia de cada uma delas. Certamente, as células vegetais os des-
Vegetal experimentou um impulso inédito de mudanças conhecem in totum desde os primórdios da evolução. Isso
extraordinárias, que acabaram desaguando em reposicio- explica também por que está-se tomando cada vez mais raro
namentos nada desprezíveis de conceitos e paradigmas, encontrar trabalhos de pesquisa e livros de Fisiologia Ve-
alguns deles permeando o público em geral. Nesse contex- getal ou de outras áreas assinados por um único autor.
to, estão aí, a título de exemplo, as extensas áreas de plan- Como ciência experimental que é, a Fisiologia Vegetal é
tações donadas in vitra, ou as ainda polêmicas plantas uma atividade inacabada, apenas com começo e meio. A
transgênicas, cujas obtenções dependem, inescapavelmen- cada nova descoberta, seguem-se várias novas e boas per-
te, de conhecimentos e práticas próprias da fisiologia guntas, numa dinâmica sem fim, claramente identificável
organogenética, hormonal, nutricional, dentre outras de em cada capítulo.
suas subáreas. Ocioso, talvez, fosse lembrar que esses avan- No que diz respeito à parte didática embutida nos capí-
ços espetaculares não teriam sido verificados sem a parti- tulos, foi também alvissareira a percepção de que começa
cipação de profissionais bem preparados, aptos a dar con- a se delinear no horizonte um ensino de fisiologia com
tinuidade e profundidade às pesquisas sobre Fisiologia Ve- características próprias, voltado às demandas do alunato
getal, básica e aplicada. Felizmente, nosso país já possui um brasileiro. Nesse sentido, explica-se por que, embora tenha-
bom número deles. Se o Brasil desponta hoje no cenário se procurado nesse livro uma certa uniformização de con-
internacional como um dos maiores e mais eficientes pro- ceitos e terminologia*, manteve-se, por outro lado, quase
dutores agrícolas do mundo, isso se deve, em boa parte, ao intocado o estilo de linguagem próprio de cada autor.
conhecimento e à experiência posta em prática desses pes- Antes de encerrar, gostari(J. de consignar neste espaço
quisadores. meus sinceros agradecimentos a todos os autores deste li-
O presente livro insere-se na preocupação, já algo an- vro, meus colegas de profissão. Não poderia também deixar
tiga, de disponibilizar, principalmente a estudantes de de mencionar os nomes das Oras. Elenice M. Varanda e
Agronomia, Biologia, Biologia Molecular, Bioquímica e Maria Helena de Oliveira e Souza, que, em boa hora, lan-
Engenharia Florestal, bem como também a profissionais das çaram a idéia da publicação de textos especializados de Bo-
áreas de pesquisa, ensino e produção agrícola, o atual esta- tânica em língua portuguesa. Ao meu xará e amigo Gilber-
do da arte da Fisiologia Vegetal e suas perspectivas para to Muylaert Tinoco, um amante das epífitas brasileiras, meus
um futuro próximo. Para tanto, buscaram-se, na experiên- agradecimentos pela maravilhosa aquarela da capa, na qual
cia vivenciada por estudiosos de várias especialidades e de conseguiu transferir, com a percepção peculiar dos grandes
diferentes instituições científicas públicas brasileiras, os mestres, este cenário luxuriante da nossa Mata Atlântica.
alicerces científicos e pedagógicos indispensáveis para atin-
gir tais objetivos. Não fosse a existência dessas instituições São Paulo, 30 de maio de 2004
e o entusiasmo contagiante desses colegas, muito dificil-
mente teríamos como materializar, em bom nível, a pre- Gilberto Barbante Kerbauy
sente obra.
Em qualquer dos capítulos, sem muito esforço, pode-se
também aquilatar o quanto áreas como a Bioquímica, Bio- *N.A.: Devido à falta, ainda, de uma norma geral sobre a nomenclatura
logia Molecular e Física vêm contribuindo para a expan- gênica, seu uso foi apenas minimamente uniformizado .


Conteúdo

1 RELAÇÕES HÍDRICAS, 1 Os Elementos Minerais nas Plantas. Definição e


José Antonio Pimenta Classificação. Critérios de Essencialidade, 41
Mecanismos de Contato Entre as Raízes das
Introdução, 1 Plantas e o Solo, 43
Estrutura e Propriedades Físico-Químicas da A Absorção Iônica pelas Células das Raízes, 45
Água, 2 Características Gerais da Absorção Iônica
Estrutura da Molécula de Água, 2 pelas Plantas Inferiores e Superiores, 45
Propriedades Físicas e Químicas da Água, 4 O Caminho dos Solutos do Meio Exterior
Propriedade de Salvente, 4 para o Apoplasto das Raízes, 45
Propriedades Térmicas, 5 Via Simplasto: Transporte de Salutos Através
Propriedades de Coesão e Adesão, 6 das Membranas das Células, 48
Processos do Movimento da Água, 7 Estrutura e Composição das
Fluxo em Massa, 7 Membranas, 48
Difusão, 8 Mecanismos Passivos e Ativos de
Osmose,9
Transporte de Solutos na Membrana
Potencial Químico, 10
Plasmática e T onoplasto, 49
Potencial de Água, 11 O Gradiente de Potencial
Componentes do Potencial de Água, 12
Eletroquímico, 50
Potencial de Pressão (t\Jp), 12 As Bombas de Pró tons, os
Potencial Osmótico (t\J'lT), 12
Carregadores e os Canais de
Potencial Gravitacional (t\Jg), 13 Íons nas Membranas, 51
Potencial Mátrico ou Matricial (t\Jm), 13
Absorção de Nutrientes Minerais pelas
Movimento da Água entre Células e Tecidos, 13
Folhas, 53
Água no Solo, 16 Mobilidade de Íons e Solutos no Xilema e
Absorção e Movimento Radial de Água nas
Floema,54
Raízes, 18
Mobilidade no Xilema, 54
Movimento Ascendente de Água no Xilema, 21
Mobilidade no Floema, 54
Pressão Positiva da Raiz, 22
Sobre a Aquisição e as Principais Funções dos
Capilaridade, 23
Nutrientes, 56
Teoria da Coesão e Tensão, 24
Nitrogênio, 56
T ranspiração, 27
Fósforo, 56
Força que Dirige a Transpiração, 29
Potássio, 57
Por que a Transpiração?, 30
Cálcio, 58
Fisiologia dos Estômatos, 31
Magnésio, 59
Caracterização Geral dos Estômatos, 31
Enxofre, 60
Mecanismos que Regulam o Movimento
Boro,61
Estomático, 33
Cloro, 62
Controle do Movimento Estomático, 36
Cobre, 63
Água e Temperatura, 36
Ferro, 63
Dióxido de Carbono e Luz, 37
Referências, 38 Manganês, 64
Molibdênio, 65
Bibliografia Recomendada, 39
Níquel, 66
Zinco, 67
2 NUTRIÇÃO MINERAL, 40 Elementos Benéficos, 68
Ângela Maria Cangiani Furlani Sódio,68
Introdução, 40 A) Sódio Como Nutriente Mineral, 68


r
•Ii.,-t,.li---
,.

xiv Conteúdo

B) Sódio Como Substituto do Potássio e Assimilação do Enxofre, 113


Estimulante do Crescimento, 69 Bibliografia Recomendada, 113
Silício, 69
Cobalto,70 5 FOTOSSÍNTESE, 114
Selênio,70
Nidia Majerowicz
Alumínio, 70
Micorrizas Arbusculares e a Absorção de o que Move a Vida?, 114
Nutrientes pelas Plantas, 71 Fotossíntese: Um Processo de
Referências, 73 Oxidação-Redução, 115
Bibliografia Recomendada, 75 Fotossíntese: Um Processo em Duas Etapas, 116
Estrutura da Máquina Fotossintética, 119
3 FIXAÇÃO DO NITROGÊNIO, 76 As Folhas, 119
Lázara Cordeiro Os Cloroplastos, 121
A Conversão da Luz em Energia Química, 123
Ciclo do Nitrogênio, 76 Luz: A Energia que Impulsiona a
Fixação Biológica do Nitrogênio, 78 Fotossíntese, 123
Formação do Nódulo, 81 A Natureza Física da Luz, 123
Multiplicação do Rizóbio na Rizosfera Luz e Pigmentos: Absorção e Destino da
e sua Adesão às Raízes, 82 Energia de Excitação Eletrônica, 125
Penetração do Rizóbio na Raiz e O que Acontece Quando os Pigmentos
Formação da Corrente de Absorvem Luz?, 126
Infecção, 82 Os Pigmentos Fotossintéticos, 128
Libertação do Rizóbio e O Fluxo Fotossintético de Elétrons e a
Desenvolvimento dos Nódulos, 84 Fotoxidação da Água, 128
Bioquímica e Fisiologia da Fixação do O Fotossistema lI, 13 2
Nitrogênio, 89 A Fotoxidação da Água, 133
Referências, 92 O Fotossistema I, 133
Bibliografia Recomendada, 93 A Fotofosforilação, 134
Fotofosforilação Não-cíclica, Cíclica e
4 METABOLISMO DO Pseudocíclica, 135
NITROGÊNIO, 94 Transporte de Elétrons e Herbicidas, 137
Ladaslav Sodek Os Complexos Supramoleculares nas
Membranas dos Tilacóides: Estrutura e
Introdução, 94 Regulação, 13 7
Absorção do N Inorgânico do Solo, 95 Metabolismo do Carbono na Fotossíntese, 140
Redução do N03 -,96 A Rubisco, 143
Regulação da Enzima, 97 O Ciclo C3 (Ciclo de Calvin-Benson), 143
Fotossíntese e a Assimilação de N03 -, 99 Etapas do Ciclo C3, 144
Assimilação de NH4 + e o Ciclo da Sintase do Ciclo Autocatalítico, 145
Glutamato, 100 Balanço Energético do Ciclo C3, 147
Transporte do N, 102 Regulação do Ciclo C3, 147
Utilização do N Transportado nos Sítios de A Fotorrespiração e o Ciclo Cz, 149
Consumo, 104 O Ciclo Cz, 150
Aminotransferases, 105 Fatores que Afetam as Taxas de
Biossíntese de Aminoácidos, 106 Fotorrespiração, 152
Família do Aspartato: Treonina, Usina, O Papel da Fotorrespiração, 153
Metionina, Isoleucina e Asparagina, 106 Mecanismos Fotossintéticos de Concentração
Família dos Aminoácidos Aromáticos: de COz, 154
Fenilalanina, Tirosina e Triptofano, 108 Mecanismo C4, 154
Família do Glutamato: Prolina, Arginina e Mecanismo MAC (Metabolismo Ácido
Glutamina, 109 das Crassuláceas), 158
Família do Piruvato: Leucina, Valina e A PEP Carboxilase, 160
Alanina, 111 O Destino dos Produtos da
Família do 3-fosfoglicerato: Serina, Glicina e Fotossíntese, 161
Cisteína, 111 Aspectos Ecofisiológicos Associados à
Família da Ribose-5-fosfato: Histidina, 112 Fotossíntese, 166


Conteúdo xv

Fotossíntese Líquida (FL), 167 Glicólise, 199


Fotossíntese Líquida e Disponibilidade de Ciclo dos Ácidos T ricarboxílicos (CA T) ou
COz,167 Ciclo de Krebs, 202
Fotossíntese e Eficiência no Uso da Cadeia de Transporte de Elétrons, 203
Água, 169 Via da Ubiquinona ou Via Alternativa de
Respostas Fotossintéticas à Luz, 170 Transporte de Elétrons, 204
Plantas de Sol e de Sombra, 171 Fermentação, 205
Resposta Fotossintética à Temperatura O Fluxo Respiratório Varia com o Estado
Foliar,l72 Fisiológico da Célula, 206
Eficiência de Uso do Nitrogênio, 173 Respiração nos Tecidos e Órgãos, 208
Fotossíntese e Produtividade em Raízes, 208
Comunidades Vegetais, 173 Caule, 209
Fotossíntese por Unidade de Área Foliar Folhas, 209
(FL) e Produtividade, 174 Flores e Frutos, 210
Taxas de Respiração Celular e Sementes, 211
Produtividade, 174 Controle da Respiração nas Plantas por Fatores
Produtividade e Arquitetura do Internos, 212
Dossel, 175 Disponibilidade de Substrato, 212
Fotossíntese e Produtividade Econômica Quantidade de Oxigênio, 213
das Culturas, 176 Temperatura, 213
Agradecimentos, 176 Ferimentos e Lesões, 214
Referências, 177 Respiração na Planta Inteira, 214
Bibliografia Recomendada, 178 A Ecofisiologia e a Respiração, 215
Referências, 216
6 TRANSPORTE NO FLOEMA, 179
Manha Silvestre Femandes e Sonia Regina de Souza 8 AUXINAS, 217
Helenice Mercier
Visão Geral do Sistema de Transporte no
Floema,179 Introdução, 217
Constituição dos Elementos Crivados e Células Histórico da Descoberta, 217
Companheiras, 181 Auxinas Naturais e Sintéticas, 219
Os Elementos Crivados (EC), 181 Metabolismo do AIA, 220
As Células Companheiras (CC), 182 Biossíntese do AIA, 220
Vias Apoplástica e Simplástica, 183 Conjugação do AIA, 222
Apoplasto, 183 Degradação do AIA, 223
Simplasto e Plasmodesmo, 184 T ransporre Polar das Auxinas, 224
Transporte Intermediário, 185 Teoria Quimiosmótica, 226
Carregamento e Descarregamento do Floema, 185 Efeitos Fisiológicos das Auxinas, 229
Transporte de Sacarose, 188 Divisão, Crescimento e Diferenciação
Bombas de Prótons, 189 Celular, 229
Visão Geral do Carregamento e Descarregamento Divisão Celular, 229
do Floema, 190 Expansão/Alongamento Celular, 229
O que é Transportado, 192 Hipótese do Crescimento
Açúcares, 192 Ácido, 231
Outros Elementos Transportados, 192 Continuidade do Crescimento, 232
Saída de Sacarose, 193 Diferenciação Celular, 234
Transporte Fonte-Dreno, 193 Desenvolvimento do Eixo Caulinar, 236
Referências, 196 Quebra da Dominância Apical e
Bibliografia Recomendada, 196 Crescimento da Gema Axilar, 236
Formação do Gancho Apical, 237
Desenvolvimento Radicular, 238
7 RESPIRAÇÃO, 198
Desenvolvimento de Flores e Frutos, 240
Marco Aurélio S. Tiné, Marcos S. Buckeridge,
Abscisão Foliar, 243
Miguel José Minhoto e Denis Ubeda de Lima
Ação Herbicida de Auxinas Sintéticas, 244
Introdução, 198 Mecanismo de Ação, 245
O Fluxo de Carbono na Célula, 199 Percepção, 245

.,
I

xvi Conteúdo

I
T ransdução, 246 Regulação do Crescimento, Floração e Ciclo
Expressão Gênica, 247 Celular, 284
Agradecimentos, 249 Mobilização de Reservas de Endosperma, 286
Referências, 249 Efeitos Fisiológicos e Aplicações, 288
Mudança de Fase, Indução Floral e
9 CITOCININAS, 250 Determinação do Sexo, 288
Efeitos em Frutos, 290
Lázaro Eustáquio Pereira Peres e Gilberto B.
Kerbauy Superação da Dormência em Sementes,
Embriões Somáticos e Gemas, 290
Introdução, 250 Outras Aplicações, 291
Dinâmica das Citocininas na Célula e no Vegetal Referências, 292
Como um Todo, 252
Biossíntese, 252 11 ÁCIDO ABSCÍSICO, 293
Conjugação e Hidrólise, 255 Eliane Stacciarini.Seraphin
Oxidação, 257
Transporte, 260 Introdução, 293
Modo de Ação das Citocininas, 260 Histórico e Descoberta do ABA, 293
Percepção e Transdução de Sinal, 261 Ocorrência do ABA nas Plantas, 294
Alvos Primários das Citocininas, 263 Mutantes Deficientes e Insensíveis ao
Divisão Celular, 263 ABA,295
Diferenciação Celular, 263 Estrutura, Principais Formas e Atividade do
Estabelecimento de Drenos, 264 ABA,295
Retardamento da Senescência Biossíntese e Inativação do ABA, 297
Foliar, 264 Síntese dos Carotenóides
Fotomorfogênese, 266 Não.oxigenados,297
Efeitos das Citocininas, 266 Síntese e Clivagem dos Carotenóides
Interação com Outras Classes Oxigenados nos Plastídeos, 298
Hormonais, 267 Síntese do ABA no Citossol, 298
Balanço AuxinajCitocinina e o Inativação, 300
Desenvolvimento Vegetal, 268 Transporte do ABA, 301
Citocininas na Interação Entre os Vegetais e Mecanismo de Ação do ABA, 301
o Ambiente, 272 Transdução de Sinais, 301
Luz, 272 Expressão Gênica, 303
Nutrientes Minerais, 272 Principais Funções do ABA, 303
Temperatura, 273 Proteção ao Estresse Hídrico, 303
Interação com Microorganismos, 274 Desenvolvimento da Semente, 304
Citocininas e Biotecnologia, 275 Dormência de Gemas, 305
Conclusões e Perspectivas, 276 Senescência, 305
Referências, 277 Proteção Contra Injúrias, 306
Bibliografia Recomendada, 278 Aplicações Práticas do ABA, 306
Referências, 307
10 GIBERELINAS, 279 Bibliografia Recomendada, 307
Miguel Pedra Guerra
12 ETILENO,308
Histórico e Ocorrência, 279 Sandra Colli
Biossíntese, 279
Estágio 1: Geranilgeranil disfosfato a Histórico da Descoberta do Etileno, 308
Ent-Kaureno, 281 Ocorrência do Etileno, 309
Estágio 2: Ent-Kaureno a Biossíntese e Inativação, 310
AG12·Aldeído, 281 Aplicação de Fitorreguladores, 313
Estágio 3: AG12-Aldeído a Auxina,313
Giberelinas, 281 Citocinina, 313
Conjugação e Inativação, 282 Giberelina, 313
Transporte, 282 Ácido Abscfsico, 313
Mecanismos e Modo de Ação, 283 Etileno, 313
Alongamento e Divisão Celular, 283 Fatores Bióticos e Abióticos, 314


Conteúdo xvii

Temperatura, 314 14 MOVIMENTOS EM PLANTAS, 341


Luz, 314 Alfredo Gui Ferreira e Arthur Germano Fett-Neto
Oxigênio, 314
CO2,314 Introdução, 341
Alagamento, 314 T ropismos, 341
Seca, 315 Fototropismo, 341
Substâncias Químicas, 315 Gravitropismo, 345
Ferimentos Mecânicos, 315 Raízes,345
Infecção por Patógenos, 316 Percepção, 345
Transporte do Etileno, 316 Transdução e Resposta, 346
Mecanismo de Ação do Etileno, 316 Caules e Coleóptiles, 347
Principais Funções nos Vegetais, 318 Percepção, 347
Divisão e Expansão Celular, 318 Transdução e Resposta, 348
Dormência, 318 Outros T ropismos, 348
Crescimento e Diferenciação da Parte Tigmotropismo, 348
Aérea, 319 Hidrotropismo, 348
Crescimento, 319 Quimiotropismo, 348
Abertura do Gancho Subapical, 319 Nastismos,349
Expansão e Epinastia de Folhas, 320 Epinastismo e Hiponastismo, 349
Lenticelas Hipertrofiadas, 320 Termonastismo,350
Indução Floral e Expressão Sexual, 320 Hidronastismo,350
Tecidos Secretores, 321 Nictinastismo,350
Senescência, 321 Tigmonastismo,353
Amadurecimento de Frutos, 323 Referências, 355
Abscisão,327 Bibliografia Recomendada, 355
Crescimento e Diferenciação de Raízes, 328
Crescimento, 328 15 RITMOS CIRCADIANOS NAS
Formação de Pêlos Absorventes, 328 PLANTAS, 356
Raízes Adventícias, 328 Arthur Germano Fett-Neto
Aerênquima,329
Referências, 331 Terminologia e Características de Ritmos
Bibliografia Recomendada, 331 Circadianos, 357
Componentes e Base Molecular do Relógio
13 OUTROS REGULADORES: Circadiano,357
Interação entre Relógio Circadiano e
BRASSINOSTERÓIDES, Fotoperiodismo, 364 ,-
POLIAMINAS, ÁCIDOS Referências, 365
JASMÔNICO E SALICÍLICO, 333 Bibliografia Recomendada, 365
Sandra Colli

Introdução, 333 16 FLORAÇÃO,366


Brassinosteróides,333 Ana Paula Artimonte Vaz, Henrique Pessoa dos
Santos e Lilian Beatriz Penteado Zaidan
Biossíntese dos Brassinosteróides, 333
Funções dos Brassinosteróides, 333 Introdução, 366
Poliaminas, 334 Fases de Desenvolvimento, 366
Biossíntese das Poliaminas em Plantas, 335 Indução da Floração, 367
Funções Celulares das Poliaminas, 336 Fatores Ambientais, 367
Funções das Poliaminas no Desenvolvimento Luz, 368
Vegetal, 336 Temperatura, 373
Ácido Jasmônico, 337 Umidade, 374
Biossíntese do Ácido Jasmônico, 337 Fatores Endógenos, 374
Funções do Ácido Jasmônico, 337 Nutrição, 374
Ácido Salicílico, 338 Açúcares, 375
Biossíntese do Ácido Salicílico, 338 Hormônios Vegetais, 376
Funções do Ácido Salicílico, 339 Citocininas,376
Bibliografia Recomendada, 340 Auxinas, 377


xviii Conteúdo

Giberelinas, 377 Fatores Ambientais, 410


Ácido Abscísico, 377 Fatores Endógenos, 412
Etileno, 377 Metabolismo dos Carboidratos de Reserva, 413
Hipóteses Sobre a Natureza do Sinal Floral, 377 Importância Econômica dos Órgãos
Evocação Floral, 378 T uberosos, 416
Desenvolvimento Floral, 379 Conclusões e Perspectivas, 419
Aspectos Moleculares, 381 Referências, 420
Floração In Vitro, 383 Bibliografia Recomendada, 420
Perspectivas no Estudo da Floração, 385
Bibliografia Recomendada, 385 19 FOTOMORFOGÊNESE EM
PLANTAS, 421
17 GERMINAÇÃO, 386 Nidia Majerowicz e Lázaro Eustiiquio Pereira Peres
Victor José Mendes Cardoso
Introdução, 421
Introdução, 386 Fitocromo e Controle do Desenvolvimento, 422
A Semente, 386 Descoberta do Fitocromo, 422
Desenvolvimento da Semente, 386 Fitocromo: Uma Família Gênica, 425
Etapas do Desenvolvimento, 386 Propriedades Físico-Químicas dos
Desidratação e Tolerância à Dessecação, 388 Fitocromos, 426
Controle do Desenvolvimento, 389 A Molécula dos Fitocromos, 426
O Processo de Germinação, 390 Propriedades Espectrofotométricas, 427
Terminologia e Critérios, 390
Localização e Expressão dos Fitocromos na
Embebição,391 Planta, 428
Metabolismo, 392
Respostas ao Fitocromo Também Dependem
Extensão Radicular, 394
da Quantidade de Luz, 428
Controle Hormonal, 394
Mutações Fotomorfogênicas, 430
Fatores que Influenciam a Germinação, 395
Mecanismos de Ação dos Fitocromos, 431
Fatores Ambientais, 395
Modificação da Permeabilidade das
Efeitos na Fase de Maturação, 396
Membranas, 432
Efeitos na Fase de Pós-dispersão, 397
Luz, 397 Regulação da Expressão Gênica, 432
A Luz nos Ambientes Naturais, 433
Temperatura, 398 J
Potencial da Água, 400 Importância Ecofisiológica dos Fitocromos, 433
Fatores Químicos, 401 Controle da Germinação de Sementes I
Fotoblásticas, 434
Fatores Bióticos, 401
Desestiolamento de Plântulas r
Fatores Intrínsecos, 402
Morfologia, 402 Recém-germinadas, 435
Viabilidade, 402 Modulação do Crescimento e Forma de T
Plantas Iluminadas, 435
Dormência, 404
Referências, 407 Detecção da Aurora e do Crepúsculo e 1
Bibliografia Recomendada, 407 Sincronização do Relógio Biológico, 436
Percepção Fotoperiódica, 436
r
Fotomodulação do Desenvolvimento pela Luz
1
18 TUBERIZAÇÃO, 409 Azul, 437 I
Rita de Cássia Leone Figueiredo-Ribeiro, Edison Referências, 437
Paulo Chu e Vilma Palazetti de Almeida
Bibliografia Recomendada, 438
Introdução, 409
Controle da Iniciação da Tuberização, 410 ÍNDICE ALFABÉTICO, 439


CAPÍTULO 1

José Antonio Pimenta

INTRODUÇÃO pode trocar 100% de seu conteúdo de água apenas em


1 hora. Para cada 2 g de matéria orgânica produzida
A água é uma das mais importantes substâncias do pela planta, aproximadamente 1 litro de água é ab~
nosso planeta. A vida evoluiu na água, que é o sorvido pelas raízes, transportado através do corpo da
solvente ideal para a ocorrência dos processos bioquí~ planta e perdido para a atmosfera. Em plantas
micos. Sem água, a vida como nós conhecemos não mesófilas (plantas adaptadas a ambientes com relati~
existiria. As plantas vasculares estão entre os primei~ va disponibilidade de água, no solo e na atmosfera),
ros organismos de que se tem registro fóssil, aproxi~ num solo úmido e atmosfera com baixa umidade re~
madamente 450 milhões de anos atrás; no entanto, lativa (UR), cerca de 82% da água absorvida é trans~
isso corresponde apenas a 10% da idade da Terra. pirada e 18% é armazenada. Já em plantas xerófilas
Provavelmente, essa demora na conquista do ambi~ (plantas adaptadas a ambientes secos) suculentas,
ente terrestre tenha sido causada pela dificuldade na apenas 50% da água absorvida é transpirada. A água
obtenção de água em um ambiente inerentemente nas células é armazenada nos vacúolos e protoplasma
seco. O desenvolvimento de raízes e um sistema vas~ (90 a 95%) e paredes (5 a 1D%).
cular avançado foram necessários para absorver e A importância de estudar as relações hídricas em
transportar água, enquanto epiderme e estômatos plantas se deve à diversidade de funções fisiológicas e
foram necessários para conservá~ la. ecológicas que a água exerce. Entre os recursos de que
Em tecidos metabolicamente ativos de plantas em a planta necessita para crescer e funcionar, a água é o
crescimento, a água constitui 80 a 95% da massa, mais abundante e, também, o mais limitante. Logo,
enquanto, em tecidos lenhosos, alcança de 35 a 75%. tanto a distribuição da vegetação sobre a superfície
Embora certas plantas tolerantes a dessecação possam terrestre quanto a produtividade agrícola são contro~
experimentar conteúdo de água de somente 20%, e ladas principalmente pela disponibilidade de água.
sementes secas possam conter 5 a 15%, ambas, nes~ A absorção de água pelas células gera, no interior
sas condições, estão metabolicamente inativas e destas, uma força conhecida como turgor. Na ausên~
reassumem atividade metabólica somente após a ab~ cia de qualquer tecido de sustentação, as plantas, para
sorção de uma considerável quantidade de água. se manterem eretas, necessitam manter a turgidez. A
A água é absorvida do solo, movimenta~se através pressão de turgor é essencial também para muitos
da planta e boa parte é perdida para a atmosfera na processos fisiológicos, como o alongamento celular,
forma de vapor, processo esse conhecido como trans~ as trocas gasosas nas folhas e o transporte no floema.
piração. Sob o calor de um dia ensolarado, a folha A perda do turgor devido ao estresse hídrico provoca


2 Relações Hídricas

o fechamento estomático, a redução da fotossíntese Toda a importância da água no sistema solo--plan-


e da respiração e a interferência em muitos processos ta-atmosfera está diretamente relacionada às carac-
metabólicos básicos. Sob desidratação intensa, ocor- terísticas químicas da molécula, que lhe conferem
re desorganização do protoplasma e a morte da maio- propriedades físico-químicas singulares. Neste capí-
ria dos organismos. tulo serão abordados: estrutura química e proprieda-
A água é essencial como reagente ou substrato de des físico-químicas da água, princípios do seu movi-
importantes processos como a fotossíntese (ver Capo mento, potencial químico e conceito de potencial de
5, Fotossíntese) e hidrólise do amido (ver Capo 7, Res- água. Esses conhecimentos são básicos para o enten-
piração) a açúcar em sementes germinando. Além da dimento da abordagem seguinte sobre o movimento
essencialidade da água como doadora de elétrons para da água nas plantas e entre as plantas e o ambiente.
o fluxo acíclico na fotossíntese, sabe-se, hoje, que ela
é importante também na eliminação ou desintoxica-
ESTRUTURA E PROPRIEDADES
ção de formas de oxigênio reativo, como 0z- e HzOz,
que podem acumular-se em resposta ao excesso de FÍSICO ..QUÍMICAS DA ÁGUA
fótons, ou seja, a água pode dificultar a fotoinibição. A água apresenta várias propriedades físicas e quí-
Outras importantes funções da água estão relaciona- micas especiais quando comparada com outras mo-
das ao movimento de nutrientes minerais tanto no léculas de tamanhos similares. Essas propriedades
solo quanto nas plantas, ao movimento de produtos capacitam a água a agir como "solvente universal" e
orgânicos da fotossíntese, à locomoção de gametas no ser prontamente transportada através da planta. Ne-
tubo polínico para a fecundação e como meio de nhuma outra substância conhecida tem mais propri-
transporte na disseminação de esporos, frutos e se- edades incomuns do que a água.
mentes para muitas espécies.
Nas últimas décadas, os estudos de relações hídricas
Estrutura da molécula de água
têm progredido rapidamente devido à utilização dos
conceitos da termodinâmica que permitiram um As propriedades físico-químicas da água estão in-
melhor entendimento do movimento de água nas timamente relacionadas à sua estrutura eletrônica, ou
plantas e em outros sistemas biológicos. Como con- seja, derivam primariamente da estrutura polar da
seqüência, esses estudos geraram conceitos e análises molécula de água. Para ilustrar, na Tabela 1.1 são
que estão intimamente relacionados com as leis da apresentados os elevados pontos de fusão e ebulição
termodinâmica, sendo necessários alguns conheci- da água quando comparada com substâncias de es-
mentos básicos dessa matéria para entender os prin- truturas similares, o que indica a alta força intermo-
cípios do movimento da água. lecular da água. Em outras palavras, o aumento da

-246
H
335 -33
-161 --92
1.234
452 58
Ponto
Calor
-78
2.452HF
-184 21556
34O
100
Fusão Nede
de de
Fusão 19entre
-249
(OC) Química
Quantidade
Ebulição
(j g-l) C (C)
Comparação
OH4
NH)
Vaporização
H20 propriedades físicas da água com as de outros compostos com
estruturas similares, que têm 10 prótons e 10 elétrons
Ponto de


Relnções Hídricas 3

temperatura não rompe facilmente as ligações água- Os hidrogênios positivamente carregados da mo-
água. lécula de água são eletrostaticamente atraídos pelo
As fortes ligações entre as moléculas de água são oxigênio negativamente carregado de duas outras
devidas às formações de pontes de hidrogênio como moléculas vizinhas. Isso leva à formação de pontes de
conseqüência da estrutura da molécula (Fig. 1.IA). hidrogênio entre as moléculas, com uma energia de
Na água, o oxigênio se une covalentemente a dois cerca de 20 kj moI-I. Cada molécula de água pode
átomos de hidrogênio com distâncias de 0,099 nm e estabelecer pontes de hidrogênio com outras quatro.
um ângulo de 105°. O átomo de oxigênio é mais As pontes de hidrogênio são bem mais fracas que as
eletronegativo que o hidrogênio tendendo a atrair os ligações covalentes ou iônicas, que normalmente têm
elétrons, ficando estes mais afastados dos átomos de uma energia de 400 kj moI-I, mas são mais fortes que
hidrogênio. Como resultado, o átomo de oxigênio na as atrações momentâneas conhecidas como força de
molécula de água apresenta carga parcial negativa van der Waals, que apresentam cerca de 4 kj moI-I.
(0-), enquanto cada hidrogênio apresenta carga par- As ligações covalentes são fortes, mas podem ser
cial positiva (0+). As cargas parciais são correspon- rompidas durante as reações químicas. Se as ligações
dentes, de modo que a molécula de água não apre- covalentes fossem o único tipo existente, não existi-
senta nenhuma carga líquida (eletricamente neutra). riam sólidos e líquidos, porque elas não possibilitam
Entretanto, essa distribuição assimétrica de elétrons que moléculas interajam umas com as outras. No
faz da água uma molécula polar, um dipolo. A sepa- entanto, existem também as forças intermoleculares
ração de cargas positivas e negativas gera uma atra- de van der Waals ou de London e as pontes de hidro-
ção elétrica mútua entre moléculas polares, que pos- gênio que possibilitam interação entre moléculas
sibilita a formação das chamadas pontes de hidrogê- adjacentes e afetam o comportamento de gases e lí-
nio (Fig. 1.IB). quidos. Por exemplo, o que caracteriza a grande dife-

CARGA líQUIDA NEGATIVA /


A B I
I
I
I
I
I
I

CARGA líQUIDA POSITIVA f- 0,099 nm +- 0,177 nm -j .....


.....
,

Fig. 1.1 A. Representaçãoesquemática da molécula de água. As duas ligações intramoleculares dos hidrogênios com o
oxigênio formam um ângulo de 105°. As cargas parciais opostas (8- e 8+) na molécula de água resultam na formação de
pontes de hidrogênio intermoleculares com outras moléculas de água; as setas indicam a posição das pontes de hidrogê-
nio. B. Esquema mostrando as distâncias das ligações de átomos de hidrogênio e oxigênio intra e intermoleculares. As
ligações covalentes (intramoleculares) são representadas por linhas contínuas e as pontes de hidrogênio (intermolecula-
res) por linhas pontilhadas .


4 RelaçõesHídricas

rença nas propriedades físicas entre o metano e a água de moléculas biologicamente importantes, como pro~
(Tabela 1.1) é que o primeiro não apresenta efeito de teínas, ácidos nucléicos e carboidratos. Tem sido es~
dipolo permanente, porque suas moléculas não pos~ timado que a capa de hidratação pode corresponder
suem distribuição assimétrica de elétrons, e, conse~ a 30% da massa hidratada de uma proteína, sendo
qüentemente, nenhuma carga parcial que possibilite muito importante para a estabilidade da molécula.
a formação de pontes de hidrogênio. No entanto,
mesmo as moléculas neutras podem apresentar, mo~
Propriedades físicas e químicas da água
mentaneamente, características dipolares, causando
as interações chamadas força de van der Waals. A polaridade da molécula de água e a extensiva
As forças produzidas pela distribuição assimétri~ quantidade de pontes de hidrogênio intermolecula~
ca de cargas da molécula de água são responsáveis res apresentada no estado líquido contribuem para as
pela estrutura simétrica cristalina do gelo. Quando propriedades raras ou singulares e biologicamente
a água no estado sólido derrete a O°C, com a absorção importantes que a água apresenta.
de energia na faixa de 6 kj moI-I, aproximadamente
15% das pontes de hidrogênio são quebradas. No PROPRIEDADE DE SOLVENTE
estado líquido a 25°C, aproximadamente 80% das Por ser um solvente de largo espectro ("solvente
pontes de hidrogênio são mantidas intactas (estru~ universal"), a água dissolve a maior quantidade e
tura semicristalina). Uma considerável quantidade variedade de substâncias do que qualquer outro
de energia, cerca de 32 kj mol-1 (igual a 73% do solvente conhecido. Essa excelente propriedade de
calor latente de vaporização), é requerida para rom~ solvente da água se deve à sua natureza polar e ao seu
per essas pontes durante a evaporação (Fig. 1.2). pequeno tamanho, possibilitando que ela seja um bom
Assim, a fórmula química da água deveria ser expres~ solvente para substâncias iônicas e para moléculas que
sa como (HzO )n, onde n diminui com o aumento da contêm resíduos polares como -OH ou - NHz comu~
temperatura. mente encontradas em açúcares e proteínas. Como
Além das interações entre as moléculas de água, solvente, a água é quimicamente bastante inerte, atu~
as ligações de hidrogênio também são importantes ando como um meio ideal para a difusão e as intera~
para atrações entre a água e outras moléculas ou su~ ções químicas de outras substâncias.
perfícies que tenham átomos eletronegativos (O ou A água tem a capacidade de neutralizar cargas de
N). Por exemplo, as ligações de hidrogênio são a base íons ou macromoléculas, circundando~as de forma
das capas de hidratação que se formam na superfície orientada com uma ou mais camadas, formando a

,,....
""-, , .::...
-..•---~----.
J

/
I
I
I

A
--, " B

Fig. 1.2 A. Diagrama esquemático apresentando a agregação das moléculas numa forma semicristalina. B. Desagregação
das moléculas de água devido à contínua agitação térmica, mostrando uma configuração ao acaso (fase gasosa).


Relações Hídricas 5

A B

+
+
+
+
+
Fig. 1.3 A. Orientação das moléculas de água na superfície de um íon. B. Orientação das moléculas de água em super-
fícies de macromoléculas carregadas. Os círculos verdes indicam a posição dos átomos de oxigênio.

chamada capa de moléculas de água ou camada de PROPRIEDADES TÉRMICAS


solvatação. Essa capa de hidratação reduz as probabi- Em função da considerável quantidade de energia
lidades de recombinações entre os íons e as intera- requerida para romper a forte atração intermolecular
ções entre as macromoléculas, funcionando como um causada pelas pontes de hidrogênio, a água apresen-
isolante elétrico (Fig. 1.3). A efetividade da água ta propriedades térmicas atípicas e biologicamente
como isolante elétrico diminui com a concentração muito importantes, tais como elevados valores de
do soluto. ponto de fusão e de ebulição, de calor latente de fusão e
A água tem a tendência também de se ligar forte- de vaporização e de calor específico. Essas propriedades
mente à superfície de colóides do solo, como argila, são extremamente importantes, possibilitando que a
silte e areia, bem como à celulose e a muitas outras água se mantenha no estado líquido a temperaturas
substâncias. Essa característica de adsorção é de gran- compatíveis com a vida.
de importância na relação solo-planta. De modo geral, quanto menor uma molécula,
A polaridade da molécula de água pode ser medi- menores serão seus pontos de fusão e ebulição. Desse
da por uma grandeza conhecida como constante dielé- ponto de vista, em temperaturas terrestres, a água
trica. A água apresenta uma das maiores constantes estaria na forma de vapor. Entretanto, isso não ocor-
dielétricas de que se tem conhecimento entre os re devido à sua grande capacidade de formar pontes
solventes (Tabela 1.2). Desse modo, a água se apre- de hidrogênio por ser dipolar, apresentando pontos
senta como um excelente solvente para íons e molé- de fusão e ebulição bem superiores aos de outras mo-
culas carregadas, diferentemente do benze no e do léculas similares (Tabela 1.1).
hexano. A energia requerida para separar moléculas de um
líquido e mover para uma fase de vapor adjacente, sem
uma mudança de temperatura, é chamada de calor
Constantes dielétricas de latente de vaporização. Já a energia requerida para
alguns solventes a 25°C converter uma substância do estado sólido para o lí-
Substância
quido é conhecida como calor latente de fusão. As
Constante Dielétrica
pontes de hidrogênio aumentam a quantidade de
Água 78,4 energia necessária para a água evaporar, necessitan-
Metanol 33,6 do de 2.452 j de energia para converter 1 g de água
Etanol 24,3
líquida em vapor (44 kj moI-I). É o maior valor de
Benzeno 2,3
Hexano 1,9
calor latente de vaporização que se conhece entre os
líquidos (Tabela 1.1). Assim como as pontes de hi-
,,
,lr,,~
J.rr
l~
r
-~•.-I~-a'-'••-----•
.••
I

6 Relações Hídricas

drogênio aumentam a energia requerida para a eva- específico com a alta condutividade térmica capaci-
poração, elas também aumentam a energia necessá- ta a água a absorver e redistribuir muita energia caló-
ria para o gelo derreter, fazendo com que a água te- rica sem haver um correspondente aumento da tem-
nha um calor latente de fusão menor somente que o peratura.
da amônia (Tabela 1.1). A água necessita de 335 j de Uma outra propriedade importante para as plan-
energia para converter 1 g de gelo a 1 g de líquido a tas é o fato de a água líquida ser quase incolor. A boa
O°C (6 kj mal-I). transmissão de luz visível toma possível às plantas
A importância dessas propriedades para a vida das aquáticas fotossintetizarem a profundidades conside-
plantas é que, uma vez bem hidratadas, as plantas, ráveis.
para sofrerem com a queda da temperatura, precisam
perder grande quantidade de calor. E, ao contrário, PROPRIEDADES DE COESÃO E
em função da necessidade de absorver grande quan- ADESÃO
tidade de energia calórica de regiões vizinhas, o alto As propriedades de coesão e adesão da água estão
calor de vaporização da água leva a um resfriamento também relacionadas à forte atração entre suas mo-
associado com a evaporação. léculas e entre estas e superfícies carregadas, respec-
O calor específico refere-se à quantidade de ener- tivamente.
gia calórica requerida por uma substância para que A atração intermolecular que ocorre com as mo-
ocorra um dado aumento de temperatura. O calor léculas de água resultando na formação das pontes de
específico da água é de 1 caloria por grama por grau hidrogênio é conhecida como coesão. Como conse-
centígrado correspondendo a 4,184 j g-l °C-I, maior qüência dessa alta força coesiva interna entre as mo-
do que qualquer outra substância, com exceção da léculas, a água apresenta também considerável ten-
amônia líquida, que é cerca de 13% maior. Uma ca- são superficial. Isso fica evidente na comparação en-
loria é definida pela quantidade de calor necessária tre a água e o ar, porque as moléculas de água são mais
para aquecer aI °C 1 ml de água, nas condições nor- fortemente atraídas pelas moléculas vizinhas do que
mais de temperatura e pressão. Quando a temperatu- pela fase gasosa do outro lado da superfície. O termo
ra da água é aumentada, as moléculas vibram rapida- tensão superficial refere-se à condição que existe na
mente, e grande quantidade de energia é requerida interface. Entretanto, a melhor maneira de definir
pelo sistema para quebrar as pontes de hidrogênio. tensão superficial é considerá-Ia como a quantidade
Esse alto calor específico possibilita que a água fun- de energia requerida para expandir a superfície por
cione como um tampão de temperatura para os orga- unidade de área. A água tem uma tensão superficial
nismos. Sendo assim, as células das plantas podem maior do que qualquer outro líquido, com exceção do
trocar grande quantidade de calor com O ambiente mercúrio.
sem que ocorram variações consideráveis na tempe- Como resultado dessa alta tensão superficial, a água
ratura interna da célula. apresenta dificuldades de se espalhar e penetrar nos
O alto calor específico da água tende a estabilizar espaços de uma superfície. Isso fica evidente pela for-
a temperatura e é refletido, sob condições naturais, mação de gotículas nas folhas e pelo fato de a água
na temperatura relativamente uniforme encontrada não entrar nos espaços intercelulares das folhas atra-
em ilhas de terras próximas a grandes corpos de água. vés dos estômatos abertos. A alta tensão superficial é
Isso é importante tanto para a agricultura quanto para a razão também de a água suportar o peso de peque-
a vegetação natural. A água é também extremamen- nos insetos.
te boa condutora de calor, comparada com outros lí- Certos solutos, como sacarose e KCI, não se con-
quidos e sólidos não-metálicos, embora seja pobre centram preferencialmente na interface ar-líquido e,
comparada com os metais. Essa alta condutividade tér- conseqüentemente, têm pouco efeito sobre a tensão
mica da água líquida também se deve à sua estrutura superficial de uma solução aquosa. Por outro lado,
altamente ordenada. A combinação do alto calor ácidos graxas e certos lipídios podem se concentrar
Relações Hídricas 7

na superffcie (interface) e reduzir muito a tensão su~ para tecido e nas plantas do solo para as raízes, destas
perficial. São moléculas conhecidas como surfatantes, para as folhas e, especificamente, no caso da água das
as quais possuem regiões polares (hidrofílicas) e folhas para a atmosfera. Logo, quando se estudam as
apoIares (hidrofóbicas) e são freqüentemente adicio~ relações hídricas nas plantas, é importante que se
nadas aos fungicidas e herbicidas nas pulverizações, conheça o que governa o movimento da água.
visando, com a quebra da tensão superficial, uma dis~ Tanto nos sistemas vivos quanto no mundo
tribuição mais uniforme destes nas superfícies foliares. abiótico, os movimentos das moléculas são governa~
A coesão das moléculas de água é também respon~ dos por dois processos: o fluxo em massa e a difusão.
sável pela alta força tênsil (força de tensão), definida N o caso da água, deve também ser considerado um
como a capacidade de resistir a uma força de arraste, tipo especial de movimento conhecido como osmo~
ou, ainda, é a tensão máxima que uma coluna inin~ se. Esses movimentos obedecem a leis físicas. O gra~
terrupta de qualquer material pode suportar sem que~ diente de potencial de pressão (ou pressão hidrostá~
brar. Não é usual pensar em líquidos dotados de for~ tica) geralmente constitui a força que dirige o movi~
ça tênsil, por esta ser uma propriedade típica dos mento de fluxo em massa; outro tipo de gradiente, o
metais; no entanto, uma coluna de água é também de potencial químico, está geralmente relacionado ao
capaz de suportar tensões bastante altas, da ordem de movimento por difusão. Sendo assim, e ao contrário
30 megapascal (MPa) (1 MPa = 10 bares = 9,87 do fluxo em massa, a força que dirige a difusão da água
atm). Isso facilita o arraste de uma coluna de água em é dependente do gradiente de concentração do soluto.
um tubo capilar sem que esta se rompa. No xilema, o
rompimento da coluna contínua de água tem efeito Fluxo em massa
devastador sobre o transporte da seiva bruta, princi~
palmente em árvores. O movimento de grupos de moléculas por fluxo em
As mesmas forças que atraem as moléculas de água massa ocorre quando forças externas são aplicadas,
(coesão) são aquelas que atraem as moléculas de água tais como pressão produzida por alguma compressão
às superfícies sólidas, uma propriedade conhecida mecânica ou a própria gravidade; assim, todas as
como adesão. Essas interações atrativas são importan~ moléculas tendem a se mover na mesma direção em
tes para a subida da água em tubos de pequenos diâ~ massa, enquanto a difusão resulta do movimento ao
metros. acaso de moléculas individuais. Pode~se então definir
As propriedades de coesão, tensão superficial, for~ fluxo em massa como o movimento conjunto de par~
ça tênsil e adesão, juntas, ajudam a explicar o fenô~ tfculas de um fluido em resposta a um gradiente de
meno conhecido como capilaridade, que é o movi~ pressão; é a forma mais simples de movimento fluido.
mento ascendente da água em tubos de pequenos Exemplos comuns de fluxo em massa são o movimen~
diâmetros tanto de vidro (a água sobe, em um tubo to da água em um rio e a chuva; ambos são respostas à
de vidro de 0,03 mm de diâmetro, até uma altura de pressão hidrostática estabelecida pela gravidade.
aproximadamente 120 em) quanto no próprio xile~ Água e solutos movem~se através do xilema por
ma. Essas propriedades são importantes para explicar fluxo em massa. Esse movimento é causado pela ten~
também a teoria da coesão e tensão ou teoria de Dixon são ou pressão negativa desenvolvida nas superfícies
a respeito do movimento ascendente de água no xi~ transpirantes, a qual é transmitida à seiva do xilema
lema, que será abordado posteriormente. da parte aérea para as raízes, conforme será visto adi~
ante. No interior das plantas pode ocorrer também o
fluxo em massa através das paredes das células, e a
PROCESSOS DO MOVIMENTO DA
própria ciclose (movimento do citoplasma nas célu~
ÁGUA
Ias) pode ser considerada um fluxo em massa. Pode
A água e os solutos estão em constante movimen~ ainda ocorrer fluxo em massa de água e outras subs~
to dentro das células, de célula para célula, de tecido tâncias no solo, e deste para as plantas .


8 Relações Hídricas

Difusão léculas ocorre, um equilíbrio dinâmico é estabeleci~


do e o movimento líquido de moléculas cessa (em-
Conforme já foi mencionado, ao contrário do flu- bora exista um contínuo movimento dentro de uma
xo em massa, a difusão envolve movimento espontâ-
estrutura em equilíbrio).
neo, ao acaso, de partículas individuais. Define-se o
Um primeiro tratamento matemático para expres~
fenômeno de difusão como o movimento, ao acaso,
sar o processo de difusão quantitativamente foi feito
de partículas (moléculas e íons), causado pela sua
por A. Fick em 1855, conhecido como 1ª Lei de Fick:
própria energia cinética, de uma região para outra
adjacente, onde a mesma substância está em menor
concentração ou menor potencial químico. Sendo J.] = -D .--dcj (1.1)
] dx
assim, a difusão é um processo pelo qual as partículas
se misturam como resultado de sua agitação ao aca-
so. Por exemplo, as partículas que constituem um sis- lj
onde é o fluxo da substância j (moles m-2 S-I), que
tema estão em contínua movimentação (movimen- se refere à quantidade da substância j (dm) atraves-
to termocaótico) em todas as direções, colidindo umas sando uma certa área por unidade de tempo (dt); logo,
com as outras e trocando energia cinética. Se houver lj = dm/dt. Dj é o coeficiente de difusão da substân~
inicialmente uma distribuição desuniforme de molé- cia j (cm2 ç
1 ), que varia com o tipo de substância e
culas ou íons de determinada substância, o movimen- com o meio (moléculas grandes têm um menor coe-
to contínuo destes tende a distribuí-Ios uniformemen- ficiente de difusão, e a difusão no ar é mais rápida do
te através de todo o espaço disponível, ou seja, como que no líquido). O gradiente de concentração (dc/
existe maior número de partículas na região de mai- dx) é usualmente aproximado como !lc/ !lx, que é a
or concentração (maior potencial químico), haverá diferença na concentração da substância j, força que
maior probabilidade de as partículas se moverem em está dirigindo a difusão entre dois pontos separados
direção à região de menor concentração, isto é, de pela distância !lx. O sinal negativo indica que o
menor potencial químico da substância (Fig. 1.4). movimento ocorre em direção à região de menor
Quando o açúcar (soluto) é colocado em um reci- concentração. Na equação se observa que, para uma
piente com água (solvente), as moléculas do soluto dada substância, a taxa de difusão por unidade de área
irão difundir~se em direção ao solvente, enquanto as é proporcional ao gradiente de concentração e inver-
moléculas deste difundir~se~ão na direção oposta. Isso samente proporcional à distância na qual ela ocorre.
ocorre até a solução ficar uniformemente misturada, A difusão de solutos a longas distâncias é muito
sem necessidade de outras forças agindo sobre as lenta. Calculou~se um período de 8 anos para uma
moléculas. Quando a distribuição uniforme das mo~ pequena molécula com coeficiente de difusão de 10-5

4! l' I t.
I
...•
início
R2
R2 R,

,
r ..•,.
~
•••
-'.
equilíbrio

JtI ••. • •ti


B
1

I ,

Fig. 1.4 Movimento termocaótico de partículas levando à difusão, que pode ocorrer tanto com líquidos, sólidos ou gases.
A. Compartimentos com diferentes concentrações. B. Compartimentos após o equilíbrio dinâmico. Entrapia de R2 > RI
no início, tendência de R2 se desorganizar até RI = R2.
Relações Hídricas 9

cm Z S -1 difundir 1 m na água, mas somente 0,6 segun- tambémfiuxo em massa através de canais da membra-
do para difundir 5 jLm, uma distância típica de célu- na. Essa constatação baseou-se em vários experimen-
las da folha (Nobel, 1991). Isso sugere que o movi- tos, indicando que o movimento osmótico da água é
mento a longas distâncias nas plantas, como no xile- mais rápido do que a difusão de água marcada com
ma, não ocorre por difusão. As substâncias que se deutério e trítio.
movem no fluxo transpiratório da planta (longa dis- Somente nos anos 90 é que a questão dos canais
tância) o fazem principalmente por fluxo em massa. de água nas membranas foi mais bem compreendida,
Assim como o fluxo em massa, a difusão faz parte ao serem identificados esses canais, denominados
da nossa rotina, como o açúcar colocado no copo de aquaporinas, formados por proteínas com massa mo-
água, o odor do perfume de um frasco aberto no can- lecular de 26 a 29 KD pertencentes à principal famí-
to da sala, que se toma uniformemente distribuído no lia de proteínas integrantes da membrana formadora
ambiente, o corante colocado num tanque com água de canais. Sabe-se hoje que as aquaporinas são pro-
etc. Além disso, a difusão tem grande significado na teínas que aumentam a permeabilidade das membra-
relação água-planta. A transpiração é um processo nas biológicas à água e são amplamente distribuídas
difusional, sendo importante também no movimen- nos diferentes organismos.
to de nutrientes e água do solo para chegar até as ra- Com a identificação dos canais seletivos, ficou cla-
ízes e da água e gases no interior da planta. Em parti- ro que a osmose que ocorre na absorção de água pelas
cular, a difusão é que possibilita o suprimento de di- células envolve a combinação de difusão de molécu-
óxido de carbono (COz) para a fotossíntese, o que las de água (uma a uma) através da membrana plas-
pode ocorrer para distâncias maiores porque o coefi- mática e o fluxo em massa através de canais de dimen-
ciente de difusão no ar é muito maior do que nas so- sões moleculares, que ficam cheios de água (Fig. 1.5).
luções aquosas. Para os dois tipos de movimento, a força que dirige
os processos é o gradiente de potencial químico da
água. A descoberta das aquaporinas resolve o questi-
Osmose
onamento do descompasso entre a rapidez da osmose
Imagine-se um recipiente separado em duas par- e velocidade de difusão individual de moléculas de
tes por uma membrana com permeabilidade seletiva água através da membrana. A capacidade de trans-
(semipermeável), tendo de um lado água pura e, do portar água pode ser regulada pelo estado de fosfori-
outro, uma solução de açúcar. Sob tais condições
ocorrerá um maior movimento de água do local onde
ela se encontra pura para o lado contendo a sacarose.
Esse maior movimento da água através da membra-
na semipermeável é chamado de osmose. As membra-
nas celulares de todos os organismos são semiperme-
áveis, ou seja, elas permitem que água e outras peque-
nas substâncias sem carga atravessem mais pronta-
mente do que solutos de partículas grandes e substân-
cias carregadas.
Durante muito tempo, pensou-se que a osmose, que
é a forma de movimento da água para dentro e para
fora das células, fosse uma difusão através da mem-
Fig. 1.5 Água atravessando a membrana celular de plan-
brana a favor de um gradiente de potencial químico tas. A. Por difusão individualmente atravessando a
da água (no próximo item será abordado o conceito bicamada lipídica. B. Por fluxo em massa, através de ca-
de potencial químico). Entretanto, há algum tempo nais de dimensões moleculares formados por proteínas in-
pesquisadores têm observado que a osmose envolve tegrais da membrana, tais como aquaporinas.

J
10 Relações Hídricas

lação das aquaporinas, ou seja, pela adição ou remo-


ção de grupos fosfatos de resíduos de aminoácidos
específicos das proteínas dos canais de água. Essa re-
gulação pode alterar a taxa de movimento da água,
mas não muda a direção do movimento nem a força
que o dirige.
A osmose pode ser demonstrada por um dispositi-
vo conhecido como osmômetro. Este se constitui do
fechamento de uma das extremidades de um tubo
contendo uma solução de sacarose com uma membra-
na semipermeável (Fig. 1.6A). Quando o conjunto é
colocado dentro da água pura, ocorre um aumento do B
volume de solução no tubo devido à maior passagem
Fig. 1.6 Osmômetro, dispositivo para demonstrar a osmose.
de água do recipiente para o tubo, que é a osmose. Isso
Difusão de água através da membrana semipermeável em
ocorre porque o potencial químico da água na solu-
resposta ao gradiente de potencial químico da água. A.
ção é menor do que o da água pura. O movimento de Início da osmose. B. Pressão aplicada acelerando o equilí-
água através da membrana diminui gradualmente, em brio dinâmico (movimento pela membrana em ambas as
parte devido à diluição da solução no tubo e, em par- direções se igualam).
te, à pressão hidrostática exercida pelo aumento do
volume de água no interior do osmômetro. Tanto a
diluição quanto a pressão hidrostática contribuem Análogo ao osmômetro é o comportamento das
para o aumento do potencial químico da água no células das plantas. Quando células flácidas, ou seja,
tubo, diminuindo em conseqüência o gradiente. O com baixa pressão de turgor, são colocadas em água,
equilíbrio é estabelecido quando a pressão hidrostá- no início a absorção é rápida, diminuindo lentamente
tica neutraliza o efeito da presença da sacarose, fazen- até chegar ao equilíbrio dinâmico, cessando a absor-
do com que o gradiente de potencial químico da água ção líquida de água. Nesse ponto, a energia livre da água
desapareça. fora e dentro da célula é a mesma. Embora haja uma
O osmômetro mostra que a osmose não é dirigida maior concentração de água livre do lado de fora da
somente pela concentração de soluto dissolvido, mas célula, o aumento da pressão de turgor no interior da
também por pressões a que os sistemas podem ser sub- célula vai balancear essa diferença, possibilitando o
metidos. Sendo assim, a solução do tubo pode ser equilíbrio da célula vegetal com a água pura. O estado
pressionada possibilitando medir a força necessária de energia livre da água representa o seu potencial
para impedir qualquer aumento no volume do tubo químico, que é, na verdade, a força que dirige o movi-
(Fig. 1.6B). Essa força, medida em unidades de pres- mento da água nas plantas. Essa força é composta, pois,
são (força por unidade de área), é igual à pressão como foi visto, a osmose é dirigida por gradiente de
osmótica exercida pela solução de açúcar. concentração, como a difusão, e por gradiente de pres-
Não sendo colocada em um osmômetro, uma so- são, como o fluxo em massa. Por isso, na prática, essa
lução isoladamente não apresenta pressão osmótica força é expressa como gradiente de potencial químico
(7T), possuindo somente o potencial para manifestar ou, mais comumente, pelos fisiologistas de planta,
essa pressão. Por essa razão, diz-se que as soluções têm como gradiente de potencial de água.
um potencial osmótico (1J!7T), que é uma de suas pro-
priedades, cujo valor é o mesmo da pressão osmótica,
mas com sinal negativo, pois apresentam forças iguais
POTENCIAL QUíMICO
mas opostas. Ainda neste capítulo, será abordado mais O potencial químico (J.L) é uma maneira termodi-
detalhadamente o potencial osmótico. nâmica de descrever quantitativamente a energia li-


Relações Hídricas 11

vre associada com a capacidade de uma substância da pressão osmótica (1T), como visto no item sobre
realizar trabalho. Como qualquer outra substância, a osmose, e diminui o potencial químico (JL). Isso
água move~se de uma região de maior para outra de mostra que a 1T e a aw mudam em direções opostas e
menor potencial químico. podem ser expressas da seguinte forma:
Tanto para a água quanto para qualquer outra subs~
tância, o potencial químico é claramente dependen- (1.3 )
te de vários fatores, como a concentração (ou ativi-
dade química), pressão, potencial elétrico e efeito da onde o w subscrito refere-se à água. Substituindo a
gravidade. O impacto dos vários fatores sobre o po- equação 1.3 na equação 1.2, desprezando o compo-
tencial químico pode ser sumariado pela soma dos nente elétrico, já que se trata de água, tem~se:
vários componentes (Nobel, 1991):

JL = JL* + RTlna + zFE + VP + mgh (1.2)


De acordo com a equação 1.4, a dimensão em que
Potencial químico é uma quantidade relativa, desse o potencial químico da água em uma solução (fJ.-)
modo, um nível de referência, JL*, é incluído na equa~ difere do potencial químico da água pura (fJ.-* w) que
ção 1.2. Existindo uma constante desconhecida, o seria o gradiente, um valor relativo fácil de ser medi-
valor real do potencial químico não é determinável. do, é uma função do componente osmótico, da pres-
Como o mais importante para os fisiologistas de plan- são e para grandes árvores do componente gravitaci-
tas é o gradiente de potencial químico (JL - JL *), onal. No exemplo do osmômetro, após o equilíbrio
quando isso é feito, o JL* desaparece. A unidade de JL dinâmico, essas forças se anulavam de forma que a
e JL* é energia por moI de substância, como, por exem- solução entrava em equilíbrio com a água pura, ou
plo, joule mol-l ou caloria moI-I. seja, JLw - fJ.-* w = o.
O termo RTlna (R = constante universal dos gases,
T = temperatura absoluta e a = atividade química) é a POTENCIAL DE ÁGUA
contribuição da concentração (ou atividade química)
para o potencial químico. O terceiro termo zFE (z = Nota-se, na equação 1.4, que o potencial químico
carga elétrica líquida, F = constante de Faraday e E = é mais facilmente quantificável como uma medida
potencial elétrico) diz respeito ao componente elétrico relativa e é expresso como a diferença entre o poten~
e pode ser ignorado para a água, pois, a despeito de sua cial químico de uma substância num dado estado e o
forte natureza dipolar, a carga líquida da água é zero. potencial químico da mesma substância em um esta-
O termo VP representa o efeito da pressão sobre o do padrão; no caso da água, fJ.-w- * w' Ainda que o
fJ.-

potencial químico. V é o volume parcial molal, ou valor de fJ.-w- JL* w seja mais facilmente medido, os fi-
volume ocupado por um moI de substância, para a água siologistas de plantas simplificaram ainda mais, intro-
18 cm3 ou ml por moI de água. Medidas em fisiologia duzindo o conceito de potencial de água, simboliza~
vegetal são feitas em sistemas sujeitos à pressão atmos- do pela letra grega psi em maiúsculo com w subscrito,
férica, sendo assim conveniente definir P como a pres~ Pw' O potencial de água é proporcional ao fJ.-w- *w fJ.-

são que excede a atmosférica. Em célula vegetal, a pre~ e pode ser definido a partir de um rearranjo da equa~
sença de paredes celulares rígidas permite o desenvol- ção 1.4:
vimento de significativa pressão hidrostática.
A contribuição do campo gravitacional é dada pelo
termo mgh (m = massa da substância, g = aceleração
Pw = (JLw .7- fJ.-;) =P- 1T + Pwgh (1.5)
w

devido à gravidade e h = altura).


A adição de solutos em uma solução aquosa tende onde P é a pressão hidrostática, 1T é a pressão osmótica
a diminuir a atividade da água (aw)' causa aumento e Pw é a densidade da água, que é dada por mJV w' Por



r •-IJ•J..-,.-
•11".J'
•••I•J{1••1•.

12 Relações Hídricas

essa equação, um aumento na pressão hidrostática conseqüentemente, a água caminha no sistema solo-
aumenta o Pw, enquanto um aumento da pressão planta-atmosfera a favor de um gradiente de poten-
osmótica o diminui. Desse modo, o Pw é definido cial de água.
como a diferença do potencial químico da água numa
condição qualquer daquele da água líquida pura em
Componentes do potencial de água
estado padrão dividido pelo volume parcial molal
(Vw), que é o volume de 1 moI de água (18 cm3 mol-I
No item anterior, foi definido o potencial de água
ou 18 X 10-6 m3 moI-I), considerado uma constante e considerados três dos seus componentes: o poten-
em faixas biológicas de temperatura e concentração. cial de pressão (Pp), o potencial osmótico (P7T) e o
A unidade de potencial químico, energia livre por potencial gravitacional (Pg). Esses componentes
moI, é inconveniente em discussões de relação água- indicam os efeitos da pressão, solutos e gravidade,
célula e água-planta. É mais conveniente usar uni- respectivamente, sobre a energia livre da água.
dades de energia por unidades de volume. Essas me-
didas são compatíveis com unidades de pressão (muito POTENCIAL DE PRESSÃO (1Jfp)
convenientes) e foram obtidas a partir da definição O Pp é idêntico ao P da equação 1.5, e representa
do potencial de água quando se dividiu f.Lw - f.L * w (erg a pressão hidrostática que difere da pressão atmosfé-
moI-I) por Vw (em3 moI-I). Pois 106 ergs cm-3 = 1 rica do ambiente, ou seja, uma vez que o Pw de refe-
bar = 105 Pa = 0,987 atm. Bares, pascal e atmosfera rência (água pura) é considerado em pressão atmos-
são unidades de pressão. A unidade mais usada para férica, por definição, nessas condições, o 1Jip é igual a
expressar o potencial de água é o megapascal (como zero. Pressão positiva aumenta o Pw e a negativa o
definido anteriormente, 1 MPa = 10 bares = 9,87 reduz. Quando nos referimos à pressão hidrostática
atm). Na prática é bem mais fácil medir mudanças de dentro das células, o 1Jip é usualmente chamado de pres-
pressão do que medir a energia requerida para movi- são de turgor e tem um valor positivo. A pressão de tur-
mentar a água. Além disso, o conceito de potencial gor resulta da água que chega ao protoplasto, pres-
de água tem sido amplamente aceito porque evita a sionando-o contra a parede celular que resiste à ex-
dificuldade de medir a atividade química. pansão. Células com pressão de turgor são ditas túr-
Por definição, o Pw da água pura é igual a zero, uma gidas e sem turgor são ditas flácidas. Em plantas her-
vez que o numerador da equação 1.5 f.Lw - f.L * w é zero. báceas, a pressão de turgor tem grande importância
As medidas do potencial de água são sempre compa- na manutenção do hábito ereto; perda de pressão de
radas a esse Pw igual a zero, que é o da água líquida e turgor resulta em murchamento.
livre, à pressão atmosférica, à mesma temperatura do O 1Jip pode assumir valores negativos (conhecidos
sistema sendo medido e a um nível zero para o termo como tensão) quando a pressão está abaixo da atmos-
gravitacional. Isso não quer dizer que a atividade férica. Isso ocorre com freqüência em elementos de
química da água nessas condições seja também zero; vaso do xilema de plantas transpirando. Essas pres-
ao contrário, ela é bastante alta, pois, quando pura, a sões negativas são muito importantes no movimento
água tem grande capacidade de reação. Tendo a água da água a longas distâncias através da planta, o que
livre um Pw = O, usado como referência, na maioria será visto mais adiante.
dos casos o Pw dentro das células das plantas é nega-
tivo, assim como em qualquer outra solução aquosa. POTENCIAL OSMÓTICO (1JFTT)
O Pw indica quanto a energia livre de um sistema Como já foi mencionado, o potencial osmótico é
difere daquele do estado de referência. Essa diferença uma propriedade das soluções; portanto, seu uso é
é a soma das forças do soluto ( -7T = P7T),pressão (P preferível se comparado ao termo pressão osmótica.
= 1Jip) e gravidade (p.,gh = Pg) agindo sobre a água: O P7T diz respeito ao efeito do soluto dissolvido so-
bre o PWj quando diluídos em água, os solutos redu-
Pw = P 7T + Pp + Pg ( 1.6) zem a energia livre do sistema. Em qualquer condi-
Relações Hídricas 13

ção que não haja soluto, como água pura, o 1Jt7r é zero; e paredes celulares, freqüentemente se encontra re-
isso significa que a presença de solutos reduzirá o 1Jt7r, ferência a mais esse componente do 1Jtw. O 1Jtm é
que assumirá valores negativos. particularmente importante em estágios iniciais de
Sendo o componente produzido pelas substâncias absorção de água pelas sementes secas (embebição)
dissolvidas nas células, o 1Jt7r é uma resposta princi- e quando se considera a água retida no solo. Existe
palmente ao conteúdo dos vacúolos, característicos também o componente matricial nas células (molé-
da maioria das células vegetais, e que geralmente culas higrófilas, p. ex. proteínas); todavia, sua con-
apresentam valores na faixa de -0,1 a -0,3 MPa. tribuição para o potencial de água é relativamente
Para soluções "ideais" ou diluídas de substâncias não- pequena comparada à do 1Jt7r.
dissociáveis, o 1Jt7rpodeser estimado pela equação de Não obstante as considerações feitas, a equação
van't Hoff: completa incluindo todos os componentes que podem
influenciar na quantidade de energia livre da água,
1Jt7r = - Rtcs (1.7) ou seja, no 1Jtw, é a seguinte:

onde R é a constante dos gases (8,314 j mol-I K-I), t o/w = 1Jt7r + 1Jtp + 1Jtm + 1Jtg ( 1.8)
é a temperatura absoluta (em K) e Cs é a concentra-
ção do soluto na solução, expressa como osmolalidade
MOVIMENTO DA ÁGUA ENTRE
(moles totais de soluto dissolvido por litro de água,
moI L-I). O sinal negativo indica que os solutos re- CÉLULAS E TECIDOS
duzem o 1Jtw da solução. Como exemplo, utilizando- Os espaços dentro das células (citoplasma e vacúo-
se dessa equação, para uma solução de sacarose de 0,1 los) são chamados de simplasto, enquanto os exter-
M a 20°C, o 1Jt7r = -0,244 MPa. Para solutos iôni- nos à membrana plasmática, de apoplasto. Quando a
cos que se dissociam em duas ou mais partículas, Cs célula se encontra em equilíbrio, o 1Jtw é o mesmo
deve ser multiplicado pelo número de partículas no vacúolo, citoplasma e parede celular. Entretan-
dissociadas. Geralmente em estudos envolvendo cé-
to, os componentes do O/W podem diferir marcada-
lulas vegetais, considera-se que estas se comportam mente entre essas fases. Para a água no vacúolo e ci-
como soluções ideais.
toplasma (água no simplasto), os componentes do-
minantes são usualmente o 1Jtp e 1Jt7r, com o 1Jtp ten-
POTENCIAL GRA VITACIONAL (1Jfg) do quase sempre valor positivo. No apoplasto que
Na realidade, o termo p.gh da equação 1.5, que é inclui a água nas paredes e no lúmen das células
igual ao 1Jtg, quase sempre tem sido desprezado. A sua mortas, tais como elementos de vaso, traqueídeos e
importância é insignificante dentro das raízes ou fo- fibras, o componente dominante é o 1Jtp, com 1Jt7r e
lhas, mas ele se toma significativo para movimentos 1Jtm contribuindo para o 1Jtw sobretudo na região
de água em árvores altas. O movimento ascendente imediatamente adjacente à superfície carregada das
em um tronco de árvore deve vencer uma força gra- paredes. Portanto, quando se estuda o transporte de
vitacional de aproximadamente 0,01 MPa m-I. água nas células vegetais, a equação 1.8 é usualmen-
te simplificada para:
POTENCIAL MÁTRICO OU
MA TRICIAL (1Jfm) (1.9 )
Sólidos ou substâncias insolúveis em contato com
água pura ou solução aquosa atraem moléculas de água sendo o componente gravitacional (1Jtg) ignorado
e diminuem o o/w. Esse componente é denominado para distâncias verticais menores do que 5 m.
de potencial mátrico, que pode ser zero ou apresen- Semelhante ao que foi demonstrado com o
tar valores negativos, uma vez que diminui a energia osmômetro, os movimentos de entrada e saída de água
livre da água. Em discussões de solos secos, sementes das células ocorrem por osmose. O comportamento


(
••

14 RelaçõesHídricas "

osmótico das células pode ser facilmente visualizado módulo" e o Pw da célula atinge o valor zero (Fig.

com a imersão de uma célula vegetal em soluções com 1.7B e C). •
diferentes potenciais da água. Num recipiente com Mesmo um ligeiro aumento no volume causa •
água pura ou com solução aberta para a atmosfera, a uma considerável elevação da pressão hidrostáti- •
pressão hidrostática da água é a mesma da pressão ca dentro das células vegetais, devido à presença •
atmosférica (Pp = O MPa). No caso da água pura de paredes celulares relativamente rígidas. Na Fig. •
(P'TT = ° °
MPa), logo o Pw = MPa (Pw = P'TT + 1. 7B e C, o Pp da célula em equilíbrio com o meio I
Pp). Quando uma célula vegetal é colocada em água é sempre maior que aquele da célula antes da
pura, a água mover-se-á para dentro da célula até o imersão. A parede celular resiste ao aumento da

Pw da célula se igualar a zero (Fig. 1.7A e B). Nessa pressão interna exercendo uma pressão contrária

condição de equilíbrio, a célula atinge o turgor totaL sobre a célula. Assim, a entrada de água na céluLa •
Se a célula for imersa em uma solução de sacarose a provoca um aumento da pressão hidrostática ou •
0,1 M com Pw maior que o dela, ocorrerá também pressão de turgor (Pp), aumentando conseqüente- •
absorção de água pela célula até os Pw se igualarem; mente o Pw. Considerando que as células vegetais
no entanto, nesse ponto a célula não vai atingir o possuem paredes celulares bastante rígidas, conclui-

turgortotal (Fig.1.7C). Nessas condições, então o Pp se que pouca água deve entrar. Pode-se então supor
da célula em equilíbrio vai ser menor "em módulo" que o P'TT da célula varia pouco durante o processo

que o P'TT; logo, o Pw da célula, assim como o da até o equilíbrio. As relações entre Pp, P'TT e Pw de

solução, será negativo, diferente da célula em equilí- uma célula isolada imersa em água pura são ilustra- I
brio com a água pura, onde o P'TTse iguala ao Pp "em das na Fig. 1.8.
,





I

I
I
I

I
Fig. 1.7 Movimentos de água de célula imersa em diferentes meios para ilustrar os conceitos de potencial de água e seus
componentes. A. Célula vegetal antes da imersão com 'l'p = O; 'l'n < O; 'l'w < O. B. Célula com 'l'p > O; 'l'n < O;
'l'w = O ('l'n = 'l'p em módulo) em equilíbrio com água pura (rurgor total). C. Célula com 'l'p > O; 'l'n < O; 'l'w < O
('l'n > 'l'p em módulo) em equilíbrio com solução de sacarose 0,1 M (sem atingir turgor total, 'l'p de c < 'l'p de b).
D. Célula com 'l'p = O; 'l'n < O; 'l'w < O, em equilíbrio com solução de sacarose 0,3 M (célula flácida).
Relações Hídricas 15

célula flácida
pressão de turgor = O
célula próxima do equilíbrio
1,2
••
célula em equilíbrio
(? pressão de turgor = 0,8 MPa
o...

~ 0,8
(ij
·u
c
<ll
Õ
a.
0,4

O ,

1,1 1,2 1,3 1,4 1,5


I
pasmólise /1,0 volume da célula
incipiente

Fig. 1.8 Mudança no potencial de água em uma célula flácida até o equilíbrio, após ser colocada em água pura. Note que,
para o potencial osmótico e o de água, os valores são negativos, enquanto, para o potencial de pressão, são positivos.
(Diagrama de Hôfler modificado.)

o formato exato das curvas da Fig. 1.8 depende da (Fig. 1.70). O ponto em que o protoplasto deixa de
rigidez da parede celular. Se a parede for muito rígi~ pressionar a parede celular (Pp = °e P11 = Pw) é
da, uma pequena mudança no volume causa uma chamado de plasmólise inciPiente. Plasmólise é a con~
grande mudança na pressão de turgor (PP). A rigi~ dição em que o protoplasto se desprende da parede
dez da parede pode ser medida pelo coeficiente de celular; essencialmente é um fenômeno de laborató-
elasticidade, simbolizado por E (letra grega epsilon). rio, com possíveis exceções em condições extremas
A propriedade de elasticidade da parede é dada pela de estresse salino ou de água, que raramente ocorrem
mudança na pressão hidrostática (.1PP) dividida pela na natureza. Independentemente da situação que foi
mudança relativa no volume (L1v/v) que é: apresentada na Fig. 1.7, no equilíbrio o movimento
de água para dentro e para fora é igual, e o fluxo lí-
L1pp quido é zero.
(1.10)
E = L1v/v O ponto comum de todos os exemplos apresenta-
dos na Fig. 1.7 é que o movimento da água é passivo.
o coeficiente de elasticidade, E, é a inclinação da A água move-se, em resposta a forças físicas, de uma
curva do Pp na Fig. 1.8; logo, é expresso em unida~ região de maior para outra de menor potencial de água
des de pressão, com valor típico na ordem de 10 MPa. ou energia livre. Assim também é o movimento por
Valores altos de E indicam paredes rígidas relativa- simples difusão que ocorre entre células conectadas
mente pouco elásticas, enquanto pequenos valores por plasmodesmos. Conseqüentemente, dentro de um
indicam paredes mais elásticas. grupo estruturalmente homogêneo de células, tal
\ Retirando-se a célula em equilíbrio com a solução como o parênquima, células individuais podem ter
de sacarose 0,1 M (Fig. 1.7C) e imergindo-a numa diferentes valores de P11, mas, quando o tecido está
solução de sacarose 0,3 M, portanto com um valor de em equilíbrio, o valor de Pw é o mesmo para todas
P11 menor (mais negativo), a água mover-se-á para as células.
fora da célula em resposta ao gradiente de Pw. No Como visto no parágrafo anterior, a força que di-
equilíbrio, a célula tomar-se-á flácida, e o Pp será rige o movimento da água é o gradiente de potencial
zero, diminuindo assim o volume e o Pw da célula de água (.1Pw), mas o que determina a taxa em que


16 Relações HídTÍcas

a água se move depende, além do L11Jiw entre a célu- tese protéica, síntese de parede, expansão celular,
la e o ambiente que a envolve, da permeabilidade da entre outros.
membrana à água, uma propriedade conhecida como
condutividade hidráulica (Lp) da membrana. A for- ÁGUA NO SOLO
ça que dirige o movimento (L11Jiw), a permeabilida-
Tanto a água utilizada pelas plantas nas suas fun-
de da membrana. (Lp) e a taxa em que o fluxo ocorre
(J v) estão relacionadas pela seguinte equação: ções vitais quanto a que é perdida para a atmosfera
por transpiração provêm do solo. As plantas absor-
Jv = Lp (L11Jiw) (1.11) vem água do solo pelas raízes e a translocam até as
folhas, onde é perdida para a atmosfera, estabelecen-
A condutividade hidráulica expressa a capacidade da do uma coluna contínua de água no sistema solo-
água de mover-se através da membrana, envolvendo planta-atmosfera, obedecendo a um gradiente decres-
unidades de volume, de área da membrana, de tem- cente de 1Jiw. É importante para o entendimento de
po e de gradiente de potencial de água (p. ex., m3 m-2 todo esse movimento da água uma abordagem sucin-
S-1 MPa-1 ou m S-1 MPa-1). Quanto maior for a con- ta a respeito da natureza dos solos, uma vez que o
dutividade hidráulica, maior será a taxa do fluxo. O conteúdo de água e a taxa do movimento da água no
fluxo (Jv) é o volume de água atravessando a mem- solo dependem do tipo de solo e de sua estrutura.
brana por unidade de área de membrana por unidade O solo é um sistema complexo constituído de 3
de tempo (m3 m-2 S-1 ou m S-1). Quando o movimen- fases: sólida, líquida e gasosa. A fase sólida (matriz) é
to de água for de célula para célula através dos plas- constituída pelas frações mineral e orgânica. A fra-
modesmos, a orientação é dada apenas pelo L11Jiw. ção mineral resulta da ação degradadora (intemperis-
Além da essencialidade do conceito de potencial mo) de natureza física, química e biológica sobre as
de água como fator que governa o transporte da água rochas, originando partículas de diferentes tamanhos
no sistema solo-planta-atmosfera, ele é importante (Tabela 1.3) que irão constituir a estrutura do solo.
também como medida do estado de hidratação das A fração orgânica, mais conhecida como matéria or-
plantas. Esse estado pode variar tanto entre espécies gânica do solo ou húmus, resulta da decomposição
de diferentes estratos numa formação vegetal, quan- biológica de animais, microrganismos e principalmen-
to para as mesmas espécies em diferentes estações te vegetais. Em equilíbrio com a fase sólida, encon-
(Fig. 1.9). Uma deficiência de água no solo e, em tra-se a fase líquida do solo, constituída de uma solu-
conseqüência, na planta inibe o crescimento por afe- ção aquosa diluída. A fase gasosa geralmente está em
tar processos da fotossíntese, abertura estomática, sín- equilíbrio com a atmosfera.

6 III-1,8
°

I
I -0,6 L-.J chuvosa
I II °Estrato
LILI
:J
·ro
ÕQ)
""O -1 -1,5
IIarbóreo
-0,5
arbustivo
A Estaçãoseca B -2
Cl a«i.. I
'u
-1~

Fig. 1.9 Potencial de água de nove espécies pertencentes a um cerradão do município de São Carlos - Brasil. A. Valores
médios obtidos para espécies pertencentes a diferentes estratos. B. Valores médios obtidos para as nove espécies na esta-
ção seca e na chuvosa. (Modificado de Perez & Moraes, 1991.)
Relações Hídricas 17

potencial de pressão ( P'p). Quanto mais seco estiver


Características
diferentes solosfísicas d~ I
o solo, menor será o seu P'w. Na maioria dos solos,
em razão de a fase líquida ser bastante diluída, o P'7T
<
100-1.000
Área
(mm)10-100
<por1-10
0,2-0,05
Diâmetro
0,002
0,05-0,002
Superficial
Grama (m")
da Partícula
------.------- da solução é geralmente desprezível, aproximando-se
de zero, algo em tomo de -0,02 MPa. Portanto, ex-
ceto em solos salinos onde o P'7Tpode atingir valores
até menores que -0,2 MPa, o P'w do solo é determi-
nado principalmente pelo potencial de pressão nega-
tivo (- P'p).
Para solos úmidos, o P'p encontra-se próximo a
zero; no entanto, à medida que água é evaporada e
A estrutura do solo afeta a poros idade, a qual está não é reposta, o P'p diminui, reduzindo conseqüen-
ligada diretamente à retenção da água e à aeração. temente o P'w. Alguns textos atribuem essa diminui-
Solos arenosos têm relativamente baixa área superfi- ção do P'w ao potencial mátrico (P'm), e não ao P'p
cial por grama de solo, com espaços relativamente negativo. Mas o P'm do solo é devido primariamente
grandes, ou canais entre as partículas, exatamente o à pressão local, causada pela capilaridade e interação
oposto de um solo argiloso. Portanto, solos argilosos da água com as superfícies sólidas do solo (ver
que apresentam microporos ou poros capilares rete- Passioura, 1980). Neste capítulo será considerado o
rão mais água do que solos arenosos, que apresentam termo P'p como o componente principal responsável
poros de maior diâmetro. pela diminuição do P'w do solo.
Quando um solo recebe grande quantidade de A ocorrência do potencial de pressão negativo
água, seja por chuva ou por irrigação artificial, os ( - P'p) no solo está ligada ao fato de a água apresen-
poros ficam saturados, diminuindo parcial ou total- tar alta tensão superficial, tendendo a minimizar as
mente os espaços aéreos. O excesso de água é drena- interfaces ar-água. A água adsorvida pelo solo na CC
do livremente por gravidade, e o restante permane- ou abaixo desse ponto é encontrada em canais capi-
cerá retido nas camadas superficiais do solo. O con- lares e em espaços intersticiais entre partículas de solo
teúdo de água do solo que permanece retido por ca- em contato. À medida que o solo vai secando, a água
pilaridade após o excesso de água ter sido drenado é primeiramente removida dos espaços maiores en-
livremente é denominado capacidade de campo (CC), tre as partículas. Nessas condições, a água forma uma
que é expressa em gramas de água por 100 ml de solo. fina camada (filme) envolvendo a superfície das par-
Sob condições naturais, podem ser necessários 2 a 3 tículas. À medida que a água evapora desse filme, ou
dias para um solo argiloso retomar à CC após um é absorvida pelas raízes, a interface ar-água retrai para
período de muita chuva. os pequenos espaços entre as partículas do solo. Isso
Pelo fato de o solo argiloso apresentar maior quan- cria meniscos microscópicos com superfícies muito
tidade de poros menores, ele possui maior capacida- pequenas e curvas. O raio dos meniscos diminui pro-
de de estocar água, ou seja, maior CC do que o solo gressivamente, e a tensão superficial na interface ar-
arenoso. Sendo assim, o solo arenoso apresenta bai- água gera uma crescente pressão negativa (- P'p).
xa capacidade de campo e é bem aerado, enquanto o Conseqüentemente, o conteúdo de água no solo, na
solo argiloso tem alta CC mas é menos aerado. O ideal ou abaixo da CC, estará sob tensão (- P'p), e o po-
para o desenvolvimento das plantas é uma estrutura tencial de água será negativo. O potencial de pressão
de solo que represente um balanceamento entre re- negativo desenvolvido nas pequenas superfícies cur-
tenção de água e aeração. vas pode ser estimado pela fórmula:
Assim como nas células, o potencial de água ( P'w)
da solução do solo pode ser considerado como tendo ,Tr -2T
'rp -_ - (1.12)
dois componentes, o potencial osmótico (P'7T) e o r
-
~.-
1I
I••••'-..•.
'I-1

18 Relações Hídricas

onde T é a tensão superficial da água (7,28 X 10-8 no PMP pode variar entre -1 e -4 MPa. Desse modo,
MPa m -1) e r é o raio de curvatura do menisco. Quan- lembrando que o 1Ji7Tdas células varia entre as espé-
do esse raio for bem pequeno, como ocorre nos solos cies de plantas, diferentemente da CC, o PMP não
secos, o valor do 1JIp será muito negativo. Logo, a força deve ser considerado como uma propriedade unica-
com a qual a água do solo é retida aumenta conside- mente do solo .
ravelmente à medida que, durante a secagem, os po- De uma maneira aproximada, estabeleceu-se que
ros de maior diâmetro são esvaziados e a água perma- a disponibilidade de água do solo para as plantas está
nece apenas nos poros mais finos. compreendida entre a CC e o PMP. Mas, nem toda
Quando a água é removida do solo pelas raízes, água nessa faixa está uniformemente disponível, pois
próximo a elas, na rizosfera, pode ocorrer uma tensão a retirada de água se toma progressivamente mais
( -1Jip) diminuindo o 1Jiw dessa região, o que facilita difícil à medida que o 1Jiw do solo diminui em dire-
o movimento da água em direção às raízes. A taxa ção ao PMP. Isso é facilmente observado em plantas
desse movimento de água no solo vai depender da submetidas à deficiência hídrica, que apresentarão
magnitude do gradiente de pressão e da condutividade sinais de estresse hídrico e redução no crescimento
hidráulica do solo. Essa condutividade é uma medida antes de o 1Jiw do solo chegar ao PMP. Assim como a
da facilidade com que a água se move através do solo. retenção, a faixa de disponibilidade de água para as
Solo argiloso apresenta baixa condutividade hidráu- plantas é maior nos solos argilosos (com maior super-
lica em razão dos seus pequenos espaços; o contrário
~I
fície) do que nos arenosos.
é válido para o solo arenoso.
A absorção de água pelas plantas só ocorre se hou-
ABSORÇÃO E MOVIMENTO
ver um gradiente favorável de 1Jiw entre o solo e as
RADIAL DE ÁGUA NAS RAÍZES
raízes. Em um solo perdendo água permanentemente
por evapotranspiração durante o dia, as plantas terão Nas plantas, o sistema de raízes é tão complexo
dificuldades crescentes de retirar água para balance- quanto a parte aérea em sua diversidade, apresentan-
ar a perdida por transpiração, levando a uma perda do muitas interações com a matriz do solo e com a
de pressão de turgor ou murchamento. No entanto, grande quantidade de organismos que o circunda. O
com a quase total interrupção da transpiração à noi- sistema de raízes exerce várias funções importantes,
te, o turgor das plantas poderá ser recuperado. como sustentação da planta, armazenamento de re-
Eventualmente, o conteúdo de água no solo pode servas, síntese de substâncias importantes e absorção
chegar a um nível tão baixo (1Jiw do solo se toma de nutrientes. Além disso, a maior parte da água que
inferior ou igual ao 1Jiw das raízes), que, mesmo im- as plantas adquire é absorvida através das raízes. Toda
pedindo totalmente a perda de água, a planta não absorção da água ocorre devido a um gradiente de-
consegue recuperar a pressão de turgor. Esse nível é crescente de 1Jiw entre o meio em que as raízes se
chamado de ponto de murchamento permanente encontram e o xilema destas. O gradiente pode ser
(PMP). No PMP, as plantas permanecem murchas, menor ou maior, dependendo da taxa de transpira-
com pressão de turgor nula mesmo à noite, e o tur- ção da planta. As principais forças envolvidas na
gor só poderá ser recuperado se mais água for adici- absorção de água pelas raízes podem ser descritas como
onada ao solo. segue:
O valor real do PMP é relativamente baixo para
solo arenoso (1 a 2%) e alto para solo argiloso (20 a
a bsorçao
- = (1JIp + 1Ji7T),olo - (1JIp + 1Ji7T\aiz .
(113)
30%). Entretanto, independentemente do tipo de rsolo + rraiz
solo, o 1Jiw no PMP apresenta certa uniformidade. Na
agricultura e na ciência dos solos, um 1Jiw do solo de onde 1JIp e 1Ji7Tsão,respectivamente, os potenciais de
-1,5 MPa é considerado norma para o PMP. Para pressão e osmótico e r a resistência ao fluxo (segun-
outras espécies de interesse ecológico, o 1Jiw do solo dos cm-I).
Relações Hídricas 19

A absorção de água ocorre principalmente pelas


raízes mais finas que se encontram em íntimo conta-
to com um maior volume de solo por unidade de vo-
lume de raiz. Nessas raízes finas, a zona de maior ab-
sorção de água está situada na porção subapical, en-
tre o meristema e a região de cutinização e suberiza-
ção; são regiões que podem distar 0,5 cm da ponta das
raízes e se estender até 10 cm. Essa zona geralmente
corresponde à região de maturação celular, isto é,
onde os tecidos vasculares, em particular o xilema,
têm iniciado a diferenciação. Fig. 1.10 Variação da quantidade de água absorvida nas
A zona de mais rápida e maior absorção de água diferentes regiões das raízes.
coincide com a região de maior incidência de pêlos
absorventes nas raízes (Fig. 1.10). Os pêlos são exten-
sões microscópicas das células epidérmicas, que au- As regiões mais maduras das raízes podem possuir
mentam muito a área superficial das raízes em conta- camadas externas de tecidos com paredes celulares
to íntimo com os filmes de água que cincundam as contendo materiais hidrofóbicos que dificultam a
partículas de solo (Fig. 1.11). Isso aumenta muito a absorção de água. No entanto, para espécies arbóreas,
capacidade de absorção de água e nutrientes do solo, especialmente durante os períodos de dormência, as
pois os pêlos absorventes podem constituir mais de regiões mais velhas das raízes podem absorver quan-
60% da área superficial das regiões apicais das raízes. tidade significativa de água.
Com o crescimento, ocorre progressivamente a subs- Após a água ter sido absorvida nos pêlos ou célu-
tituição dos pêlos absorventes que funcionam por las da epiderme das raízes, ela tem que se movimen-
apenas alguns dias, de modo que, permanentemente, tar radialmente atravessando o córtex para chegar aos
a zona pilosa das raízes está em contato com novas elementos do xilema no centro do estelo (Fig. 1.11).
regiões do solo. Existem três caminhos possíveis para o movimento

}córtex

partículas

I
de solo

pêlo absorvente e,telo


endoderme

epiderme
estrias de Caspary

Fig. 1.11 Seção transversal de uma raiz mostrando os diferentes tecidos que vão desde a epiderme (mais externamente)
até o xilema (mais internamente) e os pêlos das raízes em íntimo contato com filmes de água que circundam as partículas
do solo.
I
20 Relações HídriciLS I
I
t
da água da epiderme até a endoderme das raízes: a via resultado é que a água se move para dentro e para fora
apoplasto, transmembrana e simplasto. A via do estelo somente passando através das membranas
r
J
apoplasto verifica~se através de um caminho contínuo das células da endoderme, ou seja, a endoderme é que
representado pelas paredes celulares e espaços inter~ oferece a maior resistência ao movimento de água I
celulares; nela, portanto, a água não atravessa nenhu~ através da raiz. J
ma membrana. Nas raízes com crescimento secundário, geralmen- f
Tanto na via transmembrana quanto através do te a endoderme é eliminada com o córtex. Naquelas
simplasto, a água necessita atravessar membranas. No que permanecem com crescimento primário, freqüen~
caso do caminho transmembrana, ocorre passagem de temente se desenvolvem paredes secundárias espes-
água através de várias membranas, entrando numa sas. A formação dessas paredes pode não ocorrer em
.1
célula de um lado e saindo do outro para entrar em algumas células da endoderme, permanecendo com
outra cé'lula. A água atravessa pelo menos duas mem- paredes delgadas. Essas células, com estrias de I
branas de cada célula, isso quando o tonoplasto não Caspary, denominam-se células de passagem e, nesses I
está envolvido. casos, são importantes para a passagem de água, bem 1
O simplasto consiste no espaço ocupado por como de minerais, através da endoderme em direção •
citoplasmas de células interconectadas por plasmo- ao xilema.
desmos (microporos), através dos quais a água cami~ Após atravessar a endoderme, já dentro do estelo,
I
nha de uma célula para outra por meio dos plasmo~ a água encontra resistências semelhantes àquelas do
I
desmos. A importância relativa das vias apoplasto, córtex, podendo voltar a se mover nas paredes celu~
transmembrana e simplasto ainda não está claramente lares (apoplasto) e daí chegar ao lúmen dos elemen-
estabelecida. Esses caminhos não são, necessariamen- tos de vaso e traqueídeos.
te, mutuamente excludentes, existindo apreciável O movimento de água diminui quando as raízes t
transferência de água de um para o outro quando esta estão sujeitas a baixas temperaturas, níveis eleva- I
cruza o córtex da raiz. Na realidade, a água do dos de dióxido de carbono, anaerobiose ou trata~
apoplasto está em constante equilíbrio com a água do mento com inibidores da respiração, como cianeto
simplasto e do vacúolo. ou dinitrofenol. A anaerobiose é mais comumente
Nas regiões mais jovens próximas à ponta das raí~ encontrada em plantas submetidas a solo alagado, I
zes, a água fluirá diretamente do córtex para dentro podendo levar a um murchamento nas espécies não I
do xilema em desenvolvimento, encontrando relati~ adaptadas a tal condição. Essas observações indi- I
vamente pouca resistência ao longo do caminho. Os cam uma relação da respiração com o movimento
vasos do xilema são localizados no centro das raízes, de água nas raízes; no entanto, a exata explicação I
numa região conhecida como estelo. Nas regiões mais para esse efeito não está clara. Aparentemente, a
maduras, circundando o estelo encontra-se uma ca-
I
respiração estaria relacionada à manutenção da
mada de células conhecida como endoderme (Fig. integridade celular e alongamento continuado das
I
1.11). raízes; mais recentemente, tem sido sugerida uma •
Na maioria das raízes, a parede das células da en- ligação da respiração com a inativação das aqua~ I
doderme apresenta um espessamento característico, porinas. I
chamado de estrias de Caspary. Essas estrias são prin~ Assim como na absorção, seja qual for o caminho I
cipalmente compostas de suberina, uma mistura com~ do movimento radial, o fluxo de água será dependente
I
plexa de substâncias hidrofóbicas, ácidos graxos de do gradiente decrescente de potencial de água entre
cadeia longa e álcoois, que ocupam os espaços entre o xilema e a solução do solo em contato com a super~
I
as microfibrilas de celulose e os espaços intercelula- fície das raízes. Esse gradiente aumenta com o esta-
I
res. Com isso, na endoderme, as estrias de Caspary belecimento de uma pressão negativa (tensão) den- I
apresentam-se como uma barreira física efetiva ao tro do xilema, devido à evaporação de água nas fo- I
movimento radial de água através do apoplasto. O lhas (transpiração). I

I

Relações Hídricas 21

MOVIMENTO ASCENDENTE DE tecido vascular que se estende pelo corpo da planta


ÁGUA NO XILEMA (Fig. 1.12A). As células condutoras no xilema têm ana-
tomia especializada que as capacitam a transportar
o principal tecido condutor de água nas plantas é o grandes quantidades de água com muita eficiência.
xilema, responsável também pela condução de minerais, Existem dois tipos básicos de células condutoras no
de algumas pequenas moléculas orgânicas e pela susten- xilema, os traqueídeos e os elementos de vaso, sendo
tação. Comparado com a complexidade do movimento ambos mortos. Constituem-se de células alongadas
radial, no xilema o caminho da água é mais Simples, com paredes secundárias nas quais ocorrem as pon-
apresentando baixa resistência. Juntamente com o fio- tuações (Fig. 1.12B). As pontuações dos traqueídeos
ema, o xilema se constitui de um sistema contínuo de pontiagudos concentram-se nas extremidades,

parênquima cortical

...." endoderme

periciclo

f10ema

xilema

8
placa de
perturação simples

placa de perturação
composta

pontuações

Traqueídeos Elementos de Vaso

Fig. 1.12 A. Tecido vascular de raízes jovens mostrando os grandes vasos do xilema numa seção transversal. B. Compa-
ração estrutural de traqueídeos e elementos de vaso envolvidos no transporte de água pelo xilema.


22 Relações Hídricas •
-,

1
conectando-os com o traqueídeo vizinho. Os elemen- perfícies irregulares nas paredes, perfurações etc. No
tos de vaso, além das pontuações, apresentam perfu- entanto, somada a essas resistências existe a força da
rações que são áreas destituídas de paredes primária e gravidade, que é de 0,01 MPa m-I. Sendo assim, se fo-
secundária. As perfurações podem ocorrer lateralmen- rem consideradas árvores de grande porte como a sequóia
te, mas geralmente ocorrem nas paredes terminais (Sequoia sempervirens), cujo movimento de água das ra-
(placa de perfuração), de modo que os elementos de ízes até as folhas pode envolver distâncias de cerca de
vaso são unidos por placas de perfuração constituin- 100 m, estima-se a necessidade de um .1Pp = 3 MPa
do colunas contínuas e longas, chamadas de vasos. (0,02 + 0,01 = 0,03 MPa m-1 X 100 m = 3 MPa) para
Os traqueídeos, considerados evolutivamente me- vencer o somatório de todas as resistências.
nos avançados que os elementos de vaso, são o único Dentro desse contexto, o que sempre interessou
tipo de célula condutora de água nas gimnospermas. muito aos fisiologistas de planta foi entender como o
O xilema da grande maioria das angiospermas é cons- .1 Pp é gerado. Claramente, sabe-se que diferentes
tituído predominantemente por elementos de vaso. forças podem provocar movimento de água no xile-
Acredita-se que os elementos de vaso são condutores ma, como a pressão positiva da raiz e a capilaridade.
de água mais eficientes do que os traqueídeos; no en- Entretanto, a teoria considerada mais completa para
tanto, as bolhas de ar que podem ser formadas no inte- explicar os movimentos a maiores distâncias é a teo-
rior dos vasos causam, via de regra, maior obstrução ao ria da coesão e tensão, que combina a transpiração com
fluxo de água nos primeiros do que nos últimos. a alta força de coesão entre as moléculas de água para
Diferentemente do movimento radial na raiz, a explicar a formação do .1pp.
resistência ao fluxo de água no xilema é relativamente
mais baixa, uma vez que não existem camadas a se-
rem atravessadas com maiores resistências relativa-
Pressão positiva da raiz
mente altas, como o citoplasma e membranas. Além Como já mencionado, a força motriz que dirige o
disso, as placas de perfuração dos elementos de vaso movimento da água através da raiz é representada pela
permitem que a água se mova livremente. O movi- diferença de potencial de água entre a solução do solo
mento de água no xilema é um fluxo em massa gera- na superfície da raiz e a seiva do xilema. O potencial
do por um gradiente de potencial de pressão (.1PP) osmótico (1Jt7T) contribui relativamente pouco para o
entre as extremidades do sistema condutor. potencial de água no xilema em plantas que transpiram
Quando soluções marcadas com corantes, solutos rapidamente, mas é importante a baixas velocidades de
radioativos ou água contendo 3H ou 180 são adminis- transpiração, levando ao desenvolvimento de um fenô-
tradas à planta, os pulsos radioativos são rapidamen- meno conhecido como pressão positiva da raiz. O 1Jt1T,
te detectados nos vasos e traqueídeos, de modo a nessa situação, decresce aos seus níveis mais baixos em
possibilitar o acompanhamento do movimento da plantas desfolhadas em que a transpiração é zero.
seiva. A velocidade do movimento pode variar de A pressão positiva da raiz é facilmente visualizada
1 mh-1 (0,3 mms-1) até, em casos extremos, 45 mh-1 quando o caule de uma planta herbácea é cortado
(13 mm çl). Tem sido estimado que, para o movi- acima da linha do solo; nessa condição, a seiva do
mento de água em um vaso do xilema de 80 /Lm de xilema exsudará na superfície cortada por várias ho-
diâmetro a uma velocidade de 4 mm S-I, seja reque- ras. Essa pressão pode ser medida a partir do acopla-
rido um .11Jtp = 0,02 MPa m -1. Esse valor é extrema- mento de um manômetro à extremidade cortada (Fig.
mente inferior ao gradiente de potencial de água 1.13 ). A pressão da raiz pode ser interpretada como
(.11Jtw) necessário para a água se movimentar radial- uma pressão hidrostática no xilema; entretanto, ela
mente nas raízes, que é estimado em 2 X 108MPa m -1. leva esse nome porque a força que causa o movimen-
Considera-se que o .1 Pp = 0,02 MPa m -1 é necessá- to da seiva que exsuda origina-se na raiz.
rio para vencer as resistências do movimento de água Como se desenvolve a pressão positiva da raiz? As
inerentes à estrutura dos tecidos condutores, como su- raízes absorvem íons do solo diluído, que são trans-
Relações Hídricas 23

do ano. Existem também grandes diferenças entre


t mercúrio espécies, variando de 0,05 a 0,5 MPa.
Considerando que a pressão positiva da raiz não é
um fenômeno observado em todas as espécies, que no
xilema de plantas sob elevada taxa transpiratória
ocorre tensão (pressão negativa) e que a pressão me,
dida é muito menor do que aquela necessária para
vencer o somatório das resistências para chegar no
topo de uma árvore de 100 m, por exemplo (3 MPa),
fica claro que esse fenômeno não é o responsável pela
ascensão da seiva em todos os casos.
A mais óbvia evidência da existência de uma pres-
são positiva nas raízes é a ocorrência de um fenômeno
conhecido como gutação, que é a eliminação de líqui-
Fig. 1.13 Manômetro para medir a pressão positiva na raiz. do pelas folhas através dos hidatódios. Os hidatódios são
A pressão resultante pode ser obtida através da medição poros semelhantes aos estômatos, localizados sobre
do deslocamento que a absorção de água pelas raízes causa espaços intercelulares da epiderme das folhas. Abaixo
na coluna de mercúrio. desses poros, existe um tecido frouxo adjacente e em
contato direto com as terminações do xilema, chama,
do ePitema. A gutação é mais perceptível quando a
portados para o estelo e depositados ativamente no transpiração é suprimida e a umidade relativa do ar e do
xilema. O acúmulo de íons diminui o potencial os' solo é alta, o que geralmente ocorre durante a noite. É
mótico e, conseqüentemente, o potencial de água um fenômeno muito freqüente em plantas de florestas
da seiva do xilema. Essa redução do 1Ji'w gera
( 1Ji'w) pluviais tropicais, como a floresta amazônica. No en,
um movimento de água passando das células corticais tanto, exemplos corriqueiros são as gotas de água so-
para o esteIo e atravessando as membranas das célu, bre a lâmina foliar de gramíneas e ao longo da margem
Ias da endoderme (ver abordagem anterior sobre ab, de algumas folhas de plantas herbáceas pela manhã.
sorção e movimento radial de água nas raízes), geran,
do então uma pressão hidrostática positiva no xile,
ma. Nesse caso, as raízes podem ser comparadas a um
Capilaridade
simples osmômetro em que a endoderme constitui a Se um tubo capilar de vidro aberto nas extremida,
membrana semipermeável, os íons acumulados no des for inserido verticalmente num volume de água, o
xilema representam o soluto dissolvido e os vasos do líquido subirá pelo tubo acima da superfície da água.
xilema representam o tubo vertical (ver Fig. 1.6). Esse fenômeno é chamado de capilaridade e ocorre
A pressão positiva da raiz é maior em plantas bem devido à interação de forças como adesão, coesão e ten,
hidratadas, sob condições de alta umidade relativa do são superficial da água, com a força da gravidade agindo
ar, acarretando, nessa situação, pouca transpiração, sobre a coluna de água. A força de adesão é gerada pela
e de solos com boas condições de umidade. Em plan, atração entre grupos polares, ao longo da superfície
tas com alta taxa transpiratória, a absorção, o trans, interna do tubo, e as moléculas de água, quer seja o tubo
porte e a perda de água para a atmosfera são tão rápi, de vidro ou elementos traqueais do xilema. À medida
das, que a pressão positiva no xilema nunca se desen, que ocorre o fluxo de água ao longo da parede do tubo,
volve. Nesses casos, ocorre na realidade o estabeleci, as forças de coesão entre as moléculas de água agem
mento de uma pressão negativa. Devido às variações "puxando" o volume de água que se encontra no inte,
das condições ambientais, a pressão positiva da raiz rior do tubo. Essa subida da água continua até essas
varia continuamente durante o dia e entre as estações forças serem balanceadas pela força da gravidade.
24 Relações Hídricas

Quanto mais estreito for o tubo, mais alto a água "puxada" junto às paredes celulares para dentro das
subirá, devido às forças atrativas da superfície, que são células da folha. Como resultado da remoção de água

.~

maiores em relação à da gravidade, ou seja, a subida do xilema, a seiva fica sob tensão (pressão negativa),
da água em um tubo capilar é inversamente propor- que é transmitida para as regiões inferiores da planta ~
cional ao raio do tubo. Em elementos traqueais de 50
f.Lmde diâmetro, a água sobe a uma altura de cerca
de 0,6 m; já em elementos de vaso com diâmetro de
400 f.Lm,subirá apenas 0,08 m. Com base nesses nú-
até as raízes, através das colunas contínuas de água
existentes nos traqueídeos ou nos elementos de vaso.
Nas raízes, o potencial de água reduzido da seiva do
xilema fará com que a água se mova em direção aos
,


elementos condutores vinda da solução do solo atra- ~
meros, o movimento ascendente da água por capila-
ridade no xilema pode ser considerado importante vessando o córtex e a endoderme. A teoria da coesão •
somente para plantas vasculares de pequeno porte. e tensão fundamenta-se na existência de uma coluna ~
Logo, a capilaridade é insuficiente para explicar o contínua de água indo da ponta das raízes, passando •
mecanismo geral de ascensão da seiva no xi lema. pelo caule, até as células do mesofilo das folhas. ~
É na superfície das paredes celulares das folhas que
se desenvolve a pressão negativa que causa o movi-

Teoria da coesão e tensão
mento ascendente da seiva no xilema. A água nos

Nas plantas vasculares, a água chega até as folhas espaços intercelulares do mesofilo está sujeita às mes- •
através do xilema, que apresenta muitas ramificações, mas forças de tensão superficial encontradas nos po- •
formando uma intrincada rede de vasos no limbo fo- ros capilares do solo (ver item Água no solo). A água •
liar. Devido à transpiração que as plantas geralmen- envolve a superfície das células do mesofilo como uma ••
te apresentam, é muito importante que a água perdi- fina película, aderida às microfibrilas de celulose e •
da seja rapidamente reposta. Para explicar a ascen- outras superfícies hidrofílicas. As células do mesofilo
são da seiva no xilema, a teoria mais amplamente estão em contato direto com a atmosfera através de

aceita é a da coesão e tensão, que teve seu primeiro um extenso sistema de espaços intercelulares. Inici-

detalhamento descrito por H. H. Dixon, em 1914. almente ocorre a evaporação da água do delgado fil- •
A reposição da água nas folhas deve-se a uma di- me que reveste esses espaços. Como a água é perdida ••

minuição no potencial de água causada pela evapo- para a atmosfera, a interface ar-líquido retrai nos •
ração nesses órgãos, que provocará o carreamento de interstícios da parede celular (Fig. 1.14). Isso cria ••
água dos terminais do xilema. Do xilema, a água é meniscos microscópicos curvos na superfície ar-água .
••

••
citoplasma

/ •
/"
/" •

••




cloroplasto parede celular

Fig. 1.14 Retração da interface ar-líquido nos interstícios da parede celular originando tensões ou pressões negativas

nas folhas. A evaporação ocorre na interface ar-água do filme de água que cobre a parede celular das células do mesofilo.

Com o aumento da evaporação, desenvolvem-se meniscos de raios microscópicos cada vez menores. A tensão superficial I
causa uma pressão negativa na fase líquida. (Modificado de Taiz & Zeiger, 2002.) I
I


Relações Hídricas 25

À medida que aumenta a evaporação da água da


parede, a interface ar-água desenvolve meniscos de
raios cada vez menores, e a tensão superficial nessa
interface gera progressivamente uma pressão cada vez
...- gás sob pressão
mais negativa (ver equação 1.12), a qual tende a des-
locar mais líquido em direção a essa superfície. Em
razão de a coluna de água ser contínua, esse potenci-
al de pressão negativo, ou tensão, é transmitido atra-
vés de toda a coluna até o solo adjacente à raiz. Como
Fig. 1.15 Diagrama de uma bomba de pressão usada para
resultado, a água é literalmente "arrastada" através da
medir a tensão ou pressão negativa da água do xilema.
planta" das raízes até a superfície das células do me- Cortando-se um ramo de uma planta transpirando, a co-
sofilo nas folhas. Assim, a força motriz que dirige o
luna líquida no interior do xilema recua para o interior do
transporte no xilema é gerada na interface ar-água vaso, devido à tensão a que ela estava submetida. A pres-
dentro das folhas. são necessária para que a seiva possa emergir na extremi-
Evidências indiretas têm corroborado a teoria da dade cortada do ramo é equivalente à tensão que existia
coesão e tensão, por indicarem que a água no xilema na água do xilema. A quantificação dessa pressão pode ser
de plantas transpirando apresenta significativa ten- feita a partir da medição da pressão injetada na câmara da
bomba.
são. Por exemplo, com o rompimento da coluna con-
tínua (cavitação), a água recua rapidamente, produ-
zindo vibrações que podem ser ouvidas a partir de
amplificações ultra-sônicas. Além disso, se o rompi- aproximadamente igual à tensão que existia no xile-
mento da coluna for feito a partir do corte do caule ma. Com esse dispositivo, tem-se medido tensões no
abaixo de uma superfície com solução colorida, facil- xilema da ordem de -0,5 a - 2,5 MPa em plantas sob
mente é visualizada a rápida absorção da solução para alta taxa transpiratória.
dentro dos elementos traqueais. A coloração artifici- Finalmente, também é importante como evidên-
al de flores baseia-se exatamente nesse princípio. cia o fato de o potencial de água ( 1Jtw) na base de uma
Outras evidências envolvem medidas da espessu- planta ser menos negativo do que o 1Jtw no topo, prin-
ra do caule e avaliação direta da tensão nos vasos do cipalmente devido a diferenças do componente po-
xilema. Por intermédio de medidas sensíveis com tencial de pressão. As evidências indicam claramen-
dendrógrafos, usados para medir pequenas mudanças te que a coluna de água do xilema é literalmente "pu-
no diâmetro de caules, tem sido observado decrésci- xada" para a parte superior de uma planta vascular em
mo na espessura dos caules durante períodos de trans- resposta à transpiração.
piração ativa e retomo quando a transpiração decli- A teoria é chamada de coesão e tensão porque re-
na. Além disso, foi possível fazer medidas diretas da quer que as propriedades coesivas da água sejam ca-
tensão nos vasos do xilema com a bomba de pressão, pazes de suportar tensão da coluna de água do xile-
técnica desenvolvida por P. F. Scholander (Scholan- ma, ou seja, é muito importante que a coluna contí-
der et aL, 1965). Cortando-se uma folha ou um ramo nua de água seja mantida. É necessário lembrar, tam-
da planta durante a transpiração, as colunas de água bém, que a adesão das moléculas de água às paredes
recuam abruptamente para o interior do tecido, abai- dos traqueídeos e vasos do xilema e às paredes das
xo da superfície cortada, devido à tensão. A coluna células das folhas e raízes é tão importante para a as-
de água pode ser forçada para o caminho contrário censão da seiva quanto a tensão e a coesão.
até a superfície cortada, por um aumento de pressão A manutenção da integridade da coluna de água
induzido numa câmara onde a parte da planta está ou a resistência à ruptura devem-se à força tênsil da
inserida (Fig. 1.15). A magnitude da pressão neces- água, que é alta devido às forças coesivas entre as
sária para o retomo da água à superfície cortada é moléculas de água. Essa força tênsil depende do diâ-


••s.
""
•••••••• •
)••I
••
~

26 Relações Hídricas

metro e das características da parede do conduto, no sob tensão, os gases ficam propensos a se separar da
caso o xilema, e também dos gases e solutos dissolvi~ solução. Como conseqüência, ocorre a formação
dos. A força tênsil é uma medida da tensão máxima inicialmente de bolhas microscópicas na interface
que determinado material pode suportar sem se que~ água-parede dos elementos traqueais. Essas pequenas
brar, tipicamente uma propriedade de sólidos . bolhas podem coalescer e expandir rapidamente, ocu~
Tem sido demonstrado que geralmente a água pura, pando todo o conduto do xilema. O processo de rá~
livre de gases dissolvidos, é capaz de resistir a uma pida formação de bolhas no xilema é chamado cavi~
tensão da ordem de - 25 a - 30 MPa a 20°e. Isso é tação, resultando na formação de bolhas de ar que
aproximadamente 10% da força tênsil do cobre e 10 provocam obstrução do conduto, chamada de embo~
vezes maior que a pressão (subatmosférica) negativa lia. A embolia no xilema quebra a continuidade da
ou tensão de - 3 MPa (.11/J'p = 3 MPa, definido an~ coluna de água, interrompendo o transporte de água.
teriormente) requerida para deslocar uma coluna de O rompimento nas colunas de água do xilema não é
água até o topo de uma árvore de 100 m, sem que seja muito freqüente; entretanto, quando ocorre, se não
interrompida. Desse modo, considera~se que a força for reparado, pode ser prejudicial às plantas .
tênsil da água é suficiente para evitar a separação das A expansão da cavitação no xilema pode ser impe~
moléculas sob tensão, necessária para ascensão da dida porque os gases não atravessam facilmente os pe~
água no xilema de grandes árvores. quenos poros das pontuações dos elementos de vaso e
Apesar do exposto no parágrafo anterior, a grande traqueídeos, um efeito também causado pela alta ten~
tensão que se desenvolve no xilema das árvores e em são superficial da água. Considerando que os capilares
outras plantas pode criar problemas. Com o aumen~ do xilema são interconectados, a bolha de ar não pára
to da tensão da água existe tendência de ar ser puxa~ completamente o fluxo de água, uma vez que esta pode
do através dos microporos das paredes celulares do desviar do ponto bloqueado para o conduto vizinho (Fig.
xilema. Além disso, a água no xilema contém diver~ 1.16). Desse modo, as pontuações nas paredes do xib
sos gases dissolvidos, como dióxido de carbono, oxi~ ma auxiliam no isolamento da bolha de ar num único
gênio e nitrogênio, e, quando a coluna de água está traqueídeo ou elemento de vaso, restringindo a cavita~

fluxo da água

torus

Fig. 1.16 Formação de grandes bolhas de ar no interior do xilema, chamada embolia, como resultado da cavitação. Desvio
do fluxo de água para vasos adjacentes em função da embolia.
Relações Hídricas 27

ção. Além disso, muitas plantas têm crescimento secun- de litros de água são requeridas para produzir cada
dário em que novo xilema é formado a cada ano. quilograma de massa seca; transpiração excessiva pode
levar a significativa redução na produtividade. Um
ponto de discussão ainda é se a transpiração apresenta
TRANSPlRAÇÃO
alguma vantagem às plantas, uma vez que a perda in-
A perda de água pelas plantas na forma de vapor é tensa de água tem profundas, implicações para o cres-
conhecida como transPiração. Esse processo pode ser cimento. Sem a transpiração, uma única chuva ou ir-
considerado dominante na relação água-planta. A eva- rigação poderia prover água suficiente para o cresci-
poração da água produz o gradiente de 1Jrw, que é a cau- mento de algumas plantas, considerando que a cober-
sa principal do movimento da água através do xilema, tura vegetal tenha impedido a evaporação do solo.
controlando a taxa de absorção e ascensão da seiva. A transpiração pode ocorrer em qualquer parte do
De toda a água absorvida pelas plantas, cerca de organismo vegetal acima do solo; no entanto, apesar
95% é perdida pela transpiração, sendo o restante (ou de uma pequena quantidade de água ser perdida atra-
menos) usado no metabolismo e crescimento. As vés de pequenas aberturas da casca de caules e ramos
plantas de maior interesse do ponto de vista de pro- jovens (lenticelas), a maior proporção ocorre nas fo-
dução agrícola são as que apresentam maiores taxas lhas (mais de 90% ). Isso toma a transpiração intima-
de transpiração. Freqüentemente, diversas centenas mente ligada à anatomia da folha (Fig. 1.17). A

f10ema

célula do
mesofilo

xilema

epiderme
inferior

Fig. 1.17 Representação diagramática da lâmina foliar em seção transversal. Note especialmente a presença de cutícula
cobrindo as superfícies externas, as resistências à saída da água (resistência estomática e da camada de ar limítrofe), o exten-
so espaço intercelular com acesso ao ar do ambiente através dos estômatos. Note também as conexões plasmodesmáticas
entre as células da epiderme e as células dos parênquimas (que são aquelas dispostas entre a epiderme superior e a infe-
rior) e a ausência de cloroplastos (pequenos círculos dentro das células) somente nas células da epiderme.
28 Relações Hídricas

multicamada de ceras conhecida como cutícula, que


cobre a epiderme das folhas, funciona como uma bar-
reira bastante efetiva à saída de água, tanto líquida
cg
quanto na forma de vapor, protegendo as células de
pe
uma eventual dessecação letal. Essa proteção é vari-
ável entre as espécies dependendo da espessura da
cutícula (Fig. 1.18B e C). No entanto, a continuida- ce
cs
de da epiderme imposta pela cutícula é interrompida
por pequenos poros que fazem parte do complexo
estomático. Cada poro é circundado por duas células
especializadas, as células-guardas, que funcionam como
válvulas, operadas pela turgescência, que controlam
o tamanho da abertura do poro (Fig. 1.18).
O interior da folha é composto por células do
mesofilo fotossintético apresentando um sistema
interconectado de espaços intercelulares, que pode
atingir até 70% do volume das folhas em alguns ca-
sos, ocupados por superfícies úmidas, de onde a água
evapora, e por ar. Geralmente, os estômatos são mais
abundantes na superfície inferior das folhas. Eles são
localizados de forma que, quando abertos, a rota para
as trocas gasosas (principalmente dióxido de carbo-
no, oxigênio e vapor de água) entre os espaços inter-
nos das folhas e a atmosfera circundante seja facilita-
c
da. Por causa dessa relação, esse espaço é referido
como espaço subestomático.
Na transpiração estão envolvidas a evaporação da
água das paredes celulares para o espaço subestomá-
tico e a difusão do vapor de água do espaço subesto-
mático para a atmosfera. Acredita-se que grande par-
te da água evapore da superfície interna das células
do mesofilo que rodeiam os espaços de ar subesto-
máticos. Entretanto, alguns autores têm proposto
uma via mais restrita, sugerindo que a água evapora
da superfície interna das células da epiderme nos
arredores dos estômatos, o que é chamado de evapo-
ração periestomática.
Fig. 1.18 Epiderme da face abaxial de folhas. A e B. Hevea
O caminho pelo qual o vapor de água escapa após
brasiliensis. C. H. pauciflora. ce - célula da epiderme;
a evaporação (espaço subestomático) é relativamen-
c - cutícula; cs - célula subsidiária; cg - célula-guarda;
te simples. Ele se difunde através dos espaços inter-
pe - poro estomático. (Tomado de Medri, 1980.)
celulares e para fora, através dos estômatos. Essa di-
fusão é conhecida como transpiração estomática, res-
ponsável por 90 a 95% da água perdida pelas folhas, miscolobium foi observado um coeficiente de correla-
ou seja, existe uma alta correlação entre a condutân- ção de 0,91 entre esses dois parâmetros (Sassaki et aI.,
da estomática e a transpiração. Para Dalbergia 1997). A difusão de vapor de água pode ocorrer tam-
Relações Hídricas 29

bém através das células da epiderme e cutícula (trans~ caso da transpiração soma~se a esta as resistências da
piração cuticular), um caminho com resistência alta e própria folha (ri). Entre as rf, a principal é a resistên~
variável entre as espécies, dependendo da espessura cia dos poros estomáticos (rs), que é variável uma vez
da cutícula. É necessário destacar a importância da que o estômato pode estar totalmente aberto, parci~
difusão como processo que controla a transpiração, almente aberto ou fechado. Sendo assim, transpira~
visto que o movimento é dirigido pelo gradiente de ção (T) expressa em moi m -2 ç 1 pode ser relaciona~
concentração de vapor de água ou gradiente de pres~ da com as resistências (r) expressa em s m -1, pela
são de vapor entre as superfícies onde a água está seguinte equação, considerando nesse caso o .dCva
evaporando e a atmosfera. expresso em moi m-3:

Força que dirige a transpiração T = _C_v_a_(t_ol_ha_)


_-_C_v_a_(a_r) (1.14)
rf+ra
A difusão é muito mais rápida em um gás do que
em um líquido, o que torna esse processo adequado
onde Cva(folha) é a concentração de vapor de água
para mover vapor de água através da fase gasosa da
dentro da folha e Cva(ar) é a concentração de vapor
folha. Embora tenha sido estabelecido que o movi~
de água no ar fora da folha.
mento de água no sistema solo-planta-atmosfera é
Em princípio, supõe~seque, na transpiração, o es~
determinado por um gradiente de potencial de água,
paço de ar subestomático da folha é normalmente
para a transpiração, onde ocorre difusão na forma de
saturado ou muito próximo da saturação de vapor de
vapor, é melhor pensar em gradiente de concentração
água. Isso porque as células do mesofilo que circun~
de vapor de água (.dCva) ou gradiente de pressão de vapor
dam os espaços de ar apresentam uma grande área de
(.de), que são equivalentes. A pressão de vapor da
superfície de exposição para a evaporação da água. Por
água (e) é medida em quilopascal (kPa) e é proporci~
outro lado, a atmosfera que circunda a folha dificil~
onal à concentração de vapor de água (Cva) que pode
mente está saturada de água; ao contrário, freqüen~
ser expressa em moi m-3•
temente tem um conteúdo de água muito baixo. Logo,
A pressão de vapor da água é a pressão exercida
essa diferença na concentração de vapor de água en~
pelas moléculas de água na forma de vapor contra a
tre os espaços de ar internos da folha e o ar que a cir~
superfície do fluido que está evaporando e sobre a
cunda é a força que dirige a transpiração.
parede da câmara onde a evaporação está ocorrendo.
Tanto a pressão de vapor de água quanto a con~
O vapor de água vai difundir~se de uma região de centração de vapor são fortemente dependentes da
maior pressão de vapor ou de maior concentração para umidade relativa (UR) e da temperatura. A umidade
outra de menor, de acordo com a lei de Fick.
relativa pode ser definida como a concentração de
A transpiração nas folhas vai depender do gradi~ vapor de água (Cva) expressa como uma fração da
ente de pressão de vapor ou de concentração de va~ concentração máxima de vapor de água (saturação,
por de água entre os espaços de ar da folha e o ar ex~
Cva(sat»):
terno. Além disso, vai depender também das resistên~
cias (r) à difusão durante o percurso. Esse conceito
de transpiração é análogo ao fluxo de elétrons em um UR = Cva (1.15)
Cva (sar)
circuito elétrico, ou seja, análogo à lei de Ohm, em
que as resistências estão associadas com cada parte do
caminho (Fig. 1.17). ou, Cva = UR X Cva(sat) (1.16)
Enquanto, na evaporação, o escape do vapor de
água é controlado simplesmente por uma resistência o mesmo é válido para a pressão de vapor. A umida~
chamada de resistência da camada de ar adjacente ou de relativa que comumente é expressa em porcenta-
camada de ar limítrofe à superfície evaporante (ra), no gem, quando atinge 50%, por definição tem a meta~
30 Relações Hídricas

de da concentração de vapor de água que teria se es- Embora o resfriamento seja benéfico, folhas sob sol
tivesse saturada de vapor. pleno raramente são injuriadas por temperatura ele-
A umidade relativa pode ser definida também vada quando a transpiração é reduzida, situação esta
como a razão entre a quantidade máxima de vapor que pode ocorrer por murchamento temporário, pro-
de água que pode ser retido pelo ar a uma dada tem- vocando fechamento dos estômatos.
peratura. Segundo essa definição, a umidade relati- A transpiração aumenta a velocidade do movi-
va é influenciada pela temperatura, e, em conseqüên- mento da seiva no xilema, mas experimentos têm
cia, a pressão de vapor e a concentração de vapor da mostrado que é improvável que isso seja um requeri-
água também. Isso porque a capacidade de retenção mento essencial. A transpiração meramente aumen-
de água aumenta bastante com a temperatura, por ta a velocidade e quantidade de água em movimento
exemplo, a 10°C a concentração de vapor de água até o alto de uma planta, mas não existem evidênci-
em ar saturado (Cva(sat)) é 0,522 moI m-I, a 20°C é as de que essa maior taxa seja benéfica.
0,961 moI m-I e a 30°C é 1,28 moI m-I• A umidade Absorção e translocação de nutrientes são prova-
e a temperatura podem, então, modificar a magnitu- velmente aumentadas por taxa de transpiração ele-
de do gradiente de concentração de vapor de água vada; todavia, muitas plantas se desenvolvem bem na
entre a folha e a atmosfera, influenciando a taxa de sombra e em hábitats úmidos, onde a transpiração é
transpiração. baixa. Além disso, em experimentos utilizando-se
Além da umidade relativa e da temperatura, um elementos marcados com radioatividade, têm-se
terceiro fator importante que interfere na taxa de mostrado que os nutrientes continuam circulando na
transpiração é o vento, que está diretamente relacio- planta, mesmo na ausência da transpiração.
nado com a resistência da camada de ar limítrofe (ra). Somando-se a impossibilidade de entender clara-
Essa resistência ocorre devido à camada irrestrita de mente os benefícios da transpiração, freqüentemente
ar úmido adjacente à superfície da folha, que, com o esse processo resulta em estresse de água e injúrias por
aumento de sua espessura, modifica a extensão efeti- dessecação. Isso ocorre especialmente sob condições de
va do caminho da difusão do vapor de água para a elevada temperatura e baixa umidade do ar e do solo.
atmosfera. De acordo com a lei de Fick, a maior ex- Aparentemente, a evolução da estrutura das folhas
tensão do caminho da difusão diminuirá a taxa de parece ter favorecido o processamento interno da fo-
difusão e, nesse caso, a transpiração. tossíntese, possibilitando a entrada e a difusão rápida
A espessura da camada de ar limítrofe é determina- de dióxido de carbono pelos estômatos abertos, em
da primariamente pela velocidade do vento. Quando detrimento de uma diminuição da taxa transpiratória.
o ar que circunda a folha está parado, a espessura da Exceção deve ser lembrada para plantas de hábitat
camada de ar limítrofe pode aumentar, elevando a re- muito seco. Assim, a alta taxa de transpiração é o re-

,
sistência e diminuindo a transpiração. Nessa condição, sultado inevitável da evolução dos estômatos e, con-
mesmo se os estômatos estiverem com boa abertura, a seqüentemente, das folhas, para absorção de dióxido
transpiração será prejudicada. Com o aumento da ve- de carbono para a fotossíntese. Os estômatos permitem •
locidade do vento, a espessa camada de ar limítrofe que que dióxido de carbono da atmosfera se difunda para •I•l~-i
••

pode ter se formado é retirada, favorecendo assim a dentro dos espaços intercelulares dos tecidos fotossin-
transpiração devido ao decréscimo da resistência, ou téticos, onde se dissolve na fase aquosa, possibilitando
seja, do caminho a ser percorrido na difusão. que ocorra a redução fotossintética.
Do ponto de vista exposto, as plantas terrestres
estão adaptadas a absorver o máximo possível de di-
Por que a transpiração? óxido de carbono da atmosfera e limitar também ao
Argumenta-se que a transpiração é benéfica às máximo a perda de água. Não há como as plantas
plantas porque causa o resfriamento das folhas, ascen- excluírem a perda de água sem, simultaneamente,
são da seiva e aumento na absorção de nutrientes. obstarem a entrada de dióxido de carbono na folha.
Relações Hídricas 3 1

A solução desse dilema para as plantas é a regulação nhum envolvimento biológico, enquanto a resistên-
temporal da abertura estomática, fechando-a à noite cia da folha (rf), decorrente principalmente do mo-
quando não fotossintetizam, evitando perda desneces- vimento de abertura e fechamento dos poros
sária de água. Pela manhã, desde que não haja limi- estomáticos, é controlada biologicamente. A rf re-
tações de água para a planta, é vantajoso a ela abrir gula a saída de água e a entrada de COz para a fotos-
os estômatos e permitir a entrada de dióxido de car- síntese, dependendo da resposta do movimento es-
bono, mesmo que isso envolva perda de água por tomático a diferentes fatores bióticos e abióticos. É
transpiração estomática. importante, então, um conhecimento mais detalha-
Em situação de estresse hídrico moderado, a aber- do das características dos estômatos e dos mecanis-
tura estomática será a máxima possível, sem que ocor- mos de controle da abertura e fechamento a partir
ra uma desidratação letal da planta, mas ainda capaz dos movimentos das células-guardas.
de fixar dióxido de carbono. Se o estresse persistir, a
planta manterá os estômatos fechados. Com o fecha-
Caracterização geral dos estômatos
mento estomático, as plantas podem manter certo
turgor (maior potencial de água), o que é uma impor- Os estômatos são encontrados em angiospermas,
tante característica de tolerância à seca. Isso foi ob- gimnospermas, pteridófitas e briófitas. Nas angios-
servado em estudos com Vigna unguiculata (feijão permas e gimnospermas, os estômatos podem ocor-
caupi), espécie cultivada em regiões secas do Brasil rer em caules verdes, flores e frutos. A grande mai-
(Pimentel & Hébert, 1999). oria dos estômatos encontra-se nas folhas, com alta
A capacidade da planta de limitar a perda de água funcionalidade. A freqüência e a distribuição dos
e, ao mesmo tempo, permitir suficiente absorção de estômatos dependem principalmente da espécie,
dióxido de carbono, pode ser expressa pela eficiência posição da folha e condições de crescimento. Nor-
no uso da água. Esse parâmetro é definido como a malmente, as folhas apresentam de 30 a 400 estô-
quantidade de dióxido de carbono (COz) assimilado matos por mmz de superfície, mas existem espécies
pela fotossíntese, dividido pela quantidade de água que podem apresentar até mais de 1.000 mm-z. Em
transpirada pela planta: Nicotiana tabacum (fumo), por exemplo, pode apre-
sentar até 1.200 mm-z.

Eficiência no _ moles de COz fixado Com exceção principalmente das monocotiledô-


(1.17) neas herbáceas, que apresentam aproximadamente
uso da água - moles de água transPirada
a mesma quantidade de estômatos na face abaxial
(inferior) e adaxial (superior) da folha, na maioria
Considerando os três grupos de plantas C3, C4 e
das espécies os estômatos encontram-se em maior
MAC (metabolismo ácido das crassuláceas), quanto
ao tipo de metabolismo fotossintético (ver Capo 5, quantidade na face abaxial (dicotiledôneas herbá-
ceas) ou mesmo exclusivamente localizada nessa
Fotossíntese), as plantas C3 têm uma eficiência no uso
face (dicotiledôneas lenhosas). Em plantas aquáti-
da água em tomo de 0,002, as C4 de 0,004 e as plan-
tas MAC (também denominadas de CAM Crassula- cas com folhas flutuantes, os estômatos encontram-

cean Acid Metabolism) de 0,02. Neste último grupo se apenas na face adaxial.
A abertura dos estômatos é exercida por mudan-
estão as plantas mais adaptadas à condição de seca,
fixando COz predominantemente à noite. ças na forma de um par de células, as chamadas célu-
las-guardas, que margeiam os poros (Fig. 1.18). Em
muitas plantas, as células-guardas são circundadas por
FISIOLOGIA DOS ESTÔMATOS
células diferenciadas das células da epiderme da fo-
Na equação 1.14, o numerador (Cva(folha) lha, as células subsidiárias que auxiliam as células-guar-
Cva(ar»)e a resistência da camada de ar limítrofe (ra) das no controle do poro estomático (Fig. 1.18A). As
são parâmetros controlados fisicamente, sem ne- células-guardas, células subsidiárias e o poro são co-


••
32 RelaçõesHídricas I
t
letivamente chamados de complexo estomático ou apa~ apresentam paredes de 1 a 2 /Lm. A parede dorsal,

relho estomático. ••
aquela em contato com as células subsidiárias, é mais
A principal característica que distingue o comple~ fina (ver Fig. 1.19). Associado ao espessamento par, •
xo estomático é o par de células~guardas que funcio~ cial da parede, encontra~se o alinhamento de suas •
na como uma válvula operada hidraulicamente. A microfibrilas de celulose, estas dispostas radialmen, J
mudança de forma das células~guardas como conse~ te aos poros no caso dos estômatos elípticos, ou obli~ •
qüência da absorção e perda de água leva a alterações quamente ao eixo da parede espessada nas extremi~
:I
dades das células, guardas, no caso do tipo graminá,
no tamanho do poro. Quando as células~guardas es~
tão túrgidas, os estômatos encontram~se abertos, e, ceo (Fig. 1.19). Essas características resultam numa

quando flácidas, os estômatos estão fechados. curvatura das células~guardas quando túrgidas, le~ J
O maior interesse no movimento estomático deve~ vando à abertura estomática . ••
se à regulação das trocas gasosas e ao conseqüente O poro de um estômato típico totalmente aberto •
efeito sobre a fotossíntese e produtividade. Mais de mede cerca de 5 a 15 /Lm de largura por cerca de 20 •
90% do COz e do vapor de água trocados entre a plan~
ta e o ambiente ocorrem através dos estômatos.
/Lm de comprimento. O somatório das áreas dos po~

Existem dois tipos básicos de células~guardas. O
ros quando abertos perfaz cerca de 0,5 a 2% da área
total da folha.

;J
mais comum é o tipo elíptico, reniforme, e o outro é Quando as células,guardas se desenvolvem, câma~
o tiPo gramináceo, restrito a espécies de gramíneas e ras subestomáticas ou cavidades subestomáticas formam, ••
outras monocotiledôneas, como as palmeiras. Nes~ se no mesofilo foliar adjacente ao complexo estomá, li
se segundo grupo, o par de células, guardas tem for, tico. Essas câmaras agem como reservatórios de gases ••
mato de haltere (Fig. 1.19). Uma das característi, que se estendem no interior do mesofilo (Fig. 1.17), )I
cas mais preponderante da organização das células,
guardas está na estrutura da parede celular. A por,
maximizando assim a difusão de COz para tecidos
fotossintéticos, aumentando ao mesmo tempo oca'

ção da parede que circunda o poro (parede ventral) minho de difusão do vapor de água do mesofilo para

.-
é espessada, podendo atingir até 5 /Lm de espessura, o poro estomático. Desse modo, a câmara subestomá~
diferentemente das células típicas da epiderme, que tica reduz a perda de água dos tecidos fotossintéticos. •

••
aberto aberto fechado
I ••


••


••
li
••
célula-guarda célula subsidiária •
célula-guarda célula subsidiária --
Fig. 1.19 Estômatos apresentando células-guardas do tipo elíptico (à esquerda) e gramináceo (à direita). Observa-se,
••
nas células,guardas dos estômatos abertos, a orientação das microfibrilas de celulose, importantes para o movimento de ••
abertura. As setas em cada estômato indicam a direção da expansão/extensão das células,guardas, que ocorre durante a ~
abertura estomática.
~
~
~

~
Relações Hídricas 33

Uma outra característica interessante do comple- jacentes. Desse modo, qualquer resposta estomática
xo estomático é que nele não se observa a presença rápida deve se originar do próprio metabolismo das
de plasmodesmos entre as células-guardas e as célu- células-guardas em resposta ao ambiente próximo a
las da epiderme e do mesofilo (Fig. 1.17). Plasmodes- elas, causando alterações de turgescência e movimen-
mos são ligações (pontes) citoplasmáticas microscó- tos de abertura ou fechamento.
picas, interconectando células adjacentes, funcionan-
do como um caminho para transportes entre as célu-
Mecanismos que regulam o
las. Essas estruturas são comuns entre o mesofilo e o
movimento estomático
tecido epidérmico. A ausência dessas estruturas in-
dica fortemente que a passagem de metabólitos das A abertura dos estômatos ocorre devido à absor-
células-guardas para as células do mesofilo ou da epi- ção osmótica de água pelas células-guardas, trazendo
derme pode não ser direta, e vice-versa. como conseqüência um aumento do turgor e da pres-
Análises das células-guardas evidenciam também são hidrostática (potencial de pressão, 1J1'p). Em vista
que elas diferem das outras células da epiderme na das propriedades elásticas de suas paredes, as células-
abundância de organelas. A diferença mais evidente guardas podem, de modo reversível, aumentar seu
numa angiosperma típica é que, enquanto as células volume de 40 a 100%, dependendo da espécie. A
da epiderme são desprovidas ou têm poucos cloroplas- deformação da parede das células-guardas imposta
tos, as células-guardas são dotadas dessa organela (Fig. pelo aumento de volume representa o aspecto cen-
1.17). Os p lastídeos das células-guardas são ricos em tral do movimento estomático. O fechamento esto-
grãos de amido; entretanto, se uma comparação for mático ocorre em resposta à saída de água das célu-
feita entre inclusões de amido das células-guardas em las-guardas, com diminuição da pressão de turgor e o
estômatos mantidos no claro (abertos) e no escuro conseqüente relaxamento de suas paredes.
(fechados), será observado que o amido se acumula Para entender melhor o que controla a abertura e
no escuro e diminui na luz, o contrário do que ocorre o fechamento dos estômatos, é necessário conhecer
em tecidos fotossintéticos normais. o que regula as propriedades osmóticas das células-
Nas células-guardas, as mitocôndrias são bem de- guardas. Ao longo dos anos, vários mecanismos têm
senvolvidas e em maior número que nas células do sido propostos para explicar as mudanças no poten-
mesofilo. Quando os estômatos se acham abertos, as cial osmótico (1Jr7r) das células-guardas. No século
células-guardas apresentam correntes citoplasmáti- XX, esses mecanismos foram relativamente bem es-
cas, as quais indicam intensa atividade respiratória. tudados, indicando que várias áreas da ciência de
Em relação às células epidérmicas, outras diferenças plantas estão envolvidas, como a fotobiologia, rela-
características das células-guardas são a presença de ções iônicas das células e mecanismos hormonais.
inclusões de óleo e a ausência de cristais e de pig- Já em 1856, o botânico H. von Mohl propôs que a
mentos, como antocianina, por exemplo, que podem mudança de turgor das células-guardas seria respon-
ser abundantes nas células epidérmicas de algumas sável pelos movimentos dos estômatos. Em 1908, E.
espécies. Lloyd sugeriu que a mudança de turgor dessas células
O conhecimento das características do complexo seria dependente da interconversão de amido em
estomático e, particularmente, das células-guardas é açúcares solúveis, conhecida como a hipótese amido-
essencial para o entendimento do funcionamento dos açúcar do movimento estomático.
estômatos. Muitas das hipóteses para explicar o com- Conforme já descrito, os cloroplastos das células-
portamento estomático têm sido baseadas na obser- guardas possuem grãos de amido que diminuem sua
vação estrutural das células-guardas. Martin et alo quantidade durante a abertura e a aumentam duran-
(1983) consideram que as células-guardas seriam te o fechamento estomático. O amido é um polímero
como uma espécie de "ilhas metabólicas" sem cone- de glicose, insolúvel em água, de alta massa molecu-
xão direta (isto é, plasmodesmos) com os tecidos ad- lar, que não contribui para o 1Jr7r das células. Segun-


~
34 Relações Hídricas
••
,.
do a hipótese do amido-açúcar, a hidrólise do amido teúdo de K+ é elevado nas células-guardas, quando os ••
em açúcares solúveis faz com que o P1T das células- estômatos estão abertos, e diminui quando fechados; ~
guardas se torne mais negativo, diminuindo o poten- a magnitude da elevação varia entre as espécies (Fig. til
cial de água (Pw); com isso, essas células absorvem 1.21). Durante a abertura, boas quantidades de K+ 11I

água por osmose, tomam-se túrgidas e os estômatos movem-se das células subsidiárias e epidérmicas para •
se abrem. dentro das células-guardas.

A hipótese do amido-açúcar foi amplamente
aceita até 1943, quando S. Iamamura verificou a
O fluxo de K+ para o interior das células-guardas é

existência de um fluxo de potássio nas células-guar-
possibilitado pela ativação, com gasto de A TP, de
uma bomba de prótons H+ -A TPase localizada na •
das, o que foi posteriormente confirmado em estu- membrana plasmática. Essa bomba é estimulada pela •
dos envolvendo técnicas mais refinadas de quanti- atividade fotossintética dos cloroplastos. Essa afirma- •
ficação desse cátion. A partir de então, tem sido con- ção tem sido evidenciada pelo uso de fusicocina (uma ••
sistentemente mais aceito que os íons seriam os prin- toxina produzida por um fungo parasita), conhecida •
cipais responsáveis pela osmorregulação das células- por estimular a extrusão de pró tons pela bomba, que

guardas, mais particularmente o potássio, diminuin-
do a importância anteriormente creditada à hipó-
estimula a abertura estomática. As plantas infectadas
morrem por desidratação. Além disso, vanadato, que

tese amido-açúcar. inibe a bomba de pró tons, inibe também a abertura •
Segundo essa teoria, a osmorregulação das células- estomática. •
guardas dever-se-ia à entrada de íons potássio (K+) e A extrusão de pró tons que ocorre pela atividade li
cloreto (CI-) e à síntese de malat02- dentro dessas da H + -A TPase leva a uma diferença de potencial elé- •
células, considerados importantes solutos osmotica- trico através da membrana plasmática das células- ••
mente ativos nas células-guardas (Fig. 1.20). O con- guardas; essa diferença pode atingir até 50 mV. Com


I



••


I
I
I

I
j


Fig. 1.20 Acúmulo, no vacúolo, de potássio, doreto, malato e sacarose, que são as moléculas que provocam queda no
.-
potencial osmótico das células-guardas, causando absorção de água por essas células e, conseqüentemente, abertura esto-
mática (osmorregulação). Existem três caminhos osmorregulatórios distintos nas células-guardas: 12) absorção de potás-

sio e doreto dependente da ativação de uma bomba de pró tons (A TPase) da membrana e síntese de malato a partir da •
quebra do amido; 22) síntese de sacarose a partir da quebra do amido; 32) síntese de sacarose a partir da fixação do COz ••
pela fotossíntese. (Modificado de Talbott & Zeiger, 1998.)

"

;.
Relações Hídricas 31

A solução desse dilema para as plantas é a regulação nhum envolvimento biológico, enquanto a resistên-
temporal da abertura estomática, fechando-a à noite cia da folha (rf), decorrente principalmente do mo-
quando não fotossintetizam, evitando perda desneces- vimento de abertura e fechamento dos poros
sária de água. Pela manhã, desde que não haja limi- estomáticos, é controlada biologicamente. A rf re-
tações de água para a planta, é vantajoso a ela abrir gula a saída de água e a entrada de CO2 para a fotos-
os estômatos e permitir a entrada de dióxido de car- síntese, dependendo da resposta do movimento es-
bono, mesmo que isso envolva perda de água por tomático a diferentes fatores bióticos e abióticos. É
transpiração estomática. importante, então, um conhecimento mais detalha-
Em situação de estresse hídrico moderado, a aber- do das características dos estômatos e dos mecanis-
tura estomática será a máxima possível, sem que ocor- mos de controle da abertura e fechamento a partir
ra uma desidratação letal da planta, mas ainda capaz dos movimentos das células-guardas.
de fixar dióxido de carbono. Se o estresse persistir, a
planta manterá os estômatos fechados. Com o fecha-
Caracterização geral dos estômatos
mento estomático, as plantas podem manter certo
turgor (maior potencial de água), o que é uma impor- Os estômatos são encontrados em angiospermas,
tante característica de tolerância à seca. Isso foi ob- gimnospermas, pteridófitas e briófitas. Nas angios-
servado em estudos com Vigna unguiculata (feijão permas e gimnospermas, os estômatos podem ocor-
caupi), espécie cultivada em regiões secas do Brasil rer em caules verdes, flores e frutos. A grande mai-
(Pimentel & Hébert, 1999). oria dos estômatos encontra-se nas folhas, com alta
A capacidade da planta de limitar a perda de água funcionalidade. A freqüência e a distribuição dos
e, ao mesmo tempo, permitir suficiente absorção de estômatos dependem principalmente da espécie,
dióxido de carbono, pode ser expressa pela eficiência posição da folha e condições de crescimento. Nor-
no uso da água. Esse parâmetro é definido como a malmente, as folhas apresentam de 30 a 400 estô-
quantidade de dióxido de carbono (C02) assimilado matos por mm2 de superfície, mas existem espécies
pela fotossíntese, dividido pela quantidade de água que podem apresentar até mais de 1.000 mm-2• Em
transpirada pela planta: Nicotiana tabacum (fumo), por exemplo, pode apre-
sentar até 1.200 mm-2•

Eficiência no _ moles de CO2 fixado Com exceção principalmente das monocotiledô-


(1.17) neas herbáceas, que apresentam aproximadamente
uso da água - moles de água transPirada
a mesma quantidade de estômatos na face abaxial
(inferior) e adaxial (superior) da folha, na maioria
Considerando os três grupos de plantas C3, C4 e
das espécies os estômatos encontram-se em maior
MAC (metabolismo ácido das crassuláceas), quanto
ao tipo de metabolismo fotossintético (ver Capo 5, quantidade na face abaxial (dicotiledôneas herbá-
ceas) ou mesmo exclusivamente localizada nessa
Fotossíntese), as plantas C3 têm uma eficiência no uso
face (dicotiledôneas lenhosas). Em plantas aquáti-
da água em tomo de 0,002, as C4 de 0,004 e as plan-
tas MAC (também denominadas de CAM Crassula- cas com folhas flutuantes, os estômatos encontram-

cean Acid Metabolism) de 0,02. Neste último grupo se apenas na face adaxial.
A abertura dos estômatos é exercida por mudan-
estão as plantas mais adaptadas à condição de seca,
fixando CO2 predominantemente à noite. ças na forma de um par de células, as chamadas célu-
las-guardas, que margeiam os poros (Fig. 1.18). Em
muitas plantas, as células-guardas são circundadas por
FISIOLOGIA DOS ESTÓMATOS células diferenciadas das células da epiderme da fo-
Na equação 1.14, o numerador (CvaUolha) lha, as células subsidiárias que auxiliam as células-guar-
Cva(ar») e a resistência da camada de ar limítrofe (ra) das no controle do poro estomático (Fig. 1.18A). As
são parâmetros controlados fisicamente, sem ne- células-guardas, células subsidiárias e o poro são co-


32 Relações Hídricas

letivamente chamados de complexo estomático ou apa~ apresentam paredes de 1 a 2 /Lm. A parede dorsal,
relho estomático. aquela em contato com as células subsidiárias, é mais
A principal característica que distingue o comple~ fina (ver Fig. 1.19). Associado ao espessamento par,
xo estomático é o par de células~guardas que funcio~ cial da parede, encontra,se o alinhamento de suas
na como uma válvula operada hidraulicamente. A microfibrilas de celulose, estas dispostas radialmen,
mudança de forma das células~guardas como conse~ te aos poros no caso dos estômatos elípticos, ou obli,
qüência da absorção e perda de água leva a alterações quamente ao eixo da parede espessada nas extremi~
no tamanho do poro. Quando as células~guardas es~ dades das células, guardas, no caso do tipo graminá,
tão túrgidas, os estômatos encontram~se abertos, e, ceo (Fig. 1.19). Essas características resultam numa
quando flácidas, os estômatos estão fechados. curvatura das células,guardas quando túrgidas, le,
a
maior interesse no movimento estomático deve~ vando à abertura estomática.
se à regulação das trocas gasosas e ao conseqüente a poro de um estômato típico totalmente aberto
efeito sobre a fotossíntese e produtividade. Mais de mede cerca de 5 a 15 /Lm de largura por cerca de 20
90% do ca2 e do vapor de água trocados entre a plan~ /Lm de comprimento. a
somatório das áreas dos po~
ta e o ambiente ocorrem através dos estômatos. ros quando abertos perfaz cerca de 0,5 a 2% da área
Existem dois tipos básicos de células~guardas. a total da folha.
mais comum é o tiPo elíptico, reniforme, e o outro é Quando as células~guardas se desenvolvem, câma~
o tiPo gramináceo, restrito a espécies de gramíneas e ras subestomáticas ou cavidades subestomáticas formam,
outras monocotiledôneas, como as palmeiras. N es~ se no mesofilo foliar adjacente ao complexo estomá,
se segundo grupo, o par de células,guardas tem for~ tico. Essas câmaras agem como reservatórios de gases
mato de haltere (Fig. 1.19). Uma das característi, que se estendem no interior do mesofilo (Fig. 1.17),
cas mais preponderante da organização das células~ maximizando assim a difusão de ca2 para tecidos
guardas está na estrutura da parede celular. A por, fotossintéticos, aumentando ao mesmo tempo oca'
ção da parede que circunda o poro (parede ventral) minho de difusão do vapor de água do mesofilo para
é espessada, podendo atingir até 5 /Lm de espessura, o poro estomático. Desse modo, a câmara subestomá~
diferentemente das células típicas da epiderme, que tica reduz a perda de água dos tecidos fotossintéticos.

aberto aberto fechado


I

célula-guarda célula subsidiária


célula-guarda célula subsidiária

Fig. 1.19 Estômatos apresentando células-guardas do tipo elíptico (à esquerda) e gramináceo (à direita). Observa-se,
nas células-guardas dos estômatos abertos, a orientação das microfibrilas de celulose, importantes para o movimento de
abertura. As setas em cada estômato indicam a direção da expansão/extensão das células-guardas, que ocorre durante a
abertura estomática.
Relações Hídricas 35

o..u O
Afechado B
.3:
(jJ
=õ, 0,8
aberto
.Q :$E
~
"O
Ol ~2,41,6
Q'(]) 3,2
C? 3,2

2,4

1,6

0,8

O
aberto fechado

Fig. 1.21 Conteúdo de potássio em células-guardas de estômatos abertos e fechados. A. Commelina comunis. B. Vicia
[aba. (Modificado de MacRobbie, 1987.)

a saída de prótons, ocorre também um gradiente de lite sua absorção pela entrada compartilhada dos íons
pH de cerca de 0,5 a 1 unidade. Acredita-se que a CI- -H+, e não por abertura de canais.
hiperpolarização da membrana gerada pela bomba de Em resumo, o acúmulo de K+, Cl- e malat02- nos
prótons é o que possibilita a absorção passiva de íons vacúolos das células-guardas toma o o/7T mais nega-
potássio, por causar a abertura de canais de potássio tivo, diminuindo o o/w. A conseqüente absorção de
regulados por voltagem. água aumenta o turgor dessas células e ocorre a aber-
Além do K+, o CI- e o malat02- também aumen- tura dos estômatos (ver Fig. 1.20).
tam nas células-guardas iluminadas, contribuindo Considerando as hipóteses apresentadas, nota-se
para a abertura dos estômatos, e diminuem com os que a abertura estomática é um processo que deman-
estômatos fechados. Esses ânions contribuem para a da gasto de energia. A presença de cloroplastos, mi-
neutralidade elétrica das células-guardas, visto que tocôndrias e enzimas respiratórias nas células-guardas
ocorre um acúmulo de K+ (carga positiva) nas célu- indica a necessidade de produção de A TP nessas cé-
las-guardas. O balanceamento é estabelecido parci- lulas. Análises sobre a geração de energia pelas célu-
almente tanto pela entrada de íons CI- quanto pela las-guardas evidenciam que estas são dotadas de to-
produção, no citoplasma das células-guardas, de âni- tal capacidade de produzir, pela respiração ou fotos-
ons orgânicos como o malat02- com dois grupos síntese, toda energia necessária para a abertura esto-
COO-. A contribuição relativa do CI- e do malato mática (Assmann & Zeiger, 1987).
para o balanceamento de cargas é variável entre as Apesar de, nas últimas décadas, ter havido grande
espécies. ênfase para o papel do K+, CI- e malato2- na osmor-
De modo semelhante ao que ocorre com o K+, o regulação das células-guardas, mais recentemente têm
CI- é absorvido pelas células-guardas durante a aber- sido retomados os estudos sobre o papel da sacarose.
tura estomática e expelido durante o fechamento. O Estudos de acompanhamento diário do movimento
malato é sintetizado no citoplasma das células-guar- estomático em folhas intactas de Vicia [aba têm mos-
das, numa via metabólica que usa esqueletos de car- trado que o conteúdo de K+ nas células-guardas au-
bono gerados na hidrólise do amido. Tem sido obser- menta em paralelo com a abertura pela manhã, mas
vado, em estômatos abertos, que os níveis de malat02- decresce no início da tarde, quando a abertura conti-
nas células-guardas podem aumentar até seis vezes. nua a ocorrer. O conteúdo de sacarose das células-
Não está claro ainda se a diminuição do conteúdo de guardas aumenta lentamente durante a manhã, tor-
malat02- dessas células, durante o fechamento, se nando-se, no início da tarde, o soluto osmoticamen-
deve à utilização desse ânion orgânico como substra- te ativo mais importante para a manutenção da aber-
to para a respiração ou se é expelido para o apoplasto. tura. Além disso, o fechamento estomático no fim do
Assim como o K+, o fluxo de CI- depende indi- dia ocorre simultaneamente com um decréscimo no
retamente da bomba de prótons H+ -A TPase. Para conteúdo de sacarose das células-guardas (T albott &
esse ânion, acredita-se que a bomba de prótons faci- Zeiger, 1998). A importância da existência de fases


I
36 Relações Hídricas I
«

osmorregulatórias distintas, uma dominada pelo K+ movimento de abertura e fechamento dos estômatos.
(abertura pela manhã) e outra pela sacarose (abertu- Esses fatores funcionam como sinais que são percebi-
ra à tarde), não é ainda bem compreendida. dos pelas células-guardas e integrados dentro de uma
De um modo geral, o fechamento estomático não resposta estomática bem definida. Assim, por exem-
tem despertado a mesma atenção que o movimento plo, se folhas mantidas no escuro são iluminadas, a
de abertura, embora geralmente se considere que os luz percebida pelas células-guardas desencadeia uma
estômatos são levados ao fechamento por um processo série de respostas, resultando na abertura do poro es-
inverso ao da abertura. Ocorre perda de solutos pelas tomático tornando possível a entrada do COz e a re-
células-guardas, resultando num aumento do o/w alização da fotossíntese. Quando o nível de dióxido
(menos negativo), fazendo com que saia água dessas de carbono no interior da folha for alto, os estômatos
células e diminua a pressão de turgor. Em razão de a se fecham parcialmente, preservando assim o nível de
velocidade do fechamento estomático ser alta, tem água e permitindo a realização da fotossíntese. Um dos
sido sugerido que outras bombas metabólicas especí- principais fatores limitantes para o emprego da cha-
ficas seriam responsáveis pela extrusão ativa de íons mada "adubação com COz" deve-se justamente ao
durante o fechamento (MacRobbie, 1987). fechamento estomático induzido pelo aumento da
Há cerca de 30 anos, tem sido reconhecido que concentração desse gás imposto artificialmente ao
íons de cálcio (Ca2+) podem controlar a abertura do ambiente.
poro estomático. A adição de Ca2+ a soluções em que
se encontram incubados fragmentos de epiderme iso- ÁGUA E TEMPERATURA
lada de folhas pode estimular o fechamento ou inibir Visto que a abertura estomática só ocorre quando
sua abertura (Mansfield et alo, 1990). A presença do as células-guardas se encontram túrgidas, qualquer
Ca2+ inibe a turgescência induzida pelo K+ em alteração na hidratação das plantas afetará o movi-
protoplastos de células-guardas (células cujas paredes mento dos estômatos. Quando acontece de as célu-
foram removidas). Evidências experimentais têm in- las-guardas perderem mais água para a atmosfera do
dicado que certos sinais para o fechamento estomá- que sua capacidade de absorver das células vizinhas,
tico, como o hormônio ácido abscísico (ABA) (ver ocorre um decréscimo na turgidez dessas células, pro-
Capo 11, Ácido Abscísico) e o escuro, estimulam a vocando o fechamento estomático; é o chamado fe-
absorção de Ca2+ para dentro do citoplasma das cé- chamento hidropassivo.
lulas-guardas (Mansfield et alo, 1990) (no próximo Além disso, as células-guardas podem perceber
item será abordado mais detalhadamente o papel do certa deficiência de água do mesofilo, antes mesmo
ABA e da luz no movimento estomático). de ocorrer alguma diminuição de sua turgidez, e fe-
Postula-se que a entrada de Ca2+ nas células-guar- char os estômatos, mecanismo esse mediado pelo
das provocaria uma despolarização na membrana plas- ABA. Essa resposta ao estresse hídrico é chamada de
mática, iniciando assim uma cadeia de eventos na fechamento hidroativo. O estresse moderado de água nas
qual se inclui a abertura de canais de ânions que per- folhas leva à síntese de ABA, o qual, chegando nas
mitiria a saída de Cl- e malat02-. Essa perda de âni- células-guardas, sinaliza a ocorrência de um estresse
ons iria favorecer a despolarização da membrana, hídrico nas proximidades, induzindo o fechamento
abrindo canais de K+ e permitindo a saída desse cáti- dos estômatos. Alguns minutos após o início do fe-
on das células-guardas. chamento, ocorre aumento na síntese de ABA tam-
bém nas células-guardas. Tal sinalização pelo ABA
pode se originar nas próprias raízes, "informando"
Controle do movimento estomático sobre a existência de um estresse hídrico no solo.
Fatores ambientais, como o nível de água, tempe- O início da resposta do fechamento hidroativo,
ratura, qualidade e intensidade de luz e concentração aparentemente, é mediado por ABA oriundo do
intracelular de dióxido de carbono, controlam o mesofilo ou de outras partes da planta, como as raí-

.
Relações Hídricas 37

zes, adiantando assim uma redução na perda de água. fosforilação oxidativa nas células-guardas pelo COz,
Entretanto, o fechamento prolongado poderá ser sus- conhecida como hipótese de Zeiger (Zeiger et al.,
tentado pela manutenção da síntese desse hormônio 1987).
nas células-guardas em resposta ao estresse de água. O que se tem notado é que as respostas ao COz são
Ainda não está claro como as células percebem a variáveis, e parecem relacionar-se à história da plan-
carência de água que resulta no fechamento estomá- ta e, também, às condições do ambiente. No escuro,
tico mediado pelo ABA. Existem fortes indicações de o fechamento das células-guardas pode ser atribuído
que o ABA interfere com a bomba de pró tons da ao acúmulo de COz respiratório dentro da folha.
membrana plasmática, afetando, conseqüentemente, Estudos desenvolvidos com estômatos de epider-
a absorção de K+, ou estimulando a saída desse cáti- me destacadas, mantidas em ambientes com concen-
on das células-guardas. tração de COz constante, têm mostrado uma respos-
A temperatura influencia indiretamente o movi- ta específica dos estômatos à luz. Baseando-se em
mento estomático. Isso ocorre porque tal movimen- análises fotobióticas e metabólicas, tem sido obser-
to encontra-se acoplado ao metabolismo das célu- vado que a resposta à luz é a expressão integrada de
las-guardas; qualquer fator que afete o metabolismo dois sistemas de fotorreceptores distintos, um depen-
afetará também o movimento dos estômatos. Sabe- dendo da fotossíntese nas células-guardas e o outro
se que a elevação da temperatura aumenta a ativi- dirigido por uma resposta específica à luz azul.
dade de qualquer célula até um ponto ótimo, após o A resposta da abertura estomática à luz branca é
qual ocorre um declínio. O aumento da temperatu- parcialmente inibida por DCMU (diclorofenildime-
ra resulta em aumento da respiração em maior grau tiluréia), um inibidor do transporte de elétrons da
que a fotossíntese. Essa resposta pode levar a um fotossíntese. Esses resultados indicam que a fotossín-
aumento concomitante da concentração intracelu- tese nas células-guardas é um caminho osmorregula-
lar de COz, e este desencadear o fechamento esto- dor importante por produzir sacarose. No entanto, a
mático. O papel do COz no movimento estomático observação de que a inibição é parcial sugere um com-
será discutido a seguir. ponente não-fotossintético envolvido com a respos-
ta estomática à luz.
DIÓXIDO DE CARBONO E LUZ Uma evidência suficientemente consistente de que
A luz é o sinal ambiental mais proeminente no a luz tem um efeito direto e independente da fotos-
controle dos movimentos estomáticos. Os efeitos da síntese sobre o movimentoestomático, foi obtida com
luz e do COz estão intimamente ligados, porque a experimentos em que se utilizou luz vermelha até a
concentração de COz se altera como uma função da saturação da resposta fotossintética. Após essa satu-
taxa fotossintética. O real mecanismo pelo qual o COz ração, baixos fluxos de luz azul foram adicionados
regula o movimento estomático não é totalmente quando se observou substancial incremento na aber-
entendido. A importância de estudos envolvendo o tura dos estômatos. Além disso, estudos com
COz pode ser visualizada, por exemplo, na necessi- protoplastos isolados de células-guardas têm mostra-
dade de uma avaliação do impacto do aumento glo- do que estes se tomam túrgidos em resposta à luz azul,
bal da concentração desse gás na atmosfera, sobre as indicando que esse tipo de luz é percebido dentro das
plantas na Terra. Mansfield et al. (1990) propuseram próprias células-guardas.
que as células-guardas respondem ao COz de duas A resposta dos estômatos à luz vermelha é provavel-
maneiras diretamente opostas: (1) as células-guardas mente indireta, mediada pelos cloroplastos das células-
podem ficar mais túrgidas com o aumento da concen- guardas, onde ocorre a fotossíntese. A resposta ao espec-
tração de COz, porque esse gás favorece a formação tro de ação da luz azul é direta, provavelmente envol-
de malato; (2) as células-guardas podem diminuir o vendo criptocromo, um suposto receptor de luz azul.
turgor com o aumento da concentração de COz. Isso Diversos estudos têm registrado que a luz azul ati-
pode envolver a modulação da fotofosforilação e/ou va a bomba de pró tons H+ -A TPase da membrana


38 Relações Hídricas

plasmática das células-guardas e estimula a biossín- REFERÊNCIAS


tese de malato. Quando irradiadas com luz vermelha,
Assmann SM, Zeiger E. Guard ceUbionergetics. ln: Zeiger
ocorre acúmulo de sacarose sintetizada na fotossín-
E, Farquhar GD, Cowas IR (eds). Stomatal Function.
tese das células-guardas (Talbott & Zeiger, 1998) e, Stanford University Press, Stanford, CA, 1987, pp 163-
se baixos fluxos de luz azul são adicionados à luz ver- 193.
melha, as células-guardas passam a acumular K+,Cl- Hopkins WG. lntroduction to Plant Physiology. John Wiley
e malato (Fig. 1.20). & Sons, Inc, New York, 1999.
Tem sido sugerido que a resposta à luz azul em MacRobbie EAC. Ionic relations of guard ceUs. ln: Zeiger
condições naturais é importante para a abertura dos E, Farquhar GD, Cowas IR (eds). Stomatal Function.
Stanford University Press, Stanford, CA, 1987, pp 125-
estômatos antes do amanhecer (Zeiger et aI., 1981).
162.
Freqüentemente se observa abertura estomática an-
Mansfield TA, Hetherington AM, Atkinson CJ. Some
tes do nascer do sol, quando a radiação é bem menor
current aspects of stomatal phYsiology.Annual Review
do que a requerida pela fotossíntese. De um ponto de of Plant Physiology and Plant Molecular Biology, 1990;
vista ecofisiológico, a resposta à luz azul anteciparia 41:55-75.
a necessidade de COz atmosférico favorecendo a aber- Martin ES, Dondin ME, Stevens RA. Stomata. Edward
tura estomática, preparando para uma fotossíntese Amold (Publishers) Ltd, London, 1983.
ativa. Medri ME. Anatomia comparada e correlações anatomo-fisio-
Existem evidências de que a inibição da abertura ecológicas de seis dones de Hevea spp. Tese de Doutora-
do. INPA, Manaus, AM, 1980.
estomática pelo Ca2+ e ABA só ocorre em estômatos
Nobel PS. Physicochemical and Environmental Plant Physio-
irradiados com luz azul, não apresentando nenhum
logy. Academic Press, New York, 1991.
efeito sobre a abertura estimulada pela luz vermelha
Parvathi K, Raghavendra AS. Blue light-promoted
(Parvathi & Raghavendra, 1997). Tal constatação stomatal pening in abaxial epidermis of Commelina
está de acordo com as observações de que o ABA e benghalensis in maximal at low calcium. Physiologia
concentrações elevadas de Ca2+ interferem na ativi- Plantarum, 1997; 101:861-864.
dade das bombas de pró tons, que é uma resposta liga- Passioura JB. The meaning of matric potential. ]ournal
da ao papel da luz azul. Experimental of Botany, 1980; 31:1161-1169.
Em síntese, pautando-se nos resultados e sugestões Perez SCJG, Moraes JAPV. Determinações de potencial
mencionados, pode-se inferir, com relativa seguran- hídrico, condutância estomática e potencial osmótico
em espécies dos estratos arbóreo, arbustivo e herbáceo
ça, que o K+, Cl-, malat02- e sacarose estão envolvi-
de um cerradão. Revista Brasileira de Fisiologia Vegetal,
dos na redução do Pw das células-guardas, favorecen-
1991; 3:27-37.
do, por conseguinte, a turgescência destas. O K+, o Pimentel C, Hébert G. Potencial fotossintético e condu-
Cl- e o malatoZ- acumulam-se nas células-guardas tância estomática em espécies de feijão caupi sob defi-
estimulados pela luz azul. No entanto, o acúmulo ciência hídrica. Revista Brasileira de Fisiologia Vegetal,
dessas substâncias pode deixar de ocorrer se houver 1999; 11:7-11.
um aumento no nível de ABA, que ocorre em situa- Sassaki RM, Machado EC, Lagôa AMMA, Felippe GM.
ção de estresse de água. Por outro lado, a sacarose se Effect of water deficiency on photosynthesis of Dalbergia
acumula nas células-guardas estimulada pela luz ver- miscolobium Benth., a cerrado tree species. Revista Bra-
sileira de Fisiologia Vegetal, 1997; 9:83-87.
melha, a partir da fixação do COz fotossintético, não
Scholander PF, Hammel HT, Bradstreet ED, Hemminsen,
apresentando sensibilidade ao ABA. Mas, caso ocorra
EA. Sap pressure in vascular plants. Science, 1965;
um estresse hídrico, os estômatos deverão fechar-se
146:339-346.
parcialmente, dificultando a entrada de COz'
Taiz L, Zeiger E. Plant Physiology. Sinauer Associates, Inc,
Publishers, Sunderland, Massachusetts, 2002.
Agradecimentos: Agradeço à Dra. Sandra Colli dos Talbott LD, Zeiger E. The role of sucrose in guard ceU
Anjos, ao Dr. Edmilson Bianchini e ao Dr. Moacyr osmoregulation. ]ournal Experimental of Botany, 1998;
E. Medri pelas importantes colaborações. 49:329-337.
Relações Hídricas 39

Zeiger E, Farquhar GD, Cowan IR. Stomawl Function. Stan- Kramer P], Boyer ]S. Water Relations of Plants and Soils.
ford Univ Press, Stanford, 1987. Academic Press, San Diego, 1995.
Zeiger E, Field C, Mooney HA. Stomatal opening at dawn: Milburn]A. Water FlowinPlants. Longman, London, 1979.
Possible roles of the blue light response in nature. ln: Nobel PS. Physicochemical and Environmental Plant Physio-
H Smith (ed). Plants and the Oaylight Spectrum. logy. Academic Press, New York, 1991.
Academic Press, London, 1981, pp 391-407. Salisbury FB, Ross CW. Plant Physiology, 4th ed. Wadsworth
Publishing Company, Inc, Belmont, California, 1995.
Taiz L, Zeiger E. Plant Physiology. Sinauer Associates, lnc,
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA
Publishers, Sunderland, Massachusetts, 2002.
Hopkins WG. lntroduction to Plant Physiology. ]ohn Wiley Zeiger E, Farquhar GD, Cowan IR. Stomawl Function. Stan-
& Sons, Inc, New York, 1999. ford Univ Press, Stanford, 1987.


CAPÍTULO 2

Ângela Maria Cangiani Furlani

INTRODUÇÃO durante 5 anos. Após esse tempo, colheu um arbusto


de 82 kg de matéria seca, verificando que o solo do
As plantas são organismos autotróficos, capazes de
vaso diminuiu apenas 180 g, o que atribuiu a perdas
viver num ambiente inteiramente inorgânico, utili,
acidentais, e concluiu, erroneamente, que a água era
zando COI da atmosfera, água e nutrientes do solo.
o único alimento das plantas. Em 1766, o inglês
Os animais, por outro lado, são organismos hetero,
W oodward cultivou plantas em vasos, irrigando com
tróficos e dependem, para sua existência, de molécu,
água de chuva, torneira, enxurrada e líquido de es,
Ias orgânicas previamente sintetizadas por outros or,
goto diluído. Verificou que, quanto mais suja a água,
ganismos. Todos os organismos vivos, autotróficos ou
maior era o crescimento das plantas, concluindo que
heterotróficos, precisam drenar substâncias materiais
a terra, e não a água, era o material constituinte das
do ambiente para a sua constituição física, para man,
plantas. Em 1774, Priestley descobre o oxigênio e que
ter o metabolismo, crescimento e desenvolvimento.
as plantas purificam o ar liberando oxigênio. Mas
As plantas estão no início dessa cadeia alimentar, Scheele, nessa mesma época, demonstra que as plan,
utilizando,se de substâncias inorgânicas do ambien, tas também consomem o oxigênio. Ingenhousz, em
te para construir moléculas orgânicas, e servindo,se, 1776, esclareceu, com seus experimentos, que as plan-
assim, de material para a organização dos seres hete, tas liberam mais oxigênio à luz do dia e o consomem
rotróficos, incluindo os seres humanos. O estudo da
mais quando estão à sombra ou à noite. Em 1796, esse
nutrição das plantas teve seu início com Aristóteles mesmo cientista demonstrou ter noção da essencia,
(350 aC), com a teoria humística, que se baseava na lidade de nutrientes, afirmando que seria preciso des-
idéia de que as plantas se alimentam do húmuse, após cobrir as substâncias de que as plantas necessitariam,
a morte, retomam ao húmus. Em 1563, o francês sem as quais não poderiam sobreviver. Em 1776, La-
Palissy já possuía uma idéia clara da contribuição do voisier estabelece as bases da química moderna, após
sal do solo para a vida da planta, com base em obser, o que surge uma série de trabalhos sobre a fotossínte,
vações da cinza obtida por incineração do vegetal. se e a nutrição mineral de plantas. Em 1804, o suíço
Quase 90 anos depois, em 1652, o holandês van Saussure (1767-1845) demonstrou que a planta ob,
Helmont, médico e alquimista, postulou que as plan, tinha o carbono do COI atmosférico; que o hidrogê-
tas absorvem água e sintetizam suas substâncias a nio e o oxigênio eram assimilados na proporção em
partir dela, com base em um experimento com uma que se encontram na água (2:1) e que o aumento na
estaca de salgueiro de 2,5 kg plantada em um vaso matéria seca era devido ao C, H e O absorvidos; que
com 150 kg de terra, irrigado com água de chuva o solo era o fornecedor de minerais indispensáveis à vida
,--

Nutrição Mineral 41

da planta. Boussingault (a partir de 1830) iniciou entes das plantas, incluindo N, P, K, S, Mg e Ca, afir-
experimentos em campo, na França, e comprovou que mando que a planta não crescerá se um dos elemen-
o solo é o fornecedor de minerais indispensáveis à vida tos necessários estiver faltando na quantidade exigi-
da planta, cultivando plantas em substrato sólido da pela natureza da espécie. Para evitar disputa de
inerte, irrigado com solução nutritiva (água + sais prioridades e para reconhecer e comemorar as desco-
dissolvidos) . bertas de ambos os cientistas, a Associação Alemã de
Os tratados modernos sobre a teoria da nutrição Estações Experimentais de Agricultura e Pesquisa
de plantas usualmente se referem a livros publicados criou a medalha Sprengel-Liebig. E propõe à comu-
pelo alemão Justus von Liebig entre 1840 e 1855. nidade científica internacional de ciência do solo e
Liebig compilou toda a informação da época a respei- da planta que todos reconheçam Sprengel como um
to da importância dos elementos minerais para a vida co-descobridor da química agrícola e que a Lei do
das plantas. Graças a ele, a nutrição mineral de plan- Mínimo seja chamada, daqui por diante, de Lei do
tas foi estabelecida como uma disciplina científica. Mínimo de Sprengel-Liebig (Ploeg et al., 1999).
Em seus relatos, escreveu sobre "A química agrícola Entre 1840 e 1900, considerado o quinto período
e sua aplicação na agricultura e fisiologia", e postu- da nutrição mineral de plantas, outros cientistas trou-
lou, mais pela observação do que pela experimenta- xeram grandes contribuições, destacando-se os traba-
ção precisa, que os elementos minerais essenciais para lhos de Sachs e Knop ( 1860-1865), a partir dos quais
as plantas eram: N, P, K, Ca, Mg, S, Si, Na e Fe, e surgiram outros trabalhos com soluções nutritivas
que todos provêm do solo, exceto os elementos essen- cada vez mais puras e com métodos mais avançados
ciais C, H, O, que são provenientes da água e da at- de análise química quantitativa de plantas, que per-
mosfera. Observou, ainda, que espécies diferentes ne- mitiram a comprovação dos elementos essenciais.
cessitam de quantidades diferentes dos elementos; e
que alguns solos são deficientes em alguns elementos OS ELEMENTOS MINERAIS NAS
e podem ser corrigidos pela adubação. Derrubou a te- PLANTAS.
oria de que o húmus seria o alimento utilizado pelas
DEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO.
plantas, sendo, porém, uma fonte de nutrição para es-
CRITÉRIOS DE ESSENCIALIDADE
tas. A Liebig é atribuída a Lei do Mínimo, que diz ser
a produção de uma planta limitada ao elemento mais A partir do final do século XIX, os estudos exten-
escasso entre todos os nutrientes presentes no solo. Isto sivos sobre a composição das plantas cultivadas em
é, a produção fica limitada quando pelo menos um dos diferentes solos permitiram compreender que a pre-
elementos necessários está disponível em quantidade sença e a concentração de um elemento mineral não
inferior à requerida pela planta (nutriente limitante). poderiam ser critérios para a demonstração da sua
Os conhecimentos em nutrição mineral de plan- essencialidade. A planta absorve pelas raízes elemen-
tas e deficiências de elementos minerais mostrando tos minerais nem sempre essenciais à sua vida e ao seu
a sua essencialidade têm sido atribuídos a pesquisas ciclo reprodutivo, possuindo uma capacidade de ab-
originais do próprio Liebig. Entretanto, em recente e sorção seletiva limitada, podendo absorver também
específica revisão de literatura, Ploeg et al. (1999) elementos não-essenciais e/ou mesmo tóxicos. Por-
revelam que o agrônomo e também químico alemão tanto, não seria possível comprovar a essencialidade
Carl Sprengel (1787-1859) conduziu estudos pionei- de um elemento pela composição química de plantas
ros em química agrícola durante a primeira metade cultivadas em solos. Uma vez compreendido esse fato,
do século XIX. Sprengel publicou, em 1826 (14 anos os cientistas passaram a trabalhar com solução nutri-
antes de Liebig), um artigo no qual a teoria do húmus tiva e areia de alta pureza, em experimentos com
foi refutada, e outro artigo extenso, em 1828, onde omissão de elementos. Essas técnicas permitiram ca-
formulou, em essência, a Lei do Mínimo. Listou, no racterizar os elementos essenciais e compreender
total, 20 elementos que ele considerou como nutri- melhor suas funções nas plantas.


42 Nutrição Mineral

Os elementos minerais essenciais, também de- Os nutrientes minerais essenciais conhecidos até
nominados nutrientes minerais das plantas, foram este momento estão relacionados na Tabela 2.1. Com
descobertos ao longo do tempo, e são aqueles que a contínua purificação dos sais e com o avanço nas
atendem aos três seguintes critérios de essenciali- técnicas analíticas, essa lista pode aumentar e outros
dade: (1) um elemento é essencial quando a planta elementos minerais, exigidos pelas plantas em quan-
não consegue completar seu ciclo de vida na sua tidades muito pequenas, podem vir a ser considera-
ausência; (2) o elemento tem função específica e não dos essenciais. Para as plantas superiores, a essencia-
pode ser substituído; (3) o elemento deve estar en- lidade de 14 elementos minerais está bem estabele-
volvido diretamente no metabolismo da planta, fa- cida, embora a exigência do cloro e do níquel esteja
zendo parte de um constituinte essencial (por exem- restrita a um limitado número de espécies de plan-
plo, uma enzima), ou exigido para um passo meta- tas. Entre esses elementos, aqueles exigidos em mai-
bólico específico (por exemplo, numa reação enzi- ores quantidades pelas plantas são denominados
mática). macronutrientes (N, P, K, Ca, Mg e S) e aqueles
Não podem ser considerados essenciais os elemen- exigidos em pequenas quantidades são denominados
tos minerais cuja presença no meio neutralizam efei- micronutrientes (B, Cl, Cu, Fe, Mn, Mo, Ni e Zn).
tos químicos, físicos ou biológicos desfavoráveis com- Além desses elementos minerais, são também ele-
pensando o efeito tóxico de outros, ou substituindo mentos químicos essenciais o C, H e 0, que a planta
parcialmente as funções menos específicas de um ele- retira principalmente do ar e do solo, na forma de COz
mento essencial. Por exemplo, os elementos que subs- e de HzO. Esses elementos foram agrupados entre os
macronutrientes.
tituem parcialmente a função de manutenção da pres-
são osmótica (função não-essencial) são denomina-
dos benéficos.
° silício (Si) e o cobalto (Co) foram considera-
dos, a princípio, como elementos essenciais para as

Elementos essenciais às plantas superiores: a descoberta e


demonstração da essencialidade

Elemento (símbolo) Descobridores Ano Demonstração da Ano


Essencialidade
Carbono (C) Saussure 1804
Hidrogênio (H) Saussure 1804
Oxigênio (O) Priestley, Scheele 1774 Saussure 1804
Nitrogênio (N) Rutherford 1772 Saussure 1804
Fósforo (P) Brand 1772 Ville 1860
Potássio (K) Davy 1807 Sachs and Knop 1860, 1865
Cálcio (Ca) Davy 1807 Sachs and Knop 1860, 1865
Magnésio (Mg) Davy 1808 Sachs and Knop 1860, 1865
Enxofre(S) Sachs and Knop 1865

Ferro (Fe) Sachs and Knop 1860, 1865


Manganês (Mn) Scheele 1774 Mazé,McHargue 1915, 1922
Boro (B) Gay-Lussac, Thenard 1808 Warington 1923
Zinco (Zn) Sommer and Lipman 1926
Cobre (Cu) Lipman and McKinney 1931
Molibdênio (Mo) Hzelm Amon and Stout 1938
Cloro (Cl) Schell 1774 Broyer et a!. 1954
Níquel (Ni) Brown et a!. 1987

Fontes: Malavolta (1980); Glass (1983); Marschner (1995).


Nutrição Mineral 43

plantas superiores; entretanto, mais recentemente, MECANISMOS DE CONTATO


têm sido classificados como elementos benéficos, jun~ ENTRE AS RAÍZES DAS PLANTAS E
tamente com o sódio (Na), por serem essenciais a um
O SOLO
número muito restrito de espécies. O Na e o Si são
abundantes na biosfera e são exigidos por algumas O suprimento de nutrientes para as raízes, que
espécies de plantas em quantidades pequenas. O Co crescem no solo, depende dos atributos físicos e quí-
é exigido pelas leguminosas fixadoras de N 2 atmosfé~ micos desse solo, da espécie iônica do nutriente e
rico e o Si por algumas gramíneas. O Se e o AI são das características morfológicas e fisiológicas das
também considerados elementos benéficos para algu- raízes.
mas espécies, em pequenas quantidades, como será As raízes das plantas entram em contato com a
discutido em item específico adiante. solução do solo de onde retiram os nutrientes mine~
Os micronutrientes são constituintes de molécu- rais de que necessitam. Existem três mecanismos res-
las de enzimas ou ativadores enzimáticos e são exigi~ ponsáveis pelo movimento de íons da solução do solo
dos em quantidades muito pequenas. Por outro lado, para a superfície das raízes: (1) fluxo de massa; (2)
os macronutrientes são constituintes de compostos interceptação radicular; e (3) difusão.
orgânicos, como proteínas e ácidos nucléicos, ou atu~ Fluxo de massa é o movimento de nutrientes da
am no controle osmótico. As concentrações médias solução do solo em direção à superfície das raízes
desses nutrientes na matéria seca das plantas, consi- (rizosfera); é causado pelo fluxo convectivo da água
deradas adequadas para um crescimento normal, são ao ser absorvida pela planta. A absorção de água, por
mostradas na Tabela 2.2. Os valores podem variar sua vez, depende do reservatório de água do solo e do
consideravelmente, dependendo da espécie, da ida- potencial interno de água da planta que está relacio-
de da planta e da quantidade dos elementos presen- nado às condições atmosféricas de temperatura e
tes no meio de crescimento. umidade.

Concentrações médias de nutrientes minerais, na matéria seca da


parte aérea de plantas, necessárias para um crescimento adequado
Nutrientes Concentração na Matéria Seca Número Relativo
de Átomos

J.Lmolg-l mgkg-1
Molibdênio (Mo) 0,001 0,1 1
Níquel (NO -0,001 -0,1 1
Cobre (Cu) 0,10 6 100
Zinco (Zn) 0,30 20 300
Manganês (Mn) 1,0 50 1.000
Ferro (Fe) 2,0 100 2.000
Boro (B) 2,0 20 2.000
Cloro (Cl) 3,0 100 3.000
Enxofre (5) 30 1 30.000
Fósforo (P) 60 2 60.000
Magnésio (Mg) 80 2 80.000
Cálcio (Ca) 125 5 125.000
Potássio (K) 250 10 250.000
Nitrogênio (N) 1.000 15 1.000.000

Fontes: Epstein (1965) e Brown et a!. (1987 a;b) .


44 Nutrição Mineral

A interceptação radicuIar corresponde à quanti~ para o milho, considerando~se uma adubação adequa~
dade de nutrientes que as raízes encontram disponí~ da para uma produção de 9.500 kg ha -1, a quantida~
veis na rizosfera à medida que se desenvolvem, não de aproximada de nutrientes que chega às raízes por
dependendo do movimento deles no solo. interceptação radicular pode variar de 1% (N), até
A difusão do nutriente do solo para a superfície 29% (Ca); por fluxo de massa, de 5% (P), 71% (Ca),
radicular acontece quando a absorção pela planta é 79% (N), 87% (Mg) até 98% (S); e, por difusão, de
maior do que o suprimento pelos dois mecanismos ci~ 20% (N) até 93% (P). De maneira geral, o fluxo de
tados, criando um gradiente de concentração da massa é o maior contribuinte para o suprimento de
rizosfera para o meio externo. Esse gradiente de con~ Ca, Mg, N e S para a rizosfera. Já a difusão é mais
centração faz com que o nutriente se mova da área importante para o K, P e micronutrientes. Entretan~
de maior concentração para a de menor concentra~ to, dependendo da espécie e do tipo de sistema radi~
ção (rizosfera). Esse é um processo complexo que cular, o fluxo de massa pode ter importância igualou
depende de vários fatores do solo, como a tortuosidade superior à difusão no suprimento de K às raízes. Os
(também chamada de fator de impedância) e a tem~ parâmetros morfológicos das raízes (densidade, com~
peratura. A tortuosidade varia com a umidade, den~ primento e superfície) são muito significativos para
sidade e textura do solo. a aquisição de nutrientes do solo pelas plantas.
A importância relativa de cada um desses meca~ A chegada dos nutrientes à superfície radicular
nismos de movimento do nutriente no solo para a apenas garante a sua disponibilidade para as plantas,
planta depende da espécie iônica envolvida, do ge~ porém sua absorção vai depender do contato deles
nótipo da planta, da densidade de raízes e do fluxo com as membranas das células das raízes e da espécie
de água na planta. Isso significa que a contribuição iônica presente na rizosfera. Assim sendo, um nutri~
de cada mecanismo de chegada do nutriente à raiz ente biodisponível ou fitodisponível é aquele que está
varia com o nutriente, com a cultura e com as condi~ presente na solução do solo na forma iônica e pode
ções ambientais do solo e da atmosfera. Por exemplo, se mover para o sistema radicular (Tabela 2.3).

Formas iônicas dos nutrientes minerais


preferencialmente assimiláveis pelas plantas

Nutrientes Minerais Formas Preferenciais de Absorção pelas Plantas


Iônicas na Gasosas na
Solução do Solo Atmosfera

Nitrogênio (N) N03-e NH/


Fósforo (P) H2P04-
Potássio (K) K+
Cálcio (Ca) CaH
Magnésio (Mg) MgH
Enxofre(S) SO/-
Boro (B) H3B03(O)
Cloro (Cl) Cl-
Cobre (Cu) CuH
Ferro (Fe) FeH
Manganês (Mn) MnH
Molibdênio (Mo) MoO/-
Níquel (Ni) Nj2+
Zinco (Zn) ZnH

Fonte: Barber (1995); Mengel e Kirkby (1987); Marchner (1995).


Nutrição Mineral 45

A ABSORÇÃO IÔNICA PELAS foram observados após 4 dias em solução nutritiva: a


CÉLULAS DAS RAÍZES concentração dos nutrientes diminuiu drasticamente na
solução de maneira diferente para as espécies e para os
Características gerais da absorção nutrientes. Já a concentração dos nutrientes determi-
nada na seiva das raízes foi bem maior que a do meio
iônica pelas plantas inferiores e
supenores
. externo após esse período, sendo a demanda ou exigên~
cia por determinado nutriente variável entre as duas
a) Seletividade: As plantas possuem a característica espécies. Assim, foi determinada, na seiva das raízes de
singular de seletividade iônica, isto é, apresentam uma feijão, a metade da concentração de K encontrada na
preferência pela absorção de alguns íons nutrientes, de milho; três vezes maior concentração de Ca, 1Ove~
enquanto outros são discriminados ou quase excluídos. zes maior de Na, duas vezes maior de fosfato, a metade
b) Acumulação contra um gradiente de concentração: da de sulfato e similar de nitrato.
A concentração de determinado nutriente mineral Para entender todos esses processos envolvidos na
pode ser muito maior no interior das células das raí~ absorção iônica, é preciso acompanhar o caminho que
zes do que na solução externa. os solutos da solução do solo (ou solução nutritiva) per~
c ) Variabilidade do germoplasma: Existe uma gran~ correm através da parede celular das raízes e da mem-
de variação interespecífica e intra~específica nas ca~ brana plasmática para chegarem ao citoplasrna e, através
racterísticas de absorção dos nutrientes. da membrana tonoplasto, para chegarem ao vacúolo.
As células das raízes regulam a entrada de alguns ele~
mentos que parecem ser os de maior demanda, mas, por O caminho dos solutos do meio
outro lado, podem absorver elementos que não têm fun~
ção ou que podem mesmo ser tóxicos. Como explicar?
exterior para o apoplasto das raÍzes
A capacidade das células das raízes de plantas terrestres o apoplasto é o espaço entre as células vegetais
de selecionar determinados elementos para a absorção constituído pelas paredes celulares. O movimento de
e excluir outros, bem como de acumular determinados solutos de baixa massa molecular (íons, ácidos orgâ~
nutrientes contra um gradiente de concentração, tem nicos, aminoácidos e açúcares) através da parede ce~
sido motivo de investigação há décadas. Alguns exem~ lular de células das raízes representa um processo não~
pIos das mudanças que ocorrem na concentração de metabólico, passivo, dirigido por difusão ou fluxo de
alguns nutrientes na seiva de raízes de milho e feijão massa (Figs. 2.1 e 2.2).

Metaxilema jovem
Fig. 2.1 Esquema parcial de um
corte transversal de uma raiz de
milho mostrando as vias: (A) / 1"- Metaxilema maduro

\
simplástica e (B) apoplástica de Pêlos
transporte iônico radial até a en- radiculares

doderme. Após a endoderme, o


transporte iônico até o xilema é
obrigatoriamente via simplástica.
(Reproduzido de Marschner,
1995, 2.a ed., p.66, com permissão
de Elsevier.) Rizoderme
46 Nutrição Mineral

Parênquima
Rizoderme Endoderme do xilema

Xilema

(A)

(8)
~
Estrias
de Caspary

Fig. 2.2 Diagrama das vias simplástica (A) e apoplástica (B) de transporte iônico radial através da raiz até o xilema:
transporte ativo ~ j reabsorção +---- (Uiuchli, 1976, reproduzido de Marschner, 1995,2." ed., p.71, com permissão
de Elsevier.)

As paredes celulares consistem em uma rede de solutos com carga, essa região ocupada pelos
fibras de celulose, hemicelulose e glicoproteínas. As microporos e macroporos foi denominada de espaço
glicoproteínas constituem 5 a 10% da matéria seca livre aparente (ELA). O espaço livre aparente com-
da parede celular. Essa rede contém macroporos e preende o espaço livre da água (EL água), por onde se
microporos de até 5 nm (nanômetros) de diâmetro, movem livremente a água e os solutos com e sem carga
que não oferecem obstáculo ao movimento dos (macroporos), e o espaço livre de Donnan (ELD),
solutos com ou sem carga: são os espaços livres. Esses onde ocorre a troca de cátions e a repulsão dos âni-
poros são bem maiores que os raios iônicos dos nutri- ons (microporos) (Fig. 2.3). A distribuição de íons
entes, o que permite que esses íons se movam livre- dentro do espaço livre aparente do apoplasto nas pa-
mente nesse espaço. Solutos de alta massa molecular redes celulares das raízes caracteriza-se pela mesma
(quelatos de metal, toxinas ou vírus e outros patóge-
nos) são fortemente impedidos de passar no apoplasto,
pelo tamanho dos poros aí existentes. Os que latos de
cátions permitem maior disponibilidade do cátion na
solução do solo, evitando a adsorção ou fixação deles
nas cargas negativas das argilas e da matéria orgânica
do solo, porém dificilmente penetram as paredes ce-
lulares devido ao tamanho de suas moléculas, muito
maior que o diâmetro dos poros aí existentes. Entre-
Macroporo
tanto, as fibras das paredes celulares contêm grupos
Microporo
carboxílicos (R-COO-) que podem interagir com os
íons, atuando como trocadores de cátions. Dessa for-
Fig. 2.3 Diagrama representativo do sistema de poros da
ma, no espaço ocupado pelos microporos pode haver
parede celular que compõe o espaço livre aparente entre
um acúmulo de cátions, restringindo a passagem dos as células da rizoderme: ELO = espaço livre de Donnanj
ânions, que são repelidos e se acumulam nos EL água = espaço livre da água. Espaço livre aparente
macroporos. Por causa dessas cargas negativas no (ELA) = ELO + EL água. (Reproduzido de Marschner,
apoplasto e da restrição provocada no movimento dos 1995, 2." ed., p.9, com permissão de Elsevier.)


Nutrição Mineral 47

distribuição que ocorre na superfície das partículas de MgH em espécies anuais e de floresta. As cargas ne,
argila do solo, negativamente carregadas, que também gativas das paredes celulares são particularmente
é denominada de distribuição de Donnan. importantes para a retenção de cátions micronutri,
Quanto maior a valência do íon, mais fortemente entes, como o ZnH, CuH, MnH e FeH, pois a atra,
este fica adsorvido à parede da célula no apoplasto, ção desses cátions para esses pontos forma um reser,
nos microporos. Assim, íons bivalentes, como o CaH, vatório no apoplasto que favorece sua subseqüente
são preferencialmente ligados nos pontos de troca de absorção para o interior das células das raízes. Quan,
cátions, em relação aos íons monovalentes, como o do esses micronutrientes são fornecidos na forma iô,
K +. As espécies de plantas diferem consideravelmente nica, sua concentração na parte aérea e nas raízes é
quanto à capacidade de troca de cátions (CTC) das muitas vezes maior do que quando fornecidos na for,
raízes, ou seja, quanto ao número de pontos de troca ma de complexos do tipo Zn,EDT A ou outro. Assim
de cátions localizados nas paredes celulares. As espé, sendo, quando supridos em formas iônicas, os cátions
cies de dicotiledôneas têm muito maior CTC do que micronutrientes polivalentes podem ser encontrados
as de monocotiledôneas (Tabela 2.5). A CTC real em concentrações mais elevadas nas raízes em com'
geralmente é menor em raízes intactas, devido aos paração com a parte aérea, simplesmente como resul,
impedimentos estruturais (epiderme e estrias de tado das ligações preferenciais no apoplasto das cé,
Caspary na endoderme). Apenas parte dos pontos de lulas radiculares (Tabela 2.5). Os complexos não te,
troca do ELD fica diretamente acessível aos cátions riam uma ligação substancial com as cargas negati,
da solução externa, e parte dessas estruturas é destro' vas e também não seriam livremente permeáveis nos
ída quando se determina a CTC das raízes. Entretan, poros do ELA. O reservatório de cátions no apoplasto
to, as diferenças relativas mostradas na Tabela 2.4 são da raiz pode servir como reservatório transitório para
as que tipicamente existem entre as espécies. metais pesados, como ferro e zinco, que podem ser
A adsorção de cátions, bi e polivalentes, no ELA mobilizados por exsudados de raízes específicos (como
aumenta a sua concentração no apoplasto e nas vizi, os sideróforos) e, subseqüentemente, transportados
nhanças dos locais de absorção na membrana plasmá, para a parte aérea. O tamanho desse reservatório pro,
tica. Como resultado desse efeito indireto, existe uma vavelmente tem grande importância na diferença
correlação positiva entre CTC e a relação de conteú, entre genótipos para a sensibilidade à deficiência de
do de CaH e K+ em diferentes espécies de plantas. micronutrientes.
Em solos ácidos foi observada competição entre as Como já foi visto, antes de alcançarem as mem,
formas iônicas do Al (mono, bi ou polivalente) e o branas das células das raízes, os íons atravessam as
MgH pelos pontos de ligação no apoplasto das raízes, paredes celulares (espaços intercelulares que formam
fator esse responsável pela indução de deficiência de

Absorção e transporte de
Capacidade de troca de zinco em plantas de cevada
cátions (CTC) na matéria seca (unidade na base de matéria
de raÍzes de diferentes espécies seca, por 24 horas), em
de plantas solução nutritiva com 1,0 mg
L-I de Zn
Espécies CTC
Taxa de Absorção e Transporte de Zn
mmol kg-l
Trigo 230 Forma de ln Raízes Parte aérea
Milho 290 ------------\'
rg g-l (24 h)-l
305
Feijão 540 lnS04 4.598
Tomate 620 lnEDTA 45 35

Fonte: Keller e Deuel (1957) em Marschner, 1995. Fonte: Barber e Lee (1974) em Marschner (1995).


48 Nutrição Mineral

o apoplasto). Em geral, os movimentos de íons e ou- Via simplasto: transporte de solutos


tros solutos de baixa massa molecular (por difusão ou através das membranas das células
fluxo de massa) não ficam restritos aos espaços inter-
A membrana plasmática representa uma barreira
celulares da superfície mais externa da epiderme ra-
dicular. Os íons e solutos podem fluir passivamente efetiva tanto para a entrada de solutos na célula quan-
pelos espaços intercelulares da segunda camada de to para a sua saída desta. Nessa membrana predomi-
nam locais de seletividade na absorção de cátions e
células da epiderme radicular e do córtex, que também
fazem parte do apoplasto, até chegarem à barreira prin- ânions, e locais de transporte ativo em ambas as di-
cipal, que é a endoderme (Fig. 2.4). A endoderme é a reções.
camada mais interna do córtex da raiz e possui A outra barreira é representada pelo tonoplasto,
incrustações hidrofóbicas de suberina (estrutura deno- membrana que envolve o vacúolo. O vacúolo nas
minada estrias de Caspary) que constituem uma bar- células vegetais compreende 80-90% do volume da
reira efetiva para o fluxo passivo de solutos e água. célula. É o compartimento de reserva de solutos (íons,
Entretanto, o volume de tecido de raiz acessível ao flu- açúcares, ácidos orgânicos e outros metabólitos).
xo passivo de solutos (o espaço liwe) representa uma Embora a membrana plasmática e o tonoplasto sejam
pequena fração do volume total da raiz (apenas 5% em as principais biomembranas envolvidas diretamente
milho). A proporção efetiva desse fluxo dentro do es- na absorção e transporte de solutos nas raízes, é im-
paço livre vai depender de vários fatores, como a taxa portante lembrar que existe a compartimentação pe-
de transpiração, concentração dos solutos e formação las biomembranas de outras organelas, como a mito-
de pêlos radiculares. O transporte radial de água pelo côndria e o cloroplasto, com seus próprios sistemas
apoplasto varia de menos de 1,0% até 76-98%, depen- regulatórios de transporte (entrada e saída) de solu-
dendo da condutividade hidráulica na zona da raiz tos do citoplasma.
considerada. Existe uma tendência para superestimar
a importância do espaço livre na absorção de íons pe- ESTRUTURA E COMPOSIÇÃO DAS
las raízes. Para os nutrientes minerais, a grande propor- MEMBRANAS
ção do transporte radial de íons e solutos nas raízes As membranas da célula vegetal são formadas por
ocorre via simplasto, seja iniciando pelas células mais camadas de lipídios polarizados e proteínas intrínse-
externas da raiz e pêlos radiculares ou pela endoderme cas e extrínsecas. Os lipídios polarizados constituem-
(Fig. 2.4). Os íons e solutos atravessam a membrana se de fosfolipídios, glicolipídios e sulfolipídios. A
plasmática, o citoplasma e passam de uma célula para membrana plasmática é, portanto, uma estrutura
outra pelos plasmodesmos, que são canais de ligação complexa cuja composição média é de aproximada-
entre os citoplasmas das células contíguas. mente 55% de proteínas (proteínas estruturais e en-

A EC = Estrias de Caspary
B
O = Xilema

o:::: Rizoderme
---.-.-----.------------------.-.-.., ','
Córtex "",.
','
\,
EC \ ~ Pêlos
\
\
ii
i
i
I radiculares

i Fig. 2.4 Corte transversal (A) e corte esquemáti-


ii
"" Endooe~e"'~
:::::: :::::: :::::::: ::: _n~~_
/: co (B) de uma área diferenciada de raiz de milho.
/
/ ,.: (Reproduzido de Marschner, 1995, 2.a ed., p.31,
o:::::: :~~<?P:~~~~:
::'::::'::':-'-'-/ com permissão de Elsevier.)
Nutrição Mineral 49

zimas de transporte), 40% de lipídios e 5% de carboi- para a formação dessas proteínas. Como as plantas
dratos (Tabela 2.6). necessitam de 14 ou 16 elementos minerais essenci-
A permeabilidade da membrana aos solutos é in- ais (dependendo da espécie), fica evidente a extra-
versamente proporcional ao diâmetro das moléculas ordinária capacidade de regulação do transporte na
sem carga e à velocidade na qual os solutos permei- membrana, o que confere à planta uma grande flexi-
am a membrana. As propriedades de ultrafiltro das bilidade para adaptação às condições do ambiente. A
membranas celulares representam uma barreira efe- compreensão do transporte iônico na célula da raiz é
tiva aos solutos de alto peso molecular. Assim, com- ainda superficia1.
plexos de EDT A e os compostos sideróforos são de
alto peso molecular e têm restrita mobilidade na MECANISMOS PASSIVOS E ATIVOS
membrana. É possível, portanto, usar compostos de DE TRANSPORTE DE SOLUTOS NA
alto peso molecular, como polietilenoglicol em altas MEMBRANA PLASMÁTICA E
concentrações externas, para provocar perda de água TONOPLASTO
por osmose e induzir deficiência de água nas plantas. O transporte ativo na membrana plasmática requer
A membrana celular é considerada uma das energia na forma de A TP. A primeira evidência con-
bioestruturas mais extraordinárias do planeta. Com sistente de envolvimento do A TP no transporte iônico
uma espessura média de 7 nm (nanômetros) represen- mediado por carregadores foi verificada nos estudos de
ta uma formidável barreira entre a célula viva e o absorção de K+ por raízes de plantas de várias espécies
ambiente. A membrana identifica os elementos que (cevada, aveia, trigo e milho), quando se observou uma
são necessários e os que não o são, nas proporções elevada correlação entre a absorção de K + e a ativida-
certas, e a complexidade do seu funcionamento se de da A TPase. Além disso, observou-se também que
deve à interação entre os inúmeros e diferentes poli- as Mg-A TPases da membrana plasmática eram forte-
peptídios e lipídios. Existe aproximadamente um mente estimuladas pelo K +, de tal forma que esses íons,
milhar de diferentes proteínas transportadoras na quando adicionados à solução externa, desencadeavam
membrana celular. Isso representa um investimento o seu próprio mecanismo energético de transporte atra-
de 12% do total da codificação do genoma na célula vés da membrana plasmática.

Composição em lipídios e ácidos graxos da membrana


p1asmática e do tonop1asto de feijão mungo

Lipídios Membrana Plasmática Tonoplasto


I Ilmol mg-1proteína
'- Fosfolipídios 1,29 1,93
Esteróis 1,15 1,05
f Glicolipídios 0,20 0,80
l
Ácidos graxos dos % do total
fosfolipídios
Palmítico 35 39
Esteárico 6 6
Oléico 9 9
Linoléico 21 22
Linolênico 19 20
Outros 10 4

Fonte: Mengel e Kirkby, 1987; Yoshida e Uemura (1986) em Marschner (1995) .


50 Nutrição Mineral

A energia requerida pela absorção iônica nas raí, célula. Para determinar se um íon está sendo absor,
zes é considerável, principalmente durante o cresci, vido passiva ou ativamente, é preciso conhecer as
mento vegetativo. Estudos realizados em Carex atividades ou concentrações desse íon dentro e fora
diandra e em plantas de milho indicaram que a absor, da célula, bem como o potencial elétrico da mem-
ção iônica exigia cerca de 36% do total do custo ener, brana.
gético respiratório, expresso como consumo de ATP. Porém, os íons em solução possuem carga e são
Com o crescimento da planta essa proporção tende a atraídos por um potencial elétrico. Os cátions são
diminuir em favor dos processos de crescimento e atraídos por um eletropotencial negativo e os âni-
manutenção da fitomassa. Há, todavia, evidências de ons por um eletropotencial positivo. Portanto, o
que esse valor seria algo mais reduzido, pois inclui os movimento dos íons está sujeito a duas forças: uma
gastos energéticos com o transporte radial na raiz e representada pelo gradiente de potencial químico
com o carregamento no xilema. Além disso, não con, e a outra pelo gradiente de potencial elétrico, os
sidera a energia suprida às raízes pela parte aérea, via quais, em conjunto, são denominados de gradien-
oxidação não,fosforilativa de carboidratos. te de potencial eletroquímico. Por meio de
microeletrodos colocados no interior de vacúolos,
o gradiente de potencial eletroquímico descobriu-se que existe uma diferença de potenci-
O transporte de solutos através de membranas não al elétrico entre o interior das células da epiderme
é necessariamente um processo ativo que requer sem, radicular e a solução externa, fortemente negati,
pre gasto de energia pela célula. O movimento espon, vo dentro da célula. As primeiras medidas desse
tâneo de um soluto de qualquer substância ocorre ao tipo foram feitas em células gigantes da alga doce
longo de um gradiente de concentração, ou seja, de Chara, onde foram determinados potenciais elétri,
um local de maior concentração para outro de me, cos da ordem de -100 a-200 mV. A existência de
nor concentração. As substâncias neutras obedecem um forte potencial elétrico negativo no interior do
a esse princípio da termodinâmica, movimentando, vacúolo das células de plantas superiores tem igual,
se ao longo de um gradiente de potencial químico. mente sido verificado. Essa medida de potencial se
Assim, um mecanismo passivo ocorre por difusão, refere ao diferencial de potencial elétrico (âE)
quando o soluto (substância neutra) está mais con, entre o interior e o exterior da célula, chamado de
centrado de um dos lados da membrana, e se difunde potencial das membranas. Em células da epiderme
de uma solução mais concentrada para outra de me, radicular de plantas superiores, a diferença de po,
nor concentração ou potencial químico. Esse proces, tencial (ÂE) entre o vacúolo e o meio externo ge,
so ocorre, portanto, a favor de um gradiente de po, ralmente varia entre - 80 e -120 mV. Então, teo,
tencial químico, com a ajuda de carregadores ou ricamente, teríamos como regra que os cátions en-
através de poros na membrana. Nas células, esse trariam na célula passivamente, a favor de um gra-
transporte passivo pode ocorrer com os íons na mem- diente de potencial eletroquímico, e somente a
brana plasmática, quando a atividade iônica no ci, entrada de ânions necessitaria de energia num Pro'
toplasma é diminuída rapidamente, devido à cesso ativo de absorção, pois os ânions teriam que
adsorção a grupos como R-COO- ou R-NHY, ou entrar contra um gradiente de potencial eletroquí,
devido à incorporação do íon em estruturas orgâni- mico. Entretanto, na prática nem sempre aconte-
cas (por exemplo, fosfato em ácidos nucléicos), sen- ce assim. Existem evidências experimentais de que
do tal fato comum em tecidos meristemáticos das os cátions nutrientes também exigem energia para
pontas das raízes. um transporte ativo, principalmente quando ocor-
Em contraste, o transporte na membrana contra rem em baixa concentração no meio externo. A
um gradiente de potencial de energia tem que estar concentração externa abaixo da qual a planta uti-
ligado, direta ou indiretamente, a um mecanismo que liza energia para um transporte catiônico ativo é
consome energia, que bombeia o íon para dentro da variável e depende da espécie.

iI
)

••
Nutrição Mineral 51

As bombas de prótons, os carregadores e tencial eletroquímico, mediado por carregadores es-


os canais de íons nas membranas pecíficos ou por canais de íons. Esse complexo mo-
Nos últimos anos, tem-se observado um avanço delo de mecanismos regulatórios na membrana plas-
significativo na compreensão dos mecanismos que as mática, representado na Fig. 2.6, leva também em
células possuem para manter os potenciais elétricos consideração a presença de proteínas de receptação
negativos nas membranas, bem como a importância de sinais internos e externos e de transformação des-
desses potenciais para o crescimento e funcionamento ses sinais em processos de transporte iônico. Os cáti-
das células vegetais. Tal progresso foi alcançado gra- ons seriam transportados na membrana plasmática
ças às novas técnicas para o isolamento de membra- para dentro do citoplasma, a favor de um gradiente
nas e determinação de potenciais e de fluxos de íons de potencial eletroquímico (uniport), mediados por
em membranas isoladas. carregadores ou permeases existentes na membrana.
Alguns dos princípios de transporte de íons atra- Nesse modelo ainda, os ânions seriam transportados
vés da membrana plasmática e tonoplasto já estão através da membrana plasmática num processo deno-
bem estabelecidos na literatura. Existem bombas de minado de co-transporte próron-ânion (symport), em
pró tons movidas a A TP (também denominadas de que os prótons que foram bombeados para fora (pe-
força motiva de prótons) nas duas membranas, sen- las A TPases) servem de força motriz para a entrada
do a funç:ão delas controlar o pH do citoplasma. As dos ânions, mediada por uma proteína transportado-
bombas de prótons transportam H + tanto para fora ra específica. Existem fortes e inúmeras evidências
do vacúolo quanto do citoplasma, criando um gradi- desse processo de co-transporte ou symport na mem-
ente de pH e de potencial elétrico entre o meio ex- brana plasmática de células de raízes, para os ânions
terno e o interior da célula. Sabe-se que, em geral, o cloreto, fosfato, nitrato e sulfato.
pH do citoplasma é estável entre 7,3 e 7,6, o pH do Os canais de íons são proteínas com estrutura es-
vacúolo varia entre 4,5 e 5,9 e o do apoplasto fica em pecial, cuja existência na membrana plasmática e no
tomo de 5,5. Esse é o mecanismo principal que utili- tonoplasto foi recentemente estabelecida. Esses ca-
za energia e que supre força motiva para o processo nais são únicos, entre as proteínas de transporte com
secundário que é a absorção de cátions e ânions atra- habilidade de regular ou abrir caminho para o fluxo
vés das membranas ao longo de um gradiente de po- de íons. Os íons ficam sujeitos ao ambiente físico-

Proteína
extrínseca

____Lipídios
polarizados

Fig. 2.5 Modelo esquemático de uma biomembrana com lipídios polarizados e proteínas integradas intrínsecas e extrínsecas.
As proteínas intrínsecas podem atravessar a membrana e formar os canais de proteína. (Reproduzido de Marschner, 1995,
2." ed., p.13, com permissão de Elsevier.)
n
'~

••
52 Nutrição Mineral ~
.~

••
------1 Sinal externo 1 ,,- .:

••
••
~
.-
A
~
••

ATP •
K+, NO-3 ~
••
~
__ r-----_u h --- ------- ---- --,- -- ---- ---- h -- - - -- -- ----- •
Fig. 2.6 Mecanismos principais de transporte (B)
li
iônico na membrana plasmática:
canal de íons; (C) carregador; (O) proteínas acopladoras específicas para sinais de recepção e transdução.
(A) bomba de prótons (ATPase);
(Reproduzido •
de Hedrich et al., 1986, em Marschner, 1995, z.a ed., p.22, com permissão de Elsevier.) jiI
,.
:l$
químico desses canais, sendo transportados de modo Os canais seletivos de Ca2+ na membrana plasmá~
rápido e passivamente através das membranas num tica e tonoplasto são considerados de extrema impor~
processo unidirecional (uniPort). Os canais abertos tância na regulação da concentração de Ca2+ livre no
catalisam um fluxo de 106 a 108 íons por segundo, o citosol, o que é fundamental para a funcão do Ca
que é, pelo menos, cerca de três a cinco vezes mais como mensageiro secundário no citoplasma, na trans~
rápido do que o transporte de íons mediado por car~ missão de sinais por meio da modulação das ativida~
regadores. Entretanto, os canais de íons ficam fecha~ des enzimáticas. Nas raízes, as funções dos canais de
dos a maior parte do tempo, e o seu número por célu~ íons na absorção iônica não estão muito claras. Exis~
Ia parece ser bastante reduzido. Na membrana plas~ tem canais nas membranas das raízes que, quando
mática de células das folhas, presume~se que existam abertos, facilitam o fluxo de cátions bivalentes (Ca2+
cerca de 200 canais de K+ por célula. Até agora, fo~ e outros). Para o K+ parece existir um canal que se
ram identificados canais específicos para o K+, Ca2+, abre mediante hiperpolarização da membrana e que
H+ e CI- na membrana plasmática de células da fo~ facilita o influxo de K+ em presença de altas concen~
lha, e supõe~se que exista um canal específico para o trações externas do cátion. Esse canal somente se abre
N03 - no tonoplasto. Existem algumas sugestões para em presença de concentrações elevadas de K, superi~
as funções dos canais de íons nas células das folhas ores a 1 mmol L -I, Portanto, os canais de cátions na
como sendo importantes para a regulação osmática, membrana plasmática das células das raízes provavel~
principalmente nas células~guardas dos estômatos, e mente desempenham importante papel na absorção
para os movimentos seismonásticos e nictinásticos das dos cátions bivalentes, mesmo em baixas concentra~
folhas, para os quais há necessidade de um transpor~ ções externas, e dos cátions monovalentes, principal~
te rápido de solutos de baixa massa molecular (como mente K+, em altas concentrações externas.
o K+ e o CI-) entre compartimentos de células, em É importante considerar que, embora em peque~
resposta aos sinais do ambiente. no número por célula, os canais nas membranas são
Nutrição Mineral 53

de pequena dimensão e permitem um fluxo rápido e variável com a espécie, podem ser importante via
passivo de solutos de baixa massa molecular, porém de acesso para os íons. Em Allium porrum, verifi~
restringem fortemente a entrada de macromoléculas, cou-se que a absorção de ânions e cátions pelas fo~
como as proteínas. A absorção de macromoléculas em lhas depende da abertura e densidade de estôma~
plantas pode ocorrer excepcionalmente por meio de tos e do número de estômatos penetrados (variá-
mecanismos especiais, do tipo endocitose ou pinoci~ vel com o número de ciclos de molhamento/
tose, devido às propriedades dinâmicas das estrutu~ secamento). Outro fator que afeta a absorção foli-
ras das membranas das células, porém a importância ar de íons é a idade das folhas. Folhas novas e re~
dessa capacidade de absorção não deve ser superesti~ cém~maduras têm maior habilidade de absorver
mada, uma vez que os pequenos poros das paredes íons, pois apresentam maior atividade metabólica,
celulares das células (tanto das folhas quanto das ra- cutículas mais finas, maior velocidade de absorção
ízes) restringem fortemente a permeabilidade às ma- e maior demanda por nutrientes.
cromoléculas. As células das folhas, da mesma forma que as das
raízes, absorvem os elementos minerais do apoplasto,
e estes têm que atravessar a membrana plasmática,
Absorção de nutrientes minerais
dotada de propriedades de ultrafiltro, com a diferen-
pelas folhas ça de que a absorção foliar é muito mais lenta que a
Em plantas terrestres, a absorção de solutos pela radicular, visto que os pequenos poros da folha (exis~
superfície das folhas é restrita devido à presença, tentes nas camadas da cutícula e de ceras) e os estô~
nas paredes externas das células da epiderme, da cu- matos permitem uma entrada restrita de nutrientes.
tícula e da camada de ceras. Essas ceras excretadas A velocidade de absorção de nutrientes pelas folhas
pelas células da epiderme consistem em álcoois de depende também do estado nutricional da planta.
cadeia longa, cetonas e ésteres de ácidos graxos de Plantas deficientes, por exemplo, em fósforo podem
cadeia longa. Abaixo da cutícula existe uma cama- absorver duas vezes mais rapidamente esse nutriente
da cutinizada, mais espessa, que consiste em um es~ pelas folhas do que as plantas normais bem supridas
queleto de celulose incrustado com cutina, cera e com fósforo o fariam pelas raízes.
pectina. Essas duas camadas têm diversas funções, Embora o fornecimento via foliar possa suprir nu~
sendo a principal reduzir a perda de água e nutri~ trientes à planta, esse suprimento é temporário e tem
entes pela transpiração excessiva. Os poros existen~ vantagens e desvantagens. Vários problemas podem
tes na cutícula são da ordem de 1 nm de diâmetro ocorrer: (a) baixas taxas de penetração, principal~
e são permeáveis a íons e substâncias solúveis como mente em folhas com cutículas espessas, como citros
a uréia (diâmetro = 0,44 nm), mas impermeáveis e café; (b) escorrimento de superfícies hidrofóbicas;
a complexos de ferro, como, por exemplo, o Fe~ (c) lavagem da folha pela chuva; (d) secagem mui-
EDT A. Por outro lado, os cátions podem ficar re~ to rápida da solução pulverizada; (e) redistribuição
tidos na cutícula foliar pelas cargas negativas limitada de cálcio e boro do local de aplicação e ab-
( -OH e -COOH) das pectinas, cutinas e ceras, sorção para outras partes da planta, devido à baixa
o que varia com a espécie de planta e com o cáti~ mobilidade desses nutrientes no floema; (f) quanti-
on. A epiderme superior da folha, logo abaixo da dades limitadas de macronutrientes aproveitadas, ge-
cutícula, pode apresentar estruturas que favorecem ralmente 1% da aplicação, com exceção da uréia que
a entrada de íons: os tricomas (pêlos) que aumen~ a planta pode aproveitar até 10% de uma aplicação;
tam a propriedade de molhamento da folha; e os (g) ocorrência de necrose ou queima de folhas pela
ectodesmas (protuberâncias do citoplasma), que se aplicação de soluções concentradas, principalmen~
projetam na cutícula, reduzindo o percurso do íon te de uréia.
da superfície externa até a membrana celular. Os A vantagem dessa técnica se aplica aos casos de
estômatos, presentes na superfície foliar em número prevenção de deficiências de micronutrientes em


54 Nutrição Mineral

culturas anuais ou perenes. No caso de deficiência P e S podem ser encontrados. Os tipos e as quanti~
leve a moderada de boro em frutíferas, a pulveriza~ dades de espécies iônicas de micronutrientes presen~
ção foliar com boro é eficaz para aumentar o teor tes no xilema (Fe, Zn, Mn, Cu, Ni, B, Mo e Cl) são
de B nos botões florais e garantir o pegamento dos afetados pela composição da seiva em ácidos orgâ~
frutos. As Brássicas, como o nabo e a couve~flor, nicos, pelo seu pH e potencial de oxirredução. Ve~
são muito exigentes em boro, sendo comum a ocor~ rificou~se que o Fe só pode ser transportado no xile~
rência de "coração~preto", sintoma típico de falta ma para a parte aérea, quando complexado com áci~
de B nessas hortaliças, que pode ser prevenido com dos orgânicos. A concentração de ácidos orgânicos
pulverizações foliares. A deficiência de Zn, Cu ou no xilema é influenciada pela relação cátionjânion
Mn, comum em pomares de plantas perenes como e pela forma de suprimento de N. Em espécies her~
citros e café, deve ser prevenida pela adubação fo~ báceas, a concentração de açúcares na seiva do xi~
liar com micronutrientes, prática essa importante, lema é normalmente muito baixa ou próxima de
porém, de curta duração, devendo ser repetida anu~ zero. Em experimentos com plantas de tomate e soja,
almente. verificou~seque o Fe se ligava principalmente ao áci~
do cítrico, e o Cu a diversos aminoácidos, principal~
mente asparagina e histidina em soja, e histidina,
MOBILIDADE DE ÍONS E SOLUTOS
asparagina e glutamina em tomate. Em ambas as es~
NO XILEMA E FLOEMA pécies, verificou~se ainda que o Zn, Mn, Ca e Mg
Mobilidade no xilema ligam~se aos ácidos cítrico e málico. Os fitormônios
são constituintes normais da seiva do xilema, parti~
Os nutrientes absorvidos pelas raízes são transpor~ cularmente as citocininas, que são sintetizadas nas
tados para a parte aérea das plantas através do xile~ raízes. A presença de ácido abscísico (ABA) na sei~
ma, e, entre os órgãos das plantas, através do floe~ va bruta tem atraído grande interesse como um pos~
ma, embora entre órgãos o transporte também pos~ sível sinal químico da raiz para a parte aérea sobre o
sa ocorrer via xilema, em menor proporção. O trans~ estado de hidratação da raiz. Esses sinais hormonais
porte radial do nutriente até o xilema da raiz pode derivados da raiz afetam o transporte de longa dis~
possuir dois componentes: um metabólico e outro tância de nutrientes minerais, alterando o volume
não~metabólico. Através da via metabólica, o nu~ do fluxo no xilema, a taxa de transferência entre
triente absorvido pela raiz é imediatamente incor~ xilema-floema e a distribuição de nutrientes mine~
porado a substâncias orgânicas (ácidos ou açúcares) rais dentro da parte aérea.
e transportado e liberado no xilema na forma orgâ~
nica ou inorgânica, dependendo do nutriente e da
Mobilidade no floema
espécie. É o caso do fósforo em raízes jovens de ce~
vada que possui um mecanismo metabólico predo~ A redistribuição ou remobilização de nutrientes
minante de transporte radial de P até o xilema (P~ ocorre via floema, iniciando~se nos vacúolos de teci~
orgânico), porém o mesmo é liberado no xilema na dos de reserva para as partes apicais em crescimento,
forma P~inorgânico. A maioria dos nutrientes é juntamente com os assimilados. Quando é detectado
transportada para a parte aérea via xilema na forma pela planta o início da falta de um nutriente no ápi~
iônica (inorgânica). O N pode estar presente no ce (demanda da parte aérea), é enviado um sinal,
xilema nas formas de nitrato, amônio (em pequena iniciando~se a redistribuição dele das folhas mais ve~
quantidade), amida ou de outros aminoácidos, de~ lhas para as mais novas com maior ou menor rapidez,
pendendo da espécie e da forma em que foi suprido dependendo da sua função e mobilidade. Essascarac~
à planta. Os demais nutrientes são encontrados na terísticas são importantes na identificação de sinto~
seiva bruta em grandes quantidades na forma iôni~ mas de deficiência, de acordo com a parte da planta
ca, porém traços de compostos orgânicos contendo afetada.
Nutrição Mineral 55

Assim, os nutrientes conhecidos como móveis se espécies e, mesmo, entre genótipos dentro da mesma
deslocam facilmente, e os sintomas de deficiência espécie, com as condições do ambiente, podendo ser
aparecem nas folhas mais velhas. Quando o nutrien- móveis em determinadas circunstâncias e aparente-
te faz parte de estruturas celulares, como paredes e mente imóveis em outras. Potássio é o elemento pre-
membranas, sua mobilidade é restrita e os sintomas sente em maior concentração no floema, seguido do
de deficiência aparecem nas folhas mais novas. fósforo, magnésio e enxofre. O S ocorre no floema
Com base nessa localização dos sintomas de defi- tanto na forma reduzida (glutationa, metionina, cis-
ciências nas plantas, a classificação mais conhecida teína) quanto na forma de sulfato. A concentração
e aceita na última década, quanto à mobilidade no de sulfato no floema pode ser tão alta quanto a de
floema, dividiu os nutrientes em: (a) móveis - N, fosfato. Verificou-se que a distribuição de S está re-
P, K, Mg e CI; (b) pouco móveis - S, Cu, Fe, Mn, lacionada com o estado da nutrição nitrogenada da
Zn e Mo; e (c) imóveis - Ca e B (Marschner, 1983). planta, sendo dependente da senescência da folha,
Depois de 1995, quando foi descoberto que o boro que é induzida pela deficiência de N. Essa relação
pode ter expressiva mobilidade no floema dependen- também é evidente para o eu e o Zn. Entretanto, na
do da espécie vegetal, embora na maioria das espé- maioria das plantas cultivadas, os sintomas de defici-
cies tenha mobilidade restrita, e com base na com- ência de S aparecem nas folhas mais novas, razão pela
posição da seiva do floema, determinada com auxí- qual o enxofre também deveria ser considerado de
lio de traçadores isotópicos (radioisótopos ou isóto- mobilidade intermediária ou variável. A classificação
pos estáveis), Marschner (1995) propôs uma classi- apresentada na Tabela 2.7 aptoxima-se mais da de
ficação geral dos nutrientes em: (a) de alta mobili- Welch (1999), exceto para oS.
dade - N, P, K, Mg, S e CI; (b) de mobilidade inter- Tem sido sugerido que o B seria móvel no floema
mediária - Fe, Zn, Cu, B e Mo; e (c) de baixa mobi- de quaisquer espécies que produzissem o sorbitol,
lidade - Ca e Mn. Porém, Welch ( 1999) classificou manitol ou dulcitol, os quais efetivamente podem se
os nutrientes de acordo com a capacidade da espé- complexar com o boro e cuja presença pode variar
cie em remobilizá-Ios para a semente, garantindo a conforme a espécie considerada. Nesse sentido, os
viabilidade desta e a sobrevivência da geração se- sintomas de deficiência e toxicidade de B se expres-
guinte, em: (a) móveis - N, K, P, S, Mg e Cl; (b) de sam diferentemente, havendo necessidade de cuida-
mobilidade variável- Fe, Zn, Cu, Mo, Ni e Co; e dos no diagnóstico e na correção dos desequilíbrios.
(c) de mobilidade condicional- Ca, B e Mn. Dessa Não se conhece nenhum outro nutriente que tenha
forma, observa-se que todas as classificações propos- tal variação genética entre espécies quanto à mobili-
tas são imprecisas, visto que a mobilidade dos nu- dade no floema. Do ponto de vista do melhoramen-
trientes varia com as espécies. to genético, as espécies que apresentam maior mobi-
A capacidade de remobilização de locais de reser- lidade do boro no floema são fontes de germoplasma
va da planta para os órgãos reprodutivos (via floema) no transporte e uso eficiente de B, e podem ser utili-
vai determinar o vigor da semente e das plântulas. O zadas para o melhoramento de outras espécies. Já
grau de mobilidade no floema dos nutrientes classifi- existem estudos de isolamento do gene responsável
cados como variáveis ou condicionais varia entre pela característica de produção de sorbitol em taba-

Diferenças na mobilidade dos nutrientes


no floema
Alta Mobilidade Mobilidade Variável Mobilidade Condicional

N, K, P, Mg e Cl S, Fe, Zn, Cu, Mo, Ni Ca, BeMn


56 Nutrição Mineral

co e produção de plantastransgênicas com maior A assimilação do nitrogênio: Em sua maior parte,


capacidade de absorção e transporte de B. o amônio tem que ser incorporado em compostos or-
gânicos nas raízes, enquanto o nitrato é prontamen-
te móvel no xilema e pode ser estocado nos vacúolos
SOBRE A AQUISIÇÃO E AS
das raízes, parte aérea e outros órgãos de armazena-
PRINCIPAIS FUNÇÕES DOS gem. Porém, antes de ser assimilado, o nitrato deve
NUTRIENTES ser reduzido à forma amoniacal. Os processos de assi-
Os nutrientes minerais são comumente conheci~ milação do N estão descritos no Capo 4, Metabolis~
dos como macronutrientes e micronutrientes de acor~ mo do Nitrogênio.
do com a quantidade exigida pela planta: macronu~ A demanda de N pelas plantas varia com a espé-
trientes - N, P, K, Ca, Mg, S e P; e micronutrientes cie e o teor com a parte da planta analisada. Porém,
- B, Cl, Cu, Fe, Mn, Mo e N i. De acordo com as suas para um crescimento adequado, a concentração ge-
propriedades físico~químicas, podem ser classificados ralmente fica dentro da faixa de 20 a 50 g kg-l de
em metais - (K, Ca, Mg, Fe, Mn, Zn, Cu, Mo, Ni) e matéria seca da planta. Quando o suprimento de N
não-metais - N, S, P, B e Cl, bem como também, con~ não é adequado, o crescimento é retardado e o N é
forme as formas de assimilação e as funções bioquími- mobilizado das folhas mais velhas para as áreas de
cas e fisiológicas, em nutrientes estruturais (N e S), novo crescimento. O sintoma típico de deficiência de
nutrientes esterificados (P e B), nutrientes iônicos N é a senescência precoce das folhas velhas com
(K, Ca, Mg, Mn e Cl) e nutrientes transferentes de clorose característica. Ocorrem também mudanças na
elétrons (Fe, Cu, Zn, Mo e Ni). morfologia da planta, redução na relação parte aérea/
raízes, redução no comprimento, largura e espessura
das folhas. O excesso de N é desfavorável, provocan-
Nitrogênio
do crescimento excessivo da parte aérea em detrimen-
Como já visto, o N pode ser absorvido pelas plan- to das raízes e favorecendo o acamamento no caso das
tas nas formas iônicas NO) - e NH4 +. A absorção de gramíneas. Esse efeito é mais visível quando se apli~
nitrato constitui~se em exceção quanto à indução dos ca nitrato, o que provavelmente está relacionado com
sistemas de alta afinidade localizados na membrana
o balanço de fitormônios.
plasmática das células das raízes, pois essa indução se
dá pela presença de NO) - no meio externo, enquanto,
Fósforo
para outros nutrientes, ela ocorre pela sua deficiência
ou ausência no meio externo. Assim, quanto maior a Como já visto, a forma iônica preferida pelasplan-
concentração de NO) - no meio externo, maior será a tas é a monovalente (HZP04-). A falta do ânion
indução dos sistemas de absorção de alta afinidade. A HZP04 - no meio externo induz o aumento da ativida-
absorção de NH4 + também aumenta com concentra- de do sistema de alta afinidade para o fósforo na mem~
ções crescentes do íon no meio externo. O N é móvel brana plasmática. Na falta de P no meio externo, a
no xilema e no floema, podendo ser transportado na velocidade de absorção aumenta 2 a 4 vezes, depen~
forma de nitrato ou de aminoácidos e amidas. dendo da espécie de planta. O fosfato inorgânico (Pi)
As funções do N na planta são: (a) nitrato no equi- absorvido pelas raízes é rapidamente incorporado aos
líbrio de cargas - quando, na forma de NO) -, é arma~ açúcares, formando ésteres de açúcar-fosfato, que são
zenado no vacúolo e tem importante função de equilí- transportados radialmente nas células da raiz e libera~
brio de cargas e na absorção de cátions e ânions; (b) dos no xilema na forma de Pi novamente. O Pi transi-
elemento estrutural - fazendo parte da estrutura de ta facilmente no xilema e no floema. A assimilação do
proteínas e outros compostos orgânicos constituintes Pi nos compostos orgânicos das raízes, ao contrário do
da estrutura da célula; (c) elemento regulatório, na nitrato e do sulfato, não passa pela redução do fosfato,
forma orgânica, de reações de síntese. que permanece na sua forma oxidada máxima .


Nutrição Mineral 57

o fosfato tem várias funções na célula vegetal: (a) ores iguais ou superiores a 3 mg kg-, tendo sido des-
elemento estrutural dos ácidos nucléicos (RNA, DNA); critos, em sorgo e em outras plantas, como pintas
(b) elemento transferidor de energia nas ligações vermelho, escuras nas folhas mais velhas.
energéticas do fosfato e pirofosfato com os açúcares, com
o gliceraldeído e com as coenzimas AMP, ADP, A TP, Potássio
UTP e GTP; (c) elemento regulador - o Pi (iônico)
armazenado no vacúolo é liberado no citoplasma e atua o K+ é um íon monovalente de pequeno raio
como regulador de diversas vias sintéticas. iônico, cuja absorção é altamente seletiva e acopla-
As ligações energéticas de ésteres de fosfato e pi, da aos processos metabólicos, apresentando elevada
rofosfato representam a máquina que movimenta mobilidade dentro da planta em todos os níveis: no
metabolicamente as células. Existem mais de 50 ti, interior das células, entre células individuais, entre
pos de ésteres de fosfato formados a partir de açúca, tecidos e no transporte de longa distância via xilema
res de álcoois, dos quais 10 aparecem em altas con, e floema. O K+ não é assimilado em compostos orgâ-
centrações nas células, como a glucose,6, P e P, nicos, isto é, não é metabolizado. Forma ligações fra-
gliceraldeído, e com as coenzimas AMP, ADP, A TP, cas, facilmente trocáveis. No citoplasma, não com,
UTP, GTP. Esses ésteres de fosfato atuam nas sínte, pete pelos pontos de ligação que requerem cátions
ses e degradações, fornecendo energia para a célula. bivalentes. O K + é o cátion mais abundante no cito-
Como elemento regulador, o Pi tem importante plasma e, com os ânions acompanhadores, tem im-
função na partição do C entre os cloroplastos e o ci, portantes funções nas células e tecidos das plantas,
tosol. Em cloroplastos isolados, um aumento na con, atuando: (a) na regulação osmótica; (b) no balanço
centração de Pi no citosol estimula a fotossíntese, mas de cátions/ânions; (c) nas relações hídricas na plan-
inibe drasticamente a incorporação do C fixado em ta; (d) no movimento dos estômatos; (e) no alonga-
amido. Assim, plantas deficientes apresentam redu- mento celular; (f) na estabilização do pH do citoplas-
ção na parte aérea mais acentuada do que a redução ma, neutralizando ânions orgânicos e inorgânicos; (g)
na fotossíntese, devido ao acúmulo de amido e açú- na ativação enzimática para um grande número de
cares nas folhas. Em plantas bem nutridas, 85 a 95% enzimas; (h) na síntese de proteínas; (i) na fotossín-
do Pi total encontram, se acumulados nos vacúolos, tese; (j) no transporte de açúcares no floema; e (k)
sendo liberados no citoplasma à medida que a planta nos movimentos seismonásticos das plantas.
necessita, evitando que a fotossíntese seja afetada em De maneira geral para todas as plantas, as concen-
situações de falta de P externo. trações de K+ no citosol e nos cloroplastos são man,
A demanda de P pelas plantas para um crescimento tidas entre 100 e 200 mmol L -I. Suas funções no ci-
ótimo está na faixa de concentração de 2 a 5 g kg-I tosol e nos cloroplastos não podem ser desempenha-
de matéria seca. Por ser um nutriente móvel na plan- das por outro nutriente, isto é, o K + não pode ser subs,
ta, os sintomas de deficiência surgem nas folhas ve- tituído por nenhum cátion monovalente, como o
lhas. Sintomas visuais de deficiência consistem em: Na+, por exemplo. Nos vacúolos, sua concentração
redução na expansão, na área e no número de folhas; pode variar entre 10 e 200 mmol L-I, e, nas células-
coloração verde mais escura, porque a expansão da guardas dos estômatos, pode chegar até 500 mmol L-I.
folha fica mais retardada do que a formação da clo, As funções do K+ no alongamento celular e outros
rofila e do cloroplasto; drástica redução na relação processos dirigidos pela turgescência dependem do seu
parte aérea/raízes e senescência precoce das folhas; armazenamento nos vacúolos. Sua função osmótica
retardamento na formação dos órgãos reprodutivos e nos vacúolos pode ser substituída, em parte, por ou-
no início da floração, diminuição no número de flo- tros cátions, como o Na+, Mg2+ e Ca2+, ou por sotu,
res e de sementes. tos orgânicos, como os açúcares. Por outro lado, as

II Sintomas de toxicidade de P são raros, mas plan,


tas sensíveis podem apresentá,los nas folhas com te,
concentrações de K+ no apoplasto
baixas, com exceção do apoplasto
são normalmente
de células especi-

1
58 Nutrição Mineral

alizadas como dos estômatos, em que pode atingir variável entre espécies e variedades. É fato conheci-
concentrações de até 100 mmol L -I, devido aos mo- do que, em quantidades equivalentes de K, o KCI
vimentos de entrada e saída dos estômatos. Nas cé- desenvolve maior potencial osmótico do que o K2S04,
lulas especializadas, bem como nos tilacóides dos elo- sendo o primeiro mais tóxico às plantas pelo seu efeito
roplastos, o movimento do K+ precisa ser muito rá- salino. O KCI, quando se acumula nas folhas mais
pido, e, para isso, as membranas dispõem de canais velhas, pode causar desidratação nas células vizinhas
que se abrem e fecham em diferentes seqüências, per- e rompimento de membranas nas células em que está
mitindo uma taxa de transporte de íons três vezes mais contido, pelo movimento da água por osmose, resul-
rápida do que aquela catalisada por bombas de pró- tando em pintas necróticas nessas folhas.
tons e carregadores.
A deficiência de potássio resulta em: (a) redução Cálcio
na atividade de muitas enzimas regulatórias; (b) di-
minuição na concentração de amido; (c) acúmulo de O cálcio é absorvido pelas plantas na forma de
carboidratos solúveis; (d) acúmulo de compostos cátion bivalente (Ca2+), sendo maior que o Mg, po-
nitrogenados solúveis; (e) redução na atividade das rém com menor raio de hidratação, o que lhe confe-
A TPases ligadas na membrana plasmática, afetando re vantagem na absorção e na demanda seletiva pela
o transporte iônico; (f) redução na atividade da re- planta. Essa absorção ocorre passivamente através dos
dutase do nitrato; (g) redução na síntese da redutase canais de íons localizados na membrana plasmática
do nitrato. das raízes.
Muitas plantas, particularmente da família das le- O Ca2+ tem diversas funções na planta: (a) como
guminosas, apresentam folhas que se movimentam em elemento estrutural- o Ca2+ se localiza em alta con-
direção a sinais de luz ou em resposta a estímulos centração na lamela média das paredes celulares (no
mecânicos. Esses movimentos, chamados de fotonás- apoplasto) e na parte externa da membrana plasmá-
ticos e seismonásticos, são explicados por mudanças tica, fortalecendo-as na forma de pectatos de Ca, ga-
reversíveis muito rápidas na turgescência das células rantindo a estabilidade das paredes e das membranas;
em tecidos especializados, que causam enrugamento (b) como elemento regulatório - equilibra a relação
ou inchamento das células na região do movimento, cátionsjânions e atua na regulação osmótica; acumu-
semelhante ao que ocorre no movimento de abertu- la-se no vacúolo e no retículo endoplasmático (ER),
ra e fechamento dos estômatos (íons envolvidos: K+, acompanhado de ânions orgânicos (malato etc.) e
CI- e malato). inorgânicos (como o nitrato e eloreto), com função
A demanda de K+ para um crescimento ótimo está regulatória; acumula-se também nos eloroplastos, em
dentro da faixa de concentração de 20 a 50 g kg-I de que está ligado às membranas tilacóides; (c) com fun-
matéria seca. Plantas deficientes em K+ têm seu cresci- ção na divisão e extensão celular e nos processos
mento retardado, e a redistribuição de K+ é estimulada secretórios - o cálcio, além de ter função na divisão
das folhas velhas e colmos para as folhas novas. Sinto- celular, é necessário também para a expansão celu-
mas visuais de deficiência grave caracterizam-se por lar, processo importante para o crescimento da raiz e
clorose e necrose das folhas e colmos mais velhos. A dos tubos polínicos; (d) como segundo mensageiro no
lignificação dos tubos vasculares fica prejudicada, o que citoplasma - quando sinais externos acontecem, de
contribui para o acamamento de plantas. Quando a água estresse ambiental, infecção por patógeno ou injúria
é limitante, a perda de turgescência e a murcha das fo- mecânica, os canais iônicos de Ca2+ são ativados,
lhas são sintomas típicos da deficiência de K. Plantas aumentando a concentração de Ca2+ no citoplasma.
bem supridas de K são mais resistentes ao estresse de O Ca2+ estimula diversas enzimas e proteínas, entre
água, à geada e ao ataque de fungos. elas as calmodulinas (moduladas pelo Ca2+) e as
A concentração crítica para o excesso de K depen- kinases dependentes de Ca2+, acionando os proces-
de do íon acompanhante e da planta, sendo bastante sos de defesa da planta.
Nutrição Mineral 59

Nas dicotiledôneas como a beterraba, com alta tos na membrana e a desintegração das paredes celu~
capacidade de troca de cátions nas raízes, até 50% do lares, resultando no colapso do tecido afetado (raízes,
Ca2+ podem ficar retidos nas paredes celulares na for~ pedolo e/ou a parte superior dos colmos ou hastes).
ma de pectatos, principalmente se a concentração A substituição do Ca2+ por outros cátions (K+, Na2~
externa de Ca2+ for baixa. Em tecidos de frutos de ou H +), nesses pontos da membrana das raízes, é a
maçã, a proporção de Ca2+ nas paredes celulares pode principal causa do estresse salino ou da toxicidade
chegar a 90% do tota1. Com o aumento do suprimento pelo alumínio.
de Ca2+, a proporção de oxalato de Ca2+ aumenta. Nas Nos frutos, porém, órgãos de pouca transpiração,
paredes celulares de folhas, a forma predominante é uma baixa concentração de Ca2+ é necessária para
a de oxalato de Ca2+. As ligações de pectato na lamela garantir rápida expansão celular e permeabilidade de
média das paredes celulares (apoplasto) das raízes são membranas, pois o cálcio confere rigidez a essas es~
essenciais para o fortalecimento dos tecidos. O Ca2+ truturas. A planta mantém baixo o teor de Ca2+ nos
tem papel fundamental também na estabilidade da frutos pela diluição resultante do crescimento e pela
membrana plasmática e, portanto, na integridade da precipitação de Ca no floema na forma de oxalato.
célula. Essa estabilização ocorre pela ligação do Ca2+ , Porém, quando os frutos crescem rapidamente, essa
formando pontes entre o fosfato e os grupos carboxíli~ diluição pode atingir valores abaixo do nível crítico
cos dos fosfolipídios da membrana e as proteínas, prin~ necessário para a integridade das paredes e membra~
cipalmente na superfície da membrana plasmática. nas celulares, que se rompem desarranjando os teci~
O Ca2+ é armazenado no vacúolo, nos cloroplas~ dos. Então, surgem sintomas de deficiência de Ca2-
tos e no retículo endoplasmático, porém, nos vacúo~ nos frutos, como é o caso das desordens comuns de~
los, aparece em concentrações da ordem de 105 vezes nominadas de "fundo preto" relatado para tomate,
maiores que no citosol, acompanhado de ânions or~ melão, maçã e pimentão, da queima das bordas em
gânicos (malato e outros) e inorgânicos (nitrato, elo- alface (tip bum) e do "miolo-preto" em salsão. Quan-
reto e outros). No citosol, a concentração de Ca2+ é do em excesso, o Ca é estocado no vacúolo das célu~
extremamente baixa, sendo mantida entre 0,1 e 0,2 Ias e, pela sua baixa mobilidade, não há descrição de
J..lmolL-I, o que é essencial para a célula por várias sintomas de seu excesso nas plantas.
razões: (a) prevenir a precipitação de fosfato (Fi); (b)
evitar competição com o Mg2+ pelos pontos de liga~
ção; (c) pré~requisito para o funcionamento do Ca2+
Magnésio
como segundo mensageiro. Essa compartimentaliza- O magnésio é absorvido pelas plantas na forma de
ção do Ca2+ confere a ele importante função regula- íon bivalente. Por ser o Mg2+ um pequeno íon, po-
tória, inclusive no balanço de ânions e cátions e na rém com grande raio de hidratação, sua absorção pode
regulação osmótica da célula. ser fortemente reduzida pelo K+ , NH4 +, Ca2 + e Mn 2-
A demanda de Ca2+ pelas plantas para um cresci- e pelos H+ em baixo pH. A deficiência de Mg2+ in~
mento ótimo está dentro da faixa de concentração de duzida pelos outros cátions competitivos é um fe~
10 a 50 g kg-1 de matéria seca, dependendo da espé~ nômeno comum. Quanto à sua mobilidade, o Mg2+ é
cie e da parte da planta. As monocotiledôneas neces~ bastante móvel no xilema e no floema, e o transpor~
sitam, em geral, de menores quantidades de cálcio em te e redistribuição se dá na forma iônica.
comparação com as dicotiledôneas, devido ao menor Suas funções na planta são diversas: (a) como ele-
número de pontos de ligação na parede celular, ou mento estrutural, é o centro da molécula da clorofila,
melhor, à menor capacidade de troca de cátions das e forma pectatos ajudando na estabilidade das mem-
raízes (Tabela 2.4). Por exemplo, plantas de tomate branas e paredes das células; (b) como elemento-pon-
necessitam de uma concentração externa de Ca2+ te, atua na estabilidade da conformação de proteínas
cerca de 40 vezes maior do que as de centeio. Sinto- e enzimas; essa função do Mg2+ está relacionada com
mas típicos de deficiência de cálcio são os vazamen- sua capacidade de interagir fortemente com grupos de
••

60 Nutrição Mineral

moléculas complexas, formando uma ponte iônica, g kg-1 de matéria seca. Por ser um nutriente móvel
estabelecendo uma geometria precisa entre as molé- na planta, os sintomas de deficiência surgem nas fo-
lhas velhas e se caracterizam por clorose e necrose. j
culas, como, por exemplo, entre uma enzima e o seu
substrato; (c) como elemento ativador, atua na ativa- Sintomas leves e temporários de deficiência de
ção enzimática, em reações de fosforilação e na fotos- Mg2+ nas folhas não significam queda na produção de
síntese de uma longa lista de enzimas. A principal grãos, a menos que a deficiência se agrave. Folhas
função do Mg é, certamente, estrutural, como cen- deficientes em Mg2+ são sensíveis à luz, e os sintomas
tro da molécula de clorofila. de cloros e e necrose se acentuam quando estão ex-
A proporção de Mg ligado à clorofila depende da postas a alta intensidade luminosa. Nos casos de de-
espécie, do suprimento do nutriente e da intensida- ficiência aguda, pode haver redução na produção (por
de da luz, podendo chegar até 50% do Mg total das exemplo, no número de grãos por espiga dos cereais).
folhas, em plantas deficientes sob baixa luminosida- Quando em excesso, o Mg2+ é estocado no vacúolo
de. Normalmente, até 25% do Mg total das folhas das células e atua como regulador na compensação de
estão ligados à clorofila; 5 a 10% a pectatos da pare- cargas no citoplasma e no potencial osmótico do va-
de celular ou precipitados como sais solúveis no cúolo.
vacúolo das células; e cerca de 60-90% ficam na for-
ma iônica (solúvel em água). Enxofre
Na forma iônica, o Mg2+ atua como ativador de
inúmeras enzimas e de reações enzimáticas, como, por O S é absorvido pelas raízes na forma de sulfato,
exemplo, das enzimas glutationa-sintase, PEP- podendo ser absorvido pelas folhas na forma de S02
carboxilase, fosfatases e A TPases. Por outro lado, a da atmosfera, sendo a primeira a fonte mais impor-
reação de síntese de A TP requer Mg2+ como elemen- tante de enxofre. A falta de sulfato no meio ativa o
to-ponte entre ADP e a enzima A TPase. O mesmo sistema de alta afinidade para o S042- na membrana
ocorre com a RuBP -carboxilase no estroma dos clo- plasmática da raiz, podendo resultar em aumentos de
roplastos, cuja atividade é altamente dependente do até 500 vezes na absorção de S042-, dependendo da
Mg2+ e do pH. Outra enzima-chave dependente do espécie de planta. Quanto à mobilidade no floema,
Mg2+ é a frutose-1 ,6-bifosfatase, que, no cloroplasto, diferente do N, o S é mais móvel e uniformemente
regula a partição de assimilados entre a síntese de distribuído nas folhas velhas e novas.
amido e a exportação de triose-fosfatos para o cito- As plantas superiores apresentam alguns aspectos
plasma. De modo semelhante, a ativação da glutami- comuns entre a assimilação de sulfato e a de nitrato:
na-sintetase depende do Mg2+, que regula a assimila- (a) necessidade de redução - do sulfato para SH- -
ção da amônia nos cloroplastos. para incorporação de S nos aminoácidos, proteínas e
Em folhas deficientes em Mg2+: (a) a proporção de coenzimas; e (b) o mesmo poder redutor, que é a fer-
N-protéico diminui, aumentando as frações de N- redoxina nas folhas verdes. Entretanto, diferente do
orgânico solúveis (aminoácidos livres), devido à sua nitrato, o sulfato pode ser incorporado sem ser redu-
função na síntese de proteínas; (b) a taxa de fotos- zido em estruturas orgânicas, como os sulfolipídios de
síntese diminui e os carboidratos se acumulam, pois membranas, e o S reduzido pode ser reoxidado, ou
o seu transporte para os órgãos de reserva fica preju- seja, o enxofre da cisteína pode ser transformado em
dicado; (c) diminui a formação de fitatos (substân- sulfato novamente, tendo essa reoxidação importan-
cia de reserva de P dos grãos de cereais), aumentan- te função no controle alostérico da redução do sulfa-
do a concentração de Pi livre nos grãos, que, por sua to. O primeiro passo da assimilação de enxofre con-
vez, tem um efeito regulatório diminuindo a forma- siste na substituição de dois grupos fosfatos do A TP
ção de amido nos órgãos de reserva. por um grupo sulfuril, formando aderwsina-fosfossul-
A demanda de Mg2+ pelas plantas para um ótimo fato (APS), reação catalisada pela A TP-sulfurilase.
crescimento está na faixa de concentração de 15 a 35 Essa APS vai servir de substrato para a síntese de éste-
Nutrição Mineral 61

res de sulfato ou para a redução de sulfato. Na redu- também no teor de 5 das sementes, que está entre
ção, o enxofre é incorporado num grupo tiol (g kg-l de matéria seca): 1,8-1,9 nas gramíneas; 2,5
(sulfidrilo, -5H). O primeiro composto orgânico a a 3,0 nas leguminosas; e 11 a 17 nas crucíferas. O mes-
receber o grupo sulfidrilo (-5H) recém-formado é um mo ocorre com o conteúdo de 5 nas proteínas das
composto que contém enxofre, a acetil-serina, que espécies dessas famílias. Na média, as proteínas das
se divide formando dois compostos: acetato e cisteí- leguminosas (relação N/5 = 40) contêm menos 5 do
na (aminoácido). Cisteína, o primeiro composto es- que as dos cereais (N/5 = 30).
tável da assimilação redutora do 5, e a metionina são Os sintomas visuais de deficiência de 5 consistem
os precursores de todos os demais compostos conten- em redução no crescimento da parte aérea, levando
do grupos sulfidrilos, principalmente da glutationa. a um decréscimo na relação parte aérea/raízes de quase
Em resumo, a assimilação do 5 depende da: (a) duas vezes; redução no tamanho das folhas e clorose
atividade da A TP -sulfurilasej (b) disponibilidade de acentuada, devido ao menor teor de clorofila. Para a
sulfato onde existe a enzima, ou seja, nos cloroplas- maioria das espécies, essa clorose ocorre mais comu-
tOSj(c) atividade da AP5-sulfotransferasej (d) dispo- mente nas folhas novas. Porém, pode também ocor-
nibilidade de acetil-serina para a síntese de cisteína. rer nas folhas velhas, uma vez que o 5 é mais unifor-
As funções do 5 estão relacionadas com: (a) o gru- memente distribuído nas folhas velhas e novas, e essa
po funcional-SH (grupo sulfidrilo) em enzimas como distribuição pode também ser afetada pelo suprimento
a urease, as sulfotransferases e a coenzima-A, direta- de nitrogênio: a deficiência de 5 pode aparecer nas
mente envolvido em reações metabólicas; (b) a folhas novas, quando há um bom suprimento de ni-
glutationa como poderoso redutor, desempenhando trogênio, ou nas folhas velhas, quando o suprimento
papel fundamental na desintoxicação por radicais li- de N é baixo. Isso indica que a remobilização e redis-
vres de superóxidos e de peróxido de hidrogênio; (c) tribuição de 5 das folhas velhas para as novas depen-
a glutationa como precursor de fitoquelatinas, que de da taxa de senescência induzida pela deficiência
funcionam na desintoxicação de metais pesados; (d) de N, o que também ocorre para alguns micronutri-
outras substâncias como poderosos redutores, conten- entes como o cobre e o zinco.
do radicais -5H em seus grupos prostéticos: ferredo-
xina, biotina (vitamina H) e tiamina pirofosfato (vi-
Boro
tamina B1); (e) o componente estrutural- ésteres de
sulfato de sulfolipídios, os quais são constituintes de O boro (B) é absorvido pelas plantas preferencial-
todas as biomembranas, abundantes nas membranas mente na forma molecular, sem carga (H3B03). Pos-
tilacóides dos cloroplastos e importantes na regula- sui propriedades intermediárias entre os metais e os
ção do transporte iônico nas membranas das raízes, não-metais eletronegativos e tem tendência a for-
estando relacicnõ.dos com a tolerância à salinidade. mar complexos catiônicos dentro da planta, com
Cerca de 2% do 5 reduzido encontram-se na for- compostos orgânicos de configuração cis-diol, como
ma de grupos sufidrilos (tiol), e mais de 90% na for- os açúcares e seus derivados, ácido urônico e alguns
ma de glutationa, em plantas normais. Com a defici- odifenóis abundantes na parede celular.
ência de enxofre, ocorre acúmulo de amido, devido As funções do B estão relacionadas com a forma-
ao desarranjo no metabolismo de carboidratos e à ção e estabilização da parede celular, da interface da
inibição da síntese de proteínas, havendo acúmulo de parede celular com a membrana plasmática e com a
aminoácidos e outras formas solúveis de nitrogênio lignificação e diferenciação do xilema. As muitas
orgânico. funções do B podem ser classificadas em primárias e
A demanda de 5 pelas plantas varia entre as espé- secundárias, de acordo com os efeitos causados pela
cies de 1,0 a 5,0 g kg-1 de matéria seca. Entre as famí- sua deficiência. Assim, a deficiência de B causa os
lias, a ordem de exigência é a seguinte: gramíneas < seguintes efeitos primários: (a) mudanças na compo-
leguminosas <crucíferas. Essa exigência se reflete sição química e ultra-estrutura da parede celular; (b)


62 Nutrição Mineral

mudança no metabolismo de fenóis (acumulação de de novo material de parede celular no ponto de cres-
certos fenólicos); (c) inibição da síntese de lignina e cimento, e não pela extensão da parede celular já
estímulo da atividade da oxidase de AIA; (d) dimi- existente. Em milho, o conteúdo mínimo de B na
nuição do nível de AIA difusível; (e) os efeitos cita- matéria seca dos estiletes deve ser de 3 Jlg g-l para que
dos resultam em mudanças fisiológicas e morfológi- haja germinação do pólen e fertilização, porém esse
cas da interface entre a parede celular e a membrana limite crítico varia muito entre espécies e genótipos.
plasmática, devido à inibição de enzimas na membra- Em videira (Vitis vinifera), espécie conhecida pela sua
na plasmática e outros processos da absorção iônica alta exigência em boro, a concentração crítica chega
(atividade da A TPase, potencial da membrana, flu- a 50-60 Jlg g-l de B na matéria seca dos estiletes, fi-
xo de íons); e à inibição da elongação (crescimento cando a viabilidade do pólen comprometida em con-
e diferenciação do xilema). centrações inferiores. A exigência de B para o pro-
Em conseqüência, a deficiência de B resulta nos cesso reprodutivo (florescimento, frutificação ou pro-
seguintes efeitos secundários: (a) o acúmulo de fe- dução de grãos) é bem maior do que para o crescimen-
nólicos diminui o nível de IAA difusível e aumenta to vegetativo somente. Quanto aos teores nas folhas,
a produção de radicais livres de superóxidos; (b) apa- também há grande variação entre espécies e cultiva-
recem sintomas induzidos de deficiência de Cai (c) o res quanto ao limite crítico de deficiência, ficando
aumento de radicais livres de superóxidos desarranja entre 5 e 10 mg kg-l para as monocotiledôneas, entre
a membrana plasmática; (c) em conseqüência dos 20 e 70 mg kg-l para as dicotiledôneas e entre 80 e 100
efeitos no xilema, ocorrem mudanças na distribuição mg kg-1 para as espécies de Papaver e T araxacum.
de carboidratos; (d) em conseqüência de todos os O limite crítico para a toxicidade de B varia acen-
demais efeitos, ocorrem alterações no metabolismo de tuadamente entre espécies (na matéria seca de fo-
fitormônios e de RNAjDNA. lhas): < 100 mg kg-l para a soja; 100 mg kg-l para o
Esse "efeito cascata" da deficiência de B resulta em milho; 400 mg kg-l para o pepino, Cucumis sativus L;
sintomas que consistem num engrossamento das pa- 1.000 mg kg-1 para a abobrinha, Cucurbita pebo L.;
redes celulares das células do ápice das raízes, com entre 100 e 270 mg kg-1 para os cultivares de trigo.
deformações provocadas por aumento de hemicelu-
lose e pectina e deposição irregular de material de
Cloro
parede e de membrana, formando calos. Os sintomas
de deficiência de B na parte aérea aparecem nas ge- O cloro é facilmente absorvido pelas plantas na
mas terminais e folhas mais novas, como crescimen- forma de Cl-, e, sendo também bastante móvel e
to retardado ou necrose. Usualmente, os intemódios abundante na litosfera, ocorre em concentrações re-
ficam curtos, as folhas deformadas, e as hastes e ped- lativamente elevadas nos tecidos das plantas, com-
olos engrossados, podendo chegar a rachar como ocor- paradas às dos outros micronutrientes. Entretanto, a
re em salsão (Apium graveolens L.). Miolo-preto em demanda para um crescimento normal geralmente é
hortaliças de cabeça, como em alface, couve-flor, re- bem menor do que a ocorrência.
polho, são comuns com deficiência de boro, e miolo Embora existam muitos compostos orgânicos que
mole em raízes de salsão e em beterraba. Queda de contêm cloretos na natureza, o Cl exerce suas funções
gemas, botões florais e queda de frutos em desenvol- nas plantas principalmente como ânion cloreto (Cl-),
vimento são muito comuns, principalmente em man- nos processos que envolvem regulação osmótica
ga. Miolo-oco em grãos de soja, falhas na formação (como elongação celular, abertura de estômatos) e
de grãos (chochamento de grãos) em trigo, falhas no nos de compensação de cargas (como no transporte
pegamento de frutos ou má-formação de frutos, como de cátions) em plantas superiores. O Cl- é essencial
ocorre em maçã e citros. para a fotólise da água no fotossistema ll, atuando
O B tem também uma função especial no cresci- como co-fator da enzima que contém Mn na sua es-
mento do tubo polínico, o qual ocorre por deposição trutura. A sua concentração é mantida constante no
Nutrição Mineral 63

citoplasma e nos eloroplastos, através de transporte trônico na cadeia da fotossíntese; (b) redução dos li-
ativo pelas membranas, sendo armazenado nos vacúo- pídios e polipeptídios das membranas tilacóides, afe-
los quando em excesso. tando a eficiência da plastoquinona na transferência
O doreto afeta também o crescimento da planta de elétrons entre os fotossistemas I e II; (c) em con-
indiretamente pela regulação dos estômatos, por ser seqüência, redução na taxa fotossintética, na concen-
o principal contra-íon do K+. Essa compensação de tração de amido e de carboidratos solúveis, resultando
carga com Cl-, em vez de malato, é de particular em redução na produção de matéria seca; (d) no caso
importância em plantas com células-guardas ausen- de deficiência grave de Cu, alteração na ultra-estrutu-
tes ou pouco desenvolvidas, como ocorre com a ce- ra dos eloroplastos, devido à queda na atividade das
bola (Allium cepa L.) e a palmeira (Cocos nucifera L.). dismutases de superóxido (SOD) - a Cu-Zn-SOD-
Nessas plantas, a inibição do crescimento pela defi- envolvidas na desintoxicação dos radicais de superó-
ciência de Cl é devida ao desarranjo na regulação do xidos (02-) gerados durante a fotossíntese; (e) redu-
fechamento dos estômatos sob estresse de água. Com- ção na síntese de quinonas, substâncias derivadas da
parada com outras espécies, a palmeira tem elevada melanina, alcalóides e ligninas, devido à queda na ati-
exigência por eloreto. vidade da fenolase e lacase, enzimas que contêm Cu,
A concentração crítica para a deficiência de elo- prejudicando a lignificação e acumulando fenóis; (f) o
reto nas plantas pode variar de 70 mg kg-1 na maté- acúmulo de fenóis inibe também a enzima oxidase de
ria seca de folhas de tomate (Lycopersicon esculentum AIA, acumulando ácido indolacético (AIA), o que
MilL) até 1.000 mg kg-1 em kiwi (Actinidiadeliciosa). retarda o flores cimento e a senescência e inibe a pro-
Sintomas típicos de deficiência de Cl- caracterizam- dução de grãos e/ou frutos pela indução de macho-es-
se por murchamento das folhas, enrolamento dos fo- terilidade; (g) redução de oxidases que contêm Cu,
Holos, bronzeamento e elorose similar à deficiência acumulando putrescina e espermidina e resultando em
de Mn, e inibição acentuada do crescimento das raí- desarranjos no crescimento da planta; (h) redução do
zes. A concentração crítica para a toxicidade está na transporte eletrônico na mitocôndria, prejudicando a
faixa de 3.000 a 5.000 mg kg-l de matéria seca de fo- cadeia respiratória, devido à queda drástica na ativi-
lhas para espécies sensíveis, e de 20 a 40 g kg-l para dade de enzimas que aí atuam e contêm Cu (elemen-
espécies tolerantes. to estrutural da molécula de citocromo-oxidase e da
de ascorbato-oxidase).
O limite crítico de deficiência de Cu está na faixa
Cobre
de concentração de 1 a 35 mg kg-l, dependendo da
O cobre é absorvido pelas raízes na forma Cu2+, espécie, da parte da planta, da idade da planta e de
sendo de mobilidade variável no floema, dependen- fatores ambientais como o suprimento de N e o es-
do da espécie. É um elemento de transição similar ao tresse pela seca. Em geral, esse limite é menos afeta-
ferro, com habilidade para formação de quelatos es- do por fatores ambientais em folhas novas, sendo essa
táveis e facilidade para o transporte de elétrons (Cu2+/ parte vegetativa a mais indicada para diagnose do
Cu+), sendo, portanto, bastante relevante nos pro- estado nutricional de Cu. Para a maior parte das es-
cessos fisiológicos de oxirredução. pécies cultivadas, a faixa para o limite de toxicidade
Tem função estrutural em enzimas que podem rea- está entre 15 e 30 mg kg-1• Existem espécies toleran-
gir diretamente com o oxigênio molecular e catalisar tes ao Cu com limites de toxicidade bem superiores,
preferencialmente processos terminais de oxidação. podendo chegar até 1.000 mg kg-l.
Várias proteínas contendo cobre são importantes nos
processos da fotossíntese, da respiração, da desintoxica-
Ferro
ção dos radicais livres de superóxidos e da lignificação.
A deficiência de cobre resulta em: (a) redução no A planta absorve o Fe na forma reduzida (Fe2+), e
teor de plastocianina, prejudicando o transporte ele- a eficiência nesse processo de aquisição varia entre


64 Nutrição Mineral

espécies e genótipos. Algumas plantas possuem maior jasmônico), envolvidos no crescimento, senescência
capacidade de extrusão de pró tons na rizosfera, bai- e resistência às doenças; (d) redução na atividade da
xando o pH e favorecendo a absorção de FeH pelas catalase e da peroxidase (hemoenzimas), com a
raízes, e também maior habilidade de complexação catalase fazendo parte do sistema de desintoxicação
do Fe absorvido com ácidos orgânicos, principalmen- e decompondo radicais de Ozlivres tóxicos (Oz-), e
te o ácido cítrico, formando citrato- Fe, comumente a peroxidase catalisa reações de oxidação utilizando
encontrado no xilema. HzOz associadas com a transição de FeH para Fe4+no
O Fe é descrito como um elemento de transição anel porfirínico.
caracterizado pela mudança fácil no seu estado de A concentração crítica de deficiência de Fe na
oxidação (FeHf FeH) e pela sua habilidade em for- matéria seca das folhas fica na faixa de 30 a 50 mg
mar complexos octaédricos com vários ligantes. De- kg-l, dependendo da espécie. Essa concentração pode
pendendo do ligante, o potencial de oxirredução do Fe ser bem mais alta em tecidos meristemáticos ou em
varia significativamente, o que confere a esse nutrien- expansão (na faixa de 200 mg kg-l para Fe total). Na
te uma especial importância nos sistemas biológicos de parte aérea, o primeiro sintoma visual de deficiência
oxirredução. Embora o Fe somente seja absorvido atra- de Fe é a clorose das folhas novas, que pode ser re-
vés da membrana plasmática na forma reduzida (FeH), versível, a menos que a deficiência seja grave (com
dentro da planta o seu principal estado de oxidação nos pontos pretos necróticos). Nas raízes pode haver mu-
complexos é a forma oxidada [(Fe3+)]. danças morfológicas e fisiológicas, e, na rizosfera, mu-
Existem dois grupos principais de proteínas que danças químicas causadas pela extrusão radicular de
contêm ferro na planta: as hemoproteínas e as prote- prótons com subseqüente abaixamento do pH. As
ínas com grupos Fe-S. As hemoproteínas incluem os concentrações críticas para toxicidade são bastante
citocromos que são caracterizados por um complexo altas, entre 400 e 1.000 mg kg-l para Fe total, porém
hemo-Fe-porfirina como grupo prostético. Outras esses limites de deficiência e toxicidade não são pre-
hemoproteínas são a citocromo-oxidase, catalase, cisos, devido à dificuldade de determinação das pro-
peroxidase e a leg-hemoglobina (que ocorre nos nó- porções entre o FeH precipitado no apoplasto e o FeH
dulos das leguminosas). Portanto, o Fe está envolvi- livre (tóxico) no citoplasma e nas organelas.
do na biossíntese dos citocromos, das referidas
coenzimas e da clorofila, que é derivada de uma
protoporfirina. A cadeia de transporte de elétrons na
Manganês
fotossíntese que ocorre nas membranas tilacóides dos As plantas absorvem o manganês na forma de cá-
cloroplastos consiste em vários hemogrupos conten- tion bivalente (Mnz+). Dentro da célula, MnH for-
do Fe e de aglomerados de Fe-S. ma ligações fracas com ligantes orgânicos e pode ser
Com a deficiência de ferro, portanto, ocorre: (a) rapidamente oxidado para MnH, Mn4+ e Mn6+. Por
um decréscimo nas concentrações de clorofila e de causa dessa relativa facilidade de mudança no estado
outros pigmentos receptadores de luz como as xanto- de oxidação, o Mn apresenta importante função nos
filas e os carotenos, bem como na atividade dos trans- processos de oxirredução na planta, como o transporte
portadores de elétrons (citocromos e FefS-proteínas) de elétrons na fotossíntese e desintoxicação dos ra-
dos fotossistemas I e 11,resultando numa rápida que- dicais livres de Oz (Oz -).
da na fotossíntese; (b) queda na concentração de fer- A função mais importante e estudada do Mn é o seu
redoxina (proteína com grupos Fe-S), poderoso redu- envolvimento na fotossíntese, na evolução do Oz nos
tor envolvido na redução de NADP+, de nitrito e de cloroplastos (reação de Hill). A enzima que atua na
sulfato, e na assimilação de amônia; (c) queda na sín- partição da molécula de água possui quatro átomos de
tese de lipoxigenase (hemoenzima) que catalisa a Mn e transfere elétrons para o fotossistema 11.
oxidação dos ácidos linoléico e linolênico em vários A deficiência de Mn afeta: (a) diretamente a fo-
outros compostos (incluindo traumatina e ácido tossíntese e a evolução de 0z, mesmo quando a de-
Nutrição MineraL 65

ficiência é moderada; (b) quebra da ultra-estrutura do garis L.) até 5.000 mg kg-l para arroz inundado (Oryza
cloroplasto, quando a deficiência é grave, com con- sativa L). Esses limites de toxicidade variam não só
seqüente queda na concentração de clorofila, pois o com a espécie e genótipo, mas também com o méto-
Mn é mais fortemente ligado na estrutura das mem- do de cultivo, suprimento de silício, temperatura e
branas tilacóides do que na enzima responsável pela intensidade luminosa.
partição da água; (c) queda na atividade das superó-
xido-dismutases (Mn-SOD) da mesma forma que o Molibdênio
Fe, Cu e Zn (Fe-SOD; Cu-Zn-SOD), na proteção das
células contra os efeitos deletérios causados pelos ra- O molibdênio é um elemento de transição que é
dicais livres de Oz (Oz -) - a enzima Mn-SOD está absorvido e ocorre nas plantas na forma do ânion
presente na mitocôndria, nos peroxissomas e nos molibdato, em geral no estado de oxidação mais ele-
glioxissomas; (d) queda na atividade da NAD-málica vado (M06+), mas pode ocorrer também como M05+
e da PEP-carboxiquinase em plantas C4 (absoluta- e M04+. Devido à sua configuração eletrônica, o M06+
mente dependentes do Mn, que, nesse caso, não pode tem propriedades químicas muito semelhantes às do
ser substituído pelo Mg, embora as enzimas NADP- vanádio e tungstênio. As funções do Mo estão rela-
málica e PEP -carboxilase possam ser ativadas por cionadas com reações de transferência de elétrons. Em
ambos, Mn ou Mg); (e) redução de 50% nas concen- plantas superiores, poucas, mas importantes, enzimas
trações dos constituintes da membrana dos cloroplas- contêm Mo: a redutase de nitrato, oxidase de sulfito
tos: os glicolipídios e os ácidos graxos polinsaturados; (S03) e, nas leguminosas noduladas, a nitrogenase e
(f) sendo o Mn ativador de uma série de enzimas desidrogenase de xantina. Essas molibdo-enzimas são
importantes na biossíntese de metabólitos secundá- proteínas muito semelhantes entre si. A redutase de
rios, a sua deficiência resulta na queda de concentra- nitrato atua no citoplasma das células e é um dímero
ção de inúmeras substâncias, como aminoácidos aro- com três subunidades: uma unidade FAD (flavina),
máticos, compostos fenólicos, cumarinas, ligninas, uma unidade hemo (citocromo) e uma unidade com
flavonóides e ácido indolacético, o que resulta em Mo. Durante a redução do nitrato, os elétrons são
queda de resistência da planta às doenças. transferidos diretamente do Mo para o nitrato.
Os sintomas visuais de deficiência de Mn caracte- Em folhas deficientes em Mo ocorre: (a) queda na
rizam-se por clorose intemerval das folhas mais no- atividade da redutase de nitrato, havendo um aumen-
vas e de meia-idade nas dicotiledôneas. Nos cereais, to na concentração de compostos nitrogenados solú-
caracterizam-se por pintas verde-acinzentadas e estri- veis; (b) aumento na atividade da ribonuclease, en-
as na parte basal da folha. Freqüentemente, os sinto- quanto a concentração de proteínas e a atividade de
mas de deficiência nas folhas de meia-idade são mais alanina aminotransferase diminuem, indicando o
graves do que nas mais novas, o que pode ser expli- envolvimento do Mo na síntese de proteínas, o que
cado pelo transporte preferencial de Mn das raízes pode explicar o efeito pronunciado da deficiência de
para o ápice da planta. Vários tipos de desordens tam- Mo na concentração de clorofila, na estrutura do
bém aparecem em sementes de leguminosas devido à cloroplasto e no crescimento; (c) retardamento no
deficiência de Mn, tais como descoloração escura dos florescimento e na formação do pólen, devido à in-
I cotilédones em ervilha (Pisum sativum L), pintas e
sementes partidas em outras espécies.
terferência na antese, no desenvolvimento da antera
e na viabilidade do pólen.
A concentração crítica de deficiência de Mn está A exigência de Mo pelas plantas é muito peque-
na faixa de 10 a 15 mg kg-l de matéria seca de folhas na comparada à de outros micronutrientes e depen-
maduras para a maioria das espécies de plantas. Em de da forma de absorção do nitrogênio pela planta
contraste com essa faixa estreita para limite de defi- (fixação de Nz, absorção de N03 - ou de NHt). A
ciência, o limite para toxicidade varia largamente faixa do limite de deficiência varia entre 0,1 e 1,0
entre espécies, desde 100 (para feijão, Phaseolus vul- mg kg-l nas folhas. As leguminosas dependentes da


66 Nutrição Mineral

fixação de Nz pelos nódulos têm maior exigência em A urease é a única enzima conhecida, até o mo-
Mo. Os sintomas de deficiência de Mo não apare- mento, que contém Ni na sua estrutura molecular. A
cem somente nas folhas mais novas, como ocorre urease isolada da leguminosa Canavalia ensiformis L
para a maioria dos outros micronutrientes, porque tem uma massa molecular de 590 kDa e consiste em
o Mo é prontamente redistribuído na planta. Sin- 6 subunidades (molécula hexamérica) e cada subu-
tomas de deficiência de N são comuns em plantas nidade contém dois átomos de Ni, cada átomo de Ni
deficientes em Mo, principalmente naquelas depen- ligado a três átomos de N e três de O, altemadamen-
dentes da fixação de Nz. As folhas deficientes em Mo te (N - N i - O), formando uma estrutura hexagonal.
ficam reduzidas e deformadas, com uma ponta afila- Na ausência de Ni, plantas supridas somente com
da comumente denominada de whiptailo Outros sin- uréia não conseguem assimilar o N e ficam sujeitas à
tomas característicos são as manchas entre as ner- toxicidade pela uréia. A aplicação foliar de uréia está
vuras e a clorose marginal nas folhas velhas, segui- freqüentemente associada a sintomas de toxicidade,
das de pontos necróticos estreitamente relacionados e a gravidade dos sintomas está estreitamente relaci-
com acúmulo de nitrato no tecido. Uma caracterís- onada com o estado nutricional do Ni na planta. Em
tica única do Mo é a ampla faixa entre o limite de plantas noduladas, como soja, a forma principal de N
deficiência e o da toxicidade, que pode chegar a um transportado para a parte aérea são os ureídeos. Nas
fator de 104 em certas espécies. Em geral, não se folhas, os ureídeos são degradados em NH3 e COz, sem
observam sintomas de toxicidade de Mo em plan- envolver o metabolismo da uréia. Assim sendo, em
tas com concentrações entre 200 e 1.000 mg kg-1• soja nodulada ou em outras leguminosas ureídeas, não
é de esperar uma alta exigência em N i, comparada
com a soja suprida com N mineral. Entretanto, inde-
Níquel
pendentemente da forma de N suprida (uréia, amô-
O níquel é quimicamente relacionado com o fer- nio, nitrato ou Nz fixado nos nódulos), em plantas de
ro e o cobalto. É preferencialmente absorvido pelas soja e caupi deficientes em Ni, aparecem sintomas
plantas na forma de Ni2+, e sua forma de oxidação graves de queima e necrose nas pontas das folhas pelo
mais comum dentro dos sistemas biológicos é a acúmulo de uréia (Tabela 2.8). O teor de ureídeos
bivalente, embora possa ocorrer também nas formas permanece baixo e inalterado com o suprimento de
Ni+ e Ni3+. O níquel forma complexo estável com Ni, o mesmo ocorrendo com as purinas e ácido úrico.
aminoácidos e ácidos orgânicos, como a cisteína e o Esses resultados indicam que a uréia é um intermedi-
citrato, e é constituinte de moléculas de enzimas. A ário normal no metabolismo do nitrogênio.
influência do Ni, em baixas concentrações, na ger- Sementes de trigo, cevada e aveia originadas de
minação e crescimento de várias espécies de plantas plantas deficientes em Ni geram plantas com sinto-
cultivadas vem sendo demonstrada há mais de 30 mas graves de necrose nas pontas das folhas e acúmulo
anos. Porém, a primeira evidência clara da função do de uréia. Essas plantas apresentam menor desenvolvi-
Ni na urease de plantas superiores foi dada por Dixon mento da parte aérea e raízes, folhas verde-claras com
em 1975. A exigência de Ni por leguminosas, inde- clorose intemerval, e com as pontas (2 cm terminais)
pendentemente da forma de N suprida, foi demons- enroladas (incapazes de abrir). Em sementes de ceva-
trada por Eskew et alo (1984) e, para não-leguminosas, da obtidas de plantas deficientes em Ni, foi observada
foi estabelecida por Brown et alo, (1987). De acordo uma estreita relação entre conteúdo de Ni nas semen-
com esses estudos, foram reunidas evidências sufici- tes e a viabilidade das sementes, taxa de germinação e
entes para classificar o Ni como um nutriente essen- o vigor das plântulas. A viabilidade das sementes não
cial para as plantas superiores. Plantas superiores não pode ser restabelecida pelo embebimento das semen-
podem completar seu ciclo de vida sem esse elemen- tes em solução contendo Ni, o que indica que o Ni é
to, estando o N i, portanto, incluído entre os micro- essencial para o desenvolvimento da semente ainda na
nutrientes. planta-mãe, para completar o seu ciclo de vida.
Nutrição Mineral 67

Efeito da aplicação de níquel em plantas de caupi (Vigna unguiculata L.Walp) supridas


com nitrato de amônio, nos teores de uréia, ureídeos e Ni nas folhas maduras

_____ .JUréia
i +Ni
ND+Ni-Ni
ND
3,6ND
3,73-Ni
ND
0,11
4,5 Ureídeo
Níquel --- fLgg-1
fLmolg-l Parte da
I
----------- I

Ni ° Folha +Ni

Pedalo 0,11
Base da lâmina 0,56
Ponta da lâmina 2,16

Fonte: Walker et alo (1985). ND = não-determinado.

o nível crítico de deficiência de Ni na parte aérea cas enzimas que contêm ln na sua estrutura molecular:
de cevada está em tomo de 0,1 J.Lgg-l de matéria seca. desidrogenase de álcoois, dismutase de superóxidos (Cu~
Na maioria das espécies de plantas, o conteúdo de Ni ln~SOD), anidrase carbônica e polimerase de RNA.
nos órgãos vegetativos está na faixa de 1-10 J.Lgg-l Entretanto, muitas enzimas são ativadas pelo ln, seja
de matéria seca, dependendo da espécie. O Ni é pron~ pela sua função no acoplamento da enzima ao seu subs~
tamente móvel no xilema e floema, e, em algumas es~ trato, seja pelo efeito na conformação das moléculas.
pécies de Fabaceae, é preferencialmente transporta~ Por essa razão, as conseqüências da deficiência de
do para as sementes. Esse acúmulo tão preferencial de ln são complexas e as plantas passam a apresentar
micronutrientes nas sementes de leguminosas só é mudanças no metabolismo de carboidratos, proteínas
observado para o Ni e Mo. Para as plantas cultivadas e auxinas, além de desarranjos na integridade das
em solos e para as bactérias de solos, de modo geral, membranas. O ln possui ainda importante função na
não há relatos sobre evidências claras de deficiência expressão e regulação gênica.
de Ni. Para as plantas cultivadas, a preocupação com As mudanças mais importantes que ocorrem na
a toxicidade de Ni é muito maior, em função da apli~ planta pela deficiência de ln são: (a) alteração no
cação de estercos e resíduos orgânicos no solo. metabolismo de carboidratos em vários níveis, devi-
Níveis críticos para a toxicidade de Ni para as plan~ do à queda na atividade da anidrase carbônica, enzi-
tas sensíveis estão por volta de 10 J.Lgg-l de matéria ma localizada no citoplasma e nos cloroplastos; (b)
seca, e para as moderadamente tolerantes, por volta inibição da fotossíntese, provavelmente devido à de-
de 50 J.Lgg-l de matéria seca. Em plantas supridas com sestruturação dos cloroplastos com subseqüente de-
uréia, o nível crítico de toxicidade pode aumentar, sarranjo no transporte eletrônicoj (c) acúmulo de
como foi observado em trigo, em que passou de 63 acetaldeído nas raízes por inibição da desidrogenase
para 112 J.Lgg-l de matéria seca. de álcoois, desarranjando o processo anaeróbico da
respiração (importante para o arroz inundado, por
exemplo); (d) redução no teor de proteínas e aumento
Zinco
nos teores de aminoácidos e amidas, devido à baixa
O zinco é absorvido pelas plantas na forma catiô~ atividade da polimerase de RNA (enzima que con-
nica (ln2+)j ao contrário dos outros micronutrientes~ tém ln), redução na integridade dos ribossomas ou
metais, não está sujeito a mudanças de valência e indução na degradação de RNA; (e) níveis elevados
ocorre dentro das plantas somente na forma ln2+. de radicais livres de O2 que destroem as ligações du-
Suas funções principais estão relacionadas com o plas dos ácidos graxos polinsaturados e fosfolipídios
acoplamento de enzimas aos seus substratos e formação nas membranas, devido à baixa atividade da dismu~
de quelatos com diferentes compostos orgânicos, inclu~ tase de superóxido que contém ln (Cu~ln~SOD), o
indo polipeptídios. Em plantas superiores, existem pou~ que aumenta os vazamentos de solutos nas membra-
68 Nutrição Mineral

nas (K +, açúcares e aminoácidos), podendo até des- dições específicas, são usualmente chamados de ele-
truir cloroplastos nas folhas, causando necrose e atro- mentos benéficos. Estão entre estes o sódio, o silício,
fia, particularmente sob intensa luminosidadej (f) o cobalto, o selênio e o alumínio. A distinção entre
perda da integridade das membranas também pela elementos benéfico e essencial fica difícil no caso de
desestabilização e desorientação estrutural de prote- alguns elementos-traço, devido às dificuldades para
ínas devido à quebra das ligações do Zn com os gru- a sua análise química e às contaminações nos experi-
pos sulfidrilos (-SH). mentos com plantas.
A perda da integridade da membrana em plantas
deficientes em Zn contribui para aumentar a suscep- Sódio
tibilidade da planta às doenças fúngicas e a absorção
e transporte de fósforo para a parte aérea, causando A maioria das plantas superiores desenvolveu alta
toxicidade de P nas plantas. Além disso, a redistri- seletividade para o K+ comparado ao Na+. As espé-
buição de P da parte aérea para as raízes fica inibida cies de plantas podem ser natrofílicas ou natrofóbicas,
com a deficiência de Zn e, assim, fica descontrolado dependendo da sua resposta ao sódio no crescimen-
o mecanismo de demanda da parte aérea para absor- to, sua capacidade de absorção pelas raízes e transporte
ção e de carregamento de P no xilema das raízes. a longa distância para a parte aérea. As diferenças,
A demanda de Zn pelas plantas está na faixa de 15 a quanto a essa capacidade, são grandes entre espécies
30 mg kg-l de matéria seca de folhas e pode ser mais alta e entre genótipos dentro de espécies. As diferenças
quando ocorre alta concentração de P no tecido. Então, genotípicas na absorção pelas raízes estão relaciona-
em algodão ou citros, por exemplo, a concentração de das a diversos fatores, tais como atividade das bom-
Zn solúvel em água, em vez de Zn total, poderia ser um bas de efluxo de sódio, permeabilidade da membrana
melhor parâmetro na definição da concentração crítica plasmática ao transporte passivo de sódio.
de deficiência, principalmente quando há alto suprimen- Quanto às funções do Na+ na nutrição mineral das
to de P. Os sintomas mais característicos de deficiência plantas, três aspectos devem ser considerados: (a) sua
de Zn em dicotiledôneas são os intemódios curtos, for- essencialidade para certas espécies de plantas; (b) em
mando rosetas de folhas no ápice dos ramos, redução no quais funções pode substituir o K+j e (c) quais os efei-
tamanho das folhas (folhas pequenas) mais novas, com tos promotores adicionais no crescimento das plantas.
crescimento retardado e clorose. Em monocotiledône-
as, particularmente em milho, faixas cloróticas podem A) SÓDIO COMO NUTRIENTE
ocorrer ao longo das nervuras das folhas, combinadas MINERAL
com pintas vermelhas ou escuras. Os sintomas de defi- A essencialidade do sódio para algumas espécies
ciência de Zn nas folhas velhas são o resultado da toxi-
vegetais tem sido demonstrada em plantas halófitas
cidade de P e caracterizam-se por clorose intemerval e acumuladoras de Na. Para algumas espécies-CAM e
necrose. O crescimento retardado e necrose das folhas
algumas espécies C4 dentro das famílias Amarantha-
mais velhas parecem ser induzidos por radicais livres de ceae, Chenopodiaceae (beterraba, beterraba de mesa,
superóxidos. A concentração crítica para a toxicidade nabo etc.) e Cyperaceae, o sódio é um nutriente, re-
de Zn nas folhas de plantas cultivadas pode variar de 200 querido em pequenas quantidades, mais típico de um
a 500 mg kg-1 , podendo chegar a 8.000 mg kg-l em es- micronutriente. Portanto, o sódio é essencial para
pécies nativas tolerantes. algumas espécies C4, mas não para todas, e não é es-
sencial para as espécies C3• Milho e cana-de-açúcar,
por exemplo, são espécies tipicamente natrofóbicas
ELEMENTOS BENÉFICOS
(não toleram o sódio) e têm crescimento similar na
Os elementos minerais que estimulam o cresci- presença ou ausência de Na+. Nas espécies C4 para
mento mas não são essenciais, ou que são essenciais as quais o Na+ é essencial, a deficiência de Na+ im-
apenas para algumas espécies de plantas, ou sob con- pede a conversão de piruvato em fosfoenolpiruvato


Nutrição Mineral 69

(PEP), reação que ocorre nos cloroplasros do mesófilo monossilícico [Si(OH)4], que tem similaridades com
e requer muita energia provida pela fotofosforilação. o ácido bórico, pois ambos são ácidos fracos em solu-
Nessas espécies, como na Atriplex tricolor e na Kochia ção aquosa e interagem com pectinas e polifenóis da
childsii, a atividade do fotossistemall no mesófilo dos parede celular.
cloroplastos fica reduzida e a ultra-estrutura drastica- Entretanto, a essencialidade do silício (Si) foi de-
mente alterada. O ressuprimento com Na+ restabe- monstrada apenas para um pequeno número de espé-
lece a atividade do fotossistemall e o nível dos me- cies silicófilas, como a Equisetum arvense e certas espé-
tabólitos dentro de três dias. cies de gramíneas de áreas inundadas. Em arroz inun-
dado, a falta de Si leva à queda no crescimento e na
B) SÓDIO COMO SUBSTITUTO DO produção de grãos. Os sintomas de deficiência carac-
POTÁSSIO E ESTIMULANTE DO terizam-se por necrose das folhas maduras e secamento
CRESCIMENTO das plantas. Entretanto, não ficou demonstrado que o
arroz não consegue completar o seu ciclo de vida sem
Os efeitos benéficos do sódio em algumas espécies
o Si, assim como para as demais plantas em que tem
de plantas não-halófitas permitem dividi-Ias em qua-
sido demonstrado o efeito benéfico do Si.
tro grupos:
As plantas diferem na sua capacidade de absorver
Grupo A - nessas espécies, parte do potássio pode
ser substituída pelo sódio; este promove um cresci- silício e, dependendo dos teores na matéria seca, po-
dem ser divididas em três grupos principais: (a) mem-
mento adicional das plantas que não pode ser obtido
com o aumento na dose de potássio - estão nesse gru- bros da família Cyperaceae (como a Equisetum
po, principalmente, as plantas da família Chenopo- arvense) e das espécies de gramíneas de áreas inunda-
diaceae (beterraba, beterraba de mesa, nabo etc.) e das, como o arroz, que apresentam teores de Si da
ordem de 100 a 150 mg kg-l na matéria seca; (b) gra-
algumas gramíneas C4 (como a grama Rhodes).
GruPo B - as espécies respondem ao sódio em cres- míneas de sequeiro (terra alta), como a cana-de-açú-
cimento, mas de maneira menos distinta, e uma pro- car, a maioria das espécies de cereais e algumas dico-
porção menor de potássio pode ser substituída pelo tiledãneas, que apresentam de 10 a 30 mg kg-1 na
sódio - estão dentro desse grupo o repolho, o rabane- matéria seca; (c) a maioria das dicotiledãneas, espe-
i - te, o algodão, a ervilha, o trigo e o espinafre. cialmente leguminosas, que apresentam menos de 5
GruPo C - nas espécies desse grupo, o potássio pode mg kg-l na matéria seca.
ser substituído pelo sódio apenas em pequena propor- O Si é depositado nas paredes das células dos va-
ção, e o sódio não tem efeito específico no crescimen- sos do xilema, o que confere rigidez e resistência,
to das plantas (cevada, milheto, arroz, aveia, toma- importante na prevenção da compressão dos vasos sob
te, batata e a grama ryegrass). elevada taxa de transpiração, do acamamento das
Grupo D - nenhuma substituição do potássio é plantas e, também, da invasão de patógenos e parasi-
possível - estão dentro desse grupo o milho, o cen- tas no córtex. Esse processo não é puramente físico,
teio, a soja, o feijão-Phaseolus, a cana-de-açúcar e a está sob controle metabólico e depende do estádio de
grama-timothy. desenvolvimento da planta.
Como regra, as diferenças entre as espécies natrofí- No entanto, a deposição de Si nas folhas, colmos,
licas e natrofóbicas nas respostas ao sódio em cresci- brácteas da inflorescência e nas fibras das espiguetas
mento estão relacionadas às diferenças na absorção dos cereais, de gramas do gênero Phalaris e do milheto
pelas raízes e no transporte de sódio para a parte aérea. (Setaria italica) é suspeita de formar fibras silicosas
longas e pontiagudas classificadas como carcinogêni-
cas, pois foi constatada alta incidência de câncer de
Silício
esMago na China, pelo insumo de milheto, e no Ori-
O silício é abundante na crosta terrestre, e a sua ente Médio, pelo insumo de trigo, contaminados com
forma predominante na solução do solo é a de ácido Phalaris.
7O Nutrição Mineral

Cobalto de oxidação, mas o preferido pelas plantas é o selenato


(Se04Z-). O sulfato e o selenato competem pelos
Em 1963, foi isolada a cobalamina (coenzima B12)
mesmos sítios ou locais de absorção na membrana
de raízes de leguminosas e não-leguminosas, fican-
plasmática das raízes, e, assim sendo, a absorção de
do demonstrada a interdependência entre o supri-
selenato pode ser fortemente reduzida aumentando
mento de Co, o conteúdo da coenzima B12 em
o suprimento de sulfato às plantas.
Rhizobium, a formação da leg-hemoglobina e a fixa-
Em plantas do gênero Astragalus parece haver um
ção de Nz. Assim, ficou estabelecida a exigência do
efeito benéfico do Se na prevenção da absorção ex-
Co para os microrganismos fixadores de Nz, inclu-
cessiva de fosfatos, quando em condição de alto P no
sive o Rhizobium. A coenzima cobalamina possui
ambiente externo. Em situação normal de P, não há
Co3+ como componente metálico, ligado a quatro
efeito do Se no crescimento das plantas. O alto con-
átomos de nitrogênio no centro de uma estrutura de
teúdo de Se nas plantas pode ser benéfico no sentido
porfirina semelhante à do Fe dentro do grupo hemo.
de defesa contra o ataque de insetos. Por outro lado,
Em Rhizobium e Bradyrhizobium existem três enzimas
a maior parte das espécies cultivadas não é acumula-
importantes dependentes do Co.
dora, e sintomas de toxicidade por Se nas plantas
Portanto, em leguminosas dependentes da fixação
podem aparecer para teores na parte aérea acima de
de Nz, os sintomas visuais de deficiência de Co são
100 mg kg-l de Se na matéria seca.
típicos sintomas de deficiência de N. O teor de Co
O Se é um elemento essencial aos animais e seres
nas sementes dessas plantas tem grande importância
quando cultivadas em solos com deficiência do ele- humanos em pequenas quantidades - 0,1 a 0,3 mg
mento. Existem diferenças consideráveis entre espé- kg-l na matéria seca da dieta, porém altamente tóxi-
co. Sua deficiência causa sintomas de distrofia mus-
cies, quanto à sensibilidade à deficiência de Co. As-
sim, LuPinus angustifolius é bastante sensível compa- cular e desordens reprodutivas. O teor máximo de Se
rada a Trifolium subterraneum, muito mais tolerante. nas forragens tolerado pelos animais está entre 1,0 e
Não existem evidências de qualquer função direta 5,0 mg kg-lde Se na matéria seca. A toxicidade por
do Co no metabolismo de plantas superiores. Alguns Se pode ser aguda, quando leva rapidamente à mor-
efeitos benéficos do Co foram reportados para algu- te; crônica, quando causa cegueira e paralisia; e em
mas plantas não-fixadoras de Nz, supridas com N casos menos graves, quando causa fraqueza e perda de
vitalidade.
mineral, porém de pequena expressão.
A aplicação de Co às plantas forrageiras, provindas De acordo com a capacidade de tolerar altas con-
de solos deficientes em Co, é importante para os rumi- centrações de Se, as plantas podem ser classificadas
nantes, pois o Co é essencial para a microflora do rúmen em acumuladoras e não-acumuladoras de Se. Muitas
na sÚltese da vitamina B12 em quantidade suficiente para espécies do gênero Astragalus, Xylorrhiza e Stanleyea
atender à necessidade do animal. Os animais não-rumi- são tipicamente acumuladoras de Se e capazes de cres-
nantes e o homem precisam da vitamina B12 pré-forma- cer em solos seleníferos sem nenhum efeito depressi-
da. O teor de Co nas plantas varia entre 0,05 e 0,30 mg vo no seu crescimento, podendo acumular até 20 a
kg-1 e usualmente é maior nas leguminosas do que nas 30 g kg-l de Se na matéria seca. Plantas da família
gramíneas. Os níveis de toxicidade de Co para as plan- das Cruciferae, como mostarda preta e brócolis, tam-
tas variam muito entre as espécies; nas acumuladoras bém acumulam grandes quantidades de Se na maté-
adaptadas a solos metalíferos, o teor de Co pode chegar ria seca.
a 4.000 a 10.000 mg kg-l de matéria seca.
Alumínio
Selênio
O alumínio (Ai) é um elemento abundante nos
O selênio (Se) tem características químicas seme- solos, e seu teor disponível ou livre na forma AP+ na
lhantes às do enxofre. Pode existir em vários estados solução do solo depende do pH. Geralmente ocorre
Nutrição Minera! 71

em baixas concentrações em solos com pH acima de beneficiada. Algumas plantas, como as orquídeas, são
5,5 e altas concentrações em solos com pH mais bai- dependentes das micorrizas para o início do desenvol-
xo, o que é típico na maioria dos solos do Cerrado do vimento das plântulas recém-germinadas. As associ-
BrasiL O principal interesse em relação ao AI está na ações micorrízicas podem ser, portanto, mútuas, neu-
habilidade das plantas de tolerar quantidades tóxicas tras ou parasíticas em relação à planta, dependendo
desse elemento (AP+), bastante variável entre espé- das circunstâncias. A associação mútua predomina,
cies e genótipos. daí o termo simbiose micorrízica ser muito freqüen-
Não existe nenhuma evidência convincente de temente utilizado na literatura, porém o termo asso-
que o AI seja um elemento mineral essencial às plan- ciação é mais adequado, visto que a associação neu-
tas, nem mesmo para as espécies acumuladoras. En- tra ou parasítica não é rara, e a planta hospedeira tem
tretanto, existem relatos de efeitos benéficos de bai- um controle limitado sobre o grau de infecção radi-
xas concentrações de AI (entre 71,4 e 185 Jlmo 1L-1), cular, o crescimento e a competição do fungo por
no solo ou na solução nutritiva, no crescimento das carboidratos.
plantas como beterraba, milho e algumas legumino- Existem dois grandes grupos de micorrizas defini-
sas tropicais. Em plantas de chá, uma das mais tole- dos pelo modo como o micélio do fungo se relaciona
rantes ao AI, tem-se observado estímulo no cresci- com a estrutura das raízes: as endomicorrizas e as
mento pela presença de AI; entretanto, esse efeito be- ectomicorrizas (Fig. 2.7).
néfico é difícil de quantificar em função do desconhe- Nas endomicorrizas, o fungo vive dentro das célu-
cimento da concentração nominalmente livre (ati- las corticais e cresce também entre as células. Exis-
vidade iônica) do AL A natureza do efeito benéfico tem muitos tipos de endomicorrizas, sendo os mais
do AI no crescimento das plantas não está clara, mas conhecidos as micorrizas vesículo-arbusculares
existem substanciais evidências de que é um efeito (MV A), as micorrizas ericóides (que ocorrem nas
indireto, na maioria das vezes relacionado com a com- Ericales) e as micorrizas orquidáceas (que ocorrem nas
petição (ou precipitação) com outros elementos mi- orquídeas). As MV A são as mais abundantes e pre-
nerais presentes em quantidades tóxicas, principal- dominantes entre todas as endo e ectomicorrizas. As
mente P, Zn e Cu. MV A caracterizam-se pela formação de arbúsculos
dentro das células do córtex e por um micélio que se
MICORRIZAS ARBUSCULARES EA estende bem para fora no solo em tomo do sistema
radicular. Esses arbúsculos são o ponto de troca de
ABSORÇÃO DE NUTRIENTES
solutos com a planta hospedeira. Porém, nem todas
.PELAS PLANTAS
as endomicorrizas arbusculares formam vesículas, que
As micorrizas são associações bastante comuns são órgãos de reserva ricos em lipídios, daí o termo
entre fungos e raízes de plantas superiores. A maio- micorriza arbuscular (MA) ser bastante usado na li-
ria das plantas estabelecidas em solos possui raízes teratura mais recente. Os fungos MA V pertencem a
micorrizadas. De maneira geral, 83 % das dicotiledô- quatro gêneros principais: Acaulaspora, Gigaspora,
neas, 79% das monocotiledôneas e todas as Gimnos- Glomus e Sclerocystis. O gênero Glomus parece ser o
permas são micorrizadas. Em solos secos, salinos, mais abundante dos fungos de solo.
inundados, com fertilidade extremamente alta ou As ectomicorrizas caracterizam-se por formar uma
baixa, ou destruídos por atividade de extração de manta de hifas em volta da superfície externa das
minérios, não ocorrem micorrizas. As micorrizas não raízes e hifas que penetram os espaços intercelulares
estão presentes ainda, em qualquer condição ambi- do córtex, formando uma rede de micélio que envol-
ental, nas Crucíferas, nas Chenopodiáceas, e são ve totalmente as células do córtex, aumentando a área
muito raras nas Proteáceas. de contato entre o fungo e a planta (Fig. 2.7). As
Em geral, o fungo é forte ou totalmente dependente ectomicorrizas ocorrem principalmente nas raízes das
da planta superior, enquanto a planta pode ou não ser espécies florestais e, ocasionalmente, em espécies de


72 Nutrição Mineral

A •
J
J

Fig. 2.7 Representação esquemática de um corte de raiz infectada com micorrizas: (A) principais características estru-
turais da micorriza vesículo-arbuscular; e (B) das ectomicorrizas. (Reproduzido de Marschner, 1995,2." ed., p.567, com
permissão de Elsevier.)

herbáceas ou de gramíneas perenes. As ectomicorrizas grau de dependência micorrízica e resposta à inocu-


são, na sua maioria, formadas por Basidiomicetos, mas lação de várias espécies vegetais.
muitas também por Ascomicetos. Em muitas espéci- Os cereais, cujos sistemas radiculares possuem ra-
es florestais, ambas as micorrizas (endo e ecto) ocor- ízes finas, com pêlos longos e densos, são menos de-
rem simultaneamente. pendentes dessa associação. Assim, num estudo de
O efeito principal das MA V no crescimento das dependência micorrízica e absorção de nutrientes,
plantas consiste no suprimento adicional de nutrien- verificou-se que a colonização das raízes dos tratamen-
tes minerais de baixa mobilidade na solução do solo, tos com inoculação variou de 62 a 87% para soja e
predominantemente o fósforo. As hifas externas po- 49 a 68% para o milho. A soja apresentou dependên-
dem absorver e transportar fósforo do solo para a plan- cia micorrízica mais elevada que o milho, e uma va-
ta hospedeira de distâncias bem maiores do que a área riação considerável na colonização ocorreu dentro dos
da rizosfera da planta. Como regra, plantas micorri- cultivares de soja. Em trigo e triticale, diferentes graus
zadas apresentam taxas de absorção de fósforo (por de infecção, de dependência micorrízica e de percen-
unidade de comprimento de raiz) duas a três vezes tagem de colonização de raízes foram observados en-
maiores do que as plantas não-micorrizadas. As tre cultivares comerciais e melhoradas, cultivadas em
micorrizas arbusculares são, portanto, de fundamen- solo com baixo nível de P. Em milheto, foi observa-
tal importância para a nutrição fosfatada de plantas da variação na associação micorrízica entre 30
cultivadas, devido às características de baixa dispo- genótipos, com amplitude de intensidade de coloni-
nibilidade e mobilidade do elemento na grande mai- zação entre 25 e 56%. Grande variabilidade para a as-
oria dos solos brasileiros. sociação micorrízica existe também entre cultivares
As associações entre fungos e plantas cultivadas são de ervilha, entre e dentro de espécies de forrageiras
complexas e estão sob controle genético, sofrendo de inverno (plantas C3) e de verão (plantas C4), en-
variações com as espécies ou cultivares, bem como tre espécies de leguminosas forrageiras arbóreas e
pelo ambiente. Características do genoma da planta entre genótipos de sorgo. A dependência do hospe-
que influenciam o tipo e a morfologia do sistema ra- deiro e herdabilidade da colonização micorrízica fo-
dicular são apontadas como causas das diferenças no ram verificadas em ervilha e caupi.


Nutrição Mineral 73

Os efeitos da infecção micorrízica no desenvolvi- Brown PH, Welch RM, Cary EE. Nickel: a micronutrient
mento do hospedeiro podem ser mínimos e até nulos essential for higher plants. Plant Physiology, 1987;
85:801-803.
ou depressivos, quando sob elevados níveis de adu-
Brown PH, Shelp BJ. Boron mobility in plants. Plant and
bação. O potencial para seleção de genótipos que
Soil, Oordrecht, 1997; 193:85-10l.
possam ser rapidamente infectados e que respondam
Brown PH, Bellaloui N, Hu H, Oandekar A. Transgeni-
positivamente à infecção tem sido ignorado em mui-
cally enhanced sorbitol synthesis facilitates phloem
tos programas de melhoramento de plantas. Dessa boron transport and increases tolerance of tobacco to
forma, tem-se perdido variabilidade genética para a boron deficiency. Plant Physiology, 1999; 119: 17-20.
infecção micorrízica ou resposta a esta, bem como Brown PH, Welch RM, Madison JT. Effect of nickel defi-
para a eficiência de absorção e uso de nutrientes pe- ciency on soluble anion, amino acid, and nitrogen levels
las culturas que apresentam tal capacidade associa- in barley. Plant and Soil, Oordrecht, 1990; 125:19-27.
tiva diferencial. Postula-se que, se os programas de Brunold C. Regulatory interactions between sulfate and
melhoramento de plantas persistirem em não con- nitrate assimilation. In: Oekok LJ, Stulen I, Rennenberg
siderar a contribuição das micorrizas, haverá gran- H, Brunold C, Rauser WE (eds). Sulfur Nutrition and
Assimilationin HigherPlants. The Hague, SPB Academic
de probabilidade de perda da variabilidade para essa
Publishing, 1993, pp 62-75.
associação. E que, se as práticas de manejo favorá-
Bussler W. Physiological functions and utilization of
veis à manutenção da alta infectividade do solo fo-
copper. In: Loneragan JF, Robson, AO, Graham, RO
rem reduzidas, os efeitos benéficos das micorrizas na
(eds). Copper in Soils and Plants. Academic Press, Lon-
estrutura do solo, nas relações hídricas, na tolerân- don, 1981, pp 213-234.
cia a doenças e na nutrição das plantas poderão fi- Cassab GI, Varner JE. Cell wall proteins. Annual Review
car sensivelmente reduzidos ou, até mesmo, desapa- of Plant Physiology and Plant Molecular Biology, 1988;
recer. 39:321-353.
Clarkson OT. Membrane structure and transport. In:
Smith H (ed). The Molecular Biology of Plants Cells,
REFERÊNCIAS
Oxford, Blackwell, 1977, pp 24-63.
Alexander I. Mycorrhizas in tropical forests. In: DeKok LJ, Stulen L Role of glutathione in plants under
Protector J (ed). Mineral Nutrients in TroPical Forests oxidative stress. In: DeKok LJ,Stulen I, Rennenberg H,
and Savannah Ecosystems. Blackwell, Oxford, 1989, Brunold C, Rauser WE (eds). Sulfur Nutrition and
pp 169-188. Assimilationin HigherPlants. The Hague, SPB Academic
Ankel-Fuchs O, Thauer RK. Nickel in biology: Nickel as Publishing, 1993, pp 125-138.
an essential trace elemento In: Lancaster JR (ed). The Eichert T, Burkhardt J. Quantification of stomatal uptake
Bioinorganic Chemistry of Nickel. Verlag Chemie, of ionic solutes using a new model system. Journal of
Weinheim, 1988, pp 93-110. Experimental Botany, 2001; 52:771-78l.
Asher CJ Beneficial elements, functional nutrients, and Epstein E. Mineral metabolismo In: Bonner J, Varner, JE
possible new essential elements. In: Mortvedt J], Cox (eds). Plant Biochemistry. London, Academic Press,
FR, Shuman LM, Welch RM (eds). Micronutrients in 1965, pp 438-446.
Agriculture. Madison, Soil Science Society of Ameri- Eskew DL, Welch RM, Norwell W A. Nickel in higher
ca, Book Series, n 4, 1991, pp 703-723. plants. Further evidence for an essential role. Plant
Barber SA. Soil Nutrient Bioavailability. A Mechanistic Ap- Physiology, 1984; 76:691-693.
proach, 2nd ed. John Wiley, New York, 1995, 414p. Glass ADM. Regulation of ion transporto Annual Review
Bellaloui N, Brown PH, Oandekar AM. Manipulation of of Plant Physiology, 1983; 34:311-326.
in vivo sorbitol production alters boron uptake and Haynes RJ. Ion exchange properties of roots and ionic
transport in tobacco. Plant Physiology, 1999; 119:735- interactions within the root apoplasm: their role in ion
742. accumulation by plants. Botany Review, 1980;46:75-99.
Blatt MR, Thiel G. Hormonal control of ion channel Hedrich R, Schroeder JI, Fernandez JM. Patch clamp
gating. Annual Review of Plant Physiology and Plant studies on higher plant cells: a perspective. Trends in
Molecular Biology, 1993; 44:543-567 . Biochemical Sciences, 1986; 12:49-52.


74 Nutrição Mineral

Hewitt EJ, Notton BA. Nitrate reductase system in Welch RM (eds). Micronutrients in Agriculture, 2nd ed.
Eukariotic and Prokariotic organisms. In: Coughan M SSSA Book Series, n 4, Madison, WI, USA, 1991, pp
(eds). Molybdenum and molybdenum containing 297-328.
enzymes. Pergamon Press, Oxford, England, 1980, pp Schmidt A, Jager K. Open questions about sulfur metabo-
273-325. lism in plants. Annual Review of Plant Physiology and
Hopkins WG. Introduction to Plant Physiology, 2nd ed. John Plant Molecular Biology, 1992; 43:325-349.
Wiley & Sons, lnc, Toronto, 1999, 512p. Shelp BJ. Physiology and biochemistry ofboron in plants.
Kreuz CL, Lanzer EA, Paris Q. Funções de produção von In: Gupta UC (ed). Boronandits Role inCrop Production.
liebig com rendimentos decrescentes. Pesquisa Agrope- CRC Press, Florida, 1993, pp 53-85.
cuária Brasileira, Brasília, 1995; 30( 1):95-106. Siqueira, JO Biologia do Solo. Lavras, ESAL/FAEPE, 1993,
Kurdjian A, Guern J. lntracellular pH: measurement 230p.
and importance in cell activity. Annual Review of Smith FW. Molecular biology of nutrient transporters in
Plant Physiology and Plant Molecular Biology, 1989; plant membranes. In: Rengel Z (ed). Mineral Nutrition
40:271-303. of Crops: Fundamental Mechanisms and Implications. New
Laurie SH, Tancock NP, McGrath SP, Sanders JR. York, Food Products Press, 1999, pp 67-89.
Influence of complexation on the uptake by plants of Smith FW, Ealing PM, Hawkesford MJ, Clarkson OT.
iron, manganese, copper and zincoI. Effect ofEOT A in Plant members of a family of sulfate transporters reveal
a multi-metal and computer simulation study. ]ournal functional subtypes. Proceedings of National Academy of
of Experimental Botany, 1991; 42:509-513. Sciences, USA, 1995; 92:9373-9377.
Loughman BC. Metabolic factors and the utilization of Smith SE, Robson AO, Abbott LK. The involvement of
phosphorus by plants. In: Phosphorus in the Environment: mycorrhizas in assessment of genetically dependent
Its Chemistry and Biochemistry. Amsterdam, EIsevier, efficiency of nutrient uptake and use. In: Randall PJ,
1978; pp 155-174. Oelhaitze E, Richards RA, Munns R (eds). Genetic
Malavolta E. Elementos de Nutrição Mineral de Plantas. Aspects of Plant Mineral Nutrition. Oordrecht, Kluwer
Editora Agronômica Ceres Ltda, São Paulo, 1980, pp Academic, 1993, pp 221-231 (Oevelopments in Plant
9-15. and Soil Sciences, 50).
Marschner H. General lntroduction to the Mineral Nu- Tinker PB, Jones MO, Ourall OM. A functional compari-
trition of Plants. In: Lauchli A, Bieleski, RL (ed). En- son of ecto- and endomycorrhizas. In: Read OJ, Lewis
cyclopedia of Plant Physiology. Berlin, N ew Series, v 12 OH, Fitter AH, Alexander lJ. (eds). Mycorrhizas in
(Inorganic Plant N utrition). Springer -Verlag, 1983, pp Ecosystems. CAB lnternational, Wellingford, 1992, pp
5-60. 303-310.
Marschner, H. Mineral Nutrition of Higher Plants, 2nd ed. Tyerman SO. Anion channels in plants. Annual Review of
London, Academic Press, 1995, 889p. Plant Physiology and Plant Molecular Biology, 1992;
Mengel K, Kirkby EA. Principies of Plant Nutrition, 5th 43:351-373.
ed. Oordrecht, Kluwer Academic Publishers, 2001, Welch RM. lmportance of seed mineral nutrient reserves
849p. in crop growth and development. In: Rengel Z (ed).
Ploeg RR, Bõhm W, Kirkham MB. History of Soil Scien- Mineral Nutrition of Crops: Fundamental Mechanisms and
ce. On the Origin of the Theory of Mineral Nutrition Implications. Food Products Press, New York, 1999, pp
of Plants and the Law of the Minimun. Soil Science So- 205-226.
ciety of American]ournal, 1999; 63:1055-1062. Welch RM. Micronutrient nutrition of plants. CRC Cri-
Reid RJ. Kinetics of nutrient uptake by plant cells. In: tical Reviews in Plant Sciences, 1995; 14:49-82.
Rengel Z (ed). Mineral Nutrition of Crops: Fundamental Wilcox HE. Mycorrhizae. In: Waisel Y, Eshel A, Kafkafi
Mechanisms and Implications. N ew York, Food Products U (eds). Plant Roots: the Ridden Half. Marcel Oekker,
Press, 1999, pp 41-66. New York, 1991, pp 731-765.
Rengel Z (ed). Mineral Nutrition of Crops: Fundamental Wolswinkel, P. Long-distance nutrient transport in
Mechanisms and Implications. New York, Food Products plants and movement into developing grains. In:
Press, 1999. 399p. Rengel Z (ed). Mineral Nutrition ofCrops: Fundamen-
Rõmheld V, Marschner H. Functions of micronutrients tal Mechanisms and Implications. Food Products Press,
in plants. In: Mordvedt J], Cox FR, Shuman LM, New York, 1999, pp 91-113.
Nutrição Mineral 75

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA Brown PH, Welch, RM, Cary EE. N ickel: a micronutrient
essential for higher plants. Plant Physiology, 1987;
Be11PF, Chaney RL, Angle JS. Free metal activity and total 85:801-803.
metal concentrations as indices of micronutrient availabi- Brown PH, Welch RM, Madison]T. Effect of nickel defici-
lity to barley [Hordeum vulgare (L) Klages]. Piam and Soil, ency on saluble anion, amino acid, and nitrogen levels
Dordrecht, 1991, 130:51-62. in barley. Plant and Soil, Dordrecht, 1990; 125:19-27.
Bellaloui N, Brown PH, Dandekar, AM. Manipulation of Eskew DL, Welch RM, Norwell W A. Nickel in higher
in vivo sorbitol production alters boron uptake and plants. Further evidence for an essential role. Plant
transport in tobacco. Plant Physiology, 1999; 119:735- Physiology, 1984; 76:691-693.
742. Laurie SH, Tancock NP, McGrath, SP, Sanders JR.
Blatt MR, Thiel, G. Hormonal control of ion channel Influence of complexation on the uptake by plants of
gating. Annual Review of Plant Physiology and Plant iron, manganese, copper and zinco L Effect ofEDT A in
Molecular Biology, 1993; 44:543-567. a multi-metal and computer simulation study. ]ournal
Brown PH, Shelp BJ. Boron mobility in plants. Plant and ofExperimental Botany, 1991; 42:509-513.
Soil, Dordrecht, 1997; 193:85-101. Marschner H. Mechanism of adaptation of plants to acid
Brown PH, Bellaloui N, Hu H, Dandekar A. Transge- soils. Plant and Soil, 1991b; 134:1-20.
nically enhanced sorbitol synthesis facilitates Rõmheld V. Different strategies for iron acquisition in
phloem boron transport and increases tolerance of higher plants. Physiologia Plantarum, 1987; 70:231- 234.
tobacco to boron deficiency. Plant Physiology, Tester M. Plant ion channels: Whole cell and single
1999:119:17-20. channel studies. New Phytologist, 1990; 114:305-340.
CAPÍTULO 3

Lázara Cordeiro

CICLO DO NITROGÊNIO paI deles. Após absorção, esses compostos devem ser
reduzidos para que sejam incorporados nos diversos
Carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio são os constituintes celulares. Portanto, nos animais e nas
elementos químicos quantitativamente mais abun-
plantas, o nitrogênio encontra-se, na sua maioria, na
dantes nos seres vivos, correspondendo, o último, forma reduzida como íon amônio (NH4 + ) ou amina
aproximadamente a 79% da atmosfera terrestre. Na (NH2 -). No outro extremo, o nitrato, principal for-
ecosfera terrestre, 0,04% do nitrogênio estariam na ma em que o nitrogênio é encontrado no solo, é alta-
forma combinada, sendo 57% na forma orgânica e mente oxidado, sendo necessária a adição de 8 elé-
43% na forma inorgânica. Considerando o nitrogê- trons para que se converta em amina. O nitrogênio
nio existente na forma orgânica, somente 4% fazem disponível para as plantas pode ser também oriundo
parte dos seres vivos, sendo 94% localizados nos ve- diretamente de fertilizantes industriais, representan-
getais, 4% na biomassa microbiana e 2% nos animais do uma parcela muito pequena em relação ao total
(Siqueira & Franco, 1988). O ciclo do nitrogênio, do nitrogênio fixado biologicamente.
representado na Fig. 3.1, corresponde às contínuas Apesar de abundante na atmosfera, o nitrogênio
transformações dessas formas por meio de processos molecular não pode ser absorvido pelas plantas. Ex-
físico-químicos e biológicos. A atmosfera contribui ceto pelos microrganismos fixadores ou via adubação
com o fornecimento do nitrogênio gasoso e com pe- nitrogenada, a principal forma de obtenção desse ele-
quena parcela de nitrogênio combinado nas formas mento pelas plantas é o aproveitamento do nitrogê-
de amônio (NH4 +), originado de queimas industriais, nio combinado na matéria orgânica. Com o uso das
de atividades vulcânicas e de incêndios florestais, e plantas na alimentação dos animais, os compostos
de nitrato (N03 -), originado da oxidação do N2 pelo nitrogenados são utilizados para produção de novas
O2 ou pelo ozônio (03) na presença de descargas elé- proteínas. Com a morte dos organismos, bactérias
tricas ou de radiação ultravioleta. O amônio e o ni- presentes no solo decompõem os compostos orgâni-
trato produzidos na atmosfera são transportados para cos nitrogenados em aminoácidos, que, por sua vez,
o solo pela chuva, podendo ser absorvidos pelas raí- são oxidados pelos microrganismos do solo como bac-
zes. térias e fungos com produção de gás carbônico, água
O nitrogênio combinado no solo é o mais suscep- e amônia (amonificação). Em determinadas situações,
tível dos compostos às transformações biológicas. As como solos frios, ácidos e deficientes em oxigênio, o
plantas geralmente o absorvem na forma de compos- amônio é a principal fonte de nitrogênio, sendo uti-
tos altamente oxidados, dos quais o nitrato é o princi- lizado na constituição de aminoácidos, uma vez que


~
'~"

Fixação do Nitrogênio 77

I
lf
Fig. 3.1 Ciclo do nitrogênio
& Ross, 1991, modificado.)
envolvendo os compartimentos solo, planta e atmosfera (explicação no texto). (Salisbury

as bactérias nitrificantes não são abundantes e, quan- para lençóis freáticos, lagos ou rios, constituindo for-
do presentes, são menos eficientes. Em solos úmidos tes agentes poluidores. Além disso, os vegetais per-
e quentes, o amônio é oxidado a nitrito (NOz -) por dem, por lixiviação, pequenas quantidades de NH3,
bactérias nitrificadoras, como as Nitrosomonas, e este NzO, NOz e NO, principalmente quando recebem
a nitrato (N03 -), por bactérias como as Nitrobacter. boa adubação nitrogenada. Bactérias anaeróbicas uti-
No solo, o íon amônio encontra-se adsorvido nas lizam o nitrato como aceptor de elétrons durante o
partículas coloidais, enquanto o nitrato, por ter car- processo da respiração, formando Nz, NO, NzO e
ga negativa, torna-se componente da solução sendo NOz. Esse tipo de processo ocorre em camadas rela-
facilmente lixiviado nessa condição. A perda de com- tivamente profundas do solo, em solos compactados,
postos nitrogenados do solo para a atmosfera, ou em áreas alagadas, situações típicas de anoxia, ou
mesmo para rios, lagos ou mares, pode ocorrer de mesmo em regiões próximas da superfície, com baixa
várias formas, principalmente por volatilização da concentração de oxigênio, em função de sua rápida
amônia, por denitrifícação ou por lixiviação. A adu- utilização na oxidação da matéria orgânica. As for-
bação excessiva com sais de nitrato, seguida de chu- mas oxidadas de nitrogênio na atmosfera têm impor-
va abundante, faz com que esses sais sejam carreados tante papel ecológico porque, quando convertidas


78 Fixação do Nitrogênio

para N03, contribuem para formação do ácido nítri~ como aeróbicas (Azotobacter, Azospirillum, Beijerin-
co (HN03), comum em chuva ácida. ckia), bactérias anaeróbicas (Clostridium) ou bactéri~
as anaeróbicas facultativas (Escherichia, Klebsiella).
Algumas bactérias de vida livre podem estabelecer
FIXAÇÃO BIOLÓGICA DO
relações mutualísticas com plantas (ver adiante nes-
NITROGÊNIO
te capítulo). Dentre as cianobactérias, destacamos
A incorporação do nitrogênio molecular (Nz) en~ principalmente as espécies filamentosas, as quais pos-
contrado na atmosfera em um composto nitrogena~ suem, ocasionalmente, células não-clorofiladas, de
do corresponde à sua fixação, sendo a principal for~ paredes espessas, conhecidas como heterocistos, onde
ma de sua introdução nos ecossistemas. Em sentido ocorrem as produções de A TP por fotofosforilação e
amplo, podemos considerar descargas elétricas, ativi~ o processo de fixação de nitrogênio. Os exemplos mais
dades vulcânicas, fixação industrial e biológica como comuns dessas cianobactérias são Anabaena cylindrica
sendo formas de fixação de nitrogênio, pois ocorre sua e Nostoc punctiforme.
incorporação em um composto nitrogenado. Em sen~ Alguns microrganismos fixadores de nitrogênio
tido mais restrito, consideramos a fixação de nitro~ podem viver associados à filosfera ou à rizosfera de
gênio como sendo sua redução para formação de plantas superiores e, nesses casos, poderiam utilizar
amônia (NH3). Nesse caso, temos a fixação industri~ compostos exsudados pelas folhas ou pelo sistema
aI e a fixação biológica. Na fixação industrial, em radicular, respectivamente. Exemplos deste último
temperaturas de 300 a 400°C, a queima do petróleo tipo de associação são bactérias Beijerinckia jIuminensis
fornece a energia necessária para a reação do hidro~ e Azotobacter paspali, encontradas na rizosfera da cana~
gênio com o nitrogênio para formar amônia (proces~ de~açúcar (Saccharum officinarum) e da gramínea tro~
so Haber~Bosh), que pode ser utilizada diretamente pical Paspalum notatum (grama~comum ou grama~
como fertilizante ou na produção de outros compos~ batatais), respectivamente. Várias outras espécies de
tos nitrogenados, como a uréia. Já a fixação biológi~ gramíneas podem apresentar Beijerinckia jIuminensis
ca é realizada por alguns microrganismos procariontes na rizosfera e HerbasPirillum seropedicaeno interior das
que possuem o maquinário enzimático necessário para raízes. Nesses casos, mesmo que as bactérias não pe~
reduzir o nitrogênio molecular a amônia. Esses mi~ netrem no sistema radicular, pode~se considerar como
crorganismos podem ser de vida livre ou viver em uma associação mutualística, uma vez que parte do
associações com organismos eucariontes de diversas nitrogênio fixado pelo microrganismo é utilizada pela
categorias taxonômicas, geralmente vegetais superi~ planta e parte dos carboidratos liberados pelas raízes
ores, estabelecendo relações simbióticas (ou mutua~ desta é utilizada pelos organismos fixadores. Sistemas
lísticas, segundo alguns autores) em grau variado. A mutualísticos envolvendo bactérias endofíticas ocor~
evolução da relação simbiótica entre esses microrga~ rem entre Zea mays (milho), Triticum sp. (trigo) e
nismos e as raízes de fanerógamas levou ao desenvol- Saccharum officinarum (cana~de~açúcar) com Azospi~
vimento de estruturas altamente eficientes na prote~ rillum lipoferum, A. brasilense e Acetobacter diazotro~
ção do sistema: os nódulos. Para a maioria dos phicus, respectivamente (Neves & Rumjanek, 1998).
procariontes fixadores de vida livre ou que vivem em Entre as cianobactérias, Nostoc spp. são encontra~
associações, a energia para o processo vem direta ou das em associação com briófitas como Anthoceros
indiretamente da luz. punctatus e Blasia pusilla, e Anabaena spp. podem se
Os organismos fixadores de nitrogênio pertencem desenvolver em cavidades existentes nas folhas da
a três grupos: bactérias, cianobactérias e actinomice~ pteridófita Azolla, ou, ainda, em raízes de cicadáceasj
tos. As bactérias podem ser de vida livre ou estabele~ nesse caso, a infecção é seguida de modificações mor~
cer relações mutualísticas com plantas de diversas fológicas por parte do hospedeiro. Entre as faneróga~
categorias taxonômicas. As bactérias de vida livre, mas que se associam com microssimbiontes para a
encontradas nos solos podem ser classificadas ainda fixação de nitrogênio, Ginkgo biloba está entre as mais
Fixação do Nitrogênio 79

primitivas. Dentre as angiospermas, espécies do gê- sempre associado a plantas da família Leguminosae,
nero Gunnera podem ser infectadas por Nostoc espécies de Parasponia (Ulmaceae) são exemplos de
punctiforme, formando densas colônias dentro do cau- não-leguminosas que, normalmente, estabelecem
le, freqüentemente chamadas nódulos. simbiose com essa bactéria.
Considerando as várias associações citadas de Por analogia com o rizóbio, a classificação das es-
cianobactérias com plantas superiores, o gênero pécies de Frankia estaria associada com a espécie do
Gunnera é o único dentre as angiospermas não-legu- hospedeiro no qual o nódulo é formado. Entretanto,
minosas em que todas as espécies se associam com N. esse sistema foi abandonado porque alguns isolados
punctiforme. Nas demais angiospermas, leguminosas podem infectar uma ampla variedade de hospedeiros.
e não-leguminosas fixadoras de nitrogênio, os Na infecção por Frankia, o nódulo inicia-se com a
microssimbiontes fixadores são bactérias generica- infecção do pêlo radicular e, diferentemente das le-
mente denominadas rizóbio e actinomicetos (para guminosas, origina-se a partir do periciclo. Podem, no
alguns autores, bactérias filamentosas) do gênero entanto, ocorrer outras formas de infecção, como
Frankia, respectivamente. Os actinomicetos são or- acontece em leguminosas. O nódulo formado possui
ganismos procariontes, septados, Gram-positivos, que um sistema vascular ocupando a posição central, que
crescem vagarosamente em cultura, sendo necessári- é envolvido pelo tecido infectado, e um córtex espes-
as de 4-8 semanas para formar colônias visíveis con- so, composto de muitos lóbulos, dando a forma
tra 3-4 dias para rizóbios de crescimento rápido. En- coralóide à estrutura. Nesse tipo de nódulos, há pro-
quanto a morfologia dos gêneros de rizóbio varia em dução de antocianinas e taninos. Podem apresentar
caracteres, tais como posição e número de flagelos, leg-hemoglobina (ver adiante neste capítulo), mas em
Frankia é mais altamente diferenciada. Além de apre- pequenas quantidades, quando comparado com nó-
sentar hifas, possui vesículas especializadas no proces- dulo de leguminosas. Esse pigmento não é comum a
so da fixação e esporângios, quer seja no estado livre todos os nódulos fixadores de nitrogênio atmosférico

I~ ou em associação. As vesículas apresentam


espessada por muitas camadas de lipídio. Esse espes-
samento da parede funcionaria como proteção à ni-
a parede de não-leguminosas.
nódulos em angiospermas
Outra característica
não-leguminosas
pre perenes e, nas leguminosas, duram de poucas se-
é que os
são sem-

trogenase que é formada no interior da vesícula, im- manas a perenes. Os vários gêneros de angiospermas
pedindo sua inativação pelo O2 (ver adiante neste não-Ieguminosas nodulantes são, geralmente, pionei-
capítulo). A seqüência estrutural do gene nif* (do ros em solos deficientes em nitrogênio como Alnus,
inglês nitrogen fixation) de Frankia apresenta grande Myrica, Shefherdia, Coriaria, HiPpophae, Eleagnus,
grau de homologia com DNA de Anabaena e de Ceanothus e Casuarina.
Azotobacter. Esses genes são conservados entre os or- Uma das características comuns aos sistemas sim-
ganismos fixadores. É possível que haja uma base ge- bióticos fixadores de nitrogênio envolvendo as angi-
nética comum envolvendo o processo da fixação do ospermas pertencentes ou não à família Leguminosae
nitrogênio, face às semelhanças na regulação e carac- é que o microssimbionte permanece confinado em
terísticas desse processo entre esses organismos. células funcionais do hospedeiro, formando um teci-
Rizóbio é uma bactéria Gram-negativa, não- do denominado tecido infectado.
esporulante, aeróbica, em forma de bastonete quan- O rizóbio é o microssimbionte sempre associado ao
do livre em cultura ou no solo, medindo 0,5-0,9 /Lm nódulo de leguminosa. O desenvolvimento de nódu-
por 1,2-3,0 /Lm, contendo freqüentemente grânulos los em Parasponia (Ulmaceae) resultante da associa-
de ácido l3-hidroxibutírico. Embora o rizóbio esteja ção que ocorre naturalmente com espécies de
Rhizobium ou de Bradyrhizobium constitui exceção. No
entanto, estirpes de rizóbio isoladas de várias legumi-
*Genes nif são seqüências genéticas envolvidas especificamente nosas, e mesmo de Parasponia, provocaram, em con-
no processo da fixação do nitrogênio atmosférico . dições de laboratório, o desenvolvimento de estrutu-


80 Fixação do Nitrogênio

ras semelhantes aos nódulos radiculares em várias ro para obter suprimento de energia. Essa distinção,
espécies de Brassica (couve) e Arabidopsis thaliana no entanto, nem sempre é clara. No caso da simbio~
(Crucifereae), alguns atingindo 5 a 10 mm (Trinick se rizóbio-leguminosa, o hospedeiro fornece à bacté~
& Hadobas, 1995), Oryza sativa e outras espécies da ria fotoassimilados, principalmente sacarose, receben~
família Gramineae (Bruijn et alo, 1995). O rizóbio, do amônia em troca, que é posteriormente converti-
porém, não foi detectado internamente. Esses resul~ da em amidas e ureídos, ainda nos nódulos (ver adi-
tados indicam que a presença do rizóbio na rizosfera ante neste capítulo).
pode induzir o processo de formação do nódulo sem As leguminosas já eram utilizadas pelo homem
que tenha ocorrido a infecção da raiz pela bactéria, como alimento e para o enriquecimento do solo, an-
mas sendo suficiente para desencadear divisões celu~ tes mesmo de se conhecer a habilidade que membros
lares no córtex radicular. dessa família tinham em se associar com o rizóbio e
O processo da fixação de nitrogênio é similar en~ desenvolver nódulos fixadores de nitrogênio atmos~
tre os diferentes microrganismos que realizam esse férico. A demonstração definitiva dessa habilidade foi
processo e envolve uma fonte variável de elétrons, em feita por Hellriegel e Wilfarth, em 1886, que revela~
função do metabolismo do microrganismo ou do hos~ ram a função das estruturas nodulares localizadas nas
pedeiro, e a enzima nitrogenase. Detalharemos o sis~ raízes de ervilha. A fixação biológica do nitrogênio é
tema simbiótico rizóbio-leguminosa, o mais estuda~ considerada como o principal processo de adição de
do, para exemplificar os processos de desenvolvimen~ nitrogênio exógeno aos diferentes ecossistemas, sen-
to do nódulo e da fixação. do de fundamental importância no balanço desse ele-
As primeiras classificações do rizóbio levavam em mento nos diferentes ambientes, especialmente na~
consideração características morfológicas e sorológi~ queles de caráter agrícola. No entanto, em ecossiste~
cas associadas a afinidades com o hospedeiro. O de~ mas naturais equilibrados, onde ocorre o processo da
senvolvimento de técnicas em biologia molecular, decomposição da matéria orgânica com fluxo de nu~
associadas a um conjunto de informações obtidas em trientes em intensidade suficiente para sua manuten-
várias áreas do conhecimento, tem possibilitado no~ ção, há menor necessidade de nitrogênio exógeno.
vas propostas de classificação para o grupo. Conside~ Sob essas condições, as leguminosas normalmente
ram~se definidos os gêneros Rhizobium, Bradyrhizo~ não apresentam nódulos ou, quando estes estão pre~
bium, Mesorhizobium e Sinorhizobium, encontrados em sentes, são pouco eficientes ou ineficientesj como
nódulos radiculares, e Azorhizobium, encontrado em conseqüência, a taxa de nitrogênio fixado pode ser
nódulos caulinares em Sesbania rostrata. A maioria das reduzida ou nula. Além disso, a fixação do nitrogê-
informações genéticas ligadas ao processo simbiótico nio depende do genótipo do hospedeiro e da estirpe
nas espécies de Rhizobium e Sinorhizobium localiza~se de rizóbio, bem como da interação de ambos com as
nos plasmídeos (elementos extracromossômicos de~ condições físico-químicas do ambiente.
nominados pSym)j nas espécies de Bradyrhizobium, Do ponto de vista econômico, os sistemas simbió~
Mesorhizobium, essas informações encontram~se nos ticos, especialmente aqueles resultantes de nódulos
cromossomos. Uma classificação cada vez mais pre~ radiculares, dão maior contribuição na economia de
cisa possibilitará diferenciar as estirpes com alta efi~ nitrogênio em comunidades naturais e para a fertili-
ciência na fixação de nitrogênio daquelas ineficien~ dade dos solos do que os sistemas assimbióticos, po-
tes ou não~recomendáveis do ponto de vista agro~ dendo, os primeiros, fixar até 100 vezes mais nitro~
nômico. gênio do que estes últimos.
Alguns microrganismos de vida livre dependem Leguminosae (Fabaceae) constitui a terceira mai-
indiretamente das plantas, enquanto outros são in~ or família das Angiospermae com três subfamílias
dependentes, como é o caso das cianofíceas e bacté~ distintas: Caesalpinioideae, Mimosoideae e Papilio~
rias fotossintetizantes. No sistema simbiótico, o noideae. A capacidade de associação com rizóbio é
microssimbionte depende diretamente do hospedei~ comum entre as espécies desta última e menos comum
Fixação do Nitrogênio 81

entre as Caesalpinioideae. Uma espécie de legumi~ volvimento pleno do nódulo e pertencem a duas ca~
nos a pode nodular com uma ou mais espécies de tegorias: genes estruturais e genes reguladores, que
rizóbio, assim como uma estirpe de rizóbio pode in~ controlam a expressão dos primeiros. Os primeiros se
fectar vários hospedeiros desenvolvendo nódulos efi~ expressam em nível baixo quando na ausência do
cientes. Essa habilidade para a nodulação entre as hospedeiro. O número de genes conhecidos cresce dia
espécies de plantas varia muito e nem sempre tem a dia, e a terminologia para designá~los está em cons~
correlação com o fato de a leguminosa ser nativa ou tante mudança, mas são conhecidos como genes nod,
não, havendo, inclusive, aquelas que requerem a pre~ e sua principal função é assegurar a troca de sinais
sença de rizóbio específico para que ocorra a associa~ entre a bactéria e o hospedeiro (Pueppke, 1996). Es~
ção. Assim, muitas espécies introduzidas no Brasil ses sinais moleculares por parte da bactéria, cuja sín~
podem apresentar nodulação abundante com rizóbios tese é determinada pelos genes nod são lipo~oligossa~
existentes em nossos solos como Leucaena leucocephala carídeos conhecidos como fatores nod. Os genes nod,
(leucena), enquanto espécies nativas podem não pro~ só se expressam quando se estabelece a simbiose, ex~
duzir nódulos. Algumas espécies apresentam nódulos ceção ao nodD, cuja expressão está associada à secre~
até a fase adulta, enquanto outras somente no está~ ção de flavonóides pelo sistema radicular do hospe~
gio inicial de desenvolvimento. Além disso, fatores deiro. Esse gene é comum a todos os rizóbios e, pro~
como intensidade luminosa, temperatura, aeração, vavelmente, é o primeiro passo na interação gênica
umidade, nutrientes minerais e pH podem afetar a entre o simbionte e o hospedeiro. Seu produto pro~
nodulação. Microrganismos presentes no solo, como téico NodO, juntamente com uma parte conservada
fungos, bactérias e actinomicetos antagônicos ao do DNA, conhecida como "nod box", reage com com~
rizóbio, podem dificultar a sobrevivência da popula~ postos exsudados da planta como os flavonóides, que
ção rizobiana no solo, interferindo na sua dimensão. induzem os genes nodABC na bactéria, responsáveis
Uma das formas com que o antagonismo dos micror~ pelos fatores reguladores específicos da bactéria (pro~
ganismos se manifesta é através da produção de anti~ teínas NodD). Essas proteínas serviriam como ativa~
bióticos. dores transcricionais para outros genes. Entretanto,
os flavonóides que induzem os genes associados ao
nodO são produzidos por várias espécies de plantas,
Formação do nódulo incluindo não~angiospermas. Por outro lado, todas as
Nas leguminosas, a fixação de nitrogênio ocorre etapas da nodulação envolvem a expressão de genes
após a infecção da raiz pela bactéria e o desenvolvi~ específicos do hospedeiro denominados genes
mento do nódulo. Algumas espécies apresentam nó~ nodulina, cujos produtos são as nodulinas. Esses ge~
dulos caulinares como Aeschynomene indica e Sesbania nes são também divididos em dois grupos: genes~
rostrata, produzindo~os em grande quantidade, espe~ nodulinas iniciais, ligados ao processo de infecção e
cialmente quando se desenvolvem em áreas alagadas. desenvolvimento do nódulo, e genes~nodulina tar~
Os metabolismos do simbionte e do hospedeiro são dios, associados ao seu funcionamento, como, por

I complementares,
duzir substâncias
e cada um estimula o outro a pro~
específicas. Ambos possuem genes
envolvidos no processo de formação e funcionamen~
exemplo, no transporte de oxigênio e assimilação do
nitrogênio (Bruijn et al., 1994). Exemplos de expres~
são dos genes~nodulina são o pigmento transportador
to do nódulo, e isso possibilita um grande campo de de oxigênio (leg~hemoglobina), enzimas (como
pesquisa em várias áreas do conhecimento, especial~ uricase) e componentes da membrana peribacteróide ou
mente na biologia molecular. O rizóbio possui um membrana~envelope.
grande número de genes que controlam vários aspec~ Embora haja várias etapas envolvidas na forma~
tos da nodulação como especificidade do hospedei~ ção e desenvolvimento do nódulo radicular em le~
ro, infecção e nodulação. Esses genes são ativados ou guminosas, pode~se, de forma simplificada, agrupá~
reprimidos desde o início da associação até o desen~ Ias em:


82 Fixação do Nitrogênio

MULTIPLICAÇÃO DO RIZÓBIO NA seriam capazes de reagir com esses carboidratos quan~


RIZOSFERA E SUA ADESÃO ÀS do o rizóbio é compatível. Os fatores Nod podem tam~
RAÍZES bém desencadear respostas em tecidos de plantas per-
O rizóbio nativo ou introduzido no solo por meio tencentes a outras famílias de angiospermas, como já
citado.
de inoculação necessita multiplicar~se próximo à su~
perfície da raiz antes de ocorrer sua adesão à raiz e O sucesso da infecção radicular depende da com-
penetração nesta. Substâncias produzidas pelas raízes petição entre estirpes (incluindo as nativas e as in~
podem agir estimulando essa multiplicação. No en~ troduzidas) e entre o rizóbio e outros microrganismos.
tanto, mesmo se houver número suficiente de célu~ Em algumas espécies, substâncias liberadas pela raiz
Ias rizobianas próximas à superfície da raiz, elas pre~ principal que estimulam o crescimento de microrga~
cisam colonizar essa superfície. Por outro lado, a pre~ nismos do solo podem, ao contrário, inibir o de de-
sença da bactéria na rizosfera da leguminosa pode terminado tipo de rizóbio. No entanto, com o apare~
induzir a formação da estrutura nodular sem entrada cimento das raízes laterais, pode ocorrer a exsudação
do microrganismo, sugerindo que este produz um si~ de outros compostos que agiriam estimulando o cres~
nal que desencadeia a multiplicação das células cor~ cimento desse rizóbio. Esse comportamento diferen~
ticais. Há, portanto, troca recíproca de sinais entre cial entre as raízes pode ser uma das razões de, em
os dois componentes do sistema simbiótico. Vários algumas espécies, os nódulos serem formados na raiz
tipos de compostos estão envolvidos nessas etapas de principal e, em outras, nas raízes laterais.
reconhecimento e aderência, uma vez que, para a Com a adesão da bactéria ao pêlo radicular, genes
nodulação ocorrer, a planta precisa ser susceptível e nod são ativados e induzem a produção de compostos
compatível com o tipo de rizóbio, que, por sua vez, que provocam o encurvamento da extremidade api~
deve ser capaz de multiplicar e estar presente na raiz. cal do pêlo radicular (em espécies com esse padrão
Essas reações são fundamentais na determinação da de infecção) e também a expressão de vários genes
especificidade hospedeira. Dessa forma, após o rizóbio que vão agir na epiderme do hospedeiro. A região
ter se multiplicado, aumentando sua população o onde esses processos ocorrem corresponde a uma pe-
suficiente, ocorre sua adesão à superfície da raiz. O quena área da raiz englobando um pêlo radicular
microrganismo sintetiza polímeros extracelulares, (Mylona et aL, 1995). A seguir, enzimas produzidas
aumentando o nível de interação de tal forma que a pelas bactérias degradam parte da parede celular, que
aderência toma~se irreversível. Embora ocorra um sofre uma invaginação, iniciando a produção de uma
estrutura semelhante a um tubo chamada corrente de
grande número de compostos produzidos pelo hospe~
deiro envolvidos no processo de reconhecimento, infecção ou tubo de infecção.
incluindo as lectinas (glicoproteínas de origem vege~
tal), é comum a produção de flavonóides e outros PENETRAÇÃO DO RIZÓBIO NA RAIZ
compostos cuja função é a indução dos genes nod, já E FORMAÇÃO DA CORRENTE DE
mencionados anteriormente. Esses genes induzem a INFECÇÃO
produção de fatores Nod como oligopolissacarídeos Foram descobertas, até o momento, três formas
que se difundem para a raiz, desencadeando o processo básicas de penetração ou infecção da bactéria nas
de formação do nódulo. Essa seqüência de reações é raízes de leguminosas: na primeira, o processo se dá
rápida, podendo ser observada 1 hora após o início através de pêlo radicular com a formação de uma es-
do processo. Em alfafa, 15 segundos após a adição de trutura tubular (corrente de infecção), no interior da
fator Nod, o pH das células do ápice radicular aumen~ qual as bactérias são conduzidas até as células que
ta em 0,2~0,3, e a despolarização da membrana ocor~ formarão o tecido infectado do nódulo, como ocor~
re após 60 segundos (Sprent, 2001). A superfície da re, por exemplo, em Glycine max (soja); na segunda
bactéria, composta por polissacarídeos, tem papel (via epiderme intacta), as bactérias penetram entre
fundamental nessa etapa do processo. As proteínas as células epidérmicas, como observado em Mimosa


Fixação do Nitrogênio 83

scabrella (bracatinga); e, na terceira, a penetração se Como se pode observar, nas três formas básicas de
dá por rupturas da epiderme e do córtex provocadas infecção, as bactérias atingem algumas células do
pela emergência das raízes laterais ou ferimentos, córtex radicular que darão origem ao tecido infecta-
como ocorrem em Arachis hypogaea (amendoim), do (ver adiante neste capítulo).
Dalbergia nigra (jacarandá~da~baía) e espécies de A invaginação da parede do pêlo radicular ori-
Stylosanthes (estilosantes). A Fig. 3.2 representa as gina a corrente de infecção que contém, em seu in~
diferentes formas de penetração na raiz pelo rizóbio. terior, uma ou mais fileiras de bactérias e que cres~
Normalmente, quando a infecção se dá através da ce entre as células corticais e através destas. A cor~
emergência das raízes laterais, não há formação de rente de infecção consiste, portanto, em uma nova
pêlos absorventes. A forma de infecção poderá vir a parede celular, sintetizada pelo hospedeiro, conten-
ser utilizada para caracterizar grupos de leguminosas, do as células bacterianas, que ficam embebidas em
auxiliando na definição de suas categorias taxonômi~ uma matriz sintetizada pelos microrganismos, mas
cas, uma vez que é determinada pelo hospedeiro. que contém também glicoproteínas produzidas pela
leguminosa. A parede da corrente de infecção é si-
milar às das demais células do córtex radicular, mas
com algumas diferenças, uma vez que enzimas hi~
drolíticas degradam estas últimas, mas não a pri~
meira (Higashi et aI., 1987). A estrutura toda é
envolvida pela membrana plasmática da célula
epidérmica. Em algumas espécies, notadamente em

I
i!
Papilionoideae avançadas, as bactérias são libera~
das da corrente de infecção quando esta atinge uma
célula recém~dividida, enquanto, em outras, as
bactérias são retidas em correntes permanentes de
b
infecção, denominadas correntes fixadoras (Sprent,
2001), como em Andira spp., à semelhança do que
ocorre no gênero Parasponia (Ulmaceae). Nesse
caso, as células ficam cheias de correntes fixadoras.
O nódulo de Parasponia ou de espécies de legumi~
nosas que apresentam correntes fixadoras apresenta
dois tipos de correntes: a corrente de infecção, res-
ponsável pela infecção de novas células, e a cor~
rente fixadora, que contém as bactérias na forma
de bacteróides, responsáveis pelo processo da fixa~
ção do nitrogênio (ver adiante neste capítulo). A
c
retenção do rizóbio na corrente fixadora é uma
característica genotípica do hospedeiro, uma vez
que uma mesma estirpe de rizóbio pode ser libera~
da da corrente de infecção em uma espécie e ser
retida na corrente fixadora em outra. A retenção
do rizóbio nas correntes fixadoras é considerada um
caráter primitivo. Um dado interessante é que as
correntes fixadoras foram observadas somente em
Fig. 3.2 Tipos de infecção radicular: a- via pêlo radicular; nódulos de crescimento indeterminado (apresen~
b- via emergência de raízes laterais; c- via epiderme intacta. tam meristema na extremidade distal, cuja ativi~
84 Fixação do Nitrogênio

dade permite contínuo crescimento) de espécies de


hábito arbustivo ou arbóreo coletadas no Brasil,
sugerindo uma distribuição geográfica (Naisbitt et
aL, 1992). Nas leguminosas mais evoluídas, as bac~
térias são liberadas da corrente de infecção antes
do início do processo de fixação.
Em algumas leguminosas, como Arachis hypogaea
(amendoim), Dalbergia nigra (jacarandá~da~baía) e
várias espécies de Stylosanthes (estilosantes), a infec~
ção ocorre pela ruptura do córtex durante a emergên~
cia de raízes laterais, com as células corticais sendo
invadidas diretamente, não havendo formação de
corrente de infecção. Nesse caso, as bactérias conti~
das em uma massa indefinida infectam algumas célu~
Ias que formarão um tecido infectado uniforme, com~
posto de células infectadas e poucas células intersti~
ciais ou não~infectadas.

LIBERAÇÃO DO RIZÓBIO E
DESENVOLVIMENTO DOS NÓDULOS
Há várias formas de as células originadas do parên~
quima cortical tornarem~se infectadas. Em alguns
nódulos, a corrente de infecção continua se ramifi~
Fig. 3.3 Sistema radicular de Lonchocarpus muelhbergianus
cando entre as células corticais e através destas, e as
(embira-de-sapo) desenvolvida em casa de vegetação, com
bactérias no seu interior vão se multiplicando e sen~ nódulos de crescimento indeterminado (seta maior). For-
do liberadas em algumas células recém~divididas, mação de dois lóbulos na extremidade distal (seta menor),
enquanto um meristema apical permanece ativo resultante da atividade do me riste ma apical. (Cordeiro et
mesmo no nódulo desenvolvido. Nesse caso, algumas al., 1996.)
células (chamadas intersticiais) não são infectadas, e
o nódulo resultante é denominado indeterminado
(Figs. 3.3 e 3.4A), como ocorre em Lonchocarpus Quando as ramificações da corrente de infecção
muehlbergianus (embira~de~sapo), Mimosa bimucronata atingem as células recém~formadas, ocorre lise das
(espinho~de~maricá) e Anadenanthera falcata (angico~ paredes nas suas extremidades, com a conseqüente
de~cerrado). Em outros, a corrente de infecção libera liberação das células bacterianas no interior dessas
as bactérias em células corticais jovens, e estas se divi~ novas células. A ruptura da parede da corrente de
demo Nesse caso, a formação do tecido infectado se faz infecção é devida à atividade da celulase induzida pelo
pela divisão dessas células já infectadas, não existindo rizóbio. Em alguns casos, as bactérias multiplicam~se
uma região meristemática típica no nódulo desenvol~ uma ou duas vezes antes de sua liberação. No local
vido, e o nódulo resultante é denominado determinado da desintegração das extremidades da corrente de
(Fig. 3.4B), como ocorre em Glycine max (soja). infecção, formam~se vesículas ou bolsas derivadas da
A infecção das células pode ocorrer também com membrana citoplasmática que reveste externamente
a entrada do rizóbio, sem a formação de corrente de aquela estrutura. O complexo de Golgi e o retículo
infecção, conforme já citado, como ocorre em endoplasmático contribuem com formação adicional
Stylosanthes spp. (estilosante) e Dalbergia nigra de material para formação dessas vesículas. O rizóbio
(jacarandá~da~baía). é então liberado em seu interior, sendo embebido por
Fixação do Nitrogênio 85

Fig. 3.4 Aspecto geral do nódulo indeterminado de Lonchocarpus /eucanthus (A) e determinado de Dalbergia nigra (B),
ambos seccionados longitudinalmente. c- córtex, ti- tecido infectado, m- meristema apical, fv- feixe vascular; ci- células
intersticiais; cf- células infectadas.

uma matriz. Após serem liberadas da corrente de in- associadas à assimilação da amônia produzida na fi-
fecção e pararem de se dividir, as bactérias sofrem xação, a leg-hemoglobina, pigmento de coloração aver-
transformações morfológicas e fisiológicas, passando melhada, cuja função é facilitar o transporte do oxi-
a ser denominadas bacteróides (Fig. 3.5), responsáveis gênio, indispensável à produção de A TP, necessário
pelo processo da fixação. Os bacteróides são envol- para a fixação e nitrogenase.
vidos pela membrana peribacteróide ou membrana- As divisões celulares que ocorrem na área infecta-
envelope, constituindoosimbiossomo (Fig. 3.6). Uma da do córtex levam ao desenvolvimento do nódulo,
célula infectada plenamente desenvolvida contém em geralmente composto de células poliplóides. Em al-
seu interior milhares de simbiossomos. Nos bacterói- guns nódulos, conforme já mencionado, o tecido in-
des ocorre a indução dos genes nif e fix (Sprent, 2001 ) fectado do nódulo é formado quase exclusivamente
responsáveis pela síntese do complexo enzimático por células infectadas, enquanto, em outros, há célu-
denominado nitrogenase, enzima que catalisa as rea- las não-infectadas ou intersticiais permeando as cé-
ções de redução Nz a NH3' lulas infectadas (Fig. 3.4).
À medida que os simbiossomos vão sendo forma- À medida que o tecido infectado vai sendo forma-
dos, tem início a produção de outras proteínas asso- do, algumas células do córtex radicular entram em
ciadas ao processo de fixação, codificadas pelos genes divisão, originando o tecido cortical do nódulo. O
nodulinas tardias. Estas incluem as enzimas adicionais sistema vascular da raiz se ramifica penetrando no


86 Fixação do Nitrogênio

B
B
Fig. 3.6 Células infectadas de Tipuana tiPu (A) e de
Fig. 3.5 Eletromicrografias mostrando em A: bacteróide Lonchocarpus leucanthus (B). p- parede celular; b- bactéria;
em célula infectada de nódulo de Lonchocarpus muelhber- bc- bacteróidej me- membrana-envelope; g- grânulo de ácido
gianus; B: corrente fixadora em célula infectada de nódulo [3-hidroxibutírico; ci- corrente de infecção; s- simbiossomo.
de T achigalia alba contendo bacteróide em seu interior. B-
bacteróide; cf- corrente fixadora. (Figura B gentilmente
cedida por Sérgio Miana de Faria.)
Os nódulos determinados, encontrados nas legu-
minosas, e indeterminados, encontrados nas legumi-
córtex do nódulo. O nódulo apresenta, portanto, um nosas e demais angiospermas, quando plenamente
tecido infectado, envolto pelo córtex, que contém desenvolvidos, apresentam a organização dos tecidos
feixes vasculares, fibras, numerosas inclusões, bem esquematizada na Fig. 3.8. Como pode ser observa-
como um meristema do córtex ou felogênio, respon- do, o tecido infectado ocupa posição central nas le-
sável pela produção de novas células que compõem guminosas e posição periférica nas demais angiosper-
as camadas mais externas do córtex nodular. O nó- mas, ocorrendo o inverso para o sistema vascular. Este
dulo das demais angiospermas, ao contrário daquele é fechado na extremidade distal, no nódulo determi-
das leguminosas, apresenta a região central ocupada nado, e aberto, no nódulo indeterminado, o qual apre-
pelo sistema vascular, que é envolvido pelo tecido senta um meristema apical, responsável pelo seu con-
infectado. tínuo crescimento.
Fixação do Nitrogênio 87

ma

I sv

r r
~~~t;;~~~~i~-':;'''~'~i?~#<t{~~~~~~yA r
A B c
Fig. 3.7 Esquema da estrutura de nódulos de leguminosas determinado (A) e indeterminado (B), resultantes da associ-
ação com rizóbio, e indeterminado de angiosperma não-Ieguminosa (C), resultante da associação com actinomiceto.
r- raizj c- córtexj sv- sistema vascularj tc- tecido infectado; ma- meristema apical. O tecido infectado dos nódulos inde-
terminados apresenta uma zonação que indica diferentes estágios de desenvolvimento das células infectadas: células re-
cém-infectadas logo abaixo do meristema apical se desenvolvem, ficando plenamente aptas a fixar o nitrogênio (região
intermediária). Quando velhas, constituem a parte basal do tecido tomando-se não-funcionais (região basal). Essazonação
não é observada no nódulo determinado.

Considerando a associação simbiótica legumino- vel por apresentar seu interior com coloração bran-
sa-rizóbio, nos estágios iniciais do desenvolvimento co-amarelada, característica da ausência da leg-hemo-
do nódulo, a bactéria é beneficiada pela planta; no globina. Nos nódulos funcionais, o pigmento pode
estágio maduro, ambos se beneficiam: nitrogênio fi- oxidar-se, determinando o fim do processo.
xado é fornecido para a planta e o carboidrato é for- A mudança de coloração de vermelho para marrom-
necido para a bactéria. Após essa fase, fatores ambi- esverdeado, resultante da oxidação da leg-hemoglobi-
entais ou o próprio hospedeiro podem provocar a se- na, é o primeiro sinal visível a olho nu da senescência
nescência dos nódulos. nodular, que ocorre a partir da região central em nódu-
Todos os nódulos de leguminosas em atividade los de crescimento determinado e a partir da base nos
fixadora apresentam uma nodulina semelhante à e com de crescimento indeterminado. Nesse caso, a base pode
a mesma função da hemoglobina chamada leg-hemo- deixar de fixar nitrogênio e o ápice continuar produzin-
globina, já mencionada, detectada nas células infecta- do novas células que vão sendo infectadas, toman-
das mesmo antes do início da atividade da nitrogenase, do-se ativas. Essa graduação de coloração é visível no
já mencionada. A leg-hemoglobina é composta por um tecido infectado de um nódulo indeterminado de le-
grupo heme (como a hemoglobina presente no sangue guminosa (Figs. 3.7B e 3.8) e de uma angiosperma
dos mamíferos) ligado ao grupo protéico corresponden- não-leguminosa (Fig. 3.7C), ambos de crescimento
te à globina e é encontrada no citossol intimamente indeterminado. A zonação distinta do tecido infec-
associada aos simbiossomos. Portanto, o nódulo funci- tado dos nódulos indeterminados não ocorre nos
onal apresenta o tecido bacteriano com coloração rosa- nódulos de crescimento determinado (Fig. 3.7 A).
da ou avermelhada contrastando com a ausência dessa O processo de senescência pode também ser desen-
coloração dos tecidos restantes, visíveis a olho nu (Fig. cadeado quando a planta é submetida a condições
3.8). O nódulo não-funcional é facilmente reconhecí- adversas. No entanto, há informações de que nódu-
88 Fixaçãodo Nitrogênio

Fig. 3.8 Raízes noduladas de Mimosa bimucronata (A) e Lonchocarpus muehlbergianus (B) com 120 dias de idade. Figuras
superiores: distribuição dos nódulos no sistema radicularj figuras medianas: nódulos em diferentes estádios de desenvol-
vimentoj figuras inferiores: nódulos seccionados longitudinalmente mostrando a coloração interna devido à presença de
leg-hemoglobina. Os nódulos de M. bimucronata são vermelhos internamente e mostram a zonação característica do tecido
infectado de nódulo indeterminado. Essa coloração não é tão evidente nos nódulos de L. muehlbergianus. Escala: 2 em.
(Figuras gentilmente cedidas por Camila Maistro Patreze.)

los sempre verdes podem ser funcionais. Portanto, a Assim, se houver paralisação da fixação do nitrogê-
simples presença de nódulos não significa que o ni- nio, ocorrerá a degradação do bacteróide.
trogênio esteja sendo fixado e/ou suprindo toda a de- A leg-hemoglobina é importante para o funciona-
- manda do hospedeiro. mento do sistema, uma vez que é responsável pelo
Não se sabe ainda por que nódulos aparentemen- transporte e manutenção do nível de O2 a taxas que
te em ótimo estado de funcionamento tomam-se se- permitam, a um só tempo, contemporizar o processo
nescenteSj há, todavia, indícios de que a integridade respiratório do bacteróide e o funcionamento da ni-
da membrana-envelope pode estar envolvida. Há evi- trogenase, enzima esta bastante sensível ao O2 e res-
dências de que o simbiossomo possa considerar os ponsável pelo processo da fixação do nitrogênio at-
bacteróides como patogênicos e agir como um com- mosférico. Em soja e ervilha, a síntese da nitrogena-
partimento lítico, desencadeando a degradação dos se ocorre, normalmente, logo após a liberação da
bacteróides quando o nódulo senesce (Sprent, 2001). bactéria da corrente de infecção.
Fixação do Nitrogênio 89

A nitrogenase pode ser oxidada pelo 0z, toman- para a fixação de nitrogênio seria aquela na qual a
do-se inativa. Essa inativação ocorre pela desnatura- bactéria se desenvolveu. No caso de Frankia, a prote-
ção dos polipeptídios. Os diferentes sistemas e orga- ção se faz pelo espessamento da parede das vesículas,
nismos fixadores de nitrogênio apresentam mecanis- explicado no início deste capítulo.
mos estruturais ou fisiológicos para manter baixa ten- Considerando o processo todo desde a infecção até
são de oxigênio ao redor da nitrogenase a fim de evi- o funcionamento do nódulo, a associação pode ser
tar sua inativação. Considerando os nódulos de legu- caracterizada como efetiva ou inefetiva e eficiente ou
minosas, a leg-hemoglobina controla, em parte, a ineficiente. No primeiro caso, refere-se à capacidade
disponibilidade do Oz junto ao bacteróide. No entan- de infecção e desenvolvimento da estrutura nodular.
to, algumas características estruturais do nódulo, No segundo, considera-se o processo do ponto de vista
especialmente ligadas ao córtex, como endoderme, fisiológico, incluindo a presença do pigmento leg-
fibras, esclereídes e inclusões de glicoproteínas nos hemoglobina e da enzima nitrogenase. Muitas vezes,
espaços intercelulares, atuam como uma barreira à uma bactéria pode ser efetiva e/ou eficiente em uma
difusão de gás, regulando o suprimento de oxigênio planta e inefetiva e/ou ineficiente em outra, varian-
para o tecido infectado, desempenhando um papel do quanto ao grau de eficiência. Em associações ine-
importante na proteção da nitrogenase. Dessa forma, ficientes, os nódulos são iniciados, mas não há fixa-
a presença da hemoglobina nas células do tecido in- ção. Eles são pequenos, e as plantas geralmente man-
fectado e a resistência à difusão do oxigênio, locali- têm-se pequenas e cloróticas. Nesse caso, pode-se
zada principalmente no córtex nodular, compõem um considerar a nodulação, do ponto de vista funcional,
excelente mecanismo de proteção à nitrogenase. como um caso de parasitismo.
Já entre os organismos fixadores de vida livre, as Em todas as leguminosas, independentemente do
cianobactérias, que possuem heterocisto, apresentam tipo de nódulo, a fixação de nitrogênio não começa
a parede celular modificada, restringindo a difusão do até que a planta possa dispor de parte dos produtos
oxigênio. Como o processo da fixação do nitrogênio da fotossíntese que deverão ser canalizados para essa
ocorre naquela estrutura, há uma separação espacial atividade, ou, então, que haja um excesso de carbo-
entre a nitrogenase e demais processos que envolvem no (C) em relação ao nitrogênio (N) da planta. O
a utilização do oxigênio. Nas cianobactérias que não mecanismo de regulação da atividade de fixação
apresentam heterocisto, como Gloeocapsa, ocorreria simbiótica seria a relação C/N interna.
uma separação temporal entre o processo da fixação,
uma vez que a atividade da nitrogenase é maior du-
rante o período de divisão celular, quando a produ-
Bioquímica e fisiologia da fiXação do
ção de oxigênio oriundo da fotossíntese é mínima. nitrogênio
Entre as bactérias, a maioria dos gêneros é ativa sob A grande estabilidade da molécula de nitrogênio
condições anaeróbicas ou de baixa concentração de resultante de sua estrutura molecular faz dela um gás
oxigênio (microaerofilia). Os membros da família não-reativo a temperaturas ambientes. Assim, con-
Azotobacteriaceae constituem exceção a essas con- siderável quantidade de energia é requerida para
dições, uma vez que apresentam um sistema de mem- quebrar a tripla ligação dessa molécula com a pro-
brana contínuo à membrana celular, formam nichos dução de amônia (NH3), em uma reação exotérmica
distintos e a nitrogenase estaria localizada em um (G = -33,39 KJ mol-l), isto é:
deles e protegida da inativação pelo oxigênio. Outro
mecanismo apresentado em especial pelo Azotobacter
Nz + 6e- + 3Hz ~ 2NH3

seria um processo denominado proteção respiratória. No processo da fixação, a tripla ligação que existe
Nesse caso, a célula bacteriana pode adaptar seu entre os átomos de nitrogênio é rompida, e cada um
metabolismo a diferentes tensões de oxigênio de tal se liga a três átomos de hidrogênio, utilizando ener-
forma que a pressão parcial de oxigênio (pOz) ótima gia despendida pelo A TP, que, nos sistemas simbió-


90 Fixaçãodo Nitrogênio

ticos, é formado da queima dos produtos da fotossín- Reações catalisadas pela


tese (ver Capo 7, Respiração). Nos sistemas conheci- nitrogenase
dos, a fixação biológica do nitrogênio dá-se segundo
Substrato/N orne Produto/Nome
a equação:
Nz dinitrogênio 2NH) amônia
N z + 8H+ + 8e- + 16ATP nitrogenase) 2NH 3 + Hz + N) - (azida) Nz,NH)
16 ADP + 16 Pi NzO óxido nitroso Nz,HzO
CzHz (acetileno) CZH4 (etileno)
A utilização da amônia assim formada pela planta 2H+ (íon hidrogênio) Hz
será apreciada no Capo 4, Metabolismo do Nitrogê- HCN CH4 (metano), NH)
nIO. CH)CN (metilisociamida) CZH6' CH)NHz
(metilamina), NH)
Para que ocorra o processo, é necessária a presen-
HzNCN (cianamida) C)H6 (ciclopropano),
ça imprescindível não só da enzima nitrogenase, como
NH)
também de redutores fortes, como ferredoxina e C)H6
flavodoxina, de A TP, de uma via assimilatória de
NH3 * e, em bactérias aeróbicas, de proteção do sis-
tema de fixação do nitrogênio da desnaturação pro-
vocada pelo oxigênio. O processo requer, portanto, tanto, cada 3 moles de acetileno reduzidos pela ni-
uma fonte de elétrons, prótons e de A TP. Observa- trogenase correspondem a 1 moI de Nz fixado, e essa
se que a leg-hemoglobina não é essencial para que a relação é utilizada para calcular a atividade da nitro-
fixação ocorra em alguns sistemas simbióticos. No genase na técnica de redução do acetileno.
entanto, sua presença nos nódulos de leguminosas Os carboidratos translocados das folhas para os
aumenta a eficiência da fixação do nitrogênio por nódulos, na forma de sacarose, compõem a fonte de
suprir o simbionte com o Oz necessário à sua respira- prótons e elétrons. A utilização da sacarose pelo nó-
ção e, ao mesmo tempo, evitar a inativação da dulo começa com sua hidrólise pela ação da invertase,
nitrogenase pelo oxigênio. produzindo glicose e frutose. No entanto, a sintase de
Parece haver obrigatoriedade na relação de um Hz sacarose, também envolvida na hidrólise da sacarose,
formado para cada Nz reduzido. A nitrogenase cata- foi detectada em nível elevado em nódulos de legu-
lisa não só a redução do nitrogênio, mas também a minosas e de angiospermas não-leguminosas (nódu-
de vários outros compostos (Tabela 3.1), incluindo a los actinorrízicos). A oxidação da sacarose leva à re-
redução do acetileno a etileno. Esta última reação é dução do NAD+ a NADH+ ou NADP+ a NADPH+.
a base da técnica para estimar a taxa de fixação do Em alguns organismos fixadores, a oxidação do
nitrogênio pela medida da redução do acetileno por piruvato durante a respiração causa a redução da
cromatografia gasosa. Considerando as reações de flavodoxina. Assim, o NADH+, NADPH+ ou a
redução do nitrogênio molecular a amônia e do ace- flavodoxina podem reduzir a ferredoxina, que, por sua
tileno a etileno, ou seja, vez, transfere os elétrons para a nitrogenase,
catalisando a fixação do nitrogênio. A nitrogenase
Nz + 6H+ + 6e- -7 2NH3
presente nos organismos fixadores é composta de duas
CzHz + 2H+ + 2e- -7 2CzH4
proteínas, individualmente conhecidas como
verifica-se que são necessários 2 elétrons para a redu- molibdeno-ferro proteína, dinitrogenase ou, simples-
ção do acetileno e 6 para reduzir o Nz a 2NH3• Por- mente, nitrogenase (aproximadamente 240 K-Da) e
ferro-proteína ou nitrogenase redutase (aproximada-
mente 64 K-Da). A primeira é formada de 4 subuni-
*Tão logo a amônia (NH)) é formada, ela é instantaneamente
protonada (H+), convertendo-se assim em amônio ou íon amo-
dades com 24 a 32 átomos de ferro e 1 a 2 de
niacal (NH4 +), constituindo-se na forma de fato encontrada nas molibdênio. A segunda tem 4 átomos de ferro e 2
células, ou em qualquer outro ambiente aquoso. subunidades. A Mo-Fe-proteína é codificada pelos
Fixação do Nitrogênio 91

genes nifD e nifK, enquanto a Fe-proteína o é pelo proteína, esta passa a agir como um forte redutor. Por
gene nifH. Os genes para a nitrogenase e para espe- sua vez, a Fe-proteína transfere os elétrons para Fe-
cificidade de nodulação estão localizados em plasmí- Mo-proteína com subseqüente hidrólise do MgA TP
deos de alto peso molecular em Rhizobium, ou no cro- liberando MgADP + Pi. Esta última completa a
mossomo bacteriano em espécies de Bradyrhizobium transferência dos elétrons ao Nz e para os prótons com
e Azorhizobium. O complexo enzimático todo, englo- a produção de duas moléculas de NH} e uma de Hz
bando as duas subunidades, é denominado generica- (Fig.3.9).
mente de nitrogenase. Tão logo a amônia é formada, ela é imediatamen-
Ambas as proteínas participam do processo de te protonada (H+), convertendo-se assim em amônio
óxido-redução, agindo independentemente em rea- ou íon amoniacal (NH4 +), constituindo-se na forma
ções acopladas, envolvendo oxidação de Mo+ 4 a de fato encontrada nas células, ou em qualquer outro
Mo+ 6' Tanto o ferro quanto o molibdênio são redu- ambiente aquoso. Em seguida é transportada para o
zidos quando a nitrogenase recebe elétrons da citossol da célula, onde é utilizada na produção de
ferredoxina, e são oxidados quando a enzima trans- amidas ou ureídes, quando finalmente é levada para
fere os elétrons para o Nz, formando NH}. O A TP é fora do nódulo pelo xilema (ver Capo 4, Metabolis-
essencial no processo porque, com sua ligação na Fe- mo do Nitrogênio).

fotossintatos
parede celular

,I
I
I
I (amendoim)

aspartato

~Sparagína
, glutamina
bacteróide
~
nitrogenase glutamato
~
pool
aminoácidos

f
purina
~
alantoína

~
ureídeos
(soja)

célula tec. infectado

Fig. 3.9 Representação do processo da fixação do nitrogênio que ocorre no interior de uma célula infectada. A nitro-
genase está representada pelas duas proteínas: Fe-proteína e Mo-Fe-proteína, nas formas oxidada (ox) e reduzida (red).
O esquema representa os processos que ocorrem no citossol da célula do hospedeiro (retângulo), no interior do
simbiossomo (círculo maior) e no bacteróide (círculo menor). Lb- leg-hemoglobina, Ferred- ferredoxina, TCA- ciclo
dos ácidos tricarboxílicos, PEP- fosfoenolpiruvato. (Bergensen, 1982, modificado.)


92 Fixação do Nitrogênio

Sob condições normais, ocorre também a pro- nio, a adubação nitrogenada pode favorecer o início
dução de Hza partir da redução do H+ existente no do desenvolvimento da planta, até que os nódulos
citossol da célula infectada. Esse processo redutor estejam aptos a iniciar o processo. Fertilizantes à base
acaba competindo com o próprio Nz pelo recebi- de nitrato podem provocar uma inibição da adesão
mento de elétrons oriundos da atividade da nitro- do rizóbio nos pêlos radiculares, impedir a formação
genase. Dessa forma, para a produção de Hz, gasta- da corrente de infecção, reduzir o desenvolvimento
se energia que poderia ser utilizada na fixação de dos nódulos, inibir a fixação em nódulos já desenvol-
nitrogênio, diminuindo assim a eficiência desse vidos e acelerar o processo de senescência nodular
processo. No entanto, a maioria dos rizóbios e es- (Streeter,1998).
pécies intimamente relacionadas de bactérias Como já mencionado, o produto da fixação bi-
fixadoras de vida livre contêm a enzima hidroge- ológica do nitrogênio é a amônia (NH3), mas sua
nase, que oxida o Hz a HzO antes que ele escape, presença inibe a síntese da nitrogenase. Assim, é
regenerando elétrons que poderão ser utilizados na quase certo que, uma vez produzida, a amônia seja
redução do Nz. imediatamente protonada, produzindo NH4 +, que
O estágio de crescimento também influi na fixa- é transferido para o citossol das células infectadas.
ção. Plantas como Glycine max (soja), Arachis Em seguida, o amônio é utilizado na síntese de
hypogaea (amendoim), dentre outras, todas possuido- compostos nitrogenados que serão exportados até
ras de sementes ricas em proteínas, apresentam ati- as células do periciclo do sistema vascular (locali-
vidade máxima da fixação após o florescimento, quan- zado no córtex dos nódulos). Muitas espécies apre-
do há maior demanda para produção de frutos e se- sentam células de transferência no periciclo cuja
mentes. Nessas espécies, cerca de 90% da fixação função é secretar ativamente os compostos nitro-
ocorrem nesse período, e o restante, nos 2 primeiros genados produzidos nos nódulos para o interior dos
meses de desenvolvimento vegetativo. Para legu- vasos condutores do xilema, que os transportam
minosas perenes ou espécies agrícolas com várias es- para a parte aérea da planta. Portanto, a forma e a
tações de crescimento, a fixação é maior durante o quantidade dos compostos nitrogenados exporta-
estágio reprodutivo. A quantidade de nitrogênio fi- dos dependem da espécie vegetal e da eficiência da
simbiose estabelecida.
xada nessas espécies pode ser maior do que nas anu-
ais, uma vez que os nódulos de muitas delas são pere-
nes e a fixação pode reiniciar com a chegada de nova REFERÊNCIAS
estação de crescimento.
Bergensen FJ. Root Nodules of Legumes: Structure and
A taxa de fixação geralmente é maior no início da Functions. New York, John Wiley & Sons, 1982, 164p.
tarde, quando a translocação de açúcar das folhas para Bruijn FJ, Chen R, Fujimoto SY, Pinaev A, Silver D,
os nódulos ocorre mais rapidamente. A alta taxa de SzczyglowskiK. Regulation of nodulin gene expression.
transpiração que ocorre no período da manhã associ- Plant and Soil, 1994; 161:59-68.
ada à corrente transpiratória auxilia a remoção dos Bruijn FJ, Jing Y, DazzoFB. Potential and pitfalls of trying
compostos nitrogenados das raízes e dos nódulos. to extend symbiotic interactions of nitrogen-fixing
A fixação do nitrogênio contribui com cerca de 25 organisms to presently non-nodulated plants as such as
rice. Plant and Soil, 1995; 174:225-240.
a 50% do nitrogênio total das sementes de legumi-
nosas desenvolvidas em solo fértiL O restante é ab- Higashi S, Kushiyama K, Abe M. Electron microscopic
observations of infection threads in driselase treated
sorvido do solo como N03 - ou NH4 +,principalmen-
nodules of Astragalus sinicus. Cano ]. Microbiol, 1987;
te durante o período vegetativo. A fixação do nitro- 32:947-952.
gênio não é aumentada com a adição de fertilizantes Mylona P, Pawlowski K, Bisseling T. Symbiotic nitrogen
nitrogenados, principalmente na forma de nitrato, fixation. The Plant Cell, 1995; 7:869-885.
uma vez que isso pode provocar uma redução na taxa Naisbitt T, James EK, Sprent JI. The evolutionary
de fixação. No entanto, em solos pobres em nitrogê- significance of the legume genus Chamaecrista, as
Fixação do Nitrogênio 93

determined by nodule structure. New Phytol, 1992; BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA


122:487 -492.
Neves MCP, Rumjanek NG. Ecologia das bactérias Barry AM. Recent developments in the actinorhizal
diazotróficas nos solos tropicais. In: MeIo IS, Azevedo symbiosis. Plant and Soil, 1994; 161:135-145.
JL. Ecologia Microbiana. Jaguariúna - EMBRAPA- Buchanan BB, Gruissem W, Jones RL. Biochemistry and
CNPMA, 1998, p.15-60. Molecular Biology of Plants. Rockville, American Soei-
Pueppke SG. The genetic and biochemical basis for ety of Plant Physiologists, 2000, 1367p.
nodulation of legumes by rhizobia. Crit Rev Biotechn, Cordeiro L, Sprent JI. Some aspectsof nodulation and nodule
1996; 16:1-51. anatomy of Dalbergianigra AlIem inoculated with rhizobia
Salisbury FB, Ross CW. Plant Physiology. Belmont, isolated from members of the tribe Dalbergieae and
Wadsworth, 1991, 682p. MilIettieae (Tephrosieae). Naturalia, 1996; 21:23-30.
Siqueira JO, Franco AA. Biotecnologia do Solo- Fundamen- Cordeiro L, Sprent JI. Mclnroy SG. Some developmental
tos e Perspectivas. Brasília, MEC-ESAL-FAEPE- and structural aspects of nodules of Lonchocarpus mue-
ABEAS, 1988. lhbergianus Hassl. Naturalia, 1996; 21:9-22.
Sprent JI. Nodulation in Legumes. Kew, Royal Botanic Faria SM, McInroy SG, Sprent JI. The occurrence of
Gardens, 2001, 146p. infected cells, with persistent infection threads, in le-
Streeter J. lnhibition of legume nodule formation and gume root nodules. CanJ Bot, 1987; 65:553-558.
nitrogen fixation by nitrate. Crit Rev Plant Sei, 1998; Gross E, Cordeiro L, Caetano FH. Nodule ultrastructure
7:1-23. and initial growth of Anadenanthera peregrina (L.) Speg.
T rinick MJ, Hadobas PA. Formation of nodular structures varofalcata (Benth) Altschul plants infected by rhizobia.
on the no-legumes Brassica napus, B. Campestris, B. An Bot, 2002; 90:175-183.
Juncea and Arabidopsisthaliana with Bradyrhizobium and Newcomb W. Nodule morphogenesis and differentiation.
Rhizobium isolated from Parasponia spp ar legumes Intem Rev Cytol, 1981; 13:247-291.
grown in tropical soils. Plant and Soil, 1995; 172:207- Sprent JI. The biology of nitrogen-fixing organisms.
219. Maidenhead, McGraw-Hill, Book Co, 1979, 196p.


CAPÍTULO 4

Ladaslav Sodek

INTRODUÇÃO fontes de NH4 + no solo: a fixação (não~simbiótica)


do N atmosférico e a degradação da matéria orgâni~
o nitrogênio (N) figura entre os elementos mine~
ca, resultante, principalmente, da incorporação da ve~
rais mais abundantes nas plantas e é, freqüentemen~
getação morta. Os dois processos envolvem a ação de
te, um dos principais fatores limitantes para seu cres~
microorganismos do solo, porém são processos lentos,
cimento. É encontrado em moléculas importantes,
principalmente o primeiro. A incorporação de ma~
como proteínas e os ácidos nucléicos, RNA e DNA.
téria orgânica no solo é uma prática comum na agri~
Plantas, ao contrário de animais, têm a capacidade
cultura. A chamada adubação verde é a prática pela
de assimilar o N inorgânico do ambiente e sintetizar
qual uma leguminosa é cultivada para realizar a in~
todos os 20 aminoácidos encontrados em proteínas,
corporação de grandes quantidades de N atmosféri~
bem como todos os outros compostos orgânicos ni~
co pelo processo de fixação simbiótica de N e, em vez
trogenados utilizados por elas.
de ser colhida, ela é incorporada ao solo para que a
O N inorgânico disponível no meio ambiente in~
matéria orgânica seja degradada e o N transformado
clui o N do ar e o N mineral, este último representado
em NH4 + • Como a maior parte do N presente na le~
pelo nitrato e amônia presentes no solo. O N do ar não guminosa foi tirada da atmosfera e não do solo, é gran~
é aproveitável diretamente pela planta, mas incorpo~ de o ganho em N no solo adubado dessa maneira.
rado com ajuda de microorganismos, através de pro~ Entretanto, para o crescimento de culturas melho~
cesso simbiótico (ver Capo 3, Fixação do Nitrogênio). radas para alta produtividade, é comum o agricultor
Tanto o nitrato (N03 -) quanto a amônia (presente usar a adubação mineral, com a aplicação de altas
em solução na forma do íon amônio, NH4 +) são pron~ doses de sais de NH4 + ou mesmo N03 -. O NH4 + (na
tamente utilizados pela planta, embora, na maioria forma de sulfato de amônio, por exemplo) tem a van~
dos solos, o NH4 + seja rapidamente oxidado a N03
° tagem sobre o N03 - por ser pouco lixiviado e, por~
-

por bactérias nitrificadoras. NH4 + prevalece em tanto, ter pequena perda e, conseqüentemente, não
solos ácidos ou em áreas com vegetação cujas raízes poluir o lençol freático. A capacidade de troca
exsudam inibidores do processo de nitrificação, como catiônica do solo faz com que o NH4 + tenha pouca
planícies de gramíneas e florestas de coníferas. A mobilidade no perfil do solo, ao contrário do N03 -.
nitrificação também é prejudicada em solos compac~ De qualquer forma, no solo o NH4 + é transformado
tados ou alagados, em função da baixa disponibilida~ em N03 - pelo processo de nitrificação. Tais caracte~
de de oxigênio. A Fig. 4.1 resume a inter ~relação entre rísticas tomam o N03 - a forma predominante de N
as principais fontes de N para as plantas. São duas as para muitas plantas .


Metabolismo do Nitrogênio 95

® Fig. 4.1 A inter-relação das principais fontes de


N para plantas, representadas por uma gramínea
e uma leguminosa nodulada.
1. Fixação não-simbiótica do N atmosférico
(bactérias do solo).
2. Nitrificação (bactérias do solo).
3. Absorção do N03 - pela planta (normalmen-
te a predominante).
4. Absorção de NH4 + pela planta (predomina
apenas em condições específicas).
5. Fixação simbiótica do N atmosférico (bacté-
rias presentes em nódulos).
6. Incorporação de matéria orgânica no solo.
7. Degradação de compostos nitrogenados (mi-
í - croorganismos) .

Após absorção pela planta, o N inorgânico preci-


sa ser incorporado, ou "assimilado", na forma orgâni-
ca. Após assimilação, o N é utilizado principalmente
nos chamados sítios de consumo da planta, ou seja, nos
tecidos em rápido crescimento (folhas em expansão,
meristemas, pontas de raiz) e armazenamento de re-
servas (sementes). A assimilação de N inorgânico em
forma orgânica, sua subseqüente distribuição pela
planta e a utilização nos sítios de consumo são pro-
cessos integrados. Uma visão global desses processos
é dada na Fig. 4.2.

ABSORÇÃO DO N INORGÂNICO
DO SOLO
° NH4 + é absorvido pelas raízes por processo ati-
vo, quando a concentração externa é baixa, e por
processo passivo em altas concentrações. °processo Fig. 4.2 Inter-relação dos processos de assimilação e trans-
ativo é mediado por uma proteína transportadora porte de N na planta. Observe a transferência de aminoá-
localizada na membrana. Após absorção, o íon é ra- cidos do xilema para o floema e a conseqüente reciclagem
pidamente assimilado na forma orgânica, que não de aminoácidos entre raiz e parte aérea.

deixa de ser um processo de destoxificação, tendo em


vista que o acúmulo de NH4 + pode prejudicar a plan-
ta. De fato, o cultivo com alta concentração de NH4 +
pode levar à morte da planta, porém as concentrações
° NO) -, ao contrário do NH4 +, é absorvido pelas
raízes apenas por processo ativo. A cinética de absor-
toleradas variam de espécie para espécie . ção do NO) - apresenta uma curva de saturação do


96 Metabolismo do Nitrogênio

tipo Michaelis e Menten, descrita para enzimas, já que


o processo é mediado por uma proteína transporta~
dora localizada na membrana. Essa proteína liga~se ao
NO} - do meio externo formando um complexo, da
mesma forma que uma enzima se liga ao substrato, e, plastídeo
em seguida, lança o íon para o lado interno da mem~ AA
brana, um processo análogo à formação do produto
da reação enzimática. Portanto, existe um Km para o NO; -+NH4
t +

processo de absorção do íon com o mesmo significa~


do do Km de um substrato de uma reação enzimáti~
ca, ou seja, quanto mais alto o Km, maior a concen~
tração de íons (ou substrato) necessária para saturar
o sistema.
A cinética de absorção do NO} - em cevada suge~
re a existência de três sistemas distintos, cada um com
Fig. 4.3 Destino do N03 - absorvido pela raiz.
seu Km. Um sistema, aparentemente constitutivo, é 1. Redução e subseqüente assimilação
de baixa afinidade (Km alto) e funciona apenas em 2. Transferência e armazenamento no vacúolo
concentrações elevadas de NO} -. Os outros dois são 3. Transporte via xilema
de alta afinidade e operam com eficiência quando a 4. Efluxo
concentração externa de NO} - é baixa. Um destes T = proteína transportadora de N03 -

dois últimos sistemas (Km para NO} - = 7 JlM) é


constitutivo, enquanto o outro (Km para NO} - = 15
a 34 JlM) é induzido pelo NO} -. A indução pode ser (RN) nas folhas. Entretanto, a importância relativa da
demonstrada experimentalmente, bastando simples~ raiz e folha na assimilação do NO} - depende de dois
mente medir a absorção em baixas concentrações de fatores; a atividade da RN na raiz e a disponibilidade
NO} - após prévia exposição das raízes por tempo e de NO} - no meio. Espécies com capacidade muito
concentrações crescentes do íon. As raízes induzidas baixa em assimilar o NO} - nas raízes (por exemplo,
dessa forma passam a absorver baixas concentrações espécies de GossYPium, Xanthium e Cucumis) enviam
de NO} - com maior velocidade em comparação com todo o íon absorvido (via xilema) para assimilação nas
as plantas não~induzidas. °
significado desses três folhas. Espécies com alta capacidade em assimilar o
mecanismos distintos de absorção é a adaptação da NO} - nas raízes (por exemplo, LuPinus spp.) dificil~
planta para ambientes pobres e ricos em NO} -. En~ mente têm essa capacidade superada pelo NO} - absor-
tretanto, pouco se sabe das proteínas de membrana vido, e, conseqüentemente, a importância da folha é
envolvidas no transporte do NO} -. Além de o meca~ pequena. Porém, a maioria das espécies são interme-
nismo ser ativo, sabe~se que a entrada do íon NO} - diárias em termos de capacidade de assimilar o NO} -
dentro da célula é acompanhada por dois (ou mais) nas raízes. Nesses casos, a folha torna-se importante
pró tons (Fig. 4.3). apenas quando o NO} - no meio estiver em concen-
°destino do NO} -, após sua absorção pela raiz,
está esquematizado na Fig. 4.3.
tração suficiente para superar a capacidade de redução
da raiz. No entanto, há exceções a essa regra. Apesar
de uma capacidade razoável para a assimilação do NO} -
na raiz, algumas leguminosas transportam parte signi-
REDUÇÃO DO N03 -
ficativa do NO} - para a folha mesmo quando a capa-
Os principais locais na planta para a redução do cidade da raiz não é superada.
NO}- são folhas e raízes. Todas as espécies já estuda- A redução completa do NO} - até NH4 + requer oito
das apresentam atividade da enzimaredurase do nitrato elétrons;
Metabolismo do Nitrogênio 97

cular da RN é bastante complexa, sendo a enzima


constituída de duas subunidades idênticas de 110 a
115 kDa. Cada subunidade é composta de regiões
Na célula, a redução ocorre em duas etapas, cada uma
distintas, envolvidas na transferência de elétrons do
envolvendo doadores de elétrons específicos:
NADH até o NO) - (Fig. 4.4).
A presença de molibdênio na proteína como co~
NADH (+H) NAD+ 6 Fdll/3NADPH (+H] 6 Fdml3 NADP+
(2el (6el fator é interessante pelo fato de a RN ser uma das
poucas proteínas conhecidas em plantas que contêm
N~- ~ ~ ~ NO; "'-- ~14+ esse íon. Na deficiência de molibdênio, a atividade
RN RNi
de RN fica bastante reduzida.

° primeiro passo é catalisado pela enzima redutase


Além do NO) -, a RN pode transformar o dorato em
cloreto, que é bastante tóxico para as plantas. Essa ca~
do nitrato (RN), localizada no citoplasma, enquan~ racterística é explorada em herbicidas à base de dorato.
to a redutase do nitrito (RNi), localizada no cloroplasto

I
~
if
(tecidos verdes) ou plastídeos (tecidos não~verdes),
catalisa o segundo.
Regulação da enzima
Na maioria das espécies estudadas, a enzima RN Em função da importância estratégica da RN no

i~
tem NADH como doador específico de elétrons. metabolismo de N em plantas (pois constitui a prin~
Entretanto, em algumas espécies a enzima utiliza tan~ cipal porta de entrada do N no metabolismo da plan~
to NADH como NADPH. Essa enzima biespecífica ta), é natural que existam vários mecanismos de con~
pode ocorrer isoladamente ou junto com a enzima trole da sua atividade. Os dois principais pontos de
monoespecífica. Em soj a são conhecidas três regulação ocorrem a nível de transcrição (indução) e
isoformas, uma induzida pelo NO) - e específica para pós~tradução. A primeira é mais lenta (leva algumas
NADH e duas formas constitutivas, uma específica horas) e é responsável por algumas das mudanças diá~
para NADH e outra biespecífica. A estrutura mole~ rias de atividade, como, por exemplo, o aumento na

NADH
,,,
FADH2/FMNH2 MV
\
\
NO}

NO}

.-
cit c
Fig. 4.4 Modelo esquematizado da enzima redutase do nitrato, mostrando as duas subunidades, cada uma composta de 3
entidades com co-fatores distintos: uma flavoproteína (FAD), um citocromo b557 (Heme) e um complexo proteína-
molibdênio. O fluxo de elétrons de NADH até o N03 - via FAD, grupo heme e molibdênio representa a atividade fisio~
lógica da enzima. Outras reações catalisadas, não-fisiológicas (pois não ocorrem na célula), envolvem apenas parte da
molécula: passagem de elétrons de NADH até ferricianeto via FAD, e até citocromo c via FAD e grupo hemej passagem
de elétrons de meti! viologênio (MV - um doador de elétrons artificial) até o N03 - via molibdênio. Essas reações parci-
ais são freqüentemente usadas em pesquisas para determinar quais regiões da enzima são comprometidas na presença de
inibidores da enzima .

.
98 Metabolismo do Nitrogênio

atividade durante as primeiras horas de luz do dia, quan- A luz influi indiretamente na atividade da RN na
do o fluxo transpiratório leva o NO] - até a folha, re- folha, provocando mudanças numa série de íons e
sultando na indução (síntese de novo) da enzima. O metabólitos envolvidos nesse mecanismo de regula-
termo indução tem sido usado indiscriminadamente na ção. Com a fotossíntese, ocorre aumento no teor de
literatura para qualquer aumento de atividade da en- açúcares fosforilados (como triose-P) e queda em fos-
zima, mas nem sempre a indução da enzima foi com- fato inorgânico (em função do aumento em A TP, por
provada através da demonstração da sua síntese de novo exemplo), proporcionando condições favoráveis para
ou de um aumento do RNAm específico. a ativação da RN (Fig. 4.5).
Outro importante mecanismo de controle ocorre A luz também está envolvida na regulação da
a nível de pós-tradução. Esse processo de ativação/ RN a nível de transcrição (via fitocromo). A osci-
desativação é bem mais rápido (leva alguns minutos) lação diária de atividade entre os períodos de luz e
e pode ser importante, por exemplo, para "desligar" a escuro continua quando a planta é transferi da para
enzima quando a planta passa da luz para o escuro, luz contínua, comprovando que a enzima obedece
pois, havendo falta de ferredoxina reduzida, evita-se a um ritmo circadiano. Outros fatores que influem
o acúmulo de nitrito, que é tóxico às plantas. na síntese da enzima são o gás carbônico, sacarose
O processo de ativação/desativação envolve a e alguns metabólitos nitrogenados, estando o NO] -
transformação da enzima de uma forma inativa para entre os mais importantes. O NO] - tem uma forte
ativa (e vice,versa) por mecanismo de fosforilação e influência sobre todos os componentes da assimi-
desfosforilação (Fig. 4.5): lação de NO] -. Além da própria RN, ele regula as
proteínas de transporte (absorção de NO] -; ver Fig.
4.3), e as enzimas RNi, OS e OOOAT(Fd) (ver adi,
ante). No caso da folha, é importante frisar que não
é o teor de NO] - aí presente que é importante na in-
dução da enzima, mas a quantidade trazida pelo flu-
xo transpiratório.
A segunda enzima do processo de assimilação do
NO] -, a redutase do nitrito (RNi), é localizada nos
cloroplastos, nas folhas e em plastídeos, na raiz. A
enzima do cloroplasto foi mais estudada e suas pro-
priedades são mais conhecidas. Ela tem a ferredoxina
como co-fator, e, portanto, os elétrons são fornecidos
pelas reações fotoquímicas. Sua estrutura é constitu,
ída por um único polipeptídeo de 60-70 kDa, que
contém um grupo siro,heme (tetra,hidroporfirina
contendo ferro) e um agrupamento 4Fe,4S no cen-
tro ativo, responsáveis pela transferência de seis elé-
Fig. 4.5 Regulação pós-tradução da enzima redutase do ni- trons da ferredoxina ao nitrito, até a sua redução em
trato. Proteína cinase: estimulada por Ca2+;inibida por açú- NH4 +. Nessa redução não há formação de interme-
cares fosforilados (obs.: teores aumentados pela luz via fo-
diários livres. Apesar de localizada no cloroplasto, há
tossíntese). Proteína fosfatase: inibida por fosfato inorgâni-
evidências de que a codificação genética da RNi seja
co. A proteína 14-3-3 e Mg2+ ligam-se com a forma
nuclear, e, portanto, a sua biossíntese ocorre no cito,
fosforilada da RN, resultando na inativação (obs.: ao con-
trário de outras enzimas que sofrem ativação e desativação plasma. Um peptídeo em trânsito na região N,termi-
pelo mecanismo de fosforilação/desfosforilação,as duas for- nal da enzima determina o transporte para dentro do
mas de RN, fosforilada e desfosforilada, são ativas). (Figura cloroplasto, onde é posteriormente removido. A en,
adaptada de Kaiser & Huber, ] Exp Bat, 2001; 52:1981.) zima da raiz é menos conhecida. Aparentemente,
Metabolismo do Nitrogênio 99

recebe elétrons de uma proteína semelhante à consomem energia fotoquímica utilizada na fixação
ferredoxina, que, por sua vez, é reduzida por NADPH do gás carbônico. No cloroplasto, isso nem sempre
gerado na via das pentoses-fosfato. acontece, pois os seis elétrons utilizados na redução
Embora as vias de absorção, assimilação e transpor- do nitrito podem ser fornecidos diretamente pelas
te de N em plantas tenham sido elucidadas em estu- reações fotoquímicas, sem que haja competição com

I dos com plantas cultivadas, os poucos trabalhos rea-


lizados com espécies selvagens, naturais de ambien-
a fixação do gás carbônico. Pelo menos isso é possí-
vel sob alta intensidade luminosa, quando há exces-
tes diversos, sugerem a inexistência de grandes dife- so de energia fotoquímica e a assimilação do carbo-
renças entre espécies. Variações podem ocorrer em no satura facilmente. Em algumas plantas C4, nas
função da disponibilidade de nutrientes, quando a quais a saturação da fotossíntese pela luz é mais difí-
imp~)ftância relativa dos processos pode mudar bas- cil, a competição entre a assimilação do N03 - e do
tante. Embora todas as espécies estudadas apresentem gás carbônico pela energia fotoquímica é evitada de
alguma capacidade de reduzir o N03 -, muitas, talvez outra maneira. As enzimas da assimilação do N03 -
a maioria, vivem em ambientes onde a disponibili- estão localizadas nas células do mesofilo, principal
dade do N03 - é muito baixa. Essas podem fazer uso local das reações fotoquímicas, enquanto o ciclo de
de fontes atmosféricas trazidas pelas chuvas (amônia, Calvin está restrito às células da bainha vascular, onde
principalmente), ou mesmo do N da matéria orgâni- a reduzida atividade do fotossistemalI limita o fluxo
de elétrons não-cíclico e, conseqüentemente, preju-
ca em decomposição.
dica o fornecimento de ferredoxina reduzida. ° mes-
mo argumento é válido para a redução do N03- em
Fotossíntese e a assimilação de NO}- nitrito, que utiliza NADH gerado pelo metabolismo
A eficiência do processo de assimilação do N03- respiratório. Na folha, os metabólitos envolvidos es-
é maior na folha. Na raiz ou em outros tecidos não- tão diretamente associados às reações fotoquímicas
verdes, a redução do N03 - e assimilação de NH4 + via um mecanismo de lançadeiras, que não dependem
dependem de energia química do metabolismo de da assimilação do carbono e, portanto, não compe-
fotoassimilados fornecidos pelas folhas. Dessa forma, tem com ela (Fig. 4.6).

Fig. 4.6 Fonte de poder redutor


para a redutase do nitrato em fo-
lhas. Em plantas C3, elétrons ge-
rados nas reações fotoquímicas
são transferidos do cloroplasto
para o citossol, principalmente
via 3-fosfoglicerato/triose-P. Em
plantas C4, onde a redução do
nitrato é restrita às células do me-
sofilo, oxaloacetato/malato de-
3PGAnTríose-p
NADH 'NAD+ sempenha o mesmo papel, embo-
ra o sistema 3-fosfoglicerato/

NO-~NO- triose-P também possa funcionar


3 2
em paralelo .


100 Metabolismo do Nitrogênio

ASSIMILAÇÃO DE NH4 + E O CICLO NADH, formando assim o aminoácido ácido glutâ-


mico:
DA SINTASE DO GLUTAMATO
A natureza prejudicial do NH4 + exige a sua rápida
assimilação, evitando seu acúmulo nos tecidos. Para
esse fim, os tecidos possuem um eficiente sistema de
(N~+) + CH2
II
assimilação que funciona em baixas concentrações de
C=O NADH
COOH
CH2
,/~
NAD"I ICOOH
CHlllf5+
CH2 H20

NH4 +. A enzima responsável é a sintetase da glutami-


na (GS), que catalisa a união do NH/ com o ácido
glutâmico para formar glutamina:

GDH
+ADP
CR2ATP
CR2 COaR
R20 I
CHNR2 C
COOR
CHNR2
ICR2
'" }f~
GS Reação cata/isada pela enzima desidrogenase do glutamato (GDH).
A enzima é encontrada em diversos tecidos das plantas, mas princi-
palmente em mitocôndrias de folhas, sugerindo que possa ter algum
papel na assimilação do NH4 + produzido na fotorresPiração. O as-
sunto é, porém, bastante controverso. GDH é ativada por Ca2+ e
induzida por NH4 +. A estrutura molecular da enzima é constituída
de 6 subunidades com M, de 42,5 kDa e 43 kDa.

Entretanto, a GDH não é muito eficiente na direção


Reação catalisada pela enzima sintetase da glutamina (GS) , encon-
trada na maioria dos tecidos das plantas, embora com grande varia- de assimilação, pois o Km para NH4 + é alto, o que
ção de atividade. A nível subcelular, ocorre tanto no citossol como significa que a reação nessa direção só é eficiente na
em plastídeos. É constituída de 8 subunidades e tem massa molecular
presença de concentrações elevadas desse íon. Ape-
de 300-370 kDa, dependendo da esPécie. São encontradas duas
isofonnas: a G SI' localizada no citossol e a forma predominante nas sar disso, durante muito tempo pensou-se que a GDH,
raízes, e GS1, localizada no c/oroplasto e a forma predominante nas e não a GS, desempenhava a função de assimilar
folhas. As subunidades de GS1 e GS1 são sintetizadas a partir de ge-
nes distintos. Nas folhas, a G S 1 é a maior responsável pela assimila- NH4 + nas plantas, simplesmente porque não era co-
nhecida nenhuma reação que pudesse dar prossegui-
ção de NH4 +, tanto proveniente da redução de N03 - como da fotor-
reSPiração. mento à assimilação do N via glutamina. ácido °
glutâmico produzido na reação é, por outro lado, pron-
tamente utilizado na formação de todos os outros
A eficiência desse processo é muito superior à taxa aminoácidos (ver adiante).
de produção de NH4 + formada principalmente pela ° dogma mudou quando dois pesquisadores britâ-
redução de N03 - e, nas folhas de plantas C3, pela nicos, Peter Lea e Benjamin Miflin, descobriram, em
fotorrespiração, cuja taxa de produção pode superar plantas, uma enzima capaz de transferir o N de gluta-
a redução do N03 - em 10 vezes. Dessa forma, em mina para 2-oxoglutarato, formando o ácido glutâmi-
condições normais, o NH4 + é mantido em concen- co. Essa nova enzima foi denominada amidatransferase
trações baixas nos tecidos vegetais. de glutamina: 2-oxoglutarato ou GOGA T (conhecida
Embora o papel de assimilar NH4 + tenha sido atri- também como sintase do glutamato). A reação
buído à GS, ela não é a única enzima capaz de catalisada por essa enzima necessita de dois elétrons,
catalisar a incorporação de NH4 + em forma orgâni- fornecidos pela ferredoxina (isoforma localizada no
ca. A desidrogenase do glutamato (GDH) catalisa uma cloroplasto) ou NADH (isoforma de tecidos não-
reação (reversível) entre 2-oxoglutarato, NH4 + e verdes):
Metabolismo do Nitrogênio 101

AT
COORCR2
CR2
CH22e' C
IICH2

"-
I
++(Fd!NADH)
COOR
COOR
CHNR2
CH2 l-
I CH2•••
IC<.:nmlx ICOOR
ICHNR2
I
de pelo NH4 + possa ser superada, a GDH certamente
desempenha uma função na degradação de aminoá-
cidos. Dois motivos apontam para isso: em primeiro
lugar, a reação catalisada por essa enzima é plenamen-
te reversível; em segundo, a sua atividade costuma ser
mais alta em tecidos senescentes, em que a mobiliza-
ção de proteínas ocorre através da degradação de
aminoácidos. Dessa forma, o N dos aminoácidos li-
berados das proteínas atacadas por enzimas proteolí-
ticas e, depois, transferido para o glutamato, via
Reação catalisada pela enzima amidatransferase de glutamina: 2-oxo- aminotransferases, é finalmente liberado como NH4 +
glutarato (GOGAT). São conhecidas duas isoenzimas de GOGAT
pela GDH. Esse NH4 + fica disponível para transfor-
com diferentes especificidades pelo doador de elétrons: a enzima do
cloroplasto utiliza a ferredoxina (Fd) , enquanto a enzima encontrada mação em compostos de transporte de N, como glu-
em tecidos não-verdes é específica para NADH. As duas são tamina e asparagina, que completam o processo de
flavoproteínas com um centro Fe-S; a dependente de NADH é com-
mobilização de N de tecidos senescentes para tecidos
posta de 1 subunidade em torno de 230 kDa.
em desenvolvimento.

É importante observar que há formação de duas molé- Entretanto, não são apenas os tecidos senescentes
culas de ácido glutâmico. Uma das moléculas de ácido que exportam o N para outras partes da planta na
glutâmico pode ser consumida na formação de outros forma de glutamina e asparagina. Os principais locais
aminoácidos, via transaminação, e a outra retomar para de redução e assimilação de NO} -, as raízes e as fo-
assegurar a continuação da atividade da GS. Essa inter- lhas, também o fazem e em grande quantidade. Nes-
relação entre a GS, GOGA Te aminotransferase (co- sa situação, nem toda a glutamina formada via GS
nhecido como o ciclo da sintase do glutamato) está re- segue pela GOGA T, podendo ser exportada como
presentada no esquema a seguir e mostra o fluxo de N composto de transporte ou ser primeiro transforma-
a partir do NH4 + até a formação de aminoácidos: da em asparagina para depois ser transportada nessa
forma. Essa assimilação de N direcionada ao transpor-
2e- te funciona paralelamente ao sistema GS/GOGA T
já descrito. É evidente que a simples assimilação do
1.ATP. 2 3 ..
NlI/Glutamato Glutamato XAmino2-0xoácido
~ •••••..G·lutalDI'naJt2-oxoglutarato ácido NH4 + em glutaminapara fins de transporte acabaria
l=GS 2 = GOGAT 3 = Aminotransferase em pouco tempo com o ácido glutâmico endógeno.
Entretanto, para cada NH4 + assimilado para transpor-
Nas folhas, esse processo ocorre dentro do cloroplasto, te na forma de glutamina, há outro assimilado pelo
onde a enzima GOGA T é específica para ferredoxina sistema GS/GOGA T para repor o ácido glutâmico
como doador de elétrons. Embora atividade de GS usado na geração de glutamina para transporte:
seja também encontrada fora do cloroplasto (GS),
ela é relativamente muito baixa comparativamente
à enzima do cloroplasto (GS2). A síntese de muitos
aminoácidos se completa no cloroplasto, embora a
interconversão e síntese de aminoácidos também
ocorra fora dessa organela.
Estabelecida a importância do sistema GS/
GOGA T na assimilação do NH4 +, fica a pergunta:
qual, então, a função de GDH? Embora não descar-
tada a possibilidade de uma função assimilatória em Nessa situação, os dois sistemas devem funcionar si-
condições muito especiais, onde a sua baixa afinida- multaneamente. Quando há formação de asparagina,
102 Metabolismo do Nitrogênio

a reação envolve a glutamina e o ácido aspártico, ° transporte de N na planta envolve compostos


catalisada pela sintetase da asparagina (AS): específicos e característicos da espécie. No geral, pre~
dominam os principais produtos da assimilação do N,
como glutamina e asparagina. É característica das
+
COOR
1CH1CO
ICH2
C H1I 1 AMP
COOR
+COOH
CHNH2
1I ATP +PPi
COOR
CHNH2
1CH2

~J
1 "'1
leguminosas a predominância de asparagina, com a
glutamina freqüentemente em segundo lugar. Ambos
são produtos primários dos processos de assimilação,
tanto do N03 - como da fixação simbiótica do N. Nas
gramíneas, predomina a glutamina, enquanto a aspa~
ragina está presente em quantidades mínimas. No
entanto, o número de espécies estudadas é relativa~
mente pequeno para generalizar e esse quadro pode
mudar no futuro.
São conhecidos alguns casos especiais, ou seja,
Nesse caso, mais uma vez o funcionamento em para~
leIo do sistema GSjGOGA T assegura a produção de
espécies que fogem a essa regra. ° mais bem docu~
mentado é o caso das leguminosas da tribo Phaseo~
ácido aspártico consumido nessa reação:
leae (por exemplo, soja, feijão, feijão-de-corda), nas
quais predominam os ureídos, sendo responsáveis
por 60 a 90% do N transportado no xilema. Os
ureídos alantoína e ácido alantóico são produtos
quase específicos da fixação simbiótica de N nessas
espécies, de forma que a sua presença é mínima no
sistema de transporte de plantas não-noduladas,
cultivadas com N03 -. Em função dessa especifici-
Portanto, o sistema GSjGOGA T tem duas finali~ dade, o transporte de ureídos no xilema pode ser
dades principais nos tecidos de assimilação primária: usado como indicador do grau de fixação do N nes~
fornecer o N para a formação de todos os aminoáci~ sas espécies.
dos necessários para a síntese de proteína no próprio
tecido, suprindo assim a demanda local, e a produ~
ção de glutamato e aspartato para a formação das NH!
o H H!N COOH I
amidas necessárias para o transporte de N até outros H!N ~ /N
I C , I /C,I
O=C /=Ü
tecidos (drenos). o=c
,N /C, I
c=o 'N H N .••..
H N/ H
H H
TRANSPORTE DO N
° transporte do N pela planta é um importante elo
entre os sítios de assimilação e os drenos. Esse trans~
Alantoína Ácido alantóieo

Os ureídos alantoína e ácido alantóico são fOTlnados no nódulo via


porte a longa distância envolve tanto o xilema como
o floema. ° transporte pelo xilema basicamente faz
catabolismo de purinas. O teor de N (4N:4C) na molécula é mais
alto que em outros compostos de transporte, como a asparagina
(2N:4C) e glutamina (2N:5C).
a ligação entre a raiz e a folha, pois depende da trans-
piração, sendo assim responsável pelo escoamento dos
produtos da assimilação na raiz (incluindo os nódulos, Mesmo nas leguminosas que apresentam o metabo-
no caso de leguminosas noduladas), bem como o trans- lismo de N baseado em ureídos, o aminoácido aspa-
porte do excesso de N03 - absorvido pelas raízes até as ragina geralmente aparece em segundo lugar e pre-
folhas, outro sítio importante de assimilação do N03 -. domina no xilema nas plantas não-noduladas.
Metabolismo do Nitrogênio 103

São conhecidas outras formas características de lado, pelo menos em algumas espécies, existe uma con~
transporte de N na planta. Por exemplo, a citrulina centração de tecidos especializados na transferência do
(inclusive produto da fixação de Nz) em Alnus e N do xilema para o floema na região do pedúnculo. No
Casuarina e a arginina em muitas árvores. Esses dois fruto de uma leguminosa, as ramificações do floema
aminoácidos são caracterizados pela alta relação N:C permeiam os tegumentos (casca da semente). É nesse
(citrulina, 3:6, e arginina, 4:6). ponto que as substâncias transportadas pelo floema,

I
"
)i;,.
Uma parte bastante significativa do N transporta~
do via xilema não alcança a folha, uma vez que, du~
compostos nitrogenados inclusive, são descarregadas do
floema por mecanismo ativo (dependente do ATP),
rante o percurso, é constante a transferência de ami~ entrando nos tecidos do tegumento e atravessando~os,
no ácidos para o floema. Ocorre um processo seletivo inicialmente por via simplástica e, depois, pelo apoplas-
nessa transferência, pois os aminoácidos básicos (ar~ to. Finalmente, acabam sendo secretadas entre o tegu~

I ginina, lisina etc.) são transferidos com maior facili~


dade, os neutros (asparagina, glutamina ete.) com fa~
cilidade menor, enquanto os aminoácidos ácidos são
mento e os cotilédones, quando são absorvidos por es~
ses tecidos, provavelmente através de mecanismo ati-
vo. Durante todo esse percurso entre o floema e os coti~
mais difíceis de serem transferidos. O N03 -, aniônico lédones, as substâncias de transporte estão sujeitas a se~
como os aminoácidos ácidos, é totalmente excluído rem metabolizadas, dependendo do complemento de en~
da transferência e, por essa razão, serve para diferen~ zimas presentes nos respectivos tecidos. Por exemplo, no
ciar a seiva do xilema da seiva do floema. fruto da soja os ureídos são totalmente metabolizados
Apesar da seletividade na transferência de amino~ após descarregamento do floema no tegumento, sendo
ácidos do xilema para o floema, o conteúdo do floe~ a glutamina o principal produto desse metabolismo e,
ma não apresenta uma abundância de aminoácidos portanto, responsável por transportar o N até o cotilé~
básicos. Pelo contrário, os mesmos aminoácidos abun~ done. Compatível com esse processo, um cotilédone
dantes no xilema (geralmente asparagina e/ou gluta~ isolado e colocado em meio de cultura tendo glutamina
mina) são os principais aminoácidos encontrados no como única fonte de N, cresce e produz todos os ami~
floema. A explicação está na maior concentração no noácidos necessários para a síntese de proteínas de re~
xilema, que compensa as restrições de transferência. serva. Por outro lado, o cotilédone possui baixa capaci~
Por outro lado, os aminoácidos básicos normalmen~ dade para metabolizar os ureídos. Outros compostos de
te estão em baixíssima concentração no xilema (ex~ transporte, como a asparagina, podem ser parcialmente
ceto arginina em algumas árvores). metabolizados durante esse percurso pelo tegumento. O
Como o transporte no floema corre nos dois senti~ caminho metabólico dos compostos de transporte, usan~
dos, parte do N transferido é devolvida para a raiz, onde do como exemplo a soja, segue essencialmente a via GS/
pode ser metabolizada ou retomada para o xilema. Essa GOGA T, embora partes desse conjunto de reações
reciclagem de N pode ter um importante papel regula~ possam estar separadas entre o tegumento e o cotilédo~
tório nos processos de assimilação, servindo como indi~ ne, conforme as atividades enzimáticas dos tecidos:
cador do estado nutricional da planta em termos de N.
Além da transferência de N do xilema para o floema,
aminoácidos produzidos na assimilação do N03- nas
folhas são carregados no floema para transporte. No fi~
nal do ciclo da planta, na fase reprodutiva, há mobiliza~
ção de grande quantidade de N, na forma de aminoáci~ 1·{.t·X2_OGX··.-"'--+"""""
Glu Glu 2-0xoácido

dos, das folhas e do caule para os frutos em desenvolvi~


mento, que representam os drenos mais fortes nessa fase. O transporte de N para os frutos é importante para
O transporte de N para os frutos envolve principalmente fornecer os aminoácidos necessários para a síntese de
o floema, pois os frutos e, em particular, as sementes têm proteínas de reserva armazenadas na semente, para
poucas ligações com o xilema ou nenhuma. Por outro uso como fonte de N durante a germinação. Muitas


~
104 Metabolismo do Nitrogênio
ti-
,.
espécies cultivadas para a produção de grãos contêm para a reação da GaGA T, e o outro oxoglutarato, ,.
quantidades elevadas de proteínas na semente, po~ produto da transaminação do segundo glutamato, so~ ••
dendo~se destacar a soja, cujo teor de proteína no grão bra para contribuir com o metabolismo de carbono. ••
pode atingir cerca de 50% do peso. a transporte de Nesse caso, a enzima GaGA T envolvida é a forma ~
N evidentemente é intenso para o fruto, mas não é dependente de NADH como doador de elétrons, ten-
,.
fomecida uma mistura de aminoácidos na proporção
certa para a síntese das proteínas e, sim, algumas subs~
do em vista a sua distribuição em tecidos não~verdes.
No caso de asparagina, a forma inicial do seu me-

tâncias específicas. Conseqüentemente, ocorre inten~ tabolismo varia de acordo com o tecido. Duas vias são
so metabolismo dessas substâncias nos frutos, para conhecidas, uma envolvendo a enzima asparaginase
assegurar a síntese de todos os aminoácidos necessá~ e outra a enzima aminotransferase da asparagina. A
rios para a formação das proteínas. primeira é encontrada em sementes imaturas e folhas
na fase inicial de expansão. A reação catalisada leva
à hidrólise do grupo amida, liberando NH4 +:
UTILIZAÇÃO DO N oo~

TRANSPORTADO NOS SíTIOS o";jj

CONH2 COOH
DE CONSUMO I I
CH, CH2
A distribuição das substâncias do transporte do N I + H20 ~ I
via floema e xilema para os sítios de consumo (drenos) CHNH2 CHNH + NH3 (NfL)
I I 2
implica o seu pronto metabolismo. a metabolismo de COOH COOH
N nos sítios de consumo envolve, principalmente, a
transformação do N descarregado das vias de trans~ ASNase
porte em outros aminoácidos e a sua incorporação em
proteínas. São abordadas aqui as três formas do trans~
A segunda via, envolvendo a aminotransferase da aspa~
porte de N orgânico destacadas neste capítulo (glu~ ragina, é encontrada principalmente em folhas e teci-
tamina, asparagina e ureídos). dos verdes. Essa enzima é também conhecida como
a metabolismo da glutamina nos sítios de consu~ aminotransferase de serina:glioxilato, que está envolvi~
mo segue um caminho muito próximo àquele encon~ da na formação de glicina durante o processo de
trado nos sítios de assimilação. A glutamina é primei~ fotorrespiração. Essa confusão na nomenclatura decor~
ro metabolizada via GaGA T, com a formação de re do fato de que a enzima tem baixa especificidade pelo
duas moléculas de glutamato. Ao contrário do pro~ substrato, utilizando tanto serina como alanina ou as-
cesso de assimilação, ambas as moléculas de glutamato paragina como doadores do grupo amino. Com a aspa~
participam na transaminação, na qual o N é usado na ragina como substrato, o produto é o ácido 2~oxossuc-
formação de outros aminoácidos. cinâmico, o qual sofre, em seguida, a desaminação e a
redução, não necessariamente nessa ordem (vias I e lI):

Transporte -----...

Dessa forma, 1 molécula de glutamina assegura a


reciclagem de 1 molécula de oxoglutarato necessário
Metabolismo do Nitrogênio 105

Qualquer que seja a forma inicial do metabolismo de reações, as duas enzimas também são conhecidas
asparagina, o N do grupo amida acaba sendo libera- como, respectivamente, transaminase de gluta-
do na forma de NH4 +. A partir desse ponto, o meta- mato:oxaloacetato (GOT) e transaminase de
bolismo segue a via GS/GOGA T: glutamato:piruvato (GPT). A maioria dos tecidos
vegetais apresentam alta atividade dessas enzimas.
As aminotransferases teriam o papel de dar se-
qüência ao sistema GS/GOGA T, tendo em vista
que o glutamato é substrato de AspA Te AlaA T.
Também desempenham um papel importante nas
No caso dos ureídos, os quatro átomos de N conti- folhas de plantas com alguns dos tipos de meca-
dos na molécula são liberados um por um na forma nismo C4•
de NH4+: Apesar de essas duas aminotransferases apresen-
tarem baixa especificidade pelo substrato, elas são
enzimas distintas. Não é conhecida nenhuma ami-
Alantolna -+Ác.aJantóico~ ureidOgliCina"'1 Ureidoglicolato
notransferase para a interconversão direta de aspar-
tato e alanina, apenas aspartato e glutamato ou ala-
COz + NH/ NH4+ ~2NH4 + + cOz
G1ioxilato nina e glutamato. Dessa forma, para o N de asparta-
to ser transferido para alanina (ou vice-versa), é ne-
cessário passar por glutamato. Na maioria dos casos,
o destino metabólico do NH4 + assim formado segue os demais aminoácidos recebem seu N via transami-
o mesmo caminho da assimilação de NH4 + descrito nação ou diretamente do glutamato ou de alanina e
para o metabolismo de asparagina.
aspartato.
Outras aminotransferases caracterizadas são as duas
AMINOTRANSFERASES envolvidas no processo de fotorrespiração (folhas de
Após passar pelo sistema GS/GOGA T, o N se- plantas C3). Uma delas, a aminotransferase de
gue o seu caminho na formação de outros aminoá- serina:glioxilato, catalisa reação irreversível:
cidos, via reações de transaminação. As enzimas
envolvidas, as aminotransferases (ou transamina- CH20H
ses), catalisam a reação geral entre um aminoáci- I
CHO C=O
do e um 2-oxo ácido, sendo normalmente reversí- I + I ~I + I
vel: COOH COOH COOH COOH

RI RI! RI! RI
I I I .. _ I
cIfIII
I .
+ c=o
I
cIIII
I
+ C=O e a outra, a aminotransferase de glutamato:glioxilato,
I reação reversível:
COOR COOR COOR COOR
r
r
, COOR COOR
COORCOOR 1
COOR
(CRÜ
I
(CR2)2

~. +
CRO COOR
~
I • ~q~j + ~=O
.1
As duas aminotransferases mais bem estudadas
em plantas são a aminotransferase do aspartato
(AspA T) e a aminotransferase da alanina (AlaA T).
Justamente em função da reversibilidade dessas
106 Metabolismo do Nitrogênio

A aminotransferase de serina:glioxilato é a mesma É conveniente dividir a biossíntese dos 20 aminoáci-


enzima que catalisa a transaminação entre aspara- dos protéicos em grupos ou "famílias" de acordo com
gina e glioxilato, já mencionado. Assim como os caminhos metabólicos que se iniciam com determi-
AspA Te AlaA T, essas outras aminotransferases não nados precursores comuns. Essa associação pode ser fa-
apresentam alta especificidade pelos substratos, pa- cilmente verificada na Fig. 4.7. Os precursores em co-
recendo ser essa uma característica desse tipo de mum são o aspartato, piruvato, eritrose-4-fosfato, glu-
enzima. Por exemplo, a aminotransferase da tamato e fosfoglicerato. A regulação dessas vias envolve
serina:glioxilato pode usar ainda serina e piruvato mecanismos de retroinibição de enzimas alostéricas em
como substratos. pontos-chave da via biossintética, geralmente no pri-
meiro passo e nos pontos de bifurcação.
BlossíNTESE DE
AMINOÁCIDOS Família do aspartato: treonina, lisina,
Direta ou indiretamente, a transaminação é res-
metionina, isoleucina e asparagina
ponsável pela formação do grupo 2-amino de todos A formação de asparagina bem como do aspartato
os aminoácidos. O esqueleto de carbono é formado é intimamente relacionada com o metabolismo de
a partir de precursores encontrados na glicólise, via carbono, detalhado na Fig. 4.7. O caminho biossinté-
das pentoses-fosfato e ciclo de Krebs. Uma visão tico dos demais aminoácidos dessa família, treonina,
global da origem do esqueleto de carbono dos 20 lisina, metionina e isoleucina, está representado na Fig.
aminoácidos protéicos é dada no esquema a seguir 4.8. Detalhes dos passos entre treonina e isoleucina são
(Fig.4.7): apresentados adiante, junto com a família do piruvato.

Fig. 4.7 Inter-relação entre as vias


de biossíntese dos 20 aminoácidos
protéicos e o metabolismo do carbo-
no. Alanina (Ala)j arginina (Arg)j
aspartato (Asp)j asparagina (Asn)j
cisteína (Cys); fenilalanina (Phe);
glutamato (Glu)j glutamina (Gln)j
glicina (Gly)j histidina (His)j
isoleucina (Ile)j leucina (Leu)j lisi-
na (Lys); metionina (Met)j prolina
(Pro)j serina (Ser)j treonina (Thr)j
tirosina (Tyr)j triptofano (Trp)j va-
lina (VaI). om = omitina (aminoá-
cido não-protéico).
J


Metabolismo do Nitrogênio 107

Aspartil fosfato

+ Pimvato

ASPartat~ semi_a1~

y
Homosserina Diidrodipicolinato

Cisteína + +
Piperidina dicarboxilato

O-Fosfo!"mossenna
Cistationina

+ t
Homocisteina
t L,L-2,6-diaminopimelato

+
meso-2,6-diaminopimelato

Fig. 4.8 Biossíntese de lisina, treonina, isoleucina e metionina.

Em folhas, essa via biossintética está localizada no zidos; cada aminoácido regula a sua própria biossín-
cloroplasto, e a localização subcelular em outros te- tese por retroinibição, e o primeiro passo catalisado
cidos é desconhecida. A regulação dessa via é com- pela cinase do aspartato é também um ponto de con-
plexa em função do número de aminoácidos produ- trole (Fig. 4.9):

Aspartato

//'-----~~IIA~ ~1B ~lC I-~~~~,


.' Fig. 4.9 Regulação da biossíntese dos aminoáci-
dos da família do aspartato. Enzimas-chaves: 1-
,, Aspartato . Id'd
seml-a elO',
cinase do aspartato (3 isoenzimas: A - sensível à
"
I
"/ ",;'----,
I
'1 i
, 2A 2B
~ 31'- ---"'''' "
, \\ I
I
treoninaj B e C - sensíveis à lisina)j 2. desidro-
, • \ I genase da homosserina (2 isoenzimas: A - sensí-
: I Homossenna : I vel à treonina, B - resistente à treonina) j 3.
I\ I\,. J I I
sintase do diidropicolinatoj 4. desidratase da treo-
'\ \ - __
,, , I

\1 /"
, ,~~
.•..
5,~ •....•..
I I ninaj 5. cistationina-')'-sintase. Obs.: as isoenzi-
Treonina " \ •• -fi'
/ _./
-
mas cinase do aspartato-A (lA) e desidrogenase
\ \ 114 1·-"
11 '\ Llsma-- da homosserina-A (2A) são um só polipeptídeo

,.J /I Metionina :I
bifuncional, ou seja, com dois domínios, um para

11
;,' ,
,'
",'
,
II atividade de cinase do aspartato e outro com ati-
vidade de desidrogenase da homosserina, sendo
Isoleucina - - - -' S-Adenosil-metionina ambas as atividades inibidas por treonina .


108 Metabolismo do Nitrogênio

Dessa forma, cada aminoácido inibe a primeira en~ cultivo de calos de arroz ou plântulas de cevada in
zima da ramificação específica da sua produção. A vitro com lisina e treonina juntas no meio de culti~
isoleucina inibe a desidratase da treonina, a metioni~ vo leva à forte inibição do crescimento. A inclusão
na (ou seu derivado imediato, a S~adenosil~metio~ de me tio nina no meio elimina completamente essa
nina) age como repressor da cistationina~y~sintase e inibição.
a treonina inibe uma das duas isoenzimas da desidro~ A biossíntese de isoleucina será tratada junto com
genase da homosserina. A outra isoenzima da desidro~ a leucina, tendo em vista que seus passos metabóli-
genase da homosserina (insensível à treonina) as~ cos são idênticos.
segura que a treonina não prejudique a síntese de
metionina. A lisina inibe a sintase do diidropicolinato, Família dos aminoácidos aromáticos:
a primeira enzima da ramificação que leva à sua sín~
fenilalanina, tirosina e
tese. O primeiro passo comum para todos esses ami~
noácidos, mediado pela cinase do aspartato, é regu~
triptofano
lado pela lisina e treonina. São conhecidas três iso~ Os aminoácidos "aromáticos" fenilalanina, tirosi~
enzimas, duas inibidas pela lisina e a outra pela treo~ na e triptofano são sintetizados a partir de fosfoenol~
nina. Embora esse mecanismo de controle pela as~ piruvato (PEP) e eritroseA~fosfato, intermediários,
partato cinase evite que nem a lisina nem a treoni~ respectivamente, da glicólise e do ciclo de Calvin e
na prejudiquem a síntese da outra, é evidente que da via das pentoses~fosfato. O caminho é bastante
lisina e treonina juntas prejudicam a síntese de longo e apenas alguns intermediários~chaves estão
metionina. Isso é bem conhecido em plantas, pois o incluídos no esquema (Fig. 4.10):

k'k'
Antranilato

I
I
,
•...•.

,
I ...........
Ij
I
\
'-
Fig. 4.10 Biossíntese do triptofano, fenilalanina e tirosina (aminoácidos aromáticos).


Metabolismo do Nitrogênio 109

A regulação da via biossintética em plantas não tógenos, em função da importância desse caminho
é bem conhecida. A primeira enzima, a sintase do 3~ metabólico na produção de metabólitos secundári-
desoxi~arabino~heptulosonato (sintase do DHAP) apa- os (a partir de fenilalanina, principalmente), os
rentemente tem duas isoformas, uma inibida pelo quais se acumulam nos tecidos das plantas nessas
prefenato e arogenato, os precursores da fenilalani- condições.
na e tirosina. Apesar de duas rotas metabólicas para
a formação de fenilalanina e tirosina a partir do
Família do glutamato:
~ prefenato, o caminho via arogenato parece ser o mais
prolina, arginina e glutamina
I importante para várias plantas na formação de tiro-
sina e fenilalanina, onde inclusive esses dois ami-
noácidos regulam sua própria biossíntese. Dessa for~
A formação de glutamina a partir do glutamato
faz parte do processo de assimilação de NH4 +, já de-
ma, a regulação no início da via pelos dois aminoá- talhada.
cidos ocorre de forma indireta, via arogenato. A ação A prolina pode ser sintetizada a partir de gluta-
do triptofano nesse mecanismo é menos conhecida. mato por duas vias paralelas, uma direta e a outra
-i
Sabe~se que atua como inibidor da enzima sintase do via ornitina (Fig. 4.11). A principal diferença en-
1: -
fic,

antranilato, a primeira enzima da ramificação que tre as duas vias está na acetilação dos intermediári~
leva à sua síntese. A primeira enzima da via, sintase os de uma delas. Pela via direta, após formação de
do DHAP (além de outras da via), é induzida por glutamato semi~aldeído, a molécula se transforma
diversos estresses, como injúria e infecções por pa- numa estrutura cíclica (Ll' -pirolina~ 5 '~carboxilato),

CHO
I
CH.
I
CH.
I H.C _CH. H.C-CH.
CHl\IH. I I I I
I HC CH -COOH H.C CH-COOH
COOH
'N7
'-./NH
ATP,NADH NADPH

Glu semi-aldeído 4 H20Ll'-pirrolina-5' -carboxilato-- "'-

0 ~~~~~~e:)
tIr~~ .--~ ~------------------t ® C!?--

N-ACetil-Gr-
ATP,NADH
(í ,~
I
N-Acetil-Glu semi-aldeído ~ N-Acetil-ornitina ~ Ornitina
I NHzCO-OP
\
I
I
I Glutamina+C02+H20+2A TP ~ Carbamil fosfato
,\
\
\
,
•..
Asp

Arginossuccinato
~C;trulina
Fumarato

Fig. 4.11 Biossíntese de prolina e arginina.


1. cinase de 'Y~glutamil;2. desidrogenase do glutamato semi-aldeído; 3. redutase do P5C; 4. cinase do N-acetil-glutama-
to; 5. aminotransferase da omitina .


110 Metabolismo do Nitrogênio

precursora da prolina. A estrutura cíclica é formada to (ácido) em Gaba (neutro) pode ter algum papel
pela reação intramolecular (não-enzimática) dos na regulação do pH.
grupos amino e aldeído do glutamato semi-aldeído.
COOH COOH
Na via dos derivados acetilados, a presença do gru-
I I
po acetilligado ao grupo 2-amino impede essa rea- (CH2)2 (CH2)2
ção interna, e uma estrutura aberta, a ornitina, é I I

formada. A ornitina pode ainda levar à formação da


estrutura cíclica da prolina após perda do grupo
CHNH2
I
COOH
CH2NH2
"
;
amino por transaminação. A ornitina também é .,.
precursora da arginina, formada após a introdução
de mais dois grupos amino, um a partir de carbamil
,.
••••

fosfato e o outro do aspartato. ~


A regulação da síntese dos aminoácidos dessa fa- Um fenômeno semelhante ocorre na deficiência
.~
mília foi pouco estudada. Sabe-se que a primeira en- de K+. Nesse caso são os aminoácidos ornitina e ar-
ginina que são descarboxilados, levando à formação
)c
zima da via da síntese da prolina, a sintetase de
Pirrolina-S-carboxilato, uma enzima bifuncional com de grande quantidade de putrescina e agmatina. Es- ••
atividade de cinase de y-glutamil e desidrogenase do glu- sas duas diaminas, em função da sua natureza básica, ••
tamato semi-aldeído, é inibida pela prolina. A argini- ajudam a combater a acidificação do citossol provo- ~
na inibe fortemente a primeira enzima da sua sínte- cada pela falta de K+, para equilibrar as cargas dos
se, a cinase do N-acetil-glutamato. ácidos orgânicos. Embora a putrescina e agmatina
A síntese de prolina tem uma importância especi- sejam derivadas da ornitina e arginina, a putrescina
al em plantas, pois está estreitamente relacionada com pode também ser formada a partir da descarboxilação
o potencial hídrico dos tecidos. Plantas em condições da citrulina ou, ainda, via agmatina:
de estresse hídrico ou salino apresentam elevados
teores de prolina em comparação com plantas em NH2 NH2 NH2
condições normais. Esse fenômeno parece estar rela- I I I
c=o C=O C=NH
cionado com um mecanismo de proteção contra a I I I
falta de água, pois a prolina ajuda a baixar o potenci- NH2 OP NH NH
al hídrico dos tecidos e, assim, reter a água. Não é por I I I
(CH2)3 (CH2)3
acaso que a solubilidade da prolina é muito superior I I
(162 g/100 ml) à dos outros aminoácidos protéicos CHNH2 "~ (~H2h
CHNH2 __ ---I••
~ CHNH2
I I I
(na faixa de <1 a 25 g/lOO ml). Embora as duas vias COOH COOH COOH
de síntese de prolina sejam igualmente importantes
em condições normais, as evidências favorecem a via
direta do glutamato (sem acetilação) em condições
de estresse hídrico.
NH2II
CH2NH2
(CH2)3 NH2 C=OI O2
Há outras formas de estresse associadas a mudan-
ças no metabolismo de aminoácidos dessa família. No
(CH2)3
(CH2)3:i
•••
••• INH
INH
C=NH
CH2NH2
NH2
CH2NH2

k
caso da hipóxia é comum o acúmulo de ácido gama-
aminobutírico (Gaba), resultado da descarboxilação
de glutamato. Isso ocorre, por exemplo, em campos
alagados, onde o sistema radicular ou até a planta in-
teira fica encharcada ou submersa, o que diminui a
disponibilidade de oxigênio. Como o pH da célula
baixa nessas condições, a transformação de glutama-


Metabolismo do Nitrogênio 111

Família do piruvato: isoleucina. A leucina inibe a primeira enzima come-


leucina~ valina e alanina tida à sua biossíntese, a sintase do 2-isopropilmalato.
Tanto a leucina como a valina inibem a primeira
A formação de alanina a partir de piruvato ocorre enzima da seqüência de reações em comum, sintase
diretamente pela transaminação, já abordada. Assim do acetolactato (Fig. 4.12, nQl); porém, na presença
como o Gaba, alanina é produzida em quantidades dos dois aminoácidos, ocorre um efeito sinergístico,
elevadas em condições de hipóxia. no qual a inibição é maior do que a soma de cada
A biossíntese de leucina e valina inicia~se com um isoladamente.
piruvato, segue alguns passos em comum antes da
bifurcação que leva à formação dos dois aminoáci~
Família do 3..fosfoglicerato:
dos (Fig. 4.12). Na mesma figura está representado
o caminho biossintético da isoleucina, que, embora
serina, glicina e cisteína
pertença à família do aspartato, é tratada aqui por- o agrupamento de serina, glicina e cisteína é fácil
que os passos metabólicos, a partir do 2-oxogutarato, justificar em função da proximidade metabólica des-
não são apenas idênticos aos da valina, mas catali~ ses aminoácidos, porém a definição do precursor é
sados pelas mesmas enzimas. A regulação dessa via difícil, pois, conforme o tecido da planta, o esquele-
metabólica é complexa e não foi totalmente to de carbono pode ser derivado de 3-fosfoglicerato
elucidada. A desidratase da treonina é inibida pela (3PGA) ou ribulose bisfosfato (RuBP) (Fig. 4.13).

NH, 1 Desidrntase da.;onina

r
Piruvato 2-0xobutarato ~

"1,,-1
/" ....!._--t
'>---1
" ,Piruvato~ 1 ---. Pirovalo \
: : Acetolactato Aceto-hidroxibutarato I,
: :NADPH
.----.- --.--- \
i NADP+:1-----------·----·- 2
..
tNADPH
NADP+ "~
: 2,3-Diidroxi-isovalerato 2,3-Diidroximetilvalerato "

\ H,O ~ -- 3 ----.-- ~ H20 If


: 2-Oxoisovalerato 2-0xo-3-metilvalerato II
I _
I
,
I 11
I I , ,,/'-:Y
I li'
,
,,
I I
I'
, , ,,,
II
I I
,
I
,
I
I
,II
,,' ,
, I I
,\ '\ I
\ \
\
'..~~------------------
Fig. 4.12 Biossíntese de valina, leucina e isoleucina. As enzimas das reações 1 a 4 são as mesmas para os dois caminhos
biossintéticos .


112 Metabolismo do Nitrogênio

(Metionina)

3PGA ~ P-Hidroxi-piruvato •

2-0G

RuBP ~ P-Glicolato ~ Glicolato •• Glioxilato

Fig. 4.13 Biossíntese de glicina, serina e cisteína.

Família da rihose ..5 ..fosfato: aminoácido que menos chamou atenção dos pesqui-
histidina sadores e, portanto, quase não existem trabalhos a
respeito da biossíntese desse aminoácido em plantas.
A histidina é um caso à parte pelo fato de seu Por analogia com o caminho elucidado em bactéri-
metabolismo ser isolado dos demais aminoácidos e as, a histidina está indicada na Fig. 4.7 como sendo
não pertencer a nenhuma "família". A histidina é o derivada de ribose-5-P.

.+ ATP

./?
l/I
I

S + OH o
I I I
CoA CH2 CH2 ~ CH2 + Acetato
I I
CHNH2 CHNH2 ••. tHNH2
I I I
COOH COOH COOH Fig. 4.14 Assimilação do enxofre. As
duas hipóteses para a redução de sulfa-
to (S04Z-) até sulfeto (SZ-) estão des-
tacadas por cores diferentes .


Metabolismo do Nitrogênio 113

ASSIMILAÇÃO DO ENXOFRE metionina ou transformada em glutationa (um tripep-

° metabolismo do enxofre em plantas tem os ami-


noácidos cisteína e metionina como peças fundamen-
tídeo composto de glutamato+cisteína +glicina).

tais, o que justifica a abordagem da sua assimilação nes- BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA


te capítulo. Além disso, a assimilação do enxofre se- Buehanan BB, Grissen W, Jones RL (eds.). Biochemistry
gue um caminho muito parecido ao daquele do NO) -. and Molecular Biology of Plants. American Society of
A planta retira o enxofre do ambiente na forma Plant Physiologists, Rockville, Maryland. 2000.
de sulfato (SOl-). Esse íon é absorvido pela raiz por Lea PJ. Nitrogen metabolismo ln: Lea P], Leegood RC
transporte ativo mediado por uma proteína transpor- (eds.). Plant Biochemistry and Molecular Biology. En-
tadora e o processo envolve o co-transporte de três gland, Wiley 1993, pp.155-180.
Lea PJ. Primary nitrogen metabolismo ln: Plant Biochemis-
pró tons para cada molécula de SOl-o 5ua redução
try. Aeademic Press, 1997, pp.273-313.
e assimilação ocorrem nos plastídeos da raiz e clo-
Lea PJ, lreland R. N itrogen metabolism in higher plants. ln:
roplastos da folha, após transporte via xilema até a
Singh BK (ed.). Plant Amino Acids Biochemistry and
parte aérea. Dentro da organela, o 50l-é reduzido Biotechnology. New York, MareeI Dekker, 1999, pp.
para sulfeto (SZ-) numa seqüência de reações envol- 1-47.
vendo A TP e ferredoxina, embora alguns detalhes Ireland R. Amino acid and ureide biosynthesis. ln: Dennis
dessa redução sejam controversos (Fig. 4.14). A se- DT, Turpin DH (eds.). PlantPhysiology Biochemistry and
qüência se inicia com a "ativação" do 50/- por Molecular Biology. London, Longmari:,1990, pp.407-
A TP, formando APS, e o 50/- é reduzido em se- 421.
guida ao 52- por um caminho ainda não esclareci- lreland R, Lea PJ. The enzymes of glutamine, glutamate,
asparagine, and aspartate metabolismo ln: Singh BK
do. Existem duas hipóteses: pela primeira, o SO/-
(ed.). Plant Amino Acids Biochemistry and Biotechnolo-
é transferido para um carregador ao qual permane-
gy. NewYork, MareeI Dekker, 1999, pp.49-109.
ce ligado até sua redução e liberação como 52-; pela
Schubert KR. Products of biological nitrogen fixation in
segunda, o 50/- de AP5 é reduzido e liberado como
higher plants: synthesis, transport, and metabolismo
sulfito (50/-), sendo o 50/- livre reduzido a 52-. Annual Review of Plant Physiology, 1986; 37:539-574.

II Finalmente, o 52- (ou o 52- ligado ao carregador)


junta-se com uma molécula de serina para formar
Smimoff N, Stewart GR. N itrate assimilation and trans-
loeation by higher plants: eomparative physiology and
cisteína. Normalmente não há acumulo de cisteína, eeologieal eonsequenees. Plant Physiology, 1985; 64:
pois ela é rapidamente utilizada na biossíntese de 133-140.
CAPÍTULO 5

Nidia Majerowicz

o QUE MOVE A VIDA? custa de um influxo constante de energia a partir do


meio ambiente.
A fonte universal de energia da biosfera é o sol. Os organismos não-fotossintetizantes (heterotró-
Com exceção das bactérias químio~autotróficas, toda ficos), como os animais, fungos e bactérias, são de~
a vida em nosso planeta é direta ou indiretamente pendentes de moléculas orgânicas pré-formadas, ob-
dependente da fotossíntese dos organismos clorofi- tidas através da alimentação ou absorção, para o su-
lados. Até mesmo as fontes de energia que movi~ primento de suas demandas permanentes de energia
mentam as máquinas do nosso cotidiano, tais como e de matérias-primas. A degradação de moléculas
o petróleo, o gás natural e o carvão mineral, são pro~ orgânicas ricas em energia, através da fermentação ou
dutos da fotossíntese realizada por organismos que respiração aeróbia, é responsável pela liberação da
viveram milhões de anos atrás.
energia utilizada por esses organismos (Fig. 5.1).
Os organismos vivos são sistemas organizados, em A atividade fotossintética das plantas, das algas e
permanente estado de não~equilíbrio termodinâmi- de algumas bactérias promove a conversão e o arma~
co. A manutenção dessa condição, ou seja, da vida, zenamento da energia solar em moléculas orgânicas
exige a entrada de um fluxo contínuo de energia li- ricas em energia, a partir de moléculas inorgânicas
vre. Em geral, os processos naturais são espontâne- simples, como o COz e a HzO. Somente esses orga-
os. De acordo com a segunda lei da T ermodinâmi- nismos são capazes de transformar energia luminosa
ca, os processos espontâneos tendem a ir de uma em energia química, aumentando assim a energia li-
condição de alta energia para uma condição de bai- vre disponível para os seres vivos como um todo. A
xa energia, dissipando energia térmica durante o reação global da fotossíntese (excetuando-se as bac~
processo, até que a condição de equilíbrio seja al- térias fotossintetizantes) pode ser representada da
cançada. Assim, todos os sistemas tendem a se de- seguinte forma:
sorganizar, a se tornar cada vez mais caóticos. Isso
significa que a degradação e a desorganização são COz + HzO ~
Cloroflla
[CHzO]n + °z
Carboidrato
[1]
processos espontâneos nas células, nos ecossistemas,
no Universo, e que a organização dos sistemas bio- Através do fluxo de energia solar, canalizado pela
lógicos encontra-se permanentemente ameaçada. A fotossíntese, compostos com baixo nível de energia
manutenção da organização, o crescimento e a cons- são convertidos em compostos orgânicos ricos em
trução de estruturas complexas só podem ocorrer à energia, como os carboidratos. A energia é armaze~
t
~
-;.,

)
~.

t
Fotossíntese 115

Fotossíntese Respiração
Alto Alto

Baixo

Fig. 5.1 Respiração e fotossíntese são processos biológicos de conversão de energia com vetares termodinamicamente
opostos.

nada nas ligações químicas das moléculas dos carboi, FOTOSSÍNTESE: UM PROCESSO DE
dratos.
OXIDAÇÃO ..REDUÇÃO
Nos cloroplastos, presentes em todas as células
fotossintetizantes eucarióticas, a energia radiante A simplicidade da equação global da fotossíntese
absorvida pelos pigmentos fotossintéticos é utiliza, [1] não reflete a grande complexidade do processo
da para converter CO2 e água em carboidratos e fotossintético que envolve numerosas reações de con,
outras moléculas orgânicas. A fotossíntese transfor, versão de energia e bioquímicas. Tanto a fotossínte,
ma moléculas oxidadas, com baixo conteúdo de se quanto a respiração celular são constituídas por um
energia, em moléculas com elevado poder redutor conjunto de reações de redução e oxidação seqüenci,
e conteúdo de energia. Nesse processo, a luz impul, ais - reações redox. A redução é a transferência de um
siona elétrons para níveis mais elevados de energia, elétron (e-) ou de um elétron junto com um próton
caracterizando,se aí um processo termodinâmico (H+) de uma molécula doadora (D) para uma molé,
não,espontâneo. O oxigênio liberado para a atmos, cula receptara (R). Diz,se que a molécula doadora foi
, - fera nada mais é do que um subproduto das reações oxidada e que a molécula receptora foi reduzida, o que
fotossintéticas. As mitocôndrias, presentes em to, pode ser representado da seguinte forma:
das as células eucarióticas, degradam os carboidra, D + R~ D+ + R- [2]
tos, transferindo a energia anteriormente armazena,
da nas ligações de carbono para moléculas de ATP. [3]
O processo de respiração celular consome oxigênio
e, ao produzir CO2 e água, completa o ciclo. Com, As reações de oxidação e redução são de funda,
postos ricos em energia dão origem a moléculas com mental importância para que possamos compreender
baixo conteúdo de energia. A respiração é, assim, os mecanismos fotossintéticos. A reação primária da
um processo termodinamicamente espontâneo. Em fotossíntese, por exemplo, é uma reação de transfe,
cada transformação, parte da energia é dissipada rência de elétrons entre uma forma especial de clo,
para o ambiente na forma de calor. Assim, o fluxo rofila e uma molécula receptora específica (Fig. 5.2).
de energia biológica tem um sentido único, só po, Ao receberem luz, os elétrons das moléculas de elo,
dendo ter continuidade se houver influxo perma, rofila são excitados. De modo específico, as molécu,
nente de energia solar (Fig. 5.1). Ias especiais de clorofila, localizadas no coração do


116 Fotossíntese

processo fotossintético (centros de reação - CR), As bactérias que utilizam o HzS como fonte redu-
ej etam elétrons ao serem excitadas pela luz. T omam- tora produzem o enxofre elementar como produto da
se, assim, oxidadas, e as moléculas receptoras tomam- fotossíntese. Já os organismos que utilizam a água
se reduzidas. Na seqüência, os elétrons são transferi- como fonte redutora geram o Oz que é liberado para
dos para os carreadores do processo fotoquímico, ge- a atmosfera:
rando energia química. É importante destacar que as
moléculas de clorofila dos CR oxidadas pela luz são Luz)
clorofila
Oz + 4H+ + 4e- [5]
imediatamente reduzidas, tendo a sua neutralidade
restaurada e permitindo que o processo se repita de Com a oxidação da água, promovida pela luz, além
modo cíclico. Na maioria dos organismos fotossinte- da liberação de Oz e de elétrons, há um acúmulo da
tizantes (cianobactérias, algas e plantas), a molécula H+ no interior dos cloroplastos. Conforme veremos.
doadora de elétrons para a clorofila especial do CR é adiante, o gradiente de concentração de H + formado
a água, através de um processo de fotoxidação. En- no interior de cloroplastos constitui a força motriz
tretanto, as bactérias fotossintetizantes primitivas, para a síntese das ligações de alta energia do A TP.
anaeróbias, utilizam vários outros compostos como
fontes de elétrons (Hz, HzS, moléculas orgânicas etc.) FOTOssíNTESE: UM PROCESSO
para a restauração da neutralidade da clorofila espe-
EM DUAS ETAPAS
cial dos CRs, e não a água, conforme exemplificado
na Fig. 5.2 e na seguinte equação: Já no início do século XX, mais precisamente em
1905, um pesquisador inglês chamado Blackman,
Luz interpretando os seus resultados experimentais, con-
?
[4]
Bacteriodorofila cluiu que a fotossíntese é um processo que se dá em

Fotossíntese geradora de O2 Fotossíntese NÃO geradora de O2


CENTRO DE REAÇÃO CENTRO DE REAÇÃO
ATPe NADPH

CARREADÓRES
t
DE
ELÉTRONS

Fotoxidação da H20 Fotoxidação da H2S


Cianobactérias, algas, Bactérias fotossintetizantes
plantas sulfurosas

Fig. 5.2 A reação primária da fotossíntese é uma reação de oxirredução entre moléculas especiais de clorofila a (CLa) ou
bacterioclorofila a (BCLa) e moléculas receptoras de elétrons (R) que, na seqüência, transferem os elétrons excitados
para outros carreadores. Nos organismos fotossintetizantes geradores de Oz (cianobactérias, algas e plantas), a molécula
doadora de elétrons para a restauração da neutralidade das clorofilas especiais é a água. Mas, nas bactérias fotossinteti-
zantes anaerõbias, os doadores de elétrons podem ser diferentes moléculas orgânicas ou inorgânicas, como o H2S .


Fotossíntese 117

duas etapas interdependentes. As reações responsá~ dições naturais, não há etapa bioquímica da fotossín~
veis pela transformação da energia solar em energia tese, ou seja, assimilação de COz, sem a presença de
química integram a etapa fotoquímica da fotossíntese, luz. Além da necessidade de A TP e NADPH para a
também conhecida como reações dependentes de luz. realização das reações enzimáticas, a luz é fundamen~
Durante a etapa fotoquímica, a energia luminosa tal para a ativação de enzimas centrais do ciclo de
absorvida pelos pigmentos fotossintéticos é conver~ redução do COZo
tida em A TP e NADPH (poder redutor). A etapa se~ A forossíntese se processa simultaneamente em
guinte é constituída pelas reações enzimáticas de fi~ inúmeros níveis de organização, abrangendo desde
xação do COz e síntese de carboidratos (etapa bioquí~ planta como um todo (p. ex., área total de intercep~

I
~-
mica). A etapa bioquímica da fotossíntese é movida
pelo A TP e pelo poder redutor gerados durante o
tação da luz solar) a eventos que ocorrem numa es~
cala de nanômetros (10-9 m; p. ex., membranas dos
processo fotoquímico (Fig. 5.3). cloroplastos); de eventos que ocorrem numa escala

I,-
~ -,
t
/
Os diferentes carboidratos gerados na fotossínte~
se, juntamente com o NO] -, NH4 + e outros sais inor~
gânicos absorvidos do solo, são matérias~primas para
de tempo compreensível para os sentidos humanos (p.
ex., acúmulo de biomassa) a processos que ocorrem
em bilionésimos de segundo (fluxo fotossintético de
, a biossíntese de uma gama enorme de moléculas or~ elétrons). A compreensão do processo fotossintético
gânicas essenciais (aminoácidos, lipídios, pigmentos, depende, portanto, de pesquisas que focalizam dife~

r celulose, proteínas, ácidos nucléicos, hormônios etc.),


que irão compor a estrutura e o metabolismo, resul~
tando no crescimento e no desenvolvimento dos or~
rentes níveis de organização das plantas, do molecu~
lar ao organismo como um todo e da integração en~
tre pesquisadores de diferentes áreas da biologia, físi~
ganismos fotossintetizantes (Fig. 5.4). ca, química, matemática e da engenharia.
Convém destacar que as denominações "reações A fotossíntese, um processo essencial para a vida no
não~dependentes de luz" ou "reações no escuro" para planeta, para a sobrevivência e qualidade de vida hu~
a etapa bioquímica da fotossíntese, freqüentemente mana, tem desafiado a ciência e gerado milhares de
encontradas em muitos textos, são muito mais uma trabalhos científicos. O volume de informações e a
decorrência do tratamento experimental dado à fo~ compreensão do processo fotos sintético vêm crescen~
tossíntese do que uma realidade biológica. Em con~ do velozmente. O caminho que tem sido trilhado pela

Fig. 5.3 A fotossíntese é um processo complexo que ocorre em duas etapas interdependentes. Na etapa fotoquímica, a
energia dos fótons de luz é transformada em ATP e NADPH nas membranas dos tilacóides. Essas moléculas ricas em
energia são necessárias para colocar em movimento as reações bioquímicas que transformam o CO2 em carboidratos no
estroma dos cloroplastos.
118 Fotossíntese

-~

t
Fotoquímica. t:l. mmm:ra BIOMASSA

t
I
fi

BJossíNTE5E5

Pigmentos
clorofilas, carotenóides PODER REDUTOR
(F"MdoxiM,
~I.'"
~
NAOH, NAOPH) •
••••• 50;
NO;, NH:
CARBOIDRAT05

Transferência de
energia de excitação
eletrOnica

ADP+Pi

NADP+ ,. ~ NADPH
oxidado ~ ". reduzido

Fig. 5.4 Principais etapas da fotossíntese e sua relação com a geração de biomassa vegetal. O esquema caracteriza, de
modo simplificado e genérico, a conversão de energia luminosa em energia eletroquímica, a interação entre as etapas
fotoquímica e bioquímica, bem como a relação entre a fotossíntese, o metabolismo e o crescimento das plantas. (Lawlor,
1987, modificado.)

ciência para compreender a fotossíntese, em todas as que os conceitos e modelos sobre a fotossíntese serão
suas dimensões, tem sido pontuado por incertezas, apresentados neste texto de uma maneira objetiva, di,
polêmicas, problemas técnicos, hipóteses e teorias equi, dática, sem destaque para as contradições, esforços e
vocadas, como ocorre em todas as áreas do conheci, dificuldades encontradas ao longo do caminho.
mento humano. Mas também tem produzido fabulo, O presente capítulo encontra,se subdividido em
sos saltos no conhecimento. Há, portanto, a ressaltar quatro grandes seções: a primeira descreverá a estru,
·~
:t.

~~.

Fotossíntese 119

tura anatômica e estrutural da fotossíntese; a segun~ NíVEIS DE ORGANIZAÇÃO DO


PROCESSO FOTOSSINTÉTICO
da abordará a conversão da energia da luz em ener~
gia química (etapa fotoquímica); a terceira tratará
do metabolismo fotossintético do carbono (ciclos
C3, C4 e MAC); e a última abordará os principais
aspectos ecofisiológicos associados ao processo
fotossintético.

ESTRUTURA DA MÁQUINA
FOTOS SINTÉTICA
Os componentes estruturais da fotossíntese for~
mam uma hierarquia com diferentes níveis de orga~
nização, de dimensões e complexidade diferentes, que
funcionam de modo cooperativo e integrado ao meio
ambiente (Fig. 5.5). Nessa discussão, vamos nos li~
mitar a examinar alguns aspectos estruturais relevan~
tes para a compreensão da dinâmica da fotossíntese
nas plantas, bem como a sua interação com fatores
ambientais importantes. Faremos um breve comen~
tário sobre a estrutura foliar, sob o ponto de vista fun~
cional, e sobre alguns aspectos ultra~estruturais dos
cloroplastos.

As folhas
Fig. 5.5 Os componentes estruturais da fotossíntese orga-
As células das algas e bactérias fotossintetizantes nizam-se em diferentes níveis. A fotossíntese envolve desde
realizam todas as funções fisiológicas indispensáveis estruturas e processos de dimensão molecular (enzimas,
para a manutenção e crescimento do organismo. Vi~ complexos protéicos) até a planta individual integrada a
vendo em ambiente aquoso ou úmido, além da fo~ determinada comunidade vegetal (interceptação da radi~
tossíntese, essas células absorvem nutrientes, reali~ ação fotossinteticamente ativa).

zam trocas gasosas e controlam o próprio equilíbrio


hídrico. Ao invadirem e colonizarem o ambiente ter~
restre, os organismos fotossintetizantes pluricelula~ solo, bem como a exportação e a circulação das
res foram pressionados a desenvolver estruturas e moléculas orgânicas geradas na fotossíntese no
órgão diferentes que possibilitassem enfrentar os organismo como um todo.
novos desafios impostos para a sua sobrevivência, 4. A conservação da água no interior dos tecidos
tais como: através da impermeabilização de suas superfí~
1. A absorção de água e nutrientes do reservató~ cies externas.
rio do solo. O processo evolutivo das folhas, como órgãos fo~
2. A interceptação de luz e trocas gasosas eficien~ tossintéticos, além de incorporar as funções descri~
tes com a atmosfera, principalmente para a aqui~ tas nos itens 2 e 3 supracitados, teve de contemplar,
sição do COZo necessária e simultaneamente, mecanismos eficien~
3. Um sistema de transporte que permitisse a cir~ tes de conservação da água nos tecidos foliares (item
culação da água e dos nutrientes absorvidos do 4). A água é o principal componente de todas as cé~


120 Fotossíntese

lulas, preenchendo os espaços intercelulares e capi- Grande parte do dilema entre a maximização da
lares das paredes celulares. A evolução e o funcio- aquisição de COz e a minimização da perda de água
namento foliar sempre estiveram, portanto, pressi- pelos tecidos foliares convergiu para a evolução de
onados por duas demandas essenciais e contraditó- minúsculas estruturas porosas denominadas estôma-
rias: a maximização da capacidade de absorver luz e tos (Fig. 5.7). Estes últimos contêm poros que permi-
o COz a partir da atmosfera, e a capacidade de con- tem a comunicação entre os espaços aéreos intrafoli-
servar água nos tecidos numa atmosfera extrema- ares e a atmosfera externa. As superfícies foliares,
mente dessecante. especialmente a epiderme inferior, são dotadas de
Uma folha típica de uma dicotiledônea é recober- milhares de estômatos cuja distribuição e quantida-
ta com uma ePiderme superior e outra inferior, imper- de dependem da espécie e das condições ambientais.
meabilizadas em suas faces externas pela cutícula, o Os estômatos têm uma alta capacidade difusiva,
que minimiza a perda de água (Fig. 5.6). Os tecidos o que permite uma intensa troca de gases entre os
fotossintéticos localizam-se entre as duas camadas espaços aéreos intrafoliares e o meio ambiente. O
epidérmicas, podendo organizar-se em camadas colu- grau de abertura dos estômatos, entretanto, é carac-
nares, geralmente formadas por uma a três camadas terizado por uma extraordinária versatilidade e por
de células, denominadas de parênquima paliçádico, e um fino controle em função das condições hídricas
em camadas de células, com formato irregular, que se da planta, de fatores internos e ambientais. O poro
dispõem deixando enormes espaços aéreos entre si, estomático é margeado por um par de células espe-
denominadas de parênquima lacunoso. O parênquima ciais denominadas células guardas (Fig. 5.7). Na
paliçádico, localizado junto à superfície superior das maior parte dos casos, as células guardas são circun-
folhas, geralmente apresenta células com maior nú- dadas por células epidérmicas especializadas e dife-
mero de cloroplastos do que as células do parênqui- renciadas chamadas de células subsidiárias. O poro
ma lacunoso. estomático, juntamente com as células guardas e

Cutfcula

Epiderme superior

Cloroplastos

Célula
Guarda

Floema

------. Dióxido de carbono (C02) _._._~ Vapor d'água

Fig. 5.6 Esquema de corte transversal de uma folha típica de espécie C4 mostrando a sua estrutura anatômica e as trocas
gasosas que influenciam a fotossíntese e o balanço hídrico das plantas. °
gás dióxido de carbono (COz) e o vapor d'água
(HzOv) difundem-se, através da abertura dos estômatos, em sentidos opostos.
Fotossíntese 121

Fig. 5.7 (a) Epiderme de Catharathus roseus mostrando vários estômatos (lOX)j (b) detalhe de um estômato evidenci-
ando a presença de cloroplastos nas células guarda (20X); (c) epiderme abaxial de Gomidesia specrabilis, vista em micros-
copia eletrônica de varredura, com estômatos em destaque (2.000X). (Fotografias a e b gentilmente cedidas pelo Depar-
tamento de Botânica da UFRRJ; fotografia c gentilmente cedida pela Profª Doria M. S. Gomes.)

células subsidiárias, é conhecido como complexo anatomia foliar podem aumentar a performance fotos-
estomático. As células guardas funcionam como vál- sintética de uma grande variedade de espécies e em
vulas hidráulicas. As variações no seu volume são diferentes condições ambientais (Vogelman et al.,
responsáveis pelo controle do grau de abertura dos 1996).
ostíolos. O grau de abertura, por sua vez, influencia A estrutura, o formato e a distribuição das células
decisivamente a difusão do COz para o interior dos nas folhas são características geneticamente determi-
espaços aéreos foliares e a perda de água, na forma nadas, mas, dentro de limites, podem ocorrer varia-
de vapor, para a atmosfera (fenômeno da transpira- ções que representam ajustes ao meio ambiente. O
ção). Uma perda de água por transpiração maior do grau de plasticidade desses ajustes varia de espécie
que a capacidade de absorção pelas raízes gera um para espécie, compreendendo adaptações de longo e
processo de desidratação (estresse hídrico), que nor- curto prazos. Para exemplificar, podemos destacar que
malmente é controlado pela imediata redução do existem diferenças anatômicas, ultra-estruturais e
grau de abertura dos estômatos. bioquímicas entre as folhas de uma mesma espécie
A arquitetura e o ângulo de inserção das folhas nas crescidas sob sol pleno e sob intenso sombreamento.
plantas superiores são especialmente adequados para Anatomicamente, as folhas crescidas sob iluminação
otimizar a interceptação de luz. A elevada área super- intensa são mais grossas, geralmente têm uma área
ficial por unidade de volume, inerente à sua fina es- superficial menor, possuem células paliçádicas mais
trutura laminar, também contribui para o aumento longas e camadas adicionais de células de parênqui-
da absorção de COz' As propriedades ópticas das fo- ma paliçádico.
lhas são extraordinárias: normalmente, as células epi-
dérmicas focalizam a luz; as células paliçádicas cana-
Os cloroplastos
lizam a luz; e os espaços intercelulares do parênqui-
ma lacunoso dispersam intensamente a luz, o que Os cloroplastos são organelas que se autoduplicam,
aumenta a probabilidade de absorção da luz intercep- contendo genoma próprio que codifica parte de suas
tada. Novas e sofisticadas técnicas experimentais proteínas específicas. São organelas que se diferenci-
possibilitam, agora, examinar como as variações na am a partir de pequenos proplastídeos presentes nas


122 Fotossíntese

Grânulo
de amido

Fig. 5.8 (A) Esquema da ultra-estrutura de um cloroplasto mostrando a organização do seu sistema de membranas. As
membranas internas são denominadas tilacóides, apresentando regiões empilhadas (tilacóides dos grana) e não empilhadas
(rilacóides do esrroma); (B) eletromicrografia de transmissão de cloroplastos evidenciando a sua ultra-estrutura (37 .500X).
(Fotografia gentilmente cedida pela Profª Maria Emília M. Estellita.)

células meristemáticas. Nas plantas superiores, a di- A microscopia eletrônica revelou a estrutura fina
ferenciação de cloroplastos, a partir dos proplastídeos, dos cloroplastos com um nível máximo de resolu-
só ocorre em presença de luz. Os genes que contro- ção de 0,2 nm (Fig. 5.8a). O envelope que define os
lam o desenvolvimento e o funcionamento dos clo- limites do cloroplasto é constituído por uma dupla
roplastos localizam-se não só no interior do cloroplas- membrana, que circunda um complexo sistema in-
to, mas também no núcleo. Assim, a expressão dos terno de membranas, e por uma matriz fluida, que
genes dos cloroplastos precisa ser coordenada com a preenche os espaços internos dos cloroplastos, de-
expressão dos genes nucleares em todas as fases do nominada de estroma. A membrana mais externa do
crescimento e desenvolvimento, fazendo parte do envelope, em contato com o citoplasma, permite a
processo global de desenvolvimento da planta regu- passagem livre de muitos substratos, enquanto a
lado pela luz. membrana mais interna, em contato com o estro-
Fotossíntese 123

ma, é extremamente seletiva, permitindo o trans- cas sobre o meio ambiente. Através de diferentes sen-
porte de alguns solutos através de um sistema espe- sares (moléculas especiais denominadas pigmentos),
cial de proteínas denominadas transportadoras. De as plantas são capazesde perceber a qualidade e quan-
modo geral, o sistema interno de membranas é di- tidade da radiação.
vidido em duas áreas: a de membranas duplas com
formato de vesículas achatadas e empilhadas, que A NATUREZA FÍSICA DA LUZ
são denominadas tilacóides dos grana, e uma outra O sol emite continuamente para o espaço radia-
constituída de membranas duplas simples que fazem ção eletromagnética. A luz corresponde a uma peque-
múltiplas conexões entre os grana, chamadas de ti- na faixa de energia do espectro eletromagnético contí-
lacóides do estroma (Fig. 5.8b). Um conjunto de ti- nuo da radiação solar, responsável pelo fenômeno
lacóides empilhados recebe o nome de granum (plu- fisiológico da visão (Fig. 5.9). A luz compreende,
ral: grana). As vesículas dos tilacóides dos grana são portanto, os comprimentos de onda do espectro ele-
sacos empilhados que se comunicam através de co-
tromagnético que podem sensibilizar os nossos pig-
nexões com outras membranas. Em seu conjunto, o
mentos visuais. Como toda onda eletromagnética, a
complexo de membranas dos tilacóides parece cons-
luz tem um comportamento duplo, assumindo propri-
tituir um sistema único interconectado por um lú-
edades ondulatórias, ao se propagar no espaço, e um
men contínuo, uma característica importante para
comportamento de partículas discretas, ao ser emiti-
o transporte de elétrons e para a síntese de A TP. O
da ou absorvida por um corpo.
estroma abriga as enzimas, co-fatores e substratos da
etapa bioquímica da fotossíntese e de inúmeras ou-
A luz como um fenômeno ondulatório
tras vias metabólicas que operam no interior dos clo-
roplastos. Quando se propaga no espaço, a energia radian-
A intensidade luminosa do ambiente afeta a ultra- te tem características ondulatórias, apresentando
estrutura dos cloroplastos. O grau de empilhamento mudanças repetidas e regulares em suas proprieda-
aumenta a quantidade de membranas de tilacóides em des elétricas e magnéticas. Cada tipo de radiação
um dado volume do cloroplasto. As folhas de plantas pode ser caracterizada pelo comprimento de onda -
mantidas sob sombreamento intenso têm mais tila- distância entre dois picos sucessivos de uma mesma
cóides empilhados, ou seja, um conjunto de grana onda - ou pela freqüência - número de vezes que a
maior e mais desenvolvido do que as folhas crescidas mesma fase ou ciclo passa por um ponto no espaço
sob sol pleno. por segundo (Fig. 5.9). O comprimento de onda é
representado pela letra grega lambda (À). Normal-
mente, a faixa de comprimentos de onda de interesse
A CONVERSÃO DA LUZ EM
biológico é expressa em unidades de nanômetro
ENERGIA QUíMICA (1 nm = 10-9 m). A freqüência é representada pela
letra grega ni (11), tendo uma relação inversa com o
Luz: a energia que impulsiona a
comprimento de onda, que pode ser representada da
fotossíntese
seguinte forma:
A energia solar contempla duas necessidades im-
v = c/À [6]
portantes dos seres vivos: energia e informação. A ne-
cessidade energética é suprida pela fotossíntese. As onde c é a velocidade da luz (3 X 108 ~ S-I), cons-
plantas, sendo organismos sésseis, desenvolveram a tante para todas as ondas eletromagnéticas que se
capacidade de monitorar as mudanças ambientais e propagam no vácuo.
de ajustar o seu metabolismo e o seu desenvolvimen- Num extremo do espectro eletromagnético, en-
to ao ambiente em contínua modificação. A radia- contram-se os raios gama e os raios X, que têm com-
ção, principalmente a luz, fornece informações críti- primentos de onda muito curtos (inferiores a 10-11 m),


124 Fotossíntese

Â,(nm) O físico inglês Isaac Newton (1642-1727) de-


1 INI/NI/NI/M/II/tNl
monstrou que a luz pode ser decomposta num espec-
Ondas curtas tro de cores, semelhante ao do arco-íris, ao atraves-
Raios X
sar um prisma. A porção visível do espectro varia do
10
violeta (380 nm) ao vermelho extremo (740 nm).
400 Além desses limites, a radiação é invisível para os
violeta
seres humanos, podendo, entretanto, afetar vários
U,tra-l processos fisiológicos das plantas, principalmente
500
t Luz Visível como sinais ambientais. Isso significa que as plantas
são capazes de detectar e transformar em informação
bioquímica radiações que não podemos enxergar. Por
600
outro lado, algumas bactérias fotossintetizantes pri-
mitivas, anaeróbias, são capazes de captar radiações
700
não-visíveis na banda do infravermelho (740 a 870
nm) e realizar a fotos::;íntese numa condição que, para
nós, é de escuridão.
Infravermeiho
Ondas longas

106~
A luz como uma corrente de partículas
Ao interagir com a matéria (por emissão ou por
Fig. 5.9 O espectro eletromagnético. A radiação visível absorção), a luz se comporta como se a sua energia
(luz) representa uma fração muito pequena do espectro fosse constituída por pacotes discretos de energia,
eletromagnética emitido pelo sol. apresentando propriedades que só puderam ser ex-
plicadas a partir da Teoria Quântica enunciada por
Max Planck (1900), posteriormente ampliada por
e, no outro, as ondas longas, como as de rádio, que Einstein, em 1905. As unidades ou pacotes de ener-
são da ordem de 1 a 104cm (Fig. 5.9). Os comprimen- gia da luz são denominados [átom. A energia carre-
tos de onda de maior importância para os processos gada por um fóton é chamada de quantum (plural =
fotobiológicos situam-se em três bandas distintas, quanta).
intermediárias, denominadas: ultravioleta (UV), visí- Planck demonstrou que a energia contida num
vel (luz) e infravermelho (Tabela 5.1). fóton, ou seja, a energia quântica (Eq), está relado-

Principais radiações de interesse biológico e conteúdo de energia de seus fótons.


A defmição de determinada cor associada a uma banda de comprimento de onda é
relativamente arbitrária e dependente do indivíduo (Nobel, 1991)

Cor 425 193


260
292
176
490-1.400
400-425
471
-490
585
640 ->
85Energia
230 620
680
560-585
210 570
520
460
410
560
-640
Comprimento 740(kJmol-I)
740
ETA Comprimento 254 de
Representativo
~~<400 Onda
(nm)
,
Fotossíntese 125

nada com o comprimento de onda e a freqüência de tantes por aqueceram a superfície da terra. A tempe-
acordo com a seguinte equação: ratura influencia profundamente a velocidade dos
processos bioquímicos e, conseqüentemente, a velo-
Eq = hc/"- = hv [7]
cidade do crescimento e desenvolvimento dos seres
onde h é uma constante de proporcionalidade, cha- ViVOS.
mada constante de Planck. O valor de h é 6,62 X
10-34 J s. Tal relação implica que a energia quântica
de uma dada radiação é inversamente proporcio-
Luz e pigmentos: absorção e destino da
nal ao seu comprimento de onda e diretamente pro- energia de excitação eletrônica
porcional à sua freqüência. A equação [7] possibi- A ação fotoquímica e fotobiológica da luz obede-
lita o cálculo da energia do fóton de qualquer com- ce a dois princípios fundamentais. O primeiro prin-
primento de onda (Tabela 5.1). O símbolo hv tem cípio, conhecido como princípio de Gotthaus-Draper,
sido utilizado para representar o fóton em figuras e afirma que a luz só tem atividade fotoquímica se for
esquemas. absorvida. Assim, todo processo fotobiológico envol-
Esses conceitos físicos permitem compreender o ve, necessariamente, moléculas especiais denomina-
efeito das radiações sobre os organismos vivos. Com- das fotorreceptores ou pigmentos, responsáveis pela
primentos de onda muito curtos, tais como os conti- absorção de determinados comprimentos de onda da
dos, por exemplo, nas bandas UV-C e UV-B, são luz. Os pigmentos podem, portanto, funcionar ou
extremamente prejudiciais aos seres vivos. A energia como sensores, ou como moléculas transdutoras de
dos seus fótons é tão elevada que, ao atingirem as energia, como ocorre na fotossíntese, servindo de
moléculas orgânicas das células, arrancam elétrons de ponte entre a energia do fóton e a energia química.
sua estrutura, ionizando-as e, conseqüentemente, O segundo princípio, denominado lei da equivalên-
comprometendo, de modo irreversível, a sua estrutura cia fotoquímica de Einstein-Stark, estabelece que um
e função. Os fótons de comprimentos de onda mais fóton pode excitar apenas um elétron. A interação
longos, na faixa do infravermelho, têm um baixo ní- fóton-elétron depende da energia do fóton inciden-
vel energético. Ao serem absorvidos, alteram tão-so- te e do nível de energia do orbital ocupado pelo elé-
mente a energia cinética das moléculas como um tron, sendo um evento do tipo tudo-ou-nada. Ou seja,
todo, o que promove uma elevação de temperatura. se o nível de energia do fóton de determinado com-
Já os fótons na faixa do visível possuem um nível primento de onda é compatível com o do elétron,
energético suficiente para excitar elétrons entre os ocorre a excitação e, possivelmente, uma reação fo-
orbitais eletrônicos das moléculas que os absorvem, toquímica; se não o for, nada ocorre, significando que
podendo assim promover reações químicas (reações aquele comprimento de onda não pode ser absorvido
fotoquímicas). Ao ser absorvida por moléculas espe- e, conseqüentemente, não exerce uma ação biológi-
ciais (fotorreceptores ou pigmentos), a energia dos fá- ca através daquele pigmento.
tons de luz é transformada em energia de excitação ele- Uma característica generalizada das moléculas de
trônica, que pode, então, ser canalizada para reações pigmentos é a existência de muitas ligações conjuga-
bioquímicas. das (ligações simples e duplas alternadas). Isso acar-

I Em síntese, a radiação UV promove a ionização de


moléculas. Dependendo do comprimento de onda, da
reta a existência de muitos elétrons deslocados nos
orbitaismais externos, em ressonância, denominados

I
J
quantidade de fótons e do tempo de exposição, a ra-
diação UV pode matar, lesar ou promover mutações
nos organismos vivos. Radiações na banda do visível
elétrons 7T, os quais participam da absorção de luz. As
clorofilas, principais pigmentos fotossintéticos, possu-
em muitos elétrons em ressonância no anel de
são responsáveis pela maior parte dos fenômenos porfirina (elétrons TI). Estes últimos podem absorver
fotobiológicos em plantas e animais. Já os compri- fótons com diferentes conteúdos de energia, ou seja,
mentos de onda na faixa do infravermelho são impor- podem absorver diferentes comprimentos de onda

,
126 Fotossíntese

Clorofila a e b

~.:.
~:
·· .
···
,-
CH,

.'

300 400 500 600 700

A Comprimento de onda (nrn) B

Fig. 5.10 (A) Estrutura das clorofilas destacando as ligações conjugadas do anel de porfirina contendo uma molécula de
Mg. A altemância entre as ligações simples e duplas no anel de porfirina gera muitos elétrons deslocados, os quais
11"

participam da absorção da luz. O anel de porfirina liga-se a uma cadeia de fitol, apoIar, responsável pelo ancoramento da
molécula de clorofila aos complexos protéicos embebidos na matriz lipídica das membranas dos tilacóides dos cloroplas-
tos; (B) espectro de absorção das clorofilas a e b.

(Fig. 5.10a). No caso da clorofila, os fótons de luz (S2)' Se tivéssemos que definir, em poucas palavras,
absorvidos mais eficientemente são os de comprimen- o que significa absorção de luz, poderíamos dizer que
to de onda nas bandas do azul e do vermelho, não é um processo ultra-rápido de excitação eletrônica
absorvendo quase nada na banda do verde (Nobel, ocasionado pelos fótons de luz. Esse fenômeno ocor-
1991). re numa escala de fentossegundo (10-15 s).
Os estados excitados da clorofila têm um tempo de
o QUE ACONTECE QUANDO OS existência ultrabreve, da ordem de 10-12 (picossegun-
PIGMENTOS ABSORVEM LUZ? dos) a 10-6 segundos (milissegundos). Nessa breve fra-
Imaginemos que moléculas de clorofila mantidas ção de tempo, os elétrons retomam ao estado basal
no escuro sejam iluminadas com feixes de luz mono- dissipando a energia absorvida. A energia de excita-
cromática de comprimentos de onda na faixa do azul ção eletrônica pode ser dissipada de vários modos,
ou do vermelho. Esses fótons de luz impulsionam os processo esse denominado de-excitação eletrônica. A
elétrons 'lT para orbitais com níveis de energia mais transição S2~ SI é extremamente rápida (= 10-12 s),
elevados no interior da molécula de clorofila ('lT ~ sendo a energia de excitação dissipada na forma de
'lT*).Diz-se que os elétrons 'lT da clorofila foram exci- calor. Já a dissipação de energia entre os orbitais ele-
tados pelos quanta da luz azul ou vermelha. A absor- trônicos SI ~ So (= 10-9 s) tem duração suficiente
ção de fótons de luz vermelha remete os elétrons do para permitir outros tipos de conversão de energia
estado basal (So) para o estado excitado SI' chamado (Nobel, 1991). Além da liberação de energia na for-
primeiro singleto (Fig. 5.11). Já os fótons de luz azul, ma de calor, essa dissipação de energia pode se dar das
dotados de maior energia quântica, impulsionam os seguintes formas:
elétrons para um orbital eletrônico cujo nível de ener- 1. Dissipação de energia por emissão de luz, fenô-
gia é ainda mais elevado, denominado segundo singleto meno conhecido como fluorescêncía. Em se
F otossíntese 127

COMPLEXO ANTENA

NADPH

I ',,"sCi"

Reações
IIL

I-
Fotoquímicas
Calor
Fluorescência

I Fig. 5.11 Modelo esquemático, simplificado,


NAOP
dos níveis de energia da clorofila excitada pela absorção de luz monocro-
+

mática e o destino da energia de excitação eletrônica. A energia de excitação eletrônica pode ser dissipada de 4 formas:
calor, emissão de luz (fluorescência), transferência de energia de excitação elétron-elétron (ressonância indutiva) nos
complexos antena e reações redox nas membranas dos tilacóides, gerando A TP e poder redutor (NADPH e ferredoxina
reduzida).

tratando das clorofilas, o pico de emissão de luz mamente importante para que a captação de luz
fluorescente situa-se na banda do vermelho, ocorra eficientemente. Nesse processo, a ener-
independentemente do comprimento de onda gia de excitação do elétron de uma molécula é
que tenha excitado as moléculas de clorofila. Os transferida para o elétron da molécula vizinha,
processos de absorção de luz e emissão de fluo- e assim sucessivamente. Os complexos antena
rescência ocorrem em nanossegundos (10-9 s). (CA) ou complexos de captação de luz (CCL; do
Quando os pigmentos fotossintéticos são extra- inglês light harvesting complex - LHC) são estru-
ídos das folhas e solubilizados em solventes turas supramoleculares, associadas às membra-
apoIares (acetona, éter), a emissão de fluores- nas dos tilacóides, constituídas por proteínas e
cência é extremamente elevada, podendo ser pigmentos, tendo a função de captar a luz utili-
visualizada a olho nu. Entretanto, nos cloroplas- zada no processo fotossintético. Através dos
tos intactos, a emissão de fluorescência é míni- CCL, a energia luminosa é eficientemente ab-
ma, uma vez que os processos 2 e 3 (a seguir) sorvida e transformada em energia de excitação
competem de modo eficiente pela energia de eletrônica, a qual é canalizada para os centros
excitação eletrônica. No entanto, quando as de reação. Os CCL contêm moléculas de clo-
plantas sofrem diferentes tipos de estresse que rofila a, de clorofilas b e de carotenóides (Fig.
afetam a fotossíntese, a emissão de fluorescên- 5.11).
cia nas folhas tende a aumentar, o que pode ser 3. Dissipação da energia em reações nas quais o
detectado no laboratório ou no campo através elétron excitado é doado a uma molécula recep-
da utilização de um equipamento sensível de- tora, desencadeando reações de oxirredução.
nominado espectrômetro de fluorescência. Esse processo ocorre a partir das moléculas de
2. Transferência da energia de excitação para ou- clorofila especiais dos centros de reação (díme-
tras moléculas de carotenóides e clorofila, per- ros de clorofila a). Diz-se que a clorofila foi
mitindo uma rápida migração da energia entre fotoxidada e que a molécula receptora foi redu-
os pigmentos densamente empacotados nas zida. Esse processo de separação de cargas, in-
membranas dos tilacóides (complexos de capta- duzido pela luz, constitui o evento fotoquímico
ção de luz ou complexos antena). A energia é primário da fotossíntese (Fig. 5.2). A partir des-
transferida por ressonância indutiva, sendo extre- se ponto, tem início o fluxo fotossintético de
• :"""1 ,
-

128 Fotossíntese

elétrons até a redução do NADP+ a NADPH ser facilmente danificadas quando parte da energia ab-
(Fig.5.11). sorvida pelas clorofilas não pode ser armazenada no
Apesar de a luz azul ter uma energia quântica mai- processo fotoquímico. Isso pode acontecer com gran-
or do que a luz na banda do vermelho, os efeitos de de freqüência em ambientes intensamente ilumina-
ambos os comprimentos de onda sobre a fotossíntese dos. As clorofilas excitadas podem reagir com o oxi-
são equivalentes. Parte da energia da luz azul é dissi- gênio molecular formando espécies ativas de oxigê-
pada na forma de calor (SI ~ Si)' A energia de exci- nio (radicais livres) com grande ação destruidora so-
tação eletrônica é canalizada para a fotossíntese a bre muitos componentes celulares, especialmente os
partir do estado excitado correspondente ao primei- lipídios das membranas.
ro singleto (Si)' A fotoproteção envolve a canalização da energia
de excitação eletrônica em excesso para fora das clo-
rofilas, bem como a desativação de radicais livres.
Os pigmentos fotossintéticos
Carotenóides excitados não têm energia suficiente
As clorofilas e os carotenóides encontram-se densa
para formar radicais livres de oxigênio, dissipando a
e rigorosamente organizados nas membranas dos clo- energia de excitação eletrônica como calor. Tal im-
roplastos. As moléculas dos pigmentos, nas membra- portância é evidenciada pela natureza letal das mu-
nas dos tilacóides, estão estruturadas de modo a tações que afetam a síntese de carotenóides. Mutan-
otimizar a absorção de luz e a transferência da ener- tes deficientes em carotenóides não sobrevivem em
gia de excitação eletrônica para os centros de reação ambientes bem iluminados. O número de moléculas
da fotossíntese (CR). de carotenóides por molécula de clorofila é mais ele-
As moléculas de clorofila são constituídas por um vado em folhas expostas ao sol do que em folhas
anel de porfirina ao qual se liga um hidrocarboneto mantidas à sombra, especialmente na fração corres-
de 20 carbonos denominado fitol (Fig. 5.1 Oa). A clo- pondente às xamofilas (Demming-Adams et al.,
rofila a é encontrada em todos os eucariontes fotos- 1996).
sintetizantes, fazendo parte dos complexos antena e,
principalmente, dos centros de reação. A distribui-
O fluxo fotossintético de elétrons e a
ção de uma segunda clorofila (b, c ou d) pode ter um
significado evolutivo e taxonômico, principalmente fotoxidação da água
entre os diferentes tipos de algas. A clorofila b é en- Em todos os organismos fotossintetizantes clorofi-
contrada nas plantas, algas verdes e euglenófitas. A lados, o princípio geral do mecanismo de armazena-
clorofila b difere da clorofila a apenas pela substitui- mento da energia luminosa parece ser o mesmo.
ção do grupo metila (-CH3), ligado ao anel II da por- Moléculas de clorofila a, num ambiente protéico es-
firina desta última, pelo grupo formila (-CHOj Fig. pecífico de um centro de reação (CR), são excitadas
5.lOa). a um estado singlete, principalmente por transferên-
Depois das clorofilas, os carotenóides são o segun- cia de energia de excitação eletrônica dos complexos
do grupo de pigmentos mais abundantes do planeta. antena. Podem também ser diretamente excitadas por
Os carotenóides têm como estrutura básica esquele- fótons com comprimentos de onda específicos. No
tos de carbono com 40 átomos de carbono, ligados estado singlete de excitação, a clorofila do CR é um
simetricamente por ligações duplas alternadas (Fig. redutor muito forte e transfere o elétron para uma
5.12a). Na fotossíntese, os carotenóides podem de- molécula receptora, o que resulta, propriamente, num
sempenhar duas funções distintas. Participam da ab- processo de separação de cargas. A partir da molécu-
sorção de luz nos complexos de captação de luz atu- la receptora reduzida, tem início um fluxo de elétrons,
ando como pigmentos acessórios (Fig. 5.11) e desem- envolvendo diversos carreadores. Em última instân-
penham um papel essencial na fotoproteção do apara- cia, esses elétrons participam da redução do NADP+
to fotoquímico. As membranas fotossintéticas podem a NADPH. O estado oxidado da clorofila a do CR


A CAROTENOS

f3-Caroteno

o:-Caroteno

XANTOFILAS

Zeaxantina

Luteína

,,..
• •
• t, •.. :--; j}<;aroteno I
·








·





I
I




----------
Fig. 5.12 (A) Estrutura de alguns carotenóides.
300 400 500 600 700 As xantofilas contêm grupos hidroxila ligados à
cadeia carbônica constituída de 40 carbonos; (B)
Comprimento de onda (nm) espectro de absorção de dois carotenos (a e 13).


130 Fotossíntese

promove a fotoxidação da água e a liberação de 02' trons é mediada por carreadores móveis que circulam
Acoplado ao fluxo de elétrons dos cloroplastos, o no interior da matriz lipídica como a plastoquinona
A TP é formado atra~és do processo conhecido como (PQ); no interior dos tilacóides, como a plastocianina
fotofosforilação. (PC); ou no estroma, como aferredoxina (Fd). ° flu-
xo fotossintético de elétrons entre os fotossistemas
Nas plantas, algas e cianobactérias, o processo de
armazenamento fotossintético de energia se dá com gera um gradiente de prótons (H+) através das mem-
a participação de quatro complexos protéicos diferen- branas dos tilacóides. Esse gradiente de H+ impulsio-
tes, que atuam de modo integrado. Esses complexos na a síntese de A TP. Em outras palavras, o gradiente
protéicos encontram-se embebidos nas membranas de prótons acopla a A TP sintase ao processo de ar-
dos tilacóides. Os complexos supramoleculares que mazenamento de energia durante o fluxo fotossinté-
participam da fotossíntese são o fotossistema I (FSI), tico de elétrons (Fig. 5.13).
o fotossístemalI (FSII), o complexo cítocromo bd (Cit Considerando o fluxo fotossintético de elétrons de
bf) e o complexo A TP sintase. A interligação entre os um modo global e simplificado, pode-se dizer que a luz
complexos fotossintéticos envolvidos no fluxo de elé- faz com que os elétrons fluam da água até o NADPH,

Ii
Estroma

Fig. 5.13 Diagrama dos complexos protéicos, estruturados nas membranas dos tilacóides, responsáveis pelo transporte
de elétrons e conservação da energia dos fótons em ATP e NADPH. A energia dos fótons é transformada em fluxo de
elétrons nesses complexos protéicos e em gradiente de prótons entre estroma e lúmen dos tilacóides. (Buchanan et a!.,
2000, modificado.)
Fotossíntese 131

H20
+ )
2H + 1/202

Fig. 5.14 Representação linear do transporte de elétrons através dos complexos fotossintéticos supramoleculares nas
membranas dos tilacóides. (Hopkins, 1998, modificado.)

gerando simultaneamente uma força próton-motriz Os fotossistemas operam de modo simultâneo e em


que promove a síntese de A TP. série durante o processo fotossintético (Fig. 5.14). A
Os fotossistemas I e Il são grandes complexos conexão entre os dois fotossistemas é feita pelo com-
supramoleculares constituídos por múltiplas subuni- plexo citocromo bf e por dois carreadores móveis: a
dades de proteínas/pigmentos. Cada um dos fotossis- plastoquinona (FSII~ PQ~ Cit bf) e uma proteína
temas tem um centro de reação e se liga a um complexo que contém cobre, denominada plastocianina (Cit
de captação de luz (complexo antena). O CR do FSII é bf~PC~FSI).
denominado P680 (pigmento com absorção máxima Quando o fluxo fotossintético de elétrons é repre-
em 680 nm) e o do FSI é chamado de P700 (pigmen- sentado em função do potencial redox de cada uma
to com pico de absorção em 700 nm). Os CR são es- das moléculas que o integra, surge um diagrama que
truturas complexas que apresentam uma configura- é denominado esquema Z (Fig. 5.15). Por muito tem-
ção dupla e simétrica. po, a compreensão sobre as reações de transferência

Redutor
Forte ALTO
a..
•..
s:::
>< 0,6-
0,2-
0,4-
0,4-
oti
Gl
(+)
"Cl
"iõ
~ 0,0-
0,6-
1,0- P 680*
~(- )
0,2-0,8- __" __
~ _.P700*

'~"
..•
;•...... Fe~PQ ··~li·'
...:;;:: Fdx...
'"
~ Sl
"'-.@.
I I~ '-.
1.

~
/fSiI\ Cit
pc' J'~ 12 hv">6BOnml
NADP
Oxidante \ P700)
Forte lI\I 12 hv"< 680nml ""-.,/ '."~.

. P 680.,
Hp.~ 2H+ + '12O2

Direção do Fluxo de Elétrons
BAIXO

Fig. 5.15 O tradicional esquema Z representando o fluxo fotossintético de elétrons. Este diagrama associa os carreadores
de elétrons do sistema fotoquímico aos seus respectivos potenciais redox e níveis de energia .


132 Fotossíntese

de elétrons na fotossíntese esteve baseada no esque-


ma Z, modelo originalmente proposto por Hill & Estroma
Bendall em 1960.

o FOTOSSISTEMA II
O FSll é constituído por um complexo transmem-
brana formado por cerca de 22 proteínas. Funcional-
mente, o complexo protéico do CR do FSll é muito
semelhante ao das bactérias fotossintéticas púrpura
anaeróbias não-sulfurosas, cuja estrutura cristalina foi
determinada, em nível atômico de resolução, por
cristalografia de raios X. O núcleo do FSll é formado
pelas subunidades protéicas Di e D2 que atravessam
as membranas dos tilacóides. Os polipeptídios Di e
D2 contêm o CR P680 (dímero de clorofila a), a molé-
cula receptora primária de elétrons (feofitina) e sítios
de ligação para a ancoragem de moléculas carregado-
ras de elétrons móveis denominadas plastoquinonas
(QA e QB;Fig. 5.16). O FSll interage diretamente com
o complexo protéico que catalisa a fotoxidação da
água, o complexo de evolução de O2 (Pakrasi, 1995).
O FSlI promove a transferência de elétrons, indu-
zida pela luz, da água para a plastoquinona. Havendo
excitação eletrônica, os elétrons do CR do FSlI são
ejetados a partir de dímeros de clorofila a (P680) e
recebidos pelafeofitina (molécula receptara primária),
que, imediatamente, os transfere para a plastoquino-
na. Esse receptor de elétrons secundário assemelha-
se à ubiquinona, um componente da cadeia de trans-
porte de elétrons das mitocôndrias. A plastoquinona Lúmen
varia intercaladamente de uma forma oxidada (PQ)
a uma forma reduzida (PQH2, plastoquinol). PQ liga- Fig. 5.16 Diagrama esquemático do complexo FSII na
se aos sítios QA e QB do FSlI e, ao receber elétrons, membrana dos tilacóides. São mostradas as proteínas in-
forma PQH2 (Fig. 5.17). A forma reduzida da plasto- tegrais das membranas essenciais ao funcionamento do FSlI
quinona é então liberada dentro do pool da membra- (Di e D2). As setas indicam a direção do fluxo fotossinté-
na (conjunto numeroso de moléculas de plastoquino- tico dos elétrons impulsionados pela luz.As proteínas CP47
na). Na seqüência, PQH2 transfere elétrons ao com- e CP43 são proteínas do complexo antena do FSII associ-
plexo citocromo bd, enquanto os prótons (H+) são adas à transferência de elétrons para o centro de reação
P680. Os elétrons são transferidos de P680 para a feofitina
lançados para o interior do lúmen dos tilacóides, con-
(Feo) e, a seguir, para duas moléculas de plastoquinona (~
tribuindo para a geração do gradiente transmembra-
e QB)' O complexo protéico denominado complexo de
na entre o lúmen e o estroma dos cloroplastos. PQ
evolução de O2 (CEO) catalisa a fotoxidação da água, res-
volta a ocupar os sítios QA e QB' dando continuidade ponsável pela redução do P680oxidado pela luz (P680+).
ao fluxo local de elétrons entre a feofitina reduzida e O CEO abriga um grupo coordenado de moléculas de
o complexo citocromo oxidado pelo CR do FSI manganês em sua estrutura. (Buchanan et aI., 2000, modi-
(P700+j Fig. 5.13). ficado.)
+ ..•. "'
'iI H3CCH3 +2e, +2H
133
PQAH2 § (CH2-CH= !-CH2)gH OH
Fotossíntese

H2)gH
-2e, -2H+

H3C---(j' ~CÚ CH,

Fig. 5.17 Estrutura da plastoquinona - forma oxidada e forma reduzida,

A FOTOXIDAÇÃO DA ÁGUA to do gradiente de prótons entre o estroma e o lúmen


A excitação do CR do FSlI (P680*) gera um oxi~ dos tilacóides. Durante o fluxo fotossintético de elé~
dante forte (P680+), que retoma ao seu estado de trons, o pH do estroma atinge valores de aproxima~
equilíbrio (neutralidade) em picossegundos (10-12 s), damente oito, enquanto o pH do lúmen atinge valo-
tornando~se apto a ser novamente excitado. Esse res em torno de cinco. Em resumo, tanto a fotoxida-
evento se dá através da extração de elétrons da água, ção da água como o fluxo de elétrons via plastoqui~
com a conseqüente formação de O2, O processo de nona contribuem para a geração do gradiente de pró~
fotoxidação da água é catalisado e intermediado pelo tons entre o estroma e o lúmen dos tilacóides duran-
complexo de evolução de oxigênio (CEO). O CEO te o fluxo fotossintético de elétrons.
localiza-se no lado das membranas dos tilacóides vol~
tado para o lúmen (Figs. 5.13 e 5.16). Apenas um CR o FOTOSSISTEMA I
do FSlI e um CEO estão envolvidos na liberação de Até o momento, foram identificadas 13 proteínas
uma molécula de oxigênio (02), Isso envolve a oxi- no complexo transmembrana do FSI. OCR (P700)
dação de duas moléculas de água com a liberação de apresenta, tipicamente, receptores terminais de elé-
quatro pró tons e quatro elétrons. Assim, para cada O2 trons contendo centros de ferro-enxofre. Essa caracte-
liberado, o CR P680 precisa ser excitado quatro ve- rística é importante do ponto de vista evolutivo, por-
zes, ou seja, absorver a energia de quatro fótons. Cada que guarda semelhança com os complexos do CR de
CEO abriga um grupo de quatro íons manganês que bactérias verdes sulfurosas. Cabe aqui destacar que as
atuam como acumuladores de cargas positivas. Cada bactérias fotossintetizantes possuem um único fotos-
fóton absorvido remove um elétron do CR P680, o sistema, que pode ser similar ao FSlI ou ao FSI. Os
qual é imediatamente reposto por um elétron extraí~ estudos desses organismos primitivos têm fornecido
do do aglomerado de íons manganês do CEO. A per- informações fundamentais para a compreensão da
da sucessiva de quatro elétrons faz com que o centro evolução, da estrutura e do funcionamento do pro~
mangânico saia do estado So para S4+, que é o com- cesso fotoquímico nos demais organismos fotossinte-
ponente oxidante que reage com a água, restauran~ tizantes (Pakrasi, 1995).
do, assim, o estado de oxidação do centro mangânico O coração do FSI é um dímero de proteínas seme-
para a condição So: lhantes, provavelmente oriundas da duplicação de um
gene ancestral, denominadas psaA e psaB (do inglês
photosystem, clorofila a). Da mesma forma que no
Considerando~se que os fotossistemas I e II ope- FSlI, ao receber energia de excitação eletrônica das
ram de modo simultâneo e em série, são necessários, antenas (CCLI ou LHC!) ou absorver fótons direta~
no mínimo, 8 fótons para cada O2 liberado durante mente, o CR do FSI (P700*) doa elétrons para uma
o processo fotossintético. molécula receptora Ao (provavelmente, uma molé~
Finalmente, cabe destacar que os pró tons gerados cula de clorofila modificada), formando o par P700+ /
pela fotoxidação da água acumulam-se no interior do Ao_' A molécula reduzida Ao- é o mais poderoso
lúmen dos tilacóides, o que contribui para o aumen- agente redutor já encontrado em sistemas biológicos
134 Fotossíntese

(potencial redox Eo' = -1,1 V). Quase instantanea-


mente 00-12 s), P700+ captura um elétron da plas-
tocianina retomando a P700, podendo assim parti-
cipar de um novo ciclo de excitação. O elétron de Ao-
é transferido para All uma quinona (vitamina KI) e
daí para Fx, um aglomerado de ferro-enxofre (4Fe-
4S). Depois de passarem por uma proteína de ferro-
enxofre (PsaC), os elétrons são finalmente transferi-
dos para aferredoxina, uma proteína hidrossolúvel que
também contém um aglomerado de ferro-enxofre.
Essa reação ocorre no lado da membrana do tilacóide
voltada para o estroma (Fig. 5.18).
A ferredoxina é uma molécula redutora estável que
pode participar de inúmeras reações no interior do
estroma dos cloroplastos (redução do N03 - e de
S04-' assimilação de NH/, dentre outras). Mas, do
ponto de vista quantitativo, o principal destino dos
seus elétrons é a redução do NADP+ a NADPH. Essa
reação ocorre no estroma e é catalisada pela enzima
ferredoxina:NADP+ oxidorredutase (FNR), uma
flavoproteína que tem um FAD como grupo prosté-
tico. A captação de um próton durante a redução do
NADP+ também contribui para o gradiente de pró-
tons através das membranas dos tilacóides. O
NADPH formado é utilizado em larga escala na re-
dução do CO2 durante a etapa bioquímica da fotos-
síntese.

A fotofosforilação
Fig. 5.18 Modelo esquemático do complexo do FSI na
A síntese de A TP nos cloroplastos, promovida pela membrana dos tilacóides. As principais proteínas integrais
luz, é chamada de fotofosfori/ação. O mecanismo bá- são designadas pelas letras maiúsculas (A e B) e abrigam
sico da síntese de A TP nos cloroplastos é muito se- P700 e os carreadores de elétrons Ao, AI' Fx. A proteína
melhante ao das mitocôndrias, sendo impulsionado C está associada aos aceptores finais de elétrons FA e FB e a
pela força próton-motriz gerada durante o fluxo fo- dois grupos 4Fe-4S. As setas indicam a direção do fluxo
tossintético de elétrons. Isso significa que a hiPótese fotoquímico de elétrons impulsionado por fótons de luz.
quimiosmótica de Mitchell para a síntese de A TP tam- Fdx - ferredoxina; PC - plastocianina. A proteína deno-
minada E está envolvida no fluxo cíclico de elétrons.
bém se aplica aos cloroplastos.
(Buchanan et aI., 2000, modificado.)
As membranas celulares são muito pouco perme-
áveis aos íons H +. Os prótons, entretanto, podem fluir
de um modo controlado por intermédio do comple-
xo enzimático A TP sintase, que atravessa a matriz sintase, a favor do gradiente de H+, é responsável
lipídica das membranas através da subunidade CFo e pelas mudanças na configuração da subunidade CF1
projeta-se no estroma com a subunidade CFI (Fig. necessárias para a síntese de A TP (Buchanan et al.,
5.19). O fluxo de H + através do complexo A TP 2000). Substâncias aplicadas aos cloroplastos que
Fotossíntese 135

NAD~ADPH
680 nm
700 nm to

pH 5,0
Lúmen

Membrana Tilacóide

pH 8,0 Estroma

Fig. 5.19 Modelo esquemático das membranas dos tilacóides mostrando o acoplamento entre o transporte fotossintéti-
co de elétrons e a fotofosforilação. A energia armazenada no gradiente de prótons, gerado pelo fluxo fotossintético de
elétrons, é utilizada pela A TP sintase para a formação de A TP a partir de ADP e Pi (fosfato inorgânico).

aumentam a permeabilidade das membranas ao H + plastos, utilizando o poder redutor e o A TP gerados


(p. ex., detergentes, ionóforos-H+, amônia), ao des- durante a etapa fotoquímica.
fazerem o gradiente de pH, podem desacoplar o flu-
xo de elétrons da síntese de A TP. Isso quer dizer que,
FOTOFOSFORILAÇÃO NÃO ..CÍCLICA,
nessas circunstâncias, pode haver fluxo fotossintéti-
CÍCLICA E PSEUDOCÍCLICA
co de elétrons sem a formação de A TP. Por outro lado,
Quando a síntese de A TP se encontra acoplada ao
em condições experimentais, pode haver síntese de
A TP em tilacóides intactos mantidos no escuro des- fluxo de elétrons através dos dois fotossistemas, ou

de que se estabeleça artificialmente um gradiente de seja, da água até o NADPH (Fig. 5.13), a fotofosfori-
pH (~ pH = 3) através das membranas dos tilacóides. lação é denominada não-cíclica ou acícliql. Isso por-
Ou seja, em condições de laboratório, pode haver que a síntese de A TP encontra-se associada a um
fosforilação nos tilacóides, sem fluxo de elétrons, transporte de elétrons não-cíclico. Nesse ponto, é
desde que exista ADP, fosfato inorgânico, co-fatores importante lembrar que os dois fotossistemas não são
e um gradiente de H + suficiente. fisicamente ligados no interior das membranas, mas
O A TP sintetizado durante processo fotoquímico, sim segregados em diferentes regiões dos tilacóides
além de sustentar a fixação do COz, é utilizado em (Fig. 5.13). Conforme vimos anteriormente, a inter-
inúmeras vias metabólicas que existem no interior dos ligação entre FSI e FSII é realizada por carreadores
cloroplastos. A título de exemplo, cabe destacar que de elétrons móveis. Uma conseqüência importante da
grande parte da assimilação de NO) -, NH4 + e da bi- distribuição heterogênea dos fotossistemas nas mem-
ossíntese de aminoácidos se dá no interior dos cloro- branas é que o FSI pode transportar elétrons de um


136 Fotossíntese

modo independente do FSII, num processo conheci- Em condições normais, in vivo, a fotofosforilação
do como transporte cíclico de elétrons (Fig. 5.20). A cíelica e a acíelica coexistem. Evidências experi-
síntese de A TP acoplada a esse fluxo cíelico de elé- mentais indicam que as duas formas de fotofosfori-
trons é conhecida como fotofosforilação cíclica. Elé- lação podem atuar de modo cooperativo no sentido
trons do FSI, através da ferredoxina, retomam para a de manter o equilíbrio do sistema fotoquímico.
plastoquinona via citocromo b6 (cit b6), proteína in- Quando há excesso de energia radiante, o fluxo cí-
tegrante do complexo Cit bJ. O citocromo b6 tem um dico de elétrons é intensificado. Acredita-se que a
potencial redox de -0,18 V e doa elétrons para a fotofosforilação cídica contribua para a dissipação
plastoquinona, a qual tem potencial em tomo de zero. do excesso de energia de excitação eletrônica do sis-
O acoplamento desse fluxo cíelico de elétrons com a tema fotoquímico em ambientes intensamente ilu-
síntese de A TP está vinculado à transferência de H + , minados. O fluxo cíelico de elétrons também pode
através da plastoquinona, do estroma para o interior ser intensificado quando há falta de COz no mesófilo
do lúmen dos tilacóides. foliar e muita radiação solar, situação comumente
Em condições de laboratório, iluminando-se elo- vivida pelas plantas nos dias quentes e ensolarados.
roplastos com feixes de luz de comprimentos de onda Nessas condições ambientais, normalmente as plan-
superiores a 680 nm, obtém-se o funcionamento tas experimentam um estresse hídrico, ou seja, per-
apenas do FSI, através do fluxo cíelico de elétrons. dem mais água do que podem absorver. Para man-
Nessas condições, ocorre tão-somente a fotofosfori- terem o necessário equilíbrio hídrico, as plantas ten-
lação cíelica, sem que haja a fotoxidação da água e dem a diminuir progressivamente a perda de água
liberação de 0Z' OS fótons com comprimentos de através da diminuição do grau de abertura dos estô-
onda maiores do que 680 nm não são capazes de ex- matos. Isso afeta substancialmente a entrada de
citar nem as antenas, nem os CR do FSII (P680). COz no interior das folhas. Como grande parte do

Estroma

Lúmen

Fig. 5.20 Modelo de transporte cíclico de elétrons nas membranas dos tilacóides. O transporte cíclico de elétrons envol-
ve o FSI, a enzima ferredoxina-plastoquinona oxidorredutase e o complexo citocromo bd. O único produto dessa via é
o ATP sintetizado utilizando o gradiente de prótons gerado pela oxidação da plastoquinona reduzida -PQHz. (Buchanan
et al., 2000, modificado.)
Fotossíntese 13 7

NADPH gerado no processo fotoquímico é consu- dessas moléculas para a defesa das plantas contra a
mido na fixação do CO2, começa a haver um acú- fotoxidação.
mulo de NADPH e de ferredoxina reduzida no es-
troma e a faltar o receptor final de elétrons, que é o
Transporte de elétrons e herbicidas
NADP+. Nessas circunstâncias, o fluxo cíclico de
elétrons é o caminho mais provável dos elétrons o transporte fotossintético de elétrons pode ser
excitados do P700. Esse aumento do fluxo cíclico de artificialmente bloqueado por compostos que remo-
elétrons promove a síntese de ATP e a dissipação vem elétrons de diferentes pontos do sistema ou por
de uma parte da energia de excitação eletrônica do compostos que são análogos não-funcionais de mo-
sistema fotoquímico. léculas constitutivas da cadeia transportadora de
Ao mesmo tempo, quando há um fluxo de elétrons elétrons. Muitos herbicidas de amplo espectro, co-
muito intenso (elevada taxa de fluência de fótons) ou mercialmente disponíveis, atuam de modo letal so-
a disponibilidade de CO2 é muito baixa, parte dos bre as plantas por interferirem no fluxo fotossinté-
elétrons da ferredoxina pode ser doada para o oxigê- tico de elétrons. Duas categorias químicas de
nio molecular, que atua, então, como receptor termi- herbicidas bloqueiam a passagem de elétrons do sí-
nal de elétrons. Essefluxo de elétrons envolve os dois tio QB do FSll para a plastoquinona, interrompen-
fotossistemas e leva à formação de radicais livres su- do o fluxo fotossintético de elétrons: são derivados
peróxido (Ozo-). A síntese de A TP que resulta do da uréia, como o monouron e o diuron, e derivados
fluxo de elétrons da água para o Oz é chamada de fo- da triazina (Fig. 5.21). Essas substâncias têm sido
tofosfori/ação pseudocíclica. Essefenômeno é importan- utilizadas em experimentos de laboratório para o
te porque, além do radical livre superóxido, há a for- estudo do funcionamento dos fotossistemas isolada-
mação de peróxido de hidrogênio (H202), numa rea- mente. Isso se torna possível desde que cada
ção denominada reação de Mehler: fotossistema seja suprido com doadores e receptores
artificiais de elétrons dotados de potenciais redox
Fdred + O2 -7 Fdox+ O2°- [9]
adequados. Outra categoria de herbicidas são os co-
rantes viologênio bipiridilium - diquat e paraquat (Fig.
Fdred + O2- + 2H + -7 Fdox+ H202 [10]
5.21), que atuam interceptando elétrons do lado re-
Peróxido de hidrogênio e O2 - reagem formando dutor do FSI. Além de interferirem no fluxo fotos-
outro radical livre muito reativo, o íon hidroxil sintético de elétrons, os derivados do bipiridilium
(OOH). A destruição do radical livre superóxido é transferem elétrons diretamente para o oxigênio, ca-
realizada pela enzima superóxido dismutase (SOD). Já talisando a formação de radicais superóxido. Uma
a eliminação do peróxido de hidrogênio é efetuada vez absorvidos, os herbicidas bipiridilium matam ra-
pela enzima catalase: pidamente as plantas em presença de luz (Buchanan
et alo, 2000).
catalase ) 2 HzO + O2 [11]

Essas duas enzimas, SOD e catalase, juntamente Os complexos supramoleculares nas


com os carotenóides, são extremamente importan- membranas dos tüacóides: estrutura e
tes como defesas orgânicas contra os radicais livres
altamente reativos derivados do oxigênio. Estes úl-
regulação
timos, uma vez acumulados, destroem as membra- De acordo com modelos recentes, as membranas
nas e as próprias moléculas de clorofila. Diversos es- dos tilacóides podem ser divididas em três domínios:
tudos têm demonstrado que plantas, algas e micro- as lamelas do estroma, as margens dos grana e a parte
organismos mutantes, deficientes em SOD ou cata- interna dos grana (membranas empilhadas). Esses
lase ou carotenóides, são destruídos quando expos- domínios apresentam composição química e funções
tos à radiação solar. Isso confirma a importância diferenciadas (Fig. 5.22). O transporte linear de elé-
I

138 Fotossíntese

A CI o

-n
CI~H N_~_N(CH, 'CH,

DCMU, inibidor do FSII

CH . O

CH, I I
Br
')CH*Br CH,
O
DBMIB, inibidordo complexo citocromo Cit b.f

[C"'- o{~}_c"J
Meti! viologênio; inibidor do FSI
Paraquat
2C"

8
DBMiB

PQ+!ejf,~~.~-.@
Fig. 5.21 (a) Estrutura química de três herbicidas que atuam inibindo o fluxo fotossintético de elétrons. O DCMU 3-
(3 ,4-diclorofenil) -1, l-dimetilurea; DBMIB 2,5-dibromo- 3-metil-6-isopropil-p-benzoquinona e o paraquat (metil
viologênio); (b) sítio da ação dos herbicidas inibidores do transporte fotossintético de elétrons. A redução do paraquat
resulta na formação de radicais superóxido e outras espécies reativas de oxigênio que destroem membranas, clorofilas e
proteínas. (Buchanan et al., 2000, modificado.)

trons (não-cíclico) ocorre nos interior dos grana, trons, a conexão funcional entre os complexos, espa-
enquanto o transporte cíclico encontra-se restrito às cialmente separados no interior das membranas dos
lamelas do estroma (Albertsson, 1995). tilacóides, é efetuada pelos carreadores de elétrons
De fato, os complexos supramoleculares fotossin- móveis.
téticos apresentam uma distribuição diferenciada e O grau de empilhamento das membranas dos tilacói-
heterogênea nas membranas dos tilacóides (Fig. des no interior dos cloroplastos, bem como a proporção
5.22). As regiões empilhada e não empilhada das relativa dos complexos FSI e FSlI, pode variar entre
membranas dos tilacóides diferem quanto à compo- espécies e de acordo com as condições de luz do ambi-
sição dos complexos supramoleculares integrantes ente. Conforme já mencionado (ver Os cloroplastos),
do processo fotoquímico. O complexo FSI, o CCLI o grau de empilhamento das membranas tilacóides au-
e a A TP sintase localizam-se, quase que exclusiva- menta à medida que a intensidade luminosa diminui, e
mente, nas regiões não empilhadas, em contato com reduz-se à medida que a intensidade luminosa aumen-
o estroma, enquanto o FSIl e o CCLIl estão presen- ta. Isso promove mudanças não só na proporção relati-
tes nas regiões empilhadas. O complexo citocromo va dos fotossistemas I e II como também na proporção
bf tem distribuição uniforme através das membranas relativa dos seus respectivos complexos de captação de
dos tilacóides. Durante o fluxo fotoquímico de elé- luz (CCLI e CCLlI). O aumento do empilhamento é
FotossÍntese 139

Estroma

Estroma
Lamelas dos
grana (Membranas em pilhadas)
Lúmen
~
'"

Estroma
Membranas não empilhadas
dos tilacóides • Fotossistema I (FSI)

~ Complexo antena (FSU)


Ifff> Fotossistemall (FSU)

18 Complexo citocromo b,f

ATPase

Fig. 5.22 Distribuição dos complexos supramoleculares do processo fotoquímico nas membranas dos tilacóides. As uni-
dades do FSIl estão localizadas nas regiões empilhadas das membranas dos tilacóides, enquanto as unidades do FSI e da
A TP sintase estão localizadas nas regiões dos tilacóides em contato com o estroma (regiões não empilhadas dos tilacói-
des e tilacóides do estroma). O complexo citocromo e os carreadores móveis de elétrons, plastoquinona e plastocianina,
encontram-se uniformemente distribuídos ao longo de todo o sistema de membranas. (Buchanan et aI., 2000, modifi-
cado.)

acompanhado de um aumento quantitativo no núme- As adaptações às condições de iluminação do


ro de complexos do FSIl e de CCLIl. ambiente que envolvem mudanças ultra,estruturais
° CCLlI é uma antena maior e, provavelmente, e bioquímicas, como as já descritas aqui, e também
mais importante do que a antena associada ao FSI na anatomia foliar, podem ser consideradas adapta-
(CCLl). Hoj e sabemos que a maior parte da clorofila ções de longo prazo. Entretanto, cotidianamente, as
total das plantas está associada ao CCLlI - cerca de plantas estão sujeitas a flutuações extremamente rá-
metade da clorofila a e quase toda a clorofila b. Isso pidas nas taxas de fluência de fótons e na qualidade
explica um fenômeno já há muito conhecido pelos da luz. Nebulosidade variável durante um curto es,
fisiologistas: o de que as folhas de plantas sombrea, paço de tempo e rápida oscilação da posição de fei,
das têm um conteúdo relativamente mais elevado de xes de luz no interior do dossel da comunidade ve-
clorofila b do que as plantas crescidas ao soLUm com, getal são exemplos de variações instantâneas na taxa
plexo antena ampliado devido à adição de um maior de fluência de fótons. Isso exige mecanismos de
número de CCLll aumenta a capacidade de intercep, adaptação rápidos a essas enormes oscilações na dis,
tação de luz e a atividade do FSll sob baixa irradiân, ponibilidade quantitativa e qualitativa de fótons. A
cia. As folhas ao sol, por outro lado, tendo a maior eficiência do processo fotossintético, por sua vez,
disponibilidade de luz, investem menos recursos na exige uma distribuição equilibrada da energia de
formação de complexos antena (têm menor quanti- excitação entre os fotossistemas I e ll; exige um su-
dade de CCLll) e aumentam os níveis de transporta- primento suficiente e estável de ATP e NADPH
dores de elétrons (Cit bf, plastoquinona, plastociani- para uma ótima redução de COZoMudanças rápidas
na, ferredoxina) e de complexos ATPase por unida- no fluxo de fótons poderiam causar desequilíbrios no
de de clorofila. fluxo fotossintético de elétrons entre os fotossiste-
140 Fotossíntese

mas caso não existissem mecanismos de ajuste no ao FSI. O deslocamento modulado do CCUI entre
aporte de energia de excitação entre os fotossiste- os fotossistemas promoveria uma distribuição equili-
mas. Assim, quando a energia luminosa é absorvida brada de energia de excitação entre os fotossistemas,
de modo diferenciado pelos fotossistemas, há uma garantindo o equilíbrio do fluxo linear de elétrons.
redistribuição da energia de excitação entre eles. Tal Esse processo de desligamento de uma parte das an-
redistribuição parece envolver o movimento físico, tenas do FSll (CCUO dos sítios do FSll também
ou seja, o deslocamento do CCUI entre os fotossis- parece ser importante para a redução do aporte de
temas I e 11. energia de excitação nas membranas dos tilacóides
O mecanismo de controle do deslocamento do durante períodos de elevada irradiância (Grossman
CCLll, por sua vez, parece depender do estado de et alo, 1995).
fosforilação do conjunto de CCur. Cabe aqui desta-
car que a fosforilação/desfosforilação reversíveis de METABOLISMO DO CARBONO NA
proteínas representa um mecanismo de modulação da
FOTOSSÍNTESE
atividade de enzimas amplamente disseminado no
metabolismo vegetal. Dependendo do tipo de enzi- A fotossíntese ocorre em escala gigantesca em
ma, o grau de fosforilação das proteínas pode aumen- nosso planeta. Para se ter uma idéia da ordem de gran-
tar ou diminuir a atividade da enzima. No caso espe- deza do processo fotossintético, estima-se que 2 X 10ll
cífico, o excesso de energia de excitação no FSll em toneladas de matéria orgânica sejam produzidas anu-
relação ao FSI resulta no acúmulo de plastoquinona almente (Lawlor, 1987). A produção dessa enorme
reduzida. Acredita-se que o acúmulo de poder redu- quantidade de compostos orgânicos é resultante do
tor junto aos carreadores promova um aumento no metabolismo fotossintético do carbono, sustentado pelo
estado de fosforilação do CCLll (Fig. 5.23). Essa fos- A TP e NADPH gerados durante a etapa fotoquími-
forilação promoveria o deslocamento do CCLll para ca da fotossíntese (Fig. 5.24).
as regiões do tilacóide enriquecidas com o FSI (regi- A formação de moléculas orgânicas tem início com
ões não empilhadas dos grana e tilacóides do estro- a reação de fixação do COz, catalisada por uma enzi-
ma). A fosforilação atuaria, assim, como um meca- ma denominada ribulose bisfosfato carboxilaseloxigenase
nismo reversível do tipo liga-desliga: - não fosforilado, (rubisco). A rubisco é a enzima central para a aquisi-
o CCLIl estaria ligado ao FSIlj a fosforilação promo- ção de carbono pelos organismos vivos. Ao catalisar
veria o desligamento do CCLll do FSll e sua ligação a fixação do COz atmosférico, a rubisco desencadeia

Fig. 5.23 A fosforilação reversível do complexo de captação de luz do FSII (CCLIl) regula o fluxo de elétrons entre os
fotossistemas II e L Excesso de energia de excitação no FSII resulta no acúmulo de plastoquinona reduzida (PQHz). A
elevada concentração de PQHz ativa uma proteína cinase que fosforila o CCLII. A redução da concentração de PQHz,
por sua vez, desativa as proteínas cinases. O CCLlI é então desfosforilado pela ação de fosforilases. Ao ser desfosforilado,
o CCLlI se liga novamente ao FSII, aumentando de novo o fluxo de elétrons para esse fotossistema. (Hopkins, 1998,
modificado. )
Fotossíntese 141

Tilacóides

Amido

Trioses-fosfato
Pi t
t Sacarose - fosfato
t
Sacarose
t
Exportação
drenos

Fig. 5.24 O ciclo fotossintético redutivo é responsável pela fixação do COz e geração de carboidratos na fotossíntese
(ciclo de Calvin ou ciclo C3). Seu funcionamento é dependente do ATP e NADPH gerados na etapa fotoquímica da
fotossíntese. As trioses-fosfato formadas no ciclo C3 podem ser alocadas para produção de amido no interior dos cloro-
plastos ou ser transportadas para o citoplasma. Neste último compartimento, ocorre a síntese de sacarose, principal car-
boidrato exportado pelas células fotossintéticas.

uma rede de reações bioquímicas que geram os car- A rubisco, no entanto, tem a peculiaridade de ser
boidratos, as proteínas e os lipídios que sustentam as uma enzima bifuncional, ou seja, de apresentar simul-
plantas e os demais seres vivos, inclusive a nós pró- taneamente duas funções: catalisa tanto a carboxi/ação
prios (Mann, 1999). Necessariamente, quase todo o como a oxigenação do seu substrato, a pentose ribulose-
carbono orgânico existente na biosfera, em algum 1,5-bisfosfato (RuBP; Fig. 5.25). Os gases CO2 e O2
momento, transitou pelo sítio ativo de uma enzima competem entre si pelo mesmo sítio ativo da rubisco, re-
rubisco. agindo com o mesmo substrato (RuBP). Enquanto a

Icoa· + ~H-...J
COO-
OXIGENASE
c=Or+
I L-
I
C+O2
co, -OH
H-C-OH
H,O H- C
~I
H -c-OH- RuBP
CHpP03
COo·
CH2OP03
OH ICARBOXIU\SE
C HpP033-fosfoglicerato
ICHpP03
+2H+

Fig. 5.25 A carboxilação e a oxigenação da ribulose-l,5-bisfosfato (RuBP), reações catalisadas pela rubisco .


142 Fotossíntese

carboxilação resulta somente na formação de duas 8It~


moléculas de um ácido orgânico de 3 carbonos - o 3~
fosfoglicerato -, a oxigenação da RuBP conduz à pro~
GANHO DE CARBONO t PERDA DE CARBONO

dução de uma molécula de 3~fosfoglicerato e outra de


2~fosfoglicolato (Fig. 5.25).
Partindo do composto resultante da carboxilação,
o 3~fosfoglicerato, tem início um ciclo de reações bio~
químicas que gera vários carboidratos e que, simulta~
neamente, regenera a pentose bisfosfato que reage
com o COz, a RuBP. Essa via metabólica é conheci~
da como ciclo de Calvin~Benson ou ciclo fotossintético
redutivo C3, ou simplesmente ciclo C3 (Fig. 5.26). O
cielo C3 é a via metabólica responsável pela geração
dos carboidratos precursores de todas as moléculas
orgânicas existentes nos organismos fotossintetizan~ Fig. 5.26 Esquema relacionando os ciclos fotossintéticos
tes e heterotróficos. O ciclo C3 tem sido a base da redutivo (C3) e fotossintético oxidativo (Cz)· A rubisco
inicia o ciclo C3 e o ciclo Cz (fotorrespiração), dependen-
autotrofia de carbono através de todo o processo evo~
do do gás atmosférico que reage com a RuBP. (Buchanan
lutivo, sustentando assim a vida na Terra.
et al., 2000, redesenhado.)
O fosfoglicolato, por sua vez, gerado exclusivamen~
te pela função oxigenase da rubisco, não pode ser
utilizado no ciclo de Calvin~ Benson. O seu proces~
samento é efetuado por uma via metabólica conhe~ C2,por sua vez, dependem dos fatores que influenci-
cida como via Cz ou via fotorresPiratória. O metabo~ am a concentração relativa entre CO2 e Oz no interi-
lismo do 2~fosfoglicolato pela via Cz se dá com o con~ or do mesófilo foliar e, mais precisamente, no interior
sumo de Oz e com a perda de COz já fixado. Depen~ do esttoma dos cloroplastos, local onde atua a rubisco.
dendo das condições ambientais, cerca de 20 a 50% Ao longo do processo evolutivo, os organismos
do carbono já fixado pela fotossíntese pode ser per~ fotossintetizantes desenvolveram várias estratégias
dido na fotorrespiração (Mann, 1999). O ciclo C3 gera para minimizar ou, mesmo, suprimir o funcionamen~
ganho de carbono reduzido (carboidratos) a partir da to da via fotorrespiratória (C2). As estratégias hoje
fixação do COz, e o ciclo Cz promove a perda de car~ conhecidas fundamentam~se na evolução de meca-
bono reduzido a partir da fixação do 0Z' OS dois ci~ nismos concentradores de COz junto ao sítio de car~
elos operam, portanto, em sentidos opostos. A velo~ boxilação da rubisco. Isso significa que alguns orga-
cidade relativa desses dois ciclos determina o ganho nismos fotossintetizantes são capazes de manipular a
líquido de carboidratos a cada momento em plantas concentração relativa de CO2 e O2 no interior de suas
com a fotossíntese C3• Os dois ciclos são sustentados células e, assim, modular as taxas relativas de carbo~
pelo A TP e poder redutor (NADPH e ferredoxina xilação e oxigenação da rubisco. Em algas adaptadas
reduzida) produzidos no fluxo fotossintético de elé~ a condições limitantes de COz, têm sido encontra~
trons (Fig. 5.26). dos mecanismos de concentração do carbono inorgâ~
A eficiência da assimilação de COz (fotossíntese nico no interior das células (Moroney & Somanchi,
líquida) depende, portanto, das taxas relativas dos ci~ 1999). Já entre as plantas vasculares, são conhecidos
clos C3 e C2, em grande parte espécies vegetais. Resu~ dois mecanismos de concentração de COz: o metabo~
midamente, pode~se dizer que o metabolismo do car~ lismo C4 e o metabolismo ácido das crassuláceas (MAC).
bono nos organismos fotossintetizantes é dependente Ambos os mecanismos concentram CO2 no sítio ati~
do balanço integrado de dois ciclos que se opõem vo da rubisco através de um "bombeamento" bioquí~
mutuamente. As taxas relativas entre a via C3 e a via mico de COz (Leegood, 1993).


Fotossíntese 143

Nesta seção, estudaremos as bases bioquímicas e Até o momento, foram identificadas duas formas
t estruturais dos principais mecanismos fotossintéticos de rubisco na natureza. A forma mais simples, en~
de assimilação do COz' Suas implicações ecofisioló~ contrada em algumas bactérias fotossintetizantes, é
gicas mais amplas, bem como o seu impacto sobre a constituída apenas de subunidades grandes (L), sen~

I produtividade das plantas, serão tratados na seção se~


guinte.
do denominada forma 11. Por outro lado, a enzima
ativa, presente na maior parte dos organismos fotos-
sintetizantes, é constituída de oito subunidades L e
A rubisco
ma I. °
oito subunidades S (LsSs), sendo denominada for-
sítio ativo da enzima situa~se na subunida~

I
t
~
A enzima rubisco existe em elevada quantidade
nos tecidos fotossintéticos das plantas superiores, sen~
de L. Ao se estudar as propriedades cinéticas
rubisco (Km(cOz)' Km(Oz)' V máJ proveniente de di~
da

do provavelmente a proteína mais abundante na su~ ferentes espécies de plantas C3, verifica-se a existên~
perfície do nosso planeta. Nas plantas C3, cerca de cia de diferenças pequenas, porém significativas
metade da proteína solúvel das folhas pode correspon~ (Woodrow & Berry, 1988).
der à enzima rubisco. Acredita~se que o maciço in~
vestimento que as plantas fazem para produzir essa
enorme quantidade de rubisco e, assim, garantir uma
o ciclo C3 (ciclo de Calvin..Benson)
fixaç~o de carbono suficiente, seja uma resposta com- A elucidação da via metabólica através da qual os
pensatória à baixa eficiência da reação de carboxila- vegetais fixam o COz e produzem os carboidratos é
ção por ela catalisada. Nas plantas superiores, enquan~ um marco histórico no desenvolvimento das ciênci~
to as taxas das reações enzimáticas são normalmente as biológicas. Foi a primeira via metabólica inteira-
da ordem de 25.000 reações por segundo, a velocida~ mente descoberta com o uso do isótopo radioativo do
de de reação da rubisco é de cerca de três reações por carbono, o 14c. A partir de meados da década de 40,
segundo (Mann, 1999). Essa ineficiência da rubisco Calvin, Benson, Bassham e uma equipe de colabora~
tem implicações nutricionais importantes para os dores utilizaram o 14COZ em experimentos com algas
herbívoros e para os próprios vegetais. Em se tratan~ verdes dos gêneros Chlorella e Scenedesmus. Associa~
do dos herbívoros, grande parte da proteína consu- ram ao traçador radioativo uma ferramenta analítica
mida na forma de biomassa verde é representada pela eficaz, a cromatografia bidimensional em papel, uma
rubisco. Para as plantas, produzir tamanha quantida~ técnica bioquímica então recentemente desenvolvi-
de de rubisco impõe a necessidade de adquirir uma da. A técnica de cromatografia permite separar e iden-
enorme quantidade de nitrogênio a partir do solo. tificar pequenas moléculas orgânicas presentes numa
A rubisco é uma proteína de elevado peso molecu- mistura complexa, como aquela derivada de um ex~
lar e constituída por dois tipos de subunidades: uma trato de células vegetais.
subunidade grande (L) e outra pequena (S). Cada uma Suspensões uniformes de algas verdes eram expos-
dessas subunidades é codificada por genes localizados tas a condições constantes de luz e COz, de modo que
em compartimentos celulares diferentes. A subunida- a fotossíntese atingisse um estado estacionário. Por
de maior (L) é sintetizada nos cloroplastos. Já a subu- um breve período de tempo, o 14COz era fornecido às
nidade menor (S) é sintetizada no citoplasma, a partir algas com o objetivo de marcar radioativamente os
de um RNAm transcrito no núcleo celular. A proteí~ diversos intermediários do ciclo. As análises bioquí~
na precursora da subunidade S, após ser transportada micas eram efetuadas em amostras de algas coletadas
para o interior dos cloroplastos e sofrer modificações, em álcool fervente, em diferentes momentos, a par~
liga-se à subunidade L, gerando a enzima em sua for- tir do suprimento do 14COz' Procedia-se, então, à se~
ma funcional. A rubisco é, portanto, resultado de um paração cromatográfica e identificação dos compos-
processo coordenado de expressão de genes nucleares tos orgânicos presentes nos extratos das algas. As re-
(rbcS) e de genes dos cloroplastos (rbcL). giões do papel de cromatrografia marcadas com radio-


-

144 Fotossíntese

atividade podiam ser detectadas colocando~se o pa~ o ciclo redutivo do carbono (ciclo C3) é o respon~
pel do cromatograma em contato com uma folha de sável pela assimilação de carbono em todos os orga~
filme de raios X, técnica essa conhecida como auto, nismos, à exceção de algumas espécies de bactérias
radiografia. Expondo as algas ao 14C02 por intervalos fotossintetizantes primitivas. As plantas C3 compre~
de tempo cada vez mais breves (até 2 segundos), a equi~ endem 85 % das angiospermas, maioria das gimnos-
pe de Calvin foi capaz de identificar o primeiro produ, permas e pteridófitas, todas as briófitas e algas.
to estável da fotossíntese, um ácido orgânico de três car~
banas, o ácido 3,fosfoglicérico. Identificaram também ET AP AS DO CICLO C3
a seqüência dos demais intermediários através do des, O ciclo C3 pode ser dividido em três fases: a car,
locamento da radioatividade entre os diferentes com~ boxilativa, a redutiva e a regenerativa (Fig. 5.27).
postos existentes nos auto~radiogramas dos extratos Ocorre no estroma dos cloroplastos, onde estão loca,
obtidos em vários períodos após o suprimento do 14C02• lizadas as enzimas que o movimentam. As três fases
Depois de mais de uma década de trabalho intenso, do ciclo podem ser brevemente caracterizadas da se,
quando foram identificados os diferentes compostos guinte forma:
orgânicos intermediários e caracterizadas as enzimas 1. A fase carboxilativa compreende a reação catali-
envolvidas, Calvin, Benson e sua equipe estabelece~ sada pela rubisco. Cada molécula de CO2 fixada
ram a rota que conduz à síntese de carboidratos a par~ pela rubisco dá origem a duas moléculas de 3-
tir do CO2• A via metabólica então desvendada envol~ fosfoglicerato (3PGA), primeiro composto está-
ve 13 reações organizadas de um modo cíclico. vel do ciclo C3• O intermediário de 6 carbonos

Ribulose-1,5-
bisfosfato (3X)

Carboxilação

3-F osfog IiceratO(6X)


Regeneração

Redução

Gliceraldeído-3-
fosfato

+
Sacarose, amido

Fig. 5.27 O ciclo de Calvin pode ser dividido em três etapas: carboxilativa, redutiva e regenerativa.
Fotossíntese 145

H
que forma inicialmente é instável. Inicialmente,
I
o COz reage com o átomo de carbono na posi- c=o
ção 2 (C- 2) da ribulose bisfosfato, formando uma
I
H-C-OH
molécula instável, de 6 carbonos, que permane- I
ce ligada à enzima. A seguir, essa molécula é H~'®
H
hidrolisada, formando duas moléculas estáveis de
3PGald DHAP
ácido 3-fosfoglicérico (3PGA) (Fig. 5.28).
2. Na fase redutiva, o 3PGA é convertido a @ -O-PO:"H'
gliceraldeído-3-fosfato (3PGald) através de duas
reações que utilizam o A TP e o NADPH pro- Fig. 5.29 Reação de conversão e estrutura das trioses-fos-
duzidos na etapa fotoquímica da fotossíntese. O fato - gliceraldeído-3-fosfato (3PGald) e diidroxiacetona-
fosfato (DHAP). A interconversão entre 3PGald e DHAP
3 PGald é o primeiro carboidrato gerado no ciclo
é catalisada pela enzima triose-fosfato isomerase.
C3• As duas reações seqüenciais, apresentadas a
seguir, são catalisadas pelas enzimas fosfato
glicerato quinase e NADP:gliceraldeído-3-fosfato
enzimáticas interconvertem açúcares-fosfato de
desidrogenase, respectivamente:
três, quatro, cinco, seis e sete átomos de carbo-
3PGA+ATPH
no, e regeneram a molécula receptara primária
Glicerato-l,3-bisfosfato + ADP [12] do COz, a ribulose-l,5-bisfosfato (RuBP). Oito
enzimas diferentes catalisam as 10 reações que
Glicerato-l,3-bisfosfato + NADPH H integram a etapa regenerativa do ciclo de
3PGald + NADP+ + Pi [13] Calvin-Benson (Fig. 5.30).
3. A fase regenerativa se processa a partir da forma-
ção do 3 PGald. Esse monossacarídeo é reversi- CICLO AUTOCATALÍTICO
velmente convertido em diidroxiacetona-fosfa- A fixação ininterrupta de COz durante a fotossín-
to (DHAP) através da enzima triose-fosfato tese requer que a RuBP seja continuamente regene-
isomerase (Fig. 5.29). Os dois açúcares fosfato, rada. Isso é garantido pela operação autocatalítica do
constituídos de três carbonos, são denominados ciclo C3• Ou seja, o ciclo C3 se auto-sustenta e, quan-
trioses-fosfato (triose-P). Uma série de reações to maior a velocidade de formação da RuBP, maiar a

Carboxilação Hidrólise

1CH20POt
I
2C=O
I
H_3C-OH
I
H_4C-OH
I 2-
SCH20P03

2-Carbóxi-3-cetoarabin itol-1,5-bisfosfato
Ribulose-1,5-bisfosfato (composto instável, intermediário da enzima) 3-Fosfoglicerato

Fig. 5.28 Reação de carboxilação da ribulose-1,5-bisfosfato, catalisada pela rubisco. A molécula de 3PGA superior, no
esquema, contém o novo átomo de carbono recém-incorporado, indicado com asterisco. (Taiz e Zaiger, 1991, modificado.)


Fase Fase
CHO
I CH,OH 3H,O Carboxilação Redutiva
HC-OH
I I .
C=O Fosforribulocinase
HC-OH Fosfopenlose Isomerase I
I
HC-OH
HC-OH
I t~o
- CH,OiJl I \'" 3CO,
6' Usada I •• HC-OH
I
Ht-oH II r---------.-.::--
'. \, I
','\'COOH
...•.
CH,OQj I
CHO cH,oCli
I Ribose-5-
COOCli
I
HC-OH
I
CH,O~
fosfalo Ribulose-5-
fosfalo
c~:~,~
H1-OH
Ribulose-
Ribul?se- ---- ilHT-OH
~5rt;~:i~~~~~~UbiSCO)_,ILH'CXiJ
~
I
HC-OH
I
1,5-bisfosfato 3-Fosfogliceralo :'1$.::

~:',:
3PGald (3PGA) wlj ~::~~
,i!tiV.I,fJh;.'d.:-j;J'F._iU,,_

.!I (2X\
l,3-Bisfosfoglicerato

I CH,OH
C=O
I
CH,oH
Gliceraldeido-
CH,O
I I
C=O Fosfopentose I!!I!
Epimerase \ I
HC-OH 3-Fosfato desidrogenase
C=O
I HO-C-H
I I 6NADPH~
6NADP++6 t41, ~-~-~
HC-OH
HO-C-O
I HC-OH I CHO
I
HC-OH
I CH,oG)
I
HC-OH
CH,oG}
Ribulose-
,.;:,' •....
,".
HC-OH
I
I Xilulose- 5 - fosfato 5-fosfato
CH,ot41
HC-OH
I ,fi
I,
1,[

CH,O({J Sedo-heplulose- Gliceraldeido-


1,7-bisfosfalase CHoOH 3-Fosfato
I.
C=O
(3PG ald)

I
I CH,oCII
HO-CH
I
4' Usada 3' Usada

I
HO-C-O
I
C=O
HC-OH
I
CH,OG}
CHO
CHO
I
HC-OH
I
Triose-Fosfato Isomerase J

Saldo de
1
HC-OH II
<11
I
HC-OH
Hf-OH
CH,OG}
Aldolase I CH,oCli
I
CHO
HC-OH
carbono
reduzido
I I para
biossínleses
HC-OH CH,o<i1
H,O
I CHp<il e energia
CH,OG} I
C=O GAP
i:,:nll;";~nW.'ifllill..ifí/!~!t'lii.f

HO-CH
I (1!)3PGald
Usada
I
HC-OH
I 2!Usada
S'Usada
I
HC-OH

CH,oCiI
CHO
I
HC-OH
<;t)
C=O
I I Eritrose- Frutose-1,6- bisfosfato
cH,oCli CH,O<il 4-fosfato
YHP~
~
3PGald DHAP Frutose - 6- fosfato ~ Grupo Fosfato

Fig. 5.30 Esquema do ciclo de Calvin completo. (Buchanan et aI., 2000, redesenhado.)

"" '~ '•••. m 'U;,i \W "* *' íiIlIii • ''\;ir .'f<it: .Y· 'WlrY'T
Fotossíntese 147

sua capacidade de fixação de CO2. A velocidade de ção catalisada pela rubisco e as quatro reações da etapa
assimilação de CO2 depende, assim, da taxa de gera- regenerativa catalisadas pelas enzimas: gliceraldeído-3-
ção dos carboidratos intermediários que conduzem à fosfato desidrogenase (Fig. 5.30), frutose-1 ,6-bisfosfatase
formação de moléculas de RuBP. Por exemplo, a fi- (FBPase; Fig. 5.30), a sedo-heptulose-1, 7-bisfosfatase
xação de três moléculas de CO2 produz seis molécu- (SBPase; Fig. 5.30) e a ribulose-5-fosfato cinase (Fig.
las de triose-P. Cinco moléculas de triose-P (5 X 3C) 5.30).
devem, necessariamente, regenerar três moléculas de Sabemos que a atividade enzimática pode ser afeta-
RuBP (3 X 5C), enquanto a sexta molécula de triose- da pela quantidade de cada enzima e por mecanismos
P representa o produto líquido do processo. Isso sig- que modulam a atividade das enzimas já existentes no
nifica que a formação de uma triose exige três voltas estroma do cloroplasto. A regulação da expressão de
no ciclo C3• A formação de uma hexose exige seis vol- genes do núcleo e dos cloroplastos afeta a quantidade
tas no ciclo, tendo como saldo duas moléculas de triose- das enzimas. Entretanto, diferentes mecanismos que
P, retomado ao ciclo o equivalente a 10 moléculas de atuam em curto prazo (segundos ou minutos) podem
triose-P (10 X 3C) regeneradas na forma de seis mo- aumentar ou diminuir a atividade das enzimas já for-
léculas de RuBP (6 X 5C), e assim sucessivamente. A madas. O ciclo C3 é regulado pela luz, sendo plenamen-
partir das moléculas de triose-P, os principais produ- te ativo em presença de luz e inativo no escuro.
tos da fotossmtese, o amido e a sacarose, podem ser então
sintetizados, conforme veremos adiante. Regulação da rubisco
A ativação da rubisco pela luz se dá através de um
BALANÇO ENERGÉTICO DO CICLO C3 mecanismo complexo. Este envolve simultaneamente
Do ponto de vista energético, a fixação de uma o fluxo de Mg2+ dos tilacóides para o estroma, ativa-
molécula de CO2 exige três moléculas de A TP e duas ção da enzima pelo CO2 e Mg2+, aumento do pH do
de NADPH. Duas moléculas de A TP e duas de estroma, bem como a ação de uma proteína ativado-
I
!
r -
NADPH são necessárias para movimentar a fase
redutiva do ciclo (equações [12] e [13]). Uma tercei-
ra denominada rubisco ativas e (Buchanan et aL, 2000).
Em presença de luz, um mutante de Arabidopsis
ra molécula de A TP é exigida na fase final da etapa thaliana, deficiente na proteína rubisco ativase, carac-
regenerativa do ciclo C3, quando a ribulose fosfato teriza-se por um baixo nível de atividade da rubisco
(RuP) é transformada em RuBP. Assim, a produção e exige uma elevada concentração de CO2 para cres-
de uma molécula de triose- P exige nove moléculas de cer (Woodrow & Berry, 1988).
A TP e seis moléculas de NADPH (Fig. 5.30). O processo de ativação é reversível e compreende,
inicialmente, a formação de um complexo temário
REGULAÇÃO DO CICLO C3 enzima-C02- Mg2+ ao qual se liga, em seguida, a
O ciclo de Calvin opera na interface entre o trans- RuBP. As moléculas de CO2 que participam do pro-
porte de elétrons e conjunto de carboidratos que origi- cesso de ativação são distintas daquelas que atuam
na, sendo portanto regulado por fatores que afetam o como substrato (Fig. 5.31A). A reação de ativação
processo fotoquímico e por fatores que interferem na pelo CO2, denominada de carbamilação, produz mu-
demanda do organismo por compostos orgânicos danças na conformação estrutural, aumentando a
(Lawlor, 1987). Além disso, a presença de concentra- atividade catalítica da enzima. A enzima rubisco
ções adequadas de açúcares- P intermediários é funda- ativase remove ribulose bisfosfato ligada à rubisco
mental para garantir a alta eficiência energética apre- inativa, numa reação dependente de A TP. A rubisco
sentada pelo ciclo C3• Essa condição é garantida pela livre pode então reagir com o CO2 e o Mg2+ (Fig.
fina regulação desse ciclo. Como nas demais vias meta- 5.31 B). Em estudos recentes, tem-se verificado que a
bólicas, os pontos críticos de tal regulação são essen- própria rubisco ativase é uma enzima fortemente re-
cialmente as reações irreversíveis. No ciclo C3, as etapas gulada que responde a sinais organo-específicos, à luz
reguladoras críticas compreendem a reação de carboxila- e ao relógio circadiano das plantas.
148 Fotossíntese

•. ( RUb,iSCO)
NH
I
COO
I 2.
Mg

AJ

B INATIVA ATIVA

Fig. 5.31 Modelo de regulação da rubisco. A. A ativação da rubisco é catalisada pela rubisco ativase e favorecida pelo,"
aumento do pH do estroma e da concentração de Mg2+decorrentes do fluxo fotossintético de elétrons nos cloroplastos J-
dependente
iluminados. de A
B.
(Hopkins, 1998,
ATP. A rubisco
rubisco livre pode
ativas e remove
modificado.),
então ser ativada por ligada
a ribulose-1,5-bisfosfato carbamilação
à rubiscoaoinativa
se ligar ao COz e, a seguir,
e descarbamilada, numa ao reação
Mg2+. .t
..
;·.·

o extrato de algumas espécies (Phaseolus vulgaris, C3) pela luz é diferente do mecanismo da rubisco. A
Solanum tuberosum) pode conter um potente inibidor sua ativação envolve a participação da ferredoxina
da rubisco denominado Z,carboxiarabinitol,l ,fosfato dos cloroplastos e de uma proteína denominada dor,
(CA,l,P). Geralmente, esse composto encontra,se redoxina (Buchanan, 1992). As tiorredoxinas são pro,
presente naquelas espécies que apresentam variações teínas de ferro-enxofre de baixo peso molecular, am,
diurnas na atividade da rubisco. OCA, 1,P acumu, pIamente distribuídas nos reinos animal e vegetal e
la,se no escuro ou sob baixa intensidade luminosa, entre as bactérias, que desempenham várias funções
ligando,se à forma ativa da rubisco (Gutteridge & celulares, inclusive a de regulação. As tiorredoxinas
Gatenby, 1995). sofrem processos reversíveis de redução e oxidação em
dois resíduos de cisteína próximos, formando grupa,
Regulação das enzimas da fase mentos sulfidrila, quando reduzidas (,SH HS,), e
regenerativa do ciclo C3 pontes dissulfeto, quando oxidadas (,S,S,).
O mecanismo de ativação das quatro enzimas da O sistema ferredoxina/tiorredoxina, formado pela
fase regenerativa do ciclo C3 (ver Regulação do ciclo ferredoxina, pela ferredoxina,tiorredoxina redutase


Fotossíntese 149

P700*

~e~

~
a SH
PSI Tiorredoxina <I Tiorredoxina <
~ SH
Enzima reduzida Enzima oxidada
(ativa) (inativa)

Fig. 5.32 Regulação da atividade de enzimas pelo sistema ferredoxina/tiorredoxina. Algumas enzimas do ciclo C3 são
ativadas pela luz através desse sistema. (Hopkins, 1998, modificado.)

(FTR) e pela tiorredoxina, faz parte de um mecanis- câmara selada, observou um aumento na taxa
mo geral de regulação enzimática mediado pela luz de liberação de COz imediatamente após desli-
(Fig. 5.32). Nos cloroplastos iluminados, a ferredo- gar a iluminação incidente sobre as folhas. Nesse
xina recebe elétrons diretamente do Fotossistema I experimento, as folhas eram mantidas ilumina-
e, em seguida, reduz as tiorredoxinas. Esta última re- das até que a concentração de COz no interior
ação é mediada pela enzima ferredoxina-tiorredoxi- da câmara se estabilizasse num valor conheci-
na redutase. Na seqüência, as tiorredoxinas reduzem do como ponto de compensação de COz' Essa
grupamentos dissulfeto das enzjmas-alvo, que passam, concentração de COz se estabelece no momen-
então, para um estado ativado. No escuro, através de to em que a taxa de fixação de COz pela fotos-
um mecanismo ainda desconhecido, essas enzimas síntese se iguala à taxa de liberação de COz pela
voltam ao estado oxidado, tomando-se novamente
inativas (Buchanan, 1992).

íOll

A fotorrespiração e o ciclo C2 ~ 60
te

Até o início da década de 70, alguns fenômenos Õ


o 50
0,0275% de 002
fotossintéticos representavam verdadeiros enigmas: Õ
e 40
.=.
1. Desde 1920, a partir dos experimentos de Otto .,
Warburg, sabia-se que a assimilação fotossinté- ~30
!l
tica de COz é inibida pelo Oz (efeito Warburg) . ...J20
3l
CIl

Como se pode observar na Fig. 5.33, quanto


~ 10
co
maior a quantidade de Õz no meio ambiente, o
menor a taxa de fotossíntese de plantas com ~ o
20 40 60 80 100
metabolismo Cy As taxas fotossintéticas são COncentração de O2(%)

medidas através do consumo de COz' Verificou-


Fig. 5.33 Inibição da fotossíntese líquida em plantas de
se, ainda, que o efeito inibitório do Oz podia ser
soja (C3) pelo O2, Esse efeito inibitório do O2 sobre a fo-
atenuado, ou mesmo eliminado, elevando-se a
tossíntese foi observado pela primeira vez em 1920, sendo
concentração de COz da atmosfera. conhecido como efeito Warburg. A atmosfera atual con-
2. J. P. Decker ( 1955), ao estudar a fotossíntese de tém 20,9% de O2 e 0,036% de COz' (Salisbury & Ross,
folhas de tabaco (planta C3), mantidas numa 1992, modificado.)

150 Fotossíntese

respiração e fotorrespiração. Decker acompa- organelas: eloroplastos, peroxissomos e mitocôndrias


nhou a liberação de Cal' na transição luz-es- (Fig. 5.34). Uma vez formado, o 2P-glicolato é rapi-
curo, verificando que, nos primeiros 2 minutos damente hidrolisado no estroma dos eloroplastos por
de escuro, havia um aumento brusco na libera- uma fosfatase específica denominada fosfoglicolato
ção de COl seguido de um deelínio até valores fosfatase. ° glicolato é transportado para fora do elo-
constantes e que seriam normalmente espera- roplasto através de um carreador específico, localiza-
dos em condições de escuro devido à respiração do na membrana interna, em troca com o glicerato.
celular. Essa liberação transitória e intensa de Já no interior dos peroxissomos, o glicolato é oxida-
Cal' pós-iluminação, foi interpretada como do a glioxilato e, em seguida, submetido a uma rea-
sendo dependente da luz. Daí a origem do ter- ção de transaminação que o converte no aminoáci-
mo fotorresPiração, que, dos pontos de vista bio- do glicina, conforme representado a seguir:
químico e fisiológico, nada tem a ver com a res-
CHzÜH - COOH ~ CHO-COOH [14]
piração celular propriamente dita. Os únicos
glicolato glioxilato
pontos comuns entre os dois processos é que
ambos consomem 01 e dão origem à liberação
CHO-COOH ~ CHzNHz - COOH [15]
deCOlO
glioxilato glicina
3. A origem bioquímica do glicolato gerado duran-
te a fotossíntese.
Todos esses fenômenos experimentais, aparente-
° peróxido de hidrogênio (HI01) gerado na rea-
ção de formação do glioxilato é decomposto nos pró-
mente independentes, passaram a ser compreendidos prios peroxissomos pela enzima catalase. A glicina é
e integrados a partir do momento em que W.L. Ogren transferida para as mitocôndrias, onde duas molécu-
e G. Bowes, em 1971, demonstraram que a rubisco las de glicina (4 carbonos) são convertidas numa
também tem função oxigenas e e que o glicolato é for- molécula do aminoácido serina (3 carbonos) e em uma
mado a partir dessa reação (Fig. 5.25). Até aquele ano, molécula de Cal' Portanto, a fonte imediata do COz
só se conhecia a função carboxilase da rubisco. De- liberado na fotorrespiração é a molécula de glicina.
monstrou-se, então, que o COl e o 01 moleculares Normalmente, as taxas de liberação de COl pela fo-
competem pelo sítio ativo da rubisco e pelo mesmo torrespiração são aproximadamente cinco vezes mai-
substrato (RuBP). Em condições atmosféricas normais ores do que as taxas do cielo de Krebs (Leegood et alo,
(0,036% de COl e 21 % de °1)
e sob temperaturas 1995).
moderadas (20-25°C), a proporção entre as funções A formação de serina, a partir de duas moléculas
carboxilase/oxigenase é de cerca de 3:1. Ou seja, de de glicina, ocorre através de uma série complexa de
cada quatro reações da rubisco, três são de carboxila- reações que se processam em duas etapas. Primeira-
ção e uma é de oxigenase. A diminuição da concen- mente, uma molécula de glicina é descarboxilada pela
tração do 01 ou aumento da concentração de COl enzima glicina descarboxilase, gerando COl e amônia
junto ao sítio ativo da rubisco podem reduzir a fotor- (NH3), com a simultânea transferência de um grupo
respiração devido ao aumento da função carboxilase metílico para uma molécula intermediária denomi-
em detrimento da função oxigenase. Essa competição nada tetraidrofolato. Na segunda etapa, o grupamen-
entre 01 e COl explica a inibição da fotossÍntese das to C1 do metilenotetraidrofolato é transferido para
plantas C3 sob baixas concentrações de COlOU sob uma seglJ:nda molécula de glicina, formando uma
altas concentrações de 01 (efeito Warburg). molécula de serina, numa reação catalisada pela en-
zima serina transidroximetilase. A serina produzida nas
OCICLOCz mitocôndrias é então exportada para os peroxissomos,
° 2-fosfoglicolato (2P-glicolato), gerado pela fun- onde é submetida a uma reação de transaminação
ção oxigenase da rubisco, é ponto de partida da via formando o hidroxipiruvato. Este último, pela ação da
bioquímica Cl que envolve enzimas localizadas em três enzima hidroxiPiruvato redutase, é reduzido a glicerato.
Fotossíntese 151

CH:pH
I
coa·
Glicolato

H,:.=l,~
HC=O
I
coa·
"
Glioxilato

Perixossomo

1. Rubisco 6. Serina: glioxilato aminotransferase


2. Glicerato cinase 7. Glicina descarboxilase

3. 2-Fosfoglicolato fosfatase 8. Serina hidroximetil transferase


4. Glicolato oxidase 9. NAD+ jlidroxipiruvato redutase
5. Glutamato: glioxilato aminotransferase
*GS - glutamina sintetase; GOGAT - glutamina: oxoglutarato aminotransferase

Fig. 5.34 Esquema da via bioquímica do glicolato (ciclo Cz), responsável pela fotorrespiração. A via Cz envolve três
organelas: cloroplasto, peroxissomos e mitocôndrias. (Buchanan et aI., 2000, modificado.)
152 Fotossíntese

A última reação do ciclo Cz dá-se com a entrada os tecidos vegetais, as folhas dispõem de um eficien-
do glicerato no interior dos cloroplastos, através de te mecanismo que permite a sua imediata recupera-
um co-transportador da membrana interna dos clo- ção. Nos cloroplastos, o NH3 é rapidamente reincor-
roplastos que faz a troca do glicerato pelo glicolato. porado em moléculas orgânicas através de um siste-
O glicerato é fosforilado a 3PGA pela glicerato cina- ma enzimático constituído por duas enzimas: a gluta-
se, sendo então incorporado ao ciclo C3• Assim, a cada mina sintetase e a glutamato sintase.
duas moléculas de glicolato geradas pela rubisco, três
carbonos retomam ao ciclo C3 na forma de 3PGA, FATORES QUE AFETAM AS TAXAS
enquanto um carbono já reduzido é efetivamente DE FOTORRESPIRAÇÃO
perdido na forma de COz' Isso significa que 75% do As taxas de fotorrespiração são tão dinâmicas quan-
carbono originalmente incorporado ao 2P-glicolato to as taxas de fotossíntese,sofrendo alterações com a
é recuperado pela via Cz através da reintegração do luz, concentração de COz e temperatura. Os principais
3PGA ao ciclo C3• fatores que influenciam as taxas de fotorrespiração são
Algumas algas e bactérias fotossintetizantes razão COz/Oz e a temperatura foliar. Conforme já
excretam quantidades maciças de glicolato para o mencionamos, a eficiência fotossintética das plantas
meio externo quando a disponibilidade de COz é for- C3 é significativamente afetada pela fotorrespiração.
temente limitada ou a concentração de oxigênio re- Nas condições atmosféricas normais - 0,036% de COz
pentinamente elevada. Tal fenômeno indica que es- e 21 % de Oz -, a fotorrespiração pode ocasionar uma
ses organismos possuem uma baixa capacidade de diminuição na assimilação líquida de carbono de 20 a
metabolizar o glicolato. Experimentalmente, através 50%, dependendo da temperatura.
do estudo de mutantes e do uso de inibidores da via As taxas de fotorrespiração aumentam à medida que
fotorrespiratória, já se comprovou que o acúmulo de a intensidade luminosa e a temperatura se elevam. A
2P-glicolato ou de glicolato é inibitório para a assi- fotorrespiração é favorecida pelo aumento da tempe-
milação fotossintética do COz' O acúmulo de ratura foliar porque a solubilidade do COz no meio
glicolato, glioxilato ou glicina em plantas mutantes, aquoso tende a diminuir mais rapidamente que a do
deficientes em enzimas do ciclo Cz, acarreta a dimi- Oz, à medida que a temperatura foliar aumenta (T a-
nuição do estado de ativação da rubisco, provocan- bela 5.2). As mudanças na razão Oz:COz alteram as
do o decréscimo da fotossíntese e da própria fotorres- taxas de fixação de COz e as taxas de fotorrespiração
piração. De modo geral, mutações na via fotorrespi- em decorrência do caráter competitivo desses dois subs-
ratória são letais (Lorimer & Andrews, 1981). tratos pelo sítio ativo da rubisco. Em função de seus
Cabe ainda destacar que a liberação de COz, du- efeitos sobre as taxas dos ciclos Cz e C3, as alterações
rante a conversão de glicina a serina, é acompanha- nas concentrações relativas dos gases Oz:COz podem
da da liberação de quantidades equivalentes de nitro- repercutir significativamente sobre as taxas de cresci-
gênio na forma de amônia. Como a NH3 é tóxica para mento de uma planta, conforme ilustra a Tabela 5.3.

Solubilidade do oxigênio e do dióxido de carbono na água em equihbrio com


diferentes temperaturas do ar (Leegood, 1993)

Solubilidade (f.tM)
Temperatura (OC) 21% Oz 0,035% COz Razão [OJCOz]
10 348 17 20,5
20 299 13 23,0
30 230 9 25,5
40 224 8 28,0


Fotossíntese 153

Efeito de diferentes concentrações relativas de oxigênio


e dióxido de carbono sobre o crescimento de Mimulus
cardinales, uma planta C3 (Leegood, 1993)
Concentração Aumento da Massa Seca
de CO2 (ppm) (mg por planta por 10 dias)

21% O2

110 10 150
320 565 1.076
640 804 1.144

I
o PAPEL DA FOTORRESPlRAÇÃO Alguns especialistas atribuem à fotorrespiração um
Se a fotorrespiração pode ter repercussões tão ne~ papel importante na proteção das plantas contra a
gativas para grande parte das espécies vegetais, por foto inibição da fotossíntese. A fotorrespiração repre,
que persiste nas espécies vegetais contemporâneas? sentaria um dreno consumidor do excesso de A TP e
Por que não foi eliminada através de pressões de se, NADPH (ou ferredoxina reduzida) produzidos quan~
leção no curso da evolução? A fotorrespiração é um do os níveis de radiação são excessivamente elevados.
processo essencial, inevitável ou ambos? As respos, Funcionaria, portanto, como uma "válvula de esca,
tas a tais questões ainda são polêmicas e indefinidas. pe" para a dissipação da energia metabólica exceden~
Mas um fato incontestável é que a fotorrespiração é te. Esse excesso normalmente ocorre em dias
decorrência de um "defeito" da rubisco: a presença da ensolarados, durante períodos de seca. Nessas condi,
função oxigenase, origem do glicolato. Muitos pesqui, ções, o COz não pode entrar no mesófilo foliar devi,
sadores defendem a hipótese de que a atividade oxi~ do ao fechamento dos estômatos, limitando o ciclo
genase é uma conseqüência inevitável do mecanis~ redutivo C3, principal processo consumidor da ener,
mo de reação da própria carboxilação. gia fotoquímica. Na ausência da fotorrespiração, o
Não podemos esquecer que, no período inicial da acúmulo exagerado de energia fotoquímica pode re,
história da Terra, a atmosfera era rica em COz e mui~ sultar em reações de dissipação de energia danosas à
to pobre em Oz (0,02%). À medida que a concen~ estrutura fotoquímica, ou seja, pode ocorrer a fotoxi~
tração do Oz atmosférico foi aumentando, pela pró' dação dos fotossistemas e antenas. Essa hipótese é
pria atividade dos organismos fotossintetizantes, a suportada pela perda de capacidade fotossintética
competição do Oz pelo sítio ativo da rubisco foi se tor~ (denominada foto inibição ) que pode ser observada
nando cada vez mais importante. Como a ameaça re~ quando plantas são iluminadas na ausência simultâ~
presentada pela elevação crescente do Oz atmosféri~ nea de Oz e de COZo Além disso, cálculos estequio,
co não foi acompanhada por modificações no funci, métricos sobre o consumo de A TP e NADPH durante
onamento da rubisco, enquanto oxigenase, mecanis~ a operação combinada dos ciclos C3/CZ indicam que
mos adequados de eliminação do glicolato tomaram~ o consumo de energia aumenta na medida em que a
se necessários. Muitos organismos aquáticos desfos~ concentração de COz da atmosfera circundante di,
forilam o 2~fosfoglicolato e excretam o glicolato. Nas minui e se aproxima do ponto de compensação de
plantas superiores, por sua vez, a via Cz permite a re~ COZo Nesse momento, para cada COz fixado, o con,
cuperação da maior parte do carbono desviado do sumo de energia fotoquímica pelos ciclos CZ/C3 é
ciclo C3 pela função oxigenase da rubisco. Confor~ aproximadamente três vezes maior do que o consu~
me já vimos, 75% do carbono desviado do ciclo C3, mo do ciclo C3 isoladamente (Lorimer & Andrews,
na forma de glicolato, são reintegrados à via C3 por 1981). O aumento das taxas do ciclo de Cz elevam o
intermédio do glicerato gerado pela via Cz (Fig. 5.34) . consumo de energia para a fixação de COZo Durante


154 Fotossíntese

períodos de deficiência hídrica, o ponto de compen~


sação de COz pode ser rapidamente atingido no in~
terior dos espaços aéreos do mesófilo foliar, enquan~
to a concentração de Oz tende a permanecer estabi~
lizada em tomo do valor atmosférico de 21 %.
CÉLULAS
DO
MESÓFILO
Mecanismos fotos sintéticos de
concentração de COz
Em algumas espécies de plantas, a fotorrespiração
é tão baixa que não pode ser detectada. Isso não se
CÉLULAS
deve a propriedades diferenciadas da rubisco, mas sim DA BAINHA
a mecanismos especiais de acumulação de COz nas PERIVASCULAR

vizinhanças da enzima. Na presença de concentrações


suficientemente elevadas de COz, a reação de oxige~
nase é suprimida. Em plantas vasculares, são conhe~
cidos dois mecanismos concentradores de COz no
sítio de carboxilação da rubisco, os quais analisare~
mos a segUlr. Fig. 5.35 O ciclo C4 de assimilação fotossintética do carbono
envolve divisão de tarefas entre dois tipos de células (células
do mesófilo e células da bainha perivascular) e quatro estapas:
MECANISMO C4 (1) carboxilação do ácido fosfoenolpirúvico (PEP) catalisada
O mecanismo concentrador de COz das plantas C4 pela PEP carboxilase, formando um ácido orgânico de qua-
baseia~se num ciclo de carboxilação e descarboxila~ tro carbonos nas células do mesófilo; (2) transporte do com-
ção que se distribui entre dois tipos diferenciados de posto de quatro carbonos para as células da bainha perivas-
células fotossintéticas: as células do mes6filo e as célu~ cular; (3) descarboxilação do composto de quatro carbonos
Ias da bainha perivascular (Fig. 5.35). As células do gerando COz e uma molécula orgânica de três carbonos; (4)
mesófilo e da bainha perivascular apresentam notá~ transporte do ácido orgânico de três carbonos de volta às
veis diferenças em suas propriedades bioquímicas, fi~ células do mesófilo e regeneração do PEP. (Leegood, 1993.)

siológicas e ultra~estruturais. A bioquímica da via C4


é, portanto, fortemente integrada a adaptações ana~
tômicas especiais, conhecidas em seu conjunto como
anatomia do tipo Kranz (Fig. 5.36; termo alemão que
significa coroa). Essa anatomia foliar diferenciada tem
duas conseqüências fisiológicas particularmente im~
portantes. A primeira é que o COz pode ser concen~
trado nas células da bainha perivascular com reduzi~
das perdas por difusão. As paredes dessas células são
espessas e apresentam uma baixa permeabilidade aos
gases. A segunda é que a maioria das células do
mesófilo situa~se imediatamente adjacente a células
da bainha perivascular, sendo conectadas por nume~
Fig. 5.36 Corte transversal de uma folha de planta C4 (mi-
rosos plasmodesmas. Isso possibilita uma cooperação lho), caracterizando a anatomia Kranz. Em destaque, as cé~
dinâmica e eficiente entre os dois tipos celulares ao lulas da bainha perivascular, envolvendo os feixes vascula-
desempenharem as suas tarefas fotossintéticas espe~ res, contendo cloroplastos (10X). (Fotografia gentilmente
cíficas. Medidas experimentais demonstram que a cedida pelo Departamento de Botânica da UFRRJ.)
Fotossíntese 155

concentração de COz nas células da bainha perivas- o ciclo bioquímico C4


cular pode atingir valores 10 vezes superiores aos va- Na década de 60, Kortschach, no Havaí, e Hatch
lores normalmente encontrados na atmosfera & Slack, na Austrália, estudavam a fixação de COz
(Furbank & Taylor, 1995). em milho, gramíneas tropicais e em cana-de-açúcar

I As espécies C4 são predominantemente tropicais


e subtropicais, ocorrendo em 18 famílias de plantas
superiores (Smith, 1998). Estas incluem culturas
utilizando folhas tratadas com 14COz, em experimen-
tos similares aos realizados pelo grupo do Dr. Calvin.
Tais investigações revelaram que, nessas espécies, o
importantes como o milho, o sorgo, a cana-de-açú- primeiro produto estável da fotossíntese era uma
car, assim como 8 das 10 piores ervas daninhas do molécula de quatro carbonos (oxaloacetato e
mundo. A tiririca (Cyperus rotundus), o capim-col- malato). A reação de carboxilação inicial das plan-
chão (Digitaria horizontalis) e o capim-arroz (Echino- tas C4 foi descoberta logo em seguida. A enzima PEP
chloa colonum) são exemplos de plantas daninhas com carboxilase (PEPcase) catalisa a carboxilação irrever-
metabolismo C4• Menos de 1% das angiospermas são sível do ácido fosfoenol pirúvico (PEP), tendo como
plantas C4, e a maioria das espécies são monocotile- produto o imediato ácido oxaloacético (AOA), confor-
dôneas, principalmente gramíneas e ciperáceas. En- me indicado a seguir:
tretanto, mais de 300 espécies C4 são dicotiledôneas.
HC03 - + PEP -7 AOA + Pi [16]
Pelo menos 11 gêneros incluem espécies C3 e espécies
C4 (Leegood, 1993). Convém destacar que a PEPcase utiliza carbono na
Supõe-se que as principais forças evolutivas que forma de bicarbonato (HC03 -), enquanto a rubisco
conduziram ao surgimento das plantas C4 tenham sido utiliza o carbono na forma de COz' No pH dos flui-
a progressiva redução da concentração do COz atmos- dos celulares, o COl dissolvido sob a forma de ácido
férico em combinação com o estresse hídrico e altas carbônico dissocia-se, formando predominantemen-
temperaturas. Essas condições limitam extremamen- te o íon bicarbonato (HC03 -). No entanto, a dispo-
te a aquisição de COz em plantas com fotossíntese C3, nibilidade de COl para a rubisco é garantida pela ati-
favorecendo ao máximo a fotorrespiração. As plan- vidade da enzima anidrase carbônica, que atua deslo-
tas C4 são especialmente bem adaptadas a condições cando a reação no sentido da formação de COz'
ambientais onde a irradiância e a temperatura são O ciclo C4 pode ser convenientemente dividido em
elevadas, apresentando ainda uma boa tolerância ao três fases: uma carboxilativa, uma descarboxilativa e,
estresse hídrico (Lawlor, 1987). finalmente, uma fase regenerativa (Fig. 5.37). O COz
O surgimento da via C4 é um evento relativamen- atmosférico é fixado no citoplasma das células do
te recente na evolução do reino vegetal. Se o tempo mesófilo através da reação catalisada pela PEPcase
de evolução da fotossíntese geradora de Oz fosse pro- (fase carboxilativa). Dentro das células do mesófilo, o
jetado num intervalo de 24 horas, a fotossíntese C4 ácido oxaloacético produzido pela ação PEPcase pode
teria surgido durante a última meia hora. A descober- ser metabolizado de duas maneiras (Fig. 5.38). Uma
ta de espécies intermediárias CrC4 confirma a hipó- envolve a redução do cetoácido a hidroxidoácido.
tese de uma evolução gradual a partir de ancestrais Essa reação ocorre nos cloroplastos e é catalisada pela
Cy Outro aspecto importante é que a fotossíntese do enzimaNADP-malatodesidrogenase (NADP-MDHase).
tipo C4 distribui-se entre diferentes grupos de plan- A outra via ocorre através de uma reação citoplasmá-
tas não relacionados filogeneticamente. Por esse tica mediada por uma aspartato aminotransferase. Após
motivo, aceita-se a hipótese de que esse mecanismo a sua formação, malato ou aspartato (4 carbonos) são
tenha evoluído independentemente diversas vezes. exportados para as células da bainha perivascular,
Isso talvez permita explicar as variações bioquímicas onde são submetidos a reações de descarboxilação.
que resultaram em diferentes tipos de mecanismo C4• Embora a reação de carboxilação seja comum a
Essas diferenças são observadas no processo de descar- todas as plantas C4, variações bioquímicas são encon-
boxilação, conforme veremos mais adiante. tradas na fase de descarboxilação. Esta é a base da di-


CÉLULAS DO MESÓFILO

Anidrase
carbônica
NAOP+
COO-
CH2 HCO; ~ ,
Piruvato fosfato
~_(p; ~
I
J ..C=O
PEPcase
,
CH2 NA0tl.
Malato
dicinase COO- desidrogenase
PEP
I
COO-
AOA

ENZIMA MÁUCA
MALATO

AI (~
NAOP+ CO2 r
PIRUVATO
Ciclo
NAOPH ~
C3

CÉLULAS DA BAINHA PERIVASCULAR

Fig. 5.37 A via fotossintética C4 é responsável pelo "bombeamento" bioquímico do COz da atmosfera para o ciclo de
Calvin, que opera nos cloroplastos das células da bainha perivascular. A regeneração de cada molécula de PEP, a partir
do piruvato, é catalisada pela piruvato fosfato dicinase e exige o gasto de duas moléculas de A TP.

14COOH

I
CH2

NAOP+
I
CHOH
Malato --+ Bainha Perivascular

NA?PH
14COOH
I
Y 1./ COOH
NAOP+-Malato desídrogenase

c~
I
c=o OXaloacetato (AOA).
I
COOH

+
FOsfoenolplruvato
CH3
I >f:partato aminotransferase
14COOH
HC-
I NH2 I
CH
CH3

COOH I 2
+ I
C=O
A1anina CHNH2
I I
COOH COOH

Aspartato Plruvato

B.inh.Pe'~."",,, ~
Fig. 5.38 O ácido oxaloacético, formado na reação de carboxilação catalisada pela PEPcase, pode ser reduzido a malato
ou sofrer uma transaminação, dando origem ao aspartato.
Fotossíntese 157

visão das plantas C4 em três subgrupos, de acordo com mitocôndrias. No terceiro grupo, no qual se encon-
a enzima que catalisa a reação de descarboxilação tram plantas do gênero Spartina sp. e o Panicum
(Fig. 5.39). Plantas como o milho, o sorgo, a cana~ maximum, a descarboxilação é catalisada por uma
de~açúcar e a planta daninha Digitaria sanguinalis enzima citoplasmática denominada PEP carboxiqui~
descarboxilam o mala to no interior dos cloroplastos nase (equação [19]) (Leegood, 1993). Todas as
das células da bainha perivascular através da enzima descarboxilases catalisam reações reversíveis, confor~
málica dependente de NADP (equação [17]). Já em me as seguintes equações:
Amaranthus sp. e em Panicum miliacium (milheto), a
enzima descarboxiladora dominante é a enzima málica MALA TO + NADP+ f-1
dependente de NAD (equação [18]), localizada nas PIRUV ATO + COz + NADPH [17]

CÉLULA DO MESÓFILO BAINHA PERIVASCULAR

G) ENZIMA MALlCA DEPENDE DE NAOP

® ENZIMA MAuCA DEPENDE DE NAD

@ FOSFOENOLPIRUVATO CARBOXICINASE

Fig. 5.39 Esquema das três vias de descarboxilação de moléculas C4 nas células da bainha perivascular. O COz liberado
é imediatamente fixado pela rubisco .


158 Fotossíntese

MALATO + NAD+ f-7 já sintetizadas, modificando a sua atividade catalíti-


PIRUVATO + COz + NADH [18] ca. A enzima málica dependente de NADP (equação
[17]) está sujeita ao controle redox pelo sistema
AOA + ATP f-7 PEP + COz + ADP [19] tiorredoxina, sendo inativa no escuro. A piruvato
Nos cloroplastos das células da bainha vascular, as fosfato dicinase (equação [20]) é regulada por um
mecanismo de fosforilação/ desfosforilação catalisado
moléculas de COz geradas pelas reações de descarbo~
xilação são incorporadas ao ciclo de Calvin~ Benson por uma única proteína reguladora. A fosforilação
reduz a atividade da enzima, sendo o mecanismo
(ciclo C3). O produto de 3 carbonos resultante retoma
às células do mesófilo, onde será utilizado para rege~ controlado pelos níveis de A TP e Pi (fosforilação)
nerar a molécula primária que reage com o COz at~ e de AMP e PPi (desfosforilação). A PEP carboxilase
mosférico, o PEP. é uma enzima regulada alostericamente que responde
Em todos os três subgrupos de plantas C4, a regene~ à transição claro/escuro (Leegood, 1993). As propri~
ração do PEP, a partir do piruvato, ocorre nos cloro~ edades reguladoras da PEPcase serão abordadas mais
adiante.
plastos das células do mesófilo, através de uma rea~
ção catalisada pela enzima piruvato fosfato dicinase:
PIRUVATO + Pi + ATP-7 MECANISMO MAC (METABOLISMO
ÁCIDO DAS CRASSULÁCEAS)
PEP + AMP + PPi + H+ [20]
A via MAC (CAM, do inglês Crassulacean acid
Essa reação é forçada a ocorrer na direção da sín~ metabolism) é um mecanismo fotossintético concen~
tese de PEP devido à hidrólise do PPi (pirofosfato) trador de COz selecionado em resposta à aridez de
por uma pirofosfatase dos cloroplastos: ambientes terrestres e à limitação na disponibilidade
PPi + HzO -7 2 Pi [21] de COz em ambientes aquáticos (Keely, 1998). Perí~
odos de seca podem ocorrer devido a uma condição
Conforme se pode observar na equação [20], a re~ climática (desertos, semi~áridos), à inconstância no
generação do PEP, a partir do piruvato, consome duas suprimento de água ou, mesmo, à salinidade excessi-
ligações fosfato do A TP. A manutenção do ciclo C4 va em determinado hábitat. Já a limitação de COz,
exige, portanto, um gasto adicional de duas molécu~ em ambientes aquáticos, deve-se à elevada resistên~
Ias de A TP por molécula de COz fixada. Portanto, nas cia difusiva da água ao COz (104 vezes maior que a da
plantas C4, o custo energético total de cada molécu~ atmosfera) e à competição diurna pelo COz disponí~
Ia de COz fixada, pela ação conjunta dos ciclos C3 e vel entre os organismos fotossintetizantes aquáticos.
C4, é de 5 A TP e 2 NADPH. Conseqüentemente, a Até o momento, a via MAC foi encontrada em 26
fixação de COz em plantas C4 apresenta uma exigên~ famílias de angiospermas, em 38 espécies de pteridó~
cia quântica (número de fótons) maior do que a de fitas aquáticas pertencentes ao gênero Isoetes
uma planta C3, em condição atmosférica normal. (Lycophyta), em duas espécies de pteridófitas terres-
tres (epífitas) e em uma família de gimnosperma.
A regulação do ciclo C4 Pesquisas em curso indicam que todas as espécies
A operação do ciclo C4 exige uma complexa regu~ aquáticas do gênero Isoetes seriam MAC. Assim, es-
lação. Além de envolver vários compostos interme~ tima~se que 6% da flora aquática e 8% das espécies
diários que transitam entre os dois tipos de células terrestres apresentem metabolismo MAC (Keeley,
fotossintéticas, o funcionamento do ciclo C4 precisa 1998).
ser coordenado com o ciclo C3• Provavelmente, todas as espécies de Cactáceas e
Da mesma forma que o ciclo C3, certas enzimas~ de Crassuláceas possuem metabolismo MAC, exclu~
chave do ciclo C4 são reguladas pela luz. Além de sivamente. Nas outras famílias, são encontradas es~
induzir a expressão de genes envolvidos no ciclo C4, pécies C3, MAC obrigatórias e facultativas. As plan-
a luz promove alterações na estrutura das proteínas tas MAC facultativas são aquelas que apresentam o
Fotossíntese 159

metabolismo MAC em determinadas condições am, A fixação noturna do COz também é catalisada por
bientais. Em condições favoráveis, as MAC faculta, uma isoforma da PEPcase. O COz fixado é acumula,
tivas apresentam metabolismo do tipo C3• Bromeliá, do nos vacúolos na forma de malato (Fig. 5.40). Por
ceas e Orquidáceas epífitas de ecossistemas áridos ou esse motivo, durante a noite, a acidez celular vai au,
de florestas tropicais apresentam numerosos represen, mentando progressivamente. Durante o dia, os estô-
tantes com metabolismo MAC. Cerca de 50% das matos se fecham, mas o COz para o ciclo C3 passa a ser
plantas MAC conhecidas são epífitas. O abacaxi fornecido pela descarboxilação do malato. Ao longo
(Bromeliácea) e o agave são exemplos de plantas cul, do dia, devido ao consumo do malato, o pH dos va,
tivadas com metabolismo MAC. A ampla distribui, cúolos das células fotossintéticas aumenta progressiva'
ção taxonômica e ecológica das plantas MAC sugere mente. À noite, o amido é hidrolisado para a geração
que esse mecanismo também teria surgido muitas de PEP, aCt!-mulando,se durante o dia como produto
vezes no curso da evolução (Leegood, 1993). da fotossíntese e da descarboxilação do malato.
Deve,se ressaltar que o mecanismo bioquímico de
A via bioquímica MAC carboxilação das plantas MAC e C4 é o mesmo, dife,
As plantas MAC são caracterizadas pela fixação renciando,se quanto à sua regulação. Nas plantas C4,
maciça de COz no período noturno. O mecanismo há uma separação espacial (anatômica) entre a car-
MAC fundamenta,se num processo de carboxilação boxilação pela PEPcase e o ciclo C3, processos que
(noturna) seguido de uma etapa de descarboxilação transcorrem simultaneamente. Já nas plantas MAC,
(diurna), esta última responsável pelo suprimento de a separação desses eventos é apenas temporal, ocor,
COz para o ciclo C3• As espécies MAC terrestres rendo na mesma célula fotossintética. A fixação do
abrem os estômatos durante a noite e os mantêm fe, COz atmosférico pela PEPcase se processa à noite, en,
chados durante o dia, contrariamente ao que ocorre quanto a fixação de COz pelo ciclo de C3 ocorre du,
com a maioria das plantas terrestres. rante o dia.

c~ .~. . ~

t: ../ A--
'HA

DIA

Fig. 5.40 Esquema representativo do metabolismo ácido das crassuláceas (MAC), mostrando a separação temporal en-
tre a fixação do COz atmosférico pela PEP carboxilase (noturna) e a fixação de COz pelo ciclo de Calvin (diurna). A
fixação noturna de COz leva ao acúmulo de mala to no vacúolo. Durante o dia, o malato é descarboxilado, fornecendo
COz para o ciclo de Calvin. (Leegood, 1983, modificado.)
160 Fotossíntese

o mecanismo MAC e a aéreo, os tecidos fotossintéticos, em contato com a


sobrevivência das plantas atmosfera, passam a apresentar, exclusivamente, a via
O mecanismo MAC aumenta extraordinariamen- Cy A mesma planta pode, portanto, apresentar simul-
te a eficiência de uso da água (EUA), sendo encontrado taneamente as vias MAC e C3• Em outras espécies,
em plantas adaptadas a ambientes áridos ou sujeitos ao os metabolismos C3 e MAC se sucedem ao longo do
suprimento de água apenas periódico. A fixação no- ciclo de vida da planta (Keeley,1998).
turna de COz tem como resultado a diminuição da
perda de água porque a diferença de pressão de vapor
A PEP CARBOXILASE
da água entre as folhas e a atmosfera atinge valores A PEP carboxilase é uma enzima citossólica que
mínimos durante a noite. Em regiões desérticas, as di- se distribui universalmente em todas as células vege-
ferenças entre as temperaturas diurnas e noturnas são tais. Porém, nas plantas C4 e MAC, a PEPcase assu-
enormes, podendo atingir 20°C. Ao mesmo tempo, a me um papel destacado e especial na fotossíntese. Nas
presença de elevadas concentrações de COz no folhas das plantas C4, a atividade da PEPcase pode
mesófilo foliar de plantas MAC, durante uma parte do atingir valores centenas de vezes maiores do que os
período diurno (1 %), minimiza a fotorrespiração. valores encontrados nas folhas das plantas C3 ou nos
Outra característica impressionante das plantas demais tecidos da própria planta C4• Como várias
MAC é a sua extrema flexibilidade metabólica. Em outras enzimas, a PEPcase ocorre sob a forma de vá-
várias espécies, a fotossíntese C3 ou MAC pode ser rias isoenzimas, cada uma delas codificada por um
induzida por mudanças nas condições ambientais. O gene diferente e sujeita a uma regulação diferencia-
advento de uma seca ou o aumento da salinidade in- da (Leegood, 1993).
duzem o metabolismo MAC em muitas espécies fa- Uma característica crucial da PEPcase, quando
cultativas. comparada à rubisco, é a de que essa enzima atua
A continuidade da seca por um tempo prolongado apenas como carboxilase. Além disso, a afinidade da
pode levar a um fechamento completo dos estômatos. PEPcase pelo HC03 - é mais elevada do que a afini-
Nessa situação extrema, embora as plantas não apre- dade da rubisco pelo COz' Enquanto o Km(COz) da
sentem nenhuma troca gasosa com a atmosfera, o seu rubisco das plantas C3 situa-se na faixa de 15 a 25 f.LM,
conteúdo de ácidos orgânicos continua a flutuar ao o Km(HC03 -) da PEPcase situa-se em tomo de 8 f.LM
longo do dia. Isso reflete a reciclagem interna do COz (Moroney & Somanchi, 1999). Ou seja, a PEPcase é
gerado pela respiração e fotorrespiração. Tal reciclagem uma enzima carboxilativa mais eficiente do que a
de COz, além de garantir a sobrevivência em condi- rubisco, podendo carboxilar ainda que a disponibili-
ções extremamente secas, evita a fotoinibição e per- dade de COz seja muito baixa, o que não acontece
mite que a planta responda imediatamente ao retomo com a rubisco.
da disponibilidade de água (Leegood, 1993).
Já entre as plantas aquáticas, o mecanismo MAC Regulação da PEPcase
permite a sobrevivência em ambientes densamente A PEPcase é uma enzima alostérica sujeita a ativa-
ocupados por fitoplâncton, algas ou outras plantas ção pela glicose-6-fosfato, pelas trioses-P, e a inibição
aquáticas. Nesses ambientes aquáticos, a disponibi- pelo L-malato. Essas características indicam que flu-
lidade de COz é extremamente limitante durante o tuações na concentração desses compostos no cito-
período diurno. A grande vantagem das plantas do- plasma regulam a atividade da PEPcase. Nas plantas
tadas de mecanismo MAC é sua capacidade de utili- C4, a PEPcase também é regulada pela transição luz-
zar o COz liberado pela respiração noturna de outras escuro. O mecanismo de modulação da PEPcase pela
plantas e animais que ocupam o seu hábitat. luz envolve modificações das enzimas que afetam,
Algumas espécies anfíbias são capazes de exibir principalmente, as suas propriedades alostéricas. Em
metabolismo MAC enquanto o desenvolvimento se presença de luz, a PEPcase das plantas C4 é fosforilaJa
dá sob a água. Mas, diante da exposição ao ambiente pela ação catalítica de uma enzima cinase solúvel. A
Fotossíntese 161

fosforilação toma a PEPcase menos sensível ao efei- in vivo depende, assim, do balanço entre as ativida-
to inibitório do malato e, portanto, mais ativa durante des de cinases e fosfatases, podendo ser regulado por
o período diurno (Cholet et aI., 1996). No caso das mudanças na atividade de ambas as enzimas ou na
plantas MAC, o grau de fosforilação da PEPcase é, atividade apenas de uma delas (cinase ou fosfatase).
portanto, a sensibilidade ao malato; é controlado pelo Em Bryophyllum, o principal fator de terminante do
ritmo circadiano endógeno das plantas, e não pela luz. estado de fosforilação da PEPcase é a variação da ati-
Estudos sobre a variação da atividade diária da vidade de uma cinase específica. Nessa planta MAC,
PEPcase, extraída da planta MAC Bryophyllum, mos- tanto a luz como temperaturas elevadas promovem o
traram que a PEPcase é 10 vezes mais sensível ao desaparecimento da PEPcinase, resultando na redu-
malato durante o período luminoso do que quando ção da atividade da PEPcase no período diurno
extraída das plantas durante do período escuro. Ve- (Nimmo et aI., 1995).
rificou-se' ainda, que, ao contrário das plantas C4, a
forma noturna era fosforilada e que a forma diurna era o DESTINO DOS PRODUTOS DA
desfosforilada (Fig. 5.41; N immo et aI., 1995). FOTOS SÍNTESE
De modo generalizado, enquanto a fosforilação Em todas as plantas, a maior parte do carbono fixa-
reversível de proteínas é catalisada por vários tipos do na fotossíntese é utilizada para a formação de carboi-
de proteína cinase, a desfosforilação é catalisada por dratos, principalmente sacarose e amido, que são os pro-
fosfatases. O estado de fosforilação de uma proteína dutos mais estáveis do processo fotossintético (Fig. 5.24).

Proteína
Citossólica

ANoüe(MACl
Cinase
da
1Atividade PEPcase lAtividade

Escuro (C.) ou
dia (MAC)

ATP . ADP

SER \ f
~
/--... '--J -.-{-- •• ,-- •.•
(SER~
·I~P_E_PC_A_S_E--'
Pi ~
MAIS SENS/vEL AO MALATO MENOS SENS/vEL AO MALATO
MENOS SENS/VEL AO ~P MAIS SENS/vEL AO ~P
MENOS ATIVA ESCURO-(C4) e MAIS ATIVA LUZ-(C4) e
OIA(MAC) ESCURO (MAC)

Fig. 5.41 Modelo de mecanismo molecular proposto para a regulação da atividade da PEP carboxilase em plantas C4
(diurna) e MAC (noturna). A luz em plantas C4 e um sinal noturno ainda desconhecido em plantas MAC ativam uma
cinase da PEP carboxilase. Essa cinase, ao fosforilar a PEP carboxilase, aumenta a sua atividade. (Cholet et aI., 1996,
modificado. )

-
162 Fotossíntese

Os carboidratos são moléculas extremamente im~ te dos carboidratos excedentes no interior dos vacúo~
portantes para as plantas. Além de fornecerem ener~ los na forma de sacarose, acumulando pouco amido.
gia para o processo respiratório e esqueletos de car~ Na cana~de~açúcar e na beterraba, a sacarose consti-
bono para a síntese das demais biomoléculas, os car~ tui uma reserva de longo prazo.
boidratos também constituem um importante com~
ponente estrutural do organismo das plantas. A mai~ Síntese de amido nos cloroplastos
or parte da matéria seca das plantas é formada por O amido é o principal carboidrato de reserva das plan-
constituintes da parede celular, a qual é, majoritaria~ tas superiores, existindo em duas formas - amilose e
mente, constituída de celulose, um polímero de gli~ amilopectina (Fig. S.42A). Aamilose é um polímero li~
cose. Entretanto, é importante destacar que uma parte near da glicose gerado pela ligação entre o primeiro e o
da energia luminosa absorvida pelos cloroplastos é quarto carbonos de duas moléculas de glicose (ligação
diretamente utilizada em outros processos bioquími~ (X~ 1,4). Aamilopectina é semelhante à amilose, mas apre'-

cos, entre os quais a assimilação de N03 - e 504- e a senta ligações do tipo (X~ 1,6 a cada 24~30 resíduos de
biossíntese de aminoácidos (Fig. 5.4). glicose, o que origina uma molécula ramificada.
Parte dos carboidratos gerados na fotossíntese (fo~ A acumulação de amido nas folhas é um processo
toassimi/ados) é utilizada para satisfazer as necessida~ dinâmico. Quando velocidade de síntese de açúcares~
des biossintéticas das células foliares, fluindo para o fosfato, nos cloroplastos, excede a sua capacidade de
metabolismo respiratório, para o metabolismo do ni~ exportação para o citoplasma, a síntese do amido é
trogênio e outras biossínteses. A parcela excedente intensificada. A frutose~6~fosfato (Fru~6~F) é o com~
de carboidratos pode ser exportada das células fotos~ posto intermediário do ciclo C3 que dá início à sínte~
sintéticas na forma de sacarose, ou ser armazenada no se de amido nas células fotossintéticas. Atuando su~
próprio cloroplasto na forma de amido (Fig. 5.42). O cessivamente, as enzimas glicose~6~fosfato isomerase
destino do carbono nos tecidos fotossintéticos depen~ (equação [22]) e fosfoglicomutase (equação [23]) in~
de, portanto, do estágio de desenvolvimento foliar. terconvertem a Fru~6~F em glicose~6~fosfato(Gli~6~F),
Folhas imaturas retêm grande parte dos fotoassimila~