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Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 4 a 9/10/2021

Apontamentos iniciais sobre som e música no trabalho1

Felipe da Costa TROTTA2


Universidade Federal Fluminense, Niterói, RJ

RESUMO

A proposta desta comunicação é apresentar os apontamentos iniciais de uma pesquisa


sobre som e música nos ambientes profissionais. Trata-se de uma temática de pesquisa
que articula reflexões sobre as condições precarizadas do trabalho nos dias de hoje com
a ambientação sonora à qual trabalhadoras/es estão expostas/os, levantando a hipótese de
que a pouca atenção às sonoridades dos ambientes de trabalho configura um elemento
adicional de precarização das condições laborais no mundo contemporâneo. Noções de
tempo, saúde e trabalho são interpretadas aqui como eixos de análise que podem ser
frutíferos para um maior entendimento das relações de trabalhadoras/es com seu entorno
sonoro, nas muitas horas diárias em que estamos envolvidos em “trabalhar”

PALAVRAS-CHAVE: mundo do trabalho; som e música; bem-estar; incômodos


sonoros.

Apontamentos de entrada
Nas últimas duas décadas, os estudos sobre música popular urbana têm se dedicado com
crescente intensidade à reflexão sobre as condições de escuta nas cidades (Fernandes e
Herschmann 2018, 2014). As preocupações com o ambiente sonoro de nossa vida
cotidiana (majoritariamente experimentada em grandes centros urbanos e megalópoles)
apontam para uma conexão estreita entre a percepção geral de “saúde” e os efeitos da
exposição ao som. A capacidade do som de produzir alterações corporais e de agir como
elemento de tensão, stress e mesmo coação física e simbólica são aspectos que aparecem
em diversos estudos sobre a circulação de música (DeNora 2013), lado a lado com uma
robusta e igualmente crescente bibliografia sobre “estudos de som” (Sterne 2003, Ochoa
Gautier 2014).

1Trabalho apresentado no GP Comunicação, Música e Entretenimento, XXI Encontro dos Grupos de Pesquisas em
Comunicação, evento componente do 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação.
2Professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF.
e-mail: trotta.felipe@gmail.com

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Em linhas gerais, tais estudos partem da noção de que o som modifica comportamentos e
o próprio funcionamento corporal, sendo as experiências sonoras agentes que atuam como
vetores de alteração de estados afetivos que oscilam do prazer à dor. Em outras palavras,
os impactos físicos e simbólicos do som e da música em nosso cotidiano é sentido no
corpo, modulando modos de vivenciar os espaços, o tempo e a própria vida.
No cotidiano das grandes cidades, parte considerável do tempo da ampla maioria da
população está dedicado a atividades laborais. Assim, uma dimensão fundamental da
experiência sonora urbana é aquela vivenciada nos ambientes e nos momentos definidos
como “de trabalho”. A temporalidade da atividade produtiva dedicada ao trabalho é
contada em horas que são dispensadas ao exercício profissional e mediada por interações
com os ambientes e espaços onde tais atividades são realizadas. Nossas percepções
sensíveis sobre tais ambientes são resultado dessas interações com luzes, espacialidades
e sonoridades produzidas durante os longos períodos diários de trabalho.
Em um contexto de precarização das relações de trabalho, com perda de direitos e
crescente informalização dos contratos, a dimensão sonora parece ser tema de menor
relevância e por isso abordada de modo tangencial. Proponho aqui, inversamente, que as
percepções de bem-estar e mal-estar e até mesmo o desenvolvimento de patologias
nas/nos trabalhadoras/es podem estar associados à exposição quase sempre forçada a
determinadas sonoridades, que tanto podem ser percebidas como desagradáveis e até
mesmo insalubres, quanto podem ser controladas para minimizar os esforços físicos e
mentais exigidos pelas atividades laborais.
Som, saúde e trabalho são três eixos de reflexão de um projeto de pesquisa ainda em fase
inicial, que levanta algumas questões relevantes para o aprofundamento das
considerações sobre som e música na vida cotidiana.

O caso da entrada do parque temático


Os apontamentos aqui apresentados começaram a absorver minha atenção a partir de uma
experiência particular que poderia ser pouco relevante, mas que mobilizou minha reflexão
desde então. Estava realizando entrevistas para uma pesquisa sobre incômodos musicais,
publicada posteriormente em livro (Trotta 2020) quando, num passeio de final de semana
com minha família, visitei o parque temático do setting de filmagens da série de filmes
Harry Potter. A música tema da série, composta pelo aclamado compositor John
Williams, tem um perfil sombrio e melodia marcante em modo menor, com uso de notas

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acrescentadas e cromatizações melódico-harmônicas que imprimem um tom de


estranheza e mistério ao personagem. No caso do parque das filmagens de Harry Potter,
os visitantes são organizados em grupos no hall de entrada, onde assistem a uma breve
apresentação do ambiente de filmagem da série, conduzida por dois atores que são
acompanhados de alguns registros em vídeo com depoimentos breves de produtores e
atores (hoje famosos no mundo todo) que atuaram nos filmes. Após essa pequena
introdução, entramos no setting e então podemos circular livremente pelos cenários e
adereços. Por conta dessa restrição de entrada em grupos, forma-se na entrada uma fila
com horários marcados, organizada por um funcionário que verifica a ordem dos
ingressos e autoriza os grupos a avançarem para o hall da apresentação inicial. Esse tempo
de espera é sonorizado com o tema do filme, que dura aproximadamente dois minutos e
é reproduzido em looping ininterrupto. A ideia dos produtores do parque é evidente,
mobilizar afetivamente os fãs que aguardam sua vez na fila, imergindo-os no som dos
filmes, no tema do personagem querido e na atmosfera geral de bruxaria que ronda a série.
De fato, ficamos eu e minha família cerca de meia hora aguardando nossa vez e a
expectativa da entrada se intensificava com a música. Porém, apesar de pessoalmente ser
admirador do trabalho de John Williams e essa música em particular em minha opinião
ser dotada de toques de genialidade artística, a repetição insistente da melodia começava
a me irritar. Possivelmente por estar atento aos incômodos musicais por conta da pesquisa,
minha atenção foi capturada pelo olhar um tanto atônito do funcionário que organizava
as filas. Não pude deixar de nutrir forte empatia por aquele funcionário, forçado a ouvir
seguidamente a melodia de Harry Potter que já me angustiava. Ao entrar, não resisti e
perguntei a ele sobre a repetição. Ele interrompeu os movimentos automáticos de
conferência de tickets de entrada, me olhou diretamente e, como num desabafo, confessou
que a música o perseguia até a hora de dormir. Acrescentou que evitava ouvir qualquer
outro som após o experiente, pois sua mente e seus ouvidos ficavam saturados com o som
da trilha do filme. A conversa foi rápida, mas não é difícil supor que o trabalhador operava
no limite do stress durante o seu trabalho, sendo potencial candidato a distúrbios de sono
e dificuldade de relaxamento.

Trabalho

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Diversos autores têm apontado uma tendência do capitalismo atual de produzir uma
precarização do trabalho (Antunes 2018). Conquistas trabalhistas obtidas desde meados
do século XIX parecem estar em disputa novamente, sendo progressivamente eliminadas
do cotidiano de variadas atividades profissionais. No Brasil, uma legislação robusta de
proteção ao trabalho vem sendo igualmente relativizada e afrouxada, permitindo que um
contingente cada vez mais expressivo de trabalhadores realizem seus ofícios sem carteira
assinada, sem férias anuais, descanso remunerado, seguro-desemprego, aposentadoria,
licença maternidade, entre outras ações de proteção social. Nesse ambiente de
precarização, destacam-se os trabalhos provisórios, intermitentes e autônomos, mais
sensíveis a condições insalubres do ambiente profissional, assim como menos
contemplados pela ideia de bem-estar social.
A caracterização da ideia de “condições de trabalho”, por sua vez, se relaciona
estreitamente com uma avaliação entre remuneração e forma de relações de poder,
associada ao tempo efetivo de dedicação à atividade profissional. O tipo de trabalho e o
desgaste físico ou mental durante o expediente é aspecto igualmente relevante para a
avaliação geral das “condições de trabalho”. Outro elemento significativo é o grau de
pressão psicológica que sofre o indivíduo durante seu trabalho relacionado à possibilidade
de sanções ou demissão. Esse conjunto de elementos que molda a noção de bem-estar ou
mal-estar no trabalho, portanto, envolve aspectos bastante objetivos (como a duração da
jornada de trabalho ou a remuneração) e outros subjetivos (como a percepção da pressão
sobre desempenho, o medo de represálias e/ou de demissão ou o desgaste físico e
emocional derivado do exercício laboral).
Nos estudos sobre música popular, a categoria ‘trabalho’ aparece de forma tímida, quase
sempre empregada em reflexões sobre o ofício dos músicos (Requião 2016, Frith 2016).
Como categoria profissional diretamente relacionada à produção e circulação de música
na sociedade, os músicos ressentem-se de uma posição ambígua na hierarquia de
valorização profissional sendo, em sua esmagadora maioria, profissionais de baixa
remuneração, sem vínculo estável de trabalho e sujeito a incertezas constantes sobre “ter
trabalho”. A formação de sindicatos de músicos em diversos países contribuiu
historicamente para minimizar essas incertezas, estabelecendo normas para contratação
de músicos, horários e cachês mínimos. Infelizmente, no Brasil, tais diretrizes legais não
são respeitadas e o trabalho do músico ainda hoje é desprestigiado e muito mal pago.
Porém, as articulações entre música e trabalho aqui propostas transcendem o exercício

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profissional do músico, sendo atravessada pelo uso da música em ambientes de trabalho


nas mais diversas categorias profissionais.
Assim, pode ser produtivo incorporar a noção expandida de música e trabalho proposta
pelo etnomusicólogo Samuel Araújo, que cunha a noção de “trabalho acústico”. Segundo
o autor, o “trabalho acústico” se refere à própria prática musical, sublinhando os eixos
relacionais sincrônicos e diacrônicos que circulam em torno das experiências de
performances musicais, incorporando os períodos de ensaios, preparações, treinamento,
deslocamento, debates, e também as manipulações do sonoro como modos de pensar, agir
e estar coletivamente (Araújo 1992). Mas inclui também a forma como escutamos a
música entendida ela mesma como resultado de um trabalho que é ao mesmo tempo
sonoro e físico. Ainda seguindo Araújo, o conceito de trabalho é desenvolvido a partir
das análises sociológicas de inspiração marxiana, permitindo incorporar à reflexão sobre
práticas musicais a articulação entre trabalho e tempo.
Pensar numa simbiose entre som, tempo e trabalho nos direciona para um universo
conceitual que define a música como uma ação humana de organização de sons (Blacking
1974) e, indo além, como uma ação de organização do próprio tempo (Quintero Rivera
2005). Nesse sentido, as alterações corporais condicionadas pela experiência musical e
sonora produzem modos diferenciados de perceber e experimentar o tempo (DeNora
2000), tornando-se ingrediente decisivo na forma como o tempo do trabalho é percebido.
Em seu livro Music in Everyday Life, Tia DeNora relata um interessante caso pessoal no
qual ela aguardava o tempo de seu computador iniciar cantalorando e batendo com os
dedos o tema da ‘Habanera’ da famosa canção da ópera Carmem de Bizet. Seu hábito de
cantar o tema sincopado de Carmem alterou a percepção do tempo levado pela máquina
para estar pronta para uso, de “muito tempo” para “rápido demais” (pois não havia tempo
de completar a melodia) (DeNora, 2000, p. 33).
O tempo do trabalho está condicionado a horários, hierarquias e, não raro, a sensações
físicas de mal-estar que são minimizadas ou intensificadas pela presença de música e de
sons não-musicais no decorrer arrastado das horas. Assim como DeNora experimentou
uma mudança na percepção temporal da espera ao introduzir a melodia de Carmem,
podemos pensar nas horas arrastadas do funcionário da entrada do parque de Harry Potter,
cujo corpo está condicionado à repetição exaustiva da melodia do filme. Seu ofício de
fiscal de tickets certamente é agudamente alterado pela imersão acústica forçada
produzida pela reprodução do tema. A dimensão do controle sobre a fonte sonora é uma

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manifestação de poder sobre um ambiente. Nesse sentido, a escuta forçada nos ambientes
de trabalho pode tornar-se elemento de violência, compondo um contexto insalubre para
as/os trabalhadoras/os (Trotta 2020).

Corpo e som
As sonoridades que atravessam as jornadas de trabalho nas mais diversas atividades
profissionais são agentes de modificações corporais nas/nos trabalhadoras/es. Nesse
sentido, é produtivo incorporar contribuições de uma vertente de estudos sobre música e
som no mundo contemporâneo, que busca refletir sobre como as práticas sonoras
impactam na saúde dos indivíduos. Autores como DeNora (2000) e Quintero Rivera
(2005) destacam que a música atua como uma espécie de organizador corporal,
potencializando formas de movimentos corporais que podem aumentar a concentração,
diminuir o stress, condicionar atividades físicas ou favorecer a dança. Por outro lado,
alguns estudos apontam que a música, enquanto som, produz alterações corporais que
podem ser tomadas como agressões (Johnson e Cloonan 2009, Ochoa Gautier 2006,
Cusick 2006) ou que produzem efeitos nocivos no funcionamento corporal. Exemplos de
usos da música em guerras (Daughtry 2015), em protestos (Lebrun, 2009) ou em sessões
de tortura (Cusick 2006, Chornik 2014) reforçam a percepção de que a exposição sonora
forçada atua sobre o corpo e mente produzindo diversos tipos de desconforto e até mesmo
dor. Não à toa, a escuta forçada é comumente referida na linguagem cotidiana – ainda que
de forma hiperbólica – como “tortura” (Trotta 2020).
As ondas sonoras são responsáveis por diversas modulações em modos de funcionamento
do corpo como batimentos cardíacos, funcionamento de tecidos e órgãos, além de,
especialmente no caso da presença de música, condicionar a própria movimentação do
corpo aos ritmos regulares do pulso musical (DeNora 2013). Os efeitos do som e da
música sobre o corpo são também dependentes de suas características acústicas e
musicais, sendo mais intensas no caso de sons em alto volume, com emissões sonoras em
registros mais extremos (muito grave ou muito agudo), com elementos de repetição
discerníveis e incômodos ou mesmo pela percepção geral de como as ondas sonoras estão
organizadas em termos de estruturação dos rebatimentos de harmônicos (dissonante ou
consonante), timbres (a origem da fonte sonora) e duração (quanto tempo o som ou
música permanece soando enquanto experiência).

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Os parâmetros de construção sonora são, portanto, elementos decisivos na forma como


tais sons são percebidos. Um apito agudo de uma única nota por mais de 15 segundos
pode ser agente de incômodo e desconcentração no momento de alguma atividade
profissional, mas se esse apito durar mais de uma hora ou se for realizado num volume
extremamente alto, essa percepção é totalmente intensificada podendo se tornar
insuportável e causar uma série de danos físicos nos ouvintes. A manipulação das
propriedades sonoras e dos próprios sons que acompanham as jornadas profissionais são,
portanto, fundamentais para entendermos a forma como a música e o som participam da
percepção de mal-estar ou bem-estar no trabalho. Voltemos aqui ao tema de Harry Potter.
Por ser uma melodia construída para caracterizar um personagem que transita entre o
mundano e o mágico, o compositor esmerou-se em construir uma estrutura melódica-
harmônica e orquestral que indicasse certo grau de estranheza e mistério, com uso de
recursos técnicos codificados desta forma. Ouvir qualquer música repetidamente é
atividade que se torna cansativa, enfadonha ou irritante. Ouvir uma melodia composta
para gerar certo grau de estranheza em loop é experiência com potencial de ser ainda mais
desagradável, tendendo ao stress e à angústia. Ouvir essa melodia forçadamente durante
horas em um ambiente de trabalho sem dúvida condiciona o corpo do trabalhador a um
ambiente insalubre e de grande tensão.
Muitas vezes, porém, a prática sonora – como forma de organização de sons, do tempo e
dos corpos – é também elemento produzido por indivíduos como forma de melhorar o
desempenho de suas atividades profissionais. Uma ampla bibliografia sobre cantos de
trabalho reforça a ideia de que os movimentos rítmicos e melódicos executados pelos
trabalhadores no exercício de suas funções laborais que tanto auxiliam na sincronização
corporal para atividades normalmente repetitivas quanto atenuam o desgaste físico e
mental através da criação de um ambiente sonoro comum compartilhado pelo canto
(Motta, 2015).
Da mesma forma, o volume geral da ambiência sonora produz alterações na concentração,
na sensação de intimidade e na forma com que as pessoas interagem com o meio, com as
outras e com o próprio esforço físico e/ou mental de seu ofício. Assim, por exemplo, o
uso de fones de ouvido como acompanhamento para determinadas atividades
profissionais é comumente empregado como forma de aumentar a concentração e o
desempenho pela possibilidade de isolamento do ambiente sonoro exterior (Trotta 2020).

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Ambientes

A forma como o som e a música atuam sobre o corpo dos trabalhadores e trabalhadoras
durante o expediente laboral está estreitamente relacionada com as condições físicas e
acústicas de tal ambiente, assim como com a hierarquia de poder nos contextos de
relações sociais de trabalho. Existe uma diversidade gigantesca de situações e ambientes
profissionais, que evocam modos igualmente diversos de estar trabalhando e de interação
com sonoridades que se apresentam em tais ambientes.
Em linhas gerais, podemos separar três espaços físicos fundamentais de exercício de
atividades profissionais, de acordo com sua estrutura arquitetônica que, por sua vez,
determina a forma como as ondas sonoras irão atravessar o ambiente assim como, muitas
vezes, o tipo de controle de tais elementos acústicos no decorrer da jornada de trabalho.
O primeiro espaço comporia o trabalho em ambientes fechados. Entendemos ambientes
fechados aqui como espaços separados por paredes nos quais os sons produzidos em seu
interior são os que ocupam prioritariamente o espaço acústico do trabalho. Ainda que
muitas vezes as salas e repartições não sejam integralmente isoladas acusticamente dos
sons exteriores, o eixo de análise sobre espaços fechados privilegia no cotidiano laboral
as interações entre as/os trabalhadoras/es e os sons interiores. Compõe esse conjunto
espaços como repartições públicas sem atendimento ao público, fábricas, canteiros de
obras, trabalho corporativo, centros de atendimento telefônico, salas de aula e o trabalho
doméstico, entre muitos outros. A principal característica dos ambientes fechados é que
o indivíduo ocupa um determinado espaço físico que é percebido como separado de outros
espaços contíguos, interagindo com os sons deste ambiente com exclusividade.
Essa descrição contrasta com o segundo tipo de espaço de trabalho, que é o trabalho
exterior. São trabalhadoras e trabalhadores que exercem suas atividades profissionais na
“rua”, ou seja, em ambiente abertos e atravessados por experiências sonoras
diversificadas e aleatórias, como o ruído de carros, caminhões, pessoas em trânsito,
músicas executadas por aparelhos portáteis, gritos, apitos, buzinas, barulhos da natureza
(vento, trovões, ondas do mar) e mais uma série de sonoridades. Integram esse conjunto
de profissionais trabalhadores que atuam como guardas de trânsito, vendedores
ambulantes, varredores de ruas, motoristas de transporte coletivo, entregadores,

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profissionais de áreas de lazer como parques, praias, e etc. Tais trabalhos estão sujeitos
comumente a altas taxas de ruídos variados, muitas vezes em alto volume.
Um terceiro tipo de ambiente acústico é formado por atividades profissionais realizadas
em lugares semi-fechados, com atendimento ao público. Lojas, supermercados,
repartições com atendimento, bares, restaurantes, portarias, garagens e outros espaços
caracterizados por serem efetivamente fechados, mas com um espaço de comunicação
com o ambiente sonoro exterior ou mesmo com a possibilidade constante de entrada de
pessoas/clientes, com suas sonoridades individuais. Tais espaços guardam certas
características de controle acústico, mas estão sempre sujeitas a irrupções sonoras
exteriores, assim como condicionados por um tipo de referente sonoro que deve permitir
os atendimentos, conversas e trocas interpessoais.
É evidente que essas três tipologias não esgotam o universo das ambientações
profissionais, e que alguns espaços específicos operam numa mescla entre as três
categorias. Portanto, elas não devem ser tomadas como classificações rigorosas, mas
como eixos de análise inicial que podem eventualmente permitir uma interpretação sobre
as percepções das/dos trabalhadoras/es sobre seus ambientes sonoros de trabalho.
Deve-se incluir ainda, para uma consideração mais ampla sobre as dinâmicas sonoras que
cercam o tempo de trabalho, as interações sonoras realizadas nos deslocamentos
realizados entre residência e local de trabalho. Nas grandes cidades, esse tempo de
deslocamento integra a operação diária de estar trabalhando, sendo responsável por uma
quantidade significativa de horas na vida das pessoas. Novamente, a forma como tal
deslocamento é realizado, a qualidade dos veículos de transporte coletivo ou individual e
a duração das viagens integram uma percepção geral sobre a saúde e as condições de
trabalho percebidas pelos indivíduos. E muitas vezes tais percursos são acompanhados de
ações sonoras intencionais ou não-intencionais de trabalhadores em trânsito, moldando a
forma como o bem-estar ou mal-estar no trabalho é percebido.

Apontamentos de saída
O trabalho é um vetor fundamental de hierarquização social. As diferentes ocupações
profissionais produzem também diferenças de retorno financeiro, o que necessariamente
se relaciona – ainda que não de forma mecânica – com separações sociais e de classe.
Mais do que isso, na divisão social capitalista do trabalho, as atividades relacionadas ao

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intelecto, que normalmente requerem um tipo de formação longa e associada à


escolaridade regular, são mais valorizadas. Inversamente, trabalhadores braçais ou
atendentes do setor terciário são depreciados tanto no valor de seu trabalho quanto em sua
remuneração, uma vez que está entendido que tais profissões demandam tempo mais curto
de formação e por isso receber baixa remuneração. Nesse sentido, a pesquisa irá buscar
estabelecer associações também sobre a forma com que o ambiente sonoro do trabalho se
relaciona com as desigualdades sociais produzidas e mantidas pela maneira hierarquizada
e excludente que caracteriza o modo de produção capitalista.
Som, música e trabalho formam, portanto, uma espécie de encontro sensível sobre o qual
ainda há pouca reflexão. Coletar dados e interpretar as implicações do ambiente sonoro
em locais de trabalho pode subsidiar medidas de reparação e de atenuação da
insalubridade de determinados ambientes, convocando gestores e empresários a despertar
de modo mais direto para a importância do som sobre a saúdo dos trabalhadores e
trabalhadoras.

REFERÊNCIAS

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Herschmann, Micael and Fernandes, Cintia. Música nas ruas do Rio de Janeiro. São Paulo:
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Johnson, Bruce and Cloonan, Martin. The Dark Side of the Tune. Surrey: Ashgate, 2009.

Lebrun, Barbara. Protest music in France. Farnham, Inglaterra: Ashgate, 2009.

Motta, Ana Raquel. “O papel da música nas atividades de trabalho” Bakhtiniana 10/2. SP, 2015.

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Colombia. Durham e London: Duke University Press, 2014.

Quintero Rivera, Angél. Salsa, sabor y control. Mexico: Siglo XXI, 2005.

Requião, Luciana. “Festa acabada, músicos a pé: um estudo crítico sobre as relações de trabalho
de músicos atuantes no estado do Rio de Janeiro”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros
n. 64, ago/2016. pp. 249-274.

Trotta, Felipe (2020). Annoying Music in Everyday Life. Londres e Nova York: Bloomsbury.

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