Você está na página 1de 10

MÚSICA, CIÊNCIA, ARTE, RAZÃO, INTUIÇÃO

Maria de Lourdes Sekeff1

RESUMO: Fundamentados em Jean Bellemin-Nöel (psicanálise da literatura) e MDMagno (música),

partimos do conceito de que todo indivíduo é potencialmente criativo; que a criatividade não se

aprende, e que ela só se desenvolve quando alimentada do necessário estímulo. Tomando como

campo de atuação a música, enfocamos sua prática como estimuladora da criatividade, dadas suas

características psicológicas de aconceitualidade e indução. E concluimos que, interessando tanto ao

hemisfério direito quanto ao esquerdo, a linguagem musical, em razão da função poética da qual é

constituída, deixa-se marcar por lacunas que são preenchidas pelo imaginário do compositor na

construção musical e pelo ouvinte na escuta. Dentro desse contexto desenvolvemos o Festival

Nacional Ritmo e Som da Unesp, levando música à comunidade externa, propiciando o prazer da

vivência estético-criativa.

______________

Neil Postman, professor da Universidade de Nova York, ensinava que “É preciso

ter em mente que tudo no universo caminha inexoravelmente para a uniformidade, e

quando a matéria alcança um estado em que não há diferenciação, não há energia

aproveitável”. (Jornal O Estado de S.Paulo, agosto/2002)

A propósito de quê a afirmação? A propósito da necessidade do estímulo à

criatividade pois que, se todo indivíduo é potencialmente um ser criativo, se a criatividade

não é algo que se aprende, por outro lado ela só se desenvolve se alimentada de adequado

1
Professora Titular. Universidade Estadual Paulista - UNESP
estímulo. Partindo então do pressuposto que, tanto quanto a ciência e a educação, a arte e a

música também são pólos geradores de conhecimento, de idéias, de criatividade,

debruçamo-nos na presente pesquisa, tendo em conta a imaginação desejante que habita o

ISSO, motor da criatividade de cada um de nós.

Tendo como suporte Jean-Bellemin Noel e MDMagno, essa nossa fala,

“Criatividade, consciência, cidadania”, deve ser entendida como um encontro, uma

discussão, um debate, que tem muito a ver com a reflexão que impulsionou a (a)parição

deste trabalho. É uma reflexão que sugere um processo aberto onde o tempo de concluir

pode ser o instante de ver de outro momento lógico.

Iniciamos refletindo a temática em termos de música (nossa área de atuação),

conceituando-a como uma forma de se pensar o tempo. Linguagem portadora de qualidades

no sentido da fenomenologia peirceana, música é linguagem temporal, só falando de si

mesma, e por esse motivo, com alto poder de indução. Talvez por isso Eça de Queiroz já

dizia que os hinos é que fazem as revoluções (in Ribas, 1957). E Platão, já no séc. 5, a.C.

pregava que se lhe fosse permitido escolher as canções e melodias de um povo ele não se

preocuparia tanto com seus legisladores.

Trazer o conceito de música como linguagem portadora de qualidade, qualidade

pura, e lembrar Platão e Eça de Queiroz, tem o objetivo de nos remeter às características

psicológicas e expressivas dessa linguagem icônica, características que suportam duas

significativas categorias musicais: aconceitualidade e indução.

A música é aconceitual, mesmo a pretensa música descritiva. Sendo aconceitual ela

se esgota em si mesma, ao contrário do que pretendiam os românticos do séc. 19. Mesmo

porque, como universo de qualidade que é, música é pura tautologia, garantindo expressão

metalinguística e pluralidade de leitura. Mas, a despeito de sua aconceitualidade, ela


também é marcada pela indução o que significa dizer, ela é indutora de movimentos

motores (em razão do ritmo), afetivos (em razão da melodia, timbre, dinâmica, agógica) e

intelectuais (harmonia, forma, estrutura, arquitetura), falando diretamente ao nosso corpo,

nossa mente, nossas emoções, e contra isso somos relativamente indefesos.

Experiência fenomenológica e triádica, com analogia nas categorias do pensamento

e da natureza de Peirce (qualidade, relação/ reação, representação/ mediação), a música é

arte, ciência, razão, criatividade.

Como arte ela nos permite concretizar os sentimentos numa forma que a

consciência capta, dentro de uma maneira mais global e abrangente do que a linguagem

verbal. E com poderes de superar instituições castradoras e achatadoras de

individualidades, estimulando o surgimento de cabeças pensantes, capazes de produzir

teorias.

Como arte ainda, esse universo de função poética, graças à sua multissignificação,

leva o receptor a criar, de novo e sempre, os plurais sentidos por ela expostos, tornando

presente o que existe em ausência na linguagem, como diria Jakobson (1969). E isso

porque o encontro que aí se dá é sempre o da linguagem: do compositor e do ouvinte, do

emissor e do receptor, ambos construtores que são de signos. Além do que a música induz

com suas estruturas movimentos correspondentes, na medida em que toda organização

dotada de sensibilidade leva o indivíduo a um movimento análogo (ativo, afetivo,

intelectual). E mais ainda, ela é também um “mecanismo” de relacionamento do indivíduo

com o mundo, ajudando-o a apreendê-lo de modo direto, global, sem mediações,

efetivando-se essa apreensão, precípua e primariamente na esfera dos sentimentos, em uma

vivência de relação primeira, antipredicativa, anterior a qualquer conceituação.


Como ciência, ciência paramédica (Musicoterapia), ela se caracteriza como

especialização científica que se ocupa do estudo e investigação do complexo som/ ser

humano, seja o som musical ou não, propiciando métodos diagnósticos e efeitos

terapêuticos de sua ação (Benenzon, 1971). Como ciência ainda, conjunto organizado de

conhecimentos relativos a determinado objeto, a música se estende à física, matemática,

fisiologia. Pela natureza do som ela se estende às ciências físicas e matemáticas; pelo

ritmo, à fisiologia; pelo seu objeto, à estética e filosofia; pela relação de seus elementos, à

psicologia.

Música também é razão, movimento racional, de uma logicidade injetada de

ludicidade, resultando em construção. Mais criação (construção) e menos inspiração como

se supôs durante tanto tempo. Privilegiada pela função poética da qual é constituída, como

toda mensagem de informação estética ela organiza seus signos de maneira a expor um

modo de construção, que é seu aspecto, sensível, material, significante. É a função poética

que garante à linguagem musical uma expressiva lacuna, preenchida pelo imaginário do

compositor na construção musical, e pelo ouvinte, na escuta, completando-se o seu sentido.

Afinal, nas linguagens artísticas a contribuição do músico resulta sempre do jogo de um

processo primário, incompleto em si (ligado ao princípio do prazer), e de um processo

secundário, organizador (ligado ao princípio da realidade). Por isso se diz, parafraseando

Freud, que toda música possui um umbigo que a liga ao desconhecido, ao ISSO (expresso

pela criatividade). Como construção, mecanismos de condensação, deslocamento e duplo

sentido, esquemas básicos que à serviço da criatividade alimentam todas as linguagens,

engendram significados logicamente ordenados e partícipes do comportamento e

pensamento humanos. Mesmo porque a música é um jogo elaborado, caracterizado por uma

seriedade que preside sua criação/construção, exigindo trabalho, pois que “trata
(inconscientemente, claro), de apagar os traços do processo primário, afogando-o no meio

dos processos secundários que se encontram mais ou menos subvertidos” (Bellemin-Nöel,

1983). A emoção que então se dá aí, advém das relações novas que o receptor capta na

escuta desse discurso, levando-o a se defrontar com o novo, com o original, com a surpresa

do estranhamento, com a surpresa da descoberta das múltiplas significações que o texto

oferece nos caminhos e tropeços de sua leitura/ escuta. Porque é próprio da mensagem

poética organizar seus signos de maneira singular, quase única, provocando surpresa no

ouvinte, já que a ambigüidade de que se reveste o signo musical, provoca inúmeros modos

de tentativa de apreensão do real.

Mas poderíamos ainda acrescentar que música também é intuição (carregando nos

seus flancos o não-consciente), interessando particularmente ao hemisfério direito do

cérebro, à sua capacidade, inventiva, intuitiva, criativa, imaginativa, holística, espacial e

não-verbal. É assim que ela dribla o receptor na escuta, sugerindo-lhe que o que diz, é e não

é, uma vez que o seu dizer tira sua força do relativo, do ambígüo, do provisório. Desse

modo a música nunca é só o texto, mas o texto dentro de nós.

É assim que pela música como pelas artes em geral, tomamos consciência de nossa

humanidade que pensa, que fala. Pois a língua que se aprende nas relações cotidianas, com

pais, amigos, só serve para agir, perguntar, responder, viver, como lembra Jean Bellemin-

Nöel, professor de literatura francesa da Universidade de Paris (1983). E isso em razão de

que a música sabe mais que o músico. Como a psicanálise ela lê o homem na sua vivência

cotidiana, tanto quanto no seu destino histórico.

Podemos acrescentar ainda que como matriz de conhecimento ela integra nossa

totalidade, integrada que é de bases fisiológicas e psicológicas, alimentando a prática


musical e marcando-se por um poder físico e psíquico, como lembra a musicoterapeuta

Juliette Alvin (1969).

Poder físico, na medida em que altura, duração, intensidade, timbre, são partes

inerentes do som como substância acústica, e até mesmo os animais reagem a elas, no que

chamamos de respostas talâmicas, sensações que não necessitam de interpretação pelas

funções superiores do cérebro. E poder psíquico, primeiro em razão das características

psicológicas de aconceitualidade e indução, e segundo, pelo fato das relações sonoras

serem imantadas de si mesmas, favorecendo a emergência de material inconsciente. O que

aliás é aproveitado por pedagogos e musicoterapeutas nos caminhos da educação e da

terapêutica pela música.

Sem que se esqueça que a música também diz respeito ao hemisfério esquerdo, na

medida em que é um discurso de lógica e raciocínio, sobretudo a de código mais elaborado,

envolvendo nossas individualíssimas funções psíquicas superiores. E sem que em nenhum

momento a prática musical deixe de carregar nos seus flancos elementos que escapam do

racional, como a emoção, intuição, associação, evocação.

É desse modo que a música dá o seu recado, como ciência, arte, razão, intuição,

criatividade, desempenhando considerável papel na formação do indivíduo e da sociedade,

do povo e da coletividade. Mesmo porque é nas artes que reside a esperança de um futuro

além das classes, e é nas artes que germinam articulações de uma prática libertadora.

Como aliás reza o Manifesto dos músicos comunistas portugueses já em seus dois

primeiros artigos:

a) enquanto arte a música não é mero divertimento. Ela atua sobre a inteligência e

a sensibilidade do homem, e contribui para a formação de uma consciência

coletiva;
b) não há como subestimar na música, nem sua capacidade expressiva, nem seu

poder de comunicação e mobilização.(Carvalho, 1776)

Só lembrarmos da Revolução Francesa, se ela foi fruto da filosofia de Voltaire e

Rousseau, foi levada avante, em grande parte, pelo impulso afetivo e motor da Marselhesa.

Função atuante no devir da humanidade, é assim que a música explicita a sua

verdade, verdade de uma linguagem que, através de uma sintaxe de semântica própria, gera

repostas que vão além do emocional. E isso porque o acesso ao código elaborado da música

culta estimula o nosso pensamento hipotético/ dedutivo, favorece o pensamento abstrato e

formal, transcende a pura experiência imediata, estrutura cognitivamente sua prática com

possibilidades de transformá-la, e pressupõe a construção de uma sociedade democrática,

com consciência de cidadania, no mais alto sentido da expressão.

É desse modo que quem domina um código culto como o da música de concerto,

desenvolve uma capacidade maior de expressão e comunicação, uma capacidade maior de

relativização de certezas, de mediatização de emoções, de compreensão, manipulação de

variáveis, argumentação e contra-argumentação.

Por tudo isso, nunca devemos compactuar com o gosto comercial, ideologicamente

suspeito, nem devemos ceder àquela espécie de debilidade mental de que nos fala Adorno

(1974) e que leva tantos a negociar com o popularesco e o consumismo.

Essa a verdade da música que, como arte, aproxima o homem de si mesmo, além de

lhe oferecer uma saída emocional mediante uma experiência que integra sua totalidade,

apresentando-lhe aspectos e maneiras de sentir-se no mundo. É uma verdade que desnuda

uma forma de se representar o mundo, de nos relacionarmos com o mundo, uma forma de

comportamento que nos empurra para longe da mesmice e que harmoniza e transforma

natureza e cultura.
Assim, se música não fomenta a produção de automóveis mais potentes e mais

velozes, leva à formação de indivíduos mais sensíveis à sua condição humana, estimulando-

os, a pensar de forma crítica o contexto que os circunda, com resultados para o

desenvolvimento de uma consciência de cidadania, ética, democracia, criatividade.

Para psicólogos e cientistas do comportamento como Konrad Lorenz, Harry

Harlow, Jean Piaget, Artur Hensen, Donald Norman, David Krech, sem esquecermos

Freud, a música é uma forma de comportamento, comprometendo o indivíduo em um

processo de auto-expressão, gratificação, comunicação, criatividade e catarse, interessando

a psicoterapeutas, psiquiatras, pedagogos e educadores em geral.

Convém pontuar aqui o trabalho desenvolvido por David Krech e Harry Harlow.

Krech realizou pesquisas em torno da função do cérebro, da emoção e da química cerebral

no comportamento. E a vivência musical, lembramos, participa das bases fisiológicas da

gênese das emoções, estimulando aspectos bio-químicos do cérebro, com repercussões no

comportamento. Harry Harlow por sua vez realizou pesquisa em torno dos efeitos da

aprendizagem e da programação genética nos modelos básicos de comportamento,

concluindo que há muitos padrões de comportamento básico que são aprendidos,

adquiridos, o que nos remete aos recursos positivos da adequada prática musical.

Por tudo isso a música tem mesmo de ser solicitada a prestar contas do que ocorre à

nossa volta, na medida em que há sempre um jogo que se instaura diante de um texto

musical, o jogo do compositor e do ouvinte face ao objeto comum a ambos, o som. Som

que sustenta o sentido, sentido que engendra o discurso, discurso que leva à descoberta das

coisas que nunca vimos, parafraseando Oswald de Andrade, levando-nos a dominar,

controlar e transformar experiência em memória, memória em expressão, matéria em

forma.
E finalmente, deixando bem longe a época do empirismo, época que atribuía

poderes mágicos à música, hoje, no campo das artes, falamos da prática musical em termos

de investigação, pesquisa, análise, trabalho científico e performance, assegurando o lugar

que lhe cabe por direito, veiculando-se desse modo o complexo som/ ser humano no que ele

tem de científico, artístico, intuitivo, criativo. Tudo isso leva o indivíduo a tornar-se senhor

de si, ampliando-lhe a concepção do mundo e transformando-o em cabeça pensante.

Fechamos nossa fala dizendo que a música, como ciência, razão, intuição,

cidadania, é necessária ao homem para que ele se torne capaz de conhecer, de se conhecer,

possibilitando-lhe “mudar o mundo”. É com esse objetivo que desenvolvemos há 19 anos o

Projeto Festival Nacional Ritmo e Som da Unesp, uma viagem que vai dos ritmos

populares à música eletro-acústica, em que participantes e a comunidade em geral têm

oportunidade de vivenciar a prática da música.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

ADORNO (1974). Filosofia da Nova Música. São Paulo: Perspectiva.

ALVIN, J. (1969) “Work with na Autistic Child”. Londres: Jornal of Music Therapy, vol.I,

no.3.

BELLEMIN-NÖEL, J. (1983). Psicanálise e Literatura. Trad. Álvaro Lorencini e Sandra

Nitrini. São Paulo: Cultrix.

BENENZON, R. (1971). Musicoterapia y Educacion. Buenos Aires: Editorial Paidos.

CARVALHO, M. V. de (1976). A Música e a Luta Ideológica. Lisboa: Editorial Estampa.

JAKOBSON, R. (1969). Lingüística e Comunicação. Trad. Izidoro Blikstein e José


Paulo Paes. 13ª.ed. Porto Alegre: Movimento.

POSTMAN, N. (2002). “O Mestre que quer virar a Escola pelo Avesso”. São Paulo: Jornal O

Estado de S.Paulo, seção Ensaio, p.D4, sábado, 17/ agosto.

RIBAS, C. (1957). Música e Medicina. São Paulo, Edigraf

MDMagno (1982). A Música. Texto estabelecido por Potiguara Mendes da Silveira Jr.

2ª.ed. Rio de Janeiro: aoutra.

Você também pode gostar