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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO – MESTRADO E DOUTORADO


DISCIPLINA: ESTADO, SOCIEDADE E RELAÇÕES DE TRABALHO - 2021
PROFESSOR: Dr. LAWRENCE ESTIVALET DE MELLO
ALUNA: MARA DA SILVA ABREU HABIB

FICHAMENTO

BROWN, Wendy. Cidadania Sacrificial – Neoliberalismo, capital humano e políticas de


austeridade. Pequena Biblioteca de Ensaios. Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2018.

A partir da leitura do texto em epígrafe, de autoria de Wendy Brown, economista e cientista


americana, tem-se que o neoliberalismo é invocado em seu início no intuito de evidenciar que
o mesmo atinge todas as esferas da vida. Não especifica a forma dos sujeitos e instituições
que se encontram sob tal racionalidade e mesmo evidenciando que os sujeitos são
vislumbrados como “atores de mercado”, não fica claro o papel exercido pelos mesmos, se
“empreendedor, investidor, consumidor ou trabalhador”.

Aprende-se que toda e qualquer pessoa que esteja inserida em uma economia neoliberal, que
também abrange a vida política e social, estaria convertida em um capital humano e todas as
escolhas da vida seriam entendidas como um investimento, o que implica dizer que o sujeito é
mesmo visto como uma forma e, a partir daí, a constatação possível acerca de qual seria essa
forma seria exatamente a empresa. Saliente-se que tudo parte da lógica do investimento e por
isso, ao ser entendido como uma empresa, o sujeito investe em si, porque ele é “sujeito de si
mesmo”, seja na imagem, no corpo, no aprendizado ou qualquer outra forma que assegure o
melhor desempenho possível em suas ações.

Nesse passo, a empresa é entendida como sendo a nova subjetividade de todos os indivíduos,
mesmo porque os mesmos assim se percebem, havendo clara inversão do que fora prometido
pelo neoliberalismo, ou seja, a liberdade, pois em vez de sujeitos livres, percebe-se “sujeitos
governados por coleções de máximas normativas, vulneráveis aos perigos da vida e prontos
a legitimar sacrifícios” (Brown, 2018, p. 7).

Essa concepção culmina em inúmeras consequências para a vida das pessoas, já que se
mostram isoladas e desprotegidas, sem fincar raízes, se privando de questões básicas para a
sobrevivência e, ainda, em total vulnerabilidade em relação ao Capital.

Também, tem-se que as idéias de igualdade e liberdade que são propagadas são mitigadas e
até mesmo se transformam, por força da economização do Estado, sendo substituídas pelo
empreendedorismo e suas consequências, sendo uma delas a incorporação da regra de
concorrência para sua vida individual, com todas as repercussões possíveis.
Seguindo o entendimento da obra, o indivíduo se impõe um sacrifício, a fim de atender às
demandas que lhes são impostas e as condutas poderão ou não ser recompensadas, se levada
em conta a normatização neoliberal. Assim, sob a ótica neoliberal, o sujeito além de cuidar de
si mesmo, se compromete com o bem estar da coletividade, independentemente do seu
sacrifício pessoal.

Um outro ponto que merece menção é a governança neoliberal e suas características, que
aludem ao trabalho em equipe, dilapidando os modelos de cidadania existentes. No tocante à
ação coletiva, a lei e a governança neoliberais a enfraquece em dois pontos, a saber: o poder e
a legitimidade.

O neoliberalismo é vislumbrado como sendo uma racionalidade que produz e conduz as


condutas dos sujeitos e, dependendo da localização geográfica, cultural ou política que esteja
presente, pode apresentar várias distinções não apenas quanto às formas, mas também em
relação aos conteúdos, motivo pelo qual se presume que estar atento às nuances respectivas
pode ajudar a não incorporar essa racionalidade como uma verdade absoluta.

A autora parte da premissa que o neoliberalismo transcende as políticas econômicas e


economia de livre mercado que as acompanha e algumas práticas são perceptíveis na
racionalidade neoliberal, como, por exemplo, “a desregulamentação, o desmantelar de
indústrias e bens públicos, a substituição da tributação progressiva por políticas regressivas
ou reduções de impostos...” (Brown, 2018, p. 14).

Essa governamentalidade que é usada na racionalidade neoliberal parte da premissa que se o


indivíduo merecer, ele terá uma vida; se não merecer, não seria digno de usufruir da energia
vital e, por consequência, também não seria digno da existência. Nesse caso, podemos
correlacionar facilmente com a concorrência desmedida, com a eliminação, por assim dizer. É
como se cada pessoa tivesse que incorporar um papel/personagem e corresponder ao mesmo,
da forma mais eficiente possível, valendo dizer que todas as esferas da vida são invadidas
pelas regras de mercado, à exemplo, a pessoal, cultural, política, educacional, etc.

A governança, ato de governar/administrar, é requisito desse processo, apesar de não ter sido
idealizada por Milton Friedman ou F. A. Hayek, dois dos expoentes da doutrina neoliberal. A
mesma se transforma, se reveste de novos significados e estabelece relações entre o público e
o privado; entre o mercado e o Estado. Uma de suas funções é descentralizar o Estado e
monitorar os demais dispositivos estratégicos, que sofrem mutações para corresponder à
finalidade da política neoliberal, senão vejamos:

“...na linguagem da governança, “diretrizes” substituem leis, “facilitação” substitui


regulamentação, “padrões” e “códigos de conduta” (disseminados por uma série de
agências e instituições) substituem policiamento e outras formas de coerção estatal.
Juntas, essas substituições derrotam o vocabulário do poder, e consequentemente sua
visibilidade para as vidas e os espaços que a governança ordena e organiza”
(BROWN, 2018, p. 17).
Partindo das idéias apreendidas, observa-se que o isolamento e a mitigação da solidariedade
são cruciais para viabilizar o projeto neoliberal, já que no mesmo se busca a ética da
conversão, a ética em que há uma valorização do EU, da auto-valorização. Parte-se do
pressuposto que o sujeito deve atuar como “empresa de si mesmo”, sendo delegatário do
poder decisório e da própria autoridade. As estratégias alusivas à governança, munem os
cidadãos da idéia de que todos devem valorizar suas atuações em prol de um bem comum e,
nesse cenário, foca nas soluções e sugere que o diálogo e consenso são os mecanismos que
enfraquecem os conflitos e oposições.

A governança, portanto, seria utilizada de forma intencional e, não obstante se afigure com
uma certa neutralidade, carrega consigo a normatividade necessária à manutenção da política
neoliberal.

Essa lógica é geral e se estabelece com diferentes dispositivos e em contextos distintos, desde
as empresas, as universidades, até os espaços públicos, onde os propósitos dos indivíduos são
totalmente alinhados aos de seus empregadores, mitigando as lutas e consciência de classe,
bem assim a solidariedade e representatividade sindical.

Por óbvio, são muitos os dispositivos utilizados como forma de conter a ação política, mas a
governança visa transformar a ação do sujeito de forma a se transformar em “senhor de si”.
As consequências podem ser nefastas, pois alguns indivíduos são levados à objetificarem
outros sujeitos.

As considerações que ficam do texto perpassam por inúmeras questões que são afetas à
política neoliberal, desde ao enfraquecimento da ação coletiva até o enfraquecimento da
democracia, culminando em um estado de letargia profundo e enfraquecimento ou
deslegitimização dos movimentos sociais que visem ir de encontro a esse projeto. O resultado
é que na medida que o Estado se aproxima do capital, há um distanciamento das ações
coletivas oriundas da classe trabalhadora, dos cidadãos ou consumidores, levando à
transformação da própria alma, como pontuou Margaret Thatcher.

Tais condutas, desvirtuam totalmente as lições atinentes ao ideal do social, corroendo a


cidadania, provocando uma dessimbolização e, ao delegar e responsabilizar esses indivíduos,
induz os mesmos a um sacrifício enorme, já que sua cidadania é reduzida consideravelmente e
sua virtude ressignificada na forma de empreendedor, que, fatalmente, ocasionará um
“sacrifício compartilhado”.

Se por um lado a cidadania é diminuída, por outro a “cidadania sacrificial” é aumentada,


favorecendo inúmeras ocorrências no sentido de priorizar o crescimento econômico a
qualquer custo, ainda que isso implique em prejuízos aos trabalhadores, da iniciativa pública
ou privada.

Essa descentralização da autoridade, ainda que seja vista como solução para inúmeros
problemas, não visa apenas as benesses aos envolvidos, pois implica também na transferência
aos “delegatários” de todo e qualquer problema decorrente da ação estatal, desde uma
recessão econômica, desemprego, até as devastações ambientais, fazendo com que o Estado,
inclusive, deixe de investir em áreas básicas, a exemplo, a saúde e educação, fazendo imperar
um concorrencialismo desenfreado, típico da racionalidade neoliberal.

Pois bem. Ao atuar e se culpar pelo insucesso, pela incapacidade de prosperar, o indivíduo
toma para si toda a responsabilidade, ratificando a idéia de que o poder é compartilhado e,
como tal, deve ser incorporada também a idéia de que o fracasso independe do poder estatal,
mas apenas do sujeito que fracassou em sua missão, por assim dizer.

Fato é que a culpa assumida não diz respeito apenas à esfera individual, mas da coletividade
e, por esse motivo, seria legítimo que o mesmo fosse sacrificado pelo bem comum, pelo todo,
caindo por terra a idéia do Estado de bem-estar social ou mesmo do contrato social.

A redução da cidadania é evidente, desprovendo a mesma de ter voz ou engajamento político,


pois como “capital humano”, cada um é responsável pelo sucesso ou fracasso de suas
escolhas, registrando que a sua vida deverá ser gerida como empresa, com os investimentos
necessários à projeção de sua maximização.

O neoliberalismo, portanto, na tentativa de desvencilhar a cidadania do Estado, favorece o


propósito de integrar o projeto de crescimento econômico que é entendido como algo comum
a ambos.

No tocante às políticas de austeridade, são evidenciadas como sacrifício compartilhado e o


sujeito precisa se desapegar de si, a fim de corresponder aos propósitos que são propostos e
que configurariam como questões mais prioritárias. De certa forma, não há um nível de
consciência em tal ação, mas há uma evidente intenção de pregar a máxima de que “todos
estão juntos” em determinadas ações e, por tal motivo, autoriza-se a cobrança no sentido de
que se engajem na causa que é “de todos”, não havendo nenhuma garantia que o mesmo será
salvo em determinadas circunstâncias, ainda que se mantenha fiel, sendo por tal motivo que se
diz que há um sacrifício.

De qualquer sorte, a cidadania é entendida como “adesão” e o patriotismo como “obediência”,


mas nas duas situações se impõe um sacrifício voluntário, até a última instância,
independentemente das dores que precise suporta para fazê-lo.

Impende registrar que os sujeitos insertos no neoliberalismo não se opõem às desigualdades,


desde que a saúde do capitalismo seja preservada, assumindo toda a responsabilidade por
essas mazelas sociais e eximindo o Estado, a lei e a economia pelos desajustes econômicos e
restrições a que são submetidos. Mais ainda, a racionalidade neoliberal impregna a certeza
que todos devem se revestir de sua responsabilidade e assumir as consequências advindas
como “membros”, não mais como cidadãos.
Muitos são os questionamentos acerca de como desconstituir essa realidade que se encontra
posta, de forma a promover um resgate das pessoas, instituições e regimes, em face da
racionalidade que foi instaurada. Contudo, ainda não se percebe quais as ações que poderão
ser viabilizadas no sentido de dizimar essa prática neoliberal, inclusive em face dos inúmeros
erros do passado, não apenas nas ações da esquerda, mas nas formas como outras ações
ocorreram.

Contudo, assimilar as práticas neoliberais e perceber o quanto se relacionam com práticas de


estratificação, marginalização e estigmatização seriam uma oportunidade de enxergar os
impasses que estão postos e, via de consequência, traçar um caminho no sentido de haver uma
organização que vá de encontro à política neoliberal.

Sendo essas as impressões que se fazem oportunas, mas sem a pretensão de abarcar todas as
questões vertentes, em face das inúmeras particularidades que envolvem a racionalidade
neoliberal e, via de consequência, a “cidadania sacrificial”.